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19 aya “ Eee D Pe Toca DO ESTADO Yous Este livro é 0 resultado de uma pesquisa realizada entre 1976 1980 para uma tese de dou- torado na Universidade de Glas- gow, Inglaterra. Um periodo fundamental da histéria brasi- leira foi reconstituido em ba- ses documentais. Os fatos e os personagens foram indicados a partir de registros concretos @ ndo de hipéteses ou suposi- goes. O objetivo central desse trabalho foi identificar as for- gas sociais que emergiram na sociedade brasileira com 0 pro- cesso de internacionalizacao, em sua etapa moderna, e acom- panhar sua intervengdo no Es- tado e na sociedade brasileira. Essa. hist6ria passa pela media- G80 de atores concretos, de pessoas ou instituigdes, que respondem a valores, objetivos © estratégios das forcas socials que atuam no cenério politico, em conjunturas determinadas. Aqui o que interessa nao é tanto Identificar o ator, suas Intengdes e caracteristicas pes- soais, mas descobrir no proces- 80 histérico o papel e a fun- gio des forcas soci e de que formas concretas elas fa- zem prevalecer seus Interesses © suas concepcdes no confron- to com as demais. Nossa pesquisa, no entento, fol possivel documentar a relacdo entre as atores e as forcas s0- cials, em cendrios publicos e privados, através da reconstl- tuigao da histéria feita em gran- de parte pelos préprios atores. 1964: A CONQUISTA DO ESTADO. Aséo Politica, Poder ¢ Golpe de Classe i MAGNE evis380 René Armand Dreifuss 1964: A CONQUISTA DO ESTADO Agdao Politica, Poder e Golpe de Classe Traduzida pelo Laboraiério de radugao da Faculdade de Letras da UFMG por: AYESKA BRANCA DE OLIVEIRA FARIAS CERES RIBEIRO PIRES DE FREITAS ELSE RIBEIRO PIRES VIEIRA (Supervisora) GLORIA MARIA DE MELLO CARVALHO Revisio Técnica: RENE ARMAND DREIFUSS 3° edigao y VOTES, Petrépolis 1981 © by René Armand Dreifuss Titulo do original inglés: State, class and the organic elit the formation of an entreprencurial order in Brazil (1961-1965) Direitos sobre a tradugdo ¢ publicagéo em lingua portuguesa: Epitora Vozes LtDA. Rua Frei Luis, 100 25600 Petrdpolis RJ Brasil Diagramagio Valdecir Mello Para minha mae e A meméria do meu pai Para Aurea e Danny ‘Aos amigos, que o caminhar da vida afasta, a lembranga reine Aos que, nao estudando seu passado, estdio fadados a repetir os mesmos erros. SUMARIO Agradecimentos, 11 Nota do Tradutor, 13 Lista de Abrevinturas, 15 Lista de Tabelas, 19 Capitulo I A FORMACAO DO POPULISMO, 21 Notas bibliogrificas, 38 Capitulo 11 A ASCENDENCIA ECONOMICA DO CAPITAL MULTINACIO- NAL E ASSOCIADO, 49 Introdusiio, 49 Penetracio multinacional e integragao da indGstria, 49 Outros aspectos de processo de concentracio, 60 Conclusio, 65 Notas bibliogréficas, 66 Capitulo IT A ESTRUTURA POLITICA DE PODER DO CAPITAL MUL- TINACIONAL E SEUS INTERESSES ASSOCIADOS, Ti Introdugao, 71 1. Os intelectuais orginicos do novo bloco econémico, 71 Empresérios e tecno-empresirios, 71 A tecno-burocracia, 73 Os oficiais militares, 77 2. A solidariedade de interesses do novo bloco econémico, 82 A. Escrit6rios de consultoria tecno-empresarial, 83 CONSULTEC: um esiudo de caso de entrinciiramento burocrético-em- presarial, 86 CONSULTEC: 0 escrit6rio téenico, 86 CONSULTEC: o anel de poder burocréticoempresarial, 90 B. As associagées de classe, 93 Apoio transnacional, 100 3. Da solidariedade econdmica ao ativismo politico, 101 C. A formagao de grupos de agdo IBAD, 101 Conclusiio, 104 Notas bibliogrificas, 107 Capitulo IVA CRISE DO POPULISMO, 125 Introdugio, 125 1. © periode de transicéo das titicas de lobbying 20 governo, 125 2. A ascensio de um Executivo aacional-reformista, 130 3. A arise politico-tconémica do populismo, 132 4. x paced a ew saints 136 Conclusio, Notas Pilon ies, 146 Capitulo V_A ELITE ORGANICA: RECRUTAMENTO, ESTRUTURA DE- CISORIA E ORGANIZACAO PARA A ACAO, 161 Introdagso, 161 A formacao do IPES, 162 A estratara de tomada de decisio, 172 A estrutura formal de autoridade, 173 ‘Organizacio para 2 aio, 184 Os grupos de Estudo ¢ Apdo do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, 186 1. Grupo de Levantamento da Conjuntura — GLC, 186 2. Grupo de Assessoria Parlamentar — GAP, 190 3. Grupo de Opinio Piiblica — GOP, 192 4. Grupo de Publicagdes/Editorial — GPE, 194 5. Grupo de Estudo e Doutrina — GED, 196 © financiamento para a elite orginica, 199 O Grupo de Integragio — setor de ago empresarial, 199 A ‘limpeza" das contribuigées financeiras, 203 ‘A questéo da contribuigéo transnacional, 205 Conclusto, 208 ‘Notas bibliograficas, 209 Capitulo VI_A AGAO DE CLASSE DA ELITE ORGANICA: A CAMPANHA IDEOLOGICA DA BURGUESIA, 229 Introducéo, 229 Daas modalidades de aco, 231 Ago ideologica ¢ social, 231 Doutrinagdo geral, 232 Guerra psicolégica através do rédio e televiséo, 244 Guerra psicoldgica através de cartuns e filmes, 250 Doutrinagao espectfica, 252 Concluséo, 259 Notas bibliogrificas, 259 Capitulo VII_A AGAO DE CLASSE DA ELITE ORGANICA: A CAMPANHA POLITICA DA BURGUESIA, 281 Introdugio, 281 A asio no meio estudantil ¢ cultural, 282 Mobilizagio das classes médias e apoio feminino, 291 A contencio dos camponeses, 299 A acéo entre as classes trabalhadoras industrials, 305 A acio politica nos partidos politicos e no Congresso, 319 As fontes de finangas, 329 Conclusio, 337 Notas bibliogrificas, 338 Capitulo VII A ACAO DE CLASSE DA ELITE ORGANICA: 0 COMPLEXO IPES/IBAD E OS MILITARES, 361 Introdugio, 361 A presenga do complexo IPES/IBAD nas Forcas Armadas, 362 Os movimentos politico-militares, 368 O grupo IPES/ESG, 369 Os extremisias de direita, 370 Os tradicionalistas, 371 “a maior conspiragio das Américas” do General Olympio Moario Filho, 373 Conclusio, 396 Notas bibliogrificas, 397 Capitulo IX_O COMPLEXO IPES/IBAD NO ESTADO — A OCUPACAO DOS POSTOS ESTRATEGICOS PELA ELITE ORGANICA, 417 Introdugao, 417 A tomada do poder do Estado: o dominio politico dos interesses financeiro- industrisis multinacionais e associados, 419 A elite organica no Estado, 421 Conclusae, 455 Notas bibliograficas, 456 Capitulo X CONCLUSAO, 481 Notas bibliogriificas, 489 APENDICES, 497 APENDICE A — A composigio dos acionistas da ADELA em 1972, 497 APENDICE B — Ligacdes econdmicas da lideranga ¢ associados proeminentes do IPES, 501 FONTES DO APENDICE B, 574 APENDICE C — Correspondéncia do CBP com Eneas Fonseca, 577 APENDICE D — Lista dos colaboradores da APEC — 1970, 585 APENDICE E — American Chamber of Commerce — Lista dos membros em janeiro de 1964, 589 APENDICE F — Membros corporativos do CLA (Council for Latin America) em 1971, 617 APENDICE G — Correspondéncia da CONSEMP com o IPES, 621 APENDICE H — Lista de contribuintes do IPES, 627 APENDICE I — Lista dos associados, contribuintes ¢ colaboradores do IPES, 639 APENDICE J — Relatérios parciais da despesa do IPES em 1962, seus orca- mentos para 1963 e cartas de Ivan Hasslocher a Arthur Oscar Junqueira, 645 APENDICE K — Infiltragio Comunista: Nomes ¢ Entidades, 651 APENDICE L — Titulos dos livros ¢ revistas de publicagio ¢ circulagéo a cargo do IPES, 653 APENDICE M — Correspondéncia de B. Roguski com 0 IPES sobre a “Mo- bilizagdo Agriria do Parana" ¢ a “Carta de Pato Branco”, 657 APENDICE N — Selecao de temas para os semindrios patrocinados e organi- zados pelo IPES; correspondéncia com Garrido Torres; atividades do grupo de estudos, 669 APENDICE O — Correspondéncia de Sonia Seganfredo com 0 IPES, 689 APENDICE P — Sindicalistas brasileiros que participaram em cursos de trei- Ramento nos Estadcs Unidos, orientados pela CIA, de Most a 1964, 707 APENDICE Q — Voto de recusa do Congreso a designagio de Santiago Dantas ¢ position paper preparado pelo IPES-Rio, 711 APENDICE R — Carta de Jorge Oscar de Mello Flores a Glycon de Paiva, 721 APENDICE S — Carta de Hélio Gomide ao General Carlos Alberto Fontoura, 729 APENDICE T — Memorando de E. Fischlowitz a Paulo de Assis Ribeiro, 733 APENDICE U — “Levantamento da Amea¢a Comunista" ¢ carta @ Coca-Cola SA. 735 APENDICE V — Carta de Edgard Teixeira Leite & Confederagio Rural Bra- sileira, 743 APENDICE W — Lista dos associados € colaboradores do IPES ligados a bancos, 745 APENDICE X — Carta do IPESUL ao IPES e correspondéncia de associacSes ¢ representantes de classes a0 IPES, 749 APENDICE Y — Minuta da carta do IPES a David Rockefeller e cartas do CED, 763 APENDICE Z — Atas das reunides do IPES de 23 de novembro de 1962, de 22 de janciro de 1963 © de 8 de abril de 1963, 769 BIBLIOGRAFIA, 793 AGRADECIMENTOS Este livro € fruto de uma pesquisa cujo texto bésico foi produzido ao longo de trés anos consecutivos. Ele encerra o percurso intelectual e académico de uma década de vivéncia como estudante universi . Durante esse periodo, as mais variadas pessoas me beneficiaram com seu didlogo e amizade. Lamentavelmente, nao posso expressar meu agradecimento a cada um em particular, pois a relacao seria extensa; entretanto, algumas pessoas merecem especial destaque. Aron Neu- mann, in memoriam, foi modelo de persistencia e dedicacao, amigo nas horas certas. O Prof. Aryeh Grabois, o Prof. Abraham Yassour ¢ 0 Prof. Teodor Shanin foram exemplos de seriedade académica quando da minha passagem, como estu- dante, pela University of Haifa, Israel. Tive o privilégio de participar, na Leeds University, Inglaterra, do curso de mestrado sob a orientacao do Prof. Ralph Miliband ¢ do Prof. Hamza Alavi; nesse fértil ambiente de discussio, expandiram- se meus horizontes intelectuais e passei a esbocar muitas das questdes e problemas que levaram & definicdo da temdtica da minha tese, agora transformada em livro. Na realizagao deste trabalho, usufrui da boa vontade de muitos amigos e colegas da University of Glasgow, Escécia, que devotaram tempo e esforgo, fazendo criticas as veredes preliminares. Agradeco especialmente a Otévio Dulci, que me brindou com sua acurada compreensao da realidade brasileira, a Régis de Castro Andrade, pelo didlogo frutifero e profunda sensibilidade, a Herbert de Sousa, que visualizou o alcance deste trabalho ¢ me incentivou a realizi-lo, e a Galeno de Freitas, cujo conhecimento da vids politica do Brasil foi de grande ajuda. Meu reconhecimento vai para o Prof. Emil Rado, conselheiro para pés-graduados da University of Glasgow, e para o Prof. Andrew Skinner, diretor do Comité de Pés-Graduacao, sem cuja equilibrada intervencdo no conflito que motivou a mudanga de orientador de tese ev nao teria tido a tranqitilidade para realizar este trabalho. Minha gratidéo € imensa para com o Dr. Simon Mitchell, que assumiu a meio caminho a orientagio da tese € cuja extrema dedicagdo, sensibi- lidade ¢ criticas perspicazes foram fundamentais para concluir a tese. Brian Pollitt, professor e amigo, me estimulou durante a elaboragio do trabalho e me deu pleno apoio moral para enfrentar as dificuldades extrinsecas ao mérito da pes- quisa. David Stansfield, Francis Lambert, John Parker e Phil O'Brien, professores do Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, também me encorajaram, Desejo registrar meu agradecimento ao Social Science Research Council da Gri-Bretanha. Sob os auspicios de seu desinteressado apoio, realizei, de 1976 a 1980, a pesquisa de campo no Brasil e nos Estados Unidos da qual extra{ fundamentos para cste livro. Uma grande parte da versio original deste trabalho foi datilografada com muito empenho ¢ carinho por Ruth Rae, em Bay Glasgow. Também coopcraram May Townsicy ¢ Anne Rea, sccretérias do ILAS, Yvonne Guerrero ¢ as bibliotecdrias do ILAS ¢ da University of Glasgow. Fui afortunado cm ter Else, Ayeska, Ceres ¢ Gloria na traducio do livro, o que fizeram ‘com dedicagdo ¢ senso profissional, corrigindo erros ¢ ajudando a melhorar o estilo. Agradego-lhes, mesmo se nem sempre soube seguir os scus conselhos, Aurea, a minha mulher, me dew secu apoio constante, sua companhia de todas as horas, fundamental para quem trabalha sob a pressio de realizar uma pesquisa desta envergadura, mesmo em detrimento de seus proprios estudos. A ela, por tanto... © por muito mais... Nenhuma das pessoas acima mencionadas tem responsabilidade alguma pelos conceitos aqui cmitidos, nem pelos dados e documentos apresentados, que € 36 minha, R. A. Dreifuss NOTA DO TRADUTOR O contetido hist6rico e a vasta documentagao da tese State, class and the organic elite: the formation of an entrepreneurial order in Brazil — 1961-1965, da qual se originou a presente obra, levam-nos a esclarecer que: 4) um confronto do texto original inglés com o atual revela uma traducio ampliade. £ que o Autor, na qualidade também de orientador técnico, valeu-se da oportunidade para atualizar dados, fazer adendos ¢ rever notas bibliogrdficas, procurando, assim, melhor atender aos seus objetivos; b) 0 livro contém citagdes originalmente em portugués que o préprio Autor verteu para o inglés e que, posteriormente, traduzimos para o nosso vernéculo, razo pela qual nos responsabilizamos pela equivaléncia semintica, mas ndo as- seguramos ter havido uma tradugdo verbo ad verbum. Consequentemente, a fide- dignidade de tais citagdes é de inteira responsabilidade do Autor. Esclarecemos, outrossim, que empenhamo-nos em traduzir com a méxima fidelidade a tese original, em detrimento, algumas vezes, do estilo. Pela equipe de tradusfo, Else R.P. Vieira Supervisora de Inglés do Laboratério de Tra- dusao da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, janeiro 1981, 13 LISTA DE ABREVIATURAS ABA — Associaggo Brasileira de Anun- ciantes ABCAR — Associag&o Brasileira de Cré dito ¢ Assisténcia Rural ABDIB — Associagso Brasileira das In- distrias de Base ABIMAQ — Associagao Brasileira de In- distrias de Maquinas ABM — Associagio Brasileira de Munici- ACLEESP — Associacio dos Clubes Ex portivos do Estado de Séo Paulo ACM — Associagiio Cristi de Mogos ACOPA — Ausociage Comercial do Pa- ren ACREFI — Associagio de Crédi ciamento ¢ Investimentos ACR] — Associagdo Comercial do Rio de Janeiro ADCE — Assoctasio dos Dirigentes Cris- tos de Empresas ADECIF — Associagiio das Empresas de Crédito, Investimento ¢ Financiamento ADELA — Atlantic Community Develop- ment Group for Latin America ADEP — Asio Democritica Popular ADESG — Associsgio dos Diplomados da ESG Finar- ADF — AssocingSo Democratica Feminina ADIPES — Associagio dos Diplomados do IPES ADP — Agio Democrética Parlamentar ADP — Acio Democritica Popular (RGS) AEF — American Economic Foundation AFL-CIO — American Federation of La- = Congress of Industrial Organiza- 4 AID — Agency for International Deve- fopment AIFLD — American Institute for Free Labor Development ALALC — Associagiio Latino-Americana de Livre Comércio ALEF — Alianga Eleitoral da Familia ALPRO — Aliansa para o Progresso AMAN — Academia Militar de Agulhas Negras AMES — Associagio Metropolitana de Estudantes Secundirios AMFORP — American and Foreign Po- wer Company ANMVAP — Associacao Ni quinas, Veiculos ¢ Autopesas ANPES — Associagdo ‘Nacional de Pro- gramagéo Econémica ¢ Social AP — Asao Popular ae — Anilise e Perspectiva Econd- ner — Associasdo. Paulista de Propa- a ASAPEC — Corpo profissional de asses sores em assuntos econdmicos para em- presas privadas e agéncias publicas AVB — Asio de Vigilantes do Brasil BEG — Banco do Estado da Guanabara BGLA — Business Group for Latin Ame- rica yal de Mae BIR — Bureau of Intelligence and Re- search (Departamento de Estado ameri- ano) BNDE — Banco Nacional de Desenvolvi- mento. Econimico BNH — Banco Nacional da Habitasio BOLSA — Bank of London and South ‘America BPR — Bloco Parlamentar Revolucionirio BRASTEC — Agéncia de Consultoria Téc- nica CAB — Curso de Atualidades Brasileiras CACB — Confederagéo das Associagies Comerciais do Brasil CACEX Carteira de Comércio Exterior do Brasil CACO — Centro Académico Cindido de Oliveira CAMDE Campanha da Mylher pela Demeci CAMIG — Companhia Agricola de Minas: Gerais CAS — Corpo de Assistentes Sociais 1S CRP — Consércio Brasileira de Produtivir dade CBTC — Confederagao Brasilsira dos Tra: bilhadores Cristios CCC — Comando de Caca aos Comunistas CD — Comité Diretor (IPES) CDFR — Cruzda atica Feminins do Recife CDM — Cruzada Democritica das Mu- Theres CE — Comité Executive (IPES) CEAS — Centro de Estudios y Accién So cial (Colbmbia) CEC — Campanha de Educacio Civica CED — Committee for Economic Deve- lopment CED — Conselho de Entidades Democré- ticas CEDES — Centro de Documentagso Eco nomica € Social CEMLA — Centro de Estudios Monetirios Latinoamencanos CEN — Consclho Executive Nacional CENPI — Centro Nacional de Produtivi- dade Industral CEPAL — Comissbo Econémica para a América Latina CERES — Centro de Estudios y Reformas Econémico Sociales (Equador) Estudos CESB — Centro de Socisis Bra- sileiros CEXIM — Cancira de apart ce Im portagéo do Banco. do cir - Confederucso Sey Familias Cris- CFR — Counell for Foreign Relations CGC — Comando Geral da Greve CHEVF — Companhia Hidroclétrica do Vale do Séo Francisco Cl — Cuma de Informagio (ESG) CIA — Central Intelligence Agency CIAP — Consetho Snteramericano Alianga para © Progresso cicyP — Comoe | Interamericano de Co- CIESP — Centro de IndGstrias do Estado de Séo Paulo CIOSL — Conlederasio Interamericana das Organizacées dor Sindicatos Livres CLA — Council for Latin America ‘CLMD — Cruzada Libertadors Militar Democritica (CLT — Consolidagho das Leis do Trabalho (CLUSA — Cooperative League of the Uni- ted States of America CMB — Campanha da Muther Brasileira CMN — Consclho Monetério Nacional CNC — Confederagiio Nacional do Co mércio 16 CNCO — Confederagio Nacional dos Cir- culos Operitios CNE — Consetho Nacional de Economia NEC — Con fedaragis Nacional dos Em: pregados no Comércio CNI — Confederagio Nacional da Indus. ria CNLD — Cruzada Nacional de Lidevanga cna — Conselho Nacional de Reforma Agraria. CNTC — Confederagto Nacional dos Tra balhadores no Comés CNTEMA —” Confederagio Nacional dos Trabalhadores Ferroviérios, Maritimos ¢ Aéreos ‘CNT1 — Confederagio Nacional dos Tra- balhadores na Indistria CNTT — Confed jo Nacional dos ‘I'ra- balhadores em Transportes Terrestres CO — Conselho Orientador (IPES) COBAL — Compan Brasileira de Ali- mentos COCAP — Comité de Coordenasio da Alianga para o Progresso CODEPAR Companhia de Desenvolvi- mento do Parand CODERN — Companhia de Desenvolvi- mento do Rio Grande do Norte COHAB — Companhia de Habitasio Po pular da Gusnabara COMAP — Comité da Aliangs para o Progresso CON — Conselho Orientador Nacional (IPES) CONCIN — Consctho de Coordenasio In- terdepartamental (FIESP, CIESP) CONCLAP — Consetho Nacional de Clas- ses Produtoras CONESP — Companhia de Construgdes Escolares do Estado de Sio Paulo CONSIR — Comissio Nacional para & Sindicalizagéo Rural CONSPLAN — Conselho Consultive do Plancjamento CONSULTEC — Companhia Sul-Ameri- Cana de Administragiio © Estudos Técnicos CONTAC — Confedersgio Nacional dos Trabathadores na Agricultura CONTCP ~ Confederagiio Nacional dos Trabathadores em ComunicagSes ¢ Publi- cidade CONTEC — Confederagio Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Crédito CONTEL — Consetho Nacional de Tele- comunicesbes COS — Centro de Orientacho Social COSIBA — Companhia Siderirgica de Bahia COSIGUA — Companhia SiderGrgica do Guanabara COSIPA — Companhia Sidertirgica Pau- HA — Conselho de Politien Alfandegéria CPDSP — Ceniro de Pesquisa ¢ Do- cumentagio Soctal ¢ Polltica CPI — Comissio Parlamentar de Inqué- rilo CRB — Confederagio Rural Brasileira (CNA apés 1966) CREIA — Corteira de Crédito Industrial ¢ Agricola CRF — Cruzada do Rosirio em Familia CSAB — Curso Superior de Atualidades Brasileiras CSG — Curso Superior de Guerra CSN — Consetho de Seguranca Nacional CTB — Companhia Telefdnica Brasileira CTB — Confederagio dos Trabalhadores do. Brasit CTESP — Conselho Técnico de Econo mia, Sociologia ¢ Politica (FCESP) CURSEF — Curso Superior de Estudos Financeiros VRD — Companhia Vale do Rio Doce DA — Diretério Académico DASP — Departamento Administrative do Setvigo Puiblico DNEF — Departamento Nacional de Es- tradas de Ferro DOPS — Departamento de Ordem Polf- tica € Social EBASCO — Electricity Bond & Share Co. ECEME — Escola de Comando e Estado- Major do Exéreito ECLA — Economic Commission for La- tin America (CEPAL) EFL — Escola de Formafo de Lideres ELD — Escola de Lideranga Democratica ELO — Escola de Lideres Operdrios EMFA — EstadoMaior das Forgas Ar- modas EPEA — Escritério de Planejamento Eco némico © Soc ESG — Escola Superior de Guerra FACUR — Frateena Amizade Cristi Un bona ¢ Rural FAP — Fundacdo Alianca para 0 Pro gresso FAREMG — Federagio das Associngdes Rurais do Estedo de Minas Gerais FARESP — Federagio das Associngdes Ruralis do Estado de So Paulo FARSUL — Federagfio dus Associngées Rurals do Rio Grande do Sul FAS — Fundo de Acho Social (organiza. 80 unticomunista de Sio Paulo criada Per empresirios associados a multinacio- als FCESP — Federagio de Coméreio do Es tado de Sio Paulo FCO — Federagio dos Circulos Operarios FCOF — Federagio dos Circulos Opera rios Fluminenses FEBRASP — Federagdo Brasileira de Pro- paganda FGTS — Fundo de Garantia de Tempo de Ser FGY — Fundacao Getilio Vargas FIEGA — Federacao das Industrias do Estado da Guanabara FIESP — Federagao das Industrias do Es: tado de Sao Paulo FINAME — Agéncia Especial de Finan: ciamento Industrial FID — Frente da Juventude Demoeritica FMP — Frente de Mobilizagao Popular FPN — Frente Parlamentar Nacionalisia FSR — Federagao dos Sindicatos Rurais FUNDECE — Fundo de Democratizagio do Capital das Empresas GAP — Grupo de Agio Parlamentar GAP — Grupo de Atuacao Patriética GEA — Grupo de Estudos ¢ Acio GEC — Grupo Especial de Conjuntura ($0 Paulo) GED — Grupo de Estudo e Doutrina GEEAT — Grupo Executivo de Ensino ¢ igoamento Técnico Grupo Executive da Industria Automobilistica GEIMAPE — Grupo Executive da Indds- tria Mecanica GEMF — Grupo Executive de Exporta- $30 de Minério de Ferro GES — Grupo de Educacio Seletiva GLC — Grupo de Levantamento da Con- juntura GOP — Grupo de Opiniio Publica GPE — Grupo de Publicacdes/Editorial GPMI — Grupo Permanente de Mobiliza §0 Industrial GTA — Grupo de Trabalho ¢ Agio IADB — Interamerican Development Bank IBRA — Instituto Brasileiro de Reforma Agraria IBC — Instituto Brasileiro do Café IBRD — Interamerican Bank for Recons- truction and Development (BIRD) IBRE — Instituto Brasileiro de Economia 1CS — Instituto de Cigncias Sociais (Univ. Federal do Rio de Janciro) ICT — Institulo Cultural do Trabalho ICFTU — International Confederation of Free Trade Unions IDB — Instituto Demoeritico Brasileiro 17 IDF — International Development Foun- dation IEPS — Instituto de Estudos Publicos ¢ Sociais — Iniernational Finance Corporetion — Instituto de Formacao Social = oo ¢ Reforma INDA — Instituto Nacional de Desenvol- INPS — Instituto Nacional dc Previdéncia Social iE — Instituto de Pesquisas Econémicas nstituto de Planejamento Eco- toene Social IPES — Instituto de Pesquisas ¢ Estudos Sociais IPESUL — IPES do Rio Grande do Sul IPM — Inquéritos Policiais Militares ISEB — Instituto Superior de Estudos Brasileiros ITS — International Trade Secretariats lucsP Instituto Universitario de Citn- cias Politicas JUL — io Universitario do Livro JEC — Juventude Estudantil Catélica JOC — Juventude Operdria Catdlica [UC — Juventude Universitéria Catélica LAIC — Latin America Info: ion Com mittee LCCC — Liga Crist contra 0 Comunismo LDS — Legiio de Defesa Social Le-Ex — Forma abreviada de se referir ao documento “Lealdade 20 Exército” re- LIDER — Ligs Democritica Radical LIL — Liga Independente para Liber tisioe — Liga da Mulher pela Democrs- Mac — Movimento Anticomunista nee — Movimento de Arregimentagio nina Mar Military Assistance Program MASTER — Movimento dos Agricultores sem Terra MDB — Movimento Democritico Brasi- ro MDM — Mobilizegéo Democrética Mi- neira MEB — pores de Educagao de Base MEC — Ministério da Educacao ¢ Cultura MECOR — Ministério para Coordenagio. Regional am — Movimento Estudantil Democré- ico MFC — Movimento Familiar Cristéo MOBRAL — Movimento Brasileiro de Al- fabetizagio MOS — Movimento de Orientacéo Sit tags0 Sind}. 18 MPIQ — Movimento Popular Jinic Qua dros MRS — Movimento Renovador Sindicel MSD — Movimento Sindical Democritico MTR — Movimento Trabslhista Renove- dor (lacgio de direita do PTB) MUD — Movimento Universitério de Des- fayclamento MUT — Movimento de Unifieasio dos Trabalhadores NSF — National Security Files OAS — Organizasio dos Estados Ameri- canos Opus Dei — organiza cat6- Be somtsclial © Ceaisoalann tasads em 1928 pelo padre espanhol Josemeria Baloguer Escriva de Organizagdo Paranaense Antico- ORIT — Organizacién Regional Intcra- mericana de Trabajadores PAEG — Plano de Acéo Econdmica do Governo PAM — Programa de Assisténcia Militar PCB — Partido Comunssta Brasileiro PDC — Partido Democrata Cristio PL — Partido Libertador PR — Partido Republicano PRP — Partido de Representacio Popu- lar (de Piinio Salgado, ex-lider integra- lista) PSB — Partido Socialista Brasileiro PSD — Partido Social Demoeritico PSP — Partido Social Pr PTB — Partido Trabalhista Brasileiro PTN — Partido Trabalhista Necional PTT! — Post, Telegraph and Telephone International PUA — Pacto de Unidade ¢ Agio PUC — Pontificia Universidade Catélica REDETRAL — Resisténcia Democritica dos Trabslhadores RFF — Rede Ferrovidria Federal RI — Regimento de Infantaria SAR — Servigo de Assisténcia Rural SEI — Sociedade de Estudos Interameri- cana . SENAC — Servico Nacional de Aprend? zagem Comercial SENA] — Servigo Nacional de Aprendi- zagem Industrial SERFHAU — Servico Federal de Habita- gio ¢ Urbanizagio SESC — Servigo Social do Comércio SES! — Servigo Social da IndGstria SFICI — Servigo Federal de InformagSes € Contra-Informagées SNI — Servigo Nacional de Informagées SORPE — Servigo de Orientagio Rural de Pernambuco SRB — Sociedade Rural Brasileira SUDAM — Superintendéncia de Desen volvimento da Amaz6nia SUDENE — Superintendéncia de Desen- yolvimento do Nordeste SUMOC — Superintendéncia da Mocda ¢ do Crédito SUNAB — Superintendéncia Nacional de Abastecimento: SUPRA — Superintendéncia da Reforma Agriria, UBES — Uniao Brasileira de Estudantes Secundarios UCF — Unido Civica Feminina UDN — Uniio Democritica Nacional ULTAB — Unilio dos Lavradores e Tra- balhadores Agricolas do Brasil Ou — Unido Metropolitana de Estudan- GNAF — Unido Nacional de AssociagGes Femininas UNE — Unido Nacional dos Estudantes Ee — Unio Paulista de Estudantes Se- USAID — United Sues Agency for In- ternational De’ USIAC — United "States Interamerican ‘Council LISTA DE TABELAS Tabcla | — Classificacdo por valor de ca- pital dos grupos bilionirios, Tabela 2 — Distribuicao por montante de capital © nacionalidade dos grupos nacio ais © multinacionais, 52 ‘Tabela 3 — Distribuieao dos grupos segun- do o setor de atividade e nacionalidade, 53 Tabela 4 — Distribuigio dos grupos mul- jondrios por ramo de alividade princi- a4 Pi Tabela 5 — Distribuicio dos grupos nacio nais € multinacionais por setor de produ- go, 54 Tabcla 6 — Relacionamento entre o néme- ro de empresas € o volume de capital dos grupos multibilionarics, 55 Tabela 7 — Grau de controle do mercado te grupos multinacionais multibilionirios, Tabela 8 — Oligopdlio nw industria meta: Irgica de Sio Paulo, 56 Tabela 9 — Civis © militares nos cursos da ESG, 81 Tabela 10 — Percentagens de votes obti- dos pelos partidos mais importantes em trés eleigdes 90 legislative no periodo de 1945 a 1962, 139 Tabela 11 — Distribuigdo do eleitorado em 1962. 154 Tabela 12 — Variagdes mo indice do custo de vida do Rio de Janeiro e de S30 Paulo entre 1954 © 1962, 158 19 CAPITULO I A FORMACAO DO POPULISMO Até 1930, o Estado brasileiro foi liderado por uma oligarquia’ agro-comercial, na qual predominavam as elites rurais do nordeste, os plantadores de café de Sao Paulo e os interesses comerciais exportadores? Essa oligarquia formou um bloco de poder® de interesses agrérios, agro- exportadores € interesses comerciais importadores dentro de um contexto neo- colonial, bloco este que foi marcado pelas deformidades de uma classe que era a0 mesmo tempo ‘‘cliente-dominante”’ Foi sob a tuiela politica e ideolégica desse bloco de poder oligirquico e também sob a influéncia da supremacia comercial britanica nos iltimos vinte e cinco anos do século XIX que se formou a burguesia industrial,® Durante a década de vinte, novos centros econémicos regionais foram con- solidados sob novas bases econdmicas como, por exemplo, um Rio Grande do Sul agrério e um Rio de Janeiro e S30 Paulo industriais. O sistema bancério, que havia em grande parte se desenyolvido a partir de interesses agrdrios, concen- trou-se principalmente em Siio Paulo, Rio de Janeiro ¢ Minas Gerais. Essas mu- dangas econédmicas forzaram um deslocamento do poder politico agrério ¢ co- mercial do nordeste para a regido sudeste do pais e das tradicionais elites agrérias para novos gtupos urbanos.* Essas mudancas abriram caminho para o surgimento de figuras politics como as de Getilio Vargas, Joao Daudt d’Oliveira, Oswaldo Aranha (Rio Grande do Sul), Vicente Galliez, Valentim Bougas, Ary Frederico Torres (Rio de Janeiro), Roberto Simonsen, Teodoro Quartim Barbosa (Sao Paulo) e Evaldo Lédi (Minas Gerais), empresérios ¢ politicos que marcaram uma era? A urbanizago e 0 desenvolvimento industrial exerceram efeitos desorga- nizadores sobre a frégil estrutura do estado oligarquico. No final da década de vinte, através de um delicado acordo entre os governos estaduais de Sio Paulo ¢ Minas Gerais (acordo este conhecido como “politica café com leite”, uma modalidade de “Bonapartismo civil’ que deu nome 20 perfodo), 0 bloco de poder oligirquico tentou opor-se ao desafio da burguesia ¢ vencer a crise da oligarquia e dos setores cafeeiros em particular. A crise do dominio oligdrquico permitiu que pressdes cada vez maiores fossem exercidas pela fracdo industrial, apolada por outros grupos socinis, principalmente pelas classes médias. A fragio industrial formou um bloco burgués que lutou por redefinir as relagées de poder dentro do Estado brasileiro, tarefa esta que foi facilitada por pressdes sofridas pela economin oligérquica em conseqiiéncia da crise capitalista de 1929" 2 A burguesia emergente, porém, no destruiu, nem polftica nem economice- mente, as antigas classes agrérias dominantes para impor sua presenga no Estado; pelo contririo, aceitou em grande parte os valores tradicionais da elite rural. E irrelevante para efeitos da presente anilise saber se isso aconteceu por nfo ter a burguesia forga politica ou econdémica suficiente para destruir os baluartes politicos ¢ a estrutura s6cio-econdmica da oligerquia, ou se foi por ndo querer ou néo precisar fazélo. © importante € que a burguesia industrial conseguiu identidade politica face ao bloco oligarquico e, 20 mesmo tempo, estabeleceu um novo “compromisso de classe” no poder com os interesses agrarios, particular. mente com os selores agro-exportadores, E precisamente através dessa dupla agiio que o aparecimento € consolidagdo da burguesia devem ser entendidos, pois sua ligago umbilical com a oligarquia teria importantes conseqiiéncias hisiéricas, ando o chamado “estado de compromisso"™ institucionalizado pela cons- tituisZo de 1934. O govemo de Gettlio Vargas teve entio de se movimentar dentro de uma complicada trama de conciliagdes efmeras entre interesses con Aitantes. Nenhum dos grupos participantes dos mecanismos de poder — as classes médias, os setores agro-exportadores, a industria ¢ os interesses bancérios — foi capaz de estabelecer sua hegemonia politica e de representar seus interesses par- ticulares como sendo os interesses gerais da nacao,’* O equilibrio instavel entre os grupos dominsntes ¢, mais ainda, a incapacidade de qualquer desses grupos de assumir 0 controle do Estado em beneficio préprio e, 20 mesmo tempo, repre- sentar 0 conjunto dos interesses econémicos privados, constitufram elementos tipicos da politica da década, expressando precisamente a crise da hegemonia politica oligdrquica, a qual foi marcada pela revolugéo de 1930. Apesar de a indtistria ¢ de os interesses agro-cxportadores haverem este- belecido um “estado de compromisso”, eles tiveram uma coexisténcia dificil e o periodo foi marcado por crises continuas a partir de 1932, 0 que levou ao est belecimento do Estado Novo em 1937." Para a burguesia industrial, que estava ‘entdo afirmando o seu poderio econémico, eram inaceitéveis as dissidéncias das classes dominantes articuladas politicamente no seu interior, tais como se mani- festaram na revolucio de 1932 ou no_movimento fascista (integralismo) da metade da década de trinta e que impregnou a ideologia nacionalista daquele perfodo. Além disso, reag6es organizadas por parte das classes subordinadas como, por exemplo, o levante comunista de 1935, a formagao de uma Frente Naciona- lista Negra’ em meados da década de trinta, ou a criagao da Alianca Nacional Libertadors'* tinham de ser reprimidas. Os industriais perceberam que precisavam ideranga forte para conseguir disciplinar o esforco nacional e para impor € administra sacificios regionals € de classe apropriados para a consolidagio da sociedade industri: O “estado de compromisso”, forjado no processo s6cio-pol{tico do inicio da década de trinta, foi entéo remodelado a partir des experiéncias de um novo Estado traduzido pelas formas corporativistas de associacdo" e apoiado por formas autoritdrias de dominio."* © Estado Novo surgiu porque 9 burguesia industrial Se mostrou incapaz de liderar os componentes oligérquicos do “estado de com- promisso” ou para impor-se 4 na¢ao através de meios consensuais, de maneira a Criar uma infra-estrutura s6cio-ccondmica para o desenvolvimento industrial.”° O Estado Novo gorantiu a supremacia econémica da burguesia industrial e moldou as bases de um bloco histérica*' burgués, concentrando as energias nacionais ¢ mobitizando recursos legitimados por nogdes militares de ordem nacional ¢ de 22 progresso,7? cujos interesses pela industrializagao mutuamente reforgavam os interesses dos industriais. Sob a égide do Estado Novo, industriais e proprietérios de terra tornaram-se aliados. Contudo, a convergéncia de interesses nao se dis- solveu em identidade de interesses.** Conflitos € tensdes marcaram o seu relacio- namento, e foi esse elemento de competigio métua que tornou possivel, e até mesmo necessério, que o aparelho burocratico-militar do Estado Novo tivesse um papel de intermedisrio,™ © que favoreceu uma interferéncia continua das Forgas de politica da na¢o. A intervencao do aparelho burocratico-militar a assegurava a coesiio do sistema, ao mesmo tempo em que se tornava um fator de ,perturbacdo nas tentativas de uma institucionalizecao po- litica a longo prazo.* A interdependéncia dos setores industrial e agrério foi marcada por quatro fendmenos. Primeiramente, a demanda dos produtos industriais originou-se em parte dos setores agro-exportadores, Em segundo lugar, os insumos necessérios a industrializacao foram comprados, em sua grande maioria, de centros estran- geiros, com receitas obtidas com exportagées. Em terceiro lugar, os setores agré- Tios eram produtores de matéria-prima para a incipiente indtstria local, assim como para empresas agroindustriais em desenvolvimento. E, por fim, houve um certo grau de interpenetracgo entre os setores agrario e industrial, resultante de Jacos familiares ou através de empresas interligadas, E importante notar que o bloco de poder empresarial operava no espago econdmico e politico aberto pelo declinio dos interesses comerciais e industriais britanicos face aos rivais interesses americanos e alemges. Esse empenho de industrializagao foi fortalecido pela re- lativa marginalizacao de interesses estrangeiros devido aos anos da depressio & ao conseqiiente envolyimento de tais interesses industriais no esforgo bélico da Segunda Guerra Mundial® A industrializacZo teve entZo um cardter especifico de “substituigiio de importagdes”, Sob a égide do Estado Novo teve inicio 0 primeiro estégio da nacionalizagao formal da economia com a criacéo de empresas estatais, autarquias mistas ¢ 0 estabelecimento do controle nacional sobre certas areas de produgSo estratégicas, como mineragio, ago ¢ petrOleo. O Estado tornow-se um importante produtor de bens ¢ servigos de infra-estrutura ¢ abriu caminho para o desenvolvimento indus- trial privado do Brasil?’ O Estado auxiliou também o capital indusirial com a criagio de uma série de mecanismés destinados a reorg: a economia, dando prioridade ao processo de expansio capitalista e transferindo recursos de outras fireas para a inddstria®? A industrializagao foi também estimulada pela vital transformagio do consumo niio-produtivo dos proprietérios de terra, através do pais, em capital de giro para os centros industriais2* Isso foi alcancado através da estrutura bancéria, que se expandiu enormemente no inicio da década de qua- renta e que se ligou em parte aos setores agrarios e @ industria através de lagos comerciais ¢ familiares, reforgando assim a interdependéncia entre a oligarquia e a indistria. . A reestruturagao do sistema politico durante 0 Estado Novo envolveu novas formas de articulagao e dominio de classe.* O pensamento corporativista, que entendia a formacao sécio-econémica como uma rede de grupos econémicos politicos “funcionais” resultantes de uma divisdo de trabalho necesséria ¢ até mesmo “natural”, influenciou cnormemente a ideologia ¢ agio do bloco de poder industrial-financeito dominante.* Tal bloco redefiniu os canais de acesso 80 centro de poder, através do estabelecimento de uma série de mecanismos para a 23 formulagio de diretrizes politicas ¢ de tomada de decisio, Essa série de mecanis- mos equivalia na realidade a uma "mobilizagio de bias” institucionaliznda contra 05 interesses agrdrios substituidos.? A industria expressava suas demandas sem intermediagéo politica, introduzindo-se diretamente no aparelho estatal.¥ O Exe- cutivo tornou-se um foco dos interesses que visavam a industrializagio, aberto ds demandas da Confederagio Nacional da Industria ¢ da Confederagdo Nacional do Comércio,® a0 passo que os interesses agririos, tendo perdido sua posigio privilegiada, conseguiam se comunicar com o aparelho do Estado através dos Institutos, conselhos de representacio dos produtores rurais.* Foi criado um Conselho Nacional de Economia onde os industriais foram os primeiros, e até 1946 Os Gnicos, grupos ccupacionais a tirar vantagem das oportunidades corpora- tivistas.”” Estado Novo também estimulou um processo “ni ial” de formulagio de diretrizes politicas, na tentativa de subordinar as liderangas regionais e intro- duzir reformas administrativas, objetivando modemnizar o aparelho estatal e con- trolar © capital estrangeiro em favor de empreendimentos locais.* Mais ainda, o Executive lancou-se a uma reformulagio drdstica da burocracia estatal criando o DASP. Departamento Administrative do Servigo Publico. Além de sua importin- cia no proceso de modernizag3o € centralizagao da administragéo publica, a criagdo do DASP teve duas outras consequéncias. Ele afetava a pratica do clien- telismo ¢ do patronato, tirando a burocracia do controle da olf Contro- lando s burocracis o DASP transferiu efetivamente, mas nio de mancira exclusiva, a pritica do patronato para o governo central, dando margem a burguesia indus- trial de langar mao de priticas paternslistas ¢ cartoriais.” © papel do Estado Novo na industrializagao permitiu e propiciou a partici- pacio de profissionais das classes médias ¢ de militares, juntamente com os pro Prict empresérios, no aparclho administrative do Estado.” A participagio dos ilitares realcou o discurso “nacionalista” que foi identificado com o desenvol- vimento industrial privado da nacéo.*' Contudo, apesar da importincia da “so- ‘a burocracia ¢ Os militares ¢ 4 convergéncia 0 desenvolvimento industrial foi guindo por dirctrizes politicas tragadas pelo bloco industrial-financeiro do centro- sul do pais Em nome de defess da “paz social’, o Estado Novo intervinha também na “regulamentigéo” da forca de trabalho utravés da promulgagio de "leis tra balhistas”, cumprindo assim um requisite bésico no proceso de acumulacio. O estabelecimento de um salério minimo em 1939 permitiu um nivelamento de sa- Mario para a forge de trebalho urbana pelo grau mais baixo possivel da escala, isto é, a nivel de subsisténcis, Dada a relativa escussez de mio-de-obra qualificada ¢ semiqualificada, o estabclecimento de um saldrio minimo impediu que as forcas de mercado estabelecessem saldrios de equilibrio a niveis mais ultos, o que ten- detia a inibir uma expanséo mais facil de industrializagéo capitulistu."* Tal poll- tica apresentava ainda dois beneficios significativos quanto & acumulugdo capi- talista: primeiramente, so determiner op sslérios institucionalmente, essa politica permitia um célculo econdmico efetivo, enquanto o aumento de produtividade niio eta incorporado ao aumento dos saldrioy. Em segundo lugar, um efeito im- portante da imposicéo de um salério minimo foi « cooptagdo das classes traba- Shudoras, mostrando assim a “face admissivel do corporativismo”. O Estado entio 24 fol projetado ¢ percebido como protetor dos pobres, tendo a frente a figura pa- ternalista de Getélio Varga: Ao se aproximar o fim da Segunda Guerra Mundial, mudangas substanciais ocorreram. A agitagio nas classes trabalhadoras, oriunda de condiges mise- réveis de vida, atingia seu ponto maximo em meados da década de quarenta, apesar da existéncia de sindicatos controlados, que haviam canalizado durante anos as reivindicagdes da classe, Novos e independentes sindicatos foram criados nos Estados mais industrializados do pais, flanqueando a estrutura de controle do Ministro do Trabalho ¢ Justiga, Alexandre Marcondes Filho. Sindicatos na- cionais vieram a tona como, por exemplo, o Movimento de Unificacao dos Tra balhadores ¢ a Confederagao dos Trabalhadores do Brasil (CTB), criada em 1944, fa precdria “sociedade civil'® de meados da década de quarenta, o ressurgimen! da esquerda, que havin sido atingida violentamente pelo Estado Novo, e, cularmente, o crescimento do Partido Comunista junto a organizacdes inc das classes trabalhadoras pareciam & burguesia uma séria ameaca fora de seu controle, Foi nesse clima de incerteza que as associagdes empresariais convocaram convengdes € congressos nacionais, a fim de repensar o seu papel no periodo pés- guerra, O mais importante desses foi a Primeira Conferéncia das Classes Produtoras do Brasil, realizada em Teres6polis em maio de 1945. A conferéncia foi convo- cada pela Federagio de Associagées Comerciais do Brasil ¢ pela Confederacao Nacional da Indistria, e foi presidida por Roberto Simonsen. Cerca de seiscentas associages rurais, comerciais ¢ industrinis de todos os Estados do pais estiveram presentes A conferéncia, Apés cinco dias de reunides, uma Carta Econémica foi apresentada, a qual cautelosamente proclamava o desejo dos participantes de se unirem na construgdo de uma nova ordem social. A “Declarago de Principios” dos empresérios baseava-se na associaco de liberdade e empresa privada, carac- terizada por “‘preceitos de justica” e “limitasdes inevitiveis impostas pelos inte- resses fundamentais da vida nacional”, e para cuja realizagio a burguesia reco- nheceria como necessério um certo grau de interferéncia do Estado. Além disso, a resolugio nferéncia conclamava a um “desenvolvimento harmonioso de todas as regides”, a uma garantia para homens da cidade e do campo, de um salirio que Ihes permitisse “viver com dignidade”, a “necessidade de planejamento econdmico” e a recomendagéo de que o Estado tivesse papel mais ativo na preservacio do meio ambiente, no desenvolvimento da agricultura, na produgéo de energia ¢ expansio dos transportes, no protecionismo alfandegario, no desen- volvimento de indistrias bésicas, no impedimento da formacao de cartéis, no controle da importacio e, sobretudo, no estimulo a investimentos estrangeiros que, 20 término do esforgo de guerra, haviam oportunamente renovado sua participagZo na economia brasileira’? em fins da década de quarenta, E necessério que alguns comentarios sejam feitos sobre 2 chamada burguesia “nacional”, que tanto havia se desenvolvido sob a égide do Estado Novo. De acotdo com a crenga intelectual popularizada, assumida pelo Partido Comuniste ¢ abragada mais tarde por intelectuais nacionalistas, principalmente os do Insti- tuto Superior de Estudos Brasilciros, ISEB," havia “‘duas burguesias.” Uma era considerada entreguista, diretamente ligada a capital transnacional, e 2 outra nacionalista, oposta A agiio de interesses estrangeiros. A burguesia “nacionalista” era procurada politicamente ¢ considerada, teoricamente, pelos intelectuais nacio- nalistas como aliada em potencial, se nao de fate, das classes trabalhadoras ¢ dos setores das classes médias que se opunham ao imperialismo, em razBo do que se 25 esperava fossem as diretrizes pollticas dos industrials de reforcar os centros locais de tomada de decisao, e de sua alegada viséo do Estado como instrumento de oposigao A penetragao estrangeira. Os intelectuais nacionalistas atribuiam tam- bém a esses setores “nacionais" industriais e financeiros “objetivos progressistas”. Em particular, acreditava-se que os sctores industriais estivessem interessados em alguma forma de desenvolvimento nacional redistributivo e em spoiar uma atitude reformista contra estruturas agrérias arcaicas. Porém, a esperada confron- taco nacionalista-entreguista baseave-se em avaliagéo errada, falando-se em antagonismos estruturais onde somente existiam conflitos conjunturais. A burgue- sia industrial brasileira poderia ter mostrado uma dualidade de tendéncias em seu crescimento, sendo uma de associagao direta a interesses multinacionais ¢ a outra de ligacces indiretas para obter o know-how estrangeiro.” Mas a motive: gio da burguesia era uma s6, o capital. Na medida em que a burguesia brasileira se desenvolvia ¢, conseqiicntemente, a economia do pais, os industriais “nacionais" eram menos uma forca vital do Brasil do que agentes da integracéo do pais no sistema produtivo internacional dominante, isto é, 0 capitalismo. O “entreguismo” de um grupo ou de um setor da burguesia expés a sua relado conjuntural com um polo de influéncia transnacional especifico, a saber, a subordinagdo & nacio hegeménica, os Estados Unidos, mas ocultou 0 compromisso estrutural sistemé- tico da burguesia.” compromisso este que seria eritico. As premissas dos politicos nacionalistas e intelectuais sobre ume pretense posigéo nacional-reformista da burguesia “nacional” correspondiam mais a ideologia do nacional-populismo do que aos interesses dos industriais, A burguesia brasileira era, com toda certeza, nacional, apesar de nio ser necessariamente nacionalisia. Em sua convengao nacional de 1945 os empresdrios adotaram vérias de- mandas populares como seus slogans politicos obviamente dirigidos as classes médias ¢ trabalhadoras, refletindo o sentimento crescente entre as classes dominantes de que uma mudanca era esperada, pelo menos nos centros urbanos. Entre os slogans adotados estavam os apelos para a “uta contra a pobreza", 0 “aumento da renda nacional”, o “desenvolvimento das forgas produtoras", a “democracia econémica” e a “‘justiga social,"* Estava se tornando claro para as classes dominantes que novas formas de governo teriam de substituir as medidas coercitivas do Estado Novo. © descontentamento popular deveria ser esvaziado, absorvendo sua lideranca e tentando conseguir uma burocratizagiio de suas de- mandas através de instrumentos de repressio pacifica como aqueles fornecidos pelo Estado patrimonial e cartorial.* Além disso, a onda antifascita Irazia consigo uma reagéo das classes médias contra 0 autoritarismo do Estado Novo. Isso ficou particularmente claro no comportamento das Forgas Armadas. O governo brasileiro, que no periodo inicial da guerra oscilava entre a neutralidade ¢ uma posicio pré-Eixo, a0 mesmo tempo em que oficiais superiores como o General ‘Gées Monteiro © o General Eurico Gaspar Dutra manifestavam simpatia pela Alemanha, declarava-se a favor dos aliados enviando inclusive um contingente & Europa, a Forga Expedicionéria Brasileira — FEB, que participou da campanha na Itélia sob 0 comando dos americanos. O resultado dessa participagado foi uma nga estreita entre oficiais brasileiros ¢ americanos, quando uma série de smizades pessoais se formaram e persistiram, até mesmo intensificando-se nas duas décadas seguintes. Varios desses oficiais foram enviados aos Estados Unidos de onde voltaram com novas idéias sobre desenvolvimento industrial ¢ organiza: 80 politica do pals. Os oficiais, decididamente oposios a Getilio Vargas, a quem 26