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Utilizagao da Escala de Coma de Glasgow e Escala de Coma de Jouvet para avaliagao do nivel de consciéncia Elaine Cristina S. Muniz* Marcia Cristina Aparecida Thomaz* Marcia Yassumi Kubota* Luciana Cianci* Regina Marcia Cardoso de Sousa** MUNIZ, E.C.S. ot al. Utilizagao da escala de coma de Glasgow ¢ escala de coma de Jouvet para . avaliagao do nivel de consciéncia. Rev.Esc.Enf-USP, v.31, n.2, p.287-303, ago. 1997. A Escala de Coma de Glasgow (ECGI) e a Escala de Coma de Jouvet (EC), sdo duas escalas usadas na avaliagdo da consciéncia em nosso meio. A andlise e o uso dessas duas escalas tém indicado que elas se complementam, sendo a ECGI mais sensivel & mudangas nos rebaixamentos mais intensos da consciéncia e a ECJ nos estados mais préximos do normal. O presente estudo teve como objetivo comparar os resultados obtidos na avaliagado do nivel de consciéncia no uso dessas duas escalas. A comparacao foi realizada num estudo prospectivo com 48 pacientes maiores de 18 anos internados em trés unidades gerais de terapia intensiva de diferentes hospitais privados do Municipio de Sdéo Paulo. As avaliagées foram realizadas pelos pesquisadores diariamente, sendo as duas escalas aplicadas seqiiencialmente uma 4 outra no tempo de aproximadamente 5 minutos. Cada uma das escalas foi aplicada em 106 avaliacées realizadas e os resultados mostraram uma diferenca estatisticamente significativa entre a ECGI e a ECJ na indicagéo de alteragdo de nivel de consciéncia. Em 37,74% das avaliagées realizadas com a ECJ houve indicagdo de alteragdo do nivel de consciéncia, enquanto que na ECGI a alteragéo era apontada em apenas 23,58% das avaliagées. Outra observagdo importante no uso de ambas escalas, foi que em individuos com escores na ECGI entre 9 e 11, a indicagdo de alteragao de nivel de consciéncia foi mais acentuada pela ECGl e naquelas com escores na ECGI entre 12 e 15 a ECJ indicou mais acentuada alterasdo de nivel de consciéncia. No uso da ECGI houve aplicagéo do ndo testével (NT) em 20% das avaliagées realizadas, n@o ocorrendo inviabilidade de aplicagdo de indicadores na EC#J. Entretanto, acredita-se que condigées especificas do grupo estudado favoreceram esse resultado, assim como, caractertsticas especificas de grupos de pacientes podem favorecer o uso de diferentes escalas para avaliagdo de nivel de consciéncia, A escolha final entre escalas desse tipo deve considerar as caracteristicas peculiares e condigées da clientela a ser avaliada e no preferéncias individuais ou de departamentos de servicos de satide. UNITERMOS: Avaliagao do nivel de consciéncia. Escala de Coma de Glasgow. Escala de Coma de Jouvet. * Alunas do X Curso de Especializagao em Enfermagem om Cuidados Intensivos da EEUSP ** Professor doutor do Departamento de Enfermagem Médico-Cirargica da EEUSP Rev.Esc.Enf. USP, v.31, n.2, p.287-308,ago. 1997 287 Considerando 0 conceito que o nivel de consciéncia “é 0 grau de alerta comportamental que o individuo apresenta”’, nota-se uma grande possibilidade de variacéio desse parametro em pacientes. Em conseqiiéncia, no cotidiano da equipe de satde se faz necessério a utilizagaéo de escalas que permitam a padronizacao da linguagem utilizada para facilitar a comunicacao oral e escrita dessas informacées, bem como, estabelecer um sélido sistema que seja capaz de acompanhar a evolugdo do nivel de consciéncia do paciente. Varias escalas tém sido propostas'**° sendo que todas elas baseiam-se em analisar o paciente e dar um escore que propicie uma idéia global da condicao do nivel de consciéncia, momento a momento. Apesar da importancia dessas escalas, deve-se levar em consideraco que instruments para avaliar algo tao complexo quanto a consciéneia apresentam limitagdes as quais devem ser evidenciadas, para propiciar seu mais adequado uso na pratica clinica. Essas limitag6es variam desde a discordancia no escore de um mesmo paciente quando feito por diferentes profissionais, até o fato que escalas analisam varios pardmetros dando um escore total formado pela soma dos mesmos. Assim um mesmo escore total pode refletir situagées clinicas distintas. Outro fator a ser considerado 6 que os itens de uma escala e sua valoragéio nao podem refletir de forma fidedigna, em todas as situagées, as fungées alteradas relativas consciéncia. HA portanto, indicagao diferenciada para 0 uso de escalas a qual deve ser cuidadosamente analisada. Em nosso meio vimos com freqiténcia a utilizagdo da Escala de Coma de Glasgow (ECG); essa escala foi publicada pela primeira vez pelos autores TEASDALE; JENNETT® , sendo elaborada para propor consistente avaliacao clinica do nivel de consciéncia dos pacientes com dano cerebral. Um escore menor que 8 é comumente aceito como ponto critico das alteracées do nivel de consciéncia e como a pontuacéio que define um individuo em estado de coma® A aplicagdo dessa escala 6 répida, de facil compreensao e permite concordancia entre avaliadores. Por isso, ela tem sido usada freqiientemente, principalmente nos quadros agudos e de trauma. Nessa escala a maior dificuldade est4 no indicador melhor resposta motora, para diferenciagao entre os itens: padrao flexor, retirada inespecffica e localiza estimulos. Outra escala também elaborada para a avaliagao do nivel de consciéncia 6 a Escala de Coma de Jouvet (ECs), utilizada com menor freqiiéncia que a Escala de Coma de Glasgow na pratica diéria, porém com a vantagem de permitir certa correlac&o anatémica com os parametros avaliados. Esta escala foi utilizada para estudos dos estados de consciéncia que se seguem ao estado de coma (estado vegetativo persistente), porém existem experiéncias de sua utilizacéo nos estados agudos’ Nessa escala so avaliados dois parametros: perceptividade (funcéio cortical) e reatividade (fungdo da formagao reticular ativadora ascendente - FRAA). Tem- se atribufdo seu pouco uso a sua mais dificil aplicabilidade. Apés conhecer-se e analisar-se essas duas escalas para avaliagao do nivel de consciéncia pode-se compreender as observagées de RABELLO? : ...”6 nossa 288 Rev.Ese.Enf. USP, v.31, n.2, p.287-303, ago. 1997 impressao que elas se complementam. Assim, nos rebaixamentos mais intensos ‘a ECG] permite medir flutuacées mais acuradamente. J4 em estados préximos do normal tem a ECJ maior possibilidade de analisar flutuagées pois analisa melhor a funcao cortical’. Essas observagées expressam a motivagao do presente estudo delineado a partir do seguinte objetivo: comparar os resultados obtidos na avaliacao do nivel de consciéncia na ECG] e ECd. 1 METODOLOGIA Procedimento para Coleta de Dados O presente estudo foi realizado em trés Unidades de Terapia Intensiva do tipo geral, de diferentes hospitais privados do municipio de Sao Paulo. As unidades tinham 10, 20 e 19 leitos, perfazendo um total de 49 leitos. Foram incluidos nesse estudo todos os pacientes maiores de 18 anos internados nessas unidades, no perfodo de 02.10.95 a 20.10.95, excluindo-se para avaliacao aqueles que se encontram sedados ou sob efeito anestésico. Os dados foram coletados pelas pesquisadoras utilizando instrumento proprio (ANEXO J). Apés ser verificado através dos prontudrios dos pacientes, se estes atendiam os critérios de inclusdo no estudo, foi realizado avaliagéo individual do nivel de consciéncia. Essa avaliagao foi feita diariamente, aplicando a ECGl e a ECJ seqiiencialmente uma a outra. A aplicacdo das duas escalas levou cerca de 5 minutos. O instrumento apresenta-se na forma de ficha, e contém duas partes: a) Parte 1- identificagao do paciente, composta por dados de caracterizagao da populagao em estudo. b) Parte 2- quadro para registrar os resultados das avaliagées de consciéneia realizadas de acordo com os critérios da ECG] e da ECJ. Critérios de Aplicagado das Escalas Escala de Coma de Glasgow (Anexo II) Os indicadores utilizados nessa escala sao: - abertura ocular, melhor resposta verbal e melhor resposta motora. Cada um desses indicadores foram avaliados independentemente e 0 paciente recebeu uma pontuagao considerando a melhor resposta apresentada e os critérios para aplicagao dessa escala, descritos a seguir. Rev.Esc.Enf.USP, v.31, n.2, p.287-308,ago. 1997 289