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TEXTOS O ato clinico de recepcao e triagem Martia Liicia de Moraes Borges Calderon! Pensar 0 trabalho de recepedo e triagem de pacientes na instituigi0 como ato clinico nos remete tanto a uma interrogagdo sobre o fazer psicanalitico no Ambito institucional quanto 4 questéo de se € quando aceitar um paciente em anilise. “A primeira entrevista com o psicanalista é antes de tudo um encontro com 0 nosso préprio eu, um eu que procura sair da falsidade. O analista estd presente para devolver ao sujelto, como verdade.” Maud Mannoni dédiva, a sua (propr delimitagao de um momento denominado re- cepeao e/ou triagem dentro dos atendimentos psicoterapicos realizados em uma instituicao é fato tido quase como ‘natural’ no funcionamen- to das clinicas psicol6gicas e congéneres, ainda que os modos nos quais esse momento se constifui possam variar muitissimo de um local para outro. Ao patticipar enquanto psicanalista de um trabalho desse teor, penso que faz sentido colocar algumas ques- tes: o que a psicanilise tem a propor a respeito? Estamos fazendo psicandlise ao receber pacientes para ‘tri-los’ para um futuro atendimento com outrem? Como a escu- ta psicanalitica nos instrumenta para esse propésito? 9% Uma primeira resposta nos remete ao sentido mes- mo deste texto. Faz parte do fazer psicanalitico 0 questionamento continuo do sentido do proprio traba- Iho, mao importa se no Ambito institucional ou no con- sult6rio, nao importa se dentro ou nao das consignas de uma psicandlise tradicional. Cfeio que essa postura questionadora €, mais do que til, imprescindivel na ‘nossa pritica cotidiana, e desde esse lugar a psicandlise tem muito a contribuir Mare ict de Mores Borges Calderon starts, mar 3 opened Pacnsioe dest Soden Sapeie ena ‘tioe clic da Cie Pacougca ce mes tua A aura nacre ts elegte da Clinica, ve=pecinnans 2 Ca Pv, Libana Carerch « "ya artis, pol ual mprocadva paofrato hn 09 tx, Percurso n° 20 1/1998 TEXTOS Entretanto, como essas ques tes niio esto aqui colocadas so- mente de um ponto de vista te6ri- co, mas encamadas em uma expe- ri€ncia institucional concreta, con- rapidamente. A triagem ¢ a recepgao do ponto de vista da instituicao Em 1994, no bojo de uma gran- de reformulacio de seu trabalho, a Clinica Psicol6gica do Sedes contra- tou uma equipe para fazer a recep- ‘40 € triagem dos pacientes. Esta Contratacao foi considerada © pri- meiro passo em direcdo a uma gran- de transformacao desejada, qual seja, a transformagio de uma clini- ca-escola - cujo principal foco se situava na formagao do aluno- psicoterapeuta - em uma clinica de servigos, na qual a prioridade deve- ria ser um atendimento de boa qua lidade centraclo nas necessidades de seus usuitios. ? Esse modo de formular a ques- tGo se baseia em uma concepcio segundo a qual a instituicao - em geral, no s6 a Clinica do Sedes - funciona como um corpo que atua para além dos seus agentes, ou seja, nunca existe uma unidade perfeita entre o discurso institucional mani- festo e o trabalho efetivamente n lizado. Dito de outra forma: a insti- tuicio - desde a sua estrutura mais geral de funcionamento - produz efeitos que ultrapassam os resulta- dos da soma dos trabalhos realiza- dos no seu interior. E a partir desse referencial que ganha sentido fazer a discriminacao entre 0 que a instituicdo almeja com esse trabalho de triagem e recepcao € 0 sentido que esse momento pode ter para cada tratamento psicote- rapico particular. No que diz respeito ao viés institucional, uma primeira respos- ta, como proprio nome ‘triagem’ diz, pode ser: a instituicao quer co- Jocar os limites do que pode ou nao Toda instituigao de atendimento psicoldgico tende a conformar a demanda de seu usudrio as suas proprias concepgdes de tratamento, de satide, de doenga mental. Assinalamos uma marca impor- tante deste trabalho: ‘constituir-se como © primeiro passo de uma mudanga’, perguntamos pelo seu sentido e, com a intencao de pen- sar 0 que um psicanalista tem para contribuir em tal situacao, situamos esta questao de dois pontos de vis- ta - 0 da instituigio e o do trata- mento psicoteripico de um deter- minado paciente. receber, ainda que na pritica esses limites se construam em parte, no proprio ato de recebimento dos pacientes. Af adentramos em um terreno fascinante € polémico, que € o de ‘construir’ demandas (ou adequé-las) para o trabalho que te- mos a oferecer. Se é verdade que essa questo perpassa qualquer tra- balho clinico, nao ha ctivida de que se coloca de forma especialmente 94 presente nos atendimentos psico- terépicos que acontecem no ambi- to institucional. Toda instituigio de atendimento psicol6gico, de forma mais ou menos explicita, tende a conformar a demanda de seus ust tios de acordo com suas préprias concepgdes de tratamento, de sati- de e doenga mental. No caso espe- cifico da Clinica do Sedes esta ca- racteristica se mantém, ainda que esta instituica0 tenhia muita dificul- dade em fazer estas delimitagoes para si propria. Dificuldace que, por outro lado, parece ser inerente a todo trabalho deste tipo. Para além da experiéncia em tela, acredito, baseada em anos de experiéncia de trabalho em institui- ‘g0es, que um dos lugares onde se presentificam os sintomas institu- cionais € onde os conflitos apare- cem da maneira mais gritante € a ‘porta de entrada’; lugar entreo den- tro € 0 fora da instituicio, lugar de mediacio entre a clientela e 0 ser- ico prestado. Como veremos, essa posicdo entre € privilegiada para detectar as contradigoes entre as metas institucionais e a sua pratica efetiva, De qualquer forma, a falta de clareza quanto aos’ critérios institucionais para decidir pela acei- tagdo ou recusa de um paciente, assim como 0 fato dos recursos cli- nicos disponiveis constituirem um mapa complexo, mutante e nao raro desconhecicdo pelos propios agen- tes institucionais, torna a tarefa de recepcao € triagem ardua e, por vezes, no limite do impossivel. No minimo, questiona a realizagao de tal trabalho por profissionais dife- rentes daqueles que indo realizar os alendimentos psicoterdpicos. Essas teflexdes tornam inevita- vel a pergunta: ‘quais so os critéri- os para decidir pela aceitagio ou recusa de um paciente?’ Critérios que os profissionais encarregados de tal trabalho deveriam - teoricamen- te - ter claros, com vistas a bem cumprir este primeiro objetivo da instituicto de 'selecionar’,‘separar’ Mas também ‘critérios’ que, mesmo quando nao explicitados, subjazem a0 nosso fazer clinico cotidiano os remetem a quest6es sobre os limites de nossa poténcia clinica. Se © quando aceitar um paciente em andlise, eis um problema que se recoloca a cada primeira entrevista € sobre 0 qual acredito que muito tem a ser dito. Em um texto denominado ‘En- saio de categorizagao da entrevis- ta’, Bleger nos conta que numa certa Epoca a Associaclo Psicanali- tica Argentina se props, com o in- tuito de cumprir uma funcao soctal, a atender a precos médicos pacien- tes que estivessem dentro das se- guintes condigdes: 1) pacientes com problematicas ou estruturas nfo graves, ou seja, que nao apresentassem clinicamente 'perversdes, psicoses, psicopatias’ que pudessem se beneficiar de um ano de tratamento psicanalitico - dificil 6 imaginar como se pode sa- ber disso a priori; 2) pacientes sem muitos recur sos econdmicos ; 3) pessoas cujo trabalho envol- vyesse contato com outros seres hu- manos - professores, enfermeiros ~ objetivando-se com isso que esse ‘um ano de psicanilise’ ajudasse também, ainda que indiretamente, lessas pessoas com as quais 0 pact ente tivesse contato profissional Nao estou citando essa experi- éncia para discuti-la, mas para pen- sat a questio dos critérios. Ainda que questionavel, temos af um cri- vo a partir do qual a triagem dos pacientes era realizada. Atualmente, na Clinica do Se- des, niio se tem critétios claramen- te definidos. Desde 0 momento em que a resposta a esta pergunta dei- xou de ser simples ou unicamente ‘os carentes de recursos financeiros para custear um tratamento particu- lar, 0 que existe € a clareza de que a definicao de uma populacio-alvo € urgente ¢ importante. Parece que tal decisdo,porém, vern sendo em parte protelada exatamente pelas dificuldades que implica. Vejamos a experiencia argentina: a popula- Slo-alvo , teoricamente, definida de modo claro, Porém, na pritica, como decidir em algumas entrevis- tas que fulano vai se beneficiar de um ano de psicandlise, enquanto heltrano nao? E mesmo ‘o diagnds- tico de estrutura’, pensado por al- ‘guns analistas lacanianos como fun- ao das entrevistas preliminares, seri que pode ser alcado ao nivel de um ctitétio de aceitacio ou re- cusa? Via de regra, apds 0 processo de tecepcao dos pacientes, os triadores fazem suas hipoteses diagnésticas e chegam, pelo menos, a uma primeira definigio mais ge- nérica do tipo: ‘neur6tico’, ‘neuréti- Suspeito que essas questoes em. parte se mantenham, mesmo apés a definicZio de uma populagao-alvo, ‘mesmo quando a instituiclo puder ter maior clareza de seu proprio projeto de insercao no campo da Satide Mental (neste momento, nes 1a cidade, neste contexto socio-poli tico-econdmico). Felizmente, as pes- soas resistem a ‘se encaixar’ em cri- Aérios pré-estabelecidos, ou em ou- tras palavras, a clinica nos confron- tao tempo todo com as nossas ten- {ativas de classifica, Possivelmen- te af esteja uma das razdes pelas quais esse tipo de dificuldade é ine- rente ao nosso trabalho. Voltemos aos objetivos da ins- tituicao com relagao a esse momen- Felizmente, as pessoas resistem a se encaixar em critérios pré-estabelecidos: a clinica nos confronta o tempo todo com> nossas tentativas de classificagao. co grave’, ‘psicético’, etc, Evidente- mente, este tipo de hipétese funci- ‘ona como norteador dos encami- nhamentos possiveis. Ainda assim, © que ocorre em certa medida é que a falta de critérios, a ambigitidade da instituigio a esse respeito, aca- bam por ter um aspecto de abertu- ra, Nao ter que fazer de nossas hi- poteses algo tio poderoso € tio decisivo para o destino institucional de cada paciente acaba por dar mais liberdade nesse trabalho de primei- ra escuta, Ainda que existam situa- (Ges nas quais uma delimitagzio mais precisa por parte da instituigaio se- ria extremamente benvinda, pois resolveria conflitos que de outro ‘modo ficam sob a responsabilidade da decisio pessoal dos triadores. 95 to de recepeao e triagem. Podemos, grosso modo, falar de mais duas sobre ‘qual pretendem se tratar, ¢ formali- zara suia entrada na Clinica: a par- do primeiro encontro de triagem, © demandatitio do servigo passa a ter um prontudrio, um némero, seu ome passa a constar no computa- dor como ‘paciente ativo’. E interessante notar 0 quanto ‘esse momento da entrada na instt- tuicao fica marcado - para a insti- tuigdo e para o paciente - como algo separado e diferente do tratamento ‘psicoterdpico buscado. & como se fosse uma espécie de ‘ritual de en- trada ou passagem’. Resta ver com que efeitos para os pacientes. TEXTOS Alguns analistas se perguntam sobre o sentido de separar as cha- ‘madas ‘entrevistas preliminares’ do tratamento psicanalitico propria- mente dito. Se é verdade que entre uma relagao analitica © 08 outros tipos de relagdes humanas ha um corte indiscutivel, € necessario pen- sar se © mesmo pode ser dito no que diz respeito as primeiras entre- vistas € 0 proceso de anéilise. Reflexto que também cabe na instituicao, sobre © sentido de se- parar o atendimento de um pacien- te em um momento de recepcao € triagem € um segundo momento de iratamento propriamente dito. Seria possivel cumprir os objetivos institucionais descritos a partir do proprio atendimento realizado, des- de 0 primeiro momento, pelos psicoterapeutas que iro se encar- regar dos diversos casos? Em rela- cdo A realidade desta experiéncia concreta, uma resposta se coloca rapidamente: se os atendimento: até muito recentemente, eram rea- lizados por profissionais que nao pertenciam & propria Clinica, mas sim aos cursos de especializagao, entio esta deveria manter um con- junto de profissionais contratados para efetuar formalmente a entrada do paciente € com isso possibilitar alguma organizacao dos servicos prestados. Aqui, o ‘ritual de entra- da’ ganha importncia quase que e tritamente do ponto de vista do fun- cionamento institucional. Contudo, a situagio é bem mais complexa. Do ponto de vista do tratamen- to psicoterapico - ou do ponto de vista do paciente - pode-se formu- lar objetivos fundamentalmente cli- nicos para esse trabalho: 0 momen- to da recepao serve para receber © futuro paciente da ‘melhor forma possivel’, 0 que significa abrir um espago de acolhimento para 0 seu sofrimento, propiciando um bom jo de vinculo com a instituicio; serve para ‘afinar’ a sua demanda, ou para ajudar a constituir uma de- manda mal formulada ou inexisten- te. Ou ainda, antes disso, para de- tectar se existe tal demanda (ou al- ‘guma condigdo para que se consti- tua, ou seja, 0 paciente traz alguma questao a seu proprio respeito, colo- ca-se algum enigma, se angustia?) € se existem condicées para um atendimento psicoterapico ou psi- canalitico, Serve também para um primeiro diagnéstico (com que ob- jetivo?), assim como para definir, entre variados recursos psicoterd picos, qual o mais indicado para um paciente em particular. A palavra preliminar supde que as primeiras entrevistas estejam sempre preliminares a algo. A partir de tanta ‘serventia’, muito pode ser perguntado. Por exemplo, que relacao mantém a in- dicagio de um ou outro recurso ~ psicoterapia em grupo ou individu- al, por exemplo - com as hipéteses diagnésticas que se formulam nes- tes primeiros encontros? Até onde deve © pode ir esse primeiro mo- mento da relagio do paciente com a instituigao? © que esse momento tem o poder de determinar do pon- to de vista do futuro atendimento pretendido? Em suma, no que con- siste de fato (e com que efeitos) essa ‘porta de entrada’, lugar simultanea e paradoxalmente na borda € no centro da vida institucional? 96 ‘Primeiras entrevistas’ ¢ ‘en- trevistas preliminares’ ‘Triageme recepedo: parece que os objetivos da instituicao centram- se primordialmente no primeiro ter- ‘mo, numa dimensio mais onganiza- tiva € controladora’, enquanto do ponto de vista do atendimento do paciente o que importa mais € 0 modo pelo qual se da a passagem por esta ‘porta de entrada’, Porque mesmo um lugar de passagem, no qual o paciente nao permanecerd Pode ser uma passagem meramen- te burocratica marcada somente por preenchimentos de formulirios ¢ informagoes. Pode E dimensio clinica, nao-burocratica, ‘que a psicandlise pode nos dar con- tribuigdes sobre o sentido e impor- ncia dessas primeiras entrevistas. Aponto que nao é ingénua a escolha da expressio ‘primeiras en- trevistas’. Por vezes se encontra, nos escritos psicanaliticos sobre o tema, a expresso ‘entrevistas prelimina- tes’, A palavta ‘preliminar’ implica a suposicio de que as primeiras entrevistas sejam sempre ‘prelimi- nares’ a algo (@ andlise propriamente dita ou a psicoterapia, & demanda da anilise ou ao surgimento da transferéncia etc). No entanto, esse momento pode ser, 20 contrario, exatamente aquele no qual se de- tecta que um tratamento psicote- ripico ou psicanalitico nao € possi- vel ou desejavel. Nunca & demais Jembrar que 0 atendimento psico- teripico no é uma panacéia uni- versal para todos os males, ¢ que a psicanilise (ou qualquer outra linha psicoteripica) nao detém o privil gio da cura do softimento psiquico humano. Na realidade, acredito que as primeiras entrevistas podem ou nao sero momento preliminar a qual- quer tipo de encaminhamento futu- ro, € muitas vezes j propiciam em si mesmas um resultado terapéutico. E desejavel que nao sejam tomadas pelo entrevistador, @ priori, como algo que obrigatoriamente vai an- teceder um acontecimento futuro Em algumas situac6es, esses primei- 108 contatos podem, inclusive, ser um ‘acontecimento’ do ponto de vista deleuziano, Nessa concepgao filoséfica, esse termo designa uma ‘irrupgao’, portanto da ordem do acaso. # atra” vés do acontecimento que se pode ter acesso ao real ou dito de outra forma, 0 acontecimento € a irnupedo do real enquanto uma ruptura com © campo da repeticao*. Opera-se aqui com uma dimensao do real como possivel de presentagao ¢ apreensao, € portanto, com uma dimensao diferente da’ concepcao kantiana para o qual o real é im- possivel de ser apreendido e apro- xima-se do conceito de ‘das ding ein Sich’, isto é, ‘da coisa em si’ que € inatingivel. Neste contexto pode- se ter acesso somente ao fendmeno que € aquilo que ‘aparece’ enquan- fo representacao da ‘coisa em si. Ja, “nessas concepgdes mais atuais da filosofia € da ciéncia, ... um real pode ser dito como aquilo que se introduz na ‘realidade" produzindo nesta uma ruptura ¢ instaurando a possibilidade de novos aconteci- mentos”* E nesse sentido de se estar ‘aberto’ para a irrupgo do novo, do inesperado, do que 0 acaso pode trazer como um ‘fora do script’ que entendo uma posi¢io desejivel do terapeuta nas primeiras entrevistas, posicao que, ao nao definir a priori que seu trabalho € sempre prelimi- nar a outro, abre o campo de escu- ta inclusive para a possibilidade deste momento ter um sentido em si mesmo, independente de sua con- tinuidade. Enfim, uma primeira escuta nao obrigatoriamente antecedente a0 que quer que sefa pode também ter 0 sentido de nao cooperar com @ constructo de falsas demancas psicoterdpicas na hipstese absurca = € no entanto, com a qual atuamos muito freqtientemente - de que to- dos aqueles que procuram uma Cl nica Psicol6gica (ou 0 nosso con- sult6rio)) podem e devem se ben ficiar de um atendimento nos mol- des dos recursos que temos para oferecer. ‘A dimensio clinica das primeiras entrevistas Francoise Dolto® nos ensina o que nao se deve fazer na primeira entrevista: dar opinides ou conse- hos, influenciar, moralizar, estimu- Jar, agir com as suas palavras como se fosse um medicamento, suges tionar, enfim acrescentar ‘um novo dizer’. A especificidade do analista no primeiro contato com o pacien- te Go contratio do médico, do edu- cador etc) 6 @ sua escuta e a sua receptividade. Tal escuta € espec- al, diferente das outras, porque faz ‘com que o discurso do entrevista- do se modifique, adquira um senti- do novo aos seus proprios ouvidos. Isso ocorre porque aquele que ouve clinicamente ‘nao di razto nem a retira; sem emitir juizo, escuta”” Fssa maneira de escutar a0 nao res- ponder no nivel manifesto do sin- toma, remete o entrevistado a sua propria verdade, Nos primeitos encontros, nio sao os sintomas, sejam aparente- mente positivos ou negativos, gra- Yes ou no, que importam primor- dialmente; também nao é a angti tia ou a queixa, mas 0 que tudo isso significa para aquele que esti ex- primindo através dessas manifesta- Ges “o sentido fundamental da sua dinamica assim presentificada.."" Compartilho do pensamento de que a fungio essencial das pri- meiras entrevistas € permitir que a angistia, 0 sofrimento eo pedido de ajuda sejam como que desloca- dos para uma questio pessoal es- pecifica do sujeito, questio que o remete ao seu proprio desejo. Ain- da que fique a chivida se é possivel atingir tal objetivo nos primeiros enconttos com o paciente, a possi bilidade desta transformacao s pode ser obtida através cle uma es- ” cuta atenta € de uma ndo-resposta direta a demanda, a qual costuma tomar a forma de um pedido para que atuemos para solucionar o sin- toma € acalmar a angiist A especificidade do analista no primeiro contato com o paciente é a sua escuta e a sua teceptividade. Pensando de outro ponto de vista, porém, os primeiros contatos com 0 paciente servem também para se saber se a pessoa € ou nao um candidato a um tratamento psicoterdpico (psicanalitico ou nao), © af retomamos a funcio diagnéstica dese momento. Seja para decidir sobre a possibilidade de tratamen- to, seja para que se saiba um pouco melhor ‘onde vamos nos meter’. Ou ainda para saber, ao menos um pou- co, para onde uma andlise ou uma psicoterapia podem conduzir 0 pa- ciente. Esta tiltima questao diz peito a uma ética, como nos diz Serge Cottet?, Devemos nos pergun- tar antes de aceitar um paciente, ou seja, nas entrevistas iniciais: para onde o tratamento vai levar 0 paci- ente? O que ele tem para superar? a partir do tipo de atendimento que se tem para oferecer, 0 que pode ocomer com o seu sintoma - sera reforcado, tender a desaparecer? Sto questdes que dentro da psicandlise, supéem uma base ted- rica segundo a qual um tratamento ico pode, para algumas pes- soas, nio somente no ser benéfi- TEXTOS co, mas também prejudicial, Embo- ra aqueles que se encaixem numa ‘ou noutra categoria variem confor- me a concepcao te6rica. Aceitar ou nao psicdticos em anilise, por exemplo, é questio polémica até ‘mesmo no interior da mesma abor- dlagem tedrica, como no caso dos lacanianos entre os quais existem aqueles que niio aceitam psicéticos para andlise, enquanto por outro ado, existem os que trabalham com psicsticos e justificam teoricamente tal opeio, Considero relevante esse tipo dle questo, ainda que por vezes me areca que estas concepcoes ten- dam a colocar de forma quase oni- potente nas mios do analista 0 po- der de decisio quanto 4 possib dade, necessidade ou desejabilidade de um tratamento. Por outro lado, pode-se pensar que cada analista define a ‘analisibilidade’ de um de- terminado paciente a partir de sua propria capacidade de andlise (ca- pacidade ou condicto de possibili- dade de andlise daquele analista em relacio aquele especifico paciente) Portanto, tal decisio deve ser mes- mo sempre da responsabilidade do profissional.!" Agora: se, no trabalho de con- sult6rio, a decisao de aceitar ou nao um determinado paciente para a lise, psicoterapia ou simples entre- vistas cabe a0 psicoterapeuta, nao € assustador pensar que na institui (@o pode-se viver (€ vive-se) a si- tuagao de receber um paciente triado por outrem e que se , a prin- Gipio, obrigado a atender? Esta situ- agao recoloca o problema da recep- ‘a0 dos pacientes ser feita por quem nao vai seguir 0 atendimento, € que traz para esse trabalho um peso uma responsabilidade incomensuré- No limite, se fica claro que di- ferentes perspectivas te6ricas pro- poem critérios que podem ser até opostos para aceitar um paciente para tratamento, como lidar com isso em uma institui¢io onde con- vivem miiltiplas abordagens e onde a recepcao é geralmente efetuada por um profissional de linha teGrica diversa daquele para 0 qual 0 caso ser encaminhado? Conta-se"* que Freud nao fazia entrevistas preliminares ou iniciais. Propunha uma espécie de periodo de ensaio. Ou seja, colocava imedia- tamente os pacientes no diva ¢ Ihes comunicava a regra do jogo. Depois de pouco tempo, se tal procedimen- to nfo resultava em uma anilise, suspendia os enconttos. Conta-se que Freud nao fazia entrevistas preliminares ou iniciais: propunha um periodo de ensaio. Outra maneira de encarar esse momento, segundo Suzanne Hommel", é dedicé-lo particular- mente a propiciar que o paciente descubra que o drama no qual vive ndo € somente causado por causas exteriores. Em outras palavras, 0 sujeito ndo é somente uma vitima, ele mesmo constréi a sua forma de estar no mundo € nas relagoes, ain- da que nao conscientemente. Em suma, num certo nivel, seu drama fencial provém de si mesmo, iio como alguém que tenha toma- do uma decisaio, mas como um “su- Jeito inconsciente arrastado por algo ‘que o supera”. Idéia que a clinica confirma 0 tempo todo: quem nao consegue se implicar no préprio softimento nao petmanece em tra- tamento psicoteripico, psicanalitico ou nao. Alids, o trabalho na institui- ao permite uma visio privilegiada esse sentido. 98 Enfim, o analista esta presente na primeira entrevista, no para tra- zer solugdes, mas para permitir 40 entrevistado que sua questo se for- mule © para remeter essa questio melhor formulada ao préprio sujei- to, Acredito que a escuta psican: litica instrumenta o profissional que efetua a recepcao dos pacientes, seja na instituicao ou nao. Ainda que os problemas da separacdo entre es etapa € 0 atendimento propriamen- te dito possam no se resolver por completo, creio que uma recepgio nestes moldes, enquanto ato clini- co, subverte a dicotomia entre es- ses dois momentos, possibilitando que o paciente inicie seu tratamen- to psicoterépico com um posicio- namento diferente daquele no qual, num primeiro momento, chegou 2 instituigao. Dito com outras palavras, a pri tica confirma que as primeiras en- trevistas constituem esse momen- to delicado € fundamental, onde, se uma escuta clinica péde ocorrer, pode se dar um encontro deste ‘pa- ciente em potencial’ consigo mes- ‘mo, ou melhor, um encontro com ‘um ‘outro em si que se ignora’. Quando alguém solicita auxilio psicoterdpico, ha uma busca de um ‘outro’ - seja o psicoterapeuta no seu consultério ou uma instituicao - 0 qual se supée saber algo do seu sofrimento e poder traté-lo. A escu- ta que nao di solucées, mas remete aquele que sofre a esse ‘ignorado de si mesmo’, possibilita uma pri- ‘meira mudanga de sua posicio em telacdo & determinacao deste sofri- mento € em relacao & sua propria ‘expectativa do que esse ‘outro’ bus- cado pode the dar. Essa mudanga de lugar implica uma postura me- nos passiva do sujeito em relaga0 & sua queixa ou sintoma, que assim se fornam uma questo que Ihe diz respeito, nao mais como vitima, mas como sujeito ative em seu proprio drama, Certamente, nao ‘se pode afirmar que esses objetivos sejam sempre alcangaveis em primeiras entrevistas, podendo mesmo cons- tituir 0 efeito de anos de trabalho analitico. Ainda que seja como pi meiro paso porém, uma guinada nesta diregao pode e deve ser 0 re- sultado esperdvel dessa primeira escuta, A delimitacao do tempo da primeira escuta Mas como delimitar esse mo- ‘mento particular, que vai desde 0 instante em que a pessoa se encon- tra com o terapeuta pela primeira vez até aquele no qual comeca, de fato, 0 seu tratamento psicoterapico? Do ponto de vista psicanaliti- co, por vezes se diz. que essa dcli- mitagio se dé pelo advento da trans- feréncia; por vezes, que o analista 86 pode Considerar a possibilidade de uma anilise apés compreender ‘a demanda inconsciente que Ihe é dirigida. As entrevistas iniciais seri- am entio 0 tempo para esta com- preenslo, assim como o tempo propiciador da transferéncia que toma a relagio analitica possivel Transportemos estas questoes para o Ambito institucional, lembran- do que entre esse momento parti- cular € 0 ttatamento propriamente dito existe uma descontinuidade diversa daquela que ocorre no con- sult6rio do psicanalista. O paciente que procura uma clinica psicol6gi- ca, ainda que tenha em maior ou menor grau uma ‘pré-transfer ‘com a institui¢ao escolhida, ten- de a fazer um primeiro vinculo transferencial com o agente: institu- ional que 0 recebeu em primeiro lugar. “Receber’ essa fala em softi- ‘mento, ento, nao seria justamente nao se furtar a ocupar esse lugar (transferencial)? Nao & a partir dat que se pode ‘acolher’ um pedido de auxilio a0 mesmo tempo que se apresenta o cardter da implicagio que a instituicao pretende frente a essa demanda?” Certamente, a ocupacio deste lugar é imprescindivel e mesmo ine- vitivel. Mas, se esse movimento € necessitio, deve ser feito também ‘um outro, que permita ao paciente remeter a si mesmo e A sua questo para ‘um lugar de futuro proces- samento™ que € 0 atendimento psicoteripico, uma interpretago. propiciadora de uma abertura do/ em direga0 a0 insconsciente, esse ‘ignorado de si, ‘mas também interpretagio que leva em conta que as questées suscita- das terio um outro tempo/espago de elaboragio. E por fim, que nao ignora que existem neste trabalho O paciente que procura uma clinica psicolégica tende a fazer um primeiro vinculo transferencial com o agente institucional que o recebeu. Esse tempo/lugar de passagem - a recep¢io e triagem - se constitui em um ‘ocupar/desocupar’ uma posigio, em um ‘acolher/remeter para’, em um ‘entre’ a queixa inicial € a formulagtio mais clara de uma demanda, ou um ‘entre’ o paciente € 0 seu tratamento psicoteripico que acaba por ter 0 poder de facili- tar, obstaculizar ou até impedir um Percurso institucional futuro. Nas palavras felizes de uma triadora, o que pode ter esse papel facilitador, propiciador de um futu- ro atendimento psicoterapico profi- cuo “€ a postura relé do triador que recebe € remete as questOes para outro lugar e tempo de elaboragio, que aceita a transferéncia e que permite que ela continue se trans- ferindo...” Em suma, o trabalho de recep- Ao e triagem enquanto ato clinico € aquele no qual, a partir de uma escuta clinica sustentada por um lugar transferencial, o terapeuta aco- Ihe aquele que chega em sofrimen- to € 0 seu pedido de ajuda sem res- ponder diretamente & queixa mat festa, mas devolvendo-a modifica- da ao sujeito. Devolugio que supde 99 dimens6es informativas, diagnés- ticas, “triadoras” mesmo, mas que nJo precisam necessariamente tra- vera marca de um burocratismo que se contrapde a uma postura de ‘es- cuta receptiva’e a uma atividade cli- nico-interpretativa, As transformagdes ocorridas na instituigao, Na experiéncia concreta obje- to de nossa reflexao, ou seja, 0 tra- balho de recepcao e triagem reali- zado na Clinica do Sedes entre 1994 ¢ 1997, a constituicio desse momen- to enquanto ato possibilitador de transformagio teve o sentido no s6 de remeter 0 paciente a si mesmo, A sua questo re-formulada e ao atendimento futuro assim re-signifi- ‘cado -mas também, e de forma mais fundamental do ponto de vista do funcionamento institucional, teve 0 efeito inusitado de questionar pro- fundamente 0 tipo de clinica que se fazia nesse tempo posterior. Esse ato clinico trouxe consigo a explicitagao de que o ‘tempo de processamento futuro’ na verdade TEXTOS processava muito pouco, € nao ga- rantia’a continuidade do fazer clini- co posto em movimento nas primei~ ras entrevistas, Ja se assinalou que a contra- lacio de profissionais para realizar uma recepeao e triagem cuidadosa, desburocratizada € que levasse em conta principalmente a necessida- ririo da Clinica do Sedes meio passo’ de uma trans- ‘mais ampla. O que nao se podia saber a priori é que esse ‘primeiro paso’ viria a ocupar um lugar dle visualizagao de um funcio- namento institucional paradoxal onde a atividade clinica dos ttiadores, em vez de primeira eta- Pa, constituia-se, muito freqtiente- mente, na 1inica etapa na qual a clinica se fazia presente nos atendi- mentos, A constatacio da freqiiente descontinuidade entre esse ‘primei- 1o momento’ € o ‘atendimento futu- 10’ foi se dando, seja porque, a par- tir do interesse particular que um ‘ou outro caso despertava, os triadores procuraram acompanhar fesse percursos institucionais ‘pos’ recepeo e triagem, seja porque os proprios pacientes procuravam aqueles que os receberam pela pri- meira vez, cobrando um atendimen- to para o qual haviam sido remeti- dos no final dessa primeira etapa. De qualquer forma, foi ficando cla- ro que nao havia sentido manter essa delicada ‘escuta clinica’ sem a garantia de sua continuidade, neces- siria para a grande maioria dos ca- sos atendidos. Em grande parte como con- seqtiéncia de tais constatagoes, atu- almente nao se tem mais uma equi- pe encarregada exclusivamente da recepgio e triagem. Entre diversas formas de trabalho hoje existentes na Clinica do Sedes, constituiram- se equipes clinicas formadas por profissionais com variados tipos dle insergdo institucional (coordenado- res de equipe, estagiarios, etc) nas ‘quais se pretence que os atendimen- tos, incluindo a primeira recepeio € escuta dos pacientes, ocorram de forma menos cindida €, por conse- guinte, com maiores possibilidades de continuidade.” Atualmente nao se tem mais uma equipe encarregada exclusivamente da recep¢ao e triagem. Concluindo, seja pelo fato do lugar profissional de ‘porteiro’ favo- recer a visualizago das questoes, conflitos e sintomas da instituicao, seja pelo fato de este lugar ter sido ‘ocupaco por quem teve condicdes de escutar para além do discurso institucional manifesto, 0 fato é que talvez.o ato clinico mais efetivo que essa escuta pOde propiciar tenha sido 0 apontamento de uma dicotomia muito conhecida, e que, actedito, insiste enquanto sintoma das instituigdes ‘psi’. Trata-se da dicotomia entre 0 saber - cursos, supervisores, lugar te6rico da cli ca - © 0 fazer - Clinica, alunos- terapeutas, lugar burocratico e ad- ministrative montado de forma a ‘servir’ ao ‘saber’ sem poder se apro- priar do mesmo. Dicotomia que absolutamente nao se resolve ‘por decreto’, ou seja, por um discurso institucional de que uma clinica-es- cola deve se transformar em um cli nica de servicos, que 0 paciente suas necessidades so mais impor- tantes que as necessidades de for- macao dos alunos. 100 A leitura institucional, possibi- litada em grande parte a partir da experiéneia vivida pela equipe de triagem, encontrou entre os traba- Ihadores da Clinica terreno fértl para refletir e questionar a estrutura exis- tente: Sem deixar de apontar o fato de que esse questionamento tam- bém ocorreu desde outros higares de insercao na Clinica, a possibili- dade da instituigao se colocar como Permedvel 20s apontamentos feitos por casio da avaliagio do primei- roano deste trabalho propiciou uma profunda revisio de sua estrutura de funcionamento. Esta revisio esti ainda em curso, porém mostra a potencialidade transformadora do fazer clinico, seja no mbito do tra- tamento analitico individual, seja no Ambito da instituigao, NoTAS 1. Addferenga ene o que unos aqui denon ando clncascore cea de wees eee 2 quent sobre a8 quae este exo 0 al se ‘droga, Patt malo clea sobie 9 projeo de tansfomasto da Cline, re textos podem ser ‘onsultdos: "Novo Projeto para 2 Clinica Paicologea do tnt Sede 1994, "Ua Clink Ptcoloe pars este inal de Soul, 1990) ©, "Boe que lina do Sees Supima Os primeizos encontram-te disponivels na BiblcesMacre rina no lt Sees eo Simo fet pbbeado no Bolt do Deparment te Pande de 0298 2 Jeger, Tomasde Paco, entwoitase gripes, $0 Plo, Matis Fontes, 19), ‘3. Poderimes der aver que ase evidencé ua ‘densi ‘lsciploa” incene s instugdes? 4. Alde's tuna e © Pavan, Put, un orgie frac ptcanatica no compass ent corpo objeto, Pewepals, Vases 1935, ‘x de’ Lima e Pavan, op p50 F. Dali, “Precio” 2 ME Alanna prima nurs om cade, Roe un, cans, ‘se F, Dakin, op. cy. F. Dok, op. ety. 12 5. Gouet. "tas enzevitas preliminares, Mesa Redonda” inG. Clases et ali Aeto ¢ “Invepretaton, Bens Nes, Bone Menai, et 10. Devo essa idea a tuna Cates 12'S Hommel "Lat enrevisas preiinae, Mesa Redonda op. 18S Homma op. et, p05, TEN, Ganhito, “Rela de Ttgum de Ado, texto itegrie do ReltinioAnual do Sr de Tecapedo.e Triagem da Cinca Psicoligia do ‘Scr Stembo de 199% Ese esto enone. ‘ dponivel na Secrets de Clinica. 15, Gant op. ch 16.1, Canoea Relatdo de Tragein de Ackitor, op. Mais etbes podem ser vss no texto co "Pop que a Cline do Seses mado”