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= «Simulacros e Simu- lagio», escrito em 1981, ‘mantém-se como um dos ‘mais inovadores livros de Jean Baudrillard, socié- logo e fildsofo francés de reputagio intemacional. Nesta sua obra, através de exemplos dos novos cenizos de espectaculos, hipermercados, acidentes rucleares e novas tecno- logins, Baudrillard aborda a questdo dos simmulacros e da simulagio. Esta no setiajé a de um teritério, Ge um ser referencial, ou de uma substincia, mas a geracho, através de mode- Jos, de um real sem origem nem realidade. SIMULACROS E SIMULAGAO ANTROPOS SIMULACROQS E SIMULAGAO jean Daudrillard RELOGIO D'AGUA Scan by JH. “Livem-se das vhs eategoris do negativo (aime, a: esatsrse, set, soeana que por tants tempo o pensamento cedentalconaderou sogredse, como fon de Poder emoea se seen reasnde, Praiom 0 a €porivo hilt, adierengsbuntormicade, as funos As uncses, 0: {geneamentos movels os sistemas” Bb — as Spo Rabe, 15 © Bins Cae, 3981 Tir Siac eSimuago Tino rg Siac simulation Avo fem Burland ‘Trlr Mai Js da Conta Pres Cap: Femando Mateos logo Aga. 1991 veg gtr Fine Nees La, Sant Mara a ei Depa egal n® 75/9 JEAN BAUDRILLARD SIMULACROS E SIMULACAO ANTROPOS indice ‘A precessio dos simvlacros enna 7 ‘A historia: um centio tO. 59 Hot2caU30 en za 7 (China Syndror - oom oT Apocalypse Now: = ” ‘Octet Beaubourg. implosi edesuasio.. vse: BI Fipermercado e hipermereadotia 7 ‘A iemplosao do sentido nos medi 103 ublicidade absoluta,publiidade zero 13 Clone story. - covnunninnnn 1B Holograms i 133 Crash # : 139 sSimulagao ¢ficgo cientifca ~ 151 Os animals, teritério € metamorfoae 8 O resto vn sien ~ 1% O endiver em expt neon - 188 0 hime tango do var wr Sobre o nile ae 195 A precessao dos simulacros (0 sinudaoro munce € 0 que cute @ verdade ba verdade que ota qu ato ete ( silaer é tradi O Feusisres Se outrora pudemos tomar pela mais bela alegoria da simelagso a fabula de Borges em que es cartégrafos do Império desenham um mapa tio detalhado que acaba por cobrir exactamente o territrio (mas © declinio do Império ‘assiste a lento esfarrapar deste mapa e sua ruina, podendo ainda localizar-se alguns fragmentos nos desertos — beleza ‘metafisien desta abstraccio arruinada, testemunha de win ‘orgulio & medida do Império ¢ apodrecendo como uma ‘carcaga, reressando & substincia do solo, de certo modo ‘como'0 duplo acaba por confundir-se com o real a0 enve- Thecer) — esta tabula esté terminada para n6s e tem apenas fo discreto encanto dos simulaeros da segunda categoria®. "J ring, cage smb ot a mor, sone des si tac Pais Galan 1975. 4 Simul eSimulagio Hoje @ abstracgio jé nio € a do mapa, do duplo, do cexpelho ou do conceit. A simula ja ndo €a simulagao de tm territrio, de um ser referencial, de uma substincia. Ba sgeracio pelos modelos de um real sem origem nem realidad: Fiper-eal O terntori fn precede o mapa, nem Ihe sobre- vive. Eagora 0 mapa gue precede o terrtério — precessio {dos simulacros —é ele que engendea 0 teritrio cujos frag, ‘mentos apodrecem lentamente sobre a extensto'do mapa. & real, eno. mapa, cujos vestigios subsistem aqui eal, nos desertes que nao s80 08 do Império, mas o nosso. Odeserto 0 prépro re. De fact, mesmo invertda, a fabula @inutilizavel. Talvez suibsista apenas a alegoria do Império.Pois ¢ com o mesmo Imperilismo que os simuladores actuaistentam fazer coinc dio teal, todo o real, com os seus modelos de simulagio. ‘Masi ndose trata de mapa nem de eritéro. Algo desapare- eure diferenga soberana de um para 0 outro, que constitula Dencanto da abstracgdo, Pols é na diferenca que consiste a poesia clo mapa e oencantodoterstorio, a magia do conceito Co encanto do real. Este imaginsrio da representagao, que culmina e 20 mesino tempo se afunda no project louco dos Cartgrafos, de uma coextensividade ideal do mapa edo ter ‘tra desaparece na simulgio — cj operational: © senéticae f ndo expecclar ecliscursiva. E toda a metafisica {fue desaparec. Ja-n30 existe 0 espelho do sere das apart las, do real da seu conceit. Jé nao existe coextensividade imaginaria: a miniaturizagio genética que & dimensio da ‘simulagio, O real éproduzide a partir de c&hules minaturiza~ das, de matrizes edememérias de modelos de comando —e pocieserreproduzido um nimeroindefinidode vezesa partir, fai, J nto tem de see racional, pois f nfo se compara com. neninuma instancia, ideal ow negativa, E apenas operacional. Navverdade, no 6 rea, poisja ndoesté envolio em nenkum imagindrio. E um hiper-real, produto de sintese iradiando modelos combinatérios num hiperespaco sem almesfera ean Baudrillard ° [Nesta passagem a um espaco cuja curvatura ji no éa do real, nem a da verdade, a era da simulagto inicia-se, pois, ‘com uma liquidacio de todes os referenciais — pion. com a sua ressurreigio artificial nos sistemas de signos, material ‘mais duetil que 0 sentido, na medida em que se oferece a todos of sistemas de equivaléncia, a todas a5 oposicdes bindrias, a toda a algebra combinatéria, Jé nfo se trata de imitagio, nem de dobragem, nem mesmo de parédia,Trata “se de uma substituicBo no real dos signos do real, isto €, de Juma operagio de dissuasao de todo o processo real pelo seu duplo operatério, méquina sinaltica metaestavel, progra- ‘matica, impecivel, que oferece todos os signos cio real eIhes| curto-ireuita todas as peripécias. O real nunca mais teré| ‘oportunidade de se produzir — tal 6a funcao vital do modelo ‘am sistema de morte, ow antes de ressurreicio antecipada {que no deixa|é qualquer hipdtese ao proprio acontecimento a morte. Tiper-teal, doravante ao abnigo do imaginario, no deixando lugar senao A recorréncia orbital des modelos €€8 geragio simulada das diferencas. A inreferéncia divina das imagens Dissimular éfingir nao ter o que se tem. Simular 6 fingi tero que nio se fem. O primeiro refere-se a uma presenca, 0 segundo a uma auséncia, Mas émais complicado, pois simular rio é fingi: «Aquele que finge uma doenca pode simpies- mente meter-se na cama e fazer crer que esta doente. Aquele {que simula uma doenca determina em si proprio alguns dos respectivos sintomas> (Litt) Logo fingit, ou dissimular, deixam intacto o principio da realidade: a diferenca continua fa ser clara esté apenas disfarcada,enquanto que a simulacao ‘poe em causa a diferenca do «verdadeiro» e do «falso», do 0 Sinulacros e Simulate areal» edo simaginério»,O simulador esté ou nao doente, se produz «werdadeiros» sintomas? Objectivamente nao se pode traté-lonem como doente nem como nac-deente. A psicologia ea medicina detém-se af perante uma verdade da doenca que jf nio pode ser encontrada, Pois se qualquer sintoma pode ser «produzido» e jé nao pade ser aceite como um facto da natureza, entao toda a doenca pode ser considerada simuldvel e simulada e a medicina perde o seu sentido, uma vyex que s6 sabe tratar doencas «verdadeiras» pelas suas causas objectivas. ‘A psicossomtica evolui de maneira incerta nos confins do principio da doenca. Quanto & psicandlise, ela devolve 0 sintoma do dominio orgénico ao dominio inconsciente: este de novo suposto ser «verdadeiror, mais verdadeiro que o ‘outro — mas por que & que a simulagto se deiém as portas, do inconsciente? Por que é que o «trabalho» do inconsciente ino hé-de poder ser =produzido» do mesmo modo que ‘qualquer sintoma da medicina clissica? Os sonhos ja 0 $30. Claro que 0 médico alienista faz crer que «para cada forma de alienagio mental existe uma ordem particular na sucessio dos sintomas que o sirmulador ignora ecuja auséncia rao poderia enganar 0 médico alienista». Isto (que data de 1865) para salvar a todo 0 custo o principio de uma verdade dir a interrogagio que a simulagao coloca — ou seja, que averdade, a referencia, a causa objectiva deixaram de existir. (Ora que pode fazer a medicina com © que paira aquém e além da doenca, aquéme além da sate, com a reiteracio da ddoenca num discurso que nao & nem verdadeiro nem falso? ‘Que pode fazer o psicanalsta coma reiteracio do inconsciente num discurso de simulagéo que nunca mais pode ser desmascarado, jé que também nao é falso®? 2. E quanto 6 suscptiva de reslusao na tansparéncia fo encedar| testes dois ncurses que toma a peandie Interminave. Jean Baudrilart nm Que pode fazer 0 exército com os simuladores? Tradi- cionalmente desmascara-os e pune-os, segundo um principio Claro de localizagSo. Hoje 0 exército pode dar como incapaz para o servico militar um bom simulador como sendo exac- famente equivalente a um homossexval, a um cardiaco ot um louco «verdadeiros». Até mesmo 2 psicologia militar recua diante das clarezas cartesianas ¢ hesita em fazer a istingio do falso e do verdadeiro, do sintoma sproduzido» fe do sintoma auténtico, «Se ele imita tio bem um louco € porque o é.» Endo deixa de ter razdor neste sentido todos os Toucos simulam e esta indistingio &a pior das subversbes. & contra ela que a razio cléssica se armou com todas as suas categories. Mas é ela hoje em dia que de novo as ultrapassa ce submerge o principio de verdade. Para além da medicina e do exército,terrenos de eleigio da simulagio, a questio prende-se com a religido e com 0 simulacro da divindade: «Eu proibi a existéncia nos templos de qualquer simulacro porque a divindade que anima a natureza nfo pode ser representada.» Na verdade pode sé “To, Mas em que é que se torna quando se divulga em icones, ‘quando se desmultiplica em simulacros? Continua a ser a {nstancia suprema que simplesmente se encarna nas imagens, numa teologia visivel? Ou sera que se volatiliza nos simulacros que, $6 eles, ostentam o seu fausto e poder de fascinagto — com o aparato visivel dos fcones substituindo: se a Ideia pura e inteligivel de Deus? Era disso justamente que tinham reccio os iconoclastas, cuja querela milenéria é ainda hoje a nossa®. E precisamente porque estes apresen- tavam esta omnipottncia dos simulacros, esta faculdade que témde apagar Deus da consciéncia dos homens e esta verdade {que deixam entrever, destruidora, aniquiladora, de que no fundo Deus nunca exist, que nunca existiu nada sento 0 3. GEM, Persil, ln, Visions, Sima, pig 99. 2 ‘Simulacros Simulagio simulacro € mesmo que © proprio Deus nunca foi sendo 0 seu proprio simulacro— dal vinka a sua raiva em destruit a3 imagens. Se eles tivessem podido acreditar que estas apenas ‘ocultavam ou disfargavam a Ideia de Deus segundo Platao, ‘do haveria motivo para as destruir. Pode viver-se com a ideia de uma verdade alterada. Mas 0 seu desespero meta- lisico provinha da ideia de que as imagens nao escondiam absolutamente nada e de que, em sums, ndo exam imagens ‘mas de lacto simulacros perfeitos, para sempre radiantes no seu fascinio proprio. Ora ¢ preciso conjutar a todo 0 custo esta morte do referencial divino. ‘Vernos assim que os iconoclastas, acusados de desprezar © negar as imagens, eram os que hes davam 0 seu justo valor, ao contrétio dos iconolatras, que nelas apenas viam reflexos se contentavam em venerar Deus em filigrana ‘Mas podemos dizer, contrariamente, que os conolatras foram ‘ espiritos mais modemos, mais aventureiros, uma vee que, sob a luz de uma transparigio de Deus no espelho das imagens, representavam jf a sua morte ¢ a sua desaparigio xa epifania das suas representagies (das quais talvez sou- bbessem que ji no representavam nada, que eram um jogo puro, mas que era esse precisamente o grande jogo—sabendo fambém que € perigoso desmascaras as imagens, é que elas issimulam que nao ha nada por detris delas. Assim far8o. 6s Jesuitas, que fundardo a sua politica sobre a desaparigio virtual de Deus ¢ a manipulacio mundana e espectacular ddas consciéncias — desvanecimento de Deus na epifania do poder — fim da transcendéncia que j4 no serve sendo de alibi a uma estratégia completamente livre das influéncias © dos signos. Por tras do barroco das imagens esconde-se a eminéncia parda da polttica Assim a questdo terd sempre sido 0 poder assassino das imagens, assassinas do rea, assassinas do seu proprio modclo, ‘come os icones de Bizancio o podiam ser da identidade divina. A este poder assassino opde-se o das representacoes Joan Bausriland 8 como poder dialéctico, mediagao visiveleinteligivel do Rea ‘Toda a féea bos féocidental se empenharam nesta aposta da ‘epresentagdo: que um signo possa remeter para a profun- didade do sentido, que um signo possa tracarse por sentido fe que alguma coisa sirva de caucio a esta troca — Deus, ‘certamente, Mas ese o préprio Deus pode ser simulado, isto 6,redzir-. O poder Mutua Como a moeda, como a linguagem, como a torias A critica cra negatividade sio as unieas que segregam ainda um fantasma de realidade do poder. Sose esgotarem por uma ot sta raz80, 0 poder nao terd otra soso Sendo ress las atificiamente,alucin-las. 6 Simulacros e Simulagso FE deste modo que as execugbes eapanholas server ainda de estilo a uma democracia liberal ociental,a um sistema de valores democrético agonizente. Sang fresco, as POF , Critic, mado anaitico — distingao da causa e do efeito, do activo e do passiva, do sujeito © do cbxcto, do fim e dos tneion-E sobre este moro que pode cierse a elevisso oa “hos, televisho manipula-nosatelevso informa-nos...Em {do st fcase tibutirio da concep analitica don me, a concepeio ce um agente exterior aco efca2, a concepctO deuma informacio eperspectivas tendo como ponto de Fuga oo horizante do real e do sentido, ‘Orn hi que eonceber a televinio segundo o modo ADN, como un efeto onde se desvanecen os polos adverses Sha determinagio, segundo uma contacg8o, uma retracgho ruclear do velho esquema polar que anttta sempre uma Clstinea minima enire una causa € in efit, entre aim sujeto.e um abjecto-precisamente a dstancia do sentido, 0 Gesvio, a diferenga, © menor desvio possvel (MDP! ire- ditivel, sob pena de renbsorcao num processo aleatério e {ndeterminado edo qual o discurso nem sequer pode dar Conta, i que € ele proprio uma categoria determinada ‘Simulacres ¢ Simagao E este desvio que se dilui no processo do céidigo gené- tio, ondea indeterminacio nfo ¢tantoa do acaso dan tll culas como a do aboligao pura e simples da waa), No processo de comando molecular, ue «vain do micleo ADN A ssubsancia» que ele «informa ndo hé eneaminhamento de umefeto, de uma energia, de ma determinagio, de une ‘mensagem. cOrdem sina impo, mensagem: tado iste tenta dar-nos a coisa ineligivel mas por analog, etrans Grover em termes de srg, de vcore desc ‘Ho, uma dimensio da qual nada sabemos-—jé nem sequer una sdimenstor ou talver seja essa'a quarta dimenseo ta qual se define, de eo om ravi einstein, pela absorcio dos pélos distintos do espaco ¢ do tempo) De facto, todo este processo no pade ser entendde por 1nés sendo sob forma negative jf iada separa um polo a ‘tro, oimicial do terminal, hi uma especie de esmagamente eum se o eu, deeahament fants e fa amento de um no outro des dois polos tradcionais:implo- ‘Sir sbsorglo do modo radiate da cawatigade, do toto referencial da determina, com a sua electeidade post tiva e nogativa —implosio do sentido Ea! que a simulagto i nada circa de todo. Quanto mais os enterramos em ditecgio ao inte Figs, menos cicula. Bo oposto de Roissy, onde de um cent fatrista com disign espacial» iradiando para cataitss, ete. se chogn, muito terenamente a.. aviees tradicionas, Mas a incoeréncia mesma. (Que se passa como dinhiro, ‘esse ont aida, quese passa como sew moo de ertlacto, de emulsto, de rtaida em Beaubourg?) ‘Amesma contracigio se verifie ate nos comportamentos «do pessoal destinado ao expago epelvalentene sem espace privado de trabalho. De pe e em movimento, as pessoas Scam wm comportamento cml, nas sb, sito design, daptado a cestruturas de ui eapago «moderna». Sentados no sew canto, que nem sequer € verdadeiramente fo, um Canto, apotenese egreganclo uma solid artificial, a efazer Stsua cbolha. Bela actica de ditsuasao af também’ sto com enados a empreger toda a sa energia nesta defensiva ind vidual, Coriesmente, vollamos a encontrar assim, a mesina “Em inglés mo orignal (N. dT) ea Baaritart 8 contradigio que ¢ da coisa Beaubourg: um exterior mével, omitante coo! e moxierno— um inteioscrspado sobre 08 velhos valores. i. ste espaco de dissuasio,articulado sobre aideologia de visiildade, ce tensparénea, de polivalenci, de consenso € de contacto, ¢virtualmente hoje em dia o cas relacbes sons Todo o discurso social est af presente e neste plano, coano no do tratamento da cultura, Beaubourg 6 em total contra dich com om seus bjetiyosexpictos tim momimento genial da nossa mnodernidade, Edom pensar que ideia nav veio co espirity de im qualquer revolucionario mas sim a0. dos logicas da orem estabelecida, desttaidos ce qualquer esp rio cic e, logo, mais proximos da verdade, capzes, na fa obstinagio, de pGr em Funcionamento uma maquina no fondo incontolave, que Thes escapa no seu proprio Exo, © que @ 0 relexo mais exaeto, até mas sas contradigdes, do Gstado de coisas acta Claro que todos os contetidos culturais de Beaubourg, so anacrOnicos porque a este involucro arquitecténico $6 poderia ter correspondido © vazio interior. A impressso eral & de que tudo aqui esti em coma profundo, que tudo. Se quer animacio e no é mais que reanimagao e que esté bem assim, pois a cultura morreu, o que Beaubourg des- creve aclmiravelmente, mas de maneira vergonhosa, quando se deveria ter aceite triunfalmente esta morte ¢ ter erigico um monumento ou um antimonumento equivalente A inanidade félica da Torre Fiffel no seu tempo. Monumento & desconexao total, & hiper-realidade e a implosdo da cultura = feita hoje em dia para nbs como um efeito de circuitos transistorizados, sempre espreitados por um curto-cincuito igantesco. Beaubourg é jé uma compressto & César — figura de ‘uma tal cultura que ¢ esmagada pelo seu. proprio peso — como os méveis automoveis congelados de repente dentro “ Sinulncrs e Simudagao de um sélido geométrico. Tal como as carripanas de César saidas sem beliscadura de um acidente ideal, jé nao exterior, mas interno a estrutura metilca e mecaniea e que teria feito ‘uma grande quantidade de ferro-velho cibico em que 0 caos Ge tubos, alavancas, carrogaria, metal e carne humana n0 interior 6 talhado a medida geométrica do mais pequeno ‘espaco possivel — assim a cultura de Beaubourg esta fractu- rada, torcida, cortada e prensada nos seus mais pequenos elementos simples — feixe de transmissdes ¢ metabolismo defunto, congelado como um mecandide de ficeao cientifica. Mas em vez de partir e de comprimir aqui toda a cultura nesta careaga que de todas as maneiras tem oar de uma com- presio, em ver disso expae-se César. Expie-se Dubuftet ea contracultura, cuja simulagdo inversa serve le referencial & cultura defunta. Nesta eareaga que poderia ter servide de mausoléu a operacionalidade intl dos signos, reexpiem-se as maquinas efémeras e autodestruidoras de Tinguely sob 0 Signo da cternidade da cultura. Assim se neutraliza todo 0 conjanto; Tinguely é embalsamado na instituigao do museu, Beaubourg € abatido sobre os seus pretensos contedidos antisticos Felizmente todo este simulacro de valores culturais & aniquilado com antecedéncia pela arquitectura exterior". ue esta, com as suas redes de tubas e o seu ar de edificio de exposighes ou de feira universal, com a sua fragilidade (cal- culada?) dissuasiva de toda a mentalidade ou monumentali- dade tradicional, proclama abertamente que o nosso tempo nunca mais serd 0 da duragio, que a nossa temporalidade é a do cielo acelerado e da reciclagem, do circuito edo transito dos fluides. A nossa tiniea cultura no fundo é a dos hidrocar~ 1. Anda outra coisa aniqulla projecto cultural de Beaubourg: as pip mann gut aien pro pst latent pnto as Joan Bauder 5 bonetos, da refinacao, do eracking* da particho de moléculas clturais © da sua recombinagio em produtos de sintese. Isto, Beaubourg-Museu quer escondé-lo mas Beaubourg scareaca proclama-o. E € 0 que constiti profandemente a beleza da carcaga & 0 fracasso dos espacos interiores. De todas as manciras, a prépria ideologia da «produgto cultu- ral» & a antitese ce toda a cultura, como a de visibilidade e de espaco polivalente: a cultura é um lugar de segredo, de sedugao, de iniciacio, de uma troca simboliea restritae alta- ‘mente ritualizada, Nada a fazer. Tanto pior para as massas, tanto pior para Beaubourg. Mas que haveria, pois, que pdr em Beaubourg? Nada. O vazio que significasse o desaparecimento de toda a cultura do sentido e do sentimento estético, Mas isto ainda demasiado rumantico e dilacerante, esse vazio teria ainda 0 valor de uma obra de arte de anticuleura, Talvez. um rodopio de hizes estroboscpicas e giroscd- picas, estriando espago do qual a multidso teria fornecido elemento movel de base? De facto Beaubourg ilustra bem 0 facto de que uma cate- goria de simulacros no se sustenta seno com o alibi da categoria anterior. Aqui, uma carcaga toda de fluxos e cone- x0es de superficie da si propria como contetido uma cultura tradicional da profundidade. Uma categoria de simulacros anteriores (a do sentido) fornece a substincia vazia de uma categoria ulterior que, ess, jd nem conhece a distingao entre © significante e o significado, nem entre 6 continente © 0 conterido, A pergunta: «Que se cleveria por em Beaubourg?» & pois, absurda, Nao se lhe pode responder porque. distingio t6pica + Proceso de trasformapio de petsSeo em derlvades por melo de calor e presso, Em ingles no orignal (N. da 7) 8% Simalacros e Simao ‘entre o interior @ 0 exterior jf nao deveria ser colocada. E af ue reside a nossa verdade, verdade de Moebius — utopia inrealizavel, som dtvida, mas qual Beaubourg nso deixa de dar razio, na medida em que qualquer dos seus conteuidos & lum comtra-sensoe ests antecipadamente aniquilado pelo con- tinente. No entanto — no entanto... se devesse haver alguma coisa em Beaubourg — deveria ser labirinto, uma bibliotecs combinatsria infinita, uma relistribuigdo aleat6ria dos desti- ros pelo jogo ou pelas lotarias — em resumo, o universo de — ou ainda as Ruinas circulaves: encadeamento des- ‘multiplicado de individuos sonhados uns pelos outros (n30_ ‘uma Disneylandia de sonho, um laboratério de fiecio pritien) Uma experimentacao de todos os processos diferentes da ropresentacio: difraccio, implosio, desmultiplicagio, enca deamentos e desencadeamentos aleatérios — de certo modo, como no Exploratorium de Sio Francisco ou nos romances dle Philip Dick —em resumo, uma cultura da simulacio e da fascinagio, e nao sempre a da producao e do sentido: eis 0 que poderia ser proposto que nio fosse uma misersvel anti- cultura, Seré possivel? Nao de maneira tio evidente, Mas essa cultura faz-se noutro sitio, em toda a parte, em lado nenhum. A partirde hoje. tmica verdadeira pratica cultural, a das massas, a nossa (j# nao ha diferenga) € uma pratica ‘manipulat6ria, aleatéria, labirintica de signos e que ja nd0 faz sentido. Contudo, de uma ostra manera, nio 6 verdade que em Beaubourg hajaincoerencia entre o continente eo conteido, Everdadesese der slgum ereditoao projcto cultural ofc Mas ¢ exactamente 0 oposto que se faz. Beaubourg nd0 & mais que um imens trabalho de transmutagio dessa famosa Cultura tradicional do sentido para a categoria alata dos Signos, para uma categoria de simlacros (a trcera) per‘ tamente homogénea dos faxos. dos bos da fachadla, Fé Jom Bovdrillont @ ppara clevar as massas.a esta nova ordlem semniirgica que elas ‘fo aqui chamadas — sob o pretexto oposto de aculturéelas, a0 sentido e a profundidade. 1, pois, que partir deste axioma: Beaubourg é wm mort mento de dissusio cultural, Sob um censrio de museu que s6 serve pare salvar a ficcho humanista de cultura, &um verda- deizo trabalho ele morte da cultura que ai se faz e é a. um verdadeito trabalho de luto cultural aquele a que as massas sho alegremente chamadas, E elas precipitamse para li. essa a suprema ironia de Beaubourg: as massas precipitam-se para lé mio. porque livem por essa cultura de que estariam privadas desde hi séeulos, mas porque tém pela primeira vez a oportunidade de participar macigamente nesse imenso trabalho de luto de tuma cultura que, no fundo, sempre detestaram, (© mal-entendido & pois, total quando se denuncia Beaubourg como uma mistificagao cultural de massas. As ‘massa, essas, precipitam-se para la para gozar essa morte, essa decepcao, essa prostituicao operacional de uma cultura, por fim verdadeiramente liquidada, incluinde toda a con- tracultura que nao ésenao a sua apoteose As massas afluem a Beaubourg como afluem aos lacais de catistrofe, com 0 mesmo impulso irresistivel. Melhor: elas s0 a catistrofe de Beaubourg. O seu nimero,a sua obstinagao, 0 seu fascinio, 0 seu prurido de ver tudo, de manipular tudo € um compor- tamento objectivamente mortal e catastrOfico para qualquer ‘empreendimento. Nao s60 seu peso poe em perigo oeditic como a sua adesio, a sua curiosidade aniquila os proprios contetidos desta cultura de animacio. Este rusi*jé nao tem, {qualquer meclida comum com oque se propunha como objec- tivo cultural, é mesmo a sua negagio radical, no seu excesso ‘© no seu proprio éxito, So, pois, as massas que fazem 0 *Arzemetda. Em ings no orignal. (N. dT) a8 Sivradacros ¢ Simulagio papel de agente catastrfico nesta estrutura de catistrofe io i prin massos que pein 9 cut de masse. clando no espaco da ransparencia, so, decert, con vertdas em fluxo mas 20 mesmo tempo, pela sua opaeidade « inércin, poem fin a este espago «polivalentes, Sao conv! dads pvp simul» brits com om nck fazem ainda melhor: participam e manila to bem que apegam todo o sentido que se quer dar operacio pom tm perigo ate a infracentrutura do edificio. Como sempre acontece toma espécie de parodia, de hnpersimulagio em ‘esposta simulagao cultura transforma ns massa, que na) dleweriam ser mais que o chee" da cultura, no executor que tata esa cultura, da qual Beaubourg era a encarn. gonheea, Hi que aplaualir este éxito da distasto cultural, Todos os antiatistas, esquerdistase detractores de cultura munca ‘iveram, nem de longe, a eficicia dissuasive deste mona rental buraco negro que € Beaubourg. F uma operacio verdadeiramente revolucionévia, justamente porque esnvo- Junta, oueneincontrolada, enquanto a tentativas sensatas de acabar com a cultura nao fzeram mais, como se sabe, que ressuscit-la, Em rigoro nico contedo de Beaubourg so as prprias massa, eo edifici tain como umn convevor, como ana char escure 0, em tos de inpul-ouju cxacamente como ima refnara trata um produto petolifer ou un fico de materia brat, TNuna fi to claro que o contesdo — aqui a cultura, novtro sto a informacio ou a mereadora€ apenas 6 $uportefantasmnadaoperato do proprio maim, uj ano sempre indir mass, produ nh foxo humano mental +O gado dado a criar em szrendamento, (N.d2 7) Jean Baudrilant 89 omogéneo, Imenso movimento de vaivém semehante a0 scammers" dos azedoresabsorvidos e repels a horas fans pelo se loca de trabalho. Be meno de um batho Gjueauice trota-—trsbalhode teste, de sondagem, de inter TDgacto dngin as peseae vem selecconar agul ebectos “respostas a fori a perguntas que podem fazer Ou antes, di cles piprs em reyesta & pergunta funcional « diigida duces objectosconstituem, Mats qu una cadeade rabalho trata pois, de uma discipbna programa, uj imitages se apagaram por detris de um verniz de tolerancia. Muito Slemdasinstituigbes tradicionals do capita do hipermercado fu Beaubourg shipermercado da cultura» est jo model de toca fora fata de socalizagbo controlada:retotal- {acho nam espaco-tempo homogénee de todas as fungBes disperses, do corpo eda vida sacl rabbi, ternpos tes, ray clare) retanocigho des sfowos conraitrios fm termos de eicuitosintgrados. Espacotempo de toda {ima simulago operacional vida socal ara isso € preciso que a massa dos consumidores sja equivalente ou homéloga da massa dos produtos. Bo core front wa ust destas das massa que Se operam no hiper tnercado do mesmomode que em Beaubourg eque faz deste igo ce muito diferente dos locals tadifonal da cultura (rruscus, monumentos, eleria,bibliotecas casas da cultura, ete) Agu eaborase a masa erica para sl da qual @ tmercadora se torn hpermercadoria ea cltrahipereltra ino. nto liga 9 trocts dstinas ou a nexessidades Geterminatias mas a uma espécie de universo snaltio to- talon de cicutointegredo percorrido de um ado a0 outro por um impulso, transit incessant de escola, de leitura, dereleréncas, demares, de descodiicagao. Aquos objects, + 0s que vivern nas anredores das ciades. Em ings no orginal Naat) 50 Simulacros e Simulagio eulturais, somo nowtros sitios os objects de consumo, n80 tm outro fim que o de nos manterem emn estado de massa integraca, de oxo transistorizado,clemolécula magnetizada isso o que se vem aprender num hipermercad: a hiper- -realitade da mereacoria ~ isso que se vem aprender Beaubourg: a hiper realidade da cult ‘Jé comega com 0 museu tradicional este corte, este reagrupemento, esta interferncia de todas as cultures, ext stint incondicional que fa a hiperreaidode da celta, ihen Strut ainda ine sietnteie Nunes como agai ol tra nha perdido a sta memoria em favor do armazena- mento eda redistibuici funcional, B isto traduz win facto ‘ais geralé que por todo omvunc sciiizadon a constragio Ge siocs de cbjectos conduziu a um proceseo complementar Sos stocks de pessoas, df, 3 espera, ao engarratamento, A concentragao, ao campo. E isto a «produgio de mastasy, no no sentido de uma produtiva maciga ou em boneficio das ‘assas, mas a producto des uss. As massos como proto final de toda sociadade v pondo fim definitivo # social dade, pois estas maseas que hos querem fazer cre seem © Soca, sie pelo contririo 9 lugar de implosao do socal. Ax nas sod esfera outa vez mn densa onde rem impladir todo 0 focin! e onde vem aevorer-se mum processo de. simalagao interrupt. aio expelho cncavoré a0 ver a8 massas no interior que asmassas serio tentadas afi, Método tipico de marketing toca ideologia da transporencin adquireaggaio sen sentido. Ow ainda: ¢ 0 encerrar um modelo ideal eduzido gue se espera ama gravitagio accra, uma aghatinagioauomtca de cultura como urna aglomeragio automatia das massas, O ‘mesmo processo:operagio near dereacghovem cade, operacao especalnt de magia branca. Beaubourg 6, aesim, pela primeira vez 3 escala da cultara 9 que € 0 hipermercado: 0 opertdor clrlar pereito, Gemonstragio.de qualquer cosa (a mercadora, 3 culture, « Jem Baurittrt or multidao, 0 ar comprimido) pela sua prépria circulago ace lerada Mas se 08 stocks de objectos induzem armazenamento dos homens, a violencia latente no stock de objectos induz a vVioléacia oposta das pessoas. Qualquer stock € violento e existe uma violéncia em qualquer massa de pessoas também, pelo facto de que ela implode — violéncia propria & gravitagio, 4 sua densilicagao fem torno do sew proprio foco de inércia. A massa é foco de inércia © Gai foco de uma violéncia completamente nova, inexplicivel e diferente da violencia explosiva, Massa critica, massa implosiva, Para além dos 30000, a estrutura de Beaubourg corre o risco de «vergar=. Que a massa atraida pela estratura se tome numa varidvel des- truidora da propria estrutura — se isto tiver sido da vontade dos que a conceberam (mas como esperi-o?), se eles pro- gramaram assim a possibilidade de acabar de uma s6 vez com a arquitectura ea cultura — entao Beaubourg, constitui ‘o objecto mais audacioso e 0 happening” mais bem sucediio do sécutlo, Facam wergar Beaubourg! Nova palavra de ordem revotu- cionaria. Indtil incendiar, indtil contestar. Forga! Ea melhor ‘maneira deo destrair. O exito de Beaubourg ji nao & mistéro: a pessoas vio ld para isso, precipitam-se para este edificio, cua fragilidade respira jaa catastrofe, com 0 tinico objective deo fazer vergar. Decerto que obedecem ao imperativo de dissuasio: d4- -se-hes tum objecto para consumir, uma cultura para devo- zar, ui edificio para manipular. Mas a0 mesmo tempo visam ‘expressamente, e sem o saberem, esse aniquilamento. A cor rida precipitada € o tinico acto que a massa pode produzir sings no origina. Nd) 2 Simulaero ¢ Siulagio enquanto tal —~ massa projéetl que desafia 0 edificio da cultura de massa, que riposta com o seu peso isto 6, pelo set aspecto mais destituldo de sentido, mais estupido, menos cultural, 20 desafio de culturalciade que the é lancado por Beaubourg. Ao desafio da aculturagio maciga a uma cultora esterilizada, a massa responce por uma irsupeao destruidora, que se prolonga numa manipulacio brutal. A dissuasig mental a massa responde por uma dissuasio fisica directa, & seu proprio desafio. A sua astcia, que consiste em respon- der nos mesmos termos em que €soliitada, mas para além disso, em responder 4 simulagio em que a encerram, com ‘um processo social entusiasta que the ulfrapassa os obectivos fe desempenha 0 papel de hipersimulagao destruidont As pessoas tim vontad de tomar had, phar tudo, comer tudo, manipar tudo. Ver, deciva,apreir ny ay acta O nico afeto macio & oda manipulto. Os organizado: res eos artisan eon inteletuais) esto assustas em est telekade incontrolavel, pois mancnesperam senoaapren- izagem das maseas a etc ca cultura Nunca espera tse lascinio activo estruidor, espost brutal igre no dom de uma cultura incompeenive strait que tem as ts coactrtio de um sobamento © let de fantuaro Beaubourg poderia ou deveria ter desapareido no din a gtr lnnguragio, devontago ov raptac el ml do, 0 que teria constitu a nia resposta pase a0 cleat absurd de rangpartacia ede demeeraca da culture evan cada qual um pela fetiche desta clara ela propria weichizade 2, Em relagio o eta maa cla © 3 su radical compreensto de Beaulbourg, como fol ratriaa manestagio desentadantes de Vincennes ra note ca naugaracao! ere Bauder 93 ‘As pessoas vém tocar, olham como se estivessem a tocar, seu olhar é apenas um aspecto da manipulagio tdci. Trata- “sede facto de um univers téctl ji nao Visual ou de discurso a5 pessoas estdo directamente implicadas num processo: ‘manipular/ser manipulado, arejar/ser arejado, circular/fazer circular, que jf nfo é do dominio da representacio, nem da distincia nem da reflexao. Qualquer coisa que tema ver com, © panico ¢ com um mundo panico, Panico a0 retardador sem mébil externo. E a violencia interna a umn conintosatorado, 4 sinplosto emibourg nio pode sequerarder, tudo est previsto. O incéndio, a explosto, a destraigo jf nto sto a altemativa imaginaria a ote tipo de edifc, fa implosto a forma de aboligho do mundo squaterndrion,cibertcoe combina. ‘Roubvernio, a dextragio violenta 60 queresponde a um rode prxlucio, A unvimiverso de redes, de combinatoria 6 de fluxes respond a reversio ea impionio {© mesmo se passa com as insteigben,o Estado, o poder, ete, Osonho de ver tudo sto explode forga ce contradigbes no & jastamente, mais que urn sonko. O que se verifica na Tealidade € que a insttsigdes mplodem Por si propras, 8 forca de ramificagoes, de fed-bck, de circuitos de controle Sobredesenvol¥idon.O pote inp €oseu modo actual Se esapareciento Verifca'so'o mesmo com a cidade. Inctndios, guerra, peste, evolagdes, manginalidade criminal, eatastrofes: toda 2 problematica da anticidade, da negatividade interna ot flora cidade, a qualquer coisa de arcaico em relagdo 20 Seu verdadeiro modo de aniguslamento ' (O proprio cendrinda cidade subterrnea — versio chinesa de enero das sruuras ~¢ ingenuo. A dade fi ndo se repetesegunclo im essjuema de reduc ainda dependente “gesquema da representagio, E assim que serestaua ainda ‘epots da Segunda Guerra Murcia). A cided nao rests- o Sinuulacres ¢ Simaagdo cita, mesmo em profundidade — refazse a partir de uma espicie de cigo genético que permite repet-ia um miimere indefinido de Vezes a particla meméria ebernética acum lada. Acabou até a utopia de Borges, do mapa coextensive 0 territrioe a todo o eduplcador hojeo simslaco jf nao passa pelocluploe pela reduplicagto as pela miniatura genética, Fim ds representagio eda implosio, também of de {odo espace numa memdrainfinitesanal, que nada enuece e que nio é de ninguém, Simuagto de uma categoria ire versivel,imarenter cada vez mass-densa, potencialmente saturada eque nunca mais conheceréaexplotio lipertadna ‘Néséramosuma alturada violencia ibertadora(a raciona: liad. Quer sep ad capita a ibertagho das Forgas pre tivas da extensao reversivel do campoda mizioedo compo do valor do espago adr e clonizado até a0 universal ~ quer ej ada revolugao, que anecipa nas formas fata do Social e da energia co social —o exquema € 0 mesino: dle uma estera em expansdo, por foseslentas ou violentas, de uma energia libertadora o imaginato da AA violéncia que a acompania ¢ aquela que di mundo mais vaso: €2 da producto. Essa violncia¢ dalée- tice, enenpitica,catartien Raquela que aprendemos a analisar e que nos € familar: aquela que traga os enminhos do social e que leva a saturasio de tao 0 campo do social. E uma ioléneiadeterminad, anata, ibertadora Uma outra violencia completamente diferente que nio sabemos analisar aparece hoje, pore escapa 0 tradicional da violencia explosive: violencia implosion que resulta fs nao da extensao det sistema nas da sua stata {o.eda sua retracg, como acontecs com ox sistemas fsices éstelares. Viogneia consecutive a tuma censificagto desme dia do Socal, a0 estado de um sistema de hipertegulaio, ie uma rede (de saber, de informacto, de poder) sobrecaire- Bada, e de um controle hipertropico que Ceres todas as vias iitersticiis Jean Bendritiond % Esta violencia é-nos ininteligivel porgue todo 0 nosso Jimaginério esté centrado na Iogica dos sistemas em expan- sto. E indecifravel porque indeterminada. Talvez nem dependa jé do esquema da indeterminacio. F que os mode- los aleatorios que tomaram 0 lugar dos modelos de deter- minagao © de causalidade clissicos mio sio fundamen- talmente diferentes. Traduzem a passagem de sistemas de expansio definidos para sistemas de produgio e de expan- ‘slo em todas as direcgies — em estrela, ou em rizoma, tanto faz — todas as filosofias de desconexao das energias, de inradiagio das intensidades e da moleculizacio do desejo vvio no mesmo sentido, no sentido de uma saturacto até 20 interstciale a0 infinilo das redes. A diferenca do molar para fo molecular 6 apenas uma modulagio, talver a siltima, no processo energético fundamental dos sistemas em expansio. Seria diferente se passssemos de uma fase milenaria de Iibertacao e de desconexao das energias para uma fase de implosio, apés uma espécie de radiaglo maxima (rever 08 conceitos de perda e de dispendio de Bataille neste sentido © 0 milo solar de uma radiaglo inesgotavel sobre a qual baseia a sua antropologia sumptuaria: € 0 whimo mito cexplosivo e radiante da nossa filosofia,iltimo fogo de arti- ficio de uma economia geral no fundo, mas isto ji nfo tem sentido para nds), para uma fase de reversto do social — reversio gigantesca de um campo, uma vez atingidao ponte de saturagio. Os sistemas estelares também nfo deixam de existir, uma vez dissipada a sua energia de radiagao: implodiria segundo um processo, num primeiro momento lento e depois acelerando progressivamente — contraem-se com uma aura fabulosa e tornam-se sistemas involutivos, ‘que absorvem todas as energias que os rodelam até se tor- narem buracos negros onde © mundo, no sentido em que entencemos, como radiagio e potencial indefinido de ener- gia, se anula. 6 Simulacros ¢ Simulagio ‘Talver as grandes metropoles — com certeza elas, se & ue esta hipotese tem algum sentido — se tenham tornado locais de eleigfo ce implossio neste sentido, de absorcio ede reabsorgio do proprio social cuja idade de ouro, contempo- ranea do duplo conceito de capital e de revolugio, esta sem sivida ultrapassada. O social involui lentamente, ou brutal mente, num campo de inércia que jf envolve a politica. (A ‘energia oposta?) Deve evitar-se tomar a implosao por um pro- ‘cesso negalivo, inerte,regressivo, como a Kinga no-lo impo 0 exaltar os termos opostos de evolusao, de revolucio. A implosio ¢ um processo especifica de consequencias ical culiveis. O Maio de 68 foi sem duivida o primeiro epissdio. implosivo, isto ¢ contrariamente & sua reescrita em termos de prosopopeia revolucionéria, uma primeira reaegio violenta Asaturagio do social, uma retraccBo, um desafio & hegemornia do social, de resto em contradigao com a ideologia kos prs prios participantes, que pensavam ir mais longe no dominio do social — assim 6 0 imagindrio que continua a dominar- snes —e, de resto, uma boa parte dos acontecimentas de 68 podem ter dependido ainda desta dinamica revolucionaria © de uma violéncia explosiva, uma outa coisa comegost ‘mesmo tempo: a involugio lenta do social, sobre um ponto determinado ¢ a implosio consecutiva e sibita do poder, sem um breve lapso de tempo, mas que desde ent&o nunca "mais cessou — é mesmo isso que continua em profundidade, ‘1 implosio, a do social, a das instituigoes, a do poder — ¢ de modo nenhum uma qualquer dinamica revalucionéria impossfvel de encontrar. Pelo contzétio, a propria rewoligio, a ideia de revolucao, implode ela também e esta implosto tem consequncias mais sérias que a propria revoluciu. Claro que desde 68 0 social, como o deserto, aumenta participasao, gestdo, autogest2o generalizada, etc, —mas ac ‘mesmo tempo aproxima-se em mltiplos pontos, em maior niimero que em 68, do seu desafectamento e da sta reversio total. Sismo lento, perceptivel razao histérica. Hipermercado e hipermercadoria Numa area de trinta quilémetros em redor, as setas vBo- -nos espicagando em direcgio a estes grandes centros de triagem que sto os hipermereados, em direcgio a este hiperespaco da mercadoria onde se elabora, sob m aspectos, ima nova socialidade, Ha que ver como centraliza f redistribui toda uma regido e uma populagio, como con- centra e racionaliza horsrios, percursos, praticas — criando ‘um imenso movimento de vaivém perfeitamente semethante a0 dos commuters dos arredores, absorvides ¢ repelidos horas fixas pelo seu local de trabalho. Profundamente, trata-se aqui de um outro tipo de traba- Iho, de um trabalho de aculturacgo, de confronto, de exame, de codigo e de veredicto social: as pessoas vem encontrar ai e scleccionar objectos — respostas a todas as perguntas que podem fazer-se; ou antes, vem elas proprias em resposta & pergunta funcional edirigida que os objectos constituem. Os Dbjectos j4 ndo sao mercadorias; jé nem sequer s4o exacta- ‘mente signos cus sentido e mensagem deeifrassemos e dos uais nos apoderéssemos; sao testes, sto eles que nos inter- rogam e nés somos intimados a responder Ihes e a respasta festa inclaida na pergunta, Todas as mensagens dos media funcionam de maneira semelhante: nem informagso nem 98 Simadacrs ¢ Simulago comunicasao, mas referendo, este pepetuo,respost circular, verfcagio do cédigo [Nao existe relevo, perspectva linha ce fuga onde thar corraorisea de perder-se, mas um ecr total onde oscartares publicitériose os propris produtos, na sua exposicio inin terrupta,jogam como signos equivalentes ¢ sucesves, Ha empregados apenas ocupadosemefazera parte da frente da ‘ena, a exposigio da mercadoriaa superficie ondeo levanta mento por parte dos consumicores pode criaralgum bua (Oseifserage contribu ainda mais para est austin ce pro fundidade: um mesmo espago homogéneo, sem mediaeao, reline os homense as coisas, oespago damanipulacio directa Mas qual deles manip 0 outro? [Ale mesmo a repressto se integra como signo neste uni verso de simulacio. A repressdo tornada disnuasio apenas mais um signo no universo da persuasio, Os crcaitos de televisto ant-roubo fazem tambm eles proprics parte do cenirio de simlacros. Uma vigilncia porfeita sob todos os pontos de vista exigra tm dispositive de controle mais pesado e mas sfistcado que a propria lja, Nao sea ren. fave E,portanto, uma alusso 8 repressto, vim fazer sinal= que ls ests instalado; este sinal pode entio coexistit com {odos 08 outeose até com o mperativo oposto, por exemplo expresso nos enormes cartazes que nos convidamm a desea. tral-nos ea escolher com toca a serenklade.Fstosearazes, de facto, espeetam-nos e vig nos tio bem ou tao poucs dqanto a televisdo =policial>. Esta olba-nos, nos olhanvo-nes nea, misturaios com os outros; 0 espelho sem o respective ago da aetividace constmidora, jogo de desdobramento © redobramento que fecha este mundo sabre si proprio. O hipermerendo & inseparivel das autorestradas que 0 recamam de estrelis e 0 alimentam, des pargues de esta jonamento com 25 sia camadas de aitomavels, do te minal de computador — mais longe ainda, em circlos concéntricos — de toda a cidace como ect funcional total Jean Boniland % das actividades. O hipermercado parece-se com uma grande fibrica de montagem, de tal maneira que, em vez de esta- rem ligados & cadeia de trabalho por uma limitacao racio- nal continua, os agentes (ou os pacientes), méveis e descen- trados, do a impressto de passarem de um ponto a outro da cadeia segundo circuitos aleatérios, contrariamente 3s ppriticas de trabalho. Mas trata-se mesmo assim, de facto, de luma cadeia, de uma disciplina programatica, cujas interdi- {bes se apagaram por detrés de um verniz de tolerancia, de {acilidade e de hiper-realidade. © hipermercado ¢ jé, para além da fabrica e das instituigoes tradicionais do capital, 0 modelo de toda forma furura de socializagao controlada: retolalizagao num espago-tempo homogéneo de todas as fnedes dispersas do corpo e da vida social (trabalho, tempos. livres, alimentagio, higiene, transportes, media, cultura); retranscricio de todos os fluxos contraditérios em termos de circuits intogrados; espaco-tempo de toda uma simulagao ‘operacional da vida social, de toda uma estrutura de habitat ede tratego. Modelo de antecipagio dirigida, 0 hipermercado (sobre- tudo nos Estados Unidos) preexiste aglomeragio; éele que provoca a aglomeracio enquanto que o mercado tradicional, estava no coragio de uma cidade, local onde a cidade e © campo vinham conviver em conjunto. O hipermercado € a expresso de todo um modo de vida do qual desapareceram, ‘do apenas 0 campo mas também a cidade, para dar lugar a caglomeragao» — zoning™ urbana funcional inteiramente sinalizada, da qual 6 0 equivalente, © micromadelo no plano do consumo. Mas o seu papel ultrapassa de longe 0 «con- sumo» ¢ 08 abjectos jt nao tem af realidade espeeifica: 0 que € preponderante é a sua disposicio social, circular, especta- cular, futuro modelo das relagdes sociais. * Repartigo em zonas. Ei inglés no original (N. da T) 100 Sinners e Simaagao {forma ehipermercado» pode assim ajadara compreon- dro que se passa com o fim da modernidade. As grandes cidades viram nascer, no espaco de aproximadamente um Séeulo (1850-1950, uma geracio de grandes armazéns«tno- demos» (muitos Snham, de una maneira ox Ge outr, este nome), mas esta mosierizagio fundamental, ligada & dos transports, no abalow a estratura urbana, AS ckiades con: tinuaram a ser cidades, enguanto as cklades novas estio satelizadns pelo hipermereado ot pelo shopping center”, servidos por uma rede programada de trinsito, demande de ser cidades pare se tomnarem aglomeracies. Aparcces ‘uma nova morfogénese, que depende do tipo cibernetico (sto € reproduzindo 20 nivel do tert, do habitat, do frinsito, os cenarios de comando molecular que s80 08 do codigo genético), ecu forma € nuclear esateitica.O hiper- mercado como miles Aeidade, mesmo moderna, jk nio-0 absorve.E ele que estabelece uma orbita sobre 2 qual se move a aglomeragio, Serve de implant aos novos agregados, ‘como fazem também por vezes a wniversidade ou ainda a fabrica — ji ndo a fabriea do seculo XIX nom a fabrica des- contraizada que, sem quebrar a 6rbita da cidade, ge instla nos aredores, mas afabriea de montagem,automatizada, de comando electnico, st, corresponctendo uma foci © a um processo dle trabalho totalmente destertoralizados Com esta fabrica, como com o hipermercado ot nova tn versade, jf nao nos conirontamos com fungoes (comér- tio, trabalho, saber, tempos livres) que se autonomizam © se'deslocam (0 que caracteriza ainda 0 desdobramento “rnodernor da cidade), mas com um modelo de desintegragio das fungi, de indeterminagto das fungBes ede desintogracho da propria cidade, que wansplantado para fora da cidade © tratado como modelo hiper-ea, coma mileo de wma aglo- ~ Ei inglés no eriginal X. daT) Jean Berilard mo meragio de sintese que jé nada tem a ver com uma cidade, Satélites negativos da cidade que traduzem o im da cidade, até da cidade moderna, como espago determinado, qualita- tivo, como sintese original de uma sociedade. Poder-se-ia julgar que esta implantacio corresponde a ‘uma racionalizacio das diversas fungoes. Mas de facto, a partir do momentoem que uma funcio se hiperespecializou 8 ponto de poder ser projectada com todas as partes no terreno «chaves na mao», perde a sua finalidade prpria © torna-se numa ovstra coisa completamente diferente: micleo pPolifuncional, conjuntos de «caixas negras» de input-output iniiltiplo, local de eleigio da conveccioe da desestruturagso, Estas filbricas ¢ estas universidades jf nfo sto fabricas nem universidades, e os hipermercados ja nao tem nada de mer- cados. Estranhos objectos novos dos quais a central nuclear 6 sem duivida © modelo absolute ¢ de onde inradiam uma espécie de neutralizacio do terrtiro, um poder de dissuasio que, por detris da fung3o aparente destes objectos, consti- tuem sem diivida a sua fungao profunda: a hiper-realidade dos niicleos funcionais que ja nfo 0 so de todo. Estes noves objectos sao os pélos da simulagio em torno dos quais se labora, contrariamente 2s antigas estagdes, fabricas ou redes de transporte tradicionais, outra coisa diferente de uma emoderniciade»: uma hiper-realidade, uma simultaneidade de todas as fungies, sem passaco, sem futuro, uma opera: cionalidade em todas as dizeccoes. E, sem diivida também, crises ou novas catastrofes: 0 Maio de68 comega em Nanterre ‘endo na Sorbonne, isto é, num local onde, pela primeira vez em Franca, a hiperiuncionalizagio «fora de portas» de um lugar de saber equivale a uma desterritorializagio, a desa- feigio, A petda de funcio e de finalidade deste saber num conjunto neofuncional programado. Af nasceu uma nova violencia, original, em resposta & satelizado orbital de um ‘modelo (a saber, a cultura) cujo referencial esta perdido, Implosao do sentido nos media Estamos nuum universo em que existe cada vez mais infor- -magio e cada vez menos sentido. rds hipsteses: = owa informacto produz sentido (factor neguentrépico), ‘mas ndo consegue compensar a perda brutal de signifi- ccado en todas o dominios. Bem se podem reinjectar, orga ce media, mensagens, contetidos; a perda, a dis- sipacio do sentido é mais répida que a sua reinjeccéo. Neste caso 6 preciso fazer apelo a uma produtividade dle base, para substituir os media defeituosos. E toda a idoologia da liberdade de palavra, dos media desmult plicados em imimeras céhilas individuais de emissao.e até dos anti-media (radios piratas, etc) ~ Qua informagao nao tem aada.a ver com o significado, E outra coisa, um modelo operacional de outro tipo, exterior ao sentido e a circulagae do sentido propria: mente dito, Ea hipétese de Shannon: de uma esfera de informagao puramente instrumental, mediinm técnico {que nao implica qualquer finalidade de sentido e, por- tanto, que nao pode ser sequer implicada num jutzo de valor. Espécie de c6digo, como © pode ser 0 codigo 108 Simauacros ¢ Simulagao genético: & 0 que 6, funciona assim, O sentido é outra ‘visa que de certo modo vem depois, como com Monod fem Le Hnsnid et la Nécessité*. Neste caso nao haveria, pura e simplesmente, relacio significativa entre a Inflacao da informagao e a deflagio do sentido, (Ou entao, pelo contritio, existe correlacao rigorasa & nnecesséria entre os dois, na medida em qua informagao. € directamente destruidora ou neutralizadora do se: tido e do significado. A perda do sentido esta directa mente ligada a accao dissolvente, dissuasiva, da infor- magio, dos matia e dos mass media Esta € a hip6tese mais interessante mas vai contra as acepedes recebidas. Em toda a parte a socializacio mede-se pela exposigdo as mensagens medisticas. Esté dessocializado, ‘ou é virtualmente associal, aquele que esta subexposto 108, ‘media. Em toda a parte & suposto que a informagio produ ‘uma circulagao acelerada do sentido, uma mais-Valia de sen. tido homélogo a mais-valia economica que provém da rotacio acelerada do capital. A informagto é dada como criadora de comunicagio, e apesar do desperdicio ser enorme, um con: senso geral pretence que existe, contudo, no total, um excesso de sentido, que se redistribui em todos os intersticios do social — assim como um consenso pretende que a producio ‘material, apesar dos seus disfuncionamentos ¢ das sas irracionalidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza ede finaliciade social. Somos todos etimplices deste mito, E © alfa ¢ 0 mega da nossa modernidade, sem o qual a ‘redibilidade da nossa organizacao social se afundaria, Orao facto é que ela se afurnda,e por este mesmo motivo. Pois onde Pensaios que a informagéo produz sentido, € 0 oposte que +0 Aca ea Necessade, Jean Baustrllerd 5 A informasio devora os seus proprios conleidos. Devora a comunicacao © o social. E isto por dois motivos, Tr Em ver de fazer comunicar,esgoltse a encenagie da comuicugo, Em vez de produzir sentido, exgotarse na fencenagio do sentido, Gigentesco proceso de simalagio {Que ¢ bem nosso conhceido, A entrevista nao directiva, 2 Silavea x telefones de audiores, a partcipaciodiverifiada, PGhantagem 4 palavra sto diz-vos rexpeito, voces sio 0 Scantecimento, ee A informagto &cada vez mais invadida por esta specie de conteado fantasma, de transplantacio Femeopitica de sonho acordato da comuinicagio, Disposicso Sireularondese encenao deseo da sala, antiteatro da coma nicagio que, comosesabe, munca € mais que a reilagem em eptive'ds instiuigho tradicional, o crcuto integredo do negative, Imensas energias ado gastas para manter este imulaco, para evitar a dssimulagio brit que nos Con frontaria com a evidente realidad de wma perda radical do sentido F inatit interrogarmo-nos se € a perda da comunicagto que indus esta sobrevalorizagao no simulacro ou se & 0 Simulacro que esti primeiro, com fins dissuasivos, 0s de Surfo-citcular antesipadamente toda a possbiidade de comunieagie(precessio do mxielo gue poe fm a0 reaD, E ini interrogarmo-nos sobre qual & 0 primo termo, n80 ha, um proceso circular —-oa sivalagio, do hiper-reak Hiperrealidade da comnnicacio edo sentido. Mais real que O rea, assim que se anulao ral “Assim, tanto a comunicagio como o social funcionam em circuit fechado, como um lagro — ao qual se liga a fora de tum mito. creng, a ena informasio agarrse a esta Prova tautologica que o sistema da de st proprio a0 redbrar nos Signos rma realidade impossivel de encontrar. ‘Mas porte pensarse que esta crenga¢ 120 ambigua como aque se ligava aos mitos nas sociedacesarcaicas, Crs as hab seer Nao nos fazemos a pergunt. Ease, mas mesmo 106 Simulacras e Simulagio asso» Uma capi de slmsaghoopostasesponde nas massa, em cada tm de nos a esta simulacaode sentido ede comunicagao em que o sistema nos encerra. A tautologia do tema rexponde-s pelaambivelinda,Adissuasho respond ‘repel detaecamenie ou por ua regs compe coign’ itsPOnlinenst mar ha qc acre qu pesons acne Ee tad doesent le exercer se partindo de um pressuposto de ingenuidade ¢ de estupidez das massas. esseueste Be teetaliee i or dats cata eneragho eacerbda da comunis- cdoscsmns meio inoagi en frig prossoge ta desestruturacio do real. sich ssn, inermagio dsslve sentido discveo scl numoeepi enact nso deos um our je rovagho maw sult pelo conti entropin oa ‘Assim, os mei sto produtores nio da socalizagio mas dose contri, ds inplosto do ocal ar mats te Tambsn a eae fundamental pretend que ents &ndnim de nope opin, erat rrp, mento de antigo e de crganiacie ‘studi ports 4 grove goral ma ota fo presente wma aa amplificagi foi uma armadilha mortal ¢ no uma extensdo positiva. me {que desconfiar da universalizagio das luias por meio da informagio. Ha esac Ocean aaa Jon Badriard wr io 6 mais que a extensio macrose6pica da implosio io Fido ao nivel microscopico do signo. Isto deve ser analisacl a partir da formula de MacLuhan medite is message", eu} Consequencias estamos longe de ter esgotado. ‘© neu sentido & de que todos os contetidos de sentido sao absorvidos na tiniea forma dominante do medium. $6 0 neliver constitu acontecimento — e isto quaisquer que sejam ts contetidos, conformados ou subversivos. Trata-se de win SEno problema para toda a contra-informagio, radios pira- tas anti-media, et. Mas ha coisas mais graves e que o proprio MacLuhan nao pos de lado, E que para além desta neutra- Tizagao de todos 0s contetidos poder-se-ia esperar ainda modelar o medium na sua forma, e para transformar 0 teal Giligando 0 impacte do meviiim como forma. Uma vez J nuilalos todas os conteddos, talver ainda haja um valor de {uso revolucionario, subversivo do emtedium» enguani tal,Ora eer ee ai que conduz. ao seu limite extremo a formula de MacLuhan — nao hé apenas implosio da mensagem no medium, h& no proprio movimento implosio do proprio inedinm no veal, implosto do «iedivom e do reel, numa espe Tle de nebulosa hiper-real onde até a definicio ¢ a accto {stinta do meine jh nao sao assinalaveis. ‘O acto de por em causa 0 estatuto tradicional mio se fica pelos proprios meta, caraceristicas da modernidade. A Fombala de MacLushan Medium is message, que € a formula- Mehave da era da simulagio (0 medium & a mensagem — 0 Ghissor ¢ 0 receptor — eitcalaridade de todos os polos — fim do espaco panéptico © perspective — esse & 0 alfa € « ‘Gmega da nossa moderniciade) esta mesma formula deve ser Coneiderada no limite em que, depots de todos os contericlos caeimensagens se terem volatilizado no mediten, sero propsie ‘nediumm que se volatiliza enquanto tal, No fundo € ainda @ ingles no original. N da T) 108 ‘Simnlacros e Simulagdo -mensagem que dé a0 medium as suas cartas de apresentacio, ela queda ao medium oseu estatuto diferente, determinado, de intermediatio da communieagao. Sem mensagem, também ‘© medium cai na indiferenga caracteristica de todos 08 nossos {grandes sistemas de juizo e de valor. Um inico modelo, caja cficicia é imediata, gera simultaneamente a mensagem, © medium © 0 creat» Numa palavra, Meditem is message nao significa apenas 0 fim da mensagem mas também o fim do medium. J ndo hi media no sentido literal do termo (refire-me sobretudo aos ‘media electrénicos de massas) — isto ¢, instincia mediadora, de uma realidade para uma outra, de um estado do real para, ‘outro. Nem nos contetidos nem na forma. E esse o significado, rigoroso da implosio. Absorcio dos polos um no oxtro, curto-circuito entre 03 pélos de todo sistema diferencial de sentido, esmagamento dos termos e das opasigies distintas, entre as quais a do medium e do real — impossibilidade, portanto, de toda a mediacio, de toda a intervencao dialéctica tentre os dois ou de um para o outro, Circalaridade de todo: (5 efeitos media. Impossibilidade de um sentido, no sentido literal de um vector unilateral que conduz. de um plo a ‘outro. Hd que considerar até ao fim esta situacao critica mas original: & a Gnica gue nos resta. E inuitil sonhar com uma, revolugio pela forma, ji que medium e real sio a partir de agora uma tinica nebulosa indecifrével na sua verdade, Esta constatacio de implosio dos contetidos, de absorco dosentido, deevanescéncia do proprio mediumt, dereabsoreso de toda a dialéctica da comunicagio numa circularidade total do modelo, de implosio do social nas massas, pode parecer catasirsfica e desesperada. Mas $6 0 6, de facto, 20s olhos do idealismo que domina toda a nossa visio da informagto. Vivemos todos de um idealismo furioso do sentido eda comunicagao, de um idealismo da comunicagao pelo sentido e, nesta perspectiva, & a catéstrafe do sentida que os espreita, Joaw Boudritrd 109 Mash que ver que otermo de catistofe no tem este sentido seatustreor de fim e de anguilamen sendo na Wako Tinear se neurulagt, de fnalidade produtiva que 9 tema nos impae.O prprietermo nao significa etimolog Shunte seo curvaturn,oenrolamento para baizo de um Silo que cond ao que se pode chamar tm shorizonte de SConidimento», a uot horizonte do sentigoinurapessvel pan além cise ino acontece ma nada ue er sentido orn mas bast sar deste lima do sentido pra que propria caste aparece apenas come prazo ultino € Tilistr,tl como funciona no nosso imaginaro actual ora a sent, ho fin gu ui de eu uralzngio eda impiosto do sentido, Para am do horizon a soa hi as asso qu realm dn utealzagtoe da implosto do socal 1D comencal hoje em dia €avaiar este duplo desfio desaio ao sentido peas massase elo se silencio que nio e Geimodo algum tino ressteaca pasiva) — desaio 20 Sendo vindo don mat do seu fascinio. Tendo em conta taTstuagho todas a tencativas marginal alternativa, Para ressusctny sentido so Secunda. ; Tidonemente que ia umn paradoxo nesta inexticivel conjungia dan massas e dos mei 0 os metia que nek thls o sontdoe que produzem a mans informen (Ou {Mocnads), ou € 8 mas que revste vitorfosmmente 205 ra dar ou aborer, sy I espera Teamonsaguna qu cote produvent? Outros, em =Reguiem pou Tes Mediateu inks analiado (econdenado) os mii Eomo.einttutedo de um modelo rreversivel de comunica- (So sem reyoste Mas hoje? Esta auséncia de respocta pode Se entendida, jf no de todo come a estates do poder, ‘Saecomo ume contra estratigin, das propeas massas contra Opoder E agora? : ets ai esto a0 lado do poder na manipulagio das muassas esto a0 lado das massas na liquidacto do no Sinadacrs ¢ Simulagio sentido, na violencia exercida contra o sentido 0 fascinio? ‘Sao os media que induzem as massas a0 fascinio, ou Si0 as massas que desviam os media para o espectacular? Moga- discioStammbeim: os media assumem-se como veiculo da eondenagio moral do terrorismo e da exploracio do medo. com fins politicos, mas simultaneamente, na mais completa ambiguidade, difundem o fascinio bruto do acto terrorist, sto eles proprios terroristas, na medida em que caminham, para o fascinio (eterno dilema moral, ver Umberto Eco: como, ‘lo falardo terrorismo, como encontrar wun bom uso des nea — ele nto existe). Os media carregam consigo o sentido e 0 contra-sentido, manipulam em todos os senticlos ao mestn0 tempo, nada pode controlar este processo, veiculam a simu- Jago intema ao sistema ea simulagio destruidora do sistema, segundo uma logiea absolutamente mochiana e circular ‘esta bem assim. Nao ha alternativa, nao ha resolugao logiea. "Apenas tima exacerbagdo logica © uma resolugio catastrotica ‘Com um correctivo. Estamos em face deste sistema numa situagio dupla e insolivel «double bind» * — exaetamente ‘como as criancas perante as exigéncias do universo adulto, ‘Sio simaltaneamente intimidados a constituirse como sujei= tos autdnomos, responsiveis, livres e conscientes, ea consti tuir-se como objectos submissos, inertes, obedientes, confor mes. A crianga resiste em todos os planos, ea uma exigéncia contraditoria responde também com uma estratégia dupla A exighncia de ser objecto opde todas as priticas da desobe- digncia, da revolta, da emancipagto, em suma, toda uma reivindicacio de sujeito. A exigencia de ser sujeito opoe, de ‘maneira igualmente obstinada ¢ eficaz, uma resistencia de objecto, isto 6, exactamente o oposte: infantilism, hipercon- formismo, dependéncia total, passividade, idiotia. Nenhuma das suas estratégias tem mais valor objective que a outra. A “impasse Em inglés oo origina. (N- d4"T) Jean Bauder ™m rest st hojeem dn uniaeralmente valrizadae eet ee Seno modo que nu enra polis da Po Pe healed emancpac, de expr, ee acomo auto pele, 2 questo das por 2 nS Sime osigifin que score impact re a superna teaes ss pratens gut ae orcs Sota ae sjlo de sentido — i ade one = ue entra sa 0 cacti aienagio de fasivatade. As Prat Ma Se Specter rc tar vatetng saci, Paton uno git eso ome 2o tial onere Cae ado rexpencn» outa sa ex Fence ode new consulrmos om suits, de nos iberar- Fl Ae ce 1 ae occa dere, de pre Sram de ne oe ae lee de ptipr de ae © oso — Se ee eae gee come a cut nia aS Se oh tie sa A areca eeegien de Te Seber eae, Mos blo weft sobreruso 0 eee cena sea nos confontames com fee aero cieno esis angomento actual cin. 8 cosas da glace de progugio maxima Sata de enc comet, poe, de erin de See eee ealavrn bude emlasto Ripe ganda dere a necnione do sistema que forma de reco ce ao asta. Eo que fazetn as ass reel Pa ite no atdocem oabsorer Ela ser ering se poe nin de esa) evan se eee porque wns fase coltema que vou Shoe Thurs de esa ave Totes oe movimento eee ie Sres terest emancpasto a0" sree de akaujelto da historia, do grupo, da palavra sobre re i ignca ot bre una somada de m Simaulacros e Sémlagto inconseiécian dos sujetos ¢ das massas nao véem que eles ‘#0 no mesmo sentido que o sistema, cujo imperative ¢ hoje «em dia precisamente de sobreprodugio e de regeneragao do sentidoeda para eeneans Publicidade absoluta publicidade zero ‘Oaque estamos.a viver é a absorcao de todos os modos de expressio virtuais no da publicidade. Todasas formas cultu- ais originais, odasas linguagens determinadasabsorvem-se neste porque nio tem profundicade,¢ instantaneoe instanta- rheamente esqpieeida, Triunfo da forma superficial, minima denominadlor comum de todos os significados, graut zero do. sentido, triunfo da entropia sobre todos os tropos possiveis. Forma mais baixa da energia clo signo. Esta forma inarticulada, instantanea, sem passado, sem futuro, sem metamorfose possi vel, precisamente por sera ultima, tem poder sobre todas as, ‘oulias. Todas as formas actuais de actividad tendem para a Publicidade, e na sua maior parte esgotam-se ai. Nao forco- samente na publicidade nominal, a que se produz como tal ‘mas a forma publicitaria, a de wim modo operacional sim- plificado, vagamente sedutor, vagamente consensual (todas, as modalidades estiv ai confundidas, mas de um modo ate- nuado). Mais geralmente a forma publicitaria € aquela em que todos os conteiides singulares se anulam no proprio ‘momento em que podem transerever-se uns nos outros, enquanto que o que caracteriza os enunciados «pesados», formas articuladas de sentido (ou de estilo) € nao poderem traduzir-se uns nos outros, al como as regras de um jogo. ms Simulscros ¢ Simulagao sta longa marcha para uma tradutbilidade , logo, uma combinatia total que ea tranparencia superficie todas te coisas do ua pub absetula fe A a, mas ua Ver, ® publicidade profissional € apenas uma forma epis6dica) pode decifrar-e nas peripécias da propaganda Pablicidadee propaganda adquirem toda asa dimensio a partir da Revolugio de Outubro eda crise mundial de 29 ‘Aimbas sio lingwagens de massa, saidas da. proach de ‘massa de ideas ou de mercadoris, © os seus resitos, 90 Principio separados, tendem a aproximar-se progressiva- Irente. A propaganda faz-se marketing merchondizing® de {ceins-forga, de homens politicos e de partidos com a sua ‘imagem de marcar_A propaganda aproxima-se da public dade como do modelo veicula da nia grande e veradeira {dein forga desta sociedade concorreneiaa mercadoria © & ‘marca, Esta convergencia deine a sociedad, a nossa, onde jiintio hd diferenga entre o ccondmico e o politico, porgue nels zeina a mesma linguagem dle uma penta a outea, de tia sociedade onde a economia politic, em sentico ite, ‘td enfim plenamente realirada, isto 6, disolvida como instincia especfica (come modo hstérico de contradigio Soca), resolv, absorvida mama lingua sem contradicoes, como 6 soko, porque percorrida por intensidades simples mente supericas Passourse um estidio quando a propria linguagem do socal, depois da politica, se confandin com esta solicita- Go fascinente de ma linguagem enfraquecica, quando © Socal se faz publicidade, fzendo-se pibiscitar ¢ tentando impor asta Imagem de marca. De destino histéico, 0 pré- prio social cai mas fleas de wma sempresa colectivar {fue asseguraa sua publicidade em todas as direoges. Ve “Sea mait-valia de social que cada publiciade tenta prodt- Bm ngs no eiginal (N. da) Joa Bovdriard ns zit: werben, werben* — soliitagio do social presente em toda, ‘a parte nas paredes, nas vozes quentes e exangues das locuto- ras, nos graves e aguedos da banda sonora e nas tonalidades, iltiplas da banda, imagem que corre em toda a parte sob (0s noss0s olhos. Solicitude presente em toda a parte, socia- lidade absoluta finalmente realizada na publicidade absoluta, —isto€ totalmente dissolvida também ela, socialidade vesti- gio alucinado em todas as paredes sob a forma simplificada, dde uma procura de social imediatamente satiseita pelo eco publicitario, O social como cendrio de que somos © pablico enlouquecico, ‘Assim, a forma publicitavia impos-se e desenvolveu-se A ceusta de todas as outras linguagens, como retGrica cada vez ‘mais neutra, equivalente, sem afectos, como «nebulosa assin- tetica», diria Yes Stourdzé, que nos envolve de todas as partes (e que elimina ao mesmo tempo o problema tio con- {roverso da «crengam e da eficacia: ndo propde significados a investi, oferece uma equivaléncia simplificada de todos os signos oustrora distintos, e dissuade-os por esta mesma equi- valencia), Isto define os limites do seu poder actual e as con- digées do seu desaparecimento, pois a publicidade ja nio € hoje uma questo, 630 mesmo tempo «entrada nos costumes» © saida desta dramaturgia social e moral que representava ainda ha vinte anos atx ‘Nao ¢ que as pessoas jé nao acreditem nela ou a tenham_ aceitado como rotina, E que, se ela fascinava por este poder de simplificagao de todas as linguagens, este poder lhe hoje subtraide por um outro tipo de linguagem ainda mais simphficado e, logo, mais operacional: as linguagens infor- imaticas. O mocielo de sequencia, de banda sonore e de banda- Jmagem que a publicidade nos oferece, a par com 0s outros + Seguido da preposgio fur significa wazer a propaganda dew. im slemso no angival (N-d3 7) 116 ‘Sinulocros ¢ Simulagto andes media, modelo de porequacio combinatéria de toctos Os diseursos que ela propde, este continuum ainda retricode sons, de signos, de sinais, de slogans gue ela domina como ambiente total, estélargamente ultrapassado, justamente na sua fungao de stimalo, pela banca maynética, pelocontinin electrénico que esta perfilar-se no horizonve deste fim de século, © microprocesso, a dligitalidade, as linguagens ciber néticas vo muito mais Ionge no mesmo senticlo da simp ficagao absoluta dos processos do que a publicdade fazia ao seu humilde nivel, ainda imagindrioe espectacular Eé porque estes sistemas v30 mais longe, que polarizam hoje fascinio outrora concedido a publicidade. €a informagao, no sentido informatico do terma, qe pors fim, que js poe fim, 20 e500 da publicdade. E isto que assusta e ¢ isto que apaixona. A spaixion publictéria deslocou-se para os computaciores & para a miniaturizacao informatica da vide quotiana ‘A ilustragio antecipadora desta transiormacao era 0 papoula de K. Ph. Dick, este implante publcitirio transis torizado, espécie de ventosa emissora, de parasita elects nico que se fa ao corpo ede queeste tom musta dificuldade em libertar-se. Mas 0 papoula é ainda uma forma interme- didria: éjé uma espécie de protese incorporada, mas recita ainda mensagens publicitérias. Um hibrido, pois, mas prefi- [guragio das redes psicatropicase informaticas de pilotagem automética dos individuos, ao lado do qual o econdiciona- mento» publictério parece uma deliiosa peripécia (© aspecto actualmente mais interessante da publicidade 60 seu desaparecimento,a sua diluigio come forma espect- fica, ou como mediurs, muito simplesmente. Ja nde é (alguma vez 0 foi?) um meio de comunicacio ou de informacao, Ou lentio foi tomada por essa louctra especifica dos sistemas sobreciesenvolvidos de se plebiscitar a cada instante, e logo de se parodiar a si préprio. Se num dado momento a merca- doria era a sua propria publicidade (nao havia outra), hoje a Jean Baudrillard 17 publicidad tornow-se a sua propria mercadoria, Confunde- ‘se consigo propria (¢ 0 erotismo com que ridiculamente se veste nao 6 mais que o indicador auto-erético de um sis {quenio faz senio designar-se asi proprio —donde o absurd de ver nele uma «alienaga0» do corpo da mulher) Enquanto mediven transformado na sua propria mensagem (© que faz com que haja @ partir de agora uma procura de ublicidade por si propria e que, por isso, a questao de se ‘acreditarm ox nao mela js nem sequer se ponha),a publicidade fesié totalmente em unissono com 0 social, cuja exigéncia Iist6rica se encontra absorvida pela pura e simples procura do social: procura de funcionamento do social como de uma empresa, como cle um conjunto de servicos, como de um modo de vida ou de sobrevivencia (€ preciso salvar 0 social como é preciso preservar a natureza: osocial €6 nosso nicho) —enquanto ostrora era ima espécie de revelugio no seu proprio projecto. Isto esta perdido bem: 0 social perdeu yustamente este poder de ilusao, caiu no registo da oferta e dda procura, como o trabalho passou de forga antagonista do capital ao simples estatuto do emprego, isto é, de um bem (eventualmente raro) e de uum servigo como os outros. Vai, pois, poder fazer-se publicidade para o trabalho, a alegria de encontrar um trabalho, come vai poder fazer-se publicidade para o social. Ea verdadeira publicidade esta hoje no design do social, na exaltagio do social sob todas as suas formas, no apelo insistente, obstinado a um social cuja necessidade se faz rudemente sentir. ‘As dangas folelérieas no metro, as intimeras campanhas: para a seguranca,o slogon «aman trabalho» acompanhado pelo sorriso antes reservade aos tempos livres e a sequéncia ppublicitiria para a eleigto para os Prud-Hommes": «No deixo ‘que ninguém excolha por mim»— slogan ubuesco e que soava, * Constho elective que juga a pendéncins profsionals.(N. da T) us Sinnulacro eSinlagta tao espectacularmentefalso de tumaliberdade irrisiria, a de fazer acto de socal na su préprinrecusa. Nio € por icaso que 4 publicidade, depois Ge ter veiculado durante muito tempo um ultimato implicito de tipo econdmico, dizendo e repetindo no fundo incansavelmente: «Compro, consumo, fgoc0e, repete hoje sob todas as formas: «Voto, participa, stow presente, into diz-me respeitor —~ espelho de time ‘ombaria paradoxal,espelno da indiferenga de todo 0 sign= fiendo pin. Panico inverso:sabe-se que o social pode dissolverse na reaccto de pinico, reacgao em cadeia incontrolavel. Mas Pode dissolverse também na reaagto inversa, regio em {Ende de insti, cada mucro-universo saturado, auto-ege- lad, intormatizad, isolaco-na sua pilotagem automatica. A publicidade é a sun prefiguragto: primero esbogo de wma {tama ininterrapta de signos, como a banda de fle-escitu- rlrios —cada stm iolad na sua inércia, Forma ancncindorn Ge um universo saturado, Desafeicoado, mas saturado. Insensbilizado mas pronto a desabar,E num universo como teste que adquire forse agilo a que Vielio chama a estética Go dasaparecimente, Que comacem a aparecer objectos frncais, formas fractals, zonas de fracturh consecuivas saturagio,e portanto a um processo de rejeigio maciga, de reaccio de exteriorizagao em gue se Hberta de um reales mento afectivo, ou de estupor de uma sociedade puramente transparente para i propria, Como ossignos na publicdade, desmuliplicamo-nos, azemornes transparentes ou inszne- ros, fazemo-nos didfanos ou rizoma pata escapar 30 port de inércia ~~ pome-nos em érbita, sintonizamo-nos, atl amo-nos,arquivamo-nos — as pists entecruzamse: hd a fhanda sonora banda-imagem, como na vida ha a banda- -trabaho, a banda-tempos livres, a banda-transport, et, 0 todo envolvido pela barda-publicdade. Por toda a parte Ii trés om quatro pistes coda qual est no cruzamento Saturagio superficial e fascinio. Jean Badri ns £ que ainda fica ofascnio. Basta ver Las Vegas, a cidade ppublictéria absolut (a dos anos cinquenta, a dos anos lows 4a publicidade, e que guardow esse encanto, hoje em dia de alguima maneira retro, pois a publicidade ests secretamente Condenada pela logica programatica que criard cidades bem diferentes) Quando.se ve Las Vegas surgir toda ela do deserto pela radiasio publictéria ao car da noite, e repressar a0 sero quando 0 dia nasce, vése que a publicidade nio é 0 {que alegfa ou decora as paredes, ela 60 que apaga as paredes, Saga at runs a8 fachadas e toda a arquitectura, apaga todo ‘Osuporte tada a profundidade, eque é esta liquidacto, esta Teabuorcao de tudo & superficie (pouco importam 08 signos {que af circulam) que nos mergulha nesta eufora estupetacta, fiperreal, que nao trocariamos por renhuma outta coise, ce que € a forma varia e sem apelo da seduso. A lngwagem deia-seentioarrastor plo sec dupa junta ‘0 melior ao pon por na fantasia de raciomalidade cua formula E eTods devem aceditar isso» Tal 6a mensager do que nes fomcentr, ok. Bourne, Le Destuceur testes [A publicidad, pois, tal como a informagio: destruidora dleintensicades, acelerador de inérca. Vejase como todos os rtiion do sentido e do nao sentido af esto repetidos com, lass, como toros os procedimentos todos os dispostives da linguagem da comunicagao (a Fangio de contacto: esto a ouvisime? Esto a ver-me? Vai fala! —afungho relerencal propria fungi postin, aso, a ronin, 0 jogo de palavras, @ Inconscionte) como tudo isso encenado exactamente como © texo na, pomogzaia, ito é, sem acrecitar nisso, com a fmesma cartenda obscenidade por isto que € doravante inutl analisar @ publicigade como linguagem, pois & uma fouta cotsa completamente diferente que tem lugar: ima 0 Simoulacres ¢ Sinulagso dobragem da lingua (e das imagens também), 8 qual nto. responce nem linguistica nem semiologia, ji que traballam sobre a operacéo verdadeira do sentido, sem pressentir de modo algum esta exorbitacio caricatural de todas as Funcdes da linguagem, esta abertura sobre um imenso campo de irrisao dos signos, «consumidos» por assim dizer na sta irrisio, pura a sua irrisfo e o especticulo colectivo do set jogo sem problema — como a pornografia ¢ fiegao hipertto- fiada de sexo consumido na sua irrisio, para a sua irristo, espectdculo colectivo da inanidade do sexo na sta assuin barroca (foi 0 barroce que inventou esta irrisio triunfal do. eestuque, fixando 0 desmaio do religioso no orgasmo das estétuas). ‘Onde esté a idade de onro do projecto publicitirio? A exaltagio de um objecto por uma imagem, a exaltagio da compra e do consumo pela despesa publicitéria sumptu.itia? Fosse qual fosse a subserviéneia da publicidad a gestio co capital (este aspecto da questio, odo impacte social e econs: rico da publicidade, esta sempre por resolver e € no funcdo insolive), ela foi sempre mais que uma funcio subjugada, foi um espelho estendido ao universo da economia politica ¢ da mercadoria, foi por um momento 0 seu imaginario glorioso, o de um mundo desfeito, mas em expansio. Mas 0 Universo da mercadoria ja nao é este: é um mundo saturado. em involugao. De repente, perdeu o seu imaginsrio triuntal ¢, do estidio do espelho, passou de alguma maneira 20 trabalho de hut. J4 nao hé cena da mercadoria: nao hé mais que a sua forma obscena e vazia. Ea publicidade é a ilustracio desta forma saturada e vazia, E por isso que ela ja nao tem tersitorio. As suas formas iddentificdveis ja nao 20 significativas, O Forum des Halles, por exemplo, € um gigantesco conjunto publicitsrio — uma ‘operacio de publicitude. Nao & a publicidade de ninguém, de nenhuma firma, também nao tem o estatuto de um ver- ea Baudrillard mt dadeiro centro comercial ou conjunto arquitectonico, assim ‘como Beaubourg também nao é, no fundo, um centro cults ral: estes estranhas objectos, estes supergadgets demonstram simplesmente que a nossa monumentalidade social se tornott publicitéria. E¢ algo como o Forum que melhor ilustra o que 5 tomoti a publicidade, o que se tornot 0 dominio pubieo, ‘Amercadoria enterra-se, como as informagBes nos arqu vos, como 05 arquivos nos funkers, como os foguetSes nos silos atémicos, Fim da mercadoria feliz e exposta, a partir de agora ela foge do sol, e de repente & como o homem que perdewa sua sombra. Assim, o Forum des Halles parece-se bastante a um {funeral home* —luxo fanebre de uma mercadoria enterrada, transparente a tim sol negro. Sarcétago da mercadoria, Tudo ai é sepuleral, marmores brancos, negros, salmao. Bunker-escrinio, desse negro rieo e snob e mate, espaco rine ral unuerground™, Auséncia total de uidos, jA nem sequer hi um gaifget liquid como o manto de agua de Parly 2, que ‘20 menos enganava a vista — aqui jf nem hd sequer um subierftigio divertido, s6 0 luto pretensioso e encenado. (A ‘inica ideia divertida do conjunto é justamenteo humano e @ sua sombra que caminham em trompe-loeil*** sobre um pavimento vertical de betio: gigantesca tela de um belo tom cinzento aoa livre, servindo de moldura ao trompeT oe, este parede estd viva sem o ter querido, em contraste com 0 jazigo de familia da alta costura ¢ do pronto a vestir que 0 Forum constitui, Esta sombra ¢ bela porque ¢ uma alusio contrastada ao mundo inferior que perdew a sua sombra.) Tudo que poderia desejar-se, uma vez aberto ao piiblico este espago sagrado, e por receio de que a poluigso, como, +m ings no original. (N. da 7) 1 Em ingles no original. (N- d37) ‘Pinta queda ipresdo da realidad; neste send, aparéncia enganosa.(N 8a T) 1 Simalacos Sinulagio ras grutas de Lascaux, 0 deteriore irremediavelmente (pen. ssemosna massa que brota do RER), € que fosse imediatamente interdito 8 circulacéo e que fosse coberto por uma mortalha definitiva para manter intacto este testermunho de uma civi- Lzacio arrivista, apés ter passado do estédio do apogeu para ‘© estadio do hipogeu, da mercadoria. Ha aqui um fresco que descreve longo caminho percorride desde @ homem de ‘Tautavel, pasando por Marx e Einstein para chegar a Doro thée Bis. Por que nao salvar este fresco da decomposicao? Mais tarde os espeleslogos redescobri-Lo-4o,a0 mesmo tempo {que uma cultura que tinha decidido enterrar-se para escapar proprias extremidades sensoriais, sem tocar no rmundo que 0 rodeia), corpo j& homogéneo, neste estidio de plasticiciade tactil, de maleabilidade mental, de psicotropismo em todas as divecgdes, jé proximo da manipulagio nuclear e genética, ‘sto 6, da perda absoluta da imagem, corpos sem representa- ‘glo possivel, nem para as outzos nem para si proprios, corpos ‘enucleados do seu ser e do seu sentido por transfiguragio numa formula genética ou por enfeudamento bioguimico: ponto de nao retomo, apotease de uma tecnologia que se tornou ela propria intersticial e molecular. NOTA HA que ter em conte que a proliferate cancerost & tenis wn Aesobeditnciaslenciosa as impesiges do cigo genético. O cance, s 132 Simadacros ¢ Simulagao std ma ligiea de wma visto molecular informatics dos ses vos, & tum a sua excrescincin monstraceae a sua negacto, porque condi 4 desinfonmagdo totale & desegregagto. Patologia sevaluctoniia» de ‘esprendimento organic, diris Rickerd Pina, in: Fictions (Notes synoptiques a propos dur mal mystérews). Delirio enripicn dos organisms, resistonte a neguantropi dos sists informacion. (Ea mesma conjure que a'das masses em face das formagdes sia tstruturadas as massa so els tambénmctstsescecerosas ares ‘de toda eorgariciade soci) ‘A ambiguidade é a mesma pare # clonagem: & a9 mesmo tempo 0 triunf de uma ipotese dvetor, a do citigo «da informacto gens, uma distrgo excEntrca que ke deste a eaerbncia.E, ais, proved! (nas ist few para va histvia futura) que mesmo 0 «geen lirica» runcaserdadéntico a sex genito,muea Sera ees, por Was no sj porgue havent entra antes. Nien send tal como em si proprio w digo _geico terd muda. Mihares de interferénetas fro dele, apestr de Tudo, om ser difrente, que ted extctamente os lias ates do pi, 06 ruio d novo, Ea experinetago lirica ter tdo plo menos 9 antag de demonstrar « imposiblidade radical de dorninar wm process plo Simples domo da tnformagto e do cAdigo, Hologramas Ea fantasia de captar a realidade ao vivo que continua — desde Narciso debrucado sobre a sua fonte. Surpreender © real a fim de o imobilizar, suspender o real no mesmo "momento queo seu duplo. Debrugamo-nos sobreo holograma como Deus sobre a sua criatura: s6 Deus tem esse poder de [passar atraves das paredes, através dos seres, ede se reencon- ‘rar imaterialmente para além dees. Sonhamos passar através de nos préprios e reencontrarmo-nos para além de nés rOprios: no dia em que o nosso duplo holografico estiver lé no espaco, eventualmente mexendo-se e falando, teremos realizado este milagre, Claro que ja nao ser um sonho, jogo 0 seu encanto terse-é perdido. ‘O estiidio de televisao transforms-nos em personagens holograticas: tem-se a impressdo de ser matetializado no espaco pela luz dos projectores, como personagens transhi- fidas que a massa atravessa (a massa dos milhes de teles- ppectadores) exactamente como a vossa mio real atravessa 0 hholograma irreal sem resisténcia —-mas nao sem consequén- cia: passar-se para o holograma tornow-a, também a el, ireal ‘Aaalucinagto € totale verdadeiramente fascinantequande ‘o holograma & projectado para a frente da placa, de tal mod que nada vos separa dele (senao o efeito continua a ser foto

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