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“Thao origi: Der Uraprrg des Kursverks (© Viti Klosermann- Frankfurt Am Main = 1977 “Tradugto de Maia & Concigio Costs Revisto de Aru Merio (Cae ce Bates 70 Depésto Legal n 2066706 IBN: o2-44.05269 “Todos os ets reservados pars ing pes por Bites 70 EDIQOES 70, Li Rua Laciano Coder, 123 2° sq? ~ 1069-157 Lisboa Peru 213190240 Fax: 213150209 ‘de procedients ud Martin Heideg ger A ORIGEM DA OBRA DE ARTE edic6es 70 ADVERTENCIA DA TRADUTORA Fruto de trés conferéncias realizadas em 1936 e publicadas em 1950 a abrir Holzwege, o ensaio de que agora se propde uma tradugdo portuguesa, é uma obra da fase final de Heidegger. Perguntando ainda e sempre pela d4diva misteriosa do sere da verdade, Heidegger visita-a através da meditac4o da natureza da obra de arte. A experiéncia protunda da obra de arte revela e esconde a verdade daquilo que é, de tal modo que a podemos ver. A verdade € artfstica e a arte poética, na sua esséncia fundadora. Através da obra, abre-se um mundo que indicia, que desprende o othar cativo para 0 outro lado das coisas. A arte € um enigma. Longe de Heidegger querer resol- vé-lo. O convite vem antes chamar-nos a dificil arte de olhar, para além do que se vé, af onde algo de invisfvel se guarda. Mas sigamos a adverténcia do pr6prio Heidegger — nao demorar na interpreta¢do e representagZo do que aqui se diz: antes partir da silenciosa regio do que s6i pensar-se. Maria da Conceigao Costa Origem significa aqui aquilo a partir do qual e através do qual uma coisa € 0 que é, e como é. Ao que uma coisa é como 6 chamamos a sua esséncia. A origem de algo é a proveniéncia da sua esséncia. A pergunta pela origem da obra de arte indaga a sua Proveni€ncia essencial. Segundo a compreensao normal, a obra Surge a partir e através da actividade do artista. Mas por meioe a partir de qué € que o artista é o que 6? Através da obra; pois é pela obra que se conhece 0 artista, ou seja: a obra é que primeiro faz aparecer 0 artista como um mestre da arte. O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum € sem o outro. E, todavia, nenhum dos dois se sustenta isoladamente. Artista e obra sao, em si mesmos, e na sua relago recfproca, gracgas a um terceiro, que € o primeiro, a saber, gragas Aquilo a que o artista e a obra de arte vo buscar o seu nome, gracas a arte. Tao necessariamente quanto o artista é a origem da obra de arte, de uma outra maneira que aquela em que a obra é a origem do artista, assim tdo certo é que a arte é, ainda de um outro modo, a origem ao mesmo tempo do artista e da obra. Mas pode alguma vez a arte ser a origem? Onde e como é que hd arte? A arte nfo é mais do que uma palavra a que nada de real j4 corresponde. Pode valer como uma ideia colectiva na qual reunimos aquelas coisas que da arte somente so reais: as obras e os artistas. Mesmo se a palavra arte designasse mais do que uma ideia colectiva, 0 que é evocado através desta palavra s6 poderia ser tendo como base a tealidade das obras e dos artistas. Ou no ser4 o contrario? Porventura hd obras e artistas apenas na medida em que hd arte, e mais precisamente enquanto sua origem? 11 4 “a ‘Qualquer que sea a resposta a pergunta pela origem da obra ‘dearte converte se em perguntapelaesséncia da arte. Mas porque tem de se deixar em aberto a questo de saber se e como aarte em feral existe, tentaremos encontrar a esséncia da ante onde, sem sombra de divide, a arte efecivamente reina. A arte encontre-se na obra de arte. Mas 0 que € como € uma obra de ate? ‘O que a arte sea, tem de apreender-se a pani da obra. O que sejt obra, 960 podemos experiencia a pant da essénciada anc ‘Qualquer im nota com fecilidade que nos movemos em circu. (© senso comum exige que se evit este citculo, porque constitu ‘uma violaggo da Idgice, Pensa-se que se pode colher 0 que seja 8 ane através de uma observagio comparaiva das obras de arte ceistenes ¢ a parti destas. Mas como poderemos estar certos de ‘que slo, de facto, obras de arte que poms como fundamento para Uma tal contemplap0, se nfl sabemos antecipadamente o que é ‘arte? Mas a esséncia da art, tal como nto pode alcangar-se através da coleccionagto de predicados das obras de arte existen- tes, também no opode ser através de rma Gedugaoa partirde con- celts superiores, pois também esta deducdo tem previamente em ovo agusles determinagbes que tém de ser suficientes para nos apresentar como alo que de antemfo tomamos como obra deat. ‘O coleccionar obras de entre o que existe, bem como a dedugdo a partir de prineipios, mostram-se, neste c3s0, igualmente impos- veise aquele que os pratica engana-se asi proprio. Porianto, temos de percorrero cfrculo. O que nfo é nem um expediente aie a dficuldade, nem uma imperfeigdo. Segui este caminho 6 que ¢ a forg, e permanecer nele constitu s festa do ‘admitindo que 0 pensamento é um offcio (Han ‘Werk). No 36.0 passo principal da obra para a arte é, enquanto ‘passoda ane para aobra, um cieulo, mas cadauum dos passos que {entamos se move neste cirulo. Para encontrar a esséncia da arte, que reina realmente na ‘obra, procuramos a obra real € perguntamos & obra 0, que é fe como é “Toda gente conhece obras de arte. Encontram-se obras arqui- {cet6nieas pictsricas nas pragas pdblicas, nas igrejas enas casas. [Nas coleogges e exposigtes, acham-se acomodadas obras de arte dasmais diversas épocas e povos, Seconsideramosnasobrasasua pura realidade, sem nos deixarmos influenciar por nenhum pre onceito,toma-s evidente que as obras estio presentes de modo R {Ho natural como as demais coisas. © quadro esté pendurado na pparede, comouma arma de caga, ou umn chapeu. Um quadro como, orexemplo, ode van Gogh, que representa um par de sepatos de ‘camponés, vagueia de exposigao em exposigto. Enviam-se Obras ‘como 0 earvao do Rubr, os troncos de érvores da Floresta Negra Em campanha, 0s hinos de Holdestin estavam embrulhados na ‘mochila do soldado, tal como as coisas da limpeza. Os quantetos de Beethoven esto nos armazéns das casas editors, tl como as Datatas na cave Todas as obrastém este cardcter de coisa (das Dinghaft). Oque seriam sem ele? Mas talvez fiquemos surpreendidos com esta Perspectiva assaz grossera e exterior da obra. Em perspectives estas arespeito daobra dete podem mover seo viglacamulher ‘dias do museu. HA gue considerar as obras tal como se deparamn Aqueles que delastém a vivéncia e as apreciam. Mas também @ iuito falada experiénca estética nfo pode contomar 0 cardcter ‘oisal da obra de arte. Ha pedra no monumento, Hi madeira ‘naescultura talhada, Ha corno quadro. Hé som na obra falada ‘sonoridade na obra musical. O carfcter de coisa esto incontor- navelmente na obra de arte, que devfamos até dizer antes 0 ccontrério: © monumento esté na pedra. A escultura esté na ‘madeira. © quadro est na cor. A obra da palavraesté no som da vor. A obra musical estno som. Evidentemente, dir-so-8.Ecento, Mas o que ¢ este dbvio caréter de coisa na obra de are? Presumivelmenteseréociosoe desconcertante prosseguirnesta ‘ergunta, uma vez gue a obra de arte € ainda algo de outro, para além do seu carécter de coisa? Este outro, que Id esté, & que ‘constitu anistico. A obra de ane €, com efeto, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa ¢, ato éyopetew. A obra dé publicamente a onhecer outra coisa, revela-nos outra coisa; ela & alegoria, Acoisafebricada redne-se ainda, na obra de arte, algo de outro, Reunir-se diz-se em grego cuipéihew. A obra é sfmbolo. Alegoriae simbolo fornecem o enquadramento em cuja pers- ppectiva se move desde hé muito a caracterizagdo da obra de ate. ‘So essa unidade na obra, que evela um outro, essa unidade, que ‘se rene com algo de out, & que é o elemento oisal na obra de arte, Quase parece que & 0 caricter de coisa na obra de arte que ‘constitu como que 0 suporte no quale sobre o qual 0 outro © 0 B auttntico esto edificados. Ent € este caricter de coisa da obra fo que o artista era na sua manufactur ‘Gostarfamos de enconraraimediataeplene realidade da obra * ae ane, uma vez que $6 assim encontramos nela também a a verdadeira are. Temos, pois, primeiro de examinar 0 cardcter coisal da obra. Para tanto, é preciso que saibamos de um modo ‘Sificientementeclaroo que € uma coisa. 6 eto se pode dizer se ‘acbradeante €uma coisa qual aderesinda algode outro, s6ento 6 possvel decidir se aobraé,no fund, algode outro e nunca uma coisa. A coisa ea obra © que é na verdade coisa, na medida em que é uma coisa? ‘Quando assim perguniames, queremos conhecer 0 se-coist ‘@ingscin) a coisdade da coisa (de Dingheit). Import cxperien- iar cardter cosa (das Dinghalt) da cols, Para tart, temos de ‘contecerombito aque perenicem os entes aque, desde hamuto, hamamos com 6 nome coisa. ‘Apedrao camino € uma cist como o outro no campo. (© cfntazo 6 uma coisa, tl como a fonts eaminho. Eo que 2 passa com olete no cntaro com agua da foe? Tambeém elas Ho coiss se, com raz, se cha coisas 8 muvem no ea © 20 ‘ardono campo, &folha no vento de outono e a0 agor no bosque. ‘Tudo isto se deve, de facto, chamar coisa, se com este nome se dlesigna o que nlo se mosira asi mesmo como o acima cits, Saber, agullo que nfo aparece. Uma tal coisa, que nfo aparece, a Saber, uma wcoisaem si, segundo Kart, porexemplo, oto do ‘mundo, umatal coisa €até mesmo o proprio Deus. Todo oenteque de todo em todo designa-se, na linguagem da flosofie, uma “Avloese aparclnos de rdo pertencem hoje, cero, coisas mais proximas, mas quando falamos 6s coisas derradeirs, ent Pensimos en sgo de otalment diferente. As coisas derradeires ‘to: martee ulzo. Notodo,apelavracoisa designao gue quer que sje que, em absolui,€ nio-nada. Nest sentido, a obra de arte {ambern € uma cose, na medida em que é em geal algo que & “Todavia, este conceio de coisa nsonos sjuda, polo menes por ors, 10 nosso propésito de dlimitr o ente que é no modo de ser da “4 tmosem chamareosa zo campenés ros campos,S opto dias Ga caldera, so professor nacaola‘© homer no € ua cles E certo que chamamos a uma jover, que realiza uma tarefa que a spas uma cosa demasiado novemass6 pore este ane Fassamosso lado do aspetohamano,c pretends esc, taro qe consi oceicter coisa cise Hestamos Incl vamette co chana ent 0 caro movie ta clas 3 Hore, eel aa 0 pode eve Ue colaseris arts omansioeosapto,emachroe ofp. Mas fas tanbem ndo so impesnets cosas Pas ese ver Aadeie coisas 80a psa 0 outro o pada Ge matt. As Cok nnimadas Natera eG i AS cs da Nauces © do so sf, pease, aguto gt chaos habtslments Assim nos vemos trazidos de volta do fbito mais vasto, em {que tudo € uma coisa (coiss=res=ens=um ente), incluindo as Coisasmaisclevadas derradiras, parao Ambitocstrito das meras coisas. «Mero» quer dizer agui prime: a pura coisa, que € simpiesmente coisa e nada mais. «Mero» quer dizer. depois, 80 _mesmno tempo: jf 86 coise, em sentido quase pejorativo. As meras coisas, excluindo até mesmo as coisas de uso, figuram como as ‘oises’propriamente ditas. Em que consist, entfo, 0 carscter ‘coisa destas coisas? fa partir delas que se deve poder determinar 4 coisidade das coisas. A determinago pOe-nos em estado de ‘econbecer 0 carscter de coisa enquanto tal. Assim equipados, Podiemos caracterizaraquels quase tangivel realidade da obra, na ‘qual esté ainda algo de outro, ‘Vale como facto conhecido que, desde hé muito, logo que se fez a pergunta sobre 0 que 6 0 enie em geral, a8 coisas na sue Coisidade se impuseram sempre de novo cemo oente pudrao. Por Consequéncia, temos de encontrar nas interpretagdes.tradi- ionais do ente j& a delimitagdo da coisidade das coisas. Sé precisamos, portnto, de nos cenificar expressamente deste Sabet ‘tradicional da coisa para estamos dispensaos do trabalho ido {de n6s préprios procurarmos o carkcer coisal das coisas. AS Tespostas & pergunta acerca do que a coisa ¢ s4o de tal forma fel, qv no supe por des naa que meg er as \y Asinterpretages da coisidade da coisa que, predominantes 40 Jongo do pensamento ocidental,hé muito se tomaram evidentes€ Inoje estfo em uso quotiiano, podem reduzir-se ates. ‘Uma simples coisa ¢, por exemplo, este bloco de granito. IE dur, pesado, extenso, macigo, informe, rude, colorido, or ’bago, ofa brthante. Tudo o que acabamos de enumerar podemos enconirarna pedra. Tomamos assim conbecimentodassuas.carac+ terfsticas, Mas as caratersticasindicam que € peculiar & propria pedra. Shoas suas propriedades. Acoisaem-nas.Acoisa?Em que pPensamos quando nos rferimos aqui & coisa? Manifestamente @ ‘coisa ndo ¢ apenas o somatéro das caractrfsticas, tampouco a acumulagGo das propriedades através da qual somente surge 0 todo. A coisa é como todos julgam saber, aquilo em torno do qual esto reunidas as propriedades. Falase, entfo, do nicleo das, coisas. Os gregos teriam chamado tal 18 énoreipevoy.O cle ‘mento nuclear da coisa era para eles, decent, 0 que subjaz ejé existe sempre. As caracteristicas, porém, chamam-se xd cue Befinedta,0 que sempre j aparece também com o que decada vez i € que, Com ist, justamente ocorre. sas designagQes nfo so quaisquer nomes. Nelas fal que ‘aqui jd nto se pode mostrar, a experigocia fundamental grega do ser doente, no sentido da presenca, Airavésdestas determinagbes, todavia, fundou-se a interpretagdo a partir de entdo decisva, da ‘coisidade da coisa ¢estabeleceu-se a interpretacto ocidental do ser do ente. Ela comega com a receps8o das palavras gregas no pensamento romano-latino, tioxetjevov tomou-se subjectu, ‘nseranis vira substantia, owfefinsds torna-se accidens. Esta tradugHo dos nomes greg na lingua latina ndo constitui de modo dlgum o acontecimento sem consequencia por que ainda hoje € tido, Antes se esconde, por detris da tradugSo aparentemente Titeral, € que por isso preserva, uma tra-dugao da experiéncia ‘erega, para. outro modo de pensar. O pensamento romano recebe (05 homes gregas sem a correspondente experiéncia original do ‘que eles dizer, sem apalavra grega. O desenraizamento do pet- Samnento ocidental comera com esta traducSo. ‘A determinaglo dacolsidade da coisa como substincia com 08 seus acidentes parece, segundo a opiniso corrente, coresponder ‘ao nosso olhat natural sobre as coisas. N&o admira que se tenha ‘adaptado a esta perspectiva habitual de coisa também o compor- tamento correnterelalvamente &s coisas, a saber, ochamé-las eo 16 op {alar acerca elas. A proposicdo enunciativa simples compie-se de seit, que €airadugo latina, isso quer dizer jf modificacto 4a compreensio, de bnoxcincvov —e de um predicado, no qual ‘So enunciados os predicados da coisa. Quem ousaria tocar estas relagbes fundamentals simples entre coisa e proposigao, entre cestntura da proposiga0 e estrutura da coisa? Todavia, temos de ‘erguntar: serd que estrutura da proposigao simples (conjugagso {e sujeito e predicado) constitu a imagem especular da esrutura {a coisa (unido da substncia com acidentes)? Ou essa represen tagdo da coisando é antes coneebida apanirda estrtura da frase? ‘O que € que é mais natural do que o homem projectar o modo ‘como concebe a coisa no enunciado sobre aestrutura da propria. coisa? Estaideiaaparentemente critica, masna verdade muitopre~ Cipitads, teria de mostrar primeiro como ¢ possivel esta tans- posigo da estrutura da proposiglo para coisa, sem que aprSpria ‘oisa se tenha previamente tomado visfvel. ALE a0 momento, ainda nfo se decidiu a questi sobre o que ¢ primeira e serve de ‘dro, a estrurura da proposigko ou aestrutura da coisa Pema- ‘neve até mesmo duvidoso se a questio nesta forma poderé em geral resolver-se. "No fundo, nem a esirtura da proposigio serve de padrlo para 6 projectar da estrutura da coise, nem esta se reflecte pura € simplesmente naquela. Ambas, a estrutura da proposiglo e a da ‘coisa radicam, no seu modo de ser, na sus possivel relagio ‘ecfproea, numa fonte comum mais orignal. Em todo 0 cas0, 2 primeira interpretacdo avanrada sobre acoisidade da coisa, acoise ‘como suport das suas caracterstias, por mais Corrente que seja, no 6 tfo natural como pretende. O que nos parece natural é ‘unicamente © habitual do hé muito adquirdo, que fez esquecer 0 {nabitul, donde provém, Este inabitual, todavia, supreenden un dia o homem como algo de estranho,¢ levou © pensamento 40 esparto. ‘A conflanga na interpretaglo corrente de coisa s6 eparente ‘menteé fundada, Além disso, este conceito de coisa (acoisa como ‘suporte das suas caracteristicas) no s6 vale para a mera coisa ‘propriamente dita, mas para todo ene. Por isso,nio pode jamais {istinguir-se por su infermédio entre o ente coisl € 0 ente n30 coisa, Todavia, antes de todas as dividas, anossa estada vigil no ‘campo das coisas diz-nos ja que este conceito de coisa est Tonge {de alingiracoisidade das coisas, o que nelashé de espontineo, que : ” 4 ‘epousa em si, As vezes, temos ainda o sertimento que, desde hé "muito, se fez violencia ao elemento coisal das coisas e que nesta violénciao pensamento estavaem jogo, razdo pelaqual se renega © pensamento, em vez de fazer um esforgo por tomar 0 penss- ‘mento mais pensante. Mas o que éque pode Valer um sentimento, PPormais seguro que seja, numa determinagdo daesstncia da coisa ‘quando s6o pensamento deve terumapalavra adizer? Noentanto, lalvez aguilo a que aqui e em casos andlogos chamamos sen- timento ou estado afectivo, terha mais razoabilidade, quer dizer, ‘8e eperecbe mais, porque € mais aberio ao ser do que toda recto ‘que, entretanto, se tornou ratio, efi falsficada pela interpretaglo rracional. A{prestou estrahos servigas o fscinio pelo i-racional, ‘como 0 aborto do racional nko pensado., E certo que 0 conceito corrente de coisa convém de cada vez acadacoist. E, todavia, no sapreende na suacaptacdo acoisa que ests presente antes pel0con- ‘ritio,aataca, ‘Seré possvel,¢ como, evitar tal ataque? Sé6 0 conseguiremos sedeixarmos’ coisacomo que um campo livre afim de que posse manifestar directamente o seu caréctercoisil. Tudo © que s@ ‘quer entrepor entre nds a coisa como concep e enunciado sobre a coisa deve ser afastado. S6entdo poderemos sbandonar- “os a presenga no mascarada da coisa, Mas este imedito vir a0 {encontro das coisas, no temos de 0 provocar, ou mesmo de Org nizar. Hmuito que ele se produ. No que és vem na vista, no ‘uvido, no tacto, nas sensagdes da cor, do som, da aspereza, da dureza, as coisas ndo vem sobre nds no sentido Titeral do term. ‘A coisa 6 0 alounsév,o que ¢ perceptivel nos sentidos da sensi bilidade, através das senseg6es. Por Conseguinte, tomou-se hab ‘ual, mais tarde, o conceito de coisa, segundo o qual ela nada mais ‘€do que a unidade de uma multiplicidade do dado nos sentidos. (Questa unidade seja concebida como soma, ttalidade, ou forma ‘em nada altera 0 trago fundamental deste conceto, (Ora,estainterpretagdo da cosidade da coisa é sempre tho ceria € confimmével como a precedente. Isso basta jé para nos fazer <2 interpretagao de coisa, tena alcangado uma particular predo- > ‘mindncia& que tem como fio condor a matéin a ferma? Esta pce ait pv eee do -apetrecho. do apetrecho. Este ente, 0 apetrcho, est pari "S eularmente proximo do represenar human, porque vem ser §_sravés da nossa propia producto. O ete que no seu ser & deste 2 modo mais familiar, 0 apetecho, tem simultancamente uma {& posigt intermédia pecatiar entre a cosa e a obra. Seguimos este cen e procuramos, antes de mais, o carder tnstumertal *apetrecho, Talvez a partir dagul nos su algo sobre o carécter coisa da coisa eo carter de-abra da obra. Temos somente de ‘evita fazer preciptadamente da coisa © da obra valedades de apeecho. Abstrafmos, entretanto, da possiblidade de reinarem também aids diferengashisircasessencais no modo como o a apt. gs JP Nas que canis condur ao carter insrumental ro ape 4 (Geschehenlassen der Ankunft_ von ‘Wahrbeit) nunca se usarem em sentido unissono, Com efeito, 10 «cstabelecimento» encontra-se um querer que fecha, e, portato, barra chegada. Pelocontrtio, no «deixar acontecer» (Geschen- ‘A dificaldade resolve-se se pensarmos 0 westabcecer» no sentido gue € wsado em todo @ txt, & saber, sobreudo Tk Geterminagao orientadorade «pér-em-obra». Ao sestatuire (stellen) a0 epOrs Getze) penencem tambem oedispor (ger, tos stress rauzem em lam pela palavra poner ‘Esatuirs (stellen devemos pens no srtdode véo, Por {sso se dir na pig. 61 ep eocupar sso aqui sempre pensatos & Dart do serio prego Je wong. que quer dizer um iar na {esoealtagoe.O sentido greg de spore (eter diz: pr como deinar-surpr Eschenassen), por exempo, uma esti sign fica: ence, epor (Mederegen)umacferenda, statu (iclen) € dpor (egen) tim 0 serio de pro-dri (et-vor-bringen: trazerCoringen) para fora (her), para a desceuago, para a Preseng (vn) Por (sctze) cesar (en) nce sigaficam suioconcitomodero do conirapor se (600 slo) roves dor Ocstar-de-pe (as Steen dena (8 presengadoolhar o Mad Ha, ge no seu brio) € diferente do estar-e-pé no sentido do objeto. «Estar e- pe (Sichen) (tp. [30))é econsidncia do brine. Peto contri, tse, antese, no seio da dalévea de Kant ¢ do ‘dealsmo alemo, qurem dizer un eat stelen)noitetior da esfera da subjecividade da conscignca. Deste 1060, Hegel interpretou — com justezaaparirdoseu ponto de vsta— a viene sTegino sentido da posigioimediata do obecto.Este pb (Sczen) por isso, para ele sinda nso verdadeio, porque sinds odo ‘ediatizado pela antese(€f.agora «Hegel und die Griechen, Festschrift fir H. . Gadarner, 1960) “Tadavia, se no ensaio sobre a obra de ante mantemos sob mira © sentido grego de veo, éixarestar no seu brlho © presen, enilo 0 «Fest» do verbo Festsellen (Finat) munca pode er © sentido de fxo, vel ¢ seguro, “ (Geschehen) no einer acontecer da verdade 6 0 movimento que rina naclarcra «ena oculagdo, mais preisemerte ainda, na sua uniade, aber, © movimento da iuminagzo do ocultarse como tal, do qual provém oda luz, Este movimento» exige mesmo uma fxa¢30 ‘osentio de produgto,onde edugdo» se deve entendero sentido {ndicadona pig. 62 gt, na medida em que a produ criaora€ ‘antes um recebere um dedurir(e-tira) no interior da refer 3 desocultagao (Cnverborgeneit). 7 gat De avordo com 0 que até agora se esclareceu, determina-se 0 sentido da palavra usada na pag. 64 Ge-sel: a reunizo da pro- {duso, do deixar-vir ao relevo de uma presenga no tragado como contomo (népat).E pelo Ge-stell assim pensado que se aclara o sentido de noe@H como forma (Gestal). E de facto, a palavra Ge-stell,wsada mais tarde expressamente como a palevra para ‘esséncia da técnica modema, é pensada a partido Ge-stel que se determing no ensaio sobre A Origem da Obra de Arte (e nao a ppatir do sentido corrente de Gestll: aparclho e aparelhager), [Esta coesto ¢ estencial, porque tem a ver com 0 destino do set. O Ge-stell como esstncia da tdenica modema deriva do \deixarestar dlante (Vortiegentassen), experienciado pelos gre- 205, da notnonge uéens gregos. No por deste Ge-stell, quer dizer, ‘agora: na provocagdo para tudo colocarem seguranga (Sicherstl- ung), fala antes de mais ainterpretacdoda ratio reddenda,i-€.,d0 ‘.Gyov S6ven,detal maneira que agora esta interpelacto toma sobre ela, no Gesstell, a dominacdo do incondicionada, e que & ‘epresentagfo se reine, a partir da percepgdo grega, mum esta- belecer seguro e firme. 20L/ Devemes, por um lado, a0 ouvir as palavras fixagdo (Fest- stellen) ¢ Ge-stellem.A Origem da Obrade Arte, afastar osentilo ‘modemo de estauir ¢ apareihar e, por outro lado, ¢ simultanea- ‘mente, ndo devemos deixar passar por allo como € 0 que oser que ‘determina os Tempos Modemos, 0 ser como Ge-stell, prover do ‘destino ocidental do sere nfo foi excogitado pelos fldsofos, mas antes dispensado a0s que pensam. (Cf. Vorirdge und Aufudize pp. 28 ¢ 49) dificil explicar as determinagdes dadas brevemente na _pég. [61] sobre o institu (Einrichten) e a «instinigao da ver- ‘dai no ente»(Sicheinrichten der Wabbit in Seienden), De novo e o presente ensaio peigina 61 «eNole-se, no entanto, que..») GY Cue aqui se impte como digno de questo resine-se entdo no ‘genutolgar da explicao, onde se ce aessénci ds inguagem a Poesia, tudo isto, uma vez mas, tendo apenas em visa & Pertengarectproca do sor eda palevra. Continua inevitavelmenie ex peraxo que oleitr, que natu ralmenteaborda o ensaio a pride fora, represent inerprete ‘Primero e demoradamente © que af esté em quest20, mas 80 4 par da sleniosa resto fontal do qu importa pensar. Para Dibprio mr subsist, todavia, a necesidae de, nas diferentes tapes do camino, falar judarbere na ngusgem que conve 23