O Arqueiro

GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor
José Olympio, publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.
Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos
infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro
que deu origem à Editora Sextante.
Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser lançado nos Estados Unidos. A aposta
em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os
tempos.
Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se
tornaram sua grande paixão.
Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e despertar o amor pela leitura, a Editora
Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes
e não perder o idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida.

Título original: Leo’s Chance
Copyright © 2013 por Mia Sheridan
Copyright da tradução © 2016 por Editora Arqueiro Ltda.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem
autorização por escrito dos editores.
Esta obra foi negociada pela Bookcase Literary Agency, representando a Rebecca Fiedman Literary Agency.
tradução: Ana Rodrigues
preparo de originais: Sheila Til
revisão: Ana Grillo, Luíza Côrtes e Nina Lua
diagramação: Abreu’s System
capa: Mia Sheridan
adaptação de capa: Miriam Lerner
adaptação para ebook: Marcelo Morais
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
S554l
Sheridan, Mia
O leão ferido [recurso eletrônico] / Mia Sheridan [tradução de Ana Rodrigues]; São Paulo: Arqueiro, 2016.
recurso digital
(Signos do amor; 3)
Tradução de: Leo's chance
Sequência de: O coração do leão
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-8041-490-5 (recurso eletrônico)
1. Ficção americana . 2. Livros eletrônicos. I. Rodrigues, Ana. II. Série.
CDD: 813
CDU: 821.111(73)-3

16-29560

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Este livro é dedicado a Darcy Rose – entre
muitas razões, por me mostrar que sou
mais corajosa do que poderia imaginar.

O leão
Um amante ardente e um guerreiro corajoso por instinto.

capítulo 1

stou deitado na minha cama no hospital, encarando o teto, imerso em meu sofrimento. Como
cheguei a isto? Como a vida me trouxe a isto – não apenas a este quarto, neste prédio, mas ao
estado deplorável em que se encontram minha cabeça e meu coração? Quero fugir de mim mesmo,
rastejar para fora da minha mente e me tornar apenas uma sombra encolhida no canto. Destruí
todas as pessoas que algum dia tentaram me amar. Perceber isso provoca uma dor tão
devastadora, tão avassaladora, que não consigo lidar com ela.
Escuto uma leve batida na porta do quarto e, antes que possa dizer qualquer coisa, ela se abre
lentamente e o Dr. Fox enfia a cabeça pela fresta, os cabelos brancos desalinhados.
– Bom dia, Jake – diz, sorrindo.
Ele entra e deixa a porta se fechar.
O Dr. Fox é o psicólogo do hospital e vem me visitando faz duas semanas, mas não tenho uma
palavra sequer para dizer a ele. Não estou interessado no que ele tem a oferecer. Ponto final.
Como não falo nada, ele me encara por um minuto, depois diz com gentileza:
– Ainda não quer conversar comigo sobre o mês traumático que teve? Ficaria surpreso ao ver
como falar ajuda.
Bufo, mas permaneço mudo. A última coisa de que preciso é um médico de maluco tentando me
convencer de que tudo ficará bem se eu desabafar no ombro dele. Ele se parece com Einstein, o
que deve ser bom se considerarmos que eu precisaria de um gênio para ao menos tentar resolver
todos os meus problemas. Estou um bagaço e sei disso. Mesmo assim, dispenso. Não, obrigado.
– E então? – digo por fim. – Vamos brincar de Gênio indomável ou coisa parecida? Vai dizer
que não é minha culpa, certo?
Rio sem a menor vontade e desvio os olhos. Que piada... O Dr. Fox fica em silêncio por um
instante, então diz:
– Não sei, não, Jake... Li sobre o seu acidente e me pareceu que a culpa foi sua. E gostaria de
conversar com você sobre isso, se estiver disposto. Já o falecimento do seu pai... obviamente não
foi culpa sua. Mas, de qualquer modo, não estou aqui para oferecer colo. Se quiser alguém para
passar a mão na sua cabeça e lhe dizer que você não é responsável por suas péssimas decisões,
esse não sou eu. Mas se quiser conversar com quem já ajudou pessoas com problemas muito
piores do que os de um jovenzinho rico que não conseguiu o que queria e arrebentou o Porsche
novo de pirraça, talvez eu possa ser um bom ouvinte.
O psicólogo se vira para ir embora. Estou furioso com o que ele acabou de dizer. Mal consigo
me mexer: meus dois braços estão engessados, minha perna está suspensa no ar, também
imobilizada, e meu rosto está enfaixado e inchado. Mesmo assim, consigo me mover o bastante
para que o Dr. Fox, que está prestes a sair, se volte novamente na minha direção.

– Seu desgraçado arrogante – disparo. – Acha que me conhece só porque anotou algumas
palavras sobre mim na porcaria de um papel? Acha que as pessoas podem ser resumidas em uma
ou duas linhas? Não sou um “jovenzinho rico”! Eu mal tive um teto durante a vida toda. Tinha
acabado de descobrir que meu irmão mais novo morreu... um garoto que eu praticamente criei.
Você não sabe nada sobre mim!
O Dr. Fox fica em silêncio por um instante.
– Agora eu sei – diz em voz baixa. – Obrigado por me contar. Qual era o nome do seu irmão?
Hesito por um instante, o cenho franzido, então viro a cabeça na direção da janela e do céu
azul da Califórnia. Merda, esse desgraçado me pegou. Rá! Mesmo contra a minha vontade, sinto
meus lábios se curvarem num sorriso e uma semente de respeito começar a germinar.
Depois da pergunta, fico olhando em silêncio pela janela por um ou dois minutos. O Dr. Fox
espera.
– Seth – respondo.
– Adoraria ouvir sobre Seth, se você quiser falar.
Respiro fundo. Não converso sobre Seth há tanto tempo... Ah, droga! O único modo de aquele
garotinho maravilhoso continuar existindo de alguma forma é através de mim. Falhei com ele. E
devo tanto a Seth... Mesmo assim, hesito, até que finalmente encontro as palavras:
– Não via Seth fazia dez anos. Sou adotado. Ele era meu irmão de sangue. Ou meio-irmão. Mas
meu irmão de verdade no que importa. É uma longa história.
– Sou especialista em histórias longas.
O psicólogo sorri e eu dou uma risadinha mesmo sem querer.
– Aposto que sim.
– O que acha de eu voltar amanhã cedo para conversarmos melhor?
Fico algum tempo em silêncio, considerando a proposta.
– Não sei, ando meio ocupado. Tenho uma festinha de autopiedade marcada para as 8h, depois
uma sessão de imersão em melancolia às 9h.
O Dr. Fox ri baixinho.
– Então às 10h. Até amanhã, Jake.
Ele começa a se virar na direção da porta e, quando estende a mão para a maçaneta, eu o
chamo:
– Ei, Doutor.
– Sim – diz ele, voltando a me encarar.
– Meu nome é Leo. Meu nome de verdade, quero dizer. Não sou Jake. Sou Leo.
Ele não me pede para explicar e não fala nada por um instante. Mas continua:
– Está certo. Que tal conversarmos sobre isso amanhã, e você me diz como gostaria de ser
chamado? Vejo você às 10h.
E, com isso, ele abre a porta e sai do quarto.

capítulo 2

Observo Evie, que está sentada no banco do parque, comendo uma maçã, com um livro na outra
mão. Está tão linda que observá-la e não poder chegar perto dói. Provavelmente está distraída com a
leitura, então me aproximo um pouco e me sento em outro banco, fingindo falar ao telefone. Estou
desesperado para vê-la melhor, para inundar meus olhos de Evie. Mas preciso manter distância por
enquanto, ao menos até decidir o que vou fazer, o que vou dizer. Meu coração começa a bater mais
rápido. Não posso estragar tudo. Cheguei tão longe e agora a única garota que amei na vida está bem
na minha frente. E pode ser que ela me odeie.
Venho seguindo Evie há uns dois dias e já percebi que não é casada – graças a Deus. Não quero
nem pensar em como teria lidado com isso. Mas ainda não sei se ela tem um namorado nem se está
saindo com alguém. Não sei se isso me deteria, mas, de qualquer modo, seria bom saber o que virá
pela frente.
Ela trabalha no Hilton do centro da cidade e não tem carro. Não gosto de imaginá-la andando de
ônibus por todos os lugares. Fico mais tranquilo quando a sigo com meu carro, porque sei que Evie
estará segura enquanto eu ficar de olho. Uma vozinha em minha cabeça diz que ela tem se saído muito
bem nos últimos oito anos sem meus cuidados, e sinto uma pontada de culpa me atingir.
Evie parece muito bem, apesar de obviamente não ganhar uma fortuna. Ela vive em uma área
decente de Clifton, um bairro próximo à Universidade de Cincinnati, veste-se bem e é visível que
está fazendo um belo trabalho em tomar conta de si mesma. Não fico surpreso. Ela ainda é a Evie de
que me lembro. Tenho um orgulho enorme disso. Vi garotas com muito menos problemas do que Evie
perderem a cabeça só porque a manicure foi cancelada. Já saí com mais garotas assim do que
deveria, até. Mas quem sou eu para julgá-las? Também fui fraco.
A primeira vez que vi Evie depois que voltei a Cincinnati, eu estava esperando no carro,
estacionado no outro lado da rua do prédio dela. Evie apareceu usando calça jeans e um suéter, os
cabelos longos e escuros descendo pelas costas. Minha boca ficou seca e o ar saiu num arquejo. Não
sabia que era possível prender o fôlego por oito anos, mas parece que é. Fiquei paralisado vendo-a
descer a rua. Evie foi uma menina linda, mas se transformou em uma mulher estonteante. Ainda era
pequena e magra, mas agora tinha curvas femininas que não estavam ali na última vez que a vi. As
emoções me atingiram e foi como se ainda na véspera eu tivesse beijado Evie no nosso telhado e dito
a ela que esperasse por mim, porque eu esperaria por ela, voltaria para ela, a amaria para sempre.
Mas eu tinha falhado.
Enquanto a seguia, pude me lembrar da força da minha Evie e vi que ela continuava a ser a
mesma garota generosa e carinhosa que eu conhecera. Sorria para todo mundo, parava e ajudava
quem precisasse, embora pudesse simplesmente seguir seu caminho. As pessoas que entravam em

contato com ela pareciam precisar se controlar para não chamá-la de volta quando se afastava. Não
podia culpá-los. Minha Evie... essa não é uma forma inteligente de pensar, cara. Eu já estava
perigosamente fascinado antes mesmo de pousar os olhos nela. Agora então... Ficaria arrasado se
Evie me rejeitasse logo de cara.
Depois de apenas dois dias seguindo-a, eu já tinha certeza absoluta de estar ainda mais
apaixonado por ela do que quando eu tinha 15 anos. Agora só precisava descobrir o que fazer. Pensei
e pensei, mas não consegui encontrar uma resposta. Minha vontade de falar com Evie, de tocá-la, era
tão grande que eu mal conseguia me manter quieto. Ia ao escritório todo dia e tinha que me esforçar
para me concentrar no trabalho à minha espera. A pergunta-chave – o que devo fazer? – ficava
girando na minha cabeça a ponto de eu achar que iria enlouquecer. Depois de anos e anos ansiando
por Evie, agora ela estava ali, tão perto... contudo permanecia a milhares de quilômetros de
distância.

Quando eu era criança, odiava o dia de tirar fotos no colégio. Não porque desse a menor importância
a esse tipo de coisa, mas percebia que Evie se importava e isso me matava. Em qualquer outro dia do
ano, nós conseguíamos nos misturar aos outros de algum modo, com nossas roupas usadas e nossos
cabelos malcortados. Mas no dia de tirar fotos todos os outros alunos apareciam de roupa nova, as
garotas com laços no cabelo e dinheiro em envelopes para serem entregues à professora.
No entanto, ninguém dava a mínima para ter na parede uma foto da criança que abrigava.
Ninguém jamais se importou em registrar como eu era no quinto ou no sexto anos – ou em qualquer
idade. Bem, se houvesse alguém para se importar com isso, provavelmente haveria alguém para se
importar por eu morar na casa de estranhos.
Eu observava Evie olhar para as outras garotas e via como ela levava as mãos ao cabelo,
constrangida, e tentava ajeitá-lo um pouco. Evie não conseguia alcançar a parte de trás do cabelo
muito bem e ninguém o arrumava por ela.
Então eu via aqueles olhos escuros infinitos assumirem uma expressão sonhadora e sabia que
minha Evie estava criando uma história para si mesma. Por um lado, aquela expressão acabava
comigo, mas por outro fazia meu coração se encher de orgulho. Eu sabia que era por isso que o
espírito dela não se partia, por isso ela não endurecia, como já acontecera comigo. Eu não achava
que os sonhos de Evie fossem uma forma de negar as circunstâncias em que vivia. Ela era a pessoa
mais inteligente e observadora que eu já conhecera. Para mim, era graças àqueles sonhos que Evie
conseguia cuidar de si mesma e passar por tantos problemas mantendo a alma gentil, e isso me fazia
amá-la muito. De algum modo, apesar da situação triste em que vivia, Evie tinha a coragem de se
agarrar à crença de que havia bondade no mundo.
Imagino que essa lembrança voltou à minha mente hoje, enquanto sigo Evie até o trabalho dela,
porque, apesar de ela estar usando um uniforme de arrumadeira, caminha com segurança e
despreocupação, como se estivesse absolutamente satisfeita com a vida que leva. E deve estar. Fico

feliz por ela ter chegado a esse ponto. Mas quero saber mais. Preciso saber mais sobre quem ela se
tornou. Preciso saber tudo.
É por isso que tenho que estar preparado e saber exatamente o que dizer, antes de confrontá-la. O
medo da rejeição faz meu estômago revirar. Eu me recuso a perdê-la antes mesmo de ter a chance de
reconquistá-la.
Merda, preciso de uma bebida. Não, não vou fazer isso. Vou para a academia, malhar até me
livrar de um pouco dessa tensão. E vou me deitar cedo esta noite. Li no jornal que o velório de
Willow é amanhã e estou planejando ir. Tenho certeza de que Evie estará lá e, por isso, terei que
manter distância, mas não deixarei de ir. Devo uma última homenagem a Willow, que, apesar dos
fantasmas que tinha para vencer, nunca foi cruel com ninguém por causa disso. Bem, exceto consigo
mesma. Até o fim. Penso em como eu mesmo cheguei perto de acabar com a minha vida e sei que a
única coisa que me faz diferente dela é que tive uma segunda chance.

capítulo 3

Estaciono nos fundos do cemitério e caminho por um bom tempo até alcançar o pequeno grupo
reunido para o funeral de Willow. Li no jornal que estavam aceitando doações para custear o enterro
dela, descrita como alguém sem família nem amigos que pudessem arcar com as despesas. Liguei
para a funerária e paguei por tudo, incluindo uma lápide de granito. Willow merecia mais do que um
túmulo sem identificação. Não estive presente para dar apoio a ela ao longo dos anos, então agora
isso é o mínimo que posso fazer.
Fico um pouco afastado do grupo, encostado em uma árvore a vários metros de distância deles,
enquanto espero que a cerimônia comece.
Penso no tempo em que Willow era uma garotinha. Os olhos dela espelhavam uma cautela
profunda demais para a sua pouca idade. Eu desejara protegê-la, do mesmo modo que quisera
proteger Evie, mas Willow sempre estava um passo à frente de todo mundo no que dizia respeito à
autodestruição. Eu não tinha as palavras certas para dizer a ela na época, nem sei se ela as ouviria.
Mas gostaria de poder explicar a ela que agora entendo. Sei que ninguém deseja tirar a própria vida
porque a morte é atraente, mas, sim, porque a vida é uma tortura. E nos perguntamos para que tudo
aquilo – tanto esforço e sofrimento –, para quê? Sai dia, entra dia, de que adianta sofrer tanto?
Willow não queria morrer. Ela só não queria mais sofrer. Eu sei. Sei porque também passei por isso.
Lembro-me de uma das vezes em que Willow apareceu no meu lar adotivo, bêbada e drogada
com sabe Deus o quê. Acho que tinha 12 anos na época, talvez 13. Foi pouco antes de eu ir embora
para San Diego. Me esgueirei de casa e a levei de volta para seu lar adotivo, que ficava a apenas dez
quarteirões. Lembro-me de ter me sentido muito frustrado com ela naquela noite. Era como se, não
importava quantas vezes eu tentasse mantê-la em segurança, tentasse protegê-la de quem não ligava a
mínima para ela, Willow sempre terminasse voltando ao mesmo ponto. Era exaustivo.
Enquanto eu a acompanhava até sua casa, naquele dia, ela levantou os olhos vidrados para mim e
disse em uma voz engrolada:
– Leo, por que você é bom comigo?
E a expressão no rosto de Willow mostrava que aquele era mesmo um mistério que ela não
conseguia explicar. Fiquei encarando-a por um longo instante, até finalmente responder:
– Porque me importo com você, Willow.
– Mas por quê? – insistiu ela.
– Porque somos amigos, ora!
Mas, na verdade, acho que o que me fazia ter vontade de proteger Willow era diferente do que
me motivava a ser protetor em relação a Evie. Acho que via um pouco de mim em Willow. E era por
isso que eu sabia que não importava quanto eu, Evie ou qualquer outra pessoa a elogiássemos ou

fizéssemos coisas legais para ela, Willow continuaria a acreditar nas coisas ruins que ouvira antes.
Meu pai me espancava e dizia que eu era um desperdício de espaço, que não valia nada, mas Evie
me amava. Por que era mais fácil acreditar que eu merecia as palavras do meu pai que o amor de
Evie? Isso eu não sabia, mas compreendia que Willow e eu tínhamos mais em comum do que eu
imaginava. Eu a entendia, embora desejasse desesperadamente não entender. Mesmo assim, havia
pensado que era mais forte do que ela... até não ser mais.
Saio do meu devaneio ao ver Evie caminhando para se juntar ao grupo, vindo da direção oposta
de onde eu vim. Ela está usando um vestido sem mangas preto e sapatos de salto alto também pretos,
com os cabelos presos para trás. O vestido justo marca a silhueta dela e imagino como seria passar
as mãos por aquele quadril levemente arredondado até chegar à cintura estreita. Quero tanto fazer
isso que é quase uma dor física.
O pastor começa a falar e escuto o que ele diz, mas não consigo desviar os olhos de Evie. De
poucos em poucos minutos, ela leva um lenço aos olhos para secar as lágrimas e tenho que me
controlar para não correr até ela e tentar consolá-la de alguma forma. Pressiono o corpo contra a
árvore para permanecer onde estou.
Quinze minutos depois, ela vai até a frente do grupo para fazer o elogio fúnebre. Ao ocupar seu
lugar, olha direto para mim, com o cenho levemente franzido. Merda, o que deve estar pensando?
Não há possibilidade de me reconhecer a essa distância, há? O mais provável é que eu pareça
deslocado entre essas pessoas de aparência tão desleixada. O gosto de Willow para amigos não
mudou muito, pelo que posso ver. Evie me encara por alguns segundos, então volta os olhos para as
pessoas à sua frente. É a primeira vez, em oito anos, que nossos olhares se encontram e sinto o
impacto no fundo da alma: esse instante parece ficar parado no tempo, com tudo ofuscado ao meu
redor.
Mas o que acaba mesmo comigo acontece alguns minutos mais tarde, quando Evie começa a
contar uma das histórias que criava para Willow. Cara...
– Era uma vez uma garotinha muito linda e muito especial, que foi mandada por anjos para uma
terra distante, para ter uma vida encantada, cheia de amor e felicidade. Eles a chamavam de Princesa
de Vidro, porque sua risada lembrava o tilintar dos sinos de vidro pendurados no portão do paraíso,
que badalavam cada vez que uma nova alma era recepcionada. Mas o nome era muito apropriado
também porque a garotinha era muito sensível, amava profundamente e tinha um coração que poderia
ser partido facilmente.
Ela faz uma pausa rápida e continua:
– Durante os preparativos para a viagem dela a essa terra distante, um dos anjos mais novos
cometeu um erro, houve uma confusão e a Princesa de Vidro acabou sendo mandada a um lugar aonde
não deveria ir, um lugar feio, escuro, dominado por gárgulas e criaturas do mal. Mas quando uma
alma é colocada dentro de um corpo humano, a situação é permanente e não pode ser modificada.
Apesar de os anjos terem chorado de angústia pelo destino que a Princesa de Vidro teria que
suportar, não havia nada que pudessem fazer a não ser observá-la e tentar encaminhá-la na direção
certa, longe da terra das gárgulas e das criaturas do mal. Infelizmente, logo depois que a Princesa de
Vidro chegou a essa terra, a crueldade das bestas ao redor provocou uma enorme rachadura em seu

coração sensível. E embora muitas outras criaturas menos malvadas tenham tentado amar e cuidar da
princesa, porque ela era linda e muito amável, o coração dela continuou a rachar até finalmente se
quebrar, ficando partido para sempre.
Nova pausa.
– A princesa fechou os olhos pela última vez, pensando em todos os monstros que haviam sido
tão cruéis com ela e feito seu coração se despedaçar. Mas criaturas do mal, não importa quão
transtornadas sejam, nunca têm a última palavra. Os anjos, sempre por perto, desceram do paraíso e
carregaram a Princesa de Vidro de volta para lá, onde curaram seu coração partido de uma vez por
todas. A princesa abriu os olhos, deu seu lindo sorriso e sua linda risada, que soava como sempre,
como o tilintar dos sinos de vidro. A Princesa de Vidro enfim estava em casa.
Ouvir as palavras de Evie fez com que as lembranças me atingissem tão rápido e com tamanha
força que foi quase como um golpe. De repente, me vi de novo sobre um telhado, chorando nos
braços da garota mais corajosa que eu já conhecera e sentindo o único amor que sentiria, o único
conforto que um dia poderia ter. Minha vontade é cair de joelhos, porque, além das lembranças, a
voz de Evie traz de volta a sensação que tive naqueles momentos e faz minha vontade de tê-la se
multiplicar por dez. Preciso sair logo daqui. Como vou conseguir lidar com tudo isso? Sinto-me
intoxicado pelas lembranças, bêbado de emoções.
Evie passa pelo grupo para voltar a seu lugar e, quando ela se detém para conversar com uma
mulher mais velha de cabelos louros e estranhas sandálias cor-de-rosa, contorno a árvore e sigo na
direção do meu carro. Enquanto caminho, tomo plena consciência de que jamais vou conseguir
esquecer Evie... uma ideia perturbadora se levar em conta que talvez ela nunca mais seja minha.
Entro no carro e fico olhando pelo para-brisa por vários minutos, até conseguir recobrar um
pouco do equilíbrio emocional. Então pego o celular, ligo para a funerária e peço para fazerem uma
modificação na lápide que encomendei para Willow. Vão acrescentar “A Princesa de Vidro” abaixo
do nome dela. Acho que Willow teria gostado disso. Significa que alguém a amou.

capítulo 4

Dr. Fox entra no meu quarto de hospital e me cumprimenta com um sorriso. Levanto as
sobrancelhas para ele. Ainda é terça-feira. Ele só deveria aparecer na quinta.
– Está ficando mais feio a cada dia – comenta ele.
– A feiura é apenas um estado de espírito, meu caro – rebato, dando-lhe o melhor sorriso que
consigo com a cara inchada e o nariz quebrado. – Se estou ficando mais feio, talvez você queira
procurar outra linha de trabalho.
Ele ri e puxa uma cadeira para perto da minha cama.
Ainda estou com um curativo no nariz e um hematoma feio sob os olhos, e a parte interna da
minha boca ainda dói pra caramba no lugar em que operaram para consertar meu malar e meu
maxilar. Tenho outra cirurgia agendada para o mês que vem, mas, graças a Deus, já estou sem
gesso nos braços. Posso ao menos escovar os dentes sozinho!
Minha perna continuará engessada por mais um mês e minhas costelas ainda vão precisar de
algum tempo para se curar, mas depois disso poderei começar a fazer fisioterapia. Mal consigo
esperar! Sinto que melhoro a cada dia, mas também percebo que minha musculatura atrofia.
Eu já teria sido mandado para a reabilitação a essa altura, se o pino que colocaram em minha
perna não houvesse provocado uma infecção. Isso vem prolongando meu tempo aqui, mas não me
importo. Pela primeira vez em oito anos, sinto que estou recuperando uma parte de quem eu sou.
Se ficar fora de combate por um tempo me ajudar nisso, então talvez não seja ruim.
– Surgiu um compromisso para quinta-feira, por isso pensei em passar por aqui hoje, por uns
vinte minutos, se você estiver livre – diz o médico.
– Estou basicamente livre... o tempo todo, Doutor – retruco com uma das sobrancelhas
erguidas.
– Está certo. – Ele ri de novo. – Então acho que a pergunta é: está disposto a conversar?
– Sim, claro. Na verdade, tenho pensado sobre o que conversamos da última vez. Sobre eu
colocar Evie em um pedestal. Fiquei pensando se é mesmo esse o caso ou não e acho que cheguei
à conclusão de que sim, de certo modo sempre fiz isso. E continuo a fazer. Mas acho que meus
motivos são válidos, portanto não sei se é bem um pedestal ou se ela simplesmente merece esse
respeito todo. Sempre mereceu.
– Muito bem, mas você fala sobre quem Evie é no presente do mesmo modo como fala no
passado, só que não a vê há oito anos.
Respiro fundo.
– Sim, eu sei. Talvez seja apenas um desejo... talvez seja uma intuição. Não sei.
– Bem, me conte sobre o que vem pensando.
Organizo os pensamentos por um instante antes de falar.

– Tem ideia de como é preciso coragem para continuar a expor seu coração, para permanecer
doce, quando já passou por tudo o que Evie e eu passamos na vida, quando está cercado por
predadores? Sabe como é preciso coragem para sair à rua todos os dias com um coração sensível
pronto para ser caçado? Para continuar a amar? Merda, o caminho mais fácil é endurecer. E foi
o caminho que eu peguei. Foi o que a maior parte das crianças que cresceram comigo pegou.
Quero dizer: como ela fazia aquilo? Eu só... sempre tive tanto orgulho de Evie por isso. E era tão
protetor que seria capaz de matar por ela.
Dou uma risada sem ânimo. O Dr. Fox fica me observando por algum tempo.
– É sempre mais fácil construir muros – fala o médico. – Você está certo a respeito disso. E,
sim, é notável que ela tenho sido capaz de se manter sensível como foi, e espero que ainda seja o
caso. Mas o que quis dizer quando falei que você mantém Evie em um pedestal foi que você parece
acreditar que não era digno dela.
– Porque eu NÃO ERA.
– Se confiava tanto em Evie, não seria ela a pessoa mais qualificada para decidir isso?
Considero a pergunta por um instante e, pela milionésima vez, me pergunto O QUE, afinal,
Evie viu em mim. Mostrei quem eu era de verdade para ela, me abri mais do que para qualquer
outra pessoa até então. Mais do que para qualquer outra pessoa até este exato minuto, para ser
sincero. Nunca me contive perto de Evie, porque ela fazia com que eu me sentisse seguro de um
modo que ninguém na minha vida fez. Eu SUPLIQUEI por isso. E Evie nunca me virou as costas.
Nem uma vez.
– Não sei. Tenho que pensar a respeito.
Suspiro e passo a mão pelo meu cabelo curto. Tiveram que raspá-lo para fechar o corte
profundo na minha nuca, agora ele finalmente está voltando a crescer.
– Jake – chama o Dr. Fox.
Levanto os olhos para encará-lo. No primeiro dia em que ele voltou ao meu quarto para
conversarmos, me perguntou como eu preferia ser chamado. Eu expliquei por que começaram a
me chamar de Jake e, embora eu tivesse achado que poderia estar pronto para que alguém me
chamasse de novo de Leo, percebi que não estava. Ainda não estou. Meu antigo nome provoca um
misto de alívio e sofrimento. Ouvir meu verdadeiro nome é como voltar ao lar. Mas não sei se
tenho um lar para onde voltar... É tudo tão confuso... Tenho tanta coisa para resolver. Talvez
precise encontrar um tempo em minha agenda lotada para fazer isso... Nossa, como sou
engraçado...
O Dr. Fox continua a falar.
– O que me preocupa é você colocar toda a sua autoestima nas mãos de uma pessoa. Evie o
amou. Não me parece que você tenha sequer duvidado disso. Mas nenhum de nós sabe como está a
vida de Evie agora ou se ela estará disposta a deixá-lo voltar a fazer parte dela, seja como for.
Isso não pode defini-lo, filho. Isso não pode ser o que vai determinar a sua autoestima. Ela tem
que existir com ou sem Evie. Porque mesmo se Evie o aceitar de volta na vida dela, mesmo se
estiver disposta a isso, você precisa ser um homem por inteiro quando pedir que Evie dê esse salto
de fé. Você deve isso a ela. Não só a Evie, mas a si mesmo também.

– Isso não passa de um monte de bobagens sentimentais, Doutor. Achei que tinha lhe dito que
não estava disposto a isso – replico, brincando, mas só em parte.
Ele ri baixinho.
– Está certo, então vamos à dose de honestidade brutal do nosso tratamento. Você precisa de
um banho... há umas três semanas.
Rio alto.
– Sim, tente ficar com a bunda sentada em uma cama de hospital por três meses. Também não
iria ter o perfume de uma flor.
Ele sorri e rugas aparecem no canto de seus olhos.
– Onde estão as belas enfermeiras para lhe dar um banho de esponja?
Rio. Mas não digo a ele que, em minha mente, estou determinado a voltar para Evie. Só posso
rezar para que ela me aceite em sua vida. Mas, independentemente disso, deixar que outras
mulheres me tocassem era algo que eu costumava fazer para aliviar minha própria dor. Não quero
mais ser esse homem.
– Então, o senhor tem um encontro promissor na quinta-feira?
– Não, na verdade estou ajudando um antigo sócio com um projeto em que ele está
trabalhando. Talvez fique surpreso em saber que eu trabalhava com computadores quando era
mais novo. Era bom nisso. Ainda presto umas consultorias aqui e ali.
– Nossa! Como passou dos computadores para a psicologia?
– Entendi que os computadores são muito previsíveis. Gosto mais de gente. São
surpreendentes.
Ele pisca para mim. Dou uma gargalhada.
– Cara, não concordo mesmo. É exatamente por isso que eu NÃO gosto de gente.
– Ah, não, filho. A complexidade do coração humano é algo impressionante. Se as pessoas
sempre agissem de modo previsível, determinadas apenas por um conjunto de dados, você e Evie
seriam pessoas muito diferentes. Respeite o mistério.
– Ei, Doutor, alguém já lhe disse que o senhor tem certa tendência a soar como um biscoito da
sorte chinês?
Ele dá uma gargalhada e se levanta para ir embora.
– Até a próxima semana, filho.
– Até, Confúcio.

capítulo 5

Tenho que me dar os parabéns. Eu poderia ser um detetive particular e tanto. Já venho seguindo
Evie há uma semana e meia e ela nem desconfia. Cheguei a me aproximar umas duas vezes. Fiquei
bem próximo, mas não a ponto de ela me notar.
Hoje estou seguindo-a de volta para a casa dela. Evie passou uma hora na biblioteca. Ainda é
louca por livros. Não consigo evitar um sorriso: ela sempre estava com a cara enfiada em um
romance quando éramos crianças. Praticamente corria para a escola nos dias de biblioteca. Ela me
contava sobre as histórias que lia, falava sobre os personagens como se fossem pessoas reais, e eu só
conseguia rir do entusiasmo dela. Mas as histórias que Evie criava eram sempre as minhas
preferidas, porque cada uma delas tinha o amor como pano de fundo. E como não eram escritas nem
ensaiadas, eram criadas na hora, dava para ter certeza de que retratavam o que ela sentia a respeito
da pessoa. E sempre havia beleza no modo como Evie via nosso mundo tão imperfeito. Ela me fazia
ter fé, também. Deus, como senti saudade disso. Era... esperança. Era isso o que ela me fazia sentir.
Finjo falar ao celular enquanto caminho do outro lado da rua, vários passos atrás dela. Vejo Evie
se apressar e passar direto pelo prédio onde mora. Que diabos...? Ela vira a esquina no fim do
quarteirão e não consigo mais vê-la, já que o prédio dela ocupa o restante da quadra e bloqueia a
visão da rua em que ela entrou.
Espero alguns carros passarem, atravesso a rua e acelero levemente o passo. Paro na esquina e
olho ao redor do prédio. Como não a vejo, dobro a esquina e ando até a metade do quarteirão. Evie
desapareceu completamente. Onde diabos...
– É falta de educação perseguir as pessoas!
Prendo o ar e me viro ao ouvir a voz feminina. Lá está Evie, parada bem à minha frente.
– Meu Deus! Você quase me matou de susto! – confesso, deixando o ar escapar. Puta merda!
– Eu assustei você? – diz ela, me encarando irritada.
Nossa, Evie está absurdamente linda. Quase caio de joelhos diante dela. Controle-se, babaca.
Ela já acha que você é algum maluco perseguidor, o que, se pensarmos bem, você é mesmo.
Merda.
– É você quem está me seguindo – continua Evie, inclinando a cabeça para o lado. – A propósito,
farejador, quando estiver seguindo alguém, talvez devesse considerar a possibilidade de ser um
pouco mais discreto – diz ela, fazendo um gesto que aponta da minha cabeça aos meus pés. – Ficar
encarando a vítima no meio da rua tende a denunciá-lo.
Evie estreita os olhos.
Escuto o que ela está dizendo, mas registro só algumas partes. Observo o movimento dos lábios
de Evie e sei que preciso dizer alguma coisa, mas meu coração está disparado e a cabeça, a mil por

hora. Tudo além dela parece muito distante. Meus pensamentos estão embaralhados e minha pele
comicha. Com certeza não estou preparado para isso.
Fico encarando-a por longos segundos, tentando desesperadamente reorganizar minhas ideias.
Ela não me reconheceu. Graças a Deus. Merda! Não, isso é bom. Não, ruim, muito, muito ruim.
Evie apoia as mãos no quadril e meus olhos acompanham seus movimentos.
– Mas não se desespere. Estou certa de que, com um pouco de esforço, você pode melhorar.
Deve haver algum tutorial ou alguma outra coisa que possa ajudá-lo. Quem sabe um livro sobre o
assunto? Como perseguir alguém: volume para iniciantes, talvez?
Ela levanta uma sobrancelha bem delineada.
Por fim, consigo assimilar suas palavras e percebo que Evie está zombando de mim. Eu mereço,
é óbvio. Também me dou conta de que ela provavelmente já havia percebido há algum tempo que eu
a seguia. E acreditei de verdade que estava sendo discreto... Acho tudo muito engraçado e caio na
gargalhada.
– Ora, ora, você é mesmo uma figura, não é?
Mas adoro o jeito dela. Adoro o fato de ela ser cheia de energia e engraçada. E é bom poder rir
de mim mesmo.
Percebo que ela abre um pouco mais os olhos e entreabre os lábios enquanto me encara sem dizer
uma palavra. Estou desesperado para saber o que Evie está pensando. Ela me analisa de cima a
baixo, mas nenhuma expressão de reconhecimento aparece em seus olhos. Definitivamente não me
reconheceu. Eu sabia que havia uma chance de isso acontecer. Estou diferente de quando tinha 15
anos. Muito diferente. Ainda assim, algo dentro de mim morre silenciosamente e preciso me
controlar para não ceder a essa dor.
Depois de algum tempo, Evie diz em um tom calmo:
– Muito bem, a brincadeira acabou. Por que está me seguindo?
Sinto o sangue gelar nas veias. Preciso de tempo. Passo a mão pelo cabelo para ganhar mais
alguns instantes e a encaro.
– Estou sendo assim tão óbvio, é?
Dou um passo na direção dela, que recua a mesma distância.
– Não vou machucar você – digo.
Ela não responde. Mas aquele pequeno movimento define tudo. É isso. Aquele recuo me atinge
como um balde de água fria e sinto o medo apertar meu estômago. Farei qualquer coisa para evitar
que ela se afaste de mim.
– Sim, você tem sido assim tão óbvio. Chega de joguinhos. Quero saber por que está me
seguindo.
Fico em silêncio por um breve momento, o pânico correndo pelas veias, mas antes que possa
realmente pensar a respeito, as palavras escapam de meus lábios.
– Conheci Leo. Ele me pediu para ver como você estava – disparo.
É mentira, mas agora não há como voltar atrás.

Observo os olhos de Evie se inflamarem. Ela recua ligeiramente e fica imóvel.
– O quê? – diz, e a voz falha.
Mas vejo que se controla na mesma hora. Parece aborrecida com a própria reação. Não sei bem
o que pensar a respeito.
– Como assim, conheceu Leo? – pergunta, e as palavras agora saem firmes, a voz controlada.
Evie se recompôs depois da reação inicial. Não sei se isso significa que a primeira sensação
dela foi apenas de surpresa e ela conseguiu contorná-la rapidamente... ou se foi algo mais forte que
ela não quer que eu saiba.
Estou abalado, as emoções me atingem rápido demais para que eu consiga examiná-las e a ideia
de que acabo de cometer um erro épico domina a minha mente. Merda, merda, merda. Posso
congelar o tempo e pensar por um minuto?
Evie se vira, caminha até os degraus de uma varanda logo atrás dela e se senta. Então respira
fundo e repete a pergunta:
– Como assim, conheceu Leo?
Chego mais perto dela e aponto na direção do degrau próximo ao que está sentada. Evie assente
com um gesto de cabeça. Eu me sento e me viro na direção dela, apoiando os cotovelos nas coxas. A
expressão no rosto de Evie é indecifrável e ela está com o olhar perdido, encarando um ponto além
de mim. Deus, essa história já está cheirando mal. Agora vou ter que aumentar a mentira e me sinto
péssimo por isso, mas a opção seria contar a verdade, inclusive sobre Lauren. E não, não estou
pronto para isso. No fundo do meu coração, sei que se não estou pronto para contar a verdade a Evie,
a coisa certa a fazer teria sido ir embora assim que me certifiquei de que ela estava bem. Mas a ideia
de deixá-la de novo é insuportável, mesmo agora que me meti nessa enrascada. Falo lentamente,
escolhendo as palavras com cuidado, tentando manter minha mentira o mais simples possível.
– Leo morreu em um acidente de carro no ano passado. Éramos amigos, fazíamos parte do mesmo
time da escola. Por alguns dias chegamos a pensar que ele sobreviveria, mas isso não aconteceu. Nós
fomos visitá-lo e nesse dia ele me falou um pouco sobre você. E me fez prometer que a procuraria e
me certificaria de que você estava bem e feliz. Leo sabia que eu iria me mudar pra cá para trabalhar
na empresa do meu pai e que seria fácil ver pessoalmente como você estava.
Ela fica em silêncio por algum tempo, antes de retrucar em uma voz controlada:
– Sei. O que exatamente Leo lhe contou a meu respeito?
Além de me odiar por estar aqui mentindo para ela, também sinto meu coração se partir ao
perceber que Evie não parece nem um pouco abalada por eu ter acabado de dizer a ela que morri.
Mas como estou tentando me concentrar apenas em Evie, e não em meu arrependimento pela minha
desonestidade, posso estar interpretando errado a reação dela.
– Só que conheceu você em um lar adotivo e que você era especial para ele. Disse que vocês
perderam contato, mas que ele sempre se perguntou que rumo a sua vida tinha tomado. Só isso.
Vejo o rosto dela se franzir muito ligeiramente e percebo que foi uma coisa horrível de dizer.

Como eu me sentiria se alguém me dissesse que Evie se perguntava casualmente que rumo minha vida
havia tomado, mas que não se preocupara o bastante para se dar ao trabalho de entrar em contato
comigo? Estou me arrastando pela lama que criei. Mas a outra opção é contar a verdade a Evie e vêla me dar as costas, enojada. De qualquer modo, estou ferrado. Pelo menos, assim, estou sentado ao
lado dela em um degrau, decorando suas lindas feições bem de perto e respirando seu perfume fresco
e ligeiramente floral. Deus, sou um idiota egoísta.
– Me mudei pra cá em junho, mas levei alguns meses para me instalar. Então finalmente tive
tempo para ser o perseguidor sorrateiro que prometi ser.
Tento sorrir, torcendo para que ela retribua. Evie parece perdida.
Ela me dá um sorrisinho e fica de pé. Também me levanto de um pulo. Evie seca as mãos suadas
na calça jeans justa e diz:
– Lamento saber disso. Parece que você não sabe muito sobre a nossa história, mas Leo foi uma
pessoa que quebrou uma promessa que havia me feito. Isso aconteceu há muito tempo e não penso
mais nele. Não havia razão para ele pedir que você checasse como eu estava. Se Leo quisesse saber
que rumo a minha vida havia tomado, ele mesmo deveria ter entrado em contato comigo antes de...
Bem, antes.
Ela faz uma pausa breve e prossegue:
– Ainda assim, foi gentil da sua parte manter a palavra que deu ao seu amigo. E agora seu
trabalho está feito. Aqui estou eu, muito bem. Missão cumprida. Último desejo realizado.
Evie volta a dar um leve sorriso, mas sai forçado. As palavras dela são como um soco no
estômago e quase me pego recuando, como se tivesse mesmo sido atingido. Fingida ou não, a
indiferença de Evie machuca.
– A propósito, posso saber o nome do meu perseguidor particular?
Eu me pego sorrindo, embora ainda esteja magoado com o que ela disse.
– Jake Madsen.
Observo com atenção a expressão no rosto de Evie, em busca de algum sinal de reconhecimento.
Acho que nunca cheguei a mencionar a ela o sobrenome dos meus pais adotivos, mas não tenho
certeza.
Não há nenhum sinal de que ela faça a ligação.
– Bem, Jake Madsen, ou perseguidor sorrateiro, obviamente você já sabe que meu nome é Evelyn
Cruise. E também já sabe que todos me chamam de Evie.
Ela estende a mão para apertar a minha e, quando nos tocamos, é como se um choque elétrico
percorresse minha pele. A química que tínhamos quando éramos adolescentes continua viva. Tenho
vontade de sorrir de felicidade diante dessa prova inegável do nosso vínculo, mas me contenho e fico
apenas encarando nossas mãos juntas, até Evie retirar a dela.
– Tchau, Jake – diz ela, dando-me as costas.
– Evie – chamo, e ela se vira –, vai sentir falta de mim, não vai?
Estou sorrindo porque não há como ela sentir minha falta, porque eu não vou embora. Eeeee... –
música de fundo para perseguidor assustador –... que se dane o mundo: não ligo pro que vai
acontecer depois disso.

– Sabe, Jake... Acho que vou.
Evie também dá um sorrisinho, volta a se virar e vai embora.

capítulo 6

Volto para o escritório e, enquanto estaciono o carro na minha vaga na garagem do subsolo,
percebo que não me lembro de nada do caminho até ali. Minha mente não parou de repassar cada
segundo do encontro com Evie. Parte de mim sente uma culpa imensa por mentir, mas outra parte está
empolgada com o tempo que passei perto dela, por mais breve que tenha sido. Esperei o que me
pareceu uma vida inteira pelo momento em que poderia sentir a presença dela novamente. Terei que
contar a verdade a Evie, é óbvio, e... Deus, como tenho medo do que pode acontecer. Só de pensar,
meu sangue gela nas veias. Mas se vou ter que explicar por que nunca entrei em contato com ela,
então preciso que Evie goste o bastante de mim primeiro, para não me dar as costas assim que eu
começar a despejar a minha história. E depois disso, vou rezar para que ela me perdoe. Deixo a
cabeça cair no encosto do banco. Depois de alguns minutos, desço do carro.
Volto a vestir o paletó e sigo para as portas de vidro que levam ao meu escritório. Paro na mesa
da recepção do meu andar e sorrio para Christine, minha recepcionista.
Christine está na casa dos 40 anos, é casada e tem um filho e uma filha adolescentes. Não tenho
nenhum tipo de contato com ela fora do escritório, mas, pelo modo como fala sobre o marido e os
filhos, sei que eles são tudo para ela e que Christine faria qualquer coisa por eles. Ela é para a
família o que eu queria que Lauren fosse para mim quando me mudei para San Diego.
– Olá – cumprimenta-me sorrindo e prendendo atrás da orelha uma mecha do cabelo ruivo
cortado na altura do queixo.
– Olá. Como vai? O que eu perdi?
– Estou ótima! Não aconteceu nada muito empolgante por aqui. Vai me contar o que tem feito?
Anda sumido. E desde a última semana tenho percebido um brilho especial em seus olhos. Tem algo
acontecendo... Posso sentir.
Ela esfrega as mãos bem-feitas e sorri. Eu me debruço sobre a bancada e olho ao redor, como se
me certificasse de que não há mais ninguém por perto. Ela também se inclina na minha direção, os
olhos arregalados.
– Christine – falo em voz baixa, depois olho de novo ao redor para que o efeito seja mais
dramático. – Pode me passar meus recados?
Christine me encara por um instante, então abaixa as sobrancelhas e empurra alguns papéis em
minha direção. Rio e recuo para fugir de um tapa.
– Muito bem, faça como quiser. Não tenho tempo mesmo para ouvir sua história entediante.
Preciso terminar isto aqui e chegar às 17h30 a um jogo do Michael.
Rio da reação dela.
– Por que não vai logo agora? Você veio sábado de manhã para a reunião de Preston. Estamos

lhe devendo algumas horas. Assim você chega ao jogo com tranquilidade.
Ela me encara.
– Tem certeza? Isso realmente seria ótimo, porque assim eu também teria tempo de passar em
casa e trocar de roupa.
– Ande. Vá! – falo com um sorriso, já entrando em minha sala.
– Obrigada! Vou só arrumar tudo aqui e nos vemos amanhã.
– Está certo. Ah – digo, parado na porta da sala e me voltando para ela –, chegarei um pouco
mais tarde amanhã. Preciso resolver um assunto bem cedo. Mais espionagem secreta.
Pisco, entro na minha sala e fecho a porta. Ainda escuto Christine limpar a garganta de forma
reprovadora.
Sento diante do computador e analiso os relatórios que Preston me mandou enquanto eu estava
fora. Por incrível que pareça, consigo me concentrar o bastante neles para fazer algumas mudanças
necessárias e responder com as minhas sugestões.
De muitas formas, o dia em que fui adotado por Lauren e Phil foi o começo da minha queda. Mas,
ao mesmo tempo, tenho consciência de como tenho sorte por assumir o comando desta empresa. Sou
apaixonado pelo ramo e me surpreendo com o brilhantismo de Phil e com os produtos que ele
desenvolveu. Passo o máximo de tempo possível no laboratório, para saber como a tecnologia
funciona e que mudanças estão sendo implementadas para melhorá-la. Phil escolheu a dedo seus
engenheiros, por isso sei que são os melhores. É muito importante para mim que eu faça um bom
trabalho à frente da empresa e que, através do meu sucesso, preste uma homenagem ao homem que
tratei mal tão injustamente por anos e anos e que tentou fazer o melhor por mim. Essa é a razão para
eu ter adiado o encontro com Evie assim que cheguei a Cincinnati. Precisava me certificar de que
meus pensamentos estariam focados na empresa o máximo possível quando assumi meu novo papel
nela. Sabia que assim que pusesse os olhos em Evie minha mente ficaria, ao menos em parte, em
outro lugar. Só pensar nela e em como estava perto já me abalava.
Fui um fracasso em vários aspectos ao longo dos anos, mas se tenho confiança em alguma coisa,
é na minha ética no trabalho. Sempre fui responsável. Sempre tirava boas notas no colégio e sei que
não sou preguiçoso como o lixo inútil que se intitulou meu pai durante os primeiros onze anos da
minha vida. Respiro fundo. Ainda é difícil não afundar diante da sensação que essas lembranças
provocam, não deixar que suas palavras depreciativas sobre mim fiquem ecoando em minha cabeça.
O Dr. Fox me ajudou até certo ponto, mas agora preciso fazer o trabalho diário de substituir por algo
mais positivo todas as coisas ruins com que fui forçado a conviver desde que me entendo por gente.
É preciso muita determinação para não cair na armadilha de se autodepreciar. A autodepreciação é
uma doença e pode ser tão fatal quanto qualquer outra. Segredos e vergonha podem acabar com uma
vida. Sei que não estou me ajudando ao fazer algo moralmente questionável como esconder algo de
Evie, mas preciso de tempo. Apenas um pouco.
Meus pensamentos são interrompidos quando ouço uma leve batida à porta da minha sala.
– Entre.
Uma loura espia pela porta com um sorriso nos lábios carnudos. Gwen. Merda. Se Christine
ainda estivesse aqui, em poucos minutos iria me avisar sobre um “telefonema urgente”. Droga. Por

que a deixei sair mais cedo? Agora estou preso, como um rato em uma armadilha. E Gwen é o gato
faminto.
Ela entra e tranca a porta, depois vem na minha direção, muito empertigada, com o corpo esguio
em um vestido azul-marinho colado.
– Jake – diz em um sussurro quase cantado.
Levanto para cumprimentá-la e Gwen contorna minha mesa, os braços abertos. Eu me inclino
para beijá-la no rosto e o perfume dela chega primeiro. Seria um aroma gostoso se ela não houvesse
exagerado nele. Gwen vira a cabeça no último momento, e não consigo evitar beijá-la nos lábios. Ela
aperta meus ombros. Recuo com um sorriso tenso. Gwen mantém um biquinho enquanto, muito
concentrada na tarefa, passa o polegar pela minha boca para limpar o batom dos meus lábios.
Todos os músculos do meu corpo estão tensos, preparados para escapar dela, então volto a me
sentar. Preciso ficar a sós com meu trabalho e meus pensamentos. Não estou com disposição para os
joguinhos de Gwen, e a experiência me diz que jogar é exatamente a intenção dela.
– Oi, Gwen. Como vai?
– Melhor agora que estou aqui com você, lindo.
Ela sorri, mostrando os dentes perfeitos e muito brancos, e senta na beira da minha mesa,
deixando os seios grandes e redondos bem na altura dos meus olhos. Respiro fundo, afasto um pouco
a cadeira e foco no rosto dela.
– Gwen, tem duas cadeiras bem ali – digo, indicando com a cabeça as cadeiras que ficam do
outro lado da mesa.
Ela me ignora, segura a minha gravata e me puxa em sua direção.
– Nossa, olhe pra você: tão profissional. É sexy...
Ela tira um dos sapatos, apoia o pé em meu colo e fica mexendo com os dedos no meio das
minhas pernas.
Basta. Seguro o pé dela, tiro-o do meu colo e afasto ainda mais a cadeira. Minha gravata escapa
das mãos dela.
– Chega, Gwen – digo, com o maxilar cerrado.
Sinto o sangue ferver. Não consigo dar limite às mulheres. De um modo geral, o problema é meu,
por razões óbvias, mas isso me irrita.
– A menos que esteja aqui para falar de algo relacionado a trabalho, precisa ir embora.
– Mal-humorado – retruca ela.
Então se levanta, calça novamente o sapato, contorna a mesa, senta em uma cadeira e cruza as
pernas.
– Éramos amigos, Jake. O que aconteceu?
Ela cruza os braços e literalmente faz bico, como uma criança pirracenta de 2 anos. Quase caio
na gargalhada.
– Já lhe disse que podemos ser amigos, Gwen. Se mantiver seu pé e outras partes do seu corpo
longe do meio das minhas pernas, nos daremos bem.
– Você gostava da atenção que eu dava à sua virilha – diz Gwen, erguendo uma sobrancelha. –
Sabe que sou boa nisso. Por que se negar esse prazer?

Fico encarando-a por um longo tempo. Fui eu mesmo que me enfiei nessa enrascada, saindo com
Gwen anos atrás. Eu a usei para dar o troco a Lauren e Phil. Sempre que havia alguma viagem da
empresa e as famílias iam junto ou quando o pai dela a levava a San Diego para seus compromissos
de trabalho, eu fazia questão de que fôssemos “pegos” em situações comprometedoras. Gwen é uma
das pessoas mais vazias que eu já tive o desprazer de conhecer, mas ainda assim é uma pessoa e,
bem no fundo, talvez tenha sentimentos. Nunca os vi, mas há uma chance de que existam.
– Escute, Gwen, qualquer coisa que tenha existido entre nós já acabou faz tempo. Muito tempo
mesmo, na verdade. Estou tentando colocar a minha vida de volta nos trilhos e preciso me concentrar
nisso, tudo bem?
Ela estreita os olhos.
– Ótimo. Fico feliz em saber que você está limpo, não me entenda mal. Só quero que saiba que
não vou desistir de nós dois.
Respiro fundo para encontrar um pouco de paciência.
– É por isso que é realmente um desafio ser seu amigo. Não entende? Que droga!
Passo a mão pelo cabelo. Quantas vezes é preciso repetir uma coisa para uma pessoa?
– Acalme-se, Jake. Está certo. Você precisa de espaço para seguir por seus catorze passos, ou o
que quer que seja. Eu entendo. Na verdade, vim aqui por uma razão específica. Estou com os
ingressos para o evento beneficente para o autismo – diz ela, pegando um envelope na bolsa e
colocando-o sobre a minha mesa. Depois se levanta, ajeita o cabelo e, bem devagar, ajusta o vestido
no quadril. – Você me pega às 19h30?
Merda. Quase esqueci que havia combinado de ir com Gwen ao evento beneficente. Estou
prestes a dizer a ela que surgiu um compromisso e que não irei, mas não posso fazer isso. É em
benefício do autismo, por Seth, e não posso deixar de ir, mesmo que tenha que aguentar Gwen por
algumas horas. Será um evento público e muitas outras pessoas da empresa estarão lá. Deve ficar
tudo bem.
– Sim, às 19h30. E, Gwen, são doze passos.
Ela me olha sem entender, fazendo beicinho.
– O que são doze passos?
– Você disse catorze passos. Presumo que estivesse se referindo ao AA, que, por falar nisso, não
frequento. Mas são doze passos.
– Está beeeem. Se você não frequenta, quem se importa com a quantidade de passos?
Muitos alcoólatras e suas famílias, imagino. Pessoas que cresceram em casas como aquela em
que eu cresci.
– Deixe pra lá, Gwen. Nos vemos na sexta. E lembre-se: amigos.
– Como quiser. Nos vemos na sexta, então! – diz ela, afastando-se, mas quando chega à porta,
para por um momento e se vira novamente para mim: – Ah, eu vou de vermelho. Sabe, para o caso de
querer combinar sua gravata com meu vestido ou coisa parecida.
– Não estou levando você a um baile de formatura, Gwen.
Ela abre um sorriso largo, sai e fecha a porta. Sem noção. Cerro os dentes. Por que tenho a
sensação de que esse evento não vai ser fácil?

capítulo 7

Na manhã seguinte, levanto cedo, tomo um banho e visto calça jeans e uma camisa de mangas
compridas. Vou precisar voltar para casa e me trocar antes de ir para o trabalho, mas depois de dar
uma olhada em Evie, vou visitar Seth. Não posso ir de terno a um cemitério. Respiro fundo. Não vai
ser fácil.
Quando eu estava no hospital, entrei em contato com o advogado que havia localizado Seth para
Lauren. Respirei fundo antes de ligar para ele, torcendo, mesmo contra todas as possibilidades, que
ela tivesse mentido para mim. Eu podia imaginá-la fazendo isso só para me magoar. Mas não, Lauren
dissera a verdade. Quando ouvi as palavras dele, foi como se perdesse Seth de novo. Só consegui me
controlar pelo tempo necessário para pedir ao advogado que descobrisse onde meu irmão estava
enterrado. Então desliguei e deixei as lágrimas rolarem de novo por meu irmão.
Sigo para o prédio de Evie imaginando se estará bem. Fiquei me revirando na cama a madrugada
inteira, pensando nela. Preciso ver o rosto de Evie e ter certeza de que está tudo bem.
Estaciono na rua e, quando me aproximo do prédio dela, vejo através das portas de vidro que
Evie está saindo de casa. Na hora certa. Eu me encosto em um carro bem na frente do prédio e espero
que ela saia. Não consigo evitar que um sorriso tome conta do meu rosto. Estou muito, muito feliz por
tê-la de volta em minha vida. Tenho consciência de que isso ainda não é um reencontro, mas já é um
começo. A felicidade é tamanha que chega a ser fácil colocar de lado o fato de eu ter mentido para
que chegasse até aqui. A lembrança de que preciso lidar com isso é um incômodo bem no fundo da
minha mente, mas a questão mais importante é que Evie está bem diante de mim. Depois de todos
esses anos, ela está bem diante de mim.
Evie sai do prédio, me vê e fica estática. Uma expressão de surpresa passa brevemente por seu
rosto. Ela cruza os braços, inclina a cabeça para o lado, e seus olhos me avaliam de cima a baixo até
finalmente se concentrarem no meu rosto.
– Está precisando de ajuda para encontrar seu cachorrinho perdido, imagino.
Rio.
– Na verdade, pensei em lhe oferecer uma bala. Meu furgão está bem ali...
Meu sorriso fica mais largo. Devo estar parecendo um bobo.
Ela também abre um sorriso – lindo – e posso jurar que escuto anjos cantando. Controle-se,
desesperado.
Evie balança a cabeça, começa a caminhar e acerto o passo com o dela. Pela visão periférica,
percebo que ela abre a boca, respira fundo e sutilmente inspira o meu perfume. Minha nossa! Evie
acaba de deixar meu cheiro descer pela garganta? Sinto meu pênis empurrar o tecido da calça. Forço
a memória para me lembrar de relatórios de venda e tentar me distrair. Não ande com Evie pela rua

exibindo um volume na calça!
Por um minuto, é como se eu voltasse a ter 14 anos, implorando para que meu corpo não me
traísse na frente de Evie, que tinha ideia de que me excitava tanto que eu mal conseguia pensar.
Tenho vontade de sorrir de novo porque, pela primeira vez em oito anos, minha reação física parece
certa e normal. A sensação de desejá-la agora traz de volta lembranças de me sentir assim por ela no
passado, quando sexo não estava ligado a culpa e vergonha. Isso me surpreende. Não imaginava
sequer ser capaz de me lembrar dessa sensação, e Evie a trouxe de volta em um dia. Tenho vontade
de beijá-la. Pare! Não pense em beijá-la! Relatórios de vendas, planilhas, gráficos.
Evie rompe o silêncio:
– Sabe, tenho certeza de que há um monte de garotas por aí que adorariam ter a oportunidade de
serem perseguidas por você. Não me parece justo que você concentre toda a sua obsessão em mim.
Sorrio.
– Mas decidi que gosto de me concentrar em você, Evie.
Ela está louca? No que me diz respeito, não há outras garotas na cidade.
Evie para de caminhar e cruza os braços. Paro também e olho rapidamente para os seios dela,
pequenos e perfeitos, que ela está realçando sem se dar conta. Equações, apresentações em slides,
testes de produtos.
Respiro fundo.
– Escute, Jake – diz Evie com a expressão séria –, você me pegou de surpresa ontem, falando
sobre uma pessoa em quem eu não pensava há muito tempo, mas estou bem. Não precisa mais ficar
checando como estou. Minha vida está bem. Não é empolgante. Não é glamorosa. Mas tenho tudo de
que preciso. Sou, hã, feliz.
Passo a mão pelo cabelo e me pergunto por que a última frase dela acabou soando como uma
pergunta. Afasto da mente o comentário sobre ela não pensar em mim há muito tempo. Dói.
– Só achei que talvez você tivesse ficado um pouco chateada depois que a deixei ontem. E fui eu
que a aborreci. Então quis me certificar de que você estava bem hoje. Não bem no geral, bem hoje.
Ela me olha e endireita o corpo.
– Eu estava bem ontem. Não gosto de saber que qualquer pessoa teve um fim trágico, mesmo
alguém que não conheço mais.
Ela franze ligeiramente o cenho, faz uma pausa, mas logo continua.
– Mas não é nada que um bom sorvete não cure. É disso que estou indo cuidar agora. Quer me
seguir até o mercado? Uma última perseguidinha, em nome dos velhos tempos?
Evie pisca para mim. Apesar de as palavras dela me magoarem e de eu estar cada vez mais
convencido de que ela me esqueceu muito tempo atrás, me contenho e rio da brincadeira dela. Estou
aqui agora. Estou aqui agora.
– Não acho que seja perseguição se estou sendo convidado, mas, sim, adoraria acompanhá-la ao
mercado.
Evie levanta os olhos para mim, leva a mão ao peito e me encara batendo os cílios.
– Não sei se estou preparada para essa enorme mudança no seu status – brinca. – De perseguidor
a acompanhante em um dia? Você vai achar que sou fácil.

Meu Deus, ela é uma graça!
– Mostre o caminho, engraçadinha – digo.
Então, antes que possa pensar muito a respeito, pego a mão dela. Toda essa situação parece mais
que familiar, e Evie está reacendendo em mim emoções de que eu acreditava me lembrar
perfeitamente, mas agora percebo que eram apenas imagens em preto e branco. A realidade é tão
impactante que mal consigo lidar com a enormidade do que estou sentindo. É como se tudo o que
sinto por ela agora estivesse em cores vivas, correndo pelo meu corpo à velocidade da luz. Estou em
casa.
Evie se sobressalta ligeiramente, puxa a mão e a enfia na bolsa para pegar os óculos escuros. Ela
coloca os óculos, mas mantém a mão na alça da bolsa, para que eu não possa pegá-la de novo.
Droga. Eu a assustei. Vá com calma.
– Então – diz ela–, a empresa do seu pai é de que segmento?
Conto a ela um pouco sobre a empresa, sobre como comecei a trabalhar com meu pai e que me
transferi para o escritório de Ohio porque ele começou a apresentar problemas. E porque você está
aqui, Evie.
– Seu pai deve confiar muito em você para lhe dar uma missão importante assim em tão pouco
tempo – comenta ela.
Sinto o corpo enrijecer ao ouvir isso. É um assunto tão difícil para mim...
– Nunca dei muitos motivos para o meu pai confiar em mim. Mas ele faleceu há quase um ano,
seis meses antes de eu me mudar pra cá.
Ela fica em silêncio por algum tempo, então sua mão pequena pega na minha. Meu coração
acelera ao vê-la sorrir para mim.
– Fico feliz por você ter alguma coisa com que se sustentar depois de sua curta carreira de
perseguidor sorrateiro.
Ela bate os cílios. Não consigo evitar e caio na risada. Evie sempre foi tão boa em me fazer rir
de mim mesmo, ainda que eu estivesse de péssimo humor... ainda é! Senti uma saudade desgraçada
dela e estou morrendo de vontade de lhe dizer isso. Mas sei que não posso. Ainda não.
Entramos na loja, pego um carrinho e a observo sem pudor enquanto ela escolhe o que precisa.
Sigo atrás dela como um cachorrinho apaixonado. E me sinto ótimo. Vários homens se viram para
olhar quando Evie passa, mas ela nem se dá conta. Tenho uma rápida visão de mim mesmo
empurrando-os contra a prateleira de cereais – depois corações cor-de-rosa, luas amarelas, estrelas
laranja e trevos verdes caindo sobre os rostos deles quando eu jogá-los no piso de cerâmica. Uma
carnificina mágica e deliciosa... Saio do meu devaneio assassino quando viramos no corredor de
sorvetes.
– De que sabor você gosta? – pergunto, abrindo a porta de um freezer.
– Creme com nozes – responde Evie, abrindo a porta de outro.
Dou uma olhada rápida nos sabores e pego um pote do sorvete de creme com nozes ao mesmo
tempo que ela escolhe o mesmo sabor de outra marca.
– Por que esse? – pergunto. – Este aqui é o dobro do preço. Só pode ser melhor – argumento,
exibindo o que escolhi.

Ela balança a cabeça, negando.
– Não tem a ver com preço, Jake. Este aqui é o melhor sorvete do mundo. Veja, é o que está
escrito na embalagem – diz ela, muito séria.
Olho de uma embalagem para a outra.
– Evie, você sabe que eles podem escrever o que quiserem na embalagem, certo? Não significa
que seja verdade.
Ela nem pisca.
– Bem, sabe de uma coisa? Você está certo. Mas também está errado. Acho que quase cem por
cento da certeza de ser o melhor se refere à autoconfiança. Você pode até desconfiar que é o melhor,
pode ter esperança de ser o melhor, mas se não tiver coragem para se declarar o melhor, em letras
garrafais em uma embalagem, e deixar que os críticos se atrevam a testá-lo, então você
provavelmente não é o melhor. Quem consegue resistir a um cara que acredita em si mesmo a esse
ponto?
Ela coloca o pote de sorvete no carrinho, se vira e começa a seguir em direção à fila do caixa,
enquanto continuo a observá-la. E é isso. Se já não estivesse de quatro por ela, teria acabado de
ficar. Irremediavelmente apaixonado. Essa garota é tudo para mim. Sim, estou de quatro. E feliz por
isso, enquanto permaneço parado como um idiota no meio do corredor de sorvetes.
Tento pagar as compras de Evie, mas ela me olha feio e recusa o meu dinheiro. Fico incomodado.
Na minha cabeça, Evie é minha e tudo o que mais quero é tomar conta dela. Mas ela é independente e
sei que preciso respeitar isso. Sei também que seria igualzinho se ela soubesse quem sou de verdade.
Começamos a fazer o caminho de volta ao prédio dela e rezo para que me convide a entrar.
Quero passar mais tempo com Evie.
– Então, posso saber o que você quis dizer quando comentou que nunca tinha dado muitos
motivos para o seu pai confiar em você? – pergunta Evie, a testa levemente franzida.
Deve estar se perguntando se sou uma pessoa confiável. Quase deixo escapar um gemido ao
sentir uma onda de culpa se abater sobre mim. Suspiro. Ao menos em relação a isso posso lhe contar
a verdade. Olho para a frente e digo:
– Fui um garoto terrível. Egoísta, rebelde. Fiz tudo o que meu pai não gostaria que eu fizesse. Se
havia uma oportunidade de autodestruição, eu era o primeiro da fila. Não fui exatamente o sonho de
qualquer pai ou mãe.
Evie me encara com uma expressão triste, mas não diz nada. Quando chegamos ao prédio, ela
empurra a porta com o pé e entra. Sinto meu maxilar ficar tenso.
– A sua portaria não tem tranca?
– Ah, não. Já liguei várias vezes para o síndico, mas obviamente isso não é prioridade para ele.
Este bairro é bem seguro. Ninguém teria coragem de dizer que é o melhor do mundo, mas é decente –
brinca.
Estou furioso. Isso é inaceitável. Faço uma anotação mental para descobrir quem é o síndico do
prédio dela no instante em que chegar ao meu escritório e então ligar para ele.
Paramos do lado de fora da porta do apartamento de Evie e apoio as sacolas no chão enquanto
espero que ela pegue a chave. Mas ela não pega.

– Hã, bem, obrigada, Jake – diz Evie, obviamente sem a menor intenção de me convidar a entrar.
Droga. Mas não posso culpá-la. Sou praticamente um estranho para ela.
– Foi uma ida ao mercado muito mais agradável do que imaginei que seria – diz, dando-me um
sorriso educado.
Ambos viramos a cabeça quando um homem negro, grande e musculoso, provavelmente na casa
dos 40 anos, abre a porta do apartamento e fica parado ali, os braços cruzados, me encarando com
desconfiança.
– Oi, Maurice – cumprimenta-o Evie. – Este é o Jake. Estou bem. Está tudo bem. Hã... estamos
bem – diz, constrangida.
Maurice continua me olhando como se estivesse considerando se o melhor seria arrancar minha
cabeça com os dentes ou com as mãos. Para deixar o clima mais leve, ponho meu sorriso mais
inocente no rosto e vou na direção dele com a mão estendida.
– Maurice – digo.
O homem finalmente cede e aperta a minha mão.
– Jake.
Isso é ótimo. O cara parece ser capaz de quebrar um homem ao meio e obviamente quer proteger
Evie. Até que eu possa assumir de vez a função, é bom ter Maurice por perto.
– Ah, obrigada, Maurice. Nos vemos mais tarde, então? – diz Evie, sorrindo mais uma vez.
Maurice fica onde está por mais um instante, então responde:
– Está certo. Estou aqui pertinho da porta, Evie. Se precisar de mim é só chamar, está bem?
– Tudo bem, Maurice – responde ela, baixinho.
Maurice entra em casa e fecha a porta. Relanceio o olhar entre Evie e a entrada do apartamento
dela. Nada acontece. Muito bem, hora do plano B. Passo a mão pelo cabelo enquanto faço uma prece
silenciosa para que ela diga sim à minha próxima pergunta.
– Está certo, entendi. Não estou convidado a entrar. Pode ao menos me dar seu telefone, Evie?
Ela fica em silêncio e eu prendo a respiração. Na última vez que fiquei nervoso para chamar uma
garota para sair, eu era adolescente... e a garota era a mesma de agora.
– Me dê seu celular – diz ela, por fim.
Deixo o ar escapar e estendo o telefone para ela. Evie insere o número e me devolve o aparelho.
Sorrio para ela e me afasto:
– Cansei de persegui-la, Evie. Nosso relacionamento acaba de subir um nível.
Ela nem imagina o tamanho do progresso. Evie ri e, quando já estou mais distante, fala:
– Você tira a graça de tudo, sabia, Jake Madsen?
Saio do prédio sorrindo feito um bobo.

Levo quase uma hora para encontrar a pequena placa de metal do túmulo de Seth, parcialmente
coberta de grama e folhas. Agacho-me, afasto o que está por cima e leio o texto: “Seth Michael

McKenna, 7 de abril de 1986 a 27 de julho de 2003.” Nenhum “amado” ou “nosso garotinho”, nada
que dê qualquer indicação de que Seth foi importante para alguém. Mas ele foi para mim. Sinto um nó
na garganta quando afasto outra folha que acaba de cair de uma árvore próxima. Apoio os cotovelos
nas coxas e digo em voz alta:
– Ei, companheiro.
Deixo o silêncio se estender por longos minutos, quase esperando que a voz doce e risonha de
Seth diga “Oooi”.
– Lamento ter demorado tanto para vir. Converso muito com você e tenho a sensação de que me
ouve. Mas eu precisava vir. Ver onde você está faz tudo parecer tão... real.
Fico olhando por algum tempo para a placa antes de continuar.
– Você deve ter se perguntado onde eu estive durante todos aqueles anos. Deve ter se perguntado
o que você havia feito de errado. Deve ter se perguntado isso a vida inteira. E eu não estava por
perto para lhe dizer que fez tudo certo. Companheiro, com o que a vida lhe deu, você fez tudo certo.
E eu nunca voltei para você. Tenho que viver com isso. Mas você também teve que viver com isso, e
deve ter se sentido confuso, magoado.
As lágrimas agora escorrem pelo meu rosto, mas deixo que caiam porque Seth merece cada uma
delas. Dane-se o meu orgulho. Suspiro tentando me controlar um pouco, enquanto arranco a grama
que cobre a placa.
– Você se lembra daquela vez em que papai voltou para casa bêbado, gritando, furioso, e mamãe
e eu ficamos andando tensos pela casa, como se estivéssemos pisando em ovos? E que quando ele
deu as costas você começou a imitá-lo, cambaleando, com os olhos semicerrados?
Rio da lembrança.
– Mamãe achou que era apenas você sendo você. Ela estava envolvida demais no próprio mundo
para perceber quem você era. Mas eu percebi o que você estava fazendo e achei tão engraçado que
comecei a rir alto. Papai me bateu porque achou que eu estava zombando dele, e eu na verdade
estava mesmo. Mas, poxa, Seth, valeu a pena porque rimos juntos e foi incrível. Nós tínhamos uma
ligação e esses momentos com você eram muito preciosos pra mim. Passei duas semanas com o olho
roxo, mas cheio de orgulho. Espero que você também tenha carregado alguns desses momentos.
Espero que saiba que eu o enxergava. E espero que saiba que eu também precisava de você.
Eu me sento, ainda arrancando a grama, e deixo as lembranças me invadirem, deixo o passado me
invadir, apesar de doer muito. E dói demais...
– Qual era aquela musiquinha boba que você costumava me pedir para cantar toda noite? Béé,
béé, tem lã aí, ovelha pretinha? Você se lembra disso? Juro que cantei isso umas 50 mil vezes.
Rio, mas sinto meu rosto franzir pela mágoa que a lembrança traz.
– E cantaria mais 50 mil se pudesse ter você de volta. Espero que saiba disso.
Fico em silêncio por um longo tempo, lembrando o rosto do meu irmão, o sorriso dele, ouvindo a
sua voz. Então canto bem baixinho:
– Béé, béé, tem lã aí, ovelha pretinha? Sim, senhor, sim, senhor, três sacas bem cheinhas. Uma
pra patroa e uma pro patrão, mais outra pro menino que mora no ladeirão... Béé, béé, tem lã aí,
ovelha pretinha? Sim, senhor, sim, senhor, três sacas bem cheinhas. Uma pra patroa e uma pro patrão,

mais outra pro menino que mora no ladeirão.
Eu me ajoelho na grama e coloco as mãos sobre o metal frio, traçando cada letra do nome dele e
as datas que demonstram como a sua vida foi curta.
– Você foi importante, Seth. Foi importante neste mundo. Foi importante para mim. E sempre
será. Amo você, meu irmão. Quero que saiba disso. Você foi importante.
Então me levanto e volto lentamente para o carro.

capítulo 8

Chego ao escritório um pouco antes do meio-dia e fico sentado dentro do carro, na garagem, por
dez minutos, recuperando-me. A manhã foi uma longa montanha-russa emocional. Apoio a cabeça nas
mãos e massageio as têmporas, mesmo não estando com dor de cabeça. Ainda. Eu estava tão feliz
quando deixei Evie... agora só me sinto confuso. Foi duro visitar Seth e tenho vontade de ligar para
Evie e conversar com ela sobre isso. Mas, é claro, não posso. Oito anos se passaram, mas, de certo
modo, é como se não houvesse passado tempo nenhum. Eu me pergunto se ela também sente uma
espécie de conforto quando está perto de mim, essa sensação impossível de explicar.
Saio do elevador e vejo Preston vindo na minha direção. Preston era sócio de Phil, meu pai
adotivo. Estava com ele praticamente desde o início, quando a empresa era apenas uma startup. É
um homem inteligente e um cara legal em todos os aspectos. Sei que meu pai confiava nele e também
o respeito muito.
Embora Phil fosse da área de Engenharia, exatamente como Preston, ele também tinha tino para
os negócios. Por isso, quando se mudou para San Diego, para abrir um escritório, a filial de Ohio
sofreu. Como sou o novo presidente da empresa, venho trabalhando duro para solucionar esse
problema. Acho que já consegui alguns resultados importantes. Agora estamos operando em terreno
sólido.
– Jake! – cumprimenta-me Preston.
Ele parece de fato um engenheiro, bem magro e todo geek, com seus óculos grossos e a aparência
sempre desarrumada, como se dormisse na mesa de trabalho. Na verdade, até onde eu sei, isso
acontece mesmo, às vezes. Talvez seja por isso que ele consegue dar conta de uma quantidade sobrehumana de trabalho.
– Estava mesmo indo procurá-lo. Você teria um minuto para dar uma olhada nestes projetos que
acabei de buscar?
Ele me entrega um pasta.
– Oi, Preston. Sim, é claro. Vamos para a minha sala.
Caminhamos na direção da minha sala e ele espera enquanto eu paro para cumprimentar Christine
e pegar meus recados com ela.
– Você vai adorar. Os caras mandaram bem na nova apresentação – comenta Preston.
Nós nos sentamos à mesa para quatro pessoas na minha sala e avaliamos os projetos, discutindo
preferências e detalhes dos desenhos. Eu me concentro facilmente no trabalho, contagiado pela
animação e pela paixão na voz de Preston. Não concordamos em tudo, mas debatemos com
tranquilidade nossas diferenças e, no fim, eu o convenço a apostar na minha opção preferida. Ele
tinha razão: os projetistas mandaram bem.

Quando se levanta, Preston segura meu ombro, sorrindo:
– Você lembra muito o seu pai quando ele era jovem, Jake. Phil sempre teve o dom de me
convencer a ficar do lado dele. E quase sempre estava certo – diz e ri.
Preston se vira para sair, mas, quando chega à porta, para e olha para mim.
– Espero que não se ofenda quando nós o chamamos de “The Kid” – fala, sorrindo mais uma vez.
– Sei que brincamos em relação a isso, mas, com toda a honestidade, você tem se saído muito bem
desde que assumiu aqui, e estamos todos muito impressionados. Convivi com o seu pai por mais de
trinta anos e trabalhei mais próximo dele do que qualquer pessoa. Jake, sei que Phil também ficaria
orgulhoso de você.
Preston não me dá tempo para responder, pois logo se vira e sai em silêncio. Fico sentado,
imóvel, por um longo tempo. Por fim, levanto-me e recolho os papéis à minha frente. Vejo a minha
imagem refletida no espelho sobre um aparador. Só então me dou conta de que estou sorrindo.

Mais tarde, naquela noite, debaixo de uma ducha quente, deixo o vapor relaxar meus músculos
cansados. Fui à academia depois do trabalho e malhei até cansar o corpo e acalmar a mente, pelo
menos por algum tempo.
Enquanto a água escorre, meus pensamentos voam até Evie e me pergunto o que ela irá fazer esta
noite. Gostaria de ter o direito de saber. Gostaria de ter o direito de ligar para ela e dizer que a
quero comigo. Coloco uma das mãos no azulejo à minha frente, enquanto passo o xampu no cabelo
com a outra. Depois apoio as duas mãos na parede e deixo a água cair na cabeça, fantasiando como
seria se Evie aparecesse na minha porta... como seria cumprimentá-la com um beijo e levá-la direto
para a cama. Sinto o pênis latejar. Levo a mão até ele e o seguro. De repente, estou dolorosamente
rígido. Reprimo um gemido enquanto começo a me acariciar lentamente. O prazer, intenso e quente,
dispara pelo meu corpo. Visualizo-me despindo Evie, uma peça de cada vez, e aproveitando cada
centímetro daquele corpo pequeno e perfeito. Imagino como ela deve ser nua, de que cor devem ser
seus mamilos, que sabor devem ter. São doces, tenho certeza. Tão doces quanto sua boca, que beijei
quando estávamos no nosso telhado, há tantos anos. Eu pensava com frequência em Evie nua quando
era adolescente, mas não me permiti mais fazer isso desde então. Era doloroso demais, porque sabia
que nunca a teria. Mas agora... só a possibilidade disso já faz meu sangue correr com força pelas
veias.
Finjo que a água correndo pelas minhas costas são as mãos de Evie me tocando, me acalmando,
finjo que minha própria mão é a dela, por trás de mim segurando meu pênis para me acariciar, para
cima e para baixo, a mão pequena acelerando o movimento e espalhando água sobre nós dois. Deixo
escapar um gemido alto. Os seios de Evie estão pressionados contra as minhas costas, seu corpo
escorregadio por causa da água. Ela roça os peitos em mim e geme quando os mamilos se esfregam
na minha pele. O som da água correndo se mistura aos nossos gemidos.
– Hum, gata, que delícia...

Evie desliza ao meu redor, fica de joelhos e toma o meu pênis em sua boca pequena. Observo
enquanto ela move a cabeça, chupando e lambendo, a água lubrificando tanto meu pau que Evie
consegue deslizá-lo pela boca sem esforço.
– Ah, gata, não pare – peço por entre os dentes cerrados.
Evie concorda deixando escapar um gemido e acelera o movimento da boca enquanto passo as
mãos pelo seu cabelo molhado. Nossa, a sensação é gostosa demais... Sinto o orgasmo se
aproximando.
– Vou gozar – digo com a voz sufocada.
Ela se afasta e passa a manusear meu pênis em vaivém enquanto eu gozo como nunca na vida.
Evie continua a me masturbar lentamente. Caraaaaalho!
Limpo o sêmen da parede à minha frente e me ensaboo de novo, ficando embaixo do chuveiro por
mais algum tempo. Rio baixinho. Porra, se fiquei excitado assim só fantasiando, como vai ser se
algum dia chegar a transar com ela?
Eu me enxugo e caio na cama. Estou encantado com o que aconteceu. Sexo, mesmo sozinho, nunca
passou de um alívio para mim. Não posso dizer que já tenha gostado tanto, porque as emoções que o
cercavam sempre foram negativas para mim. Nunca me permiti aproveitar de verdade o ato sexual.
Sempre foi um meio para um fim – e esse fim podia ser entorpecimento, provar a Lauren que ela não
me possuía ou alívio físico, mas nunca, jamais, uma experiência plena. Nem sei se havia reconhecido
isso até esse momento. Pela primeira vez, desde que me mudei para San Diego, tive uma boa
experiência sexual... E foi me masturbando no chuveiro enquanto imaginava Evie... Caralho!

capítulo 9

ico zapeando mecanicamente pelos canais da televisão, sem achar nada que me interesse.
Desligo a TV e coloco o controle remoto na mesinha ao lado da cama, e nesse momento a porta do
quarto se abre. Viro a cabeça e franzo a testa no mesmo instante. É a maldita Lauren. Que diabos
aconteceu? As enfermeiras sabem que ela está em uma lista de visitas “não permitidas”. Lauren
deve ter dado um jeito de passar por elas sem ser vista. Estendo a mão em direção ao botão de
alarme, mas Lauren se adianta e o deixa fora do meu alcance. Ela se senta, segura as minhas
mãos e diz:
– Jake, pare. Só quero um minuto. Por favor. Tem ideia do que estou passando sem poder vêlo? Sem poder confortá-lo? Eu te amo, querido.
– Você não me ama – cuspo. – O que sente por mim não é amor. Nunca foi. Era sexo. Sexo
errado, sujo, manipulador, que arruinou a minha vida. E que depois acabou com a vida do Phil
também. Você se lembra dele, Lauren? Seu MARIDO? Saia daqui.
Ela fica em silêncio por algum tempo, então se inclina sobre mim e afasta uma mecha de
cabelo da minha testa. Desvio-me da mão dela.
– Pare.
– Ah, Jake, é claro que penso em Phil. Mas o que aconteceu não foi culpa nossa. Phil nunca se
cuidou muito... sempre trabalhando.
Lauren faz uma pausa e examina as unhas.
– Teria sido melhor se ele soubesse sobre nós – continua ela. – Devíamos ter contado a ele
anos atrás... O que TEMOS, o que sempre tivemos, não é errado nem sujo. Quando se der conta
disso, vai conseguir superar a culpa. Você não tem motivos para se sentir culpado. Nós nos
apaixonamos. Não há por que se envergonhar disso.
Fico encarando-a com os olhos semicerrados. Meu Deus, Lauren vive em um mundo só dela.
– Lauren, você está delirando. Eu nunca fui apaixonado por você. Você deveria ter sido minha
MÃE. Quanto mais cedo enfiar na cabeça que eu NUNCA a amei, mais fácil será para nós dois.
Isso não está ajudando. Você precisa ir embora. Se não me devolver o botão de alarme, vou
começar a gritar. Vê se para de olhar para o próprio umbigo e me escuta pelo menos uma vez na
vida.
Ela balança a cabeça depois de alguns segundos sem dizer nada.
– Você não sabe o que está dizendo. Deve ser a medicação. Você não está raciocinando
direito. Quando ficarmos juntos de novo, você vai se lembrar de por que pertencemos um ao outro.
Se lembra, Jake? Daquelas noites no seu quarto?
O desânimo me domina.

– Depois que tudo terminava, eu ia até o seu armário de bebidas e tomava quatro doses de
conhaque para conseguir dormir de novo, Lauren. O que isso lhe diz?
Eu bebia de tanta vontade de chorar, de tão confuso e horrorizado que ficava por meu corpo
me trair daquele jeito.
Ela ri.
– Eu também ficava pensando em você. Também não conseguia dormir, querido.
Não era aquilo que eu queria dizer, mas Lauren pensava tanto em si mesma que não
conseguiria perceber isso. Fico em silêncio por apenas um instante.
– MISSY! SUSAN! – grito com toda a força dos meus pulmões, chamando as enfermeiras que
estão de plantão.
Lauren se sobressalta com o berro repentino. Odeio me sentir impotente na presença dessa
mulher, sendo obrigado a chamar as enfermeiras como se fosse uma criança. Mas me recuso a
passar mais um segundo sequer com ela, principalmente por estar assim, incapaz de me mover,
como uma mosca presa em uma teia de aranha.
– Ah, pare, Jake. Está certo, estou indo.
Lauren se levanta, mas, em vez de se afastar, inclina-se para a frente e cola sua boca na
minha. Ela lambe meus lábios, tentando abri-los. Antes que eu possa fazer qualquer movimento, a
porta é aberta e vejo Missy e o Dr. Fox nos encarando. Lauren recua, passa a mão pela boca e
sorri animada para mim.
– Não se esqueça de recolocar meu nome na lista de visitas autorizadas, Jake. Voltarei logo.
Ela vai embora, e ficamos os três observando-a sair. Missy vem até mim, pergunta se estou
bem e desvia os olhos quando a encaro. Ela obviamente viu minha “mãe” tentando me agarrar na
cama do hospital. Jesus. Cerro os dentes, sentindo-me humilhado e envergonhado.
– Não sei como ela conseguiu passar por nós, Jake. Estávamos todos sentados na mesa da
recepção. Sinto muito – diz ela, em voz baixa.
– Não é culpa sua, Missy – respondo.
Quando aquela mulher quer alguma coisa, ela faz o que for preciso para conseguir. Missy
mede meus sinais vitais e diz que voltará em algumas horas para conferir como estou. Então sai e
fecha a porta.
O Dr. Fox permaneceu onde estava, perto da porta. Ele caminha na minha direção com o
cenho franzido e se senta na cadeira perto da cama.
– Ah, Doutor, podemos adiar nossa sessão? Não estou muito disposto a falar agora.
– Me parece que agora talvez seja um ótimo momento para conversarmos – diz ele, em um tom
gentil.
Balanço a cabeça, negando.
– Na verdade, não. Não estou com vontade. Além do mais, não estou me sentindo muito bem,
preciso dormir. Tenho outra cirurgia marcada para amanhã de manhã....
O Dr. Fox fica um tempo em silêncio, os lábios franzidos.
– Está certo, filho.
Ele pousa a mão no meu ombro e me encolho ligeiramente. Então retira a mão e me encara por

mais um instante, antes de se afastar.
– Darei uma olhada em você amanhã à tarde, depois da sua cirurgia. Podemos remarcar nossa
sessão para o início da próxima semana, tudo bem? Mas me chame se quiser conversar antes
disso.
Assinto com a cabeça, sem muito interesse. Estou tão cansado... Quero ficar sozinho. Quero
dormir. O Dr. Fox caminha até a porta e se vira uma última vez para me ver. Parece indeciso
quanto ao que fazer.
Depois que ele sai e fecha a porta, escuto uma voz conhecida no corredor. Preston. Ele avisou
que estaria na cidade para algumas reuniões no escritório de San Diego esta semana e que me
faria uma visita. Venho tentando voltar ao trabalho lentamente, participando de algumas
videoconferências e analisando relatórios no notebook. Tenho muito a fazer para me colocar a
par de tudo antes de assumir os negócios em Cincinnati.
Mas não consigo sequer pensar a respeito agora. Estou arrasado, fraco, de estômago
revirado.
As vozes se afastam pelo corredor e tudo fica em silêncio. O Dr. Fox deve ter dito a Preston
que eu não estava me sentindo bem para receber visitas. Graças a Deus. Não estou mesmo. Fecho
os olhos e deixo todas as lembranças ruins trazidas pela presença de Lauren tomarem conta de
mim. Caio em um sono inquieto.

capítulo 10

Assim que tenho um intervalo no trabalho, no dia seguinte, ligo para Evie. Preciso vê-la. Sinto uma
necessidade urgente de ouvir a voz dela, só para me lembrar de que não é tudo um sonho. Ela
realmente está de volta à minha vida. Evie não atende à ligação, então mando uma mensagem de
texto.
No momento em que me encaminho para uma reunião do conselho diretor da empresa, meu
celular toca e vejo que é ela. Paro e me afasto para a lateral do corredor, do lado de fora da sala de
reuniões.
– Evie.
– Oi, Jake.
Ela parece um tanto insegura. Deixo o ar escapar. Deus, só ouvir a voz dela já é tão bom...
– Escute, estou correndo para uma reunião e só posso falar por um minuto, mas gostaria de levála para jantar hoje à noite.
– Ah – diz Evie, parecendo surpresa. – Ahn, eu...
– Evie, é um pedido simples. Basta responder com sim ou com sim – falo, brincando.
Percebo o sorriso na voz dela quando responde:
– Eu... sim. Pode ser.
Graças a Deus. Abro um sorriso.
– Ótimo. Pego você às sete.
– H-hã...
– Vejo você hoje à noite, Evie – digo e desligo rapidamente, para não dar a ela um segundo
sequer para mudar de ideia.
Todos me olham com curiosidade quando entro na sala de reuniões. Percebo que devo estar com
um sorriso bobo no rosto e me recomponho. Foco! Mas isso está mesmo acontecendo? Eu realmente
acabo de dizer “Vejo você hoje à noite, Evie”? Preciso me esforçar para não passar a reunião toda
sorrindo.

Saio do trabalho às 17h e vou direto para a academia malhar um pouco. Às 18h30, já estou de banho
tomado e pronto. Sei que ainda é cedo para sair, mas, apesar do exercício vigoroso, estou tão
inquieto que fico andando de um lado para o outro no apartamento. Dane-se. Vou chegar cedo, não
me importo. Estou ansioso demais para ver Evie e não tenho mesmo a intenção de esconder que gosto
dela. A essa altura, eu provavelmente seria incapaz de manter as aparências. Não quero assustá-la,

mas quero que saiba que estou a fim dela. Tenho certeza de que ela se sente pelo menos atraída por
mim e, por enquanto, isso é o bastante para me dar confiança de seguir em frente. Sou um homem de
23 anos que parece estar saindo para seu primeiro encontro. Não consigo evitar achar graça de mim
mesmo. Só que o encontro é com Evie, o que me conforta ao mesmo tempo que me apavora.
Já tentei namorar algumas mulheres. Nunca me pareceu certo ter relacionamentos apenas físicos.
Eles nunca me trouxeram nenhum tipo de satisfação. Mas, apesar de eu ter tentado me envolver de
verdade uma ou duas vezes, sempre acabei me sentindo ainda pior. Ter um relacionamento físico é
uma coisa, mas criar um laço sentimental sempre me deixou terrivelmente culpado, como se fosse
uma grande traição a Evie. Depois de cada “encontro”, além de me desinteressar pela pessoa,
também ficava me sentido vazio e o pior cara da face da Terra. Ninguém jamais chegou nem perto de
despertar em mim algo parecido com o que eu sentia por Evie. Eu estava condenado pelo resto da
vida a comparar todas as mulheres que eu conhecesse com a garota que ainda era dona do meu
coração. Não era justo com ninguém. Depois de umas duas tentativas de namoro, joguei a toalha e
jurei nunca mais tentar. Eu tinha traído Evie e merecia uma vida de solidão. Queria uma vida de
solidão.
Estaciono em frente ao prédio de Evie e permaneço no carro por longos minutos. Meu corpo está
elétrico porque sei que ela está a menos de 100 metros de mim, esperando em casa. Sinto meu peito
se aquecer e sei que preciso beijá-la, sentir seu gosto, antes de entrarmos no meu carro. Nunca fui
muito de beijar. Acho íntimo demais. Mas minha ânsia de beijá-la é tanta que é como se eu
precisasse dos lábios dela nos meus para viver. Não sei como Evie reagirá, mas, dominado pela
vontade de encontrá-la, saio do carro com determinação, abro a porta do prédio dela – ainda com a
fechadura quebrada – e entro a passos largos. Liguei para o síndico do prédio de Evie ontem, e é
melhor aquele idiota preguiçoso consertar essa fechadura amanhã ou vou pegar no pé dele.
Bato à porta de Evie e a escuto se mover dentro do apartamento antes de atender. De repente,
Evie está parada à minha frente, os cabelos longos e escuros soltos ao redor do rosto lindo, os olhos
fixos em mim. Então ela me olha de cima a baixo e, quando percebo a aprovação em seu rosto, me
decido. Estou fisicamente incapaz de resistir a tocá-la. Seguro o queixo dela e puxo-a na minha
direção. Sinto um rugido subindo pelo meu peito, como se eu fosse um homem das cavernas. Sou
pura ânsia, e uma possessividade que não sinto há quase uma década me domina. Ondas de
testosterona inundam meu corpo.
Inclino a cabeça e colo minha boca na de Evie. Minha língua encontra a dela e quase deixo
escapar um gemido ao sentir seu sabor. Paraíso. Meu paraíso.
Evie geme baixinho, passa os braços ao redor do meu pescoço e pressiona o corpo contra o meu.
Sinto-me como um homem faminto que finalmente pode saborear um banquete com os pratos mais
deliciosos do mundo. Uma descarga de prazer atravessa meu corpo conforme a língua de Evie
acompanha cada movimento da minha.
Percebo vagamente que ela passa as mãos pelo meu cabelo e, quando deixo a minha mão descer
até a bunda dela, Evie geme dentro da minha boca. Também não consigo evitar um gemido. Esse é o
segundo beijo mais incrível da minha vida. O primeiro foi com a mesma garota.
Minha ereção força a calça e sei que preciso interromper esse beijo antes que acabe gozando

como um adolescente ansioso. Ou antes que Maurice venha voando de casa me esmagar como se eu
fosse um inseto, aqui mesmo, no corredor.
Afasto-me com relutância, ofegante. Evie deixa escapar um último gemido e não consigo evitar
um sorriso quando digo:
– Caramba, você sabe beijar.
Mas eu já sabia disso.
Evie levanta os olhos para mim com uma expressão atordoada. Ela foi tão arrebatada pelo beijo
quanto eu.
– Uau... – diz, com um sorriso doce no rosto.
– Sim – concordo.
Talvez eu nunca mais pare de sorrir. Mas me concentro e pergunto:
– Está com fome?
Ela parece confusa por um instante, mas logo responde:
– Estou.
Quando caminhamos em direção ao meu carro, Evie pergunta:
– A regra não seria você me beijar depois do encontro?
Ela está sorrindo.
– Não consegui esperar – respondo sorrindo também e pisco para ela. – Ou beijava você ou
enlouquecia. – E estou dizendo a mais pura verdade.
Depois de tirar o carro da vaga, pego a mão de Evie e fico segurando-a. Está muito difícil manter
as mãos longe dela. Tenho medo de que Evie desapareça de repente, feito um sonho nebuloso, se eu
não a mantiver presa a mim por algum laço físico. Além disso, o efeito tranquilizador da pele quente
e macia dela na minha é como uma droga. Estou fisgado. Minha confiança na nossa ligação cresce a
cada minuto. A química que temos é inegável.
Evie me tira das minhas divagações com uma pergunta:
– Então, Jake, você já teve muitas namoradas?
Ela está mordendo o lábio, como se estivesse preocupada com a minha resposta.
E aqui estamos. Não posso mentir. Nem sei por que sinto obrigação de ser completamente
honesto sobre o meu passado nesse assunto, mas algo em mim sabe que é crucial que eu seja. Por
isso, respondo com sinceridade.
– Não. Houve muitas mulheres na minha vida, Evie, mas não, eu não namorei muitas delas.
Olho de relance para ela, para avaliar sua reação, mas Evie está voltada para a frente e não me
dá nenhuma pista. Quero que ela saiba que é diferente com ela e também que não sou mais aquele
homem, por isso continuo:
– Não tenho orgulho disso, mas é a verdade. Isso a incomoda?
Evie fica em silêncio por tanto tempo que começo a sentir um aperto no peito. Por fim, diz em
voz baixa:
– Jake, não posso ser só mais uma garota pra quem você liga quando quer fazer sexo.
Mantenho os olhos à frente para não cair na gargalhada. É isso que ela acha? É melhor deixar
tudo cem por cento claro.

– Não é isso que quero com você, Evie.
– Ah. Eu só achei... quero dizer... eu... porque...
Merda, me expressei mal. Vou deixar tudo cento e dez por cento claro.
– Evie, o que eu quero dizer é que quando fizer sexo com você, você será minha. Está claro
agora?
Ela continua a olhar para a frente, mas espio com o canto do olho e vejo que ela está apertando
uma coxa contra a outra. Quase deixo escapar um gemido alto.
– Evie, olhe para mim. Você sente a mesma coisa, não sente?
Ela hesita por apenas um segundo antes de se virar para mim, assentir e sussurrar:
– Sinto.
Sorrio para ela e paro o carro em frente a um restaurante chamado Chart House.
Também preciso perguntar a Evie sobre o passado dela. Tenho certeza de que ela já teve alguns
namorados sérios. Como seria possível que uma garota linda como Evie não houvesse atraído muita
atenção masculina ao longo dos anos? Só de pensar nisso, meu estômago revira, e me sinto mal não
só por isso, mas também porque me desprezo por pensar assim. Não tenho esse direito. Eu deveria
ter estado por perto para garantir que nenhum outro homem sequer olhasse na direção dela. Deveria...
deveria... pare. Esse modo de pensar não é nada produtivo. Preciso trabalhar com a realidade, não
com “e se”.
Desligo o carro e me viro para Evie.
– Posso lhe perguntar se você teve muitos namorados, Evie?
Tento não prender a respiração. O que quer que ela diga, a responsabilidade é minha. Não
importa com quantos homens Evie já esteve, é minha culpa. Preciso aceitar isso.
Ela parece surpresa com a minha pergunta e percebo que está levemente ruborizada quando
responde:
– Um monte, Jake, mas não acho que se possa dizer que realmente namorei muitos deles.
Fico paralisado. Que diabos? Mas então percebo que ela está zombando de mim. Respiro
aliviado.
– Você está me sacaneando – digo, finalmente, em voz baixa.
Evie inclina a cabeça para o lado.
– Tudo bem você ter ficado com um monte de mulheres, mas eu ter estado com um monte de
homens é um problema?
Não, nenhum de nós dois deveria ter feito isso, mas ela não cometeria os erros que eu cometi.
Evie teria encontrado uma forma de ser melhor do que eu fui. Ela sempre fez isso.
– Sim, porque você é uma pessoa melhor do que eu – digo.
– Jake... – começa ela.
– Só quero uma resposta honesta. Só quero saber quantos homens já fizeram parte da sua vida.
Evie respira fundo. Devo estar passando a impressão de ser um cara nada centrado. Inseguro em
um momento, homem das cavernas no instante seguinte. Mas é exatamente assim que me sinto agora,
duelando comigo mesmo. Estou apavorado e, ao mesmo tempo, me sinto possessivo. É exaustivo.
Mas preciso saber. Talvez eu queira me torturar, não sei. Mas preciso que ela me responda. Depois

de um tempo, Evie diz:
– Saí com alguns caras, quase todos apresentados pela minha amiga Nicole. Nada sério, nada que
durasse mais que três encontros. O último foi há um ano. Saímos para jantar uma vez. Ele me
perguntou se poderíamos nos ver de novo, mas eu não quis. Esse nível de detalhamento é o bastante
para você?
Ela desvia o olhar. Pego a mão dela.
– E no ensino médio? – pergunto.
Com certeza ela deve ter tido alguém especial depois que me mudei para San Diego.
– No ensino médio? – Evie balança ligeiramente a cabeça e dá uma risadinha. – Não, eu não saía
com ninguém naquela época.
Minha alma lentamente se dá conta de que nenhum de nós dois se apaixonou de novo. Algo dentro
de mim parece levantar voo. Inclino-me, levo o dedo ao queixo dela, para puxá-la para mim, e beijo
seus lábios doces. Aquela possessividade me domina novamente.
Ficamos sorrindo um para o outro por alguns segundos até que tiro as chaves da ignição e digo:
– Está na hora de comermos. E de conversarmos sobre coisas mais amenas. Quero vê-la sorrir e
ouvi-la gargalhar. Quero saber qual é o seu filme favorito, por que você gosta de correr tão cedo,
quais são as músicas no seu iPod e quem é Nicole. Espere aí.
Ajudo-a a descer do carro e a levo para dentro do restaurante.

Quando estamos à mesa, sorrio para Evie e seguro as mãos dela. Evie sorri também e olha ao redor,
admirada.
– Este lugar é lindo – comenta. – Nunca estive aqui.
Fico imaginando o que teríamos pensado quando éramos crianças sobre comer em um lugar como
este. Não é o restaurante mais chique da cidade, mas para nós teria sido como aterrissar em outro
planeta.
Minha mente volta ao dia em que minha mãe ficou apagada no sofá, em uma espécie de coma
alcoólico. Meu pai a espancara por algum motivo – como olhar para ele ou algum outro “erro”
gravíssimo – e, depois que ele saiu, ela tomou uma garrafa inteira de vodca. Ficou desacordada por
dois dias. Não havia muito o que comer em casa e, no dia seguinte, Seth e eu acabamos com o que
tinha. Eu rodei por algumas lanchonetes, peguei o máximo de saquinhos de ketchup que pude e fiz um
versão horrorosa de “sopa de tomate”. Precisávamos comer alguma coisa até que minha mãe
conseguisse cuidar disso. Foi terrível, mas havia alguém que dependia de mim, então fiz o que era
preciso. Eu tinha 9 anos.
Quero dividir meus sentimentos com Evie, comentar como é incrível nós dois estarmos sentados
aqui, neste lugar, depois de tudo pelo que passamos. É algo que temos em comum e Evie
compreenderia melhor do que ninguém. Não poder fazer isso me deixa com uma sensação de vazio.
Enquanto bebemos nosso vinho, peço:

– Me conte sobre a sua amiga Nicole.
A expressão nos olhos dela se aquece quando responde:
– Conheci Nicole no trabalho. Ela é minha melhor amiga e acho que posso dizer que ela e o
marido, Mike, de certa forma me adotaram. – Evie ri.
Isso me faz sorrir e ela se anima a contar mais:
– Costumo passar as festas de fim de ano com eles, fazer coisas de família. É legal. Nunca tive
nada assim antes de conhecer Nicole.
Ela parece um pouco envergonhada. Toma um gole de vinho.
– Onde você passava as festas de fim de ano antes disso? – pergunto. Por que pergunto, só para
me torturar?
Ela volta o olhar para mim e responde em voz baixa.
– Depois que deixei o último lar adotivo, antes de conhecer Nicole e a família dela, eu ficava
sozinha nessa época.
Evie dá de ombros. Fico em silêncio por um instante, torcendo para que ela não perceba nos
meus olhos a tristeza que sinto no coração.
– Lamento, Evie.
Ela sorri.
– Por quê? Não foi culpa sua. Era... solitário. Mas não foi a pior coisa por que já passei na vida,
Jake.
Ao notar meu cenho franzido, ela inclina a cabeça:
– Espere aí! – diz. – Achei que iríamos conversar sobre assuntos mais leves.
Então sorri de novo. Consigo sorrir para ela, embora o comentário sobre não ser minha culpa
ainda ecoe na minha cabeça. A culpa é toda minha.
– Você está certa. Nicole e Mike têm filhos?
– Sim. Uma menina. O nome dela é Kaylee e ela é a coisinha mais doce e esperta do mundo. Ela
coloca qualquer um no devido lugar.
Evie sorri e seus olhos se acendem. Com certeza a garotinha é especial para ela. O sorriso no
rosto dela se alarga. Evie se cercou de boas pessoas, que ela ama e que também a amam. Fico feliz
em saber.
Quando já estamos comendo, pergunto sobre o emprego dela. Evie fala com facilidade a respeito
e ri quando me conta algumas histórias engraçadas sobre as piores coisas que as pessoas já deixaram
para trás nos quartos que ela limpa.
– Encontrei mais dentaduras do que consigo contar!
Nós dois rimos.
– Pelo amor de Deus, como alguém esquece os dentes? Como não percebe?
Os olhos de Evie se aquecem quando encontram os meus. Adoro isso. Adoro estar sentado aqui,
rindo com ela, voltando a conhecê-la. Não quero que termine. Uma voz bem lá no fundo me diz que
tudo provavelmente terminará quando eu contar a Evie quem sou. Sinto a comida voltar pela minha
garganta e tenho que me forçar a engoli-la.
– Você se saiu muito bem mesmo, Evie – digo em voz baixa.

E é verdade. Basta olhar para ela. Tem bons amigos, toma conta de si mesma, é trabalhadora,
engraçada, calorosa e doce.
Evie franze a testa ligeiramente.
– Sou camareira em um hotel, Jake – diz, como se eu já não soubesse disso.
Penso em todas as pessoas que tiveram uma infância como a nossa e no que a vida delas se
transformou. Penso em Willow. Penso em mim mesmo.
– Jamais se envergonhe do trabalho honesto que você faz para pagar suas contas. É muito raro
alguém com o seu passado não repetir o ciclo... drogas, gravidez precoce, violência doméstica.
Tenha orgulho de si mesma. Você merece todo o respeito do mundo. Acho você incrível! – digo com
sinceridade.
Evie me encara, os olhos marejados. Então ela desvia o olhar e sussurra:
– Obrigada.
Fico encarando-a, vendo-a piscar para afastar as lágrimas. Ninguém nunca disse que pessoa
fantástica ela é? Sinto um aperto no peito. Se eu tiver a chance, juro dizer isso a Evie ao menos uma
vez por dia, todos os dias.
Ficamos os dois em silêncio por um instante, até que ela volta a falar:
– Posso lhe perguntar sobre Leo?
Volto logo à realidade. Merda. Detesto isso.
– É claro – respondo, hesitante.
– Ele foi feliz? Teve uma vida bacana?
Responda do modo mais simples possível. Já estou me sentindo um babaca por mentir; não
preciso aumentar o problema. Penso em quem eu era antes do acidente e misturo um pouco de
verdade à minha mentira.
– Não sei como responder. Não o conheci muito bem. Quero dizer, a não ser no que dizia
respeito a esportes e festas, esse tipo de coisa.
Evie balança a cabeça, concordando. Ela está mordendo o lado interno da boca, como costumava
fazer quando era criança. Sei que é sinal de que está nervosa ou assustada.
– Quando Leo foi embora, ele prometeu que manteria contato comigo e nunca mais me procurou.
Tem ideia do porquê?
Tenho a impressão de ver um lampejo de dor nos olhos dela.
Sim, eu sei. A vida “dele” foi pro buraco quase no mesmo instante em que ele a deixou. “Leo”
passou oito anos com vontade de morrer. Mas nunca deixou de amar você. Nem por um segundo.
– Lamento. Nem imagino. Não sei como era a vida dele em casa. A primeira vez que Leo falou
sobre você comigo foi quando ele estava no hospital, e já lhe contei tudo o que ele me disse.
É o que escolho dizer. Merda. Eu me odeio por não ter coragem de contar a verdade a Evie.
Ela assente e fica em silêncio por um tempo, mas então levanta os olhos para mim e me dá um
sorriso tímido.
– Bem, pode parecer meio estranho dizer isso, mas, se Leo tinha que mandar alguém, fico feliz
que tenha sido você. Estou me divertindo muito.
Por que dói tanto ouvir isso? Estou realmente com ciúmes de mim mesmo? Afasto minhas

emoções complicadas, sorrio e digo:
– Também fico feliz por ele ter me mandado. Achei que estivesse fazendo um favor a Leo, mas
parece que foi ele que me fez.
Depois que nossos pratos são recolhidos, estendo minha mão sobre a mesa e pego a dela.
– Podemos nos ver de novo? – pergunto.
Ela concorda com um aceno de cabeça e sinto uma onda de alegria.
Voltamos para o prédio de Evie conversando sobre a cidade.
– Onde você mora? – pergunta ela.
– No centro da cidade, bem perto do novo cassino.
– Ah! Você já esteve lá?
– Não. Não tenho tido muito tempo livre. O trabalho tem me ocupado bastante desde que me
mudei para cá. – Sorrio. – Gostaria de ir lá algum dia desses?
– Gostaria de conhecer. Mas acho que não seria nada boa nas apostas – comenta Evie, sorrindo.
– Não? Por quê?
– Não consigo manter a famosa expressão indecifrável dos jogadores – responde ela, sorrindo
para mim.
Dou uma gargalhada.
– É mesmo?
Ela confirma com a cabeça, ainda sorrindo.
– Então, você sente saudades da Califórnia?
– Sinto falta de morar perto do mar.
Ficar sentado, olhando para aquela imensidão de água, me fazia sentir que talvez meus problemas
não fossem tão grandes assim. Fazia com que eu me sentisse menos... o centro de tudo. E isso tinha
me ajudado a passar por alguns dias bem ruins.
– Mas, não, gosto do Meio-Oeste, das estações bem definidas – arremato com um sorriso.
Ela apoia a cabeça no assento e comenta:
– Eu adoraria ver o mar algum dia...
Lembro-me da primeira vez que sobrevoei o oceano e como desejei que Evie estivesse comigo.
– Eu adoraria ser a pessoa a mostrá-lo a você algum dia – digo baixinho, olhando de relance para
ela.
Evie apenas sorri, não diz nada. Imagino que seja um pouco cedo para começar a fazer planos de
viagem. Já estou conseguindo interpretar melhor as expressões dela. Eu me recordo delas como se
fossem uma música que não escuto há anos, mas que tem uma letra que conheço de cor. Evie está
certa: ela não é boa em manter uma expressão indecifrável no rosto.
Na primeira vez que reparei em Evie, uma garotinha cruel estava falando um monte de bobagens
sobre a mãe dela. Olhei para Evie e vi a mágoa e a vergonha que ela sentia estampadas em seu rosto.
Fiquei sentado onde estava, paralisado, incapaz de parar de encarar aquela garota linda e de
emoções tão transparentes. Já fazia muito tempo desde a última vez que eu vira aquele tipo de
vulnerabilidade no rosto de alguém. Fiquei hipnotizado. A expressividade do rosto dela me
surpreendeu mais do que se surgissem porcos voadores sobre a nossa mesa de jantar. Evie não

aprendera a esconder o que sentia? Não sabia o que significava indiferente? Não se dá esse tipo de
munição ao inimigo... é suicídio emocional! E por que eu estava tão impressionado? Por que sentia
um aperto no peito? Não consegui compreender na época. Mas percebi a beleza daquilo. Era como
ver o sol aparecer de repente entre as nuvens. Senti vontade de levantar o rosto e receber o calor que
ela emanava. Evie desviou os olhos e me pegou observando-a. Àquela altura, acho que já estava
meio apaixonado, alguma coisa nova começava a desabrochar no meu coração. “Por que está me
encarando?”, perguntou Evie, em um sussurro, tentando sem sucesso parecer durona. Até isso me
agradou. Fiquei olhando para ela por mais alguns segundos antes de retrucar: “Porque gosto do seu
rosto.” Não consegui conter o sorrisinho que se seguiu – o primeiro que aparecia no meu rosto em
muito, muito tempo. Minha doce domadora de leões.
E numa tranquilidade acolhedora, com ambos em silêncio perdidos nos próprios pensamentos e o
rádio tocando baixinho ao fundo, seguimos até o prédio dela.
Estaciono a meia quadra dele. Desligo o carro, mas não faço menção de sair. Evie me olha com
expectativa e um sorrisinho no rosto. Quando a encaro, meu coração parece estar preso na garganta.
– Você fica tão linda quando sorri – digo. Senti tanto a sua falta.
Eu me inclino para a frente, beijo-a com carinho e apoio a testa na dela. Percebo vagamente que
foi deste modo que olhamos nos olhos um do outro na noite em que nos despedimos.
Ficamos nos encarando por um longo tempo. Evie arregala ligeiramente os olhos e sinto a
pulsação dela disparar sob a ponta dos meus dedos. De repente, o olhar de Evie está cheio de
perguntas. Fico paralisado de medo. Então vejo os mesmos olhos ficarem sonhadores. Ela está
afastando as dúvidas. Já a vi fazer isso. Aquele olhar ficará gravado para sempre na minha alma.
Aquela é a expressão da minha Evie sobrevivente. Ela não quer saber. Um misto de emoções me
domina – confusão, medo, amor. Evie se afasta de mim.
– Qual é o problema? – pergunto, cauteloso.
Ela deixa o ar escapar.
– Nenhum, é só que tudo isso é absolutamente novo para mim. – Ela sorri e também me pego
sorrindo para ela.
Acompanho-a até o prédio. Aquela expressão no rosto dela não sai da minha cabeça. Não quero
me despedir. Preciso fazer isso rápido, enquanto ainda tenho força suficiente para deixá-la entrar em
casa.
Ao chegar à porta do apartamento de Evie, beijo seus lábios macios, sorrindo para ela. Sussurro
um boa-noite e volto para o carro.
Por mais maravilhosa que tenha sido a nossa noite, esta parte é difícil para mim. Gostaria tanto
de ter alguém para conversar sobre o que aconteceu. Mas a pessoa com quem realmente gostaria de
falar a respeito do que sinto é Evie, e ela não é uma opção. Tomar consciência do meu estado de
absoluta solidão é como levar um soco no estômago. Quando me afasto com o carro, sinto que algo
se partiu em meu peito.

capítulo 11

Dirijo pela cidade por algum tempo, segurando o volante com força. Estou fazendo de tudo para
seguir para longe de Evie, em vez de voltar para ela. Estou confuso e carente, uma combinação que,
pelo menos no meu caso, nunca foi boa. A carência me enfraquece: me deixa com raiva. Essa é uma
batalha que tenho travado ao longo de toda a vida e já estou exausto de voltar ao mesmo ponto.
Parece que minha solidão está sempre ali, disfarçada porém presente.
Beijar Evie esta noite foi um dos melhores momentos da minha vida, de verdade. Mas agora isso
só me faz desejá-la ainda mais e não sei o que fazer a respeito: ou continuo no caminho em que estou
e mantenho Evie em minha vida ou me arrisco à possibilidade bastante real de que ela me rejeite se
eu lhe contar quem realmente sou.
Estaciono em uma vaga na minha rua, na frente do meu prédio, mas em vez de subir para o meu
apartamento como sei que deveria fazer, caminho até um bar de esquina, a algumas quadras. Não
estou com vontade de ficar só. Quero ir a algum lugar onde haja gente, de preferência uma multidão.
Quero afogar meus sentimentos e sei que algumas doses darão conta disso... temporariamente.
Eu me sento diante do balcão do bar e peço uma dose dupla de Wild Turkey. Puro, sem gelo.
Lauren e Phil sempre tinham desse bourbon em casa. Vai ser o nome da minha banda – depois que eu
conseguir formar uma, aprender a tocar guitarra e resolver cair na estrada. Quase dou gargalhada de
mim mesmo, mas me controlo antes que alguém pense que sou doido. Viro as duas doses, faço uma
careta e sinalizo ao barman para que traga mais duas. Quatro é o número mágico. Não me deixa
bêbado de cair, mas zonzo o bastante para que não me importe com mais nada. Consegui criar a
“ciência do entorpecimento”. Essa será minha primeira música divulgada. A trilha sonora para
tendências autodestrutivas. Rio de novo de mim.
Peço uma cerveja só para ficar sentado, segurando o copo por mais um tempo. Quando o barman
coloca a bebida à minha frente, uma mulher senta ao meu lado. Assim que me viro para encará-la, ela
sorri. Cabelos louros na altura do queixo. Bonita. Sem dúvida uma predadora.
– Olá – diz ela, sorrindo, virando-se totalmente na minha direção e tomando seu drinque, algo
rosa em um copo de martíni.
– Oi – respondo, sem olhar para ela.
Percebo que minha voz já está mais arrastada por causa do álcool.
– Sou Alana.
A mulher estende a mão. Fico olhando por algum tempo para aquela mão estendida, até que me
viro um pouco para cumprimentá-la.
– Jake – digo.
– O que o traz aqui, sozinho, Jake? – pergunta ela, inclinando a cabeça para o lado e sugando o

canudinho.
Fico em silêncio por um minuto, pensando.
– Alana. Estou aqui porque acabo de voltar de um encontro com o amor da minha vida e agora
ela está do outro lado da cidade, no apartamento dela, e se eu não beber até entrar em coma, vou
dirigir até lá, bater na porta dela e fazer papel de idiota.
Alana pisca, aparentemente muda de espanto. Então abre um sorriso largo.
– Ora, por que você não vai até lá e faz papel de idiota?
Penso por um instante.
– Porque ela vai me dar um pé na bunda e eu não quero isso. Quero a minha mão na bunda dela.
Alana parece espantada de novo.
– Nossa, você é bem objetivo, não é mesmo, Jake? – diz, sorridente.
Dou de ombros e tomo mais um gole da cerveja.
– Escute, Jake. Acho que o risco de parecer idiota é muito melhor do que viver com o
arrependimento de não ter tentado.
Aceno com a cabeça, concordando. Se fosse assim tão simples... Ficamos sentados em silêncio
por algum tempo, até que eu pergunto:
– Então, qual é a sua história, Alana?
Ela suspira e toma um pouco do drinque.
– Ora, imagino que minha história, de um modo geral, seja bem entediante. Mas estamos afogando
nossas mágoas em um bar, então digamos que é mais apropriado apresentar o recorte: fui casada por
dez anos até descobrir que meu marido estava me traindo com uma vizinha casada... a alma gêmea
dele, foi o que me disse. Estamos divorciados há um ano.
Dou um pequeno sorriso de solidariedade.
– Lamento. Você desconfiava de alguma coisa?
Alana fica pensativa por um instante.
– Sim, acho que sim. Quero dizer, não havia nada específico, por incrível que pareça. Mas era
como se ele estivesse sempre ausente quando estava em casa... Não era agressivo nem nada do tipo...
apenas instável o tempo todo. Nunca senti que ele estivesse muito concentrado em mim, acho que
essa é a melhor maneira de colocar – conclui ela com um dar de ombros.
– Ora, Alana. Então talvez você esteja muito melhor agora do que quando estava com ele. Talvez
seu ex-marido tenha lhe feito um favor. Veja a situação como uma segunda chance.
Termino a cerveja e faço um sinal para o barman me trazer outra.
– Quer mais um? – ofereço, fazendo um movimento com a cabeça em direção do drinque dela.
Alana recusa. Quando o barman coloca a segunda cerveja na minha frente, ela diz:
– Todos merecemos uma segunda chance, não é mesmo? Às segundas chances! – Ela encosta o
copo na minha garrafa de cerveja, em um brinde.
– Às segundas chances – repito, pensando em Evie.
Todos merecemos uma segunda chance? Até mesmo eu?
Depois de um instante em silêncio, Alana volta a falar:
– Nós nos casamos porque eu estava grávida e sempre achamos que provavelmente não

ficaríamos juntos se não fosse pela nossa filha. Eu não a trocaria por nada neste mundo, mas acho que
provavelmente é verdade.
Faço que sim com a cabeça.
– A vida nem sempre acontece do modo como planejamos – digo em voz baixa.
– Não. Isso é verdade. Meu ex-marido se casa com sua alma gêmea este fim de semana. Esta
noite me pareceu uma boa oportunidade para tomar um drinque... ou vinte – emenda, com uma
risadinha desanimada. – É que isso parece tão injusto...
Com um ar triste, Alana abaixa os olhos. Ficamos os dois em silêncio por um longo minuto, até
que eu falo:
– Do meu ponto de vista, talvez não seja exatamente injusto, e sim inacabado. Se parar no meio
de um monte de histórias, elas vão parecer injustas. Você ainda está no meio da sua.
Alana me observa por algum tempo, então assente com a cabeça e sorri.
– Gosto disso. A questão é que eu namorava outra pessoa quando conheci Colin, meu ex-marido.
Nós rompemos por algum motivo bobo, depois logo me envolvi com Colin, fiquei grávida e... o resto
é história. Mas nunca deixei de pensar nesse outro homem. Cheguei a procurá-lo no Facebook
recentemente. Descobri que ele também está divorciado e tem dois filhos.
Levanto os olhos para ela.
– Você mandou uma mensagem para ele?
Ela nega com a cabeça.
– Não. Eu não sei... E se ele ainda guardar mágoa de mim depois de todos esses anos? E se
simplesmente não estiver interessado?
– Espere, não foi você que acabou de me dizer que é melhor parecer idiota do que viver com o
arrependimento de não ter tentado? Seu conselho não vale para você mesma? – provoco-a, sorrindo.
Alana ri.
– O problema não é sempre esse? É muito fácil aconselhar os outros. Colocar o próprio conselho
em prática nem sempre é tão simples...
Rio também. Imagino que seja verdade. Saber o que é certo é uma coisa. Fazê-lo é outra.
Perceber o que é certo é o primeiro passo, mas há uma infinidade de coisas que podem atrapalhar os
passos seguintes. Suspiro, me viro para Alana e dou o último gole na cerveja. Nesse movimento,
percebo que estou muito mais bêbado do que imaginava. Preciso ir para casa.
– Alana, mande uma mensagem pro cara.
Deixo dinheiro suficiente no balcão para pagar as minhas bebidas, mais a gorjeta, e me levanto.
Alana ergue os olhos para mim, sorrindo.
– Acho que vou fazer isso, Jake. E você... faça o que for preciso para não ter que beber sozinho
em um bar depois de seu próximo encontro com aquela garota.
Ela pisca para mim e dou uma risadinha.
– Foi um prazer conhecê-la. Você tem como voltar para casa?
– Sim, vou pegar um táxi. Não moro longe – diz e, inclinando a cabeça, completa: – Foi mesmo
um prazer conhecer você também. Estou sendo sincera.
Sorrio e saio do bar.

Caminho até meu apartamento e desabo no sofá já chutando os sapatos para longe. Fico deitado
ali por alguns minutos, deixando o álcool me embalar. Imagens de Evie sorrindo para mim do outro
lado da mesa do restaurante voltam à minha mente, deixando-me inquieto. Acabo me sentando e
pegando o celular no bolso. Não devia ter bebido tanto. Tenho certeza de que não sou alcoólatra.
Nunca achei difícil tomar um ou dois copos de vinho e parar por aí. Não acho que tenha tendência ao
vício de um modo geral, o que é surpreendente se considerarmos minhas origens. Mas sou inteligente
o bastante para ter consciência de que passei muitos anos usando o álcool para me automedicar, e o
Dr. Fox estava certo quando disse que tentar entorpecer a dor nunca dá certo. Pela manhã, os
problemas ainda estarão todos lá, só que acompanhados de arrependimento e uma ressaca horrorosa.
Ligo para o consultório do Dr. Fox, embora já passe das 22h e não acredite que ele ainda esteja
lá. A secretária eletrônica atende e ouço a voz dele dizendo: “Você ligou para o consultório do Dr.
Edward Fox. Não posso atender sua ligação agora, mas, por favor, deixe seu nome e um número de
telefone, mesmo se achar que tenho seu contato. Ligarei de volta assim que puder. Se estiver em
crise, por favor, desligue e ligue novamente para 619-555-4573. Obrigado.”
Desligo sem deixar mensagem. Sim, estou em crise. A porcaria da minha vida é uma grande
crise.
Fico sentado no sofá, segurando o celular e olhando para a parede. Às vezes tenho a sensação de
ser feito de um milhão de pedaços que tento colar a cada dia.
No fim das contas, encontro o caminho para o quarto, pego um frasco de aspirina no armário de
remédios e engulo os comprimidos com a água da torneira. Depois tiro a roupa e me deito só de
cueca. Em instantes, minha mente cai em um abençoado esquecimento.

capítulo 12

Por incrível que possa parecer, acordo me sentindo bem, física e mentalmente. Não deveria ter
bebido tanto na noite passada. Poderia ter lidado melhor com a situação. Mesmo assim, é um
progresso em relação à forma como eu costumava agir. Será que estou indo na direção certa? De fato
tenho uma grande motivação: Evie. A caminho do trabalho, pego o celular e digito uma mensagem
para ela, enquanto espero no semáforo.
Eu: Me diverti muito ontem. O que vai fazer hoje?
No momento em que estou estacionando na minha vaga na garagem do escritório, escuto o celular
apitar duas vezes com o toque de mensagem.
Evie: Também me diverti muito :) Vou trabalhar nos dois empregos hoje. Só voltarei para casa
bem tarde.
A propósito, sabe alguma coisa sobre o conserto da tranca da portaria do meu prédio?
Pego o paletó e a pasta, depois digito enquanto ando até o elevador.
Eu: Talvez eu tenha ligado para o seu síndico e ameaçado processá-lo caso ele não consertasse a
porta. Fico feliz por ele ter resolvido o problema. Você deve se sentir segura, sempre.
Não recebo mais nenhuma mensagem até sair do elevador no meu andar. Será que Evie não
gostou de eu ter entrado em contato com o síndico do prédio dela? Sinto muito. Mas não há a menor
possibilidade, agora que voltei, de eu não fazer nada, de não me certificar de que Evie esteja em
segurança.
Evie: Bem, obrigada. Gostei do que fez.
– Billy! – cumprimenta-me Christine.
Esse é o apelido que ela me deu. Quando o resto do conselho começou a me chamar de “The
Kid”, “o garoto”, acho que ela ficou um tanto incomodada, porque logo me disse que iria mudar
aquela história e pelo menos acrescentar “Billy” ao apelido.
“Billy, the Kid, era um fora da lei inteligente e temido”, sussurrara ela para mim, na época, me
fazendo rir. “Vamos ouvir o tremor na voz deles quando o chamarem de “The Kid”, e saberemos o

motivo.”
Na ocasião, Christine começara a assoviar um antigo tema de filmes de faroeste e piscara para
mim.
Mas, para ser sincero, eu não me importava com o apelido. Ser chamado de garoto era muito
melhor do que de “idiota incompetente”. Além disso, eu achava que o apelido tinha mais a ver com a
minha pouca idade do que com a minha capacidade de liderança. Assim, lidava bem com ele. Todos
sempre me deram ouvidos na sala do conselho e sei que venho conquistando cada vez mais respeito,
até mesmo de Richard, pai de Gwen. Não quero nada que eu não mereça.
– Bom dia, Christine. Como vai? – pergunto, sorrindo.
– Ótima. O pessoal está indo para a sala de reuniões neste momento. O café e os pãezinhos já
foram servidos. Sua apresentação está aberta no notebook e a tela para projeção está pronta para uso.
Os relatórios estão distribuídos nos lugares de todos.
– Obrigado, Christine. Não seríamos nada sem você.
– Me diga algo que eu já não saiba.
Ela faz um barulhinho presunçoso e eu sorrio. Deixo minhas coisas na minha sala e mando uma
mensagem de texto para Evie em resposta ao agradecimento dela.
Eu: Faço qualquer coisa por você. Estou entrando em reunião. Tenha um bom dia/uma boa noite
de trabalho. Posso ligar pra você amanhã?
Evie: E se eu disser que não?
Sorrio.
Eu: Eu ligarei mesmo assim. ;) Tenha um bom dia, Evie.
Fico feliz em saber que Evie estará trabalhando esta noite. Já será ruim o bastante ir ao evento
beneficente com Gwen. Se eu soubesse que, em vez disso, poderia estar com Evie, seria ainda pior.

O dia no escritório transcorre sem maiores problemas e, às 17h, começo a me preparar para sair.
Quando já estou indo embora, Christine diz:
– Vejo você mais tarde na sua fantasia de pinguim!
Ela se refere à roupa de gala. Christine também irá ao evento. Será bom ter alguém de quem eu
realmente goste para conversar.
– Sim, vou levar Gwen – comento, fazendo uma careta.
– Por quê? – pergunta Christine com uma expressão horrorizada.
Ela não é exatamente a fã número um de Gwen, que a trata muito mal, como faz com todos que

julga “abaixo” dela.
Pela décima vez no dia, considero a possibilidade de fingir uma súbita dor de estômago. Suspiro.
Mas minha lealdade a Seth vence e me conformo, não sem antes jurar que será uma saída rápida –
farei um cheque polpudo e estarei de volta em casa antes das 23h.
– Porque eu estava tentando ser gentil e acabei dando um tiro no pé – respondo, passando a mão
pelo rosto e balançando a cabeça.
– Jake, você não precisa tentar ser gentil com aquela mulher. Tentei por anos, sempre que ela
aparecia para visitar o pai e durante o tempo em que estagiou aqui. Mas ela é absolutamente
detestável. Quando ser gentil começa a fazer a gente se sentir um capacho, é hora de parar com a
gentileza. Eu com certeza não faço mais esforço nenhum para ser amiga de Gwen. E você também não
deveria fazer. Além do mais, ela não quer ser sua amiga. Assim você acaba dando a ela mais uma
oportunidade para cravar as garras em você.
Deixo escapar uma risada sem graça.
– Você está certa. Em todos os sentidos. Seus filhos têm sorte de ter uma mãe como você, sabia?
Aposto que lhes dá ótimos conselhos.
– Dou ótimos conselhos a qualquer um que esteja disposto a ouvi-los. – Ela pisca. – Isso inclui
você.
Sorrio de novo.
– Obrigado, Christine. Fico feliz por saber que estará lá esta noite.
– Eu também. E se precisar de um tempo longe daquelazinha, coce a nuca e eu a afastarei de você
– oferece ela, sorrindo também.
Dou uma gargalhada, recolho minhas coisas e sigo em direção ao elevador.
– Por que será que algo me diz que vou acabar precisando desse favor?

Estaciono em frente à casa do pai de Gwen, em Indian Hill, e me forço a sair do carro. Preferia
comer sozinho um cachorro-quente em uma lanchonete qualquer a ir a um jantar de gala, com bufê
fino, acompanhado de Gwen. Sem dúvida. Mas aqui estou eu. Vamos acabar logo com isso.
Subo de dois em dois os degraus que levam à casa e bato na porta com a aldraba dourada em
forma de cabeça de leão. Isso me faz pensar em Evie e eu sorrio. Mal posso esperar para telefonar
para ela amanhã e...
A porta se abre e Gwen me pega sorrindo. Droga! Não quero dar a impressão de que sair com
ela é agradável para mim. Fico sério e digo:
– Oi, Gwen. Bonita roupa.
Ela parece a Barbie de Natal, apertada em um vestido de veludo vermelho, enfeitada com joias
de ouro, os cabelos louros presos em um coque alto rebuscado.
– Oi – responde Gwen em um tom sedutor, apoiando o corpo no batente da porta. – Quer entrar
um pouco? Meu pai já saiu para o evento. Podemos estimular um pouco a nossa... amizade – diz,

erguendo as sobrancelhas.
Cerro o maxilar.
– Não, Gwen. Quero ir logo para o evento. A essa altura é capaz de nem chegarmos a tempo de
pegar o fim do coquetel.
Ela nem tenta esconder o aborrecimento.
– Está certo – diz, com um longo suspiro. – Vou só pegar meu casaco.
Fico esperando Gwen do lado de fora. Ela volta e tranca a casa. Abro a porta do carro e ela entra
sem se preocupar em abaixar a fenda do vestido, que sobe de um jeito indecente pelas coxas e deixa
claro que ela não está usando nada por baixo. Eu me viro rapidamente e fecho a porta. O que foi
isso? Aquela dor de estômago parece uma ideia cada vez mais adequada...
– Então, Jake – ronrona Gwen assim que saio com o carro –, onde esticaremos depois da festa?
Ainda não conheci seu novo apartamento...
Eu me viro para encará-la e vejo que está batendo as pestanas, com um falso sorriso tímido. Eu
realmente passei por tudo o que passei, por todas as sessões com o Dr. Fox, todas as cirurgias, todo
o esforço, para estar agora sentado no meu carro, sendo asfixiado pelo perfume nauseante dessa
boneca de plástico chata e grudenta? Gwen não é o tipo de pessoa que quero como amiga, ainda que
admitir isso faça eu me sentir um pouco culpado. Preciso dar um basta nisso.
Ignoro completamente o comentário dela e o fato de ela obviamente ter descartado o que lhe
disse no escritório ainda esta semana. Decido que a melhor tática é mudar de assunto.
– Como está seu novo emprego, Gwen?
– Humpf... – ela meio sibila, meio suspira. – Inútil. – Gwen examina as unhas por um instante,
com o cenho franzido. – Papai quer que eu dê valor ao trabalho duro... Tão entediante... – Ela suspira
novamente, como se eu devesse morrer de pena.
Graças aos contatos do pai, Gwen conseguiu de bandeja um emprego em um escritório de
advocacia muito respeitado. Dá mesmo vontade de chorar quando penso nas dificuldades que ela
precisa enfrentar na vida... Também não posso falar muito sobre receber um bom emprego de mãos
beijadas, mas pelo menos tenho o bom senso de reconhecer a minha sorte nisso.
Penso em Evie trabalhando duro como camareira e fazendo isso com toda a dignidade. Ela
poderia dar algumas aulas a Gwen sobre o valor do trabalho. Quase deixo escapar uma gargalhada.
– O que mais você faria, Gwen? Passaria o dia no shopping?
É uma grosseria da minha parte, eu sei, mas, droga, pessoas como Gwen me irritam e minha
paciência com ela já está no limite. Gwen é tão egocêntrica que não percebe que o mundo vai além
do próprio umbigo. Ela é fútil demais para olhar ao redor e se maravilhar com todas as coisas boas
que a cercam sem que tenha tido que fazer o menor esforço para conquistá-las. E nem estou falando
de riqueza material, estou me referindo a uma família, a um porto seguro. Eu daria meu braço direito
por isso, Gwen só reclama. Muito sem noção.
Ela me encara com os olhos semicerrados.
– Não é pecado contribuir para o desenvolvimento da economia, Jake. Minhas compras ajudam a
manter empregos. E, a propósito, você acha que é fácil manter uma aparência como a minha? Ficar
estonteante assim dá trabalho. É uma tarefa de tempo integral. Luzes no cabelo, depilação,

esfoliação, manicure, bronzeamento e...
Depois disso, deixo de ouvi-la. Será que ela existe mesmo? Agora lembro por que, no passado,
eu precisava estar sempre muito fora de mim para sair com ela.
Aumento a música e seguimos em silêncio pelos próximos cinco minutos, graças a Deus. Já me
sinto exausto, mas estou com Gwen há apenas vinte minutos. Paro em frente ao hotel do evento e
deixo o carro com o manobrista.
Enquanto caminhamos para o elevador, Gwen passa o braço pelo meu. Logo que entramos no
elevador, eu a afasto com um olhar expressivo. Quando eu disse para sermos amigos, não estava
querendo dizer amigos que se permitem intimidades físicas. Ela ainda não entendeu isso.
Saímos do elevador e ela volta a enfiar o braço no meu. Deus do céu! Respiro fundo. Duas
horas.
Levo-a até o bar, onde vejo algumas pessoas da empresa, incluindo Christine. Cumprimentamos a
todos. Christine nos apresenta ao marido, Tom, que eu ainda não conhecia. Conversamos por alguns
minutos, até que um cara com uma bandeja cheia de taças de champanhe se aproxima. Pego duas
taças e entrego uma a Gwen.
– Gwen – diz Christine, quando todos já estamos com a bebida nas mãos –, que vestido lindo.
Com certeza ele não nos deixa ter dúvidas do belo corpo que você tem, não é? – comenta, abrindo
um sorriso animado.
Gwen passa a mão pelo quadril e exibe seu sorriso mais falso.
– Obrigada, Christine. O que é bonito é para se mostrar, certo? E o que não é bonito... bem...
Ela não termina a frase, apenas examina Christine de cima a baixo. O marido de Christine quase
engasga com a bebida e eu cerro o maxilar, morrendo de vergonha. Mas Christine parece estar se
controlando para não dar uma gargalhada. Por isso, respiro fundo e digo:
– Vou procurar algo para comer. Estou faminto.
Eu me viro e cerro os dentes para Gwen, que se vira também, ainda agarrada ao meu braço.
Escuto um arquejo abafado e, quando levanto os olhos, Evie está parada bem na minha frente,
com um uniforme de garçonete e uma bandeja de canapés nas mãos. Ela parece paralisada. Sinto
como se meu coração fosse puxado na direção dela e não consigo conter o sorriso que se abre
automaticamente no meu rosto. Minha vontade é ir até ela, levantá-la nos braços e beijar aquele rosto
lindo. Vê-la assim, de surpresa, é ainda melhor depois de ter passado meia hora com Gwen. Ah,
merda, Gwen. Pendurada no meu braço. Merda!
– Evie – digo, soltando a mão de Gwen do meu braço. – Não sabia que você estaria aqui.
Percebo que Gwen fica rígida ao meu lado, mas meus olhos estão colados em Evie, que parece
confusa e me dá um sorriso formal. Merda.
– Jakey, você conhece essa garota?
Escuto a irritação na voz de Gwen, que agora está atrás de mim, mas sou incapaz de desviar o
olhar de Evie.
Jakey? Gwen nunca me chamou assim... Vejo Evie olhar de relance para Gwen e uma expressão
de dor passar rapidamente por seu rosto. Essa é uma das situações mais constrangedoras por que já
passei. E olha que não foram poucas...

Percebo que os olhos escuros de Evie são como lagos de mágoa e confusão quando ela me encara
e sussurra:
– Olá.
Eu me sinto um imbecil, embora não tenha feito nada de errado. Mas Evie não sabe disso.
Preciso segurá-la e levá-la para algum lugar onde eu possa explicar tudo. Merda! Evie está
trabalhando... Não quero prejudicar o emprego dela. Jamais faria isso. Sei que o trabalho de Evie é
muito, muito importante para ela.
Sinto o maxilar tenso ao responder a Gwen:
– Sim, eu a conheço. Essa é Evie Cruise. – O amor da minha vida.
Evie relanceia o olhar para Gwen com uma expressão inquisitiva.
– E essa é Gwen Parker – prossigo.
Evie assente com a cabeça na direção de Gwen e diz bem baixinho:
– Olá.
– Não preciso ser apresentada, Jakey. Só estou surpresa por você conhecê-la – diz Gwen, sendo
bastante rude, então volta a se agarrar ao meu braço e o aperta com mais força ainda quando tento me
desvencilhar.
O sangue começa a latejar na minha cabeça. Os olhos de Evie se desviam para o braço de Gwen
agarrado ao meu e ela diz bem baixinho, com o cenho franzido:
– Está bem, então. Tenham uma ótima noite.
Enquanto Evie se vira para se afastar, tenho que me controlar para não estender a mão, segurá-la
e levá-la para o meu carro. Vejo que as mãos dela estão tremendo. Quando ela dá um passo, a
bandeja se inclina e um canapé cheio de caviar cai bem em cima do pé de Gwen. Um tiro certeiro!
Cesta! Preciso me controlar muito, muito mesmo, para conter a risada que ameaça escapar, mas logo
perco a vontade de rir ao ouvir Gwen chiando:
– Ah, meu Deus! Você sabe quanto custam essas sandálias? Não, é claro que não sabe! São
sandálias de 1.400 dólares!
E, Cristo, essa tolice de Gwen também é engraçada. Quase rio de novo até que noto o rosto de
Evie muito vermelho, olhos arregalados. Ela está se sentindo humilhada... Merda!
Meus instintos rugem dentro de mim e parecem gritar: “proteja-a!” Por muitos anos essa foi a
minha função e sempre a levei muito a sério. Evie não tem ideia de quanto já apanhei por causa dela
ou de quanto já bati. Sempre preferi não apanhar, é claro, mas as consequências disso não me
importavam, desde que o idiota que a insultasse, fosse na frente dela ou pelas costas, aprendesse que
aquilo não era aceitável. Crianças e adolescentes cruéis escolhem os mais frágeis como alvo. E quem
é mais frágil do que uma criança que vive em um lar adotivo, que tem a autoestima baixa e usa roupas
em péssimo estado? Merda, éramos como alvos gigantes caminhando pela escola. Mas isso não iria
acontecer com Evie, não se eu pudesse evitar.
Antes que eu possa fazer qualquer coisa, o rapaz louro que trouxe a bandeja de bebidas mais
cedo se apressa até Evie, sussurra algo perto do ouvido dela, pega a bandeja de suas mãos e
relanceia um olhar assassino na minha direção. E quem diabos é ele? Também o fito de cara
amarrada, meu maxilar ainda mais tenso. MERDA!

Evie se inclina junto com Gwen, que está limpando o pé e resmungando algo sobre empregados
baratos, e diz:
– Desculpe. Por favor, deixe-me ajudá-la a limpar sua sandália. Se me acompanhar até o
banheiro feminino, posso usar um pano para limpá-la. Aposto que vai ficar perfeita.
– Está certo! – sibila Gwen.
Acho bom que Evie a leve para longe de mim, porque estou morrendo de vontade de mandar
Gwen para o inferno e, sinceramente, não sei se conseguiria me controlar.
O rapaz louro volta a se aproximar de mim, segurando uma bandeja com champanhe. Pego duas
taças e bebo as duas, uma depois da outra. Encaro-o sério e ele me lança um último olhar de raiva e
desprezo. Mais um que protege Evie. Não é de surpreender.
Fico olhando na direção do banheiro, esperando que elas voltem. Preciso me certificar de que
Evie esteja bem.
Christine, que deve ter visto toda a cena, se aproxima e toca o meu braço com gentileza.
– Você está bem? – pergunta, carinhosa.
– Não muito.
Ela me encara com preocupação.
– Posso manter Gwen ocupada se você quiser conversar com aquela garota.
Suspiro e passo a mão pelo rosto.
– Não posso, Christine. Ela está trabalhando. Eu só pioraria as coisas.
Ela franze os lábios e deixa escapar um longo suspiro.
– Está certo.
Depois de uma pausa, Christine pergunta:
– Qual é o nome dela?
Olho rapidamente na direção de Christine.
– Evie.
– Evie sabe que você a ama?
Fico em silêncio por um longo tempo.
– Ela já soube. Mas, não, agora não sabe mais.
Christine também fica em silêncio, provavelmente se perguntando o que isso quer dizer.
– Ora, então encontre um modo de lembrar a ela.
Agora encaro Christine com atenção.
– Estou tentando.
Evie é a primeira a sair do banheiro e seu rosto deixa clara a sua mágoa. Ela sai às pressas pela
porta do salão de banquete. Merda! Gwen sabe ser cruel...
– Jake... – Ouço Christine dizer, preocupada.
Mas não escuto o restante. Saio correndo e entro no banheiro feminino, o que deveria ter feito dez
minutos antes. No que eu estava pensando, ao deixar Evie sozinha com uma bruxa calculista como
Gwen?
Ela está parada diante do espelho do banheiro, se arrumando, com uma expressão de satisfação
no rosto.

– Ora, olá – diz, virando-se e apoiando-se na pia.
– O que você disse a ela? – exijo saber, a adrenalina disparando pelo meu corpo.
Gwen deixa escapar um murmúrio zombeteiro e torna a se virar para o espelho.
– Quem se importa? Ela é só uma garçonetezinha, Jake. Sério?
Fico encarando-a sem acreditar.
– Chega, Gwen. Cansei de ser legal com você por me sentir culpado. Você não passa de uma
patricinha mimada e insensível, tão entediante que mal consigo ficar acordado quando está falando.
Pelo amor de Deus, você deveria engarrafar seu jeito de ser e vender como remédio para insônia.
Gwen se vira lentamente, a boca aberta e os olhos semicerrados. Ela cruza os braços e solta um
sussurro irritado:
– Achei que você tivesse mais classe, Jake, mas agora vejo que podemos tirar o garoto do gueto,
mas não dá para tirar o gueto do...
Não consigo me controlar e caio na gargalhada. Toda a raiva, toda a tensão desses últimos trinta
minutos acabaram provocando um ataque de riso. Gwen é tão completa e absolutamente sem noção
que não há mais nada a fazer além de rir.
– Você disse “gueto”, Gwen? Caramba, onde ouviu isso? Em algum rap do 50 Cent no rádio do
seu Lexus?
De repente acho tudo aquilo tão engraçado que quase me contorço de tanto rir. Mas apenas me
apoio na parede e me forço a controlar o riso. Na verdade, eu havia esquecido que Gwen sabia que
eu era adotado. Ela nunca mencionou o assunto. Provavelmente a confortava não pensar que saía com
alguém que não tinha nascido em berço de ouro.
Gwen ainda está me encarando, os olhos ainda semicerrados e parecendo fervilhar de raiva,
conforme minhas risadas diminuem. Dou um passo na direção dela e digo:
– Você não tem ideia de por que isso é engraçado, Gwen. E nunca terá. Mas deixe eu lhe dizer
umas coisinhas. Você não sabe nada a meu respeito. Nada. Merda nenhuma. E não sabe nada sobre
ela também. E nunca saberá. Mas vou lhe contar o que precisa saber. Você nunca mais vai chegar
perto de mim, entendeu? Se me encontrar em um evento, dê as costas e vá por outro caminho. E se
por acaso esbarrar comigo em alguma esquina, finja que não me conhece. Agora, infelizmente,
estamos sentados na mesma mesa esta noite, mas não há necessidade de trocarmos uma palavra
sequer. Se você precisar do saleiro, peça a outra pessoa para lhe passar. Quando o jantar terminar,
você vai pegar uma carona com o seu pai, porque, sinceramente, não vou aguentar passar mais vinte
minutos com você dentro de um carro. Estamos entendidos?
Gwen me encara por um longo tempo, os olhos estreitados, até finalmente voltar a sussurrar com
raiva:
– Você vai se arrepender disso, Jake. Considere nossa amizade terminada.
– Graças a Deus.
Saio do banheiro no momento em que uma senhora mais velha está entrando.
– Oh! – exclama ela.
– Desculpe, porta errada – resmungo.
Entro no banheiro dos homens e apoio as mãos sobre a bancada da pia por um minuto, me

recompondo. Esta noite poderia ter sido pior? Jogo um pouco de água fria no rosto e, quando estou
pegando a toalha de papel para secá-lo, vejo as balas de menta que ficam no banheiro, como
cortesia. Está escrito A melhor bala de menta do mundo na embalagem. Um sorriso toma conta do
meu rosto. Pego uma e coloco no bolso.

capítulo 13

Ao acordar de manhã, lembro-me do que aconteceu na véspera e faço uma careta. Ficar sentado à
mesa de jantar foi uma tortura. Toda vez que abriam a porta da cozinha, meu coração quase saía pela
boca. Mas não voltei a ver Evie. Entreguei a bala de menta ao amigo louro dela, que, depois de
prestar atenção, tive quase certeza de que era gay. Ele me olhou desconfiado quando eu lhe dei a bala
de menta para Evie, mas a colocou no bolso mesmo assim e voltou para a cozinha.
Depois do jantar, fiz um cheque, dei lances por alguns itens do leilão, depois peguei o carro e
vim para casa. Fiquei morrendo de vontade de ligar para Evie, mas sabia que ela só sairia tarde do
trabalho e que provavelmente a última coisa que iria querer era falar comigo. Merda. Mal consegui
dormir, mas tinha que colocá-la em primeiro lugar. Então, por mais que todos os meus instintos
implorassem para que eu fosse até o apartamento dela e me explicasse, decidi que o melhor era
esperar até de manhã. Cheguei a começar uma mensagem de texto para ela, mas depois de ficar
sentado por uns bons cinco minutos sem saber como escrever o que queria dizer, larguei o celular
sobre a mesa de cabeceira e me joguei na cama.
Já de manhã, tomo um banho, me visto e sigo para o apartamento de Evie. Estou ansioso para me
justificar sobre a noite passada. Preciso acertar essa história para conseguir me manter são. Tento
falar com ela pelo interfone, mas ninguém atende. Então pego o celular, procuro o número do Hilton
e telefono para lá, enquanto ando de um lado para o outro em frente ao prédio de Evie. A ligação é
transferida para o gerente responsável pela área de limpeza do hotel, então digo a ele que combinei
de passar para buscar Evie Cruise hoje, mas acabei esquecendo a hora que ela me avisou que sairia.
Sem fazer mais perguntas, o homem me diz que horas Evie sai do trabalho. Essa falha de segurança
me deixa ligeiramente irritado, embora eu tenha conseguido a informação que queria.
Mesmo sendo sábado, tenho algumas reuniões agendadas com Preston e os engenheiros-chefes.
Estamos no limite de alguns prazos de testes e, por isso, a equipe concordou em sacrificar um pouco
os fins de semana. Por mais que eu gostasse de passar o dia pensando apenas em Evie, tenho que
assumir meu papel de empresário e me concentrar no trabalho. Devo isso a todos que aceitaram meu
pedido para que fizessem hora extra. Termino a primeira rodada de reuniões bem a tempo de pegar
Evie saindo do trabalho.
Dirijo depressa até o centro da cidade e paro o carro – ilegalmente – perto do ponto de ônibus
para onde sei que Evie vai. Fico esperando que ela dobre a esquina. Não estou nervoso, apenas
decidido. Vou explicar tudo o que aconteceu na noite passada. Não há opção. Não vou permitir que
Gwen entre no caminho do que acabo de começar a reconstruir. É im-pen-sá-vel.
Depois de cerca de dez minutos, vejo Evie surgir na esquina do hotel. Por sorte, não há ninguém
atrás de mim, por isso sigo com o carro em paralelo a Evie, conforme ela desce o quarteirão. Quando

ela olha na direção do carro, eu me inclino para ficar perto da janela do carona e sorrio.
– Quer uma carona, gatinha? – brinco, tentando arrancar um sorriso dela.
Não funciona. Evie me encara como se eu fosse uma mosca que houvesse acabado de pousar em
seu jantar. Ótimo. Não tem problema, estou disposto a fazer o que for preciso.
– Muito engraçado. Não, Jake. Prefiro ir de ônibus.
Ela continua a caminhar.
– Evie, precisamos conversar – digo, agora sério.
Mas ela nem sequer me olha, só continua caminhando.
– Não, Jake, não precisamos.
Merda. Há carros estacionados ao longo do meio-fio desse ponto em diante... Estaciono e saio do
carro. Estaria disposto a deixá-lo até no meio da rua se fosse necessário.
Quando alcanço Evie, ela está sentada no banco do ponto de ônibus, esticando a cabeça para ver
se o dela está vindo. Ah, não... Se preciso, vou entrar no ônibus com ela.
Como há pessoas aglomeradas à frente dela, fico parado atrás dela, um pouco para a esquerda, e
digo:
– Evie, escute, o que você viu ontem à noite não foi o que você pensou que era.
– Jake – ela me interrompe. – Tive um dia difícil. Estou pedindo pra você deixar isso pra lá, tudo
bem? Você deveria ter me dito que tinha namorada. Não disse. Acabou. Vá embora.
Ela me dá as costas. Sinto o sangue começar a ferver, não porque culpe Evie por sua raiva, mas
porque Gwen está novamente entre nós. É tão absurdo que nem tenho palavras... Cerro o maxilar.
– Gwen não é minha namorada, Evie. Esperava que tivesse uma ideia melhor a meu respeito
depois do tempo que passamos juntos.
– Vou pedir de novo, Jake: vá embora.
– Não, Evie – digo. – De jeito nenhum.
Vejo que ela deixa escapar um suspiro de impaciência e torce os belos lábios. Evie está furiosa.
Ela se levanta e me encara com os olhos semicerrados.
– Só para você saber, Jake: você não me conhece. Acha que conhece, mas está redondamente
enganado. Portanto, não continue com isso, não continue a aparecer do nada achando que serei grata
por você estar me agraciando com a sua presença. Depois de ontem, acho que está bem claro que não
há razão para você estar aqui. Então estou lhe pedindo de novo para termos esta conversa em outro
momento, tipo nunca.
Evie tenta me dar as costas, mas agarro sua mão e a puxo na minha direção. Nossos rostos ficam
frente a frente. Que droga! Ela vai me ouvir, mesmo que eu tenha que imprensá-la contra a parede. Eu
realmente faria isso para que ela me ouvisse? Sim, droga, eu faria. Mas estou contando com a
possibilidade de isso não ser necessário, porque aí eu realmente a deixaria ainda mais furiosa. Na
verdade, preferiria conversar no meu carro, mas acho que isso não vai acontecer.
– Não era minha intenção fazer isso na rua, mas essa garota teimosa vai me obrigar – digo, mais
para mim mesmo.
Tudo bem, então. Vou ser maleável. Respiro fundo e Evie volta a me encarar com os olhos
semicerrados. Mas ela não está mais tentando se afastar. Já é um começo.

Não preciso revelar a Evie quem sou para que ela entenda o que ficou evidente para mim, apenas
observando-a por menos de uma semana. Eu poderia muito bem ser um estranho e ainda assim teria
percebido quanto ela é incrível.
– Você acha que não conheço você, Evie? Vou lhe dizer o que sei a seu respeito. Naquela semana
que passei seguindo você, descobri que você pega um maldito ÔNIBUS para ir à casa de um senhor
deixar cookies.
Ela franze as sobrancelhas e me encara por um instante.
– O Sr. Cooper? – diz, por fim, balançando a cabeça com uma expressão perplexa, os olhos
menos furiosos. – Ele morava perto da casa em que vivi por quatro anos. Sempre foi gentil comigo. É
viúvo. Solitário. E gosta muito de cookies com gotas de chocolate.
– Você leva duas horas de ônibus para ir e voltar, Evie.
Ela me olha como se eu fosse meio doido, respira fundo e volta a falar:
– Jake, tenho certeza de que você deve ter algum motivo para levantar esse assunto, mas...
– O cara do outro lado do corredor, no seu prédio, iria me matar antes de me deixar sequer
pensar em deixar você desconfortável de algum modo.
– Maurice? – pergunta Evie, o rosto franzido deixando claro que está confusa. – Ele é mesmo do
tipo protetor.
É impressionante como ela não faz a menor ideia do efeito que tem sobre as pessoas. Continuo,
tentando deixar claro o meu ponto de vista:
– Como o cara de ontem à noite, que me fuzilou com o olhar quando achou que eu havia
desrespeitado você em público? – pergunto e afrouxo um pouco as mãos no braço dela, porque acho
que ela não vai mais fugir de mim.
– Landon? Ele é um dos meus melhores amigos. Ele...
Deus, não estou conseguindo ser claro o bastante? Nunca conheci ninguém que demorasse tanto
para entender um elogio. Eu a compreendo, pode acreditar. Mesmo assim, isso é frustrante demais
para quem está tentando elogiar. Me ocorre que Evie provavelmente não tenha recebido muitos
elogios sinceros ao longo da vida, desde que eu parti... Não admira que não reconheça um quando lhe
é dirigido. Essa ideia faz com que uma intensa onda de possessividade encha o meu peito, e juro que
vou repetir quanto ela é incrível até o último dia da minha vida. Se por um infortúnio qualquer Evie
me rejeitar depois que souber toda a minha desprezível verdade, terei que escrever isso no céu todas
as manhãs, diante da janela dela. Parece a maior injustiça do planeta que essa garota não conheça a
profundidade da própria beleza. Que a minha Evie não perceba a profundidade da própria beleza.
– Evie, acho que você não está entendendo o que estou querendo dizer, então vou ser mais claro,
meu bem.
Ela me encara com os olhos arregalados. Eu a encaro de volta e digo:
– Você diz “por favor” e “obrigada” para todo mundo, Evie. Quase esbarrou em um cachorro na
rua e, quando desviou dele, disse “com licença”. Para um cão. E aposto que nem pensou duas vezes a
respeito. Isso acontece porque sua boa educação está tão arraigada em você que faz parte da sua
natureza. E, pelo que sei do seu passado, posso imaginar que ninguém tenha lhe ensinado essas
coisas. Tudo isso vem de você.

Evie me olha sem dizer nada, o que considero um bom sinal. Por isso, continuo:
– O que eu sei a seu respeito é que as pessoas que têm sorte o bastante de contar com a sua
confiança e com a sua amizade a protegem ferozmente, com a própria vida se preciso. E isso
acontece porque você se dá a elas, e elas sabem que, se têm você, isso não é pouca coisa.
Faço uma pausa rápida e continuo:
– E, Evie, quando você se afasta das pessoas, mesmo de estranhos, precisa saber que os olhos
delas a acompanham. E vou lhe dizer o porquê, já que eu mesmo também me sinto assim. É porque
elas não querem ver sua luz se afastando delas. Querem ver você indo na direção delas, e que fique
com elas.
– Eu... – Ela começa a dizer algo, mas estou embalado e, sinceramente, esse é meu assunto
preferido. Não quero parar.
– Então, talvez eu não saiba qual é o seu prato favorito nem o dia do seu aniversário. Mas o que
sei a seu respeito é lindo e, Evie, o que sei faz com que eu tenha certeza de que quero saber mais.
A verdade é que sei o dia do aniversário dela. Tão bem quanto sei a data do meu próprio
nascimento, mas não importaria se eu não soubesse. Aliás, não importaria se eu não soubesse mais
do que descobri em uma semana e meia. E tenho certeza disso porque, quando eu tinha apenas 11
anos, não demorei mais do que quinze minutos para descobrir que Evie seria a pessoa por quem eu
me apaixonaria. No dia em que reparei nela pela primeira vez, sentada àquela mesa de jantar, com o
coração nas mãos, Evie me trouxe de volta à vida, me fez ter esperança. Foi isso que ela fez logo
naqueles primeiros minutos. E é por isso que o fato de tê-la traído faz com que eu me odeie tanto.
Todas essas ideias percorrem minha mente à velocidade da luz enquanto nos encaramos, olhos
nos olhos, parados em um ponto de ônibus de uma rua da cidade. Estou perdido na profundidade
daqueles olhos castanho-escuros que são como janelas para a alma de Evie.
– Hã, Jake – diz ela, por fim, baixinho.
– O que é, Evie?
– Perdi o ônibus. Vou precisar de uma carona.
As palavras dela invadem minha mente e não consigo evitar o sorriso gigante que toma meu rosto.
Levo-a até o carro e ajudo-a a entrar. Dou a volta e me acomodo diante do volante.
Saio com o carro, mas preciso me certificar de que Evie tenha entendido perfeitamente a parte
sobre Gwen também.
– Quero que ouça o que tenho a dizer sobre a noite passada.
Ela relanceia o olhar para mim e morde o lado interno da boca. Sempre fez isso...
– O pai de Gwen é diretor financeiro da empresa do meu pai. E quando digo “empresa do meu
pai”, na verdade estou querendo dizer “minha empresa”, porque essa é a realidade agora. Mas meu
cérebro ainda está se adaptando a essa transição.
Não havia percebido que isso era verdade até acabar de falar.
– De qualquer modo – continuo –, conheço Gwen e o pai dela há muito tempo e, ao longo dos
anos, Gwen e eu saímos algumas vezes, embora eu sempre tenha deixado claro para ela que não
estava interessado em nada mais do que tínhamos... e tínhamos muito pouco. Gwen, por sua vez,
deixou claro que estava interessada em mais, e ela foi criada para acreditar que podia ter o que

quisesse e que, se esperneasse o bastante, acabaria conseguindo.
Evie está em silêncio, apenas me ouvindo.
– Quando me mudei pra cá, tentei ser amigo dela porque, apesar de Gwen ser mimada e
superficial, eu a tratei de forma bastante desrespeitosa ao longo dos anos. Fiz isso em parte porque
sentia que sacaneando Gwen eu estava, por tabela, atingindo meu pai, que ficava constrangido com o
modo como eu tratava a filha de um colega de trabalho dele.
Tenho vergonha de todas as besteiras que fiz, mas sei muito bem por que as fiz. Depois de alguns
segundos, volto a falar:
– Eu havia combinado de ir com Gwen ao evento da noite passada meses atrás e não tinha como
desmarcar. É uma causa importante para mim, e achei que não haveria nenhum problema em levá-la
comigo, como planejado. Só levei três segundos para perceber que havia cometido um erro, e isso
foi antes mesmo de ver que você estava lá.
Evie fica em silêncio por um instante, o cenho franzido.
– Gwen fez parecer que as coisas com você estavam muito íntimas – comenta, olhando para a
frente.
Ah, disso eu tenho certeza. Não cheguei a descobrir o que Gwen disse a Evie no banheiro, mas
não duvido de que foi algo do tipo: ele é meu e você é menos que pó.
– Isso é porque ela viu o modo como olhei para você, viu como você é bonita. Ela fez o que
achou que funcionaria para manter você afastada de mim. Sei que Gwen a fez se sentir inferior,
porque ela é mestre nisso. Mas, Evie, você poderia estar usando um saco de batatas e ainda assim
teria mais classe do que Gwen com todos aqueles acessórios e aquele vestido de grife. E ela sabe
disso. E odeia saber. Foi por isso que quis diminuir você.
Fico em silêncio por um tempo, antes de concluir:
– Quase morri por não poder invadir aquela cozinha e explicar a situação para você, mas você
estava trabalhando e eu não queria piorar ainda mais as coisas.
Evie fica em silêncio por um longo instante e a vejo olhar ao redor, para o interior do meu carro,
depois abaixar os olhos para o próprio uniforme. Sei exatamente o que está pensando. O veneno de
Gwen está fazendo efeito e Evie está achando que talvez seja mesmo inferior. Apesar de eu ter
acabado de dizer quanto ela é incrível, Evie está sendo afetada pelas palavras de Gwen. Isso me
deixa furioso.
– Jake – ela começa a dizer baixinho –, talvez eu não seja...
Paro o carro e me viro para ela.
– Não, Evie. Antes de começar, pense se o que está prestes a dizer não vai contra tudo o que eu
acabei de lhe falar. Se for o caso, simplesmente esqueça, está certo?
Ela me encara novamente, então fecha a boca e diz baixinho:
– Está certo.
Sorrio para ela. Essa é a minha Evie.
– Boa resposta.
Desço do carro e, enquanto contorno para abrir a porta para Evie, tomo uma decisão. Ela é
minha. Preciso começar a deixar isso muito, muito claro. Esse tipo de mal-entendido idiota não vai

mais acontecer.
– Passo para pegá-la hoje às seis e meia e vou preparar o jantar para você. Gosta de bife?
– Gosto – sussurra ela.
Os olhos de Evie se aquecem e ela se inclina na minha direção, provocando em mim uma nova
onda de possessividade.
– Você trabalha amanhã?
– Não, é meu dia de folga.
Levo Evie até a porta e ela fica parada, olhando para mim. Pego as chaves da mão dela, abro a
porta do prédio e empurro devagar para que ela entre.
– Vejo você mais tarde. E, Evie, arrume uma bolsa para passar a noite fora.
Agora fui muito claro.
– O que... – balbucia ela.
Mas deixo a porta se fechar para não lhe dar chance de qualquer argumento.

capítulo 14

Dr. Fox está sentado ao lado da minha cama, no lugar de sempre, recostado e com um dos pés
cruzado sobre o joelho, o bloco de notas na mão. Ele repete a pergunta que me fez minutos atrás e
que ainda não respondi. Estou olhando pela janela, a raiva fazendo meu cérebro ferver.
– Podemos conversar sobre Lauren?
A voz dele me desperta e percebo que estou cerrando o maxilar.
– Não há nada a falar.
– Acho que ambos sabemos que isso não é verdade.
– Está certo, então: esse assunto não vai ser abordado.
– Você precisa falar sobre isso, filho.
– Não falo sobre ela. Nunca. Ela não existe para mim.
– Dizer isso não torna a frase verdadeira. Acho que você já sabe.
Uma névoa de raiva domina minha mente agora, e estou lutando contra as imagens que me
assaltam, uma por uma... desgraçadas. Me sinto prestes a explodir, minhas mãos estão cerradas
no colo, meu corpo todo tenso.
– Por que não quer falar sobre ela?
É então que acontece. Perco o controle. Acho que dá até para ouvir o som de cada pensamento
em minha cabeça quebrando as barreiras que os continham, enquanto tudo em minha mente vira
névoa. De repente, não sou nada além de pura raiva. Meu cérebro está ocupado, controlado por
ela, como um tumor crescente de fúria. E a cada minuto esse tumor entra em metástase, as células
se multiplicando, se espalhando, dominando tudo.
– Porque eu a odeio! – grito, pegando a bandeja de comida que está na mesa perto da minha
cama e jogando-a contra a parede com violência.
A comida se espalha pelo chão e a bandeja cai com estardalhaço.
– Quem você odeia, filho?
– Lauren! Eu odeio aquela desgraçada! Odeio!
Pareço uma criança tendo um ataque de pirraça. Estou vagamente consciente disso, mas
minha fúria é tão absoluta que não me importo. A raiva está no comando e estou disposto a deixála tomar conta de mim.
Jogo as pernas para o lado, saio da cama e começo a bater em tudo o que está nas bancadas
do quarto, arremessando no chão.
– Eu a odeio. Odeio. Odeio – repito sem parar, a cada coisa que cai.
Minha respiração está acelerada, sinto as palavras começarem a arranhar a minha garganta.
Estou louco de ódio enquanto sigo capengando de um lado para outro do quarto, gritando e
destruindo o que está no meu caminho, como um furacão de raiva e amargura. O furacão Leo.

Categoria 5.
– Quem você odeia, Jake? – A voz do Dr. Fox atravessa o som raivoso que lateja em meu
cérebro.
– Eu já disse! Já disse, merda! Lauren! Eu a odeio! Eu odeio! Odeio! – continuo meio gritando,
meio ofegando.
Minha voz parece vir de muito longe. Não consigo mais sentir meu corpo. É como se eu fosse
um turbilhão de emoções, girando sem parar, completamente fora de controle.
Pela minha visão periférica, noto vagamente que uma enfermeira entreabre a porta com uma
expressão preocupada para ver o que está causando o que deve soar como uma briga de bar no
meu quarto de hospital.
O Dr. Fox levanta a mão para ela, indicando que pare onde está, e lhe acena com a cabeça. A
enfermeira sai rapidamente do quarto, os olhos arregalados.
– Eu odeio! Odeio! Odeio! – continuo a repetir, arquejante, e viro a mesa que fica ao lado da
minha cama.
– Quem você odeia, filho? – pergunta novamente o Dr. Fox, mantendo a calma.
Eu me viro para ele e a voz do meu pai, daquele homem desgraçado que se dizia meu pai, volta
à minha mente. Tomado pela fúria, vejo o rosto dele cheio de desprezo diante de mim. Sinto a
raiva crescer no meu peito, então pego uma cadeira e a arremesso do outro lado do quarto. Ela
quica sobre a lixeira de plástico que está no canto e cai no chão com uma das pernas quebrada.
– Meu pai! – berro. – Eu o odeio! Odeio aquele rato desgraçado! Odeio cada osso daquele
demônio! Quero que ele morra! Quero arrebentar a cabeça dele!
Continuo entoando meu mantra de ódio, me viro na direção da cama e começo a socar a
extremidade erguida do meu colchão. Solto um grunhido a cada soco, um rugido inumano que foge
do fundo do meu peito.
– Quem você odeia? – A voz do Dr. Fox está bem atrás de mim, ainda gentil e controlada.
– Pare de me perguntar isso! Eu já disse! Que diabos, não está me ouvindo? Meu pai! Minha
mãe! Lauren! Odeio todos eles! Quero que se fodam! Que se fodam todos eles! Fodam-se! Odeio
todos eles!
Minha voz falha e estou respirando tão rápido que acho que vou passar mal. Pelas minhas
veias corre um fogo que parece me consumir de dentro para fora, uma vida inteira acumulando a
raiva provocada pelo egoísmo de quem rouba a dignidade dos outros e pela crueldade de quem se
aproveita dos fracos.
– Quem você odeia, filho?
Meus socos ficam mais fracos, meu colchão indefeso tem um descanso da surra que estou lhe
dando. Minha respiração volta a arranhar a garganta e agora posso sentir as lágrimas
queimando meus olhos, querendo cair. Isso revigora meu ódio e os socos se tornam mais fortes.
Estou quase engasgando agora. A fúria começa a diminuir e logo além dela está a dor, um
sofrimento profundo, que me atinge como uma onda. Não posso lutar contra ela. Tudo o que
consigo fazer é esperar que se abata sobre mim, encharcando a raiva, apagando o fogo, mas me
arrastando para o fundo, me jogando de um lado para o outro, fraco e indefeso diante de seu

poder avassalador. Essa dor é maior do que a raiva, maior do que a amargura, maior do que a
culpa, e não posso fazer nada além de me entregar a ela.
– A mim! É a mim que odeio! Eu me odeio! Eu me odeio! Merda, eu me odeio! – digo em uma
voz engasgada.
E agora as lágrimas escorrem. Continuo engasgando com as palavras, cuspindo, socando e
gritando.
– Eu me odeio, merda! Eu me odeio! Merda! Merda! – soluço e balbucio e, de algum lugar a
distância, penso ouvir as seguintes palavras: – Por quê? Por quê? Por que não fui o bastante? Eu
não valho nada. Por que fiz isso? Por que a deixei fazer isso? Por que fiz isso? Por quê? Por quê?
Eu me odeio. Eu me odeio. Eu me odeio. Não valho nada. Eu me odeio.
– Quem você odeia, Jake? – pergunta o Dr. Fox uma última vez.
– A mim. Eu me odeio – digo entre arquejos. – Eu me odeio. Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Eu
me odeio.
Então sinto a mão dele segurar meu ombro e ficar ali, enquanto afundo o rosto em uma pilha
de travesseiros que, por algum milagre, não saíram do lugar enquanto eu socava a cama.
Finalmente me entrego ao choro pela primeira vez desde que Evie me abraçou sobre um telhado,
em uma noite de verão, e me disse que eu tinha um coração de leão. Choro desconsolado por Seth
e por toda a esperança a que me agarrei, dia após dia, ano após ano, de que meus pais
encontrariam em mim algo que valesse a pena amar. Eu me entrego e deixo o sofrimento e a
saudade que sinto de Evie me consumirem. Choro pela minha perda e pela situação de abandono
que fez com que eu me odiasse. Choro pelo que fiz com Lauren, pelo meu desprezo por mim mesmo
e por todo o ódio que encheu meu coração por tantos, tantos anos. Choro até minha voz ficar
rouca e eu sentir que qualquer emoção se esvaiu de mim. Quando minha mente clareia e meus
soluços cedem um pouco, percebo que a mão do Dr. Fox ainda está em meu ombro, me ancorando.
Fico quieto por vários minutos, até me sentir calmo o bastante para levantar a cabeça.
Endireito o corpo, me viro lentamente e olho para o Dr. Fox. Ele está com uma expressão muito
séria no rosto, mas não há pena em seus olhos. Fico grato por isso. Deixo escapar um suspiro
entrecortado e me sento na cama, em silêncio, enquanto minha respiração volta ao normal.
Depois de alguns minutos, olho ao redor do quarto. Parece que um animal enlouquecido
arrebentou tudo. Acho que foi exatamente isso que aconteceu. Dou uma risada sem humor e passo
a mão pelo meu cabelo curto.
– Isso deve ter parecido muito patético. Acabo de fazer papel de idiota, não é? – pergunto com
uma careta.
– Sim. Finalmente. Talvez possamos começar agora – responde ele de forma carinhosa.
Levanto os olhos para encará-lo e não consigo evitar: começo a rir. Então rio com mais
vontade ao perceber nossa situação no momento. Eu: manco, inchado, todo enfaixado, sentado no
meio dos destroços do meu quarto de hospital. O Dr. Fox: o Einstein de cabelos brancos
desalinhados, sentado tranquilamente em sua cadeira, como se aquilo acontecesse todo santo dia.
De repente nós dois estamos rindo por algum motivo do qual não tenho a menor ideia.

capítulo 15

Depois de mais duas horas de reuniões no trabalho, vou até o mercado para comprar os
ingredientes para o jantar. Venho cozinhando bastante desde que me mudei da casa de Phil e Lauren e
gosto disso. Depois de reunir todos os itens da minha lista, sigo até o corredor de produtos de
higiene e beleza e jogo uma caixa de preservativos no carrinho também. Não quero ser presunçoso
em relação a Evie e com certeza jamais a pressionaria, mas é bom estar preparado. E não tenho um
único preservativo em lugar nenhum. Faz mais de um ano que não fico com ninguém. Quem me dera
fizesse a vida toda...
É quase assustador pensar em quanto desejo Evie em minha cama. Eu me pergunto se ela já
dormiu com alguém e essa possibilidade acende dentro de mim um ciúme que me faz cerrar o
maxilar. Afasto imediatamente esse pensamento. Ao longo dos anos, cheguei a imaginar Evie com
alguém, só para me torturar. Achava que merecia a agonia que isso provocava. E funcionava: eu
ficava com ainda mais ódio de mim mesmo. Mas isso é parte da pessoa que estou tentando deixar
para trás. Por que Evie não deveria ter conhecido alguém que considerasse especial? Mesmo assim,
fico arrasado só de pensar nisso...
E, mesmo que Evie não seja inexperiente em relação a isso, talvez não esteja pronta para ter essa
experiência comigo – alguém que, até onde ela sabe, acabou de conhecer. Mas a atração entre nós é
palpável e sei que ela sente o mesmo. Isso me conforta de um jeito para o qual nem mesmo eu estava
preparado. De qualquer modo, só quero que Evie passe a noite comigo. Eu a quero sob o meu teto,
que é o lugar dela.
Termino as compras, levo tudo para o meu apartamento e arrumo rapidamente antes de correr
para pegar a minha Evie na casa dela. Minha Evie. Isso me faz sorrir.
Dirijo até a casa de Evie imaginando se ela realmente vai levar uma bolsa para passar a noite
comigo. Não cheguei a esperar uma resposta dela e não poderia culpá-la se não estivesse pronta.
Ajeito o corpo no assento, porque a ideia de tê-la só para mim, no meu apartamento, de beijá-la, de
tocá-la, faz o meu sangue disparar nas veias.
Bato à porta do apartamento de Evie e, quando ela abre, noto duas coisas imediatamente. A
primeira é que ela está linda e a segunda é que traz uma pequena bolsa de viagem na mão. Meu
coração se infla no peito e não posso evitar o sorriso que se abre no meu rosto. Evie vai passar a
noite comigo. Minha pulsação dispara. Uma parte minha se sente como um adolescente nervoso e
outra tem vontade de jogar Evie no chão ali mesmo, no corredor do prédio, e possuí-la. Uma pequena
bolsa de viagem faz com que eu me sinta ao mesmo tempo apavorado e invencível.
Evie bate à porta do vizinho e diz:
– Boa noite, Maurice.

Caminhamos em direção à frente do prédio e logo ele responde:
– Boa noite, Evie.
Isso me lembra de que qualquer ideia de possuir Evie no corredor não seria bem recebida por
Maurice.
Seguimos na direção do meu apartamento e, no caminho, conto a Evie sobre as reuniões que tive
pela manhã e falo um pouco dos prazos que a empresa precisa cumprir. Ela escuta com atenção e faz
algumas perguntas. É bom demais conversar com Evie sobre trivialidades do dia a dia atual, em vez
de sobre todas as coisas horríveis que aconteciam diariamente conosco quando éramos crianças.
Tenho a sensação de que busquei por isso a vida inteira. Costumava sonhar em como seria voltar
para casa, para a minha Evie, no fim de um dia de trabalho. Na época, eu não tinha ideia de que
estaria à frente de uma empresa, mas sabia que trabalharia duro todos os dias da minha vida para que
tivéssemos mais do que os nossos pais haviam nos dado. Eu manteria Evie segura e a faria feliz. Iria
construir um lar com ela.
E agora... vou mostrar a Evie a profundidade do que sinto por ela e fazê-la acreditar do fundo da
alma que quero cuidar dela. Porque é verdade. E quando contar a Evie quem eu sou, ela vai saber
quem poderemos ser juntos.
Estaciono na garagem, pego a bolsa de Evie, e seguimos pela escada dos fundos até o elevador.
Não solto a mão dela nem por um minuto.
Entramos no meu apartamento e relanceio o olhar para Evie enquanto jogo as chaves na mesa
perto da porta. Ela está examinando o ambiente, com o cenho levemente franzido. Quase rio. Também
não gosto daqui. É elegante, moderno e frio.
– É um condomínio corporativo. Você não gosta – comento.
Evie parece horrorizada.
– Não, não – diz. – É muito elegante. Só estava pensando que precisa de um pouco de calor.
Talvez algumas almofadas coloridas jogadas por aí ou algo parecido.
Ela abaixa os olhos e começa a morder a parte interna da boca. Sorrio.
– Concordo. Mas não sei quanto tempo ficarei aqui. Mais para a frente, gostaria de comprar algo
para mim.
Tento não deixar minha mente divagar sobre a possibilidade de escolhermos uma casa juntos. Vá
com calma...
Pego seu casaco e o penduro no gancho do hall de entrada. Quando me viro, Evie está diante da
janela, olhando para a cidade, as luzes do cassino cintilando a distância.
Sinto um calor se espalhar pelo meu peito enquanto a observo no meu apartamento. Ela está no
lugar a que pertence. Comigo. O sofrimento por conta de todos esses anos que perdemos paira ao
fundo, mas afasto essa lembrança. Não há espaço para ela esta noite. Esta noite é sobre nós dois.
Esta noite é só nossa.
Caminho até Evie e passo os braços ao redor dela, puxando-a na minha direção. Aproveito o
momento, me deixo mergulhar nele enquanto inalo o perfume dos cabelos de Evie, enquanto sinto o
corpo delicado envolto por meus braços, o calor dela em mim. Eu me lembro tão bem disso. Sempre
foi assim. Ela sempre conseguiu me acalmar apenas com seu toque. Como pude duvidar de que seria

assim para sempre? Naquela época, agora, milhões de vidas depois desta. Minha Evie, meu coração,
minha salvadora. Minha domadora de leões.
Abaixo a cabeça, afasto os cabelos dela para o lado e colo meus lábios à sua nuca, roçando a
pele acetinada. Evie estremece e meu pênis reage.
– Meu Deus, Evie, sua pele é uma delícia. E seu perfume é tão gostoso... Você acaba comigo. E
nós ainda nem fizemos amor. Que efeito isso terá em mim?
Sinto o corpo dela enrijecer.
– Jake – começa a dizer, virando-se e passando os braços ao redor do meu pescoço, até eu estar
mirando-a nos olhos –, quanto a isso...
– Você está nervosa – concluo.
Droga. Mas não tem problema. Ela pode ditar o ritmo que quiser. Esse show é dela.
– Sim. Não. Quero dizer...
Evie balança a cabeça e dá uma risadinha.
É mesmo cedo demais, imagino. Quero dizer, não é. Na verdade, nós estamos quatro anos
atrasados. Gostaria que a vida houvesse decorrido de outra forma, para que eu tivesse tomado Evie
nos braços quando ela fez 18 anos e houvesse me casado com ela naquele mesmo dia. Contudo,
sendo a realidade como é, acabamos de começar. Mas acredito que Evie sinta o mesmo que eu e, de
qualquer modo, quero que a escolha seja inteiramente dela.
– Que tal eu preparar o jantar, aí nós conversamos, ficamos juntos e então, se você quiser dormir
no quarto de hóspedes esta noite, sem problemas para mim, está certo? Eu preferiria que passasse a
noite na minha cama, mas quero que seja uma decisão sua e, se não estiver pronta, é só dormir no
outro quarto. Só quero que passe a noite aqui, está bem?
Os olhos dela buscam os meus por vários segundos.
– Está bem – sussurra.
– Ótimo – digo, abaixando os olhos para a linda boca de Evie, tão deliciosa de beijar.
Colo a boca na dela, sorrindo ao capturar seu lábio inferior entre os dentes, provocando-a com
delicadeza. Evie se derrete em meus braços e continuo a lamber e sugar seus lábios, mas não sigo
adiante. Quero que ela tome a frente, que saiba que quem manda é ela. Evie não tem ideia do que
significa para mim ser capaz de fazer isso: deixar que uma mulher assuma o controle sexualmente.
Até reencontrá-la, meu objetivo costumava ser estar no controle, tomar posse dessa parte da minha
vida. Mas com Evie é diferente: além de eu me sentir seguro, estou disposto a qualquer coisa para
que ela também se sinta segura.
Finalmente, depois do que parecem ser milhares de anos, Evie deixa escapar um murmúrio e
desliza a língua para dentro da minha boca. Ah, Deus, isso é tão sexy... Não consigo reprimir um
gemido profundo e meu pênis salta contra a calça.
Evie desliza uma das mãos pelas minhas costas e a passa por baixo da bainha da camisa. Ela
corre as unhas de leve pela minha pele e é como se labaredas me devorassem. Nunca senti nada tão
gostoso.
Evie inclina a cabeça e nosso beijo fica ainda mais profundo, fazendo o sangue correr com mais
força no meu pênis duro. O sabor de Evie é como uma droga e estou completamente perdido na

sensação do corpo dela contra o meu, no gosto de Evie, na simples presença dela aqui comigo. Sou
dominado por essas novas sensações. É assim que a intimidade física deve ser. Tudo o que já
experimentei até este momento subitamente assume cores ainda mais doentias, e a beleza, a sensação
de que este momento é o certo se destacam contra os lampejos nebulosos das lembranças tristes.
Evie passa a outra mão pela minha nuca e corre os dedos pelos meus cabelos, acariciando-os,
tateando. Registro a sensação deliciosa antes de me dar conta de que os dedos dela estão traçando a
minha cicatriz. Merda! Afasto os lábios dos dela e me recomponho.
– O que aconteceu com você, Jake? – pergunta Evie, o cenho franzido.
Diga a verdade, mas seja vago. Esta noite é para ser assim. Faço uma pausa antes de dizer em
voz baixa:
– Lembra daquela merda que eu lhe falei que fiz para desafiar meu pai?
Ela acena com a cabeça, o cenho ainda franzido.
– Uma das consequências foi eu ter aberto a parte de trás da cabeça. Algum dia lhe contarei tudo
a respeito, Evie, prometo. Mas que tal agora eu começar a preparar o jantar?
O cenho de Evie permanece franzido enquanto ela estende a mão e volta a traçar a cicatriz. A
ternura desse toque é algo que só experimentei com ela. Fecho os olhos, tiro a mão dela da cicatriz e
a levo aos lábios.
– Você é tão doce – digo, porque é a mais pura verdade.
Guio-a até a cozinha e puxo uma banqueta para que se sente.
– Que tal eu lhe servir uma taça de vinho e deixá-la aqui por alguns minutos, enquanto troco este
terno por outra roupa? – pergunto.
Depois de deixar as compras em casa, só tive tempo de tirar a gravata e puxar a camisa de dentro
da calça, porque estava um pouco atrasado e não queria deixar Evie esperando. Além disso, depois
daquele beijo, preciso de um banho gelado para conseguir me concentrar em preparar um jantar
decente.
– Que tal você ir se trocar enquanto eu abro o vinho e sirvo nós dois? – sugere Evie, sorrindo.
– Perfeito.
Digo a ela onde está tudo e vou para o quarto. Dez minutos depois, já troquei de roupa e volto
para a cozinha. Encontro Evie sentada diante da bancada, com dois copos de vinho à sua frente. Ela
me entrega um e diz:
– Tinto. Espero que esteja bom para você. Combina com carne vermelha e tal...
Ela parece um tanto insegura e muito doce. Sorrio e estendo meu copo na direção dela.
– Aos começos – proponho. Aos recomeços.
Abro a geladeira para pegar os ingredientes e digo:
– Posso lhe fazer uma pergunta? Você me disse na outra noite que não namorou ninguém durante o
ensino médio. Por que não?
Estou torcendo para que Evie me dê uma ideia melhor de como foi sua vida depois que parti. Sei
que posso estar arrumando mais uma forma de me torturar, mas preciso saber pelo que ela passou.
Evie fica em silêncio por algum tempo, parecendo avaliar se deve ou não me responder. Então
ela pousa o vinho e começa:

– Quando eu tinha 15 anos, a responsável pelo meu lar adotivo, Jodi, teve câncer. Ela e o marido
resolveram que não poderiam mais cuidar das crianças que moravam com eles. Eu não era próxima
de nenhum dos dois, já que eles nunca se interessaram muito pelas meninas que abrigavam. Não eram
maus, só indiferentes, ausentes. Só queriam saber de assistir à TV e não se preocupavam muito em
saber com quem andávamos. Na maior parte das vezes, eles nos supriam com o que precisávamos em
termos materiais. Mas, emocionalmente, nunca fizeram o papel de nossos pais adotivos, ao menos
não da maneira que se espera. Mas eu me sentia bem lá, gostava da casa e das outras meninas e
achava que, considerando a situação, a vida não seria melhor que aquilo.
Ela faz uma pausa antes de continuar.
– De qualquer modo, quando fui mandada para outro lar adotivo, acabei indo morar com mais um
casal, e eles não faziam a menor questão de esconder que eu e as outras garotas éramos um peso,
embora até onde eu saiba os cheques que os dois recebiam por nos acolher fossem a principal razão
para estarmos lá. Eu, Genevieve e Abby éramos basicamente escravas deles. Cozinhávamos,
limpávamos a casa e tomávamos conta dos filhos deles, gêmeos de 6 anos, que, preciso dizer, foram
um ótimo método de controle de natalidade para nós – se era essa a intenção deles. O casal passava
o dia inteiro de papo para o ar e, quando queriam alguma coisa gritavam para pegarmos para eles. A
mulher, Carol, vivia fazendo comentários desagradáveis a meu respeito, sobre meu corpo, meus
cabelos, minha falta de personalidade. Ela era especialmente cruel comigo, mas, no que dizia
respeito aos cuidados conosco, seguia uma política de oportunidades iguais. Não gastava comigo e
com as meninas nem um centavo a mais do que o estritamente necessário, o que significava que
nossas roupas estavam sempre velhas e pequenas. Na escola, as garotas se divertiam às minhas
custas porque achavam que eu usava as roupas apertadas daquele jeito para chamar a atenção dos
garotos. Me xingavam de vagabunda e de coisas piores, e os garotos me tratavam como se eu fosse
mesmo uma vagabunda, por isso eu ficava o mais longe possível de todo mundo.
Evie volta a ficar em silêncio por mais alguns instantes antes de continuar a contar.
– Minha autoestima não era nenhum primor, mas Carol se encarregou de minar o pouco que eu
tinha. Por isso eu não tinha nenhum anseio especial em fazer amigos ou arrumar um namorado. Comia
meu lanche na biblioteca todos os dias, ia para casa direto depois da aula e passava a tarde limpando
a casa de Carol e Billy. No dia em que completei 18 anos, consegui um emprego no Hilton e saí de
lá. O plano era passar três meses dormindo no sofá de Genevieve. Ela tinha deixado o lar adotivo
seis meses antes, para morar com o namorado, e disse que eu poderia ficar com eles até juntar
dinheiro suficiente para pagar o aluguel de um apartamento. Estava morando na casa dela fazia dois
meses quando o namorado dela deu em cima de mim. Gen me botou na rua e eu não tinha para onde
ir, então trabalhava durante o dia, ia para a biblioteca depois do expediente e dormia em uma mesa
do canto por três horas, até eles fecharem. Então ficava indo de uma lanchonete a outra, tomando um
café atrás do outro, até a hora de ir trabalhar de novo. No hotel felizmente há um banheiro na sala de
descanso dos empregados e eles não se importam que o usemos.
Nova pausa.
– Dormi em um abrigo no centro da cidade uma noite, mas um velho tentou se enfiar na minha
cama no meio da madrugada. Além disso, alguém roubou o par de sapatos que eu tinha deixado

embaixo da cama antes de dormir. Não poderia correr o risco de alguém levar o dinheiro que eu
estava juntando para alugar um apartamento. Se isso acontecesse, eu voltaria à estaca zero, o que era
impensável.
Cada palavra de Evie penetra em minha alma, se dissolve em mim. Imagino-a sozinha e
assustada, dormindo em uma biblioteca, vagando pela cidade sem ter para onde ir. Tenho vontade de
começar a arremessar coisas, de socar a cara de alguém. Não sei ao certo em quem descontar a
raiva. Provavelmente em mim mesmo. Mas preciso ficar calmo, por Evie. Preciso afastar o desprezo
que sinto por mim por não ter feito nada por ela.
Minha mente volta à época em que tínhamos 12 ou 13 anos e vi uma lista de desejos que Evie
havia preenchido, no estilo “faça o Natal de uma criança pobre feliz”, que uma organização de
caridade qualquer depois recolheria no lar adotivo dela. Eu também recebera uma, mas havia
amassado e jogado fora. Não queria nada que uma família bem de vida qualquer tivesse escolhido a
esmo para mim, para depois voltarem todos para casa em seus carros e comer rosbife ao redor da
mesa de jantar, sentindo-se pessoas muito especiais porque haviam feito a sua parte. Ficava irritado
só de pensar nisso.
Mas dera uma olhada na lista de Evie, que caíra da mochila dela. Evie ficara ruborizada e enfiara
rapidamente o papel de volta na mochila. Fingi que não tinha visto, mas tinha. Ela escrevera que
queria ter o próprio travesseiro e a própria fronha. Não sei por que isso era tão importante para Evie
e nunca perguntei. Talvez fosse porque ela se mudava tanto que achava que se tivesse uma única
coisa que pudesse levar sempre junto, que lhe pertencesse e fosse permanente em sua vida, algo que
lhe desse conforto, seus dias não seriam tão difíceis. Não sei. Mas algo dentro de mim se partiu de
um modo que não consegui explicar na época. Eu fui para casa, puxei briga com um garoto grande,
um brutamontes que morava no meu lar adotivo, e não fiz questão de evitar que ele me espancasse.
Eu costumava conseguir acertar uns bons golpes mesmo nos garotos muito maiores do que eu. Mas
daquela vez nem tentei.
Quando contei isso ao Dr. Fox, ele me disse que, por achar que merecia ser maltratado, eu estava
continuando de onde meu pai parara. Talvez. Mas provavelmente o Dr. Fox jamais vira alguém que
amava sofrer sem poder fazer nada para ajudar. O que a garota que eu amava queria de Natal era a
porcaria de uma fronha. Isso acabava comigo, e eu odiava minha impotência. Acho que a única coisa
que parecia estar sob meu controle era transformar em física a dor emocional. Porque essa última
sempre parecia insuportável.
Sentado ali, na minha cozinha, ouvindo Evie me contar o que meu abandono a fez passar, tenho de
novo aquela sensação. Cerro o maxilar e me preparo para a dor que me atinge. Evie viveu tudo isso.
O mínimo que posso fazer é ouvir e deixar que isso me afete, então é o que faço. Mesmo que Evie
não saiba o que está fazendo, merda, como dói...
Evie fica em silêncio por um instante, me observando, antes de continuar:
– No fim daquele mês, já havia conseguido juntar o bastante para pagar o aluguel de um dos
apartamentos que eu tinha visto. Comecei a ligar para saber informações sobre eles e descobri que
poderia me mudar para um naquele mesmo dia. Dormi no chão, usando minha mochila como
travesseiro, e me cobri com uma manta rosa muito velha que eu tinha desde que era criança, até

conseguir comprar alguns móveis de segunda mão. Consegui meu certificado de conclusão do ensino
médio no ano seguinte, já que havia me mudado e começado a trabalhar antes de me formar.
Ela me observa cuidadosamente, pega a taça e dá mais um gole no vinho. Estou me concentrando
em manter as mãos ocupadas com o preparo do jantar, para evitar pegar o objeto mais pesado que
estiver por perto e arremessar pela janela. Evie acena com a cabeça na direção das batatas que estou
lavando.
– Quer que eu faça isso? – pergunta.
– Não, quero que fique sentada onde está, relaxe, tome seu vinho e converse comigo.
E tenho que sorrir agora, porque, apesar da história que me contou, Evie está sentada ali,
relaxada e sorrindo. Ela me impressiona e me acalma.
– Você passou por tanta coisa, Evie... – digo, por fim.
– Sim, mas a questão é que, de certa forma, tive sorte por ter me acontecido tudo isso.
– Como assim? – pergunto, confuso.
– Bem, quantas pessoas você acha que chegam ao próprio apartamento no fim do dia, por mais
simples e pequeno que ele seja, e olham ao redor sabendo a sorte que têm? Quantas pessoas
realmente reconhecem o que possuem porque sabem o que é não ter absolutamente nada? Passei por
muita coisa para chegar onde estou e valorizo muito o que consegui. Essa é minha recompensa.
E aí está, esse é o melhor exemplo de por que essa garota é a pessoa mais excepcional que já
conheci. O que ela acaba de fazer, transformar algo triste em alegre... esse é o dom de Evie. É algo
que eu nunca, jamais, conseguiria fazer, por mais que tentasse. Eu deixaria a tristeza tomar conta de
mim, me invadir, até transformar quem eu sou, me tornar amargo e rancoroso. E talvez tenha sido
exatamente por isso que Evie foi capaz de me amar... Ela enxergou o fundo da minha alma e foi além
de tudo o que era feio para encontrar algo bom. Não sei como. Só sei que ela é a coisa mais linda
que já vi, por dentro e por fora.
Por fim, digo em voz baixa:
– Eu nunca teria pensado na situação dessa maneira.
E não teria mesmo. É por isso que Evie faz de mim uma pessoa melhor. É por isso que ela me
inspira.
Enquanto finalizo o jantar, Evie beberica o vinho, e ambos ficamos em silêncio por algum tempo,
perdidos em pensamentos. É tão absurdamente bom apenas ficar sentado aqui com ela, preparando o
jantar e conversando...
Estou pensando nas histórias que Evie costumava contar quando éramos garotos e, para mantê-la
falando, para ouvir mais sobre a vida dela, peço:
– Evie, me conte sobre o elogio fúnebre que você fez para a sua amiga, Willow. Quero saber
mais.
– Mais uma vez, não paro de falar sobre mim. Por que isso acontece toda vez que estou com
você? – pergunta ela, sorrindo.
– Me faça essa gentileza. Acho você fascinante.
Evie revira os olhos e sorri para mim.
– Eu costumava contar histórias para Willow quando éramos crianças e morávamos no mesmo lar

adotivo. Ela adorava. Mesmo depois que ficamos adultas e volta e meia eu precisava livrá-la de
alguma confusão em que houvesse se metido... abuso de drogas, surra de algum namorado, o que
fosse... – diz, acenando com a mão. – Pois bem, mesmo depois de adultas, Willow me pedia para
contar uma das histórias dela. Me pedia cada uma pelo nome, mesmo que muitas vezes estivesse
completamente chapada.
– Parece que ela se sentia especial por ser dona das histórias. Não devia ser dona de muitas
coisas. O que você fazia era lindo, Evie – comento.
E sei que isso é verdade porque é exatamente como me sinto em relação às histórias que Evie me
contava. Só pensar nelas já fazia com que eu me sentisse melhor, e eu precisava desesperadamente
disso. As histórias dela eram como um bálsamo para o meu coração ferido. Eram naquela época e
continuam sendo agora, quando me lembro delas – o que ainda faço algumas vezes.
Evie me encara em silêncio por um tempo, com uma expressão serena no rosto.
– No começo, as histórias eram só bobagem de criança. Eu tinha uma imaginação fértil, que era
bem útil. – Ela dá um risinho. – Eu era uma criança tentando compreender o incompreensível,
entende?
Aceno com a cabeça. É claro que entendo. Então não consigo me conter. Faço a pergunta antes
mesmo de me dar permissão para isso:
– Você vai me contar sobre Leo?
Evie baixa os olhos e dá um gole no vinho. Merda, eu não deveria ter ido para esse lado...
– Jake, já dividi tanta coisa com você esta noite... Foi bom e isso me surpreende, porque não
costumo trazer meu passado à tona com frequência, mas podemos deixar Leo para outra
oportunidade? Pode ser?
Alguma coisa se inflama dentro de mim quando vejo a expressão nos olhos dela à menção do meu
nome. Estou certo de ver tristeza ali. Evie tenta esconder, mas a verdade é que nunca foi boa nisso.
Sinto meu peito se aquecer, não apenas por perceber que estou compreendendo novamente a minha
Evie, exatamente como costumava fazer, mas por desconfiar de que ela talvez não tenha me
esquecido depois de todos esses anos, como disse ter feito. Eu a encaro, pensando mais uma vez em
como é doce, boa e carinhosa. Evie me olha através dos cílios cheios e me pergunta o que estou
pensando.
Contorno a bancada e me sento ao lado do dela. Evie se vira para mim quando pego sua mão.
– Estava só pensando em como sou grato por você estar aqui comigo. Também estava pensando
que, até onde posso ver, você fez um trabalho incrível em não deixar seu passado torná-la uma
pessoa dura. Não há nenhuma amargura ou rispidez em você, nada, nem em sua atitude, nem no modo
como se comporta, ou em seus olhos, seu sorriso, no jeito como trata as pessoas. Você está sempre
tomando conta das pessoas de sorte que têm o seu amor. Você é assim. A vida obviamente lhe tirou
muito, e sei que você sofreu bastante, mas o fato de ter confiado em si mesma para superar isso e de
não ter se permitido perder a fé ou virar uma pessoa fria... isso é mérito seu. Orgulhe-se disso. Era o
que eu estava pensando.
Evie me encara por algum tempo e vejo seus olhos ficarem marejados. Ela dá um sorrisinho
tímido. Deus, como é linda...

Gesticulo para que ela se sente à mesa, que arrumo rapidamente. Trago a comida e começamos a
jantar.
– Muito bem, estou realmente impressionada – diz Evie. – Está incrível.
Fico feliz por ela pensar assim. Se depender de mim, cozinharei para Evie todos os dias, pelo
resto da vida dela.
Depois de comermos em silêncio por alguns minutos, ela pede:
– Poderia me falar um pouco sobre os seus pais? Como seu pai morreu?
Ela relanceia um olhar preocupado na minha direção.
– Ataque cardíaco. Foi repentino. Ele ainda resistiu por uma semana, mas acabou tendo um
coágulo sanguíneo. Na verdade foi isso que o matou.
– Lamento, Jake – diz Evie, olhando para mim com cautela antes de prosseguir. – Você deve
sentir falta dele.
– Sim, eu sinto. Desperdicei muitos anos brigando com o meu pai e jamais terei isso de volta –
respondo muito sinceramente.
– Sinto muito.
Penso em meu pai por um instante. Ainda sinto alguma tristeza ao fazer isso, mas o Dr. Fox me
ajudou a me livrar de grande parte da culpa... não que ela tenha ido completamente embora, mas
agora que Evie levantou o assunto, reconheço que já progredi bastante.
– Está tudo bem. De verdade. Não fiquei bem por um longo tempo, mas cheguei a um ponto em
que as coisas melhoraram. Hoje em dia percebo que há muitos caminhos na vida. Alguns deles nós
escolhemos. Outros são escolhidos para nós. Tive minha parcela de culpa, como acontece com todo
mundo, e também fiz algumas péssimas escolhas. Tenho que assumir a responsabilidade por isso.
Mas a única coisa que conseguimos ao ficar cogitando o que seria da nossa vida se tivéssemos
escolhido outro caminho é chegar a perguntas sem resposta e a uma tristeza que não pode ser curada.
Não importa como chegamos aonde estamos, tudo o que podemos fazer é seguir desse ponto em
frente.
Assim como quando eu falava com o Dr. Fox, conversar com Evie é muito bom. Gostaria de me
alongar mais com ela sobre o assunto um dia, porque agora sei que conversar com alguém que nos
compreende tem um poder curativo. Mas um dia. Não esta noite. Não quero me fechar de novo,
depois de Evie ter me falado tanto de si mesma, mas é que, além de não poder falar sobre várias
coisas, ainda há questões difíceis para mim. Desabafar é bom, no entanto quero que esta noite seja de
nós dois, não quero ficar lembrando coisas ruins. Evie está melhor do que eu no que se refere a
superar os sofrimentos do passado, isso ficou bem claro. No meu caso, ainda é um trabalho em
andamento. Só de pensar em Lauren, já fico tenso.
– Vou lhe contar tudo sobre a minha vida, Evie. Você já falou tanto de você que também quero
lhe dar o que puder sobre mim, mas não hoje. Agora quero aproveitar o jantar, aproveitar sua
companhia. Não vou trazer à tona um monte de merda que só vai me deixar de mau humor. Está bem?
– Está bem – sussurra Evie, me olhando com carinho nos olhos, como se realmente
compreendesse.
Fico grato. Seguro a mão dela sobre a mesa e aperto com cuidado. Terminamos o jantar e Evie

me ajuda a tirar a mesa e lavar a louça.
Ela pede licença para ir ao banheiro enquanto termino de colocar as panelas e travessas na pia e
seco as mãos. De repente sinto uma alegria imensa ao perceber que Evie está em minha casa e que
acabamos de jantar juntos como qualquer casal comum.
Quando Evie volta, pego a mão dela e a levo até o sofá. Meu corpo está vibrando de felicidade
pela presença dela e preciso lhe mostrar isso. Sento-a no meu colo e... nossa, como isso é sexy. Fico
espantado mais uma vez por ser capaz de permitir que Evie assuma uma posição de controle. Seus
olhos estão cheios de calor quando ela cola a boca à minha e lambe os meus lábios. Afasto-os
imediatamente para recebê-la. Evie geme e... ah, já estou dolorosamente rígido e aquele gemido
baixo e doce parece ir direto ao meu pênis.
Seguro a nuca de Evie e inclino a cabeça dela para conseguir beijá-la mais profundamente. O
desejo de possuí-la é tão intenso que já me sinto fora de controle. Trocamos um beijo profundo e
úmido, as línguas brincando, saboreando. Gememos dentro da boca um do outro e não tenho vontade
de me afastar nem para recuperar o fôlego. Evie é o meu oxigênio, a razão da minha existência, a
única coisa que importa para mim nesta vida ou em qualquer outra.
Estou bêbado do sabor dela, o desejo dispara pelas minhas veias e todo o meu corpo vibra de
vontade de estar dentro de Evie, de possuí-la, de torná-la minha. Minha! Um rugido sobe pela minha
garganta e Evie geme de volta, movimentando-se sobre meu colo de um jeito que faz meu corpo se
contrair de desejo.
– Cacete! – Tenho que afastar a boca da dela. Respiro fundo. – Meu Deus, Evie, você é
deliciosa.
– Jake – diz ela, também arfante –, não vou dormir no quarto de hóspedes.
– Graças a Deus! – Graças a Deus. Graças a Deus.
Levanto com ela ainda no colo e Evie passa as pernas ao redor da minha cintura. Carrego-a pelo
corredor até o quarto, minha boca colada à dela durante todo o caminho, a palavra “Minha!”
reverberando na mente, a necessidade de mostrar a Evie quanto a amo pulsando em minhas veias.

capítulo 16

Carrego Evie para o meu quarto, coloco-a na cama, tiro a camisa e me deito com ela. Penso
rapidamente na minha tatuagem. Sei que ainda não posso mostrá-la a Evie, mas só de pensar que
minha domadora de leões está tanto nas minhas costas quanto nos meus braços me dá vontade de
sorrir.
Nunca me senti tão excitado na vida. Meu corpo todo vibra. Penso brevemente que teria me
sentido assim se Evie houvesse sido a primeira mulher que levei para a cama – é assim que deveria
ter sido. Uma mágoa profunda me atinge ao pensar nisso, mas a afasto. Estamos juntos, aqui, agora. E
preciso vê-la por inteiro neste exato momento.
Levo as mãos ao suéter que ela está usando, puxo-o para cima e jogo-o no chão. Eu me sento na
cama e olho para Evie. Ela está usando um sutiã de renda vermelho e sua pele é macia e imaculada.
Preciso senti-la contra o meu corpo... agora.
– Me ajude, Evie, quero sentir sua pele contra a minha. – Venho esperando por isso há uma vida
inteira.
Evie parece um tanto insegura quando levanta um pouco o corpo, abre o fecho do sutiã, corre as
alças pelos braços e deixa a peça cair no chão. Me deleito com a perfeição de seus seios, pequenos e
firmes, os mamilos de um rosa escuro já rígidos só com o meu olhar.
– Meu Deus, você é ainda mais linda do que imaginei – sussurro.
Capturo novamente os lábios dela, minha língua deslizando para dentro da doçura da boca de
Evie, e me encanto com a maciez de seu corpo contra o meu peito, as mãos acariciando as minhas
costas. Começo a mexer o quadril instintivamente e Evie geme dentro da minha boca, fazendo com
que mais faíscas disparem direto para o meu pênis. Também me pego gemendo e concluo que preciso
diminuir o ritmo se quiser aguentar mais de três segundos. Está tão gostoso que não quero que
termine nunca. Além disso, quero que seja bom para Evie – o que significa não gozar antes mesmo de
começarmos.
Eu me afasto um pouco e passo a beijar o pescoço de Evie, enquanto levo uma das mãos ao seio
dela e roço o mamilo com o polegar. O peso do seio é pura perfeição na minha mão, a pele parece
cetim. Essa mulher foi feita para mim, de todas as maneiras possíveis.
Evie levanta o quadril, pressionando meu pênis rígido. Deixo escapar um rugido ao sentir o calor
dela encontrando o meu. Ah, penetrá-la vai ser como entrar no paraíso.
Estou desesperado para saboreá-la. Meus lábios descem até o mamilo. Capturo-o e começo a
sugá-lo e lambê-lo, enquanto ela estremece e ofega sob o meu corpo. Me revezo entre os dois
mamilos e os arquejos de Evie se tornam gemidos, com o quadril dela se agitando a cada movimento
meu, as mãos agarradas aos meus cabelos. Minha Evie é tão excitante, tão perfeita. Minha.

Quando Evie deixa uma das mãos descer pelo meu abdômen, arquejo, me afasto de seu seio e a
encaro. Ela não imagina a força que estou fazendo para conseguir ir devagar, não sabe que se me
tocar onde pretende posso perder de vez o controle.
Sei que a expressão em meu rosto deve ser intensa quando Evie me encara também, os olhos
arregalados, os lábios entreabertos, linda demais para ser descrita em palavras.
– Sou virgem – diz ela de repente, avaliando a minha reação.
Fico paralisado enquanto assimilo o que ela acaba de dizer. Meu coração se aperta no peito e o
sangue lateja em meus ouvidos. Evie continua a observar minha reação e sussurra:
– Está tudo bem para você?
Se está tudo bem? Se está tudo bem?
– Nunca esteve melhor – respondo, sentindo a emoção subir pela minha garganta, deixando minha
voz rouca.
Evie se guardou para mim? Com certeza, não. Apenas dei muita sorte por a vida ter seguido esse
caminho, por ninguém jamais ter tocado essa garota linda a não ser eu. E como isso é possível? Não
me importo. Só agradeço a Deus e volto a colar a boca à dela, beijando-a com total abandono,
lambendo e chupando seus lábios. Sinto-me voraz e possessivo, mais impaciente do que antes para
penetrá-la e fazê-la minha. Mas agora sei que preciso ir devagar. Preciso me certificar de que ela
esteja o mais úmida possível para que a penetração não seja dolorosa demais. Preciso fazê-la gozar.
Abro o botão e o zíper da calça jeans dela, então me ajoelho na cama e descalço suas botas, uma
de cada vez. Depois, dispo rapidamente o jeans e a calcinha minúscula, de renda vermelha, que ela
está usando, e jogo tudo no chão.
Não demora e já estou de volta sobre o corpo dela, passando a mão por entre as coxas sedosas,
estimulando-a a abri-las. Evie estremece. Eu levanto a cabeça, olho-a nos olhos e sussurro:
– Abra as pernas para mim.
Evie obedece na mesma hora e deixa as pernas caírem para os lados.
– Vou deixar mais fácil para você me receber – digo, e vejo os olhos dela se acenderem ao ouvir
essas palavras.
Ela dá um breve aceno com a cabeça.
Introduzo um dedo delicadamente nela e sinto seu corpo estremecer mais uma vez. Nossa, ela é
tão apertada, tão quente, tão úmida. Meu pênis pressiona a frente do jeans, ansioso para ocupar o
lugar do dedo.
Meu polegar encontra o ponto sensível bem acima da fenda e espalho nela a umidade que sinto
por ali. Então começo a mover o polegar em círculos lentos e sigo penetrando-a com o indicador.
Evie joga a cabeça para trás, gemendo. Presenciar o prazer dela é quase mais do que posso suportar.
Estou desesperado, sufocando de desejo. Nunca me senti assim antes, jamais. A beleza desse
momento me inunda enquanto observo Evie à beira do orgasmo, o desejo e o amor disparando juntos
pelo meu corpo.
– Nossa, você é tão linda! Está gostoso? – consigo dizer em uma voz engasgada.
– Muito – responde ela em um arquejo, enquanto a penetro com mais um dedo, alargando-a,
sentindo a umidade de Evie banhar meus dedos, que entram e saem do corpo dela.

Quando Evie começa a erguer o quadril para encontrar a minha mão, sei que ela está quase lá.
Isso, meu bem, goze para mim.
– Ah, meu Deus! – arqueja ela e não consigo evitar o rugido que escapa pelos meus lábios.
Vê-la à beira do orgasmo é tão lindo e tão intenso. O rosto de Evie está ruborizado, a cabeça
jogada para trás no travesseiro e o quadril ondulando na minha mão. Então o corpo dela fica rígido
por um breve instante e ouço-a gritar meu nome quando o orgasmo a domina. Isso mesmo, garota
linda! Nossa! Preciso estar dentro dela. Agora.
Eu me sento, dispo o jeans e a cueca e os jogo no chão. Então volto a me posicionar sobre Evie,
que abre os olhos e me encara com uma expressão de encantamento.
Estou praticamente tremendo quando me inclino sobre ela, pego um preservativo na gaveta da
mesinha de cabeceira e volto a me ajoelhar para colocá-lo. Estou rígido demais, agoniado,
desesperado para penetrá-la. Mas lembro a mim mesmo que preciso ir devagar. Não quero machucála.
– Posso tocar você, Jake? Me mostra como se faz? – sussurra Evie.
– Da próxima vez, meu bem. Estou por um fio aqui. Se você me tocar, nós dois vamos lamentar –
respondo, sentindo o pouco controle que tenho se esvair a cada minuto.
Sustento o corpo sobre o dela e guio a ponta do meu pênis até a entrada úmida. Volto a capturar a
boca de Evie e enfio a língua através de seus lábios, mostrando com a boca o que estou prestes a
fazer com o pênis. Deixo escapar um gemido de expectativa.
– Passe as pernas ao redor do meu corpo – digo a ela. – Vamos ser rápidos agora para acabar
logo com a parte dolorosa, está bem?
– Está bem – sussurra Evie.
Eu a penetro em uma arremetida. Ah, meu Deus, isso é bom demais! Mas faço uma careta ao
ouvi-la gritar de dor.
Quero me mover lenta e cuidadosamente, mas meu pênis está latejando, gritando para que eu me
mexa, enquanto a fricção contra o corpo quente e macio de Evie me envolve.
– Vou mais rápido agora. Você está bem? – pergunto, e a minha voz sai estrangulada.
– Estou – sussurra Evie mais uma vez.
E com a permissão dela, começo a arremeter. A sensação é tão maravilhosa que acho que devo
estar me afogando em Evie. Afogando em um mar de bênçãos.
Evie enlaça meu quadril com as pernas, as mãos acariciando as minhas costas e o meu traseiro.
Ela geme sob o meu corpo, seguindo meu ritmo a cada arremetida. Evie é perfeita e estou perdido. A
sensação é tão gostosa que não quero que termine, mas sinto o calor e o prazer agitando meu ventre e
sei que não vou conseguir me conter por muito mais tempo.
Volto a capturar os lábios de Evie e começo a explorar sua boca com a língua no mesmo ritmo
das arremetidas. Isso parece incendiá-la, pois ela arqueia o corpo e sinto as contrações do orgasmo
que a domina subirem por toda a extensão do meu pênis. Isso traz meu próprio orgasmo à tona
também.
Arremeto uma, duas vezes, então explodo com a força de um vulcão em erupção. Estremeço,
gemo e vejo estrelas, tamanha a intensidade do clímax que alcanço.

Quando volto a dar por mim, estou girando o quadril lentamente, aproveitando os últimos
resquícios de prazer, enquanto Evie acaricia meus braços com as unhas. Não consigo conter o sorriso
que se espalha pelo meu rosto quando começo a percorrer o pescoço dela com o nariz, sentindo seu
cheiro doce. Nossa! Isso foi... foi... Deus, não consigo nem encontrar palavras.
Levanto a cabeça e encontro os olhos dela.
– Você está bem? – pergunto em um sussurro.
– Estou – sussurra Evie, com um sorriso satisfeito na voz.
Gostaria de ficar ligado daquele jeito a ela para sempre, mas preciso ter certeza de que Evie está
bem. Quando me afasto, ela deixa escapar um resmungo que mais parece um miado e volto a sorrir.
– Você gosta de mim dentro de você.
O que é ótimo, porque planejo passar muito tempo ali.
– Deixe eu me livrar desta camisinha e pegar alguma coisa para limpá-la. Fique aqui.
Droga, há muito sangue. Algum instinto primitivo em mim sente uma intensa satisfação ao
constatar aquela perda de virgindade. Nunca admitiria isso em voz alta – pareceria um troglodita,
imagino –, mas é verdade.
Tomo o cuidado de estar de frente para Evie enquanto visto a camisa e a cueca, de forma que ela
não veja as minhas costas. Ainda não.
Vou até o banheiro e jogo fora o preservativo ensanguentado. Então molho uma toalhinha em água
quente e volto com ela para o quarto. Sorrio, porque Evie não mexeu um músculo sequer, ainda está
deitada, nua, parecendo uma deusa sobre o lençol. Uma visão de pura beleza.
Eu me sento na beira da cama e digo:
– Abra as pernas e dobre os joelhos.
Evie parece ligeiramente envergonhada, mas faz o que digo. Eu limpo o sangue e volto ao
banheiro para levar a toalhinha.
Quando retorno ao quarto com um copo de água, Evie já vestiu a calcinha. Ver aquela pequena
peça de renda vermelha contra a pele sedosa faz com que eu volte a sentir uma onda de desejo, mas a
controlo. Evie deve estar dolorida. Sinto uma breve pontada de culpa por não ter sido mais delicado,
mas me controlei o máximo possível diante das circunstâncias. Esperei tanto tempo por isso... E
nunca senti tanto desejo. Foi fora de qualquer parâmetro.
Evie toma um longo gole de água e sorri docemente para mim quando me devolve o copo. Eu o
coloco sobre a mesinha de cabeceira, volto a me deitar ao lado dela e puxo-a de costas contra o meu
peito. Enfio o nariz no perfume gostoso de seus cabelos e seguro um dos seus seios, possessivamente.
Apesar de nunca na vida ter ficado aconchegado a ninguém na cama, agora isso me parece
normal, natural e muito, muito bom.
Depois de alguns instantes, Evie se vira em meus braços para poder me encarar e fica
acariciando a lateral do meu rosto, enquanto me olha profundamente nos olhos. Quase consigo ver...
não, não pode ser. É cedo demais. Mas ela gosta de mim, isso eu posso afirmar. Sinto um aperto no
peito.
– Você é minha, agora, Evie. Diga que é minha – sussurro.
A mão que me acaricia fica imóvel e ela continua a buscar algo em meus olhos, não sei

exatamente o quê. Prendo a respiração.
– Sou sua, Jake – sussurra em resposta.
Deixo o ar escapar, mas na minha fantasia ela sempre me chamou de Leo ao dizer que pertencia a
mim. Quero que ela saiba exatamente a quem pertence e anseio por ouvi-la dizer meu nome.
Sorrio para ela e beijo seus belos lábios com carinho. Preciso que ela saiba quanto o que
aconteceu significa para mim.
– Nunca passei por nada tão maravilhoso quanto isso – digo.
E estou falando a verdade. Evie também sorri. Eu a puxo mais para perto de mim e, depois de
alguns minutos, sinto sua respiração mais lenta. Ela adormeceu.
Enquanto a abraço, uma onda de emoção me domina e não reconheço imediatamente o que é. Em
algum lugar da minha mente parece haver uma lembrança, um contorno indistinto de uma sensação
que experimentei apenas uma vez, só que há muito tempo. Deixo essa sensação me envolver, me
animo com ela, me empolgo com a euforia que ela traz. Sinto-a por completo antes de conseguir
denominá-la, antes que a palavra finalmente me ocorra: alegria. Alegria. Puxo Evie ainda mais para
perto de mim no escuro e ouço sua respiração tranquila. Mergulho em seu aroma e sinto o movimento
do peito dela subindo e descendo. Alegria. Saboreio esse momento, plenamente consciente da minha
felicidade aqui e agora.
– Você é o meu sonho – sussurro para Evie na escuridão. – É o meu sonho que se tornou
realidade.
Relaxo e deixo a sensação de ter Evie em meus braços se aprofundar em minha alma. Em poucos
instantes, também adormeço. Em paz.

capítulo 17

Acordo de repente quando sinto o calor do corpo de Evie se afastando do meu. Abro os olhos,
sonolento, e a vejo desaparecer no banheiro. Volto a fechar os olhos, satisfeito, lembrando-me da
noite de ontem e constatando que não foi apenas um sonho. Foi real. A melhor noite da minha vida.
Evie volta para a cama e se aconchega de novo em mim. Quando sinto seu olhar, entreabro um dos
olhos. Ela está me observando, um sorrisinho doce no rosto.
Sorrio também.
– Está me observando dormir? – pergunto, ainda grogue, implicando com ela. – Quem é a
perseguidora sorrateira agora?
Evie ri e aconchega a cabeça sob o meu queixo. Hummm. Que gostoso... O corpo macio da minha
Evie, doce, quente e sexy, está pressionado contra o meu. Lembranças do que compartilhamos na
noite anterior enchem a minha mente. Passo os braços ao redor de Evie e puxo-a mais para perto de
mim. Minha ereção matinal pulsa em minha cueca.
Aproveito o prazer de ficar tão junto dela por alguns minutos, até que sinto a mão de Evie
descendo pelo meu corpo. Prendo a respiração. Tomara que ela esteja fazendo o que acho que está
fazendo. E... ah, Deus, sim, a mão dela está se movendo delicadamente pela minha ereção,
aumentando-a ainda mais.
Deito-a de costas e me coloco em cima dela, ansioso para participar da brincadeira.
– Quer brincar, linda?
– Quero – sussurra Evie, os olhos inflamados.
Sinto-a apertar as coxas uma contra a outra. Então ela também está excitada.
– Está sentindo alguma dor ou está bem?
Ela rebola um pouco e faz uma careta.
– Só um pouquinho.
Quase rio, porque ela parece desapontada.
– Bem, há outras coisas...
– Sim – sussurra ela mais uma vez, e é tudo de que preciso.
Abaixo a cabeça e deixo os lábios percorrerem a barriga lisa de Evie, parando no umbigo,
lambendo a pele macia ao redor dele, enfiando a língua ali. Cada parte do corpo dela tem um sabor
incrível. Ainda estou de camisa, assim não há risco de Evie ver a minha tatuagem. Posso aproveitar
esse momento plenamente, como espero que ela esteja aproveitando.
Tiro a calcinha de Evie e jogo-a para o lado, enquanto o olhar dela me segue, os lábios
ligeiramente entreabertos, a respiração já acelerada. Nossa, Evie é a mulher mais sexy do mundo.
Quero devorar cada parte dela. Quero fazê-la gritar e gozar na minha boca.

Abaixo mais a cabeça e beijo a pele acetinada da parte de dentro das coxas dela. Evie estremece
e afasta as pernas. Essa é a minha Evie. Inspiro o perfume dela e sinto um rugido primitivo subir
pelo meu peito quando sinto nossos aromas combinados do sexo da noite passada, além de um leve
traço do meu sabonete nela.
– Adoro meu cheiro em você – digo, a voz rouca, e então mergulho o rosto na carne macia do
sexo de Evie.
Deixo a minha língua desenhar círculos ao redor do clitóris pequeno e rosado. Perfeito. Ela geme
quando o mordisco e o chupo delicadamente, antes de começar a mover a língua devagar. Testo
diferentes movimentos, pressiono um pouco mais, enquanto presto atenção aos gemidos de Evie, até
achar que sei exatamente do que ela gosta.
Começo então a lamber o clitóris inchado em um ritmo constante, a princípio devagar, depois
mais rápido, com mais pressão, enquanto ela se contorce e geme. Os sons que Evie deixa escapar,
combinados ao sabor dela e ao perfume inebriante de flor exótica de sua pele, deixam o meu pênis
duro como uma pedra. Posso senti-lo forçar a frente da cueca.
Percebo Evie socando os lençóis, a respiração saindo em arquejos, e ela começa a girar o
quadril contra o meu rosto, buscando mais pressão. Ai, caramba. Caraaamba! Como isso é intenso!
Evie grita quando o orgasmo chega e, quando percebo isso, enfio a língua nela, ansioso para saboreála toda, para senti-la gozar.
Evie grita mais uma vez, entoando meu nome sem parar, enquanto seus músculos internos se
contraem. Isso foi de longe a experiência mais erótica que já tive. De muito longe.
Deixo uma trilha de beijos pela coxa dela e levanto a cabeça. Evie ainda está de olhos fechados,
a cabeça virada para o lado, os cabelos cobrindo grande parte do rosto. Sorrio, dou um beijo no
pescoço dela, despenco ao seu lado e puxo-a para mim. Sorrio novamente e fecho os olhos. Mas
volto a abri-los alguns minutos depois, quando sinto sua mão passar por baixo da minha camisa e
começar a acariciar meu abdômen, traçando com o dedo o desenho dos meus músculos. Meu pau
salta dentro da cueca.
Evie se inclina sobre mim e levanta a minha camisa. Eu a observo, noto a expressão em seu
rosto: concentração e nervosismo. Se ela soubesse quanto me afeta, não teria um grama de ansiedade.
Evie não tem como errar, na verdade. Tê-la nua na minha cama é tudo de que preciso. O que quer que
aconteça depois será bom de qualquer modo.
Levanto os braços e ergo o corpo ligeiramente enquanto ela morde o lábio inferior e termina de
tirar minha camisa. Evie está sexy como nunca. Joga a camisa no chão, o mamilo rosado chegando
perto do meu rosto quando ela se inclina sobre mim. Passo a língua pelos lábios... quero aquele
botão pequeno e perfeito dentro da minha boca. Mas este é o momento dela, então permaneço imóvel.
Adoro observá-la assumindo o controle. Uma satisfação e uma paz me invadem, apesar da enorme
excitação, ao me dar conta de como já fui longe com Evie em apenas uma noite. Ela agora está até
assumindo o controle na cama! A cura dos meus males. A minha domadora.
Evie joga o corpo para trás e corre os olhos de cima a baixo pelo meu peito, pouco antes de se
debruçar e começar a beijá-lo e lambê-lo, parando em um mamilo para chupá-lo e dar lambidas.
Deixo escapar um gemido ao sentir aqueles lábios doces em meu corpo e sinto o sorriso dela em

minha pele. Todas essas sensações são tão novas para mim, são tantas coisas que nunca experimentei
antes...
E então, ah, Deus, ah, sim, a mão de Evie desce pelo meu abdômen e imploro mentalmente que
ela continue. Sinto tanta vontade de ser tocado que chega a doer. Quero que Evie segure meu pênis,
que o leve à boca. Mas não sei se ela já está pronta para a última opção.
– Me ensine. Quero saber o que você gosta – sussurra ela, os olhos em chamas.
– Só quero que me toque – digo, sem me importar que o desespero transpareça na minha voz.
Levanto ligeiramente o corpo e tiro a cueca para facilitar o acesso dela.
Evie passa a mão quente ao redor do meu pênis rígido e ele salta na mão dela. Ah, a mera
sensação do toque dela é tão boa que gotas de prazer escorrem da ponta do meu pau. Evie passa o
polegar por elas e esfrega o líquido em círculos lentos, com precisão, fazendo-me imaginar se ela já
tocou outro homem assim ou se é apenas instinto. O ciúme ferve em meu peito e ameaça me dominar.
Sei que estou sendo hipócrita, mas não consigo evitar essa reação, embora saiba que é injustificada.
Nesse momento Evie me encara, sem saber o que fazer a seguir, e relaxo.
– Mova a mão para cima e para baixo, meu bem – peço em uma voz engasgada. – Assim.
Pouso a mão sobre a dela, mostrando como fazer. Percebo que Evie cerra as coxas e seus olhos
se arregalam quando ela vê as duas mãos ao redor do meu pênis. Gosto disso também. Há algo
extremamente erótico em ensinar a ela sobre o meu corpo, em vê-la tão ansiosa para saber do que
gosto. Ninguém jamais se importou com isso. Talvez nós dois estejamos aprendendo juntos.
Evie começa a mover a mão e é tão delicioso que fecho os olhos com força e me entrego à
sensação daquela mão me acariciando, lentamente a princípio, depois mais rápido. Sei que os
movimentos dela acompanham o ritmo da minha respiração e isso me deixa ainda mais excitado.
Quero aproveitar esse momento, fazê-lo durar, me conter de propósito, mas o êxtase é tanto que
deixo meu corpo seguir seus instintos. Sinto meu pênis inchar na mão dela, o jorro quente surgir.
Digo o nome de Evie em uma voz engasgada quando gozo quase com tanta intensidade quanto na
noite anterior.
– Ah, meu Deeeeus! – grito em um gemido, à medida que a mão dela passa a se mover mais
lentamente.
Será sempre assim com Evie? Cara... estarei morto antes de completar 32 anos. Mas que jeito
gostoso de morrer... por excesso de orgasmo: gozou com tanta intensidade que teve um aneurisma.
Vai ser sortudo assim!
Quando abro os olhos, Evie está sorrindo orgulhosa para mim, como se houvesse acabado de
encontrar a cura para o câncer. Não consigo evitar e caio na gargalhada. Ela é uma graça! Além de
gostosa. E toda minha.
Nós dois sorrimos quando levanto o corpo ligeiramente, pego-a pelos braços e puxo-a para cima
de mim. Evie me encara.
– Você tem um talento natural – brinco, mas estou falando a verdade.
Evie descansa a cabeça em meu ombro e enfia o nariz no meu pescoço. Ficamos deitados desse
jeito por um longo tempo, eu me deleitando com a sensação daquele momento, com o modo perfeito
como o corpo dela se encaixa no meu.

– Vou preparar um banho para você e depois vou fazer o café da manhã. Então você vai passar o
dia comigo.
De jeito nenhum vou querer que ela saia da minha vista hoje. Não depois da noite passada e desta
manhã. Sem possibilidade. Além disso, quero passar mais tempo apenas me divertindo com Evie.
Não consigo me fartar disso.
– Hum... autoritário – murmura ela, sorrindo.
Evie se levanta e começa a caminhar para o banheiro. Cruzo as mãos atrás da cabeça,
observando a bela visão dela nua, de costas. Estou sorrindo quando me sento e visto a camisa e a
cueca.

capítulo 18

Preparo o café da manhã enquanto Evie fica mergulhada na banheira. Escuto-a cantarolar e não
consigo evitar que um sorriso se instale em meu rosto enquanto pego os pratos no armário e a comida
na geladeira. Tudo nessa relação parece tão certo! É como se a minha vida finalmente houvesse
retornado ao caminho que sempre deveria ter seguido. Além disso, estou eufórico depois da noite de
sexo mais incrível que já tive. Algo dentro de mim que não havia tido um dia de descanso desde que
deixei Cincinnati, oito anos atrás, agora finalmente está em paz, e o alívio que essa sensação me traz
é maravilhoso. Jamais me saciarei de Evie. E o fato de essa garota, a única que amei com tudo o que
sou desde criança, também ser um sonho realizado na cama parece um milagre, como se fosse mais
uma prova de que nascemos para ficar juntos.
Evie sai do meu quarto vestida e tomamos o café da manhã juntos, rindo e brincando um com o
outro. Parece tão normal e é tão incrivelmente delicioso. Quero começar todos os dias do resto da
minha vida assim. De vez em quando, volto a me lembrar da farsa que criei e uma onda de culpa se
abate sobre mim, mas a afasto. Logo... só precisamos de um pouco mais de tempo. Logo.
Nossas brincadeiras terminam com Evie montada em mim, que estou sentado em uma banqueta da
cozinha, e eu fazendo cócegas nela, mordiscando seu pescoço e rosnando em seu ouvido. Lembranças
de Evie também montada em mim no sofá, na noite passada, e tudo o que veio depois, voltam à minha
mente e, do nada, estou pronto para possuí-la ali mesmo.
Rosno mais uma vez para mostrar que estou perdendo o controle e rio com ela.
Quando Evie lambe a depressão na base do meu pescoço e beija meu queixo, deixo escapar um
gemido. A ideia de penetrá-la novamente está no topo da minha lista de prioridades e não há nada
que me daria mais prazer do que carregá-la de volta para a minha cama e passar o resto do dia lá.
Mas ela comentou que estava dolorida... Deixo escapar mais um gemido quando percebo que ela
também está excitada.
– Evie, achei que você tivesse dito que estava dolorida.
Ela suspira e levanta o corpo.
– Estou. Talvez um analgésico dê conta do problema, não?
Fico encarando-a por um instante, então caio na gargalhada.
– Meu Deus! Criei um monstro do sexo! – digo, adorando essa ideia.
Evie ri e desce do meu colo. Meu cenho se franze sem eu me dar conta quando o corpo dela sai
de cima do meu.
– Muito bem, então. Aonde você vai me levar? – pergunta Evie.
– Já foi ao zoológico?
Lembro-me da primeira vez que fui ao zoológico de San Diego. Eu tinha 17 anos e minha vida em

casa estava uma porcaria. Mas adorei o passeio. Por algumas horas, voltei a ser apenas um garoto,
fazendo uma coisa simples, que eu nunca havia feito quando era realmente criança. Por um curto
espaço de tempo, me perdi fazendo algo que não tinha nenhum outro objetivo além de divertimento.
Queria proporcionar isso a Evie também.
Ela parece surpresa por um momento.
– Na verdade, não. Vai me levar ao zoológico?
Um sorriso lindo se abre em seu rosto. Em resposta, sorrio e balanço a cabeça, assentindo.
– Ótimo. Trouxe algum sapato confortável?
– Sim, um par de tênis.
– Perfeito. Vou tomar um banho rápido e saímos depois.
Terminamos o café da manhã, dou um beijo em Evie e vou para o chuveiro. Abro a água e me
dispo. Quando estou me virando para entrar no chuveiro, vejo de relance a minha cicatriz no espelho.
Se Evie entrasse e eu não a ouvisse... sinto uma nova pontada de culpa quando faço o que tenho que
fazer: tranco a porta do banheiro.
Quando retorno à cozinha, Evie vem até mim, passa os braços ao redor da minha cintura e
descansa a cabeça em meu peito. Ela volta a levantar a cabeça e sorri para mim. Beijo-a na testa e
sussurro:
– Minha Evie. Tão doce... – Minha Evie. Minha.

Observar Evie no zoológico é provavelmente uma das experiências mais agradáveis da minha vida.
Olho mais para ela do que para os bichos, e uma paz profunda toma conta da minha alma por eu ter
proporcionado essa experiência a Evie. O que eu mais gostaria na vida era poder voltar no tempo e
apagar a tristeza do passado dela, dar a ela a infância divertida e despreocupada que merecia. Não
posso. Mas posso dar isso a ela agora.
Enquanto a observo, percebo que talvez o mesmo valha para mim. Todos esses anos me sentindo
tão impotente, tão incapaz de tornar a vida dela melhor... talvez esse momento também esteja me
curando. Talvez seja importante para mim, mais do que qualquer outra coisa. Porque Evie sempre
encontrou um modo de buscar a própria paz. O mesmo orgulho que sempre sinto quando penso na
força de Evie volta a me atingir.
Quando estamos observando os elefantes, Evie mantém os olhos fixos neles e comenta em voz
baixa:
– Os elefantes sofrem com a morte, como nós. Derramam lágrimas e velam seus mortos.
Olho para ela.
– É mesmo? Como você sabe?
– Li um livro sobre eles no ano passado.
– Você leu um livro sobre elefantes? – retruco, erguendo uma sobrancelha.
Evie se vira para mim.

– Não zombe de mim. Tento aprender coisas diferentes. Nunca se sabe quando o assunto
“paquidermes” irá surgir. Quero poder me manifestar se uma conversa acontecer em uma situação
social – argumenta, sorrindo de forma brincalhona para mim, e se volta novamente para os elefantes.
– Paquidermes? – provoco-a, sorrindo.
– Vários animais não ruminantes... como o elefante, ou o rinoceronte, ou ainda o hipopótamo...
– Não ruminante?
– Animais que têm um único compartimento no estômago.
Ela se vira para mim, ainda sorrindo.
– Por que não me contou que era uma enciclopédia animal ambulante? Eu teria pedido que me
fizesse uma visita guiada.
Evie ri.
– Não uma enciclopédia “animal”, apenas de “elefantes”. Não li mais nenhum livro da seção de
“Seres vivos” da biblioteca.
Ela volta a sorrir e a beleza daquele sorriso largo chega ao meu coração.
Evie dá de ombros e se vira novamente para observar o grande, majestoso e aparentemente
sensível paquiderme, enquanto fico olhando para ela, descobrindo mais uma razão para querer
passar a vida com essa mulher. Não conheço mais ninguém que pegaria um livro sobre elefantes em
uma biblioteca apenas para aprender algo novo.
Eu me coloco atrás dela, puxo-a contra o meu corpo e a envolvo com os braços, enquanto
ficamos observando os elefantes por mais alguns minutos.
– Está com fome para almoçar? – pergunto, por fim.
Ela assente, vira a cabeça para me olhar e pergunta, sorrindo:
– Você me paga um cachorro-quente?
Rio.
– Sim, Evie, pago um cachorro-quente para você.
O zoológico de Cincinnati não é tão grande quanto o de San Diego, mas é lindo mesmo assim,
com belas trilhas e pavões soltos. Damos as mãos enquanto caminhamos. Mal posso conter o sorriso
que parece querer se instalar de vez em meu rosto.
Enquanto almoçamos, um dos pavões coloridos e exibidos passa pela nossa mesa. Evie arqueja,
fica de pé em um pulo e segue o bicho com o celular, tentando tirar uma foto. Ela está dançando ao
redor da ave com uma expressão frenética no rosto e não consigo conter uma gargalhada ao ver o
pavão contornando mesas e cadeiras para fugir, enquanto ela o segue sem descanso. Mas, de repente,
posso jurar que o maldito bicho olha direto para mim, então anda na direção de Evie, para bem na
frente dela e exibe as penas. O pavão fica andando para a frente e para trás, muito orgulhoso e
empertigado. Vejo Evie prender a respiração e uma expressão de puro prazer domina seu rosto,
enquanto ela tira fotos sem parar. Completamente alheia à minha existência. É como se eu houvesse
desaparecido. Maldita ave. Eu me pergunto se churrasco de pavão pode ser gostoso.
Evie recua mais para perto de mim e dá um gritinho:
– Veja!
Ela empurra o celular na frente do meu rosto para que eu possa ver as dezenas de fotos que tirou.

Resmungo, já cansado daquele pavão idiota, e, quando levanto os olhos, Evie está me encarando com
uma expressão de incredulidade.
– Você está com ciúme de um pássaro? – pergunta.
– O quê? Não – respondo, ainda de mau humor.
– Você está com ciúme de um pássaro – repete Evie, com um brilho divertido nos olhos. Ela
volta a olhar de relance para o celular. – Ele é TÃO lindo. Nooossaaa, tãoooo lindo – diz, esticando
as sílabas com exagero e jogando a cabeça para trás.
– Muito engraçado – resmungo, tentando não rir do absurdo da minha reação. – Aquele bicho
estava tentando invadir meu território. Reconheço um macho descarado quando vejo um.
Evie ri com vontade e tento fazer o melhor possível para não cair na gargalhada também. Mas, no
fim, sorrio para ela e ambos damos risada.
– Você é ridículo – diz ela, ainda sorrindo. Sim. E totalmente louco. Totalmente louco por você,
Evie.
Ela se senta no meu colo, segura o meu rosto entre as mãos, e ficamos nos encarando. Então Evie
abaixa os olhos para a minha boca e meu corpo reage, meu pênis começa a ficar rígido.
– Jake... – sussurra ela.
– Evie... – respondo também num sussurro.
Inclino o rosto, colo os lábios nos dela e deixo a minha língua invadir aquela boca doce, com
gosto de sorvete.
Nós nos afastamos e Evie encosta a testa na minha, enquanto recuperamos o fôlego.
– Tive um dia muito, muito bom mesmo, Jake – diz ela.
Fico olhando para o rosto dela e tanta coisa passa pela minha cabeça... Há tanto que quero dizer
a ela. Quero dizer que farei qualquer coisa para deixá-la feliz, que tudo o que tenho é dela. Mas não
ainda. Por isso, apenas sorrio e digo:
– Ainda não acabou, meu bem. Vamos ver os tigres.

Saímos do zoológico quando já está perto da hora do jantar. Tenho a esperança de poder levá-la para
comer algo e depois voltarmos ao meu apartamento. A ideia de deixar Evie na casa dela não me
agrada. Mas vou levantar o assunto durante o jantar. Preciso lembrar a mim mesmo que ela tem uma
vida, um emprego, e que não posso tentar dominar a situação completamente, como me sinto tentado a
fazer. Não acredito que ela receberia isso bem. Ainda assim, terei que deixar claro que ela agora faz
parte da minha vida e que o fato de ter me dito que é minha significa que estará em minha cama com
mais frequência do que longe dela. Não conseguirei levar essa relação em um ritmo lento. Espero
que ela concorde...
Levo-a ao Ferrari’s, um pequeno restaurante italiano onde já estive algumas vezes.
Quando nos acomodamos em nossa mesa, peço uma garrafa de vinho tinto e dou algumas
sugestões do que já conheço e gosto. Evie fecha o cardápio e levanta a taça em um brinde.

– Aos pavões charmosos! – diz, abrindo um sorriso.
Bufo, mas aceito o brinde e tocamos nossas taças, sorrindo.
Depois que fazemos os pedidos, pergunto:
– Qual é seu horário de trabalho amanhã?
Tento parecer casual, mas na verdade quero saber como será a semana de Evie para que possa
combinar quando ficaremos juntos. Gostaria de pegar a agenda dela na bolsa e simplesmente
escrever JAKE em todas as páginas.
– Das dez às sete, a semana toda.
O que quero mesmo dizer a ela é para largar o emprego amanhã e ir morar comigo. Evie não
precisa mais trabalhar de camareira. Eu imagino em que ela trabalharia, se pudesse escolher.
– Já pensou em fazer outra coisa? – pergunto.
Os olhos dela encontram os meus.
– Quer saber se tenho ambição de ser mais do que uma camareira?
– É. Quero dizer, você sabe que não vejo nada de errado no que você faz. Só que você é tão
inteligente que poderia fazer qualquer coisa. E estava me perguntando se pensa sobre isso.
Nunca conversamos sobre esse assunto na infância. As batalhas do dia a dia pareciam tão difíceis
na época que a principal prioridade era simplesmente sair do sistema de lares adotivos. Mais tarde
pensaríamos no que fazer. Ou ao menos era assim que a minha mente funcionava. Ninguém jamais me
perguntou o que eu queria ser quando crescesse, mas eu pensava em ser policial. Achava que
representar a justiça talvez combinasse com a minha personalidade. Ou talvez todos os garotos,
quando crianças, quisessem ser policiais e bombeiros. Não sei. Então fui adotado e, depois disso, o
que eu queria da vida ficou em segundo plano. Respiro fundo. As coisas aconteceram daquele jeito e
pronto. Não posso mudá-las agora. Só posso seguir em frente. E é o que estou fazendo.
Evie suspira.
– Sim, na verdade penso. Adoraria entrar para a faculdade, mas é preciso dinheiro para isso. Um
dinheiro que, no momento, eu não tenho. Mas o que realmente amo é escrever. Tenho uma ideia para
um livro... – ela se interrompe, o rosto ruborizado.
Evie seria uma escritora incrível... Deus, é como se houvesse nascido para contar histórias. E ela
também sabe disso.
– Então faça isso. Por que ainda não fez?
– Bem, preciso de um computador para escrever. Fiquei usando o da biblioteca durante algum
tempo e salvava o arquivo num pen-drive, mas não era nada prático. E, às vezes, justo quando batia
uma inspiração, a biblioteca estava fechada, sabe? Simplesmente não deu certo.
O garçom nos interrompe para servir o jantar. Evie prova o prato que pediu, os olhos fechados, e
deixa escapar um gemido já na primeira mordida.
– Está bom? – pergunto, minha mente em outro lugar.
– Ahã – responde ela, assentindo.
– Vai passar a noite comigo de novo?
– Não posso, Jake. Preciso me organizar para a semana. Tenho que ir para casa e arrumar tudo.
– E amanhã à noite? – Todas as noites, pelo resto de sua vida?

– Também não posso. Vou trabalhar no bufê e termina tarde. Não costumo trabalhar para eles nas
noites de segunda, mas vai haver uma exposição de arte qualquer em uma galeria no centro. – Ela
levanta os olhos para mim, desconfiada. – Você não vai estar lá, vai?
Rio.
– Não estava planejando ir, mas talvez agora eu veja o que posso arranjar.
– Não se atreva.
Fico em silêncio por um instante. Estou desapontado.
– Preciso ir a San Diego na terça, para o meu escritório lá, mas estarei de volta na quarta à noite.
Vai poder passar a noite comigo?
Estou um tanto irritado por não vê-la pelas próximas três noites. Mas Evie sorri.
– Vou.
Sorrio também.
Então nos concentramos no jantar por alguns minutos, até que ela comenta:
– Você fez faculdade, imagino...
– Sim, estudei na Universidade da Califórnia, em San Diego. Eu fazia faculdade e também
trabalhava com o meu pai, aprendia tudo sobre a empresa, já que o plano era que eu começasse a
trabalhar lá quando me formasse. Só não imaginávamos que eu acabaria tendo que tocar o negócio
tão cedo. Foi nessa época que meu pai e eu conseguimos desenvolver algo mais próximo de um
relacionamento de verdade, como nunca tinha acontecido antes. Eu havia me mudado da nossa casa, e
foi exatamente isso que nos permitiu recomeçar. Foi a primeira vez em muito tempo que realmente
senti algo parecido com felicidade: estar longe dos meus pais, “me descobrindo”, para usar uma
expressão bem clichê.
Lembro por um momento aquela época e me controlo para não fazer uma careta. Depois que saí
daquela casa, comecei a melhorar um pouco, vi com mais clareza que meu pai, Phil, não tinha culpa
do que acontecera entre mim e Lauren ao longo de todos aqueles anos. O problema em abandonar a
raiva que eu tinha dele foi que me vi obrigado a aceitar a responsabilidade pelo que acontecera. A
culpa enorme que senti me fez entrar em outra espiral de depressão, na qual eu ainda estava quando
aterrissei no hospital.
Evie assente com a cabeça e me observa com atenção.
– Você não é próximo da sua mãe?
A escolha de palavras dela quase me faz engasgar.
– Próximo? – Se ao menos ela soubesse quanto nós éramos próximos... Respondo com
dificuldade: – Não.
Forço a minha mente a voltar à conversa que estávamos tendo antes de começarmos a falar de
Phil e Lauren.
– Quero pagar os seus estudos, Evie.
Ela me encara surpresa... e tensa.
– O quê? Por que você faria isso? – Oh, oh, território hostil.
Eu me policio para ir com mais cuidado. Obviamente Evie não gostou da ideia. E não a culpo...
eu também teria ficado irritado com a ideia de aceitar a caridade de alguém, em qualquer momento

da minha vida. Mas quero que ela saiba que o que quer que eu lhe ofereça jamais será caridade.
Quero que Evie tenha consciência de que me preocupo com ela e de que farei o que for preciso para
realizar seus sonhos. Não porque sinta pena dela, mas porque a considero uma pessoa incrível.
– Porque acredito em você. Porque acho que é inteligente e que só precisa de um empurrãozinho
para realizar seus sonhos.
Uma lembrança me assalta de repente. De um Natal, quando eu tinha 11 anos, pouco antes de ser
mandado para o primeiro lar adotivo. O Natal era como qualquer outro dia infeliz na nossa casa –
sem árvore, sem presentes, nada – mas eu sabia que dia era, e isso me deixava furioso. Por isso, saí
de casa e fiquei andando por algum tempo pela rua, só para não continuar lá dentro. Fazia isso
sempre que podia, desde que soubesse que Seth ficaria seguro nesse período. Quando voltei, havia
um saco de lixo preto, fechado com um laço vermelho, na escada da minha casa. Eu o abri, sem
entender direito, e dentro encontrei uma bola de futebol e um cachorro de pelúcia com suéter
vermelho. Não tinha ideia de quem havia deixado aquilo ali, mas, para a minha cabeça de menino, foi
como mágica. Eu sabia que a bola de futebol provavelmente era para mim e o cachorro, para Seth,
mas algo em mim quis aquele cachorro, por isso dei a bola para Seth, embora imaginasse que o
cachorro seria muito mais adequado a uma criança menor. Por outro lado, Seth ficaria igualmente
feliz com um ou com outro, então escolhi o cachorro para mim. Jamais admitiria isso para ninguém –
sobretudo para o meu pai –, mas a verdade era que eu amava aquele cachorro.
Quando fui para o lar adotivo, levei o cachorro de pelúcia comigo e o mantive escondido
embaixo da cama. Só o tirava de lá para dormir comigo. Uns dois meses mais tarde, estava no
mercado com a mulher que era responsável pelo lar e vi um cartaz na frente da loja pedindo
voluntários para entregar presentes de Natal para crianças pobres. Quando olhei mais de perto, vi
fotos de voluntários do ano anterior, deixando sacos de lixo pretos, fechados com laços vermelhos,
nos degraus de entrada das casas. Algo em mim se partiu, queimou e então murchou. A vergonha e o
profundo desapontamento que me invadiram foram tão intensos que quase comecei a chorar como um
bebê. Não era mágica. Era caridade. A questão era que, no fundo, eu sempre soubera que não era
mágica, mas até aquele momento podia fingir que não sabia. A partir de então, eu tinha a prova bem à
minha frente, naquele cartaz. Eu me odiei por me sentir tão magoado.
Quando cheguei em casa, peguei o cachorro de pelúcia, levei-o até o terreno vizinho à casa onde
Evie morava e comecei a jogar pedras nele. Quando Evie saiu e me viu, segurou meu braço e me
perguntou o que eu estava fazendo, com uma expressão confusa e preocupada no rosto,
provavelmente por causa do que via no meu. Contei a história com a voz embargada, balbuciando
sobre caridade, mágica e mentiras, ainda atirando pedras. Evie ficou parada me encarando em
silêncio por vários minutos, então pegou uma pedra também. Ela a atirou naquele cachorro de
pelúcia, atingindo-o bem na cabeça. Nós nos entreolhamos, batemos palmas e continuamos a jogar
pedras até não sobrar nada além de uma pilha de enchimento daquele brinquedo idiota. Evie passou
os braços pelo meu pescoço e me segurou com força. Ela fez com que eu me sentisse melhor naquele
dia. Evie sempre fazia com que eu me sentisse melhor.
Volto a mim bem na hora em que ela está balançando ligeiramente a cabeça, rejeitando a minha
oferta de pagar a faculdade dela.

– Jake, escute, essa é uma oferta muito gentil, mas trabalhei muito para chegar aonde estou. Sei
que, para você, minha vida não parece uma história muito bem-sucedida, mas estou indo bem e vou
dar um jeito de voltar a estudar em algum momento... Veja bem, acabamos de começar a dormir
juntos e não sei exatamente como essas coisas funcionam, mas talvez devêssemos esperar para ver o
rumo que essa história toma antes de você começar a me oferecer grandes somas de dinheiro.
Entendo que é difícil aceitar coisas das outras pessoas quando crescemos da forma como nós
dois crescemos, mas o comentário dela sobre termos acabado de começar a dormir juntos me
incomoda.
– Antes de mais nada, acredito que já tenha deixado claro que, sim, eu acho que você tem uma
história de grande sucesso. E, em segundo lugar, preciso mesmo lembrar o que me disse na cama,
menos de 24 horas atrás, Evie?
Ela parece confusa.
– Hã...
– Você me disse que era minha, Evie. O que temos não é só sexo por diversão. Não é casual para
mim. Achei que havia deixado isso bem claro.
– E daí? Você é o que agora? Meu namorado ou algo do tipo?
Sim, exatamente.
– Namorado, homem, amante, dê o nome que quiser, mas isso significa que vamos cuidar um do
outro dentro e fora do quarto. E, para mim, parte desse cuidado envolve lhe dar o dinheiro necessário
para que realize seus sonhos.
Espero que isso tenha deixado as coisas bem claras para ela. Percebo que tenho uma tendência a
atitudes dominadoras em relação a Evie. Não sei bem como funcionará essa dinâmica entre nós, mas
sempre foi assim e, de algum modo, isso sempre pareceu acalmar tanto a mim quanto a ela. Tenho
necessidade de estar no controle e talvez ela tenha necessidade de ceder o controle a alguém. Seja
como for, deu certo para nós antes e me pego voltando àquele modo de ser agora, principalmente
porque preciso que ela me escute.
– Ao menos pense a respeito, está certo?
Evie me encara por um longo momento.
– Está bem.
– Ótimo.
Comemos em silêncio por algum tempo até que outro pensamento me ocorre. E já que estou
assumindo o controle...
– Você também precisa começar a tomar algum tipo de contraceptivo. Não quero usar camisinha
com você.
Ela parece ter sido pega de surpresa, mas logo diz em voz baixa:
– Já tomo pílula anticoncepcional. Minha menstruação é irregular e a pílula me ajuda a controlar.
Tomo há anos.
Na verdade, eu me lembro disso. Lembro de Evie indo à enfermaria da escola todo mês, pálida
como um fantasma.
– Muito bem, ótimo. Agora termine seu jantar.

Ela fica em silêncio por um instante e volta a falar:
– Hã, Jake, se não vamos usar camisinha, acho que deveria perguntar...
– Estou limpo. Sempre usei camisinha e faço exames regulares. Posso mostrá-los a você, se
quiser.
Graças a Deus sempre me preocupei com isso. Fui criado em um lar onde não era querido por
ninguém; jamais correria o risco de provocar uma gravidez indesejada. Jamais. Mesmo assim, sinto
uma onda de vergonha me dominar quando penso que já dormi com outras mulheres.
Ela está em silêncio, me avaliando, e me pergunto o que estará pensando. Por fim, Evie estende a
mão por sobre a mesa e pega a minha.
– Não, eu confio em você.
Solto o ar, profundamente aliviado. Sorrio para os olhos castanhos confiantes.
Levo Evie para casa depois do jantar e nos beijamos por alguns minutos no carro, antes de eu
estacionar para levá-la até a porta, murmurando:
– Isso está me matando...
Tenho vontade de rugir de frustração. Evie me beija uma última vez na porta do prédio, então
entra e me dá um sorriso por sobre o ombro. Não consigo evitar um sorriso também, embora não
esteja nada feliz por voltar para casa sozinho.

capítulo 19

olto morto de cansaço para o meu quarto depois da fisioterapia, mas é uma sensação boa.
Todos os músculos do meu corpo foram trabalhados e hoje posso sentir a diferença. Me sinto mais
forte e confiante, embora ainda longe do normal. No entanto, pela primeira vez, acredito que
tenho de volta um pouco do que já fui fisicamente.
Fui transferido para a ala de reabilitação do hospital alguns dias atrás e sei que isso significa
que já não ficarei muito tempo aqui. Essa ideia tanto me deixa ansioso para ir embora quanto me
apavora. Este lugar se tornou uma espécie de zona de segurança para mim.
Encaro meu reflexo no espelho quando entro no banheiro do quarto. Agora já estou
acostumado às pequenas mudanças que as cirurgias fizeram no meu rosto. São bem sutis, verdade
seja dita, mas me pergunto se essas mudanças, junto com todas as outras coisas que estão
diferentes em mim, tornarão difícil que Evie me reconheça de pronto. Me pergunto quanto ela
mudou ao longo desses anos.
Tomo um banho de chuveiro longo e quente e, quando estou saindo do banheiro, o Dr. Fox
entra no quarto.
– Olá, Doutor – cumprimento-o, sorrindo.
Ele também sorri e se senta na cadeira habitual.
– Como vai, garoto? Como foi a fisioterapia?
– Foi ótima. Se melhorar demais, vão me expulsar daqui – brinco.
O Dr. Fox sorri de novo, mas parece pensativo.
– E como estão indo os planos de mudança?
– Bem. Já providenciei um apartamento no centro de Cincinnati e Preston está arrumando
uma sala para mim no escritório.
– Muito bem, garoto. E Evie?
– Vou procurar por ela assim que chegar lá. Eu só... não estou pronto ainda. Não sei o que vou
dizer, como vou contar a ela o que aconteceu...
Passo a mão pelo cabelo molhado, o cenho franzido.
– Falando sobre tudo isso, filho, hoje quero conversar com você sobre algo que talvez seja um
pouco fora do meu âmbito normal de terapia.
Ele franze a testa e fica em silêncio por um instante. Espero até que fale. Estou certo de que
sei o que ele está prestes a dizer. Contei tudo sobre Lauren ao Dr. Fox na sessão logo depois do
meu ataque. Foi difícil, mas eu sabia que ele já havia imaginado grande parte do que acontecera
baseado no que vira no dia em que entrou no meu quarto e Lauren estava lá e também no que eu
dissera enquanto destruía o quarto.
– Acho que você precisa dar queixa de Lauren à polícia.

– Não.
– Por que não?
– Bem, em primeiro lugar, porque o crime já prescreveu. Não iria dar certo. Pesquisei a
respeito uma vez, como uma forma de tentar que Lauren... ficasse longe de mim. Em segundo
lugar, eu não faria isso à empresa de Phil... do meu pai. O senhor sabe o tipo de repercussão que
isso traria? Principalmente agora, que estou à frente da empresa... Qualquer coisa associada ao
meu nome também será associada ao nome da companhia. A mídia transformaria toda aquela
podridão em uma novela. Phil trabalhou a vida toda para tornar a empresa o que ela é. Foi o
sonho dele. Depois de tudo o que lhe fiz, não conseguiria me perdoar se também fizesse isso, sujar
o nome dele. Porque seria exatamente isso que a mídia faria, embora Phil não tenha tido nada a
ver com o que aconteceu. Não foi apenas Lauren que me adotou. Se o caráter dela for
questionado, o dele também será, com justiça ou não. Não vou fazer isso.
O Dr. Fox fica em silêncio, pensando no que eu disse. Então volta a falar em um tom calmo.
– Não sei se você entende que o que aconteceu com você não foi um caso de sedução de menor.
Não sei se percebe que aquela... mulher o adotou, um garoto traumatizado pelo que havia passado
no sistema do serviço social, na intenção de molestá-lo. Compreende isso? Entende a doença, a
perversão disso? Essa mulher lhe prometeu esperança e, então, através de seus atos doentios,
apenas reforçou a mensagem de que você não merecia ser amado e cuidado. Compreende que o
crime dela vai além de sedução de menor?
Desvio o olhar para a janela. Ele está certo. A essa altura, não tenho dúvidas de que Lauren
me levou para casa quando eu tinha 15 anos apenas para começar um relacionamento sexual
comigo. Sei porque ela me contou. Mas o que está feito está feito. Pedir uma investigação
criminal contra ela não desfará o que aconteceu.
– Mesmo assim, não. Não farei isso com o meu pai. É uma decisão definitiva. Não posso fazer
isso com o meu pai.
– Jake, em relação a que exatamente você carrega tanta culpa no que se refere ao seu pai?
Dou uma risada sem humor.
– Ora, trepar com a esposa dele não foi muito legal.
– Não é muito inteligente ficar desviando do assunto. E não foi isso que aconteceu. Uma
mulher mais velha que acolheu você na casa dela o manipulou. Você foi...
– Está certo, Doutor. Eu entendi. Estou elaborando isso, está bem? Conversamos a respeito na
última sessão. Estou tentando abandonar um pouco da culpa que sinto. Não toda. Não farei isso,
não importa o que o senhor diga. Mas parte dela, sim. O bastante para que eu seja capaz de me
perdoar, certo? No que diz respeito ao meu pai, ele sempre foi bom para mim e eu não apenas
trepei com a mulher dele pelas costas por três anos, como o tratei muito mal. Eu me sentia tão
furioso com os dois... achava que meu pai talvez soubesse de tudo e houvesse deixado Lauren
fazer o joguinho dela comigo. Ou talvez eu tenha apenas me convencido disso para poder odiar
outra pessoa, culpar outra pessoa. Mas, no fim, nosso segredo o matou. Meu pai morreu por
minha causa. Minha e de Lauren.
– Garoto, seu pai mudou o testamento para deixar a empresa para você, a mesma empresa que

você acaba de me dizer que era o sonho dele, o fruto de toda uma vida de trabalho. Seu pai deixou
essa herança apenas para você. Não acha que isso diz muito?
Passo a mão novamente pelo cabelo.
– Sim, imagino que sim. Mas também reforça a minha decisão de concentrar as minhas
energias em deixar meu pai orgulhoso do modo como estou cuidando do presente que ele me deu.
– Isso quer dizer que você vai simplesmente deixar Lauren se safar depois do que fez? Ainda
que ela continue a assediá-lo?
– Vou me mudar para outra cidade, Doutor.
– Pessoas obcecadas por alguém não costumam deixar que isso as detenha.
Fico em silêncio por algum tempo, olhando pela janela, pensando no que o Dr. Fox está me
dizendo.
– Posso lhe falar um pouco sobre o lado psicológico de uma mulher que faz o que ela fez?
Suspiro.
– Se acha necessário. Não vai mudar nada, mas eu o ouvirei.
O Dr. Fox volta a ficar em silêncio por algum tempo.
– A maior parte das mulheres mais velhas que se envolvem em sexo com rapazes adolescentes
tem um retardo no desenvolvimento. Psicologicamente, elas se veem como adolescentes, portanto
não sentem culpa pelo relacionamento. E costumam justificá-lo dizendo que é amor. Elas são
doentes, Jake. Muito doentes.
Isso me soa bastante familiar. Ele continua:
– Vítimas masculinas de abuso podem mostrar o mesmo sintoma que as vítimas femininas.
Depressão, ansiedade, atitudes impulsivas, problemas de relacionamento... O desequilíbrio de
poder e o fato de que o corpo costuma cooperar é muito confuso e extremamente traumático.
Ótimo, então sou um estudo de caso. Isso ainda não muda nada. Respiro fundo.
– Isso é muito interessante, mas posso lidar com Lauren agora, Doutor. Não tenho mais 15
anos.
Ele suspira, parecendo aflito. Volta a ficar em silêncio e praticamente posso ouvir as
engrenagens de seu cérebro funcionando, mas não consigo imaginar o que ele pensa. Não
importa. Não vou mudar de ideia.
O Dr. Fox se levanta, pousa a mão no meu ombro e o aperta carinhosamente. Depois se vira e
caminha na direção da porta.
– Nenhuma palavra final de sabedoria, Confúcio? – brinco.
Ele se vira para mim sorrindo, mas ainda parecendo distraído.
– Sim: você está indo bem, garoto.
O Dr. Fox sai pela porta e eu grito para ele ouvir:
– Só isso? Parece frase de biscoito da sorte.
Mas não o escuto rir enquanto ele se afasta da minha porta e segue pelo corredor.

capítulo 20

Os dois dias seguintes se arrastam para mim, apesar de eu estar atolado em trabalho. Telefono para
Evie sempre que tenho uma chance entre as minhas reuniões e os dois trabalhos dela. Odeio saber
que ela continua a se deslocar de ônibus pela cidade, mas quando ofereci o motorista e o carro da
empresa, Evie recusou. Acho que se forçasse um pouco a barra ela cederia, mas sei como a
independência é importante para Evie e não quero tirar isso dela apenas para conseguir as coisas do
meu jeito. Essa não é uma montanha que estou disposto a morrer para escalar. Minha Evie está
andando de transporte público pela cidade. Não fico feliz com isso. Mas me conformo. Por enquanto.
Segunda-feira é um dia enlouquecedor. Terei um encontro com investidores em San Diego na
terça, depois um jantar beneficente que a empresa está patrocinando, então preciso me preparar para
a viagem.
O nome de Evie aparece na tela do meu celular no meio de uma reunião. Peço licença e saio para
atender no corredor.
– Oi, meu bem – digo.
– Oi. – Posso ouvir o sorriso na voz dela. – O que está fazendo?
– Estou em uma reunião...
Preston enfia a cabeça para fora da sala de reuniões e acena com uma planilha na mão. Ele faz um
sinal com o polegar para cima e pergunta, apenas mexendo os lábios: “Tudo bem?” Aceno com a
cabeça, concordando, pois sei que ele está perguntando se pode ir passando aqueles dados para o
grupo.
– Desculpe, Evie, só posso falar por um instante. Estou com saudades. Você está bem?
– Sim, estou bem. Também sinto saudades de você.
– Minha cama tem estado tão fria... e não há nada pra me aconchegar, nenhum cheiro bom pra
sentir.
Ela ri.
– Talvez você deva levar uma fornada de biscoitos quentes para a cama.
– Hummm... pervertida. Teremos que experimentar isso.
Evie ri de novo.
– Muito bem, Jake, sei que você precisa voltar para o trabalho. Ligarei para você na terça à
noite, quando voltar para casa, está certo?
– Vou ficar esperando. Tchau, meu bem.
– Tchau.
Volto para a reunião sorrindo e me perguntando como vivi sem ela por todos esses anos. Como
consegui? Então percebo que, na verdade, eu não estava vivendo. Estava existindo. Colocando um pé

na frente do outro e apenas seguindo em frente. Nos melhores dias, entorpecido. Nos piores, infeliz.

Sigo para o escritório de San Diego na terça. Sobrevoar o mar sempre me lembra de Evie e da
primeira vez que fui de avião pra a Califórnia. Eu estava com a garganta apertada, um choro travado
que passou as cinco horas de viagem ameaçando se derramar. Já sentia uma saudade desesperada
dela. Mas também estava cheio de uma esperança que nunca tivera... a esperança de fazer parte de
uma família, de ter pessoas que ajudariam a mim e a Evie a começarmos uma vida juntos quando
chegasse a hora. Com elas, seria muito mais fácil. Afasto essas lembranças. A escuridão que paira
sobre elas não é um lugar para onde eu queira ir agora.
Passo o dia em reunião com investidores em uma sala de conferências de um hotel na baía. A
vista é de tirar o fôlego: não há nem uma nuvem no céu, o mar está reluzente e os barcos à vela
parecem pontinhos no horizonte. Mas não é o meu lar. Meu lar é onde ela está, por isso mal posso
esperar para voltar para a minha cidade do Meio-Oeste, fria e de céu cinzento – como a vejo do
avião. Sorrio para mim mesmo. Lar. Sempre pensei que lar fosse um lugar, mas, no fim das contas,
lar é uma pessoa. Lar é Evie.
Gostaria de voltar esta noite, mas tenho um jantar beneficente que a empresa está patrocinando. É
para uma organização que ajuda crianças menos privilegiadas em San Diego, uma causa importante
para Phil, pela qual ele trabalhou muito ao longo dos anos, e que talvez tenha sido a inspiração para
que ele quisesse me adotar. De qualquer modo, sinto que preciso representá-lo. Por isso, mesmo de
má vontade, visto meu smoking e parto para o evento.
Passo o tempo do coquetel conversando com alguns executivos de San Diego e, quando estou me
encaminhando para a minha mesa de jantar, vejo Gwen vindo em minha direção. Ela já tentou falar
comigo várias vezes esta noite, mas eu vinha conseguindo driblá-la. Ao que parece, o que eu lhe
disse sobre não chegar perto de mim entrou por um ouvido e saiu pelo outro. O que há comigo e
essas mulheres que não me escutam? Cerro o maxilar e torço para que ela mude de caminho. Gwen
não faz isso.
– Jake! – chama.
Me viro lentamente.
– Gwen. O que está fazendo aqui?
– Ah, mamãe não pôde vir. E papai me convenceu a acompanhá-lo.
Ela abre um sorriso enorme e cintilante. Bem nesse momento, um fotógrafo vem até nós e pede
uma foto. Considero brevemente a possibilidade de mandá-lo para o inferno, mas não quero fazer
uma cena. Assim, me inclino na direção de Gwen e digo, com um sorriso falso no rosto:
– Se estivéssemos em qualquer outro lugar que não em frente a uma câmera, em um evento da
empresa, neste exato momento você estaria me vendo caminhar na direção oposta à sua.
Gwen ri como se eu estivesse brincando. Não estou.
Assim que o flash da câmera dispara, me viro e saio caminhando na direção oposta. Depois que

eu dou alguns passos, ouço-a falar atrás de mim:
– É por causa dela, não é?
Paro e me viro lentamente.
– Dela?
Gwen está com o quadril projetado para o lado, uma das mãos pousada nele.
– A garota nas suas costas. Você não consegue esquecê-la, não é mesmo?
Olho ao redor, mas não há ninguém próximo o bastante para conseguir ouvir o que ela está
dizendo. Balanço a cabeça lentamente.
– Não. Não poderia esquecê-la. Jamais a esquecerei.
Gwen faz uma careta e cruza os braços diante do corpo.
– Ora, é bom saber que o problema não sou apenas eu.
Fico encarando-a por um instante antes de responder.
– Se isso ajudá-la a dormir de noite, que seja.
Dou as costas e me afasto.

Fico no evento só o tempo necessário para que minha saída não seja considerada grosseria. Está
cedo, mas anseio por voltar ao meu quarto de hotel e esperar a ligação de Evie. Entro no quarto, jogo
minhas coisas sobre a cômoda e começo a tirar o paletó quando escuto uma batida à porta. Quem
diabos poderia ser? Abro, achando que talvez seja a camareira com alguma pergunta, mas deparo
com Lauren.
– Jake, antes que você feche a porta na minha cara, podemos conversar por um instante?
Eu a encaro.
– Lauren, não há nada sobre o que conversar...
– Por favor. Eu só queria vê-lo por um minuto. Estou esperando no saguão do hotel há uma hora.
Por favor.
– Lauren, diga logo o que tem para dizer, de onde está. Você tem trinta segundos. E estou sendo
generoso.
Ela torce os lábios antes de começar a falar.
– Você não entende! Este é o NOSSO momento, Jake. Agora. Phil se foi e podemos ficar juntos.
Podemos ter tudo agora, Jake. Nós...
Faço uma careta e recuo um passo.
– Ah, meu Deus. Há alguma coisa muito errada com você.
Ela se adianta um passo.
– Não, a única coisa errada é eu não ter você. Jake, eu preciso...
– Você precisa de ajuda profissional. Quero que vá embora agora, Lauren. Por que acha que isso
iria funcionar?
Tento fechar a porta, mas ela a mantém aberta e se recusa a ir embora.

– Muito bem – digo por entre os dentes. – Faça como quiser. Não vou sair no braço com você na
porta do meu quarto. Vou entrar no chuveiro e TRANCAR a porta. Quando eu sair, se você não tiver
ido embora, chamarei a segurança para expulsá-la. Entendeu?
– Jake, por favor...
Mas eu caminho até o banheiro, bato a porta com força e a tranco. Fico encostado na pia por
alguns minutos, com os olhos fechados. Deus, só de ver essa mulher já me vem a lembrança de ser
um garoto fraco, de 15 anos, que perdeu completamente o controle. Passo as mãos pelo rosto e ligo o
chuveiro, deixando a água ficar o mais quente possível. Dispo o smoking e o deixo no chão. Então
entro sob a água escaldante e fico ali pelo máximo de tempo que consigo aguentar antes de sair e
secar minha pele vermelha e ardida.
Quando saio do banheiro, o quarto está vazio. Deito na cama e considero brevemente a
possibilidade de ligar para Evie, mas ela falou que iria visitar a amiga esta noite e não quero
incomodá-la. Evie disse que telefonaria quando chegasse em casa. Fecho os olhos, pois sinto que
preciso descansar por um minuto. As emoções que Lauren traz à tona sempre fazem com que eu me
sinta exausto. Quero só apagar o mundo por um instante.

Acordo assustado. Levanto de um pulo e passo a mão pelo rosto. Acho que nem sequer mudei de
posição depois que caí na cama. O relógio marca 2h58. São quase 6h em Ohio. Evie não me ligou.
Merda! Será que aconteceu alguma coisa com ela? Aquele maldito ônibus. Eu sabia que deveria ter
insistido para que ela usasse os serviços do meu motorista. Já estou apertando o número de ligação
rápida antes mesmo de me dar conta de que peguei o celular na mesa de cabeceira.
Meu coração está aos pulos enquanto o celular dela toca uma, duas, três vezes. Então, finalmente,
graças a Deus, escuto:
– Alô.
Eu obviamente a acordei. Meu coração volta ao ritmo normal, mas agora estou bravo. Por que ela
não me ligou?
– Evie.
Ela hesita.
– Oi.
Há algo errado.
– É que você não telefonou ontem à noite – digo. – Eu teria ligado para você, mas peguei no sono
enquanto esperava sua ligação. Acabei de acordar. Fiquei preocupado.
Silêncio do outro lado por um instante, até que ela diz:
– Jake, eu liguei para você. E uma mulher atendeu seu celular. Ela disse que você estava no
banho.
Percebo claramente a mágoa na voz dela. Pisco, confuso por um segundo, antes de me dar conta
do que aconteceu. Maldita Lauren!

Ela deve ter atendido o meu celular antes de sair. Maldita hora. A mentira que invento, sobre ter
recebido colegas de trabalho no quarto para alguns drinques e que uma colega deve ter atendido o
celular, faz eu me sentir um lixo pela facilidade com que sai. Mentir imediatamente é como um
reflexo no que se refere a Lauren. Passei tantos anos mantendo segredos em relação a ela... Deus,
odeio isso. Mas não estou pronto para colocar esse fardo nas costas de Evie. Eu mesmo mal consigo
aguentar ver Lauren por cinco minutos, e sei a verdade há anos. O que isso vai fazer com Evie?
Pergunto se ela está chateada comigo e Evie fica em silêncio por algum tempo.
– Se isso é verdade, Jake, então não, não estou chateada. Só não entendo por que essa mulher
atenderia o seu celular e não lhe daria o recado.
Fecho os olhos por um instante e faço uma careta. Me odeio nesse momento.
– Também não sei, mas eles estavam bebendo, e só pode ter sido por isso. É a única justificativa
em que consigo pensar. Desculpe, meu bem. Você deve ter ficado magoada... – digo baixinho.
Não quero nem pensar no que eu teria feito se um homem atendesse o celular de Evie enquanto
ela estivesse no chuveiro. Só de pensar nisso, instintos assassinos já despertam em mim.
Ela suspira, mas diz por fim:
– Fiquei confusa, Jake. Mas está tudo certo. Se foi isso que aconteceu, então não foi culpa sua.
Eu me sinto aliviado, mas uma flecha ardente de culpa está cravada nas minhas costas. Quero
tanto lhe contar a verdade a esse respeito, mas sei que foi exatamente o que nos arruinou no passado
e que também pode nos arruinar agora.
– Estou com saudades de você. Mal posso esperar para vê-la. Ainda posso pegá-la hoje à noite,
depois do trabalho? – digo, depois de pigarrear para limpar a tensão da garganta.
– Pode. Nos veremos mais tarde então, certo?
– Certo. Evie, eu... realmente senti saudades de você. Sei que foram só alguns dias, mas estou
ansioso para vê-la.
Só quero estar perto dela. Essa necessidade corre pelas minhas veias.
– Eu também, Jake. Nos vemos à noite – diz ela, a voz mais calorosa agora.
Desligo e rolo na cama. Fico olhando para o teto, imaginando se Evie será capaz de me perdoar
quando souber a verdade.

Os assuntos da minha reunião matinal são resolvidos rapidamente e consigo embarcar num voo para
Cincinnati uma hora mais cedo do que eu esperava. Depois de pegar o carro que deixei no
estacionamento do aeroporto, tenho tempo bastante para ir ao shopping. Vou comprar um notebook
para Evie. Ela vai reclamar, mas darei o presente de qualquer modo. A necessidade de tornar a vida
de Evie melhor de todas as maneiras que eu puder está me queimando por dentro. Talvez seja uma
premonição de que minha participação na vida dela é temporária. Espero em Deus que não, pois só
de pensar nisso meu estômago reage, em pânico. Eu lutaria contra isso com unhas e dentes, mas se
esse cenário inimaginável na verdade acontecer, vou saber que fiz o possível para deixá-la

preparada para tornar os próprios sonhos realidade.
Deixo o computador no meu apartamento e vou buscar Evie no trabalho. Espero do lado de fora
do carro e, quando ela sai e me vê, para de repente e um lindo sorriso se abre em seu rosto. Meu
corpo inteiro relaxa. Na verdade, até vê-la eu não havia me dado conta de quanto estava tenso. Agora
minha pulsação está forte e estável na presença dela.
– Oi – diz Evie.
– Oi – respondo, ainda com um sorriso pateta no rosto.
Nós dois caímos na risada e não resisto mais nem um minuto a ficar sem tocá-la. Giro com ela
nos braços e inspiro seu perfume.
– Nossa, como eu estava com saudades! Do seu sorriso... – enfio o nariz na curva doce do
pescoço dela –, do seu cheiro, do seu corpo junto ao meu...
– Também estava com saudades – sussurra Evie.
– Está com fome?
– Sim, faminta.
– Gosta de comida japonesa? – pergunto.
– Gosto de comida japonesa, sim, mas não posso sair para jantar usando o uniforme...
– Que tal pedirmos pra viagem e comermos em casa?
– Acho ótimo.
Dirijo até um pequeno restaurante japonês e entro para comprar o jantar enquanto Evie espera
por mim no carro.
Quando chegamos ao meu apartamento, Evie para de repente, pois logo vê o MacBook que deixei
aberto sobre a mesa de jantar, com um laço vermelho no topo.
Meu coração acelera no peito quando a vejo aproximar-se do computador e, por fim, levantar os
olhos para mim com uma expressão cautelosa no rosto.
– Jake, você não...
– Evie – digo, levantando a mão em um gesto de “fique quieta” –, não fale nada até escutar o que
eu tenho a dizer. Sei que seu primeiro pensamento é não aceitar o presente, mas, por favor, me
escute.
Ela ergue uma das sobrancelhas, mas não diz nada.
– Quero fazer isso, mas não só por sua causa. É que acho você tão incrível que acredito que, ao
tornar os seus sonhos realidade, isso fará com que o seu jeito de ser se amplie, mudando não só a sua
vida, mas também a minha e a de muitas, muitas outras pessoas. Por favor, deixe-me fazer isso por
você, Evie, e por todas as pessoas que terão suas vidas transformadas quando lerem as lindas
palavras que você guarda na alma.
Ela respira fundo, os olhos marejados, e diz com uma risadinha:
– Sem pressão, certo?
Quando Evie se volta para o computador e começa a examiná-lo, sei que ela vai aceitar o
presente. Não consigo conter o sorriso que se abre em meu rosto.
– Você torna muito, muito difícil eu lhe dizer não. Sabe disso, Jake Madsen?
Evie respira fundo e compreendo o que está sentindo. Já passei pela mesma situação. Receber

presentes de quem tem mais do que nós pode ser um golpe na autoestima. Torço muito para que o fato
de ela aceitar esse meu presente signifique que entende quanto me dá em retorno. Não
financeiramente, é óbvio, mas de todas as outras maneiras que realmente importam. Ela me faz feliz.
Incrivelmente feliz. E isso vale todos os MacBooks da Apple.
– Obrigada – diz Evie por fim, olhando nos meus olhos.
E é tudo de que preciso para sorrir.

É uma noite fria, por isso acendo a lareira a gás, sirvo vinho para nós e deixo as taças sobre a mesa
de centro. Estendo uma manta no chão e disponho nela os nossos pratos.
– Piquenique de sushi? – pergunta Evie, sorrindo e se acomodando no chão.
– Sim. Quando comer sushi, faça como os japoneses.
Sorrio e me ajoelho sobre a manta, diante dela. Junto as palmas das mãos em frente ao rosto e me
inclino levemente para a frente. Evie ri e se inclina também. Pego nossas taças e entrego uma a ela.
– Vamos brindar a quê? – pergunta Evie.
Penso por um instante.
– Aos sonhos – respondo, tocando o copo no dela.
Evie toma um gole e diz:
– Obrigada mais uma vez pelo notebook, Jake.
Apenas sorrio para ela. Não era a esse sonho que eu estava me referindo, mas deixo que pense
assim.
Abro todas as embalagens de comida – comprei um pouco de cada coisa, já que ela pediu que a
surpreendesse com os pratos. Evie pega os hashis e eu abro uma embalagem que guarda um garfo de
plástico.
– Como assim, Jake? – provoca ela, inclinando a cabeça na direção do meu garfo. – Quando
comer sushi, coma como os japoneses.
– Não como com hashis. Quero conseguir colocar a comida na boca.
Evie franze o cenho.
– Ah, o que é isso... O que é mais fácil do que pegar uma peça grande de sushi com eles? Você
não está tentando pegar pequenos grãos de arroz, um de cada vez. Olhe.
Ela estende os hashis, pega uma peça com maestria e leva à boca.
Olho para a comida à nossa frente, então pouso o garfo e suspiro. Pego meus hashis, separo-os e
os ajeito nos dedos. Estendo a mão, posiciono uma peça de sushi entre os malditos palitinhos e os
trago na direção do rosto. A poucos centímetros da minha boca, o sushi cai entre as minhas pernas.
Encaro a cena de cenho franzido e escuto Evie rir e resfolegar de um modo nada sutil.
– Ah, achou engraçado, é?
Ela está de olhos baixos, obviamente contendo uma risada, enquanto pega outra peça de sushi
com os próprios hashis e os coloca na boca. Evie mastiga e engole o sushi antes de dizer:

– Nãããão, não foi nada engraçado. Só precisa de um pouco de prática. Tente de novo.
Encaro-a com um falso olhar zangado, mas pego novamente os hashis e, dessa vez, tento pegar
uma peça de tempura de camarão. Estou a meio caminho entre a embalagem da comida e a minha
boca aberta quando o camarão também cai no meu colo.
Evie deixa escapar uma gargalhada.
– Muito bem, chega. Vou usar o garfo.
Recolho a comida que caiu no meu colo, notando as manchas que deixaram na calça do terno, e
jogo tudo em um guardanapo que está perto das embalagens.
– Ora, vamos, deve dar azar comer comida japonesa com garfo. Muito bem, se você não vai
comer com os hashis, eu mesma vou alimentá-lo. Abra a boca.
Ela pega outra peça de um rolinho com alga e levanta na minha direção. Abro a boca e ela me
alimenta, os olhos colados nos meus lábios. Meu coração acelera.
Evie ergue os olhos para encontrar os meus e vejo o desejo estampado ali. Em poucos instantes a
atmosfera na sala muda, fica densa, elétrica. Evie baixa os olhos rapidamente, pega um pedaço de
camarão e também leva à minha boca. Dessa vez, ela se demora com os hashis sobre os meus lábios,
deslizando-os lentamente por eles depois que eu já peguei a comida. Sinto uma onda de excitação
descer pelo meu ventre. Quem poderia imaginar que comer sushi poderia ser tão sexy?
Evie me dá mais várias peças de comida, então come algumas também, enquanto a observo
mastigando. É extremamente erótico manter meus olhos concentrados naquela boca bonita e não
consigo evitar me inclinar para a frente e saborear os lábios dela.
– Você está com um gosto salgado. De molho de soja – digo, sorrindo encostado na boca de Evie.
– Doce e salgado.
– Humm... – murmura ela, sorrindo também e se inclinando para a frente, pedindo mais.
Lambemos e saboreamos a boca um do outro por algum tempo, até que me afasto, fico de joelhos
e contorno os pratos para chegar até onde ela está ajoelhada. Pego-a pela mão e levo-a até a lareira,
a certa distância do piquenique de sushi. Podemos terminar de comer daqui a pouco. No momento,
estou com fome de outra coisa.
Eu me inclino na direção de Evie e a beijo com delicadeza, antes de me afastar e abrir o zíper do
vestido do uniforme dela. Nenhum de nós se deu o trabalho de trocar de roupa. Meus olhos estão
presos aos de Evie enquanto corro o vestido pelos ombros dela. Seus olhos escuros estão muito
abertos, buscando os meus. Ela sorri com carinho, como se estivesse feliz com o que vê refletido nos
meus.
Desço as alças do sutiã de Evie pelos braços e estendo a mão até as costas dela para abri-lo.
Beijo seu pescoço no caminho e volto a me afastar. Evie suspira de prazer.
– Você é tão linda...
Ela baixa os olhos, tímida.
– Você acha?
– Sim. Eu acho.
Seguro o rosto de Evie entre as mãos e volto a beijá-la, deslizando a língua para dentro de sua
boca, aprofundando o beijo até ofegarmos para nos afastar.

Quando Evie pousa a mão sobre a minha ereção, deixo o ar escapar em um arquejo. Olho nos
olhos dela e o desejo neles me enlouquece.
Evie se levanta e deixa o vestido cair no chão. Ela não está usando nada agora além da calcinha
de algodão branco com bordas de renda. A calcinha é tão pura e ao mesmo tempo tão sexy que, por
incrível que pareça, me pego ainda mais rígido. Ela se vira e começa a se afastar.
– Aonde você vai?
Evie me olha por sobre o ombro com um risinho no rosto.
– Acabo de lembrar que preciso ir a um lugar. Vejo você por aí?
Dou uma risadinha quando a vejo apagar a luz e voltar na minha direção. Evie se ajoelha à minha
frente e pousa a mão no meu rosto. Eu me inclino na direção dela.
– Queria que fôssemos só você, eu e a luz do fogo – sussurra ela.
Balanço a cabeça, assentindo, e volto a me inclinar para beijá-la. Não consigo me saciar da boca
de Evie. Não consigo me saciar de Evie.
Desabotoo a camisa, tiro-a e a jogo de lado. A luz tremeluzente do fogo da lareira faz as sombras
dançarem ao nosso redor, criando a sensação de estarmos sozinhos em outro mundo.
Deito de lado no tapete e Evie faz o mesmo, encarando-me. Nossas testas estão coladas e
continuamos a nos beijar, o fogo atrás dela.
Levo a mão a um dos seios dela e acaricio, provoco o mamilo rígido até Evie gemer e começar a
roçar a parte de baixo do corpo contra a minha.
Me afasto quando sinto que ela está desabotoando a minha calça e fico de costas para conseguir
tirá-la e jogá-la para o lado, enquanto Evie também tira a calcinha. Voltamos a nos deitar de frente
um para o outro, agora completamente nus.
Ficamos nos encarando em silêncio por um longo tempo e percebo a expressão terna e linda que
surge no rosto dela. Evie volta a pousar a mão no meu rosto e traça o desenho dos meus lábios com o
polegar.
– Posso lhe perguntar uma coisa? – sussurra ela.
Aceno com a cabeça, concordando.
– Você disse que nunca teve um relacionamento sério com ninguém. – Ela faz uma pausa. – Por
que eu?
Encaro-a querendo muito lhe contar todas as razões pelas quais nunca amarei mais ninguém além
dela. Mas sei que não posso... ainda.
– Porque você é tudo o que eu sempre quis – sussurro. – Porque, para mim, você é perfeita.
Evie fica me olhando em silêncio por mais algum tempo, antes de sorrir e perguntar em um
murmúrio:
– Mesmo com essa verruga que tenho no ombro?
Baixo os olhos e mal consigo ver a minúscula verruga, bonitinha, para a qual ela aponta sob a luz
fraca.
– Principalmente com essa verruguinha. Estava na dúvida a seu respeito antes de vê-la. Essa
verruguinha foi definitiva para que eu me decidisse por você.
Evie ri baixinho.

– Está certo, que bom. Obrigada, verruguinha.
Sorrio e volto a colar os lábios nos dela. Levo a mão até onde os nossos corpos se unem e
deslizo o dedo entre as pernas de Evie. Ah, ela está tão úmida... Deixo um gemido escapar dentro do
beijo e Evie pressiona o corpo contra o meu, querendo mais da minha mão. Introduzo o dedo mais
fundo no calor úmido e uso o polegar para roçar suavemente o clitóris inchado. Ela se sobressalta um
pouco e agora é sua vez de gemer dentro do beijo.
Evie leva a mão ao meu pênis, que está duro como pedra, e a desliza delicadamente para cima e
para baixo. Tento afastar a mão dela com um gemido:
– Evie...
Mas ela continua a me acariciar. Nós nos encaramos, os olhos dela cheios de desejo, os lábios
entreabertos, enquanto nossas mãos dão prazer um ao outro por um longo tempo. Observamos nossas
expressões se transformarem conforme ficamos ainda mais excitados. É um momento íntimo e intenso
e já posso sentir o orgasmo crescendo em mim. Fecho os olhos e enrijeço os músculos até perceber
que vou conseguir controlá-lo por mais algum tempo. Não muito.
– Jake – diz Evie em um arquejo –, estou quase gozando... e quero fazer isso com você dentro de
mim.
Ela então aperta levemente o meu pênis e, com o polegar, esfrega o líquido que escorre da ponta.
– Ahhhhhh.
– Isso significa “Está certo, Evie?” – pergunta ela, rindo baixinho.
– Sim – respondo.
Afasto a mão do meio das coxas dela e passo uma de suas pernas por cima do meu quadril,
deixando-a ainda mais perto de mim.
Levanto um pouco o corpo sobre o dela para me posicionar em sua fenda e a penetro. A coxa
quente de Evie me envolve e a sensação de possuí-la é indescritível. Tenho medo de me mover. Mas
meu corpo aparentemente não tem, pois meu quadril começa a arremeter quase que por vontade
própria.
– Ah, Deus, meu bem, é tão bom estar dentro de você... – digo em um gemido.
Ela também geme e me agarra com mais força. Nós nos movemos juntos, gemendo, arquejando e
observando o rosto um do outro sob a luz do fogo. Há algo primitivo e lindo em fazer amor ao brilho
das chamas, como se pudéssemos estar em outra era, onde só existíssemos ela e eu, colados nessa
dança de paixão atemporal.
Conforme a respiração de Evie se acelera, levo a mão ao meio de suas pernas de novo e roço o
dedo por seu clitóris. Estou por um fio e preciso que ela goze.
Depois de apenas alguns segundos, Evie arqueia o corpo e o pressiona mais contra mim,
arquejante, enquanto o orgasmo a domina. Eu a observo e seus espasmos ao redor do meu pênis me
levam ao meu limite. Me derramo dentro dela enquanto uma onda de prazer se segue a outra. Estamos
gozando juntos.

Depois de nos limparmos e trocarmos de roupa, terminamos de jantar. A comida parece ainda mais
saborosa agora, depois de nosso rápido exercício físico. Evie até permite que eu use o garfo.
Recolhemos nosso piquenique e eu me sento no sofá, onde fico mudando os canais da TV. Estou
me sentindo saciado e feliz e um pouco de bobagem na televisão me parece uma boa ideia.
Evie liga o notebook e se senta à mesa de jantar.
– Brincando um pouco? Já usou um Mac? – pergunto, olhando por sobre o ombro.
– Não, mas sempre fui boa com computadores. Devo pegar o jeito logo.
Eu me envolvo com o programa de TV, um noticiário falando sobre uma mulher desaparecida e...
O som do notebook de Evie sendo fechado com força me arranca do programa e me viro para ela,
que está muito pálida. Eu me levanto no mesmo instante.
– Qual é o problema, meu bem? – pergunto. Merda, o que aconteceu?
Ela me ignora, caminha até a porta e começa a calçar os sapatos.
Que diabos está acontecendo?
– Evie! O que aconteceu? Por que está indo embora?
Meu coração está disparado.
– Aquela mulher no seu quarto ontem à noite era Gwen, não era, Jake?
– O quê? – Não estou entendendo nada. De onde ela tirou isso? Minha mente volta à mentira que
lhe contei depois que Lauren atendeu meu celular. – Não. É claro que não. Você acha que eu
convidaria Gwen para o meu quarto no hotel para tomar um drinque depois do modo como ela tratou
você?
– Bem, não estou achando que você a levou ao seu quarto para tomar um drinque, Jake. Mas
você parecia muito satisfeito sussurrando no ouvido dela nas fotos do evento beneficente de ontem à
noite.
Levo alguns segundos para ligar os pontos. Ah, Deus, ela jogou meu nome no Google e viu aquela
maldita foto de mim e Gwen no jantar em San Diego. Maldito Google. Como Gwen consegue ficar se
colocando entre mim e Evie? É tão absurdo que eu riria se Evie não estivesse com uma expressão tão
magoada no rosto.
– Evie, foi um evento beneficente patrocinado pela minha empresa. Gwen estava lá com o pai.
Ela tentou conversar comigo várias vezes e eu não lhe dei atenção. Quando ela me encurralou na
frente de um fotógrafo, me inclinei no ouvido dela e disse que ela tinha sorte por eu não ser do tipo
que gosta de deixar seu desprezo registrado em fotos. Gwen riu, como se eu estivesse brincando, mas
eu não estava. Foi isso. Não falei mais com ela durante o resto da noite.
Evie já está no corredor do prédio e apenas continua a me encarar, examinando meu rosto. Por
fim, respira fundo e diz:
– Quero acreditar em você, Jake, só não quero que...
– Evie, escute... Meu Deus, se você soubesse...
Deixo escapar uma risada sem humor.
– Se eu soubesse o quê?
– Se você soubesse quanto é absurdo você achar que eu trairia você com qualquer pessoa, ainda
mais com Gwen! Sinceramente, se você pudesse entrar na minha cabeça, também estaria rindo.

– Jake...
– Por favor, apenas confie em mim. Por favor, não vá embora.
Ela continua a examinar meu rosto, até que finalmente dá um breve aceno com a cabeça. Solto o
ar e a levo de volta para dentro de casa. No caminho, jogo seu casaco no banco do hall de entrada.

capítulo 21

Evie vai trabalhar para o bufê na próxima noite e me avisa que pegará uma carona de volta para
casa quando terminar. Eu a quero na minha casa, comigo, mas estou tentando me controlar para
deixar que ela se sinta confortável em nosso relacionamento tão “recente”. Isso é difícil para mim,
porque acho que estou muito mais envolvido emocionalmente do que ela. No entanto, às vezes vejo
uma expressão no rosto de Evie que me diz que seus sentimentos por mim são bem mais intensos do
que seria de esperar em uma relação de tão pouco tempo. Me pergunto se ela estranha isso. Se ela se
questiona a respeito. No entanto, Evie não tem muita experiência com relacionamentos, por isso
talvez não estranhe.
Ao fim de uma reunião naquele dia, Preston me puxa de lado, uma expressão preocupada no
rosto.
– O que houve? Está tudo bem? – pergunto.
– Bem, sim, mas acho que você deveria saber que Lauren tem telefonado para o conselho. Ela
vem pedindo uma reunião, mas não diz o motivo.
Ah, merda.
Fico em silêncio por um instante, imaginando o que ela poderia querer com o conselho diretor da
empresa e me perguntando se está fazendo isso apenas porque a chutei para fora do meu quarto no
hotel algumas noites atrás. Será que essa é a nova tática para me assediar? Tenho a maior parte das
ações, portanto não há muito que Lauren possa fazer de fato. Mas como sou o presidente do conselho,
não farei parte da reunião e só saberei o que ela quer depois de terminado o encontro.
– Está certo. Bem, obrigado por me avisar, Preston. Lamento que o meu drama familiar afete a
empresa.
– Isso não está acontecendo. A empresa vai muito bem. É com você que estou preocupado.
Ele fica em silêncio por um instante, olhando para mim como se avaliasse se deve ou não
continuar.
– Você sabe que trabalhei muito próximo do seu pai. Quando o visitei no hospital depois que ele
teve o ataque cardíaco, Phil obviamente não sabia que você teria que assumir a empresa tão rápido,
mas ele deixou muito, muito claro que, quando esse momento chegasse, não queria que Lauren tivesse
nada a ver com este lugar. Phil me pediu, caso chegasse um momento em que eu estivesse aqui e ele
não, que eu tomasse conta de você. Espero que isso não esteja soando condescendente. Não foi nesse
tom que ele falou. Acho apenas que Phil tinha a sensação de ter falhado com você de algum modo e
quis se certificar de que você tivesse alguém ao seu lado sob qualquer circunstância no futuro.
Droga. Sinto a emoção me dominar. Mas a afasto. Lidarei com ela mais tarde.
– Obrigado, Preston. Fico muito grato mesmo...

– Não precisa me agradecer. Só quero que você saiba que estou cuidando dessa situação com o
conselho, está certo?
E, com isso, ele me dá um tapinha nas costas e se afasta.

Peço a Evie para passar a noite de sexta-feira comigo. Tenho uma ideia que espero que a deixe feliz.
Nunca tivemos a oportunidade de fazer coisas que as crianças comuns nem os jovens casais fazem –
tudo o que deveríamos ter feito só para nos divertirmos, se tivéssemos podido namorar quando
éramos jovens e despreocupados. Se houvéssemos sido jovens e despreocupados. Também vou
satisfazer um anseio de muito, muito tempo atrás. Vou comprar um vestido para Evie e levá-la para
dançar. Não irá superar aquele momento em que dancei com ela sob as estrelas em um parque vazio
– apesar de na ocasião eu estar tremendo de nervosismo e de ter pisado no pé dela, foi a melhor
dança da minha vida. Duas crianças de lares adotivos dançando juntas em um parque porque não
tinham roupas para ir a um baile. Tão triste... mas absolutamente mágico!
Minha mente volta àquela dança, tantos anos atrás, e não consigo conter um sorriso. Foi tão
desajeitado, mas ainda assim tão intenso... É uma dessas lembranças que parecem gravadas em cada
fibra do meu ser. O engraçado é que não me lembro das músicas que estavam tocando... minha
cabeça zumbia por causa da proximidade do corpo de Evie, de como era gostoso o cheiro dela, do
modo como se movia contra o meu corpo... Imagino se Evie se lembraria das músicas se eu
perguntasse. Esse é o tipo de coisa que anseio por perguntar a ela, quero que recordemos juntos.
Nossas lembranças. Algumas das poucas boas lembranças que eu tenho.
Quando abro a porta para Evie na sexta-feira, ela está linda, mas parece cansada. Ah, não. Pegoa no colo e digo que vou lhe preparar um banho, para que ela se recupere, porque vou levá-la para
dançar.
Evie reluta um pouco diante da ideia de sair para dançar, mas se rende quando conto que comprei
uma roupa para ela. Então segue na direção do quarto para ver o que escolhi, o que considero um
bom sinal.
Eu a sigo até lá e observo seus dedos percorrerem o tecido sedoso do vestido e examinar os
sapatos Jimmy Choo. A vendedora da loja de departamentos separou vários pares que combinariam
com o vestido. Quando percebi que um deles custava mais do que os 1.400 dólares dos sapatos de
Gwen em que Evie deixara cair caviar, eu o escolhi na hora. Sabia que era uma atitude mesquinha e
superficial, mas me fez sorrir saber que Evie estaria usando sapatos melhores do que aquela mimada
arrogante.
Depois de algum tempo, Evie se vira para mim com um sorriso.
– Adorei. Obrigada. Foi você mesmo que escolheu?
– Bem, a vendedora me ajudou um pouco. Mas disse a ela a cor que queria e dei uma olhada nas
roupas que você deixou aqui, para saber o tamanho.
– Azul-pavão, hein? – comenta ela, erguendo uma sobrancelha.

Dou de ombros, sorrindo.
– Gosto da cor. Só não me peça para levá-la nem perto do zoológico.
Evie ri e entra no banheiro para tomar banho.
Preparo uma massa enquanto ela se arruma. Quando Evie sai do quarto, quase começo a babar.
Nossa, ela está linda! Já vi o corpo dela e sei que é perfeito, mas esse vestido realça seus pontos
fortes – os seios atrevidos, o abdômen liso e o traseiro pequeno e firme – sem mostrar nada em
excesso.
– Você está estonteante.
Sinto um breve arrependimento de não ter escolhido aquele suéter preto bem grande que vi na
loja quando estava a caminho do setor de roupas de festa. Não sei se quero que o mundo inteiro a
veja assim.
– Obrigada. Tenho um comprador particular que está bem familiarizado com o meu corpo –
brinca ela, erguendo uma sobrancelha.
Quando Evie já está sentada, comendo, decido mostrar a camiseta que mandei fazer em um
quiosque do shopping. Tiro o pulôver de manga comprida que estou usando e me viro
despreocupadamente para Evie, de forma que ela possa ver a estampa bem na frente da camiseta,
onde está escrito Melhor do Mundo em letras pretas garrafais.
Ela quase engasga com a comida e tem que levar rapidamente o guardanapo à boca enquanto tenta
controlar o riso.
– O que foi? – pergunto em um tom inocente.
Ela aponta para a camiseta.
– Melhor o quê do mundo?
– Ah, isso? – Aponto para a camiseta. – Tudo incluído. Melhor Cara do Mundo, Melhor Amante
do Mundo, Melhor Cozinheiro do Mundo. Pode escolher o que quiser, sou o melhor.
– Ah. Bem, admiro sua autoconfiança. Mas, sabe, você agora abriu brecha para que seus críticos
testem seus talentos.
– Só me importo com um crítico. E estou esperando ansiosamente para ser testado por ele.
Quanto mais provas, melhor – respondo, piscando para ela.
– Você é ridículo, sabia? – diz Evie, balançando a cabeça mas sorrindo.
Dou uma gargalhada.
– Termine. Vou me trocar enquanto você come.
– Então você não vai usar sua camiseta de Melhor do Mundo na boate? – grita ela, quando já
estou no corredor.
– Você não quer me anunciar por toda a cidade, quer? – grito de volta.
Escuto-a rindo enquanto abro a porta do meu armário. Visto roupas mais elegantes e, dez minutos
depois, saímos rumo ao centro.

Levo Evie a uma boate relativamente nova que dizem ser incrível, decorada para lembrar um loft
nova-iorquino.
Depois de pedirmos nossos drinques, Evie menciona o amigo Landon, o cara que me lançou um
olhar mortífero durante o incidente com Gwen no evento beneficente. Sei que ele é uma pessoa
importante para Evie, por isso quero ter a oportunidade de causar uma impressão melhor no cara,
então sugiro que Evie o convide para nos encontrar ali. Ela hesita um pouco, mas logo concorda.
Cerca de uma hora depois, chegam Landon e um amigo, Jeff.
Pago uma rodada de bebidas para todos e nos apertamos em uma mesa pequena. Isso não me
incomoda nem um pouco, já que Evie está praticamente sentada no meu colo. É bom ter uma desculpa
para ficar o mais colado possível nela, principalmente em público. Já peguei vários homens
encarando-a por um segundo a mais do que o recomendado e quero deixar bem claro que ela está
comigo.
Landon se inclina na minha direção e puxa conversa:
– Então, Jake, você é de Cincinnati?
De início fico desconcertado, mas logo me dou conta de que Evie não deve ter lhe contado muito
a meu respeito ainda e que Landon está fazendo uma pergunta simples. Por isso, em vez de responder
Sim, cresci em Northside, como Evie, digo:
– Não, na verdade sou de San Diego.
– Califórnia? É mesmo? Adoro San Diego. Estive lá duas vezes. Fiquei em Pacific Beach com
um amigo. Onde você morava?
– Em La Jolla.
Tomo um gole da minha água e mastigo um pedaço de gelo.
De um lar adotivo em péssimo estado em Northside, Cincinnati, para uma mansão nos
penhascos diante do oceano Pacífico. E cada um dos dois foi uma espécie diferente de inferno.
Landon fica me encarando por um instante e, por fim, assovia. Ele obviamente conhece a área.
– Aquela parte da cidade é linda. O que o traz aqui?
– A empresa do meu pai tem um escritório aqui. Assumi os negócios há cerca de seis meses.
Landon assente, ergue as sobrancelhas e relanceia o olhar para Evie.
– Você deve sentir falta do sol de San Diego – comenta Jeff.
Olho para Evie e respondo sorrindo:
– Tem muito sol aqui também.
– Piegas! – diz ela, rindo, mas puxa meu rosto em sua direção e me dá um estalinho.
Ficamos nos encarando sorrindo por um instante e, quando olho de novo para Landon e Jeff,
percebo que eles nos observam com sorrisos largos no rosto.
Puxo Evie mais para perto e me volto para os dois.
– Então, Landon, Evie me disse que você estuda na Universidade de Cincinnati. Qual o seu
curso?
– Administração – responde ele.
Balanço a cabeça, assentindo.
– Que legal. E quando se forma?

– Ainda faltam uns dois anos. Estou indo em um ritmo lento – diz Landon, sorrindo e dando um
gole no drinque.
Balanço a cabeça novamente, sorrindo para Landon, então me viro para seu amigo:
– E você, Jeff, em que trabalha?
– Eu sou engenheiro – diz ele.
– É mesmo? De qual área?
Ele me diz que é engenheiro mecânico e conversamos mais alguns minutos sobre trabalho dele e
sobre o que a minha empresa faz.
Depois de algum tempo, escuto uma boa música começar a tocar, me levanto e puxo Evie comigo.
– Quero você na pista de dança – sussurro para ela.
Evie hesita, mas acena para os rapazes e me segue. Preciso senti-la contra o meu corpo.
Quando chegamos ao centro da pista, Evie passa os braços ao redor do meu pescoço e
começamos a nos mover no ritmo da música. A combinação de nossos corpos roçando um no outro e
a batida intensa da música é sexy demais. Encaro Evie e vejo em seus olhos que ela sente o mesmo.
– Eu deveria ter imaginado que você seria um bom dançarino – sussurra Evie para mim.
O hálito dela em meu ouvido provoca uma descarga de desejo pelo meu corpo. Puxo-a mais para
perto.
Landon aparece atrás de Evie quando começa outra música e aproveito para ir ao banheiro.
– Tome conta dela – peço, e os dois começam a dançar.
Quando volto, alguns minutos depois, avisto um grandalhão musculoso puxando Evie para si,
enquanto Landon tenta puxá-la na direção oposta. É como se uma nuvem vermelha turvasse a minha
visão. De repente, tenho 14 anos e alguém está incomodando Evie na escola. Só que agora a
motivação do valentão é sexual. Jogo o desgraçado no chão e tenho que me controlar para não
esmurrar a cara dele na pista. Em vez disso, levanto-o pelo colarinho e viro-o de frente para mim.
Chego meu rosto bem perto do dele e digo:
– Ei, babaca, já era pra saber o que significa “não”.
O cara me examina de cima a baixo por uma fração de segundo. Ele pode até ser mais musculoso
do que eu, mas sou mais alto e a expressão do meu rosto não deve deixar dúvidas de que estou
disposto a levar essa história a cabo, porque ele diz:
– Está certo, cara.
Ele levanta a mão em uma rendição zombeteira, depois se solta e me afasta para passar. Idiota.
Busco Evie e, por um segundo, nossos olhares ficam fixos um no do outro e o resto do clube
desaparece. Ela inclina a cabeça e fica me olhando com uma expressão sonhadora. Ela sabe. Mas
Evie só balança a cabeça de leve e abre um sorriso largo, enquanto me chama com um movimento do
dedo.
Vou até ela. Quando a alcanço, ela me encara e sussurra:
– Meu herói.
Balanço a cabeça e sorrio para aquele rostinho levemente embriagado. É incrível como ela
sempre consegue me desarmar. Linda e doce domadora de leões.
Dançamos com os rapazes por quase uma hora. Landon é muito engraçado e logo entendo por que

Evie gosta tanto dele. Quando tocam “Troublemaker”, de Olly Murs, Landon começa a fazer uns
passos de dança que juro nunca ter visto na vida. Rimos à beça e as pessoas começam a se afastar
para assisti-lo, aplaudindo. Olho para Evie e não consigo parar de sorrir ao vê-la se divertindo,
aproveitando o momento. O tempo parece diminuir seu ritmo e a música desaparece. Em minha
cabeça só restam Evie e um único pensamento: é isso, é isso que completa a minha alma.
De repente volto a perceber a música com seu ritmo intenso, e o tempo também reencontra seu
curso. Landon puxa Jeff para perto e as pessoas aplaudem os dois. Jeff não é nem de longe tão bom
dançarino quanto Landon, mas consegue se sair bem. É divertido, mas já estou pronto para levar Evie
para casa, para a minha cama. A adrenalina de enfrentar o cara que a assediava mais todo o suor da
dança me deixaram aceso. Só consigo pensar em tê-la sob o meu corpo, na cama, e em penetrar sua
carne apertada, quente e úmida.
A multidão volta a ocupar a pista e Landon vem dançando até nós. Eu me inclino na direção dele
e digo que vou levar Evie para casa. Ele assente e completa:
– Foi um grande prazer conhecer você.
Sorrio e aceno com a cabeça despedindo-me de Jeff. Evie acena para ele e joga um beijo para
Landon.
Ela vai ao banheiro e eu fico esperando. É quando vejo uma mulher caminhar na minha direção.
Está de sacanagem? Uma enorme onda de adrenalina toma conta do meu corpo. Lauren. Ela me
seguiu até aqui? Relanceio o olhar para os banheiros e caminho direto até ela. Eu a agarro pelo
braço e forço-a a caminhar comigo até a frente do bar. Lauren se inclina para mim e me abraça,
enquanto eu praticamente a arrasto para a frente. Eu a sacudo.
– Para mim, basta! Juro por Deus, Lauren!
– Jake... pare! Espere. Vim aqui para ter uma reunião com o conselho diretor da empresa amanhã.
Você não quis conversar comigo em San Diego! Fui procurá-lo no seu prédio e o porteiro disse que
você tinha vindo para cá. Achei que não se incomodaria...
– Sim, eu me incomodo, merda! – cuspo cada palavra como um louco. – De tudo o que disse e fiz
na porcaria dos últimos cinco anos, o que pode ter lhe dado a ideia de que eu não me incomodaria?
E que diabos de reunião com o conselho é essa?
Meus dentes estão tão cerrados que mal consigo mover o maxilar. Lauren tem que estar vivendo
em um mundo fantasioso. É a única explicação.
Olho mais uma vez na direção do banheiro, o coração disparado. Evie aparecerá a qualquer
segundo. De jeito nenhum Lauren pode saber que estou aqui com uma mulher. Ela vai tentar fazer uma
cena... Lembro-me muito bem do modo como ela tratava as garotas que eu levava em casa quando
ainda morava com ela. Era horrível. Se ela fizesse algo parecido com Evie, era bem capaz de eu
tentar matá-la. E, como acabei de trazer Evie de volta para minha vida, a prisão não me parece um
lugar muito atraente.
– Vou lhe contar, Jake. Por favor, eu...
– Ótimo, me ligue no fim de semana. Se você for embora agora, atenderei sua ligação e
conversaremos, está certo? Estou com amigos aqui e esta não é nem a hora nem o lugar.
Ela franze o cenho e me encara desconfiada por um instante, mas logo olha ao redor e, quando se

volta para mim de novo, diz:
– Está bem. Mas quero encontrá-lo pessoalmente... Telefono para você depois da minha reunião
com o conselho. É bom me atender, Jake.
E com isso ela dá meia-volta e sai pela porta da boate. Respiro aliviado e me viro mais uma vez
na direção do banheiro, mas ainda não há sinal de Evie.
Vou até o segurança e pergunto a ele se há fila do lado de fora. Ele confirma e isso me deixa mais
tranquilo: se Lauren quiser voltar à boate antes de partirmos, terá que esperar.
Quando me viro, Evie já está quase chegando aonde estou. Droga, eu não a vi se aproximar.
Sorrio torcendo para que não pareça forçado e pego a mão dela.
– Pronta? – pergunto.
– Com quem você estava falando? – indaga Evie, o cenho franzido.
Droga, ela me viu com Lauren. Mais mentiras. Odeio isso. Sinto a depressão me abater.
– Era só uma bêbada fazendo cena. O segurança chamou um táxi para ela e eu a acompanhei até a
porta. Vou buscar um copo d’água para você no bar antes de irmos embora – digo, tentando distraíla.
– Não precisa – retruca ela. – Você parece irritado.
– Não, não. Ela estava sendo meio agressiva. Tentou dar em cima de mim e eu disse não. Foi só
isso.
Não sei o que ela viu, então estou tentando cobrir todas as possibilidades com a minha história.
Digo a Evie para confiar em mim em relação a beber água e levo-a até o bar. Enquanto ela bebe,
tento me acalmar. A noite acaba de ser estragada.
Evie pousa o copo, sorri sedutoramente para mim e diz:
– Me leve para casa. Antes que eu tenha que arrancar mais mulheres de cima de você.
Rio e torço para que a risada pareça natural. Não estou nada animado.
Quinze minutos mais tarde, estaciono na minha garagem um pouco mais relaxado. Evie conseguiu
fazer isso enquanto conversávamos lembrando os eventos da noite. Ela está tão entusiasmada, tão
feliz.
Não sei bem o que sinto no momento. Estou tenso e agitado de uma forma que eu não saberia
classificar como boa, ruim ou as duas opções. Estou animado por ter deixado Evie feliz esta noite,
pela sensação intensa de ter o corpo dela colado ao meu por horas e pela vibração da música, mas
também estou explodindo de raiva por Lauren não me deixar em paz e pela culpa que sinto por mentir
para Evie. As mentiras estão aumentando e a situação fica cada vez pior. Tudo isso se mistura dentro
de mim e não sei o que fazer. No passado, todas as minhas emoções eram negativas e eu procurava
entorpecê-las com a primeira substância ilícita que encontrasse, mas agora há um rio de alegria
correndo junto com todo o resto, o que me deixa muito confuso. Estou sensível, agressivo e
desnorteado... droga!
Desligo o carro e puxo Evie para mim. Seguro o rosto dela entre as mãos e derramo todas as
minhas emoções no beijo que lhe dou. Nós nos beijamos com intensidade no carro por alguns minutos
até que ela sobe no meu colo e... nossa! Esse show precisa se transferir rapidamente para o meu
apartamento para eu poder dar tudo o que essa mulher quer.

Estou prestes a sugerir isso quando o som de tecido rasgando enche o carro. Que diabos...? Evie
levanta o corpo e vemos que a costura da minha calça está rasgada até o meio. Bem, isso eu nunca vi.
– Ai, meu Deus – diz ela em um arquejo. – O rapaz aí embaixo parece o Incrível Hulk.
Rapaz?
– O rapaz?
Ela assente devagar, os olhos arregalados.
– Ele está zangado?
Faço um esforço enorme para não rir.
– Ainda não. Mas se você continuar a se referir a ele como “rapaz”, talvez fique. Ele é um
homem com H maiúsculo. Você não vai querer vê-lo zangado.
– Ah, eu com certeza quero vê-lo zangado.
Não consigo mais me conter e caio na gargalhada.
– Venha, vamos subir.
Evie caminha à minha frente para esconder o rasgo em minha calça quando passamos pelo
porteiro. Mais tarde terei uma conversa séria com ele sobre Lauren. Pensar no que aconteceu esta
noite faz com que eu me preocupe ainda mais em proteger Evie. Isso é minha prioridade. Lauren não
vai interferir. Nem. Por. Um. Decreto.
Entramos no meu apartamento cambaleando e nos apoiando nas paredes, ainda rindo do rasgo em
minha calça. Seguro-a contra a parede e a testosterona dispara em minhas veias. Meu desejo por
Evie sobe vários níveis e o sangue parece se concentrar em uma única parte do meu corpo. Evie é tão
linda. Olho para ela, que fica séria ao me encarar.
– Jake, nunca fui inconsequente em toda a minha vida, e quero agradecer por você me permitir
isso. Sei que pode parecer bobeira ou até loucura, mas, de verdade, isso significa muito para mim.
Então, muito obrigada por hoje.
Essa é a melhor coisa que ela poderia ter me dito, porque foi exatamente o meu objetivo.
– Tudo o que eu quero é ter muitos outros momentos inconsequentes com você, minha linda –
respondo, sorrindo.
Pressiono o corpo dela com força contra a parede. Nós nos beijamos por um longo tempo,
lambendo e chupando os lábios um do outro, as línguas duelando. Sinto gosto de Evie e de
champanhe. Deixo escapar um gemido ao perceber seu sabor combinado, tão delicioso, e fico
inebriado. Sei que é Evie que me embriaga. O desejo intenso faz com que os sentimentos que me
dividiam ainda há pouco voltem à tona, e meu corpo reage, minha língua ataca, meus quadris se
movem.
Evie geme e meu autocontrole vai para o espaço. Estou zonzo de desejo, mais agressivo do que
nunca, com uma necessidade louca de me perder nela e, ao mesmo tempo, de possuí-la por inteiro.
Tiro os pés dela do chão e ela passa as pernas ao meu redor. Pressiono-a com mais firmeza
contra a parede. Evie enfia a mão na minha calça e me acaricia, o que me leva ao limite da sanidade.
Tudo em que consigo pensar é em penetrá-la. Perdi o controle e não me importo. Gosto disso.
Ouço mais uma vez o som de algo se rasgando e percebo vagamente que acabo de arrebentar a
calcinha dela. A porcaria que estava no meu caminho. Evie respira em arquejos, então geme alto

quando passo os dedos ao redor de sua fenda, sem penetrá-la, apenas espalhando a umidade em
círculos lentos. Sinto um rugido subir pelo meu peito ao me dar conta da facilidade com que meus
dedos deslizam.
– Sempre molhada para mim – digo em uma voz engasgada.
Evie firma os braços ao meu redor e apoia a cabeça na parede, me permitindo saborear a pele
doce de seu pescoço. Continuo a usar os dedos para excitá-la, espalhando a umidade pelo clitóris
inchado. Evie se contorce e geme, o que só faz o desejo me consumir ainda mais. Espero que ela
esteja pronta para uma cavalgada potente, porque isso é tudo de que sou capaz no momento.
Afasto meu quadril quando sinto gotas úmidas surgirem na ponta do meu pênis. Evie geme em
protesto.
– Coloque o meu pau pra fora, Evie... – peço, e a voz sai rouca e distante.
Evie enfia a mão pelo rasgo na minha calça e segue para dentro da cueca. Então me toma na mão.
A sensação que isso provoca é quase mais forte do que posso aguentar. Mas Evie me solta logo.
Seguro seu traseiro com uma das mãos e, com a outra, posiciono meu pênis em sua entrada úmida.
Então a penetro, não exatamente com gentileza. Evie grita e isso me traz de volta a mim. Fico imóvel
um instante enquanto encaro os olhos cheios de desejo dela, para me certificar de que está bem.
Quando confirmo que sim, afasto o quadril bem devagar e volto a arremeter. A fricção com os
músculos da coxa de Evie é tão gostosa que acabo sibilando sem querer. Evie fecha os olhos e geme
profundamente, os lábios abertos. Eu perco o rumo: meu corpo assume a direção e minha mente fica
para trás nessa corrida guiada pelo desejo.
Capturo a boca de Evie mais uma vez e começo a arremeter como um louco, mais fundo, com
vontade, fazendo as costas dela baterem na parede. Quero dominá-la, possuí-la, confirmar que é
minha. Preciso me convencer de que algo tão lindo é meu, só meu.
Sinto o clímax chegando quando uma descarga de prazer quase insuportável dispara pelo meu
ventre. Levo a mão ao ponto onde nossos corpos se unem e roço o dedo contra o clitóris dela. Evie
começa a ofegar e a gemer com o orgasmo que toma seu corpo.
Afasto a boca para observar o prazer dominar seu rosto. É uma cena tão linda que as palavras
vão do meu cérebro direto para os meus lábios, enquanto continuo a arremeter sem parar:
– Minha. Só minha. Só. Minha. Para sempre.
Meu próprio clímax me atinge e um prazer intenso me domina. Vejo estrelas explodindo em meus
olhos enquanto me derramo dentro de Evie.
Conforme as estrelas começam a se apagar lentamente, recupero o controle e me pergunto o que
acaba de acontecer. Por mais que tenha sido fantástico para mim, espero não tê-la machucado.
Paredes não são exatamente macias. Mas quando fito os olhos de Evie, ainda entrando e saindo
devagar do corpo dela, a expressão que vejo me acalma. Ela parece maravilhada e satisfeita, como
alguém que acaba de ser pega de muito bom jeito. Sinto uma onda de orgulho me invadir, além de um
forte sentimento de posse.
– Você é tão lindo – diz ela em uma voz preguiçosa.
Sorrio e coloco os pés dela de volta no chão bem devagar.
– Você é que é linda – sussurro.

Ela levanta a cabeça e me dá um beijo cheio de doçura e eu a levo para o quarto.
Depois de nos limparmos um pouco e cairmos na cama, Evie se aconchega em mim, a respiração
pesada. Sei que está adormecida.
– Eu te amo – sussurro.
Preciso dizer isso, mesmo sabendo que ela não está ouvindo.
– Humm, Leo... – murmura ela de volta.
Fico paralisado. Meu coração parece parar de bater por um instante. Só volta a pulsar quando
assimilo o que ela acaba de dizer. Ah, meu Deus. Que merda. O coração agora dispara furiosamente,
meus olhos estão arregalados na escuridão; minha mente, embotada. Não sei o que sentir, mas
demoro horas até conseguir pregar os olhos e, quando finalmente durmo, é um sono agitado.

capítulo 22

Evie sai para o trabalho na manhã seguinte e fico de preguiça na cama por algum tempo antes de ir
para a academia. Continuo a ouvir a voz dela na minha mente, sussurrando Leo no sono. Ainda não
sei o que pensar a respeito. Evie ainda sonha comigo? O que isso significa? Uma parte dela ainda se
apega ao garoto que eu fui? Isso tornará mais fácil ou mais difícil ouvir a verdade a meu respeito?
Malho por umas duas horas e volto para casa. Também estou tenso por saber que Lauren se
reunirá com o conselho da empresa hoje – para discutir um assunto que desconheço. Seja o que for,
posso garantir que a única intenção dela é ter algo com que possa me controlar, o que me enche de
raiva. Durante quanto tempo ainda terei que lidar com toda essa podridão, com toda essa loucura?
Como posso envolver Evie nisso? Lauren não vai parar nunca. E tenho certeza de que se Lauren
perceber que Evie está de volta à minha vida, a situação só irá piorar. Muito.
Ter que falar com Lauren hoje, ou em qualquer dia, é a última coisa que desejo fazer. Mas tenho
que saber o que ela pretende. Preciso deixar meus sentimentos de lado; é meu dever em relação à
empresa saber o que ela está planejando. O melhor a fazer é encontrar Lauren em um lugar público
antes que chegue a hora de eu sair para pegar Evie no trabalho. Se eu não precisasse saber o que ela
acha que tem a tratar com o conselho diretor, poderia simplesmente ignorar a ligação dela, como
venho fazendo. Mas então Lauren pode aparecer quando Evie estiver aqui e, ai, meu Deus... acabo de
ficar com dor de cabeça. Sento diante da bancada da cozinha com a cabeça entre as mãos por alguns
minutos, avaliando essa confusão. Então me levanto decidido a tomar um banho, me barbear e
trabalhar pelo resto da tarde em casa, usando calça de ginástica e camiseta.
Programei o número de Lauren para cair direto na secretária eletrônica, por isso confiro o celular
de vez em quando até ver que recebi uma mensagem. É de Lauren, então ligo de volta.
– Jake, estou subindo – avisa, sem esperar sequer que eu diga oi.
– Que merda é essa, Lauren? Eu não lhe disse para vir ao meu apartamento. Quem a deixou subir,
aliás?
– O porteiro. Eu disse a ele quem sou. É claro que ele deixou.
Ah... diabos, esqueci de falar com Joe. Vou ter uma conversa séria com ele quando descer.
Chego ao hall exatamente quando o elevador está parando. Lauren sai com um largo sorriso no
rosto. Não sorrio para ela.
– Continua o adolescente mal-humorado, pelo que vejo – diz ela, passando por mim e entrando no
apartamento.
Lauren olha ao redor.
– Adorei este lugar, Jake – diz e vai até a janela para olhar a vista. – Posso me mudar para cá se
você quiser. Mas preferiria que você voltasse comigo para San Diego...

– Lauren, por que marcou uma reunião com o conselho diretor? Que motivos teve para fazê-los
trabalhar num sábado?
Ela suspira e chega mais perto.
– Jake, eu me encontrei com o conselho diretor hoje para avisar que estou contestando o
testamento. Phil não estava em seu juízo perfeito quando deixou a maior parte das ações para você.
Meu advogado me disse que tenho ótimas chances. Pedi que o conselho suspenda todas as decisões
financeiras até que eu retome o controle acionário da companhia, o que obviamente vai acontecer.
Fico encarando-a por alguns segundos. Eu já havia me perguntado se ela tiraria essa carta da
manga.
– Isso não vai acontecer. O testamento de Phil é incontestável e ele estava em pleno domínio de
suas faculdades mentais. Você tem todo o dinheiro de que poderá precisar na vida. E sabe muito bem
que a única razão para estar fazendo isso é tentar me controlar. A vida era muito boa para você
quando me controlava, não é verdade? – disparo, cerrando o maxilar.
– Ah, Jake – suspira Lauren. – Estou fazendo isso para ter o que é meu por direito. Passei vinte
anos casada com aquele homem que só pensava em trabalho. Sabe quanto me sacrifiquei? Até você
aparecer, eu passava o tempo todo sozinha. Você precisa se livrar dessa culpa desnecessária. A
morte de Phil só tornou mais fácil para nós ficarmos juntos. Essa é a verdade. Simplesmente
aconteceu. Você não precisa se sentir mal com isso. Não é possível que duas pessoas se sintam tão
atraídas como nós e isso não seja certo.
– Lauren, sei que estou gastando saliva à toa, porque você só ouve o que quer, mas nunca me
senti atraído por você. Ao menos não mais do que durante vinte minutos muito confusos e horrorosos,
oito anos atrás, no episódio que foi o começo do fim para mim. E o mais terrível do que aconteceu é
que uma parte de mim só cedia a você porque eu não queria desapontá-la. Eu tinha sido uma
decepção para todos a vida inteira e achei... achei que finalmente teria uma família que se importasse
comigo. Uma parte muito maltratada e confusa da minha cabeça só queria que você gostasse de mim,
sob qualquer circunstância. E, de algum modo, você sabia disso e se aproveitou. Quando você fala
sobre o que é “seu por direito”, Lauren, tenho a sensação de que está se referindo mais a mim do que
à empresa.
Estou praticamente cuspindo as palavras, o maxilar ainda cerrado. Ela não vai me escutar, mas
talvez eu precise falar assim mesmo, não para ela, mas para mim.
Lauren parece abalada por um segundo e me pergunto se talvez as minhas palavras tenham surtido
algum efeito, mas logo ela se aproxima mais e tenta colocar a mão no meu rosto. Eu a impeço e me
afasto.
– Não precisa agir assim. Deixe-me consertar as coisas, querido.
Ela se coloca na ponta dos pés e tenta colar os lábios aos meus. Dou um passo para trás e levanto
a mão para cobrir a boca. Basta. Sempre termina assim.
– Não comece com essa merda! Expliquei a você em San Diego qual é a nossa relação agora. E o
resumo é: ela não existe, entendeu?
– Você está mentindo para si mesmo, Jake. Não pode simplesmente abandonar isso. Não pode me
abandonar.

– O cacete que eu não posso! Vá embora!
Ela volta a se aproximar de mim e tenta me abraçar.
– SAIA DAQUI! – grito, a raiva borbulhando dentro de mim.
Por que gasto meu fôlego com ela? Juro por Deus que essa mulher é psicótica.
– Nunca vou tê-lo de volta, não é mesmo? – suspira, encarando o chão.
Nem me dou o trabalho de responder. De que adianta? As palavras dela não significam nada... sei
que ela vai tentar me abordar de outra maneira depois que se recuperar.
Vou até a porta e abro-a de um rompante. Que merda! Evie está parada do lado de fora do
apartamento, me encarando com uma expressão confusa. A adrenalina dispara nas minhas veias: este
é o pior cenário que eu poderia imaginar. Quanto ela ouviu? Não consigo nem lembrar direito o que
disse, de tanta raiva que estou sentindo... e medo agora.
– Droga, Evie. Que diabos você está fazendo aqui?
Ela fica muito pálida, abre a boca para dizer algo, mas logo volta a fechá-la e os olhos grandes e
expressivos me encaram cheios de mágoa. Merda, merda, MERDA! Sinto vontade de rugir e de
quebrar alguma coisa.
Meu maxilar ainda está cerrado e luto para manter o controle quando Lauren sai pela porta e para
de repente ao ver Evie. Ela olha para nós dois e provoca:
– Jura, Jake? Já?
É um pesadelo. Evie não pode descobrir sobre Lauren desse modo. Fecho os olhos por um
instante, lutando para ter força, e digo o mais calmamente que consigo:
– Vá embora.
Lauren me ignora, como sempre, e caminha na direção de Evie.
– Sou Lauren – diz, naquela voz maldosa e condescendente que é sinal de que algo ruim está a
caminho.
Evie parece confusa novamente e começa a estender a mão:
– Prazer em conhecê-la, meu nom... – sussurra.
– Mãe! – grito.
Evie não pode dizer seu nome. Lauren não chegou a conhecê-la, mas com certeza sabe o nome de
Evie, já que falei sobre ela várias vezes quando estávamos a caminho de San Diego. Lauren sabe que
Evie é o nome da garota que está na tatuagem às minhas costas. Duvido que ela vá reconhecer que a
mulher à frente dela é aquela garota, principalmente porque só viu a tatuagem umas duas vezes, mas
não posso deixar que escute o nome de Evie. Sei que chamar Lauren de “mãe” vai chamar sua
atenção. Ela sempre odiou isso.
– Se não for embora agora, juro por Deus que vou chamar a segurança para arrastá-la escada
abaixo.
Meus punhos estão cerrados ao lado do corpo. Lauren parece magoada por um momento, mas
logo se recompõe e diz:
– Muito bem, Jake, vai ser do seu jeito.
As coisas nunca foram do meu jeito. Não com você, sua maluca.
Então ela entra no elevador, se vira, encara Evie e, antes que a porta se feche, ainda dispara:

– Você é só mais uma. É bom que saiba disso.
Evie deixa escapar um arquejo que, por mais baixo que seja, atinge meu peito com uma bola de
ferro de 10 toneladas. O pavor desce pela minha espinha.
Fico parado onde estou, tentando recuperar o controle, tentando domar a raiva que me domina,
com vontade de gritar de horror por ver Lauren e Evie juntas.
Evie é a primeira a se mover. Ela se vira para o elevador e aperta o botão. Isso me tira do meu
transe e sou invadido por uma onda de pânico. Ela vai me deixar.
– Evie! Aonde você vai?
– Estou indo embora, Jake. É óbvio que você não me quer aqui. Desculpe ter vindo, mas saí mais
cedo do trabalho e pensei que não teria problema vir. Liguei para você... – ela se interrompe, os
olhos cheios de lágrimas, e acaba comigo.
– Evie, meu bem, por favor. Me deixe explicar. Desculpe. Desculpe de verdade. Continuo
estragando tudo.
Passo a mão pelo cabelo, tentando encontrar um modo de fazer Evie entender. Pego-a pela mão
muito, muito delicadamente, torcendo para que ela me siga para o apartamento. Evie permanece
imóvel por um instante, examinando meu rosto, mas por fim deixa que eu a conduza. Contudo percebo
que ela deixa suas coisas perto da porta por precaução. Ela vai me deixar explicar, mas está pronta
para ir embora em um segundo, se necessário.

Nós nos sentamos na sala e começo logo a falar:
– Antes de mais nada, me desculpe por ter feito você se sentir mal por vir. Você pode aparecer
aqui a qualquer hora que queira. Eu jamais poderia imaginar que a minha mãe... – começo e tenho
que respirar fundo para prosseguir: – Nós... não nos damos bem. A situação não está boa entre nós,
como acho que você pôde perceber.
Deixo escapar uma risada sem ânimo. Não há nada nem de longe engraçado nessa situação.
Conto a Evie que Lauren está na cidade para uma reunião com o conselho da empresa e que,
apesar de já ter dito que não quero nenhum tipo de contato com ela, preciso lidar com essa situação.
Explico sobre a minha relação complicada com a minha mãe, mas não entro em detalhes sobre o
motivo. Até mencionar o nome de Lauren é difícil para mim. Passei tantos anos tentando fingir que
esse problema não existia, tentando colocar de lado o que sinto e entorpecer a dor pelo que acontecia
naquela casa... Obviamente não funcionou, mas foi a forma que encontrei para tentar seguir em frente.
É muito difícil contar a Evie sobre Lauren e que ela foi o motivo de eu ter sido tão rebelde na época
do ensino médio e de eu ter me distanciado do meu pai.
Apesar de eu não entrar em muitos detalhes, falar sobre isso com ela é centenas de vezes mais
difícil do que contar os meus segredos mais sombrios ao Dr. Fox. Em primeiro lugar, porque o Dr.
Fox era meu psicólogo, enquanto Evie é... Evie é tudo para mim. Fico aterrorizado com a
possibilidade de que ela me dê as costas quando souber uma porção mínima que seja da verdade.

Quero que ela entenda por que a tratei daquela forma ríspida. Não foi certo. Sei disso. Mas a
motivação não teve nada a ver com Evie, não mesmo.
– Quando vi você parada ali, não consegui acreditar que vocês estavam prestes a respirar o
mesmo ar. Ela é uma desgraçada cruel e não mede esforços nem palavras para conseguir o que quer.
Não fiquei zangado por você estar aqui, mas por você estar próxima daquela víbora.
Obviamente você não tinha culpa, mas perdi a cabeça e estou muito arrependido.
Imploro com o olhar que ela me entenda.
– Jake – diz ela –, quando você fala comigo sobre sua vida, tenho a sensação de que está falando
em código. Consigo compreender a essência, mas na verdade você não me conta nada.
Ela está certa, é claro, e me sinto um merda por isso, mas é tudo o que posso lhe oferecer agora.
Contar do meu ódio por Lauren significa contar quem eu sou, e simplesmente não tenho coragem para
isso no momento. Sou um covarde. No que se refere a Evie, sou um covarde. Mas ao menos quero
que ela saiba quanto lamento.
Ficamos os dois em silêncio, até que aperto a mão dela e digo:
– Pode me perdoar por falar com você daquele jeito, por fazê-la se sentir daquele jeito? Por
favor, me perdoe por toda essa situação horrorosa...
Evie respira fundo e me encara por um tempo, o cenho levemente franzido.
– Sim, eu o perdoo – diz por fim. – E não precisa se desculpar pela sua mãe, Jake. Sei melhor do
que ninguém que não escolhemos os nossos pais.
– Obrigado – digo baixinho.
Levo as mãos dela aos lábios e beijo os nós de seus dedos.
– Não quero magoá-la, Evie. Nunca. Tudo o que eu faço é porque o que sinto por você é tão
forte... Meu Deus, estou me sentindo tão deslocado, e há toda essa confusão... Será que você pode ter
paciência comigo?
Então minha doce Evie faz a única coisa que ninguém fez por mim em oito anos, a única coisa que
eu jamais poderia ter pedido, porque não sabia quanto precisava. Ela passa os braços ao meu redor e
me abraça com força.

capítulo 23

Peço o jantar enquanto Evie toma banho. Fiz besteira e tenho consciência disso. Saber que falei
com ela daquele jeito está pesando em mim. Estava com raiva de Lauren e acabei descontando em
Evie. E depois ainda pedi que fosse paciente comigo. Por quanto tempo mais Evie estará disposta a
aguentar? Ela sabe que não estou me abrindo por completo e, mesmo assim, confia em mim. Acho
que percebe que o que sinto por ela é verdadeiro, mas deve intuir que o que estou escondendo dela
pode mudar o que pensa a meu respeito. Vou magoá-la de qualquer modo. E perdê-la. Meus olhos
vagam pela vista da cidade sem enxergar realmente e sinto o estômago revirar de aflição.
Evie me abraça por trás. Suspiro e me entrego ao seu calor. Ela apoia a cabeça nas minhas costas
e cubro suas mãos com as minhas à frente do meu corpo. Quero o conforto que Evie pode me dar.
Anseio por isso. Ficamos parados desse jeito por um tempo, e encontro paz no calor e na doçura
dela. Ter os braços de Evie ao meu redor é como um bálsamo para o meu coração.
Respiro fundo e deixo a mágica de Evie me envolver – nada neste mundo louco parece tão ruim
quando ela me abraça. Nada parece insuportável quando sinto o amor de Evie à minha volta. Tenho
vontade de me virar, cair de joelhos aos pés dela e declarar meu amor eterno. Quero lhe dizer que
lutaria qualquer batalha para ela, que faria absolutamente qualquer coisa para ficar com ela. Vai
contar a verdade a Evie? Vai se arriscar a perdê-la?, ressoa um alerta no fundo da minha mente.
Chego mais perto dela.
Evie me aperta e desliza as mãos quentes por baixo da minha blusa. Percebo que ela está se
abaixando e logo seus lábios estão percorrendo e beijando a base das minhas costas. Sinto-a sorrir
na minha pele. Conforme ela vai subindo, fico tenso. Por enquanto, minhas costas são terreno
proibido. Daqui a algum tempo, meu bem, vou lhe contar sobre a saudade enorme que senti de
você, da necessidade de gravá-la para sempre na minha pele, pois parecia que só assim eu seria
capaz de continuar a respirar.
Eu me viro, de modo que meu abdômen fica diante do rosto dela. Evie levanta os olhos para mim
e pressiona os lábios agora contra o meu ventre.
– Evie – digo em um sussurro.
Ainda me sinto culpado pelo modo como falei com ela mais cedo e acho que deveria fazê-la se
levantar e impedir que executasse os planos que vejo em seus olhos. Mas por mais que eu tente, não
consigo. Quando nossos olhos se encontram, é como se uma corrente elétrica passasse entre nós. O
sangue dispara nas veias e meu pênis fica duro na hora. Mas preciso ter certeza de que Evie
realmente quer fazer isso.
No entanto, quando ela sorri para mim, fica de joelhos e desabotoa a minha calça, todos os
problemas desaparecem e resta só alívio em minha mente. Evie abre o zíper da calça, puxa-a para

baixo junto com a cueca e deixa meu pênis livre. Sinto o ar frio em minha ereção e quero tanto a boca
de Evie em mim que chega a doer.
– Me coloque na boca, Evie, por favor – imploro.
Qualquer pensamento racional se foi. Ela me encara com seus olhos grandes e escuros, se inclina
e passa a língua pela lateral do pênis rígido. Ah, ah...
Ela põe meu pau na boca e passa a língua pela parte de baixo dele. Então começa a chupá-lo
delicadamente e não consigo evitar uma arremetida involuntária. Evie me possui por completo e
adoro me dar assim a ela. O alívio de poder lhe entregar o controle é impressionante.
Os cabelos de Evie caem sobre o rosto, mas eu os afasto e fico segurando-os. Quero ver o que
está acontecendo. A sensação física é indescritível, mas ver os lábios de Evie esticados ao redor do
meu pau é tão excitante que já sinto as faíscas de prazer descendo pelo meu ventre e me fazendo
gemer.
Quando Evie me toma por inteiro, ela levanta os olhos para mim e sinto gotas se formarem na
ponta do meu pênis. Ela me segura pela base com uma das mãos e começa a me chupar ritmadamente.
Estou completamente à mercê dela.
– Ahh! Evie... sua boca... isso, assim...
Meus dentes rangem, minha voz está pesada de desejo. Enfio as mãos nos cabelos dela, puxo-os
pela raiz e os afasto de seu rosto, para poder vê-la melhor. Evie geme e continua a chupar e a lamber,
os olhos fechados agora.
Sinto meu pau saltando em sua boca e mais uma vez não consigo evitar arremeter na direção do
rosto dela. Estou fora de controle de tanto prazer por ver Evie me abocanhar inteiro.
Não quero que isso termine, mas já estou fora de mim, não consigo mais me controlar.
– Ah, meu Deus, vou gozar, meu bem – aviso, mas ela não afasta a boca, o que faz com que o
orgasmo que vinha se aproximando me atinja rápido, com força, o prazer explodindo em jatos no
calor da boca de Evie.
Não paro de gemer enquanto a vejo engolir meu sêmen e me ordenhar com a boca até meu corpo
se acalmar.
– Nossa!
Evie guarda meu pênis de volta na calça e sorri para mim. Estou com a visão turva, desorientado.
O que acabou de acontecer? Então o interfone toca. Balanço a cabeça, confuso, e Evie levanta os
olhos para mim. Ah, claro, nossa comida. Ambos olhamos para a porta ao mesmo tempo, então
voltamos a nos entreolhar e caímos na gargalhada.

Depois de jantarmos, eu tomo um banho e levo Evie de volta para o quarto, para retribuir o bem que
ela me fez antes da refeição. Somos só eu e ela... E, só por essa noite, nenhuma bobagem importa.
Somos apenas Evie e Jake, um casal que está se apaixonando ou, no meu caso, já completamente
apaixonado, aproveitando o conforto e o prazer que nossos corpos podem nos dar. Mais tarde um

pouco, estou deitado na cama, saciado e feliz, depois de mais um orgasmo de tirar o fôlego.
Sorrio, olhando para o teto, enquanto penso nas tantas camadas do meu amor por essa garota.
– Por que esse sorriso? – pergunta Evie, sorrindo para mim.
– Eu sabia que seria assim com a gente – respondo, o sorriso ainda no rosto.
– Sabia, é?
– Sim. Desde a primeira vez que a beijei. – No nosso telhado, oito anos atrás.
Aquele beijo me deixou fora de mim. Eu imaginara por muito tempo como seria beijar Evie, mas
mesmo assim o modo como o ar pareceu cintilar ao nosso redor quando nossos lábios se encontraram
me pegou de surpresa. Percebi, então, que minha ligação com Evie ia muito além do meu amor por
ela. Sim, eu a amava profundamente, mas também havia algo puramente físico e elétrico entre nós que
acendia quando nossos corpos se tocavam. Na época, eu não tinha ideia de quanto isso era raro, mas
agora sei.
Evie também sorri para mim, se levanta e me dá um beijo carinhoso nos lábios.
– Vou me limpar, já volto.
Enquanto ela está no banheiro, visto a cueca e a camiseta e me enfio debaixo das cobertas.
Quando Evie volta, veste a calcinha e a camiseta e assume seu lugar sob as cobertas. Me
aconchego a ela por trás, passo o braço ao redor do seu corpo e seguro seu seio possessivamente, no
que já se tornou a nossa posição de dormir. Evie me olha por sobre o ombro e sorri. Eu me inclino
para a frente e a beijo. Então volto à posição em que estava e passo a perna por cima do quadril
dela.
Evie empurra o corpo contra o meu.
– Sua perna é muito pesada. Está fazendo eu me sentir presa.
– Você está presa. Vou mantê-la aqui, na minha cama, indefinidamente, presa sob o meu corpo,
enquanto faço o que quero com você.
Ela dá uma risadinha.
– Indefinidamente? Vamos precisar comer em algum momento.
– Tenho meia embalagem de chiclete na minha mesa de cabeceira. Vamos cortar cada chiclete em
pedaços bem pequenos e racioná-los.
– Você viveria de chiclete racionado em troca de sexo ilimitado comigo?
– Não apenas sexo. Gosto de tudo o que fazemos na cama... o aconchego, a conversa, os
cheirinhos. – Enfio o nariz no pescoço dela, inalo e Evie ri. – Só quero você comigo 24 horas por
dia. Bem aqui.
– Ohhh, que fofo.
Faço uma pausa.
– Mas na maior parte do tempo faríamos sexo. Sim, sexo na maior parte do tempo.
Ela ri, afasta a minha perna e se vira para mim sorrindo. Então se aconchega novamente e passo
meus braços ao seu redor, enquanto beijo o topo dos cabelos cheirosos. Não sei quanto tempo levo
até adormecer, mas sei que durmo sorrindo.

capítulo 24

stou terminando minha fisioterapia quando o Dr. Fox entra na sala. Meu fisioterapeuta, Mark,
já está trabalhando com outra pessoa, e estou sozinho, fazendo alguns exercícios extras para
melhorar a flexibilidade.
– Parece que você está quase curado.
Eu me levanto, pego a toalhinha que está ao redor do meu pescoço e tomo um gole da minha
garrafa de água.
– É verdade. Eu me sinto bem. Remendado por dentro e por fora.
Sorrio. Ele também sorri.
– Já arrumou tudo?
– Sim – digo, passando a mão pelo cabelo e sentindo a cicatriz na parte de trás da cabeça. –
Vai ser estranho ir embora deste lugar. É quase como se eu houvesse começado uma nova vida
aqui. E agora preciso sair e começar de novo.
– Não começar de novo. Apenas continuar. Não estou preocupado com você.
Ele sorri mais uma vez, pousa a mão no meu ombro e aperta com carinho antes de se afastar.
Bufo baixinho.
– EU estou preocupado comigo. E se eu estragar tudo, Doutor? – E por “tudo” quero dizer
tudo mesmo, a empresa, Evie, o resto da minha vida.
Ele balança a cabeça, negando.
– Você não vai estragar. E sabe por quê?
– Por quê?
Começamos a caminhar juntos. Saímos da sala de fisioterapia e viramos no corredor, na
direção do meu quarto.
– Porque quando uma pessoa está no caminho certo, ela sabe disso. E, Jake, você é um
sobrevivente, um lutador. Vai lutar para ficar no caminho em que está agora. O caminho que você
sabe que é onde DEVE estar. Alguma coisa em relação aos últimos oito anos parece certa para
você?
Respiro fundo.
– Não. Nem uma única coisa.
– Caso se sinta assim novamente, mude de caminho, está certo?
– Sim. Está certo, Doutor.
Seguimos caminhando e eu me lembro dos últimos oito anos... a chegada em San Diego, tão
cheio de esperança... aquela primeira semana horrível, eu me odiando a cada maldito dia desde
então.
Uma visão de mim mesmo me desviando do caminho colocado à minha frente passa de relance

em minha mente.
Lembro dos tempos do ensino médio. Penso em como fui recebido naquela escola da
Califórnia, de forma tão diferente do que já fora recebido em qualquer escola antes, onde
primeiro eu era um menino que almoçava de graça e, mais tarde, um garoto que morava em lares
adotivos. Penso em como gostava daquela sensação e de como me odiava por gostar. Penso nos
esportes que experimentei e em como era bom neles, como me tornei popular, as garotas me dando
atenção. Eu tinha dezenas de pretensos “amigos”, mas nenhum deles realmente me conhecia.
Sempre havia um fio de desespero correndo pelo meu coração. Sempre uma solidão que eu não
conseguia calar completamente, sempre um anseio que eu não dava conta de preencher. Penso em
quanto bebia nas festas, nas drogas que usava sempre que estavam disponíveis. Penso em como,
no que dizia respeito a sexo, qualquer uma poderia ficar comigo, o que, de um jeito tortuoso,
significava que ninguém me tinha. Todos aqueles garotos ricos pareciam viver desse jeito também,
passando de um dia para o outro, vivendo para a próxima festa. Mas eu estava sempre pior do que
eles, porque tinha consciência, porque sabia que tinha me vendido. Percebo agora que, embora eu
não tivesse muito em Ohio, ainda assim eu tinha esperança, e quando ela se foi, apesar de eu
finalmente ter todos os bens materiais imagináveis, fiquei sem nada. Nada mesmo.
Penso em quando me mudei da casa de Lauren e Phil, de quando fui para a universidade,
ainda carregando comigo aquele ódio por mim mesmo que jamais me deixava mover um dedo
sequer para tentar sair do poço de desespero no qual eu estava constantemente afundado. E,
assim, cometi todos os mesmos erros que cometera no ensino médio. Tive relações sem nenhuma
importância, que só fizeram com que eu me sentisse ainda mais infeliz, sempre tentando recuperar
alguma coisa, mas sem saber exatamente o quê. Bebia quando as coisas iam tão mal que eu não
sabia mais o que fazer e, finalmente, a gota d’água... Seth. Penso em mim, saindo por aquela
estrada tendo a morte como missão. Posso admitir isso agora. E Evie, Deus, Evie. Senti saudade
dela cada segundo de cada dia, e isso doía demais, porque sabia que ela nunca me perdoaria.
Mas talvez, apenas talvez, eu estivesse errado. É hora de descobrir. Finalmente estou forte o
bastante para isso. Por favor, por favor, Deus, não deixe ser tarde demais.
Paramos em frente à porta do meu quarto.
– Você sabe que estou a apenas um telefonema de distância, não sabe? Se precisar de alguma
coisa... qualquer coisa, pegue o telefone e me ligue.
Sinto a emoção me apertar o peito. Despedidas são um horror. E esse homem mudou a minha
vida de um modo muito profundo.
– Pode deixar.
Ele sorri.
– Então está bem.
Fico em silêncio por um instante e digo:
– Doutor, eu só... Merda, isso é difícil.
Paro e passo a mão pelo cabelo enquanto sinto a onda de emoção me dominar. Ele espera.
Sempre foi bom nisso.
– Queria dizer... o senhor sabe... nunca tive um pai. Ao menos não um pai que me ensinasse a

ser um homem de verdade. E sei que é meu terapeuta, mas na verdade o senhor foi mais do que
isso para mim. Os outros médicos me remendaram, mas o senhor... o senhor salvou a minha vida.
Ele pigarreia e volta a apertar o meu ombro.
– Você fez todo o trabalho difícil, garoto.
Aceno com a cabeça e também pigarreio.
– Vá terminar de arrumar suas coisas. E, Jake?
– Sim?
– Vá atrás daquela sua garota.
Ele sorri para mim e se afasta.

capítulo 25

Planejo uma viagem a San Diego para me encontrar com advogados da empresa e falar sobre as
últimas atitudes de Lauren. Fico furioso quando penso no que ela está tentando fazer. Lauren não tem
o menor interesse em dirigir a companhia. Ela nunca teve interesse nenhum nos nossos negócios ao
longo de todos esses anos em que a conheço – não até isso passar a ser algo que ela poderia usar
para me intimidar. Os motivos de Lauren são claros. Mas infelizmente o fato de ela estar sendo
manipuladora não importa no tribunal. Preciso conversar com meus advogados e descobrir se ela
pode surgir com alguma coisa que realmente me prejudique. Duvido, mas devo a todos os meus
funcionários e aos membros do conselho estar totalmente a par dessa situação.
Não vejo Evie há dois dias e estou morto de saudades dela, por isso essa viagem me irrita ainda
mais. Evie mencionou que estará responsável por limpar a cobertura do hotel durante toda a semana,
se o quarto estiver ocupado. Assim, na terça-feira bem cedo, tenho uma ideia e, a caminho do
aeroporto, passo no Hilton para reservar a cobertura até quarta-feira à tarde. É inaceitável ter que
esperar até a noite de quarta para ver Evie. Terei que voar de volta de madrugada, mas não tem
problema.
Eu me encontro com meus advogados na terça-feira e examinamos juntos o testamento de Phil,
incluindo o momento da alteração. Os advogados estão confiantes de que Lauren não tem base para
nenhuma ação, mas ainda é verdade que gastaremos um dinheiro considerável na defesa e que o
processo pode se arrastar por um bom tempo. Fico irritado só de pensar em todo o tempo
desnecessário que terei que passar em San Diego, longe de Evie, me dedicando a essa bobagem. E
também em todo o tempo que terei que passar com Lauren no tribunal, diante dela e de seus
advogados em uma mesa. É exatamente isso que ela quer e tenho vontade de dar um soco na parede
ao pensar em tanta manipulação. Será que não posso simplesmente seguir com a minha vida agora?
Dessa vez, não digo o nome do hotel em que estou ao pessoal do escritório. Assim, ao menos
posso ter certeza de que Lauren não me fará uma visita surpresa. Na verdade, só reservo um quarto
porque não estou com vontade de ficar vagando no aeroporto até meia-noite, que é o horário de
partida do avião. Preciso jantar alguma coisa e dormir por umas duas horas, se quiser estar acordado
o bastante para fazer uma surpresa a Evie. Sorrio ao pensar nisso.
Evie está no trabalho, mas mando uma mensagem de texto para ela e aviso que já terminei minhas
reuniões e estou no hotel. Peço o jantar pelo serviço de quarto e tomo um banho de chuveiro quente e
demorado. Ouço uma batida à porta no momento em que estou me vestindo. Congelo, a camiseta a
meio caminho da cabeça. Será que... Vou até a porta e confiro o olho mágico. É o serviço de quarto
novamente. Quando abro a porta, o garçom muito jovem entra no quarto com um carrinho com um
único prato coberto no meio.

– Ahn, eu não pedi nada. Deve ser o quarto errado.
O rapaz consulta sua comanda.
– Jake Madsen, quarto 842?
– Sim. Mas realmente não pedi nada.
– Outra pessoa fez o pedido, senhor.
Eu o encaro com a testa franzida.
– Está certo. Bem, obrigado.
Tiro uma nota de 20 dólares da carteira e a entrego ao jovem.
– Obrigado! – diz ele, olhando para a nota e já se encaminhando para a porta.
Levanto a tampa do prato e vejo uma pilha de cookies com gotas de chocolate, quentinhos. Evie.
Um sorriso se abre em meu rosto. Mal cobri novamente os cookies quando meu telefone toca. Vejo o
nome de Evie na tela.
– Oi, meu bem – respondo.
– Oi – diz ela, e posso ouvir o sorriso em sua voz. – O que está fazendo?
– Sentindo saudades de você.
– Recebeu minha encomenda?
Sorrio.
– Sim. Os lençóis estão todos manchados de chocolate e cheios de migalhas. E ainda não estou
satisfeito.
Ela ri.
– Sinto muito. Achei que poderiam me substituir à altura.
– Não chegaram nem perto. Alguma chance de o carrinho do hotel trazer você da próxima vez?
Evie ri de novo.
– Quem me dera! A que horas você volta amanhã?
– Só bem tarde.
– Ah... Está bem. – Ela parece desapontada. Sorrio para mim mesmo. – Como foram suas
reuniões?
– Muito bem. – Suspiro. – Não mencionei nada a respeito porque é só outro exemplo da minha
relação disfuncional com a minha mãe, mas... para resumir, ela discorda do testamento do meu pai.
Foi para isso que se reuniu com o conselho diretor da empresa aí em Cincinnati. Vim consultar os
advogados da companhia hoje, para descobrir se Lauren tem alguma chance de ganhar o caso e o que
vamos precisar para lutar contra ela no tribunal.
– Ah. Jake. Isso é... lamento tanto. O que ela quer com isso?
– Lauren quer basicamente o controle da companhia, quer me controlar. Mas meus advogados
estão confiantes de que ela não vai conseguir nada. Mesmo assim, terei que vir aqui mais vezes do
que gostaria.
Não consigo esconder a amargura na voz.
Evie fica em silêncio por um instante.
– Talvez eu pudesse ir com você uma ou duas vezes, se eu não estiver trabalhando. Para lhe dar
um apoio, sabe? Se achar que a minha presença pode ajudar... – Ela se interrompe, parecendo

insegura.
A emoção deixa o meu peito apertado e fico quieto por algum tempo.
– Jake? – chama ela baixinho.
– Você faria isso?
– Se eu faria isso? Sim, é claro que eu iria com você...
– Me apoiar.
É a vez dela de ficar em silêncio.
– É claro que eu o apoiaria – ressalta Evie.
Deixo escapar um suspiro rouco e algo bem no fundo do meu peito se aquece e se suaviza, relaxa,
como um músculo que houvesse estado em perpétua cãibra.
– Não mereço você, Evelyn Cruise.
– Provavelmente, não. Esses cookies também devem servir como um aviso para o que será seu
futuro se não me tratar bem. Uma vida de frustração e lençóis manchados de chocolate.
Rio e continuamos a conversar sobre o que Evie andou fazendo nos últimos dias, incluindo os
planos para jantarmos com os amigos dela, Nicole e Mike. Depois de mais algum tempo, percebo
pelo som de sua voz que ela está cansada e nos despedimos.
Na quarta-feira de manhã, quando chego a Cincinnati, mal tenho tempo de parar em casa e tomar
um banho antes de mudar de roupa e ir direto para o Hilton. Uso o cartão que haviam me dado na
véspera para abrir a porta da cobertura.
Quando ouço três batidinhas à porta, em vez de responder, vou para o corredor que leva ao
banheiro. Meu coração dispara na expectativa de que Eve apareça. Faço alguns barulhinhos de
propósito, para que ela saiba que há alguém ali.
– Olá... – chama ela, mas permaneço calado.
Os minutos se arrastam enquanto a ouço trabalhar no outro cômodo. Apuro os ouvidos, percebo
os passos suaves de Evie no carpete macio, enfio as mãos nos bolsos e espero, me sentindo
subitamente um pouco nervoso. Como ela reagirá a essa surpresa?
Vejo quando Evie espia do batente da porta, um walkie-talkie em uma das mãos e um spray
qualquer de limpeza na outra.
Continuo sorrindo quando ela me vê. Primeiro, uma expressão de espanto toma conta do rosto
dela, mas logo é substituída por outra de pura felicidade.
Ela deixa cair o que tem nas mãos e se joga em cima de mim, deixando escapar um gritinho de
alegria quando a pego no colo. Rio, surpreso, e giro com ela, nós dois sorrindo e nos beijando. Evie,
Evie, minha Evie, meu coração. Imagino que teria sido assim se eu a houvesse procurado quando ela
fez 18 anos. Por apenas um minuto, finjo que somos só dois adolescentes que passaram por uma
infância difícil, mas que tiveram sorte o bastante para encontrarem um ao outro, e agora somos só eu
e ela contra o mundo, recomeçando. Temos toda a vida pela frente, sem segredos, sem culpa, sem
vergonhas.
Evie segura o meu rosto entre as mãos, rindo contra a minha boca. Ela me beija de novo e de
novo. Eu faço o mesmo, com a mesma paixão, e giro-a no ar mais uma vez. Tudo em relação a Evie
me faz sentir em casa. Ela é o único lar que tive de verdade.

Finalmente a coloco no chão e Evie levanta os olhos para mim.
– O que está fazendo aqui, Jake?
– Queria fazer uma surpresa. Quando nos falamos no domingo, você comentou que iria limpar a
cobertura durante toda a semana, se ela estivesse ocupada. As engrenagens da minha cabeça
começaram a funcionar... Fiz a reserva na terça de manhã, antes de viajar. Quanto tempo você
costuma demorar para limpá-la?
– Você reservou a cobertura só para poder passar comigo o tempo que eu demoraria para limpála? – pergunta Evie, o cenho franzido.
– Reservei.
Ela fica me encarando em silêncio por um instante.
– Hum... quanto tempo demoro para limpá-la? Quando os hóspedes são muito bagunceiros, cerca
de uma hora e meia?
– Estamos falando aqui de verdadeiros porcos.
– Ah, certo, talvez então eu possa esticar para duas horas.
Não há tempo a perder. Começo a abrir o zíper do vestido dela.
– O que está fazendo, Jake?
– Aproveitando o nosso tempo.
– Hã, Jake... – ela começa a dizer, mas não termina, porque já estou beijando seu pescoço.
Assim está ótimo. Teremos muito tempo para conversar depois.
Ela me olha com uma expressão ardente e um sorrisinho nos lábios. Então pega a minha mão e me
leva para a poltrona grande, do outro lado do quarto. Evie me empurra para cima da poltrona e a
observo, imaginando o que terá em mente. Estava torcendo para que as coisas se encaminhassem
nessa direção específica. Eu, Evie, uma cama... vários dias morrendo de saudades dela. Mas não
sabia se Evie se sentiria confortável com essa situação, já que supostamente deveria estar
trabalhando. Mas, ao que parece, ela se sente bastante confortável. Graças a Deus.
Evie monta em mim, segura meu rosto entre as mãos e olha dentro dos meus olhos por alguns
segundos, antes de capturar meus lábios, mordiscando-os e deslizando a língua para dentro da minha
boca. Sorrio contra os seus lábios. Minha Evie está descobrindo seu lado deusa do sexo. Algo em
mim se agita... um orgulho possessivo pelo fato de ela só conhecer o meu jeito de fazer amor, de só
ter aprendido o que sabe comigo. Assumo o controle do nosso beijo e inclino a cabeça de Evie para
poder explorar mais fundo a sua doçura. O sabor dela explode em minha língua e meu pênis fica
duro. Meu corpo é dominado por um ataque violento de desejo, minha ereção é plena sob a parte
mais íntima de Evie. Anseio por estar dentro dela, quero penetrá-la tão fundo que não saibamos mais
onde ela começa e eu termino.
Puxo para baixo o zíper do vestido dela e desço-o até expor a pele sedosa de seus ombros. Colo
novamente a boca à de Evie enquanto corro o vestido por seus braços. Quando a curva do quadril
dela impede que a roupa passe, Evie interrompe o beijo e se levanta, mantendo o contato visual
comigo enquanto o tecido escorrega para o chão.
Meus olhos estão pesados do desejo que percorre meu corpo. Eu me recosto na poltrona, passo
um dos braços pelo encosto dela e observo o show que ameaça destruir o pouco controle que ainda

me resta.
Evie abre lentamente o sutiã e o deixa deslizar pelos braços até também cair. A calcinha é a
próxima. Ela enfia os polegares no elástico da cintura e desce a peça bem lentamente pelas pernas,
até o chão. Evie chuta os sapatos e dá um passo para o lado, abandonando a calcinha. Meus olhos
acompanham cada peça de tecido que sai do corpo dela e então a encaram, parada diante de mim, em
toda a perfeição de sua nudez. Meu olhar encontra o dela e vejo ali a hesitação misturada ao desejo.
Por algum motivo, o fato de Evie estar um pouco nervosa torna o show que ela acabou de dar ainda
mais sexy.
Sem perder o contato visual com ela desabotoo minha calça e abro o zíper. Quero tranquilizá-la
mostrando a ela o que provoca em mim. Só quando liberto meu pênis os olhos de Evie se desviam
dos meus e ela passa a acompanhar o movimento da minha mão. Os olhos dela ficam vidrados
enquanto me acaricio. Ah, Deus, isso não é uma boa ideia. Mal estou conseguindo me conter. O
gemido baixo que Evie deixa escapar me inflama.
– Quero que se toque, Evie – peço, a voz engasgada.
A hesitação que vi nos olhos dela parece ter desaparecido. Evie faz o que eu digo no mesmo
instante. Ela toca os mamilos de leve, então leva uma das mãos ao meio das pernas, por entre os
pelos escuros, e se acaricia com os dedos, gemendo, os lábios entreabertos. Aquilo acaba de vez
com o controle que venho mantendo por um fio.
– Meu Deus, preciso estar dentro de você agora, meu bem – aviso.
Eu a agarro pelo quadril e a coloco em cima de mim novamente, apoiando seus joelhos na lateral
da poltrona. Puxo o corpo dela para baixo, arremeto com toda a força e mergulho nela por inteiro. Os
músculos internos dela ficam tensos por um instante, então ela levanta o corpo e volta a descê-lo com
vontade. Vejo estrelas. Ah, isso é tão bom... Não consigo evitar o gemido rouco que escapa de meus
lábios conforme o prazer se espalha por meu corpo.
Observo Evie experimentar essa nova posição, me cavalgando, buscando prazer no meu corpo, e
é tão excitante que não sei se vou aguentar por muito tempo.
Evie sobe e desce, levando nós dois em direção ao orgasmo. Capturo um seio com a boca e
chupo o mamilo, que logo fica mais rígido. Eu brinco com ele entre o indicador e o polegar, então
faço o mesmo com o outro seio. Quando volto a me recostar, sinto um gemido rouco subindo pela
garganta ao ver que os mamilos de Evie estão escuros e molhados do contato com a minha boca e que
os lábios estão vermelhos e inchados dos meus beijos. Por alguma razão, um prazer primitivo me
invade ao ver no corpo dela a evidência do amor que estamos fazendo.
Quando sinto o clímax chegando, seguro Evie pelo quadril, fazendo-a se mover mais rápido e
com mais intensidade, como eu preciso.
– Aaaah – digo em um grunhido quando o prazer explode pelo meu corpo.
Capturo a boca de Evie quando ela também chega ao orgasmo, beijo-a apaixonadamente e ambos
gememos e nos agarramos um ao outro.
Ainda permanecemos abraçados por vários minutos antes que nossa respiração volte ao normal.
– O que você está fazendo comigo? – pergunta Evie, por fim.
Sorrio para ela e logo rio baixinho.

– O que você está fazendo comigo?
Nós nos limpamos, então caímos na cama, Evie aconchegada a mim, que a abraço com força.
– Você pegou o avião da madrugada na noite passada? – quer saber Evie. – Deve estar exausto.
– Sim. Achei que poderia tirar um cochilo no avião, mas me sentei ao lado de um cara que não
parou de falar a noite toda. Ele tinha medo de voar e acho que falar evitava que entrasse em pânico.
– Ah, que chato... para vocês dois!
– Pois é. Toda vez que havia a mais leve turbulência, o homem agarrava a minha perna. Mas no
estado de pânico em que se encontrava, sua mira não era muito boa e, mais de uma vez, ele agarrou o
“rapaz” lá embaixo.
Evie ri.
– Provavelmente você já possa até eliminar “sexo no avião” de sua lista de coisas a fazer antes
de morrer.
Rio também.
– Provavelmente.
– Agora, falando sério... isso realmente está na sua lista de desejos? – quer saber Evie.
Ela levanta a cabeça e ergue uma das sobrancelhas.
– Não... Mas se estiver na sua, posso fazer o sacrifício – respondo, sorrindo maliciosamente para
ela.
– Não sei. Nunca nem sequer viajei de avião... Mas eu o avisarei.
– Está certo.
Eu a puxo mais para perto e beijo o topo de sua cabeça.
– O que está na sua lista de desejos, meu bem?
Evie fica em silêncio por um instante, então fala baixinho:
– Ter uma família.
A mão com que eu acariciava lentamente o braço dela fica imóvel conforme suas palavras me
envolvem. É a única coisa que eu quero, também. Com ela. Só com ela.
Evie deve ter tomado meu silêncio como um sinal de desconforto da minha parte, porque se
apressa em acrescentar:
– Quero dizer, algum dia. No futuro. Se acontecer. Não é como se...
– Evie, pare. Você não precisa explicar a sua resposta. Querer uma família, principalmente
quando nunca se teve uma, é absolutamente compreensível.
Ela levanta a cabeça, me encara e, por fim, assente.
– Eu só não queria que você pensasse que eu o estava pedindo em casamento ou algo parecido –
brinca ela, sorrindo, e pousa a cabeça novamente no meu peito.
Rio.
– Eu teria aceitado. Só para registrar.
– Bom saber – diz Evie, com um sorriso na voz.
– Mas não por menos de um anel de 3 quilates.
Ela ri.
– Eu sabia que você era só um caça-dotes.

– Ei, um cara precisa respeitar os próprios padrões.
Evie levanta a cabeça e olha nos meus olhos.
– Às vezes imagino se eu seria uma boa mãe. Afinal, nunca ninguém me mostrou como fazer
isso...
Fico encarando-a em silêncio por algum tempo.
– Acho que algumas pessoas simplesmente sabem certas coisas, Evie. Você será uma ótima mãe
– digo, certo de que é verdade.
Ficamos em silêncio um instante e volto a acariciar o braço dela, sentindo a paz de ter seu
coração batendo tão perto de mim. Minha mente se enche de imagens dela carregando um bebê nos
braços, um filho meu. Abraço-a com mais força.
– Ah, tenho uma coisa pra você! – digo.
– O quê? – pergunta Evie, levantando um pouco o corpo.
Eu me inclino sobre ela e pego o paletó que havia deixado ao pé da cama quando entrei. Enfio a
mão no bolso, pego um embrulhinho de papel fino e o entrego a Evie.
Ela o pega e relanceia o olhar para mim com um sorrisinho nos lábios. Então abre o embrulho e
pega a concha pequena e delicada que ele continha. Um enorme sorriso se abre em seu rosto.
– Uma concha! Nunca tive uma concha! Obrigada! Você encontrou ou comprou?
– Encontrei. À primeira vista não é uma concha das mais lindas, mas está vendo essa espiral aqui
do lado? Veja. Em 99 por cento dos casos, a espiral segue o sentido horário. Neste a espiral é em
sentido anti-horário.
Faço uma pausa enquanto ela examina a concha.
– Dei uma caminhada na praia entre as reuniões que eu tive ontem e, quando vi a concha, pegueia para você. Então percebi o desenho. Nunca havia encontrado uma assim antes.
Ela baixa os olhos para a concha e traça a espiral delicadamente com o dedo. Então levanta os
olhos e sorri para mim.
– Você leu algum livro sobre conchas? Como sabe tanto sobre elas? – pergunta, erguendo uma
sobrancelha para me provocar.
Rio.
– Não. Eu não sei. Só peguei essa informação em algum lugar. Nem sei onde.
Observo-a com um sorrisinho no rosto. Evie volta a olhar para a concha, analisando-a. Continuo:
– A questão sobre os caracóis marinhos com desenhos no sentido anti-horário é que eles só
podem cruzar com outros cujas espirais se curvem na mesma direção.
Os olhos de Evie encontram os meus e ela franze o cenho.
– Como é possível eles encontrarem algum dia uma parceira do tipo deles se são apenas um por
cento da população de conchas? Parece impossível.
Balanço a cabeça, assentindo.
– Bem, para sorte dos caracóis que têm o desenho no sentido anti-horário, os predadores deles
usam uma técnica que só funciona com os que têm espirais que se curvam no sentido horário. Se os
predadores tentam comê-los, simplesmente não conseguem, então terminam soltando-os. Esse carinha
aqui, o desenho dele, o modo como foi feito, permite que sobreviva mais um dia. Ele tem então mais

um dia para encontrar uma parceira. Ele é raro, mas é um sobrevivente, assim como será a outra
concha pela qual está procurando.
Evie está me olhando com uma expressão sonhadora, um sorrisinho nos lábios. Me sinto
hipnotizado por seus olhos lindos e escuros. Ela avalia de novo a concha em suas mãos e diz
baixinho:
– Humm... Será que este aqui morreu antes de encontrar sua parceira? Pobrezinho.
Sorrio.
– Prefiro acreditar que ela também foi levada pelo mar para aquela praia e que eles levaram uma
vida de conchas longa e feliz juntos.
Evie sorri também e volta a olhar para a concha, traçando mais uma vez a espiral com os dedos.
Quando ela me encara novamente, diz:
– Foi uma linda surpresa, Jake. Obrigada.
Fico abraçado a ela na cama por mais algum tempo antes de chegar a hora de nos levantarmos,
ajeitar o quarto e deixar Evie voltar ao trabalho. Hoje vai ser um longo dia. Estou exausto. Mas valeu
a pena. Valeu muito a pena.

capítulo 26

Depois da nossa conversa na suíte do Hilton, não consigo tirar da cabeça a imagem de como seria
ter uma família com Evie. Não costumava pensar muito nisso quando tinha 14, 15 anos, embora
tivesse certeza de que aconteceria – e depois nunca mais me permiti pensar. Teria sido
desnecessário e torturante. Eu acreditava que jamais poderia ter Evie de novo. De que adiantaria
ficar imaginando crianças de olhos castanhos correndo por toda parte, meus filhos com ela, se eles
nunca existiriam? Mas agora... Conversar com Evie sobre o sonho dela de ter uma família acendeu
essa ideia na minha cabeça. Não é um sonho nebuloso e distante, mas uma imagem bem específica.
Não consigo tirá-la da cabeça. Evie nem sequer falou que queria realizar esse sonho comigo, mas
quero que ela saiba que eu quero realizá-lo com ela. E não posso fazer isso sem contar quem sou.
Quero tanto seguir em frente com a nossa vida que mal consigo pensar direito. Mas, para seguir
em frente, primeiro tenho que contar a verdade a Evie. Agora ela sabe tudo o que podemos ser juntos.
Essa situação não pode continuar.
Se Evie decidir que não quer mais ficar comigo depois que eu lhe contar a verdade, tenho que
deixar que ela encontre outra pessoa para realizar seu sonho. Não posso continuar a impedi-la de
realizá-lo por mais nem um dia. Amo Evie. Quero que ela tenha tudo o que desejar, mesmo se não for
comigo. O medo corre pela minha espinha diante desse pensamento, mas fico firme. Faça o que você
sabe que é certo.
Sei que Evie gosta de mim, por isso é menos provável que ela queira me deixar. Meu Deus! Dá
para eu ser mais egocêntrico? Sou um exemplo para os babacas mentirosos de toda parte. Se Evie
vier a me odiar ainda mais, não a culparei. Não apenas vou perdê-la, como também vou para o
inferno. O medo e a culpa queimam meu estômago.
Quero tão desesperadamente dizer a Evie que a amo... Mas como posso fazer isso quando estou
sendo tão egoísta? O amor não é egoísta. Amo Evie desde o princípio, mas me recuso a lhe declarar
isso sem que ela saiba o meu nome.
Uma semana depois de surpreendê-la na cobertura do hotel, ligo para o Dr. Fox enquanto ela está
no trabalho.
– Jake! – cumprimenta ele. – Como você está?
– Estou bem, Doutor. O trabalho vai bem.
– E Evie? Como vão as coisas com ela?
Não falo com o Dr. Fox desde aquele dia em que Evie me surpreendeu seguindo-a. Mandei um email breve para ele, contando que voltara a ter contato com ela, mas nada além disso.
– Estão ótimas. Mas, Doutor... – Faço uma pausa antes de continuar. – Evie não me reconheceu. E
eu menti para ela, disse que Leo havia morrido e que eu era um conhecido dele.

Há um instante do mais profundo silêncio. Juro que é possível ouvir um alfinete caindo do outro
lado da linha.
– Jake... – diz apenas, num tom de profundo desapontamento. Merda.
– Eu sei, Doutor. Eu sei. Acredite em mim, eu sei.
– E ainda não contou a verdade a ela? Por quê?
– Porque sou um covarde que não vale nada e só pensa em si mesmo. Eu queria Evie e achei que
essa era a única forma de impedir que ela me deixasse. Entrei em pânico e menti. E agora... sei que
tenho que contar a verdade a ela, mas estou apavorado. Como pode ver, sou um covarde que não vale
nada.
Ele suspira.
– Filho, você não é coisa alguma que não vale nada. Mas sabe que precisa contar a verdade a
Evie, para que ela possa fazer sua escolha. Dê a ela a oportunidade de escolher ou não o verdadeiro
você.
– E se ela não me escolher? – Minha voz quase falha, mas me recomponho.
– Então você vai saber que fez o que era certo e vai mostrar seu amor por ela deixando-a ir. Vai
respeitá-la, deixando-a escolher a vida que quer e deixando que Evie decida o que pode ou não
perdoar.
Ficamos ambos em silêncio por alguns segundos, então o Dr. Fox pergunta:
– Você está no caminho certo, garoto? Está se sentindo em paz?
Permaneço em silêncio por mais um instante até que respondo:
– Não.
Suspiro e passo a mão pelo cabelo. Mas estou tão perto...
– Recue, então. Conte a verdade a Evie.
Deixo escapar outro suspiro.
– Está certo. Sei que é o certo a fazer, só que fazer o que é certo...
– A coisa certa nem sempre é a mais fácil de se fazer. Mas acredito em você. Acredito que é
mais forte do que pensa. Mas você já sabe disso – garante ele, e percebo um sorriso em sua voz.
– Está certo, Doutor. Bem, tenho que correr... obrigado, viu?
Preciso desligar antes que o nó na minha garganta fique insuportável.
– Está certo, Jake. Você consegue.
– Está bem. Tchau, Doutor.
– Tchau, filho.
Naquela sexta à noite, faço amor com Evie no escuro e derramo todas as minhas emoções na
adoração que dedico ao seu corpo. Tenho consciência de que estou tentando memorizar cada parte
dela, no caso de vir a ter apenas essas lembranças pelo resto da vida. Vou contar a ela amanhã. Evie
fez planos de jantarmos com amigos dela amanhã à noite, e não posso permitir que essa história se
estenda por mais tempo.
Seguro-a em meus braços até ela adormecer, então fico deitado no escuro, deixando que o
perfume de Evie e a sensação de seu corpo inundem a minha alma. Essa será a última vez que farei
isso? Será que conseguirei fazê-la compreender? Evie será capaz de me perdoar?

Por fim, me afasto do corpo adormecido dela, vou até a cozinha e me sirvo de um drinque, que
tomo diante da bancada. O ar fresco clareia minhas ideias e o álcool começa a me deixar sonolento
depois de algum tempo. Estou prestes a voltar para a cama quando sinto os braços de Evie ao meu
redor.
– Não consegue dormir? – pergunta ela em uma voz sonolenta.
– Não. Achei que um drinque ajudaria. Volte para a cama, meu bem. Vou me juntar a você em um
minuto.
– Está certo – concorda ela, então aperta um pouco mais o meu corpo e volta para a cama.
Na semana passada, agendei um dia de spa para Evie. Achei que seria bom para ela relaxar antes
de sairmos para jantar. O atendimento é amanhã cedo, mas não o cancelo. Quero que ela aproveite o
spa, porém me dou conta de que estou ganhando mais algum tempo. Umas poucas horas em que
ainda posso dizer que ela é minha.
Levantamos e tomamos um café da manhã leve. Então Evie sai para o spa. Tomo um banho e visto
jeans e camiseta antes de voltar à sala para esperar por ela. Trabalho no meu notebook por algumas
horas, mas tenho dificuldade de me concentrar. Por isso, acabo deixando o trabalho de lado e fico
apenas sentado. Não tento ensaiar o que vou dizer quando Evie voltar – a ordem exata das palavras
não importa. Não sei nem mesmo se ela vai me deixar explicar mais alguma coisa depois que eu
disser quem sou e que menti esse tempo todo. Será que vai chorar? Ou vai ficar furiosa? Será que vai
me esbofetear? Espero que faça isso. Eu mereço. Estou me sentindo nauseado e assustado, mas sei o
que tenho que fazer e vou fazer. Estou assustado, mas decidido.
O interfone toca. Eu me sobressalto e saio do transe em que estive perdido pela última hora.
Atendo e outro porteiro, Carl, diz:
– Sr. Madsen, a Srta. Cruise está aqui. Ela... não parece bem. Devo deixá-la subir?
– Sim, é claro – respondo.
Então coloco todas as minhas próprias preocupações de lado; a preocupação com Evie é maior
do que tudo. Combinamos que ela me avisaria por mensagem de texto quando houvesse acabado e eu
mandaria um carro pegá-la. Será que houve algum problema no spa?
Quando a porta do elevador se abre, Evie sai, parecendo muito pálida e transtornada.
Meu coração para.
– Evie, meu bem, o que houve? – pergunto.
Passo os braços ao redor dela e a levo para dentro do apartamento. Fecho a porta, viro-a na
minha direção e seguro seu rosto entre as mãos.
– Evie, fale comigo, meu amor. O que houve?
Examino o corpo dela de cima a baixo, procurando por algum machucado, algo que explique a
expressão no rosto dela.
– Tire a camisa, Jake – ordena Evie, em uma voz sem expressão.
Por um instante, fico apenas encarando-a, sem compreender. O que a minha camisa tem a ver com
isso?
– O quê? Meu bem, não estou entendendo.
– Me deixe ver suas costas, Jake – diz ela, me fitando nos olhos agora, o medo, pleno e vívido,

dominando sua expressão.
Eu a encaro por um longo instante, gelando de pânico ao compreender o que aconteceu. Alguém
contou a Evie sobre a minha tatuagem. Quem? O que mais disseram a ela? Preciso ser eu a lhe
explicar tudo. Preciso ser eu a fazê-la entender. Não é assim que eu gostaria de começar. Fecho os
olhos desejando que o tempo pare. Quando os abro novamente, olho dentro dos olhos de Evie, que
estão tomados pela mágoa e pela confusão. Aquela expressão me acerta como um soco no estômago.
– Evie, com quem você falou? Meu bem, me deixe explicar primeiro.
– Não! – grita ela, a voz trêmula. – Me mostre suas costas, Jake!
Por favor, não deixe que isso esteja mesmo acontecendo. Fecho os olhos novamente, conformado,
de cabeça baixa, depois volto a encarar Evie. Não importa quem contou a ela. Eu queria resolver
essa situação de uma forma carinhosa, mas o destino se adiantou e é dessa forma que vai acontecer.
Levanto a bainha da camiseta e tiro-a pela cabeça. Fico parado diante de Evie, de peito nu, como já
fiz tantas vezes. Volto a olhá-la nos olhos, implorando que ela compreenda. Os olhos grandes e
assustados de Evie me fitam, esperando que eu explique de algum modo.
Eu me viro lentamente e mostro minhas costas. Volto a abaixar a cabeça, sentindo o olhar dela me
queimar. O sangue lateja em minha cabeça, o som das batidas do meu próprio coração ecoa nos meus
ouvidos.
Escuto um arquejo, mas não me mexo. Vários segundos se passam, e não me movo nem quando
escuto o grito estrangulado que Evie deixa escapar, ou seus passos cambaleando para trás.
Minha mente parece desligar e de repente estou de volta a San Diego, meses antes do aniversário
de 18 anos de Evie. A data acena dolorosamente para mim na agenda. Pensar no que ela representa
me faz sofrer de um modo como nunca sofri, nem mesmo naquela primeira semana, quando tive
consciência de que o que aconteceu com Lauren me fez perder Evie para sempre. Eu tinha a sensação
de que já havia morrido por dentro, como se fosse apenas a casca andando por aí, vazia, sem
entranhas. Não admiti isso para mim mesmo na época, mas olhando para trás sei que, mais do que
nunca, senti necessidade de acabar com aquele sofrimento. Não aguentava mais, era excruciante. Não
conseguia suportar. A vida me parecia um prédio em chamas e a única coisa em que conseguia
pensar era saltar. Eu estava sufocando, as chamas pareciam me lamber por todos os lados. A morte
me garantiria o ar limpo e doce ao qual eu não conseguia ter acesso no inferno em que estava preso.
Não me parecia uma opção, e sim sobrevivência.
Eu queria morrer, mas queria estar com Evie quando me fosse. Precisava me agarrar a ela, levar
uma parte dela comigo. Algo dentro de mim ansiava havia muito tempo por contar a minha história, a
história de nós dois, a história de como eu havia destruído tudo de mais lindo que já tivera, para
depois destruir a mim mesmo.
Assim, depois de meses pensando numa cena que narrasse minha vida, procurei um tatuador. Ele
me ajudou a desenhar a imagem que descrevi e permaneceu em silêncio enquanto rascunhava o
primeiro conceito básico. Quando terminou, o homem olhou para mim e perguntou em uma voz
tranquila: “Essa é a sua história, cara?”
Examinei o desenho por um longo tempo, então finalmente levantei os olhos para ele e respondi
apenas que sim.

Willow estava lá, andando em uma corda bamba, com a possibilidade da queda sempre presente
– sem rede de segurança, apenas a amargura do chão vazio sob ela. Era Willow, mas representava
tantos outros... sempre vivendo com medo e solitários, sem um lugar suave para aterrissar.
E então os palhaços. Todas aquelas pessoas sem coração que supostamente deveriam nos
proteger, nos fazer rir... ser uma válvula de escape para a dificuldade da vida. Mas que, em vez
disso, acabaram se mostrando o pior do pior, apenas piadas cruéis.
E lá estava eu também, meio leão, meio menino, exatamente como Evie acreditava que eu fosse.
Eu achava que ela devia estar certa, porque metade do tempo eu me sentia selvagem, furioso,
indomável e, na outra metade, suave e sensível demais para este mundo desgraçado. Eu não sabia
como fundir as duas metades em uma pessoa – não sabia como ser ambos em vez de apenas um ou
outro.
Evie tentou me ensinar, minha Evie, minha domadora de leões, mas eu não fui bom o bastante.
Nem mesmo por ela, a pessoa que mais amava no mundo, eu consegui ser bom o bastante. Nunca
seria.
No fundo da cena da tatuagem estava o mestre de cerimônias. Observando tudo, orquestrando o
espetáculo. Ele pusera os palhaços em ação, tantos deles. Pusera Willow na corda bamba sem rede
de segurança embaixo. Me fizera meio estranho, meio selvagem. Mas... mas me dera uma linda
domadora de leões, com olhos profundos como a eternidade, e dera amigos para Willow dispostos a
ampará-la se ela caísse e me fizera corajoso o bastante para amar as duas muito tempo atrás. Como
dar sentido àquilo? Como poderia compreender o mestre de cerimônias se não conseguia entender
nada do espetáculo para o qual me escalara? Ele era bom ou cruel? Eu não sabia. Me parecia uma
pergunta impossível de responder.
Paguei mais ao tatuador para fazer minha tatuagem toda em um único dia e, quando o homem
avisou que doeria demais fazer uma tatuagem tão grande de uma só vez, disse a ele que não me
importava. E, conforme a agulha entrava e saía da minha pele, eu saboreava a dor. Eu merecia a dor.
A dor física afastou a agonia emocional e naquele dia eu finalmente senti uma paz que não sentia
havia muito tempo.
Mais tarde naquela noite, sozinho e bebendo até deixar meu corpo e minha mente entorpecidos,
fiquei encarando o desenho da tatuagem no pedaço de papel que o tatuador usara como referência
para a história que gravara na minha pele. Encarei a representação dos olhos de Evie e, mesmo sendo
a cópia de uma cópia dos espelhos de sua alma, aquele olhar fez com que meu coração voltasse à
vida e recomeçasse a bater no peito. Ao observar o lindo rosto de Evie, algo em mim decidiu que
queria viver. Não sei o que foi, mas algo sussurrou em meu ouvido: aguente firme. E foi o que fiz.
Por um curto espaço de tempo.
Volto a mim quando Evie deixa escapar um grito baixo e estrangulado. Me sobressalto ao ouvila, mas, a não ser por isso, permaneço quieto.
Evie dá a volta e segura meu queixo entre as mãos trêmulas, erguendo meu rosto, forçando-me a
olhar dentro dos seus olhos cheios de mágoa.
– Por que está me encarando? – pergunta ela, a voz sem expressão, mas os olhos arregalados de
pânico.

Meus olhos buscam os dela por longos segundos, procurando algo que se pareça com amor ou
compreensão. Mas não encontram nada.
Mas sei o que Evie quer de mim e dou a ela a resposta que deseja.
– Porque gosto do seu rosto.
Ela volta a cambalear para trás, dando mais um grito estrangulado, e seus olhos finalmente
mostram que compreendeu. Então, como eu sabia que faria, Evie me dá as costas e sai correndo.
Acho que estou paralisado, mas, quando percebo, estou seguindo-a, chamando seu nome com a
voz engasgada, enquanto ela entra aos tropeções no elevador e a porta se fecha entre nós.
E, exatamente como eu sabia que Evie faria se soubesse a verdade, ela se foi. Já eu, faço a única
coisa que posso – caio de joelhos em frente à porta fechada do elevador, a cabeça entre as mãos, o
coração em pedaços.

capítulo 27

Não sei quanto tempo permaneci naquela posição até encontrar forças para me levantar e voltar
para o apartamento. Estou totalmente entorpecido agora. Visto novamente a camiseta e fico parado
diante das janelas, olhando para a cidade, encarando a verdade do que fiz. Penso em como Evie deve
estar se sentindo. Será que está chorando? Magoada? Será que me odeia? Provavelmente, sim. A
expressão no rosto dela quando as portas do elevador se fecharam entre nós me disse que sim. Eu traí
sua confiança, de novo. Abandonei-a e a decepcionei. Evie me odeia. Mas não tanto quanto odeio a
mim mesmo.
Onde está ela? Sozinha no apartamento onde mora? Sendo confortada pelos amigos com quem
deveríamos ir jantar esta noite? Queria tanto poder ser eu a confortá-la. Mas Evie não me quer. Eu
provoquei isso.
E se ela estiver ferida? Evie saiu correndo e não sei nem para onde. Preciso ter certeza de que
está bem. Pego o celular e mando uma mensagem de texto para ela, pedindo que por favor me diga se
está bem. Uma nova onda de pânico me atinge quando penso no estado em que Evie estava quando
saiu correndo de mim e na quantidade de áreas perigosas onde ela pode ter ido parar se correu na
direção errada.
Não consigo ficar sentado quieto. Assim, pego minhas chaves e saio do apartamento. Dirijo por
algum tempo tentando convencer a mim mesmo que não sei exatamente aonde vou e ligo para Evie
mais algumas vezes. Mas, no fim, acabo onde sabia que acabaria o tempo todo. Estaciono em frente
ao prédio de Evie e volto a ligar para ela. Sem resposta, mais uma vez. Saio do carro e toco o
interfone dela. Sem resposta, talvez Evie esteja lá dentro, mas decidida a ignorar o interfone. Só
quero saber se ela está bem...
Volto para o carro e dirijo sem rumo por mais algum tempo. Ligo mais algumas vezes para Evie e
mando algumas mensagens de texto. Por fim, deixo uma mensagem de voz para ela. “Evie, pelo amor
de Deus, eu... por favor, ligue para mim. Estou ficando louco aqui. Você saiu correndo e nem sei
como você está. Meu bem, por favor, me diga ao menos se está bem. Pelo menos isso. Mesmo se não
quiser conversar comigo... ou, mesmo se não quiser ter mais nada a ver comigo... por favor, me avise
se está bem, em segurança. Fui até o seu apartamento e você não estava lá. Está tarde e eu... por
favor, esteja bem.”
Estou trêmulo e arfante quando desligo o celular. Ela provavelmente está bem... ou está no
apartamento e não quis atender ao interfone ou está com amigos. Ela tem que estar bem. Volto a
dirigir a esmo por mais algum tempo, o céu já escuro agora, mais uma vez sem um destino em mente.
Fico quase chocado ao me ver descendo a quadra onde cresci e parando o carro em frente à casa
onde passei os primeiros onze anos da minha vida. Por que, entre tantos lugares, vim parar aqui sem

me dar conta? O que me trouxe a este bairro que nunca mais quis voltar a ver?
Quando paro o carro, me ocorre que este lugar fica a poucos quilômetros do apartamento de
Evie. Nossos lares adotivos também ficavam a cerca de dois quilômetros daqui. Tão perto
fisicamente, e ainda assim Evie foi tão longe. De certo modo, nós dois fomos, eu imagino, mas ela
conseguiu tudo sozinha.
Fico sentado no carro, olhando para a casa da minha infância sob a luz do poste da rua, e
lembranças ruins passam pela minha mente. Apoio a cabeça nas mãos e me rendo ao ataque violento
daquelas visões – muitas coisas ruins aconteceram sob aquele teto, entre aquelas paredes, e me
marcaram para sempre. Mas de algum modo, sentado ali, as lembranças ruins não parecem ter mais o
poder que eu esperava que tivessem. Em vez disso, a lembrança mais forte que me ocorre é estar
sentado no minúsculo banheiro do segundo andar com Seth. Por alguma razão ele parecia gostar
daquele pequeno espaço, e eu o levava para lá quando chegava em casa do colégio. Às vezes
ficávamos ali por horas. Eu acabava fazendo meu dever de casa no chão do banheiro e tentava
ensinar a Seth as coisas que eu fizera no colégio naquele dia. Na maior parte das vezes, ele não
conseguia assimilar, mas de vez em quando, e sempre ali, os olhos dele pareciam clarear e, por um
ou dois minutos, Seth compreendia. Era de tirar o fôlego.
O som de uma porta batendo me arranca do passado. Levanto os olhos e vejo um senhor negro
descer os degraus da varanda e acender um cigarro.
Eu sabia que meus pais já não moravam ali. Não tenho ideia de onde moram, ou mesmo se ainda
estão vivos. E não tenho a menor vontade de saber. Ainda assim, ver outra pessoa saindo pela porta é
muito estranho. Ligo o carro e me afasto.
Eu teria imaginado que ver a casa hoje, entre todos os dias, teria me arrasado. Mas não é o que
acontece. Ao contrário: na verdade, me sinto melhor por ter ido até lá, por ter revisto o lugar. Me
sinto mais forte. Como se o que aquela casa guarda não tivesse sobre mim o poder que eu ainda
imaginava que tivesse. Não sei bem como encarar isso, mas estou grato.
De repente, me descubro parado em frente ao lar adotivo onde Evie morava quando me despedi
dela. Parece abandonado, o gramado alto demais, com ervas daninhas, a casa em mau estado.
Estaciono e olho para o telhado onde subi tantas vezes para me encontrar com Evie. O lugar onde
nos apaixonamos... onde abrimos nossos corações um para o outro e sonhamos tantas vezes
juntos. Sinto um nó na garganta. Por favor, Deus, que não seja tarde demais.
Depois de alguns minutos, saio com o carro e vou até o cemitério onde Seth está enterrado. Dessa
vez, caminho direto até o túmulo dele. A lápide que encomendei já foi colocada. Eu me sento na
grama úmida, mas não digo nada. Só preciso ficar com meu irmão. Depois de algum tempo, meu
telefone avisa da entrada de uma mensagem e o pego no bolso. É um texto de duas palavras de Evie:
“Estou bem.”
Deixo o ar escapar e fico sentado onde estou por mais algum tempo. Lute. Levanto rapidamente a
cabeça. Não sei se eu disse essa palavra ou se a imaginei, mas de repente é a única coisa que se
repete sem parar na minha mente, me dando força. Lute. Depois de algum tempo, eu me levanto, volto
para o carro e vou para casa.

Acordo cedo. Dormi muito mal, mas sinto uma energia renovada. Vou lutar por Evie. Fiz merda.
Feia. Fui egoísta e a enganei. Devo desculpas e uma explicação. Estou disposto a rastejar pelo resto
da vida se Evie assim desejar. Estou disposto a qualquer coisa para fazê-la compreender. Então, se
Evie conseguir me perdoar, passarei o resto da vida garantindo que ela não sinta ter cometido um
erro.
Tomo banho me visto e vou até o prédio dela. Sei que estou com uma péssima aparência, mas
acho que não ligo muito para isso. Toco o interfone e, enquanto estou parado aguardando, Maurice
sai pela porta da frente.
– Eu a vi sair há quase uma hora.
Ele passa por mim e se vai. Mais uma vez, um homem de poucas palavras.
Eu me apoio na parede do prédio e decido esperar um pouco, na esperança de que Evie não
demore. Alguns minutos mais tarde, vejo-a dobrando a esquina com um copo de café em uma das
mãos e um pequeno saco de papel na outra.
Percebo quando ela nota o meu carro e começa a caminhar mais devagar. Vou encontrá-la, as
mãos enfiadas nos bolsos. Quando me vê, Evie para de andar.
Um sem-número de emoções passa pelo rosto dela, na velocidade de um raio – surpresa, mágoa,
amor. Ao ver isso, sinto esperança. Ela franze o cenho, os olhos ainda ligeiramente em pânico,
enquanto nos encaramos na rua. Então Evie tenta me contornar e se esquiva quando me viro. Mas sou
mais rápido e a alcanço com facilidade, levantando-a por trás. Ela não tem que me perdoar, mas vai
me ouvir. Esse momento está oito anos atrasado, e a culpa é totalmente minha, de mais ninguém, mas
isso não pode continuar por mais nem um minuto. Evie se debate, mas eu a seguro com mais força.
Quando chegamos à porta, murmuro no ouvido dela:
– Me dê a chave, Evie.
Ela me entrega, me encarando com irritação. Não tem problema, ainda assim, ela vai me ouvir.
Na porta do apartamento dela, eu a carrego para dentro, embora ela já não esteja resistindo.
Coloco-a no chão e fecho a porta. Ficamos nos encarando, eu com os olhos semicerrados, ela ainda
irritada, por um longo minuto. Sou eu quem rompe o contato visual primeiro. Passo a mão pelo
cabelo.
– Evie, precisamos conversar. E tem que ser agora.
– Por que você acha que pode decidir quando precisamos conversar? Não sou eu que devo
decidir isso, Jake? Ou devo chamá-lo de Leo? Por favor, me diga como devo chamá-lo.
Fecho os olhos por um instante, para recuperar a paciência. Sei que a deixei furiosa, mas ela
precisa entender que temos que conversar. Depois disso, pode me odiar. Deus, espero que ela não
me odeie.
– Evie, por favor. Podemos conversar? Você vai me escutar? Tenho vivido um inferno. Por
favor. Só quero que me diga que vai me ouvir... realmente me ouvir.
– Um inferno, você? Ah, por favor, Jake. Não quero tornar as coisas mais difíceis para você. Por

favor, sente-se. Posso lhe servir uma bebida? Algo para beliscar?
Ela me encara com raiva por mais algum tempo.
Respiro fundo.
– Sente-se, Evie. Agora.
Evie continua me encarando por mais algum tempo antes de se deixar afundar no sofá, parecendo
conformada, enquanto pairo acima dela.
Eu também me sento no sofá, mas me certifico de deixar bastante espaço para ela. Estamos
praticamente um em cada ponta.
– Se precisar de alguma coisa, vá pegar agora. Esta conversa deve demorar um pouco. Pegue o
que for necessário para deixá-la confortável e depois fique quieta neste sofá.
Ela massageia as sobrancelhas, mas finalmente exala com força e diz:
– Não preciso de nada, Jake... Leo. Por favor, vamos terminar logo com isso.
Ela massageia a parte de cima do nariz, como se estivesse sentindo uma dor de cabeça se
aproximando.
Hesito por um segundo. Sei que precisamos conversar, que tenho que contar a ela o porquê, mas
meu coração está latejando nos meus ouvidos com medo do que virá depois.
Eu me aproximo de Evie e, por apenas um breve segundo, ela fica olhando teimosamente para a
frente. Mas logo seu rosto se franze, ela apoia a cabeça nas mãos e começa a chorar. Ah, merda,
Evie, meu bem.... Sinto tanto, sinto tanto, tanto... Seguro-a nos braços e a aconchego enquanto ela
chora. Não tenho como consolá-la. Eu provoquei isso. Enfio o rosto nos cabelos dela e tento
absorver todo o sofrimento dela no meu próprio coração. Ficaria feliz em fazer isso, se pudesse. Só
que não funciona dessa maneira. Sabia disso oito anos atrás e sei agora.
Evie afasta as mãos do rosto e diz entre soluços:
– Eu esperei por você! Esperei, esperei e você simplesmente desapareceu. Não sabia se estava
vivo ou morto. Não sabia se você havia apenas decidido começar uma vida nova e me apagar da
antiga ou qualquer outra coisa! E mesmo assim eu esperei. Aliás, para ser bem sincera, mesmo não
admitindo isso nem para mim mesma, ainda estava esperando até o dia em que você voltou à minha
vida, se apresentando com outro nome. Nunca deixei de esperar por um menino que me descartou
como se eu fosse nada!
Evie soluça mais alto e fico arrasado. Puxo-a com mais força contra o corpo e a embalo. Embora
estivesse preparado para que ela me afastasse, Evie se agarra a mim e permite que eu a console.
Os soluços dela diminuem de intensidade depois de algum tempo e ela inclina a cabeça e levanta
os olhos para mim, linda demais, mesmo tão triste... Evie me examina por alguns instantes, então
passa o polegar pelo meu rosto, secando a umidade que encontra ali. Eu também estava chorando?
Não havia me dado conta.
As mãos dela ficam quietas, mas seus olhos continuam a examinar meu rosto, analisando cada
parte dele. Então ela volta a usar as mãos para explorar cada traço, passa os dedos pela minha testa,
pela lateral do meu rosto, pelo meu nariz e pelo meu queixo. Seus olhos seguem os movimentos das
mãos. Não digo nada. Só me pergunto o que ela estará pensando. Será que está me vendo como o
garoto que um dia conheceu? Os olhos de Evie encontram os meus e é como se uma corrente elétrica

passasse entre nós. Não sei bem o que fazer. Não tenho certeza do que Evie precisa nesse momento.
Por isso, permaneço imóvel.
Mas quando os olhos dela pousam em minha boca e seu rosto se aproxima do meu, encontro-a no
meio do caminho. Evie parece desesperada, cheia de desejo, e em minutos estamos ambos gemendo
um dentro da boca do outro. Quando tiro o suéter dela pela cabeça e puxo o sutiã para baixo, para
que possa lamber e chupar seus mamilos, ela deixa escapar um grito sufocado:
– Leo!
Não consigo conter o rugido satisfeito que sobe pelo meu peito. Ninguém me chamou de Leo em
oito anos e o fato de ouvir meu nome parece colocar mais combustível no desejo que sinto. É como
se eu estivesse recomeçando, como se finalmente pudesse ser eu mesmo, mas sem a pressão da
bagagem emocional que acumulei em San Diego. Com aquela única palavra, o garoto inseguro passou
para o banco de trás. Sou apenas a fera e a sensação é boa pra cacete.
– Diga meu nome de novo.
Evie sabe exatamente o que quero dizer e repete como um mantra:
– Leo, Leo, Leo.
Deito-a no sofá e ela passa as pernas ao meu redor.
– Faça amor comigo, Leo – pede Evie, os olhos encarando profundamente os meus.
Paro por um instante quando vejo a expressão no rosto dela. Evie quer isso, mas não porque acha
que pode me perdoar. Ela quer isso apesar de saber que talvez não seja capaz de me perdoar.
Levo a cabeça aos seios dela, beijando-os e chupando-os até ela estar se contorcendo e se
esfregando em mim. Conheço o corpo dela quase tão bem quanto conheço meu próprio corpo agora, e
dou a ela o que sei que adora receber. Evie geme, arqueia o corpo e se oferece enquanto continuo a
idolatrar os bicos rosados de seus seios, me concentrando primeiro em um, então passando para o
outro.
– Por favor – implora ela. – Preciso de você.
– Minha Evie – sussurro.
Me afasto um pouco e abro o jeans dela, para que possa me ajudar enquanto o tiro, e logo a
calcinha se vai também. Então pouso a mão entre as pernas dela e roço o dedo lentamente pelo
clitóris inchado, enquanto minha boca volta a se ocupar do seu seio.
Movo o dedo sobre o sexo dela em um ritmo semelhante ao que emprego chupando seus seios, e
rapidamente Evie está arfando e murmurando novamente o meu nome:
– Leo!
Uma onda de desejo selvagem atinge diretamente o meu pênis, e recuo com a força do que sinto.
Estou correndo o sério risco de gozar apenas tocando-a, ouvindo os sons que ela deixa escapar.
Estamos falando a mais simples das linguagens, sem precisar de palavras.
Introduzo o dedo nela, que está escorregadia de desejo, quase pingando. Agora é o meu polegar
que acaricia o clitóris inchado, e Evie deixa as pernas caírem para o lado, garantindo que eu tenha
bastante espaço para lhe dar prazer.
Ela abre os olhos para me encarar, as pálpebras pesadas, e deixa escapar outro gemido, enquanto
continuo a penetrá-la com meus dedos e a acariciá-la com o polegar em movimentos circulares.

Apenas observar a expressão dela quase me faz perder o controle, e meu pênis fica ainda mais
rígido.
Continuo com o movimento dos dedos enquanto observo o rosto dela, e ajusto o ritmo quando
percebo que Evie está no limite. Prolongo seu prazer ao máximo para que, quando ela finalmente
gozar, tenha o maior clímax que já experimentou.
– Leo! – implora Evie, quando diminuo o ritmo mais uma vez.
Ela ergue os quadris na tentativa de se satisfazer.
Coloco mais um dedo em Evie e acelero o ritmo, como sei que ela gosta, acariciando e
penetrando ritmadamente. Evie geme e, ao ouvi-la, também deixo escapar um gemido. Posso ver pela
expressão em seu rosto que ela está prestes a gozar.
– Goze para mim, Evie – digo em um grunhido.
O corpo de Evie fica tenso enquanto ela o arqueia no sofá, gritando meu nome sem parar.
Tiro o jeans e, quando Evie abre os olhos, viro seu corpo. Sinto uma necessidade primitiva,
quase animal, de possuí-la. Não penso, apenas sinto, agindo por puro instinto.
Levanto Evie, me posiciono atrás dela e a penetro. Gememos juntos. Começo a arremeter,
lentamente a princípio, então mais rápido. Digo o nome dela e Evie responde:
– Leo... Leo... Leo...
Seguro o quadril dela e me observo entrando e saindo dela, meu corpo brilhando com a umidade
de Evie.
Deixo escapar um rugido a cada investida. Evie é o meu mundo nesse exato momento – o cheiro
dela, nossos sons combinados, a sensação do calor apertado do corpo dela ao redor de mim.
Escuto a respiração dela se tornar mais acelerada e ofegante, passo o dedo por baixo de seu
corpo e começo a massagear seu clitóris. Evie se contorce sob mim, joga a cabeça para trás e
pressiona a bunda contra o meu ventre para que eu a penetre o mais fundo possível. Meu próprio
clímax parece uma explosão, de tão intenso. É como se uma queima de fogos acontecesse em minha
mente.
Arremeto mais várias vezes, extraindo o máximo de prazer possível. Então paro e apoio a cabeça
nas costas de Evie, enquanto nós dois tentamos recuperar o fôlego.
Depois de um instante, Evie começa a afundar no sofá. Eu a seguro, viro seu corpo e nos
abraçamos.
Eu me sento, trazendo-a comigo e acomodando-a sobre o meu colo, nossas peles nuas e suadas
coladas uma à outra, nossas respirações lentas e compassadas.
Eu me encosto no sofá e seguro o rosto dela entre as mãos. Agora finalmente posso dizer a única
coisa que venho ansiando dizer há longos oito anos.
– Eu te amo, Evie.
Ela me encara e continuo:
– Não importa o que você vá achar do que estou prestes a lhe contar, precisa saber disso. Sempre
te amei. Nunca deixei de amar. Nem por um segundo, nesses oito anos.

capítulo 28

Nós nos limpamos rapidamente e ela volta a se sentar no sofá, perto de mim. Ambos parecemos
estar um pouco zonzos com o que acaba de acontecer. Foi como se nossos corpos assumissem o
controle, exigindo do outro algo que era necessário, mas que ambos sabíamos que não mudaria a
situação diante nós. O problema ainda está aqui. A primeira pergunta que Evie me faz é por que
mudei meu nome. Faço uma pausa antes de começar. Aqui vamos nós.
– Lauren me perguntou se eu não achava que me ajudaria a ter um recomeço se eu passasse a usar
meu nome do meio e, é claro, meu novo sobrenome. A princípio, me recusei, mas depois daquela
primeira semana, concordei. Queria me tornar outra pessoa... sinceramente, queria escapar de mim
mesmo. É claro que uma mudança de nome não consegue isso, mas na época me pareceu ao menos um
começo. Me apresentei na escola como Jake Madsen e, desde então, ninguém nunca mais me chamou
de Leo.
E parece certo que Evie seja a primeira pessoa a usar meu nome verdadeiro, como se eu
estivesse me escondendo atrás de Jake Madsen por oito anos. Talvez de algum modo, de forma
inconsciente, eu estivesse tentando manter o meu eu verdadeiro em segurança, protegido. Mas agora
percebo que Evie é a única pessoa a quem preciso estar completamente exposto, embora também
seja a pessoa que mais me provoca pânico de fazer isso. O que não justifica a minha mentira, mas foi
o motivo por trás da minha desonestidade. Medo. O julgamento de Evie é o único com o qual
realmente me importo, o único que pode me arrasar completamente. Estou começando a achar que
talvez haja uma chance de eu ficar bem no que se refere ao meu passado e a todos os demônios que
carreguei comigo por tanto tempo quanto consigo me lembrar. Mas será que sobreviverei se Evie me
julgar imperdoável? Deus, não sei.
Com medo nos olhos, Evie me pergunta o que aconteceu naquela primeira semana. E é assim que
começo a lhe contar a minha história, cheia de segredos e vergonha, de erros e, talvez, apenas talvez,
de alguma redenção. Daquele primeiro voo a San Diego até o voo de volta para Cincinnati.
Evie ouve cada palavra que digo, sua expressão indo do horror à magoa, à raiva, à pena... minha
Evie, as emoções sempre transparentes para mim. Ela não sabe como escondê-las, ou talvez nem
sequer tente. Mas de qualquer modo, a beleza e a força que há nisso ficam ainda mais aparentes para
mim no meio da minha própria história. Eu havia me escondido de todas as maneiras possíveis. Mas,
no fim, os demônios tinham me encontrado de qualquer modo, mesmo com todos os meus esforços...
Eram determinados a esse ponto.
Conto a ela sobre aquele dia terrível no porão da minha nova casa em San Diego. O horror que
vejo no rosto de Evie é devastador e quase decido não continuar. Mas me recomponho e sigo em
frente assim mesmo. Devo isso a Evie. Mas minha vergonha parece estar me escaldando por dentro,

me queimando vivo. Estou revivendo tudo enquanto conto a Evie sobre o momento que afetou a nós
dois, o momento que mudou o curso das nossas vidas, talvez para sempre. Aquele momento não disse
respeito só a mim. Teve a ver com ela também. Assumo a responsabilidade por isso. Evie chama
Lauren de pedófila e talvez esteja certa. Mas eu cooperei. Mesmo que Lauren tenha me manipulado,
caí direitinho em sua rede. Reconheço isso. Tenho que reconhecer.
Aprendi muito e passei a ver as ações de Lauren sob uma nova luz depois das conversas com o
Dr. Fox. Ele me ajudou a compreender por que assumi aquele papel. Mas ainda não consegui me ver
livre da vergonha que essas lembranças me trazem. Talvez seja a última peça do meu quebra-cabeça.
Já fiz as pazes com meu passado, de certo modo, e isso me livrou de parte do sofrimento. Digo a
verdade a Evie agora. Talvez Lauren seja a última coisa que eu precise resolver para que possa me
curar por fim e ser o homem completo de que o Dr. Fox falou. Por que isso ainda parece uma façanha
tão impossível?
– Você não achou que poderia confiar em mim o bastante para me contar? – pergunta Evie, tensa,
o choro deixando sua voz aguda e fazendo meu coração se apertar no peito.
– Pensei um milhão de vezes em como poderia lhe explicar o que aconteceu. Precisava
desesperadamente de você. Achei que morreria de saudades. Mas o que eu diria? Nem eu mesmo
conseguia ver sentido naquilo tudo, então como conseguiria explicar a você? Estava sentindo tanta
vergonha...
Faço uma pausa.
– Depois, acabei encarando a saudade que sentia de você como uma penitência por ser quem eu
era, alguém que destruía as pessoas que amava. A única coisa que eu não conseguia superar era
quanto o meu silêncio deveria estar fazendo você sofrer.
Paro novamente, pesando as palavras, ouvindo meu próprio coração.
– Mas acabei me convencendo de que, ficando afastada de mim, você tinha uma chance de lutar.
Percebi que estava destruído e que algumas pessoas não têm jeito, não podem ser mudadas. Ou,
quando podem, é apenas por um amor tão grande que destrói quem o oferece. Eu não tinha o direito
de prejudicar você mais do que achava que já havia feito, Evie. Me convenci de que saber a verdade
a meu respeito teria magoado você ainda mais do que ser abandonada por mim.
Quando Evie me olha com empatia e claramente se controla para não me tocar, sei que isso se
deve mais à bondade inata dela do que a alguma possibilidade de eu merecer seu perdão.
Contar toda a verdade a Evie é a coisa mais difícil que já fiz na vida. É a coisa mais difícil que
jamais irei fazer. Sentar, olhar Evie nos olhos e explicar a ela a pessoa desprezível que eu fui... Eu
me transformara em tudo o que sempre havia prometido a mim mesmo que jamais seria – um covarde,
um drogado, um mentiroso. Havia me transformado exatamente no que havia me causado tanto
sofrimento quando era menino, passara a me entorpecer com substâncias diversas em vez de encarar
meu próprio sofrimento. E, enquanto me revelo a Evie, me pergunto como ela será capaz de me amar
novamente, se algum dia Evie será capaz de me amar novamente.
Quando conto a ela sobre o meu acidente, Evie agarra a minha mão e a aperta. É quase demais
para mim. Puxo a mão e volto a pousá-la em meu colo. Sei que não mereço esse conforto.
Conto a Evie sobre o ataque cardíaco do meu pai, sobre o Dr. Fox, sobre todos aqueles meses

deitado na cama do hospital refletindo sobre a minha própria vida, querendo-a de volta com tanto
desespero que era como uma dor física.
Conto também sobre como a segui, sobre como a mentira escapou de meus lábios e eu permiti
que se estendesse. Me encolho de vergonha. Tenho nojo da mentira que contei, mas, ao mesmo
tempo, uma parte de mim não lamenta que essa mentira tenha nos dado a chance de descobrir quem
somos juntos, antes de termos que lidar com todas as questões que a minha identidade teria trazido à
tona imediatamente. Não sei como conciliar esses sentimentos conflitantes, por isso não tento.
Apenas confesso tudo a ela. Confesso tudo sem me deter.
– Em vários momentos, quase lhe contei tudo. Desconfiei que você havia descoberto quem eu era
na noite em que a levei para casa, depois do nosso primeiro encontro, quando ficamos sentados no
carro, com as testas encostadas, do mesmo jeito que ficamos na noite do nosso primeiro beijo, no
nosso telhado.
Evie me encara em silêncio, com uma expressão triste e pensativa, por alguns minutos, antes de
dizer:
– Sempre fui boa em tirar da cabeça coisas sobre as quais não queria pensar, boa em me perder
em minha própria mente. É por isso que sou boa em criar histórias, eu acho. Ser capaz de escapar
para uma terra de sonhos era um instinto de sobrevivência para mim. Talvez eu também tenha feito
isso com você. No fundo eu sabia que havia algo em que não estava me permitindo pensar. Deixei
que você mentisse para mim, porque a mentira parecia tão boa... Admito isso agora.
Deus, é bem típico de Evie, tentar assumir a culpa por não me reconhecer... mas rejeito essa
possibilidade. Talvez tenha sido assim, talvez não, mas não é responsabilidade dela. Fui eu que
menti.
– Não vou deixar que assuma a responsabilidade por nada disso. Talvez você tenha feito algumas
escolhas inconscientes, mas não pode se culpar por isso. Eu tomei todas as decisões
conscientemente. Sou o único culpado nessa situação. Compreendo que você precise de espaço para
digerir tudo. Mas por favor, por favor, Evie, não posso perdê-la de novo. Não sobreviverei duas
vezes a isso. Pode ao menos tentar me perdoar? Entender meus motivos? – digo com a voz
embargada.
Ela fica um tempo em silêncio, então diz baixinho:
– Não sei. Só preciso de algum tempo, Leo. Você acaba de me fazer voltar oito anos da minha
vida... uma vida muito ruim... para nós dois.
Ela dá uma risadinha sem humor e faz uma pausa.
– Podemos... posso ter um pouco de espaço para pensar? Por favor? – pede.
Evie acaba de ficar sentada diante de mim, ouvindo toda a minha história desgraçada, tendo que
lidar com todas as emoções que ela traz de volta junto comigo. Darei a ela qualquer coisa de que
precisar.
Eu me sinto emocionalmente exausto, entorpecido, apavorado com a possibilidade de Evie não
perdoar. Mas voltei ao caminho certo – sei que voltei. Sinto isso. Agora, só tenho que rezar para que
Evie se junte a mim, para que o meu caminho também seja o dela.
Quando estou prestes a abrir a porta para ir embora, talvez pela última vez, digo baixinho:

– Sabe seu dom de contar histórias, Evie? Não tem a ver com você se perder em sua mente ou em
viver em uma terra de sonhos. Tem a ver com a beleza do seu coração. Tem a ver com você ser
capaz de se elevar acima até mesmo da pior das situações. Essa é uma das razões para eu ter amado
você a cada dia, desde que eu tinha 11 anos.
Quero que minhas últimas palavras para ela sejam de amor. Dito isso, destranco a fechadura,
saio e fecho a porta silenciosamente atrás de mim.

capítulo 29

Passo os dois dias seguintes em um estado de desespero silencioso. Mas consigo seguir em frente
sem tentar entorpecer minha dor. Em vez disso, lido com e ela e tento processá-la da melhor maneira
possível.
Vou à academia, me enfio de cabeça no trabalho e volto para casa no fim do dia exausto com
todas as emoções com que estou lidando, mas sentindo uma leve satisfação por estar aguentando
firme. Vejo isso como um sinal de que estou mais saudável do que antes e me permito sentir certo
orgulho. Não sei exatamente qual é a diferença dessa vez. Talvez tenha a ver com o tempo que passei
com o Dr. Fox, talvez seja por ter ficado em paz depois de finalmente contar a verdade. Talvez seja
porque Evie, queira ela continuar comigo ou não, não tenha me olhado com desprezo ou ódio. Mágoa,
sim. Desprezo, não. O alívio que isso me traz já é enorme.
Meu plano não mudou. Vou lutar pela minha Evie. Mas sei instintivamente que lutar por Evie
significa dar espaço a ela para processar tudo o que lhe contei.

Alguns dias depois da minha conversa com Evie, vou cedo para o aeroporto para cuidar de alguns
negócios em San Diego. Preston e eu contratamos um novo vice-presidente de operações para o
escritório da Califórnia e quero estar lá para recebê-lo. Não é uma viagem obrigatória, mas sair da
cidade vai me ajudar a me distrair por um dia e vou parar de ficar andando de um lado para o outro,
na frente da porta do meu apartamento, louco de vontade de correr atrás de Evie.
Enquanto espero para embarcar no meu voo, escuto minhas mensagens de voz. Há um número que
não reconheço e, quando escuto a mensagem, vejo que é de Lauren. “Jake, preciso de você. Fui
presa. Por engano, é claro. Essas pessoas incompetentes me trouxeram para a cadeia, Jake. É
inacreditável! Preciso que você me tire daqui...”
Chocado, escuto enquanto ela tapa o bocal do telefone e fala com alguém. Então Lauren volta ao
telefone:
“Jake. Por favor, me tire daqui. Serei levada ao juiz na segunda-feira de manhã. Marque um voo!
Não consigo nem imaginar a possibilidade de passar a noite aqui. Traga dinheiro, querido. Estou na
central de polícia de San Diego.”
Guardo o celular no bolso do paletó, totalmente confuso. Presa? Por que motivo? Não consigo
acreditar que Lauren tenha ligado para mim, entre tantas pessoas. Ou melhor, acho que consigo.
Levanto os olhos e percebo que o embarque para a primeira classe já começou. Pego a minha bolsa e
sigo para o avião.

Quando aterrisso em San Diego, vou direto ao balcão de aluguel de carros e logo estou saindo do
estacionamento. Procuro no Google pela localização da central de polícia enquanto espero pelo
carro, então ligo para lá. Depois de ser transferido várias vezes, finalmente me passam para o
detetive Peterson.
– Sr. Peterson, quem fala é Jake Madsen. Lauren Madsen é minha mãe. Recebi uma mensagem
dela dizendo que foi presa...
– Sim, Sr. Madsen – confirma o homem em um tom solene. – Sou o responsável pela operação
que levou à prisão de sua mãe.
– Operação? – repito, incrédulo, deixando escapar uma risada sem humor. – Isso parece sério.
Achei que ela havia apenas tomado uns copos de vinho a mais e entrado no carro.
– Não, Sr. Madsen. Na verdade, não posso lhe dar mais nenhuma explicação pelo telefone. Mas
se o senhor estiver próximo da central de polícia terei prazer em encontrá-lo agora e lhe explicar os
detalhes do caso da sua mãe.
Faço uma pausa antes de voltar a falar.
– Na verdade, estou próximo. Não moro mais na cidade, mas por acaso estou aqui hoje. Posso ir
direto para aí, agora, se for bom para o senhor.
Do que se trata tudo isso? Eu realmente me importo? Não, não no que se refere a Lauren. Mas a
curiosidade leva a melhor nesse momento. E mais: haverá alguma possibilidade de o que acontecer
lá afetar o processo dela contra mim?
– Agora está ótimo.
O detetive diz que está na central de polícia naquele momento, me orienta sobre como chegar lá e
desligamos.
Telefono para o meu escritório, aviso que vou chegar um pouco mais tarde do que imaginei e sigo
para o encontro com o detetive Peterson. Que diabos aconteceu? Uma operação para prendê-la? As
únicas operações de que já ouvi falar estavam relacionadas a drogas ou eram as que via em algum
canal de notícias, quando o repórter surpreendia o cara que marcou um encontro com uma menina
menor de idade via internet.... Solto o volante sem querer e o carro invade um pouco a pista do lado.
Uma buzina furiosa me traz de volta à realidade. Sinto uma onda gelada de pânico percorrer meu
corpo. Ah, merda. Não. De jeito nenhum. Não mesmo. Não pode ser, pode? Afasto a ideia e
continuo a dirigir até a central de polícia.
Quando chego, pergunto pelo detetive Peterson no balcão de recepção e, depois de cinco
minutos, um homem de meia-idade, alto, com cabelos louros já rareando e uma expressão cansada
nos olhos, aparece e aperta a minha mão.
– Sr. Madsen. Lamento conhecê-lo nessas circunstâncias. Por favor, siga-me. Há uma sala vazia
mais adiante.
Aceno com a cabeça e o sigo através da central de polícia, pensando que tive sorte por conseguir
ficar longe deste lugar em tantas ocasiões durante minha adolescência, mas não por falta de tentativa.
Todas as bebedeiras quando era menor de idade ou as vezes em que dirigi depois de muitos
drinques, burro, idiota que eu era... sinto vergonha ao lembrar de alguns desses momentos.
O detetive me leva até uma pequena sala sem graça, na parte mais afastada da central de polícia.

O céu muito azul da Califórnia, do lado de fora, contrasta fortemente com a caixa sombria em que
estamos sentados.
Peterson senta atrás da escrivaninha e eu me acomodo na cadeira marrom de vinil em frente a ele.
Na parede há um pôster com um gatinho pendurado em uma corda e a frase “Aguente firme” embaixo.
Algo na cena me parece muito engraçado e quase deixo escapar uma gargalhada, mas me controlo.
– Sr. Madsen, sua mãe foi presa ontem em uma operação montada para surpreendê-la em uma
ligação sexual com um menino menor de idade. As acusações contra ela são de pedofilia e sedução
de menor.
Tudo ao me redor parece se fechar, até que a única coisa que consigo ver é um ponto de luz
brilhante. Fecho os olhos por um breve momento, me recomponho e tento acalmar meu coração, que
está disparado.
Respiro fundo e abro os olhos, enquanto o detetive Peterson continua:
– Sr. Madsen, sinto muito por ter que lhe dar essa notícia. Sei que é de sua mãe que estamos
falando.
Ele faz uma breve pausa antes de voltar a falar.
– Deve ser um choque para o senhor e imagino como está abalado. Mas precisa entender que esse
tipo de criminoso tem um grande talento para manter segredos. E, na maioria das vezes, as mulheres
não mostram interesse apenas por adolescentes. É comum que sejam casadas, tenham filhos... As
pessoas que conhecem esse tipo de mulher, até mesmo as mais próximas dela, costumam ficar
chocadas quando descobrem seus crimes.
Passo a mão pelo cabelo e o detetive continua a falar:
– Trabalhamos com um psicólogo que nos ajuda na maior parte dos crimes envolvendo questões
sexuais. Se o senhor estiver interessado em conversar a respeito com ele, posso colocar vocês dois
em contato. Esse psicólogo é especialista no assunto. Poderia lhe dar mais esclarecimentos. Às vezes
ajuda.
Aceno, concordando, mas só para constar. Já tenho farta informação sobre o assunto.
Infelizmente. Permaneço quieto e o detetive Peterson me observa enquanto organizo minhas ideias.
– Então ela simplesmente entrou num site onde vocês haviam plantado um policial disfarçado?
Ele volta a me observar por um instante.
– Não. Na verdade um informante anônimo nos avisou que havia conversas sendo travadas entre
uma mulher mais velha e meninos menores de idade. Imaginamos que seja alguém que conhece a Sra.
Madsen, já que foi capaz de identificá-la pelo nome e sabia detalhes sobre a atividade dela on-line.
Sua mãe estava tendo conversas sexualmente inapropriadas com mais de cinco meninos, com idades
entre 13 e 16 anos. Tivemos sorte por essa pessoa conhecer as informações de que precisávamos
para investigar as conversas que estavam acontecendo. Depois que verificamos a informação,
entramos em contato com os meninos envolvidos e com os pais deles, então um de nossos homens
usou o login de um dos adolescentes e marcamos o encontro. Depois que sua mãe foi presa,
recolhemos o celular e o computador dela e encontramos todas as evidências de que precisávamos
para acusá-la, não apenas pelos crimes pelos quais foi presa, mas também pela pornografia infantil
que havia no computador.

– Ah, meu Deus!
Sinto o café da manhã ameaçando escapar de volta pela minha garganta.
– Sr. Madsen, sinto muito, mas preciso lhe dizer que sua mãe vai cumprir pena. E terá que ser
registrada como molestadora sexual depois que sair da cadeia. Por sorte, nós a pegamos antes que
qualquer coisa física acontecesse com os meninos, mas mesmo assim ela será acusada pelas
tentativas que fez.
O detetive me encara com a expressão de alguém que tem prática em dar más notícias... um misto
de empatia e resignação.
– Vocês estão procurando o informante anônimo? – pergunto.
Ele balança a cabeça, negando.
– Não. Não há nada a investigar em relação a isso. A pista nos foi mandada por correio, em uma
carta com todas as informações de que precisávamos. Muitas pessoas não nos passariam pistas se
não pudessem se manter anônimas. Não temos motivo para investigar isso.
Concordo com um aceno de cabeça e me levanto. O detetive faz o mesmo.
– Sr. Peterson, agradeço por ter me recebido. Não tenho a intenção de sair correndo, mas tudo o
que me disse é demais para lidar.
Estendo a mão por sobre a mesa, ele a segura com um aperto firme e solta.
– Sei que é um choque. Se tiver qualquer outra pergunta que queira me fazer mais tarde, não
hesite em entrar em contato. Se quiser pagar a fiança dela, pode ligar para o tribunal que eles lhe
darão instruções de como fazer isso. Ela será levada à corte na segunda-feira de manhã. Mas, Sr.
Madsen, posso lhe adiantar que as evidências que temos contra ela são inquestionáveis.
Aceno novamente com a cabeça, mas não tenho a menor intenção de pagar a fiança de Lauren, por
isso não peço mais nenhum detalhe.
– Obrigado mais uma vez, detetive.
Ele me entrega seu cartão de visita, acena novamente com a cabeça e eu vou embora.
Saio da sala em que estávamos e sigo ziguezagueando pela central de polícia, as emoções em
guerra dentro de mim. Sinto nojo e desprezo pelo que Lauren estava tentando fazer. Começar um
relacionamento com outro garoto de 15 anos? Ou com um de 13? Jesus. O vômito ameaça subir pela
minha garganta, e engulo com dificuldade. Mas algo bem no meu íntimo também se sente inocentado.
É quase como se eu não pudesse acreditar sinceramente em como ela era doente até esse exato
momento. Subitamente me dou conta de que sempre acreditei que a minha participação havia
permitido a Lauren ser doente, e não que ela era assim apesar da minha participação. Enquanto
caminho pela central de polícia de San Diego, sinto como se um peso que passou oito anos sobre o
meu peito houvesse ficado um pouco mais leve.
Entro no carro e fico sentado ali dentro, olhando sem ver pelo para-brisa. Desço o vidro da
janela e respiro fundo o ar fresco e cálido da manhã.
Relembro tudo o que o detetive me contou, repasso todas as informações na mente. Deus, e se o
tal informante anônimo não houvesse conseguido a informação que conseguiu? Passo a mão pelo
rosto. Imagino algum outro adolescente se encontrando com Lauren... Ah, Cristo. Se eu pudesse falar
com esse informante, agradeceria a ele ou a ela. Mas um informante anônimo? Sério? Me pergunto

como alguém poderia ter identificado Lauren pelo nome e ter sabido dessas conversas. Não há a
menor possibilidade de ela ter contado a alguém. Lauren não é do tipo que fica bêbada e sai se
vangloriando para alguém em um bar qualquer sobre o último menor de idade que seduziu. Fico
sentado ali, pensando a respeito por alguns minutos, as ideias disparando pela minha mente, indo em
todas as direções.
Talvez fique surpreso em saber que eu trabalhava com computadores quando era mais novo.
Eu era bom nisso. Ainda presto umas consultorias aqui e ali.
Fico paralisado. Não, não, é uma ideia louca demais. Não pode ser. Balanço a cabeça em uma
tentativa de clareá-la, quase rindo da minha própria ideia absurda. Mas se alguém bom com
computadores não acessou o computador de Lauren, como a polícia conseguiu a informação? E quem
iria querer monitorar a atividade de Lauren na internet?
O detetive Peterson disse que eles haviam tido sorte por o informante saber exatamente de que
informação precisavam para conseguirem entrar nas conversas on-line que estavam acontecendo.
Portanto, o informante é alguém que não apenas é bom com computadores, como também sabe
muito sobre crimes sexuais. E sabe de que informações específicas os policiais precisam para dar
continuidade a uma investigação. Será que trabalha para a polícia?
Pego o celular e o cartão que o detetive Peterson me deu quando eu estava indo embora. Ligo e,
quando ele atende, me identifico e pergunto:
– Sr. Peterson, o senhor mencionou um psicólogo com quem a polícia trabalha e que poderia
lançar uma luz sobre a natureza do crime da minha mãe. Poderia me passar o número dele, só para a
possibilidade de eu decidir entrar em contato?
– Ah, claro. Espere, estou com o cartão dele aqui. – Eu o escuto revirando o que soa como uma
pilha de papéis. – Pronto, achei. O nome dele é Dr. Fox. Anote o número.
Ele diz o número, mas não me dou o trabalho de anotar. Já tenho aquele telefone.
Agradeço e desligo, sem saber o que sentir. Nada disso é coincidência.
Permaneço sentado dentro do carro, imóvel, a mente em disparada. Vejo então, duas pessoas
saindo de um veículo. Preston e Christine. Eles fecham as portas e começam a atravessar a rua na
direção da central de polícia. Saio do carro e chamo por eles.
– Jake! – chama Christine, que se apressa na minha direção e pega minhas mãos, os olhos
correndo pelo meu rosto, como se eu estivesse passando por alguma dor física. – Você está bem?
Lauren ligou para Preston esta manhã pedindo que ele pagasse a fiança dela, então ligamos para a
central de polícia para falar com o responsável pelo caso. Um dos policiais nos disse que você
estava conversando com o detetive encarregado. Viemos direto do aeroporto.
Preston tinha vindo para San Diego esta manhã pelo mesmo motivo que eu e trouxera Christine
para ajudá-lo com algumas das apresentações que tínhamos hoje.
– Sim. Acabei de falar com ele. Podemos ir a algum lugar para conversar sobre isso? Tomar um
café ou coisa parecida?
Preston, que havia nos alcançado, diz:
– Sim, claro, Jake. Mas não temos que falar a respeito se você não quiser. Só estamos aqui para
nos certificarmos de que você está bem. É com você que estamos preocupados.

Deixo o ar escapar com força e pigarreio, percebendo de repente que eles haviam me dado algo
que eu nem mesmo sabia que precisava até me ser oferecido. Apoio.
– Obrigado. Fico feliz com isso. Você vai pagar a fiança de Lauren? – Por favor, diga que não.
– Não, não vou. Não precisamos falar sobre o motivo. Mas, Jake, quero que você saiba que não.
Eu. Não. Vou.
Ele me olha com intensidade, afasta o olhar e continua:
– Talvez ela saia sob fiança em algum momento, mas não tenho ideia de quem a ajudaria.
Algo na expressão dele me diz que está satisfeito. Ficamos todos em silêncio por um instante,
então gesticulo para o meu carro.
– Podemos ir no meu carro até algum lugar perto, depois eu os trago até o carro de vocês.
Entramos os três no meu carro alugado e paro no primeiro café que vemos. Pedimos nossos cafés
e sentamos.
Depois de darmos vários goles nas bebidas, conto a eles tudo o que o detetive me contou. Preston
fica sentado, balançando a cabeça, com uma expressão triste no rosto. Christine parece apenas
horrorizada. Eu me pergunto se ela está pensando no próprio filho.
– Isso não vai refletir mal na empresa, vai? Ou em Phil? – dirijo a pergunta para Preston.
– Não vejo por que isso aconteceria, Jake. Phil faleceu há mais de um ano. Obviamente, ele não
estava envolvido em nenhum aspecto do que Lauren estava fazendo. Na verdade, me parece que ela
decidiu fazer esse tipo de coisa depois que ele morreu. Não há motivo para se pensar diferente. Além
do mais, é você que está à frente da empresa agora. E é óbvio que você também não tem nada a ver
com isso. No entanto, caso vá fazer você se sentir melhor, posso colocar nossos advogados a par da
situação. Se alguém publicar uma palavra que não gostemos, processaremos por difamação. E
ganharemos.
Balanço a cabeça, assentindo.
– Não acho que isso possa afetar a empresa de forma nenhuma. Mas, Jake, se por acaso
acontecer, enfrentaremos a situação juntos, está certo?
Fico em silêncio por um instante, os pensamentos disparando mais uma vez pela minha mente.
– Pelo menos agora não temos mais que nos preocupar com o fato de ela contestar o testamento
de Phil – comenta Preston. – Lauren terá que desistir do processo. Ela tem outras questões mais
urgentes.
Ele deixa escapar uma risada abafada.
Preston, Christine e eu conversamos sobre a situação por mais algum tempo, até terminarmos
nossos cafés, então Preston me diz para pegar um voo mais cedo e voltar para casa. É óbvio que não
estou com cabeça para ir ao escritório hoje. Aceito a sugestão. Agradeço aos dois e torço para que
percebam quanto o apoio deles significou para mim. Saímos e eu os deixo próximo ao carro que
alugaram.
Quando os dois já estão se afastando, Christine para e a escuto dizer a Preston que o encontrará
no carro em um instante. Então ela volta para onde estou parado e diz:
– Jake, não lhe perguntei como seguiram as coisas com Evie. Já lembrou a ela? – pergunta,
sorrindo.

Christine está se referindo à conversa que tivemos naquele evento desgraçado em que Gwen
mostrou as garras para Evie. Respiro fundo e fito-a nos olhos.
– Ferrei com tudo, Christine. Não sei. Ainda estou trabalhando nisso.
Ela inclina a cabeça e me observa.
– Ora, então você tem mais de uma razão para correr de volta para Cincinnati, não é mesmo? –
diz Christine, pondo as mãos no quadril. – E, só uma dica... se ela não o escutar, escreva o que está
sentindo. Garotas adoram cartas.
Ela pisca para mim e não consigo evitar um sorriso. Christine me dá um abraço rápido e se
apressa na direção de Preston.
Volto para o aeroporto e, para minha sorte, quando chego ao balcão há um assento disponível em
um voo que sai em uma hora. Eu me sento para esperar e pego o celular. Ligo para o número do Dr.
Fox. Ele não atende, mas deixo uma breve mensagem avisando que acabo de me encontrar com o
detetive Peterson, com quem ele aparentemente trabalha, e peço que me retorne a ligação.
Uma hora mais tarde, já estou sentado no avião quando o celular avisa que chegou um novo email. Pego o aparelho, pois isso me lembrou que preciso desligar o celular antes da decolagem.
Quando abro o e-mail, vejo que é do Dr. Fox.
Leo,
Recebi seu recado e entendi o motivo da ligação. Gostaria que você ouvisse o que
tenho a dizer, sem precisar responder.
Às vezes as pessoas são imprevisíveis. Mas com frequência não são. Ao longo dos anos,
me tornei bom em saber quem tem probabilidade de me surpreender e quem não tem. As
pessoas que têm certas propensões não costumam abandoná-las, principalmente quando
fica claro que um relacionamento com o objeto de sua obsessão se torna cada vez mais
improvável. Essas pessoas costumam, então, substituir o objeto de obsessão. Você não
tinha como saber disso, e eu jamais colocaria esse peso nos seus ombros. Mas espero que
compreenda por que eu não poderia permitir que isso acontecesse. Espero que entenda por
que monitorei a situação e usei meu conhecimento para intervir.
Você lutou por outras pessoas durante toda a sua vida, Leo. Apesar de ninguém jamais
ter lhe ensinado como fazer isso ou ter lhe dito que era uma atitude corajosa e nobre.
Então, quando você mais precisou, não havia ninguém para lutar por você. Espero que
compreenda as minhas razões para fazer isso agora, apesar de reconhecer que ultrapassei
meus limites.
E também tenho esperança de que você veja que lutei por você porque você vale a
pena.
Doutor
Dez minutos mais tarde, quando o avião levanta voo, olho pela janela, para o mar azul cintilante
desaparecendo entre as nuvens. Sinto a garganta apertada com tantas emoções, e a vontade de lutar é

mais forte do que nunca. Me encosto no assento, respiro fundo e fecho os olhos. Então me dou conta
de que, pela primeira vez, o Doutor me chamou de Leo. De algum modo, ele soube que eu estava
pronto.

capítulo 30

Quando chego em casa, tarde da noite, visto uma calça que uso para malhar e vou até a varanda.
Sento em uma das duas cadeiras que há ali, coloco os pés sobre o parapeito e fico olhando para as
luzes da cidade. Passo um bom tempo sentado, deixando a mente divagar. Penso no lugar de onde
vim, em todas as desgraças por que passei até terminar no sistema de lares adotivos. Penso na minha
mãe por um longo tempo, algo que nunca me permiti fazer.
Ela tentou ficar limpa algumas vezes. Nunca conseguiu, mas quando estava tentando, eu podia ver
lampejos de quem minha mãe seria se a vida dela houvesse sido diferente ou talvez se ela houvesse
sido forte o bastante para se manter firme acima das circunstâncias, mesmo que fosse apenas um
pouco. Mamãe fez biscoitos comigo e com Seth uma vez, quando meu pai estava fora de casa. Na
época, tive a sensação de que ela estava tentando fazer alguma coisa “estilo mãe”, que estava
tentando ser alguém que ela sabia que havia fracassado em ser até ali. Mamãe estava se esforçando
naquele momento, cantarolando e tagarelando sem parar. Mas não me importei. Pelo menos, ela
finalmente estava tentando. Enquanto os biscoitos assavam, mamãe pegou o baralho e me perguntou
se eu queria aprender a jogar pôquer. Assim, ela me ensinou as regras básicas e sentamos na mesinha
da cozinha – jogamos valendo palitos de dentes, enquanto Seth nos observava. Essa foi uma das
únicas vezes em que nossa mãe prestou atenção de verdade em nós, e fiquei tão feliz... não conseguia
parar de sorrir. Mas então ela sentiu um cheiro estranho e uma fumaça preta começou a sair de dentro
do forno. Os biscoitos haviam queimado. Mamãe os tirou do forno com um gritinho e os jogou sobre
o fogão. Aí foi como se alguma coisa morresse em seus olhos... Ela se recolheu novamente ao lugar
onde costumava viver, inacessível, vazia.
“Sempre estrago tudo”, disse ela, com a voz sem emoção. “Nunca consigo fazer nada certo.”
Então ela se jogou no sofá e passou o resto da tarde ali, assistindo à TV e bebendo muito.
Mas mamãe não havia entendido. Ela não compreendeu o principal. Não nos importávamos com
os biscoitos. Queríamos apenas ela. E tão desesperadamente que era como uma dor por dentro que
nunca, jamais se curava. Tê-la por aquele breve período só fez com que doesse mais quando ela nos
deu as costas novamente. E eu me odiei, porque achei que não era bom o bastante para ela querer
ficar.
Nossa mãe estava sempre tão distante, tão ausente, aparentemente tão despreocupada com o
horror que os filhos viviam bem embaixo do nariz dela... Sempre disse a mim mesmo que não a
amava, porque ela nunca mostrou nenhum amor por mim. Mas a verdade era que eu a amava, sim.
Agora consigo admitir isso. E ansiava desesperadamente que ela retribuísse esse amor, mas isso
nunca aconteceu. Eu me pergunto, pela primeira vez, o que terá acontecido com a nossa mãe para que
se entregasse daquele jeito, para que desistisse da própria alma. Me permito, então, sentir a mágoa

que me atinge quando relembro o olhar inexpressivo no rosto dela, quando meu padastro me atacava,
dia após dia.
Mas agora, sentado aqui sozinho, na minha varanda, de repente me parece claro como o dia que a
atitude dela não tinha a ver conosco. Nada do que pudéssemos fazer jamais seria o bastante para
mamãe, porque ela já havia desistido. E desistira tão completamente que ficara vazia por dentro,
exatamente como Evie me contara naquela história, tantos anos atrás. Hoje entendo que aquele vazio
tinha a ver apenas com a minha mãe, não tinha nada a ver comigo.
Sentado aqui, no meio da noite, olhando para o céu, sinto uma paz me invadir e consigo respirar
com mais facilidade.
Penso no meu pai, meu padastro, na verdade – embora ele sempre se autodenominasse de meu
pai. Por um lado me reivindicando, mas sem nunca perder a oportunidade de me lembrar que eu só
existia porque minha mãe era uma vadia. Eu absorvi essas palavras e fiz delas a minha verdade.
Passsei a repetir o que o meu padastro dizia vezes sem conta, sempre que me sentia fraco e em busca
de algum motivo que confirmasse para mim mesmo que eu não valia nada. Penso a esse respeito por
um longo tempo e percebo que já não tenho mais o desejo ardente de provar que meu padrasto estava
errado. Não preciso mais disso. A única pessoa a quem quero provar alguma coisa é Evie. Ele á
única que merece isso, desde sempre.
Penso muito em Evie. Penso em como sempre me espantou o fato de ela ser tão mais do que o
lugar de onde veio. Mas talvez eu também seja. Talvez ambos tenhamos acabado nos tornando
pessoas melhores do que as que nos criaram, ou não nos criaram, como foi o caso.
E isso deve ser raro. Quase tão raro quanto a espiral em sentido anti-horário daquela concha que
dei a ela. A lembrança me faz sorrir.
Eu disse a Evie que algumas pessoas simplesmente sabem como fazer certas coisas. Talvez eu
também saiba. Não tantas quanto ela, de jeito nenhum. Mas quem sabe eu também não tenha algo a
oferecer, se realmente me dedicar? Quero tanto ter essa chance... Muito tempo atrás, Evie me salvou
ao acreditar em mim, ao me amar. Será capaz de fazer isso de novo? Depois de tudo? Espero em
Deus que a resposta seja sim.
Penso na inacreditável virada dos acontecimentos em relação a Lauren, e o nojo volta a subir
pelo meu peito quando percebo como ela chegou perto de colocar outra pessoa na mesma posição em
que me colocou. E o Doutor... o que ele fez por mim. Ainda não consegui organizar minhas ideias em
relação a isso.
...tenho esperança de que você veja que lutei por você porque você vale a pena.
Quando o sol começa a nascer, eu me levanto, pego caneta, papel e um livro sobre o qual apoiálo para escrever. Volto então à varanda e escrevo uma carta para Evie. Deixo todos os meus
pensamentos se derramarem no papel: tudo o que ela foi para mim, tudo o que é para mim e tudo o
que quero tão desesperadamente ser para ela. Peço a Evie que por favor, por favor, me escolha
novamente.
Depois que já dobrei a carta e a coloquei em um envelope, uma ideia me ocorre. Vou até o
quarto, estendo a mão até o fundo de uma gaveta e pego ali outra carta, a que havia começado a
escrever para Evie muitos anos antes, a que sempre usei para lembrar a mim mesmo, toda vez que

começava a esquecer, o ser humano desprezível que eu era. Um instrumento perfeito de autotortura,
uma lembrança de como eu traíra Evie. Acho que não me torturarei mais assim. Mas espero que essa
carta antiga, nunca enviada, faça Evie compreender a situação um pouco melhor.
Chego tarde no trabalho na manhã seguinte, pois acabei caindo no sono pouco tempo antes do
amanhecer. No caminho, paro no prédio de Evie e toco o interfone do apartamento de Maurice. Ele
aparece, o andar pesado, me encarando com desconfiança. Abro o meu sorriso mais encantador e
pergunto se ele se incomodaria de enfiar por baixo da porta de Evie o envelope com minhas cartas.
Quero que ela as leia, mas não quero que tenha que me encarar até estar pronta. Até que seja por
escolha dela. Maurice assente e fecha a porta.
Ao chegar ao trabalho, me fecho na minha sala. Várias vezes ao longo do dia, as palavras do
Doutor voltam à minha mente... tenho esperança de que você veja que lutei por você porque você
vale a pena.
Evie pensará a mesma coisa, agora que sabe a verdade?
Mais tarde, naquela noite, desço a rua para tomar um café. Estou precisando de um pouco de ar
fresco e a cafeína é necessária para me impedir de cochilar sobre os últimos e-mails que planejo
enviar.
Quando saio do elevador para o saguão de entrada do prédio, vejo Gwen vindo em minha
direção. Me encolho por dentro, mas mantenho a expressão neutra enquanto ela se aproxima. A
expressão em seu rosto é a mesma que eu imaginaria em um tubarão pouco antes de ele cravar os
dentes em uma presa. Pronta para o ataque.
– Oi, Jake – diz Gwen, um falso sorriso no rosto.
– Gwen – retruco, e me desvio dela.
– Esbarrei com Evie no spa – informa ela, falando rápido.
Paro e me viro para encará-la. Foi Gwen, então, que contou a Evie sobre a minha tatuagem. Não
que isso importe. Na verdade, talvez tenha sido melhor assim. A não ser pelo fato de que Evie
provavelmente ficou acuada diante de Gwen, o tubarão terrestre que sai devorando os que ousam
entrar em seu caminho.
Encaro-a pensativo.
– Eu provavelmente deveria agradecer a você, Gwen. Evie precisava ver a minha tatuagem, e eu
já havia esperado demais para mostrá-la. Ela precisava ver, porque a garota na tatuagem é ela. A
tatuagem conta a nossa história.
Gwen recua, as sobrancelhas erguidas.
– O quê? Evie é a garota que você tem tatuada nas costas? – Ela continua a me encarar com o
cenho franzido e fica em silêncio por alguns segundos. – Achei que aquela garota havia morrido.
Balanço a cabeça, negando.
– Não, ela não está morta. Está muito viva. E é muito amada. E, rezo a Deus, muito minha. Tenha
uma boa vida, Gwen.
Eu me viro e me afasto.
Volto ao escritório quinze minutos mais tarde, cheio de cafeína e me sentindo mais vivo. Me
pergunto se Evie já terá lido a minha carta. E me pergunto também, pela centésima vez desde que ela

saiu correndo do meu apartamento, o que estará pensando. Será que irá me responder? Se for, quando
fará isso? Lute por ela. Ah, é o que pretendo fazer.
Você vale a pena.
Talvez eu esteja chegando lá. Talvez não seja a péssima aposta que acreditei ser por tanto, tanto
tempo.
Entro no elevador e espero que o pequeno grupo de pessoas que também o aguardava entre. As
portas já estão prestes a se fechar quando um homem próximo a mim bate no meu ombro. Quando
olho para ele, o homem aponta para o vidro atrás de mim. Eu me viro e lá está ela. Minha domadora
de leões, minha Evie, meu amor. Por um segundo, não compreendo. Ela está sorrindo para mim e
fala, apenas mexendo os lábios:
– Escolhi você.
O tempo parece passar mais devagar e o barulho ao meu redor desaparece. Respiro fundo e um
súbito aperto na garganta ameaça me sufocar.
Você vale a pena.
– Parem o elevador! – grito.
Então abro caminho pelas pessoas que estão à minha frente e a porta se abre no andar seguinte,
para que eu possa sair.
Corro na direção das escadas rolantes à minha esquerda e, embora sejam para subir, são um
caminho para eu me encontrar com Evie. Assim, desço por elas, pulando três ou quatro degraus por
vez, ignorando as pessoas que me xingam e me olham irritadas quando passo por elas.
Você vale a pena.
Evie é a única coisa que vejo, a única em que estou concentrado quando pulo por cima do
corrimão, ao chegar próximo o bastante do fim da escada.
Corremos para os braços um do outro, eu a levanto e giro com ela, pressionando o rosto contra
seus cabelos, tentando desesperadamente manter sob controle as emoções que me inundam – alegria,
gratidão, esperança, amor. Evie continua a falar, como que entoando um mantra:
– Escolhi você. Escolhi você, Leo. Para sempre.
Você vale a pena.
O som das pessoas aplaudindo e assoviando penetra a névoa de alegria que me envolve. Ao olhar
ao redor, vejo que todos nos encaram. Deixo escapar uma risada de incredulidade e volto a olhar
para Evie, que também está sorrindo, o rosto cheio de amor.
– Eu te amo, Evie – digo, a voz rouca de emoção até aos meus próprios ouvidos.
– Eu te amo, Leo, meu leão fiel.
– Você ainda acredita nisso, mesmo depois de tudo?
Olho bem dentro dos olhos dela e vejo que sim, ela acredita.
Você vale a pena.
Ela assente.
– Agora ainda mais. Você encontrou coragem para pular através do fogo por mim. E encontrou a
si mesmo do outro lado, não foi?
Fico encarando-a, pensando que sim, acho que está certa. Acho que o fogo acabou sendo meu

próprio medo, a sensação que eu guardava de não valer a pena.
– Acho que sim. Mas foi você que segurou o aro para mim. – Você foi a única que sempre
acreditou em mim. A única que sempre achou que eu era bom o bastante.
– Essa é a parte fácil, meu menino lindo. Acreditar em você não exige esforço nenhum. Nunca
exigiu.
Deus, amo essa garota linda, linda. Sorrio.
– Vou levá-la de volta para o meu covil e atacar você agora.
Ela também sorri.
– Sim, por favor.
Pego a mão dela. Nosso futuro está à nossa frente, e a promessa de dar a Evie uma vida linda está
gravada em meu coração.

Epílogo

Dois meses depois

Leo pega a minha mão, leva-a aos lábios e a beija. Então sorri para mim. Recosto a cabeça no
assento e sorrio também. Quando ele volta a se concentrar na estrada, me perco na beleza de seu
perfil.
Dois meses se passaram desde aquele dia no saguão do escritório, os dois meses mais lindos da
minha vida. Nós os passamos lembrando tanto os bons quanto os maus momentos, nos apaixonando
ainda mais, sendo apenas nós, juntos, sem segredos, sem medo, sem culpa ou vergonha. Brinco que
Jake é meu leão e Leo é meu menino. Amo os dois, preciso dos dois – apenas um ou outro não
traduzem a pessoa completa que ele se tornou. Meu homem forte e leal e meu menino protetor, doce e
terno. Ambos cheios de cicatrizes, mas também finalmente capazes de encontrar força para aceitar
que até as piores experiências da vida podem ser presentes valiosos.
Ah, e os dois gostam de me atacar, com frequência, e isso é muito bom. Muito, muito bom. Sorrio
para ele.
– O que foi? – pergunta Leo.
– Só estava me lembrando desta manhã – digo, sorrindo ainda mais.
Ele também dá uma risadinha.
– Sim. Realmente é uma pena não termos tomado banho juntos desde o começo, não é mesmo?
Fico feliz por estarmos recuperando o tempo perdido.
Leo pisca para mim, ainda sorrindo.
Dou uma gargalhada.
– Com certeza. E então, aonde está me levando?
Inclino a cabeça e olho para ele desconfiada. Quando entramos no carro, Leo disse que queria me
mostrar uma coisa, mas não me disse o quê.
– Você verá em um instante.
Ambos olhamos para a frente quando ele faz uma curva e só então percebo que estamos na rua em
que eu morava quando menina, na rua do meu antigo lar adotivo. Sinto meu cenho se franzir
ligeiramente. O que estamos fazendo aqui?
Leo para o carro em frente à casa. Eu o encaro e percebo a expressão nervosa em seu rosto
enquanto me observa.
– Confia em mim? – pergunta.
Não preciso pensar nem por um segundo antes de sussurrar:
– Sim. Totalmente.
Leo sorri, desliga o motor, se debruça na minha direção e me dá um beijo carinhoso.

– Então venha.
Ele sai, dá a volta no carro e abre a porta para mim. Então pega a minha mão quando desço e me
puxa contra o seu corpo antes de fechar a porta.
É um dia frio de dezembro e a respiração de Leo sai em nuvens de vapor quando ele diz:
– Eu te amo, Evie.
Levanto os olhos para encontrar os dele, castanhos e cálidos, e sussurro de volta:
– Eu também te amo.
Leo beija a minha testa e diz baixinho:
– Nunca, jamais vou me cansar de ouvir isso.
Então ele me puxa pela mão com delicadeza e caminhamos em direção à casa. O lugar está em
péssimas condições, com lixo espalhado pelo pátio da frente, a tinta descascando por toda parte,
vidros de janela quebrados. Obviamente a casa está abandonada há algum tempo.
Quando Leo abre a porta da frente e espio lá dentro, as lembranças me assaltam. Por apenas um
instante, me sinto novamente uma menina assustada, o vazio me consumindo. Mas então Leo aperta a
minha mão, eu encaro aqueles olhos cheios de amor e fico bem. Mas por que ele me trouxe aqui?
Leo volta a me puxar carinhosamente pela mão e eu o sigo enquanto subimos as escadas para o
segundo andar. Agora sei para onde ele está me levando e meu coração subitamente se alegra. Um
sorriso se insinua nos cantos da minha boca. O nosso telhado.
Passamos com cuidado pela janela quebrada e esfrego as mãos uma na outra quando já estamos
do lado de fora. Leo passa os braços ao meu redor e ficamos ali por vários minutos, parados, apenas
nos abraçando no telhado, que agora está bastante torto.
Quando ele me solta, faço menção de me sentar, mas Leo me detém e pede com gentileza:
– Não. Fique como está. Por favor.
Eu o encaro sem entender, mas ele se apoia em um dos joelhos e então compreendo. Deixo
escapar um arquejo.
Meu Leo leva a mão ao bolso, pega um estojo de joias, abre e me mostra o anel de noivado mais
lindo que já vi. É de platina, em um estilo antigo. Fico olhando para o anel, estupefata, por alguns
segundos, antes de meus olhos voltarem a encontrar os dele. Minha visão fica nublada quando
percebo a emoção em seu rosto.
– Evelyn Cruise – diz Leo, a respiração trêmula –, quis trazer você aqui para pedir que passe o
resto da vida comigo, porque foi aqui, neste lugar, que soube que a amaria para sempre. Este é o
lugar em que descobri qual era a sensação de ser amado. E este é o lugar onde meus lábios tocaram
os seus pela primeira vez.
Ele sorri para mim e deixo escapar um som que é meio risada, meio soluço, enquanto pouso a
mão em seu rosto. Leo apoia o rosto na minha mão e sorri novamente antes de levantar os olhos para
mim e dizer:
– Você me daria a enorme honra de ser minha esposa? Quer se casar comigo?
As lágrimas escorrem pelo meu rosto e minha garganta está tão apertada de emoção que não
consigo falar. Por isso apenas balanço a cabeça várias vezes, assentindo, e me ajoelho diante de Leo,
para poder beijá-lo através das minhas lágrimas, ainda assentindo com a cabeça. Nós nos beijamos e

ele ri. Por fim, me recomponho o bastante para rir também. Leo se afasta ligeiramente, sorrindo. Mas
logo fica sério e diz:
– Preciso ouvir sua resposta, meu bem. Deixe-me ouvir sua resposta.
– Sim, sim, sim, sim – sussurro entre mais beijos. – Um milhão de sins. Sins infinitos.
Sorrio entre as lágrimas, enquanto ele desliza o anel pelo meu dedo.
Seguro o belo rosto entre as mãos e volto a colar minha boca à dele. Esse beijo é mais profundo,
nossas línguas se encontram, se acariciam. Sinto o ar tremular ao nosso redor e inclino a cabeça para
que Leo possa aprofundar o beijo. Ele geme e me puxa mais para perto. Eu me deleito com o sabor
intoxicante dele, com a sensação de seu corpo pressionado ao meu.
De repente, percebo algo frio e úmido atingindo meu rosto. Me afasto de Leo, ambos respirando
pesadamente. Levantamos os olhos ao mesmo tempo e prendo a respiração ao perceber que está
nevando! Olhamos um para o outro e ambos caímos em uma gargalhada maravilhada. Está realmente
nevando! Exatamente como na primeira vez que nos beijamos! Só que, dessa vez, não estamos nos
despedindo. Dessa vez, estamos começando uma vida juntos. A magia do momento me atinge e
começo a chorar de novo. Leo me puxa contra o corpo e seca minhas lágrimas. Nós nos abraçamos
por mais alguns minutos antes que me ocorra que estamos parados no teto da propriedade de alguém.
Levanto os olhos para ele.
– Ahn, Leo, talvez fosse melhor irmos embora. Não estamos invadindo a casa dos outros?
Ele sorri, pega a minha mão e me leva na direção da casa.
– Na verdade, não. Venha comigo, tenho algo a lhe mostrar.
Eu o sigo pelas escadas, confusa. Leo me leva até onde era a sala de estar e vejo que há algo
encostado à parede, coberto com um lençol. Ele puxa o lençol e fico olhando por um longo tempo
antes de levar a mão à boca para me impedir de cair em lágrimas, de novo.
É uma placa que diz “Lar de Willow” e tem um lindo salgueiro cercado por crianças correndo,
brincando e lendo sob ele.
– Comprei esta propriedade, Evie, e o terreno vazio ao lado também – diz Leo baixinho,
observando atentamente a minha reação e passando os braços ao meu redor. – Pensei que poderíamos
abrir uma casa comunitária aqui, para crianças que estão no sistema de lares adotivos, que poderia
ser um lugar para onde elas viessem depois do colégio e nos fins de semana. Um lugar a que
pertencessem, que fosse estável, não mudasse. Tinha a esperança de que você pudesse cuidar dele.
Olho dentro dos olhos castanhos e cálidos e, nesse momento, me apaixono ainda mais
profundamente por ele, algo que pensei ser impossível.

Nove anos depois
Planto o último crisântemo na jardineira da janela e junto a terra ao redor com as mãos, preenchendo
o espaço. Então arrumo a hera entre as flores de um amarelo forte e cor-de-vinho, deixando que
penda só um pouco para fora. Me afasto e sorrio, admirando a beleza das plantas de outono. Limpo
as mãos e recolho meu material de jardinagem. As crianças e eu passamos o dia plantando e
limpando o pátio, e aquela jardineira tinha sido a única coisa de que não cuidamos. Eu havia
prometido a elas que terminaria o trabalho esta noite.
Entro em casa e, quando estou secando as mãos, escuto a voz de Leo me chamando. Corro
animada até a porta da frente.
– Oi, meu bem.
Ele sorri quando me vê e traz uma abóbora enorme sob cada braço.
– Oi.
Sorrio, vou até ele e me estico para beijá-lo nos lábios. Ele se abaixa para encontrar meu rosto.
– Conseguiu o bastante?
– Sim. Tivemos que ir a cinco mercados diferentes, mas acho que conseguimos ao menos uma
para cada um. Há mais cinquenta na traseira da caminhonete.
– Obrigada.
Sorrio, pouso a mão no rosto dele e olho em seus olhos. É sempre tão fácil me perder nesse
olhar...
– De nada. Mas, meu bem... essas abóboras não são exatamente leves, onde devo colocá-las? –
pergunta, sorrindo.
Volto a mim.
– Ah! Desculpe. Aqui. Coloque-as aqui.
Indico a mesa grande que já decorei com a toalha plástica laranja, com temas de outono, perfeita
para a bagunça que é escavar abóboras.
Leo pousa as duas abóboras sobre a mesa.
– Os meninos estão com o Sr. Cooper? – pergunto.
– Sim. Eu os deixei na casa dele depois que pegamos o último carregamento de abóboras. Disse
ao Sr. Cooper que os pegaríamos no caminho de volta para casa. Os dois foram de grande ajuda com
as abóboras, até mesmo Cole.

Balanço a cabeça, assentindo, feliz que nossos filhos estejam passando algum tempo com o
homem que é como um avô para eles.
Termino de limpar tudo enquanto Leo traz as abóboras para dentro. Quando saímos do cômodo
principal, a mesa está cheia de abóboras de todos os tamanhos. Teremos um dia divertido amanhã,
escavando-as.
Nicole, Kaylee e seu irmãozinho, Mikey, virão ajudar. Nicole está grávida do terceiro filho com
Mike, uma feliz surpresa. Sei que vê-la andando de um lado para o outro por aqui, em seus saltos
altos malucos e com a enorme barriga de grávida, vai me provocar um ataque cardíaco. E sei que ela
me dirá para deixar de ser tola, que só porque está grávida não precisa usar os calçados ortopédicos
nada elegantes que eu a faria calçar se pudesse.
Leo segura a minha mão e me puxa na direção das escadas. Eu o sigo, sabendo muito bem para
onde ele está me levando. Entramos no quartinho pequeno nos fundos, ele abre a janela e me ajuda a
sair para o telhado. Chego um pouco para o lado e me sento. Leo se senta colado a mim, pouso a
cabeça em seu ombro e ele me puxa para perto, para me aquecer.
– Este é o meu lugar favorito no mundo – sussurro em seu ouvido.
Ele sorri, levanta os meus braços e passa ao redor do próprio pescoço.
– Este é o meu lugar favorito no mundo – retruca, sorrindo.
Enfio o nariz no pescoço dele e sorrio contra a sua pele. Eu o beijo e volto a pousar a cabeça em
seu ombro, enquanto ficamos os dois olhando para a noite.
Há nove anos meu Leo me pediu em casamento neste telhado. Nós nos casamos dois meses
depois, em uma pequena cerimônia que reuniu nossos amigos mais próximos, a família que
escolhemos.
Logo depois do casamento, Leo contratou uma empresa de construção para reformar toda esta
propriedade. Era importante para nós dois que eles a reformassem em vez de a colocarem abaixo e
começarem do zero. O telhado da casa recebeu novas telhas, mas, a não ser por isso, permaneceu
igual. Nosso.
Vários meses depois disso, quando o projeto do Lar de Willow estava em pleno andamento,
peguei a mão do meu marido e o levei ao nosso telhado, sob um céu quente de verão, e lhe contei que
estava esperando um filho dele. Leo olhou bem dentro dos meus olhos, paralisado por longos
segundos, antes que o lindo sorriso que eu tanto amo se abrisse em seu rosto. Ele levantou a minha
blusa, então, e beijou a minha barriga sem parar, rindo o tempo todo. Depois, pressionou o rosto
contra a minha barriga e seus olhos encontraram os meus. Naqueles olhos, vi a expressão bela e
insegura do menino. Eu passei os dedos pelo cabelo dele e sussurrei:
– Sim, Leo, você vai ser um pai incrível. Algumas pessoas simplesmente sabem como fazer
certas coisas.
Ele sorriu para mim e, subitamente, pareceu em pânico, enquanto me arrastava de volta pela
janela.
– O que está fazendo? – perguntei, rindo.
– De jeito nenhum minha esposa grávida vai ficar de pé em um telhado – disse ele. – Não me
importa quanto seja seguro.

Tempos depois, nosso filho Seth, ainda bebê, dormia em um bercinho e brincava em um canto
tranquilo do andar de cima, no que havia sido meu antigo quarto.
Quando Landon se formou, um ano depois de abrirmos o Lar, oferecemos a ele o emprego de
diretor e ele aceitou. Eu passava o maior tempo possível no Lar, mas era uma mãe de primeira
viagem ocupada e sabia que precisava de ajuda. Landon trouxe vida, entusiasmo e diversão ao lugar
e todos o amam. Como poderiam não amar? Ele é um amor.
Vários anos depois disso, quando eu estava com nove meses da gravidez de Cole, minha bolsa
d’água rompeu na sala da frente, quando eu estava pendurando alguns trabalhos de arte que fizera
com as crianças. Mais tarde, Cole deu seus primeiros passos no Lar de Willow enquanto as crianças
o aplaudiam.
Temos um grande quintal nos fundos onde as crianças ajudam a plantar legumes e verduras,
depois os colhemos quando estão maduros. O que antes foi o terreno vazio ao lado agora abriga uma
quadra de basquete na frente e um grande espaço gramado nos fundos, para as crianças correrem e
brincarem. Plantamos um salgueiro, willow em inglês, no meio do gramado e espalhamos várias
mesas de piquenique ao redor. Ainda é uma árvore pequena, mas um dia será grande e forte, os
galhos se inclinando e balançando ao vento. Às vezes o vento será um pouco frio; outras, será cálido.
Acho que essa árvore resistente aguentará bem qualquer das possibilidades.
Dentro, criamos salas de arte, uma de música e uma biblioteca. É ali que conto histórias quando
as crianças pedem. Quando meu próprio livro foi publicado, Leo comprou uns vinte exemplares
apenas para essa biblioteca. Simplesmente balancei a cabeça e ri. Mas quando vi o modo como as
crianças olhavam para aquele livro e me perguntavam se eu realmente havia crescido no sistema de
lares adotivos, exatamente como eles, decidi manter os livros ali. Quero que as crianças saibam que
a situação delas não precisa limitá-las, que se eu pude encontrar coragem para ir atrás dos meus
sonhos, elas também podem.
Também temos computadores e pessoas para ajudar com o dever de casa. E uma grande cozinha
onde voluntários ensinam as crianças a cozinhar e a preparar refeições.
Preston monta uma feira de ciências todo ano para o Lar de Willow e o vencedor ganha uma
bolsa de estudos para uma faculdade nas áreas de ciências ou engenharia. Christine se aposentou
cedo para ser mãe em tempo integral quando os filhos começaram o ensino médio. Ela e a família são
voluntários habituais no Lar e somos muito próximos. Christine é como uma mãe para mim. Para nós.
Planejamos, sonhamos e amamos naquele nosso telhado. Não sabíamos que a jornada que
finalmente levaria ao nosso final feliz seria tão cheia de desvios, quedas e sofrimento. Não sabíamos
quanto amor, perdão e compreensão nos seriam exigidos para voltarmos ao caminho onde sempre
deveríamos ter estado, juntos. Mas o que sabíamos era que estávamos ali porque ambos estávamos
dispostos a lutar. Lutar um pelo outro, lutar por nós, lutar pelas crianças que precisam de um lugar a
que pertencer, lutar por amor. E isso significa que, apesar de todo o sofrimento pelo qual tivemos
que passar para estarmos onde estamos, no fim, o amor vence.

Agradecimentos

Um agradecimento muito, muito especial, do fundo do meu coração, a minhas revisoras Angela Smith
e Larissa Kahle. Obrigada por terem lido o meu livro tantas vezes, sempre me encorajando, e por
serem sinceras ao avisar quando Leo estava sendo um “narrador bobo”. Sei que ele também é grato a
vocês.
Obrigada à minha família também, principalmente ao meu marido, que sempre me deu apoio
infinito.

Sobre a autora
© Jenny Gaskins/ Jenny G Photography

Mia Sheridan começou a escrever na tentativa de superar a dor da perda da filha. Publicou seu
primeiro livro on-line e, em cerca de uma semana, ele chegou à lista de mais vendidos. Desde então,
ela não parou de escrever e se tornou uma autora apaixonada por tecer histórias de amor sobre
pessoas destinadas a ficarem juntas.
Seu jeito vívido de escrever conquistou o público e a levou ao topo das listas dos prestigiosos USA
Today, The Wall Street Journal e The New York Times.
Mia mora em Cincinnati, Ohio, com o marido e os quatro filhos.
www.miasheridan.com
www.facebook.com/miasheridanauthor

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Sumário
Créditos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
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Informações sobre a Arqueiro

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