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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."

O Arqueiro
GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17
anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor José Oly mpio,
publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon,
e Minha vida, de Charles Chaplin.
Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova
geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados
do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos
mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à Editora Sextante.
Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo
de ele ser lançado nos Estados Unidos. A aposta em ficção, que não era o foco
da Sextante, foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos
editoriais de todos os tempos.
Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo,
Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande
paixão.
Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais
acessíveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma

homenagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar mais além, mirar
nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o idealismo e a
esperança diante dos desafios e contratempos da vida.

.

1962Detalhe final [recurso eletrônico] / Harlan Coben [tradução de Ricardo . CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores. tradução: Ricardo Quintana preparo de originais: Lucas Bandeira revisão: Rafaella Lemos e Sheila Til projeto gráfico e diagramação: Valéria Teixeira capa: Raul Fernandes imagem de capa: Colin Hutton/ Trevillion Images adaptação para ebook: Marcelo Morais CIP-BRASIL. Harlan. RJ C586d Coben.Título original: The Final Detail Copy right © 1999 por Harlan Coben Copy right da tradução © 2015 por Editora Arqueiro Ltda. Todos os direitos reservados.

recurso digital Tradução de: The final detail Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 97885-8041-458-5 (recurso . São Paulo: Arqueiro.Quintana]. 2015.

br . II. Rua Funchal.editoraarqueiro. por Editora Arqueiro Ltda.111(73)-3 Todos os direitos reservados. Mistério Ficção. 538 – conjuntos 52 e 54 – Vila Olímpia 04551-060 – São Paulo – SP Tel. Livros eletrônicos. 2. no Brasil.eletrônico) 1. Ricardo.br www. Quintana. I.com.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818 E-mail: atendimento@editoraarqueiro. Ficção americana. 3. Título.com. 1526178 CDD: 813 CDU: 821.

de Revere.Para tia Evely n. Com muito. muito amor E em memória de Larry Gerson 1962-1998 Feche os olhos e poderá ainda ver seu sorriso .

Sim. Ele e Terese estavam naquele lugar paradisíaco fazia umas três semanas. muito particular. vindo em sua direção com um rastro branco na água azul. A única pessoa no raio de mais de 1 quilômetro era um empregado. Fazia três semanas que nenhuma embarcação (exceto transatlânticos gigantescos. calculava My ron. embora o lugar tivesse um nome: Saint Bacchanals. Privativo. O iate desligou o motor e chegou mais perto. My ron sentiu um aperto no coração. espremidas numa pequena faixa de areia. Só eles e mais outras duas mil pessoas. My ron balançou a cabeça. amigo de . Terese Collins baixou os óculos escuros e franziu o cenho. Apesar disso. População total: talvez trinta pessoas. Tinha na mão um drinque tropical enfeitado com um pequeno guarda-chuva e seus pés eram refrescados pela água transparente do Caribe. na verdade nem era tão primitiva. No meio da linha do horizonte. que reservava uma parte da ilha para que seus passageiros nadassem. Havia apenas uma casa. Porém o lado da ilha onde estavam era muito diferente. Ecstasy ou Orgasm) passava por aquela praia. mas não dá para tirar a televisão da cabeça do garoto. Não sabia onde estavam exatamente. – Não. Você pode até tirar o garoto da frente da televisão. Tratava-se de um microcosmo pertencente a uma dessas megaempresas de cruzeiros. que pertencia ao presidente da empresa de cruzeiros. A ilha parecia tão remota quanto aquela do seriado dos Birutas: sem telefone. Nem Terese. – Talvez seja John. Feito uma bacanal. fizessem churrasco e desfrutassem um dia num “recanto paradisíaco particular”. John era o já mencionado presidente da empresa de cruzeiros. imaginava ele. A areia era um pó branco ofuscante. pouca iluminação. sentia-se absolutamente infeliz. que possuíam nomes sutis como Sensation. Não se dera o trabalho de contar os dias. um misto de cabana com telhado de palha e sede de fazenda rica. Sem brincadeira. – Você contou para alguém que estamos aqui? – perguntou ela. nenhum carro e muito luxo – não tinha muito a ver com a ilha de Robinson Crusoé. os raios de sol suaves como uma massagem após um gole de conhaque.1 M Y RO N E STAVA E ST I RA D O A O SO L ao lado de uma morena deslumbrante que usava um biquíni infernal. o céu estava de um azul tão puro que só podia ter sido pintado por Deus. surgiu um iate. todas a serviço da empresa.

a decisão de fugir se mostrara surpreendentemente fácil. O pânico o deixou sem fôlego. Terese e My ron haviam se conhecido fazia pouco mais de três semanas. Mais 24 horas e ali estavam eles. – Não creio – disse My ron. sentiram-se imediatamente atraídos um pelo outro. Em resposta. Maarten. – Lindo como um deus – continuou Terese. – Aquele ali não é o herdeiro da LockHorne Seguros? – É.Terese. Desaparecer com alguém que você acha atraente e mal conhece. O caso começou como pouco mais que um desafio: abandonar tudo e fugir. A porta da cabine da frente se abriu e. country clube. Para My ron. O amigo não era o tipo de pessoa que fazia visitas casuais. um homem que havia dormido com um total de quatro mulheres em toda a sua vida. doze horas depois. Terese. – Espere um instante – disse Terese. que nunca tivera uma noite de sexo casual (nem na época em que isso era moda e não representava risco iminente à saúde) e que jamais tinha transado só pela sensação física. Os dois tinham se encontrado ao acaso em um evento beneficente a que foram apenas porque amigos os obrigaram. . Tem um nome comprido e pomposo. sem os entraves do amor e do compromisso. Não havia nem telefonado para Win. como ele temia. Não dissera a ninguém aonde ia nem por quanto tempo – sobretudo porque ele próprio não fazia a menor ideia. – Isso. Seus batimentos cardíacos se aceleraram. Estava ainda longe demais para gritar. a agência em que eram sócios. nascido com um taco de golfe de prata nas mãos. que era âncora de um programa do horário nobre na CNN. O iate se aproximou. Win balançou ligeiramente a cabeça. Tinha ligado para os pais e lhes dito que não se preocupassem – o equivalente a pedir que criassem guelras e aprendessem a respirar debaixo d’água. – Naquele estilo família rica e tradicional. Nenhum dos dois descartou a ideia e. – Windsor Horne Lockwood III – falou My ron. My ron se pôs de pé. Terese o observava: – Você sabe quem é. Como se a tristeza e o sofrimento mútuos fossem magnéticos. era porque algo não ia bem. My ron não disse nada. Win apareceu no convés. – Eu o entrevistei uma vez quando o mercado entrou em crise. Win passou a mão pelas madeixas louras e sorriu. Ela nem imaginava quanto. estava “de férias”. então optou por um aceno. Como se estivesse ouvindo. Se estava ali. Um cara bem peculiar. Enviara um fax a Esperanza passando-lhe uma procuração para gerir a MB Representações Esportivas. chegaram a St.

Ela pegou a mão de My ron. dormir e fazer sexo. O iate parou e lançou âncora.– Vocês têm algo em comum – observou My ron. Foi o primeiro momento de ternura entre eles em três semanas. sem escutar. Os dois trocaram amabilidades. exercitando-se e. lendo. de uma cor berrante o suficiente para espantar um tubarão. Win desceu num bote motorizado. mas sem nunca ter dado um beijo suave. Nem ela. Terese estudou o rosto de My ron: – Você vai voltar – falou ela. My ron permaneceu imóvel. Terese passava a maior parte dos dias fazendo longas caminhadas sozinha. My ron concordou com a cabeça: – Win não viria até aqui à toa. Win balançou a cabeça: – Estão bem. porém aquele relacionamento era do tipo esquecer e sobreviver: duas almas desesperadas caídas sobre escombros. Ficou inquieto. My ron esperou. fazendo sexo dia e noite. porém os braços eram fortes como se cobras de aço se enrolassem sob a pele. desde o evento beneficente. Educação. Ele pegou a mão de Terese e sorriu. – Meus pais? – perguntou My ron. Sorrisos falsos e comentários inúteis se sucederam. Terese se pôs de pé para receber Win. com um toque de apreensão na voz. deixavam-se a sós para – se não exatamente se recuperarem – evitar que os problemas viessem à cabeça. My ron conhecia poucos homens que conseguiam aquilo. Win pisou com cautela na água. My ron percebia que ela também estava destroçada. sem nenhum interesse em tentar reconstruir o que quer que fosse. ele. preparando-se. Tirando isso. que a admirou sem dar mostras. Vestia uma camisa branca de botões e short estampado. às vezes. Terese pediu licença e se dirigiu à casa. – O quê? – Os dois acham que ele é lindo como um deus. Encontravam-se para comer. trocando o pé de apoio. Tinha um porte mais para esbelto. Era como uma regra tácita daquela pequena loucura. O y uppie dono de iate. – Esperanza? Ligeira hesitação: – Está precisando da sua ajuda. Win desligou o motor. Quando o bote já estava perto o bastante da praia. Win a observou com atenção enquanto se afastava. Depois disse: . Porém nunca perguntara o que havia acontecido. sentado na praia. quase como se esperasse que ela suportasse seu peso. ter feito um carinho ou trocado palavras de afeto –. que alguma tragédia recente a atingira com força. Podia soar estranho – amantes sozinhos numa ilha.

. – Então. – Está se referindo a mim? – perguntou My ron.– Um derrière de primeira linha. – Aproveite e faça umas fotos durante o sexo. Os dois eram inseparáveis desde a faculdade. Win podia ser um sociopata aristocrático de sangue azul. digamos. – Você está certo – falou Win. – Ele balançou a cabeça. – Talvez ela devesse se levantar de vez em quando durante o programa. alvo: – Na televisão ela está sempre atrás daquela bancada – observou ele. Apenas se sentou numa espreguiçadeira. – Ninguém imaginaria que tem esse derrière fenomenal. – Hu-hum – fez Win. depois vamos. ainda assim. se abaixar. numa voz débil. – Otário. Win suspirou ligeiramente e se voltou para My ron: – O iate vai levar uma hora para reabastecer. Parecia estranho. Win permaneceu imóvel. sabe fazer isso com estilo. realmente. – Um desperdício. Win? Ele não respondeu. Dar umas voltinhas. – Vou dizer uma coisa. você conseguiria me encontrar. – Eu ia ligar para você – disse My ron. era mais ou menos humano. olhando para o outro lado. se houvesse algum problema. De certa forma. Era verdade. – Mas sabia que. alguma coisa assim. em fim de carreira. Win fez um gesto com a mão: – Deixe pra lá. – Não. Quando você resolve perder a linha. e My ron desaparecera sem dar sequer um telefonema. arriscando uma olhada rápida para o amigo. talvez um vídeo. – Não perdi a linha. entendi. – Otário. agora na reserva. Só precisava dar um tempo. – É mesmo! – retrucou My ron. De repente My ron percebeu tudo: devia ter magoado o amigo. mas provavelmente era isso. Posso me sentar? – O que aconteceu. qual é o problema com Esperanza? – Clu Haid. O primeiro cliente de My ron. Win manteve os olhos intensamente concentrados no. mas. um arremessador de beisebol. isso é para você ou algum astro do rock pervertido. O amigo era capaz de encontrar uma agulha num palheiro. qual é o problema com Esperanza? Terese havia desaparecido pela porta de casa. recostando-se. – Derrière de primeira linha? – Então. Pôs as mãos atrás da cabeça e pousou um tornozelo sobre o outro. Win não tinha ninguém além dele.

– Estão achando que Esperanza o matou? – Bom saber que essas férias não prejudicaram seus poderes de dedução – respondeu Win. – Mas o que Esperanza tem a ver com isso? O amigo olhou para o relógio: – Exatamente agora – respondeu – ela deve estar sendo presa pelo assassinato dele. – Então dê adeus à Sra. – Ela fez isso? – Não faço ideia. – Levou três tiros. Pelo contrário. My ron baixou a cabeça: – Achei que ele ia se endireitar. – Que prova eles têm? – A arma do crime. por exemplo. – Esperanza não mataria ninguém. Havia pensado que os acontecimentos recentes o ajudariam a entender melhor Win. Win fez um sinal em direção à casa. A experiência compartilhada estava cavando um verdadeiro abismo entre os dois. que. – Não entendo – disse My ron. Agora que My ron também passara por isso. Você tem protetor solar? – Mas como…? – My ron estudava o rosto do amigo. Manchas de sangue. Fibras. Odiava repetir. – O quê? Mais uma vez Win não disse nada. – Você tem certeza absoluta disso? My ron engoliu em seco. virando o rosto para o sol. Derrière e vamos embora. Win olhou de novo para o relógio: – Por que você não vai arrumar suas coisas? – Não há nada que eu precise levar. chegara a pensar que se estabeleceria um novo elo. Terese os observava em silêncio. . Diversas vezes. – O quê? – Também não quer falar com você. – Você perguntou a ela? – Esperanza não quer falar comigo. Deixou-se cair na espreguiçadeira. não revelava nada. como sempre. dentro da própria casa. My ron sentiu as pernas tremerem ligeiramente. que também já matara alguém.– Que tem ele? – Está morto – respondeu Win. Win não disse nada. mas não.

Outro soco bem dado e a luta acaba. – Por que não? My ron pensou naquilo um instante: – Você entende alguma coisa de boxe? Terese farejou o ar: – Estou reconhecendo o cheiro característico de uma metáfora esportiva? – Acho que sim – respondeu ele. Vamos nos sentir desconfortáveis demais. – E incorreta – acrescentou Terese. conseguimos ficar de pé outra vez. essa foi péssima! – É o calor do momento. – Não. – Vamos nos encontrar para um drinque. My ron foi o primeiro a tentar quebrá-lo: – Se você for a Nova York. – Isto tudo é como uma luta de boxe – começou My ron. fingir que estamos outra vez juntos. a visão continua turva. mas não será a mesma coisa. Mas só se pode fazer isso durante um tempo. – Quer ir junto? – perguntou ele. – Vá em frente. My ron. My ron não sabia exatamente o que dizer. temos que dar um soco. Optou por: – Obrigado. mas obrigada. – Sabemos o que vai acontecer – disse Terese. Melhor ficar driblando. talvez ir para a cama de novo.2 T E RE SE T I N H A V E ST I D O U M RO U P Ã O . No final. Não somos amantes. – Damos pulinhos. evitar sermos atingidos e rezar para chegarmos até o final. Nem sequer amigos. Não sei que diabo somos. blefamos. – Que tal assim: testamos a força do adversário e ela nos levou à lona. . me ligue e… – Certo. Silêncio. Ela fez uma careta: – Meu Deus. Difícil de contestar. sem nunca termos trocado sequer uma mensagem. Ela balançou a cabeça. Mas nossas pernas ainda estão bambas. nos abaixamos e tentamos manter o adversário longe. Inclinou-se contra a porta e esperou. Os dois ficaram em silêncio. De alguma forma. – Não pode ficar aqui a vida inteira.

vivia atrás de vinho. Não confiava em agentes – “todos estão a um passo da pedofilia”. Gostava daquilo. que a agarrou e subiu a bordo. braços cruzados. A embarcação partiu. Win estava de pé na praia. mas aceitara a proposta. Ou talvez ela fosse suficiente para ele. ele girava um tempo pelo mundo. Depois de tudo o que My ron fizera para . – Pegue – ofereceu Win. My ron ficou no convés. Um membro da tripulação ofereceu a mão a My ron. acrescentou: – Bem. – Você também. mulheres e música – sem mencionar qualquer droga em que pudesse pôr as mãos. My ron balançou a cabeça. Depois. – Me desculpe. As pequenas ondas produziram um som suave. Ele e Win tomaram o bote até o iate. My ron se virou. escuro e caro. Nunca conhecia alguém de que não gostasse. Era um cara grande. o corpo demonstrando uma paciência assustadora. Apoiava-se contra a amurada de madeira nobre. Sem nenhum constrangimento. tomou um gole longo e virou na direção do mar.Um pássaro piou. quase um canalha à moda antiga. Ela mandava o marido embora. era como os descrevia. além de tremendamente carismático. O voo deve durar umas quatro horas. – Oito horas de barco – respondeu Win. My ron. como um monge que fez muito sexo. O iate tomou velocidade. o nariz ou as veias. com uma beleza infantil e jeito amigável. Win ignorou a frase. você viveu praticamente como um monge – disse Win. ruivo. Os dois estavam fugindo do assunto realmente importante. Então pedira que My ron negociasse seus contratos. mas uma pessoa cativante. My ron sorriu: – Faz três semanas que não tomo um desses. sua bebida preferida. O amigo lhe passou um achocolatado. deixando o borrifo suave da água acariciar seu rosto. observando a praia diminuir. Clu parecia estar pegando mais leve. – As dores da abstinência – falou Win. Na época. – Sem TV e sem achocolatado. sacudiu o achocolatado. Todo mundo o adorava. a esposa sofredora. – Deve ter sido uma agonia. – Sim. Tudo naquele iate era nobre. olhando outra vez para a ilha. depois Bonnie o agarrava de volta. É um milagre que eu tenha sobrevivido. – Quanto tempo até chegar? – perguntou My ron. E a MB Representações Esportivas surgira logo em seguida. Pensou um instante em Clu Haid. Até Bonnie. – Um jato fretado está à nossa espera em Saint-Barth. – Seja feliz. O casamento era um bumerangue. Clu era irresponsável. My ron fechou os olhos. My ron ainda estava no primeiro ano de direito em Harvard.

My ron balançou a cabeça. mexendo o drinque e tomando um pouco. My ron. não foi culpa sua. depois podemos continuar: a vida é dura. – Mas em particular declarou que o teste foi manipulado. – Sério? – Da última vez. Que alguém tinha posto alguma coisa na sua comida ou algo assim. Sua bola rápida voltara a superar a incrível barreira dos 140 quilômetros por hora. Seus olhares se encontraram. Ficava em casa nas horas vagas. sim. a vida é puro acaso. mas da próxima vez vai se sair melhor. – Componha-se – disse Win. – Sentiu lágrimas nos olhos e limpou-as.livrá-lo de várias confusões – suspensões por uso de drogas. às vezes pessoas inocentes morrem. não. . A paz reinava no lar. Os Yankees compraram seu passe. quando um antidoping surpresa deu resultado positivo. acusações de dirigir embriagado e por aí afora –. você não estragou tudo. – Você não faz ideia de como terminou mal. porém o colocaram num rigoroso período de experiência. – Como você sabe disso? – Esperanza me contou. Win interrompeu seus pensamentos: – Quer saber o que aconteceu? – Não tenho certeza – respondeu My ron. – Então vamos passar para Clu Haid. Tudo isso mudou duas semanas atrás. My ron concordou e deu o gole final no achocolatado. a vida é cruel. – Vinha fazendo bons lançamentos. estraguei tudo. – My ron? Ele se virou para o amigo. todo mundo tem um limite e agora você sabe o seu. Posso parar? – Por favor. dando-lhe uma última chance de redenção. Você me avisou. My ron. Pela primeira vez Clu havia aceitado fazer reabilitação e vinha participando de reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Já morreu tanta gente por minha causa. às vezes pessoas boas são forçadas a fazer coisas más. – Para quê? – Heroína. – Tudo parecia ir bem para nosso velho amigo – falou Win. ele começara a engordar e chegara ao fim de seu reino encantado. – Escolha uma das alternativas. você estragou tudo. mas não quis escutar. My ron fez um barulho – metade soluço e metade risada: – Detesto quando você me mima. – Talvez prefira que eu acrescente alguma banalidade inútil – replicou Win. – Clu não se pronunciou para a mídia – continuou Win. Estava passando nos exames antidoping.

Provavelmente elas foram nos sapatos dele. Os clientes contratam você. Clu abordou Esperanza fora do escritório. Perdeu todos os contratos de publicidade. – No meu escritório? – Sim. Mas a agência é sua. talvez – repetiu Win. Emitiram não sei quantos mandados de busca e a arma do crime foi encontrada. My ron fechou os olhos. embora tenha conseguido me dizer que não me metesse na vida dela. Clu lhe deu um soco na boca. Mal podia falar. para ser mais exato. – Então pegaram Clu no exame. uma 9 milímetros. no escritório da MB. é claro que ele foi pedir ajuda ao agente. e toda vez Esperanza lhe dizia que você não estava disponível. – Não quero falar sobre o fiasco que é a MB Representações Esportivas no momento. Duras e em voz alta. Sem ter para onde ir. Silêncio. My ron balançou de novo a cabeça: – Isso foi plantado. Encontraram também fibras compatíveis com o carpete do apartamento de Clu. Muitos ficaram bastante insatisfeitos com o seu súbito desaparecimento. Os Yankees o renegaram. no seu escritório. talvez. – A polícia ficou sabendo do que tinha havido entre os dois. – Essas fibras não querem dizer nada. Segundo testemunhas. Parece que ela fez ameaças do tipo “você vai pagar. No estacionamento Kinney. Basta dizer que Esperanza e Big Cy ndi fizeram o melhor que conseguiram.– Ele a procurou? – Sim. O mau humor dele foi aumentando a cada visita. Clu fez várias visitas ao seu escritório. My ron deu de ombros. Clu foi encontrado morto no apartamento que alugava em Fort Lee – continuou Win. My ron. – Sim. de tarde. – Sim. – No outro dia. My ron balançou a cabeça. Trocaram algumas palavras. Acredito que teria sido ainda pior se Mario e outros funcionários do estacionamento não os tivessem separado. Aquilo não fazia sentido. seu brocha filho da puta” enquanto os apartavam. Estava com o rosto inchado. – Ah – fez My ron. Ele esteve no escritório antes. Bonnie o botou para fora. – Quatro dias atrás. A mídia ajudou a acabar com ele. Quando não passou no antidoping. Um dia iria se preocupar. – E ele foi imediatamente suspenso. . – O quê? – Vi Esperanza no dia seguinte. – Mas os vestígios de sangue na mala do carro da empresa são mais difíceis de explicar.

My ron pareceu intrigado: – Por que não? – Não tenho a menor ideia. – Sei muito bem disso. o carro atravessou a ponte Washington de volta a Nova York menos de uma hora depois do assassinato. Talvez ela quisesse se vingar. O apartamento fica a cerca de 3 quilômetros da ponte. – E a polícia confirmou que o sangue era de Clu? – Mesmo tipo sanguíneo. Win não disse nada. – E também tinha a briga no estacionamento. – Tais como? – Esperanza tinha se tornado sócia da MB Representações Esportivas fazia pouco tempo. como sócia.My ron quase desabou: – Sangue no Taurus? – Sim. Lembrou-se de Esperanza. – E? – Ela me disse que tinha a situação sob controle – respondeu Win. E. . depois de se formar em direito. como eu disse. – Sim. O cliente mais antigo da empresa estava prestes a ir embora. Segundo os registros do pedágio. – Mas você perguntou a ela sobre as acusações? – Perguntei. My ron não conseguia acreditar no que estava ouvindo. ele foi morto em Fort Lee. – E que não entrasse em contato com você. – Que motivo ela teria? – perguntou My ron. – A polícia ainda não encontrou um que seja sólido o bastante. – Esperanza usou o carro? – Nesse mesmo dia. O exame de DNA vai levar umas semanas. Ela não queria falar com você. – Mas sou o melhor amigo dela – disse My ron. – Isso é loucura. Quem sabe? – Você disse que ela não queria falar com você. Mas trabalham com várias hipóteses. My ron franziu o cenho: – Muito fraco esse motivo. Fazia séculos. Estava sozinha à frente dela. Talvez Clu a culpasse por todas as coisas ruins que estavam acontecendo com ele. Ela estava na MB Representações Esportivas desde o começo – primeiro como secretária e. aquela beleza hispânica que havia conhecido quando ela lutava profissionalmente sob o nome de Pequena Pocahontas.

não? My ron assentiu. – Que dia é hoje? – perguntou My ron. . – Big Cy ndi ainda trabalha como segurança no Couro e Luxúria. – Tentei ligar para ela. Acho que vai gostar. – Pode ter certeza. – Muito – concordou My ron. Win olhou para o sol: – Lindo. A ilha já desaparecera de vista. – Você já deve estar enjoado disso depois de tanto tempo. – Você tentou Big Cy ndi? – Ela está fazendo exatamente o que Esperanza pediu. – My ron? – O quê? – Você está choramingando outra vez. Não aguento chorões. – Alguma ideia? – perguntou Win. – Se eu não tivesse sumido… – começou My ron. My ron balançou a cabeça e se encostou na amurada de madeira. Permaneceu em silêncio. – E? – Ninguém atendeu. Não o surpreendia. – Terça. – Graças a Deus – disse Win. Pode ser que esteja lá. Em todas as direções.– Então por que pediria uma coisa dessas? Win achou que a pergunta era retórica. – Vamos lá para baixo. – Ela vai falar comigo – respondeu My ron. via-se apenas a agitação das águas tépidas e azuis do Atlântico. Os dois ficaram em silêncio. o barco balançando-os suavemente. – Durante o dia? My ron encolheu os ombros: – Perversão sexual não tem hora certa.

Se não fosse substancial o bastante. mas a última vez que vivera algo parecido tinha sido na Filadélfia. funcionou como uma câmara de descompressão emocional. Nada de comida saudável. somos os mocinhos. mas que cara! O efeito de tudo aquilo era mais que terapêutico. ao súbito ressurgimento no mundo real. Por quê. Comida de verdade. Cheetos. Odd Couple (quando Oscar e Félix participam de uma gincana na TV). – Afinal. Seinfield (Jerry e Elaine visitam os pais dele na Flórida). como que saída de um velho cabaré . Eles deviam ter 5 ou 6 anos quando a série foi ao ar. Win imitava um gato ronronando). Além da imaginação e.3 W I N H AV I A FE I T O U M E ST O Q U E de vídeos no iate. nenhum dos dois sabia. – Não sei mais – retrucou My ron. só suspiravam olhando para Julie Newmar (toda vez que ela aparecia na tela. com sua roupa preta justa. além de mais achocolatados e até uma pizza requentada da Calabria. – Não. Sua maldade talvez. de voz sussurrante. depois. amigo. – Questionável. – Essa sua crise moral é très inapropriada. havia Doritos. Win podia ser um sociopata. já que não podia fazer nada a respeito –. – Vamos salvá-la – disse Win. Eles assistiram a episódios antigos de Batman (com Julie Newmar como Mulher-Gato e Lesley Gore como uma de suas assistentes – um miau duplo!). O tempo passado no mar e. Os dois amigos mal falavam. para ter algo mais atual. em frente à TV. Sentia falta da sócia. – Tenha confiança. uma pizzaria da Livingstone Avenue. justamente com Win e Esperanza. a mesma careta de fundador da América que os antepassados dele devem ter feito quando chegaram no Mayflower. O barco atracou e eles se dirigiram ao jato particular. – Você devia saber a diferença. Win jogou o queixo para a frente. My ron tentou não pensar nela – era inútil e exaustivo. Esperanza teria alguma opinião interessante sobre isso. Uma loura vistosa. Assistir TV não era a mesma coisa sem seus comentários incessantes. Ou algo mais profundo. estava me referindo a sermos os mocinhos. mas algo em Julie Newmar como Mulher-Gato varria para longe qualquer noção freudiana de que o desenvolvimento sexual fazia uma pausa naquela fase. uma oportunidade para a alma de My ron ajustar-se à vida.

A mãe atendeu. Mas sem pingo. saudou-os na cabine do jato. Eles escutaram em silêncio. os dois possuíam o dom maravilhoso de saber a hora de recuar. Depois a mãe perguntou: – E de onde você está nos ligando? – Do avião de Win. Candi. Ela desenha um coração no lugar. – O quê? – Você sempre contrata aeromoças curvilíneas. Conseguiu explicar onde estivera. supôs My ron. Às vezes era bom ter amigos ricos. Win abriu o que parecia ser uma caixa de charutos e tirou um telefone. – Tente ser mais tolerante – disse Win. My ron olhou para Win. Acabei de dizer a vocês que ele . quem não gosta de ser amado assim? Os pais encetaram uma conversa sem sentido – intencionalmente sem sentido. Win franziu o cenho: – Por favor! Ela prefere ser chamada de comissária de bordo. – Ligue para os seus pais – disse ele. Quando alcançaram altitude de cruzeiro. pegou o telefone e ligou. depois decolaram. – Desculpe a minha estúpida falta de sensibilidade. não em Beirute. – Mãe… Ela começou a gritar. – Tawny ? – Quase. – Pai… O pai começou também a berrar. Win sorriu para ela. Ao mesmo tempo que podiam ser inoportunos. até conseguir chamar o marido. mas no fundo estava satisfeito. Depois. – Eu estava no Caribe – falou ele –. pertencente à companhia Lock-Horne.francês. Segurava o aparelho com um pouco de força excessiva. My ron ficou parado um instante. My ron se recostou. Concordou. – Interessante – disse My ron. Ouviu-se a voz do piloto pelo alto-falante. Por mais que alguém se queixe. Iate. My ron afastou o telefone do ouvido um instante. O pai de My ron pegou a extensão no andar de baixo. – Adivinhe o nome dela. e revirou os olhos. Ouviu os dois arfarem em conjunto: – O quê? – A empresa de Win tem um jato particular. que permaneceu impassível. Com i. Win podia ser mais canalha. que retribuiu. Cumprimentouos pelo nome. Uma explosão de gargalhadas dos dois. Uma gritaria em estéreo. mas era difícil imaginar como. Uma nova onda de culpa o atravessou e ele enrubesceu. Jato particular. Trouxe-lhes drinques em meio a risos e rebolados. mais gritos.

– Uma chuveirada? – Tem um chuveiro nos fundos – falou Win. – Eu não devia ter feito isso com eles – falou My ron. – Imagino que você vá ficar comigo – disse Win. – Você é um bom amigo. uma linguagem corporal expressiva. Quando acabou. e depois todos colocaram os cintos de segurança para a chegada. O avião desceu sem atraso. Eles assistiram sem falar nada. – Você faz ideia de quanto isso custa? – Mãe… A conversa sem sentido. Candi deu uma risadinha. Secaram-se um pouco. Desceram os degraus e entram na limusine. que os esperava de portas abertas. – Perdão? – disse ele. – Tomei também a liberdade de trazer uma muda de roupa para você. – Se não tiver nenhum problema. Win juntou as pontas dos dedos. acabou logo. Win se mexeu na cadeira – para ele. Candi perguntou a My ron se ele queria tomar uma chuveirada antes de aterrissarem. com Jessica. e um filme do Woody Allen começou a passar. – Posso voltar a morar com os meus pais… – Eu disse que não tem problema nenhum. trocou-se. Ficava bem nele. no entanto. Um néctar dos deuses para a mente. – Sem pressa – falou Win. apertou um botão. Sempre fazia isso. chamou-o de “bobinho” e saiu rebolando. segundos depois. My ron estivera morando num loft na Spring Street. – Não tem. Candi reapareceu rebolando. Abaixou uma tela. Uma limusine comprida estava esperando por eles na pista de asfalto escuro. Os pais já não eram jovens. o ar parecia estranho e desconhecido. My ron desligou e. numa aterrissagem tão perfeita que parecia coreografada pelo Temptations. Ele não tinha pensado naquilo antes de sumir. A última noite de Boris Grushenko. Chovia forte. A limusine deu partida. A culpa veio novamente. – Sou mesmo. – Vou encontrar um lugar para mim. como se estivessem vindo de outro planeta. banhando-o em algo gelado. mas isso fora antes. Não tinha pensado em várias coisas. não de outro país. bobinho. – Nem com você. Levou as mãos unidas aos lábios: . My ron tomou banho. relaxou na poltrona. Do lado de fora do avião.me pegou… – E você está falando do telefone dele? – Sim.

em que tiveram uma separação séria. – Pensei que não íamos falar nisso. pôs no viva-voz e digitou um número. fizeram tentativas. – É. – Um episódio chamado “Mamãe arrancou o piercing do meu mamilo” – disse Win. obrigado. Deve estar lá agora. – Dá para notar. My ron sorriu. isso. Pegou o telefone. – É bom saber que você está aprendendo a lidar com seu lado sensível. – Tudo bem. – Desculpe. continue – disse. As questões do coração não eram seu forte. Win estava tentando. Apenas um aceno rápido com a cabeça. se você quiser falar sobre Jessica ou Brenda. – Então. encontraram-se de novo. ou quem quer que seja… Ele separou os dedos e fez um gesto vago com a mão direita. pensou. – Sinto falta de Jessica – falou My ron. – Confesso que me fez chorar. – É só que… Acho que uma parte de mim vai ficar para sempre com ela. Após mais de uma década de idas e vindas com Jessica – anos que passou apaixonado pela mesma mulher. como se preferisse fazer um exame de toque anal a falar daquilo. – Não se preocupe com isso – disse My ron. Win se mexeu outra vez no banco: – Não. – Brian. estava tudo acabado. ouviram alguém atender: – Schwartz. Seus sentimentos sobre envolvimentos românticos podiam ser objetivamente rotulados de “apavorantes”. Após dois toques. My ron olhou para o amigo. então. – Mesmo assim. aqui é Win Lockwood. mas.– Não sou a melhor pessoa para falar desses assuntos – começou ele –. – Então corte o membro e deixe para lá. – Como se Win tivesse um. amadureceram e foram por fim morar juntos outra vez –. Win deu de ombros: – Tenho visto muitos talk shows nas horas vagas. Depois do costumeiro silêncio reverente comum a toda vez que alguém . Win balançou a cabeça: – Como um acidente de trabalho. o que vamos fazer? Win olhou para o relógio: – Tenho um contato na casa de detenção do Condado de Bergen.

esse tipo de coisa. que balançou a cabeça. – Soube do quê? – Ótimo. Brian? . ela entrava no ringue com aquele biquíni mínimo. sabia. Provavelmente antes do jornal das onze. Como disse. Não teria ficado sabendo disso se não fosse um grande fã. – Não muito. de camurça. – Obrigado pela imagem – retrucou Win. – Quando ela vai ser levada a juízo? – Amanhã de manhã. ela está aqui. a princesa índia? Win olhou para My ron. eu logo a reconheci da época em que era lutadora. – Por que na encolha? – Não sei. – Grande fã? – De luta livre. Algemada. – Pequena Pocahontas era a minha favorita. Isso não era nada bom. – Esperanza Diaz. Olha. acho. Top de linha. Brian. Ela está aí? Breve pausa. não tinha para nenhuma. Mas vai. ela era muito gostosa. Juro por Deus. e começava a se agarrar com as outras garotas. os dois amigos se entreolharam. Declaração rápida. Você sabia que Esperanza Diaz era a Pequena Pocahontas. Tudo bem. – Sim. – E você viu que ela estava algemada? – Vi. Tudo na encolha. – Preciso de um favor. – Não a deixaram se entregar por vontade própria? – Não. Uma lutadora incrível. Noite na prisão. Alguém da promotoria estava irritado e tentando passar um recado – não muito agradável. – Sim. Win olhou para My ron. – O que mais você tem para me contar? – perguntou Win.escutava aquele nome. O promotor nem soltou isso para a mídia ainda. Novamente. Presa tarde. – Por que a prenderam tão tarde? – Não sei. Schwartz respondeu: – Oi. se contorcendo pelo chão e coisa e tal. – Diga. sem tempo para perguntas. Esperanza passaria a noite detida. já que nos entendemos – disse ele. – Mesmo? – O contato ficou animado de verdade. – Você não soube disso por mim – falou Schwartz. Trouxeram a garota pra cá algemada faz umas duas horas. – Mais alguma coisa. Win. Quer dizer. maiores que ela. estão agindo com muita discrição nesse caso.

Nos degraus em frente ao fórum. Você sabia que as duas foram campeãs intercontinentais por três anos seguidos? Win suspirou. – Pessoalmente? – Sim. exatamente. – Mais alguma coisa. Brian? – Não. que vida essa sua. Quer dizer. – Depois de um instante: – Ah. – Isso. – Dá para me conseguir um autógrafo dela? . E talvez mais verde. pelo menos. parece que o peito vai estourar como um pneu velho. Tem alguém com ela. Eu. Win. – Não diga! – Seja lá o que intercontinental for. se estou zapeando pelos canais e alguma coisa me chama atenção. na chuva. Se não estou enganado. penso assim. – Como ela é. – Não sei se estou entendendo – replicou Win. Ela está lá fora. Sentadinha. o que isso significa. Grandes lutadoras. a liga perdeu totalmente a classe. – Mulheres de biquíni se agarrando – falou Win. certo. mais nada. Win e My ron se entreolharam mais uma vez. peito de silicone.– Não. A Grande Chefe-mãe. seja quem for. Às vezes. Cinco. – Então ela está aí agora? – Está. Bem. você sabe? Mas isso já faz tempo. desculpe. é como se estivesse com ela… – Como se estivesse com ela? – Lá fora. Sentada lá. Só que mais feia. Os policiais já passaram por ela e perguntaram o que estava fazendo. a Grande Chefe-mãe. Um silêncio de admiração: – Meu Deus. Brian? – Parece o Incrível Hulk. É tudo falso. Hoje em dia. elas eram incríveis. no mínimo. É por isso que quase não assisto mais. – Já não se fazem mais lutadoras como aquelas. só mais uma coisa. oito anos atrás. – Lá fora. – Você sabe quem é o advogado dela? – Não. – E depois: – Então você conhece Esperanza Diaz? – Sim. Quando uma cai de barriga no chão. Win! – É mesmo. Cara. paro e dou uma olhada… – Você estava falando sobre uma mulher na chuva? – Certo. Não havia dúvidas. também conhecida como Big Cy ndi. é a ex-parceira de equipe da Pequena Pocahontas. Ela respondeu que ia esperar pela amiga.

Tchau. Pegou o interfone e ordenou ao motorista que os levasse ao fórum. que balançou a cabeça. Win desligou e se recostou no assento. Brian. Olhou para My ron.– Vou fazer o possível. talvez? Da Pequena Pocahontas com seu traje de luta? Sou um grande fã. . – Dá para ver. de verdade. Brian. – Um retrato autografado.

de ombros caídos. O rosnado se intensificou. Como um pote de 2 litros de Häagen-Dazs. A cor. Ou um cordeiro para sacrificar. – Sim. e não Cy ndi. Big. De longe. perdida. – O que aconteceu? – O senhor fugiu – disse ela. Big Cy ndi às vezes combinava as cores ao acaso para ver o que acontecia. O som quase amassou o para-lama da limusine: – Não posso falar. – Sou eu: My ron – disse ele. – Você não pode ficar aqui a noite toda – tentou My ron. já eram quase dez da noite. Ao menos My ron achou que fosse ela. Big Cy ndi começou a chorar. caso ela quisesse cheirá-la. haviam acabado. Big Cy ndi estava sentada na chuva. como uma leoa alertando um animal mais fraco que tivesse se perdido. – Por que não? – Ela pediu. e parecia que ela estava usando um corte militar irregular. substituídos por soluços. – Lamento muito. Ele arriscou mais um passo. My ron se aproximou devagar. todavia. – Esperanza? . Insistia também em ser chamada de Big Cy ndi. Ele pôs a palma da mão num ombro que parecia uma bola de boliche. A chuva emplastara o cabelo geralmente espetado de Big Cy ndi. – Nos deixou sozinhas. estava difícil de decifrar – ela gostava de variar as tinturas –. numa voz infantil. Cindy fungou. – O que aconteceu? – perguntou de novo. Ela por fim falou: – Vai embora. My ron saltou do carro e se aproximou: – Big Cy ndi? A silhueta na escuridão rosnou baixo. Alto. Os rosnados. com a mão direita estendida. mas não lembrava nenhum tom encontrado na natureza. Seus documentos oficiais diziam: Cy ndi. Chegara a trocar legalmente de nome. Se ao menos tivesse algo para acalmá-la. parecia um fusca estacionado em frente aos degraus da entrada. naquele dia.4 Q U A N D O CH E G A RA M A O FÓ RU M de Hackensack. Mas estou de volta agora.

Big Cy ndi assentiu. Na verdade. – Já tem. Sr. Aqui não é seguro. O sangue voltou a circular. como se tivesse percebido que falara demais. Big Cy ndi limpou a chuva do rosto com a mão do tamanho do pneu de um . Por favor. A chuva continuava a cair. – Não. – É bom tê-lo de volta – disse ela. mas deixou passar. vou ficar. – Como ela conseguiu Hester Crimstein? – perguntou ele. My ron sufocou um grito. – Você não pode ficar aqui a noite toda. – Sim – replicou Big Cy ndi. Big Cy ndi. As palavras doeram. ele queria dizer que não era seguro para quem tentasse atacá-la. E ela adora o senhor. O peso o fez oscilar. – Mas ela nem sabe que você está aqui. – Quem? – Hester Crimstein. Sinto muito. – Não vou deixar Esperanza sozinha. – Ela não quer a ajuda do senhor. – Sei me cuidar – falou Big Cy ndi. – Não posso dizer mais nada. – Ela vai precisar de ajuda – argumentou My ron. – Vai precisar de um advogado. – Você sabe como gosto de Esperanza – falou My ron. My ron sentou no degrau ao lado da mulher: – Ela está chateada porque sumi? – Não posso falar. – Por que não? – Ela pediu. não fique bravo comigo. mas ele conseguiu permanecer relativamente ereto. Alguém pode tentar atacar você. Deixamos você em casa. – Não estou bravo. – Esperanza não vai aguentar esse peso sozinha – disse My ron. Big Cy ndi colocou a cabeça em seu ombro. My ron ficou de pé: – Venha. Sr. – Então me deixe ajudar. Bolitar. Big Cy ndi levantou a cabeça do ombro dele. Bolitar. – Acho que é hora de o senhor ir para casa. – Obrigado. mas My ron se perguntou se o deslize não teria sido intencional. – Está chovendo e é tarde. – O senhor a adora. Big Cy ndi engoliu em seco. Só estou preocupado. Ela sorriu então para ele.

– Vamos então fazer uma visita. – Estranho. balançando a cabeça. – E como é o nome do programa dela agora? – Crimstein contra o crime – respondeu My ron. – Tem certeza? – perguntou My ron. O motorista deu partida. guarda-chuva apoiado no ombro. estava encarcerada ali. . na direção da limusine. mas ela ficou parada. My ron entrou no carro. My ron caminhou até a limusine e depois se voltou. Esperanza era a bissexual perfeita – porque qualquer um. não é? My ron ficou pensando naquilo por um instante: – Você sabe onde Hester Crimstein mora? – Dois quarteirões depois do meu prédio. – Sim. entregando-lhe uma toalha. Não foi uma tirada engraçada? Engraçadinho. Sr Bolitar. – Ah – falou Win. – Sim. Win estava encostado contra a porta. braços cruzados. achava-a muito atraente. – Você está brincando. mas acho que Esperanza andou tendo um caso com ela há uns dois meses. Quando se joga em todas as posições. My ron olhou para trás. Win o seguiu. – A Sra. Ah. sim. vou chegar atrasada ao trabalho amanhã. My ron balançou a cabeça. Espero que entenda.carro: – Sabe. – Esperanza não mataria ninguém – disse ele. Hester Crimstein quase não pega mais casos. Os dois se olharam. – Ela escreveu um livro com o mesmo título – acrescentou My ron. Enfiou outra vez a cabeça entre os ombros e desapareceu dentro de si. O amigo franziu a testa: – Que fofo. TruTV? – A própria. – Hester Crimstein é a advogado dela – disse My ron. a chuva lavando seus rostos. Ele acenou para My ron com a cabeça. a pessoa mais próxima aos dois. Porém fazia sentido. Uma sonora gargalhada os fez virar para a direita e olhar na direção da minifortaleza em que ficavam as celas dos presos. Como Esperanza conseguiu? Win bateu no queixo com o indicador: – Não tenho certeza. Esperanza. independentemente do gênero. é necessário ter atrativos para todos. na Central Park Oeste. Uma pose de Gene Kelly. sou um cara muito brincalhão. Esperou por um momento que Big Cy ndi concordasse ou pelo menos fizesse um sinal.

– Talvez sim. – Motorista. inclinando-se para a frente. pé na tábua. hoje estou confiando no meu charme. – Não vai nos receber.Win arqueou as sobrancelhas: – Por quê? – Talvez ela possa nos dar informações. . – O que o faz pensar isso? – Em primeiro lugar – disse My ron –. – Meu Deus – retrucou Win.

– Você acha que a Srta. então Brezhnev reconhecera Win. endereço igualmente sofisticado. conteve-se e lançou um olhar desconfiado. Puxouo para o lado. Usou de fato a palavra presente. Não havia área de espera ou lugar para se sentar no San Remo – a maioria dos prédios mais finos não encoraja nem aprova que visitantes demorem –. e Brezhnev precisou inclinar a cabeça bem para trás. um dos prédios mais chiques de Manhattan. Por que. Brezhnev I anunciou em voz baixa que a Srta. Uma quinta chegou. assim. para a rua. de forma que My ron e Win se dirigiram para fora. Brezhnev correu até a porta do carro como se precisasse urinar e tivesse um banheiro lá dentro. Win compreendeu. Lockwood. – Ah. As pessoas não dizem isso com frequência na vida real. Exercitando-se às onze da noite. O Central Park ficava do outro lado da calçada. A limusine de Win havia sido dispensada – tinham concluído que podiam caminhar dois quarteirões até o Dakota –. no San Remo. perguntou-se My ron. . Crimstein ainda volta esta noite? – perguntou Win. ambas com porteiros vestidos como um estadista russo caminhando pela praça Vermelha. Sr. o que fez seu nariz parecer a entrada do túnel Lincoln. Crimstein termina às onze. os empregados dos ricos e famosos agem com mais arrogância que os patrões? Seria apenas ressentimento? Ou porque são tratados com desprezo todo dia e. para longe da plebe desprezível. Bem-vindo aos tempos em que as horas de lazer são sugadas como se fossem lipoaspiradas. Uma Mercedes prateada estendida. Muitos táxis iam para o norte. aproveitam qualquer ocasião para fazer o mesmo com outras pessoas? Ou – mais simplesmente – porque as pessoas que se sentem atraídas por esse tipo de emprego são babacas? Os pequenos mistérios da vida. Brezhnev abriu a boca. My ron podia ver árvores. Entre os moradores do condomínio dela estavam Diane Keaton e Dustin Hoffman. Não era uma tarefa fácil – My ron era no mínimo 15 centímetros mais alto –. Não era de admirar. mas havia quatro outras estacionadas em local proibido.5 W I N M O RAVA N O D A K O TA . – A aula de aeróbica da Srta. – Ela não deve demorar. Havia duas entradas. como se temesse que My ron pudesse defecar no tapete persa. Hester Crimstein morava dois quarteirões para o norte. Crimstein “não estava presente”. mas o lugar talvez fosse mais conhecido por ter rejeitado o pedido de Madonna para morar lá. um muro de pedra e era só. Sorriu para Win e olhou My ron de alto a baixo.

– Aí está a prova. – Vá tomar naquele lugar. o velho parou. Uma mulher parecendo uma ameixa o seguiu. a boca retorcida de quem sofreu um derrame. Para não falar daquela bruxa enrugada com quem ele vive. – Já ouviram aquele antigo ditado de que só os bons morrem jovens? – Ah. Era corpulenta. ele sentia. Alguma coisa neles perturbou My ron. O velho parou como se quisesse dizer algo mais. – A propósito. a esperança e a juventude. Lou – gritou Hester. Crimstein. sabe por que estou aqui. infantil. My ron não sabia dizer. os movimentos ardilosos. a título de explicação. desceu. tinha-lhes sugado toda a bondade. – Ela inclinou a cabeça. Em que seus pais estavam pensando? Uma ótima pergunta. Difícil acreditar olhando para ela agora. My ron. calvo a não ser por um tufo de cabelo no alto da cabeça. – Já notaram como algumas pessoas parecem chacais? – Perdão? – Comem os filhos. fazendo uso do lado bom do rosto. é um nome horrendo. É o caso de Lou. Ambos estavam com roupas caras e teriam talvez 100 anos. Porém havia algo mais. e tinha o rosto cheio. meias da mesma cor. depois se afastou com dificuldade. Quando viu a advogada. como se fosse uma vendedora exibindo o melhor carro da loja. My ron e Win trocaram um olhar e se aproximaram. Pareciam murchos. Ele olhou para a direita e viu uma figura. pelo menos segundo o padrão “Kate Moss” de hoje em dia. embora fosse mentira. agarrou a mão de sua esposa-ameixa e entrou apressado. deixando-os com uma vitalidade baseada em algo feio e odioso. Só sobrara a amargura.Um senhor de idade. Se era dirigida contra Deus ou contra a humanidade. certamente. que reconheceu como Hester Crimstein. Hester Crimstein fez um gesto com as mãos em direção ao casal de velhos. Usava tênis Reebok brancos. Win o cutucou. . vindo em direção a eles. Nunca se viu nada igual. Alguns anos atrás ajudei os filhos a processarem o safado. – Um velho inimigo – disse ela. – Entendo – falou My ron. Ele tentou avançar: – Srta. Velhos. mas aqueles dois eram obviamente o contrário: os olhos eram intensos. Prostituta de 5 dólares que se deu bem. claro. uma calça de ginástica verde que provavelmente faria Kate Moss dar risada. – Se sabe quem sou. casaco de moletom e uma touca que deixava escapar atrás mechas de cabelos louros. coléricos e medrosos. – Cadela! – disse ele. A vida os esgotara. sim. meu nome é… – My ron Bolitar – interrompeu ela. As pessoas falam de velhinhos adoráveis.

Pontaria. – E? – E quero ajudar. – Iria ter problemas na NBA. Mas é claro que os deuses livraram você disso acabando com seu joelho. My ron se voltou para Hester: – Esperanza é minha amiga. Mas mede quanto. sim. My ron. doze anos? – Por aí. 1. seu tagarela. Vou começar a mandar a conta para você. Opinião de mulher. Boa noite. Ela coçou o rosto: – Onde esteve nessas últimas semanas? – Fora. – Não me referia a isso. Sempre acertava. o quê? Onze. Você parece o tipo de cara que faz . Ele se virou para o amigo: – O charme – sussurrou Win. acho que você não tinha velocidade para ser um grande profissional. Num tom de malva. Esse caso vai custar uma fortuna. – Fora onde? – No Caribe. sei quem é porque sou fã de esportes. sabe? Não ia acreditar no valor do condomínio aqui. Lembro que o Celtics contratou você na primeira rodada há. Tinha força. neste prédio. – Sim e não? – Bem.95 metro? – Mais ou menos. – Bom conversar com você. sem nenhuma ofensa. Ela balançou a cabeça: – Belo bronzeado. – Estou aqui por causa de Esperanza Diaz. – Mas francamente. Sou muito cara.– Sim e não – disse Hester. Costumava ver você jogar. – Com você também. – Mas pode ser bronzeamento artificial. – Espere um segundo – disse My ron. E agora os porteiros querem uniformes novos. eu acho. – Ótimo. Ela fingiu um olhar de surpresa: – Mesmo? E eu achando que você só queria recordar sua carreira esportiva. – Não? – Queria saber em que pé está o caso. Só o universo alternativo sabe a verdade. – Ela sorriu. – Olhou então para Win. Aquele jogo do campeonato universitário contra o Indiana foi um clássico e tanto. – Obrigado.

Crimstein… – Tem alguém que possa confirmar sua estadia no Caribe. – Por quê? Win apontou com o polegar para My ron: – A qualquer momento ele pode ligar o charme e reduzir sua confiança a pó. My ron tentou de novo: – O que aconteceu.bronzeamento artificial. A empresa é sua. Ela olhou para My ron e caiu na gargalhada. – Perdão? – Sou amigo dela. – Por que você quer saber isso? Hester Crimstein deu de ombros: – A arma do suposto assassinato foi supostamente encontrada no escritório de uma tal MB Representações Esportivas. Win interferiu: – A palavra-chave aqui é suposto. My ron olhou de novo para Win: – O charme. não? – É. – E você usa o carro da empresa onde o suposto sangue e as supostas fibras foram supostamente encontrados. – Você acha que sou suspeito? – perguntou My ron. O cara é morto com três tiros dentro de casa. por que não? Isso se chama dúvida razoável. – Cuidado – retrucou ele. – Srta. Hester Crimstein olhou para Win: – Ele fala. – A propósito. Sou uma advogada de defesa. Damos muita importância à dúvida razoável. fazendo sua melhor imitação de Alec Guinness como Obi-Wan Kenobi em Guerra nas estrelas. mas o crime é apenas uma “suposição”. My ron? – Como? – Está com problemas de audição? Perguntei se existe alguém que possa confirmar seu paradeiro na hora do suposto assassinato. . Win sorriu. – Ela olhou para Win. – Quero ajudar e tenho uma testemunha do meu paradeiro. Ela deu de ombros outra vez: – Foi você quem disse que queria ajudar. então? – perguntou. docinhos de coco. – Quem? – Não se preocupe. Luke – cochichou o amigo. Boa noite. Suposto assassinato. – Lembre-se do charme. você é o homem perfeito: bonito e praticamente mudo. – Claro. Advogados.

– Sou o melhor amigo dela. – Não é isso que… – My ron parou. Depois franziu o cenho: – Não é uma tarefa fácil. My ron. – Eu? Ela fez menção de ir embora e disse: . acho que você já disse isso. vamos tentar entender isso. Ela balançou a cabeça: – É uma boa possibilidade. Pode acreditar. Ou talvez prefira assistir a um episódio qualquer de Law & Order. Ela suspirou e cruzou os braços: – Ok. mas ele não conseguia contrair a sobrancelha. Eu me preocupo com ela. Por quê? Ela deixou as mãos caírem: – Boa pergunta. My ron. O que você acha? – Porque tem alguém lá dentro que não gosta da advogada famosa dela. certo? – Sim. Porque alguém da promotoria está louco com você e descontou na sua cliente. – Só queria saber o que aconteceu. – Ótimo. Chega de charme: – Você está é tirando o seu da reta – disse My ron. Mas tenho outra. deu-lhe um meio sorriso do tipo “só estou querendo ajudar”. Porque vão deixá-la presa à noite em vez de levá-la no mesmo dia da audiência inicial. Porque a prenderam algemada. O rosto dela relaxou e ela balançou a cabeça: – Você fez faculdade de direito. Depois os dois podem marcar um encontro na cantina e tomar um refrigerante. – Sim. Ela olhou para o próprio traseiro. – Então talvez tenha faltado à aula em que se explicou uma pequena coisinha que chamamos de sigilo profissional. Amanhã quando encontrá-la vou passar um bilhete e descobrir se ela também gosta de você.– Sim. nada menos. Posso recomendar uns livros maravilhosos sobre o assunto se você quiser. garanto a você. Sorriso número 18: ao estilo Michael Landon. antes de o velho promotor se queixar para Sam Waterston que não tem nenhuma base para a acusação e deve tentar um acordo. – Qual? – Talvez não gostem do patrão dela. – Pensei que fosse uma advogada de primeira. – Em Harvard. Por que estou tirando o meu da reta? Por que não sou a advogada de primeira que você pensava que eu era? – Porque eles não deixaram Esperanza se entregar. Eles geralmente falam nisso.

– Faça um favor a todos. Fique fora disso. – Qual? – A maioria das mulheres é lésbica. – Mais um indício a favor de uma hipótese popular e muito assustadora – disse Win. My ron se virou para Win. E talvez procure um advogado. – Muito engraçado. – Pelo quê? – Pelo desempenho aparentemente medíocre do seu charme. My ron balançou a cabeça: – Quase todas. O que você acha que ela quis dizer com isso de não gostarem do patrão? – Não faço ideia. Win respondeu: – Só vendo se ela não arrancou ao menos um pedaço do seu testículo. My ron. . que estava curvado. mais nada. Hester Crimstein deu meia-volta e desapareceu no interior do prédio. My ron percebeu aonde o amigo queria chegar: – Claro. Os dois começaram a caminhar pela Central Park Oeste. – Precisamente. – Que diabos está fazendo? Ainda olhando. Você esqueceu um componente crucial nisso tudo. Crimstein teve um caso com Esperanza. Ela deve ser lésbica. Win concordou. Não se sinta culpado. Fique longe. – Isso ou algum acontecimento paranormal bizarro. – O quê? – A Srta. olhando para o meio das pernas do amigo. É a única explicação racional para ela ter resistido a você.

Não se mexeu. À noite. Ele e Terese tinham dormido todos aqueles dias um nos braços do outro. FJ. não? – Pode ser – replicou My ron. silenciosas e pesadas como um caixão sepulto. tantas ameaças. Oito horas. não disse nada. que pareciam experimentos de laboratório malsucedidos. Tempo de sobra para chegar ao fórum com calma. My ron. Win já havia saído e deixado um bilhete. abreviatura de Frank Junior. Vestiam camisetas regata e calças de cordão de halterofilistas. E se preocupava. E pensou em Terese. Usava um terno violeta tão brilhante que parecia ter sido impermeabilizado. mas o sono não vinha. viram um pouco de TV e foram para a cama. a solidão do lugar era pacífica. estava cercado por dois caras grandes. sozinha. Depois tentou pensar em Brenda. Durante o dia. apenas sorriu para My ron com olhos fixos e aqueles lábios finos. Acabava de chegar à esquina da Rua 72 com a Central Park Oeste quando viu três figuras familiares. Sentiu o pulso acelerar. Pensou em Jessica. Tomou banho. A palavra do momento. Desceu pelo elevador e atravessou o famoso pátio do Dakota. era reptiliano. Pegou uma caixa de cereais. as rochas negras se acercavam. My ron soltou uma réplica – não muito cortante. vestiu-se e consultou o relógio. aquele isolamento adquiria tons sombrios. despertou às sete. FJ deu por fim um passo adiante: – Fiquei sabendo que você estava de volta à cidade. exausto. dizendo que o encontraria no fórum às nove. Tantos caras maus. mas o mecanismo automático de defesa rechaçou. como se alguém tivesse misturado algum excesso glandular genético a esteroides anabolizantes. Imaginava-a agora deitada naquela escuridão profunda. tranquila e bem-vinda.6 E L E S CA M I N H A RA M O S D O I S quarteirões até o Dakota. . Na manhã seguinte. Ainda não havia digerido a história. My ron apagou a luz. – Lembra-se da nossa última conversa? – continuou FJ. garotos e garotas. O jovem FJ sorriu silenciosamente para My ron com seus lábios finos. que pareciam a parte de baixo de um pijama feio. mergulhou a mão esquerda dentro e percebeu que Win já retirara o brinde. – Falei alguma coisa sobre matar você. Estava sozinha naquela ilha pela primeira vez. – Não lembro. – Vagamente. alguma coisa sobre uma festa de boas-vindas – e ficou de boca fechada.

eu pretendia cumprir a promessa – continuou FJ. – Win não me assusta. FJ inclinou de lado a cabeça. já parecia tão infeliz. Os olhos de FJ encontraram os de My ron. My ron. – Não quer saber por que não matei você? – Por causa de Win. e eu também não. que considerava alta-costura moletons de lojas de departamento. não vemos razão para hostilizar Win sem necessidade.A escolta esboçou um sorriso. – Um mês atrás. Como eu disse antes. Preferiram voltar a franzir o cenho e baixar um pouco as sobrancelhas. o psicopata que havia gerado o filho igualmente psicopata que se encontrava naquele momento em frente a My ron. Ele era o irmão mais velho e mais rico. O irmão mais novo. O som daquele nome foi como um copo de água fria na cara dos dois brutamontes. Não matei você porque. Não havia nada por trás dos olhos do garoto. – Pode falar o que quiser. Frank. ralé de alta renda. – Mesmo o animal mais burro tem um mecanismo de sobrevivência inato – retrucou My ron. Herman tinha crescido na rua. mas foi difícil. Em outras palavras. engraçado. FJ soltou uma risadinha e apontou para nada em particular com seus dedos manicurados. O pai e o tio eram Frank e Herman Ache. apenas podridão e decadência. dois dos mais lendários mafiosos de Nova York. Meu pai e meu tio gostam de você e. estava na casa dos 60 e gostava de fingir que não era escória. mas seus rostos eram tão musculosos que o movimento demandava um esforço excessivo. permanecia o que havia sempre sido: um pau-mandado feio. – Coisas do passado. claro. mas as coisas nunca . bem. que tentou manter o contato. exposições de arte para novos-ricos. Como dizer? Seria um ato de caridade. não? My ron balançou a cabeça e disse: – Como um bom piadista. Segui você até um cemitério em Nova Jersey. matado mais gente que o outro e subido na vida. Eles não querem ver você morto. FJ permaneceu imperturbável. Era como olhar pelas janelas quebradas de um prédio abandonado. Eles chegaram a dar um passo atrás. cercando-se das melhores coisas da vida: clubes exclusivos que não o queriam. mas se recuperaram rápido com algumas contrações musculares. Engraçado. não? – Você devia considerar virar comediante – concordou My ron. instituições de caridade esnobes e maîtres franceses que tratavam qualquer um que desse menos de 20 dólares de gorjeta como merda agarrada na sola do sapato. Cheguei a ficar atrás de você com a arma na mão. – Na verdade. Acalmara-se um pouco nos últimos anos.

e assim que Frank acabou a faculdade de administração. – Vou guardar isso na pasta “Um Dia Pensarei no Assunto”. Os Aches dirigiam a TruPro. recrutando atletas jovens com o mesmo comedimento moral de um político ao arrecadar recursos de campanha. My ron apontou para um deles e depois para o outro: – Quem cria a coreografia? Queriam se sentir insultados – dava para ver –. como tantos outros filhos. a dúvida permanecia. My ron assoviou. querendo para o filho o que todos os pais desejam. Ainda assim. mas nenhum dos dois sabia o significado da palavra coreografia. parecia incapaz de se libertar dos antigos grilhões familiares. – O que você quer. como entidades parasitárias que eram. que eram os fungos em questão. My ron balançou a cabeça. Os irmãos Aches. tentando apenas ganhar a aceitação do pai ao provar que o peixinho podia ser tão ferozmente psicótico quanto o peixão? Característica inata ou adquirida. FJ. o clássico sonho americano com um toque de demência. era para ele gerir a TruPro com o máximo de legalidade. assumiu um ar de indiferença. ou algo que o valha. deu um passo à frente e estalou o pescoço em uníssono. Dois vieram para nós. entretanto. – Acho que você está sendo tolo. – Ah.permaneciam calmas com ele. ou estaria ele. O pai tinha matado e torturado para que o filho não precisasse fazer isso – sim. A TruPro sempre fora completamente desprovida de qualquer coisa que se assemelhasse a escrúpulos. mas não gostou de ouvir . uma firma de representação esportiva bastante grande. – Você sabe quantos clientes a MB Representações Esportivas perdeu nas últimas semanas? – perguntou FJ. como um nariz proeminente. ser agente esportivo era uma forma legal de ganhar a vida. – Muitos? – Eu diria que um quarto da lista. Por que era uma pergunta que fascinava My ron. Teria FJ um mal genético. entraram em cena e. que interessante! – Quero comprar a sua empresa. FJ? – Tenho uma proposta de negócio para você. transmitido pelo pai. Do tipo que atrai a espécie errada de fungos. – A MB Representações Esportivas não está à venda – disse My ron. Na teoria. Parecia que a vida não fazia muito sentido para ele se não tivesse alguém para torturar e mutilar. lhe passou as rédeas do negócio. o pai dele. A escolta pareceu rosnar. o dono começara a acumular dívidas. Depois. Grandes. corroeram todos os sinais vitais da empresa e agora se dedicavam a consumir a carcaça.

então vou ficar como Jerry Maguire. saíra havia menos de um ano da faculdade de administração. Completa. Garoto inteligente. – Sabe quantos mais vão sair quando souberem da prisão de Esperanza? – Muitos? – Você vai ter sorte se sobrar um. FJ? – Claro – respondeu ele. – Tenho certeza. Me. – Se você entrar em contato com qualquer um deles – ele hesitou por um instante –. – Você acha? – duvidou FJ. My ron. vou me sentir obrigado a retaliar. – Ela não está presa? My ron estalou os dedos. My ron quase esperou que uma língua bipartida escapasse por entre seus lábios. FJ achou graça e continuou: – Contei para você que alguns dos seus antigos clientes estão usando meus serviços agora. mas a resposta ainda é não.aquilo. FJ. Estou sendo claro? FJ devia ter uns 25 anos. – Você. rastejar até My ron e depois serpentear por suas costas. – Liga para a minha sócia agora e marca com ela. e antes cursara Princeton. – Droga. FJ. De uma forma ou de outra. que pareceu saltar-lhe do rosto. mas My ron não estava com vontade de corrigi-lo: – Isso é tudo. circulavam rumores de que um professor de Princeton que estava prestes a acusar FJ de plágio desapareceu e apenas sua língua foi encontrada – no travesseiro de outro professor que vinha pensando em fazer a mesma acusação. com seu sorriso reptiliano. dando-lhe um último sorriso escamoso. Ou pai poderoso. – Mas por que não marcamos um almoço? – Uma hora dessas – respondeu My ron. – Não me importa se o seu negócio era limpo. – Ei. – Já sei. – Você tem celular? – É claro. FJ permaneceu frio: – Pretendo ser generoso. Não era um escândalo financeiro. em Harvard. Ninguém consegue sobreviver ao tipo de escândalo financeiro pelo qual você vai passar. – Vou recuperá-los. – Claro como água. Você viu esse filme? Me mostre o dinheiro? Adoro negros? – My ron fez sua melhor imitação de Tom Cruise. .

– Ótimo. Se My ron ainda tivesse língua. My ron sentiu seu batimento cardíaco normalizar e olhou para o relógio. My ron. Hora de ir para o fórum. Nos falamos depois. . Os três homens entraram num carro e deram partida sem dizer mais nada.

Nada de incomum. A CBS Nova York. My ron se esgueirou na fileira de Big Cy ndi. Havia uma multidão de repórteres estacionada no lado de fora. quase imperceptível. A chuva constante havia enxaguado um pouco a tintura de cabelo. na verdade quase pulando sobre dois joelhos que pareciam capacetes de beisebol. Além de não submeterem o público à previsão do tempo. inflexível. já que se destacava tanto quanto um líder muçulmano em uma sinagoga. Se a quantia fosse mais alta. mas não conseguem. não seria problema. A TruTV estava lá. My ron estava com o talão de cheques pronto para pagar imediatamente a fiança. . Ou até ir para casa. Toda cidade de todo estado americano tem uma Ey ewitness News. Seriados como The Practice. Ey ewitness News. preocupada. Access Hollywood e Current Affair. enviava-se Big Cy ndi na frente: as pessoas não apreciavam muito pedir licença para passar por ela. Por quê? O que havia de tão sensacional naquele nome? Estavam também os novos programas sórdidos de TV. o uso excessivo de desinfetante. como se buscassem o fugidio deus da grande audiência. O bolso de My ron podia ser apenas semifundo. Ele e Win tinham conversado sobre isso na noite anterior e calculado que o juiz a estipularia entre 50 mil e 75 mil dólares. é claro. Esperanza não era fichada e tinha trabalho fixo. Ela não havia trocado de roupa ou se lavado desde a noite anterior. embora a diferença entre eles e os noticiários locais estivesse tornando-se muito tênue. A maioria optava por ficar de pé. um semnúmero de vans com cabos e parabólicas e. a primeira pessoa que viu foi Big Cy ndi – o que não foi surpresa. o toque ligeiramente pegajoso de bancos. Law & Order e até Judge Judy captam muito bem a aparência. ABC News. A maquiagem.7 A SA L A D O T RI BU N A L D E H A CK E N SA CK parecia muito com as que vemos na televisão. e se sentou entre os amigos. Ele fez sua cara de valente – séria. confiante – e abriu caminho entre eles sem fazer comentários. mas o patrimônio de Win equivalia ao PIB de um pequeno país europeu. como Hard Copy. Alguns repórteres reconheceram My ron e o chamaram. antenas elevando-se ao céu. e listras roxas e amarelas manchavam a parte da frente e de trás do pescoço. Quando entrou no tribunal. é claro. Quando se queria guardar lugar. CNN. Na sua fileira havia apenas mais uma pessoa: Win. Isso contaria a seu favor. apreender a essência que emana de pequenas coisas: o leve e característico cheiro de suor induzido pelo medo. mesas e corrimões – que My ron gostava de chamar de fatores exsudados. Pelo menos Hard Copy e seus similares não fingiam encarnar nenhuma função social redentora.

Win. uma blusa creme e o cabelo exageradamente clareado e rígido demais. certo? – Não deixe para amanhã o que pode ser exterminado hoje. de que Esperanza era também suspeita. culpados e raivosos. – Recebi uma visita agora de manhã – sussurrou My ron a Win. Tratava-se de uma sensação: um crime envolvendo uma celebridade. As mãos se encontravam algemadas à sua frente. vestida com seu melhor traje profissional: um elegante tailleur bege. Ocupou seu lugar na mesa da defesa. e entravam na linha de montagem do tribunal. – Não – respondeu My ron. – Devíamos matá-lo. lembrar-se de que todos eram inocentes até prova em contrário. Era como se as velas multicoloridas de Chanuca tivessem escorrido sobre o seu rosto. Os suspeitos pareciam todos jovens. – Vamos ver como isso vai terminar. Por fim. Ficaram em silêncio. – Por acaso o garoto da capa da Mafioso Moderno teceu sua miscelânea habitual de ameaças? – Sim. – Sim? – FJ e dois gorilas. Ela usava um macacão laranja fluorescente. sempre iguais. – Você só quer adiar o inevitável. Fazia sentido. da forma mais assustadora possível. My ron sabia que ela era pequena – menos de 1. My ron a viu e sentiu algo parecido com uma mula escoiceando-lhe o peito. Sempre de rosto fechado. Nada de cinza ou listras – se um prisioneiro quisesse escapar. as acusações de assassinato são comuns. fornecido pelo tribunal. e a sala ficou em silêncio. Dois guardas trouxeram Esperanza por uma porta aberta. talvez 45 quilos . – Ah – fez Win. – Você devia escrever um livro de autoajuda. – Ele é filho de Frank Ache. O oficial de justiça começou a enumerar os casos. ia chamar atenção como uma luz de neon num monastério. Win quase riu. Não havia pressa. duas agressões e vários roubos de carro.sempre aplicada em quantidades suficientes para se fazer um busto de gesso. Mas isso não ajudou muito. também sofrera com os efeitos da chuva. My ron tentou não demonstrar nojo. My ron viu Hester Crimstein entrar na sala. Os casos iam sendo enunciados – um arrombamento seguido de invasão. Você prefere então matar alguém de família melhor? A lógica de Win. My ron balançou a cabeça. Caras durões. – Entendo. Porém não em Hackensack.60 metro. Em algumas cidades grandes. Não se mata o filho de Frank Ache.

Crimstein manteve o mesmo nível de apoplexia: . A Esperanza clássica. – Isso é uma tolice. – Acreditamos que apresenta um risco substancial de fuga. É diplomada em direito e está no momento estudando para conseguir sua licença. Isso o fez sentir-se melhor. – Seus pais já morreram. Rosto Imberbe não se deixou abater: – A Srta. Trazia o rosto levantado. – A Srta. O promotor assistente. sob quaisquer circunstâncias. Temos fortes evidências de que… – Eles não têm nada. subiu em um pedestal. mas nunca a vira parecer tão miúda. – Como se declara? A voz de Esperanza soou forte: – Inocente. o povo solicita que a Srta. Diaz não tem família nem raízes na comunidade – continuou Rosto Imberbe. Isso agora é razão para se punir uma mulher? Pais mortos? É um absurdo. recostou-se na cadeira e falou a Rosto Imberbe: – Sua solicitação para que a fiança seja negada parece exagerada. Diaz fique detida sem fiança. – Homicídio doloso. Diaz é sócia de uma importante empresa de representação esportiva em Manhattan.–. acreditamos que a Srta. O oficial de justiça chamou: – O povo contra Esperanza Diaz. Hester Crimstein gritou “Por quê?” como se acabasse de ouvir as palavras mais irracionais e ameaçadoras que um ser humano já tivesse proferido. A Srta. Diaz tem uma quantidade de recursos incomum a sua disposição e muito boas razões para fugir da jurisdição. Meritíssima. Meritíssima. como se dissesse “está tudo bem”. mas por fim Esperanza virou para o lado e olhou direto para ele. mulher de 50 e poucos anos. A juíza. – Mas. Meritíssima. com um leve sorriso resignado. um garoto imberbe. – Meritíssima. – Qual é a acusação? – perguntou a juíza. – Fiança? O garoto imberbe disse: – Meritíssima. Diaz é acusada de matar um homem com três tiros. Meritíssima. My ron tentava desesperadamente encontrar seus olhos. que não aparentava idade sequer para ter pelos pubianos. Levou alguns momentos. não demonstrava. Tem muitos amigos e raízes na comunidade. Esperanza balançou a cabeça. Se estava com medo. Meritíssima. desafiador. ela não tem família… – E daí? – interrompeu Crimstein. E não possui ficha criminal. Nada circunstancial. Hester Crimstein colocou a mão de maneira reconfortante sobre o ombro da cliente.

Mas os . – Os 200 mil dólares desaparecidos. – A defesa mencionou que a Srta. – Todos os olhos voltaram-se para Win. essa quantia. e todos os olhares se voltaram para My ron. Haid. – Meritíssima. Primeiro. tem direito a uma fiança razoável. que permaneceu absolutamente imóvel. – Me surpreenderia se sua posição fosse diferente. inclusive seu patrão. Depois insinua que ela vai pedir ao Sr. o Sr. enquanto a promotoria se preocupa em forjar algum tipo de conspiração monetária. contudo. É lógico supor que essa soma foi tomada durante o crime… – Que lógica? – berrou Crimstein. naturalmente. Bolitar estava desaparecido havia pelo menos uma semana. Ela olhou um segundo para Win e depois para a banca da defesa. Bolitar e. A promotoria não tem nenhuma acusação sólida. Windsor Lockwood. Diaz. de modo que surgiram com essa teoria absurda do dinheiro. Rosto Imberbe. Dias é uma mulher hispânica trabalhadora. – Nossas investigações revelam que o Sr. – Meritíssima. – Então prendam-no também – provocou Crimstein. tem dinheiro de mais circulando por aí – interveio Rosto Imberbe. Esse dinheiro desapareceu do seu apartamento. – Meritíssima. que soa tão plausível quanto Elvis estar vivo… – É o bastante – disse a juíza. que não passa de um parceiro de negócios. Diaz com o Sr. Lockwood era o consultor financeiro da vítima e controlava a conta da qual os 200 mil dólares foram sacados.– Do que está falando? – A vítima da assassina. Srta. asseguro-lhe que minha cliente nada sabe sobre dinheiro nenhum. Meritíssima. Lockwood. My ron Bolitar. o promotor público sugere que a Srta. – Esse dinheiro desaparecido me preocupa… – Meritíssima. talvez no Caribe ou até mesmo nas Ilhas Cay man. – O Sr. Diaz roubou e escondeu esse suposto dinheiro desaparecido e que iria usálo para fugir. – Alguns deles estão aqui. Além disso. isso não faz sentido. ainda não havia acabado: – E a seu lado está o amigo da Srta. recostando-se outra vez e tamborilando os dedos sobre a grande mesa. pergunto: por que um dos homens mais ricos do país iria achar oportuno arquitetar um roubo com uma pobre mulher hispânica? A ideia toda é ridícula. – Prenda-o se isso for crime. A Srta. que se esforçou para fazer a faculdade de direito à noite. isso não tem nada a ver com minha cliente ou talvez prove sua inocência. – E daí? – gritou Crimstein. Não tem ficha criminal e devia ser libertada imediatamente. Crimstein. o Sr. tinha feito recentemente um saque de mais de 200 mil dólares. O que é isso? E. da Lock-Horne Seguros. – Ele apontou. que fez uma saudação com a cabeça e um pequeno aceno real. que vem de uma das famílias mais ricas da região… – Espere um segundo. A possível ligação da Srta. Diaz tem amigos na comunidade – continuou Rosto Imberbe. Lockwood.

Divisão de homicídios. Dois policiais à paisana se aproximaram. Os guardas a levaram em direção à porta. batendo com o martelo. – Objeção total… – Guarde isso para as câmeras. repetindo “sem comentários” antes mesmo de chegar à porta. – Sala sete – disse sem olhá-lo. Não diga nada a ninguém. esforçando-se para manter a expressão neutra. Ela se aproximou. Win sorriu e lhe entregou o papel. Win suspirou. Um deles conseguiu responder: – Não. levantando-se e conduzindo My ron em direção à porta. Crimstein saiu. – Meritíssima. – Siga o corredor e dobre à direita. mas ela não o encarou – ele não saberia dizer se intencionalmente. Posso ouvi-la muito bem. Crimstein arregalou os olhos. acompanhados de um cheiro de colônia barata. sem dúvida. – Sacou – respondeu Win. que balançou a cabeça. Crimstein – concluiu a juíza. isso é um absurdo… – A defesa não precisa gritar. – Tenham um dia excepcional. Fiança negada. . My ron tentou encontrar seus olhos outra vez. e Win disse: – Estamos presos? Os policiais pareceram confusos. Nem tiveram tempo de se apresentar.fatos apresentados pelo promotor são preocupantes o bastante. My ron não se preocupou em agradecer. mas não parecia estar escutando. Cinco minutos. mal movendo os lábios. Hester Crimstein sussurrou algo no ouvido de Esperanza. – Que diabos é isso? – O telefone do nosso advogado – falou Win. – Próximo caso? Ouviram-se murmúrios abafados. Big Cy ndi começou a chorar como uma viúva num daqueles antigos documentários sobre a Segunda Guerra. – Você vai ver. Hester Crimstein se virou e lançou em direção a My ron um olhar tão raivoso que quase o fez se esconder. – Clu sacou o dinheiro? – perguntou My ron. Srta. Eles chegaram à sala da defesa antes dos cinco minutos combinados. Não demorou muito. tirou papel e caneta do bolso do paletó e começou a escrever alguma coisa. – O que está fazendo? – perguntou My ron. Estava vazia.

Era mais para benefício deles do que de My ron. My ron sufocou a culpa e pensou nas possibilidades. – Clu nos autorizou a receber seus extratos. – Quanto? – O promotor falou em 200 mil dólares. – Grande coisa. mandava-lhe cópias dos extratos para que ele examinasse as entradas e saídas. tinha que aparecer nos nossos computadores – falou My ron. Aquilo surpreendeu My ron. O ciclo de confusões sempre fora regular: Clu fazia alguma besteira. Ponto final. certo? Win assentiu. Ela sabia sobre o dinheiro. My ron franziu o cenho. Deve ter sido para droga. Não era sua consciência. seguia-se uma briga . mas ela sempre o deixava voltar. Brigavam o tempo todo. Ensinava estratégias de investimento. jogo ou… – Provavelmente. Mas dessa vez ela pediu divórcio.– Você sabia? – Claro. – Isso dá à promotoria outro motivo para o crime. entretanto. Mais uma vez. Win. – Você conhecia Clu. – Verdade. – Duvido – disse Win. Não tenho razão para duvidar dele. nem mãe nem babá… Nem mesmo agente. My ron olhou para Win e perguntou: – Mas o que Clu fez com o dinheiro? O amigo encolheu os ombros. tão alto. Muitos atletas eram passados para trás por causa da ignorância. esse tipo de coisa. – Talvez. A MB Representações Esportivas fazia questão de que todos os clientes usassem os serviços de Win e o encontrassem pessoalmente a cada trimestre para revisar as contas. – Esperanza ficaria sabendo. – Então um saque desses. – Sim. – Mas tanto? – Eu não tinha nada a ver com isso – defendeu-se Win. – Estavam separados. – E você deixou? – Como? – Você deixou Clu sacar 200 mil? – O dinheiro era dele. colocasse contas em débito automático. Mas eu era o consultor financeiro dele. Bonnie nunca tinha ido tão longe. – Sim outra vez. A maioria dos clientes da MB. – Talvez Bonnie saiba. Uau! Mas não era hora para isso.

fazia outra bobagem e o ciclo começava outra vez. vermelha e enfurecida: – Seus burros idiotas. sentado na primeira fila. Clu se comportava bem um tempo. ela o aceitava de volta. Queria outra reconciliação. – Essa juíza é uma imbecil liberal. My ron. Ele implorava perdão. – O quê? – Conseguir a fiança devia ter sido moleza. sentados na primeira fila. foi como agitar a bandeira dos Confederados na cara de um juiz negro.enorme e Bonnie o colocava para fora por duas noites. Já levei três casos diante dessa juíza. Foi por isso que comecei com aquela ladainha de hispânica trabalhadora. – Ele lhe contou isso? – Sim. sim. pisando com força. sim” quer dizer. A porta da sala se abriu. – Foi erro seu. Ter o maior mauricinho do país aqui – disse ela. A juíza pode não gostar de ricos. talvez uma semana. Quando sacou o dinheiro. pronto. Vocês realizaram o grande desejo do promotor. – Besteira. Você não é a advogada certa para este caso. – Não ponha a culpa em nós – disse My ron. – E você não faz ideia… – Nenhuma. – Ele falou mais alguma coisa quando sacou o dinheiro? – Não. indicando Win com a cabeça –. – Se vocês não estivessem no tribunal. Ela andava para lá e para cá. Disse que ela já tinha começado o processo de divórcio. – Talvez ela também não goste disso. – E como ele estava se sentindo? – Mal. Andou para trás e desabou numa . Ela odeia ricos. Hester Crimstein entrou. Ela se virou em sua direção: – Você ficou louco? – Sua fama está indo contra você. Ganhei por três a zero. lá estavam o famoso ex-jogador e um dos play boy s mais ricos do país. Eu falei para ficarem longe. Ele queria mostrar à juíza que a ré tinha recursos para fugir e. como se o carpete cinza contivesse pequenos focos de incêndio. É isso que “segundo Clu. mas também não gosta muito de celebridades. teria sido. Crimstein pareceu perder um pouco a pose. – Ela contratou advogado e entrou com os papéis? – Segundo Clu. – Quando ele lhe contou isso tudo? – Semana passada. provavelmente porque também é rica. – Você devia sair do caso – falou My ron.

– Mas vão atrás de você cheios de vontade. – Como? – Você mesma disse ontem à noite que sou advogado. Espero que seus livros de contabilidade estejam em ordem. imprensa. – Primeiro. Eles mencionaram sua temporada no Caribe. como também vai dar a . – Fiança negada – disse para si mesma. Não só vai parecer que é um sinal de desespero da defesa. Ela balançou a cabeça. My ron se virou para Hester: – Me nomeie advogado assistente. é uma idiotice. – Podem provar que Esperanza sabia disso? – Provavelmente. Com ninguém. – Eles ainda devem estar vasculhando isso – replicou Crimstein. – E nós três estaríamos envolvidos? – Sim. discou um número e começou a falar. – Tudo bem. uma forma de você não depor. A juíza vai perceber que é uma manobra. Segundo. Me ponha como membro da defesa. talvez nas Ilhas Cay man. e tudo o que Esperanza me disser ficará protegido pelo sigilo profissional. – Não consigo acreditar que tiveram a coragem de pedir que ela não tivesse direito a fiança. Crimstein levantou a cabeça. – Depositar dinheiro em contas no exterior – falou My ron. Não era isso que FJ tinha falado? Crimstein se dirigiu a Win: – Essa história de saque grande é verdade? – Sim. E não estive nem perto das Ilhas Cay man. Pelo menos até ficarmos sabendo exatamente o que eles acham que vocês três fizeram. Nada de conversar com polícia. Escândalo financeiro. Nesse meiotempo. Todos nós sabemos o que isso quer dizer. pegou o celular. – Mas saí do país três semanas atrás. pensou My ron. antes de o dinheiro ser sacado.cadeira. vocês não falam nada. vou mostrar como se joga. My ron? Eles acham que é uma armação financeira. Pressionar por respostas. porque garanto que vão requisitá-los a qualquer momento. – Droga. – Sentou-se mais ereta. – Mas como? – Não sei. isso nunca vai dar certo. Ela ficou pensando um instante. promotor. – Nós três? – Você não está escutando. Win foi até um canto.

– Não acredito que ela tenha dito isso. – Não vamos tirá-la. – Se ela me quer longe – disse My ron –. – Estão em ordem – falou ele. – E eu? – Vão requisitar seus livros também. – O quê? – Você quer que ela diga? Me dê cinco minutos. você ainda pode ser indiciado por isso tudo. – Como vamos tirá-la de lá. Vou deixar isso para seus advogados. vai ter que dizer na minha cara. – Não? E de Esperanza? – O que tem ela? – É uma exigência tão dela quanto minha. soltando um longo suspiro. Ela se voltou para Win: – E você? Ele desligou o telefone. Eu vou. – Nunca roubei um centavo. Vá para o seu escritório. Fiquem longe do caso. Terceiro. Win arqueou as sobrancelhas: – Vão tentar. Que conveniente! – Você acha… – Não acho nada. – Estão limpos? – Tão limpos que poderiam servir de pratos. então? – perguntou My ron. – Vamos dar um jeito nisso agora. Silêncio. – Não recebo ordens de você. – Muito bem – falou Crimstein. My ron. Chame o contador. – Como? Já disse: eu estava no Caribe.impressão de que não queremos que você fale porque temos algo a esconder. – Ótimo. Já tenho muita coisa com que me preocupar. Por enquanto é só uma conjetura. Certifique-se de que seus livros estejam em ordem. Fiquem longe. – Certo. Onde só o grande mauricinho poderia encontrá-lo. . – Acredite. Estou dizendo a você o que o promotor pode estar pensando.

o que iria dizer? – Não. Ela o observou desaparecer pelo corredor. – Quando posso ver Esperanza? – Venha. – Acho que você também perdeu a aula sobre perjúrio. – Mesmo que só metade das histórias que ouvi sobre Windsor Lockwood seja verdade… – Você é esperta demais para dar ouvido a boatos. – Você está dizendo que ele é incapaz de cometer um assassinato? My ron não respondeu. – Você não quer ouvir o que Esperanza tem a dizer? – Não tenho tempo. My ron não se deu ao trabalho de revidar. – E? – Talvez tivesse um motivo para silenciar Clu Haid. Ela o encarou. estou com o celular. – Isso é ridículo. – Por que ficou com tanta pressa de repente? – Não perguntei. Hester Crimstein arqueou a sobrancelha. – Aonde ele vai? – Para o escritório. – Então se eu intimar você a depor e perguntar se alguma vez viu Windsor Horne Lockwood III matar alguém. Seu tom de voz fechava a porta a qualquer argumento. Ela está esperando por você. . My ron ficou surpreso. Win girou a maçaneta. – Se precisar dos meus talentos especiais – disse ele –. – Hum o quê? – Win era o responsável pela conta da qual o dinheiro desapareceu.8 – T E N H O Q U E V O LTA R PA RA o escritório – disse Win. – Hum. Saiu apressando enquanto Hester Crimstein entrava.

– Obrigado. O que parecia no mínimo estranho naquele ambiente. – Fico feliz em saber. – Está se sentindo melhor agora? – perguntou ela. Mesmo naquelas condições. – Se a sua pele estivesse um pouco mais morena. – Fugi com uma apresentadora de TV linda que eu mal conhecia. como se estivesse num bar. Esperanza sorriu. Ainda usava o uniforme laranja da prisão. – E ela… Como perguntar isso com delicadeza? Ela arrancou o seu couro? – De certa forma. Recostou-se na cadeira e cruzou as pernas casualmente. – É verdade. Esperanza disse apenas: – Detalhes. – Sim. Hester fez sinal aos guardas e os dois saíram da sala. – Sozinho? – Não. As mãos. O olhar dela se dirigiu a My ron. – Você não contou para ninguém onde estava. Ela quase sorriu. estavam cruzadas a sua frente. Quando a porta se fechou. eu sou o cara. você poderia passar por meu irmão.Esperanza estava sentada diante de uma longa mesa. Os olhos ainda evocavam a imagem de luares mediterrâneos e batas brancas. agora sem algemas. parecia radiante. Se existia um cara que precisava que uma mulher lhe arrancasse o couro… – Já sei. hein? – Obrigado. Fui eleito pelos veteranos o cara que precisa que lhe arranquem o couro. Como ele não desenvolvia as respostas. A pele elástica e os cabelos negros cintilavam contra o macacão laranja fluorescente. – E onde você esteve? – Numa ilha particular no Caribe. Ela gostou do comentário. – Mesmo assim. Aquilo não surpreendia nenhum dos dois. Esperanza sorriu para My ron. – Por três semanas? – Sim. – Ainda sabe falar com as mulheres. – Obrigado. Mantiveram-se calados por um . – Bem-vindo de volta – disse ela. Win descobriu em poucas horas. Tinha a expressão serena como a de uma estátua de igreja.

My ron tentou digerir suas palavras. – Acabou mesmo? A Rainha das Vacas se foi para sempre? – Não a chame assim. – Portanto. – Então você e Jessica terminaram? – perguntou. Se fosse fumante. Já perdemos clientes de mais.instante. Mas não arraste meu cobiçado rabo junto com você. triunfante. Por fim My ron perguntou: – Você está bem? – Ótima. – É melhor você voltar para o escritório. Esperanza dominou a bola e começou a fintar. – Não entendo. – A voz soou cortante. My ron ficou sem saber como continuar. – Não me importo com isso. tudo bem. Esperanza cruzou os braços e ficou calada. – Precisa de alguma coisa? – Não. Apenas temos preocupações maiores no momento. – Eu me importo. Quero você fora disso. mas elas eram como crianças hiperativas depois de se encherem de açúcar. Ela balançou a cabeça. estaria soltando anéis de fumaça. Isso a fez sorrir. Se você quer se autodestruir. Soava estranho. Mas ele não conseguia. Vai fazer você se sentir melhor. tudo tem um lado positivo – falou ela. – Vamos tirar você dessa – falou ele. My ron. ok? – Não foi isso que eu quis dizer. – Tenho uma das melhores advogadas criminalistas do país trabalhando no meu caso. – Diga “sim”. – Sou sócia agora. em grande estilo. – Ah. Mais uma vez. – Não estou aqui para falar sobre mim. – Sei disso. Deixe isso com ela. sou dona de uma parte da MB Representações Esportivas. – Prometo. Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta. – Não. – Ela foi para sempre? – Acho que sim. – Sim. em que assunto tocar e como fazêlo. ainda fingindo descontração. Ele se inclinou um pouco para a frente: – O que está acontecendo aqui? . – O quê? – Nós não temos preocupações maiores.

– Você acha que eu contaria para alguém? – Você pode ser obrigado a depor. Ela balançou a cabeça. My ron. – Concentre-se na MB. My ron abriu a boca. – Acabei de lhe dizer as razões… – Você tem medo de que eu deponha contra você? – Não foi o que eu disse. Não o culpo por fugir. – Não vai precisar. Olhou fixamente para ele durante alguns instantes. mas Win é um psicopata. – Eu mentiria. – Vá para o escritório. E você… – Esperanza parou. Provavelmente era a melhor coisa a fazer. . estudando-lhe o rosto como se buscasse algo que antes estava ali. – Não me importo se foi você – insistiu My ron. Vai precisar dar duro para mantê-la a salvo. – Isso não faz o menor sentido. – Normal. Mas não vamos fingir que você voltou à normalidade. – Sobre o quê? – Hester me disse para não falar sobre o caso com ninguém. Ela o encarou como se ele tivesse se levantado e lhe dado um tapa na cara. – Por que. descruzou os braços e procurou os olhos dele. Arrastou a cadeira para trás e se levantou. não – concordou ele. mas não preciso do seu tipo de ajuda. – Vou ficar do seu lado de qualquer jeito. o que você me disse foi para não ficar fuçando. – Não vai me contar o que aconteceu? – Não. Depois se virou. Você quer ajudar? Salve a nossa empresa. eu posso aceitar. nem você. Mas isso não deveria impedi-la de conversar comigo. tudo bem. fechou e tentou outra vez: – Win e eu podemos ajudar. O que está acontecendo? Ela fechou a cara. Somos bons nisso. Na verdade.– Não posso falar sobre isso. Nossas conversas não estão protegidas. então? Se você acha que não estou pronto para isso. – Você é uma peça danificada. olhou para cima. – Você o matou? My ron se arrependeu no exato momento em que as palavras saíram da boca. Eu o adoro. My ron. – Mas estou pronto para isto. Esperanza recuperou a tranquilidade. chamou o guarda e saiu da sala. Quero que saiba disso. – Sem querer ofender.

bem na Park Avenue. Em primeiro lugar. no princípio dissemos a todo mundo que o senhor estaria fora por um ou dois dias. – Dois deles chegaram a fingir que eram clientes em potencial. mas aquele não parecia ser o momento apropriado (ou seguro). Preocupados. Bolitar. uma semana ou duas. parecia uma saudação militar. Mas algumas pessoas se cansaram das desculpas. a MB Representações Esportivas possuía um ar de seriedade que poucas empresas podiam igualar. Sr. Os telefones estavam tocando. ajuda a um cliente adoentado. Segundo ponto: ela ainda não tinha tomado banho nem trocado de roupa desde a noite anterior. Big Cy ndi deixou as chamadas em espera e olhou para ele. no centro de Manhattan. Tarefa difícil. esse tipo de coisa. – Vindo de Big Cy ndi. Normalmente My ron o empresário consciente do poder da imagem. My ron alugava o espaço com um superdesconto dado por Win. Parecia ainda mais estranha que de costume. Ela lhe entregou uma pilha de anotações. O acordo fora um verdadeiro presente para My ron. Ficava em um local privilegiado. pode se livrar. – Sim. Bolitar. Ele começou a folheá-las. Do resto. – Big Cy ndi sempre o chamava de Sr. Em contrapartida. – São as chamadas de clientes desta manhã. Um elevador subia diretamente até a sala da recepção. O escritório ficava no décimo segundo andar. Depois. O arranha-céu Lock-Horne pertencia à família de Win desde que o tata-tata-tataravô Horne (ou seria o Lockwood?) destruiu uma cabana indígena e começou a construí-lo. Cheio de classe. Por causa do endereço exclusivíssimo e da capacidade de garantir aos clientes os serviços financeiros do quase lendário Windsor Horne Lockwood III. Finalmente. – Muitos clientes estão ligando também. como um pai ao visitar o jardim de infância. . faria algum comentário a respeito.9 BI G CY N D I J Á E STAVA no controle da recepção quando My ron chegou ao escritório da MB Representações Esportivas. – A imprensa está tirando da cartola todos os seus truques para subir até aqui. saídos das escolas da Primeira Divisão. Win cuidava das finanças de todos os clientes do amigo. Gostava de formalidades. Bolitar. – Para o senhor ficar sabendo – continuou ela –. a mobília era pequena demais para ela: seus joelhos tocavam as pernas da mesa. Sr. começamos a inventar emergências: doença na família. My ron não estava surpreso. – Passe as ligações. – Acabei de pedir ao guarda lá em baixo que dobre a cautela.

o que provavelmente era um bom sinal. não? – e acabava de abandoná-la. a que trazia fotos de todos os atletas na ativa representados pela MB. Fazia seis semanas que não ia à MB Representações Esportivas. um nome forte. – Sim. inclinado para a frente. A foto não respondeu. Ele pegou o papel e se dirigiu a sua sala. – Sr. Então disse: – Sim. É a coisa certa a fazer.Ele balançou a cabeça. os olhos estreitados. então foi para sua sala. Bolitar. como se aquela forma gigantesca diante dele tivesse engolido uma criança pequena. Sr. Bolitar? – Sim? – Sei que me disse para transferir só os clientes. As reformas haviam terminado. – Que bom. Seus clientes. Por isso. – Sim? – Vai ficar tudo bem com Esperanza? Mais uma vez. Clu? – disse em voz alta. Bolitar? Ele se virou. . teria conseguido tirá-lo dessa também? Meditação inútil – um de seus muitos talentos. mas o novo cômodo permanecia sem mobília. – Você tem uma lista de quem nos deixou? Já estava na mão dela. Big Cy ndi na linha interna: – Sr. My ron sentou-se a sua mesa e imediatamente o telefone começou a tocar. que estava agora pedindo ajuda. Mas My ron continuava a olhar. B de Bolitar. E Esperanza. ela vinha usando a sala dele. mas Sophie May or está na linha. que pareceu não satisfazê-la. Concentrou-se na imagem de Clu Haid. não vai? Mesmo ela não querendo sua ajuda? My ron fez um leve aceno com a cabeça. a voz distante contradizia seu tamanho. Havia tirado Clu de cada confusão ao longo dos anos que se perguntava: se não tivesse fugido para o Caribe. num sinal claro de que ia soltar a bola. Não havia mais nada a acrescentar. a bochecha inflada pelo pedaço de tabaco na boca. – O senhor vai ajudá-la. Abandonara sua empresa. Vai ficar tudo bem. Era estranho. Tinham roubado um pouco de espaço da sala de reuniões e da recepção para que Esperanza pudesse ter o próprio escritório. – O que você fez dessa vez. os olhos fixos na parede dos clientes. em posição de arremesso. Simples assim. Trabalhara com tanto afinco e por tanto tempo para construí-la – M de My ron. Ignorou-o por alguns segundos. Big Cy ndi.

– Eu mesmo ainda estou tentando entender. – Aqui é My ron. – Você falou que tudo isso era passado. – Esperanza é minha sócia – corrigiu ele. – As drogas. embora não soubesse bem por quê. My ron ia se defender. Ele ouviu um clique e disse “alô”. Entende o que estou dizendo? – Claro. Ele desligou o telefone. Que diabos está acontecendo aí? – Sophie May or ia direto ao ponto. My ron. as finanças andavam ótimas. – Às onze. Sra. – Precisamos dizer alguma coisa à imprensa. estava com o contrato novo na mão. blá-blá-blá. – Onde você esteve? Era Marty Towey. Mas não é você. Marty. Ele ficou calado. – Estão achando que sua secretária matou Clu. mas pensou melhor: – Acho que devíamos conversar sobre isso pessoalmente. – Você me disse que Clu tinha superado tudo isso. – Dane-se. que já estava semipreparado: havia retornado. – E não matou ninguém. Queria tratar diretamente com o chefão. – Jared e eu estamos na estrada com o time. não se preocupasse. meu Deus. – Jared era o filho e “cogerente geral” dos Yankees. em Cleveland no momento. – Combinado. calma. as bebidas. Big Cy ndi passou imediatamente a ligação de um cliente. – Que tal amanhã de manhã? – Vamos estar no estádio – disse ela. May or. as festas. ocupado em conseguir novos patrocínios.Era a nova dona dos Yankees. Está entendendo? . – Pode passar. tudo fora ótimo. – My ron. Marty era difícil de dobrar. escolhi a MB porque não queria nenhum subordinado cuidando da minha carreira. – Esperanza pode ser um amor. E Jared significava também nascido após 1973. – Não sei como posso ajudar. – Estou aqui com Jared. My ron respirou fundo e soltou seu discurso. Contratei você. calma. Vamos pegar o avião para casa hoje à noite. jogador da defesa dos Vikings. Co queria dizer que compartilhava o título com alguém que sabia fazer o trabalho porque conseguira o emprego graças ao nepotismo. My ron. os problemas – continuou Sophie May or.

deu-se conta de que estava tão afastado dos clientes que sequer sabia se Marty estava jogando com todo o seu potencial ou quase na geladeira. Meu Deus. Manhattan Norte. Encontro você no jogo e saímos para jantar depois. prometo. – Meu nome é detetive Winters… – É mesmo? Sua mãe o batizou de detetive? . O cara menor era mais jovem e muito. Quando My ron desligou. mas havia conseguido transformar a hemorragia em um filete de sangue apenas preocupante. Tudo vai dar certo. O cheiro horrível começou a impregnar as paredes. vocês vão ficar na cidade algumas semanas. Marty.– Estou de volta. Sr. – Meu Deus. Escute. – Problemas. mas não vou levar a culpa pelo cheiro. precisava se colocar a par de tanta coisa! Continuou a receber ligações parecidas durante as duas horas seguintes. babaca. mas ela bloqueava sua linha de visão como um eclipse solar. Alguns ficaram em cima do muro. coisa linda. e os mesmos policiais à paisana do fórum passaram rápido por ela. My ron franziu o nariz. Usava um terno cinza-claro com colete – o traje casual da Sears para policiais – e uma gravata dos Looney Tunes resgatada de 1992. posso até levar um tiro no lugar desse cara. qual de vocês está usando essa colônia? Cara de Piolho deu uma olhada rápida para o parceiro que significava: ei. Bolitar. e sapatos mais gastos que a bola de beisebol de Gay lord Perry. Por fim cedeu. para a gente revistar o local. tinha olhos embaçados. – E antes que diga que esta não é nossa jurisdição. – Temos um mandado de busca – disse o grandalhão. aparência de quem fora maltratado pelo mundo e o tipo de rosto que parece estar com barba por fazer mesmo após ter acabado de se barbear. Ligue para ele. Sem novas quebras de contrato. muito feio. – Escute aqui. mas deveria. O rosto parecia uma foto ampliada de um piolho. Big Cy ndi bateu à porta e entrou. Agora levante da cadeira. Um mau cheiro terrível. – Ótimo. com mangas que mal lhe chegavam aos cotovelos. Você está encrencado. embora não de todo desconhecido. seu merdinha – falou o grandão. que não estava mastigando nenhum charuto. Vestia uma capa de chuva. A voz rouca veio de trás de Big Cy ndi. vinha do corredor. Não consertara nada. Compreensível. – Que diabo… – começou My ron. – Saia do caminho. O grandão estava na casa dos 50. ainda estamos trabalhando com Michael Chapman. A maioria dos clientes se acalmou. não? – Vamos jogar contra os Jets daqui a duas semanas. My ron tentou ver quem era.

você tem que parar de pedir emprestada a colônia dos comissários de bordo. My ron mantinha o olho no visor: – A câmera capta seu verdadeiro eu. Aposto que se reproduzirmos o que gravei. My ron apontou para o Cara de Piolho. Saia daqui agora. olhando diretamente para a câmera. Bolitar – disse Winters. – Revistamos. ainda vamos sentir o cheiro da sua colônia. – Droga. engraçadinho. e eu achando que ia sair da seca. Colocou-as de forma dramática. Tantos canalhas são engraçados. – Ele não pode fazer isso sozinho? – O quê? – Esse cheiro nunca mais vai sair daqui. detetive. Winters. – Ei. My ron o ignorou e pegou uma pequena câmera. idiota.O policial só suspirou. Bolitar. My ron nunca tinha encontrado um que não fosse totalmente homofóbico. – É? My ron se levantou e abriu o arquivo atrás dele. – Pensei que vocês já tivessem revistado tudo. Cara de Piolho disfarçou um sorriso. o que incluía retorcer os dedos. Sr. – Sério. – Ei. e deu uma risada. – … e esse é o detetive Martinez. Winters pegou um par de luvas de látex para não destruir possíveis digitais. pena que a prisão de Sing Sing não seja televisionada. Agora voltamos para pegar a papelada financeira. – Só para ter um registro do seu trabalho aqui. O cheiro estava incomodando. Hoje em dia tem muitas acusações de corrupção policial falsas. saia do nosso caminho. – Vá em frente. você não pode tocar em nada aqui. Usar humor gay é a melhor forma de irritar um policial. My ron piscou e disse: – Quer que eu me abaixe e segure os tornozelos? – Não. oficial. está escrito no rótulo aplique abundantemente? – Você é um verdadeiro comediante. – Não é? – Não – retrucou Winters. ligando a câmera e apontando a lente para o grandalhão. – Não queremos nenhum mal-entendido. . – Por favor. – Vamos vandalizar esse lugar. Não queremos nenhum malentendido – disse ele. engraçadinho – disse Winters. – Duvido – retrucou My ron.

Ouviu muitas reticências e hesitações. . Nada inesperado.– Claro. Eles começaram a busca. Em caso de incêndio ou outra emergência qualquer. Os poucos com quem conseguiu falar tentaram desertar. pode subir. mal se notou My ron franzindo o nariz. Ela abriu a bolsa e mostrou-lhe uns HDs externos: – Está tudo aqui. – Comprei um escâner e digitalizei todos os papéis do escritório. My ron entregou a câmera a Big Cy ndi e começou a fazer ligações para os clientes que tinham deixado a MB. – Você fez backup de tudo? – Sim. Bons modos. Depois sua voz ficou séria. mas não estava conseguindo evitar a tensão. – Quem é? – Bonnie Haid está aí e quer falar com o senhor. A maior parte não atendeu. mas ainda assim estava estranhamente na defensiva. A culpa era algo engraçado. mas preciso dos contratos… – Tudo – disse ela. – Tudo? – Sim. mas pareceu que ela havia corado. Sabia que não havia nada de errado em nenhuma das pastas. Levaria tempo para recuperar a confiança deles. e Big Cy ndi atendeu: – Sim? – Pausa. Big Cy ndi e My ron observaram o elevador fechar-se. era difícil ter certeza. tudo bem. se é que recuperaria. que consistiu basicamente em colocar em caixas todo e qualquer documento que encontravam e levá-las. – Cartas e correspondências. Meu sobrenome é cooperação. My ron estava de pé atrás da mesa. – E desligou. Atualizo os HDs todos os dias. Big Cy ndi levou a viúva de Clu até a sala. As mãos enluvadas tocavam tudo. – Big Cy ndi. Botei um backup num cofre no banco. e My ron também se sentia tocado. Tentou parecer inocente – o que quer que isso fosse –. O interfone tocou. – Vai ser muito difícil – disse ele. Ele agia com suavidade. você é uma mulher surpreendente. Dizia-lhes apenas que estava de volta e gostaria muito de conversar com eles o quanto antes. – Sim. Os policiais terminaram e foram embora sem um adeus sequer. Quando ela riu dessa vez. percebendo que qualquer discurso mais agressivo sairia pela culatra. Por causa da máscara de cray on derretido. – O quê? – Trabalhar sem arquivo nenhum.

o braço passado sobre o ombro dela. não sei. Bonnie se sentou. – Sinto muito – disse ele. no porão da fraternidade. mas se tiver alguma coisa que eu possa fazer… – Tem uma coisa. Ficaram ali. então está bem confuso no momento. My ron hesitou e depois retornou a sua mesa. pode descontar em mim. não percebe nada. – Nobre? – Soa idiota. Bonnie. My ron engoliu em seco e foi até ela. – Não dê importância. não? – Bastante – falou ele. Ele parou onde estava.sem saber muito o que fazer. – Você é um cara legal. em mais uma daquelas bebedeiras dos jovens. Clu e ela estavam sentados no sofá. Mesmo na Duke. – Ajudar como? Ele encolheu outra vez os ombros e abriu os braços. Levantou a mão para detê-lo. Meus pais estão tomando conta deles agora. Bonnie deu um passo para trás e fechou os olhos. Bonnie inclinou a cabeça para o lado. sentada sobre as pernas. – Posso sentar? – perguntou ela. My ron. acho. ele se sentiu de volta aos tempos de faculdade. Charlie já tem 4. Esperou que ela tomasse a iniciativa. – Como estão os garotos? Ela encolheu os ombros. – Claro. – Obrigada. – Quando você voltou? – perguntou ela. – Ontem à noite. – Não quero dizer um clichê. que vestia um moletom cinza. – Não sei o que dizer. – Ajudar. dois dançarinos esperando a música começar. – Estou descontando em qualquer um que apareça na minha frente – disse ela. – Por quê? – Como? – Por que você lamenta não ter estado aqui? O que poderia ter feito? My ron encolheu os ombros. Sempre foi. Bonnie quase conseguiu sorrir. nobre. – Tudo bem. tinha algo em você que era. por um instante. como se não pudesse suportar a intimidade. Estou tentando fazer alguma coisa. . talvez. Não sabia sobre Clu antes disso. – Timmy tem só um 1 ano e meio. na Duke. mas em vão. Ela olhou para My ron um instante. depois baixou os olhos. Bonnie tinha deixado o cabelo crescer e. Lamento não ter estado aqui para ajudar você. desafiadora.

mas aquela mulher tinha acabado de perder o marido. – Você já falou com ela? – Sim. e My ron quase ficou feliz por Esperanza não lhe ter contado nada –. – Tenho alguma experiência em investigações. – Mas você é um agente esportivo. Ficaram em silêncio. – Por que você tem tanta certeza? – Conheço Esperanza.– Diga. Ela balançou a cabeça como se de repente compreendesse algo. Ela pareceu confusa: – Como assim. Ela estudou seu rosto. – Não foi ela. É difícil acreditar que ela tenha matado Clu. Bonnie o olhou com mais atenção. – Win sempre me deu medo. – E? – Não posso entrar em detalhes – ainda mais porque não sabia nenhum. My ron aguardava. Havia perguntas que precisavam ser feitas. – E estou. examinar? – Investigar. Mas Esperanza é inocente. – Porque você é lúcida. – Win também? – Sim. arquitetando uma abordagem. Vamos encontrar o verdadeiro assassino. – Por enquanto. – Me conte sobre a prisão. mas não foi ela quem fez isso. – E essas provas todas que a polícia encontrou? – Ainda não tenho resposta para isso. Bonnie. – Só por isso? Ele balançou a cabeça. – Você parece tão seguro. – O que quer saber? – Encontrei Esperanza algumas vezes ao longo dos anos. Era preciso pisar com cuidado para não tropeçar em alguma mina terrestre. – E agora vocês vão tentar descobrir quem matou Clu? . – Vou examinar esse assassinato – disse ele. My ron limpou a garganta.

– Ai. My ron. Quando necessário. a máquina de fax começou seu som primitivo.– Vamos. – E se não forem? Se você descobrir que Esperanza matou Clu? Hora de mentir: – Aí ela vai ser punida. – Isso está se tornando um mantra. ela podia se tornar desagradável como um rinoceronte colérico sofrendo de hemorroidas. como se pudesse enxergar a verdade. Bonnie cruzou os braços. – O que você quiser. Quando não necessário também. ai! Voltou há menos de um dia e já sabe de tanta coisa. My ron não tinha medo de que fossem interrompidos. – Pode me contar o que aconteceu? A distância. – Claro. Você trabalha rápido. Big Cy ndi trabalhara anos como segurança numa casa sadomasoquista. – Posso perguntar uma coisa? Ela encolheu os ombros. – Então? . Repita várias vezes e vai começar a acreditar. pensou. – Boa sorte. certo? – Eu já acredito. My ron. Suave. – O que você quer saber. – Ouvi dizer que dessa vez era algo mais sério. – Sempre estávamos. Suave agora. – Porque Esperanza não o matou. My ron. My ron cruzou as pernas. ai. Bonnie começou a sorrir. mexendo-se na cadeira. – Diga uma coisa. – Clu comentou com Win. – Qual é sua prioridade: descobrir o assassino ou libertar Esperanza? – São a mesma coisa. Bonnie. Faça a pergunta. – Por que você quer saber? – perguntou Bonnie. – Entendi – falou ela. então? – Você ia dar entrada no processo de divórcio? – Sim – sem nenhuma hesitação. O telefone continuava a tocar. – Você e Clu estavam passando por problemas? Um sorriso triste. – Não quero ser desrespeitoso. Não pergunto isso para me intrometer… – A sutileza não é o seu forte. My ron. suave.

My ron havia tentado o método fora de moda de afogar as mágoas. Mas não era um bom bebedor. sim. Plural. aquele momento instável de prazer que jaz entre a sobriedade e o vômito. um rabo de cavalo. – Você sabe a resposta. – Mulher. percorrer todas as avenidas possíveis… – Que bobagem. – Turbulência? – Ela soltou uma sonora gargalhada. My ron. Ela entrou. Clu pulou o balcão. My ron. Mulheres. Tudo era turbulento. Nunca parecia alcançar o cume da diversão. Ele levantou a cabeça do barril e foi como se o Capitão Marvel o tivesse atingido com um raio. você o expulsou de casa por causa de outra mulher. supunha. caiu de joelhos e a pediu em casamento. Era um requisito da universidade naquela época. – Quanto tempo vocês ficaram juntos? – perguntou My ron. Bonnie levantou a cabeça. cruzou as mãos e as colocou sobre a mesa: – No passado. Que não se forme uma ideia errada aqui. Ele gostava dessa tarefa porque o mantinha tão ocupado que até se esquecia de beber. Ele umedeceu os lábios. – Não teve nada a ver com o assassinato – disse ela. Tem de fato experiência nisso. Era como se não existisse para ele. – Perguntando sobre nosso casamento? – Perguntando sobre alguma turbulência na vida dele. De qualquer forma. – É sobre Clu que estamos falando. Isso o ajudara meses atrás. Depois. Acabei de dizer que não tem nada a ver com o assassinato. – Então o que aconteceu depois de todos esses anos? Bonnie abaixou a cabeça.– Então. já tão ensopado que às vezes os ratos ficavam presos ali e morriam. entendeu? Deixe como está. – Se ela não o matou. Porém. Bonnie descera saltitando até o porão da fraternidade usando um suéter com monograma. – Uau – murmurou ele. Ele sabia. Uma boa forma de se evitar o abuso de álcool. Após uma pausa: – Você não estava se gabando. – Só estou tentando descobrir quem o matou. os dois se amarraram de verdade. o encontro de Clu e Bonnie foi muito simples. – Deve ser verdade. não. pérolas e. cambaleou até Bonnie. ele em geral vomitava antes de alcançar o esquecimento. se ela não o matou. a cerveja derramando no chão. My ron e Clu estavam instalando o barril de chope. sem meias palavras. foi outra pessoa – repetiu. então. foi outra pessoa. Três anos depois. . O difícil de encontrar seriam os intervalos de calmaria. Alguma coisa genética. My ron bebia. Calouro na Duke. mas preciso ter um panorama completo da sua vida. Antes de fugir com Terese.

na verdade. Mas ele era bom em esconder. Não havia necessidade. Ofereça várias possibilidades num julgamento. Quanto mais motivos se descobrem. A namorada e/ou Bonnie saberiam sobre ele? Seria esse mais um motivo para o crime? Hester Crimstein iria gostar disso. Lembra daquela vez que tentamos uma intervenção. – Só sei o que saiu no jornal. – Perdão. – Ele teve outros casos antes. My ron. Ela desviou os olhos. Mas a questão do divórcio… ainda dói muito. – Entendo. – Qual era o nome dela? A voz dela era suave: – Nunca soube. que é igual a veredito de inocência. – E quebrou essa promessa? Bonnie não respondeu. O peito subia e descia. Teria a namorada o matado porque ele queria voltar para a esposa? Teria Bonnie cometido o crime por ciúme? E ainda havia o dinheiro desaparecido. ela não respondeu. Qual foi a diferença desta vez? – Dá um tempo. Ele se conteve. – Se você tiver outras perguntas… – Soube que Clu foi pego num exame antidoping – disse ele. mais dúvidas razoáveis se podem criar. – O quê? – Alegou que estava limpo. a voz lutando para manter-se firme: – Sei que você só está tentando ajudar.– Foi isso que aconteceu desta vez? – Ele deixou de lado as mulheres. – Ela engoliu em seco e o olhou nos olhos. – Ele disse a Win que foi armação. Bonnie. – Então ele estava se drogando de novo? – Não sei. Nós dois sabemos disso. – Fazia semanas que não o via. – Mas tinha outra? Outra vez. Era uma equação simples: confusão é igual a dúvida razoável. O que você acha? – Acho que Clu era um completo desastre. três anos atrás? . – E antes disso? – Parecia limpo. Que Clu estivesse tendo um caso era algo muito bom para a defesa de Esperanza. My ron tentou vestir sua toga de advogado por um momento. Me prometeu que não haveria mais. ok? Clu não foi nem enterrado ainda. só para recuar um pouco. turve bem a água e o veredito de inocência é quase inevitável.

Antes dava quase para ver que estava no piloto automático. Imploramos que parasse. Pode ser por desejar que não fosse verdade. My ron não dizia nada. Seus olhos agora estavam mais limpos. Certamente estava se perguntando se não fora ela própria esse empurrão. – Você acha que foi para comprar droga? – Os jornais disseram que os resultados deram positivos para heroína – . subornou um guarda e fugiu da clínica. e os olhos se encheram de lágrimas. – Me pergunto. Talvez se não estivéssemos sempre ali para salvar sua pele. se Clu realmente estava limpo e ela tê-lo posto para fora o arremessou de volta ao mundo do vício. My ron quase lhe disse para não se culpar. que precisasse tanto de mim. – Era a pessoa mais dependente que já conheci. Representando para mim e para as crianças. – A voz era distante agora. – Fiquei sabendo pela polícia. Se eu o tivesse largado anos atrás. Mas alguma coisa deve tê-lo puxado para trás… A voz de Bonnie sumiu. teria se endireitado e sobrevivido a isso tudo. Soluçou como um bebê. Como se soubesse que era sua última chance de dar a volta por cima. – Quantas vezes as pessoas livraram a cara dele? – Muitas vezes – admitiu My ron. My ron – continuou ela. E finalmente Clu se rendeu. ignorou a contradição em seu discurso: afinal. E acho que estava conseguindo superar. Dois dias depois. ela o largara e ele acabou morto. – Nós todos choramos. – Mas não acredito. ele teria que mudar. Estava se esforçando como eu nunca tinha visto. – Bonnie olhou para My ron. mas o bom senso bloqueou aquele lugar-comum. – Por que não? – Não sei. Era bom nisso. mas acho que desta vez ele estava limpo. Mas se tornou cansativo. – No início isso me atraía. – Então você acha que ele estava mascarando os sintomas? – Pode ser. disse que estava pronto para mudar de vida. – Faz alguma ideia de onde possam estar? – Não. sentando-se mais ereta. – Ou por que ele precisou deles? – Não. Mas desta vez parecia mais decidido. encorajando-a. – Clu sempre precisou de alguém ou de alguma coisa – continuou ela. My ron assentiu. – Você sabia sobre os 200 mil dólares? – perguntou.My ron assentiu. o olhar vagando por sobre o ombro de My ron. – Pergunto se todos nós não lhe prestamos um desserviço. – Ela hesitou.

As lesões de Billy Lee não tinham sido graves. Isso pode mudar tudo para o resto da sua . E agora me pergunto se fizemos a coisa certa. mas Bonnie tivera de ser levada às pressas para o hospital. Ser preso por dirigir bêbado já era péssimo. Agiotas. – Quero dizer. e ainda com alguém ferido. Bonnie. My ron despertou e atendeu. essas coisas? – Acho que é possível. Estava dirigindo com Bonnie e o antigo companheiro de quarto na Duke. – Se pergunta o quê? – Aquela foi a primeira vez que todos nós nos juntamos para salvar sua pele. quase incoerente. – Você tinha acabado de conseguir para Clu um contrato de propaganda com aquela marca de achocolatado. Talvez. jogatina. Mesmo os gestos mais simples. teria sido o seu fim. Sei que é um vício caro. se tivesse ido para a cadeia em vez de ter se livrado… – Ele não iria para a cadeia. – E outra vez me pergunto. Talvez perdesse a carteira e tivesse que fazer algum serviço comunitário. Bonnie balançou a cabeça. Clu. claro. ainda olhando para o nada. para ser mais preciso. Billy Lee Palms. Batera num poste. na hora. Dirigindo embriagado. – Que fosse! A vida nada mais é que uma sucessão de causas e efeitos. My ron correra até o oeste de Massachusetts. receptor do Bisons. As pessoas certas foram subornadas. com os New England Bisons. fora preso. além das habituais. Nós o salvamos. – Estava metido em alguma confusão? Ela o encarou. escolher um caminho diferente. Billy Lee e eu declaramos que uma picape tinha nos fechado. Ainda numa liga menor. Logo depois de ele ter pedido a você que negociasse seu contrato. Lembra? My ron balançou a cabeça. Mas resolvemos o problema por ele. Existem filósofos que acham que tudo o que fazemos transforma o mundo para sempre. – Seria uma novidade para Clu. com bastante dinheiro no bolso.respondeu ela. My ron concordou. bem. O telefonema tarde da noite. – Foi o que eu li. Como sair de casa cinco minutos mais tarde. Clu chorava. se Clu tivesse pagado o preço ali. – Lembro – respondeu ele. mas 200 mil parecem um exagero. – Sabe no que estava pensando? – No quê? – No primeiro ano de Clu como profissional. – Mas você não sabe de nada. que não havia sofrido um arranhão.

claro. Ou talvez tenha começado antes daquilo. No final das contas. Não concordo necessariamente. livramos a cara dele aquela noite. sim. – Mas o assassinato. tenhamos dado mais um passo nesse condicionamento. A primeira vez em que descobriu que. Talvez tenha se sentido frustrado porque ela não lhe disse onde você estava. Você não estava falando com ele. My ron. Então quem mais Clu iria procurar? Ela pensou um instante. Clu descobriu que alguém sempre iria salvá-lo. – A vida raramente é tão simples. – Ficava violento quando estava doidão? – Não. não você ou eu ou aqueles que gostavam dele. – A polícia me perguntou isso também. – Talvez você esteja certo – disse. Ela ficou pensando. – Algum amigo. Esperou que passasse. naquele dia. ela fingiu olhar as horas: – Tenho que ir ver as crianças. acho que os efeitos duram. Após um tempo. Ele balançou a cabeça e levantou da cadeira. My ron fez mais algumas perguntas. . não porque o ajudamos em alguns momentos autodestrutivos. – Você sabe por que Clu agrediu Esperanza? Ela negou com a cabeça. porém não arrancou mais nada de importante. os exames antidoping positivos e tudo o mais. Talvez estivesse doidão. é. Não sei. atentado ao pudor. Quando era criança. – Não tenho certeza. Talvez. Bonnie? – Como assim? – Você disse que ele estava carente. Mas acho que estava sob um bocado de pressão. Eu não estava aqui. alguém atirou nele. Ponto final. Ou permitindo que chegasse a um nível adulto. ela não se esquivou. Outra onda de culpa. mas não parecia convencida. – E Billy Lee Palms? Bonnie deu de ombros. Depois vieram as acusações de agressão. Foi assim que ele morreu. – Quem mais ele pode ter procurado. mas quando se trata de coisas grandes. Alguém o matou. porque conseguia jogar uma esfera branca numa velocidade incrível.vida. sem saber o que dizer. Dessa vez. – E você acha que o assassinato foi o resultado inevitável? – Você não? – Não – respondeu My ron. E nós fizemos isso. – Acho que a pessoa que atirou nele três vezes é a responsável. colega de time? – Não creio. E essa pessoa é a culpada. em geral. as pessoas o tratavam de forma especial.

Ele não disse nada. – Clu não podia dar isso – falou Bonnie. segurando-o com força. – Ainda precisa de justiça. – Não era um homem nobre. – Salve sua amiga.My ron a abraçou e ela retribuiu. Ele pensou na família Slaughter e como tudo tinha terminado. – Me faça um favor – pediu. E eu não gostaria que ela fosse para a prisão por uma coisa que não fez. . – Diga. – Como eu disse antes. Mas depois deixe pra lá. Sentiu algo se esmagar dentro dele. My ron recuou ligeiramente. de desfechos e de fazer a coisa certa. – Não merecia ser assassinado. My ron. – A faculdade foi há muito tempo – disse My ron em voz baixa. – Inocente a sua amiga – disse Bonnie. Ela pôs a mão em seu braço. você é um cara nobre. – Não entendi. – Você ficaria surpresa. Depois esqueça Clu. – Você não mudou. – Entendo por que você tem que fazer isso.

mãos bem tratadas e abotoaduras. como se elas estivessem com frio ou preparando-se para almoçar no Le Cirque. Não naquele dia. de cabeça . Os homens olhavam constantemente para cima. observando com avidez o preço das ações. seus escritórios dispostos ao longo das janelas. e balançavam muito a cabeça. alento de ar puro ou outro elemento essencial ao ser humano. e um monte de caras de terno se virou em sua direção. Homens brancos exaustos – havia mulheres e representantes de minorias também. Os generais dessa guerra – os xamãs. impedindo o acesso dos soldados rasos a qualquer nesga de céu azul. Telas de computadores piscavam em meio a uma confusão de post-its. naturalmente. balanços financeiros e avaliações de empresas. a expectativa estampada em seus rostos. Vestiam camisas sociais brancas com gravatas de nó duplo. os paletós cuidadosamente pendurados no encosto das cadeiras. de cabelos brancos. Muitos ternos. com listras de gravatas e lenços vermelhos. o que for – encontravam-se acampados no perímetro. em quantidade maior a cada ano. Em geral. os melhores rebatedores. estavam sentados em cadeiras de couro bordô. senhores distintos. rodas eram giradas e cartas distribuídas. Talvez seis ou oito. com fones cinza presos aos ouvidos. Os mais jovens se encontravam espremidos nos sofás encostados na parede. mais perto da mesa de Win. Formavam uma grande mancha cinza e azul. na direção de um placar eletrônico. Dados rolavam. os grandes produtores. mas com apliques de cabelos melhores. Perdia-se e ganhava-se dinheiro. cada um tentando sobreviver num mundo onde ganhar valores abaixo de seis dígitos significava covardia e provavelmente a morte. Os guerreiros bebiam café e enterravam fotos emolduradas da família sob uma emanação vulcânica de análises de risco. My ron enfiou a cabeça pela porta. O nível de ruído naquele salão amplo lembrava a My ron um cassino em Las Vegas. Win ficava sozinho no escritório. Os mais velhos. uma multidão de soldados armados. Aquelas eram as trincheiras do mercado financeiro. mas os números absolutos ainda eram dolorosamente injustos – iam de um lado a outro como átomos superaquecidos. Não sabia dizer quantos. Gritava-se de alegria e aflição. My ron subiu uma rampa acarpetada até a sala do canto esquerdo. feito cordões umbilicais para mantê-los vivos. como jogadores à espera da roleta parar ou hebreus espiando Moisés e seus mandamentos. como uma composição viva da bandeira norte-americana.10 M Y RO N P E G O U O E L E VA D O R e subiu dois andares até o centro nervoso da Lock-Horne Seguros e Investimentos. Win não se sentava ali.

Não interessava. De vez em quando eles olhavam para os mais velhos. – Acho que você está exagerando – retrucou My ron. em especial porque daria muito trabalho contar quantos ternos havia na sala. Depois se acomodou e encostou as pontas dos dedos. fazendo anotações em blocos pautados. Os mais velhos primeiro. My ron não se preocupou com a matemática. como se Win estivesse divulgando o segredo da vida eterna.baixa. Win. sim – disse ele. Os mais velhos deviam cobrar 400 dólares a hora. O amigo balançou a cabeça. – Essa situação está me trazendo problemas. Win levantou a sobrancelha e pôs a mão em concha perto da orelha: – Pardon moi? – Calma. formando um triângulo com as mãos. Win bateu palmas e os homens foram liberados. como linhas de telesexo. – Não é isso que importa. My ron entrou e perguntou: – O que está acontecendo? Win fez um sinal para que sentasse. 52. A Lock-Horne Seguros podia se dar esse luxo. balançando as mãos unidas antes de encostar os indicadores no lábio inferior. . Win deu um leve sorriso. Os blocos pautados diziam tudo: eram advogados. – Não me agrada quando ouço as palavras mandado judicial e Lock-Horne na mesma frase. – Deixe-os ver seus documentos. Você tem muitas qualidades. Redistribuir riqueza – isto é. o agente esportivo marxista. Ergueram-se o mais devagar possível – advogados que recebiam por minutos. – O quê? – Minha família controla uma corretora de valores. e honestidade é a principal delas. Tem sempre algum escândalo circulando em Wall Street. My ron Bolitar. o prazer garantido – e saíram em fila pela porta. digamos. Win. – Você é tão ingênuo. os mais jovens seguindo-os. vislumbrando seu futuro glorioso. – Você está se referindo ao saque de Clu? – Em parte. que consistiria basicamente em uma cadeira mais confortável e menos anotações a fazer. – São na maioria casos de informações privilegiadas. só que sem. – E? – E uma simples insinuação pode destruir a empresa. a ação de fazer o dinheiro circular sem criar ou produzir nada de novo – era algo incrivelmente lucrativo. Os mais jovens. As pessoas nem notam mais. – E daí? Você não tem o que esconder. como esposas japonesas.

ainda pior. Win juntou novamente as pontas dos dedos. – Informação privilegiada é um animal completamente diferente. – Como assim? – Você precisa mesmo que eu explique? – Acho que sim. era um sinal de grande ansiedade. Meus clientes não querem saber se fraudo ou roubo. My ron concordou. – Tudo bem. como num antigo comercial de detergente em que uma dona de casa vê.– E? Win olhou para My ron por um momento. mas pela primeira vez ele parecia um pouco nervoso: – Coloquei três escritórios de advocacia e duas agências de publicidade trabalhando nisso. – Trabalhando nisso como? – Da forma habitual – respondeu Win. – Estou ouvindo. Quero anular essa possibilidade antes de qualquer juiz pensar nela. – Cada um faz o que pode. entrando com um processo contra a promotoria de Bergen por difamação e calúnia. – Posso ver de onde viriam os problemas. Negociar usando informações privilegiadas é fraude ou roubo. – Os documentos já foram requisitados? – Não. Vindo dele. maravilhada. – Pedindo favores políticos. esses clientes ficam compreensivelmente nervosos. A grande mesa de jacarandá estava tão lustrada que devolvia sua imagem como um espelho. Mas se o consultor financeiro está brincando com suas contas pessoais ou. vendo quais juízes vão tentar a reeleição. se um ato ilegal aumentasse sua carteira. – Em outras palavras – disse My ron –. Win tamborilou os dedos sobre a mesa. seu reflexo num prato. – Talvez seja a hora de partirmos para o ataque. a maioria dos clientes nos encorajaria. Era difícil acreditar. Na verdade. se a instituição bancária está envolvida em algo que dê ao governo o direito de requisitar documentos judicialmente. plantando notícias positivas na mídia. Win deu de ombros. quem você pode comprar. O telefone vermelho de Win – ele era tão louco pelo velho seriado com Adam West que tinha seu próprio batfone. My ron contou como tinha sido a conversa com Bonnie Haid. – Você está sendo obtuso de propósito? – Não. Vou colocar as cartas na mesa. sob o que parecia ser uma cobertura para bolos de . desde que seja em beneficio deles.

que deu a Clu. – Pelos Yankees. Clu e Bonnie alugaram o apartamento quando ele foi contratado. – Nenhum dos dois pegou uma caneta. um grande negócio. precisamos dos registros das conversas telefônicas de Clu. My ron podia ouvir o pânico advocatício saindo do fone e percorrendo toda a extensão da mesa. – Eles se mudaram para a casa de Tenafly em julho. Vou pedir que ela cheque os números de telefone. – Vamos encontrá-lo – disse My ron. – Precisamos também encontrar essa namorada misteriosa – falou My ron. mas a maioria vai tentar cobrar 3 mil e. veterano envelhecendo. pode saber de alguma coisa. nosso velho colega de fraternidade. Sua parte na conversa se resumia basicamente em uma palavra: quanto. Isso incluía o cartão de débito Visa. – Não. os saques no caixa eletrônico. No caso de Clu. – Não deve ser muito difícil – replicou Win. Billy Lee Palms. Win disse: – Vamos fazer uma lista. uma última chance para desperdiçar. – E. Win permanecia calmo. Win precisava atender as ligações. levantando o indicador. como você já sugeriu. tudo. – Ele estava morando num apartamento em Fort Lee – falou My ron. Conseguir registros de conversas telefônicas é assustadoramente fácil. – Tenho. – Precisamos ainda conferir os cartões de crédito. Todas as suas finanças eram controladas pela Lock-Horne Seguros e Investimentos. – Você tem o endereço? – perguntou Win. Depois. – Uma coisa – acrescentou Win. com metade disso.vidro – interrompeu-o várias vezes. isso seria ainda mais fácil. basta pagar 2 mil dólares para ter a conta de telefone de qualquer pessoa. Não acredita? Então abra o catálogo telefônico e escolha um detetive particular ao acaso. em maio. Quando Bonnie o colocou para fora. Quando My ron terminou seu relato. Compreensível. mas ainda tinham seis meses de aluguel do apartamento. vão subornar algum funcionário de companhia telefônica. – Primeiro. – Exato. . – A cena do crime. – Envie os registros para Big Cy ndi. – Ótimo. a maioria de advogados. as contas mensais em débito automático e o talão de cheques. Win havia estabelecido uma conta exclusiva para Clu a fim de poder cuidar com mais comodidade de seu dinheiro. Alguns detetives vão topar de cara. ele foi morar lá. e ver o que ele andou fazendo ultimamente – continuou My ron. Win assentiu. Windsor Horne Lockwood III não era o tipo de cara que você gostaria de decepcionar. o talão de cheques.

hipotecas e mensalidades escolares a pagar. Win se recostou na cadeira. Mais até por elas que por mim. – E? – E não faz sentido. – Eu não tenho. – Ele fixou em My ron seus frios olhos azuis. – Não estou me deixando levar pelas emoções – continuou My ron. – Eu sei. A arma. por . tem que rezar… – Já entendi – interrompeu My ron. Primeiro. Win franziu o cenho. tenho uma empresa para proteger. mas não disse nada. – Tudo bem. – Você vai ter que fazer a maior parte do trabalho braçal sozinho. Deixei você de fora por razões óbvias. – Mesmo com o risco de soar melodramático. Se quiser ouvir mais um clichê. Win deu de ombros outra vez e disse: – Engraçado. – É uma coisa a que dou muita importância. Win ficou em silêncio por um instante e balançou a cabeça antes de falar: – Esperanza não mataria por dinheiro. Pelo emprego delas e sua segurança financeira. – Por quê? – Eu tenho uma empresa para cuidar. – Diria que essa conclusão é no mínimo prematura. – Win fez um gesto em direção às baias. é claro. não? – O quê? – Notou que nem mencionamos Esperanza? Você sabe por quê? – Não sei. – Três – corrigiu My ron. – Não. vai prejudicar duas pessoas. – Sem dúvida. – Vou me envolver. – Se você quebrar sua empresa. mas vamos olhar para as evidências agora. Estou falando de Big Cy ndi e Esperanza. – Você esqueceu Big Cy ndi. sou responsável por essas pessoas. Win arqueou a sobrancelha. E nós sabemos muito bem que não seria o motivo. Elas têm famílias. – Certo. – Talvez – falou ele – tenhamos dúvidas sobre sua inocência. – Eu também – retrucou My ron. por que ela mataria Clu? Qual seria o motivo? – O promotor parece achar que ela o matou pelo dinheiro.– Diga. pode escolher: ajoelhou. – Então não temos nenhum motivo. – Tenho pensado nisso. – Ainda assim. E se meus talentos pessoais forem necessários… – Vamos torcer para que não sejam – interrompeu My ron.

onde quer que fosse? – Então você acha que O. J. então o sangue e as fibras também. – Por outro lado – disse Win –. certo? – Certo. O batfone tocou outra vez. Esperanza tem uma discussão séria com Clu na frente de testemunhas. não? Se ele dirigiu até sua casa e tomou banho. – Se espirrou todo aquele sangue e ele ficou ensopado. – O quê? – O caso O. – Mas talvez a discussão no estacionamento só tenha precipitado as coisas. – Você não está entendendo o que quero dizer. era de esperar que achassem mais que umas gotas no painel do carro. Simpson. Win resolveu a questão em segundos. por que tão pouco foi encontrado? – Ele mudou de roupa. Qualquer um que veja televisão sabe que o criminoso sempre se livra da arma. houve testemunhas. – Entendo o que você está dizendo. – Então a arma deve ter sido plantada. E. – E? Mesmo que tenha mudado. Há . era inocente? Win franziu novamente o cenho. Já trabalhou conosco antes. – Lógico – disse Win. Veja o caso O. se foi. nunca vi um crime perfeitamente lógico. – Pense nisso um instante. Simpson – repetiu. nos canos. Win balançou a cabeça devagar: – Concordo. e os dois voltaram a pensar. Ela saberia que se tornaria suspeita. J. Conhece o funcionamento dessas coisas. por que não encontraram sangue nos azulejos. em seu melhor estilo Sr. J. My ron ergueu um dedo. Esperanza seria tão burra a ponto de matá-lo logo depois de uma briga pública? – Bom argumento – concordou Win. Win hesitou. vamos supor que Esperanza ainda assim tenha sido burra o suficiente para matá-lo depois da briga. – Como assim? – A realidade é confusa e cheia de contradições. – Então por que a arma do crime estava no escritório? Esperanza não é idiota. – Primeiro. – Continue – falou Win.exemplo. Talvez depois disso Esperanza tenha percebido que Clu estava fora de controle. – E o que é? – A investigação de assassinatos nunca faz sentido completamente. certo? Afinal. Spock. – Ótimo.

– E – continuou My ron – se Clu estivesse envolvido em alguma coisa ilícita. . – Sim. – Apenas para continuar o raciocínio. – Ela não o matou. sei lá. – E possibilidade número três: o assassino quer prejudicar bastante um de nós. My ron engoliu em seco. na casa dela. vamos supor que a arma tenha sido plantada. Talvez o assassino tenha ficado sabendo da briga no estacionamento e chegado à conclusão de que Esperanza daria um bom bode expiatório. Talvez tenha pensado que a arma estaria mais segura no escritório que. – O quê? – Essa acusação de assassinato nos atinge seriamente – disse Win. – E dos nossos. Win. Win apenas sorriu. – Temos que considerar várias possibilidades. – Por exemplo? – Primeira: talvez estejamos dando atenção de mais à tentativa de incriminála. – Tudo bem – assentiu My ron. – Como assim? – Pode não se tratar de uma vingança pessoal. – Quem de nós é incapaz. Falhas inexplicáveis.sempre defeitos no tecido da lógica. – Qual a outra? – O assassino quer machucar bastante Esperanza. – Sim. – Alguém como FJ. Win abriu os braços. – A suposição óbvia. – Ou nossos negócios – completou My ron. os olhos fixos nos de My ron. se isso serve para alguma coisa – falou Win. Win balançou vagarosamente a cabeça. de cometer um assassinato? Silêncio profundo. Talvez não achasse que a polícia fosse suspeitar dela. – Então tudo isso seria só uma forma de desviar a atenção do verdadeiro assassino? Nada pessoal? – É uma possibilidade – respondeu Win. Algo como uma bigorna gigante de desenho animado caiu sobre a cabeça de My ron. – Precisamos fazer uma lista dos inimigos dela – falou My ron. Talvez Esperanza tenha cometido um erro. em dadas circunstâncias. – Só isso. – A questão é: quem fez isso? – E por quê? – acrescentou Win.

subitamente exausto. Esperanza está escondendo alguma coisa de nós. colocando o dinheiro de lado um instante. Quer uma forma melhor que destruindo sua empresa e mandando sua melhor amiga para a cadeia? – Dois coelhos com uma cajadada só. – Nem eu – falou Win. FJ adoraria qualquer chance de destruir você. Silêncio. – Bastante. – Não gosto da ideia de arrumar confusão com os Aches – falou My ron – e gosto menos ainda de invadir a privacidade de Esperanza. amigão. – Você? Antes queria matar FJ. não? – Trágico. O simples extermínio é a melhor linha de ação. – É exatamente esse o problema. My ron se recostou na cadeira. – Exatamente. – Como assim? – Inocente ou culpada – falou Win –. – Mas a coisa pode piorar. Nos meter um pouco em sua vida pessoal. temos que mantê-lo vivo para provar seu envolvimento. – É para ter medo – concordou Win. Agora não posso matá-lo. – Não gosto da ideia de me meter com os Aches. – Triste. – Então eliminamos sua opção favorita. – Temos que investigá-la também. Win assentiu. . Se o jovem FJ está por trás disso.algo que exigisse grandes quantias de dinheiro… – Então FJ e a família seriam os principais destinatários – Win concluiu o raciocínio. Prender um verme é perigoso. – Não temos escolha – continuou ele. – E é claro que.

e quantas vão escolher campainhas que soem bem alto? Dava vontade de dizer: sabe de uma coisa. Pergunte a zilhões de pessoas quais suas coisas favoritas.11 A P RI M E I RA P I STA E M P O T E N CI A L provocou duas reações em My ron: deixou-o terrivelmente assustado e o lembrou A noviça rebelde. Etiqueta com o endereço impresso e. mas sempre achou idiota uma canção em particular. Ele ficou paralisado. Sem remetente. se usava preservativo ou tinha feito exame de sangue. com duas mechas caídas na frente e um . ler um bom livro. Olá. Nada escrito. deu de ombros. Às vezes. sacudiu-o e viu um disquete cair sobre sua mesa. foi o que encontrou na sua grande pilha de correspondência. My ron gostava muito do velho musical com Julie Andrews – quem não gosta? –. Já ia entrar no Windows Explorer para ver que tipo de arquivo era aquele quando alguma coisa começou a acontecer. não que My ron soubesse disso por experiência pessoal). As campainhas são tudo para mim. Apenas um simples quadrado preto com um pedaço de metal na parte de cima. Abriu o pacote. principalmente porque pareciam pacotes enviados por algum tarado pelo correio (bem. corro até a casa das pessoas. My ron se recostou e franziu o cenho. Tinha o cabelo comprido e fino. Deu um gemido. Entretanto. em que drive suspeito fora inserido antes. Carimbo do correio de Nova York. Outra das curiosas “coisas favoritas” eram os pacotes de papel pardo amarrados com barbante. Millie. Nada. My ron o pegou. Era uma garota. Um simples pacote embrulhado com papel pardo. Nenhuma etiqueta. Torceu para que não fosse algum tipo de vírus. Na verdade um dos clássicos. A tela ficou preta. Não sabia onde havia estado. virou de um lado e de outro. My ron puxou a orelha. não se enfia um disquete desconhecido no computador. acho que sou homem o bastante para admitir que tremo de prazer. Campainhas. a palavra pessoal. toco a campainha e. Estudou-o por um instante. fazer amor ou ver um musical na Broadway. Millie? Adoro campainhas! Não dou a mínima para passear numa praia. meteu-o no computador e apertou algumas teclas. “My Favorite Things”. Afinal. bem. Não fazia o menor sentido. Seu pobre computador. Esticou o dedo a fim de apertar a tecla Esc – último refúgio de alguém com fobia de computadores – quando uma imagem apareceu na tela. sob ele.

My ron respirou fundo algumas vezes. quase gritando. Sem nenhum aviso. em fotografia ou seja lá o que fosse. Ou ao menos já a vira. Por quê? Quem tinha mandado aquilo para ele? E quem era a garota? Sua mão ainda tremia quando pegou o telefone e digitou. Kennilworth. ler em voz alta durante a aula da Sra. Sim. as mãos agarradas com força à beira da mesa.sorriso desajeitado. Aparelho nos dentes. ensaiar com a banda nos fundos do estacionamento”. Sangue começou a escorrer das órbitas. Era a única forma de descrever. Olhou-a bem. Aquele disquete terrível havia estado em sua pilha de correspondência desde que fugira. acompanhada por “Fulana adorou ser secretária/tesoureira do clube estudantil. My ron temeu que vazasse da tela. por um momento. a tela ficou misericordiosamente preta. O sangue cobria toda a imagem e. Depois o menu do Windows 98 reapareceu. tingindo o rosto de vermelho. na esperança de que viesse à sua cabeça o nome ou alguma lembrança passageira. O carimbo do correio era datado de três semanas antes. um som normal que o deixou mais arrepiado que se tivesse ouvido um uivo. Continuou a olhar. Ele se esticou para trás e pegou o papel pardo da embalagem. My ron conhecia a garota. numa loja de departamentos. A gargalhada parou. suas lembranças preferidas incluem passar o tempo com Jenny e Sharon T. alguma citação profunda de James Tay lor ou Bruce Springfield. olhava para o lado. e o fundo era o arco-íris desbotado típico de retratos de escola. aquela coisa bem juventude perfeita. era o tipo de retrato que se encontra emoldurado em cima da lareira de mamãe e papai ou no livro da turma de 1985 de uma escola de ensino médio do subúrbio. O som de uma gargalhada saiu pelos alto-falantes do computador. a testa caiu. Porém não havia dúvida. As mechas de cabelo deslizaram e se misturaram à pele. My ron? . Típico. com uma autodefinição embaixo da foto. A garota começou a derreter. Ele calculou que tivesse uns 16 anos. E de repente aconteceu. Uma espécie de obituário da adolescência. o nariz se dissolveu. Não era de um psicopata nem parecia cruel. Não conseguia se lembrar de onde nem quando ou se a vira pessoalmente. os olhos se reviraram e depois se fecharam. mas mesmo assim o homem atendeu dizendo: – Tudo bem. Três semanas. Nada. My ron deu um pulo na cadeira. mas a gargalhada feliz e saudável de uma adolescente. Que droga era aquilo? O coração batia contra as costelas como se quisesse sair. Seu número não apareceria no identificador de chamadas do outro lado.

– Imaginei então que tivesse ligado de novo o telefone. – Vi você no noticiário – disse ela. Por todo lado havia metal. My ron viu rapidamente um cômodo que parecia a sala de comando de Jornada nas estrelas. tinha-o desligado. – Quem é a garota? – Não sei. monitores e fitas magnéticas. Czerski. Ele o entregou. – Qual é o problema. My ron tentou seu sorriso número 17 – o sorriso úmido de Alan Alda pós-M*A*S*H. . Preciso que alguém o analise. My ron se deixou cair numa cadeira de plástico amarelo. livros baratos numa parede. Três polegadas e meia. Mais silêncio. como se o telefone fosse uma concha do mar. vai ser difícil. três cadeiras de plástico moldado. – Alô? – Oi. Um som abafado encheu seus ouvidos. luzes. A Dra. então? – Um disquete. Kirstin Czerski vestia um jaleco branco e tinha a carranca de uma nadadora da antiga Alemanha Oriental. My ron. – Espere aqui. Piso de linóleo. – Meu nome é… – O disquete – interrompeu ela. – Meu Deus. Ele o observou um segundo. Jessica – conseguiu dizer. Tem a imagem de uma adolescente. PT. É por causa de Esperanza? – Não. Ela fechou a porta e ele ficou na sala de espera escassamente decorada. estendendo a mão. a voz um pouco controlada demais. Num arquivo de vídeo qualquer. – Olá – disse ele. Seis semanas atrás.– Preciso da sua ajuda. – Estou em Los Angeles – continuou Jessica. Pergunte pela Dra. – Vou ligar para Czerski. Seu celular tocou outra vez. A voz o golpeou como um soco no estômago. se está atrás de algum vestígio. Mas. Ela olhou o objeto por um segundo e se dirigiu a uma porta. Apertou um botão e levou o telefone ao ouvido. Agora o aparelho parecia estar descontando o tempo perdido. – Procure John Jay. – Olá. você está com uma voz horrível. Vai indo para lá. A porta se abriu. Do que se trata? – Recebi pelo correio. fios. – Certo.

hospedado na casa do Win. My ron. Mas se precisar de algo ou quiser levar suas coisas… – Ok. – O que mais? – Estou falando de Win. – Clu disse isso? Que eu poderia estar morto? – Sim. Quer dizer. Disse que tinha que encontrá-lo. ahn. – Assustar como? – Perguntou como eu sabia que você não estava morto. – É. – Ah? – a fábrica de monossílabos de My ron entrara em ação. Ele falava que tinha que encontrar você. liguei por outra razão. vou ficar fora por pelo menos mais um mês. Ele disse apenas que você estava bem e eu não devia me preocupar. ligou lá para o loft. – É. não? – Jess… – Não. Eu disse que não sabia onde você estava. Ele se calou.– Sim… – Mas preciso falar umas coisas para você. Depois desligou. Jessica voltou a falar: – Estamos lidando com isso de forma tão adulta. Você pode ficar lá no loft… – Estou. mais por você que por ele. – Sobre o quê? – Queria descobrir onde você estava. – Provavelmente foi isso. – Ele parecia bem desesperado. Que estava preocupado. – Comigo? – Sim. e ele não conseguia desligá-la. Ele esteve lá um dia. – E o que Win disse? – Que você estava bem e eu não devia me preocupar. liguei para Win. É sua. parecia um farrapo. Mas eu não sabia do seu paradeiro. Ficou me interrogando durante vinte minutos. – Ótimo. e ele começou a me assustar. Quando ele foi embora. Imaginei que Clu estivesse exagerando para chamar minha atenção. Mais silêncio. . Deixei para lá. My ron já esperava isso. – Não esqueça a TV. – Pode ficar com ela – disse My ron. – Clu telefonou para você várias vezes. Não troquei as fechaduras nem nada. imaginei. – Primeira coisa.

Vendido em qualquer loja do país. autoexecutado e autodeletado. Respirou fundo várias vezes. Sabia de fato o número. – Inútil. – Sim. Provavelmente o comando final da sequência. Czerski. – Jess. – Como? – O senhor disse que o programa foi executado automaticamente. – Bem. – Não existem uns programas especiais para recuperar arquivos? – Sim. devolvendo-lhe o disquete e saindo da sala sem sequer olhar para trás. My ron explicou rapidamente o que tinha visto. Olhou para o aparelho. me ligue. Como seria fácil ligar. – O senhor disse haver um arquivo de imagem aqui. – Disquete comum. – Como? Ela mostrou o disquete. – Estou ocupada – disse a Dra. Ele levantou a cabeça e deu com a Dra. Formatação padrão. a gente devia conversar… – Não – disse ela outra vez. Tão simples. Você sabe o número. Ele mal podia respirar. – Ele dever ter se autoextraído. E My ron sabia que seria perda de tempo. Clique. Czerski. – E impressões digitais? – Isso não é meu departamento. My ron o olhou com atenção e sacudiu a cabeça. – E você. Se não. Vou ser direta: se mudar de ideia. – Deve ter apagado sozinho. seja feliz. Mas esse arquivo fez mais que isso. – Não quero conversar. como está? – perguntou ela. Reformatou o disquete todo. Se alguém tinha se dado o trabalho de destruir qualquer evidência eletrônica. – Tem mais alguma coisa no disquete? – Não. era certo que qualquer impressão digital tivesse também sido apagada. – E isso quer dizer que…? – O que o senhor viu desapareceu para sempre. – Nada que possamos rastrear? Nenhuma característica que seja única ou algo assim? Ela balançou a cabeça. – Não está mais aqui – falou ela. E você? – Tentando esquecer você. My ron baixou o telefone. Simples. Que diabo estava acontecendo ali? .Mais silêncio.

Clu Haid.O celular tocou de novo. . – E? – O senhor vai voltar para o escritório? – Estou a caminho. Bolitar? – Era Big Cy ndi. como o senhor pediu. – Sim. – Estou examinando os registros telefônicos do Sr. – Tem uma coisa aqui que o senhor vai achar bizarra. – Sr.

– Muito bizarro. Toda a maquiagem desaparecera. – Você conhece esse lugar? – perguntou ele. – Quando você diz variada… – É um conceito bastante interessante. O lema lá era: machuque quem você ama. O número pertencia ao código de área 212. My ron caminhou até sua sala enquanto olhava o número. – O que tem esse número? – É de uma casa noturna. Tirando isso. balançando a cabeça depois. My ron massageou as têmporas. O senhor me entende? My ron não fazia ideia. Mas eles têm uma clientela variada. – Quando se vai à Imagine Só. Manhattan. – Perdoe a minha ingenuidade sexual. – Qual? – Imagine Só. – Que tipo de casa é? – É para cross-dressers e travestis principalmente. examinei os registros telefônicos de Clu Haid – falou ela. Ou seja. – O quê? – O nome do lugar é esse: Imagine Só – falou Big Cy ndi.12 Q U A N D O A P O RTA D O E L E VA D O R SE A BRI U . Ou uma britadeira. – O quê? – Seguindo suas instruções. Sr. – Fica a dois quarteirões do Couro e Luxúria. fechando a porta atrás de si. Big Cy ndi o esperava. Devia ter usado jato de areia. Big Cy ndi o seguiu. Bolitar. era completamente desconhecido. nunca se sabe ao certo o que se vai arranjar. – Tenho certeza disso. Bolitar. – O que é bizarro? Ela lhe entregou uma folha de papel: – Marquei o número com amarelo. Couro e Luxúria era o bar sadomasoquista onde ela trabalhara como segurança. mas você poderia explicar? . Sr. – Um pouco. Havia por fim lavado o rosto. Ela disparou: – Muito bizarro.

por exemplo. – Mas a ideia é essa. mulheres vestidas de homem. Você leva alguém para casa. Pelo suspense. Por exemplo. NÃO ANDROGINIA. Descobriu depois que era um homem com um anão escondido . Bolitar. – E a razão para isso é…? – Essa é a graça do lugar. A dúvida. – Mas gostei da sua analogia com uma caixa de surpresas – continuou Big Cy ndi. mas não fazemos ideia do que vamos levar para casa. Talvez seja realmente uma mulher linda que colocou saltos muito altos e uma peruca para confundir as pessoas. com uma peruca platinada. achando que é uma mulher linda ou um homem lindo. Ele não estava mais tão certo. – É por isso que se chama Imagine Só. É um lugar de mistério. claro. e é isso que torna a Imagine Só um lugar especial. são só duas possibilidades. com um sorriso. Você nunca tem certeza. As pessoas se vestem para enganar as outras. – Não seja o quê? – Um ele-ela. Sr. Big Cy ndi considerou a afirmação: – Se a gente pensar bem. Pelo mistério. Uma vez. um cara saiu com o que pensava ser uma mulher obesa. My ron massageou novamente as têmporas. – Em parte. Tem uma placa lá dentro que diz: IMAGINE SÓ É AMBIGUIDADE. Pela incerteza. Mas. – Capcioso. Mas até tirar as calças você não tem certeza. talvez não seja. é o que se pode esperar: homens vestidos de mulher. o senhor deve ter visto Traídos pelo desejo. – Exceto que nesse caso é possível se surpreender de verdade. – Sabemos o que estamos levando para a festa. A gente imagina que seja um ele-ela. Uma travesti ou transexual. – Então os clientes não têm problemas quando… – Ele buscou a palavra certa. Mas às vezes a mulher é mulher mesmo e o homem também é homem. Dá para entender? My ron balançou a cabeça: – Nem um pouco. – Um cara gay. Nunca se sabe ao certo até… bem. – Uma espécie de caixa de surpresas sexual. pensando em como explicar. não fica chateado quando descobre que levou uma mulher para casa? – É para isso que se vai. – E alguém procura isso? – Quando se está a fim. pode ver uma mulher linda. mas não havia uma. My ron fez uma careta. alta demais.Big Cy ndi franziu o rosto. – Exato. – A fim de quê? – Exatamente – falou apenas.

em especial sem a argamassa da maquiagem. uma visão não muito agradável numa lutadora de 130 quilos. olhando-o nos olhos. Ela fez um beicinho. E já fiz coisas bem loucas. – Esperanza está certa. – Porque gosto de saber o gênero da minha parceira antes de tirarmos a roupa? – Por causa da sua atitude. Bolitar – disse ela. My ron concordou: – Os pervertidos. Pessoas como o senhor causam bloqueio sexual. Mas já faz tempo. – Por que parou? – Por duas razões. My ron se recostou e esfregou o rosto com as duas mãos. que se começa a cruzar a linha entre sexo e violência. desde que seja consensual. A sociedade se torna sexualmente reprimida. temendo que ela lhe contasse os detalhes. Sou um pastor evangélico. me diga que isso é uma piada. – Isso pode explicar algumas coisas – disse ele. Sr. – O senhor é tão reprimido. – Tais como? . Chega-se a um estágio em que se tem prazer em machucar pessoas que não querem ser machucadas. É um público diferente. Sr. – Jura? Que coisa surpreendente – replicou ele. mas os mercados são similares. – Sobre? – O senhor às vezes tem a mente muito fechada. – Pelo menos a ninguém que não queira que se machucar. são concorrentes do Couro e Luxúria. – Muito loucas. – E a Imagine Só atrai esse tipo de público? – Mais do que a maioria dos lugares. – Por favor. – Tenho. E qual foi a segunda razão? Ela hesitou. ah. – Então – continuou My ron – você.debaixo da saia. – É óbvio que sou a favor da liberdade sexual. – Parecia um lugar perfeito para famílias em férias. Primeiro. Bolitar. na verdade. Big Cy ndi apenas olhou para ele. Não me importa o que você faça. – Mas a Imagine Só começou a atrair o tipo errado de público – continuou ela. frequenta esse lugar? – Estive lá umas duas vezes. My ron se encolheu. Ela meneou a cabeça. entre representação e perigo real. Tão reprimida. – Eles não fazem mal a ninguém.

alterando-se. Queria que eu inocentasse Esperanza e depois esquecesse tudo. Não interessava muito. Um lugar barra-pesada. – Não esse lado dela – argumentou My ron. – Sim. Se uma coisa dessas vem a público. – Não me agrada perguntar isso. mas não posso dizer se já foi lá ou não. – Mas bissexuais também. Você quer que eu a ajude. se tinha começado a se inclinar para. Ou ter sido o pacote errado. – Ela temia que isso vazasse – concordou Big Cy ndi. claro.. Por falta de imaginação. Ou namorado. Algo novo. Bolitar. – Mais ambissexuais – disse Big Cy ndi. – Esperanza é uma pessoa discreta. – E explicaria o comportamento estranho dela hoje. Sr. Eu realmente não sei. se ele estava frequentando um lugar desses. Ter uma série de amantes é uma coisa. Ele balançou a cabeça. ele não os compreendia. não era uma questão de princípios ou dilema moral. Mas.– Por que Bonnie expulsou Clu de vez. Sr. Ele balançou a cabeça como se estivesse ouvindo o cérebro trabalhar. o que seria das crianças? Outro pensamento que flutuava pelo cérebro de My ron ficou preso numa rocha pontuda. Quero dizer: se não se tem certeza do que vai pescar. é porque tanto faz. Clu podia ter levado para casa o pacote errado. Para My ron. – Como assim? – Ela me pediu para não investigar muito a fundo. talvez. Ele olhou para Big Cy ndi: – Suponho que a Imagine Só atraia principalmente bissexuais. Bolitar. certo? Isso significa vasculhar o que não queremos vasculhar. Nem vejo a relevância. E havia a questão do dinheiro. – de novo as palavras escapavam – o que quer que fosse. Se Clu havia frequentado um lugar desses. tem um relacionamento fixo. Os desvios apenas o confundiam. Ou nem uma coisa nem outra.. . E se Bonnie descobriu. – E Esperanza? – Que tem ela? – replicou Big Cy ndi. Mas o senhor a conhece melhor que eu. com reputação de violento – era a receita perfeita para um desastre. isso explicaria o pedido de divórcio. Em geral. – Vou ter que fazer uma visita à Imagine Só – disse ele. aquilo daria a Hester Crimstein motivos para mais dúvidas razoáveis. um grande número de dúvidas razoáveis e nebulosas. – Entendo. bem. – Certo. Chantagem? Algum cliente o teria reconhecido? Ameaçado? Filmado? Sim. My ron balançou a cabeça. Estranhamento à parte. E um bom lugar para procurar a namorada misteriosa. – Ou pessoas que querem algum mistério. – Frequentava esse lugar? – Não sei dizer.

– Ótimo. Nenhuma lista telefônica. – Vou com o senhor. – Esse é o número dele? – Não. Palms não aparece em lugar nenhum. My ron verificou o endereço. – Ele examinou outra vez os registros telefônicos. Lembrava-se vagamente de ter encontrado os pais de Billy Lee quando eles o visitaram na Duke certa vez. Pegou o casaco e se dirigiu para o elevador. – Você marcou em azul outro número. Haid ligou para eles duas vezes no mês passado. não – falou Big Cy ndi. então? – Dos pais. O Sr. . – De quem é esse número. – Eu tenho a roupa certa – disse ela. E não paga impostos há quatro anos. Westchester. – Tudo o que preciso fazer é calçar meu sapatênis. – Certo.– Sozinho. então. Consultou o relógio. – Mas agora não. Uma investigação sutil estava descartada. O Sr. Levaria uma hora para chegar lá. Ela assentiu: – O senhor mencionou um velho amigo chamado Billy Lee Palms. A Imagine Só abre só às onze. – O senhor vai de quê? – De homem heterossexual reprimido – respondeu. Vamos hoje à noite.

O FO RD TA U RU S da empresa. como se algo atrás deles os empurrasse para fora. Tinha uma beleza furtiva. havia sido confiscado pela polícia. de forma que ele alugou um Mercury Cougar marrom. Um casal. Patti LaBelle e Michael McDonald cantavam um clássico triste da música romântica chamado “On My Own”. por favor. Sem aviso. Quando ligou o automóvel. outrora tão feliz. na reserva dos Baltimore Orioles no ano em que ganharam a Série Mundial. Tão trágico que. Trágico. O cabelo estava amarrado. Ela as puxou para trás. nada. Estudei com Billy Lee na Duke. Era pequena. entretanto. tinha boca de esquilo e olhos saltados. Os membros da fraternidade o apelidaram de Otter. Isso. embora dissimulado: o tipo de coisa que dava certo com jovens que estavam longe de casa pela primeira vez. no mínimo. Nos dias de hoje as pessoas espreitam pelo olho mágico. entreabrem a porta ainda com a corrente presa ou. “agora já estamos falando em divórcio… e sequer fomos casados”. Sua voz desceu uma oitava ou duas: – Você sabe onde ele está? – Não.7. My ron balançou a cabeça. – Meu nome é My ron Bolitar. Estranho. ela se abriu rápida e completamente. . Palms? – perguntou ele. Billy Lee Palms tinha sido o farrista por excelência. – Sim. Não sabia se as mulheres conseguiriam resistir. My ron bateu à porta. mas várias mechas haviam escapado e caíam sobre o rosto. estava se separando. Ele está desaparecido? Ela franziu o cenho e deu um passo para trás: – Entre. perguntam quem é. – Sra. Segundos depois. Combinava. como cantava Michael McDonald. Foi por isso que Michael McDonald deixou os Doobie Brothers? Na faculdade. cabelo muito preto e uma magnética combinação de carisma e machismo. 106. – Sim? – disse uma mulher que My ron reconheceu vagamente como a Sra. o rádio estava sintonizado na Lite FM. Billy Lee era também um grande jogador de beisebol e conseguiu chegar às ligas principais por meia temporada. senhora. o personagem ardilosamente gentil do filme Clube dos cafajestes. Palms. fora séculos atrás.13 O CA RRO D E M Y RO N .

na mesma tonalidade. My ron se virou para a Sra. A Sra. – Obrigado – disse ele. também sorria para ele. A mesa de centro era um quadrado de carvalho. Billy Lee. porém. no papel de padrinho ou talvez apenas de convidado. usando um vestido de verão. Fotografias coloridas tinham sido ampliadas. de cor creme. soltou uma exclamação de espanto. As pessoas dançavam lentamente. O carpete era bege claro e havia dois abajures de pé no estilo grande loja de decoração. Era como se uma foto panorâmica do casamento tivesse sido ampliada até o tamanho da Ronda noturna de Rembrandt. Conhece? . My ron já vira muitas casas com fotografias nas paredes. provavelmente a oferta do mês. bolo de casamento. como o mostruário de uma loja de móveis popular. O que viu. Era a genuína. sente-se. Um sofá grande. – Sim. foi para lá de surreal. A Sra. dançava com o marido. Seria a verdadeira ou uma das reproduções? Não. Salão de casamento de Sarah? Ele seguiu a direção que ela indicara. arranjos florais. flores de seda no meio e livros de arte do outro. Estivera até um uma ou duas em que elas dominavam. Literalmente. As paredes. O Salão de Casamento de Sarah – tem que ser em letras maiúsculas – era uma recriação desse acontecimento. viam-se as mesas. A decoração era a de uma sala de estar convencional. formavam um L. 695 dólares o conjunto. e coladas no lugar do papel de parede. – Tenho certeza. West Orange. – Foi em Manor. – Por favor. no entanto. Convidados sorriam. com uma pequena pilha de revistas chamativas não lidas de um lado. de dois lugares. À esquerda. muitas mesas. Palms seguiu por um corredor. estava vestida de forma casual. mais que complementavam. Foi há quatro anos. – Foi um dia muito especial para nós. Volto num segundo. e outro. O salão de casamento de Sarah. Palms. Isso também dificilmente o impressionaria. – Esse é o casamento da nossa filha Sarah. Apontou para a direita sem se voltar ou interromper sua marcha: – Entre no salão de casamento de Sarah.My ron passou pela porta. A sua frente. Havia uma espécie de pastor. Os noivos sorriam de modo convidativo à direita. Palms. eram absolutamente incomuns. em tamanho natural. Ele quase esticou a mão para tocá-la e ter certeza. a decoração. Quando dobrou à direita. O maior devia ser um sofá-cama ou algo assim. senhora. Uma banda tocava. de smoking. – Estou vendo. Não era raro. porcelanas finas e linho branco – tudo em tamanho natural.

Querem desfrutá-los. Mas não é isso que fazem. sei. não é. Ampliar fotografias antigas e usá-las como papel de parede. Tiram a foto. Não gosto de antiguidades nem dessas imitações que você compra pela internet. My ron pegou a deixa: – O quê? – Minha família – respondeu ela. recrio tudo o quanto puder. lá em cima. My ron sentou. Acho que isso o agrada. – Não sou muito fã de arte – continuou ela. – Então. mas… Ah. A Sra. Eu não. My ron? – Sim. O quarto de Billy Lee. Lembro-me das horas boas. A parede da escada era forrada com fotos antigas. me sinto contente. já expliquei isso umas mil vezes. A Sra. Isso faz sentido para você. – Ela levantou as sobrancelhas. – Para mim. My ron concordou outra vez. – As pessoas tiram fotos dos seus instantes mais especiais – começou ela. O que é mais uma? – suspirou ela. eu chamo de Luva de Beisebol. – É mesmo? Seus pais devem ter lembranças muito queridas desse dia. duvidava. – Você gostaria de ver? – Claro. A Sra.– Meu bar mitzvah foi lá – respondeu My ron. – Sim. Um casal de rosto severo vestindo trajes nupciais. Que graça tem olhar para imagens de pessoas e lugares que não conheço? Não ligo muito para decoração de interiores. Quer dizer. gigantes. fazia. minha família é linda. Agora. Palms sorriu para ele: – É estranho. em preto e branco. – Querem eternizar os momentos mais importantes. saboreá-los e revivê-los. My ron? Ele concordou com a cabeça. Um soldado com uniforme completo. É arte. apontando para um dos sofás. Palms entrelaçou as mãos e olhou para ele. vivemos para esses momentos. . Dar nome para uma sala. Criei a aura mais positiva possível. Afinal. Estou cercada por um dos momentos mais felizes da minha vida. – Não me agrada a ideia de pendurar litografias impessoais nas paredes. Mergulho nelas. olham-na uma vez e depois a colocam numa caixa e esquecem. contudo. Mas sabe o que acho lindo? – A Sra. – Por mais estranho que fosse. Sei que é uma bobagem. Palms parou e olhou para ele ansiosa. – Então chamo este cômodo de Salão de Casamento de Sarah. É onde ele ainda fica quando está aqui. muito séria. Palms deu praticamente um pulo da cadeira. os pais guardavam a maioria das fotos num álbum. Mas todos os aposentos aqui são assim. E ela também. quando sento nesta sala. com o olhar vazio de uma mulher que se sentava perto demais do filme da vida.

– Essa é a Parede das Gerações. Ali estão meus bisavôs. E os de Hank, meu
marido. Morreu faz três anos.
– Lamento.
Ela encolheu os ombros.
– Essa parede cobre três gerações. Acho uma boa maneira de lembrar os
ancestrais.
My ron não contestou. Olhou para a fotografia do casal jovem, ainda
começando a vida juntos, provavelmente um pouco assustados. Agora estavam
mortos.
Pensamento profundo, por My ron Bolitar.
– Sei o que está pensando – disse ela. – Será isso, no entanto, mais estranho
que pendurar quadros de parentes mortos? Acho mais natural.
Difícil de refutar.
As paredes do corredor do segundo andar exibiam uma espécie de festa à
fantasia dos anos 1970. Ternos esporte e calças boca de sino. My ron não
perguntou nada, e a Sra. Palms também não explicou. Melhor assim. Ela virou à
esquerda e ele a seguiu até a Luva de Beisebol. Fazia jus ao nome. A vida de
Billy Lee como jogador de beisebol estava toda ali, como numa sala da Galeria
da Fama. Começava com ele na Liga Mirim, agachado, a posição de receptor, o
sorriso amplo e estranhamente confiante para uma criança tão pequena. Os anos
iam passando. Da Liga Mirim para a Juvenil, daí para o ensino médio, até Duke,
terminando com seu único ano glorioso nos Orioles: Billy Lee exibindo com
orgulho o anel da Série Mundial. My ron estudou as fotografias da Duke. Uma
havia sido tirada em frente à Psi U, a fraternidade deles. Billy Lee, uniformizado,
com o braço em torno de Clu, e vários colegas atrás, inclusive, via agora, My ron
e Win. Lembrava-se de quando a foto fora tirada. O time de beisebol tinha
acabado de derrotar o Florida State e ganhado o campeonato nacional. A festa
durara três dias.
– Sra. Palms, onde está Billy Lee?
– Não sei.
– Quando diz que não sabe…
– Ele fugiu – interrompeu ela. – Outra vez.
– Já tinha feito isso antes?
Ela contemplou a parede, os olhos vidrados.
– Talvez Billy Lee não ache este quarto confortável – disse em voz baixa. –
Pode ser que o faça lembrar o que poderia ter sido. – Ela se voltou para My ron. –
Quando foi a última vez que viu Billy Lee?
Ele tentou se lembrar.
– Faz muito tempo.
– Por quê?
– Nunca fomos muito próximos.

Ela apontou para a parede:
– É você? Atrás?
– Sou.
– Billy Lee falava sobre você.
– Mesmo?
– Dizia que você era um agente esportivo. Empresário de Clu, se não estou
enganada.
– Sim.
– Você continuou amigo de Clu, então?
– Sim.
Ela balançou a cabeça, como se aquilo esclarecesse tudo.
– Por que está procurando meu filho, My ron?
Não sabia muito bem como explicar.
– A senhora ficou sabendo da morte de Clu?
– Sim, claro. Pobre rapaz. Uma alma perdida. Parecido com Billy Lee em
vários aspectos. Acho que era por isso que se sentiam atraídos um pelo outro.
– A senhora viu Clu recentemente?
– Por que quer saber?
Estava na hora de abrir o jogo.
– Estou tentando descobrir quem o matou.
O corpo da mulher se retesou como se tivesse recebido um pequeno choque
elétrico:
– Você acha que Billy Lee tem alguma coisa a ver com isso?
– Não, claro que não.
Entretanto, enquanto dizia aquilo, começou a se questionar. Clu foi assassinado
e talvez o criminoso tenha fugido. Mais dúvidas razoáveis.
– É só porque sei como eram próximos. Pensei que talvez Billy Lee pudesse
me ajudar.
A Sra. Palms contemplava a imagem dos dois jogadores em frente à Psi U.
Ela esticou a mão como se fosse acariciar o rosto do filho, mas se retraiu.
– Billy Lee era bonito, não?
– Era.
– As garotas – falou ela. – Todas adoravam o meu Billy Lee.
– Nunca vi ninguém melhor com elas.
Isso a fez sorrir. Continuou contemplando a imagem do filho. Era meio
assustador. My ron se lembrou de um antigo episódio de Além da imaginação em
que uma velha estrela de cinema escapa da realidade entrando num de seus
filmes. A Sra. Palms dava a impressão de querer fazer a mesma coisa.
Por fim, desviou os olhos e disse:
– Clu esteve aqui algumas semanas atrás.
– A senhora pode ser mais específica?

– Engraçado.
– O quê?
– Foi exatamente o que a polícia perguntou.
– A polícia esteve aqui?
– Claro.
Devem ter examinado os registros telefônicos também, pensou My ron. Ou
encontrado outra pista.
– Vou dizer a você a mesma coisa que disse para eles. Não posso ser mais
específica.
– Sabe o que Clu queria?
– Veio ver Billy Lee.
– Billy Lee estava aqui?
– Sim.
– Ele mora aqui, então?
– Mais ou menos. Os últimos anos não foram muito bons para meu filho.
Silêncio.
– Não quero ser indiscreto – começou My ron –, mas…
– O que aconteceu com Billy Lee? – completou ela. – A vida o castigou,
My ron. A bebida, as drogas, as mulheres. Passou algum tempo em clínicas de
reabilitação. Você conhece Rockwell?
– Não, senhora.
– É uma clínica particular. Ele se internou pela quarta vez lá dois meses atrás.
Mas não conseguiu se livrar do vício. Quando se está na faculdade, ou se tem 20
anos, dá para sobreviver. Quando você é um superastro e as pessoas o observam
o tempo todo, tem como escapar. Mas Billy Lee não era bom o suficiente para
chegar a esse nível. Não tinha com quem contar. Exceto comigo. E não sou muito
forte.
My ron engoliu em seco:
– A senhora sabe por que Clu veio ver Billy Lee?
– Em nome dos velhos tempos, acho. Eles saíram. Talvez tenham bebido
umas cervejas e ido atrás de mulheres. Realmente não sei.
– Clu visitava muito Billy Lee?
– Bem, Clu estava fora da cidade – disse ela, receosa. – Só voltou a passar por
aqui alguns meses atrás. Mas você sabe disso, claro.
– Então foi só uma visita casual?
– Naquele momento achei que sim.
– E agora?
– Agora meu filho está desaparecido e Clu, morto.
My ron ficou pensando:
– Aonde ele geralmente vai quando desaparece assim?
– Para qualquer lugar. Billy Lee é um pouco nômade. Sai por aí, faz as coisas

horríveis a si mesmo que costuma e, quando chega ao fundo do poço, volta para
cá.
– Então a senhora não sabe onde ele está?
– Exatamente.
– Alguma ideia?
– Não.
– Não existem lugares preferidos?
– Não.
– Uma namorada, talvez?
– Não que eu saiba.
– Alguns amigos próximos com quem possa ficar?
– Não – respondeu ela, vagarosamente. – Ele não tem esse tipo de amigos.
My ron pegou um cartão e entregou a ela:
– Se souber alguma coisa sobre ele, Sra. Palms, poderia me avisar, por favor?
Ela examinou o cartão enquanto saíam do quarto e desciam a escada.
Antes de abrir a porta, a Sra. Palms disse:
– Você era o jogador de basquete.
– Sim.
– Aquele que machucou o joelho.
No primeiro jogo da pré-temporada como profissional. My ron fora escolhido
pelo Boston Celtics na primeira rodada de contratações. Uma colisão seríssima e
sua carreira havia acabado. Exatamente assim. Terminado antes de começar.
– Sim.
– Você conseguiu superar isso – falou ela. – Conseguiu continuar com sua
vida, ser feliz e produtivo. – A Sra. Palms inclinou a cabeça. – Por que Billy Lee
não conseguiu?
My ron não tinha a resposta – em parte porque não tinha certeza se a
suposição dela era inteiramente correta. Ele se despediu e a deixou sozinha com
seus fantasmas.

14
M Y RO N CO N SU LT O U O RE L Ó G I O . Hora do jantar. Os pais estavam
esperando por ele. Estava na autoestrada Garden State quando o celular tocou de
novo.
– Você está no carro? – perguntou Win, sempre com suas amabilidades.
– Sim.
– Sintonize a 1010 WINS. Ligo daqui a pouco.
Uma estação de rádio só de notícias de Nova York. My ron fez o que ele
pediu. O cara do helicóptero estava terminando o informe sobre o trânsito e
passou o bastão à mulher da central de notícias. Ela anunciou:
“A seguir, a mais recente revelação sobre o assassinato do superastro do
beisebol Clu Haid. Em sessenta segundos.”
Foram longos sessenta segundos. My ron teve de aguentar um comercial da
Dunkin’ Donuts verdadeiramente irritante, depois um idiota agitado que tinha uma
forma de transformar 5 mil dólares em 20 mil, embora uma voz mais baixa, ao
fundo, falando rápido, acrescentasse que aquilo não funcionava sempre e, na
verdade, era possível perder dinheiro, o que provavelmente aconteceria, e era
preciso ser um verdadeiro imbecil para seguir os conselhos de investimento de
uma propaganda de rádio. Por fim, a âncora voltou. Disse seu nome à audiência
– como se alguém estivesse interessado –, o nome do outro apresentador e a
hora. E depois:
“A ABC informa, segundo fontes não divulgadas da promotoria do Condado
de Bergen, que fios de cabelo e, abre aspas, outros vestígios corporais, fecha
aspas, compatíveis com Esperanza Diaz, suspeita do assassinato, foram
encontrados na cena do crime. Segundo a mesma fonte, ainda aguardam o
resultado de testes de DNA, mas análises preliminares demonstram perfeita
compatibilidade com as amostras retiradas de Srta. Diaz. Os fios, alguns
pequenos, foram encontrados em vários locais da casa.”
My ron sentiu o coração acelerar. Pelos pequenos, pensou ele. Eufemismo
para pubianos.
“Não há mais detalhes disponíveis, mas a promotoria acredita seriamente que
o Sr. Haid e a Srta. Diaz estavam mantendo um relacionamento sexual. Fiquem
sintonizados na 1010 WINS para todos os detalhes.”
O celular tocou. My ron atendeu:
– Meu Deus.
– Errou. Sou eu.
– Ligo para você já – falou My ron, desligando.

Para falar de negócios. – Ou talvez ela tenha visitado o apartamento. – Isso parece bem sensato. não entre em detalhes. – Claro que não – falou Win. o Taurus atravessou a ponte dezoito vezes no último mês. Sabemos disso. Ele insistiu que era urgente. – Como você explica isso? – perguntou My ron. A Srta. – Mas – perguntou My ron – a Srta. Os shoppings em Paramus são os melhores. – Não disse que foi a primeira ida dela lá. My ron franziu o cenho: – Você está brincando. Talvez tenha encontrado o corpo e entrado em pânico. – Certo – disse My ron.Telefonou para o escritório de Hester Crimstein. – Pode ser uma notícia falsa. – Talvez alguém tenha plantado pelos pubianos de Esperanza na cena do crime. especialmente porque oferece uma explicação . vamos supor que os dois estivessem tendo um caso. Win atendeu. certamente não foi. obrigado. Dezesseis travessias na ponte Washington. – E quando chega lá? – Não sei. sou um piadista. – Sim. – Pode. Também tomei a liberdade de verificar o mês anterior. – Esperanza estava transando com ele. – O quê? – O registro do pedágio. – Como assim? – O registro do pedágio. – Aí arrancou uns pelos pubianos e fugiu. A secretária disse que a Srta. claro. Tem outra coisa que temos que analisar. Vai até o apartamento dele de carro. – Ela atravessou a ponte Washington uma hora depois do crime. Crimstein não tem celular? A secretária desligou. Crimstein não estava disponível. – Certo – falou My ron –. Talvez… – My ron? – O quê? – Por favor. Crimstein continuava indisponível. claro – rebateu Win. – Sim. – E deixou um rastro de pelos pubianos? – Talvez tenha usado o banheiro. Segundo a conta que chegou na semana passada. – Não. Aqui as coisas parecem se encaixar. – Sim. – Talvez não. Esperanza e Clu têm uma briga enorme no estacionamento. Ela quer esclarecer as coisas. Ele apertou a tecla memória. – Talvez ela tivesse outra razão para ir ao norte de Nova Jersey.

bem. a razão do rompimento entre Clu e Bonnie? Se fosse esse o caso. Psicólogos. Sei que você acredita que Esperanza é durona demais para se importar com essas coisas. psiquiatras e afins. My ron ruminou o que ouvira. Você a promoveu a sócia recentemente. – Se. por exemplo. mas não tinha certeza se concordava por completo: – Ainda acho que estamos deixando algo escapar. Todas as operações estavam sob responsabilidade dela. – Como assim? – Explicaria o silêncio de Esperanza. – Que é? – Ela o matou. era muito provável que Esperanza estivesse grávida. indo em direção a Livingstone. – Mas de nós? – interpôs My ron. Seria Esperanza a mulher misteriosa. quando cortara por fim o cordão umbilical e fora morar com Jessica. mas não acho que sua desaprovação a deixaria feliz. Porém. Win desligou depois dessa alegre observação. Teriam os dois chegado lá disfarçados e só perceberam quem eram quando. de praticamente toda a sua vida. – Várias razões me vêm à cabeça. – Por quê? Ela confia na gente. Pensou no noticiário e no que Win dissera. – Porque estamos ignorando o motivo mais forte para o silêncio dela. – Sim. Levando tudo em consideração. Ela iria querer esconder. Surgiram as marcas de sua cidade natal. – Isso não ia impedi-la. É possível que a advogada tenha mandado ela não dizer nada. My ron entrou na Northfield Avenue. era tarde demais para parar? Isso fazia sentido? Virou à direita no restaurante Nero e entrou na Hobart Gap Road. Esperanza e Clu estivessem juntos. o fato pega mal para ela. mais importante. Talvez Clu e Esperanza tivessem se encontrado na Imagine Só. Estava na terra de sua infância – na verdade. Ou talvez… Pegou o telefone. Teriam ido lá juntos ou apenas se encontrado? O caso haveria começado assim? Eles foram lá e participaram de… de alguma coisa? Talvez tivesse sido coincidência.razoável para muito do que aconteceu. – Como? – Amantes sempre são suspeitos maravilhosos – disse Win. Tinha morado com os pais até mais ou menos um ano atrás. por que a viúva não diria? Talvez não soubesse. sabia. podemos supor então que a discussão no estacionamento foi uma briga de namorados. Faltava pouco agora. Fazia certo sentido. fariam uma festa com o fato de ele ter vivido com os . – Talvez sim.

Para My ron. Gostava deles. embora com um impasse no meio. Havia Brenda. Quando chegou até ele. não houve aperto de mão. podiam ser inoportunos – que pais não eram? – e gostavam de se intrometer. – Um pouco. – Quer que eu prepare alguma coisa? Ficaram paralisados. a caminhada até a escola e o cuidado excessivo com a grama. A tragédia recente. Sempre seu movimento inicial. Haviam lhe dado privacidade e. insatisfação. comprar uma casa no subúrbio. feito com que se sentisse cuidado e amado. temendo compromisso. Ele queria se estabelecer. No final das contas. espinha dorsal do país. Porém. não. Adorava a cesta de basquete sobre a porta da garagem. mas mesmo assim achava que aquele era o lugar “mais real” em que já estivera. mas fingindo-se calmo. Parecia. quase derrubando-o. Os dois homens se abraçaram com força e sem qualquer embaraço. até que o pai disse. constituir família. Existiam milhares como aquela em Nova Jersey. a rotina. My ron achava que ele e Jessica tinham terminado por todas essas razões clássicas. centenas de milhares em todos os Estados Unidos da América. campo de batalha do lendário Sonho Americano. Isso era viver. Se uns diziam isso não era saudável? Talvez. Entrou na rua. Ela jogou os braços em volta dele. muito melhor que os amigos que viviam culpando os pais por qualquer infelicidade em suas vidas.pais até os 30 e poucos anos. O pai vinha atrás. a maior parte da bisbilhotice e da intromissão era por coisas sem importância. no entanto. Palms buscava nas imagens coladas na parede. atenção sem atropelo. com os braços abertos. Um homem incrível. My ron lhe deu um beijou no rosto. teorizariam todo tipo de preocupação anômala que o manteve tão próximo da mãe e do pai. Sempre fora equilibrado: amor incondicional mas sem sufocar. A mãe atravessou a porta caminhando rápido em sua direção. Aquele era o subúrbio. Explicação simples demais. – Está com fome? – perguntou a mãe. mas havia outras coisas. as rodinhas da bicicleta nova. A sensação familiar da pele áspera o fez compreender um pouco o que a Sra. A questão do compromisso havia sido uma fonte constante de tensão. todavia. havia infelicidade. A velha vizinhança nada tinha de espetacular. a resposta era muito mais simples. Muito conveniente. mas hoje havia algo mais. com uma careta: – Você vai cozinhar? . Claro. por exemplo. Jessica. Sim. Era isso que importava. Talvez estivessem certos. brigas e tudo o mais. Sempre o recebia como se ele fosse um prisioneiro de guerra recémlibertado. mas My ron amava aquilo ali. ainda assim. Podia ser piegas. igualmente empolgado. Entrou no acesso para a garagem balançando a cabeça. sem dúvida.

isso é tão engraçado. Os homens obedeceram suas ordens. – Já sei. F-o-g-ã-o.– Qual é o problema? – Deixe eu me certificar de que tenho o número do pronto-socorro. Al. O pai pegou a mão esposa: – Deixe eu lhe mostrar uma coisa. Está me matando de rir. sente-se. – Desisto – disse ela. lembra? – Talvez tivesse esquecido. – Talvez tivesse esquecido. como você é espirituoso. A mãe não cozinhava. o prato favorito de My ron em casa eram os ovos mexidos que o pai fazia. A cozinha era lugar só para ler revistas. – É como ser casada com um comediante. Você está ficando velho. – Al. Sempre camarão com molho de lagosta. – Uau. Entraram na casa. talvez? Do Fong? – Claro. Precisamos conversar. ligue para o Fong. Quando era garoto. olhando para o filho. Está vendo aquele botão com todos aqueles números escritos nele? Serve para ligar. Ellen. certo? – Claro que não. Que homem hilário é seu pai. – Pedimos comida no Fong há 23 anos. – My ron. Não consigo parar de rir. My ron e a mãe . – Então você não pegou minha blusa. – Comida chinesa. – My ron adora o camarão com molho de lagosta do Fong. Como sempre. Al. Ellen. – Ah. Peça alguma coisa. – Pensando bem. – Tudo bem. ligue para o Fong. Ellen. – Você devia ganhar dinheiro com isso. – Mas ela estava rindo. Al. quase nunca cozinhara. Não se esqueceu de pegar minha blusa na lavanderia dois dias atrás? – Estava fechada. My ron? – perguntou a mãe. Al! Todos riam. Estou precisando perder uns quilos. – Muito gozado. – É melhor que um spa. A mãe começara a trabalhar cedo. My ron. O pai estava falando a verdade. Seus dotes culinários podiam causar um motim numa penitenciária. Al. vá cozinhar alguma coisa. Também o criei. – Camarão com molho de lagosta. – Só pensar nisso já funciona melhor que um moderador do apetite. – O que você quer comer. – Eu sei. Está vendo aquela caixa grande de metal ali? Se chama fogão.

– O quê? – Clu também esteve aqui. – É o quê? – Bissexual. Mas Hester Crimstein deveria avaliar o que isso significa. – Lógico. querido. ele estava tendo um caso. disse que você a está incomodando e mandou que caísse fora. O que mais? – Clu estava desesperado atrás de mim antes de ser morto – respondeu ele. – Como a senhora sabe… – Conheço Hester há anos. querido. – Eu pensava que Esperanza era lésbica. – E você acha que Hester não sabe disso? A promotoria acredita que ele e Esperanza eram amantes. – Não necessariamente. – Ótimo. – Disse a seu . – A mãe era advogada criminalista. – Já trabalhamos juntas. – Não estou interferindo. Disse que você está interferindo. obrigada pela observação – disse ela. – Ela é bissexual. isso dá à pessoa o dobro de opções. – Sua voz baixou de repente. Significa que gosta de garotos e de garotas.sentaram em volta da mesa da cozinha. provavelmente estava exagerando. – Sei que Esperanza é sua amiga. Al. – Por que não pode? My ron se esquivou um pouco: – Tenho informações que podem ser importantes. uma das melhores do estado. – Não posso. – Ela falou com a senhora sobre isso? – Claro. – Tais como? – Segundo a esposa de Clu. é porque deve ser a coisa certa. – E você acha que ele estava falando sério? – Não. – Espere um instante – intrometeu-se o pai. Ela me ligou. O pai pensou um instante sobre aquilo: – Acho que pode ser uma boa ideia. Disse a Jessica que eu estava em perigo. revirando os olhos e voltando-se para My ron. – Escute bem o que vou dizer – falou ela. – O quê? – Quer dizer. Mas Hester Crimstein é ótima advogada. Clu foi até o loft. não acha? – Já avaliou. – Na verdade. Al. Quer que a senhora deixe a cliente dela em paz. para acusar Esperanza de algo. – Isso Hester já sabe. Se ela mandou Esperanza não falar com você.

Mais silêncio. – Contou onde eu estava? Silêncio. My ron conferiu o relógio: – Tem que ser rápido. Ellen esticou a mão e tocou o braço do filho: – Você tem passado por muita coisa. Entretanto. quando nem a mãe nem o pai sabiam onde ele estava… Como se lesse seus pensamentos. Preciso voltar à cidade. – Você tem que deixá-la fazer seu trabalho. levantando as sobrancelhas. My ron. Brenda. Se Clu tivesse dito aos pais a mesma coisa que contara a Jessica. se tivesse vindo com toda aquela conversa sobre morte.pai e a mim o mesmo que falou para Jessica. Ele disse que você estava são e salvo. Sabiam parte do que acontecera. – Talvez a gente deva comer fora. – Você já está de namorada nova? Ele pensou na descrição da Imagine Só feita por Big Cy ndi. – Al? – O quê? – Desligue o telefone – disse ela. Os dois olharam para ele de forma amorosa. O rompimento com Jessica. – Ainda não – disse. . My ron não engoliu. Seu pai e eu sabemos disso. – Hester Crimstein sabe o que está fazendo – continuou a mãe. nunca saberiam de tudo. – Mas nunca se sabe. – Ah! – exclamou a mãe. o pai disse: – Liguei para Win.

Apenas por um momento. E pronto. Afinal. roupas de couro e um mulherão vestindo um macacão de vinil. Um homem de negócios. encontrar alguém atraente. Em vez disso. Talvez como a cena do bar em Guerra nas estrelas. animado depois de uma happy hour. mas como o grupo inteiro: – Pronto? My ron hesitou. vestida de Earth. a Imagine Só tinha o mesmo clima de leve desespero e o mau cheiro de um zilhão de outros bares para solteiros numa sexta à noite. Nada. O interior também não era como havia imaginado. Big Cy ndi encontrou My ron na porta de entrada. mas a maioria usava cáqui e ternos. Sobre a porta. encostar a pasta em algum lugar. estava ao lado de Big Cy ndi. voltando para casa. Cabeças e olhares se voltaram na direção deles. depois assentiu. . mas. Baixou os olhos como uma garota recatada. Era uma construção de tijolos. entrar. surpresa. A I M A G I N E SÓ parecia qualquer outro lugar de pegação camuflado de restaurante de Manhattan. oferecer um drinque. “Para quem gosta de surpresas”. – Conheço quem faz os drinques – disse ela. se pensarmos bem. Havia também um punhado de cross-dressers com figurinos escandalosos. coberta de mais brilhos que um traje de show de mágica de Siegfried e Roy. mas hoje em dia é difícil encontrar uma casa noturna em Manhattan que não tenha um pouco disso tudo. uma massa multicolorida de 2 metros de altura e 130 quilos. – Chama-se Pat. Big Cy ndi pareceu lisonjeada com a atenção. “Quanto mais bizarro melhor”. e levar a pessoa para casa. com as janelas escurecidas para realçar os anúncios de cerveja em neon. Alguns clientes vestiam roupas coloridas. um letreiro desbotado dizia Imagine Só. Surpresa. Nada de “Traga suas perversões”. dando-lhe um soco no braço: – Agora o senhor está pegando o jeito. My ron se perguntou por quê.15 V I STA D E FO RA . poderia dar uma parada ali. Por um momento. ele prendeu a respiração e a seguiu encolhido. Ela atraía olhares. Claro. quem não se mascara um pouco num bar para solteiros? Isso foi profundo. Wind & Fire – não como um dos membros. – Homem ou mulher? Ela sorriu. se soltar um pouquinho. que era o mesmo que um velho rabugento querer ser coquete. Esperara algo… ostensivamente excêntrico. algumas pessoas estavam disfarçadas. Quando Big Cy ndi abriu a porta.

despertando. Ela serpenteou até o banco ao lado do seu e deslizou sobre ele. Deslizou para mais perto. – Você não gosta do seu nome? – Na verdade. – Oi – disse ela. My ron tentava manter a língua dentro da boca. franzindo as sobrancelhas como o bonitão na capa de um romance barato. My ron se lembrou de Julie Newmar como Mulher-Gato. mas My ron só conseguia imaginar essa cena em um filme proibido para menores. E muito. Eles começaram a conversar. É muito masculino. Deu as costas para o bar. – Oi – retrucou o Destruidor de Corações. – O meu é My ron. My ron franziu o cenho. talvez eu reconsidere. Deu uma rápida olhada para Big Cy ndi. Fez um movimento que poderia ser chamado de “dar um gole”. de corpo inteiro. Thrill se virou em sua direção.Um jukebox tocava “Every Little Thing She Does Is Magic”. My ron. Ela levou vagarosamente a mão até o pescoço e começou a brincar com o zíper do macacão. Ele deu outra olhada – em prol da ciência. como um detetive. se você gosta. Ela tinha cabelo louro-escuro. Sim. movendo a língua. como um alce regurgitando um casco de tartaruga. sempre nutri certo ódio por ele – respondeu. eu acho. Ele não queria admitir. Mulher-Gato lançou-lhe um olhar que o fez crer em telecinesia. Olhou outra vez para Big Cy ndi e cochichou: – Peito. My ron tentou contar quantas vezes Sting repetia as palavras every little. peitos. A mulher de macacão preto atraiu seu olhar. – Me fale sobre você. como se testasse o sabor da palavra. por volta de 1967. apoiou os cotovelos no balcão e balançou ligeiramente a cabeça no ritmo da música. Big Cy ndi perguntou por Pat. Ela tinha seios. Perdeu a conta quando chegou a um milhão. Encontraram dois bancos desocupados no balcão. Big Cy ndi deu de ombros. algo que fazia com muita frequência. – Obrigado. e de sobra. mas no restante a semelhança era incrível. My ron examinava cuidadosamente o local. – Gosto desse nome. My ron . do Police. Big Cy ndi emitiu um som. Thrill lhe deu um olhar tórrido e pegou seu drinque. O descolado. – My ron – repetiu ela. Pat estava no intervalo. Dois. – Não tenha tanta certeza – alertou ela. – Meu nome é Thrill – disse a Mulher-Gato. – Mas. mas estava se divertindo. de forma que o papo durou uns bons quinze minutos. lançando-lhe um olhar sedutor.

– Não quero ser indelicado – disse por fim –. mas você é mulher. na verdade. – Mas não estamos falando de sexo grupal – falou My ron. ele ia pedi-la em casamento. inferior. o que deixava a investigação mais difícil. Thrill balançou a cabeça. isso vai cortar o clima. satisfeita porque o aluno passara no teste. Ela riu: – Nada de outro pênis. cinco pessoas. A cabeça começou a dar voltas. digamos. não? Thrill jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. se.procurou mais uma vez por sinais que indicassem gênero. My ron ficou imóvel. O tamanho era normal? Talvez fosse grande demais para uma mulher ou pequena para um homem. – Você conhece Woody Allen? – perguntou ela. . durante um instante de paixão. Tenho essa mania. Havia uma fita preta amarrada em volta do seu pescoço. Se ela fosse mulher mesmo. – O sexo é uma coisa linda entre duas pessoas. é fantástico. My ron fixou o olhar na mão por um momento. é isso? – Exatamente. Não quando o macacão era tão justo na região. – Você já fez sexo grupal? – perguntou ela. – Bela frase – disse ele. – Claro. certo? – A menos que você queira que eu chame alguns amigos. nos anos 1960. – Então me deixe citar uma frase dele. Só o meu. – Sabe de onde é? – Do show que ele fazia em casas noturnas. Thrill ia citar Woody. não. Não podia ser um cara. Ainda estavam lá. digamos. Não com aqueles peitos. Dos tempos dele de stand-up. Que sorte que era um detetive experiente! Thrill pôs a mão em sua coxa e ele pôde sentir o calor através do jeans. surgir um segundo pênis no quarto… bem. se dá para entender. – Como? – Você me acha atraente. mas ah. – Então? My ron levantou as mãos: – Então quero deixar bem claro que. Nada. – Qual a diferença? – perguntou Thrill. – Bem. espere aí. Barba. My ron procurou o pomo de adão. Entre cinco. Verificou outra vez os seios. haveria algum problema se uma delas tivesse pênis? – Estamos falando hipoteticamente. não? – O que consigo ver. A gargalhada era um pouco rouca. – Mas se fizesse e houvesse.

certo? – Errado. desenhando pequenos círculos na coxa de My ron. hipoteticamente. – É só a questão do pênis – completou Thrill. – Porque gosto de saber se uma parceira em potencial tem pênis? – Um homem de verdade não se preocuparia que pensassem que é bicha. – Como? – Como na guerra. acho que não seria um grande problema. Antes de se espatifar na calçada. – Sim. – Então? – Também tenho curiosidade de saber o que passa pela cabeça de uma pessoa quando pula de um arranha-céu. mesmo – replicou My ron. – Ainda digo que você é inseguro sexualmente. – E neste caso… – Isso seria o pênis. My ron olhou para eles. Você estaria tranquilo. – Interessante – disse Thrill. – Admita que você está curioso. – Entendo – falou Thrill. Melhor checar os peitos de novo. mas que agora não tenha mais. Um pênis fantasma. Thrill revelou dentes bonitos e brancos. – Mas se eu tivesse pênis… – Cortaria o clima. – Não é o que as pessoas pensam que me preocupa. Thrill assentiu. – O problema é que depois tem o momento de se espatifar. – Exatamente. – Por quê? – Seria um pênis fantasma – falou My ron. – Mas isso não faz o menor sentido. – Você tem noção de que é tremendamente inseguro em relação a sua sexualidade? – disse ela. muito obrigado.– Não. desde que o homem se mantivesse a distância. . respirando fundo. – Ainda assim. – Vamos supor que eu seja transexual. Ela arqueou a sobrancelha: – Deve ser uma confusão dos infernos. – Bingo. tudo bem. – Estou. quando um cara perde um membro e acha que ainda está lá. Um pênis fantasma. – Mas não é seu pênis que estaria faltando. – Como? – Vamos supor que eu tivesse um pênis. Não dá para descobrir muita coisa sobre gênero nos dentes.

Do jeito que você vem me secando. você está aqui neste bar. – Você me acha interessante? Uma pessoa divertida? – Sim e sim. – Então? – Então… Mais uma vez. – Obrigada. – Podíamos ficar de mãos dadas. My ron pensou no assunto: – Ah! – Você parece surpreso. certo? Quero dizer. – Então? – Achava que as pessoas aqui não bancavam as difíceis. – Então por que você não me convida para sair? – Acho que já debatemos isso. – Certo. com sua questão do pênis? – Bom argumento. – Se você for mulher – disse My ron –. O que você está fazendo aqui. eu achei… Quero dizer. é o primeiro encontro. – Me desculpe. é quase como se já estivesse lá. a parte que você vê. Para citar Woody Allen: “Como não entendi esses sinais?” Thrill não hesitou: – Sonhos de um sedutor. E se estamos neste bar é sinal de alguma coisa. Thrill se recostou. movendo-se no banco. – Então? – Então o quê? – Por que você não me convida para sair? – perguntou ela. brincou com o zíper no pescoço e o subiu um pouco: – Ei. – Não… Quero dizer… – Talvez eu não seja tão fácil assim. com a voz outra vez tórrida. – Você me acha atraente. não é nada pessoal. Que som irritante. ir um pouco até a segunda base.My ron deu de ombros e levantou as mãos: – Quem não é? – É verdade – falou ela. . – E estamos tendo uma conversa agradável? – Estamos. mais duas vezes. Não precisamos acabar pelados. – E você é solteiro e livre? Ele engoliu em seco: – Sim. Você podia até enfiar a mão dentro da minha roupa. – É a coisa do pênis de novo? – Bingo. Talvez nos beijarmos. talvez me apaixone. Vinil contra vinil.

– Ele é o jogador de beisebol? My ron assentiu: – Você o viu aqui? Thrill pegou um pedaço de papel e escreveu alguma coisa: – Esse é meu telefone. – Não? – Se fiquei olhando. bem. Aquele lugar estava embaralhando sua cabeça.– Não estou secando – contestou My ron. Thrill deu de ombros: – Ainda não entendo por que você está aqui. como se já tivesse visto de tudo. numa parede. estava escrito em rosa Galeria dos Clientes Famosos. Até o bigode – um daqueles modelos cinza-amarelados – era caído. Atrás do barman. My ron balançou a cabeça: – Eu continuaria me perguntando. – Estou procurando uma pessoa – falou ele. Pat Buchanan. mas você não gosta de um pouco de mistério? – Gosto de mistério em várias áreas. Estava na casa dos 50. – Apresento-lhe Pat – disse ela. onde havia fotos emolduradas de rostos conhecidos da extrema direita. Pat . tinha cabelos grisalhos. digamos. e veja que disse se. foi só para tentar esclarecer a questão do gênero. – Ah. Mas o que estou querendo dizer é que podíamos só sair para jantar. – Obrigada por deixar isso claro. – Era? – Foi assassinado. My ron. Big Cy ndi lhe deu uma cotovelada e ele quase caiu do banco. My ron observou atentamente seus movimentos em busca de. era baixo. havia um espelho gigante. Jerry Falwell. contrataria para tocar um negócio. o intolerante e preconceituoso personagem de Tudo em família. uma arma escondida. Não precisamos ter nenhum contato genital. ombros caídos e parecia cansado da vida. As mangas de sua camisa estavam arregaçadas. Me ligue uma hora dessas. revelando braços de Popey e cobertos de pelos. sou um cara muito tradicional. Ou ir ao cinema. Ele era meu cliente. – Você o conhece? Thrill olhou para a fotografia e franziu o cenho: – Você não disse que era agente esportivo? – E sou. – E o cara da foto? Thrill lhe entregou o pedaço de papel. pegando uma fotografia de Clu Haid e mostrando-a. Ao lado. O barman parecia alguém que Archie Bunker. garanto a você. My ron torceu desesperadamente para que Pat fosse homem. Mas quando se trata do conteúdo de uma calça. desceu do banco e rebolou para longe.

Chris. Não o conheço. Podem ser tanto de homem quanto de mulher. Big Cy ndi interveio: – Por favor.” Bem franco. Muito apropriado. Jerry. bem molhado. mas não houve nenhuma. Depois. – Esses canalhas tacanhos foram todos molestados quando crianças. Jesse. Ele tentou outra vez. A de Jesse Helms dizia: “Estou todo esfolado. como nos velhos westerns. – O que eu posso fazer por você? – Você é fã de esportes? – perguntou My ron. como se o próprio Jesse o tivesse dado. My ron ficou esperando que ele o molhasse com um pouco de cuspe. – Mas o seu nome não é Pat? – Pois é. Mas eles dão boas gorjetas. Jesse. Newt Gingrich. Pat piscou para Big Cy ndi. Nem um movimento. – Teoria interessante – comentou My ron. Big C. – Quer saber minha teoria? – continuou o barman. Ele apenas lhe lançou um olhar: – Você me ouviu. Entende o que estou dizendo? My ron murmurou que entendia. Jesse Helms. – O nome Clu Haid diz alguma coisa para você? Ficou esperando alguma reação. – E que tipo de nome é Newt? – continuou Pat.Robertson. Eca! Pat começou a limpar uma caneca de cerveja com o pano de prato. Por isso são hostis a toda a questão de gênero. My ron insistiu: . O cara parecia ter sido moldado para barman. Por que será que se lembrara daquela série? – Queria saber… – O nome não me diz nada. Era sempre um sufoco. que retribuiu o gesto. Casualmente. vinha a marca de um grande beijo de batom. – Está fazendo alguma pesquisa? Chegou a hora. Lou Rawls começou a cantar “Love Is in the Air”. Saudades e beijos. Pat. A canção mudou no jukebox. Pat acompanhou a direção dos olhos de My ron: – Já notou? – O quê? – Como todos os grandes homófobos têm nomes ambíguos? Pat. Eles variam tanto quando um personagem de SOS Malibu. na verdade eu detesto veados também. – Como crescer com uma postura sexual saudável tendo um nome desses? – Não sei. encolhendo os ombros e limpando o balcão com um pano de prato. As fotos dos extremistas estavam todas “autografadas”.

. Agora. My ron lembrara o nome da banda. E não tenho planos de olhar. O que isso dizia sobre um homem? – Guarde o dinheiro – disse Pat. – E se eu mostrasse a você uma foto de Uly sses S. Imaginem dois caranguejos virados de costas sob o sol causticante. Tirar fotos de gente entrando e saindo deste belo estabelecimento. perguntou a Big Cy ndi: – Esse cara é da polícia? – Não – respondeu ela. – Então a resposta é não. adoro você. mas vou acampar na porta com uma máquina fotográfica. pegando a carteira e tirando uma nota de 50. The Fly ing Machine pedia a Rosemarie que sorrisse um pouco para ele. – Muito bem – falou My ron. Pat tirou. – Pat. – A resposta seria não… senhor. Indiscretamente. Grant. – Você vai ver – retrucou My ron. Não gosto de problemas. – Entendo – disse My ron. não mostra seu verdadeiro rosto aqui. Pat balançou a cabeça e pareceu sorrir. Tenho clientes. – Ele notou que Pat nem sequer dera uma olhada na foto. Mas imagine se eu entrasse no Couro e Luxúria com fotos. especialmente as celebridades. – E se eu fosse policial? – perguntou My ron. – Esse cara significa problemas? – Nem olhei para a foto. Sabe disso. E que a maioria das pessoas. Caia fora. – Guarde a foto. . Ao voltar. Big C. piscando os olhos. pegando a foto. companheiro. The Fly ing Machine. – Você está certa. – Você é um belo de um filho da puta e sabe disso. Fazer umas perguntas. Passar a foto pelo salão. Vigiar este lugar. – Poderia dar a desculpa de que estou sempre ocupado demais aqui para ficar observando rostos. Guarde as perguntas. – Acho que vou ficar por aqui. então. Você ficaria feliz em ajudar? Big Cy ndi pensou por um instante: – Acho que não.– Nunca ouviu falar de Clu Haid? – Exato. Big Cy ndi teve novamente de se meter. – Não gostaria. – Nem do New York Yankees? – Não acompanho mais desde que Mick se aposentou. – Por mim? – Ei. o décimo oitavo presidente americano? O jukebox começou outra música. My ron pôs a fotografia de Clu sobre o balcão: – Viu esse sujeito alguma vez aqui? Alguém pediu um chope. você não pode ajudar? – pediu ela.

– Vou ter. Posso cuidar de mim mesmo. iria se deixar enganar assim. Nada aconteceu. porém. Amarelo e macio. se o oponente fosse bom. os braços foram puxados para trás como se fossem asas de galinha. – Sei o que estou fazendo. e um retardado não teria velocidade nem força para chegar tão longe. Ele a puxou de lado: – Qual o problema? – O senhor não deve fazer ameaças aqui. – Não temos escolha. Não posso deixá-lo sozinho.. Um típico golpe de luta livre. Tudo aconteceu sem aviso. como os de uma marionete. Mais provavelmente. por isso o golpe era ilegal em lutas profissionais. – Eu avisei sobre este lugar. – Você vai ficar lá fora. Big Cy ndi balançou a sua. Ela se moveu lentamente em direção à saída. Imaginem o monte Vesúvio expelindo um pouco de lava. Talvez hostil. não havia como se soltar de um crucifixo. Meu Deus. na verdade. Se a pessoa estivesse de pé. My ron se virou para ela e assentiu com a cabeça. aborrecido: – Big C. – Tenha cuidado. Sentiu algo quente lhe cortar os ombros. Os braços que vestiam o casaco puxaram a cabeça de My ron . as pessoas abriam caminho com uma velocidade que faria inveja em Moisés. saia daqui por uns minutos. Ainda assim. Bolitar. porém. Duas mãos passaram por baixo dos braços de My ron. – Então não vou falar. My ron se virou para Pat: – Bem? – Você é um idiota. os dedos fechando-se por trás do pescoço. Uma voz perto de seu ouvido sussurrou: – Quer dançar. A pressão aumentou. Era difícil interpretar aquele olhar. My ron fez força. gostosão? Quando se tratava de luta corpo a corpo. O lugar era um mar de gente e Big Cy ndi ocupava bastante espaço. podia-se tentar pisar no pé do adversário.Pat o encarou demoradamente. Sr. Sabia que. – Não gosto disso. Seu rosto pareceu um totem recém-pintado. e o rosto ficara perigosamente exposto. Os braços poderosos que o prendiam estavam cobertos por um cardigã. mas também não era nenhum principiante. Quando ela já havia passado pela porta. E My ron não estava de pé. Só um retardado. My ron não era como Win. Os cotovelos estavam levantados. Big Cy ndi franziu o cenho. – Não. Ela suspirou.

O chute foi rápido e acertou o peito dele em cheio. Apesar disso. O da outra – que vestia o cardigã amarelo macio (com monograma. O processo todo. no entanto. Resumindo: para intimidar. Espelho falso. dois cross-dressers. como um bônus. As pessoas ali atrás enxergavam. O mundo girou. com o rosto voltado para baixo. Difícil roubar do caixa quando não se sabia quem estava observando. A mão buscou automaticamente o celular. Sentiu algo se abrir na pele. Tratava-se de uma clássica sala de porrada. Ele viu estrelas. Hoje em dia nem tanto quanto antigamente. Era seguro. Quem iria dizer de onde vieram? E. Sangue. Uma ao estilo patricinha do início dos anos 1980 – volumosa e armada. Uma porta se abriu. tiravam-no dali. Principalmente estádios. Apertaria a tecla de memória e ligaria para Win. Olhou para os agressores. Houve tempos em que um fã rebelde era mais do que apenas escoltado para fora do estádio. Não havia como confundi-las com outra coisa. do crucifixo até que o largassem no chão. Os guardas o levavam para uma sala nos fundos e davam uma pequena surra. ferindo a testa. E My ron sabia por quê. Soltaram-no. Muitos lugares têm uma. bem. havia manchas de sangue nele. Merda. os rapazes da segurança acrescentavam umas contusões. mas deteve o gesto. Mais fácil de limpar. e ele estava muito tonto. Não suas. My ron começou a se erguer. pensou. qualquer coisa. Sua cabeça. se ameaçasse entrar com um processo ou fazer barulho. Assim. O telefone havia desaparecido. My ron ouviu a si mesmo fazer um barulho estranho e caiu sentado no chão. Eram antigas e secas. tudo. As paredes eram de cortiça e. Examinou o entorno. My ron tocou a testa e sentiu algo pegajoso. Ambos com perucas louras. o barman.para trás e depois a empurraram na direção do balcão. Duas mulheres. a não ser fechar os olhos. os funcionários do estádio podiam revidar com . Mas estavam ali. portanto. de linóleo barato. Uma luz se acendeu. Contraiu o queixo o quanto deu para poupar o nariz do golpe. Lembrou-se do espelho. e ele caiu como um saco de batatas sobre o cóccix. O que o fã rebelde poderia alegar? Estava completamente bêbado. Os clientes viam um espelho. Claro. Mulher Fatal soltou um grito e deu um pontapé. a quem possa interessar) – parecia o cabelo de uma mulher fatal depois de uma bebedeira feia. My ron foi carregado para um recinto escuro. à prova de som. Não. Alguém agarrou seus pés. Dava para ver todo o bar e as costas de Pat. durou uns oito segundos. Ele não pôde fazer nada. Olhou para cima. Estava no ar agora. Esvaziaram os bolsos dele. Estava na mão da Patricinha. provavelmente se envolvera numa briga na arquibancada. O piso. ricocheteou na madeira envernizada do balcão.

E é provável que continue em alguns lugares. O corte não havia sido profundo. E a sala de porrada continuava a existir. Briguenta. My ron manteve o medo sob controle e olhou com firmeza para Mulher Fatal: – Você se traveste há pouco tempo? – perguntou. My ron não gostou daquilo. As três se espalharam. mas mesmo assim a lâmina atingiu a parte inferior da perna. A semelhança era. Ele pulou o mais alto que pode. E ainda apresentar uma dúzia de seguranças para corroborar a história – e não havia ninguém para defender o fã descontrolado. Mais ou menos. – Vamos esperar uma música lenta – respondeu My ron. Uma bainha. Seu coração martelava. Soltou um pequeno grito e olhou para baixo. mas serviu para acabar com aquilo. gostosão? – perguntou outra vez. Demonstrou sua utilidade com uma exibição impressionante de chutes de artes marciais. Fique calmo. que se soltou. mas ainda assim a lâmina cortou sua camisa e a pele. – O quê? – É um detalhe interessante. Não era um som agradável: – Quer dançar. – Onde está o síndico. Parecia muito com a mãe corajosa de One Day at a Time. Sentiu-a esbarrar no osso da canela antes de deslizar para fora. Depois deu uma rasteira e My ron viu o brilho do aço avançar em sua direção. Schneider? – perguntou My ron. Tentou ficar de pé. – O sangue no chão – falou ele. na verdade. Ruivo. assustado. um bastão preto talvez.acusações de embriaguez. era um disfarce. O torcedor deixava para lá. difícil de explicar – uma mistura perfeita de determinação e cútis. Mãe Corajosa trazia algo na mão. A sensação de ver o próprio sangue. Mulher Fatal deu uma risadinha. Impetuosa. mas estava sangrando. você não acha? Mulher Fatal levantou o pé direito e puxou o salto. Na verdade. Um terceiro cross-dresser entrou na sala. mas Mulher Fatal lhe deu outro chute. em uma de suas referências televisivas. Para uma lâmina de aço. Rolou para trás. disse para si mesmo. agressão e o que mais quisessem. . Mãe Corajosa e a Patricinha começaram a rir. Mulher Fatal parou de dar chutes: – O quê? – Você não está levando longe demais essa coisa do salto agulha? Não foi sua melhor piada. A respiração estava rápida demais. gostosão – ordenou Mulher Fatal. os punhos cerrados. Mais sangue. – Levante-se. Nenhuma resposta. que olhou para Mãe corajosa. Mulher Fatal olhou para a Patricinha. Pense. Meu Deus. a lâmina brilhando na luz. mas exagerado.

Caiu para trás. onde estava Mãe Corajosa com o bastão. – Só para chamar a atenção do touro. Sentiu um solavanco no corpo. de garotinha. E agora? Mãe Corajosa tomou a frente: – Por que você está aqui? My ron focava no bastão elétrico e em como não experimentar de novo sua ira: – Estava procurando uma pessoa – respondeu. My ron olhou para cima. Ficou de pé sobre My ron. – Por quê? – Porque queria saber se ele esteve aqui. Ele viu o pé aproximando. segurando o próprio rosto: – Ele me bateu! – O tom da voz agora estava um pouco mais grave. Sua mão acertou em cheio a parte de baixo do olho. My ron sentiu outro arrepio.Fingiu ir para a esquerda. Foi quando My ron sentiu o coração parar. Mulher Fatal levantou a perna e colocou a lâmina do salto perto de seu rosto. – Isso foi só o começo – disse Mãe Corajosa com uma voz aguda. como se as costelas de My ron fossem uma bola de futebol. O estômago se contraía. que avançava. e a Patricinha caiu. – Clu Haid. – Por quê? . A Patricinha havia se recuperado. My ron se virou. Olhou pelo espelho falso. Nem sinal de Big Cy ndi ou de qualquer reforço. com os punhos prontos. Uma dor lancinante partiu do feixe de nervos atrás do joelho e se espalhou por todo o corpo como uma corrente elétrica. As pernas falharam. e então desviou para a direita. deu um soco na Patricinha. consumido pela náusea. Mãe Corajosa continuava com as perguntas: – Quem você estava procurando? Não era segredo. Mãe corajosa apenas tocara seu joelho com o bastão. tentando fazer com que o corpo parasse de vibrar. Ele caiu outra vez no chão e se contorceu como um peixe fora d’água. Mãe Corajosa exibiu o bastão outra vez. como se o choque e a dor tivessem abrandado a fachada feminina. Ele girou de pura agonia. My ron permaneceu imóvel. Uma pisada rápida e estaria liquidado. Ouviu-se um zunido e a parte de trás de seu joelho explodiu. o bastão. – Seu puto! A Patricinha fez uma careta e deu um chute. a lâmina do salto. Sem hesitar. perderam a força. fechou os olhos e entregou a Deus.

tão calmos. esticando o bastão na direção dele. My ron engoliu um pouco da bile que havia subido. e My ron sabia. Se o vidro não cedesse. Win também tinha olhos assim. Não indo na direção delas. – Que coisas? – Nada em especial. As duas balançaram a cabeça. Olhou de novo pelo espelho. e uma delas pelo menos era muito boa. Ao aterrissar. que acertou mais uma vez a parte de baixo das costelas e produziu uma dor do diabo. preparadas para o ataque. Não havia escolha. Precisava surpreender. – Ele era meu cliente. duas estavam armadas.Contar que estava à procura de seu assassino talvez não fosse a melhor escolha. Nada de Big Cy ndi ainda. atirando o corpo como um foguete através do vidro. Outro chute. ainda mais se o assassino estivesse ali. Não tinha como vencê-las. apoiando-se no pescoço e na cabeça. Foi com tudo. fechou-se todo como . fechou as mãos e atingiu o espelho com todo o seu peso. já era tarde. Só poderia esperar que Mulher Fatal não o matasse. A primeira lhe mostrou novamente o bastão: – Nada em especial é uma resposta inaceitável. Quando suas três carcereiras perceberam o que estava fazendo. – Para ninguém. – Para quem você trabalha? – perguntou Mãe Corajosa. As pernas o impeliram em velocidade máxima. Vinha planejando o movimento havia dez segundos. pôs-se de pé e se atirou subitamente para a frente como se fosse uma bala de canhão. – E? – Puto! – disse a Patricinha novamente. não lhe restaria mais nada. Deu uma cambalhota. seria um homem morto. Elas eram três. Se a arma o atingisse outra vez. cacos de vidro espalhando-se pelo chão a seu redor. Os grandes sempre têm. O pânico revirou as vísceras de My ron: – Espere… – Acho que não – falou Mãe Corajosa. Mãe Corajosa olhou para Mulher Fatal. O barulho foi enorme. – Então por que quer saber se ele esteve aqui? – Só estou tentando entender umas coisas – respondeu ele. Ele olhou nos olhos de Mulher Fatal. ao estilo Super-Homem. My ron cerrou bem os olhos. As três cross-dressers pularam para trás. My ron voou através dele. ensurdecedor. Tinha que tentar naquele instante. O sangue escorria dos ferimentos. no peito e na perna. E foi o que fez. mas na do espelho falso. As entranhas ainda tremiam por causa do choque elétrico. Rolou para trás. O espelho se esfacelou com o impacto. Mas um ataque seria suicídio.

Os dois correram para fora enquanto as sirenes da polícia soavam no ar embaçado da noite. em que o cão esmurra o Frajola. My ron estava contando com isso. que voa pelo salão enquanto o punho gigante permanece parado no ar por alguns segundos. Ele tentou ficar de pé. Viu uma porta abrir-se à direita. cada vez mais perto. Alguém voou sobre o balcão e caiu em cima de My ron. bateu no chão e rolou. continuou rolando e bateu com força no balcão. Cadeiras e copos decolavam. A Patricinha surgiu: – Puto! Ela foi na direção de My ron. Ignorou a dor. Big Cy ndi ignorava tudo. Pessoas gritando. A Patricinha continuava vindo. Mais vidro quebrado. Big Cy ndi falara sobre a reputação do lugar. Depois desapareceu. Pequenos estilhaços furaram sua pele. segurando o bastão de Mãe Corajosa. o punho gigante pertencia a Big Cy ndi. .uma bola. Uma verdadeira batalha campal nova-iorquina teve início. e a clientela do Imagine Só não decepcionou. Corpos voavam. mas não conseguiu. Naquele caso. Pareceu uma cena de desenho animado. Ele tentou sair rastejando. Pescou My ron e o colocou sobre o ombro como um bombeiro. Mesas jogadas. derrubando garrafas. mas estava confuso demais.

Esperanza estava sentada a sua frente. – Isso aconteceu um pouco antes de você fugir? – Duas semanas antes. – Nada quebrado – declarou ele com um sorriso profissional. ligou para o apartamento de Hester Crimstein. De manhã. a coisa fora dolorosa. sonhou com Brenda. – Mas não foi por isso que desapareceu. – Amanhã à noite – falou Win – vamos voltar a esse bar. Win tomou um gole de conhaque. mas relativamente inofensiva. Mas poderia. Ele sentiu a boca seca. – Acho que não. O tratamento médico consistiu basicamente em limpar os cortes causados pela lâmina do salto e pelos cacos de vidro. chegara em quinze minutos. mas o médico. As duas incisões feitas por Mulher Fatal – a da barriga tinha a forma de um Z – necessitaram de pontos. Hester pegou o telefone. No meio da mensagem. – Não disparei o revólver. mas o doutor dissera para esperar até a manhã seguinte. Não era algo em que My ron queria pensar naquele momento. Surpreendentemente. fechou a maleta. Quando adormeceu. – Matei uma pessoa – disse My ron. o que fiz foi pior. A secretária eletrônica atendeu. – Preciso ver Esperanza – falou à advogada. . um homem grisalho que parecia um figurante. ela hesitou apenas por um momento antes de dizer: – Tudo bem. Engoliu dois comprimidos e foi para a cama. De certa forma. Ela continuava a olhá-lo. Queria tomar um banho. O médico entregou a ele alguns analgésicos. Juntos. My ron engoliu um pouco de achocolatado. Já passava das duas da manhã. despediu-se e foi embora.16 N O D A K O TA . My ron disse que era urgente. No fim das contas. Win chamara um médico. – Agora. W I N BA L A N ÇO U a cabeça e disse: – Deixou duas garotas baterem em você? – Não eram garotas. My ron terminou seu achocolatado e se levantou devagar.

tudo bem. não seria um dilema moral mais complexo que escolher uma gravata. você está perdendo o sono pelo fato de não estar perdendo o sono. Ele riu e espalmou as mãos: – Entendeu por que recorro a você? Esperanza cruzou as pernas e olhou para o vazio. – E não fique tão na defensiva. Para Win. – Os tribunais não tinham provas. – Então? – Você é a pessoa com quem converso sobre essas coisas. . – Não – falou My ron. foi só um palpite. – Sério? – É uma jogada. – E. Como disse. – Então você fez o papel de vingador. – Ah! – A pessoa merecia – continuou ele. Win não entenderia. – Portanto. Sobre o que atraía um para o outro. isso só vai fazer as pessoas desconfiarem. não incomoda. não sei. Depois pensei se não seria apenas o velho ditado: “Os opostos se atraem. – E esse dilema moral está perseguindo você? – O problema todo é que não está – falou My ron. espere. talvez eu tenha alguma esperança de que falar sobre isso nos ajude a retornar. Esperanza balançou a cabeça. – Por que está me contando esse segredinho? – Não sei. – Certo. fiquei pensando sobre essa amizade. – Eu sei – respondeu ela. – De certa forma. – E isso incomoda? Não. – Quando conheci você e Win. Percebi logo. Você esperava que a sua grande confissão fosse fazer com que me abrisse.– Você fugiu por causa de Brenda. Achei que talvez Win fosse um homossexual enrustido. Ou talvez eu só precise conversar sobre o assunto. a algum tipo de normalidade. Esperanza cruzou os braços. Ela quase sorriu: – Mesmo agora? – Não entendo por que você não se abre comigo – disse ele. – Por que todo mundo diz isso? Dois homens não podem ser só… – Eu estava enganada – interrompeu ela. A pessoa que matei era a própria encarnação do mal. My ron não respondeu. Vocês não são gay s.” Talvez isso conte.

– E? – incitou My ron. – Que verdades? – Primeira. se quer absolvição. My ron. – Está destruindo. se é isso que quer ouvir. compreensivo: – A segunda é o motivo verdadeiro de você estar aqui. – Quer dizer que estou ficando igual a Win? Puxa. mas. A lógica de Win é assustadora. ouviu? Ele engoliu em seco e balançou a cabeça. – Isso é diferente. Não acho que seja correta. Talvez a pessoa que você matou merecesse. é porque não deve ser tão mau assim. Esperanza o olhou nos olhos. Os dedos de Esperanza pairavam próximo à boca. – E a segunda? – repetiu ele. – E a segunda? Esperanza sorriu. Você pode estar se afundando num pântano. – Você não está mais questionando as regras – continuou Esperanza. o vê como uma dose fria de realidade. Não gosto dela. Ele se mexeu na cadeira. mas fascinante. Você cresceu ouvindo todo aquele lixo liberal de classe média sobre os menos favorecidos. – Pulou a primeira muito rápido. por outro lado. – Estou dizendo que sua reação é humana. Existe uma pequena parte em todos nós que gosta do que ele faz. Vou fazer tudo o que puder para protegê-la. Isso aproxima você de Win. isso é tranquilizador. É como se pensasse: se você gosta dele. Mas agora a experiência da vida real está ensinando que algumas pessoas são más mesmo. – Você está usando essa história toda de dilema moral para evitar duas verdades que não quer encarar. Não quero me aprofundar muito nisso. Brenda. – Inclusive infringir a lei? É disso que estou falando. hesitando entre roer as unhas e puxar o lábio inferior. – E mais uma coisa – falou ela. Silêncio. é Win quem você deve procurar. . mas Win o vê como seu lado humano.Ela se calou. Seu sorriso era suave. – E talvez vocês sejam mais parecidos do que gostariam. – Você foi a melhor pessoa que conheci até hoje – disse ela. – Tem certeza? – Tenho. – Não deixe ninguém mudar isso. Você. Ontem mesmo disse que mentiria sob juramento para me proteger. Questionar as regras está se tornando cada vez mais fácil para você. o mesmo lado que pensa que há alguma razão quando os iranianos cortam a mão de um ladrão.

– Isto é para o senhor. – Foi o que ele disse para os meus pais. Uma intimação da promotoria distrital do Condado de Bergen. My ron abriu. O guarda abriu a porta. mas não está. por alguns segundos. – Ele bateu em você – falou My ron. – Por que Clu disse que eu corria perigo? Por que bateu em você? O que aconteceu na Imagine Só? Ela balançou a cabeça e chamou: – Guarda. E para Jessica. – Acha que está pronto para isso. Estou envolvido nisso. Quer apenas escutar uma razão. mas talvez não fosse. Esperanza e Hester estavam certas em não lhe dizerem nada. Muito bem. Tinha a imagem duma garota. – No estacionamento. Recebi um disquete estranho pelo correio. – Deu no rádio que encontraram pelos pubianos no apartamento dele… – Não vá até lá – pediu ela. Aprenda alguma coisa com os erros do passado. – Clu disse a você que eu estava correndo perigo? Ela não respondeu. – Sr. organizando os pensamentos. muito bem. . Conferiu o relógio. O homem lhe entregou um envelope e desapareceu. Mal saíra da sala quando um homem o abordou. – Não posso. – Não preciso da sua ajuda. O encontro com Sophie e Jared May or era às onze.– E por que estou? – Porque não está apenas se perguntando se matei Clu. – Mas ela não vai ficar longe de mim – retrucou My ron. – Porque quer. Nome do caso: “O povo do Condado de Bergen contra Esperanza Diaz”. – Preciso. Ela não disse nada. Ele enfiou a intimação no bolso. Esperanza manteve o olhar baixo. Bolitar? – Sim. Fique longe dessa história. sozinho. No princípio pensei que fosse um exagero. – Fique fora disso. então pode ser justificável eu também ter matado. Ao menos não precisaria mentir. Tempo de sobra para ir até o estádio dos Yankees. Quinze para as dez. Você já matou. Está tentando encontrar uma forma de racionalizar essa hipótese. Ele ficou sentado. – Você está delirando – disse ela. Virou-se e saiu da sala sem olhar para My ron. – Não é tão simples assim.

como Esperanza não lhe contou nada. apenas uma velha amiga da vizinhança. mãe. O . o braço do pai esticado a uma altura impossível. Nos feriados judaicos. – Está vendo. quase religioso. Falando francamente. – Sua tia Clara vai cuidar da intimação – disse ela. O basquete era seu esporte preferido. Sempre que deparava com a famosa arena esportiva. Mas. – Que bom. e ela liga para a promotoria. – Estou entendendo. Vou ligar para tia Clara agora. Sua juventude. o dos reis. Tia Clara não era de realmente sua tia. Enquanto isso. o estádio dos Yankees se localizava numa cloaca do carcomido Bronx. O tênis era o jogo dos príncipes. e o golfe. Sr. entendeu? – Sim. Intimaram você. a multidão de pé. a expectativa pré-jogo formigando-lhe em cada parte do corpo. olhando para o seu rosto suave. Sabe-Tudo também. a bola batendo na palma da mão com um estalo feliz. Ela desligou. – Vou ligar para ela. não tem como você prejudicar o caso dela. Seu pai pegara uma bola perdida quando My ron tinha 5 anos. Mas isso não importava muito. Uma criança pequena espremida de pé na linha 4. o sorriso afetuoso no rosto ao entregar aquele tesouro ao filho. mãe. My ron caía num silêncio reverente. peço-lhe que olhe para esse rosto: é fofinho ou não é?” – Tudo bem – disse ele. My ron ainda a guardava. Sabe-Tudo? O que eu disse a você sobre Hester Crimstein estar certa? – Sim. E o Sr. Ele era tomado por lembranças. segurando a mão do pai. ela ainda apertava suas bochechas e gritava: “Fofinho!” My ron esperava que ela não fizesse aquilo na frente do juiz: “Meritíssimo.17 M Y RO N FE Z O Q U E Q U A L Q U E R BO M garoto faria quando tem problemas com a lei: ligou para a mãe. e o que mais gostava de ver na TV era o futebol americano. Era inevitável. não importa. escurecendo no porão da casa dos velhos. – Não me venha com “não importa”. Imagens se sucediam. Ainda via a cena algumas vezes – a bola de couro cru branco. você não diz nada. que lhe parecia gigantesca.

. a alegria absoluta de ganhar seu primeiro taco e apreciar aquele pedaço de madeira como se tivesse saído direto do armário do melhor rebatedor de todos os tempos. com a aba bem levantada. de como Yaz rebatia bolas baixas para aquecer Petrocelli. mas qualquer garoto deve se lembrar de seu primeiro jogo da liga principal: o placar. Riverton.beisebol. era mágico. As recordações da infância são tênues. pegava uma luva e ia para o quintal antes dos últimos raios de sol desaparecerem. um magnata do mercado editorial. com a figurinha favorita de beisebol lá dentro. A maioria dos fãs aplaudira. Mas lembra-se principalmente do pai. de dormir com ele pousado sobre a mesa de cabeceira? Não existe um garoto que não se lembre de treinar arremessos com o pai nos fins de semana ou. Ela e o marido. A proprietária majoritária do New York Yankees era Sophie May or. como os melhores do jogo contornavam a segunda base e iam direto para a terceira. tirava a roupa do trabalho. a luva nova no bolso. a tranquilidade e o ritmo lento de uma tarde de verão. quem acertou um home run. quem lançou. vestia uma camiseta que era sempre um pouco pequena. a mãe passando mais tempo tomando sol que observando o jogo. Gary. Lembra-se do ódio saudável e respeitoso das superestrelas do time visitante. antes que a Liga Infantil ou qualquer outra ensine uma das primeiras lições da vida: que o mundo pode e vai decepcioná-lo. durante aquele momento luminoso. estudando as escalações como rabinos examinam o Talmude. como as pessoas achavam graça dos comerciais da Nestlé. Recorda-se como os jogadores no banco pareciam tão relaxados. numa cerimônia igual à dos Celtics erguendo a sua no velho estádio de Boston. pipoca velha. cheia de óleo para amaciar. entretanto. as bochechas no contínuo movimento de mascar chicletes. figurinhas de beisebol na mão. esse pai se transformou num homem de habilidade e força inimagináveis? Apenas o beisebol tinha essa mágica. de usá-lo à mesa no jantar. Não há um garoto de até 7 anos nos Estados Unidos que nunca tenha sonhado em ser jogador da liga principal. melhor ainda. cerveja derramada. Que garoto não se lembra de ir à escola usando o boné da Liga Infantil quando os professores permitiam. o cheiro do verão. tinham surpreendido o mundo do beisebol ao comprarem o time do antigo dono – o sempre impopular Vincent Riverton – fazia menos de um ano. Que garoto não contemplou pasmo como o pai rebatia ou lançava a bola longe – por pior que o velho fosse como atleta. com Frank Howard. Lembra-se do pai comprando para o filho uma flâmula do time visitante e pendurando-a mais tarde na parede do quarto. naquelas tardes preciosas de verão em que o pai saía do escritório e vinha correndo para casa. Recorda-se dos irmãos fazendo estatísticas. Lembra-se do time visitante. O cheiro de sua loção pós-barba fica eternizado junto com os odores do beisebol – o de grama recém-aparada. tinha um relacionamento de amor e ódio com o público (mais de ódio). de cachorro-quente. e os May ors. por mais desajeitado que fosse – e.

O escritório era escassamente decorado. desprezando o trabalho de base dos Yankees e contando com a possibilidade de que Clu Haid ainda tivesse um ou dois anos bons. sem nenhum sinal de estilo. Comprar Haid era a forma de conseguir isso. Ele ficava melhor a cada partida. Mãe e filho se levantaram para cumprimentá-lo. o cabelo grisalho e bem penteado. Quase disse: “Vocês devem ter odiado esse alce”. Usava o cabelo repartido à direita. mas se conteve. Sophie se manteve firme. Ela era do Meio-Oeste e. O toque final na decoração. O público ficou com o pé atrás. Sophie sempre fora sócia com os mesmos – ou maiores – direitos que o marido no negócio de softwares e insistiu em continuar a transação. Ela fez uma rápida negociação. com a paixão pela caça misturada ao gênio matemático. ou talvez apenas parecesse ser. mas podia imaginar a repercussão negativa para a família May or quando Clu foi pego no antidoping. cogerente-geral. um sujeito sem nenhuma experiência no beisebol. Clu fez arremessos fantásticos durante o primeiro mês no time. O público se apaziguou. não demorou. My ron tentou não mostrar o que estava pensando. Os fãs estavam empolgados. Sophie nomeou o filho Jared.casal tecno-novo-rico. O público chiou. as costas eretas. O público permaneceu cético. A juventude conservadora. porque a de um vivo seria muito difícil de pendurar. Por um tempo pelo menos. Apertou a mão de Jared e depois se virou para Sophie May or. o milionário sedutor. contudo. My ron foi imediatamente levado até a sala de Sophie May or. Mais de noventa por cento de suas bolas rápidas encaixavam. Contava com apoio e simpatia do público. Logo após assumir o controle. Gary May or havia crescido no Bronx e prometia um retorno aos tempos de Mick e DiMaggio. Ela atacou: . e os Yankees estavam no primeiro lugar. Jared devia ter uns 25. Duas semanas antes de a compra ser concretizada. paletó azul e gravata borboleta de bolinhas. era considerada uma mulher bonita. como se fossem guiadas por controle remoto. A maturidade vem com a idade. braços bronzeados. porque o cenário era dominado por uma cabeça de alce na parede. prometiam uma administração menos intervencionista. Parara de prestar atenção. o aperto de mão firme. que fizera fortuna na área de softwares. achava My ron. mas tinham sido Gary e suas raízes que os ligaram às massas. e as curvas eram impressionantes. A tragédia. Queria um campeonato mundial no Bronx imediatamente. parecia uma pessoa excêntrica aos naturalmente desconfiados nova-iorquinos. olhos que piscavam maliciosos e astutos. Gary May or morreu de um ataque cardíaco fulminante. óculos com armação de metal. Ela teria provavelmente uns 50 e poucos anos. como Dudley Moore em Arthur. De um alce morto.

Sophie olhou para o filho e depois de volta para My ron. disseram alguma coisa sobre você estar no Caribe – continuou ela. Entendo de softwares. – Fora? – Sim. então? – pressionou ela. Ele permaneceu calado. – Quanto tempo? – Três semanas. com um murmúrio vago. Jared também. – Onde você estava. My ron? – Me desculpe? Ela apontou para uma cadeira: – Sente. Olhou para o filho como se dissesse Você acredita nesse cara?. Ele não se deu o trabalho de responder.– Por onde você tem andado. Diaz me disse que você estava na cidade. – E não disse para ninguém? My ron se mexeu na cadeira e tentou encontrar uma abertura ou ganhar um pouco de terreno: – Não quero ser grosseiro – disse ele –. Como se ele fosse um cachorro. Mas tomei uma decisão. – Comprei este time e decidi não me meter. Realmente não entendo muito de beisebol. – Em outras palavras. My ron concordou. My ron. – Ontem. My ron? – Porque não sabia onde eu estava. mas não vejo por que meu paradeiro seria da sua conta. Sophie ficou de pé e o olhava fixamente. depois redirecionou o laser de seus olhos cinza para My ron. – Fora do país. obedeceu. – Confiei em você – falou Sophie. Entendo de negócios. todavia. – Mas a Srta. ela mentiu para mim. – No Caribe? – Sim. – Onde você estava? – Estive fora. . My ron permaneceu calado. – Não vê? Uma gargalhada mordaz passou pelos lábios da mulher. Sophie May or fechou os punhos e se inclinou em sua direção: – Por que ela me diria isso. Entendo de computadores. no tribunal. Tinha um pressentimento. Quis Clu Haid.

– Danem-se a integridade e a ética também? É assim que você trabalha. – Queria. Deixei você incluir uma cláusula de teor estritamente moral. Elas não mencionam que o governo as forçou a instalar esses dispositivos e que elas lutaram contra com unhas e dentes até o final. Que ia trabalhar para mantê-lo sóbrio. Você sabia disso. queríamos muito. My ron? – De modo nenhum. My ron engoliu em seco e se mexeu outra vez na cadeira. – E você me garantiu que ele ia ficar longe das drogas. – Ele era meu cliente – disse My ron outra vez. – E você acha que isso é desculpa para tudo? – Era meu trabalho conseguir para ele a melhor negociação. – Sabe o que você está parecendo? Um desses comerciais hipócritas de automóveis em que a General Motors ou a Ford se vangloriam de todos os dispositivos ecológicos que colocaram nos carros. Claro que queríamos que a negociação desse certo… – Vocês queriam e muito. – Mas você disse que ia ficar de olho nele. porque isso é algo que nem eu nem ninguém poderia garantir. – Errado – corrigiu ele. uma aula de semântica? – Ele era meu cliente – falou My ron. – Sim. – Você me deu o direito? Eu exigi! E você relutou a cada passo da negociação. – Meu trabalho era cuidar dos interesses dele. Dei a você o direito de fazer um exame surpresa nele. – Compartilhamos o risco – retrucou My ron. – Não posso impedir um homem de recair no vício. a qualquer momento. . Mas nunca prometi que ele ficaria longe das drogas. Como se um belo dia tivessem acordado mais preocupadas com o meio ambiente que com a margem de lucro. Eu entendia a preocupação delas. My ron. Falei que tentaríamos o máximo. As pessoas acharam que eu estava louca: três jogadores de futuro por um já acabado. iria… O que é isso. – E danem-se os meus? – Não foi o que eu disse. – Foi a vez dela corrigir. – Disse que ele queria ficar longe delas. – Continue dizendo isso para si mesmo.Achava que ele ainda tinha algo a dar. – O salário estava vinculado à obrigatoriedade de ficar longe das drogas. lembra? – Sim. Então negociei a compra do passe. – Tudo bem. Fiz disso parte do acordo. Ela sorriu e cruzou os braços. Como se tivessem tomado a iniciativa por vontade própria. My ron. Por isso fui até você.

. mas não se deu o prazer de reconhecer isso justo naquele momento. Ela estava certa. – No mínimo uma vez por semana – disse. – Então faça. Enfiou a mão no bolso e tirou dois analgésicos extrafortes. – E o que isso prova exatamente? – Nada. mas desistiu. – Por quê? – Porque. quando Clu foi pego no passado. Era a vez dele de falar. – Exame de urina? – perguntou My ron. e parte da culpa é sua por ele ter pisado na bola. Sophie May or pareceu intrigada: – O que há para falar? – Clu disse que estava limpo. Só queria fazer umas perguntas. Ela fez um sinal para Jared. que encheu um copo e o entregou a My ron. Deixou Clu sozinho. implorou perdão e prometeu procurar ajuda. quero dizer. My ron tentou mudar de assunto: – Me fale sobre o antidoping de Clu. My ron. Satisfeita – ou talvez saciada –. Ao ver o remédio. Nunca alegou que o resultado estivesse errado. – E você acreditou? – Quero examinar a questão. Jared abriu a boca pela primeira vez desde que cumprimentara My ron na porta. Mais tarde. Ficou? Silêncio. – Sim – respondeu Jared. Ele olhou para Sophie. Antes que Sophie May or atacasse outra vez. Pensaria em seu papel nisso depois. – E todos deram negativo? Exceto o último. – Você saiu de férias e não disse a ninguém.– Mas você não ficou de olho nele. My ron abriu a boca para falar alguma coisa. claro. – Toda semana? E nenhum outro positivo? Só esse? – Exato. Ela cruzou os braços. – Com que frequência você o submetia aos testes? Sophie olhou para o filho. A dor da surra da noite anterior estava voltando. Ele agradeceu e engoliu o remédio. Agiu com irresponsabilidade. – Sim. O efeito placebo foi imediato. Sophie May or foi sentar-se. e ele sentiu um alívio. ofereceu: – Quer um pouco de água? – Por favor. My ron balançou a cabeça.

– Meu Deus! – exclamou ela e depois cravou os olhos nele. – De várias formas. em que alguém vai observar cada movimento seu. My ron. é só passar óleo para motor nos dedos e deixar a urina tocá-los a caminho do pote. Clu passou a vida enfrentando esses exames. . Os fosfatos alteram os resultados. mas vacilou. Nada era muito simples. Debaixo do braço. Se o atleta fica sabendo que um teste mais sofisticado está para vir. Sophie May or parecia horrorizada: – Ele bombeia a urina de outra pessoa para dentro da própria bexiga? – Sim – respondeu My ron. que perguntou: – Como assim? – Passo a passo – falou My ron. Alguns médicos sabem disso e ficam de olho nos fosfatos. Ele traz numa camisinha ou num balão de encher e esconde no forro do short. mais nada. – Se for um mais primitivo. – O que ele fazia? Sophie não deixou essa passar: – Fazia pipi no potinho. ele esvazia a bexiga e usa um cateter para bombear urina limpa para dentro. Acontece todos os dias. My ron. – Alguém o via urinando? – O quê? – Alguém realmente testemunhava o pipi ou ele entrava no reservado? – perguntou My ron. Ou dentro do tênis. não é? Acontece. – E Clu também.– Você não achou estranho? – Por quê? – perguntou ela. Muito simples. – Mas Clu sabia que vocês o estavam monitorando? – Acho que sim. – Ele estava tentando não se drogar. dependendo da sofisticação do exame – respondeu My ron. Ele era testado pelo menos uma vez por semana. pensou My ron. – Você parece saber um bocado sobre isso. Se sabia que ia se submeter a um. – Você está falando sério? – Pode ser pior. Até dentro da boca. mas mesmo assim havia algo ali que não se encaixava. – Preparado como? – perguntou Sophie. Se deixam o cara urinar num reservado. – Ficava nu para isso ou usava short? – Que diferença isso faz? – Muita. – E como eram feitos os exames? Sophie olhou novamente para Jared. ele pode trazer urina limpa dentro do calção e usá-la. estaria preparado. – O que você quer dizer? – Que isso levanta algumas questões.

Uma foto emoldurada. quando um objeto lhe prendeu o olhar feito um gancho enferrujado. – Talvez – disse My ron. claro. Respire. Temos um jogo em casa. troféus. My ron ficou paralisado. a primeira edição de um produto da May or Software e coisas do gênero. O que acontecera com ela? Havia fugido. Uma foto emoldurada da garota que aparecia no arquivo que estava no disquete. Não era de admirar que a garota tivesse lhe parecido familiar. – Quem no time era mais amigo de Clu? O técnico. O coração ficou pequeno e precisou de toda a força de vontade para não gritar. A cabeça lutava contra um nevoeiro. – Foi o Dr. – Ele pode ter se enrolado – continuou Sophie. Bem ali. expirou. Ela era a filha de Sophie May or. Ou sim? Não se lembrava. Ele que cuidou disso. – Os viciados são peritos nisso. algum jogador? – Realmente não sei – respondeu Jared. e Sawy er Wells foi o assistente. olhou em torno e foi quando viu. – Enos Cabral. Inspirou. condecorações dentro de cubos de acrílico. – Com quem dividia o quarto quando viajava? Sophie quase sorriu: – Vocês estavam mesmo um pouco afastados. buscava clarear o pensamento. o guru de autoajuda? – Ele é psicólogo especializado em comportamento humano e excelente terapeuta motivacional – corrigiu Jared. – My ron? Precisava pensar. Houvera uma discussão ou algo assim. Com calma. – Mas. – Pode ser. misturada a outras fotos emolduradas. No lado direito da cômoda. se vocês o testavam toda semana. Calma. Mas eu gostaria de falar com a pessoa que aplicou o teste. Porém sentiu o pulso acelerar. Irmã de Jared. certo? Fazia dez. – Sawy er Wells. Balançou a cabeça. Stilwell – falou Jared. Continue respirando. Como era mesmo seu nome? Suas lembranças eram vagas. de tempo. Terapeuta motivacional. Não podia .– Ele provavelmente foi pego de surpresa. Sobre uma cômoda. não seria tanta surpresa assim. quinze anos. ai! – Algum dos dois está aqui agora? – Acho que não. My ron o conhecia. mas sem se deter em nada especial. Ai. Mas qual era a questão? Mais busca no banco de memória. como as pessoas fazem quando observam. É um arremessador cubano. – É o médico do time. Tudo bem. Vasculhou os bancos de memória internos. Não se suspeitava de nenhum crime. Precisava de espaço. não? – Cabral – disse Jared. Estava vasculhando a sala com os olhos. My ron tentou manter as aparências. Mas vão estar mais tarde.

– Por enquanto – falou ele –. Lembrou-se do disquete. Tenho esse direito. Tentando ganhar mais uma comissão em cima de um cadáver. . – Que direito? – Se o antidoping tiver sido inconclusivo. da gargalhada. – Pode haver alguma ligação. – Vai me deixar falar com o médico? – Você não tem nenhuma prerrogativa legal. Levantou-se. Sophie May or olhou para ele como se fosse um pedaço de cocô no tapete: – Saia da minha sala. – Acho que tenho. Stilwell o mais rápido possível – falou. gostaria de checar. Os olhos de Sophie permaneciam grudados nele: – Não vejo a importância disso. isso muda as coisas. – Você está se referindo ao contrato. pode acreditar em mim. – Muda o quê? – Sophie se calou. hein? Ele ignorou o insulto. – Ainda assim. olhando desajeitado para o relógio. My ron não disse nada. Agora. pensar no assunto. – O quê? – Gostaria de falar com o Dr. – Preciso ir – disse. – Não. – Não sei se concordo. O exame antidoping não é mais relevante. Não era a hora de mexer naquilo. deu um meio sorriso e fez que sim com a cabeça. – Isso é uma extorsão? Você está aqui por causa do dinheiro? Ele olhou de relance o retrato da moça. – Bem. – Se Clu estava mesmo longe das drogas. não? – Tenho que ir – repetiu ele. só gostaria de conversar com o médico do time. O dinheiro sujo de sangue secou. My ron. – Acabei de explicar… – Que diferença vai fazer? Clu está morto agora. My ron. o contrato ainda seria válido. do sangue. Ela se recostou na cadeira e cruzou os braços. – Acho que agora estou entendendo. tenho que lhe dizer: você de fato é um agente. Fazer umas pesquisas.” Tinha que sair dali. – Entre a morte e o exame antidoping? – Sim. Saia. recebi um disquete suspeito com uma imagem da sua filha derretendo em sangue. My ron.simplesmente despejar: “Ah. Você deveria à família pelo menos 3 milhões de dólares. Ele deu mais uma olhada na fotografia.

Saiu apressado pela porta. .

quando fizer. Bruce cobria os Mets. Bruce era também uma espécie de amigo e devia saber algo sobre a filha de Sophie May or. não? – Poderia ter dito um “furo”. My ron. sentou-se e discou um número. – Desculpe. É uma das minhas palavras favoritas. – Ok. Ele tinha outro. O restante era uma distração quase bem-vinda. seguida de perto pelas costelas machucadas. Uma voz atendeu ao primeiro toque. – Essa foi fraca. vamos pular a parte em que você destrói minhas defesas com seu carisma sobrenatural. você vai ter em primeira mão. Adoro cooperar com meu repórter preferido. como entrar no assunto sem deixá-lo curioso demais. My ron. sexo.18 A D O R E STAVA V O LTA N D O . Catalogou rapidamente os piores pontos. Todos os repórteres. contudo. – Tay lor. Brucie. porém. ótimo. – Algum recado de Bruce Tay lor? – Sim. Então: – Hum… – O quê? – perguntou My ron. não os Yankees. – Exclusiva? Uau. Direto ao ponto. Mas. Big Cy ndi lhe entregou uma pilha enorme de recados. no bolso de trás. deixava-o ciente de cada movimento. Uma exclusiva. Bruce. obrigado por retornar a ligação. Bolitar. – Não quero dar nenhuma declaração ainda. – My ron? Meu Deus! Cara. hum. O analgésico simples não estava dando conta do recado. – Estou escutando. A dor. My ron fechou a porta da sala. – Quero fazer um trato. Pausa. A canela cortada era onde doía mais. você está mesmo por dentro do jargão midiático. E o que você ganha em troca de não me contar nada? . Sr. mas evitava usálo. My ron. – Olá. queriam estar por dentro da história. – Claro. A questão era. – Parei de contar. – Quantos repórteres ligaram? – perguntou ele. – Tudo bem. com codeína. Precisava permanecer alerta. claro. e aquilo o fazia dormir mais rápido do que. No escritório.

– Por quê? Você estava mesmo nas Ilhas Cay man? – Não. não desligue. – Se é o que você prefere. – Agora é sua vez. você ainda não me deu nada. Ouça. mas não fez mais comentários. Em troca tenho que lhe dizer tudo. Como em “sem mais comentários”. Ou em “não vou mais responder perguntas hoje”. My ron. – E eu também não vou fazer – disse My ron. Casual. fico na minha. Eu não publico nada. . – Sem comentários. Pode ser inócua. – Ei. Fica apenas como minha fonte. Brucie. – Tchau. – Ou como a alma que você comprou – disse Bruce. Aí digo o que você quer. Bruce. e você me dá o furo de reportagem exclusivo antes de qualquer outro repórter. Você estava no Caribe. My ron. Meu Deus.– Apenas algumas informações. – Espere. qualquer coisa. Mas quero ser o primeiro a publicar uma declaração de My ron Bolitar. mas isso já é de conhecimento público. garotão. Não podia sair logo perguntando pela filha de Sophie May or. – Onde no Caribe? – Sem comentários. Ponto final. certo? – Certo. – Hoje não. – Liguei para você logo depois que o antidoping de Clu deu positivo. vamos parar com esse cabo de guerra. – Pergunte. Confio nela cem por cento. – Onde. Bruce. – Tudo bem. Esperanza disse que você estava na cidade. – Aí vai sua declaração: Esperanza Diaz não matou Clu Haid. Me deixe ver se entendi. Bruce. não tem trato nenhum. não sou nenhum executivo de coisa nenhuma. num tom que deixava claro que aquilo ia recomeçar mais tarde. Fechado? – Fechado – disse My ron. – Ela estava tendo um caso com Clu? – Essa é minha declaração. Uma declaração. Mas você não vai tentar inferir em nada e não vai publicar nada. – Tudo bem. – Fizemos um trato. – Espere aí. Só quero uma confirmação. não estava nas Ilhas Cay man. casual. estou com dor de cabeça. Desculpe. querido. Vamos fazer o seguinte: você me dá alguma coisa. Não venha com essa coisa de negociação para cima de mim. Você não me conta nada. mas e essa história de você estar fora do país no momento do assassinato? – Uma declaração. vou ser justo – falou ele. então? É assim que os repórteres trabalham.

E parecia bem. O cara partia o coração da gente. Mas aí. quando se trata de Clu Haid ou Steve Howe ou qualquer outro desajustado incorrigível. Soube que a esposa o botou para fora. sutil… – Bruce? – Sim? – O que você tem a me dizer sobre Sophie May or? – O que você quer saber exatamente? – Nada específico. – Não tem a ver necessariamente com drogas – falou My ron. experimentava o de malandro. Tinha emagrecido. os olhos vermelhos. mais ou menos uma semana antes do exame antidoping. O resto. – Antes do resultado positivo? – Sim. A porta da sala se abriu e Win entrou. – O que falavam sobre Clu? – perguntou My ron. Meu Deus. Ele contemplou a própria imagem e sorriu. começou a parecer acabado. – Então houve algum sinal antes do resultado positivo? – Acho que sim. – Você só está curioso. My ron pensou. você pensa logo em uso de drogas. O amigo assentiu e abriu a porta de um armário. – Sei. – Ele estava arremessando pra caramba. se você entende o que quero dizer. O braço dele foi tocado por Deus. – Ouça.Sutileza. – Que era uma bomba-relógio – falou Bruce. Lá dentro havia um espelho de corpo inteiro. Ele estava com a barba por fazer. – Ou apenas o estresse da crise conjugal. hein? – Exato. bem. My ron. – É verdade. My ron olhou para Win. Bruce. – Explique. dava a impressão de estar focado. talvez caras como Orel Hershiser tenham o benefício da dúvida. não é? Ou você também estava fora do país? – Continue. Mas. Podia ser bebida. Uma boa forma de passar o tempo. – Que prejuízo ela teve com o exame antidoping de Clu? . você deve ter visto. – Que mais posso dizer? Você viu isso acontecer com Clu umas cem vezes. Naquele exato momento. apenas curioso. claro que houve muitos sinais. e em onze a cada dez casos é isso mesmo. que havia terminado de ajeitar as mechas louras e estava usando o espelho para praticar diferentes sorrisos. só apalpado. sem dúvida. Sutil. Essa era a chave. Olhando para trás. My ron lhe fez sinal pedindo um instante. essas coisas.

Os dois criaram um programa de software para finanças pessoais no início dos anos 1980 e passaram de repente de professores de classe média a milionários. My ron limpou a garganta e disse ao telefone: – O que você quer dizer com tinham uma filha? – Ela se afastou. – Tiveram dois. foi considerada um gênio. Ela fugiu. Com grande esforço. Depois o exame de Clu deu positivo e. ele é muito bom nisso e deixa o beisebol para quem entende de beisebol. têm filhos? – perguntou o Sr. Nesse caso. Veio para o Leste estudar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Sua função ali é ficar de olho nos investimentos da mãe. caçar. Você conhece Jared. Sutil. Mas todos o odeiam porque conseguiu o emprego por nepotismo. foi isso? – Foi. – Entendi. pronto. semanas antes de fazer 18 anos. Antes de os May ors terem dinheiro. Mas você sabe disso. acho. – Por quê? – perguntou Bruce.– Um prejuízo tremendo. Como uma dessas garotas de comercial de sabonete. só que velha. Lucy. Era tão difícil para ele sair da frente de um espelho. não sei. Indiana. – Fale um pouco sobre a história dela. – Aí os May or fizeram o que fazem os super-ricos: compraram uma franquia esportiva. Foi também uma espécie de prodígio da matemática. É um ótimo garoto na verdade. – Ah. Gary May or cresceu fissurado por eles. Você não se lembra da história? – Vagamente. todas essas atividades na natureza. My ron limpou a garganta: – E eles. Isso foi há. . dez ou quinze anos. – De m para b? – De milionário para bilionário. ela virou uma perua idiota que devia deixar os homens controlarem as coisas. Se mandou com o namorado. Se casaram e trabalharam a maior parte da vida como professores de matemática. Montana. ou Iowa. – Eles também têm uma filha. Um lugar desses. Ele dava aula na Brandeis. Quero ter uma opinião sobre ela. Tornaram a companhia pública em 1994 e trocaram de m para b. – História? – Sim. que se dane! Ela é do Kansas. Gosta de pescar. Foi sentar-se em frente ao amigo aparentando. perfeita calma. Ou tinham. e ela em Tufts. por um tempo. onde conheceu Gary May or. ah. um músico grunge. Sophie May or se colocou sob os holofotes e. Na minha opinião. como sempre. Win suspirou e fechou a porta do armário. Seria um bom brinquedinho para ele. os Yankees. mas infelizmente nunca pôde desfrutar. esperto. – Ah.

My ron balançou a cabeça. Surgiram notícias loucas. Ninguém tem ideia. . certo? – Ice Ice Baby. é tudo o que se sabe. – Mas me lembro de ler alguma coisa sobre o assunto uns anos atrás. – E que tal usar uma gíria mais atual? Ninguém mais diz “só que não”. – Só quero conhecer os May ors. – Entendi. Bem. Descobriram que o namorado voltou para casa meses depois. – Por que esse interesse? – perguntou Bruce. estava claro. – E depois que ficaram? – Sophie e Gary tentaram outra vez encontrá-la. mas nada de concreto. Win olhou para o amigo e levantou as sobrancelhas. que vive numa comunidade alternativa em algum lugar. Sophie e Gary May or eram professores universitários típicos da Costa Leste. – Ela fugiu. Não havia indício nenhum de crime ou qualquer outra coisa. – Óbvio. – Não entendo. – Acho que tenho que assistir mais MTV. vamos deixar assim por enquanto. Silêncio. Só que não. Outros. que ela fosse voltar. ele não sabia para onde ela tinha ido. que leram muito Dr. Eles terminaram e cada um foi para o seu lado. – Está bem. e ainda não existe nenhum sinal de crime. Ou talvez os jornais tenham mais detalhes. Tente uma busca em dados jurídicos.– E onde ela está hoje? – O problema é esse. Eles não começaram uma busca por ela ou algo no gênero? – Sim. – Mas não voltou. Mas Vanilla Ice ainda está na moda. Lucy já tinha 18 anos àquela altura e fugira por vontade própria. – E eles nunca mais souberam dela? – Óbvio outra vez. E há os que digam que ela morreu. Sabe-se lá. Spock e deram à filha “espaço”. então os May ors chamaram a polícia. – Tudo bem. Ia cair na estrada com o namorado e fazer fortuna. – É verdade – mentiu My ron. Deixou um bilhete. mas lembre-se de que isso foi antes dos May ors ficarem ricos. que não deu importância para o caso. Mas não sei de mais nada sobre Lucy May or. – Nada de mais. é claro. Os tabloides adoraram isso durante um tempo. Nunca a encontraram. Alguns dizem que Lucy se mudou para o exterior. Fizeram uma espécie de busca pela herdeira desaparecida. My ron. – Não? – Pausa. Foi um grande choque. acho. achando. e aí a história foi esfriando. vou engolir essa. essas coisas de adolescente.

Não vou publicar. – E o que o clã King fazia durante o resto do ano? – Se preparava para o próximo especial de Natal? – Que vida. – E quando souber? – Você vai ser o primeiro a ouvir. Win parou de bater no queixo e perguntou: – O que aconteceu com a família King? – Aquela do especial de Natal? Win assentiu. tem alguém me ligando. – My ron. tia. Bruce. Tem alguma coisa séria acontecendo aí. Um belo dia. desapareceram. – Tem mais coisa aí.– Boa ideia. Gosto de Esperanza. de barba. – O Natal passa e você já começa a pensar no próximo. desempregados de repente? Será que vendem carros? Seguros? Viraram traficantes? Ficam tristes todo Natal? – Sim. primos. Todos. – Você acha mesmo que Esperanza é inocente? Mesmo com essas provas todas? – Acho. certo? – Clu Haid foi assassinado. My ron desligou e olhou para Win. – Imagino. – Todo ano as pessoas assistiam ao Especial de Natal da Família King. Me conte. tio. o papai. Não sei de nada ainda. Eu diria que isso é bastante sério. obrigado. é uma história muito triste. que parecia imerso em pensamentos profundos. Por falar nisso. Escute. Esperanza foi presa pelo crime. – Verdade. Quero ajudar se puder. Acaba vivendo numa redoma de Natal cheia de neve. calção. você veio aqui por algum motivo? . hein? – disse Win. – Espere. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. a mamãe. – Estranho. – O quê? Você vai desligar na minha cara? – Foi o nosso trato. Win. não? – É. batendo no queixo com o dedo indicador. Bruce. prometo. – Por onde andarão agora todos esses Kings. quero conhecê-los um pouco melhor. – Então por que essas perguntas todas sobre os May ors? – Como já disse. Bruce. me ligue se precisar de alguma coisa. O que aconteceu? – Não sei. Eram uns cem Kings. – A expressão me engana que eu gosto quer dizer alguma coisa para você? – Tchau.

Tangente dois: esse lugar. – E como seria. – Então talvez o desaparecimento dele não tenha nada a ver com isso. ele procura desesperadamente por você. – Propina é uma palavra tão ofensiva – retrucou Win. tudo bem? – Vá em frente. – Vamos começar com a linha do tempo principal: Clu é vendido para um time de Nova York.– Discutir a família King não é motivo suficiente? Você foi até meu escritório uma vez porque não entendia o significado de uma música da Sheena Easton. – Vamos. é assassinado. – Talvez. arremessa bem. balançando a cabeça. as mãos sobre o colo. – É cedo demais para dizer – concluiu. – Prefiro o termo mais politicamente correto “dar uma contribuição”. – Primeira. – Muito bem. My ron contou com todos os detalhes. Clu supostamente entrou em contato com ele pouco antes de ser morto. Além disso. o exame antidoping dá positivo. bate em Esperanza. nosso velho colega de fraternidade Billy Lee Palms parece ter desaparecido. . é expulso de casa por Bonnie. vim para informar que anulei as citações judiciais contra a Lock-Horne. e fez um gesto na direção do telefone. Aquilo não surpreendia My ron. não. – Explique. Você acha que é só coincidência? Win pensou um pouco. – Win se calou. existe alguma razão para se colocar Billy Lee nessa história? – Na verdade. – Alguém me manda um disquete pelo correio com a imagem de Lucy May or e logo depois Clu é assassinado. – Isso soa plausível? – Sim. – Tudo o que sabemos é que Clu ligou para lá. vem até mim e saca 200 mil dólares. – Mas seria outra coincidência bizarra – observou Win. começa a degringolar. – Sempre me espanta. Quando terminou. Vamos em frente. – Você está comparando a família King com Sheena Easton? – Bem. – Vamos fazer uma pequena recapitulação. o filho não é lá muito confiável. – Mas ainda não consigo ver a ligação. a Imagine Só. – E se recostou. em especial o incidente envolvendo Lucy May or. – Agora vamos explorar algumas tangentes possíveis dessa linha do tempo. – O poder da propina – disse. na verdade. de acordo com a própria mãe. – Concordo. E. Win disse: – Intrigante. cruzando as pernas daquela maneira tão sua.

Win balançou a cabeça:
– Sabemos muito mais que isso.
– Por exemplo?
– Eles exageraram na reação a sua visita. Pôr você para fora seria uma
coisa; lhe dar umas bofetadas seria outra. Mas esse tipo de interrogatório com
direito a corte de faca e choque elétrico… isso foi um exagero.
– E isso significa…?
– Que você tocou num ponto delicado, mexeu em casa de marimbondo, pisou
no calo deles… Escolha seu clichê favorito.
– Você acha que estão metidos nessa história toda?
– Lógico – respondeu Win, fazendo sua melhor personificação de Spock.
– Mas como?
– Não faço ideia.
My ron refletiu um pouco.
– Pensei que talvez Clu e Esperanza tivessem se pegado lá.
– E depois?
– Vamos supor que tenham se pegado lá. Qual seria o problema? Por que o
exagero?
– Porque tem mais coisa aí.
My ron balançou a cabeça:
– Mais alguma tangente?
– A principal – respondeu Win. – O desaparecimento de Lucy May or.
– Que aconteceu há mais de dez anos.
– E temos de admitir que a ligação dela com a história é no mínimo tênue.
– Admitido.
Win fez sua pirâmide com os dedos e a ergueu.
– Mas o disquete estava endereçado a você.
– Sim.
– Portanto, não temos certeza de que Lucy May or esteja ligada de alguma
forma a Clu Haid…
– Certo.
– … mas temos certeza de que está ligada a você, só não sabemos como.
– A mim? – My ron fez uma careta. – Não consigo imaginar como.
– Pense bem. Talvez você a tenha encontrado alguma vez.
Ele balançou a cabeça:
– Nunca.
– Talvez você não tenha percebido. A mulher está vivendo numa espécie de
clandestinidade faz muito tempo. Quem sabe você não a conheceu num bar, uma
aventura de uma noite.
– Não tenho aventuras de uma noite.
– É verdade – falou Win, com um olhar desanimado. – Meu Deus, queria ser

como você!
My ron o ignorou.
– Mas vamos supor que você esteja certo. Que eu realmente a conheci, mas
sem saber. E daí? Ela decide retribuir me mandando um disquete com a sua cara
derretendo numa poça de sangue?
Win concordou com o argumento:
– Intrigante.
– Como ficamos, então?
– Intrigados.
O interfone tocou. My ron atendeu:
– Sim?
Big Cy ndi disse:
– Seu pai na linha um, Sr. Bolitar.
– Obrigado – respondeu ele, pegando o telefone. – Oi, pai.
– Ei, My ron. Tudo bem?
– Tudo.
– Está se readaptando bem?
– Sim, estou.
– Feliz por estar de volta?
O pai estava protelando algo.
– Sim, pai, estou ótimo.
– Toda essa história envolvendo Esperanza. Deve estar deixando você
ocupado, hein?
– Acho que sim.
– Então – falou o pai, esticando o som da palavra –, acha que tem um tempo
para almoçar com seu velho?
Havia tensão na voz.
– Claro, pai.
– Pode ser amanhã, no clube?
My ron sufocou um gemido. O clube, não.
– Claro. Meio-dia, pode ser?
– Que bom, filho, está ótimo.
O pai não o chamava de filho com muita frequência. Na verdade, nunca.
My ron trocou o telefone de mão:
– Algum problema, pai?
– Não, não – respondeu ele, rápido demais. – Está tudo bem. Só quero
conversar com você.
– Sobre o quê?
– Você vai saber, nada de mais. Até amanhã.
Ligação cortada.
My ron olhou para Win.

– Era meu pai.
– Sim, deu para entender quando Big Cy ndi disse que seu pai estava na linha.
E você reforçou isso quando disse “pai” quatro vezes durante a conversa. Tenho
um pouco de inteligência.
– Ele quer almoçar comigo amanhã.
Win balançou a cabeça.
– E isso me interessa por quê?
– Só estou contando para você.
– Vou escrever sobre isso no meu diário hoje à noite – falou Win. – Nesse
meio-tempo, tive outra ideia com relação a Lucy May or.
– Estou escutando.
– Se é que você se lembra, estamos tentando descobrir quem foi prejudicado
nessa história toda.
– Lembro.
– Clu, obviamente. Esperanza. Você. Eu.
– Sim.
– Bem, temos que acrescentar uma pessoa: Sophie May or.
My ron pensou naquilo. Depois assentiu:
– Essa pode muito bem ser a ligação. Se você quisesse destruir Sophie May or,
o que faria? Primeiro, tentaria enfraquecer o apoio que ela recebe dos fãs e da
direção dos Yankees.
– Clu Haid – disse Win.
– Certo. Depois teria que atingi-la num ponto vulnerável: a filha desaparecida.
Se tiverem enviado para ela um disquete igual, dá para imaginar o horror?
– Isso levanta uma questão muito interessante – comentou Win.
– Qual?
– Você vai contar para ela?
– Sobre o disquete?
– Não, sobre o movimento recente de tropas na Bósnia. Sim, sobre o disquete.
My ron pensou, mas não por muito tempo.
– Não tenho escolha. Preciso contar.
– Talvez isso também faça parte do hipotético plano para destruí-la – aventou
Win. – Pode ser que a pessoa que mandou o disquete soubesse que ele acabaria
indo parar nas mãos dela.
– Talvez. Ainda assim, ela tem o direito de saber. Não cabe a mim decidir se
Sophie May or é forte o suficiente para suportar uma coisa dessas.
– Concordo plenamente – falou Win, levantando-se. – Coloquei algumas
pessoas em busca dos relatórios oficiais sobre o assassinato de Clu: necropsia,
cena do crime, depoimentos de testemunhas, laboratórios e o que mais houver.
Mas todo mundo está de boca fechada.
– Tenho uma possível fonte – disse My ron.

– Ah, é?
– A médica-legista do Condado de Bergen é Sally Li. Eu a conheço.
– Através do pai de Jessica?
– Sim.
– Corra atrás, então – falou Win.
My ron o observou dirigindo-se para a porta:
– Win?
– Sim?
– Você tem alguma sugestão de como dou a notícia a Sophie May or?
– Não tenho a menor ideia.
Win saiu. My ron olhou para o telefone. Pegou-o e digitou o número de Sophie
May or. Levou um tempo, mas a secretária conseguiu por fim transferi-lo para
ela, que não pareceu nem um pouco encantada ao ouvir a voz de My ron.
Ela foi direta:
– O que é?
– Precisamos conversar – respondeu ele.
Havia distorção na linha. Parecia um telefone celular ou de automóvel.
– Já conversamos.
– É sobre outro assunto.
Silêncio. Depois:
– Estou no carro agora, a cerca de um quilômetro de casa, em Long Island. É
muito importante?
Ele pegou uma caneta:
– Me dê seu endereço – pediu. – Daqui a pouco estou aí.

19
N A RU A , O H O M E M CO N T I N U AVA lendo o jornal.
O elevador parou diversas vezes até o térreo. Nada atípico. Ninguém falava,
é claro, todos ocupados em contemplar a luzinha vermelha dos números, como
se esperassem a chegada de um disco voador. Na rua, juntou-se à massa de
engravatados e nadou na direção da Park Avenue, como um salmão subindo o rio
contra a correnteza até, bem, até morrer. Muitos dos engravatados andavam de
cabeça erguida, com a expressão “olhem como sou foda”; outros caminhavam
com as costas curvadas, versões em carne e osso da estátua de Atlas na Quinta
Avenida, carregando o mundo nos ombros, simplesmente pesado demais para
eles.
Meu Deus, estava sendo profundo de novo.
Parado exatamente na esquina da Rua 46 com a Park Avenue, de pé,
segurando um jornal mas de forma que conseguisse observar todos que
entravam ou saíam do prédio da Lock-Horne, estava o homem que My ron tinha
notado ali quando entrou.
Hum…
Ele pegou o celular e apertou um botão.
– Articule – disse Win.
– Acho que arranjei uma sombra.
– Espere um instante, por favor. – Talvez dez segundos tivessem se passado. –
O cara lendo jornal na esquina.
Win tinha vários telescópios e binóculos no escritório. Não pergunte por quê.
– Sim.
– Meu Deus – falou Win. – Não dava para ele ser menos óbvio?
– Tenho minhas dúvidas.
– Não sente orgulho do próprio trabalho? Onde está o profissionalismo?
– Triste.
– Esse, meu amigo, é o problema deste país.
– Detetives ruins?
– É só um exemplo. Olhe para ele. Alguém fica parado numa esquina lendo
jornal desse jeito? Só faltou fazer dois buracos na folha para enfiar os olhos.
– Isso aí – comentou My ron. – Você está com tempo?
– Mas claro. Como vamos gastá-lo?
– Preciso de apoio – respondeu My ron.
– Me dê cinco minutos.
My ron esperou os cinco minutos parado ali, evitando cuidadosamente olhar

caminhou direto até o detetive. Continuou a andar até se pôr ao lado do cara. My ron lhe deu um sorriso número 8. O detetive aproximou mais o jornal e suspirou: – Muito bem. não vamos deixar você ir para casa de mãos vazias! Vai ganhar o jogo Detetive Incompetente e uma assinatura anual do Palerma Moderno. inclinando o sorriso de alta voltagem a poucos centímetros do rosto do homem. os olhos esbugalhados como os de um palhaço. num espaço menor – e os dois tentavam um lugar no banco na Liga Nacional antes do fim da janela de transferências. Ele chegou mais perto. – Caia fora. Qual é a pergunta para a resposta: foi ele ou ela que contratou você para me seguir. é jogado em quadra fechada. misturando-se a outro fluxo de pessoas. My ron continuou a sorrir. em Long Island. com todos os dentes à mostra. Que plano! My ron se dirigiu a seu carro alugado e deu a volta no quarteirão. que manteve o rosto enterrado no jornal. My ron lhe deu um sorriso e um aceno nada discreto. mergulhar no êxtase entorpecente do que fazia para ganhar a vida. Com bravura. franzindo as sobrancelhas. – E obrigado por participar do nosso programa! – disse My ron.para o homem. mas ninguém se interessou. O detetive ia procurar um local aberto e ligar para o patrão. como se estivesse esperando alguém e ficando impaciente. – Mas não se preocupe. Sabia que seus esforços eram inúteis. mas insistiu. Ia à propriedade dos May ors. Win ouviria tudo e ficaria sabendo quem era. Não tinha muito problema se alguém soubesse. Muitas pessoas lhe perguntaram sobre o crime. – Espere! Última rodada. O mundo. fez algumas ligações. Mas não seria um problema. O homem o ignorou. ainda com aquele sorriso. O homem balançou a cabeça e continuou a caminhar. Largo. Quando olhou para trás. continuava a se intrometer. você me descobriu. Enquanto dirigia. O detetive começou a se afastar. certo. Não havia mais detetives. My ron ligou para vários times. Pensava em Esperanza na cadeia. Tentava se concentrar no trabalho. Muitas pessoas. Conferiu o relógio e bufou um pouco. Tinha dois meios-campos de futebol americano de arena – para quem não sabe. que percebeu a aproximação e enfiou a cara no jornal. Pelo menos nenhum tão óbvio quanto aquele. bacana. Quando os minutos passaram. O detetive continuou enfiado no jornal. Em Jessica na Califórnia. – Está bem. Em Bonnie Haid e seus filhos . a gente se vê. – Que pena! Você precisava dar a resposta em forma de pergunta. Ele desconversou. inclusive Win. Como um pastor na televisão recebendo um cheque polpudo. porém. Parabéns.

Era uma mansão. que os pneus esmagavam. com várias janelas e uma vista meio decepcionante de mais estátuas brancas e árvores. Dirigiu cerca de três quilômetros. é claro. passando por apenas três entradas de garagem. e dobrou à direita numa rua muito arborizada. O portão se abriu. embora não tão grande quanto outras que My ron conhecera. Parou por fim diante um portão de ferro. com um Netuno nu segurando um tridente. do tipo Vênus de Milo. por um breve momento. com lírios de borracha flutuando na superfície. Quero falar com Sophie May or. uma zona de Long Island da qual tinha esquecido. No telefonema do pai. Fez outra curva. com uma pequena placa onde se lia MAYORS. Ele estacionou. dando-lhe a sensação de ser um rato num labirinto. estranhamente. Muito Crepúsculo dos Deuses. Havia várias câmeras de segurança e um interfone. Ao chegar ao topo da rampa. – Pode entrar com o carro. As janelas pareciam lacradas. Heras cobriam a parede amarelo-clara. Viu uma piscina perfeitamente quadrada à direita. A água jorrava. mas com todos os membros. A porta se abriu. My ron percebeu que se tratava de uma versão menor do chafariz da Piazza della Signoria. falo a essa mulher sobre a filha desaparecida derretendo num disquete de computador? Não lhe ocorria nenhuma resposta. como se alguém tivesse ajustado a pressão para “urinando lentamente”. Uma espécie de Giverny dos pobres. A casa estava bem em frente. perguntou-se outra vez. Ouviu uma voz de mulher perguntar: – Em que posso ajudar? – Aqui é My ron Bolitar. Havia estátuas no jardim. Ponderou sobre o que estava prestes a desenterrar e. Sebes altas se estendiam ao longo dos dois lados do acesso. deu com uma clareira. Estacione na frente da casa. O cenário lembrava os anos 1920. cópias da antiguidade italiana. Bloqueou o resto. Nenhum sinal da casa ainda. pensou em dar meia-volta. que ficava a cerca de cinco metros da porta da frente. metálico. Ele subiu por uma rampa bastante íngreme. Só faltava ver Scott e Zelda Fitzgerald pararem num conversível reluzente. Uma mulher vestindo roupas comuns o levou por um corredor até um salão grande. Viu uma quadra de tênis com a grama um pouco alta demais e um campo de croqué. de teto alto. Em Clu impregnado de formol. em Florença. Viu mais algumas câmeras de segurança. Como. mas não muito alto nem com entusiasmo. O interior era art . No meio do caminho circular havia um chafariz. E. Ele desceu do carro e parou.órfãos de pai em casa. Ele apertou o botão. Chegou a Muttontown. Essa parte do acesso era pavimentada com seixos soltos. continuava a pensar em Terese sozinha naquela ilha. grega ou coisa do gênero.

Viam-se pássaros empalhados sobre prateleiras. E parecia muito paciente. Sente-se melhor agora? My ron pensou no assunto. – Vamos lá. mas e daí? – Mas não aprova. – Você acha desumano – continuou ela. – Não vamos almoçar. a própria imagem da jardineira de fim de semana. Sempre com uma tirada brilhante. apontando para o veado empalhado. – Não disse nada. Incomodados. – Como o que mato. Vestia jeans sujos de terra e camisa xadrez. Você é vegetariano? – Só não como muita carne vermelha – disse My ron. vamos? Ela deu uma risada. é claro. – Matar a mãe do Bambi e tal. pelos troféus de caça. – Entendo. Esperou por Sophie May or. Ficara bom. apontando com a cabeça o veado paciente – foi desentranhado e comido. My ron. Seu amigo ali – disse Sophie. – Perdão? – Abatida para virar comida. mas não exageraram dessa vez. – Sabe as torturas terríveis que a vaca enfrenta antes de ser abatida? – Para virar comida – falou ele.déco. – Que tolerante! – Ela sorriu. – Mas claro que você jamais caçaria. estou errada? – Caçar? Isso não é para mim. Não era verdade. Vai dizer que você não acha que caçar é um ato bárbaro? Ele deu de ombros. Exceto. talvez. – Nunca pensei no assunto. Quem os culparia por isso? My ron se virou e deu com um veado empalhado. O veado também. Provavelmente. – Não estou falando sobre a sua saúde. ele rebateu: – Pode falar o quê? – Sua observação sarcástica sobre caça. digamos. uma galinha ou uma vaca que matar um veado? – Não. My ron se voltou e deparou com Sophie May or. – Só não é para mim. – Pode falar – disse uma voz. My ron. Você come animais mortos? – Sim. – Não é da minha conta aprovar. – Não vou destrinchar toda a questão da cadeia alimentar – replicou Sophie . – Então acha que é mais humano matar.

My ron tinha gostado de protelarem. Mas é que a hipocrisia disso tudo me enlouquece. mas e os milhares de peixes e camarões que comem todo dia? A vida deles vale menos porque não são tão fofos? Já percebeu como ninguém quer salvar os animais feios? E as mesmas pessoas que acham que caçar é um ato de barbárie instalam cercas especiais para que os veados não comam seus preciosos jardins. tenho um entendimento maior. My ron? Com matar por um par de sapatos? Ou por um bom casaco? Será que uma carteira de couro vale mais que passar um dia todo ao ar livre. Aí eles procriam. não é justo então matar simplesmente pelo prazer que isso dá? Ele permaneceu calado. My ron. Prova cabal. Mesmo o vegetariano mais radical tem que arar o campo. Você deixa que outra pessoa mate. é mais honesto. mas as mulheres são delicadas demais para isso. Ponto final. Uma grande bobagem sexista. – Certo – disse My ron –. dando uma risada sem graça. isso também faz parte da caça. Não quer pensar nisso. não tem a compreensão do processo todo. – Senhora? – falou Sophie May or. todo mundo diz.May or. Quando como um animal. você não veio aqui para assistir a uma palestra – disse ela. Todos querem salvar as baleias. mas havia chegado a hora. do sacrifício feito para que você possa sobreviver. Isso é melhor? E nem venha me falar dessas tais de ecofeministas. – E então? O que significa matar simplesmente por esporte? – Em comparação com o quê. Querem ser ambientalistas? Querem ficar o mais perto possível da natureza? Então que entendam a verdade universal da natureza: ou você mata ou morre. – Caçar exige participação ativa. produzido pelo homem. Quando você se senta para comer um animal. Os homens caçam. Não despersonalizo a coisa. e os caçadores que não matam para comer? – A maioria come o que matou. – Mas Deus criou um mundo onde a única forma de sobreviver é matando. já que estamos falando no assunto. – Me desculpe pelo discurso. aprendendo como a natureza funciona e apreciando sua imensa glória? Se é justo matar um animal porque você prefere um cinto feito de couro a outro material. – Bem. Todos nós matamos. não é? – Sim. – Não. Não faço isso casualmente. mas depois morrem de fome. – Isso soa cruel. Os dois se viraram e contemplaram o veado empalhado. – Mas e os que matam por esporte? Quero dizer. senhora. . Você não concorda que o arado mata animais pequenos e insetos? – Nunca havia pensado nisso.

receosa talvez de dizer qualquer coisa mais. a voz forte. – Você teve alguma notícia sobre a sua filha desde que ela desapareceu? – Não. Começava com uma fotografia da sua filha. – O quê? – Um disquete. contudo. – Nada. – Nem eu. esperando uma explicação. Sophie May or deu um passo para trás. sangue. – Veio pelo correio? – Sim. – Recebi um disquete pelo correio – começou ele. Havia um tremor perto da boca. Não tive que dar nenhum comando. Ele concordou. acho. transformando-se de repente na perita em computadores. Sophie May or se levantou. A voz se tornara tão inexpressiva que ela parecia abafar um grito. Meio que se dissolveu numa poça de. perdeu um pouco da cor. – Derreter? – Sim. – Era a mesma fotografia que está no seu escritório. My ron balançou a cabeça. – Depois de alguns segundos a imagem começou a derreter na tela. Sophie? – Pode tentar.Ele se voltou e olhou para ela. Veio pelo correio. Eu o coloquei no meu computador e ele iniciou sozinho. embora não soubesse por quê. – Posso lhe fazer uma pergunta muito pessoal. – O retrato da escola. ah. – Me chame de Sophie – disse. O rosto. – Foi no primeiro ano de Lucy no ensino médio – explicou ela. Ela franziu o cenho. – Nem se ela… – Está viva ou morta – ela terminou a frase. De uma adolescente rindo. O olhar permaneceu firme. talvez dolorosa. Do lado direito da cômoda. uma falha abrindo-se. My ron limpou a garganta: – Apareceu uma imagem. Depois surgiu um som. – Não faz ideia de onde ela possa estar? – Nenhuma. – Num disquete? . A resposta veio rápido. – Não entendo. – Não é uma tecnologia complicada. – Programa autoiniciável – disse ela. que lhe devolveu o olhar. Os olhos de Sophie May or estavam úmidos.

Ele enfiou a mão no bolso e o pegou. peço desculpas. segurando a cabeça. – Você costuma trabalhar para a polícia? – Na verdade. já meio vermelhos. – Quando? – Chegou no meu escritório há umas duas semanas. – Sim. – Sim. Fiquei confuso. não. Depois levantou os olhos cinzentos. – Por que não? – Levei-o a um laboratório policial. – Lembro de Clip Arnstein dizer algo sobre isso. espere. Também tinha a língua grande. mas… – Sua voz sumiu e os olhos se tornaram distantes. – Por que esperou tanto para me contar? – perguntou ela. Às vezes. Por que não me contou? – Eu não sabia quem era a garota. – E quando você o viu? – Ontem. Você estava fora do país.– Sim – respondeu ele. Eles disseram que ele se reformatou automaticamente. As pernas amoleceram. My ron esperou. – Você está com o disquete? Meu pessoal vai analisá-lo. Ela balançou a cabeça vagarosamente. – Ah. Ela caiu numa cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. Os melhores do mundo. Clip Arnstein era o cara que o escolhera para o Boston Celtics na primeira rodada de contratações. pelo menos. – Mas você me encontrou hoje de manhã. – Há anos contrato detetives particulares para encontrar Lucy. sem nenhuma razão aparente: – Um disquete de três polegadas e meia. – Sim. Não se ouvia nenhum som. – Você ajudou Clip quando Greg Downing desapareceu – continuou ela. – Então está vazio? – Sim. parece que chegamos perto. Quando fui ao seu escritório. – Não acho que vá ser de grande ajuda. acrescentando. Não sabia ao certo o que dizer. logo levantando a mão. My ron ficou calado. como se ele tivesse se . que estava segurando. Olhou para o disquete. Ficou ali sentada. – Você falou sobre um laboratório policial. Ele assentiu. – Isso explica então a sua saída súbita. vi a foto em cima do móvel. Não a princípio. supostamente. Foi como se seus músculos tivessem de repente decidido tirar férias.

maltratando as pessoas. My ron a examinou. Ela lhe entregou uma folha de papel. – Era uma boa garota. A polícia. – Quero mostrar uma coisa. Espere aqui um minuto. ele achava. Ele criou isso para mim há alguns meses. – Clip disse que você é bom nisso. O efeito era espantoso. My ron olhou para a imagem de como a Lucy adolescente seria ao chegar aos 30 anos. – Você me ajudaria a encontrá-la? Ele não sabia como responder. claro. – Não. – Parece familiar? – perguntou ela. My ron balançou a cabeça. – Não sou. Para pessoas desaparecidas. Mesmo que fosse. Não era. Você pode ver como elas estariam hoje. nos anos que passam. sorrindo para ele. mas aquilo o levava a pensar em fantasmas. notando com certo desânimo que se pareciam com o de certos seres humanos que ele conhecia. Parecia com ela. – Tem certeza? – A certeza que se pode ter numa situação dessas. – A faculdade em que me formei. Eles veem Lucy como fugitiva e ponto final. – É do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – explicou ela. Tem a polícia… – A polícia tem sido inútil. Ela levou talvez metade desse tempo. – Não vejo como posso ajudar. My ron não disse nada. Sophie respirou fundo algumas vezes. Contemplou a imagem. os olhos enevoados pela viagem no tempo. Quando retornou. Um cientista de lá criou um programa que ajuda a simular a passagem dos anos. na vida como uma série de perguntas e dúvidas. – Você acha que é impossível? – perguntou ela. My ron estava olhando nos olhos de um pássaro morto. Como devia ser doloroso para Sophie May or ver aquilo. as pequenas rugas de expressão. . Mas criei Lucy para ser independente. lamento. Era o esboço de uma mulher chegando aos 30 anos.materializado de repente ali. Você já contratou especialistas. Mais aventureira do que seria recomendável. – Por que alguém enviaria isso para você? – Não sei. – Não sei o suficiente sobre o caso. o corte de cabelo mais conservador. não vejo o que poderia fazer. eles acham que ela era só uma criança problemática. – Você conheceu minha filha? – Não. – Teimosa. Apenas confusa. sabe? – falou Sophie May or.

My ron retomou o assunto: – Mas Owen voltou. Um dia nos disse que ia embora com Owen. a polícia o interrogou. conseguir um contrato com uma gravadora e ficar famosos. Queria ver o mundo e viver na estrada. Disse que não tinha mais visto Lucy desde a separação. – Os dois queriam ir embora. Ela odiava a escola. Chegamos a pensar que seria ser bom para ela. Os pais eram professores universitários viciados em computadores. convencido de que dessa vez tinha sido Lucy quem encobrira o seu talento. Ela se virou para o veado empalhado. My ron. Nunca parava de bater as asas. O irmão mais novo era considerado gênio.Quem não era naquela idade? E não foi como se tivesse fugido no meio da noite sem falar para ninguém. Owen ainda ficou lá mais três meses. não conseguiram nada. – A polícia verificou isso? – Disseram que sim. Qual a diferença? Ela se calou e olhou para My ron. . Então Gary e eu dissemos que tudo bem. então? – Lucy era uma adolescente. Como Sophie não disse mais nada. Contrariando o bom senso. ele perguntou: – E? – E nunca mais soubemos dela. Silêncio. – Ela balançou a cabeça imaginando a cena. Mas caíram num beco sem saída. A história dos dois foi tão típica: foram para Los Angeles. – Owen era o namorado? Ela assentiu. mas ele não sabia de nada. Dá para imaginar? Veste um smoking barato e canta “Tie a Yellow Ribbon” e “Celebration” a plenos pulmões e apresenta os noivos. Gary e eu sentimos que não tínhamos escolha. ainda com os olhos fixos no veado. Era fechada e infeliz. que pareceu retribuir o olhar com algo semelhante a piedade. Faz parte de uma banda que toca em casamentos nos fins de semana. – Um músico mediano que tinha uma banda de garagem e achava que os colegas impediam que seu talento imenso fosse notado. Quando fracassou outra vez. que apenas aguardou. – Ela fez uma cara de desgosto. voltou para casa com o rabo entre as pernas. – Quando Owen voltou. começaram a brigar e terminaram depois de seis meses. não importava o que fizéssemos. Vários dos colegas de escola tinham ido para a Europa como mochileiros. My ron perguntou: – O que aconteceu. – Ele é vendedor de carros em Nova Jersey. certo? – Sim – respondeu ela. não se adaptava. Toda aquela fantasia rock’n’roll. Lucy era como um pássaro selvagem preso numa gaiola pequena.

mas. fingindo que o outro estava dormindo. olhando para o teto e imaginando todos os horrores que só quem tem um filho desaparecido pode conceber. manter distância e esperar. Talvez vocês não tivessem dinheiro na época em que ela supostamente entrou. Ela não ergueu a cabeça. – Por quê? – Seitas gostam de dinheiro. Disse a você. – Não saber – disse Sophie May or depois de algum tempo. Simplesmente deitávamos na cama à noite. – Realmente não. – Ele é absolutamente insignificante. Um homem tão rico. segundo eles. – Contar sobre o disquete. – Já fizeram isso. Os olhos se fecharam. Nunca vai embora. Ela o encarou. Vários dos investigadores que contratamos achavam que ela havia entrado para alguma seita. mas duvido que tenha entrado para uma seita. Quando o coração do meu marido não aguentou mais. Mais silêncio. afastada dos amigos e da família. Nunca para. sozinha. e ela lhe deu as costas. estava ficando tão pesado que ele mal conseguia respirar. – Lamento – disse por fim. sem saber ao certo o que fazer. My ron fez uma careta. Apesar das minhas tentativas de torná-la independente. os detetives diziam que ela era exatamente o contrário: alguém que precisava de orientação. E teriam feito contato para extorquir grandes somas.– Você suspeita de Owen? – Não – respondeu ela. – Mas você disse que não conheceu Lucy. Acham que ela fugiu. acredite em mim: a esta altura já saberiam. Mas raramente falávamos sobre Lucy depois que ela desapareceu. Sophie começou a piscar outra vez. sugestionável. My ron não fazia ideia do que dizer. O dia inteiro. – Vou até a polícia – continuou ele. – Apareceu alguma pista sólida? – Sólida? – Ela pensou um pouco. . – Seita? – A personalidade dela se encaixa nesse perfil. Tão jovem. Preferiu ser discreto. – Isso corrói você. – O perfil psicológico pode estar correto. diziam. durante doze anos. Até hoje não sei como consigo passar o dia sem ele. O silêncio. todavia. amarga. – Não concordo – falou My ron. My ron deu um passo à frente e depois parou. Lucy May or é filha de uma família milionária. a noite inteira. todos ficaram chocados. – De que vai adiantar? – Eles vão investigar.

estão procurando você. Não consigo ver como posso ajudar. estendendo a mão e pegando a dele. Win fizera um comentário semelhante. Sophie chegou mais perto: – Não sei. Vão levar o caso mais a sério. Ele respirou fundo. Talvez você esteja certo e não seja ela. – Não sei o que posso fazer – retrucou My ron. – Foi enviado para você. Tenho outros clientes que confiaram a mim a segurança de seus empregos. É a primeira pista sólida em anos. – Você não tem certeza. Se tornarmos isso público e notório.– Mas agora temos essa nova pista. – Entendo. ligação. My ron. – Certo… Se fosse Lucy. – Minha melhor amiga e sócia está na cadeia. Mandaram para você. – O disquete – falou. Sophie se ergueu e limpou as palmas da mão na calça jeans. Diga um preço. em vez de recuar. Você não tem tempo. – Pode começar com você mesmo. Diga o que tem a dizer. – Pode investigar. Não tenho nem por onde começar. – Sim. Não posso arriscar que isso aconteça. Cem mil? Um milhão? – Não é uma questão de dinheiro. – Endereçado a você. My ron esperou. – Não dá para saber – replicou ele. Meu cliente foi morto a tiros dentro da própria casa. Vão trazer a história de volta à tona. Não foi. Ou alguém que a tivesse conhecido. – Não é brincadeira. acusada de cometer um assassinato. teria sido enviado para mim. Posso ir até a mídia. Pode ser a própria Lucy. Alguém está tentado fazer contato especificamente com você. Ou para Jared. mas tudo pode não passar de uma brincadeira. não é? – Não é uma questão de tempo também. Talvez seja seu assassino. Em qualquer uma das hipóteses. Não tenho um ponto de partida. minha fonte – disse ela. – Sim. por que ela enviaria uma imagem dela derretendo numa poça de sangue? Desta vez. Ela balançou a cabeça. Ele balançou a cabeça. não quero acabar com suas… – Não me trate com condescendência. – Se fosse uma brincadeira. – Pagarei o que você quiser. Sua pele era fria e . Você é minha pista. Nenhuma pista. temo que quem enviou isso volte a se esconder. – Não quero acabar com suas esperanças. fonte. – Mais uma vez. minha ligação. – Então alguém está tentando entrar em contato com você. Os olhos de Sophie se cravaram nele.

– Você não tem filhos. . – Só peço que examine mais. My ron: o que você faria se estivesse no meu lugar? Se a primeira pista de verdade em dez anos acabasse de entrar por sua porta? – O mesmo que você está fazendo. Que pensaria no assunto. Ficaram ali. sob a sombra do veado empalhado. – Isso não quer dizer que eu não me solidarize. ela segurando-lhe a mão. – Parece uma boa ideia. – Examinar o quê? – Talvez você mesmo. Sophie. mas não sei o que significa. Silêncio. ele falou que ia ficar de olhos abertos.rígida. tem? – Não – respondeu My ron. Assim. – Então me deixe perguntar uma coisa. Tentaria descobrir a ligação.

– Não – interpôs Win –. Bolitar? – disse Big Cy ndi. Eles são bem cuidadosos. – Então não sabemos ainda quem o contratou? – Correto. Não só na aparência. – Vamos então fazer uma visita a FJ. – Sim? – A Srta. My ron fechou os olhos. Muito Jerry Maguire. Win ligou: – O cara do jornal é Way ne Tunis. – Linha de ação? – Gostaria que ele saísse do meu pé. – Muito bem. Mora em Staten Island e trabalha na construção civil. – FJ? – Quem mais? Está me seguindo há meses. – Ele está sempre numa Starbucks da Rua 49 – falou Win. Não precisamos de mais um. – Starbucks? – Pois é. – Como café comum em vez de espresso? – Agora você entendeu. – Na dúvida – disse My ron –. mas porque seus clientes estavam abandonando a agência a torto e a direito. – Me dê vinte minutos – pediu Win antes de desligar. mutações bizarras delas estão voltando. a linha interna começou a chamar. ou o Sr. melhor ficar com a escolha mais óbvia. Fez uma ligação para um tal de John McClain contando que tinha sido descoberto.20 D E V O LTA A O E SCRI T Ó RI O . – Aquela pessoa da noite passada? . – Sr. É isso aí. – As duas coisas estão voltando. My ron colocou o headset e começou a fazer ligações. Imediatamente. Thrill está querendo falar com o senhor. Os antigos bares de café espresso frequentados por gângsteres viraram lugares onde as pessoas usam roupas dos anos 1970 e ouvem música disco. – Posso sugerir uma bala bem colocada na nuca? – Já temos problemas suficientes. E ele nem sequer havia redigido a missão da empresa. Linha de ação? – Vamos confrontá-lo.

O assistente de um assistente surgiu por fim na linha. – Que saída a sua ontem à noite. em geral só atravesso espelhos depois do segundo encontro. Ouça. – Por que você não me ligou? – Estive muito ocupado. – Só não é um bom momento. Clique. Thrill. grandão – disse Thrill. O guarda ficou meio intrigado. – Estou aqui embaixo – falou Thrill.– A menos que o senhor conheça mais alguém chamado Thrill. Droga! Ouviu uma batida na porta. Sr. Colocaram-no em espera. Sr. Havia sido cancelada. – Fale com o segurança para me deixar subir. – Não é uma boa hora. – Não. Bolitar. ligou para a portaria e disse ao segurança que deixasse subir qualquer pessoa que se identificasse como Thrill. – Pergunte ao seu cliente – sugeriu o assistente. – Anote o recado. – My ron? – Ah. Nunca. – As palavras e o tom de voz sugerem urgência. mas eu já suspeitava que esse não fosse o nome na sua certidão de nascimento. My ron perguntou sobre a negociação. disseram-lhe. Esperanza nunca batia. – Detesto decepcioná-la. – É. mas concordou. Sr. Orgulhava-se de interrompê-lo. Ele deu de ombros. Acho que já não sou mais a mesma. ou pergunte ao novo empresário dele. – Sim. Bolitar. sim. Sugerem urgência? – Está bem. – Não é isso – retrucou ele. oi. – Você sabe mesmo como impressionar uma garota. Antes de desaparecer no Caribe. Ouviu-se um clique. deixe-me subir. Pode passar a ligação dela… ou dele. My ron ainda estava com o headset e ligou rapidamente para uma empresa de acessórios esportivos. não é isso que quero dizer. Preferiria cortar um braço a bater à porta. Sobre uma coisa que aconteceu depois que você foi embora. – My ron. Como disse antes… – Os homens não costumam dizer não a Thrill. estava prestes a fechar um contrato entre essa empresa e um atleta que representava. – Por quê? – perguntou. My ron fechou os olhos e tirou o headset. . Precisamos conversar sobre a noite passada. Bolitar. – Ah. meu nome na verdade não é Thrill. Aquele som incomum lhe causou um estremecimento de dor.

os movimentos. A silhueta estava mais fina. A porta se abriu. – É verdade – concordou ela. – Um negócio que parece massinha de modelar? – Exato. Nada estava igual. ah. porém. anotado. – Certo. menos. O traje de Mulher-Gato havia sumido. Para que se abram. a peruca loura. sim. ah… – respondeu ele. Já deve ter visto o comercial na TV. o cabelo curto e moderno. a escolha de palavras – era pura ambiguidade. Na noite anterior. o tipo de pessoa que vai. os olhos menos luminosos atrás de óculos com armação de tartaruga e uma maquiagem muito mais leve. O ponto de vista do frequentador sobre o que acontece ali. mas a resposta é não. curvilínea. Você enfia no sutiã. – Você faz isso tudo por causa de uma matéria? – Tudo isso o quê? – Se veste e. Não era de se jogar fora. os peitos prodigiosos. são minhas. vou disfarçada de Thrill. o que as motiva. – Quando me visto de Thrill. My ron cruzou os braços e os apoiou na mesa. Apenas diferente. no entanto. fazendo gestos incompreensíveis. E. mas… – Você vai querer ouvir isso. – Não que seja sequer ligeiramente da sua conta. acredite em mim – falou ela. não tenho pênis. – Visto? Comprei o vídeo. À luz do dia.– Entre. sentando-se na cadeira em frente a sua mesa. o som era melódico e quase infantil. Alguém entrou e disse: – Surpresa! My ron tentou não olhar. E muito atraente no conservador tailleur azul-marinho. só para constar. My ron balançou a cabeça. – Meu nome verdadeiro é Nancy Sinclair. – Ele deixa tudo bem alto. Largou o headset sobre a mesa: – Você é…? – Thrill. – Também uso um sutiã maravilha – continuou ela. Thrill riu. – Posso sentar? My ron olhou para o relógio: – Detesto ser mal-educado. com a blusa combinando. bem. o tom de voz. Não me visto de Thrill por prazer. o salto alto e. – Respondendo sua primeira pergunta – disse ela. Eu . discreta. sua risada – sem mencionar o jeito de andar. – Um pouco mais alto – comentou My ron – e funcionariam como brincos. – As pernas e a bunda. Felizmente. Thrill ainda era mulher. uso o Melhoramento de Seios Raquel Wonder. Sou jornalista e estou escrevendo uma matéria sobre a Imagine Só.

Flerto. – O barman? – É também um dos donos. – Foi por isso que abordei você. Puxo conversa. – Me sinto lisonjeado. – Só por curiosidade. – E o que isso tem de mais? – Eu nunca tinha feito isso antes. Ponto final. não acho que ficaria – replicou My ron. – Para ver se. Reconheci você assim que passou pela porta. Por que não você? – Mas expliquei que estava lá para perguntar sobre alguém. Os Dragons eram o time profissional de Nova Jersey. não vou estar na sua matéria. – Porque nos viu conversando? – Porque me viu dando meu número de telefone a você. – Clu Haid. – Não precisa. certo. Mas nunca dou o telefone. ambiguidade de gêneros era a minha praia? – Todo mundo ali gosta. My ron tentara retornar às quadras jogando por eles não fazia muito. ah. Mesmo assim. – Essa foi a única razão? – Sim. Entro em contato com um monte de garotas. Você rejeitou Thrill. – Sério? – Acompanho basquete. – E? – Depois que a poeira baixou. então não estava lá atrás de sexo. vou? É que nunca estive lá antes. Eu estava… – Relaxe. – E também tenho um fetiche pela Mulher-Gato de Julie Newmar. Fiquei me perguntando o que estaria procurando. a sua reação a mim foi curiosa. – Então por que me deu? – Porque fiquei curiosa para ver se você ia me ligar. My ron franziu o cenho. Nancy ? – Pat nos viu conversando ontem à noite. – Você ia ficar surpreso de ver quantas pessoas têm esse mesmo fetiche. – Você tem uma conversa muito interessante – disse My ron. – Sei. Ele tem participação nuns dois outros lugares aqui na cidade. – Entendi. limpando a garganta. Pat veio falar comigo. Tenho entradas para toda a temporada. Só estou explicando. Gosto de observar a reação das pessoas a mim. – Não. . por que você está aqui. caras ou seja lá o que forem. – Então.visto uma personagem. – Ah – fez My ron.

– Como? – Ele pode fazer qualquer coisa com aquele salto. Levante sua camisa. que não é a luzinha mais brilhante da árvore de Natal. – O que você já fez. Ele também me prometeu que ninguém vai machucar você. – Com quem? – O segurança psicopata.– E meu charme rude e meu corpo musculoso não tiveram nada a ver com isso? – Ah. – E o que Pat queria? – Que eu levasse você até outro bar hoje à noite. – Thrill. – Ele é completamente louco. Fazia sentido. My ron não o deixara perder a oportunidade. E. não percebeu isso. – Que mais Pat disse? – perguntou My ron. O assassinato de Clu Haid dá o que falar. Ela sorriu outra vez. – Não muito. A preferida é uma marca em forma de Z no lado direito. Já ia esquecendo. ele podia ter procurado meu número de telefone. – Não acho que possa ajudá-la. Uma cross-dresser de peruca loura. Só que queria conversar. – Bosta de vaca! – Bosta de vaca? Ela deu de ombros. um sorriso. Agora você está vinculando o “assassinato do século” desta semana a uma casa noturna excêntrica de Nova York. Você esteve no quartinho dos fundos com ele. – Sim. Zorra – Zorra? – só queria marcá-lo. ele me disse para procurar o número da sua empresa no catálogo telefônico. – Se queria conversar. claro. – Nancy Sinclair talvez não consiga que liguem no dia seguinte… – Mas Thrill consegue? – Peito é poder. E qual é seu interesse nisso tudo? – Não está claro? Uma matéria. . se você não me ligasse. – Hoje à noite? – Sim. – Que reconfortante. e foi um sorriso lindo. – Aquela em estilo mulher fatal? Ela assentiu. – Mas Nancy Sinclair percebeu. – Como ele sabia que eu iria ligar? Outra vez. – Pat também estava batendo papo com Zorra.

– Então é melhor eu ir para casa e colocar o enchimento. Era tudo de que ele precisava: uma cross-dresser do Mossad. – Vejo você à noite. Trabalhou para os israelenses também. não ouvi – falou ela. Mas não. se cinco por cento delas são verdade. sorrindo. – Eles acham que matei Clu? – Não. Mas Pat falou algo sobre você ter tentado matar alguém. – E se você não conseguir? – Tenho seu telefone – disse ela. – Ele é totalmente maluco. Só disseram que você estava lá para matar. My ron. – Não disseram quem? – Se disseram. acho que posso fazer isso sozinha. Existem várias histórias sobre ele.– Estou com a marca. – Você não está com medo? – Vou ter apoio. temos um encontro? – Acho que sim. – Precisa de ajuda? – Meu herói. – Então. Teve algum tipo de participação na guerra do Golfo. – Quem? – Não faço ideia. – Eles falaram alguma coisa sobre Clu? – Não. – Eu? – Sim. – Alguém bom? – Não tenha dúvida – My ron assentiu. . Disfarçado. Me parece que eles acharam que você estava no bar para encontrar alguém e matar. e. já matou dezenas de pessoas.

– O quê? – Sutiã de enchimento.21 W I N FRA N Z I U O CE N H O . Depois quero ir ao estádio dos Yankees. – O que mais temos? Win ajeitou a gravata. – Exatamente. – Me diga outra vez. – Soa quase como um plano – comentou Win. Talvez você tenha me interpretado mal. e eles esperaram na . exultante. Talvez esteja cansado dessa sociedade que impõe a elas uma beleza inalcançável: vestidos 38 e sutiãs extragrandes. My ron encolheu os ombros. Devia ser contra a lei. Eles foram andando pela Park Avenue. chega. – Entendi. uma espécie de acessório. também sou um porco. Feliz? – Sim. – A palavra-chave aqui é talvez. – Me ame com todos os meus defeitos. – Propaganda enganosa – disse Win. – Enchimento em vez de cirurgia? – Sim. Talvez eu queira banir esse tipo de acessório pelo mal que faz à autoestima da mulher. – FJ e as duas glândulas hormonais superdesenvolvidas que o protegem estão na Starbucks. Win. My ron: o que o atraiu nessa tal de Thrill? – A roupa de Mulher-Gato. – Muito bem. Vamos? – Vamos. Digamos que Big Cy ndi entre aqui com uma roupa dessas… – Ei. – Deve chamar mais atenção. Win fez seu olhar de decepção. oh. Iluminado! – Win pôs a mão no ouvido e inclinou a cabeça para o lado. É propaganda enganosa. O sinal fechou. – Certo. – Acessório? Como uma bolsa combinando? – De certa forma – respondeu My ron. Win sorriu. Acabei de lanchar. – Mil perdões. – Entendi que você é um porco nojento. pensando no assunto. Os políticos de Washington… Onde estão quando se trata de questões importantes? – Agora você entendeu. Preciso fazer perguntas a duas pessoas.

que se levantou sem uma palavra e caminhou até a saída. e o homem atravessou. Ergueram-se imediatamente quando My ron entrou.esquina que abrisse. Não ia querer confusão no seu estabelecimento. ainda vestiam calças de pijama. que lembrava creme de barbear. My ron – disse ele. benzinho. Inclinou-se e deu uma olhada pelo vidro. camisa de colarinho abotoada até o alto. FJ usava um casaco esportivo com estampa em zigue-zague. Quando chegaram. calça com bainha dobrada e mocassim com franja. se ele não estivesse fazendo sexo pelo telefone. Ele viu My ron e levantou a mão na direção dos brutamontes. Entrou e caminhou diretamente para a mesa de FJ. – Oi. digamos. que pareciam de uma estampa indiana borrada. Win fez sinal a My ron para que esperasse. assim” e outras coisas que não valem a pena repetir. Win preferiu não discutir. A imagem da elegância. Hans e Franz. Eles continuaram pela Rua 49. sou sempre cobiçado para fazer sexo grupal. – FJ está numa mesa com alguém. Fez um gesto para o companheiro de mesa. Só tem mais uma mesa ocupada. – Você confia nessa Thrill? – Ela parece confiável. – Estou atrás de você. do lado direito. numa referência aos halterofilistas de Saturday Night Live – estão sentados duas mesas depois. . – Entramos? – Você primeiro – disse Win. – Sente-se. My ron tinha parado de questionar os métodos do amigo já fazia muito tempo. como um rato do deserto. com o que pensava ser educação. – Duvido. O sinal abriu. Que coincidência mais estranha. Hans e Franz – disse Win. por favor. – Ah. os pescoços parecendo que iam explodir. I Love New York. Esfregava os. A Starbucks ficava a quatro quarteirões. – Sim. – Sobre esta noite – disse Win. os dois Mister Universo. Esse Pat é sócio do lugar. os punhos cerrados. – Então você acha que o convite é para um drinque? – Pode ser – respondeu My ron. Nada de incomum. países baixos e dizia “Isso. – Com meu incrível magnetismo. Hans e Franz ficaram imóveis. FJ bebericava algo espumoso. My ron balançou a cabeça. My ron. FJ – cumprimentou. – Existe é claro a possibilidade de eles simplesmente matarem você com um tiro ao chegar. Ao lado de My ron estava um homem de terno falando ao celular. ainda esfregando e falando.

foi direto até a mesa de FJ. Hans lhe deu um sorriso afetado: – Você… Win? – Sim. Os dois usavam golas rulê tão altas e largas que precisavam ser circuncidadas. Win continuou a andar. FJ fez um gesto de modéstia com a mão. Grande. – O destino? Essa é boa. Win não hesitou. – Toma alguma coisa? – Um latte gelado cairia bem. – Você não parece muito parrudo – disse Hans.– Ah? – Você me poupou uma caminhada. Mas saiu por questões morais. como se alguém tivesse arrancado seu esqueleto. dando-lhe um sorriso de cobra. – Quem? – O cara que cuida da máquina de espresso. eu. FJ fez sinal ao garçom atrás do balcão. O corpo do gigante endureceu e depois desabou. mas não por muito tempo. Win escolheu aquele momento para entrar. FJ soltou uma gargalhada. e Hans e Franz entraram em ação. golpeou Hans atrás do ouvido com a lateral da mão. como se dissesse: tem muito mais de onde saiu esta. Imagine se um garoto impressionável comprasse um desses CDs? Como ele poderia pôr a cabeça no travesseiro com a consciência tranquila? Vender cafeína. Mas Kenny G! O cara tinha escrúpulos. – Kismet – repetiu My ron. No mesmo . hein? Você ter vindo até aqui. – Edificante – observou My ron. Hans e Franz também riram. O que trabalhava antes dele fazia um latte maravilhoso. Puro kismet. – Questões morais? – Começaram a vender CDs do Kenny G – contou FJ. Quase que casualmente e sem a menor advertência. com um pouco de baunilha. FJ o viu e olhou para Hans e Franz. Colocaram-se em seu caminho e estufaram o peito – os brutamontes ficaram tão largos que pareciam dois carros estacionados na cafeteria. Win. – E de repente ele não conseguia mais dormir à noite. – Ele parece parrudo. My ron puxou uma cadeira. Aquilo estava torturando o cara. – Sente-se. olhando para Franz. Win não se deteve. – Acho que foi o kismet. Estava indo fazer uma visita a você – falou FJ. Keith? – Não muito. tudo bem. – Ele é novo – confidenciou. Franz ficou boquiaberto diante da cena. por favor. My ron o ignorou e observou o estranho desaparecer.

Win encolheu os ombros e se dirigiu ao cara no balcão: – Barista – chamou ele. Tenho que cuidar da silhueta.movimento. – Quero que isso acabe. “Vocês. No chão. Hans e Franz começaram a se mexer. – Você nem imagina quem faz a voz do Salsicha original – disse Win. – Belo casaco. FJ. – Certo. My ron olhou para Win. FJ obedeceu. Os olhos de Franz se fecharam e ele também caiu na terra dos sonhos. – Realça o vermelho demoníaco dos seus olhos. isso era proteção suficiente. – O cara das quarenta mais do rádio? – O próprio. – É para já. Não estava com medo. como se tivesse engasgado com um monte de ossos. Win sorriu olhando os corpos dos dois brutamontes e depois se virou para My ron. peça. Seu pai era Frank Ache. – Que bom que você gostou. por favor. – Para segurança de todos os presentes – disse ele –. – Me enxerindo? Alguém ainda usa essa palavra? Win pensou no assunto: – O velho que aparece no final de Scooby Doo. – Você está brincando – disse My ron. – Vivendo e aprendendo. Win. – Você vem me seguindo há semanas – disse My ron. a seus empregados que não se mexam. Win procurou a carótida e a apertou entre o indicador e o polegar. O casal da outra mesa saiu às pressas. que balançava a cabeça. Win mostrou a FJ a arma que trazia semiescondida numa das mãos. . Um ruído pavoroso saiu de seus lábios. Aqueles músculos todos eram só para aparecer. – Quem? – Casey Kasem. – Que tamanho? – Grande. por favor. Win deu uma pirueta e atingiu Franz na sempre vulnerável garganta. – Com espuma ou leite integral? – Espuma. uma coisa assim. – Um mocha. – E eu ia dizer a My ron que estou cansado de ele se enxerindo nos meus negócios – retrucou FJ. Win se juntou a My ron e FJ. – Obrigado. – Onde estávamos mesmo? My ron entrou em cena: – Eu ia dizer a FJ que já estou cansado daquela sombra atrás de mim. garotos enxeridos”. Sentou-se e cruzou as pernas.

My ron. FJ. Sigilo profissional entre empresário e cliente ou como você quiser chamar. – Com que propósito? – Não tinha nada a ver com você. FJ balançou a cabeça. então? My ron olhou para Win. My ron suspirou. por favor: que importância o resultado dos exames antidoping poderiam ter agora? My ron pensou rapidamente se responderia e se decidiu: que mal havia? – Se eu puder provar que os exames foram comprometidos. My ron apenas balançou a cabeça. sou apenas um cara novo tentando aprender esse negócio confuso. FJ. só para acalmar seus delírios paranoicos.– Então sugiro que você pare de interferir nos meus negócios. percebendo por fim a linha de pensamento. Os olhos de FJ se estreitaram. FJ se inclinou para a frente. – Entendi – falou FJ. – Resposta errada? – Você visitou a dona do New York Yankees mesmo sem no momento representar nenhum jogador do time. mas. Então me diga. – Exato. – Isso é interessante. – Por quê? – Queria saber dos exames antidoping. – Você tem alguma razão para acreditar que o exame foi comprometido? – Acho que isso é confidencial. – Você conseguiria que pagassem o valor estipulado no contrato. – Muito bem. que deu de ombros. – Veja. Ele teve medo de que FJ o lambesse. – E daí? – Por que foi lá. FJ. – Bom. quantas vezes ouvi essa frase – disse Win. Como estou interferindo na sua empresa? – Você visitou ou não os May ors hoje de manhã? – perguntou FJ. suas feições sórdidas se aproximando de My ron. . estava lá por causa de Clu Haid. o contrato vai estar ainda em vigor. – Resposta errada. – Não que eu tenha que me explicar para você. – Ah. – Sou jovem e inexperiente. – Sei. FJ. Tenho certeza de que entendeu. FJ. – Quero aprender. – Você sabe que sim. – Fico feliz por você achar isso.

– Ele nunca nos disse. sobre ele não ter nenhuma prerrogativa legal. Se você os mantivesse felizes. – O quê? . A morte de Clu não altera minhas obrigações. Abandonou a MB Representações Esportivas e contratou a TruPro. de rosto virado para o chão e mãos na cabeça. nenhum esforço funcionaria. Remexeu numa pilha de papéis até tirar aquele que buscava. My ron verificou a data. Mas não acho que seja coincidência. Recordou-se do que Sophie May or dissera no escritório. Alguns saíam correndo quando viam os dois deitados. Clu Haid mudou de representante. FJ. My ron. concordo. My ron? Ou nunca disse a você? – O que você quer dizer? – Você não estava por aqui. Ele a abriu com o máximo de estilo. My ron se virou para Win. Ele fixou os olhos de FJ e se lembrou outra vez dos olhos do veado empalhado. que estava de olho em Hans e Franz. sentiu um tranco e verificou a assinatura. – Que porra é essa? O sorriso de FJ era como uma vela derretendo. My ron. – Sim. Infelizmente para a bela Esperanza. FJ? – Como recruto meus clientes não é da sua conta. entravam clientes no café. – Nunca nos disse. Ele examinou o documento. o mesmo não se aplica. – Exatamente o que parece. Felizmente para mim. – Que estranha coincidência. Sorriu e o entregou a My ron. My ron olhou para Win. – Muito conveniente – falou My ron.– Mas você não é o agente dele. passando pelos brutamontes como se fossem apenas mais dois pedintes de Manhattan. Os brutamontes já estavam conscientes. – Resposta errada. – O quê? – Ele morrer dois dias depois de assinar o contrato com você. Outros permaneciam inabaláveis. Ocasionalmente. – Ainda sou o responsável pela saúde financeira dos seus bens. – E ele simplesmente procurou você. Talvez tenha dito a sua sócia. esticando a mão para baixo e pegando uma pasta. Talvez ele tenha tentado dizer. Leu a primeira linha. – Outra vez resposta errada? – Você não é o responsável – disse FJ. isso significa que eu não tinha nenhum motivo para matá-lo.

– Se ficasse na MB. procurou o velho amigo Billy Lee Palms. por que não sacar mais dinheiro? Ainda tinha mais na conta. mas ele não estava lá. o contrato legítimo. – Ele já tinha dado a volta por cima antes – replicou FJ. Como investimento financeiro. Improvável. Seu contrato se tornou nulo e inválido. faz parecer que a morte dele prejudicou seus interesses. Hum… Porém havia problemas com essa hipótese também. Talvez ele tivesse dito a ela que estava deixando a agência. Por que os escolheria? A menos que fosse obrigado. que também estava enrascado demais para ajudar alguém. Certo. Teríamos encontrado uma forma de revitalizar sua carreira. Estava acabado. Não. Sua vida estava indo pelo ralo enquanto My ron vagabundeava pelas areias do Caribe. Aparentemente isso elimina você da lista de suspeitos. Conhecia os Aches. – Aparentemente? – Afasta o foco de você. Ele tinha 35 anos e várias suspensões. Clu não tinha valor nenhum. porém. e FJ estava por perto com promessas e poder. que continuava fora. Porém. – Não assim. A menos que ele lhes devesse algo. havia várias razões. – E prejudicou meus interesses. My ron se lembrou dos 200 mil dólares desaparecidos. Clu estava frágil e sozinho. Ele podia ter se metido numa encrenca séria. – Vamos ao que interessa – disse My ron. Talvez Clu tivesse de fato deixado a MB. Se não existisse caso nenhum. Sentiu-se abandonado. Foi outra vez atrás de My ron. aí ela ficou chateada e depois ele também ficou chateado. Mas a TruPro é influente. sim. E então lhe deu uma bofetada de adeus no estacionamento. My ron balançou a cabeça. Então talvez Clu e Esperanza não tivessem um caso. a arma no escritório e seu silêncio obstinado? FJ ainda sorria. Procurou My ron em busca de ajuda. possivelmente o evitava. no final das contas. Clu estaria devendo a FJ? Teria se afundado tanto que precisara assinar com a TruPro? Se fosse esse o caso. – Ele foi pego no exame antidoping. Por quê? Bem. seria provavelmente verdade. como explicar os pelos de Esperanza na cena do crime? Como explicar o sangue no carro. Não havia mais ninguém. Desesperado.– Clu assinar o contrato tão perto de morrer. A assinatura parecia verdadeira. mas por que a TruPro? Clu sabia da reputação deles. tudo aquilo levantava questões interessantes. – Como faço para você sair do meu pé? . talvez fosse mais simples.

Depois lhes disse que saíssem. – Da mesma forma que você ficou longe dos meus? – Vou dizer uma coisa a você. bebericando mais creme de barbear. vou ficar longe do seu negócio. Eles se retiraram. – O quê? – Já considerou a possibilidade de Esperanza ter matado Clu? – Você sabe algo que não sei. que balançou a cabeça. – Esperanza está sendo acusada de ter matado Clu – disse My ron. – Estou envolvido nisso até ela ser inocentada. Olhou para os capangas e depois para Win. Vamos ficar em contato. FJ tinha razão. – Eu? – perguntou. – Ótimo. de cabeça erguida e peito estufado. olhando para cima. – Ah. Nenhum consolo. – E se ela não for inocentada? – perguntou FJ. My ron. My ron – falou FJ. dou a você carta branca para persegui-los com todo o entusiasmo de que for capaz.– Fique longe dos meus clientes. – Se eu abandonar meus clientes durante mais de três semanas. – Aviso a você. como uma inocente ovelhinha ao lado de um leão. mas ainda parecendo ter o rabo entre as pernas. Os dois obedeceram. E você do meu. – Se você descobrir alguma coisa que possa me ajudar a revalidar o contrato de Clu. Vamos. . FJ mandou Hans e Franz se porem de pé. De resto. FJ? Ele pôs a mão no peito. My ron olhou para Win. Por mais assustador que fosse. pode me avisar? – Claro – respondeu My ron. – O que eu poderia saber? FJ terminou o café ou o que aquilo fosse e se levantou.

. – Exatamente. Às vezes você tira proveito dessa reputação. Cada agressão é muito bem pensada. claro. – Só para reforçar a sua reputação? – Resumindo. – Porque provocaram você? – Não dá para chamar aquilo de provocação. – Isso nos ajuda? – Acho que sim. como você disse. A linha 4 ficava quase vazia àquela hora. reagi na medida certa. – O quê? Win odiava repetir. – Como sempre. Quando percebi que estavam desarmados e que colocá-los fora de combate seria fácil. Que sou instável. – Amigos e inimigos acham que eu perco a cabeça muito fácil. Pelo contrário. Nunca perco o controle. tomei a decisão final. – Então por que bateu neles? – Porque foi fácil. descontrolado. – E nesse caso os prós ganharam? – Sim. Após sentarem-se. – Você acha – disse Win. – Não. Que reajo de forma exagerada. Reputação que criei e cultivei através do que você chama de reação exagerada.22 E L E S T O M A RA M O M E T RÔ até o estádio dos Yankees. não tira? – Acho que sim. – Como assim? – Tenho uma reputação. My ron perguntou: – Por que você nocauteou aqueles dois brutamontes? – Você sabe. – Sua reação foi exagerada – falou My ron. sim. Minha reputação nos mantém a salvo. – Então você sabia que ia bater naqueles dois antes de entrarmos? – Tinha cogitado. Por que você acha que o pai de FJ mandou o garoto não matar você? – Porque sou um raio de sol? Porque torno o mundo um lugar melhor para todos? Win sorriu. os prós e os contras avaliados. – Já vi que entendeu. Estão todos errados. não? – De psicopata violento.

Desceram a escada da direita. entendo. O metrô parou. mas gosta de violência. Hum… Na entrada de imprensa. Dezenas de policiais dividiam o espaço com grupos de cambistas despreocupados. Preferia uma luta mais limpa? – Acho que não. algumas ostentando guarda-sóis – uau! – da marca favorita de achocolatado de My ron. – Você tem outras razões. – Quem lamentaria a morte deles? – perguntou Win. – Mas costumo me sentir mal depois que acaba. – Mas você gosta disso – falou My ron. My ron não contestou. My ron. – Acho que sei. e agora My ron pensava no telefonema do pai.– Isso não o incomoda. – Mesmo assim. Win? – O quê? – Agredir alguém assim. tornar-se violento apenas uma vez. – Imagine se um deles fosse melhor do que você pensou e não fosse à lona tão fácil. o homem mais tranquilo que conhecia. Faltavam quatro horas para o jogo começar. My ron. o guarda fez uma ligação e os dois receberam permissão para entrar. mas já se viam algumas centenas de fãs fazendo fila para assistir ao aquecimento. – E você não. E fora . – Eles são capangas. My ron. Mas. – Teria feito? – Você sabe a resposta. não como eu. Imagine se tivesse que aleijar ou matar alguém. pisando a grama verde. Vira-o. Ele e Win permaneceram em seus assentos. Você não gostou do fator-surpresa. – Não. Passageiros saltaram. e se você tivesse calculado mal? – Altamente improvável. – Eles são capangas. Haviam acabado de discutir a natureza da violência. claro. Havia carrocinhas de cachorro-quente. numa trégua clássica. deve ser por causa de seu lado humanitário. não santas. que escolheram por vontade própria a tarefa de intimidar e machucar os outros. – Ah. – Dois exemplos de escória da humanidade. Mas sente o barato. My ron mostrou seu cartão profissional. – Bem. Win não disse nada. não santas. My ron? – Não como você. Os dois desceram do metrô na Rua 161 e caminharam em silêncio até o estádio. chegaram ao túnel do estádio e emergiram sob o sol brilhante. Você acabou com eles sem ser provocado. Um bastão de beisebol gigante lançava uma sombra longa.

O pai perguntou outra vez. “Pode gritar o quanto quiser. barbudo. O cara barbudo tentou ignorálo. Tinham comprado quatro assentos na fileira mais alta. O barbudo olhou com raiva para ele durante mais alguns segundos e depois o empurrou de volta. É melhor ele calar a boca. e ele contou por fim o que tinha acontecido. e os dois desceram até a terceira fila. Quando o barbudo se voltou. Tentou fingir que estava tudo bem. Ele agarrou o menino de 10 anos pela camisa. rosnou ele para Brad. por alguma razão desconhecida.” Brad pareceu magoado. e o pai o entendia como se lesse seus pensamentos. Brad. Lembrava-se de ter ficado abalado. O cara sentado na frente deles se virou. e gritou um pouco mais. Quando My ron tinha 10 anos. Ele ficaria na fileira do alto. no estádio dos Yankees. O pai o empurrou de novo. mas o cara não o soltava. “Não dê ouvidos a ele” – disse My ron. envergonhado. Seu rosto ficou quase roxo. Os olhos se encheram de lágrimas. segurando o emblema dos Yankees com a mão que para My ron parecia gigantesca. O pai sugeriu então que seus garotos fossem se sentar um pouco lá para verem algumas jogadas de perto. Viu Carl Yastrzemski no banco dos rebatedores e não conseguiu se refrear. três fileiras atrás do banco dos Red Sox. Fez uma concha com as mãos ao redor da boca. “O que houve?”. My ron pegou Brad pela mão. Uma explosão em seus olhos. My ron pegou a mão de Brad e voltou correndo para a última fileira. “Fiquem aqui que eu já volto”. junto com o irmão menor.” As mãos do barbudo se moveram rápido. My ron hesitou. gritando “Yaz! Yaz!”. então com 5 anos. Tinha hálito de cerveja. E continuou gritando. o pai o levara. Brad era fanático por eles. “Chega”. com o rosto ainda vermelho. à maneira Mike Ty son. Gritando enlouquecidamente. O pai desceu até o assento atrás do banco dos Red Sox. mas no último minuto um colega de trabalho lhe dera outros dois. Devia ter uns 25 anos. e o puxou para mais perto. os olhos negros. O pai se inclinou para perto de seu ouvido. assustado e principalmente. lembrava um pouco uma imagem de Jesus. My ron assistiu ao resto de binóculo. Dois seguranças desceram correndo a arquibancada e interromperam o . depois apontou para a saída. Duas vezes. algo que nunca tinha visto antes nem depois. “Fique quieto. Os lugares eram simplesmente maravilhosos. Algo ocorreu com o pai. O cara se recusou. “Ele está deixando minha namorada com dor de cabeça. mas meninos de 10 anos não são bons atores. perguntou ele. O rosto ficou vermelho. inclinou-se para a frente e começou a gritar a plenos pulmões. o signo universal para “vamos resolver isso lá fora”. disse ele. Empurrou o homem.ali. Brad empurrava o time com seus pulmões de garoto de 5 anos.” O medo tomou conta de My ron. a um jogo. ele fez algo que deixou My ron realmente chocado.

Quando viu Win. Deve ter ouvido um bocado de histórias. Um grupo de jogadores dos Yankees estava sentado na grama da lateral do campo. pernas abertas. Publicou um livro – brilhantemente intitulado Guia Wells para o bemestar –. descafeinado. – Ou talvez nunca tenha visto alguém tão bonito. o trapaceiro do momento. pedindo aos gritos um pouco mais de entusiasmo. como se as pessoas não fossem suficientemente autocentradas. – Ah. é. Preferiam os assentos dali de cima. My ron concordou com a cabeça. Win franziu o cenho: – Resumindo. Sawy er Wells. “Ele não vai mais incomodar vocês. se não eram originais. mãos para trás. – Você tem consciência. Um homem. Ninguém foi expulso. um aparato completo de autoajuda. My ron o reconheceu. e Sawy er Wells entrou na moda. Wells era um charlatão desconhecido. – Está farejando um cliente novo – observou My ron.embate. Bateu palmas uma última vez e depois se despediu. balançaram as cabeças. com propaganda na TV. fazendo gestos espasmódicos. porém. E era também o psicólogo do time. num terno bem-cortado demais para o lugar. Depois começou a dar pulinhos como um filhote atrás de um osso ou um político caçando um doador para sua campanha. sorridente e entusiástico. Empresas que apareciam na lista das quinhentas mais bem-sucedidas da Fortune começaram a contratá-lo. – É. Sawy er Wells pareceu ofegar. calendário. “Podem volta para lá”. – Viajando no tempo outra vez? – perguntou Win. ainda garotos aguardando o jogo da Liga Infantil começar. eu sei. – Devo ser simpático com ele? – perguntou Win. trouxeram-no a bordo como consultor psicológico motivacional ou outra baboseira qualquer. espero. My ron assentiu. explore seu potencial. O pai voltou para a fileira de cima. o palestrante motivacional. ao menos tinham êxito. – Supostamente ele acompanhou os exames antidoping. Acenou. de que é jovem demais para tantos surtos de reflexão. Provavelmente. disse ele. Com mais força. recitando dogmas reformulados – conheça a si mesmo. Os discursos. .” My ron e Brad. conversava com eles. Wells se voltou outra vez para os jogadores. Gesticulava vigorosamente. Dois anos antes. Olhou de novo para Win. faça algo por si –. vídeo. Sua grande chance surgiu quando os May ors o contrataram para dar palestras para seus funcionários. a imagem de quem acabou de descobrir as belezas da vida. fita cassete. Quando os May ors compraram os Yankees.

– Sei disso – disse My ron. considerado menos talentoso. O agente só facilita. Achava que eu deveria assinar com você. A viagem de barco tinha sido dura. Enos balançou a cabeça. na verdade. Tinha 24 anos. Ele parecia estudar My ron. Como a maioria dos lançadores. Sentiu uma pontada. Muito dura. Enos Cabral era um cubano bonito e esguio. Tinha uma espécie de casca dura. – Meu agente. – Você conhece a minha história? A descrição típica. Um dos mortos era seu irmão Hector. . My ron se apresentou. Quando chegaram por fim. Os dois riram. Enos apertou sua mão: – Sei quem você é. – Acreditamos em milagres. Não cria. Eu tinha família em Miami. Até de mim. – Clu sempre desconfiava das pessoas. mas ainda devia ter que mostrar a carteira de identidade para tomar uma cerveja. – Não quero negar a importância de um bom representante. mas você se deixou rico. o corpo relaxado. Ele me trata bem. – Clu disse isso? – Eu queria uma mudança – continuou Enos. Pagou minha conta do hospital. joias e carro. – Meu agente. E ganhei. emprestou dinheiro a minha família. – Você quer um empresário com alma? Enos deu de ombros. dono de um arremesso rápido como um raio e bolas curvas que ainda precisavam ser trabalhadas. Ao saber de mim e do meu irmão. apenas dois dos oito cubanos ainda estavam vivos. Enos. – Você pega o colega de quarto. estava quase morto de desidratação. – Sabe? – Clu falava muito de você. acharam que estavam perdidos no mar. exceto a boca. E me deixou rico. Me prometeu mais grana. Estava assistindo ao aquecimento de um rebatedor.– Muito bem – disse Win. Durante uma semana. – Foi o que li nos jornais – falou My ron. – Sou católico – disse ele. então? – Ele não tem alma. Estava lá quando cheguei. Me deu dinheiro. considerado o melhor jogador a sair de Cuba nos últimos dez anos. Eu fico com Sawy er. – Qual o problema. mastigava chiclete ou tabaco com a ferocidade de um leão devorando uma gazela.

Ele levantou uma sobrancelha. essa soa bem. você não faz ideia. Era lançador da Liga Americana. quando se tem tanto quanto Clu tinha… Ele não concluiu o pensamento. Abria e fechava a mão. – Clu era péssimo analista de caráter. – Como várias frases feitas. Outra pontada. – A vida dele começou a desmoronar. – Acho que sim.” – Ele inclinou a cabeça para o lado. Aconteceu tanta coisa ruim. Estava sempre assustado. Nem bebendo. – O que você quer saber? – Você ficou surpreso quando Clu caiu no antidoping? Ele pegou um taco. Nunca teria a oportunidade de rebater. sabe? My ron permaneceu calado. disse ele. Não saía à noite. Com todas as forças. mas de você mesmo. Dizia que era um cara bom. Você vive no meio de tanta merda. . por que não se matar? Mas aqui. Enos sorriu. Mas também soa como uma tentativa de se justificar para si mesmo. – E perdeu – acrescentou My ron. – “Às vezes”. Enos concordou com a cabeça. – Não acho. sim. – Não consigo entender o vício – falou ele. – Não fique. “você não está fugindo do mundo. – Pensei que tivesse vindo me recrutar. – Nunca o vi usando drogas. – Clu tentou. My ron. mandava que tirassem. – Mas percebeu mudanças. Engraçado. Não precisava dizer o óbvio. – Mas você já ouviu a expressão matar dois coelhos com uma só cajadada? Enos riu. Que precisava cometer muitos excessos… Tinha alguma coisa estragada dentro dele. – Não – disse My ron. – Você está com raiva dele. Quando nosso quarto tinha frigobar. – No lugar de onde venho. – Enos. quero falar com você sobre as últimas semanas de Clu. por medo do que poderia fazer. buscando a pegada certa. Não andava mais com os antigos camaradas. um cara pode tentar se afogar na bebida. Que tinha confiado a vida dele a você e faria tudo de novo. Lutou duro e durante muito tempo. – Você acredita nisso? – Na verdade não – respondeu My ron. Ele era um homem muito infeliz. se puder pagar. – Uma vez Clu tentou me explicar – continuou Enos.– Mas acreditava em você.

– Clu sacou 200 mil dólares um pouco antes de morrer – contou. Sempre havia um garoto assistindo a seu primeiro jogo. – Ele estava com problemas financeiros? – Se estava.– Que tipo de coisa ruim? Uma música de órgão começou a tocar muito alto. Mas a amava mesmo assim. – Acho que ele concordaria com você. Mas Clu antes de tudo feria a si mesmo. – Estão errados. Só quero descobrir quem o matou. Você conhece Bonnie? – Sim. mas isso não é desculpa para o que ele a fez passar. com sua interpretação do clássico dos ginásios esportivos “Garota de Ipanema”. – Não sabia – falou ele. você está certo. recordações marcantes nasceriam. Quando ela o pôs . Acontecia todas as noites nos estádios mundo afora. – O que foi. – O casamento dele – disse Enos. disso não sabia. – Ele apostava? – Nunca vi. – Não me sinto confortável falando sobre isso. – Isso soa outra vez como uma gigantesca tentativa de se justificar. acho. – Clu a amava muito. a lendária abertura de Eddie Lay ton. Mas não. Clu pode ter feito da autodestruição uma forma arte. My ron tentou provocá-lo. então. – Tinha um modo estranho de demonstrar. – Sabia que ele estava procurando você. – Não se engane. Enos sorriu. Enos. – Acho que era mais para se machucar do que para ferir qualquer outra pessoa. Enos pôs o taco no ombro e depois o abaixou novamente. – Sim. Enos? O que o fez desistir? Ele levantou os olhos para o sol e piscou. – Você sabia que ele tinha trocado de agente? Enos pareceu surpreso. Feria Bonnie também. – Isso era o mais importante. – Dormindo com todas aquelas mulheres – disse ele. – Não estou me intrometendo por prazer. Enos contemplou o taco como se existisse uma mensagem oculta nele. Tempo perfeito para um jogo noturno. eu não sabia. Logo os torcedores chegariam. – Os jornais disseram que foi a sua secretária. claro. – Despediu você? – Aparentemente era o que ia fazer.

My ron ficou confuso. – Tinha.para fora. Saiu correndo. Elas faziam parte daquela coisa de drogas e álcool. – Você acha que Bonnie o mandou embora por causa de alguma garota? – Não foi por isso? Enos balançou a cabeça. Foi quando a ficha caiu. – Tem certeza? – O problema de Clu não eram as garotas. – Você sabe que ele já tinha feito besteira antes. – O que você pode me contar sobre esse rompimento? Outra hesitação. – Não tem muito o que contar. O que a fez estourar? Quem era a namorada? Enos pareceu intrigado. ficou furioso. contrair seu estômago. Clu se sentiu traído. – Então ele não estava tendo um caso? – Não – respondeu Enos. . My ron sentiu uma onda de frio percorrer seu corpo. Mal se despediu. Você não faz ideia. Era fácil para ele se livrar delas. – Ela é que estava. – Qual foi a diferença dessa vez? Bonnie estava acostumada com as escapadas dele. aquilo o magoou muito.

mas você. Bonnie olhava para eles. . Eles atravessaram o quintal até uma área arborizada. armários espaçosos o bastante para servir de outlet para a Gap. com um cigarro na mão. A porta da frente estava aberta. as feições como ecos das de Clu. Corriam e gargalhavam. Versões em miniatura do falecido pai. ambos usando gravatas vermelhas e camisas de manga curta para fora da calça. – Sei com quem você estava dormindo. o queixo apoiado nos joelhos. confrontá-la e acabar com aquilo tudo de uma vez. – Vamos dar uma volta – disse. Algumas pessoas se aproximaram. Linda. My ron. – Não podemos falar sobre isso mais tarde? Ele esperou um segundo. Arejada. sala de estar pequena. quarto de casal amplo. A casa era nova em folha. tetos abobadados. que dava para uma fileira de balanços. Havia talvez uma dezena de veículos estacionados na rua. mas ela não estava na sala. que trazia o rosto devastado pelo sofrimento. e My ron a ajudou a ficar de pé. Não se virou enquanto ele se aproximava. – Não sabia que você fumava – comentou ele. Estava sentada sozinha no deque. envelhecer como um bom Merlot. Pessoas de luto. Ele ofereceu suas condolências à mãe de Clu. Apertou outras mãos. Estava de costas para My ron. Ele tomou coragem e abriu a porta de vidro. My ron ficou observando. cozinha grande ligada a uma enorme varanda aberta só na frente. My ron. Esticou a mão. – Você não sabe uma porção de coisas sobre mim. tentando abrir caminho por aquele denso mar de sentimentos falsos e verdadeiros e encontrar Bonnie. estéril e sem alma. Queria encontrar Bonnie. Havia uma varanda de cedro. Ali só havia gente aos prantos. grande. Os garotos de Clu estavam lá. sorrisos tão parecidos com o dele. – Não era Clu quem estava tendo um caso – disse ele –. Precisando ser um pouco mais vivida.23 M Y RO N SA BI A Q U E BO N N I E estaria em casa. O carro mal tinha parado quando ele abriu a porta do motorista. típica de novos-ricos. – Que excelente momento. observando os filhos brincarem. e My ron entrou sem bater. com várias janelas. Viu-a por fim no jardim atrás da casa. – Não tem outro jeito. Ela se retesou. Uma estrutura instalada no alto do morro filtrava o ruído do tráfego. detendo o passo. Bonnie deu uma tragada profunda e soltou a fumaça. Bonnie por fim virou para ele.

Depois se mudaram para esta casa. – Por quê? – Vamos começar com a sua ida a meu escritório depois da prisão de Esperanza. – Você acreditaria em mim se insistisse que você está enganado? – perguntou ela. – Você queria saber o que havia contra ela. E se ela tivesse chegado um pouco mais tarde. Comecei a pensar sobre isso. aquela série de “e se”. – Certo. Continuaram andando. – E você acha que falei isso por não querer que soubesse do caso? – Sim. – Posso fazer isso. Fiquei me perguntando por que você me alertou para não procurar a verdade. Você e Clu moraram ali pouco tempo. – Não – falou My ron. todas as evidências que sugerem um caso entre Esperanza e Clu na verdade indicam um caso entre vocês duas. – Ele mentiu. As provas materiais. Silêncio. por exemplo. – Ainda não terminei. – Por que você acha que era eu quem estava tendo um caso? – Clu contou para Enos. – Era Esperanza. – Sim – retrucou My ron. – Teria que se esforçar bastante para me convencer. My ron não disse nada. Porém tem mais coisa. – Mas você acha que sabe quem era esse misterioso amante. Win e eu achamos que ela não queria que soubéssemos que tinha um caso com Clu. de várias formas. Veja bem. Pegaria mal. – Clu contou a Enos com quem ele achava que eu estava dormindo? – Não. Ele olhou seu perfil e viu de novo aquela estudante descendo até o porão da fraternidade. Mas ser amante da esposa de um cliente? Tem burrice maior? – Isso não prova nada. Bonnie deu uma última tragada e jogou o cigarro no chão.Touché. depois de Clu já ter caído de bêbado ou ficado com outra garota? E se tivesse ido à festa de outra fraternidade aquela noite? Pensamentos idiotas – as encruzilhadas arbitrárias da estrada da vida. Como o silêncio de Esperanza. ter um caso com um cliente. mas sem ir muito fundo. – É minha casa – disse ela. Os pelos pubianos e o DNA encontrados no apartamento de Fort Lee. Disse que eu inocentasse minha amiga. Essa era a verdadeira razão. Ela balançou a cabeça. Mas o imóvel ainda estava alugado em nome . por exemplo. Voltou àquele exato momento em que Clu respirou fundo ao pôr os olhos nela. My ron.

e desta vez o sorriso pareceu mais verdadeiro. mas você. Ele a culpava pelo fim do casamento. – Quer ouvir outra coisa engraçada? Não sou lésbica. Você o matou? – Adiantaria se eu dissesse que não? – Seria um começo. Acabou com ele. – Você quer ouvir uma coisa engraçada? – perguntou Bonnie. Eu punha a culpa pelos seus defeitos nas drogas. mas vocês duas. Ela nunca mais ligou para o apartamento depois que você pôs Clu para fora. certo? – Certo. Aquilo me deixou muito intrigado. na bebida e no que fosse. Vi Clu com clareza pela primeira vez. Então. Porque ele queria me encontrar ou estava drogado? Também não. mas sem alegria. não sei. Como a casa. Ela pegou outro cigarro e riscou um fósforo. e quando ela surgiu… – Bonnie se calou. claro. quando Clu bateu em Esperanza. Então Esperanza não ia encontrar Clu. estéril e quase sem alma. antes de você pôr Clu para fora daqui. Só ligava para cá. Por quê? Porque Clu não estava mais morando aqui. Chequei os registros das ligações telefônicas do escritório. Foi só porque… ela me tratava com carinho. – A luta de Clu contra as drogas e a bebida não ajudou nosso casamento. a briga no estacionamento. Durante tanto tempo Clu foi. mas o gênero dela era irrelevante. – E não acuse Esperanza. Ela sorriu. Nem sequer bissexual. Mas.de vocês. Mas agora está tudo claro. era um sorriso bonito. – Que lugar melhor para encontrar um amante? Não eram Clu e Esperanza que se encontravam lá. para terminar. e sabe o que percebi? Que não o amava. Não foi culpa dela. o que sobrou foi só… – Ela levantou as mãos e encolheu os ombros. Fizemos sexo. – Só ele. Bonnie apenas ouvia. o apartamento estava vazio. – E. Por que daria uma bofetada nela? Porque ela teria terminado o caso? Não fazia sentido. My ron. – Os registros do pedágio mostram que ela cruzava a ponte nos dias em que os Yankees estavam fora da cidade. Eu não conseguia descobrir uma resposta. quando ele exorcizou por fim seus demônios. O que poderia ser pior para uma psique tão frágil quanto a de Clu do que a esposa ter um caso com outra mulher? A voz de Bonnie subiu um tom: – Está me acusando da morte dele? – Isso depende. uma obra inacabada. só você. Esperanza é uma pessoa linda. e me apaixonei por . mas não era uma coisa sexual. Enos disse que ele surtou com o rompimento. Ele ficou calado. Sei que isso soa estranho. Eu aguentava tudo só por causa das crianças. Porque Esperanza estava tendo um caso com a mulher dele.

– Você contou a ele? – perguntou My ron. Tentava se concentrar em meio àquele atordoamento. Por quê? – Porque – respondeu My ron – se eu fosse matar Clu e quisesse incriminar alguém. – Espere aí. E Esperanza disse que também não. – Quem mais sabe do caso? – Só a advogada de Esperanza. a amante da esposa seria minha primeira escolha. – Não creio que vocês tenham sido tão cuidadosas. – Claro que sei. My ron? – Gostaria de ouvir. My ron! – reclamou ela. – Não. Aquilo foi um direto bem na cara de My ron.isso. Mas se descobrirem que fomos amantes… – Vocês o mataram? – O que você espera que eu responda. Dá para entender? – Você sabe o que isso parece – retrucou My ron. – O que de certa forma era verdade. – Tem certeza? – Sim. dando de ombros. Hester Crimstein. – Eu não contei a ninguém. – Você acha que o assassino sabia de nós? – Isso explicaria muita coisa. – Como você explica então a arma no escritório e o sangue no carro? – Não sei. – Não. Fomos muito discretas. Eu estava deixando Clu. – Por que diz isso? – Clu descobriu. Por que acha que estamos fazendo o possível para manter isso em segredo? O ponto fraco da defesa dela no momento é a motivação. Por que o colocaria para fora e daria entrada nos papéis se planejasse matá-lo? – Para impedir um escândalo que iria certamente afetar seus filhos. Não fiz isso por causa de Esperanza. My ron tentou pensar. – Como ele descobriu. não? Ela pensou no assunto e balançou a cabeça. – Ninguém mais? – Ninguém. A esposa sapatão se junta a outra mulher e dá cabo do marido. – O que você disse quando o pôs para fora de casa? – Que não havia ninguém – falou ela. Sua cabeça doía – não sabia se por causa dos recentes combates corpo a corpo ou dessa última revelação. não o matamos. então? . Bonnie percebeu aonde ele queria chegar.

– Não sei. Acho que ficou obcecado. Que me seguia.
– E descobriu a verdade?
– Sim.
– E depois foi atrás de Esperanza e a agrediu.
– Sim.
– E, antes que tivesse tempo de contar para outra pessoa, antes que surgisse
uma chance de o caso transparecer e prejudicar alguma de vocês duas, ele
acaba morto. E a arma do crime aparece com Esperanza. O sangue de Clu é
encontrado no carro que ela estava dirigindo. E o registro do pedágio mostra que
Esperanza voltou para Nova York uma hora depois do assassinato.
– Mais uma vez, sim.
My ron balançou a cabeça.
– Não é um bom cenário, Bonnie.
– É o que venho tentando dizer a você – falou ela. – Se nem você acredita em
nós, como acha que o júri vai reagir?
Não havia necessidade de responder. Os dois retornaram à casa. Os meninos
continuavam brincando, inconscientes do que se passava ali. My ron os observou
por um instante. Órfãos de pai, pensou, estremecendo. Deu uma última olhada e
se virou, afastando-se.

24
T H RI L L , E N Ã O N A N CY SI N CL A I R, encontrou-o do lado de fora de
um bar chamado Falso Motoqueiro. Propaganda honesta. Algo apreciável.
– E aí – disse My ron, o texano.
O sorriso dela estava repleto de promessas pornográficas. Totalmente Thrill.
– E aí, companheiro – gemeu ela. Em certas mulheres, cada sílaba é um
gemido. – Como estou?
– Muito apetitosa, madame. Mas acho que prefiro você como Nancy.
– Mentiroso.
Ele deu de ombros, sem ter certeza se dizia a verdade ou não. Aquilo tudo o
lembrava de quando Barbara Eden fazia o papel da irmã malvada em Jeannie é
um gênio. My ron ficava muitas vezes em dúvida se torcia para Larry Hagman
ficar com Jeannie ou fugir com a sedutora irmã malvada. Aquilo sim era um
dilema.
– Pensei que você fosse trazer uma equipe de apoio – comentou Thrill.
– E trouxe.
– Onde está?
– Se tudo der certo, você não vai vê-la.
– Que misterioso.
– Não é?
Os dois entraram e sentaram a uma mesa ao fundo. Sim, falsos motoqueiros.
Um monte de caras com o mesmo objetivo de parecer um cabeludo que veio
direto da guerra do Vietnã para rodar o país numa Harley Davidson. O jukebox
tocava “God Only Knows (What I’d Be Without You)”, dos Beach Boy s,
diferente de qualquer outra canção deles: um lamento queixoso que, apesar de
sua apreensão juvenil, sempre emocionava My ron profundamente. Aquele
receio quanto ao que o futuro pode trazer, tão claro na voz de Brian, a letra
simples mas sugestiva. Em especial naquele momento.
Thrill estava observando seu rosto.
– Você está bem? – perguntou.
– Sim. E o que vai acontecer agora?
– Pedimos um drinque, acho.
Cinco minutos se passaram. O jukebox começou a tocar “Lonely Boy ”.
Andrew Gold. Um daqueles terríveis sucessos da rádio AM dos anos 1970.
Refrão: “Oh, oh, oh… oh, que rapaz solitário… oh, que rapaz solitário… oh, que
rapaz solitário.” Quando o trecho foi repetido pela oitava vez, My ron já tinha
conseguido decorá-lo e cantou junto. Memória prodigiosa. Talvez valesse

anunciar esse talento na TV.
Os caras das mesas próximas olhavam para Thrill, alguns disfarçadamente,
mas a maioria não. Seu sorriso era de pura malícia, muito empenhada no papel.
– Você dá tudo de si mesma – falou My ron.
– Faz parte. Somos todos atores num palco, e essas coisas todas.
– Mas você gosta da atenção.
– E daí?
– Só estava dizendo.
Ela deu de ombros.
– Acho fascinante.
– O quê?
– O que um peito grande provoca num homem. Ficam obcecados.
– Você acha que os homens são obcecados por glândulas mamárias? Odeio
lhe dar essa notícia, Nancy, mas essa pesquisa já foi feita.
– Mas é estranho quando se pensa nisso.
– Tento não pensar.
– Seios provocam reações muito esquisitas nos homens – retorquiu ela –, mas
também não gosto do que eles fazem com as mulheres.
– Como assim?
Thrill pôs as palmas da mão sobre a mesa:
– Todo mundo sabe que nós, mulheres, colocamos muito da nossa autoestima
no corpo. Notícia velha, certo?
– Certo.
– Eu sei, você sabe, todo mundo sabe disso. E, ao contrário das minhas
colegas mais feministas, não culpo os homens por isso.
– Não?
– Vogue, Bazaar, Mademoiselle, Glamour são todas editadas por mulheres e
têm um público totalmente feminino. Se querem transformar essa imagem, que
comecem por lá. Por que pedir aos homens que mudem um sentimento que as
próprias mulheres não conseguem?
– Um ponto de vista renovador – observou My ron.
– Os peitos causam reações engraçadas nas pessoas. Nos homens, óbvio.
Ficam idiotizados. É como se duas colheres de sobremesa saíssem dos nossos
mamilos, entrassem no lobo frontal dos homens e retirassem toda a capacidade
cognitiva.
My ron olhou para cima, subitamente pensativo.
– Mas, para as mulheres, bem, a coisa começa quando se é jovem. A menina
se desenvolve mais cedo. Os garotos começam a desejá-la. Como as amigas
reagem? Elas a perseguem. Ficam com inveja da atenção ou começam a se
sentir inadequadas. Perseguem uma garota que não tem culpa do que está
acontecendo. Está me entendendo?

– Sim.
– Agora mesmo. Veja os olhares femininos que recebo aqui dentro. São de
puro ódio. Imagine um grupo de mulheres juntas e uma colega peituda passa.
Todas suspiram: “Ai, por favor.” No trabalho, por exemplo, as mulheres sentem
vontade de usar roupas menos chamativas. Não é só por causa das cantadas dos
homens, mas por causa das outras mulheres. Uma mulher de negócios que vê
outra, de peito grande, num cargo melhor pensa logo: “Ah, ela só conseguiu o
emprego por causa dos peitos.” Simples assim. Pode ser verdade, pode não ser.
De onde vem essa animosidade? De uma inveja latente, de um sentimento de
inadequação? Ou é porque elas injustamente associam peito grande a burrice?
De qualquer lado que se aborde o problema, é uma coisa feia.
– Nunca tinha pensado nisso – falou My ron.
– E, para terminar, não gosto do que provoca em mim.
– Sua reação ao ver um peito grande ou por ter um?
– Essa última hipótese.
– Por quê?
– Porque a mulher de peito grande se acostuma com isso. Acha que é natural.
Tira proveito disso.
– E daí?
– Como e daí?
– Todas as pessoas bonitas fazem isso – disse My ron. – Não é só uma questão
de peito grande. Se uma mulher é linda, sabe disso e tira proveito. Não tem nada
de mau. Os homens também fazem isso, quando podem. Às vezes, tenho até
vergonha de admitir, eu mesmo dou uma rebolada para conseguir as coisas.
– Chocante.
– Na verdade, não. Porque nunca funciona.
– Acho que está sendo modesto. Mas, de qualquer forma, você não vê nada
de errado nisso?
– Nisso o quê?
– Em usar um atributo físico para conseguir as coisas?
– Não disse que não via nada de errado nisso. Só estou observando que não é
simplesmente um fenômeno mamário.
Ela fez uma careta.
– Fenômeno mamário?
My ron deu de ombros, e felizmente a garçonete chegou para atendê-los. Ele
fez questão de não olhar para o peito dela, o que era mais ou menos como tentar
manter os dedos longe de uma coceira irritante. Ela estava com uma caneta atrás
da orelha. O cabelo tingido pretendia ser de um ruivo claro, mas estava mais
perto de algodão-doce.
– Podem pedir – disse ela, eliminando preliminares como “Olá” e “Do que
vocês gostariam?”.

– Um Rob Roy – pediu Thrill.
Ela tirou a caneta da orelha, anotou o pedido e a recolocou no lugar, como
um xerife do velho Oeste.
– E você? – perguntou a My ron.
Duvidava que tivessem achocolatado.
– Um refrigerante diet, por favor.
A mulher o encarou como se ele tivesse pedido um urinol.
– Talvez uma cerveja – falou My ron.
A garçonete recitou a lista:
– Bud, Michelob ou alguma cerveja de maricas?
– Qualquer uma de maricas, obrigado – respondeu ele. – Pode colocar uma
daquelas sombrinhas de coquetel no copo?
A garçonete revirou os olhos e se afastou.
Eles continuaram a conversa. My ron acabara de relaxar e, sim, até se
divertia quando Thrill disse:
– Atrás de você. Perto da porta.
Ele não estava muito para joguinhos. Queriam-no ali por alguma razão. Não
fazia sentido ficar com rodeios. Virou-se sem uma gota de sutileza e viu Pat, o
barman, com Mulher Fatal, também conhecida como Zorra, vestindo outra vez
um suéter de caxemira – pêssego, caso queiram saber –, saia comprida e um
colar de pérolas simples. Zorra, a Debutante Bombada. My ron balançou a
cabeça. Nenhum sinal de Mãe Corajosa nem da Patricinha.
Ele deu um grande aceno:
– Aqui, amigos!
Pat franziu a testa, fingindo surpresa, e olhou para Zorra, o Homem-Mulher
do Salto de Sabre, que não demonstrou nada. Os melhores nunca o fazem. My ron
sempre se perguntava se essa indiferença era calculada ou se nada os
surpreendia de fato. Provavelmente, um pouco dos dois.
Pat se dirigiu até a mesa deles, agindo como se estivesse chocado – chocado!
– por ver My ron naquele bar. Zorra o seguiu, mais deslizando que andando, os
olhos absorvendo tudo. Como Win, ela se deslocava com economia – embora
sobre elegantes escarpins vermelhos –, sem nenhum desperdício de movimento.
Pat ainda tinha o cenho franzido quando chegou à mesa.
– Que diabo você está fazendo aqui, Bolitar? – perguntou.
My ron balançou a cabeça.
– Não foi mal, mas podia ser mais bem trabalhado. Me faça um favor. Tente
de novo. Mas acrescente uma expressão de susto. Vamos lá: susto, depois: “Que
diabo você está fazendo aqui, Bolitar?” Assim. Melhor ainda, você balança a
cabeça, irônico, e diz algo como: “Entre todas as espeluncas do mundo, você tem
que vir justamente na minha, e duas vezes seguidas.”
Zorra estava sorrindo.

– E o que meu bar tem a ver com isso? – Antes de ser arrastado para aquela sala dos fundos. – Suéter pêssego com escarpim vermelho? – comentou. Ele olhou para Thrill: – Por favor. com um olhar suplicante para Zorra. certo? – Depois que fui eletrocutado com um bastão. querida. – Se Zorra quisesse. toda ofegante. eu teria dito: “Nada.– Você é louco – disse Pat.” Mas agora. – Sem problema. Vá retocar a maquiagem? Pat ficoy furioso. – Vá retocar a maquiagem ou qualquer outra coisa. tudo bem? My ron fez uma careta. – Vá retocar a maquiagem? – repetiu.” Pat se virou para Thrill. Sim. – Aquilo ficou fora de controle. cortado duas vezes com um salto agulha. levantando-se da mesa. mas estava falando a verdade ontem à noite. vocês foram supergenerosos comigo. – O que vem depois. que devolveu o olhar. como se dissesse: “Pare com esses joguinhos. Pat olhou outra vez para Zorra. deixamos você ir. chutado nas costelas e atravessei um espelho. desculpando-se. – Aposto que sim. Zorra é um cara durão. – Certo. Estou tentando descobrir quem o matou. que encolheu ligeiramente os ombros. Ele e Zorra imediatamente se sentaram em volta de My ron. querida. você não teria escapado. que franziu a testa diante daquela mudança de cenário. – Me faça um favor. – É. olhando-o e balançando a cabeça. Lamento. bem. Está me entendendo? My ron olhou para Zorra. – Queremos levar você para dar um passeio – falou Pat. – Pat – disse Zorra. Agora vamos ao que interessa. . que bom. entendi isso ontem à noite – retrucou ele. – Precisamos de algumas informações – disse Pat. – Zorra poderia ter matado você com a maior facilidade – continuou Pat. que não se mexeu. Zorra sorriu e deu de os ombros. Pat – replicou ela. – Ei. é o que gostaria de saber. Pat – falou ela. – Por que estava fazendo perguntas sobre Clu Haid? – Lamento decepcionar vocês. vocês me deixaram ir. Pat sorriu. Pat? Vai ameaçar me fazer dormir com os peixes? Me fazer uma oferta que eu não possa recusar. – Claro.

então ele não mereceria a reputação que tem. Que tristeza. Zorra. uma peruca espetada (pela qual se notava como era minucioso). – Tenho muitos talentos. Podem me vendar. – Muito bem. – Não insulte a inteligência de Zorra. Zorra acha que ele está por perto. parecia. – O que foi agora? – Seu amigo Win. uma voz bastante masculina. Posso retocar a maquiagem antes? – Você quer bancar o engraçadinho ou quer vir com a gente? – Posso fazer as duas coisas – respondeu My ron. Não era uma beldade. um cara vestido de mulher. – Mas você não pode saber aonde vamos. – Vai ter que ir vendado. My ron começou a se levantar da mesa. – Não – disse Zorra outra vez. – Está vendo Win por aqui? – Se Zorra estivesse – falou ela –. Nada como um psicopata que se refere a si mesmo na terceira pessoa. Todos pararam.– Porra. – Não queremos . – Vocês estão brincando. gostosão – continuou ela. gostosão. – O quê? – Já fazia uns três minutos que você não vinha com nenhum clichê de gângster. Zorra olhou para My ron. – Outra vez o quê? – Você está insultando a inteligência de Zorra. Muitas vezes não dá nem para notar. diga a ele para aparecer – continuou Zorra. mãos enormes com pelos nas juntas (idem). Agora me sai com essa de levar para um passeio. – Vamos. mais ou menos murmurante (que até enganava) e. – O que faz você achar que Win está aqui? – Outra vez – disse Zorra. Pat balançou a cabeça. Mais garantias. apesar dos trajes. Muitas travestis são. vamos dizer. – Qual o problema? – perguntou Pat. – Quem? Zorra sorriu. Vamos. no entanto. tinha um sombreado de barba (aparência que My ron achava nada sedutora numa mulher). – Por favor. – Não queremos machucar você – disse. – Não – disse Zorra. certo? – Não.

gostosão – falou Zorra no celular. – Por quê? – Você tem que ir com Pat.” My ron levantou o celular. Zorra estendeu as mãos. Zorra já viu horrores que você nem sequer pode imaginar. – Podemos seguir cada um seu caminho. “não posso garantir que não vão matar você. Mas Zorra já ficou em silêncio antes. – Não podemos dizer. – Aonde? – Zorra não pode dizer. “Que garantia temos de que My ron vai retornar?” My ron ergueu o telefone para que todos vissem. – O quê? “Se concordarmos com os termos deles”. formando o que provavelmente achava que era um sorriso. – Uau. Zorra já sentiu dores que fazem aquele bastão elétrico parecer um beijo apaixonado. My ron balançou solenemente a cabeça. Devia ter desligado a tecla mudo. Dedos cabeludos e esmalte cor-de-rosa. – Para que todo esse mistério? Pat se recostou e deixou Zorra responder: – Você tem perguntas. Semanas a fio. My ron franziu o cenho. – A quem vocês vão me levar? – Zorra também não pode dizer. – Vai aonde? – perguntou My ron. falou Win.machucar ninguém. Win disse: “Boa ideia. Pelo telefone. My ron disse: – O destino do mundo livre depende do silêncio de Zorra? Zorra ajustou os lábios. Nenhum de nós quer isso. – My ron vai com Pat. .” – Zorra garante isso – disse ela. Esse encontro é a única forma de satisfazer a todos. – Você zomba de Zorra. – Por que não podemos conversar aqui? – Impossível. Mas Zorra sabe que seu amigo vai segui-lo aonde quer que vá. nós também. Do celular de My ron surgiu a voz de Win. Meu Deus. Zorra já foi torturada. – Com a própria vida. Isso vai acabar em conflito. – Como? – perguntou My ron. gostosão. – Você e Zorra vão sentar e tomar um drinque.

– Ainda não posso garantir a segurança dele – disse Win. Zorra concordou. – Ei – contestou Pat –. tenho a opção de matar você se ele não retornar. Os dois se levantaram para sair. – Ponham as mãos em cima da mesa. My ron sabia que Win não os chamaria de volta e murmurou: – Preciso saber o que está acontecendo. Win deu de ombros. demonstrando que havia algo ali e não era lucidez. – Então Zorra e Pat dão adieu. sentou-se e deixou as mãos sob a mesa. – Sim. por favor. se não se importa. Pat dirige. – Queiram ter a bondade – disse a Zorra e Pat. Pat e My ron se levantaram para partir. Mas. Foi direto até eles. – Então não tem conversa. Zorra balançou a cabeça: – Impossível. Win apenas o olhou por um instante e depois se voltou para Zorra. Zorra sentou de novo. – My ron deixa o celular ligado – falou Win. – É justo. – Pat? – chamou Win. que mantinha os seus nele. você tem minha palavra. Win mata Zorra. – Srta. Zorra deu de ombros. My ron levantou a cabeça. – É um erro. Pat não está nem aí para você. Eles obedeceram. – Claro. novamente com aquele brilho no olho supermaquiado.– Zorra fica aqui com Win – continuou Zorra. – Quero escutar cada palavra. – My ron vai armado. – Zorra vai ficar desarmada. – Que garantia! – exclamou My ron. Win manteve a arma apontada para ele. Embaixo da mesa. Zorra. – Já pensou em trabalhar como mecânico? Win entrou nesse momento no bar. Se você não retornar incólume. – Concordamos. Win mantinha os olhos em Zorra. tire os saltos. Ninguém piscava. gostosão. A voz de Win saiu tão casual quanto se anunciasse a previsão do tempo: . My ron o mantém sob a mira. mas a decisão é sua. Pat se deteve. pelo que vejo.

Vou oferecer recompensa. E. De qualquer forma. Vou decidir no momento certo. posso matar ou não Zorra. Procurar. dinheiro e tempo para encontrar você. Vou encontrá-lo. quando conseguir. Não vou dormir. não vou matar você. Está entendendo? Pat engoliu em seco e fez que sim com a cabeça.– Se My ron não retornar. . – Vão – ordenou Win. vou usar toda a minha considerável influência.

Quem sabe o som de uma gaivota. – Coloque. Pat o revistou. Pat dirigia. Pat suspirou. Está horrível aqui atrás. Isso também sempre acontecia na TV. mas ele suportou. Pista: ainda estava em Manhattan. Tentou prestar atenção em curvas e distâncias. – Alguém já disse que você é engraçado. O cara ouvia o apito de um navio e sabia que estava no Píer 12 ou algo parecido. O que pensava que era. mas logo percebeu que era inútil. mas obedeceu. elas tossem. Que coisa útil. Tentou se lembrar da última vez que vira . uma bússola humana? O percurso durou talvez dez minutos. Seus quase 2 metros não couberam muito bem. – O que você disse? – Da próxima vez que fizer isso. E tem as que fazem piadas idiotas. My ron tentou outra vez distinguir algum barulho. Preto combina com tudo. Nada. algumas pessoas correm. E quando você ouve uma. buscando sons que lhe dessem uma pista do caminho que faziam. começam a falar sem parar. – Pode sentar – disse ele. Que generoso. carros passando ou sendo ultrapassados. Outras se escondem. Depois entregou um capuz preto a My ron: – Enfie na cabeça. Pat o ajudou a sair do carro e o levou pelo braço. rádios em alto volume. – Tem certeza de que combina com minha roupa? Quero estar com a melhor aparência possível para conhecer o Poderoso Chefão. Quando estão nervosas. Pat sentou no banco do motorista e ligou o carro. Porém tudo o que My ron escutava eram ruídos de tráfego: uma buzinada ocasional. as gaivotas não chiam. Depois deite no banco de trás. procure passar o aspirador antes. Não levante a cabeça. My ron fez uma careta. e todo mundo corria lá para resgatá-lo. Ele revirou os olhos. My ron tentava se concentrar. – Uma sugestão rápida. – Mas não tire o capuz. ficam em silêncio. porém. Pat desligou o motor. Tempo insuficiente para deixar a cidade. – Diga que é brincadeira. Em Nova York. é mais provável que esteja perto de alguma caçamba de lixo do que de um píer. esse tipo de coisa.25 Q U A N D O CH E G A RA M N O CA RRO . Isso sempre funcionava na TV. Bolitar? – Você está certo.

na verdade.uma gaivota em Nova York. Sussurros. – O quê? . Os dois caminharam – para onde. Alguém parou bem em frente a ele. Filho da Sra. My ron não fazia ideia. Ouviu as passadas de Pat. Aproximando-se de My ron. – A mãe corajosa de One Day at a Time – disse My ron. – Ele está segurando o que parece uma espingarda serrada a 15 centímetros da minha cara – falou para que o ouvissem pelo celular. Uma espécie de discussão. O cabelo era oleoso. – Oi. Não havia. O lugar cheirava a mofo. a recordação foi instantânea. O desaparecido Billy Lee Palms. a um palmo do rosto de My ron. My ron – disse uma voz. My ron sentou. mas Pat o segurou. Billy Lee. empurrando-o com suavidade para baixo. porém. Encontrar um local em Manhattan com calçamento irregular. Ex-melhor amigo de Clu Haid. mas a luz de uma lâmpada nua se infiltrava pelo pano. mas vozes eram como marcas. Um corpo ficou entre ele e a lâmpada nua. My ron não era bom com nomes e rostos. Um dilúvio de lembranças desabou sobre ele. vapor e suor seco – como uma sauna abandonada. Outra pista. os olhos enterrados mais fundo que um tesouro de pirata. Ex-colega de fraternidade e astro do beisebol na Duke. – Sente-se – disse Pat. Billy Lee segurava o que parecia uma espingarda de cano serrado. Pat pôs a mão no ombro de My ron. uma vibração nasalada quase maníaca. Meu Deus. agarrou a parte de cima do capuz e o puxou. Havia um tremor nela. Mais um passo. – De jeito nenhum. uma pele pálida e solta se agarrava a feições moles. As maçãs do rosto salientes pareciam maleáveis. My ron ergueu a mão. Pensamento interessante. Billy Lee estava parado na sua frente. Aquele som era familiar. já estava com o cara praticamente encurralado! Passaram pelo que pareciam ser degraus e entraram num recinto aquecido e ligeiramente mais sufocante que uma floresta em Mianmar. Passos outra vez. Era difícil respirar com o capuz. Billy Lee deu uma risadinha. deixando My ron em escuridão total. Tropeçou numa calçada irregular. – Posso tirar o capuz agora? – perguntou My ron. Era como se o rapaz bonito tivesse sido raptado e substituído por uma cópia mais gorda. nenhuma dúvida. A maior parte de Pat. MinhaVida-É-um-Papel-de-Parede. Havia o retrato de uma na placa de sua loja preferida de rosquinhas. My ron ainda estava vendado. para ser exato. a pele de um cinza de rua após uma pancada de chuva. depois vozes baixas. despenteado e sujo como o de um apresentador da MTV. Ao menos achou que se tratava do velho amigo. Depois de todos aqueles anos. – Olá.

– Vá para o inferno. Conseguiu ver bem os olhos fundos. – Win? A voz do outro lado soou clara. Billy Lee. My ron balançou a cabeça. – Definitivamente. – O que foi? – perguntou Billy Lee. Billy Lee abriu as mãos o máximo que pôde. – Não queremos o cara procurando por nós. Billy Lee o levou ao ouvido. – Talvez você deva ligar de novo para ele – disse Pat. – Me dê o telefone. – Bingo. querido! My ron balançou a cabeça. desta vez num grito agudo e . e My ron sentiu o medo crescendo no peito. My ron examinou as mangas curtas e viu a trilha das picadas.– Ontem à noite. seria necessário evacuar a Califórnia. – Amarre-o na cadeira. Não quero que tente nenhuma burrice antes de matá-lo. Tem uma corda bem atrás dela. My ron hesitou. Billy Lee. Pat se aproximou de My ron. Ele deu outra risadinha. Depois estendeu a mão livre. se fosse a falha de San Andreas. Pat começou a passar a corda em torno do peito de My ron. Entregou-lhe o telefone. O corpo de Billy Lee era um só tremor. – Mas não tinha ideia de quanto. Foi você que me acertou com o bastão elétrico. isolando-os do mundo lá fora. – O quê? – questionou Pat. Billy Lee ficou de olho nele. e não conseguiam focar em nada. – Amarre-o na cadeira. – E Zorra ainda está lá… – Não se preocupe com isso! – berrou ele. Sua voz tremia tanto que. O antigo colega de faculdade parecia o mais louco e imprevisível dos animais: um viciado encurralado. Billy Lee deu outra risadinha e apontou a espingarda de novo na direção de My ron. Estavam úmidos e vermelhos. Depois desligou o telefone. mas não por muito tempo. – Sim. – Amarrá-lo agora? Pareço um escoteiro por um acaso? – É só passar em volta dele e dar um nó. – Eu sabia que você estava na pior – respondeu My ron. entende o que quero dizer? – Não se preocupe com isso – replicou Billy Lee. – Não acho uma boa ideia perturbar Win – disse My ron. Billy Lee enfiou o telefone no bolso do antigo colega e olhou para Pat. você fica melhor de maquiagem. – Ele não me assusta.

Depois ergueu o cabo da espingarda e o baixou em direção à cabeça de My ron. Seus olhos se encherem de lágrimas. como certas pessoas observam uma formiga ferida antes de esmagá-la. estudando-a por um instante. dou um tiro nessa sua cara. mas levou tempo de mais. My ron mal ouviu a risadinha. My ron foi agarrado pelos ombros e Billy Lee pôs a cadeira de novo em pé. justo no local onde Zorra havia feito seu Z na noite anterior. franziu o cenho e abaixou a arma. Billy Lee deu um golpe violento com o cabo da espingarda. A espingarda estava na altura dos olhos de My ron. que retesou o corpo. sentindo um espasmo no pulmão. Mas Billy Lee pulou subitamente para trás. Quando se tem uma arma tão perto . O punho de Billy Lee atingiu a barriga de My ron. – Você está tentando me matar? – perguntou Billy Lee. My ron tentou rolar. – Hum. Pat apertou a corda e deu um nó. Um golpe direto esmagaria seu crânio. Ninguém falou. idiota. – Seu desgraçado! – falou ele. Ele se dobrou. A cabeça começou a rodar. De repente. A cadeira virou e sua cabeça bateu contra o chão de madeira. Billy Lee sorriu e ergueu a espingarda bem alto. impedir que ele tentasse qualquer burrice para que Billy Lee tivesse bastante tempo para estourar seus miolos. Pergunta estranha. em vão. – Não – respondeu My ron. estendendo o momento. My ron viu o cabo aproximando-se. Conseguiu apenas inclinar a cadeira para trás com a ponta dos pés. mas não havia como escapar. Não muito bem-feito. Os pontos se romperam e o sangue inundou sua camisa. sem ar. – Se eu quiser. preparando-se para um movimento antes de a corda ser amarrada. Ai.desagradável. Billy Lee fungou e limpou o rosto na manga. O golpe apenas chegou a ferir seu o couro cabeludo. – Billy Lee! – gritou Pat. My ron tentava respirar. – Não minta para mim. A espingarda se aproximou do rosto de My ron. O crânio formigou. – Por que está tentando me matar? My ron tentou responder. Billy Lee estava levantando mais uma vez o cabo da espingarda. Billy Lee deu mais uma risadinha. enquanto via My ron lutar. como se percebesse pela primeira vez que My ron estava ali. Assim vou acabar quebrando minha arma. entendeu? Desta vez. pura necessidade de oxigênio. mas serviria para o propósito – ou seja. Cristo… Ele olhou para cima.

My ron? – Você é que está dizendo. – Conversa. não? Aquela coisa de dirigir bêbado em Massachusetts. Calma. My ron. não foi? Do meu showzinho. Os orifícios do cano duplo crescem. Você aí com essa história de que quer me ajudar. – Me diga o que está acontecendo. O sorriso. My ron se mantinha imóvel. era um cara legal. Mantenha a tranquilidade na voz. Enquanto fui uma estrela no colégio. Não somos amigos. E aquela briga no bar? Também foi por causa dele.do rosto. vê e ouve. – Estou tentando deixar as coisas claras. Não o incite. como um cão ouvindo um ruído novo. seu merda! – Eu gostava de você. saíamos juntos. já não era mais bonitinho e engraçado. Você veio correndo por causa de Clu. certo? Mas quando fracassei no profissional. Mas nunca fomos amigos de verdade. My ron? – Porque você não me convidou para seu aniversário na pista de patinação? – Não fode com a minha paciência. Billy Lee. Estou mentindo. Pat tentou outra vez: – Billy Lee… My ron sentiu o suor brotar nas axilas. Como se fossem alunos do terceiro ano conversando no intervalo das aulas. My ron tentava manter os olhos fixos nos dele. Você nunca gostou de mim. – Por que não éramos amigos. Billy Lee. Tudo girava em torno dele. Nunca gostou de mim. essas coisas. – Você quer me ajudar? – Sim. Nunca fomos amigos. – Nunca fomos amigos. Aquilo o fez rir. seu babaca. a tendência é bloquear todo o resto. me tornei patético. Quero ajudar. – A minha cara não. Billy Lee inclinou de repente a cabeça. – Mas depois de um tempo você cansou. Não foi para livrar a minha cara. fomos? Éramos só colegas de fraternidade. Isso é puro papo furado. Era um cara engraçado. – E Clu? . – Ajudei a livrar a sua cara algumas vezes. A de Clu. a espingarda ainda tremendo em sua mão. – Este é um péssimo momento para lembrar o passado. My ron. Billy Lee deu um sorriso de escárnio. Pura conversa. digamos. aproximam-se e envolvem a pessoa até aquela boca negra absorver tudo o que ela é. De repente.

tocar a barra do manto. – É? – Baixe essa arma. – Você o matou. astucioso e bem longe da sanidade. Porque ele jogava beisebol melhor que eu. Talvez até mais que eu. – Era meu melhor amigo! – Muito tempo atrás. é possível enxergar as vidas alternativas com muita clareza. diferente da grande maioria dos mortais. acaba se transformando num deus. embora totalmente irrelevantes. se você pensar bem.– Que tem ele? – Você era amigo dele. se drogava e trepava com um monte de garotas. – Vou dizer por que você era amigo de Clu. a mansão e o dinheiro. Ele tinha tudo. – O que você quer dizer. Billy Lee. E você sabia disso. As pessoas querem estar perto e ouvir o que a pessoa tem a dizer. – Que os atletas profissionais são mais bem tratados que o resto de nós? Que descoberta incrível. Só porque o cara sabe lançar aquele objeto de couro com grande velocidade ou colocar a bola laranja num círculo metálico. Por que você era amigo dele? – Isso é bobagem. – Por quê? Clu também vivia em festas. eram pelo menos em parte verdadeiras. – Sim. no entanto. Foi como se Billy Lee tivesse levado um tapa na cara. Billy Lee? – perguntou My ron. Você vai à televisão falar sobre a vida. Poderia tentar deslizar para fora da corda – não estava muito apertada –. Se. do emprego servil. Ele ficava bêbado. do anonimato. caiu mal em My ron. em vez de miséria. Provavelmente porque as palavras de Billy Lee. mas levaria . Universos alternativos – vidas e destinos totalmente diversos – estão bem aí. Estava sempre se metendo em encrenca. Uma loucura. Tinha futuro. mas era tudo muito engraçado porque ele era profissional. porém. Era a única diferença entre Clu Haid e Billy Lee Palms. E o abandonou. O sorriso de Billy Lee era largo. chegam a fama. Quando alguém tem a habilidade de lançar a bola com um pouco mais de rapidez que o cara ao lado. Clu era encantador e interessante só porque era atleta profissional. separados por uma fina membrana. a velocidade de seu arremesso diminuísse alguns quilômetros por hora. Billy Lee? – perguntou My ron. todavia. Chovem garotas. Clu acabaria como Billy Lee. do apartamento apertado. A revelação. – O quê? – Você tinha inveja de Clu. No caso dos atletas. se a rotação do braço fosse um pouco desalinhada ou se a posição dos dedos não permitisse uma boa trajetória nos lançamentos. Você é alguém especial. Billy Lee. My ron considerou de novo a possibilidade de fazer um movimento. Ou balançar um taco no ângulo perfeito.

Aí você pensou: por que não diminuir as perdas? – Isso não faz o menor sentido – disse My ron. – Isso é loucura. – Tenho que matar você. ele estava acabado. cortou o rosto de Billy Lee. Silêncio. Usou Clu para começar seu negócio. Não havia a menor chance de fazê-lo desistir. Não tenho medo dele. tranquila. Ou talvez você mesmo tenha feito a coisa. Nada. O cano da arma se moveu. certo? O sangue no seu carro? – Por que eu mataria Clu? – Você usa as pessoas. Nenhuma chance de fazer um movimento. As lágrimas começaram a correr pelo rosto de Billy Lee. Ponto final. – Tchau. – Win – disse. Era algo em que não valia a pena pensar. A calmaria passou. mesmo que fizesse. olhou fixo para My ron. E agora quer me matar. A voz sumiu. – Talvez você tenha mandado sua secretária fazer o trabalho por você. – Do que você está falando? – Você matou Clu. mas algo dentro dele havia se esgotado. os ombros caídos como se carregassem algo pesado demais. sem se sacudir ou se contorcer. Ou talvez Win o tenha matado. O barman respirava com dificuldade. depois que caiu no antidoping. – Basta – disse ele. E My ron percebeu que estava numa grande encrenca. . O pânico contraiu as entranhas de My ron. My ron examinou todas as suas opções e não gostou de nenhuma. – E.tempo e ainda estava muito longe de Billy Lee. – Não estou falando com você – rebateu My ron. por que eu iria querer matar você? – Porque posso falar também. A arma foi encontrada no seu escritório. Billy Lee estava a segundos de matá-lo. – Falar o quê? – Sobre como você era prestativo. My ron. É em defesa própria. Billy Lee tentou dar outra risadinha. E ela foi pega. A mistura de drogas e paranoia retirara sua capacidade de pensar. My ron testou as cordas. Esse cara sempre foi seu cãozinho de estimação. Mas. algo gelado circulava em suas veias. A voz ficou suave de repente. My ron. – Já disse a você. Perguntou-se como Win estaria reagindo por terem lhe privado de tudo aquilo e estremeceu. Estava preso. Ele parou de tremer. Uma linha engraçada. Apesar do calor. olhando para Pat.

Pat foi até Billy Lee. Billy Lee desapareceu como um pato no tiro ao alvo. Pouco mais de 2 metros os separavam. Tudo havia terminado. e encostou o cano da arma em sua têmpora. esse cara. Outro grito. Ou ao menos era o que pensava. Os joelhos de My ron estavam no chão agora. Tentou se livrar das cordas. já soube de histórias… – Você não está entendendo. A bala atingiu o peito de Pat. pareceu surpreso. O coração de My ron batia como as asas de uma águia engaiolada. Tarde demais. que contraiu os músculos. Veio o disparo. Win. escondia-se ainda um pouco dos reflexos do antigo atleta. Billy Lee se sobressaltou e deu meia-volta. – Vamos nos acalmar um instante. Deslizou para a frente. – Pat! – gritou Billy Lee. O suficiente. Billy Lee deu um passo na direção de My ron. Sem sucesso. tudo bem? – Vou matá-lo. A cabeça se curvou para trás com o impacto. Estava quase solto. Billy Lee se lamentava sobre um Pat imóvel. cara. puxando sua cabeça para trás. – Pat! – gritou outra vez Billy Lee. Mas. caindo de joelhos e arrastando-se até o corpo imóvel. Você simplesmente não consegue entender. A primeira bala acertou a mão de Billy Lee. Billy Lee levantou a espingarda. – Billy Lee. você vai estar numa situação pior que a minha. Pôs o queixo mais para cima e a corda começou a passar. por um breve instante. a coluna arqueada num ângulo que jamais imaginara possível. depois tombou. O sangue jorrou. quase estrangulando-o. dentro do corpo carcomido do viciado. A terceira veio tão rápido que ele nem havia chegado ao chão. Nenhuma chance. My ron ainda estava preso pela corda. Fez um movimento. A segunda atingiu seu joelho. Ele girou e disparou. Os dois se encararam. A corda estava mais apertada do que imaginara. contorcendo-se freneticamente. Estou aqui para ajudar.– Assim que ele apertar esse gatilho. A corda ficou enganchada no queixo de My ron. My ron olhou para o cano. que gritou de dor e deixou a espingarda cair. viu os olhos do inimigo e a distância. – Não faça isso! Pat estava perto o bastante agora. Vamos pensar melhor. as pernas se abriram no ar. Pat. que. o corpo torcido. – Depois que eu matá-lo. – Então me explique. buscando as pernas de Billy Lee. . mas conseguiu algum progresso. Quanto tempo ele teria? Quanto tempo até Billy Lee recuperar a razão? Impossível dizer.

Sentia isso. O único som que ouvia era o da própria respiração. Abriu-a e começou a correr. Nada. – Win? – gritou. Havia alguém nas sombras. Para a esquerda. My ron voltou para o canto. O medo tomou conta dele. A figura pareceu pairar e depois desapareceu na escuridão. Uma silhueta. Por todos os lados. Não havia o menor movimento nos corpos de Pat e Billy Lee. tinha certeza. . – Win? Nada. Sangue. My ron se virou e encontrou a porta. My ron se livrou do restante da corda e rolou para um canto. Para a direita.O lugar ficou em silêncio. Atravessou o cômodo e olhou por uma janela. Eles estavam mortos. Alguém o observava. My ron se pôs de pé. Nenhuma resposta.

– Ou seja. – Estarei aí em três minutos – garantiu Win. – Chega. – O quê? – Por telefone. próximo à West Side Highway. – Estão mortos – disse My ron. era como descobrir uma sarça ardente – e discou o número do celular de Win. My ron pensou no assunto. Encontrou um telefone público funcionando – o que. – Mas conseguiríamos esclarecer a história – observou My ron. – Tenho que chamar a polícia. em algum momento. talvez. Parou. apertando a ferida no abdome. – Por quê? – Não vão acreditar na sua história comovente – disse Win –. Chega de discussão. – Sim. que atendeu ao primeiro toque. Alguns sem-teto assistiram e aplaudiram. encostou-se numa parede e pôs tudo para fora. – Os dois. My ron obedeceu. Mas iria levar um bom tempo.26 T RÊ S Q U A RT E I RÕ E S D E P O I S. que vão contar que me viram. – E daí? – E daí que a polícia vai interrogar essas pessoas. E L E V O M I T O U . naquela parte de Manhattan. – Imprudência. Win tinha razão. Pegou o celular. – Explique. My ron deu um aceno. mas ele havia sido destruído na confusão. e os policiais vão conseguir me inserir na cena. – Articule. especialmente a parte do salvador misterioso. agradecendo aos fãs. na antiga região dos matadouros. vão pensar que foi você quem matou? – Precisamente. – Vejo que você entendeu. tentando estancar o sangue. Ia devagar. Estarei aí em três minutos. – Tempo que não temos. – Mas há várias testemunhas que me viram sair do bar com Pat. Bem-vindo a Nova York. – E Zorra? O que você fez com ele? . Encontrou uma placa com nome da rua e viu que estava a apenas dez quarteirões do Falso Motoqueiro.

– Que foi uma má escolha. – Assim como foi minha escolha ir sozinho com Pat. era como os chamava. Gostava de usá-los para certas atividades noturnas. – Cresça – rebateu Win. Sr. E por que. Moleza. – Você matou Zorra? Win sorriu. Carros descartáveis. My ron olhou para dentro e viu Win na direção. Palms quereria matá-lo? – Tudo isso pode ser explicado. – Até parece que você não me conhece. dando um aperto nele? Ou torturando? – Sim. – Não faço isso. o senhor não chamou a polícia? Por que ligou para seu amigo antes de contatar as autoridades? O senhor não é suspeito de ajudar a Srta. – Você tinha que ver o outro cara – disse My ron. claro. Nem queira saber. – Falar? – Sim. Havia outras formas. Má notícia. – Ainda posso me apresentar. – Sim. My ron pôs o telefone no gancho. Não estava a fim de ficar com medo outra vez aquela noite. Bolitar. Win deu de ombros. – É uma simples análise de custo e benefício: ao causar um desconforto temporário a um malfeitor. muito usados. – Win avaliou o amigo: – Por falar nisso. Ele os encarou até que desistissem. Entrou e sentou a seu lado. – Quer dizer. – A escolha é sua. Win tinha uma coleção deles – todos velhos. Um carro chegou após os três minutos prometidos. – Sim. Um novo grupo de moradores de rua olhava para ele como se fosse um sanduíche sem dono. A porta da frente do carona se abriu. – Sim. o que estava exatamente fazendo naquele bar? Por que o Sr. você está com uma aparência horrível. – Que outras formas? – Poderíamos ter agarrado Pat em outro momento e tê-lo feito falar. Ficaram sabendo pelo rádio. – O quê? – A polícia já chegou à cena do crime.Mas Win já desligara. você diminui muito o risco de ser morto. impossíveis de rastrear. . – A sorte está lançada – falou Win. Você ficou muito vulnerável. Um Chevrolet antigo. Esperanza Diaz no assassinato do velho amigo de Billy Lee Palms? Para início de conversa.

Percebi que ela não tinha esse poder. Era uma amostra grátis de antisséptico bucal. – E você tem sido de uma incompetência constante. Estava preocupada com você. Achei melhor você vê-la. O rosto continuava bronzeado das três semanas que passara com Terese. enxaguou a boca. My ron concordou. – Por quê? – Em geral. – Estou surpreso – disse My ron. Você esteve aqui a noite inteira. Zorra e Thrill estavam conversando como. Olhou-se no espelho. Eles entraram no Falso Motoqueiro. não conheço. Thrill vai confirmar isso – sorriu ele. Você o matou? Win parou em frente ao Falso Motoqueiro e estacionou. – Razão dois – disse Win. My ron foi ao banheiro. balançando a cabeça. – Ela. Quando chegaram à mesa. Sempre se podia contar com Win. – Por que voltamos aqui? – Por duas razões. – Assim como Zorra. – Talvez. Win colocou a mão de forma tranquilizadora no braço de My ron. – Você disse que havia duas razões para eu voltar aqui. Primeira: você nunca saiu daqui. – Você é uma surpresa constante – disse My ron. jogou água no rosto e verificou o ferimento. Encontrou-o na porta do banheiro. – Você não o matou? – Não a matei. Doía. – Você ainda não está pronto. Só foi se despedir de Pat na porta. Você teve sorte. quando você ameaça… – Nunca ameacei Zorra. Mas para quê? Você acha que Zorra deveria sofrer porque um psicótico drogado como Billy Lee Palms desligou um telefone? Eu acho que não. – Não? – Sou capaz de jurar. se preferir. Você não a matou? – Claro que não. – Agora já sabe que tinha. Esperanza tem razão quando diz isso. – Nancy … ou Thrill. Win. Foi por isso que disse para você não ir. – Tome isto – disse Win. Disse que poderia matar Zorra. Zorra prefere ser chamada de ela. Win parou. Zorra disse que daria a vida para garantir sua segurança. Eles saíram do carro.– Não. passando-lhe um pequeno vidro – Por favor. Ameacei Pat. mas Win estava certo: sua aparência era horrível. – Dê uma olhada lá dentro. bem. . – Não achei que tivesse escolha.

– Você conheceu Clu Haid? – Não. – Zorra já contou a Win tudo o que sabe. Ele retribuiu o beijo. My ron pulou para a cadeira ao lado de Thrill. Gosta de saber o mínimo possível. Que cara! Quando pararam para respirar um pouco. ela segurou seu rosto com as duas mãos e o beijou com força. – E esse alguém seria eu? – Parece que sim. Acredita? Zorra Avrahaim ter que trabalhar como mera segurança? – É. My ron não conseguia entender aquilo. – É – falou My ron. Andava bem de salto alto. – Mas você trabalhava para Pat? Ela balançou a cabeça. que é muito pouco. E qual era o negócio de Pat? – Um pouco de cada coisa. Achava que tinha alguém tentando matá-lo.duas mulheres solteiras num bar. – Você está bem? – Vou ficar. – Você também me deixou muito assustada. – Zorra sente muito. – Sabe por que Billy Lee estava se escondendo? – Ele andava aterrorizado. Zorra não passa de uma linda assassina de aluguel. – Zorra sente pelos dois terem morrido – disse ela. Thrill disse: – Você sabe como fazer uma garota se divertir. Zorra a pegou e se levantou da mesa. Nem todas conseguem. Mas principalmente drogas. os tempos estão difíceis. o galanteador. – Obrigada por não matar Zorra. – Mas podia ser mentira. – Zorra deu de ombros. Ela examinou-lhe o rosto. sorrindo. Sem dizer nada. Win e seu antisséptico bucal. Ela beijou Win no rosto. gostosão. . gostosão – falou ela. – Zorra era segurança e guarda-costas. – Zorra gostaria de algumas horas sozinha com eles antes. mas a peruca não. – Não era minha intenção. – Vou levá-la à porta. – E qual era a ligação entre Billy Lee e ele? – Billy Lee dizia que era seu tio. Fez mais algumas perguntas. porém não havia mais o que descobrir. madame – Win. – Idem. Ele se curvou ligeiramente: – Um prazer. – Uma pena. – Não foi culpa sua – retrucou ele. Win ofereceu a mão.

– Melhor eu ir embora. . – Entendi. só baixou os olhos. Ela se afastou. vai? – Você é bonita. Começo imediatamente a avaliar todas essas possibilidades. – Deixo você em casa. certo? – Não. Boa noite. – Não precisa. – Gostaria. My ron ficou de pé e se aproximou Win. engraçada… – E vou receber o grande beijo de despedida. Ele não disse nada. inteligente. Nancy. – Você não vai me ligar. em quintal com churrasqueira. Ela ainda olhava para ele. Quando começo a sair com alguém. – O problema não é você. – Obrigado. – Não. Ao menos acho que entendi – retrucou ela. numa cesta de basquete enferrujada sobre a porta da garagem. certo? Ele tentou sorrir. – Você garantiu que ela vá chegar em casa com segurança? – perguntou My ron. Thrill começou a brincar com o canudo do drinque. já vou pensando em ter filho. – É o fim. – Não posso fazer nada. como você é estranho! Difícil negar. Ela o encarou. Não me diga. – Posso fazer uma observação? – perguntou ele. – O quê? – Não funciono assim – replicou ele. – Quem não é? – Acabo de sair de um relacionamento longo… – Quem falou em relacionamento? Poderíamos só sair. que original. Os dois observaramna sair pela porta. – Meu Deus. My ron. Depois Win pôs a mão no ombro do amigo. não? – disse ela. – Acho que preciso. – Esse é o problema. Silêncio. É você. – E você não consegue me imaginar em nenhum desses cenários? – Exatamente o contrário – respondeu ele. pego um táxi. mexendo-se na cadeira. – Ah. – Você me conhece tão bem. Win assentiu: – Já chamei um táxi para ela.– Uma parte de mim quer convidar você para ir a minha casa. – Sou mercadoria danificada.

ele volta para o bis depois que os fãs enlouquecidos sacodem suas canetas Bic e pedem “Mais uma!”. Olhou para o relógio. E por que ficava pensando nela. Riverton é dono de metade dos livros da cidade. A Riverton Press. My ron olhou para a tela e pensou em Terese sozinha naquela ilha. My ron sorvia seu achocolatado e Win um uísque. Win zapeava os canais. – São pretas? – Não sei. Adivinha quem vai patrociná-lo? – A Budweiser? – Quase – respondeu Win.– Fale. – Após todas essas aquisições no mercado editorial. Uma apresentadora com o cabelo pessimamente tingido a substituía. – Isso é tão 1977. – Você é um débil mental. Costumava ser o horário de seu programa. Provavelmente isso não significa nada. – Reconhece que eles o tiraram da obscuridade. – Não é? Mas fiz uma pesquisa. antigo dono do New York Yankees? – O próprio. Sawy er vai deixar os Yankees. – Como um astro do rock? Win assentiu. My ron assoviou. agora é hora do querido Sawy er tomar as rédeas da própria vida e motivar mais times seguidores. Vai começar a excursionar em breve. – Igualzinho. em meio à decoração Luís Não-Sei-Quanto. – E o que Sawy er Wells lhe contou? – Não muito. acomodaram-se com suas bebidas favoritas. Ele se perguntou quando e se Terese voltaria à TV. em Upper West Side. infelizmente. sabia? – Não. processou a informação e não chegou a nenhuma conclusão. – Sua nova editora. – Riverton de Vincent Riverton. Ele fechou novamente o ferimento. até nas camisetas caríssimas. . oh. Quando chegaram ao apartamento de Win no Dakota. Mas. Mas. enquanto demonstrava sua reprovação com breves ruídos. Blá-blá-blá. Win desligou a TV. Ele tentou ajudá-lo. Clu era dependente de drogas. Eles passaram no prédio do médico. ao final de cada apresentação. – Quer mais? My ron fez que não com a cabeça. Parou na CNN.

acabo sempre me vendo envolvido nessa história. – Charme tão poderoso – continuou ele – que pode fazer uma mulher não gostar mais de homem. – Sei – disse Win. – Com Sally Li? My ron assentiu. – É o que parece. – E se orgulha disso? My ron deu um gole generoso. mas o achocolatado já não lhe dava mais a mesma satisfação. mas deve voltar ao necrotério amanhã. na Universidade Reston. – Eu não transo no primeiro encontro. – De alguma forma – ponderou My ron –. Com direito a acompanhante. – Mas assim que eu começar a usar meu charme… – Tudo pode acontecer. ele soltou alguma informação importante? – Não – respondeu My ron. – Mas não entendo por quê. é – respondeu My ron. Sawy er vai dar um seminário amanhã no auditório Cagemore. – Também não entendo como Billy Lee se encaixa nisso: no assassinato de Clu. na expulsão de Clu do time. Talvez estivesse ficando velho. na assinatura de contrato com FJ. – Então estava delirando? Silêncio. . – Vou tentar descobrir alguma coisa sobre a autópsia de Clu amanhã. – Talvez você tenha que usar seu charme – sugeriu Win. embora detestasse pedir isso na frente de outros homens. – Hum. – Antes do nosso velho camarada Billy Lee morrer.– Provavelmente – concordou Win. – Ela é suscetível a uma persuasão heterossexual? – No momento. – Você devia colocar isso no seu currículo – sugeriu Win. – Se você quiser fazer mais perguntas. – São os mistérios da vida. – Ele era um drogado destruído. – Só que achava que eu tinha matado Clu e quisesse matá-lo depois. girando a taça com a mão espalmada sob ela. – Hum o quê? – Mais uma vez seu nome aparece. em tudo. – Você acha que ela vai conversar com você? – Não sei. Ele me convidou. – Ela estava no tribunal. Estava com vontade de tomar um latte espumoso gelado extragrande com um pouco de baunilha. no caso de Esperanza com Bonnie.

Pensou naquela história de FJ tê-lo visto no cemitério antes de My ron ir para o Caribe. Bom conselho. My ron rastejou para debaixo das cobertas e mergulhou no mundo dos sonhos. Foi várias horas depois – após os ciclos de sono leve e pesado. quando começava a emergir para o estado de consciência e sua atividade cerebral se tornava caótica – que lhe ocorreu.Win pousou a taça e se levantou: – Sugiro dormirmos um pouco para refrescar a cabeça. Pensou outra vez em FJ e por que ele teria mandado segui-lo. . Um grande clique soou em sua cabeça.

não? – Isso. – Não posso prometer… – Apenas diga isso a ele. Ache não podia ser incomodado. em Nova Jersey. Tem uma loja no subsolo em frente à Bed. Observadores mais objetivos talvez sugerissem que foi Brenda. Ela surgiu e mudou um bocado de coisas. lotado. mesa e banho num shopping de moda? – Devem ser peças de cama. Bath and Bey ond. Ele entrou no carro alugado e dirigiu para Paramus. ainda tem lugar para mais um shopping. um romance de idas e vindas. respondeu a secretária. E agora haviam terminado. os dois tinham se apaixonado. no entanto.27 E L E L I G O U PA RA FJ À S N O V E da manhã. porque não está no escritório. tripas e outros restos humanos com uma simples mangueira de jardim. My ron falou que era urgente. Sally desligou. lembrou-lhe My ron. Usava um jaleco verde de hospital e sapato de borracha – calçado favorito de muitos legistas porque dava para limpar sangue. Adam Culver. no cruzamento com a Ridgewood Avenue. My ron. E o que isso tem a ver com Sally Li? O pai de Jessica. Lema: “Nada melhor do que comércio em excesso. Uma pena. A secretária disse que o Sr. – E tem que ser hoje. durante dez anos ou mais. – Você conhece o Fashion Center? – É um shopping na Rota 17. Mas. havia sido o chefe dos médicos-legistas do . – Tem Bed. Ele não pode ser incomodado. Tudo bem. mas ele não se encontrava no escritório. My ron consultou o relógio. – Diga que quero vê-lo – falou ele. o que lhe dava tempo para tentar usar seu charme com Sally Li. – Aqui não – respondeu ela. você acabou de dizer que ele não podia ser incomodado. com um cigarro apagado pendurado na boca. Não tinha muita certeza sobre o que de fato acontecera. Sally Li estava sentada num banco. com um idiota mantendo a porta aberta e gritando: “Venham. mesa e banho bem elegantes. venham. não estava muito certo. Me encontre lá daqui a uma hora. Bath and Bey ond no Fashion Center? Uma loja de cama.” A cidade parecia um elevador úmido e quente.” Nada no Fashion Center era exatamente fashion. legista-chefe do Condado de Bergen. um pouco de contexto: My ron e Jessica Culver tiveram. Ia se encontrar com o pai no clube ao meio-dia. Mais recentemente. O shopping era na verdade tão fora de moda que não havia nem adolescentes batendo perna. Ah. Ligou para seu escritório e disse a ela que queria conversar. Ou ele assim achava. Foram morar juntos.

Me pareceram ser de um 38. – Ferimentos? – perguntou ele. Esse não é um shopping onde é proibido fumar. – Então. – Outro shopping onde é proibido fumar? – Ninguém mais usa a palavra proibido – disse Sally. entre os ombros. você é um cara legal. – Achei que ia precisar usar meu charme – disse My ron. a curta distância. Foram dois na cabeça. fazendo um gesto com a mão. Na verdade. a princípio. feminina e o que eles chamam agora de asiático-americana. – Quatro à bala. possivelmente para a Universidade da Califórnia. provavelmente tentariam me despedir. Terceiro. Ela tirou o cigarro da boca e o pôs de volta no maço. Fica mais difícil me demitir. – De uma distância maior? – Sim. certo? My ron hesitou. odeiam parecer que estão oprimindo alguma minoria. sou bonita. pegou outro e colocou entre os lábios. – Pensei que fossem três.Condado de Bergen até ser morto. quem estou enganando? Vá em frente. fazia alguns anos. . mas não sou especialista em balística. qualquer um deles pode ter sido o fatal. Ele se aproximou. – Bem.5 metro. Eu poderia criar confusão e. e uso esse termo sabendo que não tenho colegas. não? – Estive. – Por que correr o risco? – perguntou ele. Volto para o Oeste. não iriam gostar de nos ver juntos. – Dizem livre de. – Então por que você quis me encontrar aqui? Sally suspirou e endireitou as costas. assumira seu posto. Sally Li. Farejou a verdade quando Adam foi morto. Acho que devo isso a você. vou mudar de emprego. A polícia pensava que fossem um só. depois fez que sim com a cabeça. – Primeiro. – Porque você quer saber sobre a autópsia de Clu Haid. – Só se quiser que eu fique nua – replicou ela. É uma zona livre de fumantes. eu diria de no mínimo 1. Havia outro na panturrilha direita e mais um nas costas. o que você quer saber? – Assim? – Assim. Só falta chamarem o fundo do mar de área livre de oxigênio. como alguns têm ambições políticas. – Ah. meus superiores. – Nós também. My ron. Ou o Senado de zona livre de cérebro. – Você esteve na cena do crime. mande bala. Foi assim que My ron a conheceu. Segundo. assistente e amiga íntima.

– Não – respondeu Sally. embora isso possa ter acontecido até uma hora mais tarde. – Como assim? Ela suspirou e se mexeu no banco. My ron se recostou e balançou a cabeça. o assassino dispara dois tiros. – Estou impressionada. sou uma médica-legista. – Certo. – O que você quer dizer com manchas? – Veja. gavetas esvaziadas e sangue por todo lado. a menos que você seja o Homem-Aranha. – Tais como? – O corpo foi movido. – Com todo o prazer. O assassino saca a arma. – Pode ser. – O assassino procurava algo – disse My ron. conversaram ou sei lá o quê. Um atinge a panturrilha. No chão. Está ferido. provavelmente logo depois da morte. Você saberia dizer qual veio primeiro? – Qual o quê? – O tiro na panturrilha ou nas costas. Como se ele tivesse sido arrastado como uma boneca de pano. Me corrija se estiver errado. Deixou por vontade própria que ele ou ela entrasse. aí Clu cai. pensativo. Na parede. – Provavelmente os 200 mil dólares. Clu corre. – Talvez ele tivesse se arrastado. imagino. Depois que estava morto. Mas ele foi arrastado pelo chão. – Isso eu não sei. – A lividez não foi afetada. e alguma coisa deu errado. My ron sentiu o pulso acelerar. Mas havia manchas de sangue em tudo quanto era lugar. – Eles acham que Clu conhecia o assassino. Móveis e estantes derrubadas. – Obrigado. Mas é difícil se arrastar pelas paredes. Mas o lugar estava uma bagunça. Depois de ser atingido na perna e nas costas. Ela levantou as sobrancelhas. o outro as costas. Não interpreto cenas de crime. E o apartamento foi revirado. – Deixe-me ver se entendi a tese da promotoria. Mas moveram o corpo. mas vivo.– Acha que entraram à força? – A polícia disse que não. Dois disparos. – Até certo ponto. – Existem problemas. então o sangue não teve tempo de coagular. – Clu foi morto em outro lugar? – Não. – Não entendo. . O assassino encosta a arma na cabeça dele.

– Niente. Como aquilo tudo se encaixava? O assassino estava enlouquecido atrás do dinheiro. e se dirigiram à saída dez minutos depois. – Como assim não? – Vou simplificar bastante como tudo funciona. Sabe o que encontrei? – Heroína? Ela balançou a cabeça. E apareceu. . Mas por que arrastar o corpo? Por que manchar as paredes de sangue? – Ainda não terminamos – falou Sally. A cabeça de My ron rodava. My ron foi para o carro. My ron piscou. nada. Pode ter sido um erro inocente. Por quê? Nada daquilo fazia sentido. Tentava ordenar. – O quê? – Rien. Certo. uma série de coisas. – Eu. tinha vários sobressalentes espalhados pelo apartamento – ligando para o próprio dono do aparelho. fazia sentido. Eles conversaram mais um pouco. – Também fiz um exame toxicológico no morto. peneirar e processar as informações. My ron franziu a testa. o que significa que ele estava afastado das drogas já fazia um tempo. não. um grande zero. – Clu estava certo. nódulos no pulmão. Ela deu de ombros. do cabelo. dessa vez sobre o passado. Não disse nada sobre manipulação.My ron gelou. por exemplo. – Deve ser algo temporário. Hora de encontrar o pai. certo? A droga devia ter acabado de sair do organismo dele. – Articule – atendeu ele. – Clu não estava sob efeito de nada? – Nem aspirina. Existem outros exames. que mostram um panorama mais recente. – Não. My ron. – Mas ele foi pego num exame antidoping duas semanas atrás. O antidoping foi manipulado. Existem falsos positivos. Clu estava longe das drogas. isso vai aparecer de alguma forma. Coração grande demais. – Está me dizendo que o exame foi manipulado? Sally levantou as duas mãos. danos no fígado. Experimentou o celular novo – Win. Não há nenhuma dúvida de que Clu Haid usou substâncias bem potentes. claro. como se saísse de um transe. Seu corpo tinha sido arrastado após levar quatro tiros. Esses deram negativo. tudo bem? Se um cara usou drogas ou ingeriu álcool. No passado. Estou dizendo que os meus dados refutam esses dados.

– Meu Deus – reagiu Win.
– Sawy er Wells acompanhou o exame.
– Mais meu Deus.
– A que horas ele vai dar a palestra em Reston?
– Às duas.
– Está a fim de ficar motivado?
– Você não faz ideia.

28
O CL U BE .
O Brooklake Country Club, para ser mais exato. Isso mesmo: brook de riacho,
lake de lago, country de campo, embora não tivesse nenhum riacho ou lago nem
se localizasse no campo, era sem sombra de dúvida um clube. Lembranças da
infância pipocavam em imagens fluorescentes enquanto o carro de My ron
percorria a entrada íngreme, as colunas greco-romanas brancas da casa
principal erguendo-se acima das nuvens. Era assim que via aquele lugar. Em
imagens rápidas. Nem sempre agradáveis.
O clube era o símbolo do status de novo-rico, onde os judeus abonados
podiam provar que eram tão espalhafatosos e exclusivos quanto os colegas
cristãos. Mulheres de certa idade, com um bronzeado perpétuo nos largos peitos
sardentos, estavam sentadas em torno da piscina, o cabelo no lugar graças ao
laquê aplicado por falsos cabeleireiros franceses, as mechas parecendo fibras
óticas congeladas que elas nunca deixavam molhar, Deus nos livre. Dormiam,
My ron imaginava, sem descansar a cabeça, temendo que o penteado
estilhaçasse como se fosse um vaso de Murano. Viam-se narizes refeitos,
lipoaspirações e liftings tão radicais que as orelhas quase se tocavam atrás da
cabeça. O efeito era tão bizarramente sexy quanto Yvonne De Carlo em Os
monstros. Eram mulheres lutando contra a idade e aparentemente vencendo, mas
My ron se perguntava se não estavam exagerando um pouco e se o medo de
envelhecer não ficava um pouco óbvio demais nas cicatrizes que se revelavam
sob as lâmpadas fortes do salão de jantar.
Homens e mulheres ficavam separados no clube: elas jogando majongue
animadas e eles mastigando charutos em silêncio, com as mãos cheias de cartas.
As mulheres tinham um horário especial para tomar chá, de modo a não
interferirem nos preciosos momentos de lazer dos chefes de família – ou seja, de
seus maridos. Havia quadras de tênis, mas serviam mais pela moda que pelo
exercício, dando a todos o pretexto de usar moletons em que jamais se via uma
gota de suor, os casais às vezes vestindo conjuntos combinando. Uma
churrasqueira para os homens, um lounge para as mulheres. As tábuas de
carvalho eternizando o nome dos campeões de golfe em letras douradas, o
mesmo jogador, agora falecido, vencendo sete anos seguidos. Os grandes
vestiários exibindo mesas para massagem, os banheiros com pentes mergulhados
em álcool azul, o balcão de picles e repolho em conserva, os tapetes marcados de
travas dos calçados de golfe. A placa dos fundadores, com o nome dos avós ainda

lá. Os imigrantes servindo os salões, chamados sempre pelo primeiro nome,
sempre sorrindo muito e de prontidão.
O que chocava My ron agora era que pessoas da sua idade haviam se
associado ao clube. As mesmas moças que zombavam da ociosidade das mães
abandonaram suas carreiras promissoras a fim de “criar” os filhos – leia-se:
contratar babás – e iam lá almoçar e entediar umas às outras com um jogo
ininterrupto de demonstrações de superioridade. Os homens da idade de My ron
tinham as unhas manicuradas, cabelo comprido, eram bem-alimentados e bemvestidos demais, perambulando com os telefones celulares e xingando
casualmente um colega. Os filhos também estavam lá, crianças de olhos escuros,
vagando pela casa principal com videogames portáteis, walkmans e posturas de
pequenos príncipes.
As conversas eram vazias e deixavam My ron deprimido. Os avôs de sua
época tinham o bom senso de não conversarem muito, apenas descartando e
comprando o que estava na mesa, ocasionalmente queixando-se do time local; as
avós faziam perguntas entre elas, comparando os próprios filhos e netos com os
das concorrentes, buscando a fraqueza de uma adversária, e diante de qualquer
abertura davam início a relatos de heroísmo dos descendentes, que ninguém
escutava muito, enquanto preparavam o próximo ataque frontal. O orgulho
familiar confundindo-se com o amor-próprio e o desespero.
O salão de jantar principal era como previsto: um exagero total. O carpete
verde, as cortinas que pareciam ternos de veludo cotelê dos anos 1970, as toalhas
douradas sobre enormes mesas de mogno, com jarros de flores altas,
desproporcionais, não muito diferentes das que apareciam nos pratos que
ornavam o bufê. My ron se lembrava de ter ido a um bar mitzvah ali, com tema
esportivo, quando era criança: jukeboxes, pôsteres, bandeiras, um minibeisebol
para crianças, uma cesta de basquete para lances livres, um suposto artista
fazendo caricaturas esportivas de garotos de 13 anos – garotos de 13 anos, a pior
criação de Deus depois dos advogados de programas de televisão – e uma
orquestra de casamentos completa, com um cantor acima do peso que dava aos
garotos moedas de 1 dólar dentro de pequenos sacos de couro estampados com o
telefone da banda.
Essas imagens – esses flashes –, contudo, eram muito rápidas e, portanto,
simplistas. My ron tinha consciência disso. Suas lembranças daquele lugar eram
muito confusas – o desprezo misturando-se à nostalgia –, mas ele se recordava
também dos almoços de família no clube: a gravata de nó pronto ligeiramente
torta, a mãe pedindo que fosse até o local sagrado dos homens, o salão de
carteado, para chamar o avô, indiscutível patriarca da família. O lugar tinha
cheiro de charuto e o avô lhe dava um abraço feroz. Os compatriotas rudes, que
vestiam camisas polo de cores berrantes e muito justas, mal percebiam o intruso,
porque os próprios netos fariam a mesma coisa em breve. O jogo acabava, os

participantes iam embora.
Essas pessoas de que My ron zombava com tanta facilidade eram a primeira
geração criada inteiramente fora da Rússia, da Polônia, da Ucrânia ou de
qualquer outra zona de combate da Europa Oriental. Haviam chegado ao Novo
Mundo fugindo – do passado, da pobreza e do medo – e foram um pouco longe
demais. Contudo, sob o cabelo, as joias e o tecido dourado, nenhuma mãe ursa
mataria com tanta rapidez para proteger os filhotes, os olhos duros daquelas
mulheres ainda tentando enxergar uma tragédia a distância, desconfiadas,
sempre temendo o pior, preparando-se para receber o golpe pelos filhos.
O pai de My ron estava sentado numa cadeira giratória de couro falso no
salão de brunch, encaixando-se naquela multidão quase tão bem quanto um
beduíno montado num camelo. Não pertencia àquele mundo. Nunca pertencera.
Não jogava golfe nem tênis nem cartas. Não nadava, não se gabava, não
participava do brunch nem dava dicas sobre o mercado financeiro. Vestia
sempre a roupa que usava para trabalhar: calça folgada de um cinza escuro,
mocassins, camisa social branca sobre camiseta sem manga também branca. Os
olhos eram escuros; a pele, moreno-clara; e o nariz se projetava como uma mão
esperando ser apertada.
Curiosamente, o pai não era associado do Brooklake. Seus pais, entretanto,
haviam sido membros fundadores, ou ainda eram, no caso do avô de My ron, um
senhor de 82 anos em estado quase vegetativo, cuja preciosa vida se dissolvera
em fragmentos inúteis de Alzheimer. O pai de My ron odiava aquele lugar, mas
frequentava em nome da tradição. Isso significava aparecer de vez em quando.
Para ele, era um pequeno preço a pagar.
Quando viu o filho, levantou-se, com mais lentidão que o usual, e de repente
My ron compreendeu que o ciclo começava outra vez. O pai estava com a idade
que o avô tinha na sua infância, aquela das pessoas que eles ridicularizavam na
época, o cabelo preto como piche ficando ralo e grisalho. A ideia estava longe de
ser confortável.
– Aqui! – chamou o pai, apesar de ele já tê-lo visto.
My ron abriu caminho entre os frequentadores do brunch, a maioria mulheres
emperiquitadas que não se decidiam entre mastigar e tagarelar, com pedacinhos
de repolho no canto da boca pintada e copos d’água manchados do batom cor-derosa. Observavam My ron por três razões: tinha menos de 40 anos, era do sexo
masculino e não usava aliança. Sempre alertas, embora não necessariamente
para as filhas, como as antepassadas mexeriqueiras dos povoados judeus.
My ron abraçou o pai e, como sempre, beijou-lhe o rosto. A face ainda era
maravilhosamente áspera, mas a pele começava a ficar flácida. O cheiro do
pós-barba pairava suavemente no ar, reconfortante como o de chocolate quente
num dia de inverno. O pai retribuiu o abraço, afastou-se um pouco e abraçou de
novo. Ninguém reparou naquela exibição de afeto. Aquilo não era de todo

incomum ali.
Sentaram-se. Os jogos americanos de papel exibiam um diagrama dos
dezoitos buracos do campo de golfe e uma letra B ornada no meio. A logo do
clube. O pai pegou uma caneta verde, curta e grossa – uma caneta de golfe –,
para escrever o pedido. Era assim que funcionava. O cardápio não se modificara
em trinta anos. Quando era garoto, My ron sempre pedia sanduíche de queijo e
presunto polvilhado de açúcar ou carne em conserva em pão de centeio. Naquele
dia pediu um bagel com salmão defumado e queijo cremoso. O pai anotou.
– E então? – começou o pai. – Já se readaptou?
– Acho que sim.
– Que terrível essa história da Esperanza.
– Não foi ela.
O pai balançou a cabeça.
– Sua mãe me contou que você foi intimado.
– Fui. Mas não sei de nada.
– Escute sua tia Clara. É uma mulher inteligente. Sempre foi. Na escola Clara
já era a garota mais inteligente da turma.
– Vou escutá-la.
A garçonete chegou. O pai lhe entregou o pedido, depois se virou para My ron
e encolheu os ombros.
– O fim do mês está se aproximando. Tenho que usar a cota do seu avô antes
do dia 30. Não quero desperdiçar dinheiro.
– Este lugar é legal.
A cara do pai dizia que não concordava com essa avaliação. Pegou um
pedaço de pão, passou manteiga e depois o largou. Remexeu-se na cadeira.
My ron o observava. O pai estava preparando o terreno.
– Então você e Jessica terminaram?
Durante todos os anos em que estivera com Jessica, o pai nunca tinha feito
uma pergunta sobre seu relacionamento além daquelas que a boa educação
mandava. Não era de seu feitio. Perguntava como Jessica estava, o que andava
fazendo, quando sairia o próximo livro dela. Era educado, simpático,
cumprimentava-a calorosamente, mas sem dar nenhuma indicação do que
pensava de fato sobre ela. A mãe deixara muito clara sua opinião sobre o assunto:
Jessica não era boa o bastante para o filho, mas quem era? O pai parecia um
perfeito apresentador de telejornal, o tipo de cara que faz perguntas sem dar ao
espectador nenhuma pista de sua opinião pessoal.
– Acho que agora acabou – disse My ron.
– Por causa… – o pai hesitou, olhou para o lado e depois para trás – de
Brenda?
– Não tenho certeza.
– Não sou muito bom em dar conselhos. Você sabe. Talvez devesse ser. Li

Já viu algum deles? – Já. É engraçado gostar mais de outra pessoa que da gente mesmo. Suponha que escolheu o trabalho errado. – De forma que nunca fui bom em conselhos. Então me escute. Me sentia assim com Jess. isso não é um problema. depois desses anos todos. e a dela a sua. Mas ela tem que amá-lo do mesmo jeito. criando os filhos. Entende o que estou dizendo? – Acho que entendo. sorrindo e cruzando as mãos sobre a mesa. – Certo.esses livros em que os pais dão recomendações para os filhos. Pagando as contas juntos. então. . e mesmo assim não vão ter a mesma importância dessa. – Você tem que amá-la mais que qualquer coisa neste mundo. dividindo um quarto quente. Ela vai encorajá-lo a trocar de emprego. seja como for. Imagine todos os dias com aquela pessoa. juntá-las. – Você encontra todo tipo de conselho ali. Se prometer não dizer a sua mãe. – Além de um pé no saco. vai botar você para cima. porque é importante. Está entendendo? – Sim. se ela aparecesse aqui do nada. Por quê? E se você quiser dormir mais um pouco? Outra: dê uma boa gorjeta para a garçonete no café da manhã. sem ar-condicionado e com um bebê se esgoelando. Sua prioridade tem que ser a felicidade dela. My ron riu. Sempre acho que há outro lado. por exemplo. tudo bem? – Sim. Como: assista ao nascer do sol uma vez por ano. My ron sorriu. mesmo agora. Então não olhe para ela apenas como um objeto sexual ou como amiga. O pai abriu os braços. – Lembre-se disso. Deu para entender? – Sim – respondeu My ron. Mas e se ela estiver de mau humor? Se for uma péssima garçonete? Talvez seja por isso que nunca escrevi um. – Qual? Ele se inclinou para a frente e sussurrou com ar conspirador: – Quando a sua mãe entra onde estou. – Acho que é isso. – Vou contar um segredo. – Pode pegar todas as decisões que já tenha tomado. Mas uma coisa aprendi nesta vida. Com a esposa certa. por exemplo. assentindo. – A decisão mais importante que alguém toma é quando escolhe com quem vai casar – falou o pai. Não é fácil. meu coração ainda acelera um pouco. – É assim com o senhor e a mamãe? Ela é isso tudo para o senhor? – Tudo – garantiu o pai.

de roupas íntimas. My ron piscou. Ele sentiu duas mãos gigantescas pressionarem-lhe o peito. E sua mãe vai deixar o escritório de advocacia. a secretária de tantos anos. . – Com suavidade. Eles ficaram em silêncio. as mangas arregaçadas. – Vou fazer 68 este ano – falou o pai. – Você vai descobrir. – É. – Vou vender a empresa – contou o pai. A fábrica de roupas – no caso do pai. mas faz anos que tenta comprar a empresa. não sei. Falei com Artie Bernstein. Mais silêncio. – Vai vender mesmo? – Sim. – Que bobagem. – Estou velho demais para isso – continuou. e Eloise. – Eu sei. e não dizendo o que é certo. My ron ficou paralisado. Viu o depósito em Newark. – Ou talvez porque assim fosse mais fácil ser pai.– O senhor quer dizer que Jessica é a pessoa certa? – Não cabe a mim dizer nem isso nem o oposto. – Acha que estou cometendo um erro? O pai deu de ombros. o lugar onde o velho trabalhara desde que ele se entendia por gente. – Vamos comprar uma casa na Flórida. trazendo-lhe tudo de que precisava antes mesmo de ele saber que precisava. – Vou me aposentar. – Talvez você me guiasse pelo exemplo – falou My ron. Talvez seja por isso que nunca lhe dei muitos conselhos. – Também não é velho. – De certa forma. bem… sei lá. Mostrando. mas acho que vou aceitar. – Estamos cansados. Tenho uma confiança tremenda em você. berrando ordens. My ron. O falatório das mulheres em torno deles era um barulho constante. My ron. A oferta é um lixo. Podia vê-lo com seu cabelo negro. Sempre o achei esperto o bastante sem mim. My ron balançou a cabeça. no escritório com paredes de vidro. O pai pôs a mão em seu ombro. – Não sou mais jovem. – O cara é um salafrário. Você se lembra de Artie? My ron assentiu. – Não entendo.

Só fiquei dois dias no hospital. pegou um biscoito na cesta de pães e rompeu o celofane. Mas não era verdade e não conseguia dizer por quê. Quando My ron nasceu. dando de ombros e piscando. – Quero que você saiba que isso não tem nada a ver com você ou sua ida ao Caribe. casavam. Nem queria comentar com você. no estádio dos Yankees. – Não. – Hospital? Mais imagens: o pai acordando com dores. – Provavelmente vamos vender a casa. pai? – Enquanto você estava lá – continuou ele. E você sabe como ela é. com o cabelo negro como piche. Viu-o levantar-se e partir como uma flecha para vingar os filhos. pai. Ele pousou o garfo. – O quê. nem Deus… – Fale. tinham filhos. nem para si mesmo. – Tem mais uma coisa – disse o pai. não sei. O pai tinha pedido uma salada com queijo cottage. a mãe começando a chorar. My ron sentiu o próprio coração explodir. Os médicos não souberam dizer exatamente o que aconteceu. a voz soou fraca e distante: – Dores no peito? – Não faça drama. – Você está bem? – perguntou o pai. Ele fixou os olhos no filho. Sua mãe e eu vamos viajar um pouco mais. Ele olhou para a mesa. My ron levantou a cabeça. – Sim. .– Flórida? – Sim. Sua teoria sobre a vida dos judeus na Costa Leste: cresciam. Que bobagem. Viu seu rosto ficar vermelho quando ouviu sobre o cara de barba. eles já tinham aquela casa. iam para a Flórida e morriam. Os dois começaram a comer em silêncio. tudo bem – respondeu. talvez uma parte do ano. Viu o pai. – Vocês vão se mudar para a Flórida? – perguntou My ron. – O quê? – Não é nada importante. Quando põe alguma coisa na cabeça. O pai odiava queijo cottage. A garçonete os serviu. Foram só umas dores no peito. – O senhor teve um ataque cardíaco? – Não vamos exagerar. nada mais. – Ele fez uma pausa. e o lábio inferior começou a tremer ligeiramente. Quando My ron falou. mas sua mãe acha que devo. na verdade. My ron sentia as lágrimas brotando nos olhos. – Tive umas dores no peito.

My ron. Abriu a porta do banheiro. o rosto dos dois sem cor… E de repente alguma coisa se partiu. Levantou e correu até o banheiro. Viu o homem levantando-se. My ron ouviu alguém abrir a porta do banheiro e se encostar contra o reservado. foi pouco mais que um sussurro: – Estou bem. . quando finalmente falou. correndo para o hospital. E depois viu o pai levando a mão ao peito e caindo no chão. mas ele não se deteve. My ron não conseguiu se controlar. Alguma coisa lá dentro cedeu por fim e os soluços voltaram com força total. Mas ele viu novamente o pai no estádio dos Yankees. doloridos. sem pausa nem alívio. a máscara de oxigênio. O cabelo negro desaparecera. substituído por fios brancos. Começou a chorar. esvoaçantes. Eram soluços profundos. Viu-o desafiando o homem de barba. A voz do pai. trancou-se e quase desabou. Quando pensava que não ia conseguir chorar nunca mais. a mãe segurando-lhe a mão. que sacudiam todo o corpo. entrou num reservado.chamando uma ambulância. chamou seu nome. Alguém o cumprimentou.

e na fazenda tinha um porco…ia. camisetas. coisa que conseguia evitar no passado.29 M Y RO N T E N T O U SE L I V RA R daquela imagem. sim. Em frente à porta. Os títulos eram muito criativos: Guia Wells para o bem-estar. flâmulas (o que se podia fazer com uma flâmula de Sway er Wells estava além da imaginação de My ron) e. ia. – Pensei que fôssemos nos encontrar lá dentro – disse My ron. – É tão ruim assim? – Imagine um dueto da Mariah Carey com o Michael Bolton – respondeu Win. Em breve estaria dizendo às crianças que não colocassem a mão para fora da janela do carro ou ficariam sem o braço. É esse mesmo o barulho que eles fazem? – Não faço a menor ideia. – Não. livros.” A canção fez My ron sorrir. Era verdade o que diziam: quanto mais velha a pessoa fica. mas ele não conseguia parar de pensar no assunto. mesmo em momentos de crise. mais parecida com os pais se torna. Nem de se preocupar. Fitas cassete.. O Cagemore Center era um local amplo.. . – Isso significaria escutar Sawy er Wells falar mais. Clássico Win: olhar direto. pôsteres. Win e My ron pararam para escutar: “. De repente. Win deu de ombros de novo e continuou caminhando até o auditório principal. – Uau. totalmente relaxado. Em uma delas havia uma colônia de férias para crianças. Entraram. Tipo capa de revista: homem de negócios casual... havia uma mesa vendendo toda a parafernália de Sawy er Wells. braços cruzados. Win checou as horas. revistas. com dezenas de salas de concerto e palestra que podiam ser ajustadas para qualquer tamanho por meio de paredes corrediças. Usava óculos escuros de grife e estava impecável. Win o encontrou em frente ao auditório. – Algum problema? – perguntou. Sejamos corajosos. ô. sentia náuseas de preocupação. Win deu de ombros. A vida era assim mesmo. vídeos. Win se virou para o amigo: – Nunca entendi: a música diz que os porcos fazem “óinc”. – Já deve estar terminando.

Todas as decisões são suas. . Tudo que veem e tocam é um reflexo de vocês. é o seu mundo. Afinal de contas. – Ouçam Mozart. Façam caminhadas longas. Têm medo de arriscar. – Quero que se lembrem disso – continuou Sawy er. o chefe de família. via-se o guru da autoajuda em pessoa. a pessoa bem-sucedida. – Vejam o patrão. Ninguém pode guiar vocês porque vocês são o líder. que seja: só depende de vocês. Lembrem-se. e suspensórios elegantes. – Mas você é a sua arma – contrapôs My ron. realizada. vou sacar minha arma – ameaçou Win. My ron balançou a cabeça e completou: – Vocês. O sucesso é vocês. Antes de dormir. – Se ele começar a cantar “We Are the World”. perguntem-se se o mundo é melhor por causa de vocês. Sobre o palco. A chave para o bem-estar: só depende de você. O botão de rosa é vocês. aquela árvore linda é vocês. – Aquele banheiro imundo do terminal de ônibus – disse Win. agitando-se nervosamente de um lado para outro como Robin Williams em sua época de stand-up. – Mas você também não sabe como se derrotar? – É um paradoxo – concordou My ron. o punho da camisa dobrado. enquanto a ausência do paletó e a manga dobrada confirmam a ideia de que se trata de um cara normal. Estava resplandecente. – Temem o sucesso. Quando andam pela rua. E tudo são vocês. vestindo calça de terno sem paletó. Não! É mais que isso: são vocês. – Se forem se lembrar de algo do que ouviram hoje. Essa pessoa é vocês. Win se inclinou para My ron. Win fez uma careta. Façam tudo por vocês. acho. Vocês não têm medo de vocês mesmos. Vocês são o mundo. o líder. Visualizem tudo como sendo vocês. vocês são os seus adversários. Começo dos anos 1970. Vocês são tudo. – Isso é uma música? – The Sty listics. Vocês devem encarar o adversário e saber que podem vencer. Perguntem-se o que fizeram hoje. Mas agora sabem que o desconhecido são vocês. uma multidão tão silenciosa que faria inveja ao Vaticano.As regras de Wells para o bem-estar. O auditório estava lotado. Passava a imagem de que precisava: o terno caro dá a impressão de ser bem-sucedido. O trabalho também. – Visualizem. O risco é vocês. Um conjunto perfeitamente equilibrado. Os seus adversários são vocês. – Vocês temem o desconhecido – bombardeou Sawy er Wells. Suas famílias são vocês. porque vocês são os seus próprios adversários e sabem como derrotar vocês mesmos. têm? Win franziu a testa. Façam isso todas as noites. – Só depende de vocês – dizia ao público fascinado. My ron balançou a cabeça.

E a multidão fazia que sim com a cabeça. – É quanto isso custa? – Ele é o seu dinheiro. Vão se sentir melhor. A mesa com parafernália vendida da saída parecia uma fruta podre com um bando de moscas zumbindo ao redor. de veludo. O cara estava citando Cher. – Vamos esperar lá fora – sugeriu My ron. entretanto. Win olhou para My ron com uma expressão de sofrimento. – Certo. Acreditem nisso de todo o coração. – Sejam responsáveis por seus atos – continuou Wells. – Tenho passes para o camarim. Sawy er Wells avistou Win e caminhou na direção deles. – Por favor. Todos se levantaram. Essa é outra regra. Um segurança à paisana os olhou de cima a baixo e examinou os passes como se fossem fotos do assassinato de John Kennedy. na verdade estão apenas contando para si mesmos. Só faltava um locutor anunciar que o próprio Elvis havia deixado o prédio. Duas frases depois. A sorte. Pessoas se aproximaram do palco. na verdade estão aprendendo sobre vocês mesmos. como o amigo são vocês. – Então. esticando as mãos em direção aos céus na vã esperança de que Sawy er Wells as tocasse. Sim. – Parece um encontro evangélico metido a besta – observou Win. My ron concordou. é suicídio. que vocês não gostariam que ninguém soubesse. Lembrem-se de que só depende de vocês. – Essa é uma das regras para o bem-estar.– E ele é a minha arma também. se ele é a minha arma e a minha arma o mata. Realmente pediram a eles “passes para o camarim”. certo?” Escutem isso. Win balançou a cabeça. – Quatrocentos dólares por cabeça. aplaudiram e ovacionaram como numa apresentação do Eddie Murphy. – Confessem algo sobre vocês mesmos a um amigo. estava com eles. deixou que passassem pelo cordão de veludo. algo terrível. Sawy er Wells terminou. My ron e Win observavam. Win ficou pensando naquilo. My ron e Win abriram caminho em meio ao público. Sejam responsáveis. diga que isso é brincadeira. Quando aprendem alguma coisa. Conheçam-se melhor. A multidão continuou a aplaudir e comprar. A multidão veio abaixo. Interessem-se por tudo. Satisfeito. Não era. Cher disse uma vez: “Desculpas não deixam ninguém com um corpão. E. Deus não existe mesmo. Vão ver que ainda merecem amor. Tenham sede de conhecimento. Sawy er Wells finalmente acenou e saiu do palco. . – Venha – disse Win.

talvez seja a religião ou essa baboseira de autoajuda. – Como? – Você é tudo. – Vi você entrar no final do meu seminário. My ron. O sorriso continuava lá. no entanto. que. trabalhei duro com ele. não é isso. Adimita seus erros. Os gestos também se tornaram mais tensos.– Que bom você ter vindo. – Puxa. – Trabalhou como? – Para mantê-lo longe das drogas. mais controlados. e tudo é você – argumentou Win. Esse é o componente mais importante do Guia Wells para o bem-estar. Sawy er! – Aprendi muito sobre a fragilidade humana. My ron a apertou. você também. Você é o que você cria. – Como? – Pessoas dependentes precisam de alguma dependência. Virou-se para My ron e estendeu a mão. – Muito prazer. My ron. Seu fracasso me dói muito. – My ron Bolitar. My ron odiava isso. Você é responsável pelos próprios atos. Como disse. com viciados feito Clu Haid. Esse nome lhe diz alguma coisa? – É claro. Ele fracassou. Sabe quais são as duas frases . – Você é Clu Haid. Houve uma pequena hesitação em seu sorriso. Como disse ontem a Win. Assuma responsabilidades. permaneceu firme. – Entendi mal sua mensagem? – Não. Se não for a bebida ou as drogas. o que você percebe. Sawy er Wells balançou a cabeça de maneira teatral. – Como? – Clu Haid. Sawy er Wells. Eu me especializei nisto: ajudar dependentes. Essa é minha opinião. – Não é muito diferente do que faz agora – rebateu My ron. Win. Tenho muita experiência em atendimento de viciados. My ron decidiu por um ataque frontal: – Por que você manipulou o antidoping de Clu Haid para que parecesse que ele estava usando heroína? O sorriso ainda estava lá. Só trocam de dependência. – Olá. mas não convencia mais. – É um ponto de vista muito interessante. Portanto. mas não era o mesmo quando olhou para Win. esperamos que para uma menos prejudicial. obrigado. Win! – saudou-o. Mas o homem cria seu próprio mundo. Ele era um desses caras que tentavam imitar a pessoa com quem conversam. sobre a falta de autoestima. trabalhei duro com ele. – Porque o fracasso foi seu – interrompeu Win.

– Espere – insistiu Win. – E virandose para My ron: – Repita isso. – Não sei do que está falando. – A necropsia foi conclusiva: Clu não usava drogas havia no mínimo dois meses antes de morrer. – Vou contar aos jornais. que foi manipulado. – Quer ouvir minha teoria? – perguntou My ron. – “Sou responsável” – continuou Sawy er – e “A culpa é minha”. Diga. ficou furioso. Olhou para My ron e balançou a cabeça. isso tem um poder imenso. – Diga “Eu sou responsável. – Fácil demais – disse. – Foi quase como fazer sexo – respondeu My ron. o resultado do exame foi positivo. o exame que você acompanhou deu positivo duas semanas atrás. My ron e Sawy er disseram: – Sou responsável. Você ajudou na realização do exame. Sawy er. Win. My ron. Quando ela assumiu o controle. – Ele vivia para o time.mais lindas deste mundo? Win abriu a boca. Não sei de manipulação nenhuma. – Pare de se eximir – acrescentou My ron. – Você está acabado. O conglomerado dele apenas publica meus livros. Sophie . – Não. – Sim. mas desistiu. – Acho que já chega – disse Sawy er. – Portanto. Diga: “Sou responsável. Vamos. – Vamos. Sawy er. Quero saber por que você fez parecer que ele estava usando drogas. não estou aqui para criticar o seu seminário. – De onde você tirou isso? – perguntou Sawy er. você também. Escute. A culpa é minha” – interferiu Win. – Você é tudo. – E é um cara positivo – afirmou My ron. É estimulante. vou falar junto com você. É estimulante. então você é o exame antidoping. – Sente-se melhor? – perguntou Sawy er. – Talvez tenha havido um erro no exame– sugeriu Sawy er. – Isso não tem a menor graça – retrucou ele. Quero saber sobre o exame antidoping de Clu. Temos evidências que provam a adulteração. A culpa é minha. No entanto. – O quê? – Vamos. – Não sei do que está falando. A culpa é minha. Wells – declarou My ron. – Ele é o arqui-inimigo de Sophie May or. certo? – Não trabalho para ninguém com exclusividade. – Tem. – Você está saindo dos Yankees e vai trabalhar para Vincent Riverton.” Pare de se eximir na vida. Win ficou em silêncio.

Eu acreditava piamente que Clu estivesse se drogando. Sawy er parece recuperar-se um pouco. – Hora de enfrentar FJ. Os Yankees tropeçam. Não houve erro. Sophie May or parece incompetente. – Que parte? – Tudo – respondeu Sawy er. E não vou mais honrar as suas perguntas com respostas. – Mas você estava lá? Admite isso? – Sim. – Acho que ele não gostou da gente – concluiu My ron. e se dá superbem. – Sophie May or tem sido boa para mim. – Triste. estufando outra vez o peito. a contratação de Clu Haid. oh. Clu não passa no exame antidoping. Sawy er Wells deu uma meia-volta abrupta e se afastou rapidamente. – Mas. Stilwell. Clu está arremessando melhor do que qualquer um esperava. Se isso não é verdade. . estava. – Não faço ideia. não? – Além de confuso – acrescentou My ron. Estranho. – Hora do latte? My ron assentiu. – Isso não faz o menor sentido. Faz apenas uma jogada. É verdade: eu trabalhava no aconselhamento de drogados nos centros de reabilitação Sloan State e Rockwell quando ela me deu uma chance de melhorar de vida. então nós somos ele.era tudo o que Nova York quer do dono de um time. se só depende de você. Algo no que My ron acabara de dizer lhe dera novo ânimo. – Para onde vamos então. – Não fui eu. porque não se mete onde não é chamada. – Você sabe muito bem que os resultados passam por contraprova. Talvez vocês devessem falar com o Dr. – Então ele não gosta dele mesmo. Alguém os manipulou. Por que eu iria querer prejudicá-la? – Cabe a você dizer. Eles se dirigiram para a saída. Motivado? – perguntou Win. então houve algum erro no exame. – Para a Starbucks. Depois dessa. Os Yankees começam a ir para as cabeças. Aí você surge.

Big Cy ndi vestia um body de ly cra verde brilhante. Jared May or também ligou – acrescentou ela. – Quem teria manipulado o exame? – perguntou Sophie. Isso se encaixa no que temos. – Muitos clientes ligaram. – Ah.30 FJ N Ã O E STAVA L Á . Clu estava limpo. as letras estavam tão esgarçadas que My ron não conseguia ler o texto. O tecido parecia gritar de dor. Ele estava limpo. – Não ficaram satisfeitos com a sua ausência. A mesma secretária lhe disse que o patrão ainda não estava disponível. Sophie: prejudicar você. Ela lhe passou as mensagens. Pela lógica. Bolitar – disse ela. obrigado. – Pareceu ter muita pressa de falar com o senhor. esfregado num jornal e depois esticado. Mas pode confiar em mim. – É o que quero saber. Silêncio. Sophie acionou o viva-voz. pegar a sua grande contratação e . – Certo. os suspeitos são o Dr. Era como se tivessem pegado uma massinha de modelar. Ela permaneceu indiferente. – Não temos tempo para isso agora. – Mas por que eles iriam querer prejudicar Clu? – Clu não. Stilwell e Sawy er Wells. Fazer aparecer o espectro da sua filha desaparecida. M Y RO N ligou novamente para seu escritório. – Sei que você quer acreditar nisso… – Tenho provas – disse My ron. My ron voltou para o escritório da MB Representações Esportivas. que estava no escritório da mãe. no estádio dos Yankees. – Vou resolver isso. Ele repetiu que precisava falar com Francis Ache Junior o mais rápido possível. Ele ligou primeiro para Jared May or. Sr. com algo escrito no peito – isso numa mulher que mal cabia numa túnica. – Você ligou? – perguntou My ron. – Me enganou? Como? – perguntou Sophie. – Que tipo de prova? – perguntou Jared. – Acho que alguém enganou sua mãe. – O exame antidoping de Clu foi manipulado. – Esperava que você nos atualizasse – respondeu Jared.

– O que você quer dizer? – Por que ela não voltou para casa? – perguntou ele. – Muito poucas. acho que são mais que poucas. Quando uma filha desaparece sem mais nem menos. – Como? My ron trocou o telefone de orelha. Na verdade. quais são as alternativas? Se Lucy ainda estiver viva. Preciso de alguma coisa que o preencha. por exemplo? – Riverton? Não. Não me esconda nada. eu não o excluiria. – Quer que eu seja franco. – Você acredita realmente que Lucy esteja viva? – Sim. – Então tenho que lembrá-la de quais são as chances de sua filha ainda estar viva. Que tal Vincent Riverton. – Você está tirando conclusões precipitadas – replicou Sophie. poucas. – Escute. – Poucas – disse ela. – Ela está por aí. – Ainda assim. – Acho que é uma possibilidade a ser considerada – disse ele. – Bem. fica um grande vazio. certo? – Completamente. – Aprecio sua franqueza. – A grande pergunta é: “por quê?”. até que Sophie quebrou o silêncio: – Você acha que alguém ressuscitou a lembrança da minha filha como parte de uma vingança contra mim? My ron não sabia como responder. My ron. Quero que continue sendo honesto comigo. – Não. até descobrir o que aconteceu.virá-la contra você… Acho que tem alguém querendo prejudicá-la. Então. – Quem iria querer me prejudicar? – Tenho certeza de que você tem pelo menos meia dúzia de inimigos. – As duas coisas provavelmente estão ligadas. por que não voltou nem telefonou? Do que está se escondendo? Todos ficaram quietos. vou . não estou preocupada com nada disso. Só quero que você encontre a minha filha. Mas vou manter minha esperança. A transição no comando do time foi muito mais amigável do que a imprensa noticiou. esperando ser encontrada? – Sim. My ron. – Você acha que alguém a mantém refém esses anos todos? – Não sei. – Pode ser. My ron.

– Não tenho certeza do que posso fazer. – Com o quê? . com certeza. Abaixam a cabeça e permitem que as tratem com desdém. – E. – Você quer alguma coisa? – perguntou. Menos de dez vezes. Depois de algum tempo. – Ela ainda tem esperança. Sem saber o que fazer. My ron permaneceu sentado. Ele pôs a mão sobre o telefone e mandou entrar. As mulheres grandes e feias são assim. Bolitar. e ela se sentou. May or já a cruzou. – Bem? – perguntou Big Cy ndi. então. imóvel. My ron não teve resposta. a ligação foi cortada. sozinho com Big Cy ndi. Sr. Fique de olhos abertos em relação a minha filha. Acho que a Sra. Sophie. Antes que pudesse responder. Elas se acostumam a ficar isoladas nos cantos. mas ela o deixava desconfortável. Big Cy ndi parecia um planeta. Tornam-se revoltadas e ficam sempre na defensiva. – Odiava minha mãe – continuou ela. Perguntou-se quantas vezes já estivera assim. Se escondem. My ron arriscou balançar ligeiramente a cabeça. Sr. My ron apontou uma cadeira. – Existe uma linha tênue entre esperança e ilusão. vai descobrir o que é. Sentia-se mal por admitir. Você pode estar certo sobre o que aconteceu com ela. – Continue de olho. Ela franziu o rosto. ele cruzou as mãos e as colocou sobre a mesa. Mas pode também estar errado. – Jared vai investigar o exame antidoping de Clu – falou ela. Alguém bateu à porta. Não desista. – Jurei que nunca seria como ela. My ron colocou o telefone de volta no gancho. Naquele verde brilhante. como a maioria das mulheres grandes e feias. Ela balançou a cabeça. Bolitar. ela disse: – Minha mãe era uma mulher grande e feia. – Entendo. aversão e… Ela se calou de repente e fez um gesto com a mão rechonchuda. que era quase um cubo perfeito e lembrava a My ron um boneco feito de Lego. Big Cy ndi apareceu. – Ela é a única pessoa que não se importa com isso.preenchê-lo com esperança. – Se tiver alguma coisa errada. era sensível como uma violeta. My ron concordou e se mexeu na cadeira. – Acho que não entendi a ligação. – É por isso que o senhor tem que salvar Esperanza.

Outra vez. Os apresentadores se fingiam preocupados com a Pequena Pocahontas. Trouxeram a maca. Eu trapaceando. deu tudo certo. – Uma noite. ou melhor. Já me cansei disso. Ela foi à lona. Fazia caretas. eu tinha que imobilizá-la e. E é claro que me colocaram de vilã. Bonita. Saí para pegar o ônibus alguns minutos antes das outras garotas. Ela sorriu. – Prefiro ver choque em seus rostos a ver piedade. – Depois ainda teve mais uma ou duas lutas e a multidão foi embora. ela começava a bater os pés. perto de Scranton. levantei as mãos. Eu. A multidão ficou aturdida. Sem saber o que dizer. Era a primeira vez que nos encontrávamos. é claro. Mas esse era meu papel. contra a Pequena Pocahontas. Então. quando a multidão estava a mil. Atingia as adversárias quando não estavam olhando. Era tudo teatro. E que me achem atrevida ou escandalosa a retraída. você não acha? – insinuou My ron. O roteiro era o habitual. Eles começaram a vaiar e atirar coisas. – Qual é a primeira coisa em que o senhor pensa quando me vê. Mas alguns . Bolitar? – Não sei. – Não é culpa delas. Esperanza vencendo graças a sua habilidade. comemorando a vitória. – As pessoas ficam olhando – disse ela. My ron se recostou e ficou ouvindo. Estava escuro. My ron decidiu balançar a cabeça. Entende? – Acho que sim. Ela já era a lutadora mais amada do circuito. eu tinha que me aproximar sorrateiramente por trás e bater nas suas costas com uma cadeira de metal. Decidi só trocar de roupa no hotel. Eu ria com desprezo. pequena e essas coisas todas… que eu não era.Ela pensou no assunto um momento. Bem. Trapaceava. a Mulher Vulcão. a forma como você se veste e essas coisas. Por duas vezes. Executamos tudo com perfeição. estávamos nos apresentando no ginásio de uma escola de ensino médio. Era quase meia-noite. graciosa. – Ela precisava me imobilizar com um salto para trás aos quinze minutos. me escalaram para lutar contra Esperanza. é claro. assustada ou triste. certo? My ron concordou. como se o público estivesse lhe dando forças. Ele concordou de novo. entrei na luta livre. – Quando eu tinha 19 anos. O senhor já deve ter visto essa farsa um milhão de vezes na TV a cabo. Sr. enquanto ela levantava as mãos em sinal de vitória. O senhor sabe como isso funciona. Olhava para todos com desdém. era assim que me chamava na época. Depois todo mundo começava a bater palmas ao ritmo da batida de seus pés. Uma luta cheia de reviravoltas. – Não vou mais me isolar num canto. – Quero dizer.

Alguém acertou minha cabeça com uma garrafa de cerveja. – Sua voz estava embargada. voltou o rosto para cima. Senti outro chute. – Fim. mas desistiu. Depois me deram um chute no estômago e outro cara me puxou o cabelo. Começaram a gritar e eu resolvi encarar. – Então foi assim que vocês duas se tornaram parceiras? – Exatamente. mas eles me cercaram. depois que foi carregada na maca. Quando o presidente da associação de luta livre ficou sabendo do incidente. Big Cy ndi levantou seus braços grossos e sorriu. . “É uma armadilha!”. O resto. My ron permanecia absolutamente imóvel. Deviam ser uns vinte. Eles se aproximaram. My ron pensou em se aproximar dela. Achei que fossem me matar. My ron sorriu de volta. Os idiotas acharam que estava lá para ajudar a bater em mim. “A Mulher Vulcão está armando!” Mas Esperanza insistiu. Não sabia o que fazer. – Sabe o que Esperanza fez então? – perguntou ela. Dei o mesmo sorriso de desprezo do ringue e contraí os músculos. – Pulou sobre alguém da multidão e aterrissou do meu lado. é história. Depois acertaram outra pedra. Decidiram me enfrentar. decidiu capitalizar em cima. Piscou algumas vezes. Após um tempo.espectadores ainda estavam ali em frente. A multidão se dispersou logo. Tentei voltar para o prédio. Ajudou a me levantar e àquela altura a polícia já havia chegado e acabado com a confusão. Pediu que parassem. Ela parou de falar. – Foi quando acertaram uma pedra bem na minha boca. My ron disse: – Partiram meu coração seis anos atrás. como se diz. no meu ombro. advertiram-na. My ron balançou a cabeça. Os dois se recostaram em suas cadeiras e ficaram em silêncio. Não podia acreditar no que estava acontecendo. – Foi quando Esperanza apareceu – continuou Big Cy ndi. Me abaixei. eu fui visitá-la e descobrimos que na verdade éramos duas irmãs perdidas uma da outra fazia muito. Alguém agarrou meu cabelo com tanta força que minha cabeça virou para trás. Bem assim. Alguns dos espectadores se afastaram. Gritou que. A Mulher Vulcão se chamaria agora Grande Chefe-mãe e seríamos parceiras e amigas. – Anunciou que iríamos formar uma dupla de lutadoras. My ron permaneceu onde estava e aguardou. – Comecei a sangrar. Outros olharam desconfiados. ainda sorrindo. Big Cy ndi fez outra pausa e respirou fundo. Caí de joelhos na calçada. Um deles a afastou para que pudessem continuar a me bater. após alguns momentos. o olhar distante. Mais tarde tentaria entender por quê. mas eles não escutavam. Mas ela só queria se pôr entre mim e os golpes.

– Quando está de bom humor – acrescentou My ron. .” – My ron sorriu. Ela me contou essa história. Peguei-a com outro homem. Foi porque quis. Mas depois… – Esperanza não esquece fácil – comentou Big Cy ndi. ela era mais ou menos indiferente a Jessica. E ela me fez participar de todas aquelas atividades ridículas. uma semana depois de Jessica ter me deixado. – Cabeça-dura – disse Big Cy ndi. Dançamos. – Para um cruzeiro. “Comprei tudo de que você vai precisar. Não é esquisito? Não a mandei embora. com quatrocentas refeições por dia. – Não é preciso pedir ajuda a ela – falou Big Cy ndi. – É. Ela não se esforça para esconder. – Não quando mexem com amigos dela. Os dois permaneceram sentados por outro longo momento. – Foi Jessica. Fiquei arrasado. Até ela voltar e começarmos tudo de novo. “Para onde?”. é como explicar Mozart para um surdo. Ela apontou duas malas no chão. Mas essa história você conhece. “Não se preocupe. Dormimos na mesma cama. perguntei. após todo esse tempo. Ainda doía. Quando se trata de coisas do coração. – Isso deve significar alguma coisa – observou Big Cy ndi. e você conhece Esperanza. sorrindo.Big Cy ndi assentiu.” Protestei. disse ela. Até terminarmos pela primeira vez. Um cara chamado Doug – disse ele e fez uma pausa. “Vamos viajar”. – Sim. – Ela a chama de Rainha das Vacas. E sabe para onde ela me levou? Big Cy ndi sorriu. ela me abraçou. Cheguei a costurar uma carteira. – Depois Jessica me deixou. – Mas é por isso. – Disse a ela que não tinha trazido roupa. Jogamos um bingo idiota. mas já não tinha mais argumentos. – Ela ainda está escondendo alguma coisa de mim. Não podia acreditar que estava contando aquilo para ela. – Esperanza simplemente sabe e faz a coisa certa. Então. Esperanza estava com duas passagens aéreas na mão. eu sei. – Para dizer o mínimo. Ficamos quatro anos sem nos falarmos. Big Cy ndi fez uma careta: – Esperanza odeia Jessica. bem. – É. – Pois é. – Meus pais adoram Esperanza. enormes. voltei para o escritório. Bebemos. Big Cy ndi concordou com a cabeça. mas não trocamos nem um beijo. Um desses navios novos. Win não ajudou em nada. não é? – Sim. – E agora é a nossa vez – disse My ron. já avisei seus pais que vamos ficar fora uma semana.

Saiu do metrô e caminhou até o Dakota. ficaram abraçados. Na verdade. Recebera instruções para deixá-lo entrar a qualquer hora. Ela andou até My ron e os dois se abraçaram. – Mas… – Agora não. Tenho uma surpresa para você.– Eu sei. – Vamos salvá-la de qualquer jeito. tinha certeza agora. O porteiro de sempre estava lá. . Às oito e meia. Win ligou para o escritório de My ron: – Me encontre no apartamento daqui uma hora. Foram para o quarto e fizeram amor. Mas My ron não podia fazer mais nada. mas o homem ainda fazia uma careta toda vez que ele entrava. zíperes e colchetes. My ron descansou a cabeça sobre seu peito macio. My ron deu meia-volta. o metrô ainda estava cheio. My ron pegou o elevador. Ligou outra vez para o escritório de FJ. fora-lhe dito que My ron era agora morador oficial do prédio. Win. – Win? – Não está. Ele a beijou. – Surpresa – disse ela. Às oito. – Não estou muito para surpresas hoje. Estava ficando tarde. – Aparentemente. Depois se viram às voltas com botões. procurou a chave e abriu a porta. Ele era uma peça central naquilo tudo. A hora do rush em Manhattan havia aumentado para cinco ou seis horas. Os lençóis em desalinho os aproximavam ainda mais. As pessoas trabalhavam muito. – Você veio embora da ilha? Terese se mirou primeiro num espelho próximo e depois olhou para ele. My ron se recostou novamente. Ninguém falou nada. Terese Collins sorria para ele. Ele quase engasgou. Clique. Nenhuma resposta. Melhor ir para casa e se surpreender com o que quer que Win tivesse aprontado e depois descansar. Ótimo. Não gostava muito de esperar. My ron chegou à conclusão. como se sentisse um mau cheiro no ar. – Você sabe o que é? – Não. Quando acabaram.

– Nada – respondeu ela. – Que história – disse ela. Ficaram nisso quase uma hora. mas isso foi lá. – Eu me lembro do desaparecimento de Lucy May or – disse Terese. – Win contou a você? – Li no jornal. não é. – Só estou curioso para saber por que mudou de ideia. – Sim. – Por que você foi embora? – Uma amiga está com problemas. Contou tudo. – É importante? – Acho que não. Ela continuou acariciando seu cabelo. Ela lhe beijou o alto da cabeça. – Da . – Assim como? – Você parece um pouco cansado – disse ela. De vez em quando. – Acho que vai precisar de um tempo para se recuperar. – Pensei que tivéssemos concordado em não fazer mais isso – disse ele. – Ostras. – Conversar não era nosso forte na ilha. – Não – disse ela –.ouvindo o coração bater. Aqui é assim. – Você está se queixando? – Não – replicou My ron. Ela lhe acariciava o cabelo. seu peito estremecia ligeiramente. acariciando-lhe o cabelo. imóvel. Ele falou. É que na ilha tinha ostras. e ele percebeu que ela estava chorando. My ron riu. – Me fale sobre isso – pediu Terese. – Ainda dói onde bateram em você? – Sim. relaxada. – Isso soa tão nobre. My ron fechou os olhos. Às vezes parava para fazer uma pergunta. Outra vez aquela palavra. – Sua amiga que está com problemas – falou ela – é Esperanza Diaz. – O que foi? – perguntou My ron. – É. mas sou um cara durão. – Então me conte. no seu papel habitual de entrevistadora. Permaneceram num silêncio confortável. Ele continuou de olhos fechados. querendo apenas desfrutar a suavidade maravilhosa daquela pele contra o rosto e o sobe e desce de seu peito.

o filho se foi. foi a mesma coisa. Você se lembra do caso Louise Woodward. Porque. – Terese? – Às vezes – falou ela – a culpa é dos pais. disseram. Mas isso não muda nada. – Negação? – Sim. Procuram um motivo. As pessoas parecem ficar bloqueadas quando se trata dos filhos. – Você se lembra de algo que possa me ajudar? – Não. Antes disso.segunda rodada ao menos. É isso que quero dizer com negação. – Eu me lembro – disse My ron. Dizem a si mesmas que isso nunca vai acontecer. Não importava que ela trabalhasse apenas meio expediente e que ela fosse todo dia para casa na hora do almoço a fim de amamentar o filho. E não apenas pela razão óbvia de que há vidas sendo destroçadas. – Por parte da família? – Não. – Isso não é importante. E do pai. outra vez com a respiração um pouco irregular. As pessoas então bloqueiam e se convencem de que aquilo jamais aconteceria com elas. – Você acha que nesse caso o argumento deve ser levado em conta? – Em que sentido? – Os pais de Lucy May or eram parte do problema? Terese baixou a voz. não era um caso muito noticiado. – Segunda rodada? – Quando os May ors já tinham dinheiro para organizar uma grande busca. É doloroso demais pensar no caso. Detesto cobrir esse tipo de história. . Nada de mais. Se Lucy tivesse sido criada da forma certa. mesmo as pessoas que acreditavam na culpa da babá. então? – Porque há muita negação – respondeu ela. A mãe não deveria estar trabalhando. – Por que você diz isso? Ela ficou em silêncio. Ambos deveriam ter sido mais cuidadosos. Ficaram calados. nunca teria fugido. uns dois anos atrás? – A babá que matou uma criança em Massachusetts? – Que o juiz reduziu para homicídio culposo. Ele deveria ter checado melhor o histórico da babá. O público continuou negando a simples verdade. Aceitar é muito doloroso. Uma fugitiva de 18 anos. – No caso dos May ors. do público. para começo de conversa. sejam eles culpados ou não. e é isso que importa. Que Deus jamais permitiria. – Por quê. A culpa era dela. de qualquer modo.

porém ela se levantou da cama. . Ele se inclinou sobre a cabeça dela e atendeu. My ron ia perguntar mais. Quando voltou. – Quando? – Agora. quebrando o silêncio. – De novo? – Sim. ou ao menos entorpecendo o corpo para o sono. – Sim. – My ron? – O quê? – Diga a Win para ficar do lado de fora. os dois fizeram novamente amor – lânguido e agridoce. como na música de Steely Dan –. Ainda estavam enroscados nos lençóis quando o telefone despertou My ron no dia seguinte de manhã. – Alô? – O que é tão importante? Era FJ. ambos com uma sensação de perda. – Sophie May or me disse que a pior parte é não saber nada. – Precisamos conversar.– Você está bem? – perguntou. buscando algo naquele momento. – Ela está enganada – contrapôs Terese. – Starbucks – disse FJ. My ron sentou rápido.

– Quer tomar um latte gelado? Você gosta com espuma. minha sócia e melhor amiga. meu desaparecimento provavelmente despertou sua curiosidade. My ron procurou Hans e Franz ou algum capanga novo. Mas isso não vem ao caso. É como seu pai sempre trabalhou. – Quando desapareci. Por causa de toda aquela história da Brenda Slaughter. lembra? Você sabia que eu tinha visitado o cemitério. Você viu nisso uma abertura para a TruPro. Sente-se – disse. – Um momento doloroso para todos nós – concordou FJ. Mas Clu estava longe das drogas e tinha bastante dinheiro. – Onde está Win? – Lá fora – respondeu. Então não foi isso. – E eu aqui pensando que Win fosse seu melhor amigo. Quando fui para o Caribe. FJ pareceu cacarejar. Então fez a coisa mais fácil: seguiu Esperanza. – Por que Clu assinaria com você? Não me entenda mal. – Sei por que Clu assinou com você. No mínimo. você estava me vigiando. Põe as garras em alguém e depois rói a carcaça. FJ sorriu e. como sempre. – A princípio. – Ótimo. Descobriria seu espião antes mesmo que ele começasse a me vigiar. O rosto estava liso como se ele o tivesse depilado. a perna cruzada sobre o joelho. Um pouco de espuma ficou em seu lábio superior. Queria saber onde eu estava. Mas conhecia a reputação da TruPro. Então você resolveu seguir Esperanza. Por que trocaria? – Porque oferecemos um serviço valioso. – Fascinante. mas não conseguia descobrir. um calafrio subiu pelas costas de My ron. você ainda queria me rastrear. Sorvia algo como se houvesse alguma coisa no fundo da xícara que não quisesse provar. – Tem mais. – Ainda não vejo o que isso tem a ver com a decisão de Clu de ser mais bem . Ele tinha todas as razões do mundo para sair da MB Representações Esportivas.31 FJ E STAVA SE N TA D O SO Z I N H O à mesma mesa. Seguir Win seria muito complicado. My ron. mas não encontrou ninguém. não é? – Isso estava me deixando louco – continuou My ron. FJ. – Os dois são. mas não era o bastante. Você mesmo me contou isso quando voltei. FJ pôs o cotovelo na mesa e apoiou o queixo contra a palma da mão. achei que seria por causa de alguma dívida de jogo ou droga.

Não conseguiu se conter. My ron.representado. Mas não no momento. o abandonou quando ele mais precisava. Trouxeo para uma agência que não iria abusar da sua confiança. Para que o cliente entenda o que está acontecendo. a MB Representações Esportivas. mas havia alguma verdade nisso. Outra reviravolta. Um dia. A sua sócia. que seria você. Que cuidaria dos seus interesses. Mas você sabia. FJ se recostou na cadeira. E acabou descobrindo algo que nunca havia imaginado. Clu ficou louco quando Bonnie o pôs para fora de casa. pior. Você não passa de um bisbilhoteiro. – É tudo verdade. – Eu estava desaparecido. Um dos instrumentos que utilizamos para isso são informações. aquelas palavras iriam machucar. My ron. estava acabando com ele. deixando pairar a dúvida por um momento. Você sabia disso. – Vou dar a você o meu ponto de vista – começou ele. cruzou outra vez as pernas e juntou as mãos sobre o colo. Você a seguiu até Nova Jersey. sem que ele fizesse a menor ideia do porquê. na expectativa de que ela o levasse até mim ou ao menos lhe desse uma pista de quanto tempo eu ficaria fora. – Que reviravolta. Então fez um acordo com ele. tomou um gole de espuma e juntou-as outra vez. – Ah. – Você é um pervertido e. – E estava errado? – Isso não importa agora. Tirou vantagem. E uma dessas agências de que estamos falando lançou mão de uma ética questionável. O seu agente. você contaria a verdade sobre sua mulher. De tudo quanto era forma. Nem seu pai se rebaixaria a tanto. E não foi a TruPro. Foi criado assim. – Então você admite isso? . Ligou para os meus clientes e disse que eu os havia abandonado. FJ agora dava um sorriso libidinoso. Valiosas. Não é verdade? My ron não disse nada. não é? FJ inclinou a cabeça. – E o que seria isso? – Tire esse sorriso da cara. quando My ron tivesse tempo para elas. FJ separou as mãos. Isso faz parte do trabalho de um agente. você ficaria surpreso se soubesse quanto meu pai pode se rebaixar. – O que fiz – continuou ele – foi tirar Clu Haid dessa situação terrível. usou o que descobriu contra um cliente. – A antiga agência de Clu Haid. que seria a adorável e graciosa Esperanza. Você viu um ponto fraco e o explorou. Se assinasse com a TruPro. – Ai! – Mas o que interessa aqui é que você estava seguindo Esperanza. FJ. My ron. estava ocupada chupando a mulher dele.

Deixei uma mensagem bem misteriosa na secretária eletrônica. para a minha linha particular. eu a segui. como tenho certeza que você sabe. Não fazia sentido continuar. – O que você estava dizendo? – Foi Esperanza quem o matou? FJ sorriu. Levantou-se e foi até um canto. o telefone entre o ombro e o ouvido. FJ se inclinou de novo para a frente. FJ inclinou novamente a cabeça. Sim. verdade seja dita. em uma hora. – Então você não sabe mesmo quem matou Clu? – Receio que não. FJ. Liguei então para Clu. Honestamente. não tinha mandado ninguém seguir você quando veio aqui ontem. – Até que ponto você está disposto a ir para salvar Esperanza? – sussurrou. FJ? – Você está certo. Desligou e voltou para a mesa. tirou do bolso papel e caneta. Seu sorriso era tão horripilante que os dentes pareciam se retorcer.FJ deu de ombros. depois anotou alguma coisa. – Não sei. mas não. FJ pegou o celular e digitou um número. – Quando foi isso? . Mas ele não estava. no apartamento de Fort Lee. Deu algumas instruções. – Você ainda está me seguindo. Então. até as cenas lésbicas se tornam repetitivas. Fiquei sabendo sobre Esperanza e Bonnie. – O cara que vi em frente ao meu escritório não estava trabalhando para você? – Me desculpe. – Você sabe a resposta. Havia algo que My ron não estava entendendo. – Ontem à noite. – Espere um momento. E. saberia que não foi ela. E vi uma abertura. deixamos de segui-la quando ela atravessava a ponte Washington. FJ? – Não. – Quer saber a verdade? – Sim. Mas. Alguma coisa como “sei com quem sua esposa está dormindo”. depois de um tempo. Ele ligou de volta. é claro. por favor. se você estivesse seguindo Esperanza. – Sério? – Para de fazer joguinhos. Você não mandou ninguém me seguir? – Não. – Até os confins do Universo? – Aonde você quer chegar. – Mas.

passo o número de onde Clu ligou. é claro. – Espere. pondo-se de pé. – A sua agência vai destruir a carreira deles. como você já viu. – Os dois são clientes meus. – Não tem acordo. Então esta é minha oferta: você para de persegui-los. E não jogo dinheiro fora. – O que você quer. – O que você quer. – Que mau humor. Informação é poder. Pegou o café. FJ? – Você conhece Dean Pashaian e Larry Vitale. Olhou para My ron e balançou a cabeça: – Não tão rápido. . My ron esperou. Fez o possível para ficar calmo. deu um gole demorado. nós dois sabemos disso. então? Ele tomou outro longo gole. é recolher informação. Não quero o seu. FJ? – Não se trata de dinheiro. de ligar para eles e dizer que a TruPro é dirigida por mafiosos. – Correção: eles estão pensando seriamente em sair da MB Representações Esportivas e vir para a TruPro. My ron cerrou os punhos e os escondeu debaixo da mesa. – Quanto. – De onde? – Tenho identificador de chamadas na minha linha particular – disse FJ. Se prometer fazer isso – disse ele. – A minha especialidade. Moeda. – Onde? FJ não se apressou em responder. My ron. FJ. My ron. – Então adeus – falou FJ. recostando-se. como se diz. Estão em cima do muro. Sempre destrói. FJ sorriu outra vez. mas de onde. fez um longo “Ahhhhh” como se estivesse filmando um comercial de refrigerante e pousou a xícara. Posso comprar você dez vezes. Como My ron gostaria de estender o braço e esganá-lo! – Tem certeza de que não quer beber nada? – Me poupe. que nenhuma garota da minha equipe vai ter um caso lésbico com a esposa deles. Porém o mais importante não foi o que. mostrando o pedaço de papel em que anotara algo –. – Clu estava fora da cidade quando retornou minha ligação. – Posso garantir a você. Dinheiro. – Prometa ou vou embora.– Hum… Uns três dias antes de ser morto? – E o que ele disse? – A reação foi óbvia.

FJ abriu os braços. – De onde ele ligou. FJ se dirigiu para a porta. Depois disso. . o que poderia ser mais baixo. coordenar campanhas políticas? – Negócio fechado. – Adeus. My ron. – Podemos chegar a um meiotermo. – Tudo bem – disse My ron. FJ? – Aqui está o número – disse ele. entregando o pedaço de papel. – Você é um negociador maravilhoso. FJ levou a mão à orelha: – Não escutei. My ron leu e foi correndo para o carro. Estou pasmo diante de sua habilidade. Vender dois clientes.– Vamos conversar sobre isso – disse My ron. Não falo mais com eles.

– Você sabe que sim. – Sinto muito. Cohen. Mas moramos no lugar oito meses. Na Rota 9. Você entende? O casamento podia ir mal. A mãe dela atendeu. Não vou lá há quase dez anos. Talvez ele tenha feito algum amigo. . Não sei. Ele agradeceu e desligou. Talvez tenha ido pescar ou descansar ou fugir disso tudo. – Bonnie? – Não tenho a menor ideia. significa para você? Ele pensou ter percebido Bonnie tomar fôlego. Ele se identificou e pediu para falar com a viúva de Clu. mas… – Entendo. – Pense. – E o que Clu estava fazendo no Motel Hamlet três dias antes de morrer? Silêncio. Bonnie. – Ela está de luto. – Não em Wilston. – E Billy Lee Palms. Por que Clu iria lá? – Não sei. Dois minutos depois. você não está escutando. Ele também morou lá na mesma época. My ron segurou o telefone com força. – Motel Hamlet – disse uma voz de homem. – Ela ficou muito chateada depois que você foi embora ontem. Digitou o número e ouviu três toques. em Wilston. My ron? – O que o Motel Hamlet. Sra. Talvez tenha ido visitar algum velho amigo. perto da Interestadual 91. – Você e Clu moraram lá. – Que velho amigo? – My ron. Win olhou. – Nada. Acho que em Deerfield. – Qual o endereço de vocês? – Estamos em Wilston. É a cidade ao lado. Eu não sei. – Em Wilston.32 M Y RO N J Á T I N H A O CE L U L A R na mão antes de chegar aonde estava Win. por favor. É muito importante. Um suspiro profundo. Bonnie atendeu: – O que foi. nas ligas menores. enquanto My ron ligava para Bonnie. mas deixe-me falar com ela. – Por que quer falar com ela? – Por favor. Quando Clu jogava no Bisons. Massachusetts. – Você está mentindo para mim. não? – Não no motel. quero dizer.

– Win balançou a cabeça. – Vamos? My ron pensou um pouco. Mas você continua. certo? Pedi que não fizesse isso. My ron quase sorriu. – Só estou tentando ajudar Esperanza. Esperanza também pediu. como se estivesse em um programa de auditório. – Deve levar umas três horas. Ele pôs o telefone no bolso e olhou para Win. – Posso fazer uma pergunta. – É assustador. .Silêncio. Hester Crimstein também. Win pisou no acelerador. o que não era fácil no coração de Manhattan. – Ligue primeiro para Terese. – Valendo duzentos pontos: canção horrível – disse Win. Bonnie desligou antes que ele tivesse chance de responder. – O quê? – Resposta: Barry Manilow e clássico americano. – Às vezes. quando as nossas cabeças estão sintonizadas… – É – disse My ron. My ron assentiu e pegou o telefone. My ron? – O quê? – Você continua fuçando e fuçando. – E onde está a pergunta? – Vou fazer agora: toda essa sua investigação ajudou em alguma coisa? Fez Esperanza parecer mais ou menos culpada? My ron pensou um pouco. – Vamos dizer duas. – A pergunta seria: “O que é ‘Time in New England?’” – Resposta correta. mas não adiantava mais. – Você sabe como chegar lá? – Sim. – Acho que não temos escolha. – Por favor – disse ele.

até Wilston estava mudando. para alimentar essas lojas gigantescas que se erguiam às suas margens. móveis baratos e hipermercados. a livraria frequentada por lésbicas. Eles cruzaram a cidade em alta velocidade – com Win na direção. Mas isso era bom. Elas aniquilavam a personalidade e o encanto das cidades pequenas. os antigos sinais de liberalismo estavam lá: a loja de doces vegetarianos. na . o café onde várias etnias se encontravam. Sim. pavimentada com paralelepípedos. Win olhou para ele. Tudo estava tomado por lojas de utilidades domésticas. como tudo o mais nos Estados Unidos. como se por gulodice. É possível ver vestígios dos tempos antigos: a típica cidade da Nova Inglaterra trabalhada nos mínimos detalhes. os lugares e as pessoas se acostumam com tanta rapidez e boa vontade a elas. a loja que vendia lâmpadas negras e parafernália para fumar maconha. a que só vendia ponchos. – Você sabe que estou armado? – Foi você quem pôs essa música na minha cabeça. era tão liberal quanto uma cidade universitária pode ser. Angelo’s Sub Shop. queixar-se das mudanças que o progresso impõe e sentir nostalgia pelos velhos tempos é de certa forma cômodo. portanto. da Carolina do Norte a Nevada. quase uma espelunca. My ron começou a cantar baixinho “Time in New England”. se essas mudanças são tão ruins. Mais difícil é responder por que. os isolados do mundo. tudo era em alta velocidade – e chegaram ao Motel Hamlet. a capela com sua torre branca no centro – um cenário que parece exigir o tapete de folhas do outono ou uma grande nevasca. Wilston possuía a fachada conservadora clássica da Nova Inglaterra.33 W I L ST O N FI CA N A PA RT E O E ST E de Massachusetts. Seattle Coffee. Na verdade. Entretanto. contudo. entravam silenciosamente. sobrava pouca textura e individualidade. a cerca de uma hora de New Hampshire e Vermont. instalando-se aos poucos nas esquinas: Dunkin’ Donuts. Do Maine a Minnesota. As franquias. Por outro lado. os protegidos e aqueles para quem a vida sorri conseguem ser. casas coloniais de madeira. a proliferação das lojas de departamento estava destruindo o patrimônio histórico. deixando o rastro universal de monotonia que assolava rodovias dos Estados Unidos. placas de bronze na frente dos prédios históricos. mas era uma cidade universitária – abrigava a Faculdade de Wilston – e. As estradas entre esses vilarejos haviam se alargado no decorrer dos anos. No entanto. Liberal como só os jovens. era como deveria ser. Baskin-Robbins.

Procurou outras ligações do mesmo quarto. Os dois desceram do carro. olhando para o nada.periferia da cidade. Não precisava fazer joguinhos ali. My ron assentiu. É por isso que não vimos nenhum registro nos cartões de crédito. – Então… – Dou a você 500 dólares pela informação – disse My ron. é mais dinheiro do que recebo em um mês. mas não por muito tempo. O garoto estreitou os olhos. – Talvez você deva entrar e tentar encontrar alguma resposta. Viu a ligação interurbana para o escritório de FJ. Haviam chegado lá em menos de duas horas. ótimo. A impressora começou a fazer barulho. Coube tudo numa página. Win estacionou o Jaguar. My ron deu uma olhada em volta e viu um computador. – Você fica com o recepcionista. – Não entendo – disse My ron. parecia estar em coma induzido. não? Inclusive as locais. – Olá! Os olhos do garoto se desviaram em direção a My ron: – Oi? – Esse computador. Uma placa anunciava HBO GRÁTIS! e a máquina de gelo era tão grande que dava para vê-la da Lua. O garoto hesitou. definitivamente um universitário de férias. que deu a folha em troca. estava sentado atrás do balcão. My ron entregou o dinheiro ao garoto. Registra as chamadas telefônicas dos clientes. Clu tinha ligado para a secretária eletrônica de casa duas vezes. – Por que Clu ficaria aqui? – HBO grátis? – Provavelmente porque podia pagar em espécie. Examinou rapidamente a lista. Fora feita do quarto 117. bom. Que datas você quer? My ron repetiu. Certo. My ron olhou para o relógio. Bingo instantâneo. O garoto apertou algumas teclas. – Mesmo que eu seja despedido. Win viu um restaurante ao lado. Mas por que não queria que soubessem que esteve aqui? – São perguntas muito boas – replicou Win. Isso era bom. De tão entediado. – Quem quer saber? – Preciso ver os registros de todas as ligações externas de hóspedes dos dias 10 e 11 deste mês. – Vou ali fazer umas perguntas – disse. – Você é da polícia? Me deixe ver seu distintivo. O recepcionista. – Não sou da polícia. O garoto ficou de pé. Quem sabe uma ligação local? . – Ninguém vai saber.

Lembra? – Sim. – Ia? – Hester Crimstein na linha. – Certo. – Estou falando sério. Tinha o número do telefone. pare de agir feito criança! Onde você está? – Não é da sua conta. Qualquer loja de software vendia CD-ROMs com os telefones do país inteiro. – Quero que procure um número para mim – falou My ron. Primeira ligação da lista. Em todo caso. ou bastava procurar na internet. O coração de My ron começou a martelar. Um número local. – Você não está ajudando. Saiu da recepção. Quarto 117. My ron. Bolitar. Ele ligou para Big Cy ndi. Bolitar. podia estar prevenindo alguém. – Por favor. Poderia ser um erro. Pegou o telefone e ia ligar para o número. Estava perto agora. Não. – Onde você está? – vociferou a advogada.Não fazia sentido ir até ali só para fazer chamadas interurbanas. não queria estragar nada. Lamento se… – Nada de piedade. Sr. Precisava descobrir tudo o que pudesse primeiro. – O que você quer. Claro que não sabia quem estaria prevenindo. Sr. tudo bem? – Certo. O chão era de cascalho. Big Cy ndi poderia fazer uma busca. – E. – Porra. Leu o número. pode passar a ligação em um segundo. Era só digitar um número e ficava-se sabendo a quem pertencia e o endereço. certo? – Certo. a respiração mais acelerada. Hester? – Você está falando de um celular. você sabe onde Esperanza guarda os CDs com os catálogos telefônicos? – Sei. Precisa falar com o senhor com urgência. enquanto converso com ela. – Em que isso lhe interessa? Hester não gostou. como ficariam prevenidos ou sobre o que se preveniriam. Bingo outra vez. Hoje em dia era fácil conseguir catálogos completos. Chutou algumas pedrinhas. Mais progresso. não mude em nada. Muito perto. – Me passe para Hester Crimstein – disse ele. . Big Cy ndi o repetiu e depois passou a ligação de Hester Crimstein. – Já ia ligar para o senhor. Se fizesse a chamada. Big Cy ndi? – Sim? – O que você contou… Sobre ficarem olhando.

Esperanza quer ver você. e acho que você pode ajudar. Estou esperando você. Sentiu uma ligeira palpitação.– Não sabemos se a linha é segura – falou ela. – Temos um problema. Silêncio. – Já é quase meio-dia. Ninguém sabe. se tiver acontecido. agora. – Precisamos nos encontrar imediatamente. – Também não gosto dessa libertação de Esperanza que “ninguém sabe”. Vou estar no meu escritório. – My ron. – Acabei de soltá-la. – Que tipo de problema? – Não por telefone. por que Esperanza não me ligou? Por que Hester fez a ligação por ela? – É verdade. – É muito tarde. – Não gosto nem um pouco. venha para cá agora. – Vou demorar um pouco – retrucou My ron. – Pensei que ela estivesse na prisão. você quer ajudar Esperanza ou não? – Você sabe a resposta. A que horas posso esperar você? – Antes das seis é impossível. My ron. Ela suspirou. Agora sou a resposta a algum problema? – É bizarro – concordou Win. – Escute. – Então venha já para cá – disse Hester. – O que você achou disso? – perguntou Win. – Por que vai demorar. – Lamento. My ron e Win estavam no estacionamento do Motel Hamlet. Venha imediatamente para cá. – Você acha que Hester está envolvida nisso tudo? . Por quê? My ron pensou um momento. Mas. My ron? – Porque vou. – Agora não dá. – Claro que acontece. – Acontece. – Por quê? – Por que de repente Hester Crimstein está tão desesperada para me ver? Ela vem tentando se livrar de mim desde o momento em que voltei.

– E agora quer que retornemos imediatamente – completou My ron. – É uma possibilidade – disse Win. Você sabe qual é a sua meta agora? My ron ficou pensando. Ao meiodia. Um casal na casa dos 80 anos saiu de um dos quartos. – E descobrir a verdade. Win se manteve calado. Win balançou a cabeça. – Ela é advogada de Esperanza. Não tenho todas as respostas. Win o encarou. Win estreitou os olhos. – Parece que esse objetivo já foi alcançado. – Lógico – assentiu Win. – Estou fazendo a mesma coisa agora? – Você não sabe deixar as coisas acontecerem – falou ele. – E? – E ter deduzido que estamos em Wilston. – Qual? . Disse para me concentrar no meu objetivo.– Não consigo imaginar como – respondeu Win. você desviou a atenção da meta. – O que ela não quer que a gente descubra? Win deu de ombros. – Você me alertou. – Só quero saber o que você acha. O homem passara o braço em torno dos ombros da mulher. Os dois tinham um ar pós-sexo. – Então ela está tentando nos tirar de Wilston. – Libertar Esperanza – respondeu. Win franziu a testa. My ron e Win nos observaram em silêncio. – Fui longe demais da última vez – falou My ron. – Sim. – Mas ela pode ter falado com Bonnie Haid. Bom de se ver. – Alguma coisa que possa prejudicar Esperanza. por fim. – Isso não é resposta. – Não sou um sábio eremita das montanhas. – Existe outra complicação. Win sorriu. – Da última vez. – Devo deixar como está? – perguntou My ron. O amigo continuou em silêncio. – E se esses dois objetivos forem mutuamente excludentes? – Aí deixo a verdade pra lá. apesar de o sol não estar incomodando. Mas não dei ouvidos.

número 12. – O disquete veio para você – continuou Win. e o endereço era Claremont Road. My ron balançou a cabeça. De alguma forma você e essa garota desaparecida estão ligados. My ron conferiu o endereço e o nome que Big Cy ndi lhe dera. – Bom? – Não disse isso.– Lucy May or. Silêncio. é ela que liga você a isso tudo. – Tem uma locadora de carro nesta rua – disse ele. mas não tenho esperança. . – No entanto – continuou Win –. A linha estava em nome de uma certa Barbara Cromwell. – Você volta. – Não estou procurando ativamente por ela. E você simplesmente não é assim. – É um plano – falou Win. – Não tem como fugir disso. – E você? – Vou dar uma checada nessa Barbara Cromwell. Adoraria encontrá-la. Conversa com Hester Crimstein e vê o que consegue descobrir. O nome não lhe dizia nada.

você rapidamente sai de uma metrópole para uma cidade comum e daí para uma zona abandonada. Que idade teria se ainda estivesse viva? Vinte e nove. Não tinha campainha. o estado natal de My ron. que já devia ter sido um vermelho forte. Sr. Ele chegou por fim à porta. E agora? Desligou o motor. Uma cortina se moveu numa janela do andar de cima. sussurros. alguém correndo. Uma criança chamou: “Mãe!” e foi logo silenciada. Se divorciou há quatro de Lawrence Cromwell. Contemplou-o.34 E M M A SSA CH U SE T T S. Ao menos parecia antiga. O número 12 da Claremont Road – My ron não entendeu por que os números chegavam a 12 se a rua toda tinha apenas três construções – era uma casa antiga de fazenda. o azul e o vermelho fortes do brinquedo brilhavam sobre a grama seca. – Tem filhos? – Isso é tudo o que descobri até agora. deixando apenas uns retalhos de asfalto. quase invisível. com escorregador e escada de corda. Podia ouvir sons dentro da casa. o lado direito escancarado para baixo como a boca de alguém que sofrera um derrame. desbotara até tornar-se de um pastel diluído. Bateu e esperou. Pegou o celular e ligou para Big Cy ndi. sentia um martelar constante e abafado. como pedras preciosas contra um fundo de veludo preto. mas e daí? Tentou afastar aquele pensamento. O amarelo. Idades próximas. Barbara Cromwell tem 31 anos. No pátio lateral. Viam-se tábuas soltas e rachaduras grandes e a grama era tão alta que um adulto poderia se perder tentando atravessá-la. Era o caso ali. Fora visto. Bolitar. A SSI M CO M O em Nova Jersey. Olhou outra vez para a casa. – Já descobriu algo? – Não muito. A cor. Não tinha mais escolha. mas a grama invadira tudo. No peito. talvez 30. My ron ouviu passos. Abriu a porta e percorreu o caminho que levava à entrada. Bolitar. Sr. mas ele não ia embora. Enfiou a mão no bolso e pegou o retrato de como seria Lucy May or hoje. O topo da estrutura se inclinava para a frente como se sofresse de osteoporose. e uma voz de mulher disse: – Sim? . Sinto muitíssimo. Ele agradeceu e disse que continuasse tentando. Trinta e um anos. Ele parou em frente à casa de Barbara Cromwell e pensou na melhor abordagem. via-se uma daquelas casinhas de plástico da Fischer-Price. Já tinha sido pavimentado um dia. O beiral dianteiro do telhado havia rachado no meio.

tentar enxergar por alguma janela. abra a porta. se importaria em abrir a porta? – Vou chamar a polícia. – Entendo sua preocupação – rebateu My ron. O garotinho começou a chorar. – Não. – E se conversássemos pelo telefone? – Vá embora. pior ainda. sou amiga de todos os policiais daqui.– Sra. Sra. eles o prendem por invasão de propriedade privada. – Não. My ron deu um suspiro e voltou para o carro. – Não quero comprar nada. – Não conheço ninguém com esse nome. – Sra. – O que quer. não. Depois. Se quer alguma doação. De certa forma. Precisamos conversar. tomando coragem. Talvez devesse dar uma volta em torno da casa. então? – perguntou ela. – Por favor. O garotinho começou de novo a falar. – O que quer? – Quero falar sobre Clu Haid. assustar uma criança pequena. Barbara Cromwell disse que era amiga dos policiais da cidade. – Vá embora – repetiu ela. ainda na época em que jogava . Mais choro. Cromwell. por favor. meu nome é My ron Bolitar. Cromwell? – O que quer? – Sra. espere só um instante. com certeza… Pegou o telefone. senhora. – Não estou aqui por nenhum desses motivos. com sua voz mais tranquilizadora –. gritou: – O nome Lucy May or lhe diz alguma coisa? A única resposta foi o choro da criança. não estou vendendo nada… – E não aceito pedidos de ajuda pessoalmente. senhor. Gostaria de lhe falar um instante. Houve uma longa pausa. E agora? Não conseguira sequer vê-la. mas ele também era. Cromwell – respondeu ele. peça pelo correio. – Escute bem. A mulher o fez calar-se. Cromwell. – Ou vou chamar a polícia. Breve silêncio. Ah. Ou. Porque ela chamaria a polícia. que ideia genial! Ser preso por espionar. – Estou indo. – Tudo bem – disse My ron. Se eu disser uma palavra. Wilston fora a cidade onde Clu havia sido preso na primeira vez que fora pego dirigindo embriagado.

Podia estar aposentado agora. Talvez soubessem alguma coisa sobre a misteriosa Barbara Cromwell. tentando lembrar os nomes. Não precisou de muito tempo. havia boas chances de que ao menos um deles ainda estivesse na ativa. . Entretanto.nas ligas menores. Examinou seu banco de memória. um homem com seus 50 anos na época. Esquecera o primeiro nome. O oficial que efetuara a prisão se chamava Kobler. My ron o livrara com a ajuda de dois policiais. O delegado era Ron Lemmon. Valia uma tentativa.

My ron nunca fora àquela delegacia. – Por que está perguntando sobre dois policiais . ah. – Não. No crachá estava escrito “Hobert”. – Soa familiar. rindo. a delegacia de polícia de Wilston não ficava num prediozinho insignificante. com aparência de fortaleza. como se dissesse: “O que se pode fazer?” – E um cara chamado Kobler? Acho que era subdelegado uns dez anos atrás. feito um rato faminto – comentou Hobert. Já estava aposentado fazia dois.35 CO N T RA T O D A S A S E X P E CTAT I VA S. Um sargento sentado atrás do balcão olhou para My ron quando ele entrou. Dólares trocaram de mãos – um pouco para o oficial que o prendera e um pouco para o delegado de plantão. – Ele ainda mora nesta região? – Não. A imagem trouxe de volta lembranças da Escola Primária Burnet Hill e dos antigos treinamentos contra bombardeios. Lamento informar que Ron morreu. senhor? – My ron Bolitar. Após o acidente de Clu. Os degraus que conduziam até lá tinham uma daquelas placas antigas de abrigo antibombas. A voz de Hobert se tornou de repente tensa: – Eddie não está mais na corporação. Parecia ter uns 30 anos e. Doações. como muitos policiais hoje em dia. disseram. – Eu jogava basquete. tinha um corpo de quem passava mais tempo na academia que na loja de rosquinhas. Ninguém queria prejudicar o superastro emergente. Comeu-o todo. Acho que vive em Wy oming. Odeio basquete – rebateu ele. de tijolos escuros e velhos. Não levou mais que dez minutos. Todos sorriam. pensando por um momento e depois balançando a cabeça. – Sinto muito. deve fazer um ano agora. – Câncer. com triângulos amarelos ainda brilhantes no sinistro círculo preto. Ninguém queria arruinar a carreira promissora do jovem Clu. um exercício intenso em que ensinavam às crianças que se agacharem num corredor era uma defesa adequada em caso de um ataque nuclear soviético. não é isso. Posso perguntar seu nome. Estava sediada no porão de um edifício alto. – Em que posso ajudá-lo? – O delegado Lemmon ainda trabalha aqui? – Não. ele encontrara os policiais nos fundos de uma lanchonete na Rota 9.

– Certo. Hobert pareceu meio em dúvida. Eu só queria ter certeza de que ela não é uma aproveitadora. O antigo delegado. Geralmente o usava com senhoras de idade. Meu trabalho é cuidar de atletas e. – Qual é o nome dela? – perguntou Hobert. My ron não ouviu nada disso. Alguém congelara aquele momento. – Acho que é bem provável. . Duas palavras para definir aquele discurso: muito fraco. – Tem algum atleta interessado em Barbara Cromwell? My ron tentou um ligeiro recuo: – Talvez tenha entendido o nome errado.antigos? – São velhos amigos. Por um instante. – Barbara Cromwell. – Por quê? – Você mencionou Ron Lemmon antes. O sargento piscou. E esse meu cliente se interessou por uma moça que vive aqui nesta cidade. até que de repente esse mesmo alguém o jogou ali dentro. quase desejando. O ventilador girava. Ele mergulhou no negrume. – Queria perguntar a eles sobre uma pessoa com quem um cliente meu se envolveu. esperando. as mãos girando. mas não custava tentar. de certa forma. – Cliente? My ron abriu seu sorriso de filhote abandonado. – Com licença – pediu o policial e foi atender. – Sou agente esportivo. suspendendo-o sobre um buraco escuro e dando-lhe bastante tempo para observar o vazio. My ron ficou pasmo. cuidar para que ninguém se aproveite deles. Um telefone tocou. – Barbara Cromwell é filha dele. – Isso é alguma piada? – Não. espatifar-se no fundo. o corpo dando voltas. bem.

A mãe mencionou quando a visitei em sua casa. Diz que quer falar com você. Pensou nas “dores no peito” do pai e em como elas eram. Os lojistas. culpa sua. – É? – Sawy er Wells disse que dava atendimento para drogados em Rockwell. não acho que haja mais muita necessidade. em estarem envelhecendo. o tipo de lugar onde ainda se usavam barbas desgrenhadas e bonés pretos e todos pareciam com uma dupla hippie num show ao ar livre. somente você e pessoalmente. não – respondeu My ron. de certa forma. Em . – Que coincidência maravilhosa. em como seu desaparecimento havia contribuído pelo menos parcialmente para o que acontecera. – Hum – murmurou Win. Caminhava pela praça da cidade. Gostava muito. sorriam para ele. Cumprimentava com a cabeça as muitas pessoas que passavam por ele. – Ela admitiu? – Não. Depois tentou fazer com que eu desse detalhes do seu paradeiro. – Não é coincidência – disse My ron. subiu e desceu a rua principal de Wilston umas sete ou oito vezes. – Isso explica tudo. Pensou em Jessica e em como ela dissera que iria lutar por ele. Não deu explicação nenhuma. A cidade era tão anos 1960. Pensou em como teria sido para eles se tivessem sofrido o mesmo destino de Sophie e Gary May or. – Hester Crimstein estava tentando desviar nossa atenção. Comprara algo numa lanchonete de comida mexicana e engolia sem sequer sentir o gosto. Nenhuma surpresa. – Você gostaria que eu – Win hesitou – a interrogasse? – Por favor. – Lembro. se ele houvesse desaparecido aos 17 sem deixar pistas e nunca fosse encontrado. e se perguntou porque não conseguia aceitar isso. Ele gostava dali. – Ética à parte. – Billy Lee Palms se tratou em Rockwell.36 M Y RO N H AV I A SA Í D O D A D E L E G A CI A . que retribuía. Quando acabou de falar com Win. Pensou na mãe e no pai. Win ligou: – Estávamos certos – disse ele. sem muito que fazer.

inclusive o homem encolhido num canto. Ao sair. porém. podia ir embora. e continuou a falar. No de Clu Haid. My ron ligou outra vez para Win. despreocupada. Depois sobre o pai de My ron. é claro. Conversaram por um longo tempo. Ou deixar os olhos se acostumarem à escuridão e. My ron entrou no carro e dirigiu de volta à casa de fazenda na Claremont Road. contudo. terminou. Você esbarra nelas. não se sustentava – e não porque fosse idiota desde o início. Aquela trégua. mas tristemente precisa – que se encontra o interruptor. estaria tudo bem. deixar a cortina como estava e até apagar a luz. As respostas nunca vêm com gritos de “eureca!”. tentando mais que tudo ficar longe do maldito interruptor. se é que significava algo. – Sei por que Clu Haid veio aqui – disse a ela. Era possível ir embora do quarto. como se olhasse através da cortina do boxe. Acendera a luz. às vezes em meio à total escuridão.Brenda e no que tinha feito. Win diria. Ajudou. Bateu de novo à porta e mais uma vez Barbara Cromwell lhe disse que fosse embora. porém. My ron não tinha certeza. Esperanza e nos sacrifícios que os amigos fazem. Na obscuridade. E depois – para continuar com essa analogia pobre. E outras vezes. não se vê o foco da infecção. . Poderia desligar o interruptor. Não muito. Ainda assim. que você o aciona e banha o recinto de luz. tropeçando e se levantando. – Você está pessoalmente envolvido. Tudo no quarto ainda estava turvo. não pensou no assassinato de Clu nem na morte de Billy Lee. Ele deu alguns telefonemas. até que por fim ela o deixou entrar. – Então Win estava certo – falou Terese. tropeçando no que não se vê. às vezes ele é justo como se imaginou. Distinguir formas. arrastando-se para a frente. Não pensou em Lucy May or. seria necessário puxar a cortina. Ela fica livre para crescer. embora não se visse nada claramente. até consumir tudo. No caso de Horace e Brenda Slaughter. Ele encontrara o interruptor. A analogia. a pessoa se perguntava se não seria melhor ter ficado para sempre tateando no escuro. Ligou para Terese e lhe contou o que sabia. como naquele momento. mas esse era o problema com a escuridão e as opções que Win daria. Conseguia ver luzes e sombras. Para saber o que acontecera exatamente. em seu desaparecimento nem na ligação dele próprio com o caso. que My ron estava simplificando a analogia. Ela disse que havia tentado checar alguns dados com suas fontes. Argumentaria haver outras opções. no entanto. batendo a canela nos móveis. Por um longo tempo. Win estaria certo. sobre o assassinato de Clu Haid. Em Terese. fez algumas deduções e confirmou o que já suspeitava. tateando as paredes e rezando para que a mão encontre o interruptor. Primeiro. na noite anterior e no que aquilo significava de fato. Cambaleia-se por um quarto escuro à noite. Em Win.

A primeira foi para o escritório de Hester Crimstein. o que você fez? – Elas não estão contando tudo a você. Pausa. aposto que Esperanza não contou nada. soube que não era a hora. Depois: – Meu Deus. – Imagino que esteja em contato com Bonnie Haid – retrucou ele. My ron só disse duas palavras: – Encontrei Lucy. ele quis perguntar mais. Na verdade. – Onde você está? – rosnou ela. – Onde você está. My ron fez mais duas ligações no celular. My ron. Quando ela atendeu. – Me culpo todos os dias – disse ela. .– Sim. Hester. Diga a Bonnie para ir também. Outra vez. – A pessoa acaba se acostumando. droga? – Chego aí em três horas. Outra vez. A última ligação foi para Sophie May or.

localizado num arranha-céu de Nova York. grande o bastante para acomodar vinte pessoas. Hester Crimstein era sócia principal de um escritório de advocacia caríssimo. Ela o conduziu por um corredor forrado do que pareciam ser folhas de mogno até uma sala de reuniões. no final das contas. Estava assustado. Devia fazer parte da legislação de Connecticut. Deu telefonemas. Mas eu não sabia de tudo ainda. As duas pararam. não é? – Mas do que vocês estão falando? – perguntou Hester. como os atletas tendem a ser. Bonnie continuou em silêncio. Bonnie? Assim que voltei. Eu disse que você estava errada. Elas ameaçaram se levantar quando My ron entrou. tudo era um conto de fadas. cobrados evidentemente de clientes que nada suspeitavam. não foi. Ela calou a boca. mas isso estava além de suas possibilidades. provavelmente isso aconteceu em mais de uma ocasião. de costas para a janela. Sempre havia. a preços exorbitantes. – Doze anos atrás – começou My ron – Clu Haid e Billy Lee Palms eram jogadores de um time da liga menor chamado New England Bisons. mas dessa vez conseguiu arrebentar o carro .37 M Y RO N T E N T O U D I RI G I R CO M O W I N . – Você quase me contou. Não vou insultá-la entrando em detalhes. Os dois eram jovens e irresponsáveis. Bem. É bom ficar sabendo no que foi se envolver. – O que está acontecendo afinal? – perguntou Hester. My ron se acomodou de frente a elas e continuou: – Um dia Clu Haid estava dirigindo bêbado. – O quê? – Escute. – Não se incomodem – disse ele. Percebeu que a atraente recepcionista o estava esperando. Escutou rádio. eles eram os maiorais. Imaginava se. Disse que se perguntava se não teríamos feito um desserviço a Clu ajudando-o. levamos Clu à morte ao acobertá-lo e protegê-lo. As duas se recostaram nas cadeiras. mas havia trechos em reparos na Interestadual 95. My ron a ignorou e olhou para Bonnie. Acelerou. sobre a qual se viam canetas e blocos para anotações em frente de cada cadeira. Hester Crimstein estava sentada ao lado de Bonnie Haid. Que a culpa toda era da pessoa que o havia assassinado. O mundo era o seu quintal. – Quero lhe contar uma história – falou ele. Havia uma mesa retangular. Hester.

Portanto. foi pego aceitando propina do tráfico de drogas. Isso acontece o tempo todo com atletas de sucesso. chegamos a um acordo e passei a eles o dinheiro. chamado Hobert. Não posso chamar de assassinato porque o atirador salvou minha vida. – E esse acidente virou quase uma maldição da múmia. ou talvez Deus tenha chegado a ele antes da múmia. o outro policial. Peguei o carro e fui correndo como um louco até o local. O seu agente. mesmo doze anos atrás. me contou. Clu. é assassinado. – Porque Esperanza não lhe falou nada – rebateu My ron. – Estava me perguntando quanto ela teria contado a você. A mulher o deixou. Só desviou para não bater em outro carro. A única pessoa ferida fora a esposa do próprio Clu. E Eddie Kobler. Foi isso que causou o acidente. Os filhos não falam com ele. Teve uma concussão séria e passou vários dias no hospital. Era um crime praticamente sem vítima. todos concordávamos. e o delegado da cidade. Eu tinha acabado de conseguir para ele vários contratos de patrocínio lucrativos. O melhor amigo e passageiro do carro. Uma acusação de dirigir embriagado poderia arruinar a carreira de um atleta jovem. Billy Lee Palms. Prenderam-no e ele se livrou graças a um acordo. O motorista embriagado. Clu não estava bêbado. – Os policiais e eu chegamos a um acordo. Billy Lee Palms e Bonnie atestariam essa versão. – Como você descobriu sobre esse tal Kobler? – perguntou Hester Crimstein. um cara chamado Eddie Kobler.contra uma árvore. Encontrei um policial. O rosto de Bonnie ia perdendo rapidamente a cor. Procurou alguém que o livrasse daquele problema. Hester fazia sua cara de irritada. é morto a tiros. Ron Lemmon. espere um pouco – retrucou My ron. Incidente acabado e esquecido. – Você está querendo dizer que Esperanza tem alguma coisa a ver com o que . Casos como esse são varridos para debaixo do tapete. Não muito. Clu fez então o que muitos atletas fazem. Ele devia se transferir para a liga principal em questão de meses. Eu. Não havia razão para destruir a sua vida por causa daquele pequeno incidente. – Ainda não vejo a relevância dessa história – comentou Hester. Clu era um bom garoto. – Mas você vai. Bonnie – ele apontou para ela com o queixo – ficou ferida no acidente. aparentemente. certo? Hester lhe lançou seu olhar de tribunal. Mora sozinho com uma garrafa em Wy oming. Só insistiu em que eu ficasse fora disso. porém curiosa. Clu entrou em pânico. O delegado que subornei morreu de câncer de próstata. – Um policial da cidade. Nada há nada de estranho nessa morte. Hester Crimstein interveio: – Não estou entendendo nada. Clu saiu ileso e Billy Lee quebrou um dedo. Um amigo repórter confirmou. – Doze anos se passaram – prosseguiu My ron.

não. – Como tinha feito com a polícia. Ela acabou levantando a cabeça. – Jesus Cristo. – A garota desaparecida? – Sim. – Vi. claro. Você precisa entender: eu só a vi naquela vez. My ron não tirava os olhos de Bonnie. tentando olhar Bonnie nos olhos. Poucos anos atrás. – Mas você nunca soube o que aconteceu com ela. Fazia sentido. ela sairia com Clu. – Sim – respondeu Bonnie. houve uma onda de publicidade em torno de Lucy May or. – Tem uma coisa que não entendo. Você conhecia Billy Lee. Os três juntos no carro. – Esse é o problema – disse ele. – Billy Lee Palms e Lucy May or formavam o outro. Hester Crimstein pareceu ter sido atingida por um raio. Você deve ter visto o retrato dela nos jornais. – Ela não lhe pareceu familiar? – Não. não? Bonnie hesitou: – Na época. – Lucy May or? – repetiu ela. Pintado de louro. – Foi você quem cometeu um crime. Era uma garota diferente a cada noite. Por quê? Bonnie não gostava muito de Billy Lee Palms. Mas por que estariam só os três no carro tão tarde da noite? Hester Crimstein assumiu o ar de advogada: – Você está dizendo que um deles não estava no carro? – Não. Mas. Clu e eu estávamos sentados na frente. – Do que você está falando? – Já naquela noite alguma coisa me dizia que o incidente todo era estranho. – Quem eram os quatro? – perguntou Hester. My ron. Estou dizendo que havia quatro pessoas no carro. – Não é verdade? – Ela não vai falar – disse Hester Crimstein. My ron balançou a cabeça. e não três. Contou que você pagou para ela ficar calada. – É verdade. – O quê? Os dois olharam para Bonnie. mas ela não levantava a cabeça.aconteceu? – Não. – O que Clu contou? – Que você a tinha subornado também – disse Bonnie. Não a reconheci. que sairia com Billy Lee. que abaixou a cabeça. que talvez levasse a namorada. . Subornou dois policiais. O cabelo estava de outra cor. – Bonnie e Clu formavam um casal – explicou My ron.

– Esperem – interrompeu Hester Crimstein. – Depois. – Mas em mim. Se você é quem está envolvido. – O quê? – Não era em Esperanza que eles queriam pôr a culpa – disse My ron. – Não estou entendendo nada. . – Mas depois você ficou sabendo. My ron. por que Esperanza levou a culpa? – Foi um erro. – É verdade.– Nem Clu. – É melhor você explicar. O que um antigo acidente de trânsito tem a ver com a morte de Clu? – Tudo – respondeu My ron.

Olhou para cima. Precisava ser constantemente redesenhada. . – Mas vocês dois sabem disso. Estava sozinho no campo. – Menti – disse. Jared começou a dizer alguma coisa. Sophie vinha atrás. O lugar onde sempre se sentira em paz. A voz de Jared May or rompeu o silêncio: – Você disse que encontrou minha irmã. As luzes do estádio permaneciam acesas. examinando as fileiras mais baixas e encontrando os assentos exatos onde ele e o irmão tinham estado tantos anos antes. pensou My ron. Deveriam tê-lo enterrado aqui. mas. olhando para as linhas. My ron se virou para o túnel.38 O E ST Á D I O D O S YA N K E E S PA RE CI A encurvar-se na noite. a ponto de o dentro tornar-se fora e o fora dentro. esperando. Mesmo no Bronx. onde estacionavam executivos e jogadores. Seria repintado no dia seguinte. O branco das linhas que delimitavam a área interna do campo estava enlameado. My ron percorreu a arquibancada mais baixa e pulou o muro próximo à área do rebatedor. Jared subiu os degraus de cimento. no campo. A linha que dividia o bem do mal não era tão diferente daquela. Há pessoas que dizem que o beisebol é uma metáfora da vida. Tendia a desbotar com o tempo. não havia nada como o cheiro de um campo de beisebol. Caminhavam como se fossem treinadores indo conversar com o lançador reserva. mostrava-se tão frágil quanto a cal. Com frequência. My ron não sabia se era verdade. em direção aos milhares de assentos. A casa de Clu. quase cor de terra. My ron se pôs de pé. Eles continuaram a caminhar. Se muitos jogadores a pisavam. Virou-se na direção do túnel dos times visitantes. mas não havia ninguém. de não ser mais possível distinguir o bem e o mal. O guarda noturno na entrada de imprensa disse que os May ors o encontrariam no campo. perguntava-se. vazios como os olhos dos mortos. Engraçado como é possível lembrar-se das coisas. Respirou fundo. My ron deixou o carro no Setor 14. Dirigiu-se até a área do lançador ouvindo o agradável farfalhar da grama sob os pés e sentou sobre a placa branca no chão. mas a mãe colocou a mão sobre seu braço. como se tentasse escapar ao brilho das próprias luzes. O estádio deserto era apenas um cadáver sem alma. Sob a área do lançador. antes do jogo. Havia apenas três outros automóveis ali. – Sua irmã morreu – falou My ron. ficava manchada e borrada.

por melhor que fosse sua bola curva. O importante é que Clu e Billy Lee se livraram do corpo. E também não importa. – Eram gente da pior espécie. mantendo os olhos na mãe. de como conviveu com isso todos os dias. – Você não tem como provar nada disso. – Quaisquer que fossem as condições da sua filha. Lucy estava morta e enterrada daquela forma. Clu e Billy Lee acharam que estivesse morta. talvez não – continuou Sophie. Não sei detalhes. Morreu na hora. as drogas… – Está sendo muito benevolente – disse Sophie. – Talvez – disse Sophie. Mas não na cabeça de Clu Haid e Billy Lee Palms. Não acho que sejam relevantes. mas aquilo era homicídio. My ron assentiu. Como disse. My ron esperou. Eram só dois idiotas burros e bêbados. – Não dê a eles o crédito de terem uma consciência – continuou ela. Então provavelmente a ocultaram na vegetação. – Clu Haid e Billy Lee Palms não eram médicos. Uma acusação de embriaguez ao volante já seria suficientemente séria. Você me contou sobre o tormento terrível de não saber a verdade. My ron o ignorou. Clu e Billy Lee podem ter criado um inferno particular em suas vidas. e o tormento continuava. A tendência autodestrutiva. Lucy podia estar apenas ferida. Podia estar viva. – Quero ouvir o que você tem a dizer. Não se via qualquer tremor em seu rosto. Depois que tudo se acalmou. Era uma estrada tranquila. Minha opinião é que esconderam o corpo. voltaram e a enterraram. – Você sabe como descobrimos por fim o destino da nossa filha? . Jared se colocou em frente a My ron. não conheço os detalhes. Não devo tentar compreendê-los. Clu ficou aterrorizado. Ele e Billy Lee entraram em pânico. Lucy se foi. Não teria como escapar. Um médico poderia tê-la salvado. mas não chegou nem perto da angústia da sua família.– Morreu num acidente de carro provocado por um motorista embriagado. – Vá em frente – falou Sophie. – Talvez você esteja certa. – É possível. – Talvez? – Talvez ela tenha morrido na hora. Mas acho que o que fizeram naquela noite definiu o resto de suas vidas. Sawy er Wells pode nos contar. My ron pareceu confuso. – Os anos passaram. Talvez eu esteja analisando demais ou sendo muito benevolente com eles. mas ainda assim não tiveram tempo para enterrar Lucy antes da chegada da polícia e da ambulância. A cabeça de Sophie ainda estava erguida.

Sophie balançou a cabeça. Disse que preferia preenchê-lo com esperança. já que ele não estava lá quando isso aconteceu. Por meio da rica família May or. E daí? O testemunho dele sobre a propina para os policiais era de segunda mão. aquele momento de sua vida que moldou todos os outros. My ron – falou ela. Não havia nada ali que funcionasse como prova. Sophie. – Preencheram então com a vingança. – Mas. – Sim. – Entendo – disse Sophie.” Sawy er atendia drogados em Rockwell. Vai se sentir melhor e ver que ainda é digno de ser amado. . Então tudo o que você tinha era o delírio de um dependente químico. Então foi até você e seu marido e contou o que descobrira. – E quando a esperança acabou. – Foi o que eu fiz – disse. Minha opinião é que ele o pegou durante uma crise de abstinência. – E isso significava que fazer justiça dependia de você. passando por uma crise de abstinência. por que eu iria querer abafar o caso? Por que não processar Clu e Billy Lee e até mesmo você? – Porque não conseguiria – respondeu My ron. Não seria difícil para alguém na posição de vocês. – As regras de Wells para o bemestar. dona da May or Software. Você e Gary tinham que vingar a filha. – Ele parou. Confessou a pior coisa que conseguiu imaginar. O carro já não existia havia anos. Mesmo que não fosse. – Continue. algo terrível. A confissão dele a Sawy er Wells provavelmente seria descartada. – O que aconteceu depois? – Com essa nova informação. quando a descoberta do corpo de sua filha destruiu tudo. O relatório da polícia falava de um teste de bafômetro que demonstrava que Clu não estava bêbado. – Por que não? – O corpo ficou enterrado doze anos. Sawy er vislumbrou de repente sua saída de Rockwell e uma vida sob os refletores. – Você me falou sobre um vazio. se tudo isso que você supõe for verdade. Mais uma prova inexistente.– Foi Say wer Wells – respondeu My ron. que não gostaria que ninguém soubesse. Provavelmente Billy Lee delirava e fez o que o terapeuta pediu. Regra 8. Não sei se foram seus detetives particulares que a acharam ou se usaram o dinheiro e a influência que têm para manter as autoridades caladas. olhou para Jared e depois de volta para Sophie. não? Ela não disse nada. Regra 8: “Confesse algo sobre você para um amigo. – Você não tem como provar nada disso! – repetiu Jared. vocês descobriram o corpo da sua filha. você e seu marido ainda precisavam preencher esse vazio. Você percebeu isso tudo. E de novo Sophie o silenciou com a mão. Billy Lee foi internado lá.

– Não! – disse Jared. Quem desconfiaria de você. – De sofrimento – interrompeu Sophie. – Não havia o que fazer com ele. tinha que lhe dar alguma esperança. eram só um veículo para destruir Clu Haid. O outro policial. – Você mandou para Clu um disquete. – Não sei a ordem dos fatos – continuou My ron. Pagaram caro. nada! Queria aniquilá-lo. – Você nos culpa. Anonimamente.Ela fixou o olhar nele. A mesma esperança que você e Gary haviam alimentado todos aqueles anos. Foi a única razão de você comprar os Yankees. Foi uma compra idiota. E. Começou a dar um jeito na vida. – É verdade – concordou Sophie. Dar a Clu uma última chance. . E. Com prazer. Sawy er ajudou. bem. Gary morreu logo depois da transação. Jared pôs o braço em torno dos ombros da mãe e a abraçou forte. – Se concentrou numa coisa apenas: ter Clu nas mãos. Dar-lhe esperança e depois arrancá-la dele. Quem melhor. Se afastou da droga e da bebida. E aí você a fechou. como mandou para mim. My ron? Ele não disse nada. já que sabia tudo o que estava acontecendo? Funcionou às mil maravilhas. mas e daí? Vocês tinham dinheiro. dinheiro é influência. Ela balançou a cabeça e bateu no braço do filho. todo mundo achou. Clu ficou na posição perfeita para o seu golpe de misericórdia: o exame antidoping. melhor ainda. Para poder aniquilá-lo. Bonnie me contou. Você o manipulou para que ele não passasse. Nunca esteve tão feliz. Ele mordeu a isca. – Machucar. vinda de uma proprietária que se mantinha afastada de todas as outras decisões sobre o beisebol. Mas era só para colocar Clu no time. ele cooperou. – O delegado desonesto estava morrendo de câncer – começou Sophie. – Mas você suportou junto com ele. e pela primeira vez ele viu uma lágrima. Você o tinha na palma da mão. Então comprou com seu marido os Yankees. Não só destruiu Clu. e estranha. E Bonnie inadvertidamente ajudou ao pedir o divórcio. sim. como seu amigo Win diria. destruí a vida dele. como também desviou as atenções de você. Os Yankees não significavam nada. levantando a cabeça. – Mas ele também já estava relativamente acabado. – Mas era Clu quem você queria machucar mais – falou My ron. Fez com que ele vivesse em terror constante. A esperança dói mais que tudo. Você sabia. – Anos de sofrimento. já que o exame aparentemente também a prejudicava? Mas você não estava nem aí. Isso explica os 200 mil dólares desaparecidos. Não importava. O FBI armou uma arapuca a nosso pedido. – Sim. Também contou que você o chantageou. Estava lançando bem.

My ron. Não tinha dinheiro. E o fizeram. Sophie. Estava sem saída. acabando com o sofrimento de Clu. A família era pobre. Mas. – Você também já fez isso. Clu foi então até Wilston uns dias depois. – Você não vai alegar que é inocente nisso tudo. ele juntou as coisas. num dos cantos do campo. Borrifava e lustrava. O delegado ficou sabendo que vocês descobriram o corpo. – É assim que você interpreta o quebra-cabeça. O Cavalo de Ferro. Wilston é uma cidade pequena. My ron? A voz saiu baixa: – Não. Ele não disse nada. Clu imaginou que Barbara dera com a língua nos dentes. não dela. – Continue. – Surpreso com o quê? – Que você o tenha matado. depois que você começou a bombardeá-lo com os telefonemas. – Deixe-o falar – disse Sophie. Ela nunca ia ter problemas por causa disso. Tentou imaginar como você tinha descoberto a verdade. Em várias ocasiões. Mas o que podia fazer? Não podia dizer que o exame foi manipulado porque havia matado Lucy May or. tudo ficou claro. Recusou-se a pagar. – Quem? – Barbara Cromwell. E eles podiam usar a informação para chantagear Clu Haid. E exigiu mais dinheiro. ela se fez de desentendida.– Está tudo bem. . A distância. – Clu não fazia ideia de que a garota que tinha enterrado na floresta era sua filha. – O que mais há para dizer? – Em primeiro lugar – falou ela –. Disse que tinha acabado. A filha do delegado Lemmon. Pensou que a fonte fosse Barbara Cromwell. Jared tirou o braço dos ombros da mãe. O crime era do pai. o disquete e principalmente depois do resultado do antidoping. Tanta valentia diante de uma morte tão terrível. Sophie balançou a cabeça. vai. – Do que você está falando? – perguntou. Mas ainda estou surpreso. Contou então à filha o que tinha realmente acontecido naquela noite. – Como ela sabia? – Porque por mais que vocês tentassem manter a investigação em segredo. trabalhando naquele momento – My ron sabia de visitas anteriores ao estádio – na pedra de Lou Gehrig. qual o seu papel nisso tudo? Um bloco de chumbo se formou em seu peito. – Quando percebi que Clu tinha visitado a filha de Lemmon. Quando ligou para descobrir se ela havia contado a alguém. Estava morrendo. não? – perguntou Sophie. – Essa era a peça final – disse My ron. um funcionário começou a limpar as placas comemorativas dos grandes jogadores dos Yankees.

exceto por uma coisa. – Aí decidiu me incriminar pela morte de Clu. Billy Lee achava que eu tivesse matado Clu para sepultar minha participação no crime. – Foi o que pensei na época. em Nova York. De forma que todas as evidências que supostamente apontavam para mim… – Apontaram em vez disso para a sua sócia. Talvez eu tivesse matado Clu. Diaz – completou Sophie. My ron balançou a cabeça. Sophie. vá em frente. a arma no meu escritório.My ron mantinha os olhos no faxineiro. – Até Billy Lee Palms falou isso. – Faz sentido – concordou ela. My ron não disse nada. Você também não sabia que Clu e Esperanza tinham se desentendido. – Dei uma pesquisada no seu passado – disse ela. E que eu queria matá-lo também. Estraguei o seu plano. – Fiz o quê? – Mas ele sabia. – Mais de uma coisa – corrigiu Sophie. Por isso você ficou tão chateada quando descobriu que eu estava fora do país. Sophie. Você não sabia disso. Esperava que o mesmo acontecesse com Billy Lee Palms. Uma dedução lógica. Acabou incriminando a pessoa errada. E Hester Crimstein também me disse na primeira vez em que a encontrei. – A forma perfeita de se vingar de mim por ter subornado os policiais. – E aconteceu. Não sabia que Esperanza e Big Cy ndi estavam fazendo um jogo de esconde-esconde com todo mundo. – Você e seu parceiro costumam fazer justiça com as próprias mãos. – Disse o quê? – Comentaram que o sangue foi encontrado no meu carro. O cara que vi em frente ao edifício Lock-Horne estava trabalhando para você. Outra vez a linha tênue entre o bem e o mal. Srta. – O quê? – Há mais de uma coisa que você quer esclarecer – disse Sophie. . – Mas tem uma coisa que gostaria de esclarecer. Eu estava fora do país. mas não dei atenção. – Eu devia ter percebido – admitiu ele. O que você quer saber? – Foi você quem mandou me seguir. disseram eles. Eu sabia que Clu tinha tentado encontrar você. Pela memória da minha filha. – Foi um acidente. – Mas. – Sim. por favor. – Exatamente – concordou My ron. – Mas fracassou. – Sim. – Foi o que fiz também. estou certa? Brincam de ser juiz e júri. fingindo que eu estava aqui. – Você tinha muito a perder.

Não fui até lá para matar Billy Lee Palms. fechou. My ron franziu o cenho. que não disse nada. Os olhos dela permaneciam como duas plácidas piscinas. o corpo esgotado de repente. Tudo se encaixa. – Disse a você qual é minha filosofia na última vez que nos encontramos. – Juiz e júri outra vez? – Para sorte sua. não esperava mesmo que você confessasse. My ron. sim. Mas você matou Clu Haid a sangue-frio. Não Billy Lee Palms. – Não. Ele se virou e olhou para Jared. Mas não merecia ser morto por uma escória como Billy Lee Palms. Resumindo. Não odeio o que mato. na verdade. Quis que ele tivesse pelo menos alguns momentos de agonia e medo. Quando tive que escolher entre você ou ele. – O quê? – Não matei Clu Haid. optei por matá-lo. – Não importa. – Você salvou minha vida – falou ele. – Também não foi ele – falou Sophie. My ron tentava entender: – Mas… . Considero o animal corajoso e nobre. – Foi um de vocês – afirmou My ron. Pelo contrário. É por isso que mato com um só tiro. My ron – falou Sophie. é claro. – Só pode ter sido você. Mas há graus de culpa. buscou algo para dizer. – Posso até compreendêla. Ele olhou de novo para Jared. Honro minha presa. Sou uma caçadora. My ron. – Cresci caçando e rastreando. – Pense. ele era mais culpado que você. Você merece ser punido. faz pouca diferença. Na cidade ou na floresta. – Não. A cabeça de My ron começou a girar. Matar. – Pessoalmente? Sophie riu. – Por quê? – Você sabe. pode ser um ato de compaixão. – Bem. My ron. My ron abriu outra vez a boca. – Não posso deixar você ficar impune – falou ele. cruzando os braços e sorrindo para ele. Ela não respondeu. E também nunca demonstraria compaixão por Clu Haid. Ele sentou com força no gramado. Respeito.– Então você estava me seguindo? No bar também? – Sim. eu não o matei.

Disparar mais tiros no corpo. ele já havia encontrado a saída dos covardes. nas costas. A conversa que tivera com Sally Li começou a se desenrolar em sua cabeça. a cena do crime. Então decidiram sujar mais. – E o dinheiro? – Estava lá. – Mas como você sabe que ele se matou? Você estava monitorando ou vigiando o apartamento? – Nada tão técnico assim. Encobrir o que realmente se passou. Ela balançou a cabeça. o remetente anônimo do disquete. A cena do crime… Deus. mas principalmente o passando vindo assombrá-lo. Como você observou. Sangue no chão. . Destruir as evidências. My ron. – Nosso grande confronto seria supostamente naquela noite. – Clu se matou? Sophie tentou sorrir. estava chantageando Clu. até na cabeça. Nem um pouco. Levar a arma. My ron. a postura ainda ereta. principalmente eu. – Ele foi covarde até o fim – disse Sophie. Mas eu ainda não estava satisfeita. – Meu Deus… Sophie balançou a cabeça para ele. My ron apenas a observava. Sophie. Mas quando Jared e eu chegamos. o exame antidoping. A cena do crime foi bagunçada para que ninguém conseguisse analisar as marcas de sangue e ver que tinha sido suicídio. Sangue pelas paredes. não. tudo isso foi demais. Um animal merece morte rápida. My ron sentia a secura de uma tempestade de areia na boca. – Ninguém leva outra pessoa se matar. – Sim. o joelho ruim estalando audivelmente enquanto se erguia.Sentiu então outro clique. mas não conseguiu. My ron começou a se levantar. Os esguichos de sangue revelariam a verdade. não pretendia encobrir o assassinato da minha filha. Sim. que deu todos aqueles telefonemas. Peguei o dinheiro e o doei ao Instituto para o Bem-Estar Infantil. Ele queria que nós. My ron. Mexer em tudo. Ele sabia que éramos nós. Clu tinha chegado ao fundo do poço. – O fim do casamento. o encontrássemos. Exatamente como você. Não era o que eu pretendia. Na panturrilha. Clu Haid. Os outros foram para despistar a polícia. Ele deu um tiro na cabeça. Clu Haid escolheu seu fim. Foi tudo uma manobra. Estava uma bagunça. mas não era isso que eu pretendia. mas… – Pretendia? Ele está morto. – Você o levou a se matar.

Começou a ler: Cara Sra. Ele só entregou o dinheiro. Acabou. Magoei minha família e meus amigos. Anonimamente. Eles foram a única coisa pura e boa na minha vida. se for necessário. – O quê? – Meu advogado está neste momento com o promotor público. Espero que minha morte lhe traga um pouco de conforto. – Plantou o sangue e a arma no meu carro e no escritório. Vai ter que conviver com esta realidade. Ou contratou alguém para fazer isso. Nunca soube a verdade. O dinheiro está todo aí. Ela vai ser solta amanhã de manhã. Estando ou não na mídia. My ron hesitou. – Não. enfiando a mão no bolso e tirando um pedaço de papel. My ron. Venho fugindo daquela noite a vida inteira. deve entender isso. entre todas as pessoas. Clu Haid . Mayor. E faça com que meus filhos saibam que o pai sempre os amou. – Sim. Foi sua vez de balançar a cabeça. Eles vão procurar resíduos de pólvora nas mãos de Clu. – A verdade tem que aparecer – disse ele. magoei você. Minha esposa desmaiou no acidente. Billy Lee Palms só fez o que o mandei fazer. Você. As acusações contra Esperanza vão ser retiradas. a carta de Clu. mais que todos. O mesmo se aplica a Myron Bolitar. Tenho até um bilhete de despedida. Faça o que quiser com ele.Silêncio. – O promotor não vai aceitar isso. Diga a Bonnie que lamento e compreendo tudo. Esse tormento me acompanha há muito tempo. – Não vou deixar Esperanza apodrecer na prisão… – Já cuidei disso – disse Sophie May or. não vai ser prioridade – disse ela. – Não entendo. Eu subornei a polícia. Mas o promotor não vai conseguir o que quer neste caso. – Você se aproveitou da morte dele – disse por fim My ron. Pegou o papel e reconheceu de imediato a letra do amigo. Vai querer saber da história toda. mas. – Tirei fotos do corpo. – Guardei provas naquela noite – explicou ela. é claro. Mas também não tenho força para encará-la. – Aqui está. – A vida é cheia de quereres. Não vão ficar sabendo quem ele representa. Sei que não vai aceitar minhas desculpas e não posso dizer que a culpo por isso. Também nunca soube a verdade e ainda não sabe. A culpa do que aconteceu é minha. E no final é só um suicídio.

E fique feliz por tudo ter acabado. – Não quero. as lágrimas brotando-lhe nos olhos. – Clu estava longe das drogas – disse ele. – Você não acreditou nele – disse. – Clu mentiu para nos proteger – interveio My ron. Eu diria que é um ótimo acordo. – No fim se sacrificou por aqueles que amava. – Você vai pagar o resto do salário dele. não? Ele leu outra vez a carta. antes de puxar o gatilho? Teria hesitado? Seus olhos continuaram fixos no papel. pondo-a de lado. – O mundo não vai ficar sabendo disso nem que ele era um assassino. – Mas diz alguma coisa. – Eu. Os dois se encararam. a se matar. Se um dia a verdade aparecer. – Você achou que eu tivesse ajudado Clu a encobrir a verdade. Imaginou Clu escrevendo-a. Foi mais que um garoto de entrega. por exemplo. isso é tudo. – Sim. – Não. nos dois garotos que tinham o mesmo sorriso seu. deixando que elas o cegassem um pouco. – Vá para casa. – Sobre a culpa dos outros? Não. Sophie franziu a testa. – Ele fez uma escolha. pegando a arma e encostando-a na cabeça. – E a minha filha não merecia ser assassinada e enterrada numa cova rasa – retrucou ela. pai de dois filhos. – Não – disse novamente Sophie.My ron leu outra vez carta. Sabia que estava mentindo. – Mas não merecia isso. – Não queira fazer dele um mártir. My ron. e aos filhos dele. Mas você não pode ficar impune pelo que fez. Você. só vai ter sobrado um culpado para cair. – Vai também dizer ao mundo. My ron olhou para as luzes do estádio. O que eu não tinha certeza era se . – Eu não sabia sobre sua filha – disse ele. Teria fechado os olhos naquele momento? Pensado nos filhos. que Clu estava longe das drogas. Ele assentiu. – Não. – Não fiz nada. – Agora acredito nisso. Subornou aqueles policiais. eu sei que você o ajudou a encobrir. – Um momento heroico no fim não o redime – falou Sophie. – Levou um homem.

Teve uma participação nas mortes de Clu Haid e Billy Lee Palms. a resposta é sim. – Sinto muitíssimo – disse My ron. que pegou sua mão. . Sophie parou. Mas sinto como se agora ela tivesse sido sepultada da maneira correta. – Por mais estranho que pareça. se não se importa. Acho que as feridas podem começar a fechar. Mas. e os dois se dirigiram para o túnel. Foi por isso que lhe pedi que procurasse Lucy. – Não vou mais prejudicar você. os olhos perscrutando-lhe o rosto. – Então seguimos com nossas vidas? Sophie sorriu. – O que tem? – Isso ajudou a preenchê-lo? Sophie pensou por um instante. Para que pudesse ver o seu grau de envolvimento. – O vazio – disse My ron. acho. Ela deu a My ron um instante para responder. – Você cometeu um crime subornando aqueles policiais. a terra e as luzes brilhantes do estádio. Ele não disse nada. E no final me fez cometer atos horríveis. Fez com que eu e minha família passássemos anos de angústia. de que sempre me achei incapaz – disse ela.você sabia o que estava fazendo. deixando-o sozinho com a grama. pode guardar seu pedido de desculpas. Não traz Lucy de volta. com um olhar mais cansado que acusador. Mãe e filho desceram os degraus e desapareceram. voltando para perto do filho. – Que mais podemos fazer? Ela fez um sinal para Jared. Provavelmente contribuiu para a morte prematura do meu marido. Soltou a mão do filho e observou My ron por um instante.

A mãe dela abriu a porta parecendo irritada. Win entrou no dele. – Ah. – Estou indo para Atlanta daqui a uma hora – falou Terese. Era Hester Crimstein: – Vão retirar todas as acusações – anunciou ela. até a mãe delabater em seu ombro e pedir-lhe que fosse embora. – Não – falou ela. Ele esperou. . Ele olhou para o relógio. – Talvez valha a pena tentar. Ele me quer de volta ao programa amanhã. Terese. – Talvez – assentiu ele. Voltou para o apartamento de Win. Ao abrir a porta. – Você vai aceitar? – Isso é com Esperanza. no corredor. A audiência anda baixa. viu a mala de Terese na entrada. – Esse nunca foi nosso problema. Encontrou Bonnie sozinha. Ela apareceu em seguida. – Esperanza vai ser solta amanhã de manhã. My ron não disse nada. – Você fez a mala – disse My ron. – Dizem que o sexo é ótimo. – É verdade. Ela sorriu. My ron tomou a direção da casa de Bonnie. – Ah – disse outra vez My ron. O celular tocou antes que tivessem dirigido cinco minutos. – Ninguém sequer sacou uma arma. Entrou no carro. – Já experimentou um relacionamento a distância? – perguntou Terese. Mostrou-lhe a carta de despedida. Ele fez sua vontade. Estão oferecendo limpar a ficha dela e em pedido de desculpas se prometermos não processá-los.39 N O E STA CI O N A M E N T O . Deu uma olhada nos dois meninos adormecidos e ficou ali. – Adoro homens observadores. My ron abraçou-a. ela chorou. Ela mexia num anel. – Você disse uma hora? Terese sorriu. W I N FE Z uma careta e guardou a 44. – Não. – Falei com meu chefe na CNN. Mas acho que ela vai concordar.

– Você vai sentir falta dela – disse Win. uma hora e dez. – Vou para Atlanta este fim de semana. Win permaneceu calado. por que não? – replicou ele. carente. My ron e Win estavam na sala vendo televisão. – Hum – disse ele. – Perfeito… – O que foi? – perguntou My ron. por que não? My ron encolheu os ombros. – Você é o defensor deles. – Esperanza disse que estou começando a ficar muito confortável desrespeitando as regras. Não pode se preocupar com as repercussões. À meia-noite. – Por favor. aproximando-se. O que pode ser melhor que uma mulher independente que vive a milhares de quilômetros de distância? Mais silêncio. – Você acredita mesmo nisso? – Claro. – A polícia também magoa inocentes. enquanto outro comercial passava na TV. – E? – E isso não é certo. Justiça com as próprias mãos. – Acabamos magoando inocentes.– Na verdade. em voz baixa. Estavam assistindo a uma reprise de Frasier. – Do que você está falando? – De nós dois. – Um agente representa seus clientes – falou Win durante um comercial. – A verdade é que – continuou My ron – já violo as regras há tempo. Subornei policiais para encobrir um crime. – A gente pisa tanto nessa maldita linha que acaba não conseguindo mais enxergá-la – disse ele. Win fez uma careta. My ron balançou a cabeça. – E importa? – Claro que sim. – Você não sabia a gravidade do acidente. que se acha incompleto sem uma namorada firme. – É. Sophie May or disse que você e eu fazemos a mesma coisa que ela fez. . – Você é do tipo lastimável. Aquele seriado estava começando a virar uma necessidade para os dois. Desrespeitamos as regras.

Esperanza sofreu. Win. – Simples assim. – Não podemos continuar a fazer isso.– Não assim. – Só para você. Você tomou uma decisão. mas não são todas difíceis? Poderia ter dado certo. ainda tamborilando o queixo. Foi uma escolha difícil. O fato de ele não conseguir conviver com isso não desculpa o que aconteceu. – E com aquilo com que se consegue conviver. Clu merecia ser punido. – Meu Deus. levando em consideração o que você sabia na época. – Exatamente. – Então. Clu optou por enterrar o corpo. não foi apenas um acidente. – Devemos nos preocupar com o aqui e agora. – Sem querer discutir a relativa gravidade de se dirigir embriagado. O que teria feito? – Talvez a mesma coisa – respondeu ele. – Confio na minha capacidade de julgamento. – Imagine se você fosse Sophie May or e Lucy fosse sua filha. – Isso transforma o errado em certo? – Depende. Win encolheu os ombros. quando não tinha nada a ver com isso. mas o que aconteceu com Lucy May or continua sendo um acidente. – Continuar a fazer o quê? – Desrespeitar as leis. Não prescrevo esse remédio para os outros. Mas agora você quer voltar no tempo e seguir por um caminho diferente. não. O que estou querendo dizer é que não se pode agir preocupado com consequências distantes. My ron – disse Win. Foi uma boa escolha. Confiava na sua também. Você consegue conviver consigo mesmo? Eu sei que posso. eu deveria optar por fazer a coisa certa. – De quê? – Do fator Clu Haid: você consegue conviver consigo mesmo? – Simples assim? – perguntou My ron. – Isso. da próxima vez – disse My ron –. . Win tamborilou o queixo com dois dedos. Win balançou a cabeça. – E se sente confortável? – Com o quê? – Com um mundo onde as pessoas fazem justiça com as próprias mãos – respondeu My ron. – Me deixe perguntar uma coisa. Clu poderia ter se emendado a partir daquela experiência e se tornado uma pessoa melhor. impossíveis de prever. A vida não é assim.

– Sabe o que me incomoda nessa conversa? – O quê? – É que não deve mudar nada. Só por um segundo. – A decisão é sua. Às vezes os mocinhos desrespeitam as regras. você e eu fazemos o bem. Mas esse não é o mundo real. – Não. My ron sorriu. – Era tudo o que eu queria ouvir. – Talvez. – Mas você não tem muita certeza – disse Win. – No cômputo geral. Depois voltam para o território da legalidade. – Esse cômputo poderia ser melhor se não cruzássemos a linha tantas vezes. E provavelmente você está certo. Mesmo que isso signifique deixar que existam algumas injustiças. – Talvez a linha deva ficar borrada. Win balançou a cabeça. – Cruzam a linha que separa o certo do errado. não – falou My ron. Só para fazer o bem. – Definitivamente. – Mas mesmo assim não gosta da ideia. porque sabem a diferença. a linha começa a ficar borrada. Win deu de ombros de novo. não tenho muita certeza.– Você está confundindo a coisa certa com a coisa legal ou aparentemente moral. Mas quando se faz isso com muita frequência. . My ron se recostou.

não… – Você é minha melhor amiga – continuou ele. Big Cy ndi ficou digerindo a informação e depois perguntou: – Laranja é a segunda cor preferida dela? – Claro. – Sabe que eu faria qualquer coisa por você. Ele não se mexeu. – É azul. Por um momento. Deram um abraço meio desajeitado. Calça paraquedista laranja. ESPERANZA! My ron foi para sua sala. – Não. – Essa era a parte que eu não conseguia nunca resolver – disse ele. My ron recuou um passo e enfiou as mãos nos bolsos. Eu acho… Satisfeita. Esperanza tentou um sorriso. imaginou um Smurf gigante.40 BI G CY N D I E STAVA T O D A D E L A RA N J A . No começo pensei que você . Sem bater. o esmalte de unha e a pele – não perguntem como – também laranja. Ouviu o guincho de prazer de Big Cy ndi. Casaco de moletom laranja. não? Esperanza não falou nada. Esperanza entrava em sua sala. conseguiu trabalhar um pouco. Ouvia berros. suspiros e manifestações de apoio. Por isso não conseguia entender. que parecia roubada de um guarda-roupa do MC Hammer de 1989. ouviu o barulho do elevador parando. – Não? Ele balançou a cabeça. mas sempre de ouvido no elevador. – Bem-vinda de volta. que quase fez os andares abaixo serem evacuados. As pontas do cabelo. Deu alguns telefonemas. Silêncio. Big Cy ndi sorriu e pendurou um cartaz na área da recepção que dizia: BEM-VINDA. – My ron. Sentiu as vibrações dos pulinhos dela. Levantou-se e esperou. Como sempre. Parecia uma cenoura ninja mutante. – Você sabia o tempo todo que eu estava envolvido na história. por nada neste mundo. Não fazia sentido. Às dez em ponto. por que você não conversava comigo. não é. – Obrigada. – Laranja é a cor preferida de Esperanza – disse ela. Dois minutos depois. As portas se abriram.

– Não tem por que me agradecer.estivesse chateada por eu ter sumido. – Obrigado. – Sim. Ela olhou para My ron. – Poucos. seria minha ruína. Depois achei que tivesse um caso com Clu e não queria que eu soubesse. sobrou algum cliente? – perguntou ela. porque isso bastaria para que eles a soltassem. Ainda assim eu ficaria do seu lado. – E. – E aí. – Eu sei. Dessa vez. – Papo de cama – disse Esperanza. Ele a abraçou outra vez. – Assim vou precisar de um lenço para enxugar as lágrimas. Então fiquei me perguntando: o que poderia ser tão mau assim para que não quisesse me contar? Para Win a única explicação era você realmente ter matado Clu. My ron. – Você é minha melhor amiga. Ela o abraçou também. – Fiz isso também por minha causa. – Qual é o propósito dessa conversa. Só haveria uma razão para você não me contar a verdade… Esperanza suspirou. Ainda por cima com tanta coisa em jogo. Esperanza pôs as mãos nas cadeiras. Você tem esse hábito. Mas por mim. Mas não era isso. se eu descobrisse. Quando se separaram. Você estava muito fraco depois da história de Brenda. – Mas nem isso explicaria. Você sabe. My ron? – Agradecer a você. assim que foi presa. Mas não estou em posição de repreender você. Fiquei com medo de que fizesse alguma besteira. Não por sua causa nem por ela. E você não teria medo de me contar isso. – Não me venha com sentimentalismo. E você sabia que. Eu tinha cometido um crime grave. tudo bem? Detesto quando você faz isso. – Você estava me protegendo. – Esse Win – disse ela. My ron deu um passo para trás. – Pare de repetir isso. Teria a licença cassada ou coisa pior. . Mas você não é assim. não conseguiria me impedir de contar tudo para o promotor. não foi desajeitado. – Bonnie contou a você sobre o acidente de carro e que eu subornei os policiais. Sabia que. Minha empresa. Aí pensei que fosse por causa do seu relacionamento com Bonnie… – Demonstrando péssima capacidade de julgamento – acrescentou ela. – Sempre vendo o lado positivo. se o suborno algum dia viesse a público. Pela empresa. você a fez jurar que ia ficar de boca calada. dando de ombros.

Já estive na prisão. – Não é isso. Estava sorrindo. – Pode deixar que eu atendo – disse Esperanza. Win arqueou as sobrancelhas. – Vamos pedir pizza e assistir alguns seriados velhos lá em casa. – E você me ama. Você nunca quer ficar sozinho. – Me desculpe. mato você. então. tenho outros planos – disse My ron. – Se começar a cantar a música do Barney. antes que eu comece a vomitar. – O episódio de Tudo em família com o Sammy Davis Jr! – Esta noite. Win levantou a sobrancelha. – Marty Towey na linha dois. Big Cy ndi enfiou a cabeça pela porta. Win entrou no escritório de My ron. My ron sorriu. Esperanza. – Cale a boca. Ao final de um longo e maravilhoso dia de trabalho. não. Carol Burnett! – Lamento. O amigo pareceu preocupado. – Não posso. – Melhor – falou ele. – Amo você.– Melhor a gente pegar o telefone. Pedi duas porções de camarões com molho de lagosta. – Mãe? – O que foi? – Na verdade não gosto mais do camarão com molho de lagosta deles. – Não me diga que quer ficar sozinho. parecia a mais assustadora abóbora de Halloween já vista. – E Enos Cabral na linha três. – Já falei com Esperanza – disse ele. Mary Tyler Moore. mas isso já é levar o sofrimento longe demais. Win. M*A*S*H. – Ótimo – respondeu a mãe. Agora não tenho mais medo. Com a pele laranja. – Consegui Tudo em família. My ron pegou o telefone e teclou o número familiar. Bob Newhart. . – Já liguei para o Fong. – Sei que você quer se punir – disse ele –. – Estou indo. – Esse é meu – falou My ron. deu meia-volta e saiu sem dizer mais nada.

– E você acha que consigo me lembrar de tudo? Está querendo me dizer. – Mas como você nunca me disse isso? – Disse. que suas papilas gustativas estão maduras demais para o camarão com molho de lagosta do Fong? Quem você pensa que é. My ron. – Grande coisa. estudar peixes? My ron riu. mãe? – Seu pai comprou ingressos para o jogo dos Mets. Domingo. você está aí? – Estou indo. Marlins. Al? É isso que vai fazer nas horas livres. Ele desligou. – Quem está perturbando? My ron. – Dirija devagar. Deu boa-noite a Esperanza e Big Cy ndi. Al. Al. My ron. pensou ele. mãe. – Salmons.– O quê? Você sempre adorou. – Tudo bem. Ele não dá a mínima para isso. – Vão jogar contra os Salmons – falou a mãe. My ron? – Sim. O jogo pode esperar. – Ponha o cinto de segurança. mãe. Vão só vocês dois. estou perturbando você? – E diga a ele para vir logo – gritou o pai. – Qual é o problema. deu um tapa na coxa e ficou de pé. Entrou no elevador e sorriu. – O jogo já está quase começando. mas às vezes um cara quer apenas ficar com a mãe e o pai. – Os Marlins! – berrou o pai. – Ellen! – gritou o marido. Al? – Eu queria contar a ele… – Pare de ser bobo. qual é a diferença? Virou biólogo agora. – Claro. – E seu pai tem uma surpresa para você. Não tenha pressa. My ron engoliu em seco e não disse nada. – My ron. – Não. – Diz ao pai que já estou indo – falou My ron. um chefe de cozinha? My ron ouviu o pai gritando: – Pare de perturbar o garoto. foi só até os 14 anos. Amantes e amigos eram ótimos. Várias vezes. É seu prato favorito. .

disponível no Brasil em DVD. Aclamado na França. Que falta você me faz também teve os direitos vendidos para o cinema.So b r e o a u to r © Claudio Marinesco Vencedor de diversos prêmios. Depois de se formar em ciência política.harlancoben.com . todos por livros da série de My ron Bolitar. Atualmente produz a minissérie baseada em Não há segunda chance para a maior rede de transmissão de TV da Europa. Em 2015. Suas obras já foram traduzidas para 41 idiomas. Seu livro Não conte a ninguém foi transformado no premiado filme homônimo estrelado por Kristin Scott Thomas e François Cluzet. H A RL A N CO BE N é o único escritor a ter recebido a trinca de ases da literatura policial americana: o Anthony. Coben é conhecido como “o mestre das noites em claro”. Nova Jersey. o Shamus e o Edgar Allan Poe. trabalhou no setor de turismo. www. Ele mora em Nova Jersey com os quatro filhos e a esposa. Harlan nasceu em Newark.

Eles se apaixonaram e. viveram os melhores meses de suas vidas. um ex-namorado. Jake tentou esconder seu coração partido dedicando-se integralmente à carreira de professor universitário e assim manteve sua promessa.. Ao ver o obituário de Todd. E foi por isso que Jake não entendeu quando Natalie decidiu romper com ele e se casar com Todd. ela pediu a Jake que os deixasse em paz e nunca mais voltasse a procurá-la. esteja onde estiver. durante seis anos. . O dele era para escritores. para artistas. Jake não resiste e resolve se reaproximar de Natalie.CONHEÇA OUTROS TÍTULOS DO AUTOR SEIS ANOS DEPOIS Jake Fisher e Natalie Avery se conheceram no verão.. Eles estavam em retiros diferentes. encontra uma viúva diferente e logo descobre que o casamento de Natalie e Todd não passou de uma farsa. mas não imagina os perigos que envolvem procurar uma pessoa que não quer ser encontrada. Agora ele está decidido a ir atrás dela. Em Seis anos depois Harlan Coben usa todo o seu talento para criar uma trama sensacional sobre um amor perdido e os segredos que ele esconde. o dela. em vez de sua amada. porém próximos um do outro. No dia do casamento. juntos. No enterro.

sua esposa. tudo parece ter entrado nos eixos: Olivia. ele e Olivia são forçados a desafiar a lei em uma tentativa desesperada de salvar seu futuro juntos. Para piorar. . ao tentar apartar uma briga. ele mata uma pessoa acidentalmente e é considerado culpado pelo júri. Agora. nove anos depois de ser libertado da prisão. está grávida e os dois estão prestes a comprar uma casa na cidade natal dele. Em pouco tempo. Mas a ilusão acaba quando Matt recebe um vídeo chocante e inexplicável que começa a despedaçar sua vida pela segunda vez. Durante uma festa. o perseguidor é encontrado morto e uma freira querida por todos também é assassinada. ele começa a ser seguido por um homem misterioso. Matt Hunter vive uma noite de horror que ficará para sempre gravada em sua memória. Quando as pistas apontam para Matt.O INOCENTE Aos 20 anos.

Broome é um detetive incapaz de esquecer um caso que nunca conseguiu resolver: há 17 anos. .FIQUE COMIGO A vida de Megan Pierce nem sempre foi um mar de rosas. mas agora. um pai de família desapareceu sem deixar rastro. Mas hoje é mãe de dois filhos. Agora. um misterioso acontecimento fará com que seus caminhos se cruzem. Essas pessoas levam vidas que nunca desejaram. à medida que se deparam com a faceta sombria do sonho americano – o tédio dos subúrbios. Ray Levine já foi um fotógrafo respeitado. E. a angústia da tentação. elas chegarão à chocante conclusão de que talvez não queiram deixar o passado para trás. Todos os anos ele visita a casa em que a mulher e os filhos do homem esperam seu retorno. Houve uma época em que ela nunca sabia como seria o dia seguinte. apesar disso. tem um marido perfeito e uma casa de sonhos de qualquer mulher – e. se sente cada vez mais insatisfeita. aos 40 anos. o desespero e os anseios que podem se esconder nas mais belas fachadas –. tem um emprego em que finge ser paparazzo para massagear o ego de jovens endinheirados obcecados em se tornar celebridades. obrigando-as a lidar com as terríveis consequências de fatos que pareciam enterrados havia muito tempo.

a mãe de Spencer. uma estranha mensagem muda completamente o rumo dos acontecimentos: “Fica de bico calado que a gente se safa. Spencer Hill –. ele não estava sozinho naquela noite fatídica. Porém. Quando duas mulheres são atacadas por um assassino. Ao contrário do que todos pensavam. Mike não medirá esforços para encontrá-lo. Betsy. mas desaparece misteriosamente. violenta e inesperada. Mike Bay e e sua esposa. quando eles já começavam a se sentir mais tranquilos. . o Dr. Tia. Acreditando que o garoto está correndo um grande perigo. Adam combina de ir a um jogo com o pai. Os primeiros relatórios não revelam nada de importante. encontra uma foto que levanta suspeitas sobre as circunstâncias da morte de seu filho.CONFIE EM MIM Preocupados com o comportamento cada vez mais distante de seu filho Adam – principalmente depois do suicídio de seu melhor amigo. uma série de acontecimentos faz com que a vida de todas essas pessoas se cruzem de forma trágica.” Perto dali. decidem instalar um programa de monitoração no computador do garoto. Teria sido mesmo suicídio? Para tornar o caso ainda mais estranho.

na verdade. Nana Mama. em psicologia. Ao descobrir que uma das vítimas foi sua namorada na faculdade. Em O dia da caça. Cross toma o caso como pessoal e se dispõe a pegar o assassino custe o que custar. o detetive. mantém um consultório particular e presta serviços ao Departamento de Crimes Hediondos da Polícia Metropolitana.. Maria. móveis revirados. O que descobre é pior do que imaginava: os responsáveis por tamanha atrocidade são adolescentes – meninos.D. Cross se vê diante de um dos piores crimes com que já se deparou: uma família inteira foi morta dentro de casa. Com a ajuda de sua atual namorada. que é também ph.C. D. para viver com a avó. O cenário não deixa dúvida quanto à crueldade dos assassinos – corpos esquartejados. Quando outro crime com os mesmos traços de barbárie vitima mais uma . janelas e vidros estilhaçados.CONHEÇA A SÉRIE ALEX CROSS O DIA DA CAÇA James Patterson Alex Cross perdeu os pais quando tinha 10 anos e então mudou-se para Washington. ele começa as investigações e é levado ao submundo de Washington. a detetive Bree Stone. Com uma longa e bem-sucedida carreira na polícia. morreu baleada num caso nunca solucionado. É com a ajuda dela que cria os três filhos desde que sua primeira esposa.

Com um ritmo eletrizante. logo descobre que o criminoso – conhecido apenas como Tiger – não está sozinho. Apesar dos protestos de Bree e de Nana Mama. Alex Cross trava uma batalha pessoal contra a corrupção. Cross não hesita nem por um instante. dando indícios de que o assassino viajou para a África. Ao chegar lá. quando não se sabe mais quem são os mocinhos e quem são os bandidos. No entanto. O dia da caça é uma aventura de tirar o fôlego e deixa claro por que James Patterson é o autor de suspense mais lido do mundo. ninguém está em segurança. . ele conta com a ajuda de pessoas muito poderosas e influentes. Diante de uma conspiração que ultrapassa fronteiras. percebe que as coisas não serão nada fáceis.família inteira. Na verdade. Capturado. ele parte para a Nigéria em busca de justiça. espancado e desprotegido.

Quem poderia bancar um luxo daqueles? Quando é convocado a contar tudo o que sabe a um dos principais agentes do Serviço Secreto. É assim que chega ao Blacksmith Farms. foi brutalmente assassinada. determinado a encontrar e punir os responsáveis pela morte da sobrinha. Cross terá que trabalhar sozinho e às escondidas para encontrar os assassinos . sobrinha do detetive. ALEX CROSS James Patterson Alex Cross está comemorando seu aniversário com a família e os amigos quando toca o telefone. que custa a partir de 20 mil dólares a diária. o detetive encontra sequências de letras anotadas. um clube privativo de altíssimo luxo na Virgínia. A primeira coisa que ele descobre é desconcertante. Ele decifra o código e percebe que as sequências revelam números de telefone de pessoas famosas e poderosas.EU. o detetive começa a desconfiar que está envolvido em algo muito maior do que havia imaginado. Logo Cross fica sabendo que outras moças e rapazes envolvidos com prostituição também estão desaparecidos. Caroline trabalhava como garota de programa. Seria apenas mais uma ligação inconveniente de trabalho não fosse a notícia bombástica: Caroline Cross. Ele mantém exclusivamente para si a suíte VIP do clube. a detetive Brianna Stone. Com o apoio de sua namorada. Cross se lança às investigações. todas muito parecidas. Um dos clientes mais assíduos é um misterioso homem conhecido apenas como Zeus. Em meio aos pertences de alguns deles.

de sua sobrinha e evitar que um grande caso de acobertamento impeça que seja feita justiça. .

Ele está na cidade e pretende acabar com a vida de Cross e das pessoas que ele ama. Fogo cruzado é a aventura mais intensa e emocionante de Alex Cross. como ele mesmo diz. Com uma mistura de ação. Isso acontece quando um atirador de elite resolve fazer justiça com as próprias mãos e começa a matar figurões que apareceram recentemente nas manchetes por estarem envolvidos em escândalos financeiros. criminoso conhecido como o Estrategista. da Polícia Metropolitana. . intrigas e suspense.FOGO CRUZADO James Patterson A vida de Alex Cross não poderia estar melhor: o Departamento de Homicídios passa por uma rara fase de calmaria. Para isso. a família vai bem e ele se dedica a planejar seu casamento com a detetive Bree Stone. Em meio às investigações para descobrir quem é o homem que está aterrorizando a cúpula da cidade. conta com um plano do qual nem o experiente detetive poderá suspeitar. Porém. Alex recebe um telefonema de Ky le Craig. nunca se sabe quando o mundo vai cair de novo na sua cabeça.

Trabalhando em conjunto com o FBI. além de levantar a suspeita de que esses atos possam ter ligação com o sequestro de Ethan e Zoe. um dos melhores colégios de Washington. Alex Cross precisa agir rápido.AMEAÇA MORTAL James Patterson Os filhos do presidente dos Estados Unidos estudam no Branaff. num ato de ousadia. o FBI e o Serviço Secreto assumem as investigações. a Inteligência americana descobre que um grupo terrorista saudita está planejando vários ataques em território nacional. a CIA e outras agências do governo. atendendo a um pedido especial da primeira-dama. acabam convidando o detetive Alex Cross por sua experiência com sequestros. . e contam com proteção em tempo integral. Sem aceitar a participação da Polícia Metropolitana no caso. No entanto. criminosos enganam os agentes do Serviço Secreto e desaparecem com Ethan e Zoe Coy le. Com a ajuda dos colegas Ned Mahoney e John Sampson. Ainda assim. A sabotagem da rede de fornecimento de água e o atentado contra a comitiva do secretário de Estado põem a capital em alerta. ele começa uma corrida contra o tempo para encontrar os filhos do presidente e impedir que novos atentados coloquem o país em risco. Em meio às investigações.

E decide fazer isso na véspera de Natal. . Usando suas habilidades de psicologia. ele promete assassinar os culpados por sua atual situação: a família. é identificada pela imagem de uma das câmeras de segurança da Union Station. a terrorista Hala Al Dossari. Cross negocia diretamente com Fowler. Alex corre para a estação e começa uma perigosa caçada para detê-la e descobrir sua real motivação. Numa atitude ousada e altamente perigosa. o detetive arriscará a própria vida para salvar os inocentes. Acontece que alguns dos métodos do FBI levam Cross ao seu limite moral. sua antagonista em Ameaça mortal. Henry Fowler é agora um lunático viciado em metanfetamina que viu sua vida ruir após o divórcio. se ultrapassado. ALEX CROSS James Patterson Ex-advogado bem-sucedido. No fundo do poço e fora de si. tentando convencê-lo a libertar os reféns. poderá afetá-lo para sempre. Perto dali.FELIZ NATAL. Um limite que. Convocado pelo FBI.

e obrigado pelos peixes!. O casamento. de Kim Edwards O guia do mochileiro das galáxias. À primeira vista e O resgate. o universo e tudo mais. O melhor de mim. de Harlan Coben A cabana e A travessia. O restaurante no fim do universo. Young A farsa. Uma curva na estrada.CONHEÇA OUTROS TÍTULOS DA EDITORA ARQUEIRO Queda de gigantes. Praticamente inofensiva e O salmão da dúvida. O código Da Vinci. Confie em mim. Desaparecido para sempre. de Sara Gruen Inferno. Fique comigo e Seis anos depois. O guardião. de Nicholas Sparks Julieta. de William P. Até mais. O símbolo perdido. de John Sack . de Christopher Reich Água para elefantes. Inverno do mundo e Eternidade por um fio. de Ay n Rand A conspiração franciscana. Cilada. de Anne Fortier As regras da sedução. de Madeline Hunter O guardião de memórias. de Ken Follett Não conte a ninguém. Anjos e demônios. de Douglas Adams O nome do vento e O temor do sábio. de Patrick Rothfuss A passagem e Os Doze. A vida. A vingança e A traição. Ponto de impacto e Fortaleza digital. de Dan Brown Uma longa jornada. de Justin Cronin A revolta de Atlas e A nascente.

com. Além de informações sobre os próximos lançamentos.editoraarqueiro.arqueiro twitter. visite o site www.br Editora Arqueiro Rua Funchal.com. 538 – conjuntos 52 e 54 – Vila Olímpia 04551-060 – São Paulo – SP Tel.com/editoraarqueiro instagram. www.INFORMAÇÕES SOBRE A ARQUEIRO Para saber mais sobre os títulos e autores da EDITORA ARQUEIRO. você terá acesso a conteúdos exclusivos e poderá participar de promoções e sorteios.com.: (11) 3868-4492 – Fax: (11) 3862-5818 E-mail: atendimento@editoraarqueiro.com/editora.com.com/editoraarqueiro skoob.com.br .br facebook. basta se cadastrar diretamente no nosso site ou enviar uma mensagem para atendimento@editoraarqueiro.br/editoraarqueiro Se quiser receber informações por e-mail.editoraarqueiro.br e curta as nossas redes sociais.

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