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Caio Prado Jinior Florestan Fernandes CLASSICOS SOBRE A REVOLUGAO BRASILEIRA ‘Revnessho. POPULAR Copyright© 2000, by Eitora Expresso Popular Revo ‘na Carbo Gedo Martins de Acre Flo Projet grifio, apse dagamasio ZAP Design uo da caps: Mania di gas camponeas em Reif 1963. Aero anorphia Imre e acabameno Comite ISBN 85.97504-142 Agee afl dy ators pel libero d tes Todor or divs rseados. Nena pare dee veo pode ser rind repro em a autores da editor 4 iso: nvembra de 2005 EDITORA EXPRESSAO POPULAR us Aboligo, 266 Bla Vita CEP 01519.010 Sie Paslo SP ones: (11) 3112-0941 ‘venaléxpresnopopular come ‘ormexprsszopopular.combe Sumario APRESENTAGAO lini de rd Sampaio liao muda Sampaio A REVOLUGAO BRASILEIRA Cato Prad Junior (1966) (© QUE E REVOLUGAO Forse Fermaees (1981) SETE NOTAS SOBRE A'TEORIA DA REVOLUCAO BRASILEIRA lini de Arruda Sanyo J 149 APRESENTAGAO. Pinio de Arruda Sampaio Jr Plinio Arruda Sampaio Os dois artigos reunidos nesta coletinea sintetizam clementos fundamentais das reflexes de Caio Prado ¢ Florestan Fernandes sobre os dilemas da revolucio brasileira, Publicados em plena ditadura militar, eles respondem 3 necessidade de entender as tendéncias efetivas da luta de classes no Brasil apés a derrota das forcas populares em 1964, bem como de definir os desafios que deveriam ser enfrentados pela classe ope- réria para impulsionar as transformagées sociais ¢ po- liticas capazes de conciliar desenvolvimento econdmi co, democracia e soberania nacional ‘Ainda que movidos por uma preocupacio comum, Caio Prado ¢ Florestan Fernandes desenvolveram dis- tints interpretagdes sobre os dilemas da sociedade bra- sileira na segunda metade do século 20 Para Caio Prado, a partir do pés-guerra, o Brasil entrou em uma conjuntura revoluciondria que pos cem pauta a necessidade inadivel de consumar a lon- ga transicio do Brasil colonia de ontem para o Brasil nagio de amanha, Desde entio, a tarefa fundamental das forcas de esquerda deveria ser equacionada em torno da necessidade de dois objetivos: promover uma ampla reforma agréria ~ principal politica para equili- bar a correlagio de forcas entre o capital elo traba- Iho; e superar a dependéncia do capital internacional = tinico meio de viabilizar a formagio de uma base empresarial umbilicalmente vinculada a0 espaco eco- némico nacional, Nesta perspectiva, a ditadura mili- ‘ar representava um perigoso contratempo que deve- ria ser vencido para cvitar 0 risco de uma reversio neo-colonial. Na visio de Florestan Fernandes, 0 golpe militar de 1964 representoua consolidacio da revolugio burguesa no Brasil como uma contra-revolucio permanente. A interpretagio de que a burguesia brasileira havia se tor- nado definitivamente antisocial, antinacional ¢ antidemocritica leva-oa concluir que o capitalismo ha- vvia esgotado todas suas potencialidades construtivas. Por esse motivo, a set ver, a revolucio opersria des- pontava como a tinica via capaz de superar as mazelas do capitalismo dependent ¢ criat as condigdes hist6- ricas para o aparecimento de um Estado democritico ¢ independente. ‘Acima das diferencas no entendimento da especi- ficidade do momento hist6rico e no modo de ent tar os dilemas do capitalismo dependente, os dois att- ‘ores concordam em relagioa trés quest6es fandamen- tais, Primeiro, ambos rejeitam com vigor todo tipo de contemporizagio com o status quo, pois estio absoluta~ mente convietos de que os problemas fundamentais do povo brasileiro nao serao resolvidos se nao houver ‘uma ruptura radical com as estruturas sociais respon= siveis pela perpetuacio das gritantes desigualdades so- ciais herdadas da sociedade colonial e pela posigio de- pendente do Pafs no sistema capitalista mundial Segundo, Caio Prado e Florestan Fernandes rechacam a nogio ~ ainda hoje muito difumdida nos meios de esquerda - de que existiria uma burguesia nacional, com interesses antagénicos ao imperialismo, capaz de liderar as transformagées sociais decorrentes da revo- lugio democritica e da revolucio nacional. Por fim, 0s dois autores insistem que as forcas populares devem superar a tutela burguesa ¢ adotar uma linha politica auténioma, articulada em torno dos interesses estrat gicos do proletariado, 0 que coloca a consolidacio da uunidade de classe entre operirios e camponeses como tarcfa prioritiria das forcas de esquerda Embora as mudangas no contexto histérico exter= no ¢ interno exijam novas investigagSes ¢ novas refl des sobre os dilemas da revolugio brasileira, as co tribuigSes de Caio Prado e Florestan Fernandes per- manecem como referéncias basilares do pensamento socialista brasileiro, Aexplicagio de Caio Prado a respeito das causas da extrema instabilidade do capitalismo brasileiro a po- sigio dominante do capital internacional na economia € 0 forte desequilibrio na correlagio de forcas entre © capital eo trabalho ~ continua mais atual do que mun- ca, uma vez que as mudangas provocadas pela globalizacio dos negécios s6 vieram reforgar a tendén- ia A reversio neocolonial diagnosticada precocemente pelo autor. ‘Aanilise de Florestan Fernandes sobre a anatomia do padrio burgués de dominacio no Brasil ~ a sua ca- pacidade de impedir a emergéncia do povo na politica ~ tampouco perdew atualidade. Ao contritio, A slobalizacio dos negécios agravaa necessidade de a bur- guesia brasileira compensar a sua impoténcia para en- frentar a concorréncia internacional com a stta onipo- téncia para manipular as condigbes socioecondmicas ¢ ambientais internas. A dissolucio das condicées hist6- ricas muito particulares, externa e interna, que havia permitido 4 burguesia adquirir certo poder de barga~ nha em relacao a0 imperialismo, aponta para um perio- do de desgoverno ¢ grande turbuléncia social primeiro texto da coletinea, “A Revolugio Bras Ieira”, de Caio Prado, € uma reprodugio integral do primero capitulo de seu livro A Revolugao Brasileira, de 1966. Trata-se de um resumo bem objetivo da esséncia de sua interpretagio sobre método do materialismo historico como guia para a formulagio de uma teoria da revolugio (assunto estudado com muito cuidado em seus livros Dialéica do Conhecimento ¢ Notas Introdutérias 4 Légica Dialética). ‘A idéia fundamental deste capitulo é mostrar que a teoria da revolucio brasileira deve ser concebida como produto hist6rico de uma reflexdo coletiva, cujo segredo reside na necessiria relagio de miituo condi- cionamento entre teoria e pritica. A teoria como uma resposta aos problemas da sociedade e a priica como ‘uma agio transformadora orientada pela razio. A men- sagem do autor € cristalina. Quem quiser desvendar © segredo da revolucio deve rejeitar modelos abstra- tose preconcebidos e buscar a solugio dos problemas nas contradiges do processo hist6rico brasileiro. Nas suas palavras, “Nao € praticivel propor reformas que constituem efetivamente solugio para os problemas pendentes, sem a condicio de que essas reformas pro- postas se apresentem nos proprios fatos investigados. Em outras palavras, de nada serviria, como tantas ve~ es se faz, trazer solug6es ditadas pela boa vontade imaginacio dos reformadores, inspirados embora na melhor das intenges, mas que, por mais perfeitas que em principio e teoricamente se apresentem, nao en contram nos prprios fatos presentes ¢ atuantes as ci cunstincias capazes de as promover, impulsionar € re- alizar. Ede Marx a observacio tio justa e comprovada por todo o decorrer da Histéria, que os problemas sociais nunca se propdem sem que, ao mesmo tem- proponha a solugio deles que nao é, nem pode ser forjada por nenhum cérebro iluminado, mas se apresenta, ¢ ai hi de ser desvendada e assinalada, no proprio contexto do problema que se oferece, ¢ na dinimica do processo em que essa problemitica se propée”. segundo texto do livro, o artigo de Florestan Fernandes, “O que € Revolucio”, publicado original- mente em 1981 (pela colecio “Primeiros Passos” da Editora Brasiliense), di uma visio panoramica dos pa~ drdes da revolugio burguesa na historia do capitalis- mo. © objetivo especifico é mostrar a particularidade da revolugio burguesa no capitalismo dependente ¢ os desafios que devem ser enfrentados pelos que lutam pela revolucio operiria no Brasil. Escrito para a rilitincia de esquerda, 0 artigo resume ideas disper- sas em virios livros, cuja principal referéncia é seu clés sico A Revolugdo Burguesa no Brasil. Nao 6 0 caso de uti= lizar esta apresentacio para fazer um resummo lipertado de assuntos que estio bem explicados no texto, mas, dada a complexidade do tema, para facilitar a compre- ensio dos leitores ainda nao habituados ao dificil estilo, de Florestan Fernandes, talvez valha a pena sistemati~ 2ar as principais questées levantadas pelo autor nos seis capitulos deste optisculo. No capitulo, “O que se deve entender por revolt- 0?", o autor discute o drama da revolucio burguesa atrasada no capitalismo dependente. A incapacidade de as burguesias dependentes levarem a revolucio demo- critica e a revolucio nacional is tiltimas conseqiiéncias acaba fazendo com que tempos historicos distintos se misturem em uma mesma situagio concreta, pondo frente a frente dois processos revolucionérios: uma revolugio burguesa, que se afirma como contra-revo~ lucio, ¢ uma revolucio operitia, que aponta para 0 so- cialismo. Sua idéia central é de que “A burguesia tem pouco que dar ¢ cede a medo. O proletariado cresce com a consciéneia de que tem de tomar tudo com as proprias maos e, em médio prazo, aprende que deve passar tio depressa quanto possivel da condicio de fiel da ‘democracia burguesa’ para a de fator de uma demo- cracia da maioria, isto 6, uma democracia popular ou ope Em “Quem fiz a revolugio2”, Florestan Fernandes ressalta papel fundamental das classes sociais como promotoras das grandes transformagoes sociais que caracterizam a civilizacio ocidental. Ele destaca que a capacidade revolucioniria das classes sociais € deter minada pelo contexto hist6rico que condiciona a tuta de classes em cada formagio social. © amadurecimen- to do processo revoluicionsrio e seu desfecho final exi- gem circunstincias muito particulares. Seguindo as di retrizes clissicas de Lenin, Florestan Fernandes rest me as condigées de uma situagio revolucionsria nos seguintes termos: “1) impossibilidade para as classes dominantes de manter sua dominacio sob uma forma inalterada; crise do ‘vértice’, crise da politica da classe dominante, o que cria uma fissura pela qual os des- contentes ¢ a indignacio das classes oprimidas se abrem tum caminho, Para que a revolucio estoure nko & sui ccicnte, habitualmente, que ‘a base no deseja mais’ vi ver como antes, mas é ainda necessério que “o cume no o possa mais’; 2) agravamento, mais do que é co- ‘mum, da miséria e do desespero das classes oprimidas, 3) intensificaco acentuada, pelas razies indicadas aci- mma, da atividade das massas, quie se deixam pilhar tran~ giiilamente nos periodos ‘pacificos’ mas que, no pet ‘odo tempestuoso, sio empurradas, scja pela crise no seut conjunto, seja pelo pripro ‘vérice’, para uma acio histérica independente”. Entretanto, para que © movi- mento final da revolucio tenha um desdobramento construtivo, abrindo novos horizontes para a socieda~ de, torna-se necessirio uma condicao adicional: “(..) a revolugio nio surge de toda situagio revolucionsria, mas somente no caso em que, a todas as transforma- ‘Ges objetivas enumeradas acima, se acrescente uma transformacio subjetiva, a saber: a capacidade, no que concerne 3 dase revolucionria, de conduzir ages re~ volucionarias de massa bastante vigorosas para destruir completamente (ou parcialmente) 0 antigo governo, que nao cairé jamais, mesmo em épocas de krises, se 1nio for ‘compelido a cair™”. No caso da revolucio pro letéria, o sucesso do processo revolucionério depende da construcio de uma vanguarda operiria com capaci- dade de direcio politica, organizada na forma de parti- do politico, capaz de centralizar as energias revolucio- narias da classe operatia ¢ de canaliza-las na direcio da destruicio da sociedade burguesa eda criagio da socie~ dade comunista. 'No capitulo, “E possivel ‘impedie” ou ‘atrasar’ a re= volucio?”, Florestan Fernandes trata de um problema vital paraa sorte do movimento socialista:a necessidade de uma estratégia de Iuta de classes que impeca 0 aburguesamento da classe operatia, Seu ponto de vista é cristalino. A revolugio nao é um fendmeno inexoravel Ela precisa ser construida. No entanto, “Se ela (a classe operiria) sucumbe no plano prévio de enfrentamento com a ‘supremacia burguesa’, incorporando inclusive a idcologia da burguesia e sua forma de democracia, ela tem de abater-se e de sucumbir a0 poder do Estado”, A capacidade de cooptar a classe operiria para o partido da ‘ordem nio significa, no entanto, que a burguesia seja capaz de congelar a historia por tempo indeterminado, tuma vez que a stia democracia é incapaz de enfrentar as contradicbes estruturais que moviment ses. Como escreveu Florestan Fernandes, “o Estado de- mocritico existente tem de destruir o movimento ope- ‘rio ou, pelo menos, impedir que ele lute por seus ob- |jetivos historicos centrais, porque a democracia burguesa do € bastante forte para conter os antagonismos gera- dos pela producio capitalista © pelo desenvolvimento do capitalismo”. Convicto de que burguesia dependente eo imperi lismo combaterio ferozmente qualquer tipo de refor- ‘ma social que possa afetar seus privilégios, Florestan Fernandes alerta para a ingenuiidade de se imaginar que os problemas do capitalismo dependente poderiam encontrar uma solucio pacifica dentro da institucio- nalidade da democracia burguesa, “Essa forma politica de democracia nao comporta a contravioéncia dos prole- trios ¢ oprimides, porque esta extinguiria as bases eco- n6micas, socias e politicas da dominagio burguesa, isto 6, ela nao pode conferir liberdade igual a todas as classes sem desintegrar-se, Por isso, € imposstvel reormar o ca- pitalismo de uma forma proletiria, Para reformar 0 ca- pitalismo de uma forma proletiria seria preciso elimi- nar todas as causas da desigualdade econdmica, social ¢ politica, que existem e se reproduzem necessariamente sob o capitalismo, o que equivale a dizer: engendrar na sociedade € na civilizagio capitalistas existentes a for- ima hist6rica que a sociedade e a civilizacio tenderio a assumir gracas e através do socialismo. As mistifica- des dos ‘socialistas democriticos’ sio evidentes. A de- mocracia burguesa de nossos dias € uma democracia ar- mada ¢ armada exatamente contra isso. A ‘democracia forte’ possui as mesmas causas que o fascismo e busca (os mesmos fins. Ela nasce do temor da burguesia diante da revolugio proletiriae pretende paralisar a ist6ria”. Em “Como ‘fortalecer a revolucio’ ¢ ‘levé-la até 0 fim’?”, Florestan Fernandes discute a dificuldade en- contrada pela classe operiia da periferia do sistema capitalista para enfrentar com sucesso a truculenta es- tratégia de Iuta global posta em pritica pelas thurguesi- as dependentes, cuja esséncia repousa, em tiltima ins- tancia, na intolerancia das classes dominantes em rela ‘Gio A utilizagio do conflito como recurso legitimo de uta politica por parte das classes subalternas que se batem pela conquista de uma vida digna. Sua preocu- pacio € definir uma estratégia de luta de classes capaz de tirar a classe operitia da estaca zero. O desafio con- siste em fomentar a constituicio ¢ o desenvolvimento independente do proletariado, Para tanto, as forcas comprometidas com o socialismo devem fazer de tudo para que a expansio da classe trabalhadora seja acom- panhada de uma “proletarizagio politica revolucion’~ ria", “Em vez do frenesi por puras palavras de ordem contra o imperialismo ~ afirma o autor ~ & necessirio educar politicamente os proletérios para distinguir a sua revolugio da revolugio burguesa e para querer algo ‘oletvamente: a transformagio socialista da sociedade, (O socialism nio transforma mundo: s40 os proleté rios identificados com o socialismo revolucionario que © fazem!” Dadas as condigSes extremamente adversas decor- rentes da contra-revolucio permanente, para que as classes despossuiidas consigam superar a estaca zero, clas precisam de um minimo de “poder real”, Isso sig- nifica que, para poder se estruturar como ator social, 0 proletariado requer certas condigdes objetivas que as- segurem a sua existéncia enquanto classe em si (isto é precisam existir como realidade social). A formagio da classe operiria associa-se, portanto, ao desenvolvimento das forcas produtivas. “Ao contririo do que ocorria quando os proletirios europeus nfo constitufam uma classe ¢ estavam no vir-a-ser da classe, hoje impée-se ‘um minimo de poder real como ponto de partida. Nao © poder do sindicato ou o poder do partido, (..) mas o poder instinsero a clase, anélogo a0 que serve & burguesia para armar, manter ¢ reproduzir sua dominacio de classe e seu controle direto ¢ indireto sobre 0 Estado. A vio- lencia da repressio, inerente 4 contra-revolugio bur- guesa prolongada, exige essa forma elementar de ‘contrapoder, sobre a qual tera de se sustentar 0 cresci- ‘mento orginico do protetariado como classe indepen- dente em escala nacional. Esse movimento basico tem naturalmente de encontrar apoio nos sindicatos ¢ nos partidos operirios. Mas estes nao podem fomenté-lo ¢ dirigi-lo, porque também dependem de sua existencia para ganhar autonomia, crescer ¢ incorporar-se a uma dinamica mais avangada e madura de Iuta de classes. (..) S6 depois que essa atividade direta produzir certos frutos ¢ um patamar de amadurecimento médio, a clas- se pode deslanchar sem que seja permanentemente pul- verizada e esmagada pela pressio burguesa ‘espontinea’, “Tegal” ‘organizada” Neste contexto, os partidos socialistas ¢ comunistas precisam desenvolver uma grande paciéncia histdrica € agir com muita prudéncia, evitando tanto 0 canto de sereia da “socialdemocratizagao”, que esteriliza 0 po- der revolucionério do operariado, quanto 0 “volun- tarismo sectirio”, que produz um vario na relacio en- tre a vanguarda © o proletariado. Para Florestan Fernandes, somente depois de plenamente consolida~ daenquanto classe em si (como fernémeno sociol6gico), ‘oproletariado teri condig6es de se transformat em clas se para si (consciente de seus interesses estratégicos de classe) © partir para a conquista do Estado. Nas suas palavras, “A marcha para a constituigio da classe em si deveri estar bastante avancada para exigir uma cla cagio revolucionéria da consciéncia proletéria e para justificar técnicas especificamente ofensivas de friccio ‘¢ de combate politicos”. ‘© capitulo “Revolucio nacional ou revolugio pro- leiria?” discute © padrao de alianga de classe € 0 pro- rama politico que deve nortear 0 movimento operi- rio nas sociedades em que a revolucio burguesa dew as costas para a revolucio democritica e para a revolugio nacional, consolidando-se como uma contra-revoltt- io permanente — precisamente 0 caso do Brasil. Des- titufdas do carster revolucionsrio de suas predecessoras apoiadas pelo poder econdmico politico do imperia- lismo, nessas regides a revolucio burguesa atrasada transcorreu como um proceso ultra-conservador que preparava a sociedade para a penetracio do capital, mas que marginalizava a grande maioria da populacio de seus beneticios. “Tudo se passava como se 0 objetivo central se restringisse, em médio prazo, em criar para a burguesia interna e para as burguesias externas um modo de aprofundar, com seguranga, a transformagio capitalista na esfera econdmica, transferindo para um faturo incerto o atendimento de outras transforma- ‘GBes que nio poderiam ser realizadas de modo con- comitante” Para Florestan Fernandes, cabe as classes trabalha- dores resgatar 0 que foi deixado para tris pela burgue- sia ¢ lutar pela realizacdo da revolugio democritica ¢ da revolugio nacional, dando-lhes um nitido contedi- do operirio. “Como ensina O Manifesto do Partido Co- ‘munis, a linha titica teria de definir-se mediante exi- «géncias socialistas: € muito dificil para um proletaria- do em formacio entender aliangas titicas se as reivin- dicagées nao forem feitas através de uma linguagem proletiria ¢ sem qualquer subterfiigio”. Afinal, “(..) 0 que as classes dominantes deixam crescer como pro= blemas ¢ dilemas sociais ¢ se descuidam de resolver através de dinamismos da ordem, é suscetivel de rece- ber uma atengio combativa das classes trabalhadoras € de constituir reivindicagées de contetido socialista ¢ para atendimento imediato”. Nesse contexto, Florestan Fernandes define a pri cipal tarefa das forcas socialistas: criar as condigdes subjetivas para a autonomia politica da classe oper: ria, Expondo os pré-requisitos para que a revolugio dentro da ordem (dentro da institucionalidade bur- ‘guesa) no fosse manipulada pela burguesia contra os interesses estratégicos da revolucio proletiria, ele afir- mou: “O que exige reflexio, contudo, sio os custos politicos de uma manobra dese género, Para que ela pudesse concretizar-se sem leviandades seria neces- sirio investir muito tempo em producio intelectual, ‘em propaganda, em difusio de palavra de ordem e em mobilizagio de aderentes e simpatizantes”. Os ris- cos da empreitada nao foram ignorados. “Quase no fim do século 20, € preciso escolher entre a social- democratizacio da esquerda e a paciente c laboriosa construcio das vas historieas da revolugio proetiria na América Latina” Niio obstante o cariter limitado das conquistas que podem ser almejadas nos marcos da institucionalidade burguesa na periferia do capitalismo, Florestan Fernandes destaca a importincia de nao se menospre~ zar o mérito das lutas politcas dentro da ordem como mado bisico de aprendizagem e amadurecimento da classe operdria. “A revolucio dentro da ordem é mera- ‘mente instrumental ¢ conjuntural para © proletariado, ligando-se & necessidade historica de proteger e accle~ rar a constituigio da classe como classe em si “(cons ciente de seus antagonismos intransponiveis coma bur ‘guesia)”, capaz de tomar em suas mios 0 seu desen- volvimento independente. A partir de certo nivel, © proletariado forga a mudanga de qualidade da “guerra civil oculta’,exige que as reivindicag6es socialistas mu- dem de teor, pondo em xeque a supremacia burguesa ¢ © poder politico da burguesia” © ultimo capitulo, “Como ‘lutar pela revolucio proletiria’ no Brasil?”, examina o que deve ser feito para que o proletariado comece a manejar a luta de clas- ses a seu favor. De acordo com Florestan Fernandes, a {questio crucial consiste em tirar a luta de classes de tuma situacio marcada pela combinacio de duas ver- tentes: uma burguesia umbilicalmente comprometida com a perpetuacio da contra-revolucio permanente & tum operariado que nao consegue desatar as amarras da revolugio, Tendo como perspectiva a evolucio do ca- pitalismo brasileiro no pés-guerra, sta anilise enfatiza basicamente dois aspectos: 0s efeitos construtivos do clevado dinamismo econdmico sobre a expansio da classe opersria como classe em si (fendmeno sociol6- ico); ¢ importancia estratégica do partido revolucio~ nario como instrumento indispensivel para dotara clas- se operiria de “espirito revolucionsrio”, isto é, para per- miitira sua consolidagio como classe para si (conscien- te de sua missio civilizat6ria). A seu ver, 0 avanco do capitalismo teria criado tanto as condigbes objetivas para a formagaio da classe operiria, quanto as bases objetivas para a proletarizacio dos partidos opersrios. Nas suas palavras, “Nos tiltimos trinta anos (¢ especialmente depois de uma industrializagio maciga com uma tecnologia avancada e intensiva no uso do capital), a formacio da classe se adiantou muito ¢ os que defen- dem posigdes tipicas do socialismo revolucionario ¢ do comunismo prersant colocar-se na situacio de classe dos proletirios ¢ caminhar por dentro da classe para fazer parte de sua vanguarda. Trata-se de uma proletarizacio de partidos que antes s6 podiam ser openirios de nome + embora fossem revolucionarios de fato e de direito, por defenderem ¢ propagarem doutrinas revolucionarias & por correrem todos os riscos que isso acarretava. A pr meira conseqiiéncia dessa transformagio, que 0s socia~ listas revolucionarios ¢ os comunistas nao podem ig yorar ou repelir (..) aparece no emprego correto dai Stica do socialismo revolucionirio ¢ do comunismo. ‘A lua-de-mel com a burguesia, com o nacionalismo bungués, com o radicalismo burgués ou com o que se queira esté acabada, chegou a seu termo!” Florestan Fernandes adverte, no entanto, que os riltantes que se dedicam 3 causa da revolugio prole- tiria devem preparar-se para uma longa maratona, “To- das as revolugdes proletirias deste século, coh a exce- Gio da revolucio cubana, tiveram um perfodo de incu- bacio (..) e foram favorecidas, na fase de apogeu, por comogies de ambito mundial do capitalismo, Seria uma tipica manifestagio de extre infantil pretender aproveitar nem uma coisa nem outra da situacio his- ‘rica brasileira para precipitar a vertente revolucioné ria sem qualquer consolidago prévia das posigdes revolu- ias do proletariado.” Donde a sua expectativa de io se deveria esperar um caminho ficil. “Ao que @ evolugdo da revolugdo proletdria no Brasil parece suubordinar-se a numerosos fatores que nio permitem vaticinar um caminho nem muito ficil nem muito ri- pido para a revolugio”, Dado o baixissimo patamar da luta de classes no Brasil, os partidos operirios tinham pela frente uma rdua tarefa: formar a consciéncia revoluciondria do proletariado. “Por principio, sua estratégia seré a de converter a ‘guerra civil oculta’ em ‘guerra civil aber- 1a’, tho depressa quanto isso for possfvel. Na priica, porém, deveri combinar varias titicas de luta, que unam entre sias reivindicagées concretas € 0s pequienos com- bates com o fortalecimento de uma consciéncia de clas se revolucionsria e uma disposigio de Iuta inabalivel. Este ponto nao pode ser subestimado, Um proletaria- do de formagio tio recente ¢ tio heterogénea jé ganha ‘uma grande vit6ria quando defende a solidariedade pro- letiria acima de qualquer outra coisa, (..)”. Donde, a conclusio: “O partido revolucionsrio teri de desempe- har essa fungio criadora, ligando entre si a estratégia global do movimento proletirio com as miiltiplas titi- cas aparentemente exclusivas ou dispersas vinculadas 20 ‘emprego, 3 situacio do trabalho, aos comités de fibrica ou de greve, 3 proliferagio de conselhos operirios e po- pulares, 8s reunides nos sindicatos e nas comunidades locais, 8 agitacdo em meios nao proletirios..”, ‘Ainda que a revolucio brasileira nio pudesse ser vislumbrada como um horizonte préximo, Florestan Fernandes insiste que no havia tempo a perder. Os partidos operirios deveriam aproveitar 0 tempo de ‘maturacio da classe trabalhadora como ator social para preparicla para a revolucio brasileira. Somente assim © proletariado teria condigSes de levar as transforma- bes socialistas as iltimas conseqiiéncias quando a opor- tunidade surgisse. Afinal, sua principal preocupagio € ‘mostrar que “Estar preparado para passar da ‘guerra ci- vil oculta’ para a ‘guerra civil aberta’ € algo que exige mais que verborragia revolucionsria e obreirismo com- | pensatério.” Capitulo 1 A REVOLUGAO BRASILEIRA (Cato Prado Jénior (1966) O termo “revolugio” encerra uma ambigiiidade (alias, na verdade muitas, mas fiquemos aqui na principal) {que tem dado margem a freqiientes confuses. No sen- tido em que é ordinariamente usado, “revolucio” quer dizer o emprego da forga e da violencia paraa derruba- da de governo e tomada do poder por algum grupo, categoria social ou outra forca qualquer na oposici “Revolugio” tem af sentido que mais apropriadamen- te caberia ao termo “insurreicio”. Mas “revolucio” tem também o significado de transformagio do regime po- litico-social que pode ser, €em regra tem sido, histor ‘camente desencadeada ou estimulada por insurreigdes. Mas que necessariamente mio 0 &. O significado pro- prio se concentra na transformagio, ¢ no no processo imediato através de que se realiza. A Revolugio Fran- cesa, por exemplo, foi desencadeada e em seguida acompanhada, sobretudo em seus primeiros tempos, de sucessivas agdes violentas. Mas nio foi isso, por cer~ 0, que constitui o que propriamente se entende por “revolucio francesa”. Nao sio, é claro, a tomada da Bastitha, as agitagdes camponesas de julho e agosto de 1789, a marcha do povo sobre Versalhes em outubro do mesmo ano, a queda da Monarquia ¢ a exdcugio de Luis XVI, 0 terror e outros incidentes da mesma or- dem que constituem a Revolucio Francesa, ou mes- mo simplesmente que a caracterizam ¢ Ihe dio con- tetido, “Revolucio” em seu sentido real ¢ profundo, significa 0 processo hist6rico assinalado por reformas € modificagSes econdmicas, sociais politicas sucess vvas, que, concentradas em periodo hist6rico relativa- ‘mente curto, vao dar em transformagées estruturais da sociedade e, em especial, das relagdes econdmicas ¢ do equilibrio reciproco das diferentes classes e categorias sociais. © ritmo da Historia nao é uniforme. Nele se alternam perfodos ou fases de relativa estabilidade © aparente imobilidade, com momentos de ativagio da vida politico-social e bruscas mudancas em que se al- teram profiznda e aceleradamente as relagbes sociais. (Ou, mais precisamente, em que as instituigoes politi- «as, econdmicas € sociais se remodelam a fim de me- Ihor se ajustarem ¢ melhor atenderem a necessidades gencralizadas que antes no encontravam devida satis facio. Sio esses momentos hist6ricos de brusca transi- 0 de uma situagio econémica, social e politica para utra, ¢ as transformacSes que entio se verificam, que constittem o que propriamente se hi de entender por “revolucio”. £ nesse sentido que o termo “revolugio” ¢ empre- gado no titulo do presente livro. O que se objetiva nele Eessencialmente mostrar que o Brasil se encontra na atualidade em face ou na iminéncia de um daqueles "momentos acima assinalados, em que se impéem de pronto reformas transformacées capazes de reestrutu- rarem a vida do pais de maneira consentinea com suas necessidades mais gerais e profuundas, ¢ as aspiracies da grande massa de sua populacio que, no estado attal, no sio devidamente atendidas. Para muitos — mas, as- sim mesmo, no conjunto do pais, minoria insignifi- cante, embora se faca mais ouvir porque detém nas suas mis as alavancas do poder e a dominacio econémica, social e politica tudo vai, no fundamental, muito bem, faltando apenas (e af se observa algumas divergéncias de segunda ordem) alguns retoques e aperfeigoamen- tos das atuais instituigées, as vezes no mais que sim- ples mudanca de homens nas posigées politicas ¢ ad- ‘ministrativas, para que o pais encontre uma situacio € uum equilbrio satisfatérios, Para a grande maioria res tante, contudo, e mesmo que ela nao se dé sempre conta perfeita da realidade, incapaz que é de projetar em pla- no geral ¢ de conjunto suas insatisfagées, seus desejos « suas aspiracies pessoais, o que se faz mister, para lhe dar condigées satisfatérias ¢ seguras de existéncia, € muito mais que aquilo. E sobretudo algo de mais pro- fuundo e que leve a vida do pais por novo rumo. E 0s fitos, adequadamente analisados e profiundos, © confirmam. O Brasil encontra-se num destes ins- tantes decisivos da evolugio das sociedades humanas ‘em que se faz patente, ¢ sobretudo sensivel e suficien- temente consciente a todos, o desajustamento de suas Instituigées bisicas. Donde as tenses que se observam, ‘Go vivamente manifestadas em descontentamento ¢ insatisfagSes generalizadas e profundas; em atritos e conflitos, tanto efetivos e muitos outros potenciais, que dilaceram a vida brasileira ¢ sobre ela pesam em per~ manéncia e sem perspectivas apreciiveis dé solucio efetiva e permanente. Situacio essa que é efeito e cau- sa, ao mesmo tempo, da inconsisténcia politica, da ine- ficiéncia, em todos os setores ¢ escaldes, da adminis- tracio piiblica; dos desequilibrios sociais, da crise eco- rnémica ¢financeira que, vinda de Tonga data e mal en- coberta durante curto prazo — de um a dois decénios ~ por um crescimento material especulativo ¢ castico, omega agora a mostrar sua verdadeira face; da insufi- cigncia e precariedade das préprias bases estruturais em que assenta a vida do pais. E isso que caracteriza 0 Bra- sil de nossos dias, E acima de tudo, ¢ como comple- ‘mento, o mais completo ceticismo e generalizada des- crenca no que diz respeito a possiveis solugées verda- deiras dentro da atual ordem de coisas. O que leva, nnio se enxergando, ou nio se enxergando ainda, em termos concretos, a mudangas dessa ordem, a uma cor- rida desenfreada para “salve-se quem puder”, cada qual cuidando unicamente (e por isso erradamente) de seus interesses imediatos ¢ procurando tirar 0 melhor partido, em proveito proprio ¢ para 0 momento em curso, das eventuais oportunidades que porventura se apresentem ao aleance da mio, E esse o panorama desalentador que oferece a reali- dade brasileira de nossos dias, para quem vai com sua anilise a0 fundo das coisas ¢ nio se deixa iludir por algumas aparéncias vistosas que aqui ou acolé disfar- cam o que vai por detris e constitui a substincia da- quela realidade. Na base ¢ origem desses graves sinto- ‘mas encontram-se desajustamentos ¢ contradigoes pro- fiandas, que ameagam ¢ poem em chogue o desenvol- ‘vimento normal do pafs ea propria conservagio de seus valores morais e materiais. E isso que se encontra em {jogo e € 0 que se procurari mostrar no presente livro, ‘40 mesmo tempo que se tenta trazer a complemen- tagio dessa anilise, que vem a ser as diretrizes, embora muito gerais e amplas, pelas quis se deverio, ou antes, se poderio orientar as reformas institucionais de vulto que a atual conjuntura impde. Uma questio se liga ou deve necessariamente ligar-se 3 outra. Nao é praticivel propor reformas que constituem efetivamente solucao para os problemas pendentes, sem a condigio de que essas reformas propostas se apresentem nos prdprios fatos investigados. Em outras palavras, de nada servi- “tia, como tantas vezes se faz, trazer solucdes ditadas pela boa vontade ¢ imaginacio de reformadores, inspi- rados embora na melhor das intengdes, mas que, por ‘mais perfeitas que em principio teoricamente se apre- sentem, no encontram nos préprios fatos presentes € atuantes as circunstincias capazes de as promover, im pulsionar e realizar. E de Marx a observacio tio justa¢ comprovada por todo 0 decorrer da Historia, que os problemas sociais nunca se propdem sem que, 20 mes- ‘mo tempo, se proponha a solucio deles que néo é, nem pode ser forjada por nenhum cérebro iluminado, mas se apresenta,¢ af hé de ser desvendada e assinalada, no proprio contexto do problema que se oferece, e na di- rnamica do processo em que essa problemitica se pro- poe. E€ assim porque, contrariamente a certa maneira muito vulgarizada, mas nem por isso menos falsa de considerar os fatos hist6ricos, esses fatos nao se desen- rolam em dois planos que seriam, um deles, aqueles fatos propriamente; ¢ o outro, o da problemitica ¢ das decisies a serem aplicadas aos mesmos fatos. Em ou- tras palavras, nio se podem destacar ~ embora se dis- tingam, mas dialeticamente se liguem, isto é, se inte- {fem em conjunto num todo — 0s fatos hist6ricos (que io acontecimentos politicos, econémicos ¢ sociais) da consideracio desses mesmos fatos, do conhecimento ‘ou cigncia deles, para o fim de thes dar este ou aquele encaminhamento desejado. Os fatos histéricos, huma- 1n0s que sio, diferem dos fatos fisicos que sio exterio~ res ao Homem. Neles, pensamento e acio (que cons- titui o fato) se confundem, ou antes se interligam mum todo em que, separados embora, se compoem em con- junto. O Homem é, nos fatos de que participa, simul- ‘taneamente autor ¢ ator, ser agente ¢ ser pensante; ¢ & agente na medida em que é pensante, e pensante como agente. Nao pode assim ~ e de fato nao € assim que se ppassam as coisas —dirigir os acontecimentos, nem mes mo consideré-los adequadamente e os analisar, de fora deles. E “direcio” e “anilise” jé constituem em si, € por si, propriamente fafos que também hao de ser leva- dos em conta. Em conseqiiéncia, a solucio dos pen- dentes problemas econémicos, sociais ¢ politicos, © as reformas insttucionais que se impoem, hao de ser pro- curadas e encontradas nas mesmas circunstincias em ane Peano June que tais problemas se propdem. Nelas e somente nclas se contém as solugées cabiveis ¢ exeqiiiveis. Eno mes ‘mo processo histérico de que participamos na atuali- dade, e em que se configura a problematica que en- frentamos, que se configuram também as respostas a ssa problemitica e as diretrizes que se ho de adotar ¢ seguir. Ou contrariar 0 que € outra perspectiva e posi ‘cio que, se podem eventualmente adotar, e que ado- tam efetivamente as forcas politicas conservadoras, € no caso mais extremo, as reacionérias. E essa e somen- te essa aalternativa que efetivamente se propde, e fora da qual nio existe senio 0 ut6pico ¢ irrealizavel que freqiientemente nao é sendo maneira de fantasiar e dis- farcar a oposicio a qualquer modificacao, 0 apego a0 status quo. Essa premissas nos fornecem 0 método a seguir na indagagio que interessa e, desde logo, afastam certas {questées preliminares que freqiientemente se propéem, nos dias que correm, nos circulos politicos da esquer- da brasileira Isto é, precisamente naqueles setores que aceitam e pretendem impulsionar a revolugio. Referimo-nos em particular, ¢ sobretudo, & indagacio acerca da “natureza” ou “tipo” de revolugio que se tra- ta de realizar. Seré “socialista”, ou “democritico-bur- ‘guesa”, ou outra qualquer? Indagagio como essa situa desde logo mal a questio e de mancira insolivel na pritica, pois a resposta somente se podera inspirar — tuma vez que lhe falta outra premissa mais objetiva © concreta ~ em convicg6es predeterminadas de ordem puramente doutrinaria ¢ aprioristica. Isso porque, do simples conceito de revolugio dessa ou daquela natu- reza, nada se poder extrair em matéria de norma poli- tica e de acio efetivamente praticavel. A qualificagao a ser dada a uma revolugio somente & possivel depois de determinados os fatos que a constituem, isto €, depois de fixadas as reformas ¢ transformagoes cabiveis ¢ que se verificario no curso da mesma revolugio. Ora, é precisamente dessas reformas ¢ transformagdes que se trata. E uma vez determinadas quais sejam — 0 que so- mente & possfvel com a anilise dos fatos ocorrentes, passados ¢ presentes ~ teré um interesse secundsrio (pelo menos imediato ¢ para os fins praticos que sio 0 que realmente no momento interessa) saber se a qua- lificacio e classificacio conveniente é esta ou aquela Pouco importa assim, ao se encetar a andlise ea inda gacio das transformagées constituintes da revolugio brasileira, saber se clas merecem esta ou aquela desig hagio, ¢ se se encerram nesta ou naquela formula ou esquema te6rico. O que vale é a determinacio de tais transformagées, c isto se procurari nos fatos ocorrentes na dindmica desses mesmos fatos. E disso que preci- sam preliminarmente compenetrar-sc os tedricos ¢ planejadores da revolucao brasileira. A saber que, tamm= bem no terreno dos fatos humanos, tanto quanto no dos fatos fisicos, onde jé de ha muito nao se pensa de outta forma, o conhecimento cientifico consiste em saber o que se passa € nao o que é. A concepgio metafisica das “esséncias” — 0 que as coisas sio — precisa dar lugar nas cigncias humanas, de uma vez por todas, como ji dew hi tanto tempo nas cincias fisicas, 4 concepgio ientifica do que acontece. Concepgao essa em que © proprio ser nio € senio o acontecer, um momento desse contecer.E.0 que ‘acontec’ que constitui o conhecimento Cientifico; e nao o que é. Precisamos saber o que acon- tecer4, ou pode ¢ deve acontecer no curso da revolu~ «fo brasileira. E nfo indagar de sua natureza, daquilo que ela é, da sua qualificacio, definigio ou catalogacio. E numa tal linha de pensamento que se hi de fazer a determinacio das reformas e transformagées consti tuintes da revolugio brasileira. Isto é, nio pela dedu- io « priori de algum esquema te6rico preestabelecido: de algum conceito predeterminado da revolugio. Esim pela consideracio, anilise e interpretacio da conjun: tura econdmica, social ¢ politica real e concreta, pro- curando nela sua dinamica propria, que revelard, tanto a8 contradigdes presentes, quanto igualmente as solu ges que nela se encontram imanentes ¢ que nao pre- isam ser trazidas de fora do processo historico e a cle aplicadas numa terapéutica de superciéncia que paira acima das continggncias historieas efetivamente pre- senciadas. A anilise ¢ determinacio adequadas daque- las contradigies nos devem revelar desde logo — sob penade se infirmar aanilise ¢ a interpretacio efetuadas, que se revelariam em tal caso falhas ou insutficientes — devem revelar, por sie sem maiores indagacbes, as s0- lugdes que naturalmente implicam ¢ em conseqiiéncia comportam ¢ justificam. E claro que, para um marxista, é no sacialismo que ird desembocar afinal a revolucio brasileira. Para cle, 0 socialismo € a diregio na qual marcha o capitalismo. E a dinamica do capitalismo projetado no seu futuro. E seja qual fora feicio particular em q apresente em cada pais da atualidads © 0 capitalismo se feigio “particu Jar”, bem entendido, no que diz respeito a circunstin- cias e elementos secundérios que nao excluem, ¢ antes implicam a natureza essencialmente tinica do capita- lismo, que € um s6 e 0 mesmo em toda a parte ~ seja {qual for o grau de desenvolvimento, extensio ¢ matu= racio das relagSes capitalistas de producio, 0 certo é {que o capitalismo encontra-se na base ¢ esséndia da eco- homia contemporanea fora da esfera socialista; ¢ nela se incluem, embora sob formas € modalidades vérias, todos 0s paises ¢ povos além daquela esfera. Assim sen- do, 0 socialismo, contrapartida que € do capitalismo cem vias de desintegra¢io numa escala mundial, é onde iré desembocar afinal, mais cedo ou mais tarde, a hu- ‘manidade de hoje. Isso, contudo, representa uma previsio hist6rica, sem data marcada nem ritmo de realizacio prefixado. E podemos mesmo acrescentar, também sem progra- ma predeterminado. Ela nio interfere assim direta~ mente ou nio deve interferir na andlise e interpreta~ ‘io dos fatos correntes, ¢ muito menos na solugio a ser dada aos problemas pendentes ou na determina~ cio da linha politica a ser seguida na emergéncia de situagdes imediatas. Noutras palavras, a previsio mar= xista do socialismo nao implica necessariamente a in- ‘lusio dela, em todos os lugares ¢ a todos 0s momen- tos, na ordem do dia. Para um marxista, exempl ficando, a mais simples greve ou desentendimento entre empregados e empregadores, capitalistas ¢ tra balhadores, representa um passo para o socialismo, por mfnimo que seja, e estejam os participantes da disputa conscientes disso ou no ~ e em regra nao estio. Isso nio significa, todavia, que as reformas so- w10D eLIEUIULDSsIP as 9 esaNEIng PIDEIBOINE EP > , 2110 eioes20Wop, EP ‘OULSIOse] OP Spaeine ‘apsea SIE 199 -arrde et epunyoud sreur e030 2243 ens y “ronsJod 9p ~epiyeas ens esoniiung orSeurtuop x 24aju09 anb 2 ezyfe ual as anb odngroid 0 9 assq{“(eunUOD ¥ ENUIOD [21 ~aenb wos exion ejad oprznposd ‘yaaraaout owuouueses -stuisop op smue ounur 9 [aapiour zapides euin wo> 4211020 ¥ e5aut09 anb 0) onno wh ‘euPUODTAI-ENIN no eHPuOHDeDL “exopealdstuoD 9 ‘[pasu WN LU “e1OpeZttL -4opour sas assapnd anb wied jaaysusdsipur “(ordepy -ost109 ap opoyiad nos ap e) sug 9 sorou anus s905e|a1 seu eonplisisis ovSeoyasiur 9p eifiojoap! ewn vonead 2 (euruoIanjoxor s1uDUHeARa}D) oESURDSE ap opoad ros op ‘erdomn ewan eure|soud eg “Je120s oFSeayRENSD eu sepepuny sooSrziiaro sep rLgasiy ep es29dI situ 9 esoxopod stews exopmissod asseyp & “oduioy tun “eso 9s ewsandiung e jenb e seSeii ‘oxSnposd ap sorour sop epratud opeparidoid ep seansjod a steiz0s ‘se>1u9Ht 090 sagSeurutioiap stad as-roqjdxo won3[EIp essey ‘onnso1 ador wun 9p sopU seu [ear sopod op » jeo1 ezanbu ep opSestia2u09 v aeoyisuottt 98 o1uenbuo “(sopesedas 19s wiopod ogu soja :ousarx9 2 ousoau) oprouaut op soUIsHUEUIP so opurUoIonjOA -219 orSnpoad ep seating, saseq st opusniaaqns assan ~[oauasap a5 eistpeudes oeSeziuuspour v ~ oedef ou 9 solu soprisy sou apie seu 9 — edoang eu anb woo Za} ost40IsIY O1ky 99sq “eSaNALmg eI>eIDOUIOP ¥ NOD “Ipout as 2 node as srenb sejad ‘seuupaado sesseur sep susifepos 9 sestjeorpuls ‘seasinbsewe oqususesypo9ds9 sagssaid a1uaueiszed opuszeysnes 9 opuenyy “opuan -rosqe aaisnpput ‘ousstpende> op spaene 9 omuap ‘se>ttt 391 sa95njonai seatssaans seIUsULOy ap zede> toy ep -o1oea1 9 elopeaiasuo9 aiustoati99so49 eIsoniung eALIN ouiod ensour anb aueuodurt 2 oxaduro> stew oxmnut optigasty o3ty ou seus ‘oonyfod 9pod op eisinbu0d ¥ > ssef> ap [eID0s erUOUUAHay & eWSanang ep oxsUDDsE kU soarede ovtt vasiqenides ausie|tus 0 ‘oyniuy assap sesio se as-opuriooidy ‘opeumajoud op soe se exed auout eapruyop assejioso orSnjoaau e anb supaduut 9p opeprs saat eped 9 [enide> op epetjdure oeSnpoidas ead sop -r[nas *,vsonfing riougiosuos,, ep soonsto> soureNp so 9 Sseougisty staSiuo sens to “esIpendesennxo ovUOUE due] euapuo1onjoaas eidoin euin anu aeido 9p equ ‘sa seisonung ep asse[> op oeStsod ejad ‘oauotuyeausUt epuny ‘opeurutiatep 19 anb ogdnjoaos ap ores tun 2s “10859 sie 9p PUNLOD YP OWUDUIESEUUSD 0 2 S1E25) soptisiy sop oxSe20au09 e anu “snding Jouar op ep -ofeod Lng va a1UapuDse eIsaning ep OUEUO!ONIOA -a1 owsixoued o 223u9 o[N99s wun a1uDKUEpEUUKOIdE 3s -tuiay ‘eSuexg v oppyesed 0109 2s-opuetuo], 19pod op oF) epyjosto9 tp 2 eisinbuoo ep ofluoy oe aiuautepider 2s -optreiois9 ‘onlannso 9 opeypxy 9 esanalang ep ODUNISTE, ogSnjonas ap ores © ssgnding pump op ezoxmeu & wat -ijpp eisypeide> apepa0s ep sesse|> op euMINAISD Wy 1 + oougasty 40384, Out09 pepr{euosiad ep mspureur orSdaou09 ep sejapour fd “W9x9 tun 491 26 exed “ouyuOTonIoAD4 Ossa00ad op 2 501 -uiouris0it4o2e Sop ogSnjOAe BU “ULLDT] € estadsip 28195 nb omtouien o ayueduiose as anb eiseq zeispxietu ean “godsiod etuin ap wouioy apuesd op jaded op oxdenbo ' aqjosou wupquura OuAt] 918 "eIDIDUOD eoLIgRsTY OBDEND Porém, no iiltimo quartel do século XIX, a Europa avangada jé ostentava fodas as faces do desenvolvimento capitalista. A hist6ria caminhava, no Ocidente, na dix recio de uma cadeia de ferro. E a logica dessa evolucio provinha da incapacidade da burguesia de livrar-se dos *imperativos” da propriedade privada, Ela nio podia ser “ima coisa ou outra”, Tinha de caminblr concil ando modernizagdes sucessivas a uma conscigncia de ‘classe conservadora crescentemente mais estreita, mais perigosa ¢ mais perniciosa, No fundo, convertera-se fem uma classe que comprava com dinheito a sua feli- cidade pagando as contas & vista. ‘Aimesma estrutura de classes compelia o proletaria~ do a um complexo movimento hist6rico: os proleté- rios surgem como uma massa dispetsa ¢ incoerente, sem unio ativa e totalmente subordinada aos interes- ses econdmicos ¢ aos objetivos politicos da burguesia; gracas a0 desenvolvimento industrial, o proletariado ‘cresce em niimero, concentra-se cada vez mais, forma sindicatos e unides permanentes, pelas quais se orga- nniza, se bate com a burgnesia em escala local e nacio- nal, e aprende a atuar em conjunto, tomando conscién~ cia de seus interesses econdmicos ¢ de seus objetivos politicos; por fim, em fungio do proprio avango das contradicdes da sociedade capitalist, quando se confi- ura “o processo de dissolucio da classe dominante” e, na verdade, de toda a ordem social, “a luta de classes se aproxima da hora decisiva” ¢ proletariado passa pre- encher em toda a plenitude suas tarefas de classe revo- uciondria, “aquela que tem o futuro em suas mos”. Esse resumo, mais ou menos livre, de alguns trechos de O Manifesto do Partido Comunista, poe em relevo trés estigios fundamentais e distintos. O fato historico cen- tral vem a ser a constituicio do proletariado em classe (como dase em si) ¢ 0 seu desenvolvimento como clas- se independente. Isso nao se da sem o desenvolvimen- to concomitante das forcas produtivas ¢ da propria bur- guesia. No entanto, somente no primeiro estigio os proletirios ficam a mercé da burguesia, engrossando suas forcas sociais e politicas. No segundo estigio, 3 medida que se desenvolve como classe independente, © proletariado liberta-se da tutela politica burguesa € impoe-se como “partido politico” (ou seja, como clas- se capaz de lutar organizadamente pelos salirios, mas, mbém, por melhores condigies de trabalho e de exis- téncia, por maior autonomia sociale pelo alargamento politico da ordem burguesa). Neste estigio, as reivin- dicagbes operirias de cariter sindicalista ¢ socialista definem o lado proletirio dos direitos civis ¢ politicos, incorporados pela forga da luta de classes & legalidade burguesa e a0 funcionamento do sistema politico re- presentativo. No terceiro estigio, finalmente, 0 poten ‘ial revolucionério do proletariado emerge e expande- se livremente, ji que ele deve comandar a lua de clas- ses € 0 processo global de desintegracio da “antiga so- ciedade” ¢ de constituigio incipiente da sociedade socialist. “Todos os movimentos hist6ricos preceden- tes foram movimentos minoritérios ou em proveito de minorias. O movimento proletrio € 0 movimento consciente e independente da imensa maioria, em pro- veito da imensa maioria. O proletariado, a camada in- ferior da nossa sociedade, nao pode erguer-se, por-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial.” Ao realizar sua missio, que “é a de destruir todas as garantias ¢ segu- rangas da propriedade individual”, o proletariado ina~ gura uma niova época de grandes transformagdes his- tricas. Essa descricio possuii um grande mérito tdérico, Ela assinala como 0 desenvolvimento do capitalismo se enlaga ao desenvolvimento concomitante das duas clas- ses fundamentais da sociedade capitalista e a tim agra ‘vamento crescente da luta de classes, pela qual 0 anta- gonismo entre o capital ¢ 0 trabalho se manifesta como fermento historico. “Esbocando em linhas gerais as fa- ses do desenvolvimento do proletariado, descreveros a guerra civil mais ou menos oculta, existente na socie- dade atual, até a hora em que essa guerra explode numa revolugio aberta ea derrubada violenta da burguesia estabelece a dominagio do proletariado.” Temos, pois, uma guerra civil latente e uma eclosio revoluciondria aberta, As transformacées seguuem as linhas dos equili= brios e desequilfbrios de forcas nas relagbes antagn cas da burguesia com o proletariado. Em suma, quem faz a revolugdo & a grande massa proletiria c quem Ihe dé ‘sentido & a grande massa proletiria, Nao se trata de uma categoria social como “povo” ~ mas da parte proletéria do povo ¢ daqueles que, nio sendo proletirios, identi~ ficam-se politicamente com o proletariado na destr io das formas burguesas de propriedade e de apropria- ‘Go social. Em suma, a maioria descobrindo por seus proprios meios que a ordem burguesa nio é a tinica possfvel e tentando, também por seus proprios meios, a conguista do poder e de uma nova forma de demo- cracia, a democracia proletiria. A nova época inicia-se, portanto, mediante uma revolugio através da qual o proletariado, convertido em classe dominante, “des tr6i violentamente” as antigas relagbes de produgio e, com elas, “as condigdes dos antagonismos de classes ¢ as proprias classes em geral”, abrindo caminho para cextinguir, assim, “sua propria dominacio como clas- se”. Utopia ideologia caminham juntas, jé que ambas extraem sua realidade hist6rica de uma condigio de classe revolucioniria instrumental para a revolucio, mas condenada ao desaparecimento pela concretizacio pau- latina da propria revolugio. Isso permite a Marx Engels um vaticfnio ousado: “Em lugar da antiga socie- dade burguesa, com sta classes ¢ antagonismos de clas ses, haverd uma associagio na qual o livre desenvolvie mento de cada um é a condicio do livre desenvolvi- mento de todos”, ‘A descricio possui, adicionalmente, um mérito pri tico. Ela propée a revolugio do proletariado dentro de tum raio de acio revolucionsria de classe que nio se esgota no Ambito do capitalismo e da sociedade bur- guesa, j4 que 0 scu termo fornecido pela extingio do proletariado como classe — ¢ dos antagonismos de clas- ses e das classes em geral. Enquanto a guerra civil é latemte, a transformacio revolucionsria se equaciona dentro da ordem, como um processo de alargamento € aperfeicoamento da sociedade burguesa pela acio co- letiva do proletariado; quando a guerra civil se torna aberta, a transformacio revolucioniria se equaciona contra a ordem, envolvendo primeito a conquista do poder c, mais tarde, a desagregacio da antiga sociedade a formagio de uma sociedade sem classes, destivida de dominagio do homem pelo homem e de elemento politico (portanto, de uma ordem sem sociedade civil e sem Estado). ‘O que essa descrigio implica, no plano pritico? O reconhecimento, pelos revolucionirios detética co- munista, de que as situacdes revolucionérias ndo se criam «ao sabor da vontade (ou, como diria Lenin, nao se pro- ‘duzem por encomenda). Situacoes revolucionarias en cobertas e explicitas formam uma seqiiéncia em ca- deia. O talento inventivo dos revoluciondrios se mos- tra na medida em que eles sio capazes de atinar com as exigéncias ¢ com as possibilidades revoluciondrias de cada situacio, Um diagnéstico errado conduz a sa- crificios imiteis; uma oportunidade real desperdigada reflete-se numa perda do movimento revolucionério ‘em cadeia (afeta, pois, 0 presente € 0 futuro). Além disso, o teor revoluciondrio do movimento de classes se determina pelas potencialidades favoriveis e des- favorivcis da situacio concreta, Por isso, pode-se pre cindir de formulas dogmiticas e de lideres messia- nnicos. A firmeza da agio revolucionéria de classe d pender4, assim, de formas de solidariedade de classe, de conscigncia revolucioniria de classe e de compor= tamento revolucionirio de classe: se 0 proletariado no estiver preparado para enfrentar suas tarefas volucionirias concretas, nio poderd levar a revolugio até o fim ¢ até o fundo, no contexto social imediato ¢ a longo prazo. Os proletirios no sio marionetes © tampouco desdobram os painéis de uma historia que se prefigura de modo inflexivel. Na cena hist6rica, a Ita de classes gradua o componente humano ¢ psi- col6gico de toda a evolugio. Erros ¢ acertos repon- tam aqui e ali, favorecendo ora a burguesia, ora 0 pro- letatiado. A classe que nao souber aproveitar as opor tunidades terd de pagar um alto preco, pois, se a bur- guesia conseguir vergar 0 “arco histérico” do proletariado, este oscilara para uma prolongada pe- numbra hist6rica (como aconteceu com o proletaria- do europeu principalmente durante ¢ depois da I Guerra Mundial); ¢, a0 revés, se o proletariado con- seguir se antecipar a0 curso da historia, ele poders deslocar a burguesia de suas posigées e precipitar a sta propria revolucio social (como ocorreti na Reissia nas duas primeiras décadas deste século). O que quer dizer que descrever as condigies da revolucio em ter- mos de luta de classes nao equivale a “ignorar” o ele- ‘mento humano na hist6ria. Ao contririo, significa buscar as linhas de determinagées que fluem, através das classes ¢ dos antagonismos de classes, na objetivacio das condigdes nas quais os seres huma- nos constroem coletivamente a sua hist6ria, Alias, j4 em A Sagrada Familia Marx ¢ Engels haviam salienta- do esse fato. “A histéria nao faz nada, ‘nao possui uma riqueza imensa’, ‘nao di combates'! Acima de tudo, é ‘© homem, o homem real e vivo, que faz tudo isso e realiza combates; estejamos seguros que nio é a his- t6ria que se serve do homem como de um meio para realizar — como se ela fosse um personagem particu- lar— seus proprios fins; ela nao é mais que a atividade do homem que persegue seus objetivos”. © homem real e vivo esté nos dois polos da luta de classes, nos dois lados da “guerra civil mais ou menos, coculta” e da guerra civil que “explode numa revolugio aberta”, sob a forma concreta que os antagonismos entre capital e trabalho assumem nos conflitos da burguesia com o proletariado. Revolugio ¢ contra-revolucio constituem, por conseqiiéncia, duas faces de ma mes- ma realidade. Sob guerra civil latente, a pressio autodefensiva da burguesia pode ser contida nos limi- tes da “legalidade”; por sua ver, © contra-ataque prole- tirio fica circunscrito a defesa de sua autonomia de clas se ¢ de sua participacio coletiva no sistema de poder burgués. Em outras palavras, a burguesia afasta-se das tarefas histéricas impostas por sua revolucio de classe, mas o proletariado nao. Ele forga ¢ violenta os dina- ‘mismos da sociedade capitalista, obrigando os setores, estratégicos das classes burguesasa retomar pé na trans formagio revolucionéria da ordem social competitiva Onde isso nao ocorreu ou, entao, onde isso ocorreu de modo muito fraco e descontinuo, a democracia bur guesa sempre se revelou muito débil ¢ facilmente pro- pensa as contracies contra-revolucionsrias dos regi- mes ditatoriais. Sob a guerra civil aberta, a pressio autodefensiva da burguesia torna-se virulenta e se co- locaacima de qualquer “legalidade”; por sua vez, 0 pro- letariado bate-se diretamente pela conquista do poder ‘ou, pelo menos, pela instauracio de uma dualidade de poder que exprima claramente a legalidade que a revo- lugio opde & ilegalidade da contra-revolucio. O cam- po da luta de classes adquire uma transparéncia com- pleta ¢ converte-se automaticamente em um campo de luta armada, pela qual a revolucio ¢ a contra-revo- ugio metamorfoseiam a guerra civilafrio owe a quente em um prolongamento da politica por outros meios. A vitéria de uma ou de outra classe depende da relagio da revolugio e da contra-revolugio com as forgas So- ciais que outras classes podem colocar 3 disposi¢io da transformagio revolucionéria ou da defesa contra-re- volucionaria da ordem. “Tudo isso torna decisivo o equacionamento de es- tratégias revolucionarias mais ou menos compatibili zadas com as exigéncias ¢ as possibilidades das sitta- ‘Bes concretas. Em “A Faléncia da II Internacional” (Oeuvres, vol. 21, 1914-1915), Lenin trata dos in de uma situagio revoluciondria ¢ das probabilidades da eclosio revolucionstia: “Para um marxista, est fora de duivida que a revolucio ¢ impossivel sem uma situa- «fo revolucionéria, mas nem toda situagao revolucio- néria leva 3 revolucio. Quais sio, de uma maneira ge- ral, os indicios de uma situagio revolucionéria? Estamos certos de no nos enganarmos indicando os trés ind cios principais seguintes: 1) impossibilidade paras clas- ses dominantes de manter sua dominacio sob uma for- ‘ma inalterada; crise do ‘vértice’, crise da politica da clas- se dominante, o que cria uma fissura pela qual os des- contentes ea indignaciio das classes oprimidas se abrem tum caminho, Para que a revolugio estoure nao é su iente, habitualmente, que ‘a base nio deseje mais’ v ver como antes, mas é ainda necessirio que “o cume nndo 0 possa mais’; 2) agravamento, mais do que € co- mum, da miséria ¢ do desespero das classes oprimidas; 3) intensificacio acentuada, pelas razdes indicadas a ‘ma, da atividade das massas, que se deixam pilhar tran- giiilamente nos perfodos ‘pacificos’ mas que, no pert- odo tempestuoso, sio empurtadas, seja pela crise no seu conjunto, seja pelo proprio ‘vénic’, para uma agio histérica independente”. “Sem essas transformagoes objetivas, independentes da vontade destes ou daque- les grupos ¢ partidos, mas ainda de tais ou quais clas ses, a revolugio é, em regra geral, impossivel. E.0 con junto dessas transformagées objetivas que constitu ‘uma situagio revolucionaria. Conheceu-se essa sitta- io em 1905 na Riissia ¢ em todas as 6pocas de revolu- {Ges no Ocidente; mas cla também existit: nos anos 60 do tiltimo século na Alemanka, do mesmo modo que ‘erm 1859-1861 ¢ 1879-1880 na Ruissia, embora nao te- rnham ocorrido revolugéesem tais momentos. Por qué? Porque a revolucio nao surge de toda situacio revolu- Ciontria, mas somente no caso em que, a todas as trans- formagées objetivas enumeradas acima, se acrescenta uma transformacio subjetiva, a saber: a capacidade, no {que concerne 3 dase revolucionaria, de conduzir agoes revolucionarias de massa bastante vigorasas para destruir completamente (ou parcialmente) 0 antigo governo, que nio cairé jamais, mesmo em épocas de crises, se nio for ‘compelido a cair™. Em A Doenga Infantil do Comunismo, Lenin retoma o assunto, estabelecendo ‘nfases sintomiticas: ‘A lei fundamental da revolucio, confirmada por todas as revolugdes ¢ especialmente pelas trés revolugdes russas do século XX, ci-la aqui para que a revolugio tenha lugar, nao € suficiente que as massas exploradas ¢ oprimidas tomem consciéncia da impossibilidade de viver como antes ¢ reclamem transformagées. Para que a revolugio tenha lugar é necessirio que os exploradores nio possam viver e go- vernar como antes. E somente quando ‘os de baixo" nao querer mais e ‘es de cima ndo podem mais continuar a vie ver da antiga maneira, € somente entio que a revolu- Glo pode triunfar, Essa verdade se exprime em outras palavras:a revolucio é impossivel sem uma crise nacio- nal (afetando explorados e exploradores). Assim, pois, para que uma revolugio tenha lugar, é preciso: primeic rFamente conseguir que a maioria dos operirios (ou pelo menos, que a maioria dos operirios conscientes, pon= derados, politicamente ativos) tenha compreendido perfeitamente a necessidade da revolucio e esteja dis- posta a morrer por ela é preciso também que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que en= volva na vida politica até as massas mais retardatirias, (0 indicio de toda revolucio verdadeira é uma répida levacio a0 décuplo, ou mesmo a0 eéntuplo, do ni ‘mero de homens aptos paraaluta politica, entre a massa laboriosae oprimida, até a apética), a qual enfragueca 0 governoc tome possivel aos revolucionsrios a sua pron= 1a substituigio” ‘Como parte do cerco capitalista contra o movimen- to socialista revolucionério, suscitou-se uma polémi-