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FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

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FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Manejo De Plantas Daninhas

1 Biologia de Plantas Daninhas

1. Planta Daninha

Antonio Alberto da Silva Francisco Affonso Ferreira Lino Roberto Ferreira José Barbosa dos Santos

Definir planta daninha nunca foi fácil, mesmo com a evolução nos estudos alcançada atualmente pela Ciência das Plantas Daninhas. Entretanto, todos os conceitos baseiam-se na sua indesejabilidade em relação a uma atividade humana. Uma planta pode ser daninha em determinado momento se estiver interferindo negativamente nos objetivos do homem, porém esta mesma planta pode ser útil em outra situação.

Atenção
Atenção

A priori, nenhuma espécie de planta pode ser conside� rada daninha. ��omoomo ee��emplos,emplos, podempodem��sese citarcitar espéciesespécies alal�� tamente competidoras com culturas sendo e�tremamente úteis no controle da erosão, promovendo a reciclagem de nutrientes, servindo como planta medicinal, fornecendo néctar para as abelhas fabricarem o mel, etc.

Uma planta cultivada também pode ser daninha se ela ocorrer numa área de outra cultura, como a presença do milho em cultura da soja e da aveia em cultura do trigo. Por esse motivo, são vários os conceitos de planta daninha: Shaw (1956), citado por Fischer (1973), afirma que planta daninha é qualquer planta que ocorre onde não é desejada. Cruz (1979) salienta que é uma planta sem valor econômico ou que compete com o homem pelo solo. Fischer (1973) apresenta duas definições: “plantas cujas vantagens ainda não foram descobertas” e “plantas que interferem com os objetivos do homem em determinada situação”.

Atenção
Atenção

Na verdade, num conceito mais amplo, uma espécie só deve ser considerada daninha se estiver direta ou indiretamente prejudicando uma determinada atividade humana, como, por e�emplo, plantas interferindo no desenvolvimento de culturas comerciais, plantas tó�icas em pastagens, plantas ao lado de refinarias de petróleo, plantas estranhas no jardim, etc.

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Numa cultura, por exemplo, em determinado período do ciclo, qualquer espécie que vier a afetar a produtividade e, ou, a qualidade do produto produzido ou interferir negativamente no processo da colheita é considerada daninha. As plantas daninhas podem ser agrupadas em comuns e verdadeiras. As comuns são aquelas que não possuem habilidade de sobreviver em condições adversas. Por exemplo, num plantio rotacional trigo/soja, as plantas de trigo que surgirem das sementes remanescentes no solo, passam a ser consideradas daninhas à cultura da soja. As consideradas verdadeiras possuem características especiais como a dormência que permite a sobrevivência em condições adversas, além de:

a) Não serem melhoradas geneticamente;

b) Serem rústicas quanto ao ataque de pragas e doenças;

c) Possuirem habilidade de produzir grande número de sementes

por planta, geralmente com facilidade para disseminação pelo vento, água, pêlo de animais, etc. Exemplo: Desmodium totuosum, que produz até 42.000 sementes por planta, as quais são facilmente dissemináveis por animais, por máquinas, por misturas de sementes, etc.

d) Apresentarem dormência e germinação desuniforme, que são

atributos que facilitam a perpetuação da espécie, pois, se todas as sementes germinassem de uma só vez, seria fácil erradicar uma espécie daninha. Muitas espécies de plantas daninhas são, ainda, capazes de se multiplicar por diversas maneiras (sementes, rizomas, bulbos, tubérculos, folhas, raízes, etc.).

1.1. Prejuízos causados pelas plantas daninhas

1.1.1. Prejuízos diretos

As plantas daninhas, de certa forma, furtam energia do homem. Em média, cerca de 20-30% do custo de produção de uma lavoura se deve ao

custo do controle das plantas daninhas. Além da redução da produtividade das culturas, as plantas daninhas causam outros prejuízos diretos, por exemplo:

a) Reduzem a qualidade do produto comercial. São exemplos a

presença de sementes de picão-preto (Bidens pilosa) junto à fibra do algodão, sementes de capim-carrapicho (Cenchrus echinatus) junto ao feno, sementes de carrapicho-de-carneiro (Acanthospermum hispidum) aderidas à lã, tubérculos de tiririca se desenvolvendo dentro tubérculos

de batata (Fig. 1), etc.

b) São responsáveis pela não-certificação das sementes

de culturas, quando estas são colhidas junto com sementes de determinadas espécies de plantas daninhas proibidas, como leiteiro (Euphorbia heterophylla), arroz-vermelho (Oryza sativa), capim- massambará (Sorghum halepense) e feijão-miúdo (Vigna unguiculata). É comum, também, impedirem a certificação de mudas em torrão, como é o caso de mudas cítricas produzidas em viveiro infestado com tiririca (Cyperus rotundus).

c) Podem intoxicar animais domésticos, quando presentes em

pastagens. Por exemplo: cafezinho (Palicourea marcgravii), oficial-de- sala (Asclepias curassavica), cavalinha (Equisetum piramidale), flor-

das-almas (Senecio brasiliensis), samambaia (Pteridium aquilinium), algodoeiro-bravo (Ipomoea fistulosa), chibata (Arrabidae bilabiata) e

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outras que podem causar a morte de animais. d) Algumas espécies exercem o parasitismo em fruteiras, milho e plantas ornamentais, entre outras. São exemplos a erva-de-passarinho (Phoradendron rubrum) em citros e a erva-de-bruxa (Striga lutea) em milho. Esta última é a pior invasora para milho, ainda não introduzida no Brasil. Ela produz cerca de 5.000 sementes por planta, que germinam e parasitam as raízes do milho; dois meses mais tarde as plantas aparecem na superfície do solo, florescem rapidamente e iniciam novamente o ciclo parasitário.

rapidamente e iniciam novamente o ciclo parasitário. Figura 1 – Dano em batata inglesa devido à
rapidamente e iniciam novamente o ciclo parasitário. Figura 1 – Dano em batata inglesa devido à

Figura 1 – Dano em batata inglesa devido à penetração e ao desenvolvimento de tuberculos de tiririca.

Outras espécies de plantas daninhas podem ainda reduzir o valor da terra,

como a tiririca (Cyperus rotundus) e a losna-brava (Artemisia verlotorum). Estas, quando presentes em áreas com culturas que apresentam pequena capacidade competitiva, como as olerícolas de modo geral, os parques

e os jardins, têm o custo de controle muito elevado, tornando-se inviável economicamente.

1.1.2. Prejuízos indiretos

As plantas daninhas podem ser hospedeiras alternativas de organismos nocivos a espécies vegetais cultivadas os quais podem causar doenças, como o mosaico-dourado do feijoeiro – virose transmitida pela mosca-branca após ter se “alimentado” de espécies do gênero Sida (Sida rhombifolia, Sida

glaziovii, Sida micrantha, Sida santaremnensis, Sida cordifolia, etc.). Outro exemplo é o capim-massambará (Sorghum halepense), que é hospedeiro do vírus do mosaico da cana-de-açúcar. Mais de 50 espécies de plantas daninhas hospedam nematóides dos gêneros Meloydogyne e Heterodera (nematóide-do-cisto da soja). Algumas espécies, além dos prejuízos diretos que causam às culturas, podem, ainda, prejudicar ou até impedir a realização de certas práticas culturais e a colheita. São exemplos a corda-de-viola (Ipomoea grandifolia, Ipomoea aristolochiaefolia, Ipomoea purpurea e outras desse gênero). Elas diminuem a eficiência das máquinas e aumentam as perdas durante

a operação da colheita até mesmo quando em infestação moderada nas

lavouras. Capim-carrapicho (Cenchrus echinatus), carrapicho-de-carneiro (Acathospermum hispidum), arranha-gato (Acassia plumosa) e outras plantas espinhosas podem até impedir a colheita manual das culturas. Outro exemplo de planta daninha que causa prejuízos diretos e indiretos é a Mucuna pruriens, infestante comum em lavouras de milho, feijão e cana-de-açúcar; esta espécie daninha dificulta tremendamente a colheita manual, pois, durante a operação da colheita, os tricomas de suas folhas se rompem a um leve contato e liberam toxinas que causam inflamação na pele do trabalhador. Espécies de plantas daninhas podem ser responsáveis pela criação

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de condições propícias ao desenvolvimento de organismos vetores de doenças ou de animais peçonhentos, como cobras, aranhas e escorpiões. As plantas daninhas, também, são inconvenientes em áreas não- cultivadas: áreas industriais, vias públicas, ferrovias, refinarias de petróleo. Nesses locais não é desejável a presença de plantas daninhas vivas ou mortas. Causam, também, problemas sérios em ambientes aquáticos, onde podem dificultar o manejo da água, aumentando o custo da irrigação, prejudicando a pesca, dificultando a manutenção de represas, o funcionamento de usinas hidrelétricas, etc. Espécies como a taboa (Typha angustifolia) e o aguapé (Eichornia crassipes) podem diminuir a eficiência de reservatórios ou de canais para irrigação, elevando a evapotranspiração e ocasionando maior perda de água, além de dificultar a navegação.

1.2. Origem, estabelecimento e propagação das plantas daninhas

De acordo com Musik (1970) e Fischer (1973), as plantas daninhas originaram-se, inicialmente, dos distúrbios naturais, como glaciação, desmoronamentos de montanhas, ação de rios e mares, etc. Existem duas grandes teorias: a hidrosere, que afirma que a vida originou-se no meio líquido, e a xerosere, segundo a qual a vida teve origem em terra firme. Na verdade, devido ao próprio conceito de planta daninha, elas começaram a aparecer quando o homem iniciou suas atividades agrícolas, separando as benéficas (denominadas plantas cultivadas) das maléficas (denominando- as de plantas daninhas). Estas são encontradas onde está o homem, porque ele é quem cria o ambiente favorável a elas. Musik (1970) salienta que o homem é, provavelmente, o responsável pela evolução das plantas daninhas, como o é, também, pelas plantas cultivadas.

por

diversos meios. Vários são os diásporos pelos quais as plantas podem perpetuar�se tanto por via seminífera como por via vegetativa. Por outro lado, a disseminação das plantas daninhas pode ser feita por vento, água, animais, incluindo o homem, que se constitui num grande disseminador.

As

plantas

daninhas

podem

ser

disseminadas

Atenção
Atenção

Todavia, o estabelecimento de uma determinada espécie daninha envolve os aspectos ecológicos da agregação e migração, além da competição pelos recursos do meio. Do ponto de vista morfofisiológico, o estabelecimento envolve o processo de germinação da semente, crescimento e desenvolvimento da planta, incluindo os complexos aspectos morfogênicos e edafoclimáticos. A propagação vegetativa é um mecanismo de sobrevivência de grande importância nas plantas daninhas perenes. Os propágulos podem ser raízes, rizomas, tubérculos, etc, que apresentam duas características essenciais: dormência e reservas alimentícias. Desse modo, certas espécies como Sorghum halepense e Cynodon dactylon, que apresentam, além de sementes, reprodução vegetativa por meio de rizomas e estolões, respectivamente, são mais competitivas por possuírem como atributo elevada capacidade reprodutiva. Um tipo particular de disseminação vegetativa é a dita auxócora, na qual partes vegetativas das plantas em estágio avançado de desenvolvimento se destacam da planta-mãe formando novos indivíduos, podendo ser por caules rastejantes, rizomas, bulbos, rebentos ou raízes.

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Normalmente, as plantas daninhas produzem muitas sementes, o que

14 assegura alta taxa de dispersão e restabelecimento de uma infestação.

estudo do processo germinativo das sementes é de fundamental

O

importância para quem trabalha com o manejo de plantas daninhas, pois

a semente é uma das vias de entrada dos herbicidas, bem como das

partes das plântulas, como hipocótilo, radícula, caulículo, etc. Além disso, muitos herbicidas atuam, ou seja, possuem seus mecanismos de ação ligados ao processo germinativo, impedindo que a planta se estabeleça. Se a semente não estiver em estado de dormência e houver condições ambientais favoráveis, como adequado suprimento hídrico, temperatura, concentração de oxigênio e presença ou ausência de luz, conforme ela seja fotoblástica positiva ou negativa, ela entrará em processo de germinação (PROPINIGIS, 1974; METIVIER, 1986; FERRI, 1985).

Saiba
Saiba

POPINIGIS, F. Fisiologia de sementes . Brasília: Ministério da Agricul - tura, Agiplan. 1974, 78p.

A germinação da semente é a reativação dos pontos de crescimento

do embrião que haviam sido paralisados nos estágios finais da maturação

morfisiológica da semente. Do ponto de vista fisiológico, a germinação

consiste no processo que começa com o suprimento de água à semente

seca e termina quando o crescimento da plântula se inicia, ou seja, ocorre

a ruptura do tegumento e saída da radícula. O processo da germinação

começa, portanto, com o ressurgimento das atividades paralisadas ou reduzidas por ocasião da maturação da semente. Para isso são necessários alguns requisitos fundamentais: as sementes estarem viáveis e as condições ambientais serem favoráveis.

Atenção
Atenção

Para que uma semente viável (condição intrínseca) possa germinar, são necessárias as seguintes condições ambientais favoráveis: água em quantidade suficiente, temperatura adequada e atmosfera apropriadas à espécie (concentração de �O 2 e O 2 ) e luz (comprimento de onda e intensidade).

Essas necessidades são definidas para cada uma e estão relacionadas

com o habitat de origem e com a melhor forma de preservação (normalmente

as espécies daninhas somente germinam quando existem condições para

sobrevivência). A água é necessária para que ocorra a reidratação das sementes,

que perdem muita umidade poor ocasião de sua maturação e secagem.

A

quantidade necessária para reidratação, para a maioria das espécies, é

de

duas a três vezes o peso da semente. Entretanto, em fases seguintes

à

reidratação, é necessário o suprimento contínuo de água, para o

desenvolvimentodoeixoembrionárioemplântulaindependente.Aembebição das sementes é um processo físico que ocorre tanto nas sementes vivas quanto nas mortas, sendo dependente dos seguintes fatores: composição química da semente, permeabilidade do tegumento à água e presença de

água na forma líquida ou gasosa. As características físico-químicas das substâncias coloidais das sementes irão comandar o potencial da água nas sementes. Com a embebição, aumenta-se o potencial de pressão interna

na membrana que envolve a semente (pressão de embebição), o qual pode

atingir centenas de atmosferas, provocando o rompimento do tegumento,

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por onde sairá a radícula. Os principais responsáveis pela embebição são as proteínas, a celulose

e as substâncias pécticas. A embebição também é influenciada pela

temperatura (temperaturas mais elevadas, menor tempo para embebição). Outro fator que pode influenciar é a permeabilidade do tegumento da semente à água. É comum entre as espécies a presença do tegumento totalmente impermeável à água, dando origem ao que se chama de semente dura. Estas sementes permanecerão dormentes enquanto o tegumento estiver impermeável.

Normalmente, cada espécie requer uma temperatura ideal para germinação. A temperatura ótima é aquela que permite a obtenção da maior percentagem de emergência no menor espaço de tempo. Em temperaturas abai�o da ótima, a velocidade da germinação é menor, o que resulta numa diminuição do estande, porque as sementes ficam por períodos prolongados nos estágios iniciais da germinação e, nessas condições, ficam mais suscetíveis ao ataque de microrganismos patogênicos.

Atenção
Atenção

Temperatura acima da ótima tende a aumentar, em demasia, a velocidade

da germinação, causando crescente desorganização do mecanismo germinativo e impossibilitando que as sementes menos vigorosas completem

a emergência. A temperatura ótima está relacionada com as atividades das

enzimas que participam dos diversos processos metabólicos que ocorrem durante a germinação e cujas ações somente se tornam eficientes em temperaturas específicas. Há espécies cujas sementes somente germinam em regime de alternância de temperatura, como a grama-seda (Cynodon dactylon). Sementes desta espécie dificilmente germinam totalmente no escuro, em regime de temperatura constante entre 25 e 30 o C; entretanto, passam a germinar rapidamente se ocorrer alternância de temperaturas

alta e baixa. Em algumas espécies tem-se observado, também, uma interdependência entre temperatura e outros fatores externos. Como exemplo desta interdependência podem-se citar as espécies do gênero Amaranthus, em que a luz pode promover a germinação mesmo em temperaturas desfavoráveis. A germinação, por se tratar de um processo que ocorre em células vivas, necessita de energia, obtida por meio do processo de oxidação na presença do oxigênio, isto é, respiração. A respiração envolve trocas de gases, razão pela qual a germinação das sementes é influenciada pela composição do ar atmosférico que as envolve. Em condições normais, as sementes germinam em atmosferas com 20% de O 2 e 0,03% de CO 2 .

O efeito do CO 2 é normalmente contrário ao do O 2 , pois sementes de

muitas espécies não conseguem germinar quando a concentração de CO 2

é muito elevada. Através de concentrações elevadas de CO 2 consegue-

se evitar a germinação e auxiliar na conservação de sementes. Todavia, esta prática não é utilizada para conservação de sementes, porque uma atmosfera rica em nitrogênio parece ser mais econômica e eficiente. As necessidades e quantidades de O 2 para germinação são influenciadas por

outros fatores, como: a) altas temperaturas, que aumentam a necessidade de oxigênio pelo embrião, devido à maior atividade metabólica; e b) fatores do solo, como porosidade, profundidade de semeadura, porcentagem de matéria orgânica, atividade microbiana e teor de umidade. Além destes,

a fase gasosa do solo apresenta uma série de substâncias voláteis que

são produzidas pelas plantas, podendo, em alguns casos, ser inibidoras ou promotoras da germinação.

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Existem espécies de plantas daninhas que somente germinam no escuro, algumas em luz contínua, outras necessitam de breve iluminação e outras ainda são indiferentes. Esse fenômeno é semelhante ao fotoperiodismo observado para o florescimento. A necessidade de luz pode variar também em função do armazenamento. Em algumas espécies a necessidade de luz ocorre somente após a colheita e em outras por um longo período (por um

ano ou mais). É importante salientar que a sensibilidade das sementes à luz

é maior quando a semente está embebida. O período de exposição pode

ser curto, como em sementes de alface (alta percentagem de germinação em exposição por um a dois minutos), ou muito curto, apenas flash de 0,001 segundo (sementes de fumo), ou, ainda, longo e de forma cíclica.

Atenção
Atenção

O processo de germinação inicia�se com uma rápida absorção de água pelos biocolóides, ocorrendo a embebição de todos os tecidos da semente e uma e�pansão do tegumento envolvente; ao mesmo tempo, o embrião passa a sintetizar e liberar giberelinas que se movem através do endosperma (no caso das endospermáticas), havendo formação de α-amilase e outras enzimas.

Esta fase da embebição coincide com o aumento da atividade metabólica, primeiramente na região da radícula do embrião, que é observada pelo aumento da respiração, que envolve a oxidação da matéria orgânica da semente com formação de ATP e substâncias intermediárias necessárias ao processo anabólico da germinação. Isso ocorre porque durante o processo da embebição a enzima β-amilase, presente na semente seca, é reativada e a enzima α-amilase é sintetizada de novo por estímulo hormonal (giberelinas) às expensas de aminoácidos originados de proteínas hidrolisadas e com a energia oriunda das atividades das fosforilases, da glicólise e da respiração. Em cereais, verifica-se inicialmente a ativação do m-RNA preexistente, acompanhada pelo aumento da síntese protéica no embrião. Aumenta-se, também, o número de ribossomos + RNA que incorporam os aminoácidos às proteínas, incrementando-se a respiração e o alongamento celular. Nas primeiras 12 a 16 horas após o início da embebição, observa-se aumento nas sínteses de DNA e RNA, iniciando-se o crescimento celular e a mitose; e, nas primeiras 24 horas iniciais, ocorrem a divisão e o alongamento celular, os quais dependem do uso de aminoácidos, lipídeos e carboidratos solúveis armazenados no embrião. Durante esta fase o ácido giberélico

(giberelinas) estimula a ativação e, ou, síntese das amilases, que elevam

a produção de glucose, frutose e maltose, as quais são essenciais para o

desenvolvimento do embrião. Em consequência do aumento das atividades de diversas enzimas durante o processo de embebição, ocorrem o metabolismo e a mobilização das reservas das sementes. O amido, pela ação das enzimas amilases, é transformado em açúcares redutores e sacarose; os lipídeos, pela ação das lipases, são transformados em ácidos graxos (em oleaginosas, as gorduras são convertidas em sacarose pelo ciclo do glioxilato, através da ação de duas enzimas: isocitrase e sintetase do malato); as proteínas, pela ação das enzimas proteolíticas, são transformadas em aminoácidos; e a fitina, por ação das fitases, é transformada em inositol e fósforo inorgânico.

10

Atenção
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Um aspecto relacionado com a semente é a quiescência, que é o repouso metabólico da semente devido a condições e�ternas desfavoráveis; a quiescência é confundida, por alguns autores, com a dormência.

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Um grande volume de sementes de plantas daninhas encontra�se, no solo, em estado de quiescência. O simples revolvimento do solo, a drenagem de áreas encharcadas e as irrigações de solos secos podem estimular a germinação dessas sementes. Dormência é devida a condições intrínsecas inerentes à própria semente, podendo ser física, mecânica ou fisiológica. Nesse caso, a semente não germina, mesmo que as condições ambientes sejam favoráveis. Para germinarem, necessitam que a dormência seja superada de alguma forma.

Atenção
Atenção

Propinigis (1974) cita como exemplo marcante a dormência das plantas daninhas comparada à das plantas cultivadas, nas quais o melhoramento genético reduziu ou mesmo suprimiu tal atributo. É o caso das aveias silvestre e cultivada, que são plantas muito semelhantes e apresentam ciclos vegetativos praticamente iguais, porém a cultivada já não consegue viver sem ajuda do homem, enquanto a silvestre sobrevive por vários séculos sem a ajuda humana; pelo contrário, o homem sempre procurou erradicá-la, mas sem sucesso. A aveia cultivada amadurece no verão e suas sementes, sem dormência, germinam todas; e o inverno violento pode matar as plântulas. Já a aveia silvestre, por apresentar dormência, não germina de forma uniforme, sobrevivendo no solo por muito tempo, sendo considerada uma espécie de planta daninha importante.

Os diversos tipos de dormência podem ser agrupados em:

a) “Dormência primária”, também chamada de dormência inata, endógena, inerente ou natural: seria aquela que a semente adquire quando ainda está ligada à planta�mãe, durante o processo de maturação, e persiste por algum tempo após completada a maturação.

b) “Dormência secundária”, também chamada de induzida: seria aquela que a semente, já liberada da planta�mãe, numa condição de não dormente, adquire a dormência. No retorno ao ambiente favorável, a semente permanece dormente, requerendo condição especial para quebra da dormência. Tegumento impermeável tem sido causa mais freqüente desse tipo de dormência. A dormência, nas várias formas, é um dos mais importantes mecanismos indiretos de dispersão, sendo um meio necessário de sobrevivência entre as plantas daninhas.

Atenção
Atenção

Através deste mecanismo a espécie consegue sobreviver em estações desfavoráveis, aumentando a sua população quando as condições retornam à sua normalidade. Como a dormência não é a mesma em todas as sementes de uma planta, pode ocorrer germinação durante meses ou até anos, garantindo a perpetuação da espécie. O amplo conhecimento da dormência poderá, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de métodos mais eficientes de controle de plantas daninhas. Como exemplos de espécies de plantas daninhas que apresentam mecanismos de dormência podem- se citar: a) erva-formigueira (Chenopodium album): produz sementes com tegumentos normal e duro. Por esta razão, mesmo sob intenso controle sempre haverá no solo sementes desta espécie. Acredita-se que muitas

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outras espécies de plantas daninhas apresentam mecanismos semelhantes;

b) língua-de-vaca (Rumex cryspus): germina melhor na presença de luz; e

c) quinquilho (Datura stramonium): germina melhor no escuro. O leiteiro

(Euphorbia heterophylla), por ser indiferente à luz, é capaz de germinar até

a profundidade de 25 cm no solo (VARGAS et al., 1998). O solo agrícola é um banco de sementes de plantas daninhas contendo

entre 2.000 e 50.000 sementes/m 2 /10 cm de profundidade. Do total dessas sementes, em um dado período, apenas 2% a 5% germinam; as demais permanecem dormentes. Por isso, uma avaliação da composição florística de uma área em uma única época do ano não representa o potencial de infestação desta área. Certas espécies necessitam de condições especiais para germinar. Isso pode ocorrer pela simples movimentação do solo, que pode expor as sementes à luz (mesmo por frações de segundos), provocar mudança nos teores de umidade, na temperatura e na composição atmosférica do solo ou até mesmo acelerar a liberação de compostos estimulantes da germinação, como os nitratos. Maiores taxas de germinação são observadas em solo submetido à aração seguida da ação de outros implementos como enxada rotativa. No entando, são mais expressivas em solo com ligeira compactação, possivelmente pelo maior teor de umidade junto às sementes (maior contato entre as sementes e o solo). Isto pode ser observado facilmente em condições de campo, onde no rastro da roda do trator observa-se cerca de 10% a mais de emergência de plantas daninhas. Outro fator extremamente importante na germinação das sementes é a profundidade em que elas se encontram no solo. Espécies que produzem sementes grandes, como as dos gêneros Ipomoea e Euphorbia, podem germinar até

a profundidades superiores a 15 e 25 cm, respectivamente (VARGAS et

al., 1998); entretanto, espécies que produzem sementes pequenas, como Eleusine indica, somente germinam quando estão até a profundidade de 1,0 cm, sem o revolvimento do solo. As características físico-químicas do solo também influenciam a profundidade de emergência das sementes; assim, em solos muito compactados, a emergência ocorre em menores profundidades, quando comparada com solos pouco compactados. Outro fator que influencia a profundidade de emergência é o sistema de cultivo, como é o caso de Brachiaria plantaginea, que germina até a profundidade de 3,0 cm no plantio convencional e somente até 1,5 cm no sistema de plantio direto.

1.3. Classificação das plantas daninhas

Para facilitar a correta identificação da espécie, é importante conhecer algumas características que permitam agrupar as plantas daninhas em diferentes classificações. Em certos casos, a seletividade de alguns herbicidas baseia-se em diferenças morfológicas e fisiológicas existentes entre as espécies de plantas daninhas e cultivadas. Por estes e outros motivos é necessário conhecimento mais amplo das espécies de plantas daninhas, de suas formas de reprodução e ciclo de vida para se desenvolver um bom programa de manejo integrado. As plantas que produzem sementes englobam as monocotiledôneas e dicotiledôneas, com aproximadamente 170.000 espécies. Este grupo abrange quase todas as plantas consideradas daninhas (cerca de 30.000 espécies). Destas, cerca de 1.800 são consideradas mais nocivas em razão de suas características e seu comportamento, causando a cada ano grandes perdas na agricultura. O Quadro 1 apresenta as 12 famílias mais importantes do mundo. Em seguida, seguem os principais padrões de classificação para as diferentes espécies infestantes em áreas agrícolas e não agrícolas.

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Quadro 1 – Famílias de plantas daninhas e números de espécies mais importantes por família, segundo Holm (1978)

Famílias

Nº Espécies

% Total de Espécies Daninhas

Gramineae/Poaceae

44

(37%)

   

Compositae/Asteraceae

32

 

(43%)

 

Cyperaceae

12

     

Poligoniaceae

8

     

Amaranthaceae

7

     

Cruciferae

7

     

Leguminosae

6

   

(68%)

Convolvulaceae

5

     

Euphorbiaceae

5

     

Chenopodiaceae

4

     

Malvaceae

4

     

Solanaceae

4

     

1.3.1. Classificação quanto ao ciclo vegetativo

a) Anuais: germinam, desenvolvem, florescem, produzem sementes

e morrem dentro de um ano. Estas podem ser anuais de inverno (que

germinam no outono ou inverno, crescem na primavera e produzem frutos

e morrem em meio ao verão) e de verão (que germinam na primavera,

crescem no verão e madurecem e morrem no outono). Em certas regiões do

Brasil, principalmente no sul, onde as estações do ano são bem definidas, há nítida observância desses fatos. Propagam por frutos e sementes. A melhor época de controle para essas espécies seria antes da produção de sementes. Ex.: Amaranthus hibridus. b) Bienais: são plantas cujo completo desenvolvimento se dá normalmente em 2 anos. No primeiro germinam e crescem. No segundo, produzem flores, frutos, sementes e morrem. Devem ser controladas no primeiro ano. Podem ser anuais em uma região e bienais em outra. Ex.:

Leonurus sibiricus. c) Perenes: as plantas perenes (ou vivazes) são aquelas que vivem mais de dois anos e são caracterizadas pela renovação do crescimento ano após ano a partir do mesmo sistema radicular. Podem dar flores e frutos durante anos consecutivos e reproduzem-se por sementes e por meios vegetativos. São melhores controladas com o uso de herbicidas sistêmicos pois o sistema mecânico de controle faz com que se multipliquem ainda mais através de suas partes vegetativas. Estas podem ser subclassificadas

em:

• perenes herbáceas simples - que se reproduzem por sementes e

podem também reproduzir-se vegetativamente se injuriadas ou cortadas, sendo normalmente de fácil controle. Exemplo: Taraxacum officinale.

• perenes herbáceas mais complexas - se reproduzem por sementes

e por mecanismos vegetativos. Exemplos: Cynodon dactylon, Cyperus

rotundus e Imperata brasilensis; • perenes lenhosas - são plantas cujos caules têm crescimento secundário, com incremento anual. Exemplo: Senna obtusifolia. • perenes rizomatosas – são aquelas que produzem caule subterrâneo

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(rizoma) que se propaga e se reproduz a certa distância da planta que a

originou (planta mãe). O controle químico mais eficiente se dá por meio de herbicidas sistêmicos, levando-se em consideração a época de maior e menor disseminação. Ex.: Sorghum halepense.

• perenes estoloníferas - produzem estólons, os quais emitem nós e daí raízes que originarão uma nova planta. Ex.: Brachiaria purpuracens.

• perenes tuberosas – são disseminadas basicamente por tubérculos (ou batatinhas). Ex.: tiririca (Cyperus rotundus).

• lenhosas: são os vegetais perenes, de maior porte. São plantas daninhas comuns em pastagens. Ex.: Vermonia ferruginea.

1.3.2. Classificação quanto ao hábito de

crescimento

a)

Herbáceas: plantas tenras, de baixo porte.

b)

Arbustivas: são aquelas que apresentam ramificações desde a

base.

c)

Arbóreas: plantas que também apresentam ramificações bem

definidas, contudo acima da base do caule.

d) Trepadeiras: se beneficiam de outras plantas usadas como suporte

para o crescimento.

e) Hemiepífitas: iniciam seu desenvolvimento como trepadeiras e, em

desenvolvimento posterior emitem sistema radicular. f) Epífitas: crescem sobre outras sem a utilização de fotoassimilados

da planta usada como hospedeira.

g) Parasitas: crescem sobre outra se beneficiando dos fotoassimilados

da espécie vegetal parasitada.

1.3.3. Classificação quanto ao habitat

a) Terrestres: vivem sobre o solo. Algumas se desenvolvem melhor

sobre solo mais férteis. Exemplos: Amaranthus spp e Portulaca oleracea.

São consideradas indicadoras de solo fértil, sendo que sua presença valoriza o caráter agronômico do solo presente na área. Ao contrário, existem as espécies que se desenvolvem em solos de baixa fertilidade,

indicando solos pobres. Exemplos: Aristida pallens e Sida spp. Existem ainda aquelas indiferentes à fertilidade. Exemplo: Cyperus spp.

b) Plantas daninhas de baixada: são aquelas espécies que se

desenvolvem melhor em solos orgânicos e úmidos. Exemplos: Cuphea

carthaginensis, Alternanthera philoxeroides.

c) Plantas daninhas aquáticas: se subdividem em:

Aquáticas marginais (ou de talude) - são terrestres que ocorrem às

margens de rios, lagoas, represas, etc. Exemplos: capim-fino (Brachiaria purpurascens)

Aquáticas flutuantes - ocorrem livremente nas superfícies da água,

com as folhas fora da água e as raízes submersas. Ex. aguapé (Eichornia crassipes).

Aquáticas submersas livres - vivem inteiramente abaixo do nível da água. Ex. algas

Aquáticas submersas ancoradas - submersas com as raízes presas

ao fundo. Ex. elódea (Egeria densa).

Aquáticas emergentes - possuem as folhas na superfície da água e

as raízes ancoradas no fundo. Ex. taboa (Typha angustifolia).

d) Plantas daninhas de ambiente indiferente: vivem tanto dentro

como fora da água. Exemplo: Echinochloa spp.

e) Plantas daninhas parasitas: vivem sobre outras plantas e vivendo

às custas delas. Exemplos: Cuscuta racemosa e Phoradendrum rubrum.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

1.4. �aracterísticas de agressividade das plantas daninhas

As características das plantas daninhas verdadeiras fazem com que elas sejam mais agressivas em termos de desenvolvimento e ocupação rápida do solo; com isso, dominam as plantas cultivadas, caso o homem não

interfira, usando os métodos de controle disponíveis. Essas características de agressividade são:

a) Elevada capacidade de produção de dissemínulos (sementes,

bulbos, tubérculos, rizomas, estolões, etc.). Exemplos: Amaranthus retroflexus com 117.400 sementes por planta; Artemisia biennis: 107.500 sementes por planta; e Cyperus rotundus: apenas um tubérculo, em 60 dias, produz 126 tubérculos, e cada tubérculo possui cerca de dez

gemas que, quando separadas, cortadas, no momento do cultivo do solo, podem gerar mais dez plantas; além de tudo isso, esta planta produz centenas de sementes viáveis.

b) Manutenção da viabilidade mesmo em condições

desfavoráveis. Exemplo: Convolvulus arvensis, cujas sementes

permanecem viáveis mesmo após 54 meses, submersas em água ou após passarem pelo aparelho digestivo do porco ou boi; e mantém alguma viabilidade após passarem pelo aparelho digestivo de ovinos

e equinos e só perdem o poder germinativo passando pelo aparelho digestivo das aves.

c) Capacidade de germinar e emergir a grandes profundidades.

Exemplos: Avena fatua (aveia-brava) germina até a 17 cm; Ipomoea sp.

(corda-de-viola), a 12 cm; e Euphorbia heterophylla (amendoim-bravo),

a 20 cm. Esta característica, muitas vezes, é a causa do insucesso dos herbicidas aplicados ao solo.

d) Grande desuniformidade no processo germinativo. Isso

ocorre devido aos complexos processos de dormência, sendo uma das estratégias de sobrevivência das plantas daninhas.

e) Mecanismos alternativos de reprodução. Muitas espécies

daninhas apresentam mais de um mecanismo de reprodução. Exemplos:

Sorghum halepense (capim-massambará): reproduz por sementes e

rizomas; Cynodon dactylon (grama-seda): por sementes e estolões; e Cyperus rotundus (tiririca): por sementes e tubérculos.

f) Facilidade de dispersão dos propágulos a grandes distâncias.

Isto ocorre pela ação de água, vento, animais, homem, máquinas, etc. Há duas situações distintas: 1) Disseminação auxócora (externa):

Acanthospermum australe (carrapicho-de-carneiro) - adere à lã das ovelhas, e este foi o motivo de sua introdução no Brasil pela importação de animais ou lã; Echinoclhoa crusgali (capim-arroz) foi introduzido junto com as sementes importadas; e Bidens pilosa (picão-preto) é transportado

a longas distâncias nos pelos de animais ou roupas dos operadores

de máquinas, etc. 2) Disseminação zoócora (interna): as sementes ingeridas pelos animais passam pelo intestino e, através das fezes, são distribuídas em outras áreas. Exemplos: Phoradendron rubrum (erva-de-

passarinho), Momordica charantia (melão-de-são-caetano) e Paspalum notatum (grama-batatais).

g) Rápido desenvolvimento e crescimento inicial. Muitas plantas

daninhas crescem e se desenvolvem mais rápido que muitas culturas. Na cultura da cebola, por exemplo, as plantas daninhas germinam e crescem muito mais rápido, dominando facilmente a cultura, quando esta

é conduzida por semeadura direta. Em soja, Brachiaria plantaginea tem

grande facilidade para dominar a área quando o controle não é efetuado no

momento oportuno.

h) Grande longevidade dos dissemínulos. Observações com

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

107 espécies de plantas daninhas, cujas sementes foram enterradas em cápsulas porosas, a 20-100 cm de profundidade, mostraram que 71 delas estavam viáveis um ano depois, 68 após 10 anos, 57 após 20 anos, 44 após 30 anos e 36 após 38 anos, nessas condições (KLINGMAN et al., 1982). Observações usando 14 C mostraram que a semente do lótus da índia pode ser viável por 1.040 anos, e a da ançarinha-branca, por 1.700 anos. Essa grande longevidade se deve a inúmeros e complexos processos de dormência.

2. �ompetição entre plantas daninhas e culturas

Para germinar, crescer e reproduzir-se, completando seu ciclo de vida, toda planta necessita de água, luz, calor, gás carbônico, oxigênio e nutrientes minerais em quantidades adequadas. À medida que a planta se desenvolve, esses fatores do ambiente podem se tornar limitados, agravados pela presença de outras plantas no mesmo espaço, que também lutam pelos mesmos fatores de crescimento, gerando, assim, uma relação de competição entre plantas vizinhas, sejam da mesma espécie ou de espécies diferentes. Decandole (1820) foi quem primeiro conceituou competição, afirmando que todas as plantas de um determinado lugar estão em estado de guerra entre si. Daí em diante vários outros conceitos foram emitidos. Para Weaver e Clements (1938), a competição seria a luta que se inicia entre indivíduos quando uma planta está em um grupo de outras plantas, ou quando esta é rodeada pelos seus descendentes, ou seja, envolve os aspectos da migração e agregação, respectivamente.

Atenção
Atenção

Já Odum (1969) afirma que competição significa uma luta por um fator, e, em nível ecológico, a competição torna� se importante quando dois ou mais organismos lutam por algo que não existe em quantidade suficiente para todos. Locatelly e Doll (1977) definem competição como a luta que se estabelece entre a cultura e as plantas daninhas por água, luz, nutrientes e dió�ido de carbono disponíveis em um determinado local e tempo; esses autores salientam que, em razão de a competição envolver vários fatores diretos e indiretos, muitas vezes é preferível falar�se em interferência de uma comunidade de plantas, daninhas ou não, sobre outras.

Do exposto, depreende-se que, numa situação de competição, ambos os indivíduos são prejudicados. Contudo, nos ecossistemas agrícolas, as plantas daninhas sempre levam vantagem competitiva sobre as cultivadas, pois nos programas de melhoramento genético tem-se procurado desenvolver cultivares que, com pequeno porte e pouco crescimento vegetativo, apresentem grande acúmulo de material em sementes, frutos, tubérculos ou outras partes de interesse econômico; quase sempre esse acréscimo na produtividade econômica da espécie cultivada é acompanhado por decréscimo no potencial competitivo (PITELLI, 1985). Outro aspecto importante é a grande agressividade, ou seja, a grande capacidade de sobrevivência das plantas daninhas. Estas se estabelecem rapidamente, diminuindo ou impedindo que as plantas cultivadas tenham acesso aos fatores de crescimento, comprometendo, assim, a produtividade das culturas e a qualidade dos produtos colhidos.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

2.1. Fatores do ambiente passíveis de competição

A competição entre plantas é diferente daquela que ocorre entre animais. Devido à falta de mobilidade dos vegetais, a competição entre

plantas é de natureza aparentemente passiva, não sendo visível no início do desenvolvimento das plantas. Sabe-se, entretanto, que as plantas cultivadas, devido ao refinamento genético a que foram e ainda são submetidas, não apresentando, em sua maioria, capacidade de competir vantajosamente com as plantas daninhas verdadeiras. Em ecossistemasagrícolas,aculturaeasplantasdaninhasdesenvolvem-

se juntas na mesma área. Como ambas possuem suas demandas por água,

luz, nutrientes e CO 2 e, na maioria das vezes, estes fatores de crescimento

(ou pelo menos um deles) estão disponíveis em quantidade insuficiente, até mesmo para o próprio desenvolvimento da cultura, estabelece-se

a competição. Nessas circunstâncias, qualquer planta estranha que se

estabeleça na cultura vai usar parte dos fatores de produção, já limitados no meio, reduzindo não somente a produtividade da cultura, mas também

a qualidade do produto colhido. Nessa condição, a limitação de espaço,

aéreo e subterrâneo, promovida pelas plantas daninhas pode ainda afetar o crescimento e desenvolvimento das plantas cultivadas. Radosevich et al. (1996) dividem os fatores do ambiente que determinam o crescimento das

plantas e influenciam a competição em “recursos” e “condições”. Recursos são os fatores consumíveis, como água, gás carbônico, nutrientes e luz. A resposta das plantas aos recursos segue uma curva-

padrão: é pequena se o recurso é limitado e é máxima quando o ponto de saturação é atingido, podendo declinar se houver excesso do recurso (ex: toxidez devido a excesso de Zn no solo). Para Santos et al. (2003),

a superioridade das plantas daninhas na competição por esses recursos,

algumas vezes observada em relação às culturas, pode ser devido à ocorrência de alta densidade dessas invasoras na área. Condições são fatores não diretamente consumíveis, como pH do solo, densidade do solo, que exercem extrema influência sobre a utilização dos recursos pelas plantas. A condição pode limitar a resposta da planta tanto pela carência quanto pela abundância, até que um nível ideal seja alcançado. Todavia, a competição somente se estabelece quando a intensidade de recrutamento de recursos do meio pelos competidores suplanta a capacidade do meio em fornecer aqueles recursos, ou quando um dos competidores impede o acesso por parte do outro competidor, como acontece, por exemplo, em condições de sombreamento (PITELLI, 1985). A maioria dos estudos sobre competição entre plantas daninhas e culturas tem focalizado somente a ocorrência e o impacto da competição na produção da cultura, sem examinar as características das plantas e os mecanismos que estão associados à competitividade (Radosevich et al., 1996). Contudo, trabalhos mais recentes têm apresentado algumas justificativas para a baixa produtividade observada para as culturas quando em competição com espécies de plantas daninhas: Bidens pilosa e Leonurus sibiricus, desenvolvendo-se juntamente com plantas de café em

fase inicial, podem reduzir o conteúdo relativo de N-P-K nos tecidos dessa cultura para 28-39-28% e 14-29-21% do total, respectivamente (RONCHI

et al., 2003).

Para saber mais acesse a Sala de Aula virtual da disciplina no PVANet

ou através do link http://www.scielo.br/pdf/pd/v21n2/a07v21n2.pdf

Saiba
Saiba

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Para Procópio et al. (2005), a elevada capacidade competitiva da espécie Desmodium tortuosum nas culturas da soja e do feijão pode ter como contribuição o maior acúmulo de nutrientes por essa planta daninha, principalmente o fósforo. Shainsk e Radosevich (1992), citados por Radosevich et al. (1996) sugeriram que o mecanismo de competição por recursos deve ser demonstrado pela depleção desses associados à presença e abundância de plantas vizinhas, mudanças morfológicas e fisiológicas nas respostas de crescimento. Portanto, os mecanismos de competição consistem tanto do efeito que as plantas exercem sobre os recursos quanto da resposta das plantas às variações dos recursos (GOLDBERG, 1990, citado por RADOSEVICH et al., 1996). Embora a maioria das definições atuais sobre competição englobe o critério de Goldberg, várias outras teorias têm sido desenvolvidas para explicar a importância relativa dos componentes da competição e das características das plantas que lhes conferem competitividade superior. Radosevich et al. (1996) afirmam que duas dessas teorias (a de Grime e a de Tilman) têm recebido maior atenção do meio científico. De acordo com Grime, a competição é uma forma de plantas vizinhas utilizarem os mesmos recursos, e o sucesso na competição é fortemente determinado pela capacidade da planta em capturar recursos. Assim, um bom competidor apresenta alta taxa de crescimento relativo,

podendo utilizar os recursos disponíveis rapidamente. Para Tilman, sucesso competitivo é a habilidade para extrair recursos escassos e para tolerar essa escassez de recursos. Portanto, nessa teoria, um bom competidor poderia ser a espécie com menor requerimento de recursos. Apesar de os debates continuarem a respeito da validade e relevância dessas duas teorias, ambas ajudam a explicar como espécies de plantas competem por recursos limitados e como as características das plantas influenciam sua habilidade competitiva. Com base nessas teorias, pode-se concluir que determinadas plantas são boas competidoras por utilizarem um recurso rapidamente ou por serem capazes de continuar a crescer, mesmo com baixos níveis do recurso (RADOSEVICH et al.,1996).

A base fisiológica que explica a competição é muito complexa, não

estando, ainda, totalmente esclarecida. Na realidade, a competição entre

planta daninha e a cultivada afeta ambas as partes, porém a espécie daninha quase sempre supera a cultivada. Os fatores que determinam

a

a

competitividade entre plantas daninhas e culturas são o seu porte

e

sua arquitetura; a velocidade de germinação e estabelecimento da

plântula; a velocidade do crescimento e a extensão do sistema radicular;

a suscetibilidade das espécies daninhas às intempéries climáticas, como

veranico e geadas; o índice de área foliar; e a capacidade de produção e liberação de substâncias químicas com propriedades alelopáticas.

A competição entre plantas daninhas e culturas é um fator crítico para o

desenvolvimento da cultura quando a espécie daninha se estabelece junto ou primeiro que a cultura (RADOSEVICH, 1996). Todavia, se a cultura se estabelecer primeiro, em função da espécie cultivada, do seu vigor, da velocidade de crescimento inicial e da densidade de plantio, ela poderá cobrir rapidamente o solo, podendo excluir ou inibir significativamente o crescimento das plantas daninhas. No entanto, se a população de plantas da cultura por área for baixa ou o estande desuniforme, as plantas daninhas poderão vencer a competição pelos substratos ecológicos.

A competição pode ser intra-específica, ocorrendo entre indivíduos de

uma mesma espécie, seja ela daninha ou não, e, também, interespecífica,

envolvendo indivíduos de espécies diferentes. Entretando, ocorre também

a competição intraplanta ou endocompetição, em que cada órgão ou parte

da planta luta pelo fotoassimilado produzido nas fontes. Com base nos pontos descritos, várias generalizações podem ser inferidas sobre os aspectos competitivos entre as culturas e as plantas

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

daninhas:

a) A competição é mais séria quando a cultura está na fase jovem,

isto é, nas primeiras seis a oito semanas após sua emergência, no caso

das culturas anuais.

b) As espécies daninhas de morfologia e desenvolvimento

semelhantes ao da cultura, comumente, são mais competitivas se

comparadas com aquelas que apresentam desenvolvimento diferente.

c) A competição ocorre por água, luz, CO 2 , nutrientes e espaço, e

as plantas daninhas e cultivadas podem, ainda, liberar aleloquímicos no solo, que podem inibir a germinação e, ou, desenvolvimento de outras plantas.

d) Uma infestação moderada de plantas daninhas em lavouras pode

ser tão danosa quanto uma infestação pesada, dependendo da época de seu estabelecimento, entre outros fatores.

As características que fazem com que uma espécie de planta daninha seja mais competitiva do que outra cultivada são as seguintes:

- Ciclo de vida semelhante ao da cultura.

- Desenvolvimento inicial rápido das raízes e, ou, parte aérea.

- Plasticidade fenotípica e populacional.

- Germinação desuniforme no tempo e no espaço (presença de dormência).

- Produção e liberação no solo de substâncias alelopáticas.

- Produção de um elevado número de propágulos por planta.

- Adaptação às mais variadas condições ambientais.

Para que se faça o manejo adequado de plantas daninhas em uma cultura, o profissional necessita ter o conhecimento profundo da cultura e da vegetação daninha infestante da área a ser cultivada. O princípio básico da competição baseia�se no fato de que as primeiras plantas que surgem no solo, pequenas ou grandes, tendem a e�cluir as demais, pois se estabelecem primeiro. Desse modo, no manejo da cultura, as condições para que a cultura se estabeleça devem ser fornecidas antes do surgimento da vegetação daninha. Disso resulta a importância do preparo do solo, da profundidade de plantio, da percentagem de germinação e vigor das sementes, do cultivar adequado para a região, da época correta de plantio, etc., que são métodos culturais de controle de plantas daninhas. �onhecendo tais fatores, torna�se fácil o manejo da cultura de modo que esta leve vantagem sobre o comple�o daninho, minimizando assim a competição ou até mesmo eliminando�a com a ajuda de outros métodos de controle, como o método químico, mecânico ou biológico, realizando, dessa forma, o chamado manejo integrado de plantas daninhas.

2.1.1. �ompetição por água

Atenção
Atenção

As plantas daninhas são verdadeiras bombas extratoras de água do solo; por isso, é normal em alguns agroecossistemas, especialmente nos trópicos, em dias quentes, as plantas da cultura ficarem completamente murchas e as plantas daninhas túrgidas, sem qualquer sinal de déficit hídrico. Normalmente, a competição por água leva a planta a competir ao mesmo tempo por luz e nutrientes, especialmente nitrogênio e carbono. Vários fatores influenciam a capacidade competitiva das espécies por

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

água. Dentre esses fatores destacam-se a taxa de exploração de volume

do solo pelo sistema radicular; as características fisiológicas das plantas, como capacidade de remoção de água do solo, regulação estomática e capacidade das raízes de se ajustarem osmoticamente; magnitude da condutividade hidráulica das raízes; etc. (RADOSEVICH et al., 1996). Em trabalho realizado por Procópio et al. (2004b), ficou constatado que

a planta daninha Bidens pilosa é capaz de extrair água do solo em tensões três vezes maiores do que as alcançadas pela soja e pelo feijão (Fig. 2). A razão da elevada capacidade de sobrevivência de B. pilosa com pouca água no solo pode estar relacionada com o fato de que, na fase inicial de seu desenvolvimento, esta espécie drena grande parte de fotoassimilados para

a produção de raízes (baixa relação parte aérea/raiz) as quais promovem, em fases posteriores de desenvolvimento, maior exploração do solo em busca de água (PROCÓPIO et al., 2002).

Saiba
Saiba

Para saber mais acesse http://www.scielo.br/pdf/pd/v22n3/22361.pdf e

consulte PROCÓPIO, S. O.; SANTOS, J. B.; SILVA, A. A.; COSTA, L. C.

Análise do crescimento e eficiência no uso da água pelas culturas de soja e

do feijão e por plantas daninhas. 1351, 2002.

Acta Scientiarum, v. 24, n. 5, p. 1345-

Certas espécies de plantas são capazes de usar menos água por unidade de matéria seca produzida que outras, ou seja, apresentam alta eficiência no uso da água (EUA = g de matéria seca produzida/g de H O utilizada).

É de se esperar, portanto, que essas plantas com baixo requerimento de

água sejam mais produtivas durante o período de limitada disponibilidade de água que as plantas com alto requerimento em água e, portanto, mais competitivas (RADOSEVICH et al.,1996). Todavia, algumas espécies de plantas daninhas podem apresentar diferentes valores de EUA ao longo do ciclo, podendo competir melhor por este recurso em diferentes estádios fenológicos da cultura. Alguns exemplos são apresentados no Quadro 3. Outra maneira de se estimar o consumo de água pelas plantas é através da eficiência transpiratória, que correlaciona a água transpirada com a biomassa seca produzida, chamada de coeficiente transpiratório (CT = volume água transpirado em mL/produção de biomassa seca, em gramas). O coeficiente transpiratório das diferentes espécies de plantas varia de 25 a 700. O abacaxi, por ser uma planta xerófila e apresentar uma rota fotossintética específica (CAM), tem um coeficiente transpiratório

extremamente baixo. A maioria das culturas (feijão, soja, algodão, trigo, etc.) apresenta coeficiente transpiratório entre 500 e 700 (Quadro 4), pois são espécies que realizam o metabolismo C 3 (plantas ineficientes). Por outro lado, algumas culturas como milho, sorgo e cana-de-açúcar e grande número de espécies daninhas (Cyperus rotundus, Cenchrus echinatus, Cynodon dactylon, Panicum maximun, Brachiaria plantaginea, Digitaria horizontalis, Amaranthus retroflexus, etc.), por realizarem o metabolismo

C 4, apresentam um coeficiente transpiratório entre 150 e 350 (Quadro 4).

2

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas Figura 2 – Potencial hídrico no solo, cultivado com

Figura 2 – Potencial hídrico no solo, cultivado com diferentes espécies vegetais, no ponto de murcha permanente Fonte: Procópio et al., 2004b

Quadro 3 – Valor máximo do uso eficiente da água (UEA) por diferentes espécies vegetais

 

Valores antes do flo- rescimento

Valores após o floresci- mento

Espécie vegetal

-------UEA – biomassa seca em g kg-1 de água

fornecida-------

Phaseolus vulgaris

0,073

0,316

Glycine max

0,168

2,088

Euphorbia hetero- phylla

0,015

0,250

Bidens pilosa

0,017

1,367

Desmodium tortuo- sum

0,112

0,963

Fonte: Procópio et al. (2002).

Essa diferença na eficiência do uso da água é um fator importante na agressividade da espécie, porém o uso eficiente da água não é o único mecanismo utilizado para sobreviver à competição por água. Pearcy et al. (1981, citados por Radosevich et al., 1996), observaram que a diferença na eficiência de uso da água entre Chenopodium album (C 3 ) e Amaranthus retroflexus (C 4 ) influenciou pouco a relação entre elas. Provavelmente a espécie C3 contornou a deficiência hídrica pelo controle estomatal, já que sua EUA é baixa. Já A. retroflexus, mesmo crescendo com outras espécies em condição imposta de estresse hídrico, não foi eliminado, com certeza devido à sua alta eficiência na utilização da água.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Quadro 4 - Volume de água transpirada (em mL) para acúmulo de 1 g de biomasa seca, para diferentes espécies de plantas.

 

Coeficiente tran-

 

Espécie vegetal

spiratório

Fonte

Amarantus hybridus*

152

Blanco, 1972

Glycine max

700

 

Gossypium hirsutum

568

 

Phaseolus vulgaris

700

 

Panicum maximum*

267

 

Oryza sativa

682

 

Zea mays*

174

 

Sorghum vulgare*

153

 

Brachiaria brizantha*

265

Silva et al., 2004

Eucalipto

282

Silva et al., 2004

* Espécies que realizam o mecanismo C4.

2.1.2. �ompetição por luz

Para alguns autores, como Locatelly e Doll (1977), a competição pela luz não é tão importante como a competição por água e por nutrientes, chegando inclusive a citar exceções, como a de Sesbania exaltata, que compete vantajosamente por este fator de crescimento com a cultura do arroz. Esses autores salientam que, uma vez que a cultura tenha formado sombreamento completo, a competição das plantas daninhas pelo recurso luz passa a ser irrizório. Para outros autores, o melhoramento genético imposto às culturas possibilitou a seleção de plantas com elevada capacidade de utilização da luz, as quais, quando avaliadas isoladamente das plantas daninhas, apresentam maiores valores para o uso eficiente da radiação (UER). Santos et al. (2003) avaliaram o UER das culturas da soja e do feijão e das espécies de plantas daninhas Euphorbia heterophylla, Bidens pilosa e Desmodium tortuosum, verificando que as culturas foram capazes de produzir maior quantidade de biomassa por unidade de radiação captada. Os autores afirmam que, apesar de as plantas daninhas avaliadas apresentarem menor eficiência na utilização da radiação fotossinteticamente ativa, a maior capacidade competitiva delas, observada em campo, pode ser devida à maior população e melhor utilização de outros recursos, como água e nutrientes. Sabe-se que a competição pela luz é complexa sendo sua magnitude influenciada pela espécie, ou seja, se ela é umbrófila ou heliófila e, também, se a rota fotossintética que ela apresenta é C 3 , C 4 ou se realiza o mecanismo ácido das crassuláceas (CAM). As diferenças entre as rotas fotossintéticas C 3 (plantas ineficientes), C 4 (plantas eficientes) e CAM estão nas reações bioquímicas que ocorrem na fase escura da fotossíntese. As plantas de rotas fotossintéticas do tipo C 3 apresentam apenas o ciclo de Calvin e Benson, responsável pela fixação do CO 2 , de modo que o primeiro produto estável da fotossíntese é um composto de três carbonos (ácido 3-fosfoglicérico). A enzima responsável pela carboxilação primária do CO 2 proveniente do ar é a ribulose 1-5 bifosfato carboxilase-oxigenase (Rubisco), a qual apresenta atividades de carboxilase e oxigenase. Esta enzima apresenta baixa afinidade pelo CO 2 e, por ser ambígua quanto ao substrato, catalisa a produção do ác. 3-fosfoglicérico e, também, do glicolato, substrato inicial da respiração. Em conseqüência da ação desta enzima, as plantas C 3 fotorrespiram intensamente, apresentam baixa afinidade pelo

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

CO 2 e possuem elevado ponto de compensação para CO 2 , baixo ponto de saturação luminosa, baixa eficiência no uso da água e menor taxa de produção de biomassa, quando comparadas com plantas de metabolismo do tipo C 4 (Quadro 5). As plantas C 4 possuem duas enzimas responsáveis pela fixação do CO 2 . Estas plantas, além do ciclo de Calvin e Benson, que ocorre em todas as plantas superiores, possuem ainda o ciclo de Hatch e Slack. Essas plantas não apresentam fotorrespiração detectável, logo, não desassimilam o CO 2 fixado. A enzima primária de carboxilação é a PEP- carboxilase, localizada nas células do mesófilo foliar, a qual carboxiliza o CO 2 absorvido do ar via estômatos, no ácido fosfoenolpirúvico, formando o ácido oxaloacético (AOA). Este AOA é convertido em malato ou aspartato, dependendo da espécie vegetal, e, em seguida, por difusão, é transportado para as células da bainha vascular das folhas, onde estes produtos são descarboxilados, liberando no meio o CO 2 e o ácido pirúvico. Este CO 2 liberado é novamente fixado, agora pela enzima ribulose 1,5 difosfato carboxilase, ocorrendo o ciclo de Calvin e Benson; o ácido pirúvico, por difusão, retorna às células do mesófilo, onde é fosforilado, consumindo 2 ATPs, regenerando a enzima PEP-carboxilase e recomeçando o ciclo.

TAIZ, L. ZEIGER, E. Fisiologia Vegetal. Porto Alegre: Artmed, 2004.

p.449-484.

Saiba
Saiba

É muito comum imaginar que as espécies de metabolismo C 4 são sempre mais eficientes que as plantas C 3 ; entretanto, isso só é verdade em determinadas condições. As plantas C 4 , por apresentarem dois sistemas carboxilativos, requerem maior energia para produção dos fotoassimilados, pois precisam recuperar duas enzimas para realização da fotossíntese. É sabido que a relação molécula de CO 2 fixado/ATP/NADPH é de 1:3:2 para as plantas C 3 , sendo esta relação para as plantas C 4 de 1:5:2. Este fato evidencia que as plantas C 4 necessitam de mais energia para produção dos fotoassimilados. Como toda esta energia é proveniente da luz, se se reduzir o acesso à luz, estas plantas passarão a perder a competição com as plantas C 3 . Todavia, a enzima responsável pela carboxilação primária nas plantas C 4 (PEP-carboxilase) apresenta algumas características, como:

alta afinidade pelo CO 2 ; atua especificamente como carboxilase; atividade ótima em temperaturas mais elevadas; e não satura em alta intensidade luminosa. Em função destas e outras características (Quadro 5), quando plantas estão se desenvolvendo em condições de temperaturas elevadas, alta luminosidade e até mesmo déficit hídrico temporário, as espécies C 4 dominam completamente as C 3 , chegando a acumular o dobro de biomassa por área foliar no mesmo espaço de tempo. Isso acontece porque, nessas condições, a enzima carboxilativa das plantas C 3 encontra-se saturada quanto à luz, e, em temperatura acima da ótima para a ribulose 1,5-bifosfato carboxilase-oxigenase (25 o C), esta passa a atuar mais como oxidativa, liberando CO 2. Além disso, é comum nestas condições os estômatos estarem parcialmente fechados (horas mais quentes do dia). Este fato faz com que a concentração do CO 2 no mesófilo foliar caia a níveis abaixo do mínimo necessário para atuação desta enzima, levando a planta a atingir o ponto de compensação rapidamente.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Quadro 5 - Características diferenciais entre plantas com rotas fotossintéticas C3 e C4

 

Característica

Fotossíntese C3

Fotossíntese C4

01.

Fotorrespiração

Presente: 25 a 30 % do valor da fotossíntese

Presente: não mensu- rável pelo método de troca de gases com o ambiente

02.

Primeiro produto

Ácido 3-fosfoglicérico

Ácido oxaloacético

estável

03.

Ponto de

Alto: 50-150 ppm de

Baixo: 0,0 a 10 ppm de CO2

compensação

 

CO2

04. Anatomia foliar

Ausência bainha vascular; quando presente, sem cloro- plastos

Presença de bainha vascular com clo- roplastos; existem exceções

05. Enzima primária

RuDP-carboxilase (Km 20µM de CO2)

PEP-carboxilase (Km 5µM de CO2)

carboxilativa

06.

Efeito do oxigênio

   

(21%) sobre a fotossíntese.

Inibição

Sem efeito

07.

Relação CO2 :

1

 

3 : 2

1

 

5 : 2

ATP:NADPH

:

:

08.

Fotossíntese x

Satura com 1/3 da luminosidade máxima

Não satura com aumento da luminosi- dade.

intensidade luminosa

09.

Temperatura ótima

Próxima de 25ºC

Próxima de 35ºC

para a fotossíntese

10.

Taxa de

   

fotossíntese líquida com saturação de luz

15 a 35 mg CO2 dm-2

h-1

40 a 80 mg CO2 dm-2

h-1

11.

Coeficiente

450 a 1.000 g H2O / g biomassa seca

150 a 350 g H2O / g biomassa seca

transpiratório

12.

Conteúdo de N

   

na folha para atingir fotossíntese máxima

6,5 a 7,5 % da biomas- sa seca

3,0 a 4,5 % da bio- massa seca

Fonte: Ferri, 1985.

No caso das plantas C 4 , mesmo que a concentração de CO 2 no mesófilo foliar atinja níveis muito baixos, ainda assim essas plantas continuam acumulando biomassa, porque a enzima responsável pela carboxilação primária nestas plantas (PEP-carboxilase) apresenta alta afinidade pelo CO 2 (baixo Km) (Quadro 5). Isso é possível porque este grupo de plantas não apresenta fotorrespiração detectável. Como a maioria das culturas agronômicas das regiões tropicais e subtropicais (algodão, arroz, cana-de-açúcar, feijão, milho, mandioca, soja, etc.) são cultivadas nos meses do ano que coincidem com períodos de elevada intensidade luminosa e temperatura, plantas daninhas C 4 tendem a ser as que exercerão maior competição com as culturas. Considerando todas as áreas do globo terrestre, estima-se que, entre as dez espécies de plantas daninhas mais nocivas do mundo, oito são C 4 anuais ou perenes:

Cyperus rotundus, Cynodon dactylon, Sorghum halepense, Imperata

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

cilindrica, Panicum maximum, Echinochloa colonum, Echinochloa crusgalli e Eleusine indica.

2.1.3. �ompetição por �O 2

Com relação ao CO 2 , o aspecto competitivo não é comumente discutido

e geralmente é considerado não-significante. Todavia, considerando as

diferentes rotas fotossintéticas apresentadas por espécies de plantas daninhas e culturas, a concentração de CO 2 no mesófilo foliar necessária para que uma determinada espécie passe a acumular matéria seca é diferente.

Como a eficiência na captura de CO 2 proveniente do ar é diferente entre plantas � 3 e � 4 (Quadro 5) e se sua concentração pode variar, por e�emplo, dentro de uma população mista de plantas, ele pode ser limitante, principalmente, para as espécies de plantas � 3 .

Atenção
Atenção

Outro ponto a ser considerado é a “Interação Radicular Passiva”. Sob condições normais, a atmosfera edáfica contém menos oxigênio e mais CO 2 do que o ar acima do solo. Isso acontece devido ao consumo do oxigênio pelos microrganismos do solo e em razão de sua renovação lenta, em

conseqüência da “tortuosidade” da matriz do solo, que oferece resistência

à difusão e ao fluxo de massa, que são os dois processos principais de

renovação da atmosfera do solo. Determinadas espécies de plantas são mais sensíveis ao excesso de CO 2 e, ou, deficiência de oxigênio e, assim,

podem levar desvantagem na competição com espécies mais tolerantes em tais situações; por exemplo, Molinia caerulea é mais tolerante a alta taxa de CO 2 do que Erica tetralix, em condições de solo encharcado.

2.1.4. �ompetição por nutrientes

As plantas daninhas possuem grande capacidade de extrair do ambiente os elementos essenciais ao seu crescimento e desenvolvimento e, em conseqüência disso, exercem forte competição com as culturas pelos nutrientes essenciais, os quais quase sempre estão em quantidades inferiores às necessidades das culturas em nossos solos. Devido à grande variação em termos de recrutamento dos recursos

minerais do solo apresentada pelas diferentes espécies de plantas daninhas,

a competição por nutrientes depende, em alto grau, da quantidade e das

espécies presentes. Por exemplo, Richardia brasiliensis acumula 10 vezes menos N, 20 vezes menos P e cinco vezes menos K comparada à soja (PEDRINHO JÚNIOR et al., 2004). No entanto, a alta infestação dessa planta daninha em lavouras de soja implica maior remoção desse nutriente para a massa total da espécie infestante. Quando se trata de analisar a capacidade de uma espécie de planta daninha em competir por nutrientes, deve-se considerar, além da quantidade extraída, os teores que ela apresenta na matéria seca. Procópio et al. (2005) observaram que Desmodium toruosum é capaz de acumular até 2,4 vezes mais P por g de massa seca comparada à soja em mesma condição de recursos. Além disso, os autores observaram que Bidens pilosa, em competição com o feijoeiro, é capaz de formar três vezes mais matéria seca por unidade de P absorvida do solo, evidenciando elevada eficiência na utilização desse nutriente. Além da capacidade em extrair nutrientes do solo, outras espécies

25

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

são competidoras também na utilização desse recurso. Bidens pilosa e Euphorbia heterophylla apresentam maior eficiência na utilização do N absorvido no solo, comparadas à soja e ao feijão (PROCÓPIO et al., 2004a). Pode-se afirmar que, em campo, o manejo inadequado de nutrientes, com adição de subdoses, poderá favorecer espécies vegetais que utilizam mais eficientemente esse recurso.

Saiba
Saiba

Para saber mais acesse http://www.scielo.br/pdf/pd/v22n1/20143.pdf

Em lavoura de arroz de sequeiro, desenvolvida na presença da comunidade infestante, Pitelli (1985), estudando a distribuição dos nutrientes extraídos pelas plantas daninhas e pela cultura, por ocasião do florescimento da cultura, observou que a matéria seca acumulada foi equivalente para a cultura e as plantas daninhas. Cerca de 80% do cálcio

foi imobilizado pelas plantas daninhas, ao contrário do manganês com 85% de imobilização pela cultura. Isso demonstra que, além do acúmulo de matéria seca, a competição depende do nutriente. Os acúmulos de cálcio

e manganês no arroz foram reduzidos em 40 e 28%, respectivamente, pela

interferência imposta pela comunidade infestante. Ronchi et al. (2003), avaliando os períodos de convivência e acúmulo de nutrientes de diferentes plantas daninhas e o cafeeiro, verificaram que as espécies infestantes, mesmo em baixas densidades, acarretaram decréscimos consideráveis no conteúdo relativo de nutrientes de plantas

de café, sendo C. diffusa a planta daninha que causou a maior diminuição no conteúdo relativo de nutrientes no cafeeiro (Quadro 6). Para os autores,

o grau de interferência varia consideravelmente com a espécie e com a densidade das plantas daninhas.

Quadro 6 – Conteúdo relativo* de nutrientes na parte aérea de plantas de café cultivadas em vasos (12 L de substrato), competindo com um exemplar de cada espécie vegetal em cada vaso

Espécie

PTC**

 

Conteúdo relativo* de nutrientes

 

Vegetal

N

P

K

Ca

Mg

S

Cu

Zn

B

Mn

Na

Bidens

                         

pilosa

77

59

72

67

67

74

97

106

66

76

59

54

69

Commelina

                         

diffusa

180

30

42

37

45

48

69

69

37

54

19

41

35

Leunurus

                         

sibiricus

82

35

33

38

36

40

41

66

37

41

30

57

39

Nicandra

                         

physaloides

68

37

62

68

72

76

86

114

69

101

50

107

68

Richardia

                         

brasiliensis

148

49

61

57

53

50

67

43

51

63

57

61

59

Sida

                         

rhombifolia

133

97

83

105

90

88

98

93

77

138

102

80

106

*Relativo ao conteúdo verificado na testemunha (cafeeiro sem competição). ** Período total de convivência da planta daninha com a muda de café no vaso. Fonte: (Ronchi et al., 2003)

3. Alelopatia

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

As plantas superiores desenvolveram notável capacidade de sintetizar, acumular e secretar uma grande variedade de metabólitos secundários, denominados aleloquímicos, que não parecem relacionados diretamente com nenhuma função do metabolismo primário, mas provavelmente estão associados com mecanismos ou estratégias químicas de adaptação às condições ambientais. A atividade promovida pelos aleloquímicos tem sido pesquisada como alternativa ou complemento ao uso de herbicidas. A maioria desses aleloquímicos é resultante do metabolismo secundário, sendo atribuído ao fato de que ao longo da evolução das plantas represetaram alguma vantagem contra a ação de microrganismos (fungos e bactérias), vírus, insetos, e outros patógenos e predadores, seja pela inibição da ação desses, seja pelo estímulo ao crescimento e desenvolvimento das plantas (WALLER, 1999). Os aleloquímicos, quando lançados no ambiente, promovem uma interação bioquímica entre plantas, incluindo microrganismos. Os efeitos podem ser deletérios ou benéficos sobre a planta ou microrganismos ou vice-versa. Assim, os compostos secundários que, lançados ao ambiente afetam o crescimento, o estado sanitário, o comportamento ou a biologia da população de organismos de outra espécie, são de interesse da alelopatia. Existe ainda a auto-alelopatia, ou seja, metabólitos secundários podem inibir a própria planta que os produziu, após serem transferidos para o ambiente (RICE, 1984). Almeida (1991) estabelece que o grupo de substâncias envolvidas no efeito alelopático – aleloquímicos -, possui a função de proteção das plantas contra o ataque de patógenos por meio da inibição do desenvovlvimento de microrganismos, repelindo ou atraindo insetos, como defesa ao ataque de herbívoros devido ao paladar desagradável ou venenoso conferido aos tecidos da raiz ou parte aérea, ou ainda reduzindo a competição de outras plantas cultivadas ou infestantes por inibição do seu desenvolvimento.

A primeira demonstração científica de auto-alelopatia foi feita em feijão�miúdo (Vigna unguiculata), quando cultivado sucessivamente na mesma área. Em fruteiras (pessegueiros, macieiras e citros) também ocorre a auto�inibição do desenvolvimento em plantios na mesma área, após muitos anos de cultivo da mesma espécie no solo.

Atenção
Atenção

As plantas são hábeis em produzir aleloquímicos em todos os seus órgãos, (folhas, caules, raízes, flores, frutos e sementes). A quantidade dos compostos produzidos e a composição destes dependem da espécie e das condições ambientais. Essas substâncias alelopáticas são liberadas dos tecidos da planta para o ambiente de diferentes formas, através de volatilização, exsudação radicular, lixiviação e decomposição de folhas ou de outras partes da planta que caem no solo e sofrem ação do clima e dos microrganismos, ação de chuva e orvalho.

A maioria dos aleloquímicos voláteis são compostos terpenóides,principalmentemonoterpenosesesquiterpenos (RI�E, 1984). Uma vez volatilizados, os aleloquímicos podem ser absorvidos diretamente pela cutícula das plantas vizinhas, por meio dos próprios vapores, ou condensados no orvalho, ou ainda alcançar o solo, onde são absorvidos pelas raízes (ALMEIDA, 1988).

Atenção
Atenção

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

As plantas podem exsudar naturalmente uma série de compostos orgânicos, em raízes intactas, geralmente da ordem de 0,1 a 0,4% do carbono fotossintetizado (ROVIRA, 1969). Milhares de compostos secundários sintetizados por espécies vegetais já foram isolados e estima-se que outros milhares existam na natureza. Segundo Waller et al. (1999) os principais grupos de compostos secundários produzidos pelas plantas, envolvidos na promoção de algum efeito alelopático seriam os seguintes (em ordem alfabética): fitoalexinas; flavonóides, isoflavonóides, chalconas, auronas e xantinas; flavonas, flavonois e glicosídeos gerados; ligninas; monoterpenos e monoterpenóides; naftoquinonas, antroquinonas, estilbenos e fenantrenos; poliacetilenos; policetonas; saponinas; sesquiterpenos e sesquiterpenóides; taninos e; triterpenos e triterpenoides. Provavelmente, a maioria dos metabólitos secundários liberados pelas plantas está envolvida em interações com outros organismos, como outras plantas, insetos, fungos e herbívoros, ou seja, apresentam potencial para exercer alelopatia em agroecossistemas, existindo forte relação de dependência entre a produção destes metabólitos e as condições de ambiente (EINHELLIG, 1996), o que dificulta a interpretação de resultados a campo. Uma variedade de compostos químicos pode ser carreada da parte aérea das plantas por meio da água de chuva, neblina e orvalho, entre estes os ácidos, açúcares, aminoácidos e as substâncias pécticas. Os aleloquímicos podem ser liberados das células vivas ou mortas tendo como agente a água. Os alcalóides, alguns terpenos e muitos compostos fenólicos podem ser lixiviados. A inibição do desenvolvimento de plantas de pimentão por extratos de eucalipto é um exemplo. O eucalipto produz substâncias cuja presença depende da espécie, e sua persistência no solo varia conforme o ambiente (Quadro 7).

Quadro 7 – Exemplos de compostos secundários (aleloquímicos) produzidos por diversas espécies de Eucalyptus

Espécie

Glicosídeos, fenóis, terpenóides além dos ácidos gentísico, sináptico, caféico, elagico

Eucalyptus baxteri

Glicosídeos, fenóis, terpenóides além dos ácidos gentísico, sináptico, caféico, elagico

Eucalyptus

Cineois, terpenos, pirenos e fenóis, além dos ácidos gálico, ferúlico, p-cumárico, clorogênico e caféico

camaldulensis

Eucalyptus citriodora

Óleos voláteis, cineol e limonemo.

Eucalyptus globulus

Óleos voláteis, limonemo, cineol, taninos e monoterpenos, além dos ácidos clorogênico, ferúlico, p-cumárico, caféico, gálico e elágico.

Eucalyptus microtheca

α-pireno, campfeno, cineol, além dos ácidos clorogênico, ferúlico, p-cumárico e caféico.

Eucalyptus regnans

Terpenóides e fenóis.

Eucalyptus teraticornis

Fenóis e terpenos.

Eucalyptus viminalis

Agliconas fenólicas, glicosídeos, terpenoides além dos ácidos gentísico, elágico, sináptico e caféico.

Fonte: adapatação de Alves et al. (1999), Willis (1999) e Ferreira e Áquila (2000)

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

A perda da permeabilidade seletiva da membrana citoplasmática ocorre pouco tempo após a morte da planta. Assim, os aleloquímicos podem ser liberados através dos resíduos. Com a liberação direta dos compostos pelos tecidos, microrganismos podem metabolizar polímeros presentes

e produzir substâncias tóxicas. O fungo Penicillium urticae produz toxina

patulina durante a decomposição dos resíduos do trigo, em sistema de plantio direto, que promove toxicidade na cultura que o sucede (Almeida,

1988).

O efeito de um aleloquímico depende da sua concentração e da quantidade total de fitotoxina disponível para absorção, pois semelhante ao que acontece para os nutrientes, as plantas competem pelas toxinas disponíveis.

3.1.

Alelopatia das plantas daninhas sobre as

culturas e plantas daninhas

A interferência que as plantas daninhas causam sobre as culturas é

decorrente da competição pelos fatores comuns (água, nutrientes, luz, espaço físico, CO 2 , etc.) e dos efeitos das substâncias alelopáticas que estas produzem. O extrato de plantas verdes do capim-marmelada (Brachiaria plantaginea) afeta o desenvolvimento da soja tanto no crescimento quanto na capacidade de nodulação (ALMEIDA, 1988). O desenvolvimento do tomateiro foi afetado por extratos de várias plantas daninhas, como tiririca, capim-massambará, grama-seda, etc. Uma situação bem comum nas áreas agricultáveis onde se desenvolvem as culturas anuais constitui no pousio em parte do ano, período em que se observa o predomínio de diversas espécies de plantas daninhas provenientes do banco de sementes no solo ou trazidas por agentes dispersantes, como vento e pequenos animais. Em trabalhos realizados utilizando-se extratos aquosos, as soluções da parte subterrânea de Cynodon dactylon, Cyperus rotundus e Sorghum halepense inibiram a germinação e o desenvolvimento do tomateiro (CASTRO et al., 1983) e o desenvolvimento inicial de plântulas de arroz (CASTRO et al., 1984). Em áreas de plantio direto, o cultivo posterior ao corte da vegetação que irá formar a palhada pode ser comprometido conforme as espécies presentes no momento do corte ou dessecação. A cobertura morta pode ser eficiente no controle de plantas daninhas, contudo pode também exercer efeitos negativos sobre a cultura em desenvolvimento sobre sua decomposição. A incorporação de restos da taquara (Olyra micrantha) ao solo inibiu o crescimento de plântulas de alface, provavelmente por efeitos alelopáticos (BORGES et al., 1994). A utilização da biomassa produzida por plantas daninhas aquáticas também pode constituir fonte de compostos alelopáticos. Nesse contexto, folhas de aguapé (Eichhornia crassipes) apresentaram efeitos supressores do desenvolvimento de diversas plantas daninhas (El-Khatib, 1999), além de ser altamente eficiente em inibir o crescimento da alga-verde (Chlamydomonas reinhardtii) (HUANG et al., 1999). A presença de plantas aquáticas com potencial para produção de aleloquímicos pode proporcionar efeito negativo e resultar em decréscimo em subdesenvolvimento de culturas como o arroz irrigado. Em contrapartida, algumas espécies apresentam efeito alelopático sobre plantas daninhas como a Echinocloa crusgalli, que

é uma invasora problemática nos cultivos de arroz (OLOFSDOTTER et al.

1999).

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

3.2.

Alelopatia

daninhas

das

culturas

sobre

as

plantas

O efeito alelopático das culturas sobre plantas daninhas é menos comum, e essa deficiência de defesa das plantas cultivadas é atribuída à seleção a que estas têm sido submetidas ao longo do tempo, para outras características que não as de agressividade para com outras plantas. Por exemplo, ao melhorar o paladar e diminuir a toxicidade, foram eliminados genótipos possuidores de substâncias alelopáticas, como taninos, alcalóides, etc. Restos culturais de algumas culturas, como nabo forrageiro, colza, aveia

e centeio, apresentam razoável efeito alelopático, reduzindo a intensidade

de infestação de algumas plantas daninhas, como Brachiaria plantaginea, Cenchrus echinatus e Euphorbia heterophylla, na cultura seguinte. Em sistemas agroflorestais, a espécie Leucaena leucocephala tem se destacado no controle das plantas daninhas (CHOU; KUO, 1986). Os extratos dessa planta apresentaram uma variada gama de fenóis além da mimosina, aleloquímico comprovadamente eficiente, encontrada também em plantas de maricá (Mimosa bimucronata) (FERREIRA et al., 1992). Em revisão realizada por Ferreira e Aquila (2000), foram descritas diversas culturas perenes com produção de aleloquímicos, destacando-se

o café, no qual a xantina cafeína é a principal substância com mecanismo

de defesa contra plantas daninhas. Em silvicultura, o gênero Eucalyptus, responsável por grandes áreas reflorestadas no Brasil, tem várias espécies consideradas alelopáticas (Quadro 7) apresentando maior eficiência na supressão de espécies daninhas principalmente pelo aspecto da interação continuada com os microrganismos do solo e pela presença do material vegetal depositado no solo (serrapilheira) resultante da queda de folhas e galhos.

3.3. Alelopatia entre culturas

A possibilidade de se desenvolverem efeitos alelopáticos benéficos ou maléficos entre culturas tem interesse agronômico, especialmente no que diz respeito às técnicas de rotação e consorciação. A colza, por exemplo, provoca redução do estande da cultura da soja plantada imediatamente após a sua colheita, o que tem contribuído para que os agricultores do sul deixem de cultivar colza. Segundo Barbosa (1996), exsudato radicular proveniente de plantas de sorgo reduziu a área foliar de plantas de alface em 68,4%, quando cultivadas em casa de vegetação, usando solução nutritiva circulante entre os vasos de sorgo e alface. Quanto a possíveis efeitos alelopáticos do material incorporado ao solo, sabe-se que o processo de decomposição do material vegetal é variável com a qualidade dos tecidos, os tipos de solo e as condições climáticas, podendo os resíduos de plantas de mesma espécie dar origem a compostos diferentes, com efeitos biológicos e toxicidade diversos. Por isso, os efeitos alelopáticos provocados pela incorporação de resíduos vegetais no solo são muitos variáveis. Normalmente, o material fresco, como as adubações verdes, provoca efeitos alelopáticos pouco acentuados e por períodos curtos, inferiores a 25 dias. Em condições de baixas temperaturas, os resíduos secos podem causar fitotoxicidade mais severa. Os efeitos alelopáticos são transitórios; por isso, a incorporação dos resíduos deve ser feita com certa antecedência da semeadura das culturas.

3.4. Alelopatia das coberturas mortas

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

No plantio direto, a cobertura morta pode prevenir a germinação, reduzir

o vigor vegetativo e provocar amarelecimento e clorose das folhas, redução

do perfilhamento e até morte de plantas daninhas durante a fase inicial de

desenvolvimento. Essa cobertura é essencial para o sucesso do plantio

direto, hoje disseminado no Brasil por todos estados produtores de grãos.

A cobertura morta da cultura do inverno, normalmente cereais, forma-se no

final desta estação ou início da primavera, quando começa a época chuvosa.

A taxa de decomposição é alta e a liberação dos compostos alelopáticos é,

conseqüentemente, também rápida. Se a cultura de verão for implantada com algum intervalo após a colheita desta cultura de inverno, possivelmente não ocorrerão problemas de toxicidade. Nas culturas de verão, os resíduos no solo são escassos e a temperatura e umidade no solo são suficientes para manter a atividade microbiana alta, degradando os aleloquímicos. Atualmente, várias pesquisas estão sendo conduzidas visando identificar os compostos alelopáticos, a fim de avaliar suas atividades sobre as diferentes espécies de plantas daninhas. Em trabalho realizado por Erasmo et al. (2004), as espécies Mucuna aterrima, M. pruriens e S. bicolor, utilizadas como cobertura vegetal, foram eficientes no controle das espécies daninhas D. horizontalis, H. lophanta e A. spinosus. Os autores constataram elevada concentração de taninos condensados, esteróides livres e ogliconas esteróides, sendo a possível causa dos efeitos alelopáticos. Estes estudos irão contribuir de maneira decisiva para o manejo de plantas daninhas no sistema de plantio direto, assim como poderá ser um ponto de partida para síntese de novos compostos com atividade herbicida. Pesquisas recentes avaliam e colecionam germoplasmas de plantas alelopáticas, objetivando o melhoramento genético. No futuro, o controle biológico de plantas daninhas também poderá ser uma opção no manejo integrado, e, para o sucesso deste método, o conhecimento das propriedades alelopáticas das plantas será fundamental.

4. Interferência e período crítico de competição

De acordo com Pitelli (1985), os efeitos negativos observados no crescimento, no desenvolvimento e na produtividade de uma cultura, devidos

à presença de plantas daninhas, não devem ser atribuídos exclusivamente

à competição imposta por estas, mas resultante das pressões ambientais

de ação direta (competição, alelopatia, interferência na colheita e outras).

A este efeito global denominou-se “interferência”, referindo-se, portanto, ao

conjunto de ações que recebe uma determinada cultura em decorrência da presença da comunidade infestante num determinado local. De maneira geral, pode-se dizer que, quanto maior for o período de convivência múltipla (cultura-plantas daninhas), maior será o grau de interferência. No entanto, isto não é totalmente válido, porque dependerá da época e do ciclo da cultura em que esse período ocorrer. O grau de interferência entre plantas cultivadas e comunidades infestantes depende das manifestações de fatores ligados à comunidade infestante (composição específica, densidade

e

distribuição), à própria cultura (espécie ou variedade, espaçamento

e

densidade de plantio) e à época e extensão da convivência, podendo

ser alterado pelas condições de solo, clima e manejo. Essa idéia foi originalmente apresentada por Bleasdale (1960) e mais tarde modificada por Blanco (1972), ambos citados por Pitelli (1985), sendo o esquema apresentado na Figura 3. O manejo de plantas daninhas altera a cronologia natural dos eventos, favorecendo a utilização de recursos pela planta cultivada, gerando menor intensidade de interferência na produtividade econômica. Geralmente,

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

quanto menor o período de convivência entre cultura e plantas daninhas, menor será o grau de interferência. Contudo, uma infestação moderada de plantas daninhas poderá ser tão danosa à cultura quanto uma infestação pesada, dependendo da época de seu estabelecimento, entre outros fatores. Esse fato justifica, portanto, o estudo da época ideal de controle de plantas daninhas em cada cultura, visando ao mínimo possível de redução na produtividade, mas sem prejudicar também o ambiente. Pitelli e Durigan (1984) sugeriram terminologia para períodos de convivência de plantas daninhas em culturas, os quais são descritos a seguir.

Atenção
Atenção

“Período total de prevenção da interferência” (PTPI) é o período, a partir do plantio ou da emergência, em que a cultura deve ser mantida livre da interferência de plantas daninhas, para que a produção não seja afetada quantitativa e, ou, qualitativamente.

Na prática, este deve ser o período que as capinas ou o poder residual

dos herbicidas devem cobrir. É importante esclarecer o significado deste período em termos de competição: as espécies daninhas que emergirem neste período, em determinada época do ciclo da cultura, terão atingido tal estádio de desenvolvimento que promoverão uma interferência sobre

a espécie cultivada, capaz de reduzir significativamente sua produtividade

econômica. Após esse período, a própria cultura, através, principalmente, do sombreamento, impede o desenvolvimento das plantas daninhas. Desse modo, toda e qualquer prática cultural que incremente o crescimento inicial da cultura pode contribuir para um decréscimo no período total de prevenção da interferência, permitindo menos cultivos ou o uso de herbicidas de menor poder residual.

Atenção
Atenção

Aquele espaço de tempo, após a semeadura ou o plantio, em que a cultura pode conviver com a comunidade de plantas daninhas antes que a interferência se instale de maneira definitiva e reduza significativamente a produtividade da lavoura é denominado “período anterior à interferência” (PAI).

O limite superior deste período indica a época em que a interferência compromete irreversivelmente a produtividade econômica da cultura. A aplicação de certas práticas culturais contribui para diminuição deste período. Por exemplo, a fertilização incrementa o crescimento inicial da cultura e das plantas daninhas, permitindo que a competição por recursos outros que não a adubação se instale de maneira mais rápida. Teoricamente,

o final do período anterior à interferência seria a época ideal para o primeiro controle da vegetação infestante, pois a comunidade teria acumulado energia e matéria orgânica que retornariam ao solo, contribuindo para o próprio desenvolvimento da cultura. No entanto, na prática este limite não pode ser considerado, pois a cultura e, ou, as plantas daninhas podem ter atingido um estádio tal de desenvolvimento que inviabilize o uso de práticas mecânicas ou o controle químico.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas Figura 3 – Modelo esquemático dos fatores que

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Figura 3 – Modelo esquemático dos fatores que influenciam o grau de interferência entre cultura e comunidades infestantes. Adaptado de Pitelli e Durigan (1984)

Do ponto de vista prático, a cultura deverá ser mantida livre das plantas daninhas no período compreendido entre o final do PAI até o momento em que as plantas daninhas que vierem a emergir não mais irão interferir na produtividade da cultura. Este seria o “período crítico de prevenção da interferência” (P�PI).

Atenção
Atenção

Em diversos trabalhos de pesquisa visando avaliar os efeitos da interferência de plantas daninhas em culturas (Quadro 8), os períodos PTPI, PAI e PCPI, encontrados pelos diversos autores, não são idênticos para as mesmas culturas. Isso é normal, porque as condições em que foram conduzidas as pesquisas, os cultivares utilizados e as composições específicas das comunidades infestantes foram diferentes.

Quadro 8 - Períodos de convivência e de controle de plantas daninhas em diversas culturas anuais e bianuais

Cultura

Dias Após Semeadura ou Plantio (d)

Fonte

PTPI

PAI

 

PAI

       

Mascarenhas et

Alho

100d

20

d

20

–100 d

al. (1980)

Girassol

30d

21

d

21

– 30 d

Brighenti et al.

(2004)

       

Alcântara et al.

Arroz de sequeiro

40d

30

d

30

- 40 d

(1982)

     

Oliveira e

 

60

d

45

d

45

- 60 d

Almeida (1982)

Cana-de-açúcar ( plantio de ano )

90

d

30

d

30

- 90 d

Rolin e Cristofol- leti (1982)

Cana-de-açúcar (plantio de ano e meio)

     

Kuva et al.

127 d

74

d

47

– 127

(2003)

       

Victoria Filho

Feijão

30

d

20

d

20

- 30 d

(1994)

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Café (após plantio das mudas no inverno)

     

Dias et al.

88

d

15

d

15

– 88 d

(2005)

Café (após plantio das mudas no verão)

     

Dias et al.

38

d

22 d

22

– 38 d

(2005)

       

Ramos e Pitelli

Milho

42 d

14

d

14

- 42 d

(1994)

 

30

d

21

d

21

- 30 d

Spadotto et al.

Soja

(1994)

30

d

20

d

20

- 30 d

Martins (1994)

Levando-se em conta as premissas do manejo integrado das plantas daninhas que consideram, além dos aspectos ambientais, a rentabilida- de do agricultor, foi proposto o Período Anterior ao Dano no Rendimento Econômico (PADRE), baseado na hipótese de que aspectos econômicos (como o custo de controle e o valor monetário dos grãos) devem ser uti- lizados como critério para determinar o período aceitável de interferência das plantas daninhas antes de se decidir pelo seu controle (VIDAL et al.,

2005).

Considerando a diversidade de fatores que influenciam o grau e os pe- ríodos de interferência apresentados, torna-se extremamente importante a pesquisa nesta área, nas diferentes condições, envolvendo solo, clima, espécies daninhas e culturas, visando realizar com eficiência o manejo in- tegrado das plantas daninhas.

5. Literatura �onsultada

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FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

2 Métodos de Controle de plantas daninhas

Antonio Alberto da Silva Francisco Affonso Ferreira Lino Roberto Ferreira José Barbosa dos Santos

1. Introdução

A escolha do método de controle das diversas espécies de plantas daninhas presentes na área de interesse deve levar em conta as condições locais de mão-de-obra e de equipamentos, sem se esquecer dos aspectos ambientais e econômicos. Os métodos de controle abrangem desde o arranque das plantas com as mãos até o uso de sofisticados equipamentos de micro-ondas para exterminar as sementes no solo (DEUBER, 1992). A redução da interferência das plantas daninhas, considerando uma cultura, deve ser feita até um nível no qual as perdas pela interferência sejam iguais ao incremento no custo do controle, ou seja, que não interfiram na produção econômica da cultura. As possibilidades de controle de plantas daninhas incluem os métodos preventivo, cultural, mecânico, biológico e químico. No entanto, para sustentabilidade dos sistemas agrícolas, é importante a integração das medidas de controle observando-se as características do solo, do clima e aspectos socioeconômicos do produtor. A realização da integração compatível, ambiental e economicamente, demanda profundo conhecimento das estratégias disponíveis, promovendo equilíbrio com as medidas de manejo do solo e da água, além do controle de pragas e doenças. Para adoção de qualquer medida de controle, o meio no qual as plantas daninhas se encontram, deve ser tratado como um ecossistema capaz de responder a qualquer mudança imposta, dessa forma, não se limitando à aplicação de herbicidas ou uso de qualquer outro método isoladamente. Além disso, procurar-se-á incentivar a melhoria da qualidade de vida, tanto do agricultor diretamente envolvido, como de toda população que será beneficiada pela cadeia produtiva.

2. �ontrole Preventivo

O controle preventivo de plantas daninhas consiste no uso de práticas que visam prevenir a introdução, o estabelecimento e, ou, a disseminação de determinadas espécies-problema em áreas ainda por elas não infestadas. Estas áreas podem ser um país, um estado, um município ou uma gleba de terra na propriedade. Em níveis federal e estadual, há legislações que regulamentam a entrada de sementes no país ou estado e sua comercialização interna. Nestas legislações encontram-se os limites toleráveis de semente de cada espécie de planta daninha e também a lista de sementes proibidas por cultura ou grupo de culturas. Em nível local, é de responsabilidade de cada agricultor ou cooperativa prevenir a entrada e disseminação de uma ou mais espécies daninhas, que poderão se transformar em sérios problemas para a região. Em síntese, o elemento humano é a chave do controle preventivo. A ocupação eficiente do espaço do agroecossistema pela cultura diminui a disponibilidade de fatores adequados ao crescimento e desenvolvimento das plantas

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

daninhas, podendo ser considerado uma integração entre a prevenção e o

método 4 cultural.

As medidas que podem evitar a introdução da espécie: utilizar

sementes de elevada pureza; limpar cuidadosamente máquinas, grades e colheitadeiras; inspecionar cuidadosamente mudas adquiridas com torrão e também toda a matéria orgânica (esterco e composto) proveniente de outras áreas; limpeza de canais de irrigação; quarentena de animais introduzidos, etc. A falta desses cuidados tem causado ampla disseminação das mais diversas espécies. Como exemplo, tem-se a tiririca (Cyperus rotundus), que possui sementes muito pequenas e tubérculos que infestam novas

áreas com grande facilidade, por meio de estercos, mudas com torrão, etc.,

o picão-preto (Bidens pilosa) e o capim-carrapicho (Cenchrus echinatus),

além de outras espécies, se espalham por novas áreas por meio de roupas e sapatos dos operadores, pêlos de animais, etc. Já o capim-arroz (Echinochloa sp.) e o arroz-vermelho (Oryza sativa) são distribuídos junto

com as sementes de arroz.

3. �ontrole �ultural

O controle cultural consiste no uso de práticas comuns ao bom manejo da água e do solo, como rotação de cultura, variação do espaçamento da cultura, uso de coberturas verdes, etc. Essas práticas contribuem para reduzir o banco de sementes de espécies daninhas. Consiste em usar as próprias características ecológicas das culturas e das plantas daninhas, visando beneficiar o estabelecimento e desenvolvimento das culturas. Rotação de culturas: cada cultura agrícola geralmente é infestada por espécies daninhas que possuem exigências semelhantes às da cultura ou

apresentam os mesmos hábitos de crescimento; exemplos: capim-arroz (Echinochloa sp.), em lavouras de arroz; apaga-fogo (Alternanthera tenella), em lavouras de milho; mostarda, em lavouras de trigo; e caruru-rasteiro (Amarantus deflexus), em cana-de-açúcar. Alguns problemas que podem ser facilmente resolvidos com a prática da rotação: infestação de maria- pretinha (Solanum americanum) e joá-de-capote (Nicandra physaloides) nas culturas de tomate e batata tratadas com o herbicida metribuzim. Em todos esse casos, a rotação quebra o ciclo de vida das espécies daninhas, impedindo seu domínio na área. Quando são aplicadas as mesmas técnicas culturais seguidamente, ano após ano, no mesmo solo, a interferência destas plantas daninhas aumenta muito. Quando o principal objetivo é o controle de plantas daninhas, a escolha da cultura em rotação deve recair sobre plantas com hábito de crescimento e características culturais bem contrastantes. Variação do espaçamento: a variação do espaçamento entre linhas ou da densidade de plantas na linha pode contribuir para a redução da interferência das plantas daninhas sobre a cultura, dependendo da arquitetura das plantas cultivadas e das espécies infestantes. A redução entre linhas geralmente proporciona vantagem competitiva à maioria das culturas sobre as plantas daninhas sensíveis ao sombreamento. Nesse caso, com a redução do espaçamento entre fileiras, desde que não exceda

o limite mínimo, há aumento da interceptação de luz pelo dossel das plantas

cultivadas. Esse efeito é dependente de fatores como: o tipo da espécie a ser cultivada, características morfofisiológicas dos genótipos, espécies de plantas daninhas presentes na área e época e condições climáticas no

momento de sua emergência, além das condições ambientais. Balbinot e Fleck (2005), trabalhando com cultivares de milho, verificaram que à medida que o espaçamento entre fileiras era reduzido, o aumento em produtividade foi dependia da infestação de plantas daninhas e da cultivar avaliada. Coberturas verdes: as coberturas verdes são culturas geralmente

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FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

muito competitivas com as plantas daninhas. Tremoço, ervilhaca, azevém anual, nabo, aveia e centeio são usadas na região Sul do Brasil. Nas regiões subtropicais predominam mucuna-preta, crotalárias, guandu, feijão-de- porco e lab-labe. O principal efeito é a redução do banco de sementes aliado à melhoria das condições físico-químicas do solo; entretanto, estas plantas podem ter também poder inibitório sobre outras e reduzir as infestações de algumas espécies daninhas após a dessecação ou serem incorporadas ao solo. Para isso, devem ser bem escolhidas para cada caso. A presença da cobertura morta cria condições para instalação de uma densa e diversificada microbiota no solo, principalmente na camada superficial com elevada quantidade de microrganismos responsáveis pela eliminação de sementes dormentes por meio da deterioração e perda da viabilidade.

4. �ontrole Mecânico

São métodos mecânicos de controle de plantas daninhas o arranque manual, a capina manual, a roçada, e o cultivo mecanizado.

O arranque manual, ou monda, é o método mais antigo de controle

de plantas daninhas. Ainda hoje é usado em hortas caseiras, jardins e na remoção de plantas daninhas entre as plantas das culturas em linha, quando o principal método de controle é o uso de enxada. A capina manual feita com enxada é muito eficaz e ainda muito utilizada

na nossa agricultura, principalmente em regiões montanhosas, onde há agricultura de subsistência; para muitas famílias, esta é a única fonte de trabalho. Contudo, numa agricultura mais intensiva, em áreas maiores,

o alto custo da mão-de-obra e a dificuldade de encontrar operários no

momento e na quantidade desejada fazem com que este método seja apenas complementar a outros, devendo ser realizado quando as plantas daninhas estiverem ainda jovens e o solo não muito úmido. Em pomares e cafezais, a roçada manual ou mecânica é um método muito importante para controlar plantas daninhas, principalmente em terrenos declivosos, onde o controle da erosão é fundamental. O espaço das

entrelinhas das culturas é mantido roçado e, por meio de outros métodos de controle, a fileira de plantas, em nível, é mantida no limpo. Também em terrenos baldios, beiras de estradas e pastagens a roçada é um método de controle de plantas daninhas dos mais importantes.

O cultivo mecanizado, feito por cultivadores tracionados por animais ou

tratores, é de larga aceitação na agricultura brasileira e um dos principais métodos de controle de plantas daninhas em propriedades com menores áreas plantadas. As principais limitações deste método são: a) dificuldade de controle de plantas daninhas na linha da cultura; e b) baixa eficiência:

quando realizado em condições de chuva (solo molhado), é ineficiente para controlar plantas daninhas que se reproduzem por partes vegetativas. No entanto, todas as espécies anuais, quando jovens (2-4 pares de folhas), são facilmente controladas em condições de calor e solo seco. O cultivo quebra a relação íntima que existe entre raiz e solo, suspende a absorção de água

e expõe a raiz às condições ambientais desfavoráveis. Dependendo do

tamanho relativo das plantas cultivadas e daninhas, o deslocamento do

solo sobre a linha, através de enxadas cultivadoras especiais, pode causar

o enterrio das plântulas e, com isso, promover o controle das plantas daninhas na linha.

5. �ontrole Físico

Em solos planos e nivelados, a inundação é um efetivo método de controle de plantas daninhas, como nos tabuleiros de arroz. Espécies perenes de

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

difícil controle, como tiririca (Cyperus rotundus), grama-seda (Cynodon

dactylon), capim-kikuio 6 (Penisetum clandestinum), além de muitas outras

anuais, são erradicadas sob inundação prolongada. Mas a inundação não

apresenta efeito sobre as plantas daninhas que se desenvolvem em solos encharcados, como o capim-arroz (Echinochloa sp.). Esta prática causa

a morte das plantas sensíveis, em virtude da suspensão do fornecimento

de oxigênio para suas raízes. Seus fatores limitantes, na maioria dos casos, são o custo do nivelamento do solo e a grande quantidade de água

necessária para sua implantação, contudo, constitui importante método de controle de plantas daninhas utilizado na cultura do arroz irrigado.

A cobertura do solo com restos vegetais em camada espessa ou com

lâmina de polietileno é método eficiente de controle das plantas daninhas. É restrito a pequenas áreas de hortaliças, entretanto, não é recomendado em áreas infestadas com tiririca e trevo. No plantio direto, a cobertura do solo com restos vegetais da cultura anterior é de grande utilidade. Este sistema é usado em extensas áreas de soja, milho e trigo. A cobertura provoca menor

amplitude nas variações e no grau de umidade e da temperatura da superfície do solo, estimulando a germinação das sementes das plantas daninhas da camada superficial de solo, que são posteriormente mortas devido à impossibilidade de emergência. A cobertura morta ainda pode apresentar efeitos alelopáticos úteis no controle de certas espécies daninhas, além de outros efeitos importantes sobre as culturas implantadas na área. Outra técnica é a solarização - um processo caro e inviável em grandes áreas -, que deve ser feita 60 a 75 dias antes do plantio, nos meses mais quentes do ano, utilizando filme de polietileno sobre a superfície do solo. Provoca aumento de temperatura e, em solo úmido, as sementes das plantas daninhas germinam e morrem em seguida, devido à temperatura excessivamente alta, principalmente até 5 cm de profundidade.

A queima das plantas daninhas jovens com lança-chamas é uma técnica

de uso limitado no Brasil, em razão do custo do combustível. Todavia, já foi utilizada em algodão, através de adaptação de queimadores especiais

em cultivadores tratorizados, para uso dirigido nesta cultura. Nos Estados Unidos essa prática foi bem empregada nas culturas do sorgo e do algodão até a década de 1960, quando foi abandonada devido ao aumento no preço dos combustíveis fósseis e ao surgimento dos herbicidas seletivos para as diversas culturas (SEIFERT; SNIPES, 1998). Pode ser usada cinco dias após o semeio e antes da emergência das plantas de cebola. Em ambientes aquáticos, o combate às plantas daninhas usando altas temperaturas – denominados de controle térmico – constitui alternativa de integração de manejo visando complementar o controle mecânico, principalmente em reservatórios de água. Marchi et al. (2005) obtiveram controle eficiente das espécies aquáticas Eichhornia crassipes, Brachiaria subquadripara, Pistia stratiotes, e Salvinia auriculata. O uso do lança- chamas depende de vários fatores, como temperatura, tempo de exposição

e consumo de energia. Para Ascard (1997), a temperatura necessária para

causar morte foliar pode variar de 55º a 94ºC. Em trabalho realizado por

Rifai et al. (2003), a melhor velocidade para eficiente controle das plantas daninhas por lança-chamas foi de 1 a 4 km por hora.

O controle por meio da queima da vegetação infestante voltou a ganhar

expressiva conotação, principalmente entre os praticantes da agricultura orgânica dos vários países da Europa, os quais são proibidos de adotar

qualquer intervenção química em suas lavouras (BOND; GRUNDY, 2001).

6. �ontrole Biológico

O controle biológico consiste no uso de inimigos naturais (fungos, bactérias, vírus, insetos, aves, peixes, etc.) capazes de diminuir a população das plantas daninhas, reduzindo sua capacidade de competir.

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FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Isso é mantido por meio do equilíbrio populacional entre o inimigo natural

e a planta hospedeira. Deve também ser considerada como controle

biológico a inibição alelopática de plantas daninhas (assunto discutido em módulo à parte). No Brasil, o controle biológico de plantas daninhas com inimigos naturais não tem sido, até o momento, praticado com fins econômicos. Para que este tipo de controle seja eficiente, o parasita deve

ser altamente específico, ou seja, uma vez eliminado o hospedeiro, ele não deve parasitar outras espécies. De modo geral, a eficiência do controle biológico é duvidosa quando é usado isoladamente, porque controla apenas uma espécie, favorecendo a outra, o que é uma tendência normal em condições de campo. A pesquisa com controle biológico de plantas daninhas envolve etapas

sucessivas:

a) Seleção de espécies de plantas daninhas a serem controladas.

b) Seleção de inimigos naturais mais eficientes.

c) Estudo e avaliação da ecologia dos vários inimigos naturais.

d) Determinação da especificidade dos hospedeiros.

e) Acompanhamento da introdução e do estabelecimento do agente

biocontrolador no campo.

f) Avaliação da efetividade em diferentes épocas do ano, a fim

de correlacionar os níveis de infecção com a redução da densidade

populacional do hospedeiro. Entre os diversos exemplos de controle biológico no mundo, podem- se citar: na Austrália, o controle do cactus ou figo-da-índia (Opuntia spp.) com as larvas do inseto Cactoblastis cactorum; e, no Havaí, o cambará-de- espinho (Lantana camara) foi controlado pelos insetos Agromisa lantanae e Crocidosema lantanae. Nos Estados Unidos, o fungo Coletotrichum gloeosporeoides pode ser usado para controlar o angiquinho (Aeschynomene virginica) em soja e milho; o herbicida natural é registrado como Collego. E, nos pomares de citros, para controlar Morrenia odorata, é usado o fungo Phythophthora palmivora, com o nome de Devine. No Brasil, isolados de Fusarium graminearum vêm sendo estudados como agente de controle biológico de Egeria densa e de Egeria najas, plantas aquáticas que causam problemas em reservatórios de hidrelétricas.

Já se sabe que o fotoperíodo influencia a eficiência de controle das espécies

de plantas daninhas pelo fungo, e temperaturas acima de 30 o C têm proporcionado melhor controle de Egeria (BORGES NETO et al., 2005). Alguns produtores têm usado carneiros para controlar plantas daninhas em lavouras de café. No entanto, algumas espécies não possuem boa palatabilidade sendo recusadas durante o pastejo. O uso de tilápias, carpas e outros peixes herbívoros é possível para controle de outras plantas aquáticas. Miyazaki e Pitelli (2003) verificaram controle de até 100% das espécies aquáticas Egeria densa, Egeria najas e Ceratophyllum demersum pelo pacu (Piaractus mesopotamicus). O controle biológico é eficiente quando associado a outros métodos

e será recomendado para espécies de plantas daninhas de controle comprovadamente difícil por métodos mecânicos e, ou, químico.

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7. �ontrole Químico

As pesquisas visando ao controle químico de plantas daninhas foram iniciadas entre 1897 e 1900, quando Bonnet (França), Shultz (Alemanha) e Bolley (EUA) evidenciaram ação dos sais de cobre sobre algumas folhas largas. Em 1908, o sulfato ferroso foi avaliado por Bolley, nos Estados Unidos, para controle de folhas largas na cultura do trigo. Somente em 1942, Zimmerman e Hitchock, nos EUA, descobriram o 2,4-D. Este herbicida é a base de muitos outros produtos sintetizados em

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

laboratório (2,4-DB; 2,4,5-T, etc.) e marcou o início do controle químico de plantas daninhas em escala comercial.

A partir de 1950, novos grupos químicos de herbicidas surgiram: amidas

(1952), carbamatos (1951), triazinas simétricas (1956), etc. Devido ao grande desenvolvimento da área de controle químico de plantas daninhas, em 1956, nos Estados Unidos, foi criada a Weed Science Society of América (WSSA), e, em 1963, no Brasil, foi fundada a Sociedade Brasileira de Herbicidas e Ervas Daninhas (SBHED) - hoje Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas (SBCPD), que se reúne de dois em dois anos em congresso nacional. Ainda no Brasil, ocorrem reuniões anuais de pesquisadores de herbicidas no cerrado (REPEC), e os trabalhos

científicos sobre o assunto são publicados em revistas especializadas da SBCPD (Planta Daninha e Revista Brasileira de Herbicidas). O objetivo das pesquisas em nível mundial é obter herbicidas mais eficazes, com doses menores e mais seguros para o homem e para o ambiente.

O consumo de herbicida no Brasil representa 7-9% do consumo total do

mundo. Este valor, em milhões de dólares, evoluiu de US$546,6 em 1990 para mais de US$2.356,0 em 2008 (ANDEF/SINDAG, 2009). A tendência ainda é de aumento, uma vez que esta tecnologia, quase exclusivamente utilizada por grandes e médios produtores, hoje está se tornando prática comum entre os pequenos. Atualmente estão sendo comercializadas no

mercado brasileiro em torno de 459 marcas comerciais de herbicidas (MAPA, 2009). Pode se atribuir essa grande aceitação do uso de herbicidas pelos produtores ao fato de o controle químico das plantas daninhas proporcionar as seguintes vantagens:

1. Menor dependência da mão-de-obra, que é cada vez mais cara,

difícil de ser encontrada no momento certo, na quantidade e qualidade

necessárias.

2. Mesmo em épocas chuvosas, o controle químico das plantas

daninhas é mais eficiente.

3. É eficiente no controle de plantas daninhas na linha de plantio e

não afeta o sistema radicular das culturas.

4. Permite o cultivo mínimo ou plantio direto das culturas.

5. Pode controlar plantas daninhas de propagação vegetativa.

6. Permite o plantio a lanço e, ou, alteração no espaçamento, quando

for necessário.

É importante considerar que todo herbicida é uma molécula química

que tem que ser manuseada com cuidado, havendo perigo de intoxicação do aplicador, principalmente. Pode ocorrer também poluição do ambiente - água (rios, lagos e água subterrânea), solo e alimentos quando manuseados incorretamente. Há necessidade de mão-de-obra especializada para aplicação dos herbicidas, sendo essa a causa de cerca de 80% dos problemas encontrados na prática. O conhecimento da fisiologia das plantas, dos grupos aos quais pertencem os herbicidas e da tecnologia de aplicação é fundamental para o sucesso do controle químico das plantas daninhas. Os riscos de uso existem, mas devem ser conhecidos, perfeitamente controlados e evitados. O emprego do controle químico de plantas daninhas deve ser feito juntamente com outras práticas, sendo a de maior importância o controle cultural, uma vez que possibilita as melhores condições de desenvolvimento e permanência das culturas, cabendo ao controle químico apenas auxiliar quando necessário. O emprego do controle químico como único método pode levar ao desequilíbrio no sistema de produção. Portanto, o herbicida é uma ferramenta muito importante no manejo integrado de plantas daninhas, desde que utilizado no momento adequado e de forma correta.

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

8. Manejo Integrado de Plantas Daninhas

A maneira integrada de cultivo que considera todos os fatores que po- dem proporcionar à planta maior e melhor produção permite o aproveita- mento eficiente dos recursos do meio. Dentro desse contexto se insere também o manejo integrado das plantas daninhas (MIPD). Esse sistema de produção integrada cada vez mais vem ganhando espaço em todos os setores agrícolas, tendo, no Brasil, sua base reforçada no campo da ento- mologia, quando pioneiros promoveram o estudo dos problemas do algo- doeiro no Nordeste do país, propondo uma série de medidas que se enqua- draram no conceito de integração (CONCEIÇÃO, 2000). As premissas que alicerçaram a proposta de manejo integrado podem ser bem sintetizadas em: garantia de qualidade do produto colhido, incluindo a isenção de resí- duos de defensivos nos alimentos; sustentabilidade ambiental, incluindo a não-degradação do solo e contaminação do ar e da água; sustentabilidade econômica e social na produção, mantendo ou aumentando a produtivida- de; e garantia de melhor qualidade de vida para o agricultor no que tange ao retorno econômico e à maior segurança nas atividades que envolvam a utilização de defensivos agrícolas. Em situação diferente ao manejo integrado de pragas (MIP) e doenças (MID), o MIPD ainda não possui a base científica de conhecimento em ecologia populacional e de muitas das interações intra e interespecífica que possibilite a determinação dos níveis de controle para realizar o controle das plantas daninhas. Avaliando alguns dos trabalhos pertinentes sobre o assunto (GRAVENA, 1992; ADDA et al., 2002; HILL et al., 2002), é possível ter uma idéia de como a metodologia já está mais bem definida, além da tradição e do treinamento do pessoal para execução do MIP. Em contra- partida, o MIPD – tecnologia nova a ser desenvolvida e implantada - care- ce urgentemente de mais trabalhos de pesquisa na área para geração de dados e também de treinamento para os técnicos, tornando possível sua implementação no campo, pois o sucesso da produção integrada depende disso.

Saiba
Saiba

Para saber mais acesse a Sala de Aula virtual da disciplina no PVANet

ou consulte GRAVENA, S. Controle biológico no manejo integrado de pra- gas. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.27, p. 281-299, 1992.

Para um leigo e também para a maioria dos técnicos da área, o controle de plantas daninhas, usando métodos manuais, mecânicos ou químicos, é extremamente simples, pois eles acreditam que o melhor tratamento é aquele que associa eficiência e menor preço. Normalmente não se leva em consideração que um bom programa de manejo de plantas daninhas deve permitir a máxima produção no menor espaço de tempo, a máxima sustentabilidade de produção e o mínimo risco econômico e ambiental. Portanto, para se fazer o Manejo Integrado de Plantas Daninhas (MIPD) são necessários conhecimentos em botânica, fisiologia vegetal, biologia molecular, climatologia e tecnologia de aplicação, entre outros. Como toda ciência, o estudo das plantas daninhas é dinâmico. Inicialmente, todo controle de plantas daninhas era feito por meio físico, principalmente o fogo, e por métodos mecânicos, com o uso de enxada para capina de foice para roçadas. Numa segunda etapa surgiram arados, grades, cultivadores de tração animal e motorizado e, somente a partir de 1950, os herbicidas químicos, que devido à dificuldade de encontrar mão-de-obra no campo, no momento preciso e na quantidade necessária, além da eficiência e, principalmente, economicidade do controle químico,

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

tornaram insumos indispensáveis à agricultura.

As estratégias para o manejo integrado em diferentes espécies vegetais daninhas podem ser divididas como de curto ou de longo prazo. Medidas, como utilização da capina ou emprego direto de herbicidas (controle químico), podem ser considerados como de curta duração, sendo responsáveis por atuação apenas temporária, havendo necessidade de novas aplicações

a cada estação de cultivo. Em se tratando das medidas consideradas de

longo prazo, o emprego das práticas culturais e controle por outros agentes biológicos, têm caráter permanentes e levam em conta mudanças mais

pronunciadas nas diferentes práticas agronômicas. Disso resulta o manejo integrado devendo integrar a prevenção e outros métodos de controle que

promovam controle a curto (métodos mecânicos e químicos) e a médio e longo prazos (métodos cultural e biológico). Algumas espécies como a tiririca (Cyperus rotundus) em condições tropicais, têm rápida infestação em grande parte dos solos agrícolas. Áreas com alta incidência de tiririca podem se tornar desvalorizadas, devido ao elevado custo para o seu controle. Em alguns casos, o emprego de implementos mecânicos na entressafra, seguido da aplicação de herbicidas, na “época das águas”, tem sido relatado em diversos trabalhos (DURIGAN, 2000; DURIGAN et al., 2006) como modelo de manejo integrado, em razão dos benefícios ocasionados pela quebra da dominância apical a partir do manejo mecanizado e, consequentemente, maior brotação dos tubérculos com formação rápida de área foliar, para absorção do herbicida

e translocação para a parte subterrânea.

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Outro exemplo da aplicação é o excelente manejo da tiririca na cultura do milho e do feijão pela adoção do sistema de plantio direto e conhecimentos da biologia das espécies envolvidas. Feijão e milho promovem rápida cobertura do solo exercendo forte sombreamento nas plantas de tiririca que, por possuírem metabolismo “C 4 ”, são exigentes em luz e, portanto, têm diminuída a capacidade competitiva. Quando a finalidade de uso do solo é para milho grão, toda a palhada da cultura permanece na área à superfície, no plantio direto, ou incorporada ao solo, no plantio convencional. Ao contrário, no milho para silagem, toda palhada da cultura anterior é retirada da área. No plantio direto, com uso de herbicidas sistêmicos usados como dessecantes, aliado ao fato de não revolver o solo, independentemente se para produzir milho para grão ou para silagem, têm-se observado excelentes resultados no manejo da tiririca. Em dois anos nesse sistema, é possível obter redução nos níveis populacionais da tiririca a favor do plantio direto, em relação ao plantio convencional, tanto para a cultura do milho quanto para o feijoeiro, da ordem de 90 a 95%, sendo que em três anos a redução no banco de tubérculos no solo pode chegar a mais de 90% (JAKELAITIS et al., 2003).

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Os maiores benefícios do sistema de plantio direto no manejo integrado da tiririca são obtidos devido à integração do controle químico proporcionado

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

pelo uso do herbicida sistêmico para dessecação da vegetação em pré- plantio, ao controle cultural exercido pela falta de revolvimento do solo e consequente ausência de fragmentação das estruturas vegetativas da tiririca e à adoção de culturas altamente competitivas, principalmente por luminosidade, como a cultura do milho e feijão. Dessa forma, os níveis populacionais da tiririca podem ser diminuídos, principalmente no período de desenvolvimento das culturas sensíveis à interferência das plantas daninhas, ou seja, aproximadamente 45 dias após a emergência, a ponto de não acarretar reduções de produção das culturas infestadas (Fig. 1). Além disso, a capacidade de brotação dos tubérculos de tiririca coletados sob solo no sistema integrado é diminuída com o passar do tempo, permanecendo dormentes (Fig. 2). Dessa forma, com a adoção do sistema de plantio direto utilizando herbicidas sistêmicos para dessecação, aplicados no momento correto, aliado ao controle cultural, consegue-se ótimo manejo integrado da tiririca, transformando esta espécie daninha extremamente problemática em uma espécie comum. Outro exemplo de manejo integrado de plantas daninhas tem sido praticado em diversas regiões do Brasil quando se adota o sistema integrado agricultura-pecuária. Neste sistema, a forrageira cultivada em consórcio com a cultura principal reduz a interferência de muitas espécies de plantas daninhas, tornando o sistema menos dependente do controle químico (JAKELAITIS et al., 2004) e também mais estável do ponto de vista ambiental (SANTOS et al., 2005).

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http://www.scielo.br/pdf/pd/v23n4/27498.pdf

Saiba
Saiba
e http://www.scielo.br/pdf/pd/v23n4/27498.pdf Saiba Plantio convencional Plantio direto Figura 1 - População

Plantio convencional

Plantio direto

Figura 1 - População de tiririca nas culturas de milho e feijão nos sistemas de plantios convencional e direto (após dois anos de adoção do manejo integrado de plantas daninhas –MIPD) aos 30 dias após o plantio Fonte: (Jakelaitis et al., 2003)

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas Plantio convencional Plantio direto Figura 2 – Brotação de

Plantio convencional

Plantio direto

Figura 2 – Brotação de tubérculos de tiririca coletados em campo em áreas de plantio convencional e onde se adotou o plantio direto com o manejo integrado dessa espécie infestante, após três anos de adoção Fonte: (Jakelaitis et al., 2003)

Na área de biotecnologia estão sendo conduzidas pesquisas, visando

o melhoramento de culturas para resistência a herbicidas, por exemplo

a criação de cultivares de soja resistentes ao glyphosate; de milho, ao

imazaquin; de arroz, ao amônio-glufosinato. No entanto, não há dúvidas de que o extremo dessa tecnologia está no lançamento de cultivares de milho

e soja resistentes ao glyphosate e a todo o grupo de herbicidas inibidores

da ALS, ou seja, praticamente todos os produtos desse gênero aplicados nessas culturas. O impacto dessa informação ainda não foi avaliado pela maioria dos pesquisadores brasileiros. A possibilidade de cultivar milho e soja sem qualquer interferência de plantas infestantes atrai o agricultor brasileiro, no que se refere ao aspecto econômico, haja vista que os danos resultantes da competição podem chegar ao extremo de perda total da produção. Em contrapartida, a utilização incorreta dessa tecnologia poderá, em poucos anos de cultivo, selecionar espécies de plantas daninhas com tolerância e algumas com resistência à maioria dos herbicidas, ou ainda, como consequência muito mais negativa, causar a eliminação de várias espécies vegetais, devido ao controle da quase totalidade das espécies vegetais das áreas de plantio. Esses, no entanto, seriam os efeitos

negativos diretos da utilização dos herbicidas. Enfocando a sustentabilidade dos sistemas agrícolas, o cultivo de espécies geneticamente modificadas resistentes a herbicidas seria, em outras palavras, o monocultivo absoluto,

a máxima redução da biodiversidade vegetal em uma área.

É importante lembrar que esse enfoque negativo é facilmente

contestável quando, associado a esses cultivos, promove-se o MIPD. Daí

a importância da pesquisa na área de estudo referente aos impactos da

utilização de transgênicos na agricultura, pois toda e qualquer técnica de manejo de plantas daninhas somente terá sucesso se for aplicada com base em conhecimentos detalhados da biologia e ecologia das plantas infestantes da área, envolvendo, principalmente, conhecimentos nas áreas de morfologia, fisiologia e ciclagem de nutrientes.

O controle de plantas daninhas, da maneira como está sendo

implementado na maior parte do território nacional, tem sido uma atividade predatória no que se refere à sustentabilidade do sistema. Com as novas tecnologias, se o MIPD não for adotado urgentemente, esse fato tende a se agravar, pois em regiões tropicais e subtropicais a degradação do solo

é mais intensa, devido às condições climáticas favoráveis aos vários tipos de erosão. Esse fato, aliado à ideia de eliminar quase todas as espécies

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

de daninhas competidoras a ponto de deixar o solo descoberto, terá

conseqüências negativas para a agricultura brasileira, sendo praticamente impossível sua recuperação nos sistemas convencionais de manejo adotados.

É fundamental que se conheça a capacidade da espécie infestante de

competir por água, luz e nutrientes - fatores responsáveis pela redução da

produtividade - em raleção à cultura. Além disso, não se pode desprezar

a capacidade que determinadas espécies daninhas têm de dificultar ou

impedir a colheita, reduzir a qualidade do produto a ser colhido e hospedar

pragas e vetores de doenças e de inimigos naturais. Por outro lado, torna- se necessário conhecer quais os tipos de relacionamentos entre plantas cultivadas e infestantes permitem sua convivência passiva. Nesse sentido,

é fator determinante também no MIPD conhecer a densidade e a distribuição das plantas daninhas na área, bem como o seu momento de emergência em relação à cultura. Normalmente, plantas daninhas que emergem após

o solo já estar coberto pela cultura não causarão dano econômico para o

agricultor durante o desenvolvimento da espécie cultivada. Todavia, algumas espécies, mesmo germinando após esse período em algumas culturas, podem inviabilizar a colheita ou depreciar o produto colhido. Além disso, caso não sejam observadas as características positivas e negativas das plantas infestantes, até mesmo uma tecnologia de última geração, como os cultivares geneticamente modificados resistentes a herbicidas, se usados

de modo irresponsável, pode comprometer seriamente a sustentabilidade da agricultura.

É mais compreensível a ideia de manejo integrado quando as plantas

daninhas são tratadas não como um alvo direto que deve ser “exterminado”, mas sim como parte integrante de um ecossistema no qual estão diretamente envolvidas, entre outras funções, à ciclagem de nutrientes no solo. Elas ainda formam complexas interações com microrganismos,

e por meio dessas associações, garantem as características agronômicas

que conferem ao ambiente-solo maior capacidade para suportar um cultivo sustentável. À exceção de algumas poucas espécies que necessitam ser erradicadas da área, grande parte da comunidade vegetal infestante comanda no solo a dinâmica de nutrientes, além de ser componente-chave no processo de formação e queima da matéria orgânica, principalmente pelo papel que a rizosfera tem no estímulo à atividade microbiana. São necessários, portanto, cuidados técnicos para se atingir a máxima

eficiência com o mínimo impacto negativo ao solo, à água e aos organismos não-alvos. Deve-se ressaltar que no MIPD o herbicida é considerado apenas uma ferramenta a mais na obtenção do controle que seja eficiente

e

econômico, preservando a qualidade do produto colhido, o meio ambiente

e

a saúde do homem. Para isso, é necessário associar os diversos métodos

de controle disponíveis (preventivo, mecânico, físico, cultural, biológico e químico), levando-se em consideração as espécies daninhas infestantes,

o tipo de solo, a topografia da área, os equipamentos disponíveis na

propriedade, as condições ambientais e o nível cultural do proprietário. Segundo Rodrigues e Almeida (2005), o MIPD, hoje, é um típico setor de

tecnologia de ponta e, por isso, um campo no qual está muito presente

o desafio maior do agronegócio brasileiro, que é o de conciliar, no seu

processo, os conceitos de competitividade, sustentabilidade e equidade. Em diversos estudos dos impactos negativos das práticas agrícolas para

o controle de plantas daninhas, a utilização de indicadores da qualidade

do solo, como a atividade microbiana, (por meio da variação das diversas

funções que os microrganismos desempenham em associação direta ou indireta com as plantas daninhas e cultivadas), está sendo vislumbrada como provável técnica de monitoramento do comportamento de herbicidas no ambiente podendo constituir componente-chave no manejo integrado de plantas daninhas (SANTOS et al., 2005; SANTOS et al., 2006).

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Saiba
Saiba

A necessidade do manejo sustentável em sistemas agrícolas impõem restrições à maneira convencional de controle das plantas daninhas. Nesse contexto, os herbicidas poderão ser utilizados, em algumas situações, associados a outros métodos que vislumbrem a máxima vantagem da cultura sobre a espécie infestante, sem, contudo, a completa exposição do solo. A integração entre lavoura e pecuária e lavoura e florestas e a disseminação do plantio direto são práticas importantes dentro do manejo integrado de plantas daninhas. Essas práticas de cultivo, por causarem menor grau de perturbação ao sistema, promovem a sustentabilidade dos sistemas de cultivo e devem ser recomendados. As novas pesquisas devem ser direcionadas para o conhecimento aprofundado sobre as relações entre plantas cultivadas, infestantes e microbiota associada, a fim de se obter o máximo benefício dos recursos naturais disponíveis, utilizando bioindicadores para predição de efeitos negativos.

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9. Literatura �onsultada

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3 Herbicidas: Classificação e Mecanismos de ação

Antonio Alberto da Silva Francisco Affonso Ferreira Lino Roberto Ferreira

Os herbicidas podem ser classificados de diversas maneiras, de acordo com as suas características. Tais características permitem estabelecer grupos afins de herbicidas com base em sua seletividade, época de aplicação, translocação, estrutura química e mecanismo de ação (WELLER,

2003a).

1. Quanto à seletividade

Herbicidas seletivos

São aqueles que, dentro de determinadas condições, são mais tolerados por uma determinada espécie ou variedade de plantas do que por outras. Como exemplo, tem-se 2,4-D para a cana-de-açúcar; atrazine para o milho; fomesafen para o feijão; imazethapyr para a soja, etc. Todavia, a seletividade é sempre relativa, pois depende do estádio de desenvolvimento das plantas, das condições climáticas, do tipo de solo, da dose aplicada, etc. Para soja, por exemplo, o metribuzin é seletivo apenas quando aplicado em pré-emergência, e mesmo assim a dose tolerada é dependente das condições edafoclimáticas.

Herbicidas não-seletivos

São aqueles que atuam indiscriminadamente sobre todas as espécies de plantas. Normalmente são recomendados para uso como dessecantes ou em aplicações dirigidas. Exemplos: diquat, paraquat, glyphosate, etc. Todavia, por meio da biotecnologia, é possível tornar um herbicida não- seletivo a seletivo para determinada espécie; exemplo: a soja trasgênica resistente ao glyphosate.

2. Quanto à época de aplicação

Pré-plantio

Quando o herbicida é muito volátil, de solubilidade muito baixa em água e, ou, fotodegradável, ele necessita ser incorporado ao solo; por esta razão, deve ser aplicado antes do plantio, como é o caso do trifluralin. Quando aplicado após o preparo do solo e incorporado antes do plantio, diz-se que este herbicida é aplicado em PPI, ou seja, aplicado em pré-plantio e incorporado. Também, no sistema de plantio direto (cultivo mínimo), alguns herbicidas devem ser aplicados antes do plantio. Esses produtos normalmente são não-seletivos, apresentam curto efeito residual e quase sempre são utilizados como dessecantes, visando facilitar o plantio e promover cobertura morta do solo; exemplos: glyphosate, paraquat, etc. Contudo, pode-se também misturar a eles, especialmente ao glyphosate, outros que possuem maior efeito residual no solo. Estes podem ou não auxiliar na dessecação das plantas, porém têm como objetivo principal garantir o controle inicial das plantas daninhas na implantação da lavoura; exemplos: flumioxazin, imazaquin, clorimuron-ethyl, imazethapy, metribuzin, etc.

Pós-plantio

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

Dependendo da atividade dos herbicidas sobre as plantas, eles devem ser aplicados em pré ou em pós-emergência das culturas ou das plantas daninhas. Quando são absorvidos apenas pelas folhas, eles somente devem ser aplicados em pós-emergência das plantas daninhas, pois muitas vezes, apesar de penetrarem também pelas raízes, quando atigem o solo,

são desativados (sorvidos). Estes produtos podem, ainda, ser não-seletivos para a cultura e, neste caso, devem ser aplicados antes da emergência (pré-emergência) desta ou de forma dirigida, como é o caso do glyphosate

e paraquat aplicados no plantio direto de milho, trigo, feijão, etc; ou, em aplicação dirigida em culturas perenes, como fruteiras, reflorestamento

e lavouras de café. Entretanto, se o herbicida é seletivo para a cultura,

ele pode ser aplicado em pós-emergência de ambas (plantas daninhas e culturas); exemplo: sethoxydim em tomate, feijão e soja, nicosulfuron em milho, metsulfuron-methyl em trigo, etc. Se o herbicida é absorvido pelas folhas e raízes, a sua aplicação em pré ou pós-emergência vai depender da tolerância da cultura e, também, das condições nas quais ele apresenta melhor desempenho, como é o caso do metribuzin, que pode ser usado em tomate em pré e em pós- emergência tardia ou após o transplante. Todavia, na cultura da soja somente pode ser usado em pré-emergência, pois em pós-emergência, até mesmo em subdoses, ele é muito tóxico à soja. Outro exemplo seria o herbicida atrazine, recomendado para as culturas de milho e sorgo. A este produto, quando utilizado em pós-emergência, deve-se adicionar a calda óleo mineral visando solubilizar parte da cera epicuticular, aumentando a sua penetração pelas folhas.

3. Quanto à translocação

Os herbicidas podem ser de contato quando atuam próximo ou no local onde eles penetram nas plantas; exemplos: paraquat, diquat, lactofen, etc. O simples fato de um herbicida entrar em contato com a planta não é suficiente para que ele exerça sua ação tóxica. Ele terá necessariamente

que penetrar no tecido da planta, atingir a célula e posteriormente a organela, onde atuará para que seus efeitos possam ser observados. Os herbicidas também podem se movimentar (translocar) nas plantas pelo xilema, pelo floema ou por ambos. Quando o movimento (translocação) do herbicida é via floema ou floema e xilema, ele é considerado sistêmico. Estes herbicidas sistêmicos são capazes de se translocarem a grandes distâncias na planta, como é o caso de 2,4-D, glyphosate, imazethapyr, flazasulfuron, nicosulfuron, picloram, etc. Estes produtos, quando usados em doses muito elevadas, podem apresentar ação de contato. Neste caso,

a ação do produto pode ser mais rápida, porém com efeito final menor,

porque a morte rápida do tecido condutor (floema) limita a chegada de dose letal do herbicida a algumas estruturas reprodutivas das plantas.

4. Quanto aos mecanismos de ação

É interessante que se faça distinção entre os termos usados rotineiramente quando se refere a herbicida: “modo e mecanismo de ação de herbicida”. “Modo de ação” refere-se à sequência completa de todas as reações que ocorrem desde o contato do produto com a planta até a sua morte ou ação final do produto; já a primeira lesão bioquímica ou biofísica que resulta na morte ou ação final do produto é considerada “mecanismo de ação”. É importante lembrar que um mesmo herbicida pode influenciar vários processos metabólicos na planta, entretanto a primeira lesão que ele causa na planta pode caracterizar o seu mecanismo de ação (THILL,

53

FIT 520 – Manejo de Plantas Daninhas

2003a).

Quanto ao mecanismo de ação, os herbicidas podem ser classificados em: reguladores de crescimento (auxinas sintéticas), inibidores de

fotossíntese (fotossistema II), inibidores da protoporfirinogênio oxidase (PPO), inibidores do arranjo de microtúbulos, inibidores da síntese de ácidos graxos de cadeias muito longas (VLCFA), inibidores do fotossistema

I, inibidores da acetolactato sintase (ALS), inibidores da EPSP sintase,

inibidores da glutamina sintetase, inibidores da acetil CoA carboxilase

(ACCase), inibidores da síntese de lipídeos (não inibem a ACCase) e inibidores da síntese de carotenóides (despigmentadores) (HRAC, 2005).

de

auxina

Esta classe de herbicidas é uma das mais importantes em todo o

mundo, sendo extensivamente utilizada em culturas de arroz, milho, trigo

e cana-de-açúcar e em pastagens. Historicamente, o 2,4-D e o MCPA são

os mais importantes, porque eles marcaram o início do desenvolvimento da indústria química (THILL, 2003a). Os herbicidas auxínicos, quando aplicados em plantas sensíveis,

induzem mudanças metabólicas e bioquímicas, podendo levá-las à morte. Estudos sugerem que o metabolismo de ácidos nucléicos e os aspectos metabólicos da plasticidade da parede celular são seriamente afetados.

Acredita-se que estes produtos interfiram na ação da enzima RNA- polimerase e, consequentemente, na síntese de ácidos nucléicos e proteínas (THILL, 2003a). Estes herbicidas induzem intensa proliferação celular em tecidos, causando epinastia de folhas e caule, além de interrupção do floema, impedindo o movimento dos fotoassimilados das folhas para o sistema radicular. Esse alongamento celular parece estar relacionado com

a diminuição do potencial osmótico das células, provocado pelo acúmulo

de proteínas e, também, mais especificamente, pelo efeito destes produtos sobre o afrouxamento das paredes celulares. Essa perda da rigidez das paredes celulares é provocada pelo incremento na síntese da enzima celulase. Após aplicações de herbicidas auxínicos, em plantas sensíveis, verificam-se rapidamente aumentos significativos da enzima celulase, especialmente da carboximetilcelulase (CMC), notadamente nas raízes. Por esse motivo, as espécies sensíveis têm seu sistema radicular rapidamente destruído. Em consequência dos efeitos desses herbicidas, verifica-se crescimento desorganizado, que leva estas espécies a sofrer, rapidamente, epinastia das folhas e retorcimento do caule, engrossamento das gemas

terminais e morte da planta (Fig. 1), em poucos dias ou semanas.

4.1.

Herbicidas

auxínicos

ou

mimetizadores

A
A
B
B

Figura 1 – Sintomas leves de intoxicação de plantas de algodão (A) e ação final do produto sobre plantas de Raphanus raphanistrum (B).