Suzana, Letícia, Paula e Lúcia uma história de dor, amor e perdão Tânia Gonzales Suzana, Letícia, Paula e Lúcia uma história de dor, amor e perdão 1ª edição São Paulo Edição do Autor 2009 Gonzales, Tânia, 1971 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia-uma história de dor, amor e perdão / Tânia Gonzales – São Paulo, 2009. ISBN 978-85-910249-0-2 1.Literatura Brasileira CDD-B869 Copyright © 2009 Tânia Gonzales contato com a autora: gonzalestania.gonzales@gmail.com http://romancegospel.blogspot.com É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio, sem a autorização prévia da autora. Obra protegida pela Lei de Direito Autoral nº 9610/98. As citações bíblicas são extraídas da edição Revista e Atualizada- AlmeidaSociedade Bíblica do Brasil. Sumário Prólogo ♥ 11 1-Aniversário ♥ 13 2-Perfumes ♥ 21 3-Regime ♥ 31 4-Informações ♥ 37 5-R.E.M.A. ♥ 48 6-Problemas ♥ 57 7-Um presente ♥ 65 8-Diagnóstico: Anorexia ♥ 78 9-Primeiro beijo♥ 88 10-Trufas e CDs ♥ 99 11-Conversando ♥ 109 12-Café especial ♥ 122 13-Por um fio ♥ 131 14-Boas notícias ♥ 146 15-Apaixonados ♥ 157 16-Quase um beijo ♥ 167 17-Decepção ♥ 178 18-Revelação ♥ 190 19-Reação inesperada ♥ 202 20-Treinamento ♥ 219 21-Aconselhamento ♥ 231 22-Lúcia ♥ 242 23-Namoro curto ♥ 249 24-Tristeza e alegria ♥ 256 25-Rindo à toa ♥ 268 Sumário 26-De volta ao passado ♥ 280 27-A verdade ♥ 294 28-Viagem ♥ 308 29-Saudade ♥ 322 30-Expectativa ♥ 334 31-Lúcia? ♥ 346 32- Novamente o passado♥ 355 33-Campos do Jordão ♥ 365 34-O pai de Lúcia ♥ 371 35-Nunca fui beijada ♥ 381 36-Valter ♥ 393 37-Suzana e Lúcia ♥ 405 38-Novidades ♥ 411 39-Casamento ♥ 419 40-Lua de mel? ♥ 432 41-O retorno ♥ 443 42-Tentação ♥ 454 43-Presente de Aniversário ♥ 467 Epílogo- ♥ 475 Agradecimentos Minha gratidão a Deus, a minha família e a todos os leitores. Para adquirir a versão impressa: www.clubedeautores.com.br “Cure o passado. Viva o presente. Sonhe o futuro.” Provérbio irlandês Prólogo Dominada pelo pânico, ela não conseguia gritar. Ele a estava machucando. Qual o motivo para tanta maldade? Por quê? Ela queria gritar, queria fugir daqueles braços fortes, mas era frágil demais... _ Filha... querida... eu estou aqui! É a mamãe. _ Mãe... mãe... foi horrível! _ Foi só mais um sonho, filha! Tente dormir novamente. _ Estou com medo... e se recomeçar? _ Querida, eu vou ficar aqui até que adormeça, vou orar bem baixinho para que Deus lhe dê um sono tranquilo. Após alguns minutos, Suzana voltou a dormir. Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 1 -Aniversário Paula acordou cedo no dia de seu 19° aniversário. Teria uma festa surpresa. A mãe, Regina, bem que tentou esconder, mas não conseguiu ser discreta o suficiente para que tudo ficasse em segredo, a filha acabou por ouvir uma conversa aqui, outra ali, e adeus segredo. Mas Paula resolveu fingir que não sabia de nada. Hoje seria um daqueles dias que ela teria que sair da rigorosa dieta imposta por ela mesma. Ela tinha um sonho: ser uma modelo profissional. Já havia feito alguns pequenos trabalhos, mas ela queria mais, muito mais. _ Filha, parabéns! -disse Regina, em seguida deu um beijo e entregou um presente, que fazia parte da estratégia para a festa surpresa. _ Obrigada, mãe! _ Dezenove anos! Como o tempo passa depressa! Abra o seu presente, espero que goste! _ É linda! - disse Paula ao ver que era uma bolsa que ela estava paquerando há algum tempo- E o papai? _ Ele precisou sair bem cedo, mas não vai demorar. Que tal você se levantar e tomar um belo café da manhã? _ Mãe, não posso exagerar. Só quero torradas e um copo de leite desnatado. _ Só isso? Nem pensar, hoje é um dia especial, precisa se alimentar bem. Regina sempre tentava fazer a filha se alimentar melhor, mas era muito difícil convencê-la, Paula sempre dizia que estava acima do peso, mesmo pesando apenas 48 quilos. Era uma linda garota loira, como a mãe; de olhos azuis, iguais aos do pai; que se 13 Tânia Gonzales destacava pela altura. No momento ela estava com os cabelos um pouco acima dos ombros. _ Olha só quem já acordou! Feliz aniversário, minha linda filha!disse Paulo Reis e em seguida olhou para esposa – Não disse que voltaria logo? Ela nem saiu da cama ainda! Filha, vá trocar a roupa e depois venha tomar o café conosco. Paulo Reis saiu do quarto da filha, desceu as escadas do sobrado, foi até a cozinha esperar por Paula, a esposa o seguiu, queria muito falar com ele longe da filha. _ E então, conseguiu arrumar um substituto? _ Regina, você acha que é simples assim? _ É o aniversário da sua filha! Está pensando em faltar? _ Fale baixo, quer que ela ouça? Eu já falei que não posso desmarcar, é um congresso de jovens; o pastor Márcio é sempre tão amável comigo! _ Ela vai ficar arrasada! Como você foi aceitar... _ Regina, você sabe muito bem que o meu dia seria ontem, mas ele me pediu um favor, eu não pude recusar. Eu só vou chegar mais tarde, qual o horário que você marcou? _Oito horas; você vai chegar aqui no final da festa... o congresso é em Pirituba, não é? _ Sim, mas eu vou fazer de tudo para chegar pelo menos na hora que ela for cortar o bolo. Paulo Reis era um pregador itinerante muito requisitado pelas igrejas para pregar em congressos. Sempre tinha convites para os finais de semana, mas nos últimos meses até durante a semana surgia um compromisso. Ele pregava até em outros estados. Sua igreja era a IGAG (Igreja Graça Abundante Graça), na cidade de São Caetano do Sul, estado de São Paulo, mas era raro o dia em 14 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão que podia participar dos cultos. Esta situação entristecia Regina, sua esposa, pois era muito difícil para ela conseguir acompanhá-lo aos compromissos; eles tinham uma loja de calçados e ela também precisava ficar com a filha, que só pensava na carreira de modelo. Regina havia convidado alguns amigos de Paula que faziam parte do grupo de jovens da igreja; seriam uns 30 convidados apenas, já que eles não tinham parentes próximos, somente a irmã de Regina, Carmem e sua filha Aline, pois os outros parentes tanto de Regina quanto de Paulo moravam no Rio de Janeiro. Entre os convidados havia Leonardo, jovem de 23 anos, muito esforçado e ativo nos trabalhos da igreja, ex- namorado de Paula, filho do Dr. Rafael Martins, advogado trabalhista e de Lígia, cirurgiã dentista. Regina ainda tinha esperanças que os dois voltassem a namorar, Leonardo era o genro que ela havia pedido a Deus. Recém formado em direito, trabalha com o pai, que é sócio em um escritório de advocacia. O namoro durou 6 meses; terminaram uma semana após o aniversário de 18 anos de Paula. O motivo? O sonho de Paula em ser modelo. Leonardo simplesmente não concordava com a escolha da profissão da namorada, principalmente pelo fato dela sempre estar fazendo regime. Quando os dois saíam ela só tomava um suco natural e era muito difícil convencê-la a comer. A princípio ele pensava que era só uma ideia passageira, que logo ela esqueceria o assunto, afinal ela havia decidido fazer faculdade de veterinária; mas quando Paula comunicou que só se dedicaria à carreira de modelo, ele achou melhor terminar o namoro. Definitivamente ele não queria ser o namorado de uma modelo; mas a amizade continuou, por isso ele era um dos convidados para a festa de aniversário. Enquanto Regina cuidava dos preparativos para a festa, aproveitando que a filha havia saído, pensava em como seria bom se a filha voltasse a namorar Leonardo, já havia falado várias 15 Tânia Gonzales vezes para Paula que ela ia se arrepender por perder um rapaz como ele, que se ela demorasse muito, com certeza seria tarde demais. Mas Regina sabia que os pais de Leonardo ficariam satisfeitíssimos se o filho namorasse Letícia Soares, filha de Fernando, sócio de Rafael. Eles tinham muitas coisas em comum, além dos pais trabalharem juntos, as mães também tinham a mesma profissão e até trabalhavam na mesma clínica; eles se conheciam desde crianças e eram grandes amigos. Também moravam em São Caetano do Sul. As duas famílias mal conseguiam esperar pelo dia em que os filhos anunciassem o namoro. Letícia era uma boa menina, obediente aos pais, amava participar dos trabalhos da igreja, muito simpática e além de todas estas qualidades, era muito bonita também; de estatura mediana, cabelos loiros, olhos castanhos claros, tinha 19 anos e estava cursando odontologia, seguiria a mesma carreira da mãe. Poucos minutos após o horário marcado, os convidados começaram a chegar, inclusive Leonardo e Letícia. _Que bom que vocês vieram- disse Regina assim que os viuFiquem à vontade. A Paula vai ficar muito feliz com a sua presença, Leonardo. _Boa noite, Regina. Onde está a aniversariante? - perguntou Leonardo. _A Aline saiu com ela, mas daqui a poucos minutos elas chegam. _Conseguiu esconder tudo dela? - quis saber Letícia. _Acho que ela já sabe de tudo, só está disfarçando. _ Elas estão chegando!- anunciou Carmem, irmã de Regina. Assim que Paula entrou, todos os convidados gritaram juntos: “Surpresaaa!”- e começaram a cantar o famoso: “ Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida!” Após muito barulho e muitos abraços, Leonardo conseguiu falar 16 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão com Paula. _Parabéns, Paulinha! É pra você, espero que goste- disse Leonardo entregando-lhe um bonito pacote vermelho com um laço dourado. _ Obrigada, meu Léo! Como você está gato hoje! Eu queria você embrulhado pra presente, pode ser? _Você não tem jeito mesmo! - disse ele. _ Oi, Lê! Que bom te ver!- falou Paula cumprimentando Letícia. _ Feliz aniversário! Você está linda, que novidade, né? - e em seguida também entregou um presente. _ Obrigada! E agora é só curtir a minha festa! _ Como você está gato! Hum... eu acho que alguém está querendo uma reaproximação... - comentou Letícia assim que Paula se afastou. _ Para com isso, Leca! - provocou Leonardo, chamando-a pelo apelido que ela detestava. _ Léo, fale baixo e não me chame assim novamente. _ Assim como, Leca? _ Dá pra você parar? Vamos comer alguma coisa? _ É claro que vamos... minha Leca! - Leonardo deu um largo sorriso e a puxou pelo braço. Regina estava começando a ficar preocupada, pois já passava das 23h e nada do marido chegar, será que teriam que cortar o bolo sem ele? A filha ficaria arrasada, ela já havia perguntado por ele várias vezes e Regina só repetia as mesmas palavras: “ Ele está chegando”. Perto da meia-noite, Regina percebeu que não seria mais possível esperá-lo; chamou a filha para cortarem o bolo. Quando Paulo Reis entrou, encontrou a esposa e a cunhada 17 Tânia Gonzales Carmem fazendo a limpeza. Era uma hora da manhã. _ Onde ela está? _No quarto, abrindo os presentes, a Aline está com ela- respondeu Carmem. _Como você foi capaz de fazer isso com a nossa filha? Ela perguntou tanto por você! Eu sabia que isso ia acontecer... - disse Regina muito nervosa com o marido. _Calma Regina! Não adianta ficar brava comigo agora. Tinham muitas igrejas convidadas... comecei a pregar muito tarde e depois que o culto terminou o pastor me convidou para jantar, estava tudo preparado na casa dele, não dava para recusar. _ Não acredito! Paulo, você ficou lá todo tranquilo sabendo que estávamos esperando por você? _ Eu... eu vou falar com ela. Paulo foi até o quarto da filha e por alguns instantes não teve coragem de abrir a porta, pois ouviu que ela estava chorando. _ Prima, não fica assim. Olha, deve ter acontecido algum problema. Você acha que o seu pai iria perder a sua festa de propósito? - falava Aline tentando consolá-la. _ Acho! Não é a primeira vez que ele faz isso. Sair pra pregar no dia do meu aniversário? Caramba! Ele não podia ter feito isso comigo... não podia... que raiva! Paulo resolveu bater na porta. _ Entra! - gritou Paula. _ Aí está você! Quantos presentes! Todos os seus amigos vieram? - perguntou Paulo meio sem graça. _ Todos, só faltou o meu querido pai. Engraçado, né? Aline achou melhor deixá-los a sós. _ Filha, minha filha... me perdoe, por favor! Eu não consegui chegar mais cedo, foi impossível sair. _ Claro, pai, grande novidade! Você nunca está aqui mesmo. 18 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Não seja injusta... _ Injusta? Eu? Um pai que falta na festa da própria filha? E ele mora na mesma casa... eu acho que até pais divorciados participam mais da vida dos filhos - Paula parou de falar, não conseguia segurar as lágrimas. _ Filha, eu sinto muito - dizendo isso Paulo a abraçou. Ficaram os dois ali abraçados, sem dizer uma palavra; até que Paulo deu um beijo na filha e saiu do quarto. _ Ela dormiu? - perguntou Regina assim que o marido apareceu na cozinha. _ Não, mas deve pegar no sono logo, logo. A Carmem e a Aline? _ Já foram embora. Você não podia ter feito isso com ela. _ Regina, me dá um tempo. Como você acha que eu estou me sentindo? _ Espero que esteja péssimo. É isso mesmo... pois é assim que eu me sinto. Você deveria valorizar mais a sua família. Eu sei que você ama pregar, sei que as igrejas gostam de convidá-lo, mas aqui nesta casa existem duas pessoas que precisam de você, nunca se esqueça disso. _ Regina, você está exagerando, nós até que passamos um bom tempo juntos. Quantos pais saem de casa cedo todos os dias e só voltam à noite... nós até trabalhamos juntos na loja. _ Não acredito! Paulo, você está sempre viajando, passa dias longe de casa pregando em congressos pelo Brasil afora. Eu sei que o seu ministério é muito importante, mas quando isso atrapalha a harmonia do lar, tem alguma coisa errada. Tenho certeza que Deus não se agrada disso. A família foi instituída por Deus e Ele quer os casais sejam felizes. As coisas aqui em casa não vão bem, por que mentir pra nós mesmos? _ Regina, cuidado com o que você fala. As pessoas precisam ouvir uma palavra e eu sou um dos instrumentos de Deus. Não 19 Tânia Gonzales posso recuar. Você está exagerando. Eu sou um marido e um pai bem presente, hoje, infelizmente, não foi possível. _Tudo bem, Paulo. Eu já sei que esta conversa não vai adiantar nada. Boa noite! _ Boa noite. Paula não estava conseguindo dormir, então resolveu provar algumas roupas. Colocou uma calça jeans, presente de sua prima e a blusa vermelha, dada por Leonardo, que sabia muito bem que aquela era a cor favorita dela. Deu uma olhada no espelho e não gostou do que viu. “Como estou gorda! Amanhã vou começar um regime daqueles bem radicais” pensou Paula. 20 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 2 - Perfumes _Minha irmãzinha querida, preciso de sua ajuda. - disse Leonardo ao entrar na casa da irmã em uma tarde de sábado; duas semanas antes do dia das mães. _É assim que você entra na casa de sua única irmã? E meu beijo? perguntou Beatriz. _É verdade, que mancada!- Leonardo deu um apertado abraço e dois beijos na irmã, para em seguida completar- Me desculpe! _Tudo bem, mas do que você está precisando? _Eu quero aproveitar para comprar o presente da mamãe, pra não deixar para a última hora, estou sem nada para fazer mesmo, vou até o shopping. _Está adiantado, hein? Quer uma dica? Eu vou comprar um vestido que eu vi outro dia, ela estava comigo e eu percebi que ela ficou interessada nele, mas eu sei o que você pode comprar. Ela adorou o perfume que eu dei de presente para minha cunhada. Você pode comprar um kit; eu vou anotar pra você, porque com certeza se eu falar você vai esquecer. _Valeu! _Você vai com a Lê? _Não, vou sozinho mesmo. Não tenho nem uma companhia, pleno sábado... vou sozinho para o shopping. Você acha que isso é justo? _Que drama, Léo! Está sozinho porque quer. Por falar nisso... bom.. ontem a mamãe ficou me perguntando sobre você e a Lê, ela não se conforma, quer saber o porquê de tanta indecisão. _ Indecisão? Quem está indeciso? A mamãe não tem jeito! A Lê é como se fosse minha irmã mais nova e eu sou como um irmão pra ela. Será que é tão difícil entender isso? _ É que a mamãe e o papai acham que vocês formam o casal ideal. 21 Tânia Gonzales As duas famílias se entendem; papai trabalha com Fernando, mamãe com a Sandra. Sogros e sogras trabalhando juntos. E se não bastasse, a Lê faz faculdade do quê? Odontologia. Ela vai ter a mesma profissão da mãe e da “sogra”. Perfeito! E tem mais um detalhe: vocês dois tocam o mesmo instrumento na orquestra da igreja. Conclusão: vocês nasceram um para o outro. _Seria perfeito se não fosse por um detalhe: nós não estamos apaixonados. _Não esquenta. Quando cada um encontrar a sua cara metade, eles param com esta história. Você está interessado em alguém no momento? - quis saber a irmã. _Bem que eu gostaria, mas... eu... como que eu vou explicar... eu gostaria de conhecer alguém bem especial, sabe? Não ria de mim, mas eu quero alguém que me faça sentir algo que eu nunca tenha experimentado antes. Eu estou esperando por uma princesa. Agora eu estou falando como vocês! _ Que fofo! Mulheres... ele está aqui!- gritou Beatriz. _ Sem brincadeira. _Léo, meu maninho, você não precisa ter vergonha disso. Olha, eu tenho certeza que você vai encontrar alguém muito especial, você merece. Eu entendo, viu? Quando eu conheci o Bruno foi maravilhoso, eu olhei pra ele e pensei: “É ele, só pode ser ele”; e aconteceu. Só não digo que está tudo perfeito, porque você sabe que está faltando alguém muito importante aqui - ao dizer isso, Beatriz ficou com os olhos marejados, era um assunto muito delicado para ela. _ Bia, minha irmã... este alguém tão esperado vai chegar. Na hora certa vocês vão conseguir realizar este sonho- Leonardo abraçou a irmã e completou: Eu também estou ansioso para me tornar um tio bem coruja! _ Irmãozinho lindo! Deus vai se lembrar de mim, não vai? É tão 22 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão dolorido passar por isso! Por duas vezes ficar feliz, se sentir realizada para em seguida...perder. Outro dia eu estava conversando com uma mãe e ela me contou que uma sobrinha dela ficou grávida aos 17 anos e por medo da reação do pai, resolveu abortar. Eu me senti tão mal. Quantos que recebem esta dádiva e abandonam o bebê até no lixo! Não me conformo! Eu e o Bruno queremos tanto... _Bia, vocês vão conseguir! Não perca a fé, não desanime. Você será uma mãe maravilhosa! _Você tem razão, vamos parar com esta conversa... eu vou fazer um cafezinho pra nós e depois você vai comprar o presente da mamãe. Beatriz estava casada com Bruno há 5 anos, por duas vezes ficou grávida e sofreu muito por causa dos abortos. Estava com 30 anos e tinha um desejo enorme de ser mãe. Era médica pediatra, e o convívio diário com os pequenos pacientes aumentava ainda mais este desejo. Eram quase sete horas da noite quando Leonardo chegou ao shopping; foi direto para uma conhecida loja de perfumes. Ao entrar, ele deu uma rápida olhada pela loja e de repente parou o olhar em uma bonita moça de cabelos castanhos. Ela estava atendendo um cliente, mas ele não conseguia desviar o olhar, o rosto dela era muito delicado, parecia uma boneca. Leonardo estava tão envolvido que não percebeu a aproximação da outra vendedora. _ Boa noite, senhor. Posso ajudá-lo? _ Oi? É... eu... me desculpe, mas eu gostaria de ser atendido por ela- disse Leonardo apontando bem discretamente para a moça que havia chamado sua atenção. _ Tudo bem, mas o senhor vai precisar esperar um pouco, a 23 Tânia Gonzales Suzana está atendendo um cliente. _ Eu espero, obrigado. A vendedora se afastou e avisou a amiga que havia um cliente esperando por ela. Enquanto isso Leonardo ficou pensando: “ O que está acontecendo comigo? Suzana, é isso, o nome dela é Suzana. Mas, por que eu não consigo parar de olhar pra ela?” Poucos minutos depois, ela foi atendê-lo. _ Boa noite, senhor. Em que posso ajudá-lo? _Boa noite. Eu... eu... - Leonardo ficou sem conseguir se expressar por alguns instantes, mas o seu olhar estava fixo nos lindos olhos verdes de Suzana- Me desculpe... eu gostaria deste perfumedizendo isso Leonardo mostrou o papel onde a irmã havia anotado o nome do perfume. A vendedora se afastou por poucos segundos para em seguida voltar com o perfume pedido por Leonardo. _ É um presente para minha mãe- explicou Leonardo- Minha irmã me falou sobre um ... kit? _ Nós temos sim, eu vou buscar para o senhor. E novamente a bonita moça se afastou para voltar em seguida. _Ótimo, eu vou levar o kit. - informou Leonardo sem desviar o olhar da vendedora, que apesar de não se sentir à vontade diante dele, conseguiu atendê-lo demonstrando segurança. Leonardo saiu da loja contrariado, sentia uma vontade insuportável de ficar ali só olhando para ela. “ Que absurdo !” pensava Leonardo enquanto caminhava até o estacionamento- “ Para com isso, você nem a conhece, que coisa maluca!” Depois de três dias Leonardo revolveu voltar ao shopping no mesmo horário. Ele não conseguia parar de pensar na vendedora que o havia atendido. Ao entrar na loja, logo a avistou e pediu para outra vendedora que gostaria de ser atendido por Suzana. 24 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Suzana... Suzanaaa... tem um cliente esperando por você! avisou Cláudia, vendedora da loja e amiga de Suzana. _ Quem? - perguntou Suzana, pois ainda não tinha visto Leonardo. _ O que não tirou os olhos de você... sábado, lembra? Você não é fraca não! Eu que gostaria de ser a vendedora preferida de um gato como aquele! Vai lá, ele está esperando! Suzana deu uma rápida olhada em Leonardo, se ela pudesse pediria para Cláudia atendê-lo, pois havia ficado envergonhada com o olhar persistente dele. _ Boa noite, senhor! Posso ajudá-lo? _ Boa noite, Suzana! Hoje eu gostaria que você sugerisse um perfume para a minha irmã. _ Tudo bem, eu vou mostrar algumas opções. Leonardo até que tentava, mas não conseguia desviar o olhar, não era um comportamento normal dele, mas simplesmente não dava para resistir. A vontade dele naquele momento era de convidá-la para sair, mas ele sabia que isso seria ridiculo, por esta razão, em poucos instantes, estava saindo da loja com uma sacolinha, contrariado novamente. Após 4 dias, Leonardo voltou àquela loja , ele até que tentou resistir, mas não conseguia parar de pensar em Suzana. Desta vez ele não precisou chamá-la, Suzana o viu assim que ele entrou. _ Boa noite senhor! Posso ajudá-lo? Leonardo gostaria de poder dizer:” Eu preciso muito de sua ajuda, pois não consigo parar de pensar em você”- mas limitou-se a dizer: _ Sim, eu gostaria de uma sugestão, mas hoje eu quero um perfume masculino. É... pra mim. Suzana voltou com 4 opções. 25 Tânia Gonzales _ De qual você gosta mais? - perguntou Leonardo. _ Eu? É... o senhor não gostaria de escolher? _ Não, na verdade eu gostaria que você escolhesse por mim. Qual é o seu preferido? _ Se o senhor deseja assim... este. _ Então eu vou levá-lo e você teria a loção após barba? Leonardo saiu da loja e ficou pensando naquela situação. “Para quem ele iria comprar o próximo perfume? Para seu pai? Ou quem sabe para a Leca?” Ele mesmo não acreditava no que estava fazendo. Comprar perfumes só para ficar alguns míseros minutos com uma vendedora que ele nem conhecia e o pior de tudo era que ele considerava aqueles minutos os mais importantes de sua vida nos últimos dias, o que era um absurdo- “ Devo estar muito carente, só pode ser isso!”-pensou. _Suzana, destruindo corações! Eu acho que na próxima vez ele vai comprar perfume para o cachorrinho dele ou quem sabe para o papagaio? - brincou Cláudia. _ Para com isso, Cláudia! Ele estava precisando comprar um perfume. _ Suzana, o cara vem até aqui pra te ver, você sabe muito bem! Ele é um gato! Tremendo gato! Ele não tira os olhos de você... se liga! Leonardo era um atraente rapaz de 1,90m de altura, cabelos e olhos castanhos, dono de um lindo sorriso. Suzana sabia muito bem que Cláudia tinha razão. Ele não desviava o olhar... era muito difícil para ela manter a concentração. A esperança dela era que ele não aparecesse mais, seria melhor assim, ela não tinha ideia de como sair de uma situação como aquela, simplesmente não tinha experiência nenhuma com rapazes e nem queria ter. 26 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Quase um mês havia se passado desde a última visita do cliente de Suzana, ela se sentia aliviada e ao mesmo tempo uma certa curiosidade a perseguia. Teria acontecido alguma coisa com ele? “Que bobagem”- pensava ela-” Por que eu vou ficar pensando em um rapaz que não vou mais encontrar?” Suzana trabalhava naquela loja do shopping há quase dois anos, o mesmo tempo que estava morando em São Paulo. A família morava em Belo Horizonte e a mãe de Suzana, Marina, que era técnica em enfermagem, resolveu prestar um concurso em São Paulo, se fosse aprovada fariam a mudança e outro motivo era o fato da irmã de Marina, Marisa, querer que eles morassem com ela, pois era viúva e não tinha filhos, estava se sentindo muito sozinha. Ela morava em uma casa muito grande e tinha uma outra casa nos fundos que seria perfeita para a irmã morar, junto com o marido Davi e as filhas: Sueli e Suzana. E foi justamente isso o que aconteceu. Há poucos meses começaram a frequentar a mesma igreja de Marisa, a IGAG (Igreja Graça Abundante Graça), uma igreja evangélica com cerca de 2000 membros. Em Belo Horizonte eles estavam afastados da igreja já há alguns anos. Marina, tinha um horário de trabalho bem complicado e Davi, que era motorista particular, também chegava tarde do serviço. As meninas iam às vezes, mas não participavam de nenhum trabalho realizado pela igreja. Mas agora eles resolveram voltar a frequentar, isso é bem complicado por causa do horário de serviço de cada um, mas sempre que possível eles estão presentes nas reuniões da igreja, é claro que dificilmente conseguem ir juntos. Marisa, a tia de Suzana, é vizinha da família Soares, e se esforçou para que a sobrinha Suzana fizesse amizade com Letícia; era difícil elas se encontrarem, por causa do horário do trabalho de 27 Tânia Gonzales Suzana e também pelo fato das duas estarem na faculdade, mas mesmo assim elas estavam começando a se entender. Naquele domingo Letícia havia combinado com Suzana de irem juntas ao culto. Chegaram uns vinte minutos antes do início do culto e aproveitaram para conversar em frente à lanchonete da igreja; de repente, um rapaz se aproximou. _Oi, Léo! Eu quero te apresentar a … - Letícia não conseguiu terminar foi interrompida por Leonardo. _Não acredito, você aqui? - perguntou Leonardo olhando para Suzana. _ Vocês se conhecem? - foi a pergunta de Letícia. _ Bem... mais ou menos - respondeu Leonardo sem tirar os olhos de Suzana que também estava muito surpresa por encontrá-lo ali. _ Como assim? Se conhecem ou não? - perguntou Letícia sem disfarçar a curiosidade. _ Eu … andei fazendo umas compras e a Suzana é minha vendedora favorita. _ Que legal! Suzana, este é o Leonardo, ele é meu amigão. _Oi. - disse Suzana simplesmente. _Oi, que surpresa! Isso é que eu chamo de feliz coincidênciadisse Leonardo. _Coincidência não, Léo! A Suzana congrega aqui e você também. _ Espera aí, desde quando?- perguntou Leonardo. _ Há mais ou menos quatro meses – explicou Letícia. _ Não pode ser! Como que eu nunca te encontrei aqui? _ Eu venho poucas vezes, por causa do meu trabalho. - esclareceu Suzana. _Mesmo assim... _ A Suzana não participa dos jovens, nem da escola bíblica... senta bem lá trás, sai assim que o culto termina. Além dela ter um 28 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão horário de trabalho bem complicado ela também faz faculdade. _ Lê, nós podemos entrar agora? - perguntou Suzana que estava sem jeito diante dos olhares de Leonardo. _ Tá! Podemos sim! Tchau, Léo, depois a gente se fala. Leonardo ficou extremamente feliz ao ver Suzana, pois nos últimos dias ele esteve por várias vezes quase indo até o shopping, mas sempre chegava à conclusão que era melhor não ir para evitar fazer papel de ridículo novamente, mas a verdade era que aquela garota não lhe saía da cabeça. O fato de Suzana pertencer à mesma igreja que ele e ainda por cima ser amiga de Letícia era algo que ele não podia sequer imaginar, era bom demais para ser verdade. Precisava falar com a amiga ainda hoje, queria fazer algumas perguntas. Suzana também ficou muito surpresa ao ver Leonardo e ao mesmo tempo muito preocupada. O pensamento dela era: “ Espero que ele mantenha distância”. O pensamento dele era: “ Preciso me aproximar dela”. Letícia e Leonardo sempre sentam-se juntos nos cultos em que a orquestra tem participação, por tocarem o mesmo instrumento: violino; mas como Letícia esteve ausente nos últimos ensaios, ela aproveitou para sentar-se ao lado de Suzana. A IGAG é uma igreja que se preocupa em propagar o evangelho de Jesus. É envolvida com missões, sustentando vários missionários pelo Brasil e também exterior. Pedro Gabriel é o pastor responsável pelo trabalho; ele e a esposa Rute tem um filho que é missionário em Moçambique, Lucas, que é casado com Rebeca, eles têm uma filha de quase dois anos, chamada Raquel. Quando terminou o culto, Suzana disse para Letícia que iria embora, mas que ela poderia ficar para conversar com os amigos. 29 Tânia Gonzales _ Não Su, eu vou com você. Nós viemos juntas, vamos juntas. Nós podemos aproveitar a carona de meus pais, eu preciso tomar vergonha e tirar a minha carta. Leonardo bem que tentou se aproximar, mas sempre aparecia alguém para conversar, ele viu as duas se afastarem, o que muito o desapontou, mas já havia decidido que iria até a casa de Letícia. 30 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 3 -Regime Depois da festa surpresa, Paula havia feito uma promessa : começar um rígida dieta alimentar; pois, segundo ela, precisava perder pelo menos 5 quilos e bem rapidamente; por isso pela manhã só comia uma torrada e tomava uma xícara de chá, às vezes substituía o chá por um suco de laranja com adoçante. _ Você precisa se alimentar, filha! Onde já se viu comer só uma torrada no café da manhã? Vai ficar doente e... - Regina não pôde terminar, foi interrompida por Paula. _ Mãe, pode parar com isso? Estou seguindo uma dieta especial, não insista! Vou perder peso custe o que custar, pode escrever isso! _ Quem disse que você precisa emagrecer? Está tão bem! Você não olha pra o espelho não ? _ Várias vezes ao dia e não gosto do que vejo. E sabe o que eu vejo? Uma gorda, é isso mesmo, uma gorda! _ Gorda? Você deve estar com um problema sério na visão ou será na cabeça? _ Mãe! Se liga... _ Não fale assim comigo! _ Dá licença! Você não vê que eu preciso ficar em forma? Vou fazer umas fotos no próximo mês e assim do jeito que eu “tô” não dá, né? _ Você já é tão bonita, minha filha. _ Bonita? Minha filha é linda! - disse Paulo Reis assim que entrou na cozinha. _ Está vendo? Escute o que o seu pai está dizendo, você é linda! concordou Regina. _ Parem com isso! Vocês não contam, os pais sempre vão dizer 31 Tânia Gonzales que seus filhos são lindos, maravilhosos, enfim, perfeitos! _ Você deveria parar de se preocupar tanto com a aparência e voltar a estudar, que tal? - sugeriu o pai. _ Paizinho querido, por enquanto não, tenho coisas mais importantes para fazer. _ Mais importante do que se formar e ter uma carreira? perguntou Paulo Reis. _ Filha, seu pai está certo e tem mais uma coisa... se você não tivesse cismado com essa história de ser modelo, seria namorada do Leonardo até hoje - completou Regina. _ “Tava” demorando! Eu sabia que a minha amada mãe ia dar um jeitinho para incluir o Léo nessa conversa. Chega. - dizendo isso Paula foi para seu quarto. _ Não sei o que eu faço com essa menina- disse Regina. _ Essas meninas de hoje sempre acham que é necessário emagrecer. Bom, na verdade não são só as meninas... vocês mulheres nunca estão satisfeitas com o corpo. _ Você tem algum compromisso hoje? _ Era isso que eu queria conversar com você, Regina. O Pr. Pedro Gabriel foi convidado para abrir um congresso em Poços de Caldas amanhã, mas você sabe como é complicado para ele deixar a igreja em um dia de domingo, por isso me pediu para representálo. _ Grande novidade! E eu que pensei que nós poderíamos fazer algum programa em família... que ingenuidade a minha! _Você não espera eu terminar... o que você acha de irmos juntos? Podemos ir hoje mesmo. _Está falando sério? _É claro que sim. Converse com a Paulinha, ela pode ir também. Regina foi falar com a filha sobre a viagem para Poços mas ela não se interessou, havia combinado ir ao shopping com Aline. 32 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Paulo Reis concordou em deixar a filha passar o final de semana na casa de Carmem, a irmã de Regina e assim foi com a esposa para o congresso em Poços de Caldas, o que era raro acontecer, Paulo viajava quase sempre sozinho. No final da tarde Paula e Aline foram ao shopping; deram uma bela olhada nas vitrines; Paula gostou de uma calça jeans e resolveu provar. _ Que numeração é essa que você pediu pra vendedora? Que eu saiba o seu número é... _Aline, priminha querida, esqueça o meu número antigo... olha pra mim... ficou apertada? _ Apertada? Apertada é apelido! Paula você vai passar mal com essa calça... _ Me aguarde! Daqui a poucos dias você vai me ver novamente com essa mesma calça. _ Se liga, Paula! Como que você vai conseguir? Não viaja. _ Então tá, espere e verá! _ Você está delirando, acho que é fome! Vamos comer? _ Comer? Nem pensar! Hoje eu não coloco mais nada na boca. _ Pois eu vou, estou morrendo de fome! Resista se puder. _ Quer apostar? Aline comeu hambúrguer, batata-frita, um copo grande de refrigerante e depois ainda pediu um sundae. _ Nossa, como você consegue? Para onde vai tudo isso? perguntou Paula impressionada com o apetite da prima. _ Como você consegue ficar aí só me olhando comer? _ Disciplina. Sabe o que é isso? E muita força de vontade. _ Pra mim isso tem outro nome: passar fome! Come... _ Nem pensar! Eu tenho um objetivo e não vou permitir que coisas supérfluas me impeçam de alcançá-lo. Gostou do discurso? 33 Tânia Gonzales _ E desde quando comer é supérfluo? _ O que você acabou de comer com certeza é! _ Só que hoje eu não vi você comendo nada, minha mãe ficou chateada porque você não almoçou, ficou me perguntando se a comida dela não estava boa. _ A tia Carmem cozinha muito bem. E quer saber? Cansei dessa conversa sobre comida, você só pensa em comer! Vamos sair daqui? Praça de alimentação é o lugar mais indesejado pra mim no momento. E será por muito... é... espera um... pouco... _ O que foi? Você “tá” pálida! O que você está sentindo? _ Eu … estou bem... acho que me levantei rápido demais, foi isso. _ Tem certeza? É isso que dá não se alimentar! Você vai comer alguma coisa, vai sim. _ Para, Aline! Estou bem, vamos embora. Naquela noite, Paula se levantou e foi até o banheiro, não estava se sentindo bem. Estava com uma forte dor no estômago e com ânsia de vômito; ficou ali por alguns minutos com uma sensação terrível de mal estar, por fim conseguir provocar o vômito, sentiuse aliviada, olhou para o vaso sanitário, só havia líquido, o que mais haveria? Só havia comido uma torrada e tomado uma xícara de chá durante todo o dia! “ A Aline está dormindo tranquilamente, perfeito! A última coisa que preciso agora é de um sermão!”- pensou Paula para em seguida se jogar na cama. No dia seguinte, Paula acordou com uma forte dor de cabeça, mas não se queixou; comeu duas torradas e tomou suco de laranja, a tia Carmem insistiu para que ela se alimentasse melhor, mas foi em vão. No almoço não foi diferente, Paula colocou uma colher rasa de arroz em seu prato e um pouco de salada de alface com cebola e tomate; Carmem insistiu para que ela comesse um bife 34 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão pelo menos, mas não obteve sucesso. A sobrinha passou o dia inteiro sem colocar mais nada na boca. Naquele domingo, Carmem foi à igreja sozinha, pois Aline ficou com Paula que não estava se sentindo muito bem. Os pais de Paula só chegariam no dia seguinte, por isso ela dormiu na casa da prima mais uma noite. _ Aline? Tá acordada? - perguntou Paula segunda-feira de manhã. _ Que foi? Deixa eu dormir mais um pouquinho... _ Aline! Eu preciso pedir um favor. _ Fala. _ Não conta para os meus pais que eu passei mal ontem, tá? _ E sobre sábado no shopping? _ Também não, né! _ Eu não sei não... é melhor falar pra eles, quem sabe assim você resolve se alimentar melhor! _ Nem pensar! Por favor... eles vão fazer eu comer e eu não posso engordar! _ Que droga Paula! Você precisa comer, para com esta história! Você não está gorda! _ Aline, por favor. _ Tudo bem, eu não falo nada, mas você acha que a minha mãe não vai contar? Com certeza ela vai dizer que nós não fomos ao culto porque você não estava bem. _ Eu vou conversar com ela. _ Boa sorte! Paula até que tentou convencer a tia, mas assim que eles chegaram Carmem conversou com a irmã. Regina ficou muito preocupada e teve uma conversa muito séria com a filha. _ Minha filha, você acha que está certo não se alimentar? O que foi que eu disse? Eu sabia que você ia acabar se sentindo mal. _ Não foi nada, mãe! 35 Tânia Gonzales _ Com a saúde não se brinca! Eu vou pegar no seu pé, quero ver você não comer! _ Mãe, é claro que eu vou comer, só que não é porque vocês enchem a barriga que eu também vou. _ Vai, vai sim! Se você acha que se alimentar bem é encher a barriga, então você vai encher a barriga, pode ter certeza que eu vou pegar pesado. _ Que saco! _ Cuidado como fala comigo! _ Me desculpe, mas caramba você quer que eu fique gorda? _ Eu quero vê-la com saúde, é só isso que eu quero! E você não está gorda, não sei por que você cismou com isso. _ Cismei? Mãe, eu me olho no espelho todos os dias e não gosto do que vejo, eu não...- ao dizer isso Paula começou a chorar. _ Filha, minha filhinha... vem aqui, querida, você é tão linda Regina a abraçou com carinho- Pare de falar bobagens, você tem um corpo perfeito. _ Perfeito? Desde quando? Mãe eu quero ser uma modelo profissional e assim como eu estou é impossível. _ Você não pode emagrecer mais. _ Eu preciso e vou conseguir, pode ter certeza! Naquele dia, por causa da insistência de sua mãe, Paula se alimentou um pouco melhor, mas quando ficou sozinha em seu quarto e se olhou no espelho começou a chorar e dizer: _ Sua gorda! Vou me livrar de você, pode ter certeza! Você não vai acabar com a minha carreira antes mesmo dela começar. Não vai, não vai mesmo... a Paula gorda está com os dias contados. Em seguida foi ao banheiro e provocou o vômito. _ Não disse? A Paula gorda está com os dias contados. 36 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 4 -Informações Leonardo? Que surpresa, entre! Letícia! Letíciaaa! Olha só quem está aqui! - disse Sandra sem se preocupar com a exagerada demonstração de alegria. _ Obrigado Sandra, desculpe a hora. _ Não precisa se desculpar, são só dez horas. _ É que eu preciso falar com a Lê, mas prometo que não vou demorar. _ Você pode ficar o tempo que quiser... até que enfim filha - falou Sandra assim que Letícia apareceu. _ Oi, Léo, você quer falar comigo? O que será? _ Bom, eu vou preparar alguma coisa pra vocês comerem - disse Sandra deixando-os a sós. _ Você foi embora tão rápido - começou Leonardo. _ A Suzana quis sair quase correndo, acho que você a assustou! _ Eu? O que foi que eu fiz? _ Brincadeira, mas e aí? _ E aí digo eu. Quero saber de tudo. _ Saber o quê? _Para com isso! Bom, mas tudo bem, eu vou fazer as perguntas: Qual a idade dela? Ela está namorando? Ela falou alguma coisa sobre mim? E... _ Calma! Que interrogatório é este? _ Leca, me ajuda vai, fala. _ Léo, como você está desesperado! Tudo bem, eu vou dar as respostas: 19 anos. Não namora. Não falou nada sobre você. _ Nada? _ Só falou que você foi algumas vezes até a loja e comprou perfumes, só isso. 37 Tânia Gonzales _ Como ela é? _ A Suzana é inteligente, esforçada, boa filha, pelo que eu pude constatar, mas é tímida quando o assunto é rapazes. Eu até que já tentei saber alguma coisa, mas ela não diz nada. Outro dia eu fiquei conversando com ela sobre namoro, rapazes e tal... mas só eu que fiquei falando sem parar. _ E a família dela? _ O pai chama-se Davi, ele é motorista particular; a mãe, Marina, trabalha em um hospital, é auxiliar, não, é técnica em enfermagem; ela tem uma irmã que chama-se Sueli, de 27 anos que trabalha em uma empresa de telemarketing e ... _ E a Suzana faz faculdade do quê? _Letras. Quer ser professora! O que mais eu posso contar? Espera... eles moravam em Belo Horizonte se mudaram para cá há dois anos e moram com a Marisa, você conhece... a minha vizinha que ficou viúva há quase três anos, você lembra... o marido dela também era da igreja, o Luís, ele morreu de enfarto. _ Eu lembro dele sim. Então, ela é sobrinha da Marisa! __É isso aí! A Marisa tem uma casa nos fundos e eles moram lá, satisfeito agora? _ Por enquanto, sim! _ Como você está interessado! Letícia foi interrompida pela mãe que entrou com uma bandeja nas mãos. _ Preparei um lanche pra vocês. _ Sandra, não precisava. _ Leonardo, Leonardo! É claro que precisava, fique à vontade e apareça mais vezes, você anda tão sumido! _ A Sandra está certa! Tudo bem, Leonardo? - perguntou Fernando ao aparecer na sala. _ Oi, Fernando! Tudo ótimo e você? 38 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Eu estou bem, você não imagina o que eu estava fazendo em pleno domingo à noite. _ Não vai me dizer que... _ É isso mesmo, Leonardo! É exatamente o que você está pensando. Amanhã eu tenho uma audiência complicada! Estava relendo o processo. _ Eu, hein? Precisa descansar. _ Tem razão! Que coisa boa você aqui em um domingo à noite! Quer fazer algum pedido especial? _ Pai! - protestou Letícia. _ Filha, acalme-se, eu não perguntei nada... _ Não, é claro que não, o Leonardo só veio conversar comigo e me desculpem, mas vocês estão atrapalhando. _ Opa! Querida é melhor nós irmos dormir o que você acha? _ Concordo, e Leonardo, vê se aparece. _ Pode deixar Sandra e obrigado pelo lanche está uma delícia. _ Como eles viajam, acham que nós dois … - começou Letícia assim que os pais saíram- formamos um casal maravilhoso... se eles soubessem que você estava me perguntando sobre a Suzana... coitados... não quero nem pensar. _ É verdade. Mas, por que você nunca me falou sobre a Suzana? _ Léo, eu comentei alguma coisa sim, eu falei pra você que eu tinha uma amiga nova, que era minha vizinha, mas você nem se interessou e mudou de assunto, acho que foi mais ou menos isso. E quer um conselho? Vai devagar com a Suzana, escuta o que eu estou dizendo, se você quiser ter alguma chance com ela. _ Você vai me ajudar, não vai? _ Vamos ver... eu também preciso da sua ajuda... eu acho que tive uma ideia... a Suzana vai ter folga na próxima sexta-feira, eu posso combinar com ela para irmos até o shopping e você aparece lá com uma certa pessoa. 39 Tânia Gonzales _ Gostei da ideia, mas que pessoa é essa? _ O Daniel- sussurrou Letícia. _ Precisa falar tão baixinho? O Daniel? Leca, Leca... o filho do Isaque da mecânica? _ Fala mais baixo... é ele mesmo, por quê? _ Eu sabia, eu sabia! Leca, você está apaixonada por ele? _ Léo, vamos parar por aqui. Depois a gente conversa. _ Espera... qual o problema? _ Meus pais não podem nem sonhar que eu estou interessada nele. _ Por quê? _ Léo você ainda pergunta? Para os meus pais você é o namorado ideal. Então o primeiro problema é que o cara que eu estou interessada não se chama Leonardo. E depois … _ E depois? _ Nada. _ Letícia, você está preocupada com a reação de seus pais... não acredito... você acha que eles teriam algum preconceito? _ Léo, eu acho que sim. _ Que isso! Os seus pais não teriam uma atitude tão... _ Eu tenho medo, eles ficariam muito felizes se você fosse meu namorado, com o Daniel eu acho que eles ficariam muito decepcionados. _ Para com isso. Seus pais não seriam contra o namoro por causa da cor da pele dele, isso não! _ E tem mais um detalhe: O Daniel não terminou a faculdade, precisou parar depois que a mãe morreu. O pai dele não conseguia mais tocar a oficina pois estava muito desanimado, o Daniel precisou assumir tudo e ficou sem tempo pra estudar, ele estava cursando administração. Você sabe muito bem o quanto meus pais valorizam os estudos e não quero brigar com eles, então eu prefiro esperar, afinal está tudo tão recente! Nós estamos 40 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão conversando há poucos dias. _ Tudo bem. Então você resolve tudo para o nosso programa de sexta-feira. _ Com certeza. Mas eu repito: vai devagar com a Suzana! _ Valeu, Leca! Você sabe que eu te amo? _ Sei. Deixa minha mãe ouvir isso! Ela vai flutuar. Leonardo voltou para casa e ficou pensando em tudo que Letícia havia contado sobre Suzana. Letícia tinha razão, ele precisava ir devagar com aquela garota. Não seria nada fácil segurar a ansiedade até sexta, mas era necessário resistir a tentação de ir até o shopping para comprar mais perfumes. No dia seguinte Letícia conversou com Suzana sobre o passeio no shopping, ela concordou com uma certa relutância; também aproveitou para combinar com Daniel, fez uma rápida ligação para ele que ficou muito feliz com o programa. Daniel é um rapaz de 21 anos, que participa ativamente dos trabalhos da igreja, é evangélico desde o seu nascimento, mas congrega na IGAG há cinco anos, tem três irmãs, todas casadas. Ajuda Isaque, seu pai, na oficina mecânica da família. Precisou pedir para ser mandado embora da empresa que trabalhava para dar apoio ao pai que não conseguia mais cuidar da oficina desde a morte da esposa há dois anos. Ivone havia sofrido durante muitos anos com sérios problemas cardíacos, até que chegou um dia em que seu frágil coração não resistiu. Foi um baque para toda a família, mas era necessário seguir com a vida. Daniel lamentou muito quando trancou a matrícula da faculdade, mas espera voltar em breve. Leonardo passou a semana inteira pensando no encontro que teria no shopping; estava muito ansioso para rever Suzana, por isso 41 Tânia Gonzales naquela manhã de sexta-feira, ele acordou muito animado, havia recebido uma ligação de Letícia confirmando o encontro. Qual seria a reação de Suzana? Será que ela ficaria zangada com a Letícia? Estas eram as perguntas que não saíam da mente de Leonardo. Tinha uma vontade imensa de ouvir a voz dela, desejava conversar de verdade com ela. Queria saber quais os sonhos de Suzana, o que ela gostava de fazer, qual a comida preferida, enfim, Leonardo desejava muito conhecê-la e fazer parte da vida dela. Leonardo chegou ao shopping uns trinta minutos antes do horário marcado por Letícia, alguns minutos depois foi a vez de Daniel chegar. _ Olá, Leonardo e aí tudo bem com você? - perguntou Daniel assim que se aproximou de Leonardo. _ Tudo beleza, Daniel! E você? _ Eu estou ótimo. Será que as duas vão demorar? _ Eu acho que não. E então... você e a Letícia estão namorando? _ Estamos começando... a Letícia é incrível, ela é tão especial... bom.. você sabe melhor do que eu. _ Eu não vou negar que conheço bem a Letícia, nem daria, né? Você tem razão quando diz que ela é especial; a Letícia é como uma irmã mais nova pra mim... mas não precisa ficar com ciúme. _ Não, é claro que não! Eu entendo, a Letícia me contou que vocês se conhecem desde crianças e ela também me falou que os pais dela e os seus são doídos para que vocês namorem. _ É isso mesmo, mas não esquenta! É normal eles desejarem isso, mas … elas chegaram - disse Leonardo ao ver que Letícia e Suzana estavam se aproximando. Quando Suzana viu Leonardo sentiu uma vontade incontrolável de sair dali rapidamente, ela logo percebeu o que estava acontecendo 42 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão pois também avistou Daniel, então, antes que eles pudessem ouvíla, ela falou com Letícia: _ Não acredito que você fez isso comigo, Letícia. Eu vou embora. _ Suzana, olha, espera... não vai não! Me desculpe, mas é que eu preciso conversar com o Daniel e … _ Eu vou embora, você fica. _ Mas Su... vai ficar estranho você chegar sozinha... eu não quero que você vá. Me dê uma hora, só uma, vai! _ E eu vou fazer o quê? _ O Léo é um cara legal, converse um pouco com ele, não custa, vai! _ Letícia... eu... _ Por favor! Faz isso por mim! _ Mas é só uma hora! _ Valeu, amiga! - dizendo isso Letícia pegou Suzana pelo braço e foi ao encontro dos rapazes. Letícia cumprimentou Leonardo e Daniel com um beijo no rosto, Suzana falou um discreto “oi” para os dois e em seguida Letícia e Daniel se afastaram. Por um momento Leonardo ficou sem saber o que dizer, pois Suzana estava com uma expressão que não o encorajava, mas ele sabia que tinha que fazer alguma coisa para quebrar o gelo; ele era um rapaz bem extrovertido, mas diante dela não estava conseguindo pensar direito. _ É... nós temos uma hora, o que você gostaria de fazer? Suzana gostaria de dizer: “ Quero fugir de você”. Mas como isso seria muito embaraçoso, ela disse simplesmente: _ Eu quero ver uns livros- e em seguida foi até a megastore que ela conhecia muito bem, pois estavam no mesmo shopping onde ela trabalhava. _ Tudo bem- respondeu Leonardo seguindo-a. Suzana entrou na loja e começou a procurar um livro, Leonardo se 43 Tânia Gonzales aproximou dela. _ Olha, Leonardo, você não precisa ficar aqui comigo, pode fazer outra coisa que depois eu ligo pra Letícia. _ Nem pensar, eu não vou me afastar de você e adorei ouvir o meu nome na sua boca, foi a primeira vez e eu … _ Vamos deixar as coisas bem claras- começou Suzana em um tom nada amigável apesar de manter a voz bem baixa- eu não quero conversar com você, não estou interessada em conhecê-lo... só estou aqui porque a Letícia me pediu, só por isso, então... _ Calma, eu falei alguma coisa errada? _ Eu já falei que não quero... _ Suzana, qual o problema com você? Eu só gostaria de conhecêla melhor, ser seu amigo. _ Eu não quero ser sua amiga... eu não sei o que você está pretendendo, mas... _ Nossa, como você é direta. _ É melhor assim - dizendo isso Suzana voltou a olhar para os livros. Leonardo ficou sem saber o que fazer, era uma situação bem desconfortável; permaneceu dentro da loja mas manteve uma certa distância de Suzana que continuava muito interessada nos livros. Após quase uma hora, ela pagou pelo livro que havia escolhido e ligou para Letícia informando o local em que estava. Enquanto esperavam por Daniel e Letícia, os dois permaneceram em silêncio; Suzana aproveitou para começar a leitura do livro, Leonardo observava o movimento do shopping e às vezes olhava para Suzana, bem discretamente. _ Demoramos? - perguntou Letícia ao se aproximar. _ Vamos embora? - perguntou Suzana apressadamente. _ Embora? Vamos comer! Estou morrendo de fome, você não? quis saber Letícia. 44 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Eu prefiro ir embora. _ Nem pensar, Suzana! Vamos comer. Letícia puxou Suzana para levá-la à praça de alimentação. Resolveram comer pizza. Daniel e Letícia conversavam animadamente, mas Suzana e Leonardo ficaram em silêncio quase que o tempo todo, Letícia logo percebeu que o clima entre eles não estava nada bom. _ Agora sim podemos ir! - anunciou Letícia- Léo, você dá uma carona pra o Daniel, ele preferiu vir sem carro só para poder voltar juntinho comigo, ele não é um amor? _ Beleza! Mas logo, logo, você vai poder levá-la para casa, Daniel! - disse Leonardo. _ Assim eu espero. A última coisa que Suzana queria naquela noite era sentar-se ao lado de Leonardo no carro, mas ela não ia ser chata ao ponto de separar um casal apaixonado. Sentiu-se extremamente desconfortável por estar tão próxima dele, ficou o caminho todo olhando para o lado oposto e não disse uma palavra durante todo o percurso; Leonardo dirigiu calado a maior parte do tempo, só quebrava o silêncio quando Letícia ou Daniel faziam algum comentário que o envolvia. Depois que deixaram Daniel, Letícia tentou descobrir o que estava acontecendo entre os dois, mas percebeu que não iria obter sucesso, o clima estava tenso, então ela resolveu esperar para perguntar ao amigo. Ao descer do carro, Suzana disse um quase inaudível boa noite e saiu rapidamente. Letícia aproveitou para questionar Leonardo. _ O que aconteceu entre vocês? Não me diga que tentou beijá-la? _ Não viaja, Leca! Beijá-la? Se eu fizesse isso acho que ela me mataria! _ Que exagero! Mas o que aconteceu? 45 Tânia Gonzales _ Nada! Nem sei dizer... ela quis ver uns livros eu a acompanhei, ela me falou que eu não precisava ficar ali... e... sei lá, depois ela falou que não queria ser meu amigo. _ Só isso? Léo, você fez alguma coisa... não é possível, o que você disse pra ela? _ Olha, a única coisa que eu disse...bom... não é nada demais... _Fala. _Ela disse o meu nome e eu gostei, uma bobagem, sabe? Eu gostei de ouvir o meu nome na boca dela e mencionei isso. _ Léo, eu não disse que era pra você ir devagar? _ Mais devagar do que isso? _ A Suzana é … diferente, é isso! Já desanimou? _ Não! Mas eu fiquei tão sem graça! Você acredita? _ Meu amigo! Eu preciso entrar, mas valeu! Não fica triste. Leonardo se despediu da amiga e durante o caminho para casa continuou pensando em Suzana; ele havia esperado com tanta ansiedade por aquele encontro que fora um verdadeiro fiasco. Mas ele não iria desistir, o desafio estava apenas começando. Naquela noite Suzana sonhou que estava em um lugar escuro e fechado e que de repente aparecia alguém que se aproximava dela, mas ela não conseguia enxergar... só dava para perceber que era um homem e ele dizia algumas palavras que a princípio ela não conseguiu entender, mas conforme ele repetia as mesmas palavras, ele aumentava o volume da voz e ela pôde ouvir: _ Você é minha! Você é minha! Você não pode pertencer a mais ninguém! E sabe disso muito bem. Suzana queria dizer que ela não pertencia a ele mas as palavras não saíam. _ Minha linda, vou fazê-la feliz novamente! Você é minha. Então ele a abraçou e começou a apertá-la cada vez mais forte 46 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão enquanto dizia: _ Minha, você é minha! Só minha! Suzana acordou muito assustada, começou a chorar bem baixinho e dizer: _Será que isso nunca vai acabar? Será que eu não vou me livrar disso? Meu Deus! Meu Deus! 47 Tânia Gonzales Capítulo 5 -R.E.M.A. Regina estava muito preocupada com a filha, como era difícil convencê-la a se alimentar melhor. Paula sempre dizia que não estava com fome e quando olhava-se no espelho sempre reclamava da aparência. Nos últimos dias sua obsessão pela magreza havia aumentado, pois estava aguardando ser chamada para realizar umas fotos. _ Paula, você precisa estudar, ocupar a mente com algo produtivo, filha eu acho que... _ Não acredito! Você vai começar com essa história novamente? Eu já disse mil vezes que não vou para a faculdade, pelo menos por enquanto. Tenho outras prioridades, mãe. _ Qual? Ficar doente por falta de nutrientes em seu corpo? _ Que drama! Quem vai ficar doente? Sabe qual é o problema de vocês? Sempre acham que os filhos precisam comer mais. _ Você está comendo como um passarinho. _ Mãe, entenda uma coisa de uma vez por todas: eu preciso perder 5 quilos! Preciso muito perder 5 quilos! Este é o meu objetivo e por favor não me atrapalhe! _ Você sempre precisa perder 5 quilos! Se você emagrecer tudo isso você vai ficar doente, filha! _ Que papo chato, olha... eu não ia para a reunião da REMA, mas pra não precisar ouvir esses absurdos... _ Vai ser bom você se encontrar com os jovens da igreja. Paula estava se referindo a um trabalho especial que o líder de jovens da IGAG, Mateus, havia criado. A REMA: rede melhores amigos, era realizada há dois anos, desde que ele havia assumido a liderança. Funcionava assim: era realizado um sorteio entre todos os jovens que iriam participar; cada jovem pegava um papel onde 48 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão estaria escrito o nome do grupo que ele iria fazer parte durante os próximos três meses; cada grupo era formado por 8 jovens e um casal de líderes. Uma das regras da rede era que cada grupo deveria se encontrar uma vez por semana e o encontro precisaria durar uma hora pelo menos. Outra regra: todos os membros do grupo deveria ter o número de telefone um do outro e também saber o endereço de cada um, para que caso algum participante faltasse pudesse ser contactado. Se algum jovem percebesse algum problema com um membro do grupo também teria a liberdade de entrar em contato para conversar e tentar ajudar de alguma maneira. A REMA existia justamente para promover a união e a integração entre os jovens. Naquele sábado seria o primeiro encontro do grupo que Paula pertencia, o Alfa, que seria liderado pelo casal: Jônatas e Jessica. O líder havia marcado uma rápida reunião na IGAG para depois saírem. Leonardo e Letícia também iriam fazer parte do mesmo grupo, era a primeira vez que isso acontecia. Apesar da maioria dos jovens ter muitos compromissos durante a semana com os estudos e o trabalho, a REMA era um sucesso entre eles; todos se esforçavam para participar dos compromissos que eram sempre combinados antes para não ocorrer problemas com a agenda de cada um. _ Oi, Léo! Só vim porque você faz parte do mesmo grupo que eu!disse Paula assim que se aproximou de Leonardo que já estava esperando o início da reunião do grupo Alfa. _ Paulinha, minha linda! Você está bem? _ Estou legal! Só espero que não inventem algum programa que envolva uma porção de calorias! _ Você e as calorias não se entendem mesmo, né? _ É só elas ficarem bem longe de mim - comentou Paulinha para em seguida cumprimentar o líder do grupo que havia chegado- Oi, 49 Tânia Gonzales Jônatas! _ Olá! Paz queridos! Estão animados? - perguntou Jônatas. _ Tudo depende de você, líder. - disse Paula. _Que responsabilidade, Jô! - foram as palavras de Leonardo. _ Pois é! Quem está faltando ? _ Acho que só a Letícia e a Kátia – disse Leonardo. _Vamos esperar mais um pouquinho... nem vai ser preciso... -constatou Jônatas ao ver Letícia que veio com Suzana. _ Que vergonha! Vocês só estavam esperando por nós duas? perguntou Letícia. _ Tudo bem, vocês estão dentro do horário - disse Jessica, a esposa de Jônatas. Letícia cumprimentou todos os participantes do grupo e aproveitou para apresentar Suzana. Como Letícia sempre cumprimentava os amigos com um beijo ela precisou fazer o mesmo, ficou sem jeito quando se aproximou de Leonardo, mas seria muito estranho se ela o evitasse, assim Suzana também deu um beijo no rosto dele, era a primeira vez que eles ficavam tão próximos um do outro, o coração dos dois disparou e Suzana corou. Jônatas iniciou a reunião com uma oração, em seguida agradeceu a participação de todos e aproveitou para fazer uma explicação que julgou necessária. _ Eu preciso explicar para vocês o motivo da ausência da Kátia em nosso grupo. Ela agora pertence ao grupo Ágape e por quê? É o seguinte: a Letícia me procurou para saber se seria possível que a amiga dela, Suzana, fizesse parte do mesmo grupo que ela, pois é a primeira vez que Suzana vai participar da REMA. Como ela ainda não conhece o pessoal daqui seria melhor as duas estarem juntas. Bom, eu concordei, mas vocês sabem que o grupo é formado por 10 pessoas e aqui vale uma explicação: Por que dez? 50 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão A razão é muito simples: é a quantidade certa para dois carros, isso facilita nossas saídas. É só isso, não tem nada místico. Continuando, como nós já estávamos com os grupos todos formados, eu conversei com a Kátia e ela concordou com uma mudança de grupo. Como o Ágape estava apenas com 9 integrantes... Eu faço questão de esclarecer para não surgir comentários do tipo: Será que a Kátia não gostou dos componentes? Existe algum problema entre ela e algum outro membro do grupo? A resposta é não! O nosso objetivo com a REMA é justamente a união e a integração de cada jovem. Suzana, você é muito bem-vinda à nossa rede; esta linda mulher aquidisse Jônatas apontando para Jessica- é a minha esposa, o nome dela é Jessica e ela também é líder do grupo Alfa. Hoje nós vamos ao shopping dar um passeio. Vamos fazer um sorteio para definir as duplas que estarão caminhando pelo shopping para se conhecerem melhor. Durante o período de uma hora vocês estarão livres para conversarem com o seu parceiro. E depois... comida! O local de reencontro das cinco duplas será a praça de alimentação. Vamos ao sorteio do nosso “ Parceiros do diálogo”. Suzana estava torcendo para não tirar o nome de Leonardo e ele queria muito ter uma hora para conversar com ela, mas como ele foi o primeiro a pegar o papel, logo viu que faria dupla com Paulinha; Letícia iria conversar com Jônatas; Suzana com Jessica, o que a deixou aliviada; Willian faria dupla com Vitória e Renan com Camila. _ Hoje vamos usar o meu carro e do Leonardo, na próxima semana nós mudamos. Então aproveitem para já irem com os seus pares, é claro que vamos precisar separar uma dupla, mas é só até chegarmos ao shopping - explicou Jônatas. Como Suzana fazia par com Jessica e Letícia com Jônatas, as duas foram no carro do líder do grupo. 51 Tânia Gonzales Leonardo lamentou por não ter a oportunidade de se aproximar de Suzana. Quando chegaram ao shopping, cada dupla seguiu o seu caminho. _ Fiquei feliz por fazer dupla com você, Léo! - disse Paulinha. _ Legal! Eu quero saber como você está, pelo papo lá na igreja você continua com a ideia fixa em dietas, estou certo? _ Léo, meu querido! Eu não vou mudar de ideia! Não adianta você começar com aquele velho discurso: Você precisa se alimentar, senão vai ficar doente... blá, blá, blá, blá... isso eu ouço todos os dias. A minha mãe não se cansa... _Ela está certa. Eu acho que você deveria ouví-la, afinal ela fala isso para o seu bem. _ Léo, como você está chato! Que droga! Eu tinha ficado feliz por fazer dupla com você, mas estou me arrependendo, eu nem ia participar da reunião de hoje, só resolvi porque a minha mãe estava com esta mesma conversa. _ Você sabe muito bem que não pode faltar. _ Léo! Dá licença... se eu quiser faltar quem é que vai me impedir? _ Paulinha! Eu estou falando sério, eu acho que você emagreceu muito desde o seu aniversário! _ Você está precisando usar óculos! Olhe pra mim, olhou? _ Olhei e sabe o que eu vi? Uma garota linda que não precisa de dietas mirabolantes. _ Agora eu comprovei que você está mesmo com problemas na visão. Léo, sua amiga aqui está gorda... gorda! Mas eu vou resolver isso. _ Paulinha, gorda? Acho que quem está com problema de visão é você! Vem comigo. _ Aonde você vai me levar? Leonardo puxou Paulinha pelo braço e a levou até uma loja para 52 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão que ela pudesse se olhar no espelho. _Para com isso, Léo! Não vou me olhar no espelho! _ Olha isso, veja que garota linda, veja! _ Eu vou embora! Depois você vai ter que se explicar com o Jônatas e ele não vai gostar nada! Você sabe muito bem que o objetivo da REMA é a união... e eu estou com vontade de brigar com você! Caramba! _ Linda, para com isso! Tudo bem, se você não quer... mas eu estou falando sério, você não precisa disso! _Agora vamos falar sobre o advogado Leonardo, chega de falar sobre mim... senão eu vou embora! _Tudo bem, sua teimosa! Leonardo e Paula passaram os minutos seguintes conversando sobre o trabalho dele; depois encontraram-se com os outros na praça de alimentação, Paula bem que tentou escapar, mas o amigo a puxou pelo braço. Comeram esfiha. Paula só tomou um suco de laranja disse estar sem fome, o que provocou um olhar de reprovação de Leonardo. Como Renan e Vitória deixaram os carros no estacionamento da igreja, Jônatas combinou com Leonardo para que ele levasse Letícia, Suzana, Paula e o Willian, assim só o carro de Jônatas precisaria ir até a igreja. Paula sentou-se ao lado de Leonardo e ficou conversando animadamente com ele. Suzana percebeu o quanto os dois eram íntimos e isso a desagradou, mas ela não sabia dizer o porquê. Após deixar Paulinha e Willian em suas respectivas casas, Leonardo parou o carro entre a casa de Letícia e Suzana, desceu e enquanto Suzana abria o portão ele se aproximou dela e disse: _ Eu fiquei muito feliz ao vê-la hoje, pena que o sentimento não é recíproco, mas mesmo assim valeu a pena. Especialmente ontem eu fiquei com uma vontade imensa de falar com você. Olhar para 53 Tânia Gonzales o seu rostinho lindo é como ganhar um presente muito especial. Eu só ficaria mais feliz se você dissesse o meu nome. Suzana não sabia o que dizer, ela ficou surpresa com as palavras dele, foram totalmente inesperadas, por isso o som que Leonardo ouviu não foi o de seu nome sendo pronunciado, mas um tímido: _ Boa noite! _ Tchau, Su! Eu também estou aqui, lembra? - disse Letícia. _ Desculpa Letícia... tchau, depois a gente conversa. Suzana entrou rapidamente e Leonardo aproveitou para conversar com a amiga. _ Por que será que para ela é tão difícil pronunciar o meu nome? _ Você não tem jeito mesmo! Léo, pensa que eu não ouvi o que você disse pra ela? _ Eu disse alguma coisa errada? Eu só falei a verdade. Disse exatamente o que estava passando pela minha mente naquele instante. Fui tão sincero! Não é disso que vocês gostam? _ Meu amigo, eu fui tão clara com você! Eu falei pra você ir com calma, mas você não consegue resistir. “ Especialmente ontem”; ontem foi dia dos namorados, você não tem jeito! Mas eu até estou surpresa por você não ter comprado um presente pra ela. _ Você não me disse para ir devagar? Hoje eu só fui... _ Extremamente romântico! _ Você achou mesmo? _ Léo, eu achei uma graça, mas a Suzana é muito tímida com rapazes. _ E eu torci tanto para formar dupla com ela! Pelo menos ela foi conversar com a Jessica, menos mal. _ Mas pode se preparar, você sabe muito bem que todos vão ter a oportunidade de conversar com cada membro do grupo. Vai chegar um dia em que a Suzana vai ficar uma hora conversando com o Willian, por exemplo. 54 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Você está certa, mas o meu dia também vai chegar. Os dois amigos ainda estavam conversando quando o pai de Suzana, Davi, chegou do trabalho, ele os cumprimentou e Letícia aproveitou para apresentar Leonardo. _ É bom ir fazendo amizade com o sogrinho! - brincou Letícia assim que o pai de Suzana entrou. _ Quem sabe eu precise primeiro conquistar o pai … eu acho que deve ser bem mais fácil! Davi encontrou as duas filhas assistindo TV, a esposa, Marina, estava de plantão no hospital naquela noite de sábado. Após cumprimentar as filhas, fez um comentário sobre o jovem que havia acabado de conhecer. _ Que rapaz educado! E ele é bonitão, né? Não sei não, aqueles dois devem ter mais alguma coisa... não deve ser só amizade... formam um casal muito bonito. _ Pai, os dois são só amigos! - disse Suzana, que não entendeu porque a incomodava tanto esse tipo de comentário sobre Leonardo. Naquela noite, Suzana teve um sonho bem diferente dos que estava acostumada. _ Você não vai me fazer feliz? É tão fácil! É só você dizer meu nome.. diz...por favor - eram a palavras de Leonardo. _ Boa noite, Leonardo! Leonardo agradeceu com um largo sorriso que fez o coração de Suzana disparar. Neste momento ela acordou e disse sussurrando: _ Boa noite, Leonardo! Naquela noite, Leonardo também sonhou, o que era raro acontecer. Sonhou que havia tirado o nome de Suzana para conversarem durante uma hora. _ Eu estava torcendo para que você fosse a minha parceira de 55 Tânia Gonzales diálogo hoje- começou Leonardo- Conversar com você durante uma hora será maravilhoso. _ Pois eu estava torcendo para não tirá-lo! - revelou Suzana com rispidez. _ Por quê? O que foi que eu fiz? _ O motivo é muito simples: eu não suporto você! Eu gostaria muito que você não me dirigisse mais a palavra. _ Calma! O objetivo da REMA é a união entre os jovens...nós não podemos ser amigos? _ Eu não quero ser sua amiga e não quero mais falar com você! Será que eu fui clara? Já disse que não te suporto! E quer saber? Eu vou embora, não preciso e não quero ficar aqui com você. O sonho de Leonardo terminou com Suzana correndo. “ Que sonho! É inacreditável! Pelo menos em meu sonho ela poderia ser mais gentil, mais meiga comigo... mas nem em sonho ela me quer! “- pensou ele. 56 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 6 -Problemas Paulo Reis teria uma semana muito agitada. Os compromissos para pregar já se iniciava em plena segunda-feira, o que provocou uma séria discussão com a esposa. _ Que maravilha, Paulo! Então, hoje à tarde você não vai ficar cuidando da loja? É claro, as pessoas estão esperando pelo grande pregador! - disse Regina com ironia. _ Regina, cuidado! Isso é jeito de falar? _ Me desculpe, querido! É que eu já fiquei a manhã inteira ocupada organizando algumas coisas na loja e pensei que o meu querido marido iria ficar lá à tarde. É que eu tenho pouco serviço aqui em casa, sabe? Quase nada, pensei que poderia descansar ela continuou com a ironia. _ Regina, eu não estou gostando nada do seu tom, fala direito comigo! Eu passei a manhã inteira em oração e leitura da Palavra, me preparando para o culto e você com os seus comentários maldosos está atrapalhando tudo. _ Me desculpe, grande pregador! Me desculpe por precisar de você às vezes e não poder contar, me desculpe por ser sua esposa, me desculpe por viver- ao dizer isso Regina desabou, começou a chorar. Paulo sabia muito bem usar as palavras certas em um sermão, mas não conseguia se expressar quando o assunto envolvia sentimentos. Saiu sem dizer nada para a esposa, que ainda ficou por alguns minutos ali na sala de sua casa, em prantos. Voltou após uma hora e encontrou a esposa deitada no sofá da sala. _ Ainda está aí, Regina? Almoçou pelo menos? Eu já comi na ruainformou Paulo. _ Que consideração a sua, como você é sensível, Paulo! Olha, se 57 Tânia Gonzales tem uma coisa que eu admiro em você é a sua sensibilidade! _ Regina, já vai começar? _ É verdade querido! Você é um esposo e pai sempre tão presente! Faz questão de fazer programas com a família e... _ Para com isso, Regina! Você é tão injusta! Eu levei você para Poços de Caldas não faz muito tempo e é assim que você me agradece? _ Demorou para jogar na minha cara, como demorou! Paulo, eu nem sei como você me convidou para irmos juntos, fiquei muito surpresa. _ Regina, eu estou ficando nervoso... estava tão tranquilo hoje pela manhã, sentindo uma paz tão gostosa e agora... _ Como é duro ouvir a verdade, né, Paulo? Principalmente você que é um homem tão respeitado, que sabe usar as palavras certas para comover a multidão, mas não sabe dizer uma palavra de carinho que alcance o meu coração e o de nossa filha. _ Pare com este drama, Regina. _ É difícil ouvir... mas eu preciso falar, cansei de ficar guardando tudo. Cansei de ser a esposa perfeita, que entende a importância do ministério do marido, sabe por quê? Porque o meu marido não sabe a importância de sua própria família. Ele diz para os outros valorizarem as suas famílias enquanto ele não valoriza a dele! Você acha mesmo que Deus está satisfeito com você? _ Você está doente, Regina. É uma doença espiritual. Você precisa ter comunhão com Deus. _ Para, pode parar! Agora você vai pregar pra mim? Viva o que você prega, entendeu? Se você praticar o que diz em seus sermões, com certeza nossa família será feliz. Paulo foi para o quarto, pois não sabia mais o que dizer . Paulinha ouviu toda a conversa dos pais sem que eles percebessem 58 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão a sua presença, depois saiu e ficou andando sem destino pelas ruas, até que decidiu ligar para Leonardo, que estava trabalhando; combinou buscá-la para que pudessem conversar, pois percebeu que ela não estava bem. _ Oi, Paulinha! O que aconteceu?- perguntou Leonardo assim que ela entrou em seu carro. _ Me desculpe, sei que você estava trabalhando, mas eu precisava desabafar. _ Não precisa se desculpar. Vamos para algum lugar, que tal tomar um cafezinho? _ Se for só um cafezinho, tudo bem! Os dois pararam em uma padaria. Leonardo resolveu comer um lanche, Paulinha só aceitou tomar um café. _ Sem comentários – disse Leonardo ao ver que amiga não ia comer nada- ou melhor só um- ao dizer isso ele segurou o braço dela- que bracinho é este? Até parece o braço de uma menina com 5 anos de idade! _ Me poupe, Léo! Só hoje, tá? _ Tudo bem, mas me conta, o que aconteceu? _ São os meus pais. Hoje eles discutiram feio! _ Se você quiser contar os detalhes, tudo bem, mas se preferir ocultá-los não tem problema. _ Leonardo... eu tenho medo que meus pais se separem. _ Mas eles falaram alguma coisa nesse sentido? _ Não, mas minha mãe está tão infeliz! Você sabe que meu pai viaja muito, que recebe muitos convites para pregar... _ Sei... _ E quando está em casa ele fica estudando... ajuda na loja, mas sempre está com os livros nas mãos. É tão difícil conseguir a atenção dele! Vive assistindo as próprias pregações e também as de outros pregadores renomados. Para ele não existe nada mais 59 Tânia Gonzales importante do que o ministério. Outro dia eu comentei com ele que o aniversário da mamãe estava chegando... sabe o que ele me disse? Qual é o dia mesmo? E quando eu falei qual era, ele simplesmente me informou que este era o mesmo dia da abertura de um congresso em Campinas. Dá pra acreditar? E pior, não é ele quem vai ser o pregador neste dia, mas ele vai prestigiar um amigo dele. Quer dizer que ele prefere prestigiar um amigo do que a esposa? _ É complicado! Paulinha, eu acho que seu pai sabe muito bem preparar um sermão, eu gosto de ouví-lo e admiro quem se dedica ao ministério da palavra, mas quando isso atrapalha a comunicação dos membros da família, aí é necessário parar com tudo e refletir, porque com certeza Deus quer o melhor para a família. Eu sei que sou novo ainda, mas já aprendi a importância de haver diálogo entre as pessoas. Muitos querem realizar grandes coisas nas igrejas, nos congressos, nas empresas e se esquecem que a maior realização é saber conviver com os seus. O tempo passa tão depressa... depois não adianta ficar chorando diante de um caixão. Desculpe falar desse jeito... mas precisamos valorizar mais as pessoas que amamos. _ Leonardo, você tem toda a razão, mas meu pai não aceita conselhos, ele adora dar conselhos, mas na hora de ouví-los! Ele não admite o erro. Não sabe ouvir. Pensa que só porque estudou muito, é o dono da verdade. Ele é bom na teoria, mas na prática é péssimo. Outro dia ele deu uma palestra sobre:“ A comunicação no lar”, dá pra acreditar? _ Paulinha, você precisa dar muito carinho para sua mãe e parar de se preocupar tanto com a aparência; outro dia ela comentou com a minha mãe que você não se alimentava direito e que ela tinha muito medo de você ficar anêmica. _ Leonardo, o assunto hoje aqui é o grande pregador Paulo Reis e 60 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão não a filha dele. Que droga! Você sempre volta neste assunto chato! _ Teimosa. Come alguma coisa, por favor! Por mim. _ Só se você me dar um beijo bem gostoso! - provocou Paula. _Paula, sem brincadeira! _ Quem disse que eu estou brincando? Eu deixo você me levar pra jantar se você me beijar. _ Isso é chantagem. _Isso é carência... que custa? Você está sozinho, que eu sei... e eu também... estou com saudades! Não seja mau. _ Paula, o assunto mudou de uma maneira... _ Você quer que eu me alimente e eu quero um beijo, você não acha justo? Já imaginou a alegria da minha mãe ao saber que eu jantei com você? Alegria em dose dupla: a filha dela resolveu comer de verdade e em ótima companhia. _ Você é tão esperta! _ E aí? O que você me diz? Ou melhor, não precisa dizer nada... é só... você sabe. _ Você está falando sério? Paula, é melhor não. _ Se eu desmaiar a culpa é toda sua. _ Não faz isso. _ Eu estou ficando tonta... não almocei hoje. _Paula, para com isso. _Que tontura... as coisas estão rodando... - ao dizer isso, Paula fez que ia cair e Leonardo foi ampará-la, aproveitando que ele estava próximo ela o beijou. _ Que bom... eu tinha esquecido o quanto era gostoso. _ Paula, isso não se faz … você se aproveitou da situação. _ Você não quis, foi mesquinho... _Mesquinho? _É isso mesmo! E já que eu te beijei nós não vamos jantar. 61 Tânia Gonzales _ Vamos sim, eu vou te levar em um restaurante bem legal, ótima comida... _ Nem pensar, eu só vou com uma condição e você sabe muito bem qual. _ Então vou levá-la para casa. _Pra sua? Você prefere que o beijo seja lá? _Pare de gracinha! Para sua casa... e você vai jantar a deliciosa comida da sua mãe, porque você é uma ótima filha e não vai querer que a sua mãe fique mais triste do que ela já está. _Depois eu que sou a chantagista! Leonardo levou-a para casa e só saiu de lá depois que Paula se alimentou. Regina ficou duplamente satisfeita. Eram quase 23h30 quando Suzana chegou em casa naquela noite de segunda-feira; Sueli, sua irmã, estava assistindo TV; ela tomou um banho, preparou um café com leite, pegou algumas bolachas e sentou-se ao lado da irmã. _ Suzana, você não imagina quem eu vi hoje na padaria perto do meu serviço? _ Não imagino mesmo! Quem? _ Eu estava lá, esperando meu lanche ficar pronto, quando de repente eu vejo um rapaz alto, bem vestido com uma camisa social azul e blazer preto... _ Sueli? Não estou entendendo... _Calma, deixa eu terminar a descrição do gato... _Sueli, quem era? Nem sei por que eu estou me preocupando. _Suzana, deixa eu fazer um suspense... o bonitão estava muito bem acompanhado de uma loira linda que parecia uma top model... _ Sueli! _ Tudo bem... eu vou contar... os dois estavam conversando, 62 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão quando de repente ele se aproximou dela e os dois deram o maior beijo, lá mesmo na padaria! _ E eu com isso? _ Eu ainda não contei quem era o bonitão... você conhece... ele faz parte do seu grupo. Sueli também fazia parte de um grupo, o dela era o Ômega, que também tinha Daniel como um dos componentes. Suzana agora estava ansiosa e temerosa aguardando o nome do rapaz, mas a irmã insistia em continuar com o suspense. _ Quem era? _ Esqueci de um detalhe: a loira linda também faz parte do seu grupo! Que grupo animado, hein? _ Sueli! Para com isso! _ Tá legal eu vou falar... o casal apaixonado era nada mais nada menos do que: Leonardo e Paula. Suzana ficou sem palavras. Ela não conseguia entender o que estava sentindo. _ Tem certeza? _ Claro! Eles devem ter reatado o namoro, pelo que eu fiquei sabendo eles já namoraram, né? _ É isso mesmo, agora chega de falar da vida dos outros... vou dormir. Suzana queria sair de perto da irmã antes que ela percebesse o quanto aquela notícia havia mexido com ela. Demorou muito para ela conseguir dormir. As palavras de Sueli não lhe saíam da cabeça e as de Leonardo também:“ Rostinho lindo, né? Ele gosta mesmo de um rostinho lindo! Ele é daqueles que adoram dizer palavras bonitas para que depois as meninas bobas fiquem lembrando e … chega... por que eu estou dando tanta importância pra isso?” Naquela noite não foi só Suzana que demorou a conciliar o sono, 63 Tânia Gonzales Regina também ficou rolando na cama, só pensando na discussão que teve com o marido. Paulo Reis chegou pouco minutos após a meia-noite e resolveu dormir no sofá. Paula também teve uma noite bem agitada; sonhou que havia recebido uma proposta de trabalho, mas quando a sessão de fotos ia começar, as pessoas começavam a rir e dizer se as fotos eram para alguma grife de roupa para gordinhas. Ela acordou muito assustada. Levantou-se e foi direto para o espelho: “ Aquelas pessoas estão certas, você é uma gorda! Por que você jantou hoje como uma gorda gulosa, hein? Mas amanhã eu vou cuidar de você.” Naquela noite, Leonardo fez uma oração especial por Paulinha, ele ficou muito preocupado com a amiga. Ele percebeu que todas as vezes que a via ela estava mais magra e o pior é que sempre Paulinha dizia o contrário. Ele achava muito estranho a atitude da amiga, será que ela estava com uma daquelas doenças que afetam as garotas que se preocupam demais com a aparência? Ele se levantou e foi fazer uma rápida pesquisa pela internet. Digitou: Bulimia e anorexia. Entrou em alguns sites que falavam sobre o assunto e chegou a conclusão que a amiga apresentava sintomas de anorexia. 64 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 7 -Um presente Suzana não conseguia entender o motivo de ter ficado tão chateada com a história contada por sua irmã. Não havia razão para ela se sentir assim, afinal entre ela e Leonardo não existia nada, nem sequer uma amizade. Foi para a faculdade naquela terça-feira e passou a manhã inteira imaginando a cena descrita pela irmã. À tarde, durante o trabalho foi a mesma coisa. Ela reconhecia que Paula era muito bonita, Sueli tinha razão em dizer que ela parecia uma top model. Leonardo deveria ser louco por ela. Suzana começou a lembrar de como os dois conversavam com toda a animação no dia da REMA. O pior de tudo, era pensar que quinta-feira eles teriam um novo encontro do grupo, pois Jônatas resolveu marcar este dia para aproveitar a folga dela. Suzana achava interessante o propósito da REMA, mas só de imaginar que um dia teria que formar dupla com Leonardo, já se sentia totalmente desconfortável. No mesmo dia, no início da noite, Leonardo foi até a casa de Letícia levar um presente. _ Um presente para Suzana? Presente de dia dos namorados atrasado? Você está querendo conquistá-la? - perguntou Letícia. _ Não é uma estratégia de conquista, é que eu percebi que ela se interessou muito por estes três livros, por isso resolvi comprá-los. _Como você é observador! Bom, é de se esperar, né? Um advogado precisa estar sempre atento aos detalhes. _ Você entrega? _ Por que você não entrega pessoalmente? _ Do jeito que ela me trata é bem capaz de jogar os livros em cima de mim! _ A Su não faria isso! 65 Tânia Gonzales _Tenho minhas dúvidas. No dia seguinte, antes de ir para a faculdade, Letícia foi até a casa da amiga. _ Desculpe o horário, eu sei que você está na correria para sair e eu também, mas eu precisava lhe entregar isso. _ O que é isso? - perguntou Suzana ao receber a caixa da amiga . _ Um presente. _ Pra mim? Você... _Não, eu só estou entregando. Foi o Leonardo que mandou. _Leonardo? Eu não posso aceitar. _Por quê? _O que ele está pensando? Ele acha que é só mandar um presentinho e … _Calma Su! Ele só quis ser gentil, abra! _Abrir pra quê? Não vou aceitar, diz para o seu amigo que eu não sou dessas que se conquistam com presentes! _ Suzana, espera aí, o Léo não teve a intenção... _ Você que pensa! Eu sei que você gosta muito dele, mas … _ Su, abra o presente... não custa... estou curiosa. _ Tá bom, mas eu só vou abrir porque você está pedindo. Suzana abriu a bonita caixa florida, logo percebeu que Leonardo havia comprado exatamente os livros que ela tinha se interessado naquela dia em que eles se encontraram no shopping. _ Como ele é espertinho! Ele ficou observando o tempo todo. _Suzana, reconheça que ele merece um ponto por ter escolhido direitinho! _ Ele é muito esperto, é isso que ele é! Se ele pensa que pode me comprar... ele gastou quase duzentos reais! Eu ia comprar estes livros com calma, um de cada vez. _ Então... fique com eles! Você vai precisar. 66 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Não posso! Por favor, Letícia, devolva. _ Suzana, você está sendo injusta e ingrata. _ Injusta e ingrata? Eu não sou boba. Letícia, eu não sou uma garota experiente, mas.... _Suzana, eu conheço o Léo há muito tempo, eu sei que ele não é do tipo que... _ Letícia, não adianta, eu sei muito bem que você adora o Leonardo, eu até entendo a sua preocupação em defendê-lo, mas eu não tenho nada com ele e nem quero. _ Nem amizade? _ É isso mesmo, nem amizade. Eu já percebi qual é a intenção dele, então, por favor, devolva. Letícia percebeu que não havia mais argumentos diante da amiga que estava decidida a não aceitar o presente, por isso, naquela noite, ela ligou para o amigo para que ele fosse buscar o presente rejeitado. _Ela rejeitou o meu presente? - perguntou Leonardo, inconformado. _Sinto muito, amigo, mas não teve jeito... e eu insisti... ela acha que você está querendo comprar a confiança dela. _Ela pensa isso? _ Léo, ela não te conhece. _Ela não me dá oportunidade, como é que ela vai me conhecer? _ Eu não sei por que, mas eu já percebi que ela está... magoada... é isso, até parece que você fez alguma coisa muito errada, sei lá. _ O que foi que eu fiz? Sinceramente, não sei. _ Léo, Léo... amanhã você pode confrontá-la, vamos ter mais um encontro do grupo. _ Confrontá-la? Está brincando, né? Deixa pra lá, se ela quer que eu mantenha distância, eu vou fazer a vontade dela. _ Só faltava vocês dois formarem uma dupla amanhã. 67 Tânia Gonzales _ Espero que não, no outro dia eu estava torcendo pra isso, mas agora … eu não vou impor a minha presença, se ela não me suporta, o que eu posso fazer? Letícia percebeu o quanto aquela situação estava machucando seu amigo. Ele estava interessado em se aproximar de Suzana e ela decidida a ficar bem longe dele. A quinta-feira chegou e com ela o novo encontro da REMA. Foram até um shopping em São Bernardo do Campo. Leonardo formou dupla com o líder do grupo, Jônatas; Letícia com Jessica; as outras duplas eram formadas por: Suzana e Willian; Renan e Vitória e a última dupla: Paula e Camila. Pensar que Suzana ficaria uma hora conversando com Willian, deixou Leonardo muito chateado, mas ele sabia muito bem que todos os participantes do grupo teriam a mesma oportunidade. Ele gostava muito de Jônatas porque ele sempre tinha algo interessante para dizer, mas naquele dia ele não conseguia se concentrar no que o amigo estava dizendo, por várias vezes Jônatas precisou repetir o que havia dito. _ Me desculpe, Jô, hoje eu não estou em meu melhor dia. _ Você está com algum problema? Quer se abrir comigo? _ Não é nada... não se preocupe. _ Leonardo, o nosso objetivo aqui é justamente de um ajudar ao outro, você sabe! Mas se você não se sente à vontade para contar o que está te afligindo, eu não vou insistir, mas pode ter certeza que estarei orando por você. _ Valeu amigo, é complicado... _ Será que o problema envolve alguma garota?- perguntou Jônatas. _ É isso... uma garota muito difícil. _ Leonardo, às vezes nós oramos por tudo, menos por aquilo que 68 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão mais está nos preocupando, pode até parecer contradição, mas é verdade. Principalmente quando o assunto é o coração. Talvez você pense que não deve ocupar Deus com isso, mas Ele quer que você confie Nele nesses assuntos também. Se isso o está preocupando, ao ponto de deixá-lo completamente desligado das outras coisas, então, amigo, está na hora de conversar com o Pai. Não pense que pode resolver sozinho. Pra que se afligir tanto? Deus conhece o coração da garota que está tirando o seu sono, então, com certeza não existe alguém mais qualificado para você se abrir. Peça orientação a Deus. _ Obrigado, Jô! É muito bom ter um amigo como você! Leonardo e Jônatas foram os últimos a chegarem ao local combinado pelo grupo. Leonardo logo percebeu que Suzana estava toda animada conversando com Willian; ele concluiu que o problema estava mesmo com ele, pois ela não tinha dificuldade em fazer amizades. _ E aí, Paulinha, como estão seus pais? - perguntou Leonardo ao ficar a sós com ela no carro, após deixar Camila e Willian em suas respectivas casas. _ Você acredita que eles não estão conversando, desde segunda? _ Sério? Que coisa chata. E como você está se sentindo? _Péssima. Eles ficam me usando para poder atacar um ao outro. O mais absurdo é que meu pai continua saindo, pregando por aí, como se nada tivesse acontecido. E o pior é que sábado ele vai dar uma palestra sobre família, lá em Indaiatuba. Pode? _ E se alguém tentar conversar com o seu pai, você acha que ele vai parar para ouvir? _ É claro que não. Eu não posso contar pra mais ninguém... por favor, Léo, isso não pode se espalhar... confio em você! _Tudo bem, fique tranquila. Sendo assim, nós só podemos orar por eles. E você está se alimentando melhor? 69 Tânia Gonzales _ Este assunto não vai rolar! Esquece isso. Leonardo deixou Paulinha em casa e quando chegou na dele, fez uma ligação para Letícia. _ Oi, amigo! Eu sabia que você não ia resistir...o que você quer saber? _ Você viu como que a Suzana se deu bem com o Willian? _ Está com ciúme! Não fica assim. O Willian trabalha no mesmo ramo que a irmã da Suzana. Eles trabalham em telemarketing, então ele contou algumas experiências dele. Ele começou a trabalhar há poucos meses, é o primeiro emprego. E tem mais: a mãe dele é professora e você sabe que a Suzana está cursando Letras e o Willian é muito divertido. _ Só comigo que ela não tem nada em comum, muito pelo contrário. _Não fica assim. _Já me conformei... o caminho até o coração dela é muito íngreme. Esta garota é inacessível, pelo menos para mim. _ Ah... não fala assim... mas eu gostei do: “o caminho até o coração dela é muito íngreme”, que poético! Uau! _ Está se divertindo comigo, é? _ Não mesmo... você sabe o quanto eu gosto de você e falando nisso, a minha mãe também e exatamente por este motivo, é que no próximo domingo você e a sua família estão convidados para almoçar aqui em casa, sua mãe já sabe. _ É mesmo? Tudo bem. Eu acho que vou aproveitar a oportunidade e pedir permissão para te namorar... - brincou Leonardo. _Quem disse que eu quero? _ Até você me despreza! Mas e o Daniel? Por que você não aproveita e o convida também? Você tem todo o meu apoio. _ Não viaja, Léo! Não vou arriscar, pelo menos por enquanto. 70 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Sábado pela manhã, Letícia foi até a casa de Suzana. _ Oi, Sueli , tudo bem? - Letícia cumprimentou a irmã de Suzana que estava assistindo TV. _ Olá, Letícia! Senta aí, quais as novidades? _ Nenhuma, e o seu grupo da REMA está bem entrosado? Você está gostando das atividades? _ Eu estou e você já está sabendo que na próxima semana vai haver um torneio de boliche entre os nossos grupos? _ É mesmo... a Jessica comentou. _ Você perguntou se meu grupo está bem entrosado, né? Está sim, mas nada que se compare ao seu. _Por quê? _ Sueli! Vai começar com a fofoca? - perguntou Suzana ao perceber o que a irmã quis dizer com o comentário. _ Suzana, dá um tempo! Eu só quero fazer uma pergunta para Letícia, tenho certeza que ela a melhor pessoa... _O que você quer perguntar? Do que vocês duas estão falando? _ É que outro dia eu vi duas pessoas do seu grupo se beijando em uma padaria próxima ao meu trabalho. _ Sueli, para com isso! Que coisa feia ficar falando da vida dos outros- protestou Suzana. _ Agora você me deixou curiosa... dois do meu grupo se beijando? _ É isso mesmo! Era o seu amigo Leonardo e a Paula. _ Não acredito! Não pode ser! _ Sueli... chega... eles são livres e você não tem nada a ver com isso! - disse Suzana. _ Eu acho que deve haver algum engano. _Letícia, eu vi, não foi alguém que chegou e me contou. Eles devem ter reataram o namoro... _ O Léo teria me contado... tem alguma coisa errada nesta história, eu sei que você não está mentindo, eu acredito em você, mas deve 71 Tânia Gonzales ter alguma explicação. _ Meninas, não vão oferecer nada para Letícia? - perguntou Marina ao entrar na sala. _ Oi, dona Marina! Não se preocupe, já comi. Que bom que a senhora está de folga hoje! _ Eu estava mesmo precisando- disse Marina, dando um beijo em Letícia e depois olhando para Suzana, disse: Filha, ontem eu recebi uma ligação da mãe daquela menina que trabalha com você... a Cláudia. _ A mãe dela ligou? _ É isso mesmo e não gostei nada do que ela me contou, viu? Eu quero saber o porquê de você não me falar nada sobre os assaltos que três meninas do shopping foram vítimas? _ Mãe, para que se preocupar com isso? Acontece. _Acontece? Suzana, o ladrão derrubou a Cláudia no chão ao puxar a bolsa dela e você não me fala nada sobre isso? E a outra garota quase que sofreu um abuso, só se livrou porque apareceu alguém na hora, o bandido se assustou e saiu correndo. _Mãe, eu não queria que você ficasse assim toda preocupada, foi só por isso. _ Suzana você deveria ter me contado... eu vou dar um jeito... não sei como, mas você não vai mais voltar sozinha! _ Mãe, que ideia é essa? _ Nas duas semanas em que eu trabalho durante o dia eu vou buscar você, nas outras duas... eu vou pensar em uma outra solução. _ Mãe, para com isso, a senhora chega cansada e ainda vai me buscar? Nem pensar! Vai sair daqui de São Caetano para ir até o Aricanduva? Todo esse sacrifício pra quê? _Você ainda pergunta? Não adianta você falar nada. _ Mãe, a senhora acha que todas as mulheres que trabalham vão 72 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão ter a mãe pra buscar? Eu não vou sozinha para a faculdade também? E aí, a senhora vai me levar? _ Não importa, eu estou falando de você. Pelo menos a sua faculdade é de manhã, não que as coisas não aconteçam nesse horário, mas à noite é pior e como logo as férias vão começar sobre a faculdade nós podemos deixar para depois. Amanhã mesmo eu vou te buscar! Desculpe, Letícia, mas eu fiquei muito preocupada com tudo isso. _ Dá pra entender, dona Marina. Está cada dia mais perigoso andar por aí. Letícia ficou mais alguns minutos conversando com as mulheres da família Souza e depois foi para sua casa. Domingo, a família Martins foi almoçar na casa da família Soares. Até Beatriz, a irmã de Leonardo compareceu junto com o marido, Bruno. Letícia conseguiu conversar com Leonardo alguns minutos antes do almoço. _ Eu preciso fazer uma pergunta, muito séria- começou Letícia. _ Pergunta séria? Você quer saber se eu vou pedí-la em namoro hoje?- brincou Leonardo. _ Engraçadinho! Léo, você se encontrou com a Paula em uma padaria, segunda-feira passada? _ Como você sabe disso? _Então é verdade! Voltaram a namorar e você não me contou nada? _ É claro que não! Que ideia! _ Vocês se beijaram lá na padaria? _ Tem alguém me seguindo? _ Léo, não acredito! Depois fica aí todo magoado porque a Suzana não fala com você e blá, blá, blá, blá... _ Quem foi que te contou isso? 73 Tânia Gonzales _ Você beijou a Paula? _ Eu vou contar tudo o que aconteceu, mas depois você vai me dizer quem foi que nos viu lá. Leonardo explicou tudo para a amiga, só não entrou em detalhes sobre qual o problema que Paula estava enfrentando, já que a amiga havia pedido para guardar segredo. _ Então, foi isso, ela roubou um beijo seu! Como é difícil ser irresistível! _Agora me diz, quem contou? Agora foi a vez dela explicar ao amigo. _ É brincadeira, justo a irmã da Suzana tinha que presenciar tudo?- disse Leonardo inconformado. _ Veja pelo lado bom, de repente isso explica a reação da Suzana. Ela não aceitou o seu presente e me falou aquelas coisas... vai saber... ela pode muito bem ter pensado assim: “que rapaz mais abusado! Beija uma em um dia e dá um presente para outra na mesma semana!” Concorda? Mas não pense que ela me confidenciou isso, é pura imaginação minha, tá? _ Tudo bem, você pode ter razão. Quem sabe? A seguir, Letícia aproveitou também para relatar sobre a preocupação da mãe de Suzana por causa dos assaltos. _ Como que a mãe dela vai até lá... vai ser muito cansativo. Qual é o horário que a Suzana chega do serviço todos os dias? perguntou Leonardo. _ Às onze e meia; é muito longe! _ Se fosse de carro, ela chegaria dez e meia mais ou menosconstatou Leonardo- Eu estou pensando... sem chance, ela nunca iria concordar. _ Concordar com o quê? _ Se a Suzana não me detestasse, bem que eu poderia buscá-la... é um horário em que eu estou totalmente livre e... 74 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Espertinho! Seria perfeito, imagine você ter a missão de buscá-la todos os dias... você não iria gostar nadinha, né? _ É melhor parar de sonhar acordado, ela nunca vai aceitar! _ Eu posso conversar com a dona Marina... eu percebi que ela ficou muito preocupada. _ Comente com ela, de repente, se ela concordar, quem sabe ela consiga convencer a filha. Precisaram encerrar a conversa, porque o almoço já estava pronto. Sandra, a mãe de Letícia, estava muito feliz por receber aquela família tão querida; ela não perdia a esperança de Leonardo namorar Letícia. Após almoçarem, Beatriz disse que tinha uma notícia muito importante para dar e queria aproveitar a ocasião. _ Eu e o Bruno estamos muito felizes, porque ontem nós pegamos o resultado de um certo exame que deu... positivo! - informou Beatriz com todo o entusiasmo. _ Parabéns! - disse Sandra- Foi surpresa para todos aqui? Nem você sabia, Lígia? _ É isso mesmo! Ah, filha! Que notícia maravilhosa! - disse Lígia dando um forte abraço na filha. Todos os que estavam presentes, cumprimentaram o feliz casal. _ Bia, minha irmã! Chegou a sua vez, dra. Beatriz! - disse Leonardo para em seguida cumprimentar o cunhado- Parabéns, papai Bruno! Quando o culto do domingo à noite terminou, Letícia aproveitou para conversar com a mãe de Suzana; a amiga estava trabalhando, teria folga no próximo domingo. _ Letícia, eu ficaria muito grata e muito aliviada também, mas não sei... dar todo esse trabalho para ele e... seria muito difícil convencer a Suzana... sei lá, nós nem o conhecemos. _ A senhora pode ficar sossegada quanto ao caráter do Leonardo e 75 Tânia Gonzales não precisa se preocupar pelo trabalho que ele vai ter, pois foi ele mesmo quem se ofereceu... agora, quanto à Suzana, bem... aí eu concordo que vai ser um problema convencê-la. Marina prometeu que teria uma conversa com o marido e depois falaria com a filha; aproveitou a oportunidade e pediu para Letícia apresentar Leonardo para ela. Eles conversaram por alguns minutos e Marina saiu muito impressionada com o rapaz, achou-o muito educado e gostou da maneira como ele se referia à Suzana. No caminho para o shopping, ela aproveitou para conversar com o marido, pois eles iriam juntos buscar a filha naquela noite e como o culto na IGAG terminava às 19h30, eles teriam tempo de sobra para chegar até lá. _Davi, eu gostaria muito que a Suzana concordasse, isso me daria muita tranquilidade e sabe o que mais? Eu percebi que o rapaz se interessa por ela... Davi... você sabe que eu gostaria que a Suzana se apaixonasse... Davi... nossa filha merece ser feliz, ela sofreu tanto! Eu gostaria que ela conseguisse se relacionar com algum rapaz e o Leonardo parece ser um bom rapaz, a Letícia o conhece há anos, desde que eram crianças e a minha irmã comentou que a mãe da Letícia, a dra. Sandra, gostaria muito que a filha namorasse o Leonardo. _E você ainda quer ver a nossa filha envolvida? Eles têm um padrão de vida muito diferente do nosso... eu acho que a ideia desse rapaz buscar Suzana... eu não sei... Marina esquece isso, você vai arrumar confusão, a dra. Sandra é nossa vizinha e ainda por cima congrega na mesma igreja. _ Davi, a Letícia disse que eles se gostam como irmãos! A Marisa também disse a mesma coisa. _ O rapaz é advogado, trabalha no escritório junto com a pai, o dr. Rafael, e você sabe que o pai da Letícia, o dr. Fernando, é 76 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão sócio lá? Esse pessoal gosta de deixar tudo em família, por isso não fique sonhando! 77 Tânia Gonzales Capítulo 8 -Diagnóstico: Anorexia Paula acordou muito feliz, pois ela iria participar de uma seleção para a escolha de duas modelos para uma campanha publicitária. Bebeu suco de laranja e comeu uma torrada com um pedaço de queijo branco. _ Mãe, hoje é o meu dia! Estou sentindo que tudo vai dar certo, finalmente vou fazer um trabalho de verdade. _ Calma, filha! Você sabe que eles só vão escolher duas meninas e eu imagino que devem concorrer centenas e... _ Mãe, uma das vagas com certeza é minha! E o papai? _ Ele vai ficar o dia inteiro na loja, eu tenho que resolver alguns problemas de documentação e fazer alguns pagamentos. _ Então vocês conseguiram conversar como duas pessoas civilizadas? _Mais ou menos! Só o essencial. _ Bom... eu já vou e fique torcendo por mim, tá? Um beijão em seu coração e tchau! Quando Paula chegou ao local marcado para a seleção, viu muitas garotas lindas e magras. Logo começou a fazer comparações. “ Como eu estou gorda! Olha só aquela menina, ela é linda e que corpo perfeito! Não tenho a mínima chance!” Após esperar por quase três horas, finalmente chegou a vez de Paulinha. Fez muitas poses para as fotos e estava sendo analisada quando, de repente, ela começou a perceber que iria cair, tudo estava girando... ela estava se sentindo péssima. _ Eu... por favor... me ajude... - disse Paulinha para em seguida desabar no chão diante dos olhares assustados de todos. Foi levada até o hospital mais próximo, Karen, uma funcionária da agência, conseguiu entrar em contato com a mãe de Paulinha. 78 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Regina conversou com o médico responsável pelo atendimento da filha, o dr. Romeu, e ficou sabendo que Paulinha estava com uma anemia profunda e ele aproveitou para perguntar sobre os hábitos alimentares da paciente e logo as suas suspeitas se confirmaram: a bonita garota de 19 anos estava sofrendo de um distúrbio alimentar chamado de anorexia. O doutor, então, começou a dar algumas explicações sobre a doença. Ele informou que é uma doença grave e que é o resultado da preocupação exagerada com o peso. _ A sua filha se olha no espelho e mesmo estando extremamente magra, ela se vê como uma obesa. Isso é muito perigoso, pois pode causar problemas psiquiátricos graves, além dos problemas físicos. A Paula está pesando 45 quilos, ela tem 1,80m de altura, precisa ganhar peso urgente, mas é claro que ela não pode de uma hora para outra começar a ingerir muitas calorias, é necessário um acompanhamento nutricional muito bem feito, para que ela se recupere aos poucos, mas ela precisa cooperar, precisa entender a gravidade da situação. Regina ficou muito aflita com tudo aquilo que o médico lhe contou e sabia que ia precisar da ajuda de Deus para convencer Paulinha a se alimentar de maneira correta. _ Filha, como você está se sentindo? _Péssima, eu estraguei tudo! Isso tinha que acontecer justo hoje? Eles iam me escolher... tenho certeza! Preciso sair daqui, eu vou terminar as fotos, quem sabe ainda dá tempo e... _Filha? Pode esquecer isso, você precisa se cuidar! Eu falei tanto para você se alimentar... _ Não começa com esse papo chato, até aqui? Que droga! _ Calma, não precisa ficar nervosa. Agora você precisa de cuidados especiais, o doutor me disse que você está com anemia profunda. Isso é muito sério, Paula! 79 Tânia Gonzales _ Anemia? Para com isso, deve ser algum engano. Eu estou ótima, foi só porque eu fiquei muito tempo esperando. _Paula, por favor, me ajude! Você precisa aceitar o tratamento. Filha, eu não quero te perder... - disse Regina com lágrimas nos olhos. _ Ih... que drama! Mãe, para com essas ideias, você vai me perder, por quê? Você acha que eu vou morrer assim tão jovem? Eu estou bem, os médicos são assim mesmo, eles sempre exageram. Foram interrompidas por uma batida na porta. _Posso entrar? - perguntou Paulo Reis ao colocar a cabeça na porta semi-aberta. _ Oi, pai, é claro que pode, mas já vou avisando que não quero ouvir nenhum sermão. - ironizou Paula. _ Oi, Regina, eu conversei com o médico, ela já sabe? _ Já, eu contei para ela sobre a anemia profunda, mas ela não está acreditando. _Filha, como você pode ser assim tão irresponsável? Sai de casa sem se alimentar direito, fica por horas em uma fila e... _ Foi pra isso que o meu querido e amado pai, o pregador das multidões, veio até aqui? Se a resposta for sim, pode sair... dá licença... não quero ouvir essas baboseiras... caramba! Não acredito nisso, que droga! _ É assim que você fala com o seu pai? Será que não aprendeu tudo o que nós te ensinamos?- disse Paulo Reis indignado. _Paulo, não é hora e nem o lugar para esse tipo de conversa.- disse Regina. _ O que você me ensinou, pai? Bom... deixa eu pensar um pouco... ah... lembrei: você me ensinou que é melhor se esconder dos problemas do que enfrentá-los e uma boa viagem para pregar em congressos é uma ótima saída. Faz a obra de Deus para todos verem e admirarem o grande pregador, e de quebra se livra da 80 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão filha e da esposa. Você ensina como os outros devem agir; a teoria é maravilhosa, é perfeita, mas na prática a história é bem diferente. _ Você está indo longe demais, eu exijo que você me respeite. É por isso que você está em uma cama de hospital, por não nos ouvir e... Paulo Reis foi interrompido por duas batidas na porta. Era Leonardo. _ Oi, boa tarde e … paz – disse Leonardo que percebeu o clima de tensão. _ Léo! Que bom te ver, amigo! - disse Paula com entusiasmo. _Paz, Leonardo. É... eu e a Regina vamos deixá-los a sós- disse Paulo Reis meio envergonhado. _Eu te agradeço por ter vindo, Leonardo. Sei que você estava trabalhando- foram as palavras de Regina. _ Eu que agradeço por ter me avisado. _Que bom que você apareceu – disse Paula com sinceridade, assim que os pais saíram. _ E aí, menina? Que susto você nos deu! _ Não foi nada... eu só estava cansada, o que é normal, afinal eu estava há três horas naquela fila e... _ Linda, você sabe muito bem que não foi só por isso. Se você estivesse se alimentando como deveria isso não teria acontecido. _ Ah, Léo... até você? Eu estou tão cansada de todo esse papo, poxa... eu sempre estou errada? O meu pai vem até aqui e ao invés de me ajudar, sabe o que ele faz? Me dá a maior bronca e justo ele que nunca está presente. Ele acha que eu... - Paula ficou em silêncio, as lágrimas ocuparam o lugar das palavras. _ Linda...não fique assim - disse Leonardo tentando consolá-la e acariciando os cabelos de Paula, completou: Vai dar tudo certo. Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos. Leonardo 81 Tânia Gonzales a abraçou com carinho. Era exatamente disso que Paula estava precisando: de muito carinho. _Eu quero sair daqui, Léo. Esse negócio vai me deixar uma boladisse Paula apontando para o soro. _ Tenha paciência. Você não pode nem pensar em tirar o soro, está me ouvindo? _ Eu ouvi, mas não garanto nada. _Linda, não faça nenhuma bobagem. Aceite o tratamento e logo você vai voltar pra casa. _ Eles iam me escolher, eu tenho certeza, Léo! Minhas fotos devem ter ficado ótimas. _ Não tenho dúvida disso. Você é linda... mas precisa se cuidar. Com a saúde não se brinca. _ Eu quero sair daqui... quero trabalhar... se eu ficar aqui por muito tempo eu vou engordar. _Pare de se preocupar com isso. Agora pense em se recuperar. Paulinha... _Já sei, eu tenho que me alimentar. Estou cansada, sabe? Muito cansada … só ouço as pessoas dizerem as mesmas coisas... que droga! _Se você se alimentar direitinho ninguém precisa falar nada. A solução está nas suas mãos e na sua linda boquinha. _ Oiii! Posso? - disse Aline, ao entrar no quarto. _ Prima! Que bom te ver! _Oi, Aline. Bom... já que você chegou e vai fazer companhia para esta linda garota, eu vou embora, preciso voltar ao escritório, tenho um serviço para terminar- explicou Leonardo- Eu volto amanhã. Cuide-se, minha linda. À noite, os componentes do grupo Alfa foram até o hospital visitar Paulinha. Como ela estava em um quarto particular eles puderam 82 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão entrar, mas somente dois de cada vez. Leonardo também voltou ao hospital, a única que não pôde comparecer foi Suzana que estava trabalhando, mas havia pedido para Letícia avisar que ela iria no dia seguinte assim que saísse da faculdade. Após a visita, Jônatas pediu para que todos os componentes do grupo fossem até a sua casa, para uma rápida conversa. _ Eu vou fazer um café e para animá-los eu vou logo avisando que a Jessica preparou um delicioso bolo, enquanto isso ela vai conversar com vocês- avisou Jônatas. _ Eu sei que vocês já estão orando por Paulinha- começou Jessicamas nós precisamos nos unir ainda mais em oração e também no sentido de visitá-la. Vamos cercá-la de carinho. Ligando para ela, indo até a casa dela. Já temos os compromissos da REMA, mas ela precisa ter mais contato com vocês. O problema dela é sério, mas é necessário que vocês sejam bem discretos. Ela está sofrendo de um distúrbio alimentar chamado de anorexia; nós sabemos algumas coisa sobre o assunto por causa de reportagens, mas agora cada membro de nosso grupo vai se informar melhor sobre a doença, pensem nisso como uma lição de casa. Leonardo fez uma pesquisa na semana passada justamente por ter desconfiado dos sintomas que Paula estava apresentando. É muito importante ter conhecimento do problema para poder ajudar. Concordam? _ Você está certa, Jessica – afirmou Vitória- eu vou pesquisar também. _ Muito bem. Hoje em dia com toda a facilidade da internet vocês terão todas as informações necessárias rapidamente. Aproveitem para ler sobre histórias de outras meninas com o mesmo problema e lembrem-se de manter isso em segredo. Vamos marcar uma reunião para trocarmos as informações, mas enquanto Paula não admitir que tem este problema nós vamos precisar de muita sabedoria para ajudar sem invadir a privacidade dela. E todos nós 83 Tânia Gonzales sabemos muito bem para quem pedir sabedoria, não é? Jônatas? Amor? Venha até aqui para orarmos juntos. Vamos pedir ao nosso Deus que nos dê sabedoria, que Ele nos capacite para que tenhamos vitória. Leonardo? Você pode fazer esta oração? _ Claro, Jessica. Oremos: “ Nosso pai amado, estamos aqui reunidos porque confiamos em Ti, sabemos que Tu és poderoso e que só alcançaremos a vitória se estiveres à nossa frente. Estamos com um sério problema, Paula, a nossa amiga querida, precisa de todo o carinho, de toda a compreensão, mas se usarmos só a nossa força, não seremos vitoriosos, precisamos de Ti, pois Tu és, Pai amado, a nossa fortaleza. Eu te agradeço por este abençoado grupo, por cada um que reserva parte de seu precioso tempo para se reunir e ajudar uns aos outros. Isso só é possível pelo amor que tens derramado no coração de cada um. Te amamos e oramos em o nome de seu amado filho Jesus. Amém.” Ao chegar em casa, Letícia ligou para Suzana contando sobre a reunião da REMA. No outro dia, Suzana foi da faculdade para o hospital visitar Paulinha acompanhada por Letícia que já estava de férias. _ É um problema muito sério, né? Esta necessidade de acompanhar o padrão de beleza imposto pela indústria da moda é absurda. Quantas meninas se sacrificam para agradar aos outros, para ter uma profissão que dura pouco tempo- constatou com pesar Letícia durante o caminho de volta. _ Tem razão, Lê! É uma loucura... elas fazem de tudo para manter o corpo perfeito, quero dizer, perfeito de acordo com os padrões deles. E isso é tão prejudicial! A Paulinha está tão magra, mas mesmo assim diz que precisa emagrecer mais. Isso é terrível! Ela realmente está precisando de muita ajuda.- disse Suzana. _ E aí, Su? Você me falou ontem que sua vó vinha pra cá, né? _ Ah... é verdade. A vovó Vivi vai chegar hoje à tarde de Belo 84 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Horizonte. Estou tão feliz! _ Vovó Vivi? Qual é o nome dela, é Viviane? _ Não, é Vilma, mas nós a chamamos de Vivi, nem sei dizer quem começou. _ Ah, que legal! Ela é mãe de quem? _ Da minha mãe. _ Sua mãe deve estar muito feliz e a sua tia Marisa também, né? _ Você nem imagina. Quem não está nada contente é a minha tia Marli, ela mora com a minha vó, disse que já está com saudades. Se não fosse pelo trabalho dela com certeza viria também. Ela é enfermeira- explicou Suzana. _ Também? Não sei como você não resolveu ser mais uma enfermeira da família Souza. _ Eu quero ser uma ótima professora. _ Antes muitas meninas tinham o sonho de seguir a profissão de professora, mas hoje... _ É verdade, mas eu quero... a minha vó lecionou por muitos anos em uma escola estadual, ela amava dar aulas. _ E a neta quer seguir os passos da vovó... qual a idade dela?perguntou Letícia. _ Ela tem 74 anos. Ela está muito bem de saúde, o único problema é a visão, ela sente muito por não poder ler, dá pra imaginar, né? Ela lia muito, como toda professora e agora não consegue mais, nem com os óculos. Ela amava ler a Bíblia. A minha tia, todos os dias, faz a leitura de alguns versículos para ela. E ela adora chocolates, principalmente trufas. Eu vou comprar uns chocolates para ela. _ Que graça! Eu sinto muitas saudades dos meus avós, eles moram em Porto Alegre. _É mesmo? Eu estou muito feliz com a chegada da minha vovó Vivi. Mudando de assunto... você acredita que a minha mãe está 85 Tânia Gonzales me buscando no serviço? _Eu acredito, a sua mãe estava tão preocupada... _Eu me sinto tão mal... ela trabalha o dia inteiro e depois vai até lá me buscar... mas não consigo convencê-la que não é necessário. Na próxima semana, por exemplo, ela volta a trabalhar no período noturno e aí o que ela vai fazer? E você deve saber da ideia absurda dela, né? Aliás, tem um dedinho seu nesta história. Dedinho? Uma mão inteira. _ Eu? Nem imagino. Qual a ideia dela? _ Você disfarça tão mal! Letícia, eu não vou aceitar que o Leonardo me busque, não mesmo! _ Por quê? _ Não faz sentido algum! Absurdo total! Ele sair da casa dele depois de um longo dia de trabalho só pra me buscar? _ Mais absurdo é a sua mãe sair de casa e demorar uma hora e meia para chegar e depois precisar voltar tudo de novo. Isso sim é um absurdo. O Léo se ofereceu com a maior boa vontade. De carro ele vai demorar uns 30 minutos. _ Sem chance! _Porque você é muito teimosa! Isso daria tranquilidade para sua mãe e pouparia muito trabalho, concorda? _ Já decidi. Eu vou encontrar outra solução, você vai ver. Suzana foi para trabalho, não daria tempo para almoçar por isso fez um lanche rápido. Naquela semana o seu dia de folga seria domingo e o seu grupo participaria de um campeonato de boliche contra o grupo de Sueli, iriam logo após o culto. Quando chegou em casa naquela noite de terça-feira, junto com a mãe que foi buscá-la apesar de todos os protestos, a vovó Vivi estava esperando. _ Vovó! Que bom tê-la aqui! Minha vovó querida, a senhora deve estar cansada mas mesmo assim ficou me esperando...- disse 86 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana ao abraçá-la. _ Minha neta linda, você acha que eu ia esperar até amanhã para dar um forte abraço e muitos beijos em você? _Vovó linda! Isso é para senhora- ao dizer isso Suzana entregou uma caixinha para a vovó Vivi. _Obrigada! Mais não precisava gastar comigo. _ Quando a senhora ver o que é, vai mudar de opinião. _ Hum... tem razão! Precisava sim! - brincou a vovó- Você sabe que chocolate é algo que eu não resisto. _Eu sei vó. Agora, eu vou precisar de sua ajuda. Convença a minha linda mãe que não precisa me buscar no serviço, por favor! A senhora viu a hora que ela saiu daqui, não viu? _ Eu não vou convencer a sua mãe de nada. É você quem eu quero convencer. A Marina me explicou tudo e até me falou sobre um rapaz que se ofereceu para buscá-la de carro, sua mãe me disse que ele é um bom rapaz. _ Vovó, até a senhora? Esqueça este assunto e me conte as novidades. Como a tia Marli está? Suzana conversou com a vovó Vivi até uma hora da manhã. Como estava muito cansada adormeceu rapidamente. _ Menina linda! Como você cresceu! Que saudades de você... chegue bem perto de mim, não se afaste, por que você está fugindo de mim? Eu sou teu e você é toda minha, venha. _ Não... eu não sou … me solte, por favor, me solte, não faça isso, não... - dizia Suzana em seu pesadelo. Acordou tremendo, estava muito assustada, mas ficou em silêncio, não queria acordar os outros, principalmente a avó que estava dormindo em seu quarto. 87 Tânia Gonzales Capítulo 9 -Primeiro beijo _ O doutor Romeu me disse que se você prometer que vai seguir direitinho a dieta, você receberá alta amanhã cedo- informou Regina. _ Amanhã? Não pode ser hoje?Paula perguntou com impaciência. _ Filha, ele falou sério, agora depende de você. _ Tá legal! Eu vou me comportar. Pode dizer para o dr. Romeu que a Julieta o ama e sempre o amará! _ Não é hora para brincadeira, que piadinha sem graça! _ E o papai? Está cuidando da loja? _ Ele... achou melhor não vir até aqui. Vocês não estão se entendendo, então ele disse que não queria prejudicar a sua recuperação. _ Ah! Ele está certo, pelo menos nisso, né? Leonardo aproveitou o horário de almoço para visitá-la. _ Oi, linda! Hoje você está com uma aparência bem melhor, está até corada! _ Eu estou merecendo aquele beijo, sabe? Estou limpando o prato, acredita? _ Parabéns! Eu já fiquei sabendo que você, provavelmente, sairá amanhã. _ Não vejo a hora! Cansei, amigo, estou entediada. _É assim mesmo. Não quer voltar mais para este lugar entediante? É muito simples: alimente-se corretamente. _Ok, dr. Leonardo. Aqui só está faltando a Julieta, sabia? Meu médico é o Romeu. _ Linda, seu senso de humor está ótimo. Estamos orando muito 88 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão por você. _ Obrigada, meu Léo. Agora eu só quero sair daqui e batalhar por minha carreira, é isso. _ Para se ter uma carreira é necessário ter saúde. Grave isso em sua linda cabecinha loira. _ O que você quis dizer com cabecinha loira? Olha o preconceito, hein? _ Preconceito, eu? Paulinha, porque você não volta à estudar? _ Se liga, Léo! Nada a ver; você sabe muito bem que a minha mãe sempre sonhou em ser veterinária e como não conseguiu passou este sonho pra mim, mas o meu sonho é outro. _ Eu gostaria que você sonhasse com um prato bem colorido, cheio de legumes, arroz, feijão, filé de peito grelhado, saladas... _ Dá um tempo, Léo! E isso seria um pesadelo. _ Eu vou ter uma conversa com o dr. Romeu... _ Para com isso, Léo. Eu vou sair daqui amanhã. Se liga, tá? Naquela tarde, Paula recebeu a visita do Pr. Pedro Gabriel que veio acompanhado de sua esposa, Rute; a tia Carmem também foi visitar a sobrinha junto com a filha Aline. No dia seguinte, Paula saiu do hospital com muitas recomendações do médico que lhe entregou uma dieta especial que deveria ser seguida à risca. O grupo Alfa havia marcado uma reunião na casa de Letícia, naquela quinta-feira à noite. Visitariam Paulinha no dia seguinte. _ Letícia, em primeiro lugar eu quero agradecer por ceder a sua casa para nossa reunião. _Que isso, Jônatas! É um prazer receber o meu maravilhoso grupo aqui. _ Quem gostaria de falar sobre a pesquisa ? _ Eu posso começar- disse Vitória- Anorexia é uma doença grave, 89 Tânia Gonzales onde existe uma distorção da imagem corporal, isso quer dizer que a pessoa passa a se ver como gorda, mesmo estando abaixo do peso. E por achar que está gorda recusa os alimentos. Uma pessoa que sofre de anorexia, sempre diz que não está com fome, arruma desculpas para não participar das refeições ou então sempre inventa dietas absurdas. _ Eu li que a pessoa pode ficar com sérios problemas psicológicos, além dos físicos- explicou Renan- Depressão, síndrome do pânico... _ Eu li sobre isso também – foram as palavras de Willian- A pessoa pode ter problemas cardíacos, anemia, como foi o caso da Paulinha, atrofia muscular, insuficiência renal e... pode até morrer. _ É um problema muito sério- iniciou Leonardo- Esta preocupação exagerada com a beleza e todas essas exigências têm destruído o sonho de muitas meninas. Elas querem brilhar e para isso fazem qualquer sacrifício. Desejam ter o corpo perfeito, mas na verdade estão acabando com a saúde. A Paulinha sonha em ser uma modelo profissional e isso não é um problema, mas quando vira uma obsessão, aí as coisas complicam. Vocês sabem que ela saiu hoje do hospital e agora é que entra a parte mais difícil, ela precisa seguir uma dieta especial e o médico foi bem claro que dessa vez ela teve muita sorte, nós sabemos que foi a mão de Deus, mas o doutor disse que se ela não obedecer fielmente à dieta dada por ele, as consequências serão desastrosas, por isso, precisamos orar muito e não perdê-la de vista. _O Leonardo está certo- disse Jônatas- a Paulinha é nossa prioridade máxima. Ela precisa sentir que nós a amamos muito e que é muito especial para todos nós e principalmente para Deus. Ela tem muito valor e precisa saber urgentemente disso. Queridos, é muito perigoso quando nós damos muito valor à algumas coisas e desprezamos outras. O equilíbrio é importante 90 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão em tudo o que fazemos, porque quando você dá muito valor à uma carreira, por exemplo, e não consegue ser bem sucedido, pronto, acabou o mundo. Outro exemplo: um rapaz se interessa por uma garota que não está nem aí para ele. O rapaz se apaixona perdidamente por ela e nada. O que ele faz? Pensa nela o dia inteiro. Não consegue nem trabalhar direito. E ela? Não está nem aí. E ele? Já não suporta mais, chega nela e... leva o maior fora. O que ele faz? Acaba com a vida, afinal viver pra quê? Nada faz sentido! Não é isso que acontece muitas vezes? No caso da Paulinha, ela quer ser modelo e como está doente, ela se enxerga obesa, mesmo estando muito magra e qual a solução? Não comer ou comer pouquíssimo, e aí coitado do organismo dela que luta desesperadamente para sobreviver. Vocês viram que ele reclamou e ela foi parar no hospital. Cuidado com os exageros, tá? Uma vez eu ouvi algo mais ou menos assim: “ Tudo o que toma o lugar de Deus não vem de Deus”. Eu não sei onde eu li isso ou quem foi que disse essas palavras, mas eu concordo com elas. Analisem alguma situação que vocês estejam vivendo e vejam se não existe algo errado. Façam perguntas como: “ Será que estou dando mais valor a isso do que a Deus? Será que valorizo mais uma certa pessoa do que o meu relacionamento com Deus?” As atitudes extremas acontecem quando nós exageramos nos sentimentos. Cuidado! Vamos orar? Os pais de Letícia, que tinham saído para jantar, chegaram quando os componentes do grupo estavam se despedindo de Letícia no portão. _ Leca, será que eu posso falar com você? É rapidinho. _ Vocês dois vão ficar aqui no portão conversando? É melhor entrarem- disse o pai de Letícia. _ Tudo bem, Fernando, mas não se preocupe eu não vou demorar. 91 Tânia Gonzales _ Fique o tempo que quiser, Leonardo. _ Nós estamos cansados, por isso vamos deixá-los sozinhos e eu sei que é isso mesmo que vocês querem, estou certa? - perguntou Sandra. _Mãe querida, boa noite. Assim que eles ficaram a sós, Leonardo perguntou ansioso. _ E aí, você contou para Suzana a real história do beijo? _Ah, Léo, me desculpe mas ainda não tive oportunidade, é que com tudo o que aconteceu com a Paulinha e também com a chegada da vó da Su, eu acabei esquecendo... _ A vó da Suzana? _ É a vovó Vivi. Sábado eu vou conhecê-la; a Suzana está muito feliz, é mãe da dona Marina. _ Ela veio fazer algum tratamento médico? _ Não, ela está bem de saúde, a Su até comentou comigo que a única coisa que a incomoda é o fato de não conseguir ler, nem com a ajuda de óculos. Ela era professora. E a Su disse que ela sente muita falta da leitura, principalmente da Bíblia, agora ela depende de outros lerem para ela. Ela adora chocolates, não resiste uma trufa. _ Interessante... e a Suzana não comentou nada sobre a possibilidade dela concordar que eu a busque? _ Ela está irredutível; diz que é um absurdo, mas está toda preocupada porque a mãe dela a está buscando. _ Quem sabe ela muda de ideia- disse Leonardo otimista- E você? _ Eu o quê? _ Já resolveu conversar com os seus pais sobre o Daniel? _ Psiu! Você quer que eles ouçam? Ainda não, estou dando um tempo. _Tempo? Letícia, você precisa resolver isso. Não dá para ficar namorando escondido, concorda? Dá muito trabalho! Não cansa 92 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão inventar histórias para vocês poderem sair? _ Se cansa? É claro que sim. Eu gostaria de ter um namoro normal, sabe? O Daniel poder vir até aqui, dele me trazer quando nós sairmos, mas por enquanto não dá. _ Você está orando por esse assunto? _ Estou... mas eu sinto que ainda não chegou a hora. _ Lê, o Daniel é um cara legal, os seus pais vão perceber isso e entender o porquê de sua escolha. _ Amigo, eu tenho medo da reação deles. Sei lá, e se eles me proibirem de vê-lo? _ Eu acho que você deveria conversar com o Daniel e resolver isso de uma vez. O caminho da verdade é sempre o melhor, porque do jeito que vocês estão é necessário mentir e isso não é legal. Seus pais são pessoas que amam a Deus, não entra na minha cabeça a ideia deles não aceitarem o Daniel por causa de preconceito. _ Ah... amigo... eu não sei o que fazer- afirmou Letícia com toda a sinceridade. Letícia resolveu ligar para Suzana naquela mesma noite. _ Su, me desculpe por ligar tão tarde, eu sei que está cansada, mas eu preciso te contar uma coisa- começou Letícia- é sobre o que a Sueli presenciou outro dia em uma padaria. _ Lê, eu não quero saber disso. _ Deixa eu falar, eu perguntei para o Léo e ele me explicou o que aconteceu. _ Explicar um beijo? _ Espera... eu vou contar tudo. Após escutar a explicação sobre o episódio do beijo, Suzana disse: _ E ninguém tem nada a ver com isso, se eles querem voltar a namorar é assunto deles. 93 Tânia Gonzales _ Su, parece que você não ouviu uma só palavra do que eu disse. Eu não falei que foi coisa da Paulinha, que ela simulou uma tontura para ele se aproximar? _ Eu entendi. Mas e daí? Não estou nem aí para a vida amorosa do Leonardo. _ Eu, hein? O que deu em você? _ Vamos mudar de assunto? Vocês vão visitar a Paula amanhã à noite, né? _ É isso mesmo. Pena que você não possa ir com a gente. Letícia desligou o celular e ficou pensando na reação de Suzana. “Será que a Su está com ciúmes dele? O Léo iria adorar se isso fosse verdade. Ele está tão interessado nela! Se ela soubesse o quanto ele é especial!” Letícia começou a lembrar de algo que aconteceu quando ela tinha 15 anos. Especialmente de uma conversa dela com Leonardo em uma tarde de domingo. _ O que está acontecendo com você, Leca?- perguntou Leonardo. _As meninas da escola ficam com aquelas conversinhas sobre beijo. Cada uma conta a história mais incrível do dia que aconteceu o primeiro beijo! _ Isso deve ser normal, não é? _ É... mas... pra que ficar contando pra todo mundo? Que caretice! _ Por que você está tão nervosa? Vai me dizer que você ainda... _ Léo! Até você? Eu já tenho que aguentar um monte de meninas curiosas na minha cola querendo saber quem foi que me deu o primeiro beijo e você também vai... _ Calma, Leca! _ Não me chame assim! Que raiva! Amanhã começa tudo de 94 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão novo... conta vai, conta Letícia! _ Leca, na boa... não fique brava, mas, você já foi beijada? _ Léo! Não acredito nisso! Que pergunta é essa? É claro que... não. Pra você eu posso falar a verdade, mas é segredo. _Eu sabia, é por isso que você está tão nervosa! Então, você anda mentindo por aí, hein? Que coisa feia, Leca! _ Leonardo Martins, para com isso! A segunda-feira chegou e com ela as mesmas conversas sobre o primeiro beijo de cada uma das colegas de classe, para desespero de Letícia. _ E aí, Lê? Quando as suas amigas vão conhecer a sua aventura no mundo do primeiro beijo? _ Vocês não cansam? Eu não quero contar. _ Eu acho que já descobri! Eu descobri! Meninas, ela não quer contar por não ter nada para contar, simples assim- constatou uma das colegas. Você nunca foi beijada! Boca virgem! Boca virgem! E elas começaram a gritar: “ Boca virgem! Boca virgem!” _ Parem com isso, eu já fui beijada, sim! Mas vocês nunca vão saber quem foi, nunca! Naquela tarde, Letícia fez um pedido muito especial para o amigo Leonardo. _ Não dá mais para aguentar! Elas estão certas... mas eu não posso dizer que nunca beijei. Elas sempre vão ficar na dúvida. _ Leca... depois elas esquecem. _ Você não conhece aquelas meninas... eu estive pensando e tive uma ideia, mas eu preciso da sua participação. _ Lá vem coisa...que ideia? _ Na verdade... eu quero fazer um pedido pra você. _ Não estou gostando disso. _ Léo, meu amigo querido, eu só confio em você... é... eu não 95 Tânia Gonzales quero mais mentir para as minhas colegas, mas também não quero dizer que eu nunca fui beijada, isso não... então, a única solução que eu encontrei depois de quebrar a cabeça foi...é... pedir para o meu amigão... me beijar. _ O quê? É brincadeira, né? _ Léo, quem melhor que você? Eu tenho vergonha, já pensou se algum menino resolve me beijar? Ele vai perceber logo que eu não sei como fazer... e aí as minhas colegas vão... _Letícia, se as meninas te contarem que não são mais virgens você vai querer... você está me entendendo, não está? _ Eu sei o que você quer dizer, mas é claro que não, Léo! É só um beijo... é uma coisa normal. _ Leca, essas coisas são assim, daqui a pouco elas vão começar a fazer pressão sobre isso também e aí você vai se desesperar? Não entra nessa, amiga! _ Não é isso, Léo. É que eu quero dar meu primeiro beijo, eu estou ansiosa... se fosse com você seria perfeito. Eu não quero que algo tão especial de repente se transforme em algo ridiculo por causa de algum menino idiota! Eu sei que você não riria de mim. _Lê, se o cara gostar de você, com certeza não vai rir. _Por favor! Faça isso por sua amiga! _Você só tem 15 anos, o meu primeiro beijo foi quando eu tinha 16 anos, eu não sou tão experiente assim. Vou te contar um segredo: foi com uma menina de 18 anos e a iniciativa foi dela. Esquece esse assunto. Se eu a beijasse seria muito estranho depois. _Por favor! Por vários dias Letícia continuou com o mesmo pedido e Leonardo com a mesma resposta. Um dia eles foram ao cinema juntos. Era uma comédia romântica. Letícia estava assistindo com muito interesse quando, de repente, Leonardo se aproxima dela e 96 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão sussurra algo no ouvido de Letícia que ela não consegue compreender, ao virar o rosto para dizer que não havia entendido uma só palavra, Leonardo aproveita que estão muito próximos e atende ao pedido da amiga. Letícia vive o tão esperado momento do primeiro beijo. Após alguns segundos, Leonardo se afasta sem dizer uma palavra. Letícia olha para a grande tela, mas agora ela não consegue mais se concentrar no filme, os pensamentos dela estão voltados para o momento mágico de seu primeiro beijo. _ O que você quer fazer agora? - disse Leonardo após saírem da sala. _ Podemos comer? - perguntou Letícia meio sem jeito. Durante todo o tempo que estiveram juntos conversaram pouco, pois estavam constrangidos. O clima entre eles ficou muito estranho, nem parecia que eram amigos desde crianças. E por alguns dias os dois amigos ficaram sem se encontrar, nem pelo telefone se falaram. Até que em um dia de sábado, Letícia resolveu ir até a casa de Leonardo. _ Oi, tudo bem? - Letícia começou – eu...é... _ Oi, comigo tudo bem, Leca! Você está bem? _ Eu? É... estou...Léo, eu quero te agradecer por... você sabe. _ Não precisa tocar neste assunto. _ Preciso sim, na hora de pedir eu tive coragem, não tive? Agora eu fico com vergonha, mas eu quero te dizer que foi... incrível! Tão inesperado... você aproveitou bem o momento. _ Letícia, eu só achei que seria melhor assim de supetão, porque entre nós não iria rolar nenhum clima... bom... pelo menos agora você não precisa mentir. _ Eu já contei para aquelas meninas curiosas, é claro que não mencionei a data. _ Então, agora que está tudo certo eu só te peço uma coisa: Vê se não entra na onda dessas meninas quando o assunto for... você 97 Tânia Gonzales sabe! Porque nisso, com certeza, você não vai poder contar comigo! _ Engraçadinho! Depois daquela conversa o relacionamento dos dois voltou à normalidade. Eram os dois melhores amigos novamente. “ A Suzana não pode sequer imaginar que foi o Léo que me beijou pela primeira vez. Ela não vai acreditar que foi a única vez e também não vai entender que foi um grande favor que o Léo me fez” - pensou Letícia após terminar sua viagem ao passado. 98 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 10 -Trufas e CDs Na sexta-feira à noite os componentes do grupo Alfa visitaram Paulinha. Conversaram muito, oraram juntos e também cantaram, principalmente os louvores preferidos de Paula, que demonstrou estar muito bem. Às nove horas foram embora. Leonardo saiu com muita pressa porque iria buscar Suzana no serviço, pois antes de entrarem na casa de Paulinha ele havia pedido para que Letícia fizesse uma ligação para mãe de Suzana. _ Léo, você está abusando, a Suzana não vai gostar da surpresa. Fala sério! Você ir até lá para buscá-la? _ Leca, eu não vou lá especialmente para buscá-la, eu preciso fazer umas compras. _Quem você pensa que engana com essa conversinha, hein? E não me chame de Leca. Letícia ligou para dona Marina que concordou sem hesitação. Prometeu fazer uma ligação para não pegar a filha de surpresa. Leonardo chegou quando faltavam trinta minutos para o horário de saída dela. Precisou entrar em três lojas diferentes para comprar os presentes que pretendia dar. Vinte e cinco minutos depois ele já estava esperando por Suzana. _ Oi, tudo bem? - disse Leonardo com um largo sorriso. _ Oi, mais ou menos. Você não tem jeito mesmo, né? Eu não gosto disso, sabia? _ Do que você não gosta? _Você está se aproveitando da situação. Você sabe que a minha mãe está muito preocupada comigo e também sabe o quanto é complicado para ela vir até aqui e … _Suzana, calma! Eu só quis fazer um favor para sua mãe; eu precisava fazer umas compras e... 99 Tânia Gonzales _Só existe um shopping em São Paulo, não é? _Há vários, mas só aqui eu encontro... você. Não fique brava. Podemos ir? Suzana foi até o estacionamento sem dizer uma palavra, entrou no carro e continuou calada. _Você quer um chocolate? Melhora o humor - disse Leonardotem uma caixinha no porta -luvas. _Não, obrigada. _ Pode pegar um pra mim? Suzana abriu o porta-luvas, pegou a caixinha, tirou um bombom e entregou-o para Leonardo. _ Você não vai pegar um? É delicioso... é chocolate meio amargo, você gosta? _Gosto, mas eu não quero melhorar o humor! _Cuidado com o estresse; eu vou colocar uma música para você relaxar. Quando a música começou a tocar, Suzana pensou :“que atrevido, o que ele está pensando?”, mas não disse uma palavra. Era uma música gospel romântica que dizia : “Me lembro bem, a primeira vez que te olhei Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor Como nunca vi igual.”1 Enquanto Suzana continuava calada, Leonardo pensava” Será que eu exagerei? É.. eu acho que não foi uma boa ideia colocar este tipo de música. O que eu faço agora? Pense... pense.” Leonardo resolveu desligar o som. _ É... nós fomos visitar a Paulinha - disse Leonardo para iniciar a conversa. _E como ela está? 1 Um verso de amor- Pâmela – compositores: Davi Fernandes e Derek. 100 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Está bem. Ela ficou muito feliz com a visita. Foi bem legal, nós cantamos muito. Eu comprei um livro para ela... tem uma sacola lá trás, você pode pegar para dar uma olhada. _ É melhor não, deve estar embrulhado para presente e... _Pode abrir, eu vou fazer uma dedicatória. Suzana pegou a sacola, abriu o pacote e leu o título do livro: “ A Ditadura da Beleza e a Revolução das Mulheres”2 _É um romance que conta a história de Sarah; ela é uma menina de 16 anos que é muito infeliz apesar de ser rica e ter uma carreira de sucesso, ela é modelo profissional. Sarah tem um sério problema de relacionamento com a mãe e sofre muita pressão por causa do padrão de beleza imposto pelo mundo da moda e ainda por cima os pais dela são divorciados. Em um momento de desespero ela tenta acabar com a própria vida. Felizmente ela se recupera e a mãe procura um psiquiatra chamado Marco Polo. Sarah, depois de resistir ao tratamento, começa a aceitar e aprende com o sábio psiquiatra, o verdadeiro valor da vida. É muito interessante. _ Eu já li alguns livros deste autor. Marco Polo? Será que é o mesmo do livro “O futuro da humanidade?”3 _ É ele mesmo; eu também li. No “ O futuro da humanidade”, Marco Polo é um estudante ainda e no livro que eu comprei para Paulinha ele já é um psiquiatra bem sucedido, lembra do poeta? Qual o nome dele mesmo? _ Falcão. - lembrou Suzana. _É isso mesmo, Falcão. Ele também aparece no “ A ditadura da Beleza”. _Que legal, deve ser bem interessante mesmo. 2 Autor: Dr. Augusto Cury 3 Autor: Dr. Augusto Cury 101 Tânia Gonzales Eles ainda falaram sobre os livros por alguns minutos. Leonardo estava feliz, pois era a primeira vez que os dois conversavam de verdade, sem Suzana se esquivar. Ele estava adorando ouvir a voz dela e o fato de Suzana participar da conversa ativamente era maravilhoso. _ Eu também comprei uma roupinha de bebê- disse Leonardo preocupado em manter o diálogo- Dá uma olhada e me dê a sua opinião. Eu escolhi tão rápido! _ Um macacão salmão... é lindo! Letícia comentou que a sua irmã está grávida. Ela deve estar muito feliz, né? _ Muito mesmo... a Bia não vê a hora de ter um bebê em seus braços. Eu espero que dê tudo certo, ela já sofreu muito, perdeu dois. _Que Deus abençoe a gestação dela. A minha mãe também perdeu dois, antes de mim. _ E Deus a compensou enviando uma filha linda e maravilhosa. Este comentário fez Suzana se calar novamente. Depois de cinco minutos, Leonardo parou o carro, antes que Suzana saísse, ele pegou uma sacola que também estava no banco de trás, em seguida abriu o porta-luvas, retirou um pequeno presente e o colocou dentro da sacola onde já havia uma caixa. Entregou para Suzana. _ Eu não posso aceitar – foram as palavras dela. _ Ah, me desculpe... não são pra você. Eu quero que você entregue para sua vó. _ Minha vó? Como você... é lógico... a Letícia contou! _ Exatamente. Boa noite, Suzana. Eu gostei muito de conversar com você hoje. Foi ótimo. _ Boa noite e obrigada pela carona. _ Não precisa me agradecer, se você quiser amanhã eu... _ Não será necessário. 102 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana saiu rapidamente do carro, abriu o portão e entrou sem olhar para Leonardo. Ao chegar em casa, Leonardo ligou para a amiga Letícia. _ Nossa, como meu amigo está animado! _ Eu estou mesmo, mas não é para menos, né? Hoje nós conversamos. Bom... nós ficamos juntos uns 40 minutos mais ou menos, contando tudo e eu acho que conversamos uns 20 minutos. _ E os outros 20 minutos, o que vocês fizeram? Será que … não acredito! Vocês se beijaram? _ Letícia, como você viaja! Até parece... eu e a Suzana nos beijando, conta outra! _ Os 20 minutos continuam sobrando... _ Silêncio, muito silêncio. Tudo bem que eu cometi uma … gafe? Não sei se posso dizer assim, acho que... eu cometi uma falta grave... isso mesmo. _ Falta? O que você fez? _ Eu inventei de colocar uma música para ela ouvir. _Ai, ai, ai... que música? _Espera um pouco que eu vou colocar para você ouvir. Poucos segundos depois... _ Léo, eu não acredito! “Me lembro bem a primeira vez que te olhei nos seus olhos eu encontrei ternura e amor”; você forçou! A música é linda, mas... _ Eu sei, pisei feio... mas eu desliguei rapidinho. _Você é demais! A Suzana deve ter ficado uma fera! _Não disse nada. Depois eu consegui reverter a situação, falei sobre a Paulinha. Leonardo contou sobre a conversa com Suzana. _Você é tão esperto! Comprou presentes para vó dela...como conseguiu comprar tudo em tão pouco tempo? _ Os CD's da Bíblia eu comprei hoje à tarde em uma livraria aqui 103 Tânia Gonzales em São Caetano, mas mesmo assim eu precisei correr. _Quer conquistar a família inteira, né? Enquanto Leonardo detalhava o seu “ encontro “ com Suzana, ela entregava os presentes para a vovó Vivi. _ Que rapaz mais atencioso! Presentes para mim e ele ainda nem me conhece! - disse vovó Vivi muito admirada. _ Abre, mãe! - pediu Marina. _ Espera aí... Suzana, me ajude... hum... parecem deliciosos- disse vovó ao ver a caixa com as trufas, para em seguida abrir o outro presente- o quê é isso? CDs de música? _ Não vovó, são CD's da Bíblia, neles estão gravados todos os versículos da Bíblia, agora a senhora vai poder ouvir as histórias da Bíblia sempre que tiver vontade- explicou Suzana. _Não sabia que existia isso! Que coisa linda... que benção! Esse rapaz é um anjo...- disse vovó toda emocionada com o presente. _Como nós não pensamos nisso? - disse Marisa que estava lá esperando pela mãe que iria dormir na casa dela naquela noite. _ Como ele teve essa ideia? - perguntou Marina. _ Isso é coisa da Letícia. Eu falei sobre a dificuldade da vovó e ela comentou com ele. _O Leonardo está te buscando no serviço? - perguntou Marisa. _Não tia, foi só hoje. _Isso porque a Suzana é muito teimosa. Marisa, ele se ofereceu para buscá-la todos os dias, mas a Suzana não aceita! - explicou Marina. _ Ele se ofereceu? Ele está interessado em você, Suzana? A Sandra não pode sequer sonhar com isso! - constatou Marisa. _ É claro que não, tia... isso é coisa da mamãe. Ela fica se preocupando comigo e … _ Não sei não, aí tem- disse a tia. _ Qual o problema se o rapaz estiver interessado na minha neta? 104 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Quem é Sandra? _Mãe, a Sandra é a minha vizinha, ela é mãe da Letícia. Ela sonha em ter o Leonardo como genro - explicou Marisa. _ Ela sonha... mas se o Leonardo estiver sonhando com a Suzana, o que ela pode fazer? - disse vovó Vivi. _Vó, que história é essa? Vamos parar com este assunto? _ Eu quero que você ligue para ele e o convide para vir aqui domingo à tarde tomar um café comigo. Eu vou preparar umas bolachinhas de nata e um bolo cremoso de fubá e mais algumas delícias. _Vovó, por favor, não faça isso - pediu Suzana. _ Suzana, que coisa feia! O rapaz é tão gentil e você não vai me deixar agradecer? Ligue para ele. _Tá bom, vó! Amanhã eu ligo. Mesmo estando muito cansada, Suzana ficou rolando na cama, não conseguia dormir. Leonardo não lhe saía da cabeça. Eram quase duas horas da manhã quando o sono finalmente chegou. _ Eu estou tão feliz por você ter dito sim ao meu convite- dizia Leonardo- você não imagina o quanto eu tenho pensado em você. _ Leonardo, eu também tenho pensado muito em você. _Como é bom ouvir isso. Leonardo se aproximou bem devagar e acariciou levemente os cabelos de Suzana, deslizou a mão para o rosto dela e com os dedos sentia a maciez da pele dela. Suzana estava com os olhos fixos nos dele. O momento era perfeito... quando... de repente... um homem se aproximou e puxou Leonardo com violência. Ele começou a dar socos e dizer: _ O que você está pensando? Acha que pode ficar com ela? Pois eu digo que não pode! Olhe bem para mim rapaz, eu digo que 105 Tânia Gonzales você não pode ficar com ela e sabe por quê? Porque ela é minha! Está entendendo? Ela é minha! _ Não faça isso... não o machuque - gritava Suzana desesperada. _ Você não quer que eu o machuque? Por quê? Olhe bem pra ele, pois será a última vez que você o verá! A última! - ao dizer isso o homem deu um chute próximo ao estômago de Leonardo, que ficou gemendo no chão. _Não, não... por favor, não faça isso... não.... Suzana acordou com os próprios gritos, eram cinco horas da manhã. Olhou em volta e ficou aliviada por não ser real e também pela vó não estar dormindo ali naquela noite. No sábado pela manhã Letícia foi conhecer a vovó Vivi. _Então você é a famosa Letícia? A Suzana me falou muito sobre você, querida!- disse vovó Vivi. _ Famosa eu? A senhora que é famosa, vovó! Eu estava ansiosa para conhecê-la. _Que bom! Eu estou muito feliz e agradeço a Deus por Ele ter colocado uma menina tão maravilhosa para ser amiga da minha neta. _ Obrigada, vovó! A Suzana sim, que é maravilhosa. _ Vamos parar com isso? Maravilhosa aqui é a vovó Vivi! Isso sim! - disse Suzana. Vovó Vivi contou várias histórias de seu tempo de mocinha lá em Belo Horizonte e também aproveitou para saber mais sobre a família de Letícia. Leonardo acordou muito feliz, naquela manhã de sábado. O lindo rosto de Suzana não lhe saía da cabeça. Como ele gostaria de poder tocar naquele rostinho delicado, de acariciar aqueles cabelos sedosos. Quando ela olhava para ele com aquele lindo par de 106 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão olhos verdes, o que era raro, pois na maioria das vezes ela desviava o olhar rapidamente, era como se tudo o mais não existisse, como se o tempo parasse. _Leonardo? Filho? Ei! - era Lígia tentando chamar a atenção do filho que estava sonhando acordado sentado à mesa do café da manhã. _O quê? Aconteceu alguma coisa? _Onde você estava? _Eu? Aqui, eu acordei e vim tomar o café da manhã. _Não estava … Leonardo, você estava pensando em quem? _Mãe, para com isso! Bom dia! É assim que as pessoas civilizadas se cumprimentam e a senhora não vai beijar o seu filho? _Bom dia e eu não vou só beijar, vou abraçar também, meu lindo filho. Mas em quem você estava pensando? - insistiu. _ Dra. Lígia, que tal nós tomarmos um belo café? _ Não vai me contar... tá bom! E como a Paulinha está? O pai dela estava lá? _Ela está bem e o Paulo Reis não estava. _ É óbvio! A Regina foi até a clínica ontem, ela estava com um problema em um dente, e ela me disse que o Paulo ia pregar em um congresso. Ela está bem chateada porque o marido não para em casa mesmo com o problema da filha. _ Ah, mãe, o Paulo Reis ama pregar. _Ama mais do que a própria família. _Mãe, pegou pesado! _É verdade, a Regina é quem disse isso, eu só estou repetindo. Leonardo, você não está pensando em voltar a namorar a Paulinha, está? _É claro que não! Mãe... _Vai saber! Eu gostaria muito de entender por que você e a Letícia não namoram? 107 Tânia Gonzales _É simples: somos grandes amigos. Só isso. _ Mas, filho... _Mãe, eu não … é... deixa pra lá. _Você quer me contar alguma coisa... _ Por que vocês não me chamaram? - perguntou Rafael. _Você estava dormindo tão gostoso, querido – explicou Lígia dando um beijo no marido- Estávamos aqui conversando... _ Sobre o presente que eu comprei para o bebê que está chegando! - disse Leonardo mudando de assunto. _Você comprou um presente? Eu quero ver! - pediu a mãe. _ Espera um pouco, eu vou buscar. Poucos segundos depois, Leonardo já estava de volta com um pacote nas mãos. _Eu quero ver... que coisa mais fofa! Que macacão lindo! Escolheu muito bem, titio coruja!- elogiou a mãe. _ É melhor vocês guardarem isso... a mamãe coruja acabou de chegar – anunciou Rafael olhando pela cortina da sala de jantar. Beatriz e Bruno entraram instantes depois. _Família, bom dia! Eu e o meu bebê estamos aqui para tomar o café da manhã! E o papai Bruno também, é claro. Depois de muito beijos e afagos na barriga, todos se sentaram para compartilharem de um delicioso café em família. Leonardo aproveitou para entregar o presente. _ Léo, meu irmãozinho lindo, obrigada! Que fofo! Amei! Que gostoso ganhar presente de bebê! _ Você está tão linda! - disse Leonardo passando as mãos na barriga da irmã- e você está bem confortável aí dentro? Seu tio está te esperando ansiosamente. 108 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 11 -Conversando Paula olhou-se no espelho e pensou: “ Como eu estou gorda! Essa história de alimentar-se bem está acabando com o meu corpo, se eu continuar com isso não vou conseguir voltar ao peso ideal... eu preciso dar um jeito nisso... mas com a mamãe pegando no meu pé como é que eu vou fazer? “ _ Filha? Filha? O almoço está na mesa! - anunciou Regina. Almoçou para satisfazer a vontade da mãe, mas, assim que ficou sozinha foi atéo banheiro e provocou o vômito. “ É isso mesmo que eu vou fazer- pensou- é a única solução!” Naquela tarde de sábado, Leonardo foi até a casa de Paulinha para entregar-lhe o presente; assim que estacionou o carro o celular tocou. _ Alô? Quem fala?-perguntou ele. _Suzana - respondeu ela timidamente. _ Suzana? Que surpresa! Tudo bem? _Tudo bem... eu estou atrapalhando? _ É claro que não. Pode falar. _ É... bem... a minha vó pediu para eu ligar... é... ela quer que você vá amanhã lá em casa tomar um café; a vovó gostou muito dos presentes e quer agradecer. _ Pode dizer para ela que eu aceito. Qual o horário? _ Às três horas da tarde. Este horário está bom pra você? _Perfeito. Amanhã é o seu dia de folga, não é? _É isso mesmo. Bem, eu vou desligar agora. _Suzana, espera um pouco... eu posso buscá-la hoje? _Não, eu preciso desligar, estou trabalhando. Suzana desligou o telefone sem dar chance para Leonardo se 109 Tânia Gonzales despedir. _ Já que os seus pais não estão, eu vou embora... isso é pra você – disse ele entregando o presente para Paula. _ Pra mim? Obrigada! Vou abrir... ah, que gracinha! Só você mesmo, Léo! “ A ditadura da Beleza...”, legal. _Você promete que vai ler? Responda, minha linda! _ Ah... eu... prometo, quer dizer... eu... Léo você sabe que eu não sou muito chegada à leitura e... esse assunto... já vi tudo! _Por favor, faz isso por mim! Paulinha, você está se alimentando direito? _Estou, Léo! É uma droga... mas o que eu posso fazer? Minha mãe “tá” de marcação, mas olha pra mim... olhou? Percebeu o estrago? _Percebi que você está linda! Se continuar assim vai se recuperar rapidamente. _ Quem quer recuperar peso? Diz pra mim? Qual mulher em seu juízo perfeito gostaria de recuperar o peso perdido? Conhece alguma? _ O que está em jogo aqui é a sua saúde, nunca se esqueça disso. Eu vou ser um pouco duro agora, mas acho que é necessário. Do que vai adiantar ter um corpinho de modelo dentro de um caixão, hein? A única vantagem é que vai ser bem mais fácil carregá-la. _Léo! Que horror! Isso é coisa pra dizer? Caramba, agora você exagerou... pisou feio! _ É a verdade! Para de se preocupar com a estética e pense em você. Entendeu? Pense na pessoa que está aí dentro... você é especial do jeito que é. As crianças da igreja cantam: “ Aos olhos do pai, você é uma obra-prima, que Ele planejou, com suas próprias mãos pintou...”- lembra? A seguir Leonardo continuou cantando:“ Você é linda demais, perfeita aos olhos do pai, alguém 110 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão igual a você, não vi jamais...”4 _ Você vai participar de algum concurso para descobrir novos talentos? - ironizou Paulinha. _ Isso é não é uma brincadeira! Pare de pensar tanto em seu exterior e cuide da garota linda que está aí dentro! _ Pra você é muito fácil, ninguém fica exigindo que você tenha um corpo perfeito... _ Paula, o assunto aqui é muito sério. Não quero vê-la novamente em um hospital... deixe que Deus oriente os seus passos... Ele quer o melhor pra você. Volte a estudar. _ Léo, na boa... eu adoro você mas este papo está muito chato. Valeu o presente, não prometo que vou “devorá-lo”, mas qualquer dia desses eu dou uma olhada nele. Tá? _Tudo bem. Hoje, lá na igreja, vai ter uma reunião de oração com todos os grupos da REMA e na quinta-feira o grupo Alfa vai se encontrar. _ De repente... se eu estiver animada, tchau, gato. _Tchau, linda. Cuide-se! Leonardo deu um beijo na amiga e foi até a casa de Letícia convidá-la para tomar um sorvete com ele. _ A Suzana ligou pra você? Quem diria, hein? - disse Letícia, saboreando o seu sorvete. _Devo isso à vovó Vivi. Vou lá amanhã tomar um café. _Que legal. Você foi muito esperto ao escolher os presentes. _Graças a você. Mas não foi para falar de mim que eu te convidei... eu gostaria de ajudá-la com o seu namoro. _Valeu, amigo, mas o que você pode fazer? _ Te encorajar! Lê, conversa com os seus pais. _ Léo... eu sei que preciso abrir o jogo com eles, mas... 4 Crianças Diante do Trono: “ Aos olhos do pai ” 111 Tânia Gonzales _Pare de pensar na reação deles! Pense em como vai ser maravilhoso oficializar o namoro de vocês! Pense no Daniel, deve ser bem complicado pra ele! Ele sabe o motivo exato de toda a sua preocupação? _Eu digo que é por causa da ideia fixa deles à respeito de você ser o namorado perfeito pra mim. _ Leca, isso não é justo. Os seus pais não são preconceituosos. _Léo, ninguém é, até que tenham algum motivo pra isso. _Lê, o Daniel é um cara legal, bom filho, trabalhador, temente a Deus... eu acho que é isso que os pais desejam para seus filhos, não é? Se ele fosse um mau-caráter, tudo bem... mas não faz sentido você ficar tão temerosa com a reação deles só porque ele é negro. Lê, isso é um absurdo total! _Eu também acho, mas... _Amiga, peça coragem a Deus e converse com seus pais. _ Você tem razão, eu vou orar e agir. Bom... hoje tenho uma ótima oportunidade para orar, né? _É isso mesmo. Vai ser ótimo orar com todos os grupos reunidos e depois vamos saborear uma pizza! _ Vamos para o shopping? _Não, vai ser lá no salão da igreja mesmo. O horário da Suzana atrapalha tanto! _Ligue pra ela e se ofereça para buscá-la, assim dá tempo dela comer pizza com a gente! _Eu fiz isso e ela me respondeu com um redondo: não! A reunião dos grupos da “rede melhores amigos”, começou às sete horas da noite. O líder de jovens, Mateus, após o período de oração, falou sobre a importância de não se conformar com o padrão do mundo, leu em Romanos 12.2 : “ E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa 112 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. _Jovens, o mundo dita as regras, mas isso não quer dizer que devemos seguí-las. Eu sei que é difícil ser diferente, porém é necessário. Se você quer agradar a todos os seus colegas lá de fora, com certeza não vai conseguir agradar a Deus. Para eles é normal sair em um sábado à noite e se encher de bebidas, conhecer alguém e “ficar”, só para ter um momento de prazer, afinal, só se vive uma vez, não é verdade? Então, vamos aproveitar! Jovens, a Palavra de Deus diz para não nos conformarmos com o sistema do mundo e o que seria isso? Você não deve viver seguindo o modelo ou o padrão do mundo, aquilo que eles acham que é correto, que não faz mal. Não tenham medo de discordar. Outro dia eu estava pensando em como este mundo é cheio de contradições. Antes os crentes eram ridicularizados por dizer que fumar é errado e existia propagandas que mostravam uma linda paisagem, era um local maravilhoso, ar puro e aparecia um homem bonito, forte e o que ele estava fazendo? Fumando! Depois você assistia àqueles filmes lindos, românticos e aquele ator lindo, fazendo o quê? Fumando. Agora a propaganda de cigarros é proibida, colocam nos próprios maços uma imagem nada atraente de alguém que está muito doente e um aviso: “ Fumar é prejudicial à saúde”. E a bebida, hein? “ Beba com moderação” , e “ Se for dirigir, não beba!”. As estatísticas dizem que os jovens estão bebendo e fumando cada vez mais cedo. Muitos estão preocupados com isso. Outra assunto muito em pauta é a respeito da virgindade. Os crentes estão sempre pregando sobre a importância de permanecer virgem até o casamento. E o mundo achava uma caretice. Agora até existem grupos levantando a bandeira da virgindade. Que legal! Mas para nós isso não é uma moda, isso é a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Vale a 113 Tânia Gonzales pena esperar. É fácil? Não, mas se vocês forem equilibrados em tudo, com certeza vão conseguir esperar. Cuidado com as carícias, não exagerem nos beijos, pois depois que a chama se acende, é preciso muito auto-controle para tomar a decisão certa de apagar o fogo. Dizem por aí que as meninas estão engravidando cada mais cedo, e é verdade, mas o que eles fazem com relação a isso? Usem preservativos! Eu não sou contra o uso deles, pelo contrário, mas por que não lançam uma forte campanha contra o sexo antes do casamento? Uma campanha para dizer ao jovem que o correto é esperar. Por que não dizem aos jovens que a melhor maneira de ficar livre das doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez indesejada é a abstinência sexual? Jovens, eu digo mais uma vez que vale a pena esperar. Eu não me envergonho de dizer para vocês que eu me casei virgem, porque para muitos, casar virgem é só para a mulher. Homem? Que isso! Mas para Deus não há diferença. Não tem preço que pague você chegar no dia do seu casamento com a sua consciência tranquila e com aquela expectativa de como será a primeira vez. Dizem que para o casamento dar certo é necessário ter experimentado antes, mas isso é papo furado, se fosse assim não existiriam tantos casais separados. Eu quero que vocês gravem estas palavras no coração. A vontade de Deus é: boa, agradável e perfeita. Eu quero agradecer a todos pela presença, estamos hoje aqui com cerca de 300 jovens e isso é uma benção. Eu quero agradecer também aos casais de líderes de cada grupo da REMA que têm se empenhado nas atividades. O pastor Pedro Gabriel pediu para que nós fizéssemos um trabalho especial para arrecadar fundos para missões, então cada grupo vai fazer algo para ser vendido. Depois os líderes vão conversar com vocês sobre isso mais detalhadamente. Antes de orarmos, eu quero agradecer aos que ajudaram na cozinha hoje. Valeu! 114 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Após a oração, Leonardo encontrou-se com a amiga Letícia que lhe deu uma ótima notícia. _Sério? A Suzana está aqui? - perguntou Leonardo. _ Você sabe que nas datas especiais os funcionários de shopping e do comércio em geral sempre trabalham mais, as horas se acumulam, então a Suzana aproveitou para sair mais cedo hoje. Ela me ligou avisando que viria. _ Isso é ótimo. Eu já estava com saudades. _ Vai devagar... ela está se aproximando, cuidado com que você diz, tá? - pediu Letícia. _ Oi, Lê- Suzana cumprimentou a amiga com um beijo- Oi, Leonardo. _ Oi, eu não ganho um beijo também? - perguntou Leonardo, Letícia olhou para ele com reprovação e Suzana brincou: _ Se você não tivesse falado nada... _ Que pena, da próxima vez eu vou ficar bem quietinho! Que bom que você pôde vir. Eu estou muito feliz por você estar aqui. Letícia estava fazendo sinal para Leonardo parar com aquele tipo de conversa, mas ele não tirava os olhos de Suzana. _Obrigada, eu também estou feliz por participar. _ E por mim, você está feliz ? - provocou Leonardo. _ Leonardo, que tal nós irmos até o refeitório? - perguntou Letícia ao perceber que Suzana estava sem graça- Vamos Su? Como Jessica se aproximou de Suzana e as duas começaram a conversar, Letícia aproveitar para dar um toque ao amigo. _ Você é inacreditável! _O que eu fiz? _Ainda pergunta? Léo, eu não falei para você ir devagar? _O que eu falei? Eu nem perguntei como que ela consegue? _Consegue o quê? _Ficar mais linda ainda! Hoje ela está acabando comigo. Está uma 115 Tânia Gonzales princesa. Princesa Suzana! _Depois você não entende o porquê dela fugir! Foram até o refeitório, Letícia sentou-se ao lado da amiga e Leonardo precisou se afastar, pois Jônatas o convocou para ajudar a servir. _ E então, qual pizza que devo trazer? Estou aqui para serví-los disse Leonardo ao se aproximar da mesa onde estavam Suzana, Letícia, Vitória e Daniel. _ E aí, Leonardo, está precisando de ajuda? - perguntou Daniel. _Não, pode ficar tranquilo já tem um exército ajudando, mas e aí? Temos pizza: napolitana, portuguesa, calabresa, atum e é claro que a famosa pizza de mussarela. Princesa Suzana? Qual é a sua preferida? Suzana ficou muito envergonhada, foi Letícia quem tirou a amiga da incômoda situação. _ Que tal você trazer meio a meio? Napolitana e calabresa, todos concordam? - perguntou Letícia. Leonardo voltou instantes depois com a pizza pedida por Letícia, mas mesmo assim insistiu com Suzana. _ Se você quiser outro sabor é só me pedir, princesa Suzana. _ Obrigada, mas não precisa. _ E você, quando é que vai comer? - perguntou Letícia. _Mais tarde, agora eu vou servir outras mesas, senão vão pensar que é proteção- disse Leonardo afastando-se. Leonardo retornou após trinta minutos trazendo uma pizza portuguesa, sentou-se ao lado de Suzana. Vitória não estava mais entre eles. _ Se você não se importar eu gostaria de saborear esta deliciosa pizza ao seu lado. _Fique à vontade. Letícia e Daniel acompanharam Leonardo, Suzana disse que 116 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão estava satisfeita. _ Estava deliciosa, o pessoal caprichou- comentou Daniel. _Concordo com você, que tal nós darmos uma voltinha por aí? sugeriu Letícia- Você se importa, Suzana? _É claro que não. Leonardo e Suzana ficaram a sós e em silêncio por um breve momento. _Tem certeza que não quer mais um pedacinho? - perguntou Leonardo. _ Tenho sim, obrigada. _ E a sua vó? _ Está toda animada com os preparativos de amanhã. _Diz pra ela que não precisa se incomodar, pode ser só um cafezinho mesmo e... _Você não conhece a minha vó. Pega leve no almoço, porque com certeza ela vai preparar um banquete. _Não quero dar trabalho. _ Ela adora, desde que chegou tomou conta da cozinha. _ Deve ser muito bom tê-la por perto, né? _Ela é maravilhosa! Vamos fazer de tudo para que ela fique mais tempo aqui... e os seus avós? _Os pais da minha mãe moram em Fortaleza, o irmão mais velho dela mudou-se por causa do trabalho e os levou também. Eles vêm aqui uma vez por ano e nós passamos as férias lá. É um lugar maravilhoso! Meu avô paterno já faleceu e a minha avó mora em Santa Catarina, ela casou-se novamente. E os seus avós paternos? _ Também moram em Belo Horizonte, mas detestam viajar. Vovô Samuel tem 77 anos e a vovó Diva tem 75 anos. _ Legal! A sua tia Marisa não tem filhos? _ Não. Com a minha tia estava tudo certo, os médicos sempre diziam que ela tinha todas as condições para engravidar, uma vez 117 Tânia Gonzales o médico insinuou que poderia haver algum problema com o meu tio, mas ele nunca concordou em fazer exames para confirmar isso. _ Que pena. _É mesmo uma pena, a minha tia é uma pessoa maravilhosa, tenho certeza que seria uma excelente mãe. Ela tem um coração enorme. Eu só estou estudando por causa da ajuda dela. Ela ficou muito chateada quando ficou sabendo que eu iria trancar a matrícula da faculdade, pois estava muito complicado conseguir pagar. Eu não queria dar despesas para ela, mas ela teve uma conversa bem séria comigo e me convenceu. Eu percebi que era uma grande bobagem não aceitar por causa de orgulho. _ Que bom você ter mudado de ideia, isso me dá esperança. _ Esperança? _ É isso mesmo, eu ainda tenho esperança que você aceite … _ Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu não vou aceitar que você me busque. Letícia estava se aproximando com Daniel, mas como viu os dois conversando, resolveu voltar e sugeriu ao namorado: _O que você acha de me levar para casa hoje? Não quero atrapalhar aqueles dois. _ Está falando sério? E os seus pais? _ Ele nem vão perceber, vamos? Eu vou ligar para Suzana avisando. Leonardo ainda argumentava com Suzana sobre a possibilidade dela aceitar a carona, quando o celular dela tocou. _ Alô? Lê? O quê? Não tem problema, pode ficar sossegada... é claro que eu não vou ficar chateada. Um beijão. Tchau- Suzana desligou o celular e disse - A Letícia já foi embora com o Daniel. _ Ele vai levá-la para casa? Que legal! Então, ela resolveu abrir o jogo com os pais. 118 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Eu acho que não é bem isso, ela tem certeza que eles não vão notar. _ Eu vou procurar a Vitória e pedir que ela te leve para casa. _ Você tem algum compromisso? _Compromisso, eu? Não, vou direto para casa... por quê? _ Por que a Vitória precisa me levar? Você não... _ Eu? Eu posso levá-la e quero, é que eu pensei que você … sei lá... você deve estar pensando que eu combinei com a Lê, olha, não foi nada disso. _ Eu não pensei isso, se você puder me deixar em casa, eu agradeço. _É claro que eu posso, você quer ir agora? _Quero, por favor. Leonardo ficou muito surpreso com a atitude de Suzana, na verdade, ela o havia surpreendido várias vezes naquela noite. Eles conversaram como dois amigos e a maior parte do tempo ela esteve descontraída, nem parecia a mesma garota desconfiada e distante. Durante o caminho para casa, eles continuaram conversando. Suzana aproveitou a oportunidade e perguntou por Paulinha, quis saber se ela havia gostado do livro. _ Não sei se ela vai ler, eu estou muito preocupado... a Paulinha continua com as mesmas ideias, eu até falei para ela voltar a estudar. Ela ia fazer faculdade de veterinária e mudou de ideia para seguir a carreira de modelo. _ Tomara que ela se recupere de verdade... seria ótimo se ela fosse para a faculdade, a Paula precisa ocupar a mente com outras coisas... precisa parar de se preocupar tanto com a aparência. _ Eu tenho a impressão que você é bem tranquila com relação a sua aparência, não é? _O que você quer dizer com isso? _ Espera um pouco, eu não fui claro, eu acho que você não é do 119 Tânia Gonzales tipo que fica toda preocupada com isso... sei lá... não que eu pense que você não liga para sua aparência, ou que você não esteja em boa forma, não é isso, mas é que eu vejo que você não exagera na maquiagem, por exemplo, a sua é bem suave e eu gosto disso... hoje, por exemplo, eu até comentei com a Leca que você estava ainda mais linda, não sei... você tem uma beleza natural... me desculpe. Enquanto Leonardo se atrapalhava todo para explicar sobre a beleza de Suzana, ela permaneceu em silêncio, mas não desviou os olhos dele. _Boa noite, Leonardo e obrigada pela carona. _Dê um abraço na sua vó por mim. Boa noite. Leonardo foi para casa pensando em como ele havia se atrapalhado para falar com Suzana sobre a aparência dela. “ O que foi aquilo?” - pensou alto. Suzana também pensou muito nas palavras de Leonardo, ela precisou reconhecer que havia gostado de conversar com ele naquela noite. Pensou tanto nele que até sonhou que os dois estavam em frente à casa dela conversando bem amigavelmente, quando, de repente, ela ouviu um estrondo e a seguir Leonardo caiu no chão todo ensanguentado. Suzana se desesperou e gritou pedindo socorro. _ Ele está morto! Não adianta pedir ajuda, ele está morto, acabou! Você pensava mesmo que poderia pertencer a outro? Não aprendeu ainda que você é minha? _Não! Alguém me ajude! Por favor! Leonardo! Leonardo! Não, não, não... _Querida? Suzana? Você está bem? - perguntou vovó Vivi. _Ele morreu! Ele morreu! A culpa é minha... - dizia Suzana. _Suzana, foi só um sonho, está tudo bem. _Vó?- perguntou Suzana ainda confusa- Foi horrível! 120 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Querida! Minha neta... eu sinto muito! Você ainda tem aqueles pesadelos? _Vó, eles desapareceram por algum tempo, mas agora eles voltaram e estão bem frequentes, desde que eu conheci o Leonardo... eu não posso ser amiga dele, vó, eu não posso! _Suzana, isso é porque você está se interessando por ele. _Não, eu não posso! Eu nunca vou me interessar por ninguém. Isso é totalmente proibido pra mim. _Que história é essa? Você merece ser feliz, amar e ser amada. _Não, não posso... vó, a senhora sabe muito bem. _Pare de falar isso! Você é uma menina linda e sabe de uma coisa? Está mais do que na hora de você ter um namorado. Pelo que dizem, o Leonardo é um ótimo rapaz e... _Não. _Você não concorda com isso? Eu só vou conhecê-lo pessoalmente amanhã, mas... _ É justamente por isso que eu devo ficar longe dele... ele é muito bom e merece alguém que também seja. _ Você é uma menina de ouro, é linda, inteligente, meiga... _ Não, eu não posso enganá-lo, ele não merece. _ Suzana, você não está enganando ninguém. _ Eu não posso enganá-lo... e eu não quero que ele se machuque, nos meus sonhos ele... _Querida, são apenas sonhos. 121 Tânia Gonzales Capítulo 12 –Café especial Naquela manhã de domingo, Suzana foi com a vovó Vivi para a escola bíblica. Na noite anterior ela fez a avó prometer que a conversa que elas tiveram seria mantida em segredo. Após a aula, vovó Vivi pediu para Suzana apresentar Leonardo para ela. _Vó, eu não o vi hoje. A Letícia está se aproximando, eu vou perguntar para ela. _Vovó Vivi, paz! Tudo bem? - cumprimentou Letícia dando um forte abraço e beijos na vovó. _ Querida! Que bom vê-la, está tão linda! _ Lê, você viu o Leonardo? A vovó quer conhecê-lo. _ Ele não veio hoje. A família foi almoçar em Jundiaí, um grande amigo do pai dele, que é um cliente também, está comemorando porque ganhou um processo complicado. Até a Bia foi com o marido para participar do almoço. _Então ele não vai comparecer ao meu café especial? - perguntou a vovó. _Vó, eu não sei, ontem ele não comentou nada comigo sobre o almoço, mas confirmou que iria em nossa casa hoje, eu até disse que a senhora estava preparando um banquete e o Leonardo falou que não gostaria de dar trabalho - explicou Suzana. _Ele deve ter esquecido que tinha um compromisso com a família... mas é uma pena mesmo. _Se o Léo confirmou com a Suzana com certeza ele vai chegar para o café, fique sossegada vovó – assegurou Letícia. _Você também está convidada! - anunciou a vovó. _A Su já me convocou. Eu não vou perder... já estou ficando com água na boca só de pensar! Vovó Vivi foi para casa toda preocupada com a possibilidade de 122 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Leonardo não aparecer. Às duas horas da tarde Letícia chegou para ajudá-las nos preparativos. Os sentimentos de Suzana estavam divididos, uma parte dela queria que Leonardo não viesse, era tudo muito complicado para ela... por outro lado, se ele faltasse ao café especial, vovó Vivi ficaria muito decepcionada. Quinze minutos antes das três horas, Leonardo tocou a campainha. Vovó Vivi pediu para que Suzana atendesse. _ Oi, princesa Suzana! Você está bem? _ Oi, estou bem e você? _ Há alguns segundos atrás eu estava muito bem, agora eu estou ótimo. _ Entre, a vovó está esperando – disse Suzana ignorando o comentário dele. _ Você está bem, mesmo? Dormiu bem a noite passada? _Na verdade eu não dormi muito bem... mas... é melhor nós entrarmos. _Vovó, o seu convidado chegou! - anunciou Suzana. _ Você é o famoso Leonardo? - perguntou a vovó. _ Famoso não. É um prazer conhecê-la, vovó Vivi, posso chamá-la assim? _ Mas é claro! Eu estou muito feliz em conhecê-lo e aliviada por você ter vindo. _Aliviada? Não entendi. _ A Letícia nos disse que você foi almoçar fora - explicou a vovó. _ Oi, Leca! Que bom te ver – disse Leonardo cumprimentando a amiga com um beijo. _ Eu contei para elas sobre o almoço em Jundiaí – disse Letícia. _ Ah! A senhora pensou que eu iria faltar a um compromisso tão importante? Os meus pais ainda ficaram lá e eu seguindo as recomendações da princesa Suzana, peguei leve no almoço, pois 123 Tânia Gonzales ela me avisou que hoje aqui teria um verdadeiro banquete. _A princesa Suzana disse isso, é? - brincou a vovó dando ênfase na palavra princesa deixando Suzana mais sem jeito do que ela já estava. _ É isso mesmo, hum... o cheirinho está ótimo! Boa tarde, dona Marina- disse assim que a mãe de Suzana apareceu. _Boa tarde, Leonardo. É uma alegria recebê-lo aqui. _Leonardo, quero te agradecer pelos presentes, você foi muito gentil, eu ouço todos os dias a palavra de Deus, é uma benção! O outro presente não existe mais... estava delicioso!- explicou a vovó. _Por falar em presentes, eu preciso ir até o carro, volto já, com licença. _Suzana, acompanhe o Leonardo – pediu a vovó. Suzana só o acompanhou por causa do pedido da avó, mas sempre ficava sem jeito perto dele. Leonardo tirou do carro um lindo arranjo de flores. _Leonardo, eu... _Não se preocupe, são para sua vó... mas eu tenho que confessar uma coisa... estas são para você, me desculpe, não resisti- disse Leonardo tirando um lindo bouquet de rosas vermelhas do banco traseiro do carro. Suzana, em uma atitude totalmente inesperada, começou a chorar... _ Suzana, por que você está assim? Não chore... por favor... eu não queria fazê-la chorar. Me desculpe, o que eu posso fazer? _A culpa não é sua... eu que peço desculpas, me dê só alguns segundos, preciso me recompor, não posso entrar desse jeito. Suzana abaixou a cabeça pois algumas lágrimas ainda teimavam em cair, Leonardo se aproximou e tentou enxugar o rosto dela, mas ela se afastou rapidamente. 124 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ Suzana, você está com algum problema? Eu fiz alguma coisa errada? Olha, se não quiser aceitar as rosas tudo bem. _Eu … é... eu aceito... você não fez nada errado, a culpa é toda minha, me desculpe. Eu só peço que não conte pra ninguém sobre isso. _Claro, fique tranquila... você consegue entrar, agora? Suzana balançou a cabeça confirmando e pegou o bouquet das mãos de Leonardo. _Obrigada, são lindas! Os dois entraram em silêncio. _Nossa, que flores mais lindas! - exclamou a vovó. _São para a senhora, vovó! - disse Leonardo. _Obrigada, querido, você é um cavalheiro! Agora, vamos comer?vovó deu uma rápida olhada para a neta, mas preferiu não fazer comentário sobre as rosas vermelhas. Vovó Vivi havia preparado um bolo especial de fubá cremoso, bolo de chocolate, pãezinhos folhados de maçã e dois tipos de pães com recheios salgados e bolachinhas de nata. Para beber havia café, chá, leite e suco de acerola com laranja que Marina havia feito em sua centrífuga. _ Nossa... é um verdadeiro banquete! Vovó Vivi, a senhora não precisava exagerar, deve ter passado horas na cozinha - disse Leonardo. _Fiz tudo com muito carinho e amor, pode ter certeza disso e é claro que deu trabalho, mas é um tipo de trabalho que dá prazer, sabe? Ao vê-los devorar tudo isso, eu terei a minha recompensaafirmou a vovó para em seguida fazer uma oração- “ Pai, eu te agradeço por este momento especial, te agradeço pela vida do Leonardo que é um bom rapaz, também te louvo pela vida dessa menina linda chamada Letícia, a amizade dela é uma benção para minha neta e te agradeço pela minha família, eu os amo muito. E é 125 Tânia Gonzales claro que dou graças pelo alimento que nos tem dado. Oro em nome de seu filho amado Jesus, amém.” _ Podem se servir, fiquem à vontade – disse Marina. _ Vovó, esse pão folhado é delicioso! Adorei! - elogiou LeonardoE o seu Davi? _ Ele precisou levar o patrão para uma festa hoje- explicou Marina- Esse serviço de motorista particular é assim. _Leonardo, não fique tímido, sirva-se à vontade – pediu a vovó. _Eu não estou tímido, pode ficar tranquila, eu me sinto bem à vontade aqui com vocês... e parabéns, está tudo maravilhoso! Após o café, vovó pegou algumas fotos. _ Vó, ele não está interessado em ver fotos- disse Suzana. _É claro que eu estou! Principalmente se tiver alguma foto sua quando era bebê. _Eu tenho sim, nesta foto aqui Suzana tinha 1 aninho. _Que gracinha! E aqui? - perguntou Leonardo ao ver outra foto. _Aqui ela tinha uns 5 anos, não era uma princesinha? _Era uma princesinha, agora é uma verdadeira princesa – o comentário de Leonardo fez Suzana corar. _Suzana, não precisa ficar com vergonha, ele tem toda a razão, a minha neta é uma princesa. _Vó, quer parar com isso? E a Sueli, hein? - perguntou Suzana para deixar de ser o centro das atenções. _Ela tinha uma reunião do grupo, é... qual o nome mesmo? perguntou Marina. _Grupo Ágape. Hoje, depois do culto nós vamos participar de um campeonato de boliche contra o grupo dela- anunciou Suzana. Letícia e Suzana começaram a conversar sobre o campeonato de boliche e os outros compromissos que teriam na próximas semanas enquanto Leonardo e a vovó Vivi olhavam os álbuns de fotografia. 126 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _ E esse pássaro? Suzana tem várias fotos com ele... - perguntou Leonardo. _ É a Meg, é uma calopsita que era de Suzana. A minha neta resolveu me dar de presente dois dias antes de se mudarem para cá, eu fiquei tão emocionada, me apeguei muito a esse bichinho... mas a Suzana sente muitas saudades dela, olha... esta foto eu tirei um dia antes de viajar , fiz um porta retrato e dei de presente para Suzana. _Bom... eu agradeço por tudo, vovó, mas agora eu preciso ir – disse Leonardo quase cinco horas da tarde. _Eu adorei a sua visita e vou marcar para você vir almoçar ou jantar aqui qualquer dia desses- foram as palavras da vovó ViviA Suzana vai te acompanhar e vê se a convence sobre aquele assunto- pediu a vovó. _Vó, que assunto? - quis saber Suzana. _Qual seria? Sobre ele te buscar no serviço, é claro. _ Ainda isso? Vó, eu já conversei com ele e com vocês também... _Você é muito teimosa! É linda, mas também é teimosa! _Vó, por favor! Isso não tem nada a ver. _Nada a ver é a sua mãe ou seu pai ir até lá para te buscar... _Eu concordo, eu já falei pra mamãe que é um absurdo! _Eu já falei que você não vai mais voltar sozinha! - disse Marina. _Vamos parar com isso? O Leonardo não precisa ouvir este tipo de conversa, né? - pediu Suzana. _Não se preocupe comigo e você sabe muito bem que eu estou à sua disposição, é só dizer sim- disse Leonardo. _Já conversamos sobre isso e você sabe qual é a minha resposta. _Se você mudar de ideia é só me avisar. _Agora você está de férias mas quando as aulas recomeçarem vai ser uma correria... se pelo menos você aceitasse a carona de 127 Tânia Gonzales Leonardo chegaria mais cedo em casa... - disse Marina tentando convencer a filha. _ Quantas pessoas fazem o mesmo todos os dias, a vida é assim. As coisas não são fáceis- constatou Suzana. _Você tem razão, mas se dá para facilitar ... - Marina foi interrompida pela filha. _Mãe, chega! Eu vou acompanhar o Leonardo até o portão. Leonardo se despediu e seguiu Suzana pelo corredor. _ Suzana? Por que você... _Leonardo, se você vai me perguntar sobre o que aconteceu aqui naquela hora das flores, pode esquecer. _ Eu só estou preocupado com você. _Eu estou bem, é cansaço, eu dormi muito mal a noite passada... eu estou pensando que... eu acho que não vou participar do campeonato... assim eu posso me deitar mais cedo. _Você vai fazer muita falta. _Não vou não, eu nem sei jogar boliche, só joguei uma vez com as meninas da loja. _ Mesmo assim, só de você estar lá seria um grande incentivo, especialmente pra mim. Bom, é melhor eu ir... a sua vó é maravilhosa e adorei ver as suas fotos e... estar perto de você é... _Leonardo, por favor! _Tudo bem, eu vou parar... mas, só um coisa , agora que você está de férias da faculdade o que você acha que almoçar comigo qualquer dia desses, hein? _Eu... não sei se vai dar. _Pense com carinho. Tchau, princesa Suzana. _Tchau! E obrigada por ter vindo, foi muito importante para minha vó. _E pra você? _Você não tem jeito mesmo... tchau! 128 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Ao chegar em casa, a mãe de Leonardo o estava esperando com algumas perguntas. Beatriz também estava lá. _Quem é essa pessoa que o convidou para um café especial? _É a mãe da Marisa. _ Mãe da Marisa? Mas, qual o motivo? Não entendi. _A mamãe está desconfiada de você, cuidado! - brincou Beatriz. _Desconfiada do quê? Eu fui convidado e aceitei o convite. _Leonardo, como que a mãe da Marisa te conhece? _Mãezinha querida, a mãe da Marisa é a vovó Vivi, que está passando uns dias na casa das filhas. _Tudo bem, mas por que ela iria convidá-lo? _Ai, ai, ai, ai... mãe, o que está passando na sua cabecinha, hein? _ Esta história é muito estranha. _ Não tem nada de estranho, acontece que a Letícia, que também participou do café... _Agora ela começou a gostar da história- disse Beatriz interrompendo o irmão. _Como eu estava dizendo... a Letícia me contou que a vovó Vivi não pode mais ler por causa de problemas na visão, nem com os óculos ela consegue mais, como ela lia muito a Bíblia, eu dei de presente para ela CD's da Bíblia, ela ficou extremamente grata e me convidou para um café, pois queria me conhecer, satisfeita? _Parabéns! Foi um gesto muito bonito... mas mesmo assim, eu não sei... você anda muito diferente e a Sandra também acha que a Letícia está escondendo alguma coisa dela. _Escondendo? Mãe... _A Sandra está desconfiada que vocês dois estão namorando escondidos. _Como é que é? Por que eu e a Letícia iríamos namorar escondidos? Você ouviu isso, Bia? _Elas sonham tanto com isso que até ficam inventando que há um 129 Tânia Gonzales mistério no ar- brincou a irmã. _ É o que a Sandra está pensando, mas eu também acho que você anda me escondendo algo, mas não penso que seja isso. _Eu vou tomar banho está quase na hora do culto, beijos para as duas ou melhor para as três- disse Leonardo passando a mão na barriga da irmã- ou beijos para os três? _Vamos esperar para ver, mas para mim o importante é que seja um bebê saudável- disse Beatriz. _ É isso aí, minha irmãzinha! Você é a grávida mais linda deste mundo! _Exagerado! _Filho, a Marisa tem uma sobrinha que deve ter a idade da Letícia, não é? Qual o nome dela? _Suzana, depois a gente conversa mais, agora eu vou tomar banho. Antes de entrar debaixo do chuveiro, Leonardo ligou para a amiga. _Como é? Minha mãe acha que nós dois estamos namorando escondidos? _É isso aí! Leca, eu já te aconselhei a abrir o jogo com seus pais. A sua mãe já percebeu que existe algum segredo... ela tendo esse tipo de pensamento só vai piorar as coisas para o seu lado. _Valeu, amigo! Eu vou tomar uma decisão, até o próximo domingo eu falo com eles. Os dois grupos da REMA foram para o shopping participar do torneio de boliche. Suzana decidiu ir para casa descansar, mas antes avisou os líderes de seu grupo. Ela e Leonardo não tiveram oportunidade para conversar. Faltavam dez minutos para a meia-noite quando Sueli chegou em casa, pois ela havia participado do torneio. 130 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 13 - Por um fio Mais uma semana se passou, Suzana estava inconformada com a situação; o pai dela a estava buscando todos os dias. O grupo REMA saiu na quinta-feira mas ela não pôde ir. Já fazia quase uma semana que ela não via Leonardo. “ Ele deve ter desistido da ideia de me buscar”- pensou ela naquela noite de sábado. Domingo ela foi à igreja mas também não o viu. Queria perguntar para Letícia mas a última coisa que ela desejava era demonstrar algum interesse por ele. O celular de Leonardo tocou às três horas da manhã, era uma voz desesperada de mulher. _Eu não sei o que fazer... ela caiu e ficou parada sem se mexer, eu estou com tanto medo de perdê-la! _ Calma, Regina! Você chamou o resgate? _Eles estão aqui. _ Regina, o seu marido está aí? _O Paulo, aquele... ele só pensa nele mesmo, sabe aonde ele está? Em Campinas. _Eu vou até aí... _Vá direto para o hospital... _Tudo bem... mantenha a calma, confie em Deus. Leonardo trocou-se rapidamente e foi até o quarto dos pais para avisá-los. Rafael resolveu acompanhá-lo. _O Paulo Reis não tem jeito! Mesmo com a filha doente ele continua com o mesmo ritmo... - disse Lígia inconformada. Ao chegarem logo encontraram com Regina. _Que bom que vocês vieram, até a minha irmã precisou fazer uma viagem rápida e a Aline foi junto. 131 Tânia Gonzales _Como ela está? O que aconteceu? - perguntou Leonardo ansioso. _Eles não me deixaram ficar com ela. Eu estava dormindo, mas como eu tenho o sono muito leve acabei acordando com um barulho, fui até o quarto dela... ela estava caída no chão, sem se mexer, estava tão pálida! _Ela deixou de seguir a dieta passada pelo médico? - foi a pergunta de Rafael. _A Paulinha fazia as refeições direitinho, eu ficava esperando ela terminar para depois sair para a loja. Após uma hora, um médico veio dar uma notícia nada animadora. _Sra. Regina, a sua filha está muito fraca... desde quanto que ela não se alimenta? _ Ela faz as refeições todos os dias, eu permaneço ao lado dela até que ela termine... _Isso é impossível, ela não tem se alimentado há muitos dias... _Não pode ser... eu vejo ela comendo. _Então só pode ser uma coisa: ela come e provoca o vômito. Isso acontece muito... ela come para satisfazer a senhora e depois, como não quer engordar, provoca o vômito- explicou o médico para desespero de Regina- Vocês são... _ Somos amigos dela – explicou Rafael. _Ela vai precisar permanecer na U.T.I, a senhora pode acompanhá-la; é melhor os senhores voltarem para casa, não vai adiantar permanecer aqui. Boa noite. _ Regina, se precisar de alguma ajuda é só nos ligar, estaremos orando para que a Paulinha saia desta situação – disse Rafael. _ Eu deveria ter percebido que ela estava fingindo- foi o comentário de Leonardo ao saírem. _Como você iria saber se a própria mãe que passa mais tempo com ela não percebeu? _Às vezes eu me sinto um pouco culpado. 132 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Filho, por que isso? _Por tê-la feito escolher. Quando ela era minha namorada eu disse que ela deveria fazer uma escolha... se eu não a tivesse pressionado, talvez... _Leonardo, isso não faz nenhum sentido. O namoro acabou porque não havia amor. Não fique se culpando. Ela vai se recuperar, você vai ver. Regina olhou para o rosto da filha. Como doía vê-la ligada a vários aparelhos. As lágrimas começaram a rolar, o coração da sofrida mãe estava apertado. Em pensamento ela clamava: “ Meu Deus, não leve a minha filha, eu vou cuidar melhor dela, eu prometo. Por favor, meu pai! Tenha misericórdia de mim.” Naquela segunda-feira pela manhã estava difícil para Leonardo se concentrar no trabalho, ele não conseguia parar de pensar em Paulinha, ligou para Regina mas ela não tinha nenhuma novidade. Saiu para almoçar com seu pai, mas quase não tocou na comida. _Filho, não fique assim! Você precisa se alimentar; não vai ajudar em nada você ficar aí se culpando. A Regina falou alguma coisa sobre o Paulo Reis? _Ele não sabe de nada. Ela disse que não vai avisá-lo; está muito magoada. _Ele precisa saber, a Regina não pode fazer isso! _Foi o que eu disse, mas ela está irredutível. No shopping Suzana estava tendo uma conversa com a amiga Cláudia. _Se você está tão preocupada com o seu pai, por que você não aceita a carona daquele gato? _Ah... eu não sei. 133 Tânia Gonzales _Suzana, pare de bobagem! Pense bem: o seu pai deve ficar exausto, é bem distante, concorda? _É claro que eu concordo. Eu já disse várias vezes que isso é totalmente desnecessário, mas não consigo convencê-los. _Então, a única solução é aceitar a carona do gato. Que sacrifício! Estou com pena de você- ironizou a amiga- Por que você não faz um acordo com os seus pais? _Acordo? _Quando as aulas recomeçarem eles vão querer levá-la para a faculdade também, aí você pode fazer um acordo com eles: você aceita a carona do gato à noite se eles não inventarem de levá-la para a faculdade. Depois da conversa com Cláudia, Suzana fez uma ligação para o pai. À tarde, Leonardo ligou novamente para Regina e as notícias eram as mesmas. Ele ainda tentou convencê-la a ligar para o marido, mas não obteve sucesso. Às quatro horas da tarde, o celular dele tocou. _ Alô? Suzana? Oi, que surpresa! _ Você está muito ocupado? Eu... _Pode falar, Suzana. Você está bem? _Estou, obrigada. E você? _Eu... é... não estou muito bem. _O que aconteceu? Leonardo contou para Suzana tudo o que havia acontecido desde o telefonema da madrugada passada. _Que triste! Como é possível uma moça tão linda e inteligente chegar a ter uma atitude dessas, isso é uma agressão ao próprio corpo! Eu posso ajudar em alguma coisa? 134 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Ore por ela, Suzana! Eu peço a Deus que ela … _Tenha fé, ela vai ficar bem. Eu vou desligar, não quero te incomodar mais. _Ei, espera aí, você não ligou só pra ouvir a minha linda voz... _Depois de tudo o que você me contou eu fiquei meio sem jeito... _Que isso, Suzana! Pode dizer. Então Suzana contou sobre o acordo que ela havia feito com o pai. _Isso quer dizer que hoje eu vou poder buscá-la? _É isso mesmo. Mas, se você precisar ir até o hospital... _Eu vou no final da tarde... e à noite com certeza eu estarei aí para te buscar, você salvou o meu dia hoje, eu confesso que estava muito desanimado. _Não desanime, ela vai sair dessa. Se você tiver algum problema para me buscar hoje, é só me avisar. _ Pode ficar tranquila, eu estarei aí antes das dez- garantiu Leonardo. Leonardo despediu-se de Suzana e mal havia acabado de colocar o celular em sua mesa, quando ele tocou novamente, era Regina pedindo para que ele fosse até o hospital, pois Paula havia chamado por ele durante a tarde toda. _ Eu conversei com o doutor Romeu e ele autorizou a sua entradaexplicou Regina ao encontrar-se com Leonardo na recepção do hospital. Após uma rápida preparação, ele pôde entrar na U.T.I. _Linda, você está me ouvindo? - perguntou ao aproximar-se do leito de Paulinha. _Léo? Léo... respondeu Paulinha com uma voz quase inaudível. _Sou eu... fique tranquila! _Meu Léo, eu pre-ci-so fa-lar - disse bem pausadamente. _Minha linda, não faça nenhum esforço. 135 Tânia Gonzales _E-u que-ro pe-dir... per-dão … co-lo-quei o li-vro na ga-ve-ta... _Paulinha, pare de falar... primeiro você precisa se recuperar. _Eu... não li... des-pre-zei... o pre-sen-te... vo-cê deu com ca-rinho... _Não tem problema, minha linda, quando você sair daqui... _Eu...não... vou ter mais u-ma chan-ce... fui má... eu... _Você é uma menina maravilhosa, é claro que vai ter mais uma chance, Deus vai permitir que você saia deste hospital. Agora não se esforce mais, por favor!- pediu Leonardo segurando a mão da amiga. _Pre-ci-so fa-lar... re-ce-bi tan... tan-tas vi... vi-si-tas e não... dei va...va-lor... me perdoa- as palavras saíam com muita dificuldade. _Linda, pare de falar, tudo vai ficar bem. Muitas pessoas estão orando por você. _Eu... não me...me-re-ço. _Merece sim, minha linda, você vai sair daqui. _Vo-cê é... um an...an-jo... sempre cui-dan-do de mim... me pepe... me perdoa. _Paulinha, você não precisa pedir perdão para mim, me escuta... você precisa descansar- ao dizer isso, Leonardo percebeu as lágrimas no rosto da amiga, passou os dedos levemente para enxugá-las. Neste momento, entrou uma mulher. _Leonardo? Como ela está? - perguntou Marina. _A senhora trabalha aqui? - perguntou Leonardo ao ver a mãe de Suzana. _ Não... eu vim para visitá-la, a Suzana me contou, então como vou entrar no serviço às sete horas, aproveitei para dar uma passada por aqui. A enfermeira que está cuidando dela é minha amiga, é uma excelente profissional. _É ótimo saber disso. 136 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Agora você precisa sair, ela vai dormir . _Tudo bem...só vou me despedir dela. Paulinha? Amanhã eu volto... por favor, não desista. Leonardo deu um beijo na testa da amiga e em seguida saiu da U.T.I, acompanhado por Marina. _ Fique tranquilo, ela vai ficar bem- disse Marina. _ Assim eu espero... doí muito vê-la desse jeito. _Ela está bem fraca, mas logo se recupera, você vai ver. _ Eu vou buscar a Suzana hoje, ela me ligou. _Eu estou sabendo, fiquei muito aliviada com a decisão dela. Eu te agradeço. _Não precisa me agradecer, eu faço isso com um sorriso enorme no rosto, hoje está complicado para demonstrar; quando a Suzana me ligou eu quase não acreditei. _A minha mãe ficou muito contente, ela quer conversar com você e marcar um almoço. _Que ótimo, pode falar pra ela que é só marcar, com certeza eu estarei lá. _Eu falo sim, agora eu preciso ir e fique tranquilo, Leonardo, a sua amiga vai se recuperar, fique na paz. _ Eu também vou embora, a senhora quer uma carona? _Não é necessário, antes de ir para o hospital eu vou passar em uma loja aqui perto. Leonardo aproveitou para fazer uma visita à irmã, pois sabia que naquele dia ela havia comparecido a uma consulta de pré-natal. _E então, como o bebê está? _Está bem, graças a Deus. Estou mais tranquila agora. E a Paula está melhor?- perguntou Beatriz. _ Está na mesma. Ela conversou comigo hoje, está tão fraca, a voz dela quase que não saía... 137 Tânia Gonzales fiquei arrasado. _Ah, Léo, Deus ajude que ela fique bem. É tão jovem e bonita! Essa loucura de querer ter o corpo perfeito... isso precisa mudar... essas meninas fazem tanto sacrifício! _ Eu espero que ela se recupere, é muita dor para uma mãe; como é difícil ver o sofrimento da Regina! _As mães querem a felicidade dos filhos, desejam que os sonhos deles se tornem em realidade. De repente você vê o seu maior tesouro em um hospital, com a vida por um fio, abala a estrutura de qualquer um. E você se alimentou direito, hoje? _Não estava com fome... comi pouco no almoço. _Então você vai jantar aqui, o Bruno já deve estar chegando. Leonardo aceitou o convite da irmã. Bruno, como Beatriz havia previsto, logo se juntou a eles. Às nove horas e quinze minutos, ele saiu para buscar Suzana. Ficou esperando por ela durante uns 20 minutos. Ao vê-la se aproximar, seu coração acelerou... era difícil disfarçar os sentimentos que ela provocava nele, era uma sensação maravilhosa saber que ela estava se aproximando e que eles sairiam dali juntos e melhor ainda: Suzana havia ligado para ele e sabia que ele estaria esperando por ela. _Oi, Leonardo, esperou muito? _ Só um pouco, por você eu esperaria o quanto fosse preciso. O comentário dele deixou Suzana sem reação, ela não estava esperando algo tão direto, por isso ele mesmo precisou desfazer o constrangimento. _ Eu vi sua mãe hoje lá no hospital. _É mesmo? E como a Paula está? _Na mesma. Bom, ela conversou um pouco. Ela está muito fraca, a voz saiu com muita dificuldade. Ela queria se desculpar, fez questão de me dizer que não leu o livro que eu dei... é melhor nós irmos até o carro. 138 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Ao entrarem no carro, Suzana perguntou: _ O médico não disse nada? _Ele diz que o estado dela é muito delicado... sabe, Suzana, quando ela estava falando eu fiquei com muito medo de que ela estivesse se despedindo, eu... fiquei orando em pensamento, pedindo a Deus que não a levasse... enquanto eu ouvia aquelas palavras que ela pronunciava com tanto esforço um medo terrível se apoderou de mim, se ela … se … acontecesse o pior... Suzana sentiu que Leonardo estava sofrendo muito com a situação da amiga, ela queria ter a capacidade de consolá-lo, ela sabia que ele estava necessitando de um ombro, mas qualquer tipo de contato físico era muito complicado para ela, por isso se limitou a dizer: _ Calma... confie em Deus, ela vai ficar bem. _E se ela... Suzana, às vezes eu me sinto culpado. _Culpado? Como assim? _Se o nosso namoro não tivesse terminado quem sabe ela poderia até estar na faculdade. Eu não sei... _Leonardo, isso é um absurdo. Ela fez uma escolha. Nesta vida nós sempre temos que escolher algo e se a escolha for mal feita vamos precisar arcar com as consequências. _Acontece que eu a fiz escolher, as opções eram: eu ou a carreira de modelo, ela escolheu a carreira. Se eu não a tivesse pressionado, se … Leonardo abaixou a cabeça e Suzana se viu novamente no mesmo dilema: o que deveria fazer? Como consolá-lo? Ela sentia que naquele momento ele estava precisando ser tocado. Ele permaneceu em silêncio e na mesma posição. Suzana começou a mover uma das mãos em direção a ele. Leonardo estava com uma mão segurando o volante e com a outra em uma das pernas e foi nesta que Suzana tocou. Aquele toque fez Leonardo levantar a 139 Tânia Gonzales cabeça e olhar diretamente para os olhos dela. _Vai dar tudo certo- disse Suzana e em seguida afastou a mão. _Bom... é melhor sairmos do estacionamento. Os dois ficaram em silêncio a maior parte do caminho. _ Semana passada eu estive trabalhando muito, nem consegui participar da REMA e também não fui ao culto domingo. Trabalhamos até tarde todos os dias. _Ah... até domingo?-perguntou Suzana. _Isso mesmo, mas conseguimos colocar tudo em ordem. Eu fiquei com... saudades. Será que você também sentiu... _É... eu não pude participar da REMA, mas fui ao culto, agora eu estou entrando às 9h nos dias de domingo. _Que bom, assim você pode participar dos cultos; Suzana, eu gostaria de dar uma explicação... eu mencionei o namoro, mas isso não quer dizer que há alguma possibilidade de eu e a Paulinha reatarmos, com certeza não há... eu só quero o bem dela... ela é uma menina incrível, eu gosto muito dela como amigo. Eu quero que fique bem claro isso. _Leonardo, você não precisa me dar este tipo de explicação, eu... _Eu achei melhor esclarecer isso. É uma pena, mas já chegamos. _Então... boa noite e obrigada. _Boa noite, Suzana. Durma bem. Com um sorriso tímido, Suzana saiu do carro. O pai de Suzana, estava assistindo TV; ela o cumprimentou com um beijo e ele perguntou: _ Está tudo bem? Qual é a sua opinião sobre voltar para casa de carro? _Pai, é claro que é muito melhor, né? Eu não vou ser hipócrita. Eu estou bem e o senhor? _Hipócrita, que palavra forte! Eu estou bem. Que tal você fazer uma “boquinha”? A comida ainda está quentinha. 140 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu vou tomar um belo banho e depois eu vou beber um iogurte. _Só isso? Suzana! Você almoçou bem? Fez um lanche no início da noite? _Almocei muito bem e também lanchei. Satisfeito, agora? _Mais ou menos. E a moça que está internada, tem alguma notícia dela? Suzana falou sobre o estado de saúde de Paulinha e mencionou a visita da mãe ao hospital. _Agora eu vou tomar um belo banho! - disse Suzana. Após o banho, Suzana pegou um iogurte na geladeira e uma fatia de pão de forma com requeijão, foi para seu quarto com um prato na mão. O celular tocou assim que ela entrou. Era Leonardo, constatou ao olhar no visor. “Será que aconteceu alguma coisa com a Paulinha?”- pensou Suzana. _Oi, Leonardo, o que aconteceu? - perguntou ansiosa. _Calma, por que você está tão apavorada? _Você recebeu alguma notícia da Paulinha? _Ah... eu não fiquei sabendo mais nada; eu nem pensei nisso, me desculpe. Não imaginei que você ficaria preocupada ao receber uma ligação minha. _Tudo bem. Mas, por que você ligou? _Eu poderia inventar uma desculpa qualquer, mas a verdade é que eu … queria ouvir a sua voz, foi só isso. _Então me pergunta alguma coisa. _Como é? _Se você quer ouvir a minha voz vai precisar me fazer perguntas, vou esperar por elas bem quietinha. Leonardo ficou surpreso com a reação de Suzana. _Você está certa. Eu vou começar o interrogatório, está preparada?- brincou Leonardo. _Estou esperando. 141 Tânia Gonzales _O que você estava fazendo antes de falar comigo? _Eu estava segurando um prato. _Segurando um prato? O que há nele? _Uma fatia de pão de forma com requeijão e na outra mão estava com um copo de iogurte. _Só isso? Você se alimentou bem hoje? _Sim, senhor. Eu almocei muito bem. _Depende o que você chama de muito bem. Descreva o seu almoço pra mim. _Eu cheguei em um restaurante self service e... não... espera, antes disso eu encontrei uma amiga que trabalha comigo, nós almoçamos juntas. _Você está brincando comigo e eu estou adorando isso. _Brincando? Você que pediu para eu descrever o meu almoço e como você quer ouvir a minha voz eu vou ser bem detalhista. _Você está me surpreendendo, sabia? _Eu? Vou continuar... tudo bem, vou pular algumas partes, tá? Eu fiz um prato bem colorido: arroz, feijão, bife à rolê, refogado de chuchu... salada de beterraba, alface com tomate e cebola e ainda peguei um pouquinho de uma salada de berinjela. Bebi suco de abacaxi. Aprovou a minha dieta? _Gostei. Fico feliz que você esteja se cuidando. Suzana, eu... vou desligar. _Nossa, já cansou de ouvir a minha voz? Leonardo estava cada vez mais surpreso com as palavras de Suzana. _Quem é você? Eu acho que liguei para o número errado. _Não posso brincar um pouquinho? _Pode. Eu pensei várias vezes se deveria mesmo ligar. Fiquei discutindo comigo mesmo. “Que ideia é esta de ligar pra ela? Vocês acabaram de se encontrar.” O outro Leonardo dizia: “ Qual 142 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão é o problema? Eu estou com vontade de ligar e é isso mesmo o que eu vou fazer.” Foi uma discussão feia, mas venceu o melhor argumento. _Depois sou eu que estou brincando, né? _Eu não estou brincando, princesa Suzana. Eu acho que vou ligar mais vezes, pelo celular nós estamos nos entendendo melhor. _É mais fácil, não preciso enfrentar o seu olhar envolvente. _Definitivamente você não é a Suzana. Me diga quem é você e o que fez com a minha amiga?- disse Leonardo dando uma gargalhada. _Você está se divertindo comigo, é? _Eu estou desfrutando de uma agradável conversa com você. Pelo telefone você está mais solta, as palavras estão fluindo naturalmente, mas eu confesso que mesmo assim eu ainda prefiro falar com você pessoalmente; nada substitui estar diante dos seus lindos olhos verdes. Eu adoro olhar para o seu rosto, você tem uns traços tão delicados e... _Agora você está abusando da minha boa vontade. _É, você tem razão. Eu vou desligar, mas estou feliz e satisfeito comigo mesmo por ter tomado a decisão certa. Suzana, boa noite e durma bem, até amanhã. _Boa noite, Leonardo. Até amanhã. Suzana também estava surpresa com a própria atitude. Era exatamente como Leonardo havia explicado. A conversa entre os dois fluiu de maneira natural, Suzana se sentiu muito bem. “Pelo menos à distância eu consigo esquecer os meus medos e receios, com certeza é porque não existe a possibilidade de qualquer contato físico.” - pensou Suzana. No dia seguinte, Leonardo foi até o hospital antes mesmo de ir para o escritório. Ligou para o celular de Regina, encontraram-se 143 Tânia Gonzales na recepção. _Como ela passou a noite? - perguntou Leonardo. _Dormiu a maior parte do tempo, graças a Deus. Posso considerar que foi uma noite tranquila. O médico me disse que ela está reagindo bem, está bastante otimista, bem diferente do dia anterior. _Que boa notícia, Regina. E o Paulo? _Ele está lá com ela, chegou ontem à noite. Ficou uma fera, disse que eu deveria ter avisado. _Regina, ele está certo. Ele é o pai dela, os problemas que vocês dois estão enfrentando precisa ficar em segundo plano, pelo menos por enquanto. _Ah, você está certo. _Agora eu vou trabalhar, mas eu volto à tarde para vê-la, diz isso pra Paulinha. _Eu digo, sim. Eu agradeço todo o seu carinho, eu sei que você é muito especial pra ela. A Paula o admira muito. Antes de chegar ao estacionamento do hospital, o celular de Leonardo tocou. _Leca? _Me desculpe ligar tão cedo, mas eu precisava falar com você. E a Paulinha? Leonardo deu a boa notícia para Letícia. _ Que ótimo! Léo, ontem a minha mãe veio com uma história... bom, ela acha que nós dois estamos namorando escondido. _A minha mãe comentou isso comigo também. _Léo, você não está entendendo, ela cismou com isso. Eu ia falar com eles, domingo, mas... _Lê, eu acho que agora é a hora certa. Ela está desconfiada porque você tem se encontrado com o Daniel, não é? _É isso mesmo, só que ela acha que é com você. A sua mãe tem 144 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão uma parcela de culpa, nesta história. Ela disse que você está muito misterioso. Acontece que os nossos horários estão coincidindo. A sua mãe acha que você não foi participar de um café especial naquele domingo e a minha também não, elas pensam que nós dois inventamos isso. É mole? Contamos a verdade e elas não acreditam. Para completar, ontem eu saí com o Daniel e você foi buscar a Suzana. A imaginação delas está correndo solta... hoje no café da manhã a minha mãe me deu um abraço e disse: “ Como eu esperei por este dia! ” _Mães! Por isso mesmo você deve esclarecer tudo. _Agora que eu estou com mais receio ainda. Você não ouviu a minha mãe. “ Filha, eu estou tão feliz, não estou entendendo o porquê de tanto mistério, mas se vocês querem assim! Eu sei que é muita pressão em cima de vocês dois, mas é porque nós queremos o melhor. Como eu pedi a Deus que vocês se decidissem! ” Léo, o pior é que ela não me ouve, eu digo que ela está confundindo tudo e é como se eu não dissesse nada. _Calma, Lê. Mas eu continuo com a opinião de que você deve esclarecer tudo o mais rápido possível. Esta situação é muito injusta para o Daniel. _Ah, meu amigo! Eu preciso desligar, eu estou com tanto medo da reação deles. Letícia tinha todos os motivos para ter medo da reação dos pais. A notícia de seu namoro cairia como uma bomba, principalmente para sua mãe. 145 Tânia Gonzales Capítulo 14 – Boas notícias Naquela noite, durante o jantar, Lígia teve uma conversa com o filho. _Leonardo, eu sei que você não gosta deste assunto, mas eu preciso falar com você. _Que assunto, mãe? Não vai me dizer que... _É isso mesmo, você e a Letícia. A Sandra ficou o dia inteiro falando sobre isso. Ela diz que a Letícia está escondendo alguma coisa, ela acha que existe algum segredo. E você sabe qual é a suspeita dela? _Eu sei e ela está enganada. _Diz a verdade pra mim, você a Letícia estão namorando? _Mãe, por que eu e a Letícia teríamos a necessidade de esconder isso? Não entendo. Isso é o maior sonho de vocês. Não estamos namorando. _Então o que está acontecendo? Eu também tenho a impressão que há alguma coisa no ar. Filho, você não está pensando em... a Sandra me fez uma pergunta que não me sai da cabeça. _Que pergunta, mãe? E o pai, hein? Preciso que ele me salve. _Ele e o Fernando foram jantar com um cliente. Leonardo, você está pensando em voltar a namorar a Paula só porque ela está doente? _Como vocês duas viajam... mãe! Não dá pra entender... primeiro a Sandra pensa que eu e a filha dela estamos namorando, depois ela pergunta se eu vou voltar a namorar a Paula? _Ela acha que é justamente por isso que vocês não oficializam o namoro. Vocês preferem esperar que a Paula se recupere. E ao mesmo tempo ela tem medo que a Paula peça para voltar e você aceite por pena. 146 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Que confusão! Como vocês conseguem? _Filho, há alguma possibilidade de isso acontecer? _Mãe, eu não vou voltar a namorar a Paulinha, ela está precisando de amigos e eu sou um deles. De repente foi algo que eu disse que formou toda essa confusão, no dia da internação da Paula eu comentei com o papai que me sentia culpado por tê-la feito escolher, eu pensei que se tivesse acontecido tudo diferente, quem sabe ela não teria passado por isso. Agora, quanto ao meu namoro secreto com a Letícia, isso não tem o menor fundamento. Fui claro? Eu vou escovar meus dentes, preciso sair. _Está vendo só? É isso. Por que você vai sair agora? _Mãe? Eu vou dar uma saída. _Aonde você vai? _Que isso? Eu vou sair um pouco. Não vou demorar. Leonardo não queria mencionar o nome de Suzana, já estava tudo tão confuso! Mas ele sabia que não iria conseguir mantê-la em segredo por muito tempo. Suzana saiu da loja e olhou ao redor para localizar Leonardo, mas não o avistou. Andou um pouco e parou para observar as pessoas que passavam. Eram dez e vinte e nada de Leonardo chegar. Ela estava começando a ficar preocupada. Teria acontecido alguma coisa? _Oi... mulheres bonitas não faltam por aqui, mas você com certeza ganhou de todas- disse uma voz desconhecida. Ao virar o pescoço, Suzana se deparou com um homem alto e forte, com a barba por fazer, aparentando uns 40 anos. _O que uma beldade como você está fazendo aqui desacompanhada? Isso é um pecado. Eu vou resolver isso agora. Vou acompanhá-la para onde você quiser, você manda, boneca! Suzana ficou paralisada, não conseguia falar e nem se mover, 147 Tânia Gonzales queria sair dali, mas sabia que não era uma boa ideia, pois ele a seguiria, pensou em voltar para a loja, mas os seus pés não obedeciam. _Vamos, boneca! Eu vou levá-la comigo, você não vai mais ficar sozinha... não mesmo. Suzana não conseguia responder, queria dizer que estava esperando por alguém, mas as palavras não saíam, uma sensação terrível de pânico começou a tomar conta dela, e se ele mostrasse uma arma e a obrigasse a acompanhá-lo? Ela não iria, nem que ele ameaçasse atirar nela, ela não iria a nenhum lugar com ele, preferia morrer ali. O homem se aproximou mais um pouco e disse: _Vamos, minha bonequinha... estamos perdendo tempo aqui, há tantas coisas boas para se fazer! Eu quero ficar sozinho com você e... _Desculpe a demora, estava tudo parado por causa de um acidente- disse Leonardo ao se aproximar, em seguida colocou o braço no ombro de Suzana. O homem se afastou rapidamente. Suzana ainda estava sem nenhuma reação. _Ei, está tudo bem agora, eu vi de longe que ele a estava incomodando. Me desculpe o atraso. Suzana? _Eu... preciso sentar. _Vem comigo, isso... aqui – disse Leonardo ao se aproximarem de um banco- Calma, está tudo bem... eu saí cedo, mas foi como eu disse, o trânsito estava terrível...eu sinto muito. _Eu...estou bem. Agora, eu estou bem. Que bom que você chegou... eu estava apavorada!- confessou Suzana. _Suzana... aquele sujo, falou alguma coisa... _Ele só dizia que queria me acompanhar e levar pra algum lugar, sei lá... eu fiquei com medo, na verdade eu fiquei paralisada de 148 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão tanto medo. Leonardo se aproximou e ia abraçá-la para que se sentisse protegida, mas Suzana se afastou. Ele percebeu que ela sempre fugia de qualquer contato físico. _ Já dá para você andar? Podemos ir para o carro? _ Podemos, sim. _ É melhor você me esperar dentro da loja- disse Leonardo ao entrarem no carro. _Não é necessário. _Por quê? Você não quer que alguém da loja me veja? _Não é isso, espero em frente à loja, está bom assim? _Tudo bem. Eu vou sair mais cedo ainda, não quero te fazer esperar novamente. _Leonardo, você já está me fazendo um grande favor, não precisa sair mais cedo... _Eu prefiro esperar por você do que correr o risco de acontecer algo semelhante novamente. _Não conte isso pra ninguém, tá? _Você não vai dizer para os seus pais? _Não, é claro que não. Eles já se preocupam muito comigo, não precisam de mais um motivo. _Tudo bem, eu não conto, vai ser mais um segredinho nosso. Outro dia você chorou depois que eu mostrei o bouquet, eu não entendi nada, não sei se você ficou emocionada por causa do presente ou ...eu acho que foi por outra coisa, mas não sei explicar. _Vamos esquecer tudo isso? Leonardo, amanhã é o meu dia de folga. _Que pena! Quer dizer que ótimo, pra você! _Amanhã tem uma reunião na casa do Jônatas. _Que bom! Pensei que não teria a oportunidade de ver o seu lindo rosto. 149 Tânia Gonzales Suzana ficou em silêncio, estes pequenos comentários que ele fazia sempre a deixava sem jeito. _Ei, onde está aquela garota do celular? _Você mesmo respondeu a sua pergunta: garota do celular. _Em nosso próximo encontro você poderia trazê-la? _Não. Ela é a garota do celular. _Então, eu já sei como resolver isso- Leonardo tirou o celular do bolso e aproveitando que o semáforo estava fechado, fez uma ligação para Suzana. _Engraçadinho- disse Suzana ao ouvir o seu celular tocando- Não adianta, assim ela não aparece. _Por causa do meu olhar envolvente?- provocou Leonardo. _Eu me recuso a responder. _Você é tão má, não me dá nem um pontinho! _Vamos mudar de assunto, a Lê está tão preocupada! _Esse assunto? A minha mãe me pegou na hora do jantar. Ela me disse que a Sandra está certa que eu e a Lê estamos comprando as alianças, os móveis, procurando imóvel e... _Nossa, vocês nem me convidaram para o casamento? _Com isso você brinca, né? A Leca precisa esclarecer tudo, está virando uma bola de neve... _Leca? Eu reparei que às vezes você a chama assim. _Ela diz que detesta o apelido, mas eu a chamo assim desde que éramos crianças. _Leca. É Leonardo, o jeito vai ser vocês dois assumirem o namoro. _Sei, já que você gosta de brincar com os sentimentos dos outros, eu vou dizer uma coisa agora e não vou poupá-la, é algo que eu diria com tranquilidade para a garota do celular, mas foi você quem pediu... eu gostaria de assumir um namoro, mas não com a Letícia, eu teria o maior prazer e seria o homem mais feliz do 150 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão mundo, se ... _Leonardo, é melhor você parar com isso. _Agora, eu vou falar tudo... você não vai me impedir. _Pare com isso, não estrague tudo. _Relaxa, eu estava só brincando com você. Eu sei que você já esgotou a sua cota de emoções hoje. Vamos conversar amenidades. Vamos começar com este livro- disse ele apontando para o livro que Suzana estava segurando- Qual é o nome dele? _Orgulho e preconceito5. _Hum... e ele fala sobre o quê? _É um romance inglês. Fala sobre o julgamento que fazemos das pessoas pelo fato delas terem dinheiro ou não, ocuparem uma alta posição na sociedade ou não. É bem interessante. Suzana deu mais alguns detalhes sobre o livro e poucos minutos depois Leonardo estacionou o carro em frente à casa dela. _Está muito cansada, hoje? - perguntou Leonardo enquanto Suzana abria o portão. _Um pouco, tem algum motivo pra me perguntar isso? _Tenho. Você por acaso gostaria de receber uma ligação mais tarde? Suzana ficou calada por alguns segundos. A garota do celular queria dizer que sim, a Suzana cheia de receios e medos queria dizer que não. Por fim disse: _Você acha que deveria me ligar? Suzana entrou e fechou o portão sem olhar para Leonardo. _Oi, filha! Chegou mais tarde hoje. _Oi, pai! O Leonardo se atrasou por causa do trânsito, ele disse que aconteceu um acidente. 5 Autora Jane Austen 151 Tânia Gonzales Após o banho, Suzana foi até a cozinha fez um lanchinho rápido e foi para o seu quarto. Olhou para o celular eram onze e trinta e cinco, será que ele ligaria? Leonardo não parava de pensar na pergunta de Suzana: “ Você acha que deveria ligar?”- por que ela não disse simplesmente sim ou não? Tinha que complicar. Será que eu deveria ligar? Suzana! Eram onze e quarenta quando o celular de Suzana tocou. O coração dela começou a bater mais forte. _Não, tudo bem. Pode falar, Lê. _Su, eu sei que é tarde e você deve estar cansada, mas eu tinha que conversar com você, estou tão perdida. Não sei o que fazer. Leonardo com o celular na mão, pensou: “ Ela respondeu a minha pergunta, ligou para alguém só para não falar comigo.” Após dez minutos de conversa, Suzana desligou o celular e pensou: “ Será que ele tentou me ligar? Acho que não” - concluiu. Leonardo ficou aliviado ao receber uma ligação de Regina naquela tarde de quarta-feira, pois ela tinha ótimas notícias, a filha havia saído da U.T.I. _Que notícia maravilhosa, Regina! Obrigado por ter ligado, preciso terminar um serviço, mas depois vou visitá-la. Leonardo resolveu ligar para Suzana e contar a boa notícia que ele havia acabado de receber. _Alô? Suzana? Posso falar com você? _Oi, Leonardo, pode sim, está bem tranquilo agora. _É que a mãe da Paulinha me ligou e contou que ela saiu da U.T.I., já está no quarto. _Que ótimo, eu fico muito feliz por saber disso! Quer dizer que o pior já passou, né? 152 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _É isso aí. Bom... eu vou deixar você trabalhar. Tchau. Paulinha estava conversando com o pai quando Leonardo chegou ao hospital. _Com licença, o quarto da minha linda amiga é aqui? Isso é pra você- disse Leonardo mostrando um bouquet de flores- vou colocá-las nesta mesa. _O-bri-ga-da, Léo! É... bom...te ver- disse Paulinha ainda com dificuldade. _Minha linda, estou tão feliz por você estar melhor. E aí, Paulo, tudo bem? _Oi, Leonardo, agora as coisas estão melhorando. Obrigado pela força que tem dado a minha filha. _Não precisa agradecer, você sabe o carinho que eu sinto por ela. _Eu sei; vou deixá-los a sós para que conversem melhor, com licença. Paula esperou o pai sair para dizer: _ Ele me... disse que a mi-nha... mãe não a-vi-sou pa-ra ele. _Tudo bem, Paula. Não fique se preocupando com isso agora, o mais importante aqui é a sua saúde. Eu senti um alívio tão grande quando a sua mãe me ligou, ah... minha linda, fiquei com muito medo de você nos deixar. Mas Deus teve misericórdia de nós e agora você está melhorando, é isso o que importa. _Vo-cê é um... amor. É... é... _Não precisa falar mais nada, poupe seu fôlego. _Eu... pro... pro-me-to que … vou me cui-dar... _Tudo bem, eu estou muito feliz por ouvir isso - disse Leonardo com os olhos marejados e como percebeu que Paulinha também estava, tocou no rosto dela e enxugou as lágrimas. _An-jo... Le-o-nar-do. _Para com isso, eu sou um amigo que se preocupa muito com 153 Tânia Gonzales você. Leonardo ficou mais alguns minutos fazendo companhia à amiga, ao sair do quarto dela, encontrou-se com Regina no corredor. _ Regina, eu queria mesmo falar com você. Eu posso te pedir um favor? _Claro, Leonardo! Depois de toda a força que você … _Regina, não precisa mencionar isso, eu estou aqui porque a Paulinha é uma amiga muito querida. Eu sei bem que não é nada educado se envolver em problemas de casais, mas este caso é especial, eu faço isso por ela. Por favor, Regina, espere que ela se recupere, depois você e o Paulo se acertam. Ela sofre muito com esta situação. Ela precisa ser poupada agora. É momento de vocês esquecerem as diferenças e se unirem pelo bem da filha de vocês. Eu não vou pedir desculpas por isso. Amanhã eu volto. _Leonardo, você tem toda a razão, eu vou me esforçar. Obrigada. Suzana aproveitou o seu dia de folga para almoçar fora com a mãe, a tia Marisa e a vovó Vivi, chegaram em casa por volta das três horas da tarde. Minutos depois saiu com Letícia para visitar Paulinha. _ Fico feliz... por … vocês estarem aqui – disse Paulinha, agora as palavras estavam saindo com mais facilidade. _Paula, graças a Deus que você está bem. Estávamos tão aflitas! Havia uma multidão orando por você – disse Letícia. _ A Lê está certa. Foi um alívio saber que você estava reagindo bem. Quando o Leonardo contou que você havia saído da U.T.I, eu agradeci a Deus e fiquei muito feliz!-disse Suzana. _Obrigada, valeu amigas! O Leonardo é um anjo, ele veio todos os dias, ele já esteve aqui hoje, saiu poucos minutos antes de 154 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão vocês chegarem. Ele me trouxe um MP3. Ele é tão gracinha que colocou esta música, vem aqui perto Suzana, quero que você ouça. Suzana se aproximou e colocou o fone de ouvido: “ Você é linda demais, perfeita aos olhos do pai, alguém igual a você, não vi jamais...”6 - Foi a música que ela ouviu. No íntimo, Suzana lamentou não ter encontrado Leonardo no hospital, mas lembrou que à noite ele participariam de uma reunião do grupo Alfa, seria na casa dos líderes, Jônatas e Jessica. Combinou o horário com Letícia para irem juntas. _Que dia de folga é este, minha neta? Vai sair novamente? _Vou em uma reunião do grupo Alfa. Foi um dia bem agitado hoje, mas eu gostei; almocei com três mulheres maravilhosas, visitei uma amiga no hospital e o mais importante é que ela está melhor. _Fico feliz por isso, minha neta. Com quem você vai? _Com a Letícia. _E o Leonardo vai também? _Ele também faz parte do grupo. _Que bom! Diga que eu mandei um abraço. _Eu já vou, até mais tarde, vovó linda! A reunião começou às oito horas, Jônatas explicou que o pastor Pedro Gabriel marcou um evento especial para arrecadar fundos para missões. Cada grupo seria responsável por criar algo que seria vendido no evento. _Na próxima reunião cada um vai apresentar a sua ideia para o evento. Nos encontraremos na quarta-feira e eu já combinei com o Leonardo, será na casa dele. Ele não está aqui hoje, mas ele me ligou justificando a ausência. Pessoal, vamos fazer uma oração agradecendo a Deus pela vida da Paula. Ela ainda vai ficar mais 6 Música: “ Aos olhos do pai”, Crianças Diante do Trono. 155 Tânia Gonzales alguns dias internada. Continuem orando por ela e façam uma visita. Após a oração todos se despediram. Suzana e Letícia aproveitaram a carona de Vitória. Eram dez horas quando Suzana chegou em casa. Seu pai e a vovó Vivi, estavam assistindo um DVD. _Vem assistir com a gente, filha, é uma comédia. _Obrigada, pai, mas eu vou aproveitar para deitar mais cedo. _Faça isso, querida! Você deve estar muito cansada, não parou hoje- disse vovó Vivi. _Boa noite pra vocês. 156 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capitulo 15- Apaixonados Suzana foi para seu quarto e ficou pensando nos acontecimentos daquele dia, que ela poderia até considerá-lo como um dia perfeito, se não fosse por um detalhe: não ter visto Leonardo. Ela não conseguia parar de pensar nele. Esperava vê-lo na reunião, mas ele não apareceu. Ficou o tempo todo ansiosa, pensando que à qualquer momento ele chegaria, mas saiu de lá frustrada. Ela era obrigada a reconhecer que gostava da companhia dele. _Suzana, filha? O seu celular está tocando- avisou o pai- você esqueceu a sua bolsa aqui na sala. Davi levou a bolsa até o quarto da filha. _Obrigada, pai- disse Suzana enquanto abria a bolsa e tirava o celular. Ela olhou o visor e seu coração disparou, era Leonardo. _Alô? Princesa Suzana? Você já estava dormindo? _Oi, Leonardo, não, eu cheguei da reunião quase agora. _Tudo bem com você? Estou atrapalhando? _ Não está atrapalhando. Eu estou bem e você? _Agora eu estou ótimo. Eu precisei sair com o meu pai, por isso não pude participar da reunião. Quando eu cheguei em casa liguei para o Jônatas para saber se vocês ainda estavam lá, mas ele me avisou que a reunião havia terminado. Eu ia até lá para buscar você e a Lê. Com quem vocês vieram? _Com a Vitória. _Que bom. Agora eu gostaria de falar com a garota do celular. Posso? _ Você não quer saber como foi a reunião? _Não. Amanhã a Suzana me conta. Eu quero falar com a garota do celular. Porque ontem uma certa pessoa me fez uma pergunta, 157 Tânia Gonzales deixou tudo por minha conta e risco, mas depois ocupou o celular só para não falar comigo. _Você tentou ligar, ontem? - perguntou Suzana, surpresa. _Claro que sim. Mas você... _A Letícia me ligou, ela estava precisando conversar. _Ah, foi ela quem ligou! Gostei de saber, mas sobre isso eu converso com a Suzana, amanhã, hoje eu quero falar com a garota do celular, pode chamá-la? _O que você quer com ela? _ Eu quero continuar uma conversa que eu comecei com a Suzana e ela me cortou, eu acho que a garota do celular vai me ouvir. _Leonardo, eu... _Eu disse para a Suzana que gostaria de assumir um namoro, mas não com a Letícia... _Leonardo, eu acho melhor você não falar... _Eu estou conversando com a garota do celular, com a Suzana eu falo amanhã. Desde a primeira vez que eu … _Leonardo! _Naquele dia, quando eu fui comprar um presente para minha mãe, eu olhei pra você eu nunca mais fui o mesmo, eu voltei algumas vezes e depois sumi porque fiquei com vergonha, me senti ridículo, mas eu queria muito vê-la novamente, quando eu vi você conversando com a Letícia na igreja quase não acreditei. Você estava tão perto e eu nem sabia. Suzana, tenho que dizer que eu estou... _Leonardo, eu acho melhor você parar, por favor! _Amanhã eu não vou falar sobre isso, a menos que a Suzana queira, mas hoje, como eu estou conversando com a garota do celular, eu vou continuar... eu tenho que dizer que... estou apaixonado por você. É isso, eu estou completamente apaixonado por você. 158 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana não sabia o que dizer, ele simplesmente a havia deixado sem palavras. _Suzana? Você ainda está aí? Ei, garota do celular? _Oi, eu... eu pedi pra você não dizer. _Eu falaria isso pessoalmente se você não... _Leonardo, eu acho que é melhor você desligar agora- pediu Suzana. _Suzana, não faz isso comigo, diga alguma coisa que eu queira ouvir... diga! _Eu... não posso! _Por quê? Esqueça por um momento a Suzana cheia de medos e receios que há dentro de você e viva, deixe que a garota do celular converse comigo. Ela está sufocada aí dentro de você, por quê? Você tem medo de ser feliz? Suzana não sabia o que responder, ele estava certo, ela se sentia sufocada com toda aquela situação. A verdade era que ela não podia ser feliz completamente. _Eu vou desligar, Leonardo, não quero falar sobre isso e se amanhã você tiver a intenção de continuar com esse assunto eu peço que não me busque no serviço. Boa noite. Suzana não esperou ele responder. “ Por que tudo é tão complicado? Por quê? Por que eu não posso dizer que eu também estou completamente apaixonada por ele? Por quê? Na verdade eu sei porque. Não posso enganá-lo. Ele não merece isso. “ - eram os pensamentos desesperados de Suzana. _Minha neta? Eu bati na porta, mas você não respondeu- disse vovó Vivi ao entrar no quarto de Suzana. _Me desculpe, vó. A senhora pode deitar agora, eu também vou... _Suzana, que carinha é esta? Você estava chorando? _Não, vó, está tudo bem. _Você acha mesmo que me engana? O que aconteceu? 159 Tânia Gonzales _Vó... eu não quero falar sobre isso... por favor! _Querida, conte pra mim, faz bem desabafar. _Vó... eu me esforcei, eu fiz de tudo, eu tentei ficar longe dele, mas eu não consegui evitar... - disse Suzana entre soluços. _Querida, acalme-se, o que você não conseguiu evitar? _De me apaixonar, eu sei que não posso, mas eu estou apaixonada pelo Leonardo... e ele disse que está apaixonado por mim. _Querida, isso é maravilhoso! _Não é; a senhora sabe o motivo. _Suzana, ele é um ótimo rapaz, eu pedi tanto a Deus... _Não... a senhora sabe que não posso... eu não posso contar a verdade, mas também não posso enganá-lo; justamente por ele ser tão bom, ele não merece isso. _Suzana, que bobagem! Você não teve culpa de nada, você foi uma vítima, esquece isso e seja feliz. _Vó... eu não quero mais falar sobre isso, preciso dormir. Por favor, não conte pra ninguém, nem para mamãe- pediu Suzana. Vovó Vivi concordou e ficou acariciando os cabelos da neta até que ela adormeceu. Suzana sonhou que Leonardo estava se declarando para ela, mas não era pelo celular. Eles estavam bem próximos um do outro e ele dizia: _Eu abri o meu coração pra você e agora é a sua vez. Diga o que você sente por mim. _Leonardo eu... eu amo você. Ele acariciou o rosto dela, segurou em seu queixo e se aproximou mais um pouco, quando estava prestes a beijá-la, ele disse: _Mas por que você me enganou? Por que não me falou a verdade sobre você? Por quê? Pensou que daria para esconder? _ Filha, eu tive uma ótima ideia- disse Sandra durante o café da 160 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão manhã daquela quinta-feira. _Que ideia, mãe? _Eu quero que você convide o Leonardo para almoçar aqui domingo. _Mãe, já vai começar com isso? Eu não vou convidá-lo. _Por que não, Letícia? Então eu vou ligar para ele. _Mãe, não faça isso, olha, domingo a gente conversa. _Como assim? Domingo? _É isso mesmo. Não convide o Léo. Domingo a senhora vai finalmente entender. Estamos combinadas? _Você está tão misteriosa! Mas, tudo bem. Assim que ficou sozinha Letícia ligou para o namorado. _Dani, amor, eu me decidi. É isso mesmo, domingo à tarde. Cansei, eu sei que você também. Por isso nós vamos esclarecer as coisas. Também te amo. Um beijo enorme. Tchau. Em seguida fez uma outra ligação. _Léo? Tudo bem? Ah, meu amigo, está uma confusão! Eu preciso te pedir uma coisa, se a minha mãe te convidar para almoçar você inventa uma desculpa qualquer para não aceitar. Isso mesmo, eu vou apresentar o Daniel como meu namorado, domingo à tarde. Tem razão. Obrigada, amigo, eu vou precisar. Beijo. Tchau. Foi difícil para Suzana se concentrar no trabalho, tanto por não ter dormido direito como por não conseguir parar de pensar nas palavras de Leonardo. Passou a maior parte do tempo em silêncio, entregue aos pensamentos. _Nossa, como você está calada hoje! Aconteceu alguma coisa? Você está doente?- perguntou Cláudia. _Me desculpe, Cláudia, não estou em meu melhor dia. _Isso deu pra notar. Mas qual o motivo? Conta, vai!? É por causa de algum gatinho? 161 Tânia Gonzales _Cláudia, eu não quero falar. Cláudia, após quase dois anos trabalhando com Suzana, já sabia muito bem que não adiantaria insistir. Às dez horas, Suzana saiu da loja, com uma enorme interrogação em sua cabeça: Leonardo estaria esperando por ela? A dúvida de Suzana não durou nem um minuto, ela o avistou rapidamente. E agora a interrogação era outra: Será que ele tocaria naquele assunto? _Boa noite, princesa Suzana! - Leonardo a cumprimentou com um largo sorriso. _Boa noite - respondeu simplesmente. Os dois andaram lado a lado sem dizer uma palavra, por duas vezes entreolharam-se, mas Suzana desviou o olhar rapidamente. _ E então, como foi a reunião ontem? - perguntou Leonardo ao sair do estacionamento. _Foi produtiva. _Nossa, que comentário mais frio! _Não foi a minha intenção. Nós precisamos de ideias para arrecadar fundos para missões. Na próxima reunião, que será quarta-feira em sua casa, cada um vai dar uma sugestão. _Certo, me diga uma coisa, quarta será a sua folga? _Não. Na próxima semana minha folga cai no sábado. _É um belo dia, mas que pena que você vai faltar justo na minha casa. Existe alguma possibilidade de troca? _Não é difícil, principalmente pelo meu dia de folga ser sábado. Eu vou tentar. _Legal. A Lê me ligou hoje pela manhã, ela e o Daniel vão assumir o namoro. Domingo à tarde ele vai até a casa dela. _Tomara que tudo dê certo. Que Deus ilumine os pais dela. _Tomara! E você? Está com uma carinha de cansada! O dia foi muito corrido hoje? 162 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Hoje estou muito cansada. O pior é que desde cedo que eu estou assim. _Não dormiu bem? _Não. Foi uma longa noite... _Suzana, foi por minha culpa? _Leonardo, não estou gostando do rumo que esta conversa está tomando... _Tudo bem, esqueça. _Sabe os livros que você comprou pra mim? Você poderia trazêlos? _Claro, até que enfim você... o que significa isso? - perguntou Leonardo ao ver que Suzana estava lhe dando dinheiro. _São R$185,00. Foi isso que você pagou, certo? _Era muito bom pra ser verdade! Por que você simplesmente não aceita como um presente? _Eu não vou discutir isso com você. - disse colocando o dinheiro no porta luvas. _Tudo bem, amanhã você estará com eles nas suas mãos. Você é inacreditável! Eu já entendi, você está me castigando por ontem, não é? Eu sei que ontem eu acabei me empolgando e cometi uma falta grave, fui íntimo demais, não é? Exagerei. Mas, pode ficar tranquila, eu não vou mais dizer que estou apaixonado por você, aliás eu nem sei por que eu disse... _Leonardo, para com isso! Eu não estou te castigando, eu já tinha pensado nisso há alguns dias, eu preciso dos livros, mas estava sem o dinheiro, foi isso, não tem nada a ver com o que você disse ontem. _Por que você tem tanto medo? Por que é tudo tão difícil com você? Você foge do quê? _Eu disse que se fosse para ter este tipo de conversa … _Eu sei, tudo bem. Eu não vou falar mais sobre isso. Acho que é 163 Tânia Gonzales melhor eu não falar mais nada. Durante vinte minutos os dois permaneceram em silêncio. Finalmente, Leonardo virou à esquerda e estacionou em frente à casa de Suzana. _Boa noite, Leonardo. _Boa noite. Suzana entrou em casa desejando que todos já estivessem dormindo, mas ela sabia que isso era impossível. _Minha neta linda, boa noite! _Oi, vó, boa noite! E o meu pai? _Está tomando banho. Acabou de chegar. Tenho algo especial para te mostrar. _Algo especial? O quê? _Vem comigo até a lavanderia. _O que a senhora está inventando? _Eu? Nada. A ideia não foi minha. _O que é isso? Que gaiola é esta? A senhora comprou uma Calopsita? _Eu não, querida! É um presente e ele disse que não aceita devolução. _Ah... é um presente do Leonardo. _Ele passou aqui hoje à tarde. O nome dela é Meg, foi o Leonardo quem disse. Ela é tão mansinha! _Meg, vem aqui comigo, gracinha... - disse Suzana, em seguida abriu a gaiola e colocou o dedo para Meg subir- que fofa! Você é linda... _Ele não esqueceu de nada; trouxe ração, brinquedos e você viu o tamanho da gaiola? Ele pensou em tudo! _ Meg linda, olha vó, ela está no meu ombro, … que coisinha! Você gosta de carinho, não é?- disse Suzana acariciando a cabecinha de Meg. 164 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Suzana, esse rapaz só quer te fazer feliz, por que você não permite isso? Seja feliz! _Vó... minha vó linda, eu não sei o que fazer. _Seja feliz, é simples assim. Não tenha medo do sentimento que está dentro de você, é algo lindo e puro. _ Puro? Onde está a pureza? _Suzana, não confunda as coisas, você precisa deixar que Deus te cure. Permita que as feridas cicatrizem. Está na hora de você ser feliz e o Leonardo é o rapaz certo para isso. _Vó... vamos parar com esse assunto, por favor! Meg... aqui...isso... agora você vai dormir e eu também. Boa noite, Megdisse Suzana colocando-a de volta na gaiola. _Vai ligar pra ele? _Não, vó, eu prefiro falar pessoalmente. _Oi, filha! Que presente, hein?- disse Davi ao se aproximar da filha. _Oi, pai! É um belo presente- respondeu Suzana dando um beijo em seu pai- Agora eu vou tomar banho. Em seu quarto, Suzana começou a pensar em sua última conversa com Leonardo: “ Como ele ficou chateado por eu ter pago pelos livros! Agora dá pra entender, ele havia deixado um presente aqui pra mim e eu pagando pelo outro! Leonardo, Leonardo, você precisava ser tão maravilhoso? Precisava ser tão gentil? Você tinha que ser lindo e encantador? E eu tinha que me apaixonar? Eu não posso viver esse amor, sei que vou sofrer, mas é melhor assim, principalmente pra ele. O Leonardo merece alguém sem traumas, sem um passado triste e terrível como o meu. Enquanto isso, em sua casa, Leonardo estava pensando em Suzana: “ É tão difícil entendê-la! Ao mesmo tempo que ela demonstra que gosta da minha companhia, ela foge. Parece que ela tem medo que eu queira algo mais do que uma amizade e é 165 Tânia Gonzales exatamente isso que eu quero, mas parece que ela também quer. É tudo tão confuso! Se amanhã ela aparecer com dinheiro nas mãos, eu não vou aceitar. Não vou mesmo. Ah, Suzana, o que você tem de linda tem de complicada!” 166 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 16- Quase um beijo No dia seguinte, Leonardo foi logo pela manhã ao hospital visitar Paulinha. Encontrou-se com Paulo Reis no estacionamento. _ E aí, Leonardo, tudo bem? Paz. _ Paz. Eu estou bem e como está a sua filha? _Melhorando, mas vai demorar para sair daqui, o doutor Romeu disse que desta vez não vai liberá-la tão cedo! Disse que não quer arriscar nem um pouquinho. Vai lá conversar com ela, eu preciso sair, hoje eu tenho um compromisso em Osasco, preciso me preparar. Sabe como é que é: orar, ler, meditar... _Tudo bem, Paulo, eu vou ver a Paula. Tchau. _Bom dia, Leonardo! - cumprimentou-o Regina assim que ele entrou no quarto. _Bom dia, Regina, Paulinha! Como está a minha linda, hoje? _Ainda um pouco fraca, mas bem melhor, estou conseguindo até falar direito! _E isso é maravilhoso! Se continuar neste ritmo, logo... _Sair daqui, logo? Nem pensar, eu estou de castigo, eles não confiam mais em mim. _Não é bem assim, Paulinha, é que você precisa ganhar força novamente. Precisa de cuidados especiais... _Tudo bem, quem mandou eu vomitar!- brincou Paulinha. _Quem mandou! Você está com um ótimo humor, isso também ajuda- comentou Leonardo. _Quem não ajuda é o Paulo. - afirmou Regina. _Mãe, vai começar? _Regina, eu me encontrei com ele no estacionamento, ele passou a noite aqui? _Pelo menos isso. Hoje ele vai voltar à atividade que ele mais 167 Tânia Gonzales ama: pregar. _Acho que é melhor mudar de assunto- sugeriu Leonardo. _Eu vou deixá-los a sós. _Às vezes eu acho que eles nunca vão se entender- foi o comentário de Paulinha assim que a mãe saiu. _Não pense isso. Agora o importante é a sua saúde, ter esse tipo de pensamento não vai ajudar. E aí, você está precisando de alguma coisa? _Eu “tô” precisando de carinho, será que você pode me ajudar?pediu Paula cheia de dengo. _É claro que eu posso- respondeu Leonardo para em seguida se posicionar ao lado dela- será que vou arranjar problema se me sentar na sua cama? _É claro que não, senta aqui. Leonardo sentou-se e começou a acariciar os cabelos de Paula e com a outra mão segurou uma das mãos dela. _Você está tão cheiroso, pena que eu estou horrível... _“ Aos olhos do Pai, você é uma obra-prima que Ele planejou, com suas próprias mãos pintou, a cor de sua pele, os seus cabelos desenhou, cada detalhe, com um toque de amor...”7 - cantou Leonardo. _Você é um sonho... mas me conta as novidades do grupo Alfa; ontem a Jessica e o Jônatas estiveram aqui, mas eles só falaram por cima, quero saber dos detalhes... mas não precisa parar de me fazer carinho, é tão bom! Leonardo passou a manhã e o início da tarde com Paulinha; Regina aproveitou para resolver algumas pendências da loja, já que Paulo Reis estaria muito ocupado durante todo o dia se preparando para o sermão da noite. 7 Música “ Aos olhos do Pai”, Crianças Diante do Trono. 168 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Às duas horas da tarde Regina voltou para o hospital e Leonardo se despediu de Paulinha. Ao sair, encontrou-se com Marina, a mãe de Suzana. _Já está de saída? - perguntou Marina depois dos cumprimentos. _Eu cheguei aqui hoje às nove horas da manhã, aproveitei para passar algumas horas com ela. _Estas visitas fazem um bem enorme. _A senhora veio do trabalho? _Não, esta semana eu estou trabalhando à noite, mas hoje é meu dia de folga. A Meg é uma graça. _Ah... é verdade. Espero que a Suzana não pense em me devolver e nem em pagar por ela, afinal é um presente. Não sei se a senhora sabe, mas ontem ela me pagou por uns livros … Leonardo explicou tudo para Marina. _Sinto muito, Leonardo. Eu espero que você tenha paciência com ela, a Suzana é uma boa menina, ela não fez por mal. Ela não está acostumada a receber presentes de rapazes. _Eu confesso para a senhora que ontem eu fiquei bem magoado. O que ela disse sobre a Meg? _Ela adorou. Você foi muito sábio ao escolher o presente. Eu estou muito feliz por vocês serem amigos, mesmo que a minha filha não facilite as coisas, não se sinta desencorajado, eu já notei que ela gosta da sua companhia, mesmo que às vezes ela demonstre o contrário. Se não fosse assim, com certeza ela não teria concordado que você a busque. Não pense que ela só aceitou a sua carona para poupar-nos, isso só foi um incentivo. _Obrigado, dona Marina. É bom ouvir isso. Suzana saiu às 22h20, Leonardo a estava esperando bem próximo à entrada da loja. _Oi, esperou muito tempo? - perguntou Suzana. 169 Tânia Gonzales _Uns 40 minutos, eu cheguei mais cedo-disse sem olhar para ela. _Me desculpe, eu estava atendendo um cliente muito indeciso. _Não tem problema. Vamos? _É... você me deu um presente maravilhoso, eu amei! Obrigada. _De nada. Podemos ir agora? _Eu... estou com fome e você? - perguntou Suzana sem acreditar no que havia acabado de dizer. _Eu não. Que tal você sair do lugar, agora? - disse Leonardo em um tom nada amigável para em seguida dar uma gargalhadaEstou brincando, será que eu entendi direito? A princesa Suzana está me fazendo um convite? _Você me assustou! Deveria ser ator. É isso mesmo, eu estou lhe convidando para sair, por mais incrível que possa parecer. _Santa Meg! _Leonardo, eu não estou fazendo isso por que você me deu uma calopsita de presente, não me interprete mal, eu não sou uma interesseira que … _Ei, calma! Eu não quis dizer isso, é que ontem o clima ficou meio pesado... _Eu sei e a culpa foi minha. Quando eu vi a Meg ontem à noite eu entendi porque você ficou tão chateado com aquela história dos livros, afinal você foi até a minha casa levar um presente especial... você deve ter pensado que eu iria fazer o mesmo com a Meg, mas você se enganou, eu estou sem dinheiro, agora não vai dar para eu pagar por ela. _Suzana... _Agora eu estou brincando; não pensei em devolver e nem em pagar. Eu recebi a Meg como um lindo presente de um amigo que acertou em cheio na escolha. _Ufa, que alívio! Você quer ficar por aqui mesmo ou... _Vamos pra outro lugar. 170 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Você manda, princesa Suzana. O que você quer comer? Assim eu penso em um lugar. _Eu quero comer beirute. _Boa escolha, então vamos saborear um beirute. Saíram do shopping e resolveram parar em um lugar mais próximo de São Caetano. _Acho que aqui está perfeito- disse Leonardo, em seguida entrou no estacionamento. _Você visitou a Paulinha, hoje? - perguntou Suzana enquanto aguardavam o beirute. _Fiquei a manhã inteira com ela, encontrei com a sua mãe , ela foi até o hospital. _Ela comentou que ia dar uma passada lá. E como a Paulinha está? _Melhor. Mas ainda não há previsão de alta. Ela me pediu uma coisa hoje e eu fiz- disse Leonardo para provocá-la. _Será que eu devo perguntar? Bom... o que ela pediu? _É... será que eu devo contar? Tudo bem, acho que você sabe guardar um segredo... eu perguntei se ela estava precisando de alguma coisa e ela me respondeu que sim. _E... _Posso fazer um suspense? _Eu acho que você vai precisar deixar o suspense para depois, o beirute chegou- avisou Suzana. _Hum... está uma delícia! Depois do que aconteceu ontem, eu nunca poderia imaginar que hoje nós... _Eu me senti péssima por ontem, foi muito chato... o caminho até em casa foi terrível; que silêncio insuportável! _Você tem razão. Era um silêncio insuportável, mas teve o seu lado bom, hoje nós estamos aqui juntos e você me chamou para sair, mas e aí? Não vai querer saber o que a Paulinha me pediu? 171 Tânia Gonzales _Ela não pediu pra você dar um sumiço no prato dela, né? _Suzana fazendo piadinhas? _Parece piada, mas não é. O assunto é muito sério. Eu queria saber se o pedido dela tinha alguma coisa a ver com a alimentação. _Não e nem se tivesse, eu nunca a ajudaria nisso. Ela me pediu algo que eu gostaria... eu vou falar mesmo que você fique um mês sem me dirigir a palavra. Eu gostaria que você me fizesse um pedido igual. _Leonardo! _Ela me pediu carinho. Suzana não disse uma palavra mas continuou olhando para Leonardo. _Calma, não fique com esta carinha de espanto; quer que eu demonstre? _É claro que não! _Você não confia em mim? O que você está pensando que eu fiz? _Não estou pensando nada. _Confie em mim, afinal eu estava em um hospital com uma garota frágil e indefesa. Me deixe demonstrar. Suzana, você não confia em mim? _Confio, mas... _ Se existe um “mas” é porque você não confia. _Leonardo, você é … _Convincente? _Persistente! Tudo bem, pode demonstrar. _E convincente. Eu só me aproximei dela e fiz isso- Leonardo ficou bem próximo e começou a acariciar os cabelos de Suzana, enquanto isso ela ficou imóvel olhando fixamente para ele, permaneceram assim por alguns segundos, até que Leonardo tocou levemente em uma das mãos dela e em seguida suas mãos entrelaçaram-se. Suzana ainda olhava para ele. Por alguns 172 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão instantes parecia que só existiam os dois ali. Leonardo pensou: “ como eu gostaria de beijá-la agora, eu vou me aproximar mais e vou beijá-la, eu... “- e estes eram os pensamentos dela: “ preciso me afastar... mas não consigo me mexer, preciso... antes que ele...”- neste momento os dois estavam tão próximos que bastaria um simples movimento para que os lábios se tocassem... de repente, Suzana começou a tremer e se afastou rapidamente. _Suzana, você está bem? Está tremendo! _ Me dá um minuto. - disse Suzana, em seguida abaixou a cabeça e colocou uma das mãos em seu rosto. Leonardo esperou por alguns segundos em silêncio. _Suzana, está tudo bem? Fala comigo, eu... estraguei tudo. Você estava tão descontraída, estávamos tendo uma conversa agradável e eu tinha que... me desculpe. O que você vai pensar de mim? Com certeza não vai ser uma coisa boa. Suzana, não foi isso o que eu fiz com a Paulinha. Foi só um carinho como um amigo. Nós não ficamos assim, olhando um para o outro e nem tentei beijá-la, é que aqui entre nós o clima era outro. _Você me leva pra casa? _Claro. Andaram lado a lado até o estacionamento e entraram no carro em silêncio. Leonardo queria falar com ela mas não tinha certeza se seria conveniente, pois apesar de estarem próximos fisicamente, ele sentia que naquele momento Suzana estava distante e inacessível. Teria que aguentar novamente aquele insuportável silêncio. Ele lamentou profundamente ter provocado aquela situação, mas estava difícil esconder seus sentimentos, por estar completamente apaixonado por ela. “ Faça alguma coisa, não a deixe sair assim”- pensou Leonardo. Estavam bem próximos da casa de Suzana, chegariam em menos de cinco minutos. 173 Tânia Gonzales _Dá pra você prolongar o caminho? Preciso falar com você- disse Suzana surpreendendo Leonardo. _ Vamos dar um passeio pela cidade. _Leonardo... é... o problema não está em você, está em mim. Você não precisa se desculpar. A única pessoa culpada aqui sou eu por não conseguir agir com naturalidade diante de algo tão normal, eu não sei se estou me expressando direito, não sei se você está compreendendo, mas, ah... o que é fácil para a maioria das garotas para mim é muito complicado. Eu gostaria que tudo fosse diferente, você é muito especial, é tão gentil e eu gosto muito da sua companhia. _Eu não quero que você se afaste de mim, que me impeça de buscá-la. Eu prometo que vou me comportar. Não quero que pense que entre mim e a Paulinha... _Tudo bem, eu entendi, você é amigo dela e isso é ótimo. Dá para perceber que ela gosta muito de você e que o admira também. Fique tranquilo, eu não pensei que você se aproveitou da situação. _É que tem aquela história do beijo na padaria e você pode querer ligar os pontinhos e... _Não. Pode ficar tranquilo. _Eu tinha que fazer uma gracinha! Você nunca mais vai me convidar pra sair. _Não fale assim. Você está enganado e para provar isso eu te convido para almoçar na minha casa domingo. Na verdade, este convite não é só meu, é que a minha vó pediu para convidá-lo. _Domingo você entra cedo no serviço, não é? _Eu saio às duas horas. Você me busca e depois almoça em casa. _Você me surpreende. Só que tem um problema, domingo à tarde o Daniel vai conversar com os pais da Letícia e eu não gostaria de estar tão perto. A Sandra está confundindo tudo, você sabe. 174 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Marque um outro dia com a sua vó. Mesmo assim eu vou buscá-la e se você concordar nós podemos almoçar juntos, lá no shopping mesmo. O que você acha? _Tudo bem, estamos combinados. Eu espero que dê tudo certo para Lê e o Daniel. E agora, que tal você me levar para minha casa? Em dez minutos, estavam em frente à casa de Suzana. _Eu já ia me esquecendo- disse Leonardo pegando uma sacola no banco de trás- Seus livros, afinal você pagou por eles, e... espera um pouco... isso... R$1,50, é o seu troco. _Meu troco? Você é pior do que eu! Ah...amanhã o meu pai vai me buscar, o patrão resolveu dar uma folga pra ele. Então você pode aproveitar a noite de sábado. _Sem você? Impossível. _Você não tem jeito mesmo. Boa noite. _Espera um pouquinho... olha só o que eu estou lendo- dizendo isso Leonardo mostrou um livro para ela. _O quê? Você está lendo “Orgulho e Preconceito”? _Para você ver o quanto eu me interesso por você. Confesso que não é uma leitura muito fácil, mas você tinha razão é bem interessante. Vou ler mais um pouco e depois nós conversamos sobre “ Elizabeth e Mr. Darcy”, ok? _Você é... é … _Nossa, valeu a pena comprar o livro, eu até a deixei sem fala! _Engraçadinho! Boa noite. Enquanto Suzana abria o portão, um carro parou e Letícia saiu dele. _Oi, Lê. Era o Daniel ?- perguntou Leonardo apontando para o carro que havia saído. _Oi, Léo, Suzana. Era a Vitória. Saímos juntos, eu e o Daniel, ela e o Renan. 175 Tânia Gonzales _E aí, vocês vão mesmo conversar com seus pais domingo?perguntou Leonardo. _Sim. Orem por nós. _Estamos orando! Vocês merecem ter um namoro normal. Agora eu preciso entrar, está tarde! Boa noite pra vocês- disse Suzana despedindo-se. _Tchau, amiga. _Tchau, princesa Suzana. _Vocês dois, hein? Hoje vocês fizeram um programinha?perguntou Letícia assim que Suzana entrou. _Eu fui buscá-la e depois nós saímos para comer. _Vocês estão se entendendo? _É complicado. Qualquer dia desses a gente conversa. Seus pais estão chegando, agora?- perguntou Leonardo ao ver o carro de Fernando se aproximando. _São eles mesmos, eles saíram para jantar. Estão chegando tarde! _Que mancada! Se eu soubesse... a sua mãe vai entender tudo errado! _Pior que você tem razão, Léo. Lá vem ela... _Boa noite! Leonardo, que bom te ver!- disse Sandra. _Boa noite, Sandra. Tudo bem? _Tudo ótimo, que tal vocês conversarem lá dentro?- sugeriu. _Boa noite, Leonardo! É melhor vocês entrarem. É imprudente ficar conversando no portão, está muito tarde- disse Fernando. _Eu já vou embora. Tem razão, está tarde! Boa noite pra vocês, tchau, Lê, amanhã a gente conversa. _Eu deveria ter convidado o Leonardo para almoçar aqui domingo, esqueci, que cabeça a minha! - lamentou Sandra ao ver o carro se afastar. Suzana se sentiu aliviada por sua vó já estar dormindo, não queria 176 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão contar para ninguém o que havia acontecido e como a vovó Vivi era muito observadora, com certeza perceberia rapidamente. “ Eu nunca vou conseguir me relacionar com ninguém, isso para mim é impossível. Coitado do Leonardo, deve estar tão confuso! Eu tentei não tremer, tentei não me afastar, mas...” 177 Tânia Gonzales Capítulo 17 -Decepção Leonardo e Letícia encontraram-se no corredor, quando estavam se dirigindo para suas classes da escola bíblica, naquela linda manhã de domingo. _E aí, amiga? Tudo certo para a grande revelação? _Ah, meu amigo, estou tão ansiosa! Nem dormi direito. _Fique calma, “lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.”8 _Tem razão. Acho que nunca orei tanto como nestes últimos dias. sexta-feira a minha mãe ficou toda animada, não adiantou eu dizer que nós não havíamos saído juntos, ela simplesmente não me ouviu. Ela está tão certa que você vai lá em casa hoje à tarde que fez um banquete, com tudo o que ela sabe que você gosta. _Hum... acho que vou dar uma passadinha lá! _Léo, não brinque com isso! _Tudo bem, eu não vou, mas guarda alguma coisa pra mim, tá? _Só você mesmo... e aí, o que está acontecendo entre você e a minha amiga? _É muito complicado, nem sei explicar. Quando parece que estamos evoluindo, de repente tudo volta à estaca zero. Eu acho que a Suzana teve algum problema muito sério no passado, deve ter acontecido algo, eu não sei, eu percebo que os pais e a vó se preocupam muito com ela. Um dia, conversando com o Jônatas, ele me disse que às vezes nós temos dificuldade em entregar para Deus certos assuntos em oração, e são coisas importantes, que nos preocupam muito, mas pensamos que dá para resolver sozinho, que não é algo para falar com Deus, então eu percebi que era justamente isso que eu estava fazendo. Mas eu mudei, agora eu 8 1 Pedro 5.7 178 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão tenho orado bastante sobre isso. Quem conhece a Suzana realmente? Quem sabe o que ela pensa e o que ela sente? Só Deus, então, não posso deixá-lo fora disso. _Ah, meu amigo, isso é verdade. Às vezes nos esquecemos que cremos em um Deus vivo e que se interessa por nós. Eu já notei isso que você mencionou sobre a Suzana, também acho existe alguma história, algum segredo. Precisamos parar com a conversa, está na hora da aula. Às 14h20 Leonardo e Suzana já estavam juntos em uma fila de um restaurante self service no shopping. _Estou gostando de ver, o seu prato está bem colorido! - comentou Leonardo. _E o seu está bem cheio! - brincou Suzana. _Não seja má, ele não está tão cheio assim! Bom... agora chega, senão vou precisar de outro prato! Vamos procurar um lugar? _E a sua vó ficou chateada comigo? - perguntou Leonardo, ao sentar-se. _Não, ela entendeu. E quando eu disse que … - parou Suzana, arrependida por ter começado. _Disse o quê? _É... que íamos almoçar juntos. _E aí? _Ela gostou, mas você está convidado para almoçar lá no próximo domingo. _Estarei lá, se você não se opor, é claro! _Eu? É claro que não, por quê? _De repente você está cansada de mim, já precisa me suportar todos os dias e... _Leonardo, pode parar com essa conversinha, depois o clima vai ficar pesado e eu não quero que isso aconteça. Vamos conversar 179 Tânia Gonzales amenidades. A comida está deliciosa! _E você está linda! Eu não tenho jeito mesmo, mas o que eu posso fazer? Eu não resisto. Eu senti muito a sua falta ontem. _Você quer ficar sozinho? Se a resposta é não, mude de assunto. _É... você tem razão a comida está deliciosa e... eu adoro a sua companhia, opa! Me desculpe! Suzana sorriu, pegou o garfo dele e o espetou em um pedaço de carne, em seguida colocou-o na boca dele. _Mantenha a sua boca ocupada- disse. Leonardo só ficou calado enquanto mastigava a carne, depois disse: _Eu conheço outras maneiras de... é melhor eu não continuar. _Concordo. Você está entrando em um território muito perigoso. Vou avisar pela última vez. _Tudo bem, eu vou mudar de assunto. Sexta-feira depois que você entrou, os pais da Letícia chegaram, eles pensaram que eu e a Lê … _Não acredito! Que confusão! _Confusão é apelido; a Sandra está me esperando lá, ela preparou um café da tarde especial pra mim. Ela cismou que eu e a Leca vamos oficializar o namoro. _Ela vai ficar muito decepcionada e isso é um problema. O ambiente não vai ser nada favorável para o Daniel. Só Deus! _É, princesa Suzana, o amor precisa enfrentar muitos obstáculos, mas vale a pena quando se ama de verdade; as coisas mais valiosas são adquiridas através de sacrifícios. Entreolharam-se por alguns instantes sem dizer uma palavra. Suzana sabia muito bem que ele não estava se referindo só ao relacionamento de Letícia e Daniel. Após o almoço, Sandra ligou para Lígia, ela estava muito ansiosa, 180 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão pois Letícia havia saído para almoçar fora e ela queria muito saber se ela e Leonardo estariam juntos. _Hoje é o grande dia, Lígia. O Leonardo almoçou com vocês? _Não, ele saiu. Por que você quer saber isso? _A Letícia também saiu para almoçar fora, eles devem estar chegando aqui, já são quase quatro horas! _Sandra, eu não sei não, se o Leonardo fosse oficializar o namoro hoje, eu saberia, você não acha? _Eles estão fazendo um mistério, não sei o porquê, mas tudo bem, eu não ligo, estou tão feliz! _Sandra, cuidado, você pode ter uma decepção! _Decepção? Tenho certeza que não. Amiga, finalmente aqueles dois resolveram se acertar. Agora eu vou desligar. Acho que eles chegaram. Beijo, tchau. Letícia entrou com Daniel na sala de estar. Fernando estava lendo jornal e Sandra terminando de arrumar a mesa na sala de jantar. _Oi, pai! Nós precisamos conversar com o senhor e a mamãecomeçou Letícia. _Boa tarde, seu Fernando, tudo bem? - cumprimentou Daniel. _Boa tarde, você é … _É o Daniel, pai, ele é filho do irmão Isaque, da mecânicaexplicou Letícia. _Ah... como o seu pai está? _Está bem, obrigado. _Filha, que bom que vocês chegaram, Leonardo olha só o que eu fiz pa...- Sandra não terminou, ficou parada olhando para Daniel. _Mãe, este é o Daniel. Ele quer falar com vocês. _Sente-se, Daniel, fique à vontade- disse Fernando tentando desfazer o constrangimento. _Obrigado, bom...eu vou ser bem objetivo. Eu estou aqui para pedir a permissão do senhor e da senhora para namorar a Letícia. 181 Tânia Gonzales _O que significa isso, minha filha? Onde está o Leonardo? perguntou Sandra em um tom nada amistoso. _Mãe, o Leonardo não tem nada a ver com isso. Por favor, mantenha a calma. _Calma? Eu não estou entendendo nada. O que este rapaz está fazendo aqui? _Sandra, a Letícia tem razão, tenha calma. Vamos ouví-los- pediu Fernando. _Ouvir o quê? Você só pode estar brincando comigo!- disse Sandra olhando para a filha. _Dona Sandra, eu peço desculpas, mas eu acho que ocorreu algum mal entendido. A senhora não estava esperando por mim, eu sei, mas eu quero dizer que eu gosto muito da sua filha e... _Vocês é que não estão entendendo nada, só pode ser brincadeira! Onde está o Leonardo? _Mãe, o Leonardo não vem! Pare de falar sobre o Leonardo, isso é tão constrangedor para o Daniel, é ele que é o meu namorado! _Namorado? Que ideia é essa? Este rapaz não é o seu namorado! Pare com isso! _Sandra, por favor, não se exalte! Vamos tentar resolver isso. pediu Fernando. _Eu não quero ouvir mais nada, com licença. - disse Sandra retirando-se. _Mãe? Como ela pôde sair assim, pai!? _Filha, tenha paciência com ela. A sua mãe confundiu as coisas e agora ficou decepcionada. _Tudo bem, Letícia. Podemos resolver isso em um outro dia... disse Daniel. _Outro dia? A minha mãe não podia fazer isso! Sair desse jeito? _Filha, Daniel, eu acho melhor adiar isso por enquanto. Eu vou conversar com a Sandra. 182 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Adiar? Pai? _Seu pai está certo, Letícia, eu vou embora, depois nós conversamos. Você me acompanha até a porta? _Tá... mas eu acho que isso não está certo! _Boa tarde, seu Fernando e me desculpe... _Você não precisa se desculpar, eu é que peço desculpas. Boa tarde e mande um abraço para o seu pai. Letícia acompanhou Daniel até o portão; estava inconsolável. _Que absurdo! Eu imaginei que não seria fácil, mas... ela nem nos deu a oportunidade de falar. _Calma, meu amor, a sua mãe não estava esperando por mim. Foi uma grande decepção para ela! Ela tinha certeza que veria um rapaz alto, branco, de cabelos castanhos, chamado Leonardo. _Isso não tem graça! _Tenha paciência. É uma questão de tempo. Agora eu vou embora, nos vemos na igreja- disse Daniel e em seguida despediram-se com um beijo. Fernando entrou em seu quarto e encontrou Sandra deitada na cama. _Sandra, meu bem... ei... você está chorando? _Ela não podia fazer isso comigo! Como ela teve a coragem de aparecer aqui com aquele... rapaz? Ela fez isso para me afrontar, só pode ser isso! _Sandra, você confundiu as coisas! Eu bem que falei que você podia estar errada, mas você não me ouviu, colocou na cabeça que o Leonardo... _Coloquei na cabeça? Os dois estão nos castigando, é isso... _Sandra, isso não faz nenhum sentido! A Letícia ficou muito chateada por você ter saído daquele jeito e o rapaz saiu tão envergonhado! 183 Tânia Gonzales _É mesmo? E eu? Estou muito decepcionada com a Letícia e também com o Leonardo! _Eu vou tomar um banho para ir ao culto. _Eu não vou sair daqui hoje, estou arrasada! Leonardo e Suzana voltaram do shopping às 16h30; ela o convidou para entrar e ele aceitou com um sorriso de satisfação. _Que sorrisinho é este?- perguntou Suzana. _Quer mesmo saber? _Eu sei que vou me arrepender, mas eu quero saber. _Tradução literal do meu sorriso: Ela quer desfrutar mais um pouco da minha presença, isso é um ótimo sinal! Agora foi a vez de Suzana sorrir. _E qual a tradução do seu? _ Eu sei que vou me arrepender, mas lá vai: Ele tem razão. Leonardo deu um largo sorriso e disse: _Um sorriso pode dizer coisas maravilhosas, eu amo o seu sorriso. _É melhor nós entrarmos, de repente você resolve dar umas gargalhadas e … _Você é incrível. Por mim eu ficaria aqui de sorriso em sorriso até... _Vem... Leonardo, você acha que o Daniel ainda está... _Não tem nenhum carro em frente à casa, isso é um péssimo sinal. A conversa foi rápida demais. _O pior é que você tem razão. Vem. _Adoro quando você me chama- disse Leonardo acompanhando-a. _Oi, Leonardo, fico feliz em vê-lo -disse a vovó assim que eles entraram. _Boa tarde, vovó Vivi, pode ter certeza que o sentimento é recíproco. _Oi, vó, eu vou mostrar a Meg para o Leonardo. 184 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Oi, dona Marina, tudo bem com a senhora? Seu Davi, boa tarde. _Oi, Leonardo, comigo tudo bem e como foi o almoço de vocês? - perguntou Marina. _ Foi ótimo, almoçar com uma princesa é uma honra – brincou Leonardo. _Eu concordo com você, a minha filha é uma princesa! - disse Davi. _Podem parar com isso?- pediu Suzana envergonhada- Olha a Meg aqui, Leonardo. _Oi, Meg, será que ela vem comigo? Ei... Meg... isso... vem aqui menina! _Ela é muito meiga... gostou de você. _Agora ela quer a dona...eu não culpo você Meg, pode ir... A calopsita ficou no ombro de Suzana recebendo afagos. _Viu como ela é dengosa? - perguntou Suzana. _ Eu nunca pensei que um dia iria desejar ser uma calopsita! O comentário de Leonardo provocou risos em todos, menos em Suzana que olhou para ele com olhar de reprovação. _Uma calopsita macho, que constem nos altos! Meg sortuda! _Aceita um café, Leonardo? - perguntou vovó Vivi ainda sorrindo. _Aceito, vó. A Suzana me avisou que eu tenho um compromisso no próximo domingo, é isso mesmo? _Com certeza e você não pode faltar, vamos preparar um almoço daqueles! Depois de alguns minutos, Leonardo se despediu de todos, pois já eram cinco e dez; teria poucos minutos para se arrumar e chegar ao culto. Lígia estava muito ansiosa para conversar com o filho, assim que ele entrou, ela o interrogou: _Leonardo, você sabia que a Letícia e o Daniel estão namorando? 185 Tânia Gonzales _Oi, mãe, boa tarde! _Desculpe, boa tarde, querido! E então, você sabia? _Sabia. Mas, o que aconteceu? Por que a senhora está me perguntando isso? _A Sandra me ligou, está muito magoada. Ela ficou decepcionada! Disse que foi enganada pela filha e por você também. _Eu? Ela confunde tudo e agora eu sou culpado? Coitada da Lê, deve estar arrasada! Preciso conversar com ela. _Filho, com quem você almoçou, hoje? _Com uma amiga. Mãe, eu preciso tomar banho, vou chegar atrasado, a orquestra vai tocar... _Mas antes me diga o nome da sua amiga. _Mãe? Suzana, ela é sobrinha da Marisa. _Sobrinha da Marisa? E vocês dois estão... _Somos amigos, mãe. Depois a gente conversa, a senhora já está linda e maravilhosa, mas eu... _Tudo bem, vai lá. Letícia sentou-se ao lado de Leonardo para tocar o seu violino. Não conseguiram conversar, a orquestra estava pronta para tocar o louvor: “A face adorada de Jesus”9. _E aí, amiga, como você está? - perguntou Leonardo quando pararam de tocar. _Estou péssima. Minha mãe nem nos deu a chance de explicar, ela não veio ao culto, está muito magoada! Foram interrompidos pela voz do Pr. Pedro Gabriel: _Amados, vamos louvar ao nosso Criador com mais um belo hino, quero chamar aqui o jovem Daniel para louvar com a sua bela voz, o hino 265, “Doce é crer em Cristo”, e você que está aqui neste 9 Hino 304 da Harpa Cristã. 186 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão culto e ainda não creu em Jesus, abra o seu coração, creia que Ele morreu na cruz para te salvar, para que você pudesse se reconciliar com Deus, aceite o sacrifício de Jesus, pois crer Nele... é doce. Louvemos. _Depois de uma tarde amarga, o meu Daniel está mesmo precisando cantar : Oh! Quão doce é crer em Cristo.” _Calma, minha amiga. Tenha paciência, espere em Deus, Ele vai acalmar o coração da sua mãe. Dê um tempo. Eu tenho certeza que a Sandra vai adorar o Daniel. _Você é tão otimista! Pontualmente, às 19h30 o culto terminou. Beatriz, a irmã de Leonardo chamou a família para comer pizza na casa dela. Leonardo chegou até a pensar em convidar Suzana, mas logo mudou de ideia, não seria prudente e com certeza ela não aceitaria. Letícia despediu-se rapidamente de Daniel e foi para casa com o pai. Ao chegarem, ela pediu para ir até a casa de Suzana, precisava muito desabafar. Como eram vizinhas, Fernando não fez nenhuma objeção. _Minha amiga, o que eu vou fazer se eles proibirem o namoro? _Letícia, você precisa dar um tempo para sua mãe se acostumar com a ideia. _O Léo disse a mesma coisa, vocês dois estão na mesma sintonia, isso é ótimo! Vocês é que são felizes, não vão ter que enfrentar algo assim. Seus pais ficariam muito felizes se... _Que papo é este? Eu e Leonardo somos amigos. Não há possibilidade alguma de nós dois... _Por que não? Vocês estão se dando bem e... _Letícia, pode parar com isso. Eu não pretendo namorar. _Su, que história é esta? Não pretende? Isso é normal. Você conhece um rapaz, se interessa por ele e ele por você e então 187 Tânia Gonzales vocês... _Vamos falar sobre você e o Daniel. _Do que você tanto tem medo? O Léo é … _Pare com isso, Letícia! Eu não quero que você comece a enumerar as qualidades do Leonardo. Esqueça... entre mim e o Leonardo não vai existir nada além de uma amizade. _Suzana, você não deveria ser tão taxativa. Não tenha medo de ser feliz. Tenho certeza que você e o Léo... _Chega! E aí, o que vocês pretendem fazer agora? _Vamos precisar fazer algo que eu detesto: esperar. Preciso dar um tempo para minha mãe, vocês estão certos. Mas, eu não vou esperar muito tempo. _Fernando, você não deveria ter deixado a Letícia sair. Você acreditou que ela ia só até a casa da Suzana?- perguntou Sandra contrariada. _Sandra, eu a vi entrar lá, pare de desconfiar da nossa filha. _Tenho todos os motivos para isso, afinal ela e aquele rapaz estavam namorando sem o nosso consentimento. Minha filha fazendo uma coisa dessas! Isso é influência da péssima companhia que ela arrumou. _Péssima companhia? Sandra, você está sendo muito preconceituosa! _ Só faltava essa! Eu preconceituosa? Fernando, você acha mesmo que eu ... _Sandra, eu falei de acordo com as suas próprias palavras e também pelo comportamento reprovável de hoje à tarde. _Reprovável? Fernando, a Letícia me enganou, me fez sonhar que estava finalmente se entendendo com o Leonardo e de repente ela aparece com aquele... rapaz? _Você confundiu tudo e a culpa não é dela. 188 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _E você concorda que ela namore com ele? Pois eu nunca vou aceitar esse namoro. Você está me ouvindo, Fernando? Nunca. 189 Tânia Gonzales Capítulo 18 - Revelação Aquela segunda-feira não foi fácil para Lígia, pois precisou ouvir as queixas de Sandra sobre o namoro da filha. _Lígia, você não concorda que eu fui traída? Até o seu filho me traiu! _Sandra, eu avisei que você poderia estar enganada à respeito da Letícia e o Leonardo. Mas você com essa sua obsessão, nem me deu ouvidos. _Obsessão? É assim que você chama o meu desejo de ver os nossos filhos juntos? _Sandra, eu adoraria vê-los juntos, mas as coisas não são assim. Eles têm direitos também. Nós devemos ajudá-los e orientá-los, mas eles precisam de liberdade para escolher. _Acontece que a Letícia não soube escolher. O Leonardo é o rapaz perfeito e ela aparece com aquele... rapaz. _Sandra, o Daniel é um bom rapaz. Ele trabalhou na mesma empresa que o meu genro e o Bruno lamentou muito quando ele pediu a conta para poder ajudar ao pai, você sabe que depois da morte da esposa, o Isaque não conseguia fazer mais nada, a oficina ficou parada e o Daniel precisou assumir tudo. _É fácil dizer que ele é um bom rapaz, não é com a sua filha que ele vai namorar! Eu não aceito esse namoro e ponto final. _Não seja radical, Sandra. Dê uma oportunidade para ele. Espera aí, não pode ser... será que o problema … não... acho que não. _O que é Lígia? _O que te incomoda no Daniel, Sandra, fale honestamente. _O que me incomoda? O fato dele não se chamar Leonardo, o fato dele não ser o Leonardo. 190 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Sandra, e o fato dele ser negro, isso incomoda? _Lígia, o que você está pensando? Você está me chamando de racista? _Sandra, eu só estou querendo entendê-la.. _Acho melhor encerrar esta nossa conversa. Leonardo aproveitou o horário do almoço para fazer uma visita à Paulinha. Ele ficou sabendo que naquela semana ela receberia uma visita especial de uma ex-paciente do dr. Romeu que há cinco anos teve o mesmo problema que ela e agora estava curada. Na época ela tinha apenas 15 anos. Paulinha também disse ao amigo que ainda não tinha previsão de receber alta, mas que estava se sentindo bem melhor e até havia pedido à mãe para trazer o livro “ A revolução da beleza10, para que pudesse começar a leitura. À noite, Leonardo foi buscar Suzana no shopping. _Letícia foi até a minha casa ontem depois do culto- disse Suzana. _Ela está arrasada, né? _Está muito preocupada com a possibilidade dos pais proibirem o namoro, ela não gostaria de desobedecê-los, mas também não quer perder o Daniel. _Eu acho que o Fernando vai aceitar numa boa, agora a Sandra vai dar um pouco de trabalho. _O problema é que para a Sandra é Deus no céu e você na terra, pelo eu pude perceber. Para ela você é o namorado ideal. O Daniel é uma pessoa excelente, mas será que ela vai dar uma oportunidade para que ele demonstre isso? _Eu espero que sim. E para você, o que eu sou? _Por que você sempre dá um jeito de me envolver nesses 10 Autor: Dr. Augusto Cury 191 Tânia Gonzales assuntos? _Eu fiz uma pergunta tão difícil assim? _Leonardo, você é um amigo e eu quero que continue assim. Se você estiver pensando que entre nós dois pode existir algo mais, só está se iludindo. _Você adora jogar balde de água fria em mim, não é? _Não, eu adoro a verdade, é só isso. _Pois, eu não vou perder as esperanças, eu sei que você sente algo por mim, só não entendo por que você não deixa que esse sentimento... _Eu não quero conversar sobre isso... e a sua irmã, está bem? _Está. Ontem nós fomos comer pizza na casa dela, quase que eu a convidei, mas... você teria aceito o convite? _Provavelmente não. _Foi o que eu pensei. A princesa Suzana não iria se expor dessa maneira. _Acontece que seria muito estranho eu participar de um programa com a sua família. Eles iriam pensar que... _E você não gostaria que eles pensassem que entre nós... _É claro que não! Pra quê? Não existe nada e nunca vai existir. _Nunca? Você não deveria dizer isso. E se você for um presente de Deus pra mim? _Deus não faria isso com você. Leonardo, eu já disse uma vez, mas vou repetir, o problema não está em você. _Qual é o problema então? Suzana... _Chegamos... obrigada pela carona. No dia seguinte os dois vieram o caminho inteiro conversando sobre tudo e todos, menos sobre os dois, é claro. Ele queria aproveitar cada segundo ao lado dela sem comentários que pudessem chateá-la; não queria provocar qualquer situação que a 192 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão fizesse afastar-se dele, mas às vezes era difícil resistir. _O que você de comentarmos sobre aquele livro? _Em qual parte você está?- perguntou ela. _Na parte que ele se declara para ela. Achei a declaração dele bem diferente. Imagine alguém chegar e dizer mais ou menos assim: “Você não serve para mim por causa da sua situação financeira, a maioria dos membros da sua família é muito inconveniente, sinceramente eu não gosto da atitude deles, você deveria se envergonhar da família que tem, mas mesmo assim eu estou perdidamente apaixonado por você, quer casar comigo?” É hilário. _A Elizabeth11 não achou nada hilário. Mas você está lendo mesmo! Pensei que você estivesse brincando, que só fosse dar uma olhada bem superficial e pronto. _Eu faço isso por você. Eu quero fazer parte da sua vida de todas as formas possíveis, se é necessário ler um livro de romance antigo, tudo bem. Suzana, você precisa concordar comigo que em matéria de declaração de amor eu ganho fácil do Mr. Darcy. Tenho ou não tenho razão? _Assunto encerrado. _Então você concorda... _Não foi o que eu disse. Está na hora de encerrar o assunto, foi só isso que eu disse. _Como você foge! _Chegamos. Obrigada pela carona. Boa noite. A quarta-feira chegou e com ela a reunião da REMA que seria realizada na casa de Leonardo; Suzana conseguiu trocar a folga com a amiga Cláudia. Às 20h todos os componentes do grupo já estavam reunidos. 11 Livro: Orgulho e Preconceito- autora Jane Austen 193 Tânia Gonzales _Sejam bem-vindos e fiquem à vontade- disse Lígia ao recebê-loseu arrumei a mesa na sala de estar com alguns petiscos, se quiserem fazer a reunião lá, tudo bem. Quem eu não conheço daqui? - perguntou dando uma boa olhada no grupo- Você é... - ao dizer isso Lígia apontou para Suzana. _Mãe, esta é a … Suzana, a sobrinha da Marisa- explicou Leonardo rapidamente. _Então você é a famosa Suzana, muito prazer! _O prazer é meu, dona Lígia. _Você é muito bem-vinda à nossa casa- disse Lígia ao cumprimentá-la com um beijo. _Então... vamos para a sala de jantar? O que você acha, Jônatas? perguntou Leonardo ansioso. Jônatas concordou e assim todos foram para a espaçosa sala de jantar onde uma grande e bela mesa, repleta de vários tipos de petiscos, os esperava e como haviam 12 cadeiras estofadas, foi possível acomodar a todos muito bem. Jessica começou a reunião com uma oração e a seguir pediu para que Renan fizesse a leitura. _” Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer, pois sendo ela virgem, parecia-lhe impossível fazer-lhe coisa alguma.”12 _ Obrigado, Renan. Eu gostaria de agradecer ao Leonardo e à sua família por ceder a casa para a nossa reunião- iniciou JônatasHoje nós vamos ter uma conversa sobre paixões. A história de Amnom e Tamar vai nos ajudar. Ele era filho do rei Davi e ela também. Eles eram irmãos só por parte de pai. Amnom apaixonou-se por ela e o versículo no diz que ele até adoeceu por isso. Um amigo dele chamado Jonadabe percebeu que havia algo 12 2 Samuel 13.2 194 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão errado, quando Amnom lhe contou, Jonadabe teve uma ideia; ele diz para Amnom deitar na cama e se fingir de doente e ao receber a visita do rei era para ele pedir que Tamar cuidasse dele, assim os dois ficariam sozinhos. E foi assim que aconteceu; quando Amnom ficou sozinho com Tamar pediu para que ela se deitasse com ele, mas como ela negou, Amnom a forçou. Renan, leia o versículo 15, por favor. _” Depois, Amnom sentiu por ela grande aversão, e maior era a aversão que sentiu por ela que o amor que ele lhe votara. Disse-lhe Amnom: Levanta-te, vai-te embora.” _Valeu, Renan. Vocês notaram que depois que Amnom conseguiu o que queria, o sentimento por ela acabou? O que ele sentia por ela? _Atração física- respondeu Leonardo. _É isso mesmo- concordou Jônatas- Nada além disso. Amnom só queria satisfazer o seus desejos sexuais. Queria sentir prazer, só isso. Depois que conseguiu, ele a desprezou. O amor não é assim. O amor sabe esperar. Ele quer o bem da outra pessoa. Na primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios no capítulo 13 diz que o amor “não procura os seus interesses”. O amor é muito diferente de uma paixão que leva o outro ao desespero. Quantas histórias vocês já ouviram de pessoas que abandonadas por seu amor se desesperam; uns, por acharem que a vida já não vale mais nada, se suicidam, outros, por ódio, matam a quem um dia chamou de amor. Isso não é amor. É sentimento de posse; ela me pertence, ele me pertence; se não vai ficar comigo, então com mais ninguém. O filho de Davi provocou uma grande desgraça em sua família, acabou sendo assassinado por Absalão, irmão de Tamar, que não se conformou com o que ele fez. Tudo isso por causa de alguns minutos de prazer. Jovens, vale a pena esperar. E cuidado com os sentimentos, talvez aquilo que você acha que é amor, é somente 195 Tânia Gonzales uma atração física. _Jônatas, quando um rapaz pedi para a namorada uma prova de amor... você sabe - disse Camila, meio sem jeito. _Entendi, Camila. Prova de amor? A maior prova de amor que alguém pode dar é justamente esperar pelo momento certo. Se ele vem com essa história, caia fora rapidamente, ele só quer te usar. _Jônatas, às vezes os dois se gostam de verdade e como passam muito tempo juntos, acabam por adiantar as coisas, não é? - foi a vez de Vitória se pronunciar. _Sim, é por isso que nós sempre aconselhamos aos namorados tomarem muito cuidado com as carícias; pois as emoções ficam à flor da pele, não é fácil, por isso não provoquem. Mas queridos, se acontecer, não se sintam as piores pessoas da terra, não fiquem se culpando, é importante que vocês sejam sinceros, procurem alguém para conversar. É por isso que cada grupo é liderado por um casal, isso facilita muito. _Nós estamos aqui para ajudá-los, se você estiverem com algum problema é só nos chamar para conversar; qualquer problema, não necessariamente esse tipo de problema que estamos falando hojeexplicou Jessica. _É isso mesmo. Agora, vamos conversar sobre o evento para arrecadar dinheiro para Missões. Ideias? - perguntou o líder. Passaram a próxima hora conversando sobre o evento, cada um apresentou a sua ideia. Ao encerrar a reunião, Jônatas avisou que teriam um encontro domingo após o culto, iriam ao shopping. Leonardo lamentou por Suzana e Letícia irem de carona com Vitória. _Filho? Ei... você está aqui? - perguntou Lígia ao notar que Leonardo estava distraído. _Oi, mãe, eu só estava pensando... _Em uma moça muito bonita chamada Suzana? 196 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Minha querida mãe, agora a senhora quer adivinhar os meus pensamentos? _Agora eu descobri o porquê do meu filho ficar suspirando. _Suspirando? Mãe? _Não precisa ficar com vergonha! Ela é uma graça... eu fiquei observando e cheguei a conclusão que vocês formam um belo casal. _Quem é que forma um belo casal? - perguntou Rafael ao sair de seu escritório. _Nosso filho está apaixonado, Rafael! _Mãe, para com isso, eu... _Eu nunca vi você assim, nem quando era um adolescente! Querido, você está completamente apaixonado! Ela não corresponde? _Mãe, deixa esse assunto para outro dia. _Você está sofrendo... eu vejo isso em você. Meu filho, cuidado! Eu me preocupo porque isso é tão complicado! Não faça nenhuma bobagem, olha, eu sei que às vezes não é fácil, mas... _Mãe! Eu e a Suzana somos amigos. Tenha calma, tá? A senhora está pensando o quê? _É que nos noticiários aparecem histórias de pessoas que por não serem correspondidas acabam fazendo alguma loucura... _Minha mãe, fique tranquila, eu não estou desesperado e nem desiludido da vida. Pode ficar sossegada que o seu filho não vai aparecer em nenhuma reportagem policial. Agora eu vou dormir. _Ei, espera... eu quero saber. _Pai, a mamãe está viajando. _Eu estou viajando? O nosso filho está apaixonado, Rafael. E ela esteve aqui hoje. _E vocês nem me avisaram? Eu também gostaria de conhecê-la. _Pai, nós só tivemos uma reunião do grupo. 197 Tânia Gonzales _Rafael, eu conto tudo pra você, deixe o nosso filho dormir. Com a Bíblia aberta em 2 Samuel 13, Suzana, pensava: “ Que coisa terrível! Pobre Tamar, deve ter sofrido tanto! Eu sei muito bem. “ Sandra entrou no quarto da filha, queria muito ter uma séria conversa com ela. _Mãe, eu estou com sono, não acho que é uma boa hora... _Eu preciso falar, não estou suportando mais. Letícia, você pretende nos desafiar? _Desafiar? Mãe, eu só quero ter permissão para namoraro Daniel. Eu gostaria que vocês aprovassem, é só isso. _Só isso? Filha, você não tem ideia da minha decepção ao ver aquele rapaz aqui. Eu estava certa que o Leonardo viria... _Mãe, a senhora só sabe falar do Leonardo! Compreenda de uma vez por todas que nós somos grandes amigos e quer saber? Ele está apaixonado. _O Leonardo? Por quem? Entendi... então é por isso... você está magoada e... _Mãe, não confunda as coisas, eu estou apaixonada pelo Daniel. _Apaixonada? Não fale bobagens! O Leonardo é o rapaz ideal: ele é bonito, inteligente, gentil, é fiel a Deus, tem uma boa profissão, boa família... _Faltou uma coisa na sua lista: ele é branco. _O que você quer dizer com isso? _É isso mesmo. A senhora é preconceituosa. Mãe, isso é racismo! Quem diria, hein? A Sandra, uma pessoa que diz ser uma seguidora de Jesus! _Letícia, não fale assim comigo, eu sou sua mãe! Não sou racista. _Não? Então prove! Aceite o meu namoro. 198 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Isso não. _Não, é claro que não. É muito fácil dizer: Eu, racista? De jeito nenhum! Eu respeito todas as pessoas, eu as aceito, desde que fiquem bem longe da minha filha. _Você está indo longe demais... cuidado, eu sou sua mãe. _Eu falei para o Leonardo, eu disse que eu estava com receio justamente por isso... mas ele não, ele disse:” Que isso! Você acha mesmo que os seus pais vão ter esse tipo de preconceito?” _E ele estava certo, eu não tenho. Só não quero que você namore com esse rapaz. _Mãe, eu gosto do Daniel, dê uma chance para ele, conheça-o, por mim. _Eu sinto muito, mas não posso. Esqueça. Por quem o Leonardo está apaixonado? _Por que a senhora quer saber? _Me conte, eu quero saber se ele soube escolher. É claro que para escolher bem mesmo só se fosse você, mas... _Para com isso. Não vou falar. _Letícia, você está impossível! Você não quer falar porque não é verdade, é isso! _Agora eu sou mentirosa. _Bem... quem é que estava saindo às escondidas? Agora, me conte por quem ele está apaixonado? _A senhora não vai desistir, não é? Pela Suzana. _Suzana? A sobrinha da Marisa? _É ela, quem mais? _Nossa! Vocês estão brincando com a gente, só pode ser isso! A Suzana? Aquela garota não tem nada a ver com ele. Vive de favor nos fundos da casa da tia, é uma vendedora que trabalha em shopping, o pai é um ex-presidiário... _O quê? Mãe, que história é essa? O pai dela é um ex-presidiário? 199 Tânia Gonzales _Eu não deveria ter falado isso, esquece... vou deixar você dormir. _Mãe, agora a senhora vai falar... _Eu já disse para você esquecer, eu falei sem pensar, foi isso. _Mãe, que absurdo! A Suzana é uma excelente pessoa, é esforçada, está na faculdade, trabalha...eu não sabia que a minha mãe era tão preconceituosa! _Eu vou dormir, cansei desse assunto, mas tenho certeza que a Lígia não vai ficar nada... _ Agora vai se intrometer na vida do Leonardo também? _Letícia, isso não é problema seu, pode deixar que eu me entendo com a minha amiga. Boa noite. Naquela noite foi difícil para Letícia dormir, não conseguia parar de pensar nas palavras da sua mãe: “ O pai é um ex-presidiário”de onde que ela havia tirado isso? Era quinta-feira, Suzana recebeu uma ligação de sua mãe no final da tarde avisando que Leonardo precisou fazer uma viagem com o pai e só voltaria sábado ou talvez, domingo. _Ele ligou para a senhora? Por que ele não me ligou? _Já está com saudades? Isso é muito bom. Ele me ligou para garantir que você não voltaria sozinha. O seu pai vai buscá-la, não discuta, Suzana, ele já está sabendo. _Mãe, não precisa. O papai vai estar tão cansado! _Querida, vou desligar. Ah... o Leonardo confirmou presença no almoço de domingo. Um beijo. Tchau. Suzana não sabia explicar, mas pensar que não veria Leonardo a deixou muito triste, no dia anterior os dois nem tiveram a oportunidade de conversar e ela tinha que confessar que sentiu falta disso. Naquela noite, ao ver o pai esperando-a no lugar de Leonardo, pôde perceber o quanto a presença dele fazia bem para ela, isso 200 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão era algo que não podia negar. No dia seguinte Suzana sentiu ainda mais falta dele, “como era possível isso?”- pensou- “ São só dois dias e eu estou desse jeito? Bem que ele poderia ter ligado... mas, por que ele ligaria? E se eu ligasse? Não. Que bobagem, é claro que não!” Letícia queria muito encontrar-se com Daniel, pois desde domingo eles não se viam, só se falavam pelo celular, mas a mãe estava de marcação. Ela tentou por várias vezes retomar o assunto sobre o pai de Suzana, mas a mãe desconversou. 201 Tânia Gonzales Capítulo 19 -Reação inesperada Paula recebeu uma visita muito especial naquela semana: Júlia, ex-paciente do dr. Romeu. As duas conversaram muito, descobriram que tinham muita coisa em comum. _ Paula, é necessário muita força de vontade para sair dessa e eu já pude perceber que isso você tem. _Eu quero muito ficar completamente curada, é horrível se olhar no espelho e sempre achar que está tudo errado. _Você vai conseguir. Isso também acontecia comigo e agora eu fiz as pazes com o espelho e com a balança. Você acredita que eu cheguei a quebrar três espelhos e duas balanças? _Sério? Bom... isso eu nunca fiz! _Então você está em melhores condições do que eu estive naquela época. Paula, eu passava horas me olhando no espelho e de repente me dava uma raiva tão grande que eu jogava o que estivesse na minha frente. Uma vez eu joguei um vidro de perfume, era novo e caro! Joguei-o no espelho. Eu sempre fui fissurada por balanças, daquelas que ficam no banheiro, sabe? Pois, estraguei duas elas. Uma foi pela janela, a outra, eu joguei na parede com muita violência! Eu sentia ódio das coisas que estavam ao meu redor e me odiava também. Sentia raiva das meninas que eu achava que eram magras demais. Ficava brava por não ser como elas. _E você também provocava o vômito?- perguntou Paula. _Sim, muitas vezes ao dia. Na maioria das vezes, os meus sintomas eram de anorexia, mas algumas vezes também os da bulimia. Era complicado, eu ficava muito tempo sem comer e depois eu queria compensar isso, foi aí que as coisas se complicaram ainda mais, pois o meu organismo não suportava 202 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão essas mudanças... e os exercícios? Sempre fui obcecada por academias, mas como me sentia muito feia, parei de frequentá-las, então a solução foi me exercitar em casa, fiz de tudo para a minha mãe comprar uma esteira, insisti tanto que ela me deu de presente de natal. Me exercitava como uma maluca! Caía de exaustão. Um dia não consegui me levantar mais. Minha mãe chegou do serviço e me encontrou no meu quarto, eu estava inconsciente. Ela precisou chamar uma ambulância, entrei em coma. Fiquei uma semana assim. Os médicos não davam nenhuma esperança para minha mãe. _E seu pai, Júlia? _Meu pai mora em Manaus, eles são divorciados. Eu... só estou aqui conversando com você hoje por um milagre. Cheguei a pesar 35 quilos, estava esquelética e mesmo assim me sentia gorda e muito feia. Isso é terrível! Me tornei uma pessoa depressiva, amarga... sempre achava que as pessoas falavam mal de mim, que zombavam de mim. Paula, não permita que isso destrua a sua vida, ela é muito preciosa; agora eu aprendi a dar valor para o que realmente tem valor, não tem dinheiro que pague a paz, a alegria de viver, estar satisfeita consigo mesma. Eu tinha um sonho, eu queria muito ser uma modelo reconhecida, famosa, mas isso não é para todas, mas a vida, esta sim, é para todas e todos. Deus nos deu esse presente precioso e nós temos a obrigação de cuidar direitinho. _Você está certa! - disse Paula enxugando as lágrimas- Eu agradeço a Deus por ter me dado uma nova oportunidade e não vou desperdiçá-la. Júlia, eu agradeço muito por sua coragem de vir até aqui compartilhar a sua história comigo, foi muito importante pra mim. _Paula, eu recebi uma nova oportunidade e sinto que devo ajudar as pessoas que estão passando pelo mesmo problema que eu já 203 Tânia Gonzales enfrentei. Ouça bem, não permita que a moda, que as pessoas ditem as regras pra você, não permita que o externo prevaleça, valorize o seu interior, você é uma pessoa única e especial, nunca se esqueça disso. Pois aqueles que cobram a perfeição não são os mesmos que lhe estendem a mão quando você cai, nestas horas eles ficam longe, muito longe. Não vai ser fácil, mas você vai vencer! O importante é não se fechar em um mundo particular, isso é muito perigoso. Aceite a ajuda das pessoas, eu sei que você tem amigos muito especiais, a sua mãe me contou. E eu sei também que você crê em Jesus e isso é maravilhoso. Ele está junto com você nesta jornada. Eu também confio em Jesus, só que eu o conheci no hospital através de uma jovem que estava internada no mesmo quarto que eu. Ela me apresentou Jesus, me explicou que ele morreu na cruz para que nós tivéssemos uma vida de comunhão com Deus. E me disse que ele deu a vida por mim para que eu pudesse vivê-la plenamente, e que a vida não constitui no que você pode adquirir: fama, dinheiro, poder. Pois isso um dia acaba e ninguém consegue levar essas coisas para a eternidade. Ela leu um versículo para mim, posso pegar a sua Bíblia? - perguntou Júlia. _Claro, leia pra mim, por favor! _” Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” 13 Paula, tudo passa... a beleza, as riquezas, o poder, a fama... o que permanece é o que você faz para Deus. A vontade Dele não é que você fique desesperada para manter um peso impossível, Ele não quer que você olhe para o espelho e se sinta feia, não! Deus não nos criou para isso. Ele nos ama e quer o nosso bem. Da próxima vez que você se olhar no espelho diga: “ Eu sou importante para 13 1 João 2.17 204 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Deus, eu sou linda e preciosa aos olhos dele”; pois é isso mesmo que você é, tenha certeza disso, amiga! As duas se abraçaram e choraram muito. A visita de Júlia foi realmente um presente muito especial para Paulinha. Naquele mesmo dia Paula recebeu uma ótima notícia do dr. Romeu, se a recuperação dela continuasse no mesmo ritmo ela teria alta no início da próxima semana. O que ela não sabia e também não deveria saber, era que os pais falavam até em separação, a situação deles estava bem complicada, não conseguiam manter um diálogo, pois sempre acabava em discussão. _Eu não aguento mais a sua indiferença, Paulo! Você não se importa comigo, eu sei que você já não me ama mais. _Como você é dramática, Regina! Pare de pensar só em você, a nossa filha está internada e você falando esse tipo de coisa? Só rindo! _É, eu sei que faz tempo que eu virei um motivo de piada para você! _Pare com isso! Não suporto quando você fica aí choramingando. _Você não me suporta, não é? As pessoas que adoram convidá-lo para pregar e dar palestras sabem disso? É claro que não! Elas pensam que o grande pregador Paulo Reis é um santo, acham que ele é um excelente pai e um ótimo marido... coitados... estão sendo enganados! _Regina, eu já avisei para você que eu estou cansado de ouví-la lamentar!Você é uma ingrata, é isso o que você é! Está sempre insatisfeita, deveria sentir orgulho em ter um marido tão respeitado e requisitado, mas não, isso pra você não tem a menor importância. Estou cansado disso! _Eu eu já me cansei faz tempo. Vamos resolver isso de uma vez por todas, para que viver de aparências... 205 Tânia Gonzales _O que você quer dizer com isso? _Você não sabe? Não consegue adivinhar? Eu não acredito, que o grande pregador e palestrante, Paulo Reis, ainda não percebeu do que eu estou falando?! Eu quero o divórcio, é isso, Paulo. _Você está maluca? Regina, o quê? Você deve estar com problema na cabeça, só pode ser isso, vou levá-la a um psicólogo. _Não preciso de psicólogo, eu quero o divórcio! Chega de mentir. _Regina, nunca mais toque nesse assunto, está me ouvindo? Você quer acabar com o meu ministério, é isso? _Olha só com que ele está preocupado! Não é por ficar sem a família, ele está preocupado com o ministério dele! Mas, é claro, o que eu esperava? Você é tão previsível, Paulo, e desprezível é isso o que você é. Eu vou ao hospital, mas a nossa conversa não termina aqui. Eram quase dez horas daquela noite de sábado e Suzana estava atendendo um cliente, havia pensado em Leonardo durante a tarde inteira. Ela gostaria de ter força para deixar de pensar nele, mas era impossível, tinha que reconhecer que estava com muitas saudades dele. Como era possível, alguém fazer tanta falta assim? Ela não conseguia compreender. Ele iria adorar saber o quanto a ausência dele havia mexido com ela. “ Pelo menos a Cláudia não está aqui hoje, senão ela teria percebido tudo”- pensou ela e após dez minutos saiu da loja. Suzana deu uma boa olhada ao redor para encontrar seu pai, mas de repente seu coração disparou, ela ficou estática olhando para o rapaz sorridente que se aproximava dela, ela não podia acreditar, era ele, Leonardo estava ali esperando-a. E, sem se preocupar em disfarçar a alegria que sentiu ao vê-lo, retribuiu o sorriso. Por alguns segundos os dois ficaram se olhando sem dizer uma única palavra. 206 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Boa noite, princesa Suzana! Gostou da surpresa? Neste momento Suzana fez algo que nem ela mesma acreditou que seria capaz: ela o abraçou, simplesmente, o abraçou. Aquele movimento inesperado fez Leonardo ficar sem ação a princípio, mas logo ele a aconchegou em seus braços. Ficaram por alguns instantes, assim, abraçados, sem dizer nada, só desfrutando daquele momento de ternura. Era a primeira vez que os dois ficavam tão próximos um do outro. De repente, Suzana se afastou dele, envergonhada. _Que recepção! Eu acho que vou viajar mais vezes. _É... me desculpe... eu... _Não se desculpe, você foi espontânea; eu perguntei se gostou da surpresa e você me respondeu, foi só isso, não precisa se sentir culpada, você não cometeu nenhum pecado. _Eu nem sei o que dizer... _Vamos comer? Eu cheguei em casa, tomei um banho e vim buscá-la, estou com fome. E você? _Também estou. _Então, vem comigo... Suzana não precisa ficar com vergonha de mim, eu estou muito feliz por estar aqui com você, especialmente porque você demonstrou que sentiu saudades de mim. Sabe o que aconteceu? O seu sentimento foi muito mais rápido do que o seu pensamento, você não teve tempo para pensar, aí o seu coração agiu por conta própria; ainda bem que eu não liguei, se você soubesse não teria reagido assim. Foi uma surpresa e tanto, não foi? _Você está adorando isso, né? _Não vou negar que eu adorei tudo, desde o seu olhar, passando pelo seu sorriso e terminando em seu abraço... foi quase perfeito, só faltou uma coisa... _Nem vou perguntar o que; você não disse que estava com fome? 207 Tânia Gonzales Os dois foram até a praça de alimentação, desta vez escolheram uma pizza. _Você viajou para onde? Se é que eu posso saber... _Claro que pode, eu não escondo nada de você, sou um livro aberto e você ? _Eu fiz uma pergunta, você respondeu com outra, não aprendeu que isso é muito feio? Suzana ficou bem desconfortável com a pergunta de Leonardo. Ela nunca poderia ser um livro aberto, especialmente para ele. Com certeza ele não iria gostar... _Tudo bem, calma. Meu pai precisava conversar com um cliente que mora em São Carlos, e como ele tem dificuldade para se locomover devido a um acidente de trabalho, nós fomos até lá, é o Agnaldo. Há meses que ele faz o convite para conhecermos o sítio dele, então aproveitamos a oportunidade. É um lugar muito agradável; até pesquei, foi ótimo, mas eu fiquei com muita saudade, percebi que não posso ficar nem dois dias sem você. _Tanta saudade... poderia ter ligado. _Ah... que gracinha! Você ficou esperando uma ligação minha... ah... Suzana, você está me surpreendendo! Eu confesso que pensei em ligar, mas resisti e gostei do resultado! _Para com isso! Agora eu vou precisar suportar um Leonardo convencido e … _Apaixonado! _Exagerado, é isso que você é. _E a sua vó, está inventando muita coisa para amanhã? _Está toda animada... ela cozinha muito bem! Hum...com aquele tempero especial que só ela sabe fazer. _Neta coruja. E a Lê? _As coisas estão bem complicadas para a nossa amiga. A mãe dela está de sentinela, não quer que ela encontre o Daniel de jeito 208 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão nenhum. _Que coisa chata. Leonardo deixou Suzana em casa alguns minutos após a meianoite. Naquela noite Suzana demorou muito para pegar no sono, só pensava na reação que teve ao vê-lo. “ Que foi aquilo? Como eu tive a coragem de abraçá-lo? Eu não posso negar que fiquei muito feliz ao vê-lo, mas, me jogar nos braços dele? Até agora eu não sei como isso foi acontecer. Mas, eu me senti protegida e... feliz... foi tão maravilhoso! Será que eu conseguiria me relacionar com ele? Não, é claro que não. Mesmo que eu vencesse todos os meus medos, não seria justo para ele. Ele merece alguém melhor do que eu.” O dia amanheceu, seria um domingo de muito sol. Leonardo participou da escola bíblica e do ensaio da orquestra, estranhou a ausência de Letícia, tentou falar com ela pelo celular, mas não conseguiu. Como ainda era meio-dia, aproveitou a oportunidade para visitar a amiga Paulinha. Saiu de lá muito animado, pois ela estava toda confiante e alegre com a possibilidade de receber alta. Antes das duas horas da tarde, Leonardo já estava esperando pela saída de Suzana. Por alguns minutos ficou lembrando do reencontro com Suzana no dia anterior. Como aquele abraço foi inesperado! Ela era sempre tão contida, mas ontem...aquela reação de Suzana fez com que Leonardo tomasse uma decisão. Uma importante decisão. Ela se aproximou dele com um certo constrangimento, por causa da noite anterior, e ele se aproveitou disso. _E então? Estou esperando... _Esperando o quê? 209 Tânia Gonzales _O meu abraço... por que essa carinha brava? Hoje não tem abraço? E se eu disser que estou precisando ser abraçado hoje, que estou muito carente? _Problema seu! _Ué, o que você fez com a Suzana de ontem? _Ela faltou hoje. _Que pena. Eu gosto mais daquela, ela é mais feliz, livre...corajosa e espontânea. _O que você acha de irmos? Eles estão nos esperando para almoçar, lembra? Às 14h35, Leonardo e Suzana chegaram para o almoço especial da vovó Vivi. _Agora podemos almoçar! Leonardo, hoje você não vai comer a tradicional macarronada de domingo, hoje é dia de comida mineira! - avisou a vovó. Vovó Vivi havia caprichado no cardápio: Vaca atolada, feijão tropeiro e outras delícias. Para a sobremesa: doce de leite e doce de abóbora com coco. Após o almoço, enquanto saboreavam a sobremesa, Leonardo anunciou que tinha algo importante para dizer. _Então, por favor, pode falar, Leonardo – pediu o pai de Suzana. _Bom... eu quero aproveitar que a família está toda reunida, até a Sueli está aqui hoje e a tia Marisa, então, eu... eu gostaria de pedir a sua permissão, seu Davi, para ser o namorado da Suzana. Neste momento todos se manifestaram, houve uma alegria geral. Davi nem conseguiu falar por causa da empolgação das mulheres da família, menos de Suzana, que estava com uma enorme interrogação naqueles lindos olhos verdes. Ela olhava fixamente para Leonardo, querendo entender o que ele havia acabado de 210 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão fazer. _Posso falar agora? - perguntou Davi- Acalmem-se! Estas mulheres, são capazes de nos deixar malucos! Pois muito bem, eu estou muito feliz e é claro que você tem a minha permissão para namorar a minha filha. Você é um bom rapaz e tem demonstrado que gosta muito da Suzana e a respeita também, o que é muito importante. Só espero que vocês não exagerem no horário e que tomem muito cuidado. _Quanto a isso, o senhor pode ficar tranquilo, eu respeito muito a sua filha e é claro que eu gosto muito dela e... é isso. _Então, só temos que dar os parabéns ao novo casal de namorados- disse vovó Vivi- Querida, estou tão feliz por você!- a seguir abraçou Suzana- Leonardo, venha aqui me dar um abraço... ganhei um novo neto. _E eu ganhei uma vó linda e maravilhosa. Ainda ficaram se confraternizando por alguns instantes, até que Leonardo disse que precisava ir embora senão se atrasaria para o culto. Suzana o acompanhou em silêncio até o portão. _O que foi aquilo? - perguntou quebrando o silêncio. _É assim que você chama o nosso namoro? _Leonardo, como você pôde fazer isso comigo? Você se aproveitou de uma situação... eu deveria ter sido consultada antes, estou errada? _Em circunstâncias normais, sim, mas... _O quê? Leonardo você não pode decidir por nós dois, isso não é correto! _Eu sei qual seria a sua resposta se eu falasse com você antes. Mas eu também sei que você gosta de mim, não pode negar isso, eu já desconfiava e ontem tive a certeza. _Ontem? Você tomou uma decisão dessas por causa de ontem? Aquilo foi só... 211 Tânia Gonzales _Não sabe nem explicar, pois eu sei o que foi aquilo, foi o seu coração me dizendo que você também está apaixonada por mim. _Eu... você está... _Eu estou o quê? Mentindo? Delirando? Viajando? Tenho certeza que não. Se eu estiver errado, então me corrija, vamos, diga que não sente o mesmo por mim, mas seja convincente! _Pare com isso... eu não vou dizer nada. _Não pode negar, é por isso que você não vai dizer nada. _Eu não posso namorar você. _Por que você não falou lá dentro? Quer voltar lá? Vamos... _Não. Eu não tive coragem de dizer porque eles ficaram muito felizes. _Só por isso? Se foi só por isso nós vamos lá agora e eu vou me desculpar e dizer que fui precipitado. Vamos? _Leonardo... não. _Então me diga que não foi só para não estragar a alegria deles, me diga. _Eu... por que você faz isso? _Porque eu te amo, é só por isso. Diga. _Não foi só por esse motivo... não foi só por eles, foi por você... eu não queria magoá-lo. _E por você? Diga. _Também. _Também? Fale claramente... fale... eu preciso ouvir. _Eu também gosto de você... ah... mas não posso, você merece alguém melhor do que eu. _Isso sou eu quem decide. Eu quero você, Suzana, não quero alguém melhor ou pior. Eu só quero você, é tão difícil entender isso? _Eu... não sei se consigo ser uma namorada pra você, eu já disse mais de uma vez que o problema está em mim. 212 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Não entendo por que você diz estas coisas, mas quando você se sentir à vontade para me contar eu estarei pronto para ouví-la. _Eu não vou conseguir, eu tenho tanto medo...eu não sei … você precisa de alguém que possa ser carinhosa e não alguém cheia de receios e medos... _Fique tranquila, eu espero até que você... _Leonardo, você quer uma namorada que fique tremendo quando você se aproxima e … _ Não sei por que você tem dificuldade para se relacionar, eu sinto que não é só por timidez... Suzana, ontem você me abraçou, lembra? Não fique ansiosa, eu sei que você está preocupada com o nosso primeiro beijo, não é? Não precisa ficar envergonhada, eu vou esperar, não quero forçá-la e nem vou pegá-la de surpresa ... fique tranquila, eu sou bem paciente. O importante é que eu sei que você corresponde ao meu amor, é claro que à sua própria maneira. Só peço uma coisa, que você me autorize a segurar na sua mão, senão vai ficar estranho um casal de namorados que mantêm distância um do outro. Agora eu preciso ir, eu volto daqui a trinta minutos para buscá-la, afinal você agora é minha namorada. Leonardo se despediu de Suzana dando-lhe um beijo no rosto. Poucos minutos antes das cinco e meia ele já estava de volta, para buscá-la. _Você está linda... vamos, eu tenho pouco tempo, a orquestra vai tocar... e você nunca pensou em tocar algum instrumento? _Eu já pensei em aprender a tocar violão, mas nunca tentei. Você gosta muito de violino? _Muito, tocar faz muito bem, é claro que é necessário se esforçar, ter disciplina, mas pra mim é algo muito relaxante, que eu faço com muito prazer. Você deveria experimentar, tenho certeza que iria gostar, se quiser eu posso ser seu professor, só que tem que ser 213 Tânia Gonzales de violino. _Eu agradeço, mas, por enquanto, não. Você falou com seus pais sobre nós? _Ainda não. A minha mãe notou que eu voltei mais feliz, você acredita? _É mesmo? Leonardo, como você consegue se contentar com tão pouco? O que eu posso oferecer pra você? Quase nada. _Suzana? E desde quando o amor pode ser considerado assim? Eu amo estar com você, é tão difícil você entender isso? Depois conversamos mais, agora vamos participar de um culto maravilhoso, venha minha linda namorada. Leonardo mal teve tempo de se posicionar, o pastor já havia anunciado o louvor e a orquestra estava pronta para começar a tocar. _E aí, meu amigo? Está tão difícil da gente conversar, estou com saudades, sabia?- foram as palavras de Letícia ao parar de tocar seu violino. _É verdade... mas como vão as coisas na casa da família Soares? _Complicadas ao extremo! Minha mãe está fazendo de tudo para eu não ter a mínima oportunidade para ver ou falar com o Daniel. Ela não quer que eu vá nem na casa da Suzana, você acredita? Quando eu falei que hoje teria um compromisso com o grupo, ela ligou para o Jônatas para confirmar, dá para suportar isso? _Sinto muito, amiga. Eu gostaria de poder ajudá-la, mas como? _Eu sei como. Nós vamos ao shopping, certo? Quando o encontro do grupo terminar, nós... Letícia explicou o seu plano para Leonardo e depois ficou muito surpresa com a notícia que ele deu. _Não acredito? Vocês estão namorando!? Que legal, Léo! Ah... eu fico tão feliz por vocês! 214 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Após o culto, o grupo Alfa se reuniu em um shopping. Jônatas anunciou que fariam mais um parceiros do diálogo e separou as duplas. Leonardo e Suzana seria uma delas. _Justo hoje você será a minha parceira, isso é muito engraçado, eu adorei- comentou Leonardo sorrindo. _Em todos os sorteios eu ficava torcendo para não cair com você, agora... _Que revelação, hein! Você deveria ter vergonha de dizer isso! Suzana, eu vou dar uma palavrinha com o Jônatas, já volto. _O quê? Vocês começaram a namorar hoje? Parabéns!- disse Jônatas. _Eu achei melhor esclarecer isso, porque eu sei o quanto o trabalho dos grupos é sério e eu respeito muito. _Fique tranquilo, Leonardo, pode ir conversar com a sua parceira especial. Foi ótimo você ter contado, valeu! _Pronto, aqui estou, já esclareci as coisas com o líder- disse Leonardo ao se aproximar de Suzana. _Você falou pra ele sobre nós? _Eu contei para não dar a impressão errada, pode parecer que estamos participando só pra namorar, sei lá, que não levamos isso a sério... _Tem razão. E aí, vamos andar um pouco ou... _Se você não se importar eu gostaria de ficar parado e de preferência sentado. Vamos procurar um lugar? _Concordo. A hora passou rapidamente quando eles perceberam já estavam atrasados para se juntarem ao grupo. _Faltam quinze minutos para as dez, isso significa que estamos quinze minutos atrasados, vamos correr... - disse Leonardo. 215 Tânia Gonzales _Esqueceram do horário, é? - perguntou Vitória sorrindo. Foram até a praça de alimentação. Jônatas aproveitou para anunciar que o grupo deles fariam Yakissoba daqui a duas semanas para arrecadar fundos para missões. Seria um trabalho em conjunto com o grupo Ágape. Aproveitou para marcar uma reunião na próxima quarta-feira na casa da Vitória. Após o lanche, se despediram; Leonardo, Suzana e Letícia ainda permaneceram no shopping pois se encontrariam com Daniel. _Valeu a força, Leonardo, está difícil ficar longe da minha loirinha- confessou Daniel. _É só uma fase, logo vocês vão poder ficar juntos, a Sandra vai acabar aceitando, ela só precisa se acostumar com a ideia. Vamos combinar... daqui a trinta minutos nos encontramos no estacionamento, eu sei que é pouco, mas precisamos voltar antes da meia-noite- disse Leonardo. _Estavam com tanta saudade! Esta semana foi muito complicada para eles- foi o comentário de Suzana ao ficar a sós com Leonardo. _Precisamos intensificar as nossas orações. Só Deus pode amolecer o coração da Sandra. Eu percebi como você ficou ao vêlos juntos. O que passou por essa sua cabecinha linda, hein? _Ah... eu sinto muito... eu acho que não vou conseguir ser sua namorada. Pra mim é como se fosse um obstáculo intransponível. Se alguém soubesse disso com certeza iria pensar que é bobagem minha ou que eu faço isso para te provocar... você está me entendendo? De repente até você pensa que eu estou dificultando as coisas só pra... _Que história é essa? É claro que eu não penso nada disso. Eu sei que existe alguma coisa que te incomoda muito, eu já disse que vou esperar. 216 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Como não sabiam quando teriam uma nova oportunidade para ficarem juntos, Letícia e Daniel aproveitaram cada minuto, as demonstrações de carinho entre os dois só fazia Suzana sentir-se pior com relação ao seu namoro. Passou o caminho todo pensando que ele merecia uma namorada normal, alguém que pudesse retribuir-lhe o carinho. Eram onze e quarenta quando deixaram Daniel na casa dele e cinco minutos depois, Leonardo estacionou em frente à casa de Suzana. Letícia despediu-se do casal e entrou em sua casa torcendo para que a mãe já estivesse dormindo. _Tem alguém aqui que está muito preocupada e eu não estou gostando disso. Suzana, eu não quero que o nosso namoro seja um peso pra você, a minha vontade é fazê-la feliz. _E você vai conseguir ser feliz comigo? _Eu já estou muito feliz por você ser minha namorada. _Namorada? Até parece que somos irmãos! _Isso não. Eu estaria cometendo um pecado terrível se você fosse minha irmã. O que eu sinto por você não tem nada a ver com amor fraternal. _Você ainda consegue brincar? _Princesa Suzana, pare de se culpar, o nosso namoro começou hoje, teremos muitas oportunidades para nos comportar como um casal de namorados. Não se preocupe com isso, não é bom ficar fazendo comparações com outros casais. Agora é melhor você entrar, boa noite. Leonardo despediu-se dela com um beijo no rosto. Naquela noite, Suzana teve um pesadelo. Ela estava trabalhando, de repente um homem entra na loja mancando, ela o reconhece imediatamente, um sentimento de pânico começa a tomar conta 217 Tânia Gonzales dela, ele olha fixamente para ela e diz: “ Você não tem jeito mesmo! Acha que pode pertencer à alguém que não seja eu? Não sonhe, menina linda, não sonhe! Um dia você foi toda minha, acha que pode mudar isso? Você sempre será a minha menina linda!” Neste momento Suzana acordou e passou a mão no rosto para enxugar as lágrimas. 218 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 20 -Treinamento Naquela tarde de segunda-feira, Suzana recebeu um lindo bouquet de rosas. _Nossa, meu Deus! Uau! Quem mandou? Foi o gato da carona?brincou Cláudia. _Gato da carona? Só você. Bom... você vai acabar descobrindo mesmo... nós estamos namorando. _Não acredito? Aaaaa, que máximo!- gritou Cláudia. _Calma... não precisa exagerar. Às dez horas Leonardo estava esperando por Suzana. _Boa noite, princesa. Quer uma ajuda? _Oi, as flores eu mesma levo e obrigada, são lindas. _Qual é o dia da sua folga? Eu tive uma ideia- disse Leonardo ao entrarem no carro. _Quinta, qual é a sua ideia? _Meu plano é o seguinte: passar mais tempo com você. _Como? _Eu quero almoçar com você e só trazê-la de volta à noite. _E o seu trabalho? _Pode deixar que eu me entendo com o patrão. _Aonde você vai me levar? -O que você acha de passar a tarde na praia? _Praia? Você está brincando, né? _Não. Nós precisamos de um pouco de privacidade, não se assuste comigo, espera, eu explico. Eu tive uma ideia que vai ajudá-la a se acostumar comigo. Como eu explico sem que você me entenda mal? Eu tenho um plano. Você tem um certo … medo, digamos assim, de se relacionar comigo como seu namorado, então eu 219 Tânia Gonzales pensei que em primeiro lugar você precisa se sentir segura e que para isso você tem que confiar em mim, certo? _Certo, mas eu não entendi. Que plano mirabolante é esse? _Não tem nada de mirabolante, é bem simples e pode se concretizar com facilidade, vai depender de você. Nós precisamos de mais tempo juntos e de um lugar tranquilo, não me olhe assim, eu não estou com segundas intenções, é que em um shopping, por exemplo, você não iria se sentir à vontade e nem na garagem da sua casa, então eu pensei que se nós fôssemos em uma praia ou em um outro lugar bem espaçoso que você não precisasse se preocupar com as outras pessoas... Suzana, fala que está entendendo... eu não estou pretendendo levá-la para um lugar fechado, não é isso. _Entendi. Está vendo como é complicado ter uma namorada como eu? Você fica cheio de cuidados, todo preocupado e... _Princesa Suzana, eu já disse e repito, não se culpe. É que agora fica difícil para explicar tudo, mas é uma boa ideia, você vai ver. E aí? _Tudo bem, mas pense em um outro lugar. _Nós podemos almoçar e depois irmos a um parque, quem sabe o Ibirapuera? _Tudo bem, eu concordo, mas ainda não entendi. No dia seguinte, Leonardo foi visitar Paulinha e teve uma grande surpresa. _Você vai sair hoje? _Isso mesmo, meu amigo lindo! Só estou esperando o dr. Romeu. Estou tão feliz, eu prometo que vou me comportar direitinho desta vez – disse Paulinha muito emocionada. _Minha linda, eu também estou muito feliz por você! Está recebendo uma nova oportunidade e eu sei que vai saber 220 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão aproveitá-la. _Pode ter certeza, aquela Paula maluca não vai ter vez! Eu sei que não vai ser fácil, o doutor me explicou tudo muito bem, ele disse que é muito perigoso, que para ter uma recaída é num piscar de olhos. Eu tenho que ser monitorada, foi bem esta a palavra que ele usou, o tempo todo, que a minha mãe precisa ficar de olho em mim. Mas eu estou bem mais consciente agora, da outra vez eu estava aqui no hospital pensando em como perder peso rapidamente, maluquinha! Eu vou cuidar da minha saúde pode ficar tranquilo, meu amigo lindo, meu gato! A sua amiga colocou um pouco de juízo na cabecinha teimosa dela. Só estou preocupada com os meus pais, eles estão tão estranhos! Quase não se falam, eu acho que eles estão me escondendo alguma coisa... _Você não deve se preocupar com isso, o mais importante é a sua saúde, provavelmente é só impressão sua, eles estão preocupados com você. Ficar todos esses dias no hospital não foi nada fácil para eles. Deve ser cansaço, é isso. Duas horas depois da visita de Leonardo Paula saiu do hospital com seus pais. À noite, Leonardo foi buscar Suzana e contou sobre a saída de Paulinha do hospital. O grupo Alfa se reuniu na casa da Vitória, quarta-feira à noite; só faltou Suzana, por estar trabalhando. Conseguiram deixar tudo certo para o evento de missões. Às nove e meia Leonardo saiu para buscar a namorada. _Tudo certo para amanhã? - perguntou Leonardo durante o caminho para a casa de Suzana. _Acho que sim, embora eu esteja meio confusa... não sei o que 221 Tânia Gonzales você está pretendendo, além é claro de passar algumas horas comigo. _Você está dormindo bem esses dias ou não para de pensar nisso? _Mais ou menos. Confesso que estou um pouco ansiosa. _Não precisa ficar assim, confie em mim. Naquela noite Suzana teve um sono bem tranquilo. O dia amanheceu, seria um belo dia de sol. Suzana passou a manhã inteira pensando. “ Qual será a ideia dele? Não consigo nem imaginar! “ _Olá, princesa Suzana, vamos almoçar? Hoje eu estou me sentindo como uma criança no dia do aniversário: feliz, na maior expectativa e ansiosa para abrir os presentes- brincou Leonardo. _Você está me assustando! _Ei, é só uma maneira diferente de dizer o quanto eu esperei por este dia, é só isso. O dia está lindo, tudo contribui para quem deseja viver momentos inesquecíveis hoje. _Leonardo, o que você está planejando? _Ter momentos agradáveis com você. Almoçaram em um restaurante chinês, para satisfazer a vontade de Leonardo que ficou com água na boca de tanto que falaram sobre Yakissoba na reunião do grupo Alfa. Após o almoço foram para o parque Ibirapuera. Caminharam durante algum tempo de mãos dadas e depois se acomodaram embaixo de uma árvore, o sol estava bem forte, eram três horas da tarde. _Suzana, eu estive pensando e cheguei à conclusão que a melhor maneira de você perder o … medo ou o receio... bom... seria você mesma controlar a situação, é... a minha ideia é que você tome a iniciativa. _Você deve estar brincando, né? Eu devo tomar a iniciativa, eu 222 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão nunca vou... _Calma... me escuta, eu pensei assim: eu vou fechar os meus olhos, ficar imóvel, esperando que você me beije. _Leonardo, se é esta a sua ideia eu sinto informar que... _Espera... não seria um beijo daqueles... e sim um selinho. Eu fico com os olhos fechados e totalmente parado, sem mexer um músculo, as minhas mãos vão ficar em cima das minhas pernas, eu não vou abraçá-la... você vai estar no controle. Se por acaso você desejar que eu ... a beije, você aperta uma das minhas mãos. E aí? _Ah... sinceramente eu não sei. _Vamos tentar? _E se eu... Leonardo... eu falei pra você que nós dois juntos não ia dar certo. Você acha que já existiu algum casal de namorados com esse tipo de conversa? _Isso eu não sei e também não estou interessado em saber. Suzana, somos só nós dois, eu acho que é uma boa ideia, tente... olha... vai ser tudo de acordo com o seu ritmo, você vai estar no controle, confie em mim, eu não vou me aproveitar da situação. Tudo vai depender de você. Tente... por nós. _Tudo bem, vou tentar. _Então... vou fechar os olhos e esperar, é só isso que eu vou fazer. Leonardo fechou os olhos e ficou imóvel esperando por Suzana, que a princípio não teve qualquer reação... alguns segundos se passaram e Suzana só olhava para ele sem conseguir sair do lugar. “ Tente... por ele... coragem, isso não pode ser tão complicado, ele está esperando... por que é tão difícil pra mim? É só encostar meus lábios nos dele, é só isso... eu preciso, eu tenho que conseguir... se alguém o visse assim acharia que ele está fazendo um papel ridiculo e eu não consigo sair do lugar...” Suzana foi se aproximando bem devagar, com o coração disparado, ela tocou nos lábios dele com os dedos e depois chegou 223 Tânia Gonzales mais perto e enfim os seus lábios tocaram nos dele bem suavemente, Leonardo fez como havia prometido, ficou imóvel; mesmo desejando com todas as suas forças, beijá-la, ele resistiu pois não queria que ela perdesse a confiança nele. Poucos segundos depois, Suzana afastou-se bem devagar e ficou observando-o, até que Leonardo abriu os olhos e lhe deu um sorriso. _Adorei... não foi tão difícil, foi? _Menos do que eu esperava. _Vamos repetir isso até que você esteja pronta... não precisa me olhar assim... por hoje está ótimo. Considere isso como um treinamento. Que tal nós caminharmos um pouco e depois irmos ao shopping assistir um filme? _Gostei da ideia. Às 22h Leonardo estacionou o carro em frente à casa de Suzana. _Passar todas estas horas com você foi ótimo, eu quero repetir isso- disse ele. _Eu também gostei muito... de tudo- confessou ela, tímida. _De tudo? É bom ouvir isso... ah... minha princesa, você é a namorada mais linda e... _E mais complicada, com toda a certeza. _Não fale assim. Você precisa ver as coisas por um outro lado, se não existisse esse medo, nós provavelmente já teríamos nos beijado como qualquer outro casal e aí perderíamos a oportunidade de viver todo esse clima, essa expectativa, entende? É uma sensação deliciosa... fica um mistério no ar. _É uma maneira bem diferente de ver o problema, parabéns! _Não pense nisso como um problema e lembre-se que você já passou pela primeira fase do nosso treinamento. Eu vou deixar você descansar... boa noite e sonhe comigo. 224 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Olha só quem chegou! - disse vovó Vivi com toda animação, ao ver a neta. _Oi, vó. Tudo bem por aqui? _Tudo ótimo e como foi o seu passeio? _Foi um dia maravilhoso; ele me levou para almoçar... _Esperem por mim, eu também quero saber de tudo- falou Marina saindo da cozinha. _Oi, mãe. Nós almoçamos em um restaurante chinês e depois passamos a tarde no parque do Ibirapuera... Suzana contou tudo, menos sobre o treinamento. Letícia passou uma semana bem complicada; sua mãe não lhe deu trégua, aproveitou cada oportunidade para falar mal do relacionamento dela com Daniel e também não poupou nem Leonardo e muito menos Suzana. _ Você e o Leonardo formam um par perfeito, mas vocês adoram nos contrariar, não é mesmo? _Mãe, deixe o Leonardo fora da nossa conversa. _Ele teve a coragem de trocar uma menina linda, de boa família como você, por aquela... _Mãe, cuidado como fala da Suzana, ela é uma pessoa maravilhosa. _Sei... por que ela não se interessa pelo Daniel, hein? É claro que não, ele não é um advogado, não tem uma boa família e... _Mãe, para com isso... o Daniel tem uma família ótima. São honestos, trabalham, são unidos e... _E não conseguem chegar a lugar algum. O Daniel e a Suzana formam um casal perfeito, assim como você e o Leonardo! _Eu não sabia que a senhora era tão preconceituosa! Só dá para descobrir esse tipo de coisa quando... _Preconceituosa, não, eu sou realista e sincera. Por que mentir? 225 Tânia Gonzales Para que fingir? Não sou hipócrita! _Não? Na igreja canta: “ Uma família sem qualquer falsidade, vivendo a verdade... eu preciso de ti querido irmão, precioso és para mim, querido irmão...” 14Precioso? Desde que mantenha distância da minha filha, não é, mãe? _Você está confundindo as coisas. _Não, infelizmente, não. A teoria é uma coisa, na prática as coisas são bem diferentes. A verdade é que a senhora não aceita o meu namoro por dois motivos: por ele ser negro e pela situação financeira dele. Não adianta negar. _Letícia, cuidado! Você está chamando sua mãe de racista? Eu só quero o melhor para você. O Leonardo é o rapaz ideal, e justamente por esse motivo é que não vou deixar que aquela menina se aproveite. Para ela é muito conveniente se envolver com ele; o Leonardo é bonito, gentil, atencioso, tem uma boa profissão, pertence à uma família excelente e ela? O que ela tem para oferecer? Não posso negar que ela é bem bonita, mas isso você também é. A Lígia não vai gostar nada de saber em que família o filho está... _Mãe, deixe o Léo em paz, ele está apaixonado! _Depois que ele descobrir algumas coisas sobre a família dela, vai mudar de ideia. _Não prejudique a Suzana, ela não merece. _Eu tenho a obrigação de alertar a minha amiga Lígia. _A senhora acha que Deus aprova a sua atitude? Quer acabar com a felicidade das pessoas, por quê? _Não coloque Deus no meio disso. _Não? Mãe, ser cristão não é simplesmente fazer parte de uma comunidade e participar das programações, vai muito além disso... 14 Louvor: Corpo e família-Compositor: Daniel Souza 226 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão é no viver diário que demonstramos a nossa fé. _Agora ela vai pregar pra mim. Quem você pensa que é? Letícia, não me venha com essa conversa mole, você não vai me convencer, eu nunca vou aceitar o seu namoro com aquele rapaz e vou ter uma conversa séria com a Lígia. Letícia foi para o quarto e lá se desfez em lágrimas. A felicidade de Paula era imensa. Estar novamente em casa era ótimo. Só havia uma coisa que não estava bem: o relacionamento de seus pais. Ela notou que os dois mal se falavam. Após o almoço daquela sexta-feira ela resolveu conversar com a mãe. _Mãezinha linda, o que está acontecendo entre você e o papai? _Nada. Por quê? _Não tente me enrolar... caramba, vocês acham que eu sou boba?perguntou Paula sem disfarçar a irritação. _Não fique assim, não é bom para a sua saúde, minha filha. Pense só em sua recuperação, está bem? Eu não vou aguentar se você... _Calma, mãe. Eu só gostaria de saber o porquê desta distância entre vocês. _Isso é coisa da sua cabeça. A campainha está tocando, deve ser alguma visita para você. _Leonardo! A Paulinha vai ficar muito feliz. _Léo? Que bom, que você veio, meu gato! _É ótimo vê-la em casa novamente, minha linda! _Bom... fique à vontade Leonardo, eu vou fazer um cafezinhodisse Regina. _Ah... meu amigo... eu estava mesmo querendo falar com você. Estou desconfiada que meus pais estão me escondendo alguma coisa. _Por que você pensa assim? 227 Tânia Gonzales _Eu já comentei com você que eles estão se evitando, só falam o essencial, eu questionei a minha mãe, mas ela disfarça... deve ser algo grave! Estou com medo deles... se separarem- revelou Paula. _Que isso, minha linda! Eu já disse que você não pode se preocupar com esse tipo de coisa, faz mal para sua saúde. Paulinha, você precisa se cuidar. Por favor, não interrompa o tratamento. Você precisa seguir a dieta médica à risca. _Léo, relaxa! Eu estou me alimentando legal, pode confiar. Você pode me ajudar? Tente descobrir alguma coisa. _Tudo bem, se é que tem alguma coisa para descobrir. _Com licença, olha o cafezinho- anunciou Regina interrompendo a conversa. Não tiveram mais oportunidade de tocar no assunto, mas, ao sair, Leonardo teve uma conversa com Regina e não gostou nada do que descobriu. _Regina, como vocês podem estar pensando em separação? A Paulinha acabou de sair do hospital. - sussurrou Leonardo. _Eu sei que não é um assunto para tratar com você, mas já que perguntou, é isso mesmo, eu pedi. Não dá mais para viver de aparências. E o que mais me doí é que ele só se preocupa com o ministério. Ele não quer prejudicar o ministério dele! Não está nem aí para o nosso casamento. Isso machuca muito... desculpe o desabafo. _Regina... deve haver uma solução para vocês. Você orou por isso? _Eu não consigo orar. -Tente... é necessário. Não tome uma decisão assim sem falar com Deus. A Paulinha está desconfiada, você já imaginou o quanto ela vai ficar arrasada? _Eu sei... gostaria de poupá-la, mas eu não aguento mais. _Eu vou pedir um favor. Dê um tempo para ver se as coisas 228 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão mudam, se depois você ainda continuar com a mesma decisão... _Nada mudou durante anos... _Faça isso pelo amor que você sente por sua filha. Tente mais um pouco, ore e evite conflitos. _Tudo bem, eu vou tentar. Obrigada, você é um grande amigo, a minha filha tem muita sorte. Pena que são só amigos... Leonardo saiu da casa de Regina, entrou no carro e fez uma ligação para o pastor Pedro Gabriel. No dia seguinte eles teriam uma séria conversa. À noite foi buscar Suzana no serviço e aproveitou o percurso até a casa dela para conversarem sobre Paulinha e o problema dos pais. _Isso precisa ficar em segredo, eu contei para que você ore por eles. _Tudo bem, pode confiar em mim. Então, amanhã você vai contar para o pastor? _Suzana, eu sei que esses assuntos são complicados. Dizem que em briga de casal não é certo se envolver, mas eu acho que eu posso para dar uma mãozinha. Mas mudando de assunto... e o nosso treinamento? _O que você quer saber? _Vamos treinar mais um pouquinho, hoje? _Hoje? Como? A pergunta certa seria: onde? _Na garagem da sua casa... agora que você já sabe como é, fica mais fácil. _Leonardo, eu... _Não faça esse biquinho. _Biquinho? Eu fiz um biquinho? _Fez e ele era lindo... assim eu não resisto. _Para com isso... ah... eu acho que não vai dar. _Chegamos, eu vou descer e entrar com você, só até a garagem. 229 Tânia Gonzales Entraram, Suzana fechou o portão e ficou parada meio sem jeito. _Vem aqui pertinho de mim... ei, princesa Suzana? _Leonardo, e se alguém aparecer... _ Verá um casal de namorados, fazendo o óbvio : namorando. _ Tá bom. _As regras são as mesmas: eu fico bem quietinho com os olhos fechados e você... já sabe... e se quiser apertar a minha mão, fique à vontade. Ali, na garagem de sua casa, era bem mais difícil para ela se soltar, mas mesmo assim... Suzana olhou para Leonardo e se aproximou... deu um beijo no rosto dele e deslizou o seu por aquela pele bem barbeada e perfumada por uma loção que ela conhecia muito bem. Aquela sensação a fez estremecer, mas ela não se afastou, tocou com os seus lábios nos dele e por um momento desejou que ele a beijasse, em uma fração de segundos ela apertou a mão dele e... imediatamente ele entendeu qual era o pedido dela, Leonardo moveu os lábios lentamente, mas este movimento fez com que Suzana se afastasse com um leve tremor. As mãos estavam suadas e o coração disparado. _Sinto muito- disse simplesmente. _Não se desculpe, está tudo bem. Boa noite, minha princesa- disse Leonardo encaminhando-se até o portão. Suzana sonhou com uma voz ameaçadora que dizia: “ Você nunca vai conseguir, nunca! E sabe por quê? Porque você me pertence! Ele não vai suportar isso por muito tempo e vai desistir de você, mas eu nunca vou abandoná-la, nunca! Minha menina linda! 230 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 21 - Aconselhamento Leonardo acordou cedo, era uma linda manhã de sábado; havia marcado com o pastor Pedro Gabriel de tomarem o café juntos, por isso, às oito horas da manhã já estava tocando a campainha da casa do pastor. _Paz, meu querido, vamos tomar um belo café da manhã, me acompanhe. _Paz, pastor Pedro. E a primeira dama, como está? _A Rute está muito bem, obrigado. Ela saiu para caminhar com uma amiga dela. _Pr. Pedro, eu sei o quanto é complicado falar sobre a vida dos outros, mas eu faço isso pela Paulinha- começou Leonardo assim que se acomodaram. _Pode ficar à vontade, Leonardo. Fale tudo o que for necessário. _É sobre o Paulo Reis e a Regina. Ela quer divorciar-se dele. _É um assunto muito delicado; e justamente agora que a filha precisa tanto dos dois! _É isso o que mais me preocupa, ela pediu a minha ajuda, mas só está desconfiada. Eu tive uma conversa com a Regina e ela não teve nenhum receio em dar a notícia. O senhor poderia conversar com eles, sem que... _Fique tranquilo, eu dou um jeito nisso. _Não sei se o senhor está disponível, mas... é o seguinte: Hoje à noite o nosso grupo vai realizar uma reunião especial para tratar do evento de missões e a Paulinha faz parte do grupo. Se o senhor pudesse conversar com eles... _Eu posso sim. Eu acho que sei o que vou fazer... vou convidá-los para jantar, o que você acha? _Excelente. 231 Tânia Gonzales _Deus vai nos ajudar. Leonardo, parabéns, eu fico muito feliz em saber que posso contar com jovens como você, que se interessa pelo bem-estar das famílias de nossa igreja, é maravilhoso. Leonardo saiu muito satisfeito de sua visita à casa do pastor Pedro Gabriel e muito confiante também. Ligou para Paulinha avisandoa sobre a reunião que seria realizada na casa de Jônatas e como ela concordou em ir ele combinou que a buscaria às sete horas da noite. _Um aviso especial aos homens desta casa- começou Lígia- se comportem bem na minha ausência. _Quando você volta, meu amor? - perguntou Rafael fazendo uma carinha triste. _Não fique assim, terça-feira estou de volta. Leonardo, no próximo final de semana eu gostaria que você trouxesse a sua namorada aqui, estamos combinados? _Não sei, mãe... vamos ver. Está animada com a viagem, dra. Lígia? _Estou mais ou menos, eu não queria ficar longe da minha filhinha querida, não precisa ficar com ciúmes, mas é que esta semana ela anda meio cansada, se queixando de dores na barriga, estou preocupada, eu sei que ela teve uma consulta ontem, mas mesmo assim... _Fique tranquila, a Bia vai ficar bem e o bebê também. E a Sandra, resolveu ir e dar uma folga para a Letícia? _Decidiu de última hora. Eu acho que se ela pudesse levaria a Letícia junto! Mas vai ser bom para ela passar esses dias longe e ela adora Poços. Nem vai se lembrar dos problemas daqui. _Vai ser bom para Letícia, isso sim. Faça uma boa viagem. Lígia e Sandra tinham um encontro especial com algumas amigas 232 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão da época da faculdade, o passeio estava combinado há meses, passariam quatro dias em um hotel fazenda. Sandra conversou muito com a filha fazendo-a prometer que iria se comportar bem. Antes de sair disse algo que muito preocupou Letícia: _Vou aproveitar para conversar com a Lígia sobre a família da namorada do Leonardo, eu evitei falar até hoje, mas não está certo, como amiga dela de muitos anos eu devo alertá-la. Paulinha e Letícia foram para a reunião acompanhadas por Leonardo. Como o evento da semana seguinte seria realizado pelas duas equipes, o grupo Ágape também participou da reunião, o que muito agradou Letícia, pois Daniel fazia parte do grupo. Conseguiram resolver quase todos os detalhes do evento e também ficaram sabendo que outros grupos também estariam trabalhando, pois, além da comida, seriam vendidos: livros, camisetas e vários outros produtos para arrecadar fundos para missões. Leonardo precisou sair antes da reunião terminar, mas já havia avisado Jônatas, mas antes certificou-se que Vitória levaria Paulinha para casa. Não se preocupou com a amiga Letícia, pois imaginou que ela iria aproveitar para passar alguns momentos com o namorado. Na casa do pastor Pedro Gabriel... _Fiquei muito feliz ao receber o seu convite, pastor Pedro- disse Paulo Reis. _Eu é que eu estou muito feliz por tê-los aqui. Vamos até o escritório para conversarmos um pouco, deixemos as esposas tranquilas aqui na sala. 233 Tânia Gonzales Rute não perdeu tempo, assim que se viu sozinha com Regina, iniciou uma conversa. _Regina, eu percebi que você está muito triste, o que está acontecendo? A Paulinha está se recuperando bem, não está? _Está sim, graças a Deus; o problema é outro, eu não sei se devo ocupá-la com ele. _Pode se abrir comigo, Regina, eu estou aqui para ajudar. _Rute, é um assunto muito delicado. _Fique à vontade para falar. _Eu... eu quero me separar do Paulo. No escritório... _Paulo, você está viajando muito ultimamente, não é? _Estou sim, graças a Deus tenho muitos convites. Você sabe que eu amo pregar. _É... eu sei, Paulo. Mas será que este amor não está exagerado? _Não entendi. _Será que você ama mais o seu ministério do que a sua família? _Pastor Pedro, o que é isso? Eu amo a minha família, é claro, mas eu tenho que valorizar o dom que Deus me deu. Concorda? _Sim, é claro. Mas, Paulo, seja bem sincero comigo, você tem dedicado tempo à família? _Bem... nem sempre é possível; preciso atender aos convites. _Paulo, falar a palavra de Deus às pessoas é muito importante, mas quando isso atrapalha o relacionamento familiar é necessário parar um pouco e fazer uma análise. A união da família é muito importante para Deus e para a igreja, pois ela é feita de famílias. Paulo, quando os compromissos se avolumam e tomam todo o seu tempo, alguma coisa está errada. Para um casal viver bem é necessário companheirismo e comunhão, como ter isso estando sempre ausente? 234 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Pastor Pedro, eu não posso deixar o meu ministério de lado. _Concordo, mas você também não pode deixar a sua família de lado. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio. Paulo, não use o ministério como desculpa. _Eu não estou usando, mas é que a Regina não entende... ela está sempre reclamando, diz que eu estou sempre ausente... _Que bom que ela reclama, que ótimo que ela sente a sua falta. Já imaginou se ela nem ligasse? Paulo, ela quer a sua companhia porque ela o ama. _Não ama. _Paulo, se não fosse assim ela nem se importaria com a sua presença. _É difícil conciliar as coisas. _Você é um homem inteligente, vai saber encontrar o equilíbrio. Paulo, você ministra às famílias e isso é muito importante, mas a sua família precisa ver em você aquilo que você prega. A teoria é boa, a prática é melhor ainda. Assim você terá um ministério muito mais abençoado, pode ter certeza disso. Eu, por exemplo, sempre reservo um dia da semana para sair com a minha Rute. Às vezes ela quer simplesmente ficar aqui em casa mesmo, então nós preparamos a refeição juntos, conversamos bastante, partilhamos da vida um do outro. Isso é tão bom! A Regina quer a sua atenção, Paulo, ela necessita de sua companhia. _Ela quer a separação. Vai acabar com o meu ministério. As pessoas vão... _Paulo, é um absurdo o que você disse. Quer dizer que a sua preocupação é com o ministério, é com o que as pessoas vão dizer e não com o fim de sua família? Está errado, muito errado. A sua esposa e a sua filha precisam de você. A vida da Paula esteve por um fio, você sabe muito bem disso. Paulo, já imaginou se a tivesse perdido? Você hoje seria um homem amargurado e cheio de 235 Tânia Gonzales remorsos. E a Regina iria colocar parte da culpa em você. Valorize a sua família, Paulo; se assim o fizer com certeza a Regina e a Paula valorizarão o seu ministério. Pense bem, não podemos ser egoístas, a nossa família precisa de nós. _Eu estou muito envergonhado... então eu não deveria nem pregar mais... _Ei, não seja radical. Busque o equilíbrio. Paulo, se a sua vida familiar estiver em harmonia, você será um pregador muito melhor, pois em suas palavras haverá verdade, haverá amor. _Eu vou tentar... mas e se a Regina não concordar? _Paulo, se você prometer mudar, ela vai concordar, afinal ela só quer o marido dela de volta. Rute e Regina... _Regina, Deus quer sempre o melhor para as famílias. Você está interessada em reconstruir o seu lar? _É claro, Rute, mas eu quero que a minha filha tenha um pai presente. _E você quer ter um marido presente também? _Sim, eu quero. É por isso que eu reclamo. _Então, Regina, abra o seu coração para uma reconciliação. Com muito amor, respeito e compreensão, vocês vão conseguir. _Obrigada, Rute, por me ouvir, mas se o Paulo não mudar, o que eu posso fazer? _Confie em Deus. Alguns minutos depois, Pedro Gabriel e Paulo Reis saíram do escritório. _E então, podemos jantar? - perguntou o pastor. 236 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana saiu poucos minutos após às dez horas e logo avistou o namorado. Leonardo conversou com ela atualizando-a dos últimos detalhes decididos na reunião, depois falou sobre o jantar na casa do pastor, de como ele estava na expectativa e na torcida de que tudo desse certo. Ainda mencionou a viagem de sua mãe e também sua preocupação com Beatriz. _Já falou sobre tudo e todos hoje, menos sobre nós, por que será? Você nem quis sair hoje, já estamos quase chegando em casa- foi a observação de Suzana. _O que você quer dizer com isso? _Você sabe muito bem... ficou magoado por ontem, não foi? _Por ontem? Suzana, do que você está falando? _Você sabe... a sua namorada não consegue lhe dar uma demonstração de carinho. É claro que você não vai querer sair, pra quê? Eu sei que você gosta de conversar comigo, mas não é só isso que você pretendia ao me pedir em namoro, é claro que não! _Você queria sair hoje? Me desculpe, é que nem pensei nisso, mas não tem nada a ver com o que aconteceu ontem. Pare com isso. _Eu sei que sim. Você merece uma namorada de verdade... alguém que... ah... _Suzana, você está chorando? Não faz isso, meu amor. Estamos chegando, quer ir para algum lugar? _Não. Leonardo estacionou o carro e ficou olhando para ela, passou a mão no rosto de Suzana para enxugar-lhe as lágrimas. _Você vai embora ou quer entrar? _Eu quero ficar com você, posso? Suzana fez um sinal afirmativo com a cabeça e desceu do carro, foi seguida por Leonardo. _É melhor nós ficarmos aqui mesmo na garagem, não vai dar para você entrar agora com este rostinho triste. 237 Tânia Gonzales _Eu quero tentar novamente hoje, podemos? _Tem certeza, Suzana, você não está bem. _Eu quero, por favor. _Tudo bem. Leonardo fechou os olhos e esperou, mas desta vez não precisou esperar muito, de repente Suzana já estava próxima tocando-lhe os lábios... a seguir ela apertou a mão dele com força e Leonardo achou que havia alguma coisa errada, as coisas estavam indo rápidas demais... desta vez foi ele que se afastou. _O que você está fazendo? - perguntou ele. _Eu que deveria fazer esta pergunta. Por que você não me... _Suzana, isso não está certo, eu já entendi tudo. Você acha mesmo que eu gostaria de beijá-la sabendo que você está se forçando a isso? _Eu não estou. _Está sim. Eu sei muito bem o que está acontecendo aqui, você se sente culpada por ontem. Olhe bem pra mim, eu não vou fazer isso sem que você realmente queira, ontem eu percebi que você queria, mas hoje não. _Você acha que eu não quero? _Eu sei que você quer, mas hoje você está se punindo, é isso. _Nossa... ser beijada por você é uma punição? Tenho certeza que muitas garotas ficariam muito felizes para cumprir a sentença. _Eu não quero que isso vire um peso pra você. Suzana, lá no parque foi ótimo... e é assim que eu quero que seja. Não estou com pressa. Agora é melhor você entrar, está cansada. Leonardo deu-lhe um beijo na testa e saiu. _Minha neta linda, qual a razão para toda esta tristeza? perguntou vovó Vivi ao ver Suzana deitada na cama, olhando para o teto. 238 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Ah... não é nada. _Quem você pensa que engana? Fale comigo, faz bem desabafar. _Vó, eu não quero preocupá-la. _ O que está acontecendo com você? Tem alguma coisa a ver com o seu namoro? _Que namoro? Coitado do Leonardo, eu sou uma péssima namorada... eu não consigo... _O que você não consegue, minha querida? _Não consigo dar e nem receber carinho... é isso... eu tenho medo... não conte para ninguém, vó, mas o meu passado está mais presente do que nunca... eu não consigo ser beijada pelo Leonardo, eu quero, mas na hora eu entro em pânico, aparecem umas imagens na minha cabeça, imagens horríveis... é tão difícil de explicar, mas é como se tudo fosse acontecer novamente... eu nunca vou me libertar disso e é tudo tão injusto para o Leonardo, por que eu também não teria coragem de contar para ele, eu não suportaria o seu desprezo. Ele é tão compreensivo mesmo sem entender nada... ele diz que vai esperar até que eu me sinta à vontade, até que eu consiga, mas... vó, e se eu não conseguir? _Suzana, você não pode pensar assim, deixe que Deus cure as suas feridas... Leonardo é o instrumento Dele para isso. Ele é como um bálsamo, preparado especialmente para curar a sua dor. Não se afaste dele. _Vó, ele não merece ser enganado. _Você não o está enganando. Suzana o que aconteceu não foi culpa sua, você é uma vítima. E se você conversasse com ele? Quem sabe você se sentiria melhor e... _Não, vó. Eu nunca teria coragem, morreria de vergonha. O Leonardo não pode nem imaginar... ele me desprezaria e... não vó, por favor. Suzana não conseguiu mais segurar as lágrimas. 239 Tânia Gonzales _Querida, acalme-se, ninguém vai contar nada para ele, isso é algo que só você pode decidir. Vovó Vivi colocou a cabeça da neta em seu colo e ficou acariciando os cabelos dela por um longo tempo. _Acorde... ei... Suzana, tem alguém muito especial te esperando para tomar café- disse Marina. _Tomar café? Quem está aqui? Ainda são sete horas. _Ele chegou cedo para dar tempo de tomarem o café bem tranquilamente; trouxe tanta coisa!Ele vai levá-la para o trabalho. _Eu vou tomar um banho... Enquanto isso Leonardo estava na cozinha ajudando a vovó Vivi na organização da mesa. _Leonardo, Leonardo, você é um daqueles que Deus fez e jogou a receita fora. Eu agradeço tanto a Deus por sua vida- foram as palavras sinceras da vovó. _Eu é que agradeço a Ele por me dar a oportunidade de fazer parte da vida de vocês. Eu me sinto muito bem aqui, sabia? _Ah, querido! A Suzana precisa muito de você; às vezes as coisas podem parecer confusas e sem sentido, mas tenha certeza que ela gosta muito de você. _Bom dia, minha princesa! Você continua linda, mesmo com os olhinhos inchados- constatou Leonardo ao vê-la. _Oi, bom dia. Você deveria ter aproveitado para dormir mais um pouquinho hoje- disse Suzana dando-lhe um beijo no rosto. _Eu prefiro aproveitar a sua companhia, venha, está tudo pronto, eu até ajudei a vovó! _Esse menino exagerou, olha só... - disse a vovó apontando para a mesa onde havia pães variados, bolos e até frutas. Após o delicioso café, Suzana e Leonardo saíram, pois ele a levaria para o trabalho. 240 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Você está bem? - perguntou Leonardo ao entrarem no carro. _Estou. _Só isso? Ei, fale comigo! Suzana... eu fiquei muito preocupado com você ontem- confessou Leonardo. _É só isso que eu sei fazer: deixar todo mundo preocupado. _Minha princesa... não fale assim, eu amo você. _Não deveria me amar, seria muito mais fácil pra você e... pra mim também. _ Se você soubesse o quanto a sua presença me faz bem, com certeza não diria essas coisas. _Leonardo, eu gostaria de ter uma conversa séria com você, hoje à tarde. _Tudo bem, mas nem pense em me dar o fora, tá? Se a sua intenção for essa, pode esquecer. Eu só aceitaria me afastar de você se eu tivesse a certeza que não sou correspondido, aí sim. _Vamos deixar esse assunto para mais tarde. Podemos almoçar juntos hoje? _Claro. Eu estava pensando em almoçar na casa da minha irmã, mas, a minha mãe não vai gostar nada, é melhor esperar que ela chegue. Ela ficaria uma fera! E já que você precisa tratar de um assunto sério comigo, é melhor almoçarmos só nós dois. 241 Tânia Gonzales Capítulo 22 -Lúcia Leonardo foi até a igreja para o ensaio da orquestra; conseguiu participar do final da escola bíblica. _Eu precisava tanto falar com você!- disse Letícia ao se encontrarem após o término da escola bíblica. _O que aconteceu, Leca? _Léo, uma pessoa me procurou hoje, logo cedo, aqui na porta da igreja. _Que pessoa? _É uma história bem esquisita, mas... eu tenho uma colega dos tempos do colégio, é a Elisa, a mãe dela estudou com a minha mãe também. Ela me procurou hoje acompanhada de uma senhora chamada Rita, que tem uma filha de 19 anos. Bom...ela está enfrentando sérios problemas com essa filha que não sai do quarto, quase não se alimenta, não faz mais nada, além de ler, assistir filmes românticos e escrever em um diário. _E... _É aqui que você entra na história... _Eu? _A Rita encontrou uma foto debaixo do travesseiro da filha e como não reconheceu a pessoa da foto perguntou para a Elisa, que é muito amiga da filha dela, e ela disse quem era a pessoa que estava na foto. _Letícia, desenrola isso logo, daqui a pouco vai começar o nosso ensaio- disse Leonardo impaciente. _Tá legal. A Elisa disse que o rapaz da foto se chamava... Leonardo. _O quê? _É isso mesmo. A garota tem uma foto sua, bom... a Elisa disse 242 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão que na verdade não é só uma. _Mas por que essa garota teria uma foto minha? _A Elisa contou que a Lúcia, este é o nome da garota, fez o primeiro ano da faculdade de direito no ano passado, na mesma faculdade que você. _Eu tive algum contato com ela? Não lembro de nenhuma garota com o nome de Lúcia e também se ela estava no primeiro ano... não tínhamos contato com o pessoal do primeiro ano. _Você está certo, não a conhece. A questão é que ela cismou com você. _Cismou? _A Elisa disse que desde a primeira vez que a Lúcia te viu ela ficou... obcecada por você, tanto que ela desistiu de estudar só porque você não estaria lá. _Letícia, você só pode estar brincando comigo. Não estou acreditando nisso... a minha vida já está tão complicada e aparece mais isso? _O que aconteceu? É sobre você e a Suzana? _É, um dia eu converso com você sobre isso, mas... e aí? _A mãe dela pediu, não... a palavra é... implorou que eu leve você até a casa dela, ela tem esperanças que ao vê-lo a filha reaja. _Meu Deus! O quê? Letícia... eu não sei se isso é conveniente. _Eu vou com você, quem sabe dá pra ajudá-la e... _Mas como pode uma coisas dessas? Ela nem me conhece. _Léo, ela é uma garota muito inteligente, sempre se destacou nos estudos, mas também era só isso. Ela é muito retraída, se mantém sempre distante das pessoas. Ela sofre de depressão. _E se a minha presença complicar ainda mais as coisas, hein? _A mãe dela acha que vê-lo poderia ajudá-la. Vamos lá depois do ensaio, ela mora em um apartamento aqui em São Caetano mesmo. 243 Tânia Gonzales Participaram do ensaio da orquestra e poucos minutos antes do meio-dia estavam em frente a um edifício de alto padrão. _Vamos lá e que Deus nos ajude- disse Leonardo. Letícia fez uma ligação e em poucos segundos Rita estava na portaria para recebê-los. _Rita, este é o Leonardo- disse Letícia. _Leonardo, lhe serei eternamente grata, a Lúcia está tão distante, não consigo conversar com a minha própria filha. _A senhora não precisa me agradecer, podemos vê-la agora?perguntou Leonardo querendo sair daquela situação o mais rápido possível. Entraram em um apartamento amplo e muito bem decorado. Rita pediu para que a acompanhassem até o quarto da filha. Era um lindo quarto decorado com móveis requintados, porém delicados, havia aparelhos eletrônicos de última geração, era um ambiente moderno e alegre que contrastava com a tristeza da jovem que estava sentada em sua cama escrevendo em um diário. _Filha, olha só quem veio visitá-la. Lúcia não demonstrou qualquer reação, parecia que continuava sozinha em seu quarto. _Lúcia, minha filha, ele veio visitá-la... o rapaz da foto. Ao ouvir isso, Lúcia levantou a cabeça rapidamente e olhou em direção à porta onde estavam: Leonardo, Letícia e Rita. Fixou o olhar em Leonardo e permaneceu assim por alguns segundos. _Oi, Lúcia, eu vim até aqui para vê-la, como você está? perguntou ele para iniciar uma conversa. Lúcia continuou olhando para ele por mais alguns segundos, então de repente disse: _Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um sonho- repetia sem parar. 244 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _É claro que eu existo. Lúcia, a sua mãe está muito preocupada, você precisa se alimentar. Ela continuou olhando para Leonardo, era como se só ele estivesse ali. _Você está aqui. Estou dormindo... é isso mesmo... é um sonho. Não quero acordar. _Lúcia, você não está dormindo, eu estou aqui para ajudá-la- disse Leonardo com uma voz bem mansa. _A sua voz é tão doce... sinto uma paz... meu anjo. É isso, você é um anjo. Por que você se afastou de mim? Você sumiu. _Lúcia, você faria um favor para mim? _Qualquer coisa. Por alguns segundos, Leonardo ficou em silêncio, contemplando aquela jovem à sua frente. Lúcia era uma bonita garota de 19 anos, que no momento estava com o peso abaixo do ideal por se alimentar pouco; seus cabelos, castanho escuro, estavam curtos e com uma franja que lhe dava um aspecto de garotinha frágil e carente; os olhos azuis claríssimos não se desviaram uma única vez de Leonardo. _Lúcia, a sua mãe vai trazer-lhe o almoço e eu quero que você se alimente, estamos combinados? _Sim. Rita afastou-se rapidamente para providenciar a comida da filha. Letícia, encostada na porta do quarto, por um momento pensou em acompanhá-la, mas resolveu ficar com o amigo diante da situação incomum. _Por que você se afastou?- perguntou Lúcia ainda sem desviar os olhos dele. _Lúcia, eu não sei do que você está falando? _Eu... eu fui por várias semanas e você não apareceu mais... _Leonardo, eu acho que ela está falando sobre a faculdade245 Tânia Gonzales interveio Letícia. Parecia que Lúcia não podia ouví-la, pois continuou com o olhar fixo em Leonardo esperando pela explicação dele. _Ah... eu terminei a faculdade, era o meu último ano. _Terminou sua missão? Não... não faça isso comigo, eu preciso muito de você, preciso que você me proteja... que cuide de mim. Por um breve momento, Leonardo pensou em abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que ela não precisava se preocupar, mas resolveu ficar onde estava, era melhor agir com cautela, por não saber qual seria a reação dela. Lúcia, com o olhar fixo nele, continuava sentada em sua cama. Leonardo não sabia o que dizer, por isso ficou em silêncio, sentiu um grande alívio quando Rita voltou com a refeição da filha. _Filha, veja que delícia, fiz o seu macarrão favorito- disse Rita. A garota nem se mexeu, continuou olhando para Leonardo sem dizer uma palavra. _Lúcia, lembra do que nós combinamos? Você concordou em se alimentar- falou Leonardo. Ao ouví-lo, Lúcia levantou-se e pegou o prato das mãos de sua mãe; começou a comer imediatamente, ali como estava, em pé. _Sente-se, por favor- pediu Leonardo apontando para uma delicada cadeira. Próxima à cadeira havia uma pequena mesa, Lúcia colocou o prato e reiniciou o almoço. Rita não conteve as lágrimas pois há meses que não via a filha se alimentando de verdade. Nos horários das refeições as duas sempre discutiam muito, pois Lúcia dava só uma ou duas garfadas e já afastava o prato dizendo estar sem fome. Em poucos minutos o prato de Lúcia estava vazio. _Obrigado, Lúcia, isso foi ótimo. Eu quero lhe propor um acordocomeçou Leonardo que durante os minutos em que acompanhou a 246 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão garota se alimentando, ficou orando em pensamento, pedindo a Deus sabedoria- Eu prometo voltar daqui a quatro dias se você prometer que vai se alimentar direitinho. Você aceita? _Aceito- respondeu Lúcia sem hesitação. _Fico feliz. Então, eu vou ligar para sua mãe na quinta-feira e se ela me disser que você cumpriu a sua parte no acordo eu volto aqui para vê-la. Agora eu preciso ir. Lúcia, fique com Deus. _Espere um pouco- pediu Lúcia para em seguida pegar uma foto debaixo de seu travesseiro- Veja... Leonardo olhou para a foto que a garota mostrava, era ele durante algum intervalo na faculdade, em seguida Lúcia tirou a fronha do seu travesseiro, que na verdade era uma almofada e Leonardo pôde ver o seu rosto estampado nela. Por alguns segundos, ele não soube o que fazer ou dizer, pois era algo que ele absolutamente não esperava. _Tudo bem, Lúcia, eu já vi. Agora eu preciso mesmo sair. Tchau. Rita acompanhou-os até a porta dizendo: _Eu não sei como posso agradecê-lo, você não sabe o alívio que me deu ao ver a minha filhinha comendo com tanto apetite! Deus o abençoe! _Que isso, dona Rita, não me custa nada ajudá-la. Bom... eu ligo para a senhora na quinta. Uma boa tarde. _Boa tarde, dona Rita. _Obrigada por tê-lo trazido, muito obrigada. Os dois amigos não trocaram uma única palavra até entrarem no carro. _O que foi aquilo? - perguntou Letícia. _E eu sei? Ah... só Deus sabe o que se passa na mente das pessoas... que situação! _Você é o ídolo dela, é isso! Ela estampou a sua foto em uma 247 Tânia Gonzales almofada! Ai, meu amigo, você está na profissão errada, deveria ser um psicólogo. _Letícia, por favor, não conte isso para ninguém. _Você não vai contar para a Suzana? _É claro que não. Temos nossos próprios problemas. Por favor, a Suzana não pode nem imaginar uma coisa dessa! _Tudo bem, mas eu não sei se você vai conseguir esconder isso por muito tempo. _Leca, minha amiga, eu preciso que você me ajude. Agora, vou deixá-la em casa, preciso buscar a Suzana. _Leonardo, só quero pedir uma coisa: fique esperto com a minha mãe, tá? _Sua mãe? Por quê? _Bom... ela não está nada satisfeita com o seu namoro, me disse umas coisas absurdas... _Que coisas, Leca? _Não importa, só fique esperto, eu não quero que você se machuque, você sabe o quanto eu gosto de você, meu irmãozinho! _Eu também adoro você. Não vai dar para conversarmos, mas depois eu vou querer saber tudo com detalhes. Tchau, amiga. 248 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 23- Namoro curto Suzana já estava esperando em frente à loja quando Leonardo se aproximou. _Me desculpe, foi uma correria para chegar até aqui!- explicou Leonardo dando-lhe um beijo no rosto. _Não tem problema, eu esperei só uns cinco minutinhos. Vamos almoçar? Durante o almoço, conversaram sobre vários assuntos, menos sobre o relacionamento dos dois. _Leonardo, eu disse que precisava conversar com você- disse Suzana ao caminharem até o estacionamento. _Suzana, por que você não deixa esse assunto para outro dia? _Não, eu preciso falar. _Olha, se é sobre o nosso treinamento, esqueça, por enquanto ele está suspenso. _Suspenso por quê? Já desanimou? É isso não é? _É claro que eu não desanimei, entre - pediu Leonardo e assim que se acomodaram dentro do carro continuou- eu não pensei que isso seria um peso pra você. Eu achei que seria bom para você se acostumar comigo, mas está tão ansiosa... ontem você estava com raiva de si mesma por não conseguir e não é isso o que eu tinha em mente quando lhe propus o “treinamento”; era para ser algo muito tranquilo, suave e até romântico. E foi isso o que aconteceu no parque, mas agora você fica se cobrando como se tivesse uma data marcada. Quem estipulou data? Isso é algo entre nós dois. Eu tenho toda a paciência, eu espero, quando você estiver pronta... _Se alguém nos ouvisse nunca iria imaginar que estamos falando sobre um simples beijo. Isso chega a ser ridiculo... não por você, 249 Tânia Gonzales mas por mim. _Para com isso. Eu já disse que é algo entre nós. Se nenhum casal passou por isso, não me interessa. Como você complica as coisas. _Por isso mesmo que é melhor nós acabarmos com isso. _Acabarmos com o quê? _Com o nosso namoro. O namoro mais … _Mais o quê? _Mais nada a ver que já existiu, é isso! Leonardo, namore com alguém que... _Não me venha com esta conversa, Suzana. Nós só estamos namorando há uma semana. _É isso mesmo, eu não sou sua namorada, sou uma amiga. Eu sei que nunca vou conseguir e não me pergunte por que eu sei disso. _O nosso namoro é um peso pra você? O meu objetivo era fazê-la feliz, mas se … Suzana, você está infeliz com nosso namoro ? Suzana não gostaria de magoá-lo, mas se essa fosse o única maneira dele aceitar o fim do namoro... _Sim. Eu quero acabar com isso agora, é melhor, antes que passem semanas, meses... _Você tem certeza disso? _Tenho, me desculpe, mas eu prefiro terminar agora. Ele já começou errado. Você nem havia falado comigo e pediu permissão ao meu pai na frente de todos da minha família... eu fui obrigada a aceitar. Vê? Não tem como dar certo. _Se é isso o que você deseja... eu... concordo. Leonardo deu a partida no carro e dirigiu em silêncio até a casa de Suzana que virou-se para a janela para que ele não percebesse suas lágrimas; assim que ele parou o carro, ela desceu sem dizer nada. Suzana entrou em casa e sentiu-se aliviada por não encontrar 250 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão ninguém, por certo estavam na casa da tia Marisa. Apressou-se até o seu quarto e deixou-se cair na cama. Alguns minutos se passaram até que vovó Vivi entrou no quarto. _Aí está você. Muita cansada, querida? _Estou com dor de cabeça- disse Suzana, não mentindo mas também não revelando o motivo daquela dor repentina. _Quer tomar algo? Está quase na hora de irmos para o culto, o Leonardo deve chegar... _Ele não virá. Vó, eu não vou ao culto hoje. _Aconteceu alguma coisa? _Eu estou muito cansada. _Suzana, fale comigo, o que aconteceu? Você estava chorando, não estava? _É por causa da dor... eu preciso descansar. _Tudo bem. Eu vou ficar com você. _Não precisa, vó. Pra que faltar ao culto? É só dor de cabeça e cansaço, só preciso dormir. Amanhã recomeçam as aulas eu preciso estar bem. Vovó Vivi percebeu que havia alguma coisa errada, mas deixou a neta descansar e decidiu que se tivesse uma oportunidade, conversaria com Leonardo. Foram ao culto sem Suzana e Marina que estava de plantão no hospital naquele domingo. Suzana chorou muito ao lembrar da primeira vez que viu Leonardo e ao pensar em como ele soube conquistá-la. Ele era tão gentil e amável. Foi até a lavanderia e pegou Meg, colocou-a em seu ombro e ficou acariciando-a, estava com os olhos marejados e o coração partido.“ É melhor assim, ele não merece alguém com um passado tão triste como o meu, eu nunca vou conseguir superar e ele sofreria muito ao meu lado. Se para dar um beijo é tão complicado, o que eu faria se chegássemos até o 251 Tânia Gonzales matrimônio?“ Após o culto, vovó Vivi ficou observando os jovens que saíam na esperança de ver Leonardo, de repente avistou Letícia. _Minha querida! Você viu o Leonardo? _Ele estava conversando com o pastor Pedro Gabriel. E a Suzana? _Ela não veio hoje, estava com dor de cabeça. Letícia conversou com vovó Vivi por mais alguns segundos e em seguida despediu-se dela pois iria embora com o pai que seguia as recomendações da esposa. Sandra o fez jurar que ficaria de olho na filha. Leonardo ficou satisfeito ao saber da conversa franca que o pastor teve com Paulo Reis e bem como a de Rute com Regina; mas estava muito desanimado, pois não conseguia pensar em outra coisa a não ser no término de seu curto namoro com Suzana. Saber que ela estava infeliz com ele o magoou muito, pois tudo o que ele queria era fazê-la feliz.” Se eu não tivesse inventado de pedí-la em namoro agora nós ainda seríamos amigos; era tão bom poder buscá-la e passar alguns momentos com ela! Agora nem isso eu vou ter mais!”- lamentou. Em Poços de Caldas, Sandra aproveitou que estava dividindo o quarto com a amiga Lígia, para conversar com ela sobre Suzana. _Lígia, você sabe o quanto a nossa amizade é importante para mim e é por isso que eu tenho que contar-lhe algo sobre a família da Suzana. _O que você tem para me contar sobre a família dela, Sandra? _Ah, amiga, é um assunto chato, mas, como o Leonardo está de namoro com ela eu tenho a obrigação de avisar em que tipo de família ele está entrando. _Ai, Sandra, você está me assustando! 252 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _É de se assustar mesmo. Lígia, o pai da Suzana ficou preso durante quase três anos por agredir um homem. _O quê? _É isso mesmo. O homem era patrão dele e tinha um problema na perna e por isso usava uma bengala, pois o pai da Suzana o feriu com a própria bengala, ele foi parar no hospital, ficou na U.T.I de tanto que apanhou. Eu sei disso porque a Marisa procurou o Fernando no escritório para saber se ele tinha algum amigo que fosse advogado lá em BH, pois ela queria ajudar o cunhado. _E o Rafael não ficou sabendo disso? _Só por cima, na época ele estava com um processo complicado que ocupava todo o tempo dele, mas o Fernando chegou a comentar com ele. Lígia isso não faz muito tempo... uns cinco ou seis anos. O Fernando indicou um amigo dele. Eles devem ter se mudado para cá por causa disso. _Sandra... que história estranha! Qual o motivo para agir com tanta violência? _Lígia, o motivo é o que menos importa, a questão é: você quer que seu filho tenha um ex-presidiário como sogro? Quer alguém violento desse jeito tendo contato direto com o seu filho? Eu não estou contando isso para atrapalhar a vida do Leonardo, eu só quero que ele seja feliz. Naquela noite foi difícil para Lígia conseguir dormir, as palavras de Sandra não lhe saíam da cabeça. “Será que Leonardo sabe desta história sobre o pai de Suzana? O pior é que ele está tão apaixonada por esta garota...”- constatou com tristeza pois nunca vira o filho tão interessado em alguém antes. Era uma linda manhã de segunda-feira, Leonardo estava no escritório organizando alguns documentos, olhou para o celular, 253 Tânia Gonzales eram dez e meia, pensou em Suzana; no dia anterior, após chegar do culto, sentiu uma vontade imensa de ligar para ela, mas não cedeu, se o namoro deles fazia mal para ela era melhor se distanciarem, pensou, só que ele sabia que seria muito difícil ficar longe dela, pois já estava com saudades só de imaginar que não a buscaria naquela noite. Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do celular. _Alô? Oi, minha irmã querida, como está a grávida mais linda do mundo? _Oi, meu irmãozinho lindo, estou melhor, mas ontem me senti tão mal! Léo, eu estou com medo que aconteça alguma coisa com o bebê... vou completar 3 meses nesta semana. _Fique tranquila! Pare de se preocupar; esse bebê vai ser tão paparicado! A mamãe quase que não viajou por sua causa. _Eu sei, ela já me ligou várias vezes. Esta tão ansiosa para ser avó quanto eu para ser mãe. O Bruno dormiu tão mal esta noite, só ficava me perguntando se eu estava bem. Leonardo conversou por mais alguns minutos com a irmã e depois foi até a sala de seu pai para levar-lhe os documentos que havia separado. Suzana passou a manhã inteira pensando em Leonardo; saber que não teria a companhia dele logo mais à noite muito a entristecia, mas era ela mesma que havia provocado isso ao terminar o namoro. Como ela gostaria de poder relacionar-se com ele sem medo ou receio, sem ser atormentada pelo passado. Eram nove e vinte da noite, constatou Leonardo olhando com desânimo para o relógio. “ Quem será que vai buscá-la? E se eu … não... é melhor eu respeitar a decisão dela; mesmo que seja difícil eu tenho que aceitar que o nosso namoro acabou. 254 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana não contou para a sua família que o seu namoro havia terminado, por isso foi para casa sozinha naquela noite de segunda-feira. Estava torcendo para que ninguém a visse chegar e foi exatamente isso que aconteceu. Ao entrar, cumprimentou o pai que estava assistindo TV e foi para a cozinha onde encontrou a mãe e a vovó Vivi. Conversou alguns minutos com elas, e a seguir foi tomar um banho quente. Sentiu-se aliviada por conseguir esconder a tristeza que invadia o seu coração e por não perguntarem nada sobre o horário que ela chegou. No dia seguinte ela estaria de folga do trabalho, iria aproveitar para fazer uma visita à Paulinha. 255 Tânia Gonzales Capítulo 24 -Tristeza e alegria Suzana acordou cedo e foi para a faculdade, onde passou mais uma manhã sem conseguir parar de pensar em Leonardo, estava bem difícil se concentrar nas aulas. “ Aquele sorriso lindo, o jeito dele me olhar, a voz...” Suzana estava saindo da faculdade quando seu celular tocou, por um momento desejou que fosse ele dizendo que a estava esperando. _Oi, tudo. Qual é o hospital? Ah... meu Deus, que pena Lê! Letícia deu-lhe uma triste notícia: Beatriz estava internada e havia perdido o bebê. Suzana resolveu ir até o hospital pois a amiga lhe informou que Leonardo estaria lá. Chegou lá quase duas horas da tarde. Resolveu ligar para o celular de Leonardo. _Suzana? O quê? Você está aqui no hospital? Eu vou buscar a minha mãe na rodoviária. Tudo bem. Após cinco minutos, Suzana encontrou-se com ele no estacionamento do hospital. Olharam-se por alguns segundos até que Suzana disse: _Eu posso ir com você? _Pode, é claro... então... vamos, ela deve chegar às três horas. Entraram no carro, Leonardo abaixou a cabeça e disse: _A Bia está arrasada! Não dá para entender... - a emoção embargou suas palavras. Leonardo continuou de cabeça baixa e Suzana percebeu que ele passava a mão no rosto discretamente para enxugar as lágrimas que insistiam em cair. Ela se aproximou dele e começou a acariciar-lhe os cabelos, dizendo: _Eu sinto muito... Leonardo... eu sinto muito. 256 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana levantou-lhe a cabeça, puxou-o para perto e beijou-lhe o rosto com carinho, em seguida tocou os lábios dele com os seus e por alguns segundos ela permaneceu assim, cobrindo-o com pequenos beijos nos lábios...com os olhos cerrados, Leonardo estava inerte, só sentindo a ternura daquele momento, até que Suzana, sem parar com os suaves toques nos lábios, apertou a mão dele com força, então ele compreendeu o que deveria fazer... movimentou os lábios que até então estavam parados e a beijou suavemente... mas como os dois ansiavam por aquele momento, logo o primeiro beijo deles se transformou em algo mais intenso, cálido. Com receio de assustá-la, Leonardo afastou-se bem devagar acariciando o rosto daquela garota que mexia com o seu coração. Os lindos olhos verdes estavam marejados, mas nos lábios havia um lindo sorriso. Leonardo a fitava com um olhar terno e também com um sorriso em seus lábios. E assim permaneceram por alguns segundos, como se as palavras pudessem quebrar o encanto daquele momento. _ Bom... precisamos ir até a rodoviária. - disse Leonardo. _ Você está certo. _Como você ficou sabendo? E o seu serviço? _A Letícia me ligou quando eu estava saindo da faculdade e hoje estou de folga. _ Entendi. _O que aconteceu com a sua irmã? _Ela passou muito mal logo pela manhã, foi ao banheiro e … perdeu muito líquido, ela chamou pelo Bruno e eles foram para o hospital, mas, infelizmente, quando chegaram não havia mais nada para fazer. Estavam tão felizes... era um bebê muito esperado... a Bia está muito desanimada. É a terceira vez... 257 Tânia Gonzales _É tão difícil entender quando essas coisas acontecem... é tão triste. Nós confiamos em Deus, mas é complicado compreender os seus caminhos. E a sua mãe já sabe? _Não. O meu pai achou melhor falar pessoalmente. _Então, é você que irá dar a triste notícia. Cinco minutos após Leonardo e Suzana chegarem à rodoviária, o ônibus de Lígia e Sandra estacionou. _Meu querido, que bom vê-lo- disse Lígia beijando o filho. _Seja bem-vinda, minha mãe, oi, Sandra, tudo bem? Como foi a viagem? _Oi, Leonardo, passamos dias maravilhosos- respondeu Sandra. _Vocês são maravilhosas, facilitam as coisas – disse Leonardo ao apontar as malas com rodinhas. Só então as duas mulheres viram quem estava com Leonardo, pois Suzana estava esperando um pouco afastada do fluxo de pessoas, apesar de ser um dia normal a rodoviária estava bem movimentada. _Mãe, a Suzana veio comigo. _Como vai, Suzana? - perguntou Lígia um pouco sem graça, por lembrar da conversa com Sandra. _Estou bem e a senhora? Oi, Sandra. _Estou bem, graças a Deus, vamos filho?- foi a resposta de Lígia. Sandra não disse uma palavra só fez um movimento com a cabeça e deu um sorriso forçado. _Filho, eu não consigo falar com a Beatriz, a última vez que conversei com ela foi ontem à noite. Até com seu pai está difícil falar, ele desligou tão rápido, só me informou que você viria nos buscar, depois não consegui mais falar com ele. Como que ela está? _Vamos entrar no carro primeiro? É chato ficar conversando assim 258 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão com todo esse movimento - disse Leonardo segurando a mão de Suzana com mais força. _E então, agora você pode me dizer o que está acontecendo? perguntou Lígia com ansiedade, quando já estavam dentro do carro. _Calma, mãe; a Bia está internada. _O quê? Por que vocês não me avisaram? Desde quando? _Desde hoje de manhã. Mãe... _Mas, como ela está? O que aconteceu? _Fique calma, mãe, por favor... mas eu não tenho boas notícias... ela … perdeu o bebê. _O quê? Não... não pode ser... filho... como foi acontecer isso? Por que vocês não me ligaram? Lígia começou a chorar e Sandra a abraçou tentando consolá-la. _Ela passou mal logo pela manhã e foi ao banheiro, bom... saiu uma grande quantidade de líquido e … quando chegaram ao hospital... _ Ela deve estar tão mal! Coitada da minha filhinha... estava tão feliz! _ Vamos direto ao hospital, está bem? _Claro que sim... Sandra, você quer que o Leonardo a deixe em casa? _Não, eu vou com vocês ao hospital. Lígia encontrou-se com o marido à entrada do hospital, ele a abraçou com carinho e ficaram assim por alguns instantes. _Rafael... como isso foi acontecer? Por que Deus não... _Calma, minha querida, não fale nada... vamos até o quarto dela, ela está muito ansiosa para vê-la. _Você almoçou? - perguntou Leonardo para Suzana ao ver a mãe 259 Tânia Gonzales se afastar. _Eu comi um lanche. _Lanche? Me desculpe, só agora que eu pensei nisso. Você veio direto da faculdade e... _Não se preocupe. E você almoçou? _Eu comi um pouco, estava sem apetite. Eu acho melhor levá-la para casa, agora a minha mãe vai ficar lá com a Bia e é melhor que as duas tenham um pouco de privacidade; não vai adiantar ficarmos aqui. Sandra, quer uma carona? _Eu vou esperar um pouco, quero ver a Beatriz- respondeu Sandra que até então estava observando os dois conversarem. Despediram dela rapidamente e saíram. Sandra ficou olhando para os dois até desaparecerem de seu campo de visão. Muito lhe desagradava ver Leonardo de braços dados com aquela garota. No quarto do hospital, mãe e filha se abraçavam e choravam muito. Era um duro golpe para ambas. Lígia havia passado por isso duas vezes antes de se alegrar com o nascimento de Beatriz; sabia muito bem como doía perder alguém que já significava tanto mesmo antes de nascer. Como ela gostaria de poupar a sua filha de tão grande sofrimento, mas a única coisa que podia fazer era consolá-la. _Mãe, eu não entendo... por que Deus não me permite ser mãe? Por quê? O que eu fiz de errado? Qual o motivo para ele me punir dessa maneira? _Minha filha, pare com as perguntas pois eu não tenho as respostas … minha querida... eu sinto tanto! Eu não sei como pôde acontecer isso... não sei o porquê... só sei que amo você e vou ajudá-la a superar isso, conte comigo, minha querida! _Ah... mãe... eu sei o quanto a senhora gostaria de ser avó... me perdoe por não ser capaz. 260 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Beatriz, você não tem que pedir perdão, querida, você não tem culpa de nada. _O Bruno estava tão feliz... ele casou com a pessoa errada. Eu nem posso dar um filho para ele. _Filha, não fale assim. O Bruno a ama tanto, ele ficaria muito triste ao ouvir isso. Agora tente descansar. Eu vou ficar aqui bem pertinho de você. _ A Suzana precisa se alimentar, vovó!- avisou Leonardo ao entrarem na casa de Suzana. _E ele também- completou Suzana. _Isso não é problema, vou preparar uma comidinha para vocês. _Não precisa se preocupar comigo- disse Leonardo. _Preciso sim, pode sentar e ficar à vontade. _Eu vou tomar um banho- disse Suzana dando um sorriso para Leonardo. _Que pena a sua irmã ter perdido o bebê, agora ela precisa de muito carinho para superar... por três vezes, não é fácil! Você espera com tanto carinho, a expectativa é tão grande, e de repente precisa voltar novamente ao ponto inicial. Só Deus para consolála- disse vovó com tristeza na voz- Você vai precisar esperar mais um pouco para ser tio. _É uma situação muito difícil, se doí em mim, imagine a dor que a minha irmã está sentindo, ela estava tão feliz... _É querido, existem coisas que nunca vamos conseguir entender. Há tantas mulheres que abortam por não querer o bebê, por achar que uma criança atrapalharia a sua vida, enquanto outras dariam tudo para serem mães e não conseguem. Alguns minutos depois, Suzana voltou, então ela e Leonardo saborearam a comida da vovó. Após a refeição, como Suzana havia comentado com Leonardo 261 Tânia Gonzales que gostaria de fazer uma visita para Paulinha, ele a levou até a casa dela. _Eu vou deixar vocês duas conversando e dar um pulinho até em casa para tomar um banho- avisou Leonardo- Daqui a pouco eu volto para buscá-la. _Tudo bem, eu espero. _Tchau, Léo. Pode ir tranquilo, gato- disse Paulinha piscando para ele, e assim que ele saiu disse: Não precisa ficar com ciúmes, Suzana, eu adoro o Léo, mas infelizmente perdi a minha oportunidade, agora ele é todo seu; pensa que eu não percebi o jeito que ele olha pra você? Um olhar tão apaixonado! Você é uma sortuda! _Paulinha... _Não precisa ficar com vergonha, e só peço uma coisa: não o perca. Não faça como eu, que fui uma boba, eu sei que perdi muito, ele é tudo de bom! Hum... tudo de bom! Pode crer. Eu percebi que você não está gostando desse papo, tudo bem... eu fiquei muito chateada com o que aconteceu com a Bia, é muito triste, né? “Pô” como que foi acontecer isso? _É um momento muito difícil para todos eles, a dona Lígia chegou hoje de viagem e recebeu esta notícia tão triste! _Poxa! É muito chato... o pior é ter coragem para ficar grávida de novo, após três abortos! Suzana e Paula continuaram conversando até que Leonardo voltou. _Se comportaram bem na minha ausência? _É claro, “tá” pensando o quê? Você, hein? Como conseguiu voltar mais lindo ainda?- brincou Paulinha. _Que isso, são os teus olhos! Você é que está linda, aquela sua cor rosada já voltou ... estou feliz por você estar seguindo direitinho a dieta. 262 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu estou, nossa... que alívio, estava me sentindo tão fraca, era horrível! Mas, graças a Deus , aos amigos que ele me deu e é claro à minha família, eu estou melhorando a cada dia. E você é o principal culpado por eu estar assim- disse segurando na mão dele. _Quero sempre ser culpado por isso. _E depois eu quero ter uma conversa com você sobre aquele assunto, “tá” , meu gato?... - disse Paula se referindo aos pais. _Ah... tudo bem. Agora nós precisamos ir, fique com Deus, minha linda. _Tchau, Paula, fiquei muito feliz por vê-la tão bem- disse Suzana. _Obrigada pela visita, vou acompanhá-los, a minha mãe vai ficar muito triste por não vê-lo, gato, você sabe o quanto ela gosta de você. _Agora são oito horas, quer dar uma passada no hospital comigo?perguntou Leonardo ao entrarem no carro. _Eu quero, quem sabe eu consigo ver a sua irmã dessa vez. _Claro que sim. Mas, por causa do horário, só dá para ficarmos um pouquinho. _Você e a Paula... _Que foi? Ficou com ciúmes? _Não é isso... é que parece que vocês dois ainda não se acostumaram com a ideia de que não são mais namorados... _Por quê? O que fizemos de errado? _Não... é só... nada, esquece. _Que coisa mais fofa! Você com ciúmes fica ainda mais linda! _Para com isso... é que é um tal de meu gato e de minha linda... Ao ouvir isso, Leonardo riu com vontade. _Você acha engraçado? Pois é isso mesmo. _Que gostoso, você com ciúmes de mim! Adorei! Ei... não pense isso... olha, é só nosso jeito de tratar um ao outro, mas não tem 263 Tânia Gonzales nada a ver, ah... minha princesa! _Vamos parar com isso? _Tudo bem, mas foi você quem começou! E falando em começar... é que nós ainda não conversamos sobre o que aconteceu no estacionamento do hospital. _É... o que você acha de deixarmos isso pra depois? _Se você prefere... mas eu posso considerar o nosso namoro reatado, não é? _É... pode sim. _Uau! Ótimo! Você me fez muito falta, sabia? Foram só dois dias, mas só de pensar que tudo estava acabado entre nós... _Eu também senti saudades. _Pena que eu estou dirigindo, senão... Poucos segundos depois, Leonardo entrou no estacionamento do hospital. _Boa noite, Bruno, e aí, meus pais já foram? _Oi, Leonardo. Faz uma hora mais ou menos que eles saíram. A Bia está no banheiro. Oi, tudo bem?- disse Bruno cumprimentando Suzana. _Oi, eu sinto muito, Bruno, se eu puder ajudar... _Obrigado, a sua presença aqui ajuda muito, faz bem saber que as pessoas se importam. _Oi, meu irmãozinho, que bom que você veio com a Suzana... -disse Beatriz. _Oi, Bia, não era a minha intenção que vocês duas fossem apresentadas em um hospital, mas... esta é a Suzana, minha namorada, e Suzana esta é a minha irmã, Bia. _Beatriz, eu gostaria de saber o que dizer para você em um momento tão difícil! As duas se abraçaram e deixaram as lágrimas caírem livremente. _Suzana, eu agradeço por você estar aqui e por fazer o meu irmão 264 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão feliz. Ele estava doído para ser tio, mas não foi desta vez, o papai do céu não quis... eu não sei o porquê, mas preciso aceitar a vontade dele. _Beatriz, Deus vai lhe dar forças para suportar... não sabemos as respostas para todos os nossos porquês, mas mesmo assim devemos confiar Nele. _Você tem razão. Eu quero que você marque um dia para ir lá em casa, tá? Amanhã eu já estarei lá, então combine com o Léo. Às nove horas se despediram e em quinze minutos chegaram à casa de Suzana. _Posso entrar um pouquinho, só até a garagem? _Pode. Ainda é cedo. Entraram e por alguns segundos os dois ficaram se olhando... _Você vai ficar assim longe de mim? Suzana? Está tímida, por quê? _Não é timidez... é só que eu não... não sei o que fazer. _Vem aqui, vem... podemos repetir o que aconteceu no estacionamento do hospital? _Ah... eu acho que sim. _Você quer? _É... você tinha que fazer esta pergunta? Por que você simplesmente não se aproxima e... _E... faz isso? É isso? É? - perguntava Leonardo enquanto se aproximava dela e beijava-lhe os lábios com carinho. _É - respondeu Suzana correspondendo àqueles pequenos beijos. _Só isso? - provocou Leonardo, sem parar com os selinhos- Posso parar? _Ah... não, não pode. _Como eu fico feliz em ouvir isso desta boca linda e doce. E essas foram as últimas palavras dele antes de beijá-la com 265 Tânia Gonzales ternura. _Você tinha tanto medo e agora... viu só? Não havia motivo para tanto receio. -disse Leonardo. _ Eu não pensava que fosse tão... _Tão? _Tão maravilhoso! Tão bom e... _ Não precisa ficar com vergonha de mim, diga. _E... gostoso- ao dizer esta palavra, Suzana desviou o olhar. _Minha princesa, você tem razão, é maravilhoso, bom, gostoso, especial e eu estava ansioso por beijá-la! Seus lábios são doces, meu amor. _Eu... tinha tanto medo, eu fiz você esperar e... _Valeu a pena esperar, como valeu! _Você é tão compreensivo! Eu quero agradecer por... _Suzana, você não vai me agradecer... isso não. _Mas, eu preciso; Leonardo, quando eu estou com você tudo parece ser mais fácil... você é tão gentil e atencioso comigo, antes de conhecê-lo eu tinha a certeza de não querer me relacionar com ninguém, por um motivo que eu não gostaria de contar, é algo muito doloroso para mim. Mas, você com seu jeito especial, me conquistou. _Agora você me deixou sem opção, vou precisar beijá-la, as suas lindas palavras é que provocaram isso. _Eu não vou reclamar. Se beijaram novamente e depois Suzana repousou a cabeça no peito de Leonardo, que acariciava os cabelos dela com carinho e por alguns minutos ficaram assim. _Agora, eu preciso ir, boa noite, minha princesa. _Boa noite, meu príncipe. _Adorei, o meu príncipe. Tchau. 266 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana participou de um lanche com sua família e antes das onze horas estava na cama. Aquele dia fora muito especial para ela, pois havia ultrapassado um obstáculo enorme. Ela sabia que para a maioria das mulheres o primeiro beijo era especial, mas para ela era muito mais do que isso, era uma vitória contra o medo. “ Eu não imaginava que um beijo pudesse significar tanto... pudesse trazer tantas coisas boas, sensações agradáveis... antes, o beijo, para mim, estava relacionado à dor, à algo repugnante, nojento...”ao pensar isso, os lindos olhos verdes ficaram marejados. 267 Tânia Gonzales Capítulo 25- Rindo à toa Ao olhar pela janela de seu quarto, Lígia viu que o filho acabara de chegar, resolveu descer e conversar com ele naquele noite mesmo; pois o assunto sobre o pai de Suzana muito a inquietou. _Que bom que chegou, filho, eu preciso falar com você. _Querida, eu acho melhor deixar esse assunto para amanhã, hoje foi um dia difícil para todos nós- disse Rafael querendo poupar o filho, por já saber do que se tratava. _Que assunto? _Filho, sente-se aqui perto de mim- pediu Lígia- Eu pensei em deixar para outro dia, mas eu estou tão preocupada! Leonardo, eu percebi o quanto você está interessado por aquela garota... _O nome dela é Suzana, mãe. Eu vou trazê-la aqui para... _Não... pelo menos por enquanto. Filho, eu fiquei sabendo de algo muito sério sobre a família dela.. _Sobre a família da Suzana? Mãe, são pessoas excelentes, me tratam muito bem e... _Leonardo... eu quero o melhor para você, meu filho... o pai da Suzana... é um ex-presidiário, ele ficou preso por quase três anos. _O quê? Como que a senhora soube disso? _Filho, você não sabia, não é? Está vendo só? Eles não contaram pra você. _Mãe, isso não é algo que as pessoas gostariam de falar. _Tem razão. Filho, afaste-se desta garota... por favor. _Calma, Lígia! Deixe que ele decida- interveio Rafael. _Quem foi que disse isso? - perguntou Leonardo. _A Sandra, mas... _Ah, eu estou começando a entender, a Sandra não está satisfeita em proibir o namoro da filha, agora ela quer... 268 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Não seja injusto com a Sandra, ela só quer ajudar. _Atrapalhar é isso o que ela quer. Que absurdo! _Filho, você está pensando que ela inventou? Está enganado. Ela sabe disso porque na época a Marisa pediu ajuda ao Fernando, ela queria que ele indicasse um advogado, e foi isso o que ele fez. Um advogado que era amigo de um amigo dele que mora em Belo Horizonte foi quem pegou o caso. _E por que o seu Davi foi preso? _Ele agrediu um homem, bateu tanto que ele foi parar na U.T.I; o pai da Suzana usou a própria bengala do homem que tinha um problema na perna, e o pior é que era o patrão dele. _O quê? Não... o seu Davi não faria uma coisa dessas... ele é um homem tão tranquilo e... _Filho, as aparências enganam, você não lê os jornais, não assiste aos noticiários? Quantos que eram considerados como homens de bem, pais de família e depois se descobre cada absurdo, alguns são até pedófilos! _Mãe, cuidado com o drama... deve haver alguma explicação, se é que isso é verdade. _Querido, termine o namoro com ela... eu tenho tanto medo... pessoas violentas são capazes de tudo e se... _Mãe, ei, calma... eu não posso chegar na Suzana e perguntar isso para ela, então, eu não sei o que fazer. _Lígia, o Leonardo está certo. Não é nada bom ele se precipitar, é preciso saber a verdade. Eu posso conversar com o Fernando. _Pai, o senhor não lembra disso? _Eu sei que o Fernando indicou um advogado atendendo a um pedido da Marisa, isso foi há mais ou menos cinco anos, mas não fiquei sabendo os detalhes. _Meu filho... se afaste dela, você vai encontrar alguém... _Mãe, eu já encontrei na Suzana tudo o que eu queria e não vou 269 Tânia Gonzales deixar que isso atrapalhe o nosso relacionamento. Eu vou dormir, boa noite para vocês, e mãe, vê se dorme, a ansiedade não traz nada de bom, tá? Leonardo estava certo de uma coisa: não conversar com a Suzana sobre o assunto. Os dois estavam vivendo um momento muito especial e ele não iria estragar tudo. _Tem alguém aqui nessa mesa que está radiante hoje! - foi o comentário de Sueli ao ver a irmã toda sorridente; eram seis horas da manhã de quarta-feira. _O quê? Falou comigo? Eu preciso tomar o café rapidinho, senão foi me atrasar para a faculdade, você acordou cedo hoje, hein? _É, hoje eu preciso entrar mais cedo no serviço. Suzana, você está nas nuvens hoje! O que aconteceu? Me conta... bom... com toda a certeza um rapaz alto e bonito tem tudo a ver com a sua alegria! _É... você acertou! _Mas e aí? O que rolou? _ É que aconteceu algo lindo... mas eu acho que não vou contar. _O quê? A minha irmã vai ficar de segredinho, é? Se liga, Suzana! Vai contando e com detalhes. _Detalhes? Não mesmo. Sueli, é que ontem, eu e o Leonardo... nos beijamos pela primeira vez. _O quê? Vocês ainda não … _Não. Você sabe como eu sou para esse tipo de coisa e sabe muito bem o porquê. _Uau! Suzana, e aí? Foi o máximo? Conta. _Foi maravilhoso... mas nada de detalhes, pode esquecer! _Ah, sua chata! Mas, eu fico feliz. Você merece. Coitado do Leonardo, hein? Haja paciência! _Nisso você tem razão. Agora, eu preciso ir, tchau! 270 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Cuidado para não cair por aí! Está nas nuvens! Logo após o almoço, Leonardo ligou para Rita, a mãe de Lúcia, e soube que ela estava cumprindo a parte dela no acordo, por isso ele combinou de passar lá no dia seguinte por volta das duas horas da tarde. Rita agradeceu muito por ele se preocupar com a filha dela. Antes de buscar Suzana no serviço, Leonardo foi visitar a irmã que já estava em casa se recuperando. Lígia também foi com o marido, apesar de ter passado a tarde inteira com a filha. O assunto sobre o pai de Suzana não foi mencionado; Lígia continuava muito aflita, mas havia prometido a Rafael dar um tempo para o filho. _Está vendo? Agora nos cumprimentamos como qualquer casal de namorados- comentou Leonardo após dar um beijo em Suzana. _E isso é ótimo, mas não precisa exagerar, tá? Não gosto de plateia. _Princesa Suzana, agora ficou difícil resistir. _E a sua irmã? _Ela está bem, eu estive na casa dela e preciso levar a minha linda namorada lá, agora só depende de você. _Vamos combinar. Você está bem? Parece preocupado. _ Ontem eu conheci o sabor dos seus lábios como não poderia estar bem, hein? _Pare de falar assim, eu fico com vergonha. _Não... eu só paro se você ocupar a minha boca. _Leonardo, nós estamos no estacionamento de um shopping, aqui não. _Então, entra logo no carro. _Calma, apressadinho! 271 Tânia Gonzales _E agora?- perguntou Leonardo ao entrarem. _Continuamos no estacionamento. _Ah, não seja má, vem aqui, vem... Suzana! _Não. _Não? Você me beijou dentro do estacionamento de um hospital! _Aquilo foi uma emergência. _Emergência? Pois agora também é uma emergência, eu estou morrendo... _Morrendo? _Morrendo de vontade de beijá-la... vem aqui. _Não. _Não? Você é tão insensível! Então, agora sou eu que não vou querer, nem que você me peça de joelhos- disse ele dando partida no carro. _Nossa, que menino bravo! Leonardo? Olha pra mim e... vem. _Oi? Você me chamou? - desligou o carro e olhou para ela. _Chamei. _Ah, pois agora você vai ficar querendo. Fique sabendo que eu não sou desses que cedem facilmente, não adianta fazer esse biquinho lindo e fofo- sem parar de falar Leonardo foi se aproximando até que os lábios se tocaram. _Ainda bem que você não cede com facilidade- brincou Suzana. _Você viu? Eu sou assim... com você, é claro. Agora podemos ir. Naquela noite, Suzana teve um terrível pesadelo... _ Menina linda e teimosa! Eu já não avisei que você é minha? Não há escolha. Você só pode ficar comigo. Acha mesmo que ele iria querer alguém como você? Se ele soubesse iria desprezá-la e você viria correndo para os meus braços fortes. Está com saudades não está? Estou pronto para tê-la novamente... venha... venha. _Não! Me solte! Não... por favor! Não... 272 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Suzana? Suzana? Minha querida... filha? _Mãe? Ah... mãe... eu estou com medo! Por que eu ainda sonho com isso? Por quê? Quando vou me livrar desses pesadelos? Quando? _Eu não sei, minha querida! Fique calma. _Ainda bem que a vovó foi dormir com a tia Marisa! Ela sofre tanto ao me ver assim! _Ah... minha filha! Tente dormir novamente. Eram sete horas da manhã, Lúcia já havia tomado banho e estava toda arrumada esperando por Leonardo. _Lúcia? Já acordou? Você deveria aproveitar para dormir mais um pouco. _Estou esperando o meu anjo. _Ele só vai chegar depois do almoço, vai demorar. _Estou esperando o meu anjo. _Enquanto espera tome o seu café, ele ficará feliz. Lúcia saiu do quarto e foi tomar café com a mãe. Sem dizer uma palavra comeu tudo o que Rita havia preparado, depois voltou ao quarto e ficou sentada escrevendo em seu diário. Ao meio-dia, Rita chamou a filha para almoçar e foi o mesmo ritual: Lúcia sentou-se, fez sua refeição em silêncio, voltou para o quarto e pegou o diário, continuou escrevendo até a chegada de Leonardo. _Oi, Lúcia. Como você está? Eu estou aqui porque você cumpriu a sua parte em nosso acordo. _Meu anjo- disse Lúcia largando o diário. _Você está bem? _Meu anjo, você voltou... você voltou. Lúcia fitou-o com os olhos cheios de lágrimas. Por um momento, Leonardo sentiu uma vontade imensa de abraçar aquela garota frágil, mas conteve-se. 273 Tânia Gonzales _Eu não disse que voltaria? Lúcia, fale comigo... como você está? O que está sentindo? _Eu estou bem porque você está aqui, meu anjo. _Por que você não sai um pouco, faz um passeio com a sua mãe, eu tenho certeza que ela ficaria muito feliz. _Não. _Por quê? _Não posso sair... aqui é o meu mundo. _Há tantas coisas lindas para se ver lá fora... _Não. Há muitas coisas horríveis lá fora, pessoas más... é perigoso... há muita tristeza e sofrimento... Era a primeira vez que ela se expressava dessa maneira, as palavras saíram carregadas de tanto sentimento que Leonardo ficou impressionado. “ O que essas palavras significam? Com certeza não são só meras palavras jogadas ao vento”- pensou ele. _Lúcia, você pode se abrir comigo. Eu estou aqui para ouví-la. _Eu quero ouvir a sua voz... leia algo para mim, por favor, meu anjo. _Você tem uma Bíblia? _Bíblia? A minha mãe deve ter uma. _Então, eu vou falar com ela, já volto. Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita na copa preparando um café. _Eu já ia levar um cafezinho para você. _Obrigado, a senhora teria uma Bíblia, a Lúcia quer que eu leia para ela. _Eu tenho, está no meu quarto... beba um cafezinho enquanto eu vou buscá-la. Leonardo ficou pensando o que leria para Lúcia, fez uma rápida oração pedindo direção a Deus... quando Rita voltou com a Bíblia nas mãos ele já sabia qual a leitura que deveria fazer. 274 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Lúcia, aqui está a Bíblia... eu vou ler: “ Jesus anda por sobre o mar ”15 Leonardo leu pausadamente e com uma voz muito tranquila; durante a leitura, Lúcia ficou com os olhos fechados. _Lúcia, você sabe por que os amigos de Jesus ficaram com medo? _Por causa do vento? _O vento era motivo de preocupação, mas eles ficaram assustados com a aproximação de Jesus, eles pensaram que era um fantasma e começaram a gritar, Jesus acalmou-os dizendo:” Tende bom ânimo! Sou eu! Não temais!”, e quando ele subiu no barco o vento cessou. Lúcia, eu não sei o que provoca medo em você... os discípulos viram naquele que se aproximava, uma ameaça, ficaram atemorizados, mas na verdade, a presença de Jesus iria cessar o vento. Talvez você esteja com medo de quem quer se aproximar de você para ajudá-la. Eu não sei o que aconteceu com você, Lúcia, se quiser me contar eu estarei pronto para ouví-la... mas não impeça que a sua mãe, por exemplo, a alcance... permita que ela se aproxime, quem sabe assim o vento cessa. Jesus entrou no barco e tudo se acalmou. Ele também quer fazer isso na sua vida... não se feche em um mundo só seu, não faça isso. Deixe que a alcancemos. _Jesus enviou você para me ajudar, você é o anjo dele, eu sei. _Você precisa abrir o seu coração... fale comigo, Lúcia, eu estou aqui para ajudá-la. _Eu não quero falar... só quero ouvir a sua voz, ela é tão suave... traz paz... leia mais pra mim. _Tudo bem, eu vou ler um Salmo que é muito conhecido e é o favorito de muitos, é o Salmo 23. Leonardo leu o Salmo 23 por seis vezes seguidas a pedido de 15 Marcos 6.45-52 275 Tânia Gonzales Lúcia, que ficou com os olhos fechados durante todo o tempo da leitura. _Lúcia, agora eu preciso ir, mas eu volto um outro dia, se você prometer que vai continuar se alimentando. Eu vou pedir mais uma coisa. _O quê? _Que você vá tomar sol todos os dias lá embaixo, perto da piscina. Combinado? _Eu não sei... não quero sair daqui. _Por favor, por mim. _Tá bom, meu anjo, mas por que você precisa ir? _Eu preciso trabalhar, eu ajudo o meu pai. _Ah... o seu pai! É... os anjos ajudam. _Eu volto na semana que vem, na terça-feira. Tchau, Lúcia. _Tchau, meu anjo. Leonardo queria muito fazer algumas perguntas para a mãe de Lúcia, a encontrou organizando algumas coisas na cozinha. _Dona Rita, me desculpe, mas eu preciso perguntar-lhe algo. _Fique à vontade, pode perguntar. _Aconteceu algo grave na vida da Lúcia? E o pai dela? Me desculpe se estou sendo indiscreto, mas... _Tudo bem. Eu sou divorciada há mais de sete anos, ele mora em Minas, nós morávamos lá... ele vem aqui a cada um ou dois meses para vê-la. _A Lúcia tem irmãos? _O meu ex-marido tem mais dois filhos. _E ela não tem contato com eles? _Não. São dois meninos, um de 6 anos e outro de 4 anos. _A Lúcia e o pai se... entendem? _O relacionamento entre os dois é bem complicado. Ah... é...bom... é só isso. 276 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _A senhora gostaria de me contar mais alguma coisa? _Não. Eu só quero agradecê-lo, eu sei que você deveria estar trabalhando agora. _Não se preocupe com isso. Eu fiz um outro acordo com ela... Suzana saiu da loja, olhou ao seu redor e avistou um sorridente rapaz, ela retribuiu o lindo sorriso e pensou: “ Como é bom vêlo... tudo se transforma, e até parece que não existe o passado, somente este momento. “ _Boa noite, minha princesa, não imagina a alegria que invade o meu coração ao vê-la se aproximar com a sua beleza ímpar, as minhas pernas chegam a tremer não suportando tanta emoção. _Nossa... fiquei de boca aberta agora! - disse Suzana rindo muito. _Eu estou em um momento especial de inspiração e ela faz o quê? Ri. Mas, se a princesa ficou de boca aberta... eu vou ajudar a fechá-la- ao dizer isso Leonardo beijou-a. _Você não perde uma, né? _Ah... minha amada, como eu poderia perder oportunidade tão... _Tão? O que foi, acabou a inspiração? _Você está tão engraçadinha hoje e eu estou adorando isso. Vamos sair daqui, antes que pensem que estamos representando alguma peça de teatro. E o fim daquela frase é: perder oportunidade tão...ímpar. - ao dizer isso Leonardo riu com vontade. _Beleza ímpar, oportunidade ímpar... para onde foi o seu rico vocabulário? _A futura professora aqui é você... e que professora... ímpar! Eu quero ser o seu aluno. Os dois foram até o estacionamento se divertindo com a brincadeira. Durante o caminho para a casa de Suzana, eles conversaram sobre os preparativos para o evento de domingo. Os grupos estavam 277 Tânia Gonzales trabalhando muito para que tudo estivesse pronto. Teriam o evento para arrecadar fundos para missões e o grupo de Suzana ficou encarregado de fazer Yakissoba e também teriam uma barraca vendendo alguns produtos de artesanato. _ E será que eu posso entrar só um pouquinho, para viver um momento... ímpar com meu par? Suzana nem conseguiu responder, pois começou a rir e não conseguia mais parar. _Eu nunca vi você desse jeito -disse ele. _Que jeito? Jeito ímpar? _Para com isso... fiquei bravo agora... isso magoa viu? Como é que eu vou beijá-la se você não para de rir? _Eu vou parar... eu consigo, pelo bem da humanidade... parei. Leonardo se aproximou dela e acariciou o queixo, as bochechas, contornou os lábios dela com os dedos e quando ia beijá-la... parou e começou a rir sem parar. _Isso é um castigo? - perguntou Suzana- Leonardo? Pronto, agora é você que não para de rir. _Me desculpe, hoje estamos parecendo dois bobos, sabe o que é isso? Felicidade. _Gracinha! Felicidade ím… _Não fala... psiu...você está proibida de falar. _Ím... Leonardo a calou com seus lábios. _Eu vou embora, antes que dê mais algum acesso de riso neste casal... ímpar. - disse Leonardo _Único, sem igual, inesquecível, imensurável, impressionante... _Incomparável, incomum, incrível, inigualável... _Incomensurável- disse Suzana provocando-o. _Humilha! Chega... você venceu! O seu prêmio é... um beijo. O que você acha disso? 278 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu quero o meu prêmio, agora. _Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Como eu sou um rapaz muito ajuizado... Suzana recebeu o seu prêmio. Depois despediram-se rindo muito. _Hoje nós estamos...impagáveis- comentou Leonardo enquanto Suzana abria o portão. _Impagáveis? Ah, não, vamos começar tudo de novo? _Eu vou embora, chega... ah, minha princesa, foi muito divertido... eu amo você. _E eu a você. _Do que você está falando, hein, minha princesa, ímpar? _Não começa... eu amo você, é isso. _Ah, bom... eu queria ouvir com todas as letras. Tchau. Suzana ficou observando o carro se afastar. Entrou na sala de sua casa com um imenso sorriso nos lábios. _Minha filha, que felicidade, hein? _Oi, pai! É... eu estou feliz, mesmo. _Se você está feliz, eu também estou, tenho que agradecer muito ao Leonardo. _Meu pai querido, ele é tão... especial- ao dizer disso Suzana começou a rir lembrando da brincadeira dos dois. _O que foi? _Nada, eu só lembrei de algo engraçado, bom... eu vou tomar um belo banho. 279 Tânia Gonzales Capítulo 26 -De volta ao passado Paulo Reis, desde a conversa com o pastor Pedro Gabriel, estava se esforçando para agradar Regina, nos últimos dias ele havia recusado alguns compromissos para estar com ela. E até programou passar o final de semana só com ela em Campos do Jordão, pois era uma cidade que Regina gostava muito. Saíram poucos minutos depois das sete horas da manhã de sábado. Paula iria passar o final de semana na casa de sua tia Carmem, junto com a prima Aline. Elas tinham alguns preparativos para fazer, pois ambas participavam dos grupos da REMA.16 Letícia e Suzana iriam etiquetar algumas peças de artesanato que seriam vendidas no dia seguinte, por isso fizeram algumas pesquisas de preço em algumas lojas da região. Às dez horas estavam de volta na casa de Letícia. Sandra concordou que elas trabalhassem lá, mas, a presença de Suzana não lhe agradava. _Quase meio-dia, eu preciso ir... é só o tempo de almoçar e sair para o trabalho- disse Suzana. _Estamos quase terminando. Estou adorando passar estas horas com você, estava me sentindo tão só. A minha mãe não me deixa ir na sua casa. _E o Daniel? _Ele é outro cabeça dura. Ele me disse que enquanto os meus pais não aprovarem o nosso namoro, nós temos que nos afastar. Não quer namorar escondido. Ele não está errado, mas... sinto tanta falta dele! _Ah, amiga, eu sinto muito. Coitado do Daniel... ele deve sentir tanta saudades... mas ele está certo, namorar escondido ninguém 16 Rede Melhores Amigos. 280 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão merece, né? _É... eu já pensei em conversar com o pastor sobre isso. Quem sabe se ele falar com a minha mãe... sei lá. Eu fico revoltada com essas coisas, Su. O Daniel é responsável, fiel a Deus, um excelente filho e minha mãe não enxerga isso. _Você vai precisar de mais um pouquinho de paciência. _Agora, vamos falar sobre você e o meu amigo Léo! Su, você está muito feliz, né? _Muito. O Leonardo é maravilhoso. Você tinha toda razão ao me falar sobre as qualidades dele, você não exagerou, ele é uma pessoa incrível. Ele me faz sentir como se eu fosse a mais linda do mundo. É tão atencioso e compreensivo. _Eu fico feliz ao ouvir isso, eu estava tão preocupada; ele, completamente apaixonado e você tão distante! Vocês formam um lindo casal. _Letíciaaa, a Elisa está te chamando no portão - gritou Sandra. _Eu vou lá ver o que ela quer, já volto, Su. Elisa queria conversar com Letícia sobre Lúcia, estava ansiosa para contar que a amiga havia saído do apartamento para tomar sol por ter combinado com Leonardo. Enquanto as duas conversavam, Sandra foi até o quarto da filha, pois queria aproveitar que Suzana estava sozinha. _Eu quero falar com você. _Tudo bem. _Suzana, não é nada pessoal, mas eu tenho que falar algumas verdades para você. Eu sei que você está muito feliz e não é para menos, está namorando o Leonardo, que além de bonito, é inteligente, tem uma excelente profissão, é de boa família, é um jovem temente a Deus... enfim, é o namorado que toda garota gostaria de ter; mas eu preciso dizer que ele não é para você, me desculpe, mas é a verdade. O que você pode oferecer para ele, 281 Tânia Gonzales além deste rostinho bonito? Você deveria se afastar dele, é o melhor que você tem a fazer. Os pais dele não estão nada satisfeitos com o namoro de vocês. A Lígia até já falou com o Leonardo sobre isso, mas ele continua com você por pena e... eu também gostaria que você se afastasse da minha filha. _Por que a senhora está falando isso? _Eu amo aquela família e quero o melhor para eles, pois são pessoas honradas, de caráter, enfim é uma excelente família e a sua... bem... não posso dizer o mesmo, o seu pai por exemplo... _A senhora não pode falar do meu pai. _Posso sim. Você acha mesmo que o passado de seu pai ficaria escondido por muito tempo? Vocês são tão falsos que nem contaram para o Leonardo. Ao ouvir aquelas palavras Suzana começou a tremer. _Mas ele já sabe que o seu pai é um ex-presidiário, que ele quase matou um homem, que ele foi covarde ao espancar um homem doente que usava uma bengala para se locomover. O seu pai não teve dó e usou a própria bengala para bater nele sem piedade... _Para com isso, a senhora não sabe de nada, a senhora não... _Eu sei porque foi o meu marido que indicou um advogado para defender o seu pai, por essa você não esperava, não é? Achou que poderia enganar o Leonardo? _Não... _Você acha que a Lígia fica tranquila ao saber que o filho frequenta a casa de alguém tão violento? Ele está aflita e já implorou para que o Leonardo termine o namoro. _ O meu pai não é violento, ele é um homem bom... _Claro que é, tão bom que o pobre homem foi parar na U.T.I; o seu pai teve a coragem de espancar o próprio patrão, realmente, ele é um homem muito bom. _Não fale assim do meu pai, a senhora não sabe o que ele passou, 282 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão a senhora não tem ideia do que ele sofreu, não o conhece, não tem o direito de julgá-lo. Suzana tremia muito ao falar e as lágrimas também começaram a inundar seu rosto. _Se você gostar um pouquinho do Leonardo, o que eu duvido muito, pois eu acho que você está é interessada no que ele pode te oferecer, você se afastaria dele... ele não merece passar por essa vergonha, já imaginou o que as pessoas vão pensar? É uma pena, você não tem culpa, mas o seu pai envergonhou o nome de sua família, e, infelizmente, isso ele nunca vai poder mudar, ele acabou com a sua família, ele manchou a honra... _Não! Pare de falar do meu pai dessa maneira, a senhora está sendo muito injusta. _Injusto foi o seu pai e cruel, nem deu chance para que o pobre homem... _Pobre homem? Aquele porco, imundo, sujo... a senhora chama o meu pai de cruel? Aquele homem sim, foi cruel! Ele não pensou que acabaria com a vida … não pensou que destruiria uma família... o meu pai sofreu muito. _Sofreu? Bateu no homem sem piedade, quem é que sofreu? Não adianta querer defender... eu já entendi, você tem medo dele, não é? Ele já agrediu você? É claro... ele é agressivo... você morre de medo de seu pai, é por isso que está tremendo desse jeito! _Chega! O meu pai não merece isso! Ele nunca tocou um dedo em mim, ele é um pai excelente, ele só queria me proteger... é isso! A senhora quer saber? O meu pai não suportou ver aquele homem sujo em cima da filha dele, o meu pai não aguentou ver a filha dele toda machucada... ele não conseguiu ver aquela cena repugnante e não fazer nada... aquele pobre homem que usa uma bengala é um homem sem caráter, é um imundo que... me feriu profundamente! É isso mesmo! Eu sou uma vítima de... estupro. 283 Tânia Gonzales Está satisfeita agora? A senhora tem razão, o Leonardo não merece alguém que tenha um passado horrível como o meu. Suzana estava tremendo muito e suando frio... sentia-se fraca. Letícia, que havia escutado a revelação da amiga, a amparou. _Mãe? O que a senhora provocou? Olha o estado dela? Vem, Su, vou levá-la para casa. Sandra não saiu do lugar, estava chocada com as palavras de Suzana. _Vem devagar, calma, amiga... você está tão fria! - disse Letícia segurando no braço dela. _O que aconteceu? Filha?- exclamou Marina ao ver Suzana entrando. _Senta aqui, Su; dona Marina é melhor trazer um copo de água com açúcar para ela. _Eu vou pegar... o que aconteceu, Letícia? _Eu acho melhor esperar que ela se recupere. _Filha, beba um pouco dessa água... e fale comigo. Minha querida... por que ela ficou assim, Letícia? Vocês viram alguma coisa? Algum acidente? _Não, estávamos lá em casa. Ela e a minha mãe conversaram. _Sua Mãe? Agora que eu não estou entendendo nada mesmo... respire fundo, minha filha, vai sentir-se melhor. _Eu quero deitar. _Filha... minha querida, fale comigo. _Mãe... acabou tudo, o Leonardo nunca mais vai querer chegar perto de mim... ele vai me desprezar. _Por quê? O que aconteceu? _Eu... contei toda a verdade para a mãe da Letícia. Ela começou a falar coisas horríveis do papai... disse que era violento e... tantas 284 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão outras coisas, mãe, eu não suportei ouvir tudo aquilo, tinha que dizer que tudo o que ele fez foi para me defender. _Ah... minha filha! _Me perdoe, Suzana, estou tão envergonhada... a minha mãe não tinha o direito de fazer isso com você... eu sinto muito. _Você não tem culpa.. Mãe, a senhora precisa contar para o Leonardo... explique tudo para ele, eu não quero que a mãe da Letícia … _Su, eu vou conversar com a minha mãe, vou implorar para que ela não fale com ninguém sobre isso, fique tranquila. _Faz isso, Letícia, por favor... eu não gostaria que o Leonardo soubesse da verdade por sua mãe... agora eu quero dormir, é só isso que eu quero. Mãe, avise a Cláudia que eu vou faltar hoje... eu não vou conseguir trabalhar. _Fique calma, filha. Vá descansar. _Su, mais uma vez eu peço desculpas... não estou reconhecendo a minha mãe, depois que ela ficou sabendo sobre o meu namoro ela mudou tanto! Estou com tanta vergonha. _Letícia, não se culpe, você é uma amiga maravilhosa!- disse Suzana. Suzana passou a tarde inteira na cama. Chorou a maior parte do tempo. Vovó Vivi ficou sabendo de tudo e tentou consolar a neta. _Minha querida... não fique assim. Tudo vai ser esclarecido e você vai sentir-se melhor. Você sempre dizia que não gostaria de enganar o Leonardo, embora isso não pode ser considerado enganar, pois é algo muito difícil para ser revelado, mas agora, já que essa mulher sabe de tudo, é melhor esclarecer as coisas, e você tem razão quando diz para sua mãe conversar com ele, já que é para ele saber a verdade que saiba como tudo realmente aconteceu e pela pessoa certa, não por alguém com péssimas intenções. 285 Tânia Gonzales _Ah, vó... o Leonardo não vai querer ter uma namorada como eu... ele não vai. _Não fale isso, ele está tão apaixonado! _Por isso mesmo que é ele vai ficar mais decepcionado ainda. Eu não vou conseguir mais olhar para ele... vou morrer de vergonha! _Minha neta, não pense isso. Ele é um rapaz maravilhoso. Não vai ser fácil para ele, com certeza vai sofrer muito, mas ele vai conseguir superar isso. Deus vai ajudá-lo. Neste momento, Marina entrou no quarto com o marido que estava com os olhos cheios de lágrimas. _Minha filha, me perdoe, se eu não... se … _Pai, não precisa pedir perdão... ah, meu pai. _Preciso sim, se eu não tivesse me descontrolado as coisas seriam bem diferentes hoje. Você não precisaria se expor desse jeito, ninguém iria saber... a culpa é toda minha. Aquela mulher só ficou sabendo porque eu fui para prisão, eu poderia ter evitado tudo isso e aquele canalha não teria ficado impune. _Pai, não se culpe, o senhor já sofreu tanto! _Minha filha, se o Leonardo não conseguir aceitá-la... eu não vou me perdoar. Pai e filha se abraçaram e choraram muito. Marina e a vovó Vivi saíram do quarto, não suportaram ver a tristeza dos dois. No final da tarde, Marina ligou para Leonardo avisando que Suzana não estava bem e por isso estava em casa. Ela bem que tentou dar um jeito para ele não ir até lá, mas era difícil dar alguma explicação para convencê-lo. _Filha, o Leonardo está vindo. _Mãe, ele não pode me ver assim. _Querida, ele ficou tão preocupado! _O que vou falar? A senhora precisa conversar com ele. _Eu pensei bem e cheguei à conclusão que é melhor contar tudo 286 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão para ele na segunda-feira. Amanhã tem aquele evento de missões e vocês estão envolvidos, não seria nada bom atrapalhar algo tão importante, concorda? _A senhora tem razão, mas como eu vou encará-lo? Não vou conseguir agir com naturalidade. _Tente, se esforce, filha. Não vai dar para pedir ao Leonardo que mantenha distância. Que desculpa daríamos? _E se a mãe da Letícia... _Ela não vai contar. Na casa da família Soares, Letícia mantinha uma séria conversa com a mãe. _A senhora provocou, por isso coopere ficando de boca fechada. _Não sei, não, elas querem é ganhar tempo, duvido que vão contar a verdade. Você acha que elas vão querer perder um partidão como o Leonardo? Depois que ele ficar sabendo de tudo com certeza não vai mais... _Mãe? A senhora está tão insensível! Aquela família está sofrendo muito. _Eu não quero que a minha amiga sofra. Você acha que a Lígia vai ficar feliz ao saber que a namorada do filho dela... _Para com isso, mãe, por favor. A Suzana é uma pessoa maravilhosa. _Maravilhosa? Letícia, eu quero que você fique bem longe dessa família. _Não me peça isso. Eu não vou me afastar da minha amiga quando ela mais precisa. _Amiga? _Mãe, o que está acontecendo? Por que toda essa insensibilidade? Não fale sobre isso com ninguém, por favor. A dona Marina vai conversar com o Léo. 287 Tânia Gonzales _Será? _O Léo está tão apaixonado! Vai ser muito difícil para ele, então é melhor que ela conte. Seja compreensiva. _O Leonardo vai querer distância dessa encrenca. _Ah... vou para o meu quarto, não dá para conversar. Leonardo chegou na casa de Suzana poucos minutos depois das 18h. _O que a Suzana tem? Eu fiquei tão preocupado. Para ela faltar ao trabalho deve ser algo sério. - constatou Leonardo. _Não, querido. Não precisa se preocupar, ela sentiu-se mal, mas não é nada sério- explicou Marina para em seguida levá-lo até o quarto. _O que aconteceu com a minha princesa? _Você não deveria ter vindo. _É sim que você recebe o seu namorado? Estou muito preocupado com você. Leonardo aproximou-se de Suzana e deu-lhe um beijo na testa. _Eu só estou indisposta, você não deveria se preocupar. _Indisposta? Eu não sei, não. Você não faltaria por uma mera indisposição, você está escondendo alguma coisa. Fale comigo, meu amor. _Não é nada. _Os lindos olhos verdes estão me dizendo que derramaram muitas lágrimas hoje. Não tente me enganar. Ao ouvir isso Suzana não se conteve e começou a chorar. Leonardo sentou-se na beirada da cama, colocou a cabeça dela em seu peito e ficou acariciando os cabelos dela. _Eu não sei o que aconteceu, vou esperar que você consiga me contar, mas não me impeça que ficar ao seu lado. Com estas palavras as lágrimas se tornaram mais abundantes, 288 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana não conseguia segurá-las. _Meu amor, minha princesa, alguém magoou você? O que fizeram com você? _Ah... Leonardo! _Tudo bem, não fale nada. Eu vou enxugar estas lágrimas teimosas... um dia você me conta, agora fique tranquila. Você se alimentou hoje? _Eu... não quero nada, estou sem fome. _Não, isso, não. Me diga, o que você gostaria de comer? _Nada. _Suzana, você precisa se alimentar. Eu não sou médico, mas eu estou percebendo que o seu problema não é físico. Aconteceu alguma coisa que mexeu aí dentro, estou certo? _Está. Minha mãe vai ter uma conversa séria com você, segundafeira. _Agora eu fiquei preocupado. _Espere até segunda, por favor. _Vai ser difícil esperar... mas, se você está pedindo, eu espero. Agora, o que você acha de sairmos? _Sair? Não quero sair. _Hoje é sábado, vamos aproveitar que você não foi trabalhar, o que você acha, hein? Suzana não estava com vontade de sair, mas essa poderia ser a última vez que os dois sairiam juntos. Depois que Leonardo soubesse da verdade provavelmente ele se afastaria, por isso ela resolveu aceitar o convite. _Me dá um tempo, eu vou tomar um banho para me animar. _Isso, é assim que se fala. Eu vou esperá-la na sala. Vamos jantar em um restaurante que você vai amar. _Você faz milagres, Leonardo. Conseguiu convencê-la a sair? Não 289 Tânia Gonzales poderia imaginar que a Suzana iria querer sair hoje, não mesmodisse Marina. _Vai ser bom, ela precisa se distrair um pouquinho. _Tem razão. Obrigada por você ser tão atencioso com a minha filha. _Eu amo a sua filha, e me corta o coração vê-la tão pra baixo. Vou tentar animá-la. Após trinta minutos, Suzana apareceu na sala com um vestido cor de ameixa, que fez o coração de Leonardo disparar. _Nossa, você quer acabar comigo. Está linda! _Você não acha que esta cor é muito... chamativa? _Realmente... ela está me chamando para bem perto de você. Ao ouvir o comentário dele, Suzana corou. _O seu lindo rosto está combinando com a cor do vestido. _É melhor você parar com os comentários, o meu rosto está queimando. Marina ficou olhando para os dois, estava sorrindo, mas, discretamente precisou enxugar algumas lágrimas teimosas. _Bom... vamos? Não se preocupe, dona Marina, estaremos de volta antes da meia-noite. _Quando ela está com você eu não me preocupo, bom jantar, divirtam-se. Ao chegarem próximos ao portão, Leonardo a puxou e beijou-a suavemente. _Não resisti, já estava com saudades do sabor dos seus lábios. _É melhor nós irmos- disse ela simplesmente. Após o trajeto de vinte minutos, Leonardo entregou as chaves do carro ao manobrista. Durante o jantar, Suzana conseguiu se divertir, pois Leonardo fazia de tudo para animá-la, até lembrou do acesso de riso que tiveram na quinta-feira, o que a fez rir bastante, esquecendo-se 290 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão por alguns momentos da tristeza que havia em seu coração. _Estou feliz por você. Comeu bem, riu bastante, conversou animadamente, é assim que se faz. Você reagiu e isso é ótimo. Vamos fazer uma coisa? _O quê? _Dançar. _Dançar? Eu não estou acostumada. _Nem eu, mas... escuta a música... é romântica e eu estou muito romântico hoje, o que você acha? _Ah, Leonardo... eu... _Vem comigo, vai ser ótimo. Ele pegou-a pela mão e a encaminhou até a pequena área onde havia quatro casais dançando. Suzana só havia dançado em seu aniversário de 15 anos, lá em Belo Horizonte, mas, sentiu-se muito bem nos braços de Leonardo. Era uma sensação maravilhosa estar ali com ele, por isso ela aproveitou muito bem o momento deixando o passado no lugar certo e vivendo o presente de maneira plena. _Posso entrar? - perguntou Leonardo ao parar o carro. _É claro. Suzana queria usufruir da presença dele o máximo possível, pois em dois dias ele saberia de tudo e então... _Os meus pais vão viajar para Fortaleza na próxima quinta-feira, a Bia e o Bruno também; o meu avô fará 80 anos. _E você? _Eu não quero ficar longe de você, serão duas semanas lá. _Leonardo, você deve ir, é o aniversário do seu avô! _Não sei... é que foi tudo tão repentino. Vovô João tinha pensado em passar um mês aqui com a minha vó e assim nós iríamos comemorar o aniversário, mas mudou de ideia, então resolveram 291 Tânia Gonzales fazer uma festa lá, e como o Bruno e a Bia estão de férias... _A família vai estar toda reunida, você não pode faltar. É perfeito. _Você não teria como tirar férias, agora? Assim você iria comigo e então seria perfeito. _Não dá, é impossível. Leonardo aproveite a oportunidade, o seu avô vai ficar muito decepcionado se você não for, e ninguém completa oitenta anos todos os dias, né? _Eu vou pensar, mas não me agrada a ideia de ficar todos estes dias sem vê-la. Bom,foi ótimo sair... adorei passar essas horas com você. _Eu também – disse ela. _Você estava tão abatida hoje à tarde e agora, olha só pra você, está maravilhosa! Minha princesa, agora eu vou beijá-la. Suzana entregou-se totalmente àquele beijo, aproveitou cada segundo e quando ele afastou-se ela o puxou e o beijou apaixonadamente. _Calma, princesa, assim eu não resisto, ah... é complicado. _Me desculpe, eu... _Tudo bem... é que você agiu de maneira tão inesperada que eu... _Estou morrendo de vergonha, eu exagerei. _Não precisa ficar assim, a medida que nos conhecemos melhor é natural que você se sinta mais à vontade e... _Me desculpe. _Não peça desculpas, estamos tão apaixonados que é difícil manter o controle, mas é necessário, eu não quero passar dos limites, é por isso que eu me afastei. Suzana, para o homem isso é mais complicado, você me entende? _Eu... _Ah, minha princesa, não precisa ficar assim. Olha pra mim, ei, eu a amo. _Eu também o amo. 292 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu vou deixá-la descansar, amanhã será um dia bem cansativo. Você vai trabalhar e depois vai... trabalhar novamente, afinal será o dia do evento especial de missões. Vem aqui, não precisa ficar longe... me dá um beijo de despedida. Deitada em sua cama, Suzana lembrava de cada detalhe daquela noite, que para ela teve um sabor de despedida, pois não tinha certeza se Sandra manteria o segredo. Naquela altura dos acontecimentos seria ótimo que Leonardo viajasse para Fortaleza, ela sentiria muitas saudades, mas, depois que ele soubesse da verdade, se afastaria dela, e isso, com certeza, seria muito pior. 293 Tânia Gonzales Capitulo 27 – A verdade Finalmente o dia do grande evento de missões havia chegado. Os jovens da IGAG estavam empenhados, fariam de tudo para que o evento fosse um sucesso. Desde cedo, vários deles já estavam na igreja para organizar as barracas e outros estavam na ampla cozinha para adiantar as coisas, pois a partir da uma hora da tarde as pessoas chegariam para saborear vários pratos; o grupo de Letícia, por exemplo, estava encarregado de preparar Yakissoba, mas teriam outras opções de pratos salgados, além de muitos doces para a sobremesa. Também seriam vendidos muitos produtos, entre eles: livros, CDs, materiais de artesanato, que foram feitos pelos próprios membros da igreja que possuíam habilidade em trabalhos manuais. Até a vovó Vivi contribuiu com peças de tricô e também com alguns doces. Os membros da IGAG tinham um carinho todo especial pelo trabalho de missões; todos os meses eles contribuíam para que os vários missionários mantidos pela igreja pudessem ter o seu sustento; e sempre faziam eventos especiais para que pudessem enviar um valor maior. Leonardo trabalhou a manhã inteira na igreja, antes de sair para buscar Suzana ele resolveu conversar com a amiga Letícia, pois havia percebido que ela o estava evitando. _O que está acontecendo com você? _Não entendi? _Leca, você me evitou a manhã inteira, pensa que eu não percebi? _Eu? Você está viajando! _Como se eu não te conhecesse... fala logo, o que está acontecendo? _Nada. Léo, eu preciso ajudar na cozinha, as pessoas estão 294 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão começando a chegar. Letícia saiu rapidamente, ela sabia muito bem que se ele insistisse seria difícil ficar calada; a história sobre Suzana a havia deixado muito triste, principalmente pelo fato da mãe ter provocado aquela situação. Ao entrar na cozinha, ela recebeu um sorriso que a fez esquecer por um momento de toda aquela confusão, pois Daniel também ajudaria na cozinha, assim os dois teriam a oportunidade de ficarem próximos um do outro. Leonardo foi ao shopping buscar a namorada. Assim que chegaram à igreja, Suzana fez uma rápida refeição e também foi ajudar na cozinha. Sandra, para evitar conversar com Lígia, não compareceu ao evento, ela e o marido resolveram almoçar fora, pois havia prometido manter o segredo por algum tempo. Às cinco horas da tarde alguns missionários tiveram a oportunidade de compartilhar as suas experiências com os membros que lotaram a igreja. Puderam ouvir testemunhos de fé e coragem o que fazia amarem ainda mais o trabalho de missões. Pastor Pedro Gabriel agradeceu a todos pelo empenho no evento, que teve uma arrecadação recorde. Poucos minutos após às nove horas da noite, Leonardo deixou Suzana em casa. _Eu não vou entrar, você está muito cansada. _Entra só um pouquinho- pediu ela. _Como eu conseguiria recusar? Você fez até biquinho! _Não fiz. _Fez sim. Vou ficar só um pouquinho, amanhã você vai precisar acordar cedo. O evento de missões foi um sucesso. Foi cansativo, 295 Tânia Gonzales mas maravilhoso, concorda? _É lógico que eu concordo. Deu tudo certo, graças a Deus. O pessoal estava tão animado...mas... e você já decidiu se vai viajar? _Ah... não sei, não quero ficar tão distante de você, quem iria buscá-la? _Não precisa se preocupar com isso. Eu até acho que não precisa ninguém me buscar. _Não comece com isso. _Leonardo, aproveite a oportunidade para visitar os seus avós e passar momentos especiais com a sua família. _Estou pensando... mas, por que você está tão longe de mim? Vem aqui, minha princesa. Leonardo a abraçou com carinho, ficou acariciando os cabelos e depois deslizou a mão sobre o rosto dela. _Minha linda princesa, como eu vou suportar ficar longe de você, como manter distância de lábios tão doces e macios, me diga, como? Beijaram-se por um longo tempo e enquanto Suzana vivia aquele momento especial, ela pensava que este poderia ser o último beijo deles e por isso, ao perceber que ele iria afastar-se, ela o puxou, pois queria prolongar o momento. Despediram-se minutos depois. Naquele noite, Suzana teve um pesadelo. _Eu não posso mais namorá-la, seria muito vergonhoso para a minha família, eles nunca aceitariam- dizia Leonardo. _Me perdoe, eu.... _Me esqueça, Suzana. Eu não conseguiria mais... não depois de saber que... não dá. Você é uma garota cheia de traumas. Considere o nosso namoro terminado. Adeus. 296 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Enquanto via Leonardo se afastar, uma dor enorme invadiu o seu coração, era como se alguém tivesse tirado um pedaço dela... sentou-se na calçada e deixou que as lágrimas caíssem livremente. Ao acordar percebeu que o rosto estava molhado. “ É exatamente isso que vai acontecer, ele não vai me querer, é isso... seria uma vergonha para a família dele. Eles nunca aceitariam alguém como eu... nunca. Ah, Leonardo, eu o amo... vou sentir tanta saudade! ” Era uma manhã chuvosa. Suzana olhou para o relógio e pensou: “ São 5h20, é melhor eu me levantar, ai, ai, ai, está chovendo... hoje vai ser complicado chegar até a faculdade. Vamos Suzana, levante!” Neste momento o celular tocou. Suzana deu uma olhada no visor e pensou:” Alguém acordou bem cedo hoje!” _Alô? Oi, não, já acordei. Resolveu madrugar hoje? _Resolvi que não vou permitir que você se molhe, vou levá-la para a faculdade, aproveite e durma mais um pouquinho. Passo aí antes das sete. Não discuta comigo. Tchau. Suzana se afundou no edredom e pensou:” Como ele pode ser assim tão maravilhoso? Vai ser tão difícil quando ele se afastar de mim!” Trinta minutos depois, Marina entrou no quarto da filha. _Suzana? Minha filha, você está atrasada! Vai faltar? _Hã? Mãe... acabei pegando no sono. Eu recebi uma ligação de alguém muito prestativo que me ofereceu uma carona, bem... ofereceu não é a palavra certa, na verdade ele me obrigou a aceitar. _O Leonardo ligou? Ele se preocupa muito com você. _Mãe, talvez seja a última vez que ele queira falar comigo. 297 Tânia Gonzales _ Suzana, você precisa esquecer o passado. Filha, viva o presente! Deus colocou o Leonardo em seu caminho e eu não acho que ele vai se afastar de você. _Mãe, pare com isso, por favor! _Vai doer muito quando ele ficar sabendo sobre... mas ele vai entender. Às 6h40 Leonardo estacionou o carro e ligou para Suzana. Ao vêla abrindo o portão, ele saiu do carro com um enorme guardachuva e se aproximou dela. _Bom dia, princesa Suzana! _Bom dia, Leonardo, você não precisava ter saído do carro, eu … _Você acha que eu iria perder a oportunidade de ficar bem pertinho de você? Suzana sorriu enquanto ele abria a porta do carro para ela. _Você não deveria ter todo este trabalho de vir até aqui. _Trabalho? Suzana, você ainda não entendeu que eu amo estar ao seu lado? Que cada segundo que eu estou com você é muito precioso? Não é possível que você não saiba disso, minha linda namorada. _Tudo bem, então. Não posso negar que foi ótimo dormir mais uns minutinhos e que aqui é bem confortável, quente e...seco. O que mais eu posso querer ? _Diga que me quer, eu iria adorar! _Gracinha! Leonardo trabalhou o dia inteiro muito ansioso; quando estava com a Suzana ele conseguiu disfarçar bem, mas a verdade é que ele estava muito preocupado. “ O que a dona Marina tem para me contar? Será que teria alguma coisa a ver com aquela história do pai da Suzana ser um ex-presidiário? Bom, se for isso... mas, e se 298 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão for alguma coisa sobre a Suzana? Não adianta ficar nessa ansiedade, logo eu saberei o que é, já são seis horas, marquei com a dona Marina às sete... vou trabalhar mais um pouco. _Me desculpe, eu sei que ainda faltam uns vinte minutos, mas eu não estava conseguindo me concentrar no trabalho- explicou Leonardo. _Tudo bem, entre- disse Marina. _Dona Marina, eu gostaria que a senhora fosse bem direta, eu estou muito ansioso. _Percebi. Aceita um café? _Aceito se já estiver pronto. _Calma, Leonardo, eu acabei de fazer, vou buscar. Dona Marina voltou logo em seguida trazendo duas xícaras de café. _Eu vou começar. Leonardo, a Suzana me pediu para conversar com você, porque ela não gostaria que soubesse da verdade por outra pessoa. Sábado, ela e a Letícia saíram juntas para comprar algumas coisas para o evento de missões e depois foram até a casa da Letícia, bom... em um determinado momento, a Suzana ficou sozinha e a Sandra aproveitou para ter uma conversa com ela. Você já ficou sabendo que o meu marido esteve preso por quase três anos, certo? _A minha mãe me contou. Eu achei melhor não mencionar isso com a Suzana. _Entendo. Sabemos que foi a Sandra quem contou. Só que ela não disse o motivo, pois ela não sabia o porquê do meu marido ser um ex-presidiário. É um assunto muito delicado, e a Sandra conheceu o motivo sábado e foi a Suzana quem contou. A minha filha não suportou ouvir que o pai era violento, que era um covarde por ter agredido um homem inofensivo. Que aquele pobre 299 Tânia Gonzales homem não teve a mínima chance, que o Davi bateu nele com uma bengala e coisas desse tipo. Foi muito difícil para a Suzana ficar calada ouvindo aqueles absurdos, porque o meu marido não é um homem violento, ele teve um momento de fúria, sim, mas não é próprio dele... e a Suzana não quer que você pense mal do pai dela. Marina não conseguiu segurar mais as lágrimas. _Dona Marina, a senhora não precisa me dizer o motivo, eu percebo o quanto esse assunto a machuca... _Eu preciso... Leonardo, a Suzana gosta muito de você, ela o admira e acha que você merece saber a verdade e depois você decide se... continua o namoro. _Que isso? Não estou entendendo, eu não... _Espera, eu preciso contar... a Suzana estava sozinha em casa, na época ela tinha 11 anos, era o início de uma noite fria do mês de julho, eu, o meu marido e a Sueli, estávamos trabalhando; a campainha tocou e quando a Suzana foi atender ela percebeu que era o patrão do Davi. Ela achou estranho porque ele perguntou onde estava o pai dela e disse que ficou esperando por ele em um determinado local que havia combinado e que ele não havia aparecido. Disse que esperou por mais de uma hora e nada, então pegou um táxi e foi até a nossa casa tirar satisfação com ele. A Suzana explicou que ele não estava, o homem entrou e disse que não iria embora até que o Davi chegasse. Sentou-se no sofá e pediu para Suzana lhe trazer um copo com água. A Suzana foi até a cozinha e enquanto ela enchia o copo... ele se aproximou e começou... a passar as mãos nos cabelos dela... perguntou onde a Sueli estava e como a Suzana disse que a irmã estava trabalhando, ele... Marina fez uma pausa, pois era muito difícil para ela descrever o que aconteceu a seguir. Leonardo estava muito tenso, algumas 300 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão coisas terríveis lhe passavam pela mente. _Leonardo, aquele homem sem caráter, aquele sujo... ele disse à minha filha que já que a Sueli não estava lá, então ele seria obrigado a … fazer tudo o que ele havia imaginado com ela mesma apesar dela ser muito nova. A Suzana me contou depois com muita dificuldade, que ela achou muito estranho o jeito dele. Ele começou a … abraçá-la e … como ela gritou... ele a beijou com violência, para sufocar o seu grito. Ele era tão canalha, que mordeu os lábios dela... quando eu a encontrei eles sangravam muito e estavam inchados... eu sinto muito dizer isso... mas depois aconteceu o pior, ele a despiu e... a violentou. Leonardo abaixou a cabeça e fechou os olhos. _Leonardo, quando o Davi chegou e presenciou aquilo... ele não conseguiu pensar...ver aquele desgraçado em cima da filha dele... dá pra imaginar o que passou pela mente do meu Davi? Ele pegou aquela bengala e começou a bater nele sem parar... foi então que alguns vizinhos vieram e tiraram a bengala das mãos dele, mas o estrago era grande, o homem foi parar na U.T.I, mas se recuperou e conseguiu ficar livre da acusação de estupro, até hoje eu não entendi como foi possível. Bom... ele era e é muito rico... o meu Davi foi preso... ah... foi terrível, pois além de ficar com a minha filha naquele estado... fiquei sem o meu marido para me apoiar. Ele sofre muito porque acha que se tivesse conseguido se controlar as coisas teriam tomado outro curso. Aquele homem foi na minha casa com a intenção de abusar da minha filha, ele foi para isso! Ele inventou um endereço para o Davi buscá-lo mas na verdade o local não existia. Que homem cruel! A Suzana sofreu tanto e ainda sofre, ela tem muitos pesadelos ... eu... Leonardo... meu filho... Leonardo estava chorando feito uma criança, Marina ainda não havia presenciado um homem chorar daquela maneira... era de 301 Tânia Gonzales cortar o coração. Ele estava com a cabeça baixa e as lágrimas desciam... ele não esperava ouvir aquilo, pensar em Suzana passando por tamanha violência era demais para ele. Doía profundamente saber da triste história de vida da garota que ele amava. Marina o abraçou e por vários minutos eles ficaram assim... chorando abraçados, sem dizerem uma única palavra. _Dona Marina, a Suzana teve algum acompanhamento psicológico?- perguntou Leonardo ao se recuperar do choque inicial. _ Ela foi algumas vezes, mas não conseguia falar uma única palavra, ela me pedia chorando que não queria ir, como eu percebi que não estava ajudando, eu concordei com ela. A Suzana era uma menina muito alegre, simpática e isso a abalou profundamente. Nós mudamos de bairro, porque ela não conseguia sair na rua, sempre achava que as pessoas estavam olhando e apontando; ela só voltou a estudar no outro ano. Foi um período muito difícil, as minhas irmãs e a minha mãe nos ajudaram muito. A Sueli sentiuse culpada por não ter nos alertado sobre ele, porque ele já havia falado algumas coisas para ela, mas ela não teve coragem para contar. A Marisa pagou um advogado que era conhecido do dr. Fernando, mas quando o Davi saiu da cadeia foi muito complicado porque ninguém dava emprego para ele. Então, ele fazia bicos, eu, incentivada pela Marisa, resolvi prestar um concurso, passei e nos mudamos para cá. A Suzana queria que você soubesse por mim, ela ficou com medo que a Sandra contasse. _A Sandra foi muito insensível, como ela pôde mexer com a essa história que causa tanta dor em vocês? _A Suzana pediu para que eu lhe dissesse que ela vai entender se você se afastar... no momento é até melhor, pois ela está envergonhada, não conseguiria encará-lo. 302 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu sinto muito, dona Marina. É muito difícil saber dessas coisas... como existem pessoas cruéis e desumanas! Só pensam em... satisfazer os seus próprios desejos nojentos e não pensam no sofrimento que vão causar. O seu Davi vai buscá-la? _Pode ficar tranquilo, ele vai direto para lá, a Marisa emprestou o carro dela, embora ele deteste pegar esse tipo de coisa emprestado, hoje ele concordou. Leonardo saiu arrasado, pensou até em não ir direto para casa pois não queria falar com ninguém, mas ao mesmo tempo ele não via a hora de se refugiar em seu quarto. Entrou, encontrou os pais conversando na sala de estar, cumprimentou-os rapidamente e disse que estava muito cansado e por isso iria direto para a cama. Lígia percebeu que algo grave havia acontecido, por isso foi até o quarto do filho. _Querido, me desculpe atrapalhar, mas o que aconteceu? _Mãe, por favor, hoje não. Não estou com cabeça para conversar eu só quero tomar um banho e dormir, me entenda. _Meu filho, permita que eu o ajude. _Se a senhora me deixar aqui quietinho estará me ajudando muito. _Tudo bem, mas se precisar é só me chamar. _Obrigado, mãe. As palavras de Marina não lhe saíam da cabeça... todo aquele sofrimento... aquela maldade...ele começou a lembrar de como era difícil para Suzana permitir uma aproximação, agora ele entendia o porquê dela tremer tanto. Como o contato físico era difícil para ela, mas também pudera, depois de tanto sofrimento, ela lógico que ficaria traumatizada. “ Ah... minha Suzana... minha princesa... como alguém teve a coragem, não, isso não é coragem, é covardia. Como alguém pôde ser tão covarde! Você com esse rostinho tão 303 Tânia Gonzales meigo... eu não suporto isso... não dá para aceitar... o problema não é com você.. é comigo, era assim que ela dizia. Ah... Deus ” Naquela noite, Suzana teve uma longa conversa com a mãe e ambas choraram muito. Era terça-feira, logo após o almoço, como havia prometido, Leonardo foi até a casa de Lúcia, mesmo estando completamente arrasado. Não queria que ela sofresse, bastava os que já estavam com o coração partido nesses últimos dias. Rita contou que a filha estava se alimentando bem e que todos os dias descia com ela para tomar sol. _Oi, Lúcia, como você está? _Meu anjo, como é bom ver você. _É bom vê-la também, Lúcia. E então, como você está? _Agora, ótima, o meu anjo está aqui. Vai ler hoje? _Se você quiser. _Quero. Desta vez Leonardo havia levado sua Bíblia, abriu-a em João 14.6 e leu: _ “ Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” Lúcia, Jesus é o caminho, a verdade e a vida, e a vontade dele é que entremos pelo caminho, que conheçamos a verdade e que a vida dele esteja dentro de nós. Dentro de você há algo que tem impedido que você seja feliz, você quer compartilhar o que está aí dentro? Quer se abrir comigo? _Não. Aqui dentro existem coisas muito feias... você é um anjo, não pode ouvir essas coisas. _Lúcia, Jesus quer que você receba a vida que ele dá e com certeza não é essa que você está vivendo hoje. Jesus quer ver um 304 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão sorriso neste rosto lindo. _Você acha que meu rosto é lindo? _É claro que sim. Você é uma garota linda, venha aqui e olhe para o espelho, venha. Lúcia se aproximou bem devagar e olhou-se no espelho. _Viu? Comprovou como você é linda? _Não. Só se é lindo quando aqui dentro está lindo e dentro de mim existe algo muito feio. Lúcia sentou-se na cama novamente e abaixou a cabeça. _O que existe de feio dentro de você? Não pode... não há como ter algo feio aí. _Você não sabe? São coisas horríveis... coisas que … ele fez... ele fez... ele fez...ele fez algo horrível... ele é um monstro. Lúcia começou a tremer e chorar muito. _Acalme-se, não precisa falar mais nada. _Meu anjo... meu anjo... existem monstros lá fora...é muito perigoso porque eles não têm cara de monstro... eles nos enganam, cuidado com eles... eles têm cara de amigo, de irmão, de pai, mas na verdade são monstros. _Lúcia, algum desses monstros machucou você? _Psiu! Psiu! Não fale nada... cuidado... ele pode machucar o meu anjo. _Lúcia, quem pode me machucar? _Psiu... fale baixo. _Tudo bem, vamos parar com este assunto. Você gosta de música? _O que aconteceu com o meu anjo? Por que ele está com o rosto triste? - perguntou Lúcia como se não tivesse escutado a pergunta de Leonardo. _Triste? _É... o meu anjo está triste. Quem machucou o meu anjo? _Não é nada... eu perguntei se você gosta de música, e então? 305 Tânia Gonzales _Gosto, às vezes... _Eu gravei umas músicas para você, são louvores a Deus, elas fazem com que você se sinta mais próximo de Deus. Eu toco violino, aqui... - disse Leonardo mostrando o CD- eu gravei especialmente para você. Um dia, se você quiser, eu vou trazer o meu violino e tocá-lo aqui. _Violino... tá bom. Eu vou ouvir o CD o dia inteiro. _Que bom... Lúcia, eu preciso ir... é … eu vou precisar viajar e por isso não poderei estar aqui com você, mas eu ligo e conversamos pelo telefone. Não deixe de se alimentar e também de descer para o seu banho de sol. Por que você não sai com a sua mãe para almoçar fora, amanhã? _Sair não. Você vai viajar? Eu não queria ficar muitos dias sem ver o meu anjo. _Eu preciso visitar alguém que completará oitenta anos, mas eu volto daqui a alguns dias. _Oitenta anos! Então, tá...eu vou esperar por você. _Que bom... agora, preciso ir. Fique com Deus, Lúcia. Leonardo explicou para Rita sobre a viagem que faria, ela ficou muito preocupada com medo da reação da filha, mas ele a tranquilizou dizendo que ligaria. Saiu de lá muito pensativo. Lúcia, que a maior parte do tempo parecia tão distante, havia percebido a tristeza dele. E muito o intrigou aquela história de monstros, será que Lúcia era mais uma vítima como Suzana? Leonardo havia tomado a decisão de ir para Fortaleza com a família, seria bom se ausentar por alguns dias, por isso ligou para Marina avisando-a. Não fez nenhuma pergunta sobre Suzana, era melhor assim, pensou. Ao saber que Leonardo viajaria, Suzana sentiu-se aliviada por não precisar encará-lo tão cedo, e feliz, pois seria bom para ele estar com a família, mas ao mesmo tempo a tristeza invadiu o seu 306 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão coração. Sandra resolveu não conversar com a amiga até que ela voltasse da viagem, não queria preocupá-la, mas tinha certeza que era obrigação sua alertá-la, pois, provavelmente, Leonardo não teria coragem de falar sobre o passado da namorada. 307 Tânia Gonzales Capítulo 28 -Viagem Às nove horas e trinta minutos da manhã de quinta-feira, a família Martins pegou o avião para Fortaleza. Beatriz percebeu que o irmão não estava bem, todos estavam animados com a viagem, conversando muito e ele ficou calado a maior parte do tempo. Decidiu conversar com ele assim que tivessem um tempo a sós. O voo foi bem tranquilo, o avião pousou em Fortaleza quando faltavam cinco minutos para uma hora da tarde. Luciano, o irmão mais velho de Lígia, estava esperando-os no aeroporto. _Que alegria! O papai e a mamãe estão ansiosos. Sejam bemvindos à Fortaleza. _Meu irmão querido, você está ótimo! _Você está maravilhosa! Uma gatona! Dr. Rafael, como está? E os meus sobrinhos lindos? Bruno e aí, tudo bem? Cumprimentaram-se e após quinze minutos de carro, chegaram à casa de Luciano e Fátima, que tinham dois filhos: Thaís de 29 anos e Lucas de 32 anos, ainda solteiros. Os avôs estavam esperando no portão. Foram muitos abraços e beijos. Fátima havia preparado um almoço muito especial. No início da noite foi outra festa, pois Thaís e Lucas chegaram do trabalho. Beatriz só conseguiu conversar com o irmão no outro dia logo pela manhã. Leonardo acordou bem cedo e estava apreciando o lindo jardim da casa dos tios, que era cuidado pelos avós, eles amavam mexer com a terra, tinham muita disposição e já estavam há pelos menos uma hora se dedicando às plantas. _Léo, vamos até a padaria? Eu quero conversar com você. _Vamos sim, avise a tia Fátima. 308 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Cinco minutos depois os dois irmãos estavam andando pelas ruas tranquilas do bairro onde moravam os tios. _Meu irmão, o que está acontecendo com você? Algum problema com Suzana? _As coisas andam meio complicadas. _Por isso você resolveu viajar com a gente. A mamãe me disse que você só viria na próxima semana para participar da festa. _É... eu não queria ficar muitos dias longe da Suzana, mas... _Mas... _Eu não quero preocupá-la. _Fale comigo, desabafe, faz bem. Andaram bem devagar para que Leonardo pudesse contar a história para Beatriz, que no final do relato do irmão, disse: _Que coisa terrível! Como existem pessoas más neste mundo. Coitada da Suzana... sofreu tanto! _E ainda sofre. _E a Sandra, hein? Não a estou reconhecendo. Ah, Léo... a vida é linda, é maravilhoso viver, só que essas coisas nos entristecem... dá um desânimo. _Eu vou ter uma conversa muito séria com a Sandra, ela está provocando o sofrimento da filha e agora quer fazer isso com todos? _É, não dá para entender como uma pessoa pode mudar tanto. Você achou melhor viajar para ficar longe da Suzana? _Ela está muito envergonhada... é melhor assim, essa distância vai ajudá-la. _O que você pretende? _Vamos parar com este assunto, tá? O pessoal não vai ficar esperando a manhã inteira para tomar café, que tal andarmos mais rápido? 309 Tânia Gonzales Naquela manhã de sexta-feira, Suzana tinha um trabalho para apresentar na faculdade; o grupo dela conseguiu uma excelente nota e ela sentiu-se aliviada pois estava muito difícil para ela se concentrar nos estudos. Pensar na distância que a separava de Leonardo muito a entristecia. “ Ele está tão longe! Ter a certeza que não o verei por vários dias dói tanto! Mas... se ele estivesse aqui, seria diferente? Será que ele já teria me procurado? É melhor eu ir me acostumando com a ideia de perdê-lo... ele não vai querer continuar com o namoro... quem gostaria de conviver com uma garota traumatizada como eu? Com uma ferida que nunca cicatriza?” Paula estava muito satisfeita com a sua recuperação; e perceber o esforço dos pais para se entenderem também a deixava muito feliz. Paulo Reis e Regina, depois da conversa que tiveram com o pastor e a sua esposa, mudaram muito, ele aprendeu a dizer não para alguns convites e ela estava aprendendo a substituir a crítica pela compreensão. Teriam um logo caminho pela frente, mais o importante é que deram o primeiro passo. No sábado à tarde, Paula recebeu a visita daquela garota expaciente do dr. Romeu. _Você está muito bem, parabéns – disse. _Obrigada, eu, realmente, estou me sentindo bem. Para você eu confesso que não é nada fácil... alguns dias atrás, logo após o almoço, eu me olhei no espelho e aqueles pensamentos começaram a me incomodar: “ Você é gorda, olhe só pra você, não tem vergonha? Faça alguma coisa com relação a isso, sua gorda! “ Eu fui ao banheiro e cheguei a pensar em provocar o vômito, mas, de repente, as palavras de meus amigos da igreja e de meus pais, vieram em minha mente e falaram mais alto. _Paula, é assim mesmo. Não é nada fácil... isso pode acontecer 310 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão várias vezes ainda, mas o importante é que você não cedeu. O seu corpo está ótimo, nem pense que está gorda e continue se alimentando, amiga. Eu passei por isso, uma vez eu coloquei o dedo na garganta e fiquei por vários minutos naquela dúvida cruel. Graças a Deus consegui resistir. _Outro dia eu resisti a uma forte tentação de jogar a comida que estava em meu prato no lixo. _É uma barra! Mas, você vai vencer, aliás, já está vencendo. _Pode crer, é difícil pra caramba, mas com fé e a ajuda da família e dos amigos eu vou conseguir. Letícia, aproveitando que a mãe estava trabalhando, foi fazer uma visita para Suzana, pois sabia que amiga estaria de folga. _Oi, Su. Como você está, amiga? _Ah... não vou mentir, eu não estou nada bem. _Amiga... está com saudades do Léo, né? _Estou com muitas saudades... ah... eu preciso me acostumar, é bem provável que nem me procure quando voltar. _Que bobagem? Eu duvido que o Léo vai conseguir ficar longe de você. _Eu acho que ele não vai continuar com o namoro. Letícia, ter um relacionamento com alguém que passou por um trauma como o meu, não é fácil. O Leonardo, mesmo sem saber o porquê já teve uma ideia de como é complicado. E a família dele não vai me aceitar. _Para com isso, Suzana. O Léo é louco por você e os pais dele não são preconceituosos como a minha mãe. _Só vai dar para descobrir isso depois que eles ficarem sabendo de tudo. Você achava que a sua mãe seria tão radical com relação ao seu namoro com o Daniel? _Eu não, mas é diferente. 311 Tânia Gonzales _Tem razão, é diferente. A sua mãe não tem nenhum motivo real para proibir o seu namoro, mas no meu caso... bom... as mães querem o melhor para os seus filhos e eu não … _Suzana, para com isso. Você é a pessoa mais doce que eu conheço, ah, amiga, apesar de todo o sofrimento você não se transformou em uma pessoa amarga. _Eu gostaria de ter o poder para apagar o meu passado, eu queria tanto... _Ah, Su, apagar o passado não dá, mas você pode ser feliz agora e no futuro, não permitindo que essa dor tome conta de você, amiga. Deus colocou o Léo em seu caminho porque ele é a pessoa certa, é compreensivo, atencioso, amigo para todas as horas... depois que o Léo ficou pronto, Deus jogou a receita fora, pode acreditar. _Nisso você está certa, o Leonardo é maravilhoso. Eu nunca imaginei que poderia existir alguém igual a ele e é por isso mesmo que ele merece alguém especial. _E você é especial. _Não... eu preciso me preparar psicologicamente para quando o Leonardo voltar, porque vou ter que aprender a viver sem ele. Só o verei de longe nos trabalhos da igreja e... _ Su, você precisa é parar com esse tipo de pensamento. _A sua mãe está errada ao proibir o seu namoro com o Daniel, mas eu tenho que concordar com ela em uma coisa. _Concordar com a minha mãe depois de tudo o que ela falou para você? _Ela acha que você e o Leonardo formam o par perfeito e eu concordo. _Ai, ai, ai, Suzana, você precisa descansar, eu já entendi, a saudade que você está sentindo é que está provocando isso, não está conseguindo raciocinar direito. _É isso mesmo. Você é uma pessoa excelente e é linda. Vocês se 312 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão dão tão bem e... _Su, não me venha com esta história porque eu amo o Daniel. Você ama o Léo e o Léo te ama. Ah, e o Daniel me ama, é claro. _Letícia... você é uma grande amiga. Mas, me conta uma coisa, e você e o Daniel, estão se encontrando? _Só na igreja; o Daniel não quer sair escondido. Eu também não quero, mas é muito difícil manter distância. Estamos orando, Deus vai nos dar uma saída. Não dá para aceitar o comportamento da minha mãe sendo ela uma pessoa cristã. Não concordar com o namoro só porque o Daniel é negro? Olha, Su, eu não me conformo, é tanta hipocrisia. A pessoa cumprimenta a outra com a paz, participam da comunhão através da ceia do Senhor e aí? Cantam todos juntos: “ Uma família, sem qualquer falsidade, vivendo a verdade, expressando a glória do Senhor”17; mas você não serve para namorar a minha filha, querido irmão, a sua cor não combina com a dela, querido irmão! Ah! Eu vou ter uma conversa séria com o meu pai, não dá mais para suportar essa situação, o Daniel não merece ser humilhado dessa forma. _Eu oro sempre por vocês dois. Você está certa, Deus vai dar uma saída. _Suzana, um dia, e eu espero que seja logo, nós vamos sair todos juntos: Você e o Léo, eu e o Daniel; sem impedimentos. Em Fortaleza todos estavam bem agitados por causa dos preparativos para o aniversário de oitenta anos do vovô João, que seria no próximo sábado. Havia muito para ser feito, por isso cada membro da família era responsável por uma parte. Toda aquela agitação estava ajudando Leonardo a não pensar tanto em Suzana, mas à noite quando tudo se acalmava e ele colocava a cabeça no 17 Louvor: Corpo e família -Compositor: Daniel Souza 313 Tânia Gonzales travesseiro, as lembranças vinham muito fortes. Ele lembrou do primeiro dia que a viu na loja e de como ficou impressionado e que a partir daquele dia ela não lhe saiu mais da cabeça. Pensou também em como foi difícil beijá-la pela primeira vez, em como ela tremia... tentou parar de pensar... mas, aquele rosto lindo estava ali, dominando os seus pensamentos. O final de semana se foi e uma nova semana começou; para Suzana os dias que viriam lhe traziam uma triste realidade: seriam longos dias que só fariam aumentar a saudade que já era grande. Estudou, trabalhou muito, participou de alguns trabalhos da igreja. Jônatas, o líder do grupo Alfa, avisou a todos que no próximo sábado seria realizada uma festa com todos os grupos para comemorar mais uma etapa da REMA, pois em breve fariam um novo sorteio. Dentre as pessoas que estavam organizando a festa estavam: Letícia, Suzana e Paula, por isso nos últimos dias elas conversaram muito pelo telefone e sempre que possível se encontravam para tratar dos detalhes. Sandra não gostou de saber disso, mas não pôde fazer nada. Leonardo, como havia prometido, ligou para Lúcia a cada três dias. _Lúcia, como você está hoje? _Meu anjo... eu quero vê-lo. _Eu voltarei daqui a alguns dias, mas, como você está? _Estou com saudades. _Está se alimentando bem? _Estou. Eu ouço as suas músicas todos os dias. _Que bom. O dia está bonito? _Hã? _O dia está bonito? 314 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu não sei, não saí do quarto hoje. _Por quê? _Estou com medo. _Medo do que ou de quem? _Medo. _Lúcia, me explique, o que a assusta? _Meu anjo... preciso de você, venha aqui, por favor. _Lúcia, eu vou demorar mais alguns dias aqui, mas, eu peço que você não se recuse a comer e saia para tomar sol. Posso confiar em você? _Pode. Ele... _Ele? _Ele... ele ligou ontem. _Ele quem? _Ele. _Lúcia, qual o nome dele? _O monstro. _Quem é o monstro? _Ele. _Você não vai me dizer o nome dele? _Não. _Tudo bem, eu não vou insistir, preciso desligar. Lúcia, eu ligo sábado, tá? Fique com Deus, um beijo. Lúcia desligou o telefone e olhou para a foto que estava em sua mão. _Ele... ele... ele... é o monstro. Rasgou a foto e pegou outra que estava debaixo de seu travesseiro. _Você é um anjo, o meu anjo- disse para em seguida dar um beijo na foto de Leonardo. _Oi, pai, muito serviço? - perguntou Letícia ao entrar no escritório 315 Tânia Gonzales de Fernando. _Oi, minha filha, que bom vê-la aqui. Sem o Rafael e o Leonardo está uma loucura, apesar de terem deixado tudo em ordem com os processos deles, mas, mesmo assim... _Será que o senhor pode parar um pouquinho para conversar? _É claro, querida. Eu não almocei ainda e você? _Também não. Podemos almoçar? _Devemos. Fernando escolheu um restaurante bem próximo ao escritório. _E então, o que está preocupando a minha linda filha? _Ah, meu pai... _A sua mãe, não é? A Sandra ficou tão decepcionada por você e o Leonardo não namorarem que está impossível. _É... o senhor está sabendo que ela está atrapalhando até o namoro do Léo? _Ela me contou algo muito chato com relação à Suzana, fiquei tão triste por ela, eu não podia imaginar que foi por isso que o pai dela... você sabe. _Pai, a Suzana é uma excelente pessoa, ela não merece passar por tudo isso, já sofreu tanto e agora precisa dar explicações? _Tem razão. _Eu quero que o senhor me responda uma coisa. _Pode perguntar. _O senhor também é contra o meu namoro? _Não, eu não concordo com a sua mãe. Filha, eu também gosto muito do Leonardo e ficaria muito feliz se vocês dois namorassem, mas eu sei que você está apaixonada pelo Daniel e eu acho que ele é um bom rapaz. _Obrigada, pai, é tão bom ouvir isso. Eu não aguento mais... eu e o Daniel só nos encontramos na igreja. Ele não quer sair escondido, o Daniel deseja tanto a aprovação de vocês, mas a 316 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão mamãe... _Eu sei, filha. Eu tenho conversado com a Sandra, mas ela está irredutível. Nunca vi a sua mãe assim. _Me ajuda, pai. Racismo é um absurdo e vindo de alguém que diz servir a Jesus é pior ainda. O Daniel é trabalhador, é honesto, ama a Deus, ele é tão responsável... _Eu sei, filha, eu vou tentar... vou pensar em alguma coisa. Fique tranquila, tudo vai se resolver. Fernando teve uma conversa com Sandra naquela mesma noite e foi uma conversa muito difícil. _Eu não quero falar sobre esse assunto, para mim isso está encerrado. _Sandra, encerrado como? A nossa filha gosta do rapaz e... _Isso passa, e eu acho que ela nem gosta dele, é só para me provocar. Você acha que a Letícia, uma menina linda, que está fazendo faculdade de odontologia, iria se interessar por aquele... aquele rapaz? _Sandra, como você pode falar assim? Ele é um ótimo rapaz. _Ótimo, pode até ser, mas não para minha filha, ele pode ser ótimo para a Suzana, por exemplo. _Não coloque essa menina na nossa conversa, você já a fez sofrer muito. _Sofrer? Eu estou tentando impedir que ela faça a família da minha melhor amiga sofrer. _Sandra, não se envolva mais nisso. _Impossível, assim que a Lígia voltar de Fortaleza eu vou conversar com ela. _Não vai mesmo. _Vou sim, é a minha obrigação. _O assunto aqui é a nossa filha. Sandra, eu quero que você aceite 317 Tânia Gonzales o namorado dela e o trate com respeito, pois é assim que deve ser. _Fernando, você só pode estar delirando. Eu nunca vou aceitar, nunca! _Sandra, a nossa filha está sofrendo. Não faz sentido você ser contra só porque ele... _Você também acha que eu sou racista? _É o que está parecendo, me diga mais algum motivo. _Ele é um mecânico, não estuda e... _Sandra, eu não estou lhe reconhecendo. Ele trabalha duro na oficina do pai, você sabe que o Isaque ficou tão arrasado pela morte da esposa que não conseguia fazer mais nada, foi o Daniel que tomou conta de tudo e precisou abandonar a faculdade. _Tudo bem, ele pode até ser um rapaz trabalhador, mas não serve para a minha filha. Como que ele pode pensar em namorar a Letícia? _Sandra, você precisa orar. _Não me venha com esta conversa, Deus sabe como o meu coração está. _E como sabe! Sandra dá para ter comunhão desta maneira? Eu não sei como você tem a coragem de participar da... _Fernando, você está indo longe demais. Está falando da minha vida espiritual e isso eu não admito. Não adianta querer me convencer usando esse tipo de argumento, comigo não. Estava tentando me sensibilizar falando sobre a luta que é a vida do Daniel e agora quer que eu fique com medo de estar pecando? Fernando, eu quero o melhor para a minha filha e Deus entende isso, porque ele sempre quer o melhor para os seus filhos. Nós não sabemos o que é melhor e às vezes desejamos algo que vai nos prejudicar e Deus que é onisciente, que vê lá na frente, nos diz não. Assim eu estou fazendo com a Letícia, ela não sabe o que é melhor... se soubesse estaria noiva do Leonardo. 318 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Ah! Chega! Vou dormir, está impossível dialogar com você. Naquele exato momento Letícia estava conversando com Daniel pelo celular. _O meu pai vai falar com ela. _Meu bem, tenha paciência. _Dani, eu não estou aguentando, isso é tão injusto. _Eu sei... mas o que você quer que eu faça? Quer que eu tente conversar com os seus pais novamente? _Não. Se ela o maltratasse, eu não suportaria. Estou com saudades. _Eu também. _Vamos marcar algum encontro. _Sair escondido novamente? Não quero isso. _Também não, mas, eu estou com saudades, vê-lo só na igreja não dá. _Vamos pensar em algo. Eu tenho pedido tanto que Deus amoleça o coração da sua mãe. _ Vamos marcar alguma coisa. _Tá bom, pense e depois você me avisa. Fique calma, vai dar tudo certo, é só uma fase. Tenha uma ótima noite, eu te amo. Letícia desligou o celular e ajoelhou-se perto de sua cama. _Meu Pai, isso não é justo... transforme o coração da minha mãe. Eu não sei mais o que fazer! Só tu podes mudar essa situação e também eu peço por minha amiga, Suzana, que ela seja feliz ao lado do Léo, que a família dele compreenda que os dois se amam e aceite a Suzana, tu sabes o quanto ela é maravilhosa. Em nome do seu filho, Jesus, é que eu peço essas coisas. Amém. Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Suzana deitou-se. O dia seguinte seria sábado e ela estaria de folga, pois 319 Tânia Gonzales havia trocado com a amiga Cláudia. À noite teriam a festa da REMA, por isso seria um dia cheio de preparativos especiais; Suzana estava achando ótimo toda aquela atividade, pois isso ajudava amenizar a dor que sentia dentro do peito. Leonardo fazia tanta falta! O lindo sorriso, a voz agradável que dizia coisas que ela adorava, o aconchego dos seus abraços, os beijos... _Não faça isso! Por favor, me solte... _Soltar? Minha linda, não é isso o que os seus olhos me dizem... você quer que eu a abrace... você me quer bem pertinho, diga a verdade. _Não. _Diga sim, porque para aquele rapazinho você diz, não é mesmo? _Não... por favor, você está me machucando! _Você diz isso para ele também? É claro que não, então vai precisar fazer o mesmo comigo. _Não. _Sim, beije-me, vamos... como você faz com aquele rapazinho... eu quero que você me beije, está ouvindo? Você não pode escapar de mim... não pode, minha linda! O homem estava tentando beijá-la, Suzana tentava se soltar daqueles braços, mas ele era mais forte do que ela. _Eu vou beijá-la. _Não! Não! Socorro! _Suzana? Minha neta, ei... está tudo bem. _Vó, vó? Eu não aguento mais... esses pesadelos - disse Suzana em lágrimas. _Minha querida. _Quando eu vou ficar livre disso? Por que Deus não me ajuda? _Minha neta linda, acalme-se, vai ficar tudo bem. 320 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _O Leonardo precisa ficar longe de mim... é melhor para ele. _Não fale assim... tente dormir. 321 Tânia Gonzales Capítulo 29 -Saudade Enfim chegou o grande dia do aniversário do vovô João; acordaram bem cedo pois não podiam perder tempo. Comemorariam os oitenta anos do vovô em um chácara. Às oito horas da manhã já estavam lá organizando tudo. O vovô João e a vovó Helena estavam muito felizes, principalmente pelo privilégio de ver a família reunida. Às onze horas Leonardo ligou para Lúcia. _Oi, meu anjo. _Oi, Lúcia, você está bem? _Estava ouvindo você tocar... quando vou ouví-lo aqui no meu quarto? _Breve. Tenha paciência. Você está se comportando bem? _Estou fazendo tudo o que o meu anjo mandou. _Eu pedi, não mando em você, Lúcia. Eu peço e você atende, é isso. _Meu anjo, o monstro manda... faz coisas horríveis, ele não pedi licença. Leonardo pensou em perguntar que coisas horríveis seriam, mas pelo telefone achou que não seria conveniente. _Lúcia, você quer me falar o nome do monstro? _Não. Ele não vai gostar. _Ele esteve aí? _Não. Eu não quero que ele venha... ele disse que virá logo, mas eu não quero. _Quando ele falou com você? _Comigo não. Eu não falo com ele. _Quem falou com ele? _Minha mãe. 322 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Ah... Lúcia, eu preciso desligar. Tenha um ótimo sábado, por que você não almoça fora com a sua mãe? Ela ficaria muito feliz. _Eu não vou sair... só se... _Se? _Se for com o meu anjo. _Então, quando eu voltar nós vamos sair, está bem? _Está. Depois de se despedirem, Leonardo desligou. Ele não sabia explicar, mas todas as vezes que conversava com Lúcia a saudade de Suzana aumentava mais ainda. “ Como é possível alguém fazer tanta falta? E se eu ligasse só para ouvir a voz dela? Não, é melhor não. A comemoração do aniversário de oitenta anos do vovô João foi um evento maravilhoso. Ele e Helena até dançaram valsa. Leonardo olhava para os dois com orgulho. Deveria ser ótimo passar tantos anos juntos. Os avós tinham 52 anos de casados e ainda se diziam apaixonados um pelo outro. Leonardo desejou que Suzana estivesse ali participando daquele momento especial. A festa na igreja foi muito animada, os jovens cantaram muito, fizeram muitas brincadeiras, houve também sorteios de vários brindes e é claro que muitas delícias para serem devoradas. Havia pão de metro com vários tipos de recheios, salgadinhos diversos, docinhos e um enorme bolo de chocolate. Suzana, apesar da imensa saudade que a ausência de Leonardo provocava, divertiu-se bastante, principalmente com as brincadeiras de Paulinha que estava animadíssima. Letícia teve a oportunidade de passar mais tempo com Daniel e até aproveitaram para sair antes que a festa terminasse para terem um pouco de privacidade. 323 Tânia Gonzales Meia-noite e quinze, Paulinha deixou Suzana em casa, havia emprestado o carro de seu pai. Neste últimos dias, por causa dos preparativos para a festa, as duas se aproximaram mais e Suzana estava gostando de aprofundar a amizade com ela. Daniel estacionou o carro em frente à casa de Letícia dez minutos depois e encontrou a mãe dela esperando com uma cara de poucos amigos, _Eu sabia que não podia confiar em você, Letícia. Saindo escondida com este rapaz? Não tem vergonha? _Mãe, por favor, não faça escândalo... _Vergonha que os vizinhos ouçam a sua mãe falar você tem, não é? Mas não tem vergonha de sair com esse aí! _Dona Sandra, nós estávamos na festa dos jovens e... _Não quero que você me dê explicações. A minha filha vai entrar agora e lá dentro eu converso com ela. _Mãe, não fale assim com o Daniel. _Falo como eu quiser, ele não merece um pingo de consideração, saiu com você sem a minha autorização. Gosta de sair às escondidas, não é? _Dona Sandra, eu não gosto disso, eu prefiro que tudo seja esclarecido. _Ouça rapaz, eu quero que você fique bem longe da minha filha, entendeu? _Mãe? Por favor, vamos entrar, deixe que o Daniel converse com a senhora lá dentro. _Nós duas vamos entrar, eu não quero este rapaz dentro da minha casa. Venha Letícia. _É melhor você entrar, Letícia, depois conversamos. _Mas... 324 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Entre com a sua mãe, não vai dar para conversar com ela hoje. _Nisso você tem toda a razão. Venha Letícia! _Tchau, Dani e me desculpe. _Não precisa se desculpar. _Letíciaaaa! - gritou Sandra impaciente. Letícia entrou muito contrariada e foi direto para o seu quarto. _Volte aqui, você me deve uma explicação. _O que está acontecendo, Sandra? Por que essa gritaria?perguntou Fernando saindo do quarto. _Pai, pai... ela fez um escândalo lá na rua, tratou o Daniel tão mal e... _Calma, filha. _Calma? Ela está saindo escondida com aquele rapaz, você acredita? Ele a trouxe de carro, eu os peguei... _Sandra, vamos parar com isso, amanhã conversamos melhor, vá dormir, minha filha. _Amanhã você não me escapa, vou falar com você- disse Sandra em um tom ameaçador. Domingo à tarde, após chegar do trabalho, Suzana pegou Meg, a calopsita, e enquanto afagava aquela ave dengosa, seus pensamentos voaram até Fortaleza. “ O que ele estará fazendo agora? A festa do avô foi ontem, deve ter sido uma festa maravilhosa. Ah... Meg... que saudades! Será que ele lembra que eu existo? Deve estar se divertindo tanto que é claro que não vai perder tempo pensando em mim... pensar em alguém como eu, pra quê? Para sofrer? É melhor mesmo que ele me esqueça, lá na IGAG existem muitas moças que seriam perfeitas para ele, eu... eu não posso tê-lo, não posso... a família dele nunca iria aceitar o nosso namoro. _Suzanaaa! Oiii! Sou eu, Letícia! 325 Tânia Gonzales _Pode entrar, Lê. Estou aqui com a Meg. _Oi, ah, que gracinha! Ela é tão doce quanto você, amiga. Vem aqui comigo, vem, Meg. _Ela gosta de você... e aí como foi ontem com o Daniel? _Bom... com o Dani foi ótimo, mas, a minha mãe estava me esperando no portão, você acredita nisso? _Ah, não! Que coisa chata! _Foi horrível, ela falou cada coisa! Humilhou o Dani... _Amiga... _Su, é tão injusto isso... eu e o Dani nunca mais havíamos saído, mas ela pensa que nós continuamos saindo escondido mesmo com a proibição dela. Ela não me escuta. _Nem sei o que dizer... ah, amiga! _Vamos mudar de assunto, é melhor. Eu tenho uma boa notícia para você. _Notícia para mim? É sobre … _É claro é que sobre o Léo. Meu pai conversou com o Rafael hoje cedo e eles voltam quarta-feira. _Quarta? _Que sorriso mais lindo... não vê a hora de estar com ele, né? _Eu nem sei se ele vai me procurar. _É claro que vai, você acha mesmo que o Léo vai conseguir ficar longe da amada dele? Deve estar com mais saudades do que você. _Não sei... eu não quero me iludir. _Eu me pergunto como ele conseguiu resistir... não ligou para você uma única vez! _É... ele não deve estar com saudades como você imagina. _Ah... não é nada disso. Ele deve preferir conversar pessoalmente, é natural, depois que ele … é... ficou sabendo de tudo, vocês não se viram mais, não é? _Você está certa. Eu nem sei se conseguirei encará-lo novamente. 326 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Estou com tanta vergonha! _Suzana, para com isso. Quarta-feira o seu príncipe chega e vocês vão poder matar essa saudade enorme! _Você é bem otimista... eu não estou alimentando essa esperança toda, porque se ele chegar e não me procurar, vai doer muito mais. _Só você mesmo para imaginar que o Léo vai conseguir manter distância, não mesmo! Escreva o que eu estou dizendo: Ele vai procurá-la no mesmo dia que chegar. Terça-feira, Suzana foi para a faculdade e depois para o shopping trabalhar. Já estava ansiosa, mas, na quarta a ansiedade aumentou ainda mais por causa da expectativa pela chegada de Leonardo. Faltavam cinco minutos para as dez horas da noite e ela não estava suportando mais toda aquela ansiedade. Ele estaria esperando-a? Esta era a pergunta que não lhe saía da mente. Dez minutos depois ela saiu da loja e os lindos olhos verdes olharam em todas as direções na esperança de encontrar aquele lindo sorriso que tanto lhe fazia falta. _Filha? Ei? Não me viu? - perguntou Davi para decepção de Suzana. _Pai? Oi, eu estava distraída. _Percebi. Procurando por alguém? _Não. É claro que não. _Você mente tão mal. _Pai... me desculpe, é que eu pensei... _Eu sei, filha, eu entendo. Vamos? Deitada em sua cama, Suzana não pôde conter as lágrimas... “ É claro que ele não iria me procurar. “ No dia seguinte, Cláudia percebeu a angústia da amiga e a interrogou. 327 Tânia Gonzales _Suzana, o que está acontecendo com você hoje? Tudo bem que nos últimos dias você também esteve bem distante... sei que está com saudades de seu amor, mas, hoje... _Ah... Cláudia, deixa pra lá. _Fala comigo, o que aconteceu? Ele chegou de viagem? Vocês conversaram? _Ele chegou ontem e … nem me procurou. Nem sei por que eu estou assim, já esperava por isso. _Suzana, você não me contou o motivo, mas, ele vai procurá-la, pode ter certeza disso. Ele deve ter chegado tarde e... _É, pode ser. Suzana saiu da loja na maior expectativa de ver Leonardo e mais uma vez ficou decepcionada. Permaneceu calada durante todo o caminho para casa, o pai, que a estava buscando com o carro da tia Marisa, deixou-a entregue à seus pensamentos. _Su? Oi, me desculpe pelo horário, já estava dormindo?perguntou Letícia ao ligar, pois já era quase meia-noite. _Não, tudo bem. E aí, quais as novidades? Na verdade, a pergunta que Suzana queria fazer era: “ E o Leonardo? “ _Eu liguei porque tenho uma novidade sim. Eu disse que o Leonardo chegaria ontem, mas só os pais dele voltaram de Fortaleza. Ele ficou lá, com o Bruno e a Beatriz. O meu pai disse que como o Bruno pegou um mês de férias, quis aproveitar para ficar mais alguns dias lá. Então ele e a Bia convenceram o Léo. _Ah... _Esse “ah” significa muita coisa, não é, amiga? _Significa alívio e tristeza ao mesmo tempo. _Alívio: Ele não a procurou porque não voltou. Tristeza: ele ainda 328 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão não voltou. _Exatamente. Você disso tudo. Obrigada por ter me avisado, Lê. Você sabe qual é a previsão do retorno deles? _Meu pai disse que só na próxima semana. Como o Léo levou o notebook está trabalhando quase que normalmente. O dr. Rafael só não ficou também porque precisava comparecer em algumas audiências e a Lígia também não podia mais se ausentar da clínica. Após desligar o celular, Suzana pensou: “ Doí menos saber que ele ainda não voltou... mas, e se acontecer o que eu mais temo? E se ele preferiu ficar mais alguns dias para me esquecer de vez... ele não deve nem pensar em mim... é claro que não. Leonardo resolveu fazer algo diferente com relação à Lúcia, pois percebeu que ela ficou muito triste quando soube que ele ficaria longe por mais alguns dias. Combinou conversar com ela pela internet, usando webcam, assim ela poderia vê-lo mesmo que fosse à distância. Lúcia ficou bem animada com a ideia. _E então? É melhor assim? _Só um pouco, bom mesmo seria tê-lo aqui comigo. _Serão só mais alguns dias, logo eu estarei aí. _A minha mãe quer que eu saía com ela, mas eu disse que só vou sair com você. _Comigo? Para onde? _Faz tempo que eu não vou... _Onde? Pode falar. _Ao cinema. _Hum... então, você quer que eu a leve ao cinema. Tudo bem. _Verdade? Jura? _Preciso jurar? 329 Tânia Gonzales _Não. Eu acredito em você, meu anjo. _Ótimo. E você está bem? _Estou. Vou continuar assim se o monstro não aparecer. _O monstro? Ele disse que iria até aí? _Disse. _Disse para quem, Lúcia? _Para minha mãe. Não quero que ele venha... meu anjo, você precisa chegar logo. _Acalme-se. Leonardo conversou mais alguns minutos com ela e depois ficou muito pensativo. “ Quando chegar lá eu preciso ter uma conversa muito séria com a mãe da Lúcia. Preciso saber quem é o monstro, embora eu já tenha uma ideia de quem seja.” Passar todos aqueles dias em Fortaleza estava sendo ótimo para Beatriz e Bruno, curtiram muito as belas praias. Leonardo só concordou em prolongar a viagem por causa da insistência de todos, mas, principalmente pelos avôs que estavam muito felizes com a presença dos netos. Sentia um aperto no coração só de pensar que já faziam 18 dias que não via Suzana, pois a última vez fora justamente um dia após o evento de missões, quando ele a levou para a faculdade. No dia seguinte, resolveu ligar para a amiga Letícia, pelo menos iria saber se Suzana estava bem. _Léo? Que surpresa! Puxa, como você demorou para ligar! Esqueceu a sua amiga, é? _Como eu poderia esquecer da minha melhor amiga? Estou com muitas saudades. E aí, como estão todos? _Depende. Sobre quem, especificamente você gostaria de saber?provocou ela. _Sobre você e o Daniel, por exemplo. _Sei... então, tá. Está uma grande confusão por causa da minha 330 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão intolerante mãe. Amigo, está tão difícil... pessoalmente a gente conversa melhor, quando você volta? _Logo. _Logo? Isso lá é resposta? Você não está com saudades de uma certa pessoa? _Como ela está? Não quero saber detalhes, só se ela está trabalhando e estudando normalmente e se está participando dos trabalhos do grupo Alfa. _Está estudando e trabalhando. Nós tivemos uma festa com todos os grupos reunidos, eu, a Suzana e a Paulinha fizemos parte da organização. Foi muito legal. Agora estamos aguardando a nova formação dos grupos. Você deve estar louco para vê-la, não é? _Leca, Leca... ah, eu tenho falado com a Lúcia. _Você ligou para ela? _Várias vezes. É uma situação muito delicada, eu não posso ficar muito tempo sem dar notícia senão ela se fecha ainda mais. _ E o doutor Leonardo já descobriu o porquê dela ter ficado desse jeito? _Tenho algumas suspeitas, mas preciso falar com a mãe dela. Bom... vou desligar. Foi ótimo falar com você e... _O que foi, quer mandar algum recado para uma certa pessoa? _Não. Leca, você sabe se a sua mãe falou sobre aquele assunto com a minha? _Léo, sinceramente, eu não sei, está impossível manter um diálogo com a minha mãe. _Então, tchau amiga. Nos veremos em breve. Um beijo grande. Adoro você. _Ah... Léo, volta logo, você faz tanta falta! Um beijo maior ainda e eu também te adoro. Assim que o amigo desligou, Letícia fez uma ligação para Suzana. 331 Tânia Gonzales _Atrapalho? Então, tudo bem, é que eu acabei de receber uma ligação de alguém que está lá em Fortaleza... _O Leonardo ligou? Ele está bem? _Está. _Que bom, eu fico feliz. _Ai, ai, ai... vocês dois! Loucos para me encher de perguntas e ficam nessa, ah... que bom... ela está bem? Ele está bem? _Ele perguntou alguma coisa sobre mim? _Ele fez igualzinho você. Quis saber se você estava bem. _Só isso? _Só. Perguntou se você está realizando as suas atividades normalmente. _Ele pensou que eu iria passar os meus dias deitada na cama, me lamentando e chorando? _Calma, Su. Eu sei o que é isso... é uma saudade louca, maluca. _Ele ligou só pra isso? _Perguntou sobre o meu complicado namoro. _Disse quando volta? _Agora você fez a pergunta que o seu coração estava pedindo. _Letícia? _Não. Ele disse simplesmente que vai ser logo. Logo foi a palavra exata que ele usou. _Logo? Logo quando? _Não disse. Após desligar, Suzana ficou muito pensativa, a amiga Cláudia, percebeu que algo havia acontecido. _Suzana, o que foi? _Nada, é que eu recebi uma ligação de uma amiga e ela me deu notícias do Leonardo. _E... 332 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Ele não especificou o dia que vai voltar. _E você está cada dia mais ansiosa. _Não deveria, porque voltar de Fortaleza, com certeza ele vai, mas isso não significa que ele volte para mim. _Suzana, como você está apaixonada! Isso é lindo! _Vamos mudar de assunto? _Está sem sono, minha neta?- perguntou vovó Vivi, pois já passava de uma hora da manhã e Suzana estava sentada em sua cama. _Desculpe por tê-la acordado, vó. Não estou conseguindo dormir. _Pensando nele? _É. Amanhã vai completar vinte dias que não o vejo. _Que gracinha, está contando os dias! _Ah, vó... _ Eu já deveria ter voltado para Belo Horizonte, sua tia me liga quase todos os dias, ela quer saber se eu resolvi morar aqui. _Seria ótimo. _Não posso ficar, mas, eu quero esperar até que você e o Leonardo se entendam. Eu vim para passar um mês e … _Vou sentir tantas saudades, vó! Agora, sobre o Leonardo eu peço que a senhora não alimente muita esperança, não quero que fique decepcionada. _Tenho certeza que assim que ele chegar de Fortaleza, vai procurá-la. _Eu não tenho esta certeza. 333 Tânia Gonzales Capítulo 30 -Expectativa Mais três dias se passaram e finalmente a quarta-feira chegou. Bruno, Beatriz e Leonardo pegaram o voo de volta para São Paulo às nove horas da manhã. O avião aterrissou no aeroporto de Guarulhos poucos minutos depois de uma hora da tarde. Rafael foi recebê-los. _Sejam muito bem-vindos. Já estava com saudades. A Lígia não pôde me acompanhar porque havia um cliente marcado exatamente neste horário- explicou Rafael. _E aí, filhão? Você não precisa ir para o escritório hoje... - disse Rafael após deixar a filha e o genro em casa. _Tem certeza? Eu posso ir. _Não precisa, você já adiantou muita coisa... trabalhou tanto! Lá em Fortaleza você quase que fazia o mesmo horário daqui! Não posso reclamar. Leonardo chegou em casa tomou um banho, almoçou e depois foi até a casa de Lúcia. _Rita, antes que eu veja a Lúcia, eu gostaria de fazer uma pergunta. _O que você gostaria de saber? _Quem está para visitar a Lúcia? _O pai dela virá sábado. _Ah... me desculpe, mas, como é o relacionamento dos dois? _Nada fácil. Ela nem olha para ele. _Tem algum motivo para isso ou seria por causa da separação de vocês? _Eu acho melhor você ir até o quarto dela agora, ela está muito 334 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão ansiosa! _Tudo bem. _Filha, olha só quem chegou de viagem! _ Meu anjo, você voltou ! Lúcia abriu um sorriso enorme, o que não era nada comum, mas não se aproximou de Leonardo; ela sempre mantinha uma certa distância e ele não queria invadir o espaço dela. _Você está bem? _Agora eu estou ótima! O meu anjo está diferente... a sua cor... _É verdade... as praias de Fortaleza são lindas! Peguei um bronzeado. _Ficou mais lindo ainda. _Obrigado. Você está com uma aparência ótima. _Vamos sair, hoje? _Se você quiser. _Eu quero. _Então, eu vou esperar lá fora, está bem? _A senhora gostaria de nos acompanhar?- foi a pergunta de Leonardo para a mãe de Lúcia. _Não, ela não iria gostar. Leonardo, você não imagina a alegria que eu estou sentindo, são quase sete meses sem colocar os pés na rua, você consegue imaginar isso? _Sete meses? Ela saía bastante antes? _Adorava ir ao shopping com a amiga dela, a Elisa, mas, de repente foi se fechando e... _Aconteceu alguma coisa? _É melhor não falarmos sobre isso, ela pode escutar. Ao sair do estacionamento do prédio Leonardo percebeu que 335 Tânia Gonzales Lúcia havia fechado os olhos. _Ei, Lúcia? Você está bem? _Estou, é que faz muito tempo que não ando de carro e estou um pouco tonta com o movimento. _Ah... é natural, isso logo passa. Durante o trajeto até o shopping Lúcia abriu os olhos duas vezes, mas logo os fechava novamente. _Chegamos. Eu vou abrir a porta para você, é bem provável que sinta uma certa tontura ao sair. Leonardo abriu-lhe a porta e ofereceu-lhe o braço, ela o olhou por alguns instantes e por fim colocou o braço no dele. _Vamos andar bem devagar, para que você se acostume, me avise se estiver com tontura, certo? _Certo. _Lúcia? Você precisa abrir os olhos. _Certo. _Tem certeza que gostaria de ir ao cinema? Não sei se é uma boa ideia... aquela tela enorme e você com tontura... _Eu quero, por favor. Lúcia sentia-se estranha, mas conseguiu caminhar bem devagar. _Tudo bem? _Espera um pouco... estou com medo. _Não há motivo para sentir medo, estou aqui com você, fique tranquila. Você confia em mim? _Confio. Mas, são tantas pessoas... _Sim, mas não precisa ficar assustada, estou aqui com você. O que vamos assistir? _Pode ser um desenho? _Claro. Então, vamos. Escolheram um conhecido filme de animação; Leonardo comprou 336 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão pipoca e Lúcia começou a sentir-se mais confiante. Durante o filme, Leonardo percebeu que ela parecia uma criança. Ele ficou admirado em como ela achava graça de tudo; Lúcia estava realmente se divertindo. _Nem vou perguntar se você gostou, está escrito em seu rostodisse ao saírem da sala de cinema. _Adorei, foi muito legal! Obrigada. _Não precisa me agradecer. Vamos comer? _Vamos. Eu posso escolher? _É claro. O que foi? _Não estou me sentindo bem. _Vamos parar um pouco, deve ser por causa do movimento... segure em meu braço. _Não acredito! Não pode ser! _O que foi, Sueli? _Como que ele pôde fazer isso com a minha irmã? Ela está morrendo de saudades dele... _Quem? _Aquele rapaz de braço dado com... não acredito! Como que o Leonardo teve a coragem de fazer isso com a Suzana? Ela pensa que ele está em Fortaleza! Que canalha! _Aquele gato é namorado da sua irmã? Ele é muito gos... _Gato traiçoeiro é isso o que ele é! _Pode não ser o que você está pensando. _Sei... eu não esperava isso do Leonardo! Nem conversou com a Suzana e já está com outra? Caramba! Eu vou atrás deles... _Sueli! Vamos perder o filme, deixa isso pra lá, depois você conversa com ele ou conta logo para sua irmã. _Ele veio aqui pensando que não encontraria ninguém conhecido, por que não foi aonde a Suzana trabalha, hein? 337 Tânia Gonzales _Lá é bem mais longe, né? Sueli, vamos logo, esquece isso, depois você resolve, eles já foram embora. _E então? O que você vai querer?- perguntou Leonardo ao chegarem à praça de alimentação. _Você promete que não vai rir? _Prometo. _É que geralmente são as crianças que... _Já sei. _É que eu adoro aquelas bonequinhas! _Tudo bem. Eu também vou pedir o mesmo, assim você ganha duas. _Você também? _É isso aí, o lanche é pequeno, é melhor assim, eu comi muita pipoca. Às oito horas da noite Leonardo deixou uma Lúcia muito sorridente em casa. Rita agradeceu tanto que ele ficou todo sem jeito. Chegou em casa, tomou outro banho, escolheu uma roupa com bastante cuidado e saiu novamente. Os pais não estavam. Suzana dava atenção a um cliente que estava com uma enorme dúvida. A namorada faria aniversário e ele resolveu dar um perfume, mas estava entre três opções e não conseguia se decidir. _ A fragrância deste é bem suave, o senhor não disse que ela gosta de perfume suave? _É... mas este aqui é tão gostoso! Eu não sei... me desculpe, mas eu sou tão indeciso! _Fique à vontade, não se preocupe. _Você poderia me mostrar mais duas opções? 338 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Tudo bem... olha só este... sinta... o que achou? _Bem... é... _Olha quem está entrando na loja com um bronzeado lindo!sussurrou Cláudia nos ouvidos da amiga, ao ver Leonardo se aproximando. Suzana olhou rapidamente e pensou que não iria conseguir permanecer em pé. Era ele... Leonardo estava ali, fitando-a com aquele lindo sorriso. _Você me mostra outro? -perguntou o indeciso cliente. _É... é... claro, só um minuto. _Boa noite- disse Cláudia cumprimentando-o- o senhor poderia aguardar um momento, é que a sua vendedora favorita está atendendo um cliente. _Boa noite, eu espero. Suzana pegou outro perfume e mostrou ao cliente, que continuou na dúvida. Leonardo não tirava os olhos dela e isso a estava deixando mais nervosa ainda, ele percebeu que as mãos dela tremiam muito. _E então, o senhor já se decidiu? _Bem... é... eu não disse que era muito indeciso? Para você ter uma ideia do grau da minha indecisão, mesmo sabendo que ela gostava de mim, eu demorei seis meses para pedí-la em namoro. Você acredita? Mas, eu prometo que não vou demorar tudo isso para escolher o perfume. Enquanto o cliente falava, Suzana prestava atenção nele e às vezes dava uma discreta olhada em Leonardo que continuava com os olhos fixos nela. _É... eu acho que vou levar este aqui... ou é melhor este outro? O que você acha, hein? _Não entendi? _Eu quero uma ajuda... qual eu devo levar? 339 Tânia Gonzales _O senhor quer uma opinião minha... então, eu acho que deveria levar este aqui, porque ela gosta de perfume suave e este é muito suave, é perfeito. _É mesmo? Será? Ai, dúvida cruel! Ser ou não ser? Desculpe a brincadeira, mas eu vou aceitar a sua sugestão. Vou levar este... ou este? É... não, agora eu estou certo vai ser este mesmo que a senhorita sugeriu e muito obrigado, você é muito paciente. _Que isso! É o meu trabalho. Após mais alguns segundos, Suzana estava livre para atender ao seu cliente preferido. _Boa noite, posso ajudá-lo? _Pode... eu preciso de uma loção após barba, é a preferida da minha namorada. _Ah... eu vou buscá-la. Suzana pegou a loção e entregou-a para Leonardo que, por um breve momento, tocou naquela mão trêmula. Entreolharam-se por alguns segundos. _É esta, você acertou. Vou levá-la. _Deseja mais alguma coisa? _Eu desejo esperá-la lá fora, posso? _Pode. _Ainda faltam quinze minutos, o relógio hoje não está ajudando, né? _Para com isso, Cláudia, você está me deixando mais nervosa ainda! _Ele veio! Está mais gato do que nunca! Uau! Bendita Fortaleza com a suas belas praias... _Cláudia? Chega! _Uma certa pessoa ainda ficou na dúvida se ele iria procurá-la! _Ele está tão lindo! Eu adoro vê-lo com aquela camisa verde, é a 340 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão minha preferida! _Você já disse isso para ele? _Já. _Que gracinha! Ele colocou pensando em você, que romântico! Suzana saiu da loja com o coração disparado... a ansiedade era grande... Leonardo se aproximou rapidamente. _Oi, como você está? _Bem. Quando você chegou? _Hoje. Quer comer alguma coisa? _Não. Suzana estava tão ansiosa que se colocasse alguma coisa no estômago com certeza iria vomitar. Definitivamente, comer não era uma boa ideia. _Você avisou … _Eu falei com a sua mãe, pode ficar tranquila. Vamos? _Vamos. Suzana não conseguia se mover... _E então? Vamos ou não? _Eu não sei. _Indecisão pega? Você está até parecendo o seu cliente. _Tem razão. Vamos. Andaram lado a lado; Leonardo, durante o caminho até o estacionamento, olhou para ela várias vezes, mas Suzana não virou o pescoço uma única vez. Entraram no carro e, de repente, ela ficou muito envergonhada ao pensar que agora ele sabia de tudo, ele conhecia o seu triste passado: “ O que será que ele está pensando de mim? “ _Suzana, você está bem? Está tão pálida! _E você está tão bronzeado! _É... você gostou? 341 Tânia Gonzales _Eu? _Não precisa responder, você está tão nervosa! Acalme-se, não estava esperando que eu fosse aparecer? _Hoje não. _Algum dia você esperou? _Por que você sempre faz estas perguntas difíceis? _Não precisa responder esta também. _Como foi a festa de aniversário do seu avô? _Foi show! Ele e a minha vó até dançaram valsa! _Que legal! _Você teria adorado... e a festa da REMA? _Foi ótima, o pessoal estava animado como sempre. _Eu fiquei sabendo que você ajudou na organização. _É isso mesmo, foi bem legal trabalhar com a Paulinha e a Letícia. A Paula é muito divertida! _Com certeza. Eu fico feliz que ela esteja bem. E você, está bem? _Estou. _Suzana, eu... _Leonardo, é melhor você não falar nada sobre aquele assunto. O restante do trajeto até a casa de Suzana foi feito no mais absoluto silêncio. _Posso entrar? _Eu acho que... _Só um pouco. _Você quer entrar para cumprimentar a minha vó e meus pais? _Hoje não, eu só gostaria de ficar um pouco com você. Posso? _Pode. Entraram e por alguns instantes os dois permaneceram distantes, o clima entre eles estava estranho, parecia que havia um obstáculo que os impedia de se aproximarem um do outro. _Suzana... eu senti tanta saudade, só fiquei todos esses dias longe 342 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão de você porque estava em Fortaleza, se eu estivesse aqui, com certeza eu... _Leonardo... eu... _Eu só resolvi viajar porque a sua mãe me disse que você estava muito envergonhada, então eu pensei que seria melhor dar um tempo para você. Eu nunca tive dúvida que... _Leonardo, você é livre para decidir, não se sinta na obrigação de... _Obrigação? Eu amo você. Você acha que me passou pela cabeça desistir de você? _Seria natural, depois de saber... _ Eu pensei em ligar, mas, não seria bom conversar pelo telefone... eu me segurei para dar um tempo para você sentir-se melhor. _Você não merece uma namorada traumatizada como eu. _Suzana, não fale assim. Eu a amo e sinto muito que tenha sofrido tanto. Suzana abaixou a cabeça e deixou que as lágrimas inundassem o seu rosto. _Minha princesa... como alguém pôde machucá-la? Como? Eu não entendo... Suzana? Olha para mim, não precisa abaixar a cabeça, não tenha vergonha, você não teve culpa de nada, é mais uma vítima da crueldade de um... canalha...olha pra mim. _Não... eu sinto tanta vergonha... eu nunca quis enganá-lo, mas é tão difícil dizer... agora você sabe porque algo normal como um namoro, pra mim é tão complicado! Você... sabe o quanto foi difícil me... beijar; eu não quero que sofra, eu... _Suzana, olha pra mim, me deixe enxugar as suas lágrimas... ei... eu amo você. _Você não deveria me amar. _Minha princesa... fique pertinho de mim, não se afaste... eu a amo tanto! Vem aqui.. 343 Tânia Gonzales _Eu estou morrendo de vergonha. _Não... ah, meu amor... ei, como ele pôde machucar estes lábios lindos?- Leonardo começou a acariciar os lábios dela com o dedoEu vou cuidar deles com carinho... eles merecem muito carinho; posso beijá-los? Eu posso? _Leonardo... _Eu posso? _Sim... você pode. _Ah... minha princesa, eu estou com tanta saudade deles, tanta... meu amor... é isso que eles merecem- enquanto dizia estas palavras, Leonardo tocava os lábios dela com os dele bem suavemente- eles merecem carinho... eu a amo. _Eu o amo... senti tanta saudade de você... eu pensei que não fosse suportar! _Ah... meu amor, eu também. Neste momento as palavras não foram mais necessárias, os dois se entregaram completamente àquele beijo apaixonado e através dele puderam diminuir a imensa dor que a separação lhes havia causado. _Minha princesa, como é bom tê-la novamente em meus braços. _Como você me fez falta! Eu cheguei a pensar que você não fosse me querer mais e isso doía tanto! _Como você pôde pensar isso? Ainda não entendeu que eu a amo? Não posso ficar longe de você. _E a sua família? _Não se preocupe com isso, eu converso com eles. _Eles já sabem, não é? _Não sei. Eu acho que não, falei com a minha mãe pelo telefone hoje cedo e ela estava normal. Não nos vimos ainda. _Eles vão pedir para você terminar o namoro, com certeza. _Eu não vou terminar o nosso namoro, só haveria um motivo que 344 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão me faria me afastar de você. _Qual? _Se você me pedisse isso, se você me dissesse que não me ama, mas você teria que ser bem convincente. _Ah... _Qual é a sua próxima folga? _Domingo. _Perfeito. Eu quero passar o dia inteiro com você. Pense em algum lugar que você queira conhecer. _Um lugar? Não sei... assim, de repente, é difícil. _Hum... o que você acha de passarmos o dia em Campos do Jordão? Já esteve lá? _Não, eu tenho vontade de conhecer. _Perfeito. Vamos passar o dia em Campos do Jordão. Vou embora, você precisa descansar, faltam cinco minutos para a meia-noite. Amanhã eu vou levá-la para a faculdade, assim você pode dormir mais um pouquinho. _Não precisa. _Precisa, sim. Agora, me dá um beijo de despedida. 345 Tânia Gonzales Capítulo 31 -Lúcia? Ao entrar, Suzana notou que a casa estava bem silenciosa, foi até o seu quarto e lá encontrou Sueli que a estava esperando. _Oi, já estão todos dormindo? _Eles esperaram até onze e meia, a vovó está na tia Marisa. É, pelo jeito o reencontro foi bom. _Foi ótimo. _Suzana, eu não quero ser a chata que vai colocar coisas na sua cabeça e atrapalhar a sua felicidade, mas eu não conseguiria dormir se não conversasse com você. _O que aconteceu, Sueli? _O Leonardo chegou hoje de Fortaleza? _Hoje à tarde, por quê? _Irmãzinha, ele comentou alguma coisa sobre ter ido ao cinema hoje? _Cinema? Não. _Bom... eu vou falar! Fiquei com muita raiva hoje! Caramba! Hoje, aproveitei a minha folga e eu fui com uma amiga ao shopping, vi o Leonardo saindo de uma das salas de cinema com uma garota. _O Leonardo com uma garota? _Tenho certeza que era ele, eu quase que fui atrás... eles estavam juntos. _Juntos? _Juntos, abraçados. _Não pode ser... ele chegou na loja antes das nove e meia. _Eram mais ou menos sete horas quando eu os vi. Me desculpa, eu sei que você estava feliz, não sei o que significa isso, mas que é bem estranho, isso é, você concorda? 346 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _É muito estranho. _Ele comentou se veio algum parente de Fortaleza, vai saber, de repente é uma prima dele... _Não disse nada. Como era a garota? _Bem nova, deve ter mais ou menos a sua idade. _Ele tem uma prima em Fortaleza, mas ela é mais velha que ele. _Suzana, você deveria falar com ele. _Eu nem vou conseguir dormir. _Me desculpa, por que você não liga para ele, agora? _Agora? Está tão tarde! _E daí? É melhor do que ficar com a pulga atrás da orelha, né? _Tem razão, eu vou ligar, agora. _Vou deixar você à vontade, mas seja firme! Enquanto Suzana estava conversando com a irmã, Leonardo enfrentava um interrogatório da mãe, pois Sandra havia contado tudo para ela naquela tarde. _Mãe, vamos deixar este assunto para amanhã. _Não. Filho, eu estou muito preocupada, isso é muito sério. É um tipo de coisa que se carrega para a vida toda. Eu acredito que a Suzana seja uma pessoa ótima, ela não teve culpa de nada, mas ela vai conviver com esse trauma sempre e isso pode prejudicar o relacionamento de vocês. Não quero que você sofra. Uma vítima de... abuso sexual, pode ter sérias dificuldades para se relacionar fisicamente, você está me entendendo? _Calma, mãe. Nós nos amamos, vamos superar isso juntos. _Falar é fácil, é tão romântico! Mas, a realidade é muito diferente! _Lígia, deixe que o Leonardo descanse, amanhã vocês conversam melhor- pediu Rafael. _Eu estou muito preocupada. _Mãe, fique tranquila... a Sandra não deveria ter contado, eu 347 Tânia Gonzales queria conversar com a senhora e ela adiantou-se. _Ela esperou até demais. A Sandra se segurou, esperou você chegar de viagem. _Agradeça a ela por mim- disse Leonardo com ironia- Eu vou dormir e tente fazer o mesmo, não adianta ficar nesta ansiedade toda e agora a senhora já sabe que o pai da Suzana não é um monstro que espancou um pobre homem indefeso. Não podemos julgá-lo e ele até já pagou pelo que fez, enquanto aquele... sujo, se saiu bem. Boa noite para vocês. Assim que ele entrou em seu quarto, o celular tocou. _Suzana? Aconteceu alguma coisa? _Me desculpe por ligar tão tarde, mas eu preciso falar com você. Eu não conseguiria dormir se... _Tudo bem, o que aconteceu? _Leonardo, você … foi ao cinema hoje à tarde, ou melhor ontem, afinal já é madrugada. Você foi ao cinema? _Fui. Quem me viu lá?- perguntou Leonardo bastante surpreso. _Minha irmã. Ela viu que você estava acompanhado de... uma garota. É verdade? _É verdade. Suzana, não pense que eu a estou enganando. _Eu achei tudo muito estranho. _Quando eu contar tudo você vai achar mais estranho ainda. Bom... vou resumir, você precisa descansar, por isso vou deixar os detalhes para amanhã. Suzana, eu saí com aquela garota, que se chama Lúcia, porque ela precisa de ajuda. Ela está deprimida, e bom... não sou psicólogo, embora a Leca diga que eu escolhi a profissão errada, mas eu acho que ela sofre de síndrome do pânico. Bom... ela não saía há quase sete meses. Permanece dentro do quarto a maior parte do tempo. _A Letícia sabe disso? _Ela foi procurada por uma amiga, a Elisa, que é amiga da Lúcia. 348 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Um dia elas apareceram lá na igreja e... Leonardo contou resumidamente sobre a primeira vez que viu Lúcia e também explicou para Suzana sobre as visitas que tem feito àquela infeliz garota. _Meu Deus, que história! O que você acha que provocou tudo isso na vida dela? _Eu estou suspeitando de algo, mas, agora é melhor desligarmos, descanse, minha princesa. Você entendeu, né? Eu sei que é algo bastante incomum, mas o que eu poderia fazer? _Entendi, mas não é fácil aceitar que o meu namorado faça visitas para uma garota e saia com ela. _Eu adorei o “ meu namorado “ e é claro que não é fácil. Amanhã conversamos melhor. Um beijo. Assim que Suzana desligou Sueli entrou no quarto cheia de curiosidade. As irmãs conversaram por alguns minutos e depois foram dormir. Faltavam quinze minutos para as sete horas da manhã quando Leonardo chegou para levar Suzana à faculdade. _Bom dia, minha princesa. Dormiu bem? _Bom dia, muito bem, há dias que não tinha um sono tão bom. _Será que eu tenho alguma coisa a ver com isso? _Tudo a ver. _Que bom, mesmo com toda aquela história da Lúcia... _Aproveite o caminho e conte mais alguma coisa. _Bem... eu disse como ela me chama? _Não. _Meu anjo. _Meu anjo? E por que será? _Ela me vê como alguém diferente, eu não sei explicar... alguém que veio para protegê-la, é isso. 349 Tânia Gonzales _Leonardo... o que você faz quando vai visitá-la? _Eu leio a Bíblia, ela sempre diz que gosta de ouvir a minha voz... e então eu aproveito e explico algum versículo para ela, algo que possa falar ao coração dela. Eu sinto que Deus tem me guiado nisso, eu até me surpreendo com as minhas próprias palavras. _Isso é bom... mas... é complicado, ela tem a minha idade, gosta de ouvir a sua voz e tem uma foto sua debaixo do travesseiro. _Ela dorme com uma almofada que tem o meu rosto estampado nela, a Letícia também viu. _O quê? Ah... ela está obcecada por você! Isso é tão perigoso, Leonardo. _Eu fiquei assustado ao ver a almofada, mas aos poucos eu fui percebendo que ela usa esse “interesse” por mim como uma fuga, ela tem a necessidade de fugir da realidade, eu não sei a razão disso, mas, tenho certeza que aconteceu algo que a fragilizou. Algo muito grave e eu acho que o pai dela tem a ver com isso. _O pai dela? Você me disse ontem que os pais estão separados há anos... _É isso mesmo. Ele mora em outro estado, vem de tempos em tempos, e ele está para chegar por esses dias e a Lúcia fica muito nervosa ao falar nele. _Cuidado, Leonardo. É um assunto muito delicado. Ela... esquece. _O que foi? Você quer me perguntar algo, não é? _Não, e de qualquer maneira, nós chegamos e eu preciso entrar. _Espera um pouco... faça a pergunta, eu conheço esse seu olhar. _É que... bom... ela se aproxima de você? Como é que... é... quer dizer... _Minha princesa, você não precisa ter receio, pode perguntar o que quiser... eu compreendo a sua preocupação. Você quer saber se eu tive algum tipo de contato físico com ela, não é? _É. 350 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Suzana, eu sou um rapaz comprometido, ei... olha pra mim... a Lúcia mantém uma certa distância, é interessante, é como se ela me achasse... quase que intocável. Eu sei o que está passando nessa sua cabecinha linda: Como é que a sua irmã viu nós dois bem juntos, não é? _É isso mesmo. _Eu falei ontem que ela ficou quase sete meses sem sair de casa; para você ter uma ideia, ela ficou com os olhos fechados até chegarmos ao shopping. Foi muita sorte ela não ter desmaiado, sentiu-se tonta por várias vezes, eu ofereci o meu braço para ela, foi só isso. Mas, eu confesso que não me senti bem, era como se eu estivesse fazendo algo errado. _Entendi. Agora eu preciso ir, mas... foi ela quem pediu para você levá-la ao cinema, não foi? _Você está certa. _E se por acaso ela pedisse para você... beijá-la? _Suzana... por favor, não me fale uma coisa dessas! _Nunca se sabe... o que você faria? _Eu não quero nem pensar nessa possibilidade. Ótima aula pra você. _Eu tenho que concordar com a Letícia, você está na profissão errada. E se já não bastasse ter uma namorada complicada, agora aparece a Lúcia. Tchau. Leonardo ligou para Sandra convidando-a para almoçarem juntos. Desejava ter uma conversa séria com ela. _Fiquei bem surpresa com o seu convite, nem falei para sua mãe. _Foi melhor assim, senão, com certeza, ela estaria aqui. Sandra, eu vou ser bem direto. Fiquei muito chateado ao saber da sua conversa com a Suzana, a mãe dela me contou tudo. Eu não gostei nada de saber que você fez a Suzana sofrer, eu sei que ela ficou 351 Tânia Gonzales muito nervosa e que passou muito mal. _Leonardo, eu não podia imaginar que … você sabe. _Sim, mas não havia necessidade de fazê-la sofrer tendo que reviver momentos tão terríveis. Você provocou... ficou falando mal do pai dela, dizendo que ele era agressivo, como ela poderia suportar ouvir tantos absurdos à respeito do pai e ficar calada? Sandra, aquela família sofreu muito. São pessoas maravilhosas. _Leonardo, eu tive a melhor das intenções, não queria que você fosse enganado, mas eu não podia imaginar que ela havia sofrido tamanha violência! A sua mãe está muito preocupada e com toda a razão. Leonardo, uma pessoa que foi vítima de um... estupro, carrega esse trauma por toda a vida e isso prejudica os seus relacionamentos, eu só... _Sandra, não fique colocando essas coisas na cabeça da minha mãe. Eu amo a Suzana e não desistir dela por isso. _São traumas profundos que... _Pare com isso, Sandra. A Suzana sofreu muito e merece ser feliz. Se for pela sua teoria as pessoas que são vítimas desse tipo de violência devem ficar sozinhas para não prejudicar a vida dos outros. _Ela pode encontrar outra pessoa, não precisa ser você. _Ah! Acontece que eu amo a Suzana e ela sente o mesmo por mim. Eu estou disposto à enfrentar seja o que for para ficar ao lado dela. _Você está cego, eu concordo que ela é muito bonita, mas... _Sandra, ela é linda por dentro, a Suzana é um doce de pessoa, apesar de ter sofrido tanto! Ela é meiga, inteligente, sensível, compreensiva e tem um coração enorme. Você foi tão dura com ela e sabia que ela não falou mal de você uma única vez? Sandra, eu gostei da Suzana desde a primeira vez que a vi, e olha que eu não sou desses que acreditam em amor à primeira vista! Eu fui até 352 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão um shopping para comprar um perfume para minha mãe, com tantas opções mais perto eu fui parar aonde a Suzana trabalha. Quando eu vi a Suzana pela primeira vez ela estava atendendo à um cliente e eu esperei para ser atendido por ela e depois de alguns dias eu voltei lá, só para ficar perto dela por pouquíssimos minutos, eu mesmo achei aquela situação ridícula, mas eu não conseguia resistir e eu fiquei muito surpreso ao vê-la um dia lá na IGAG conversando com a Lê, eu não acreditei que ela estava ali e que pertencia à mesma igreja que eu. Sandra, eu creio que Deus tem seus caminhos, ele tem os seus propósitos e eu acredito que não foi por acaso que eu encontrei a Suzana. Você pode até achar isso um absurdo, mas é assim que eu penso. _Leonardo, isso é tudo muito lindo, romântico, mas na hora que... _Sandra, é melhor você não falar mais nada sobre isso. Eu só gostaria de pedir para que você não tratasse a Suzana mal, ela não merece ser desprezada, não impeça a amizade dela com a Lê, as duas se dão muito bem. Com relação ao namoro da Letícia com o Daniel... _Leonardo, agora é minha vez de dizer que é melhor você não falar sobre isso. _Você não é preconceituosa, só ficou decepcionada porque esperava que eu e a Lê... _Fiquei muito decepcionada. Vocês dois tinham tudo para dar certo. Para que se envolver com pessoas que não têm nada a ver com vocês? Eu não me conformo com isso. _Sandra, o Daniel é uma pessoa excelente, dê uma oportunidade para que ele demonstre isso, você precisa conhecê-lo de verdade. Eu sei que a faculdade para você é muito importante e para ele também, ele só parou porque o pai ficou arrasado e não conseguia fazer mais nada após a morte da esposa. O Daniel adiou os seus projetos para se dedicar à oficina do pai e ele está fazendo um 353 Tânia Gonzales ótimo trabalho. Se ele fosse mau-caráter eu seria o primeiro à concordar com você porque eu gosto muito da Lê, também quero o melhor para ela. Sandra, pense na sua filha, ela está sofrendo. Você sabe que tem uma filha de ouro, não seja tão dura com ela! _Eu preciso voltar à clínica e você ao escritório. _Pense nesta nossa conversa com carinho. Eu sei que você também sofre com essa situação, o clima entre vocês duas está péssimo e isso afeta a sua família. Converse com Deus e depois tente um diálogo com a sua filha, você vai ver como as coisas vão mudar. Eu tenho certeza que você ainda vai gostar muito do Daniel. 354 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 32 -Novamente o passado _E então, tudo certo para domingo? - perguntou Leonardo ao buscar Suzana. _Acho que sim. Nós vamos chegar a tempo para o culto? _Provavelmente não. Quero passar um dia bem tranquilo com você, sem pressa. Eu... almocei com a Sandra. _É mesmo? E como foi? _Tivemos uma conversa bem séria, mas fomos civilizados, pode ficar tranquila. Eu precisava falar com ela. A Sandra não é má pessoa. Eu até consegui falar sobre a Letícia e o Daniel! _E aí, acha que teve algum sucesso? _Não sei, mas pelo menos eu mexi com ela. Tenho certeza que ela vai refletir bastante. Princesa, amanhã eu vou visitar a Lúcia. _De novo? _Não faça este biquinho para mim, agora eu estou dirigindo e não posso fazer nada com ele. _Você já saiu com ela. _Eu sei, mas o pai dela está para chegar e eu quero ver se descubro alguma coisa antes disso. _Leonardo, tenha cuidado. _Não se preocupe, eu sou bem discreto. Que bom que chegamos, agora eu posso cuidar desse seu biquinho lindo. _Você... _Eu? _Você é... ímpar. _Ah, não! Vamos começar tudo de novo? Leonardo tinha razão ao dizer que mexeu com Sandra; após o 355 Tânia Gonzales almoço ela não voltou para a clínica, foi até a casa do pastor Pedro Gabriel para conversar com a esposa dele, a irmã Rute. _O que a está preocupando, Sandra? _Rute... eu fico até com vergonha de dizer, mas... a minha filha está interessada no Daniel, o filho do Isaque, o mecânico. _Qual é o problema? Ele é um ótimo rapaz. Ela não é correspondida? _Pelo contrário, os dois estavam até namorando escondido. Ele foi até em casa para pedir a nossa permissão, mas eu não consigo aceitar. _Por qual motivo? _Eu sempre sonhei em ver a minha filha namorando o Leonardo... _Ah, agora estou começando a entender. Sandra, eu concordo que o Leonardo é um rapaz maravilhoso, qual a mãe que não gostaria de tê-lo como genro? Mas, se a Letícia gosta do Daniel... Sandra, não estamos mais naquela época que os pais arranjavam casamento para seus filhos. Você pode achar que a Letícia e o Leonardo formam o casal perfeito, mas as coisas não funcionam assim. O Daniel é um rapaz sério, cuida muito bem da família; você sabe que a mãe dele morreu e que o Isaque ficou muito deprimido e que foi o Daniel que tomou conta de tudo. Qual é o problema? Qual é o real motivo para que você não aceite o namoro dos dois? Seja sincera comigo. _Ah, Rute... eu tenho vergonha de dizer, eu sei que Deus não está nada satisfeito comigo. _Pode falar. _Eu olhava para o Leonardo e a Letícia juntos e pensava: Eles formam o casal ideal; se dão muito bem e nossas famílias são muito unidas. Era perfeito. Até que apareceu o Daniel e estragou tudo. Em pouco tempo ele destruiu o que eu construí durante anos! Ele não tem nada a ver com a minha filha, nada. 356 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Sandra, seja sincera, incomoda o fato dele ser negro? _Rute... _Sandra, não se envergonhe, pode falar. _Incomoda muito, eu não quero ter netos negros, não quero. _Ah, Sandra! Mas, é bom que você fale, muitas pessoas não teriam a coragem de dizer uma coisa como essa. Muitas vezes valorizamos coisas que não fazem a mínima diferença. As pessoas são todas iguais, independente de raça, cor, posição social... precisamos aprender a valorizar a essência, o que a pessoa é por dentro, o caráter. Você busca harmonia física, a sua filha encontrou o amor. Ore, tenha uma conversa franca com Deus, sem máscaras, porque com ele, elas não adiantam, não funcionam, ou melhor nem existem. Deus nos vê exatamente como nós somos, não há disfarces. Então não adianta você fazer orações cheias de enfeites, de firulas, porque Ele sonda o seu coração. Deus conhece o que você tem de bom aí dentro e isso é ótimo, mas Ele também conhece as coisas más; os pensamentos que você desejaria não ter. Saber que existe alguém que nos conhece de verdade é perturbador, nos preocupa e assusta. Sandra, deixe que Deus cuide dos seus sentimentos, entregue tudo a Ele, sem reservas; você verá que tudo vai mudar. _Obrigada, Rute. Podemos orar juntas, agora? _Sandra, eu acho melhor você ficar aqui sozinha, eu vou orar em meu quarto, fique à vontade, o Pedro saiu e vai demorar para voltar. Você precisa falar a sós com o Pai. Sandra, no começo, não conseguiu falar nada, só chorava, mas, aos poucos, ela fez a oração mais sincera que já havia feito em toda a sua vida cristã. _Pai, me perdoe! Eu tenho sido tão má e egoísta, tenho vergonha 357 Tânia Gonzales dos meus sentimentos mesquinhos...eu não sabia que era preconceituosa e racista... eu não consigo aceitar aquele rapaz, só por causa da cor dele e isso é terrível. Confessar isso dói muito! Tenho me comportado tão mal com a minha filha que é maravilhosa, ela não merece isso... me ajuda... eu quero aceitar o Daniel, eu quero amá-lo como a um filho. Retire de mim esse preconceito horrível! Por favor, me perdoe! Tenho sido intolerante e hipócrita... a Letícia tem toda a razão quando canta aquele hino da família... “ recebi um novo coração do Pai, coração regenerado, coração transformado, coração que é inspirado por Jesus” 18 Pai, eu quero receber esse novo coração... eu preciso de verdade... e me perdoe por ter magoado aquela moça, a Suzana, ela não merecia isso, não merecia... já sofreu tanto, ela precisa de alguém como o Leonardo, ela precisa muito. Eu te agradeço por colocar pessoas na minha vida que não têm medo de dizer a verdade. Obrigada, eu sei que com a sua ajuda eu vou conseguir aceitar do fundo do meu coração, o relacionamento da Letícia. É em nome de Jesus que eu oro, porque sei que por causa do sacrifício que Ele fez na cruz, eu, mesmo sendo tão pecadora, posso ter o privilégio de falar contigo, amém. Rute voltou à sala e encontrou Sandra ajoelhada e chorando muito. As duas se abraçaram e puderam sentir a comunhão que só a presença de Deus pode proporcionar. Depois tomaram um delicioso café com um pãozinho caseiro preparado por Rute. Sandra saiu de lá revigorada. Foi até a clínica pois havia um paciente com hora marcada. Aproveitou para ter uma conversa com Lígia que ficou muito feliz com a nova atitude da amiga. 18 Corpo e família- Compositor: Daniel Souza 358 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _O quê? Eu não estou entendendo, Leonardo? _Você sabe muito bem o que eu quero dizer... Suzana, não mantenha essa distância de mim, eu sou o seu namorado... eu quero aproveitar bem o nosso dia, afinal estamos só nós dois aqui, podemos fazer tudo o que tivermos vontade. _Não é bem assim... eu não estou te reconhecendo... você está muito estranho hoje. _Estranho, eu? Estou agindo normalmente. O que você acha que os namorados fazem? Que só ficam nesses beijinhos sem graça? Se você pensa isso está muito enganada. Suzana, minha princesa... vem aqui... fica pertinho de mim, estamos sozinhos, eu te amo tanto! _Eu vou ficar longe de você, não estou gostando nada dessa sua conversa. O que está acontecendo com você? _O que está acontecendo comigo? Eu tenho uma namorada que me nega um mísero carinho, é isso. Ela não compreende que preciso ter a certeza de que ela me ama! Você acredita que para conseguir beijar a minha linda namorada foi um sacrifício enorme? Dá para acreditar nisso? Suzana, estamos só nós dois aqui e nada! _Parecia que você havia compreendido a razão do meu medo, você foi tão atencioso e... _Eu cansei de ser tão bonzinho! Basta! Minha princesa, vem aqui... estamos perdendo tempo. Você acha que eu vim até Campos do Jordão para olhar as lindas paisagens? Para curtir o clima? Eu vim aqui para ter um pouco de privacidade com você. E agora chega de conversa... nós viemos aqui para namorar e eu não vou ficar satisfeito só com alguns beijinhos, não mesmo! Vem aqui, Suzana. _Não faça isso, eu pensei que você... _Pensou que eu fosse o quê? Suzana, eu sou homem! Eu preciso 359 Tânia Gonzales de você. _Eu quero ir embora. _Embora? Não mesmo! Não vou perder a viagem... você é uma ingrata, é isso o que você é... eu tenho sido tão paciente com você, acho que mereço uma recompensa. _Não, por favor! Vamos sair daqui! _Para começar eu quero que você me dê um beijo. Eu vou ficar esperando, mas não demore, não sou tão paciente assim como você imagina. _Leonardo, não faça isso! Você está estragando tudo! Eu confiei em você e... _ O quê? Chega dessa conversa, você está falando demais. Se você não quer se aproximar então eu vou até você, não vou esperar mais... _Não, por favor, não se aproxime... estou com medo de você. _Medo de mim? Eu sou o seu namorado, eu mereço que você me dê um pouco de atenção. Aquele homem conseguiu tudo o que quis de você, e eu? Nada? Não, isso não vai ficar assim... eu quero você e agora. _Não, não, por favor, Leonardo, não se aproxime de mim... Suzana acordou chorando e tremendo muito. Olhou para a vovó Vivi e sentiu-se aliviada por ela estar em um sono profundo. Durante o trabalho, Suzana pensou muito sobre o pesadelo da noite anterior. Naquela noite, ao encontrar-se com Leonardo em frente à loja, ela não conseguiu agir normalmente, quando ele se aproximou para beijá-la, ela, inesperadamente, afastou-se. _O que foi? Algum problema? _Não. Está tudo bem. Vamos? _Eu não vou ganhar um beijo? Eu fiz alguma coisa errada? 360 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Você não fez nada errado. Vamos? _Suzana, o que foi? É por causa que eu fui visitar a Lúcia? Você ficou chateada, não é? Eu fui até lá, mas nem falei com ela porque ela estava dormindo. A Rita me disse que ela dormiu muito mal ontem. O pai dela vai chegar terça-feira, deve ser por isso. _Não fiquei chateada por você ter ido até lá. _Vamos até o carro, lá nós conversaremos melhor. Leonardo pegou a mão de Suzana que estava muito fria e úmida. Suzana ficou calada durante todo o caminho até o estacionamento. O silêncio foi quebrado por Leonardo assim que entraram no carro. _Minha princesa, o que aconteceu? _Nada. Leonardo, você ficaria chateado se nós não fôssemos para Campos do Jordão, domingo? _Por que você mudou de ideia tão de repente? _Eu não quero ir. _Posso saber o motivo? _Eu não estou com vontade, é só isso. _Suzana, olha pra mim... eu já estou te conhecendo bem, sabia? Aconteceu alguma coisa. _Não foi nada e chega de me perguntar isso. _É, seja o que for, deve ser bem sério. Leonardo não conseguiu tirar mais nenhuma palavra dela. _Posso entrar? _Eu acho melhor não, não fique bravo comigo, eu estou muito cansada hoje. _Suzana, nós precisamos conversar, não se feche desse jeito, por favor. Você está inacessível e isso é péssimo para o nosso relacionamento. Deixe que eu entre, fale comigo. _Ah... Leonardo, eu avisei que não seria uma boa namorada para 361 Tânia Gonzales você, eu avisei. _Não vamos ficar aqui no portão. _Tudo bem...vamos entrar. _Fale, o que aconteceu? A minha mãe te procurou? _Não é nada disso. Eu não posso contar, você me odiaria. _Como eu poderia odiá-la? Eu te amo. Vem aqui, fique perto de mim. _Não... eu não posso me aproximar de você. _Por quê? _Estou com medo. _Medo de mim? _Me perdoa! Eu não queria isso... eu não... você não merece isso. _Suzana, fala comigo. _Eu sou horrível! _Não é não, você é linda! Por que você está tão longe de mim? _Eu... tive um pesadelo com você, eu nem deveria contar isso, você vai ficar muito zangado. _Pesadelo comigo? Suzana, nós não podemos controlar os nossos sonhos. Eu não sei o que aconteceu em seu sonho, mas seja o que for, você não teve culpa e nem eu. Com muita dificuldade, Suzana contou sobre o seu pesadelo para Leonardo. _Ah... agora eu entendi porque você se afastou quando eu fui beijá-la. Então é por isso que você não quer viajar comigo! Bom... eu não posso obrigá-la, se você não se sente segura comigo... se não confia em mim, o que eu posso fazer? _Isso machucou você, é lógico. Eu disse que você não deveria namorar comigo, eu disse. _Suzana... _Eu sou uma ingrata mesmo, pelo menos nisso o Leonardo do sonho tem razão. Você é tão bom pra mim e eu tenho a coragem 362 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão de sonhar esse tipo de coisa ? _Ah, como se você tivesse poder sobre os seus sonhos! Suzana, você se culpa demais, até pelos sonhos? Olha, nós não precisamos ir para Campos, não tem problema algum. _Você quer entrar um pouco? _Eu gostaria de cumprimentar a sua família, mas já está tarde. _É rapidinho, a minha vó quer vê-lo. _Leonardo, quanto tempo! Já estava com saudades, como você está bronzeado!- disse alegremente a vovó Vivi. _Oi, vó, fico feliz em vê-la. Também estava com saudades. E o restante da família? _A Marina está trabalhando, o Davi já foi dormir e a Sueli não chegou da faculdade ainda. Domingo vocês vão fazer um belo passeio, não é? _Bem... é que … _Vamos sim, vó. _Antes que eu volte para Belo Horizonte, eu quero marcar um jantar, certo? _Certíssimo, pelo jantar, agora sobre a senhora voltar para BH, não concordo. _Eu preciso ir, a minha filha me espera, ela está tão ansiosa! _Vou ficar com muitas saudades. _Você pode me visitar lá. _Eu vou, pode estar certa disso. Boa noite, vó. _Boa noite, meu neto querido. _O que foi aquilo? Por que você não disse para sua vó que nós não íamos mais?- perguntou Leonardo ao se aproximarem do portão. _Porque nós vamos. _Vamos? Suzana, você disse que... 363 Tânia Gonzales _É um absurdo não irmos por causa de um sonho bobo. _Eu não quero que você faça isso só para me agradar. _Eu quero ir para Campos com você. Eu nem deveria ter contado o sonho. _Então tudo bem, tchau. _Só isso? Não vai me dar um beijo? _Você me evitou lá no shopping, lembra? Eu não quero forçar nada, eu não sou aquele Leonardo do seu sonho. _Você está magoado e tem toda a razão. Leonardo, não vai embora assim... vem aqui, vem... eu confio em você, eu não tenho medo, me perdoa. Suzana se aproximou, colocou a cabeça no ombro dele e começou a acariciar-lhe o rosto. Depois afastou-se um pouco e ficou olhando para ele por alguns segundos, em seguida puxou-o para perto, encostou o rosto no dele e ficou apreciando o perfume da loção após barba que ela adorava. Leonardo permaneceu imóvel, deixando que ela tomasse a iniciativa. _Eu confio em você... confio... eu amo você- dizia ela enquanto dava pequenos beijos no rosto dele... aos poucos os lábios dela tocaram os dele e ela o beijou, a princípio bem suavemente; até aqui, Leonardo deixou-a no controle, sem nem sequer abraçá-la... mas quando ela intensificou o beijo, ele a apertou sobre o seu peito e a beijou apaixonadamente. _Boa noite, minha princesa e não sonhe comigo. _Não gostei da piada. _Tem razão, foi bem sem graça. Boa noite. Até amanhã. 364 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 33 -Campos do Jordão Ao buscar Suzana naquela noite de sábado, Leonardo percebeu o quanto ela estava se esforçando para animá-lo. Falou o tempo todo sobre o passeio que fariam no dia seguinte. Comentou sobre os pontos turísticos e em como estava ansiosa para ver tudo. _Nossa, que animação! - foi o comentário dele. _Você que não está nem um pouco animado, não é? _Não é isso. Suzana você não precisa demonstrar algo que não está sentindo. Não combina com você. Não adianta disfarçar. Você não está tão ansiosa assim por causa do passeio. Você está é preocupada, isso sim. _Não é verdade. Eu estou animada por causa da nossa viagem para Campos do Jordão, sim. _Tudo bem, eu vou fingir que acredito. Bom... até amanhã. Suzana levantou-se às seis horas da manhã aliviada por ter dormido tranquilamente. Tomou banho e foi fazer um café, apesar de ter combinado com Leonardo que tomariam o café juntos em alguma padaria, mas seria só um cafezinho puro para despertar. Quando faltavam dez minutos para as sete, ela recebeu um torpedo do namorado dizendo que já estava esperando no portão. Pegou a sua bolsa e saiu para encontrá-lo. Estava vestida com jeans, camiseta e um tênis bem confortável. _Bom dia, minha princesa. Dormiu bem? _Dormi maravilhosamente bem- disse ela cumprimentando-o com um carinhoso beijo. _Você está linda, mesmo com essa carinha de sono. Eu tenho uma surpresa para você, ou melhor, duas. 365 Tânia Gonzales _Surpresa? _Olha só quem vai conosco... Letícia e Daniel estavam dentro do carro e também iriam para campos do Jordão. _Não acredito! Vocês dois juntos? A sua mãe... _Ela sabe. Estamos aqui com permissão. _Que legal! _Oi, Suzana, Deus fez um milagre! - disse Daniel todo sorridente. _Su, Deus usou o São Leonardo e também a irmã Rute para conversar com a minha mãe- explicou Letícia toda animada. _São Leonardo? _É isso mesmo, Su. O Léo almoçou com ela... Durante o caminho, Letícia contou sobre a conversa da mãe com a irmã Rute. Após alguns minutos, eles pararam em uma padaria. _Vamos tomar um belo café? - perguntou Leonardo- depois eu gostaria de saber como foi a sua conversa com a Sandra, certo, Leca? _Vou contar tudo. Suzana aproveitou que Daniel e Letícia estavam um pouco distantes para perguntar algo ao namorado. _Leonardo, você convidou os dois só por causa daquele sonho, não foi? _O quê? Eu quis convidá-los. Você não gostou? _É claro que eu gostei! Só não gostei do motivo. Você não havia pensado em convidá-los. Eu... _Minha princesa, eu só queria que você tivesse um belo dia em Campos do Jordão, sem se preocupar com nada, sem medos e... _Está vendo só? Se nós fôssemos sozinhos eu não... _Tudo bem... esqueça isso. Eu tive a ideia, só que não imaginei que seria possível. Eu fiquei bem surpreso com a reação da 366 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Sandra. _Você acha que eu não confio em você, não é? Leonardo... me perdoe. _Suzana, para com isso! Você não tem culpa se sonhou que... _Não tenho culpa por ter sonhado, mas por ter evitado o seu beijo e por não querer mais viajar, eu tenho culpa sim. _Chega... vamos tomar café, eles estão nos esperando. E não fale mais sobre este assunto. Suzana concordou, mas estava se sentindo muito culpada. _E então, Leca? Como foi a conversa com a sua mãe? - perguntou Leonardo ao entrarem no carro após tomarem o café. Letícia lembrou da conversa especial que teve com a mãe na tarde de sábado. _Filha, preciso falar com você. _Pode falar, mas se for sobre o Daniel.... _É sobre ele mesmo que eu quero falar. Me escute, filha, eu sei que tenho sido muito intransigente com relação ao seu namoro. Eu confesso que fiquei muito decepcionada. Eu esperava que o Leonardo.... _Mãe? Vai começar tudo de novo? _Fique tranquila. Deixa eu falar... eu esperava que você e o Leonardo namorassem; era o meu sonho e por isso fiquei tão decepcionada. Eu disse que era o meu sonho, mas não era o seu e nem do Leonardo. Doeu muito, fiquei arrasada e fechei o meu coração. Eu não me conformava com o fato da minha filha estar namorando alguém que não fosse o Leonardo. Para mim era inadmissível. Eu sei que magoei vocês. Fui injusta até com a Suzana, eu sei que preciso ter uma conversa com ela também. Eu olhava para a Suzana e sentia raiva porque o Leonardo estava apaixonado por ela e não por você. Filha, ontem eu almocei com o 367 Tânia Gonzales Leonardo e depois fui até a casa da irmã Rute. Deus usou os dois para abrir os meus olhos; eu estava me sentindo péssima... não conseguia aceitar o Daniel e isso era um absurdo! Eu abri o meu coração para Deus, e então eu enxerguei que estava sendo preconceituosa. Foi duro reconhecer o meu erro, mas depois veio um alívio enorme. Por isso eu quero pedir perdão para você e ao Daniel também e dizer que a partir de hoje vocês têm a minha permissão para namorarem. _Mãe? Ah... mãe! Obrigada! Me perdoe também por ter falado algumas coisas que... _Você não precisa me pedir perdão, eu estava errada. _Minha mãe! Estou tão feliz! Não imagina o alívio que estou sentindo, não aguentava mais ficar sem conversar com você, mãe! Mãe e filha se abraçaram e permitiram que as lágrimas fluíssem livremente. _Depois desta conversa, eu liguei para o Daniel e à noite ele foi até em casa e pediu novamente permissão para namorarmos e foi ótimo, minha mãe até o abraçou e pediu perdão também. _Que benção! Deus sempre nos surpreende - comentou Leonardo. _Letícia, estou tão feliz por vocês! - disse Suzana com sinceridade. _Deus é fiel! Eu orei tanto, chorei, clamei - disse Letícia. _E aqui estamos. Deus agiu em nosso favor- completou Daniel. Durante o percurso até Campos do Jordão eles mantiveram uma animada conversa. Às 10 horas chegaram à “Suíça brasileira”. Foram para a Vila Capivari que é o principal centro turístico da cidade. Após caminharem um pouco, pegaram o Bondinho Urbano que é um pequeno trem turístico. Ele sai da Estação de Vila 368 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capivari e faz um percurso que dura aproximadamente 40 minutos. Depois andaram de Teleférico e conheceram o Morro do Elefante. Após um delicioso almoço, Leonardo sugeriu que eles fossem para o Parque dos Lagos que é uma das áreas naturais mais importantes e visitadas e é localizado a 11 km do centro da cidade. Andaram um pouco pelo parque e depois fizeram um passeio de barco. Os dois casais apreciaram muito o passeio. Após um lanche rápido continuaram a visita pelo parque. Eram sete horas quando eles retornaram para a Vila Capivari. _Eu não sei quanto à vocês mas eu estou cansado e com fome! Que vocês acham de um delicioso jantar antes de voltarmos?perguntou Leonardo. Todos concordaram e após um apetitoso jantar eles pegaram a estrada. Às 23h Leonardo já estava sozinho com Suzana na garagem da casa dela. _Adorei o passeio. Eu só não posso dizer que estou completamente feliz porque eu sei que... - Suzana não conseguiu completar, foi interrompida por Leonardo. _Suzana, não começa... o passeio foi maravilhoso. _Eu preciso falar, Leonardo. Você tem razão ao dizer que o passeio foi maravilhoso e eu fiquei muito feliz pelo namoro da Letícia e o Daniel agora ter a aprovação da Sandra e eu adoro a companhia deles, mas eu não me perdoo... eu sei que você ficou magoado. Você fez questão de convidá-los para que eu viajasse tranquila. Leonardo eu não tenho medo de você, eu confio em você, acredite em mim! _Minha princesa, você não precisa falar estas coisas, eu sei que você confia em mim. Meu amor... Após dizer isso, Leonardo se aproximou dela e a beijou. 369 Tânia Gonzales _Me perdoa... _Não precisa pedir perdão, minha princesa. _Diz que me perdoa, por favor! _Se isso fará você se sentir melhor, tudo bem, eu a perdoo. 370 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 34 -O pai de Lúcia Lúcia acordou muito assustada, era terça-feira. Ela pegou o celular e ficou pensando se deveria fazer uma ligação, verificou a hora: passava das nove horas da manhã. Decidiu ligar. _Alô? Sim, é o Leonardo. Lúcia? Você está bem? Você quer que eu vá até aí, agora? Calma. Aconteceu alguma coisa? Ele vai chegar às 11horas? Lúcia... fique tranquila. Tudo bem, eu vou sair daqui agora mesmo. Tchau. Leonardo resolveu passar em sua casa e pegar o violino, ele havia prometido que tocaria para Lúcia e achou que aquela era uma ótima oportunidade. _ Leonardo, eu agradeço a sua atenção, eu sei que você deveria estar trabalhando agora, mas ela está tão aflita! - disse Rita ao recebê-lo. _Não se preocupe, eu vou conversar com ela. Segundos depois, Leonardo entrou no quarto de Lúcia tocando o seu violino. _Meu anjo... meu anjo... que som mais lindo! Toque mais, não pare. Leonardo tocou uma música bem suave que ele mesmo compôs. _Esta música é linda! Toque mais - pediu Lúcia. _Agora eu gostaria de ter uma conversa com você, Lúcia. O seu pai está para chegar. _Eu sei... estou com medo! Não quero ficar sozinha com ele, por favor, fique comigo! _Fique calma, Lúcia, por que você... - Leonardo fez uma pausa, pois não tinha certeza se deveria fazer aquela pergunta, mas resolveu arriscar- por que você tem medo de seu pai? Lúcia abaixou a cabeça e ficou em silêncio. 371 Tânia Gonzales _Lúcia, me responda! Ele machucou você? Sem obter resposta, Leonardo insistiu: _Lúcia, o que ele fez? Qual o motivo para tanto medo? Ele machucou você? _Ele machucou o meu coração. _Como? O que ele fez? _Machucou o meu coração... ele machucou o coração dela, também, mas não foi só o coração dela … ele a machucou muito... _Quem é ela? _Ela... ela... era tão linda. _Ela quem, Lúcia? _Ela. Foram interrompidos por uma batida na porta. Era Rita anunciando a chegada de seu ex-marido. _Fique perto de mim, por favor! _Calma, Lúcia. Leonardo chegou bem perto e segurou a mão de Lúcia que estava muito fria e úmida. _Você quer ir até a sala? _Só se você não deixar ele se aproximar de mim. Leonardo concordou mesmo sem saber se isso seria possível. Ao chegarem à sala Lúcia se posicionou atrás de Leonardo e ficou apertando a mão dele com muita força. _Minha filha, como você está linda! - disse o homem alto e musculoso- Vem aqui eu quero dar um abraço bem forte e vários beijos. Lúcia continuou atrás de Leonardo sem dizer uma palavra, ele ficou sem saber o que fazer. Observou, por alguns segundos, aquele homem que aparentava ter uns 50 anos e chegou à conclusão que ele deveria ter uns dois metros de altura. O pai de Lúcia tinha uma aparência imponente. 372 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Lúcia, fale com o seu pai.- pediu Rita meio sem jeito. _E então? Vai ficar aí se escondendo de mim? E este rapaz é o seu namorado? Como Lúcia continuava parada e sem dizer nada, Leonardo resolveu se apresentar: _Eu sou um amigo dela, meu nome é Leonardo. _Leonardo, muito prazer, eu sou Valter. _Eu quero voltar para o meu quarto- pediu Lúcia quase sussurrando para Leonardo. _Minha filha, há quatro meses que eu não a vejo e é assim que sou recebido? Eu quero um abraço e um beijo. O que o rapaz vai pensar? Valter se aproximou de Lúcia, a abraçou e beijou, mas ela ficou dura como uma pedra e assim que se viu livre dos braços dele, correu para o quarto. _Jovens! Quem os entende? Ela deve estar brava porque eu demorei muito para visitá-la; mas eu sou muito ocupado. É a vida, Leonardo, é a vida! _Bom, eu... vou conversar com ela, com licença- disse Leonardo para em seguida sair rapidamente da sala. _Rita, você deixa esse rapaz entrar no quarto dela? _Valter, não pense bobagens, ele a está ajudando muito, é muito atencioso. _Atencioso... sei. _Você não tem o direito de pensar mal dele, eu não vou admitir isso. _Nossa! Ele também conquistou você? _É melhor ir embora, você sabe muito bem o quanto a sua presença faz mal à nossa filha. No quarto de Lúcia... 373 Tânia Gonzales _Fala comigo, Lúcia! Por que você está assim? Você ficou apavorada ao vê-lo, por quê? _Eu não quero falar. Só quero que ele vá embora e não volte nunca mais. _Por quê? O que ele fez com você? _Ele... acabou com os sonhos dela, ele a machucou. _Como? O que ele fez? A sua mãe sabe? _Minha mãe sabe de tudo. _Lúcia, foi por isso que eles se separaram? _Não quero falar. _Lúcia, eu quero muito ajudá-la, mas se você não... _Por favor, meu anjo, chega. _Tudo bem, se você não quer falar eu vou respeitar a sua decisão. Lúcia, eu preciso ir, tenho que voltar ao trabalho. Amanhã eu volto. _Meu anjo, obrigada. _Não precisa me agradecer. Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita no corredor. _Ele já foi? _Acabou de sair. Como ela está? _Assustada. Rita, eu já percebi que é um assunto que vocês duas evitam, mas, eu preciso saber... Leonardo não conseguiu completar, foi interrompido por Rita. _Eu peço que você não insista, quem sabe um dia eu conte, mas eu gostaria que a Lúcia tomasse a iniciativa de contar para você. _Ah, tudo bem, o que eu posso fazer? Bom... preciso ir, volto amanhã. _Agradeço muito. A sua presença é muito importante para a minha filha. Leonardo se despediu, já estava perto da porta quando lembrou que havia deixado o violino no quarto de Lúcia. 374 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu esqueci o meu violino no quarto da Lúcia, você poderia pegálo para mim? _Claro. Rita já estava se encaminhando até o quarto da filha quando o telefone tocou. _Leonardo, você mesmo pode buscar, vou atender ao telefone. Ele se aproximou do quarto de Lúcia que estava com a porta entreaberta, ia bater, mas mudou de ideia ao ouvir a voz de Lúcia. _Eu sinto muito, amiga! Me perdoe... você sofreu tanto! Minha amiga querida... ele é um monstro, um monstro... como deve ter doído! Minha amiga... minha amiga. Leonardo estava impressionado com as palavras de Lúcia, ele esperou por mais alguns segundos, e, como ela estava em silêncio, resolveu dar uma leve batida na porta. _Entre. _Lúcia, me desculpe, mas eu deixei o meu violino aqui. _Meu anjo... ele... ele foi embora? _Ele já foi. Você está melhor agora? _Um pouco. Você pode tocar algo para mim, rapidinho. _Eu toco. Eu gosto muito de um louvor que diz assim: “ Perto quero estar, junto aos teus pés, pois prazer maior não há, do que me render e te adorar...”19 Vou tocar, porque a minha voz não é tão boa. _Eu acho que a sua voz é linda. _Você é um anjo. Leonardo começou a tocar e Lúcia fechou os olhos, poucos segundos depois as lágrimas começaram a molhar o seu rosto. Ele continuou tocando e quando terminou se aproximou daquela atormentada garota e a abraçou com carinho; Lúcia nunca havia se 19 Perto quero estar-Compositor: Desconhecido 375 Tânia Gonzales sentido tão segura, aquele abraço a confortou, as lágrimas continuaram a rolar. _Obrigada, Leonardo, obrigada. Não sei o que seria de mim sem você. _Querida... você pode contar comigo, sempre vou estar ao seu lado. Lúcia, você confia em mim? _Claro que confio. _Então me diga o que aconteceu. O que ele fez? Quem é esta pessoa que ele machucou? _É algo muito feio, eu tenho vergonha de dizer. _Lúcia, o seu pai... ele... _Não fale, meu anjo- Lúcia colocou a mão na boca de LeonardoNão fale, é muito feio, é horrível. Leonardo tirou a mão dela que estava fechando a sua boca e a acariciou. _Lúcia, quem é esta pessoa que o seu pai machucou? É você? _Chega. Eu não quero contar. Leonardo pegou o violino colocou em seu estojo, deu um beijo no rosto de Lúcia e saiu do quarto. Resolveu não insistir mais com o assunto, pelo menos por enquanto. Ao sair de lá teve a ideia de fazer uma visita a um amigo da igreja. _Léo, que surpresa! Você aqui em meu humilde consultório? disse Henrique com alegria. _Henrique, meu amigo, me desculpe por não ter ligado, será que você teria um tempinho? _É claro, Léo. Sente-se e fique à vontade. Aceita um café? _Aceito, obrigado. Henrique era formado em psicologia e tinha um consultório há 6 anos. Ele era membro da IGAG desde a adolescência; agora estava com 32 anos e era casado com Shirley, uma sobrinha do pastor Pedro Gabriel. 376 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Henrique, eu gostaria de saber a sua opinião sobre um assunto. Leonardo contou tudo, desde quando conheceu Lúcia até a visita do pai dela; Henrique ouviu atentamente sem interrompê-lo. _O que você acha? Esta amiga que ela se refere, pode ser ela mesma? _Léo, eu já atendi mais de um caso exatamente assim. A pessoa não consegue dizer que aconteceu com ela, então ela inventa alguém. Eu tive uma paciente que deu nome, sobrenome, idade, profissão... tudo diferente dela e no fim era ela mesma. É um tipo de proteção que a pessoa cria. Ela tem a necessidade de falar algo sobre o assunto, mas não deseja se expor. Pode ser o caso da sua amiga. Você poderia tentar trazê-la aqui. _Ah...acho que não. Henrique, ela não se abre, eu fico deduzindo pelo o que ela diz. Eu acho que só pode ser abuso sexual, mas... _É bem provável, mas pode ser também que ele batia muito nela quando ela era criança. Você disse que a Lúcia ficou apavorada, então não pode ser só uma raiva por ele ter se separado da mãe, por exemplo. _Não, isso não, e foi a mãe dela que quis a separação. A Lúcia disse várias vezes que ele é um monstro e ao vê-lo ela ficou desesperada, dava para ver o quanto ela tem medo dele. _Pelo que você me contou ela confia em você, então é só uma questão de tempo, ela vai contar. Léo, é necessário muito tato para tratar desses assuntos, precisa ir bem devagar. Não convém ficar insistindo. A sua companhia e a sua compreensão a está ajudando muito, então continue assim, eu sei que não é fácil, ainda mais para você que tem uma namorada, mas não se afaste dela agora. _Eu sei, amanhã eu vou voltar para visitá-la. Henrique, mais uma coisa: nos casos de abuso sexual... é... é um trauma que a pessoa carrega por toda a vida? Alguém que sofreu uma violência assim, consegue superar e … bom... consegue se relacionar normalmente, 377 Tânia Gonzales ou... _Léo, é um trauma profundo porque é uma violência terrível. Note bem, uma garota que foi vítima de um estupro, teve a sua intimidade violada. Alguém chega de repente e invade o corpo dela. Tem todo um processo de recuperação, muita conversa, carinho dos familiares, mas com muito cuidado, porque há garotas que ficam com muita dificuldade, elas não conseguem sequer ser abraçadas, ficam apavoradas. Eu tive uma paciente que sofreu um abuso quando tinha 13 anos , o trauma foi tão grande que ninguém podia se aproximar dela, nem a própria mãe. Demorou um bom tempo para que ela permitisse a aproximação. A palavra chave: compreensão; outra: paciência. Mas, muitas conseguem superar, formam uma família e são felizes. Meu amigo, você já pensou em mudar de profissão? _Henrique, não brinca. Tratar com o emocional das pessoas não é para qualquer um, eu deixo isso com você. Eu acabei entrando nessa situação e agora não tem para onde fugir e nem quero; eu me preocupo muito com a Lúcia e gostaria que ela vivesse como uma jovem de 19 anos, que estivesse estudando, trabalhando, namorando... _Ela vai superar isso. Se você quiser que eu vá visitá-la... _Henrique, eu tenho medo que ela fique chateada e perca a confiança em mim. _ Tudo bem. Continue sendo um bom amigo para ela. Leonardo voltou para o trabalho e não conseguia parar de pensar em Lúcia e em seu conturbado relacionamento com o pai. Pensou muito em Suzana também e na resposta que Henrique deu para a pergunta dele sobre ser possível superar o trauma de uma violência tão grande como o estupro. À noite foi buscar a namorada no trabalho e contou tudo o que 378 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão havia ocorrido naquela manhã na casa de Lúcia e também sobre a sua conversa com Henrique, mas preferiu omitir a última pergunta que havia feito ao amigo, não queria que ela se entristecesse. _Leonardo, cuidado com esse homem, se a Lúcia tem tanto medo, ele deve ser perigoso. Você precisa mesmo voltar lá amanhã? _Preciso, eu não posso abandonar a Lúcia nesse momento, eu espero que você compreenda. _Sim, eu entendo, mas eu tenho medo que possa sobrar para você, esse homem... _Fique tranquila, logo ele volta para a cidade dele. Ele tem muitos negócios em Porto Alegre. A mãe da Lúcia me contou que após a separação deles, ela mudou-se para cá com a filha e ele foi para Porto Alegre e casou-se novamente, tem dois filhos. Eles eram de Minas Gerais. _É mesmo? Qual cidade? _Não sei. Ela só me disse que moravam em Minas. Vamos parar com esse assunto, agora eu quero... _O que você quer? _Você não consegue adivinhar? _Hum... deixa eu pensar... será que é algo que eu também quero? _Eu espero que sim, minha princesa. Leonardo chegou mais perto dela e beijaram-se longamente. _Ah... que bom... isso me faz esquecer de tudo. Suzana, eu amo você. _É tão gostoso ouvir isso, e eu o amo também, muito, muito, muito. Naquela noite, ela teve um pesadelo. Estava caminhando em uma rua deserta, ouviu alguns passos... havia alguém atrás dela... ela andou mais rápido e depois começou a correr... os passos continuavam e estavam cada vez mais perto, ela corria mais e 379 Tânia Gonzales mais rápido e percebeu que a pessoa também estava correndo. De repente ela escorregou e caiu, sentiu que alguém a levantou, quando ergueu a cabeça, ela o viu... e agora? Como iria escapar? Não havia mais ninguém ali. Ele deu um sorriso e disse: _Que saudades! Pensei que nunca mais me encontraria com você, minha menina linda! Suzana acordou assustada. 380 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 35 - Nunca fui beijada Eram duas horas da tarde quando o celular de Leonardo tocou, era Lúcia suplicando para que ele fosse até a casa dela pois o pai havia avisado que chegaria às três horas. _ Eu sinto muito, Leonardo, eu sei que você precisa trabalhar, mas ela só consegue se sentir segura com você por perto- explicou Rita. _Não se preocupe, eu vou lá conversar com ela enquanto ele não chega. Leonardo deu uma leve batida na porta e a seguir ouviu Lúcia gritando: _Você não vai entrar aqui, você não vai... volta para sua família, eu não sou mais sua filha. _Lúcia, sou eu... Leonardo. _Eu odeio você, eu odeio você, eu odeio você. _Lúcia, não é o seu pai, você me ligou, lembra? _Meu anjo? É você? _Sou eu mesmo. _Rápido, antes que ele venha, entre. _Lúcia, acalme-se, ele nem chegou ainda. Como você está agitada hoje! _Eu não quero falar com ele. Não me obrigue. _Eu não vou obrigá-la a fazer o que não quer, fique calma. Você estava assistindo algum filme?- perguntou Leonardo ao ver a TV ligada. _Quer assistir comigo? É um romance, é a história de dois amigos que depois de um beijo descobrem que estão apaixonados. Falta pouco para acabar. 381 Tânia Gonzales _Pode continuar assistindo eu a acompanho. Após vinte minutos o filme terminou. Leonardo percebeu que Lúcia estava bem pensativa. _Eu tive uma ideia- disse ela depois de alguns instantes em silêncio. _Ideia? _Leonardo... eu nunca fui beijada. Ele não estava esperando ouvir aquelas palavras. Lúcia nunca havia falado nada sobre esse tipo de assunto. Leonardo, com receio do que viria depois, permaneceu em silêncio. _Você ouviu o que eu disse? _É claro que eu ouvi, Lúcia. _O que você acha? _Eu? Bom... é... um dia você vai conhecer alguém e... _Eu tive uma ideia. Eu não gostaria de ser beijada por qualquer um, eu sei que para muitas meninas isso é bem normal, mas eu quero ser beijada por alguém muito especial. _Um dia você vai encontrar alguém e.... _Eu já encontrei. Leonardo lembrou de uma pergunta que Suzana fez: “ E se ela pedisse um beijo para você? “E estava torcendo para que Lúcia não fizesse esse tipo de pedido. _Você ouviu o que eu disse? Eu já encontrei. _Ouvi sim. _É você. Você é muito especial para mim. Eu nunca fui beijada e quero que você seja o primeiro. Leonardo não queria acreditar no que havia acabado de ouvir. E o pior, Lúcia, que raramente o encarava, estava com os olhos fixos nele. _Lúcia... eu... _Leonardo, eu quero ser beijada por você, eu nunca teria a 382 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão coragem de falar assim com outro rapaz. Você me encoraja, sabia? Eu me sinto tão segura quando você está perto! Ele não sabia o que fazer. Não queria magoá-la, mas... _Lúcia, eu acho que nós não podemos confundir as coisas, somos amigos. _Você viu o que aconteceu no filme? Eles descobriram que estavam apaixonados depois do beijo. _Lúcia, é um filme. _Mas, essas coisas acontecem. Você acha que eu sou feia? É isso? Você não me acha atraente? _Você é uma garota linda, não é isso. _Então, qual é o problema? Leonardo respirou aliviado ao ouvir uma batida na porta. _Filha, a Elisa está aqui. O seu pai ligou dizendo que só virá amanhã. _Que notícia ótima. O que a Elisa quer? _Lúcia? Ela quer conversar com você, o que seria? _Eu preciso voltar para o escritório. Lúcia, se você precisar, amanhã eu volto. _Vou precisar sim, meu anjo, o monstro disse que virá amanhã. Leonardo despediu-se de Lúcia e Rita o acompanhou até a porta, no meio do caminho encontrou-se com a amiga de Lúcia, a cumprimentou e saiu aliviado. Foi para o escritório e trabalhou até as sete horas, antes de sair ligou para a amiga Letícia, precisava muito conversar com ela; combinaram de encontrar-se em uma lanchonete não muito distante da casa dela. _Oi, Léo, você me deixou bem preocupada, o que aconteceu? _Me desculpe, Leca, mas eu precisava muito falar com você. Passei por uma situação hoje que eu estou sem saber o que fazer 383 Tânia Gonzales até agora. _Ai, Léo, para com isso, fala logo, estou ficando angustiada. Ele contou tudo e quando terminou a amiga estava de boca aberta. _Não acredito que ela te pediu isso. Ah... Léo, só você mesmo. Não é a primeira vez que você recebe esse tipo de pedido vindo de uma amiga. Quem sou eu para julgar a Lúcia! _Ah, é bem diferente, né? Eu fiquei sem saber o que fazer, agradeci a Deus por a amiga dela ter aparecido. _Léo, Léo... deixa a Suzana saber disso! _Ela nem pode imaginar. Bem que ela me alertou. _E aí? E se ela insistir? _Eu quero a sua ajuda. O que eu posso fazer? _Vou ser bem prática, há duas opções: beijar ou não beijar. _Que legal, você me ajudou tanto! _Ah, amigo! _Eu não posso beijá-la, eu não posso fazer isso com a Suzana. E tem mais, mesmo se eu não estivesse namorando eu também não poderia. Não posso bagunçar a cabeça dela, eu sou alguém que deseja ajudá-la, não quero complicar ainda mais as coisas. _É isso, você respondeu. Agora só precisa usar as palavras certas para não machucá-la. _Aí que está o problema. Como eu vou explicar para ela? _Leonardo, peça sabedoria a Deus. Ele vai colocar as palavras certas na sua boca. Você é tão sincero, eu acho que o caminho é esse: a sinceridade. _Valeu, amiga. Naquela noite ao buscar Suzana, Leonardo conseguiu agir normalmente, não queria preocupá-la, eles estavam vivendo uma fase muito boa e ele não queria estragar tudo. 384 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão No dia seguinte, cada vez que tocava o celular, Leonardo ficava apreensivo, temia ser uma ligação de Lúcia; desejava não precisar vê-la naquele dia. Ainda não havia pensado no que dizer para ela. Quando faltavam poucos minutos para as seis horas da tarde, Lúcia ligou dizendo que o pai iria às oito horas e implorou para que Leonardo fosse até lá antes daquele horário. Ele ficou por mais alguns minutos no escritório, depois foi para casa tomar banho e comer algo. _Você chegou, que alívio! _Oi, Lúcia, você está bem? _Por enquanto sim. Eu gostaria que o monstro fosse embora para cuidar da família dele e nos deixasse em paz. _Lúcia, ele é o seu pai, é natural que queira vê-la. _Eu não o considero mais como meu pai. _Desde quando? _Desde... não eu não quero falar sobre isso. Tenho um assunto mais interessante para conversar com você. Leonardo esperou calado as próximas palavras de Lúcia, sabia muito bem qual era o assunto. _Leonardo, ontem eu disse que gostaria de ser beijada por você e eu quero que seja agora. Ao ouví-la falar assim, Leonardo pensou em como Lúcia estava diferente, ele não podia imaginar que ela teria coragem de ser tão direta neste tipo de assunto. Ela nem parecia mais aquela menina frágil e tímida. _Leonardo, eu quero que você me beije, agora. _Lúcia, eu nem sei como dizer, mas... eu vou ser bem sincero com você; eu não posso beijá-la porque eu tenho uma namorada e isso não seria justo para ela. Você entende? _Você tem uma namorada? Você nunca disse isso. 385 Tânia Gonzales _Não tive oportunidade para dizer. Lúcia, eu não quero magoá-la, gosto muito de você e quero ajudá-la, mas eu não posso, seria uma traição. Mesmo que seja só um beijo, que namorada aceitaria isso? _Você deve gostar muito dela, né? _Muito. Ela é uma pessoa muito especial. _Que sorte a dela ter um namorado assim como você, tão sincero e fiel. Você está certo, eu não teria feito esse pedido se soubesse que você está comprometido, não mesmo. _Não quero que fique com raiva de mim. _É claro que não. Eu já o admirava muito, agora então... ela não sabe nada a meu respeito, não é? _Sabe. _Ela sabe e aceita numa boa que você venha me visitar? _É claro que no começo ela achou tudo muito estranho, mas depois ela entendeu. E ela confia em mim. _Ela tem toda razão para confiar. Qual o nome dela? Antes que Leonardo pudesse responder, Rita bateu na porta e avisou que Valter estava na sala esperando pela filha. Lúcia mudou completamente, começou a tremer e olhou para Leonardo como se estivesse suplicando por ajuda. _Calma, eu vou até lá com você. _E-e-eu não quero ir. _Lúcia, me dê a sua mão, eu prometo que não vou soltá-la. Vem comigo. Ela obedeceu, mas continuava tremendo; ao chegar à sala de estar, Valter se aproximou dela para abraçá-la, mas logo mudou de ideia ao ver o rosto amedrontado da filha. Resolveu se afastar. _Querida, minha filha, como você está linda! O que você acha de nós dois sairmos juntos, você escolhe, pode ser qualquer lugar. Lúcia continuou calada; Leonardo estava se sentindo bem 386 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão desconfortável com aquela situação e percebeu que Rita também estava. _E então, vamos sair? _Não! - Lúcia respondeu quase gritando. _Minha filha, eu vim de longe só para passar alguns momentos com você, deixei meus negócios, meus... _Pode ir, pode voltar para a sua família. Eu não quero vê-lo nunca mais. _Filha, Verinha, minha Verinha! _Não me chame assim! Eu odeio quando você me chama assim! Lúcia estava gritando agora. _Rapaz, você poderia ir embora, eu preciso falar com ela. _Não! Não! O Leonardo não vai embora, você vai. A sua presença aqui me faz mal, muito mal. Eu odeio você, eu odeio você, você é um monstro! _Não fale assim comigo! O que o rapaz vai pensar? É melhor que você vá embora, é um assunto de família, por favor- disse Valter olhando para Leonardo. _Eu só vou se a Lúcia pedir. _Você é bem atrevido, rapaz, cuidado! _Cuidado por quê? Vai machucá-lo também? É só isso que você sabe fazer, machucar as pessoas que eu amo. _Lúcia, pare de falar assim. _Valter é melhor você ir, ela está muito nervosa- pediu Rita. _A culpa é toda sua, você faz tudo o que ela quer. Neste momento Lúcia correu até o seu quarto e fechou a porta. _Viu só o que você fez? Ela tem toda razão, você deveria voltar para sua família e nunca mais aparecer por aqui. _Rita, eu vou embora, mas eu volto. Eu quero conversar com a minha filha sem este rapazinho aí. _Eu não vou deixar que fique sozinho com a Lúcia, ela não quer, 387 Tânia Gonzales ela morre de medo do senhor, por quê? _Rapaz, não se intrometa em assuntos de família. _Valter, vá embora. _Voltarei amanhã e avise a Verinha que vou levá-la para almoçar. Diga para ela ficar pronta, eu chego aqui mais ou menos ao meiodia. Valter saiu e Leonardo foi até o quarto para conversar com Lúcia. _Lúcia, ele já foi embora, posso entrar? _Pode. _Como você está? Está mais calma agora? _Eu não quero ver aquele monstro nunca mais. _Ah, Lúcia... ele já avisou que voltará amanhã. Ele quer levá-la para almoçar fora. _Não, isso não, Leonardo, meu anjo... me ajude, eu preciso sair daqui. _Lúcia, eu não sei. O que eu posso fazer? Deixa eu pensar... quer almoçar comigo amanhã? _Quero. _Eu te pego às 11h, assim não corremos o risco dele chegar. _Obrigada, meu anjo. _Agora, eu preciso ir, tenho que buscar a minha namorada no serviço dela. _Ela trabalha onde? _Em um shopping, ela é vendedora em uma loja de perfumes. Ela está cursando Letras, quer ser professora. _Que legal. _Lúcia, fique com Deus e até amanhã. _Até amanhã e mais uma vez: obrigada. _Não precisa me agradecer. Leonardo foi direto para o shopping. Enquanto esperava por 388 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Suzana ficou pensando em Lúcia. “ Que relacionamento mais estranho; aquele homem deve ter feito algo horrível, ele deve ter violentado aquela indefesa garota, só pode ser isso, mas, então por que Rita não o impede de ver a filha? “ _E então, vou precisar esperar quanto tempo para o meu namorado notar que eu estou aqui? _Suzana? Me desculpe, eu estava tão distraído! Minha princesa, é tão bom vê-la, você está linda! _Gracinha! Aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara de preocupado! _Vamos para o carro, no caminho eu conto. Leonardo contou para Suzana o que havia acontecido na casa de Rita, menos sobre o assunto do beijo, preferiu deixar para outro momento. _Leonardo, eu já falei pra você tomar cuidado, esse homem deve ser perigoso. Você acha que ele está gostando da sua interferência? _É claro que não, mas o que eu posso fazer? Suzana, eu não posso abandonar a Lúcia. Minha princesa, não fique chateada comigo, mas amanhã eu vou levar a Lúcia para almoçar, para evitar que ele a encontre. Ela não quer sair com ele. _Leonardo... isso está ficando cada vez mais complicado! Você e ela juntos... eu não quero ser egoísta, mas... _Minha princesa, você egoísta? Nunca. É normal que você não goste desta situação, eu também não gosto nada disso, mas você entende que eu não posso me afastar dela agora? _Entendo, quer dizer, mais ou menos. Quando o pai dela vai embora, hein? _Ah, eu gostaria que fosse hoje, agora. Suzana, hoje eu falei pra Lúcia que eu tenho uma namorada. _Só hoje? Ela não sabia ainda? _Suzana, eu não tive oportunidade para contar, não fazia sentido 389 Tânia Gonzales eu chegar e dizer: olha, eu tenho uma namorada! _Não? _Minha princesa, antes de hoje eu não vi razão para isso. _O que aconteceu hoje para você resolver revelar o seu grande segredo? _Ah, Suzana... não fale assim, não era segredo. Eu vou falar sobre isso outro dia, você está muito brava hoje. _Brava? Eu não, pode falar. _Você não vai gostar nada. Vamos entrar na garagem, eu vou contar tudo- disse ele ao estacionar o carro. _Vamos namorar um pouquinho, depois eu conto, porque senão eu acho que vou ficar sem beijo hoje. _Leonardo, agora você vai me contar. Nada de namorar, conta logo! _Só um pouquinho, me dá um beijo, só um. _Depois você fala? _Fazendo chantagem comigo? _Para de brincadeira, eu estou ficando angustiada! _Vem aqui, me dá um beijo... Suzana o beijou rapidamente e ficou olhando para ele, ansiosa. _Eu, hein? Que beijo foi esse? Muito rápido. _Leonardo! Diz logo, por favor! _Eu deveria ter ficado calado, sabe aquele velho ditado? Em boca fechada... _Leonardo, eu não quero saber de velho ou de novo ditado, fala logo! Então, como ela estava muito ansiosa, ele resolveu contar sobre a história do beijo. _O quê? Eu sabia, eu falei pra você, eu avisei... eu... - ela não conseguiu continuar, as lágrimas começaram a molhar aquele delicado rosto. 390 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Minha princesa, calma, eu não terminei ainda, me escuta. _Não quero ouvir. Só de imaginar você e ela... vocês dois se … _Não, Suzana. _Eu sabia, não dá certo, um homem e uma mulher se encontrando assim, conversando tanto e... _Suzana, espera, deixa eu falar... não aconteceu nada, eu disse para ela que tinha uma namorada e que não poderia fazer isso e ela entendeu perfeitamente, eu estava até com receio da reação dela, mas a Lúcia até me pediu desculpas, ela disse que se soubesse que eu tinha uma namorada ela não teria feito um pedido desses. _Ah... _Linda, me desculpe, eu deveria ter começado pelo final...mas, não fique brava, eu gostei da sua reação. _O quê? _Não fique brava comigo. _Estou brava sim e muito. Que coisa mais feia, Leonardo! Você está se divertindo comigo, não é? _Não, minha princesa, não. É que é tão bom saber que você me ama! _Eu não disse isso! _Os seus lindos olhos me disseram. Brigue com eles depois. Eu amo você, amo muito... Leonardo segurou o rosto dela com ambas as mãos e foi se aproximando para beijá-la, a princípio ela tentou se afastar, tentou virar o rosto para evitar o beijo, mas a sua resistência durou poucos segundos. _Você acha que eu quero beijar outra boca? Acha mesmo? Eu só quero a sua, minha princesa, foi tão difícil chegar perto dela... tão complicado, acha que vou por tudo a perder? Eu amo você. _Eu não deveria dizer isso, não hoje, mas... eu te amo. E vê se da próxima vez você começa o seu relato pelo desfecho, por favor. 391 Tânia Gonzales Não gosto de suspense. _E perder a sua reação? Não mesmo. _Sem graça. Ficaram mais alguns minutos desfrutando da companhia um do outro. Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, Leonardo deu um beijo de despedida na namorada, abriu o portão para sair e teve uma desagradável surpresa. 392 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 36 -Valter _O que você está fazendo aqui? _Eu que pergunto, seu espertinho! Fica de conversinha com a minha filha e agora está com outra? _Cuidado com as suas palavras. Você me seguiu? _Eu não lhe devo explicações, agora você sim, seu conquistador barato! Visita a minha filha e depois... Enquanto os dois discutiam, Suzana, que não havia saído da garagem, estava paralisada, não conseguia sair do lugar. “ Não pode ser verdade- pensava ela- eu reconheço essa voz, eu sei quem é... não... não pode ser, por favor, não! “ _Como teve a coragem de me seguir? Foi longe demais, já não chega o que fez à sua filha, hoje? _Cala boca, rapaz! Cuidado, você não me conhece. _Nem quero conhecê-lo, o pouco que sei já basta para eu saber que tipo de homem você é. _Rapaz, me respeite. Eu vou contar para minha filha o conquistador barato que ela foi arrumar. Ela vai saber muito bem... Suzana, que não podia ser vista, pois o portão de alumínio era quase que totalmente fechado. Ela queria gritar, pedir para Leonardo entrar, mas as palavras não saíam, de repente ela começou a pensar se aquilo tudo não era mais um de seus pesadelos, e desejou que fosse, desejou do fundo do coração, mas logo ela percebeu que era tudo real. Estava apavorada- “ E se ele o machucar, e se ele veio aqui atrás de mim, e se.... meu Deus, me ajuda! Eu não consigo me mover, estou apavorada...” _Vá embora daqui, ou eu chamo a polícia! E nunca mais volte aqui! 393 Tânia Gonzales _Você acha mesmo que eu tenho medo de você, rapaz? Olha bem para mim, olha... você até que é alto, tem um certo porte, mas, olha aqui, rapaz, eu posso acabar com você, eu posso... _Você foi longe demais. Eu vou ligar agora e dizer que fui ameaçado- Leonardo pegou o celular e isso fez com que Valter se afastasse dizendo: _Tudo bem, rapaz, eu vou embora, mas amanhã a minha filha vai saber quem você é. Valter entrou em seu carro e saiu cantando pneus. _Suzana, você ouviu tudo, né? Me desculpe, eu … Suzana, você está bem? Ela não respondeu, simplesmente não conseguia sair do lugar e nem se expressar, o medo a dominou. _Suzana, fala comigo, Suzana, por favor... Leonardo a abraçou e só então ela conseguiu sair daquele transe. _Eu... eu... estou com medo- disse com uma voz quase que inaudível. _Não precisa ficar com medo, estou aqui. Aquele homem... como pôde vir até aqui? Minha princesa, calma, ele já foi. Não... não chore, está tudo bem. Não aconteceu nada, fique tranquila. _Aquele homem... _É o pai da Lúcia. _Não... não... Leonardo fique longe dele, por favor, fique longe dele. _Suzana, acalme-se. Você está ainda mais nervosa do que a Lúcia, se é que isso é possível. Ele não pode fazer nada contra você, ele nem a viu. _Tenho medo por você. Leonardo, por favor, afaste-se deles, eu imploro! _Suzana, acalme-se, isso não faz bem, você está … apavorada. Enquanto estava no aconchego dos braços de Leonardo, Suzana 394 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão pensou: “ não posso contar a verdade para ele, não posso, se ele soubesse poderia acontecer uma tragédia. Meu Deus, como isso é possível? Eu não vou me livrar disso nunca?” _Está mais calma, agora?- Suzana fez que sim com a cabeça- é melhor você descansar. Eu vou embora, mas me prometa que vai ficar bem e que não vai encher essa sua cabecinha linda de bobagens, pare de pensar na Lúcia e no pai dela. Certo? _Prometa que não vai lá amanhã. _Suzana, eu não posso prometer isso, a Lúcia... _Leonardo, esse homem teve a coragem de seguir você, ele é perigoso, você mesmo disse o quanto a filha dele tem medo e... _Suzana, calma. Vai ficar tudo bem, logo ele volta pra família dele e... _Afaste-se deles, por favor! _Eu vou embora, descanse. Que Deus lhe dê um sono bem tranquilo. Ao entrar em casa, Suzana sentiu-se aliviada por todos já estarem dormindo. Ela não sabia o que fazer:, “ Devo contar para meus pais? E o Leonardo? Qual seria a reação dele, que já sente raiva daquele homem por causa da Lúcia? Se ele soubesse que... e se eu estiver errada, e se não for ele? Estava tão apavorada que nem perguntei o nome do pai dela. Aquela voz... não, eu não estou enganada... mas Leonardo não mencionou nada sobre ele andar com uma bengala. Ah, meu Deus, o que eu faço?” Suzana demorou muito a pegar no sono. Não conseguia parar de pensar em toda aquela situação. Tomou uma decisão: contar para a vovó Vivi; aproveitaria que no dia seguinte estaria de folga do trabalho para almoçar com ela. Logo pela manhã, antes de ir para a faculdade, Suzana combinou 395 Tânia Gonzales com a avó. Ela estava fazendo café na casa de Marisa porque havia dormido lá. _Minha neta, você dormiu bem? _Não vó, dormi muito mal. Eu quero conversar com a senhora algo muito sério; vamos naquele restaurante que a senhora tanto gostou, lembra? _Estou preocupada com você. Tudo bem, eu chegarei antes de você. Despediram-se e Suzana foi para a faculdade, mas foi muito difícil para ela se concentrar nas aulas. Leonardo ligou no horário do intervalo. Estava bem preocupado por causa da reação dela no dia anterior. Suzana aproveitou para perguntar o nome do pai de Lúcia, e, ao ouvir a resposta, suas pernas amoleceram, pensou que iria cair ali mesmo. _Suzana, está me ouvindo? Eu não posso conversar com você sobre esse assunto, ontem você ficou tão mal. Suzana conseguiu se recompor e tratou de tranquilizá-lo. “Então é ele mesmo, o Valter- pensou, assim que Leonardo desligou- Meu Deus, e agora? O que eu faço? Aquele homem horrível tão próximo de mim, da minha família e o pior é que ele está mais próximo ainda de Leonardo”. Ela precisou se esforçar bastante para participar das aulas seguintes. Vovó chegou ao restaurante meio-dia e cinco, após vinte minutos Suzana já estava sentada ao lado dela. _Suzana, minha neta, e então, o que está acontecendo? _Ah, vó, a senhora nem imagina! Suzana contou tudo. Vovó Vivi ficou muito surpresa e preocupada. _Meu Deus! Aquele homem tão perto? Você tem razão por estar com receio de contar para o Leonardo. Será que ele fez o mesmo 396 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão com aquela pobre garota? Ah, desculpe, eu não deveria falar isso. _Tudo bem, vó, eu também penso o mesmo. Estou apavorada, eu quero que o Leonardo se afaste deles, mas a Lúcia conta muito com ele, agora mesmo eles devem estar almoçando juntos. _Que situação! Só Deus para nos guiar. Ah, Suzana, vamos pedir a Ele que nos oriente, pois tem o seu pai também. Eu tenho mais medo da reação dele. _Dos dois, vó! Imagine o que o Leonardo vai... _Calma querida! Enquanto isso, Leonardo e Lúcia também estavam almoçando. _Eu queria tanto que ele fosse embora, tanto! _Ele vai, Lúcia. Afinal tem uma família esperando por ele, certo? _Eu não sei mais o que fazer. _Você não pode se apavorar. Lúcia, eu preciso contar algo que aconteceu ontem, porque, com certeza, ele vai falar pra você. _O que ele vai me falar? O que aconteceu? _O seu pai me seguiu ontem até a casa da minha namorada. _Que absurdo! Como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas? _Lúcia, ele acha que eu estou enganando você. Ele pensa que entre nós dois tem algo mais, então como ele me viu com a Suzana... _Suzana? _Por que a surpresa? É o nome da minha namorada. _Suzana? Não pode ser... não... que coisa estranha! _O que é estranho, Lúcia? _Ah... não... não é possível, é muita coincidência! _Lúcia, você está me assustando! Ontem eu já fiquei bem impressionado com a reação da Suzana. _Por quê? Diz, por favor! _Ela nem chegou a ver seu pai, porque estava dentro da garagem 397 Tânia Gonzales e ele me pegou saindo, mas depois que ele foi embora, eu entrei novamente e a encontrei apavorada, ela se assustou muito. _Não... não... _Lúcia, o que foi? Por que você está tão aflita? _Ah, não... vamos sair daqui, eu já terminei, a gente conversa no carro. _Tudo bem. _Lúcia, você está me preocupando... _Leonardo, não pode ser... me diz mais alguma coisa sobre a sua namorada, me diz algo sobre a família dela. _Ela tem uma irmã, a Sueli, que é mais velha que ela; a mãe, Marina, o nome do pai dela é Davi... _Meu Deus! Não acredito, não acredito. Lúcia colocou a mãos no rosto e abaixou a cabeça. _Lúcia... o que está acontecendo? Fale comigo. As lágrimas começaram a rolar e logo o rosto dela estava completamente molhado, Lúcia passava as mãos para tentar enxugá-las, mas era em vão. Leonardo não sabia o que fazer. _Fala comigo, Lúcia! Por favor! _Meu anjo... não deixe que o monstro se aproxime dela, não deixe... não... ele vai machucá-la, ele vai... ele... ele vai machucála de novo. _Lúcia, o que você esta falando? O seu pai... ele... ele … Lúcia, você conhece a Suzana? _Ah... sim. Meu Deus... esse pesadelo novamente! _Lúcia, o pai da Suzana trabalhou para o seu? - perguntou querendo desesperadamente que tudo não passasse de uma coincidência. _Trabalhou. Ah... minha amiga... minha amiga. Ela sofreu tanto! _Lúcia... era sobre ela que você... 398 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Leonardo não conseguiu completar, agora era ele que estava com os olhos cheios de lágrimas. _Era. Eu sinto muito. _Lúcia... eu sei que ela sofreu muito, a mãe dela me contou, mas... foi o seu pai que... foi ele, aquele... Leonardo queria desabafar, gostaria de falar tudo o que pensava de alguém que comete tal violência, mas se controlou por causa de Lúcia. _Pode falar, ele é um monstro, é isso o que ele é, um monstro, um covarde... eu não entendia o porquê de não poder mais brincar com a Suzana. O pai dela a levava até a minha casa uma vez por semana, o monstro não me deixava ir na casa dela. Temos a mesma idade e meu... o monstro, não permitia que mais nenhuma menina fosse lá, só a Suzana. De repente, sem mais nem menos, o pai dela sumiu. Meu pai foi parar em um hospital, minha mãe disse que foi um assalto e que bateram nele. Eu perguntava sobre a Suzana, ela dizia que a família dela havia mudado de cidade. Eu fiquei sem entender pois ela nem se despediu de mim. Cerca de dois meses depois, meus pais se separaram. Eu vim com a minha mãe para cá. Ela tinha algumas amigas que moravam aqui e sempre falavam bem, então, como ela queria ficar bem longe de Belo Horizonte, nos mudamos. Ele sempre vinha nos visitar, mas minha mãe nunca me deixava sozinha com ele e os dois quase nem se falavam. Um dia eu acordei e ouvi algumas vozes que vinham da sala, percebi que era uma discussão, ainda era bem cedo, sete horas da manhã, eu acho; abri a porta bem devagar e fui até o corredor e ouvi tudo o que eles falavam. Leonardo... eles estavam brigando, a minha mãe resolveu colocar tudo para fora... foi então que eu descobri a verdade sobre o afastamento da família da Suzana. Fiquei sabendo que o pai dela esteve preso por algum tempo e também ouvi minha mãe dizendo que a culpa era 399 Tânia Gonzales do meu pai, e ela começou a xingá-lo. Quando ela falou sobre o sofrimento da minha amiga... ah... foi horrível, como doeu ouvir o quanto ela sofreu nas mãos dele. Me desculpe... eu sei que machuca ouvir isso. Eles perceberam que eu estava lá, mas era tarde demais... foi a partir daí que eu me fechei. Fiquei deprimida... bom... você sabe. _Lúcia, é muito difícil ouvir isso. Agora eu estou entendendo a reação dela ontem. Ela não quis me contar com medo que eu faça alguma loucura. Coitada, ficou tão apavorada! _Leonardo, fique longe dele, por favor. Não tente nada. _Calma, Lúcia. A vontade que dá é de procurá-lo e … é melhor nem dizer, mas eu vou manter a calma. Deus vai me ajudar. Espera aí...tem uma coisa que eu não estou entendendo... eu já falei várias vezes o seu nome e ela nunca esboçou qualquer reação.. tudo bem que há várias Lúcias no mundo... _É fácil explicar, o meu nome é Vera Lúcia. A minha mãe queria que fosse Lúcia e … o meu pai gostava muito de Vera, então ele propôs: Vera Lúcia. Só que as pessoas me conheciam como Vera, e a maioria me chamava de Verinha, porque ele preferia assim e proibia a minha mãe de me chamar de Lúcia. A Suzana me chamava de Verinha também. _Ah... outro dia ele a chamou assim e você ficou uma fera. _Depois do que eu descobri sobre ele, eu nunca mais deixei que me chamassem de Vera e muito menos de Verinha. _Lúcia, tem outra coisa, bem... eu sei o quanto esse assunto é delicado, mas... o pai da Suzana bateu no seu com uma bengala... _O meu pai sofreu um acidente de carro meses antes de contratar o pai da Suzana, foi até por esse motivo que ele dispensou o antigo motorista. Ele usou uma bengala durante algum tempo, mas após algumas cirurgias ficou bem. Se você reparar ele ainda manca, mas quase que não dá para notar- explicou ela. 400 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Depois de se assegurar que o pai de Lúcia havia desistido de esperar, Leonardo a deixou no apartamento e voltou ao escritório. Lúcia contou para a mãe quem era a namorada de Leonardo. Rita, como não podia deixar de ser, ficou muito surpresa com a revelação e muito preocupada também. Leonardo ligou para Suzana e combinaram de jantar fora para aproveitar a folga dela. Ele resolveu não contar nada durante o jantar. Ele percebeu o quanto ela estava apreensiva, mas conseguiu manter uma conversa bem agradável apesar de tudo. _Minha princesa, você tem o rosto mais delicado e lindo que eu já vi na vida, eu a amo tanto! Ele a abraçou com ternura e depois beijaram-se apaixonadamente. Já estavam na casa dela. _Você sempre me surpreende, ah, Leonardo, você é o melhor presente que eu poderia ganhar. Como pode existir alguém assim? Eu o amo. _Suzana, é tão bom ouvir isso. É tão bom poder viver esses momentos com você... nós dois estávamos precisando, não é? Tantos problemas... as coisas estão tão complicadas; estar ao seu lado é um maravilhoso presente, eu agradeço a Deus e espero que possamos estar sempre juntos. Princesa, não fique aflita, não se preocupe, eu já sei sobre … a Verinha. _Leonardo, como foi que... Ele passou então a falar sobre sua conversa com Lúcia. Suzana deixou as lágrimas rolarem livremente; Leonardo a aconchegou em seus braços. _Minha princesa, fique calma, eu não vou fazer nenhuma loucura. _Leonardo, você promete que não vai... _Claro que prometo. Fique tranquila. _Um dia eu gostaria de rever a Ve... ou melhor a Lúcia. 401 Tânia Gonzales _Eu posso cuidar disso, mas primeiro vamos esperar que aquele... que ele vá embora. Suzana, me desculpe, eu sei o quanto é difícil para você falar sobre este assunto, mas, o que aconteceu depois que seu pai foi preso? Eu quero dizer com relação ao Valter. _Eu não sei muita coisa... eles mudaram do bairro deles e nós também mudamos do nosso, era muito difícil para mim... se continuássemos lá eu teria demorado bem mais para voltar à rotina. _Mas, ele não pagou pelo que fez? _Não. Eles sumiram e a minha família estava tão fragilizada que não... sei lá. _Tudo bem. Não, não está tudo bem. Suzana, ele precisa pagar pelo que fez. Eu vou conversar com seu pai e... _Não, por favor, Leonardo, eu quero esquecer tudo isso, para acusá-lo eu vou precisar me expor e toda a minha família, nós já sofremos tanto, chega. _Suzana, ele cometeu um crime, eu gostaria que houvesse uma maneira dele pagar, mas quem sabe se ele já não pagou. Ter aquele tipo de relacionamento com a própria filha deve doer bastante e sabe lá o que mais ele precisou enfrentar por causa do que fez. Se bem que mesmo assim... _Por favor, eu não … _Minha princesa, chega desse assunto por hoje. _Eu vou conversar com meus pais, é melhor eles saberem logo. Ao entrar em casa, Suzana aproveitou que estavam todos reunidos na sala, contou tudo e implorou para seu pai não procurar por Valter. _Que pesadelo, até o Leonardo precisou conhecer aquele... _Pai, calma. Ele vai voltar para a nova família dele e tudo vai ser como antes. 402 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Aquele sem vergonha, canalha... ele merece pagar pelo que fez. Nós devíamos denunciá-lo, é isso. _Davi, olha só para nossa filha, ela está tão aflita! Ele deveria pagar, mas para isso teríamos que... _Eu sei, Marina. Filha, não quero que você tenha que contar e recontar aquela história que tanto a machuca, eu não vou permitir que você passe por tudo aquilo novamente, mas, para isso, infelizmente, nós precisamos pagar o preço, o preço da impunidade. _Pai, eu sei que Deus não é injusto, aquele homem já pagou ou ainda vai pagar pelo que fez. No dia seguinte, Leonardo recebeu uma ligação de Lúcia. _Como você está feliz, o que aconteceu? _Ele foi embora, o monstro se foi. Ele ligou para minha mãe e disse que precisava voltar urgente e que vai demorar para dar notícias, falou que vai viajar com a família. Não podia ter notícia melhor. Que alívio! Você acredita que ele falou de você para minha mãe? Disse que você estava me enganando, que você namorava escondido. Sem noção! _Lúcia, eu conversei com a Suzana e ela gostaria muito de encontrar-se com você. _Sério? Eu pensei que isso fosse a última coisa que ela gostaria. _Que isso, Lúcia! E então? _Eu não sei... será que eu estou preparada para um encontro como esse? _Vamos combinar uma coisa: no próximo sábado teremos um encontro de jovens lá na IGAG, seria uma ótima oportunidade de você conhecer a minha igreja e de rever a Suzana. Você terá uma semana para decidir. Que tal? _Eu vou pensar. É muita novidade para minha cabeça perturbada! 403 Tânia Gonzales _Lúcia, a sua cabeça já está bem melhor. E eu acho que vai ser muito bom para vocês duas esse reencontro. _Depois eu dou a resposta. Leonardo, por enquanto eu gostaria de agradecer por tudo, você é um grande amigo. É um exemplo do que é se doar por alguém. Você conviveu com uma jovem confusa, deprimida, meio maluquinha, e se saiu muito bem. Você é incrível! A Suzana precisa de alguém como você, ela merece ser feliz depois de tudo o que ela passou. 404 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 37 – Suzana e Lúcia A semana passou sem novidades. Leonardo comentou com Suzana sobre o provável reencontro dela com Lúcia no próximo sábado e ela passou os últimos dias bem ansiosa. Na sexta-feira Leonardo chegou na casa de Suzana às sete horas da manhã pois iria levar a vovó Vivi até a rodoviária, ela pegaria o ônibus às 9h. A tia Marisa também estava com as malas prontas, ficaria um mês em Belo Horizonte. Davi, Marina e Sueli já haviam saído para o trabalho. Suzana faltou da faculdade para acompanhar o namorado. _Vou sentir tanta saudade, vó! - disse Suzana. _É só me visitar, minha neta. Eu estou tão feliz, passei momentos maravilhosos com a minha família e ganhei até um novo neto! Leonardo, você vale mais do que ouro. _Vovó, a senhora que vale! Pode deixar que eu vou visitá-la e irei com a minha princesa. Na rodoviária... _Suzana, eu espero que dê tudo certo em seu reencontro com a Verinha. _Eu também, vó. Ah... vou morrer de saudades! _Minha neta linda, eu também. _Vó, foi tão bom tê-la aqui, a senhora não imagina o quanto! _Eu imagino, porque para mim também foi. Minutos depois mãe e filha entraram no ônibus com destino à Belo Horizonte. 405 Tânia Gonzales _O que você acha de irmos até a casa da Lúcia? _Leonardo, ela nem deu a resposta ainda sobre o encontro de jovens e você quer que eu apareça lá de surpresa? _Eu ligo e pergunto, você concorda? _Não sei, ah... eu estou com um certo receio. _Por que, minha princesa? Eu tenho certeza que vai ser ótimo para as duas; deixa eu ligar, vai? _Tudo bem, se ela concordar eu vou com você. _Legal. Vou ligar. _Agora? Eu... sei lá. Estou com medo. Ela está aí com você, Leonardo? _Está sim. Lúcia, para que esperar até amanhã? Não precisa ter medo, vai ser um encontro emocionante. Depois de alguns segundos, Leonardo desligou. _E aí? Ela concordou ou não? - perguntou Suzana com ansiedade. _Hum... deixa eu pensar... será que ela concordou? _Leonardo! _Calma... vamos lá. Você vai rever a sua amiga de infância, agora. _Ah, meu Deus! Quando chegaram ao apartamento de Lúcia eram quase onze horas da manhã. _Bom dia, Rita. Esta é a Suzana. _Suzana... ah, menina, nem sei o que dizer, posso abraçá-la? Abraçaram-se e a emoção tomou conta das duas. Leonardo foi buscar Lúcia. _Ansiosa? Ela está lá com a sua mãe. 406 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Você e as suas ideias! Estou tremendo, olha isso... _Calma, Lúcia, ela também está. Vem comigo. _Espera um pouco... será que eu vou conseguir? _Claro que vai. _Vai primeiro, eu vou logo atrás de você. Lúcia foi andando bem devagar, estava muito nervosa, o coração estava disparado, por um momento pensou que não iria conseguir acompanhar Leonardo. Na sala de estar a ansiedade de Suzana também era grande. “ O que eu vou falar para ela? Como ela vai reagir ao me ver? O que eu faço? Ah, meu Deus, me ajude.” _Muito bem... Suzana, esta é a sua amiga Lúcia. E Lúcia, esta é sua amiga, Suzana. Elas ficaram paradas, uma olhando para a outra sem saber o que fazer. Leonardo precisou intervir. _E aí, vão ficar assim o tempo todo? Ele pegou na mão de Lúcia e a levou até Suzana. As duas amigas estavam com os olhos marejados. Mais alguns segundos se passaram, só então Suzana quebrou o silêncio. _Oi, Lúcia, é assim que você gosta de ser chamada, não é? _É. Suzana... ah, Suzana, eu nem sei, eu... As duas amigas se abraçaram e choraram muito uma no braço da outra. Não conseguiam dizer uma palavra, deixaram que as lágrimas falassem por elas. Leonardo e Rita foram até a cozinha para que elas pudessem viver aquele momento especial. _Suzana, eu sinto muito. Amiga, eu sofri tanto com a sua ausência, eu não conseguia entender o porquê que nós duas não podíamos 407 Tânia Gonzales mais brincar juntas. E depois os meus pais se separaram e eu vim com a minha mãe para cá, eu só fiquei sabendo de tudo há pouco tempo. Doeu muito saber o quanto você sofreu, ah... Suzana, eu sinto muito. Não podia imaginar que uma coisa tão horrível... _Veri... desculpe, Lúcia, não vamos falar sobre este assunto. Eu sei que para você também é muito difícil. O importante é que nós estamos aqui juntas novamente. Eu pensei que nunca mais me encontraria com você. Estou feliz por vê-la. O Leonardo me contou tudo sobre você. Foram meses de muito sofrimento, né? _E você? Anos e mais anos sofrendo por causa daquele monstro. Que bom que o Leonardo apareceu em sua vida. _Em nossas vidas. Ele tem sido um bom amigo para você, não é? _É verdade. Ele me tirou de um poço bem fundo. Eu estava tão mal! Me fechei, não conseguia conversar, foi terrível. O Leonardo foi um presente de Deus, ele é muito especial, se bem que você sabe disso muito melhor do que eu. Ele é um anjo. Era assim que eu o chamava, agora estou usando o nome dele mesmo. _É, eu sei. Eu acho isso incrível porque ele nos uniu novamente. _Tem razão, é mesmo incrível. Eu não acreditava em milagres, mas depois de conhecer o Leonardo, a minha opinião mudou. Suzana ficou muito feliz ao saber que Lúcia iria voltar para a faculdade e que também estava decidida a arrumar um emprego. As duas amigas conversavam animadamente quando Rita apareceu na sala anunciando que o almoço estava pronto, Leonardo veio logo atrás trazendo os pratos e talheres para arrumar a mesa. Foi um almoço muito especial. Leonardo e Suzana se despediram delas e combinaram de buscar Lúcia para o encontro de jovens no dia seguinte. Leonardo deixou Suzana no shopping para mais um dia de 408 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão serviço. O encontro de jovens naquela noite de sábado prometia ser maravilhoso. Suzana e Leonardo buscaram Lúcia às sete horas. _Estou tão ansiosa, nunca participei de um encontro deste tipodisse Lúcia. _Não se preocupe, o pessoal é incrível, você vai gostar, tenho certeza- assegurou Leonardo. _É isso mesmo, você vai se sentir muito bem- completou Suzana. E a previsão de ambos se confirmou, Lúcia gostou de tudo: dos louvores, palestra, bate-papo e muita pizza com refrigerante. Na ocasião ela pôde conhecer Letícia e ambas se deram muito bem. Lúcia nem lembrava que ela havia acompanhado Leonardo em seu primeiro dia no apartamento dela. _Estava tão confusa... sinceramente Letícia, eu não me lembro de você. Que coisa estranha, né? Estava mal mesmo! _Mas, graças a Deus, tudo isso já passou. _É verdade. Que alívio! Como é bom poder viver, porque aquilo não era vida, não mesmo! Lúcia também conheceu Paulinha e as duas conversaram muito. Compartilharam da triste experiência que cada uma viveu. Naquela noite, Lúcia conversou com a mãe e a convidou para irem juntas participar do culto de domingo. Rita ficou muito feliz com a nova atitude da filha, principalmente pelo fato das duas terem a oportunidade de saírem juntas, pois fazia um bom tempo que isso não acontecia. Os meses que se seguiram foram muito especiais: Suzana e Lúcia sempre se encontravam; Paulinha estava se alimentando bem e 409 Tânia Gonzales estava cheia de planos para o próximo ano; o namoro de Letícia e Daniel ia à mil maravilhas; Leonardo e Suzana estavam curtindo cada momento juntos. A família dele a recebeu com muito carinho, até Lígia que à princípio estava muito temerosa, ao perceber o quanto o filho amava Suzana, também ficou feliz com aquele relacionamento. Aquele final de ano foi inesquecível para todos: para Paula, por estar se recuperando muito bem, por estar na expectativa de no próximo ano voltar para a faculdade de Veterinária e também pelos pais estarem se entendendo; para Lúcia por ter saído de sua prisão interior, por ter encontrado em Leonardo um amigo muito especial e ter se reencontrado com a sua amiga Suzana; para Letícia, por seu namoro, principalmente pelo fato de seus pais estarem se dando muito bem com Daniel e finalmente, para Suzana, pelos encontros e reencontros daquele ano: encontrou o amor em Leonardo, a amizade em Letícia e reencontrou a alegria de viver e a sua amiga de infância, Lúcia. E Leonardo? Está muito feliz, por ter participado das conquistas das amigas e principalmente por ter o amor de Suzana. 410 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 38 -Novidades 14 meses depois... _Boa noite, minha princesa! Como está a minha professora favorita? - perguntou Leonardo ao se encontrar com Suzana em frente à faculdade onde ela está fazendo pós-graduação. _Estou bem... cansada! E você? Trabalhou muito hoje, meu advogado favorito? _Muito, estou com duas causas complicadíssimas. Você sabe que agora o meu pai está pegando pesado comigo, né? Está passando para mim os processos mais trabalhosos, mas tudo bem, faz parte. Suzana saiu do shopping há um ano e está trabalhando em uma escola de educação infantil; terminou a faculdade de Letras no ano anterior e se inscreveu em um concurso público para ser professora do ensino fundamental. Aqueles últimos meses foram maravilhosos para Leonardo e Suzana, estavam cada vez mais unidos e felizes, e mais um motivo de muita alegria era a gravidez de Beatriz, que chegou ao 6° mês, ela estava radiante por dois motivos: nunca havia conseguido passar dos três meses e por saber que o seu bebê seria uma menina. E quanto a Letícia, Paula e Lúcia? Letícia está no último ano da faculdade de Odontologia e vai tudo muito bem com o seu namoro, pretende ficar noiva em breve. Paula anda muito atarefada, a faculdade de veterinária ocupa todo o seu tempo e o casal: Regina e Paulo Reis, continuam muito bem. Paulo ainda sai bastante para pregar e a esposa o acompanha na maioria das vezes. 411 Tânia Gonzales Ah... Paula tem se alimentado bem, aprendeu a importância de se cuidar e de amar a si mesma. Lúcia está cursando direito e trabalha no escritório de Rafael e Fernando, por indicação de Leonardo. Ela continua firme nos trabalhos da igreja, desde que começou a frequentar se tornou assídua, bem como a sua mãe, Rita. Valter nunca mais voltou, liga a cada dois ou três meses para saber as notícias, o que faz Rita suspeitar que ele está fugindo de alguém. Naquela tarde de domingo, Sueli, a irmã de Suzana, chegou com uma novidade que pegou todos de surpresa: _Bom... não tem outro jeito, eu vou ser bem direta: estou grávida. _Grávida? Filha... mas... como assim?- perguntou a mãe, ainda sem acreditar no havia acabado de ouvir. _Como assim? Isso lá é pergunta, mãe? Estou no 3° mês. _Por isso que você andava tão estranha! _Estranha? Mãe... eu sei que vocês gostariam que eu tivesse esperado pelo casamento, mas aconteceu, desculpe por ter decepcionado vocês. Pai, não vai falar nada? E você Suzana? _Quem é o pai? - perguntou Davi. _O nome dele é Maurício, ele trabalha comigo. Nós estávamos namorando há um ano. _Um ano! Por que você nunca mencionou isso?- quis saber a mãe. _Ah... sei lá... é que ele é divorciado, eu fiquei com receio de contar para vocês, ele tem um filho que está com 8 anos agora. O menino mora com a mãe. _Qual a idade do seu namorado? - foi a pergunta do pai. _Ele tem 40 anos. _São 11 anos de diferença! - comentou Marina. _O que são 11 anos, mãe? O importante é que ele me ama. Ele é uma ótima pessoa, vocês vão comprovar isso em breve. Vamos 412 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão nos casar daqui a um mês. Já está tudo certo no cartório. _Um mês? - perguntou Suzana que ainda não havia se pronunciado. _E só agora você nos avisa? _Mãe, calma, está tudo certo, vamos nos casar só no civil. Eu só gostaria que a vovó Vivi viesse. Só quero um almoço em família, vocês concordam? _Bem... você já resolveu tudo. Aonde vocês vão morar? _Pai, o Maurício tem um apartamento, vamos morar lá. Não fique assim, pai, vai dar tudo certo. Eu gostaria de ter o apoio da minha família. _É claro, minha irmã! Pode contar comigo, e parabéns pelo bebêdisse Suzana para em seguida abraçar a irmã. _Obrigada, você vai ser uma tia incrível! _Tudo bem. Fazer o quê?Vocês são tão apressadinhos!Eu quero conhecer o seu futuro marido hoje mesmo-pediu Davi. _Eu vou falar com ele, pai. Vovô Davi! _Para com isso! _E vovó Marina! Gostou mãe? _Ah... filha, é... eu acho que gostei! _A sua irmã está grávida? Uau! Vai casar daqui a um mês! Que inveja! _Leonardo? Inveja, é? _Ah... eu gostaria que o nosso casamento estivesse marcado, como eu gostaria! Mas, espera aí... eu... _Leonardo, nada de ideias mirabolantes... precisamos esperar. _Esperar o quê? Suzana, estamos namorando há quase dois anos, eu quero... _Calminha aí... agora é a vez da minha irmã. E nós estamos namorando há um ano e meio. 413 Tânia Gonzales _Mas nós podemos marcar a data, não podemos? Não vai ser daqui a dois ou três meses não, mas, quem sabe daqui a seis meses, o que você acha? _Leonardo, eu preciso terminar a pós e... _Minha princesa, por quê? _É melhor assim, já imaginou que correria? _Suzana, eu quero que você seja minha esposa. _Eu sei, mas vamos esperar. _Quanto tempo? Eu quero uma data. _Nossa, só porque a minha irmã vai casar? A situação dela é outra e... _Não é só porque ela vai casar, eu já tenho pensado nisso há algum tempo. Suzana, quer casar comigo? _Não faz assim... você me deixa sem jeito. _Responda, por favor! Você quer casar comigo? _Leonardo, isso não se faz, você já me colocando em uma situação bem desconfortável...você me pegou de surpresa. _Eu pensei que você me amasse tanto quanto eu a amo. _Ah, agora você abusou. Está muito dramático! _Dramático? Eu amo você e quero que seja a minha esposa. Por que estamos namorando então? _Leonardo, para com isso. É claro que eu quero ser a sua esposa, mas... _É isso que eu queria ouvir. Quando? _Eu vou pensar com calma e dou a resposta daqui a uma semana. Combinado? _Tudo bem. Eu não quero pressioná-la, mas já está na hora, né? Eu quero acordar todos os dias e vê-la ao meu lado, vai ser maravilhoso. _Meu Leonardo... eu amo você. Ele chegou mais perto e a beijou. 414 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Minha princesa, eu a amo tanto! Você nem imagina o quanto eu sou feliz, mas eu quero que a nossa felicidade seja completa. Sueli apresentou Maurício para a família. Davi teve boas impressões do futuro marido da filha. Naquela noite Suzana demorou para conciliar o sono. Aquele assunto sobre o casamento a estava preocupando muito. É claro que ela gostaria de se casar, mas uma sensação de pânico começou a tomar conta dela. Ela amava Leonardo de todo o coração, mas tinha algo que a incomodava muito e que não daria para fugir: a lua de mel. Suzana se apavorava só de pensar em ter uma intimidade maior, as cicatrizes do passado ainda estavam presentes. Mas, o que ela poderia fazer? Leonardo estava certo. Não ia dar para adiar, ela não gostaria de magoá-lo, mas será que ela seria uma boa esposa? Após uma semana de muita insônia, Suzana estava diante do namorado só esperando que ele tocasse no assunto. Conversaram sobre os preparativos para o casamento de Sueli e então Leonardo fez a tão temida pergunta: _E então, já passou uma semana. Qual é a sua resposta? _Qual era mesmo a pergunta? _Suzana, não brinca comigo. _Tudo bem, desculpa. Eu... pensei muito e...estamos no final de fevereiro, bem... o que você acha de setembro? _Nosso casamento em setembro? _É isso mesmo. _Você está falando sério? É que quando eu mencionei o assunto você não gostou muito. _Você me pegou de surpresa, foi isso. E então? _Setembro é perfeito! Você me surpreendeu, ah... Suzana, eu amo 415 Tânia Gonzales você. Três semanas depois a família Souza estava reunida para o almoço especial, em comemoração ao casamento de Sueli. Vovó Vivi e a tia Marli vieram de Belo Horizonte. _Que notícia maravilhosa, teremos mais um casamento! Em setembro estarei aqui novamente. Foram as palavras da vovó Vivi após Leonardo anunciar a data do casamento aproveitando que a família estava reunida. Um mês após o casamento de Sueli, em um sábado à tarde, Suzana estava estudando quando o celular tocou. _Oi, o quê? Ela está bem? E o bebê? Eu vou com você. Um beijo. Suzana fez uma rápida oração e foi se arrumar pois iria com Leonardo até o hospital. Beatriz, que havia completado 8 meses de gravidez, precisou ser levada às pressas ao hospital, estava com fortes dores. Vinte minutos depois Suzana fechou o portão e entrou no carro do namorado. _Oi, como você está? Muito preocupado? _Ah, Suzana, eu não vou negar, eu estou preocupadíssimo. Não quero nem pensar se... _Calma, vai dar tudo certo. Tenha fé. _Eu tenho, mas não é fácil, estão todos tão apreensivos... ela já passou por três abortos. Suzana, se acontecer alguma coisa eu acho que a Beatriz não vai suportar. Agora é diferente, nos outros ela chegou só até o terceiro mês. _Fique tranquilo, vai dar tudo certo, confie em Deus. Você vai ser titio, pode ter certeza disso. _Obrigado, meu amor. Suas palavras ajudam muito. 416 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Ao chegarem à recepção do hospital encontraram Lígia e Rafael que estavam esperando por notícias. _Nada ainda? - perguntou Leonardo. _Nada, filho. Precisamos esperar- disse Rafael- Oi, minha futura nora, tudo bem? _Tudo. Estamos todos loucos para ouvir muito choro de bebê, né? _Suzana, se estamos! Ah...não é fácil esperar, estou tão ansiosa! _Calminha, aí, minha mãe. A sua netinha vai chegar, tenha paciência. _Isso é que é difícil! O Bruno, coitado, estava todo perdido, não conseguia nem falar direito. Vinte minutos depois, aparece Bruno com um grande sorriso. _Podem comemorar, a Vitória chegou! _Ah, meu Deus, obrigada! - disse Lígia- Parabéns, Bruno, e a Bia como está? _Está bem. A nossa menina quis chegar um pouco antes. Nasceu com 2,7kilos. _O parto foi normal? _Sim, e eu vi tudo, pensei que não ia conseguir. _Parabéns, papai! _Valeu, Leonardo, Suzana, sogrão! Parabéns para todos nós! Dois dias depois, Vitória saiu do hospital com os pais mais sorridentes do mundo. _Que coisinha mais fofa, a minha sobrinha é linda! _Ah, Léo, até que enfim... meu maninho, estou tão feliz! Quando eu comecei sentir aqueles dores eu pensei que... ah... pensei que a perderia. Você não imagina o alívio que senti ao ouvir o choro dela, Léo, foi emocionante. Agradeci tanto a Deus, tanto! _Você é a mãe mais linda do mundo, quer dizer a mãe mais nova mais linda do mundo, porque a mãe mais linda é a minha mãe. 417 Tânia Gonzales _Engraçadinho, a nossa mãe. _E aproveite bem, porque você terá este título só até a minha princesa ser mãe. _Calma, apressadinho, nem casamos ainda! protestou Suzana que estava com Vitória em seus braços. _Realmente ele está bem apressadinho- concordou- Beatriz. 418 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 39 -Casamento Apesar de toda a preocupação e de todos os seus receios, Suzana estava feliz; os últimos meses foram de muita correria, por causa dos estudos e principalmente pelos preparativos para o casamento. Faltava só um mês para o tão esperado dia. Eles encontraram uma casa bem agradável, próxima à casa dos pais de Leonardo. Tinha 3 quartos, sendo um com suíte, uma sala ampla, copa e cozinha, com um pequeno, mas convidativo quintal com churrasqueira. Demoraram alguns dias para escolher os móveis e também correram para entregar todos os convites com uma certa antecedência. Suzana, assim que ficou tudo certo com a data do matrimônio, saiu com a mãe para escolher o vestido, e até que foi uma tarefa fácil porque ela já havia olhado algumas revistas, assim ela já tinha uma ideia do que queria. Os padrinhos de Leonardo seriam: Letícia e Daniel, Paulinha e Willian, Beatriz e Bruno, Jônatas e Jessica; os de Suzana: Sueli e Maurício, Cláudia (que trabalhou com ela na loja de perfumes) e Márcio (namorado dela), Lúcia e Henrique (um jovem da IGAG), Marli e Moacir (tios dela de BH). _Minha princesa, só falta um mês para que eu possa chamá-la de minha esposa, estou tão ansioso- disse Leonardo. _Quanta coisa para pensar, né? São tantos detalhes... será que não estamos nos esquecendo de nada? _Está tudo certo, não se preocupe. A minha mãe está toda animada, nem parece que já passou por isso! Foram interrompidos por Marina. _Suzanaaaa... filha! _A minha mãe me chamando toda apavorada? Será que aconteceu 419 Tânia Gonzales alguma coisa? Vamos entrar. _O que aconteceu? _Desculpe atrapalhar o namoro de vocês dois, mas é para dar uma ótima notícia: o Mateus nasceu! _Nasceu? Quem avisou? _O Maurício ligou; eu ganhei um netinho! _Mãe, parabéns! E a Sueli está bem? Foi parto normal? _Está ótima, mas foi uma cesárea. Parabéns para você também, tia Suzana! O Mateus pesa 4 kilos e mede 52cms. _É um meninão, hein? Parabéns vovó! _Obrigada, Leonardo. Eu vou ligar para o Davi. Vovó Vivi chegou de Belo Horizonte três dias depois do nascimento de seu primeiro bisneto; estava ansiosa para pegá-lo no colo. _Bisavó coruja! Não resistiu, né? Aqui está o seu bisneto- disse Sueli assim que a avó chegou em sua casa. _Que lindo, que fofo! Estou tão emocionada... _Calma, não chore vovó. _Ah... eu preciso, é muita emoção! Parabéns, Sueli, ele é uma graça! _Obrigada, vovó! E parabéns para a senhora também, bisavó! A Suzana ficou feliz ao saber que ficará até o casamento dela! Vai ser ótimo tê-la aqui. A bisavó passou a tarde inteira com o bisneto. À noite Leonardo foi até lá com Suzana, assim puderam matar um pouquinho da saudade que estavam da vovó. _Tê-la aqui é tão bom, vó linda! - disse Suzana ao ficar a sós com a avó- Nunca esqueço daqueles meses que a senhora passou aqui. 420 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Eu e o Leonardo nem sequer éramos amigos ainda e agora só falta um mês para o nosso casamento. Ah, minha vó linda, a senhora faz parte de tudo isso, me ajudou tanto! Viu tantas lágrimas... eu a amo muito. _Suzana, minha neta querida, assim eu não aguento! Eu estou tão feliz por você e o Leonardo. Sempre agradeço a Deus em minhas orações. E eu também te amo muito, muito. Vó e neta se abraçaram e conversaram até a madrugada. Duas semanas depois as duas famílias: Martins e Souza, se reuniram para um animado almoço. O feliz evento foi realizado na casa de Beatriz. _A sua menina está tão linda! Está com quantos meses mesmo?quis saber Sueli que estava com o pequeno Mateus no colo. _Completou 4 meses; e o Mateus está com quantos dias? _Está só com 17 dias! _Passa tão rápido, você vai comprovar isso. Olha só para a felicidade daqueles dois- disse Beatriz apontando para Leonardo e Suzana- Daqui a duas semanas estarão casados. _A Suzana vai ficar maravilhosa, o vestido é lindo! Dez dias depois se reuniram novamente na IGAG para o ensaio. Além da família estavam também todos os padrinhos. _Léo, está chegando a hora! Está muito ansioso? - perguntou a amiga Letícia. _Eu, ansioso? Que isso! Estou tão calmo! A quem eu quero enganar, hein? Ah, Leca, eu estou muito ansioso. _Eu sabia! Deve ser emocionante pensar que falta tão pouco! Ah... o meu dia também vai chegar. _E aí, já decidiram quando vai ser? 421 Tânia Gonzales _Daqui a um ano mais ou menos. O Daniel quer terminar a faculdade. Lá vem a noiva... _Oi, o que os dois amigos estão cochichando, hein? _Su, o Léo estava me dizendo o quanto ele está ansioso! E você, como está? _Eu? Estou... ansiosíssima! Está tão próximo! _Vocês formam um casal tão lindo! _Letícia, eu concordo plenamente com você- foram as palavras de Paula ao se aproximar. _Com o que você concorda? - foi a pergunta de Lúcia ao juntarse ao grupo. _Que a Suzana e o Leonardo formam um casal lindo!- explicou Paula. _Então eu também sou obrigada a concordar. _Ah, amigas, valeu! É maravilhoso ter vocês aqui participando deste momento especial, concorda comigo meu príncipe Leonardo? _Eu sempre concordo com você, princesa Suzana. Era sexta-feira à noite, Suzana estava tentando dormir. _Minha neta, pare de se revirar na cama, durma! Você precisa descansar. _Eu sei vovó, me desculpe por tê-la acordado. _O que está acontecendo? É a ansiedade? _É... mas não se preocupe. _Suzana, fale comigo... tem alguma coisa te preocupando e muito. _Ah, vó... deixa pra lá. _Conte para mim, querida. _É... vó, nem sei como dizer. _Você sabe que pode me dizer qualquer coisa. Vamos, fale! 422 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Vó... eu estou preocupada com... _Com o quê? _Com a … _Suzana, fale! _Estou com vergonha. _Ah... já sei. Você está preocupada com a lua de mel, não é? _É. _Suzana, querida... fique tranquila. O Leonardo é tão gentil e carinhoso com você, não há motivo para pânico. _Eu... eu... eu tenho medo de não ser uma boa esposa para ele. _Suzana, você será uma ótima esposa, eu tenho certeza disso. _Vó, eu... a senhora está certa. Vamos dormir. Felizmente, após a sua curta conversa com a avó, Suzana conseguiu dormir. Acordou às 9h, tomou café e foi para o seu dia da noiva. Na casa da família Martins a alegria era completa por estarem recebendo a visita dos parentes que moravam em Fortaleza; até o avô de Leonardo fez questão de comparecer ao casamento do neto apesar de já estar com 82anos. O casamento estava marcado para as 19h; a festa seria em um salão próximo à IGAG. A igreja foi lindamente decorada. Dez minutos antes do horário já estava completamente lotada. Leonardo estava muito elegante em seu fraque e muito nervoso também. _Meu filho, como você está ansioso! Acalme-se, a sua noiva deve chegar a qualquer momento. 423 Tânia Gonzales _Pai, o senhor também ficou assim? _Eu fiquei muito agitado, não parava um minuto sequer, ia de um lado para o outro. _Então o senhor estava bem pior. _Com certeza. E então, tudo certo para a viagem? _Tudo. O vôo sai às nove horas. _O Bruno vai levá-los para o hotel onde vocês passarão a noite hoje e amanhã eu os levo até o aeroporto. _Tudo bem. Que horas são? _Hum... deixa eu ver... sete e dez. _Já? Os padrinhos estão todos aí, não estão? _É claro que sim, fique tranquilo, maninho- disse Beatriz ao se aproximar dos dois. _Só falta a noiva- foi o comentário do pai. _Ela está demorando muito. _Meu irmãozinho querido, calma! Toda noiva atrasa. _Suzana, filha... vamos? O seu pai já está no carro. _Mãe... espere um pouco... a vovó já foi? _Já, ela foi com a Sueli. Você está tão linda! Está nervosa? _Ah... mãe... eu estou com medo. _Medo? Suzana, hoje é um dia especial, é o seu grande dia, não há razão para ter medo! _Mãe, me desculpe, mas eu tenho medo de não ser a esposa que o Leonardo espera... eu tenho medo de... _Filha, você será uma esposa maravilhosa. Esqueça os seus medos e receios. Viva o presente e seja feliz. Podemos ir agora? O seu noivo deve estar muito ansioso. _Podemos sim. 424 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Dez minutos depois o carro da noiva estacionou. _A noiva chegou! - avisou Beatriz. _Tem certeza? _Leonardo! É claro que eu tenho certeza. Eu vou me posicionar, os padrinhos vão entrar. E você está lindo! Os primeiros padrinhos a entrar foram Bruno e Beatriz, depois entraram: Sueli e Maurício, Letícia e Daniel, Cláudia e Márcio, Paulinha e Willian, Lúcia e Henrique, Jônatas e Jessica e por último os tios de Suzana que vieram de Belo Horizonte: Marli e Moacir. A seguir entrou Leonardo e Lígia. Melissa, a filha de Jônatas e Jessica, entrou jogando pétalas. E então, ao som de “Agnus Dei “20, entrou Suzana. Davi estava todo orgulhoso conduzindo a filha. Ela estava conseguindo sorrir apesar de estar muito emocionada, mas ao encontrar os olhos de Leonardo, os dela ficaram marejados. Ela conhecia muito bem aquele olhar apaixonado e aquele sorriso lindo. Davi encontrou a filha ao noivo com uma satisfação imensa. Leonardo deu um beijo na testa dela e disse: _Minha princesa, você está belíssima, eu a amo. _Eu... eu o amo. O pastor Pedro Gabriel fez uma oração e após pediu para que os convidados se sentassem. _Queridos, hoje é um dia muito especial na vida destes dois. Suzana e Leonardo, estão aqui hoje para se unirem. O casamento é algo precioso aos olhos de Deus. O próprio Deus realizou a união do primeiro casal: Adão e Eva. Ele viu que não era bom 20 Música de Michael W. Smith. 425 Tânia Gonzales para o homem ficar só e então fez Eva especialmente para Adão. Leonardo, Deus fez Suzana para você e Suzana, Deus fez Leonardo para você. O amor os trouxe até aqui e é ele que os conduzirá. Antes de continuar com as minhas palavras eu vou realizar o casamento civil. Gostaria de viessem até aqui os dois casais que serão os padrinhos. Letícia, Daniel, Sueli e Maurício se aproximaram. Pastor Pedro Gabriel, logo após realizar a cerimônia civil, anunciou: _Agora os noivos terão uma surpresa: Letícia e Daniel vão fazer uma homenagem a eles através de um louvor. Eles cantaram: “ Um verso de amor “: “Me lembro bem, a primeira vez que te olhei Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor Como nunca vi igual...”21 Suzana e Leonardo se emocionaram muito, foi uma surpresa maravilhosa pois foi justamente aquela música que Leonardo colocou para ela ouvir quando eles estavam começando a se conhecer. _ Daqui a pouco a noiva terá mais uma surpresa- falou o pastorAgora eu vou continuar as minhas palavras. Eu disse que o amor os trouxe até aqui e que ele os conduzirá. Tudo precisa ser feito com muito amor, pois só assim vocês serão vitoriosos. Os problema virão, mas onde existe amor, também existe compreensão, respeito, confiança e assim vocês chegarão a uma solução. O apóstolo Paulo nos deixou uma mensagem linda sobre o amor: “ O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes...não procura o seu interesse... regozija-se com a 21 Cantora: Pâmela – Compositores: Davi Fernandes e Dereck 426 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão verdade...tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”22 Que palavras lindas! Mas se forem praticadas elas ficam melhores ainda. Queridos noivos, vivam estas palavras. Existirá momentos que a paciência será testada, vocês passarão no teste? Existirá momentos em que será mais fácil mentir, mas lembrem-se que o amor regozija-se com a verdade, ou seja ele fica alegre com a verdade. Ciúmes? Não; o verdadeiro amor não se arde em ciúmes. Se você abrir o dicionário nesta palavra, a primeira definição diz assim: Insegurança em relação a uma pessoa querida23. Leonardo, não tenha medo de demonstrar o seu amor; Suzana, não tenha medo de demonstrar o seu amor. Eu digo isso porque uma pessoa quando sabe que é amada sente-se segura, então o ciúme não encontrará lugar. Queridos noivos, Deus quer que sejam felizes, então se esforcem, se empenhem neste relacionamento. E nunca se esqueçam que o mais importante de tudo é o amor. Ele é mais importante do que você ter razão em uma discussão, é mais importante do que o seu ego; ele é sempre mais importante, nunca se esqueçam disso. Bem... agora chegou o momento da surpresa para a noiva. Leonardo ensaiou bastante com a orquestra. Suzana, ele vai cantar especialmente para você. Leonardo, é a sua vez. Leonardo começou a cantar com os olhos fixos em Suzana que já não estava suportando tanta emoção. Conforme ele cantava, ela lembrava de cada momento vivido pelos dois... quando Leonardo chegou no refrão, o rosto dela estava molhado pelas lágrimas. “Meu amor, quando palavras não conseguem expressar, veja o brilho em meu olhar, acredita em mim, o que eu sinto por você, é 22 1 Coríntios 13.4-7 23 Mini dicionário Caldas Aulete 427 Tânia Gonzales amor.”24 A emoção tomou conta de todos os presentes, principalmente dos pais de Suzana e da vovó Vivi, que sabiam o quanto aquelas palavras significavam para ela. Ao terminar, Leonardo beijou a mão de Suzana e sussurrou: _Eu te amo! Suzana nem conseguiu retribuir, as palavras simplesmente não saíam. Leonardo tirou um pequeno lenço do bolso e enxugou as lágrimas dela. _Que romântico! O amor é lindo... queridos, agora estamos prontos para a entrada das alianças. A neta do pastor Pedro Gabriel entrou com as alianças. A pequena Raquel de 4 anos veio com os pais missionários para visitar os avós. Lucas, filho do pastor e Rebeca, a nora, ficarão um mês no Brasil, depois retornarão para Moçambique para continuar o trabalho de missões. _Ela não é linda? Permitam-me ser um pouco coruja. Muito bem... aqui estão, duas alianças, símbolo do compromisso de vocês, mas é claro que o verdadeiro compromisso está aí dentro do coração de cada um. Compromisso aqui é sinônimo de fidelidade. Leonardo, o seu compromisso, ou seja o seu acordo, é com a Suzana, por isso você deve ser fiel a ela. Suzana, com você é a mesma coisa, o seu compromisso é com o Leonardo, por isso você deve ser fiel a ele. Depois de fazerem os votos e colocarem as alianças, os noivos foram abençoados por toda a igreja através de uma oração especial. 24 Acredita em mim- Novo Som- compositores: Davi Fernandes e Renato César. 428 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Muito bem... eu como ministro do evangelho, os declaro marido e mulher. Que as bençãos de Deus estejam sobre a vida de vocês. Parabéns! Leonardo, pode beijar a sua noiva. Leonardo acariciou o rosto de Suzana e a beijou suavemente. _Leonardo, eu amo você- enfim Suzana conseguiu se expressar através da palavra. _E eu a você- respondeu ele. Ao receber o abraço dos pais, Suzana mais uma vez se emocionou muito. Ela pôde perceber o quanto eles estavam felizes. E cada casal que os cumprimentava tinha um significado todo especial. Lígia chorou muito ao abraçar o filho. Rafael bem que tentou esconder algumas lágrimas que insistiam em cair mas foi em vão. Beatriz nem tentou segurar ao chegar perto do irmão já estava com o rosto todo molhado. Sueli e Suzana se abraçaram emocionadas. _Suzana, eu agradeço a Deus por ele ter colocado o Leonardo em seu caminho- foram as palavras de Lúcia ao abraçar a amiga. Foi um verdadeiro estrondo quando o mais novo casal chegou ao salão de festas. Após algumas fotos. O casal foi de mesa em mesa para serem cumprimentados pelos convidados. _Vó, até que enfim eu a encontrei, ah, minha vó linda!- disse Suzana que estava ansiosa por abraçar a vovó Vivi. _Minha neta, parabéns! Foi lindo, chorei muito... o Leonardo é o principal culpado, quando ele começou a cantar eu desabei a chorar. _Vó, linda! Obrigada por tudo. Eu te amo tanto. _E eu, não ganho um abraço da minha vó? - reclamou Leonardo. _É claro que ganha! Leonardo, obrigada por tudo, eu tenho certeza que você fará a minha neta mais feliz ainda. 429 Tânia Gonzales Depois os noivos foram até a mesa onde estava a família Reis. _Regina, Paulo, que bom ter vocês dois aqui!- disse o noivo. _Parabéns aos dois, a cerimônia foi perfeita- disse Paulo _Você cantando foi a melhor parte- completou Regina. _A minha voz não é grande coisa, mas eu cantei com o coração. _Que fofo! - disse Paulinha. _E aí, amiga, está namorando? _Léo, não começa! Eu e o Willian somos só amigos; a faculdade ocupa todo o meu tempo, mas quem sabe... _Gostei do “ quem sabe”. Depois foi a vez da família Soares. _Suzana, parabéns! Estou muito feliz por vocês dois, acredite é de coração- falou Sandra toda emocionada. _Eu sei, Sandra, agradeço muito a presença de vocês. _Leonardo me dá um abraço! Você ficou muito bem de fraque- foi o comentário de Fernando. _Valeu mesmo, Fernando, a presença de vocês é muito importante para nós. Após muitos cumprimentos, os noivos conseguiram enfim sentar para comer. Mas a tranquilidade durou pouco, pois precisaram tirar mais e mais fotos. _Suzana, chegou a hora de jogar o bouquet; lembra de mim, tá? pediu Cláudia. Suzana se divertiu muito ao ver as amigas ansiosas para pegar o bouquet; simulou jogar por várias vezes... _Vai logo, chega de enrolação!- gritavam elas. Segundos depois o lindo bouquet estava nas mãos da amiga Letícia. _Marmelada! Marmelada! - gritavam elas. Letícia, toda sorridente, se aproximou do namorado Daniel. 430 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Uau! Agora tenho que me apressar... vou começar agora mesmo: quer casar comigo? _Muita calma nessa hora, não precisa ter pressa. Eu sou bem paciente, só não pode exagerar, tá? - brincou ela. Suzana chegou perto do casal e deu um grande abraço na amiga. Leonardo aproveitou para brincar com a amiga de infância: _E aí, Leca, tinha que ser você, a Suzana mirou bem... e acertou no alvo! Acertou na minha amiga Leca! _Léo, meu amigo ,eu já disse várias vezes para não me chamar de... _Leca? Ah... por favor, eu adoro chamá-la assim, minha amiga Leca! _Suzana, posso bater nele? Você me permite? _Ah, não faz isso com ele... _Tudo bem, hoje você precisa dele inteirinho, né? _Uau! Gostei! - brincou Leonardo que ia falar mais alguma coisa, mas resolveu ficar calado ao ver que Suzana corou. 431 Tânia Gonzales Capítulo 40 -Lua de mel? Quando Bruno deixou os noivos no hotel era quase uma hora. _ E então, feliz? - perguntou Leonardo ao fechar a porta do quarto. _Muito; foi uma cerimônia emocionante. Você cantar para mim foi maravilhoso, aquela música é linda, eu … _Minha princesa, eu amo você, maravilhoso é saber que a partir de hoje você é minha esposa. Gostei de dizer isso: Minha esposa. Leonardo se aproximou e começou a acariciar o rosto dela, depois deslizou os dedos bem lentamente até os lábios, chegou mais perto e a beijou, a princípio bem suavemente, mas aos poucos ele foi intensificando até que se transformou em um beijo cheio de paixão. Suzana estava correspondendo aos carinhos dele, mas de repente afastou-se. _Eu... preciso tomar um banho, quero lavar os meus cabelos urgentemente... ficar livre de todo este laquê. _Tudo bem. Você ficou linda com o coque, mas eu prefiro que os seus cabelos estejam soltos, eu adoro acariciá-los. Quer companhia? _Não... eu vou tomar um banho bem rápido. _Vai mesmo lavar os cabelos a esta hora? _Eu trouxe o meu secador. Está pensando o quê? _Que mulher prevenida! Suzana escolheu uma roupa rapidamente. Ela não queria vestir algo que chamasse muito a atenção de Leonardo, pelo menos não naquela noite, por isso preferiu uma camisola bem discreta. “Deveria ter trazido um pijama”- pensou. Poucos minutos depois ela saiu do banheiro. Estava meio sem 432 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão jeito, não sabia o que fazer. _Você está linda... e... hum... que cheiro bom... é melhor eu tomar banho também. Enquanto Suzana secava seus cabelos, Leonardo tomava o seu banho. Instantes depois ele saiu vestido só com o shorts de um pijama azul escuro estampado com pequenos desenhos geométricos. Ao vê-lo assim, Suzana estremeceu e pensou se ele estaria pretendendo algo mais naquela primeira noite juntos; ela desejava poder dormir tranquilamente, era só o que ela queria. _Está muito cansada? _Estou. _Quer que eu faça uma massagem? _Não, obrigada. Eu só quero... dormir. _Tem certeza? Iria gostar da minha massagem. E você está tão tensa... ajuda a relaxar. _Eu... gostaria de descansar agora. _Tudo bem, descanse. Mas eu quero um beijo de boa noite. Suzana deu um rápido beijo em seu marido e a seguir deitou-se. _Você está mesmo cansada. Eu estou feliz por tê-la aqui ao meu lado, muito bom saber que verei o seu rosto pela manhã. _Um rosto todo amassado. _Um rosto lindo que eu amo muito. _Boa noite, Leonardo. _Boa noite, minha princesa. Suzana virou-se para o lado oposto ao de Leonardo e fechou os olhos, mas demorou muito para pegar no sono. Ficou pensando se Leonardo estaria decepcionado com ela. Eram seis horas da manhã. Leonardo abriu os olhos e deu um sorriso ao ver Suzana ao seu lado, ela ainda estava dormindo. Ele 433 Tânia Gonzales ficou por alguns segundos admirando-a; “ como ela é linda... tê-la aqui comigo é tão bom... saber que a partir de agora passaremos todas as noites juntos é …”- seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do celular. _Sim? Tudo bem, não se desculpe. Ainda não... daqui a trinta minutos? Certo. Abraço. _Bom dia. _Bom dia, minha princesa. O meu pai acabou de ligar; temos que tomar café, ele chega em trinta minutos. _Eu vou me arrumar. _Dormiu bem? _Sim- mentiu e logo lembrou-se das palavras do pastor: “ Existirá momentos em que será mais fácil mentir”- então completouQuero dizer, mais ou menos. _Foi pouco tempo, não deu para descansar direito, né? _É. Tomaram café ali mesmo no quarto. Às 6h30min entraram no carro de Rafael. _Bom dia aos noivos! Descansaram bastante?- perguntou Rafael e completou a seguir- Não precisam me responder isso, me desculpe. _Tudo bem, pai. Deu para descansar um pouco sim, mas já estava tão tarde! Hoje vai dar para descansar legal. _É, sei... quer dizer, é melhor eu ficar quieto. Suzana fez que não percebeu o constrangimento dele. _Filho, avise o horário do retorno de vocês que eu venho buscálos, ou o Bruno, se eu tiver algum problema. Boa viagem , curtam bastante Porto de Galinhas, é um lugar lindo. _Valeu, pai. 434 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão O avião pousou no Aeroporto Internacional dos Guararapes25 poucos minutos antes do meio-dia; Leonardo havia alugado um carro com motorista para levá-los até Porto de Galinhas. Poucos minutos depois da uma hora eles já estavam na recepção do hotel em Porto de Galinhas. _E então, qual é a sua opinião até agora?- perguntou Leonardo assim que ficaram a sós no confortável apartamento. _Estou de boca aberta, que lugar maravilhoso! Que presente incrível, vamos precisar agradecer muito à Bia e ao Bruno. _Com certeza! Eu já fiquei impressionado assim que chegamos; que vista espetacular para o mar! Vamos almoçar agora? _Vamos sim, estou faminta! _Adorei... estas portas e janelas de vidro deixam o ambiente tão claro e arejado... - foi o comentário de Suzana ao entrar no restaurante. _Eu estou gostando é do que está bem à minha frente... que delícia! Todas estas opções estão me deixando com mais fome ainda. Participaram de um delicioso almoço e após foram caminhar para conhecer o local que era um verdadeiro paraíso. No final da tarde voltaram para o apartamento. _Agora eu só quero um belo banho! - disse Suzana. _Só? Você não me quer também? _Precisa falar assim todo dengoso? _Preciso sim... posso acompanhá-la? _Leonardo... eu prefiro tomar banho sozinha. _Tudo bem, como você desejar, minha princesa- disse meio decepcionado. 25 Recife- Pernambuco 435 Tânia Gonzales Leonardo ligou a TV e ficou zapeando sem muito interesse. Assim que Suzana saiu do banho ele desligou imediatamente a TV, aproximou-se dela e começou a acariciar aqueles cabelos sedosos e perfumados. _Que cheiro bom... eu vou tomar banho também para ficar bem cheiroso para você. _E depois vamos jantar? _Já está com fome? _Não ria de mim, mas eu estou sim, acho que é o clima daqui. _Tudo bem, minha princesa esposa. Após o jantar, Leonardo e Suzana ficaram conversando e apreciando a linda vista para o mar. Às 22h Leonardo a puxou pelo braço e disse quase sussurrando: _O que você acha de voltarmos para o apartamento agora? Suzana quase respondeu que gostaria de continuar ali mesmo, mas algo no olhar dele a fez mudar de ideia. _Vamos – disse simplesmente. Assim que entraram, Leonardo pegou a mão de Suzana e a beijou com carinho, a seguir beijou o braço e foi subindo até alcançar o canto dos lábios dela, se deteve por alguns segundos... ela estremeceu... ele começou a dizer: _Ah, minha princesa, eu te amo... eu esperei tanto por este momento, estar aqui com você é maravilhoso. _Leonardo... eu... O beijo começou tranquilo... suave... mas segundos depois se transformou em algo intenso, cálido... ele deslizou as mãos nas costas de Suzana e a apertou com mais força junto ao peito... _Leonardo, por favor... pare. _Suzana... minha princesa, eu... 436 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Leonardo, me solte... por favor – disse ela em um tom urgente. Ele, sem entender, afastou-se rapidamente. _O que aconteceu? Está tudo bem? _Eu... eu quero dormir. _Já? Está cedo ainda. _Eu estou cansada. Ao dizer isso, Suzana foi até o banheiro deixando Leonardo com uma grande interrogação. Ela reapareceu instantes depois, ajeitou o seu lado da cama e deitou-se. _Boa noite. _Boa noite- respondeu ele. “ Como ele deve estar decepcionado comigo! Não é para menos... mas eu não pude evitar, entrei em pânico só de pensar no que viria depois; o que eu vou fazer? Eu não posso fugir dele o tempo todo. Eu gostaria de sumir daqui... eu sabia que isso não ia dar certo. Eu nunca vou conseguir superar, nunca... e isso é tão injusto pra ele!” Leonardo levantou-se antes das 8h e saiu para dar uma volta pelo hotel, quando retornou Suzana já estava acordada. _Bom dia, já podemos tomar o café da manhã?- disse ele. _Bom dia. É claro que sim. _Posso... não... não é nada, vamos então. Leonardo, por um momento, pensou em perguntar para ela se ele poderia beijá-la, mas mudou de ideia. Antes do almoço eles resolveram tomar um banho de mar. Á tarde, aproveitaram as opções de lazer que havia no hotel. Jantaram às 20h; durante todo o dia eles conversaram sobre tudo e todos, menos sobre o relacionamento dos dois. Ao entrar no apartamento, Leonardo ligou a TV, estava passando 437 Tânia Gonzales um filme de James Bond, ele resolveu assistir. Suzana deitou-se sem dizer nada. Leonardo queria muito questioná-la sobre a noite anterior, mas decidiu esperar até o outro dia. _ Eu aluguei um carro para irmos até Recife, o que você acha de passarmos o dia lá?- perguntou ele logo após o café. _Tudo bem, acho ótimo. Durante todo o dia eles conversaram bastante, até riram juntos, mas, semelhante ao dia anterior, não falaram nada sobre eles mesmos. Voltaram ao hotel somente no início da noite; após o jantar ficaram conversando olhando para mar. Só foram para o apartamento depois das 23h. _Suzana, nós precisamos conversar. _Mais? _Sobre nós. _Ah... _O que está acontecendo com você? Por que você tem me evitado? _Eu... eu não quero falar sobre isso. _Nós precisamos. Você está com medo? _Eu já disse que... _Suzana, eu sou seu marido agora, eu... _Eu sou uma péssima esposa... ou melhor nem esposa eu sou! _Pare com isso, não quero que fale assim. Minha princesa, eu nunca machucaria você, não precisa ter medo. _Eu... eu nunca vou conseguir, nunca. Você não deveria ter se casado comigo, eu... eu não posso, eu... 438 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Ela não conseguiu falar mais, as lágrimas rapidamente inundaram o seu rosto. _Não chore, meu amor. Suzana... Leonardo tentou aconchegá-la em seus braços, mas ela correu até o banheiro e fechou a porta. _Suzana, abra a porta, por favor. Ele não obteve resposta, só ouvia o som de um choro abafado. _Suzana, não faça isso. Esconder-se não vai resolver nada, venha até aqui para conversarmos. Vinte minutos se passaram... _Suzana, eu vou ligar para recepção e dizer que você ficou trancada no banheiro... Poucos segundos depois ela abriu a porta. _Deite-se e tente dormir; amanhã voltamos a conversar. Boa noitedisse ele beijando-lhe a testa. Foi muito difícil para Suzana adormecer... _Não... eu não quero... me solte, por favor! Não! Não! Você... não... me solte! Socorro! Não! _Suzana... amor... eu estou aqui, foi só um pesadelo. _Hã? Hã? Leonardo? Eu.... _Acalme-se... _Eu não sei o que fazer, eu... _Psiu! Não fale mais nada... descanse. Deite-se em meu peito... calma... ei, é só para que eu possa acariciar os seus cabelos, eu quero que fique confortável... pode aconchegar-se em meus braços eu não vou fazer nada. Vários minutos se passaram até que ele percebeu que ela havia dormido. 439 Tânia Gonzales No dia seguinte Leonardo preferiu não tocar no assunto. Passaram o dia inteiro bem longe do apartamento. _Quer assistir comigo? É um filme bem interessante; é um dos meus favoritos, tem um advogado de defesa obstinado, uma promotora implacável... - disse Leonardo; eram 22h e Suzana havia acabado de sair do banho. _Eu... tudo bem vou assistir com você. Na verdade Suzana gostaria de dizer que preferia dormir, mas para não magoá-lo ainda mais ela resolveu acompanhá-lo. _Minha princesa, não precisa ficar tão longe de mim, vem aqui pertinho, eu prometo que vou ficar bem quietinho e não vou... Ele achou melhor não continuar a falar para não complicar ainda mais a situação, pois iria dizer que não tocaria nela. Suzana se aproximou e começou a se interessar pelo filme. Antes da meia-noite já estavam prontos para dormir. Ela deu um rápido beijo nele e desejou-lhe boa noite. Os últimos dois dias foram bem semelhantes, passavam o dia inteiro fora do apartamento; curtindo a praia, caminhando, tirando fotos, conversando muito, mas nunca mencionavam aquele delicado assunto. No último dia que passariam ali Suzana comprou algumas lembrancinhas. À noite Leonardo tentou uma aproximação. _Amanhã vamos embora deste paraíso tropical, mas eu quero voltar em breve e você? _Eu? É... acho que sim. _Nossa, que falta de interesse! _Me desculpe... é que... eu só acho que foi um desperdício do dinheiro da sua irmã; ela nos deu um presente maravilhoso e … _Você não gostou daqui? Isso é impossível! 440 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _O lugar é maravilhoso... é claro que eu adorei! O problema foi a companhia. _Companhia aérea? - brincou ele tentando descontrair um pouco. _Não tem graça. _Se não é a companhia aérea... você está se referindo à minha companhia? Pensei que você gostasse de estar comigo. _Leonardo, estou me referindo à minha companhia; se a Bia e o Bruno soubessem o quanto o dinheiro deles foi mal empregado... _Para com isso. Se você pensa assim por que não se aproxima de mim para mudarmos isso? Vamos aproveitar a nossa última noite aqui. Ele chegou bem perto dela e a levantou, pois Suzana estava sentada na cama. _Minha princesa, esqueça tudo e... _Leonardo... _Eu quero tanto tê-la em meus braços, ah, Suzana, eu amo você. Enquanto ele a beijava bem suavemente, Suzana pensava: “ Eu tenho que conseguir, não posso me afastar dele novamente, ele não merece isso... eu vou conseguir... preciso. Não, não, eu não posso me afastar, ele é o meu marido.” Leonardo, bem gentilmente, a deitou na cama e continuou com aquele beijo cheio de ternura, sem pressa alguma. Estava tomando todos os cuidados para não fazer nenhum movimento que pudesse assustá-la. Ela continuava com aquele exercício da mente: “ Não posso decepcioná-lo... não posso... ele é tão carinhoso e compreensivo! Eu vou conseguir...” De repente algumas imagens apareceram em sua mente, aquelas imagens do passado que deveriam estar bem enterradas. Eram tão nítidas... ela queria se livrar daquele peso em seu corpo... ela precisava sair dali, ela queria gritar! _Me solta, me solta! Saía de cima de mim, por favor! Eu não 441 Tânia Gonzales quero! - Suzana gritava desesperada. Sem dizer nada, Leonardo afastou-se dela e foi até o banheiro. O alarme do celular tocou: eram 8h, Leonardo levantou-se, tomou um banho e começou a mexer em sua mala; Suzana também acordou e fez o mesmo que ele; os dois organizaram as malas em silêncio. _Eu vou tomar café, quer me acompanhar? - perguntou ele. Ela concordou. Durante o café houve um silêncio constrangedor. Voltaram para o apartamento. Leonardo ligou para o pai confirmando o horário. _O que você gostaria de fazer antes do almoço? Lembre-se que precisamos almoçar cedo, o vôo está marcado para às 15h. _Nada. Eu vou ficar aqui mesmo. _Então eu vou caminhar um pouco. Assim que ele saiu, Suzana desabou em lágrimas. Leonardo só voltou à hora do almoço. _Podemos almoçar agora? 442 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 41 – O retorno Deixaram o hotel às 13h; durante o trajeto até o aeroporto eles permaneceram entregues cada um ao seu próprio pensamento; e durante o vôo até São Paulo não foi diferente. A situação só mudou quando encontraram-se com Rafael, aí resolveram colocar uma máscara para não transparecer que o clima entre eles não estava nada bom. _E então? Qual a opinião de vocês sobre Porto de Galinhas? _Um verdadeiro paraíso- foi a resposta de Suzana. _O lugar é maravilhoso, pena que a Suzana não gostou da companhia- ironizou ele. _Por quê?Vocês tiveram algum problema com a companhia aérea? _Não, é brincadeira do Leonardo- disse Suzana lançando ao marido um olhar de reprovação. _A minha esposa tem razão, eu só estou brincando, estou com um ótimo senso de humor hoje. _Tem todos os motivos para isso. Suzana, domingo eu vi o seu sobrinho, o nome dele é Mateus, certo? _É isso mesmo. _Ele está lindo. _E a Vitória? - quis saber Leonardo. _Está uma fofura, precisa ver a careta que ela faz! E o biquinho quando vai chorar? É uma graça! _Vovô coruja. _Nós tiramos os presentes do quarto de vocês; colocamos no outro quarto; são muitos presentes, vocês vão ter bastante trabalho. _Que bom, nós não temos nada para fazer mesmo- Leonardo respondeu novamente com ironia. _Sei. É claro que vocês não têm nada para fazer e isso é ótimo, 443 Tânia Gonzales não é? Desculpe pelo comentário, Suzana, não queria deixá-la constrangida. _Não, que isso! _Vocês gostariam de almoçar lá em casa amanhã? _Não sei, pai. Depois eu resolvo com a Suzana. _Então, tchau. Curtam bastante a casa de vocês. _Obrigada, sogro. _Valeu, pai. _Nem precisava tirar os presentes de nosso quarto, não é? Com certeza vai ser o lugar que menos vamos ficar- disse ele ao entrar na casa. _Leonardo, eu não estou gostando do seu tom de ironia,tudo o que você tem falado desde que encontramos com seu pai... _Não está gostando? Pois eu também não estou gostando. Eu não estou gostando nada do péssimo clima entre nós. _Eu... o que eu posso dizer? Que sinto muito? Vai adiantar alguma coisa? Vai apagar o desastre que foi a nossa lua de mel? Não vai adiantar nada, mas mesmo assim eu quero dizer que sinto muito. _Eu também. Me perdoe pelo meu péssimo humor. Ah, princesa... eu amo você. _Eu amo você. Mas, o que adianta falar? Eu deveria demonstrar, não é? _Tudo bem. Vamos parar com isso. Eu vou pedir uma pizza e depois nós vamos abrir os presentes, o que você acha? Passaram horas abrindo os presentes, lendo cada cartão e tentando organizar pelo menos parte deles nos armários. Era meia-noite quando eles foram dormir. Após o banho Suzana deitou-se rapidamente. Fechou os olhos e ficou prestando atenção aos ruídos que vinham do banheiro. Leonardo, poucos minutos depois, deitou-se ao lado dela. Suzana 444 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão resolveu fingir que já havia adormecido. Ele estava muito desapontado com a atitude dela, mas resolveu não incomodá-la. Leonardo acordou antes da esposa; queria fazer uma surpresa para ela. Foi até a padaria e ao retornar para casa verificou que Suzana ainda estava dormindo. Fez o café, esquentou o leite, preparou um suco de laranja; pegou uma bandeja e colocou nela pedaços de queijo, pães, dois pedaços de bolo e tudo que havia preparado. _Bom dia, minha princesa. _Hã? Você já levantou? Não deveria ter preparado tudo sozinho. Por que você não chamou?- perguntou ela ainda sonolenta_Eu queria fazer uma surpresa para minha linda esposa. _Ah... sua esposa... Leonardo, eu quero me desculpar por ontem. Eu não estava dormindo quando... _Que tal você esquecer isso e aproveitar o café? _Não. Você é tão gentil e eu … Leonardo, eu fingi que estava dormindo. Me perdoe. _Minha princesa, tudo bem. Podemos comer agora? _Podemos. Obrigada por você ser tão... _Suzana, para com isso. Abra a boca e experimente o queijo... isso. Tomaram o café e não falaram mais sobre aquele assunto durante todo o dia. Concordaram em não sair e continuaram a organizar as coisas na nova casa, pois o dia seguinte seria segunda-feira e eles teriam que enfrentar a rotina. Acordaram cedo e cada um foi para o seu trabalho. No início da noite Leonardo propôs fazerem uma visita aos pais de Suzana antes de levá-la para faculdade. _Como é bom revê-los. Gostaram de Porto de Galinhas?- foi a pergunta de Marina. _O lugar é maravilhoso, mãe. 445 Tânia Gonzales _É verdade, sogrinha. É um lugar lindo e o hotel era ótimo. _Já conseguiram organizar as coisas?- perguntou Davi. _Um pouco. Ganhamos tantos presentes... - disse Suzana. _Filha, está tudo bem?- quis saber Marina assim que ficou a sós com Suzana- Me desculpe, mas eu tenho a impressão que você está triste e o Leonardo também não me parece feliz, me desculpe mais uma vez. _Está tudo bem, mãe. Eu acho que é cansaço. Ontem ficamos até tarde organizando tudo. _Não precisam fazer tudo em um só dia; aos poucos vocês conseguem se organizar. _Tem razão, mas a senhora sabe como eu sou, quero deixar tudo arrumado e... _Querida, não precisa exagerar, afinal vocês ainda estão em lua de mel. Fiquei até surpresa por vocês terem vindo aqui hoje. _É que... já estávamos com saudades, é isso. Bom, agora temos que ir. Preciso ver o que perdi nestes dias que faltei na faculdade. _Vocês não quiseram esperar até dezembro! Naquela semana o novo casal trabalhou muito fora e dentro de casa também. O clima entre eles não estava muito bom, pois Suzana não conseguia se aproximar do marido e ele permaneceu distante, só esperando pela iniciativa dela. E para piorar a situação, na quarta-feira Marina recebeu um telefonema de Rita que a deixou muito preocupada. No dia seguinte resolveu ligar para Suzana. _Está tudo bem com a Lúcia, o problema é com... o pai dela. O Valter está internado em Belo Horizonte, o estado de saúde dele é grave; está com sérios problemas de coração. Ele estava... preso. _Preso?- perguntou Suzana surpresa. _A Rita disse que ele foi acusado de … 446 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Do que ele foi acusado? _De... estupro. Uma menina de 13anos, filha da empregada dele. _Ah, meu Deus... _Filha, acalme-se, eu não deveria ter ligado, mas eu preciso falar. É que a Rita disse que o Valter quer... ele quer falar com você. Suzana contou tudo para Leonardo assim que chegou da faculdade naquela noite. _O quê? Aquele canalha... se ele pensa que eu vou deixar, está muito enganado- disse Leonardo indignado. _Leonardo, a situação é bem complicada. O estado de saúde dele é bem grave. A Lúcia e a Rita já estão lá. Não sei o que fazer! _Você não tem nada a ver com isso. Eu não vou permitir que passe por isso, era só o que faltava, já está tudo tão... - Leonardo interrompeu suas palavras e pensou bem antes de falar pois não queria falar sobre a vida íntima deles- Você sofreu tanto e não faria nada bem para ficar diante daquele... homem. _Ele disse que quer morrer em paz. Leonardo encerrou o assunto com Suzana e ligou para Marina. _ Quando foi que ele foi preso? _Leonardo, você deve lembrar bem daqueles dias que ele esteve visitando a Lúcia e depois sumiu; pois ele foi preso logo em seguida. A Rita contou que ele... abusou da menina dias antes de vir visitar a filha. Ele morava com a família em Porto Alegre mas ainda tinha alguns negócios em Minas e até ainda possuía uma casa lá onde vivia uma empregada com a filha. Ele foi acusado e conseguiram a condenação dele. _Dona Marina, se vocês tivessem feito a acusação contra ele, se tivessem reaberto o caso... eu sei que a Suzana iria sofrer, mas... 447 Tânia Gonzales talvez a pobre menina teria se livrado daquele monstro. Me desculpe, eu sei que é duro ouvir isso mas é isso que acontece quando há impunidade. O canalha se sentiu inatingível, só Deus sabe se ele não fez isso com mais meninas. Agora, depois de tudo o que ele fez... não, a Suzana não vai passar por isso. _Leonardo, você não acha que é ela que deve decidir? _Eu não sei... _Leonardo, se ele morrer isso pode ser outro trauma para ela. Ele quer ter a oportunidade de pedir perdão. _Vamos deixar que ela decida. Sexta-feira à noite os jovens se reuniram na IGAG para um culto especial de oração; Suzana sentiu que ela e Leonardo deveriam participar, por isso faltou à aula naquela noite. Após orarem durante alguns minutos, Pastor Pedro Gabriel abriu a Bíblia e leu: “...e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores...”26 _Amados, nesta manhã falarei sobre o perdão. Perdoar é fácil? Pedir perdão é fácil? Alguém já perguntou: O que é mais fácil: pedir perdão ou perdoar? Responda aí em seu coração. Eu digo que nenhum dos dois é fácil de fazer. É necessário vontade, é necessário deixar o orgulho de lado. É preciso deixar de ter razão mesmo a tendo. Você com certeza já ouviu a frase: “ Errar é humano, perdoar é divino.” Eu digo que perdoar é divino e humano também, pois se não fosse assim, Deus não nos mandaria perdoar. Na Bíblia nós encontramos vários versículos que falam sobre o perdão e o próprio Jesus falou sobre isso algumas vezes. Não é fácil perdoar porque se há necessidade de perdão é porque ocorreu algo. É porque alguém cometeu algum erro. Amados, 26 Mateus 6.12 448 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão quando você perdoa é como se um enorme peso fosse retirado dos seus ombros e a mesma coisa acontece quando você pede o perdão. Neste momento eu gostaria que você pensasse em alguém que precisa ser perdoado por você e depois eu também gostaria que você lembrasse de alguém que você precise pedir perdão. Pense bem. Você pode estar com sérias dificuldades. Pode estar pensando: “ Eu não vou perdoá-lo nunca. O que ele me fez é imperdoável! Esta pessoa não merece.” Pois é por isso mesmo que esta pessoa precisa do seu perdão: porque ela não merece. Amados, se ele merecesse não seria necessário perdoar. O perdão é justamente para quem não merece. Na oração que nós conhecemos como “ Pai nosso “, Jesus diz “ perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”; preste atenção: “ temos perdoado aos nossos devedores”, ou seja há uma dívida. Que dívida? Amados quando é falado dívida não se refere somente à uma soma em dinheiro. Uma dívida pode ser qualquer coisa. Alguém talvez esteja devendo para você o respeito, a dignidade, a honra. Talvez alguém tenha tirado de você algo de muito valor e isso o machuca muito. Seja o que for que esta pessoa tirou de você e que fez toda a diferença em sua vida, você pode colocar um ponto final em tudo isso e continuar a sua vida. E ser feliz sem este peso. Você pode até estar pensando agora: “ Eu não tive culpa nenhuma, ele é o culpado, ela é a culpada”, mas é exatamente por isso que o perdão está sendo pedido para você. É você que precisa dar a liberdade para aquela pessoa. É você. É necessário perdoar porque ele ou ela não merece. Deus nos perdoou através de Jesus por isso Ele nos diz para perdoar. Vai ser fácil? Não; mas você não está sozinho. Naquela noite Suzana chorou muito; Leonardo a envolveu em seus braços sem nada dizer pois sabia que ela estava travando uma 449 Tânia Gonzales batalha consigo mesma e que tomaria uma decisão muito difícil porém extremamente necessária. Na manhã seguinte Suzana já havia decidido o que fazer. _Eu gostaria muito que você me acompanhasse nesta viagem. _É claro que vou, minha princesa. Arrume as coisas, eu vou até a mecânica do Isaque para ele dar uma olhada no carro. Chegaram em Belo Horizonte no final da tarde de sábado. _Suzana, eu agradeço muito a sua presença aqui, eu sei o quanto é difícil para você- disse Rita. _Tudo bem, Rita. E a Lúcia, como está? _Ela está reagindo bem. Está com o pai no hospital. Você prefere deixar para amanhã? _Não, Rita. Quero resolver isso o mais rápido possível. Não dá para adiar, ele está mal, não é? E nós precisamos ir embora amanhã mesmo por causa do trabalho e da faculdade. _Sim. Então vamos até lá. Durante o trajeto até o hospital, Suzana começou a pensar que seria a primeira vez que se encontraria com aquele homem que tanto a machucou. Com tristeza deu uma rápida olhada no marido que também estava sofrendo as consequências da maldade daquele homem. “ Ah, Leonardo, por culpa deste homem que veremos daqui a pouco eu não consigo ser uma esposa de verdade para você, ah, meu Deus, como é difícil pensar em perdoar!” - pensou. _Não se afaste de mim nem por um segundo, está bem? _É claro, Suzana. Eu vou ficar ao seu lado o tempo todo, fique tranquila- assegurou Leonardo. Havia um policial à porta do quarto. Rita entrou e chamou a filha. 450 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Suzana, minha amiga. Obrigada por ter vindo. As duas se abraçaram e ficaram em silêncio por um momento. _Amiga, eu pedi forças a Deus e consegui perdoar meu pai. Apesar de tudo eu espero que você também consiga. Suzana apertou a mão de Leonardo e juntos entraram no quarto. Ao olhar para a pessoa deitada naquele leito de hospital, Suzana não conseguiu ver nele aquele homem forte e assustador do passado. Valter estava abaixo do peso e tinha o semblante bem abatido. _Você veio- disse em uma voz quase inaudível. _Sim. _Fale logo o que deseja, nós precisamos ir embora o quanto antesdisse Leonardo sem esconder a raiva. _Leonardo... eu... primeiro gostaria de... de... eu preciso do seu perdão. _Eu? Não, não é para mim que deve pedir perdão. _Você também. Eu quero... que-ro... ah... agradecer por tudo o que você fez por minha filha. _Fiz por ela, não por você. _Eu sei. Mas... você pode me conceder o seu perdão? Por favor! _Fale logo com a Suzana, acabe com isso de uma vez. _Sim. Suzana... menina. Ao ouví-lo dizer “ menina “, Suzana estremeceu e pensou que não ia conseguir ficar em pé, Leonardo a amparou. _Eu sei que... que fiz algo terrível e sujo. Sei que a machuquei e... _Pare com isso. Vá direto ao ponto, ela não precisa ficar ouvindo estas coisas- disse Leonardo em um tom nada amistoso. _Sim... me desculpe. Eu sou um monstro. Eu a fiz sofrer... eu... eu sei que não mereço ser perdoado, mas eu preciso, eu preciso- disse em lágrimas. _Por Deus eu o perdoo, só por Deus. Eu preciso esquecer isso de 451 Tânia Gonzales uma vez por todas. Eu... eu... quero sair daqui. _Espere um pouco. Suzana, eu agradeço muito, eu... sinto muito por tudo o que lhe causei. _Tudo bem, agora chega. Eu vou levá-la daqui, ela já disse o que você queria ouvir. _E você? _Eu? _Você consegue me perdoar? _Eu... se a Suzana lhe concedeu o perdão, eu não posso negá-lo. Fique em paz. _Obrigado. Suzana, que até então havia conseguido segurar as lágrimas, ao sair daquele quarto não se conteve. Leonardo a abraçou consolando-a. Despediram-se de Rita e Lúcia e foram para a casa da vovó Vivi. No dia seguinte, logo após o almoço saíram de Belo Horizonte. Chegaram em casa naquela noite de domingo exaustos por causa da rápida viagem. _Leonardo, durante o sermão do pastor Pedro sobre o perdão, quando ele disse para pensarmos em alguém para pedirmos perdão eu pensei em você. _Em mim? _É. Eu preciso que me perdoe. _Por quê? _Você ainda pergunta? Eu não tenho sido uma esposa para você. Eu sei que você está sofrendo muito. Nós dois nem se sequer parecemos como um casal de namorados quanto mais casados! Eu não consigo, eu não sei o que fazer. _Suzana, olha, você está cansada. Vamos deixar este delicado 452 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão assunto para um outro dia. _Adiar? De novo? _Por favor, eu estou muito cansado. _Tudo bem. Quatro dias depois de receber o perdão de Suzana, Valter faleceu. 453 Tânia Gonzales Capítulo 42- Tentação Era segunda-feira, 5 de outubro, Suzana e Leonardo estavam completando um mês de casados. Logo pela manhã, ela recebeu um lindo bouquet de rosas vermelhas; Leonardo pediu para que entregassem na escola infantil aonde ela trabalhava. Havia combinado com a esposa de saírem para jantar naquela noite especial. Suzana queria que tudo fosse inesquecível para ambos, por isso decidiu que naquela noite ela daria um presente muito especial e também muito esperado por Leonardo. Ela estava cansada de ter tanto medo de algo tão natural e não aguentava mais a tristeza e a decepção do marido. Durante o jantar eles conversaram animadamente, algo que não estava acontecendo há dias. Às 22h chegaram em casa. Suzana tomou um belo banho e vestiu uma camisola bem provocante; não pretendia e não queria fugir de Leonardo naquela noite. Quando ele viu Suzana se aproximando o coração dele disparou. “ Como ela está maravilhosa... hoje nós vamos começar a nossa lua de mel, com certeza.”- pensou ele. _Como você está linda, minha princesa. _Estou assim pra você. _Adorei ouvir isso. Suzana... meu amor. Leonardo começou acariciando aqueles cabelos sedosos, passou para o rosto e a puxou para si. Beijaram-se longa e apaixonadamente. Após muitos beijos ardentes ele a pegou no colo e a deitou na cama. Segundos depois Suzana estava trancada no banheiro chorando muito e Leonardo estava na cozinha tomando um copo de água gelada; estava completamente decepcionado. 454 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Eram sete horas da manhã, Suzana terminou de se arrumar para o trabalho e foi até a cozinha para tomar o café. Leonardo já havia saído. Enquanto saboreava o café ela olhava com profunda tristeza para o sofá que o marido havia dormido. Ela tinha pensado em proporcionar uma noite inesquecível para ambos e havia conseguido. A noite anterior foi mais um inesquecível fracasso. Mais uma vez ela foi uma grande decepção para o marido. Se concentrar no trabalho depois daquela noite estava sendo muito complicado para Leonardo.” Será que eu cometi um grande erro me casando com ela? Será que ela nunca vai superar o trauma? Eu não aguento mais, eu sinto que estou chegando ao meu limite. O que eu vou fazer? ” _Nossa, como você está pensativo hoje, Leonardo!- disse Alessandra, que estava trabalhando ali com eles há apenas três meses. _Oi? _Está distraído mesmo! _Me desculpe, o que você disse? _O quanto você distraído! Eu estou indo almoçar, quer me acompanhar? _Ah... não, eu preciso terminar este serviço, vou almoçar mais tarde, obrigado. Alessandra era uma linda mulher de 22 anos. Alta, loira, olhos azuis claríssimos; estava no quinto semestre de direito. Morava sozinha em uma pequena casa alugada ali mesmo em São Caetano do Sul. A família mora em uma pequena cidade do interior de São Paulo. _Aceita um café? - perguntou Alessandra ao voltar do almoço. _Não, eu vou almoçar agora. Mas, muito obrigado. 455 Tânia Gonzales Ao vê-lo se afastar ela pensou: “ Não me agradeça por tão pouco, gato! Deixe para agradecer um outro dia... ou melhor uma noite. Gato... para quem casou há tão pouco tempo você está muito pra baixo, eu posso cuidar disso, se posso!” No final da tarde Leonardo pensou em ligar para Suzana, mas logo mudou de ideia.” O que eu vou falar pra ela? “ Suzana foi direto para faculdade, chegou cedo e resolveu estudar um pouco na biblioteca. Sempre, após o trabalho, passava em casa para fazer um lanche rápido e muitas vezes Leonardo também chegava cedo e assim lanchavam juntos, mas naquele dia ela não queria encará-lo; não tinha nenhuma explicação para o que havia ocorrido na noite anterior. Há alguns dias tinham financiado um carro para ela, pois às vezes Leonardo precisava ficar até mais tarde no escritório e por isso agora ela ia para a faculdade sozinha. “Pelo menos só vamos nos encontrar à noite em casa. Ah, meu Deus, ele deve estar me odiando!” Suzana entrou e encontrou Leonardo deitado no sofá. Havia adormecido. Ela procurou fazer de tudo para não acordá-lo mas antes que ela chegasse na cozinha... _Hã? Já chegou? _Oi, acabei de chegar. Me desculpe, vocês estava dormindo tão profundamente que eu... _Achou ótimo, não é? Que maravilha, ele está dormindo! Não preciso falar com ele hoje! Não é isso que você pensou, minha princesa? _Não. Eu só queria que você descansasse, é só isso. _É mesmo? Pois eu estou cansado de descansar. É só isso que eu faço nesta casa: descansar. 456 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Eu sinto muito. _Sente mesmo? _Leonardo, eu acho que não... eu não deveria ter me casado. _Nossa, que revelação! _Você não merece isso. Eu nunca vou conseguir... então é melhor... _É melhor o quê? _Nos separarmos- disse ela com lágrimas nos olhos. _Esta é a solução que você encontrou? É a mais fácil? _Não, é claro que não é, mas talvez seja a única. Ontem eu desejei que tudo fosse perfeito e... _Foi um perfeito fiasco. Um desastre total. _Eu sei. _É melhor você descansar. Eu vou dormir aqui mesmo para não incomodá-la. Sem dizer uma palavra, Suzana foi direto para o quarto. Chorou muito; demorou horas para conseguir adormecer. No dia seguinte Leonardo chegou às sete horas no escritório para evitar falar com Suzana logo pela manhã. _Bom dia, Leonardo. Você sabe quando a Lúcia volta?- perguntou Alessandra. _Acho que na próxima semana, ela ainda está em Belo Horizonte com a mãe. _Você chegou cedo hoje, né? Eu deixei estes documentos ontem no final da tarde e você já está me devolvendo? _Cheguei cedo. Está tudo certo aí, pode devolvê-los ao Fernando. _Me desculpe, mas você está com uma cara que teve uma noite péssima. _Alessandra, por favor, leve os documentos. 457 Tânia Gonzales Próximo à hora do almoço, Alessandra foi até a sala de Leonardo. _Me desculpe incomodá-lo, mas eu estou saindo para o almoço, quer ir comigo? _Alessandra, eu acho que não... ou melhor... sim. Eu vou almoçar com você. Ela olhou para ele e sorriu satisfeita. Durante o almoço Alessandra falou bastante sobre a família dela. _Eles ficam muito preocupados porque lá tudo acontece muito devagar, é uma cidade pequena onde todos se conhecem, enquanto aqui... eles assistem os noticiários todos os dias e me ligam assustados perguntando se o local daquela notícia que eles ouviram é perto de onde eu moro. _Eles têm razão de se preocuparem, afinal você mora sozinha! _Bom... os donos da minha casa moram na casa da frente, mas eles viajam muito, eles têm uma casa no litoral. Amanhã mesmo eles vão para lá e só voltam domingo à noite. Leonardo trabalhou até às oito horas da noite e aceitou o convite de seu pai para jantar. _Querido, que bom que você aceitou jantar com a gente- disse Lígia- Fico com uma peninha de saber que você fica lá sozinho até a Suzana chegar da faculdade. _Tudo bem. Não precisa se preocupar. _Leonardo, está tudo bem, mesmo? Você parece tão desanimado filho! _Estou cansado, é só isso, tenho trabalhado demais. _Rafael, vê se pega leve com o nosso filho, afinal ele acabou de se casar, está em lua de mel ainda! _É ele que trabalha demais, eu não posso fazer nada, ele insisti. 458 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Quando Suzana chegou em casa, Leonardo estava no banho. Minutos depois ele saiu e disse simplesmente: _Boa noite. _Boa noite, você não precisa sair, aqui também é o seu quartodisse ela ao vê-lo se aproximar da porta. _Eu quero que você fique à vontade, mas não se preocupe, eu não vou dormir no sofá, comprei um colchão e o coloquei no quarto ao lado. Tenha uma ótima e tranquila noite, minha princesa. Minutos depois Suzana deitou-se; logo o travesseiro ficou todo molhado, foi mais uma terrível noite para ela. Na noite seguinte, quando Suzana chegou, Leonardo já estava no outro quarto, ela pensou em bater à porta para falar com ele, mas logo mudou de ideia. Eram oito horas quando Alessandra foi até a sala de Leonardo, ele já estava trabalhando há pelos menos uma hora. _Nossa, como você ama o seu trabalho! Já está aí todo concentrado! Bom dia. _Oi, bom dia, Alessandra. Tem razão ,eu amo o meu trabalho. _Eu acho que do trabalho nós devemos gostar, há outras coisas mais interessantes para amar e que dão mais... alegria e prazer. _Será? _Com certeza. É... eu estou um pouco sem jeito, mas eu preciso de um favor. _Pode falar. _Bem... é que ontem à noite a chave do meu banheiro quebrou dentro da fechadura. _Tem um chaveiro aqui perto. É bem próximo ao restaurante que almoçamos ontem. 459 Tânia Gonzales _É que, bem... os meus pais não querem que eu deixe entrar um desconhecido em minha casa. _Eu o conheço bem. O nome dele é Alfredo. _Mesmo assim, se os meus pais soubessem que eu deixei um desconhecido entrar na minha casa eles ficariam em pânico. Eu prometi para eles que nunca faria isso. _Alessandra, o Alfredo é um senhor muito respeitador. Ele é conhecido por todos aqui do bairro. _Obrigada, mas eu não posso. O que eu vou fazer agora? Só usei o banheiro quando cheguei aqui. Será que... acho que não. _O quê? _Os donos da casa viajaram ontem à noite...eles iriam hoje, mas resolveram adiantar, estou perdida! Mas, você me faria um favor? _Fale. _Você poderia ir até a minha casa, tenho certeza que rapidinho você resolve o meu problema. _Eu? _É. Com as ferramentas certas você consegue. De repente você arranca a porta, não tem problema depois eu resolvo com o dono. _Não sei... eu... _Eu não conheço mais ninguém que eu possa confiar. Você é tão gentil e eu com certeza vou saber agradecer este grande favor. Vou agradecer muito. Dizendo isso ela deu uma piscada para ele e só então ele entendeu a real intenção dela. _Alessandra, eu... _Leonardo, você é tão especial, eu nunca conheci um homem gentil e tão cavalheiro como você. Este é o meu endereço. Vou sair daqui às seis horas, passarei em um mercado para comprar algumas coisas e ficarei esperando por você. 460 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Alessandra colocou um pequeno pedaço de papel na mesa de Leonardo e saiu sem dizer mais nada. Ele pegou o papel, leu e o colocou no bolso da calça. Passou a manhã inteira pensando naquela proposta. “ Ela não deve ter nenhum problema com a porta do banheiro. Ela estava me paquerando! E se eu... não. Mas... se eu fosse até lá e... ah, como eu posso estar pensando nisso? Eu não estou aguentando mais... o clima está péssimo lá em casa, a Suzana falou até em separação! Se eu aceitasse o convite da Alessandra, ficaria mais calmo e daria mais um tempo para Suzana, eu conseguiria ser mais compreensivo e... o que é isso que eu estou pensando? Não posso fazer isso com a Suzana. Não posso. Ah, meu Deus, me ajude!” Eram quase onze horas da manhã. Leonardo resolveu ligar para Suzana. _O que você acha de faltar à faculdade hoje? Assim podemos jantar juntos e ir ao cinema, que tal? _Leonardo, eu não posso faltar hoje. _Suzana, por nós. _Não posso. _Tem certeza? _Sim, nós podemos ir amanhã. Assim que ele desligou, ouviu duas batidas na porta. Era Alessandra. _Oi, podemos almoçar juntos hoje? _Podemos. _Daqui uma hora eu volto aqui. _Tudo bem. Durante o almoço Alessandra aproveitou para se insinuar bastante. 461 Tânia Gonzales Ela queria que Leonardo tivesse a certeza das suas intenções para logo mais à noite em sua casa. Eram cinco horas da tarde, Leonardo resolveu ligar para Suzana novamente. _Suzana, falte hoje, por favor. Eu preciso de você. _Eu... não posso. Sinto muito. _Eu também sinto muito. Leonardo desligou o telefone e pegou o pedaço de papel que estava em seu bolso. Ficou olhando para ele por alguns segundos e pensou com tristeza: “ Eu também sinto muito.” Às seis horas, Alessandra deu duas leves batidas na porta e entrou com um largo e provocante sorriso em seus lábios. _Eu já vou embora. Ficarei esperando por você com muita ansiedade e com muito... Saiu sem completar a frase. Leonardo trabalhou mais uma hora e meia. Rafael e Fernando saíram meia hora antes. Pegou o celular e ligou para Suzana, mas o celular dela deveria estar desligado. Pegou o papel no bolso e ficou olhando para ele por alguns segundos. Levantou-se, pegou o paletó que estava na cadeira, recolocou o papel no bolso da calça e saiu do escritório. Eram sete e quarenta. Quando Leonardo chegou em casa era meia-noite, estava tudo muito silencioso. Entrou em seu quarto para pegar uma roupa e viu que Suzana já estava deitada e deveria estar dormindo ou fingindo pois não disse uma palavra. Saiu do quarto e foi tomar 462 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão banho no banheiro do corredor. Assim que ele saiu Suzana levantou a cabeça e olhou para a porta com profunda tristeza. Leonardo só conseguiu adormecer depois das três horas. Não conseguia parar de pensar em tudo o que estava acontecendo; estava sentindo um peso enorme; sentia-se culpado e derrotado. Suzana levantou-se às oito horas e foi até a padaria. Voltou vinte minutos depois e foi ver se Leonardo já havia acordado. Abriu a porta e entrou sem fazer barulho pois percebeu que ele estava dormindo profundamente. Ficou ali por alguns segundos olhando aquele rosto que ela tanto amava. Saiu de lá em silêncio. Foi até a cozinha e deixou a mesa pronta para o café da manhã. Ligou a TV e ficou assistindo à um programa evangélico. Às 9h30 Leonardo se levantou. _Bom dia, estava te esperando para tomarmos o café juntos- Foi ligar a cafeteira e esquentar o leite. _Eu perdi a hora... você também? _Leonardo, hoje é sábado. _Ah... é verdade. _Você chegou bem tarde ontem. _Cheguei. _Eu cheguei antes das dez; eu tinha um trabalho para apresentar, saí assim que terminei. Me desculpe por não ter faltado para sairmos juntos, mas pode ser hoje, se você quiser. _Pode ser. _Vamos tomar café? _Vamos. _Leonardo, eu estive pensando muito... o clima entre nós está péssimo e eu não gostaria que continuasse assim. Me perdoe por 463 Tânia Gonzales falar sobre separação. Não quero me separar de você, eu o amo. Eu tive uma ideia, bom... ela não é original, na verdade a ideia é sua. Lembra o que você inventou para o nosso primeiro beijo? _Claro. _Então... é... Leonardo, nós estamos muito distantes um do outro, assim nunca vamos resolver o problema. Bom... eu pensei que nós poderíamos fazer que somos namorados e começar tudo do zero. O que você acha? _Eu... eu acho que pode ser. _Você está tão desanimado! Mas eu não posso culpá-lo, a culpa é toda minha por estar sempre fugindo. Eu quero resolver isso, eu quero do fundo de meu coração ser uma esposa pra você. Leonardo, amor... você está chorando? _Me desculpe... eu não mereço você... eu... _Meu amor, não fale assim, você tem sido tão paciente, mas tudo tem o seu limite. Olha, eu vou me esforçar... _Ah, Suzana...se você soubesse... eu tenho pensado tantas coisas e me arrependo tanto! _Pare com isso. Vamos sair um pouco? Eu preciso comprar umas coisas e depois nós podemos almoçar. Foram até o shopping. Suzana fez compras, eles almoçaram e depois foram ao cinema. _Hoje nós estamos parecendo com um casal de namorados. Concorda?- perguntou ela ao saírem do shopping no final da tarde. _Tem razão. _Só faltou uma coisa. _O quê? _Um beijo. _Aqui no estacionamento? 464 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Por que não? _Vamos entrar no carro pelo menos. _Tudo bem, meu namorado. Assim que entraram, Suzana se aproximou de Leonardo e o beijou apaixonadamente. _Nossa, você me pegou de surpresa e eu adorei. _Não consegui esperar por você. Leonardo, eu te amo. _Suzana, minha princesa. Eu te amo. Agora foi a vez dele beijá-la. À noite resolveram ficar em casa. Pediram uma pizza; conversaram muito e também namoraram bastante. Quase meianoite, Leonardo deu um beijo na esposa e encaminhou-se para o outro quarto. _O que você está fazendo? Este não é o seu quarto. _Nós somos namorados e... _Não. Leonardo eu quero que você durma em nosso quarto. _Tudo bem. Como você quiser. Domingo foram para escola bíblica e depois almoçaram com os pais de Suzana. À noite foram ao culto. Quando chegaram em casa ficaram na sala namorando por algum tempo. _Leonardo, você está entendendo o que eu estou fazendo? Eu não quero que você pense que a minha intenção é provocar você e depois fugir. Eu estou me aproximando aos poucos para que... _Eu sei, Suzana. Você tem razão, é a única solução. Nestes últimos dias nós estávamos totalmente afastados um do outro mesmo vivendo sob o mesmo teto e assim as coisas só foram piorando. Eu estou entendendo perfeitamente. _E amanhã? É feriado, lembra? O que nós vamos fazer? 465 Tânia Gonzales _Eu tinha esquecido completamente. A Bia nos convidou para almoçar na casa dela. À tarde vai ter uma festa para comemorar o dia das crianças lá na igreja. _É verdade me pediram para ajudar. _Então eu vou com você. À noite nós podemos jantar fora. _Combinado. No dia seguinte eles acordaram bem tarde, tomaram café e foram para a casa da irmã de Leonardo. Depois foram todos juntos para a festa na igreja. Era a primeira festa de dia das crianças que Bia participava com a sua filha Vitória e ela estava radiante por isso. À noite Suzana e Leonardo jantaram em um aconchegante restaurante. 466 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Capítulo 43- Presente de aniversário Naquela manhã de terça-feira, Leonardo chegou ao escritório às oito horas. Ele e Suzana haviam tomado o café juntos. Alessandra já estava na recepção,conversando com o office-boy; Leonardo cumprimentou ambos e foi para sua sala. Minutos depois ele ouviu duas batidas na porta. Era Alessandra. _O que deseja? _O que eu desejo? Fiquei muito decepcionada com você sextafeira. _Decepcionada? Não sei por quê? Eu pedi para o Alfredo ir até lá para resolver o seu problema e ainda expliquei para ele que você morava sozinha e ele disse que levaria a neta dele; ela é adolescente já. Ele foi sozinho? _Que cinismo! Ele foi com a neta sim. _E resolveu o seu problema? _Não precisei dos serviços dele; quando ele chegou estava tudo certo com a minha porta. _Então por que você está brava? Ele quis cobrar pela visita? _Muito engraçado. Eu estava esperando por você. _Eu não sou chaveiro. E agora, se você dá licença eu preciso trabalhar. _Você me fez pensar que iria e... _Eu? Alessandra, sou um homem casado e se você quiser continuar trabalhando aqui deverá respeitar isso. Evite vir até a minha sala, se eu precisar falar com você eu aviso. Mas uma coisa, nunca mais faça qualquer tipo de insinuação à meu respeito, fale comigo somente assuntos profissionais e nada de convites para almoçar, já que você não quer só a minha amizade. Fui claro? _Sim. Com licença. 467 Tânia Gonzales Leonardo, naquela noite de sexta-feira, saiu do escritório e foi direto para a casa de Alfredo, mesmo tendo a certeza que não havia nenhum problema com a porta dela porque queria dar uma lição em Alessandra. Entregou o endereço para ele e explicou a necessidade dele ir acompanhado. Após, como não queria ir para casa cedo, foi até o shopping onde ele havia conhecido Suzana. Comeu um lanche, andou um pouco e depois escolheu um filme qualquer para passar o tempo, por isso só chegou em casa meianoite. Sentia-se culpado e muito desanimado por ter passado pela cabeça dele comparecer àquele encontro; por ter chegado a pensar que seria uma solução. Agradeceu muito a Deus por ter-lhe dado forças para suportar a tentação. Quando, no dia seguinte, Suzana falou sobre a ideia dela, ele não aguentou mais todo aquele peso que estava carregando por isso chorou. Naquela noite Suzana e Leonardo conversaram animadamente e ela aproveitou para falar sobre os planos para o aniversário dele que seria na sexta-feira. _Suzana, por favor, nada de festa surpresa. _Que chato! Agora é tarde demais. _O quê? _Claro, afinal você vai completar 26 anos! _Suzana, eu... _Calma, você acha mesmo que se eu estivesse organizando uma festa surpresa você iria suspeitar, não mesmo! _Suzana! _Fique tranquilo. Eu estou pensando em algo bem íntimo. Um jantar só nós dois. Até já avisei a sua família. _Que ótimo. Você não está me enrolando, né? Nós dois chegamos no restaurante e … surpresa! _Não, é sério. 468 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Obrigado. Suzana estava pensando em algo muito íntimo. Havia prometido para si mesma que aquela noite seria inesquecível para ambos. Não iria comprar um presente para Leonardo. Ela seria o presente. Ela o amava muito por isso iria conseguir. Passou aqueles dias se preparando psicologicamente e tinha certeza que não o decepcionaria. _Bom dia! Feliz aniversário! _Nossa, faz tempo que você levantou! _Faz uma hora mais ou menos. Preparei um café especial para você. _Para nós dois. _Parabéns, meu amor! Suzana o beijou demoradamente. _Uau! Acho que prefiro os seus beijos do que o café. _Você precisa se alimentar. Bom, você tem como sair mais cedo hoje? _Acho que sim. _Eu vou estar aqui às cinco horas e vou ficar esperando por você. _E a faculdade? _Hoje é aniversário do meu marido! _Tudo bem. Eu vou fazer de tudo para estar aqui antes das seis. Suzana estava muito ansiosa. Passou o dia inteiro pensando em como seria aquela noite. Pediu a Deus forças para vencer aquele trauma de infância. Ela precisava dar o presente que Leonardo tanto queria.” Este presente está atrasado! Ele deveria ter sido entregue lá em Porto de Galinhas. Hoje eu vou conseguir. Eu vou! Devo isso a ele. Devo isso a nós dois. 469 Tânia Gonzales Suzana chegou em casa poucos minutos antes das cinco horas; tomou banho e escolheu um vestido verde musgo que usou no casamento de um primo de Leonardo e ela lembrava que ele havia gostado muito. Escovou os cabelos e resolveu deixá-los soltos pois sabia que o marido adorava vê-los assim. Poucos minutos após as seis horas foi a vez de Leonardo chegar. _Nossa, como você está linda! Eu não mereço tanto! _Merece muito mais. Eu já estou pronta. _Uau, como você está cheirosa! Vou tomar um belo banho e ficar bem bonito e perfumado pra você. _Recebeu muitas ligações hoje? _Sim, o pastor Pedro, a Sandra, a Paulinha, a Leca, minha mãe, a Bia, o Bruno, sua mãe e almocei com o meu pai e o Fernando. A Lúcia mandou um grande beijo pra você. No final da tarde cantaram parabéns, tive até bolo, presentes. Eu trouxe um pedaço coloquei na geladeira, está delicioso. É bolo mousse de limão, muito bom. Até a minha mãe e a Sandra apareceu lá. Ah, a minha mãe levou a Vitória; a Bia não pôde ir porque tinha pacientes para atender. _Elas tinham comentado comigo. _Então você já sabia! _Claro. Eu pensei em dar um jeito de ir mas não deu. _Tudo bem. Ah, eu recebi uma ligação muito importante. _De quem? _Vovó Vivi. _Que legal. Eu não sabia que ela ia ligar. Ela está bem? _Está ótima. Mandou um beijo enorme e disse que está com muitas saudades, mas agora chega de conversa, vou tomar banho. Saíram de casa às sete horas. Leonardo vestiu um terno preto com listras de giz bem discretas, uma camisa branca e uma gravata 470 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão vinho. Jantaram em um restaurante muito aconchegante; conversaram muito e até dançaram duas músicas românticas. _Lembra quando nós dançamos pela primeira vez? _É claro que lembro. Eu estava tão triste aquela noite; só ficava pensando em sua reação ao saber do meu passado. _Bom, é melhor não falarmos sobre isso. Suzana, você está maravilhosa. _E você também. Eu amo você. Vamos pra casa agora? _Tudo bem, meu amor. Você manda. _Mas você é o seu aniversário. _Então eu vou dar uma ordem: beije-me! _E eu obedeço. Ela o beijou demoradamente e depois os dois foram para casa. Durante o caminho Suzana ficou em silêncio; estava muito ansiosa. Chegaram às 23h. _Leonardo, eu... é... eu vou para o quarto e quero que você me espere aqui. _Agora é você que está no comando. _Eu não demoro. Leonardo tirou o paletó e a gravata e sentou-se no sofá. Suzana voltou vinte minutos depois com uma pequena caixa dourada nas mãos; não estava usando mais o vestido verde e sim uma delicada camisola preta. Leonardo levantou-se rapidamente e ficou olhando para ela fixamente. _Bom... é o seu presente – dizendo isso ela entregou para ele a pequena caixa. Leonardo desfez o laço e ao abrir encontrou um cartão com os 471 Tânia Gonzales seguintes dizeres: “ eu estou lhe entregando um presente muito esperado; sei que o fiz sofrer demais mas eu quero que isso fique no passado e que você considere que hoje é o primeiro dia de nossa lua de mel; não comprei um presente para você de propósito porque eu quero ser o seu presente, eu! Te amo muito, me perdoe! A partir de hoje serei a sua esposa, hoje! E tenha certeza que não vou decepcioná-lo. Feliz aniversário! “ Após terminar a leitura do cartão, ele olhou para ela com um largo sorriso e disse sem esconder a emoção: _Eu sei que vou amar muito este presente, muito. O beijo começou suave, mas em poucos segundos se tornou intenso. Leonardo pegou Suzana no colo e a levou para o quarto. Três horas depois, Suzana estava olhando para o marido que havia adormecido. Ela enxugou algumas lágrimas que insistiam em cair e sentou-se na cama, este movimento fez Leonardo acordar. _O que foi? Aonde você vai? _Vou tomar água, já volto. _Ah... não demore. _Não. Segundos depois ela estava de volta. _Suzana, você estava chorando? Conseguiu dormir um pouco? _Chorando? Eu ainda não consegui dormir. _Meu amor, por quê? _Estou muito feliz, estou eufórica! Leonardo.... As lágrimas começaram a cair novamente. _Minha princesa, pare de chorar. _Eu preciso, são lágrimas de felicidade. Consegui, eu finalmente consegui vencer o trauma. Parecia um obstáculo intransponível. 472 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão _Meu amor, nós conseguimos juntos. Eu a amo tanto! Você foi perfeita! Valeu a pena cada dia de espera. _Não fale isso, por favor. Estes últimos dias foram terríveis! _Tem razão, mas hoje estamos felizes e satisfeitos um com o outro. Bom, eu disse que estamos satisfeitos? Hum... acho que não. Você disse que é o início de nossa lua de mel, não disse? _Disse. _Então, o que você acha de continuarmos, hein? _Eu acho... ótimo. Quando conseguiram dormir já passava das cinco horas da manhã. Leonardo levantou-se às 9h e saiu sem fazer barulho; Suzana acordou às 10h e viu que estava sozinha no quarto; levantou-se, usou o banheiro, colocou uma roupa e foi até a cozinha. O cheiro estava delicioso. _Bom dia! Por que você não me chamou? _Estava dormindo tão gostoso e eu queria fazer uma surpresa. Fui até a padaria e comprei tudo o que sei que você gosta. _Hum... este cheirinho de café é maravilhoso! _Espera aí, eu já volto. Voltou em seguida com um lindo bouquet de rosas vermelhas. _Para minha linda e maravilhosa esposa. A noite ontem foi perfeita em todos os sentidos. Perfeita. Eu amo você. _Obrigada, são lindas! Ah... você disse exatamente o que está escrito no cartão. _Sim. Que tal agora nós tomarmos café? _Concordo. Estou com muita fome. _Gastou muitas calorias ontem. 473 Tânia Gonzales _E você... _Eu? Não tenho nada a ver com isso! _É mesmo? _Não. Eu tenho tudo a ver e sempre quero ser o responsável por isso, sempre. _Suzana, filha? Tudo bem com você? - perguntou Marina ao ligar naquela tarde de sábado. _Oi, mãe. Tudo ótimo. _Filha, eu liguei para fazer um convite. _Convite? _Nós gostaríamos que vocês almoçassem conosco amanhã. _Almoço aí, amanhã?- perguntou Suzana olhando para Leonardo que estava ao seu lado na cama e balançou a cabeça afirmativamente. _Tudo bem, mãe, amanhã estaremos aí. Um beijo. Tchau. _Eu pensei em passar o final de semana inteiro só com você, mas posso abrir uma exceção- disse Leonardo assim que ela desligou. _Você não está cansado de ficar aqui sozinho comigo? _Cansado, nem pensar. Eu adoro ficar aqui sozinho com você, principalmente aqui neste cômodo da casa. _É mesmo? Nem havia percebido. _Não? Duvido. Mas, eu acho que estamos conversando demais, que tal você me acompanhar? _Para aonde você pretende me levar? _Para o banho. 474 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão Epílogo _ Vocês vão mesmo para Porto de Galinhas no próximo feriado?_ perguntou Davi durante o almoço. _Vamos, sim, sogrão. E ficaremos no mesmo hotel; pena que serão só três dias. _Compensa? É tão longe!- disse Marina. _Vai compensar com certeza- disse Suzana dando uma discreta piscada para o marido. Antes de começar o culto, Suzana encontrou-se com Letícia, Paula e Lúcia que estavam conversando na lanchonete da igreja. _Lá vem a senhora Martins- disse Letícia. _Olá, amigas. Tudo bem com vocês? _Tudo ótimo. Mas que sorriso é este? Já tem novidade para nós? perguntou Lúcia. _Novidade? O que... ah, já sei. Não, ainda não. Calma, ainda nem completei dois meses de casada! _É verdade, calma, Lúcia. Estamos sabendo que você vai prestar um concurso, é verdade? - foi a pergunta de Paulinha. _É isso mesmo. Pretendo dar aulas para o ensino fundamental e depois quero ser professora universitária. _É isso aí, amiga. Você consegue. Então no próximo ano você vai continuar estudando, não é?- desta vez foi Letícia que perguntou. _Vou, com certeza. Não posso parar e o Leonardo me dá a maior força. Ele me incentiva muito. Mas e vocês, quais as novidades? Lúcia? _Bom... eu estou indo muito bem na faculdade e também está tudo ótimo no escritório Martins e Soares associados. Estão gostando 475 Tânia Gonzales muito do meu serviço. E... o que mais... o Willian anda me convidando para sair, um dia desses eu aceito. _Hum... que legal! E você Lê? _Você sabe que termino odontologia neste ano e estou estagiando em uma conhecida clínica; confesso que simpatizo muito com as proprietárias. Eu e o Dani pretendemos casar no próximo ano. _Que notícia maravilhosa! Paulinha... _Depois de tantas novidades... estou indo muito bem na faculdade de Veterinária. Meus pais estão cada dia mais unidos. Não estou namorando, pelo menos por enquanto, quem sabe em um futuro próximo... ah, estou me alimentando muito bem. À noite após o culto... _Amanhã eu vou acertar tudo para nossa viagem. Achei engraçado a sua mãe perguntar se compensava... _Ela não imagina o que nós estamos pretendendo fazer lá. _Será? _Bom... no mínimo ela pensa que queremos aproveitar o local para passear... _Eu só quero aproveitar o quarto. _Leonardo, Leonardo. Nós dois merecemos ir até lá e... _E... por que você ficou toda vermelha, hein? _Para com isso. _Foi ideia sua voltarmos para lá e... _Tudo bem, foi ideia minha, eu confesso. Eu quero apagar aquela nossa primeira viagem juntos. Desta vez, com certeza, será muito especial. _Com certeza. _Leonardo, você não sabe o quanto eu agradeço a Deus por ter colocado você em meu caminho. Você sempre foi tão 476 Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão compreensivo, atencioso e... _Mas ultimamente eu estava insuportável, pode dizer. _Meu amor, tudo tem limite. Você estava cansado de esperar por mim e com toda razão. _O importante é que está tudo bem agora e que estamos muito felizes. _Muito felizes. Que alívio! Eu entrava em pânico só de pensar que você iria se aproximar, agora eu não vejo a hora de você chegar bem pertinho de mim. Às vezes eu acho que é um sonho. Parece que estou sonhando desde sexta-feira. _Vem aqui que eu vou te mostrar que não é um sonho, vem... Fim 477
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