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> T APT oRPO David Le Breton rf : © 1999, Editions Miétaili, Paris ‘Titulo da ecigdo original em frances: ¢‘adievau corps Capa: Femando Comacchia (Coordenagdo: Beatriz Marchesini Diagramagio: DPG tsa. Copidesque: Lucia Helena Lahoz Morel Revisdo: Maria Liicia A. Maier Solange F Penteado Dados Internacionais de Catalogagao na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Le Breton, Davig ‘Adeus ao corpo: Antropologia ¢ sociadade / David Le Breton; tradugio Marina Appenzeller. - Campinas, SP: Papirus, 2003, ISBN 85-308-0724-3 1. Antropologia filosética 2. Antropologia social 3. Compe humano ilosotia). 1. Titulo Nl, Titulo: Antropologia e sociedade, 03.5149 00-01 indice para catdlogo sistemitico: +. Corpo humana: Antopologia esociocade: Sciciogin 301 3? Edicdo 2008 Proibida a reprodugao total ou parcial da obra de acorde com a lei 9,610/98, Evitora alada 4 Associagao Brasileira os Direites Reprograticos (ABDR). DIREITOS RESERVADOS PARA & LINGUA PORTUGUESA: © MR. Comacchia Livratia e Editora Ltda, ~ Papivus Editora A. Dr. Gabriel Penteado, 253 - CEP 13041-205 - Vila Jodo Jorge Foneltax: (19) 3272-4500 ~ Campinas ~ Sio Paulo — Brasil E-mail: editora@ papirus.com.br ~ www.napirus.com.br SUMARIO INTRODUGAO: O CORPO NO RASCUNHO ... O édio do corpo O corpo alter eg A invencdo do corpo O corpo como excesso A progressao da obra .. Sobre-significar o corpo — 27 Dominio do corpo... A donee patina iu p [ora aazo, Marcas corporais .. Body building .... Body art... O corpo parceiro 2. A PRODUCAO FARMACOLOGICA DE SI O 6rgao de humor A medicalizagdo do humor cotidian Producdo farmacolégica de si 3. A MANUFATURA DE CRIANCAS A assisténcia médica & procriagdo O corpo indesejivel da mulher: A gestacdo fora do carpo A mulher corrigida pela medicine ... : Utero de aluguel .. Gravidez masculina. A invengdo do embrido.. Oexame de aptidto para a vida. O direito ao infanticidio Impossivel decidir 4. O CORPO RASCUNHO DAS CIENCIAS DA VIDA .. A informagdo como mundo O Projeto Genoma.... O geneticamente correto Patentear 0 vivo O controle genético .. A demiurgia genética cc... Aclonagem ou o homem duplicado Transgénese animal .. 5. O CORPO SUPRANUMERARIO DO ESPAGO CIBERNETICO ........... 141 O desdobramento do mundo ..... Fim das coergées de identidade A economia do mundo Deus virtual O si informatico Criaturas artificiais Ficgao cientifica . Um erotismo fora do corpo O amor do andréide A sexualidade cibernética ou a corpo em disquete . 7. O CORPO COMO EXCESSO ........ dnteligéncia artificial ou artificios da inteligenci ja. A objegdo do corpo O andrdide sensivel e inteligente A paixdo informatica Homo silicium ... Ciborgue manifesto .. O fim do corpo. ABERTURA........ PREFACIO Daniel Lins* David Le Breton, antropélogo francés, professor da Universidade Mare Bloch de Estrasburgo, é um especialista consagrado na drea de estudos do corpo: corpo singular, miltiplo, ferido, esfacelado, Corpo como obra de arte em perigo. Autor, entre outros, de Antropologia da dor, Corpo e sociedades, Antropologia do corpo e modernidade, A soctologia do corpo — ainda nao traduzidos para 0 portugués — e Adeus ao corpo, publicado na Franga em 1999, Le Breton é hoje referéncia primordial para aqueles que de longe ou de perto trabalham com 0 corpo. Nesta obra, ele traga um quadro rigoroso e inquietador de um corpo que se transforma cada vez mais em corpo-maquina, sem sujeitos nem afetos. Esse corpo-bricolagem, resultado de excessos e derivas, do que * — Socidlogo, fildsofo ¢ psicanalista. Autor, entre outros, de Antonin Artaud: O artesio do corpo sem rgdos. 3* ed. Rio de Janeiro: Relume Damar, 2 Adeus ao corpo 9 © autor chama “o extremo contemporineo”, oscila entre vontade de controle absoluto e narcisismo furioso préximo de uma vontade de poténcia niilista que milita contra o corpo pleno. Segundo Le Breton, o corpo tornou-se um acess6rio, uma prétese mareado por uma subjetividade lixo, uma bula, um kit: “E a formidavel convergéncia de praticas relativamente recentes, ou de sucesso recente, que faz com que 0 corpo seja hoje muitas vezes vivido como um acess6rio da presenga (...). O corpo é um objeto imperfeito, um rascunho a ser corrigido. Vejam o sucesso da cirurgia estética: trata-se de fato de mudar seu corpo para mudar sua vida”. Adets ao corpo aponta © paradoxo de uma modernidade cujo discurso aparente faz a apologia do corpo para melhor esvazia-lo, transformando-o em mercadoria e impondo um fora do corpo — como exterioridade redundante — que dita o simulacro do préprio corpo. Nunca o corpo-simulacro, 0 corpo-descartavel foi tao exaltado como na contemporaneidade. Orgios sem corpos sao fixages parciais que massacram 0 proprio corpo. Boca, seios, olhos, pernas, genitalia esfacelada, moldada: nao se trata mais de um corpo, mas de um acumulado de érgaos colados em algo que se denomina corpo. Corpo-peneira, corpo trespassado pelas flechas (bisturi), corpo-penetrado pelas seringas, 0 sujeito-corpo- descartavel paga o prego de sua beleza. Nao falaremos, pois, de exaltagdo do corpo, mas do império dos 6rgaos. Nao, afirma o autor: “O corpo exaltado nao é 0 corpo com 0 qual vivemos, mas um corpo retificado, redefinido”, 0 corpo costurado, coberta aos mil pedagos remendados. Para além da andlise aprofundada do discurso cientifico, biolégico ou informatico sobre 0 corpo, o antropélogo aponta o perigo de um discurso de aperfeigoamento transformando-o em um cibercorpo — ligagao na carne do homem de procedimentos informativos na forma de chip. Trata-se, pois, de um saber cientifico que se apresenta sob o signo de uma promessa messianica— os velhos ficarao novos, os feios belos, todos alcangardo a eterna juventude —, em que alguns cientistas sdo os “novos padres”, criadores de uma “cibersexualidade”. Esta, segundo o autor, poderia engendrar na relagdo com 0 outro a aboligio da propria alteridade: “O outro é afastado em proveito dos signos de sua presenca”. O corpo do outro — corpo a distancia, corpo virtual — pode ser um disquete, um programa, um site, um “Eros eletr6nico”. O sexo virtual, 10 Papirus Editora sexo sem corpo, sexo fantasmiatico, torna-se 0 “bom” sexo, 0 sem-sexo, o sexo rei! Nio é por acaso, comenta Le Breton, que “para alguns expoentes da cibercultura americana, a sexualidade é algo superado, Eles a consideram como sujeira”, mi: io, A estética do belo a qualquer prego, junta-se o fundamentalismo da era virtual. No momento em que, segundo 0 autor, “a biologia, a informatica, a tecnociéne corpo, um sexo contra 0 corpo —, faz-se necessdrio, para no se deixar habitar por um niilismo sem ética, retornar a filosofia. Revisitar, sobretudo, alguns fildsofos do corpo, do desejo e do prazer, trilogia que anuncia um outro-epidérmico, um corpo para além da consciéncia e do biopoder domadores de produgées inconscientes de um saber sobre 0 corpo que supera a tirania de uma estética do corpo contra o proprio corpo. impéem a cibersexualidade como modelo” — um sexo sem O que é arrebatador, escreve Nietzsche, é 0 corpo: “(...) nao nos fatigamos de nos maravilhar com a idéia de que 0 corpo humano tornou- se ‘possivel’”.! Deleuze, por sua vez, na sua reinvengao de Espinosa, escreve: “Espinosa propée aos filésofos um novo modelo: 0 corpo ( ‘Nao sabemos 0 que pode o corpo’... (...) falamos de consciéncia e de seus decretos, da vontade e de seus efeitos, dos mil meios de mover o corpo, de dominar 0 corpo ¢ as paixGes — mas nds sequer sabemos de que é capaz um corpo. Porque nao o sabemos, tagarelamos. Como dira Nietzsche, espantamo-nos diante da consciéncia, mas ‘o que surpreende, € acima de tudo 0 corpo’”? O corpo é uma espécie de escrita viva no qual as forgas imprimem “vibragdes”, ressonancias e cavam “caminhos”, O sentido nele se desdobra ¢ nele se perde como num labirinto onde o préprio corpo traga os caminhos. 1 F, Nietzsche. Fragments posthumes — 1882-1884, vol. 1X. Paris: Gallimard, 1997. Cf. D. Lins. “A metafisica da carne”. in: Lins, D. e Gadelha, $, (orgs,). Nietzsche e Deleuze. Que pode 0 corpo. Rio de Janeiro: Relame Dumari, 2002, pp. 67-68. G. Deleuze. Espinosa: Filosofia pratica. Trad, Daniel Lins e Fabien Pascal Lins. Sao Paulo: Escuta, 2002, p. 24 Adeus ao corpo 11 David Le Breton, a sua maneira, recusa a dicotomia Alma/Corpo aproximando-se de Espinosa: “Penso que o dualismo contempordneo nao opGe o corpo ao espfrito ou alma, mas o homem a seu corpo”. Para Espinosa, a “Alma e o Corpo esto, pois, simultaneamente presentes, ¢— € necessario supor — simultaneamente ausentes. Se a Alma é a idéia do Corpo, nao ha mais idéia quando nao ha mais corpo". Por outro lado, visto que ha signos no pensamento — 0 pensamento emite signos —, 0 inconsciente emerge como uma espécie de semistica pré-verbal, o dominio dos signos que trespassam 0 corpo, de um certo modo, uma linguagem, ou uma escrita da carne na qual a lingua se funda ao mesmo tempo em que ela a oculta. Trata-se, pois, de reencontrar 0 “sentido da carne”, “o texto primitivo” do homem “natural”, mediante uma solicitagao sempre mais exigente do inconsciente em detrimento da Raziio, a louca da casa. Ora, a Razio “nio pode ensinar nada que seja contra a Natureza”, diz Espinosa. Adeus ao corpo, obra densa, documentada, precisa — porém acessivel — € um grande acontecimento editorial no campo da antropologia contemporanea do corpo. David Le Breton, ao propor uma cartografia do corpo em suas muiltiplas dimensGes imerge o leitor plenamente no universo que acreditévamos imperceptivel: nao precisamos absolutamente conhecer a ficgdo cientifica, nds a vivemos a cada dia, A corps perdu, irrefletidamente. 3. B. Espinosa. Ftigque. Il, prop. 13, escélio. Oeuvres completes, trad. Roger Caillois, M. Francés eR. Misrahi. Paris: Gallimard, 1954, 12 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. poraneo! retoma 0 processo e, por sua vez, condena 0 corpo anacrénico, ‘os das diltimas décadas. O corpo €0 pecado original, a macula de uma humanidade da qual alguns lamentam que ela nao seja de imediato de proveniéncia tecnolégica. O corpo é um membro supranumerario, seria necessario suprimi-lo (Le Breton 1990). A tao pouco a altura dos avangos tecnolé religiosidade gnéstica escapa de suas multiplas forma: doutrinais: hoje a encontramos de uma forma laicizada, mas poderosa, em certos elementos da tecnociéncia. Ela é até um dado estrutural do extremo contemporaneo que faz do corpo um lugar a ser eliminado ou a ser modificado de uma ou outra maneira.” O corpo alter ego No discurso cientifico contemporineo, o corpo é pensado como uma materia indiferente, simples suporte da pessoa. Ontologicamente distinto do sujeito, torna-se um objeto a disposigao sobre o qual agir a fim de melhord-lo, uma matéria-prima na qual se dilui a identidade a raiz de identidade do homem. Duplo do homem, de consciéncia, senao ao contrario, pela evocagao dos preconceitos, do conservadorismo ou da ignorancia dos que de: limites 4 fragmentagao da corporeidade humana. O corpo é normalmente colocado como um alter ego cor pessoal, e no mais ur mas sem clausula rado ao rancor dos cientistas Subtraido do homem que encarna 4 maneira de um objeto, esvaziado de seu carater simbolico, o corpo também ¢ esvaziado de qualquer valor (Le Breton 1990). Invoiucro de uma presenga, arquitetOnica de materiais »€ mais a e fungdes, o que entio fundamenta sua existéncia oc os que js mpreendemos por tos hoje dos mais inéditos. extremo contemporinco” os empreendi 1 uml pé no futuro naquilo que se refere ao cotidiano ou & teenoci os que induzem rupturas antropolégicas que provoc: discursos entusiastas sobre os amanhis que eantam grag claro, privilegiados, € principalmente aqueles cujo projeto é eliminar ou cortigit @ corpo humano, petturbagio de nossas sociedades. Os * serao, € 0 “progresso cienti ionando-o com o Adio de de, sem doenga, sem morte, sem Lucien Sfez. analisa o mito contemporineo da satide perfeita rel antes queda. um Adao sen a, portanto, sem sextuali pecado (Sfez 1995. pp. 371 ss.). Um Adio sem outro e sem corpo ou, 0 que corpo absolutamente perfeito, um corpo de certa forma livre do corpo. no mesmo, um Adeus ao corpo 15 irredutibilidade do sentido e do valor, 0 fato de ser a carne do homem, mas a permutagao dos elementos e das fungdes que garantem sua organizagao. O corpo é declinado em pegas isoladas, é esmigalhado, Estrutura modular cujas pegas podem ser substitufdas, mecanismo que sustenta a presenca sem lhe ser fundamentalmente necessario, 0 corpo é hoje remanejado por motivos terapéuticos que praticamente nao levantam objegdes, mas também por motivos de conveniéncia pessoal, as vezes ainda para perseguir uma utopia técnica de purificagao do homem, de retificagdo de seu ser no mundo. O corpo encarna a parte ruim, 0 rascunho a ser corrigido. Para algumas correntes da tecnociéncia que estudamos nesta obra, a espécie humana parece maculada de uma corporeidade que lembra demais a humildade de sua condigao. A reconstrucdo do corpo humano, e até sua eliminagao, seu desaparecimento, é 0 empreendimento ao qual se dedicam esses novos engenheiros do biolégico. Esse imaginario tecnocientifico é um pensamento radical da suspeita; ele instrui o processo do corpo por meio da constatagao da precariedade da carne, de sua falta de durabilidade, de sua imperfeigdo na apreensio sensorial do mundo, da doenga e da dor que o atingem, do envelhecimento inelutavel das fungées e dos 6rgaos, da auséncia de confiabilidade de seus desempenhos e da morte que sempre 0 ameaga. Esse discurso do descrédito censura 0 corpo por sua falta de dominio sobre o mundo e por sua vulnerabilidade, pela disparidade clara demais com uma vontade de dominagao 0 tempo todo desmentida pela condigao eminentemente precaria do homem. O ultimo volta-se com ressentimento para um corpo marcado pelo pecado original de nao ser um objeto de pura criagdo tecnocientifica. O corpo € a doenga endémica do espirito ou do sujeito. Muitos autores véem hoje com jubilo chegar 0 momento abengoado do tempo “pds-biolégico” (Moravec) ou “pds-evolucionista” (Stelarc), “pds-organico suma, do tempo do fim do corpo, este sendo um artefato passivel de ser danificado da historia humana, que a genética, a robdtica ou a informatica devem conseguir reformar ou eliminar, como veremos nesta obra. etc., em O corpo nio é um local de dominio para o bidlogo ou 0 engenheiro que entendem muitas vezes traté-lo como um rascunho para levd-lo enfim & perfeigdo Ultima que sé esperava a corregio da ciéncia. Visio moderna 16 Papirus Editora e laicizada da ensomatose (a queda no corpo das antigas tradig6es gndsticas), a carne do homem encarna sua parte maldita que inimeros dominios da tecnociéncia pretendem por sorte remodelar, “imaterializar”, transformar em mecanismos controlaveis para livrar 0 homem do incémodo fardo no qual amadurecem a fragilidade e a morte. Diante desse despeito de ser constituido de carne, o corpo é dissociado do homem que ele encarnae cot siderado como um em si, Consagrado aos indmeros cortes para escapar de sua precariedade, de seus limites, para controlar essa parcela inapreensivel, atingir uma pureza técnica. Tentagao demitirgica de corrigi-lo, de modificd-lo, por nio se conseguir torné-lo uma méquina realmente impecavel. Uma fantasia implicita, informulavel em um contexto de pensamento leigo, é subjacente — a de abolir 0 corpo, elimi Jo pura e simplesmente, substituindo-o por uma maquina da mais alta perfeigéo. Nesse imagindrio que tende a redefinir as condig existéncia, 0 corpo torna-se 0 meio cada vez menos necessario pelo qual as maquinas se desenvolvem e reproduzem. A luta contra 0 corpo revela sempre mais 0 mével que a sustenta: o medo da morte. Corrigir 0 corpo, torné-lo uma mecAnica, associa-lo 4 idéia da maquina ou acopla-lo a ela € tentar escapar desse prazo, apagar “a insustentavel leveza do ser” (Kundera). O corpo, lugar da morte no homem: nao é o que escapa a Descartes (1970) como um lapso quando. de um cadaver se impGe a seu raciocinio para designar sua condigéo corporal: “Considerei-me primeiramente como tendo um rosto, maos, bracgos, e toda essa maquina composta de ossos e de carne, tal como aparece em um cadaver, a qual designei pelo nome de corpo” (p. 39). Imagem tanto mais perturbadora quanto € aqui menos nece: s de em suas Meditagdes, aimagem ria, A invengdo do corpo O momento inaugural da ruptura concreta do homem com seu corpo foi por nés analisado em outro texto com o empreendimento iconoclasta dos primeiros anatomistas que rasgam os limites da pele para levar a dissecgio a seu termo no desmantelamento do sujeito (Le Breton 1993). Isolado do homem, 0 corpo humano torna-se objeto de uma Adeus ao corpo 17 curiosidade que mais nada desarma. Desde Vi médica do corpo niio é mais solidaria de uma vi: A publicagao do De humant corpori fabrica em 15: simbélico dessa mutagao epistemoldgica que conduz, por diversas etapas, a medicina e 4 biologia contempordneas. Os anatomistas antes de Descartes e da filosofia mecanicista fundam um dualismo que é central na modernidade e nao apenas na medicina, aquele que distingue, por um lado, o homem, por outro, seu corpo. Na maioria das vezes, a medicina trata menos 0 homem em sua singularidade que esta sofrendo do que o corpo doente. Os problemas que ainda se colocavam com relativa discrigéo ha alguns anos adquirem uma amplidiao consideravel com a enfatizagio e o refinamento dos meios técnicos, a especializagdo dos cuidados, a falta de peso do corpo, o mito da satide perfeita (Sfez 1995) e, sobretudo, a informagao e a resisténcia crescentes dos usuarios. lio, a representagio ea do homem, 3 € um momento Com os anatomistas, 0 corpo humano passa por intime! investigagGes, na colocagiio entre parénteses do homem que ele encarna. A formulagio do cogito por Descartes prolonga historicamente a dissociagio implicita do homem de seu corpo despojado de valor préprio. ises aqui (Le Breton 1990; 1993). Lembremos, contudo — uma vez que seu principio continua sendo verdadeiro —, que Descartes formula com clareza um termo-chave da filosofia mecanicista do século XVII: o modelo do corpo é a maquina, o corpo humano é uma mecainica discernivel das outras apenas pela singularidade de suas engrenagens. Nao passa, no maximo, de um capitulo particular da mecanica geral do mundo. Consideragio fadada a um futuro préspero no imaginario técnico ocidental dedicado a consertar ou a transfigurar essa pobre maquina. Descartes desliga a inteligéncia do homem de carne. A seus olhos, 0 corpo nao passa do invélucro mecanico de uma presenga; no limite poderia ser intercambidvel, pois a esséncia do homem reside, em primeiro lugar, no cogito. Premissa da tendéncia “dura” da Inteligéncia Artificial, o homem nao passa de sua inteligéncia, o corpo nada é a nao ser um entrave, Nao repetiremos essas anal A biotecnologia ou a medicina moderna privilegia o mecanismo corporal, 0 arranjo sutil de um organismo percebido como uma colegio de drgdos e fungées potencialmente substituiveis. O sujeito como tal af 18 Papirus Editora representa um resto, o que é tocado indiretamente por meio de uma agiio que visa a organicidade. Um diciondrio moderno de idéias feitas escreveria hoje no verbete corpo: “uma maquina maravilhosa”. A formulagao, porém, ¢ ambigua, testemunha uma ambivaléncia. Réplica @ falha das origens, que inimeros procedimentos se esforgam por corrigir, a assimilagdo mecinica do corpo humano que pée de Jado a densidade do homem traduz na modernidade a tinica dignidade que é possivel conferir ao corpo. Nao se compara a maquina ao corpo, compara-se 6 corpo & maquina. O mecanicismo da paradoxalmente ao corpo seus duvidosos titulos de nobreza, sinal incontestavel da proveniéncia dos valores para a modernidade. Se nao é subordinado ou acoplado 4 maquina, 0 corpo nada é. A admiragdo dos bidlogos ou dos cirurgides diante do corpo humano, cujos arcanos eles tentam penetrar, ou a mais cAndida do profano, pode ser traduzida pela mesma exclamagio: “Que maquina maravilhosa” A esse respeito, sdo inimeros os titulos de obras ou de artigos que recorrem 4 metafora mecanicista. Da admiragao diante da “maquina maravilhosa”, 0 discurso cientifico ou técnico passa depressa a enfatizacao da fragilidade que a caracteriza. Para a maquina, maquina e meia. Para um certo discurso médico, 0 corpo n&io merece inteiramente tal designacdo. Ele envelhece, sua precariedade 0 exp6e a les6es irreversiveis. Nao tem a permanéncia da maquina, nao é tao confiavel quanto ela, nem dispde condig6es que permitem controlar o conjunto dos processos que nele ocorrem. A doenga e a morte sido 0 prego pago pela relativa perfeig¢ao do corpo. O prazer e a dor sao 0s atributos da carne, implicam o risco da morte e da simbélica social. A maquina é igual, fixa, nada sente porque escapa a morte e ao simb6lico. Para a tecnociéncia, a carne do homem presta-se aestorvos, como se fosse necessario decair de uma realidade tao pouco gloriosa. A metéfora mecanica ressoa como uma reparacdo para conferir ao corpo uma dignidade que nao poderia ter caso permanecesse simplesmente um organismo. Nostalgia de uma condigao humana que nao deveria mais nada ao corpo carnal, local da queda, da precariedade, mas que ascenderia finalmente a corpo glorioso totalmente criado pela tecnociéncia. O corpo, vestigio multimilenar da origem nao-técnica do Adeus a0 corpo 19 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. Em primeiro lugar, examinaremos 0 corpo vivido como acessério da pessoa, artefato da presenga, implicado em uma encenagao de si que alimenta uma vontade de se reapropriar de sua existéncia, de criar uma identidade provis6ria mais favoravel. O corpo é entéo submetido a um design &s vezes radical que nada deixa inculto (body building, marca corporal, cirurgia estética, transexualismo etc.). Colocado como representante de si, cepo de identidade manejavel, torna-se afirmagao de si, evidenciagao de uma estétic: 0 de da presenga. Nao é mais 0 contentar- € COM O Corpo que se tem, mas de modificar suas bases para completdé-lo ou tornd-lo conforme & idéia que dele se f complemento introduzido pelo individuo em seu estilo de vida ou suas agdes deliberadas de metamorfoses fisicas, 0 corpo seria uma forma decepcionante, insuficiente para acolher suas aspiragdes. Nessas az. Sem o diferentes representagdes, o corpo deixa de responder a unidade fenomenologica do homem, ¢ um elemento material de sua presenga, mas nao sua identidade, pois ele s6 se reconhece af num segundo tempo apos efetuar um trabalho de sobre-signific: que o conduz a reivindicagao de si. Mudando 0 corpo, pretende-se mudar sua vida. Esse é 0 primeiro grau de suspeita do corpo (Capitulo 1). A manipulacao de si que implica as ferramentas técnicas j referéncias na vida cotidiana: por exemplo, o uso de psicotr6picos para regular a tonalidade afetiva da relagao com o mundo. A desconfianga do corpo, ou melhor, a desconfianga de si, conduz ao recurso psicofarmacolégico a molécula que pretensamente produz 0 estado moral desejado sem se estar encontra nem um pouco doente. Tomam-se produtos para dormir, para acordar, para ficar em forma, pa ‘a ter energia, aumentar a meméria, suprimir a ansiedade, 0 estresse etc., tantas préteses quimicas para um corpo percebido como falho pelas exigéncias do mundo contemporaneo, para permanecer flutuando em um sistema cada vez mais ativo e exigente (Capitulo 2). A tecnociéncia persegue em sua escala (legitima) os tramites mintisculos e artesanais que os individuos isoladamente realizam em seu nivel, O corpo € muitas vezes considerado pela tecnologia como um rascunho a ser retificado, senao no nivel da espécie, pelo menos no nivel do individuo, uma matéria-prima a ser arranjada de outra forma. Uns e 22 Papirus Editora outros afirmam o carter disponfvel e provisério de um corpo sutilmente separado de si, mas colocado como o caminho propicio para fabricar uma presenga a altura da vontade de dominio dos atores. A instituigéo do corpo em laboratério publico ou particular € um dos dados elementares de nossas sociedades contemporaneas. A fantasia de um corpo liberado de seus antigos pesos naturais resulta principalmente no mito da crianga perfeita, fabricada pela medicina e carimbada como de boa qualidade morfolégi @ procriagao induz uma n¢a fora do corpo, fora da sexualidade. Alguns biGlogos e genética. A assistencia medic concep¢ao da cr até sonham em eliminar a mulher de toda a gestagao gragas 4 incubadora artificial. Nessa utopia, a existéncia pré-natal do individuo seria apenas ria. um percurso médico em que a mulher absolutamente nao € nece Uma vez concebida, a crianga é submetida a uma série de exames que analisam sua qualidade genét' a fisica. Exame temivel de entrada na vida que perpetua a suspeita de um corpo do qual ja a perfeigdo resulta de um procedimento técnico (Capitulo 3). ‘OU Sua apal A medicina deixa de se preocupar somente com cuidar, justificando- se dos “sofrimentos” po os dados genéticos; ela tornou-se uma instdncia normativa, um biopoder (Foucault), uma forma cientifica e cruel de enunciagao do destino; sem, no entanto, ser capaz de cuidar dos males em evidéncia, ela enumera as enfermidades inelutaveis ¢ as que talvez possam atingir as pessoas aos 40 ou 50 anos (coréia de Huntington etc.). Participa da triagem dos embriGes ou dos fetos de acordo com um procedimento de selegdo baseado na busca da “vida digna de ser vivida”, com 0 acordo dos pais, eliminando dessa siveis; ela intervém para dominar a vida, controlar maneira os portadores virtuais das doengas que nao se sabe curar. Uma das ora na eliminagao radical do doente potencial antes mesmo que ele consiga existir ¢ desenvolver sua doeng: Tornando-se vaticinadora, a medicina entra na era do virtual, decide o destino de uma crianga que ainda nao existe e j4 opera no Ovulo a selegao dos que vale ou nao a pena existirem (Capitulo 4). Procedimento socialmente mais econdmico do gue o que consiste em mudar as mentalidades para tornd-las aptas a acolher a diferenga. O virtual, figura de destaque da biologia ou do espago cibernético, por sua repercussio social, cultural, cientifica ou politica, assinala um novo paradigma da relagao formas de prevengio consiste « Adeus ao corpo 23 do homem com o mundo. Introduz rupturas simbédlicas inéditas cuja natureza antropolégica é colocada em questéo em sua capacidade de estabelecer ligagio e dar sentido e gosto de viver na escala do individuo, mas também na da sociedade em seu conjunto. Finalmente, 0 corpo € supranumerario, principalmente para certas correntes da cultura cibernética que sonham com seu desaparecimento. FE transformado em artefato, e até mesmo em “carne” da qual convém se livrar para ter, por fim, acesso a uma humanidade gloriosa. A navegacao na Internet ou a realidade virtual proporciona aos internautas 0 sentimento de estarem presos a um corpo estorvante ¢ intitil ao qual é preciso alimentar, do qual é preciso cuidar, ao qual é preciso manter etc., enquanto a vida deles seria tao feliz sem esse aborrecimento. A comunicagao sem rosto — sem carne — favorece as identidades miltiplas, a fragmentagao do sujeito comprometido em uma série de encontros virtuais para os quais a cada vez ele endossa um nome diferente, e até mesmo uma idade, um sexo, uma profissao escolhidos de acordo com as circunstancias. A cultura cibernética é muitas vezes descrita por esses adeptos como um mundo maravilhoso, aberto aos “mutantes” que inventam um novo universo — esse paraiso necessariamente nao tem corpo (Capitulo 5). A sexualidade cibernética realiza plenamente esse imaginadrio do desaparecimento do corpo e até do outro. O sexo é substituido pelo texto. Descreve-se ao outro o que se esté fazendo com ele por muitos sinais graficos que traduzem o gozo ou a emogao, O erotismo atinge o estigio supremo da higiene, eliminando © corpo fisico em proveito do corpo virtual Acabou-se 0 medo da Aids ou das doen até 0 cansago, nessa sexualidade angélica na qual é até possivel, gragas ao anonimato na Internet, escolher sexos e estados civis (Capitulo 6). exualmente transmissiveis, € Para muitos adeptos da Inteligéncia Artificial, a maquina decerto serd um dia pensante e sensivel, superando o homem na maioria de suas tarefas. Se a maquina estd se humanizando, o homem esta se mecanizando, A ciborguizagdo progressiva do humano, sobretudo em suas promes: de futuro, confunde ainda mais as fronteiras. Alguns jé reivindicam um direito das maquinas equivalente aos direitos do homem a fim de protegé- Jas das exagGes de seus usuarios. Se o cérebro é uma versio inferior do 24 Papirus Editora computador (aos olhos de alguns), esta, apesar de tudo, encerrado em uma carne de homem, e isso dé trabalho. O computador nao tem nem mesmo esse defeito. A radicalidade do discurso anuncia-se em pesquisadores que enunciam sua vontade de suprimir © corpo da condigéo humana, de telecarregar seu “espirito” no computador a fim de viver plenamente a imersdo no espago cibernético. O desabono do corpo revela entio sua dimensio total. Para alguns, o corpo nao esta mais a altura das capacidades exigidas na era da informagao, é lento, fragil, incapaz de memoria ete.; convém livrar-se dele forjando um corpo bidnico (isto é, ampla ou inteiramente ciborguizado), no qual se inseriria um disquete que contivesse 0 “espirito”. Trata-se nao apenas de satisfazer as exigéncias da cultura cibernética ou da comunicagado, mas simultaneamente de suprimir a doenga, a morte ¢ todos os entraves ligados ao fardo do corpo. O homem muda de natureza, torna-se Homo silicium (Capitulo 7). Certamente continuamos sendo de carne e, como conclusao, este livro é de fato um elogio sem reservas do corpo, mas os empreendimentos que pretendem o “melhoramento” da condigdo humana pela retificagio ou pela supresséo do corpo multiplicam-se diante de nossos olhos, suscitando 4s vezes mudangas temiveis, principalmente no campo genético. Levantam grandes questées antropolégicas sobre a condigio do homem, a relagio com a diferenga. A vontade de liquidar ou de transformar 0 corpo percebido como um rascunho provoca uma reviravolta no universo simbélico que constrdi a coeréncia do mundo Mas 0 homem virtual é um homem abstrato a quem ainda falta a existéncia (Abertura, p. 221, adiante). Trata-se do estabelecimento da seqtiéncia dos genomas, das manipulagGes genéticas, da fecundagao in vitro, dos exames pré-natais, da supressao radical dos corpos para certos adeptos da cultura cibernética, dos desempenhos do body art, da gestao farmacolégica de si, do consumo de anabolizantes para se muscular ou de anfetaminas para aumentar suas forgas ~a lista poderia prosseguir por muito tempo; os empreendimentos do extremo contemporfneo inventam um novo mundo niio despojado de ameagas no que diz respeito ao gosto e ao sentido de viver. Uma vontade de dominio, de enquadramento autoritério do vivo nio deixa qualquer detalhe ao acaso. As fronteiras ontolégicas dissolvem-se. Uma engenharia Adeus a0 corpo 25 bioldgica, da procriagao é a morte, cria o sujeito modificando seu corpo, interfere com ele na produgio de si ou do sentimento de si. Artificio e natureza deixam de ser categorias oponiveis (claro que jamais foram, mas jamais foram tao préximas), misturam-se. Se as referéncias culturais de sentido se apagam hoje em dia na profusao, se as religides perderam sua faculdade de agrupar os homens em torno de crengas comuns, muitos mlistas aproveitam a oportunidade e erigem-se sem saber em novos sacerdotes, fornecedores de certezas, anunciadores de amanhas que ts) louvam as mudangas espetaculares na genética ou no espaco cibernético, A técnica e a ciéncia, alias em profunda crise, s como provedoras de salvagiio. Esses discursos sio disparates, procedem muitas vezes de um puro imagindrio (mesmo se aquele que os profere esta convencido de sua verdade), de uma utopia, mas seu ponto comum, como tentaremos demonstrar, é fazer do corpo rebotalho. Seria mudando © corpo que o homem chegaria 4 fio colocadas por alguns Ivagaio Nao se trata de contestar a técnica ou a ciéncia, evidentemente, mas antes de analisar um certo tipo de discurso e praticas de teor inconscientemente religioso. Alias, o religioso estar se dissolvendo nos empreendimentos contemporaneos é bem traduzido pela extraordinaria banalizacao do fato de alguns pesquisadores se compararem a Deus apds criarem uma quimera biologica, criaturas artificiai virtuais. O fato de se considerar Deus por um momento tornou-se um dos tragos tipicos de nossas sociedades. ou outros procedimentos As fronteiras do corpo, que sao simultaneamente os limites de identidade de si, despedagam-se e semeiam a confusiio. Se 0 corpo se dissocia da pessoa e s6 se torna circunstancialmente um “fator de individuagao”, a clausura do corpo nao basta mais 4 afirmagao do eu, e entao toda a antropologia ocidental se eclipsa e abre-se para o inédito (Le Breton 1993, pp. 298 ss.). O corpo é escaneado, puri remanejado, renaturado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruido ou eliminado, estigmatizado em nome do “espirito” ou do gene “ruim”. Sua fragmentagdo é conseqiiéncia da fragmentagao do sujeito. O corpo é hoje um desafio politico importante, € 0 analista fundamental de nossas sociedades contemporaneas. cado, gerado, 26 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. deve se estender igualmente {sua aparéncia e nao deixar a carne inculta. “Ser o que se é torna-se uma performance efémera, sem futuro, um maneirismo desencantado em um mundo sem maneiras” (Baudrillard 1997, p. 22). O corpo tornou-se a prdtese de um eu eternamente em bus significativo de s de uma encarnagdo provisG6ria para garantir um vestigio . Intimeras declinagdes de si pelo folhear diferencial do corpo, multiplicagao de encenagdes para sobre-significar sua presenga no mundo, tarefa impossivel que exige tornar a trabalhar o corpo o tempo todo em um percurso sem fim para aderir a si, a uma identidade efémera, mas essencial para si e para um momento do ambiente social.' Para aderir com forg: existéncia. multiplicam-se os signos de sua existéncia de el sobre o corpo, Heléna Velena, profundamente implicada no cenario italiano da sexualidade telematica e do jogo sobre as identidades sexu: . escreve que (...) querer modificar-se, querer colocar o préprio corpo em relagdo com © proprio self. no é nem uma doenga, nem algo de que se deva ter vergonha, Mas algo a se reivindicar abertamente a luz do dia com orgulho Um hino a liberdade. Como nos ensina 0 transexualismo ou 0 sexo cibernético, (Velena 1995, p. 191) O corpo torna-se emblema do se/f. A interioridade do sujeito é um constante estorco de exterioridade, reduz-se A sua superficie. E preciso se colocar fora de si para se tornar si mesmo. Mais do que nunca, repetindo pele é 0 mais profundo”. A cirurgia estética aumentado por esse sentimento da maleabilidade do corpo. Sua transformagao em objeto a ser modelado traduz-se de imediato nos catdlogos que os cirurgiGes depdem nas salas de espera e que mostram aos clientes para propor uma intervengio precisa. Neles se véem 0 rosto, a por um desenvolvimento consideravel, 1, OsEstados Unidos apresentam hoje uma profusiio de multiple personality disorders (desordens da personalidade miltipla) no campo da psiquiatria e da justiga, isto €, uma sucesso de personatidades que habitam o mesmo individuo e que se impdem a ele, levando-o a agdes que em seguida ele nao reconhece (Behr 1995), Adeus ao corpo 29 ou o fragmento de corpo a ser modificado, e 0 resultado apés efetuada a operagio. Transmutagao alquimica do objeto errado. Na gama das interveng © cliente escolhe a que proporcionara ao seu rosto ou ao seu corpo a forma que lhe convém. Seios cheios de silicone, modificados por préteses ou remodelados, varios tipos de liftings do rosto, labios reconstituidos por injegdes, lipoaspiragdes ou retalhamento da barriga ou das coxas, cabelos repicados, implantes subcutaneos para induzir as proporgées fisicas desejadas etc. Maneira de reduzir 0 desvio experimentado entre si e si. Além dos imperativos de aparéncia e juventude que regem nossas sociedades, muitas vezes os que usam a Cirurgia estética sao individuos em crise (por divércio, desemprego, envelhecimento, morte de um préximo, ruptura com a familia ete.), que encontram nesse recurso a possibilidade de romper de uma vez coma orientacao de sua existéncia, modificando os tragos de seu rosto ou o aspecto de seu corpo. A vontade esta na preocupagao de modificar o olhar sobre si e o olhar dos outros a fim de sentir-se existir plenamente. Ao mudar o corpo, o individuo pretende mudar sua vida, modificar seu sentimento de identidade. A cirurgia estética ndo é a metamorfose banal de uma caracteristica f NO rosto Ou No corpo; ela opera, em primeiro lugar, no imaginario e Sica exerce uma incidéncia na relagdéo do individuo com o mundo Dispensando um corpo antigo mal amado, a pessoa goza antecipadamente de um novo nascimento, de um novo estado civil (Le Breton 1992). A cirurgia estética oferece um exemplo impressionante da consideragao social do corpo como artefato da presenga e vetor de uma identidade ostentada. Dominio do corpo A relacio do individuo com seu corpo ocorre sob a égide do dom{nio de si. O homem contemporaneo é convidado a construir 0 corpo, conservar a forma, modelar sua aparéncia, ocultar o envelhecimento ou a fragilidade, manter sua “satide potencial”. O corpo é hoje um motivo de apresentagao de si. Para Richard Sennett, a cultura do corpo é uma forma moderna da ética protestante (Sennett 1979, p. 269). J.-. Courtine 30 Papirus Editora af vé “uma das formas essenciais de compromisso, passado pela ética puritana, com as necessidades do consumo em massa. Ai se descobre assim nado um desaparecimento das proibigdes, mas, em vez disso, uma nova distribuigao de coergdes” (Courtine 1993, p. 242). O extremo contemporaneo erige 0 corpo como r homem por meio do qual é avaliada a qualidade de sua presenga e no qual ele mesmo ostenta a imagem que pretende dar aos outros. “E por seu corpo que vocé é julgado e cl. de nossas sociedades contemporaneas. Nossas sociedades consagram 0 corpo como emblema de si. E melhor construi-lo sob medida para derrogar ao sentimento da melhor aparéncia. Seu proprietario, olhos fixos nele mesmo, cuida para torna-lo seu representante m: condigées sociais e culturais dos individuos certamente matizam essa consideragao, mas esse é pelo menos 0 ambiente de nossas sociedades com relagao ao corpo. Se em todas Ss 0 corpo é uma estrutura simbolica (Le Breton 1990; 1993), torna-se aqui uma escrita altamente reivindicada, embasada por um imperativo de se transformar, lidade em si, como simulacro do ificado”, diz, em suma, 0 discurso vantajoso. As s sociedades huma de se modelar, de se colocar no mundo. A colocagio em signo perseguida por todas aqui se torna uma encenagao deliberada de si com intimeras variagGes individuais e sociais, que fazem do corpo um material a ser lavrado segundo as as sociedades de acordo com seus usos culturais orientagdes de um momento Em uma sociedade de individuos, a coletividade de pertinéncia so fornece de maneira alusiva os modelos ou os valores da agao. O proprio sujeito é o mestre-de-obras que decide a orientagiio de sua existéncia. A partir de entio, o mundo é menos a heranga incontestavel da palavra dos mais velhos ou dos usos tradicionais do que um conjunto disponivel & sua soberania pessoal mediante o respeito de certas regras. O extremo contemporaneo define um mundo em que a significagao da existéncia é uma decisao prépria do individuo e nao mais uma evidéncia cultural. A relagaéo com o corpo depende menos da evidéncia da identidade consigo mesmo do que daquela de agora em diante de um objeto a sublinhar na representagao de si. E importante gerir seu proprio corpo como se gerem outros patriménios do qual o corpo se diferencia cada vez menos. O corpo tornou-se um empreendimento a ser administrado da melhor Adeus ao corpo 31 maneira possfvel no interesse do sujeito e de seu sentimento de estética. O selo do dominio & 0 paradigma da relagio com o préprio corpo no contexto contemporaneo. Todo corpo contém a virtualidade de inumeros outros corpos que o individuo pode revelar tornando-se 0 arranjador de emas sociais sua aparéncia e de seus afetos. O desinvestimento dos sis de sentido conduz a uma centralizagio maior sobre si. A retirada para 0 corpo, para a aparéncia, para os afetos é um meio de reduzir a incerteza buscando limites simbélicos o mais perto possivel de si. S6 resta 0 corpo para o individuo acreditar e se ligar. O transexualismo ou o fora do sexo O corpo do transexual é um artefato tecnolégico, uma construgéio cirlirgica e hormonal, uma producao plastica sustentada por uma vontade firme. Brincando com sua existéncia, 0 transexual entende assumir por um momento uma aparéncia sexual de acordo com seu sentimento pessoal E ele préprio, e nao um destino anatémico, quem decide seu sexo de eleigao; ele vive por meio de uma vontade deliberada de provocagao ou de jogo, O transexual suprime os aspectos demasiado significativos de sua antiga corporeidade para abordar os sinais inequivocos de sua nova aparéncia. Modela para si diariamente um corpo sempre inacabado, sempre a ser conquistado gracas aos hormGnios e aos cosméticos, gragas as roupas e ao estilo da presenga. Longe de serem a evidéncia da relagio como mundo, feminilidade e masculinidade sao 0 objeto de uma produgaio permanente por um uso apropriado dos signos, de uma redefinigao de si conforme 0 design corporal, tornam-se um vasto campo de experimentagao. A categoria sexual do masculino sobretudo é questionada profundamente. “Para a imaginagio masculina”, diz Cooper, (...) 0 transexualismo € uma experiéncia desconcertante, pois ocorre na terra de ninguém entre « homo e a heterossexualidade incubadas em cada um de nés. Quando vocé brinca com um transexual é como se satisfizesse uma curiosidade infantil de ver-tocar, de sentir como sio feitos os homens como vocé, sem, no entanto, abandonar a perturbagao do encontro com uma mulher. (1997, p, 86) 32 Papirus Editora H. Velena exagera, colocando 0 transexualismo (...} como uma identidade da nao-identidade, ou melhor, uma reivindicagdo de si que nasce de néo se sentir ligado a uma situa definida e definitiva, mas, ao contrario, em transito, em transform: em relago, em fluxo. O transexualismo é para quem tem barba e quer sair de minissaia, quer apenas lamber os pés de seus pareeiros, gosta de ser amarrado, ou tem seios magnificos, mas também um pénis perteito.. (1995, p. 211) Vontade de conjurar a separagao, de nao fazer mais sexo (do latim secare: cortar), nem um corpo, nem um destino, mas uma decisao, ¢ sobretudo de se libertar para se inventar e colocar a si mesmo no mundo. O transexual € um simbolo quase caricato do sentimento de que 0 corpo é uma forma a ser transformada. Da mesma maneira, ele se decide pela nostalgia da indifé que obseda muitas praticas da modernidade —veremos esse fato de maneira radical no universo das procriagdes sob éncia médica ou na fantasia de suprimir a mulher na gravidez em proveito de uma incubadora artificial. D. Welzer-Lang mostra a importancia da prostituicio transexual na cidade de Lyon; ele observa o jogo de signos que torna indefinivel a identidade de um sujeito inteiramente em relagdo ludica com os outros: rencia ass O que dizer dessa prostituta que se apresenta como mulher nas primeiras conversas e fala em nome das mulheres, informa-nos rapidamente que, na realidade, estamos diante de um transexual ¢ que, um ano depois, reivindica sua identidade masculina ¢ sua qualidade de travesti? O que ndo o impede, alids, de viver o essencial de sua vide social como uma mulher. (Welzer-Lang er al, 1994) Adepto de uma sexualidade multiforme, Cooper explica bem esse sucesso, evocando a busca de experiéncias insdlitas: O transexual vai the parecer estranho, diferentemente da mulher que se prostitui, € uma criatura desejante. Como se desenvolve de fato uma noitada de prostituigao: uma quantidade enorme de clientes pede-Ihe para ser sodomizada. E isso que os excita, a sensagao de serem sodomizados por uma muther, (1997, p. 87) Adeus ao corpo 33 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. Fakir Musafar, Jim Ward...). Jim Ward abre a primeira loja de piercing em 1975 em Los Angeles, onde comercializa jdias especificas que obtém um imenso sucesso. As Jojas multiplicam-se nos Estados Unidos e depois na Gra-Bretanha e alcangam por fim o resto da Europa. O mesmo grupo cria a revista PFIQ (Piercing Fans International Quarterly). O sucesso das marcas corporais cresce associado a idéia implicita de que o corpo é um objeto maledvel, uma forma provis6ria, sempre remanejavel, da presenga fractal propria. Elas escapam dos lugares marginais do sadomasoquismo, do fetichismo ou do punk, absorvidas por aquilo que se convencionou chamar as “tribos urbanas” (punk, hard rock, techno, grunge, bikers, gays etc.), € propagam-se para 0 conjunto da sociedade por intermédio da alta-costura, principalmente dos manequins de Gautier, com uma predileg&o pelas geragdes jovens que crescem no ambiente intelectual de um corpo inacabado e imperfeito, cuja forma o individuo deve completar com seu préprio estilo. Os estidios de tatuagem e de piercing multiplicam-se e acentuam a demanda. A mitologia da marcagao corporal esta presente desde seus primeiros passos com suas palavras Fakir Musafar (nascido em 1930), um dos principais artesdos do movimento dos “primitivos modernos”, descreve assim sua esfera de influéncia: “Todas pessoas nao-tribais que reagem a uma urgéncia primal e que fazem alguma coisa com seu corpo”. O personagem merece que nos demoremos nele, pois é emblematico das relagdes do extremo contemporaneo com o corpo. Desde sua infancia, experimenta uma profusio de modificagdes corporais que ele muitas vezes apresenta em pliblico, Apaixonado por uma reportagem do National Geographic, aos 12 anos, encerra a cintura num espartilho justo para se parecer com um adolescente apertado em um cinto-ritual de uma fotografia que o impressionou. No ano seguinte, realiza seu primeiro piercing no prepticio e, a seus olhos, estabelece simbolicamente 0 momento de nascimento dos moderns primitives. Passa horas fazendo o piercing com um broche finamente lapidado; vive essa metamorfose de seu corpo como uma experiéncia espiritual. Adolescente, prossegue sua busca pessoal, tatuando ele mesmo seu peito. Traspassa 0 nariz, as orelhas, enfia agulhas em seu corpo. A dor nao o afeta, porque ele a controla, mas, gragas a esses have: tribalismo, primitivismo etc. 36 Papirus Editora momentos em que se arranca do comum, vive estados de consciéncia alterada que tenta reproduzir.* Aos 17 anos, jejua, priva-se de sono e amarra-se com correntes apertadas e pesadas a um muro, ali agitando-se durante horas. Atinge uma espécie de Extase ~ os pés e os bragos entorpecidos, a beira da asfixia. Consegue, contudo, livrar-se das correntes e desmorona, nao sentindo mais a menor sensacgdo em certos membros. Esse momento 6 contudo, uma iluminagdo. Depois. faz inimeras experiéncias corporais em situagGes extremas: recobre todo o seu corpo com uma pintura dourada que impede a respiracao tegumentar; pendura com anzdis no peito objetos pesados; suspende cargas em seus piercings, sofre, com todo conhecimento de causa, uma operagdo que lhe permite o alongamento de seu pénis sua faculdade genés companheira; enfia espartilhos muito aperta alfinetes, de laminas. Usa uma estrutura de me! yacei gragas a pesos que a ele fi a, dessa maneira, perder ae Vive outras formas de sexualidade com sua los; deita-se numa cama de al inspirada nos disefpulos hindus de Siva, constituida de uma série de longas pontas de metal que penetram em seu corpo e formam uma espécie de leque em torno dele. Suspende-se em ganchos cravados em seu peito ou em todo © seu corpo etc. Sua pele é recoberta de tatuagens e piercings. Ao Ihe perguntarem sobre o significado de sua conduta, evoca o prazer que sente em certas ages e os estados de éxtase que experimenta com elas, Fakir Musafar é um exemplo impressionante do “primitivismo moderno”, isto é, dessa colagem de praticas e de rituais fora de contexto, flutuando em uma eternidade indiferente, longe de seu significado cultural original, muitas vezes ignorado por aqueles que o empregam transformando-o em performances tisicas. Mas essas experiéncias nem por isso deixam de revestir formas de sagrados intimos que tornam sua realiza particularmente intensa 3. “Anegatividade da dor (sensagio forte e inesperada) s6 existe para os ndo-preparados. Se voce liver treino suficiente, conhecimento e pritica. pode superi-ia, transformé-la ou conver no que quiser... Eo que fago quande me pendure com ganchos na pele. As pessoas dizenv “Isso deve doer demais’. Respondo: ‘Nao, ¢ extitico, é belo™ (Re/Search 1989, p. 13). ‘Tomnamos a encontrar esse fuseinio pets dor em outras praticas tratadas neste capitulo. la Adeus ao corpo 37 Em intimeras sociedades humanas as marcas corporais sao associadas a ritos de passagem em diferentes momentos da existéncia ou entio sao vinculadas a significados precisos dentro da comunidade. A tatuagem tem, dessa maneira, valor de identidade; expressa, no préprio Amago da carne, o pertencer do sujeito ao grupo, a um sistema social; precisa as fidelidades religiosas; de certa forma humaniza, por meio desse confisco cultural cujo valor redobra o da nominagdo. Em certas sociedades, a leitura da tatuagem informa a inscrigao do homem em uma linhagem, um cla, uma faixa etéria; indica um stats e fortalece a alianga. E impossfvel se misturar ao grupo sem esse trabalho de integrag%o que 0s signos cutineos imprimem na carne. Ao contrario, para os “primitivos + Sua dimen: fisicos é o que conta primeiramente, mesmo se as vezes a preocupag’io de sua significagao de origem é simplificada para entrar em um outro contexto social e cultural. Fakir Musafar nao cessa de evocar as modernos estética ou sua qualidade de desempenhos comunidades tradicionais, cujos usos recupera por conta propria, desviando-as, a fim de viver momentos de éxtase. Os ritos tradicion: sao folclorizados & maneira de uma mascara dos espiritos exposta por tras dos vidros de um museu; eles transformam-se em signos indiferentes aseu contetido dos quais s6 importa 0 valor de representagio para nossas sociedades ocidentais contemporaneas. Tatto Mike, cujo corpo € quase inteiramente tatuado, 0 rosto inclusive, apresenta bem a filosofia do primitivismo moderno ao falar de suas inémeras marcas corporais tiradas de “desenhos que vai combinadas espécie de psicodélico das diferentes culturas” (p. 39). Fakir Musafar, alias, melindrou os indios mandans nos quais se inspirou para o termo de “danga do sol” quando se pendurava com ganchos no peito e outros pontos do corpo. Estes conseguiram que ele dei termo.* As marcas corporais entram num sincretismo radical. © dos samoanos aos indios. em uma se de utilizar esse Para Mark Dery, 0 primitivismo moderno é uma (...) eategoria que recobre tudo, que compreende os fis do tecno-hard- core ¢ da dance-musie industrial: os fetichistas da escravidao: os artistas 4. Sobre Fakir Musafare sobre os Modem primitives, remetemos wos documentos de Re/Search (1989), 38 Papirus Editora de performances; os tecno-pagdos: finalmente os que gostam de pendurar-se com ganchos subcutineos ¢ outras formas de mortifi ritual ou de “jogo corporal”, que pretensamente produzem alterados. (1998, p. 288) Flutuagdo de signos que assim am de uma “tribo urbana” a outra ou se apresentam como pura estética paradoxal entre individuos que apreciam suas formas e delas se apropriam sem preocupar-se com sua origem, desviando mais uma vez marcas que j4 vieram de outro contexto social e cultural. Alguns usuidrios de piercings gostam da idéia de ter metal no corpo. As tatuagens biomecanicas repres tecnicizagao metaforica do corpo: circuitos eletrénicos, chips, maquinas entam uma cibernéticas, formas geométricas ou ainda desenhos de monstros safdos da cultura cibernética e principalmente dos videogames. Muitas vezes 0 estilo tribal mistura-se ao estilo biomecanico, ja que sao possiveis todas as variagGes, havendo intercémbio de signos pelo prazer. O signo tegumentar €, a partir de entio, uma maneira de escrever :uma relacdo amorosa, uma conivéncia de amizade ou politica, uma mudanga de status, metaforicamente na carne os momentos-chave da existénci uma lembranga em uma forma ostentat6ria ou discreta, na medida em que seu significado permanece muitas vezes enigmatico aos olhos dos outros e o lugar mais ou menos acessivel a seu olhar na vida cotidiana. Ele €é mem6ria de um acontecimento forte, da superagao pessoal de uma passagem na existéncia da qual o individuo pretende conservar uma lembranga. Uma reivindicagao de identidade que faz do corpo uma escrita com relagao aos outros, uma forma de protegao simbélica contra a adversidade, uma superficie protetora contra a incerteza do mundo. A marca tegumentar ou a joia do piercing também sao modos de filiagao a uma comunidade flutuante, muitas vezes com uma cumplicidade que se estabelece de imediato entre aqueles que a partilham. Inscrevem-se também como atributos de um estilo mais amplo que assinala a adesao a uma comunidade urbana particular. Rito pessoal para mudar a si mesmo mudando a forma do corpo. O individuo manipula as referénci as tradigGes e constréi um sincretismo que se ignora — a experiéncia da marca torna-se, entao, uma experiéncia espiritual, um rito intimo de passagem (Jeffrey 1998; Le Breton 1991). Adeus ao corpo 39 As marcas corporais implicam igualmente uma vontade de atrair o olhar, de fabricar uma estética da presenga, mesmo se 0 jogo permanece possivel de acordo com 0s locais de inscrigao, estejam elas permanentemente sob o olhar dos outros ou somente daqueles cuja cumplicidade se busca. Permanecem sob a iniciativa do individuo e encarnam, entio, um espaco de sacralidade na representagdo de si. A superficie cutanea irradia com uma aura particular. Acrescenta um suplemento de sentido e de brincadeira A vida pessoal. E muita vivida como a reapropriagao de um corpo e de um mundo que e: ai se inscreve fisi vezes capam; ‘amente seu vestigio de ser, toma-se posse de si mesmo, inscreve-se um limite (de sentido e de fato), um signo que restitui ao sujeito o sentimento de sua soberania pessoal. A marca € um limite simbdlico desenhado sobre a pele, fixa um batente na busca de significado e de identidade, é uma espécie de assinatura de si pela qual o individuo se afirma em uma identidade escolhida. De maneira significati latuagem na prisdo traduz uma resisténcia pessoal a eliminagao da identidade induzida pelo encarceramento que entrega 0 tempo ¢ 0 Corpo a investigagao permanente dos mbol dissidéncia interna, sublinhando que a perda de autonomia é proviséria, que 0 corpo permanece sua posse propria e inalienavel, a marca nado lhe pode ser subtraida (Saunders 1989, p. 40). Na falta de exercer um controle sobre sua existéncia, 0 corpo é um objeto ao alcance da mao sobre o qual asoberania pessoal quase nao encontra entraves. O estigma simbolizava a alienacgdo ao outro na sociedade grega antiga: hoje, ao contrario, a marca corporal ostenta 0 pertencer a si. Traduz a necessidade de completar por iniciativa pessoal um corpo por si mesmo insuficiente para encarnar a identidade pessoal. guardas. Para o detento. uma Body building Ao contrai das pretensdes de certas correntes da Inteligéncia Artificial que negam qualquer importancia ao corpo para tornar o homem um puro espirito-computador, 0 body builder reafirma, com 0 mesmo radicalismo (ou ingenuidade), o dualismo entre 0 corpo e o espirito, 40 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. corpo pacientemente fabricado, trabalhando sucessivamente feixes de miisculos seguindo uma analitica meticulosa da carne. O uso lancinante das maquinas cumpre sua fungdo: aos poucos, estas parecem penetrar 0 corpo e entrar em sua composigao, sustentam o body builder na paisagem técnica da sala de musculagao.5 Em uma relagao com 0 espelho mediatizada pelas ferramentas de modelagem de si, 0 body builder é uma fortaleza de musculos intiteis em sua fungao, pois para ele nao se trata de exercer uma atividade fisica em um canteiro de obras ou trabalhar como lenhador em uma floresta canadense. E buscada a forga muscular em si, em sua dimensao simb6lica de restauragio de identidade. O miisculo nao tem incidéncia em uma sociedade onde as atividades que exigem forga tendem a desaparecer substituidas pelas maquinas, paradoxo (aparente) em uma sociedade que tende a cultura cibernética, na qual, como veremos, 0 corpo é muitas vezes considerado obsoleto, O body builder, 0 construtor de corpo, constré fisicos, a cada dia os enfrenta em uma ascese fisica baseada em exercicios repetitivos; em um mundo de incerteza, constrdi passo a passo um containing que lhe permite permanecer senhor de si, ou pelo menos se produzir sinceramente a ilusdo de ser enfim ele mesmo.® Assume seu corpo como uma segunda pele, um sobrecorpo, uma carroceria protetora, com a qual se sente finalmente protegido em um universo do qual controla todos os parametros. Aqui encontramos a dor como enfrentamento simb6lico no limite e batente provisério de uma identidade a ser construfda (Le Breton 1995).’ A sala de musculagiio é muitas vezes seus limites 5. P. Schelde fala com ironia do ator Arnold Schwarznegger, por muito tempo modelo absoluto do body builder: ele “é como a pega de uma tecnologia poderosa: voce aperta um botdo € ele comega a fu escreve ele construido, realcado pelos esterdides, que integra um espirite imteligente que executa os programas, mas poucas coisas além disso” (Schelde 1993, p. 203). 6. Aeesse respeito, ver as andlises de M. Dery (1998), 7. Abordamos demoradamente a relagdo intima com a dor muscular nas esportivas que exigem 0 maximo do corpo (1991, 1995); nao voltaremos a elas ak encontramos em muitas atividades sociais essa mesma passagem obrigat6ria pela dor para f ‘sentido, A cultura sadomasoquista, que os punks tiraram de seus ateliés na Inglaterra dos anos 70¢ que virou igualmente moda, também esti se desenvolvendo sensivelmente. Trata-se também nese caso de produzir uma dor significante para 0 ator em uma relagio ritualizada com um outro leva a al m lugar, final décil, © corpo » corpo almente décil: 0 computador \dades fisicas ¢ i, mas ricar Adeus ao corpo 43 comparada a uma cfmara de tortura. Quanto mais se sofre, mais os mtisculos se desenvolvem e so valorizados. Ao mesmo tempo, a dor converte-se em um gozo difuso que os bedy builders muitas vezes comparam com 0 ato sexual. A sensagao vem ai substituir 0 sentido; o limite induzido pelo corpo substitui aquele que a sociedade deixou de fornecer e que se deve elaborar de maneira pessoal. Body art A body art contemporanea, da qual daremos aqui principalmente os exemplos significativos de Orlan e de Stelare, ilustra a condigao inédita de um corpo transformado em objeto. O primeiro periodo da body art inscreve-se no clima politico dificil do engajamento americano no Vietna, da guerra fria, da descoberta da droga, da reviravolta das relagGes homem- mulher, do questionamento da moralidade antiga, principalmente por meio da liberagdo sexual, do culto do corpo. Coloca em jogo uma éncia aguda do desmembramento entre as possibilidades de desenvolvimento individual e 0 encerramento das sociedades em uma 0 moral e sobretudo comercial. As palavras de ordem de sformar a sociedade (Marx) e de mudar de vida (Rimbaud) conjugam sua forga critica contra as proibigées de um mundo obstinado em perdurar apesar de suas desigualdades e de suas injustigas. A consciéncia infeliz de certos artistas é viva e conduz a formas radicais de express6es artisticas, O corpo entra em cena em sua materialidade. A incorporagao da arte como ato inscrito no efémero do momento, inserido em um ritualismo combinado ou improvisado segundo as interagdes dos participantes, contesta os funcionamentos sociais, culturais ou politicos por um engajamento pessoal imediato. A body art é uma critica pelo corpo das condigées de existéncia. Oscila de acordo com os artistas e as performances entre a radicalidade do ataque direto 4 carne por um exercicio de crueldade sobre si, ou a conduta simbélica de uma vontade de perturbar o auditério, de romper a seguranga do espeticulo. As performances questionam com forga a identidade sexual, os limites corporais, a resisténcia fisica, as relagdes homem-mulher, a sexualidade, © pudor, a dor, a morte, a relagiio com os objetos etc. O corpo é o lugar 44 Papirus Editora onde o mundo é questionado. A intengao deixa de ser a afirmagdo do belo para ser a provocagio da carne, 0 virar do avesso 0 corpo, a imposigao do nojo ou do horror. O realce das matérias corporais (sangue, urina, excremento, esperma etc.) esboga uma dramaturgia que nao deixa os espectadores ilesos ¢ em que © artista paga com sua pessoa, pelo corpo, sua recusa dos limites impostos a arte ou a vida cotidiana. A vontade de atingir 0 outro fisicamente esta muitas vezes presente no exagero das alt des OU da encenagao. O espectador sente-se tocado, participa por procuragao dos sofrimentos do artista (ou daquilo que o espectador deles imagina). Para a body art, © corpo é um material destinado as fanta provocagoes, as intervengGes concretas. Em um gesto ambivalente em que o desprezo se mistura intimamente com © elogio, 0 corpo & reivindicado como fonte de criagao. Nos antipodas da abstragiio ¢ da arte conceitual, os artistas pkisticos querem de certa forma, por meio desse novo pathos, “colocar debai do nosso nariz” aquele que se tendia a esquecer ou a se despersonalizar sob 0 artificio: esse corpo banal. feio, cotidiano, inconstante, sotredor, bem mais do que um corpo estetizado e em seguida distanciado por uma espécie de couraca. (Maisonneuve ¢ Bruchon-Schweitzer 1981, p. 169) Sangue, muisculos, humores, pele. 6r sto colocados em ociados do individuo e tornam-se elementos da obra. evidéncia. dis “Corpo sem 6rgaos”, disponivel para todas as metamorfoses ¢ até para seu suplicio ou para seu desaparecimento, para sua hibridagio animal ou sexual quando os artistas operam sobre o travestismo das roupas ou mesmo corporal, subvertendo as formas orgdnicas. Contudo, a dor nao é a, nem mesmo é um limite — é indiferente, ninguém se detém nela. Na pior das hip6teses é uma valorizada, néo é redentora ou inicia lembranga irris6ria da “carne”, 0 protesto de uma carne vivida como uma maquina corporal que as tecnologias contemporaneas tornaram obsoleta. As extragdes e os transplantes de 6rgiios, as mudangas hormonais ecirtirgicas de sexo, as manipulag6es genéticas, o morphing, a informatica Adeus ao corpo 45 ete, modificaram radicalmente os desafios e 0 contexto da body art. Seo corpo dos anos 60 encarnava a verdade do sujeito, seu ser no mundo, hoje ele nao passa de um artificio submetido ao design permanente da medicina ou da informati orguizado etc. Em outros tempos suporte da identidade pessoal, seu status hoje é muitas vezes o de um acessério. Diferentemente da primeira Tornou-se aut6nomo com relagao ao sujeito, ci rtistas fase da body art, na época da Internet e das viagens espaciais, pos-modernos ou pés-/enanos consideram insuportavel possuir o mesmo corpo que o homem da idade da pedra. Pretendem algar 0 corpo a altura da tecnologia de ponta e submeté-lo a uma vontade de dominio integral, percebendo-o como uma série de pegas destacaveis e hibridaveis a maquina. O corpo € 0 centro do trabalho de Orlan ha muito tempo. Num primeiro tempo, ela expde seus humores orginicos e usa 0 obsceno. Transforma o lengol dado por sua mae para o enxoval de casamento em cama de seus muitos amores que o maculam, nele imprimindo os vestigios do desejo; ela os compila com marcadores, lapis, bordados etc. Em seguida expe esse recalcado do corpo erigindo a intimidade em local de publicidade. As manchas de esperma de seus amantes, as vezes misturadas com 6 sangue de sua menstruagio, formam a trama da obra. O corpo é material; se é templo, é apenas para profanagio. Uma outra performance arvorava seu “sexo (os pélos de um lado dele estavam pintados de azul), no momento da menstruagao. Um monitor de video mostrava a cabega daquele ou daquela que ia ver; um outro, a cabega daqueles ou daquelas que estavam vendo” (Orlan 1997, p. 35), Quando do Beijo do artista, cinco francos, ela beija homens e mulheres que pagaram a soma. Es: era a obra do momento e a proposta feita ao ptiblico de entrar no efémero da criagdo partilhando um momento de intimidade com a artista. Em Lisboa, ela veste uma casula de tecido opaco sobre a qual mandara reproduzir em tamanho natural seu corpo nu. Ostentagao paradoxal de uma nudez que nao é nudez, mas que produz seus efeitos de provocagao nos transeuntes e nas autoridades. Para Orlan, a pele é um espdlio cujo design se modifica 4 vontade. O corpo é um ready made, mas que deve ser sempre retomado em busca de novas versdes de si que dio forma a “um auto-retrato no sentido classico do termo com os meios tecnolégicos 46 Papirus Editora disponiveis atualmente. Oscila entre desfiguracdo e uma nova figuragiio, inscreve-se na carne, pois nossa época comega a dar-lhe a possibilidade” (Orlan 1997, p. 1). A cirurgia estética é uma medicina destinada a clientes que nao estao doentes, mas que querem mudar sua aparéncia e modificar, dessa maneira, sua identidade, provocar uma reviravolta em sua relagao com o mundo, nao se dando um tempo para se transformar, porém recorrendo a uma operagdo simbolica imediata que modifica uma caracteristica do corpo percebida como obsticulo 4 metamorfose. Medicina pés-moderna por exceléncia — por sua preocupacio de retificagao pura do corpo —, baseia-se em uma fantasia de dominio de si do cliente e na urgéncia do resultado, Orlan desvia para seu uso pessoal, sem referéncia 4 enfermidade ou ao sofrimento moral, uma cirurgia que se presta as suas fantas s—a tarefa nao é aumentar sua sedugdo, nem lutar contra o envelhecimento ou corrigir uma imagem desacreditada de si, mas apenas experimentar Os possiveis corporais, assumir uma carne de segunda mao, maledvel e desejada como tal, 4 maneira de uma roupa emprestada de um guarda- roupa infinito. A cirurgia funciona aqui fora da legitimidade médica, torna-se um meio de transformagio de si e de criagao de uma obra de arte que se identifica a forma fisica do préprio sujeito. Apés a anestesia da dor gragas a uma peridural, 0 cirurgido e os membros de sua equipe, todos vestidos por grandes costureiros, comegam a trabalhar, seguindo uma dramaturgia meticulosa. Uma cerimonia barroca mescla a dang: palavra, a pintura 4 imagem de video ou a fotografiz plisticas, a carne ea A performance é substituida por video ¢ é difundida simultaneamente em diferentes galerias ou museus em Paris, Toronto, Nova York etc. A cena da operagio torna-se uma 0 teatro, d S artes sistemas de oficina, e a intervengdo cirtirgica, o espetaculo, m. obra apresentada, Fotograt sangue e gordura do artista prolongam a performance e seu registro em video. mbém parte da . desenhos, pinturas, relicdrios que contém Ela escolhe para si uma forma fisi corpo sob medida pela cirurgia, ou melhor, cinzela-o segundo um catdélogo de citagdes corporais ligadas 4 histéria da arte (a Gioconda, Psique, Diana, Vénus, Europa ete.) . faz com que recortem seu ; ela escreve a si mesma fisica e alegremente como Adeus ao corpo 47 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. ntimero de ocidentais, mesmo onde nao existe qualquer patologia. As tecnologias nao se contentam mais com envolver a vida cotidiana — elas insinuam-se no amago da intimidade para aliviar 0 individuo de seu esforgo de amansar o fato de viver. E este se entrega a elas quanto aquilo que deve sentir do mundo que 0 cerca. A programa ica de si estende ‘io farmacolég os poderes do homem sobre seu universo comum. Os psicotrépicos se oferecem como auxiliares técnicos de existéncia, modulando o angulo de abordagem do cotidiano, estabelecendo uma fantasia de dominio de si diante da turbuléncia do mundo, concorrendo para a ciborguizagao do individuo, para a eliminagao de fronteiras entre o que depende de nés em um comportamento e 0 que cabe a uma técnica exterior. O recurso aos instrumentos de g » de si sup6e a confian uma vontade pessoal onipotente, apta a dirigir as condutas e 6 humor. O paradoxo dessa vontade € claramente abdicar a qualquer vontade, entrega a onipoténcia imaginaria ou real do produto consumido. A decisio do individuo intervém apenas no fio ténue que orienta a escolha da substancia para provocar o estado desejado. Quanto ao resto, 0 individuo permanece nos trilhos, segue linhas de forga decididas anteriormente. A afetividade € entregue 4 razao, ao mesmo tempo subordinada ao individuo e subordinando-o. em ndo-se O prozac é um antidepressivo, objeto de enorme sucesso do outro lado do Atlantico, Provedor de uma quimica da felicidade, ferramenta que multiplica a energia, depurador da relag modifica a taxa de serotonina; relativamente eficaz contra a depres também muito admirado pelos individuos perfeitamente integrados e que se sentem bem em sua pele. Desviado de seu destino clinico inicial, solicitam-se entio suas propriedades que estimulam a psique. Os homens Zo com 0 mundo, sua ago ao, é publicos carregados pelas asas do sucesso reivindicam toma-lo regularmente para melhorar seu desempenho, Ajuste técnico da relagao cia desejada, mais do que busca de um outro modo de vida em harmonia com as capacidades pessoais, 0 psicotropico ins com 0 pre com o mundo no sentido de uma efi e como protese do sentido. O leque de tratamentos c & ampl norexia, ang) citimes, fobia, distirbios da atengao, da alimentagiio, depre: stia, bulimia, dors uma perspectiva quase religiosa, os adeptos do prozac nao temem Adeus ao corpo 63 acrescentar 4s curas obtidas a do autismo e a da esquizofrenia. Ao contrario dos outros antidepressivos que provocam efeitos colaterais nada despreziveis, o prozac, bem dosado, tem a fama de nao provocar muito Prec in 0, campo de agiio vasto e auséncia de efeitos colaterais, todos os edientes esto reunidos, observa A. Ehrenberg, para alimentar 0 “mito da droga perfeita” (1995, p. 145). M. Narden escreve sem ironia que, em no: sociedades contemporaneas, 0 estilo de vida conduz a “uma iéncia de prozac”. Nos EUA, © uso dessa droga é claramente desvinculado dos imperativos médicos e da resolugao quimica do sofrimento mental. Torna-se um produto de consumo comum como as vitaminas, uma engenharia quimica a disposigio do usuario. E consumido pelos indivfduos que querem assumir um dominio de si com a preocupacio de amplia dos recursos afetivos e intelectuais. A identidade cinzela-se quimicamente quando se recorre judiciosamente aos produtos apropriados. E 0 prozac é€uma ferramenta de primeira da paleta disponivel para as modificagdes quimicas do comportamento. Arraiga 0 sujeito, expurgando os tragos que 0 incomodam e simulando os que ele deseja como um cosmético afetivo. Proporciona o dominio sobre si por meio de uma alquimia ideal: nao sermos mais nds mesmos para sermos finalmente nds mesmos; retificarmo-nos 4 maneira de um esbocgo que, por fim, chega ao texto final. Autor de uma apologia do produto, P. Kramer escreve que seus defi cdo das possibilidades pessoais, da otimizagao pacientes tratados dessa maneira “sentem-se melhor do que bem” Produgdo farmacolégica de si “O érgiio de humor” é um meio privilegiado para permanecer firme em um ambiente que foge aos esforgos do individuo. Consomem-se seus 3. Os usuudrios mais criticos apontam, contudo, ma jestagdes de violéncia, tendéncias suicidas tos pacientes. Existem, portanto, efeitos colaterais, as vezes rentes de acorde com o individuo. Existe de fato um “mito” do prog distirbios da sexuatidade em di 4+ Um outro medicamento, a melaonina, suscita « fantasia de ser 0 at idoto para todas as do corpo. Segundo os médicos americanos, esta poderia “prolongar nossa vida décadas mantendo nosso corpo jovem: prevenir doencas cardiacas, canceres ¢ outras comuns; proteger dos efeitos nefustos do estresse crOnico, tratar os problemas de sono”, ¢ isso, ao que parece, sem viciar sem efeitos colaterais (Le Monde, 17/11/1995), por varia 64 Papirus Editora produtos para fortalecer a vontade, ancorar-se com solidez em uma realidade flutuante, sempre provisoria, e permanecer na competicio. Nao se tenta mais escapar de condigdes de vida julgad: i s contestdveis ou uficientes. Ao contrario, as pessoas nelas se arraigam, anulando, por meio de tranqiiilizantes, as dificuldades a elas vinculadas ou decuplicando suas forgas para, por um tempo, inscrev sociedade em que a concorréncia se torna mais rude e onde o fato de viver se da melhor forma em uma caminha mais com as proprias pernas, de maneira que & preciso sustenté-lo com regularidade com tutores farmacolégicos. A gama de estados ps tados pelos psicotrépicos harmoniza-se com a identidade de geometria varidvel que convém para se manter em boa pos da ressonancia do mundo em nés, queremos tornar 0 mundo uma conseqiiéncia de nossa intengao. A salvagao da vida cotidiana reside em uma férmula quimica que libera de uma parte da incerteza e do medo. A ambivaléncia do corpo é neutralizada. Para orientar uma opcio propicia, multiplicam-se os conselhos em revistas especializadas ou nao, em obras ‘oldg' ‘OS SUS cdo em nossas sociedades. Em vez de o nosso humor ser um efeito de vulgarizagao, onde se estabelecem complacentemente as receitas da felicidade, do repouso e do desempenho. Uma grande quantidade de guias prodigaliza conselhos e alimenta uma automedicagao real ou indireta pelo recurso a prescrigio do médico de quem se solicita o produto. Nao se trata mais apenas de uma medi: alizagdo do sofrimento existencial, mas também de uma fabric psicofarmacolégica de si, modelagao quimica dos comportamentos e da afetividade que manifestam uma davida fundamental com relagao ao corpo que convém manter a nossa me! por meio da molécula apropriada. A sexualidade nao ess do desejo gi atesta essa preocupagao de e: ipa da ascendéncia da vontade; dissocia-se a um estimulo externo, O sucesso mundial do viagra apar di sos do corpo e do tempo para transformé-lo em uma maquina confidvel que responde imediatamente as exigénci nao é um afrodisfaco, nao estende o gozo. Protese quimica para restaurar a auto-estima, dar uma imagem positiva ao outro tentando iludir, prolongar . O viagra exerce um efeito mecanico sobre a eregdo; ele infinitamente a juventude sexual. Fantasia de dominio do desejo. “Sera tao natural para um homem de 50 a 60 anos ter no bolso uma dessas Adeus ao corpo 65 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. sexualidade e de uma fisiologia que assusta. A maternidade torna-se entao um arcaismo ainda parcialmente corporal, mas que nao tardara a tornar- se integralmente um fato técnico da medicina. E claro que resta 0 investimento dos interessados que podem reintroduzir sentido, reapropriar-se da procri istida pela medicina como um episddio de sua histéria — a crianga pode ser amada como deve e 0 procedimento funcionar rapidamente sem danos. A crianga nascida em condigdes “naturais” pode carecer de investimento, ser mal amada. Nenhuma transparéncia moral existe nesse assunto. Nao se trata de colocar em dtivida © recurso a procriagao in vitro, legi esterilidade, mas de observar a insinuagao dessa técnica para fora dessas prescrigGes da medicina e de ver no que ela abala os dados fundamentais de nossas sociedades: progenitura, maternidade, feminilidade, masculinidade ou relagiio com a crianca. Aplicada a uma maioria dos ca que poderiam dispensd-la, é manifestamente 0 sintoma de uma dtivida fundamental com relagao ao corpo. 40 d ma em situagSes comprovadas de ais O corpo indesejavel da mulher: A gestagdo fora do corpo A procriagao in vitro separa a fecundagdo da maternidade, tende hoje a dissociar a crianga da gravidez para transformé-la em pura criagao da medicina. A mae é a portadora inc6moda com cujo desaparecimento radical se sonha. Com a fantasia do Utero artificial pelo qual alguns médicos clamam, ela é excluida do comego ao fim do processo. A crianga nasceria sem mie, fora do corpo, sem sexualidade, na transparéncia de um ofhar médico que dominasse cada instante de seu desenvolvimento. A macula do corpo materno seria apagada pela higiene do procedimento e pela vigilancia sem trégua das maquinas que assinalariam qualquer anomalia. Trabalho e fantasia de homens, néio de mulheres, como se af houvesse um resultado de muitos tecnicamente para as maos do masculino um processo que lhe escapa organicamente. Nostalgia confusa que introduz na fecundagao e no nascimento da crianga a interferéncia da técnica objetivando o controle do inicio ao final da gestagao, provocando o encontro dos gametas fora éculos que visusse transferir Adeus ao corpo 75 do corpo. Y. Knibielher bem que percebeu a suspeita que pesa sobre a mulher: “O ideal dos ginecologistas”, escreve, pode ser afastar essa mulher incémoda e chegar 0 mais cedo possivel & gestacdo in vitro. Esse tipo de fecundagio ja é banal, logo se conseguird prolongar a vida do embrido in vitro até a gestagio completa. Nao € apenas ficgio cientifica: ja existem equipes de pesquisadores competindo para alcangar esse objetivo. A matemidade que, no século XX, ainda constituia a especificidade do sexo feminino, seu saber préprio, sua dignidade, esta se fragmentando, se dispersando, caindo integralmente sob 0 controle da medicina e da sociedade. (Le Monde, 19/4/1985) A ectogénese, isto é, toda a maturagiio do feto em incubadora artificial, est4 na ordem do dia. Gestagao sob controle médico, que retine as condig6es de vigilancia ¢ higiene. O privilégio materno é sentido como uma injustiga, cuja reparai medicina. A mulher ja pode ser mantida afastada da fecunds aparece hoje gragas aos progressos da dio ¢ logo mais da gravidez. J “Nessa nova era, 0 pai estard em pé de igualdade com a mae. Alguns homens, invejosos das ligag6es particulares que se estabeleciam entre a mie e a crianga, manifestam desde ja sua impaciéncia” (Touraine 1985, p. 227). De maneira reveladora, nessa paixdo puritana por um mundo sem corpo e sem sexualidade, no qual o prazer reside a principio no olhar voltado para os processos técnicos, ele nao duvida de que “a mae e © pai poderao acompanhar visualmente o desenvolvimento fetal, e sua afeigao pelo novo ser ira se desenvolver ao mesmo tempo” (p. 227). J.- L. Touraine baseia a maternidade das décadas vindouras na exclusdo radical da mulher. A partir de agora sé importam de fato os gametas, a mulher é supérflua. Trangiiilamente, ele remete a gravidez 4 “poesia ‘ouraine escreve a esse respeito com entusiasmo: retrograda” das “vovos” (p. 226), condenando ao desuso as mulheres animadas de “sentimentos romanticos e nostalgicos” que “formularem objegGes de ordem psicolégica” (p. 226), Mas lhe parece inconcebivel que esses argumentos possam por um tinico instante pesar mais que a possibilidades de “liberagao” (sic!) da mulher ¢ da melhoria da vigilancia médica do feto. Apesar dos lamentos, segundo ele, nada podera se opor a esse progresso préximo. Para a muihe: das critic. serd um novo 76 Papirus Editora passo para a conquista de uma liberdade legitima, em que tera uma capacidade de trabalho e uma disponibilidade finalmente iguais as do homem (pp. 226-227)."" Tal generosidade confunde. Jean Bernard esta convencido de que a “igualdade” de condigGes entre o pai e a mae gracas tornara as criangas “talvez mais felizes do que as (Le Monde, 7/2/1982). Magia abengoada que diz bastante sobre a onipoténcia religiosa associada a ciéncia e a técnica e sobre o desprezo da iciativa da sexualidade e dos pais. condigdes de existéncia deixadas Essa repulsa explicita 4 maternidade (¢ 4 mulher?), esse dio confesso do corpo que leva a controlar mesmo grosseiramente os processos naturais levam a pensar que um dia, de fato, disponiveis aos remanejamentos fi: s criangas nasceraio dessa mane! ‘a, escolha do sexo, 4 COS OU genélicos, . cultivadas triagem de sua qualidade genética. Criangas sem mie, sem pé em uma proveta, incubadas por maquinas antes de ser entregues com antes do. garantia e servico pos-venda aos doadores de gametas. Os hab: Brave New World de Huxley lembram-se com horror do tempo em que os homens eram viviparos. Em muitos aspectos, essa narrativa de 1932 uma premonigao dos avangos atuais da biotecnologia. Com todo rigor, a ectogénese é o complemento necessario de uma medicina de predigao que garante assim o dom/snio sem falha sobre o desenvolvimento embrionario: ela é o resultado de uma concepgao médica da existéncia humana em que © sujeito como tal é um homem virtual, epifendmeno de caracteristi fisicas ou genétic s que decidem sua existéncia ou sua morte sob a égide sem apelagao. de uma vontade normativ Para um certo imaginario da medicina, 0 Utero da mulher de fato coloca em risco a salvagio e a satide do embriao. Mundo arcaico, nzo- civilizado, que escapa do controle regular do médico, constitui, por exemplo para 0 vulgarizador cientifico G. Leach (1970), “o meio mais perigoso no qual [o ser humano] é convidado a viver”. O corpo da mulher é agora promovido a ambiente de alto 0 para o desenvolvimento do feto. 10. A feminista americana S. Firestone (1970) também considera que por esse procedimento as mulheres estario liberadas das coorgies da reprodugi Adeus ao corpo 77 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 13/1/1994). Algumas mulheres acabam nao suportando mais que esses embrides nao empregados permanegam congelados. Ha casais que se separam e brigam por sua propriedade. O amontoado de células humaniza- se € provoca um dilema de consciéncia. Destrui-los ou abandond-los provoca entiio o sentimento de uma espécie de traigio contra es AS riangas” adormecidas e que foram objeto de tanta afligdo e tanto desejo » (Mattéi 1994) * morrem, @ os embrides ficam “6rfios A impoténcia de resolver esse dilema enquista a ques E, quando os “pai torna-se ainda mais confusa. 2 situacdo O exame de aptiddo para a vida Nas culturas ocidentais, 0 corpo é © vetor de individuagio, estabelece a fronteira da identidade pessoal. A igualdade do homem consigo mesmo, sua identidade prépri a, implica a igualdade com seu corpo. Tirar-lhe ou acrescentar-lhe algo coloca esse homem em posigao intermediaria, ambigua, rompe as fronteiras simbdlicas. Aquele que pretende a humanidade de sua condigdo, sem oferecer suas aparéncias comuns em virtude de suas mutilagdes, suas deformidades, suas ages imprevisiveis ou sua dificuldade de comunicagao, é fadado a suspeita —a ele esta prometida uma existéncia que se desenvolve no palco, diante do ardor dos olhares sem indulgéncia dos transeuntes ou das testemunhas da dessemelhanga. A este, as sociedades ocidentais expressam implicitamente sua humanidade menor, sua alteragao simbolica que exige um afastamento ou alguma prova. Em nossas sociedades, o homem que sofre de alguma deticiéncia fisica nado é mais sentido como homem inteiro: € visto pelo prisma deformante do distanciamento ou da compaixao, Qualquer alteragdo notivel da aparéncia do corpo, qualquer transtorno que afete a motricidade ou a preensdo, suscita o olhar e/ou a interrogagiio e até mesmo de imediato a perturbagdo, a estigmatizagdo (Goffman 1975, Murphy 1990). A fisiognomonia e a morfopsicologia, v timentas em termos cientificos dos preconceitos comuns mais contestaveis, associam qualquer ndo-conformidade anatémica ou funcional 4 ndo-conformidade moral Qualquer distingao que separa um homem de seu semelhante € um indicio nefasto que provoca desconfianga. 86 Papirus Editora Se a diferenca morfolégica ou funcional fosse insignificante socialmente, nao seria pesquisada, armazenada, exposta a esse ponto a curiosidade dos amadores nos museus anat6micos. Algumas anedotas sinistras da historia da anatomia revelam, alids, os excessos que esse frenesi de colecionadores podia provocar (Le Breton 1993). A indiscrigao dos passantes aos olhares sempre assestados no ins6lito corporal € a versao popular de uma paixido mérbida bem compartilhada, O homem ¢ moralmente reduzido apenas ao estado de seu corpo percebido como um absoluto; é deduzido, de certa forma, pela maneira como aparece aos olhos dos outros. A anatomia tem aqui valor de destino, F: de “deficiente”, como se fosse da natureza da pess mais do que “ter” uma deficiéncia. Apenas sua presenga j incémodo, uma desordem na situagao das interagGes sociais mais comuns. Oemaranhamento fluido da palavia e do corpo, da distancia e do contato com 0 outro depara com a opacidade real ou imaginaria do corpo e suscita um questionamento angustiado sobre o que convém fazer ou nao. Eo e, alias, oa “ser um deficiente” gera um mal-estar € tanto mais vivo quanto os atributos fisicos do individuo impedem a identificagao com ele. O simbélico trangiiilizante que preside as interagGes nio é mais usado. Mais ainda, o homem que tem uma deficiéncia visivel lembra com forga a precariedade da condigao humana, desperta a fantasia da fragmentagao do corpo que habita muitos pesadelos (Le Breton 1990). A alteragio do corpo remete, no imaginario ocidental, a uma ia de que seu corpo nao € apropriado e que convém endireiti-lo, Essa gem a um outro tipo de humanidade autoriza a constincia do julgamento ou do olhar depreciativo sobre ele, e até a violéncia contra ele. S6 ao homem comum se re: 10 privilégio itar a menor indiscrigao. Se o homem s6 existe por meio das formas corporais que 0 coloc: mundo, qualquer modificagao de sua forma determina uma outr de sua humanidade. Os limites do corpo esbogam, em sua esc moral e significante do mundo (Le Breton 1990, 1992). E nossas sociedades contemporaneas cultivam uma norma das aparéncias e uma preocupagao rigida de sauide. aristocratico de passear por uma rua sem su Adeus ao corpo 87 O embriio e o feto sitio o centro de intimeros procedimentos de controle. As diversas formas do diagnéstico pré-natal (DPN) permitem verificar seu “bom estado” e submeté-los a um exame atento de sua legitimidade para existir.O DPN foi aplicado pela primeira vez nos anos 70 para a identificagio da trissomia 21 antes de se estender As moléstias de cromossomos e outros distirbios metabdl A ecografia i seguida caminho para a detecgao de mas-formagGes morfoldgi: tarde, os progressos da biologia molecular tornaram possivel o diagnéstico pré-natal da miopatia de Duchenne ou da mucoviscidose e outras moléstias genéticas. O DPN'* torna-se um exame rotineiro ao qual a medicina e os pais submetem a crianga que vai nascer a fim de verificar sua conformidade genética e morfoldgica. As vezes, em certos paises, a amniocentese ou a ecografia é utilizada para estabelecer 0 diagndstico de sexo indesejavel. Se €constatada uma enfermidade, o objetivo terapéutico é ace: iO porque, de qualquer maneira, os disturbios encontrados raramente podem ser tratados. A identificagao de uma doenga genética, que hoje escapa a qualquer tratamento de cura, provoca uma eventual decisio de interrup¢io terapéutica da gravidez (ITG), a medicina passando de um papel terapéutico a uma obra de supressdo do que a poe em xeque. As vezes trata-se de uma simples presungaio, como, por exemplo, o duplo cromossomo Y, anomalia banal, mas a qual o boato genético atribuiu 0 nome de “cromossomo do crime” porque alguns pesquisadores de Edimburgo descobriram um bom ntimero de individuos portadores desse cromossomo em um estabelecimento especializado no tratamento de briu em. 0 as. Mais do sexo ¢ eliminar em seguida os fetos normai pacientes considerados perigosos. Os hospitais americanos estabeleceram imediatamente exames sistematicos enquanto a midia alimentava os boatos. Alguns anos depois, um estudo dinamarqués mostrava que um par de cromossomos Y suplementar induzia apenas uma leve deficiéncia 13. As diferentes formas de diagnéstico pré-natal so em geral demoradas. Terminado 0 exame. sio necessérias viirias semanas para saber o resultado. Enquanto isso, a mulher permanece fa expectativa: seu investimento afetivo, suspenso. A crianga esté ali sem estar; a ti as vezes asente, mas deve conter sua emocdo por medo de se apegar a elae descobrir em seguida que € portadora potencial de alguma doenga grave ou teissomica 88 Papirus Editora mental pouguissimo incompativel com uma existéncia social normal. Os homens marcados geneticamente dessa forma nao apresentayvam qualquer agressividade anormal. O diagnostico pré-implantagao (DPI) é um outro exame realizavel nos embrides fecundados in vitro: visa prevenir o ni cimento de uma crianga exposta a uma enfermidade grave. Realiza-se a partir de algumas células dos embrides. E uma versio melhorada do DPN na medida em que permite de imediato a selegao do embriao considerado mais propicio aimplantagio, enquanto o DPN é¢ feito depois de iniciada a gravidez."* O DPI oferece, portanto, um meio confortavel de fazer a triagem dos embrides e manter os can idatos de acordo com certos critérios genéticos. “Um defeito menor que nao justificaria a interrupgao de uma gravidez”, diz J. Testart, “poderia ser levado em conta na triagem dos embrides, porque o nascimento da crianga nao seria adiado por esse motivo” (199 p. 97). O DPI torna, portanto, a langar a fantasia do “aperfeigoamento da espécie” e do eugenismo, abrindo uma brecha moral em escala coletiva, reduzindo ainda mais a crianga a objeto. O DPI sera muito atraente para os casais que nao querem correr nenhum risco no contexto de uma sociedade de garantia e seguranga (Testart 1992, p. 212).'° O peso da fecundagao in vitro vai parecer-lhes decerto um mal menor do que 0 risco de uma gravidez ignorando-se a “qualidade genética” da crianga. Os métodos de selegio refinada do que se torna finalmente material genético transformam as vezes de maneira radical a propria crianga em protese claramente afirmada quando, por exemplo, os pais a concebem a fim de utilizé-la para conseguir medula 6ssea em proveito de um outro filho do casal atingido por alguma forma de cancer, com, é claro, muitos protestos de amor com relagao a ela. Os pais nao hesitam em recorrer ao do DPN, de eleg, art 1992, pp julho de 1994 enquadra o DPI de maneira bastante rigorosa. Outras le 14, “Existe a tentugiio de ativar © DPI par cr a selegio precoce ¢ indolor em slagdes sfio mais antes da supresstio tardia dilacerant (0-271). A lei francesa votad laxistas, 15. Continua a existir a questo no pk jo de individuos com base e: conseqiiénci 0 ger ede tal sua anomalia cromoss6mica. Ninguém pode avaliar as ‘ico do efeito a longo prazo sobre aes em termos de satide publica. As propriedades de um gene sio miiltiplas ¢ estiio longe de set todas conhecidas, Adeus ao corpo 89 aborto se 0 sistema imunolégico do embriaio ou do feto nao corresponde a sua exigéncia. Na hip6tese de os pais recorrerem a procria para se beneficiarem do DPI, podem, desse modo, escolher o embriao compativel com a pessoa que precisa do transplante (Testart 1992, pp 182-183). Essa crianga nasce, assim, apds uma triagem de embrides, a fim de ser geneticamente compativel com um irm&o ou com uma irma 10 in vilro que espera um transplante de medula. Na fertilizagao in vitro, o DPLé uma garantia da crianga que vai nascer, um investimento de tempo e de dinheiro para adquirir a certeza de um bom produto final, de uma crianga ala carte de acordo com a vontade “dos pais”, validada pelas normas de aparéncia da sociedade. Com o DPI é possivel matar no ovo, antes da sua implanta miopatia, a hemofilia, a trissomia etc. E de s6 conservar os embrides ilesos. A triagem do sexo também se torna possivel, permitindo de imediato uma escolha de aceitagiio ou eliminagiéo dos embrides machos em caso de doengas que s6 alingem esse sexo. As pesquisas paralelas sobre 0 genoma humano fornecem a esse método de triagem uma terrivel eficacia no controle normativo e eugénico da condigao humana. O embriao tornou-se um objeto virtual sujeito a procedimentos de simulagao. Antes mesmo de existir como sujeito, ja se efetua sobre ele uma projecio imagindria e a ele ja se insinua, se manifesta alguma anomalia, que o sofrimento que © espera apés 0 nascimento pre sobre o prazer que teria em viver, e decide-se por ele que ness: seu desaparecimento é preferivel a uma wrongful life. C40, OS embrides portadores de doengas genéticas, como a alece Ss condigdes A discriminagio genética'® terapéutica da gestagdo € tanto mais perturbadora quanto muitas vezes confunde genotipo e fenétipo, ou seja, virtual e real, mensagem do gene e¢ funcionamento dentro do organismo, estatistica ¢ realidade tinica. Surge uma nova medicina, que nado trata mais do nascimento que conduz a interrupeaio © doente, mas uma categoria hipotética. De fato, as doengas genéticas nao tém as mesme incidéncias, 16. A discriminagao genética ja esti muito presente nos EUA; compreencle companhias de seguros, servigos médicos, agéncias de adogao, a administracio pablica, estabelecimentos escolares. ‘empresas particulares etc, (Rifkin 1998, p. 216 ss; Kevles 1995, p. 367 ss: Blane 1986, p. 347 ss). Em certos estados americanos, os exames genéticos tornaram-se obrigatérios (Kevles 1995, p. 400), 90 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. provas temiveis do exame de aptidao para a vida dos embrides ou dos fetos. Como lembra J. Testart. A liberdade de escolher nossos filhos poderia bem ser apet de esp, langada as a liberdade liberdade dessas mesmas criang na existéncia com base no indice de conformidade? Proibidas ialistas. Eo que dizer ¢ as de decepcionar nisso quem as elegeu. nem por isso estariam livres de apresentar imperfeigdes variadas. (Testart 1992, p, 242)"” Algumas criangas, cujos exames fracass aram em detectar as doengas ou as deficiéncias no momento de sua chegada ao mundo, ja sio consideradas “erros médicos”. Em nome desses “nascimentos errados”’, as criangas ou os pais querelantes obtém nos EUA reparagées financeiras dos médicos. As criangas alegam que prefeririam nao ter nascido a suportar as mas-formagGes fisicas, as deficiéncias sensoriais ou os problemas ligados aseu estado de satide, Entram com ages na Justiga contra seus pais ou seus médicos em nome de seu direito ao gozo sem defeitos da existéncia que deveria ter-Ihes sido ntida quando do nascimento (Le Breton 1990). Colocar no mundo uma crianga doente ou deficiente com conhecimento de causa talvez se} um dia considerado motivo de sevici ‘) contra a crian fornecendo & Ultima a possibilidade de entrar na Justiga contra seus pais. A responsabilidade do médico ou dos pais é empregada de maneira obsessiva. A medicalizagao jd intensa da gravidez pode se tornar cada vez mais rigida para nada deixar ao acaso. Se os embrides ou os fetos portadores de uma anomalia sao eliminados, qual sera a condigio das criangas que nascem com uma deficiéncia ou uma doenga? A detecedo in utero de qualquer anomalia acentua a suspeita que jd pesa sobre as criangas ou sobre os adultos ica ou mental. D. Kaplan, do Instituto portadores de uma diferenga fi 17. Joje”. escreve Duster (1992, p. 14), “a discussio publica parece ocorrer entre especialistas (geneticistas, médicos especialistas, pesquisadores ete.) de um lado, ¢, de outro, eriticos que foram apresentados como tolos, teimosos, ignaros, Inditas prontos a enterrar a cabega na areia ou tentar bloquear a maquinaria do progresso. Eu gostaria de ver um outro nivel de discussa em que os cidadaos, muito mais bem informados, se engajariam num debate animado sobre questées como o se; Joc a divulgacio, as terapias ov as detecgdes, a nutrigao ou os genes” Adeus ao corpo 93 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. O geneticamente correto A sociedade americana tem uma admiragao formidavel pelos genes e pelas interpretagdes bioldgicas dos comportamentos. Sao abundantes as referéncias as caracteristicas genéticas nas novelas, nos telefilmes, nos filmes, na imprensa, nas revistas femininas etc., ou no discurso politico. O gene tornou-se desse modo um “icone cultura um equivalente leigo da concepgao da alma no cristianismo” (Nelkin e Lindee 1995, p. 17). Encarna a verdade oculta do sujeito apesar de seus subterfugios de aparén A crenga se espalha e difunde & maneira de uma cultura de massa que vem explicar de forma magica as situagdes . da preguiga, da . do hedonismo, da sociais. Fala-se normalmente de gene da resistén poupanga. da celebridade, do sucesso, da matemiat felicidade, da propensao a toxicomania ete. (id., p. 16). Em 1997, alguns pesquisadores ingleses acreditam descobrir um grupo de genes que favorecem a competéncia das mogas nas relagdes. Volta 4 tona a “natureza feminina * associada docura e a sensibilidade, enquanto outros bidlogos explicam o déficit de ternura do homem pela necessidade que tém de combater ou matar para sobreviver (em Rifkin 1998, pp. 201-202). Afirma-se cientificamente que os negros correm mais, que saltam mais alto, qualidades que nao exigem qualquer aprendizado, mas que, em compensagao, sio menos inteligentes. Maravilhemo-nos com um gene que soube prever a recente inven dos cem metros rasos ou do basquete. Decerto existe um gene que posta para tod: ia da onipoténcia do gene s6 € valorizada no circulo de uma de pesquisadores,' mas seu discurso é muitas vezes ouvido pelos politicos ¢ transmitido como lugar-comum pela midia e nas conversas favorece a crenga de que os genes sao uma res; as quesides. A fanta minor de bar. Constitui imediatamente a manchete dos jornais, mas sua refutagao é mais discreta, e até sem incidéncia nas mesmas midias. Essa paixdo por uma interpretagao fatalista dos comportamentos acompanha a Pesquisadores que raramente sio geneticistas, mas antes etologistas (Dawkins), entomologistas (Wilson), psicdlogos (Hersstein, Jensen, Eysenck, Murray. Rowe, Mednick...) etc Adeus ao corpo 107 mid direta de grandes declaragdes de bidlogos que afirmam que a decifragao do genoma carrega uma promessa de revelagao sobre os comportamentos. Torna a fornecer autoridade as teses do integrismo genético defendidas principalmente pelos sociobidlogos. tizagdo das pesquisas sobre 0 genoma humano ~ é a conseqiiéncia Nas representagdes do grande ptiblico, alimentadas por certos cientistas que ultrapassam o rigor da disciplina, o DNA € a projegao bioldgica das estruturas mentais e fisicas do individuo, A transparéncia do gene seria at destino em termos de doengas ou de comportamentos. Os videntes ficam sem emprego a partir desses fatos - os bidlogos dirao o futuro do individuo, probabilidades de carrei bem-sucedidos na vida, sua inteligéncia etc. O gene tornou-se um ambiente de no: uma palavra-chave e m: Nsparéncia do sujeito, uma revelagdo sem recurso de seu seus gostos sexuais, suas chances de ser s sociedades contemporaneas, uma mitologia moder a das conversas comuns ir6nicas ou sérias. A violéncia ser de origem genética é hoje, por exemplo, uma idéia popular nos EUA, transmitida nao apenas pela sociobiologia, mas também pelas midias. O “cromossomo do crime”, o “criminoso nato” tornam-se lugares-comuns. A tal ponto que, em 1986, em Sevilha, cerca de 20 cientistas de renome, sob a égide de J. Goldstein, reinem-se e denunciam, em um texto de sintese, que a guerra se deve a um “instinto, a genes, ou a mecanismos cerebrais” (Nelkin e Lindee 1998, p. 132). Da mesma maneira que na época do tréfico de negros eles teriam, sem dtivida, afirmado a existéncia de um gene da escravidao, os adeptos do integrismo genético consideram hoje que a criminalidade ¢ hereditaria e que atinge ‘ag: es americanas, a taxa de encarceramento de negros é alta, e di “racial” criminalidade. Em 1992, um funciondrio da administragao Reagan disse que os negros americanos foram “condicionados por dez mil anos de criagdo seletiva a batalha individual e & moral antitrabalho que é corolario da vida em liberdade na selva” (Nelkin e Lindee 1998, p. 166). Herrnstein e Murray (1994) atigam as polémicas do outro lado do Atlintico afirmando a hereditariedade da inteligéncia ¢ a inferioridade dos negros: sua dotagao genética os conduziria a uma representagdo elevada nas estatisticas da pobreza, do desemprego, da delingiiéncia, es ed desigualmente as clas Nas pri so eles concluem a dimensio 108 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your 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Qualquer distingdo entre maquina e vivo foi abolida. O punk cibernético identifica a infosfera contemporanea que as redes permitem percorrer como radicalmente alheia a um corpo que nao p: de “carne”, obstéculo radical 4 imaterializagio exigida para uma navegagao completa. A forma humana € inadequada se nao for suprimida ou remodelada mesclando-se com a informatica. O préprio mundo compete de maneira desleal com os autores de ficgio cientifica e a mai wgerando suas hipéteses ou realizando um meio social e téenico que as vezes parece diretamente safdo de seu imagindrio: humanizagiio da maquina, reificagao do homem, disseminagdo dos componentes corporais humanos ou assimilados, desvio da tecnologia por empresas sem escripulos, digitalizagio do espirito humano etc. Nao apena a ficgio cientifica nado se opGe mais ao real, mas parece as vezes estar colocando em evidéncia fundamentos sociais da existéncia contemporanea. A apropriagdo dos imaginarios que organizam as orientagGes coletivas futuras encontra na ficgio cientifica um caminho mais facil de desenvolvimento e de projegdo em uma trama social. Ela experimenta os cendrios do futuro proximo e ja esclarece os processos em jogo no presente. Adeus ao corpo 161 6 A SEXUALIDADE CIBERNETICA OU O EROTISMO SEM CORPO. Como nossos deuses € nossas esperancas ndo séio mais do que cientificos, por que nossos amores ndo se tornariam também cientificos - em lugar de Eva da lenda esquecida, da lenda desprezada pela ciéncia, oferego-vos uma Eva cientifica -, os tinicos dignos, ao que parece, dessas visceras murchas que — por um resta de sentimentalismo do qual sois os primeiros a sorrir — ainda chamais “vossos coragoes”. Villiers de L'Isle Adam, L’Eve firture |A Eva furural, 1992 Um erotismo fora do corpo O erotismo é uma relagao de satisfagao reciproca com 0 corpo do outro, Implica uma confianga mutua suficiente para evitar perder-se no outro e para com ele viver um momento intenso de intimidade. A brincadeira de viver do eroti que se estende além da “morte de mentira’ mo é um confronto simb6lico com a morte «que muitas vezes denomina o prazer. Principalmente Bataille mostrou o quanto a sexualidade implic: Adeus ao corpo 163 a comogao da morte e um corpo a corpo radical com a alteridade. O desnudamento é um equivalente simbélico da imolagao, da descoberta, do verniz das roupas, da infinita fragilidade do outro. A nudez ja implica aceitar estar moralmente indefeso (nu) diante dos olhos do outro. Ela tira a mascara. “O erotismo”, diz Bataille, “é na consciéncia do homem aquilo que pGe nele o ser em questao” (1965, p. 34). Ruptura ontolégic: no desenvolvimento tranqiiilo da vida cotidiana, que projeta fora de si, a sexualidade ou 0 erotismo implica a provagao do corpo do outro.! O extremo contemporaneo introduz uma ruptura formidavel no universo da sexualidade. A partir de agora, com os meios telematicos, a dria. A sexualidade cibernética parecimento sem equivoco da carne. Na medida em que & de maneira privilegiada um hino ao corpo, o erotismo nao poderi: as tentativas de extrai-lo de um corpo arrebatado no imaginario do desabono do qual mostramos as muitas representagGes. Nas telas, 0 sexo transforma- presenga carnal do outro nao é mais nec realiza um de: escapar se em texto, guardando as combinagdes sensoriais que permitem estimular, sia. 0 corpo do outro, sem toca-lo. A reparagao da indignidade corporal encontra o andrdide cibernético suscetivel de interagir logo sexualmente e de responder ativamente a todas as fantasias de seu proprietario. E verdade que o tema é antigo. Em As metamorfoses, Ovidio conta os amores de Pigmaliao, que prefere a companhia de uma mulher de marfim 4 da mulher real para evitar qualquer dissabor. Modela com suas proprias maos seu ideal do outro feminino, maneira de amar a ocultando a prova de alteridade que é necessariamente o enigma do corpo do outro, comegando pela de seu rosto (Le Breton 1992), E: contornar 0 corpo com a maquina, de poupar-se o medo do desnudamento tura ocidental, principalmente pela pena de Hoffmann e de Villiers de L’Isle Adam. Es: com valor de mito, revelam o ddio feroz do corpo, a indignidade da mulher de carne, o juibi!o do dominio sobre um outro, tanto mais submisso quanto nao tem alma, interioridade, historia. si mesmo se sonho de é encontrado em muitas narrativas da lite! duas narrativas, 1. Sobre porn filmados (videos pornogrificos etc.), ou seja, sobre uma sexualidade ela propria reduzida a um certo tipo de olhar, remetemos a Patrick Baudry (1997) afiae princips nte sabre os usos dos corpos fotografados (revistas etc.) ou 164 Papirus Editora 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or 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3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. 4@ ‘You have either reached 3 page that is unavailable for viewing or reached your viewing limit for this book. Colocando 0 corpo moderno em perspectiva, David Le Breton mostra que, no discurso cientifico contemporaneo, o corpo € tomado como simples suporte da pessoa, algo que pode e deve ser aprimorado, uma matéria-prima na qual se dilui a identidade pessoal. Para passar do corpo rascunho ao corpo acessorio, para nao naufragar num sistema cada vez mais ativo e exigente, as pessoas entregam-se a uma manipu- lagdo de si a base de préteses. A tecnociéncia vem socorrer esse corpo que deve ser reparado, rearranjado: assisténcia médica a procriagdo, exames terriveis que acompanham a existéncia pré-natal —enfim, instaura-se a suspeita do corpo, eamedicina, fazendo a triagem, torna-se um biopoder. Enquanto alguns bidlogos sonham em livrar a mulher da gestagdo, a sexualidade cibernética realiza 0 imaginario do desaparecimento do corpo e até do outro. Assim, para alguns, 0 corpo nao 4 altura das capacidades exigidas na era da informa convém molda-lo, forjando um corpo bidnico no qual seria enxertado um disquete que contivesse o espirito. Adeus ao corpo desnuda essa vontade “implicita do Ocidente de transformar esse corpo rascunho. ISBN | 530 mai: 3° Ed. 85-308-0724- 3 || | B07 245 PAPIRUS EDITORA