PODER JUDICIÁRIO - JUSTIÇA FEDERAL SEÇÃO JUDICIÁRIA DO RIO DE JANEIRO

05ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro
Processo nº 0503145-62.2005.4.02.5101 (2005.51.01.503145-3)

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Autor: MINISTERIO PUBLICO FEDERAL
Réu: CHRISTINE PUSCHMANN E OUTROS

Nesta data,
faço os autos conclusos
à Juiz(a) Federal Substituto(a)
ROBERTO DANTES SCHUMAN DE PAULA.
Rio de Janeiro, 31/10/2012.

Decisão

Em 21/09/2012, à fl. 1114, o meio de comunicação
“Revista Época” solicitou cópia da denúncia deste feito.
Dada vista às partes, o MPF se manifestou à fl.
1115,
verso,
pelo
seu
indeferimento,
inobstantes
os
precedentes do E. TRF/2ª Região que já autorizaram acesso de
processos
sigilosos
a
jornalistas,
haja
vista
a
impossibilidade de se separar, na denúncia, os dados que
exponham a intimidade dos envolvidos daqueles possíveis de
revelação à luz da publicidade dos atos processuais.
A defesa de Christine Puschmann, Christine
Muller e Ingrid Maria Muller, às fls. 1118/1119, por sua
vez, exclusivamente endossou os termos da mencionada
promoção para requerer o indeferimento do requerimento.
Assim, à fl. 1124 proferi a seguinte decisão:
“O artigo 93, inciso IX, da CRFB, ao prever que
todos os julgamentos do Poder Judiciário serão
públicos, excepciona tal regra geral diante do direito
à intimidade dos interessados/titulares de informações
tidas como sigilosas, como, por exemplo, dados fiscais
e bancários.
O mesmo dispositivo constitucional, no final da
sua redação, ainda reforça o princípio da publicidade

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dos julgamentos jurisdicionais ao realçar que, mesmo
diante de hipóteses (legais) de sigilo, o interesse
público à informação não pode ser prejudicado.
Claro que o trabalho da Imprensa, na maioria das
vezes, traz em si o interesse público de informar os
destinatários de determinada informação, porém, diante
de casos como o do presente feito, que contém trechos
na denúncia de dados fiscais e oriundos de degravação
de escuta telefônica, tenho que se faz imprescindível
ao nobre jornalista subscritor de fl. 1114 ao menos
indicar especificamente o interesse público que seria
apto a expor midiaticamente os dados sigilosos a que
pretende ter acesso.
Desta feita, por tais razões, indefiro o citado
requerimento.
Intimem-se as partes. Comunique-se.”
Às fls. 1127/1128, novo pedido da empresa
jornalística, devidamente fundamentado,ora transcrito:
“A revista ÉPOCA vem, por meio desta, pedir cópia
da denúncia do Ministério Público Federal oferecida,
nos
autos
do
processo
0503145-62.2005.4.02.5101
(2005.51.01.503145-3), contra Christine Puschmann e
outros. Embora o referido processo tramite em segredo
de justiça, a revista fundamenta este pedido no
princípio constitucional da publicidade, expresso
tanto no art. 5º, parágrafo XIV, quanto no artigo 37
da Carta Magna, assim como nos artigos 3º e 4º da Lei
12.527, de 2001.
O interesse público das informações contidas na
denúncia em questão assenta-se no fato de que ela é
peça essencial no completo deslinde de caso com
repercussão direta no sistema financeiro e tributário
nacional – qual seja, as atividades ilícitas da
‘organização
criminosa’,
nas
palavras
do
MPF,
comandada pelo casal de doleiros Norbert Muller e
Christine Puschmann.

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Esta revista teve acesso à íntegra dos documentos
apreendidos pela Polícia Federal na residência e no
escritório do casal, nos quais se revelam a existência
de
fundações
e
contas
bancárias
mantidas
por
brasileiros no paraíso fiscal de Liechtenstein,
especificamente no LGT Bank. Essas contas bancárias,
conforme diligência da Polícia Federal e desta
revista, não foram declaradas à Receita Federal ou ao
Banco Central, configurando, ao que tudo indica,
crimes de evasão de divisas e sonegação fiscal. O
acesso à denúncia permitirá que esta revista – diante
da imprescindível análise do MPF sobre o caso em tela
– avalie com mais rigor e precisão a consistência dos
indícios de prova coletados pela Polícia Federal.
Conforme apuração desta revista, o mesmo LGT Bank
é alvo de investigações diferentes em 15 países, em
razão da existência de fortes indícios de que a
direção do banco orientava os clientes a se evadir da
fiscalização
das
autoridades
fiscais
de
seus
respectivos países. Os clientes brasileiros do LGT
Bank, segundo apontam as investigações da Polícia
Federal obtidas por esta revista, beneficiaram-se da
mesma estrutura criminosa.
Os imensos prejuízos públicos provocados pela
manutenção do contas secretas em paraíso fiscal –
manifestados
na
sonegação
de
impostos
e
na
impossibilidade de se conhecer a origem licíta dos
recursos – anulam, no caso dos clientes desse esquema,
o direito individual da privacidade. O fundamental
direito à privacidade não pode rebaixar-se a mero
privilégio – o privilégio de segredo do delito.
A imprensa, no caso esta revista, tem o dever de
informar o público da existência de semelhantes
malfeitos, assim como a identidade dos responsáveis e
beneficiários envolvidos. É o que exigem os princípios
do estado democrático do direito. Esta revista já
detém
esses
nomes
e
muitas
das
informações
pertinentes ao modus operandi da quadrilha. Resta
apenas conhecer o juízo do MPF sobre o caso – visto
que ainda não há sentença, embora a denúncia tenha

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sido acolhida. Nisto reside a razão objetiva deste
pedido de acesso.”
É o relato do essencial. Passo a decidir.

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A decisão de fl. 1124 – à qual me reporto –
unicamente indeferiu o pedido de cópia da denúncia pela
falta de indicação do interesse público neste caso concreto,
o que, agora, restou sobejamente atendido.
Realmente, com o recebimento da denúncia, houve
o
atestado
da
presença
dos
indícios
de
autoria
e
materialidade de graves crimes contra o sistema financeiro
nacional praticados, em tese, com o envolvimento do
Principado de Liechtenstein, notório paraíso fiscal.
O novo pedido da empresa jornalística, de fls.
1127/8, ademais, expressamente afirma que obteve acesso
integral aos documentos apreendidos na residência e no
escritório de Norbert Muller e Christine Puschmann pela
Polícia Federal. Nesse ponto, há de se conferir como
verídica tal informação, uma vez que menciona fatos que não
poderiam ser conhecidos de outra forma, o que se por um lado
demonstra uma conduta ilegal por parte de algum agente
policial – a ensejar investigação - , por outro acaba por
não restar muito mais a resguardar quanto a tais dados, em
favor da imprensa.
Aliás, os fatos em apuração já foram publicados
em jornal de circulação nacional na semana passada, como se
observa do link a seguir, que trata de investigação
originada do caso dos autos:
http://oglobo.globo.com/pais/justica-federal-condenaex-corregedor-do-rio-prisao-por-crimes-financeiros6606135 (link da matéria publicada no Jornal O Globo,
em 1º-11-2012, acessado em 06-11-2012, por meio da
rede mundial de computadores)
Por importante, friso que tanto a matéria
jornalística quanto o acesso aos documentos sigilosos pela
requerente através da Polícia Federal apenas são citados
exemplificativamente, uma vez que não influem sobremaneira
nesta decisão.

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Desta feita, por considerar presente o interesse
público da requerente em noticiar os fatos contidos na
denúncia, defiro o requerimento de fls. 1127/1128 e
determino à Secretaria que lhe forneça cópia da denúncia,
devendo, porém, serem apagados os diálogos telefônicos
interceptados e transcritos às fls. 683, 684, 685 e 686
(início), uma vez que não são essenciais à compreensão da
acusação e, por isso, continuam sob sigilo.
Cumpra-se e intimem-se as partes.
Rio de Janeiro, 6 de novembro de 2012.

ROBERTO DANTES SCHUMAN DE PAULA
Juiz Federal Substituto em auxílio à 5ª Vara Criminal
(ASSINADO ELETRONICAMENTE CONFORME Lei nº 11.419/2006)

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