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CONCEITO DE LIBERDADE 3 colecgao subse edigdes RES litttada PRIMEIRA PARTE OS HOMENS E A LIBERDADE 1 © homem conguista a sua humanidade ao afirmar a0 realizar sua liberdade no mundo ‘Tudo o que vive... tende a realizar-se na pleni- ‘tude do seu ser. O homem, simultineamente ser vivo e pensante, para se realizar tem primeiro de se conhecer. (Obras, 1, 104, 67) (). Qual € pois esta curiosidade imperiosa que im- pele 0 homem a conhecer 0 mundo que 0 cerca, a erseguir com infatigével paixio os segredos desta, natureza, da qual ele, nesta terra, é a Gltima e a mais perfeita criagio?... Nao hesito em dizer que, de todas as necessidades que constituem a natureza do homem, é a mais humana, e que o homem s6 se distingue efectivamente dos animais das outras espé- cies por esta necessidade inextinguivel de saber, de modo que ele 86 se torna completamente homem pelo despertar e pela satisfacio progressiva desta imensa neeessidade de saber. Para se realizar na plenitude do seu ser, 0 homem tem de se conheeer, ¢ nunca ‘se conhecerfi de um modo real e completo, enquanto no conhecer @ natureza que o cerca e da qual ele 6 produto, A nio ser que queira renunciar 4 sua humanidade, o homem tem de saber, tem de penetrar com o seu pensamento o mundo real e, sem esperar atingir o fundo, tem de aprofundar sempre, cada vex mais, © coordenagio e as leis, pois a sua huma- nidade 96 se atinge por este prego... para que ele (os rfertacios 180 onaltodor not soni no fin do obra © otto ‘name, a ideo, Topreano "2 ona am que e fet. fol 7 possa comprender a sua propria natureza e a sua missio neste mundo, sua patria e seu teatro tinico; para que neste mundo de cega fatalidade, ele possa inaugurar 0 seu mundo humano, o mundo da liber- dade. ‘Tal 6a tarofa do homem: 6 inesgotivel e infi- nita, e suficiente para satisfazer os espiritos 05 coragies mais arrogantes e ambiciosos. Ser efémero e imperceptivel, perdido do meio do oceano sem mar- gens da transformagao universal, com uma eterni- dade que o precede e uma eternidade imensa & sua frente, o homem pensante, o homem consciente do seu papel, fica calmo e orgulhoso com o sentimento dda sua liberdade, que conquista emaneipando-se pelo trabalho, pela ciéneia, e emancipando, revoltando se necessério, todos os homens, seus semelhantes, seus irméos, & sua volta, (Obras, III, 227-228, 70). Por muito limitado que seja em comparacéo com o universo, o nosso globo é ainda um mundo infinito. A este respeito, podemos dizer que 0 nosso ‘mundo, e no sentido mais restrito da palavra, a nossa terra, € igualmente inacessivel, isto é, inesgotavel. ‘Nunca a ciéncia chegaré até ao fim, nem dird a ‘altima palavra, Deveré isto desesperar-nos? Pelo contririo, se a tarefa fosse limitada, depressa res- friaria o espirito do homem que, diga-se o que se disser, nunca se sente tao feliz como quando pode destruir e transpor um limite. (Obras, III, 368, 70). ... armado com a sua formidavel capacidade de abstracgio, ele nfo conhece e nunca conhecerd nenhum limite para a sua curiosidade imperiosa, apaixonada, avida de tudo saber e de tudo abracar. Chega dizer-lhe: «Tu nao passarés além de>, para que, com toda a forca desta curiosidade irritada pelo obstéculo, ele queira lancar-se «além de>. A este respeito, 0 Bom Deus da Biblia mostrou-se muito mais clarividente do que o Sr. Auguste Comte 8 € 09 seus diseipulos positivistes; querendo sem davida que o homem comesse o fruto proibido, impe- diram-no de o comer. Este excesso, esta desobedién- cia, esta revolta do espirito humano contra todo © limite imposto, quer em nome do Bom Deus, quer em nome da ciéncia, constituem a sua honra, 0 segredo da sua forea ¢ da sua liberdade. B, pro- curando 0 impossivel que o homem sempre realizou € conheceu o possivel, e os que se limitaram sabia- ‘mente a0 que Ihes parecia 0 possivel, nunca avan- garam um finieo passo. (Obras, Ill, 325 — 326, 70). fa realizagio desta tarefa nao é s6 uma obra intelectual e moral; é antes de mais, tanto a eseala do tempo como do’ ponto de vista do nosso desen- volvimento racional, uma obra de emanoipagdéo ma- terial. O homem s6 se torna verdadeiramente homem, 86 conquista a possibilidade da sua emancipacio interior, quando conseguir romper as cadelas da eseravatura que a natureza exterior faz pesar sobre todos os seres vivos. (Obras, II, 278-279, 70). Mas [a actividade, que constitui o trabalho) (*) 86 comeca a constituir 0 trabalho propriamente ‘iumano quando for dirigida pela inteligéneia humana e pela sua vontade reflectide, deixando de servir unicamente a satisfacdo das ‘necessidades fixas ¢ fatalmente circunscritas da vida exclusivamente ani inal, mas também as do ser pensante, que conquista @ sua humanidade ao afirmar-se ¢ realizar-se no ‘mundo. (Obras, I, 110, 67). Gracas a esta capacidade de abstraccio... 0 homem desdobra-se, por assim dizer e, a0 separar-se 1 At palowor ene soreiads rete perencam eo iso. fexyin, “aan savant amycam_ oar aH, cada parte, ele eleva-se de qualquer modo acima dos seus préprios movimentos interiores, acima das sen- sagdes que experimenta, dos instintos, dos apetites, dos desejos que despertam nele também das ten- déncias afectivas que ele sente; o que Ihe dé a possi- bilidade de os comparar entre si, do mesmo modo que compara os objectos e os movimentos exteriores, e de tomar partido por uns ou por outros, segundo © ideal de justiga e de bem, ou segundo'a paixio dominante, que a influéncia 'da sociedade © as cir- cunstineias particulares desenvolveram ¢ fortifica- ram nele. Esta capacidade de tomar partido a favor de um ou de varios imputsos que agem nele num sentido determinado, contra outros impulsos igualmente inte- riores e determinados, chama-se vontade. ‘Assim explicado ¢ compreendido, o espirito do hhomem ea sua vontade deixam de se apresen- tar como capacidades absolutamente auténomas, independentemente do mundo material e, capazes, ao criar, um os pensamentos, outro os actos espen- tAneos, de romper o encadeamento fatal dos efeitos e das ¢ausas que constituem a solidariedade univer- sal dos mundos... E sendo assim, nds temos de rejei- tar a possibilidade do que os metafisicos chamam as ideias espontineas da vontade, o livre arbitrio e a responsabilidade moral do homem, no sentido teo- ligico, metafisico ¢ juridico desta’ palavra, (Obras, IIL, 243 a 245, 70). 0 individuo humano, real, é tanto um ser uni- versal e abstracto como’ cada’ um de nés. Desde 0 momento que se forma nas entranhas da mae, j6 esté determinado e particularizado por uma mulii- plicidade de causas e acgdes. (Obras, I, 289, 72). ‘A vontade, como a inteligéncia, nfo é... uma irradiagio mistica, imortal e divina, caida miraculo- samente do oéu para a terra, para dar vida a pedacos de carne humana, a cadaveres. 1 o produto da nossa carne organizada e viva, o produto do organismo animal, (Obras, TI, 249, 40). 10 2 Ralzes e liberdade do individuo ma sociedade ‘cada individuo tem, ao nascer, em graus dife- rentes, no ideias e sentimentos inatos como preten- dem 05 idealistas, mas a capacidade material e for- mal de sentir, de pensar, de falar e de querer. $6 traz consigo @ faculdade de formar e desenvolver idelas e, como acabo de dizer, uma capacidade de actividade formal, sem nenhum contetdo, Quem Ihe i 0 seu primeiro contetido? A sociedade. (Obras, I 289-290, 71). ‘Cada nova geragio depara, no seu bergo, com ‘um mundo de ideias, de sentimentos e de imaginacio, que ela recebe como uma heranga dos séculos passa- dos. Este mundo nao se apresenta logo ao recém- -nascido sob a forma ideal, como sistema de repre- sentagées ¢ de ideias, como religiéo, como doutrina; a erianca seria ineapaz de o receber, nem de o con: ceber, nesta forma; mas ele impée-se a ela como um mundo de factos encarnado e realizado tanto nas pessoas como em todas as coisas que as ceream, falando aos seus sentidos por tudo que ela com: preende e vé desde o primeiro dia de vida. Porque as ideias e as representagdes humanas, comecam por ser unicamente o produto dos factos reais, tanto naturais como sociais, na medida em que so a sua reflexio ou repereussio no eérebro humano e a sua reprodugio, por assim dizer, ideal ¢ mais ou menos judiciosa..., adquirem mais tarde, depois de se terem estabelecido bem... na consciéneia colectiva de uma sociedade qualquer, a capacidade de se tornarem, Por sua vez, as causas que produzem factos novos, no propriamente naturais, mas sociais. Elas acabam por modificar ¢ transformar, muito 1 verdade, a existéncia, os hébitos ¢ hhumanas, numa palavra, todas as relages dos ho- mens na Sociedade e, pela sua incarnagéo nas coisas ctr mais banais da vida de cada um, elas tornam-se sensfveis, palpaveis para todos, mesmo para as erian- gas. De ‘modo quo, cada nova geragio, modelada desde a mais tonra’inffneia, quando chega & idade adulta, em que comega propriamente 0 trabalho do seu pensamento, necessariamente acompanhado de uma nova critica, encontra nela e na sociedade que a eerea, todo um conjunto de pensamentos e repre- sentagées estabelecidas, que Ihe servem de ponto de artida e que Ihe dio, de qualquer modo, o primeiro material ou a base para 0 seu trabalho intelectual e moral. (Obras, I, 201 a 298, 7). Todas as idelas, que ele encontra incarnadas nas coisas e nos homens, desde o seu nascimento, ¢ que se imprimem no seu espfrito pela educagio e ela instrugio que o individuo recebe, antes mesmo de se conhecer a si préprio, vai encontri-las mais tarde consagradas, explicadas e comentadas, por teorias que exprimem a consciéncia universal’ ou 0 Juizo colectivo e por todas as instituicdes religiosas, politicas e econémicas, da sociedade de que faz parte. E, cle préprio, esté de tal modo impregnado com elas, quer esteja ou ndo pessoalmente interessado em as defender, que reage involuntariamente, devido @ todos os hébitos materiais, inteleetuais morais, que 0 tornam etimplice. Nao 6 de espantar que a accio toda poderosa destas ideias, que exprimem a consciéncia colectiva da sociedade, se exerea sobre a massa humana; mas pelo contrério, que se encontre nesta massa, indi- viduos com o pensamento, a vontade e a coragem para as combater. Pois a pressio da sociedade sobre © individuo é imensa. (Obras, I, 294-295, 72) © homem nio eriou a sociedade, nasceu_nela. Nio naseeu livre, mas acorrentado, produto de um meio social particular criado por uma longa série de influéncias passadas, por desenvolvimentos © 2 factos histéricos. Hsté mareado pela regio, o elima, © tipo étnico, a classe a que pertence, as condicdes, econémicas e politicas da vida social e, finalmente, pelo local, cidade ou aldela, pela casa, pela familia e vizinhanea, em que nasceu. ‘Tudo isto determina o seu carécter e a sua natureza, dé-lhe uma linguagem definida e impée- lhe, sem que ele possa resistir, um mundo consti- ‘tuldo por ideias, costumes, sentimentos, perspectivas mentais, ¢ 0 lugar, antes do despertar da sua cons- ciéncia,’ numa telagio rigorosamente determinada pelo parentesco com 0 meio social que o cerca. Tor- nase organicamente membro de uma sociedade, acorrentado a ela interior e exteriormente, impr: gnado, até ao fim dos seus dias, pelas suas crencas, julzos, paixdes e costumes. (Maximoff, 159, 70). wresso social sobre o individu & imensa, e nfo hé carieter tio forte, nem inteligéncia tao poderosa. que esteja ao abrigo dos golpes desta influéneia tio despética como irresistfvel. ‘Nada prova [tanto] 0 eardcter social do homem como esta influénela. Poder-se-ia dizer que a cons- cigncia eolectiva de qualquer sociedade, inearnada tanto nas grandes instituigdes piblicas como em todas os detalhes da vida privada e servindo de base a todas as suas teorias, forma uma espécie de meio ambiente, uma espécie de meio intelectual e moral, prejudicial mas necessirio & existncia de todos os seus membros. Hla domina-os e sustenta-os a0 mesmo tempo, ligando-os pelos mesmos costumes que ela prépria determina; inspirando a cada um seguranca, confianca e constituindo para todos a condicio si prema da existéncia do grande niimero, a banalidade, vulgar, a rotina. ‘A maior parte dos homens, néo s6 nas massas populares mas também nas classes privilegiadas e eselarecidas, tanto e até mais do que nas massas, 86 se sentem tranquilos e em paz consigo préprios quando, nos seus pensamentos e em todos os actos 1B da sua vida, seguem, com fidelidade e cegueira, @ tradicio e a rotina, (Obras, I, 295-296, 72). ‘A major parte dos individuos... s6 quer e pensa © que toda a gente que os rodeia quer e pensa; eles acreditam, sem diivida, querer e pensar eles proprios, mas s6 fazem reaparecer servilmente, roti- neiramente, com modificagies quase impereeptiveis ou nulas, os pensamentos ¢ as vontades dos outros. Este servilismo, esta rotina, fontes inesgotaveis do individuo vulgar, esta austneia de revolta na vontade e de iniciativa no pensamento dos individuos so as principais causas da lentidio desoladora do desen- volvimento histérico da humanidade. Para nés, mate- rialistas ou realistas, que nfo acreditamos nem na imortalidade da alma nem no livre arbitrio, esta lentidio, por muito exasperante que seja, aparece- -nos como um facto natural. Partindo do nivel do gorila, o homem s6 com muita dificuldade atinge a consciéncia da_sua humanidade e a realizagio da sua liberdade. De infcio, ele néo pode ter*nem esta conseiéneia, nem esta liberdade; ele nasce um ani- mal feroz ¢ eseravo, e s6 se humaniza e emancipa progressivamente no seio de uma sociedade, que é necessariamente anterior ao nascimento do’ pensa- mento, da palavra e da vontade; e s6 0 pode fazer através dos esforgos colectivos de todos os membros, passados e presentes, desta sociedade, que 6, por iss0, a base e o ponto de partida natural da sua existéncia, humana. Disto resulta que o homem s6 realiza a sua liberdade individual e a sua personalidade comple- tando-s com os indviduos que o cercam, 96 gracas a0 trabalho e & forea colectiva da sociedade.... Sociedade, longe de diminuir e de limitar, cria pelo contrério’a Iiberdade dos individuos. (Obras, I, 274- 295, 7). 'A revolta contra esta influéncia natural da socie- dade oficialmente organizada, contra o Estado, ainda que muitas vezes ela seja tdo inevitdvel como esta, iiltima. A tirania social, muitas vezes esmagadora e funesta, néo presenta este caricter de violéneia us imperativa, de despotismo legalizado e formal que caracteriza’ a autoridade do Estado. Ela nfo se impSe como uma lei & qual qualquer individuo & forgado a submeter-se sob pena de se expor a uma punigdo juridica. A sua acco & mais suave, mais insinuante, mais imperceptivel, mas ainda mais pode- rosa... pata se revoltar contra esta influéncia que ‘8 sotiedade exerce naturalmente sobre ele, o homem tem de se revoltar, pelo menos em parte, contra ele proprio, pois com todas as suas tendéncias e aspi- Tagées maternais, intelectuais e morais, ele néo & senio o produto da sociedade. (Obras, I, 283-284, 71) ‘Uma revolta radical contra a sociedade seri ‘tio impossivel para o homem como a revolta contra 2 natureza. (Obras, I, 288, 71). ‘B-nos... tio pouco possfvel interrogar se a socie- dade um'bem ou um mal, como se a natureza, o ser universal, material, ‘inico, real, supremo, abso- luto, 6 um bem ou um mal; é'mais que tudo isto; & um ‘imenso facto positivo e primitivo, anterior a toda a apreciagéo intelectual e moral, é a propria base, 6 0 mundo no qual, fatalmente © mais tarde, se desenvolve por nés 0 que chamamos o bem € o mal. Nao se passa o mesmo com o Estado; ¢ nio hesito em dizer que o Estado é 0 mal, mas um mal historicamente necessério, tio necessério no passado como o seré, mais tarde ou mais cedo, a sua extinglio ‘completa, tio necessirio como foram a bestialidade primitiva e as divagagdes teol6gicas dos homens. O Estado nada tem a ver com a sociedade, ele no 6 senfio uma forma histérica tio brutal como abs- tracta. Ele nasceu, historicamente, em todos os pafses fem que coexistiam a violéncia, a rapinagem, a pilha- gem, numa palavra, da guerra 'e da conquista, com os Deuses criados sucessivamente pela fantasia teol6- ica das nagées. (Obras, I, 287, 71). O Estado é uma instituicdo histérica, transitéria, & uma forma passageira da sociedade. (Obras, 1, 285, 72). 5 # muito mais facil a revolta contra o Estado, porque hé na prépria natureza do Estado qualquer coisa que provoca a revolta. 0 Estado é a autori- dade, a forea, a ostentacio ¢ a presungéo da forca. Ele no se insinua, no procura converter: sempre que se intromete, f4-1o com muito mau gosto, pois © seu hébito nunca é de persuadir, mas de se impor, de forcar. Qualquer justificacio que se dé, 6 para dissimular esta natureza como violadora legal da vontade dos homens, como a negagio permanente da sua liberdade. Entéio, mesmo que ele imponha bem, deteriora-o e corrompe-o, precisamente porque ele 0 impse, ¢ toda a ordem provoca e suscita a revolta legitima da liberdade; e como o bem, desde © momento em que é imposto, segundo a verdadeira moral, a moral humana, nfo a divina certamente, segundo o respeito humano e a liberdade, torna-se 0 mal. A liberdade, a moralidade e a dignidade do ho- ‘mem consistem precisamente em ele praticar o bem, ‘no por ser a isso obrigado, mas*por ele o conceber, © querer e o amar. A sociedade néo se impde formalmente, oficial- mente, autoritariamente, mas naturalmente, © 6 por ‘causa ‘disso mesmo que a sua acgéo sobre o indi- viduo é incomparavelmente mais poderosa do que a do Estado. Ela cria e forma todos os individuos que nagcem e que se desenvolvem no seu seio, Ela trans- mite-thes lentamente, desde o primeiro dia de vida até sua morte, toda a sua natureza material e moral; ela individualiza-se, por assim dizer, em cada um. (Obras, I, 288-289, 72). a influéneia natural que os homens exercem uns sobre os outros ... 6 a propria base, material, intelectual e moral, da solidariedade humana. O indi- viduo, produto da solidariedade, isto é, da sociedade, submetido As suas leis naturais, pode bem, sob a influéncia de sentimentos vindos de fora, e princi- palmente de uma sociedade estrangeira, reagir contra 16 la até um certo grau, mas ele néo saberia desligar-se dela sem se unir a um outro meio solidério e sem receber ai novas influéneias. Pois, para o homem, a vida afastada da sociedade ¢ de todas as influéncias humanas, o isolamento absoluto, é a morte intelec- tual, moral e até material. A solidariedade néo & © produto, mas a mie da individualidade, e a perso- nalidade humana nfo pode nascer e desenvolver-se senfio na sociedade humana. (Obras, V, 159, 69). ‘A lei da solidariedade social é @ primeira lei humana; a liberdade & a segunda lei, Estas duas leis, interpenetram-se e, sendo insepariveis, constituem a esséncia da humanidade. Assim, a liberdade no & negagio da solidariedade; pelo contririo, ela & © seu desenvolvimento e, por assim dizer, a sua humanizagéo. (Maximoff, 156, 71). ‘A quem pretender (que a acco natural ... sobre as massas] ainda é um atentado a liberdade das massas, uma tentativa para criar uma nova forca autoritéria, nés responderemos que ele ou é um sofista ou um tolo. ‘Tanto pior para os que ignoram a lei natural e social da solidariedade humane, 20 ponto de imaginarem que a independéncia méitua absoluta dos individuos ¢ das massas seja uma coisa possivel ou mesmo desejavel. Desejé-la, é querer a destruigio da prépria sociedade, pois toda a vida social néo é outra coisa sendo esta dependéncia miéitua ¢ incessante dos individuos e das massas ‘Todos os individuos, mesmo os mais inteligentes, 03 mais fortes, ¢ sobertudo os inteligentes e 0s fortes, siio, em qualquer momento da sua vida, os produ: tores e os produtos da vontade ¢ da accéo das mas: sas. A liberdade de cada individuo & a resultante, sempre reproduzida de novo, desta série de influén- cias materiais, intelectuais e morais que todos os ividuos que o ceream, que 8 sociedade no meio da qual ele nasce, se desenvolve e morre, exerce nele. Querer escapar a esta influéncia, em nome de uma liberdade transcendente, divina, absolutamente egoista e auto-suficiente, é condenar-se ao nio-ser; aT querer renunciar a exereé-la sobre os outros, é renun- iar a toda a acgGo social, mesmo & expressio do seu Bensamento © dos seus sentimentos, leva ainda ao ‘Tanto na natureza como na sociedade humana, que nao é ainda outra coisa sendo esta mesma natu- reza, tudo o que vive 86 vive com a condicéo suprema de intervir da maneira mais positiva, tdo fortemente quanto a sua natureza o permita, na vida dos outros. A abolicdo desta influéncia métua seria pois a morte. E quando reivindicamos a liberdade das massas, no pretendemos de modo algum abolir qualquer ‘uma das influéncias naturais de qualquer individuo e de qualquer grupo de individuos que exercem a acedo sobre elas. O que nds quetemos, & a aboligéo das influéncias artificiais, privilegiadas, legais, ofi- is. Se a Igreja e o Estado pudessem’ser institui- ses privadas, nés seriamos sem divida seus adver- sérios, mas no protestariamos contra o seu direito de existir. Mas nés protestamos, contra eles porque, sendo sem divida instituigdes “privadas, devido a 86 existirem efectivamente para o interesse parti- cular das classes privilegiadas, eles nfo se servem menos da forca colectiva das’ massas organizadas para este fim, para se imporem autoritariamente, oficialmente, violentamente &s massas. (Obras, VI, 87 a 89, 7D). ‘Tudo 0 que existe verdadeframente 96 fica sem uma completa manifestacéo de si mesmo quando isolado, tanto no que respeita aos homens como em relacdo as coisas mais inertes e menos demonstrati- vas. B a histéria do barbeiro do rei Midas: néo ousando dizer o seu terrivel segredo a ninguém, confiou-o A terra, mas a terra divulgou-c, e foi assim que se soube que o rei Midas tinha orelhas de burro. Existir realmente, tanto para os homens como para ‘tudo 0 que existe, néo significa outra coisa sendo manifestar-se. (Obras, III, 388, 70). Peguem ‘num metal ‘ou numa pedra: haverd, aparentemente, qualquer coisa mais inerte e menos 18 comunicativa? E contudo, isso move-se, age, espa- Tha-se, manifesta-se sem cossar, ¢ $6 existe a0 fazé- lo. A’ pedra eo metal tém todas as propriedades fisicas e, enquanto corpos quimicos, simples ou com- ‘postos, esto incluidos num proceso, por vezes muito Iento, mas incessante, de composicao e decomposigéo molecular, Essas propriedades .... sio uma multipli- cidade de modos de acco e de manifestagio em relagio ao exterior. Mas tirem as suas propriedades & petra, ao metal, e que ficaré? A abstraccio de uma coisa, nada. (Obras, III, 391, 70). Qualquer coisa no é sendo o que ela faz ... Ela no pode conter nada no que chamamos 0 sew énte- rior, que nfo se manifeste no seu exterior: numa palavra, a sua acoio e 0 seu ser sio uma unidade, (Obras, II, 384, 70). ‘B uma verdade universal que néo admite ne- nhuma excepeio ... O homem tem unieamente no seu interior 0 que manifesta de qualquer modo no seu exterior. Esses supostos génios desconhecidos, esses espiritos vios e amando-se a si préprios, que se lamentam eternamente por nunca conseguirem por luz do dia os tesouros que dizem transportar, sf0 sempre, efectivamente, os individuos mais mi vveis em relagio ao seu ser éntimo: eles néo tém em si mesmo nada. (Obras, IIL, 385, 70). ‘A finica autoridade grande'e toda-poderosa € ao mesmo tempo natural e racional, a tinica que nés podemos respeitar, seri a do espirito colectivo pliblico duma sociedade fundada na igualdade e na solidariedade, assim como na liberdade e no respeito hhumano e miituo de todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade nada divin, totalmente humana, ‘mas diante da qual nés nos inclinaremos com todo ‘© coragio, com a certeza de que, longe de escravizar, cla emanciparé os homens. Ela seré mil vezes mais poderosa, estejam certos, do que todas as vossas autoridades divinas, teologicas, metafisicas, politicas juridicas, instituldas pela igreja e pelo Estado, 19 mais poderosa do que 08 vossos eédigos criminais do que os vossos carcereiros e carrascos. ‘A forga do sentimento colectivo ou do espfrito phblico & 6 hoje poderosa. Os homens mais capazes de cometer crimes raramente ousam desafid-la, afron- tila abertamente. Eles podem tentar iludi-ia, mas evitardo trati-la com aspereza, a no ser que nem sequer tenham o apoio de uma tminoria qualquer. Ne- nhum homem, por muito forte que se julgue, jamais seré capaz de'suportar o desprezo undnime da soci dade, ninguém seria capaz de viver sem se sentir amparado pela compreensio ¢ estima pelo menos duma parte desta sociedade. B necessdrio que um homem seja impelido por uma imensa ¢ sincera con- viogio, para que tenha coragem para manter uma opiniéo lutando contra todos, e nunca um homem egoista, depravado e indolente, ter essa coragem. Nada prova melhor a solidariedade natural fatal do que esta lei da sociabilidade que liga todos os homens e que qualquer um de nés pode constatar todos 05 dias, tanto nele como em todos os homens que conheca. Mas se esta forea social existe, porque @ que ela néo foi suficiente, até aos nossos dias, para moralizar e humanizar os homens? Para esta ‘questo a resposta 6 muito simples: porque, até aos ‘nossos dias, ela propria nunea foi hymanizada porque 1 vida social da qual ela é sempre‘a expresso mais fel baseia-se, como se sabe, no culto divino e néo no respeito humano; na autoridade e ndo na liber- dade; no privilégio e nfo na igualdade; na exploragéo e nfo na fraternidade dos homens, na corrupcio e na mentira e nfo na justica e na’ verdade. Conse- quentemente, a sua acco real, sempre em contradi- Go com as teorias humanitarias que professa, exer- ceu sempre uma influéncia funesta e pervertida, nao moral. Ela néo reprime os vicios e 0s crimes, ela cria-o. A sua autoridade é por isso, uma autoridade divina, anti-tumana; a sua influéncia é nefasta ¢ funesta, Querem torni-las benéficas e humanas? ‘Fagam a Revolucéo social. Fagam com que todas as 20 necessidades se tornem realmente solidarias, que os interesses materiais e sociais de cada um se tornem conformes as obrigacdes humanas de cada um. E, para isso, s6 h4 uma solugio: destruam todas as instituigdes de desigualdade; fundem a igualdade econémica e social para todos, e nesta base erguer- -se-é a liberdade, a moralidade ¢ a humanidade soli- dria de toda a gente. (Obras, I, 69 a 72, 72). a lei da solidariedade social & ‘inexorével, de modo que para moralizar os individuos é neces- sério ocupar-se nao 86 da sua consciéncia como da natureza da sua existéncia social. (Nettlau, 230, 64-67). € necessdrio moralizar, primeiro de tudo, a propria sociedade. (Obras, V, 160, 69). oi “A liberdade 6, antes de mais, um facto social A liberdade dos outros aumenta a minha até ao infinito. Importa-me muito o que os outros homens so, porque por muito independente que me julgue ou que areca pela minha posicio social, mesmo que eu fosse Papa, Czar, Imperador ou até primeiro minis- ‘tro, ndo deixaria de ser o produto dos iiltimos de entre eles; se eles so ignorantes, miseréveis, escra- os, a minha existéncia & determinada pela sua igno- rancia, pela sua miséria e eseravidao. Eu, um homem esclarecido e inteligente, por exemplo—se for 0 caso —sou tolo pelas suas tolices; se bravo, sou escravo da sua escravatura; se rico, tremo com a sua misé- ria; se privilegiado, empalideco diante da sua justiea. Mesmo que eu queira ser livre, nfo posto, ‘porque & minha volta ainda nenhum homem quer ser livre nfo o querendo, eles transformam-se contra mim, em instrumentos de opressio. Nao imaginacéo, é uma realidade da qual toda, a gente faz hoje uma triste experiéncia. Porque é que depois de tantos esforgos sobre-humanos, depois de tantas revolucdes vitoriosas, depois de’ tantos sacrificios dolorosos e tantos combates pela liber- dade, a Europa continua escrava? Porque em todos os paises da Europa hé ainda uma massa imével, pelo menos aparentemente, e que esteve até aqui ina- cessivel & propaganda das ideias de emancipacio, de humanidade e de justica —a massa dos camponeses. B cla que constitui hoje a forea, o Gltimo apoio © 0 filtimo reftigio dos déspotas, uma auténtica maga yas suas méos para nos esmagar, e enquanto nés do conseguirmos incutir-lhe as nossas aspiragies, as nossas paixGes, as nossas idelas, nfo deixaremos de ser escravos. Temos de emancipé-la, para nos emanciparmos. (Mazzini, 91-92, 72). Em quase todo o mundo as mulheres sio escra- vas; enquanto clas néo estiverem completamente emancipadas, a nossa liberdade seré impossivel. (Kornilov, 291). e nenhum povo conseguiria ser completo solidariamente livre no sentido humano desta pala- vra, enquanto toda a humanidade nao o estiver. Mazzini, 110-111, 72). 86 serei verdadeiramente™livre quando todos 0s seres humanos que me ceream, homens e mulhe-~ res, forem igualmente livres... de modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodelam e quanto mais profunda e maior for @ sua liberdade, tanto mais vasta. mais profunda e maior seré a minha liberdade ... ett 86 posso considerar-me completamente livre quando a minha liberdade ou, ‘© que 6 a mesma coisa quando a minha dignidade de homem, o meu direito humano ... reflectidos pela consciéneia igualmente livre de todos, me forem confirmados pelo assentimento de toda a gente. A mi- nha liberdade pessoal, assim confirmada pela liber- dade de todos, estende-se até ao infinite. (Obras, I, 281, 72) A liberdade dos individuos nfo é um facto indi- vidual, é um facto, um produto, colectivo. Nenhum homem conseguiria ser livre isolado e sem a contri- buigéo de toda a sociedade humana, Os individua- listas, ou os falsos amigos que combatemos em todos’ os congressos de trabalhadores, afirmaram, com 0s moralistas e os economistas burgueses, que © homem podia ser livre, que podia ser homem, afas- tado da sociedade, dizendo que a sociedade’ tinha sido fundada por um contrato de homens anterior- mente livres. Esta teoria, desenvolvida por JJ. Rousseau, 0 eseritor mais nefasto do século pasado, o sofista que inspirou todos os revolueionérios burgueses, esta teoria denota uma ignordneia completa tanto da natureza como da histéria... Imaginem 0 homem, dotado pela natureza com as faculdades mais geniai afastado desde tenra infancia da sociedade humana, num deserto, Se ele ndo perecesse miseravelmente, 0 que seria o mais provavel, ficaria um bruto, um macaco privado da palavra e do pensamento, — pois © pensamento é insepardvel da palavra: ninguém con- segue pensar sem linguagem... Mas 0 que € a pala- vra? a comunicacio, € a conversagio dum indi viduo com outros individuos. O homem animal 36 se transforma em ser humano, isto é pensante, por esta conversacio, s6 nesta conversacao. A sua indi- vidualidade humana, a sua liberdade, € pois 0 produto da colectividade. © homem s6 se emancipa da pressio tirénica exercida sobre ele pela natureza exterior com o trabalho colectivo; pois 0 trabalho individual, impo- tente e estéril, nunca saberia veneer a natureza. (Obras, V, 318 a 320, 72). Tudo 0 que é humano no homem, ¢ a liberdade mais do que qualquer outra coisa, € 0 produto de um trabalho social, colectivo. Ser livre no isolamento absoluto é um absurdo inventado pelos tedlogos metafisicos. (Obras, V, 321, 72). ~-- © homem 86 se torna verdadciramente ho- ‘mem “quando respeita e ama a humanidade ¢ @ liberdade de todos, ¢ quando a sua humanidade ¢ Iiberdade so respeitadas, amadas, suscitadas e eria- das por toda a gente. (Obras, I, 280-281, 72) 4 Estado e liberdade © que é o Estado? #, respondem os metafisicos eos doutores em direito, a coisa publica; os inte- esses, 0 bem colectivo e 0 direito de todos, em oposi¢éo & acco dissolvente dos interesses ¢ das paixdes egoistas de cada um. £ a justica ¢ a reali- zagéo da moral e da virtude sobre a terra. Por isso, © acto mais sublime e 0 maior dever dos individuos 6 devotar-se e sacrificar-se, ¢ se for preciso morrer pelo triunfo e pelo poder do Estado. His em poucas palavras toda a teologia do Estado. Vejamos agora se esta teologia politica, do mesmo modo que a teologia religiosa, nio esconde sob belas e poéticas aparéncias, realidades muito comuns ¢ muito sujas. (Obras, I, 222-223, 69). Foi um grande erro da parte de J.-J. Rousseau ter pensado que a sociedade primitiva se tinha esta- bbelecido por um contrato livre, elaborado pelos sel- vagens. A maior parte dos juristas e dos publicistas modernos, da escola de Kent ou de qualquer outra 2 escola individualista e liberal, que néo admitem nem ‘2 sociedade fundada sobre o'direito divino dos teé- logos, nem a sociedade determinada pela escola hegeliana, como a realizagio mais ou menos ristica da Moral objectiva, nem a sociedade primitivamente animal dos naturalistas, tomam nolens volens, e por falta de outro fundamento, o contrato tdcito como ponto de partida. Um contrato tacito! Isto é, um con- trato sem palavras ¢, por isso, sem pensamento e sem vontade—uma revoltante falta de juizo! Uma absurda ficgio, e ainda mais, uma maléfica fiegéo! Uma indigna fraude! Pois ele supie que nao estava em estado de querer, nem de pensar, nem de falar — porque me deixei ‘explorar sem protestar © con- senti, para mim e para toda a minha descendéncia, numa escravatura eterna! ‘As consequéncias do contrato sooial so, efecti- vamente, funestas, porque elas conduzem ao dominio absoluto do Bstado. E, portanto, o principio, tomado como ponto de partida, parece excessivamente liberal. Os individuos, antes de fazerem este contrato, goza- vam de completa liberdade, pois segundo esta teoria, 9 homem selvagem & o tinico que & completamente livre. Nés Jé dissemos 0 que pensamos desta liber- dade natural, que no é seno a dependéncia abso- luta do homem-gorila frente perseguicéo perma- nente do mundo exterior. Kis aqui os homens primitivos, absolutamente livres, em si e para si préprios, e que s6 desfrutam desta liberdade ilimitada enquanto nao se encontram, enquanto permanecem mergulhados num isolamento individual, A liberdade de um néo necessita da liber- dade do outro, pelo contrério, cada uma das suas Uberdades individuais bastam-se a si préprias e exis- tem para si préprias, a liberdade de cada um aparece necessariamente como a negacéo da dos outros, todas estas liberdades, ao encontrarem-se, tém de se Timitar e de se diminuir mutuamente, de se contra- dizer, de se destruir. 25 Para nio se destruirem até ao fim, elas formam entre si um contrato. (Obras, I, 139 a 141, 67). Entio, tudo 0 que se considerou como consti- tuindo o interesse comum, foi proclamado o bem, ¢ tudo o que Ihe era contrério, 0 mal. Os membros contratantes, tornados cidadaos, tendo-se ligado por um compromisso mais ou. menos solene, assumiram um dever: 0 de subordinar os seus interesses pri- vados & salvacio comum, ao insepardvel interesse de todos, e os seus direitos separados [a0] direito piiblico, cujo representante ‘mico, o Estado, foi por isso mesmo investido do poder de reprimir todas as revoltas do egoismo individual. (Obras, I, 146- “M47, 67). ois, segundo este sistema, a sociedade humana 86 comeca com a conclusio do contrato. Mas o que 6, entdo, esta sociedade? # a realizagio pura e légica do contrato, com todas as suas disposigées consequéncias legislativas e priticas,—é 0 Estado. xaminemo-lo de mais perto, O que 6 que repre- senta? A soma da negagio das liberdades individuais de todos os seus seus membros; ou melhor, a dos sacrificios que fazem todos os seus membros, a0 renunciarem a uma parte da sua liberdade em pro- veito do bem comum ... Pois, 1& onde comega 0 Estado, cessa a liberdade individual e vice-versa. Responder-se-4 qtfe o Estado, representante da salvagio pibliea ou do interesse comum, s6 suprime ‘uma parte da liberdade de cada um, para the asse- gurar tudo o resto. Mas este resto, é a seguranca, ‘se quiserem, mas nunca seré a liberdade. A liberdade 6 indivisivel: nao se Ihe pode suprimir uma parte sem a destruir por inteiro. Esta pequena parte que suprimem, 6 a propria esséncia da minha liberdade, 60 todo. Por um movimento natural, necessério ¢ irresistivel, toda a minha liberdade'se concentra precisamente nessa parte, por pequena que seja, que 26 suprimem. # a histéria da mulher do Barba-Azul, que tinha um palécio & sua disposigéo, com toda a liberdade de entrar em todo o lado, de ver e de tocar em tudo, excepto um maléfico quartinho, que vontade soberana do seu terrivel marido the tinha proibido de abrir, sob pena de morte. Pois bem, ten- do-se fartado de todas as maravithas do palicio, 0 seu espfrito concentrou-se inteiramente neste quar- tinho: ela abriu-o e fez bem em o abrir, pois foi um acto necessdrio & sua liberdade, enquanto que a proi- bigéo de af entrar era uma violacdo flagrante desta ‘mesma liberdade. ® ainda a historia do pecado de Adio ¢ Eva: a proibigio de provar o fruto da rvore da ciéneia, sem outra razio a nfo ser a von- tade do Senhor, era da parte do Bom Deus um acto de terrivel despotismo; e se os nossos primeiros pais tivessem obedecido, toda a raga humana teria mer- gulhado_na mais ‘humilhante escravatura. A sua desobediéncia, pelo contririo, emancipou-nos e sal- vou-nos. Este foi, falando misticamente, o primeiro acto de liberdade humana, Mas 0 Estado, dir-se-4, 0 Estado democrittico, baseado no sufrigio livre de todos os cidadios, nao poderia ser a negacdo da liberdade destes? E porque nfo? Isso dependeré absolutamente da missio e do poder que os cidadios delegarem ao Estado. Um Estado republicano, baseado no sufrégio universal, poder ser muito despético, mesmo mais despético do que o Estado monarquico, logo que sob o pretexto de representar a vontade de toda a gente, ele esma- gue a vontade eo movimento livre de cada um dos seus membros, eom todo 0 peso do seu poder colec- tivo, (Obras, I, 143 a 145, 67). ‘Bem nome desta ficedo a que se chama, tantas vvez0s, interesse colectivo, direito colectivo ou vontade ¢ liberdade colectivas, que os absolutistas jacobinos, 0s revolucionérios da’ escola de J.-J. Rousseau ¢ de Robespierre, proclamam a terrivel e desumana teoria do direito absoluto do Estado. (Obras, I, 263, 72). .. a doutrina sentimentalmente terrorista, isto 27 6, religiosa, de JJ. Rousseau, que se repercutiu como uma nota discordante na bela harmonia huma- nitéria do século dezoito, tendo sido sustentada, por outro lado, pelo defame ineonsequente, frivolo e bur- ;, de Voltaire, que pensava que a religiio Eprclutamente necesseris: pore a oamalha—.. esta doutrina, legou & revolucéo o eulto duma divindade abstracta com o culto abstracto do Estado. Estes dois cultos, personifieados na sombria figura de Robespierre—o Calvino da revolugio —mataram >. (Nettlau, 258, 63). : [JJ. Rousseau] representa o tipico da estrei- tem e da mesquinhez desconfiada, da exaltacio sem ‘outro objecto senfo a sua propria pessoa, do entu- siasmo frio e da hipocrisia simultaneamente senti- mental e implacivel, da mentiraforeada do idealismo ‘moderno. Podemos consideré-lo o criador da reaccéo moderna. Aparentemente o escritor mais democrético do século XVII, esconde nele o despotismo impla- evel do homem de Estado. Ele foi o profeta do Estado doutrinario, assim como Robespierre, seu digno e fiel discipwlo, tentou tornar-se seu sumo- -sacerdote. (Obras, II, 121, 72). Mas o Estado, dir-se-4 ainda, s6 restringe a liberdade dos seus membros quando ela se dirige ‘i injustiga, para o mal. Ele impede-os de se matarem uns aos outros, de se saquearem e de se ofenderem Tnutuamente e, dewam modo geral, de fazerem o mal, dixando-lhes, plena liberdade para o bem. & sempre f mesma historia, do Barba-Arul ou do fruto Broi bido: que € 0 mal, o que é o bem? (Obras, I, 145, 67). ‘Toda a teoria consequente e sincera do Estado baseia-se essencialmente no prinefpio da autoridade, 28 isto 6, nesta ideia eminentemente teolégica, meta- fisica, politica, segundo a qual as_massas, ‘sempre incapazes de se governarem, deverio sofrer 0 jugo benfeitor duma sabedoria ¢ duma justiga qué, de uma maneira ou de outra, Ihes serdo impostas de cima. (Obras, I, 171, 67). © Estado é'o governo, de cima para baixo, uma grande quantidade de homens muito diversos no ue respeita ao grau de cultura, & natureza do pais Ou localidade em que habitam, & sua posicéo, a sua Ocupaco, aos seus interesses e aspiragées, por uma minoria’ qualquer; esta minoria, mesmo que fosse eleita mil vezes por sufrigio universal e con- trolada nos seus actos por instituigées populares, a ni ser que seja dotada de omnisciéneia, de omni- resenca e toda-poderosa, como os tedlogos dizem ser o seu Deus, é impossfvel que ela possa conhecer e prever as necessidades, nem satisfazer com igual Justica, os interesses mais legitimos e mais premen- tes de toda a gente. (Obras, IV, 475-476, 72). a vida colectiva nao esté ha multidéo popular; esta multidéo, segundo Mazzini, nfo sendo senéo um agregado mecinico de individuos; a colectividade 36 existe na autoridade, e 36 pode ser representada por ela, Estamos sempre nesta maldita fungio do Estado, que absorve e concentra, destruindo-a, a eolectividade natural do povo, e que provavelmente por causa disso mesmo, é tido per representé-la, como Saturno Tepresentava os seus filhos, 4 medida que os devo- rava, (Obras, VI, 322, 71). © Estado foi sempre o patriménio de uma classe privilegiada qualquer: classe sacerdotal, classe nobi- lidria, ‘classe burguesa;— classe burocritiea e por fim, quando todas as outras classes esto enfraque- cidas, o Estado cai ou eleva-se, como se quiser, como uma méquina. (Obras, I, 228-227, 69). 29 1o & a autoridade, a dominag&o e o poder organiza ss nse possidoras ¢ suposiamente esclarecidas, sobre as massas. (Obras, VI, 86, 72)- ‘Be garante sempre o que encontra: a uns a su riqueza, # outros a sua pobreza; a uns a liberdade baseada na propriedade, a outros'a eseravatura, con sequéneia fatal da sua miséria. (Obras, III, 160, 72) core . todos os Estados, desde a sua existéncia s a teria Odo ontonndoe om ata perpen, 1a ae ee close gue open aula, a a re ee datado etn, 6. eee um dle, seo onto e tora saan tre te concrete esa fla ane tando, todos os dias, 0 seu poder, tanto no int ior, Lando, toe iy to fo extra, co 0 poderio dos seus visinhos, — dite repeal eri ee eat dee mumente do seu poder Heaptgto da Hberdade interior eda justica exterior. bras, TI, 61-62, 70). : Oo or taulta perfeita que ae, 0b o ponto ao ats Rica de tatao, a organic a edueagdo ¢ da instrugéo popular, da censura¢ da policia, o Estado s6 est seguro da sua existén enquanto tiver, para o defender contra 0s inimigos oquant iver, Pam osconentamento da populate, uma forca armada. (Obras, IV, 475, 72). Meee Sates nomen, dete 4 do ses soit hati sce gata du Merergula il tar, 6 de tal ordem, que eles tém necessidade io sa ta Sutcdnde ele do, fov 0 car sme as trae eg embra fala a criadagem, todos esses ornamentos Site rore § geataee aves que dacingur ob eet ae ale eee patios oe anh jue ocupam grande parte da sua existéncia, fé-los- ato ‘eémicos se nfo fosse o seu ar ameacador = Ra ome a aa nrobundamente do due 30 pensa, da sociedade. Esta engragada farpela e as mil ceriménias pueris no meio das quais se passa a sua vida, somadas aos seus exercicios quotidianos, eujo ‘inico objectivo & a arte da matanca e da des. truigéo, seriam profundamente humilhantes para homens que nfo tivessem perdido o sentimento da dignidade humana. Eles morreriam de vergonha se, por uma sistemética perversio das ideias, nao aca” ‘bassem por se tornar vaidosos. Para néo se des- prezarem a eles préprios, eles necessitam de despre- zar todos os que nfo émpunham um sabre, nem usam farda, Acrescentem ainda, a morte de todo 0 pensamento original, no meio desta existéncia art ficial e rotineira e destas ocupacées monétonas, uni formes, maquinais, 0 esmagamento da vontade indi- lual por uma disciplina implacivel. Deixam de ser homens para se tornarem soldados,”sio autématos arregimentados, numerados e possuidos por uma vontade que hes & estranha. A’ obediéneia passiva a maior virtude, e um devotamento cego a0 chefe, de quem eles so 05 autématos e os escravos, constitul toda a sua honra. £ o cimulo da infami Dominados por um regulamento despético, eles acabam por ter horror a tudo o que sente, tudo 0 ue quer, tudo 0 que se move livremente. ‘Todo 0 Pensador’é um anarquista aos seus olhos, as exi- géncias de liberdade so uma revolta, e naturalmente, querem impor a toda a sociedade as regras de ferro, disciplina brutal e a ordem estapida, da qual eles préprios sio vitimas. ‘A Deus néo agrada que haje entre os militares de profisséo alguns homens inteligentes, instruidos, © até por vezes, apesar de muito raramente, homens sinceramente liberais. Mas j 0 disse, estas 6 podem ser excepeées, anomalias como se encontram em todos os meios possiveis ¢ que, como diz 0 provérbio, 86 confirmam a regra. Um militar inteligente, que nao se contenta com as ideias que Ihe dao a ciéncia ¢ a moral da guerra, gosta de pensar livremente sobre todas as coisas e sufoca no cireulo estreito da rotina das ocupagées militares. Se ama. verdadeiramente iberdade, tem de detestar disciplina que faz dele um eseravo; se esta closo da sua dignidade humana, deve desprezar o que chamam honra e que eu chamaria 0 ponto de honra. Enfim, se ele & since- ramente amigo do seu povo e se € inteligente, escla- tecido © honesto consigo proprio, tem de compreen- Ger que, pela sua posi¢do, 6 0 mais perigoso, o mais ‘opressivo eo mais ruinogo inimigo, de si mesmo; Sentimentos, pensamentos o tendéncias, isso s6 faz dele tum péssimo militar. Pois, para exercer bem a sua. profissio € preciso respeiti-la ¢ amé-la, ¢ no se poderia gostar do servico militar sem detestar 0 povo, (Nettlau, 10-11, 67 ou 68). . hoje assentamos na absoluta necessidade de destruir 08 Estados ou, se se quiser, na, sua completa f radical transformacao, querendo dizer com isto que, deixando de ser forcas centralizadas ¢ organi- Zadas de cima para baixo, tanto pela violéncia como pela autoridade dum prinefpio qualquer, eles reor- Banizam-se,— com liberdade absoluta para todas as partes. (Obras, 1, 195-158, 67). .. énecessirio reconhecer que, depois das lutas sangrentas da Idade média, o jugo do Estado preva- Teceu cont todas as revoitas populares, e que com excepedo da Holanda e da Suica, ele estabeleceu-se triunfante em todos os paises’ do continente da Purefins as massas? Th preciso reconhecé-lo, deixa- ram-se desmoralizar profundamente, enervar, j& para. nao dizer castrar, pela acgio deletéria da civilizacto do Estado, Exmagadas, humilhadas, contrairam 0 hébito fatal da obediéncia e da resignacdo cegt tendo-se transformado, por isso, em imensos rebi 32 nhos separados e encerrados artificialmente, para major comodidade dos seus exploradores. Sei muito bem que os sociélogos da escola do Sr. Marx, como o Sr. Engels, ainda vivo, como 0 Sr. Lasalle, por exemplo, me objectaréo que 0 Estado nunca foi a causa desta miséria, desta degra- dacio e deste servilismo das massas; que a situacdo miserivel das massas e 0 poder despético do Estado foram, pelo contririo, tanto uma como outra, os efeitos de uma causa mais geral, os produtos duma fase inevitével do desenvolvimento econdmico da sociedade, duma fase que, do ponto de vista historico, constitui um verdadeiro progresso, um grande pass em direeeio ao que eles chamam a revolugéo social. Lassalle ‘vai ao ponto de declarar bem alto que a derrota da formidivel revolta dos eamponeses no século XVI, na Alemanha,—derrota deplorivel, se © foi, e da qual data a escravatura secular dos Ale- mies —, e 0 triunfo do Estado despotico ¢ centra- lizado que foi a sua consequéncia necesséria, cons- tituiram um verdadeiro triunfo para esta revolucio; Porque os camponeses, dizem os marxistas, so 08, representantes naturais da reaccio, enquanto que 0 Estado militar e burocritico moderno— produto acompanhante obrigatério da revoluc&o social que, a partir da segunda metade do século XVI, eomecou a transformacdo lenta, mas sempre progressiva, da antiga economia feudal e terrestre em produgio de riquezas, ou, 0 que quer dizer a mesma coisa, em exploragio do trabalho popular pelo capital — foi uma condigéo essencial desta revolugio. Parece que o Sr. Engels, impelido pela mesma lbégica, disse, numa carta enviada, este ano, a um os nossos amigos ('), sem a menor ironia, e pelo (Garo CoFero (Note do trader kone, 33. contririo muito a sério, que tanto Bismark como o rei Victor Manuel prestaram grandes servigos Tevolugio, tendo criado, cada um deles, a grande centralizagio politica dos seus respectivos paises... ‘Materialistas e deterministas, assim como 0 proprio Sr. Marx, também conhecemos 0 encadea- mento fatal dos factos econémicos ¢ politicos na histéria. Conhecemos bem a necessidade, o carécter inevithvel de todos os acontecimentos, mas néo nos inclinamos indiferentemente diante deles, e sobretudo no os admiramos e aplaudimos quando eles se ‘mostram em oposigio flagrante com o fim supremo da histéria, com o ideal essencialmente humano que ‘3e encontra, sob formas mais ou menos manifestas, nos instintos, nas aspiragdes populares e sob os sim- bolos religiosos de todas as épocas, porque é inerente Avraga humana, a mais soclivel de todas as racas ‘animais. Este fim, este ideal, nunca tao bem conhe- ido como hoje, pode-se resumir nestas palavras: &0 triunfo da humanidade, é a conquista e a execucdo completa da liberdade ¢ do pleno desenvolvimento ‘material, intelectual e moral de cada wm, pela orga- ‘nizagho absolutamente espontdnea ¢ Tivre da solida- riedade eoondmica e social, o mais completa possivel, entre todos os seres humanos que vivem na terra ‘Tudo 0 que, na histéria ,estiver de acordo com este fim, do ponto de vista humano— e nio podemos ‘ter outro, —é bom; tudo o que lhe for contrério, mau. Sabemos muito bem que, o que nés chamamos deme mal, s80 sempre, tanto um como outro, os resultados naturais de causas naturais e, por isso, ‘um 6 tao inevitivel como o outro. Mas como, naquilo a que se chama propriamente natureza, reconhece- ‘mos muitas necessidades que estamos poco dispostos a louvar, por exemplo a necessidade de morrer com aiva depois de se ser mordido por um co raivoso, do mesmo modo, nesta continuagio imediata da ‘Vida natural a que se chama histéria, encontramos muitas necessidades que achamos muito bem mais Gignas de maldigio do que de béngdo, e que jul- 3 gamos dever cenaurar com toda a energia de que somos, capazes, no interesse da nossa moralidad tanto individual como social. —— __. Considero como um facto perfeitamente natural, légico, e consequentemente inevitavel, que os cristios, que eram cretinos por graca de Deus, tenham ani: quiledo, com 0 santo furor que nés conhecemos, as bibliotecas dos pagéos, todos os tesouros de arte, filosofia e ciéncia antiga. Mas &me impossivel per- ceber quais as vantagens que resultaram disso para ‘© nosso desenvolvimento politico e social. Estou até disposto a pensar que fora desta progressio fatal dos factos econémicos na qual, se acreditarmos no Sr. Marx, € preciso procurar, excluindo todas as outras consideracdes, a causa tinica de todos os factos intelectuais e morais produaidos na histéria, — estou sinceramente disposto a pensar que este’ acto de santa barbérie, ou melhor, esta longa série de actos barbaros ¢ de crimes que os primeiros cristios, divinamente inspirados, cometeram contra o espirito wumano, foi uma das ‘eausas principais da degra- tumano, fl ume de cyan prints da, Sor ‘bém da escravizagio politica e social, que preenchem esta sucesso de séculos nefastos a que se chama Tdade Média. Estejam certos que, se os primeiros cristios néo tivessem destruido as bibliotecas, os museus ¢ 08 templos da Antiguidade, nés hoje no estariamos condenados a combater estes horriveis odiosos absurdos, que ainda obstruem os oérebros & ponto de nos fazer duvidar, algumas vezes, da Possibilidade dum futuro humano. Protestando sempre contra determinados factos ealizados na histéria e dos quais também reconhego © cardcter inevitavel, paro diante do esplendor das repiblicas italianas 'e do magnifico despertar do génio humano na época de Renascenca. Em seguida Vejo aproximar-se os dois génios do mal, tio antigos 35 como a histéria, as duas gibdias que tém devorado, até aqui, tudo o que a hist6ria produziu de humano ¢ de belo. Séo a Igreja e 0 Estado, 0 Papado ¢ 0 Império. Rivais eternos e aliados insepariveis, ve- jo-os reconciliarem-se, abracarem-se, ¢ devorarem, Suprimirem e esmagarem a infeliz e bela Itflia, con- denando-a a trés séculos de morte. Pois bem, conti- nuo a achar tudo isto muito natural, légieo, inevi ‘tavel, mas no menos abomindvel, e amaldicoo tanto © Papa como o Imperador. ‘Passemos & Franca. Depois duma luta que durou um século, o catolicismo, protegido pelo Estado, triunfou finalmente sobre o protestantismo. Pois bem, nfio bf ainda hoje, em Franca, politicos ¢ historiadores da escola fatalista que, dizendo-se revoluciondrios, consideram esta vitdria do catoli- cismo— vit6ria sangrenta e desumana —como um verdadeiro triunfo para a Revolugao? Eles consi- deram que o catolicismo era entéo o Estado, a democracia, enquanto que o protestantismo repre- sentava a revolta da aristocracia contra o Estado © ‘consequentemente contra a democracia. # com sofis- mas destes, totalmente idénticos aos sofismas mar- xistas, que, também cles, consideram os triunfos do Estado como os da democracia social, —é com estes absurdos, tio desagradaveis como revoltantes, que perverteram o espfrito e o senso moral das mas: sas, habituando-as a considerar os seus exploradores, sanguinérios, os seus inimigos seculares, 0s seus tiranos, os chefes ¢ os servidores do Estado, como érgios, representantes, her6is, servidores dedicados da sua emancipacio. Reconhecendo a inevitabilidade do facto reali- zado, nio hesito em dizer que o triunfo do catoli cismo em Franca, no século dezasseis e dezassete, foi uma grande desgraca para a humanidade, e que tanto a Saint-Barthélemy como a revogacio do édito de Nantes, foram factos tdo desastrosos para a Franca como o foi, posteriormente, a derrota e 0 massacre do povo de Paris. Cheguei a ouvir france- 36 ses muito inteligentes ¢ muito estimad tata derrota do protestantisms om Franca pas eater fe essencialmente evolusioniria do pave frances O protestantismo, diaiam, 26 fol um mela revel, precisavamos da revolucio completa, foi por isso que a nagdo francesa nao quis e nao’ pode parar Reforma. Ela preferiu ‘continuar eatolica até 20 ‘momento em que pudesse proclamar o atefsmo; ¢ fol por isso que ela suportou com resignacio téo erflta, Uo esta, os horrores de Siant-Barthélemy @a tirania no menos abomindv cae indvel dos executores do stes patriotas estiméveis parece que nfo quo- rem considerar uma coisa, © que um pove que, 3b qualquer pretexto, sofre a tirania, perde neccasa- riamente 0 hébito salutar de se revoltar e até 0 proprio instinto de revolta, Perde o sentimento da lberdade, ¢ a vontade, 0 hibito de ser livre, e quando um povo perdeu’ tudo isto, torna-se necessa- Tlamente, nio 86 por condiges exteriores, mas inte. riormente, na prépria esséncia do seu ser, um povo escravo. (Obras, IV, 454-463, 72). 5 A liberdade © 0 governo dos methores: hhomens virtuosos, sablos "Nore: A cigncia e a vide quem poderia ser, com efeito, © guardiéo o excel aa Sf fn 9 ari « blica contra as paixdes indesejiveis de cada um? “sendo cada um’ declarado intapes de saietin? Bi préprio e de reforgar, tanto quanto for necensirio Ivagio comum, 2 sua propria Iiberdade, ‘aturalmente dirigida pare o mal. —Numa palavre, vem executaria as funeies do Estado? : 's melhores cidadios, dir-se-, os mais inteli gentes e mals virtuosos, os ue conipreenderert me. 37 Ihor do que os outros os interesses comuns da sociedade ea necessidade e o dever de cada um de hes subordinar todos os interesses particulares. © preciso, com efeito, que estes homens sejam tio inteligentes como virtuosos, pois se 86 fossem inte- ligentes e sem virtude poderiam servir-se da causa plblica para o seu interesse privado, e se fossem Yirtuosos sem inteligéncia arruini-la-iam infalivel- mente apesar de toda a sua boa £6. # preciso, pois, para que uma repiblica nfo pereca, que possua em Yodas as épocas um niimero considerével destes homens... : ‘His uma condi¢ao que nfo se realiza nem facil- mente, nem frequentemente... Vulgarmente, nas regides do poder, é a insignificineia, € a usura que Gomina e frequentemente, como vimos na histéria, 0 negro e o vermelho, isto é, os vicios e a violéncia sanguindria que triunfam. (Obras, 1, 166-167, 67). ‘Suponhamos que numa sociedade ideal, em qualquer época, existe um niimero suficiente de Homens igualmente inteligentes e virtuosos para executarem dignamente as principais fungoes do Estado. Quem os procuraré, quem os encontraré, quem os distinguiré e quem poré nas suas maos te rédeas do Estado? Apropriar-se-fo do poder, eonscientes da sua inteligéncia e da sua virtude; ‘assim como 0 fizeram dois sibios da Grécia, Kléobulo ¢ Périandro, aos quais, apesar da sua suposta grande Sabedoria, os Gregos’ nao deixaram de considerar odiosos tiranos? Mas de que modo se apoderario Go poder? Seri. pela persuasio ou pela forca? No primeiro caso observaremos que s6 se persuade bem Quando se esti bem persuadido e que os melhores flomens so precisamente os que esto menos per- suadidos do seu proprio mérito; se eles tiverem eonseiéneia disso Tepugna-lhes geralmente impd-lo foe outros, enquanto que os homens maus ¢ medio- eres, sempre satiafeitos consigo préprios, nao expe- rimentam nenhuma repugnineia em se glorificarem. ‘Mas suponhamos até que o desejo de servir a patria, 38 tendo ealado nos homens com um real mérito esta excessiva modéstia, og faz apresentarem-se ao sufri- gio dos seus concidadios —seréo sempre eles acel- tes e preferidos pelo povo em vex dos intriguistas ambiciosos, eloquentes ¢ hibeis? Se, pelo contrario, eles se quiserem impor pela forca, & necessirio, meiramente, que disponham duma forga suficiente para vencer a resisténcia dum partido inteiro. Che- garo ao poder pela guerra civil ao fim da qual haveré um partido que néo se reconcilion mas que esti vencido e seré sempre hostil. Para o conter, serio obrigados a utilizar a forea. J& nfo seré pois uma sociedade livre, mas um Estado despético ba- seado na violéneia eno qual taivez encontrem coisas que vos pareceréo maravilhosas — mas nunca a Md ra se ficar na ficgio do Estado livre prove- niente dum contrato social, é-nos necessirio, pols, supor que a maioria dos cidadios terao tido sempre prudéncia, o discernimento e a justica necessérias ara por & cabega do governo os homens mais dignos e mais capazes. Mas, para que um povo mostre nio Juma 6 vez e por acaso, mas sempre, em todas as eleigées que tenha de fazer durante a sua existéncla, este discernimento, esta justica, esta prudéncia, serd necessirio que tenha adquirido um tio alto grau de moralidade e cultura, que deixa de necessitar de um governo ¢ dum Estado. Um tal povo s6 tem necessidade de viver, dando livre curso aos seus ins- tintos: a justica e a ordem piiblicas surgiréo dele proprio e, naturalmente da sua vida, e 0 Estado, deixando de ser a providéncia, o tutor, 0 educador, o regulador da sociedade, renunciando a todo o poder epressivo e ficando com o papel subalterno que lhe destina Proudhon, jé nio seri senfo um simples @seritério de negécids, uma espécie de banco de eré- Alto pablico ao servico da sociedade, davida, uma tal organizacéo politica, ou antes uma tal redugio da accéo politica, em favor da Iiberdade da vida social, seria um grande bene- 39 ficio para a sociedade, mas cla nio satisfaria de modo algum os partidirios do Estado. B-lhes abso- lutamente necessério um Estado-providéncia, um Estado-director da vida social, distribuidor da jus- tiga e reguiador da ordem piibliea. Quer dizer, quer © invoquem ou no ¢ ainda que se chamem republi- canos, democratas ou mesmo socialistas, — élhes sempre necessério um Povo mais ou menos ignorante, insignificante, ineapaz ou, para chamarmos as coisas pelo seu nome, um povo mais ou menos canalha para governar: com o fim, sem divida, de que, fazendo notar bem o seu desinteresse e modéstia, possam conservar eles préprios os primeiros lugares, a fim de terem sempre ocasiio para se dedicarem & causa iblica e assim seguros da sua dedicagio virtuosa ¢ da sua inteligéncia exclusiva, guardides privile- giados do rebanho humano, impelindo-o sempre para Seu préprio bem e conduzindo-o a salvacio, o possam também explorar um pouco. (Obras, I, 168 a 171, 67). Imaginem uma academia de sibios, composta pelos representantes mais ilustres da ciéncia; supo- mham que esta academia esté encarregada da legis- lagdo, da organizagio da sociedade, e que, 50 se inspirando no mais puro amor da verdade, ela apenas Ihe dita leis perfeitamente conformes com as mais recentes descobertas da ciéncia. Pois bem, eu afirmo que esta legislagio ¢ esta organizagio serio uma monstruosidade, por varias razdes. A primeira, & que a ciéncia humana é sempre necessariamente imperfeita, e que, comparando 0 que ela deseobriu ‘com o que the falta descobrir, pode-se dizer que ela ainda est no seu bergo. De modo que se quisessemos forgar a vida pritiea, tanto colectiva como individual, eos homens se confirmassem estritamente, exelu- sivamente com as tltimas didivas da ciéncia, con- denarfamos tanto a sociedade como os individuos a sofrerem 0 martirio numa cama de Procuste, que ‘acabaria em breve por os deslocar e abafar, conti- nuando sempre a vida inifinitamente maior do que 490 A segunda razo 6 a seguinte: uma sociedade que obedecesse a uma legislagéo proveniente duma academia cientifica, nao porque nela estivesse contido © carfeter racional, em cuyjo caso a existéncia da academia se tornaria initil, mas porque esta legis- lagio, emanando desta academia, se impunha em nome de uma ciéneia que seria venerada sem se com- breender, — una socigdade dostas, nfo seria de ho- ‘mens, mas de brutos, Seria uma segunda edicio desta pobre repiiblica do Paraguai que se deixou governat tanto tempo pela Companhia de Jesus, Uma socie- dade assim no tardaria a descer ao mais baixo grau do idiotismo. (Obras, TH, 51 a 53, 72), EBxiste realmente em todas as coisas um lado, ou se quiserem uma espécie de ser intimo que nio 6 inacessivel, mas que é imperceptivel para a ciéncia, ‘Nio se trata de modo algum do ser intimo de que nos fala o Sr. Littré juntamente com todos os meta- fisicos © que constituiria segundo eles, 0 ser das coisas, eo porqué dos fendmenos; & pelo contrario © lado menos essencial, 0 menos interior, 0 mais exterior, e 80 mesmo tempo o mais real ¢ 0 mais passageiro, a mais fugitiva das coisas e dos seres: € a sua materialidade imediata, a sua verdadeira individualidade, tal qual se apresenta unicamente 0s nossos sentidos, © que nenhuma reflexio do espirito seria capaz de reter, nem nenhuma palavra seria capaz de exprimir. Repetindo uma observacdo muito curiosa que Hegel fez, julgo eu que J falei, pela primeira ver, desta particularidade da lin: uagem humane de s6 poder exprimir generalidades _nunea a existéneia imediata das coisas, nesta crueza realista em que a impressio imediata 6 caj ‘ada’ pelos ‘nossoa entidos, Tudo o que puderes dizer ‘sobre uma coisa para a caracterizar, todas as propriedades que Ihe atribuam ou que The encon- trem sero determinagdes gerais, aplicdveis em graus a. diferentes e numa quantidade inumerivel de diferen- tes combinagées, a muitas outras coisas. As deter- minagSes e descrigdes mais detalhadas, mais fntimas mais materiais que poderao fazer sero ainda determinagSes gerais e nunca individuais. A indivi- ualidade duma coisa néo se exprime. Para a indicar ‘tém ou de a trazer & presenga do vosso interlocutor, mostrando-lha, fazendo com que ele a ouga e palpe; tém de determinar 0 seu lugar no espago ¢ no tempo ¢, também, as relagées com as outras coisas jé deter- minadas e conhecidas. Ela foge e escapa a todas as outras determinagées. Mas também foge ¢ escapa si propria, pois ela nfo 6 outra coisa senio uma transformagio incessante: ela 6, ela era, ela jf nfo 6 on até ela 4 6 outra coisa. A’sua realidade cons- tante 6 desaparecer ou transformar-se. Mas esta realidade constante 6 o seu aspecto gerai, a sua lei, (© objecto da ciéncia. Hsta lei, tomada ¢ considerada & parte, no é sendo uma abstraceio, desprovida de qualquer caricter real e de toda a existéncia real. Ela 26 existe realmente e s6 se torna uma lel efectiva neste processo real e vivo de transformagées ime- diatas, fugitivas, imperceptiveis e ineffveis, Tal é @ dupla natureza, @ natureza contraditéria das co sas: ser realmente, no que incessantemente deiva de ser, € nunca existir realmente, no que se mantém geral ¢ constante no meio das suas transformagdes perpétuas ‘A cigacia, que 6 se relaciona com o que é exprim{vel e constante, isto é com as generalidades mais ou menos desenvolvidas e determinadas, perde aqui o seu latim e baixa a sua bandeira diante da vvida, pois 86 ela se relaciona com a parte viva e sen- sivel, inacessivel e inefavel, das coisas. Tal & 0 real e, pode-se dizer, o tinico limite da ciéneia, um limite verdadelramente intransponivel... A ciéncia 96 trabalha com sombras... A realidade viva esca- pashe, e 86 se mostra a vida, que, sendo também la fugitiva e passageira, pode discernir e discerne 2 efectivamente tudo o que vive, isto é tudo o que passa ou que foge. (Obras, IIT, 393 a 395, 70). ‘Como seres vivos, discernimos e sentimos esta realidade, ela envolve-nos ¢ nés sofremo-la e exer- cemo-la ns préprios, muitas vezes sem o sabermos, ‘a todo 0 momento, Como seres pensantes, abstraimo- -nos forgonamente dels, pols 0 nosso préprio pensa- mento 86 comega com esta abstracgo e por cla. (Obras, TIT, 399, 70) - A ciéncia néo pode sair da esfera das abstrac- Ges. Neste aspecto, ela & infinitamente inferior & arte, que, também ela, s6 se relaciona propriamente ‘com os tipos gerais e situagdes gerais, mas que, por um artificio que Ihe & peculiar, sabe incarné-los em formas que, por nfo serem vivas, como na vida real, ndo provocam menos, na nossa imaginagio, o senti- ‘mento ou a lembranca desta vida; ela individualiza, de qualquer modo, os tipos e situagdes que concebe, e, por estas individualidades sem carne nem oss0, e, como tais, permanentes e imortais, que ela tem @ necessidade de criar, lembra-nos as individualidade vvivas e reais, que aparecem e desaparecem aos nossos olhos. A arte & pois, de qualquer modo, o regresso da abstraccdo & vida. A ciéncia 6, pelo contrario, 0 sacrificio perpétuo da vida fugitiva, passageira, mas real, sobre o altar das abstraccdes eternas. "A ciéncia é tao pouco eapaz de discernir a indi- vidualidade dum homem como a de um coelho, Quer dizer que ela é tio indiferente com uma como com a outra, Néo significa que ela ignore o princfpio da individualidade. Ela concebe-a perfeitamente como Prinefpio, mas nfo como facto. la sabe muito hem que todas as espécies animais, incluindo a espécie 96 tém existéncia real num nimero inde finido de individuos, que nascem e que morrem, tomando lugar em ‘individuos novos igualmente Passageiros. Hla sabe que, & medida que se sobe 3 nas espécies animais até as espécies superiores, 0 principio da individualidade determina.se melhor, aparecendo os individuos mais completas e mais livres... Ela sabe, quando néo esté absolutamente nada vieiada pelo doutrinarismo quer teolégico, quer metafisico, quer politico e juridico, quer até mesmo por um orgulho estreitamente cientifico, e quando 34 no € surda aos instintos e as aspiracdes espon- Yaneas da vida, ela sabe, e é essa a sua iiltima Palavra, que o respeito do homem é a lei suprema da humanidade ‘A ciéneia sabe tudo isso, mas ela nfo vai nem pode ir além disso. Constituindo a abstraccio a sua natureza, ela pode conceber muito bem o prin- cipio da individualidade real e viva, mas nio pode fazer nada com 0s individuos reais e vivos. Ela ‘ocupa-se dos individuos em geral, no do Pedro e do Joaquim, nem deste ou daquele individuo, que nfo existem nem podem existir para ela, Estes in viduos ndo so para ela, mesmo uma s6 ver, senio abstracgées. (Obras, III, 92 0 94, 71) A cincia inelui o pensamento da realidade, néo a realidade em si mesma; o pensamento da vida, néo a vida... A ciéneia & imutavel, impessoal, geral, abs- tracta, insensivel... A vida 6 sempre fugitiva e passa- geira,'mas também sempre palpitante de realidade e de individualidade, de sensibilidade, de sofrimentos, de alegrias, de aspiragées, de necessidades e de pai- xbes. B 86 ela que cria. espontaneamente, as coisas e todos os seres reais. A ciéncia nfo cria nada, ela 86 constata e reconhece as criagdes da vida. I sempre que os homens da ciéneia, saindo do seu mundo abs- tracto, se ocupam da criaggo viva no mundo real, tudo 6 que propdem ou criam & pobre e ridicula. mente abstracto, sem sangue nem vida, morrendo a nascenca, semelhante ao homunculus ‘criado por “ Wagner, 0 diseipulo pedante do imortal doutor Fausto, Disto resulta que a tinica missao da ciéncia 6 eselarecer a vida © nio governé-la. (Obras, TIT, 88 a 90, 72). ..n6s sabemos que a soviologia 6 uma ciéncia recém-nascida, que ainda esté & procura dos seus elementos... (© que seria uma sociedade que s6 nos apre- sentasse a adaptacio a pritiea ou a aplicacio duma ciéneia, mesmo que esta ciéncia fosse a mais perfeita ea mais completa do mundo? Uma miséria. Imagi- nem um universo que 86 contivesse 0 que 0 espirito humano até hoje apereebeu, reconheceu e compren- deu,—nio seria isto um miserével easebre ao lado do universo que existe? ‘Nés respeitamos inteiramente a ciéncia e consi- deramo-la como um dos mais preciosos tesouros, como uma das glérias mais puras da humanidade. Por sua causa o homem distingue-se do animal, hoje seu irmio mais novo, outrora seu antepassado, torna-se capaz de liberdade. Portanto, também & necessirio reconhecer os limites da ciéneia e de Ihe Tembrar que ela no é 0 todo, & #6 uma parte, e que © todo é a vida ‘A vida, encarada com este sentido universal, deixa de ser a aplicagdo duma teoria humana ou mesmo divina, é uma criagio, diriamos de boa von- tade, se nfo receéssemos dar lugar a um mal-enten- dido’ com esta palavra; e comparando os povos, eriadores da sua historia, com artistas, nés pergun- tariamos se os grandes poetas esperaram, alguma vez, que a ciéncia descobrisse as leis da criacio poética para criarem as suas obras-primas. Bsquilo © Sofocles néo escreveram as suas magnificas tra- gédias muito antes de Aristételes ter decalcado sobre as suas proprias obras a primeira estética? Sha- kespeare deixou-se alguma vez inspirar por alguma teoria © Beethoven alargou alguma vez as bases 5 do contraponto para ciar as suas sinfonias? E que seria uma obra de arte produzid segundo os pre coitos da mais bela estética do mundo? Uma vez ‘mais, uma coisa miserdvel. Mas os povos que eriam a sua histéria néo séo, provavelmente, nem mais pobres de instinto, nem’ mais fracos criadores, nem mais dependentes dos Srs. sibios do que os artistas! (Obras, I, 74 0 77, 67). A auténtica ciéncia da hist6ria, por excmplo, ainda no existe ¢ s6 hoje comecamos a descortinar as condigdes imensamente complicadas desta ciéncia. Mas suponhamo-la realizada: 0 que & que ela n0s poderé dar? Hla reproduziré 0 quadro racional fiel do desenvolvimento natural das condieées gerais, tanto materiais como ideais, tanto econdmicas como politicas e sociais, religiosas, filoséficas, estéticas cientificas, das sociedades que tiveram uma historia, Mas este quadro universal da civilizagio humana, por muito detalhado que seja, conteré. unicamente apreciagdes gerais e, por isso, abstractas, querendo dizer que os milhares de individuos que constitufram ‘a matéria viva e sofrodora desta historia, simulta- neamente triunfante e ligubre, —triunfante sob 0 ponto de vista dos seus resultados gerais, ligubre sob 0 ponto de vista da imensa heeatombe de vitimas ‘humanas # igualmente suportivel... Mas a’aris- tocracia da inteligéncia diz-nos: «Nao sabem nada, nao compreendem nada, so uns burros, e eu, homem inteligente, tenho que ‘vos por a albarda ¢ condu- zir-vos.» Isto 6 intolerdvel. A aristocracia da inteligéncia, esta filha querida do doutrinarismo moderno, este ‘iltimo reftigio do 49 expirito de dominago que desde o comeco da histéria, afligiu © mundo e que constitui e sancionou todos os Estados, este culto pretencioso e ridiculo da inte- ligéneia reconhecida, 96 péde nascer no seio da bur- guesia. Ela tinha apolado o seu poder em dois argu- ‘mentos irresistiveis, dando-Ihe por base a violéncia, a forea do seu brago e a sancao da graca de Deus. Bla violava e a Igreja_abencoava,—era assim a natureza do seu direito. Esta unio intima da bruta- lidade triunfante com @ sancéo divina dava-lhe um grande prestigio e produzia nela uma espécie de vir- tude cavaleiresea que conquistava todos os coragies. ‘A burguesia, desprovida de todas estas virtudes de todas estas gracas, s6 teve para fundamentar © seu direito um argumento: 0 poderio muito real, mas muito prosaico, do dinheiro. 8 a negagio cinica de todas as virtudes: se tiveres dinheiro, por muito canalha e estiipido que sejas, tens todos 08 direitos; se nio tiveres um vintém, sejam quais forem os teus méritos pesoais, tu nfo vales nada. Eis aqui na sua frangueza rude, o prinefpio fundamental da bur- guesia, Parece-nos que um argumento destes, por muito forte que seja, nfo bastaria para o estabeleci- mento e sobretudo “para a consolidacéo do poder ‘burgués. A sociedade humana é constituida de tal modo que as piores coisas 6 se podem estabelecer nela com a ajuda de uma aparéncia respeitével. Daf nasceu o provérbio que diz que @ hipocrisia é uma homenagem que o vicio faz & virtude. As mais fortes brutalidades necessitam duma sangio. ‘Vimos que a nobreza tinha posto todas as suas prorrogativas sob a proteccdo da graca divina. A burguesia nfo podia recorrer a esta protecgio... Procurou-a na inteligéneia reconhecida. ‘Bla sabe muito bem que a principal base, e até se poderia dizer a nica, da sua forca politica actual, é a sua riqueza; mas, nfo querendo nem podendo confessé-lo, ela procura explicar esta forga pela superioridade da sua inteligéncia, nfo natural mas cientifiea; para governar os homens, acha ela, & preciso saber muito e hoje s6 ela 6 que sabe. (Obras, V, 129 a 132, 69). © governo da ciéneia e dos homens de ciéncia, mesmo que se chamassem positivistas, discipulos le Auguste Comte ou até discfpulos da Escola dou- trinéria do comunismo alemfo, s6 pode ser impo- tente, ridiculo, desumano, cruel, opressivo, explora- dor, maléfico. 'Pode-se dizer dos homens da ciéncia, como tais, o que eu disse dos teblogos e dos meta- fisicos: néo tém nem senso, nem coracéo para 03 seres individuais e vivos. Nem sequer se pode censu- Hi-los, pols sfo consequéncia natural da sus pro- isso... ‘Nao so exclusivamente homens de ciéneia, eles também sao mais ou menos homens da vida, De qualquer modo, é melhor no nos fiarmos muito nisso, e, se podemos estar mais ou menos certos que nenhum sébio ousaré, hoje, tratar um homem como trata um coelho, & de recear sempre que equi- pas de sébios, se tanto Ihes permitirem, submetam 0s homens vivos a experiéncias cientificas sem divida ‘menos cruéis, mag que nfo seriam menos desastrosas para as suas vitimas humanas. Se os silos nfo Podem fazer experiéneias no corpo dos homens indi- Viduais, eles exigirio fazé-las no corpo social e eis 0 gus, 6 Aevomivio impedir totalmente, (Obras, I, A cigncia, quando no humaniza, deprava. Ela refina o erime ¢ torna mais te a cobardia. Um eseravo sibio é um doente incurdvel. Os sibios opressores, carrascos, déspotas, estio sempre coura- gados contra tudo o' que se chama humanidade e Pledade. Nada os demove, nada os assusta nem o8 toca, excepto os seus sofrimentos e os seus perigos. © despotismo sébio 6 mil vezes mais desmoralizante, mais perigoso para as suas vitimas do que o despo- tismo que é s6 brutal. Este s6 tem influéneia sobre 1 © corpo, sobre @ vida exterior, sobre a riqueza, sobre as relagées, sobre os actos. Ele no pode penetrar na fortaleza interior, porque nfo tem a chave. Fal- ta-lhe o espirito para esmagar o espirito. O despo- tismo inteligente e sfibio, pelo contrario, penetra na alma dos homens e corrompe os seus pensamentos na sua origem. (Nettlau, 605, 72). Repelirei eu qualquer autoridade? Longe de ‘mim pensar isso. Quando se trata de botas, recorro & autoridade do sapateiro; se se trata duma casa, dum canal ou dum caminho de ferro, consulto a do arquitecto ou do engenheiro. Para cada ciéncia espe- cifica dirijo-me a este ou Aquele sfbio. Mas nao deixo imporem-me nem o sapateiro, nem o arquitecto, nem © sSbio. Eu eseuto-os livremente e com todo 0 res- peito que me merecem a sua inteligéncia, o seu carfeter, a sua sabedoria, reservando no entanto 0 meu direito incontestivel de critica e de controlo. ‘Nao me contento em consultar uma finica autoridade ppecialista, eu consulto varias; comparo as suas opinides e ‘escolho a que me parece mais justa. Mas nfo reconhego nenhuma autoridade infalivel, mesmo nas questies mais especfficas; por isso, por muito respeito que eu possa ter pela’ honestidade e pela sinceridade deste ou daquele individuo, nunca terei £6 absoluta em ninguém. Uma fé destas seria fatal para a minha razdo, para a minha liberdade © até para o sucesso dos meus empreendimentos; ela transformar-me-ia imediatamente num eseravo estipido e num instrumento da vontade e dos inte- esses dos outros. ‘Se me inclino diante da autoridade dos espe- cialistas e se me declaro pronto a seguir, em certa ‘medida, pelo tempo que me pareca necessério, as suas indicagées e até a sua direceio, 6 porque esta auto- ridade nfo me & imposta por ninguém, nem pelos homens, nem por Deus. De outro modo repeli-los-ei com horror e mandarei para o diabo os seus conse- 52 thos, a sua direc¢o ¢ a sua ciéncia, com a certeza de que me fariam pagar pela perda da minha liber- dade e da minha dignidade os restos de verdade humana, envolvidos com muitas mentiras, que me poderiam dar. Inclino-me diante da autoridade dos especialistas porque ela me é imposta pela minha razio. Tenho conseiéneia de s6 poder abragar em todos os seus detalhes e desenvolvimentos positivos uma peque- nissima parte da ciéncia humana, A maior inteli- géncia no chegaria para abragar o todo. Donde resulta, tanto para a ciénoia como para a indistria, a necessidade de diviso e de associagao do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um 6 uma autoridade dirigente e cada um € dirigido por sua vez. Entio nfo hi nenhuma autoridade fixa e cons- tante, mas uma troca continua de autoridade e subordinagto mituas, passageiras e sobretudo volun- as. ‘Esta mesma razio impede-me pois de reconhecer uma autoridade fixa, constante e universal, pois nio hi nenhum homem ‘universal, nenhum homem que seja capaz de abragar nesta riqueza de detalhes, sem @ qual a aplicacéo da ciéncia & vida de modo algum € possfvel, todas as eciéncias, todos os ramos de vida social. E, se uma tal universalidade se pudesse algum dia realizar num s6 homem, e se ele quisesse fazer-se prevalecer para nos impor a sua autoridade, seria preciso eliminar esse homem da sociedade, porque a sua autoridade reduziria inevitavelmente todos os outros & escravatura ¢ & imbecilidade. Nao penso que @ sociedade tenha de maltratar os homens de génio como o tem feito até aqui. Mas também nio enso que ela tenha de os engordar, nem de hes conceder sobretudo privilégios ou direitos de espécie alguma. (Obras, TI, 55 a 57, 72) © espirito do maior génio do mundo acaso 6 outra coisa senio 0 produto do trabalho colectivo, 53 tanto intelectual como industrial, de todas as gera- es passadas e presentes? Para nos convencermos disto, imaginemos este mesmo génio transportado desde a mais tenra infancia para uma ilha deserta; supondo que ele néo morre de fome, no que é que ele se tornaré? Um animal, um bruto que nem saber Pronunciar uma palavra é que por isso nunca. pen- sard; transportem-no para esta ilha com a idade de dez anos, no que é que ele se tornaré alguns anos, mais tarde? Ainda num bruto, que perderé o hébito de falar e que s6 conservaré da sua humanidade passada um vago instinto. Enfim transportem-no para I com a idade de vinte anos, trinta anos passados dez, quinze, vinte anos, tornar-seé esti- pido. Talvez invente qualquer religiéo nova! ‘© que é que isto prova? Prova que o homem mais bem dotado pela natureza s6 recebe faculdades, mas que estas faculdades permanecem mortas, s¢ ndo forem fertilizadas pela forte e benéfica accéo da colectividade. Diremos mais: Quanto mais favo- recido 6 0 homem pela natureza, mais recebe da colectividade; donde resulta que mais Ihe deve dar, com toda a justica. De qualquer modo, reconhecemos de boa vontade que ainda que uma grande parte dos trabalhos inte- Jectuais se possam executar melhor e mais depressa colectivamente do que individualmente, existe ‘outros que exigem o trabalho isolado. Mas o que € que se conclui daqui? Que os trabalhos isolados do génio ou do talento, sendo mais raros, mais preciosos ¢ mais ‘iteis do que os dos trabalhadores vulgares, deverdo ser melhor retribuidos do que estes ‘éltimos? E em que base, digam-me? Hstes trabalhos sero mais penosos do que os trabalhos manuais? elo contrario, estes wiltimos sio sem comparacéo mais penosos. 0 trabalho intelectual 6 um trabalho atraente, que tem a sua recompensa em si préprio e que no precisa de outra retribuigio. Tem uma outra na estima e no reconhecimento dos eontemporineos, na luz que Ihes di e no bem que Ihes faz. Voces rs que cultivam com tanta forga o ideal, senhores socia- listas, burgueses, no acham que esta recompensa vale bem uma cutra, ou preferiam que ele tivesse uma remuneragio mais sélida em dinhelro bem sonante? E aliés, ficariam muito embaragados se vos fosse preciso estabelecer as taxas dos produtos inte- lectuais do génio. Sio, como Proudhon observou ‘muito bem, valores inomensordveis: eles no custam nada, ou melhor, eles custam milhées. (Obras, V, 125 a 12%, 69). Esperemos todavia que a futura sociedade encon- trena organizacio verdadeiramente pratica e popular da sua forca colectiva o meio de tornar estes grandes génios menos necessérios, menos opressivos e mais benéficos para toda a gente. Pois é preciso munca esquecer a profunda frase de Voltaire: ; e, por uma consequéncia necesséria, declaram que o Ser real, a matéria, o mundo, era o Nada. Depois disto vém-nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir nada, nem mesmo de se pr em movi- mento por si propria, ¢ por isso ela teve de ser eriada pelo seu Deus. (Obras, III, 24-25, 71). elas palavras material € maiéria, nos entende- mos a totalidade, toda a escala dos seres reais, con! cidos e desconhecidos, desde os corpos orginicos mais simples até & constitui¢éo e ao funcionamento do eérebro do maior génio: os mais belos sentimentos, ‘98 maiores pensamentos, os feitos heréicos, os actos de devogio, tanto os deveres como os direitos, tanto © sacrificio como 0 egoismo, tudo, até as aberragdes, transcendentes e misticas de Mazzini, do mesmo modo que as manifestagdes da vida orginica, as pro- priedades ¢ acgées quimicas, a electricidade, a luz, © calor, a atracgio natural dos corpos, constituem ‘203 nossos olhos tantas evolugées sem diivida dife- rentes, mas nio menos estreitamente solidarias, desta totalidade de seres reais a que chamamos matéria, (Obras, VI, 117-118, 7). [Mazeini}, voo8 nio se contenta, contudo, em eontestar © nosso atefsmo e 0 nosso materialismo, eonclui que no podemos ter amor pelos homens, nem respeito pela sua dignidade; que todas as gran- des coisas que em todos os tempos fizeram bater os coragées mais nobres... tém de nos ser completa- 86 mente estranhas, € que, arrastando ao acaso @ nossa existéncia miserével, rastejando mais do que an- dando, as tinicas preocupagdes que podemos conhecer 8 satisfacdo dos nossos apetites sensuais e gros- seiros. Se fosse outro a dizé-lo, chamar-Ihe-famos calu- niador desavergonhado. A voc8, mestre respeitado ¢ injusto, diremos que é da sua parte um erro deplo- ravel. Quer saber até que ponto é que nés gostamos de todas essas grandes e belas coisas de que nos recusa o conhecimento e o amor? Pois saiba que és as amamos ao ponto de fiearmos fatigados desgostosos por as Vermos suspensas eternamente do seu céu, que as roubou a terra, como tantos simbolos e promessas nunca realiziveis! J& nfo nos contentamos com a ficgéo destas coisas, nds quere- ‘mos a realidade. (Obras, VI, 115, 71). a lei moral da qual nés, materialistas e ateus, reconhecemos a existéncia tdo realmente como nfo © podem fazer os idealistas de qualquer época que seja, mazzinianos e nao mazzinianos, no é uma lei verdadeiramente moral, uma lei que s6 triunfa sobre as conspiragdes de todos 0s idealistas do mundo por emanar da propria natureza da sociedade humana, natureza essa na qual 6 preciso procurar as bases reais, néo em Deus, mas na animalidade. (Obras, ‘VI, 122, 72). ca, @ propria vida animal nfo é tio brutalmente material como os teolégicos, os idealistas consequen- tes e o proprio Mazzini so levados a crer: 0s animais cuja toda a existéncia se concentra exclusivamente na dupla paixio da digestio e da reproducéo per- teneem as espécies mais inferiores. Mas nas espécies mais desenvolvidas sob 2 influéncia da inteligéncia, nas que se aproximam do homem, encontrarao os germes de todas as paixdes do homem, sem exceptuar nenhuma, encontrardo o amor das criancas, 0 sen- 87 timento religioso, o sacrificio, a paixdo social, a devogio patriética e até um comeco de curiosidade cientifica. Sem davida que a preocupagio do ventre e do amor sexual desempenham af um papel domi- nante, mas nao desempenharao também um papel senio dominante, pelo menos excessivamente impor- tante no préprio mundo humano? Para se conservar, tanto o animal como o indi- viduo, tem de comer, e como espécie, tem de se reproduzir. Eis a primeira base da vida real, comum a todas as espécies animais desde as mais inferiores, inclusivamente, até ao homem. Todas as outras facul- dades e paixdes 56 se podem desenvolver com a condic&o destas duas necesidades primordiais esta~ rem satisfeitas. £ a lei soberana da vida a qual nenhum ser vivo saberia subtrair-se. (Mazzini, T1- “12, 72) " 1. esta lei moral... 0 que 6 senfo a expresso mais pura, mais completa, mais adequada, como diriam os metafisicos, desta mesma natureza humana, essencialmete socialista e individualista ao mesmo tempo. ( principal defeito dos sistemas de moral ensi- nados no passado, é terem sido ou exclusivamente socialistas ou exclusivamente individualistas, (Natu- reza do Estado, 581, ano?). Na moral privada, enquanto ainda no esta vieiada pelos dogmas religiosos, hi um fundamento etemo, mais ou menos reconhécido, compreendido, aceitado ¢ realizado em cada sociedade humana, Este fundamento nfo & sendo o respeito humano, o res- peito pela dignidade humana, pelo direito’e pela liberdade de todos os individios bumanos, Respei- tirlos, eis o dever de cada um; armé-los e provocé-los, eis a virtude; violé-los, pelo’ contrario, € 0 crime, (Obras, V, 3 © que é que entendemos por respeito humano? # o reconhecimento... da dignidade humana no ho- mem, qualquer que soja & sua raga, a sua cor, 0 grau de desenvolvimento da sua inteligéncia e mesmo da sua moralidade. Mas se este homem € estipido, mau, desprezivel, poderei eu respeité-lo? Sem davida, se ele é tudo isso, éme impossivel respeitar a sua vilania, a sua estupides ¢ a sua brutalidade; clas desgostam-me e indignam-me; tomarei contra elas, em caso de necessidade, as medidas mais enérgicas, ‘até ao ponto de o matar se ndo me restar outro meio, de defender contra ele a minha vida, o meu direito fou 0 que me & respeitével e querido. Mas no meio do combate mais enérgico e mais enearnigado, e em caso de necessidade mesmo mortal contra ele, tenho de respeitar o seu carécter humano.— A minha pro- pria dignidade de homem s6 0 é por este prego. Portanto, se ele no reconhece esta dignidade em ‘inguém, seré preciso, poderemos reconhecé-lo nele? Se ele 6 uma espécie de besta feroz ou, como sucede frequentemente, pior que uma hesta, réconhecer nele © carfcter humano, nio seria isto’ cair na fiegdo? Néo, pois seja qual for a sua degradacéo inte- lectual © moral actual, se ele no é organicamente um idiota, nem um doido, em cujos casos seria neeessirio’ tratilo nfo como criminoso mas como Goente, — se ele esté em plena posse dos seus direi- tos e da inteligéneia com que a natureza o dotou, © seu cardcter humano, mesmo no meio dos seus mais monstruosos desvios, continua a existir nele duma maneira muito real, como faculdade, sempre ‘vive enquanto ele viver para se elevar a consciéncia da sua humanidade, — por pouoo que se efectue uma mudanca radical nas condigées sociais que 0 torna- ram tal qual ele 6. (Obras, I, 177-178, 67). ‘A moral antiga, baseada nas tradigGes patriar- cais, religiosas e hierérquicas, desmorona-se irre- vogavelmente,. Uma moral nova ainda no pode ser criada, esté unicamente prevista. Com efeito, s6 pela accéo de uma revolugio social é que cla se pode tornar conereta. A inteliéncia e a forga dum inico homem, por muito grandes que elas sejam, nao seriam suficientes. £ por isso que uma moral nova nao se pode ainda formular. (Correspondéncia, 269, 67) .. todas as religides e todos os sistemas de moral que reinam numa sociedade so sempre a expresso ideal da sua situacdo real, material, isto é da sua organizagio econdmica principalmente, mas também da sua organizacio politica, esta diltima nunca sendo alids outra coisa sendo a consagracio juridica e vio- lenta da primeira, (Maszini, 69, 77) Regra geral e demonstrada pela historia de todas as religides: «Nunca nenhuma religigo nova pode interromper 0 desenvolvimento natural ¢ fatal dos factos sociais, nem mesmo desvié-lo da vida que Ihe estava tragada pela combinagio de forgas reais, tanto naturais como sociais. Muitas vezes as crengas reli- giosas serviram de simbolo as foreas nascentes, no preciso momento em que estas forcas iam realizar factos novos: mas foram sempre os sintomas ow (08 prognéeticos, nunca as causas reais destes factos. Quanto a estas causas, & preciso procuré-las no desenvolvimento ascendente das necessidades eco- némicas e das forgas organizadas e activas, nio ‘deais mas reais, da sociedade; o ideal nunca sendo Seno a expresso mais ou menos fiel e a dltima esultante, tanto positiva como negativa, da luta destas forcas na sociedade. Esta ideia tio justa... 6 combatida, necessaria- mente, por Mazzini. (Mazzini, 78, 71). 90 Este principio, que constitui aliés o fundamento esencial do socialismo positive, foi pela primeira ver cientifieamente formulado desenvolvido pelo Sr. Karl Marx, 0 principal chefe da Escola dos comunistas alemées. Ele constitui o pensamento do- minante do célebre ‘Manifesto dos Comunistas, que um Comité internacional de comunistas franceses, ingleses, belgas e alemies, reunidos em Londres, langou em 1848, com o titulo: Proletdrios de todos 08 paises, uni-vos! Este manifesto, redigido, como se sabe, pelos Srs. Marx e Engels, tornou-se a base de todos os trabalhos cientificos posteriores da Es- cola, ¢ da agitacio popular sublevada, mais tarde, por Ferdinand Lasalle na Alemanha. Este prinefpio 6 absolutamente oposto ao prinei- pio reconhecido pelos idealistas de todas as escolas. Enquanto que estes titimos derivam todos os factos da historia, inclusive 0 desenvolvimento dos inte- rresses materiais e das diferentes fases da organizacéo econémiea da sociedade, do desenvolvimento das ideias, os comunistas alemies, pelo contririo, 96 véem em toda a hist6ria humana, nas manifestacdes, mais ideais da vida tanto colectiva como individual da humanidade, em todos os desenvolvimentos inte- lectuais e morais, religiosos, metafisicos, cientificos, artisticos, politicos, juridicos e sociais, produzidos contimuam a produzir no pre- sente, unicamente reflexos ou contragolpes neces- sérios do desenvolvimento dos factos econdmicos. Enquanto que os idealistas afirmam que as ideias dizem que, pelo contrario, 0s factos fazem nascer as ideias e que estas Gltimas so sempre a expressio ideal dos factos realizados; e que entre todos os factos, os factos econémicos, materiais, os factos por exeeléneia, constituem a base essencial, o prin- cipal fundamento, do qual todos os outros factos intelectuais e morais, politicos e sociais, néo sio a1 Sendo, os derivatives obrigatérios. (Obras, Ul, 12 218, 71). um principio profundamente verdadeiro logo gue 0 consideramos sob o seu verdadeiro aspecto, isto é sob um ponto de vista relativo, mas que’ visto e posto de uma maneira absoluta, como o ‘nico fundamento e a primeira fonte de todos 0s outros prinefpios, como 0 faz esta escola, torna-se comple: tamente falso. (Obras, TI 11, 72). 0 estado politico de cada’ pais... 6 sempre o pro- duto e a expressio fiel da sua situagéo econémica; Para mudar 0 primeiro 6 & necessirio transforma? esta iltima, Todo o segredo das evoluges historicas, segundo o Sr. Marx, esti 16. Ele nio toma em con’ sideracio os outros elementos da histéria, tais como 4 Teactio contudo evidente, das instituigces poll. ticas, juridicas e religiosas sobre a situagio econé. ‘mica Ble diz: redigida até 2 de Dezembro pelo Sr. Victor Considérant. ‘O mérito destes dois sistemas socialistas, ainda que diferentes sob muitos aspectos, consiste na cerftica profunda, cientifiea, severa, que eles fizeram & organizacéo actual da sociedade, cujas contradi- ees monstruosas desvendaram com ousadia:—se- guiu-se o facto importante de terem atacado e desacreditado fortemente o Cristianismo, em nome da reabilitagdo da matéria e das paixdes humanas, simultaneamente caluniadas e praticadas pelos padres cristios, Os Saint-Simonianos quiseram substituir 0 Cristianismo por uma religifo nova, baseada no culto mistico da carne, com uma nova hierarquia dos padres, novos exploradores do povo pelo privilégio do génio, da habilidade e do talento. Os Fourie- ristas, muito mais ¢ até sinceramente democratas, imaginaram os seus falanstérios governados ¢ admi- nistrados por chefes, eleitos por sufrégio universal, onde cada um, pensavam eles, encontraria por si proprio o seu trabalho e 0 seu lugar, segundo a 100 natureza das suas paixies.— As faltas dos Saint- -Simonianos sio suficientemente visiveis para se falar disso. O duplo erro dos Fourieristas consistiu, primeiro, em acreditarem que s6 com forga da sua ersuaséo e da sua propaganda pacificia ‘eles che- gariam a tocar 0 coragdo dos ricos, a ponto destes virem depor o excedente da sua riqueza as portas dos seus falantérios; e em segundo lugar, em terem imaginado que se podia construir teoricamente, @ priori, um paraiso social, onde se poderia meter toda # humanidade futura. Eles no compreenderam que podemos enunciar muito bem os grandes prin- ipios do seu desenvolvimento futuro, mas que deve- mos deixar as experiéncias do futuro a realizacao desses prineipios. ‘Em geral, a regra foi a paixio comum de todos 08 socialistas anteriores a 1848, sem excepcio: Cabet, Louis Blanc, Fourieristas, Saint-Simonianos, todos tinham a paixéo de endoutrinar e de organizar o futuro, todos foram mais ou menos autoritdrios. ‘Mas eis que apareceu Proudhon: filho de um camponés ¢ cem vezes mais revolucionério de facto como de instinto, do que todos os socialistas dou- trindrios e burgueses, armou-se com uma critica tio profunda e penetrante como impiedosa, para destruir ‘todos os sistemas deles. Opondo a liberdade & auto- ridade contra os socialistas de Estado, proclamou-se cusadamete anarquista, o teve a coragem de se dizer ateu, nas barbas do deismo ou do pantetsmo deles, ou antes como August Comte positivista, (© seu socialismo, baseado tanto na. liberdade individual como colectiva, e na acco esponténea das associagées livres, no obedecendo a outras leis senio as leis gerais da economia social descobertas ou a descobrir pela Ciéncia, sem qualquer regula mentagéo governamental ou proteccio do Estado, subordinando aliés a politica aos interesses econd: ‘micos, intelectuais e morais da sociedade; por uma consequénela necesséria tinha de conduzir, mais tarde, ao federalismo, (Obras, I, 36 a 40, 67). 101 2 Marx e Proudhon nio hé nenhuma divida que na eritiea impie- dosa que [Marx] fez a Proudhon ha muito de ver- dade... Hste parte da ideia abstracta do direito; do direito passa ao facto econémico, enquanto que © Sr. Marx, contrariamente a Proudion, exprimiu e demonstrou a verdade indubitivel, confirmada pela histOria passada e contempordnea da sociedade humana, dos povos e dos Estados, que o factor econémico precedeu sempre e precede sempre 0 ireto Jriclo e potion. (atatismo ¢ Anarquime, .-. Marx & um pensador econémico muito sério, muito profundo, Ele tem a grande vantagem sobre Proudhon de ser um verdadeiro materialista. Prou- ‘dhon, apesar de todos os seus esforgos para sacudir ‘as tradigdes do idealismo eldssico, nfo deixou de ser toda ‘a sua vida um idealista incorrigivel, inspi- rando-se, como eu Ihe disse dois meses antes da sua ‘morte, ora na Biblia, ora no direito romano, e sempre metafisico até & raiz dos cabelos. A sua grande desgraga foi nunca ter estudado ciéncias naturais, ¢ de nfo se ter apropriado do seu método. Ble teve instintos de génio que Ihe teriam feito entrever a via justa, mas seduzido pelos habitos maus ou idea- listis do seu esplrito, retornava sempre aos seus ‘velhos erros; o que fez com que Proudhon fosse uma contradigio perpétua, um génio vigoroso, um pen- sador revoluciondrio debatendo-se sempre contra os fantasmas do idealismo, e nunca tendo conseguido veneé-los, Marx como pensador esté na boa via. Ele esta- beleceu como prinefpio que todas as evolucdes poli- ticas, religiosas ¢ juridicas, na hist6ria, sio, nio a8 causas, mas os efeitos de evolugdes econémicas —6 um grande e fecundo pensamento que nio foi 102 totalmente inventado por ele, foi entrevisto, em parte exprimido, por muitos aiém dele — mas de qualquer modo pertence-Ihe a ele a honra de o ter estabele- cido solidamente e de o ter posto como base de todo o su sistema econdmico. Por outro lado, Prou- hn compreendeu e sentiu a liberdade muito melhor do que ele— Proudhon, quando nao praticava dou- trina e metafisica, tinha o verdadero instinto revo- Tuciondrio, — Ele adorava Satanés e proclamava a anarquia. B bem possivel que Marx se possa elevar tooricamente a um sistema ainda mais racional da liberdade do que Proudhon—mas falta-lhe o tinto de Proudhon... ele é um comunista autoritario dos pés & cabeca, [Marx] dedicou-se sempre, com sinceridade, & causa da emancipacéo do proletariado, causa a que ele prestou servigos incontestivels © 4 qual munca traiu conscientemente, mas que compromete hoje com a sua formidavel vaidade, com o seu cardc- tet odioso e malévolo, ¢ com a tendéncia & ditadura ‘mesmo no seio do partido dos revoluciondrios socia- listas. Efectivamente a sua vaidade nfo tem limites e é pena, € um luxo inttil, pois a vaidade com- preende-se num ser nulo, que néo sendo nada, quer Parecer tudo. Marx tem qualidades e uma ‘capa- cidade de pensamento e de accéo muito grandes, muito positivas e que Ihe poderiam ter pousado, ‘me, a pena de.ter recorrido aos meios mise- rivels da vaidade! (Nettlau, 70-71, 72). [Tem também o defeito] de todos os sébios de profissio, 6 um dout ). Acredita absolutamente nnas suas teorias e do alto das suas teorias despreza toda a gente. (Nettlau, 368, 72). a A Comuna Bu sou um partidério da Comuna de Paris que, por ter sido massacrada, esmagada em sangue pelos earrascos da reaceio monfrquica e clerical, s6 se tornou mais viva, mais forte na imaginagio e no coracéo do proletariado europeu; eu sou seu parti- dério principalmente porque ela foi uma negacio fudactoas, bem pronunciads, do Estado, (Obras, 1V, A comuna proclamou-se federalista, e sem negar a wnidade nacional da Franga que é um facto natu- ral e social, ela negou audaciosamente o Estado que a unidade violenta ¢ artificial, (Lehning, 1-1, 254, 72). 0 efeito foi tio formidével por todo o lado, que os préprios marxistas, a quem todas as suas ideias tinham sido invertidas por esta insurreigdo, viram-se obrigados @ tirar o chapéu diante dela, Fizeram mais: ao contririo da mais simples légica e dos seus Verdadeiros sentimentos, declararam que 0 seu programa eo seu fim eram os deles. Foi um disfarce verdadeiramente burlesco, mas forgado. les tinham de 0 fazer, sob pena de se verem marginalizados © abandonados por todos, tdo forte era a paixio que esta revolucio tinha provocado em toda a gente. (Obras, IV, 387, 72). A Comuna de Paris durou muito pouco tempo e foi muito entravada no seu desenvolvimento inte- rior pela luta mortal que ela teve de sustentar contra a reacgio de Versalhes, para que ela pudesse, néo digo mesmo aplicar, mas pelo menos elaborar teori- camente o seu programa socialista. Por outro lado, € preciso reconhecé-lo, a maioria dos membros da Comuna nio eram propriamente socialistas e se ‘se mostraram como tal foi por terem sido entra- vados invencivelmente pela forga irresistivel das 108 coisas, pela natureza do seu meio, pelas necessidades da sua posigio e nao por conviecio intima, Os socialistas, & cabeca dos quais se situa natu- ralmente 0 nosso amigo Varlin, constituiam na Comuna uma infima minoria; néo eram mais do {que catorze ou quinze membros. O resto era com- posto por... Jacobinos francamente revolucionsrios, ‘08 her6is, os iiitimos representantes sinceros da fé democritica de 1793, capazes de sacrificar a sua unidade e a sua autoridade bem-amadas is neces- sidades da revolugdo, mais do que submeter a sua consciéncia a insoléncia da reacgdo. Estes Jacobinos magnénimos, & cabeca dos quais se encontra natu- ralmente Delescluze, uma grande alma e um grande cardcter,... assinaram programas e publicagdes eujo espirito geral e as promessas cram positivamente sovialistas. Mas como, apesar de toda a sua boa £6 e de toda a sua boa vontade, eles no eram senio socialistas muito mais entravados exteriormente do que convencidos interiormente, como nao tiveram © tempo, nem mesmo a capacidade para vencer ¢ suprimir neles uma série de preconceitos burgueses que estavam em contradi¢éo com o seu socialism recente; compreende-se que, paralisados por esta luta interior, nunea pudessem sair de generalidades, nem tomar uma das medidas decisivas que rompesse para sempre a sua solidariedade e todas as suas relagdes com o mundo burgués. Foi uma grande desgraca para a Comuna e para eles; eles fiearam paralisados ¢ paralisaram ‘@ Comuna; mas néo Ihes podemos censurar, eomo uma falta. Os homens néo se transformam de um dia para o outro e ndo mudam nem de natureza nem de habitos & sua vontade. Eles provaram a sua sinceridade dando a sua vida pela Comuna. Quem ousaria pedir-lhes mai Bles sio mais desculpaveis do que 0 proprio povo de Paris, sob influéncia do qual eles pensaram @ agiram, era muito mais socialista por instinto do que por ideia ou conviegio reflectida... Hé ainda 105 muitos preconceitos jacobinos, muitas imaginagées ditaturiais e governamentais,, no proletariado das ‘grandes cidades de Franca e até no de Paris. (Obras, TV, 205 a 257, 72). ‘lids, a situagdo do pequeno ntimero de socia- listas convencidos, que fizeram parte da Comuna, era excessivamente dificil. Nao se sentindo suficien- temente defendidos pela populagéo parisiense, organizacéo da Associacio Internacional, apesar de muito imperfeita, nfo abragando mais’ de alguns milhares de individuos, eles tiveram de sustentar ‘uma luta diéria contra'a maioria jacobina. E ainda em gue circunstancias! Foi-Ihes preciso dar trabalho e pao a alguns milhares de operirios, organizé-los, armé-los, © vigiar ao mesmo tempo'as manobras reacciondrias numa cidade tao grande como Paris, sitiada, ameacada pela fome ¢ entregue &s mano- bbras sujas da reaccio que se estabeleceu_e que se mantinha em Versalhes, com @ autorizagao ¢ pela graga dos Prussianos.' Foi-lhe preciso. opor um overno e um extreito revoluciondrio ao govern € ‘20 exéreito de Versalhes, quer dizer que para com- bater a reaccéo mondrquica e clerical, eles tiveram, esquecendo e sacrifieando as primeiras condigées do socialismo revoluciondrio, de se organizar em Go jacobina. ‘Nao 6 natural que no meio de tais circuns- tancias, os Jacobinos, que eram os mais fortes visto que constituiam a maioria na Comuna, e que, por outro lado, possuiam num grau infinitamente supe- rior 0 instinto politico, a tradigio e a pratica da organizagdo governamental, tivessem tido grandes vantagens sobre os socialistas? O que é de espantar 6 eles nfo se terem aproveitado disso muito mais do que o fizeram, que eles no tenham dado & suble- vagao de Paris um caracter exclusivamente jacobino, € que se tenham deixado arrastar, pelo contréric numa revolugéo social. Eu sei que muitos socialistas, muito conse- quentes em teoria, censuraram os’ nossos amigos 108 de Paris por eles nio se terem mostrado suficien- temente socialistas na sua prética revolucionéria...; eu observarei aos tedricos severos da emancipacéo do proletariado que eles so injustos em relagio aos nostos irmaos de Paris, pois, entre as teorias mais justas e a sua realizagio pritica, hé uma grande distincia que nfo se transpde em alguns dias. (Obras, TV, 258-259, 72). 107 IL © PARTIDO REVOLUCIONARIO A LUTA OPERARIA E CAMPONESA. L Operérios, camponeses, burgueses © intelectuais todas as outras questées: religiosas, nacio- nais, ‘politieas, tendo sido completamente esgotadas pela histéria, 56 resta hoje uma ‘mica questo na qual se resumem todas as outras ¢ a tinica doravante eapaz de sublevar os povos: a questdo social. (Net- ‘lau, 221 64-67). (0 que é bastante notével, e que aliés foi obser- vado e constatado muitas vezes por um grande mimero de eseritores de tendéncias muito diversas 6 que hoje 96 o proletariado possui um ideal positivo para o qual tende com toda a sua paixdo, quase virgem ainda, do seu ser; ele vé diante de si uma estrela, um sol que o lumina, que i © aquece, pelo ‘menos na sua imaginacio, na sua fe, ¢ que Ihe mos- ‘tra com uma clareza certa a via que ele deve seguir, enquanto que todas as classes privilegiadas e pre- tensamente esclarecidas estio mergulhadas numa obscuridade simultaneamente desoladora e assus- tadora. Hlas j4 nfo vém nada & sua frente, j4 nio acreditam ném aspiram a nada e s6 querem a conservacio eterna do status quo, reconhecendo que © status quo néo vale nada. Nada prova melhor que estas classes esto condenadas a morrer e que © futuro pertence ao proletariado. Sio os