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eee | Been beeen CONHECIMENTO E SABER Por Maria Alice Nogueira e Claudio Marques M. Nogueira Um arbitrario cultural dominante Ao tratar de modo igual quem é diferente, a escola privilegia, de maneira dissimulada, quem, por sua bagagem familiar, ja é privilegiado © methor ponto de partida para compreender as ideias de Bourdieu sobre 0 conhecimento e 0 saber talver resida na nogio de “arbitrario cultural”. Inspi- rando-se nas concepgées antropolégicas de cultura, 0 socidlogo francés postula que nenhuma cultura pode ser objetivamente definida como superior a outra. Os valores e significados que orientariam cada grupo so- al em suas atitudes © comportamento seriam, por definicao, arbitrarios, nao estando, portanto, fanda- rmentados em nenhusna razao objetiva, universal: “A selesio de significagies que define objetivamente a cultura de um grupo ou de-uma classe como sistema simbélico ¢ arbinréria na medida em que a estrutura €-as fungSes desta cultura no podem ser deduzidas de nenhum principio universal, fisico, biolégico ou espiritual, nZo estando unidas por nenhuma es de relacio imerna & natureza das coisas ou a.uma na- tureza humana’, Apesar de arbitririos, esses valores e significados ~ ou seja, a cultura de cada grupo ~ seriam vividos pelos individuos como os tinicos possiveis ou, pelo ‘menos, como os tinicos legitimos. Para Bourdieu, © mesmo ocorreria ro caso da escola. A cultura consa~ grada e transmitida pela instituigio escolar nfo seria objetivamente ie Violéncia simbélic: reconhecida como a cultura legitima, como a tnica universalmente valida ‘Na perspectiva de Bourdieu, a conversio de um arbitrério cultural em cultura legitima s6 pode ser compreendida quando se considera a relag30 entre (8 virios arbitrérios em dispura em uma determina da sociedade e as relagbes de forga entre os grupos ou classes sociais presentes nessa mesma sociedade. No caso das sociedades de classes, a capacidade de im- posicto ¢ legitimagio de um arbitririo cultural cor responderia a forea da classe social que o sustenta. De um modo geral, os valores significados arbitratios, capazes de se impor como cultura legitima, seriam aqueles sustentados pelas classes dominantes. Por tanto, para o autor, a cultura escolar, socialmente le~ gitimada, seria a culrura imposta como legitima pelas classes dominantes. "= Violéncia simbdlica Bourdieu observa, no entanto, que a autoridade pe- ddagégica, ou sj a legitimidade da instituigio escolar e da agio pedagégica que nela se exer x, 86 pode ser garantida na medida fem que 0 cariter atbitriio e social- ‘mente imposto da cuftura escolar € ocultado, Alls, € 0 central, em superior anenhuma outra.O valor — imposi¢&odissimulada seu pensamento, a ideia de que toda. que lhe € atribuido seria arbitrério, de um arbitrério forma de hierarquia social retira sua no estaria fundamentado em ne~ legitimidade do fato de a arbtsarie- numa verdade objetiva inques tiondvel. Mas, apesar de arbitréria, 2 cultura escolar seria socialmente universal 36 REVISTA EDUCACAO | oreoiAL BIBLIOTECA DO PROFESSOR cultural como cultura dade, que esti na origem de sua cons- tituigZ0, passar desperccbida, Apesar de arbitriria social- mente vinculada a uma dada classe, a cultura es~ colar precisaria, portanto, para ser legitimada, ser apresentada como uma cultura neutra. A autoridade alcangada por uma ago pedagégica, ou seja, a legi- timidade conferida a essa ag20 e 20s contesidos que cla distribui seriam proporcionais a sue capacidade de se apresentar como nio arbitriria ¢ no vincu- se processo de im- posigao dissimulada de um arbitrério cultural como cultura universal ¢ denominado, pelo autor, de “vio- lencia simbolica Uma vez reconhecida como legitima, ou seja, como portadora de um discurso universal (no arbi- lada a nenbuma classe social, trério) ¢ socialmente neutro, a escola, na perspectiva bourdieusiana, passa a exercer, ive de qualquer sus- Eee A tie EEE Para Bourdieu, apesar de arbitraria a cultura escolar seria socialmente reconhecida como a tinica legitima Poita, suas funcoes de reproducao e legitimactio das desigualdades sociais. Essas fungdes se realizariam, em primeiro lugar, paradoxalmente, por meio da ‘quidade formal estabelecida pela escola entre todos 6s alunos. Segundo a frmula célebre de Bourdieu, em seu artigo “A Escola Conservadora’, de 1996: “para que sejam fivorecidos os mais favorecidos € desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessirio € suficiente que a escola ignore, no ambito dos contet- dos do ensino que transmite, dos métoclos e téenicas de transmissio ¢ dos ctitérios de avaliagao, as desi- gualdades culturais entre as criangas das diferentes classes sociais” ‘Tratando formalmente de modo igual, em direitos edeveres, quem é diferente, « escola privilegiaria, de REVISTA EDUCACAO | ESPrCiA BIBLIOTECADO PROFESSOR 37 maneita dissimulada, quem, por sua bagagem fami- liar, a € privilegiado. Nessa ética, Bourdieu compreende a relasio de comunicagio pedagégica (0 ensino) como uma re- laga0 formalmente igualitaria, que reproduz © le~ sgitima, no entanto, desigualdades preexistentes. O argumento do autor # o de que a comunicago peda- égica, assim como qualquer comunicagio cultural, exige, para a sua plena realizagao e aproveitamento, que 08 receptores dominem 0 cédigo utilizado na producio dessa comunicagao. Em outras palavras, a entabilidade de uma relagio de comunicasio peda- égica, ou assimilada pelos al ‘ graut em que ela & compreendida 10s, dependeria do grau em que 0s alunos dominan 0 eddigo necessirio a decifragio dessa comunicagio. Para Bourdieu, esse dominio va- ria de acorde com a maior ou menor distancia exis- tente entre o arbitrério cultural apresentado pela escola como cul- tura legitima ea cultura familiar de origem dos alunos. Para 08 alunos das classes dominantes, a cultura Bourdieu sustenta capacidade (dons desiguais) enquanto, na realidade, ecorteriam da maior ou menor proximidade entre a cultura escolar € a cultura familiar do aluno. A. es- cola cumpriria, portanto, a um s6 tempo, sua fungio de reprodugio ¢ de legitimacao das desigualdades sociais. A reprodugao seria garantida pelo simples fato de os alunos que dominam, por sua origem, 05, eédigos necessirios & decodificacao ¢ assimilacio da cultura escolar e que, gracas a isso, tendem a alcancar 0 éxito escolar, serem aqueles pertencent dominantes. A legitimacio das desigualdades sociais ocorreria, por sua vez, de modo indireto, pela nega- $0 do pri te—a0s jovens das classes dominantes autor observa que o efeito de legitimayao pro vocado pela ocultagio das bases sociais do sucesso escolar € duplo: manifesta-se tanto sobre os jovens das camadas domi- lasses légio cultural oferecido — camufladamen- nantes quanto das camadas domi nadas, Os primeiros, pelo fato de tetem recehido sua heranga cultu escolar seria sua cultura “natal”, e- _ que a escola requer ral desele muito cedo e de modo di cliborada ¢ sistematizada. Para os um modo especifico Fuso, despercebido, insensivel, te- demais, seria algo como uma cul deseyelacionarcoma difculdades de ve reconhecer tura “estrangeira’, como “herdeiros”, Suas disposigdes cultura com o saber Com eftito, Bourdicu observa que a comunicaglo pedageigica, tal como se dé tradicionalmente na escola, exi- ‘ge de forma implicita, para o seu pleno aproveitamnen- to, 0 dominio prévio de um conjunto de habilidades ¢ referencias culturais e linguisticas que apenas os ‘membros das classes mais cultivadas possuiriam, Os professors transmitem sua mensagem igualmente a todos 05 alunos, como se todos tivessem os mesmnos instrumentos de decodificacao. Esses instrumentos, no entanto, seriam possuidos apenas por aqueles que tem a cultura escolar como cultura familiar, ¢ que jf so, por isso mesmo, inieiados nos conteiidos e na linguagem utilizados no mundo escolar. © argumento central do socislogo é, entio, o de gue, a0 dissimular que sua cultura é @ cultura das classes dominantes, a escola dissimula igualmente os efeitos que isso tem para o sucesso escolar das classes dominantes, As diferengas nos resultados escolares 3B REVISTA EOUCAGAO | esruc™. BIBLIOTECA DO PROFESSOR © aptidoes culturais ¢ linguisticas hes pareceriam naturais ou, em ‘outtos tertmos, componentes ~ até ‘certo ponto inatos ~ de sua prépria personalidade, O segundo grupo, por outro lado, sendo incapaz de per ceber o catiter arbitririo e impositive da cultura es- colas, tenderia a atribuir suas dificuldades escolares a ‘uma inferioridade que Ihe seria inerente, definida em termos intelectuais (falta de inteli (fraqueza dewontade) Bourdicu revsalta que, em relacso as camadas do- minades, 0 maior efeito dessa “violencia simbdlica” exercida pela escola nio é a perda da cultura familiar ea inculcagdo de uma nova cultura exégena (mesmo porque essa inculeagio, como ji se viu, seria prejudi- cada pela falta das condigbes necessérias fi sua recep- 10), mas 0 reconhecimento, por parte dos membros dessa camada, da superioridade e legitimidade da cultura dominante. Esse reconhecimento se tradu- ia) ou morais tiria numa desvalorizagao do saber e do saber-fezer tradicionais— por exemplo, da medicina, du arte ¢ da linguagem populares, e mesmo do direito consuetu~ dinario — em favor do saber ¢ do saberfazer social- ‘mente legitimados. = 0 modo de se relacionar como saher como marca de distin¢ao escolar e social A reprodugio das desigualdades sociais propici dlas pela escola niio resultaria, no entanto, apenas da falta de uma bagagem cultural apropriada & recep- gto da mensagem pedagégica. Bourdieu sustenta que @ escola sanciona, valoriza e requer nto apenas 0 dominio de um conjunto de referé s culturais ¢ A escola privilegia, dissimuladamente, quem [a é beneficiado por sua bagagem cultural Tinguisticas, mas também um modo especifico de se relacionar com a cultura ¢ com o saber. E aqui née vamos encontrar uma das mais importantes catego- rias analticas formuladas pelo autor para dar conta dlas desigualdades sociais de escolarizacio, a saber, a nogio de “relagio com a culeura”, Segundo ele, a sociedade produz (e a escola repro~ duz) uma oposigao entre dois mods diferentes que 05 individuos apresentam ~ de acordo com sua ori~ ‘gem social ~ de se relacionar com o mundo da cul tura,€ isso desde 0 nascimento. O primeiro modo, proprio dos dominantes, define-se por uma relagio de tipo aristocritico, mareada pela failiaridade e pela intimidade com a cultura legitima, o que resul ta numa relagio desenvolta, descontraida, ficil, ele- REVISTA EDUCACAG | FS9