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Shoe et Tee Moen ry Oe ee = Jr eae bria Cecilia de Souza finayo (organizadora) uely Ferreira Deslandes os) EXEMPLAR SEM RASURAS 0 limo usuario sera responsével "devolvilo. nas mwsmas EDITORA VOZES COLECAO TEMAS SOCIAIS Pesquisa social — Teoria, mélodo e criatividade Maria Cecilia de Souza Minayo (org.) Coragem de educar ~ Uma proposta de educacdo popular para o meio rural Fundep ~ Fundacdo de Desenvolvimento, Educagao e Pesquisa Politica social do conhecimento — Sobre futuros do combate & pobreza Pedro Demo Educacdo & conhecimento — Relacdo necessdria, insuficiente e controversd Pedro Demo TO. . . Lo Rizay, Tecnologias do conhecimento — Os desafios da & Tes educacdo x aN Ladislau Dowbor 3 Bw Indisciplina escolar: causas e sujeitos fm ESE PES Rosana Aparecida Argento Rebelo , ‘ . ASSOCIACAO BRASILERA DE DRETOS REPROGRAFICOS Professor do futuro e reconstrucdo do Ss meg S conhecimento ~— Pedro Demo pres" A inseguranga social — O que é ser protegido? Robert Castel Eticas multiculturais — Sobre convivéncia humana possivel Pedro Demo Formagdo permanente e tecnologias educacionais Pedro Demo Dados Internacionais de Catalogacao na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Deslandes, Suely Ferreira Pesquisa social : teoria, método e criatividade / Suely Ferreira Deslandes, Romeu Gomes; Maria Cecilia de Souza Minayo (organizadora). 28. ed. — Petropolis, RJ: Vozes, 2009. ISBN 978-85-326-1145-! 1. Ciéncias sociais - Metodologia 2. Ciéncias socials — Pesquisa 3. Criatividade I. Gomes, Romeu JI. Minayo, Maria Cecilia de Souza IU. Titulo. 94-0274 CDD-300.72 Indices para catélogo sistematico: I. Ciéncias Sociais : Pesquisa = 300,72 Maria Cecilia de Souza Minayo (Organizadora) Suely Ferreira Deslandes Romeu Gomes PESQUISA SOCIAL Teoria, método e criatividade BIBLIO ek yY EDITORA VVOZES _ Petropolis re APRESENTACAO Querido jovem estudante, Apresentamos a vocé uma versio revisada do livro Pesquisa social em sua 25* edicdo. Pela experiéncia que nos autores tive- mos a partir das edigdes anteriores, ousamos dizer que nosso en- contro fol positivo e proficuo. Gostariamos de continuar esse dia- logo com vocé, fazendo alguns aperfeigoamentos nesta pequena obra. Esse movimento de aprimoramento deixa claro que, até quan- do falamos de métodos e regras para a producdo cientifica, exis- (em possibilidades de mudangas: e é nesse sentido e propésito que nos empenhamos na revisdo, sem modificar o formato simples e didatico de abordar os segredos das formas de pesquisar. Ressaltamos que teoria, método e criatividade, os enunciados que estao no subtitulo do livro, s4o os trés ingredientes 6timos que, bem combinados, produzem conhecimentos e dao continuidade a tarefa dindmica de descobrir as entranhas do mundo e da socieda- de. Deles falaremos oportunamente. Vocé vera que este trabalho possui duas ténicas. A primeira parte ¢ mais tedrica e abstrata. Introduz, vocé as questdcs polémi- cas do mundo cientifico ¢ aos conceitos basicos de pesquisa, parti- cularmente da pesquisa social. A segunda parte ¢ mais técnica: ela ensina como fazer. No entanto, esta intimamente ligada com 0 as- Pesquisa social sunto tratado no primciro capitulo, articulando teoria ¢ pratica de pesquisa, Para sermos mais precisos, as orientagoes comegam num movimento de grande abertura colocando voce, jovem pesquisa- dor, no universo do debate académico sobre a descoberta cientifi- cac, em seguida, focalizam a pesquisa social ¢ todas as estr atégias de sua aplicag4o metodoldgica. Dadaa peculiaridade dos instrumentos de abordagem qualita- tiva em pesquisa social, julgamos conveniente nos deter com mais profundidade sobre eles, remetendo o estudo das tecnicas de pes- quisa quantitativa para outro livro. Os autores deste estudo somos todos estudiosos e pesquisado- res com longa experiencia de trabalho em pesquisa. Falamos a partir de nossa propria vivéncia de produga do intelectual e buscare- mos compartilhar com vocé nossas proprias indagagoes, percur- sos e descobertas. Seja bem-vindo a estas paginas. Esperamos seu olhar curioso se encontrando com 0 nosso e, sobretudo, esperamos suas pergun- tas e questionamentos. Como muito bem disse o grande filosofo Heidegger, “a pergunta é a devocdo do pensamento!” Os autores Capitulo 1 ] O DESAFIO DA PESQUISA SOCIAL Maria Cecilia de Souza Minayo 1. Ciéncia e cientificidade Do ponto de vista antropolégico, podemos dizer que sempre existiu preocupacao do homo sapiens com o conhecimento da rea- lidade. As tribos primitivas, através dos mitos, explicaram e expli- cam os fendmenos que cercam a vida e a morte, o lugar dos indivi- duos na organizacao social, seus mecanismos de poder, controle e reproducao. Dentro de dimensées histéricas imemoriais até nos- sos dias, as religides e filosofias tém sido poderosos instrumentos explicativos dos significados da existéncia individual e coletiva. A poesia € a arte continuam a desvendar logicas profundas e insus- peitadas do inconsciente coletivo, da vida cotidiana e do destino humano. A ciéncia ¢ apenas uma forma de expresso dessa busca, nao exclusiva, nao conclusiva, nao definitiva. Na sociedade ocidental, no entanto, a ciéncia é a forma hege- monica de construcao da realidade, considerada por muitos criti- cos Como uM novo mito, por sua pretensdo de Gnico promotor e critério de verdade. No entanto, continuamos a fazer perguntas ea buscar solugoes, Para problemas essenciais, como a pobreza, a mi- seria, a fome, a violéncia, a ciéncia continua sem respostas ¢ sem 9 Pesquisa social propostas. As explicacées historicas da hegemonia da ciéncia sobre outras formas de conhecimento nado cabe aqui aprofundar. Mencionaremos duas razOes: a primeira, de ordem externa a ela mesma, esta na sua possibilidade de responder a questdes tecnicas e tecnologicas postas pelo desenvolvimento industrial. A segun- da raz4o, de ordem interna, consiste no fato de os cientistas terem conseguido estabelecer uma linguagem fundamentada em concet- tos, métodos e técnicas para compreensao do mundo, das coisas, dos fenémenos, dos processos e das relagées. Essa linguagem é uti- lizada de forma coerente, controlada e instituida por uma comu- nidade que a controla e administra sua reprodugao. O campo cientifico, apesar de sua normatividade, ¢ permea- do por conflitos e contradigdes. E para nomear apenas uma das con- trovérsias que aqui nos interessa, citamos o grande embate sobre cientificidade das ciéncias sociais, em comparacdo com as c1én- cias da natureza. Ha aqueles que buscam a uniformidade dos pro- cedimentos para compreender o natural e o social como condigao para atribuir 0 estatuto de “ciéncia” ao campo social. Ha os que rei- vindicam a total diferenga e especificidade do campo humano. Paul de Bruyne et al. (1995) advogam que a ideia da cientifi- cidade comporta, ao mesmo tempo, um polo de unidade e um polo de diversidade. Ou seja, existe possibilidade de encontrarmos se- melhancas relativamente profundas em todos os empreendimentos que se instituiram a partir da ideia geral de um conhecimento cons- truido por meio de conceitos, seja de carater sistematico, seja de ca- rater exploratorio e dindmico. Essa ideia representa uma tradicdo ge- ral de autorregulacao do processo de constru¢ao de conhecimento. Mas, por outro lado, a cientificidade nao pode ser reduzida a uma for- ma determinada de conhecer: ela pré-contém, por assim dizer, di- versas maneiras concretas e potenctais de realizacdo. Tal reflexdo se torna particularmente fundamental para nos- so objeto de estudo neste pequeno livro, a pesquisa social. A in- terrogacao enorme em torno da cientificidade das ciéncias so- 10 Pesquisa social ciais se desdobre em varias questées. A primeira diz respeito a possibilidade concreta de tratarmos de uma realidade da qual nés proprios, cnquanto seres humanos, somos agentes: — essa ordem de conhecimento nao escaparia radicalmente a toda possibilidade de objetivagao? Em segundo lugar, sera que, buscando a objetivacéo propria das ciéncias naturais, nado estariamos descaracterizando o que ha de essencial nos fendmenos e processos sociais, ou seja, 0 profun- do sentido dado pela subjetividade? Por fim, e em terceiro lugar, que método geral nds poderiamos propor para explorar uma realidade tao marcada pela especificidade c pela diferenciacdo? Como garantir a possibilidade de um acordo fundado numa partilha de principios e nao de procedimentos? Em resumo, as ciéncias sociais hoje, como no passado, conti- nuam na pauta de plausibilidade enquanto conhecimento cientifi- co. Seu dilema seria seguir os caminhos das ciéncias estabelecidas e empobrecer seu proprio objeto? Ou encontrar seu nucleo mais profundo, abandonando a ideia de cientificidade? A situagao nao € facil e ndo é simples. Primeiro porque, se as ciéncias da natureza sao pioneiras e as estrelas da ideia de cientifici- dade, nao esta absolutamente atestado que elas ja atingiram sua ex- pressao adequada. A fisica quantica com suas descobertas e as teorias sistémicas com o aprofundamento das abordagens complexas, dentre outros temas cientificos, vém revolucionando em seu proprio campo as ideias de espago, de tempo e de relacdes sujeito-objeto. A cientificidade, portanto, tem que ser pensada como uma ideia reguladora de alta abstracao e nao como sindnimo de modelos e normas a serem seguidos. A histéria da ciéncia revela nado um “a priori”, mas o que foi produzido em determinado momento hist6- rico com toda a relatividade do processo de conhecimento. Poderiamos dizer, nesse sentido, que o labor cientifico cami- nha sempre em duas direcées: numa, elabora suas teorias, scus I Pesquisa social mc¢todos, seus principios c estabelece seus resultados; noutra, in- venta, ratifica seu caminho, abandona certas vias e encaminha-se para certas dircgdes privilegiadas. E ao fazer tal percurso, os in- vestigadores aceitam os critérios da historicidade, da colaboracado e, sobretudo, revestem-se da humildade de quem sabe que qual- quer conhecimento é aproximado, é construido. | Ora, se existe uma ideia de devir no conceito de cientificidade, nao se pode trabalhar, nas ciéncias sociais, apenas coma norma da cientificidade ja construida. A pesquisa social se faz por aproxi- macdao, mas, ao progredir, elabora critérios de orientacao cada vez mais precisos. Conforme lembram Bruyne et al. (1995), “na reali- dade histérica de seu devir, o procedimento cientifico é, ao mesmo tempo, aquisi¢ao de um saber, aperfei¢oamento de uma metodo- logia, elaboracgdo de uma norma” (p.16). Obviamente isto se faz dentro da especificidade que as ciéncias sociais representam no campo do conhecitmento. Por isso, para falarmos de Ciéncias So- ciais, dentro de sua peculiaridade, retomaremos critérios gerais que a distinguem e que se encontram em autores como Demo (1995) e Minayo (2006) sem, contudo, desvincula-la dos principios da cien- tificidade. O objeto das Ciéncias Sociais é historico. Isto significa que cada sociedade humana existe e se constréi num determinado es- paco e se organiza de forma particular e diferente de outras. Por sua vez, todas as que vivenciam a mesma época historica tém al- guns tragos comuns, dado o fato de que vivemos num mundo mar- cado pelo influxo das comunicagées. Igualmente, as sociedades vivem o presente marcado por seu passado e € com tais determina- cdes que constroem seu futuro, numa dialética constante entre o que esta dado e o que sera fruto de seu protagonismo. Portanto, a provisoriedade, o dinamismo ¢ a especificidade sao caracteristicas de qualquer questao social. Por isso, também, as crises tem reflexo tanto no seu descnvolvimento como na decadéncia das teorias so- clais que as explicam (pois essas também sao historicas). 12 Pesquisa social Como consequencia da primeira caracteristica, é importante dizer que o objeto de estudo das ciéncias sociais possui conscién- cia historica, Noutras palavras, nao é apenas o investigador que tem capacidade de dar sentido ao scu trabalho intelectual. Todos os seres humanos, em geral, assim como grupos ¢ sociedades es- pecificas dao significado a suas ag6es € a suas construcdes, sao ca- pazes de explicitar as inten¢des de seus atos e projetam e planejam seu futuro, dentro de um nivel de racionalidade sempre presente nas acdes humanas, O nivel de consciéncia hist6rica das Ciéncias Sociais esta referido ao nivel de consciéncia histérica da sociedade de seu tempo, embora essas criagdes humanas nao se contundam. Em terceiro lugar, é preciso ressaltar que nas Ciéncias Sociais existe uma identidade entre sujeito e objeto. A pesquisa nessa area lida com seres humanos que, por razdes culturais de classe, de faixa etaria, ou por qualquer outro motivo, tém um substrato comum de identidade com o investigador, tornando-os solidariamente imbri- cados e comprometidos, como lembra Lévy-Strauss (1975): “Numa ciéncia, onde o observador é da mesma natureza que o objeto, eo observador é, ele proprio, uma parte de sua observacdo” (p.215). Outro aspecto distintivo das Ciéncias Sociais é 0 fato de que ela € inirinseca e extrinsecamente ideologica. Na verdade, nao existe uma ciéncia neutra. Toda ciéncia — embora mais intensa- mente as Ciéncias Sociais -- passa por interesses e vis6es de mun- do historicamente criadas, embora suas contribuic6es e seus efei- tos tedricos e técnicos ultrapassem as intencgdes de seus proprios autores, No entanto, as ciéncias fisicas e biolégicas participam de forma diferente da ideologia social (por exemplo, na escolha de te- mas considerados relevantes e noutros que séo descartados, na es- colha de métodos e técnicas ha influéncias econdémicas, culturais etc.), pela natureza mesma do objeto que elas colocam ao investi- gador. Na investigacao social, a relacdo entre o pesquisador e seu campo de estudos se estabelece definitivamente. A visdo de mun- do de ambos esta implicada em todo o processo de conhecimento, 13 Pesquisa social desde a concep¢ao do objeto aos resultados do trabalho e a sua aplicacao. Ou scja, a relacdo, neste caso, entre conhecimento e in- teresse deve ser compreendida como critério de realidade e busca de objetivagao. Por fim, € preciso afirmar que o objeto das Ciéncias Sociais é essencialmente qualitativo. A realidade social é a cena e 0 seio do dinamismo da vida individual e coletiva com toda a riqueza de sig- nificados dela transbordante. Essa mesma realidade ¢ mais rica que qualquer teoria, qualquer pensamento e qualquer discurso que pos- samos elaborar sobre ela. Portanto, os codigos das ciéncias que por sua natureza sdo sempre referidos e recortados sao incapazes de conter a totalidade da vida social. As Ciéncias Sociais, no entan- to, possuem instrumentos e teorias capazes de fazer uma aproxi- macao da suntuosidade da existéncia dos seres humanos em socie- dade, ainda que de forma incompleta, imperfeita e insatisfaté- ria. Para isso, elas abordam o conjunto de expressdes humanas cons- tantes nas estruturas, nos processos, nas representagdes sociais, nas expressoes da subjetividade, nos simbolos e significados. Este pequeno livro trata do carater especificamente qualitati- vo das Ciéncias Sociais e da metodologia apropriada para recons- truir teoricamente os processos, as relacdes, os simbolos e os sig- nificados da realidade social. 2. Conceito de metodologia de pesquisa Entendemos por metodologia 0 caminho do pensamento e a pratica exercida na abordagem da realidade. Ou seja, a metodolo- gia inclui simultaneamente a teoria da abordagem (0 método), os instrumentos de operacionalizagao do conhecimento (as técnicas) e a criatividade do pesquisador (sua experiéncia, sua capacidade pessoal c sua sensibilidade)}. A metodologia ocupa um lugar cen- tral no interior das teorias ¢ esta referida a elas. Dizia Lenin (1965) 14 Pesquisa social que “o metodo € a alma da teoria” (p.148), distinguindo a forma externalizada com que muitas vezes é abordado o processo de tra- balho cientifico. Esta externalidade se manifesta quando apenas usamos técnicas e instrumentos para chegar ao conhecimento sem entrar no merito do sentido das indagacécs ou sem levar em conta os conceitos e hipoteses que as fundamentam. Na verdade a meto- dologia é muito mais que técnicas. Ela inclui as concepgdes tedri- cas da abordagem, articulando-se com a teoria, com a realidade empirica e com os pensamentos sobre a realidade. Enquanto abrangéncia de concepc¢oes tedricas de abordagem, a teoria e a metodologia caminham juntas, intrincavelmente inse- paraveis. Enquanto conjunto de técnicas, a metodologia deve dis- por de um instrumental claro, coerente, elaborado, capaz de enca- minhar os impasses teoricos para o desafio da pratica. O endeusamento das técnicas produz um formalismo arido ou respostas estereotipadas. Seu desprezo, ao contrario, leva ao em- pirismo sempre ilusdrio em suas conclusdes, ou a especulacdes abstratas e estéreis. Nada substitui, no entanto, a criatividade do pesquisador. 'cyerabend, num trabalho denominado Contra 0 método (1989) observa que o progresso da ciéncia esta associado mais a violacgao dlas regras do que a sua observancia. “Dada uma regra qualquer, por mais fundamental e necessaria que se afigure para a ciéncia, sempre havera circunstancias em que se torna conveniente n4o upenas ignora-la como adotar a regra oposta” (p.51). Em Estrutu- ra das revolucoes cientificas (1978), Thomas Kuhn reconhece que nos diversos momentos historicos e nos diferentes ramos da cién- cia ha um conjunto de crengas, visées de mundo e de processos de trabalho em pesquisa consagrados, reconhecidos e legitimados pela comunidade cientifica, configurando o que ele chama de pa- radigma. Para Kuhn (1978), no entanto, o progresso da ciéncia se faz pela quebra dos paradigmas, pela colocacado em discussao das teo- rias e dos métodos, acontecendo assim uma verdadeira revolucao. 15 Pesquisa social O método, dizia o historicista Dilthey (1956), é necessario por causa de nossa “mediocridade”. Para sermos mais precisos no sen- tido dado por esse autor, como ndo somos génios, precisamos de parametros para caminhar na produgao do conhecimento. No en- tanto e apesar de tudo, a marca da criatividade ¢ nessa “grife” (ou seja, nossa experiéncia, intuigéo, capacidade de comunicacdo e de indagacdo) em qualquer trabalho de investigagao. Pesquisa Entendemos por pesquisa a atividade basica da ciéncia na sua indagacao e construcao da realidade. E a pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente a realidade do mundo. Por- tanto, embora seja uma pratica tedrica, a pesquisa vincula pensa- mento e acdo. Ou seja, nada pode ser intelectualmente um proble- ma se nao tiver sido, em primeiro lugar, um problema da vida pra- fica. As questdes da investigagao estao, portanto, relacionadas a interesses e circunstancias socialmente condicionadas. Sado frutos de determinada inser¢ao na vida real, nela encontrando suas razoes e seus objettvos. Toda investigacao se inicia por uma questao, por um proble- ma, por uma pergunta, por uma divida. A resposta a esse movi- mento do pensamento geralmente se vincula a conhecimentos an- teriores ou demanda a criagdo de novos referenciais. Teorias Os conhecimentos que foram construidos cientificamente so- bre determinado assunto, por outros estudiosos que o abordaram antes de ndés e langam luz sobre nossa pesquisa, sao chamados feo- rias. A palavra teoria tem origem no verbo grego theorein Cujo significado é “ver”. A associacao entre “ver” e “saber” ¢ uma das bases da ciéncia ocidental. 16 Pesquisa social A teoria € construida para explicar ou para comprecnder ann fendmeno, um processo ou um conjunto de fendnicnos e proces sos. Este conjunto constitui 0 dominio empirico da tcoria (ou sepa, a dinamica da pratica que ela explica ou interpreta). A teoria pro priamente dita sempre sera um conjunto de proposigdes, um dis curso abstrato sobre a realidade. Ha grandes teorias — por alguns chamadas de macroteorias — que sao verdadeiras narrativas ou discursos escritos por cientistas sociais muito importantes, auto- res de referéncia, para interpretar a realidade. Com certeza todos JA ouviram falar em positivismo, marxismo, teoria da acdo, com- preensivismo. Essas $a0 as princtpais grandes teorias das ciéncias sociais. Mas, ha também teorias menores que, geralmente sob o puarda-chuva das grandes narrativas, explicam ou interpretam fe- ndmenos especificos, particulares. Em geral, varias teorias competem entre si para explicar ou para ajudar o pesquisador a compreender determinada questio. Muitas vezes também existem problemas novos para os quais nao foram desenvolvidas teorias especificas. Nesse ultimo caso, cos- lumamos falar de pesquisa exploratéria, na qual o investigador vai propondo um novo discurso interpretativo. Nenhuma teoria, por mais bem elaborada que seja, da conta de cxplicar ou interpretar todos os fendmenos e processos. Por varios inotivos, Primeiro porque a realidade no é transparente e é sem- pre mais rica e mais complexa do que nosso limitado olhar e nosso limitado saber. Segundo, porque a eficacia da pratica cientifica se cstabelece, nao por perguntar sobre tudo, e, sim, quando recor- (a determinado aspecto significativo da realidade, 0 observa, e, a partir dele, busca suas interconex6es sistematicas com 0 contexto ¢ com a realidade. feorias, portanto, sao explicacdes da realidade. Elas cumprem lunc¢des muito importantes: (a) Colaboram para esclarecer melhor o objeto de investigacao. V7 Pesquisa social (b) Ajudam a levantar questocs, a focalizar © problema, as perguntas e a estabelecer hipdteses com mais propricdade. (c) Permitem maior clareza na organizagao dos dados. . (d) E iluminam a analise dos dados, embora nao possam di- recionar totalmente essa atividade que deve se beneficiar dos achados empiricos, sob pena de anulacao da originalidade pro- piciada pela pergunta inicial. | Em resumo, uma feoria é uma especie de grade, a partir da qual olhamos e “enquadramos” a interpretagao da realidade. Elae um conhecimento, mas nado deve ser uma camisa de forga. Ela é fel- ta de um conjunto de proposigdes. Quer dizer, ela ¢ um discurso sistematico que orienta o olhar sobre o problema em pauta, a ob- tencao de dados e a andlise dos mesmos. Proposicodes Proposicées séo declaracées afirmativas, sao hipoteses com- provadas sobre fendmenos ou processos sobre OS quais interroga- mos. As proposi¢des que compoem uma teoria devem ter caracte- risticas basicas: | (a) Serem capazes de lancar luz sobre questoes reals. (b) Serem claras e inteligiveis. (c) Apresentarem com precisao as relagoes abstratas entre ele- mentos, fatos e processos que buscam explicar ou interpretar. Ao estabelecer um conjunto de proposigées logicamente rela- cionadas, a teoria constrdi um discurso com as seguintes carac- teristicas: ordenacao do que é principal e do que é derivado ou se- cundario, apresentacao sistematica, organizagao do pensamento e sua articulacdo com o real concreto. A proposta de uma teoria € ser compreendida pelos membros de uma comunidade academ: ica que tem formacado para entender e seguir 0 raciocinio da reflexao e sua vinculacao com o mundo da vida. 18 Pesquisa social Se quisermos, portanto, trilhar a carreira de pesquisador, te mos que nos aprofundar nas obras dos diferentes autores que tra- balham com os temas que nos preocupam, inclusive, com os que desenvolvem ou abracam teorias com as quais idcologicamen- te nao concordamos. O bom pesquisador é¢ 0 que indaga muito, lé com profundidade para entender o pensamento dos autores, que é critico frente ao que 1é, e que elabora sua proposta de pesquisa, in- formado pelas teorias, mas de forma pessoal e criativa. Quando investimos na compreensao do campo cientifico das Ciencias Sociais em temas especificos ja tratados e questionados por antecessores e contemporaneos, elevamo-nos a categoria de inembros dessa comunidade. Assim, teoricamente informados, om- breamo-nos lado a lado com os que estudam questdes fundamen- lais da sociedade humana de nosso tempo. Desta forma, o dominio de teorias fandamenta nosso caminho do pensamento e da prati- ca teorica alem de constituir o plano interpretativo para nossas in- dlagagdes de pesquisa, seja para desenvolvé-las, respondé-las, ou para, a partir delas, propor um novo discurso. Uma pesquisa sem (coria corre 0 risco de ser uma simples opinido pessoal sobre a rea- lidade observada. Conceitos Os termos mais importantes de um discurso cientifico sdo os conceitos. Conceitos 840 vocabulos ou expressdes carregados de sentido, em tomo dos quais existe muita histéria e muita acao so- cial. Por exemplo, o conceito de mudanca: ele no é apenas uma palavra. Nele se concentra muita teoria, muitas representacdes da rcalidade, muita posicdo e muita historia. A teoria positivista defi- nce mudanga de um jeito totalmente diferente da teoria da acdo so- cial ou da teoria marxista. Em seu aspecto cognitivo, 0 conceito é delimitador e focali- zador do tema em estudo, Costumamos aconselhar aos que se aven- luram a fazer um projeto de pesquisa que, quando formulam um 19 Pesquisa social objeto de estudo, a seguir, conceitue, detalhadamente, cada um dos termos que o compdem. Vamos a um exemplo. Vou estudar 0 “com- portamento dos adolescentes masculinos, futures pais, quando des- cobrem que sua namorada ficou gravida”. Este € o-abjeto. Este ¢ o problema de pesquisa. Conccitua-lo ¢ discutir os seguintes ter- mos: comportamento sexual de adolescentes masculinos, paterni- dade na adolescéncia; relacdes sexuais entre adolescentes; gravi- dez na adolescéncia. O pesquisador que assumir tal objeto de pes- quisa deve partir para uma busca bibliografica sobre cada uma das express6es citadas ¢ trabalha-las historicamente, com as divergen- cias e convergéncias tedricas, para so depois colocar sua posi¢ao e suas hipdteses. Quando delimitado, todo conceito deve ser valorativo, pragma- tico e comunicativo. Valorativos, no sentido de que o pesquisador precisa explicitar a que corrente tedrica os conceitos que adotou es- tio filiados. Pragmaticos, no que se refere a sua capacidade de se- rem operativos para descrever e interpretar a realidade. Comunica- tivos, ou seja, Claros, precisos, abrangentes e ao mesmo tempo espe- cificos para serem entendidos pelos interlocutores da pesquisa. Ha varios tipos de conceitos que podem classificar-se em teo- ricos, de observacao direta ou indireta. (a) Conceitos tedricos — s40 os que compoem e estruturam 0 discurso da pesquisa: eles permanecem no nivel da abstragao. (b) Conceitos de observagao direta — sao os que definem os termos com os quais o pesquisador trabalha em campo ou nas andlises documentais. (c) Conceitos de observacao indireta - sao os que fazem a re- lacdo do contexto da pesquisa com os conceitos de observacao direta (KAPLAN, 1972). E muito importante ter em mente que o discurso teorico ¢ con- ceitual nao é um jogo de palavras. Ao contrario, lembram-nos gran- des pesquisadores como Malinowski (1984), todo bom pesquisa- 20 Pesquisa social dor prepara antes e muito bem seus instrumentos tedricos para compreender c interpretar a realidade. Essa preparacao é impres- cindivel a qualquer trabalho cientifico. Embora o mesmo autor ad- Virta, 0 investi gador deve sempre relativizar scus cuidadosos mar- cos leoricos a favor dos achados que a realidade empirica lhe proporcionar. A capacidade de realizar esse balance flexivel entre a teoria e a realidade ¢ a medida do éxito dos cientistas sociais. Noutras palavras, teorias e conceitos nao so camisa de forca, sao camisa sim, de um tecido que adequa 0 corpo ao ambiente e prote- ze O pesquisador das intempéries de seus julgamentos solitarios embora valorizando sua contribuicdo. 3. Pesquisa qualitativa A pesquisa qualitativa responde a questdes muito particula- res. Ela se ocupa, nas Ciéncias Sociais, com um nivel de realidade que nao pode ou nao deveria ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspiracdes, das crengas, dos valores e das atitudes. Esse conjunto de fendmenos humanos ¢ entendido aqui como parte da realidade social, pois 0 ser humano se distingue nao sé por agir, mas por pensar sobre 0 que {az ¢ por interpretar suas acdes dentro e a partir da realidade vivida c partilhada com seus semelhantes. O universo da produg4o huma- na que pode ser resumido no mundo das relagGes, das representa- yes € da intencionalidade e é objeto da pesquisa qualitativa di- licilmente pode ser traduzido em nimeros e indicadores quantita- livos. Por isso nao existe um continuum entre abordagens quantita- livas e qualitativas, como muita gente propde, colocando uma hic- rarquta em que as pesquisas quantitativas ocupariam um primeiro lt iar, sendo “objetivas e cientificas”. F as qualitativas ficariam no linal da escala, ocupando um lugar auxiliar e exploratério, sendo “subjetivas c impressionistas”. , 21 Pesquisa social A diferenca entre abordagem quantitativa e qualitdtiva da rea- lidade social é de natureza e nao de escala hierarquica. Enquanto os cientistas sociais que trabalham com estatistica visam a criar modelos abstratos ou a descrevér e explicar fendmenos que pro- duzem regularidades, so recorrentes e exteriores aos sujeitos, a abordagem qualitativa se aprofunda no mundo dos significados. Esse nivel de realidade nao é visivel, precisa ser exposta e inter- pretada, em primeira instancia, pelos proprios pesquisados (MI- NAYO, 2006). Os dois tipos de abordagem e os dados delas advindos, porem, ndo sAo incompativeis. Entre eles ha uma oposi¢do complementar que, quando bem trabalhada teorica e praticamente, produz rique- za de informacées, aprofundamento e maior fidedignidade inter- pretativa. Mas essa é uma opiniao nossa, ¢ tal afirmagao tem mut- tas controvérsias entre tedricos e pesquisadores. As divergéncias quase sempre ocorrem no debate entre correntes de pensamento ¢ as principais serao citadas a seguir. Positivismo A principal influéncia do positivismo nas ciéncias sociais con- siste na utilizacdo da filosofia e dos conceitos matematicos para a explicacao da realidade. Sua consequéncia ¢ a apropriagao da lin- guagem de varidveis para especificar atributos e qualidades do ob- jeto de investigac&o. Os fundamentos da pesquisa quantitativa nas ci€ncias sociais sio os proprios principios classicos utilizados nas ciéncias da natureza: (a) O mundo social opera de acordo com leis causais. (b) O alicerce da ciéncia ¢ a observacdo sensorial. (c) A realidade consiste em estruturas e instituigdes identi- ficaveis “a olho nu” de um lado e crenga e vaiores de outro. Essas duas ordens de coisas se relacionam para fornecer gene- ralizacées e regularidades. 22 Pesquisa social (d) Sao reais para as Ciencias Sociais positivistas os “dados visiveis e identificaveis”. Valores e crencas 86 podem set com- preendidos através dos primeiros, por isso devem ser despre- zados como objetos especificos de pesquisa. (¢) Os dados recolhidos da realidade empirica das estruturas e instituigdes sao suficientes para explicar a realidade social. Objetividade _ Nocerne da defesa do método quantitativo como sendo sufi- ciente para explicar a realidade social esté a discussdo da objetivi- dude. Para os positivistas, a analise social é objetiva quando é rea- livada sobre uma realidade concreta ou pela criacdo de modelos nnitematicos (altamente abstratos) por instrumentos padronizados « pretensamente “neutros”. Existe uma crenga entre os positivistas dle que € pelas técnicas estatisticas cada vez mais sofisticadas que conseguimos atingir a objetividade. Nao faz parte da teoria a con- sulcragao de que a construgao de técnicas passa pela subjetividade dos pesquisadores € que as proposicdes e construgées que as cons- (lucm introjetam interesses dos mais diferentes matizes. Compreensivismo Em oposi¢ao ao positivismo, a chamada Sociologia Compre- CHNIVG responde diferentemente a questdo qualitativa. Essa cor- iente tedrica, como 0 proprio nome indica, coloca como tarefa mais unportante das Ciéncias Sociais a compreensio da realidade hu- nuina vivida socialmente. Em suas diferentes manifestagdes — fe- nomenologia, etnometodologia, interacionismo simbélico — signi- fieado € 0 conceito central da investigacio. " | Num embate direto com 0 posilivismo, a Sociologia Com- jreensiva propoe a subjetividade como o fundamento do sentido dit vida social e defende-a como constitutiva do social e inerente 4construgdo da objetividade nas Ciéncias Sociais. Pesquisa secial Os autores compreensivistas nao se preocupam eny quanti- ficar c em explicar, ¢ sim em compreender: este é 0 verbo da pes- quisa qualitativa. Compreender relagoes, valores, atitudes, crengas, habitos c representac6es c a partir desse conjunto de fendmenos humanos gerados socialmente, compreender e interpretar a reali- dade. O pesquisador que trabalha com estratégias qualitativas atua com a matéria-prima das vivéncias, das experiéncias, da cotidia- neidade e também analisa as estruturas e as instituicdes, mas en- tendem-nas como acao humana objetivada. Ou seja, para esses pen- sadores e pesquisadores, a linguagem, os simbolos, as praticas, as relacdes e as coisas sao inseparaveis. Se partirmos de um desses elementos, temos que chegar aos outros, mas todos passam pela subjetividade humana. Marxismo O marxismo enquanto abordagem que considera a historici- dade dos processos sociais e dos conceitos, as condigdes socioeco- némicas de producdo dos fendmenos e as contradigGes sociais ¢ uma outra teoria sociolégica importante. Enquanto método, pro- pde a abordagem dialética que teoricamente faria um desenrpate entre 0 positivismo e 0 compreensivismo, pois junta a proposta de analisar os contextos histéricos, as determinagdes socioecondmi- cas dos fendmenos, as relacdes sociais de produgao e de domina- cio com a compreensio das representag6es socials. A dialética trabalha com a valorizagao das quantidades e da qualidade, com as contradigdes intrinsecas as acdes € realizagoes humanas, ¢ com 0 movimento perene entre parte e todo e interiori- dade e exterioridade dos fendmenos. Porém, as analises marxis- tas voltadas para a consideracao dos valores, crencas, significados e subjetividade sAo0 quase inexistentes porque a pratica marxista hegeménica de andlise da realidade tem sido macrossocial ou mes- mo positivista. Por exemplo, um expoente da teoria, Althusser (1965), dizia que a questio do sujeito era uma ilusdo da antropologia. 24 Pesquisa social Varlas criticas tém sido feitas as teorias acima descritas e, como ja dissemos, essas criticas tem como base o fato de que ne- nhuma delas consegue explicar a realidade que ¢ mais rica que qualquer discurso construido sobre ela. Por exemplo, criticamos a pretensa objetividade (sem sujcito) do positivismo e a sua cren- ga de que devemos restringir o conhecimento da realidade ao que pode ser observado, quantificado ou modelado de forma externa aos sujeitos. Ao compreensivismo, as criticas enfatizam sua tendéncia ao empirismo (ou seja, a crenga de que 0 que as pessoas dizem sobre 0 real é a realidade) e ao subjetivismo (que confunde as percep¢des do pesquisador com a verdade cientifica) (MINA YO, 2006). Sobre 0 marxismo, as criticas enfatizam sua dificuldade para criar instrumentos compreensivos, pois a tendéncia dos seus auto- res e seguidores € importar respostas prontas baseadas na exegese da teoria, perdendo a riqueza da realidade ermpirica. Como falava Sartre (1980), eles costumam ver o quadro (a teoria) como se ele constituisse a totalidade da pintura (a dinamica da realidade so- cial) (MINAYO, 2006). Pessoalmente, advogamos a importancia de trabalhar com a complexidade, a especificidade e as diferenciagdes internas dos nossos objetos de pesquisa que precisam ser, ao mesmo tempo, contextualizados e tratados em sua singularidade. Acreditamos na rclagdo fértil e frutuosa entre abordagens quantitativas e qualitati- vas que devem ser vistas em oposi¢ao complementar. No entanto, neste pequeno livro trataremos apenas dos instrumentos de pes- quisa qualitativa. Sobre o campo de investigacao quantitativa sera necessario outro investimento de igual dedicacgao. 4, Ciclo da pesquisa qualitativa Diferentemente da arte e da poesia que se baseiam na inspira- yao, a pesquisa ¢ um trabalho artesanal que nao prescinde da cria- 25 Pesquisa social lividade, realiza-sc fundamentalmente por uma linguagem basca- da em conceitos, proposicdes, hipdteses, mctedos ce téenicas, lin- guagem esta que sc constréi com um ritmo proprio e particular. A esse ritmo denominamos Ciclo de pesquisa, ou seja, um peculiar processo de trabalho em espiral que comeca com uma pergunta e termina com uma resposta ou produto que, por sua vez, da origem a novas interrogacoes. Para efeitos bem praticos, dividimos o processo de trabalho cientifico em pesquisa qualitativa em trés etapas: (1) fase explora- toria; (2) trabalho de campo; (3) andalise e tratamento do material empirico e documental. A fase exploratéria consiste na produgao do projeto de pes- quisa e de todos os procedimentos necessarios para preparar a en- trada em campo. E 0 tempo dedicado — e que merece empenho e investimento — a definir e delimitar o objeto, a desenvolvé-lo ted- rica e metodologicamente, a colocar hipdteses ou alguns pressu- postos para seu encaminhamento, a escolher e a descrever os ins- trumentos de operacionalizagao do trabalho, a pensar 0 cronogra- ma de acao e a fazer os procedimentos exploratorios para escolha do espaco e da amostra qualitativa. O trabalho de campo consiste em levar para a pratica empirica a construcao tedrica elaborada na primeira etapa. Essa fase combi- na instrumentos de observacao, entrevistas ou outras modalidades de comunicacao e interlocucdo com os pesquisados, levantamento de material documental e outros. Ela realiza um momento relacio- nal e pratico de fundamental importancia exploratoria, de confir- macao e refutacdo de hipoteses e de construgao de teoria. O traba- lho de campo é uma fase tao central para o conhecimento da reali- dade que Lévy-Strauss (1975) 0 denomina “ama de leite”’ de toda a pesquisa social. A terccira etapa, resumida no titulo Andlise e tratamento do material empirico e documenial, diz respeito ao conjunto de pro- 26 Pesquisa social cedimentos para valorizar, compreender, interpretar os dados em- piricos, articula-los com a teoria que fundamentou o projeto ou com outras leituras tedricas e¢ interpretativas cuja necessidade foi dada pelo trabalho de campo. Podemos subdividir esse momento em trés tipos de procedimento: (a) ordenacdo dos dados; (b) classificacdo dos dados; (c) andlise propriamente dita. © tratamento do material nos conduz a uma busca da /égica peculiar e interna do grupo que estamos analisando, sendo esta a construgao fundamental do pesquisador. Ou seja, analise qualita- liva nao t uma mera classificagao de opiniao dos informantes, é muito mais. E a descoberta de seus codigos sociais a partir das fa- las, simbolos e observagées. A busca da compreensao ¢ da inter- pretacao a luz da teoria aporta uma contribuicdo singular e contex- tualizada do pesquisador. O ciclo de pesquisa nao se fecha, pois toda pesquisa produz conhecimento e gera indagagées novas. Mas a ideia do ciclo se so- lidifica nado em etapas estanques, mas em planos que se comple- ientam. Essa ideia também produz delimitagao do processo de trabalho cientifico no tempo, por meio de um cronograma. Desta lorma, valorizamos cada parte e sua integracdo no todo. E pensa- Inos sempre num produto que tem comeco, meio e fim ¢ ao mesmo (empo ¢ provisorio. Falamos de uma provisoriedade que é inerente OS PrOcessos socials € que se refletem nas construc6es tedricas. Referéncias ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Frangois Maspero, 1965. BRUYNE, ; HERMAN, J.; SCHOUTHEETE, M. Dindmica da pesqui- saem Ciéncias Sociais. 6° ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. 27 Pesquisa social Vos DEMO, P. Metodologia cientifica em Ciéncias Sociais. 3° ed. Sao Pau- lo: Atlas, 1985. DILTHEY, W. Intreduccion alas Ciéncias del Espiritu. Madri: Revis- ta de Occidente, 1956. FEYERABEND, P. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989. KAPLAN, A. A conduta na pesquisa. Sado Paulo: Herder/Edusp, 1972. KUNH, T. Estrutura das revolucées cientificas. Sao Paulo: Perspecti- va, 1978. LENIN, W. Cahiers philosophiques. Paris: Sciences Sociales, 1965. LEVY-STRAUSS, C. Aula inaugural. In: ZALUAR, A. (org.). Des- vendando mascaras sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975, p.211-244. MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacifico Ocidental. Sao Paulo: Abril, 1984. MINAYO, M.C.S. O desafio do conhecimento. 9° ed. ampliada e apri- morada. Sao Paulo: Hucitec, 2006. SARTRE, J.P. Questio de método. Colecao Os Pensadores. Sao Paulo: Abril, 1980. Referéncias comentadas BRUYNE, P.; HERMAN, J.; SCHOUTHEETE, M. Dinamica da Pes- quisa em Ciéncias Sociais. 6° ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. Os autores propd6em uma reflexao sobre a cientificidade das ciéncias so- ciais, sobre as condicées de produgao do conhecimento e apresentam uma visdo global do processo de pesquisa. Evidenciam que toda a construcgdo cientifica se movimenta em quatro polos: cpistemoldégico, teorico, mor- foldgico ¢ técnico, polos nao estanques ¢, sim, articulados. Pesquisa social DEMO, P. Metodologia cientifica em Ciéncias Sociais. 15° cd. So Pau- lo: Atlas, 1985. . Introducdo a metodologia cientifica. 3° cd. SAo Paulo: Atlas, 1995, O autor destes dois livros de referéncia discute quest6es fundamentais da ciéneia enquanto um produto da sociedade e enquanto produgao de co- nhecimento, na area de Ciéncias Sociais. Ele reflete sobre as principais correntes de pensamento dominantes e as implicagGes das abordagens de cada uma. O texto abrange temas de relevante interesse como critérios de cientificidade, campo cientifico, condigdes de producao do conhecimen- {o € parametros para verificacao, validade e confiabilidade. MINAYO, M-C\S. O desafio do conhecimento. 9° ed. ampliada e apri- morada. SAo0 Paulo: Hucitec, 2006. A autora faz uma reflexdo abrangente sobre a filosofia, a sociologia ea pratica da pesquisa social em satide e acompanha toda a ortentacdo meto- lologica com propostas tedricas e operacionais. O livro abrange todas as lases de uma pesquisa social qualitativa e além de uma vasta bibliografia, (jue pode ser consultada, apresenta uma forma de abordagem propria, em diélogo com autores de referéncia no campo da pesquisa socioldgica, an- (ropologica e da sate coletiva. Na 9 edic&o a autora introduz a aborda- poem articulada por triangulacgao de métodos e inicia uma reflexdo sobre a (corla sistemica e 0 conceito de complexidade em pesquisa. MINAYO, M.C.S.; ASSIS, S.G.; SOUZA, E.R. (orgs.). Avaliacao por (riangulacao de métodos: abordagem de programas sociais. 2° ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. Apesar de ser um livro pensado para avaliagao, esta obra traz orientacdo sobre métodos quantitativos e qualitativos e sua articulagao na pes- (juisa social. Os autores trabalham cada passo (definicdo de objeto, cons- (tluigao de marco tedrico, definic¢ao de indicadores, técnicas de investi- pagao, técnicas para trabalho de campo e diversas formas de andlise) das duas abordagens, sempre combinando a sua triangulagao para andlise da realidade social. 29 Capitulo 2 O PROJETO DE PESQUISA COMO EXERCICIO CIENTIFICO E v” ARTESANATO INTELECTUAL Suely Ferreira Deslandes* 1. Introducao Um projeto de pesquisa constitui a sintese de miltiplos esfor- cos intelectuais que se contrapdem e se complementam: de abstra- gao tedrico-conceitual e de conexdo com a realidade empirica, de exaustividade e sintese, de inclusdes e recortes, e, sobretudo, de ri- gor ¢ criatividade. Um projeto é fruto do trabalho vivo do pesqui- sador. Para isso, ele vai precisar articular informacédes e conhe- cimentos disponiveis (um amplo conjunto de saberes e técnicas), usar certas tecnologias (0 uso de internet ou de certos programas, por ex.), empregar sua imaginagao e emprestar seu corpo ao esfor- co de realizar a tarefa. Quem duvida que as vistas cansam, as cos- tas ardem ea coluna doi depois de longos dias em frente a um com- putador ou a uma pilha de livros? O projeto é construido artesanalmente por um artifice através do trabalho intelectual. E, portanto, um artefato. O que qucremos dizer com isso? * Socidloga, doutora em Ciéncias ¢ pesquisadora titular do IFF/Fiocruz. 31 Pesquisa social Primciro que 0 projeto de pesquisa nao surge espontancamente, unicamente pela vasta experiéncia ou pelo grande compromisso social de um pesquisador em relacgao a certa tematica. Embora esses quesitos também sejam muito importantes e presentes, pois como dizia o socidlogo americano Wright Mills (1972) os pensado- caram a ambos demasiado a sério para permitir tal dissociagao, e desejam usar cada uma dessas coisas para 0 enriquecimento de ou- tra” (p.21 1-212). Entretanto, se torna necessario 0 trabalho sistema- tico para o dominio de teorias e métodos justamente para que o pesquisador possa ser criador, evitando o “fetichismo do método e da técnica” (WRIGHT MILLS, 1972), para que possa usa-los ar- tesanalmente, adequando-os, reinventando os caminhos proprios para sua investiga¢ao. Segundo é que, ao construir um projeto, fabricamos também uma ferramenta, um artefato, cuja materialidade nao se apresenta somente no numero de paginas escritas ou num arquivo de um edi- tor de textos, mas que se concretizaré na realizagao do trabalho in- vestigativo. Artefato porque tanto ¢ fruto da mao de obra humana, intencionalmente criado, quanto no sentido de ser resultado do uso de métodos particulares em pesquisa (FGV, 1987). E um ins- trumento que servira como a guia para as acdes do estudo propos- to. Podemos ponderar que esta ferramenta-guia nao se limitaria a metafora do prumo de um pedreiro, que se destina a corrigir a reti- dao do angulo de uma parede, evitando rigorosamente os desvios. Melhor talvez fosse pensar através da metafora de outras ferramen- tas-guia, tais como o astrolabio e o sextante, instrumentos utiliza- dos pelos antigos navegadores para se lancarem em mares desco- nhecidos, desafiadores e fascinantes. 2. Dimensées de um projeto de pesquisa Quando escrevemos um projeto, estamos definindo uma car- tografia de escolhas para abordar a realidade (0 que pesquisar, 32 Pesquisa social como, por que, por quanto tempo etc.). Isso porque o projeto cien- tifico trabalha com um objeto construido ¢ nao com 0 objeto per- cebido, nem com o objeto real (BRUYNE; HERMAN; SCHOU- THEETE, 1977). O objeto percebido é aquele que se apresenta aos nossos sen- tidos pela forma de imagens, é 0 que vemos e sentimos e que, na Inatoria das vezes, se apresenta como “real”, natural e transparen- (c. Em pesquisa social sabemos 0 quanto estas percepcdes sofrem influéncias das nossas visbes de mundo, possuidoras de uma his- loricidade, portanto, em nada “naturais”. O objeto real diz respeito a totalidade das relacdes da exis- iencia social. Suas fronteiras e complexidade, porque dindmicas « constantemente reinventadas, excedem a apreensdo do conheci- mento cientifico. O objeto construido, por sua vez, constitui uma traducdo, uma versdo do real a partir de uma leitura orientada por conceitos ope- radores. E resultado de um processo de objetivaciio tedrico-concei- tual de certos aspectos ou relacdes existentes no real. Este é um ponto muito caro as ciéncias sociais. Marx (1978) ja afirmava que ‘i ciéncia se apropria da totalidade do social pelo pensamento, por bstragdes conceituats que se debrugam sobre o concreto, Weber (1986) postulava que a ciéncia social nao trabalha com as cone- oes reais entre coisas, Mas com conex6es conceituais entre pro- blemas e Durkheim (1978), que, assim como Marx, lembrava a im- portancta de realizar uma ruptura como senso comum, comas per- cepgdes 1mediatas. Esta etapa de reconstrucao da realidade, entendida ai enquan- loa definigado de um objeto de conhecimento cientifico eas manci- 1as propostas para investiga-lo, traz em si muitas dimensGes. Ao claborarmos um projeto cientifico estaremos lidando, ao mesmo tempo, com pelo menos trés dimensics importantes que estao interligadas. 33 Pesquisa social A dimensao técnica, que trata das regras reconhecidas como a0 de um projeto, isto ¢, Como defi- cientificas para a construga nirum objeto, como aborda-lo e como escolher os instrumentos mais adequados para a investigagao. Sendo que récnica sempre diz respeito a montagem de instrumentos (DEMO, 1991), 0 pro- jeto de pesquisa ¢ visto neste sentido como um instrumento da investigagao. A dimensdo ideologica se relaciona as _escolhas do pesquisa- dor. Quando definimos 6 que pesquisar, a partir de que base teo- rica e como pesquisar, estamos fazendo escolhas que sao, mesmo em ultima instancia, ideologicas. Hoje, mesmo os cientistas na- turais reconhecem que a neutralidade da investigagao cientifica ¢ um mito. Nao estamos, ¢ certo, nos referindo a uma visao maniqueista, onde o pesquisador reconstroi a realidade com “seoundas inten- cées politicas”. Estamos, sim, falando de uma caracteristica in- trinseca ao conhecimento cientifico: ele é sempre historico ¢ So- cialmente condicionado. O pesquisador opera escolhas (mesmo sem tera percepcao clara disto), tendo como horizontes sua posicao so- cial e a mentalidade de um momento historico concreto. A dimenséo cientifica deum projeto de pesquisa articula estas duas dimenses anteriores. A pesquisa cientifica busca ultrapassar 0 senso comum (que por sic uma reconstrucio da realidade) através do método cienti- fico. Como ja dito, o método cientifico permite que a realidade social seja reconstruida enquanto objeto do conhecimento, atraves de um processo de categorizagao (possuidor de caracteristicas €s- pecificas) que une dialeticamente 0 tedrico € O empirico. Neste capitulo estarcmos dando énfase a dimensao técnica na xo da construcdo de um projeto. Estamos propondo uma 1n- quest a técnica é também troducao a cste tema, entendendo que dominar viabilizar a produgao do conhecimento. 34 Pesquisa social ‘. Os propésitos e a trajetéri yo rajetor ‘ x . dle pesquisa | ia de claboracao de um projeto Fazemos rOieto ¢ : nds mesmos quell gue ‘a c pesduisa, sobretudo, para esclarecer a linicdes tedricas de suporte t as estratts proponde investigar, as de- mos (0 oe ratégias do estudo que utilizare- meee viateanal aoe , come. por quanto tempo etc.). A redacao do ia coerente € meee’ demandas ao pesquisador para tornar cla- vestigacdo sob a forma ‘iL sua proposta. Redigir seu protocolo de in- ainda precisa estudar e um projeto ajuda o autor a perceber 0 que estudar, definir e mesmo refletir para conclui-lo. O projeto aj ‘ 5 durante 1 ve ayuda tambem a Mapear um caminho a ser seguido uum plano d . eee. Podemos, assim, antecipar cenarios ¢ criar e trabalho. Isso permite ao pesquisador planejar e ad- 1 ‘ : ~ roe Além di . sien mettadr neces comic seus pro ca. O “mei Jue esta ceita na comunidade cientifi- i, nrojeto de soa asae reconhecido no mundo cientifico é (ecer comentarios e crit sas wn oes especialistas poderao minhamento da nvestic Icas, contribuindo para um melhor enca- quisa cientifica press 18acao. Ei mportante lembrarmos que a pes- xo, O projeto permite ain sempre uma instancia coletiva de refle- mo situadas em instit ainda que varias equipes de pesquisa, mes- wradamente istitucdes ¢ regides diferentes, trabalhem inte- , seguindo um mesmo protocolo. O projeto ét s Z os to. As a ae ampem um pre-requisito para obter financiamen- ic coneocn . es de fomento a ciéncia regularmente abrem edi dos. Um projeto hes pesquisadores a concorrerem entre si por fun ] em elaborado é condica i ; refac As I¢ao esse articd destas concorréncias. Gao essencial a participar Finalment ant uma t almente, ao aprcesentar um projeto, 0 pesquisador assu ‘esponsabilidade nublic: ao . assume ponsabilidade publica com a realizacdo do que foi prome ha a Pesquisa social tido. Mudancas podem ser necessarias € imprevistos costumam acontecer. Essa contingéncia revela que a pesquisa ¢ uma pratica dinamica, contudo, o pesquisador precisara esclarecer e justificar as modificacdes daquilo que for preconizado inicialmente. Os Or- gios de fomento ¢ instituigoes apoiadoras cada vez mais frequen- temente exigem relatorios de acompanhamento da execugao de projetos. O projeto de pesquisa € 0 desfecho de varias acdes e esforgos do pesquisador. Ele culmina uma trajetoria anterior marcada por atividades e atitudes (RUDIO, 2000; MINAYO, 2006): 1) De pesquisa bibliografica disciplinada, critica e ampla: a) Disciplinada porque devemos ter uma pratica sistematica — um critério claro de escolha dos textos ¢ autores. Quais serao ag chaves tematicas de busca? Serao incluidos somente 0s tex- tog mais recentes? Serdo textos oriundos somente de uma area de conhecimento? Havera alguma forma de escolha dos auto- res? Aqueles, por exemplo, que defendem determinada linha de pensamento? Responder a estas perguntas ajuda a definir um certo escopo de pesquisa bibliografica. b) Critica porque precisamos estabelecer um diadlogo reflexivo entre as teorias e outros estudos com o objeto de investigacao por nds escolhido — uma revisio nao pode ser diletante, mas precisa estar atenta a correlacao entre os métodos propostos € os resultados encontrados por outros pesquisadores. Desenvol- ver esta capacidade comparativa e analitica em relagao aos Ou- tros estudos nos ajuda a melhor delimitar nossa proposta. c) Ampla porque deve dar conta do “estado” atual do conheci- mento sobre o problema — espera-se que 0 pesquisador saiba dizer 0 que 6 0 consenso sobre o assunto em debate e o quee polémico; o que j€ tido como conhecido e o que ainda pouco se sabe. E como se apropriar seletivamente de tantos conhe- cimentos? Os fichamentos s4o um bom procedimento, mas, 36 ~~ Pesquisa social rome ja dito, devem ter um foco e sempre estabelecer um dia- ogo com o tema ¢ objeto de estudo desejado. 2) De articulacde criativa, seja na delimitagdo do objeto de 1C 4 vette qe rraea i : ! vsquist. seja na aplicagao de conceitos — trabalhos originais ¢ novadores se iniclam com perguntas que ainda nao foram formu- 3) De humildade, ou seja, reconhecendo que todo conheci- iento clentifico tem sempre um carater: a) Aproximado, Isto &, se faz sempre a partir de outros conheci- mentos sobre os quais se questiona, se aprofunda ou se critica. b) Provisorio ~ tanto a realidade social se modifica quanto as Interpretagdes sobre ela podem ser superadas por outras que incluem mais elementos e complexidade. °) Inacessivel em relacdo a totalidade do objeto, isto 6, as . ‘ 5 ideias ou explicagdes que fazemos da realidade estudada sAo sempre mats imprecisas do que a propria realidade, tee anna vida real —a rigor, um problema intelectual tir de sua existéncia na vida real e nao “ ay e nao anea- Surge a) do “espontanea ¢) Condicionado historicamente. ; Considerando-se OS varios ciclos de uma pesquisa, esta eta- | i ¢ reconhecida como a fase exploratoria ¢ é, sem divida, um de scus Momentos mais importantes (MINAYO, 2006). Compreen- de varias fases da construca jetori i : rugao de uma trajetéria lgaca oe vars | a de investigagao, a) escolha do topico de investigacao; b) delimitagaéo do objeto; c) definigao dos objetivos; 37 Pesquisa soctal d) construcao do marco teérico conceitual; e) selecdo dos instrumentos de construgdo/coleta de dados; f) exploragao de campo. Importante lembrar que a fase exploratoria conduzida de ma- neira precaria trara grandes dificuldades a investigagao como um todo. Um pesquisador mais inexperiente pode pensar quea elabo- racAo de um projeto é uma tarefa incomoda eo que mais importa € logo fazer o trabalho de campo e realizar a analise, Contudo, se o objeto e objetivos de pesquisa ou se os métodos nao forem bem de- marcados, futuramente os obstaculos aparecerao exigindo revi- sdes € ajustes. | Formalmente, a fase exploratoria termina quando 0 pesquisa- dor definiu seu objeto de pesquisa, construiu o marco teorico con- ceitual a ser empregado, demarcou objetivos claros para o estudo, selecionou os instrumentos de coleta de dados, escolheu 0 espago eo grupo de pesquisa, criou critérios para a inclusao dos sujeitos no estudo e estabeleceu estratégias para entrada no campo. Em ou- tras palavras, a elaboragdo do projeto de investigacao demarca a conclusdo desta fase. 4. Os elementos constitutivos de um projeto de pesquisa O projeto de pesquisa deve, fundamentalmente, responder as seguintes perguntas (BARROS; LEHFELD, 1986; GIL, 1991; RUDIO, 2000): * O que pesquisar? (Definigao do problema, hipoteses, base teo- rica e conceitual.) * Para que pesquisar? (Propésitos do estudo, seus objetivos. ) + Por que pesquisar? (Justificativa da escolha do problema.) ¢ Como pesquisar? (Metodologia) + Por quanto tempo pesquisar? (Cronograma de execucao.) 38 Pesquisa social * Com que recursos? (Or¢amento) * A partir de quais fontes? (Referéncias) O que pesquisar? A construcao do objeto de pesquisa Definigdo do tema e escolha do problema O tema de uma pesquisa indica a drea de interesse ou assunto ilser investigado, Trata-se de uma delimitacdo ainda bastante am- pla. Por exemplo, quando alguém diz que deseja estudar a questao “exploragao sexual de criancas e adolescentes”, esta se referindo wo assunto de seu interesse. Contudo, é necessario para a realiza- yao de uma pesquisa um recorte mais preciso deste assunto. Este encontro com 0 tema é 0 primeiro passo para o trabalho cientifico. Sugere-se que o pesquisador faca trés indagacGes sobre o tema eleito (SANTOS, 2004): se Ihe agrada e motiva; se possui relevancia social e académica; ¢ sc ha fontes de pesquisa sobre ele. Mas o tema €é um caminho ainda em aberto. O pesquisador de nosso exemplo entao se pergunta: o que pesquisar sobre explora- cdo sexual de criangas e adolescentes? Varias questées podem ser de seu interesse. Quais sdo as caracteristicas destas criancas, ado- lescentes e suas familias? Como operam as redes e agentes res- ponsaveis por esta exploragdéo? Quais acdes tém sido realizadas nos ultimos anos para o combate a essa pratica? Ao formularmos perguntas ao tema estaremos construindo sua problematizacgaéo. Um problema decorre, portanto, de um aprofun- damento do tema. Ele é sempre individualizado e especifico. A definigao do problema ou objeto de pesquisa as vezes é tare- la dificil, mas também é a razdo da existéncia de um projeto. A construcao de um objeto de estudo cientifico constitui um verda- deiro exercicio contra a ideia de que as coisas est3o dadas na reali- dade e que basta apenas estar atento ao que acontece no cotidiano. [sta postura € criticada por Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999), que a nomeiam como “sociologia espontanea”’. 39 Pesquisa social F importante lembrar que um problema social nao ¢ a mesma coisa que um problema cientifico (VICTORA; KNAUTH; HAS- SEN, 2000; BOURDIEU, 1989). Em nosso exemplo falavamos do tema exploracdo sexual de criangas c adolescentes € este eum pro- blema social importante, seja porque traz sérias consequencias 4 satide fisica e mental destas criangas, seja porque fere todos os seus direitos, seja porque é moralmente intoleravel, ou mesmo pot- que denota falhas nos mecanismos de protegao daquela sociedade a infancia e adolescéncia. Contudo, a exploragao sexual de crian- cas ¢ adolescentes s6 se tornara um problema cientifico se o pes- quisador operar propositalmente uma série de rupturas sistema- ticas: a) romper com as ideias e concepgoes circulantes sobre a questo (sejam religiosas ou morais); b) desconstruir ideias pre- concebidas (que as familias sao as principais responsaveis pelo pro- blema, por ex.); c) evitar as explicagdes simplistas (¢ a pobreza que explica a existéncia deste tipo de comercio). Se estivéssemos cons- truindo um objeto cientifico sobre esta questac, uma das posturas iniciais seria a de se perguntar quando e em que contexto de nossa historia a pratica de exploragao sexual de criancas e adolescentes (perpetrada por centenas de anos em nossa sociedade) passou a ser vista como um problema social? Quais atores (movimentos so- ciais, midia, representantes do Estado etc.) e circunstancias foram responsiveis por atribuir 4 questdo o status de problema social? Esse caminho, que ajuda a romper o senso comum sobre o problema e suas explicagdes circulantes, é chamado pelo socidlogo francés Pierre Bourdieu (1989) de pratica da “duvida radical”. O apoio de revisdes bibliograficas sobre os estudos ja feitos ajuda a mapear as perguntas ja elaboradas naquela area de conhe- cimento, permitindo identificar o que mais tem se enfatizado e 0 que tem sido pouco trabalhado. Construir um diario pessoal de pergun- tas e questionamentos sobre o tema também é util. Confrontar estas perguntas com o que ja foi investi gado ¢ a forma como foram trata- das por outros estudiosos ¢ a proxima ctapa para sclecionar 0 pro- 40 Pesquisa social blema de estudo. Este exercicio permite ao pesquisador nao sé deli- mitar 0 seu problema, mas constituir a sua problematica de estudo Isto G, comtextualizar o seu problema em relagao aquele campo te- matico de conhecimento (LAVILLE; DIONNE, 1999). A escolha de certas variaveis também auxilia a delimitacdo do problema. Retomamos 0 exemplo colocando-o inicialmente co- mo problema de estudo: “quais foram as iniciativas para combater a exploragao sexual de criang¢as e adolescentes?” Como se vé, uma série de umprecisoes dificulta o entendimento dessa proposta: —a que tipo de iniciativa nos referimos? Relativas a que periodo de lempo? Em todo 0 pais? Trata-se, ent&o, somente de listar o que foi Icito? Novas reflexoes a partir de maior conhecimento sobre o tema ay udariam a reelaborar a proposta e teriamos entdo: “como se ca- racterizam as iniciativas governamentais, em termos de estraté- uias, efetividade e continuidade, para combater a exploracio se- xual de criangas e adolescentes no Estado do Rio de Janeiro desde il implantagao do Estatuto da Crianga e do Adolescente?” Poderia- mos seguir recortando a abordagem para as iniciativas de certa area cspecifica de atuacao das politicas publicas (Seguranca Publica ou da Assisténcia Social), Alguns autores sugerem que o problema deva ter algumas ca- racteristicas, como, por exemplo, (GIL, 1991): a) Deve ser formulado como pergunta. Esta maneira parece ser amais facil para se formular um problema, além do que facilita sua identificacao por quem consulta o projeto de pesquisa. b) O problema deve ser claro e preciso. c) Deve ser delimitado a uma dimensao vidvel. O problema é as vezes, formulado de maneira muito ampla, impossivel de ser investigado. As vezes, problemas propostos nao sc encaixam a estas re- gras. Um caso tipico ¢ o dos temas pouco estudados ou muito re- centes que carecem de pesquisas exploratérias. Pesquisa social Finalmente, a escolha de um problema merece gue o pesqui- sador faca sérias indagacdes (RUDIO, 2000): a) Trata-se de um problema original? b) O problema é relevante? | c) Ainda que seja “interessante”, ¢ adequado para mim? | d) Tenho hoje possibilidades reais para executar tal estudo : e) Existem recursos financeiros para a investigacdo deste tema? f) Terei tempo suficiente para investigar tal questao? Formulacao de hipoteses. As hipoteses sao afirmagées provisorias ou uma solucdo possi- vel a respeito do problema colocado em estudo (SANTOS, 2004). Entretanto, as hipdteses nao constituem os pressupostos de estu- do, porque estes ja estao confirmados pela literatura, constituindo 0 acervo de evidéncias prévias sobre a questdo (SEVERINO, 2002). Um estudo pode articular uma ou mais hipoteses. As hipote- ses so elaboradas a partir de fontes diversas, tais como a observa- cao, resultados de outras pesquisas, teorias ou mesmo mtuigao (GIL, 1991). A analogia com as solugdes dadas a outros casos compara veis também constitui um mecanismo de elaboragado de hipoteses (BOURDIEU; CHAMBOREDON; PASSERON, 1999). Possui também algumas caracteristicas para ser considerada uma “hipotese aplicavel” (GIL, 1991): a) Deve ter conceitos claros. Por exemplo, a hipotese de que “as iniciativas de combate a exploragdo sexual tiveram um ca- rater campanhista” deixa ambiguidades. O conceito “campa- nhista” esta se referindo a que tipo de atuagao exatamente? O autor devera, entao, especificar este termo, definindo-o mais claramente. 42 Pesquisa social b) Deve ser especifica. Muitas hipéteses, apesar de claras, sdo expressas em termos muito amplos. Retomando nosso exem- plo, ao formular a hipotese que “as iniciativas no periodo de- finido se dividem entre as aces de sensibilizacdo para o pro- blema e responsabilizacao social”. Ao invocar os conceitos de “sensibilizagdo”’ e“responsabilizagao social” poderiamos listar uma série de diferentes ages concretas que perfeitamente se encaixariam nestas definigdes. Por exemplo, ao incluir o con- ceito de sensibilizagao estariamos definindo a divulgagao da ques- tao pelos meios de comunica¢ao de massa? Estariamos nos re- ferindo a formagao de profissionais de educacio, satide e segu- ranga publica para a identificagao das situacdes? Enfim, esta hi- potese precisaria delimitar methor sua abrangéncia. c) Nao deve se basear em valores morais. Algumas hipéteses, equivocadamente, utilizam adjetivos duvidosos, como “bom”, “mau”, “prejudicial” ete. d) Deve ter como base uma teoria que a sustente. Este ultimo aspecto da elaboragiio das hipéteses (o embasamen- to de uma teoria ou conjunto de conhecimentos) vai contra a ideia positivista da resposta espontanea ou fruto da inducdo a partir de uma coletanea de fatos anteriormente observados (BOURDIEU; CHAMBOREDON: PASSERON, 1999), A hipotese é também um dialogo que se estabelece entre o olhar criativo do pesquisador, 0 conhecimento existente e a realidade a ser investigada. A hipotese sugere uma orientacdo ao estudo, pois ao final o pesquisador tera que responder se houve evidéncias para sua con- lirmagao ou refutacdo, assim a hipotese influencia a elaboracdo do objetivo geral da pesquisa (SANTOS, 2004), Por fim, vale lembrar que os estudos de natureza exploratoria, devido a sua caracteristica de sondagem de relacées, fatos e pro- cessos muito pouco conhecidos dispensam a elaboragao de hipd- leses, porque os pesquisados nao tém ainda os subsidios de com- paracao para clabora-las. 43 Pesquisa social Definic¢do do quadro teorico O quadro teérico de um projeto representa o conjunto de prin- cipios, definicdes, conceitos ¢ categorias que articulados cntre si formam um sistema explicativo cocrente (MINAYO, 2006; SE- VERINO, 2002). A definicdo tedrica ¢ conceitual ¢ um momento importante da elaboracao do projeto cientifico. E sua base de sustentagao e rigor, orientando as formas de analise do objeto. Envolve escolhas e mes- mo concordancia ideolégica do pesquisador com as explicagdes con- tidas no quadro teérico apresentado. Remetendo este item a uma dimensdo técnica, devemos dizer que € imprescindivel a definigao clara dos pressupostos teoricos, das categorias e conceitos a serem utilizados. Ainda que hoje as co- nex6es tedricas de diferentes origens sejam bem-vindas, ha que se. ter dominio sobre as implicagGes explicativas de tais articulagoes, mantendo uma unidade logica e coerente na abordagem proposta: Devemos tomar cuidado para nao reescrevermos a obra dos autores que embasam o quadro tedrico escolhido, reconstruindo um verdadeiro tratado e certamente de menor qualidade. Muitos trabalhos confundem a base tedrica do estudo com uma revisao da literatura. A primeira busca mapear 0 que ¢ dito, por quem e quan- do. A base tedrica j4 estabelece um foco sobre o que adotamos como as balizas de nosso estudo. Devemos, entao, ser sinteticos e objetivos, estabelecendo, primordialmente, um dialogo entre a teo- ria e o problema a ser investigado. Para que pesquisar? Objetivos Buscamos com a formulacdo dos objetivos responder ao que é pre- tendido com a pesquisa, que propdsitos almejamos alcangar ao termi- no da investigacao. E fundamental que estes objetivos sejam possi- veis de serem atingidos. Geralmente se formula um objetivo geral, de dimenséecs mais amplas, articulando-o aos objetivos cspeciticos. 44 Pesquisa social QO objetivo geral diz respeito ao conhecimento que o estudo proporcionara em relacao ao objeto. Constitui o “resultado inte- lectual” a ser obtido no final da pesquisa (SANTOS, 2004). Esta relacionado a hipotese. Retomando mais uma vez o exemplo adotado, se tivéssemos a seguinte hipotese: as iniciativas de combate a exploracdo sexual devido a descontinuidade de financiamento se mostraram pouco efetivas em termos de responsabilizagao dos agentes deste comér- cio (clientes e agenciadores), alcancando, entretanto, boa mobili- sacdo publica, poderiamos ter, entao, como objetivo geral “anali- sar a efetividade e continuidade das estratégias de enfrentamento a exploracdo sexual de criangas e adolescentes realizadas no Rio de Janeiro apos a implantacdo do ECA”. Os objetivos especificos séo formulados pelo desdobramento das agGes que serdo necessarias a realizacao do objetivo geral. As- sim, para o exemplo anterior poderiamos propor: 1) identificar ¢ caracterizar as iniciativas realizadas para o enfrentamento a ex- ploragado sexual de criangas e adolescentes”’; 2) contrastar os obje- ttvos propostos das iniciativas realizadas e seus resultados; 3) ca- racterizar a sustentabilidade financeira e politico-institucional de lais agdes; 4) analisar as condicGdes de continuidade dessas acées. A uttlizagao de verbos no infinitivo para a descri¢ao dos obje- tivos deixa claro que estamos tratando das acdes de investiga- ao propriamente ditas. Os objetivos serdo 0 guia para a escotha c construcao dos métodos e instrumentos, Espera-se que o desenho metodologico viabilize a realizacdo de cada um dos objetivos. Por que pesquisar? Justificattva Trata-se da relevancia, do por que tal pesquisa deve ser reali- vada. Quais motivos a justificam? Os motivos de ordem teéri- Pesquisa social ca sao aqueles que apontam as contribuigdes do estudo para a com- preensao do problema apresentado. Os motivos de ordem pratica sio os que indicam a relevancia da pesquisa para a intervengao na questao social abordada. Os de ordem pessoal sao os que demons- tram a relevancia da escolha do estudo em face da trajetoria do pes- quisador. A justificativa de ordem académica se sustenta em varios ar- gumentos: a) de caracterizagao do nivel de conhecimento e da pro- ducaio acumulada na tematica, indicando ai as suas lacunas; b) do potencial para ampliar o conhecimento disponivel; c) de promessa de avanco metodolégico; d) da importancia social do problema. A justificativa de ordem pratica diz respeito 4 construgao de subsidios para modificar a realidade em foco, atendendo deman- das sociais. A justificativa de ordem pessoal é aquela que situa, de forma sintética, a escolha do problema de estudo na trajetéria profissio- nal e biografica do pesquisador. Como pesquisar? Metodologia © A definicado da metodologia requer dedicacdo e cuidado do pes- quisador. Mais que uma descric¢ao formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica as conex6es ¢ a leitura operacional que o pesquisador fez do quadro tedrico e de seus objetivos de estudo. Espera-se que para cada objetivo descrito sejam apresenta- dos métodos e técnicas correspondentes e adequados. Reconhece- mos por métodos os procedimentos reconhecidos, voltados para a produgao de dados e explicagdes, como, por exemplo, os metodos hist6rico, comparativo, etnografico, estudo de caso (LAKATOS; MARCONEL, 1992). Técnicas so os procedimentos mais focali- zados que operacionalizam os métodos, mediante emprego de ins- trumentos apropriados (SEVERINO, 2002). Como exemplo de téc- 46 Pesquisa social nicas c instrumentos teriamos respectivamente: as entrevistas e o roteiro elaborado para realizdé-la. A scegao de metodelogia contempla a descrigao da fase de ex- ploragao de campo (escolha do espaco da pesquisa, critérios ¢ es- lrategias para escolha do grupo/sujcitos de pesquisa, a definigao de meétodos, técnicas e instrumentos para a construcao de dados e os Mecanismos para entrada em campo), as etapas do trabalho de campo e€ os procedimentos para analise. No projeto, o pesquisador pode comecar por informar o tipo de pesquisa que ele apresenta. Observamos que ha varias formas de categorizagao de uma pesquisa. Ela pode, por exemplo, ser de- finida como basica, aplicada, estratégica segundo a forma de uti- lizagao dos resultados ou descritiva, explicativa, experimental se for considerado o seu nivel de interpretacdo (MARCONI; LAKA- TOS, 1999). Ha diversas tipologias possiveis e o recomendavel seria empregar aquela que melhor destaca a natureza e qualida- des do estudo., A seguir, 0 campo de observacdo precisa ser definido, enten- dendo-o como 0s locais e sujeitos que serao incluidos, o porqué des- tas inclus6es (critérios de selec4o) e em qual proporcao serio feitas. Sé a pesquisa for realizada em servigos de satide, ou qualquer outra instituic¢ao, é preciso descrever o motivo de ter sido feita esta opgao e por que foi incluida a unidade de satide deste ou daquele bairro, deste ou daquele nivel de complexidade. Estes motivos de- vem ser condizentes aos propositos do estudo. Vale ainda distin- guir se a escolha da instituigdo ou comunidade é apenas 0 lugar onde se encontrarao os sujeitos de estudo ou se estas serao, por si mesmas, 0 foco da analise, visando um estudo de caso (de modelos de atendimento, de gestao ctc.). —_— O mesmo raciocinio vale para a escolha dos sujeitos. Quem sera incluido no estudo e por quais motivos? Serado os gestores ou os benefictarios de determinado programa? Scrao aqueles que vi- 47 rr Pesquisa social venciaram determinada experiéneia ou aqueles que se recusam a participar dela? Precisamos ainda responder: quantas instiluigoes ou sujeitos serio envolvidos na pesquisa? Este processo de definigao de uma ~certa quantidade de representantes num universo de possibilidades (tanto de instituicdes quanto de sujeitos) é também denominada de “selecdo da amostra” ou “definigao da amostragem”. Existem basi- camente dois grandes tipos de amostras: as probabilisticas (quan- do todos os elementos de uma populacado possuem probabilidade conhecida e nao nula de participarem da amostra escolhida) e as nao probabilisticas. Conhecer a oportunidade de um sujeito ser selecio- nado permite estimar o erro de amostragem, 0 que ajuda ao pesquisa- dor nio generalizar equivocadamente uma situacao especifica a toda sua populagao (LAVILLE; DIONNE, 1999). Contudo, a ideia de amostragem nao é a mais indicada para certas pesquisas sociais, especialmente aquelas de cunho quali- tativo. Isto se deve ao fato que 0 “universo” em questao nao sao os sujeitos em si, mas as suas representagdes, conhecimentos, prati- cas, comportamentos e atitudes. Como se vé, seria impossivel de- marcar o nimero total destas variaveis, muito menos o tam anho da amostra que seria representativa desta totalidade. Diante disto, costumeiramente se opta por definir o ntimero de sujeitos por in- clusio progressiva (sem demarcar @ priori o numero de partici- pantes) que é interrompida pelo critério da saturagao, ou seja, quan- do as concepcoes, explicagdes e sentidos atribuidos pelos sujel- tos comegam a ter uma regularidade de apresentacao. Nesse caso, ao invés de definir a “amostra de sujeitos”, utili- za-se mais frequentemente o termo “sujeitos incluidos na pesquisa ou grupo de estudo”. Uma pergunta importante neste item €: quais individuos sociais tém uma vinculacdo mais significativa para o problema a ser investigado? A boa selecdo dos sujeitos ou casos | a screm incluidos no estudo é aquela que possibilita abranger a totalidade do problema investigado cm suas multiplas dimensoes (MINAYO, 2006). Ag Pesquisa social . AS lécnicas e@ insirumentos também devem ser descritos em lopico separado, sendo defendida sua adequacao e reconhecidos os seus limites na producao dos dados. E importante lembrar que ao escolher certa técnica o pesquisador produzira os dados num deter- minado molde, valorizando esta ou aquela forma de linguagem. Se por exemplo, escolhermos a técnica de entrevistas, sabemos que no ¢ possivel apreender fidedignamente as praticas dos sujeitos, mas ‘is Narrativas de suas praticas, segundo a visado deste narrador. As tecnicas a serem utilizadas podem se voltar: a) tanto para a producao primaria de dados, isto é¢, quando o pesquisador produz o dado na interacdo direta com os sujeitos através de entrevistas. observacoes, aplicacao de questiondrios; b) quanto para a busca de dados secundarios, ou seja, a partir de acervos ja existentes, tais como documentos, banco de dados, revistas, jornais, colecdes de irtefatos ete. Geralmente se requisita que sejam anexados ao pro- lcto Os roteiros de todos os instrumentos que serdo utilizados. Os procedimentos de andlise dizem respeito as formas de or- pamizacdo dos dados e os passos empreendidos para a producdo de inferéncias explicativas ou de descricdo. Esses procedimentos de- vem ser descritos minuciosamente, deixando transparente o pro- CESSO de interpretagao que seré adotado pelo pesquisador. As ana- lises de conteudo, de discurso, de narrativas, argumentativa e se- miotica sao exemplos de procedimentos possiveis para a andlise e interpretagao do acervo e cada uma destas modalidades preconi- vam um tratamento diferenciado para a organizacao e categoriza- cao dos dados (BAUER; GLASKELL, 2002). Por quanto tempo pesquisar? Cronograma O projcto deve tragar o tempo necessario para a realizacdo de cada uma das clapas propostas. Muitas tarefas podem, inclusive ser realizadas simultaneamente. , 49 Pesquisa social A forma mais usual éa de um quadro, onde nas linhas sao lis- tadas as tarefas da pesquisa ¢ nas colunas o tempo em que estas acontecerao (més 1, més 2 etc.). Com que recursos? Orcamento - Este item estara completo somente nos projetos que pleiteiam financiamento para sua realizagado. Naqueles em que nao ha supor- te financeiro direto ou de bolsas, o pesquisador deve apenas men- cionar que o projeto sera realizado sem financiamento. | Geralmente 0 orcamento é subdividido em tres categorias de gastos: com pessoal; com passagens e diarias; e com material per- manente (como computadores, impressoras etc. ). Alguns lembretes importantes: . a) Em épocas de oscilagao financeira, o orgamento sugerido deve indicar algum mecanismo que o proteja da inflagao; b) 4 priori, devemos buscar saber o que a entidade de fomento financia e o que ela nado financia. Por exemplo, algumas enti- dades financiadoras ndo subsidiam determinados gastos, co- mo passagens, outras ndo permitem a compra de materiais permanentes. Um bom lembrete é saber que, cada instituigao de fomento tem um formato especifico de financiamento e este modelo deve ser previamente consultado. A partir de quais fontes? Citacdes e referencias Geralmente, num projeto cientifico, muitos autores c dados so citados. Ha uma enorme variedade de fontes que um projeto pode utilizar: livros, capitulos de livros, artigos de revistas clen- tificas, revistas leigas, jornais, documentos oficiais, informagoes 50 Pesquisa social pessoais, teses, dissertacdes, monografias, textos nao publicados, bancos de dados, entre outros. O acesso a estas fontes pode se dar atraves da consulta de um determinado acervo disponivel numa biblioteca, centro de documentagao ou colegao pessoal. Entretan- to, a internet abriu um campo imenso de acesso a diversas fontes de referéncias. Pela internet é possivel consultar diversas Bibliote- cas Virtuais (BV) que disponibilizam, na integra ¢ gratuitamente, textos nao publicados, teses, dissertagdes, relatérios de pesquisa, artigos e até mesmo livros. E possivel entrar virtualmente nas biblio- \ccas das principais universidades do Brasil ¢ de outros paises e as- sim saber qual ¢ 0 acervo que possuem e 0 que oferecem neste aces- so virtual. Consultar sites de busca também ajuda muito: 0 sife www. google ¢ um dos mais completos; 0 site http://acessolivre.capes. yov.br da Coordenacgao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (Capes) permite a consulta gratuita de diversos periddi- cos Cientificos de quase todas as areas do conhecimento. Como citar estas fontes tao diversas? Existem varios modelos que regulam as regras de citacdo. As regras da Associagéo Americana de Psicologia constituem uma referéncia para a psicologia em particular e, de modo geral, para as ciéncias sociais nos paises de lingua inglesa. O chamado Chicago style, produzido pela Universidade de Chicago, é referéncia para i area de historia (MATTAR-NETO, 2002). O estilo Vancouver é referencia para a area da satide e foi elaborado pelo Comité Inter- nacional de Editores de Revistas Médicas. No Brasil temos as re- gras de normalizacao de citagdes produzidas pela Associacao Bra- sileira de Normas Técnicas (ABNT) que é uma entidade privada, sem fins lucrativos, existente desde 1940. A ABNT é responsa- vel por criar normas para diversos procedimentos tecnologicos, inclusive para a redacao cientifica. Em seu site (www.abnt.org.br) ha mais informacdes sobre estas normas e como adquiri-las, mas lcmbremo-nos de que as normas de citacées e referéncias biblio- St Pesquisa social graficas estéo também disponiveis gratuitamente na maioria das bibliotecas universitarias. Destacaremos aqui as formas mais comuns de citagdes diretas e indiretas de trechos de textos eas citagdes das referencias destes textos. Adotaremos aqui o sistema autor-data, mas a ABNT tam- bém aceita o sistema numérico (as referéncias sao numeradas de acordo com a ordem de aparicao no texto). Segundo a ABNT/NBR 10520 (2002), a citagao e uma men- cio de uma informagao extraida de outra fonte. As citacdes podem ser diretas (copia literal de parte da obra do autor consultado) ou indiretas (texto parafraseado ou adaptado da obra consultada) e pode ainda haver a citacdo de citagao (citagao direta ou indireta de um texto que nado se teve 0 acesso original, mas por intermé- dio de outro texto). No corpo do projeto, as citagdes diretas, quando necessarias, devem ser breves para que possibilitem maior agilizacao da leitu- ra. Se a citac4o possuir até trés linhas ela ¢ incorporada na propria frase, sendo citagao tal qual no texto original e entre aspas duplas, mencionando o nome do autor, o ano da obra e a pagina citada. Como no exemplo a seguir: De acordo com Mattar-Neto (2002, p.206) “a concepcao de que o conhecimento é coletivo € a principal justificativa da neces- sidade de referéncia”’. Se a citaco ultrapassar trés linhas deve também identificar autor-ano-pagina, mas deve ser apresentada com destaque de um recuo de 4cm da margem esquerda, com uma letra menor que a do texto e sem aspas. Assim: Severino (2002) destaca que numa referéncia bibliografica: [...[ 0 sobrenome do autor eo titulo do documen- to tém um destaque grafico, ou seja, o sobrenome do autor que abre a referéncia deve vir em maiisculas ou caixa alta, enquanto o titulo principal deve vir em 52 Pesquisa social italico (grifado, quando o texto é datilografado [sic}) /grifos do autor]. Notemos que na citagao acima houve o corte do comeco da frase, assim usamos Os colchetes para avisar ao leitor. E a expres- sao “grifos do autor” é para indicar que os destaques em italico fo- ram feitos pelo proprio autor citado. AS citagoes de trechos de entrevista também obedecem ao Inesmo criterio de destaque quanto ao nmero de linhas. As citagoes indiretas sao ideias ou informacées extraidas de outros autores, mas expressas com as nossas proprias palavras. Elas devem fazer sempre meng¢ao ao texto original, colocando en- ire parenteses o nome do autor em caixa alta e a data da obra. Por exemplo: A bibliografia a compor a lista de referéncias de um tra- balho ¢ apenas aquela que o pesquisador utilizou diretamente (LA- VILLE, DIONNE, 1999). . As citagdes de citacdes so designadas pela expressao latina apud” (junto a). O pesquisador deve usar sempre esta expressao. Exemplo: Segundo a ABNT (2002, apud SANTOS, 2004). As referencias a autores ¢ a obras mencionados podem incluir varlas situacgoes: a) Citagdo com mais de trés autores Mencionamos apenas 0 primeiro autor, seguido da expressdo et al.” Ex.: (MINAYO et al., 2005). b) Citacao de varios autores Citar as referéncias obedecendo a ordem al fabética dos sobre- nomes dos autores ou segundo a data das publicacées. c) Citacdo de autores com mesmo sobrenome Citar as Iniclais dos prenomes dos autores. Ex.: A violéncia ¢ um problema de saude publica (SOUZA, E.R., 2004; SOU- ZA, A.R., 2005). Pesquisa social d) Citacdo de um mesmo autor com datas de publicagées dife- rentes Es6 mencionar o nome separado por virgulas ¢ os anos em or- dem crescente. Ex.: (SOUZA, 2004, 2005, 2006). e) Citacdio de um mesmo autor com mesmas datas de publicagao (SOUZA, 2004a, 2004b) f) Citacao cujo autor é uma instituigao Coloca-se o nome da institui¢ao no lugar do autor. Ex.: FUN- DACAO GETULIO VARGAS. Dicionario de Ciéncias So- ciais. Rio de Janeiro: FGV, 1987. g) Citacdo de fontes informais (aula, conferéncia, palestras etc.) Indicar, entre parénteses, a expressdo citada, definindo me- {hor os dados disponiveis, em nota de rodapé (ABNT, 2002). Exemplo: O Ministério da Satide publicou recentemente uma portaria que normaliza a notificagao de violéncia contra as mutheres. No rodapé da pagina: ‘Noticia fornecida pelo professor (nome) em palestra na Esco- la Nacional de Satide Publica em novembro de 2006. h) Citacdo de textos extraidos de homepage ou web site Sio usados os mesmos padrées de citagdo antertormente des- critos segundo cada caso. Quando compor a lista de referén- cias deve-se colocar a instituicdo como sendo o autor e data, o titulo da matéria acrescido das expresses “Disponivel em: (nome do site)” e “Acesso em: dia/més/ano”. . * Exemplo no corpo do texto: A ABNT define como normali- zacdo “atividade que estabelece, em relagao a problemas exiS- tentes ou potenciais, prescrigdes destimadas a utilizagao co- mum ¢ repetitiva com vistas 4 obtengao do grau ofimo de or- dem em um dado contexto” (www.abnt.org.br). 54 Pesquisa social * Na lista de referéncias: Associacdo Brasileira de Normas Teenicas, 2006. O que é normalizacgao. Disponivel em: . Acesso em !8 dez. 2006. 1) Referencias completas de um livro Seguimos a ordem como esta grafada a seguir: AUTOR. Titu- lo. Edigdo. Local: Editora, data. SANTOS, Antonio Raimundo dos. Metedologia cientifica. 6. ed. revisada. Rio de Janeiro: DP&A, 2004. j) Referéncia de um capitulo de livro Seguimos a ordem: AUTOR. Titulo do capitulo. In: Titulo do livro. Edigao. Local: Editora, data, paginas. MATTAR-NETO, Joao Augusto. Normas técnicas. In: Me- todologia cientifica na era da informatica. Sdo Paulo: Sarai- va, 2002, p.200-225, Muitas, enfim, sdo as peculiaridades de cada tipo de referén- cia, demandando uma consulta regular 4s normas da ABNT. 5. Questées éticas do projeto de pesquisa O projeto de pesquisa tem em sua redacdo compromissos em nao ferir a ética da elaboracao de textos cientificos. Um dos com- portamentos anticticos mais comuns € a pratica de plagio, isto é, usar ideias, expresses, dados de outros autores sem citar a fonte de onde se originann. Outra especie de procedimento antiético é a fraude, ou seja, quando o pesquisador inventa deliberadamente dados inexistentes a fim de justificar ou embasar suas propostas. Alem da claboragao do texto em si, 0 projeto da pesquisa que vira a ser realizada também deve ter a preocupacdo de nado causar maleficios aos sujeitos envolvidos no estudo, preservando sua au- tonomia em participar ou nao do estudo e garantindo scu anonima- 55 Pesquisa social to. Algumas areas de conhecimento instituem que 0 projeto antes de ser realizado deva scr submetido a um comite de ¢tica em pes- quisa. Na area da Satide, por exemplo, este ¢ um procedimento obrigatério. ye ae 6. A apresentacaio de um projeto de pesquisa Apés a descricado dos elementos que constituem um projeto e de suas implicacGes ¢ticas, a proxima pergunta decerto €: “Qual a ordem € 0 agrupamento destes elementos na apresentacdo do projeto?” A forma de apresentacao pode variar muito. Varios institutos de pesquisa, de ensino e de fomento adotam apresentacao padroni- zada segundo modelos proprios. Assim, conhecé-los previamente é condicao estratégica. Sugerimos, ent&o, um modelo operacional, inspirado nas re- gras da ABNT a ser apresentado na seguinte ordem: Elementos pré-textuais: Capa. Nesta primeira pagina deverdo constar os seguintes dados: Na margem superior, 0 titulo do projeto. Uma observagao muito importante: o titulo do projeto deve conter os conceitos fundamentais que alicercam a pesquisa. Deve ser uma sintese da investigacao proposta; No centro, o nome do autor do projeto; Na margem inferior, os dizeres “Projeto de Pesquisa apresen- tado 4 (nome da instituigao) como requisito parcial a obtengao (de titulo tal, de financiamento)”; No extremo da margem inferior, 0 local, o més e 0 ano. Pagina de rosto. Inclui 0 titulo do projcto, o nome do coorde- nador (ou se houver somente um pesquisador colocar o scunome), 56 Pesquisa social os nomes dos membros da equipe; o nome da instituicao e departa- mento, local e data. Sumario. Apresenta a enumeracio dos capitulos do trabalho, na ordem em que aparecem no texto, indicando o nimero da pagi- na inicial de cada capitulo. As Normas da ABNT que regulam a claboragdo dos sumarios sdo a NBR 6027 e NBR 6024. A numera- cao dos capitulos ou segdes deve ser em algarismos ardbicos (1, 2, 4 etc.), desde a Apresentacdo do problema até as Referéncias bi- bliograficas. Se o capitulo ou secao tiver subdivisio, deve ser ado- tada a numeragao progressiva (1.1, 1.2 etc.). Nao deve ser usado ilgarismo romano, nem letra. Listas de ilustragées (graficos, tabelas e quadros) seguido do numero da pagina em que se encontram. Lista de simbolos e abreviaturas (opcional). Elementos textuais Contem os itens: Apresentagao do tema e do problema; Hipo- lese; Objetivos; Justificativas; Quadro tedrico; Metodologia; Orca- mento. Elementos p6s-textuais Referéncias bibliograficas (sugerimos a consultar as Normas da ABNT 6023 e 10520). Anexos e Apéndices (opcional). Anexamos, sem numeragado de paginas, aquelas informacdes que o pesquisador julga necessa- Has para melhor compreensao do projeto. Podem ser cdpias de do- cumentos, dados complementares, instrumentos de coleta de da- dlos etc. Os anexos séo numerados em arabico no alto das paginas e 30 citados no corpo do texto, Finalmente devemos lembrar que o estilo da redagiio obedece iialgumas qualidades essenciais (BASTOS: PAIXAO: FERNAN- DES, 1982): Pesquisa social (a) Deve ser clara, isto ¢, nao deixar margem para ambiguida- des. £ bom evitar os rebuscamentos e excesso de termos. Como convida Wright Mills (1972, p.241): “imponhamos a nos mes- mos, ¢ aos outros, a simplicidade das afirmagoes claras”. (b) Deve ser objetiva. Assim, as questoes serao tratadas de maneira direta e simples. Evitemos as frases longas. Como recomendagio geral, apontamos o fato de que nao de- vemos misturar os tempos de verbo nem os pronomes pessoais. Se quisermos um estilo mais confessional, mais aceito na antropolo- gia, usaremos a primeira pessoa do singular. O emprego da pri- meira pessoa do plural ¢ bastante corrente. Empregamos tambem frequentemente uma forma mais impessoal, que ¢ a voz passiva. Por exemplo: “Encontra-se neste trabalho...” Como estamos falando de um projeto de pesquisa, logo, o tem- po verbal recomendado é o futuro, uma vez que indica uma inten- cio de pesquisa ainda a ser realizada. Lembremo-nos que 0 projeto é um instrumento de comunica- cio entre as intengdes do pesquisador e seus interlocutores (orien- tadores, no caso de projetos ligados 4 graduacao e pos-graduacao; comunidade académica em geral; Orgaos financiadores e publico interessado). Assim, espera-se que o texto deva ser bem cuidado, com correto uso da lingua portuguesa, com estilo elegante e conci- so. Esta revisdo criteriosa de estilo é chamada por alguns pesqui- sadores de “carpintaria de texto”, mais uma vez lembrando de nos- so exercicio artesanal com as palavras e conceltos. Referéncias ASSOCIACAO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS. Informa- cio e documentacdo— Referencias ~ Elaboracao: NBR 6023. Rio de Ja- neiro: ABNT, 2002. Pesquisa social _ ; Informacio e documentacgao — Citacdes em documentos — Apresentagdo: NBR 10520. Rio de Janeiro: ABNT, 2002. BARROS, AP. LEHFLLD, N.A.S. Fundamentos de metodologia. Sao Paulo: McGraw-Hill, 1986. . BASTOS, LR, PATXAO, L.; FERNANDES, L. Manual para a elabo- ra¢ao de projetos, relatorios de pesquisa, teses e dissertacées. 3° ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982. BAUER, M.: GASKELL, G. (ed.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual pratico. Petrépolis: Vozes, 2002. BOURDIEU, P. O poder simbédlico. Lisboa: Difel, 1989. BOURDIEU, P.; CHAMBOREDON, Jean-Claude; PASSERON, Jean- ( laude. 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Tn: WRIGTH MILLS. A imaginacao sociolégica. 3" ed. Rio de Janeiro: Za- har, 1972, p.211-243. 60 Capitulo 3 TRABALHO DE CAMPO: CONTEXTO DE OBSERVACAO, INTERACAO E DESCOBERTA Maria Cecilia de Souza Minayo* |. Introducdéo Quando terminamos a fase exploratéria de uma pesquisa qua- litativa, cujo produto principal é 0 projeto de pesquisa no qual ja esta estabelecido o espago para investigar e decidido com que gru- po trabalhar, chega a hora de iniciar 0 trabalho de campo propria- inente dito. O trabalho de campo permite a aproximacdo do pesquisador da realidade sobre a qual formulou uma pergunta, mas também es- labelecer uma interacdo com os “atores” que conformam a reali- dade e, assim, constrdi um conhecimento empirico importantissi- mo para quem faz pesquisa social. E claro que a riqueza desta eta- pa vai depender da qualidade da fase exploratoria. Ou seja, depen- de da clareza da questao colocada, do levantamento bibliografico hem feito que permita ao pesquisador partir do conhecimento 4a existente € ndo repetir o nivel primdrio da “descoberta da pélvo- ra”, dos conceitos bem trabalhados que viabilizem sua operacio- nalizacdo no campo e das hipdteses formuladas. * A memoria de Oravio Cruz Neio, autor da primeira versio deste capitulo, 61 Pesquisa social Todo pesquisador precisa ser um curioso, um perguntador. E essa qualidade deve ser exercida o tempo todo no trabalho de cam- po, pois este sera tanto melhor e mais frutuoso quanto mals 0 pes- quisador for capaz de confrontar suas teorias e suas hipoteses com a realidade empirica. Assim, 0 pesquisador nao deve ser um for- malista que se apegue a letra de seu projeto e nem um empirista para quem a realidade é 0 que ele vé, “a olho nu”, ou seja, sem 0 au- xilio de contextualizacao e de conceitos. Nem um nem outro, soz1- nho, contém a verdade. Desta forma, no campo, 0 pesquisador precisa nao ficar preso ds surpresas que encontrar e nem tenso por nao obter resposta ime- diata a suas indagacées. E claro que a experiéncia o ajudara no seu comportamento. Mas é possivel recomendar que sempre exercite- mos um olhar dindmico e atento que passe da confrontagao da pro- posta cientificamente formulada para as descobertas empiricas e vice-versa. Sobre a importancia desse balizamento dialetico, o classico antropologo Malinowski (1984) diz que o investigador deve se preparar muito bem, como se tudo dependesse dele. Porem, se houver uma discrepAncia entre sua teoria e a realidade concre- ta, ele deve privilegiar perguntas para o nivel empirico, relativizan- do suas hipoteses e pressupostos. Entendemos campo, na pesquisa qualitativa, como 0 recor- te espacial que diz respeito a abrangéncia, em termos empiricos, do recorte tedrico correspondente ao objeto da investigagao (MI- NAYO, 2006). Por exemplo, quando tratamos de entender as con- cepcdes de satide e doenga de determinado grupo social; quando buscamos compreender a relacdo pedagogica entre os estudantes e o professor de determinada matéria, ou o impacto de determina- da politica publica para uma populagao especifica, cada um des- ses temas corresponde a um campo empirico determinado. A pes- quisa social trabalha com gente e com suas realizagoes, compre- endendo-os como atores sociais em relagao, grupos especificos ou perspectivas, produtos ¢ exposic¢ao de agdes, no caso de documen- 62 Pesquisa social lus. Os sujeitos/objetos de investigacado, primeiramente, sio cons- truidos teoricamente enquanto componentes do objeto de estudo. No campo, eles fazem parte de uma relacio de intersubjetividade, de imteragao social com o pesquisador, dai resultando num produ- lo compreensivo que ndo ¢ a realidade concreta ¢ sim uma desco- berta construida com todas as disposig¢des em mios do investiga- lor: suas hipéteses e pressupostos tedricos, seu quadro conceitual c metodologico, suas interagdes, suas entrevistas e observacdées, suas inter-relacdes com os colegas de trabalho. Embora hajam muitas formas e técnicas de realizar o trabalho de campo, dois sao os instrumentos principais desse tipo de traba- Iho: a observacdo e a entrevista. Enquanto a primeira é feita sobre (udo aquilo que nao é dito mas pode ser visto e captado por um ob- servador atento ¢ persistente, a segunda tem como matéria-prima a lula de alguns interlocutores. Na pesquisa qualitativa, a interagdo entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados € essencial. Todo o empenho é investido para que “o corpo eo sangue da vida real componham o esqueleto das construcdes abstratas”’, como diz Malinowski, criando uma me- tifora (MALINOWSKI, 1984, p.37). Pela sua importancia, o trabalho de campo deve ser realizadoa partir de referenciais tedricos e também de aspectos operacionais. Isto ¢, nao se pode pensar num trabalho de campo neutro. A forma de realiza-lo revela as preocupac6es cientificas dos pesquisado- res que selecionam tanto os fatos a serem observados, coletados ¢ compreendidos como o modo como vai recothé-los. Esse cuidado enecessario porque o campo da pesquisa social nao é transparen- (c e tanto o pesquisador como os seus interlocutores e observados interferem no conhecimento da realidade. Essa interferéncia faz parte da propria natureza da pesquisa social que nunca é neutra. O que torna o trabalho interacional (ou seja, de relacdo entre pesquisador ¢ pesquisados) um instrumento privilegiado de coleta de informagses para as pessoas € a possibilidade que tem a fala de 63 Pesquisa social ser revcladora de condicdes de vida, da expressao dos sistemas de valores ¢ crencas €, 20 Mesmo tempo, ter a magia de transmiur, por meio de um porta-voz, 0 que pensa 0 grupo dentro das mesmas con: digdes historicas, socioecondémicas ¢ culturais que o interlocutor. 2. Entrevista como técnica privilegiada de comunica¢ao Entrevista, tomada no sentido ampio de comunicagao verbal, e no sentido restrito de coleta de informacdées sobre determinado tema cientifico, 6a estratégia mais usada no processo de trabalho de campo. Entrevista ¢ acima de tudo uma conversa a dois, ou en tre varios interlocutores, realizada por iniciativa do entrevistador. Ela tem o objetivo de construir informagoes pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem pelo entrevistador, de temas igual- mente pertinentes com vistas a este objetivo. As entrevistas podem ser consideradas comversas com finali- dade e se caracterizam pela sua forma de organizacado. Podem ser classificadas em: (a) sondagem de opinido, no caso de serem elaboradas me- diante um questiondrio totalmente estruturado, no qual a es- colha do informante esta condicionada a dar respostas a per- guntas formuladas pelo investigador; | (b) semiestruturada, que combina perguntas fechadas e aber- tas, em que o entrevistado tema possibilidade de discorrer so- bre o tema em questao sem se prender a indaga¢ao formulada; (c) aberta ou em profundidade, em que o informante ¢ convi- dado a falar livremente sobre um tema e as perguntas clo in- vestigador, quando sao feitas, buscam dar mais profundidade as reflexocs; (d) focalizada, quando se destina a esclarecer apenas um de- terminado problema; 64 Pesquisa social (¢) projefiva, que usa disposilivos visuais, como filmes, vi- deos, pinturas, gravuras, fotos, poesias, contos, redacgdes de ou- tras pessoas, Essa ultima modalidade constitui um convite ao entrevistado para discorrer sobre 0 que vé ou lé. £ geralmente utilizada quando precisamos falar de assuntos dificeis e deli- cados e temos problemas para trata-los diretamente. E por meio de entrevistas também que realizamos pesquisas ba- seadas em narrativas de vida, igualmente denominadas “historias de vida”, “historias biograficas”, “etnobiografias” ou “etno-histd- rias”. Acrescentamos a essas modalidades os grupos focais que po- dem ser definidos com uma modalidade de entrevista em grupo, onde as falas de um s4o confrontadas com as dos outros. A entrevista como fonte de informacdo pode nos fornecer da- dos secundarios e primarios de duas naturezas: (a) Os primeiros di- zem respeito a fatos que o pesquisador poderia conseguir por meio de outras fontes como censos, estatisticas, registros civis, docu- mentos, atestados de obitos e outros; (b) os segundos — que sao ob- jetos principais da investiga¢ao qualitativa — referem-se a infor- magoes diretamente construidas no didlogo com o individuo en- trevistado e tratam da reflexao do proprio sujeito sobre a realidade que vivencia. Os cientistas sociais costumam denominar esses Ul- timos de dados “subjetivos”, pois s6 podem ser conseguidos com acontribuicao da pessoa. Constituem uma representagao da rea- lidade: ideias, crencas, maneira de pensar; opinides, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; condutas: projegoes para 0 futuro; razGes conscientes ou inconscientes de determinadas atitu- des e comportamentos. Uma entrevista, como forma privilegiada de intera¢do social, esta sujeita a mesma dindmica das relacdes existentes na propria sociedade. Quando se trata de uma sociedade ou de um grupo mar- cado por muitos conflitos, cada entrevista expressa de forma di- ferenciada a luz e a sombra da realidade, tanto no ato de realiza- la como nos dados que ai s4o produzidos. Além disso, pelo fato de 65 Pesquisa social captar formalmente a fala sobre determinado tema, a enfrevis- fa, quando analisada, precisa incorporar o contexto de sua produ- cio ¢, sempre que possivel, ser acompanhada e complementada por informagdes provenientes de observagao participante. Desta forma, além da fala que é seu material primordial, o investigador qualitativista tera em mos clementos de relacées, praticas, cum- plicidades, omissdes e imponderaveis que pontuam o cotidiano. Algumas considerag6es praticas so, a seguir, colocadas e pre- cisam ser levadas em conta em qualquer situacao de interagao em- pitica, sobretudo na formalidade de uma entrevista, seja ela estru- turada, semiestruturada ou ndoestruturada. Dizem respeito a en- trada do entrevistador em campo: ° Apresentacdo: o principio basico em relagao a esse ponto 6 que uma pessoa de confianga do entrevistado (lider da coletivi- dade, pessoa conhecida e bem aceita) faca a mediacéo entre ele eo pesquisador. Seria muito arriscado entrar, sobretudo em co- munidades ou grupos conflituosos, sem antes saber o que o me- diador representa: ele tanto pode abrir como fechar portas. + Mencéio do interesse da pesquisa: o investigador deve dis- correr resumidamente sobre o trabalho para seu entrevistado e, também, dizer-lhe em que seu depoimento pode contribuir direta ou indiretamente para a pesquisa como um todo, para a comunidade e para 0 proprio entrevistado. Ainda ¢ importante mencionar ¢ explicar a importancia e a finalidade da institui- cio a qual o pesquisador esta vinculado, para dar seguranc¢a a seu interlocutor. ¢ Apresentacdo de credencial institucional. Hoje, sobretudo em caso de pesquisas em equipe, o coordenador costuma escrever uma carta introdutéria em que todos os aspectos principais do estudo sao mencionados, o papel ¢ institucionalmente timbrado e, em adendo, ¢ apresentado um termo de adesao para ser assi- nado pelo interlocutor. Esse termo passou a ser exigido desde a portaria 96/1996 do Ministério da Satie que regula as pesqui- 66 Pesquisa social sas Naclonais com seres humanos. Mesmo levando em conta to- dos ESSES culdados, nada substitui a introducao feita por alguém de confianga de ambas as partes que possa fazer a mediacdo cn- tre O pesquisador c scus interlocutores. * Explicagao dos motivos da pesquisa em linguagem de senso comum, em respeito aos que nao necessariamente dominam os codigos das ciéncias sociais. ° Justificativa da escolha do entrevistado, buscando mostrar- ihe em que ponto e por que foi selecionado para essa conversa. * Garantia de anonimato e de sigilo sobre os dados, assegu- rando aos informantes que nao se trata de uma entrevista de midia, onde os nomes precisam ser ditos e, ao mesmo tempo mostrando que sua contribuic¢do faz sentido para o conjunto do trabalho, . Conversa inicial a que alguns pesquisadores denominam aquecimento”. Visa a quebrar o gelo, perceber se o possivel entrevistado tem disponibilidade para dar informag6es e criar um clima o mais possivel descontraido de conversa. No caso de estar combinada com a observagao participante, a constru- cao da identidade do pesquisador pelo grupo vai se forjando nas varias instancias de convivéncia, desde o inicio. Apesar de todos os esforgos e cuidados, sempre havera difi- culdades tipicas das interagdes no trabalho de campo, [guatmente us procedimentos enumerados nao sio nem normas rigidas nem mn preceituarto a ser cumprido de forma seriada pelo pesquisador. suo sugestOes que podem ajudd-lo no processo de interacdo e no iilogo com os interlocutores. , No caso da pesquisa qualitativa, ao contrério do que muitos podem pensar, ¢ fundamental o envolvimento do entrevistado com wentrevistador. Em lugar dessa atitude se constituir numa falha mu num risco Comprometedor da objetividade, cla é condicdo de 67 Pesquisa social aprofundamento da investigacdo ¢ da propria objetividade. Em geral, os melhores trabathadores de campo sao os mais simpaticos e que melhor se relacionam com os entrevistados. A inter-relacdo, que contempla o afetivo, o cxistencial, o contexto do dia a dia, as experiéncias e a linguagem do senso comum no ato da entrevista é condicao sine qua non do éxito da pesquisa qualitativa. Além da entrevista individual, uma técnica cada vez mais usa- da no trabalho de campo qualitative é a dos grupos focats que con- sistem em reunides com um pequeno niimero de interlocutores (seis a doze). A técnica exige a presenga de um animador e de um relator. O primeiro tem o papel de focalizar o tema, promover a participa- cdo de todos, inibir os monopolizadores da palavra ¢ aprofundar a discussio. Schrimshaw (1987) assim resume o papel do animador: (a) introduzir a discussao e manté-la acesa; (b) enfatizar para o gru- po que nao ha respostas certas ou erradas; (c) observar os partici- pantes, encorajando a palavra de cada um; (d) buscar as deixas para propor aprofundamentos; (e) construir relagdes com os parti- cipantes para aprofundar, individualmente, respostas ¢ comentarios considerados relevantes para a pesquisa; (f) observar as comunica- cdes nao verbais; (g) monitorar o ritmo do grupo visando a finali- zar o debate no tempo previsto. Geralmente o tempo de duragao de wma reuniao nao deve ultrapassar uma hora e meia. O segundo papel é do re/ator, que, aleém de auxiliar o coorde- nador nos aspectos organizacionais, deve estar atento para nada deixar de anotar sobre o processo criativo ¢ interativo, registran- do-o. A escolha dessa pessoa pelo coordenador ¢ crucial para © X1- to do trabalho. Pois tanto o pesquisador como o relator deve foca- lizar o objetivo proposto. E preciso reforgar o papel complementar dos grupos focais, além da sua importancia especifica. Junto com o uso das historias de vida, das entrevistas abertas ou semiestruturadas c da observa: cdo participante, o pesquisador constroi uma serie de possibilida- des de informacoes que lhe permitem levar em conta varias opt: 68 Pesquisa social nides sobre © mesmo assunto e obter mais informag¢oées sobre a reall dade. Os grupos focais tém ainda a qualidade de permitir a for- macao de consensos sobre determinado assunto ou de eristalizar Opinides dispares, a partir de argumentac6es, ao contrario das en- trevistas que costumam ocorrer de forma solitaria. Devemos ressaltar também que em todas as formas de aborda- Bem — nas entrevistas, nos grupos focais ou em outras —devem ser usados instrumentos adequados para registro das falas e debates instrumentos esses que devem ter sido preparados na fase explora- loria da pesquisa. . O registro fidedigno, e se possivel “ao pé da letra”, de entre- vistas € outras modalidades de coleta de dados cuja matéria-pri- maéa fala, torna-se crucial para uma boa compreensao da logica interna do grupo ou da coletividade estudada. Dentre os instru- mentos de garantia da fidedignidade 0 mais usual éa gravacao da conversa. Quando existe possibilidade técnica e se observa aber- ura do grupo pesquisado, podem ser usados outros recursos como lilmagens. | E necessario ressaltar que qualquer tentativa de assegurar o registro em toda a sua integridade precisa do consentimento dos interlocutores. Em geral, 0 pesquisador de campo no costuma ter dificuldade na apresentacao desses instrumentos e na consecu 50 da licen¢ga dos entrevistados para utiliza-los. Ocorrem restrigdes e Hposigoes, no entanto, quando o tema da fala é espinhoso, contro- verso ou polémico e coloca em risco a pessoa e sua reputacio Nes- se caso O pesquisador deve anotar tudo com suas proprias pala- vras, tentando manter fidedignidade ao sentido conferido pelo in- tcrlocutor. E ébvio que tudo deve ser mantido no anonimato pols WM pesquisador social n&o ¢ um reporter e nao precisa identificar seu Intormante diretamente e, sim, a partir de atributos gerais que designem seu lugar social. . " 69 Pesquisa social 3. Observacao participante A observagdo participante pode ser considerada parte essen- cial do trabatho de campo na pesquisa qualitativa. Sua importan- cia é de tal ordem que alguns cstudiosos a consideram nao apenas uma estratégia no conjunto da investigagao das tecnicas de pes- quisa, mas como um método que, em si mesmo, permite a compre- ensao da realidade. Definimos observagdo participante como um processo pelo qual um pesquisador se coloca como observador de uma situacao social, com a finalidade de realizar uma investigagao cientifica. O observador, no caso, fica em relagao direta com seus interlocuto- res no espaco social da pesquisa, na medida do possivel, partici- pando da vida social deles, no seu cenario cultural, mas com a fie nalidade de colher dados e compreender 0 contexto da pesquisa. Por isso, 0 observador faz parte do contexto sob sua observagao e, sem dtivida, modifica esse contexto, pois interfere nele, assim como é modificado pessoalmente. A filosofia que fundamenta a observacdo participante éane- cessidade que todo pesquisador social tem de relativizar 0 espaco social de onde provém, aprendendo a se colocar no lugar do outro. Como ja dissemos anteriormente, no trabalho qualitativo, a proxi- midade com os interlocutores, longe de ser um imconveniente, ¢ uma virtude e uma necessidade. Mas a atividade de observagdo tem também um sentido prati- co. Ela permite ao pesquisador ficar mais livre cle pre} ulgamentos, uma vez que nao o torna, necessariamente, prisioneiro de um Ins- trumento rigido de coleta de dados ou de hipoteses testadas antes. e nao durante o processo de pesquisa. Na medida em que coavi- ve com o grupo, 0 observador pode retirar de scu roteiro questoes quc perccbe serem irrclevantes do ponto de vista des interlocuto- res; conseguc também compreender aspectos que vao aflorando AOS POUCOS, Situagdo impossivel para uM pesquisador que trabatha 70 Pesquisa social com questionarios fechados e antecipadamente padrenizados. A observagao participante ajuda, portanto, a vincular os fatos a suas representagdes ea desvendar as contradicées entre as normas ¢ re- gras € as praticas vividas cotidianamente pelo grupo ou instituicao observados. O principal instrumento de trabalho de observac¢ao é o chama- do didrio de campo, que nada mais é que um caderninho, uma ca- derneta, ou um arquivo eletr6nico no qual escrevemos todas as in- formacoes que nao fazem parte do material formal de entrevis- tas em suas varias modalidades. Respondendo a uma pergunta fre- quente, as informacoes escritas no didrio de campo devem ser uti- lizadas pelo pesquisador quando vai fazer analise qualitativa. O texto considerado pelos antropologes como um classico so- bre trabalho de campo foi escrito em 1922, per Malinowski, a pro- posito de sua insercao entre os nativos das [lhas Trobriand, deno- minado Os argonautas do Pacifico Ocidental (MALINOWSKI, 1984). A rica experiéncia transmitida e as bases metodoldgicas por ele lancadas continuam atuais e sua legitimidade permanece intocavel até hoje. Malinowski (1984), a partir de sua experiéncia, ressalta os passos da insergao na realidade empirica: (a) necessidade de ter bagagem cientifica; (b) importancia da observacao partici- pante; (c) utilizagdo de técnicas de coleta, ordenagao e apresenta- yao do que denomina evidéncias. Principalmente, Malinowski (1984) valoriza o processo de ob- servagao direta, distinguindo-o dos outros momentos do trabalho de campo, como os de depoimento dos entrevistados e os de inter- pretagoes e inferéncias do pesquisador. Ele diz: ‘Toda a estrutura de uma sociedade encontra-se incorporada no mais evasive de iodos os materiais: o ser humano” (MALINOWSKL 1984, p.40). Malinowski faz uma critica radical as modalidades de pesquisa social que explicam a realidade social apenas “‘apreendendo” um nivel dessa realidade por meio de surveys. Comenta que esse tipo de ciéneia de logica quantitativa percebe apenas o esqueleto da so- ra Pesquisa social ciedade, mas nao compreende a vida que pulsa, porque no caso dos surveys o cientista esta longe do lugar onde a vida acontece. Esse mesmo autor comenta que ha uma serie de fendmenos de grande importancia que nao podem ser registrados por meio de perguntas ou em documentos quantitativos, mas devem ser obser- vados in loco, na situagao concreta em que acontecem. Entre eles se incluem coisas como a rotina de um dia de trabalho, os deta- thes do cuidado com o corpo, a maneira de comer e de preparar as refei¢Ges; o tom das conversas e da vida social ao redor das casas (ou em outros espacos que sao objeto da pesquisa), a existéncia de -hostilidades, de stmpatias e antipatias entre as pessoas; a maneira sutil, mas inquestionavel em que as vaidades e ambicées pessoais se refletem nas reagdes emocionais dos individuos. Malinowski sugere um tipo de comportamento para o pesqul- sador que vai a campo, por meio do qual define a esséncia da an- tropologia: “Ter uma atitude que consiste em desenvolver uma vi- sdo estereoscopica das atividades e ideias humanas através de conceitos inteligiveis a todos” (1984, p.56). Ou seja, cabe ao pes- quisador ser um perscrutador insistente, que mentalmente S€ Posi- ciona sempre entre as balizas dos conhecimentos teéricos e as in- formacgodes de seus observados. Esse balanco entre uma postura e outra é referida por Malinowski nas duas citacdes a seguir: O bom treinamento teérico e a familiaridade com os mais recentes resultados cientificos nado sao equivalentes a estar carregado de ideias preconcebidas. Se um individuo inicia uma pesquisa com a determinacao de provar certas hipote- ses, Se nao € capaz de mudar constantemente seus pontos de vista e de rejeita-los sem relutancia, sob a pressao da evi- déncia, é desnecessario dizer que seu trabalho sera imutil (MALINOWSKI, 1984, p.45). Quanto mais problemas o pesquisador trouxer para o campo, quanto mais estiver habituado a conformar suas 72 Pesquisa social icorias aos fatos e a considerar os fatos na sua importancia para a leoria, tanto melhor capacitado estar para o tra- balho. As ideias preconcebidas sao perniciosas em qual- qucr tarefa clentifica, mas os problemas antevistos consti- tuem a principal qualidade de um pensador cientifico, e esses problemas sao revelados, pela primeira vez ao obser- vador, por seus estudos tedricos (MALINOWSKI, 1984, p.45). Outro autor muito importante e que nos ajuda a pensar e teo- rizar o trabalho de campo é Alfred Schutz (1973), um importan- te socidlogo americano que nos propée algumas atitudes: (a) co- locar-nos no mundo dos entrevistados, buscando entender os prin- cipios gerais que eles seguem, na sua vida cotidiana, para orga- nizar suas experiéncias. Desvendar essa logica, diz ele, é condicao preliminar da pesquisa; (b) mantermos uma perspectiva dindmica, que nos faca levar em conta as relevancias dos nossos interlocuto- res, tendo em mente as questées trazidas por eles sobre o assunto que estamos investigando; (c) abandonarmos, na convivéencia, qual- quer postura pedante de cientista, entrando na cena social dos en- trevistados como uma pessoa comum que partilha do seu cotidia- no; (d) adotarmos, no campo, uma linguagem do senso comum pro- pria dos interlocutores que observamos. A simplicidade por parte do pesquisador ¢ fundamental para o Cxito de sua observacao, pois ele 6é menos olhado pela base logica dos seus estudos e mais pela sua personalidade e seu comporta- mento. As pessoas que o intreduzem no campo e seus interlocuto- res querem saber se ele é “uma boa pessoa” ¢ se nao vai “fazer mal lo grupo”, nao vai trair “seus segredos” e suas estratégias de resol- ver os problemas da vida. Ha infindaveis situagdes de pesquisa (na verdade, cada uma é diferente da outra), mas como norma geral ¢ em todas clas a figura do pesquisador é construida coma sua colaboragao apenas parcial, 73 Pesquisa soctal pois a imagem que projeta reverbera no grupo a partir das referén- cias que este possui, dentro de seus padroes culturais especificos, Da mesma forma, a visdo que o investigador constroi sobre o gru- po que é objeto de seu estudo e com o qual intcrage depende das pessoas com quem travar relagdes. Concluimos, pois, que a visdo das duas partes sera sempre incompleta ¢ sempre imprecisa. Essa construgdo miitua do pesquisador e dos pesquisados atra- vés da interac4o é analisada por varios estudiosos que ressaltam sempre a necessidade de leva-la em conta como um dado de rea- lidade. Se a entrada em campo tem a ver com os problemas de identi- ficacdo, obtencao e sustentacdo de contatos, a saida ¢ também um momento crucial. As relacgdes interpessoais que desenvolvemos durante uma pesquisa nao se desfazem automaticamente com a conclusao das atividades previstas. Ha um “contato” informal de favores e de lealdade que nao da para ser rompido bruscamente sob pena de haver uma forte decepcdo dos interlocutores. Como investigadores, trabalhamos com pessoas, logo, com relagdes e com afeto. Nao ha receitas para esse momento, mas podemos for- mular algumas questées que nos ajudam a estarmos atentos, aler- tas e eticamente comprometidos: em que pé ficam as relagdes pos- teriores ao trabalho de campo? Qual o compromisse do pesquisa- dor com o grupo, no que concerne aos dados primarios recolhidos, seu uso cientifico e as formas de retorno? Em resumo, a saida do campo envolve problemas éticos e de pratica teérica. A relacdo intersubjetiva que criamos pode contri- buir para definicao do tipo e do momento do corte necessario nas relagdes mais intensas e um plano de continuidade possivel ou desejada. 74 Pesquisa social 4. Consolidacao do trabalho de campo E bom que nos lembremos, mais uma vez, que no campo, as- sim como durante todas as etapas da pesquisa, tudo merece ser en- tendido como fenémeno social ¢ historicamente condicionado: o objeto investigado, as pessoas concretas 1mplicadas na atividade, o pesquisador e seu sistema de representac6es teorico-ideologi- cas, as tecnicas de pesquisa e todo 0 conjunto de relacdes interpes- soais e de comunicacao simbélica. Uma pesquisa ndo pode se restringir 4 utilizacdo de instru- mentos apurados de coleta de informagdes. Para além das infor- magodes acumuladas, o processo de trabalho de campo nos leva, frequentemente, 4 reformulacao de hipéteses ou, mesmo, do cami- nho da pesquisa. Enquanto construimos dados colhidos e os artt- culamos a nossos pressupostos exercitamos nossa capacidade de analise que nos acompanha em todas as fases. Outro ponto importante de ressaltar ao final é o que se refere a interacao entre nos, pesquisadores e nossos interlocutores. No processo investigativo, mesmo partindo de posig6es sociais dife- rentes e assimétricas, ambos buscamos a compreensao mutua que nos permita transcender ao senso comum. No entanto, o pesquisa- dor nunca deve buscar ser reconhecido como um igual. O proprio entrevistado espera dele uma diferenciacdo, uma delimitacdo do proprio espaco, embora sem pedantismos, segredos e mistérios. A sua fungdo social lhe pede uma colaboracao especifica que nao é e nao pode ser a mera repeticao do que observou e do que ouviu nas entrevistas. O pesquisador em qualquer hipotese tem o 6nus da com- preensao contextualizada e da interpretacao. Emresumo, 0 trabalho de campo é em si um momento relacio- nal, especifico e pratico: ele vai c volta tendo como referéncia o mundo da vida, tendo cm vista que a maioria das perguntas feitas em pesquisa social surge desse untverso: da politica, dacconomia, das relagées, do funcionamento das instituicdes, de determinados 75 Pesquisa social problemas atinentes a segmentos sociais, da cultura geral ou local, e outros. No entanto, as perguntas que fazemos sempre nos reme- tem a algo desconhecido, ao que permanece oculto para nds, ao que nos ¢ estranho na linguagem, na cultura, nas rclagoes ou nas estruturas. O trabalho de campo €, portanto, uma porta de entrada para 0 novo, sem, contudo, apresentar-nos essa novidade claramente. Sao as perguntas que fazemos para a realidade, a partir da teorta que apresentamos e dos conceitos transformados em topicos de pesquisa que nos fornecerao a grade ou a perspectiva de observa- cao e de compreensao. Por tudo isso, o trabalho de campo, além de ser uma etapa importantissima da pesquisa, ¢ o contraponto dialeé- tico da teoria social. Referéncias MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacifico Ocidental. Sao Paulo: Abril, 1984. MINAYO, M.C.S. Trabalho de campo: teoria, estratégias e tecnicas. In: O desafio do conhecimento. Sao Paulo: Hucitec, 2006. SCHRIMSHAW, S. & HURTADO, E. Anthropological approaches for programmes improvement. Los Angeles: Ucla, 1987. SHUTZ, A. Common-sense and scientific interpretations of human action. Haia: Martinus Nijhoff Editions, 1973. Referéncias comentadas MINAYO, M.C.S. Trabalho de campo: teoria, estratégias ¢ técnicas. Este estudo faz parte do livro O desafio do conhecimento. Sao Paulo: Hucitec, 2006, 9° ed. amphiada e aprimorada, p.201-261. A autora desen- volve delalhadamente a teoria e a pratica do trabalho de campo em pes- 76 Pesquisa social quisa social e tambem responde a algumas questes correntes entre os pesquisadores: 0 status cientifico da palavra e da observacdo da realida- de, o sentido de uma entrevista enquanto representacdo da realidade dos grupos, as controversias sobre os varios procedimentos ¢ técnicas qua- litativas ¢ a articulagdo de varias estratégias. Por ser proveniente de uma vasta experiencia, este estudo contribui muito para a formacdo de pesqui- sadores socials, BERREMAN, G. Por detras de muitas mascaras, In: Zaluar, A. (org.). Este texto faz parte de um livro importante organizado pela antropologa Alba Zaluar, a propésito do método de pesquisa antropolégica, denomi- nado Desvendando mascaras sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1975, p.77-96. O autor descreve com simplicidade e complexidade a pra- tica que teve de trabalho de campo numa pesquisa realizada na India. Re- corre as ideias do teatro, palco e bastidores para falar das relacdes entre pesquisadores e interlocutores, mostrando como, na pratica, nao ha obje- tividade e, sim, subjetividades em relacaio, Mas 0 autor se serve desse ar- guimento para falar da urgente necessidade do pesquisador nao s6 prepa- tar muito bem seu estudo como de explicitar as condicdes de producao de seu trabalho. DESLANDES, S.F. Trabalho de campo: construcao de dados qualitativos € quantitativos. Este texto faz parte do livro Avaliacdo per triangulacdo de meétodes: abordagem de programas sociais, organizado por Minayo, M.C.S.; Assis, $.G.; Souza, E.R. e publicado no Rio de Janeiro: Fiocruz em 2005, p.157-184. A autora do referido capitulo desenvolve minuciosa- mente a ideia de campo, o sentido e a pratica dos procedimentos, as rela- GOes sociais entre os observados e 0 observador, as implicacgdes da presen- ca do pesquisador e, sobretude, seu texto inova em dois sentidos; quando articula a pesquisa qualitativa e a quantitativa c quando descreve em deta- thes 0 que foi observado num trabalho de campo especifico. O capitule so- bre o assunto se insere no contexto de um livro que subsidia o pesquisador nas estratégias de combinacao ou “triangulacio” de métodos. 77 Capitulo 4 ANALISE E INTERPRETACAO DE DADOS DE PESQUISA QUALITATIVA Romeu Gomes * 1. Iniciando nossa conversa Inicialmente gostariamos de fazer trés observacGes impor- tantes para introduzir o assunto tratado neste capitulo. A primei- ra delas diz respeito ao fato de a andalise e a interpretacdo dentro de uma perspectiva de pesquisa qualitativa nado terem como fina- lidade contar opinides ou pessoas. Seu foco é, principalmente, a exploracdo do conjunto de opinides e representacGes sociais so- bre o tema que pretende investigar. Esse estudo do material nao precisa abranger a totalidade das falas e expressdes dos interlo- cutores porque, em geral, a dimensao sociocultural das opinides e representacdes de um grupo que tem as mesmas caracteristi- cas costumamm ter muitos pontos cm comum ao mesmo tempo que apresentamn singularidades proprias da biografia de cada interlo- cutor. Por outro lado, também devemos considerar que sempre havera diversidade de opinides e crencas dentro de um mesmo segmento social e a analise qualitativa deve dar conta dessa dife- * Licenciady como professor de Sociologia ¢ Psicologia; mestre en Lducacdo; li- vre-docente em Psicologia; doutor em Sade Publica ¢ pesquisador titar do [FF/Fiocruz. 79 Pesquisa social renciagao interna aos grupos (GASKELL, 2002; GOMES etal., 2005). Assim, ao analisarmos ec interpretarmos informacoées ge- radas por uma pesquisa qualitativa, devemos caminhar tanto na direcao do que ¢é homogéneo quanto no que se diferencia dentro de um mesmo meio social. Outra observacdo importante é acerca das diferencas concel- tuais entre andlise e interpretacdo. Wolcott (1994) nao sé diferen- cia essas duas expressdes como as distingue do termo descrigdo. Segundo esse autor, na descrigdo as opinides dos informantes sao apresentadas da maneira mais fiel possivel, como se os dados fa- lassem por si proprios; na analise o propésito ¢ ir além do descrito, fazendo uma decomposicao dos dados e buscando as relagdes en- tre as partes que foram decompostas e, por ultimo, na iferpreta- ¢do — que pode ser feita apés a analise ou apds a descricao — bus- cam-se sentidos das falas e das agdes para se chegar a uma com- preensdo ou explicacao que vao além do descrito e analisado. Na pesquisa qualitativa a interpretagdo assume um foco central, uma vez que “é o ponto de partida (porque se inicia com as proprias in- terpretacdes dos atores) e é o ponto de chegada (porque é a inter- pretacdo das interpretagées)” (GOMES et al., 2005). Em relacao a essas trés formas de tratamento de dados qualita- tivos, ¢ importante observarmos que elas nao se excluem mutua- mente, uma vez que nem sempre possuem demarcacoes distintas entre si. Isso significa, por exemplo, que, quando descrevemos da- dos de uma pesquisa, podemos fazé-lo a partir de um esquema de analise, que por sua vez j4 reflete uma certa interpretagao. Apesar de, em nossa experiéncia de pesquisa, em determinados momen- tos, interpretarmos os dados sem passarmos pela descricao e a ana- lise, consideramos que a descrigaéo e analise podem ser caminhos uteis para uma interpretagao. Como terceira observacgao destacamos que, quando falamos de andlise c interpretacao de informagées gcradas no cainpo da pesquisa qualitativa, estamos falando de um momento em que 0 80 Pesquisa social pesquisador procura finalizar o seu trabalho, ancorando-se em todo o material coletado e articulando esse material aos propositos da pesquisa e a sua fundamentagao tedrica. Nesse sentido, esta- mos nos referindo a uma etapa final do processo de investigagio. No entanto, nao podemos desconsiderar dois aspectos importan- tes. O primeiro deles diz respeito 4 ideia de que tanto a andlise quanto a interpreta¢ao ocorrem ao longo de todo o processo. JA o segundo se refere ao fato de que, em pesquisa qualitativa, as vezes, ao chegarmos na fase final, descobrimos que necessitamos retor- nar as partes das fases anteriores. Assim, se as informaco6es cole- tadas nao sao suficientes para produzir os dados a partir das ques- toes da pesquisa, devemos voltar ao trabalho de campo para bus- car mais informacdes pontuais e especificas, Ou, se nado consegui- mos produzir uma interpretac4o dos dados com as referéncias ted- ricas ja trabalhadas na fase exploratdria, pois as novidades surgi- das em campo exigem outras andlises, devemos acrescentar leitu- ras para produzir uma cuidadosa compreensao e interpretacao. Nossa experiéncia em pesquisa indica que nao ha fronteiras nitidas entre coleta das informacées, inicio do processo de analise ea interpretacao. O importante, a nosso ver, 6 fazer uma avaliacdo do material disponivel antes de iniciarmos a etapa final da pesqui- sa. Nessa avaliagao devemos verificar se 0 material disponivel: (a) revela qualidade, principalmente quanto a impressio e a clareza dos registros; (b) e é suficiente para a andlise. A ideia de suficién- cia dos dados esta muito relacionada com 0 que pretendemos com a pesquisa (GOMES et al., 2005). Se por exemplo desejamos ana- lisar “as representacdes femininas acerca do preservativo mascu- lino”, as informagdes devem possibilitar, dentre outros aspectos, uma discussdo solida e 0 estabelecimento de conclusdo acerca de tal propdsito. Feitas essas observagoes, apresentaremos, nas secdes que se- guem, orlentacgocs sobre Andlise de conteudo e sobre Método de Interpretacdo de Sentidos. O primeiro procedimento é uma 81 Pesquisa social adaptacio da tradicional técnica que surgiu no ambito da pesquisa quantitativa e hoje ¢ amplamente aplicado em pesquisa qualita- tiva. A nossa adaptacéo baseia-se, de um lado, na obra de Bardin (1979) gue traz uma nova sistematizacao para o assunto e, de ou- tro, cm nossa experiéncia. Faremos uma apresentagao resumida, com referéncias para maior aprofundamento acerca dessa tecnica. Jdem relacdo ao Método de Interpretagdo de Sentidos, obser- vamos que se trata de uma proposta ancorada em obras classicas do campo da pesquisa qualitativa e em nossa experiencia adquiri- da com um grupo de pesquisadores que integram o Centro Latino- Americano de Estudos de Violéncia e Saude (Claves), vinculado a Escola Nacional de Saude Publica (Ensp) e com parceria com o Instituto Fernandes Figueira (IFF), unidades da Fundagao Oswal- do Cruz (Fiocruz). Assim como na Andlise de conteudo, apresen- taremos o assunto de forma resumida. Os interessados num apro- fundamento maior acerca do assunto poderao consultar a obra de Gomes et al. (2005). 2. Analise de contetido: historia e conceituacao A Andlise de conteudo surgiu no inicio do século XX, num ce- nario em que predominava 0 behaviorismo. Essa corrente psicolo- gica — influenciada por principios do positivismo — preconizava, com um maximo de rigor e cientificidade, a descrigao de compor- tamentos (vistos como resposta a estimulos). A estrate gia de ana- lise de contetido — que passou por varias formas de efetivacao ao longo desse século — inicialmente era concebida a partir de uma perspectiva quantitativa. A conceituagao de Berelson (nome con- siderado marco da hist6éria da técnica) ilustra muito bem essa con- cepedo. Segundo esse autor, essa técnica de pesquisa se voltava para a descricdo objetiva, sistematica ¢ quantitativa do contetdo manifesto da comunicacao (BARDIN, 1979). 82 Pesquisa social Pesquisas norte-americanas sobre a imprensa tornaram a téc- nica bastante conhecida. Dentre elas, destacamos as investi gacoes de Lasswell sobre simbolos politicos que, dentre outros resultados, trazia a tona a propaganda presente em jornais, no periodo da Pri- meira Guerra Mundial. Apos a primeira metade do século passado, observamos mui- tas controvérsias sobre a técnica propriamente dita, seu grau de cientificidade e sobre sua eficacia. As discuss6es dividiram teori- COs € pesquisadores que defendiam a perspectiva quantitativa da tecnica (priorizando a frequéncia com que surgem caracteristicas dos contetidos de um tema) e os que defendiam a perspectiva qua- litativa (valorizando a presenga ou a auséncia de uma caracteris- tica de conteudo ou de fragmento de mensagem). Alguns autores também buscavam uma conciliacdo dos termos, buscando formas ¢ possibilidades de conjugar o formalismo estatistico e a analise qua- litativa de materiais, tentando sair da polarizacdo entre quantita- tivo/qualitativo. Como afirma Bauer (2002), “No divisor quanti- dade/qualidade das ciéncias sociais, a andlise de conteudo é uma tecnica hibrida que pode mediar esta improdutiva discussdo sobre virtudes e métodos” (p.190). A historia da analise de contetido — com seus primérdios, sua expansao e sua atualizacdo até os anos 1970 ~ se encontra muito bem sistematizada por Bardin (1979). Em sua obra classica, essa autora nos traz uma definigdo abrangente acerca do assunto. Se- gundo ela, a andlise de contetido é um “conjunto de técnicas de analise das comunicagées visando obter, por procedimentos sis- tematicos e objetivos de descricéo do contetido das mensagens, indicadores (quantitativos ou ndo) que permitem a inferéncia de conhecimentos relativos as condicées de produ¢dao/recepgdao (va- riaveis inferidas) destas mensagens” (BARDIN, 1979, p.42). Com essa definicao alguns avancos sao percebidos jana déca- da de 1970: (a) a existéncia de mais uma técnica para analigar con- teudos de mensagens; (b) a possibilidade de se analisar contetidos 83 Pesquisa social a partir da perspectiva qualitativa; (b) o uso de inferéneias que par- tem da descricao dos contetidos explicitos da comunicagao para se chegar a dimensdes que vao para além da mensagem. Em outras palavras, através da analise de contetdo, podemos caminhar na descoberta do que esta por tras dos contendos manifestos, indo além das aparéncias do que esta sendo comunicado. Sobre essa perspectiva da andlise de conteudo, Minayo (2006) observa que: Os pesquisadores que buscam a compreensdo dos signifi- cados no contexto da fala, em geral, negamt e criticam a andlise de frequéncias das falas e palavras como critério de objetividade e cientificidade e tentam ultrapassar o alcance meramente descritivo da mensagem, para atin- gir, mediante inferéncia, uma interpretacdo mais profun- da (p.307). E com essa perspectiva que trabalharemos a andlise de con- teido neste capitulo. O uso da andlise de conteido é bastante variado. Como exem- plo, podemos mencionar as seguintes situagdes: (a) analise de obras de um romancista para identificar seu estilo ou para descrever a sua personalidade; (b) andlise de depoimentos de telespectadores que assistem a um programa ou de depoimentos de leitores de jornal para determinar os efeitos dos meios de communicagao de massa, (c) analise de livros didaticos para desvendamento de ideologia subja- cente; (d) andlise de depoimentos de representantes de um grupo so- cial para se levantar 0 universo vocabular desse grupo. Para ilustrarmos o vasto campo de aplicagao da analise de con- teido, apresentamos o seguinte quadro de Bardin (1979), adapta- do por nos: 84 Pesquisa social * Sinais, imagens, filmes, fotografia. Exemplos em relagao ao numero de pessoas impli- Cédigo ¢ cadas na comunicacao suporte 1 pessoa 2 pessoas Grupo res- Comunica- (mmondlogo) (dialogo) trito cao de mas SA Linguistico Agenda, Cartas, lia- Notas e do- | Jornais, li- — escrito diario balhos es- cumentos vros, carta- colares Zes Linguistico Delirios, so- | Entrevistas Entrevistas Discurso, — oral nhos, histé- | econversas | e conversas | palestra, tias programas de radio e tv Iconografico* | Rabiscos, Comunica- Comunica- Cartazes, sonho, de- cao utilizan- | cao utilizan- | quadros, senhos do imagens | do imagens imagens publicitarias Outros co- Tiques, co- Comunica- Comunica- Monumen- digos se- lecdes, goes nao goes nao tos, sinais midticos** danca verbais verbais urbanos, (vestuario, (vestuario, comporta- posturas} posturas) nentos ins- titucionais ** Exemplos: comportamentos, mtisica e objetos. Retomando a conceituagao de Bardin (1979), observamos que a autora menciona a analise de conteudo como um conjunto de téc- nicas, indicando que ha varias maneiras para analisar contetdos de materiais de pesquisa, Destacamos as seguintes: (a) andlise de avaliacao ou analtse representacional; (b) anadlise de expressdo; (c) analise de enunciac¢ao; (d) andlise tematica. A Analise de avaliagdo ou andlise representacional se presta para medir as atitudes do locutor quanto aos objetos de que fala, le- vando em conta que a linguagem representa ¢ reflete quem a utili- za. A atitude € 0 conceito basico, entendendo-a como predisposi- 85 Pesquisa social ciio, relativamente estavel ¢ organizada, para reagir sob forma de opinido (verbal), ou de atos (comportamental) em presenga de ob- jetos (pessoas, ideias, acontecimentos etc.). Nessa analise, leva- mos em conta a diregdo (“a favor ou contra”) e a intenstdade (“fria ou apaixonada”) dos juizos selecionados (BARDIN, 1979; MI- NAYO, 2006). Na Andélise de expressdo trabalhamos com indicadores para atingir a inferéncia formal. Através dela, partimos do principio de que existe correspondéncia entre o tipo de discurso e as caracteris- ticas do locutor e de seu meio. Nessa modalidade, enfatizamos a necessidade de conhecer os tracos pessoais do autor da fala (BAR- DIN, 1979; MINAYO, 2006). A Andlise de enunciacdo costuma ser usada para se analisar entrevistas abertas. Nela, levamos em conta a comunica¢gao como um processo e nao como um dado estatistico. Essa modalidade tra- balha com (a) as condicdes de produgao da palavra (respeita as exigéncias da logica socialmente aceita—a fala eum discurso); (b) analise das estruturas gramAaticas; (c) analise da l6gica de organi- zacao do discurso; (d) andlise das figuras de retorica. Tal técnica, sob a influéncia da psicandlise lacaniana, procura focalizar es- truturas formais que podem esconder conflitos latentes, analisan- do jogos de palavras, chistes, lapsos e siléncios. Considera cada entrevista estudada em si mesma. Se houver mais de uma entrevis- ta, o estudo é desenhado a partir de varios casos. Nela, nao ha hipo- teses prévias para a andlise dos enunciados (BARDIN, 1979; MI- NAYO, 2006). Na Andlise temdtica, como 0 proprio nome indica, 0 conceito central é 0 tema. Esse comporta um feixe de relagdes e pode ser eraficamente apresentado através de uma palavra, uma frase, um resumo. “O tema é a unidade de significagdo que se liberta natu- ralmente de um texto analisado segundo critérios relativos a teo- ria que serve de guia a leitura” (BARDIN, 1979, p.105). Traba- lhar coma andalise tematica “Consiste em descobrir os ‘nucleos de 86 Pesquisa social! sentido’ que compoem a comunicacdo e cuja presenca, ou fre- quencia de aparigdo pode significar alguma coisa para o ob- jectivo analitice escolhido” (BARDIN, 1979, p.105). E nessa modalidade com a qual trabalharemos neste capitulo, Unidades de registro e unidades de contexto Podemos optar por varios tipos de unidades de registro para analisarmos 0 contetido de uma mensagem. Essas unidades se re- ferem aos elementos obtidos através da decomposicdo do conjun- to da mensagem. Podemos utilizar a palavra como uma unidade trabalhando com todas as palavras de um texto ou com apenas al- gumias que sao destacadas de acordo coma finalidade de um estu- do. A frase ¢ a oracdo também sao outros exemplos de unidade de registro. Outra unidade é 0 tema que se refere a uma unidade maior em torno do qual tiramos uma conclusdo. A partir da influéncia de varias disciplinas, como sociologia, linguistica, psicologia e an- tropologia, surgiu wm vasto campo de unidades de registro, a exem- plo de: personagem de uma narrativa, documento, livro, filme Imagem, entrevista, monumento, cartaz, desenho e comunicacao nao verbal. Essas unidades podem ser combinadas dependendo da natureza da pesquisa. Alem das unidades de registros, numa analise de contetido de mensagens, faz-se necessario definirmos as unidades de contexto x : z , situando uma referéncia mais ampla para a comunicacdo. Em ou- tras palavras, devemos compreender o contexto da qual faz parte a mensagem que estamos analisando. Procedimentos metodolégicos Dentre Os procedimentos metodelégicos da analise de contet- do utilizados a partir da perspectiva qualitativa (de forma exclu- siva Ou nao), destacamos os seguintes: categorizacdo, inferéncia Tied ] o> Ney 16 . j 1 : descrigdo e interpretacdo. Esses procedimentos necessariamente 87 Pesquisa social nao ocorrem de forma sequencial. Entretanto, em geral, costuma- mos, por exemplo: (a) decompor o material a ser analisado em par- tes (0 que ¢ parte vai depender da unidade de registro e da unidade de contexto que escolhemos): (b) distribuir as partes em catego- rias; (c) fazer uma descric4o do resultado da categoriza¢ao (expon- do os achados encontrados na andlise); (d) fazer inferéncias dos resultados (langando-se mo de premissas aceitas pelos pesquisa- dores); (e) interpretar os resultados obtidos com auxilio da funda- mentacao teorica adotada. Observamos que nem toda analise de contetido segue essa trajetéria. O caminho a ser seguido pelo pes- quisador vai depender dos propésitos da pesquisa, do objeto de es- tudo, da natureza do material disponivel e da perspectiva tedrica por ele adotada. Podemos considerar a categorizag4o como “uma operacao de classificacdo de elementos constitutivos de um conjunto, por dife- renciagdao e, seguidamente, por reagrupamento segundo o géne- ro (analogia), com critérios previamente definidos, As categorias sdo rubricas ou classe, as quais retinem um grupo de elementos (unidades de registro) sob um titulo genérico” (BARDIN, 1979, p.117). Trabalhando com depoimentos, por exemplo, podemos agregar aqueles que falam de “ofensas morais” e “perdas mate- riais” numa categoria denominada “danos”, A categorizacao tan- to pode ser realizada previamente, exigindo um conhecimento sé- lido por parte do pesquisador para encontrar um esquema classifi- catorio adequado ao assunto a ser analisado, como pode surgir a partir da andlise do material de pesquisa. Observamos que esse procedimento é uma tentativa de se ca- minhar na objetivagao durante a andlise. Para que tenhamos uma categorizacao (ou classificac4o), 6 importante garantirmos que as ca- tegorias (ou classes) sejam homogéneas. Em outras palavras, cada categoria deve ser obtida a partir dos mesmos principios utiliza- dos para toda a categorizacado. Podemos, por exemplo, classificar os contctidos de um conjunto de entrevistas seguindo uma divisdo 88 Pesquisa social de valores morais adotados pelos entrevistados (de forma cons- ciente ou ndo). Assim, cada uma das classes seria obtida tendo como foco valores morais. Podemos utilizar mais de um critério na classificagao do material a ser analisado. O importante é sub- metermos todo o conjunto de material a ser analisado aos mesmos critérios. Alem de respeitarmos 0 principio da homogeneidade para fa- zer uma categorizacao, as categorias devem scr: (a) exaustivas (es- tas devem dar conta de todo 0 conjunto do material a ser analisado; se um determinado aspecto nao se enquadrar nas categorias, deve- mos formular outra categorizacao); (b) exclusivas (isso signifi- ca que um aspecto do contetdo do material analisado nao pode ser classificado em mais de uma categoria); (c) concretas (ndo serem expressas por termos abstratos que trazem muitos significados); (d) adequadas (em outras palavras, a categorizacao deve ser adap- tada ao contetido e ao objetivo a que se quer chegar), Segundo Bardin (1979), podemos realizar categorizacoes a partir de varios critérios: semanticos (categorias tematicas); sin- taticos (categorias referentes a verbos, adjetivos, advérbios etc.); léexicos (ordenamento interno das oragdes); expressivos (catego- ras que se referem a problemas de linguagem, por exemplo). Outro procedimento importante é a inferéncia. Fazemos infe- réncia quando deduzimos de maneira logica algo do contetido que esta sendo analisado. Como diz Bardin (1 979), “o analista é como um arqueologo” (p.39): trabalha com vestigios que se manifestam na superficie da mensagem. Assim, ha necessidade de articular- mos a superficie do material a ser analisado com os fatores que de- terminaram suas caracteristicas. Richardson et al. (1985) definem a inferéncia como a “operacéo pela qual se aceita uma proposi- cdo em virtude de sua relagdo com outras proposicoes ja aceitas como verdadeiras” (p.177). Assim, para que possamos fazer in- feréncia. ¢ importante partirmos de premissas 4 accitas a partir de outros estudos acerca do assunto que estamos analisando. 89 Pesquisa social A interéncia é uma fase intermediaria entre a descrigao (chu- meracdo das caracteristicas do texto, resumida apos tratamen- to analitico) ¢ a interpretacdo (a significagao concedida a cssas ca- racteristicas). Bardin (1979) sugere que fagamos perguntas para conseguirmos fazer inferéncia, tais como: O que conduziu a um determinado enunciado? Quais as consequéncias que um deter- minado enunciado vai provavelmente provocar? Com outras pa- lavras, a autora traz o seguinte questionamento classico para se fazer inferéncia: “quem diz que, a quem, como e com que efei- to” (RICHARDSON et al., 1985, p.177). Observamos que se 0 pesquisador nao tiver um conhecimento sobre o contexto do ma- terial a ser analisado e se nao formular perguntas baseadas em es- tudos ou experiéncias prévias com o assunto, dificilmente conse- guira fazer inferéncias de seus achados de pesquisa. As consideracoes de Bauer (2002) também podem nos ajudar a fazer inferéncia. Ele considera a analise de conteudo como “uma técnica para produzir inferéncias de um texto focal para seu con- texto social de maneira objetivada’” (BAUER, 2002, p.191). O mencionado autor, ao considerar a perspectiva simbdlica do con- tedo de um material a ser analisado, observa que “um simbolo re- presenta o mundo; esta representagdo remele a uma fonte e faz apelo aum publico” (p.192). Ainda como base nesse autor, conse- guimos fazer inferéncia quando caminhamos na teconstrugao das representacdes, partindo da dimensao sintatica (“como algo é dito”, a exemplo de frequéncias de palavras, sequeéncia, vocabulario e estilo) para a dimensao semantica (“o que ¢ dito”, a exemplo de te- mas e avaliacoes). No que se refere a interpretacgdo, observamos que com esse procedimento procuramos ir além do material. E, com base nas in- feréncias, discutimos os resultados da pesquisa numa perspecti- va mais ampla, trabalhando na produgao do conhecimento de uma area disciplinar ou de um campo de atuagao. Assim, através desse procedimento, procuramos atribuir um grau de significagao mais ampla aos contetidos analisados. 90 Pesquisa social Com base em Minayo (2006), podemos considerar que a in- terpretagao consiste em relacionar as estruturas semAnticas (signi- ficantes) com estruturas sociolégicas (significados) dos enuncia- dos presentes na mensagem. Nesse sentido, articulamos a super- ficie do texto descrita e analisada com os fatores que determinam suas caracteristicas. . Para fazermos interpretagdo, além de termos como base as in- feréncias que conseguimos realizar com os resultados da nossa pesquisa, precisamos também de uma sdlida fundamentacao ted- rica acerca do que estamos investigando. No ponto de vista da abor- dagem quantitativa, a aplicacdo de testes estatisticos poderia ser uma base para a interpretacdo de resultados. Chegamos a uma interpretagao quando conseguimos realizar uma sintese entre: as questdes da pesquisa; os resultados obtidos a partir da analise do material coletado, as inferéncias realizadas € a perspectiva teérica adotada. Trajet6ria da Analise de Conteido Tematica As obras que tratam da andlise de contetdo costumam apre- sentar as seguintes etapas: Pré-analise; Exploracdo do material e Tratamento dos resultados/Inferéncia/Interpretagao. A partir da nos- Sa experiencia em pesquisa social, sugerimos uma trajetéria de analise, descrita a seguir. Inicialmente procuramos fazer uma leitura compreensiva do conjunto do material selecionado, de forma exaustiva. Trata-se de uma leitura de primeiro plano para atingirmos niveis mais profun- dos. Nesse momento, deixamo-nos impregnar pelo contetido do material. Através dessa leitura buscamos: (a) ter uma visdo de con- junto; (b) apreender as particularidades do conjunto do material a ser analisado; (c) claborar pressupostos iniciais que servirao de baliza para a analise e a interpretacdo do material; (d) escolher for- mas de classificagao inicial; (c) determinar os conceitos tedricos que orientarao a andalise. 91