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Mensageira do Senhor - O ministério profético de Ellen G. White

Mensageira do Senhor - O ministério profético de Ellen G. White

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Mensageira do Senhor - O ministério profético de Ellen G. White
Herbert E. Douglass
Mensageira do Senhor - O ministério profético de Ellen G. White
Herbert E. Douglass

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Mensageira do Senhor

O Ministério Profético de Ellen G. White
“Cedo, em minha juventude, foi-me perguntado várias vezes: Você é uma profetisa? Tenho respondido sempre: Sou a mensageira do Senhor. ... Meu Salvador declarou-me ser eu Sua mensageira.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 32.

Herbert E. Douglass

Tradução José Barbosa da Silva

Casa Publicadora Brasileira
Tatuí, São Paulo

Sumário
Prefácio Agradecimentos Apresentação ix xi xiii

CAPÍTULO

I

SEÇÃO

O Sistema Divino de Comunicação
2 8 26

1 2 3

O Revelador e o Revelado Deus Fala Pelos Profetas Características dos Profetas

II

SEÇÃO

A Verdadeira Ellen White
44 52 62 68 80 94 102 108 124

4 5 6 7 8 9 10 11 12

A Pessoa e a sua Época Mensageira, Esposa e Mãe Saúde Física Características Pessoais Como Outros a Conheceram Bom Humor, Bom Senso e Conselheira Prática Pioneira Americana e Mulher Vitoriana A Escritora Prolífica A Oradora Solicitada

III

SEÇÃO

A Mensageira que Escuta
134 144 150 170

13 14 15 16

Transmitindo a Mensagem de Deus Confirmando a Confiança Instruções e Predições Oportunas Percepção da Mensageira Sobre Si Mesma

v

IV

SEÇÃO

CAPÍTULO

A Voz de um Movimento
182 194 210 220 228 239

CAPÍTULO

VII

SEÇÃO

Como Avaliar a Crítica
468 478 486 500

V

SEÇÃO

SEÇÃO

17 18 19 20 21 21a

Organização e Desenvolvimento Institucional Crises Teológicas Evangelismo Regional e Relações Raciais Mordomia e Relações Governamentais Dissidentes, Dentro e Fora Personalidades do Mundo Adventista de Ellen G. White (Seção de Fotos)

41 42 43 44

A Verdade Ainda Liberta Crítica Sobre Relacionamentos Pessoais Predições e Observações Científicas A Porta Fechada – Estudo de um Caso

VIII

Relevância Permanente da Mensageira do Senhor
514 528 534 542 543 544 546 549 550 552 554 555 557 559 560 566 569 572 573 576 580

Promotora de Conceitos Inspirados
256 268 278 288 300 310 320 344 354 362

22 23 24 25 26 27 28 29 30 31

O Tema Unificador Esclarecimento Acerca das Principais Doutrinas Princípios de Saúde/1: Surgimento de uma Mensagem de Saúde Princípios de Saúde/2: Relação Entre Saúde e Missão Espiritual Princípios de Saúde/3: Melhor Qualidade na Saúde Adventista Princípios de Saúde/4: Princípios e Práticas Princípios de Saúde/5: Um Século de Princípios de Saúde Educação/1: Princípios e Filosofia Educação/2: Estabelecendo Instituições Educacionais Princípios Editoriais, Sociais e de Temperança

45 46 47 Apêndice A Apêndice B Apêndice C Apêndice D Apêndice E Apêndice Apêndice Apêndice Apêndice F G H I

Preenche Ellen White as Condições? Ela Ainda Fala Mensageira e Mensagem Inseparáveis Reuniões Campais no Início do Século Dezenove Contexto da Troca de Correspondência Entre Tiago e Ellen White em 1874 Trechos do livro de Robert Louis Stevenson Across the Plains (1892) Lista Parcial das Visões de Ellen G. White Pressuposições Básicas Compartilhadas Pela Maioria dos Críticos da Questão da Porta Fechada Condicionada Pelo Tempo ou Relacionada com o Tempo? O Progresso de Ellen White na Compreensão das Próprias Visões Ellen White Enriqueceu a Expressão “Porta Fechada” Ellen White Liderou o Desenvolvimento de uma Mensagem Orientada Pela Bíblia Resposta Quanto à Supressão da Expressão “Mundo Ímpio” Por que Ellen White Parecia Alcançar Somente os Defensores da Porta Fechada Principais Acusações Contra Ellen White Sobre a Questão da Porta Fechada e Refutações Através dos Anos Carta de 13 de Julho de 1847 a José Bates Última Vontade e Testamento de Ellen G. White Comentários de Líderes Nacionais, no Início da Década de 1860, a Respeito da Crise Escravista A Elipse da Verdade da Salvação

VI

SEÇÃO

Como Escutar a Mensageira
372 386 394 408 416 426 434 444 456

Apêndice J Apêndice K Apêndice L Apêndice M Apêndice N Apêndice O Apêndice P Bibliografia Índice Geral

32 33 34 35 36 37 38 39 40

Hermenêutica/1: Princípios Básicos Hermenêutica/2: Regras Básicas de Interpretação – Internas Hermenêutica/3: Regras Básicas de Interpretação – Externas Hermenêutica/4: Os Escritores Bíblicos e Ellen White Hermenêutica/5: Autoridade e Relação com a Bíblia Hermenêutica/6: A Autoridade de Ellen White em sua Época Hermenêutica/7: Congresso Bíblico em 1919 Como os Livros Foram Escritos Como os Livros Foram Preparados

vi

vii

M E N S A G E I R A

D O

S E N H O R

O ministério profético de Ellen G. White

Prefácio

E

m meados da década de 1950, T. Housel Jemison, um dos diretores associados do Patrimônio Literário White, escreveu um livro intitulado A Prophet Among You. Essa abrangente obra sobre o dom de profecia focalizou especificamente a vida e o ministério de Ellen G. White e foi, durante muitos anos, utilizada nos colégios adventistas como livro didático sobre o dom de profecia. Em décadas recentes, porém, temos aprendido muita coisa a respeito de inspiração/revelação. Foi isso o que levou os Depositários do Patrimônio Literário White em 1989 a autorizar a produção de um novo livro. Entre os patrocinadores desse projeto, acham-se o Patrimônio Literário White, e também o Departamento de Educação e o Conselho de Educação Superior da Associação Geral. Herbert E. Douglass foi a pessoa escolhida para escrever este livro. O Dr. Douglass, professor de Espírito de Profecia em seminários teológicos, também havia trabalhado como diretor de colégio, redator associado da Adventist Review e editor de livros da Pacific Press. Ele começou a trabalhar no projeto imediatamente, fazendo uma pesquisa completa sobre o assunto. Embora as referências ao longo do livro reflitam a influência de uma plêiade de eruditos e de idéias, o fato de um autor ser citado a respeito de determinado assunto não deve ser entendido como endosso a ele nem a todas as idéias e posturas por ele defendidas. Cremos que este livro apresenta o ministério profético de Ellen G. White de um modo que o torna atrativo tanto para jovens como para idosos. Ao invés de abordar o assunto partindo do abstrato para o pessoal, ele o faz do pessoal para o abstrato. Em resultado, os leitores vão conhecer o dom de profecia à medida que obtiverem informações pessoais sobre a Sra. White. Além disso, eles serão dirigidos para mais perto do Deus pessoal a quem ela servia; admirarão a maneira sábia e cuidadosa como Ele transmitia Suas mensagens a Sua mensageira; e ficarão surpresos ao observarem o modo como Ele a guiou através dos campos minados da teologia, da medicina e da sociologia de sua época. Os leitores encontrarão no fim de cada capítulo uma série de perguntas que os levará a um estudo mais avançado e profundo do assunto abrangido pelo capítulo. As perguntas podem funcionar como uma recapitulação do capítulo e podem ser um estímulo à pesquisa, aumentando a compreensão dos leitores sobre o tema apresentado. Cremos que todos quantos lerem este livro compreenderão melhor a maneira como Deus atua por meio de Seus profetas, e ficarão profundamente convictos de que Ellen White recebeu o chamado divino para o ofício profético. Enfrentarão o futuro com confiança renovada e fé robustecida, exclamando juntamente com a mensageira de Deus: “Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.” – Life Sketches, pág. 196 (ver Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 162). Depositários do Patrimônio Literário White Silver Spring, Maryland

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O ministério profético de Ellen G. White

Agradecimentos

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s livros não surgem do nada. Uma vida toda de influências se derrama na mente do escritor, e todas aquelas pessoas, livros e professores do seu passado superlotam o ônibus cerebral que o autor dirige na elaboração do seu manuscrito. Embora o escritor reconheça plenamente que foram outros que encheram para ele este imenso reservatório, ser-lhe-ia impossível agradecer a todas essas contribuições, pois elas se transformaram em pensamentos sem rosto. Contudo, na tarefa específica de atender à solicitação do Conselho de Educação Superior da igreja e do Patrimônio Literário White, o autor deseja reconhecer o mérito daqueles que tornaram possível a produção de um livro um tanto técnico como este. Sem a enorme visão e a habilidade editorial de Kenneth H. Wood, este livro não teria sido idealizado nem completado em seu estado atual. Seu estímulo empático e suas percepções durante os mais de três anos de pesquisa e redação do material estabeleceram as condições de raciocínio em áreas que muitos consideram nebulosas. Os dois diretores do Patrimônio Literário White – Paul Gordon e Juan Carlos Viera – em cuja administração fui incumbido de escrever este livro e durante a qual o concluí deram-me não somente estímulo, mas também excelentes sugestões em pontos decisivos. A incansável e eficiente diretora associada, Norma Collins, inseriu pacientemente na cópia final em computador as muitas sugestões e os comentários do autor, freqüentemente revisados. O Patrimônio Literário White tem a sorte de poder contar com dois experientes eruditos em suas especialidades particulares – Jim Nix em história e doutrinas adventistas, e Tim Poirier, arquivista e técnico perito dos materiais de Ellen White. Conquanto eles não sejam responsáveis pelos erros ou omis-

sões presentes no texto, muito contribuíram para o nível de exatidão deste livro. Além destes dois eruditos, sinto-me em grande débito para com os Drs. Robert Olson e Roger Coon, que, em anos anteriores, fizeram meticulosa pesquisa sobre muitos dos temas tratados neste livro. Entre muitos outros que prestaram ajuda e forneceram sugestões oportunas, encontramse meu irmão Melvyn, que atuou como meu “navegador” no misterioso mundo da Internet, localizando em muitas ocasiões, quase que instantaneamente, informações as mais vagas; os Drs. John Scharffenberg e Gary Fraser, que leram pacientemente os capítulos sobre saúde e fizeram contribuições; o Dr. Richard Schwarz, que usou seu micrômetro historiográfico na revisão das últimas páginas; e Francis Wernick, Neal Wilson e Rowena Rick, membros da Comissão de Depositários do Patrimônio Literário White, que leram e criticaram o original. Desejo também expressar apreço especial a eruditos e especialistas capazes como P. Gerard Damsteegt, Frizt Guy, Bert Haloviak, Roland Hegstad, Robert Johnston, Mervyn Maxwell e Alden Thompson, os quais partilharam suas valiosas idéias sobre certos pontos do texto. Nenhum escritor pode ir muito longe sem uma editora que o compreenda e o estimule. Robert Kyte e Russell Holt deram os retoques necessários nos momentos exatos, o que conservou a janela para o futuro sempre aberta e cheia de luz. Eles estavam resolvidos a fazer do produto de suas mãos algo digno do assunto deste livro. E a tudo isso acrescento a contribuição de minha compreensiva esposa, querida Norma, que durante três anos e meio continuamente reajustou prioridades ao captar as dimensões desta tarefa. A Deus seja a glória! Herbert E. Douglass

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O ministério profético de Ellen G. White

Apresentação

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ste livro foi escrito com dois propósitos em mente: (1) fornecer aos adventistas do sétimo dia uma nova perspectiva da vida e do testemunho de Ellen White e (2) fornecer para colégios e universidades material de pesquisa sobre o dom de profecia, especialmente conforme manifesto na vida e ministério desta inspirada mensageira de Deus. Algumas pessoas, a quem falta clara compreensão da maneira como funciona a revelação/inspiração, deixaram que “problemas” e críticas enfraquecessem ou destruíssem sua confiança nos setenta anos do ministério singular da Sra. White. Apesar disso, milhões de pessoas ao redor do mundo consideram Ellen White uma líder religiosa inspirada que marcou época. Essas pessoas perceberam que o amor que sentiam por Jesus se aprofundou à medida que a escritora lhes dirigiu a mente para a Bíblia, sua principal fonte de esclarecimento e alegria. Descobriram que os escritos dessa mulher fornecem idéias claras, bastante nítidas e precisas, sobre o viver saudável e disciplinado. Mais importante ainda, descobriram nos escritos dela concepções coerentes com a história bíblica da salvação. Deste modo, além dos dois propósitos mencionados acima, este livro foi escrito para, pelo menos, duas classes de pessoas: (1) as que são imensamente gratas pela produção literária de Ellen White e desejam saber mais sobre ela, e (2) as que possuem problemas não resolvidos relativos a determinados as-

pectos de seu longo ministério. Este livro apresenta abundantes razões que confirmam sua alegação de ser mensageira de Deus; fornece ampla evidência capaz de satisfazer a mente mais perspicaz.
Convicção, Autoridade e Confiança

A preocupação do autor é com a maneira pela qual jovens e idosos adquirem convicção. Existe acaso alguma “autoridade”, em algum lugar, capaz de falar com tal clareza que satisfaça tanto à mente como ao coração? Os adventistas do sétimo dia respondem: “Sim! Há uma Autoridade.” Apontamos para Aquele que nos fez, a quem chamamos Deus – o Deus que Se comunica. Além disso, Ele nos fez com a capacidade de responder-Lhe. Que pensamento maravilhoso! Fomos feitos para escutar a nosso amigável Criador! E quando escutamos, ouvimos a verdade sobre quem somos, por que existimos e que espécie de futuro eterno Ele planejou para nós – se tão-somente continuarmos a ouvi-Lo. De que maneira Deus “fala” aos seres humanos? “Muitas vezes e de muitas maneiras”, escreveu Paulo em Hebreus 1:1. Por exemplo: • Por meio das obras criadas, que chamamos “natureza”. • Por meio do Espírito Santo, que faz contato com a consciência de cada pessoa. • Por meio de Jesus Cristo, que era o próprio Deus. Mas Deus foi além. Ele sabia que milhares de anos antes de Jesus vir como ser humano, homens e mulheres precisavam ouvir a Sua

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APRESENTAÇÃO
versão da história do grande conflito entre o bem e o mal.
Sistema Divino de Comunicação

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O ministério profético de Ellen G. White

Limitado por Sua natureza humana, Jesus não podia estar em toda a parte ao mesmo tempo. Foi assim que, para poder comunicar Sua mensagem, Deus acrescentou ao Seu sistema próprio de comunicação um plano de intermediação humana: Ele falou “muitas vezes e de muitas maneiras... por meio dos profetas”. Heb. 1:1-3. Este sistema de comunicação “por meio de profetas” era bem conhecido durante os tempos bíblicos. O povo de Deus aprendeu por experiência própria que estava na sua melhor forma quando davam ouvidos aos profetas: “Crede no Senhor, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos Seus profetas e prosperareis.” II Crôn. 20:20. Além disso, eles sabiam por experiência própria que Deus não lhes permitiria penetrar cegamente pelo futuro. “Certamente, o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas.” Amós 3:7. A comunicação divina por meio dos profetas não ficou limitada aos tempos do Antigo Testamento. Durante Suas últimas horas na Terra, nosso Senhor prometeu que esta linha de comunicação entre o Céu e a Terra seria mantida sempre aberta – por meio do Espírito Santo, o Espírito da verdade, Seu representante pessoal. Hoje, assim como nos tempos do Antigo Testamento, o Espírito Santo continua a falar, não apenas à consciência de cada pessoa, mas por meio dos profetas: “Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco o Espírito da verdade.” João 14:16 e 17. “E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas.” Efés. 4:11; ver I Cor. 12:28. O Espírito da verdade é também o Espírito de profecia! Isto significa que esses homens e mulheres especialmente escolhidos “falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. II Ped. 1:21. A igreja foi avisada de que este sistema de comunicação da verdade funcionaria até a volta de Jesus.

Esta visão bíblica geral ensina que nunca foi desejo de Deus que homens e mulheres ficassem na incerteza quanto ao propósito da vida. Especialmente durante o estresse sem paralelo dos últimos dias, Ele nos deu a certeza de que podíamos conhecer a verdade a respeito do futuro. Sempre que homens e mulheres ouvem cuidadosamente os profetas de Deus, eles “reconhecem” que estão ouvindo a “verdade”. A verdade carrega consigo sua própria autoridade porque apela e satisfaz nossa busca de convicção objetiva e subjetiva – o vínculo entre a mente e o coração. Este livro ajudará a responder as seguintes perguntas: Preencheu Ellen White as qualificações bíblicas de um profeta? Sob que base pode alguém considerá-la uma autoridade em seu papel como mensageira de Deus? Ao recapitular seu ativo ministério de setenta anos, que diferença fez seu conselho na determinação do rumo e desenvolvimento da igreja? Qual o efeito de seus conselhos pessoais? Manifestou ela as características de coerência e de confiabilidade e, por conseguinte, a prova da autoridade? Levaremos em conta “o peso da evidência”. Seu longo ministério e os frutos do seu trabalho são um livro aberto. Não é necessária nenhuma “evidência” ou “argumento” artificial para confirmar sua pretensão de ser a mensageira de Deus. O próprio princípio permanente empregado por Ellen White governará a viagem que faremos juntos: “Os assuntos que apresentamos ao mundo devem ser para nós uma realidade viva. É importante que, ao defender as doutrinas que consideramos artigos fundamentais da fé, nunca nos permitamos o emprego de argumentos que não sejam inteiramente retos. Eles podem fazer calar um adversário, mas não honram a verdade. Devemos apresentar argumentos legítimos, que não somente façam silenciar os oponentes, mas que suportem a mais profunda e perscrutadora investigação.” – Obreiros Evangélicos, pág. 299. No coração do grande conflito entre Deus e Satanás, entre o bem e o mal, acha-se o

conflito a respeito da verdade, isto é, quem está correto sobre a maneira como dirigir o Universo: Deus ou Satanás? A posição de Deus é que a verdade não precisa de defesa. Ela precisa apenas ser vista e demonstrada. Satanás, que é “mentiroso e pai da mentira” (João 8:44), consegue o que quer por meio de engano. Questionador esperto e insinuador astuto, Satanás pede com instância que o “coração” egocêntrico seja o árbitro final da “verdade”. Uma de suas ferramentas mais eficazes é suscitar dúvida, provocando hesitação e adiamento do compromisso espiritual. Por esta razão, perverter a verdade seja da maneira que for, lançar sombras injustificadas sobre o que talvez não esteja inteiramente claro, é um ato imoral. É parte de uma conspiração cósmica para obscurecer a verdade e frustrar os planos divinos. Ellen White não podia ser mais clara do que quando pede encarecidamente para sermos francos e afastar o temor ao separar fatos de opiniões. Ela sabia que a fé está em perigo toda vez que impomos limites à pesquisa por temor de que novas descobertas possam desestabilizar a fé. Muitas vezes, porém, ela torna evidente que nossa fé também corre riscos quando permitimos que a razão ou os sentimentos humanos estabeleçam os limites da fé. Para ela, a verdade deve ser honrada, custe o que custar.
Como o Livro Está Organizado

Este livro se divide em oito seções: I. O Sistema Divino de Comunicação (capítulos 1 a 3). II. A Verdadeira Ellen White (capítulos 4 a 12). III. A Mensageira que Escuta (capítulos 13 a 16) IV. A Voz de um Movimento (capítulos 17 a 21) V. Promotora de Conceitos Inspirados (capítulos 22 a 31) VI. Como Escutar a Mensageira (capítulos 32 a 40) VII. Como Avaliar a Crítica (capítulos 41 a 44) VIII. Relevância Permanente da Mensageira do Senhor (capítulos 45 a 47) Os capítulos 1 a 3 fazem uma breve análise do ensino bíblico relativo à maneira como Deus tem revelado a homens e mulheres as

“boas novas” (o evangelho) da salvação. As “boas-novas” são a verdade sobre Deus e Seu modo de dirigir o Universo – um quadro em nítido contraste com as mentiras e calúnias de Satanás. Deus Se revela por meio de Jesus Cristo, o Revelador. O Espírito Santo transmite, por intermédio do “dom de profecia”, a verdade tal qual revelada em Jesus. Os capítulos 4 a 12 focalizam primeiramente a infância e adolescência de Ellen Harmon. Depois, seu papel como a Sra. Ellen G. White – esposa, mãe, vizinha, ganhadora de almas e personalidade pública – examinando sua vida a partir de seus escritos, bem como a partir do ponto de vista daqueles que melhor a conheceram. Pelo fato de o pensamento e o temperamento de uma pessoa serem grandemente determinados pelas influências sociais, econômicas e filosóficas do seu tempo, chamaremos brevemente a atenção para as circunstâncias predominantes no Nordeste dos Estados Unidos, e para os fatores nacionais posteriores que provavelmente mais influíram sobre ela enquanto ela amadurecia cumprindo a missão divina. Estudaremos sua fascinante mistura de mulher vitoriana e vigorosa pioneira norte-americana. Os capítulos 13 a 16 investigam a maneira como o dom profético atuava no ministério de Ellen White. O pano de fundo histórico das décadas de 1840 e 1850 nos ajudarão a compreender o clima desfavorável que existia para todo aquele que alegasse ter visões. Apesar disso, o fenômeno visionário de Ellen White proveu clareza e segurança àqueles que desejavam uma explicação bíblica para a experiência de 1844. Estudaremos Ellen White como escritora e oradora: • chamando a atenção para a evolução de seu estilo e conteúdo enquanto reagia às circunstâncias em transição e a uma iluminação intensificada durante seus setenta anos de ministério; • reconstituindo a maneira como, à semelhança de qualquer outro escritor, ela empregou material de pesquisa para ampliar e tornar mais específica a mensagem central que recebeu a missão de apresentar; • chamando a atenção para a impressionante receptividade que os não adventistas davam a suas palavras faladas e escritas;

xiv

xv

APRESENTAÇÃO
• analisando a capacidade incomum que ela possuía de falar em meio a circunstâncias físicas que afligiriam as pessoas de seu tempo, ou mesmo alguém da atualidade. Os capítulos 17 a 21 exploram o extraordinário relacionamento entre Ellen White e a igreja com a qual ela esteve tão intimamente ligada durante setenta anos. Nenhuma outra pessoa afetou de maneira tão direta o crescimento e a formação da Igreja Adventista do Sétimo Dia, tanto teológica quanto institucionalmente. Ela teve muito que ver com o planejamento estratégico da denominação. Da Austrália até a Europa e através de toda a América do Norte se buscava seu conselho a respeito do estabelecimento de escolas, instituições de saúde e casas editoras. Seus escritos tornaram-se faróis de luz a serem avidamente estudados pelas gerações posteriores. Os capítulos 22 a 31 examinam o papel de Ellen White como educadora conceitual. Ela possuía a capacidade singular de sintetizar a clara mensagem profética com a experiência humana e as idéias de outros. A partir desta síntese desenvolveu, de maneira firme e uniforme, um corpo de pensamento distintamente integrado e coerente, com fundamento bíblico firme e sólido. Esta integração unificou sua vasta contribuição aos princípios práticos da educação, evangelismo, organização e saúde, pelos quais os adventistas do sétimo dia se tornaram amplamente conhecidos.
O Tema do Grande Conflito

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O ministério profético de Ellen G. White

Analisaremos a maneira como usou ela determinados princípios de pesquisa à medida que processava e transmitia a verdade. Instrutiva é sua introdução ao Grande Conflito: “Os grandes acontecimentos que assinalaram o progresso da Reforma nas épocas passadas constituem assunto da História bastante conhecidos e universalmente reconhecidos pelo mundo protestante; são fatos que ninguém pode negar. Esta história apresentei-a de maneira breve, de acordo com o objetivo deste livro e com a brevidade que necessariamente deveria ser observada, havendo os fatos sido condensados no menor espaço compatível com sua devida compreensão. “Em alguns casos em que algum historia-

dor agrupou os fatos de tal modo a proporcionar, em síntese, uma visão compreensiva do assunto, ou resumiu convenientemente os pormenores, suas palavras foram citadas textualmente; nalguns outros casos, porém, não se nomeou o autor, visto como as transcrições não são feitas com o propósito de citar aquele escritor como autoridade, mas porque sua declaração provê uma apresentação do assunto, pronta e positiva. Narrando a experiência e perspectivas dos que levam avante a obra da Reforma em nosso próprio tempo, fez-se uso semelhante de suas obras publicadas.” – O Grande Conflito, pág. 7. O princípio organizacional que, à semelhança de um ímã, reuniu este material é, em sua síntese, o Tema do Grande Conflito. Pelo fato de ver a Bíblia como um todo e a relação de suas partes, Ellen White esclareceu as questões básicas relativas ao caráter de Deus, a natureza do homem, o surgimento do pecado e a maneira como Deus planeja finalmente tratar com este planeta rebelde. A compreensão do Tema do Grande Conflito por parte de Ellen White forneceu extraordinária estabilidade e harmonia à Igreja Adventista à medida que esta desenvolvia sua teologia e estrutura denominacional. Essa compreensão tornou-se o centro conceitual que lhe permitiu proporcionar conforto pessoal e correção teológica em situações em que outras organizações religiosas geralmente se fragmentam. Na seção 6, “Como Escutar a Mensageira”, os capítulos 32 a 38 enfatizam a maneira como homens e mulheres devem “ouvir” a mensagem de Ellen G. White. Qualquer estudo de documentos escritos, sejam eles sonetos shakespeareanos sejam trechos das Sagradas Escrituras, envolve “hermenêutica”, isto é, o emprego de princípios de interpretação que ajudam o leitor a entender o autor. Examinaremos regras de interpretação que nos ajudarão a determinar o que Ellen White queria dizer para aqueles que a ouviam e o que esses mesmos escritos significam em tempos modernos. Uma das regras, por exemplo, é levar em conta o tempo, o lugar e as circunstâncias ao fazermos uma aplicação atual de seu conselho. Os princípios são permanentes, mas a aplicação do princípio

pode ser diferente ao seguirmos esta regra da hermenêutica. Para entendermos Ellen White é fundamental nossa necessidade maior de compreender como Deus comunica Suas mensagens a Seu povo por meio de Seus mensageiros. Em anos passados, os adeptos da inspiração verbal ficaram grandemente perturbados com o que parecia serem “erros” e “contradições” bíblicas. Esta mesma confusão entre a inspiração mecânica ou na forma de ditado (cada palavra seria uma transcrição exata do que Deus falou ao profeta) e a inspiração do pensamento (Deus inspirou os profetas, não suas palavras) tem perturbado muitas pessoas que lêem os escritos de Ellen White. Mostraremos como esta compreensão incorreta do processo de revelação/inspiração levantou dúvidas e críticas injustificadas contra Ellen White. Uma questão igualmente importante é a relação existente entre os escritos de Ellen White e a Bíblia. Procuraremos entender expressões como “níveis de inspiração”, “revelação progressiva”, “autoridade canônica” e “luz menor, luz maior”. Nos capítulos 39 e 40, examinaremos como Ellen White escrevia seus livros. Observaremos como se relacionava com suas assistentes de redação e o papel que estas desempenharam na produção dos livros Caminho a Cristo, O Desejado de Todas as Nações e O Grande Conflito. Nos capítulos 41 a 43, faremos uma avaliação das críticas em relação a Ellen White. Os profetas inevitavelmente serão criticados por seus contemporâneos, principalmente porque se encontram muito à frente na compreensão do conflito de Deus contra o mal. Nenhum profeta bíblico desfrutou de condições favoráveis ao cumprir a tarefa que lhe fora confiada. Este fato lastimável nos leva a refletir que uma geração mata seus profetas apenas para que a próxima construa monumentos em honra deles. Algumas críticas têm sua origem na reação constante daqueles que se opõem à verdade porque esta contraria inclinações pessoais ou orgulho de opinião. Encontramos

exemplos dessa rejeição nas críticas feitas a Jesus, Jeremias, Paulo e Ellen White. Esses capítulos não procuram contestar toda acusação ou crítica dirigida contra Ellen White, mas chamar a atenção para as formas mais comuns. Depois de avaliar tais críticas, o leitor será capaz de estabelecer a diferença entre a humanidade do vaso terreno e a autoridade da mensagem transportada por esse vaso. (Ver II Cor. 4:7.) O capítulo 44 é um estudo da questão da “porta fechada”, que foi, por mais de um século, grande fonte de controvérsia.
Como Ellen Preenche as Condições

Na última seção, “Relevância Permanente da Mensageira”, perguntamos: Preenche Ellen White as condições de uma mensageira de Deus nos tempos modernos? Seu ministério de setenta anos estabelece suas credenciais como mensageira divina? Consideraremos a maneira como realizou seu trabalho, tanto em público como em particular, e recapitularemos a relação, por assim dizer, inseparável que havia entre o seu ministério e o desenvolvimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Os adventistas do sétimo dia geralmente têm crido que Ellen G. White foi a mensageira de Deus. Por que os adventistas de sua época chegaram a tal conclusão, e por que, desde sua morte, os adventistas continuam chegando a esta mesma conclusão? Nas páginas de encerramento deste livro, perguntamos: Até que ponto Ellen White é relevante para os dias atuais? Ela morreu em 1915. Será que ela é capaz de falar de modo significativo a um povoado global transistorizado, onde a informação via Internet entre os computadores por todo o planeta é instantânea, onde a ciência parece ter sempre, “no momento exato”, mais uma solução para as necessidades do mundo? Embora as circunstâncias tenham mudado drasticamente, e o mundo sócio-político seja extremamente diferente, perceberemos que os escritos de Ellen White falam de maneira incisiva aos nossos dias, sendo neste tempo do fim cada vez mais relevantes. O Autor

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xvii

O Sistema Divino de Comunicação

I

CAPÍTULO 1 O Revelador e o Revelado

2

Deus Fala Pelos Profetas

3

Características dos Profetas

SEÇÃO

SEÇÃO

I

O Sistema Divino de Comunicação

1

M E N S A G E I R A

D O

S E N H O R

CAPÍTULO

O ministério profético de Ellen G. White

O Revelador e o Revelado
“Quando chegar o Auxiliador, o Espírito da verdade, que vem do Pai, Ele falará a respeito de Mim. E sou Eu quem enviará esse Auxiliador a vocês da parte do Pai.” João 15:26.

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evangelho não é algo sobre Jesus; o evangelho é Jesus e o que Ele ensinou. Embora os ensinamentos sobre Jesus forneçam a estrutura para a proclamação das “boas novas”, o próprio Jesus é as “boas novas”. Jesus e Seus ensinos não são o prelúdio do evangelho; eles são o evangelho!1 As “boas novas” são que, na mente maravilhosa de Deus, uma das pessoas da Divindade decidiu vir a este planeta rebelde, de braços abertos, convidando homens e mulheres de todos os lugares para retornarem à família de Deus. As “boas novas” são que o Deusque-Se-fez-homem “deu-Se” para sempre à família humana. E para quê? Para mostrarnos como é Deus! (João 14:7.) Conforme veremos, chamamos o Revelador de “Jesus”; chamamos o Revelado de “Deus”; e a Pessoa pela qual a Divindade acha conveniente “revelar” o Revelador à humanidade é o Espírito Santo. Jesus tornou isto bem evidente poucas horas antes do Getsêmani: “Eu pedirei ao Pai, e Ele lhes dará outro Auxiliador, o Espírito da verdade, para ficar com vocês para sempre.” João 14:16. “É o Espírito Santo, o Espírito que conduz a toda a verdade [acerca de Deus].” João 14:17. Mais adiante: “Mas o Auxiliador, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em Meu nome, ensinará a vocês todas as coisas e fará com que lembrem de tudo o que Eu disse a vocês.” João 14:26. E para certificar-Se de que o assunto es-

tava bem claro, afirmou: “Quando chegar o Auxiliador, o Espírito da verdade, que vem do Pai, Ele falará a respeito de Mim.” João 15:26. Jesus disse ainda: “Porém, quando o Espírito da verdade vier, Ele ensinará toda a verdade [acerca de Deus] a vocês. O Espírito não falará por Si mesmo, mas dirá tudo o que ouviu e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. Ele vai ficar sabendo o que tenho para dizer, e dirá a vocês, e assim Ele trará glória para Mim. Tudo o que o Pai tem é Meu. Por isso Eu disse que o Espírito vai ficar sabendo o que Eu Lhe disser e vai anunciar a vocês.” João 16:13-15. O Espírito Santo é o representante de nosso Senhor. O Espírito dirá e fará exatamente o que Jesus diria e faria se estivesse hoje na Terra! Como tudo isso funciona? O Espírito Santo atribui a cada cristão algum dom especial: “Existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito quem dá esses dons. ... Para o bem de todos, Deus dá a cada um alguma prova da presença do Espírito Santo.” I Cor. 12:4 e 7. O Dom de Profecia Um desses dons especiais é o dom de “profecia”. (I Cor. 12:10; Efés. 4:11.) Por meio do dom de profecia, o Espírito Santo liga-Se a de-

terminados homens e mulheres que logo comunicam a outros a verdade sobre Jesus. Eis a descrição da função do Espírito: “Falar a respeito de” Jesus por meio de pessoas dotadas com o dom de profecia. Conhecer Jesus e aquilo que Ele nos pode dizer sobre Deus é a informação mais importante de que a família humana necessita, pois “conhecer [Jesus] é vida eterna”. João 17:3. No livro de Apocalipse, o profeta João escreveu sobre a maneira como este dom atuava em sua própria vida: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar... ao Seu servo João, o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo.” Apoc. 1:1 e 2. Vemos aqui o sistema divino de comunicação em funcionamento. O Revelador atuando por intermédio do Espírito para revelar a verdade sobre Deus por meio do Seu profeta. No capítulo 19, o anjo que visitava João lhe fez lembrar que o “testemunho de Jesus é o Espírito de Profecia”. Verso 10. A finalidade do dom de profecia é contar a história de Jesus. O Agente motivador que inspira o profeta humano a contar a verdade sobre Jesus é o Espírito Santo. No fraseado curto e simplificado da Bíblia, o Espírito de Profecia é “o testemunho de Jesus”. Pedro compreendia este sistema divino de comunicação: “Vocês O amam, mesmo sem O terem visto, e crêem nEle, mesmo que não O estejam vendo agora. Assim vocês se alegram com uma alegria tão grande e gloriosa, que as palavras não podem descrever. Vocês têm essa alegria porque estão recebendo a sua salvação, que é o resultado da fé que possuem. Foi a respeito dessa salvação que os profetas perguntaram e procuraram saber com muito cuidado. Eles profetizaram a respeito da salvação que Deus ia dar a vocês e procuraram saber em que tempo e como essa salvação ia acontecer. O Espírito de Cristo, que estava neles, indicava esse tempo, ao predizer os sofrimentos que Cristo teria de suportar e a glória que viria depois. Quando os profetas falaram a respeito das verdades que vocês têm ouvido agora, Deus revelou a eles que o trabalho que faziam não era para o benefício deles, mas para o bem de vocês. Os men-

sageiros do evangelho, que falaram pelo poder do Espírito Santo mandado do Céu, anunciaram a vocês essas verdades. Essas são coisas que até os anjos gostariam de entender.” I Ped. 1:8-12. Os profetas verdadeiros não são motivados por recompensa ou capricho pessoal, mas pela influência direta do Espírito de Cristo, o “Espírito Santo mandado do Céu”. Num sentido, o “Espírito de Profecia” é o Espírito de Cristo atuando por Seu Divino Auxiliador, o Espírito Santo, dado a conhecer a homens e mulheres por meio do profeta humano. Noutro sentido, o “Espírito de Profecia” é também o testemunho sobre Jesus, o alvo principal do dom de profecia. Desde que Jesus voltou para o Céu, esta regra simples e de duplo aspecto tem constituído uma das maneiras mais claras e seguras de provar a autenticidade de alguém que alega ser “profeta”: Ele ou ela diz a verdade sobre Jesus? No espírito de Jesus? Por que o simples nome de Jesus tem, através dos anos, suavizado a voz e tranqüilizado o coração de pessoas em todos os continentes? Porque homens e mulheres lembram do ânimo que recobraram, da esperança que sentiram renascer dentro de si e da explosão de força que receberam para tornar a enfrentar os desafios da vida ao vir-lhes à memória o fato de que são importantes para Jesus, o mesmo Jesus que disse pelo Espírito de Profecia: “Não temas, porque Eu sou contigo.” Isa. 41:10. “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” Heb. 13:5. Essas pessoas aprenderam por experiência própria o que Jesus queria dizer quando afirmou: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros.” João 14:18. Dizendo a Verdade Sobre Deus Por que confiar tanto em um Homem chamado Jesus, que viveu apenas trinta e três anos na antiga Palestina? Porque homens e mulheres chegaram a conhecê-Lo como o Criador que Se fez homem. Por quê? Porque Ele era o único ser no Universo que poderia, convincentemente, dizer a verdade sobre Deus – Aquele que fora descrito de maneira tão desvirtuada pelo grande rebelde e por muitos dos

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mais ilustres pensadores do mundo. Deus não era ríspido, arbitrário e implacável, como fora retratado. Quando Ele pedia a homens e mulheres que O servissem com lealdade voluntária, dava a conhecer que Ele mesmo, por natureza, também era um ser abnegado. Mostrava-lhes que amar significa fazer pelos outros aquilo que eles não podem fazer por si mesmos ou que nem ao menos o merecem. Como essas coisas foram reveladas? Paulo contemplou a magnífica revelação de Cristo como um “esvaziamento” de Suas prerrogativas divinas ao entrar Ele para a família humana. (Filip. 2.) Não de maneira súbita como um príncipe valente empunhando a espada da justiça, mas, lentamente, a partir do ventre de uma mulher. Não para ser honrado como um convidado especial, mas para ser mal compreendido e caluniado devido à Sua integridade e maneira inequívoca de encarar as coisas. Como é possível que a única esperança da Terra se tornasse o alvo dos maus-tratos humilhantes deste planeta? “Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam.” João 1:11. Os cristãos sentem-se não apenas horrorizados com essa monstruosa ingratidão, mas também movidos de estranho pesar e resolvem acolhê-Lo afetuosamente na própria vida. Os cristãos ficam admirados da condescendência do Deus-homem, e esta admiração torna-se parte da razão diária para honrá-Lo em tudo quanto fazem. Tanto o Sacrifício Como o Sumo Sacerdote Ao olharem para Jesus, vêem nEle tanto o Sacrifício como o Sumo Sacerdote.2 Ao derrotar no Calvário o “salário do pecado”, Jesus fez algo que mudou para sempre nossa relação com Deus: Ele morreu! Ele é a única Pessoa que já morreu no verdadeiro sentido da palavra! Todos os outros homens e mulheres que “morreram” se acham agora dormindo,3 com exceção daqueles poucos que ressurgiram ou foram trasladados e agora estão no Céu.4 Somente Jesus provou da “morte”, para que todos quantos fazem dEle o Senhor de sua vida jamais “morram”. “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Rom. 6:23. E que dom! Por meio de Jesus, escapamos daquilo que merecíamos! Mas isso não é tudo! Agora Ele está vivo e é nosso Sumo Sacerdote. O que significa isso?

Que Ele Se encontra diante dos seres celestiais e dos mundos não caídos como um Homem cuja alegre obediência provou que Deus não havia sido injusto em pedir obediência voluntária dos seres criados. Satanás estava errado! E eles vêem este heróico Vencedor, que passou pela inexprimível angústia de ser o “Deus-desamparado” do Calvário, provar que o próprio Deus realmente Se importava com Sua criação e que Ele era altruísta, a essência do verdadeiro amor. Todo o Universo (além dos confins da Terra) vêem Jesus no Lugar Santíssimo do santuário celestial como a resposta de Deus para as mentiras que Satanás inventou contra Ele. E nós, o que vemos quando pensamos em Jesus como nosso Sumo Sacerdote? VemoLo como o Mediador entre Deus e a humanidade pecadora. Vemo-Lo como nosso Advogado, que une justiça e misericórdia ao rebater todas as acusações contra Deus e contra os crentes. (I João 2:1.) Ele é nosso Intercessor, o qual não só nos representa diante do Pai, senão que intervém entre nós e o mal. (Heb. 4:16.)5 O apóstolo Paulo expressa isso nos seguintes termos: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os Céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi Ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.” Heb. 4:14-16. Esta é a espécie de intercessão de que todos nós carecemos cada dia: a paz decorrente do perdão e o poder proveniente da graça intercessora. A presença poderosa de Cristo, por meio do Espírito Santo e dos anjos, estende-se a todos quantos com Ele estejam comprometidos. Ele quebra o poder com que Satanás mantinha as pessoas cativas. Comunica-Se com seu sistema nervoso. Robustece a força de vontade do crente. E está sempre pronto para ajudar os seres humanos a resistir ao pecado, tanto o interno quanto o externo. Jesus literalmente compartilha conosco o sistema de defesa que usou para vencer a tentação. (Apoc. 3:21.)

Muitíssimas vezes, após contemplar a condescendência de Cristo na condição de Homem perseguido e finalmente crucificado, os crentes pensam que o “dom” com que Deus presenteou a Terra cessou na cruz. Mas Deus não deu “Seu único Filho” (João 3:16) numa espécie de empréstimo ou arrendamento temporário. O Criador das centenas de bilhões de galáxias, Aquele que andou por entre as estrelas e fez os universos gravitarem em órbitas, aprisionou-Se dentro de Sua própria criação, não apenas por nove meses, não apenas por trinta e três anos, mas para sempre! Essa espécie de amor desperta amor. E apreciação sincera. E compromisso profundo, acima dos apelos mais sedutores deste mundo, para com Aquele que muito nos amou. Antes de poder dizer a verdade sobre Deus, conforme revelada por Jesus, o profeta deve conhecer Jesus pessoalmente. Discutir teologia é coisa fácil; a experiência pessoal, porém, exige um preço. A Dedicação de Ellen G. White a Jesus Ellen White correspondeu a este amor de todo o seu coração e fez dele o tema principal de seus escritos. Não importa o lugar onde abramos os volumosos livros que ela escreveu ou as cartas que endereçou a familiares, amigos e cooperadores, sempre encontramos evidências da profunda afeição que ela dedicava ao Salvador. Muitos que entraram em contato pela primeira vez com os adventistas do sétimo dia por meio dos escritos de Ellen White ficaram admirados pela intuição e profunda apreciação manifestadas pela escritora ao tratar das dimensões do “Dom” de Deus a este planeta rebelde. Suas percepções espirituais começaram cedo. Logo nos primeiros anos de sua adolescência, profundamente afetada pela pregação de Guilherme Miller, ela almejou por uma experiência religiosa mais profunda: “Ao orar, o fardo e a agonia de alma que por tanto tempo eu havia experimentado deixaramme, e as bênçãos de Deus vieram sobre mim como suave orvalho. Dei glória a Deus pelo que eu sentia, mas ansiava mais. Eu não estaria satisfeita até que estivesse repleta da plenitude de Deus. Inexprimível amor por Jesus encheu minha alma.”6 Ellen White era, acima de tudo, uma pes-

soa espiritual, cheia de apreço por seu Salvador e Senhor. Este senso pessoal da presença divina a colocou em comunicação direta com Deus, permitindo que Ele lhe revelasse muito mais de Sua própria pessoa e dos Seus planos para este mundo. A experiência pessoal por que ela passou quando reagiu favoravelmente à simplicidade do evangelho precedeu a teologia. Jesus era o centro de interesse de todo o seu pensamento teológico. Eis um exemplo do tema que repassa toda a sua obra – a exaltação de Jesus: “Será proveitoso contemplar a condescendência, o sacrifício, a abnegação, a humilhação, a resistência divinas que o Filho de Deus enfrentou ao realizar Sua obra em benefício do homem caído. Bem podemos sair da contemplação de Seus sofrimentos, exclamando: ‘Assombrosa condescendência!’ Os anjos se maravilham a observarem com intenso interesse o Filho de Deus descendo passo a passo a senda da humilhação. Este é o mistério da piedade. É a glória de Deus ocultar a Sua Pessoa e os Seus caminhos, não para manter as pessoas na ignorância da luz e conhecimento celestiais, mas porque isso está para além da capacidade do conhecimento humano. Uma compreensão parcial: isso é tudo o que o ser humano pode suportar. O amor de Cristo ‘excede todo o entendimento’. Filip. 4:7. O mistério da redenção continuará a ser o mistério, a ciência inesgotável e o incessante cântico da eternidade. A humanidade bem pode exclamar: ‘Quem pode conhecer a Deus?’ Talvez possamos, como Elias, cingirnos com nosso manto e procurar ouvir a voz mansa e delicada de Deus.”7 Ellen White andou com Jesus na alegria e na tristeza. Escrevendo a seu filho William e à jovem noiva dele, Mary, falou sobre o companheirismo que desfrutara com o marido Tiago e da experiência que lhes era comum: “Estamos tentando seguir humildemente os passos de nosso amado Salvador. Precisamos a cada hora de Seu Espírito e de Sua graça, do contrário cometeremos graves erros e causaremos dano.”8 Algumas semanas depois, durante uma viagem extremamente cansativa, do Texas para Kansas, numa carruagem coberta, ela tornou a escrever para Mary: “Estou exausta. Sinto-me como se tivesse 100 anos de idade.

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... Minha ambição acabou; minha força se esgotou, mas isso não vai perdurar. ... Tenho esperança que, mediante a luz animadora da face de meu Salvador, eu consiga recobrar as energias.”9 Enquanto aguardava o Natal de 1880, na época com 53 anos de idade, ela escreveu a uma amiga: “Passarei o Natal pedindo a Jesus que seja o convidado de honra do meu coração. Sua presença dissipará todas as sombras.”10 Ellen White escreveu centenas de artigos para as revistas Review and Herald e Signs of the Times. Quase todo artigo continha alguma referência a seu Senhor, que Se tornara para ela não apenas a sua força, mas também a alegria de sua vida. Aos 69 anos de idade, ela escreveu: “Gosto muito de falar sobre Jesus e Seu incomparável amor. ... Sei que Ele é capaz de salvar perfeitamente todos os que se chegam a Ele. Seu precioso amor é para mim uma realidade, e as dúvidas expressas por aqueles que não conhecem a Jesus, nenhuma influência exercem sobre mim. ... Crê você que Jesus é seu Salvador e que manifestou Seu amor por você ao dar Sua preciosa vida para salvá-lo? Aceite a Jesus como seu Salvador pessoal. Venha a Ele exatamente como está. Entregue-se a Ele. Apodere-se de Sua promessa com viva fé, e Ele lhe será tudo quanto você desejar.”11 Ellen White considerava Jesus seu Salvador e melhor Amigo.12 Contudo, mais do que isso, Ele era o seu Senhor. Disseram-lhe na Europa que as pessoas seriam mais receptivas à mensagem do advento “se falássemos mais sobre o amor de Jesus”. Chamaram a atenção para o “perigo de perder nossas congregações, caso insistíssemos nas questões mais severas do dever e da lei de Deus”. Tendo ouvido esse tipo de comentário antes, ela escreveu em suas notas de viagem: “Prevalece por toda parte uma experiência não genuína. Muitos dizem constantemente: ‘Tudo que precisamos fazer é crer em Cristo.’ Afirmam que fé é tudo de que necessitamos. Em seu sentido mais pleno, isto é verdade; mas eles não empregam a palavra no sentido mais pleno. Crer em Jesus é aceitá-Lo como nosso redentor e modelo. Se permanecemos

nEle e Ele em nós, somos participantes de Sua natureza divina e praticantes de Sua Palavra. O amor de Jesus no coração levará à obediência a todos os Seus mandamentos. Mas o amor que não vai além dos lábios é uma ilusão; não salvará nenhuma alma. Muitos professam grande amor por Jesus, ao passo que rejeitam as verdades da Bíblia. O apóstolo João, porém, declara: ‘Aquele que diz: Eu O conheço, e não guarda os Seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.’ I João 2:4. Embora Jesus já tenha feito tudo no que diz respeito ao mérito, temos algo que fazer no que diz respeito ao cumprimento das condições.”13 O Tema do Grande Conflito O profundo discernimento manifesto por Ellen White em sua instrução teológica sobre o tema preponderante da Bíblia – o Tema do Grande Conflito14 – tornou clara a razão por que Jesus Se fez homem. Esta compreensão fundamental permeia todos os seus escritos. Por exemplo: “A fim de crescer na graça e no conhecimento de Cristo, é essencial que meditem muito nos grandes temas da redenção. Você deve perguntar-se por que Cristo assumiu a natureza humana, por que sofreu sobre a cruz, por que levou os pecados dos homens, por que Se tornou pecado e justiça por nós. Deve estudar para saber por que Ele ascendeu ao Céu em natureza humana, e qual é Sua obra por nós hoje. ... Julgamos conhecer bem o caráter de Cristo, e não compreendemos claramente quanto se pode ganhar ao estudarmos nosso esplêndido Modelo. Damos por certo que sabemos tudo sobre Ele, embora não compreendamos Seu caráter nem Sua missão.”15 “Escutar” Ellen White, página após página, é como ouvir o “Messias” de Haendel. O “Espírito de Cristo” impregna seu ministério. Harmonia, clareza e coerência caracterizam a dedicação que ela consagra a seu melhor Amigo. Mais do que tudo isso, é provável que Ellen White ajude a satisfazer nosso anseio humano por graça. Em cartas pessoais, artigos de revista e apresentações diante de grandes auditórios, suas mensagens direcionadas para a graça aumentaram a aceitação da graça di-

vina por parte dos corações abatidos e necessitados. Para aqueles que a ouvem, Ellen
Referências
1. “O evangelho é glorioso porque é constituído da justiça de Cristo. O evangelho é Cristo revelado, e Cristo é o evangelho personificado. ... Não devemos exaltar o evangelho, mas a Cristo. Não devemos adorar o evangelho, mas o Senhor do evangelho.” – Manuscrito 44, 1898, citado em Seventh-day Adventist Bible Commentary (SDABC), vol. 7, pág. 907. 2. Atos dos Apóstolos, pág. 33. 3. A Bíblia fala da primeira morte como um “sono”. (Ver João 11:11-14; I Tess. 4:13-16; 5:10.) A segunda morte é reservada aos pecadores que rejeitam o convite do evangelho. (Ver Apoc. 20:6 e 14; 21:8.) 4. Enoque (Gên. 5:24), Elias (II Reis 2:11), Moisés (Jud. 9) e os que ressurgiram com Jesus (Mat. 7:52 e 53). 5. “Todo aquele que se libertar do cativeiro e do serviço de Satanás e se colocar sob a bandeira ensangüentada do Príncipe Emanuel, será guardado pela intercessão de Cristo. Na qualidade de nosso Mediador, à destra do Pai, Cristo sempre nos conserva debaixo de Suas vistas, pois é tão necessário que Ele interceda por nós quanto o foi que nos redimisse pelo Seu sangue. Se Ele nos deixa escapar por um só momento a Seu controle, Satanás está pronto para destruir. Aqueles a quem Cristo comprou por Seu sangue, a estes protege Ele agora por Sua

White tem a marca inconfundível do “Espírito de Profecia”: Ela dá testemunho de Jesus.

intercessão.” – Manuscrito 73, 1893, em SDABC, vol. 6, comentários sobre Romanos 8:34, pág. 1.078; também Manuscript Releases (MR), vol. 15, pág. 104. 6. Primeiros Escritos, pág. 12. 7. Bible Echo, 30 de abril de 1894. 8. Carta 18, 1879, citada em Arthur White, Ellen G. White Biography, vol. 3, (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1984), pág. 105. Daqui em diante as referências à biografia em seis volumes de Ellen White feita por Arthur White serão indicadas apenas pela palavra Biography, seguida do número do volume e das páginas. 9. Carta 20, 1879, citado em Biography, pág. 117. 10. Carta 51, 1880, citada em Biography, pág. 149. 11. Review and Herald, 23 de junho de 1896. 12. Ver James Nix, “Oh, Jesus, How I Love You!”, Adventist Review, 30 de maio de 1996, págs. 10-14. 13. Historical Sketches of the Foreign Missions of the Seventh-day Adventists (Basle, Suíça: Imprimerie Polyglotte, 1886), pág. 188; ver também Biography, vol. 3, pág. 320. 14. Ver págs. 256-263. 15. Signs of the Times, 1o de dezembro de 1890.

Perguntas Para Estudo

1. Por que é errado fazer distinção entre Jesus e o evangelho? 2. Se o Espírito Santo é a Pessoa que “revela” as mensagens de Deus aos profetas, por que se fala de Jesus como o Revelador? 3. Qual a principal finalidade do “dom de profecia”? 4. Que textos do Novo Testamento ensinam que Deus continua a falar em tempos pósapostólicos? 5. Que duplo papel desempenha Cristo como nosso Sumo Sacerdote? 6. Escolha um capítulo do Caminho a Cristo ou de O Desejado de Todas as Nações, leia-o e faça uma lista de algumas coisas que lhe falam sobre Jesus.

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O ministério profético de Ellen G. White

Deus Fala Pelos Profetas
“Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas.” Heb. 1:1. “Se entre vós há profeta, Eu, o Senhor, em visão a ele Me faço conhecer, ou falo com ele em sonhos.” Núm. 12:6.

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eus tem-Se comunicado com os seres humanos desde que criou Adão e Eva.1 Os seres humanos foram criados à semelhança de Deus, feitos “à Sua imagem”. Gên. 1:27. Ele os fez responsáveis, isto é, capazes de responder a Deus e às outras pessoas. Deus proveu todas as coisas imagináveis para a felicidade de nossos primeiros pais. “Plantou... um jardim” (Gên. 2:8) já florido, cheio de plantas comestíveis. O primeiro casal não precisava passar por dificuldade, nem lutar pela sobrevivência. Além disso, Deus fez homens e mulheres com capacidade de gerar filhos à imagem deles, assim como criara Adão e Eva à Sua imagem. Nada foi omitido. Tudo o que homens e mulheres precisavam estava no lugar apropriado – a espécie correta de alimento, a alegria do trabalho, a contemplação diária de um deslumbrante jardim de flores, sem chuva e ferrugem, bem como o perfeito companheirismo de um com o outro e com o próprio Deus. O plano de Deus para nossos primeiros pais ainda hoje continua a ser um projeto realizável para nós que buscamos paz e saúde em meio à ruína lastimável daquilo que o Senhor tinha em vista em relação à família humana.

Comunicação Antes do Pecado Antes de pecarem, nossos primeiros pais desfrutavam constante comunhão com Deus e com Seus anjos. Foi dessa maneira que aprenderam a cuidar de todas as criaturas vi-

vas e a suprir as próprias necessidades como mordomos deste fantástico paraíso chamado planeta Terra. É possível que todo dia, ao pôr-do-sol, eles realizassem um culto a Deus “na parte fresca do dia”. Gên. 3:8. Eles sabiam que nem tudo era seguro, nem mesmo no Éden! O mal se emboscava na sombra da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Gên. 2:17. Terríveis mudanças ocorreram quando Adão e Eva pecaram. Já não conseguiam falar com Deus face a face. Não porque Deus houvesse mudado, mas porque o primeiro casal mudara – o pecado reconfigurou-lhes a mente e as emoções. Isaías descreveu essa nova situação em suas verdadeiras cores: “As vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o Seu rosto de vós.” Isa. 59:2. O pecado danifica a trajetória dos nervos. Pessoa alguma continua a mesma depois de pecar. Formam-se novas ligações nos prolongamentos nervosos tornando mais fácil a repetição do pecado. O pensar claramente de novo requer o auxílio especial de Deus. Assim, quando nossos primeiros pais pecaram, Deus teve que mudar Seu sistema de comunicação com os seres humanos. Nem todos os deploráveis resultados do pecado sobrevieram a Adão e Eva imediatamente, mas a triste degeneração da humanidade começou no dia em que eles condescenderam com “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”. I João 2:16.

Como Deus Transpôs o Abismo do Pecado Como o abismo do pecado poderia ser transposto? Deus sempre tem uma solução. Ele sabe como adaptar-Se a circunstâncias em mutação. Por exemplo, em vez da comunicação face a face, Ele “fala” a todos através da “consciência”. (Ver João 1:9; Rom. 2:15.) De uma forma significativa, o Espírito Santo pede aos seres racionais que prefiram o certo ao errado, seja qual for a situação. Além disso, para aqueles que especificamente buscam o auxílio divino, ainda que não conheçam muito a Deus, estende-se a todos a promessa: “Reconhece-O em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas.” Prov. 3:6.2 Deus também Se revela por meio dos anjos: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” Heb. 1:14.3 Embora desfigurado pelos resultados do pecado, o mundo físico ainda revela muita coisa sobre a natureza e o caráter de Deus: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis.” Rom. 1:20. Pessoas de todos os continentes e através da História têm associado Deus a “atributos” como ordem, beleza, previsibilidade e desígnio, vistos nos corpos celestes ou nas maravilhas terrenas, tanto as animadas como as inanimadas.4 Antes que Moisés guiasse os israelitas para fora do Egito, Deus havia Se comunicado com homens e mulheres por meio dos patriarcas Noé (Gên. 5-9), Abraão (Gên. 1224), Isaque (Gên. 26:2-5) e Jacó (Gên. 32:24-30). Moisés foi o ilustre exemplo de um ser humano com quem Deus conversava (Êxo. 3, etc.). Com referência à nação de Israel em seus primeiros anos, Deus “falava” por Urim e Tumim, duas pedras preciosas engastadas no peitoral (éfode) do sumo sacerdote israelita. Quando os líderes da nação queriam conhecer a vontade de Deus, o sumo sacerdote fazia as perguntas específicas, e estas eram respondi-

das pela luz que repousava sobre o Urim ou o Tumim.5 Para uma nação jovem, recém-saída do cativeiro e antes de existir a Palavra escrita, esse método de comunicação era decisivo e confirmatório. Deus falou também por meio de sonhos. Considere o significado do sonho profético de José (Gên. 37), os sonhos do copeiro e do padeiro de Faraó (Gên. 40), o sonho de Faraó (Gên. 41), o sonho do soldado midianita (Juí. 7) e os sonhos de Nabucodonosor (Dan. 2 e 4). Não resta dúvida de que a revelação mais clara de Deus e de Sua vontade para homens e mulheres foi por intermédio de Jesus Cristo: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho.” Heb. 1:1 e 2. Jesus foi explícito: “Quem Me vê a Mim vê o Pai.” João 14:9. Mas Cristo não chamou a atenção para Deus como todos os profetas vinham fazendo; Ele era Aquele para quem eles chamavam a atenção. A Forma Mais Reconhecida de Revelação Divina Embora Deus tenha empregado muitos métodos, o “profeta” foi a forma mais reconhecida de comunicação divina. Os sacerdotes de Israel eram os representantes do povo perante Deus; os profetas eram os representantes oficiais de Deus perante Seu povo. O chamado do sacerdote era hereditário; o profeta era especificamente chamado por Deus.6 Os profetas têm sido os canais mais visíveis no sistema divino de comunicação. “Certamente o Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o Seu segredo aos Seus servos, os profetas.” Amós 3:7. “O Senhor, Deus de seus pais, começando de madrugada, falou-lhes por intermédio dos Seus mensageiros, porque Se compadecera do Seu povo.” II Crôn. 36:15. Deus foi bastante explícito quando disse que, se o povo não desse ouvido a Seus profetas, Ele não teria outro remédio para ajudá-lo a superar seus problemas pessoais ou nacionais: “Eles, porém, zombavam dos mensa-

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CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS

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geiros de Deus, desprezavam as Suas palavras e mofavam dos Seus profetas, até que... não houve remédio algum.” II Crôn. 36:16. No livro A Prophet Among You,7 T. Housel Jemison alistou oito razões por que Deus usou profetas em vez de alguns recursos dramáticos e espetaculares tais como escrever Sua vontade nas nuvens ou proferi-la como trovão no amanhecer de cada dia: 1. Os profetas prepararam o caminho para o primeiro advento de Cristo. 2. Como representantes do Senhor, os profetas mostraram ao povo que Deus valorizava os seres humanos a ponto de escolher dentre eles homens e mulheres para representá-Lo. 3. Os profetas eram um lembrete constante da proximidade e disponibilidade da instrução divina. 4. As mensagens comunicadas pelos profetas cumpriam o mesmo propósito que uma comunicação pessoal do Criador. 5. Os profetas eram uma manifestação do que a comunhão com Deus e a transformadora graça do Espírito Santo podia realizar na vida humana. 6. A presença dos profetas punha o povo à prova no tocante à atitude deles para com Deus. 7. Os profetas tomaram parte no plano da salvação, pois Deus tem coerentemente empregado uma combinação do humano e do divino como o meio mais eficaz de alcançar a humanidade perdida. 8. O resultado mais notável da atividade dos profetas é sua contribuição à Palavra Escrita. A Obra dos Profetas Dupla era a obra dos profetas: receber a mensagem divina e transmiti-la fielmente. Esses aspectos se refletem nas três palavras hebraicas para “profeta”. Para ressaltar o papel dos profetas em ouvir a vontade de Deus conforme lhe era revelada, o escritor hebraico usava chozeh ou ro’eh, que traduzido significa “vidente”. A palavra hebraica nabi (a palavra hebraica mais freqüentemente usada para profeta) descreve os profetas enquanto transmitem sua mensa-

gem pela palavra falada ou escrita. Em I Samuel 9:9, percebe-se ambos os papéis: “Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, vamos ao vidente [ro’eh]; porque ao profeta [nabi] de hoje, outrora se chamava vidente [ro’eh].” Chozeh, derivada da mesma raiz da qual recebemos a palavra portuguesa visão, salienta o fato de que o profeta recebe mensagens por meio de visões dadas por ministração divina. Cada um dos três termos hebraicos para “profeta” sublinha o ofício profético como o lado humano do plano divino de comunicação. No Novo Testamento, a palavra grega prophetes, equivalente a nabi do Antigo Testamento, é transliterada como “profeta”. Seu sentido básico é “falar em nome de”. O verdadeiro “profeta” é aquele que fala em nome de Deus. Longa Linhagem de Esplendor O primeiro (tanto quanto sabemos) desta surpreendente linhagem de corajosos, fiéis e ilustres profetas por intermédio dos quais Deus disse o que pensava foi “Enoque, o sétimo depois de Adão”. Jud. 14. Depois veio Abraão (Gên. 20:7) e Moisés (Deut. 18:15). Miriã foi a primeira mulher a ser chamada de profetisa (Êxo. 15:20). Com o passar do tempo, a nação de Israel perdeu seu enfoque espiritual e tornou-se igual a seus vizinhos na adoração de outros deuses. Durante o longo e sombrio período dos juízes, Israel foi oprimido e humilhado pelas nações vizinhas. Quando Samuel recebeu o chamado para seu papel profético, os filisteus exerciam implacável domínio sobre Israel. Eli, o sumo sacerdote, era homem idoso e ineficiente. Seus dois filhos, Hofni e Finéias, embora responsáveis pela liderança do governo e do sacerdócio, “eram homens ímpios; não conheciam ao Senhor”. I Sam. 2:12. Não é de admirar que “naqueles dias, a palavra do Senhor era mui rara; as visões não eram freqüentes”. I Sam. 3:1.8 A “palavra do Senhor era mui rara” em Israel porque raros eram os homens e mulheres a quem se podia confiar as mensagens celestiais. Deus estava disposto a guiar Seu povo,

mas faltavam homens e mulheres pelos quais pudesse, de maneira segura, comunicar Sua palavra. Quando as visões não eram freqüentes, a situação espiritual e política de Israel tornava-se embaraçosa. Israel só recuperava seu bem-estar quando o ofício profético era restaurado. Exemplo: a restauração de Israel como uma nação livre e abençoada coincidiu exatamente com o ministério profético de Samuel. A longa vida deste profeta é um relato surpreendente da maneira como um só homem pode alterar o curso de toda uma nação. Os primeiros anos de sua vida, depois de sua mãe o haver entregue ao Senhor, são bem conhecidos: “E o menino Samuel ia crescendo em estatura e em graça diante do Senhor, como também diante dos homens”. I Sam. 2:26. À medida que Samuel amadurecia, sua liderança espiritual se tornava manifesta: “Crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor.” I Sam. 3:19 e 20. Posteriormente, o “Senhor apareceu a Samuel em Siló. ... E veio a palavra de Samuel a todo o Israel.” I Sam. 3:21-4:1. A fidelidade de Samuel como mensageiro de Deus tornou possível a Deus inverter a desgraça de Israel. O exemplo espiritual, a exortação e a liderança nacional do profeta foram tão eficientes que o relato declara: “Assim, os filisteus foram abatidos e nunca mais vieram ao território de Israel, porquanto foi a mão do Senhor contra eles todos os dias de Samuel.” I Sam. 7:13. A vida de Samuel é uma ilustração clara e profunda de como o Espírito de Profecia pode ser eficiente no estabelecimento do programa de Deus na Terra. Quem pode imaginar o que será possível realizar nestes últimos dias se dermos ouvido ao Espírito de Profecia! Tendo Samuel idade avançada, algo quase inexplicável aconteceu. Os líderes israelitas vieram ter com ele pedindo que lhes constituíssem “um rei..., para que nos governe, como o têm todas as nações”. I Sam. 8:4. Esqueceram que sua soberania restaurada e situação

aprazível se deviam à liderança profética de Samuel. Deus advertiu os líderes de que um rei traria provas e dificuldades a seu país – mas eles persistiram: “Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governarnos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras.” Verso 20. Embora Israel tenha rejeitado o plano de Deus governar Seu povo (teocracia), Deus, porém, não rejeitou a Israel. Não retirou o dom profético. Desde o tempo de Saul, o primeiro rei de Israel, até os dias da desolação em que tanto Israel como Judá foram levados cativos para Assíria e para Babilônia, trinta profetas são mencionados pelo nome na Bíblia. Além deles, houve profetas anônimos, junto com os “filhos dos profetas”. Pouco Sucesso Quanto sucesso obtiveram os profetas? Bem pouco, em grande parte devido aos líderes nacionais que os rejeitaram. Repare Jeoaquim (Jer. 36), para quem o profeta Jeremias recebeu ordens de Deus de enviar palavras de condenação e esperança. Baruque, o assistente de redação de Jeremias, leu a mensagem “diante de todo o povo”. Verso 10. O rolo caiu sem demora nas mãos dos conselheiros da corte, os quais também ficaram grandemente impressionados. Eles insistiram com o rei Jeoaquim para que também lesse a mensagem de Jeremias. O rei pediu a Jeudi que o lesse em voz alta. Mas, tendo o ministro de confiança do rei lido apenas “três ou quatro folhas do livro, cortou-o o rei com um canivete de escrivão e o lançou no fogo que havia no braseiro, e, assim, todo o rolo se consumiu no fogo que estava no braseiro. Não se atemorizaram, não rasgaram as vestes”. Jer. 36:23 e 24. Lamentavelmente, Jeoaquim era o tipo de muitos líderes espirituais, até mesmo de líderes cristãos de nossa época, que destruiriam completamente, se pudessem, a mensagem de Deus e Seus mensageiros. Muitos têm procurado, através dos anos, seja com o “canivete de escrivão”, seja com benigna negligência, anular a eficácia de um profeta.

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A mensagem de Deus, porém, sobrevive em benefício daqueles que buscam conhecer Sua vontade. Davi é outro exemplo de líder israelita que recebeu uma mensagem de reprovação da parte de um profeta. Mas o resultado foi o oposto da experiência de Jeoaquim. Depois de o rei Davi ter mandado assassinar Urias para poder casar-se com Bate-Seba, a esposa de Urias, Deus enviou o profeta Natã a Davi. Sem procurar evasivas com palavras de compaixão ou favor, Natã apontou o dedo para Davi e proferiu a palavra de condenação: “Tu és o homem!” II Sam. 12:7. Davi aceitou a palavra do Senhor – e rendeu-se: “Pequei contra o Senhor.” II Sam. 12:13. (Ver também Sal. 51.) Davi é um dos mais admiráveis exemplos daqueles que, atendendo às palavras condenatórias do Senhor, mudaram seu futuro para melhor. Seu exemplo tem sido muitas vezes mencionado na história da igreja. Nomes Aplicados às Mensagens Proféticas Diversos termos são empregados na Bíblia para descrever as mensagens apresentadas pelos profetas: conselho (Isa. 44:26); mensagem do Senhor (Ageu 1:13); profecia ou profecias (II Crôn. 9:29; 15:8; I Cor. 13:8); testemunhos (I Reis 2:3; II Reis 11:12; 17:15; 23:3; muitos versos do Sal. 119) e Palavra de Deus (I Sam. 9:27; I Reis 12:22). Cada termo, apesar de facilmente intercambiável, enfatiza determinado aspecto do sistema divino de comunicação. “Testemunhos”, por exemplo, sugere “mensagens”. O pensamento incluso na expressão “testemunho de Jesus” (Apoc. 12:17 e 19:10) é que as mensagens ou a vontade de Jesus são reveladas quando um profeta fala ou escreve. Como Deus e os Profetas Interagem Os profetas reconhecem claramente a presença e o poder do Espírito Santo no papel que desempenham como mensageiros de Deus. Pedro compreendia bem essa relação: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da par-

te de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” II Ped. 1:21. Considere a experiência de Saul: “Chegando eles a Gibeá, eis que um grupo de profetas lhes saiu ao encontro; o Espírito de Deus se apossou de Saul, e ele profetizou no meio deles.” I Sam. 10:10. Ezequiel referiu-se muitas vezes à presença do Espírito Santo: “Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava.” Ezeq. 2:2. (Ver também 3:12, 14 e 24; 8:3; 11:5; 37:1.) De que modo o profeta reconhecia a presença e o poder do Espírito Santo? Por meio de visões e sonhos fora do comum, acompanhados de fenômenos físicos. Muitos viram o cumprimento da promessa de Deus: “Se entre vós houver profeta, Eu, o Senhor, a ele Me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele.” Núm. 12:6. (A Bíblia não faz distinção clara entre visão profética e sonho profético. Os termos parecem ser usados de maneira permutável.) Em Daniel 10, o profeta descreve alguns dos fenômenos físicos que acompanharam “esta grande visão”. Verso 8. Embora ele tivesse caído “sem sentidos, rosto em terra”, conseguiu ouvir “a voz das suas palavras”. Verso 9. Havia outras pessoas com Daniel durante a visão, mas só ele teve “aquela visão”. Verso 7. Daniel sofria alterações físicas enquanto se achava em visão: “Não ficou força em mim; e transmudou-se em mim a minha formosura em desmaio, e não retive força alguma.” Verso 8. Quaisquer que possam ter sido os fenômenos específicos que acompanhavam uma visão ou sonho, os profetas sabiam que Deus lhes falava. O que sabemos sobre as mensagens dos profetas e a maneira como estas foram proferidas acha-se registrado na Bíblia. A princípio nem todas as mensagens que temos hoje estavam na forma escrita. Algumas eram sermões públicos, outras eram cartas a amigos ou a grupos congregacionais; algumas eram

anúncios oficiais feitos por reis a seus súditos. Alguns dos inspirados escritos proféticos nem mesmo foram escritos pelos profetas. Das abundantes mensagens proféticas apresentadas através de vários milhares de anos, Deus supervisionou uma compilação que chamamos de Bíblia. Esta amostragem foi preservada para um propósito: “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado.” I Cor. 10:11. Como os Profetas Transmitiam as Mensagens Através da História, o Espírito de Profecia tem usado três métodos para apresentar as mensagens de Deus: Oral, Escrito e Dramatizado. Oral. A apresentação sob a forma de sermão normal talvez seja a modalidade mais conhecida da obra de um profeta. Pensamos imediatamente em Jesus proferindo Seu sermão no Monte das Bem-aventuranças (Mat. 5-7) ou do sermão de Pedro no dia de Pentecostes (Atos 2). Todo o livro de Deuteronômio foi um discurso oral em que Moisés passou em revista os quarenta anos da história israelita. Muitos dos profetas menores apresentaram primeiramente suas mensagens sob a forma oral. Além dessas apresentações de caráter mais formal, os profetas também registraram por escrito os conselhos dados anteriormente a líderes ou grupos. Isaías registrou sua entrevista com Ezequias (Isa. 37). A maior parte do livro de Jeremias é um resumo escrito de suas mensagens públicas. Ezequiel transcreveu suas primeiras conversas com os líderes de Israel. Por exemplo: “No sexto ano, no sexto mês, aos cinco dias do mês, estando eu sentado em minha casa, e os anciãos de Judá, assentados diante de mim, sucedeu que ali a mão do Senhor Deus caiu sobre mim.” Ezeq. 8:1. (Ver 20:1.) Algumas entrevistas particulares, como a de Natã com Davi (II Sam. 12:1-7), a de Jeremias com Zedequias (Jer. 38:14-19), e a de Jesus com Nicodemos (João 3), foram também consideradas pelo Espírito de Profecia como dignas de uma aplicação mais ampla.

Além de seus deveres públicos e oficiais, os profetas escreviam cartas particulares às pessoas que tinham necessidades específicas. Escrito. As mensagens escritas apresentam vantagens sobre as outras formas de comunicação. Podem ser lidas e relidas. Comparadas com a apresentação oral, elas são menos sujeitas a interpretações errôneas. O Senhor ordenou a Jeremias que escrevesse um livro contendo as palavras que Ele lhe daria. Jeremias pediu a Baruque para ser seu assistente de redação, e o livro finalmente foi lido perante o povo de Jerusalém e perante o rei. Anos depois, o profeta Daniel (9:2) declara haver lido as mensagens de Jeremias, nas quais este profeta prometia libertação para o povo de Deus após setenta anos de cativeiro. O próprio Daniel recebeu instruções para escrever um livro dirigido especificamente àqueles que viveriam no “tempo do fim”. Dan. 12:4. O apóstolo Paulo escreveu catorze livros do Novo Testamento, sendo todos, exceto um, cartas para várias igrejas ou seus pastores. Algumas de suas cartas não foram incluídas na Bíblia, como é o caso da carta à igreja de Laodicéia (Col. 4:16). Pedro também escreveu cartas a vários grupos de igreja: “Amados, esta é, agora, a segunda epístola que vos escrevo; em ambas, procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida.” II Ped. 3:1. Ele também escreveu cartas particulares, como a que foi endereçada a Silvano (I Ped. 5:12). João escreveu pelo menos três cartas, além do Evangelho e do livro de Apocalipse: “Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa.” I João 1:4. Cartas Cheias de Autoridade As cartas dos profetas encerravam a mesma autoridade que seus sermões convencionais. Em alguns casos, as cartas eram mais úteis do que um sermão, pois eram escritas a pessoas específicas com problemas específicos. As cartas endereçadas a uma pessoa ou a uma igreja tornaram-se igualmente benéficas a outras, à medida que essas cartas (e sermões) eram copiadas e amplamente distribuídas. Pessoas de todos os lugares, através dos tem-

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pos, têm-se identificado com essas inspiradas e práticas aplicações dos princípios divinos às particularidades da vida. Dramatização. A apresentação de parábolas por palavras ou ações é um recurso de ensino muito empregado pela Bíblia. Jesus fez uso abundante de parábolas para tornar claro o valor dos princípios divinos. O ministério de Jeremias utilizou muitas vezes a parábola da ação e do exemplo. Deus lhe pediu que não se casasse (Jer. 16:1 e 2) a fim de tornar-se para os judeus um lembrete vivo da experiência penosa por que estavam prestes a passar durante a destruição de Jerusalém. Pense nos recursos audiovisuais da “botija de oleiro” (Jer. 19), quebrada como sinal da queda de Jerusalém; ou das “correias e canzis” (Jer. 27) que pressagiavam o iminente jugo de Babilônia. À semelhança de Jeremias, Ezequiel muitas vezes exprimiu suas mensagens proféticas sob a forma de parábolas. Os exemplos incluem o rolo que ele deveria comer (Ezeq. 3:1-3); a espada afiada que usou como navalha de barbeiro na cabeça e na barba (Ezeq. 5:1); o caldeirão com comida (Ezeq. 24:3 e 4); e o vale de ossos secos (Ezeq. 37). As mensagens veiculadas por meio de parábolas captavam a atenção e eram mais facilmente relembradas. Ao examinar esses vários métodos de captar a atenção, ficamos impressionados ao constatar o fato de que Deus selecionava o método que melhor se adaptasse à ocasião. Deus Se adapta com facilidade e é persistente. Todos os métodos são autênticos, pois procedem da mesma Fonte. O sermão deuteronômico de Moisés, as entrevistas pessoais de Isaías, os sermões transcritos de Jeremias, as cartas de Paulo, as dramatizações parabólicas de Ezequiel, os livros de Daniel, o sermão de Pedro no Pentecostes, a entrevista de Jesus com Nicodemos – tudo foi inspirado pelo Espírito. “Homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” II Ped. 1:21. Assistentes de Redação Sabemos bem pouco sobre a maneira como os autores bíblicos preparavam seus materiais. Sabemos apenas o que nos contaram.

Jeremias explicou a maneira como utilizava Baruque como seu assistente de redação: “Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias; e escreveu Baruque, no rolo dum livro, enquanto Jeremias lhas ditava, todas as palavras que o Senhor lhe havia falado.” Jer. 36:4. Quando os oficiais do rei ouviram Baruque ler essas mensagens, perguntaram: “Declaranos, como escreveste isto? Acaso, te ditou o profeta todas estas palavras?” Baruque lhes respondeu: “Ditava-me pessoalmente todas estas palavras, e eu as escrevia no livro com tinta.” Jer. 36:17 e 18. Baruque, conhecido como escrivão (36:26), ao que parece era bastante culto. Jeremias utilizava as habilidades literárias deste homem a fim de preparar a forma escrita das mensagens que comunicava oralmente: “Tomou, pois, Jeremias outro rolo e o deu a Baruque, filho de Nerias, o escrivão, o qual escreveu nele, ditado por Jeremias, todas as palavras do livro que Jeoaquim, rei de Judá, queimara; e ainda se lhes acrescentaram muitas palavras semelhantes.” Jer. 36:32. Diversos Assistentes de Paulo No Novo Testamento, Paulo utilizou diversos assistentes de redação. Tércio ajudou-o a preparar o original da epístola aos Romanos (16:22). Ao que parece, Sóstenes o ajudou na escrita da primeira carta aos Coríntios (1:1). Na prisão romana, Paulo ditou sua segunda carta a Timóteo; e Lucas, seu médico, a preparou na forma escrita.9 Paulo tinha excelentes conhecimentos de grego, conforme o atestavam os líderes judeus. Mas havia justas razões para que ele empregasse assistentes de redação. Na prisão, sua capacidade de escrever ficara extremamente reduzida, mas os assistentes podiam tomar seus pensamentos e registrá-los da maneira mais conveniente. Alguns acham que seu “espinho na carne” era uma vista fraca (I Cor. 12:7-9; Gál. 4:15). Seja qual for o método que Paulo tenha empregado na escrita de suas epístolas, aqueles que liam essas cartas (ou as ouviam ser lidas) sabiam que estavam escutando mensagens inspiradas. A diferença significativa no estilo grego (não necessariamente no conteúdo) de cada uma de suas cartas sugere nitidamente que

Paulo utilizou diversos assistentes literários com variados talentos de redação.10 Pedro se referia a seu assistente de redação pelo nome de Silvano (Silas), “nosso fiel irmão”. I Ped. 5:12. Por que Pedro precisaria de auxílio em redação? Por várias razões: além de não ter recebido instrução acadêmica, Pedro passava pelas mesmas restrições carcerárias de Paulo; e visto que sua língua materna era o aramaico, ele provavelmente não era fluente no grego. A primeira epístola de Pedro é escrita em grego elegante e de alto nível, sinal de uma mente culta que reflete a assistência de Silvano. A segunda epístola de Pedro, no entanto, é escrita num estilo literário rudimentar, embora a verdade resplandeça de maneira notável. Obviamente, Silvano não estava disponível a curto prazo, e Pedro escreveu-a ele mesmo ou contratou outro escriba sem o talento literário de Silvano.11 Diferenças Óbvias Entre I e II Pedro A diferença entre a primeira epístola de Pedro e a segunda é tão óbvia que a autoria de Pedro, de uma ou mesmo de ambas as cartas, tem sido questionada. Allan A. McRae observou: “Não podemos descartar a idéia de que um escritor possa, ocasionalmente, haver transmitido a um assistente a idéia geral do que ele queria, dizendo-lhe para colocar isto na forma escrita.12 Nesse caso, ele teria verificado o original para ter a certeza de que o texto representava o que ele havia querido dizer e, portanto, ele podia verdadeiramente ser chamado seu autor. O Espírito Santo teria guiado todo o processo para que a redação definitiva exprimisse as idéias que Deus desejava transmitir a Seu povo. “É provável que Paulo raramente seguisse este último procedimento, visto ser bastante culto e ter confiança em sua capacidade de expressar-se em grego. Mas a situação pode ter sido diferente no caso de Pedro e João. O estilo da primeira epístola de Pedro difere tanto do da segunda que alguns críticos sugeriram uma fraude. Contudo, Pedro podia muito bem ter ele mesmo escrito um livro em grego (II Pedro?) e expresso seu pensamento em aramaico a um assistente que ti-

vesse mais experiência de redigir em grego (I Pedro). Esse assistente podia então ter registrado as idéias de Pedro em seu estilo, efetuando depois as alterações sugeridas por Pedro. As duas cartas difeririam assim em estilo, mas, sob a orientação do Espírito Santo, expressariam o pensamento de Pedro como se ele houvesse verdadeiramente ditado cada palavra. João Calvino defendia esse ponto de vista, embora não tivesse dúvidas de que ambas apresentavam com exatidão o pensamento de Pedro.”13 Ao comparar o Evangelho de João com o livro de Apocalipse, vemos novamente estilos literários surpreendentemente diferentes. As evidências parecem indicar que o apóstolo João escreveu ambos os livros, ainda que o estilo literário seja muito dessemelhante. O livro de Apocalipse é geralmente construído numa estrutura grega frouxa (ver pág. 541), enquanto o Evangelho de João se conforma aos padrões literários clássicos – uma indicação clara de que os escribas eram pessoas diferentes.14 Parte da diferença pode ser atribuída ao fato de João estar em idade avançada quando escreveu o Apocalipse. Como o Evangelho de Lucas Foi Escrito Outro modo de encarar a assistência editorial no preparo do material bíblico é fornecido pela análise de como e por que o livro de Lucas foi preparado. Lucas não foi uma testemunha ocular do ministério de Cristo. Provavelmente ele nunca ouvira Jesus falar. Contudo, o Evangelho de Lucas pode ser comparado ao de Mateus, Marcos e João no que se refere à fidelidade com que palavras e atos de Jesus foram registrados. Como Lucas fez isto? Obtendo de testemunhas oculares os relatos mais válidos e apresentando-os de maneira coerente.15 Lucas diz isso da seguinte maneira: “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de pro-

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funda investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído.” Luc. 1:1-4. Deus comunicou Sua mensagem não por meio de transcrição mecânica, mas pelos atos e palavras que homens e mulheres podiam entender. Os profetas que ouviram Deus lhes falar diretamente comunicaram essas mensagens usando os processos mentais de sua época e os idiomas e analogias que seus ouvintes seriam capazes de entender. Compreender corretamente o processo de revelação/inspiração evita as angustiosas inquietações que as pessoas sentem quando vêem nos Evangelhos claras diferenças entre os relatos do mesmo acontecimento ou até mesmo nas mensagens de Jesus. Nada perturba mais alguns estudantes sinceros do que observar as formas diferentes como os escritores bíblicos descrevem o mesmo acontecimento, “citam” o mesmo diálogo ou narram as parábolas de Jesus. Ter duas versões da Oração do Senhor, conforme registradas em Mateus 6 e Lucas 11, desconcerta aqueles que acreditam erroneamente que os escritores bíblicos escreveram, palavra por palavra, o que o Espírito Santo lhes ditava. Inspiração Verbal ou de Pensamento A inspiração verbal e isenta de erro faz supor que o profeta é um aparelho de gravação, que transmite de maneira mecânica e infalível a mensagem de Deus. A crença numa inspiração mecânica não concebe diferenças no registro de uma mensagem ou acontecimento. A inspiração verbal requer profetas que transmitam as palavras exatas fornecidas pelo Guia celestial assim como um escrivão registra tudo quanto é dito pelas testemunhas num tribunal. Não se dá aos profetas nenhuma oportunidade para usarem sua própria individualidade (e limitações) na expressão das verdades que lhe foram reveladas. Um dos problemas óbvios enfrentados pelos que crêem na inspiração verbal é o que fazer ao traduzir a Bíblia, do hebraico ou aramaico do Antigo Testamento ou do grego do Novo Testamento, para outras línguas. Outro problema é Mateus 27:9 e 10, onde o evangelista faz uma referência a Jeremias

em vez de a Zacarias (11:12) como fonte do Antigo Testamento para uma profecia messiânica. Isso pode ter sido um erro do copista. Mas se o erro foi do próprio Mateus, é um equívoco humano que qualquer professor ou pastor pode cometer, um equívoco que não causa problema para os defensores da inspiração de pensamento. Por quê? Porque os defensores da inspiração de pensamento entendem o que Mateus queria dizer! Ou, o que Pilatos realmente escreveu na inscrição posta sobre a cruz de Cristo? Mateus 27:37, Marcos 15:26, Lucas 23:38 e João 19:19 registram a inscrição de modo diferente. Para os defensores da inspiração de pensamento, a mensagem é clara; para os proponentes da inspiração verbal, é um problema! Os Profetas São Inspirados, não as Palavras Para os que crêem na inspiração de pensamento, Deus inspira o profeta, não suas palavras.16 Os defensores da inspiração de pensamento lêem a Bíblia e vêem Deus atuando por intermédio de seres humanos com suas características individuais. Deus comunica os pensamentos; e os profetas, ao transmitirem a mensagem divina, usam toda a capacidade literária que possuem.17 Especialistas universitários relatarão uma mensagem ou descreverão um acontecimento de forma muito diferente da de um pastor de ovelhas. Mas se ambos foram inspirados por Deus, a verdade será ouvida igualmente tanto por instruídos como por iletrados. Essa é a maneira como a Bíblia foi escrita, todos os escritores usando as melhores palavras para expressar fielmente a mensagem que haviam recebido do Senhor. No processo de revelação/inspiração, a revelação enfatiza a ação divina que comunica informação. Os adventistas do sétimo dia crêem que a mensagem, ou conteúdo, divinamente revelada é infalível e autorizada. “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra, e luz para os meus caminhos.” Sal. 119:105.18 Já a inspiração se refere ao processo pelo qual Deus habilita uma pessoa para ser Sua mensageira. Esse tipo de inspiração é diferente do uso coloquial da palavra quando descrevemos algum poeta ou cantor talentoso como sendo “inspirado”. Paulo escreveu ao jovem Timóteo que “to-

da a Escritura é inspirada por Deus”. II Tim. 3:16. A palavra grega usada por Paulo para “inspiração” é theopneustos, uma contração de duas palavras: “Soprado por Deus.” Isso é mais descritivo do que uma simples impressão poética. Quando Daniel, por exemplo, estava em visão, ele literalmente não conseguia respirar (Dan. 10:17)! Pedro disse que os profetas eram “movidos pelo Espírito Santo”. II Ped. 1:21. A palavra grega para “movidos” é pheromeni, a mesma palavra que Lucas usou (Atos 27:17 e 27) para descrever a maneira como o barco em que ele se encontrava estava sendo “impelido” por uma terrível tempestade através do Mar Mediterrâneo. Os profetas não confundiam o “movimento” do Espírito com as emoções normais. Eles sabiam quando o Senhor lhes falava. Eles eram inspirados! Outra palavra bastante usada para descrever o sistema divino de comunicação é iluminação. Quando os profetas proferem suas mensagens, como homens e mulheres reconhecem que essas mensagens são autênticas? O mesmo Espírito que fala por meio dos profetas fala àqueles que ouvem ou lêem a mensagem do profeta. O ouvinte ou leitor é “iluminado” (mas não inspirado). Além disso, o Espírito Santo capacita o crente sincero a entender a mensagem e fazer dela uma aplicação pessoal.19 A maneira como o processo de revelação/inspiração atuou no ministério de Ellen White será discutida no capítulo 13. Felizmente, a Sra. White falou convincente e claramente sobre como funcionava esse processo tanto nos tempos bíblicos como em seu ministério. Mensagens Proféticas não Preservadas A Bíblia não contém tudo quanto os profetas falaram ou escreveram. Não dispomos, por exemplo, de tudo o que Jesus disse ou fez.20 Significa isso que as mensagens não preservadas eram menos importantes ou menos inspiradas do que as que foram registradas na Bíblia? Não! Tudo o que Deus diz é importan-

te e inspirado. Algumas mensagens, porém, eram de interesse local. Algumas já estavam inclusas em outras mensagens que foram preservadas. Sem dúvida, a maior quantidade de mensagens proféticas, incluindo as palavras de Jesus, não foi preservada. Pode-se classificar os profetas bíblicos em quatro grupos:21 1. Profetas que escreveram uma parte da Bíblia, tais como Moisés, Jeremias, Paulo e João. 2. Profetas que não escreveram nada da Bíblia, mas cujas mensagens e ministérios são amplamente descritos na Bíblia, tais como Enoque, Elias e Eliseu. 3. Profetas que deram testemunho oral (talvez até mesmo escrito), mas cujas palavras não foram preservadas. Através de todo o Antigo Testamento, há muitos profetas anônimos, incluindo os setenta anciãos, que receberam o Espírito Santo e profetizaram (Núm. 11:24 e 25), o grupo que se uniu a Saul depois que ele se tornou rei (I Sam. 10:5, 6 e 10) e aqueles que Obadias escondeu em cavernas (I Reis 18:4 e 13). No Novo Testamento, por exemplo, as quatro filhas de Filipe profetizavam, mas suas mensagens não foram registradas (Atos 21:9). 4. Profetas que escreveram livros que não foram preservados. Entre esses estavam Natã (I Crôn. 29:29), Gade (I Crôn. 29:29), Semaías (II Crôn. 12:15), o autor do Livro dos Justos (Jos. 10:13; II Sam. 1:18), Ido (II Crôn. 12:15; 9:29), Odede (II Crôn. 28:9), Aías (II Crôn. 9:29) e Jeú (II Crôn. 20:34). O que foi preservado na Bíblia é a essência da gloriosa linhagem de esplendor pela qual Deus falou a homens e mulheres, “muitas vezes e de muitas maneiras”. Heb. 1:1. O propósito dos escritos bíblicos não é escrever a história completa de tudo o que aconteceu ao povo de Deus no Antigo e no Novo Testamentos. O objetivo principal da Bíblia é dar aos leitores uma compreensão clara do plano da salvação e os melhores lances do grande conflito entre Cristo e Satanás. Além disso, Paulo escreveu que a Bíblia fornece “exemplos” do que é certo e do que é errado, da ver-

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dade e do erro, advertindo os leitores a não caírem (I Cor. 10:12). Deus não Faz Discriminação de Sexo A Bíblia faz referência a muitas profetisas. Moisés considerava sua irmã Miriã uma profetisa (Êxo. 15:20 e 21). Permanecendo ao lado dele desde os seus primeiros anos, ela foi uma fiel porta-voz de Deus. Através dos séculos, Israel teve por ela grande consideração, e a incluiu como um dos três que haviam sido enviados “adiante de ti” (Miq. 6:4) para fundar a nação israelita após o Êxodo. A certa altura, sua natureza humana fez com que ela se rebelasse contra Moisés (Núm. 12), mas este ato infeliz não colocou em risco seu cargo de profetisa verdadeira. Débora foi juíza durante um longo e sombrio período da história de Israel. Repare como essa época foi desoladora: “Foi também congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após eles se levantou, que não conhecia o Senhor, nem tampouco as obras que fizera a Israel. Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor; pois serviram aos baalins. Deixaram o Senhor, Deus de seus pais. ... Pelo que a ira do Senhor se acendeu contra Israel e os deu na mão dos espoliadores, que os pilharam; e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor; e não mais puderam resistir a eles. ... Suscitou o Senhor juízes, que os livraram da mão dos que os pilharam. ... Quando o Senhor lhes suscitava juízes, o Senhor era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz.” Juí. 2:10-18. Débora Era Mais que uma Juíza Débora não foi apenas uma juíza; ela foi a única juíza a ser chamada também de profetisa. (Juí. 4:4.) Foi uma líder espiritual tão convincente que, quando Baraque, seu general, foi convidado a liderar um exército contra os cananeus opressores, ele não quis ir sem a companhia dela. Israel havia reconhecido a liderança espiritual dela, e Baraque queria que a nação soubesse que o que ele tinha sido convidado a fazer era um chamado da li-

derança espiritual deles, e não uma conspiração ambiciosa ou pessoal. Afinal de contas, como poderia ele reunir 10.000 homens para lutar contra um exército adestrado e que possuía “novecentos carros de ferro” (Juí. 4:3), a menos que todos eles estivessem convencidos de que Deus estava na liderança do plano? O relato de Débora como juíza fiel foi tão convincente que seu conselho a respeito do que parecia ser uma empresa impossível foi aceito como a vontade de Deus. Ela falou a palavra do Senhor com autoridade, e colocou em risco a própria vida ao liderar seus compatriotas por preceito e por exemplo rumo ao futuro. Outras mulheres através da História assumiram pesada responsabilidade profética. Fica bastante claro que Deus não levava em conta o sexo quando escolhia uma pessoa para representá-Lo. Hulda foi profetisa durante um grande período de mudanças quando o jovem rei Josias se comprometeu, ele e sua nação, a promover uma profunda reforma espiritual. No processo de “limpeza” do Templo, os obreiros encontraram um exemplar do que podia ser Deuteronômio – um livro que fora estranhamente negligenciado pelos líderes religiosos da nação. Josias, sentindo a necessidade de saber mais sobre aquela descoberta, ordenou a seus conselheiros: “Ide, consultai ao Senhor por mim, e pelo povo, e por todo o Judá, acerca das palavras deste livro que se achou.” II Reis 22:13. Com quem foram ter o sacerdote e os principais conselheiros? Com a “profetisa Hulda, mulher de Salum”. Verso 14. Fazia cinco anos que Jeremias vivia em Jerusalém (compare II Reis 22:3 com Jer. 1:2), mas foi de Hulda que se valeram em busca de orientação espiritual! Seja qual for a razão, Hulda havia ganhado o respeito e a confiança de seus contemporâneos. Recorriam a ela quando queriam uma palavra do Senhor. Ela os ajudava a entender mais claramente o significado dos escritos de Moisés. Elucidava a Palavra escrita e fazia predições específicas. Suas percepções e predições bíblicas eram aceitas como divinamente inspiradas.

Isaías se referiu à própria mulher como “a profetisa” (8:3) por ocasião do nascimento de seu filho, e em nenhum momento mais. Quando José e Maria levaram o menino Jesus ao Templo para dedicação, encontraram duas pessoas interessantes, além do sacerdote que realizava a cerimônia. (Ver Luc. 2.) Simeão “homem justo e temente a Deus”, esperava o Libertador de Israel, e ele mesmo fizera várias predições comoventes acerca do ministério do Salvador. Achava-se no Templo naquele dia Ana, uma profetisa (verso 36) que também reconheceu o menino Jesus como o Messias. Devido a sua clara compreensão das Escrituras, ela entendeu a importância da criança; e assim “falou a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. Verso 38. Mais de trinta e três anos depois, a jovem igreja cristã crescia rapidamente em número e influência. A presença de homens e mulheres piedosos mediante os quais Deus revelava Seu conselho era uma das razões para esse fenômeno religioso.22 A descrição bíblica do sistema divino de comunicação inclui tanto homens como mulheres. Embora mencionadas menos vezes que os homens, as mulheres profetisas foram reconhecidas por seus contemporâneos como autênticas mensageiras do Senhor. Elas explicaram as Escrituras, aconselharam líderes e fizeram importantes predições. Abismo Entre Malaquias e João Batista O registro da ilustre linhagem dos profetas e profetisas contido no Antigo Testamento encerra-se com Malaquias, que viveu na última metade do século quinto a.C. Ficou o sistema divino de comunicação fora do ar por mais de quatro séculos? Ao que parece, Israel não recebeu mais o benefício dos profetas nacionais durante esse período. Em compensação, as Escrituras (o registro profético) foram grandemente valorizadas. Tornaram-se o centro da adoração nas sinagogas, recentemente construídas por to-

do o Israel durante a época do regresso do exílio babilônico. Mas será que Deus retirou o “dom de profecia” durante esse período? Ellen White faz um interessante comentário sobre esse longo período entre os profetas bíblicos: “Fora da nação judaica houve homens que predisseram o aparecimento de um instrutor [divino]... e foi-lhes comunicado o Espírito de inspiração.”23 Durante esse período intertestamentário (entre o tempo de Malaquias e o de Mateus), mestres “pagãos” estudaram as Escrituras hebraicas (talvez traduzidas para a sua própria língua). A estes Deus falou enquanto buscavam a verdade.24 Os “magos” que vieram do Oriente (Mat. 2:1) eram, sem dúvida, exemplos daqueles que, em terras gentias, “predisseram o aparecimento de um instrutor [divino]” e foram dotados com o “Espírito de inspiração”. Eles sabiam o tempo e o lugar do nascimento do Messias. Deus falou diretamente a esses homens sinceros, instando com eles para que regressassem a sua terra sem entrar em contato com o perverso Herodes. Cumpre-nos meditar bem neste incidente e nesta verdade geral: “Deus não faz acepção de pessoas.” Atos 10:34. Toda geração possui, em algum lugar, homens e mulheres, judeus ou gentios, que são testemunhas divinamente inspiradas. Seus nomes talvez não constem nas Escrituras Sagradas, mas seu testemunho existe, mantendo acesa a chama da verdade. Malaquias, o último profeta do Antigo Testamento, encerrou suas mensagens com a predição: “Eis que Eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor.” Mal. 4:5. O Primeiro Século da Era Cristã 25 Falando a respeito de João Batista, disse Jesus: “Mas para que saístes? Para ver um profeta? Sim, Eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é de quem está escrito: Eis aí Eu envio diante da Tua face o Meu mensageiro, o

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qual preparará o Teu caminho diante de Ti.” Mat. 11:9 e 10. Mesmo antes de seu nascimento, João Batista estava destinado a ser porta-voz de Deus. O anjo dissera a Zacarias, seu pai: “Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. ... Ele será grande diante do Senhor. ... Converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para... habilitar para o Senhor um povo preparado.” Luc. 1:13-17. João encaminhou homens e mulheres para Deus. Não se transformou num guru com seguidores a sua volta. Mais do que todos os outros profetas, antes e depois dele, João tinha a honrosa missão de indicar pessoalmente o Cristo vivo. O momento mais sublime de sua vida foi quando afirmou: “Convém que Ele cresça e que eu diminua.” João 3:30. Nem todos pensam em Jesus como profeta. Mas Ele de fato o era: “E a multidão dizia: Este é Jesus, o Profeta de Nazaré da Galiléia.” Mat. 21:11; Luc. 7:16. O Profeta Jesus Os doze discípulos consideravam Seu Mestre um profeta: “O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo.” Luc. 24:19.26 Jesus Se referia a Si mesmo como profeta: “E escandalizavam-se nEle. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” Mat. 13:57 e 58. Jesus sentiu o aço frio da ingratidão e da rejeição que a maioria dos profetas e profetisas suportaram. Pessoa alguma apresentou melhores credenciais pessoais ou vida mais impecável e coerente do que Ele, mas os profetas geralmente não são pessoas benquistas pelo fato de falarem em nome de Deus e não apoiarem os desejos do coração humano.27

Pela primeira vez na história do mundo, veio um profeta que não apontou para outro. O Profeta Jesus disse a respeito de Si mesmo: “A obra de Deus é esta: que creiais nAquele que por Ele foi enviado. ... Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do Céu; o verdadeiro pão do Céu é Meu Pai quem vos dá. Porque o pão de Deus é o que desce do Céu e dá vida ao mundo. ... Eu sou o pão da vida.” João 6:29-35. Como no caso de todos os profetas verdadeiros, o principal alvo de Jesus era dizer a verdade sobre Deus e indicar a maneira pela qual homens e mulheres podem unir-se outra vez à família celeste: “E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu Te glorifiquei na Terra, consumando a obra que Me confiaste para fazer.” João 17:3 e 4. Antes de voltar para o Céu, Jesus tomou providências para que o ofício profético continuasse até Sua vinda. Seria preciso continuar proclamando as mesmas boas novas acerca de Deus. As mesmas boas novas sobre a maneira como rebeldes podem ser transformados em crentes felizes e obedientes. Esta provisão profética seria uma das principais responsabilidades do Espírito Santo, que concederia “dons aos homens”. Efés. 4:8. O início da igreja cristã coincide com a renovação dos dons espirituais: “E Ele mesmo [Jesus] concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.” Versos 11 e 12. Esses dons não foram atribuídos apenas à igreja cristã; eles deviam permanecer na igreja até o fim: “Até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina.” Versos 13 e 14. Por quanto tempo? Enquanto a igreja existir; enquanto homens e mulheres imperfeitos e imaturos precisarem de tempo para “crescer” até à “medida... de Cristo”, apóstolos, profetas,

evangelistas, pastores e mestres serão necessários. Paulo relembra a seus irmãos coríntios que “em tudo fostes enriquecidos nEle, em toda palavra e em todo o conhecimento, assim como o testemunho de Cristo tem sido confirmado em vós”. I Cor. 1:5 e 6. Ou seja, eles haviam crescido espiritualmente e continuaram a amadurecer até o ponto de continuarem a ouvir com atenção as mensagens dos profetas, conhecidas como o “testemunho de Cristo”. Como vimos na página 3, “o testemunho de Jesus [ou Cristo]” (Apoc. 12:17) é o “espírito de profecia”. Apoc. 19:10. Mais adiante Paulo declarou que, enquanto a igreja aguardasse a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, “nenhum dom” lhe faltaria (I Cor. 1:7). Talvez seja significativo o fato de Paulo haver escolhido o “dom de profecia” ao enfatizar que a igreja não ficaria desprovida de qualquer dom até a vinda de Jesus. Provavelmente nenhum dom seria mais necessário para o tempo do fim do que o dom de profecia. Mais tarde, na mesma carta, Paulo forneceu pormenores sobre a maneira como os dons atuariam nas atividades da igreja (I Cor. 12). Embora cada dom tivesse sua obra específica, todos os dons serviriam para o propósito comum de ajudar homens e mulheres a “crescer”. Evidentemente, os dons espirituais são concedidos pelo Espírito (I Cor. 12:7). Eles não são habilidades adquiridas por meio de instrução nem de honras conferidas por seres humanos. O “fruto do Espírito” (Gál. 5:22) deve ser buscado por todos, mas os “dons do Espírito” são distribuídos “como Lhe apraz, a cada um, individualmente”. I Cor. 12:11. Se alguém foi dotado com um dom específico não se deve fazer disso uma prova de comunhão cristã, porque ninguém possui todos os dons. A permanência desses dons espirituais, em especial do dom de profecia, é pressuposta na instrução apostólica. Recordando o conselho de Cristo, de que surgiriam “falsos profetas” no tempo do fim (Mat. 24:24), Paulo advertiu: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o

que é bom.” I Tess. 5:19-21. O bem-estar dos membros da igreja que aguardam o Advento dependerá da maneira como eles aceitam o conselho dos profetas verdadeiros, especialmente da capacidade de discernir o verdadeiro do falso. Desde os Tempos Apostólicos Vimos no último capítulo que os escritores do Novo Testamento esperavam que o dom profético continuasse até o Segundo Advento. Vimos também que o dom profético seria particularmente notório no tempo do fim. (Apoc. 12:17; 19:10.) Mas por que o evidente silêncio, a ausência de voz profética, logo após a morte de João? Os historiadores dividem-se quanto à presença profética durante os últimos 2.000 anos. Em termos gerais, a maioria dos escritores crê que a iluminação profética cessou logo após o segundo século da era cristã. Paul K. Jewett escreveu: “Com a morte dos apóstolos, que não tiveram sucessores, gradualmente os que possuíam o dom de profecia também desapareceram, de modo que, do terceiro século em diante, da tríade original de apóstolos, profetas e mestres, ficaram apenas os mestres. ... Com o advento do montanismo no segundo século, pretendendo novas concepções proféticas que não correspondiam à tradição recebida dos apóstolos, a igreja começou a fazer distinção entre essas profecias e as profecias verdadeiras contidas nas Escrituras. Desse tempo em diante, o dom profético aparece aqui e ali, mas vai dando cada vez mais lugar ao ensino. Ao tempo de Hipólito (235 d.C.) e Orígenes (250 d.C.), a palavra ‘profecia’ se limita às porções proféticas das Escrituras. No lugar do profeta encontra-se o mestre, em especial o catequista e o apologista, que se opõem a toda doutrina falsa e procuram apoiar a exposição que fazem da doutrina verdadeira apelando à autorizada palavra da Escritura.”28 Justino Mártir, um ilustre filósofo pagão do segundo século, uniu-se aos cristãos depois

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de estudar a vida de Jesus. Uma de suas defesas e apelos a seus amigos não cristãos é conhecida hoje como Diálogo com Trifo, um Judeu. Inclusa nesse longo colóquio encontrase a seguinte referência aos dons espirituais, em especial o espírito de profecia: “Diariamente alguns (de vocês) estão-se tornando discípulos no nome de Jesus e abandonando o caminho do erro. Estão recebendo dons, cada um conforme seu mérito, iluminado pelo nome deste Cristo. Pois um recebe o espírito de entendimento, outro de conselho, outro de fortaleza, outro de cura, outro de presciência, outro de ensino e outro de temor a Deus. “A isto Trifo me disse: ‘Queria que você soubesse que está fora de si, falando destes sentimentos.’ “E eu lhe disse: ‘Escute, ó amigo, pois não sou louco nem estou fora de mim; mas foi profetizado que, após a ascensão de Cristo ao Céu, Ele nos libertaria do erro e nos concederia dons. As palavras são estas: ‘Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.’ Em conformidade com isto, nós que recebemos os dons de Cristo, que subiu ao alto, provamos pelas palavras da profecia que vocês, os ‘sábios em si mesmos e entendidos a seus próprios olhos’, são tolos, e honram a Deus e a Seu Cristo somente de lábios. Mas nós, que somos instruídos em toda a verdade, honramos a Eles tanto em atos, como em conhecimento e de coração até a morte.”29 Mais adiante no diálogo, Justino Mártir continua: “Pois os dons proféticos permanecem conosco até hoje. Portanto, você deve entender que (os dons), anteriormente entre sua nação, foram transferidos para nós. E assim como houve falsos profetas no tempo dos santos profetas, assim existem agora falsos mestres entre nós, dos quais o Senhor nos avisou de antemão para deles nos acautelarmos; para que em nenhum aspecto sejamos deficientes, uma vez que sabemos que Ele predisse tudo quanto ia acontecer conosco após Sua ressurreição dos mortos e ascensão para o Céu.”30 Depois de apresentar a Trifo uma retros-

pectiva mostrando que, depois de Cristo, “nenhum profeta se levantou mais dentre vós” (isto é, dentre a nação judaica), Justino Mártir explica o motivo. Os dons espirituais seriam concedidos novamente “pela graça do poder do Seu Espírito... àqueles que crêem em Jesus, de acordo como Ele avalia cada homem. ... Ora, é possível ver entre nós homens e mulheres que possuem os dons do Espírito de Deus.”31 Todos os apóstolos estavam mortos. Cristo estava no Céu. O Espírito Santo fazia Sua prometida obra de conceder a homens e mulheres “dons” para a proclamação do evangelho, sempre que lhe parecia sábio. Eusébio, bispo da igreja em Cesaréia (Palestina), é reconhecido como respeitável fonte de história cristã do segundo e terceiro séculos. Em sua História Eclesiástica, ele registra os nomes de vários líderes cristãos que, segundo ele, foram dotados com os dons espirituais, inclusive o dom de profecia. Concluindo, ele diz: “Ouvimos falar que muitos dos irmãos da igreja possuem dons proféticos, e falam em todas as línguas através do Espírito, e também trazem à luz as coisas ocultas dos homens para o benefício deles, e os quais expõem os mistérios de Deus.”32 Existem alguns fatores que se desenvolveram na igreja cristã capazes de nos ajudar a explicar por que o “dom de profecia” não era mais um fator proeminente? Percebemos que desde cedo o ensino tomou o lugar da profecia, mas por quê? O Ensino Substituiu a Profecia Pode-se apresentar pelo menos duas respostas razoáveis: 1. O excesso de montanistas na última metade do segundo século d.C., que começaram bem repreendendo as igrejas por sua falta de rigor e de zelo, mas que se tornaram “desordenados” em suas interpretações proféticas: “Logo os profetas cristãos deixaram de existir como classe distinta na organização da igreja.”33 2. O surgimento do sacerdotalismo (o advento do sacerdócio como o principal mediador

entre Deus e a humanidade) e a institucionalização dos “santos” canonizados suplantaram a voz do profeta como um elemento visível na vida da igreja.34 Contudo, apesar de a igreja institucionalizada ter deslizado para a escuridão da Idade Média, os dons espirituais se fizeram presentes onde quer que o evangelho fosse fielmente proclamado. Eles não cessaram totalmente. Uma das razões por que sabemos tão pouco
Referências
1. Para uma pesquisa mais extensa sobre os profetas e profetisas desde os tempos patriarcais até o Novo Testamento, leia de A. G. Daniells, The Abiding Gift of Prophecy (Mountain View, CA; Pacific Press Publishing Association, 1936), págs. 36-172. 2. Ver também Isa. 30:21; Mat. 10:19 e 20. 3. Ver também Gên. 19:15; Juí. 6:11-14; Sal. 34:7; Mat. 1:18-25. 4. Ver também Atos 14:17 e Sal. 19:1-2. 5. Ver Êxo. 28:30; Lev. 8:8; Núm. 27:21; I Sam. 22:10; 28:6. 6. Repare na diferença entre os deveres do sacerdote e do profeta: “O sacerdote ocupava-se das cerimônias e rituais do santuário, os quais se centralizavam no culto público, na mediação do perdão de pecados e na manutenção ritual das corretas relações entre Deus e Seu povo. O profeta era principalmente um mestre de justiça, espiritualidade e conduta ética; um reformador moral que apresentava mensagens de instrução, conselho, admoestação e advertência e cuja obra incluía muitas vezes a predição de acontecimentos futuros.” – Siegfried Horn, Seventh-day Adventist Bible Dictionary (SDABD Revised Edition), (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1979), pág. 903. 7. T. Housel Jemison, A Prophet Among You (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1955), págs. 24-28. 8. A expressão “as visões não eram freqüentes” é a tradução de duas palavras hebraicas: paras (“manifestar-se”) e chazon (“visão”). No que diz respeito à nação israelita, nenhuma “palavra do Senhor” estava-se “manifestando”. Este é o primeiro emprego de chazon no Antigo Testamento. A palavra usada com maior freqüência para “visão” é mar’ah, mensagens de Deus quer em sonhos quer em encontros pessoais. O significado básico de chazon é “perceber com visão interior”, enquanto mar’ah deriva de uma raiz que significa “ver visualmente”. 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 353. 10. Ao compararmos as diversas cartas de Paulo, percebemos notável diferença de estilo literário. As cartas pastorais (Primeira e Segunda a Timóteo e Tito), por exemplo, usam um vocabulário extremamente diferente das outras cartas de Paulo. Há nas cartas pastorais 902 palavras diferentes; dessas, 206 não ocorrem nas outras cartas paulinas. Das 112 partículas não traduzíveis (vocábulos enclíticos) presentes em outras cartas paulinas, nenhuma é encontrada nas epístolas pastorais. Ver William Barclay, The Letters to Timothy, Titus, and Philemom (Philadelphia: The Westminster Press, 1975, edição revisada), págs. 8 e 9. 11. “Ele [Silvano] pode ter corrigido e polido necessariamente o grego inadequado de Pedro ou, sendo Silvano homem de tal eminência, pode ter-se dado o caso de Pedro lhe haver dito o que queria dizer e permitido que ele o dissesse, aprovando depois o resultado, e acrescentado ao texto o último parágrafo pessoal. ... Quando Pedro diz que Silvano foi seu instrumento ou agente na escrita desta carta, apresenta-nos a solução para a excelência do grego. O pensamento é o pensamento

sobre este período relativamente silencioso em relação ao dom de profecia pode ser o fato de os escritores da igreja institucionalizada haverem rejeitado os dons espirituais e perseguido aqueles que os recebiam. Não existe, porém, registro daquele longo período: “A história do povo de Deus durante os séculos de trevas que se seguiram à supremacia de Roma está escrita no Céu, mas pouco espaço ocupa nos registros humanos.”35

de Pedro, mas o estilo é o estilo de Silvano.” – William Barclay, The Letters of James and Peter (Philadelphia: The Westminster Press, edição revisada, 1976), pág. 144. . 12 . Certa ocasião quando Ellen White estava doente, ela resumiu seus pensamentos a Marion Davis e esta os escreveu em uma carta a Uriah Smith e George Tenney. A Sra. White assinou a carta. (Carta 96, 1896, 8 de junho de 1896.) Ver 1888 Materials, pág. 1574, e Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 254 e 255. 13. “The Ups and Downs of Higher Criticism”, Christianity Today, 10 de outubro de 1980, pág. 34. A seqüência imaginária de McRae não descreve a maneira como Ellen White escrevia. Ver págs. 108-121. 14. “Não é difícil entender as diferenças lingüísticas existentes entre o Apocalipse, escrito provavelmente quando João estava sozinho em Patmos, e o Evangelho, escrito com a ajuda de um ou mais correligionários em Éfeso.” – SDABC, vol. 7, pág. 720. 15. Ver George E. Rice, Luke, a Plagiarist? (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1983). 16. “A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. Os homens dirão muitas vezes que tal expressão não é própria de Deus. Ele, porém, não Se pôs à prova na Bíblia em palavras, em lógica, em retórica. Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena. Olhem os diversos escritores. “Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 21. Em outras palavras, Deus inspira profetas, não palavras. Compare a síntese do Sermão da Montanha feita por Mateus (Mat. 5-7) com a forma mais condensada de Lucas (Luc. 6). 17. Comentando sobre Gênesis 9:11-16, onde Deus é mencionado como dizendo (ao referir-Se à promessa do arco-íris): “E Eu o verei, para Me lembrar do concerto eterno entre Deus e toda a alma vivente”, Ellen White escreveu que Deus não está sugerindo “que houvesse de esquecer-Se, Ele, porém, falanos em nossa linguagem para que melhor O possamos compreender”. – Patriarcas e Profetas, pág. 106. 18. Ver Raoul Dederen, “The Revelation-inspiration Phenomenon According to the Bibles Writers”, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, Issues in Revelation and Inspiration (Berrien Springs, MI: Adventist Theological Society Publications, 1992), págs. 9-29. 19. João 14:26; João 16:13; I João 3:24; 4:6 e 13; 5:6.

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CAPÍTULO 2 DEUS FALA PELOS PROFETAS

20. “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos.” João 21:25. 21. Ver Jemison, A Prophet Among You, pág. 73. “Nem todos os profetas receberam a mesma missão, nem realizaram a mesma espécie de trabalho, mas todos falaram em nome de Deus. Todos comunicaram mensagens inspiradas pelo Céu. Alguns profetas apresentaram padrões divinos para a conduta humana; alguns revelaram os propósitos de Deus para indivíduos e nações; alguns protestaram contra os males prevalecentes; alguns estimularam o povo à fidelidade; alguns fortaleceram e guiaram governantes nacionais; alguns dirigiram construções e outros tipos de atividades; alguns trabalharam como mestres. No transcurso de sua obra, alguns realizaram milagres, alguns escreveram livros. Em cada caso, os verdadeiros profetas serviram a uma classe de pessoas como porta-vozes de Deus; eles não foram meramente instruídos por Deus no nível pessoal ou familiar.” – Kenneth H. Wood, “Toward an Understanding of the Prophetic Office.” – Journal of the Adventist Theological Society, primavera de 1991, pág. 24. 22. Lucas menciona as quatro filhas de Filipe, “que profetizavam”. Atos 21:9. 23. O Desejado de Todas as Nações, pág. 33. 24. Ibidem. 25. Embora as designações A.E.C. (Antes da Era Cristã) e D.E.C. (Depois da Era Cristã) sejam populares hoje em dia, este livro emprega a.C. (Antes de Cristo) e d.C. (Depois de Cristo) por serem as de uso mais antigo.

26. Veja também Jaroslav Pelikan, Jesus Through the Centuries (New Haven, CT: Yale University Press, 1985), págs. 14-17. 27. “Todo o ministério público de nosso Senhor foi o de um profeta. Ele era muito mais do que isso. Mas foi como profeta que Ele agiu e falou. Foi isso que Lhe deu autoridade sobre a mente da nação. Ele entrou, como era natural, num ofício vago, mas que já existia. Todos os Seus discursos eram, no mais elevado sentido da palavra, ‘profecias’.” – Deão Arthur P. Stanley, History of the Jewish Church, volume III (New York: Charles Scribner’s Son, 1880), pág. 379. 28. Artigo sobre “Prophecy” em The New International Dictionary of the Christian Church, J. D. Douglas, editor geral (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1974), págs. 806 e 807. 29. The Ante-Nicene Fathers (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1981), vol. I, cap. 39, pág. 214. 30. Ibidem, cap. 82, pág. 240. 31. Ibidem, cap. 87, pág. 243. 32. The Ecclesiastical History of Eusebius Pamphilus, traduzido do grego por C. F. Cruse, A.M., (Londres: George Bell and Sons, 1879), Livro III, cap. 38, págs. 111 e 112; Livro V, cap. 7, pág. 175. 33. Artigo “Prophet” na Encyclopedia Britannica, 14ª edição, vol. XVIII. 34. Artigo “Prophet” na Encyclopedia Britannica, 11ª edição, vol. XXII. Artigo “Prophecy” no Westminster Dictionary of Christian Theology, editado por Alan Richardson e John Bowden (Philadelphia: The Westminster Press, 1983), pág. 474. 35. O Grande Conflito, pág. 61.

Perguntas Para Estudo

1. Quais são alguns dos meios (Heb. 1:1) usados por Deus para comunicar-Se com os seres humanos? 2. Por que Deus escolheu profetas e profetisas como Seu principal método de comunicar Suas mensagens? 3. De que três maneiras gerais os profetas e profetisas transmitiam suas mensagens? 4. Que evidência temos de que os escritores bíblicos usavam assistentes de redação? 5. Qual a diferença básica entre inspiração verbal e inspiração de pensamento? 6. Na sua opinião, por que o dom de profecia é o método mais eficaz de Deus comunicarSe com a família humana? 7. Quais são alguns riscos que Deus assume ao falar por meio de profetas e profetisas?

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Características dos Profetas
“Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15 e 16. “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” I Tess. 5:19-21.

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or muitas razões cada profeta é “único”. As experiências de vida e sua própria missão específica num tempo específico da História conferem ao produto uma configuração não repetível de aptidões físicas, mentais, emocionais e espirituais. Desta maneira, mesmo os profetas podem olhar para seu chamado profético num sentido diferente de outros profetas. Kenneth H. Wood descreveu isso muito bem: “Fazer dois biscoitos exatamente iguais é uma coisa; fazer dois profetas justamente iguais é outra coisa bastante diferente. Ao fazer um profeta, Deus toma a pessoa inteira – corpo, alma, espírito, inteligência, personalidade, fraquezas, forças, educação, características individuais – e depois procura por meio dessa pessoa proclamar Sua mensagem e realizar uma missão especial.”1 Devido a essas diferenças individuais e pelo fato de cada profeta ser chamado a dirigirse a determinado público em um momento específico da História (a maior parte da qual é difícil, se não impossível, de reconstruir), não existe nada melhor para o leitor da Bíblia e dos escritos de Ellen G. White fazer do que procurar concentrar a atenção mais na mensagem do que no mensageiro. A autoridade da revelação encontra-se na mensagem, não no mensageiro. Isso não deve diminuir o valor do estudo da vida do profeta. Quanto mais soubermos sobre ele, melhor

entenderemos a sua mensagem. Mas a preocupação prioritária deve ser o conteúdo da contribuição do profeta, não o vaso em que a mensagem está contida. Profetas Compartilham Características Comuns Os profetas assumem seus deveres proféticos com uma mistura única de experiências de vida reunidas em uma personalidade individualizada modelada por limitações físicas e mentais. No entanto, quando em visão, todos eles entram em um estado “antinatural”. O que sabemos sobre as alterações das características de um profeta ou profetisa em visão? Apesar de suas graves dificuldades espirituais, Balaão foi usado por Deus em benefício de Israel. Sua experiência em visão é esclarecedora: “E, levantando Balaão os olhos, viu a Israel que se achava acampado segundo as suas tribos; e veio sobre ele o Espírito de Deus. Então proferiu Balaão a sua parábola, dizendo: “‘Palavra de Balaão, filho de Beor; palavra do homem de olhos abertos; palavra daquele que ouve os ditos de Deus, o que tem a visão do Todo-poderoso, E prostra-se, porém, de olhos abertos.’” Núm. 24:2-4. A experiência de Daniel também é instru-

tiva. Primeiro, suas visões públicas: “Só eu, Daniel, tive aquela visão; os homens que estavam comigo nada viram [os outros não viram o que Daniel viu]; não obstante, caiu sobre eles grande temor, e fugiram e se esconderam. “Fiquei, pois, eu só e contemplei esta grande visão, e não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não retive força alguma. [Os outros viam como o fenômeno afetava Daniel.] “Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo-a, caí sem sentidos, rosto em terra. [Daniel experimentou o que parecia ser um profundo sono enquanto estava prostrado no solo.] “Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, homem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, eu me pus em pé, tremendo. [Daniel estava cônscio de que um Ser Divino lhe falava]. ... “Ao falar ele comigo estas palavras, dirigi o olhar para a terra e calei. E eis que uma como semelhança dos filhos dos homens me tocou os lábios; então, passei a falar e disse àquele que estava diante de mim: meu senhor, por causa da visão me sobrevieram dores, e não me ficou força alguma. Como, pois, pode o servo do meu senhor falar com o meu senhor? [Daniel falou com o Ser Divino.] “Porque, quanto a mim, não me resta já força alguma, nem fôlego ficou em mim [Daniel não conseguia respirar]. “Então, me tornou a tocar aquele semelhante a um homem e me fortaleceu.” Dan. 10:7-11, 15-18. Daniel também teve visões noturnas ou sonhos: “No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho e visões ante seus olhos, quando estava no seu leito; escreveu logo o sonho e relatou a suma de todas as coisas.” Dan. 7:1. Daniel recebeu um comunicado divino enquanto dormia.

Não sabemos o motivo por que os profetas/profetisas tinham tanto visões públicas (ou em lugares abertos) como visões noturnas ou sonhos. Sabemos, porém, que os profetas/profetisas não faziam distinção entre elas no que diz respeito a seu significado e autoridade.2 Ezequiel provavelmente fornece mais informação sobre a maneira como as visões afetam os profetas e profetisas do que qualquer outro escritor bíblico. De vez em quando, ele era arrebatado para lugares distantes embora seu corpo físico não “viajasse”. Durante o tempo da visão em que era transportado para lugares longínquos, o que ele via era tão vívido e real como se ele estivesse presente fisicamente nesses lugares. Embora Ezequiel vivesse em Babilônia, Deus lhe mostrou as condições deploráveis de Jerusalém: “A mão do Senhor Deus caiu sobre mim. ... [Ele] estendeu uma semelhança de mão e me tomou pelos cachos da cabeça; o Espírito me levantou entre a terra e o céu e me levou a Jerusalém em visões de Deus, até à entrada da porta do pátio de dentro, que olha para o norte, onde estava colocada a imagem dos ciúmes, que provoca o ciúme de Deus. Eis que a glória do Deus de Israel estava ali, como a glória que eu vira no vale.” Ezeq. 8:1-4. Mais adiante no capítulo, Ezequiel descreve com forte realismo as condições prevalecentes no complexo do Templo em Jerusalém. Se bem que ele ainda estivesse em Babilônia, ele caminhou em visão pelo pátio do Templo, cavou na parede do Templo, ouviu as conversas e viu diversos grupos em abominável idolatria. No capítulo nove, ele chega mesmo a contemplar acontecimentos futuros, em especial a iminente destruição de Jerusalém. Zacarias, o pai de João Batista, recebeu uma visão que fornece compreensão adicional sobre o estado de um profeta em visão: “E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor. Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não

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temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. ... Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha mulher, avançada em dias. [Zacarias conversou com o ser celestial.] Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas novas. Todavia, ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas venham a realizarse; porquanto não acreditaste nas minhas palavras, as quais, a seu tempo, se cumprirão. O povo estava esperando a Zacarias e admirava-se de que tanto se demorasse no santuário. Mas, saindo ele, não lhes podia falar; então, entenderam que tivera uma visão no santuário. E expressava-se por acenos e permanecia mudo.” Luc. 1:11-13, 18-22. Zacarias foi fisicamente afetado por sua experiência em visão. Quando Saulo teve o encontro com o Senhor na estrada para Damasco, toda a sua vida foi mudada assim como foi mudado o seu nome. Analise as circunstâncias envolvidas nesta visão à beira do caminho: “E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que Me persegues? E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões. E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer. E os varões, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.” Atos 9:3-7. Saulo, também, após conversar com o Ser Divino, foi fisicamente afetado por sua experiência em visão. Posteriormente, ele comenta o fato de ter sido “arrebatado até ao terceiro Céu... ao Paraíso e ... [ter ouvido] palavras inefáveis”. II Cor. 12:2-4. O apóstolo João registrou uma de suas visões e a maneira como esta o afetou fisicamente: “Quando o vi, caí a seus pés como morto.” Apoc. 1:17.

O que esses exemplos nos ensinam sobre os profetas durante suas experiências em visão? 1. Os profetas têm consciência de que uma Pessoa sobrenatural com eles Se comunica; eles sentem um senso de indignidade. 2. Os profetas freqüentemente perdem as forças. 3. Os profetas às vezes caem por terra em profundo sono. 4. Os profetas ouvem e vêem acontecimentos em lugares remotos, como se estivessem realmente presentes. 5. Os profetas às vezes não conseguem falar, mas, quando seus lábios são tocados, eles conseguem fazê-lo. 6. Os profetas muitas vezes não respiram. 7. Os profetas não têm consciência do que acontece ao seu redor, ainda que tenham os olhos abertos. 8. Os profetas às vezes recebem força suplementar durante a visão. 9. Os profetas recebem força e alento renovados quando a visão termina. 10. Os profetas ocasionalmente sofrem algum tipo de lesão física temporária como seqüela da visão. Nem todas essas características físicas acompanham cada visão. Por este motivo, os fenômenos físicos não devem ser usados como evidência única ao colocar-se à prova a autenticidade de um profeta. Mesmo porque elas podem ser facilmente falsificadas. As Escrituras não as apresentam como provas. No entanto, a presença de tais caraterísticas devem ser consideradas normais naqueles que pretendem “falar em nome de Deus”. Embora os aspectos físicos sejam úteis ao levarmos em consideração as credenciais de um profeta, outros critérios são muito mais confiáveis, conforme veremos agora. Provas de um Profeta Verdadeiro Ao colocarmos tudo “à prova”, conforme Paulo nos aconselha, devemos lembrar-nos da advertência de Cristo: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15.

Quando colocamos à prova as reivindicações de um profeta, fica muito mais fácil formar um juízo crítico depois de haver passado tempo suficiente para o amadurecimento do fruto do seu ministério. Talvez tenha sido esta a razão por que os conselheiros de Josias recorreram à experiente Hulda em vez de ao jovem Jeremias (ver páginas 18 e 19). Pode-se apenas imaginar o cuidado quanto à credibilidade requerida pelas pessoas que viveram durante o tempo em que os profetas estavam estabelecendo seu ofício profético. Portanto, as primeiras testemunhas da credibilidade ou não de um profeta devem ser a afirmação dos contemporâneos que conheciam o profeta e seu ministério. Mas em que contemporâneos devemos crer? Considere a experiência de Cristo. Quantos líderes religiosos e intelectuais O aceitaram? Alguns chegaram mesmo a dizer que Ele realizava milagres pelo “poder de Belzebu, maioral dos demônios”. Mat. 12:24. Seus irmãos, que por muitos anos conviveram com Ele, a princípio não creram nEle (João 7:5). Seus discípulos muitas vezes “murmuravam” a respeito de Seus ensinos (João 6:61) e O abandonaram depois do Getsêmani (Mar. 14:50). Jesus advertiu Seus contemporâneos de que eles corriam o risco de repetir o erro das gerações anteriores: “Infelizes de vocês! Pois fazem túmulos bonitos para os profetas, os mesmos profetas que os antepassados de vocês mataram. Com isso vocês mostram que concordam com o que os seus antepassados fizeram, pois eles mataram os profetas, e vocês fazem túmulos para eles. Por isso a Sabedoria de Deus disse: ‘Mandarei para eles profetas e mensageiros, e eles matarão alguns e perseguirão outros.’ Por causa disso esta gente de hoje será castigada pela morte de todos os profetas assassinados desde a criação do mundo. ... Quando Jesus saiu dali, os professores da Lei e os fariseus começaram a criticáLo com raiva e a Lhe fazer perguntas sobre muitos assuntos.” Luc. 11:47-54. Se Jesus, o Homem irrepreensível, paradigma da virtude, enfrentou essa espécie de

recepção, o que devem esperar homens e mulheres menos importantes que possuem o dom profético? Causa admiração o fato de alguém aceitar a responsabilidade quando ser ouvido imparcialmente era algo tão difícil! Mas alguns creram! Por quê? Em que base racional alguns contemporâneos de Jeremias ficaram gradualmente convencidos de que ele era um profeta verdadeiro? Pelo fato de existirem na sua época muitos pretensos profetas, que pretendiam estar revestidos da mesma autoridade, eram necessárias algumas diretrizes definidas. Escute o Senhor descrever esta estranha situação: “Os profetas profetizam mentiras em Meu nome, nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu íntimo são o que eles vos profetizam.” Jer. 14:14. (Ver também 5:13 e 31; 14:18; 23:21.) Toda geração tem a mesma responsabilidade: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom.” I Tess. 5:19-21. 1. A Prova das Predições Cumpridas3 Os que viveram na época de Jeremias foram instruídos a usar o critério das “predições cumpridas” como uma das provas do profeta verdadeiro: “O profeta que profetizar paz, só ao cumprir-se a sua palavra, será conhecido como profeta, de fato, enviado do Senhor.” Jer. 28:9.4 Fazer predições, ou prenunciar, é apenas um dos aspectos da obra de um profeta. De fato, pode ser até a faceta menos importante. Pensamos muitas vezes em Daniel e João o Revelador em função de suas profecias. Contudo, a obra que eles fizeram proclamando a mensagem de Deus foi mais importante do que a obra que fizeram predizendo. Tanto João Batista como Moisés foram “grandes” profetas, não pelo cumprimento de suas profecias mas por outras razões. Ao considerarmos as “predições cumpridas”, devemos também entender o princípio da profecia condicional. Jeremias nos ajuda a entender este princípio quando relata a conversa do Senhor com ele: “No momento em

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que Eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual Eu falei, também Eu Me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que Eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mal perante Mim e não der ouvidos à Minha voz, então, Me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.” Jer. 18:7-10. A profecia condicional, ou incerteza controlada, é um princípio bíblico aplicado a declarações de natureza preditiva que dizem respeito ou envolvem as reações dos seres humanos. Sempre que o desenrolar de um acontecimento depende da escolha humana, determinados aspectos do cumprimento profético são necessariamente condicionais. Um profeta anônimo enfatizou este princípio ao idoso Eli: “Portanto, diz o Senhor, Deus de Israel: Na verdade, dissera Eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de Mim perpetuamente; porém, agora, diz o Senhor: Longe de Mim tal coisa, porque aos que Me honram, honrarei, porém os que Me desprezam serão desmerecidos. Eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai, para que não haja mais velho nenhum em tua casa.” I Sam. 2:30 e 31. Jonas teve que aprender essa lição de condicionalidade pelo método difícil: “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus Se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez.” Jonas 3:10. A experiência do jovem rei Josias, embora triste, é outro exemplo de profecia condicional. Ele havia promovido notável reforma entre seu povo (II Crôn. 34). Por causa de sua fidelidade, o Senhor prometeu: “Pelo que Eu te reunirei a teus pais, e tu serás recolhido em paz à tua sepultura.” Verso 28. Mas Josias não morreu em paz; morreu em uma batalha! O que houve de errado? Ele não obedeceu à instrução divina. Deus não lhe deu ordens para atacar o Egito. Na realidade, o rei do Egito enviou uma mensagem especial para Josias, realçando o fato de que o Deus

de Josias estava dirigindo o Egito a batalhar contra Babilônia: “Deus está comigo; portanto, se você lutar contra Deus, Ele o destruirá.” II Crôn. 35:21. O jovem Josias devia ter obedecido a Deus e dado ouvidos à voz confirmatória do rei do Egito. Mas não; ele se disfarçou e liderou seu exército na Batalha de Carquêmis (605 a.C.), na qual foi morto. A promessa divina de que Josias teria morte pacífica era condicional à obediência constante. Quando líderes fiéis vão contra o conselho divino, escolhendo seguir a inclinação pessoal, Deus não poupa os obstinados das conseqüências de seus atos. 2. A Prova da Harmonia com a Bíblia É óbvio que Deus não coloca contradições conceituais dentro de Seu sistema de comunicação. Nem dá aos profetas posteriores um botão para “cancelar” ou “apagar”. A imutabilidade de Deus se refletirá nas Suas revelações a homens e mulheres.5 Isaías chama a atenção para o fato de que os profetas verdadeiros serão provados por sua fidelidade às revelações anteriormente escritas: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.” Isa. 8:20. Muitas são as tentativas, em cada geração, de definir a “verdade” sobre a origem e destino do homem. Abundantes são os empreendimentos intelectuais que se arriscam a estipular o que é certo e o que é errado para a conduta humana. A Bíblia, porém, tem atravessado os séculos, sendo para homens e mulheres de todos os lugares e de todas as condições a grande prova no que diz respeito à verdade sobre a origem e moralidade humanas. A Bíblia não é apenas a verdade inspirada, é também a norma decisiva de qualquer pretensão à inspiração. Todo profeta que sucedia a outro, nos tempos do Antigo ou do Novo Testamento, fazia de todos os escritos proféticos anteriores a norma de comparação para seu ministério. Cada qual foi, em certo sentido, uma luz menor que apontava para a luz maior. Paulo faz um breve resumo desta relação: “Toda a Es-

critura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” II Tim. 3:16 e 17. Essa segunda prova da autenticidade de um profeta é clara e não podemos dela escapar. Embora os profetas posteriores revelem aspectos adicionais aos pensamentos de Deus acerca do plano da salvação, eles não contradizem os conceitos básicos já apresentados. 3. A Prova dos Frutos O cenário para a prova dos frutos encontra-se no Sermão da Montanha, que trata especificamente dos “falsos profetas”: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. ... Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.” Mat. 7:15-20. Que espécie de pessoa os contemporâneos do profeta vêem e ouvem? Qual o sentido geral de sua vida? Confiável ou volúvel? Mundano ou piedoso? Fiel ou infiel aos compromissos? Seus ensinos exaltam a Palavra escrita, ou criam novos e exóticos caminhos sem fundamento na Palavra? Acima de tudo isso, reflete o profeta com exatidão a clara e coerente mensagem bíblica? Qual o resultado da liderança do profeta? Sob a sua orientação, tem a obra de Deus prosperado de modo que cumpra melhor a missão evangélica? Vêem os outros coerência na maneira como o profeta anda com Deus? Encontram os pecadores o Senhor por meio de seus escritos? Através dos anos muitas pessoas lamentavelmente têm seguido homens e mulheres eufóricos e carismáticos que assumem as credenciais de um profeta. Arrecadam-se vultosas somas de dinheiro e criam-se poderosos impérios religiosos. Devemos, porém, perguntar: Reflete o líder o estilo de vida simples

exemplificado pelos profetas bíblicos e pelo próprio Senhor? Na maioria das vezes, essa prova classifica rapidamente esses autointitulados “profetas” como impostores. Diferentemente das duas primeiras provas, a prova dos frutos muitas vezes leva tempo. O “fruto” se desenvolve lentamente. Contudo, a cuidadosa avaliação dos resultados do ministério do “profeta” é tão necessária quanto as duas primeiras provas. O que aparenta ser bíblico e o que talvez se afirme ser “predições cumpridas” pode, a longo prazo, evidenciarse outra coisa. A prova mais válida da autenticidade de um profeta são os resultados de seus ensinos. Dirige ele a mente e a conduta para Deus de modo que o padrão de vida reflita o espírito e a prática de Jesus? Demonstram seus ensinos teológicos simplicidade ainda que conservando a plenitude da Palavra escrita? Ou, criam seus ensinos “novas” doutrinas não alicerçadas nas Escrituras? Não resta dúvida de que os profetas são humanos. Moisés era um profeta que falava com Deus “face a face” (Êxo. 33:11), mas seu dom profético não era garantia de que ele não cometesse erros. Devido à sua falta de paciência, ele não teve permissão de entrar na Terra Prometida, o merecido prêmio por sua longa e corajosa liderança. Poderíamos citar muitos outros exemplos bíblicos para mostrar que o recipiente profético, às vezes, está sujeito às fraquezas da natureza humana. Mas o conteúdo é superior ao recipiente. A mensagem profética traz em si mesma o selo de sua autenticidade; o mensageiro é apreciado, mas não canonizado. Além do mais, mesmo que a mensagem do profeta consista exatamente naquilo que Deus deseja comunicar, é possível que o ministério desse profeta pareça não causar impacto positivo. Pense nos heróicos, mas “infrutíferos” ministérios de Jeremias e Isaías. Esses homens parecem haver fracassado na época em que viveram. Mas não hoje! Pense na situação desagradável de Ezequiel: “Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto aos muros e nas portas das casas; fala um com o outro,

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cada um a seu irmão, dizendo: Vinde, peçovos, e ouvi qual é a palavra que procede do Senhor. Eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como Meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois, com a boca, professam muito amor, mas o coração só ambiciona lucro. Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. Mas, quando vier isto, e aí vem, então saberão que houve no meio deles um profeta.” Ezeq. 33:30-33. Ezequiel foi saudado e louvado, mas raramente seguido. Foi por culpa do profeta que seus contemporâneos não se uniram a ele numa reforma genuína? Mostra essa “falha” que as conseqüências de seu ministério foram negativas e infrutíferas? Qual teria sido o fruto de seu ministério se seus ouvintes tivessem seguido seu conselho? Muitos homens e mulheres piedosos, coerentes e fiéis a seu chamado e às mais elevadas normas bíblicas, foram líderes de igreja através dos séculos. Mas sua vida frutífera não prova que eles eram profetas. As provas de um profeta são cumulativas no sentido de que todas as provas devem ser aplicáveis; mas sem a prova do “bom fruto”, todas as outras provas devem ser suspeitas. 4. Testemunho Inequívoco da Natureza Divino-Humana de Jesus Cristo João apresenta mais uma prova de um profeta verdadeiro: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus.” I João 4:1-3. Conforme dissemos no primeiro capítulo, o Evangelho não é algo sobre Jesus; o Evangelho é Jesus. Mas durante os últimos vinte séculos raramente o mundo tem ouvido a verdade sobre Jesus. Daí um evangelho vago e confuso. A prova de João não consiste simplesmen-

te em o profeta concordar que Jesus de Nazaré algum dia viveu na Terra. A maioria dos cristãos crê assim, ainda que muitos não creiam que Ele é Deus encarnado. Muitos outros crêem que Ele é de fato Deus em carne, mas não que Ele Se tornou verdadeiramente homem, um homem “em carne”. João percebeu o problema em seus dias, e sua advertência é hoje ainda mais relevante. Toda a verdade sobre a razão da vinda de Jesus, a razão por que Ele Se tornou nosso Salvador e Exemplo, por que morreu e agora oficia como nosso Sumo Sacerdote – tudo isso está envolvido na prova de um profeta verdadeiro. Este reconhecimento de que Jesus veio “em carne” é mais do que um assentimento intelectual. Jesus não é nosso Senhor se não nos submetermos ao Seu senhorio. Jesus não é nosso Salvador se não permitirmos que Ele nos salve de nossos pecados. (Mat. 1:21.) As ações revelam a autenticidade de nosso comprometimento pessoal. E a correta compreensão nos ajuda a fazer compromissos de qualidade que nos capacitem a praticar ações que honrem a Deus. Eis, portanto, a prova: Ensina o profeta toda a verdade sobre o propósito da vinda de Cristo “em carne”? Manifestações Físicas Conforme observamos anteriormente (pág. 28), determinados fenômenos físicos acompanham os profetas bíblicos enquanto em visão. Embora essas manifestações possam ser imitadas pelo “espírito” errado, quando combinadas com as provas precedentes, elas fortalecem a evidência de que um profeta é verdadeiro. Oportunidade das Mensagens do Profeta Já vimos que o “fruto” do ministério do profeta muitas vezes leva tempo para “amadurecer”. No entanto, muitas foram as ocasiões em que o profeta mudou o curso da História sendo a pessoa certa para o tempo certo, no lugar certo e com a mensagem certa. Pense em Eliseu e o rei da Síria, conforme registrado em II Reis 6. O rei sírio estava de-

cidido a invadir Israel. Ele armou ciladas aqui e ali. Mas Eliseu mantinha o rei informado dessas ciladas, e o registro diz que o rei de Israel “assim, se salvou, não uma nem duas vezes”. Verso 10. O rei sírio ficou exasperado e desconfiou que havia espiões entre seus conselheiros, pois suas estratégias mais secretas vazavam quase que imediatamente para seu inimigo. Um de seus conselheiros, porém, sabendo o que acontecia, explicou-lhe: “O profeta Eliseu, que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que falas na tua câmara de dormir.” Verso 12. Para os contemporâneos de um profeta, a rápida e precisa intervenção dele mediante presença pessoal ou comunicação escrita é uma afirmação convincente de suas credenciais divinas. Testemunho Ousado e Inequívoco Numerosos são os exemplos bíblicos de intrépido testemunho por parte de profetas fiéis e verdadeiros. Natã proferiu pesada sentença condenatória contra Davi, seu rei. (II Sam. 12.) Elias confrontou Acabe, seu rei (o que não foi tarefa fácil). Repare na resposta que ele deu à pergunta de Acabe: “És tu, ó perturbador de Israel?” I Reis 18:17. Resposta: “Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do Senhor e seguistes os baalins.” Verso 18. Oportuna e corajosa! Associado às outras provas, o testemunho inequívoco é parte essencial do ministério de um profeta verdadeiro. Conselho Prático, não Abstrações, Caracterizam o Ministério Deles Os escritos dos profetas verdadeiros são conhecidos por sua grande praticidade. Considere o Sermão da Montanha de Cristo ou quaisquer das cartas de Paulo às novas igrejas. Comparada com os escritos religiosos em geral, a Bíblia é inigualável. Não apenas por causa do seu assunto, mas porque os profetas bíblicos falam ao ser humano. Eles não apresentavam admoestações teóricas, mas práticas, mesmo quando discorriam sobre os aspectos teológicos da natureza

de Jesus, da razão de Sua vinda e de Sua obra atual. Uma característica de muitos falsos profetas é seu apelo ao mistério e ao fascínio por novidade. De algum modo, as pessoas são propensas a seguir líderes religiosos que as atraem com interpretações proféticas imaginárias ou envolventes fantasias teológicas. Mas o profeta verdadeiro fala ao povo “comum”, a pessoas com problemas práticos que precisam de soluções práticas e conforto. Sem essa ênfase, faltam ao “profeta” as credenciais divinas. O Peso da Evidência Em resumo, quando uma pessoa apresenta todas as características acima e passa nas provas, o “peso da evidência” parece convincente, adequado e inevitável. Ao considerar todas as provas observáveis, contudo, a prova suprema das credenciais de um profeta é a sua mensagem: conforma-se ela com todas as mensagens proféticas anteriores quando fala talvez em termos mais amplos à urgência da época do profeta? Podem Todos Ser Profetas? O chamado profético não é uma profissão para a qual uma pessoa pode estudar, tal como o magistério do ensino fundamental ou a prática da advocacia. Os profetas são escolhidos por Deus. Homens e mulheres devem buscar o fruto do Espírito, mas os dons do Espírito são exatamente isto: dons.6 Apesar disso, a Bíblia também se refere aos “filhos dos profetas” e ao “grupo dos profetas”, especialmente nos dias de Samuel, Elias e Eliseu.7 Parece que Samuel inaugurou a “escola dos profetas” com o objetivo de formar professores que ajudassem os pais a educar os filhos para uma vida inteira de utilidade e serviço. Embora não fossem diretamente inspirados como Samuel, os jovens dessas escolas eram “divinamente chamados para instruir o povo nas palavras e caminhos de Deus”.8 A pergunta sobre a possibilidade de todos poderem ser profetas torna-se extremamente prática. Em determinada ocasião, pergunta-

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ram a Ellen White: “Acha a irmã que devemos entender a verdade por nós mesmos? Por que não podemos apanhar as verdades que outros reuniram e crer nelas porque eles investigaram os assuntos e depois ficarmos livres para prosseguir...? Não acha a irmã que esses homens do passado que descobriram a verdade foram inspirados por Deus?” Sua resposta é instrutiva: “Não me atrevo a dizer que eles não foram guiados por Deus, pois Cristo guia a toda a verdade. Mas em se tratando da inspiração no pleno sentido da palavra, minha resposta é não.”9 A questão não diz respeito à guia pessoal do Espírito Santo que todos os crentes comprometidos experimentam diariamente. Paulo, que enfrentou questão semelhante em I Coríntios 12, pergunta: “Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres?” Verso 29. A resposta implícita era “não”. Em tempos modernos, entende-se muitas vezes a “pregação profética” em função de alguém que procura interpretar e proclamar a Palavra de Deus, especialmente no que diz respeito a questões sociais. Se essa pregação ou escrita é feita com ímpeto e dramatismo fora do comum, descreve-se o esforço como feito em tom profético. Contudo, seria errado afirmar que tal proclamação é evidência de que a pessoa tem o dom do Espírito de profecia. Devem-se aplicar todas as provas do profeta verdadeiro. Jack Provonsha, por muito tempo professor de Ética Cristã na Universidade de Loma Linda, salientou três maneiras pelas quais os profetas diferem das pessoas comuns do povo de Deus: (1) Os profetas são escolhidos, “não porque sua compreensão e transmissão seria perfeita, mas porque eles são os melhores veículos” disponíveis. Suas percepções, por exemplo, “são menos distorcidas pelo caráter e experiência que outros”. (2) Uma voz é dada aos profetas porque eles “exigem atenção”; seus contemporâneos “vêem neles alguém especial, alguém diferente do comum”. (3) São dadas aos profetas “comunicações especiais” de Deus,

algumas vezes de “forma extraordinária” e outras vezes “de forma um tanto comum, tais como pensamentos, impressões e intuições, percebidas pelo profeta como influência do Espírito”.10 Alguns têm defendido o ponto de vista de que todos os crentes possuem o dom de profecia no sentido de que todo crente tem a capacidade de distinguir entre escritos inspirados e não inspirados, ou seja, seu julgamento determina o que é inspirado e o que não é, quando lê as pretensões de um profeta verdadeiro. Este ponto de vista não é ensinado na Bíblia. Profetas nem Sempre Conscientes do Pleno Sentido Pedro observou que os profetas nem sempre entendiam o sentido total de seus próprios escritos, especialmente aqueles que se relacionavam com acontecimentos futuros: “Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando, atentamente, qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias que os seguiriam. A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do Céu, vos pregaram o evangelho, coisas essas que anjos anelam perscrutar.” I Ped. 1:10-12. Os profetas não são oniscientes. Sua compreensão da verdade e do dever podem desenvolver-se à medida que lhes for revelada. A menos, porém, que recebam ajuda divina, mesmo aquilo que é revelado só será entendido dentro do limitado contexto das próprias circunstâncias e experiência. O princípio da revelação progressiva (ver página 422) funciona na vida de cada profeta e de cada geração. Elias continuou a aprender sobre o caráter de Deus enquanto passava pela experiência do Monte Carmelo e viajava

até a caverna do Horebe. (I Reis 18 e 19.) Isaías tinha apenas uma pálida idéia de como e quando os terríveis dias que ele predisse sobreviriam a Israel e Judá. Jeremias viu muito mais claramente aquilo sobre o que Isaías havia escrito. Não sendo oniscientes, os profetas às vezes cometem erros de julgamento e precisam mudar seu conselho. O rei Davi consultou o profeta Natã sobre a construção de um templo apropriado em Jerusalém, e Natã replicou: “Faze tudo quanto está no teu coração, porque Deus é contigo.” I Crôn. 17:2. Natã, porém, teve que mudar seu testemunho: “Porém, naquela mesma noite, veio o Senhor a Natã, dizendo: Vai e dize a Meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para Minha habitação.” Versos 3 e 4. O fato de um profeta poder mudar sua mente em relação ao testemunho do Senhor deixa claro que alguém que verdadeiramente busca a vontade de Deus deve olhar para todo o quadro e não rejeitar uma mensagem devido à humanidade do profeta. Contraste Entre o Falso e o Verdadeiro Em vista do grande conflito entre Cristo e Satanás, era previsível que Satanás usasse sua mente brilhante para arruinar o sistema divino de comunicação com homens e mulheres. Isto ele tem feito. E os falsos profetas se tornarão mais abundantes nos últimos dias da crise final.11 Um incidente registrado em I Reis 22 ilustra determinadas estratégias que Satanás emprega para tentar subverter a obra dos profetas verdadeiros. Acabe, rei de Israel, havia pedido a Josafá, do reino do sul, para unir forças com ele contra o rei da Síria. Josafá concordou entusiasticamente, mas depois pensou uma segunda vez. Sentindo a necessidade da confirmação do Senhor, perguntou a Acabe onde poderia consultar um profeta sobre o assunto. Acabe estava preparado com seus próprios profetas, “cerca de quatrocentos homens, e lhes disse: Irei à peleja contra Ramote-Gileade ou deixarei de ir? Eles disseram: Sobe, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei”. Verso 6.

Mas Josafá pressentiu que alguma coisa não estava certa. Ele sabia que esses 400 homens eram profetas palacianos. Por isso perguntou: “Não há aqui ainda algum profeta do Senhor para o consultarmos?” Verso 7. Respondeu Acabe: “Há um ainda... porém eu o aborreço, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau. Este é Micaías.” Verso 8. Quando levaram Micaías para se unir aos 400 que continuavam insistindo na idéia de que o Senhor entregaria os sírios nas mãos deles, o profeta respondeu: “Tão certo como vive o Senhor, o que o Senhor me disser, isso falarei.” Verso 14. Acabe perguntou a Micaías se eles deviam sair a pelejar contra o rei da Síria. Numa disfarçada ironia, ele lhe respondeu: “Sobe e triunfarás, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei!” Verso 15. Acabe, percebendo o tom sarcástico, lhe disse: “Quantas vezes te conjurarei, que não me fales senão a verdade em nome do Senhor?” Verso 16. O resto da história (versos 24-28) é um paradigma de como os profetas verdadeiros são atacados e ridicularizados por aqueles que não querem ouvir a verdade. Pouco depois, Acabe morreu em combate, exatamente da forma como Micaías havia predito. Esse episódio evidencia que mentir e enganar são ferramentas do ofício de Satanás. Ele investiga os desejos de homens e mulheres para depois produzir o que parece ser a confirmação religiosa de seus desejos. Em outras palavras, as pessoas geralmente encontram a mensagem “profética” que seu coração deseja. De um modo ou de outro, elas receberão algum tipo de confirmação “espiritual” daquilo que realmente querem fazer. Se os desejos de uma pessoa não podem ser facilmente ratificados por aqueles que falam em nome de Deus, homens e mulheres egocêntricos e obstinados ridicularizarão e/ou atacarão o profeta verdadeiro. Josafá desejava sinceramente ouvir a mensagem do profeta verdadeiro em meio a todas as outras vozes religiosas de seus dias. Micaías preferiu sofrer os maus-tratos da prisão a mu-

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dar seu testemunho. Mas os acontecimentos provaram que ele estava com a razão. Como Josafá, os cristãos de hoje devem discernir o ar de engano e ilegitimidade ao ouvirem a mensagem daqueles que falsamente pretendem falar em nome de Deus. Devem saber como aplicar rapidamente as provas de um profeta verdadeiro. Pessoa alguma deve ficar confusa com a maneira de decidir se um profeta é falso ou verdadeiro.12 Os Fenômenos Físicos Fornecem Muitas Vezes Evidência Convincente Antes de passar tempo suficiente para ser julgado pelos “frutos” do Seu ministério, Jesus mostrou a João Batista as manifestações físicas que acompanharam Seu ministério. João, na prisão, à beira da dúvida mandou um recado a seu primo, Jesus: “És Tu Aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” Mat. 11:3. Jesus não lhe enviou um simples “Eu sou”. O Batista precisava de algo mais do que palavras. Jesus instruiu os discípulos de João a anunciarem a “João o que estais ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho. E bem-aventurado é aquele que não achar em Mim motivo de tropeço”. Versos 4-6. Alguns anos mais tarde, após a ascensão de Cristo, chegou outro momento importante no plano de Deus: Como poderiam as boas novas de Jesus Cristo despertar atenção favorável e satisfatória? Bastaria um simples debate ou seria necessário algo mais? Deus resolveu que seria algo mais. No dia de Pentecostes, os discípulos se reuniram para orar como havia sido seu costume desde que Cristo ascendera ao Céu. (Atos 1:14; 2:1.) Embora não tivessem consciência disto, o Senhor estava pronto para estabelecer a igreja cristã. Como Ele o faria? Enviando fenômenos físicos com a palavra profética. “De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. To-

dos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem.” Atos 2:2-4. Com o passar do tempo, os fenômenos físicos tornaram-se cada vez menos freqüentes, pois haviam alcançado seu intento: a igreja cristã havia tido seu dramático início. Essas exibições maravilhosas haviam dado credibilidade àqueles que viram e ouviram. Os fenômenos públicos cessaram quando havia passado tempo suficiente para o fruto da mensagem cristã ter-se estabelecido. De muitas formas os dias iniciais do movimento adventista foram uma réplica dos primitivos dias da igreja cristã. De que outra maneira poderiam poucos crentes chamar a atenção de pessoas suficientes para desencadear um movimento destinado a circundar o mundo? De que outra maneira poderia um profeta receber a atenção que sua mensagem merecia, a menos que Deus fizesse as visões serem apoiadas por fenômenos físicos? Os fenômenos físicos que atraíram a atenção no dia de Pentecostes não eram a mensagem cristã, mas foram eles que levaram as pessoas a ouvirem mais atentamente à mensagem. Do mesmo modo, os fenômenos visíveis (curas divinas, fenômenos relacionados com visões públicas, etc.) associados ao ministério inicial de Ellen White não eram, e nem são, a mensagem dela. Nem são necessariamente provas de suas credenciais divinas. Mas os fenômenos físicos captaram a atenção de seus contemporâneos, atenção que ela conservou até muitos se convencerem de que sua mensagem era uma palavra de Deus. Com o passar do tempo, depois que milhares se haviam convencido do fruto de suas mensagens, as visões públicas, acompanhadas de fenômenos físicos, tornaram-se menos freqüentes. Apesar disso, Deus continuou a falar a Sua profetisa por meio de visões noturnas. A qualidade do conselho permaneceu a mesma, mas sem os fenômenos físicos.13 Década de 1840 – um Período Turbulento Para Reivindicações Proféticas Um dos aspectos mais destacados da agitação religiosa das turbulentas décadas de 1830 e

1840” é que muito do interesse “ficou fora dos limites da religião convencional”.14 Uma das vozes mais destacadas dessa efervescência religiosa foi a da expectação do milênio.15 Durante uma década ou mais, a América do Norte esteve ouvindo muitas vozes, no púlpito e na imprensa, anunciando que estava próximo o Segundo Advento. Mas a maior parte do mundo cristão cria que Jesus só voltaria depois que o mundo estivesse convertido ao cristianismo. Chamados pós-milenistas (o Segundo Advento ocorre depois dos 1.000 anos de Apocalipse 20), esses líderes cristãos olhavam com desdém para os pré-milenistas (o Segundo Advento ocorre antes do período de mil anos) que prediziam o retorno de Jesus para 1843-1844.16 Entre os muitos acontecimentos fascinantes da década de 1840, estava também o surgimento de várias pessoas que afirmavam possuir o dom profético. Nem todas essas pessoas eram pré-milenistas; algumas desenvolviam “novas” religiões; algumas se concentravam em experiências sociais. Devido aos acontecimentos bizarros que muitas vezes acompanhavam essas experiências religiosas e sociais, muitos contemporâneos eram hostis a fenômenos carismáticos.17 Olhando para esse período do ponto de vista de Satanás, à luz do Tema do Grande Conflito (ver págs. 256-263), não era de se esperar que ele confundisse de tal modo os acontecimentos a fim de tornar mais difícil a aceitação de um profeta verdadeiro? O livro de Apocalipse deixa claro que Satanás está ciente da linha profética do tempo e o projetado fim de seu tempo no Universo. À medida que ocorrem os acontecimentos divinamente preditos, “o diabo” terá “grande ira, pois sabe que pouco tempo lhe resta”. Apoc. 12:12. O extremo fanatismo e as manifestações estranhas associadas com os falsos profetas fizeram homens e mulheres equilibrados olharem com aversão qualquer pessoa que pretendesse falar em nome de Deus. Tanto os pósmilenistas quanto os pré-milenistas consideravam com desdém as manifestações do dom de profecia.18

J. V. Himes disse em 1845 na reunião dos líderes mileritas em Albany: “O movimento do sétimo mês produziu mesmerismo a sete pés de profundidade.”19 Os líderes mileritas, na mesma reunião, votaram a seguinte resolução, conforme relatada em The Advent Herald, 21 de maio de 1845: “Fica resolvido que não depositamos nenhuma confiança em quaisquer novas mensagens, visões, sonhos, línguas, milagres, dons extraordinários, revelações, impressões, discernimento de espíritos, ou ensinos, etc., etc., que não estejam de acordo com a não adulterada Palavra de Deus.” Além disso, seguindo em grande parte paralelamente ao surgimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia, houve o desenvolvimento dos shakers, o da Igreja Mórmon e o da Ciência Cristã, bem como o advento do espiritualismo.20 É digno de nota que cada um desses movimentos religiosos modernos tenha sido concebido por líderes carismáticos que afirmavam possuir o dom de profecia. Jemina Wilkinson e Ann Lee foram as primeiras profetisas norte-americanas. Lee, mais conhecida por ser a “mãe” dos shakers, passou pela experiência do que parecia ser “transes e visões nas quais lhe foi revelado que a raiz e o fundamento da corrupção humana e fonte de todo mal era o ato sexual. ... Durante os quatro últimos anos de sua vida, relata-se que a Mãe Ann realizou milagres capazes de convencer a seus seguidores de que ela era o Cristo em sua ‘segunda vinda”’.21 O jovem Joseph Smith ficou muito perturbado com a mixórdia de escolhas religiosas: “‘No meio desta guerra de palavras e tumulto de opiniões’, eu dizia muitas vezes para mim mesmo: ‘Que devo fazer? Qual desses grupos tem razão? Ou estão todos errados?’” Logo sua oração foi respondida pela “aparição” tanto do Pai como do Filho. Segundo ele conta, Pai e Filho lhe disseram que ele não devia ingressar em denominação nenhuma, pois todas eram corruptas. Depois de um período adicional de estudo, ele relatou que o anjo Morôni lhe aparecera e o conduzira às “placas de ouro que con-

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tam a história da última tribo perdida de Israel, que havia séculos antes habitado o continente americano”. Posteriormente, em 1830, Smith publicou o Livro do Mórmon. Esta nova Bíblia se tornou a autoridade dos mórmons na maioria das questões. Ela declarava que “quem quer que negue ‘as revelações de Deus ou diga que elas cessaram e que não há mais revelações, nem profecias, nem dons, nem falar em línguas nem interpretação de línguas’, revela sua ignorância e nega ‘o evangelho de Cristo’”.22 O espiritismo, ou espiritualismo, encontra suas raízes teológicas na predominante doutrina cristã do estado consciente dos mortos, no Céu ou no inferno. A moderna ressurreição deste antigo paganismo é atribuída a Andrew Jackson Davis (1826-1910), o “Vidente de Poughkeepsie”, e aos fenômenos audíveis na casa das irmãs Fox, perto de Rochester, Nova Iorque, em 1848. Davis é mencionado como aquele que introduziu o “espiritualismo intelectual”, e Katie Fox como a introdutora do “espiritualismo fenomenal”.23 William Foy e Hazen Foss Mais relevante para os primeiros adventistas do sétimo dia são as experiências de William Foy e Hazen Foss. Ambos tiveram visões similares à primeira visão de Ellen Harmon. William Ellis Foy (c. 1818-1893), um negro norte-americano na faixa dos vinte anos de idade, recebeu diversas visões dramáticas em 1842, vários anos antes daquelas recebidas por Hazen Foss e Ellen Harmon. A primeira (18 de janeiro) durou duas horas e meia, e a segunda (4 de fevereiro) vinte horas e meia! Seu estado durante as visões assemelhava-se ao estado de transe de Daniel.24 Algumas vezes antes de 22 de outubro de 1844, Ellen Harmon ouviu Foy pregar no Salão Beethoven em Portland, Maine. Algumas semanas depois, pouco antes da primeira visão dela em dezembro de 1844, Foy estava presente numa reunião realizada perto de Cape Elizabeth, Maine, durante a qual ela falou da primeira visão. “Quando ela começou, Foy

ficou fascinado com o que ela dizia. Deixouse levar pelo entusiasmo e empolgação que acompanharam a apresentação dela. Ela falou das coisas celestiais – de orientações, luzes, imagens – coisas familiares a Foy. ... Arrebatado pela alegria do momento, ele não pôde mais se conter. De súbito, no meio da apresentação de Ellen, Foy bradou de júbilo, erguendo-se sobre os pés e ‘saltou inflamadamente para baixo e para cima’. Segundo Ellen se lembra: ‘Oh! Ele louvou o Senhor, ele louvou o Senhor.’ “Ele repetiu várias vezes que a visão dela era justamente a que ele tinha visto. Ele sabia que não havia como falsificar tal experiência. A dela era legítima.”25 Em 1906 Ellen White lembrou-se de suas conversas com William Foy. Ela recordou que ele tivera quatro visões, todas antes da primeira visão dela: “Elas foram escritas e publicadas, e é [estranho] que eu não consiga encontrá-las em nenhum de meus livros. Mas nós nos emocionamos tantas vezes.” E depois ela fez um elogio muito significativo a Foy: “Foram notáveis os testemunhos que ele deu.”26 Hazen Foss encontrou-se com Ellen Harmon em janeiro de 1845, em uma reunião em Poland, Maine. Ellen fora para ali, convidada por Mary Foss, para relatar sua primeira visão de um mês antes.27 Hazen, o cunhado de Mary [Mary era mulher de Samuel Foss], é lembrado “como um homem de boa aparência, boas maneiras e educado”. Antes de 22 de outubro de 1844, ele teve uma visão descrevendo a viagem dos adventistas (mileritas) à cidade de Deus. Ele foi instruído a tornar conhecida essa visão juntamente com mensagens específicas de advertência, mas recusou. Depois do dia 22 de outubro, ele sentiu que havia ficado confuso quanto à sua primeira visão. Em sua segunda visão, foi advertido de que, se não fosse fiel em relatar a primeira visão, a visão e a responsabilidade seriam retiradas dele e dadas a outra pessoa com muito poucas qualificações. Ele continuou a temer pela possibilidade de ser ridicularizado e rejeitado por seus companheiros mileritas.

Finalmente pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia: “Entristeceste o Espírito do Senhor.” Apavorado com essa possibilidade, ele convocou uma reunião para relatar a visão. Mas, depois de fazer várias tentativas mal-sucedidas de relembrá-la, declarou: “Foi-se de mim. Não consigo dizer nada. O Espírito de Deus me abandonou.” Alguns que ali estiveram presentes descreveram aquela reunião como “a mais terrível reunião em que já haviam estado”. Depois dessa experiência, Hazen encontrou-se com Ellen em Poland, Maine. Embora tivesse sido convidado para a reunião, ele permaneceu do lado de fora da porta fechada, embora próximo o bastante para entreouvir a mensagem dela. No dia seguinte, ele contou a Ellen: “O Senhor me deu uma mensagem para apresentar a Seu povo. E eu recusei, depois de saber das conseqüências. Fui orgulhoso; estava inconformado com o desapontamento. ... Ouvi sua palestra de ontem à noite. Creio que as visões foram retiradas de mim e dadas a você. Não recuse obedecer a Deus, pois será perigoso para sua alma. Sou um homem perdido. Você é a escolhida de Deus. Seja fiel em fazer a sua obra, e a coroa que eu poderia ter tido, você receberá.”28 Deus Se Revela em Tempos de Crise por Meio dos Profetas Deus é muito compassivo e solícito com Seu povo, especialmente quando Ele Se revela em períodos de crise. O aparecimento dos profetas muitas vezes se acha ligado a grandes crises. Assim quando surge um profeta, devemos examinar a natureza da crise. E ao estudarmos a crise, devemos olhar para a mensagem do profeta. Pense no Dilúvio, e Noé virá à sua mente. Israel no cativeiro egípcio – Moisés. Terrível opressão – Débora e, mais tarde, Samuel. Terrível apostasia – Elias. Trágica decadência nacional – Isaías e Jeremias. Cativeiro sombrio – Daniel e Ezequiel. Nascimento da igreja cristã – Pedro e Paulo. Restauração das verdades especiais para os últimos dias – Ellen White. Essa mesma espécie de preocupação divina fica evidente no domingo da ressurreição. Dois discípulos derrotados arrastavam-se para

Emaús, caminhando à sombra misteriosa de uma crucifixão. (Ver Lucas 24.) O Senhor, porém, conhecia seu desespero e aproximouSe deles. Ele sabia que havia permitido lhes sobreviesse aquela tristeza. Ele não os desampararia em seu pesar e confusão. Como Jesus Se revelou? Primeiro, dirigindo a mente deles para as Escrituras. Ele os ajudou a investigar a verdade que eles haviam apenas compreendido vagamente. Esse tipo de estudo bíblico forneceu àqueles primeiros discípulos maior estabilidade e compreensão bíblica do que a realização de um milagre. Na década de 1840, ocorreu outro momento notável no plano divino da salvação. O fim da mais longa profecia bíblica relacionada com tempo estava próximo (Dan. 8:14). A ocasião era tremenda – aproximava-se o advento. Contudo, embora a maioria do mundo tivesse ouvido a autêntica mensagem do advento, o tempo do advento se baseava numa interpretação errônea da profecia de Daniel. Durante a confusão e o desespero que se seguiram ao dia 22 de outubro de 1844, Deus Se aproximou de Seu povo. Por meio de uma adolescente, Ele o animou a reestudar a Bíblia29 e o instruiu a ouvir Seu conforto e fortalecimento. Por meio da jovem Ellen Harmon a perplexidade e a tristeza que envolveram o Grande Desapontamento de 22 de outubro logo se mudaram em esperança e ânimo. Assim como os discípulos a caminho de Emaús voltaram para Jerusalém com a alegria da verdade presente, assim aqueles primeiros adventistas enfrentaram o mundo novamente com a alegria da verdade presente. Ellen White Surgiu no Tempo de Maior Aflição Ellen White teve que lutar contra o sentimento prevalecente entre os líderes mileritas de que todos os fenômenos carismáticos, tais como visões e transes, deviam ser rejeitados.30 Igualmente perturbadoras foram as amplas divisões e espantosos fanatismos surgidos entre os mileritas depois de 22 de outubro de 1844.31 Talvez mais opressivo ainda foi o escárnio daqueles que haviam rejeitado os mileritas

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antes do Desapontamento ao observarem a humilhação dos desapontados.32 Além disso, a jovem Ellen era apenas uma adolescente, uma garota tão fraca que mal conseguia falar acima de um sussuro. Mas, em dezembro de 1844, Deus lhe deu uma visão. Quem a ouviria, “a mais fraca das fracas”? À medida que o tempo passava, a relutante, modesta e inabalável lealdade de Ellen
Nota

Harmon em ser uma mensageira de Deus nos tempos mais sombrios se tornou o centro de reanimação para sinceros estudantes da Bíblia que queriam saber o que estava certo e o que estava errado com respeito a 22 de outubro de 1844. Assim como na estrada de Emaús, Jesus Se aproximou dos crentes sinceros mas perplexos nos meses que se seguiram ao “grande desapontamento”.33

Referências
1. Kenneth H. Wood, “Toward an Understanding of the Prophetic Office”, Journal of the Adventist Theological Society, primavera de 1991, pág. 21. 2. Moisés registrou as palavras de Deus com respeito ao sistema profético, usando visões e sonhos de maneira intercambiável: “Ouvi agora as Minhas palavras: se entre vós houver profeta, Eu, o Senhor, a ele Me farei conhecer em visão, em sonhos falarei com ele.” Núm. 12:6. 3. T. H. Jemison foi um dos primeiros a categorizar essas quatro provas no livro A Prophet Among You, (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1955), págs. 100-112. 4. Neste exemplo Jeremias falava em tom irônico com o falso profeta Hananias. O princípio, contudo, permanece. 5. Ver Mal. 3:6; Tia. 1:17. Revelação progressiva (ver página 422) é o termo que descreve o plano divino de “educação contínua”. Ela se baseia na revelação anterior; não remove nem contradiz a revelação anterior. 6. Ver págs. 2 e 3. 7. Ver I Sam. 10:5 e 10; I Reis 20:35; II Reis 2:3 e 5; 4:38; 5:22; 6:1. 8. Educação, pág. 46. 9. Review and Herald, 25 de março de 1890. Ver também Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 341, onde Ellen White teve oportunidade de esclarecer o papel de um profeta dotado: “Não hesito em dizer que teria sido melhor se essas idéias em relação ao ato de profetizar nunca houvessem sido expressas. Tais declarações preparam o caminho para um estado de coisas que Satanás certamente aproveitará para introduzir atividades falsas. Há o perigo não somente de que mentes desequilibradas sejam induzidas ao fanatismo, mas também de que pessoas ardilosas se aproveitem dessa agitação para promover seus desígnios egoístas.” 10. Jack Provonsha, A Remnant in Crisis (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1993), págs. 57 e 58. Aplicando esses princípios a Ellen White, Provonsha escreve: “Pelo visto, Ellen White ‘ouviu’ muitas vezes a voz de Deus lhe falando enquanto ela escrevia livros em sua biblioteca. Uma pessoa que passou toda uma vida sendo mensageira de Deus desenvolveu certamente uma sensibilidade fora do comum a essas intuições e é bastante compreensível que ela empregasse, às vezes, as próprias palavras dos autores pelos quais essas intuições lhe foram apresentadas à mente, com ou sem aspas.” – Ibidem, págs. 58 e 59 11. Ver as predições de Cristo em Mat. 24:11. 12. Jeremias registra o que o Senhor disse sobre os “falsos profetas”: “Os profetas e os sacerdotes são ímpios; Eu os peguei fazendo o mal no próprio Templo. ... Vejo que os profetas de Jerusalém... cometem adultério, dizem mentiras, ajudam os outros a fazerem o mal, e assim ninguém pára de fazer o que é errado... ; eles estão iludindo vocês com falsas esperanças. Dizem coisas que eles mesmos inventam e não aquilo que Eu falei. ... Qual desses profetas algum dia conheceu os pensamentos secretos do Eterno? Será que algum deles viu e ouviu a palavra do Eterno? Qual deles deu atenção à sua mensagem e obedeceu?... Eu não enviei esses profetas, nem lhes dei nenhuma mensagem. Mas assim mesmo eles saíram correndo e falaram em Meu nome. ... Eu sei o que têm dito esses profetas que falam mentiras em Meu nome e afirmam que lhes dei Minhas mensagens nos seus sonhos. Por quanto tempo ainda esses profetas vão enganar o Meu povo com as mentiras que inventam?... O profeta que teve um sonho devia contá-lo como um simples sonho. Mas o profeta que ouviu a Minha mensagem devia anunciá-la fielmente. ... Eu sou contra esses profetas que roubam as palavras uns dos outros e as anunciam como se fossem a Minha mensagem. Também sou contra esses profetas que falam as suas próprias palavras e afirmam que elas vieram de Mim. Escutem o que Eu, o Eterno, estou dizendo! Sou contra os profetas que contam sonhos cheios de mentiras. ... Eu não os enviei, nem os mandei ir, e eles não ajudam o Meu povo em nada. Eu, o Deus Eterno, falei.” Jer. 23:11-32, BLH; ver também cap. 28; 29:8, 15-19 e 31. 13. Escrevendo mais tarde, Ellen White referiu-se aos fenômenos físicos, que desempenharam papel importante com relação a seu ministério: “Algumas das instruções que se encontram nestas páginas foram dadas em circunstâncias tão notáveis que evidenciam o prodigioso poder de Deus em favor de Sua verdade. ... Essas mensagens eram dadas desse modo para confirmar a fé de todos, a fim de que nestes últimos dias tenhamos confiança no Espírito de Profecia.” – Review and Herald, 14 de junho de 1906 (Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 38 e 39). Ver pág. 28. 14. Winthrop S. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, The Rise of Adventism, ed. Edwin S. Gaustad, (New York: Harper & Row, 1974), pág. 8. 15. Ernest R. Sandeen escreveu que a América [do Norte] “estava embriagada com o milênio”. Citado por Ernest Dick, “The Millerite Movement”, Adventism in America, ed. Gary Land (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986), pág. 3. Ver também Ernest R. Sandeen, “Millennialism”, em The Rise of Adventism, ed. Edwin S. Gaustad (New York: Harper & Row, 1974), págs. 104-118; George R. Knight, Millennial Fever (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1993), págs. 1-384. 16. A maioria dos cristãos eram “pós-milenistas”, que criam que Jesus voltaria após o período de mil anos de Apocalipse 20. O principal argumento deles era que Satanás seria preso na Terra pelo avanço do cristianismo através do mundo e que o bem venceria o mal à medida que o mundo se tornasse mais iluminado pelo evangelho. Ver Ernest R. Sandeen, “Millennialism”, Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 10-118. 17. Harold Bloom, The American Religion (New York: Simon & Schuster, 1933), págs. 21-75; Hudson, “A time of Religious Ferment”, em Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 1-17; William G. McLoughlin, “Revivalism”, em Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 119-150. 18. “Declaration of Principles” no periódico de Carlos Fitch, The Second Advent of Christ (Cleveland, Ohio, 21 de junho de 1843): “Não confiamos de maneira alguma em visões, sonhos ou revelações particulares. ‘Que tem a palha com o trigo? Diz o Senhor.’ Repudiamos todo fanatismo e tudo quanto tende a extravagância, excesso e imoralidade, para que não seja censurado o nosso bem.” 19. Tiago White, “The Gifts of the Gospel Church”, em Review and Herald, 21 de abril de 1851. 20. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, em Gaustad, The Rise of Adventism, págs. 9-17. 21. Ibidem, pág. 10. 22. Ibidem, pág. 13; H. Shelton Smith, Robert T. Hardy, Lefferts A. Loetscher, American Christianity: An Historical Interpretation With Documents (New York: Charles Scribner’s Sons, 1963), págs. 80-84. 23. Citado em LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers, vol. 2 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1965), pág. 1.069. 24. O relato é de que ele não respirava, apresentava considerável perda de força, não conseguia falar, etc. Informações adicionais sobre William Foy podem ser encontradas em The Unknown Prophet (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1987), de Delbert W. Baker. Pastor batista voluntário de talentos extraordinários, sua primeira visão foi relatada a uma congregação metodista. Depois desta visão, sua pregação, cheia de zelo e vigor, passou a centralizar-se na proximidade do Advento e na preparação para o acontecimento. Baker não concorda com a opinião popular de que

Às vezes se faz uma comparação entre a história da vida e visões de William Foy e Ellen Harmon. Ambos passaram por conflitos espirituais perturbadores antes das visões, ambos sentiram grande aversão em relatar as visões publicamente. Ocasionalmente, ambos usaram expressões comuns da época, como “confortar os santos”. Embora existam alguns paralelos verbais entre as visões de Foy e as de Ellen Harmon, existem importantes diferenças no conteúdo. Ao descrever a viagem de alguém que havia acabado de morrer como indo para o Céu em uma carruagem, Foy não menciona a ressurreição no Segundo Advento, pois cria na imortalidade da alma. Foy vê uma montanha na qual estava impresso em letras de ouro: “O Pai e o Filho”, fornecendo um pano de fundo para a cena do juízo. Nada semelhante é encontrado nos registros das visões de Ellen Harmon. Tanto Foy quanto Harmon (White) descrevem a árvore da vida empregando palavras comuns tais como “o fruto parecia cachos de uvas em painéis de puro ouro” (Foy) e “o fruto era esplêndido; tinha o aspecto de ouro misturado com prata” (White). Falando sobre comer o fruto, Foy se lembrou: “O guia então me falou dizendo: ‘Os que comem do fruto desta árvore não voltam mais para a Terra.’” White escreveu: “Pedi a Jesus que me deixasse comer do fruto. Ele disse: ‘Agora não. Os que comem do fruto deste país não voltam mais para a Terra.’” As dessemelhanças contextuais saltam aos olhos. Ambos se referem a um grande grupo de remidos formando um “quadrado perfeito”. Foy escreveu que as pessoas desse grupo eram

do “tamanho de crianças de dez anos de idade” e que cantavam um “cântico que os santos e os anjos não podiam cantar”. Para Ellen White: “Ali sobre o mar de vidro, os 144.000 ficaram em quadrado perfeito.” No entanto, se as visões de Foy foram autênticas e fielmente reveladas, não devíamos esperar semelhanças e paralelos, pelo menos até certo ponto? Mas o conteúdo conceitual geral das visões publicadas de Foy não corresponde ao das visões de Ellen White.34 Existem algumas questões relativas aos Pearson (John Pearson, Jr., e C. H. Pearson) que publicaram o folheto de Foy, The Christian Experience, e o “Pai” Pearson, mencionado em Life Sketches, págs. 70 e 71 e em Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 64. “Pai Pearson”, um antigo líder do pequeno grupo dos crentes de Portland, Maine, opunha-se aos que afirmavam estar “prostrados” pelo Espírito de Deus – até que ele e sua família passaram pela “experiência”.35 Tiago White havia trabalhado com o filho do “Pai” Pearson, John Pearson Júnior, em 1843 e depois disso. John, o filho, juntamente com Joseph Turner, editava Hope of Israel, um periódico do Advento, e publicou o folheto de William Foy em princípios de 1845. Parece evidente que, se as visões de Ellen Harmon não passassem de cópia das primeiras visões de Foy, os Pearson teriam sido os primeiros a perceber a fraude, especialmente considerando que o Pai Pearson era tão sensível e desconfiado de visões e outras chamadas manifestações do Espírito. O Pai Pearson creu na autenticidade de William e continuou a apoiar solidamente Ellen Harmon.

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Ellen Harmon mais tarde preencheu a responsabilidade atribuída primeiramente a Foy. “William Foy trabalhou como porta-voz de Deus para o movimento do Advento no período do pré-desapontamento, enquanto Ellen White se tornou a profetisa do pós-desapontamento. Foy falou aos primeiros adventistas, assegurandolhes o interesse pessoal de Deus e estimulando-lhes a um maior reavivamento e reforma. Ele trouxe à luz oportunas verdades que, se compreendidas, teriam posteriormente poupado o povo de Deus do grande Desapontamento ou pelo menos tê-lo-iam preparado para ele. Foy recebeu um número limitado de visões com um objetivo definido. Ele nunca sugeriu que seu papel profético se estenderia além de 1844, ou que receberia outras visões. “Uma desencaminhadora generalização que muitas vezes se faz é a de que, se Foy for aceito como profeta verdadeiro do movimento do Advento (pré-adventista do sétimo dia), ele também deve ser profeta do movimento adventista do sétimo dia por todo o tempo restante. Esta crença, embora compreensível, não encontra base real.” – Delbert Baker, “William Foy, Messenger to the Advent Believers”, Adventist Review, 14 de janeiro de 1988. 25. Baker, The Unknown Prophet, págs. 143 e 144. Ver nota no fim do capítulo. 26. Ellen White, “William Foy”, Depositários do Patrimônio Literário White, Arquivo Documental 231. Apenas duas das visões de Foy foram publicadas em seu livro The Christian Experience of William E. Foy Together With the Two Visions He Received in the Months of January and February, 1842 (Portland, ME: The Pearson Brothers, 1845). A terceira é resumida por J. N. Loughborough em Rise and Progress of the Seventh-Day Adventists (RPSDA) (Reimpresso por Payson, AZ: Leaves-of-Autumn Books, 1988), pág. 71. Não se dispõe de nenhuma informação sobre o conteúdo da quarta visão.

27. Ver Robinson, James White, pág. 28; ver também Biography, vol. 1, pág. 71. 28. “Hazen Foss”, em Seventh-day Adventist Encyclopedia (SDAE), ed. Don. F. Neufeld, segunda edição revisada (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1996), vol. 2, pág. 562. 29. Considere os estudos bíblicos de Hiram Edson, O. R. L. Crozier e F. B. Hahn em fins de 1844 e princípio de 1845. Ver Schwarz, Light Bearers, págs. 60-63. 30. Knight, Millennial Fever, pág. 273. 31. Everett N. Dick, “The Millerite Movement, 1830-1845”, em Adventism in America, ed. Gary Land (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 1986), págs. 3135; Knight, Millennial Fever, págs. 245-293; R. W. Schwarz, Light Bearers to the Remnant (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1979), págs. 56-58. 32. Land, Adventism in America, págs. 29-30; Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 53; Biography, vol. 1, pág. 54. 33. Ver C. Mervyn Maxwell, Magnificent Disappointment (Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1994). 34. Foy continuou a pregar para os Batistas do Livre-Arbítrio. Na década de 1860 ele se estabeleceu nas proximidades de East Sullivan, Maine, onde pastoreava uma igreja e trabalhava em sua pequena fazenda. “‘O Pastor Foy’, conforme o chamavam, era grandemente estimado e amado naquela região. A tradição oral afirma que ele era amistoso e amável, embora de fortes convicções. A história local afirma que Foy era excelente pregador e pastor experiente.” – Baker, The Unknown Prophet, pág. 158. Ele morreu aos 75 anos de idade e foi enterrado perto de Ellsworth, Maine, onde seu túmulo pode ser encontrado no Birch Tree Cemetery. 35. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 47 e 64.

A Verdadeira Ellen White

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4 5 6 7 8 9 10 A Pessoa e a sua Época Mensageira, Esposa e Mãe Saúde Física Características Pessoais Como Outros a Conheceram Bom Humor, Bom Senso e uma Conselheira Prática A Pioneira Americana e a Mulher Vitoriana A Escritora Prolífica A Oradora Solicitada

Perguntas Para Estudo

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1. Que exemplos bíblicos ilustram o princípio da profecia condicional? 2. Por que nem todos os crentes possuem o dom profético? 3. Quais algumas das características comuns compartilhadas pelos profetas em suas experiências em visões? 4. Quais as melhores provas de um profeta ou profetisa verdadeiro(a)? 5. Cite algumas circunstâncias existentes em 1845 que tornavam difícil para Ellen Harmon ser ouvida. 6. Por que nossa atitude para com os profetas é uma indicação de nossa atitude para com Deus? 7. Na sua opinião, por que os fenômenos físicos acompanham as visões em determinados períodos mais do que em outros?

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ção abalada começou a apreciar o que ele defendia. Uma nação triste mas agradecida entesourou seus discursos e escritos profundos, tais como o “Discurso de Gettysburg” e seu “Segundo Discurso Inaugural”. A enorme contribuição de Abraão Lincoln só pode ser vista em sua verdadeira perspectiva com o passar do tempo e depois de calma reflexão. Enquanto aguardava ansiosamente pela visita de Ellen White à Austrália em 1891, G. C. Tenney, primeiro presidente da Associação Australiana, escreveu na revista da igreja: “Quase não preciso dizer que este acontecimento é aguardado com grande interesse por todos nós. Creio que é bastante oportuno. A posição que a irmã White e sua obra ocupam em relação a nossa causa torna imperativo que nosso povo a conheça pessoalmente, tanto quanto possível. “As evidências, do ponto de vista bíblico, da autenticidade da obra do Espírito de Profecia em relação à última igreja são todo-suficientes, mas parece ser necessário um conhecimento mais meticuloso da obra da irmã White a fim de satisfazer o indagador sincero de que essa obra preenche os requisitos da Palavra de Deus.”3 Como Lincoln, Ellen White foi muitas vezes caluniada. Ela enfrentou mentiras, de “absoluta malícia e inimizade” e “pura invenção de maldade”. Escrevendo de Greenville, Michigan, quando tinha 41 anos de idade, ela refletiu: “Não duvido, por um só momento, que o Senhor me enviara para que as almas sinceras que haviam sido enganadas tivessem a oportunidade de ver e de ouvir por si mesmas de que espírito era essa mu-

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O ministério profético de Ellen G. White

A Pessoa e sua Época
“Lembrai-vos dos vossos guias, os quais vos pregaram a Palavra de Deus; e considerando atentamente o fim da sua vida, imita a fé que tiveram.” Heb. 13:7.

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omo alguém pode saber quem foi de verdade Abraão Lincoln, Florence Nightingale ou Booker T. Washington? Em parte, pela leitura do que eles escreveram. Mas para ganhar objetividade, é preciso ouvir o que os outros dizem sobre eles. Convém recorrer às pessoas que viveram na mesma época e analisar como foram elas afetadas ou influenciadas por essas pessoas extraordinárias. Observe uma nação em pranto por ocasião da morte de Lincoln. Enquanto o trem funerário que levava seu féretro se movia lentamente rumo ao oeste, levando o corpo para seu lugar de repouso, em Springfield, Illinois, milhares de pessoas perfilavam-se na linha férrea, chorando copiosamente. Ricos e pobres, brancos e negros, doutos e analfabetos – o pesar se abateu por toda uma união de Estados agora quase em paz. Depois de sua morte, mesmo seus inimigos aplaudiram sua grandeza de espírito e transparente altruísmo.1 Para milhões que o chamavam de “Pai Abraão”, sua morte prematura foi como a morte de um dos pais. Quando os Estados Unidos construíram sua primeira auto-estrada transcontinental, que ia de Jersey City, New Jersey, até São Francisco, Califórnia, o Presidente Taft sentiu que dar a essa nova estrada o nome de “Rodovia Lincoln” promoveria unidade nacional.2 No entanto, enquanto em vida, o Presidente Lincoln foi alvo de imensa ridicularização e sarcástica rejeição por parte de muitos líderes nacionais, de seus seguidores e da imprensa. Mas depois que ele morreu, uma na-

lher que fora apresentada ao público sob um falso prisma com o objetivo de tornar inoperante a verdade de Deus.”4 Mais adiante, naquela carta, ela escreveu: “Ninguém é obrigado a crer. Deus fornece evidência suficiente para que todos se decidam sob o peso da evidência, mas Ele nunca remove nem jamais removerá toda chance [oportunidade] para a dúvida; nunca forçará a fé.” Citando um velho provérbio de lenhadores, Carl Sandburg intitulou o penúltimo capítulo de sua biografia de Lincoln em seis volumes: “Uma árvore é melhor avaliada depois que cai.”5 Enquanto vivo, nenhum homem ou mulher pode ser avaliado completamente. Nunca foi isto mais verdadeiro do que com a vida de Cristo. Somente com o passar do tempo pode a vida de alguém ser apropriadamente avaliada. Tanto o louvor afetado dos bajuladores como o desdém sarcástico dos adversários são mais bem medidos e reconsiderados quando se levam em conta os resultados duradouros das palavras e atos de uma pessoa. Em grande parte, somos todos filhos do nosso tempo. Ellen Harmon nasceu num mundo em enorme efervescência e rápidas mudanças. Para ajudar-nos a compreender os assuntos sobre os quais ela falou ou escreveu, mesmo as expressões que ela usou, bem como a espécie de vida diária que viveu, vamos mencionar brevemente os fatores geográficos, políticos, econômicos, sociais e religiosos capazes de haver influenciado seu maduro ministério. Ambiente Geográfico Portland, Maine, a maior cidade mais próxima de Ellen durante seus primeiros vinte anos de vida, era também a maior do Estado em 1840, com uma população de 15.218 habitantes. Embora esse número hoje pareça pequeno, na década de 1840 Portland superava em tamanho as cidades de New Haven e Hartford, Connecticut; e Savanah, Geórgia. Portland, um movimentado porto, colocava o Maine em terceiro lugar no total de carregamentos, atrás apenas de Massachusetts e Nova Iorque. O transporte em vapores regulares para Boston freqüentemente sofria guerra de preços, e o custo da passagem chegava a cair para apenas 50 centavos cada viagem em 1841.6 No tempo de Ellen White, assim como nos dias de hoje, os verões daquela região eram

notoriamente agradáveis; e os invernos, rigorosos, com temperaturas muitas vezes abaixo de zero, chegando mesmo a atingir a marca dos 31° C negativos (1o de fevereiro de 1826). Freqüentemente o porto ficava coberto de gelo durante dias ou até mesmo semanas, enquanto o campo, geralmente coberto de neve, tornava ideal a viagem de trenó.7 Portland tinha “um sistema escolar progressista” para estudantes entre os quatro e os 21 anos de idade. Depois da escola primária básica [4 anos de estudo], o estudante podia entrar para a escola primária superior [4 anos de estudo], chamada grammar school, após um exame público. A educação gratuita para as meninas, contudo, acabava na escola primária superior, enquanto os meninos podiam prosseguir na escola secundária [4 anos de estudo], que se especializava no ensino avançado do inglês, depois de passar noutro exame público.8 Pelo fato de em Portland não haver hospital até 1855, os doentes eram tratados em casa ou no consultório de algum médico. Um doutoramento em medicina podia ser obtido no Bowdoin College, em Brunswick (cerca de 42 quilômetros de Portland), após três meses de aulas expositivas, uma tese escrita e um exame final diante do corpo docente do departamento de medicina (equivalente às melhores escolas norte-americanas de medicina da época).9 A estatística da cidade enumera uma ampla relação de causas mortis, indo “desde uma extensa variedade de febres (tifóide, tifo, ‘febre pútrida’) e doenças comuns da época (cólera e sarampo) até algumas designações hoje consideradas estranhas ou arcaicas (escrófula, ‘súbita’ e gravela). De longe, a mais comum causa de óbito era a tísica pulmonar (tuberculose), seguida por ‘febres’, hidropisia, ‘distúrbios intestinais’ e outras doenças que haviam atingido proporções epidêmicas (como o sarampo em 1835 e escarlatina em 1842). “Os jovens eram os mais gravemente atingidos; os de 10 anos para baixo constituíam muitas vezes cerca de 50% das mortes anuais (sem contar os natimortos). Em outras palavras, a expectativa de vida média em 1840 era de 22,6 anos, a qual, segundo pretendia o Advertiser, demonstrava o ‘nível superior de saúde desfrutado em Portland’.”10

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Frederick Hoyt, historiador adventista, resumiu assim o impacto de crescer nos arredores de Portland, Maine, nas décadas de 1830 e 1840: “Este foi, pois, o ambiente que ajudou a desenvolver o corpo, a mente e a alma da jovem Ellen Gould Harmon. De muitas maneiras aquele era um ambiente difícil que, quando não enfraquecesse o caráter, só podia fortalecê-lo. Nas palavras do historiador norte-americano James Truslow Adams, neste ambiente, ‘as cartilagens da consciência, do trabalho, da simplicidade, da perspicácia e do dever tornavam-se ossos’. Outras palavras poderiam ser empregadas para caracterizar os habitantes da Nova Inglaterra: fervor religioso, veemente busca pela verdade, obstinada independência, austeridade espartana, desembaraço, simplicidade, resoluta autonomia e uma propensão para aderir a causas impopulares e por elas lutar.”11 Ambiente Político É provável que não tenha havido nem uma outra década no século dezenove que tenha testemunhado crescimento mais rápido e acontecimentos mais momentosos do que as décadas de 1830 e 1840. Os Estados Unidos se unificaram de costa a costa. Durante essas duas décadas, sete Estados se uniram à União, juntamente com a Califórnia, que, em 1850, se tornou o trigésimo primeiro Estado. A guerra contra o México acabou com grandes anexações territoriais. A população dos Estados Unidos elevou-se de cerca de 5 milhões em 1800 para mais de 20 milhões em 1850. Ondas crescentes de imigrantes alteraram a estrutura das cidades, de um minúsculo filete de água de 150.000 imigrantes na década de 1820... para uma caudalosa corrente de dois milhões e meio na década de 1850. Embora eles trouxessem “vigor e variedade”, traziam também “temor, suspeitas e hostilidade”. Os católicos romanos, vindos da Irlanda, Itália e outros países europeus despertaram ressentimento não só porque a sua totalidade inundou o mercado com mão-de-obra barata, mas também porque sua homogeneidade religiosa era uma ameaça à uniformidade anterior de uma América protestante.12 Embora fossem um fenômeno social, as relações raciais influíram grandemente nas ques-

tões políticas nos Estados “livres” da escravidão. A questão escravista aumentou progressivamente através da primeira metade do século dezenove, culminando em uma nação polarizada e na Guerra Civil que abalou e debilitou a União. Enquanto a jovem nação cambaleava rumo à escura noite do conflito civil, muitos abolicionistas brancos arriscaram a própria vida, falando abertamente contra a escravidão e a favor de sua imediata extinção.13 Ambiente Social Os meados do século dezenove abalaram a dinâmica das mudanças sociais, principalmente as dirigidas pela expansão do individualismo. Durante a presidência de Andrew Jackson a porta foi aberta para que o “homem comum” se libertasse daquele estado de coisas. Parecia que toda questão de reforma concebível era iniciada. Liceus e, mais tarde, o circuito Chautauqua (ver pág. 541), atraíam milhões de pessoas para ouvir palestras sobre temas tão diversos como escravatura, fourierismo (pequenas comunidades cooperativas), não-violência, reforma agrária, perfeccionismo, mesmerismo (hipnotismo), pão integral e todos os aspectos da saúde. E as publicações dessas “reformas” inundavam o mercado. “Há periódicos sobre temperança. ... Há numerosas revistas dedicadas ao espiritualismo, socialismo, frenologia, homeopatia, hidroterapia, antiarrendamento, bloomerismo, direitos femininos, sociedade secreta Odd Fellows, maçonaria, antimaçonaria e todos os conceitos, movimentos e sensações de uma comunidade de mente extremamente dinâmica.”14 A jovem América do Norte também era um caldeirão de polarizações sociais. As relações raciais assustavam a maior parte das comunidades em cada Estado. Grupos étnicos, que incluíam determinados europeus, orientais, hispânicos, negros e índios norte-americanos, tinham que enfrentar o preconceito cego que afetava tanto o local de trabalho como a vizinhança.15 O consumo de bebidas alcoólicas também era uma preocupação nacional. Certo historiador descreveu os Estados Unidos como uma “república de alcoólatras”. O consumo de álcool anual per capita havia subido de

11,3 litros em 1800 para 15,1 litros em 1830.16 Perto de 1839, a Sociedade Norte-Americana de Temperança, por intermédio de suas mais de 8.000 sociedades locais, havia convencido 350.000 pessoas a assinar um voto de abstinência total – sendo o “total” um grande passo, mesmo para os defensores da temperança. A União Feminina de Temperança Cristã, organizada em 18 de novembro de 1874, era particularmente eficaz em nível regional.17 A última metade do ministério de Ellen White coincidiu com o surgimento fenomenal das cidades industrializadas e urbanizadas. A nação que havia nascido na fazenda se mudara para as cidades. “O número de norteamericanos que viviam em centros com mais de 2.500 habitantes havia crescido de 19 por cento em 1860 para 39 por cento em 1900 e 52 por cento em 1920.”18 A mudança de ritmo natural, tradicional, da fazenda para a vida artificial da cidade exigiu muitos novos e difíceis ajustes. “A América do Norte rural tinha seus defeitos, mas nenhum parecia tão clamoroso como os da metrópole.” Para a maioria dos protestantes, a cidade era símbolo de tudo quanto não prestava – “um mundo estranho e hostil desesperadamente impregnado de aguardente e catolicismo romano”.19 Outro fator que polarizava as cidades eram os conflitos de classe – ricos ilustres sendo invejados pelos que trabalhavam nas fábricas, constituídos em sua maioria de imigrantes estereotipados com seu jeito não convencional e isolado. Pela primeira vez, a América do Norte ouvia o termo “operariado sindicalizado”.20 O ministério de Ellen White correu paralelamente a uma época turbulenta de grandes mudanças sociais. Ela escreveu muito sobre os tenebrosos anos da Guerra Civil e a situação difícil dos escravos, o impacto do êxodo rural, as implicações óbvias do consumo exagerado de álcool e a luta de classe entre ricos e pobres. Ambiente Religioso Seria difícil encontrar na história dos EUA um período que se aproximasse da efervescência religiosa de meados do século dezenove.21

“Revivamentistas e milenistas, comunitários e utopistas, espiritualistas e prognosticadores, celibatários e polígamos, perfeccionistas e transcendentalistas” – todos adicionavam tempero ao cenário religioso anteriormente dominado pelas organizações religiosas convencionais.22 Igrejas oficiais foram desfeitas pelo conflito, especialmente os calvinistas da antiga e da nova escola. A ênfase wesleyana sobre a graça livre fomentou impressionantemente a “preeminência da experiência religiosa”. Surgiam novos grupos religiosos com estrondoso sucesso, mas “em nenhum lugar eles prosperavam em maior variedade que no cálido viveiro do norte do Estado de Nova Iorque”.23 As reuniões campais, principalmente metodistas, eram estufas espirituais onde emergiam diversos estágios de exuberância com o senso de “nova revelação”, a possibilidade de santidade imediata e a consciência de participar no cumprimento de “antigas esperanças mileniais”.24 Os gritos dos aflitos misturavam-se aos brados de louvor e glória. O cair por terra, o convulsionar-se, o clamar, mesmo o rastejar pelo solo, o rolar pelo chão, o dançar celestial, o gargalhar e o bradar de milhares de pessoas ao mesmo tempo, “criando um estardalhaço capaz de ser ouvido a quilômetros de distância” – tudo se tornava a característica marcante dos “mortos pelo Espírito”.25 O “espírito” da reunião campal era levado para os cultos semanais das igrejas e para os tabernáculos evangélicos da cidade. Evangelistas profissionais davam continuidade ao legado das reuniões campais com pregações de alta voltagem. O respeito pela “religião do tempo antigo” refletia-se nos cânticos das reuniões campais, realizadas até o dia de hoje. Como era de se esperar, os primeiros adventistas (muitos deles ex-metodistas) freqüentemente expressavam seus sentimentos espirituais como os outros protestantes evangélicos. “Bradar” por algum tempo era provavelmente o modo mais característico de expressão pública.26 A notável coincidência do florescimento do mormonismo, ciência cristã e espiritualis-

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mo moderno com o surgimento da Igreja Adventista do Sétimo na primeira metade do século dezenove já foi mencionado no capítulo anterior. Árvore Genealógica Fazendeiro e chapeleiro abastado, o pai de Ellen, Robert F. Harmon Sr. (1786-1866), foi excluído da comunhão da Igreja Episcopal Metodista de Portland em 1843 por abraçar a mensagem milerita.27 Eunice Gould Harmon (1787-1863) foi mãe de dois filhos e seis filhas, dos quais Ellen e sua irmã gêmea, Elizabeth, foram as últimas. O relato menciona que ela fora professora primária antes de se casar. Tornou-se mais tarde uma laboriosa dona de casa, no tempo de lamparinas a óleo de baleia e fogões à lenha, e uma renda familiar imprevisível. Os pais dela descendiam de antepassados de muitos recursos. Haviam lutado nas primeiras guerras, a começar com a Guerra do Rei Philips (1675). Alguns haviam sido empresários. O trisavô de Ellen construiu um moinho à beira do rio em Scarboro, Maine, conhecido como o “Moinho dos Harmon”.28 Quatro dos oito filhos da família Harmon tornaram-se observadores do sábado – Ellen, suas irmãs Mary e Sarah (respectivamente seis e cinco anos mais velhas que Ellen) e Robert. A filha de Caroline (1811-1883), Mary, trabalhou por breve período de tempo como assistente literária de Ellen (1876-77). Robert Jr. morreu em 1853 de tuberculose, com a idade de 27 anos. Tanto o pai como a mãe de Ellen White posteriormente se tornaram adventistas observadores do sábado. Pouco antes de seu pai morrer (e depois de Ellen haver visitado suas irmãs mais uma vez), ela escreveu: “Embora, no que diz respeito ao dever religioso, não concordássemos em todos os pontos, era um o nosso coração.”29 Do casamento de Ellen com Tiago White, em 30 de agosto de 1846, nasceram quatro filhos. Destes, somente dois sobreviveram até a idade adulta. O primeiro filho que lhes nasceu, Henry Nichols (1847-1863), um jovem feliz, morreu de pneumonia aos 16 anos de idade.30 James Edson (1849-1929) aprendeu com o pai o ofício de impressor quando tinha 14 anos. Tornou-se um popular escritor e compositor adventista. O trabalho pertinaz que realizou em

favor dos negros nos Estados sulistas foi inigualável. Sua oficina gráfica deu origem à antiga Southern Publishing Association.31 Cedo ainda se reconheceu na vida de William Clarence (1854-1937) a capacidade administrativa. Foi eleito para diversas e pesadas responsabilidades na liderança da igreja. Depois da morte de seu pai, ele se tornou companheiro de viagem e conselheiro de confiança de sua mãe. Logo que a mãe morreu em 1915, ele foi nomeado secretário do Patrimônio Literário White e supervisionou suas atividades por mais de duas décadas. John Herbert, nascido em 1860, morreu três meses depois, de erisipela.32 Vida Anterior a 184533 Três principais acontecimentos ou circunstâncias ocorridos nos primeiros anos de Ellen White afetaram diretamente o resto de sua vida e serviram de ponto de convergência para ela: a lesão física que ela sofreu com a idade de nove anos; a pregação de Guilherme Miller; e sua profunda experiência religiosa. Em 1836, enquanto a juvenil Ellen caminhava com um grupo de colegas de classe, uma garota mais velha começou a perseguilas com ameaças. Assim que Ellen se virou, a garota mais velha atirou uma pedra que lhe atingiu violentamente o rosto, deixando-a inconsciente. Durante três semanas Ellen ficou praticamente em estado de coma. Dias mais tarde, quando o pai dela voltou de uma viagem de negócios, Ellen ficou ainda mais constrangida – o próprio pai não a reconheceu. “Cada traço” do seu rosto parecia alterado. Mais do que isso, a perda de sangue havia afetado gravemente o seu sistema respiratório, uma debilidade que ela carregou consigo pelo resto da vida. Além disso, pelo fato de ter ficado com mãos “trêmulas”, fez “pouco progresso na escrita”.34 Ao fazer uma retrospectiva de sua vida, quase cinqüenta anos depois, ela escreveu: “O golpe cruel que destruiu para mim as alegrias da Terra foi o meio de dirigir meus olhos para o Céu. Talvez eu jamais tivesse conhecido a Jesus, se não fosse a tristeza que, nublando meus primeiros anos, me levou a buscar nEle o conforto.”35 Estudar tornou-se uma impossibilidade. As letras do alfabeto em seus livros confundiamse, seu olhos ficavam turvos, sobrevinha

transpiração, e ela ficava fraca e desmaiava. Foi assim que, com a idade de nove anos, esta brilhante estudante teve que, a contragosto, abandonar seu preparo acadêmico, para nunca mais voltar à educação formal – a primeira das duas grandes decepções sofridas no início de sua vida. Sua mãe ficou sendo sua professora; e os campos ao redor de Portland, seu laboratório.36 Ellen, porém, sentiu suas esperanças se renovarem em 1840, quando Guilherme Miller deixou seus ouvintes de Portland, Maine, fascinados ao delinear as profecias que pareciam indicar a proximidade da volta de Jesus. Esta nova compreensão, desconhecida (e, portanto, controversa) para a maioria dos religiosos daquela época, afetou-a profundamente pelo resto da vida. As questões espirituais sempre foram importantes para a jovem Ellen. Mas o que a motivava era principalmente o medo – o medo de não estar preparada quando Jesus voltasse, o medo de fracassar devido à sua instrução limitada e debilidade física e o medo de que Deus de algum modo a houvesse castigado com aquela terrível aflição física. Tudo isso se tornou a “angústia secreta” que ela fechava a sete chaves em seu coração solitário. Anos escutando sermões sobre um “inferno de fogo” gravaram-lhe na alma uma falsa imagem de Deus. O Deus de Ellen era o Governante celestial, mas será que era seu Amigo? Dois sonhos e um conselho pastoral dado na hora certa tornaram-se na vida da jovem Ellen o terceiro momento decisivo que estabeleceu o curso do resto de sua vida. Pelos próximos 75 anos, sua missão mais urgente era dizer a verdade sobre o caráter de Deus. Um desses sonhos retratava uma visita ao templo celestial; o outro, um encontro com Jesus. Com um sorriso, Jesus parecia tocar-lhe a cabeça dizendo: “Não temas.” Ele lhe deu um fio verde, que representava a fé, levando-a a declarar: “A beleza e simplicidade de confiar em Deus começaram a raiar na minha alma.” Ellen agora se sentia livre para discutir seus temores com sua mãe. Com rápida percepção e encorajamento, sua mãe lhe sugeriu que fizesse uma visita ao jovem Levi Stockman, na casa dos trinta anos de idade.

Depois que o Pastor Stockman ouviu a história dos seus dois sonhos e o relato dos seus temores, ele disse: “Ellen, você é tão criança! Sua experiência é muitíssimo singular, numa idade tenra como a sua. Jesus deve estar preparando-a para algum trabalho especial.” Em seguida, o perceptivo pastor deu-lhe uma visão mais clara de Deus conforme revelado em Jesus. Escrevendo posteriormente, Ellen confessou: “Durante os poucos minutos que passei recebendo instrução do Pastor Stockman, obtive mais conhecimento sobre o assunto do amor de Deus e de Sua compassiva ternura do que de todos os sermões e exortações que já ouvira.”37 A compreensão recém-encontrada – de que Deus é como Jesus, seu melhor Amigo – estimulou-a a compartilhar suas descobertas e gratidão com outros: “Enquanto relatava minha experiência, pressenti que ninguém poderia resistir à evidência do amor perdoador de Deus que em mim realizara uma mudança tão maravilhosa. A realidade da verdadeira conversão parecia-me tão evidente, que eu desejava ajudar minhas jovens amigas a virem para a luz, valendo-me de toda oportunidade para exercer minha influência nesse sentido.”38 Nova Concepção de Deus Essa nova concepção de Deus, aliada a sua profunda convicção de que Jesus estava prestes a voltar, era também compartilhada por seu irmão Robert. Ele meditava com ela sobre o que esses novas descobertas lhes tinham feito: “Cada árvore é conhecida pelos seus frutos. O que tem feito por nós essa crença? Convenceu-nos de que não estávamos preparados para a vinda do Senhor; de que devemos tornar-nos puros de coração, do contrário não poderemos encontrar em paz o nosso Salvador. Despertou-nos para procurar nova força e graça divinas. “‘O que fez ela por você, Ellen? Você seria o que agora é se não tivesse ouvido a doutrina da breve vinda de Cristo? Que esperança ela lhe inspirou ao coração? Que paz, alegria e amor ela lhe proporcionou? Para mim fez tudo. Amo a Jesus e a todos os cristãos. Aprecio a reunião de oração. Tenho grande alegria na leitura da Bíblia e na oração.’”39

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É muito provável que, se Ellen não tivesse tido esse relacionamento com seu Senhor, ela não teria ficado preparada para o profundo desapontamento de 22 de outubro de 1844. Ela relembrou: “Foi amargo o desapontamento que atingiu o pequeno rebanho, cuja fé tinha sido tão forte, e tão elevada a esperança. Estávamos, porém, surpresos de que nos sentíssemos tão livres no Senhor, e tão fortemente fôssemos amparados por Sua força e graça. ... Ficamos desapontados, mas não desanimados.”40 Assim, no fim de 1844, Ellen estava preparada para seu imprevisto futuro. Inteiramente cônscia de sua fragilidade física, cativada pela nova e atrativa concepção de Deus como seu Amigo celestial e concentrada na absorvente verdade da iminente volta de Jesus, ela estava pronta para sua primeira visão. Ela a recebeu assim que completou 17 anos. Nem todos os mileritas, porém, tinham o mesmo parecer depois do Grande Desapontamento. Nem todos podiam dizer que estavam “desapontados, mas não desanimados”. Por um lado, idéias radicais geraram comportamento radical. Alguns antigos líderes, crendo que Cristo havia vindo de fato espiritualmente, adotaram “as núpcias espirituais”, através das quais renunciavam ao casamento e formavam novas uniões “espirituais”, destituídas de sexo, com novos parceiros. Outros, crendo que o sábado milenar havia começado naquela época, e para mostrar sua fé nessa crença, não faziam mais nenhuma espécie de trabalho secular.41 Por outro lado, diferenças doutrinárias começaram a separar os seguidores de Miller.42 Eles logo se dividiram em pelo menos quatro grupos: (1) Os conhecidos como adventistas evangélicos abandonaram os ensinos proféticos de Miller e foram absorvidos em outros grupos protestantes ao tornar-se evidente que quase nada os separava. (2) Outro grupo cria que o milênio havia ficado no passado, que os mortos agora “dormiam” esperando a ressurreição e que os ímpios seriam aniquilados. Por fim, esses se tornaram conhecidos como a Igreja Cris-

tã do Advento, hoje o maior remanescente não observador do sábado, proveniente do adventismo milerita. (3) Centralizado ao redor de Rochester, Nova Iorque, outro grupo via o milênio como estando ainda no futuro – durante o qual os judeus voltariam para a Palestina. Tenazmente contrários à organização formal da igreja, esses adventistas da “Era Vindoura” nunca se tornaram fortes nem unidos. (4) O quarto grupo ficou conhecido como os adventistas do “Sábado e da Porta Fechada”. Por meio de oração, estudo da Bíblia e confirmação divina, eles desenvolveram uma base lógica para os acontecimentos centralizados em 22 de outubro de 1844. Este grupo disperso finalmente encontrou sua unidade e missão, vindo a chamar-se Adventistas do Sétimo Dia, a maior corporação de mileritas hoje existente. Eles criam que alguma coisa havia acontecido em 22 de outubro, mas o quê?43 Deus entendeu a dor e a confusão, exatamente como entendera o abatimento dos dois discípulos caminhando penosamente para Emaús, “entristecidos” (Luc. 24:17) depois da crucifixão. Há 2.000 anos Jesus não permitiu que Seus desalentados discípulos sucumbissem sem uma explicação – e Ele não esqueceu Seus crentes no fim de 1844. Jesus, pois, fez-Se presente naquela manhã de dezembro de 1844, quando um pequeno grupo de mulheres adventistas em Portland, Maine, uniram-se em oração e estudo da Bíblia – recorrendo a Deus e uma à outra em busca de encorajamento e compreensão. Fazia alguns dias que a macilenta Ellen estava na casa dos Haines, dando à sua mãe necessário repouso. O médico e os amigos haviam-na desenganado para morrer de tuberculose. Enquanto as mulheres estavam orando, esta adolescente de dezessete anos perdeu a noção de onde estava, e Deus lhe deu a espécie de encorajamento que aqueles crentes perturbados tanto precisavam. Teve início assim um ministério de setenta anos, que se tornou mais significativo à medida que o tempo passava.44

Referências
1. Ver Carl Sandburg, Abraham Lincoln (New York: Charles Scribner’s Sons, 1939), vol. 6, págs. 387-413. 2. “Lincoln, Abraham”, The World Book Encyclopedia (Chicago: Field Enterprises Educational Corporation, 1960), pág. 287. 3. Review and Herald, 17 de novembro de 1891. 4. Biography, vol. 2, pág. 276. 5. Sandburg, Abraham Lincoln, págs. 387-413. 6. Frederick Hoyt, “Ellen White’s Hometown: Portland, Maine, 1827-1846”, ed. Gary Land, The World of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1987), págs. 14, 15, 30 e 31. 7. Ibidem, pág. 14. 8. Ibidem, pág. 16. 9. Ibidem, págs. 26 e 27. 10. Ibidem, pág. 27. 11. Ibidem, pág. 31. 12. Ibidem, pág. xii; Ronald E. Osborn, The Spirit of Americam Christianity (New York: Harper & Brothers, 1958), págs. 18-21. 13. H. Shelton Smith, et al., American Christianity: An Historical Interpretation with Documents, págs. 167-212. 14. Thomas Low Nichols, Forty Years of American Life: 18211861 (New York: Stackpole Sons, 1937), pág. 208. 15. “Dentro da estrutura da história norte-americana, o período mais decisivo quanto às relações raciais foi provavelmente o século dezenove. As questões raciais eram manchetes nos jornais sempre que norte-americanos brancos adotavam um ponto de vista de conflito ou concessão para com grupos étnicos como os negros, os nativos norte-americanos (índios), os hispânicos, os orientais e os europeus. Em cada choque a maioria caucasiana tinha que enfrentar seus próprios temores em relação aos grupos minoritários e os preconceitos que alimentavam contra eles. Muitas vezes o preconceito puro e cego ditava a maneira como as minorias deviam ser tratadas até que maior contato modificasse os pontos de vista mais extremos. ... O contato e a exposição entre as raças pouco fizeram para modificar os estereótipos atribuídos aos grupos minoritários. Em tais situações, os relacionamentos complexos tanto sociológicos como psicológicos militavam contra qualquer harmonia ou entendimento racial efetivo. Isto foi especialmente verdadeiro no caso dos afro-americanos.” – Norman K. Miles, “Tension Between the Races”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 47. 16. Jerome L. Clark, “The Crusade Against Alcohol”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 131. 17. Ibidem, págs. 132 e 138. 18. Carlos A. Schwantes, “The Rise of Urban-Industrial America”, em Land, The World of Ellen G. White, pág. 47. 19. Land, The World of Ellen G. White, págs. 84 e 85; Osborn, The Spirit of American Christianity, págs. 16-18; Winthrop S. Hudson, The Great Tradition of American Churches (New York: Harper & Row, 1963), págs. 110-136. 20. “No fim do século dezenove, as pessoas muitas vezes se referiam às corporações como ‘trustes’, ‘monopólios’, ‘máquinas desalmadas’ ou ‘polvos’ cujos tentáculos gananciosos se estendiam por todos os lugares. As associações sindicais eram chamadas de ‘comunistas’ ou ‘anti-americanas’. Das duas formas de organização, os sindicatos pareciam a maior ameaça. ... À medida que o século dezenove chegava a seu termo, tornou-se mais evidente que o protestantismo estava perdendo seus membros da classe operária. A íntima aliança entre o protestantismo e a riqueza, bem como a atitude dos clérigos protestantes para com as lutas de classe, não passaram despercebidas pelos trabalhadores. ... Para muitos adoradores provenientes da classe trabalhadora ficava cada vez mais difícil encontrar uma igreja protestante para freqüentar. Como a igreja adotara uma postura cada vez mais burguesa, ela não apenas se indispôs com muitos trabalhadores, mas também encontrou fortes razões para abandonar fisicamente as vizinhanças da classe trabalhadora da metrópole e fugir para as zonas suburbanas ou rurais.” – Land, The World of Ellen G. White, págs. 91-93. 21. K. S. Latourette, A History of the Expansion of Christianity (New York: Harper & Brothers, 1941), vol. VI, págs. 442, 443 e 450; VII, pág. 450. 22. Edwin S. Gaustad, “Introduction”, Gaustad, The Rise of Adventism, pág. xv. 23. Winthrop S. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, Gaustad, The Rise of Adventism, pág. 7. 24. Ibidem, pág. 9. 25. Charles A. Johnson, The Frontier Camp Meeting (Dallas: Southern Methodist University Press, 1955), págs. 52-64. Ver Apêndice A para a descrição de uma testemunha ocular de uma reunião campal em princípios da década de 1800. 26. Malcom Bull e Keith Lockhart, Seeking a Sanctuary (San Francisco: Harper & Row, 1989), pág. 152. 27. Biography, vol. 1, págs. 43 e 44. 28. Ver a árvore genealógica de Ellen Harmon em Biography, vol. 1, pág. 487. 29. Review and Herald, 21 de abril de 1868. 30. Biography, vol. 2, págs. 70-72. 31. SDAE, vol. 11, pág. 888. 32. Biography, vol. 1, pág. 430. 33. O relato mais completo sobre os primeiros anos de Ellen Harmon encontra-se em Ellen G. White: The Early Years, o primeiro volume de sua biografia em seis volumes escrita por Arthur L. White, vol. 1: 1827-1862 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1985), págs. 15-71. 34. Ellen White, Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 7-11, citado em Biography, vol. 1, págs. 28-31. 35. Review and Herald, 25 de novembro de 1884. 36. Charles Dickens e Mark Twain, entre outros escritores, não estudaram o equivalente ao ensino secundário. – Antony Smith, The Mind (New York: The Viking Press, 1984), pág. 208. 37. Life Sketches, pág. 37 (parte em Vida e Ensinos, pág. 28); Maxwell, Tell It to the World, pág. 56; ver também Biography, vol. 1, págs. 38-49. 38. Life Sketches, pág. 41 (parte em Vida e Ensinos, pág. 33). 39. Ibidem, pág. 45 (Vida e Ensinos, págs. 36 e 37). 40. Ibidem, pág. 61 (Vida e Ensinos, pág. 54). 41. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 56. Ver pág. 559. 42. Ver pág. 134. 43. Ibidem, págs. 56-58 44. Ibidem, págs. 55 e 56; Maxwell, Tell It to the World, pág. 58; Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 30 e 31; J. N. Loughborough, The Great Second Advent Movement (GSAM) (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1905), pág. 202.

Perguntas Para Estudo

1. Como sabemos que Ellen Harmon era uma jovem de inclinação religiosa antes de 1844? 2. Que compreensão errônea da verdade bíblica levou Ellen Harmon a ter concepção errônea sobre o caráter de Deus? 3. Que temores assaltavam a jovem Ellen e como foram eles dissipados?

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“Mulher virtuosa, quem a achará? ... O coração do seu marido confia nela. ... A força e a dignidade são os seus vestidos; ri-se do dia futuro. ... Levantam-se os seus filhos, e lhe chamam bem-aventurada; o seu marido também, e a louva, dizendo: Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas és superior.” Prov. 31:10, 11, 25, 28 e 29.

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urante o ano de 1845, Ellen Harmon foi convidada para relatar suas primeiras visões a grupos adventistas no Maine, New Hampshire e Massachusetts. Um jovem pregador, seis anos mais velho que Ellen, convenceu-se de que as visões dela eram verdadeiras e que a mensagem de fortalecimento que ela apresentava era necessária. Foi assim que Tiago White entrou na vida da jovem Ellen, e não com pensamentos românticos – pelo menos a princípio. Na verdade, durante alguns meses subseqüentes ao dia 22 de outubro, ele e muitos outros pertencentes ao quarto grupo de mileritas mencionado no último capítulo encaravam o casamento como uma negação de sua fé na breve volta de Cristo. Em Day Star, Tiago condenou um casal que, ao anunciar seu casamento prestes a ocorrer, havia “negado sua fé ao ser proclamado seu casamento, e todos nós consideramos isto uma artimanha do diabo. Os irmãos firmes do Maine, que estão aguardando a vinda de Cristo, não comungam com semelhante atitude”.1 Mas a realidade e o bom senso prevaleceram. Tiago descobriu que o amor estava se tornando mais do que um princípio! Depois de perceber que seu ministério conjunto com a jovem Ellen, apesar de contar sempre com a companhia de sua irmã Sara ou outras fiéis amigas, estava gerando mexericos, ele lhe propôs casamento. Ellen aceitou a proposta, e um juiz de paz realizou a cerimônia em Portland, Maine, em 30 de agosto de 1846.2

Ellen lembrou disso depois da morte de Tiago: “Pouco antes de haver completado um ano, Tiago White discutiu o assunto comigo. Disse que haviam surgido alguns comentários, e que ele devia ou ir embora me deixando livre para seguir meu caminho, ou deveríamos casar-nos. Disse que alguma coisa precisava ser feita. Então nós nos casamos, e permanecemos casados desde então. Embora esteja morto, sinto que ele é o melhor homem que já pôs os pés em sapatos de couro.”3 Tiago considerava Ellen sua “coroa de glória”.4 L. H. Christian, antigo líder da igreja, menciona uma conversa com uma senhora que, na tenra juventude, havia brincado junto com a jovem Ellen e se lembrava de seu lastimável acidente. Quando Christian perguntou do que se lembrava sobre Ellen como jovem, ela respondeu com um sorriso: “Bem, essa é uma história interessante que tenho prazer em contar. Tiago era mais velho do que Ellen cerca de seis anos. Éramos jovens e andávamos juntos. A amizade deles era um modelo e uma inspiração para todos nós, e o casamento deles foi uma cerimônia muito bela e feliz.”5 Assim começou um notável casamento de 35 anos, alicerçado em amor mútuo e na convicção de que as visões de Ellen eram de origem divina. Ellen Gould Harmon tornou-se a Sra. Ellen G. White, nome pelo qual se tornou conhecida como profetisa/mensageira da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

O público considerava Ellen a evangelizadora e Tiago, o organizador. “Como marido e mulher, eles formavam uma equipe evangelística sólida e inigualável. Seu método e divisão de trabalho eram perfeitos. Os adventistas nunca mais tiveram algo parecido.”6 Mesmo antes de casar-se, Tiago reconhecia as extraordinárias habilidades de Ellen como pregadora: “Embora tivesse apenas dezesseis anos de idade, ela trabalhava esforçadamente na causa de Cristo, tanto em público como de casa em casa. Adventista resoluta, possuía experiência tão rica e testemunho tão poderoso que pastores e líderes de diversas igrejas buscavam contratar seus serviços como exortadora em suas diversas congregações. Naquele tempo, porém, ela era uma pessoa muito tímida, e mal lhe ocorria que ela precisava colocar-se perante o público para falar a milhares de pessoas.”7 Conhecido por sua persistência e são juízo, Tiago era considerado um líder de confiança por parte dos seus irmãos adventistas do sétimo dia. Era não apenas um estrategista, mas lutava como um guerreiro no campo de batalha. Ele iniciou a obra de publicações da igreja a partir do zero, fomentou a organização da igreja e desenvolveu o sistema educacional quando outros viam nisso apenas um sonho. Sua robusta fé e contagiosa alegria comoviam o público ouvinte. Fundos e apoio apareciam. Seu extraordinário talento comercial salvou a denominação de muitas dificuldades.8 Quando Tiago White morreu, o redator do Battle Creek Journal (que acompanhara de perto muitos dos empreendimentos do Pastor White) escreveu: “Ele foi um homem da têmpera dos patriarcas, um homem cujo caráter foi modelado no cadinho dos heróis. Se possuir clareza lógica para formular um credo; se possuir poder para contagiar a outros com o próprio zelo e impressioná-los com as próprias convicções; se possuir capacidade executiva para estabelecer um grupo religioso e imprimir-lhe forma e estabilidade; se possuir capacidade para moldar e dirigir o destino de grandes comunidades; se tudo isso é a marca da verdadeira grandeza, o Pastor White tem com certeza o direito a esse nome, pois ele não possuía apenas uma dessas qualidades, mas todas elas em assinalado grau.”9

É provável, contudo, que Tiago White não fosse hoje tão vividamente admirado e relembrado se ele não se tivesse associado a alguém que possuísse o Espírito de profecia. L. H. Christian escreveu: “Por maior que tenha sido o serviço de liderança que o Pastor White prestou à causa do advento, seu maior préstimo foi a fé duradoura que depositou no Espírito de profecia e a defesa dele. O fato de ele – um decidido homem de negócios, absolutamente livre de fanatismo, sempre contrário às manifestações falsificadas da religião e conhecedor íntimo da mensageira como sua esposa – apoiar sempre o chamado e a obra da Sra. White como mensageira de Deus deu a nossos membros grande confiança nos testemunhos dela. ... Ele achava que a missão de sua vida era ser um instrumento para tornar conhecidas à igreja as visões que o Senhor concedia à sua companheira. Esses testemunhos também o instruíam e reprovavam como o faziam com outras pessoas, mas ele os aceitava e seguia implicitamente como se fossem a luz do Céu.”10 Mensageira e mestre-de-obras, profetisa e apóstolo, “Tiago e Ellen White formaram uma equipe inestimável. Ellen compartilhava com Tiago sua sabedoria baseada em suas revelações; ele agia vigorosamente para implementar o que ela aconselhava e o que a ele parecia sensato.”11 O papel de Ellen White como esposa amorosa e leal está bem documentado. Em 1876, enquanto estabelecia seu lar em Oakland, Califórnia, Ellen, na época com 49 anos de idade, sentiu a necessidade de concentrar-se na finalização do segundo volume da série The Spirit of Prophecy, que enfatizava a vida e a obra de Cristo. Tiago partiu sozinho para Battle Creek a fim de participar de uma assembléia extraordinária da Associação Geral. Em um bilhete típico, escrito dois dias depois da partida dele, ela diz (24 de março): “Estamos tão bem como de costume. Demora um pouco acostumar-se com a emoção de sua partida. Pode estar certo de que sentimos sua falta. Sentimos principalmente a perda de sua companhia quando nos reunimos à noitinha junto à lareira. Sentimos sua ausência quando nos sentamos à mesa social [mesa de jan-

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tar]. Mas logo ficamos mais acostumados a isso. Hoje estivemos escrevendo.”12 Algumas semanas depois, ela escreveu uma carta que revelava mais do seu humor bem como de seu amoroso relacionamento com Tiago. Parte da carta reza: “Escrevi-lhe uma carta bastante longa na noite passada, mas a tinta entornou deixando uma feia mancha e eu não a enviei. Recebemos ontem à noite em um cartão postal suas breves palavras: ‘Battle Creek, 11 de abril. Faz dois dias que não recebo uma carta sua. Tiago White.’ “Esta longa carta foi escrita por você mesmo. Obrigada por sabermos que você está vivo. Nenhuma carta de Tiago White antes desta, desde 6 de abril de 1876. Estamos muito gratos por ter recebido no dia 9 de abril algumas linhas da irmã Hall, falando a seu respeito. Tenho esperado ansiosamente alguma coisa para responder.” Segue depois uma extensa descrição das atividades do dia anterior navegando na Baía de São Francisco, cujas ondas encapeladas a fizeram lembrar dos discípulos no tempestuoso Mar da Galiléia. Algumas linhas depois: “Eu escreverei cada manhã. ... Você fará o mesmo?”13 Vários dias depois, ela colocou por escrito a afeição que sentia por Tiago e a solidão que sentia quando ele estava fora: “Vamos todos bem e estamos alegres. Cada dia sentimos desejo mais intenso de ter maior proximidade com Deus. Esta é minha oração, quando me deito, quando desperto à noite e quando me levanto de manhã: Mais perto de Ti, meu Deus, mais perto de Ti.”14 Como a maioria das esposas maduras descobrem mais cedo ou mais tarde, no casamento há também momentos de tensão. Em 1876, Tiago, com 55 anos de idade, assumia responsabilidades extremamente pesadas como presidente da Associação Geral e constante conselheiro da obra de publicações. Uma de suas maiores preocupações era a de que poucos colegas eram tão veementes e corajosos ante os desafios como ele. Sendo um homem de ação, Tiago tinha a tendência de tornar-se ditatorial e exigente. Às vezes ele se sentia pouco apreciado. Ao experimentar os efeitos de diversos derrames e o avanço da idade, pensamentos de desânimo e ressentimentos o assaltavam. Pensamentos desani-

madores transpareciam nas cartas que enviava a sua esposa. Em 12 de maio de 1876, Ellen White, aos 48 anos, respondeu a uma dessas cartas: “Com respeito à minha independência, não tenho tido mais do que devia ter na questão, dadas as circunstâncias. Não recebo [aceito] seus pontos de vista nem interpretação dos meus sentimentos nessa questão. Eu entendo a mim mesma muito melhor do que você. Assim, porém, deve ser, e não direi mais nada com respeito a esse assunto. Alegro-me de que eu esteja livre e feliz. Regozijo-me de que Deus me haja abençoado com liberdade, paz, alegria e coragem. ... Recorrerei a Deus em busca de orientação e procurarei agir na medida em que Ele me conduzir.”15 Quatro dias depois, ela escreveu: “Lamento haver dito ou escrito algo que o magoou. Perdoe-me, e serei cautelosa em não iniciar nenhum assunto que o aborreça ou aflija. Estamos vivendo num tempo muito solene e não podemos permitir que, em nossa velhice, existam entre nós diferenças que alienem nossos sentimentos. Talvez eu não consiga ver as coisas como você vê, mas não creio ser minha função ou dever procurar fazer você ver como eu vejo ou sentir como eu sinto. Onde agi assim, lamento. “Desejo ter um coração humilde e um espírito manso e tranqüilo. Em qualquer ocasião em que eu tenha permitido que meus sentimentos se exaltassem, errei. ... “Desejo ter minha personalidade escondida em Jesus. Desejo que o próprio eu seja crucificado. Não reivindico infalibilidade nem mesmo a perfeição do caráter cristão. Não estou isenta de erros e equívocos em minha vida. Tivesse eu seguido a meu Salvador mais de perto, e não teria que lastimar tanto minha dessemelhança com Sua querida imagem. ... Nunca mais escreverei em minhas cartas uma linha ou expressão para o angustiar. Outra vez, lhe peço, perdoe-me, cada palavra ou ato que o magoou.”16 Tiago e Ellen escreveram suas tocantes cartas pessoais sem sequer imaginar que algum dia elas seriam lidas por outras pessoas. Obtemos nessas cartas discernimento incomum sobre a maneira como cristãos comprometidos resolvem sua tensão conjugal e por meio delas outros maridos e mulheres apren-

dem como lidar com suas próprias tensões e conflitos. Essas cartas têm-se tornado uma fonte de esperança e força para muitos casamentos modernos.17 A fidelidade mútua do casal superou, porventura, os solitários momentos de incompreensão? Sem dúvida. Os anos futuros revelaram um amor persistente e tenaz. Um ano depois, a saúde de Tiago começou a decair novamente. No fim de outubro de 1877, Ellen escreveu a seu filho William, e a Mary, esposa dele, em Battle Creek: “Queridos filhos: Esta noite estou cansada. Estou tentando escrever uma matéria para a revista [Health] Reformer. É difícil escrever muito, pois papai está tão solitário que eu tenho de sair com ele e dedicar bastante tempo em sua companhia. Ele está bem disposto, mas fala pouco. Temos desfrutado alguns momentos de oração muito preciosos. Cremos que Deus vai melhorar a saúde dele. Estamos com bom ânimo.”18 O Aniversário de Cinqüenta Anos de Ellen White Tiago ainda conseguia escrever, se bem que falasse pouco em público. Em homenagem ao aniversário de cinqüenta anos de Ellen, ele escreveu estas palavras em Signs of the Times: “Hoje, 26 de novembro, a Sra. White completa 50 anos de idade. Ela se tornou uma cristã dedicada com a tenra idade de 12 anos e imediatamente uma obreira em prol de outras jovens, sendo bem-sucedida em ganhálas para Cristo. “Com a prematura idade de 17 anos, tornou-se poderosa oradora, capaz de prender a atenção de grandes auditórios por uma hora ou mais. Ela tem viajado e falado a grandes auditórios, alguns com até vinte mil pessoas [sic], desde o Atlântico até o Pacífico, em dezoito Estados, além do Canadá. Seus trabalhos públicos perfazem trinta anos. “Além desta grande obra, ela tem escrito bastante. Seus livros impressos atingem não menos que a soma de cinco mil páginas, sem contar os milhares de páginas de matéria epistolar endereçadas a igrejas e indivíduos.

“E apesar desta grande obra, a Sra. White acha-se, em seu qüinquagésimo aniversário, tão ativa como nos primeiros tempos de sua vida, e mais eficiente em suas tarefas. Desfruta saúde excelente, tanto que, durante a reunião campal da última estação, conseguiu realizar tanto trabalho de pregação, exortação e oração, como dois de nossos pastores mais capazes. ... “A Sra. White entra na segunda metade do século de sua vida com a confiante expectativa de passar a maior parte dele na praia perene.”19 Essas são palavras de um marido amoroso e agradecido. O serviço zeloso e dedicado de Ellen como companheira de Tiago, especialmente em tempos de doença e desânimo, é extraordinário. No entanto, em certa ocasião em 1878, Tiago, na época com 58 anos de idade, embora tentando manter um rigoroso programa de produção literária, não experimentou melhora física. Ellen escreveu a Mary, esposa de William: “Sou a constante companheira dele nos passeios e junto à lareira. Se eu saísse, me fechasse em um quarto e o deixasse inativo, ele ficaria nervoso e desassossegado. ... Ele depende de mim, e eu não o abandonarei em sua debilidade.”20 Na noite do dia 4 de abril, Ellen recebeu uma visão em que lhe foi mostrado o verdadeiro estado de seu marido, visão cujos detalhes ela passou para o papel na manhã seguinte: “Querido esposo: Sonhei ontem à noite que um médico afamado entrava no quarto onde estávamos orando por você. Ele disse: ‘Orar é bom, mas viver de acordo com a oração é melhor. Sua fé deve ser mantida pelas suas obras, do contrário é uma fé morta. ... “‘Você não é valente em Deus. Se há alguma inconveniência, em vez de acomodar-se às circunstâncias, ficará com o assunto (por pequeno que seja) em sua mente até que se satisfaça. Você não trabalha, portanto, pela fé. Ainda não tem fé verdadeira. Não faz mais que suspirar pela vitória. Quando sua fé for aperfeiçoada pelas obras, deixará de prestar atenção em você mesmo e deixará seu caso nas mãos de Deus, tolerando e suportando

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qualquer coisa, não exatamente de acordo com os seus sentimentos. ‘“Todos os poderes da Terra não poderiam ajudá-lo a menos que você trabalhe em harmonia, exercitando a razão e o juízo e deixando de lado seus sentimentos e tendências. Você se encontra em um estado crítico.’” Depois o “médico afamado” foi mais específico: ‘“Seus próprios hábitos desordenados estão mantendo não somente você, mas também sua esposa afastados da obra para a qual Deus os chamou. ... “‘Você se sente tão temeroso de ter seu vigor diminuído que come mais do que o necessário, colocando no estômago quantidade maior do que o organismo poderia suportar. Deve tomar alimento sólido e [deve] dedicar mais tempo à mastigação. Coma devagar e em quantidade muito menor. Dois ou três alimentos em uma refeição é tudo o que deve ser colocado no estômago. ... Você está morrendo por capricho e contudo não emprega suficientes esforços para efetuar uma mudança radical. ... Sua vida seria mais confiante se você fosse mais altruísta. Deus tem uma obra para você e sua esposa realizarem. Satanás diz: ‘Se eu tiver poder para dominar a mente, você não realizará a obra. Posso dominar tudo e amarrar a ambos com grilhões de ferro.’ ... Você tem condições de levantar-se. Você pode lançar fora essa invalidez.’”21 O conselho funcionou. Ele se sentiu encorajado com a promessa: “Você tem condições de levantar-se. Você pode lançar fora essa invalidez.” O estressado Presidente da Associação Geral concordou em ir a Battle Creek e colocar-se sob os cuidados do Dr. John Harvey Kellogg. Em 24 de junho, Tiago escreveu para Ellen: “Estou escrevendo para dizer que estou bem melhor.” Parte de sua alegria era o resultado de haver encontrado um homem que podia taquigrafar, capacitando-o assim a fazer em “dois dias... trabalho que tomaria toda uma semana”.22 Em princípios de julho, Tiago saiu com destino a sua cabana no Colorado juntamente com Dudley Canright e Mary White (William foi depois). Quando Ellen se juntou a eles em agosto, escreveu: “Encontrei o papai melhor, sob todos os aspectos. O clima aqui está sempre fresco. ... O papai é nova-

mente o mesmo em quase todas as coisas. Ele está sempre bem disposto.”23 Devido aos compromissos no Leste, Ellen White não permaneceu muito tempo no Colorado. Informando a Tiago e aos filhos dos acontecimentos de Battle Creek, ela escreveu com entusiasmo e sabedoria de esposa e mãe: “Não considerem este tempo de recreação como obrigação ou trabalho penoso. Esqueçam o trabalho. Abandonem a escrita. Vão ao parque e vejam tudo quanto possam. ... Livrem-se das preocupações, e voltem a ser garotos livres de inquietações. ... Papai precisa ser um menino novamente. Caminhem a esmo pelos arredores. Subam uma montanha íngreme. Montem a cavalo. Encontrem cada dia uma coisa nova para ver e desfrutar. Isto favorecerá a saúde de papai. Não desperdicem nenhum pensamento ansioso a meu respeito. Vocês verão como estarei bem depois da reunião campal. ... Esforcem-se por fazer uns aos outros felizes.”24 Perto de 1880, o corpo cansado de Tiago pedia descanso ainda que sua cabeça continuasse a planejar novas campanhas. Outros assumiram as principais responsabilidades dele, embora a retirada não fosse fácil para o general. Numa carta a Ellen, datada de 18 de abril, ele escreveu: “Estou pensando nessas coisas com muito cuidado. Seja o que for que o Senhor lhe tenha mostrado a respeito do meu dever, tome tempo para passar isso cuidadosamente para o papel e me dar uma idéia completa. ... Nós ambos vemos quanta coisa precisa ser feita no ramo literário, e nossos irmãos insistem constantemente conosco que saiamos a pregar. No temor de Deus, devemos tomar essa questão em nossas próprias mãos e ser nossos próprios juízes quanto ao que devemos fazer e quanto.”25 Em 6 de agosto de 1881, o “cansado guerreiro” morreu. A notícia abalou os adventistas desde o Atlântico até o Pacífico. Ninguém podia passar em revista o desenvolvimento da Igreja Adventista sem pensar em Tiago White. As honras póstumas, mesmo daqueles de quem ele diferia, colocavam o valoroso líder da igreja na devida perspectiva.26 Embora extremamente doente, Ellen White ergueu-se de seu leito de enfermidade para enaltecer seu “forte, bravo e nobre mari-

do”. A esposa mensageira fez uma retrospectiva da vida que tiveram em comum: “Agora, que aquele de cuja afeição generosa eu dependera e com quem trabalhara por 36 anos, fora arrebatado, a única coisa que pude fazer foi pousar minha mão sobre seus olhos e dizer: Confio-Te, ó Senhor, meu tesouro até a manhã da ressurreição.”27 Alguns dias depois do funeral, Ellen White escreveu a amigos íntimos: “A luz do meu lar se apagou e daqui por diante devo amá-lo [o lar deles] em consideração a ele [Tiago] que lhe dava tanta importância. ... Ele satisfazia seu gosto. Mas como posso considerá-lo como faria se ele estivesse vivo?”28 Quem quer que examine o relato de sua vida de casados há de concluir que este era um relacionamento extraordinário de duas pessoas extraordinárias. Cada um tinha uma vida pública, apesar de sua afeição fluir por meio de suas mensagens e ações de um para o outro. Embora vivendo no “Período Vitoriano”, a dedicação cálida e perseverante de Ellen ao marido estava muito distante de ser platônica. O apreço que ele tinha por ela era notório, apreço cuja profundidade qualquer mulher ficaria contente em experimentar. Depois de ser liberada de suas responsabilidades de esposa, Ellen passou a viajar cada vez mais extensamente. Sua produtividade literária aumentou, não apenas em quantidade, mas também na profundidade de seus livros maiores. Tiago havia sido seu útil editor; ele jamais foi a fonte das mensagens dela. Mãe Mensageira Débora talvez seja a profetisa bíblica mais conhecida. Sua reputação era tão grande, seu julgamento e conselho tão respeitados, que até sua residência recebia o nome de “palmeira de Débora, entre Ramá e Betel”. Juí. 4:5. Ela era, porém, mais do que uma sábia juíza. Seus contemporâneos confiavam nela como “mãe em Israel”. Juí. 5:7. (Ver pág. 18.) Semelhantemente, os contemporâneos de Ellen White a consideravam como “mãe em Israel”.29 Conheciam-na como esposa e mãe incrivelmente atarefada, uma dona de casa que, como é sabido de todos, abria as portas de seu lar aos necessitados, órfãos e a quem quer

que precisasse de um pernoite. Se relembrarmos o modo como conquistou o respeito de seus contemporâneos, ao combinar seu papel de mãe com seus deveres públicos, isto nos ajudará a apreciar mais plenamente seu conselho para as mães e os pais de hoje em dia. Mas que sucedia a seus filhos enquanto dividiam a mãe atarefada com outros que exigiam cada vez mais de seu tempo e energias? Conforme mencionamos anteriormente, Tiago e Ellen tiveram quatro filhos, todos homens: Henry, nascido em 26 de agosto de 1847; Edson, nascido em 28 de julho de 1849; William, nascido em 29 de agosto de 1854; e John Herbert, em 20 de setembro de 1860. Herbert morreu com apenas três meses de vida, vítima de erisipela. A mãe de 33 anos de idade relembrou essa dolorosa experiência: “Grande foi o sofrimento de meu querido bebê. Vinte e quatro dias e vinte e quatro noites cuidamos dele com ansiedade, empregando todos os remédios possíveis para seu restabelecimento e apresentando fervorosamente seu caso ao Senhor. Às vezes eu não conseguia dominar minhas emoções ao testemunhar seu sofrimento. A maior parte do tempo passei-o em lágrimas e humildes súplicas a Deus.”30 Ela descreveu as horas finais da criança: “Meu bebê piorou. Ao ouvir-lhe a respiração difícil e sentir-lhe o pulso fraquíssimo, soube que ele iria morrer. Aquela foi uma hora de angústia para mim. A mão gelada da morte já repousava sobre ele. Observamos-lhe a respiração fraca e arquejante até que ela cessasse, e pude apenas sentir-me grata pelo fim de seus sofrimentos. Quando meu filho estava morrendo, não consegui chorar. No funeral, desmaiei. Embora meu coração doesse como se fosse quebrar-se, não consegui derramar uma lágrima. ... Depois que voltamos do sepultamento, minha casa parecia solitária. Senti-me conformada com a vontade de Deus, apesar do abatimento e pesar que sentia.”31 O primogênito de Ellen White, Henry, morreu com a idade de 16 anos. Ele havia se tornado o deleite dos pais bem como o de um grande número de amigos. Sua nobre voz em

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cântico era bem conhecida entre os colegas de trabalho da editora Review. No fim de novembro de 1863, ele apanhou um resfriado que se transformou em pneumonia. Foi tratado com drogas venenosas – a sabedoria da medicina convencional. Ellen e Tiago haviam pouco tempo antes naquele ano utilizado a hidroterapia para ajudar dois de seus filhos na luta contra a difteria, mas eles ainda não tinham consciência do valor dela no tratamento da pneumonia. Como era esperado, Henry piorou rapidamente. Ele e seus pais falaram abertamente sobre a morte. Ele confessou livremente seus pecados. Sua fé tornou-se mais forte e sua confiança na vida eterna mais brilhante. Certa manhã, ele disse: “Prometa-me, mamãe, que se eu morrer serei levado para Battle Creek e sepultado ao lado de meu irmãozinho John Herbert, para que possamos erguer-nos juntos na manhã da ressurreição.”32 Mais tarde, ele disse para o pai: “Pai, o senhor está perdendo seu filho. O senhor sentirá minha falta, mas não chore. É melhor para mim. Escaparei ao alistamento [para a Guerra Civil], e não testemunharei as sete últimas pragas. Morrer feliz assim é um privilégio.”33 Durante suas horas finais, ele ditou mensagens de admoestação e segurança a seus jovens amigos de Battle Creek. Adélia Patten, uma amiga íntima da família e uma das auxiliares de Ellen White, registrou-lhe os últimos momentos: “‘Mãe, eu vou encontrar você no Céu na manhã da ressurreição, pois eu sei que você vai estar ali.’ Então ele chamou seus irmãos, pais e amigos e deu em todos um beijo de despedida, após o que apontou para cima e sussurrou: ‘O Céu é doce.’ Essas foram suas últimas palavras.”34 Depois da morte de Henry, publicou-se um pequeno livro que incluía o sermão fúnebre feito por Uriah Smith, uma breve biografia, e muitas das freqüentes cartas que Ellen White enviava a ele e a seus irmãos, especialmente quando ela estava viajando a serviço da igreja. Essas cartas deixam claro o motivo por que Henry pôde morrer com essa paz e confiança em Jesus. Adélia Patten, que vivera no lar dos White por quase dois anos, ajudou a montar esse pe-

queno livro, An Appeal to the Youth. Escreveu ela: “Elas [as cartas da Sra. White aos filhos] foram escritas apressadamente, destinadas apenas aos filhos, sem o pensamento de serem publicadas. Isto as torna ainda mais dignas de publicação, na medida em que revelam mais claramente as verdadeiras emoções e sentimentos de uma piedosa mãe.”35 Ao ler essas cartas de família, particulares e íntimas, estamos lendo o coração de uma jovem mãe, e depois de uma mãe amadurecida, raramente revelado a outros. Como era de se esperar, os filhos dos White desenvolviam-se como todas as outras crianças. Precisavam aprender pela experiência e conselho paterno como todas as outras crianças. Além disso, Tiago e Ellen precisavam aprender como ser pais à medida que os filhos se desenvolviam. Conselho Dado por Meio de uma Visão Em 1862, Ellen, na época com 35 anos de idade, e Tiago, com 41, procuravam empenhadamente equilibrar as responsabilidades deles na igreja com o cuidado de seus três filhos, então com 15, 13 e 8 anos. Em uma visão, Deus interveio para dar aos pais alguns conselhos necessários: “Foi-me mostrado com respeito a nossa família que temos falhado em nosso dever. Não os temos restringido. Temos sido demasiado complacentes com eles, temos tolerado que sigam suas próprias inclinações e desejos e permitido suas tolices. ... Temos ficado tão separados deles que, quando estamos em sua companhia, devemos trabalhar perseverantemente para ligar seu coração a nós a fim de que, quando estivermos ausentes, possamos ter influência sobre eles. Vi que devemos instruí-los com austeridade, e no entanto com bondade e paciência; tomando uma atitude serena. Satanás é diligente em tentar nossos filhos e levá-los a ser esquecidos e a condescender com tolices que podem deixar-nos desalentados, pesarosos e depois fazer-nos tomar uma atitude de censurá-los e criticá-los num espírito que somente causa danos e os desanima, em vez de ajudá-los. “Vi que é um erro rir de suas expressões e feitos e então, quando erram, lançar-se sobre

eles com muita severidade, mesmo perante outros, o que destrói seus sentimentos e torna coisa comum receber censura por insignificâncias e equívocos, e coloca acidentes e lapsos no mesmo nível que pecados e erros de verdade. Sua disposição se torna amarga e cortamos o cordão que nos une a eles e nos dão influência sobre eles. ... Temos estado em perigo de esperar que nossos filhos tenham uma experiência mais perfeita do que sua idade permite esperar. ... “Nossos filhos nos amam e se renderão à razão, e a bondade terá influência mais poderosa do que a reprovação insensível. O espírito e a influência que têm circundado nossos filhos exige que nós os restrinjamos, os afastemos das companhias jovens e lhe neguemos os privilégios que os filhos geralmente desfrutam. Se adotarmos em relação a essas coisas a conduta que devemos adotar, devemos sempre manter palavras e ações perfeitamente razoáveis diante das crianças, para que sua reflexão não fique amargurada com palavras rudes ou pronunciadas de maneira ríspida. Isto deixa no espírito uma ferida ou aguilhão que lhes destrói o amor pelos pais e a influência que estes teriam sobre eles.”36 Para Ellen White, seus filhos eram prioridade máxima.37 Seus apontamentos de diário, cartas a outros e aos filhos, tudo indica sua interminável preocupação por eles, especialmente pelo seu crescimento espiritual.38 Ela levava os defeitos deles bem como os dela própria muito a sério. Depois de um encontro difícil com o jovem Edson, ela escreveu em seu diário: “Tive uma conversa com Edson. Senti-me excessivamente aflita, achando que isto não estava sendo conduzido de maneira sábia.”39 Algumas pessoas tem achado estranhas determinadas expressões empregadas por Ellen White em algumas cartas endereçadas aos filhos em princípios dos anos 1860. Em seu terno amor, ela apelava à alma deles de muitas maneiras. Em 1860, ela falava a filhos com idades entre 6 e 13 anos. Procurando tornar claro o grande quadro, em linguagem simples, esta mãe de 33 anos de idade empregava às

vezes linguagem que mais se parecia a taquigrafia teológica, especialmente quando ela escreveu que o Senhor ama as crianças “que procuram agir corretamente”, mas “as crianças más Deus não ama”.40 Exatamente assim como devemos examinar alguns textos bíblicos difíceis dentro do contexto bíblico total, o mesmo deve ser feito com Ellen White. Em Deuteronômio 7:9 e 10, por exemplo, percebemos que Deus “retribui diretamente aos que O odeiam, para os destruir; não será remisso para quem O odeia, diretamente lhe retribuirá. Guardarás, pois, os mandamentos, os estatutos e os preceitos que Eu hoje te ordeno, para os cumprires.” Isto parece cruel, mas quando colocado no contexto de toda a Bíblia (assim como Isa. 1:1820; Jer. 31:3; João 3:16 e 17; João 14-17), seu verdadeiro sentido se torna claro. Observe o contexto maior do conselho de Ellen White aos pais (1892): “Jesus desejaria que os pais e mães ensinassem a seus filhos... que Deus os ama, que a natureza deles pode ser transformada e posta em harmonia com Deus. Não ensinem a seus filhos que Deus não os ama quando procedem erroneamente; ensinem-os que Ele os ama tanto que Seu terno Espírito Se entristece quando os vê em transgressão, porque Ele sabe que eles estão prejudicando a própria alma. Não aterrorizem seus filhos falando-lhes da ira de Deus, antes busquem impressioná-los com Seu inexprimível amor e bondade, permitindo assim que lhes seja revelada a glória do Senhor.”41 Em outras circunstâncias, ela tornou bem clara a diferença entre Deus amar uma pessoa e aprovar o que a pessoa faz.42 Em claros termos teológicos, ela expôs o fato de que o caráter determina o destino. Mesmo um Deus amoroso não remodelará o caráter das pessoas após a morte delas a fim de redimi-las.43 Apesar disso, quanta teologia uma criança de seis anos é capaz de entender? Deus encarou o mesmo desafio quando instruiu os israelitas recém-libertados depois da saída do Egito. Ele empregou linguagem e métodos em

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CAPÍTULO 5
MENSAGEIRA, ESPOSA E MÃE

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30. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 296, citado em Biography, vol. 1, pág. 430. 31. Ibidem. 32. An Appeal to the Youth, pág. 26, citado em Biography, vol. 2, pág. 71. 33. Appeal, pág. 29, citado em Biography, pág. 72. 34. Appeal, pág. 31, citado em Biography, pág. 71. 35. Appeal, pág. 19, citado em Biography, pág. 62. 36. Manuscrito 8, 1862. 37. “Apesar de as ansiedades decorrentes da obra de publicações e de outros ramos da causa me acarretarem grande perplexidade, o maior sacrifício que fui chamada a fazer relativamente ao trabalho foi ter que deixar meus filhos freqüentemente aos cuidados de outrem.” – Life Sketches, pág. 165. 38. Ver Jerry Allen Moon, W. C. White and Ellen G. White (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1993), págs. 34-42. 39. Manuscrito 12, 1868. 40. Um exemplo das cartas de Ellen White endereçadas ao pequeno William de 6 anos de idade revela a tentativa materna de dirigir-lhe a atenção para a obediência prazenteira: “Você deve ser um garotinho doce e bom, e deve gostar de obedecer a Jenny [Fraser] e Lucinda [Hall]. Submeta sua vontade, e quando tiver muita vontade de fazer algo, pergunte: Será que isso não é egoísta? Você deve aprender a ceder sua própria vontade e caminho. Será uma lição dura para meu menininho aprender, mas no fim lhe será mais valiosa do que ouro.” [“Pela bênção de Deus e as instruções de sua mãe, Willie venceu o espírito impaciente que algumas vezes manifestava quando jovem, possuindo agora uma disposição bastante carinhosa, amigável e obediente.” – A. P. P.] “Aprenda, meu querido Willie, a ser paciente, a esperar pelo tempo e conveniência dos outros; então você não mais ficará impaciente nem irritável. O Senhor ama as criancinhas que procuram fazer o que é certo. Ele promete que elas estarão em Seu reino. Mas as crianças más, Deus não ama. Ele não as levará para a bela Cidade, pois ali só entram as crianças boas, obedientes e pacientes. Uma criança irritada e desobediente estragaria toda a harmonia do Céu. Quando você se sentir tentado a falar de modo impaciente e irritado, lembre-se de que o Senhor está vendo e não o amará se você agir errado. Quando você faz o que é correto e domina esses sentimentos errôneos, o Senhor sorri para você. “Embora Ele esteja no Céu, e você não consiga vê-Lo, mesmo assim Ele o ama quando você faz o que é certo, e registra isso no Seu livro. Mas quando você faz coisas erradas, Ele coloca uma marca negra contra você. Por isso, querido Willie, procure fazer sempre o que é correto, e nenhuma marca negra será registrada contra você. E quando Jesus voltar, Ele vai chamar o bom menino Willie White e vai colocar sobre sua cabeça uma coroa de ouro, vai-lhe entregar uma pequena harpa para que você possa tocá-la e extrair dela bela música. Você nunca mais ficará doente, nunca mais será tentado a fazer o que é errado. Ao contrário, será feliz para sempre; comerá saborosos frutos e colherá lindas flores. Por isso, querido filho, procure ser bom. Sua afeiçoada mãe.” – Ellen White, An Appeal, págs. 62 e 63. Uma olhada cuidadosa em toda a carta (e a maioria dos escritos sobre orientação de filhos) sugere fortemente que ao escrever a frase “crianças más, Deus não ama”, ela queria realmente dizer que as crianças que continuarem a ser “más” não serão levadas para o Céu. 41. Signs of the Times, 15 de fevereiro de 1892: “Seu coração [de Jesus] estende-se, não somente para as crianças bem-comportadas, mas para as que têm, por herança, traços objetáveis de caráter. Muitos pais não compreendem quanto são responsáveis por esses traços em seus filhos. ... Mas Jesus olha essas crianças com piedade. Ele segue da causa para o efeito.” – O Desejado de Todas as Nações, pág. 517. 42. Ver nos Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 558-565, uma impressionante carta a uma adolescente mimada. 43. Parábolas de Jesus, págs. 74, 84 e 123; Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 355 e 356. 44. Observe a atitude do primogênito para com os pais e para com a própria morte – página 58. 45. Ver notas anteriores citando Signs, 15 de fevereiro de 1892, e O Desejado de Todas as Nações, pág. 517. 46. Lar Adventista, pág. 289.

nível do jardim de infância – inclusive a ilustração da caixa de areia no ritual do santuário no deserto. Afinal, este era o único nível de linguagem que eles conseguiam entender. Algumas vezes a ameaça de desaprovação e castigo pode captar a atenção de uma criança de seis anos, bem como a dos israelitas recentemente libertados, quando a “linguagem do amor” não surte efeito. Ellen White empregou ambos os métodos ao tratar com seus garotos, evidentemente com bons resultados.44 O registro contém numerosos exemplos em que ela falou aos filhos de um Deus amistoso, orando com eles em muitas ocasiões a respeito de seu crescimento espiritual. Se a jovem Ellen fosse confrontada com a possível má interpretação de suas palavras, ela diria rapidamente, em essência, o que escreveu depois de maneira mais completa: “O que quero dizer – e que creio que os garotos entenderam – era que Deus não perdoa a desobediência, ainda que Ele sempre ame os meninos e as meninas, bons ou maus. A desobediência traz conseqüências desastrosas; e Deus, em Seu amor, não quer que as pessoas sofram por causa da desobediência.”45 Grande parte do conselho de Ellen White à igreja focaliza a importância do lar e a inegáReferências
1. Day Star, de 11 de outubro de 1845, citado em Charles W. Teel, Jr., ed., Remnant & Republic (Loma Linda, CA.: Center for Christian Bioethics, 1995), pág. 148. Ver também The Day Star, 11 de outubro de 1845, pág. 47. 2. Ronald Graybill, “The Courtship of Ellen Harmon”, Insight (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association), 23 de janeiro de 1973, págs. 4-7; Virgil Robinson, James White (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1976), págs. 33-39; Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 66; Biography, vol. 1, págs. 110-112. 3. Arquivo de Documento 733-c, do Patrimônio Literário White, citado em Biography, vol. 1, pág. 84. 4. Life Sketches, Ancestry, Early Life, Christian Experiences, and Extensive Labors of Elder James White, and his Wife, Mrs. Ellen G. White (Battle Creek, MI.: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1888), págs. 131 e 132. 5. Lewis Harrison Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1947), pág. 50. 6. Ibidem, pág. 98. 7. James White, Life Sketches, pág. 126. 8. Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 99; Robinson, James White, págs. 111-115, 151-163, 207-218, 226-231; Spalding, Origin and History, vol. 1, págs. 43-55. 9. George Willard, em Memoriam, A Sketch of the Last Sickness and Death of Elder J. White (Battle Creek, MI: Review and Herald Press, 1881), pág. 10, citado em Robinson, James White, pág. 302.

vel atmosfera em que os filhos devem desenvolver-se. Os livros O Lar Adventista e Orientação da Criança (compilações de centenas de páginas de seu diário, manuscritos e sermões) têm sido estudados com apreço por milhares de homens e mulheres. É difícil encontrar outro escritor que tenha focalizado tão claramente ou de maneira tão vívida a elevada vocação de mães e de pais cristãos. Seus claros apelos a todos os pais para que compreendam a enorme responsabilidade que têm em conduzir os filhos rumo ao Céu são notáveis. Ellen White dava conselhos somente depois de ela mesma os haver praticado. Por exemplo: “‘Oh’, dizem algumas mães, ‘meus filhos me atrapalham quando procuram ajudar-me.’ Assim faziam os meus, mas vocês supõem que eu permitia que eles o soubessem? Elogiem seus filhos. Ensinem-nos, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra. Isto é melhor que ler novelas, que fazer visitas, que seguir as modas do mundo.”46 Embora a Sra. White seja melhor conhecida como importante figura pública, para aqueles que melhor a conheceram, ela era uma esposa e mãe cristã coerente, que mantinha íntimo e terno relacionamento com seu marido e filhos.

10. Christian, The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 111. 11. Emmett K. VandeVere, “Years of Expansion, 1865-1885”, Land, The World of Ellen G. White, pág. 67. 12. Carta 1a, 1876, citada em Biography, vol. 3, pág. 23. 13. Carta 5, 1876, citada em Biography, pág. 26. 14. Carta 6, 1876, citada em Biography, págs. 27 e 28. 15. Carta 25, 1876, citada em Biography, pág. 34. 16. Ibidem. 17. Ver Apêndice B para troca de correspondência em 1874, que revela tensão conjugal, que ambos superaram juntos na base do amor mútuo e da sua confiança em Deus. 18. Carta 25, 1877, citada em Biography, vol. 3, pág. 73. 19. Signs of the Times, 6 de dezembro de 1877, citado em Biography, pág. 76. 20. Carta 4d, 1878, citada em Biography, pág. 81. 21. Carta 22, 1878, citada em Biography, págs. 82 e 83. 22. Ibidem, pág. 90. 23. Ibidem, pág. 93. 24. Carta 1, 1878, Biography, págs. 94 e 95. 25. Biography, pág. 193. 26. Ver o sermão fúnebre de Uriah Smith, citado em Biography, págs. 174 e 175. 27. Ibidem. 28. Carta 9, 1881, citado em Biography, pág. 177. 29. Uma carta dos adventistas noruegueses a Ellen White em seu 85o aniversário, assim começava: “Querida Mãe em Israel e Serva do Senhor!” – D. A. Delafield, Ellen G. White in Europe (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1975), pág. 319.

Perguntas Para Estudo

1. Que evidência temos de que Ellen White foi uma dedicada esposa, sempre leal ao marido Tiago? 2. Que circunstâncias podem ter levado Tiago White a lutar contra o desânimo no fim da vida? 3. Que tensões óbvias surgiriam hoje em uma família, se a esposa tivesse que assumir muitas responsabilidades públicas e fosse mais popular que o marido? 4. Que papel, se é que existe algum, Tiago White desempenhou em ajudar a preparar os livros de sua esposa para publicação? 5. Cite algumas das experiências que demonstram a íntima relação de trabalho existente entre Tiago e Ellen White. 6. Que se pode aprender da educação que Ellen White deu aos filhos na qualidade de mãe que trabalhava fora?

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CAPÍTULO

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Saúde Física
“Busquei o Senhor, e Ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores.” Sal. 34:4.

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llen White não era uma supermulher, embora seu programa de atividades e suas realizações pareçam indicar que sim. Imagine alguém atravessar os Estados Unidos vinte e quatro vezes por volta de 1885, apenas 16 anos depois de as estradas de ferro Union Pacific e Central Pacific se encontrarem perto de Ogden, Utah, em 1869!1 Lembre-se então que esta líder de igreja itinerante falava a grupos grandes e pequenos aonde quer que fosse. E escrevia! Quando ela morreu, deixou cerca de 100.000 páginas de material publicado e não publicado, tudo escrito à mão. Supõe-se que ela seja “o terceiro escritor mais traduzido na história da literatura, a escritora mais traduzida e, dentre os escritores norte-americanos de ambos os sexos, também a mais traduzida”.2 Aqueles, porém, que a conheceram viam nela algo mais do que uma oradora pública de 1,57m de altura e uma escritora prodigiosa, incansável em sua dedicação vitalícia a causas nobres. Conforme já observamos, ela era uma dona de casa ativa, esposa leal e mãe amorosa. Como tudo isso seria possível, se com a idade de nove anos os médicos lhe deram apenas alguns meses de vida, depois de complicações decorrentes de um golpe fatídico no rosto?3 Alguns têm sugerido que o traumatismo sofrido no início da sua vida atingiu o lobo temporal de seu cérebro. Esta lesão, especu-

lam eles, ocasionou-lhe uma espécie de epilepsia conhecida como crise parcial complexa. Por sua vez, alegam que as visões de Ellen White eram devidas à epilepsia no lobo temporal, e não à revelação divina. Em resposta à acusação de que ela sofria de epilepsia do lobo temporal, oito professores da Escola de Medicina e Enfermagem na Universidade de Loma Linda, incluindo três neurologistas, mais um psiquiatra do Norte da Califórnia, estudaram as evidências disponíveis. Em 1984 eles escreveram um relatório intitulado: “Sofria Ellen White de Crises Parciais Complexas?”4 O relatório afirmava: “Diagnosticar um distúrbio de crise parcial complexa (epilepsia psicomotora ou do lobo temporal) não é algo muito fácil, mesmo com a ajuda de técnicas modernas como a eletroencefalografia e a gravação em vídeo. Portanto, o estabelecimento de um diagnóstico dessa natureza, retroativo a uma pessoa falecida há quase 70 anos e, levando-se em conta que não existem registros médicos, só pode ser, na melhor das hipóteses, especulativo, vago e controverso. “Os recentes artigos e apresentações sugerindo que as visões e escritos de Ellen White eram resultado de um distúrbio de crise parcial complexa contêm muitas inexatidões. Raciocínio ambíguo e aplicação errônea dos fatos levaram a conclusões equivocadas. “Esta comissão foi apontada para avaliar a hipótese de que Ellen White sofria de crises

parciais complexas. Depois de cuidadosa análise do material biográfico e autobiográfico disponível, levando-se em conta o conhecimento atual deste tipo de desordem convulsiva, é nossa opinião que: (1) Não há evidências convincentes de que Ellen G. White sofria desta espécie de epilepsia. (2) Não há possibilidade de que crises parciais complexas tenham sido as responsáveis pelas visões da Sra. White ou seu papel no desenvolvimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia.”5 Donald I. Peterson, M.D., autor de mais de sessenta artigos no campo da neurologia em revistas científicas, professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Loma Linda e chefe de neurologia do Hospital Geral de Riverside, Califórnia, apresentou uma resposta mais ampliada. No livro Visions or Seizures: Was Ellen White the Victim of Epilepsy?,6 ele examina determinadas afirmações de que Ellen Harmon sofrera severos danos cerebrais, de que suas “visões” eram típicas das crises parciais complexas, de que suas feições durante as “visões” eram típicas do distúrbio de crise parcial complexa (“automatismos”), etc. Nenhuma Forma de Incapacidade Mental Depois de examinar os aspectos técnicos das alegações, à luz dos conhecimentos médicos mais recentes, o Dr. Peterson negou taxativamente a existência de qualquer correlação do estado de Ellen White durante as visões ou sua prolífica capacidade literária (hipergrafia) com qualquer indicação que sugerisse dano cerebral e o resultante distúrbio de crise parcial complexa. Concluindo, ele diz: “Um exame cuidadoso de[ssas] teorias, à luz do registro histórico, mostra que elas não conseguiram provar que a ‘doença’ de Ellen White consistia numa grave contusão do lobo temporal ou que os fenômenos associados a suas visões fossem conseqüência da afecção de ataque parcial complexo. ... É a convicção deste pesquisador que se trata de uma manifestação de verdadeiro dom profético, e não de alguma forma de epilepsia.”7 Depois do acidente ocorrido aos nove anos de idade, Ellen passou a ser incomoda-

da com dores de cabeça, inflamação dos olhos e debilidade respiratória. A tuberculose a debilitou, e os médicos não lhe deram nenhuma esperança, a não ser de uma morte prematura. Hidropisia, uma afecção cardíaca, acometeu-a na maior parte de sua vida. Quando ela recebeu sua primeira visão, em dezembro de 1844, teve que ser transportada numa cadeira de rodas para a casa de Elizabeth Haines. Não conseguia falar além de um sussuro.8 Ao ser convidada para relatar sua visão de dezembro em Poland, Maine, no fim de janeiro de 1845, estava afônica. Contudo, logo que começou a falar, todas as promessas que Deus lhe fizera de ser sempre a sua força se cumpriram. Ela falou em alto e bom som por aproximadamente duas horas, e sem fatigarse.9 Esta experiência de forças restauradas no púlpito diante dos olhos daqueles que viram a maravilhosa transformação da fraqueza para o poder se repetiu muitas vezes em toda a extensão de seu longo ministério. Em princípios do verão de 1845, a debilitada jovem Ellen teve uma visão extraordinária: “Até essa época eu não conseguia escrever. Minha mão trêmula era incapaz de segurar a pena com firmeza. Estando em visão, um anjo me ordenou que eu escrevesse a visão. Tentei, e escrevi facilmente. Meus nervos se fortaleceram, e minha mão ficou firme.”10 Em 1854, grávida do terceiro filho, Ellen White, na época com 26 anos de idade, lutava contra problemas de saúde. Ela relembra: “Eu tinha dificuldades de respirar quando deitada e não conseguia dormir a não ser que ficasse em posição quase sentada. Surgira sobre a minha pálpebra esquerda um tumor que parecia câncer. Fazia mais de um ano que ele vinha crescendo gradualmente a ponto de tornar-se bastante doloroso e afetar-me a vista.”11 Um “célebre médico de Rochester” forneceu-lhe um “colírio” depois de lhe dizer que, segundo seu prognóstico, o tumor era canceroso. Mas depois de verificar seu pulso, ele afirmou que ela morreria de apoplexia antes que o câncer se desenvolvesse! Disse ele: “Você está com uma grave afecção cardíaca.”

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CAPÍTULO 6
SAÚDE FÍSICA

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Algumas semanas depois, ela teve um derrame cerebral, que deixou o seu braço e lado esquerdo inertes e sua língua dormente. Fizeram-se orações por toda parte, mas a cura não veio. Não obstante, ela manteve sua confiança no amor de Deus. Sussurrou para Tiago: “‘Creio que vou me recuperar.’ Ele respondeu: ‘Gostaria de poder acreditar nisso.’ Recolhi-me naquela noite sem nenhum alívio, mas depositando minha firme confiança nas promessas de Deus. Não pude dormir, mas continuei orando em silêncio. Pouco antes do amanhecer, adormeci.” Quando ela despertou, seu marido “mal pôde compreender a princípio, mas quando me levantei, vesti-me e caminhei pela casa, ele testemunhou a mudança do meu semblante e glorificou a Deus junto comigo. Meu olho doente não doía mais. Em poucos dias o câncer desapareceu, e minha vista foi totalmente restaurada. A obra fora completa.” Seu médico declarou posteriormente que havia ocorrido uma “completa” mudança – um mistério além de sua compreensão.12 Reumatismo nos Tornozelos Dois anos depois, Ellen White escorregou no gelo, torcendo gravemente o tornozelo, e teve que andar de muletas durante seis semanas. O reumatismo acabou lhe atacando ambos os tornozelos, importunando-a cruelmente até o dia da sua morte. Aos três meses de gravidez, em março de 1860, ela, juntamente com Tiago, estava se dirigindo para Iowa. O relato de Tiago na Review (6 de março) era convincentemente realista: “Deixamos Battle Creek às 15h, mudamos de trem em Chicago à meia-noite, chegamos ao rio Mississippi às 7h da manhã, atravessamos o gelo a pé, andando atrás da bagagem que estava sobre um trenó puxado por quatro homens, visto que a camada de água congelada era fina demais para suportar o peso dos cavalos. Fiquei aliviado quando pisamos o solo de Iowa.” Na primeira noite em Iowa, Ellen White ficou gravemente enferma, com vômitos e hemorragia. Mas prosseguiu, através da lama

da primavera de Iowa, e pregou muitas vezes nas reuniões. Depois do nascimento de John Herbert, ela começou lentamente a recobrar as forças. Seis semanas depois do parto, ela comentou em uma carta endereçada a Lucinda Hall que estava tão fraca que subia as escadas de joelhos e que desabafava “de vez em quando em um bom choro” e achava que “isto me faz bem”. Mal completara três meses de idade, o bebê morreu. Os anos que Ellen White passou na Austrália foram os mais produtivos, não somente por haver ajudado a estabelecer um sólido programa educacional e evangelístico naquele país novo, mas por haver escrito O Desejado de Todas as Nações, além de milhares de páginas de cartas oportunas. Mas isso teve um preço! Suas enfermidades na Austrália foram devastadoras: “Fiz a longa viagem e participei da assembléia realizada em Melbourne. ... Pouco antes do término da reunião fui acometida de uma grave doença. Durante onze meses sofri de malária e inflamação reumática. Durante esse período passei pelos sofrimentos mais terríveis de toda a minha vida. Não conseguia erguer os pés acima do solo sem sofrer grande dor. Meu braço direito, do cotovelo para baixo, era a única parte do corpo livre de dor. Os quadris e a espinha doíam constantemente. Eu não conseguia ficar deitada em minha cama de lona por mais do que duas horas de cada vez, embora eu estivesse deitada sobre almofadas de borracha. Eu me arrastava para uma outra cama semelhante para mudar minha posição. Assim passavam as noites. ... Os médicos diziam que eu jamais voltaria a andar, e eu receava que minha vida se tornasse uma luta interminável contra o sofrimento.”13 Como se arranjou ela? Aqueles que a ajudaram puderam com gratidão confirmar suas reflexões posteriores: “Mas em tudo isto houve um lado positivo. Meu Salvador parecia estar bem perto de mim. Eu sentia Sua santa presença em meu coração, e ficava agradecida. Esses meses de sofrimento foram os meses mais felizes de minha vida por causa da companhia de meu Salvador. Ele era minha esperança e minha coroa de regozijo. Sinto-me

gratíssima por haver passado por essa experiência porque me tornei mais familiarizada com meu precioso Senhor e Salvador. ... “Senti a princípio que não seria capaz de suportar esta inatividade. Eu achava que me afligiria por causa disso e às vezes as trevas me rodeavam. Essa falta de conformação existiu no começo de meu sofrimento e desamparo, mas não demorou muito e vi que o padecimento físico era parte do plano de Deus. Fiz uma cuidadosa retrospectiva da história dos anos passados e da obra que o Senhor me havia confiado. Nenhuma vez Ele havia falhado comigo. Muitas vezes Se manifestara de maneira notável. Nada encontrei no passado de que me pudesse queixar. Compreendi que, qual fios de ouro, coisas preciosas haviam se entretecido em todas estas penosas experiências. “Então passei a orar fervorosamente e sempre obtive o doce conforto nas promessas de Deus: ‘Chegai-vos a Deus, e Ele Se chegará a vós.’ ‘Vindo o inimigo como uma corrente de águas, o Espírito do Senhor arvorará contra ele a sua bandeira.’”14 Por razões que somente Deus pode explicar, Ellen White sofreu muito na vida. Apesar disso, ela foi uma mulher extraordinariamente produtiva e diligente, e de seu sofrimento veio uma filosofia de sofrimento que
Referências
1. Manuscrito 16, 1885, citado em D. A. Delafield, Ellen G. White In Europe, pág. 25. Ver págs. 104 e 105. 2. Roger Coon, A Gift of Light (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1983), pág. 21. 3. Ao tratar do nariz quebrado e da hemorragia, Ellen White relatou: “Os médicos acharam que era possível enfiar um fio de prata em meu nariz para manter sua forma [evidentemente sem anestesia], mas me disseram que isso seria de pouca utilidade. Disseram que eu havia perdido tanto sangue e sofrera abalo nervoso tão grande que meu restabelecimento era muito improvável; disseram também que, ainda que eu melhorasse, não conseguiria viver muito tempo. Fiquei quase reduzida a um esqueleto.” – Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 9. No fim de 1840, ela ainda não havia melhorado: “Minha saúde decaiu rapidamente. Eu só conseguia falar em sussurros ou num tom de voz baixo. Certo médico disse que minha doença era uma tuberculose hidrópica; que meu pulmão direito estava perdido, e o meu esquerdo afetado. Seu prognóstico era o de que eu não viveria muito tempo, podendo até morrer subitamente. Eu sentia grande dificuldade em respirar deitada. Passava as noites apoiada em um travesseiro, numa posição quase sentada. Despertava muitas vezes com a boca cheia de sangue.” – Ibidem, pág. 30. 4. Ministry, agosto de 1984, e referida em Advent Review, 6 de agosto de 1984. 5. Ibidem.

tem sido uma sólida rocha para milhões. Seu livro A Ciência do Bom Viver, além de muitas centenas de cartas a pessoas que também passaram por grandes padecimentos físicos, jamais teria sido escrito se sua experiência pessoal não tivesse provido o ambiente humano para os princípios divinos básicos. Uma coisa é certa: Ellen White nunca se valeu do fato de sofrer muitas enfermidades físicas como meio para obter a piedade alheia. Ao contrário, quando outros a viam, com espírito alegre e resoluta determinação, enfrentar intensas adversidades físicas, cobravam ânimo.15 Sua vida de produção literária e ministério pessoal, mais suas extensas viagens públicas, são um forte argumento de como a vontade humana pode triunfar sobre as dificuldades físicas na busca do plano de Deus para nossa vida. Em 1915, alcançar 87 anos de idade não era comum! Seu último escrito conhecido, uma carta (14 de junho de 1914), transborda de esperança e alegria cristãs.16 A causa de sua morte, conforme se registrou tanto no seu atestado de óbito como no registro do coveiro do cemitério, foi: “Miocardite crônica; (Fator concorrente primário) Astenia resultante da fratura intracapsular do fêmur esquerdo (13 de fevereiro de 1915); (Fator concorrente secundário) arteriosclerose.”

6. Boise, ID: Pacific Press Publishing Association, 1988. 7. Ibidem, págs. 26 e 27. 8. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 30; Arquivo de Documento No 230 (Patrimônio Literário White), J. N. Loughborough, “Some Individual Experiences”, pág. 44. 9. Spiritual Gifts, vol. 2, pág. 38. 10. Ibidem, pág. 60. Anos mais tarde, ela refletiu: “O Senhor me disse: ‘Escreve as coisas que Eu te disser.’ Quando comecei a fazer essa obra, eu era muito jovem. Minha mão, que era débil e trêmula devido às enfermidades, tornava-se firme assim que eu apanhava a pena, e desde aqueles primeiros escritos, tenho tido condições de escrever. ... Essa mão direita dificilmente tem sensação desagradável. Ela nunca se cansa.” – Ellen White, Manuscrito 88a, 1900, citado em Biography, vol. 1, págs. 91 e 92. 11. Life Sketches, pág. 151. 12. Biography, vol. 1, págs. 292 e 293. 13. Biography, vol. 4, págs. 31 e 32. 14. Manuscrito 75, 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 33. 15. Poder-se-iam citar numerosas ocasiões para indicar os diversos problemas físicos que Ellen White suportou sem queixas. Enquanto esteve na Nova Zelândia em 1893, por exemplo, ela teve problemas com abcesso nos dentes. Ela sabia por experiência própria que era alérgica a analgésicos. Colhemos a história do seu diário de 5 de julho: “A irmã Caro [dentista] chegou à noite; está aqui em casa. Encon-

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SAÚDE FÍSICA

trei-me com ela de manhã à mesa do desjejum. Ela perguntou: ‘A irmã está triste em me ver?’ Respondi: ‘É claro que é um prazer para mim encontrar a irmã Caro. Não tenho, porém, tanta certeza quanto a encontrar a senhora doutora Caro, dentista.’ “Às dez horas eu estava na cadeira, e em pouco tempo oito dentes foram arrancados. Fiquei contente de que o trabalho tivesse terminado. Não recuei nem gemi. ... Eu havia pedido ao Senhor que me fortalecesse e me desse graça para suportar o doloroso processo, e sei que o Senhor ouviu minha oração.

“Depois que os dentes foram extraídos, a irmã Caro tremia como uma folha de álamo. Suas mãos estavam trêmulas, e ela sentia dores. ... Ela receava causar dor à irmã White. ... Mas ela sabia que devia fazer essa intervenção e prosseguiu.” O diário conclui com a paciente tornando-se atendente, quando Ellen White levou a Dra. Caro para uma cadeira e providenciou algo para refrescá-la. – Manuscrito 81, 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 98. 16. Testemunhos Para Ministros, págs. 516-520.

Perguntas Para Estudos

1. Que dificuldades a longo prazo Ellen White teve que enfrentar em resultado da lesão facial que sofreu com a idade de nove anos? 2. Se Ellen White foi chamada por Deus para ser Sua mensageira especial, por que Ele lhe permitiu passar por tantas dificuldades físicas e emocionais? 3. A julgar pelo relatório médico de 1844 sobre Ellen White, quais são, para você, as mais fortes evidências que rebatem a acusação de que ela sofria de ataque parcial complexo? 4. Descreva o estado físico de Ellen Harmon no fim de 1844.

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Características Pessoais
“Confia no Senhor e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade. Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração.” Sal. 37:3 e 4.

A

principal ênfase na vida de Ellen White, nascida de sua própria experiência e ampliada em suas visões, foi obter e pintar um quadro preciso do caráter de Deus. Ela viu corretamente que as grandes divisões religiosas através do tempo e especialmente dentro da cristandade haviam desenvolvido uma compreensão inadequada da Divindade.

Consciência Espiritual No início de sua vida, ela foi vítima dos erros predominantes que se haviam alastrado por diversas igrejas dentro do protestantismo. A má compreensão do caráter de Deus, por exemplo, bem como do plano da salvação, estava por trás de sua confusão juvenil “sobre justificação e santificação”.1 Posteriormente, tendo sido ensinada que a soberania e justiça de Deus eram os temas centrais do cristianismo, ela desfrutava pouca paz e quase total falta de percepção de um Deus amigo.2 A doutrina do castigo eterno, produto do pensamento calvinista, que focalizava a soberania de Deus em detrimento da responsabilidade humana, lançou sobre a jovem Ellen uma profunda angústia, tal como faz alguém que se espanta ante a idéia de um Deus que castiga pecadores para sempre.3 Uma teologia claramente posta em evidência. Quando a luz divina lhe ajudou a ler a Bíblia

sem ser influenciada pelas falsas concepções prevalecentes nas igrejas de sua época, a verdade sobre Deus se tornou cada vez mais clara. Seus escritos logo focalizaram a questão principal do grande conflito entre Deus e Satanás: Como Deus realmente é?4 Em quem se pode confiar – em Deus, ou em Satanás? Uma clara representação do caráter de Deus. Junto com a teologia que captou o principal tema da Bíblia, veio uma nova e cativante representação de Deus, que a atraiu a um profundo e dinâmico relacionamento com seu amorável, misericordioso e amigável Senhor.5 Durante o terceiro Concílio Missionário Europeu, em Basiléia, Suíça, em 22 de setembro de 1885, ela apresentou aos obreiros uma de suas típicas palestras: “Sinto-me tão grata esta manhã de podermos confiar a guarda de nossa alma a Deus como nosso fiel Criador. Algumas vezes o inimigo me assedia pertinazmente com suas tentações e trevas quando estou prestes a falar ao povo. Sobrevém-me tamanha sensação de fraqueza que me parece impossível permanecer diante da congregação. Mas se eu me entregasse a esses sentimentos e dissesse que não conseguiria falar, o inimigo alcançaria a vitória. Não ouso proceder assim. Vou em frente, ocupo meu lugar no púlpito, e digo: ‘Jesus, apóio em Ti a minha alma desamparada; Tu não permitirás que eu seja confundida’, e o Senhor me dá a vitória.

... Quem dera eu pudesse impressionar a todos com a importância de exercer fé momento após momento, hora após hora!... Se cremos em Deus, estamos armados da justiça de Cristo; apossamo-nos de Sua fortaleza. ... Queremos falar com nosso Salvador como se Ele estivesse justamente ao nosso lado.”6 Grandiosos assuntos como a justiça pela fé, a importância da razão convicta e desapaixonada na reação do cristão ao evangelho e a responsabilidade de um “povo preparado” para cumprir a comissão evangélica nos últimos dias foram claramente definidos em publicações e assimilados na própria necessidade diária que ela sentia de perdão e poder.7 Confiança quando o futuro era incerto. Ellen White foi o exemplo de alguém que confiava em Deus mesmo quando as circunstâncias externas pareciam sombrias. Típica de centenas de cartas e de seus muitos livros é uma passagem de uma carta a Tiago, seu marido, datada de Washington, Iowa, 2 de julho de 1874: “Somos justificados em andar pela vista enquanto isto é possível, mas quando não podemos mais ver o caminho claramente, então precisamos colocar nossa mão na mão de nosso Pai celestial e deixar que Ele nos guie. Há, na vida de todas as pessoas, emergências nas quais não se pode nem seguir a vista nem confiar na memória ou experiência. Tudo que podemos fazer é simplesmente confiar e esperar. Honramos a Deus quando confiamos nEle, pois Ele é nosso Pai celestial.”8 Amor, seu princípio motivador. A clara compreensão que Ellen White possuía do amor a tornou diferente da maior parte dos outros escritores religiosos anteriores ou posteriores à sua época. O amor (ágape) como um princípio, não um sentimento motivado por esperança de recompensa ou favor, permeava seus escritos. Por exemplo: “O amor é um princípio ativo; conserva continuamente diante de nós o bem dos outros, refreandonos de praticar atos desatenciosos, a fim de não falharmos em nosso objetivo de ganhar almas para Cristo. O amor não busca seus próprios interesses. Não levará os homens a ir após seu bem-estar e a satisfação do próprio eu. É o respeito que prestamos ao eu que tantas vezes estorva o crescimento do amor.”9

Religião prática (teologia aplicada). A religião prática era outro tema sempre presente nos sermões e escritos de Ellen White. Para ela, religião era mais do que uma fonte de sentimento. Se a religião não motiva uma pessoa a estender a mão para ajudar os outros, sem esperança de lucrar alguma coisa, não vale nada. Se a religião não transforma a pessoa de modo que ela produza o “fruto do Espírito” (Gál. 5:22) e reflita o caráter de Jesus, seu professo cristianismo não tem nenhum sentido. Para Ellen White, o cristianismo prático não era algo opcional; tinha tudo que ver com nossa preparação para a vida eterna. Escrevendo a uma mulher que possuía graves defeitos, ela declarou: “A menos que isto seja vencido agora, jamais o será; e a irmã King não terá parte com o povo de Deus, nem um lar no Seu reino eterno. Deus não pode levála para o Céu como se encontra. Você estragaria aquele lugar pacífico e feliz. “Que se pode fazer a seu favor? Pretende esperar até que Jesus volte nas nuvens do Céu? Será que Ele vai reformá-la inteiramente quando vier? Oh, não. Aquela ocasião não será para isso. O preparo deve ser feito aqui; toda a lapidação e polimento do caráter deve ser feito na Terra, nas horas de graça. Você deve preparar-se aqui; aqui devem ser dados os últimos retoques.”10 Relação entre religião e saúde. Ellen White compreendeu bem a relação existente entre a religião e a saúde da mente e do corpo, que o bem-estar de um afeta diretamente o estado do outro. Suas percepções específicas sobre este tema foram muito além do pensamento convencional. Por exemplo: “A religião pura e imaculada não é um sentimento, mas a prática de obras de misericórdia e amor. Tal religião é necessária à saúde e felicidade. Ela penetra no poluído templo da alma e com um açoite expulsa os pecaminosos intrusos. ... Com isso vem a serenidade e calma. Aumenta a força física, mental e moral, porque a atmosfera do Céu, como um agente vivo, atuante, enche a alma.”11 Muitos identificam o capítulo “A Cura da Mente” no livro A Ciência do Bom Viver co-

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mo abrindo novo território. O capítulo inicia-se com o seguinte parágrafo: “Muito íntima é a relação que existe entre a mente e o corpo. Quando um é afetado, o outro se ressente. O estado da mente atua muito mais na saúde do que muitos julgam. Muitas das doenças sofridas pelos homens são resultado de depressão mental. Desgosto, ansiedade, descontentamento, remorso, culpa, desconfiança, todos tendem a consumir as forças vitais, e a convidar a decadência e a morte.”12 Sua compreensão da causa do sofrimento e da morte. Os conselhos de Ellen White a respeito da causa do sofrimento e da morte não foram apenas profundos; eles têm resistido à prova de um século como um fiel reflexo da mente de Deus. Ela afirmava que “doença, sofrimento e morte são obra de um poder antagônico. Satanás é o destruidor; Deus, o restaurador”.13 Qual é, pois, a causa da enfermidade? Uma resposta era: as leis de Deus foram violadas por nossos antepassados ou por nós mesmos. Ela era inequívoca: “Quando Cristo curava a doença, advertia a muitos dos enfermos: ‘Não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior.’ João 5:14. Assim Ele ensinava que haviam trazido sobre si mesmos a doença transgredindo as leis de Deus, e que a saúde podia ser preservada unicamente pela obediência.”14 O sofrimento, além da doença devida à negligência das leis físicas, também é causado por Satanás e não pela deliberada intervenção de Deus. Em muitas ocasiões ela reforçou o ensino de Jesus sobre este ponto. Em 1883, ela escreveu a respeito de um pequeno grupo de novos crentes em Ukiah, Califórnia: “Nosso coração se alegra ao vermos este pequeno centro de conversos à verdade avançando passo a passo, tornando-se mais forte em meio à oposição. Eles estão se tornando mais familiarizados com o aspecto do sofrimento na religião. Nosso Salvador advertiu a Seus discípulos que eles seriam desprezados por causa do Seu nome. ‘Bem-aventurado sois quando, por Minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.’”15

Seus ensinos a respeito da causa da morte, bem como do sofrimento, fluíram do quadro geral do grande conflito entre Deus e Satanás: “É verdade que todo sofrimento é resultado da transgressão da lei divina, mas esta verdade fora pervertida. Satanás, o autor do pecado e de todas as suas conseqüências, levara os homens a considerarem a doença e a morte como procedentes de Deus – como castigos arbitrariamente infligidos por causa do pecado.”16 Rápida em reconhecer os próprios erros. Ellen White era bastante rápida em confessar seus erros e buscar perdão. Ela conhecia muito bem a paz decorrente do perdão e era rápida em aliviar os outros do peso do remorso e da culpa. Baseado em sua própria experiência e refletindo a instrução divina, deu ela este conselho: “Não é louvável falar de nossa fraqueza e desânimo. Que cada qual diga: ‘Aflige-me ter cedido à tentação, e que minhas orações sejam tão débeis, minha fé tão fraca. Não tenho desculpa a apresentar por ser anão em minha vida religiosa. Mas estou procurando obter a plenitude do caráter de Cristo. Tenho pecado, e todavia amo a Jesus. Tenho caído muitas vezes, e no entanto Ele me estendeu a mão para salvar-me. Contei-Lhe tudo acerca de meus erros. Tenho confessado com tristeza e vergonha têLo desonrado. Tenho olhado a cruz, dizendo: Tudo isso Ele sofreu por mim. O Espírito Santo me mostrou minha ingratidão, meu pecado em expor Cristo à ignomínia. Aquele que não conhece pecado perdoou o meu pecado. Ele me chama para uma vida mais alta, mais nobre, e eu prossigo para as coisas que diante de mim estão.’”17 Incansável ganhadora de almas. Os contemporâneos de Ellen White sabiam que ela era uma incansável ganhadora de almas. Eles observavam sua vida diária; recebiam suas cartas fervorosas. Seus vizinhos e companheiros de viagem eram abençoados por suas úteis iniciativas. Na verdade, a constante e prestimosa preocupação que ela sentia pelo bemestar espiritual dos outros se tornaram uma característica definida de sua vida. Ela nunca

se viu como uma “escritora em torre de marfim”, distante do mundo onde se travavam as batalhas espirituais a respeito das quais ela escrevia. Jovens e idosos encontraram a Jesus por meio de seu ministério pessoal. Um de seus contemporâneos escreveu: “Minhas lembranças da irmã White é que jamais em minha vida conheci uma mulher que parecesse tão completamente consagrada ao Senhor Jesus. Ele parecia ser para ela um amigo pessoal, que ela conhecia, amava e em quem confiava. Ela encontrava grande alegria em falar sobre Jesus; e todas as pessoas mais jovens concordam que houve, pelo menos, uma jovem que viveu muito próximo do Senhor e que, de maneira sincera e prática, procurou de todo o seu coração seguir a Jesus.”18 Uma viagem a Vergennes, Michigan, em junho de 1853, é lembrada por algo mais do que ficar “perdido” numa estrada bastante conhecida pelo condutor da carruagem. Perto da noitinha, depois de um longo dia de jornada sem água e sem alimento, Tiago e Ellen White ficaram muito contentes em encontrar uma solitária cabana feita de troncos e, nela, a dona da casa. Enquanto refazia as suas forças, a Sra. White falou com a hospitaleira anfitriã a respeito de Jesus e lhe deu de presente um exemplar de seu primeiro livro Experience and Views. Durante anos, os acontecimentos desse dia não pareciam apenas estafantes mas sem sentido. Mas em 1876, numa reunião campal realizada em Lansing, Michigan, a dona de casa daquela cabana, mais de vinte anos antes, apertou a mão de Ellen White e relembrou o primeiro encontro de ambas. Em seguida, ela apresentou a Sra. White a um grupo de adventistas do sétimo dia, os quais haviam começado sua nova comunhão com o Senhor depois da leitura de Experience and Views. A dona de casa havia contado aos vizinhos dispersos sobre esta senhora viajante que lhe “falara de Jesus e das belezas do Céu, e as palavras tinham tanto fervor que ela ficou encantada e jamais as esqueceu”.19 Apelos em Reuniões Campais Os apelos que Ellen White fazia em reu-

niões campais, de costa a costa, tornaram-se tradicionais. Em 1884, por exemplo, com a idade de 56 anos, ela falou em quatro reuniões campais. Sobre a reunião em Jackson, Michigan, o redator Uriah Smith relatou na Review que em várias ocasiões entre 200 e 350 pessoas atenderam ao apelo da Sra. White de irem à frente para orações. “Havia profunda emoção e, embora sem agitação ou fanatismo, visível atuação do Espírito de Deus no coração”, escreveu Smith.20 Durante sua visita à Inglaterra em 1885, Ellen White foi convidada a falar para um auditório de 1.200 pessoas na prefeitura de Grimsby. Seu tema foi “O Amor de Deus”. Mais tarde, ela escreveu: “Procurei apresentar as coisas excelentes de Deus de maneira a dirigir-lhes a mente da Terra para o Céu. Mas pude apenas admoestar e rogar, e exaltar Jesus como o centro de atração, e um Céu de bem-aventurança como a recompensa eterna do vencedor.”21 Em 1885, Cecile Dahl, uma norueguesa, serviu como intérprete da Sra. White enquanto ambas faziam uma excursão de seis semanas pela Alemanha e países escandinavos. A Srta. Dahl era uma das muitas pessoas que a oradora levara para o Senhor. Ellen White estava sempre pronta a compartilhar a verdade sobre Deus e a salvação, mesmo quando isso exigia uma reação agressiva. Em uma viagem por mar, costa acima, de São Francisco a Portland, em junho de 1878, ela entreoviu um passageiro, um pastor, dizendo que “era humanamente impossível guardar a lei de Deus; que o homem nunca a guardou e jamais conseguiria guardá-la. ... Pessoa alguma iria para o Céu guardando a lei. Para a Sra. White tudo é lei, lei; ela crê que devemos ser salvos pela lei, e ninguém pode ser salvo a menos que guarde a lei.” Ressentida com a maneira injusta como era acusada, Ellen White achou que o grupo que ouvia esse pastor devia ouvir as correções necessárias. Encontrando um momento apropriado, disse ao pastor: “Esta é uma falsa afirmação. A Sra. White nunca viu as coisas desse modo.” Então desenvolveu a história bíblica da lei

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como o espelho que mostra o pecado e Jesus como o Advogado que nos perdoa. “Pastor Brown, tenha a bondade de nunca mais tornar a fazer as afirmações errôneas de que não confiamos em Cristo para a salvação, mas confiamos na lei para ser salvos. Jamais escrevemos uma palavra sequer nesse sentido, tampouco ensinamos semelhante teoria. Cremos que nenhum pecador pode ser salvo em seus pecados (e pecado é a transgressão da lei), enquanto vocês ensinam que o pecador pode ser salvo enquanto transgride conscientemente a lei de Deus.” Recapitulando este incidente em um artigo de Signs, Ellen White fez referência às palavras de Cristo em Seu Sermão da Montanha: “Cristo mostra aqui o objetivo de Sua missão: mostrar por Seu exemplo ao homem que Ele era capaz de ser inteiramente obediente à lei moral e regular Sua vida por seus preceitos. Essa lei foi exaltada e honrada por Jesus Cristo.”22 Dois dias depois de seu sexagésimo oitavo aniversário, em 1895, Ellen White falava a um auditório numa reunião campal em Hobart, Tasmânia, e estava terminando um de seus sermões com um chamado ao altar. Grande parte do auditório veio à frente. Mas ela não ficou satisfeita. Ela buscava almas. Descendo da plataforma, dirigiu-se aos bancos de trás onde cinco jovens estavam sentados. Com sua maneira tranqüila, ela os convidou a entregarem o coração a Jesus. Todos os cinco o fizeram, e diversos outros jovens se uniram a eles enquanto eles se encaminhavam para a frente em sua decisão de fazer de Jesus o seu Mestre.23 Claras prioridades. As pessoas podem ser julgadas pelos seus “desejos”. Ellen White repetia muitas vezes sua “lista de desejos”: “Desejo ser semelhante a Ele. Desejo praticar Suas virtudes.”24 “Desejo achar-me entre aqueles que terão seu nome escrito no livro e serão libertados. Desejo a recompensa do vencedor.”25 “Desejo meu tesouro no Céu.”26 “Desejo ser semelhante a Ele. Desejo estar com Ele pelos intermináveis séculos da eternidade.”27 “Desejo conhecer cada vez mais a Palavra de Deus e as Suas obras.”28 “Desejo ter um lar junto aos remidos, e desejo que você tenha um lar ali.”29 Confiança permanente. Na última parte

dos seus oitenta anos (proeza pouco comum no início da década de 1900), Ellen White continuava a tomar parte ativa na elaboração de livros. Andava livremente por sua casa em Elmshaven, sendo capaz de subir e descer escadas sem a ajuda de ninguém. Podiase muitas vezes ouvi-la cantar um antigo hino adventista, “Uma Pátria Melhor”, escrito por William H. Hyde. A letra do hino foi composta depois que Hyde ouviu a irmã White descrever sua primeira visão na primavera de 1845. Muitas vezes ela se demorava na última parte: “Dentro em breve estaremos ali, Reunidos aos puros, no gozo; Palmas, vestes, coroas teremos E pra sempre o eterno repouso.”30 Em 13 de fevereiro, Ellen White tropeçou e caiu ao entrar em seu escritório. Os raios X revelaram uma “fratura intracapsular do fêmur esquerdo na junção entre a cabeça e o colo do osso”, uma lesão dolorosíssima, especialmente sem os modernos medicamentos que suprimem a dor. Quando lhe perguntaram se sentia dor, ela respondeu: “Não é tão doloroso, mas não posso dizer que seja confortável.” Semanas depois, quando tornaram a lhe perguntar como se sentia, ela replicou: “Sinto-me bem... em alguns aspectos.” Seu longo hábito de andar com o Senhor fazia toda a diferença.31 A Última Visão Ellen White teve sua última visão no dia 3 de março de 1915. Fazendo um resumo da visão, ela disse ao filho William C. White: “Há livros de vital importância que não são olhados por nossos jovens. São negligenciados por não lhes parecerem tão interessantes como certas leituras leves. ... Devemos escolher livros que os estimulem à sinceridade de vida, e os levem a abrir a Palavra. ... Não espero viver muito. Minha obra está quase concluída. Diga aos nossos jovens que eu quero que minhas palavras os animem naquela maneira de viver que mais atrativa será aos seres celestes, e que sua influência sobre os outros seja enobrecedora. “Não tenho nenhuma certeza de que minha vida se prolongue muito, mas sinto que

sou aceita pelo Senhor. ... Tenho sentido ser imperioso que a verdade se manifeste em minha vida, e que meu testemunho seja dirigido ao povo. Quero que faça o que estiver ao seu alcance para que meus escritos sejam postos nas mãos do povo nas terras estrangeiras. ... Tenho a impressão de ser meu dever especial dizer essas coisas.”32 Alguns dias antes de sua morte, uma amiga comentou sua alegria. Ela replicou: “Fico feliz de que você me tenha encontrado assim. Não tenho tido muitos dias tristes. ... O Senhor tomou providências e dirigiu todas essas coisas para mim, e estou confiante nEle. Ele sabe quando tudo isto acabará.” “Sim”, disse a visitante, “vai acabar logo, e nós vamos encontrar você no reino de Deus e ‘falarmos sobre tudo o que passamos’, como você escreveu em uma de suas últimas cartas.” Ao que ela replicou: “Oh, sim, parece bom demais para ser verdade, mas é verdade!” Suas últimas palavras ao filho e a Sara, sua enfermeira, foram: “Eu ‘sei em quem tenho crido’.”33 Capacidade Mental Embora não fosse mulher de instrução formal, Ellen White era uma pessoa que aproveitava toda oportunidade para aumentar seu banco de informações e discernimento. Já fizemos menção ao traumatismo que deixou seu rosto marcado (págs. 48, 62 e 63), incidente que, conforme ela confessou depois, “iria afetar toda a minha vida”.34 Ela nunca mais pôde voltar a freqüentar a escola, contudo sua busca inata de conhecimento a levou a reunir uma biblioteca pessoal e profissional que, ao tempo de sua morte, totalizava mais de 800 volumes.35 Quando ela vivia em Battle Creek, utilizava livremente a biblioteca da Review and Herald Publishing Company. Na qualidade de mãe e esposa, ela e seu marido leram livros edificantes um para o outro ou para os filhos, como, por exemplo, A História da Reforma do Século Dezesseis, de D’Aubigné.36 Ellen era uma ávida leitora de revistas religiosas. Depois que Uriah Smith, veterano

redator da Review and Herald, terminava de ler os periódicos que vinham para seu escritório, ele os passava para ela a fim de mantê-la informada a respeito da marcha dos acontecimentos religiosos e políticos.37 A completa magnitude de sua produção literária, aliada às centenas de sermões que foram transcritos, indica capacidade mental extraordinária. Apesar de na maioria das vezes estar com extrema falta de tempo e em circunstâncias desfavoráveis, ela ainda era capaz de apresentar pessoalmente ou por escrito mensagens convincentes e interessantes. Experiências Comoventes Ellen White era uma mulher extraordinariamente sensível, aberta a todas as emoções humanas. A capacidade que ela possuía de verbalizar suas diversas experiências indica uma aptidão incomum para a empatia, quer a experiência fosse triste, quer alegre. Sempre uma amante do belo, sua reação emocional aos espetaculares Alpes, às Montanhas Rochosas do Colorado, a um pôr-dosol na Noruega ou à Catedral de Milão revela uma profundidade de apreciação do belo que permeia seus escritos. No verão de 1873, por exemplo, os White foram ao Colorado para umas férias bastante atrasadas. Ela relembra: “Gosto muito das colinas, das montanhas e das luxuriantes florestas de pinheiros. Gosto muito dos regatos, das correntes velozes de água que se precipitam, borbulhantes, sobre as rochas por entre os desfiladeiros, junto às encostas das montanhas, como se estivessem a cantar um alegre hino de louvor a Deus. ... “Aqui nas montanhas avistamos os crepúsculos mais magníficos, mais repousantes e agradavelmente coloridos que já tivemos o privilégio de contemplar. O imponente quadro do pôr-do-sol, pintado pelo grande Artista-Mestre, sobre a tela cambiante e matizada do firmamento, desperta em nosso coração amor e a mais profunda reverência a Deus.”38 Depois de um pôr-do-sol no início do inverno na Noruega, ela escreveu: “Fôramos favorecidos com o cenário do mais deslumbrante pôr-do-sol que tive o privilégio de ver.

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A Verdadeira Ellen White

O ministério profético de Ellen G. White

A linguagem é inadequada para pintar sua beleza. Os últimos raios do sol poente, na coloração de prata e ouro, púrpura, âmbar e carmesim, espalhavam seu esplendor pelo Céu, sempre mais brilhante, elevando-se mais e mais até dar a impressão de que os portais da cidade de Deus tivessem sido deixados semi-abertos e esplendores da glória interior brilhassem através deles.” Esta magnífica experiência precisou de duas páginas para ser registrada.39 Conheceu o Desânimo Ao cumprir seu papel como mensageira de Deus, Ellen White conheceu a desolação que acompanha o desânimo. Por toda a sua vida, o desânimo, de vez em quando, agitava com depressão temporária. Não resta dúvida de que sua debilidade física, sua afecção cardíaca e problemas respiratórios a tornaram suscetível ao desânimo. O fato de ser uma mensageira do Senhor, que lutava no campo de batalha do conflito cósmico em posto mais avançado que seus contemporâneos, também provocava os constantes ataques de Satanás. Como se relacionava ela com essa negra sombra experimentada por tantas pessoas, desde o princípio do tempo? O conselho que ela dá a outros que estão desanimados ou mesmo deprimidos recebe a influência de suas próprias dificuldades pessoais. Durante todo o seu ministério, Ellen White enfrentou tanto o fogo do fanatismo como o gelo da indiferença.40 Suas palavras de conselho, muitas vezes de reprovação, eram freqüentemente contrapostas com fofocas e calúnias. Isso a afetava fisicamente. A respeito de algo por que passou quando contava apenas 18 anos de idade e ainda estava fisicamente debilitada, ela relatou: “O desânimo produziu sobre mim tão forte impressão, e o estado do povo de Deus me encheu de tanta angústia que fiquei prostrada com uma doença por duas semanas.”41 Os leitores de suas cartas e dos apontamentos de seu diário têm o privilégio de quase “ouvir” o coração dela bater à medida que relata suas reações àqueles momentos de desânimo provenientes de diversas causas. A maneira como repelia as “sombras infernais” do mal talvez seja justamente a compreensão de que alguns leitores precisam hoje! Embora estivesse no oitavo mês de gravidez em 1847, ela escreveu uma carta bem-humorada a José Bates, mencionando que “mi-

nha saúde está ótima, no que me diz respeito”. Depois, ela abriu o coração: “Tenho passado por muitas dificuldades ultimamente; o desânimo às vezes se apossa de mim com tal firmeza que parece impossível livrar-me dele. Mas graças a Deus, Satanás não obteve ainda vitória sobre mim e, pela graça de Deus, jamais a obterá. Eu conheço e sinto a minha fraqueza, mas tenho me agarrado ao braço poderoso de Jeová, e hoje posso dizer que meu Redentor vive, e se Ele vive, eu também viverei.”42 Dificuldades? Poucas pessoas conheceram os tempos trabalhosos como os enfrentados pelos White. Esses líderes-servos haviam sido incumbidos de uma missão e não ousavam voltar-se para uma vida de ocupações habituais. Considere, porém, que ali estava uma jovem família no inverno de 1847-1848 (Henry nascera em 26 de agosto de 1847) procurando falar e escrever à medida que Deus abria o caminho, e no entanto resolvida a ser financeiramente independente. Tiago, aos 26 anos de idade, transportava pedras num túnel ferroviário que estava sendo escavado perto de Brunswick, Maine, até ficar com as mãos em carne viva, e também cortava madeira para lenha em longas jornadas de trabalho a 50 centavos por dia. Com um “orçamento” limitado como esse, Ellen, então com 20 anos de idade, só conseguia adquirir para si e para o filho pouco mais de meio litro de leite. Assim sendo, para poder comprar uma peça de tecido a fim de fazer uma roupa simples para Henry, ela era obrigada a cortar o suprimento de leite por três dias. Chegou o dia em que se esgotaram as suas provisões. Tiago caminhou quase cinco quilômetros tanto na ida como na volta, debaixo de chuva, em busca do patrão para receber seu salário ou os mantimentos necessários. Ao voltar ele com um saco de provisões, Ellen relembra: “Quando ele entrou em casa, muito cansado, meu coração desfaleceu dentro de mim. Minha primeira impressão foi a de que Deus nos havia abandonado. Disse a meu marido: A que ponto chegamos? Abandonou-nos o Senhor? Não pude conter as lágrimas e levantei a voz em choro durante horas até desmaiar.” Em outras palavras: “Senhor, por que a vida é tão dura quando nós nos dedicamos sem reservas à Tua causa?”

Mediante o relato dessa experiência, obtemos um vislumbre da maneira como se ergueu ela desse profundo poço de desânimo. Ela se arrependeu de ter ficado tão desalentada. Lembrou-se de que seu primeiro desejo era “seguir a Cristo e ser semelhante a Ele. Algumas vezes, porém, desfalecemos sob as aflições e nos distanciamos dEle. Os sofrimentos e as provações nos aproximam de Jesus. A fornalha consome a escória, fazendo reluzir o ouro.”43 Em Rochester, Nova Iorque, no fim de 1854, a Sra. White estava grávida de sete meses de seu terceiro filho. Mas outros problemas a defrontavam diariamente. Obreiros preeminentes de Rochester estavam morrendo de tísica pulmonar (tuberculose). O marido Tiago parecia estar desfalecendo também, não só devido aos sintomas da tísica pulmonar, mas também devido à falta de compreensão dos colegas de trabalho, além do esforço excessivo de suas costumeiras viagens, pregações e produção literária. Procure imaginar a ampla gama de preocupações que enfrentava essa jovem mãe e esposa! “As provas se intensificaram ao nosso redor. Grande era a nossa preocupação. Os trabalhadores do escritório hospedavam-se conosco, e nossa família cresceu de quinze para vinte pessoas. As grandes assembléias e as reuniões de sábado eram realizadas em nossa casa. Não tínhamos sábados tranqüilos, pois algumas das irmãs geralmente ficavam todo o dia com suas crianças. Nossos irmãos e irmãs geralmente não tomavam em consideração a inconveniência, preocupações e despesas extras que nos acarretavam. Visto que os trabalhadores do escritório, um atrás do outro, voltavam para casa doentes, precisando de atenção extra, eu receava sucumbir de ansiedade ou preocupação. Pensei muitas vezes que não conseguiria mais suportar; apesar disso as provações aumentavam.” Que faz uma jovem mãe de dois filhos e grávida de sete meses, em tais circunstâncias? “Descobri com surpresa que não fôramos esmagados. Aprendemos a lição de que se pode suportar muito mais sofrimento e provação do que se julgava possível. Os olhos vigilantes de Deus estavam sobre nós, providenciando para que não fôssemos destruídos. ... Se a causa de Deus fosse unicamente nossa, pode-

ríamos ter tremido; mas ela estava nas mãos dAquele que diz: ‘Ninguém pode arrebatá-las das mãos de Meu Pai.’ Jesus vive e reina.”44 Nas semanas que precederam à assembléia da Associação Geral realizada em Mineápolis, em 1888, Ellen White ficou apreensiva com a “incredulidade e resistência à reprovação” que predominava contra seu ministério, em grande parte desenvolvida enquanto ela estava na Europa, entre 1885 e 1887: “Os irmãos parecem não ver além do instrumento. ... Também me fora dito [em visão] que o testemunho que Deus me havia dado não seria recebido porque o coração daqueles que haviam sido reprovados não se encontrava em estado de humildade capaz de ser corrigido e receber reprovação.” O desânimo parecia esmagá-la, e ela ficou muito doente. Relembrando o acontecimento, ela escreveu: “Eu não sentia desejo de restabelecer-me. Não tinha forças sequer para orar, nem tinha vontade de viver. Descansar, apenas descansar, era meu desejo, aquietarme e descansar. Enquanto permaneci durante duas semanas em depressão nervosa, eu tinha esperança de que ninguém suplicasse ao trono da graça em meu favor. Quando veio a crise, a impressão era a de que eu morreria, e assim também pensava eu. Mas esta não era a vontade de meu Pai celestial. Minha obra ainda não estava concluída.” Reagindo ao Desânimo De que modo Ellen White reagiu ao opressivo desânimo? Do modo como fizera muitas vezes no passado: “Andar pela fé contra toda as aparências era exatamente o que o Senhor exigia que eu fizesse.”45 “Andar pela fé contra todas as aparências.” Este era o conselho que ela procurou seguir durante toda a sua vida e era muitas vezes o conselho que ela dava aos outros. Em uma palestra matutina proferida na Assembléia de Mineápolis, em 19 de outubro de 1888, ela falou de comprovada experiência: “Vocês dizem: ‘Como posso falar de fé, como posso ter fé, quando as nuvens e as trevas, e o desânimo se apoderam de minha mente? Eu não sinto como se eu pudesse falar de fé; eu não sinto possuir nenhuma fé sobre a qual falar.’ Mas por que se sentem dessa maneira? É porque permitem que Satanás lance negras

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sombras ao longo de seu caminho, e não podem ver a luz que Jesus derrama em seu caminho. Outros, porém, dizem: ‘Sou muito franco. Digo somente o que sinto, falo somente o que penso.’ Será que esta é a melhor maneira de agir? Não. Deus quer que nos eduquemos para falar palavras corretas, palavras que sejam uma bênção aos outros e que lhes derramem raios de luz sobre a alma.”46 Alguém poderia questionar se, após longos anos de serviço e confiança em Deus, os cristãos ficam fora do alcance dos momentos de trevas em que eles vêem mais nuvens do que sol. Pense em Jesus no Getsêmani. Ou na vida dos santos. O que eles aprenderam através dos anos foi como lutar contra as sombras infernais do diabo. No octagésimo sétimo ano de vida de Ellen White, C. C. Crisler, um dos seus secretários, escreveu ao filho dela, William: “Ela diz que não deseja fazer nenhum estardalhaço sobre o fato de estar sempre animada, embora ela sempre esteja. E acrescenta que o próprio fato de os membros da família despertarem, de vez em quando, ouvindo-a repetir as promessas de Deus e reivindicando-as como suas próprias é prova de que ela ainda tem suas próprias batalhas a travar contra Satanás.”47 Uma Senda Solitária Era, porém, a solidão, e não o desânimo, a companhia freqüente da escritora, se bem que tal solidão não fosse freqüente, nem necessariamente acompanhada pelo desânimo. A natureza de sua tarefa divina parecia tornar inevitável que Ellen White palmilhasse sozinha a sua senda. O que espanta é que ela nem por isso era conhecida como uma sombria eremita. Sua família a considerava a alegria da casa; seus vizinhos e colaboradores lembram-se dela como sua fonte de estímulo. Os profetas, pela própria natureza da tarefa que realizam, proferem mais reprovação do que elogio. Isso também era verdadeiro no que diz respeito à Sra. White. E nem todos os destinatários aceitam de bom grado as mensagens de correção e censura. Devem-se esperar mal-entendidos e ressentimento. Além disso, estar na vanguarda de quase

todo empreendimento da igreja desde o seu início requeria uma força emocional enorme, força que poucas pessoas possuem. Liderar um grupo de homens e mulheres obstinados pelos novos caminhos da organização da igreja, desenvolver sólidas instituições médicas e educacionais e ajudar a pilotar toda uma denominação através de difíceis conflitos teológicos – tudo isto provocava mal-entendidos e desavenças. Assim, somos capazes de entender Ellen White quando ela escreveu em 1902: “Tenho estado sozinha nesta questão, rigorosamente sozinha, com todas as dificuldades e com todas as provações relacionadas com a obra. Só Deus pode ajudar-me.”48 Na Europa, aos 59 anos de idade, viúva havia cinco anos, ela procurava ativamente colocar o programa europeu sobre um sólido e unificado fundamento. Aí estava um desafio que amedrontaria, e amedrontou, até os líderes mais fortes. Em uma carta ao presidente da Associação Geral, ela escreveu: “Afirmo-lhe que esses pontos difíceis em minha experiência me fizeram desejar o clima da Califórnia, e o refúgio de um lar. Mas será que eu tenho um lar? Onde está ele?”49 Em resultado da Assembléia da Associação Geral de Mineápolis em 1888, Ellen White experimentou sua solidão mais profunda. Escrevendo veementemente a Uriah Smith, ela declarou: “Meus irmãos têm contestado, criticado, comentado, rebaixado e selecionado tanto meus testemunhos até que não signifiquem nada para eles. Dão-lhes a interpretação que desejam em seu julgamento finito e ficam satisfeitos. Se eu tivesse ousado, teria desistido deste campo de conflito há muito tempo, mas alguma coisa tem me sustentado. Deixo tudo isso, porém, nas mãos de Deus. Sinto o afastamento de muitos dos meus irmãos. Eles não me compreendem, nem a minha missão nem a minha obra; pois se o compreendessem, jamais teriam adotado este modo de agir.”50 Através de tudo isso, Ellen White sabia o que era alegria e felicidade interior. Ela insistia com os outros, por preceito e por exem-

plo, que colhessem as rosas e ignorassem os espinhos.51 Na revista da igreja, ela escreveu: “Vamos representar a vida cristã como é na realidade. Vamos tornar o caminho alegre, convidativo e interessante. Podemos fazer isto, se quisermos. Podemos encher nossa própria mente com quadros vívidos das coisas espirituais e eternas e, assim fazendo, ajudar a tornálos uma realidade para outras mentes.”52 Solidão, até mesmo frustração e desânimo, não precisam interromper a atividade de um cristão bem disposto. Durante um período difícil da década de 1860, em que os White estavam em Dansville, Nova Iorque, procurando ajuda para os problemas físicos de Tiago, Ellen registrou em seu diário uma conversa anterior: “É a falta da genuína religião que produz acabrunhamento, desalento, tristeza. ... Um serviço dividido, amando o mundo, amando o eu, amando divertimentos frívolos,
Referências
1. “Minhas idéias sobre justificação e santificação eram confusas. Esses dois assuntos me foram apresentados à mente como algo distinto e separado um do outro. Apesar disso, eu não conseguia compreender a diferença nem entender o significado dos termos, de modo que todas as explicações dos pregadores só contribuíam para aumentar as minhas dificuldades. Eu era incapaz de implorar a bênção para mim mesma e perguntava-me se não devia permanecer apenas entre os metodistas, e se, ao freqüentar as reuniões do advento, não me estaria excluindo daquilo que mais desejava nesta vida: o santificador Espírito de Deus. Observei, no entanto, que alguns daqueles que pretendiam estar santificados manifestavam espírito amargo quando o assunto da breve volta de Jesus era apresentado. Isto que eles professavam não me parecia uma demonstração de santidade.” – Life Sketches, págs. 28 e 29. 2. “[Os pastores] ensinavam que Deus não Se propunha salvar pessoa alguma, a não ser as santificadas; ensinavam que os olhos do Senhor estavam sempre sobre nós; que o próprio Deus, com a precisão de Sua infinita sabedoria, fazia a escrituração dos livros; e que cada pecado que cometíamos era ali fielmente registrado contra nós para que nos fosse aplicado o justo castigo. ... Se houvessem enfatizado mais o amor de Deus e menos Sua justiça implacável, a beleza e a glória de Seu caráter ter-me-iam inspirado profundo e fervoroso amor por meu Criador.” – Ibidem, págs. 30 e 31. 3. “Em minha mente, a justiça de Deus eclipsava Sua misericórdia e amor. A angústia mental por que passei nesta época foi enorme. Eu fora ensinada a crer num inferno que arde eternamente; e, ao pensar no estado miserável dos pecadores sem Deus e sem esperança, emergia em profundo desespero. Eu tinha medo de me perder e ficar durante toda a eternidade sofrendo uma morte em vida. Achava-se continuamente diante de mim o horrendo pensamento de que meus pecados eram grandes demais para serem perdoados, e que eu deveria estar perdida para sempre.” – Ibidem, pág. 29. 4. De muitas maneiras Ellen White desenvolveu o foco central do tema bíblico do grande conflito. Ver págs. 256-266. Por exemplo: “Desde o início do grande conflito, tem sido o pro-

faz um servo tímido, covarde; que segue a Jesus de longe. O serviço feito de boa vontade e de coração a Jesus produz uma religião refulgente. Os que seguem a Cristo bem de perto não se têm mostrado sombrios.”53 As pessoas podem ser felizes ainda que solitárias. A capacidade que Ellen White possuía de manifestar esta verdade permeia o registro histórico e dá garantia pessoal à declaração que ela fez em Great Grimsby, Inglaterra, em 1886: “Eu não espero o fim para desfrutar toda felicidade; eu desfruto felicidade enquanto vou caminhando. Não obstante ter provas e aflições, olho para Jesus. É nas situações difíceis, árduas, que Ele está bem ao nosso lado, e podemos comungar com Ele, depor todos os nossos fardos sobre o Portador de Fardos, e dizer: ‘Eis, Senhor, não posso mais levar esses fardos.’”54

pósito de Satanás representar mal o caráter de Deus, e provocar a rebelião contra a Sua lei; e esta obra parece ser coroada de êxito. As multidões dão ouvidos aos enganos de Satanás, e dispõem-se contra Deus. Mas, em meio da atuação do mal, os propósitos de Deus avançam perseverantemente ao seu cumprimento; a todos os seres criados está Ele a tornar manifestas Sua justiça e benevolência.” – Patriarcas e Profetas, pág. 338. “Os esforços de Satanás para representar de maneira falsa o caráter de Deus, para fazer com que os homens nutram um conceito errôneo do Criador, e assim O considerem com temor e ódio em vez de amor; seu empenho para pôr de parte a lei divina, levando o povo a julgar-se livre de suas reivindicações e sua perseguição aos que ousam resistir a seus enganos, têm sido prosseguidos com persistência em todos os séculos. Podem ser observados na história dos patriarcas, profetas e apóstolos, mártires e reformadores.” – O Grande Conflito, pág. 12. “Deus deseja de todas as Suas criaturas serviço de amor – homenagem que brote de uma apreciação inteligente de Seu caráter.” – Ibidem, pág. 493. “O inimigo do bem cegou o entendimento dos homens, de maneira que foram levados a olhar a Deus com medo, considerando-O severo e inflexível. Satanás levou as pessoas a imaginar Deus como um Ser cujo principal atributo fosse a justiça sem misericórdia, um rigoroso juiz, um credor exigente e cruel. Retratou o Criador como alguém que fica espreitando desconfiado, procurando sempre descobrir os erros e pecados dos homens, para castigá-los com Seus juízos. Foi para apagar essa negra sombra, revelando ao mundo o infinito amor de Deus, que Jesus veio viver entre os seres humanos.” – Caminho a Cristo, págs. 10 e 11. Desse modo, Ellen White deixou claro que o tema principal, o princípio que compeliria e organizaria a mensagem do evangelho eterno da igreja nos últimos dias, seria um reconhecimento do foco principal do Tema do Grande Conflito: “A escuridão do falso conceito acerca de Deus é que está envolvendo o mundo. Os homens estão perdendo o conhecimento do Seu caráter. Este tem sido mal compreendido e mal interpretado. Neste tempo deve ser proclamada uma mensagem de

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gorosos em Cristo Jesus.” – Fé e Obras, pág. 68. Repare que noutras vezes, quando fisica e emocionalmente exausta, Ellen White prosseguiu com fé, falando de fé e levando este conceito a outros; na Austrália, por exemplo, em 1895, citado em Biography, vol. 4, pág. 228. 47. Biography, vol. 6, págs. 413 e 414. 48. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 67. 49. Biography, vol. 3, pág. 354. 50. Ibidem, pág. 471. 51. Caminho a Cristo, pág. 117. 52. Review and Herald, 29 de janeiro de 1884. 53. Biography, vol. 2, pág. 122 (O Lar Adventista, pág. 431). 54. Life Sketches, pág. 292 (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pág. 556).

Deus, uma mensagem de influência iluminante e capacidade salvadora. O caráter de Deus deve tornar-se notório. Deve ser difundida nas trevas do mundo a luz de Sua glória, a luz da Sua benignidade, misericórdia e verdade. ... Os que aguardam a vinda do Esposo devem dizer ao povo: ‘Eis aqui está o vosso Deus.’ Os últimos raios da luz misericordiosa, a última mensagem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do caráter do amor divino.” – Parábolas de Jesus, pág. 415. 5. Ver pág. 5. 6. Historical Sketches, págs. 130 e 133. 7. Para uma análise típica da maneira como Ellen White compreendia a “justiça que provém da fé”, ver Fé e Obras, págs. 15122; Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 350-400; Parábolas de Jesus, págs. 307-319. Para a opinião dela sobre a experiência religiosa dinâmica, ver O Grande Conflito, págs. 461-478. Para os ensinos dela sobre um “povo preparado”, ver Parábolas de Jesus, págs. 405-421; O Grande Conflito, págs. 582-634. 8. Biography, vol. 2, págs. 432 e 433. Ver Caminho a Cristo, págs. 96 e 104. 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 124 (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, págs. 240 e 241). “O amor é poder. Neste princípio acha-se envolvida força intelectual e moral, e dele não se podem separar. O poder da riqueza tem a tendência de corromper e destruir; o poder da força é potente para causar dano; a excelência e o valor do amor puro, porém, consistem em sua eficiência para fazer bem, e nada senão o bem. Tudo quanto é feito por puro amor, por mais pequenino ou desprezível que seja aos olhos dos homens, é inteiramente frutífero; pois Deus olha mais a quantidade de amor com que alguém trabalha do que à porção de trabalho que realiza. O amor é de Deus. O coração não convertido é incapaz de originar ou produzir esta planta de procedência celeste, que só vive e floresce onde Cristo reina. “O amor não pode viver sem ação, e cada ato aumenta-o, robustece-o, expande-o. O amor obterá a vitória onde o argumento e a autoridade são impotentes. O amor não trabalha pelo proveito nem pela recompensa; todavia foi ordenado por Deus que grande ganho acompanhe seguramente toda a obra de amor. ... O amor puro é simples em suas maneiras de agir, e distingue-se de qualquer outro princípio de ação. O amor da influência e o desejo de desfrutar a estima dos outros talvez produzam uma vida bem-ordenada e, freqüentemente, uma conduta irrepreensível. O respeito de nós mesmos nos pode levar a evitar a aparência do mal. Um coração egoísta pode praticar ações generosas, reconhecer a verdade presente, e exprimir humildade e afeição de maneira exterior, não obstante os motivos podem ser enganosos e impuros; as ações originadas de um coração assim podem ser destituídas do sabor da vida, dos frutos de verdadeira santidade, dos princípios do amor puro.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 135 e 136 (Testemunhos Seletos, vol. 1, págs. 209-211). 10. Carta 3, 1863, citado em Biography, vol. 2, pág. 95. Ver também Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 355: “Quando Ele vier, não nos purificará de nossos pecados, para remover de nós os defeitos de caráter, nem para curar-nos das fraquezas de nosso temperamento e disposição. Se acaso esta obra houver de ser efetuada em nós, sê-lo-á totalmente antes daquela ocasião. Quando o Senhor vier, os que são santos serão santos ainda. Os que houverem conservado o corpo e o espírito em santidade, em santificação e honra, receberão então o toque final da imortalidade. ... Nenhuma obra se fará então por eles para lhes remover os defeitos, e dar-lhes um caráter santo. Então o Refinador não Se assentará para prosseguir em Seu processo de purificação, e para remover-lhes os pecados e a corrupção. Tudo isto deve ser feito nestas horas de graça. É agora que esta obra deve ser feita por nós. “Abraçamos a verdade de Deus com nossas faculdades diversas, e ao chegarmos sob a influência dessa verdade, ela realizará por nós a obra necessária a fim de dar-nos aptidão moral para o reino da glória, e para a sociedade dos anjos celes-

tes. Achamo-nos agora na oficina de Deus. Muitos de nós somos pedras rústicas da pedreira. Ao apoderar-nos, porém, da verdade de Deus, sua influência nos afeta. Eleva-nos, e tira de nós toda imperfeição e pecado, seja de que natureza for. Assim estamos preparados para ver o Rei em Sua beleza, e unirnos afinal com os puros anjos celestes no reino da glória.” 11. Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, pág. 27. “A saúde do corpo depende em grande parte da saúde da alma; portanto, quer comais, quer bebais, o que quer que façais, fazei tudo para glória de Deus. A religião pessoal revela-se pelo comportamento, pelas palavras e atos. Produz crescimento, até que afinal a perfeição reivindica o elogio do Senhor: ‘Estais perfeitos nEle!’ Col. 2:10.” – Ibidem. Ver também págs. 291-294. 12. A Ciência do Bom Viver, pág. 241. 13. Ibidem, pág. 113. 14. Ibidem. 15. Manuscrito 5, 1882, citado em Biography, vol. 3, pág. 220. 16. O Desejado de Todas as Nações, pág. 471. 17. Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pág. 777. 18. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 50. 19. Biography, vol. 1, págs. 278 e 279. 20. Review and Herald, 7 de outubro de 1884. 21. Historical Sketches, págs. 162 e 163. 22. Signs of the Times, 18 de julho de 1878; ver também 23 de setembro de 1889. 23. Biography, vol. 4, pág. 235. 24. Manuscrito 12, 1894, citado em Sermons and Talks, vol. 1, pág. 246. 25. Review and Herald, 26 de março de 1889. 26. Signs of the Times, 14 de outubro de 1889. 27. Review and Herald, 16 de julho de 1889. 28. Review and Herald, 27 de setembro de 1892. 29. General Conference Bulletin, 3 de abril de 1901. 30. James Nix, Early Advent Singing (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1994), págs. 141-144. William H. Hyde tinha apenas 17 anos quando escreveu este hino. Seu pai, William Hyde, foi destacado editor em Portland, Maine. 31. Biography, vol. 6, págs. 423 e 424. 32. Fundamentos da Educação Cristã, págs. 547-549, e Mensagens aos Jovens, págs. 287 e 289. 33. Biography, vol. 6, págs. 430 e 431. 34. Life Sketches, pág. 72. 35. Ver Libraries, a Bibliography of E. G. White’s Private and Office Libraries (por ocasião de sua morte em 1915). Este documento está disponível em qualquer um dos Centros de Pesquisa White. 36. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 437. 37. Ibidem, pág. 463. 38. Health Reformer, agosto de 1873. 39. Historical Sketches, pág. 220 (Minha Consagração Hoje, pág. 337). Para a descrição feita por Ellen White de sua visita à Catedral de Milão e da viagem pelos magníficos Alpes em 1886, ver Arthur Delafield, Ellen G. White in Europe, págs. 175, 176 e 181-183. 40. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 644; ibidem, vol. 1, pág. 502; Review and Herald, 12 de fevereiro de 1901. 41. Biography, vol. 1, pág. 88. Mais tarde ela veio a compreender que o sofrimento mental afeta diretamente a saúde do corpo. Ver págs. 330-332. 42. Ibidem, pág. 131. 43. Ibidem, págs. 134 e 135. 44. Ibidem, págs. 304-306. 45. Ibidem, vol. 3, págs. 385 e 386. 46. Signs of the Times, 11 de novembro de 1889. Alguns meses depois, em uma reunião campal realizada em Ottawa, Kansas, ela disse: “Vocês têm de falar de fé, têm de viver pela fé, têm de agir pela fé, para que tenham um aumento de fé. Exercendo essa fé viva, tornar-se-ão homens e mulheres vi-

Perguntas Para Estudo

1. Quais foram os passos no pensamento de Ellen White que a levaram à correta representação de Deus como seu amigo? 2. Como Ellen White associava a crença teológica com a vida pessoal do crente? 3. Como você expressaria a compreensão de Ellen White sobre a relação existente entre a saúde e a vida espiritual? 4. Que percepções tinha Ellen White sobre a causa do sofrimento e da morte? 5. A que você atribuiria a notável carreira literária de Ellen White, levando em conta o fato de que sua educação formal acabou aos nove anos de idade?

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Como Outros a Conheceram
“O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. No zelo não sejais remissos: sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor; regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração perseverantes; compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade; ... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.” Rom. 12:9-13 e 18.

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llen White praticava aquilo que pregava? Sim. Outros a conheciam como uma líder cristã bem equilibrada e extraordinária. Embora sujeita a fraquezas humanas, ela era respeitada como alguém que praticava as idéias progressistas, inteiramente abrangentes e sempre em expansão que lhe eram constantemente reveladas. Simplicidade Ela aprendeu como suportar e superar dificuldades financeiras. São bem conhecidos os seus hábitos de prudência. Os White começaram a vida doméstica na pobreza. Em 1848, deixaram a família Howland, em Topsham, Maine, onde haviam residido nos compartimentos do andar superior, com o objetivo de participar de uma assembléia dos adventistas observadores do sábado em Rocky Hill, Connecticut, a primeira de muitas que se seguiriam. Como planejaram pagar sua passagem? Tiago havia ganhado dez dólares cortando lenha. Metade desse dinheiro foi gasto em preparar a jovem família de três membros para a viagem, e a outra metade, para pagar o transporte até Boston e daí para a casa de Otis Nichols. Embora não tenham dito uma só palavra sobre sua situação financeira, a Sra. Mary Nichols lhes deu cinco dólares. Depois de comprarem passagens ferroviárias para Middletown, Connecticut, restaram-lhes 50 centavos. Eles tiveram que enfrentar semelhantes desafios econômicos muitas vezes nos anos que se seguiram.1

Em pleno inverno de 1851, os White foram convidados a pregar numa assembléia em Waterbury, Vermont. Eles já haviam emprestado Charlie, seu fiel cavalo, e a carruagem a S. W. Rhodes e J. N. Andrews para que esses dois pregadores pudessem atender compromissos no Canadá e no Norte de Vermont. Pelo caminho os White encontraram um crente pobre a quem incentivaram a participar da assembléia. Para tornar isso possível, eles lhe deram o valor correspondente às suas passagens de trem para ajudá-lo a comprar um cavalo, a fim de que todos os três fossem juntos de trenó. Logo encontraram outro crente e lhe deram cinco dólares para pagar a passagem de trem. Os White prosseguiram pelo frio Vermont num trenó aberto, sem cobertor de lã ou manta de pele de búfalo. Ellen White escreveu: “Nós sofremos muito.”2 No verão de 1852, o escritório de publicações estabeleceu-se em Rochester, Nova Iorque. Todo o equipamento gráfico, além da escassa mobília doméstica, foi enviado do Maine para o Oeste, com dinheiro emprestado. Os White montaram a editora na sua própria casa, acomodando não somente o equipamentos gráfico, mas também alojando todos os obreiros. Fora o mestre gráfico não adventista, ninguém recebia pagamento, com exceção de uma pequena quantia destinada a vestuário e outras despesas “consideradas absolutamente necessárias”.3

Tiago levou para casa seis cadeiras velhas, dentre as quais não havia duas iguais. Pouco tempo depois adquiriu mais quatro, sem os tampos. Ellen fez os assentos. Batatas e manteiga custavam muito caro. As primeiras refeições eram servidas numa tábua posta sobre duas barricas de trigo. Ellen comentou: “Estamos dispostos a suportar privações para que a obra de Deus possa progredir.”4 As circunstâncias domésticas melhoraram com o passar do tempo. Tanto Tiago como Ellen eram especialistas em viver com os poucos recursos disponíveis, ou mesmo sem nada. Apesar disso, Tiago sabia que muitas vezes Ellen faria sacrifícios excessivos. Em 1874, ele escreveu ao filho William, que estava com a mãe em Battle Creek: “Fiquei muito contente em saber que você está em companhia de sua mãe. Exerça com sua querida mãe o mais terno cuidado. Se ela quiser participar das reuniões campais do Leste, tenha a bondade de ir junto com ela. Procure uma tenda que seja apropriada para vocês; pegue tudo do bom e do melhor sob a forma de mochilas, cobertores, cadeira portátil para mamãe, mas não consinta com as idéias econômicas dela, pois levarão vocês a privações.”5 Ellen White ensinou na Europa pelo próprio exemplo. Depois de desembarcar em Calais, França, ela e suas companheiras de viagem souberam que uma cabine-leito no trem para Basiléia custava 11 dólares por pessoa. Sempre econômicas, elas resolveram contentar-se com os assentos. Ellen comentou: “Fizeram-me uma cama entre os assentos em cima de mochilas e caixas. Descansei um pouco, mas não dormi o suficiente. ... Não lamentamos que a noite houvesse passado.”6 De Dansville, Nova Iorque, em 1865, a Sra. White escreveu aos filhos a respeito de roupas para Edson: “Se um alfaiate fizer esses casacos, sua confecção vai custar muito caro. Caso encontrem uma costureira confiável, contratem-na para fazer ambos os casacos, se ela não cobrar muito.”7 Na Austrália, em 1894, Ellen White estava agora com 66 anos de idade. A Austrália passava por problemas econômicos, com tempos piores por vir. E a Sra. White se sentia cansada por muitas razões. Enquanto estava em Melbourne escreveu: “Estou cansada, cansada o tempo todo, e devo o quanto antes conseguir um lugar tranqüilo no campo. ... Este ano

quero escrever e exercitar-me com prudência fora de casa, ao ar livre.” Mais tarde, ela escreveu: “Estou ficando muito cansada de mudanças. Aborrece-me ter que arrumar e desarrumar coisas, recolher manuscritos e espalhá-los, e recolhê-los novamente.” Pouco depois ela se mudou para um subúrbio de Sydney. “Descobrimos que há muitas maneiras de gastar dinheiro e muitas maneiras de economizá-lo. Temos uma armação de guarda-roupa com duas colunas perpendiculares e peças transversais afixadas a estas com uma prateleira em cima. Um laço muito simples de cambraia barata azul ou vermelha foi preso no alto e por trás da prateleira. A parte posterior está presa às laterais da cabeceira da cama.” A maior parte do restante da mobília foi comprada em leilões.8 Em uma viagem de Melbourne a Geelong, mais de 64 quilômetros rumo ao sul, o grupo apanhou o barco lento que cobrava dezoito centavos por pessoa pela viagem de ida e volta, em vez de o trem que cobrava oito xelins por pessoa (40 centavos). Escrevendo depois, a Sra. White declara: “Um centavo poupado equivale a um centavo ganho.”9 Generosidade Ellen White era econômica porque desejava contribuir tanto quanto possível com as pessoas muito carentes de dinheiro e as crescentes necessidades da recentemente formada Igreja Adventista do Sétimo Dia.10 “Compartilhar” parece ter sido seu segundo nome. Compartilhar seu lar com colaboradores e pastores que estavam viajando, sem saber muitas vezes quantos apareceriam na hora das refeições, revela um espírito predominantemente generoso. Depois de inspirar e desafiar outros a construir igrejas, casas editoras, instalações de saúde e escolas, ela mesma saía à frente contribuindo com vultosas doações, muitas vezes emprestadas de outros e que ela pagava com juro. Em 1888, em um encontro realizado em Oakland, Califórnia, talvez ela tenha erguido as sobrancelhas, surpresa ao perceber que ela e o marido, em resultado de suas pequenas economias e sábios investimentos, haviam contribuído com “30.000 dólares” para com a causa de Deus.11 Em um sermão proferido na assembléia da Associação Geral de 1891, dez anos depois

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da morte de Tiago, ela escreveu: “Durante anos não recebemos pagamento algum, a não ser o que mal dava para prover-nos do mais simples em alimentação e vestuário. Alegrávamo-nos de usar roupas de segunda mão, e às vezes quase não tínhamos comida para nos sustentar as forças. Tudo o mais era aplicado na obra.”12 O altruísmo que ela demonstrava em relação a seu tempo e escassos recursos tornou-se um modelo para todos. John O. Corliss (1845-1923), que viveu na casa dos White por diversos anos antes de seu batismo em 1868,13 escreveu a respeito do íntimo convívio que tivera com a Sra. White através dos anos: “Ela era muito escrupulosa em cumprir na própria conduta aquilo que ensinava aos outros. Por exemplo, ela freqüentemente insistia em suas palestras públicas sobre o dever de cuidar das viúvas e dos órfãos, dirigindo a atenção de seus ouvintes para Isaías 58:7-10, e exemplificava essas exortações levando para casa os necessitados a fim de acolhê-los, alimentá-los e vesti-los. Lembro-me muito bem de ela ter, em certa ocasião, como membro de sua família um menino, uma menina e uma viúva com as duas filhas. Sei, além disso, que ela distribuía para os pobres roupas no valor de centenas de dólares, que comprava para esse propósito.”14 Não é possível recapitular a história da Igreja Adventista na Austrália sem mencionar que Ellen White era uma pessoa bastante generosa. Em 1892, a Austrália estava mergulhada numa depressão econômica. Eram menos de 1.000 os crentes adventistas. Contudo, o constante lema da Sra. White era “avante!”, o que a princípio significava uma escola nas proximidades de Melbourne. Não existiam fundos, mas ela resolveu usar 1.000 dólares provenientes dos direitos autorais de seus livros publicados no exterior e vendidos na América do Norte, fundos que já estavam comprometidos em outro lugar.15 Enquanto se levantavam fundos em Parramatta para o primeiro prédio de igreja de propriedade dos adventistas do sétimo dia na Austrália continental, enviaram para Ellen White, da Califórnia, uma doação de 45 dólares. Seus amigos desejavam que ela possuísse uma cadeira confortável para sentar-se du-

rante seus períodos de dolorosa enfermidade. Mas ela imediatamente colocou a quantia no fundo de construção de Parramatta, explicando a seus atenciosos amigos que desejava sentir que eles também haviam investido alguma coisa na Austrália.16 Ellen White permaneceu no centro do mundo adventista na Austrália, não apenas por causa de seu estímulo, mas também por causa dos levantamentos de fundos. Uma carta de 1896, endereçada ao Dr. J. H. Kellogg, fornece um vislumbre do andamento, ano após ano, da luta na Austrália: “Tenho agido como um banco que patrocina, empresta e adianta dinheiro. Eu tenho me empenhado e me esforçado de todas as maneiras para fazer a obra. Outros farão algo quando virem que eu tenho fé para tomar a iniciativa e fazer doações. Aqui estão todos os nossos obreiros que devem ser pagos. Estou muito endividada neste país para com pessoas de outros países. Devo mil e oitocentos dólares a uma pessoa; esse dinheiro já se esgotou. Quinhentos dólares a outra pessoa na África, que é um empréstimo e tem sido aplicado de diversas maneiras que exigem meios para promover a obra. Eu ajo por fé.”17 Em 1899, G. A. Irwin, presidente da Associação Geral, convidou a Sra. White para voltar para a América do Norte e participar da próxima assembléia da Associação Geral em South Lancaster, Massachusetts. Ela respondeu: “Completei 71 anos de idade no dia 26 de novembro. Este, porém, não é o motivo por que peço que me desculpe por não comparecer à assembléia. ... Temos avançado lentamente, erguendo o estandarte da verdade em todo lugar possível. Mas a escassez de recursos tem sido um grave obstáculo. ... Não me atrevo a mostrar nenhuma partícula de incredulidade. Avançamos somente até o ponto em que podemos ver, e depois um pouco além da vista, agindo pela fé. ... “Esvaziamo-nos de tudo que nos foi possível poupar no que se refere a dinheiro, pois muitas são as oportunidades, mas grandes as necessidades. Temos aplicado dinheiro até o ponto de ser compelida a dizer: Não posso doar mais. Minhas obreiras são as melhores, mais fiéis e dedicadas jovens que eu pude encontrar. A fim de promover a obra, tenho

doado os salários que deviam ter sido pagos a elas. Quando foi feita a última convocação, pela primeira vez meu nome não apareceu na lista. ... Não há nada que eu possa fazer a não ser permanecer aqui até que a obra seja consolidada.”18 Ao término da última década do século dezenove, a denominação achava-se em pesados débitos, em grande parte por ignorarem o conselho de Ellen White. Embora tivesse deixado muito claro aos líderes da igreja seu ponto de vista quanto às razões de evitar-se dívidas gigantescas, ela não se queixou nem fez críticas. Ao invés disso, apresentou um plano. Dispôs-se a dar os direitos autorais do livro Parábolas de Jesus (prestes a ser publicado em 1900) para ajudar a saldar as dívidas das escolas denominacionais. Com a cooperação dos membros da igreja por toda a América do Norte, aquela doação rendeu mais de 300.000 dólares. Quando os fundos da igreja diminuíram em 1906, ela doou os direitos autorais do seu livro A Ciência do Bom Viver (vendido no Leste dos Estados Unidos) para a construção do Washington Sanitarium (atualmente Hospital Adventista de Washington) em Takoma Park, Maryland.19 Todos os direitos autorais do livro A Ciência do Bom Viver foram utilizados para diminuir o endividamento das instituições médicas da igreja. De 1914 a 1918, L. H. Christian foi o presidente da Associação de Lake Union, que englobava Wisconsin, Illinois, Indiana e Michigan. Muitos adventistas antigos desses Estados, os quais haviam conservado na memória as lembranças de Tiago e Ellen White, o impressionaram. Eles contaram como os White foram amáveis e prestativos para com os pobres num tempo em que os primeiros colonizadores necessitam muitas vezes de alimento e abrigo. Os homens gostavam de recordar a convincente liderança de Tiago e da maneira como ele dizia para a esposa: “Ellen, falar é fácil. O que conta é o que você e eu podemos doar. É bom ter compaixão dessa gente, mas o resultado de nossa compaixão é determinado pela profundidade com que abrimos nossas carteiras.” Em seu livro The Fruitage of Spiritual Gifts, Christian relatou: “O que ela escreve em li-

vros como A Ciência do Bom Viver e muitos dos Testemunhos sobre nosso dever para com os necessitados e doentes foi exemplificado muito belamente em sua própria vida. Este capítulo ficaria longo demais se eu fosse contar novamente todas as coisas que esses velhos conhecidos dizem da irmã White. Jamais ouvi, de maneira alguma, um deles criticá-la.”20 Compromisso com o Dever Muitas foram as nobres virtudes que caraterizaram a vida extraordinária de Ellen White, mas o compromisso com o dever parece salientar-se sobre as demais. Para onde quer que olhemos em sua longa vida, o compromisso para com a missão que Deus lhe confiara recebe a mais elevada prioridade. Quando contava apenas 22 anos de idade, com um bebê no colo, ela escreveu esta carta em 10 de fevereiro de 1850: “Devíamos ter escrito para você antes, mas não tínhamos lugar definido para morar. Viajávamos de um lugar para outro, sob chuva, neve e vendaval, com a criança. Eu não conseguia encontrar tempo para responder nenhuma carta, e Tiago passava todo o seu tempo escrevendo para a revista e preparando o hinário. Não dispúnhamos de muitos momentos de folga.”21 Em Battle Creek, em 1865, Ellen White sentiu a frieza mesmo de amigos. Ser uma fiel mensageira de Deus é sempre uma coisa difícil, mas viver próximo daqueles que recebem os testemunhos pessoais torna a vida bem mais difícil. Deus lhe dera a visão especial da videira murcha que recebia suporte especial. Isto representava a força que ela devia esperar receber de Deus à medida que continuasse cumprindo seu dever: “Desde esse tempo fui confirmada quanto a meu dever e nunca mais me esquivei de apresentar meu testemunho ao povo.”22 Como compreendia ela seu dever? Em 1873, Tiago White estava sofrendo as conseqüências de diversos derrames, quando a obra em Battle Creek precisou de sua sólida visão administrativa. A esposa Ellen, sabendo que era preciso tomar decisões imediatas, convocou os líderes da obra para orarem. No apontamento do dia 5 de julho do seu diário, ela

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escreveu: “Meu marido passou mal. Tivemos um período de oração em nosso quarto. Reunimos os irmãos e tivemos um período de oração em busca de mais clara compreensão do dever. Senti que era meu dever ir para a reunião campal de Iowa. Tivemos duas sessões de oração. Resolvemos finalmente prosseguir no trem da manhã.” No local do acampamento em Iowa, que ficava próximo da casa de refúgio do casal em Washington, Iowa, Tiago falou quatro vezes e Ellen, cinco. Ambos ficaram reanimados, embora cansados. As quatro reuniões campais da distante região ocidental dos EUA estavam à espera deles. Que fazer agora? Eles saíram para o pomar e oraram. Ao relatar esta experiência, a Sra. White continuou: “Sentimo-nos muito ansiosos por conhecer nosso dever. Não queremos tomar nenhuma atitude errada. Precisamos de discernimento santificado e sabedoria celestial para agir segundo o conselho de Deus. Clamamos a Deus por luz e graça. Precisamos do auxílio de Deus, do contrário pereceremos. Nossa mais fervente súplica é pela orientação do Santo Espírito de Deus. Não nos atrevemos a caminhar em qualquer direção sem clara luz.”23 Em South Lancaster, Massachusetts, em 1889, assuntos de imensa importância precisavam ser tratados, especialmente no que dizia respeito à compreensão da maneira como homens e mulheres se tornam justos e permanecem justos diante de Deus. Em um relato para a Review and Herald, ela escreveu: “É privilégio de toda pessoa dizer: ‘Executarei as ordens do meu Comandante ao pé da letra, com vontade ou sem vontade. Não esperarei por uma sensação feliz, por um misterioso impulso.’ Direi: ‘Quais são as minhas ordens? Qual é meu ramo de dever? Que diz o Mestre para mim? Encontra-se aberta a linha de comunicação entre Deus e minha alma? Qual é a minha posição diante de Deus?’ Tão logo entremos na correta relação com Deus, entenderemos nosso dever e o cumpriremos. Não pensaremos nas boas coisas que faremos para termos direito à salvação.”24 Na maioria das situações, os profetas descobrem seu dever como todos os outros filhos de Deus. Até mesmo Jesus descobriu Seu de-

ver, “tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem O podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da Sua piedade”. Heb. 5:7. As decisões tomadas no desempenho do dever são muitas vezes confirmadas de formas convincentes. No úmido calor de julho do ano de 1881, em Battle Creek, Ellen White sentiu a necessidade de passar mais tempo no Colorado, onde conseguiria escrever em melhores condições. Mas as necessidades de Battle Creek, particularmente da juventude, a impressionaram e ela resolveu permanecer ali. Uriah Smith escreveu sobre esse incidente: “Ao tomar esta decisão, ela sentiu imediatamente lhe voltarem o vigor físico e mental, dando-lhe evidência de que esta resolução estava em harmonia com o seu dever.”25 Algumas de suas últimas palavras a uma assembléia da Associação Geral (1913) resumem sua própria vida de compromisso com o dever: “Quando o Senhor põe a mão para preparar o caminho diante de Seus ministros, é dever deles seguir aonde Ele os dirija. Ele nunca abandona ou deixa em incerteza os que Lhe seguem a guia com inteiro propósito de coração.”26 Extenuante Agenda de Atividades Sua sobrecarregada agenda de atividades era árdua mesmo para homens vigorosos. Já mencionamos seus exaustivos preparativos de viagem sob terríveis condições meteorológicas. Naqueles primeiros dias, Ellen e Tiago White ficavam acordados até depois da meia-noite, lendo provas e dobrando revistas para depois enfrentar os deveres intermináveis de cada novo dia.27 Como um exemplo dos deveres da igreja que se amontoavam sobre Ellen White como telhas de madeira em um telhado, podemos citar o dia 23 de junho de 1854. Na época com sete meses de gravidez, ela e o marido voltaram para seu lar em Rochester depois de uma atarefada turnê de sete semanas através de Ohio, Michigan e Wisconsin. A viagem incluiu muitos compromissos de pregação, aconselhamento com evangelistas a respeito de melhores métodos, viagens noturnas de trem e um acidente ferroviário que envolveu

a premonição para mudar de vagão (o primeiro vagão ficou “bastante destruído”). Mas eles voltaram a tempo para uma conferência de quatro dias em seu lar, com representantes vindos do oeste de Nova Iorque, Pensilvânia e Canadá. Ellen White suspirava: “Voltamos... muito cansados, desejando repouso. ... Mas sem descanso fomos obrigados a tomar parte na reunião.”28 Apesar de sua grande agenda de constantes palestras, viagens e trabalhos literários, Ellen White também supervisionava uma sobrecarregada agenda doméstica. Conforme mencionamos anteriormente (pág. 75), ela geralmente contava com mais hóspedes do que membros da família. Um apontamento de diário do dia 28 de janeiro de 1868, escrito em sua casa em Greenville, Michigan, é típico: “O irmão [J. O.] Corliss [um jovem convertido] ajudou-me a preparar o desjejum. Tudo quanto tocamos estava congelado. Tudo em nosso porão estava congelado. Preparamos nabos e batatas congeladas. Depois de orarmos, o irmão Corliss embrenhou-se no bosque perto da casa de Thomas Wilson para apanhar lenha. Tiago, acompanhado pelo irmão [J. N.] Andrews, foi para Orleans, esperando voltar para o almoço. “Assei oito formas de biscoitos, varri os quartos, lavei os pratos e ajudei Willie [13 anos de idade] a colocar neve na caldeira, o que requer muitos baldes. Não dispomos de água de poço nem cisterna. Arrumei minhas prateleiras [armário] de roupas. Senti-me cansada; descansei alguns minutos. Servi o almoço para Willie e para mim. Justamente na hora em que íamos comer, meu marido e o irmão Andrews chegaram. Não haviam almoçado. Comecei a cozinhar de novo. Dentro de pouco tempo lhes dei algo que comer. Passei quase todo o dia assim – nenhuma linha escrita. Sinto-me triste por isso. Estou extremamente fatigada. Minha cabeça está cansada.”29 Enquanto a nova casa deles estava sendo construída em Battle Creek no fim de 1868, os White cumpriam compromissos nos Estados do Leste. Tiago contou aos leitores da Review and Herald do alívio que sentiu depois de voltar para casa em 30 de dezembro de 1868: “Encontramos uma casa cômoda e confortável construída em Battle Creek para nós, e parcialmente mobiliada com os móveis

transportados de nossa casa de Greenville, no Condado de Montcalm. Este lugar parece um lar. Aqui encontramos repouso na verdadeira acepção da palavra. Estávamos cansados de reuniões, viagens, pregações, visitações e cuidados de negócios decorrentes da ausência do lar, vivendo, por assim dizer, quase um terço do ano com nossas malas arrumadas. Encontramos aqui tranqüilidade para o presente.” Mais adiante no artigo, ele mencionou que sessenta cartas os aguardavam, todas para serem abertas e respondidas!30 Sucessivas Reuniões Campais Para Tiago e Ellen White, as reuniões campais pareciam suceder-se uma após a outra, quase que ininterruptamente. Um exemplo disso foi a reunião campal de Kansas, realizada no fim de maio de 1876, onde Ellen devia encontrar Tiago. Ela vinha da Costa Oeste, ocupando todo o seu tempo na escrita do primeiro volume da vida de Cristo. O trem em que ela viajava, em vez de chegar na sextafeira, após seis dias de espera, estava atrasado. Ela chegou no local do acampamento na madrugada de sábado, depois de percorrer quase 34 quilômetros de estradas acidentadas numa carroça de fazenda. Tiago escreveu em Signs of the Times: “Cansada, evidentemente, sem dormir e tremendo com dor de cabeça de nervosismo, ela subiu ao púlpito às 10h30 da manhã, sendo maravilhosamente amparada em seu esforço.” Ellen falou diversas vezes nas reuniões noturnas, e na terça-feira levantou-se às quatro da madrugada para uma “preciosa reunião social de despedida”.31 Até 4 de julho, os White haviam pregado muitas vezes em seis reuniões campais! Antes de prosseguir para a reunião campal de Ohio, passaram rapidamente em casa, em Battle Creek, para tomar fôlego. Ellen escreveu a William e Mary (casados no início daquele ano) descrevendo a celebração de Quatro de Julho: “Algumas coisas são realmente interessantes e outras, ridículas, mas não consigo escrever. Fiquei tanto tempo sob tensão que só agora estou me reencontrando e não sou muito inteligente. Não podemos, nem papai, nem Mary [Clough], nem eu mesma, fazer nada agora. Estamos debilitados e exaustos como um velho relógio.”32

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Alguns dias depois, eles partiram rumo ao Leste para a próxima série de reuniões campais. Em Norwalk, Ohio, havia 2.000 pessoas; em Groveland, Massachusetts, um público estimado em 20.000 pessoas (o maior auditório a que Ellen White já se dirigiu). Escrevendo a William durante essa turnê, ela comentou maternalmente: “Seu pai e sua mãe estão esgotados. Estou parecendo velha e abatida, pelo simples fato de não termos descanso. Trabalhamos com afinco. Seu pai realiza o trabalho de três homens em todas essas reuniões. Jamais vi um homem trabalhar de maneira tão enérgica e decidida como seu pai. Deus lhe concede energia mais que humana. Se há algum lugar difícil, seu pai o assume.”33 Este programa de atividades de 1876 não era incomum. Típica também era a agenda de pregação de 1880. Tiago não estava bem; o excesso de trabalho havia lhe ocasionado diversos derrames. Sua vontade era envelhecer galhardamente, coisa mais fácil de dizer do que fazer. As circunstâncias pareciam despertar pensamentos e palavras cruéis e insensíveis. O velho guerreiro continuava a luta, desejando que outros levassem o fardo de maneira mais eficiente. Enquanto atendia compromissos de reuniões campais na Costa Oeste, Ellen White recebeu um telegrama de Tiago pedindo que ela o ajudasse a atender aos chamados “do Maine a Dakota, e de Michigan a Kentucky”. Apesar de seu extenso programa literário, ela e Lucinda Hall apanharam o “trem vagaroso” para o Leste no dia 26 de julho. O “trem vagaroso” custava menos, mas, em compensação, levou nove dias! Elas chegaram a Battle Creek ao meio-dia de quarta-feira. Às oito da noite, ela e Tiago tomaram o trem para uma viagem de duas horas até Jackson. Depois de passar a noite com os amigos, saíram no dia seguinte com destino a Alma, aonde chegaram pouco antes de escurecer, no momento preciso de ela pregar na reunião da noite. De Alma, eles passaram os dois meses seguintes viajando, semana após semana, para reuniões campais. Essas reuniões incluíam Maine, Massachusetts, Vermont, Nova Iorque, Ohio, Indiana e a reunião campal nacional em Battle Creek, Michigan, entre 2 e 9 de outubro. Na maior parte delas eles ficaram

de três a cinco dias, mas sempre aos sábados e domingos. Tudo isso, não em automóveis se deslocando sobre rodovias asfaltadas, mas naqueles primitivos trens e outros veículos cansativos – um feito que extenuaria o mais tenaz viajante de hoje, ainda que em carros e ônibus bastante confortáveis.34 Durante todos esses anos atarefados, Ellen White abastecia a Review and Herald e Signs of the Times com grande quantidade anual de artigos. A escrita do volume 4 de The Spirit of Prophecy (O Grande Conflito), embora retardada devido a seus muitos compromissos de pregação, estava sempre em sua mente. Em princípios de 1884, contudo, ela decidiu concluir este original urgentemente: “Todo dia eu escrevo. Pretendo terminar meu livro no mês que vem. Tenho me aplicado tanto nesta tarefa que mal consigo escrever uma carta.”35 Escrevendo para Harriet Smith, esposa de Uriah, ela deu este toque pessoal: “Ao escrever meu livro, sinto-me intensamente comovida. Quero vê-lo sair o mais depressa possível, pois nosso povo necessita tanto dele! Pretendo terminá-lo no mês que vem, caso o Senhor me conceda saúde como tem feito. Tem-me sido impossível dormir por noites, pensando nas importantes coisas que irão ocorrer. Três horas, por vezes cinco, é o máximo de sono que obtenho. Meu espírito está tão profundamente agitado que não posso repousar. Sinto que preciso escrever, escrever, escrever, e não demorar.” Antes que ela pudesse concluí-lo, teve de atender ainda três compromissos de reuniões campais. Durante as últimas poucas semanas, ela escreveu a William pedindo que lhe levasse “outra boa caneta-tinteiro”.36 Somente a profunda dedicação ao dever e a energia concedida por Deus, ano após ano, podem explicar setenta anos de surpreendentes realizações sob condições as mais extenuantes.37 Escrupulosa no Exemplo Pessoal Enquanto Ellen White esteve na Europa (1885), alguém lhe presenteou com um relógio de ouro. Isso, no entanto, virou tema de conversa, de sorte que, para não ser mal compreendida ou tornar-se uma pedra de tropeço, ela o vendeu.38

Coragem e Perserverança Deus pode conceder mensagens a uma pessoa, mas os profetas devem ter coragem e perseverança para cumprir sua tarefa. Pense nessa garota de 17 anos de idade, frágil e macilenta, pobre e gravemente enferma, mas que enfrentou o chamado divino para falar em nome de Deus. A idéia parecia absurda para a maioria dos adultos de sua época! Nos anos seguintes, ela cumpriu satisfatoriamente o papel de mãe e esposa, e, acima de tudo, encaminhou-se com resolução para a senda do dever, senda que muitas vezes a levaria para longe de seus amigos mais íntimos. Não admira que ela tenha escrito: “Eu desejava a morte como uma forma de fugir às responsabilidades que sobre mim se amontoavam.”39 Somente uma pessoa corajosa e perseverante poderia imergir nesse tipo de missão na vida – e ser bem-sucedida. A preocupação de Ellen White com o marido, Tiago, vítima de esgotamento nervoso durante 1866/1867, é assombrosa. Levar um marido de 45 anos de idade, cansado, para o norte de Michigan em pleno inverno parecia loucura para todos, mesmo para o médico da família e para os pais de Tiago, que agora moravam em Battle Creek. Todos acharam que ela, na época com quase 39 anos de idade, estava sacrificando a vida, e que, por amor aos filhos e à causa de Deus, devia deixar a natureza seguir seu curso. Todos acreditavam que Tiago jamais se recuperaria.40 Mas a coragem e a perseverança levaramna a responder: “Enquanto ele e eu vivermos, farei todo esforço em favor dele. Aquele cérebro, aquela mente nobre e magistral, não será deixado em ruínas. Deus cuidará dele, de mim e de meus filhos. ... Vocês ainda vão nos ver, ombro a ombro, no púlpito sagrado, pregando as palavras da verdade para a vida eterna.”41 A assombrosa estratégia e esforço de Ellen White para restaurar a saúde física e mental do marido tornou-se desde então um modelo para muitos. Coragem, perseverança e eterno amor alcançaram a vitória, e Tiago voltou para iniciar o que talvez tenham sido as suas maiores realizações em prol do crescimento da igreja. Durante todo esse período extraordinário como enfermeira, confidente, tera-

peuta natural e nutricionista do marido, a Sra. White cumpria uma agenda sobrecarregada de compromissos de pregação e trabalho literário. Sobre essa corajosa mulher no norte de Michigan repousava o futuro da Igreja Adventista do Sétimo Dia (conforme hoje a conhecemos). Ao mesmo tempo, porém, circulavam em Battle Creek acusações distorcidas e infundadas, boatos que teriam abalado profundamente qualquer outra pessoa. Os White, especialmente Ellen, enfrentaram a todos corajosamente. Agindo assim, ela e Tiago obtiveram profundo respeito e gratidão da maioria das pessoas envolvidas.42 Poucas personalidades públicas tiveram que suportar calúnias com tanta freqüência como Tiago e Ellen White. Mais de uma vez, os White foram acusados de tirar proveito indevido de suas muitas transações comerciais. Com que rapidez foi esquecida a inigualável destinação de fundos que eles haviam feito para novos projetos, que incluíam desde construções de igrejas, instituições de saúde e casas editoras até o mais recente estabelecimento de ensino! Grande parte do ministério de Ellen White não era assalariado. Durante muitos anos, os White arcaram com suas próprias despesas de viagem. Eram eles que pagavam os salários das empregadas domésticas contratadas para ajudar a cuidar dos seus muitos hóspedes e visitantes. Além disso, pagavam seus assistentes de redação com seus recursos pessoais.43 Já se fizeram freqüentes referências aos desafios físicos que Ellen White teve que enfrentar quase que constantemente por toda a sua vida. Um exemplo de sua coragem sob condições difíceis ocorreu em Basiléia, Suíça, em 15 de junho de 1886, enquanto ela se preparava para partir com destino à Suécia. Na época, ela lutava dolorosamente contra a pleurisia. Num artigo da Review and Herald, ela comentou: “Cada respiração era dolorosa. Parecia-me impossível viajar, especialmente à noite. Tomar um carro-leito, ainda que somente por uma noite, envolveria despesas extras no montante de dez a doze dólares, e isto estava fora de cogitação. Precisávamos, no entanto, partir de Basiléia naquela noite para podermos chegar em Orebro [Suécia] antes

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do sábado.” Elas acabaram embarcando num vagão de segunda classe, chegando à Suécia na manhã de sexta-feira. Esse tipo de coragem e perseverança demonstrava a verdade de suas palavras escritas vários meses antes: “Eu posso fazer praticamente tudo, quando tenho de fazê-lo.”44 Um exemplo interessante da perseverança de Ellen White ocorreu quando seu filho Willie tinha vinte meses de idade. O pequeno Willie brincava com um “barco” na cozinha, perto de um grande balde de água de esfregão. Sua babá saiu do compartimento por um instante a fim de pegar lenha para o fogo. Quando ela voltou, só viu um pezinho estirado para fora da água suja. Ela puxou o menino para fora do balde, e então gritou para a mãe que o filho se afogara. Mandaram chamar Tiago e também um médico. Mas Ellen estava ocupada fazendo William rolar sobre a grama e tentando extrair a água de seu corpo. Um vizinho insistiu com Tiago: “Retire o bebê morto das mãos daquela mulher.” “Não”, replicou ele, “é filho dela, e ninguém vai tirá-lo de seus braços.” Vinte minutos se passaram. Então Ellen viu um movimento rápido da pálpebra e uma leve contração nos lábios do menino. Logo ele estava em seu berço, agasalhado com roupas quentes. A mãe não desistira. Anos depois, ela disse a respeito de Willie que Deus lhe havia mostrado que ele nascera para ser o auxiliar dela quando o pai dele morresse. E isso aconteceu realmente.45 Coragem Quando Sozinha Em 1881, Tiago White enfraquecia rapidamente. Mais de quatro derrames o haviam deixado fisicamente e emocionalmente fraco, e o excesso de trabalho consumiu-lhe o restante das forças. A Sra. White escreveu em 6 de janeiro que não sabia mais o que fazer para ajudar o marido: “Papai apresenta um estado mental que receio perca ele a razão. Mas ele acaba de suspender as responsabilidades dos assuntos do escritório e vai escrever. Espero que ele faça isso. ... Às vezes fico tão perplexa e mentalmente aflita que desejo a aposentadoria ou a morte, mas depois eu torno a cobrar ânimo.”46 Sua verda-

deira prova de força veio, porém, de um acontecimento-surpresa. Por volta de maio, ela foi tão criticada em Battle Creek que mesmo seus amigos mais chegados a tratavam com crescente frieza. Qual a crítica? A palavra dela não podia ser confiável porque ela era manipulada pelos outros! Como podia ser isto? Logo ela soube da tensão existente entre seu marido e o Dr. Kellogg. Em seus sombrios momentos de depressão e paranóia, Tiago usava os escritos dela para questionar a liderança do presidente e do secretário da Associação Geral (G. I. Butler e S. N. Haskell, respectivamente). Do outro lado, J. H. Kellogg atacava Tiago White, e Tiago revidava. De que maneira ocorriam todas essas investidas desagradáveis? Cada um citava as palavras de Ellen White para provar suas acusações mútuas, enquanto alegava que as “citações” empregadas pelo oponente não eram palavras válidas “vindas do Senhor”! Embora cada qual estivesse tentando destruir a influência do outro, a verdadeira prejudicada nisso tudo estava sendo Ellen White. No dia 14 de julho, ela escreveu a William e a Mary, que estavam na Pacific Press, em Oakland, Califórnia: “Esta falta de harmonia está me matando. Tenho que manter meu conselho, mas não tenho confiança em ninguém [de Battle Creek].… Pois bem, William, estou lhe escrevendo de maneira espontânea e confidencial. Espero que o Senhor conserve você bem equilibrado. Espero que você não vá a extremos em nada... nem se deixe moldar por nenhuma influência, a não ser a do Espírito de Deus.”47 Durante o sábado, 16 de julho, Ellen White, com coragem e sinceridade, estava pronta para aliviar a tensão. Ela pediu ao marido e ao Dr. Kellogg que se encontrassem com ela em particular. Leu para eles “uma grande quantidade de páginas”. Na terça-feira seguinte, à noitinha, ela convocou os líderes denominacionais de Battle Creek e leu para eles as mesmas páginas lidas para Tiago e o Dr. Kellogg. Os resultados foram os mais positivos. A carta seguinte enviada a William e Mary era alegre, esclarecedora e útil a quantos tenham

passado por circunstâncias semelhantes: “Por que as pessoas sempre levam as coisas a extremo? Não conseguem parar quando já foram suficientemente longe, mas, se a conduta de um é questionada, não se satisfazem enquanto não o esmagam. ... “As próprias pessoas que o [Tiago White] condenariam por usar palavras ríspidas, ser dominador e autoritário são dez vezes piores do que ele, quando se atrevem a sê-lo. ... Durante meses me senti aflita e com o coração partido, mas lancei meu fardo sobre meu Salvador e já não sou como a cana quebrada. Na força de Jesus eu afirmo a minha liberdade. …” A carta continuava, mencionando que sua preocupação mais profunda era a de que a contenda entre os principais líderes lançasse uma sombra sobre a validade de seu ministério profético: “Estive em constante temor de que os equívocos e erros de meu marido sejam classificados junto com os testemunhos do Espírito de Deus, e minha influência seja grandemente prejudicada. Se eu apresentasse um claro testemunho contra erros existentes, eles diriam: ‘Ela se molda pelos sentimentos e pontos de vista do marido.’ Se eu reprovasse meu marido, ele acharia que fui severa e que outros me induziram a ter preconceito contra ele.” Então ela apresentou um resumo da maneira como avaliara essas duas reuniões: “Eu estava desolada [em espírito], mas não devia mais continuar assim. Eu devia agir com plena liberdade. Eles podiam pensar de mim o que quisessem. Eu lhes daria a reprovação, advertência e estímulo da forma como o Senhor me concedesse. O fardo de seus questionamentos e dúvidas não deveria mais afligirme nem fechar-me os lábios. Eu devia cumprir meu dever no temor de Deus e, se eles fossem tentados [por dúvidas sobre ‘influência’], eu não seria responsável por isto. Eu me defenderia no temor de Deus.”48 Uriah Smith, colega de trabalho de Tiago White por trinta anos, resumiu a notável ocasião com um relatório: “Oh, que todos sejam capazes de atender às boas palavras de conselho e admoestação! Então o espírito de religião reviveria no coração de todos, e a causa de Cristo floresceria em nosso meio.”49 Somente os que estão seguros da missão de

sua vida e são transparentes o bastante para todas as pessoas de seu tempo confiarem em seus motivos é que podem enfrentar dilemas de maneira tão corajosa como o fez Ellen White em Battle Creek, em julho de 1881. Tato Mary e John Loughborough foram amigos íntimos dos White, ambas as famílias inteiramente comprometidas com a missão adventista. Ambas haviam perdido um filho em princípios da década de 1860. As duas jovens mães muitas vezes trocavam pensamentos e sentimentos. Em junho de 1861, Mary (na casa dos vinte) havia escrito para Ellen (na época com 33), pedindo sua opinião sobre a última moda – usar saias-balão. Depois de apresentar seu conselho, Ellen aproveitou a oportunidade para dizer algo que não era fácil dizer: “Querida Mary, que sua influência fale em favor de Deus. Você precisa adotar uma atitude que exerça influência sobre outros no sentido de elevarlhes a espiritualidade. ... “E Mary, tolera-me um pouco sobre este assunto. Desejo, com toda bondade de irmã e de mãe, amigavelmente advertir você sobre outro assunto: Tenho notado muitas vezes a maneira como você fala com John diante de outras pessoas, de um modo um tanto dominador e em um tom de voz que soa impaciente. Mary, os outros percebem isso e têm comentado comigo. Isto prejudica sua influência. ... “Talvez eu tenha falado sobre esse assunto mais do que o necessário. Por favor tome cuidado nesse ponto. Não estou reprovando você, lembre-se disso, mas apenas aconselhando cautela. Jamais fale com John como se ele fosse um menino. Respeite-o, e os outros assumirão uma atitude mental mais elevada, Mary, e você elevará a outros. “Procure ser mais espiritual. Estamos fazendo uma obra para a eternidade. Mary, procure ser um exemplo. Nós a amamos como se você fosse um de nossos filhos, e desejo muito que você e John consigam prosperar. ... Escreva-me, por favor, Mary, tudo. Conte-me todas as suas alegrias, provas, decepções, etc. Com muito amor, Ellen G. White.”50

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Acabamos de observar um belo exemplo de como a Sra. White mostrava tato, enquanto cuidava de seu marido no norte de Michigan, em 1866/1867. Tiago estava imerso em profunda depressão acompanhada de grave esgotamento nervoso causado pelo excesso de trabalho. Ele achava que não ia durar muito. Ellen, contrariando a opinião de todos, inclusive dos médicos, cria que a confiança em Deus, o exercício e um regime alimentar apropriado dariam a seu marido as melhores oportunidades de restabelecimento. Todo dia eles faziam uma longa caminhada até que chegou a primeira nevada mais forte. Tiago aproveitou os flocos de neve como pretexto para parar de caminhar! Não por muito tempo. Ellen White foi ter com o irmão Root, na casa de quem estavam hospedados, e lhe pediu emprestado um par de botas. Depois, ela andou com dificuldade mais ou menos quatrocentos metros sobre neve profunda. Ao voltar, pediu ao marido para fazerem sua costumeira caminhada. Ele objetou que não conseguiria caminhar com aquele tempo. “Oh, sim. Você pode”, replicou Ellen. “Por certo você pode seguir minhas pegadas.” Tiago, um homem que tinha grande respeito às mulheres, viu as pegadas dela – e naquela manhã “fez sua costumeira caminhada”.51 Ellen White percebeu que seu marido também precisava exercitar o cérebro. Mas ele não queria falar com ninguém exceto os de casa. Assim, com muito tato ela arquitetou um plano. Quando chegava um visitante com perguntas inquietantes, ela rapidamente o convidava a entrar antes que Tiago pudesse desculpar-se. Então ela dizia: “Marido, está aqui um irmão que veio para fazer uma pergunta, e como você sabe responder melhor do que eu, eu o trouxe aqui.” Tiago permanecia na sala tempo suficiente para responder a pergunta. Essa tática fazia com que ele exercitasse a mente, e lentamente ele melhorava. Quando se precisou de liderança espiritual em Wright, Michigan, a igreja local dos White, Ellen forneceu muito conselho, mas “tomava o cuidado de deixar que o marido tomasse a dianteira”.52 Tempos depois, em 1867, a família White mudou-se para sua fazenda em Greenville, Michigan, novamente com o propósito de

ajudar Tiago a recuperar a saúde. Ao preparar a horta da casa, a Sra. White pediu ao filho William que comprasse três enxadas e três ancinhos. Tiago não quis tomar sua enxada e seu ancinho, mas ela tomou os seus instrumentos e começou a trabalhar, fazendo bolhas nas mãos. Relutantemente, Tiago foi atrás, movendo-se. Logo ele estava arreando os cavalos e comprando materiais domésticos. Ela relatou que ele dormia bem à noite e acordava refeito toda manhã. O planejamento, a perseverança e o tato da fiel esposa funcionavam, ainda que lentamente. Quando chegou o mês de julho, o feno estava pronto para ser cortado. Tiago combinou com os vizinhos para estes cortarem o feno, e esperava que eles voltassem para ajuntá-lo em montões para o inverno. Sua esposa, porém, tinha um plano melhor. Ela foi ter com alguns desses vizinhos e lhes pediu para declinarem do compromisso, o que eles resistiram a princípio. Quando Tiago pediu que o ajudassem, todos os vizinhos se desculparam como se estivessem muito atarefados. Tiago ficou muito decepcionado, mas Ellen, com sua típica animação, sugeriu que ela e Willie ajuntariam o feno e o carregariam com o forcado até junto da carroça se Tiago pusesse a carga sobre a carroça e guiasse os cavalos. Mas como se fariam os fardos? Os vizinhos ficaram surpresos ao verem aquela pequena mulher de 1,57m pisando e fazendo os fardos enquanto seu marido descarregava a carroça. Que aconteceu a Tiago? Ele relatou aos leitores da Review: “Tenho trabalhado de seis a doze horas por dia, e tenho desfrutado de um abençoado sono de seis a nove horas toda noite. ... Meu trabalho tem sido preparar o feno, cultivar a terra, aplainar o terreno em volta de casa, capinar e colocar os tapetes.”53 O tato, a coragem e o espírito resoluto de Ellen estimularam Tiago a recuperar a saúde. Bondade Muitas foram as ocasiões em que Ellen White mostrou profundo interesse pelos jovens. Ela encontrou, por exemplo, uma nova família adventista na reunião campal de Oregon no fim de junho de 1878. A filha adolescente, Edith Donaldson, estava ansiosa por ob-

ter instrução cristã em Battle Creek College. A Sra. White imediatamente sugeriu que Edith voltasse com ela para a Califórnia e depois continuassem para Michigan. Em uma carta endereçada ao marido Tiago, ela deu mostras de seu bondoso coração. Descrevendo Edith como “uma garota muito promissora”, ela escreveu: “Eu a quero como nossa hóspede e que ela receba todas as atenções de que precisa.”54 Ellen White recebeu muitas cartas daqueles que padeciam de doenças ou estavam chorando a perda de entes queridos. Quando a Associação Geral enviou J. N. Andrews à Europa como o primeiro missionário oficial da denominação, enviou um homem que já havia perdido a esposa e dois filhos bebês por doença. Ele partiu dos Estados Unidos com Mary, sua filha de doze anos de idade, e Charles, de 16 anos. Quatro anos depois, em 1878, Mary morreu de tuberculose. Junto com a morte prematura da esposa e agora a de Mary, Andrews sentiu que estava agarrado a Deus “com mão insensível”.55 Uma de Suas Cartas Mais Afáveis Ellen White escreveu a seu amigo de longa data uma de suas cartas mais afáveis, a qual incluía as seguintes palavras: “Temos bebido do mesmo cálice de aflição, mas foi misturado com alegria, descanso e paz em Jesus. [Ellen White perdeu dois filhos por doença.] ... A nuvem da misericórdia paira sobre a sua cabeça, mesmo na hora mais escura. Os benefícios de Deus a nós são numerosos como as gotas de chuva que caem das nuvens sobre a terra ressequida. ... A misericórdia divina repousa sobre você. “Mary, querida e preciosa criança, repousa. Ela foi a companheira de suas tristezas e esperanças frustradas. Não mais terá tristeza, nem necessidade nem preocupações. Pelos olhos da fé, você pode antecipar em meio às mágoas, tristezas e perplexidades sua Mary junto com a mãe e os outros membros de sua família atendendo ao chamado do Doador da vida e saindo de sua prisão, triunfantes sobre a morte e a sepultura. ... Se você for fiel, dentro em pouco estará caminhando com eles pelas ruas da Nova Jerusalém. ... Se seus olhos pudessem ser abertos, veria seu Pai ce-

lestial inclinando-Se sobre você com amor; e se pudesse ouvir-Lhe a voz, ela seria em tons de compaixão por você que está abatido pelo sofrimento e aflição. Fique firme em Sua força; há descanso para você.”56 O Dr. John Harvey Kellogg era como um filho para Ellen White. Os White ajudaramno a pagar seu curso de medicina e lhe prestaram grande ajuda no desenvolvimento da obra de saúde em Battle Creek.57 Mas em 1904 ele adotou uma conduta que podia potencialmente ter dividido a igreja. Em uma mensagem que devia ser apresentada durante a reunião da comissão de nomeações da Lake Union no fim de maio daquele ano, 1904, Ellen White falou de sua simpatia por seu velho amigo, mas “a menos que ele mude de atitude, e tome um rumo totalmente diferente estará perdido para a causa de Deus. ... Tenho ficado acordada noite após noite, procurando um jeito de ajudar o Dr. Kellogg. ... Tenho passado quase noites inteiras orando por ele.” Ela fazia o possível para promover união entre o Dr. Kellogg e os líderes da igreja. Ela escreveu aos Pastores A. G. Daniells e W. W. Prescott, informando-os de que fora notificada por meio de uma visão que “agora é o tempo de salvar o Dr. Kellogg”. Ela insistiu em seu propósito, nascido de um coração bondoso: “Nenhum de nós está acima da tentação. Existe uma obra para a qual o Dr. Kellogg está preparado a realizar como nenhuma outra pessoa em nossas fileiras o pode fazer. ... Devemos empregar todas as nossas forças, não fazendo acusações nem prescrevendo o que ele deve fazer, mas deixando que ele reconheça que não queremos que ninguém pereça.” Então ela perguntou: “Isto não vale a pena?”58 As coisas não saíram como Ellen White esperara. As expectativas de unidade eram desalentadoras. Apesar disso, ela escreveu para o Pastor Daniells: “Se pudermos de algum modo fazer-lhe [a Kellogg] bem, vamos mostrar que não queremos prejudicá-lo, mas ajudá-lo. Evitemos tudo quanto provocaria retaliação. Não demos margem para contenda.”59 Anteriormente, durante os tenebrosos dias da Guerra Civil, os adventistas andavam às

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apalpadelas quanto à questão da não-combatência. Embora os diversos governos estaduais bem como o federal tivessem reconhecido os adventistas do sétimo dia como nãocombatentes, a questão ainda estava longe de ficar esclarecida entre os comandantes dos campos de batalha e muitos jovens adventistas. Enoch Hayes, que havia ingressado no exército, foi excluído da “comunhão da igreReferências
1. No verão de 1848, Tiago ganhou 40 dólares cortando feno e gastou parte do dinheiro em roupa e o restante em viagem para atender compromissos de pregação. – Biography, vol. 1, pág. 140. 2. Ibidem, pág. 205. 3. Virgil Robinson, James White (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1976), págs. 81-87; W. C. White, “Sketches and Memories of James and Ellen G. White, XXIV – Settling in Battle Creek”, Review and Herald, 22 de agosto de 1935. 4. Biography, vol. 1, pág. 230. 5. Ibidem, vol. 2, págs. 439 e 440. 6. Ibidem, vol. 3, pág. 293. Na Assembléia de Mineápolis, em 1888, os oficiais haviam alugado dois quartos elegantes e suntuosamente mobiliados. Ellen White objetou e encontrou na pensão outro quarto modestamente mobiliado. – Ibidem, pág. 390. 7. Manuscript Releases, vol. 10, pág. 27 (daqui por diante, MR). 8. Biography, vol. 4, págs. 138-140. 9. Ibidem, pág. 343. 10. Emmett K. VandeVere, “Years of Expansion, 1865-1885”, em Land, Adventism in America, pág. 67. 11. Manuscrito 3, 1888, citado em Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igreja Remanescente, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), pág. 371. 12. General Conference Bulletin, 20 de março de 1891, pág. 184 (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 189). 13. SDAE, vol. 10, 1996, pág. 410. 14. Review and Herald, 30 de agosto de 1923. Ver também 26 de julho de 1906, para o relato de Ellen White sobre o ministério que ela desenvolvia em seu lar para com os órfãos e outros. 15. Biography, vol. 4, pág. 44. 16. Ibidem, pág. 69. 17. Ibidem, pág. 266. 18. Ibidem, pág. 371. 19. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, pág. 311. 20. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 49. 21. Carta 4, 1850, MR, vol. 1, pág. 31. 22. Para o histórico desta experiência e a maneira como Ellen White se referiu a seu dever específico de comunicar as mensagens divinas, ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 583-585.

ja de Battle Creek, pelo voto unânime da igreja em 4 de março de 1865”. Quando Ellen White soube desse voto, reagiu com aquela atitude bondosa que caracterizava seu ministério. Ela expressou sua convicção de que o jovem não deveria ter sido excluído por seguir sua consciência e atender o chamado de seu país. Resultado: a exclusão foi anulada e o jovem permaneceu como membro “regular e idôneo”. A bondade prevaleceu.60

Perguntas Para Estudo

1. A que você atribui a notável confiança que homens obstinados depositaram tão cedo no ministério de Ellen White? 2. Como você reagiria à sugestão de que Ellen White não vivia o que pregava? 3. Analise os acontecimentos que estimularam a notável generosidade e simplicidade de Ellen White. 4. Que exemplos você daria para ilustrar a coragem e perseverança de Ellen White?

23. Biography, vol. 2, págs. 383 e 384. 24. Ibidem, vol. 3, págs. 425 e 426. 25. Ibidem, pág. 164. 26. Ibidem, vol. 6, pág. 389 (Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 401). 27. Ibidem, vol. 1, págs. 205. 28. Ibidem, págs. 205 e 301. 29. Ibidem, vol. 2, págs. 225 e 226. 30. Ibidem, pág. 252. 31. Ibidem, vol. 3, págs. 36 e 37. 32. Ibidem, pág. 42. 33. Ibidem, pág. 44. 34. Ibidem, págs. 142 e 143. Ver também pág. 104. 35. Ibidem, pág. 241. 36. Ibidem, pág. 242 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 109). 37. Os dois anos que Ellen White passou na Europa foram de tão prodigiosa atividade em escritos, pregações e viagens, muitas vezes sob as condições mais difíceis, que parecem superar mesmo seu programa de atividades na América do Norte. Ver Delafield, Ellen G. White in Europe. 38. Historical Sketches, pág. 123. 39. Life Sketches, pág. 70. 40. Ver págs. 89 e 90. 41. Biography, vol. 2, págs. 157 e 159. 42. Ibidem, págs. 160-170. 43. Ver Biography, págs. 277-284, para a maneira como essas acusações foram tratadas em Battle Creek em 1870. 44. Ibidem, vol. 3, págs. 344 e 345. 45. Ibidem, vol. 1, pág. 337. 46. Carta 1a, 1881. 47. Carta 5a, 1881. 48. Carta 8a, 1881. 49. Review and Herald, 19 de julho de 1881. 50. Biography, vol. 1, págs. 468 e 469. 51. Ibidem, vol. 2, pág. 161 (Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 307). 52. Ibidem, págs. 162 e 165. 53. Ibidem, págs. 188 e 189. 54. Biography, vol. 3, págs. 88 e 89. 55. Maxwell, Tell It to the World, págs. 171-173. 56. Nos Lugares Celestiais, pág. 272. 57. Richard W. Schwarz, John Harvey Kellogg, M.D. (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1970), pág. 30. 58. Biography, vol. 5, págs. 331-333. 59. Ibidem, pág. 339. 60. George R. Knight, “1862-1865: Adventists at War”, Advent Review, 4 de abril de 1991.

5. Como Ellen White empregou coragem e bom senso na reabilitação do marido Tiago, no inverno de 1866-1867?

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Bom Humor, Bom Senso e Conselheira Prática
“Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.” Rom. 14:19.

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llen White tem sido estereotipada por pessoas desinformadas como uma amarga e implacável desmancha-prazeres. Nada mais longe da verdade! L. H. Christian relatou as memórias da mãe de sua esposa que viveu no lar dos White enquanto era secretária de Ellen White. Ela lembra em especial “o espírito ensolarado daquela casa” e do “bondoso humor e bom senso” de Ellen White.1

Bom Humor Os escritos de Ellen White revelam muitas vezes um toque de humor. Em 1882, ela havia acabado de fazer sua mudança de Oakland para Healdsburg. Aos 55 anos de idade, ela se divertiu comprando cereais e feno, uma vaca com seu bezerro e cavalos para o transporte e trabalho da fazenda. Um de seus cavalos se chamava Dolly, uma égua que parecia alérgica a trabalho. Ellen White escreveu: “Ela fica olhando as montanhas e as colinas como se fosse um turista contemplando a paisagem.”2 Em 1855, ela estava por viajar para a Europa a bordo do S. S. Cephalonia que devia zarpar no sábado. Seu grupo fez os preparativos para embarcar na sexta-feira à tarde a fim de no sábado já estarem acomodados. Ela anotou em seu diário: “Quase conseguimos.”3 Enquanto esteve na Itália, ela escreveu sobre a equipe ministerial de Torre Pellice. O pastor encarregado era ótimo em termos de planejamento, mas realizava pouco. Ellen White descreveu os esforços

dele como “uma grande coleção de armas de brinquedo”. 4 Alguns meses depois, ainda na Itália, ela desfrutou de alguns dias ensolarados após um período chuvoso e escreveu em seu diário: “Nós viajamos bem devagar, pois o cavalo, embora forte, não desejava prejudicar sua constituição.”5 Depois de um viagem de barco, ela escreveu: “Quando desci do barco e caminhei rua acima, parecia como se eu ainda estivesse no barco e dava passos tão alterados que as pessoas devem ter pensado que eu estava bêbada.”6 O irmão mais velho de Ellen White, John, ao que parece, não gostava muito de responder cartas. Em 21 de janeiro de 1873, numa carta endereçada a ele, Ellen, de maneira gentil e bem-humorada, o censurou: “Querido John: Escrevi-lhe diversas cartas, mas não recebi sequer uma palavra sua. Concluímos que você devia estar morto, mas depois pensamos que, se isso fosse verdade, seus filhos nos teriam escrito.”7 Ela demonstrou seu humor e propensão prática quando escreveu sobre a maneira desmazelada de vestir de certas mulheres: “Suas roupas sempre parecem que vieram voando e pousaram sobre seu corpo.”8 Ou: “As irmãs não devem, quando no trabalho, usar vestidos que as façam parecer espantalhos para afugentar os pássaros-pretos do milharal.”9 No tempo em que Ellen White estava enviando advertências para que a propriedade

do Tabernáculo de Battle Creek fosse preservada,10 ela recebeu uma carta de A. T. Jones pedindo que ela lhe fornecesse os nomes dos envolvidos na tentativa de assumir o controle da propriedade. Compreendendo a verdadeira intenção do pedido, Ellen White replicou a sua secretária, Dores Robinson, que “se ela tivesse mesmo que escrever para o irmão Jones, dissesse para ele que tudo está escrito nos livros do Céu, mas que esses livros não estavam à disposição dela para serem enviados a ele”.11 A Sra. White sabia como lidar com situação pública potencialmente embaraçosa. Seu filho William muitas vezes acompanhava a mãe em seus trajetos de pregação. Durante um sermão de sábado em Santa Helena, Califórnia, William sentou na plataforma enquanto a mãe falava. Percebendo uma onda de riso reprimido na congregação, a Sra. White virou-se e encontrou o filho cochilando. Ela pediu desculpas com um toque de humor: “Quando William era um bebê, eu costumava trazê-lo para a plataforma e deixá-lo dormindo numa cesta embaixo do púlpito, e ele nunca perdeu o hábito.”12 Em seus últimos anos em Elmshaven, Ellen White recebia tratamentos de fricção com luvas frias. Isso significava ficar dentro de uma banheira enquanto alguém lhe aplicava água fria e depois a friccionava com luvas para aumentar a circulação. Duas vezes por semana ela recebia uma fricção com sal (“fomentação salina”). Certo dia, sentindo diferença no líquido, molhou o dedo e o levou aos lábios. A enfermeira havia usado açúcar por engano! Com bom humor, Ellen fez a seguinte observação: “Estava tentando me adoçar, hein?”13 Sensata Intérprete da Verdade Um dos princípios mais sólidos na formação de uma imagem de Ellen White (bem como do propósito de seus escritos) é estudar o tempo, o lugar e as circunstâncias que regiam aquilo que ela escrevia.14 Em outras palavras, o que Ellen White pediu encarecidamente durante todo o seu ministério foi bom senso. Em 1904, por exemplo, o grupo de membros da igreja à qual per-

tencia a escola de Santa Helena, Califórnia, tinha um problema. Alguns achavam que não deveriam ser feitas provisões para crianças abaixo de dez anos. Por quê? Porque a Sra. White alguns anos antes havia dado o conselho de que os “pais devem ser os únicos mestres dos filhos até que eles cheguem à idade de oito ou dez anos”.15 Outros achavam que para algumas crianças seria melhor ficarem na escola do que perambulando pelo povoado enquanto os pais trabalhavam no hospital ou por outras razões não podiam supervisionar os filhos. O problema não se restringia a Santa Helena. Escolas de igreja estavam sendo estabelecidas ao redor do mundo onde quer que os adventistas fundassem igrejas. A questão, portanto, era: Que faremos com o conselho da Sra. White a respeito da época apropriada para escolarizar as crianças? Ellen White se achava presente naquela reunião da junta escolar de Santa Helena (realizada em sua casa em Elmshaven) e tomou a iniciativa de resolver o impasse. Ela recapitulou o conselho que tantas vezes enfatizara sobre a responsabilidade dos pais e a firme disciplina no lar. Depois ressaltou que também havia observado negligência dos pais, com determinadas crianças que corriam soltas (especialmente na área do instituto de saúde), “de olhar penetrante, com olhos de lince, vagueando de um lugar para outro, sem ter o que fazer, fazendo travessuras” – não a melhor recomendação do decoro adventista perante os hóspedes do instituto de saúde! Sob tais circunstâncias, ela disse: “A melhor coisa que pode ser feita é ter uma escola... [para os que devem] estar sob a influência refreadora que o professor deve exercer.” Depois ela explicou sua afirmação anterior quanto a manter as crianças fora da escola até os dez anos – um ensino que alguns estavam procurando seguir fielmente. Ela falou claramente: “Eu quis dizer-lhes que não havia uma escola na qual se observasse o sábado quando me foi dada a luz de que as crianças não deviam freqüentar a escola até que tivessem idade suficiente para ser instruídas. Elas deviam ser educadas em casa para saber quais eram as maneiras apropriadas quando fossem

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BOM HUMOR, BOM SENSO CONSELHEIRA PRÁTICA

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à escola, e para não ser desencaminhadas. A iniqüidade que se espalha pelas escolas comuns é quase inconcebível. É assim que é.” Ela foi mais fundo ao expressar sua preocupação com aqueles que faziam uma aplicação irrazoável de seus escritos: “Meu espírito tem sido muito agitado quanto à idéia: ‘Ora, a irmã White disse assim e assim, ... portanto, procederemos exatamente de acordo com isso.’ Deus quer que todos nós tenhamos bom senso, e deseja que raciocinemos movidos pelo bom senso. As circunstâncias alteram as condições. As circunstâncias modificam a relação das coisas.”16 Junto com as palavras-chaves que melhor descrevem a verdadeira Ellen White, devemos incluir “bom senso”. Os princípios que ela revelou eram claros, oportunos e perenes. Mas aplicá-los exigia santificado bom senso. Ellen White compreendia muito bem a omissão da verdade.17 Ela sabia que teologia sem bom senso e um estilo de vida correspondente criaria preconceito contra o evangelho. Através de todos os seus escritos ela enfatiza que palavra e ação, doutrina e vida jamais devem ser separados.18 Exercer bom senso não é negar o conselho bíblico. O bom senso santificado aplica verdades imutáveis à situação humana, levando em conta todas as circunstâncias. O bom senso não rebaixa as instruções divinas com respeito ao pensamento e comportamento humanos; eleva as pessoas a elas, dentro das capacidades e possibilidades do tempo, do lugar e da circunstância. Os princípios são perenes, mas aplicá-los exige bom senso. Em certa ocasião, ao ser interrogada sobre determinadas práticas da Escola Sabatina, Ellen White respondeu: “Exatamente: não é esse o lugar para isso. Isso deve ser feito, mas tem seu tempo e lugar.”19 Por exemplo, ela escreveu bastante sobre princípios de saúde. Apresentou claramente algumas práticas de saúde bastante avançadas para o pensamento convencional de sua época. Mas esses princípios devem ser compreendidos e aplicados utilizando-se o bom senso. Com respeito a tomar duas refeições por dia, ela escreveu: “Alguns ingerem três refei-

ções ao dia, quando duas seria mais condizente com a saúde física e espiritual.”20 Mas ela também escreveu: “O costume de comer apenas duas vezes por dia, em geral, demonstrase benéfico à saúde; todavia, sob certas circunstâncias, talvez algumas pessoas tenham necessidade de uma terceira refeição.”21 Revelando também seu bom senso, ela escreveu em 1903: “Eu tomo apenas duas refeições ao dia. Não penso, porém, que o número de refeições deva ser um teste. Se há os que desfrutam melhor saúde tomando três refeições, é direito seu tomarem três.”22 Sempre o Melhor O princípio do que é melhor sob todas as circunstâncias, não meramente o que é bom, deve ser o ponto de referência do cristão. Demasiadas vezes, o bom é inimigo do melhor. Em outras áreas do viver saudável, o conselho de Ellen White também foi benéfico para milhões de pessoas. Por quê? Por causa do seu princípio de bom senso, por exemplo, na área da combinação dos alimentos23 ou na recomendação das mesmas práticas de saúde para todos.24 Diferentemente das pessoas de seu tempo, ela via a íntima ligação existente entre a vitalidade, o estado geral de boa saúde e o exercício físico. Não apenas exercitar-se, mas ter a atitude correta quando em exercício! Tudo era uma questão de bom senso.25 Ao dirigir a obra pública, principalmente em nossas instituições de saúde, Ellen White admoestou: “Ajam de tal maneira que os pacientes vejam que os adventistas do sétimo dia são um povo dotado de bom senso.”26 Além disso, os obreiros adventistas das áreas médica e ministerial não devem dar a impressão, como outros grupos cristãos têm feito, de que os doentes podem ser curados somente pela oração. Novamente, Ellen White apela para o bom senso.27 Ao que parece, ela dispunha de um conselho sensato para todas as áreas. Alguns pastores estavam sendo vítimas da moda de dicção predominante de pregar num tom de voz antinatural, longe do estilo coloquial que melhor reflete o raciocínio calmo. Ela pediu en-

carecidamente aos pastores que estudassem a “maneira mais sábia” de usar os órgãos vocais “pelo exercício de um pouco de bom senso”.28 Ellen White preocupava-se com a maneira como a juventude estava sendo instruída para o mundo real. Ninguém parecia mais otimista quanto às possibilidades abertas a jovens laboriosos e dedicados. Ao mesmo tempo, ela se preocupava com aqueles que “são simplesmente criaturas inúteis, que servem apenas para respirar, comer, vestir, e dizer tolices. ... Poucas jovens, porém, mostram real discernimento e bom senso. Vivem uma vida de borboletas, sem objetivo especial.”29 Muitas vezes ela escreveu que o ensino manual bem como o preparo prático para a vida devem ser parte da educação cristã. Tal ensino tornaria a pessoa que se prepara para as diversas profissões científicas e acadêmicas bem mais habilitada para o cumprimento de seus deveres: “A educação tirada principalmente dos livros conduz a um modo superficial de pensar. O trabalho prático provoca a observação minuciosa e pensamento independente. Efetuado convenientemente, tende a desenvolver aquela sabedoria prática a que chamamos de bom senso.”30 Depois de assistir a cultos religiosos em algumas igrejas, a Sra. White observou: “Às vezes é mais difícil disciplinar os cantores e mantê-los em forma ordeira do que desenvolver hábitos de oração e exortação. Muitos querem fazer as coisas à sua maneira. Não concordam com as deliberações, e são impacientes sob a liderança de alguém. No serviço de Deus se requerem planos bem amadurecidos. O bom senso é coisa excelente no culto do Senhor.”31 Esse princípio de bom senso deve ser aplicado a todas as áreas da vida cristã, como por exemplo no tipo de roupa que alguém deve usar.32 De tempos em tempos, as pessoas introduziam o assunto do vestuário em um debate na igreja. Aqui novamente Ellen White usou o bom senso e deu um conselho prático: “A questão do vestuário não deve ser nossa verdade presente.” “Sigam costumes no vestir até onde eles se conformem com os princí-

pios de saúde. Vistam-se nossas irmãs com simplicidade, como muitas fazem, tendo as vestes de material bom e durável, apropriado para esta época, e não permitam que a questão do vestuário lhes encha a mente.”33 Em Christiana (Oslo), Noruega, em 1885, Ellen White aconselhou cerca de 120 novos adventistas, alguns dos quais precisavam de orientação sobre a freqüência dos filhos às escolas públicas no sábado e sobre transações comerciais no sábado. Alguns, contudo, “faziam da questão do vestuário a coisa de suma importância, criticando peças de vestuário usadas por outros, e sempre prontos a condenar todo aquele que não satisfizesse exatamente suas idéias. Alguns condenavam as gravuras, insistindo em que são proibidas pelo segundo mandamento, e que tudo dessa espécie fosse destruído.”34 Que problema pressentia ela? Temia que os “descrentes” tivessem a impressão de que os adventistas “eram um grupo de fanáticos e extremistas, e que sua fé singular os tornava descorteses e mesmo de caráter não cristão”. Mais adiante: “Um só fanático, de espírito forte e idéias radicais, que oprima a consciência dos que querem proceder direito, fará grande dano.”35 À medida que o tempo passava, agradava-lhe saber que o bom senso prevalecia. Em seus sermões e em muitas cartas endereçadas a jovens que ela conhecia muito bem, a Sra. White enfatizava a necessidade de bom senso ao fazer-se a escolha do companheiro da vida.36 Seu conselho de longo alcance incluía orientação direta e franca aos membros casados da igreja. Ela mostrava que as tensões domésticas muitas vezes eram causadas por irresponsabilidade conjugal e falta de bom senso.37 Conselheira Prática A religião prática era, ao que parece, o tema harmonizador através de todos os escritos de Ellen White. Ela via uma relação direta entre fazer o trabalho da igreja e representar apropriadamente o caráter de Deus. Quando a nova casa editora australiana estava prestes a falir, ela indicou os problemas: os orçamentos de serviços eram muito baixos, faltava ge-

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renciamento no controle de custos e as despesas gerais com o escritório eram elevadas demais. Então ela escreveu: “Foi-me mostrado que esta não era a maneira de lidar com o negócio. Não é da vontade de nosso Pai celestial que Sua obra deva ser dirigida de modo a ser uma constante dificuldade. ... Alguns dos obreiros não estão dispostos a ajudar nem a instruir seus colegas de trabalho. ... Os obreiros da Editora Echo tinham pouquíssima compreensão dos métodos corretos de obter sucesso.” Ela concluiu seu conselho com estas palavras: “Irmãos e irmãs ligados ao trabalho da Editora Echo, estas palavras que eu escrevi foram proferidas por meu guia.”38 Durante aqueles dias difíceis, quando o futuro de um colégio na Austrália parecia incerto, Ellen White confiava que um terreno comprado “a baixo preço” atenderia efetivamente às necessidades de uma futura escola. Nenhum membro da comissão, porém, estava convencido a respeito do que lhe fora mostrado. Ela ficou angustiada com a “precaução não santificada” demonstrada por eles.39 Em uma carta a Marian Davis, sua confidente e eficiente auxiliar na confecção de livros, a Sra. White usou sua imaginação prática a respeito de Avondale e, baseada no conselho de seu Guia, escreveu: “Planejei o que pode ser cultivado em diversos lugares. Disse eu: ‘Aqui pode ser uma plantação de alfafa; ali, de morangos; acolá, de milho doce e milho comum. Este solo produzirá boas batatas, enquanto aquele produzirá boas frutas de todas as espécies.”40 Parte do problema daqueles dias iniciais na Austrália era que não se havia feito muita coisa no ramo da agricultura científica. Ellen White sabia que, se Avondale mostrasse o caminho no adequado gerenciamento do solo, o beneficiado não seria somente o colégio. Ela sabia que a pobreza daquela região da Austrália seria grandemente reduzida quando o povo reconhecesse que era capaz de produzir com êxito o próprio alimento. Em uma carta endereçada a Edson, ela enfatizou o que havia exemplificado no pomar da escola e em suas próprias

terras: “O cultivo de nossas terras requer o exercício de toda energia cerebral e tato que possuímos. As terras ao nosso redor testificam da indolência do homem. ... Esperamos ver fazendeiros inteligentes, que sejam recompensados por seu ardoroso trabalho. ... Se fizermos isto, teremos feito uma boa obra missionária.”41 A Cura de Herbert Lacey Precisava-se muitas vezes de conselho prático no tratamento dos doentes. O Prof. Herbert Lacey, que liderava em 1897 o programa escolar em Avondale, foi afligido repentinamente por uma febre tifóide. Em apenas uma semana ele perdeu nove quilos; sua vitalidade estava baixa e sua febre, alta. Convictos do sucesso do Dr. Kellogg com a hidroterapia, a equipe médica aplicou gelo para baixar a febre e restaurar a circulação de “seus intestinos”. Ao ouvir isso, Ellen White enviou rapidamente um telegrama para os médicos: “Não usem gelo, mas aplicações quentes.” Por que ela fez isso, e o fez com tanta rapidez? Ela viu muitíssimas pessoas morrendo de tifo, em grande parte devido às drogas convencionais que destruíam a capacidade de o paciente vencer o enfraquecimento causado pelas drogas. Mas ela sabia também que a hidroterapia devia ser usada sabiamente. Aplicar gelo sobre a cabeça e o corpo de Lacey, que estava com baixa vitalidade, iria enfraquecê-lo ainda mais. Tempos depois, a Sra. White escreveu a respeito desse grave acontecimento: “Eu não ia ser tão delicada com o médico a ponto de permitir que a vida de Herbert Lacey fosse jogada fora. ... Pode haver casos em que as aplicações de gelo funcionem bem. Mas os livros de prescrições que são seguidos à risca no que diz respeito às aplicações de gelo devem ter explicações adicionais, para que as pessoas com baixa vitalidade usem o quente em lugar do frio. ... Fazer apenas o que o livro do Dr. Kellogg recomenda sem refletir sobre o assunto é simplesmente loucura.”42 A respeito do espírito prático e do bom senso de Ellen White, sua neta Grace White Jacques disse certa vez: “Lembro de uma jo-

vem enfermeira que possuía apenas algumas roupas, e por isso vovó lhe deu três cortes de fazenda suficientes para fazer três vestidos: um vermelho, um azul e um cor de ouro. Ela disse para aquela jovem, assim coReferências
1. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 48. 2. Biography, vol. 3, pág. 195. 3. Ibidem, pág. 290. 4. Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 174. 5. Ibidem, pág. 177. 6. Manuscrito 4, 1878, citado em MR, vol. 5, pág. 178. 7. Glen Baker, “The Humor of Ellen White”, Adventist Review, 30 de abril de 1987. 8. Orientação da Criança, pág. 415. 9. Tetemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 464 (O Lar Adventista, págs. 252 e 253). 10. Biography, vol. 6, págs. 124-129. 11. D. E. Robinson a W. C. White, 30 de setembro de 1906. 12. Baker, “The Humor of Ellen White”. 13. Ibidem. 14. Ver pág. 395. “Quanto aos testemunhos, coisa alguma é ignorada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados. Coisa alguma deve ser feita importunamente. Alguns assuntos precisam ser retidos porque algumas pessoas fariam uso impróprio do esclarecimento dado. Todo jota e til é essencial e precisa aparecer em tempo oportuno. No passado, os testemunhos eram cuidadosamente preparados antes de serem enviados para publicação. E todo assunto é ainda cuidadosamente estudado depois de ser escrito pela primeira vez.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 57. 15. Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, pág. 137 (Fundamentos da Educação Cristã, pág. 21). 16. Biography, vol. 5, págs. 312-315 (Mensagens Escolhidas, vol. 3, págs. 216 e 217). Leia toda a seção, págs. 315-317, para comentários adicionais que mostram os claros princípios de Ellen White relativos à educação infantil, a quem e como devia ser ministrada. 17. Ver Apêndice P. 18. “Precisamos ser guiados pela genuína teologia e o bom senso. Nossa alma necessita estar rodeada pela atmosfera do Céu. Homens e mulheres devem vigiar-se a si mesmos; estar de contínuo em guarda, não permitindo palavra ou ação que venha fazer com que seja vituperado o seu bem. (Rom. 14:16.) O que professa ser seguidor de Cristo tem de vigiar-se a si mesmo, conservando-se puro e incontaminado em pensamento, palavra e ação. Sua influência sobre os outros deve ser de molde a elevar. Sua vida deve refletir os brilhantes raios do Sol da Justiça.” – Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, págs. 257 e 258. Ver págs. 305-307, 311, 326, 400402 e 436 para outros exemplos de Ellen White apelando para o bom senso. 19. Conselhos Sobre a Escola Sabatina, pág. 186. 20. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, págs. 416 e 417 (Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pág. 141). 21. A Ciência do Bom Viver, pág. 321. Ver também Educação, pág. 205. 22. Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pág. 178. 23. “No uso dos alimentos, devemos exercer discernimento e bom senso. Ao percebermos que alguma coisa nos faz mal, não precisamos escrever cartas de consulta [a Ellen White] para saber a causa do distúrbio. Usemos nosso raciocínio. Mudem o regime; usem menor quantidade de alguns alimentos; experimentem outras preparações. Logo sabere-

mo dissera para diversas mulheres, que ela devia ter pelo menos um vestido vermelho.”43 Ellen White jamais perdeu a capacidade de relacionar-se com as pessoas de maneira prática.

mos o efeito que determinadas combinações exercem sobre nós. Não somos máquinas; somos seres humanos, inteligentes; e devemos exercer nosso bom senso. Podemos tentar diferentes combinações de alimento.” – The Kress Collection, pág. 144. 24. “Há verdadeiro bom senso na reforma do regime. O assunto deve ser larga e profundamente estudado, e ninguém devia criticar outros porque não estejam, em todas as coisas, agindo em harmonia com seu ponto de vista. É impossível estabelecer uma regra fixa para regular os hábitos de cada um, e ninguém se deve considerar critério para todos. Nem todos podem comer as mesmas coisas. Comidas apetecíveis e sãs para uma pessoa podem ser desagradáveis e mesmo nocivas para outra. Alguns não podem usar leite, ao passo que outros tiram bom proveito dele. Pessoas há que não conseguem digerir ervilhas e feijão; para outros, eles são saudáveis. Para uns as preparações de cereais integrais são boas, enquanto outros não as podem ingerir.” – A Ciência do Bom Viver, págs. 319 e 320. “Não fazemos da reforma de saúde um leito de Procusto,* cortando as pessoas quando o ultrapassam ou esticando-as até que atinjam as dimensões. Uma só pessoa não pode servir de norma para todas as outras. O que queremos é uma pequena pitada de bom senso. Não sejam extremistas. No caso de haver erro, é melhor errar do lado das pessoas do que do lado em que não se pode alcançá-las. Não sejam diferentes simplesmente por querer ser diferentes. Fora com o bolo. As pessoas podem matar-se com doces. Os doces são mais prejudiciais às crianças do que qualquer outra coisa.” – Sermons and Talks, vol. 1, pág. 12. 25. “O mundo está cheio de mulheres com baixa vitalidade e pouco bom senso. A sociedade precisa muito de mulheres saudáveis e sensatas, que não temam trabalhar nem sujar as mãos. Deus lhes deu mãos para usarem no trabalho útil. Deus não lhes deu a maravilhosa máquina do corpo humano para ficar paralisada por inatividade. Era propósito de Deus que a maquinaria viva estivesse empenhada em atividade diária, pois é esta atividade ou movimento o que lhe conserva o vigor. O trabalho manual acelera a circulação do sangue. Quanto mais ativa for a circulação do sangue, mais livre será o sangue de obstruções e impurezas. O sangue nutre o corpo. A saúde do corpo depende da saudável circulação do sangue. Se a obra é realizada sem o coração estar nela, não passa de trabalho enfadonho, e não se obtém o benefício que deveria resultar do exercício.” – Signs of the Times, 29 de abril de 1885. 26. Evangelismo, pág. 540. 27. “Não permitam que prevaleça a idéia de que o Retiro de Saúde é um lugar onde os doentes são curados pela oração da fé. Haverá ocasiões em que isto será feito, e precisamos constantemente ter fé em Deus. Ninguém pense, porém, que aqueles que maltrataram a si mesmos e não cuidaram de si mesmos de * Leito de ferro onde, segundo a mitologia grega, Procusto, famigerado ladrão, estendia suas vítimas, cortando-lhes os pés quando ultrapassavam, ou esticando-os quando não alcançavam o tamanho do leito.

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maneira inteligente podem vir para o Retiro de Saúde e ser curados pela oração da fé, pois isto é presunção. Eu vejo meus irmãos exercendo tão pouca sabedoria e tão pouco bom senso que meu coração fica pesaroso, dolorido e angustiado. Eles não têm idéias sensatas nem honram a Deus. Precisam do toque divino. Se predominar a idéia de que os doentes devem vir ao Instituto para serem curados pela oração da fé, vocês terão um estado de coisas que nem imaginam, ainda que eu lhes descrevesse isso usando os melhores recursos da língua inglesa que eu fosse capaz de dominar.” – MR, vol. 7, pág. 370 (1886). 28. “Foi-me mostrado que nossos pastores estão causando grande prejuízo a si mesmos pelo descuido no uso dos órgãos vocais. Chamamos-lhes a atenção para este importante assunto e demos, por intermédio do Espírito de Deus, advertências e instruções. Era dever deles aprender a maneira mais sábia de usar esses órgãos. A voz, este dom do Céu, é uma poderosa faculdade para o bem e, caso não seja pervertida, glorificará a Deus. Tudo o que era essencial era estudar e seguir conscienciosamente algumas regras simples. Mas em vez de educaremse, como deviam ter feito pelo exercício de um pouco de bom senso, contrataram um professor de técnica vocal.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 604. Ver também Medicina e Salvação, págs. 264 e 265. 29. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 394. 30. Educação, pág. 220. 31. Evangelismo, pág. 505. 32. “As mulheres cristãs não se devem dar a trabalhos para se tornarem objeto de ridículo por vestir diferentemente do mundo. Mas, se seguindo suas convicções de dever a respeito do vestir modesta e saudavelmente, elas se acham fora da moda, não devem mudar de vestuário a fim de ser semelhantes ao mundo; porém devem manifestar nobre independência e coragem moral para ser corretas, ainda que o mundo inteiro delas difira. Caso o mundo introduza um modo de vestir decente, conveniente e saudável, que esteja em harmonia com a Bíblia, não muda nossa relação para com Deus ou para com o mundo o adotar tal estilo de vestuário. As mulheres cristãs

devem seguir a Cristo e fazer seus vestidos em conformidade com a Palavra de Deus. Devem evitar os extremos. Devem elas adotar humildemente uma conduta reta, apegando-se ao direito por ser direito, sem se preocupar com aplausos ou censuras.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 458 e 459 (Mensagens Escolhidas, vol. 2, págs. 476 e 477). 33. Para a citação completa, Manuscrito 167 (1897), onde Ellen White apresenta princípios orientadores sobre a reforma do vestuário, ver o Apêndice em D. E. Robinson, The Story of Our Health Message, terceira edição (Nashville: Southern Publishing Association, 1965), págs. 441-445. (Orientação da Criança, pág. 414.) 34. Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 319. 35. Ibidem. 36. “A juventude confia demais no impulso. Não deve entregarse demasiado facilmente, nem deixar-se cativar muito depressa pelo atraente exterior do pretendente. ... Se há algo em que seja preciso o bom senso, é este; mas o fato é que ele é pouco empregado neste assunto.” – Review and Herald, 26 de janeiro de 1886 (Mensagens aos Jovens, pág. 450). 37. Fazendo um apelo a uma esposa egocêntrica, Ellen White escreveu: “Você acha que não é decepcionante para seu marido constatar que você é o que Deus me mostrou que você é? Será que ele casou com você com a expectativa de que você não assumiria responsabilidades, não compartilharia perplexidades nem exerceria abnegação? Esperava ele que você não se sentiria na obrigação de exercer domínio próprio, ser alegre, bondosa, paciente e sensata?” – MR, vol. 16, pág. 310. 38. Biography, vol. 4, págs. 26 e 27. 39. Ibidem, pág. 215. 40. Ibidem, pág. 154. Para leitura adicional sobre o desenvolvimento divinamente orientado de Avondale College, ver pág. 355. 41. Ibidem, pág. 224 (Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, págs. 243 e 244). 42. Ibidem, págs. 292 e 293. 43. “My ‘Special’ Grandmother”, The Youth’s Instructor, 5 de dezembro de 1961.

Perguntas Para Estudo

1. Se você tivesse que explicar o valor do “bom senso”, como você começaria, à vista do fato de que a Palavra de Deus, não nossa opinião pessoal, é a prova da verdade? 2. Como refutaria a acusação de que Ellen White era uma “desmancha-prazer” e uma “santa” mal-humorada? 3. Qual o princípio fundamental que decide como aplicar o bom senso em todos os aspectos da vida?

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veram, assim como a maioria das outras famílias dotadas com o espírito pioneiro do século dezenove. Durante a maior parte de sua longa vida, Ellen White fez suas próprias costuras. Certa vez, ela escreveu: “Os lençóis, as fronhas e as minhas roupas estão em boa ordem.”5 Em um dos últimos dias de novembro de 1865, em Rochester, Nova Iorque, ela escreveu uma cartinha para Tiago: “A noite passada foi uma noite fria. Eu receava dormir sozinha num quarto frio, mas minha bonita e quente camisola ficou pronta. Eu a vesti e ficou realmente confortável. ... Estou me saindo muito bem como costureira, e sem ficar sobrecarregada.”6 Um Dia Típico Ao lermos os diários e cartas de Ellen White, podemos ter uma idéia de como era sua vida diária. Numa carta de 1873, endereçada ao Pastor D. M. Canright e esposa, ela escreveu, em parte: “Faz algum tempo que sinto o dever de escrever para os irmãos, mas não tenho encontrado tempo. Levantei às cinco e meia da manhã, ajudei Lucinda a lavar os pratos, escrevi até o escurecer, depois fiz algumas costuras necessárias e fiquei sentada até perto da meia-noite. Apesar disso não fiquei doente. Depois de terminar as atividades literárias do dia, tenho lavado a roupa da família. Muitas vezes fico tão cansada que cambaleio como bêbada, mas louvo ao Senhor porque tenho sido sustentada.”7

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“Ela se levantou do leito de enfermidade e deu os primeiros, débeis e hesitantes passos para tornarse uma mulher vitoriana e uma profetisa adventista.”1

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e todas as líderes femininas de grupos sociais ou religiosos do século dezenove, Ellen White foi, por assim dizer, única. Ela combinava as vigorosas características de pioneira norte-americana com as virtudes da típica mulher vitoriana.

Compradora Excelente Em determinado momento de seu movimentado programa de atividades na Europa, Ellen White sentiu a necessidade de diminuir um pouco o ritmo inflexível de suas atividades literárias e compromissos de pregação. Como forma de distração, ela e Sara McEnterfer, sua companheira de viagem, faziam trabalhos de costura para si mesmas e para os outros. Algumas mulheres, percebendo que ela manifestava bom gosto e economia quando comprava, freqüentemente queriam a ajuda dela ao fazerem suas compras.8 Em todas as coisas, porém, até mesmo na costura, ela recomendava o equilíbrio e insistia em que fossem mantidas as prioridades corretas. Falando a respeito das mães, escreveu: “Mantenha-se ela bem-humorada e alegre. Em vez de passar todos os momentos num costurar sem fim, faça do serão um aprazível período social, uma reunião de família depois dos deveres do dia.”9 Entusiasta Horticultora Ellen White era uma horticultora entusiástica, não apenas para atender suas necessidades domésticas de vegetais e frutas, mas também para embelezar o lar com flores frescas. A primavera em Battle Creek (1859) mexeu com a veia de jardineira desta atarefada mãe de 31 anos de idade e três filhos. A respeito de um 24 de março frio e ventoso, o diário dela diz: “Levantei cedo. Ajudei meu marido e o irmão Richard [Godsmark] a transportar uma muda de groselheira para plantar em nosso quintal.” No dia 30 de março, o tempo ficou mais quente, e eis o que ela fez: “Plantei framboeseiras. Fui à loja Manchester buscar mudas de morangos. Adquiri algumas groselheiras. Enviei três cartas.” No dia seguinte, ela plantou “um canteiro de morangos”. Duas semanas depois escreveu: “Passei a maior parte do dia fazendo um jardim para meus filhos. Estou disposta a tornarlhes o lar tão agradável quanto me for possível, para que o lar seja para eles o lugar mais agradável de todos.”10 De seu pequeno lar em Washington, Iowa, ela escreveu para Edson: “Estamos cercados de flores de quase todas as espécies, mas o mais belo de tudo é estar rodeados de rosas por todos os lados, rosas perfumosas de todas as cores. As

À Vontade com Cavalos Eis uma mulher de 1,57m de altura, outrora frágil, que podia arrear e montar cavalos tão bem quanto a maioria dos homens.2 Além disso, baseada na própria experiência, insistia fortemente em que os rapazes deviam aprender, em casa ou na escola, como “fazer a cama e arranjar o quarto, lavar a louça, preparar a comida, lavar e consertar a própria roupa”. As jovens deviam aprender a “arrear, cavalgar, usar a serra e o martelo, assim como o ancinho e a enxada”.3 Habituada a Dificuldades Ellen White é com muita freqüência lembrada como oradora convincente e escritora prolífica, mas as pessoas de seu tempo também a conheceram como dona de casa competente e mãe bem-disposta. Tudo isso não era fácil numa época em que não havia eletricidade nem sistema de abastecimento de água. Não era fácil também porque ela e o marido passavam anos sem nenhuma renda regular. Não ter um “lugar fixo para morar” tornava a vida completamente difícil.4 Habilidosa na Costura Mas os White e dois de seus filhos sobrevi-

rainhas-do-prado acabam de desabrochar, bem como as campânulas de Baltimore. As peônias têm estado muito belas e perfumadas, mas estão começando a murchar rapidamente. Faz vários dias que estamos comendo morangos.”11 Praticar jardinagem significava para Ellen White trabalho, mas trabalho prazeroso. Escrevendo de Oakland, Califórnia, para o marido em Battle Creek, mencionou uma nova amiga que repartiu plantas para o seu jardim: “Organizei minhas coisas no jardim de minha nova casa à luz da lua e com a ajuda de meu lampião. As duas Marys tentaram fazer com que eu esperasse até o amanhecer, mas eu não lhes dei ouvido. Tivemos um belo aguaceiro na noite passada. Fiquei contente em ter insistido em arrumar minhas plantas.”12 Em 1881, os White tinham voltado a morar em Battle Creek. Desta vez, escrevendo a Mary, sua nora, Ellen White pediu mudas do jardim que plantara em Oakland: “Quero lhe pedir um favor. Pegue uma caixa pequena e coloque nela pequenas raízes e mudas de cravos, alguns galhos de rosas seletas, brincosde-princesa e gerânios e os envie para mim.” Alguns dias depois, ela escreveu: “Nossa casa em Michigan está linda. ... Estive plantando arbustos e flores até formar um bom jardim. Tenho um grande número de peônias; espero conseguir cravos da Califórnia. Quero adquirir um pouco daquelas folhagens verdes para bordas de canteiro que conseguimos com a irmã Rollin. ... Desejo ter algumas sementes da Califórnia.”13 Esse grande e ávido interesse em jardim e pomar preparou-a para o desafio na Austrália na década de 1890. Ao perceber que a maior parte do incentivo que dera à expansão do desenvolvimento da agricultura caíra em ouvidos pessimistas, declarou ousadamente que os homens da região estavam equivocados. Para dizer a verdade, ela afirmou que eles estavam levantando “falso testemunho” contra a terra. Pelo exemplo e pela exortação visionária, ela mostrou o caminho. O resultado foi recapitulado em carta escrita em 3 de fevereiro de 1896: “Tenho a prova de que, se cuidarmos das árvores e hortaliças na estação seca, teremos bons resultados. Nossas árvores estão indo bem . ... Posso afirmar, por experiência própria, que disseram falso testemunho contra esta terra. No terreno da escola, temos tomates, abóboras, batatas e melões. ... Sabe-

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mos que, com o devido cuidado, a terra irá prosperar.” Alguns dias depois, escreveu em seu diário que havia levantado às 4h30 e, antes das 5h, estava no jardim “cavando a terra com a pá e preparando-a para plantar minhas flores”. Depois, com a ajuda de duas pessoas, ela plantou vinte e oito tomateiros. Na manhã seguinte foi ao pomar “amarrar as árvores. Coloquei um tufo de grama entre a estaca e as árvores para que as árvores não fossem prejudicadas”.14 Viajante Intrépida O espírito pioneiro de Ellen White foi provavelmente mais bem manifestado no seu extraordinário itinerário de viagem. Até 1885 ela havia atravessado os Estados Unidos de trem, da Califórnia a Michigan, cerca de vinte e quatro vezes, apenas dezesseis anos depois de a conexão transcontinental ter sido construída em Promintory, Utah! Obviamente, essas viagens não eram nada parecidas com o que as pessoas de hoje imaginam nem tinham semelhança alguma com as idéias românticas que as pessoas atribuem ao viajar por via férrea na primeira metade do século vinte.15 Os vagões de passageiros, feitos de madeira e suscetíveis a acidentes, estavam na ordem do dia, não sendo substituídos pelos vagões de aço inteiriço a não ser em 1907. “Os assentos tinha espaldares retos e eram forrados com um estofamento fino, se é que eram. Um forno a carvão provia o único aquecimento; velas e lampiões forneciam a iluminação. Os espaços abertos das plataformas ofereciam pouca proteção contra o tempo quando se caminhava de uma composição para outra.”16 O maquinista “podia ser identificado por seu cheiro de uísque tão prontamente como o caixeiro-viajante por sua pasta de amostras”.17 Os primeiros quarenta anos de viagem por via férrea rumo ao oeste foram “o apogeu do mineiro, do caubói, dos assaltantes de trem e das pessoas de má fama; você poderia encontrar um ou todos eles viajando em bancos estofados ou de ripas dos trens a vapor”. A região que se estendia rumo ao oeste “era descalvada e agreste, açoitada por ventos cruéis e queimada por tórridos verões. A chuva, quando aparecia, era uma torrente destrutiva. As estiagens aconteciam a intervalos regulares. ... Em 1874, com a maior parte da construção da estrada de

ferro parada devido à crise financeira de 1873, os gafanhotos atacaram comendo tudo o que crescia desde as fronteiras do Canadá até o norte do Texas. Um trem da Union Pacific em Kearney [Nebraska] entravou em um monte de gafanhotos de quase um metro de altura.”18 Em 1876, o tempo convencional de viagem entre a costa do Pacífico e Nova Iorque era de sete dias e sete noites, com baldeações em Omaha e Chicago.19 Por três vezes Ellen White empreendeu a arriscada viagem marítima para Oregon (1878, 1880 e 1884), numa época em que os recursos ainda eram primitivos. A respeito de uma visita que recebeu de Ellen White em 1878, quando ela contava 50 anos de idade, a esposa de um obreiro relatou: “Ao contemplar a obra que devia ser feita, a irmã White empenhou-se tanto quando aqui esteve, que lhe pareceu realmente esquecer sua idade. Sua visita a Oregon foi o mais valioso benefício para a Verdade Presente nesta região.”20 Em 1852, os White saíram de Rochester, Nova Iorque, para uma viagem de dois meses à Nova Inglaterra a cavalo e de carruagem. Tiago organizou o itinerário e informou os adventistas pela revista da igreja sobre o tempo e o lugar por onde os White passariam. O programa de atividades era extenuante; foi planejado percorrer um trecho de aproximadamente 160 quilômetros em apenas dois dias! Mas com o bom tempo e a ausência de transtornos, eles conseguiram atender seus compromissos. Enquanto andavam aos solavancos sobre uma carruagem aberta, Tiago pensava sobre o que escreveria para a Review e Youth’s Instructor. Quando paravam para alimentar Charlie, seu cavalo, Tiago escrevia os artigos “sobre a tampa de nossa caixa de alimentos ou a copa de seu chapéu”.21 A experiência de Ellen White em tentar chegar a um compromisso na reunião campal de Williamsport, Pensilvânia, em princípios de junho de 1889, ilustra bem seu espírito perseverante e pioneiro. Este foi o ano da chuva torrencial e da inundação de Johnstown. Muitas estradas e pontes haviam sido destruídas. O trem partiu lentamente de Battle Creek. Quando eles chegaram a Elmira, Nova Iorque, foram aconselhados a voltar para casa. Mas a Sra. White (na época com 61 anos) e Sara McEnterfer continuaram. Quan-

do o trem não pôde mais prosseguir, essas duas mulheres alugaram uma carruagem. Quando a carruagem foi obrigada a parar, elas puseram-se a caminhar, perfazendo os últimos 64 quilômetros em quatro dias. Essa viagem fenomenal é descrita por Ellen White na Review and Herald de 30 de julho de 1889: “Fomos obrigadas a caminhar quilômetros nesta viagem, e pareceu maravilhoso que eu conseguisse suportar o percurso como o fiz. Fazia anos que eu quebrara os tornozelos, e desde então eles haviam ficado fracos. Antes de partir de Battle Creek para Kansas, eu havia torcido um tornozelo, ficando confinada a muletas por algum tempo; mas, nesta emergência, não senti fraqueza nem desconforto. Viajei com confiança sobre rochas acidentadas e escorregadias.”22 Na reunião campal de Williamsport, ela pregou treze vezes, inclusive em todas as reuniões realizadas de manhãzinha – e isso sem nenhum sistema de som! Esse espírito perseverante, bem-disposto e pioneiro manifestou-se, como sempre, quando os White atravessaram o rio Mississippi em 1857. Trinta centímetros de água corria por sobre o gelo, e outras parelhas de animais com carroças haviam recuado, mas o grupo dos White seguiram adiante. Em Iowa, em meio a ventos frios e intensos, com os cavalos abrindo caminho através da neve alta, eles finalmente chegaram a seu destino.23 A Mulher Vitoriana Contudo, apesar do valoroso exemplo de vigorosa mulher pioneira do século dezenove, Ellen White revelava as características da mulher vitoriana. A pesquisadora Kathleen Joyce chamou a atenção para uma passagem largamente citada por Bárbara Welter, que alistava quatro virtudes pelas quais se julgava uma mulher vitoriana: “Piedade, pureza, submissão e domesticidade. Misture tudo e elas formarão as palavras mãe, filha, irmã, esposa – mulher. Sem elas, não importava a fama, a realização ou a riqueza, tudo são cinzas. Com elas, havia a promessa de felicidade e poder.”24 Joyce acrescentou a área da “saúde e dos cuidados médicos femininos” como uma outra característica específica da mulher vitoriana. Observou que a carreira de Ellen White foi um equilíbrio constante entre o cumprimento das obrigações vitorianas (casamento, mater-

nidade, tarefas domésticas) e a resposta a seu chamado profético. “Sua fragilidade, as visões sobre as quais não tinha controle, sua relutância, particularmente nos primeiros anos, em aceitar posição de liderança que exigia dela ser mais do que uma amanuense de Deus, revelam um padrão particularmente feminino de profecia religiosa. Era um padrão que atendia a necessidade de as mulheres serem mais servas do que mestras, e servia para reforçar a percepção confortável das mulheres como vasos passivos por meio dos quais Deus e os homens realizam grandes obras. Ao adotar esse padrão, Ellen White tornou-se o tipo de mulher profetisa que a América [do Norte] vitoriana era capaz de tolerar.”25 A Sra. White manifestou uma de suas muitas características do modelo vitoriano pelo uso freqüente de eufemismos. Por exemplo, ao referir-se à relação sexual, ela usava frases como: “privilégio das relações conjugais,”26 “privilégios matrimoniais”27 e “privacidade e os privilégios da relação de família”.28 Os eufemismos vitorianos que ela empregava não eram meramente recato exagerado. Ela foi uma devotada e amorosa esposa que conquistou e conservou a admiração do marido até o dia em que ele morreu. Mas entendia de saúde mental e a maneira como se devem estabelecer as prioridades conjugais. Seu conselho freqüente a outros a respeito de relações conjugais desenvolveu-se não apenas por meio da inspiração divina, mas também por sua própria experiência pessoal. Defendia a civilidade e a modéstia cristã não apenas verbalmente, mas as colocava em prática com um marido que a adorava. Repare, por exemplo, em um conselho particular dado a Daniel T. Bordeau, um tenso jovem de 26 anos de idade. Ordenado com a idade de 23 anos, fazia três anos que Bordeau buscava uma esposa. Em 1861 ele casouse com Marion Saxby em Bakersfield, Vermont, em uma cerimônia oficiada por Tiago White numa casa particular. Tiago tinha 40 anos e Ellen, 33, uma mulher ainda jovem. Pelo fato de a cerimônia ter sido no fim do dia, os recém-casados aceitaram o convite dos anfitriãos para passarem a noite na casa deles. Os White também ficaram como convidados da família. Quando Ellen White subiu as escadas para

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discutido e usado como um exemplo a seguir, mas jamais considerado coisa extraordinária”. – The Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 152. 23. Biography, vol. 1, págs. 346-349. Ver também pág. 431. Para outro exemplo da vida emocionante mas rigorosa dos pioneiros, examine os meses passados no Texas durante o inverno de 1878-79 e a experiência penosa sofrida em um comboio de carruagens na primavera de 1879. – Ibidem, págs. 98-120. 24. “The Cult of True Womanhood: 1820-1860”, American Quartely, vol. 8 (1966), pág. 151, citado no original inédito de Kathleen Joyce, “An Ambiguous Woman: Victorian Womanhood and Religious Prophecy in the Life of Ellen Gould White”, 1991. 25. Joyce, ibidem, pág. 24. 26. Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 380. 27. Ibidem, pág. 391. 28. Ibidem, pág. 90. 29. Roger W. Coon, “Counsel to a Nervous Bridegroom”, Adventist Heritage, verão de 1990, págs. 17-22.

recolher-se, topou com um jovem muito nervoso andando de um lado para outro em frente à porta fechada do quarto. Ela suspeitou que havia problema. Delicadamente disse ao jovem noivo (conforme a noiva citou posteriormente ao narrar o incidente com o marido): “Daniel, dentro deste quarto, sobre a cama, encontra-se uma jovem apavorada, petrificada de medo. Pois bem, agora vá até ela, ame-a e conforte-a. E, Daniel, trate-a com delicadeza, com ternura e com amor. Isso fará bem a ela.” Depois ela acrescentou: “Daniel, isso também lhe fará bem!”29 Eis uma mulher vitoriana que tinha as prioridades certas. Aquele jovem casal ficou eternamente grato. Em alguns outros aspectos, Ellen White era bastante diferente da típica mulher vitoriana. Ela não se valia de sua fragilidade para obter vantagens pessoais ou atenção especial, mas sobrepôs-se a isso para o espanto de seus contemporâneos. Embora respeitasse Tiago, não possuía a típica submissão vitoReferências
1. Jonathan Butler, “Prophecy, Gender and Culture: Ellen Gould Harmon [White] and the Roots of Seventh-day Adventism”, Religion and American Culture: A Jornal of Interpretation, vol. 1 (inverno de 1991), págs. 3-29. 2. Algumas referências descrevem seus passeios a cavalo nas montanhas do Colorado, tanto por prazer como para propósitos de viagem. Ver MR, vol. 3, págs. 158, 163 e 170; vol. 8, pág. 121; vol. 20, pág. 208. 3. Educação, pág. 216. 4. Life Sketches, pág. 105. Ver pág. 80. 5. MR, vol. 5, pág. 430 (1874). 6. Ibidem, vol. 10, pág. 27. 7. Ibidem, vol. 15, pág. 231. 8. Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 200. Willie, viajando com a mãe, escreveu para sua esposa Mary, em Basilésia: “Mamãe e Sara continuam apresentando ótimo desempenho na costura. Se você alugar uma loja, acho que elas serão capazes de formar um estoque com bom sortimento de confecções.” 9. A Ciência do Bom Viver, pág. 294. 10. Biography, vol. 1, pág. 400. 11. Ibidem, vol. 2, pág. 340. 12. Ibidem, vol. 3, pág. 24. 13. Ibidem, pág. 158. 14. Ibidem, vol. 4, págs. 261-262. 15. Ver págs. 84-86. 16. Overland Route (No. Highlands, California: History West, 1981), pág. 17. 17. Lucius Beebe e Charles Clegg, The Age of Steam (New York: Rinehart & Company, s.d.), pág. 17. Um caixeiro-viajante era um vendedor itinerante. 18. Oliver O. Jensen, The American Heritage History of Railroads in America (New York: American Heritage Publishing Com-

riana ao marido nem se conformava às expectativas sociais (apenas para obter a aprovação masculina) ou à domesticidade vitoriana (para aumentar o prestígio entre outras mulheres). Ao desempenhar seu papel profético, essas “virtudes” vitorianas assumiram um novo significado. A fragilidade física tornou-se um desafio para vencer a fraqueza pela graça de Deus, um feito que lhe deu maior força e resistência à medida que envelhecia. Embora a submissão ao marido e o atendimento das necessidades da família fossem importantes, a responsabilidade profética de Ellen White era a coisa mais importante de sua vida. Ela mostrava a todos que as responsabilidades religiosas não reduziam as responsabilidades domésticas. A vida, para ela, não era dividida em compartimentos, quer como profetisa, quer como dona de casa. Encarava a vida como um todo. Para cumprir suas responsabilidades religiosas, não precisava diminuir suas responsabilidades como esposa, mãe ou vizinha.

Perguntas Para Estudo

1. Quais as características distintivas da mulher “vitoriana”? 2. De que maneiras interessantes foi Ellen White uma mulher pioneira exemplar? 3. Na sua opinião, como a aptidão para jardinagem ajudou Ellen White em sua produção literária? Dê alguns exemplos. 4. Poderia uma mulher do mundo de hoje ser tanto “vitoriana” quanto uma pioneira norte-americana?

pany, 1975), pág. 123. Ver Apêndice C para trechos do relato de Robert Louis Stevenson de seu percurso de trem em 1879 rumo ao oeste. 19. Lucius Beebe, The Age of Steam, pág. 161. Em 1848 ninguém ainda havia viajado num veículo à velocidade de 1,6 quilômetro por minuto. O Presidente Washington fora informado pelos principais médicos “que uma diligência que desenvolvesse velocidade de 24km/h certamente ocasionaria a morte de quem nela estivesse, pois isto faria com que todo o sangue do corpo afluísse para a cabeça.” – Lucius Beebe, High Iron (New York: D. Appleton-Century Company, 1938), pág. 55. No capítulo “Overland by Rail, 1869-1890”, em Gary Land, The World of Ellen G. White, págs. 63-76, Randall R. Butler II escreveu que, antes de 1880, os trens da Union Pacific e da Central Pacific faziam a média de 35,4 quilômetros por hora. Depois de 1880 as velocidades médias dobraram, mas, devido às mais de duzentas paradas em estações e tanques de água, as horas totais gastas na travessia do país continuavam as mesmas. Concluindo este capítulo, Butler escreveu: “Antes do meio da manhã, os trens que viajavam para o ocidente chegavam ao terminal de Oakland. Os passageiros, cansados e fatigados, geralmente se alegravam com o término da viagem. Eram quatro dias e meio, longos e penosos, desde Omaha, e a maioria dos passageiros que havia começado sua viagem ainda tinham pela frente de um a três dias rumo ao leste ou ao sul. Após uma semana de barulho, poeira e fumaça de locomotiva e de fumo, os passageiros que desembarcavam queriam apenas um banho quente e repouso tranqüilo.” 20. Citado em Land, The World of Ellen G. White, pág. 83. Para compreensão das dificuldades enfrentadas pelos primeiros obreiros adventistas, ver ibidem, págs. 74-80. 21. Biography, vol. 1, págs. 232-234. 22. L. H. Christian lembra que “este artigo da Review foi lido,

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“De boas palavras transborda o meu coração: Ao Rei consagro o que compus: a minha pena é como a pena de habilidoso escritor.” Sal. 45:1.

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upõe-se que Ellen White seja o terceiro escritor mais traduzido da História e o escritor ou escritora norte-americana mais traduzida de todos os tempos. Tanto quanto sabemos, ela escreveu e publicou mais livros, em maior quantidade de línguas e com maior circulação do que as obras escritas por qualquer outra mulher na História. Perto do encerramento do seu ministério septuagenário, sua produção literária totalizava aproximadamente 100.000 páginas, ou o equivalente a 25 milhões de palavras, incluindo cartas, diários, artigos para periódicos, folhetos e livros.1 Na época em que a Sra. White faleceu (1915), havia vinte e quatro livros seus publicados, mais dois nas mãos de editores aguardando publicação. Na década de 1990, 128 livros publicados levavam o nome de Ellen White, inclusive compilações de seus pensamentos sobre diversos assuntos.2 Como tudo isso começou? Ela não era uma estudante brilhante, de formação universitária nem uma escritora talentosa ou publicada! Seria difícil dizer que a extraordinária obra literária de Ellen White é produto apenas da inteligência e invenção humanas. Seus contemporâneos, conhecedores de sua formação e educação mínima, também estavam convencidos de que uma sabedoria mais do que humana era responsável pela incisiva e impressionante eloqüência demonstrada por ela tanto no prelo como no púlpito. No fim da primavera de 1845, a mão de

Ellen Harmon, trêmula de fraqueza, era incapaz de escrever. Mas numa visão lhe foi dito que escrevesse o que via. Pela primeira vez, sua “mão ficou firme”. Muitos anos depois ela relembrou essa experiência: “O Senhor disse: ‘Escreva as coisas que Eu vou lhe transmitir.’ Comecei a fazer esta obra quando era muito jovem. A mão, que era fraca e tremia por causa de enfermidades, ficava firme logo que eu empunhava a pena, e desde as primeiras vezes tenho sido capaz de escrever. Deus tem-me dado habilidade para escrever. ... A mão direita dificilmente tem sensação desagradável. Nunca se cansa. Raramente treme (1900).”3 Ellen White escrevia em papel de carta, folhas encorpadas e em cadernos de folhas pautadas, quase sempre utilizando uma pena. Depois de meados da década de 1880, suas assistentes datilografavam seus manuscritos.4 Ela escrevia em todas as ocasiões, dia e noite, e em circunstâncias que intimidariam a outros. Seu filho W. C. White recordou um típico programa de atividades na época em que os White se encontravam em casa, em Battle Creek: “Com bem pouca variação, o programa diário da família White era algo parecido com isto: Às seis horas todos se levantavam. Muitas vezes mamãe estivera escrevendo durante duas ou três horas, e a cozinheira estivera ocupada na cozinha desde às cinco. Por volta das seis e meia o desjejum estava pronto. Mamãe costumava mencionar à mesa do desjejum que havia escrito seis, oito ou mais páginas e, algumas vezes, lia para a

família alguns trechos interessantes daquilo que escrevera. “Papai algumas vezes nos falava sobre o trabalho em que estava empenhado ou nos relatava incidentes interessantes relacionados com o progresso da causa, no Leste e no Oeste. Às sete horas todos se reuniam na sala de visitas para o culto matutino... “Depois que papai saía de casa, mamãe gostava de passar meia hora em seu jardim de flores durante essas partes do ano em que as flores podem ser cultivadas. Nisto seus filhos era estimulados a trabalhar com ela. Depois ela costumava dedicar três ou quatro horas à escrita. Suas tardes eram geralmente ocupadas em várias atividades: costurar, remendar, tricotar, cerzir e trabalhar em seu jardim de flores, com ocasionais viagens à cidade para fazer compras ou visitar doentes.”5 Muitas vezes ela costumava escrever enquanto viajava. No apontamento de seu diário de 18 de agosto de 1859 está registrado: “Acordei pouco depois das duas da madrugada. Tomei o trem às quatro. Sentia-me muito deprimida. Escrevi o dia todo. ... Nossa viagem de trem terminou às seis da tarde.”6 Naquela mesma viagem, no apontamento de seu diário de 10 de outubro, ela falou sobre seu atarefado programa de atividades enquanto permanecia na casa de um membro da igreja: “A casa está cheia de gente. ... Não tive tempo para conversar com eles. Encerrei-me no quarto para escrever.”7 Após uma turnê de três meses pelos Estados do Leste em 1891, pouco antes de partir com destino à Austrália, ela escreveu: “Falei cinqüenta e cinco vezes, e escrevi trezentas páginas. ... O Senhor é que me tem fortalecido e abençoado e sustido por Seu Espírito.”8 Encontramos em uma carta que Ellen White escreveu a G. W. Amadon em 1906 vislumbres sobre a maneira como suas assistentes a ajudavam: “Recolhi-me à noitinha, depois do sábado, e repousei bem sem dor ou incômodo até as dez e meia. Não consegui dormir. Eu havia recebido instruções [do Guia celestial], e raramente fico na cama depois de tais instruções me sobrevirem. Havia um grupo reunido em ______, e Alguém que estava em nosso meio deu-me instruções que eu devia repetir e repetir pela pena e pela

voz. Saí da cama e escrevi durante cinco horas, tão rápido quanto a pena podia traçar as linhas. Depois, descansei na cama por uma hora, e dormi parte do tempo. “Coloquei a matéria nas mãos de minha copista e, na segunda-feira de manhã, ela me esperava, tendo sido colocada no meu escritório no domingo à noite. Havia quatro artigos prontos para eu reler e fazer quaisquer correções necessárias. A matéria está pronta agora, e parte dela seguirá hoje para o correio. “Eis o ramo de trabalho que estou levando avante. Faço a maior parte de meus escritos enquanto os outros membros da família dormem. Acendo meu fogo, e depois escrevo ininterruptamente, às vezes por horas.”9 Assistentes de Redação A fim de atender à incessante demanda por artigos e livros, Ellen White desenvolveu por fim uma eficiente organização de assistentes de redação voluntárias e remuneradas. Nos primeiros anos, Tiago ajudou-a, de maneira perspicaz e desembaraçada, a preparar o material para publicação.10 A própria idéia de um profeta precisar de “assistência” redacional pode parecer nova para algumas pessoas em anos recentes. Mas aqueles que viveram na época de Ellen White sabiam como ajudantes literários eram necessários, levando-se em conta o volume de material que ela era incumbida de escrever.11 Muitas vezes as pessoas que ficam perturbadas ante a idéia de um profeta usar assistentes não compreendem direito a maneira como Deus fala aos seres humanos. Crêem que as pessoas inspiradas, inclusive a Sra. White, escreviam de maneira mecânica, registrando exatamente tudo quanto Deus lhes falava ou revelava, palavra por palavra.12 Alguns supõem que Ellen White seja infalível, da mesma forma como o fazem em relação aos escritores bíblicos. A compreensão que a própria Sra. White tinha sobre a maneira como a inspiração/revelação funciona será discutida na página 421. Ellen White utilizava assistentes literárias pelas mesmas razões que os escritores bíblicos o faziam. Ela reconhecia as suas limitações de tempo e aptidões literárias. Em 1873 escre-

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veu em seu diário: “Meu espírito está chegando a conclusões estranhas. Estou pensando que preciso deixar de lado os meus escritos em que tenho tido tanto prazer, e ver se posso tornar-me uma pessoa erudita. Não sou uma pessoa versada em gramática. Procurarei, se o Senhor me ajudar, aos quarenta e cinco anos de idade, tornar-me versada nessa ciência. Deus me auxiliará. Creio que Ele o fará.”13 Ela era muitas vezes interrompida enquanto escrevia, e isto deixava o manuscrito emaranhado. Comentando sobre a necessidade de ajuda redacional neste particular, ela escreveu: “Escrevendo tanto como eu escrevo, não admira que eu deixe tantas frases inacabadas.”14 Em uma carta a G. A. Irwin, presidente da Associação Geral, Willie White mostrou que sua mãe procurava ajuda literária porque reconhecia a qualidade inconstante de seus escritos: “Algumas vezes quando a mente de mamãe está descansada e livre, os pensamentos são apresentados em uma linguagem que é não apenas clara e forte, mas também bela e correta. Quando, porém, está cansada e oprimida com pesados fardos de ansiedade ou quando o assunto é difícil de ser descrito, aparecem repetições e frases incorretas.” Mais adiante ele descreveu as diretrizes seguidas pela mãe com relação às assistentes literárias: “As copistas de mamãe são encarregadas de corrigir os erros gramaticais, de eliminar as repetições desnecessárias e de agrupar parágrafos e seções na melhor ordem. ... As obreiras experientes de mamãe, como as irmãs Davis, Burnham, Bolton, Peck e Hare, que estão acostumadas com os escritos dela, são autorizadas a retirar uma frase, parágrafo ou seção de um original e incorporá-lo a outro original onde o mesmo pensamento era expresso, mas não de maneira tão clara. Nenhuma obreira de mamãe, porém, está autorizada a fazer acréscimos aos originais, introduzindo pensamentos seus próprios.”15 Até 1881 Willie trabalhou como coordenador editorial dos assistentes literários da mãe.16 Pelo fato de Ellen White passar a maior parte do tempo viajando ou escrevendo material novo, preferia não envolver-se em detalhes editoriais. Sabia que deveria re-

visar todos os documentos antes de serem publicados, a menos que desse, quando necessário, permissão específica para um redator de periódico fazer abreviações por economia de espaço. O registro mostra que eles fizeram poucas alterações. Desenvolveu-se uma “hierarquia de responsabilidade”. Em se tratando de trabalhos editoriais de menor importância, por exemplo, Marian Davis recebeu autorização para resolver as questões por si mesma; questões maiores deviam ser submetidas a W. C. White. Depois de William e Marian terem feito seu trabalho, caberia a Ellen White tomar as últimas decisões relativas a modificações editoriais.17 Marian Davis teve oportunidades para descrever seu trabalho, conforme ela o via: “Procuro iniciar tanto os capítulos quanto os parágrafos com frases curtas e simplificar realmente onde for possível, retirar toda palavra desnecessária e tornar a obra, conforme tenho dito, mais compacta e vigorosa.”18 Os editores esperavam manter Ellen dentro do cronograma deles, o que não foi fácil durante o tempo de árduos deveres na Austrália. Marian escreveu a Willie: “A irmã White é constantemente importunada com o pensamento de que o original deveria ser enviado imediatamente para impressão. ... A irmã White parece propensa a escrever, e não tenho dúvida de que ela trará à luz coisas de grande valor. Espero que seja possível inseri-las no livro. Existe, porém, uma coisa que nem o mais competente redator conseguiria fazer – preparar um original antes de ele ser escrito.”19 De vez em quando Ellen White procurava ajuda além de seus auxiliares imediatos. Ela explicou este procedimento a W. H. Littlejohn em 1894: “Examino detidamente minhas publicações. Desejo que nada seja impresso sem minucioso exame. Obviamente eu não desejaria que pessoas sem experiência cristã e aptidão para apreciar o mérito literário fossem colocadas como juízes daquilo que é necessário ser posto perante o povo, como forragem limpa, totalmente peneirada. Submeti todos os meus originais do Patriarcas e Profetas e o volume quatro [de The Spirit of

Prophecy] à apreciação e crítica da comissão editorial. Pus também esses originais nas mãos de alguns de nossos pastores para que os examinassem. Quanto mais os criticarem, tanto melhor para a obra.”20 Quando ela escrevia sobre assuntos médicos, suas ajudantes de escritório pediam a especialistas em medicina que revisassem os originais atentamente: “Desejo que em tudo quanto lêem, vocês reparem nos lugares onde o pensamento é expresso de maneira a receber a crítica específica de médicos e bondosamente nos dêem o benefício do seu conhecimento quanto à forma de expressar o mesmo pensamento de maneira mais precisa.”21 Independentemente da pessoa de quem recebia ajuda redacional, Ellen White fazia sempre uma leitura do texto em sua forma final: “Encontro de manhã sob minha porta vários artigos copiados pelas irmãs Peck, Maggie Hare e Minnie Hawkins. Competeme fazer uma leitura crítica de todos. ... Todo artigo que escrevo para ser preparado por minhas obreiras, tenho sempre que lê-lo antes de ele ser enviado para publicação.”22 O Realce do Século Dezenove À semelhança dos profetas que escreveram a Bíblia, Ellen White escreveu inserida no contexto literário, histórico, social e religioso de seu tempo. Escreveu não apenas com realce humano, mas também com o realce e as formas de pensar do século dezenove. À semelhança do que acontecia com os profetas da antigüidade, as questões da época muitas vezes determinavam a ênfase e a freqüência sobre o que ela escrevia. Ao chamar a atenção para o movimento da lei dominical, ela via, por exemplo, profundas implicações na compreensão dos acontecimentos dos últimos dias.23 Apesar de falarem sobre as questões existentes em sua época, tanto os profetas bíblicos como Ellen White nos forneceram princípios sem limites de duração, que se aplicam a nós hoje. Amplos Hábitos de Leitura Os amplos hábitos de leitura de Ellen White ajudaram-na a preencher a vasta estrutura conceitual com o pano de fundo histórico e as novas maneiras de declarar suas criteriosas percepções. Quando os filhos dos White eram jovens,

sua mãe lia muitas revistas religiosas à procura de histórias com ensinamentos morais, que pudessem ser apropriadas em especial para serem lidas no sábado. Recortava os artigos proveitosos e os colava em cadernos de recortes.24 Na década de 1870, muitos desses artigos foram classificados em livros para diferentes faixas etárias. A primeira destas coleções, Sabbath Readings, Moral and Religious Lessons for Youth and Children, continha 154 histórias paginadas separadamente.25 Sabbath Readings for the Home Circle, uma coleção de histórias em quatro volumes, apareceu mais tarde em numerosas edições.26 Na virada do século, a Pacific Press Publishing Association publicou Golden Grains, uma série de dez brochuras, cada uma contendo 72 páginas.27 Publicou-se também uma coleção, sem data, de histórias infantis intitulada Sunshine Series, a primeira tinha dez brochuras de 16 páginas, e a segunda, 20 brochuras de 16 páginas cada.28 Em princípios de 1900, enquanto estava na Austrália, Ellen White escreveu ao filho Edson, pedindo que ele lhe remetesse determinados livros da sua [dela] biblioteca: “Envie pelo correio os quatro ou cinco grandes volumes das notas de Barnes sobre a Bíblia. Acho que estão em Battle Creek, em minha casa agora vendida, em algum lugar junto com meus livros. Espero que você tome providências para que meus pertences, se é que ainda tenho algum, sejam cuidados e não se espalhem por toda parte como se fossem de domínio público. É possível que eu não volte mais para a América do Norte, e meus melhores livros devem serme remetidos quando for conveniente.”29 Em 1920, E. E. Andross, presidente da Divisão Norte-Americana, pediu que lhe explicassem a maneira como Ellen White utilizava o material encontrado em suas leituras. W. C. White respondeu: “Logo que começou a trabalhar, mamãe recebeu a promessa de que seria dotada de sabedoria ao fazer seleções dos escritos de outras pessoas e de que isto a capacitaria a escolher as gemas da verdade dentre o lixo do erro. Todos temos visto o cumprimento disto, e contudo quando ela me contou isso, me advertiu para que eu não o contasse aos outros. Nunca soube o motivo dessa restrição, mas agora estou propenso a acreditar que ela via como isso poderia levar alguns de seus irmãos a reivindicar desca-

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bidamente que os escritos dela servissem como norma para corrigir historiadores.”30 Em 1911, W. C. White escreveu à Comissão de Publicações da Pacific Press: “Admite-se geralmente que, nas palestras da irmã White ao povo, ela usa grande liberdade e sabedoria na seleção de provas e ilustrações, a fim de tornar clara e eficaz a apresentação das verdades que lhe foram reveladas em visão. Admite-se também que ela seleciona esses fatos e argumentos na medida em que se adaptam ao auditório a que ela se dirige. Isto é essencial à obtenção dos melhores resultados de suas palestras. Ela sempre achou e ensinou que era seu dever empregar na seleção de matéria para seus livros a mesma sabedoria que emprega na seleção de matéria para suas palestras.”31 Com a mente e o coração transbordando de amor a Deus, Ellen White foi contemplada com o grande quadro do plano divino para solucionar o problema do pecado. Competia a ela encontrar a melhor maneira de comunicar isso a outros. Na introdução de The Great Teacher – livro que Ellen White tanto apreciava – John Harris escreveu: “Suponha, por exemplo, que fosse necessário surgir hoje na igreja um profeta inspirado, para fazer um acréscimo aos livros canônicos. Que confusão de opiniões ele encontraria em quase todo assunto teológico! É bastante provável que seu ministério consistiria, ou pareceria consistir, apenas em meramente selecionar e ratificar dentre essas opiniões as que se harmonizassem com a mente de Deus. A originalidade absoluta pareceria quase impossível. A inventiva mente humana já esboçou mentalmente quase todas as formas concebíveis de opiniões especulativas, antecipando e roubando o futuro de sua justa proporção de novidades e deixando, mesmo para um mensageiro divino, pouco mais que o ofício de apanhar algumas dessas opiniões e imprimir nelas o selo do Céu.”32 Essas palavras poderiam ser aplicadas a Ellen White. Sua capacidade de ler muito e fazer cuidadosas seleções lhe forneceram as ferramentas que sua missão profética exigia.

Mentalmente equipada com o inspirado esboço da verdade, sua leitura abrangente muitas vezes lhe ajudava a preencher os detalhes com o fundo histórico apropriado e com as adaptações literárias que tornariam seus escritos convincentes, agradáveis e criativos. Escrevendo Para o Público em Geral Quando seus livros tiveram de ser publicados posteriormente para não adventistas, ela autorizou as revisões que eliminariam possíveis equívocos. Mais do que apenas autorizar, ela estimulava entusiasticamente tais revisões. Por exemplo, o capítulo “Educação Apropriada”, que se encontra agora em Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, págs. 131-138, também foi publicado em Health Reformer, de setembro de 1872, embora com algumas diferenças nas palavras, já que a revista se destinava especialmente ao público em geral. Sarah Peck, uma especialista em educação, passou a fazer parte do grupo de trabalho de Ellen White na virada do século. Uma de suas tarefas consistia em reunir os escritos da Sra. White que tratavam de princípios de educação. A Srta. Peck logo percebeu que essas matérias podiam ser divididas em dois grupos. Os mais apropriados para a igreja aparecem agora em determinadas seções dos Testemunhos Para a Igreja, vol. 6 (1900), e Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes (1913); os adequados para o público em geral encontram-se no livro Educação (1903). Enquanto ajudava a mãe a preparar a edição de 1911 de O Grande Conflito, W. C. White escreveu à Comissão de Publicações: “Em O Grande Conflito, vol. 4, publicado em 1885, no capítulo ‘Os Ardis de Satanás’, há três ou mais páginas de matéria que não foram empregadas em edições mais recentes, adaptadas para ser vendidas às multidões por nossos colportores. É a mais excelente e interessante leitura para os observadores do sábado, pois indica a obra que Satanás fará em persuadir pastores e igrejas populares a exaltar o descanso dominical e perseguir os observadores do sábado.”33

“Isso não foi omitido por ser menos verídico em 1888 do que em 1885, mas porque minha mãe achou que não era prudente dizer essas coisas às multidões a quem o livro seria vendido em anos futuros. ... “Com referência a estes e outros trechos de seus escritos que foram omitidos em edições posteriores, ela disse muitas vezes: ‘Essas declarações são corretas, e são úteis para o nosso povo; mas para o público em geral, para quem agora está sendo preparado este livro, são inoportunas. Cristo disse aos próprios discípulos: ‘Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.’ João 16:12. E Cristo ensinou Seus discípulos a ser ‘prudentes como as serpentes e símplices como as pombas’. Mat. 10:16. Portanto, como é provável que mais almas sejam ganhas para Cristo pelo livro sem esta passagem do que com ela, omiti-a. “Quanto às modificações nas formas de expressão, mamãe disse muitas vezes: ‘As verdades essenciais precisam ser ditas com franqueza; mas, na medida do possível, devem ser ditas em uma linguagem que atraia, e não ofenda.’”34 Os sermões de Ellen White eram muitas vezes publicados sob a forma de artigos em Signs of the Times ou na Review and Herald. Apesar disso, preparar artigos para a Review era mais fácil do que prepará-los para a revista Signs. Por quê? Porque os leitores da Review eram principalmente adventistas do sétimo dia, enquanto os da revista Signs eram sobretudo o público em geral. Experiências Pessoais Enriqueceram sua Produção Literária Os pregadores criativos possuem “predisposição homilética”, isto é, a tendência de aproveitar em seus sermões futuros dados colhidos em todas as suas leituras e experiências pessoais. Essas experiências enriquecem os temas sacros, aumentando o interesse dos ouvintes. Ninguém em tempo algum começa a pensar a partir de uma mente vazia. Na mente dos pensadores criativos o pensamento é a soma total de tudo quanto já leram ou experimentaram. Além de tudo o que Ellen White estava lendo, suas muitas experiências de viagem

contribuíram para a riqueza de seu pensamento. Depois de passar um dia num veleiro na Baía de São Francisco (1876), por exemplo, ela escreveu sobre a vida de Cristo. O assunto daquele dia foi Cristo andando sobre o Mar da Galiléia, e, em sua mente, ela viu os discípulos avançando com dificuldade através da noite tempestuosa. Em uma carta ao marido, ela continuou: “Pode você surpreender-se que eu fiquei em silêncio e feliz com esses grandiosos temas de contemplação? Estou contente por ter estado sobre as águas. Agora posso escrever melhor do que antes.”35 Em 1886, enquanto realizava reuniões em Valença, França, ela visitou a Catedral de Santo Apolinário, onde observou um impressionante culto católico. Os padres oficiavam com suas batinas brancas, tendo por cima estolas de veludo preto guarnecidas por um trançado dourado. Essa experiência ajudou-a posteriormente a descrever em O Grande Conflito a imponência do culto católico.36 Enquanto esteve em Zurique, Suíça, visitou a igreja Gross Munster, onde Zwinglio pregara durante a Reforma Protestante. Ela ficou intensamente interessada em ver a Bíblia de Zwinglio, e sua estátua em tamanho natural onde “uma das mãos repousa sobre o cabo da espada, enquanto a outra segura uma Bíblia”.37 À vista do fato de que ela estava, na época, fazendo acréscimos ao livro O Grande Conflito, especialmente na parte que tratava do período da Reforma Protestante, os comentários de Ellen White sobre a excursão que fez por aquela cidade são compreensíveis: “Coletamos muitos itens de interesse, os quais utilizaremos.”38 Variedade de Cartas Pessoais Ellen White jamais esperou que suas cartas pessoais fossem divulgadas ao público, exceto aquelas porções que ela mesma empregava mais tarde na elaboração de um artigo para periódico ou em cartas que julgava serem de interesse geral. Como se sentiriam as pessoas de hoje se sua correspondência pessoal, de repente, caísse em domínio público? Principalmente a correspondência escrita quarenta anos atrás? Especialmente cartas confidenciais endereçadas a membros da família?

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Ou cartas de reprovação a líderes preeminentes da igreja ou às esposas deles? Devemos, porém, ser realistas. Boa parte da correspondência particular e confidencial de Ellen White (cartas que ela jamais publicou) tornou-se pública. Como isso veio a acontecer? Examinemos as diversas maneiras. Devido à posição única que Ellen ocupava dentro da igreja, os destinatários passaram a guardar as cartas como preciosidade. Os membros mais antigos as legaram aos filhos ou as entregaram ao cuidado de pastores ou estudantes. Logo eles fizeram uma aplicação delas à própria vida, geralmente sem os antecedentes de tempo, lugar ou circunstâncias que forneceriam o contexto para o significado e propósito de cada carta. Essa falta de contexto, evidentemente, não tinha importância para aqueles que, de alguma forma, criam na inspiração verbal!39 Para muita gente, cada palavra dessas cartas se tornava muitas vezes a “palavra final” sobre qualquer assunto. O uso da expressão “a irmã White diz...”, na base dessas muitas cartas particulares, freqüentemente obstruiu mais ainda o pensamento, trazendo perplexidade desnecessária às discussões da igreja. Nos capítulos sobre “Hermenêutica” (32-34) discutiremos os problemas que surgem quando os escritos de Ellen White, principalmente suas cartas, são usados de maneira imprópria. Outra forma pela qual as cartas da Sra. White vieram a ser publicadas foi a liberação delas a pesquisadores por parte do Patrimônio Literário White. Depois que os pesquisadores utilizaram as cartas, o Patrimônio Literário White as disponibilizou nos 21 volumes dos Manuscript Releases. Outras cartas completas se encontram nos quatro volumes do 1888 Materials. Todas elas se acham disponíveis em CD-ROM [em inglês]. Muitas cartas de Ellen White foram enviadas a membros de sua própria família, inclusive colaboradores mais próximos. Numerosas são as cartas de afeto endereçadas a Tiago e aos filhos. Conforme já observamos40, algumas dessas cartas podem parecer rudes e defensivas. Ao levar em consideração o tempo, o lugar e a circunstância, o leitor de hoje poderá facilmente ter empatia com uma esposa e mãe atarefada, intensamente comprometida e algumas vezes cansada. A verdadeira prova de

uma carta familiar ocasional que hoje parece dura e insensível é a reação dos filhos e marido a essas cartas através dos anos. Os filhos amavam sua mãe ternamente e foram beneficiados pelo conselho dela. Tiago adorava a esposa, mesmo durante os dias sombrios de doença e depressão por que ele passou.41 Em 1876, Tiago White estava preparando uma biografia da esposa. Pelo fato de as cartas dela serem vistas como a mais “frutífera fonte” para acompanhar o desenvolvimento de seu extraordinário ministério, ele notificou na contracapa da edição da revista Signs de 10 de fevereiro que os amigos de sua esposa deviam “enviar todas as cartas que tivessem em mãos”. Típica de centenas de cartas encorajadoras é aquela enviada por Ellen White a duas jovens famílias, os Robinson e os Boyd, quando eles partiram do Quinto Conselho Europeu, realizado em Moss, Noruega, em junho de 1887, para dar início à obra missionária na África do Sul. Durante essa reunião, a Sra. White havia pregado sermões evangelísticos ao público em geral e sermões pastorais aos membros da igreja, dado conselhos em reuniões de negócios e partilhado experiências pioneiras com outros obreiros. Ao chegar, porém, a tarde de sábado, ela percebeu que seu trabalho ainda não estava concluído. Ela e a Sra. Ings caminharam até o bosque, estenderam uma manta e, em vez de repousar, escreveram uma carta de dez páginas de conselho e encorajamento aos jovens obreiros que estavam prontos para partir para o campo missionário. Aquela carta, agora conhecida como Carta 14, 1887, foi citada e publicada muitas vezes. Suas valiosas concepções têm, durante todos esses anos, servido de orientação para muitos obreiros.42 Às vezes, Ellen White era clara e direta em cartas confidenciais endereçadas a seus filhos bem como a coobreiros. Suas cartas pessoais a Edson parecem francas e até mesmo rudes, especialmente quando se ignora o contexto histórico. Não foi senão aos 44 anos de idade que Edson se revelou como pregador e educador comprometido. Em anos posteriores, ele foi o primeiro a promover a obra adventista no Sul dos Estados Unidos após a Guerra Civil. Quando era mais jovem, porém, relutava em assumir responsabilidade quanto a decisões financeiras e quanto a sua conduta.43 Quando Edson, com a idade de vinte anos,

pensou em casamento, sua mãe lhe escreveu uma de suas cartas mais francas. Nela, chamou a atenção para seu intelecto brilhante, “capaz de fazer dele um médico ou um executivo”, mas o acusou de ser um “esbanjador”. Faltava-lhe domínio próprio. “Papai chora pelo seu caso. Nós temos o mesmo parecer. Por enquanto você não está em condições de constituir família, pois no juízo e no domínio de si mesmo ainda é uma criança. Não tem força para resistir à tentação, embora cedendo a ela você traga vergonha sobre nós e você mesmo e desonre a Deus. Não suporta o jugo na sua juventude. Ama o ócio e a despreocupação.”44 Durante sua juventude, Edson entrou em conflito com o pai. Mamãe Ellen procurou muitas vezes manter a paz, o que talvez não tenha sido plenamente apreciado por ambos. Tiago cria que a esposa favorecia Edson durante a fase em que ele e o filho tinham dificuldade em comunicar-se. Se ela assim procedia, era talvez porque compreendesse melhor do que ninguém as circunstâncias especiais que envolveram Edson durante seus primeiros dias de vida, tais como uma gestação tensa e influências pré-natais desfavoráveis; seu estado de saúde precário quando bebê; e desde cedo as freqüentes separações enquanto os pais viajavam de um Estado a outro promovendo a união dos primeiros adventistas do sétimo dia. Essas foram as circunstâncias a que ela (na época com 50 anos de idade) se referiu quando escreveu a William em 1878: “As circunstâncias do nascimento dele [em 1849] foram completamente diferentes das do seu nascimento. Embora ninguém saiba, mamãe sabe.”45 Durante os anos de formação dos filhos, Ellen White cria que ela e Tiago haviam “falhado” em restringir os filhos de seguir “suas próprias inclinações e desejos”, mas que ao mesmo tempo os havia censurado e criticado “em um espírito que somente os machucará e desanimará em vez de ajudá-los”.46 Tiago e Ellen White passaram pelas “dores do crescimento” que a maioria dos pais sérios e comprometidos passam em seu elevado objetivo de ser responsáveis pelos filhos perante Deus. Não bastasse isso, ela recebera esclarecimento divino sobre a maldição que sobreveio a

Eli e seus filhos devido à complacência do pai com o pecado dos filhos, e não queria cair em erro semelhante.47 Com esses antecedentes, pode-se compreender melhor as cartas que ela escreveu a Edson, como a seguinte (na qual estava assinalada “Leia isto sozinho. Particular”): “Meu querido filho Edson [15 anos de idade]: Quando fomos para Monterey no último verão, por exemplo, você entrou no rio quatro vezes e não apenas nos desobedeceu, mas ainda por cima levou Willie à desobediência. Desde aquele tempo, ao convencer-me de que você não era confiável, um espinho ficou cravado em meu coração. ... Uma tristeza inexplicável amortalha nossa mente com relação à sua influência sobre Willie. Você o leva a hábitos de desobediência, dissimulação e mentira. Vemos que esta influência tem afetado nosso Willie, que é veraz e nobre de coração. ... Você raciocina, fala e faz as coisas parecerem todas inofensivas para ele, quando ele não consegue enxergar o resultado das coisas. Ele adota seu ponto de vista a respeito disto e corre o risco de perder sua candura e sinceridade. ... Você teve tão pouco senso do verdadeiro valor do caráter. Parecia agradar-se tanto com a companhia de Marcus Ashley como com a de seu inocente irmão Willie. Você nunca o prezou como ele merecia. Ele é um tesouro, amado por Deus, mas receio que sua influência o arruíne.”48 Temos nesta carta a típica sinceridade de uma mãe que prezava a sinceridade nos filhos. Em sua tentativa de despertar a consciência de Edson e tornar mais fácil para ele o cumprimento das expectativas paternas, utilizou o jovem Willie (cinco anos mais novo) como modelo para Edson. Anos depois admitiu que essa espécie de comparação entre irmãos não era o melhor método, ainda que ambas as crianças tivessem provas abundantes do amor materno. Ela mantinha sempre em mente os interesses eternos dos filhos, e simplesmente não queria que seu amor fosse confundido com condescendência. Como se Desenvolveram as Categorias de Produção Literária Durante seus anos mais produtivos, principalmente após 1881, Ellen White manteve uma torrente constante de cartas, sermões,

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artigos para periódicos e livros. Esses materiais foram posteriormente adaptados em outras formas para publicação, por suas assistentes literárias. Sermões tornaram-se artigos para periódicos, e cartas, sermões e artigos foram muitas vezes reunidos sob a forma de livro. O resultado era prodigioso, conforme as revistas Review e Signs o atestam, além dos livros que surgiram de sua pena durante os últimos trinta e cinco anos de sua vida. Diários. O Patrimônio Literário White possui cerca de 60 diários pertencentes a Ellen White que remontam a 1859. Alguns registram acontecimentos do dia-a-dia, iguais aos diários como os conhecemos hoje; outros são simplesmente livros de folhas pautadas usados para escrever cartas ou manuscritos de natureza geral. Não é incomum encontrar uma série de escritos de diversos anos num único diário, anos que poderiam sobrepor-se aos escritos de outros diários. Isso se deve ao fato de que ela regularmente passava esses livros para suas secretárias copiarem. Assim, vários livros podiam estar em uso ao mesmo tempo, alguns nas mãos de copistas, enquanto ela continuava a escrever em outro diário disponível. Cartas. Editar as cartas de Ellen White antes de enviá-las pelo correio envolvia mais do que datilografar seus originais manuscritos. W. C. White observou o processo numa carta endereçada à mãe, depois de receber uma longa carta dela para A. C. Bordeau (4.000 palavras). Ele conta que sua esposa, Mary, “procurava corrigi-las conforme suas forças”.49 “Corrigi-las” significava que ajustes gramaticais eram esperados. Esse tipo de assistência redacional pode ser visto facilmente quando se compara matérias apressadamente escritas à mão com as cópias editadas e datilografadas. Sermões e Artigos Para Periódicos. Muitos dos sermões de Ellen White foram estenografados. Mary K. White e Mary Clough, além de outras, muitas vezes prepararam sermões para publicação. Ambas as revistas da igreja buscavam esses artigos regularmente. Em virtude das interrupções de viagem e outros prazos literários de urgência, não era fácil manter a agenda de trabalho. Para facilitar as coisas para todos os envolvidos, principalmente para suas assistentes sob grande pressão, Ellen

White dava permissão para os redatores da Review e de Signs apanharem os originais datilografados e os prepararem conforme suas necessidades específicas. Ao proceder assim, eles deviam “suprimir os assuntos pessoais da matéria e torná-la genérica, empregando-a como julgassem melhor para os interesses da causa de Deus”.50 Embora os redatores houvessem ganho tal confiança, mudavam o menor número possível de palavras e frases para ajustar o texto a sua necessidade. Atribui-se a isso as pequenas diferenças entre os artigos para periódicos e o mesmo material usado posteriormente num livro. Livros (com exceção de Testemunhos Para a Igreja). Durante a década de 1890, diversos livros estavam sendo processados simultaneamente, inclusive Obreiros Evangélicos, Caminho a Cristo51 e O Desejado de Todas as Nações52 – sendo o primeiro uma compilação completa, e os dois últimos, a maior parte compilação e reorganização de matéria escrita anteriormente. Marian Davis, “Minha Compiladora de Livros” Em uma carta datada de 1900 e endereçada a G. A. Irwin, Ellen White chamou Marian Davis de “minha compiladora de livros”. Na mesma carta, ela descreveu como Marian trabalhava: “Toma meus artigos que são publicados nas revistas e cola-os em livros em branco. Também possui uma cópia de todas as cartas que escrevo. Ao preparar um capítulo para um livro, Marian se lembra de que eu escrevi alguma coisa sobre esse ponto especial, que talvez torne o assunto mais convincente. Ela começa a procurá-lo, e se, ao encontrá-lo, percebe que isso tornará o capítulo mais claro, acrescenta-o a ele. “Os livros não são produções de Marian, porém minhas, tirados de todos os meus escritos. Marian tem vasto campo de que colher, e sua habilidade em arranjar matéria é de grande valor para mim. Ela me poupa o ficar atenta a uma massa de escritos, o que não tenho tempo de fazer.”53 Marian escreveu a Willie expressando o peso do trabalho dela: “Talvez você possa imaginar a dificuldade que é procurar reunir pontos relacionados a um assunto, quando esses devem ser coligidos de trinta álbuns de re-

cortes de revistas, de meia dúzia de volumes encadernados [E. G. White] e cinqüenta manuscritos, todos abrangendo milhares de páginas.”54 Mas Marian não redigia nada. Quando Marian morreu em 1904, Ellen White recordou sua companheira íntima com grande apreciação: “Estivemos lado a lado na obra, e em perfeita harmonia nessa obra. E quando juntava os preciosos fragmentos que tinham aparecido em revistas e livros e os apresentava a mim, ela dizia: ‘Agora está faltando alguma coisa. Eu não posso supri-la.’ Eu examinava o que era, e num momento conseguia achar o fio da meada. Trabalhamos juntas, sim trabalhamos juntas em perfeita harmonia durante todo esse tempo.”55 Outros, inclusive Mary White, J. H. Waggoner, W. W. Prescott e J. H. Kellogg, também ajudaram W. C. White e Marian Davis na elaboração dos livros. O Dr. Kellogg auxiliou na publicação de Christian Temperance and Bible Hygiene. Escrevendo a introdução do livro, chamou a atenção para a maneira como o livro foi elaborado: “Este livro não consiste numa nova apresentação... mas é apenas uma compilação e, em alguns aspectos, um sumário dos diversos escritos da Sra. White a respeito deste assunto, ao qual se acrescentou diversos artigos do Pastor Tiago White, esclarecendo os mesmos princípios e a experiência pessoal do Pastores J. N. Andrews e José Bates, dois dos pioneiros do movimento da saúde entre os adventistas do sétimo dia. O trabalho de compilação foi feito sob a supervisão da Sra. White por uma comissão que ela designou para este propósito, e o original foi cuidadosamente examinado por ela.”56 Testemunhos. O termo “testemunhos” logo se tornou bem conhecido entre os adventistas do sétimo por três razões: (1) os adventistas que no passado haviam sido metodistas estavam acostumados com reuniões “sociais” e reuniões de “testemunho”, onde os membros relatavam experiências pessoais e seus compromissos de fé; (2) as mensagens que Ellen White apresentava a outros, quer oralmente, quer por escrito, tornaram-se conhecidas como “testemunhos”; (3) as compilações publicadas de cartas, originais e artigos

para periódicos previamente publicados foram finalmente reunidos em nove volumes conhecidos como Testemunhos Para a Igreja. Esses “testemunhos” eram escritos sempre que Ellen White dispunha de tempo e oportunidade para escrever as revelações recebidas, seja por meio de sonhos noturnos, seja por meio de visões diurnas. Uma oportunidade interessante ocorreu em Adams Center, Nova Iorque, no começo de novembro de 1863. Quase toda uma Igreja Batista do Sétimo Dia se havia convertido à mensagem adventista. Tiago e Ellen pregaram diversas vezes, como o fizera J. N. Andrews. Na tarde de domingo, enquanto Andrews pregava, a Sra. White escreveu seis páginas durante o sermão, e isto a apenas a um metro e meio do púlpito, usando a Bíblia como suporte. Quando o sermão terminou, ela se levantou e se dirigiu à congregação. Certo membro da igreja relatou na Review que “as palavras dela eram suficientes para derreter um coração de pedra”. A capacidade de concentração que ela possuía é bem ilustrada pela maneira como reagiu mais tarde no mesmo dia ao ser interpelada por alguém que queria saber o que ela achava de Andrews como pregador. Ela respondeu que “não podia dizer, visto fazer muito tempo que o havia escutado pregar”.57 Muitas das mensagens originais e pessoais de Ellen White foram posteriormente reconhecidas como tendo valor também para outras pessoas. Atendendo a solicitações, os White providenciaram para imprimi-las em forma de brochura. Os dez primeiros desses Testemunhos, entre 1855-1864, continham de 16 a 240 páginas cada um, publicados em formato de bolso. Em 1874 os dez primeiros foram reimpressos na forma de livro. (Obviamente, após dez anos, os originais, não em forma permanente, não eram facilmente acessíveis.) Contudo, a revisão feita em 1881-1883 dos Testemunhos publicados anteriormente, 1-28, tornou-se um projeto de maior envergadura. O fato de os escritos públicos de uma mensageira poderem ou deverem ser “revisados” trouxe novo enfoque sobre a maneira como Deus atua por meio de Sua

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mensageira. Para muitas pessoas, isso parecia ser uma nova concepção. Em 1878, a Associação Geral votou que todos os Testemunhos anteriores fossem reimpressos de forma permanente. A reimpressão implicou uma completa recomposição dos tipos, criando um novo formato de página e fornecendo paginação consecutiva. Ellen White e seus assistentes mais próximos (W. C. e Mary White, Marian Davis, Eliza Burnham e J. H. Waggoner) viram tal solicitação como uma oportunidade para melhorar imperfeições gramaticais e tornar mais claras algumas expressões. O alvo dela continuava sendo apresentar a verdade da maneira mais clara possível. Por que as Revisões Foram Necessárias Em 1883, uma resolução da Associação Geral endossa o voto de 1878, chamando a atenção para as circunstâncias em que os Testemunhos haviam sido escritos: “Muitos desses testemunhos foram escritos sob as mais desfavoráveis circunstâncias, achando-se a autora demasiado premida de ansiedade e trabalho para dar atenção à perfeição gramatical dos escritos, e os mesmos foram impressos tão apressadamente que deixaram passar tais imperfeições sem serem corrigidas; etc.”58 Os redatores levaram a sério essa tarefa de revisão. Mary escreveu ao marido W. C. White: “Com respeito às modificações, procuraremos aproveitar as suas sugestões. Persegue-me dia e noite o receio de fazer alterações excessivas ou de alguma maneira mudar o sentido.”59 Mas nem todos estavam entusiasmados com a revisão dos Testemunhos publicados. Surgiram no coração da liderança da igreja sombrios temores. Da Assembléia da Associação Geral em 1882, W. C. White escreveu à esposa Mary informando-a da resistência: “Butler e Haskell não encontram falhas graves nas provas do Testemunho, mas dizem que não vêem nenhum benefício em aproximadamente um terço das alterações. Eles desejam que você vá com eles às reuniões e veja homens como Mooney [polemista antiadventista] apresentar uma edição e depois outra, mostrar as alterações e tentar chamar a atenção especial para isso. Eu argumentei que

não havia salvação em erros gramaticais, etc. Um pensamento expresso gramaticalmente correto é tão bom para alcançar o coração duro e pecaminoso quanto o expresso incorretamente.”60 Os temores vinham de duas direções: os líderes sabiam (1) que os críticos da denominação aproveitariam sofregamente a oportunidade para mostrar que a “profetisa” adventista não era confiável, que era manipulada pelas circunstâncias e por outras pessoas; (2) que alterar o que havia sido publicado desestabilizaria alguns adventistas, fazendo-os crer que haviam sido desencaminhados e que Ellen White não era um guia seguro. Eram esses temores justificados? Sim e não. Os temores eram justificados quando os líderes observaram que muitas pessoas, tanto adventistas quanto não adventistas, adotavam um ponto de vista inadequado sobre a maneira como Deus fala a Seus mensageiros humanos. Eles criam que Deus ditava as palavras exatas que os profetas empregavam em revelar as mensagens divinas. Contudo, os temores eram desnecessários sempre que as pessoas entendiam que Deus inspirava o mensageiro com pensamentos, e não com palavras. Em 1883, a resolução da Associação Geral esclareceu da melhor maneira possível a verdade sobre a natureza da revelação/inspiração: “Cremos que Deus dá a Seus servos a luz mediante a iluminação da mente, comunicando assim os pensamentos e não (a não ser em raros casos) as próprias palavras em que as idéias devem ser expressas; portanto, “Fica resolvido que se façam na reedição desses volumes as modificações verbais necessárias à remoção das mencionadas imperfeições, o quanto possível, sem qualquer alteração do pensamento.”61 A resolução da Associação Geral tornouse uma referência para a compreensão adventista do processo revelação/inspiração.62 Oposição às Revisões Os temores, porém, não se dissiparam. Uriah Smith, redator da revista da igreja, como muitos outros, opôs-se às revisões, mesmo depois de a resolução ter sido aprovada. Três meses depois da assembléia, Ellen White escreveu a Smith, defendendo o projeto de re-

visão, que estava quase concluído: “Foram recebidas informações provenientes de Battle Creek de que a obra relacionada com os Testemunhos não está sendo aceita. Desejo declarar algumas coisas, com as quais poderá fazer o que lhe aprouver. Já me ouviu fazer essas declarações antes – que me foi mostrado anos atrás que não devíamos adiar a publicação da importante luz que me foi dada porque não pude preparar o assunto com perfeição. Meu marido às vezes estava muito doente, incapaz de prestar-me a ajuda que eu deveria ter e que ele me poderia haver concedido caso estivesse com saúde. Por este motivo demorei a pôr diante do povo aquilo que me fora dado em visão. “Mostrou-se-me, porém, que devia apresentar ao povo, da melhor maneira possível, a luz recebida; então, à medida que recebesse maior luz e usasse o talento que Deus me deu, teria crescente habilidade para usar em escrever e falar. Eu devia melhorar tudo, conduzindo-o tão perto da perfeição quanto fosse possível, para que pudesse ser aceito por mentes inteligentes. “Tanto quanto possível, todo defeito devia ser removido de todas as nossas publicações. À medida que se desdobrasse a verdade e se tornasse mais difundida, devia ser exercido todo cuidado para aperfeiçoar as obras publicadas. “Com respeito à History of the Sabbath, do irmão Andrews, vi que ele adiou a obra por muito tempo. Obras errôneas estavam ocupando o terreno e obstruindo o caminho, para que as mentes fossem imbuídas de preconceitos pelos elementos oponentes. Vi que assim se perderia muita coisa. Depois que se esgotasse a primeira edição, ele poderia fazer melhoramentos; mas ele estava se esforçando demais para chegar à perfeição. Essa demora não era o que Deus desejava. “Pois bem, irmão Smith, tenho feito cuidadoso exame crítico do trabalho efetuado nos Testemunhos, e vejo algumas coisas que penso deverem ser corrigidas na questão apresentada à sua pessoa e a outros na Associação Geral [novembro de 1883]. No entanto, ao examinar o assunto com mais atenção, vejo cada vez menos algo que seja

censurável. Onde a linguagem usada não é a melhor, quero que a tornem correta e gramatical, como creio que devia ser em todo caso em que for possível, sem destruir o sentido. Este trabalho está sendo adiado, o que não me apraz. ... “Meu espírito tem-se concentrado na questão dos Testemunhos que foram revisados. Nós os examinamos de maneira mais criteriosa. Não posso ver a questão como meus irmãos a vêem. Penso que as modificações melhorarão o livro. Se nossos inimigos o manusearem, que o façam. ... “Acho que tudo que for publicado será criticado, torcido, deturpado e enlameado, mas devemos avançar com a consciência limpa, fazendo o que podemos e deixando o resultado com Deus. Não devemos adiar a obra por mais tempo. “Agora, meus irmãos, que pretendem fazer? Não quero que este trabalho se prolongue mais ainda. Quero que se faça alguma coisa, e que se faça agora.”63 Mas a carta de Ellen White a Uriah Smith não foi suficientemente forte. Prevaleceram os temores de que as modificações destruiriam a confiança nos escritos dela. “Uriah Smith enfrentou uma saraivada de oposição por parte dos crentes de Battle Creek. Ninguém iria tocar nos Testemunhos deles!”64 Mas a Sra. White, com bom senso e discernimento, reconheceu os temores da liderança e fez seus assistentes “revisarem outra vez” o projeto, de modo que somente as imperfeições mais gritantes fossem alteradas. William explicou tudo isso a O. A. Olsen: “Recolocamos muitas páginas referentes àquilo que havia sido criticado em Battle Creek e fizemos centenas de modificações nas chapas para levar a fraseologia da nova edição tão próxima quanto possível da fraseologia da antiga sem tornar as expressões deselegantes e a gramática incorreta.”65 Os primeiros quatro volumes dos Testemunhos Para a Igreja, conforme os temos hoje, conserva as correções da impressão de 1885. Experiência da Revisão Ensina Lições O que aprendemos dessa experiência de revisão? 1. Temos uma compreensão “oficial”

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do que os adventistas crêem sobre revelação/inspiração. Os adventistas defendem a inspiração do pensamento, não a inspiração verbal. 2. Temos um exemplo dos problemas que surgem quando as pessoas adotam uma concepção errada do processo de revelação/inspiração. A compreensão incorreta da maneira como os pensamentos de Deus se convertem nas palavras de um mensageiro inspirado afeta diretamente a maneira como a pessoa lê a Bíblia bem como os escritos de Ellen White. A compreensão equivocada deste assunto cria problemas na compreensão da verdade, podendo finalmente destruir a confiança tanto na Bíblia como nos escritos da Sra. White quando se descobrem imperfeições de linguagem. 3. A publicação dos Testemunhos conforme revisados em 1885 foi usada por críticos dos adventistas para atacar a inspiração de Ellen White. Pelo fato de muitos críticos crerem que as verdadeiras mensagens proféticas são verbalmente inspiradas, eles ficam grandemente perturbados quando aquelas palavras são alteradas ou contestadas. Neste sentido, as modificações nos escritos da Sra. White são, para eles, evidências claras de que esses escritos não foram inspirados por Deus. Em sua carta a Uriah Smith, Ellen White escreveu que sabia que “inimigos” usariam a revisão para zombar dos adventistas, mas ela disse: “Deixem que façam isso.” Ela não faria a verdade silenciar apenas para evitar ataques injustos e inescrupulosos fundamentados numa compreensão errônea da maneira como a inspiração funciona. Não decorreu muito tempo, e D. M. Canright “usou” a revisão! Em 1889, esse ex-pregador adventista, que havia entrado e saído do ministério pelo menos quatro vezes, escreveu em seu livro mordaz Seventh-day Adventism Renounced: “Em 1885 todos os ‘testemunhos’ dela foram republicados em quatro volumes, sob as vistas do próprio filho e de um redator crítico. Abrindo aleatoriamente o volume um em quatro diferentes páginas, lias e comparei-as com a publicação original que possuo. Encontrei em média vinte e quatro alterações de palavras em cada página! As palavras dela foram removidas e substituídas por outras, e outras modificações, em alguns casos tantas que foi difícil confrontar as duas edições. Se aplicarmos essa mesma proporção

aos quatro volumes, deve haver 63.720 alterações. “Levando-se, depois, em conta as palavras que foram postas por seu marido, pela copista, pelo filho, pelos redatores e as que ela copiou de outros autores, abrangem provavelmente de um décimo a um quarto de todos os seus livros. Que bela inspiração!”66 Embora Canright tenha exagerado bastante na quantidade de revisões efetuadas, ele não estava sozinho em seu desassossego em relação às revisões das obras publicadas de Ellen White. Líderes como W. W. Prescott, S. N. Haskell e Milton Wilcox (redator da revista Signs of the Times) defendiam alguma forma de inspiração verbal que, por sua vez, influiu sobre as atitudes que adotaram posteriormente em relação a determinadas questões doutrinárias. Prescott, particularmente, parecia ter sofrido a influência de um livro de ampla circulação de autoria de Louis Gaussen, Theopneustia (1841), que era uma clara defesa da infalibilidade bíblica.67 Gaussen e, tempos depois, Prescott viveram em uma época de grande reviravolta teológica. Racionalistas ingleses, místicos alemães e incipientes liberais norte-americanos combinavam métodos da alta crítica em seu frontal ataque contra a integridade da Bíblia. Gaussen e outros eram líderes que defendiam os princípios cristãos fundamentais, embora a maior parte dessa defesa estivesse entrincheirada por detrás do fosso da infalibilidade bíblica, a qual, para eles, significava alguma forma de inspiração verbal. Eles criam que era uma guerra de um contra o outro: ou a alta crítica ou a inspiração verbal. Querendo defender a elevada concepção da Escritura, empregavam um ponto de vista de inspiração verbal indefensável. Gaussen, por exemplo, cria que as palavras do profeta eram inspiradas, e não o profeta: “Se as palavras do livro são ditadas por Deus, que me importam os pensamentos do escritor?”68 Com o passar dos anos, a confusão anterior de Prescott, junto com a de outros líderes, contribuiu para expectativas desnecessárias e inexeqüíveis com relação aos escritos de Ellen White. Essa confusão irrompeu de tempos em tempos, especialmente na Assembléia Bíblica de 1919, e, depois, na década de 1970.69 Muitos pastores e leigos, pelo fato de não

terem sido claramente instruídos, continuam a sentir-se mais seguros com algumas formas de inspiração verbal. A instrução cautelosa
Referências
1. Uma pesquisa de Roger Coon (a partir de 1983) feita na Biblioteca do Congresso, Washington, D.C., revelou os seguintes dez escritores modernos mais traduzidos: “1. Vladimir I. Lenin, líder comunista russo – 222 línguas; 2. Georges Simenon, escritor franco-belga de romance policial – 143 línguas; 3. León Tolstoy, romancista russo – 122 línguas; 4. Ellen G. White, co-fundadora norte-americana dos ASD – 117 línguas [mais de 140 a partir de 1996 tornam Ellen White possivelmente a segunda escritora mais traduzida de todos os tempos]; 5. Karl Marx, filósofo socialista alemão – 114 línguas; 6. William Shakespeare, dramaturgo inglês – 111 línguas; 7. Agatha Christie, escritora inglesa de romances de mistério – 99 línguas; 8. Jakob e Wilhelm Grimm, organizadores alemães de numerosos contos de fada – 97 línguas; 9. Ian Fleming, criador britânico dos romances policiais de James Bond – 95 línguas; 10. Ernest Hemingway, romancista norte-americano – 91 línguas.” – A Gift of Light (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1983), págs. 30 e 31. Naturalmente, os escritores bíblicos têm sido mais traduzidos do que quaisquer outros. 2. Pode-se obter uma lista completa de todos livros e folhetos publicados por Ellen G. White em Ellen G. White Estate (Patrimônio Literário White), 12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, Maryland 20904-6600, USA. 3. Biography, vol. 1, págs. 91 e 92. 4. “Nós usamos o dactilógrafo [máquina de escrever] com bons resultados.” – Manuscrito 16a, 1885, citado em Biography, vol. 3, pág. 291. A máquina de escrever, apesar de ter sido inventada em 1843, recebeu numerosos melhoramentos até 1883, quando Remington vendeu 3.000 máquinas contendo teclas que possibilitavam o uso de caixa alta e caixa baixa. Em 1894, Underwood produziu uma máquina datilográfica que permitia ao datilógrafo ver o que estava sendo escrito. – James Trager, The People’s Chronology (New York: Henry Holt and Company, 1992), págs. 435, 548, 566 e 612. 5. William C. White, “Sketches and Memories of James and Ellen White”, Review and Herald, 13 de fevereiro de 1936. 6. Citado em Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igreja Remanescente, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), pág. 331. 7. Ibidem. 8. Manuscrito 4, 1891, citado em ibidem. 9. Carta 28, 1906, citado em ibidem, pág. 332. 10. “Enquanto meu marido viveu, desempenhou o papel de ajudador e conselheiro no envio das mensagens que me eram dadas. Viajávamos longamente. Por vezes eram-me concedidos esclarecimentos durante a noite, outras, de dia, perante grandes congregações. As instruções recebidas em visão eram fielmente escritas por mim, segundo eu tinha tempo e força para a obra. Posteriormente examinávamos juntos o assunto, meu marido corrigia os erros gramaticais e eliminava as repetições desnecessárias. Então elas eram cuidadosamente copiadas para a pessoa a quem se dirigiam, ou para o prelo. À medida que a obra aumentou, outros me auxiliaram no preparo da matéria para a publicação. Depois da morte de meu marido, juntaram-se a mim fiéis auxiliares, que trabalharam infatigavelmente em copiar os testemunhos e preparar os artigos para serem publicados. As notícias que têm circulado, porém, de que qualquer de minhas auxiliares tenha permissão de acrescentar matéria ou mudar o sentido das

da liderança, tal como a que W. C. White procurou comunicar, cai geralmente em ouvidos moucos.70

mensagens que escrevo, não são reais.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 89. 11. As páginas 14-16 tratam dos ajudantes literários dos escritores bíblicos. 12. As páginas 16, 120, 173, 375, 376 e 421 tratam da diferença entre inspiração verbal e inspiração do pensamento. 13. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 90. 14. Carta 103, 1895, a Marian Davis, citada em “The Fannie Bolton Story” (Washington, D.C.: Patrimônio Literário White, 1982), pág. 49. 15. W. C. White a G. A. Irwin, 7 de maio de 1900. Poerion citado em Moon, W. C. White and Ellen White, pág. 115. Tim Poirier descreve “dois níveis” de edição entre o original de Ellen White, documentos manuscritos, e suas formas atuais conforme referidas em 7 de maio de 1900, em uma Carta a G. A. Irwin. O Nível Um refere-se a “corrigir erros gramaticais, eliminar repetições desnecessárias, etc.” As mais experientes assistentes de Nível Dois iam além do nível de apresentar o material na forma gramatical desejada; elas reorganizavam, reuniam e compilavam o material datilografado do Nível Um num novo documento literário (“incluía-o em outro original”), como um artigo para periódico ou um livro (por exemplo, o Caminho a Cristo e O Desejado de Todas as Nações). As fotocópias de como esses dois níveis se desenvolveram em diversos estágios dos materiais de Ellen White encontram-se em “Exhibits Regarding the Work of Ellen White’s Literary Assistants”, 1990, de Tim Poirier, disponíveis nos Centros de Pesquisa ASD Ellen G. White. 16. A princípio, Mary K. White e Marian Davis eram as principais assistentes. “Entre as que ajudaram Ellen White a preparar seus escritos para publicação através dos anos encontramse Tiago White, Mary Kelsey-White, Lucinda Abbey-Hall, Adelia Paten-Van Horn, Anna Driscol-Loughborough, Addie Howe-Cogshall, Annie Hale-Royce, Emma SturgessPrescott, Mary Clough-Watson, Sra. J. I. Ings, Sra. B. L. Whitney, Eliza Burnham, Fannie Bolton, Marian Davis, C. C. Crisler, Minnie Hawkins-Crisler, Maggie Hare, Sarah Peck e D. E. Robinson.” – Robert W. Olson, One Hundred and One Questions (Washington, D.C.: Patrimônio Literário White, 1981), pág. 87. 17. Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 114. 18. Carta de Marian Davis a W. C. White, 11 de abril de 1897. Em uma Carta de Marian Davis a G. A. Irwin: “Faz mais de vinte anos que estou ligada à obra da irmã White. Durante este tempo jamais ela me pediu para transcrever um testemunho a partir de instrução oral, ou inserir informações em matérias já escritas.” – Anexada à Carta 61a, 1900, de Ellen White endereçada a G. A. Irwin. 19. Marian Davis a W. C. White, 9 de agosto de 1897, citado em Robert W. Olson, How The Desire of Ages Was Written, pág. 34. 20. MR, vol. 10, pág. 12. Enquanto Tiago White estava na Costa Oeste lançando as primeiras edições de Signs of the Times (1874), sua esposa escreveu de Battle Creek: “Acabamos de concluir Sufferings of Christ. Willie me ajudou, e agora nós o levamos à editora para que Uriah [Smith] o critique. Acho que dará um folheto de 32 páginas.” – Cartas, 11 e 17 de julho de 1874. 21. W. C. White a David Paulson, sobre o original do livro A Ciência do Bom Viver, 15 de fevereiro de 1905. (WEDF 140-a.) 22. Carta 84, 1898: “Leio do princípio ao fim tudo que é copiado, para ver que tudo esteja como deve estar. Leio todos os

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54. Marian Davis a W. C. White, 29 de março de 1893, citado em Biography, vol. 4, pág. 383. 55. Manuscrito 95, 1904, citado em ibidem (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 93). 56. Biography, vol. 3, págs. 446 e 447. Ver J. H. Kellogg, prefácio de Christian Temperance and Bible Hygiene, de E. G. White e Tiago White (Battle Creek, MI: Good Health, 1890), pág. iv. 57. Biography, vol. 2, págs. 68 e 69. 58. Review and Herald, 27 de novembro de 1883, Resolução No 33, 741 (Nota de Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 96). 59. Biography, vol. 3, pág. 218. 60. W. C. White a M. K. White, 31 de dezembro de 1882, citado em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 124. 61. Biography, vol. 3, pág. 219 (Nota de Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 96). 62. Esta declaração sobre revelação/inspiração não era nenhuma novidade para os adventistas do sétimo dia. Em carta a L. E. Froom, W. C. White escreveu: “Essa declaração feita pela Associação Geral em 1883 estava em perfeita harmonia com as crenças e posições dos pioneiros desta Causa, e era, penso eu, a única posição adotada por todos os nossos pastores e professores até que o Prof. [W. W.] Prescott, presidente do Colégio de Battle Creek, apresentou de maneira muito vigorosa um outro conceito – o conceito mantido e defendido pelo Prof. Gausen [Gaussen]. A aceitação desse conceito pelos estudantes do Colégio de Battle Creek e muitos outros, incluindo o Pastor Haskell, resultou na introdução em nossa obra de questões e perplexidades sem fim, e em constante aumento.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 454. 63. Carta 11, 1884, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 96-98. 64. Alden Thompson, “Improving the Testimonies Through Revisions”, Adventist Review, 12 de setembro de 1985, pág. 14. 65. 11 de julho de 1885, citada em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 128. 66. D. M. Canright, Seventh-day Adventism Renounced (New York, Fleming H. Revell Company, 1889), pág. 141. W. H. Branson escreveu uma réplica de 395 páginas a Canright, In Defense of the Faith (Washington, D.C.: Review and Herald, 1933). 67. François Samuel Louis Gaussen (1790-1863), um pastor suíço reformado, foi o autor de muitas obras calvinistas, embora a mais conhecida seja Theopneustia. – J. D. Douglas, editor, The New International Dictionary of the Christian Church (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1974), pág. 402. 68. F. S. L. Gaussen, The Plenary Inspiration of the Holy Scriptures (London: Samuel Bagster, tradução inglesa, 1841), pág. 304. 69. Ver págs. 439 e 440. 70. Ver o artigo em quatro partes de Alden Thompson, “Adventists and Inspiration”, Adventist Review, 5, 12, 19 e 26 de setembro de 1985.

originais dos livros antes de serem enviados para o prelo. Podem ver, portanto, que meu tempo precisa ser muito bem aproveitado.” – Carta 133, 1902, citado em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 90. “Desejo escrever palavras que removam da mente de qualquer dos meus irmãos a impressão de que não li, antes de sua publicação, as páginas de Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, que falam sobre o trabalho no domingo. Li esta matéria antes de ela ser enviada para o prelo, e já li o livro diversas vezes, e não consegui ver nele nada que dê a alguém razão para dizer que ali é ensinada a observância do domingo. O conselho apresentado neste livro não contradiz a Bíblia nem meus testemunhos anteriores.” – Carta 94, 1910, citada em MR, vol. 8, pág. 21. 23. Eventos Finais, págs. 123-142. 24. Esses cadernos de folhas pautadas estão expostos no escritório do Patrimônio Literário White, em Silver Spring, Maryland. 25. Battle Creek, MI: Steam Press of the Seventh-day Adventist Publishing Association, 1863. 26. Oakland, CA: The Pacific Press, 1877, 1878, 1881; Nashville, TN: M. A. Vroman, editor, 1905. 27. Data desconhecida. 28. Em 1881, Tiago White escreveu: “A Sra. White é grande leitora, e em nossas longas viagens ela tem reunido grande quantidade de livros e revistas infantis dos quais seleciona lições morais e religiosas a fim de lê-las para seus próprios e queridos filhos. Faz quase trinta anos que ela começou a fazer isto. Compramos todas as séries de livros para crianças e jovens, impressos na América do Norte e na Europa em língua inglesa que chegou ao nosso conhecimento, e adquirimos, tomamos emprestado e solicitamos uma quantidade quase incontável de diversos livros dessa categoria. ... Publicamos ali a Sunshine Series, uma coleção de pequenos livros para crianças de 5 a 10 anos de idade; a série Golden Grains, para crianças de 10 a 15 anos, e os volumes de Sabbath Readings for the Home Circle para leitores mais avançados. ... Que livros valiosos! Os compiladores passaram anos lendo e rejeitando noventa e nove partes e aceitando uma. Livros preciosos, de fato, para jovens preciosos.” – Review and Herald, 21 de junho de 1881. 29. Carta 189, 1900, citado em Biography, vol. 4, pág. 448. 30. Arquivo de Correspondência do Patrimônio Literário White, citado por Robert W. Olson, “Ellen G. White’s Use of Historical Sources in The Great Controversy”, Adventist Review, 23 de fevereiro de 1984. 31. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 441. 32. The Great Teacher, páginas xxxiii, xxxiv. 33. Estas páginas se encontram em Testemunhos Para Ministros, págs. 472-475. 34. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 443 e 444. Numa declaração feita por W. C. White ao Concílio da Associação Geral, em 30 de outubro de 1911, ele disse (a respeito das mudanças feitas na edição de 1911 de O Grande Conflito): “Em vários lugares, houve modificação na forma das expressões, a fim de evitar desnecessária ofensa. Um exemplo disto é a mudança da palavra ‘Romish’ [romanista, papista] para ‘romano’ ou ‘católico romano’. Em dois lugares a expressão ‘divinity of Christ’ é mudada para ‘deity of Christ’ [divindade de Cristo – em português não há diferença]. E as palavras ‘tolerância religiosa’ foram mudadas para ‘liberdade religiosa.’ ... O contato de minha mãe com o povo europeu trouxe-lhe à mente uma porção de coisas que lhe haviam sido apresentadas em visão durante os anos passados, algumas delas duas ou três vezes, e outras cenas muitas vezes. Sua contemplação de lugares históricos e seu contato com o povo reavivaram-lhe a memória no tocante a essas coisas, e assim ela desejou acrescentar muito material ao livro. ... Após o nosso regresso à América [do Norte], saiu uma nova edição mais ampla. Nessa edição omitiu-se alguma matéria usada na primeira edição em inglês. A razão para essas modificações estava no fato de que

a nova edição destinava-se à circulação mundial.” – Ibidem, págs. 435-438. 35. Carta 5, 1876, citado em Biography, vol. 3, pág. 27. 36. Ibidem, págs. 566 e 567. 37. Manuscrito 29, 1887, citado em Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 273. 38. Manuscrito 29, 1887, citado em Biography, vol. 3, pág. 363. Repare no comentário de W. C. White sobre a visita de sua mãe a Basiléia: “Durante os seus dois anos de residência em Basiléia, ela visitou muitos lugares em que ocorreram acontecimentos de especial importância nos dias da Reforma. Isto avivou-lhe a lembrança do que lhe fora mostrado e conduziu a importante ampliação das partes do livro que tratavam do tempo da Reforma.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 465. 39. Ver págs. 16, 20, 173, 375, 376 e 421. 40. Ver pág. 54. 41. Quando a Sra. White ainda se recuperava do nascimento de seu quarto filho, John Herbert, ocorrido em 20 de setembro de 1860, Tiago teve que ficar ausente por seis semanas. Ele lhe escreveu um bilhete que terminava com estas palavras: “Não lhe peço para cansar-se com cartas longas. Grande é a preocupação que você tem por mim. Que Deus ajude você e as crianças.” – Citado em Biography, vol. 1, pág. 429. Tempos depois, meses antes de Tiago morrer, ela sentiu que chegara o tempo de suspender as pesadas responsabilidades da liderança da igreja, mas isso era difícil. Alguns dias antes do seu falecimento, ele escreveu ao filho Willie: “Onde eu errei, ajude-me a corrigir-me. Reconheço meus erros e estou tentando refazer-me. Preciso de sua ajuda, e da ajuda de mamãe e de Haskell.” – Ibidem, vol. 3, pág. 145. 42. Ver Evangelismo, págs. 89-91, 94, 97, 132, 142, 248 e 553. 43. Para antecedentes gerais sobre Edson White, ver Alta Robinson, “James Edson White: Innovator”, em Early Adventist Educators, ed. George R. Knight (Berrien Springs, MI: Andrews University, 1983), págs. 137-158; Virgil Robinson, James White (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1959), págs. 135-144; Jerry Allen Moon, W. C. White and Ellen G. White (Berrien Springs, MI: Andrews University, 1993), págs. 42-54. 44. Carta 6, 1869. 45. Carta 12, 1878. Em 1899, quando Edson tinha quinze anos de idade, Ellen White escreveu a W. C.: “Eu... sou mais compassiva com Edson do que com você porque as circunstâncias do nascimento dele foram especialmente desfavoráveis a seu cunho de caráter. Meu relacionamento com outras pessoas enquanto eu o esperava, as experiências singulares pelas quais fui obrigada a passar foram muito desagradáveis e extremamente penosas. Durante anos, após o nascimento dele, isto não abrandou. Foi completamente diferente no seu caso.” – E. G. White a W. C. White, Carta 12, 1899. Esta carta endereçada a Willie era franca e direta como as que ela enviou para Edson. 46. Manuscrito 8, 1862. 47. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 118-120, 216-220. 48. Carta 4, 1865, de E. G. White a Edson. 49. W. C. White a E. G. White, 22 de novembro de 1886, citado em Moon, W. C. White and Ellen G. White, pág. 116. 50. E. G. White a Uriah Smith, 19 de setembro de 1892, citado em Moon, ibidem, pág. 118. 51. Ver págs. 444 e 445. 52. Ver pág. 450. 53. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 91 e 92. “Sinto-me muito grata pela ajuda da irmã Marian Davis na produção de meus livros. Ela colhe materiais de meus diários, de minhas cartas e dos artigos publicados nas revistas. Aprecio grandemente seu fiel serviço. Ela está comigo há vinte e cinco anos, e constantemente tem adquirido maior habilidade para o trabalho de classificar e agrupar meus escritos.” – Ibidem, pág. 93.

Perguntas Para Estudo

1. Qual a diferença entre a responsabilidade de Marian Davis e a de outras assistentes de redação de Ellen White? 2. Que significa escrever com “realce humano”? 3. Na sua opinião, por que um profeta deve ser um grande leitor? 4. Por que Ellen White escrevia de um modo para o público em geral e de outro para os adventistas? Forneça exemplos. 5. Que problema subjacente gerou um conflito na década de 1880, ao tentar empreenderse uma nova edição dos Testemunhos Para a Igreja?

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A Oradora Solicitada
“Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.” Nee. 8:8. “Animem todos a usar linguagem simples, pura e elevada. Fala, pronúncia e voz – cultivem esses talentos, não sob a orientação de qualquer grande retórico do mundo, mas sob o poder do Espírito Santo de Deus.”1

minha última palestra. Eu devia fazer meu discurso de despedida. ... De repente senti sobrevir-me um poder, como um choque elétrico. Perpassou-me o corpo e subiu em direção à cabeça. As pessoas dizem ter visto claramente o sangue subindo a meus lábios, ouvidos, face e testa.” Um comerciante da cidade, ficando de pé, exclamou: “Está-se realizando um milagre diante dos nossos olhos. A Sra. White está curada!” O Pastor Waggoner, o pregador que falara antes dela naquele dia, escreveu em seu relatório na revista Signs: “Sua voz e aparência se modificaram, e ela falou durante algum tempo com clareza e energia. Depois convidou os que desejavam dar o primeiro passo no serviço de Deus e os que se haviam apostatado para irem à frente, e um número expressivo atendeu o apelo.”7 Estilo de Oratória As características vocais de Ellen White eram consideradas extraordinariamente agradáveis e persuasivas. Um pastor, relatando a experiência por que passara em 1874 no Instituto Bíblico de Battle Creek, escreveu sobre Tiago e Ellen White: “Eu me aventuro a afirmar que nenhuma pessoa de mente sã pode ouvir um deles e não ter a certeza de que Deus está com eles. O estilo e linguagem da irmã White são, em geral, solenes e impressionantes, e exercem sobre a congregação influência indescritível e sempre na direção do Céu.”8 L. H. Christian ouviu Ellen White pela primeira vez em Mineápolis em 1888. Baseado nessa experiência, ele escreveu: “Ela começou a falar com sua voz baixa, afável, melodiosa... agradavelmente natural. Poder-seia pensar que ela falava a pessoas à distância de um metro e meio de onde ela estava. Eu tinha curiosidade em saber se as outras pessoas podiam ouvi-la. Tempos depois, na assembléia de 1905 em Takoma Park, Washington, D.C., depois de haver ingressado no ministério, tive a oportunidade de testar sua voz. Ela estava de pé, bem à frente, sobre uma grande plataforma, dirigindo-se a um auditório de cinco mil pessoas, algumas das quais se achavam na parte mais posterior da grande tenda. Sentado na frente, eu disse para mim mesmo: Essas pessoas da parte de trás jamais irão saber o que ela está dizendo. Dei uma escapuli-

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rovavelmente nenhum orador público teve começo mais impróprio do que Ellen Harmon, mas no fim de 1844 ela ouviu o convite: “Torne conhecido a outros o que lhe revelei.” Coisa alguma lhe causou mais desespero do que isso. Ela orou para ser desobrigada dessa responsabilidade; ela até “desejava a morte”.2 Será que ela estava meramente sendo modesta? Era sua relutância motivada pela humildade cristã? De certo modo, a resposta é “sim” para ambas as perguntas, embora também fosse uma atitude realista dela e de outros que conheciam aquela frágil jovem de dezessete anos de idade, pesando pouco mais de 36 quilos. Contemporâneos não esperavam que ela vivesse; seus problemas respiratórios pareciam terminais. Segundo ela mesma conta, “[eu] era tão desabituada à sociedade e de natureza tão tímida e retraída, que me era doloroso enfrentar pessoas desconhecidas”.3 O que aconteceu quando Ellen Harmon aceitou o primeiro convite para relatar sua visão em Poland, Maine? Movida pelo senso do dever, capaz de falar apenas sussurrando, ela começou a tornar “conhecido a outros” o que Deus lhe havia revelado. Depois de cinco minutos, sua “voz ficou clara e forte”, e ela falou “com toda a facilidade” por quase duas horas “com plena desenvoltura”.4 Terminada a mensagem, seus problemas vocais reapareceram até a próxima vez em que se colocou perante o público para apresentar sua mensa-

gem. Cada vez que a “restauração” de sua força e desenvoltura vocal se repetia, ela ficava mais convicta de estar seguindo o caminho do dever. A partir daquele começo pouco promissor, os setenta anos de trabalho público de Ellen White revelam um registro surpreendente e imprevisto. Ela se tornou uma oradora bastante solicitada tanto por adventistas quanto por não adventistas. Durante muitas décadas foi uma das principais oradoras das assembléias da Associação Geral e possivelmente a oradora mais concorrida nas reuniões campais de uma costa a outra dos Estados Unidos. Não adventistas aos milhares (os auditórios variavam de 20 a 20.000 pessoas) ouviam com grande apreço seus sermões evangelísticos, muito antes de existirem equipamentos de som.5 Como conseguiu ela isso? Sem dúvida, Deus lhe deu especial auxílio quando em 1845 ela prosseguiu pela fé. Outras experiências foram semelhantes à que se seguiu à reunião campal realizada em Healdsburg, Califórnia, em outubro de 1882. Durante o verão, ela se esgotou em numerosas viagens, muita pregação e grande produção literária.6 Embora confinada ao leito, pediu para ser levada à grande tenda para ficar sentada num sofá. Depois que J. H. Waggoner terminou seu sermão, ela pediu ao filho para ajudá-la a chegar até o púlpito. Relembrando posteriormente o episódio, escreveu: “Durante cinco minutos fiquei de pé tentando falar e pensando que aquela seria

da e caminhei para a parte detrás da tenda e, quando entrei e me detive por trás da grande multidão, pude ouvir cada palavra e quase toda sílaba de cada palavra de maneira tão clara como eu ouvira da frente. “Com seu magnífico dom de pregar e sua aptidão para dirigir auditórios, induzindo-os quer para o raciocínio sólido quer para a mais profunda emoção, ela parecia bastante segura de si como mensageira do Senhor e contudo não chamava a atenção para si mesma nem enaltecia a própria autoridade. A única coisa que fazia era colocar-se como porta-voz de Deus, pensando somente em Sua Palavra e procurando exaltar somente a Jesus, a fim de que pudéssemos contemplar somente a Ele.”9 Para os estudantes de oratória e persuasão, o estilo de homilética de Ellen White era um depósito de riquezas de onde se extraíam exemplos ininterruptos de clareza, vigor e beleza. “Ela atingia a clareza escolhendo palavras e frases descomplicadas, que se caracterizavam pela objetividade e pela improbabilidade de serem mal compreendidas. Imprimia força por meio da reiteração, de vínculos repetitivos, do clímax, da anáfora, dos desafios e do imperativo. Atingia os elevados píncaros da beleza em suas imagens descritivas por meio de tropos e figuras que, apesar de familiares e comuns, mantinham-se em equilíbrio com os seus temas. Havia muitas vezes, no ritmo de sua prosa, uma cadência agradável que relembrava muito de perto a linguagem das Escrituras.”10 O médico S. P. S. Edwards lembrou que Ellen White possuía uma voz que servia tanto “para conversar” como “para falar em público”. Na conversação, ela era um “mezzo soprano”, um “tom doce, não monótono, mas especialmente evidente por causa do meigo sorriso e o toque pessoal que ela punha naquilo que dizia”. “Voz de Diafragma” Ao pregar, a “voz de diafragma” de Ellen White como Edwards a descreveu, era um “contralto profundo com maravilhoso poder de repercussão. ... Podíamos sempre escutála. ... Não estou certo se era a voz que repercutia ou o poder das palavras que ela proferia. ... Todos podiam escutá-la sempre...

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quer fossem 10.000 pessoas ao ar livre ou um coração solitário na privacidade do próprio aposento.”11 Em 1957-1959, Horace Shaw, que foi durante muito tempo professor de oratória do Emmanuel Missionary College (atualmente Andrews University), elaborou uma lista de 366 pessoas que tinham ouvido Ellen White pregar. Pediu-lhes que procurassem lembrar o modo como se comportava ela na plataforma, se o acontecimento era público ou particular, o que os havia impressionado mais e o que lembravam da mensagem. Também lhes pediu para descreverem a influência que a pregação dela exercia sobre o auditório.12 Tendo em vista que esses “ouvintes” foram entrevistados perto do fim da vida, obviamente tiveram a oportunidade de observar a Sra. White em seus últimos anos. As frases típicas incluíam “aos 82 anos, curvada pela idade”, “pequena e frágil”, “estruturalmente baixa... de compleição um tanto robusta, mas não obesa”. A respeito do semblante, o rosto é o que foi lembrado por mais tempo – “feições arredondadas e cheias”, “deixava escapar de vez em quando um sorriso dulcíssimo”, “reparavam no seu nariz, mas logo o esqueciam, achando que ela era realmente bela, digna” e “o rosto parecia iluminar-se”. Linguagem dos Olhos Seus olhos – “belos olhos castanhos e olhar distante”, “olhar leal”, “olhar penetrante”, “seus olhos eram grandes e ficavam maiores ainda quando ficava séria ou emocionada e diminuíam quando ela sorria”. Havia unanimidade sobre o cabelo de Ellen White: “usava uma rede sobre o cabelo bem arrumado”, “estilo simples de penteado”, “cabelo escuro e sempre partido e penteado para trás, terminando em uma trança em formato de coque na parte posterior do pescoço”. Vinte e nove pessoas referiram-se ao tecido de sua roupa, descrevendo-o como “veludo ou seda preta”, “uma roupa de duas peças”; “o vestido não parecia adorná-la; ela parecia adornar o vestido”. Para acentuar o preto, a Sra. White usava muitas vezes punhos e golas brancas. Outros acessórios mencionados

eram uma “corrente de ouro para relógio” com um “relógio de prata no bolso e um broche simples”. As centenas de entrevistados relembraram igualmente que a Sra. White usava poucos gestos, não balançava os braços nem as mãos – “porte natural e gentil e maneiras afáveis”. Na maioria das vezes, ela pregava sem auxílio de anotações, embora em algumas ocasiões lesse um manuscrito. Com a Bíblia aberta, falava com tal poder e lógica que cativava seus auditórios.13 Observando um dos sermões pregados por Ellen White, um repórter do Detroit Post descreveu-o como uma experiência “extraordinária e emocionante”: “Embora seus dotes de eloqüência e persuasão fossem bem conhecidos do auditório, ainda assim os ouvintes estavam despreparados para o apelo poderoso e irrefutável que ela fez. Ela parecia realmente quase inspirada quando rogou aos pecadores que fugissem dos seus [deles] pecados. O efeito de sua oratória e maneira magnéticas foi extraordinário.”14 Obviamente, a Sra. White via e ouvia esses comentários sobre sua notável competência em oratória. Ela dava glória a Deus, mas nem sempre achava o fenômeno miraculoso. Aprendera a falar em público estudando os princípios da projeção da voz. Além disso, escrevera muito conselho geral sobre a comunicação oral eficiente e, muitas vezes, especificamente aos pastores que estavam arruinando não somente sua voz, mas também a saúde, por hábitos impróprios de falar. Ela defendia o apoio do diafragma e a respiração profunda: “O falar da garganta, fazendo a voz sair da parte superior dos órgãos vocais, forçando-os e irritando-os continuamente, não é a melhor maneira de proteger a saúde ou aumentar a eficácia desses órgãos. ... Caso deixem que suas palavras venham do profundo, exercitando os músculos abdominais, podem falar a milhares de pessoas com a mesma facilidade com que o fariam a dez.”15 A instrução de Ellen White sobre falar em público envolvia mais do que a capacidade de falar a milhares de pessoas. Era, acima de tudo, um assunto espiritual, especialmente para

os ministros do evangelho: “Os que consideram coisa de pouca importância falar com dicção perfeita desonram a Deus.”16 “Façam os estudantes em preparo para o serviço do Mestre decididos esforços para aprender a falar corretamente, com vigor, de modo que, quando em conversa com outros acerca da verdade, ou quando empenhados em ministério público, possam apresentar pela devida maneira as verdades de origem celeste.”17 Para Ellen White, os métodos errados de falar afetavam diretamente a saúde do orador: “Seu uso excessivo [dos órgãos vocais]... caso isto se repita muitas vezes, há de não somente prejudicar os órgãos vocais, mas ocasionar indevida tensão em todo o sistema nervoso. ... A educação da voz ocupa lugar importante na cultura física, visto que ela tende a expandir e fortalecer os pulmões, e desta maneira afastar as moléstias.”18 Através dos anos, estudantes sérios têm sido gratos ao conselho de Ellen White sobre o falar em público. Sua própria experiência, que começou com um sussurro rouco e se desenvolveu até tornar-se uma oradora muito solicitada, deu profunda autenticidade a seus princípios. Esses princípios expressos em tópicos como “Atitudes Cristãs no Falar”, “Cultura da Voz”, “Métodos Eficazes de Falar em Público”, “Conteúdo de Nossas Palestras” e “Uso da Voz ao Cantar” foram reunidos no volume intitulado The Voice in Speech and Song.19 Temas Gerais Quais eram os temas gerais da Sra. White? Suas mensagens públicas, de acordo com os ouvintes, concentravam-se na alegria, na animação dos desalentados e na apresentação dos encantos de um amorável Senhor. A conclusão de um sermão típico seria: “Esta vida é um conflito, e temos um adversário que nunca dorme, e que está em constante vigilância para destruir nossa mente e, seduzindo-nos, afastar-nos de nosso precioso Salvador, que por nós deu a vida. Tomaremos a cruz que nos foi dada? Ou continuaremos em satisfação egoísta e perderemos a eternidade de bemaventurança?...”20

A pregação de Ellen White se baseava muito freqüentemente em Isaías, no Antigo Testamento, e em João, no Novo. Os capítulos do Novo Testamento mais usados por ela eram João 15 (“Eu sou a Videira...”), II Pedro 1 (a escada do crescimento cristão) e I João 3 (“Que grande amor...”).21 Os pastores observaram que as mensagens dela sobre os temas bíblicos mais simples, como a conversão, a obra do Espírito Santo e o amor de Deus, tornavam-se raros momentos de exame do coração que lhes animavam o espírito com coragem e perspectivas mais profundas. Na última assembléia da Associação Geral de que participou (1909), na época com 81 anos de idade, ela pediu para falar aos pastores. Eles podiam pensar em muitos assuntos sobre os quais queriam ouvir a opinião dela. L. H. Christian relatou que ela escolheu João 3:1-5 como seu texto, concentrando-se em “Importa-vos nascer de novo”. Os pastores ficaram desapontados, achando que o tema não era apropriado; queriam alguma coisa mais sólida. Contudo, após dois minutos, Christian estava dizendo para si mesmo: “Isso é algo novo. É mais profundo, elevado e sublime do que qualquer coisa que eu já li ou ouvi sobre o tema do novo nascimento como experiência diária para o pregador.” Depois, ele registrou seus pensamentos adicionais: “Eu nunca havia ouvido nem tenho ouvido desde então exposição tão bela sobre a obra do Espírito Santo em transformar vidas humanas à gloriosa semelhança de Cristo conforme ela nos apresentou. ... Quando ela terminou de falar (isso durou menos de trinta minutos), nós pregadores dissemos: ‘Foi a melhor coisa para a nossa alma que já ouvimos.’ Não foi crítico, nem desanimador; não nos condenou; mas nos deu um vislumbre das alturas da excelência espiritual que somos capazes de alcançar e à qual nos devemos apegar se formos realmente servos de Cristo ao levar as pessoas a uma viva fé no Senhor Jesus.”22 Ocorria muitas vezes interessante fenômeno quando Ellen White estava no púlpito. De

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vez em quando, ela parava a mensagem que havia preparado e reconhecia no auditório pessoas que não havia visto antes, exceto em visão. Em Bushnell, Michigan, em 20 de julho de 1867, Ellen e Tiago White encontraram, do lado de fora, debaixo de árvores, um grupo espiritualmente pouco promissor. Tiago relatou que logo depois que sua esposa começou a falar, ela colocou a Bíblia de lado e começou a dirigir-se aos recém-batizados. Pelo fato de não os ter visto antes, a não ser em visão, “dirigiu-se a cada irmão e irmã por sua localização, como um que estava perto daquela árvore ou outro sentado perto daquele irmão ou irmã da igreja de Greenville ou de Orleans, a quem ela conhecia pessoalmente e a quem chamava pelo nome”. Durante uma hora, ela passou em revista os casos, um por um, declarando que o Senhor havia mostrado a condição deles dois anos antes; que, enquanto ela estava lendo textos da Bíblia, as necessidades individuais deles foram esclarecidas “como um súbito relâmpago em uma noite escura revelando cada objeto ao redor”. Qual foi a reação? Cada pessoa, ao ser mencionada, levantava-se e “dava testemunho de que seu caso havia sido descrito melhor do que eles conseguiriam fazer por si mesmos”. Erros foram corrigidos e efetuou-se uma reforma que os tornou uma igreja forte.23 Algumas vezes Ellen White foi tomada em visão enquanto pregava. Em Lovett’s Grove, Ohio, em meados de março de 1858, após seu marido ter pregado um sermão fúnebre, ela apresentou seu testemunho sobre a confortadora esperança do Segundo Advento. Escrevendo posteriormente, ela disse: “Fui arrebatada numa visão da glória de Deus.” Durante as duas horas que se seguiram, ela permaneceu em visão naquele prédio escolar lotado que a observava com ávido interesse. Aquela visão de Lovett’s Grove veio a ser conhecida como “a visão do grande conflito”.24 Auditórios Não Adventistas Auditórios não adventistas ouviam-lhe as mensagens, que demoravam muitas vezes mais de uma hora, enlevados e com grata

apreciação. Um repórter de jornal noticiou uma palestra que ela apresentou em Battle Creek, Michigan, em 1887: “Esteve presente à palestra da Sra. Ellen G. White, realizada ontem à noite, no Tabernáculo, uma assistência considerável, inclusive grande número das pessoas mais ilustres de nossa cidade. Esta senhora apresentou aos ouvintes uma palestra bastante eloqüente, que foi ouvida com assinalado interesse e atenção. Sua exposição foi entremeada de fatos instrutivos coletados por ela mesma em sua recente visita a terras estrangeiras, o que demonstrou que, além de muitas outras raras qualificações, essa mulher talentosa possui grande faculdade de atenta e cuidadosa observação e extraordinária memória para detalhes. Isto, aliado à sua magnífica forma de falar e a faculdade de revestir suas idéias com linguagem seleta, elegante e apropriada, tornou sua palestra uma das melhores que já foi pronunciada por qualquer mulher em nossa cidade. Que ela possa em breve brindar nossa comunidade com outra palestra, é o sincero desejo de todos quantos a ouviram na noite passada, e se ela assim o fizer, será uma reunião muito concorrida.”25 Alguns têm afirmado às vezes que a beleza, a força e o poder dos escritos de Ellen White se deviam a seus assistentes de redação. Mas quem eram os assistentes de redação que se interpunham entre ela e seus auditórios? Não havia nenhuma assistente literária ao seu lado, “polindo” sua gramática, “corrigindo” seus detalhes, etc., quando ela usava “linguagem seleta, elegante e apropriada”. Essa “mulher talentosa” e dotada de “extraordinária memória para detalhes” demonstrava, como é verdade para muitas pessoas públicas, que o dom de oratória é freqüentemente diferente das técnicas de redação. Os hábitos de escrita revelam muitas vezes que a mente do escritor corre mais rápido do que a pena é capaz de escrever; independente disso, o escritor sabe que o produto final é o que realmente importa, não as técnicas rápidas que o escritor emprega para colocar o pensamento no papel. Clifton L. Taylor, que durante muitos anos foi professor de Bíblia em faculdades, descre-

ve a ocasião em que ouviu Ellen White falar pela primeira vez: “Durante toda a minha vida ouvira falar desta mulher, e desejava ouvila e vê-la por mim mesmo. ... Tenho escutado seus críticos declararem que os escritos dela são, em grande parte, produto de suas secretárias. Observei, porém, que em sua palestra improvisada seu enunciado estava cheio de expressões exatamente idênticas àquelas que eu havia lido tantas vezes em seus escritos. ... Ao relatar suas várias experiências... ela deu-me a impressão de ser alguém que tinha satisfação em compartilhar com outros a riqueza e a bênção que recebera.”26 Os comentários do mundo jornalístico não se limitavam à “talentosa” habilidade que Ellen White possuía ao usar a tribuna. Incluíam também sua mensagem honesta: “Gostaria que todas as outras crenças religiosas de Battle Creek fossem tão fiéis aos princípios morais como a Sra. White e seus adeptos. Então não teríamos vergonhosos antros de vícios, bares, tabacarias, casas de jogos nem a atmosfera poluída dos vapores do rum e desse cruel destruidor de homens chamado fumo.”27 A Sra. White gostava de aceitar convites de igrejas não adventistas. Em 1880, depois de ouvi-la pregar na reunião campal de Salém, Oregon (realizada numa praça municipal), alguns metodistas ficaram impressionados. Os líderes da igreja pediram que ela pregasse para eles no domingo seguinte. Numa carta endereçada a Tiago, ela descreveu o acontecimento: “No domingo à noite a Igreja Metodista, um majestoso edifício, ficou completamente lotado. Falei para aproximadamente setecentas pessoas, que ouviram com profundo interesse. O pastor metodista agradeceu-me pelo sermão. A esposa do pastor metodista e todos pareceram muito satisfeitos.”28 Naquela extraordinária viagem de comboio de carroções, realizada em 1879, Tiago e Ellen White pregaram quase todas as noites para “os viajantes” e os que se achavam ao longo do caminho. Escrevendo a respeito de certa experiência, ela disse: “Na noite passada preguei para cem pessoas reunidas numa respeitável casa de culto. Encontramos ali

uma classe de pessoas excelentes. ... Tive grande liberdade em apresentar-lhes o amor de Deus evidenciado ao ser humano no dom de Seu Filho. Todos ouviram com o mais profundo interesse. O pastor batista levantou-se e disse que tínhamos ouvido o evangelho naquela noite e ele esperava que todos atentassem para as palavras proferidas.”29 Os líderes adventistas reconheciam a contribuição inigualável dos White a suas diversas reuniões. Uriah Smith apresentou um relatório sobre a reunião campal de Sparta, Wisconsin, em 1876: “Aqui, como em Iowa, a presença do irmão e da irmã White constituiu, em grande parte, a vida da reunião. Seus conselhos e trabalhos deram significado aos cultos e progresso da obra. Freqüentemente a irmã White fazia apelos impressionantes e as mais convincentes descrições de cenas da vida de Cristo das quais se podem extrair lições aplicáveis à experiência cristã diária. Isso foi de total interesse para toda a congregação. Esses servos da igreja, embora já tenham longa e larga experiência, apesar de todas as suas cansativas atividades, continuam a crescer em força mental e espiritual.”30 Uma das Mais Capazes Oradoras de Tribuna Quando Tiago morreu em 1881, diversos jornais registraram as contribuições que ele dera à causa. Esses esboços biográficos e elogios incluíam comentários sobre a Sra. White e sua obra pública: “Ele recebeu, em seus trabalhos ministeriais e educacionais, a inestimável ajuda de sua esposa, Ellen G. White, uma das mais competentes oradoras de tribuna e escritoras do Oeste.”31 “Em 1846, ele se casou com Ellen G. Harmon, mulher de talentos extraordinários, que foi uma colaboradora em toda sua obra e contribuiu grandemente para o sucesso dele por seus dotes como escritora e principalmente como persuasiva oradora pública.”32 Em 1878, com a idade de 50 anos, Ellen White foi incluída na obra de referência American Biographical History of Eminent and Self-Made Men of the State of Michigan, Third Congressional District, pág. 108, nos seguintes termos: “A Sra. White é uma mulher de mentalidade singularmente bem equilibrada.

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todos os lugares do país, sendo grande parte de seu tempo dedicado a esta obra.” 26. Review and Herald, 25 de setembro de 1958, pág. 3. 27. Lansing [Michigan] Republican, 7 de janeiro de 1880, citado em Biography, vol. 3, pág. 131. 28. Carta 33a, 1880, citada em Biography, vol. 3, pág. 142; mais adiante na carta ela mencionou: “Um dos pastores metodistas disse para o irmão Levitt que ele lamentava que a Sra. White não fosse uma sólida metodista, porque eles a ordenariam episcopisa imediatamente; ela faria justiça a esse cargo.” Ver também Ibidem, pág. 88. 29. Carta 36, 1879, citado em ibidem, pág. 111. Em outubro de 1886, Ellen White apresentou doze mensagens evangelísticas consecutivas, dez das quais dispomos hoje. Os textos e temas que ela usava revelam a ênfase cristocêntrica de seus sermões. Ver também Delafield, Ellen G. White in Europe, págs. 239 e 240. 30. Review and Herald, 29 de junho de 1876, pág. 4. 31. Lansing [Michigan] Republican, 9 de agosto de 1881, citado em Nichol, Ellen G. White and Her Critics, pág. 475. 32. The Echo [Detroit], 10 de agosto de 1881, citado em Nichol, ibidem, pág. 475. 33. Citado em Shaw, “A Rethorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White”, págs. 28 e 29, e em Arthur White, Mensageira da Igreja Remanescente, segunda edição, págs. 348 e 349.

Seus traços predominantes são a benevolência, a espiritualidade, a conscienciosidade e o idealismo. Suas qualidades pessoais são de molde a granjear-lhe as mais calorosas amizades entre todos com quem se põe em contato e a inspirar-lhes a maior confiança em sua sinceridade. ... Não obstante, seus muitos anos de trabalhos públicos, tem conservado toda a simplicidade e honestidade que lhe caracterizaram o princípio da vida. “Como oradora, a Sra. White é uma das mais bem-sucedidas entre as poucas mulheres que se têm distinguido como conferencistas neste país, durante os últimos vinte anos. O contínuo uso lhe tem por tal forma fortalecido os órgãos vocais, que lhe dão à voz rara profundidade e potência. A clareza e força de articulação são tão grandes que, falando ao ar
Referências
1. The Voice in Speech and Song, pág. 15. 2. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 62; Life Sketches, pág. 70. 3. Life Sketches, págs. 69 e 70. 4. Ibidem, pág. 72. 5. A presença de aproximadamente 20.000 pessoas na reunião campal de Groveland, na cidade do mesmo nome, Massachusetts, de 25 a 30 de agosto de 1876, alcançou o recorde máximo das reuniões campais adventistas. Segundo um repórter, muito mais gente teve seu acesso negado às reuniões porque todos os serviços de transporte, inclusive trens, barcos fluviais, barcas, etc., estavam lotados além da sua capacidade de acomodar todos quantos desejavam comparecer ao evento. – Review and Herald, 7 de setembro de 1876, pág. 84. Assim que a reunião se encerrou, Ellen White foi convidada pelo Clube da Reforma da Temperança de Haverhill para pregar na noite seguinte. Ela relatou: “A Rainha da Inglaterra não poderia ter sido mais honrada. ... Estavam diante de mim mil das pessoas mais finas e seletas da cidade. Parei várias vezes ante os aplausos e as batidas dos pés. ... Nunca antes testemunhei tanto entusiasmo como o que essas nobres pessoas que lideravam a reforma da temperança demonstraram em relação à minha palestra sobre temperança. Era algo novo para eles. Falei do jejum de Cristo no deserto e seu objetivo. Falei contra o fumo. Depois da reunião, fui cercada e elogiada, e insistiram comigo para que, se eu voltasse a Haverhill, falasse para eles novamente.” – Carta 42, 1876, citado em Biography, vol. 3, pág. 46; ver Uriah Smith, “Grand Rally in New England”, Review and Herald, 7 de setembro de 1876, pág. 84. 6. Em julho ela havia escrito quinhentas páginas de manuscrito. Ver Biography, vol. 3, pág. 202. 7. Biography, vol. 3, pág. 204; ver também pág. 158. Refletindo sobre este fenômeno acontecido repetidas vezes, Mervyn Maxwell sugere que “Deus poderia tê-la curado completamente, mas é evidente que preferiu apresentar esta prova de Sua proximidade quando ela se levantava para pregar.” – Maxwell, Tell It to the World, pág. 197. 8. Review and Herald, 8 de janeiro de 1875, pág. 14. Em outra ocasião, J. N. Loughborough observou: “A irmã White apresentou duas palestras profundas, práticas e convincentes.” – Signs of the Times, 11 de janeiro de 1877, pág. 24. D. M. Canright, na época presidente da Associação de Ohio, escreveu:

livre, ela tem sido com freqüência distintamente ouvida a quilômetro e meio de distância. Sua linguagem, conquanto simples, é sempre elegante e convincente. Quando inspirada pelo assunto, é muitas vezes maravilhosamente eloqüente, mantendo os maiores auditórios fascinados por horas, sem um sinal de impaciência nem fadiga. “O tema de suas palestras é sempre de natureza prática, tratando principalmente dos deveres domésticos, da educação religiosa das crianças, da temperança e assuntos congêneres. Nas ocasiões de reavivamento, é ela sempre a oradora de maior êxito. Tem falado freqüentemente sobre seus temas favoritos, a auditórios imensos, nas maiores cidades, sendo sempre recebida com grande simpatia.”33

Perguntas Para Estudo

1. Quais as principais características do estilo de oratória de Ellen White? 2. Como o falar corretamente ajuda na saúde física? 3. Que passagens bíblicas Ellen White citava com maior freqüência? 4. Quais eram os temas favoritos de Ellen White, aqueles que ela enfatizou durante todo o seu ministério? Consulte o CD-ROM contendo os escritos publicados de Ellen White para encontrar pistas. 5. Do ponto de vista da persuasão, como Ellen White usa a linguagem para captar clara e favoravelmente a atenção? Pense em exemplos que reflitam simplicidade, propriedade, ilustrações, etc.

“A irmã White falou um pouco sobre a grande importância da Escola Sabatina, daquele seu jeito convincente e eloqüente.” – Review and Herald, 4 de setembro de 1879, pág. 85. 9. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, págs. 45 e 46. 10. Horace Shaw, “A Rhetorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White, A Pioneer Leader and Spokeswoman of Seventh-day Adventist Church” (Michigan State University, 1959, dissertação de doutorado), pág. 282. 11. Ibidem, pág. 514. 12. Ibidem, págs. 502-510, 606-644. 13. “Quando estou falando ao povo, digo muita coisa que de forma alguma premeditei. O Espírito do Senhor freqüentemente vem sobre mim. Parece-me que sou levada para fora de mim mesma e a vida e o caráter de diferentes pessoas me são claramente apresentados. Vejo seus erros e perigos que correm. Sinto-me então compelida a falar do que me tem sido mostrado.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 678. 14. Citado em Review and Herald, 18 de agosto de 1874, pág. 68. 15. Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 616 (Evangelismo, pág. 669). “O devido uso dos músculos abdominais no ler e falar mostrar-se-á remédio para muitas anomalias da voz e do tórax, e meio de prolongar a vida.” – Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, pág. 297. 16. Evangelismo, pág. 665. 17. Ibidem, pág. 666. 18. Ibidem, págs. 667 e 669. 19. Pacific Press Publishing Association, 1988. 20. Life Sketches, págs. 291 e 292. 21. Shaw, “A Rethorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White”, pág. 355. 22. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 47. 23. Signs of the Times, 29 de agosto de 1878, pág. 260. 24. Ver capítulo 22; Biography, vol. 1, págs. 368-375. 25. “Mr. Ellen G. White’s Able Address. A Characteristic and Eloquent Discourse by This Remarkable Lady”, Battle Creek Daily Journal, 5 de outubro de 1887. O editor do Free Press de Newton (Iowa) dedicou amplo espaço à reunião campal adventista realizada naquela cidade no começo de julho de 1875. Entre outras observações, ele diz: “A Sra. White é uma pregadora de grande talento e eficácia, muito solicitada como conferencista das reuniões campais da denominação de

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A Mensageira que Escuta

CAPÍTULO 13 Transmitindo a Mensagem de Deus

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Confirmando a Confiança

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Instruções e Predições Oportunas

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Percepção da Mensageira Sobre si Mesma

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naram-se o centro confirmador, corretor e confortador para o surgimento da plataforma bíblica integrada do terceiro grupo.6 Propósito das Visões Pessoa alguma é capaz de estender-se muito na leitura dos escritos da Sra. White sem ficar consciente de sua profunda veneração pela Bíblia. Ela era uma defensora do estudo da Bíblia, e recomendava com grande insistência o estudo bíblico coerente e meticuloso.7 Na verdade, um dos sinais dos falsos profetas é procurarem anular a obra dos profetas anteriores (Isa. 8:20). Um dos principais sinais dos profetas verdadeiros é fazerem constante referência aos profetas anteriores. A coerência e a unidade da Bíblia repousam neste simples fato, confirmado através dos anos. Uma das observações comuns feitas a respeito de Ellen White é que ela empregou extensivamente as Escrituras em seus sermões e volumosos escritos. Mas se a Bíblia é “o único guia verdadeiro em todos os assuntos de fé e prática”8, por que as mensagens de Ellen White foram necessárias? Qual o propósito de seu papel profético? Ela explicou por que sua mensagem era necessária: “Tomei a preciosa Bíblia, e agrupei em torno dela os diferentes Testemunhos Para a Igreja, dados ao povo de Deus. Aqui, disse eu, se encontram os casos de quase todos. Os pecados que devem evitar estão neles apontados. Os conselhos que desejam, dados em outros casos que definem situações semelhantes às deles mesmos, podem ser encontrados aqui. Aprouve a Deus dar-lhes ‘preceito sobre preceito’ e ‘regra sobre regra’. Mas poucos entre vocês sabem realmente o que está contido nos Testemunhos. Não estão familiarizados com as Escrituras. Se tivessem feito da Bíblia o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição cristã, não necessitariam dos Testemunhos. É porque negligenciaram familiarizar-se com o Livro inspirado de Deus que Ele procurou

Transmitindo a Mensagem de Deus
“Então, entrou em mim o Espírito, quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava.” Ezeq. 2:2.

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s mileritas, em princípios da década de 1840, com suas expectativas mileniais, estavam “predispostos... ao poderoso derramamento de predições carismáticas, línguas, curas e outros ‘sinais e maravilhas’, que cumpririam a promessa bíblica para os ‘últimos dias.’... Suas assembléias estremeciam com brados, louvores, pranto e ‘períodos enternecedores de oração’.” Embora líderes mileritas como o próprio Miller, Carlos Fitch e Josué V. Himes se opusessem aos “fenômenos carismáticos”, o movimento era “normalmente criticado” por esses “fanatismos” como curas, falar em línguas, visões e profecias. Diversas mulheres mileritas tiveram suas “visões” noticiadas pela imprensa.1 Depois do dia 22 de outubro de 1844, para a maioria dos mileritas e para o mundo religioso zombador em geral, os fenômenos carismáticos como visões eram altamente suspeitos. Os mileritas, ofendidos por serem rotulados de fanáticos, ficaram bastante desconfiados de quem quer que afirmasse ter visões.2 Dois outros “mileritas” (William Foy e Hazen Foss) haviam sentido a oposição às visões. Foy teve quatro visões, embora não tenha recebido mais nenhuma depois de 1844. Relatava-as às pessoas sempre que encontrava ouvintes interessados. Foss nunca revelou suas visões a outros, mas reconheceu a autenticidade de Ellen Harmon quando ouviu as explicações das visões dela.3

No fim da década de 1840, os mileritas desapontados dividiram-se em diversos grupos principais de acordo com suas crenças sobre o que acontecera em 1844: (1) aqueles que continuavam a crer que a volta de Jesus era iminente e que seu erro consistira na fixação de uma data errada; este grupo incluía os principais líderes mileritas (Miller, Bliss, Hale e Himes); (2) aqueles que criam que na realidade Jesus tinha vindo, mas não como um acontecimento físico; a experiência espiritual por que os crentes passaram se tornou para eles a “segunda vinda”, e assim foram rotulados de “espiritualizadores”; (3) aqueles que acreditavam que a data estava correta, mas que o acontecimento ocorrera no Céu assinalando o início da ministração sumo sacerdotal de Cristo no “lugar santíssimo”, dos quais surgiu a Igreja Adventista do Sétimo Dia.4 Ellen White tornou-se a única voz clara que reanimou o terceiro grupo, o qual acreditava que a data de 22 de outubro de 1844 encerrava um importante significado cósmico.5 Ela ajudou a dirigir o grupo de estudantes da Bíblia por entre o fanatismo dos “espiritualizadores” à esquerda e os adventistas do primeiro dia à direita, os quais repudiavam tanto o significado do dia 22 de outubro como os “dons espirituais”. A confusão e a rejeição predominavam em ambos os lados dos primitivos adventistas sabatistas. As visões de Ellen Harmon (antes de seu casamento, 1844-1846; Ellen White depois de 1846) tor-

chegar até vocês por meio de testemunhos simples e diretos.”9 Somente quando seus propósitos forem claramente compreendidos é que os escritos de Ellen White serão devidamente apreciados. Ela explicou por que Deus viu a necessidade de falar por meio dela: “Chamar... a atenção de Seu povo para a Sua Palavra”,10 simplificar “importantes verdades já reveladas”;11 chamar a atenção para os princípios bíblicos “para a formação de hábitos corretos de vida”;12 especificar “os deveres do homem para com Deus e seu semelhante”;13 e “animar os abatidos”.14 Em essência, as mensagens de Ellen White foram dadas “não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica”.15 O Fenômeno das Visões Ellen Harmon/White partilhava com os profetas bíblicos características físicas semelhantes enquanto em visão pública ou em lugar aberto.16 Em 1868, Tiago White fez a seguinte descrição abrangente da esposa em visão: “1. Ela fica inteiramente inconsciente de tudo quanto ocorre ao seu redor, como se tem demonstrado pelas mais rigorosas provas, porém se vê a si mesma como afastada deste mundo, e na presença de seres celestiais. “2. Ela não respira. Durante todo o período de sua visão que, em diferentes ocasiões, tem variado de quinze minutos a três horas, não há nenhuma respiração, como se tem comprovado repetidas vezes ao fazer-lhe pressão sobre o tórax, e fechar-lhe a boca e as narinas. “3. Imediatamente depois de entrar em visão, seus músculos se tornam rígidos, e as juntas fixas, no que respeita à influência de qualquer força exterior sobre eles. Ao mesmo tempo, seus movimentos e gestos, que são freqüentes, são livres e graciosos, e não podem ser impedidos nem controlados mesmo pela pessoa mais forte. “4. Ao sair da visão, seja durante o dia ou num aposento bem iluminado à noite, tudo

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lhe é completa escuridão. Sua capacidade de distinguir mesmo os objetos mais brilhantes, segurados a pouco centímetros de seus olhos, só volta gradualmente, às vezes não sendo restabelecida senão depois de três horas. Isso tem acontecido durante os últimos vinte anos; contudo sua vista não sofre o mínimo prejuízo. Pouca gente tem a vista tão boa quanto ela. “Provavelmente, durante os últimos vinte e três anos, ela teve de cem a duzentas visões. Estas foram dadas sob quase toda sorte de circunstâncias, mantendo, não obstante, admirável semelhança. A mudança mais visível é que nos últimos anos elas se têm tornado menos freqüentes, porém mais abrangentes. Ela tem sido arrebatada em visão com maior freqüência quando em oração. “Diversas vezes, enquanto se dirigia à congregação, de maneira inesperada para ela mesma ou para os que estavam à sua volta, era tomada instantaneamente em visão. Foi isto o que aconteceu em 12 de junho de 1868, na presença de nada menos que duzentos observadores do sábado, na casa de culto em Battle Creek, Michigan. Ao ser batizada por mim, num período inicial de sua experiência, enquanto eu a emergia da água, ela imediatamente entrou em visão. Diversas vezes, acamada por doença, foi ela restaurada em resposta à oração da fé e arrebatada em visão. Nessas ocasiões a restauração de sua saúde foi miraculosa. “De outra vez, enquanto caminhava com amigas, conversando sobre as glórias do reino de Deus, passando ela pelo portão da casa de seu pai, o Espírito de Deus veio sobre ela, que foi instantaneamente tomada em visão. E o que pode ser importante, para aqueles que julgam as visões resultado de mesmerismo, ela foi muitas vezes arrebatada em visão quando orava sozinha no bosque ou no quarto. “É bem possível falar a respeito do efeito das visões sobre sua constituição ou força. Quando ela teve sua primeira visão, era uma doente macilenta, desenganada pelos amigos e médicos para morrer de tuberculose.

Pesava, na época, pouco mais de 36 quilos. Seu estado nervoso era tal que ela não conseguia escrever e dependia de que alguém sentasse à mesa ao seu lado até mesmo para despejar sua bebida na xícara. E apesar de suas ansiedades e aflições mentais, resultantes do dever de apresentar ao público suas visões, suas atividades na pregação pública e em questões gerais da igreja, suas fatigantes viagens e trabalhos e preocupações domésticas, sua saúde e força física e mental têm melhorado desde o dia que ela teve sua primeira visão.”17 Mas as visões não podem ser explicadas ou autenticadas apenas pelas características físicas. Muitas vezes, especialmente durante as visões/sonhos da noite, Ellen White não apresentava as típicas caraterísticas físicas. Os fenômenos físicos não eram prova das credenciais divinas.18 Além disso, como Arthur G. Daniells escreveu, “aqueles que aceitam esses fenômenos físicos como evidência determinante podem ser enganados, pois o inimigo da justiça é capaz de produzir condições similares em pessoas sujeitas a seu domínio.” 19 Ellen White advertiu: “Haverá pessoas que pretendem ter visões. Quando Deus der clara evidência de que essas visões são dEle, vocês podem aceitálas; mas não as aceitem mediante nenhuma outra prova; pois o povo será mais e mais extraviado nos países estrangeiros e na América [do Norte]. O Senhor quer que Seu povo proceda como homens e mulheres sensatos.” 20 Por que, então, os fenômenos físicos acompanhavam as visões dadas aos profetas bíblicos? Por que as manifestações físicas foram tão extraordinárias e tão amplamente documentadas durante as visões públicas de Ellen White? Ao que parece, assim como nos tempos bíblicos, Deus Se serviu das coisas prodigiosas para chamar e conservar a atenção das pessoas tempo suficiente para que ouvissem a mensagem do profeta. A mensagem em si mesma levava as credenciais divinas; os fenômenos físicos demonstravam a presença do sobrenatural.21

Ellen White recebia mensagens de Deus de diferentes maneiras. As mensagens recebidas durante as horas em que ela estava acordada chamavam-se visões “abertas” ou públicas, enquanto as que ocorriam durante o sono se chamavam sonhos. A duração das visões variava desde menos de um minuto até mais de uma hora, havendo uma ocasião em que durou quase quatro horas. Às vezes as visões aconteciam “[mostrando] como que num relâmpago certas situações ou condições. Em tais casos, a visão relacionava-se em geral apenas a um assunto, ou a um aspecto do assunto, ao passo que as visões mais prolongadas incluíam muitos, muitos assuntos, ou lidavam com acontecimentos que ocorriam durante longo período de tempo.”22 As visões públicas podiam acontecer em quase qualquer ocasião. Às vezes, enquanto anotava no diário acontecimentos do dia, sobrevinham pensamentos aplicáveis ao assunto “como jatos de luz... de maneira tão distinta [que] eu escrevia durante muito tempo”.23 Enquanto um grupo de crente estava reunido em oração familiar numa manhã de sábado, Ellen White deu aquele ressonante brado de “Glória! Glória! Glória!” (a que os espectadores haviam se acostumado através dos anos), e seu marido Tiago se ergueu informando aos presentes que sua esposa estava em visão.24 Com freqüência ela recebia visões em cultos na igreja. A visão de Parkville, Michigan, em 12 janeiro de 1861, na qual descreveu os fatos e horrores da Guerra Civil, aconteceu na igreja depois que ela concluiu sua poderosa exortação e se assentou. A visão durou aproximadamente vinte minutos. Depois que ela voltou a respirar, falou brevemente sobre o que lhe fora revelado, em especial sobre determinados pontos diretamente relacionados com aquele auditório intensamente interessado. A última visão pública de Ellen White, da qual dispomos de informações detalhadas, ocorreu em Battle Creek em 3 de janeiro de 1875. Contudo, J. N. Loughborough (que testemunhou pessoalmente “cerca de cinqüenta” visões) declara que sua última visão pública foi a da reunião campal de Oregon em 1884.25 As visões da noite, ou sonhos, aconteciam

de diversos modos, como, por exemplo, “no início do sábado eu adormeci e algumas coisas me foram claramente apresentadas”.26 Centenas de cartas contêm a expressão “no período da noite”, no qual ela ouvia ou via uma mensagem que devia ser comunicada a alguma pessoa ou grupo em particular, como uma igreja, reunião campal ou reunião de oficiais. Às vezes a expressão “no período da noite” podia estar ausente, mas a ocasião era óbvia: “Não consigo dormir. Levantei à uma hora da madrugada. Fiquei ouvindo uma mensagem destinada a você.”27 As visões noturnas ou sonhos tornaram-se mais rotineiros à medida que as visões abertas se tornaram menos freqüentes. Reconhecendo que surgiriam perguntas a respeito da natureza particular dos “sonhos” e de sua autenticidade como revelações, Ellen White escreveu: “Grande número de sonhos [sonhos comuns] origina-se das coisas comuns da vida, com as quais o Espírito de Deus nada tem a ver. Há também falsos sonhos, bem como falsas visões que são inspirados por Satanás. Mas os sonhos provenientes do Senhor estão classificados na Palavra de Deus com visões, e são tão verdadeiramente frutos do Espírito de Profecia como as visões. Tais sonhos, levando-se em conta as pessoas que os têm e as circunstâncias sob as quais foram dados, contêm suas próprias provas de genuinidade.”28 Mensagens Recebidas de Formas Diferentes Variedade é uma palavra que descreve bem a maneira pela qual a Sra. White recebia visões e sonhos. A maneira como comunicava ela as mensagens a outros variava tanto quanto a maneira como recebia as visões. As visões e sonhos de Ellen White eram apresentados em pelo menos nove maneiras diferentes.29 As visões referidas neste livro podem ser classificadas sob estas nove categorias: 1. Às vezes, ela parecia estar presente e participar nos acontecimentos da visão.30 2. Algumas visões eram panorâmicas, com cenas que abrangiam o passado, o presente e o futuro.31

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3. Um anjo (ou algum outro ser celestial, como “meu Guia”, etc.) costumava observar o acontecimento com ela e dar-lhe uma interpretação.32 4. Ocasionalmente ela via edifícios ainda por construir e recebia instruções a respeito do papel que ela desempenharia na instrução dos que deviam trabalhar naquela futura edificação.33 5. Seu Guia explicava as representações simbólicas ou o significado delas era evidente por si mesmo.34 6. Ela muitas vezes “visitava” diversas instituições, reuniões de comissão, famílias em seus lares e pessoas que pensavam não estar sendo observadas por “ninguém”.35 7. Algumas vezes lhe eram mostrados desdobramentos contrastantes: um seria a conseqüência de não seguir o conselho inspirado; o outro, o resultado de seguir o conselho dela.36 8. Freqüentemente ela dispunha de informações específicas para benefício do marido, para eles mesmos como pais e para os companheiros que trabalhavam na liderança da igreja e de suas instituições.37 9. Muitas vezes lhe eram mostrados princípios abrangentes que integrariam algumas opiniões avançadas de seu tempo com idéias adicionais sobre assuntos como saúde, educação e temperança.38 Mensagens Amplas e Diversificadas Ellen White recebia mensagens para indivíduos e grupos que abrangiam ampla variedade de assuntos. Homens e mulheres recebiam admoestação, encorajamento e reprovação no que dizia respeito à sua vida pessoal e influência cristã. Indivíduos e grupos recebiam concepções, avisos e instrução sobre idéias gerais, que incluíam educação, saúde, métodos administrativos, princípios de evangelismo e de publicações, e finanças da igreja.39 Variadas Maneiras de Transmitir as Mensagens A maneira de transmitir a informação recebida em visão era variada e imprevisível. Às vezes, Ellen White era instruída a “tornar públicos” testemunhos pessoais. Como podia ser isto?

Ela via em visão pessoas e acontecimentos que outros não conseguiam ver em seu verdadeiro aspecto. Quando essas pessoas resistiam ao conselho, ignorando a reprovação que fora enviada em caráter particular, ela se sentia em débito para com toda a igreja. Seu Guia celestial lhe dizia que a igreja não devia continuar a padecer por causa daqueles que recusavam a correção: “Fui tomada em visão e vi os erros de certas pessoas os quais estavam afetando a causa. Não me atrevo a ocultar da igreja esse testemunho para poupar os sentimentos de indivíduos.”40 Que acontecia depois que ela divulgava esses testemunhos pela imprensa, muitas vezes identificando seus colegas de trabalho pelas iniciais? Na Review and Herald dos meses seguintes, a maioria daqueles que haviam sido identificados reconhecia a veracidade desses testemunhos e confessava seus erros. Dez anos depois, quando esses testemunhos foram reimpressos, ela substituiu as iniciais por espaços vazios. As referências às pessoas foram retiradas, mas os princípios continuaram os mesmos. Em outras ocasiões, ela reprovou homens e mulheres abertamente em reuniões públicas. Em seu diário, por exemplo, ao descrever uma reunião de sábado em 1868 em Tuscola, Michigan, ela registrou que havia pregado durante uma hora, reprovando erros individuais: “Alguns ficaram extremamente constrangidos de que eu revelasse esses casos perante outros. Eu lamento ver este espírito.”41 Numa carta endereçada a Edson, seu filho, explicou que esses testemunhos públicos focalizavam “os pecados do falar precipitado, da zombaria, da frivolidade e da ridicularização” – todos manifestações bastante públicas. Mas um casal ficou seriamente ofendido. A esposa veio junto com o marido lamentando: “Você me destruiu; você me destruiu completamente.” Na carta enviada a Edson, Ellen prosseguiu: “Descobri que a maior dificuldade deles consistiu em ter sido o testemunho apresentado diante dos outros. Se eu houvesse enviado o testemunho só para eles, teria sido bem recebido. O orgulho foi ferido,

o orgulho foi terrivelmente magoado. Nós conversamos por um instante, e ambos ficaram maravilhosamente calmos e disseram que agora viam diferentemente as coisas.”42 As visões muitas vezes se referiam a acontecimentos específicos capazes de convencer não adventistas de que Ellen White era uma autêntica mensageira do Senhor. Em 1850 os White estavam em Oswego, Nova Iorque, empenhados no costumeiro trabalho de escrever e pregar. O tesoureiro do município, que também era pregador leigo da igreja metodista local, havia desenvolvido intenso interesse entre o povo da cidade. Dois jovens, Hiram Patch e sua noiva, haviam assistido tanto às reuniões metodistas quanto às adventistas, e estavam indecisos quanto a que grupo deviam unir-se. O casal presenciou Ellen White tendo uma visão, após o que lhe perguntaram: “O que a irmã acha do irmão M [tesoureiro do município]? A Sra. White (conforme o Sr. Patch recordou), depois de chamar a atenção para Oséias 5:6 e 7, respondeu: “Foi-me dito [em visão] para eu lhes dizer que a declaração do texto vai cumprir-se literalmente neste caso. Esperem um mês, e conhecerão por si mesmos o caráter das pessoas envolvidas neste reavivamento e que professam ter grande preocupação pelos pecadores.”43 Pouco tempo depois dessa conversa, o tesoureiro do município rompeu um vaso sangüíneo e ficou em casa em “estado debilitado”. O delegado de polícia e seu assistente, depois de se encarregarem das finanças municipais, encontraram um rombo de 1.000 dólares. Quando confrontado em sua casa, o tesoureiro alegou ignorância. Mas o subdelegado entrou trazendo consigo o dinheiro que faltava em uma sacola que a esposa do tesoureiro havia tentado esconder num monte de neve. Encerraram-se as reuniões evangelísticas do tesoureiro, e os dois jovens decidiram unir-se aos adventistas. Eles haviam sido testemunhas da clara evidência da autenticidade e da utilidade das visões de Ellen White.44 Uma visão (ou um sonho) fez muitas vezes um grupo mudar de decisões apressadas para um modo de agir correto a ser melhor compreendido com o passar do tempo. No

verão de 1881, Tiago e Ellen White estavam cansados. Ela estava doente. Contudo, sentia uma “profunda impressão” de que deveriam partir da reunião campal de Michigan e ir para a reunião campal de Iowa, a iniciar-se dentro de dois dias. Ao chegarem em Des Moines, ela disse para um pastor: “Bem, estamos aqui conforme a ordem do Senhor, para um propósito especial, que ainda não sabemos qual é, mas que sem dúvida o saberemos no decorrer da reunião.” Os White pregaram bastante. No domingo à noite, depois que a Sra. White se havia recolhido, a comissão conduzia uma reunião de negócios sobre o assunto de votação, especialmente com respeito à temperança e à lei seca. Pouco depois chegou a mensagem de que o grupo desejava o conselho dela. G. B. Starr lembrou posteriormente que Ellen White relatou um sonho que descrevia a situação de Iowa e que o porta-voz celeste havia dito: “Deus pretende ajudar as pessoas num grande movimento sobre este assunto. É Seu propósito também que vocês, como um povo, sejam a cabeça e não a cauda do movimento; mas por enquanto a posição que vocês ocupam é a de cauda.” Na reunião, perguntaram à Sra. White se os adventistas de Iowa deviam votar a favor da lei seca. Sua resposta foi rápida: “Sim, todos à uma e em toda a parte, e talvez eu chocasse alguns de vocês se dissesse que, se fosse necessário, votassem mesmo no dia de sábado a favor da lei seca, caso não pudessem fazer isso noutro dia.” Escrevendo posteriormente, Starr enfatizou: “Posso testificar que o efeito do relato daquele sonho sobre a assembléia foi elétrico. Um poder convincente acompanhou-a, e vi pela primeira vez o poder unificador do dom de profecia na igreja.”45 Algumas vezes transmitir um testemunho era algo extraordinariamente dramático. Em maio de 1853, em Vergennes, Michigan, aconteceu um incidente que aumentou grandemente a confiança nas visões de Ellen White. O primeiro dizia respeito à Sra. Alcott, mulher que professara grande santidade e agora estava se insinuando entre os novos crentes. A Sra. White havia tido antes, em

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Tyrone, Michigan, uma visão a respeito do verdadeiro estado espiritual dessa mulher e pôs por escrito alguns detalhes. Dois pastores, M. E. Cornell e J. N. Loughborough, estavam a par dos detalhes escritos e disseram: “Ora, vamos esperar para ver como o caso se desenrola.”46 Chegando finalmente a Vergennes, na companhia de Loughborough e Cornell, a Sra. White disse ao marido na frente da casa onde deveriam permanecer que deviam encontrar a igreja onde “vive aquela mulher que eu vi na visão de Tyrone”. Ela também mencionou o fato de que o casal que os recepcionava conhecia essa mulher. A esposa não confiava na Sra. Alcott, mas o marido “pensa que ela é de bem”. (Não tinha havido ainda nenhuma conversa entre o casal e os White.) Logo uma carruagem encostou, e Ellen White disse que ninguém naquele veículo confiava nas “pretensões daquela mulher”. Quando a próxima carruagem chegou, ela disse que os passageiros estavam divididos. No terceiro grupo, os passageiros estavam “todos sob a influência da mulher”. Então ela disse: “Esta deve ser a igreja onde essa mulher vive; pois vi todas essas pessoas relacionadas com aquele caso.” No sábado, enquanto Tiago White pregava, um homem idoso, um jovem e uma mulher entraram, mas a mulher ficou junto à porta. Quando Tiago concluiu o sermão, Ellen White levantou-se para dizer algumas palavras sobre o cuidado que os pastores devem tomar em seu trabalho. Para chegar ao ponto desejado, ela se referiu àquela “mulher que acaba de assentar-se junto à porta. ... Deus me mostrou que ela e este jovem violaram o sétimo mandamento”. Loughborough comentou: “Todos naquele barracão sabiam que a irmã White jamais havia visto essas pessoas até o momento em que entraram naquele local. Seu reconhecimento das pessoas e a descrição dos casos tinham peso em favor de sua visão.” Qual foi a reação da Sra. Alcott? Loughborough escreveu: “Ela se pôs em pé lentamente, lançou um olhar de santarrona e disse: ‘Deus... conhece... o... meu... cora-

ção.’ Aquilo foi tudo quanto ela disse, e assentou-se. Fora exatamente aquilo que o Senhor lhe havia mostrado (28 de maio) que a mulher diria. Em 11 de junho ela fez precisamente como fora dito que faria, e disse as mesmas palavras preditas ao ser reprovada, e nada mais.” Que dizer do rapaz? Algumas semanas depois, antes de voltar para o Canadá, ao ser perguntado sobre a visão de Ellen White, ele respondeu: “Aquela visão era a mais pura verdade.”47 Talvez o incidente mais dramático – que poderia ser o mais desventurado se as visões de Ellen White não fossem exatas – aconteceu na reunião campal de Wisconsin em princípios da década de 1870. O orador já havia começado a pregar quando os White chegaram. Ellen e Tiago White pararam enquanto ela disse para Tiago algo que os seus observadores não escutaram. Mas aqueles que estavam mais próximos ouviram Tiago dizer: “Tudo bem!” Eles caminharam pelo corredor central, mas Ellen White não se assentou. Olhou diretamente para o pregador e, apontando o dedo para ele, disse: “Irmão, ouvi sua voz em visão e, ao entrar nesta tenda nesta manhã, reconheci essa voz. O Senhor me disse que, quando eu ouvisse essa voz, eu olhasse direto para o dono dela e comunicasse a mensagem que Ele me deu para ele e eu terei que fazê-lo.” O pregador parou. Ellen White continuou: “Irmão, conheço na Pennsylvania uma mulher com dois filhos. Aquela mulher chama você de marido e aquelas crianças chamam você de pai, e embora andem à sua procura por toda a parte, não o conseguem encontrar. Não sabem onde você está. Há neste acampamento outra mulher com seis filhos pendurados na saia, que chama você de marido, e eles chamam você de pai. Irmão, você não tem o direito de estar nesse púlpito.” O pregador precipitou-se pela porta da tenda e desapareceu. O irmão dele, que estava assentado no auditório, levantou-se de um salto e falou para os pasmos ouvintes: “O pior, irmãos, é que tudo isso é verdade.”48 Muitas foram as experiências de toda espécie com as quais Ellen White lidou, sempre

aconselhando, reprovando, animando, qualquer que fosse a necessidade. Em todos os exemplos, tanto os destinatários quantos os observadores perceberam que pessoa alReferências
1. Jonathan Butler, “The Making of a New Order”, em Ronald L. Numbers e Jonathan M. Butler, editors, The Disappointed (Bloomington, IN: Indiana University Press, 1987), pág. 196. 2. Ver págs. 36 e 37. Winthrop S. Hudson, “A Time of Religious Ferment”, em Rise of Adventism, págs. 8-10; Knight, Millennial Fever, págs. 267-293 e 303. 3. Ver págs. 38-40; Baker, The Unknow Prophet, pág. 130. 4. Ver Knight, Millennial Fever, págs. 245-300; Schwarz, Light Bearers to the Remnant, págs. 56-58. 5. Ver págs. 40 e 41. 6. Ver págs. 182-238 para a contribuição de Ellen White para a elaboração da doutrina adventista do sétimo dia e, desse modo, para a estabilidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 7. Ver Parábolas de Jesus, págs. 109-114; Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, págs. 138 e 139; Educação, págs. 185-192; Fundamentos da Educação Cristã, pág. 187; Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 15-18, 242-245; Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, pág. 694; Testemunhos Para Ministros, págs. 105-111. 8. Review and Herald, 4 de janeiro de 1881, pág. 3 (Mente, Caráter e Personalidade, livro 1, pág. 89). 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 664 e 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 10. Ibidem, pág. 663 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 278). 11. Ibidem, pág. 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 12. Ibidem, págs. 663 e 664 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 279). 13. Ibidem, pág. 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). 14. Review and Herald, 10 de janeiro de 1856, pág. 118. Leia Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 654-696 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 270-302), para o contexto completo. 15. Primeiros Escritos, pág. 78; ver págs. 170-172. 16. Ver págs. 26-40. 17. Tiago White, Life Incidents in Connection With the Great Advent Movement, págs. 272 e 273, citado em F. D. Nichol, Ellen G. White and Her Critics (Washington D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1951), págs. 52 e 53. Presente na visão recebida em 12 de janeiro de 1861 em Parkville, Michigan, estava um médico espiritualista que anteriormente se havia vangloriado de ser capaz de tirar Ellen White de seus transes “hipnóticos” em um minuto. Ao ser lembrado de sua pretensão, ele adiantou-se para começar seu exame. Subitamente “ele se virou mortalmente pálido, e tremendo como uma folha de faia. O Pastor White perguntou: ‘Então, doutor, que diz do estado dela?’ Ele respondeu: ‘Ela não respira’, e dirigiu-se rapidamente para a porta. Os que estavam junto à porta e sabiam de sua arrogância disseram: ‘Volte e faça como o senhor disse que faria. Tire essa mulher da visão.’ Em grande agitação, ele agarrou a maçaneta da porta, mas não lhe permitiram abri-la enquanto os que estavam junto à porta não lhe fizeram a pergunta: ‘Doutor, que é isto?’ Ele respondeu: ‘Só Deus sabe! Deixem-me sair desta casa.’” – J. N. Loughborough, GSAM, págs. 210 e 211. Em 26 de junho de 1854, três pessoas relembraram como dois médicos examinaram Ellen White quando ela se achava em visão. Um deles colocou um espelho próximo da boca da Sra. White e declarou: “Ela não respira.” Depois de examiná-la, continuou a não encontrar evidências de respiração. Posteriormente, depois de colocar uma vela acesa perto dos lábios dela e a luz

guma teria a possibilidade de conhecer os fatos da situação a menos que o Espírito de Deus houvesse inspirado Seu mensageiro humano.”49

não piscar, o médico afirmou: “Isso estabelece definitivamente que não há respiração em seu corpo.” – Biography, vol. 1, págs. 302 e 303; ver também pág. 351 para um acontecimento em Hillsdale, Michigan, em 12-15 de fevereiro de 1857. 18. Ver págs. 28 e 32. 19. The Abiding Gift of Prophecy, pág. 273. “Não nutra ninguém a idéia de que providências especiais ou manifestações miraculosas devam ser a prova da genuinidade de sua obra ou das idéias que defende. Caso conservemos essas coisas diante do povo, produzirão efeito nocivo, uma emoção que não é saudável. ... Encontraremos falsas pretensões; erguer-se-ão falsos profetas; haverá falsos sonhos e visões falsas; preguem, porém, a Palavra, não se desviem da voz de Deus em Sua Palavra. Coisa alguma distraia a mente. Será representado e apresentado o admirável, o maravilhoso. Mediante enganos satânicos, maravilhosos milagres, serão instantemente recomendadas as pretensões dos instrumentos humanos. Acautelemse de tudo isso.” – Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 48 e 49. 20. Evangelismo, pág. 610. 21. Ver “Physical Phenomena Often Provide Coercive Evidence”, pág. 36. 22. Arthur White, Ellen G. White, Mensageira da Igreja Remanescente, segunda edição, pág. 19. 23. Biography, vol. 4, pág. 359. 24. Ibidem, vol. 1, pág. 275. 25. Ibidem, vol. 2, pág. 462. 26. Ibidem, vol. 4, pág. 424. 27. Carta 21a, 1895, citado em Biography, vol. 4, pág. 251. 28. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 569 e 570 (1867); repetido em ibidem, vol. 5, pág. 658 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 274). 29. Arthur White, Ellen G. White: Mensageira da Igreja Remanescente, segunda edição, págs. 9-11. 30. Primeiros Escritos, pág. 14. 31. O Grande Conflito, págs. 12 e 13. As duas visões sobre a Guerra Civil são reexaminadas em Roger Coon, The Great Visions of Ellen G. White (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1992), págs. 76-89. 32. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 92 e 93. 33. Carta 135, 1903, citada em Biography, vol. 6, págs. 96 e 97. 34. “Fazer um grande trem subir uma ladeira íngreme.” – MR, vol. 1, pág. 26. “Satanás... o condutor do trem.” – Primeiros Escritos, págs. 88 e 89. “Um gigantesco iceberg... ‘enfrentemno!’” – Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 205. 35. Carta 1, 1893, em MR, vol. 20, págs. 51 e 52. 36. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 28 e 29. 37. Ver págs. 114 e 115. 38. Ver págs. 278-369. 39. Para uma amostra de alguns desses variados testemunhos, repare: “Em 5 de novembro de 1862, vi a condição do irmão Hull. Ele se encontrava em estado alarmante.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 426. “Em 5 de junho de 1863, foime mostrado que Satanás está sempre trabalhando para desalentar e desencaminhar os pastores. ... O modo mais eficaz por ele [Satanás] empregado é mediante as influências domésticas, através de companheiras não consagradas.” – Ibidem, pág. 449. “Foi-me mostrado que os observadores do sábado, como um povo, trabalham demasiado e arduamente sem se permitirem mudanças ou períodos de repouso.” – Ibidem, pág. 514. “Na visão que me foi dada em Rochester, No-

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va Iorque, em 25 de dezembro de 1865, foi-me mostrado que nosso povo, os observadores do sábado têm sido negligentes... com respeito à reforma de saúde.” – Ibidem, pág. 485. 40. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 210. “Foram-me mostrados indivíduos que haviam evitado o testemunho direto. Vi a influência de seus ensinos sobre o povo de Deus.” – Ibidem, pág. 248. Ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 210-252 para uma visão geral de como Ellen White tornava públicas mensagens dadas previamente em caráter particular. Em uma mensagem anterior ela escreveu: “Meu caminho agora está livre para não mais prejudicar a igreja. Se as reprovações são dadas, não ouso apresentá-las sozinha às pessoas para que as enterrem, mas leio perante as pessoas de experiência da igreja o que o Senhor achou conveniente me conceder, e se o caso exigir, levo-o perante toda a igreja.” – Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 293 e 294. Em 1868, ela continuou a instruir os outros acerca de divulgar testemunhos particulares: “Ao repreender os erros de uma [pessoa], Ele pretende corrigir a muitas. Se estas, porém, deixam de tomar para si a repreensão, lisonjeando-se de que Deus passa por alto os seus erros porque não os aponta individualmente, elas enganam a si mesmas e se afundam em trevas, sendo abandonadas aos próprios caminhos para seguirem ‘as imaginações de seu coração’.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 112 e 113. 41. Manuscrito 13, 1868, citado em Biography, vol. 2, pág. 228. 42. Carta 6, 1868, citado em Biography, vol. 2, págs. 228 e 229. Mais tarde, na página de seu diário referente àquele dia, ela concluiu: “Não aliviemos o fardo, pois tudo o que aconteceu demonstrou apenas o quanto ela precisava de reprovação.” – Ibidem, pág. 229. 43. Loughborough, GSAM, pág. 231, citado em Biography, vol. 1, pág. 175. 44. Ibidem, págs. 175 e 176. 45. Biography, vol. 3, págs. 158-160. Ellen White endossou o relatório de G. B. Starr. 46. Ibidem, vol. 1, pág. 277. Loughborough escreveu: “Na descrição por escrito que a irmã White fez da mulher, ela não apenas relatou seu modo de agir, mas também o fato de que, ao ser reprovada, ela lançaria ‘um olhar de santarrona e diria: Deus... conhece... o... meu... coração.’ Ela disse que essa mulher viajava de um lado para outro do país na companhia de um rapaz, enquanto seu marido, um homem de mais idade, ficava em casa trabalhando para sustentá-los. A irmã White disse que o Senhor lhe havia mostrado que ‘com todas as pretensões de santidade dessa mulher, ela era culpada de violar o sétimo mandamento’.” – Loughborough, Review and Herald, 6 de maio de 1884, pág. 299. 47. Ibidem, págs. 279-281. 48. O Pastor Armitage contou essa história em princípios de 1931, na igreja de Redlands, Califórnia, onde G. B. Starr era pastor. Tempos depois, naquele mesmo ano, na reunião campal de Oakland, Califórnia, no dia 30 de junho, Starr recontou a história. O fato interessante que acompanha esse relato é que, quando o Pastor Armitage o contou em Redlands, ele também disse que, quando sua mãe morreu, seu pai casou com a irmã daquela mulher de Wisconsin, que tinha seis filhos. Todos os seis eram membros da igreja, um deles “ocupando lugar muito importante no Loma Linda Sanitarium”.

Depois, para tornar a história ainda mais dramática, apontou para a mãe que havia sido enganada pelo marido bígamo: naquele dia ela estava na igreja visitando a filha, uma dentre os seis filhos. – DF 496-d. 49. Para uma lista parcial de outros acontecimentos nos quais o olho e o dedo profético de Ellen White conduziram as pessoas rumo ao Céu, atente para o seguinte: (1) O gerente financeiro do St. Helena Sanitarium (1887), cuja infidelidade moral foi revelada a Ellen White enquanto ela estava na Europa e trazida à atenção dele mediante as cartas que ela lhe escreveu, agradeceu por fim o confronto persistente de Ellen White e a maneira como lidara com ele. – Roger Coon, A Gift of Light (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association), 1983, págs. 34 e 35. (2) Elbe (Sam) Hamilton, um jovem moribundo diagnosticado por Ellen White como acometido de triquinose, aprendeu a cozinhar e a comer adequadamente em sua própria cozinha. Anos depois, ela levou Sam até o Paradise Valley Sanitarium, onde ele testemunhou a existência do famoso poço escavado conforme as surpreendentes predições dela. – Ibidem, págs. 35-38. (3) Nathaniel Davis, redator da revista Signs of the Times na Austrália que passava por graves problemas financeiros, morais e envolvimento com espiritualismo, foi exposto numa reunião pública, mas depois ficou extremamente grato pela persistência de Ellen White. – Ibidem, págs. 38-41. (4) No fim de 1851 em Johnson, Vermont, o irmão Baker e outros estavam tendo diferenças doutrinárias que levavam a discussões extremamente acaloradas. As visões de Ellen White durante um período de vários dias trouxeram clareza e calma. Baker voltou ao ponto de partida, confessando que “toda palavra da visão relatada pela manhã a seu respeito era, literalmente, verdadeira e exata”. – Biography, vol. 1, págs. 220 e 221. (5) Em Vergennes, Vermont, pouco depois da experiência de Baker em 1851, Ellen White, por meio de uma visão, ajudou um membro da igreja que estava confuso com respeito ao erro da “era vindoura”. “Depois que eu tive a visão e a contei, o irmão Everts começou a fazer confissão e a humilhar-se na presença de Deus. Renunciou à ‘era vindoura’ e sentiu a necessidade de conservar a mente de todos na mensagem do terceiro anjo.” – Ibidem, págs. 222 e 223. (6) Ellen White relatou uma visão incluindo um pregador (que ela não conhecia) que estava ausente de casa num itinerário de pregação, e no entanto violando o sétimo mandamento. Seis semanas depois, ela encontrou-se com o homem na presença de outras pessoas e disse: ‘Tu és o homem.’ Ele confessou tudo imediatamente, confirmando uma visão dada a mais de oito quilômetros de distância. – Loughborough, Review and Herald, 4 de março de 1884. Ver também Loughborough, GSAM, págs. 319 e 320. (7) Em junho de 1853, uma visão de Ellen White ajudou a encerrar uma áspera disputa sobre “quem disse o que”, a qual dividia a igreja de Jackson, Michigan. Mas o incidente também forneceu ambiente para o primeiro movimento dissidente entre os adventistas observadores do sábado, conhecido como o Grupo Messenger. – Biography, vol. 1, págs. 276 e 277. (8) Victor Jones, um jovem de Monterey, Michigan, tinha uma luta com o apetite. Ellen White escreveu-lhe um testemunho baseado numa visão, um apelo eloqüente. – Carta 1, 1861, citado em Biography, vol. 1, pág. 465.

Perguntas Para Estudo

1. Qual a compreensão de Ellen White sobre suas exatas responsabilidades como mensageira do Senhor? 2. Como você descreveria as características de uma visão pública? 3. Quais as variadas formas empregadas por Ellen White para comunicar a outros mensagens recebidas em visão? 4. De que diferentes maneiras Ellen White recebia visões e sonhos? 5. Que Ellen White quer dizer quando afirma que seus testemunhos não seriam necessários se os membros da igreja tivessem sido diligentes estudantes da Bíblia? 6. Pode Satanás causar confusão imitando as características físicas das visões públicas de um profeta? Qual o perigo de depositar confiança em uma pessoa, baseando-se apenas nas características extraordinárias de uma visão pública?

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“E eles, tendo partido, pregaram em toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a Palavra por meio de sinais, que se seguiam.” Mar. 16:20.

Bates parecia ter compreendido dos breves comentários feitos por ela. Os telescópios de hoje revelam muito mais sobre os planetas, o número de suas luas e outros fenômenos siderais que Bates sequer sonharia. Mas o que realmente o deixou surpreso não foi a descrição dos “planetas”, mas a descrição que a Sra. White fez da “abertura no céu”, uma referência ao assim chamado “espaço aberto em Órion”. Relatou-se que ele teria dito que a descrição dela “superava em muito qualquer relato da abertura do céu que ele já havia lido de qualquer autor”.6 Não uma Lição de Astronomia O assunto parece claro: a visão não era uma lição de astronomia com pretensões de ser confirmada pelos telescópios modernos. Ao contrário, por meio de uma jovem inteiramente desconhecedora de astronomia, forneceu informação capaz de se conformar ao limitado conhecimento que Bates, um astrônomo amador, possuía em 1847.7 Se Ellen White tivesse dado uma pré-visualização do que o telescópio Hubble revelou na década de 1990, José Bates certamente se teria convencido de que Ellen White era uma fraude, uma fanática iludida. As dúvidas dele teriam se confirmado, e é provável que ele não se houvesse identificado posteriormente com os adventistas do sétimo dia. A confiança de Bates nas visões da Sra. White foi testada dois anos mais tarde. Os White estavam precisando muito de recursos para continuar publicando a revista Present Truth. Infelizmente, Bates criticava muito a disseminação da verdade por meio de periódicos. Ele preferia o método dos folhetos. No ponto mais crítico do desacordo e da falta de recursos, Ellen White teve uma visão de que o periódico “era necessário. ... Que a revista devia continuar... que ela iria onde os servos de Deus não conseguem ir”. Quando Bates soube que a Sra. White apoiava, parou de fazer oposição e dedicou sua influência ao desenvolvimento da obra de publicações.8

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s visões nem sempre envolviam dramáticas revelações ou instruções espetaculares durante deliberações da igreja. Algumas visões tratavam sobre questões comuns do dia-a-dia. Em 1850, os membros da igreja de Sutton, Vermont, perceberam que os White estavam cansados de viajar em diligências ou carroções. Contribuíram com 175 dólares para ajudá-los a comprar um cavalo e uma carruagem, deixando-os à vontade para escolherem o cavalo. Não demorou muito tempo para ser tomada esta importante decisão. Durante a noite, a Sra. White teve uma visão na qual ela teria que escolher entre três cavalos. No dia seguinte, ela compreendeu claramente que o belo cavalo malhado de pêlo castanho, chamado Charlie, era aquele que devia servi-los por muitos anos, porque o anjo havia dito em visão: “Este é o cavalo para vocês.”1

Visões Públicas Freqüentemente Transformavam Céticos em Crentes Durante várias décadas, contemporâneos observaram Ellen White em visão e fizeram por escrito as descrições desses acontecimentos impressionantes. As visões públicas freqüentemente transformavam pessoas céticas, e até mesmo adversários, em crentes. Um dos mais antigos e destacados céticos convertidos foi José Bates.2 Junto com outros que sabiam apenas do rumor das primeiras vi-

sões de Ellen White, Bates não estava convencido de que as visões dela “eram de Deus”.3 Naquele tempo, as visões eram confundidas com sessões espíritas ou mesmerismo. Bates pensava que as visões não passavam “do produto de um estado debilitado do corpo dela”.4 Mas mudou de idéia depois de observar várias experiências dela em visão. Uma visão, em particular, o impressionou. Em novembro de 1846, um pequeno grupo de observadores do sábado se reuniu na casa de Stockbridge Howland em Topsham, Maine. Entre eles estavam José Bates e os White. Ellen White foi tomada em visão e “contemplou pela primeira vez outros planetas”. Depois da visão, ela relatou o que vira. Bates, um astrônomo amador, perguntou se ela já havia estudado astronomia. Surpreso com o que ouviu, exclamou: “Isto é do Senhor.” Mais tarde, depois de observar diversas outras visões, escreveu em um pequeno folheto: “Dou graças a Deus pela oportunidade de, juntamente com outros, testemunhar estas coisas. ... Creio que a obra é de Deus, e é feita para confortar e fortalecer Seu povo espalhado, atormentado e aturdido.”5 Ellen White jamais escreveu esta “visão sobre astronomia”. Jamais identificou pelo nome os planetas que viu. Mas Bates ligava os nomes dos planetas àquilo que ele pensava que Ellen White estava descrevendo, e outros, inclusive Tiago White, relataram o que

O jovem Daniel Bourdeau, com a idade de vinte anos, fazia trabalho missionário para a Igreja Batista no Canadá quando soube que seus pais e seu irmão mais velho (Augustin C.) haviam se tornado membros dos adventistas sabatistas no Norte de Vermont. Na tentativa de dissuadi-los, descobriu que eles o haviam persuadido com respeito ao sábado e a outras doutrinas. Mas Daniel ainda era um “descrente nas visões” – até a manhã de domingo do dia 21 de junho de 1857, quando ele observou Ellen White em visão em Buck’s Bridge, Nova Iorque. Disseram que ele podia examiná-la durante a visão. Em suas palavras, “para satisfazer minha mente com respeito a se ela respirava ou não, pus a mão no seu tórax tempo suficiente para verificar que não havia mais elevação dos pulmões do que haveria se ela fosse um cadáver. Depois coloquei a mão em cima de sua boca, apertando-lhe as narinas entre o polegar e o indicador, de modo que lhe era impossível inalar ou exalar ar, ainda que o desejasse fazer. Fiquei com a mão nessa posição por cerca de dez minutos, tempo suficiente para que ela ficasse sufocada em circunstâncias normais. Ela não foi afetada em nada por esta experiência. ... Desde que testemunhei este maravilhoso fenômeno, já não me inclino a duvidar da origem divina de suas visões.”9 A visão mais longa de Ellen White (quatro horas) ocorreu em 1845, antes de seu casamento com Tiago. Uma das acusações feitas contra ela era a de que não conseguiria ter visões se Tiago White e sua irmã Sarah (ambas as pessoas acompanhavam Ellen em suas primeiras viagens) não estivessem presentes. Esperando revelar a verdade sobre a acusação, Otis Nichols convidou Ellen e Sarah a sua casa, mas deixou Tiago em Portland. Entre os da região de Boston que contestavam a validade da experiência de Ellen Harmon, estavam líderes fanáticos, incluindo Sargent e Robbins, que também defendiam a idéia de que trabalhar era pecado.10 Sargent e Robbins foram convidados e compareceram à casa de Nichols, mas, quando souberam que Ellen Harmon estava presente,

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retiraram-se rapidamente, advertindo Nichols de que as visões dela eram “do diabo”. Antes que eles saíssem, Nichols lhes disse que Ellen Harmon gostaria de comparecer à próxima reunião deles em Boston, com o que concordaram. Mas à noite, antes da reunião prevista, foi mostrado em visão a Ellen White que esses homens não tinham plano nenhum de encontrar-se com ela. Eles haviam alertado seus seguidores para reunirem-se em Randolph, quase 21 quilômetros ao sul de Boston. Naquela visão também lhe foi dito que ela deveria encontrar-se com este grupo em Randolph, pois ali Deus lhe daria uma mensagem que convenceria “os sinceros e os sem preconceitos, se suas visões eram do Senhor ou de Satanás”.11 Quando Ellen Harmon e seu grupo chegaram, Sargent e Robbins suspiraram de surpresa. Robbins disse a Sarah, irmã de Ellen, que Ellen não conseguiria ter uma visão se ele estivesse presente! Na reunião daquela tarde, porém, conforme relata Otis Nichols, Ellen foi “arrebatada em visão com extraordinárias manifestações, e continuou falando em visão com uma voz penetrante, que podia ser entendida distintamente por todos os presentes, até perto do pôr-do-sol [cerca de quatro horas]”. Que fizeram Sargent e Robbins durante esse tempo? “Esgotaram toda a sua influência e as forças físicas para destruir o efeito da visão. Uniram-se para cantar muito alto e depois, alternadamente, falavam e liam a Bíblia em voz alta, a fim de Ellen não ser ouvida, até que suas forças se esgotaram, e as mãos lhes tremiam de modo que não podiam ler a Bíblia.” A Pesada Bíblia de Família O Sr. Thayer, o dono da casa, não estava muito convencido de que Ellen Harmon era do diabo. Ouvira dizer que uma das maneiras de provar se as visões eram de Satanás era colocar uma Bíblia aberta sobre a pessoa em visão. Ele pediu a Sargent que fizesse isso, mas ele se recusou. Sendo um homem de ação, Thayer tomou sua pesada Bíblia de família, abriu-a e colocou-a sobre o peito de Ellen Harmon (que es-

tava inclinada contra a parede). Ela se ergueu imediatamente e caminhou até o meio da sala, segurando a Bíblia bem alto com uma das mãos. Com a mão livre, tendo os olhos voltados para o alto e não para a Bíblia, ela começou a virar as folhas, colocando o dedo sobre determinadas passagens. Muitos que estavam na sala e que viram as passagens indicadas pelo dedo dela perceberam que ela as citava corretamente, ainda que seus olhos fitassem o alto. Mas Sargent e Robbins, embora estivessem em silêncio agora, continuaram a endurecer-se, recusando dramaticamente a desmentir tudo quanto haviam dito. Nichols relatou mais tarde que este “Grupo Antitrabalho” tornou-se mais fanático, declarando-se livres de todos os pecados. Cerca de um ano depois, o grupo se dispersou em meio a revelações “dos atos vergonhosos da vida deles”.12 Em 1852, um acontecimento muito pessoal convenceu Marion Stowell de que as visões de Ellen White eram autênticas. Em um de seus itinerários através do norte e oeste de Nova Iorque, os White encontraram Marion exausta após dois anos e meio cuidando da Sra. David Arnold. Ao prosseguirem viagem, convidaram-na para juntar-se a eles em seu trenó. Marion Stowell relembrou posteriormente em uma carta endereçada à Sra. White: “Não tínhamos andado muitos quilômetros quando a irmã disse: ‘Tiago, tudo quanto me foi mostrado a respeito desta viagem aconteceu, menos uma coisa. Realizávamos uma pequena reunião em uma família particular e você falava com grande liberdade sobre seu tema favorito: A breve vinda de Cristo.’” Tiago respondeu: “É impossível [que isto] aconteça nesta viagem, pois não existe nenhuma família adventista daqui até Saratoga. Ficaremos hospedados em um hotel esta noite, e certamente não teremos nenhuma reunião ali, e amanhã à tarde chegaremos em casa. Talvez isso ocorra em nossa próxima viagem.” Ellen replicou: “Não, Tiago, com certeza isto se referia a esta viagem; pois nada me foi mostrado em relação à próxima, e faltam três

meses para empreendermos outra. Refere-se a esta viagem, contudo não sei como vai acontecer.” Perto do pôr-do-sol, lembrando que um amigo recém-casado morava nas proximidades, os White pararam para um visita e foram recebidos com muita alegria. Marion Stowell continuou a história: “Depois do jantar, Emily disse: ‘Irmão White, o irmão se importaria em falar a meus vizinhos sobre a breve volta de Jesus? Posso em pouco tempo encher ambos os compartimentos. Eles têmme ouvido falar muito sobre vocês dois, e virão.” E eles foram. Somente quando já estavam a caminho da próxima parada, Saratoga Springs, foi que o grupo de viajantes se lembrou da ligação entre a visão anterior e aquela reunião vespertina. Marion confidenciou a Ellen White: “Desde aquela ocasião até agora Satanás não mais me tentou a duvidar de suas visões.”13 Muitas são as histórias, cada uma singular, que revelam como homens e mulheres ficaram convencidos da autenticidade das visões da Sra. White. A experiência de Stephen Smith é típica. Relatos na Review and Herald indicavam que Smith passou por uma série de experiências na década de 1850 que levaram à sua exclusão da comunhão da igreja. Durante este período, a Sra. White lhe escreveu um testemunho. Quando ele o recebeu, lançou-o no fundo de um baú sem abri-lo e ali o deixou por vinte e oito anos! Durante esses anos a Sra. Matilda Smith permaneceu fiel e recebia semanalmente a Review and Herald. Finalmente seu marido apanhou os exemplares, começou a lê-los e foi abrandado pelos artigos escritos por Ellen White, de quem ele se lembrava desde a década de 1850. Depois ele assistiu a uma reunião de reavivamento na igreja de Washington, New Hampshire, uma igreja que durante três décadas ele havia ridicularizado. Depois de fazer uma confissão pública, em determinado sábado, sobre o quanto estivera errado, lembrou-se na quinta-feira seguinte que o testemunho não aberto estava no fundo do baú. No sábado seguinte, ele voltou à igreja de Washington e contou sua história: “Irmãos, cada palavra do testemunho que

me foi enviado é verdadeira, e eu o aceito. Cheguei ao ponto em que finalmente creio que todos eles [os testemunhos] são de Deus, e se eu houvesse atendido àquele que Deus me enviou, bem como o restante, ele teria mudado todo o rumo de minha vida, e eu teria sido um homem muito diferente. ... “Os testemunhos diziam que não haveria mais pregação de ‘data definida’ depois do movimento de 1844, mas eu pensava que sabia mais do que as visões de uma velha, como eu costumava chamá-la. Que Deus me perdoe! Mas, para minha tristeza, descobri que as visões estavam certas, e o homem que pensava saber tudo estava completamente errado, pois preguei sobre o tempo em 1854, e gastei tudo quanto possuía, quando se os houvesse atendido, ter-me-ia poupado tudo isto e muito mais. Os testemunhos estão certos, e eu estou errado. ... Quero que digam a nosso povo em toda parte que se rendeu outro rebelde.”14 Como as Visões Eram Lembradas A maior parte das visões ou sonhos de Ellen White era provavelmente escrita num amplo esboço logo depois que ela os recebia. Com o passar do tempo, ela preenchia os detalhes.15 A visão que ela recebeu no Natal de 1865, em Rochester, Nova Iorque, foi particularmente abrangente. Até 1868, de acordo com Tiago White, Ellen White havia escrito “vários milhares de páginas” baseando-se naquela única visão.16 Os muitos assuntos daquela visão se tornaram parte importante de sua agenda para os três anos seguintes. A Sra. White não se lembrou de uma só vez de todos os elementos da visão. Ao visitar igrejas e famílias em sua turnê pelo Leste no fim de 1867 e pelo norte de Michigan em 1868, ela viu muitos rostos que instantaneamente lhe fizeram lembrar de mensagens que tinha para elas, as quais então transmitiu oralmente ou por escrito.17 Muitas vezes, as pessoas que recebiam testemunhos orais específicos queriam ter uma cópia escrita. Obviamente esses eram crentes sérios que desejavam colocar a vida em harmonia com a admoestação da profetisa. Com

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respeito a esta prática, Tiago White escreveu em 1868: “Desejo dizer a esses amigos que solicitaram à Sra. White que ela escrevesse os testemunhos pessoais que neste ramo de atividades ela tem em mãos trabalho para cerca de dois meses.”18 Essa prática de não escrever toda a visão imediatamente não era incomum. Em 1860, Ellen White refletiu: “Depois que saio de uma visão não me lembro imediatamente de tudo o que vi, e o assunto não me é claro até que começo a escrever; então a cena surge perante mim como me foi apresentada em visão, e posso escrever com liberdade. “Algumas vezes as coisas que vi me são ocultas depois que saio da visão, e não as posso evocar até que me encontro perante um grupo de pessoas no lugar a que se aplica a visão; então o que vi me vem com força à mente. Sou tão dependente do Espírito do Senhor ao relatar ou escrever uma visão, como ao ter
Referências
1. Biography, vol. 1, pág. 178. 2. Para uma biografia de José Bates, ler Godfrey T. Anderson, Outrider of the Apocalypse: Life and Times of Joseph Bates (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1972); Schwarz, Light Bearers, págs. 59-70; Spalding, Origin and History, vol. 1, págs. 25-41; ver também Joseph Bates, Autobiography (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1868, reprodução em fac-símile, Southern Publishing Association, Nashville, TN, 1970), para um retrospecto de sua vida até 1858. Bates, um capitão da marinha convertido, gastou sua fortuna promovendo a mensagem milerita. Tornou-se um dos primeiros adventistas sabatistas (1845), o primeiro a imprimir um folheto sobre o sábado como dia de repouso, The Seventh-day Sabbath a Perpetual Sign (1846). Esse folheto tornou-se para Tiago e Ellen White uma convincente confirmação de que o sábado, e não o domingo, era o dia de repouso cristão. – Schwarz, Light Bearers, págs. 59 e 60; Biography, vol. 1, págs. 116 e 117. 3. Life Sketches, pág. 97. 4. Ibidem. 5. A Word to the Little Flock, pág. 21, em Knight, 1844 and The Rise of Sabbatarian Adventism, pág. 175; ver J. N. Loughborough, Rise and Progress of the Seventh-day Adventists (Battle Creek, MI: General Conference Association of the Seventhday Adventists, 1892, reimpresso por Payson, AZ: Leaves of Autumn Books, Inc., 1988), págs. 125-128; Schwarz, Light Bearers, pág. 67; Biography, vol. 1, págs. 113 e 114. 6. Loughborough, GSAM, págs. 258 e 259. 7. Alguns talvez perguntem por que Deus não revelou a

a visão. É-me impossível evocar o que me foi mostrado a menos que o Senhor o apresente diante de mim ao tempo que é de Seu agrado que eu o relate ou escreva.”19 Nem Todas as Visões Foram Escritas Ocasionalmente Ellen White não escrevia as particularidades de uma visão; o que sabemos sobre a visão foi relatado por observadores. Sua primeira visão sobre saúde, por exemplo, em 1848 foi descrita por seu marido Tiago vinte e dois anos depois na Review and Herald de 8 de novembro de 1870. Sua primeira visão sobre a Guerra Civil, recebida em Parkville, Michigan, em 12 de janeiro de 1861, ao que parece, não foi registrada. Contudo, depois de sair da visão de vinte minutos, ela contou ao auditório os acontecimentos que em breve teriam lugar. J. N. Loughborough estava presente e fez copiosas anotações.20

Perguntas Para Estudo

1. Que circunstâncias mudaram o ceticismo de José Bates em serena confiança? 2. Por que Deus não deu a Ellen White uma imagem de Órion tal como um moderno telescópio Hubble forneceria? 3. De que forma a mais longa visão de Ellen White inspirou confiança aos observadores? 4. Como a visão ocorrida em 1852 no leste de Nova Iorque trouxe confiança a outros?

Ellen White “toda a verdade” sobre planetas, espaços abertos, etc. As experiências mostram que Ele nunca revelou “toda a verdade” a nenhum profeta de uma só vez. Paulo, por exemplo, tinha muito que dizer sobre a maneira como os donos de escravos cristãos deviam tratar seus escravos, mas ele não enxergava “toda a verdade” sobre como o sistema da escravidão devia ser desmantelado. O Senhor enfatizou este princípio: “Tenho muito ainda que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16:12); ver também Mar. 4:33 e I Cor. 3:2. 8. Biography, vol. 1, págs. 171 e 172. 9. Loughborough, GSAM, pág. 210. 10. Ver pág. 50. 11. Biography, vol. 1, págs. 100-102. 12. Ibidem, págs. 103-105. 13. Carta de Marion Stowell a Ellen White, Crawford, 9 de outubro de 1908, citada em Biography, vol. 1, págs. 225 e 226. 14. Ibidem, págs. 490-492. 15. Ver a história da visão de 1890 em Salamanca, Nova Iorque, em Biography, vol. 3, págs. 464-467, 478-483. Ver também pág. 188. 16. Review and Herald, 16 de junho de 1868, pág. 409. 17. Ver a experiência de Bushnell, págs. 127 e 128. 18. Review and Herald, 3 de março de 1868, pág. 192. 19. Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 292 e 293 (Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 36 e 37). 20. Ver págs. 159 e 160. Loughborough, RPSDA, págs. 236 e 237. Em seu prefácio, Loughborough escreveu: “Desde novembro de 1853 tenho mantido um diário das ocorrências de cada dia.” A narrativa em (RPSDA) daquela data é proveniente do relato deste diário.

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Instruções e Predições Oportunas1
“O profeta que profetizar paz, somente quando se cumprir a palavra desse profeta é que será conhecido como aquele a quem o Senhor, na verdade, enviou.” Jer. 28:9.

O

s profetas nem sempre estão cientes do tempo a que as visões se aplicam. Enquanto esteve na Austrália, Ellen White escreveu a um pastor, reprovando-o por violar o sétimo mandamento. O pastor, perplexo com o testemunho pois não havia cometido atos adulterinos, dirigiu-se a W. C. White em busca de uma explicação. O Pastor White lembrou-lhe que os homens podem fazer sutis distinções nesta área, mas Deus olha para o coração. Dentro de seis meses, esse pastor foi dispensado do ministério devido ao problema pelo qual a Sra. White o havia reprovado.2 Também enquanto esteve na Austrália, “foi-lhe mostrado em Chicago um grande edifício... suntuosamente mobiliado”. Ela ficou intrigada quando lhe disseram que “tal edifício não fora construído em Chicago”. Mas ela sabia o que havia visto em visão: “O Senhor me mostrou o que homens estavam planejando fazer. Eu sabia que o testemunho era verdadeiro, mas o assunto só foi explicado recentemente.”3 Como foi ela esclarecida? O Juiz Jesse Arthur, que fora por muito tempo advogado do Battle Creek Sanitarium, conversou com ela no verão de 1902. O Juiz Arthur contou-lhe que o testemunho a respeito de um “grande edifício em Chicago” estava claro para ele, “pois sabia que estavam sendo feitos preparativos para erguer em Chicago um edifício correspondente àquele que fora mostrado... em visão”.

Tempos depois, o juiz confirmou sua conversa por meio de uma carta escrita em 27 de agosto de 1902. Ele era o presidente da comissão de construção, composta de três membros: “A comissão reuniu-se [em 26 de junho de 1899] e imediatamente formulou planos para a compra de um terreno e a construção de tal edifício. Na qualidade de presidente da comissão, recebi instruções para abrir as negociações... e, além disso, levantar os fundos necessários para a compra do terreno e a construção do edifício projetado.”4 Em 28 de outubro de 1903, Ellen White escreveu a Kellogg: “Se eu não tivesse recebido esta visão e não tivesse escrito ao irmão sobre o assunto, ter-se-ia feito um esforço para erguer tal edifício em Chicago, em um lugar em que o Senhor disse para não se construir edifícios grandes. Na época em que a visão foi dada, as influências atuavam em prol da construção desse edifício. A mensagem foi recebida a tempo de impedir a elaboração dos planos e a execução do projeto.” Depois de receber essas mensagens, Kellogg afastou-se do projeto de Chicago.5 Foi assim que se esclareceu o motivo para a visão de Ellen White. Comunicação de Visões Muitas Vezes Decisivas no Momento Certo Freqüentemente uma carta de Ellen White chegava a uma distante reunião de comissão ou a uma decisiva reunião de igreja no dia exato em que era necessária, ainda que a re-

metente estivesse a milhares de quilômetros de distância. Outras vezes, não uma carta, mas sua presença modificava o rumo de uma reunião, principalmente porque ela recebera instruções por meio de uma visão. Em 1887, em Vohwinkel, Prússia, competia-lhe falar na manhã de sábado, 28 de maio. Durante a sexta-feira à noite, teve um sonho daquilo que enfrentaria no sábado pela manhã. No sonho o ancião da igreja “parecia tentar ferir alguém. ... A reunião não beneficiara ninguém”. Um estranho, que já se havia sentado anteriormente na assembléia, levantou-se para falar no fim do culto, apontando para Jesus como exemplo para eles em todas as coisas. Depois que Ellen White concluiu o sermão (que ela intitulara “A Oração de Cristo Para que Seus Discípulos Sejam um Como Ele e o Pai São um”) no qual ela descreveu o sonho, houve por toda a congregação confissões, pranto e regozijo. O culto se prolongou por três horas enquanto a “suave luz do Céu” enchia o recinto.6 As assembléias da Associação Geral eram ocasiões freqüentes para a direta intervenção de Ellen White. Enquanto a assembléia de 1879 estava em andamento, ela teve uma visão, sobre a qual escreveu: “Em 23 de novembro de 1879, foram-me mostradas algumas coisas com relação às nossas instituições e os deveres e perigos daqueles que nelas ocupam posição de liderança.” Seguiam-se setenta páginas, repletas de conselho, reprovação e encorajamento – todas as quais forneceram o conteúdo das várias palestras que ela apresentou à delegação. Antes do término da assembléia, foi tomado o seguinte voto: “Considerando que Deus falou mais uma vez de maneira misericordiosa a graciosa a nós, como pastores, em palavras de admoestação e reprovação pelo dom do Espírito de Profecia; e “Considerando que essas instruções são justas e oportunas, e de suma importância em sua relação com os nossos trabalhos e utilidade futuros; portanto, “Fica resolvido que, por meio deste, expressamos nossa sincera e reverente gratidão a

Deus por Ele não nos haver deixado em nossa cegueira, como poderia com justiça ter feito, mas em nos haver concedido outra oportunidade para vencer, apontando fielmente nossos pecados e erros e nos ensinando a maneira de agradarmos a Deus e tornar-nos úteis em Sua causa. “Fica resolvido que, embora seja correto e apropriado expressarmos desta forma nosso agradecimento a Deus e a Seus servos, a melhor maneira de expressarmos nossa gratidão é atentando fielmente para o testemunho que nos foi apresentado; e, por meio deste, comprometemo-nos a empenhar os mais diligentes esforços para reformar-nos nesses pontos em que somos deficientes conforme nos foi mostrado, e a ser obedientes à vontade de Deus graciosamente por Ele revelada.”7 A Visão de Salamanca A presença decisiva de Ellen White durante a assembléia da Associação Geral realizada em março de 1891 em Battle Creek, Michigan, impediu a liderança de cometer grave erro com respeito ao programa de liberdade religiosa da igreja e outros regulamentos de publicações.8 A utilidade do propósito e relevância das visões é destacada no momento de sua apresentação ao público. Conquanto concedida à Sra. White em novembro de 1890, em Salamanca, Nova Iorque, e embora ela encontrasse muitas oportunidades para aplicar muito da mensagem da visão às condições correntes, a parte central da visão ficou guardada em sua memória até o momento exato em que seria mais eficaz. Se ela tivesse relatado toda a visão (como tentou fazer em várias ocasiões) em qualquer outro tempo a não ser naquela famosa reunião secreta no sábado à noite, a mensagem teria sido obviamente tida na conta de falsa informação.9 Mas não foi apenas com as questões da Associação Geral que os líderes denominacionais reconheceram o conselho oportuno dado pelo Espírito de profecia. Aqueles que se envolveram em crises como a da proposta de venda do Boulder Sanitarium (Colorado) jamais se esqueceram da orientação rápida, adequada e lúcida que a situação exigia – sa-

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bedoria que a liderança não conseguiria ver, não fosse o testemunho inspirado de Ellen White. A crise do Boulder Sanitarium [hospital] nos últimos meses de 1905 é uma ocorrência que foi estudada e mostra como alguns planos comerciais podem parecer “razoáveis”, mesmo quando se negligenciam princípios e propósitos elevados. Naquela época, os líderes e leigos que dirigiam a associação criam que faziam um favor à denominação vendendo a instituição. Contudo, Ellen White deixou claro que não era propósito de Deus que se devesse construir outro hospital em Boulder ou em Canon City, 160 quilômetros ao sul de Boulder – pelo menos não pelos adventistas. Seu conselho sem ambigüidades, escrito a pessoas-chaves fez refluir a maré, embora essa advertência tenha caído sobre os líderes como um pesado golpe.10 Tensões em Língua Estrangeira Também em 1905, outro problema que se agravava estava chegando a um ponto crítico. Os líderes da obra em língua estrangeira na América do Norte lutavam furiosamente para separar os estabelecimentos editoriais para a obra em línguas alemã, dinamarquêsnorueguês e sueco. Além disso, esses líderes queriam associações separadas para os três grupos étnicos. No Concílio de Departamento Estrangeiro da Associação Geral, realizado em College View, Nebraska, em 5 de setembro de 1905, os líderes da igreja reuniram-se com grande apreensão. Ellen White, que morava na Califórnia, foi solicitada a dar seu conselho. Além de reunir matérias relevantes que havia escrito anteriormente, ela escreveu três novos testemunhos. O tema central de seu conselho, claramente afirmado nos dois anos que passou na Europa onde o assunto estava sempre diante dela, foi: “De acordo com a luz que me foi dada por Deus, organizações separadas, em vez de gerar unidade, criarão discórdias. ... Devo escrever francamente a respeito da construção de paredes de separação na obra de Deus. Foi-me revelado que essa atitude é uma falácia de invenção humana.”11 G. A. Irwin, vice-presidente da Associa-

ção Geral, que estava presente na reunião de College View, escreveu depois do concílio: “Alegro-me em dizer-lhes que o Senhor nos concedeu a vitória aqui de forma tão assinalada como o fez no Colorado [a crise do Boulder Sanitarium no mesmo ano]. As mensagens da irmã White chegaram justamente no momento certo e responderam às perguntas mais importantes que tínhamos diante de nós. Tornaram o assunto tão claro e simples que até mesmo os defensores mais extremistas de uma separação foram induzidos a aceitá-las.”12 Durante o conflito de 1905 com John Harvey Kellogg, muita gente em Battle Creek ficou convencida de que ele havia sido injustiçado ou, no mínimo, mal compreendido. A reação comum de Kellogg às intervenções de Ellen White no começo da década de 1900 fora: “Alguém contou isso à irmã White!” A crise Kellogg foi talvez mais grave do que o conflito denominacional mencionado anteriormente. Em 21 de dezembro de 1905, Ellen White havia enviado um telegrama a A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, dizendo que ela possuía conselho especial para ele e para outros naquela hora crítica. O pacote de manuscritos chegou em 26 de dezembro e foi lido diante do auditório superlotado do Tabernáculo de Battle Creek. O que surpreendeu a todos foi o fato de dois dos manuscritos terem sido escritos com muita antecedência (agosto de 1903 e 1o de junho de 1904), mas não terem sido copiados até que ela fosse impressionada a fazê-lo na quinta-feira anterior, dia em que havia enviado o telegrama. O efeito dos manuscritos, lidos sem comentário, foi impressionante. Vários homens que haviam sido seduzidos pelos argumentos de Kellogg aproximaram-se rapidamente de Daniells dizendo que a notável reunião realizada por Kellogg na noite anterior havia sido claramente descrita por Ellen White nos manuscritos escritos meses antes e copiados apenas dias antes. Também disseram que, “se havia qualquer dúvida na mente deles quanto à fonte dos testemunhos, isto fora varrido por suas próprias declarações [conforme apresentadas por Ellen G. White] nos testemunhos”.13

O Testemunho Mais Curto O mais breve testemunho que Ellen White já deu foi um telegrama recebido por M. N. Campbell, pastor da igreja (tabernáculo) de Battle Creek, durante o litígio pela propriedade do Tabernáculo em 1906-1907. O grupo do hospital estava decidido a obter a propriedade. A maioria dos depositários da igreja estava predisposta a apoiar os desejos do grupo do hospital. Mas o jovem pastor, igualmente determinado de que a propriedade deveria permanecer nas mãos da denominação, convocou alguns dos membros mais influentes da igreja para uma oração especial antes da última e mais decisiva reunião. Campbell relatou o acontecimento: “Todos eram homens bons e fiéis, mas não sei se já vi um grupo de homens mais amedrontados. O idoso irmão Amadon,14 um dos cristãos mais gentis que já viveu, lamentava: ‘Se apenas a irmã White estivesse aqui, se apenas a irmã White estivesse aqui.” Todos sabiam que Ellen White estava na Califórnia, mas Amadon continuava: “Oh, se apenas a irmã White estivesse aqui.” Momentos depois, dez minutos antes da abertura da tensa reunião, chegou um telegrama para Campbell. Continha esta mensagem: “Filipenses 1:27 e 28. (Assinado) Ellen G. White.” Aquele texto com a mensagem que a Sra. White tinha em vista fortaleceu os homens para o que precisava ser feito. Campbell escreveu: “Isso resolveu a questão. Aquela era a mensagem da irmã White que precisávamos naquele exato momento. Deus sabia que estávamos realizando aquela reunião, que tínhamos um grupo de homens amedrontados e que precisávamos de Sua ajuda; por isso Ele nos enviou a mensagem que chegou até nós na hora H. Aquilo nos pareceu muito bom.”15 De vez em quando, Ellen White instava com pessoas quando estas se achavam diante de uma decisão séria que poderia mudar-lhes a vida, advertindo-as da própria crise que as ameaçava. Sua preocupação por seu velho amigo, D. M. Canright, enquanto ele passava por sua última deserção, é um exemplo dentre muitos. Canright havia solicitado a exclusão do

seu nome dos livros da igreja em Otsego, Michigan, solicitação que foi atendida em 17 de fevereiro de 1887.16 Embora estivesse na Europa, Ellen White não ficou surpresa com esses acontecimentos lamentáveis. Numa visão ela vira Canright navegando em “águas muito agitadas”. Ela instou com ele: “Espere, e Deus o ajudará. Seja paciente, e aparecerá a clara luz. Se ceder às impressões, perderá a salvação. ...” Esta carta foi posteriormente impressa nos Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 571-573 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 216 e 217), com “irmão M” referindo-se a Canright. Mas Canright não esperou, e a predição da Sra. White de que seu “sol certamente se porá na obscuridade” se cumpriu tragicamente.17 Em 1900, Daniel H. Kress, um médico adventista, foi nomeado para chefiar a obra médica na Austrália. Ele defendia zelosamente a abstenção de todos os produtos animais. Mas em suas freqüentes viagens na virada do século tinha dificuldade em adquirir alimentos adequados a um regime alimentar equilibrado. Por isso, com a idade de quarenta anos, desenvolveu uma anemia perniciosa. Quando Ellen White o viu em visão, ele estava às portas da morte. Falando daquela maneira sincera que lhe era característica, ela o instruiu a “fazer mudanças, e desde logo. Ponha em seu regime algo do que dele você excluiu. ... Obtenha ovos, de galinhas sadias. Use esses ovos cozidos ou crus. Ponha-os crus no melhor vinho sem fermento [suco de uva] que possa obter. Isto lhe suprirá ao organismo o que lhe é necessário.”18 Seu conselho, inspirado na visão relacionada ao terrível estado de saúde de Kress, era exatamente o que o médico enfermo precisava. Ele se recuperou inteiramente e viveu mais cinqüenta e dois anos em uma vida de serviço médico e administração.19 Às Vezes as Visões Mudavam os Hábitos e Opiniões da Sra. White De vez em quando, Ellen White se sentia como Natã quando descobriu haver dado um conselho errado ao rei Davi.20 Em 1902, ela teve a oportunidade de mudar o conselho dado aos principais oficiais da Associação Geral.

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Na virada do século, Edson White encabeçava o trabalho em favor dos negros no Sul, principalmente por meio da publicação de literatura no Sul para o Sul. Sua mãe havia dado bastante apoio a sua obra, principalmente porque era a única obra significativa que estava sendo feita. À medida que o trabalho de Edson progredia, elaboraram-se planos para o estabelecimento de uma casa editora denominacional em Nashville, Tennessee. Mas a força de Edson repousava, não nas finanças, mas na promoção, impressão e redação de literatura que atendesse às necessidades do Sul. Os débitos se elevavam perigosamente enquanto os líderes denominacionais tentavam estabilizar a grave crise financeira que acometera a igreja. Mas os líderes hesitaram em fechar as portas da nova casa editora de Nashville pelo fato de Ellen White estar apoiando o filho naquele trabalho pioneiro.21 Numa reunião especial convocada em Elmshaven, no dia 19 de outubro de 1902, os líderes da igreja precisaram de conselho, particularmente a respeito da dívida e da obra denominacional em Nashville. Depois que a Sra. White ouviu os fatos, disse: “A causa de Deus não deve ser exposta ao descrédito. As coisas devem ser postas em ordem, doa a quem doer. Edson deve dedicar-se ao ministério e a escrever, e renunciar às coisas que o Senhor lhe impediu de fazer. As finanças realmente não são seu forte. Quero que os irmãos... ajam exatamente como agiriam se meu filho não estivesse ali. ... Não quero que ninguém pense que estou apoiando Edson num erro.” A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, satisfeito com a entrevista, regressou para Battle Creek com uma cópia da entrevista no bolso. A liderança agora estava convicta de que fechar o estabelecimento de Nashville era a coisa mais acertada a fazer. Mas dentro de vinte e quatro horas, após a entrevista em Elmshaven, a Sra. White escreveu uma carta que mudaria todo o quadro. Inspirada por uma visão da noite (ou sonho

noturno), ela viu que não era preciso fechar a gráfica de Nashville, que a consolidação de interesses editoriais denominacionais não era plano de Deus e que “o campo sulista [devia] publicar seus livros em sua própria editora”.22 Visão Muda o Conselho da Profetisa Semanas depois, ela explicou à liderança denominacional: “Durante a noite seguinte à nossa entrevista realizada dentro de minha casa e fora no gramado sob árvores, em 19 de outubro de 1902, com respeito ao trabalho no campo sulista, o Senhor me instruiu que eu havia tomado uma atitude errada.” Tempos depois, escrevendo palavras de encorajamento, disse: “Desta luz central irradiará o ministério da Palavra, na publicação de livros grandes e pequenos”, porque “mal temos tocado o campo sulista com a ponta dos dedos”.23 Todos os envolvidos compreenderam que haviam sentido as mesmas emoções sentidas por Natã e Davi três milênios antes. O Senhor estava muito próximo de Seu povo que desejava ouvir o Espírito de Profecia. Em 1849, o povo adventista reunia-se em diversos núcleos através da Nova Inglaterra e no interior do Estado de Nova Iorque. S. W. Rhodes, um antigo líder do movimento milerita, desanimado, recusava intercâmbio social. Mas seus amigos perseveravam em sua atenção para com ele, embora muitas vezes ele se recusasse a aceitar. Os White achavam que não valia a pena fazer qualquer esforço adicional em favor de Rhodes. Apesar disso, enquanto um grupo de adventistas orava, Ellen White teve uma visão “que contrariava sua opinião e sentimento anterior com relação ao trabalho de recuperação do irmão Rhodes, até o momento em que o Espírito a tomou em visão”.24 Ao planejar a construção da primeira igreja de Avondale em 1897, predominava o desânimo. A crítica situação financeira por toda a Austrália afetava diretamente o desenvolvimento da obra educacional e médica da igreja. Ellen White sabia que a construção da

igreja era essencial ao espírito geral que devia promover maior desenvolvimento do colégio que lutava com dificuldades. Apesar disso, ela estava disposta a ouvir a advertência dos líderes locais. Sabia que eles arcavam com pesadas responsabilidades e que o quadro financeiro era desanimador. Certo dia, em solidariedade humana, ela mencionou a um dos líderes: “Não teremos pressa em construir a casa de culto.” Naquela noite, porém, teve uma visão que mudou suas “idéias substancialmente”. Em uma carta endereçada à pessoa com quem concordara poucas horas antes, disse ela: “Recebi instruções para falar ao povo e dizerlhe que não devemos deixar a casa do Senhor em segundo plano. ... Construa a casa de Deus sem demora. Adquira o local mais favorável. Prepare assentos que sejam apropriados à casa de Deus.”25 Às Vezes as Visões Modificavam as Opiniões Teológicas de Ellen White Os profetas crescem em graça e conhecimento como os demais crentes. Ao escolher Seus profetas ou profetisas, Deus sempre selecionou os que se adequassem melhor a Seus propósitos – mas apenas os melhores daquela época! Ele escolheu polígamos e duvidosos, até mesmo alguns que mentiram (por exemplo, Abraão e Davi). Profeta algum contemplou o quadro inteiro do começo ao fim. Todos os profetas passaram por “aprendizagem no trabalho”. Se conhecêssemos todos os fatos sobre cada profeta, descobriríamos que cada um continuou aprendendo cada vez mais sobre sua missão e sobre o plano de Deus para eles e para Seu povo. Eles tinham muito que aprender e muito que desaprender. Como resultado, suas mensagens tornaram-se mais precisas com o correr do tempo. Pense em João Batista, a quem Jesus declarou ser “muito mais que profeta. ... Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista”. Mat. 11:9 e 11. Contudo, João “não compreendia a natureza do reino de Cristo”.26 Em seu dramático ministério, ele aplicou erroneamente as profecias de

Isaías e, até certo ponto, compreendeu mal o caráter de Deus. Na prisão, sentiu-se “cruelmente decepcionado com o resultado de sua missão” e considerou-se um fracasso. João, com todo o seu estudo da Bíblia e missão profética, “não entendera plenamente a vida futura e imortal mediante o Salvador”.27 Mais tarde ele chegou mesmo a duvidar da experiência do Jordão, o dia em que batizou Jesus: “És Tu Aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro?” Mat. 11:3. Contudo, Jesus aplicou a João o termo de Malaquias: “Meu mensageiro.” Mensageiro, sim, mas uma “luz menor, que havia de ser seguida por outra maior”.28 Pense em Pedro, a quem Deus escolheu para ser o vínculo do evangelho para Cornélio, o centurião gentio (Atos 10). Pedro, mesmo depois de abençoado pelo Pentecostes, continuou a crer que o evangelho de Cristo se destinava apenas aos judeus. Ele precisava mudar sua teologia, e uma visão realizou essa mudança. Cada passo rumo à casa de Cornélio foi dado relutantemente.29 Sua teologia da “porta fechada” modificou-se numa porta amplamente aberta para o mundo gentio e finalmente para Roma e para sua própria crucifixão. Ellen White foi a primeira a reconhecer que seu julgamento e percepção haviam se ampliado e aprofundado grandemente através dos anos. Ela era uma mensageira humana que, com toda sua bagagem humana comum aos profetas, seguia constantemente a Luz. Falando desse processo de desenvolvimento vitalício, ela diz: “Com a luz comunicada pelo estudo de Sua Palavra, e com o conhecimento especial que me foi dado de casos individuais entre o Seu povo, sob todas as circunstâncias e em todas as fases da vida, poderia eu continuar ainda na mesma ignorância, na mesma incerteza e cegueira espiritual que ao começo de minha experiência? Quererão meus irmãos sustentar que a irmã White foi uma aluna tão falta de inteligência que o seu juízo a esse respeito não é para ser estimado mais agora do que antes de ela entrar para a escola de Cristo, a fim de ser preparada e disciplinada para essa obra especial? Porventura não terei compreensão mais nítida

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dos deveres e perigos do povo de Deus do que aqueles a quem estas coisas nunca foram apresentadas? Não desonraria meu Mestre admitindo que toda essa luz, toda a manifestação de Seu grande poder em meu trabalho e vida, foi inútil, não tendo logrado educar meu juízo ou tornar-me mais idônea para Sua obra.”30 Ellen White crescia, guiada pelo Espírito de Deus. A maior parte dos mileritas que não rejeitaram a experiência de 1844 cria que “a porta se fechou” (Mat. 25:10) para aqueles que haviam rejeitado sua mensagem do “clamor da meia-noite”, bem como para a população em geral.31 O grupo em desenvolvimento que veio a ser conhecido como adventistas sabatistas, do qual Tiago e Ellen White faziam parte, também manteve essa crença por alguns anos. Mas as primeiras visões da Sra. White mostraram-lhe o significado do dia 22 de outubro de 1844, e que a porta estava fechada apenas para aqueles que haviam conscientemente rejeitado a luz da verdade. É muito provável que, sem a liderança visionária de Ellen White, os adventistas sabatistas não tivessem um quadro tão amplo dos acontecimentos celestiais relacionados com o dia 22 de outubro. Seu conceito animador e instrutivo quanto ao papel dos adventistas do sétimo dia na transmissão do último convite divino ao mundo se tornou o elemento central e unificador da igreja. Corrigida Através de uma Visão O horário de iniciar-se o sábado semanal foi outra questão doutrinária sobre a qual a Sra. White foi corrigida através de uma visão – uma história instrutiva sobre a maneira como Deus guia mansamente Seu povo por meio de Seus mensageiros. Na sexta-feira, 16 de novembro de 1855, a Associação Geral reunida em assembléia recepcionou o sábado às 18h, embora o Sol se houvesse posto uma hora antes. Encerraram o sábado, no dia seguinte, ao pôr-do-sol! O que aconteceu? Durante anos os adventistas haviam seguido o raciocínio de José Bates, de que o ocaso do Sol no equador (18h) seria a maneira mais

uniforme de lidar com o sábado num mundo esférico, independente da época do ano.32 (Iniciar e encerrar o sábado no nascer do Sol ou à meia-noite eram outras opções.) Alguns crentes, porém, levantaram a questão de Levítico 23:32: “Duma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado.” Procurando unificar os pontos de vista, Tiago White havia pedido a John N. Andrews que fizesse um estudo da Bíblia sobre o assunto e preparasse um documento. Quando este documento foi lido no sábado de manhã na assembléia da Associação Geral de 1855, a questão ficou solucionada para Tiago White e o restante dos delegados – todos, com exceção de José Bates e Ellen White! Dias depois, em 20 de novembro, a Sra. White teve uma visão que tratava de muitos assuntos, inclusive a ratificação do estudo bíblico de Andrews. Tanto ela quanto José Bates se renderam de todo o coração. O estudo bíblico, confirmado pela visão, continuou a ser a regra geral no desenvolvimento da teologia adventista.33 Comentando depois, Uriah Smith escreveu: “Para que ninguém dissesse que a irmã White, havendo mudado de idéia, teve uma visão em conformidade com isto, declararemos que o que foi mostrado em visão com respeito ao começo do sábado era contrário a sua opinião na ocasião em que a visão foi dada.”34 A atitude de Ellen White para com o consumo de carne de porco foi outro exemplo de como a luz progressiva mudou sua interpretação pessoal das Escrituras. Em 1858, ela escreveu aos Haskell (irmão e irmã A) sobre alguns pontos, repreendendo-os por insistirem em que comer carne suína era uma violação de Levítico 11:7: “Vi que suas idéias sobre a carne de porco não seriam prejudiciais se vocês as retivessem para si mesmos, mas, em seu julgamento e opinião, os irmãos têm feito deste assunto uma prova. ... Se Deus achar por bem que Seu povo se abstenha da carne de porco, Ele os convencerá a este respeito.”35 Por que Deus não disse a Ellen White que o estudo bíblico de Haskell sobre Levítico es-

tava correto, seguindo o padrão geral de confirmar o estudo bíblico pela luz revelada em visão? Parte da resposta pode ser encontrada na nota escrita por Tiago White na segunda impressão deste testemunho a Haskell: “Este notável testemunho foi escrito em 21 de outubro de 1858, cerca de cinco anos antes da grande visão de 1863, na qual a luz sobre a reforma de saúde foi dada. No devido tempo o assunto foi dado de maneira a persuadir todo o nosso povo. Quão maravilhosas são a sabedoria e a bondade de Deus! Pode ser tão errado insistir agora na questão do leite, sal e açúcar, quanto na questão da carne de porco em 1858.”36 A visão da reforma de saúde de 6 de junho de 1863 revelou grande e ampla quantidade de princípios de saúde.37 Em 1864 Ellen White fez sua primeira apresentação pública dessa visão, um capítulo de cinqüenta e cinco páginas intitulado “Saúde”, no volume 4 do livro Spiritual Gifts. Com referência à carne de porco, ela disse: “Jamais foi propósito de Deus que a carne suína servisse de alimento sob quaisquer circunstâncias.”38 Em 1865, ela preparou uma série de seis artigos sob o título Health, or How to Live.39 Nesta série ela ampliou as conseqüências prejudiciais do consumo de carne suína, fato que continuou a enfatizar em livros posteriores.40 Lições Aprendidas Que podemos aprender dessa experiência pela qual Ellen White mudou de opinião entre 1858 e 1863? (1) Ela não havia recebido de Deus luz sobre a carne suína antes de 1863. (2) Ela achava que isso não devia criar divisão entre os adventistas; não era uma questão de prova. (3) Quando Deus torna Sua vontade conhecida, ela será revelada a mais de “duas ou três pessoas. Ele ensinará a Sua igreja o dever dela”.41 A prova da lógica envolvida em sua mudança de opinião sobre o comer carne suína é que, quando a visão foi dada, toda a igreja compreendeu a questão claramente e nunca mais houve divisão com respeito a este assunto.42 Comunicar Reprovação – uma “Cruz” Ellen White era uma adolescente tímida e

frágil quando Deus lhe disse para relatar suas visões a outros. Conforme vimos, nem todas as suas visões ou sonhos encerravam conteúdo teológico. Alguns continham reprovação e conselho a indivíduos. Às vezes a reprovação era severa e nem sempre apreciada. A Sra. White se esquivava de seus deveres proféticos.43 Descrevendo a experiência por que passou em 1845, quando contava 18 anos de idade, Ellen White escreveu: “Era uma terrível cruz para mim relatar aos errantes o que me fora mostrado a respeito deles. Causava-me grande angústia ver os outros perturbados ou desgostosos. E, quando obrigada a apresentar as mensagens, desejava muitas vezes suavizá-las e fazê-las parecer tanto quanto possível favoráveis às pessoas, e depois me retirava e chorava em aflição de espírito.”44 Em uma carta escrita em 1874, ela relembrou os trinta anos passados: “Tenho sentido durante anos que se eu pudesse escolher o que quisesse e também agradar a Deus, preferiria morrer a ter uma visão, pois toda visão me coloca sob a grande responsabilidade de dar testemunhos de repreensão e de advertência, o que sempre se tem oposto a meus sentimentos, causando-me inexprimível aflição de alma. Nunca ambicionei minha posição, e, contudo, não ouso resistir ao Espírito de Deus e buscar uma posição mais fácil.”45 Em 1880, na época com 52 anos de idade, Ellen White estava na reunião campal de Vermont, onde devia apresentar vários testemunhos. Ela se referiu a essas grandes responsabilidades pessoais: “Além de minhas atividades em comunicar a verdade, tenho tido muitos testemunhos individuais para escrever, o que tem sido um fardo bastante pesado para mim.” (“Comunicar a verdade” envolvia seus sermões diários, chamados ao altar e sua costumeira palestra sobre temperança aos domingos à tarde, em Vermont, para auditórios de 1.000 a 4.000 pessoas.) Com referência a um casal, ela escreveu: “Tive que realizar alguns trabalhos muito ruins, muito ruins mesmo. Chamei o irmão Bean e a esposa e conversei com eles com muita franqueza. Eles não se rebelaram contra isto. Não pude conter-me, chorei.”46

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Algumas Visões Continham Predições Conforme já vimos na página 29, a responsabilidade de um profeta abrange mais do que predizer o futuro. Os profetas são, antes de tudo, mensageiros de Deus, Seus prenunciadores, não necessariamente Seus videntes. Apesar disso, os profetas de vez em quando recebem informações e instruções que efetivamente predizem o futuro. Ellen White predisse eventos específicos e atividades ou tendências em geral. Alimento Para Vermes A assembléia de Battle Creek, realizada em 27 de maio de 1856, é lembrada especialmente em virtude de uma visão incomum a respeito de algumas pessoas que estavam no auditório.47 No meio do relato encontra-se esta predição: “Foi-me mostrado o grupo presente à assembléia. Disse o anjo: ‘Alguns servirão de alimento para os vermes, alguns estarão sujeitos às sete últimas pragas, outros estarão vivos e permanecerão sobre a Terra para serem trasladados na segunda vinda de Jesus.’” O que significava isso? Três dias depois da assembléia, Clarissa Bonfoey morreu. (Clarissa Bonfoey era amiga íntima dos White, a quem eles haviam confiado Edson durante seus primeiros anos de vida, enquanto não possuíam casa própria.) Essa irmã parecia estar bem de saúde por ocasião da assembléia. Ao sentir aproximar-se a morte, expressou a convicção de que ela era uma das pessosas que foram representadas na visão que serviriam de “alimento para os vermes”.48 Durante anos, algumas pessoas mantiveram listas dos presentes àquela assembléia, crendo que Jesus voltaria antes que todas elas morressem. Mas Ellen White havia apresentado um quadro do que poderia ter sido se o povo de Deus houvesse despertado para sua divina missão. A Sra. White não deve ser submetida a um padrão mais elevado e mais restrito do que aquele que aplicaríamos aos profetas bíblicos.49 Em 1883, ela precisou escrever: “É verdade que o tempo tem prosseguido mais do que esperávamos nos primeiros tempos desta mensagem. Nosso Salvador não apareceu tão depressa como esperávamos. Fa-

lhou, porém, a Palavra do Senhor? Nunca! Devemos lembrar que as promessas e ameaças de Deus são igualmente condicionais. ... “Houvessem os adventistas, depois da grande decepção de 1844, ficado firmes na fé, e seguido avante em união no caminho aberto pela providência de Deus, recebendo a mensagem do terceiro anjo e proclamando-a ao mundo, no poder do Espírito Santo, haveriam visto a salvação de Deus, o Senhor haveria cooperado poderosamente com seus esforços, a obra se haveria completado, e Cristo haveria vindo antes disto para receber Seu povo para lhes dar o galardão.”50 Guerra Civil Ellen White recebeu sua primeira visão sobre a Guerra Civil em uma tarde de sábado, 12 de janeiro de 1861, em Parkville, Michigan. Durante aproximadamente vinte minutos a congregação observou com intenso interesse esta mulher de 33 anos de idade. Terminada a visão, ela relatou brevemente o que lhe havia sido revelado. Suas palavras causaram duradoura impressão (conforme informou J. N. Loughborough, testemunha ocular): “Os homens estão dando pouca importância ao decreto de secessão sancionado pela Carolina do Sul [20 de dezembro de 1860]. Eles não fazem a mínima idéia das dificuldades que sobrevirão a nosso país. Ninguém nesta congregação imagina a dificuldade que se aproxima. Acaba de ser-me mostrado em visão que vários Estados se unirão à Carolina do Sul nesta secessão, o que trará como resultado uma guerra terrível. Vi em visão que tanto o Norte como o Sul formavam grandes exércitos. Foi-me mostrado uma batalha violenta.” Depois, olhando para a congregação, continuou: “Há nesta congregação homens que perderão seus filhos na guerra.”51 No dia 3 de agosto de 1861, em Roosevelt, Nova Iorque, Ellen White teve sua segunda visão sobre a Guerra Civil. Focalizava o mal da escravidão: o Norte era culpado por tolerar a escravidão; e o Sul, pelo pecado da escravidão. Foi-lhe mostrado o “panorama da desastrosa batalha de Manassas, Virgínia

(Primeira Batalha de Bull Run, 21 de julho de 1861), e ela observou a misteriosa confusão nas investidas do exército do Norte.52 Posteriormente, ela escreveu: “Foi-me mostrado que muitos não compreendem a extensão do mal que tem vindo sobre nós. Eles se têm gabado de que os problemas nacionais logo serão resolvidos e a confusão e a guerra findarão. Contudo, todos ficarão convencidos de que o assunto é mais grave do que pensam. Muitos esperavam que o Norte aplicasse um golpe e desse fim ao conflito.”53 O que faremos a respeito dessas visões sobre a Guerra Civil? A visão de Parkville ocorreu três meses antes de o Forte Sumter ser bombardeado em 12 de abril de 1861. Naquele tempo muita gente acreditava que não haveria guerra, mas, se a guerra começasse, seria curta e o Norte sairia vencedor depois de uma breve luta.54 (Para um exame mais extenso sobre os pontos de vista contemporâneos que estavam em agudo contraste com as predições de Ellen White, ver Apêndice O.) Ellen White via as coisas de maneira diferente. Ela predisse que a guerra começaria e que outros Estados se uniriam à Carolina do Sul, separando-se da União. Via grandes exércitos em combate brutal, e massacre generalizado durante um longo período, no qual os homens apodreceriam na prisão.55 Com respeito à solene predição dela de que algumas famílias de seu auditório em Parkville “perderiam filhos” na guerra, Loughborough conversou tempos depois com o pastor local da igreja de Parkville, que havia presidido aquele memorável culto de sábado. O pastor identificou cinco famílias, possivelmente com mais outras cinco, que haviam perdido entes queridos. Mais tarde, a Sra. White viu claramente nessas visões que a questão principal era a escravidão, e que Deus permitiria que tanto o Norte como o Sul fossem punidos até confrontarem essa questão. Muitos líderes políticos e religiosos só enxergaram isso após anos da terrível luta ter matado e ferido a milhões. A política de Washington, interligada com simpatizantes sulistas na liderança nortista, havia tornado indistintos os propósitos da

guerra. A Lei do Escravo Fugitivo,56 que exigia que os nortistas devolvessem escravos fugitivos a seus donos, é um bom exemplo da confusão política e moral reinante. Observe quanto tempo levou até que o Presidente Lincoln resolvesse que era chegada a hora de promulgar a Abolição da Escravatura (em 22 de setembro de 1862; em vigor em 1o de janeiro de 1863).57 Contrária ao Otimismo de sua Época As predições gerais de Ellen White, feitas nos últimos anos do século dezenove, se pareciam com as retrospectivas dos jornais modernos. Alguns poderiam dizer que ela estava simplesmente usando a mesma sagacidade que outras pessoas inteligentes usavam quando consideravam o futuro. Mas aquilo que ela escreveu e aquilo que os líderes do pensamento de sua época projetavam estavam separados por anos-luz de distância. O período entre 1890 e 1914 é notório por predições “milenárias”, um tempo em que o futuro parecia promissor. Em quase todas as áreas da sociedade ocidental, seja na medicina, economia, na tecnologia ou nas invenções científicas, o cenário de paz, prosperidade e de uma era de ouro era o sentimento prevalecente.58 Algumas das predições de Ellen White, concentradas no mundo social, contrariavam o espírito de sua época: “Passo a passo, o mundo está ficando nas condições que reinavam nos dias de Noé. Todo imaginável crime é cometido. A concupiscência da carne, a soberba dos olhos, a ostentação do egoísmo, o abuso do poder, a crueldade e a força empregados para fazer com que os homens se liguem às confederações e uniões... tudo isso é atuação de instrumentos satânicos. ... O mundo inteiro parece estar em marcha para a morte.”59 “Tenho ordem de declarar a mensagem, dizendo que as cidades onde reina a transgressão, extremamente pecadoras, serão destruídas por terremotos, pelo fogo e por inundações.”60 “Foi-me mostrado que o Espírito do Senhor está Se retirando da Terra. O poder

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mantenedor de Deus logo será recusado a todos os que continuam desrespeitando os Seus mandamentos. Os relatos de transações fraudulentas, homicídios e crimes de toda a espécie chegam até nós diariamente. A iniqüidade está se tornando uma coisa tão comum que não ofende mais as susceptibilidades como em tempos passados.”61 Voltando-se para o desenvolvimento das tensões internacionais e guerra, ela predisse: “Aproxima-se a tempestade, e precisamos aprontar-nos para sua fúria. ... Veremos aflições por todos os lados. Milhares de navios serão arremessados para as profundezas do mar. Esquadras se submergirão, sendo sacrificados milhões de vidas humanas. Irromperão inesperadamente incêndios que nenhum esforço humano será capaz de extinguir. Os palácios da Terra serão varridos pela fúria das chamas. Tornar-se-ão mais e mais freqüentes os desastres de estrada de ferro; confusão, colisões e morte sem um momento de advertência ocorrerão nas grandes vias de comunicação.”62 “Na última sexta-feira, pela manhã, pouco antes de acordar, uma cena muito impressionante me foi apresentada. Parecia que eu havia acordado, mas não estava em meu lar. Das janelas eu podia ver uma terrível conflagração. Grandes bolas de fogo caíam sobre as casas e destas bolas voavam flechas incandescentes em todas as direções. Era impossível apagar os fogos que se acendiam, e muitos lugares estavam sendo destruídos. O terror do povo era indescritível. Depois de algum tempo, acordei e vi que estava em casa.”63 “Logo surgirá grande dificuldade entre as nações, dificuldade que não cessará até a vinda de Jesus.”64 Outro vislumbre perceptivo correu transversalmente com o assombroso otimismo que predominava em 1909, o ano da seguinte predição a respeito de crescentes impasses sociais e econômicos: “Não há muitos, mesmo entre educadores e estadistas, que compreendam as causas que se acham à base do atual estado da sociedade. Os que seguram as rédeas do governo são incapazes de resolver o problema da corrupção moral, da pobreza, da

miséria, e do crime crescente. Estão lutando em vão para colocar as operações comerciais em base mais segura.”65 Espiritualismo Moderno As antevisões de Ellen White a respeito do surgimento do espiritualismo moderno foram dadas quando as manifestações espiritistas eram locais, isoladas e mais uma curiosidade do que qualquer outra coisa. As demonstrações das estranhas batidas de 1848 envolvendo as irmãs Fox em Hydesville, Nova Iorque, foram-lhe mostradas como o reavivamento do espiritualismo em tempos modernos. Fazendo referência a uma visão tida em 24 de março de 1849, ela escreveu: “Vi que as batidas misteriosas em Nova Iorque e outros lugares eram o poder de Satanás, e que essas coisas seriam cada vez mais comuns, abrigadas em vestes religiosas, a fim de distrair os enganados e fazê-los sentir-se em segurança maior.”66 O espiritualismo provavelmente nunca foi mais destacado na história do mundo do que hoje. Entre seus adeptos, acham-se pessoas de todos os níveis da sociedade e classes econômicas. Políticos e líderes governamentais admitem abertamente sua confiança em médiuns espiritualistas. Quem, a não ser Ellen White em 1849, teria o discernimento de classificar o fenômeno das irmãs Fox como o início de um sofisticado movimento mundial com tremendas implicações sobre os acontecimentos dos últimos dias? Advento da Influência Papal Outra área preditiva inclui o impressionante ressurgimento da influência papal, desde sua inofensividade no século dezenove até seu poder e influência mundiais hoje. Em 1888, durante o período de obscuridade do papado, Ellen White escreveu: “Estabeleçase nos Estados Unidos o princípio de que a igreja possa empregar ou dirigir o poder do Estado; de que as observâncias religiosas possam ser impostas pelas leis seculares; em suma, que a autoridade da Igreja e do Estado devem dominar a consciência, e Roma terá assegurado o triunfo neste país [Estados Unidos].

“A Palavra de Deus deu aviso do perigo iminente; se este for desatendido, o mundo protestante saberá quais são realmente os propósitos de Roma, apenas quando for demasiado tarde para escapar da cilada. Ela está crescendo silenciosamente em poder. Suas doutrinas estão a exercer influência nas assembléias legislativas, nas igrejas e no coração dos homens. ... Sorrateiramente, e sem despertar suspeitas, está aumentando suas forças para realizar seus objetivos ao chegar o tempo de dar o golpe. Tudo que deseja é a oportunidade, e esta já lhe está sendo dada. Logo veremos e sentiremos qual é o propósito do catolicismo.”67 As décadas de 1980 e 1990 viram o papa de Roma recuperar dramaticamente sua estatura mundial, uma coisa muito diferente das décadas entre 1870 e 1929, quando o papa era o “prisioneiro do Vaticano”.68 O mundo ficou impressionado ao ver o presidente dos Estados Unidos e o papa na capa da revista Time de 24 de fevereiro de 1992, sob as palavras “A Santa Aliança”. O artigo de destaque revelava a história por detrás do colapso do comunismo. O Presidente Reagan e o Papa João Paulo II haviam estado, durante vários anos, em consulta íntima, altamente secreta, à medida que trabalhavam juntos para desestabilizar a rede comunista. “Eles consideravam a relação EUA–Vaticano uma santa aliança; a força moral de suas igrejas combinou-se com seu acérrimo anticomunismo e conceito de democracia norteamericana.” Sem essa estreita cooperação entre a Igreja Católica e os Estados Unidos, os acontecimentos mundiais das décadas recentes teriam sido provavelmente bastante diferentes. Além disso, como se fosse apenas para confirmar as predições de 1888 de Ellen White, a capa da revista Time de 26 de dezembro de 1994 exibiu o Papa João Paulo II como “o Homem do Ano”. Na matéria de capa, o papa se apresentou como a “bússola moral tanto para crentes como para não crentes”. Até mesmo Billy Graham, símbolo do protestantismo evangélico, declarou a respeito do

papa: “Ele tem sido a sólida consciência de todo o mundo cristão.”69 União de Católicos e Protestantes Mas Ellen White viu mais do que o ressurgimento da adoração do papa em escala mundial. Viu também o que nenhuma pessoa teria sonhado mesmo há poucos anos – a assombrosa reconciliação entre católicos e protestantes, inclusive os protestantes evangélicos! Em 1885, ela escreveu: “Quando o protestantismo estender os braços através do abismo, a fim de dar uma das mãos ao poder romano e a outra ao espiritualismo, quando por influência dessa tríplice aliança os Estados Unidos forem induzidos a repudiar todos os princípios de sua Constituição, que fizeram deles um governo protestante e republicano, e adotarem medidas para a propagação dos erros e falsidades do papado, podemos saber que é chegado o tempo das atuações maravilhosas de Satanás e que o fim está próximo.”70 Líderes protestantes evangélicos e líderes católicos romanos assinaram em 29 de março de 1994, em declaração conjunta, um documento que representou um marco histórico, não esperado mesmo na década de 1980. A assinatura desta surpreendente declaração intitulada “Evangélicos e Católicos Juntos: A Missão Cristã Para o Terceiro Milênio” (ECJ), talvez o acontecimento mais importante nos últimos 500 anos de história da igreja, reverta substancialmente a Reforma Protestante e ao mesmo tempo cumpre a profecia bíblica – e as predições de Ellen White.71 Uma predição ainda por ser inteiramente cumprida envolve a tríplice união do protestantismo, catolicismo e espiritualismo (Nova Era, etc.) no orquestrado esforço para impor a adoração dominical. Com a surpreendente rapidez de recentes esforços unificados entre protestantes e católicos, unidos pelo fio teológico comum da imortalidade da alma, não é difícil prever agora sua união adicional com o espiritualismo moderno (Nova Era). Mas não na década de 1880!72 Todas as ilustrações acima do ministério

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profético de Ellen White são interessantes e, até certo ponto, persuasivas. Saúde e Medicina O que assombra as pessoas inteligentes ao redor do mundo é que os comentários gerais dela sobre saúde, ciência ou ambiente têm suportado a prova dos anos – coisa que dificilmente se poderá dizer de qualquer outro escritor do século dezenove. Só isso já é uma façanha considerável. Seus escritos contêm certos princípios e elucidações que não eram comuns em seu tempo, mas que hoje são bem comprovados. Repare, por exemplo, na profunda ênfase que ela dá sobre a maneira como a mente afeta o corpo na produção da doença;73 sua solícita preocupação pelas influências pré-natais, incluindo drogas e álcool;74 e seu monumental e interativo sistema de princípios de regime alimentar que estão cada vez mais sendo confirmados pela pesquisa nutricional.75 Expansão Mundial dos Adventistas Igualmente interessante são as predições feitas por Ellen White a respeito da expansão mundial dos adventistas do sétimo dia, muito antes de seus colegas poderem ver qualquer evidência para apoiar-lhe o otimismo: • Novembro de 1848, Dorchester, Massachusetts: Em um tempo de grande tensão financeira e apelando para não mais que cem adventistas sabatistas, ela predisse que a revista que seu marido estava iniciando seria “pequena a princípio”, mas por fim suas “torrentes de luz” “circundariam o mundo”.76 Em 1999, os adventistas do sétimo dia possuíam 56 casas editoras por todo o mundo, 7.407 colportores de tempo integral com vendas mundiais de 113.218.544 dólares, com literatura sendo publicada em 229 línguas (incluindo o evangelismo verbal, os adventistas trabalham em 717 línguas mundiais).77 • Pregando na inauguração da Melbourne Bible School (predecessora de Avondale College) em 24 de agosto de 1892, sentada numa cadeira (estivera acamada por onze meses), a Sra. White disse: “A obra missionária na Austrália e na Nova Zelândia ain-

da está na fase inicial, mas deve ser realizada na Austrália, Nova Zelândia, África, Índia, China e ilhas do mar a mesma obra que tem sido efetuada no campo nacional [Estados Unidos].”78 O jovem A. G. Daniells, um dos primeiros obreiros norte-americanos a emigrar para a Austrália, ouviu esta predição com espanto e escreveu posteriormente sobre a sensação de estar “estupefato”. Todas as pessoas presentes acharam que esta predição “parecia o tipo mais absurdo de especulação. ... Mas alguns que estavam presentes viveram para ver essas predições desconcertantes se cumprirem de forma notável.”79 • Em 1894, Ellen White insistiu com o grupo de adventistas australianos de menos de mil pessoas que tomassem providências imediatas para a construção de um colégio onde se preparariam obreiros para a missão adventista no Sul do Pacífico. Mais tarde, depois de aprender as lições das difíceis experiências de Battle Creek College, ela anteviu um colégio que abriria novos horizontes. Poucas pessoas, inclusive seus conselheiros mais íntimos, viram sabedoria no conselho dela. Mas sem seu discernimento visionário do que o Sul do Pacífico precisava, sem sua tenacidade em levar o projeto até o fim, nem o Avondale College nem o que existe hoje na Austrália e na Nova Zelândia estariam sob o nome adventista. • Em novembro de 1901, Ellen White escreveu uma severa advertência ao corpo de diretores da Review and Herald Publishing Association, “a mais bem equipada gráfica do Estado de Michigan”.80 Eles estavam com problemas: cerca de noventa por cento do trabalho que faziam era comercial, parte dele claramente impróprio para editoras adventistas. Outros problemas giravam em torno de relacionamentos interpessoais. Depois de muitas advertências prévias, a Sra. White fez o que equivalia a uma ameaça divina: “Tenho estado quase receosa de abrir a revista Review, temendo ver que Deus houvesse purificado a casa editora pelo fogo. ... A menos que haja uma reforma, sobrevirá uma calamidade à casa editora, e o mundo saberá a razão.”81

Treze meses depois, no dia 30 de dezembro de 1902, um incêndio de “origem ignorada” destruiu o complexo. Nada de valor foi salvo. Quando os líderes quiseram reconstruir a instituição em Battle Creek, Ellen White foi contra, justificando: “Nunca lancem uma pedra ou tijolo em Battle Creek para reconstruir os escritórios da Review. Deus tem um lugar melhor para ela.”82 • Em pelo menos três ocasiões Ellen White insistiu com seus obstinados colegas para comprarem propriedades no sul da Califórnia a fim de estabelecerem centros médicos.83 Em 13 de outubro de 1902, ela escreveu que havia condições de comprar-se terrenos com prédios “especialmente apropriados para a obra do hospital” por preço “abaixo do seu custo original”.84 Sem esta percepção do plano de Deus para o sul da Califórnia, o Paradise Valley Hospital, o Glendale Adventist Medical Center e a Loma Linda University não seriam hoje centros de expansão adventista.85 • Antes que os líderes da igreja pudessem retomar o fôlego, após a compra da propriedade de Loma Linda, Ellen White estava descrevendo o futuro de Loma Linda como o principal centro de instrução para profissionais médicos. Muito além de qualquer sonho humano, ela permanecia calmamente inflexível: “Isto acontecerá.”86 Desde a impressionante predição de Ellen White, a Universidade de Loma Linda tem formado muitos milhares de pessoas em variados campos da educação superior. Ela é internacionalmente conhecida por algumas de suas realizações médicas. Algumas Visões Abordavam Problemas Secretos Ellen White passou por muitas experiências relacionadas com problemas secretos das pessoas. Em 1858, ela escreveu sobre uma família de agricultores (pai, mãe e filha adulta) que três anos antes se haviam mudado da Nova Inglaterra para Illinois. Aparentemente, a razão para a mudança era “começar a obra no Oeste. O marido saiu com uma intenção; a esposa, com outra. A intenção dele era pro-

clamar a verdade; a intenção dela era empregar os recursos da família em casa e terras.” Com o passar do tempo, o marido “desobedeceu ao chamado de Deus para satisfazer a esposa e a filha, e ficou bastante disposto a desculpar-se ou encobrir seu amor ao mundo sob a aparência de dever para com a família. ... Vi que, a menos que ela saia do caminho do seu marido... o Senhor castigará a família com juízos e a retirará do caminho.” Sobreveio uma doença repentina e a esposa morreu. Enquanto os White visitavam o marido e pai enlutado, a Sra. White teve uma visão da luta espiritual que ele enfrentava e ficou “surpresa com o que... [lhe] foi mostrado”. Foi-lhe mostrado quanto o pai estava enlaçado pela sedução das riquezas, e que a filha estava “envolvida em egoísmo”. Mas o tempo passou. Em 1857, Ellen White teve outra visão a respeito dessa família de Illinois. Viu “que ele não estava agindo tão depressa quanto era preciso, que não estava empregando seus recursos para promover a causa de Deus tão rápido quanto lhe era possível”. Pouco depois dessa visão, ela ouviu dizer que este pai tão próspero havia morrido com a idade de 51 anos. Por que a Sra. White relatou essa história pessoal na revista da igreja? Ela concluiu o artigo com estas palavras: “Ao ver que o castigo pela cobiça que sobreveio a essa família devia servir de advertência para a igreja, não pude reter do povo de Deus o que me foi mostrado a respeito deles.”87 Sempre uma ganhadora de almas, ela reconheceu em Nimes, França, um jovem relojoeiro que vira em visão. Abel Bieder, que fora cristão, desanimara e estava, naquela época, trabalhando no sábado enquanto aperfeiçoava seu ofício de relojoeiro. Depois de encontrá-lo em sua loja, ela o convidou para as reuniões em que estava pregando. Conversou em particular com Abel, dizendo-lhe que conhecia a história de sua vida e os erros de sua juventude. “Roguei-lhe então com lágrimas para fazer meia-volta, deixar o serviço de Satanás e o pecado, pois se tornara um apóstata, e voltar como um filho pródigo à casa de seu Pai. ... Disse-lhe que não ousava deixá-lo cruzar o li-

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miar da porta enquanto ele não dissesse diante de Deus e dos anjos e dos presentes: ‘Deste dia em diante, serei um cristão.’” No dia seguinte, Abel desistiu de sua promissora carreira, feliz no Senhor. Em pouco tempo Ellen White pagou-lhe a passagem para Basiléia para que ele pudesse ajudar L. R. Conradi e James Erzberger em sua obra evangelística.88 A experiência de N. D. Faulkhead em 1892 é uma clássica ilustração do ministério profético de Ellen White em favor dos primeiros adventistas australianos. Quando ela partiu para a Austrália em 1891, Faulkhead era tesoureiro da casa editora; também ocupava funções elevadas em diversas sociedades secretas. Com o passar do tempo, ele ficou cada vez mais envolvido na maçonaria, e seu interesse na igreja diminuiu. Na viagem de navio para a Austrália e logo após o desembarque, Ellen White teve uma visão abrangente que incluía a casa editora em geral e diversos testemunhos pessoais, inclusive um para os Faulkhead. Ao sair para colocar a mensagem no correio, ela sentiu-se fortemente restringida: “Quando fechei a correspondência para enviá-la, uma voz pareceu dizer-me: ‘Ainda não! Ainda não! Eles não receberão seu testemunho.’” Ela reteve o testemunho por quase doze meses.89 Durante aquele tempo, os colegas de trabalho de Faulkhead, percebendo seu crescente desinteresse no trabalho, pediram-lhe para reconsiderar sua fascinação pelas lojas maçônicas. Ellen White viu em visão que ele era “um homem prestes a perder o equilíbrio e cair num precipício”.90 Um dos adventistas australianos perguntou a Faulkhead o que ele faria se a irmã White tivesse um testemunho para ele a respeito de sua afiliação à maçonaria. A isto ele respondeu: “Teria de ser poderosamente forte.” Ninguém ainda sabia que ela realmente possuía uma mensagem para Faulkhead fazia quase um ano.91 Pouco tempo depois do desafio de Faulkhead, ele sonhou que Ellen White tinha uma mensagem para ele! Dentro de alguns dias, ele se encontrou com ela e perguntou

se tinha alguma coisa para ele. Respondendo que sim, ela propôs um encontro num futuro próximo. Mas Faulkhead estava ansioso: “Por que não me deixa receber a mensagem agora?” Ela lhe contou que diversas vezes estivera prestes a enviar a mensagem, mas que fora “proibida pelo Espírito do Senhor de assim proceder” porque o tempo não era oportuno. Agora, porém, chegara o tempo. Ela começou a ler o manuscrito de cinqüenta páginas, especialmente o trecho que tratava do envolvimento dele com a maçonaria. Continuou a revelar a maneira como ele lançara pequenas moedas nas ofertas de sábado, mas grandes moedas na tesouraria das lojas. Ouviu dirigirem-se a ele como “Venerável Mestre”. Faulkhead relembrou mais tarde: “Pensei que ela estava se aproximando muito da realidade quando começou a falar-me sobre o que eu fazia nas lojas.”92 Então algo aconteceu. Depois de fazer determinado movimento com a mão, ela disse: “Não posso relatar tudo quando me foi comunicado.”93 Faulkhead ficou pálido, conforme ele contou mais tarde: “Imediatamente ela me fez este sinal. Eu a toquei no ombro e perguntei se ela sabia o que havia feito. Ela ergueu os olhos surpresa e disse que não fizera nada fora do comum. Disse-lhe que ela dera o sinal secreto dos templários. Bem, ela não sabia nada sobre isso.” Ellen White prosseguiu falando sobre a impossibilidade de ser um cristão comprometido e um maçom. Então fazendo outro sinal secreto, disse: “Meu anjo assistente fez este sinal para mim”. Faulkhead sabia que esse sinal era conhecido apenas dos graus mais elevados da maçonaria. Posteriormente, ele disse: “Isso me convenceu de que seu testemunho era de Deus. ... Em seguida, passou como um relâmpago pela minha mente a declaração que eu fizera ao irmão Stockton de que a mensagem dela teria de ser poderosamente forte antes que eu pudesse crer que tinha para mim uma mensagem do Senhor.” A reação de Faulkhead à entrevista foi imediata. No dia seguinte, ele contou a seus

colegas de trabalho como Deus lhe havia falado por intermédio de Ellen White. A primeira coisa que fez naquele dia foi apresentar seu pedido de demissão às diversas lojas. Mas seus amigos maçons não desistiram facilmente, insistindo em que ele estava na obrigação moral de cumprir seu mandato pelos próximos nove meses. A luta foi difícil e os membros da igreja ficaram muito apreensivos por ele. No fim daqueles nove meses, Faulkhead
Referências
1. Para uma lista parcial das visões de Ellen White, ver Apêndice D. 2. Biography, vol. 6, págs. 98 e 99. 3. Ibidem, pág. 96. 4. DF 481, Jesse Arthur a W. C. W., 27 de agosto de 1902, citado em Biography, vol. 6, pág. 97. 5. Ibidem, págs. 97 e 98. A visão de Salamanca e a experiência da Assembléia da Associação Geral de 1891 fornecem outros exemplos de como um profeta nem sempre tem consciência do tempo oportuno em que a visão deve ser apresentada a outros. Ver págs. 149 e 188. Em outra ocasião, quando Ellen White visitou a casa editora suíça em 1885, reconheceu a sala de impressão como uma que vira em visão. Apertou a mão de dois jovens obreiros e depois perguntou pelo terceiro. B. L. Whitney, presidente da Missão Suíça, ficou surpreso até que a Sra. White disse: “Trabalha aqui um senhor mais idoso e tenho uma mensagem para ele.” O outro obreiro estava na cidade a negócios. Dez anos antes, ela havia visto em visão este mesmo obreiro, e agora foi lembrada que tinha uma mensagem especial para ele. Este incidente trouxe imenso encorajamento a todos os obreiros em Basiléia. (História contada em Biography, vol. 3, págs. 293 e 294.) 6. Biography, vol. 3, págs. 363-365. 7. Ibidem, págs. 128 e 129; Review and Herald, 11 de dezembro de 1879, pág. 190. 8. Ver pág. 188. 9. O episódio da Visão de Salamanca revela a maneira como o profeta é dirigido pelo Senhor para não revelar nem usar todo o conteúdo de uma visão de uma só vez. A mensagem central deve ser apresentada no momento exato em que for mais necessária. Depois dos dramáticos acontecimentos ocorridos em Battle Creek, que se seguiram ao testemunho público de Ellen White, O. A. Olsen, presidente da Associação Geral, escreveu: “A irmã White não teve nenhuma oportunidade de saber o que havia acontecido naquela sala durante a noite no escritório da Review. ... O Senhor lhe havia mostrado antecipadamente o que ocorreria; e agora, na mesma manhã em que aconteceu, ela fora, de maneira especial, chamada pelo Senhor para apresentar o que lhe havia sido mostrado. Não é preciso dizer que isso trouxe não apenas alívio a muitas mentes, mas também deu motivo para grande agradecimento, visto que num momento crítico como esse o Senhor interveio e nos salvou da perplexidade e confusão que parecia estar surgindo sobre importantes questões.” – DF 107b, relato de O. A. Olsen, citado em Biography, vol. 3, págs. 477-481. Seis preeminentes pastores assinaram uma declaração que incluía estas palavras: “O relato desta visão causou profunda e solene im-

escreveu à mensageira do Senhor: “Como sou grato a Deus por me haver enviado uma advertência enquanto eu seguia no caminho errado. ... Agora posso ver muito claramente que continuar daquele jeito teria sido minha ruína, visto meu interesse pela verdade estar esfriando.” Faulkhead continuou a trabalhar durante muitos anos na casa editora, sendo um influente líder espiritual na Austrália.94

pressão sobre aquela grande congregação de pastores adventistas do sétimo dia presentes na reunião do início da manhã. Quando eles ouviram quem havia sido reprovado por sua conduta errada naquele concílio, confessaram que tudo quanto a Sra. White havia dito a respeito deles era verdade em cada detalhe, e viram que o selo da inspiração divina havia sido colocado sobre aquela visão e testemunho. O poder e a solenidade daquela reunião causaram uma impressão sobre a mente das pessoas presentes que tão cedo não seria esquecida.” – DF 107b, declarações conjuntas, citadas em ibidem, pág. 482. 10. A fim de que todos quantos estivessem relacionados com a denominação pudessem beneficiar-se com a experiência do Boulder Sanitarium, a história da crise e os testemunhos de Ellen White foram reunidos num livrinho de oitenta páginas com o título de “Record of Progress and an Earnest Appeal in Behalf of the Boulder, Colorado, Sanitarium”. Esta publicação é conhecida hoje como Special Testimonies, Série B, No 5. Ver também Biography, vol. 6, págs. 33-43. 11. Biography, vol. 6, pág. 48. 12. Ibidem, pág. 49. 13. Ibidem, págs. 67-72. Para uma experiência semelhante que ocorreu em 1903, ver Schwarz, Light Bearers, pág. 292. Ver págs. 200-204 para comentário adicional sobre o conflito Kellogg/Panteísmo e outra mensagem oportuna de Ellen White. 14. George Amadon ingressou na Review and Herald Publishing Association em 1853 como jovem tipógrafo. Depois do incêndio da editora e a mudança dela para Washington, D.C., ele permaneceu em Battle Creek e trabalhou na igreja daquela cidade como pastor visitador. – SDAE, vol. 10, pág. 58. 15. Biography, vol. 6, págs. 126-129. 16. O secretário da igreja, naquela reunião de negócios, resumiu a declaração pública de Canright na qual ele afirmara “haver chegado a um ponto em que não cria mais que os Dez Mandamentos estavam em vigor para os cristãos e que havia renunciado à lei, ao sábado, às mensagens, ao santuário, a nosso ponto de vista sobre [os] Estados Unidos na profecia, aos testemunhos, à reforma de saúde, às ordenanças da humildade. Ele também disse que não cria que o papado havia mudado o sábado. E embora não o tivesse declarado diretamente, sua linguagem sugeria que ele provavelmente guardaria o domingo. Ele acha que os adventistas do sétimo dia são estreitos demais em suas idéias.” – Citado em Carrie Johnson, I Was Canright’s Secretary (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1971), pág. 82. 17. Ibidem, págs. 168 e 169.

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47. A visão é relatada em duas partes: a convincente descrição de “Os Dois Caminhos”, e “Conformidade com o Mundo”. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 127-137. 48. Ibidem, pág. 132, nota de rodapé. 49. Ibidem. 50. Manuscrito 4, 1883, citado em Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 67 e 68. Este lamentável reconhecimento da realidade se refletiu nos escritos dela pelo menos trinta vezes conforme registrado por Herbert E. Douglass, The End (Mountain View, CA.: Pacific Press Publishing Association, 1979), págs. 161-167. Este fato não deve ser obscurecido – a demora no advento não é culpa de Deus nem Seu plano arbitrário: “Talvez tenhamos de permanecer muitos anos mais neste mundo por causa de insubordinação, como aconteceu com os filhos de Israel; mas por amor de Cristo, Seu povo não deve acrescentar pecado a pecado, responsabilizando a Deus pela conseqüência de seu procedimento errado.” – Evangelismo, pág. 696. 51. Biography, vol. 1, pág. 463. 52. Ibidem. 53. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 264. 54. Como a maioria das pessoas tinha vista curta! Poucos dias antes da visão de Parkville, em 22 de dezembro de 1860, William H. Seward, secretário de Estado do governo Lincoln, predisse um acordo de paz para a crise nacional dentro dos sessenta dias seguintes. – Citado em Henry S. Commager, ed., Documents of American History, 7a ed. (New York: Appleton-Century-Crofts, Inc., 1863), vol. I, págs. 366 e 369. Em meados de fevereiro de 1861, Thomas R. R. Cobb, secessionista da Geórgia e membro da comissão que preparava a constituição dos confederados, escreveu: “A crença quase generalizada aqui [Montgomery] é a de que não teremos uma guerra.” – Citado em Edward Channing, History of the United States (New York: Macmillan Co., 1905-1925), vol. VI, pág. 264. Dois dias antes de seu Discurso Inaugural, proferido em 4 de março de 1861, Lincoln declarou na Filadélfia: “Tenho me sentido justificado, durante todo o tempo, em concluir que a crise, o pânico e a ansiedade do país neste momento são artificiais.” – Citado em Harper’s Weekly, 2 de março de 1861, pág. 135. A Encyclopedia Britannica estimou que a Guerra Civil teve um custo “total de cerca de 11.450.500.000 dólares somente para o Norte. Mas o custo do Sul foi enorme; 4.000.000.000 de dólares não pode ser exagero. Segue-se que, até 1909, o custo da guerra para a nação havia se aproximado da tremenda quantia de 15.500.000.000 de dólares... e a morte de provavelmente 300.000 homens de cada lado.” – 11ª ed., vol. XXVII, pág. 710. 55. Loughborough, RPSDA, págs. 236 e 237. 56. A Lei do Escravo Fugitivo de 1793 e 1850, confirmada pela Suprema Corte em 1859. Na visão de Rochester, Ellen White escreveu: “A lei relativa à fuga de escravos destina-se a aniquilar cada nobre e generoso traço de compaixão que surja no coração das pessoas em favor do escravo oprimido e sofredor.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 264. “Os oficiais do exército sulista recebem constantes informações sobre os planos do exército da União. ... Os rebeldes sabem que têm muitos simpatizantes em todo o exército nortista. ... Espíritos de demônios, apresentando-se como guerreiros já falecidos e habilidosos generais, comunicam-se com homens de autoridade, controlando muitas das suas ações. ... Muitos homens que professam ser da União e que ocupam posições importantes são desleais. Seu único objetivo ao empunhar armas é conservar a União tal qual se encontra e a escravidão junto com ela. Manteriam o escravo sujeito à sua vida de mortificante servidão se tivessem oportunidade. Tais pessoas têm forte grau de simpatia pelo Sul. ... Vi que tanto o Sul como o Norte estavam sendo punidos.” – Ibidem, págs. 363-368. 57. Em uma carta de 22 de agosto de 1862, endereçada a Horace Greeley, redator do New York Tribune, o Presidente Lincoln escreveu: “Meu supremo objetivo nesta luta é salvar a União e não salvar ou destruir a escravidão. Se eu pudesse salvar a União sem libertar nenhum escravo, eu o faria; e se eu pudesse salvá-la libertando todos os escravos, eu o faria; e se eu pudesse salvá-la libertando alguns e deixando outros na situação em que se encontram, eu também o faria.” – Carl Sandburg, Abraham Lincoln: The War Years (New York: Charles Scribner’s Sons, 1937), vol. 3, pág. 567. 58. Para uma amostra do sentimento de “paz e prosperidade” reinante na virada do século, note o que segue: “Desde a Exposição [Londres, 1851], a civilização ocidental tem avançado constantemente e, em alguns aspectos, de maneira mais rápida do que qualquer mente lúcida poderia ter predito – civilização, pelo menos, no sentido convencional, que tem sido definida como ‘o desenvolvimento de confortos materiais, da educação, da igualdade e das aspirações de crescimento e obtenção de sucesso na vida’. O avanço mais impressionante tem sido nas comodidades técnicas da vida – isto é, no domínio das forças naturais. Seria supérfluo enumerar as descobertas e invenções que, desde 1850, têm abreviado espaço, economizado tempo, diminuído o sofrimento físico e reduzido de algumas maneiras os conflitos da vida, embora os tenham aumentado de outras maneiras. Esta série ininterrupta de invenções técnicas que prosseguem simultaneamente com o imenso aumento de todos os ramos do conhecimento tem pouco a pouco habituado as mentes menos especulativas à concepção de que a civilização é naturalmente progressiva e que o melhoramento constante faz parte da ordem das coisas. ... “Nas décadas de 70 e 80 do último século [dezenove] a idéia de progresso estava se tornando, de modo geral, um artigo de fé. Alguns acreditam na forma fatalista de que a humanidade caminha em uma direção desejável, não importa o que homem faça ou deixe de fazer. Outros podem crer que o futuro dependerá, em grande parte, de nossos próprios esforços conscientes, mas que não há, na natureza das coisas, nada que possa desapontar a expectativa de progresso estável e indefinido. A maioria não investigou tão avidamente esses pontos de doutrina, mas os recebeu com um vago senso de uma confortável adição a suas convicções. Mas isso se tornou parte, em geral, da perspectiva mental das pessoas instruídas. ... “Nos últimos quarenta anos todo país civilizado produziu vasta literatura sobre ciências sociais, na qual o progresso indefinido é geralmente assumido como um axioma.” – J. B. Bury, The Idea of Progress (New York: Dover Publications, 1955), págs. 331, 332, 346 e 348. O espírito de otimismo reinante na virada do século se reflete no sermão do historiador da igreja, Arthur Cushman Giffert, intitulado “O Reino de Deus”, pregado diversas vezes durante 1909: “A era moderna é marcada por uma enorme confiança no poder humano. Durante muitos séculos foi costume pensar no homem como uma coisa fraca e insignificante. Humildade e falta de confiança própria eram as virtudes cardeais; orgulho e autoconfiança, a raiz de todos os vícios. A mudança não é fruto da especulação, uma mera teoria filosófica sobre a relação do homem com o Universo, mas o resultado da real e crescente conquista do mundo em que vivemos. ... Característica do tempo presente é sua fé no futuro baseada em suas sólidas experiências do passado. ... A importante tarefa da igreja cristã do século vinte está ao seu alcance. Repousa sobre a igreja a mais elevada responsabilidade de implantar o reino. ... Estamos às vésperas de grandes acontecimentos. Ninguém que conheça a História e seja ca-

18. D. H. Kress, M.D., “The Testimonies and a Balanced Diet”, em George K. Abbott, M.D., The Witness of Science to the Testimonies of the Spirit of Prophecy, edição revisada (Mountain View, CA: Pacific Press Publishing Association, 1948), págs. 138-141. Trechos da carta de Ellen White ao Dr. Kress encontram-se em Conselhos Sobre o Regime Alimentar, págs. 202-207. 19. SDAE, vol. 10, pág. 886. Para uma amostra de dezenas de situações semelhantes em que Ellen White, da maneira mais oportuna e em virtude dos fatos apresentados a ela em visão, interveio para aconselhar, reprovar e encorajar alguém, examine o seguinte: (1) Um pastor da nova igreja de São Francisco foi salvo de uma investigação embaraçosa e potencialmente desastrosa levada a efeito na igreja, num domingo, 28 de janeiro de 1872, porque recebeu uma carta de Ellen White no sábado à noite. – Loughborough, GSAM, págs. 387 e 388, citado em Biography, vol. 2, págs. 363 e 364. (2) W. W. Prescott, presidente do Battle Creek College, havia se tornado forte defensor de Anna Phillips, uma autonomeada “profetisa”. Um dos propósitos dele, ao viajar para o Walla Walla College, no início de 1894, era ler um dos testemunhos de Anna Phillips. O Pastor Haskell também estava em Walla Walla e relatou a Ellen White: “O seu testemunho chegou justamente em tempo de evitar alguns problemas em College Place. Já ouvi algo parecido quando suas cartas ou testemunho chegaram justamente na hora em que uma reunião estava em andamento e alcançaram as pessoas a tempo de evitar problemas, mas [eu] nunca havia passado por essa experiência antes. ... O irmão Prescott ia ler o testemunho de Anna Philips, embora tivéssemos tido uma conversa sobre o assunto. Mas no dia da leitura, precisamente no momento marcado, chegou a carta da irmã e na mesma hora ele teve, obviamente, oportunidade de lê-la. Para ele, isto solucionou a questão. Disse ele: ‘Então isto é tudo. Tomarei agora um pouco do mesmo remédio que tenho ministrado a outros.’ ... Mas Deus, em Sua providência, fez com que o testemunho viesse como veio e me alcançasse exatamente nesta hora.” – Carta de S. N. Haskell a Ellen White, 9 de março de 1894, citada em Glen Baker, “Anna Philllips – Not Another Prophet”, Adventist Review, 20 de fevereiro de 1986, pág. 9. (3) A famosa viagem para Waukon através do “gelado” Mississippi em dezembro de 1857 inspirou-se em uma visão na qual Ellen White viu os primeiros líderes adventistas da Nova Inglaterra necessitando com urgência de conselho espiritual. Contra todas as recomendações, o grupo dos White abriu caminho através das tempestades de neve e da emocionante experiência no rio, sofrendo ulceração pelo frio e escassez de alimento – apenas para descobrir que aqueles velhos amigos, inclusive os Andrews, os Loughborough e os Stevens, ficaram “tristes por eles terem vindo”. Mas o Espírito de Deus prevaleceu. – Biography, vol. 1, págs. 345-349; Maxwell, Tell It to the World, págs. 139-141; Spalding, Origin and History, vol. 1, págs. 279-289. Ver também pág. 202. 20. I Crôn. 17:1-15. Ver pág. 35. 21. Ver “Appeal for the Southern Field”, citado em Daniells, AGP, pág. 322. 22. Biography, vol. 5, págs. 187-193; Daniells, ibidem, págs. 323-327. 23. Daniells, AGP, págs. 327-329. 24. Relato de Hiram Edson em Present Truth (PT), dezembro de 1849, citado em Biography, vol. 1, págs. 196-198. Na mesma edição desta revista, Ellen White informou: “Enquanto estive em visão, o anjo apontou para a Terra, onde vi o irmão Rhodes imerso em densas trevas; mas ele ainda mantinha a imagem de Jesus. Vi que era da vontade de Deus que os irmãos Edson e Ralph partissem.”

25. Biography, vol. 4, págs. 315-317. 26. O Desejado de Todas as Nações, pág. 215. 27. Ibidem, pág. 220. 28. Ibidem. 29. Atos dos Apóstolos, pág. 137. 30. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 686 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 297). 31. Para uma discussão da questão da “porta fechada”, ver capítulo 44. 32. The Review and Herald, 21 de abril de 1851, págs. 71 e 72. 33. Ver págs. 170 e 171. 34. The Review and Herald, 30 de agosto de 1864, pág. 109. 35. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 206 e 207. 36. Ibidem. 37. Ver págs. 281-284 para uma análise desta visão. 38. O texto continua: “O porco era útil. Num país fértil, onde havia muita putrefação sobre o solo, a qual podia envenenar a atmosfera, os rebanhos de porcos tinham permissão para andar livremente e devorar as substâncias em decomposição, o que era um meio de conservar a saúde. Outros animais eram proibidos de ser comidos pelos israelitas, porque não eram o melhor artigo alimentar.” – Spiritual Gifts, vol. 4, pág. 124. 39. Disponível hoje em Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 411479. 40. Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 417. Ver também Conselhos Sobre o Regime Alimentar, pág. 392 e A Ciência do Bom Viver, pág. 314. 41. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 207. 42. Ellen White jamais mudou seu parecer sobre a questão do consumo da carne de porco como uma prova de comunhão, ainda que enfatizasse em seus escritos que Deus declarara o porco alimento imundo devido à sua natureza doentia: “Se você é tanto um leitor da Bíblia como um praticante da Bíblia, deve entender, ao examinar as Escrituras, que a carne suína foi proibida por Jesus Cristo enquanto estava envolto em uma nuvem espessa. Isto não constitui uma prova de comunhão. As famílias têm sido instruídas que artigos como manteiga e o consumo abundante de alimentos cárneos não são o melhor para a saúde física e mental. ... Aconselho todo colportor observador do sábado a evitar comer carne, não porque seja considerado pecado comer carne, mas porque não é saudável.” – MR, vol. 16, pág. 173. 43. Biography, vol. 1, pág. 61. Transmitir reprovações nunca foi fácil. 44. Life Sketches, pág. 90. 45. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 36 e 37. 46. Biography, vol. 3, pág. 146. Em um testemunho de quase treze páginas, lido na reunião campal de Michigan, ela escreveu perto da conclusão: “Que ninguém alimente o pensamento de que me arrependo ou volto atrás em qualquer testemunho direto que apresento a indivíduos ou ao povo. Se alguma vez errei, foi em não repreender o pecado de maneira mais firme e resoluta. Alguns irmãos têm se dado ao trabalho de criticar o que eu faço, sugerindo que haja uma maneira mais fácil de corrigir erros. A essas pessoas eu diria: Sigo o caminho de Deus e não o de vocês. Não há excesso de franqueza naquilo que tenho dito ou escrito sob a forma de testemunho ou reprovação. Deus me deu uma obra a fazer, e devo enfrentá-la no juízo. ... Durante toda a minha vida, tem me sido extremamente difícil ferir os sentimentos de quem quer que seja ou transtornar sua ilusão ao comunicar os testemunhos que Deus me deu. É contrário à minha natureza. Causa-me grande dor e muitas noites indormidas.” – Ibidem, págs. 184 e 185.

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paz de ler os sinais dos tempos pode por um momento duvidar disso.” – Citado em H. Shelton Smith, Robert T. Handy Lefferts A. Loetshcer, American Christianity, An Historical Interpretation With Representative Documents (New York: Charles Scribner’s Sons, 1963), págs. 286 e 290. 59. Manuscrito 139, 1903, citado em Evangelismo, pág. 26. 60. Ibidem, pág. 27. 61. Carta 258, 1907, citada em Eventos Finais, pág. 25. 62. Signs of the Times, 21 de abril de 1890, pág. 242 (Mensagens aos Jovens, págs. 89 e 90). 63. Carta 278, 1906, citada em Eventos Finais, pág. 23. 64. Review and Herald, 11 de fevereiro de 1904, pág. 8. 65. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 13 (Ciência do Bom Viver, pág. 183). Livros, revistas e programas de TV atuais parecem estar de comum acordo em deplorar os problemas econômicos mundiais inerentes aos diversos graus de socialismo governamental, transtornos trabalhistas causados pela “era da informação”, corrupção moral aliada às drogas e ao álcool e a contribuição destas para a espantosa escalada de crime no mundo, o aumento impressionante de gravidez na adolescência, etc. Todos esses problemas contribuíram para aumentar os custos do governo e a elevação dos impostos. 66. Primeiros Escritos, pág. 43. Um ano depois, em 24 de agosto de 1850, ela escreveu: “Vi que as ‘pancadas misteriosas’ eram o poder de Satanás; parte delas procedia diretamente dele, e outra, indiretamente, mediante seus agentes, mas tudo provinha de Satanás. ... Foi-me mostrado que, por essas pancadas e pelo magnetismo, estes mágicos modernos procurariam ainda explicar todos os milagres realizados por nosso Senhor Jesus Cristo, e que muitos creriam que todas as poderosas obras do Filho de Deus, realizadas quando esteve na Terra, foram executadas pelo mesmo poder.” – Ibidem, pág. 59. 67. O Grande Conflito, pág. 581. Ver também Eventos Finais, pág. 130. 68. Nenhum papa desde 1870, quando o unificado Reino da Itália assumiu o controle dos territórios papais, havia saído do solo do Vaticano até a Concordata de 1929 com o governo de Mussolini. 69. Time, 26 de dezembro de 1994, pág. 54. 70. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 451 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 150 e 151). Ver também O Grande Conflito, págs. 445, 448 e 449. 71. Apocalipse 13:3 prediz o dia em que “toda a Terra se maravilhou, seguindo a besta [Roma Papal]”. A essência desta declaração feita por preeminentes líderes evangélicos e católicos é: “Os que amam ao Senhor devem permanecer juntos”; aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa. Um dos signatários, J. I. Packer, defendeu seu endosso em “Why I Signed It” (Christianity Today, 12 de dezembro de 1994): “O plano de suas 8.000 palavras está simplesmente resumido. Depois de declarar que sua preocupação é com ‘o relacionamento entre evangélicos e católicos, que constituem neste momento a crescente margem de expansão missionária e, mas provavelmente, no próximo século’, anuncia a concordância de seus compositores no Credo Apostólico e na proposição de que ‘somos justificados pela graça mediante a fé por Jesus Cristo’: afirma um compromisso de buscar mais amor,... esboçar um propósito de ação conjunta não proselitista para a conversão e conservação dos que estão fora. ... Os redatores do ECT declaram que... entendem a vida cristã do princípio ao fim como conversão pessoal a Jesus Cristo e comunhão com Ele, sabem que devem ‘ensinar e viver em obediência às Escrituras divinamente inspiradas, que são a infalível Palavra de Deus’, e nesta base são ‘irmãos e irmãs em Cristo’.”

Charles Colson, outro preeminente signatário, defendeu o documento ECT em “Why Catholics Are Our Allies”, onde ele advoga: “Ao enfrentar o mundo não cristão – seja em evangelismo ou ativismo político – devemos apresentar uma frente unida. Este é o objetivo do ECT. ... Estejamos certos de que estamos disparando nossas armas polêmicas contra o inimigo, não contra aqueles [católicos romanos] que lutam nas trincheiras ao nosso lado [protestantes] na defesa da Verdade.” – Christianity Today, 14 de novembro de 1994. 72. “Mediante os dois grandes erros – a imortalidade da alma e a santidade do domingo – Satanás há de enredar o povo em suas malhas. Enquanto o primeiro lança o fundamento do espiritualismo, o último cria um laço de simpatia com Roma. Os protestantes dos Estados Unidos serão os primeiros a estender as mãos através do abismo para apanhar a mão do espiritualismo; estender-se-ão por sobre o abismo para dar mãos ao poder romano; e, sob a influência desta tríplice união, este país seguirá as pegadas de Roma, desprezando os direitos da consciência.” – O Grande Conflito, pág. 588. 73. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 566 (1867); Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, pág. 184 (1872); A Ciência do Bom Viver, pág. 241 (1905). 74. Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 442 (1865); Patriarcas e Profetas, pág. 561 (1890). 75. Ver nas págs. 320-336 suas concepções sobre os perigos do uso indiscriminado de açúcar e gordura animal, os problemas de obesidade e irregularidades de alimentação, o alto valor do exercício, o desafio dos padrões do regime alimentar na infância, os perigos dos alimentos cárneos, chá, café, etc., em Conselhos Sobre Regime Alimentar (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1938). 76. Life Sketches, pág. 125. 77. 137th Annual Statistical Report – 1999 (publicado pela Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia). 78. Life Sketches, pág. 338 (Fundamentos da Educação Cristã, págs. 208 e 209). 79. The Abiding Gift of Prophecy, pág. 309 (1936). Imagine como seria agradável e maravilhoso para os presentes em 1892 se eles pudessem ver hoje a expansão extraordinária dos adventistas por todo o Sul do Pacífico. 80. Tiago White, Life Sketches (Battle Creek, MI: Steam Press of Seventh-day Adventist Publishing, 1888), págs. 353-355. 81. Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, págs. 91 e 96. 82. General Conference Bulletin, 1903, pág. 85. 83. Ver pág. 189. 84. Carta 157, 1902, citado em MR, vol. 4, pág. 280. 85. D. E. Robinson, The Story of Our Health Message (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1965), págs. 337-361. 86. Ibidem, págs. 351 e 352. 87. Review and Herald, 15 de abril de 1858, pág. 174. A primeira carta de Ellen White a esta família é datada de 12 de julho de 1856. 88. Delafield, Ellen G. White in Europe, págs. 233, 234 e 236. 89. Carta 39, 1893, citado em Biography, vol. 4, págs. 49 e 50. 90. Manuscrito 4, 1893, citado em ibidem, págs. 50 e 51. 91. DF 522a, N. D. Faulkhead a EGW, 20 de fevereiro de 1908, citado em Biography, vol. 4, pág. 51. 92. Carta de N. D. Faulkhead, 5 de outubro de 1908, citado em ibidem, págs. 51 e 52. 93. Carta 46, 1892, citado em ibidem. 94. Carta 46, 1892, citado em ibidem, pág. 55.

Perguntas Para Estudo

1. Em que ocasiões o fato de uma visão ser comunicada no momento certo trouxe intenso regozijo e confiança adicional? 2. Como as visões de Ellen White ajudaram o Dr. Kress de um modo prático? 3. Enumere algumas das crenças e opiniões de Ellen White que se modificaram depois de receber uma visão. 4. No seu modo de entender, por que Deus não revelou toda a verdade que Ele desejava que Seus mensageiros soubessem no início do seu ministério? 5. Que predições de Ellen White você viu cumprir-se nos últimos vinte anos? 6. Como você reagiria à mensagem de Ellen White se você fosse N. D. Faulkhead? 7. Enumere e discuta visões dadas nas seguintes categorias: predições; conselho direto a indivíduos; uma visão do tempo do fim. 8. Pense em algumas vezes em que o “ouvir a Deus” por parte de Ellen White fez com que ela comunicasse a outros, justamente no tempo certo, a mensagem necessária.

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“Durante meio século tenho sido a mensageira do Senhor, e enquanto durar a minha vida continuarei a transmitir as mensagens que Deus me dá para Seu povo.” 1

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percepção que Ellen White tinha de sua missão determinava a maneira como estabelecia prioridades em sua vida pessoal e quão decidida devia ser em apresentar sua mensagem ao mundo. Ela se julgava um “frágil instrumento... um canal de comunicação da luz”.2 Em uma declaração feita perante 2.500 pessoas (nem todas membros da igreja), no Tabernáculo de Battle Creek, no domingo 2 de outubro de 1904, disse: “Não sou, conforme disse ontem [no culto de sábado], uma profetisa. Não tenho pretensões de ser líder; afirmo que sou simplesmente uma mensageira de Deus, e isto é tudo quando pretendo ser.”3 Evidentemente, alguns tomaram esta afirmação e a proclamaram como uma confissão de que a líder adventista não era, afinal de contas, uma profetisa. Mas o que Ellen White queria era esclarecer um mal-entendido comum a respeito do que é um profeta e o que ele faz. Se a única função dos profetas fosse predizer acontecimentos, ela queria que o povo entendesse que essa definição não se aplicava a seu papel como mensageira de Deus.4 Ela respondeu a indagações tanto de adventistas quanto de não adventistas quando disse: “Reivindicar ser profetisa é coisa que nunca fiz. Se outros me chamam assim, não discuto com eles. Mas minha obra tem abrangido tantos ramos que não me posso chamar outra coisa senão mensageira, enviada a apre-

sentar uma mensagem do Senhor a Seu povo, e a empreender trabalho em qualquer sentido que Ele me indique.”5 Tinha consciência de que estava inserida na corrente histórica do sistema divino de comunicação por meio dos profetas e profetisas: “Nos tempos antigos, Deus falou aos homens pela boca de Seus profetas e apóstolos. Nestes dias Ele lhes fala por meio dos Testemunhos do Seu Espírito. Não houve ainda um tempo em que mais seriamente falasse ao Seu povo a respeito de Sua vontade e da conduta que este deve ter.”6 Esclarecendo a Verdade Bíblica Ellen White jamais pretendeu que seus escritos tomassem o lugar da Bíblia.7 Ela entendia que seu “primeiro dever” era “apresentar os princípios bíblicos” e, se não houvesse “decidida e conscienciosa reforma”, ela devia “apelar pessoalmente para eles”.8 De fato, seus “Testemunhos” não teriam sido necessários “se tivessem feito da Palavra de Deus o objeto de seus estudos, com o propósito de atingir o padrão bíblico e a perfeição cristã”.9 Além disso, nunca reivindicou infalibilidade, e sempre enfatizava que “unicamente Deus é infalível”.10 Estava sempre aberta para a revelação da verdade. Para ela, a verdade progressiva não contradizia as verdades anteriormente reveladas, mas as expandia.11 Corrigir erros do pensamento cristão da

época tornou-se parte essencial da apresentação dos princípios bíblicos. Ellen White costumava dizer: “[As instruções foram dadas] para corrigir erros capciosos e para especificar o que é a verdade.”12 Em sua preocupação principal de que a Bíblia fosse vista como a única regra de fé e prática do cristão, ela se sentia compelida a enfatizar que, em alguns casos, o que durante séculos fora entendido como “verdade bíblica” não passava de “microorganismos que pairam no ar” e “lixo do erro”.13 Além de corrigir esses germes teológicos “que pairavam no ar” e que impregnavam o cristianismo tradicional no século dezenove, foi-lhe mostrado que algumas verdades cristãs básicas haviam permanecido inativas desde o primeiro século. Essas verdades deviam ser recuperadas e colocadas dentro do sistema mais amplo do “evangelho eterno”, o qual devia ser pregado em sua plenitude no fim do tempo.14 Pelo fato de essas percepções de si mesma como mensageira de Deus a ajudarem a esclarecer a verdade bíblica, Ellen White e as pessoas de sua época entendiam que o conselho dela se achava num nível muito superior ao de outros estudantes da Bíblia. Sua participação na formação da doutrina adventista do sétimo dia era percebida como normativa. As Visões Definiram a Verdade e Criaram Unidade Após Estudo da Bíblia Nos tempos de sua formação, os adventistas sabatistas reuniram-se em diversas ocasiões para estabelecer suas crenças fundamentais e promover a harmonia em suas fileiras.15 Com a Bíblia aberta, eles dedicaram algumas vezes dias e noites inteiros ao estudo. Quando o grupo se detinha ante um impasse com vários pontos de vista firmemente defendidos, Ellen White recebia uma visão na qual era indicada a interpretação bíblica correta. Era então capacitada a confirmar os resultados do estudo da Bíblia do irmão C em vez de os dos irmãos A, B ou D. Eis como Ellen White descreveu essas ocasiões: “Naquele tempo [depois do desaponta-

mento de 1844], erro após erro procurava forçar entrada entre nós; pastores e doutores introduziam novas doutrinas. Nós investigávamos as Escrituras com muita oração, e o Espírito Santo nos trazia ao espírito a verdade. Por vezes, noites inteiras eram consagradas à pesquisa das Escrituras, a pedir fervorosamente a Deus Sua orientação. Juntavam-se grupos de homens e mulheres consagrados, para esse fim. O poder de Deus vinha sobre mim, e eu era habilitada a definir claramente o que era a verdade e o que era erro. “Ao serem assim estabelecidos os pontos de nossa fé, nossos pés se colocavam sobre um firme fundamento. Aceitávamos a verdade ponto por ponto, sob a demonstração do Espírito Santo. Eu era arrebatada em visão, e me eram feitas explanações. Foram-me dadas ilustrações de coisas celestiais, e do santuário, de modo que fomos colocados em posição onde a luz resplandecia sobre nós em raios claros e distintos.”16 Essas experiências, durante as quais Ellen White imprimiu clareza e harmonia aos estudos da Bíblia, comunicaram autenticidade e certeza aos primeiros adventistas do sétimo dia. De tempos em tempos, quando as doutrinas básicas eram atacadas de dentro da igreja, ela recorria a essas primeiras experiências: “Que ninguém procure remover os alicerces de nossa fé – os alicerces lançados no princípio de nossa obra, pelo piedoso estudo da Palavra e pela revelação. Sobre estes alicerces temos estado a construir nestes cinqüenta anos passados.”17 Para os adventistas mais recentes, negar esses acontecimentos históricos – essas experiências de estudo da Bíblia/confirmação do Espírito – seria lançar-se de novo na confusão na qual os irmãos A, B, C ou D se esforçavam para convencer a outros de que o ponto de vista bíblico individual era “a verdade”. Durante toda a sua longa vida, Ellen White ajudou os outros a tornarem-se a “primeira geração”, os primeiros “discípulos” adventistas. Ela sabia que somente ajudando os adventistas mais recentes a reviver a “experiência” (estudo da Bíblia mais confirmação do Espírito), eles conseguiriam divisar a coerência e a urgência da mensagem adventista.18

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Segue-se, pois, que rejeitar os escritos de Ellen White não é insultá-la, é insultar o Espírito de Deus. Em muitos casos, durante todo o seu ministério, ela expressou angústia pelo fato de aqueles que faziam pouco caso ou rejeitavam suas mensagens estavam rejeitando muito mais do que um mero ser humano. Por exemplo: “Os testemunhos que lhes tenho dado na realidade me foram apresentados pelo Senhor. Lamento que tenham rejeitado a luz concedida. ... Não estão traindo a mim. Não é contra mim que vocês estão tão exasperados. É contra o Senhor, o qual me deu uma mensagem a ser transmitida para vocês.”19 Trágicas Conseqüências Frequentemente, ela deu advertências a respeito das lamentáveis e algumas vezes trágicas conseqüências pessoais que se seguiriam à rejeição de seus escritos.20 Pelo fato de saber que suas visões provinham do Senhor e que tinham o objetivo específico de preparar um povo para a volta de Jesus, ela não reagia irrefletidamente para com aqueles que tratavam seu conselho com indiferença. Via o fim disso tudo no desenrolar da vida daquela pessoa, e ficava alarmada. O que segue é uma amostra de sua opinião com respeito àqueles que brincam com suas mensagens: “É plano de Satanás abalar a fé do povo de Deus nos Testemunhos. Satanás sabe como dirigir seus ataques. Começa por influir sobre os espíritos de modo a despertar neles ciúme e descontentamento em relação aos que têm a liderança do trabalho. Discutem-se, pois, os dons, resultando daí serem eles amesquinhados, e acaba-se por desconsiderar as instruções dadas por meio de visões. Segue-se então o ceticismo com relação a pontos vitais de nossa fé, os sustentáculos de nossa posição; vem depois a dúvida sobre as Escrituras Sagradas, e, finalmente, a marcha descensional para a perdição. Quando os Testemunhos, em que uma vez se acreditou, são postos em dúvida e rejeitados, Satanás sabe que os iludidos não se deixarão ficar por aí; e redobra de esforços até que os arraste a uma rebelião declarada, que se torne insanável e termine em destruição. ... Suscitam senti-

mentos amargos contra os que ousam falar-lhes dos seus erros e reprovar-lhes os pecados.” 21 Ellen White compreendia o que motivava as pessoas a rejeitar seus escritos. Alguns aceitavam as partes com as quais concordavam, ao passo que rejeitavam “outras que condenam suas condescendências favoritas”.22 Alguns que não “compreendem” os escritos dela “possuem a luz, mas não têm andado nela. O que eu disse em conversações particulares é repetido de tal maneira que signifique exatamente o oposto ao que eu queria dizer, caso os ouvintes fossem santificados na mente e espírito”.23 Outros anulavam o conselho de Deus pelo fato de os escritos dela não concordarem com suas “opiniões preconcebidas ou idéias particulares. ... Tudo o que apóia suas idéias acariciadas é divino, e os testemunhos para corrigir seus erros são humanos – as opiniões da irmã White”.24 Uma ameaça à fé que Ellen White rebatia de maneira intransigente era a prática de “dissecar” seus escritos: “Vocês não imaginam que podem analisá-los [Testemunhos] de modo a acomodá-los às suas próprias idéias, pretendendo que Deus lhes deu perícia para discernir o que é luz do Céu e o que é mera sabedoria humana. Se os Testemunhos não falarem de acordo com a Palavra de Deus, rejeitem-nos.”25 Ela cria que seus escritos eram coerentes e harmônicos do princípio ao fim – “uma corrente retilínea de verdade”. Esta é uma afirmação extraordinária para qualquer escritor fazer, especialmente aquele que passou mais de sessenta anos escrevendo.26 O princípio definidor que mantinha seus escritos coerentes e harmônicos era o “tema do grande conflito”.27 Duplo Papel Pelo fato de acreditar convictamente que Deus a estava usando como Sua mensageira para os últimos dias, ela via a si mesma como desempenhando dois papéis: para o público em geral, um evangelho de apelo e advertência; e para os adventistas, uma mestra-conselheira.28

Reconhecendo a diferença distinta dessa dupla responsabilidade, ela declarou enfaticamente que seus escritos não deviam ser usados como autoridade doutrinária para o público em geral: “Já o primeiro número dos Testemunhos publicados encerra uma advertência contra a maneira desavisada de usar a luz que Deus deste modo comunicou a Seu povo. Afirmei que alguns não haviam procedido sabiamente. Quando falavam de sua fé aos descrentes e estes lhes exigiam prova, citavam os meus escritos em vez de fornecerlhes a prova da Bíblia. Foi-me mostrado que tal procedimento é incoerente, tornando os incrédulos prevenidos contra a verdade. Os Testemunhos não têm nenhuma força de prova com os que lhes desconhecem o espírito. Não deveriam ser citados em tais casos.”29 Já com os membros da igreja, era diferente. Sabendo que seus escritos estavam em harmonia com a Bíblia e que Deus lhe havia concedido luz especial para os adventistas com uma tarefa distinta para os últimos dias, ela insistia com os membros da igreja para que aceitassem seus escritos como verdade de Deus: “À proporção que se avizinha o fim, e a obra, que tem por objetivo transmitir ao mundo a última advertência, continua a estender-se, vai-se tornando mais importante para os que abraçaram a verdade possuir uma compreensão clara tanto da natureza como da influência dos Testemunhos que Deus, em Sua providência, vinculou à obra da terceira mensagem angélica desde a sua origem.”30 Ellen White deixou claro que não recebia uma visão específica para cada testemunho. Algumas pessoas estavam adotando o ponto de vista de que, se ela não havia recebido uma visão específica para cada caso, individualmente, sua advertência de reprovação “não tem maior importância do que conselhos e advertências provenientes de outras fontes”.31 Então ela se serviu da experiência de Paulo como uma analogia. Assim como Paulo não teve uma visão específica antes de escrever sua primeira carta aos coríntios, mas recebeu da família de Cloé informações preliminares (I Cor. 1:11), assim também Ellen White fora levada a colocar por escrito princípios

gerais que seriam apropriados às necessidades específicas do momento. Os coríntios não levaram a carta de Paulo menos a sério pelo fato de ele ter revelado a fonte de sua preocupação. Eles sabiam que o apóstolo estava falando a verdade sobre a condição deles, e ouviram cuidadosamente suas admoestações. Por isso, na experiência dela, “Deus mostroume que certo caminho, quando prosseguido, ou certos traços de caráter, quando cultivados, hão de produzir determinados resultados. Deste modo tem estado a preparar-me e disciplinar-me para que pudesse conhecer os perigos que ameaçam as almas e instruir e advertir Seu povo, dando-lhe regra sobre regra... de sorte a não estar em ignorância quantos aos enganos do diabo, e poder fugir às suas ciladas. ... Deveria remeter-me ao silêncio, porque não me tivesse sido revelado em visão definida cada caso individualmente?”32 Desde suas primeiras visões até sua morte, Ellen White conhecia a fonte de suas percepções. “Vi” é uma expressão muito freqüente quando ela falava aos membros da igreja. Outras expressões que enfatizavam seu senso de autoridade e missão incluíam: “Falo do que conheço”;33 “da instrução que o Senhor me deu. ... Se alguma vez o Senhor falou por meu intermédio”.34 Embora ela desejasse que seus leitores “ouvissem” a voz de Deus por meio de seus escritos, ensinou claramente que Deus não ditava cada palavra. Cria que suas palavras não eram as palavras de Deus (nem as palavras dos autores bíblicos o eram); comunicava os pensamentos divinos com as melhores palavras que pudesse empregar.35 Em 1867, ela escreveu o seguinte, num artigo sobre vestuário feminino quando em público, num tempo em que os vestidos longos e esvoaçantes estavam na moda: “Se bem que eu dependa do Espírito do Senhor tanto para escrever minhas visões como para recebê-las, todavia as palavras que emprego ao descrever o que vi são minhas, a menos que sejam as que me foram ditas por um anjo, as quais eu sempre ponho entre aspas.”36 Ela está fazendo aqui distinção entre as exatas palavras divinamente proferidas e as suas palavras utilizadas na transmissão da mensagem da visão.

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A distinção está entre as palavras divinas e as palavras dela, não entre as palavras dela e as de outros seres humanos, que ela ocasionalmente utilizava para imprimir precisão e colorido histórico a seus escritos. Ellen White apelava ao bom senso do leitor, assim como devemos usar o bom senso quando estudamos a Bíblia. Os princípios não mudam; mas as normas e as aplicações dos princípios a um determinado tempo e lugar podem ser alteradas em virtude de tempos e circunstâncias mutáveis.37 É preciso bom senso para enxergar a diferença entre o sagrado e o comum. Um exemplo clássico da confusão entre o santo e o profano aconteceu em 1909. Um membro da igreja cria que a Sra. White errara ao declarar numa carta que Paradise Valley Sanitarium possuía quarenta quartos, quando na realidade só contava com trinta e oito. Para ajudar as pessoas confusas, ela explicou: “A informação quanto ao número de quartos no Paradise Valley Sanitarium foi dada, não como uma revelação vinda do Senhor, mas simplesmente como uma opinião humana. Nunca me foi revelado o número exato de quartos de qualquer de nossos hospitais; e o conhecimento que tenho obtido dessas coisas, tive indagando dos que se esperava que soubessem. Em minhas palavras, quando falando acerca desses assuntos comuns, não há nada que leve as mentes a crer que recebo meu conhecimento em visão do Senhor e o estou declarando como tal. ... Misturar, porém, o sagrado com o comum é um grande erro. ... “Há vezes, porém, em que devem ser declaradas coisas comuns, pensamentos comuns precisam ocupar a mente, cartas comuns precisam ser escritas e informações dadas, as quais passaram de um a outro dos obreiros. Tais palavras, tais informações, não são dadas sob a inspiração especial do Espírito de Deus. São por vezes feitas perguntas que não dizem respeito absolutamente a assuntos religiosos, e estas perguntas precisam ser respondidas. Conversamos acerca de casas e terras, negócios a serem feitos, locais para nossas instituições, suas vantagens e desvantagens. Recebo cartas solicitando conselhos acerca de assun-

tos estranhos, e aconselho segundo a luz que me tem sido comunicada.”38 Fontes Externas ao Relatar Visões Ellen White ocasionalmente empregava material que havia lido ou acontecimentos interessantes de ocorrência recente para imprimir vigor à mensagem que procurava comunicar. Acontecimentos recentes estavam obviamente na sua mente assim como na mente das pessoas não inspiradas. Eram parte de um processo mental e todos os empregam para fazer a ligação entre o conhecido e o desconhecido. Deus, às vezes, chamava a atenção do profeta e tornava Sua mensagem mais convincente em uma visão, ligando-a a algum acontecimento recente. Um exemplo disso é a tragédia de uma contracorrente submarina na Nova Zelândia que arrastou três nadadores até a morte e um apelo de cortar o coração que ela fez a seu filho Edson.39 Outro exemplo aconteceu em 1903, quando a denominação se envolveu na grave crise do panteísmo. Pouco antes de receber uma visão que se demonstrou imensamente útil, ela havia lido num jornal sobre um navio que, em meio à cerração, se havia chocado contra um iceberg. Na visão, a analogia do iceberg encerrava uma lição: “Eu conhecia bem o significado dessa representação. Havia recebido minhas ordens. Ouvira as palavras, como a viva voz de nosso Comandante: ‘Enfrentemno!’ Eu sabia qual era meu dever, e que não havia um momento a perder. ... Eis a razão por que você recebeu os testemunhos no tempo em que os recebeu.”40 O Senhor, obviamente, ao dar Suas visões, poderia utilizar conhecimento e idéias que os profetas haviam descoberto anteriormente por meio de leitura ou experiência.41 Caso contrário, Deus estaria fazendo da mente do profeta uma máquina de fax. Não devemos ter dúvida sobre a inspiração da Bíblia. Durante séculos ela tem suportado o ceticismo e o exame rigoroso. Quando estudamos a maneira como os escritores bíblicos realizaram seu trabalho, descobrimos que de vez em quando eles faziam empréstimo de outros escritores, sem informar os leitores sobre a prática.42

Podemos citar vários exemplos que mostram que Ellen White também copiava expressões de outros autores ao relatar suas visões. Esta é uma prática previsível quando os profetas usam sua própria experiência e sistema de referência ao descrever o que viram em sonhos ou visões. Através dos anos, a Sra. White usou as expressões “vi” e “foi-me mostrado” quando relatava seus sonhos ou visões.43 No começo de seu ministério, ela usava essas expressões com freqüência porque falava ou escrevia especialmente para crentes. Mas em anos posteriores, quando algumas dessas visões foram republicadas para o público em geral, essas expressões foram omitidas, por razões óbvias. Duas Maneiras de Entender Essas duas expressões [“vi” e “foi-me mostrado”] podem ser compreendidas de duas maneiras: os profetas realmente viam com os próprios olhos ou ouviam com os próprios ouvidos o que eles relatavam depois; ou os profetas “eram levados pelo Espírito Santo a entender que determinados conceitos eram verdadeiros mesmo à parte de uma visão. Como quer que seja, a expressão significa sempre que o que foi escrito foi escrito sob a inspiração do Espírito de Deus.”44 Todos já passaram pela experiência de citar outra pessoa, seja numa carta, seja numa conversa. Para manter o interesse dos ouvintes ou leitores, costumamos citar “os pontos principais” a fim de evitar uma recitação tediosa. Muitas vezes, porém, a pessoa citada poderá dizer: “Não foi isso o que eu quis dizer!” Ou: “Eu não disse isso desse jeito!” O fragmento, a citação condensada, pode ser exatamente o que foi dito, mas, sem o cenário e o contexto do comentário original, pode criar vida própria sem comunicar a intenção original. Nossas próprias experiências pessoais nos ajudam em nossa tentativa de entender a Sra. White de maneira mais precisa e justa. Algumas vezes, por economia de espaço ou tempo, citamos apenas parte de uma carta, apontamento de diário ou manuscrito de Ellen White. A citação pode ser claramente entendida,

embora na maior parte das vezes falte calor, afeição, seriedade e espírito generoso, porque falta o contexto que a envolve. Na verdade, algumas vezes a escritora pode parecer abrupta, mesmo ríspida, em cartas ou sermões citados apenas em parte. Somente quando toda a carta é lida, conseguimos captar toda sua disposição e propósito.45 O método mais seguro de entender escritores citados com muita freqüência é reviver as circunstâncias em que eles estavam inseridos e sentir a preocupação que eles sentiram ao escrever. Para uma melhor compreensão das mensagens de Ellen White, devemos lembrar a maneira como seus contemporâneos a compreenderam. Estavam seguros de sua honesta franqueza, espírito generoso, cordialidade e compromisso todo abrangente ao comunicar as mensagens de Deus, não diluídas por simpatias humanas. A maioria recebeu suas admoestações – algumas vezes incisivas repreensões – com a confiança de que ela era uma “mãe” zelosa e uma correta disciplinadora. Os que rejeitaram suas mensagens viveram o suficiente para se arrepender de sua obstinação ou para observar na própria vida o cumprimento das predições dela. As Visões Não São um Substituto Para o Estudo da Bíblia Na década de 1850, opositores dos adventistas do sétimo dia ridicularizam-lhes as doutrinas como sendo “opiniões das visões”. Tiago White respondia apontando para o fato de que toda doutrina se baseava na Bíblia e se apoiava em argumentos bíblicos: “O reavivamento de alguns ou de todos os dons jamais tomará o lugar da necessidade de pesquisar a Palavra para aprender a verdade. ... Não é plano de Deus guiar Seu povo em amplo campo da verdade por meio dos dons. Mas depois que Seu povo tiver pesquisado a Palavra, se indivíduos se transviarem da verdade bíblica ou, por meio de contendas, tentarem impor conceitos errôneos aos sinceros pesquisadores da verdade, então é a oportunidade de Deus corrigi-los por meio dos dons. Isto se acha em harmonia com toda a nossa experiência sobre o assunto.”46 Em 1874, Uriah Smith, redator da revista da igreja, respondeu à acusação de um adven-

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A Mensageira que Escuta

O ministério profético de Ellen G. White

tista observador do domingo de que os adventistas do sétimo dia baseavam seus ensinos sobre o santuário nas visões de Ellen G. White. Em sua resposta, Smith escreveu que “os livros sobre o santuário estão entre nossas publicações padronizadas. ... Em nenhum deles, porém, as visões aparecem como tendo qualquer autoridade sobre o assunto ou como sendo a fonte de onde se originou qualquer ponto de vista que defendemos. ... O apelo é invariavelmente à Bíblia, onde encontramos abundante evidência para os pontos de vista que temos sobre o assunto.”47 Durante todo o seu ministério, Ellen White manteve a primazia da Bíblia. Em 1851, ela fez o seguinte apelo: “Recomendo-lhe, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de sua fé e prática. Por essa Palavra seremos julgados.”48 “O Senhor deseja que você estude a Bíblia. Ele não deu nenhuma luz adicional para tomar o lugar de Sua Palavra. Esta luz [o dom de profecia] deve conduzir as mentes confusas a Sua Palavra.”49 Os Escritos de Ellen White Principalmente Para a Igreja Na página 112, observamos a maneira como Ellen White e seus designados assistentes de redação modificavam o texto quando se destinava ao público em geral. Por quê? Para que não se desse nenhum motivo de ofensa àqueles que ouviriam pela primeira vez as verdades distintivas do evangelho. Isso refletia o princípio paulino de alcançar as pessoas onde elas estão (I Cor. 9:21-23). As referências às visões foram removidas de seus primeiros escritos quando republicados para o público em geral. Quando se tornou óbvio que um livro como O Grande Conflito devia ser vendido para o público em geral, especialmente na Europa, fizeram-se modificações. Na edição de 1888 de O Grande Conflito, por exemplo, determinadas referências que admitiam um conhecimento da história milerita foram expandidas para leitores ao redor do mundo. Outra recomendação que Ellen White fazia a seus colegas de trabalho era que os pastores não deviam usar seus escritos em reuniões evangelísticas com o objetivo de

“apoiar suas posições”. Para ela, bem como para todos os adventistas, a Bíblia deve permanecer “à frente” no estabelecimento dos pontos principais do “evangelho eterno”. Apoc. 14:6. “Que ninguém seja instruído a olhar para a irmã White, e, sim ao poderoso Deus, que dá instruções à irmã White.”50 No primeiro volume dos Testemunhos Para a Igreja, Ellen White admoestou os crentes que a acompanhavam de não assumirem a “atitude imprudente” de apresentarem aos incrédulos a leitura de uma visão, “em vez de se voltarem para a Bíblia em busca de prova”. Por quê? A Sra. White viu que “esse proceder era incoerente, e suscitava nos incrédulos preconceitos contra a verdade. As visões não podem ter peso para os que nunca as viram, e nada sabem do espírito das mesmas. Não devemos a elas nos referir, em tais casos”.51 Este princípio de acomodação52 ao nível de experiência dos ouvintes ou leitores é ilustrado no ministério de Jesus e no de Paulo. Muitas vezes quis o Salvador contar ao mundo, e mesmo aos Seus discípulos, “toda” a verdade, mas eles não estavam preparados para ela. A instrução prematura pode despertar resistência e preconceito desnecessários. Mesmo em Seus ensinamentos por parábolas aos discípulos – aqueles que melhor O conheciam – Jesus lhes ensinava somente até o ponto em que “podiam compreender”. Mar. 4:33. E somente horas antes de Sua morte, Jesus lembrou a Seus discípulos que eles precisavam aprender muito mais, mas não estavam prontos: “Tenho ainda muito que vos dizer. Mas vós não o podeis suportar agora.” João 16:12. Ao proclamar o evangelho ao público em geral, Jesus era mais restrito. Acima de tudo, Ele evitava tanto quanto possível ofender as pessoas. Não queria gerar preconceito em ninguém dizendo algo que despertasse desnecessariamente uma reação negativa. Ele os levava do conhecido para o desconhecido a começar das autoridades nas quais já confiavam, apelando até mesmo para o testemunho da própria natureza. Por essas razões, Jesus retinha muito do significado de Suas parábolas quando falava ao público em geral, mas,

quando sozinho com os discípulos, explicava as parábolas de maneira mais completa (Mat. 13). Paulo tinha a cabeça e o coração cheio de coisas para compartilhar com o mundo. Com os descrentes, ele costumava pensar como um judeu ou grego ou habitante de Listra, e lhes falava de modo simpático e sem causar preconceitos – abstendo-se de lhes dizer muita coisa que podia compartilhar com os crentes (I Cor. 9:19-22). Contudo, mesmo com os crentes que ainda estavam crescendo em experiência, Paulo dizia: “Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis.” I Cor. 3:2. Em sua carta aos hebreus, Paulo desenvolveu determinados aspectos da Encarnação e da razão por que Jesus Se tornou homem. Esta informação tinha muito que ver com uma compreensão mais profunda do ministério de Cristo no santuário celestial. Mas Paulo sabia, por alguma razão para a qual não estamos despertos, que seus leitores não estavam prontos para as vastas implicações da verdade
Referências
1. Carta 84, 1909, citado em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 71. 2. Carta 86, 1906, a George Butler, citado em MR, vol. 10, pág. 343. Ver pág. 182. 3. Biography, vol. 5, pág. 355. “Você não tem o direito de supor que estou lutando para ser a primeira, lutando por liderança. ... Quero que fique bem claro que não tenho ambição de ter o nome de líder ou qualquer outro nome que me possam dar, exceto o de mensageira de Deus. Não reivindico nenhum outro nome ou posição. Minha vida e minha obra falam por si mesmas.” – Carta 320, 1905, a J. H. Kellogg, em MR, vol. 5, pág. 439. 4. “Por que não tenho eu reivindicado ser profetisa? Porque nestes dias muitos que ousadamente pretendem ser profetas são uma desonra à causa de Cristo; e porque meu trabalho inclui muito mais do que a palavra ‘profeta’ significa.” – Review and Herald, 26 de julho de 1906, citado em Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 32. 5. Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 34. 6. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 661 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 276). “O Espírito Santo é o autor das Escrituras e do Espírito de Profecia.” – Carta 92, 1900, citado em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 30. 7. O Grande Conflito, pág. 9. 8. Carta 69, 1896, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 30. 9. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 665 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 280). Ver Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 29-33. 10. Carta 10, 1895, citada em Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 37. Ver pág. 376.

suplementar sobre Jesus, a respeito do qual “temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. ... vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. ... O alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.” Heb. 5:11-14. A experiência de Ellen White foi a mesma de Cristo e a de Paulo: ela possuía a verdade – e em tamanha quantidade que chegava a arder dentro de seu íntimo – mas não podia divulgá-la toda de uma só vez. Os mestres podem ir somente até o ponto em que seus ouvintes conseguem compartilhar suposições básicas. Os profetas devem ser perspicazes e sábios na maneira como apresentam a verdade em desenvolvimento. Mesmo para os crentes que conhecem algo da atuação do Espírito Santo, os mestres e os profetas devem empregar o cuidadoso respeito que Paulo empregava de acordo com o nível de experiência dos ouvintes – transmitindo-lhes somente o que podiam “suportar”.

11. “As verdades da redenção são susceptíveis de desenvolvimento e expansão constantes. Embora velhas, são sempre novas, e revelam constantemente ao pesquisador da verdade maior glória e força mais potente. Em cada época há novo desenvolvimento da verdade, uma mensagem de Deus para essa geração. As velhas verdades são todas essenciais; a nova verdade não é independente da antiga mas um desdobramento dela. Só compreendendo as velhas verdades é que podemos entender as novas. ... O homem que rejeita ou despreza a nova, não possui realmente a velha.” – Parábolas de Jesus, págs. 127 e 128. 12. Carta 117, 1910, citado em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 32. “Deus prometeu dar visões nos ‘últimos dias’; não para uma nova regra de fé, mas para... corrigir os que se desviam da verdade bíblica.” – Ibidem, pág. 29. “Além das instruções em Sua Palavra, o Senhor tem concedido testemunhos especiais a Seu povo, não como uma nova revelação, mas para que possa apresentar-nos as claras lições de Sua Palavra, a fim de que sejam corrigidos os erros e indicado o caminho certo, para que toda alma fique sem desculpa.” – Carta 63, 1893, citada em ibidem, pág. 31. Ver também Primeiros Escritos, pág. 78. Review and Herald, 5 de agosto de 1893. 13. “O erro não pode subsistir por si mesmo, e se extinguiria de pronto, não se apegasse como parasita à árvore da verdade. ... As tradições dos homens, como microorganismos que pairam no ar, agarram-se à verdade de Deus, e os homens as consideram como parte da verdade. ... E à medida que a tradição caminha de século para século, vai adquirindo poder sobre o espírito humano. O tempo, todavia, não torna o erro verdade.” – Carta 43, 1895, citado em SDABC, vol. 5, pág. 1.094 (Evangelismo, pág. 589).

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SEÇÃO

III
CAPÍTULO 16
PERCEPÇÃO DA MENSAGEIRA SOBRE SI MESMA

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S E N H O R

A Mensageira que Escuta

O ministério profético de Ellen G. White
vem ter algo para recordar a história passada, a fim de que vejam que há uma corrente de verdade retilínea, sem uma só frase herética, naquilo que escrevi.” – Carta 329a, 1905, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 52. 27. Ver pág. 256. 28. Ver pág. 112 a respeito dos artigos de revista (primeiramente de Signs of the Times) que ela preparou para o público em geral. 29. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 669 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 284 e 285); ver também Review and Herald, 22 de agosto de 1893. 30. Ibidem, pág. 654 (ibidem, pág. 270). “Por meio de Seu Santo Espírito a voz de Deus nos tem vindo continuamente em advertências e instruções, para confirmar a fé dos crentes no Espírito de Profecia. Tem vindo repetidamente a ordem: Escreva as coisas que lhe tenho dado para confirmar a fé de Meu povo na atitude que eles tomaram. ... As instruções dadas nos primeiros tempos da mensagem devem ser conservadas como instruções dignas de confiança para se seguirem nesses seus dias finais. Os que são indiferentes a esta luz e instrução não precisam esperar escapar aos laços que, temos sido claramente avisados, hão de fazer com que os rejeitadores da luz tropecem e caiam, e sejam enlaçados, e presos.” – Review and Herald, 18 de julho de 1907, pág. 8 (Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 41). 31. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 683 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 294). 32. Ibidem, págs. 686 e 687 (ibidem, págs. 296 e 297). 33. Australian Union Conference Record, 28 de julho de 1899, pág. 8. 34. General Conference Bulletin, 3 de junho de 1909, pág. 292. 35. Ver págs. 16, 120, 173, 375, 376 e 421 para uma discussão sobre a diferença entre inspiração verbal e inspiração do pensamento; ver Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 15-26. 36. Review and Herald, 8 de outubro de 1867, pág. 260. 37. “Quanto aos testemunhos, coisa alguma é ignorada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados. Coisa alguma deve ser feita inoportunamente.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 57. Ver págs. 395-397. 38. Ibidem, págs. 38 e 39. 39. Biography, vol. 4, págs. 94-97. 40. Ibidem, vol. 5, pág. 301. 41. Ronald Graybill, “The ‘I saw’ Parallels in Ellen White’s Writings”, Adventist Review, 29 de julho de 1982, pág. 4. 42. Ibidem. Ver pág. 378 para comentário adicional sobre escritores inspirados que “copiaram” expressões de escritores não canônicos. 43. Ronald Graybill, “The ‘I saw’ Parallels in Ellen White’s Writings”, Adventist Review, 29 de julho de 1982, pág. 5. 44. “É importante reconhecer que, embora a Sra. White algumas vezes tenha registrado as exatas palavras de seu anjo-guia entre aspas, muitas vezes ela apenas relatou o ponto principal do que ele lhe havia dito em visão, reconstruindo as palavras do anjo da melhor maneira que conseguia lembrar-se, colocando-as sob a forma de comunicado direto e colocando-as entre aspas.” – Ibidem. 45. Ver pág. 394. 46. Review and Herald, 26 de fevereiro de 1856, pág. 172. 47. Review and Herald, 22 de dezembro de 1874. “Embora Ellen White tenha recebido visões confirmadoras na época das discussões doutrinárias e em ocasiões subseqüentes... os adventistas coerentemente faziam seu apelo final às Escrituras.” – Paul A. Gordon, The Sanctuary, 1844, and the Pioneers (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1983), pág. 29. 48. Primeiros Escritos, pág. 78. 49. Carta 130, 1901, citada em Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 29; ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 604-609. 50. Carta 11, 1894, citada em Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 30. 51. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 119 e 120. 52. Ver George Reid, “Is the Bible Our Final Authority?” Ministry, novembro de 1991, pág. 9.

14. “Grandes verdades que não foram ouvidas e contempladas desde o dia de Pentecostes, resplandecerão da Palavra de Deus em sua pureza original. Aos que realmente amam a Deus, o Espírito Santo revelará verdades que desapareceram da mente, e também lhes revelará verdades inteiramente novas.” – Review and Herald, 17 de agosto de 1897 (Fundamentos da Educação Cristã, pág. 473). “À medida que se aproxima o fim, os testemunhos dos servos de Deus tornar-se-ão mais decididos e mais poderosos, lançando a luz da verdade sobre os sistemas de erro e opressão que por tanto tempo têm mantido a supremacia. O Senhor nos enviou mensagens para este tempo, a fim de estabelecer o cristianismo sobre uma base eterna, e todos os que crêem na verdade presente devem firmar-se, não em sua própria sabedoria, mas em Deus; e levantar o fundamento de muitas gerações.” – Carta 1f, 1890, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 407. “As gemas do pensamento devem ser reunidas e resgatadas de sua mistura com o erro, pois, ao terem sido mal colocadas em ligação com o erro, o Autor da verdade foi desonrado. As preciosas gemas da justiça de Cristo, as verdades de origem divina, devem ser cuidadosamente investigadas e colocadas em seu devido lugar, para que cintilem com brilho celestial em meio às trevas morais do mundo. Que as brilhantes jóias da verdade concedidas por Deus ao homem para adornar e exaltar Seu nome sejam cuidadosamente resgatadas do lixo do erro, aonde foram lançadas pelos transgressores da lei e onde têm servido ao propósito do grande enganador em virtude de sua ligação com o erro. Que as gemas da luz divina sejam recolocadas na moldura do evangelho.” – Review and Herald, 23 de outubro de 1894, pág. 1. “Se fizermos mesmo o melhor que pudermos para apresentar a verdade em seu caráter comovedor, contrariando as opiniões e idéias de outros, [ela] será mal interpretada, mal aplicada e mal citada aos que entretêm o erro, a fim de fazê-la aparecer numa luz objetável. Existem alguns, aos quais vocês levam a verdade, que não têm estado a beber do vinho de Babilônia. É-lhes difícil compreender a verdade, daí a necessidade de ensiná-la como é em Jesus.” – Ibidem, 3 de junho de 1890, pág. 338 (Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 405). 15. Biography, vol. 1, págs. 137-151, 187-194, 208, 264 e 265. 16. Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 31 e 32. Uma ilustração desta elaboração de doutrina mediante estudo da Bíblia/confirmação do Espírito encontra-se em Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 86: “Nossa primeira reunião em Nova Iorque ocorreu em Volney, no celeiro de um irmão. Cerca de 35 pessoas estavam presentes – todos os que, naquele Estado, tinham condições de vir. Desses, contudo, dificilmente haveria dois que estivessem de acordo entre si. Alguns nutriam e defendiam erros graves, cada qual justificando arduamente seus próprios pontos de vista, e declarando estarem eles de acordo com a Bíblia. “Essas estranhas diferenças de opinião traziam-me grande peso ao coração, pois me parecia que Deus estava sendo desonrado; e desmaiei sob aquele fardo. Alguns recearam que eu estivesse morrendo, mas o Senhor ouviu as orações de Seus servos e restabeleceu-me. A luz do Céu repousou sobre mim e logo perdi a noção das coisas terrestres. Meu anjo assistente apresentou diante de mim alguns dos erros dos presentes, e também a verdade em contraste com seus erros. Essas opiniões contraditórias que eles diziam estar de acordo com a Bíblia, estavam tão-somente de acordo com seu modo pessoal de interpretar a Bíblia. Eles deviam submeter seus erros e unir-se em torno da terceira mensagem angélica. Nosso encontro encerrou-se triunfalmente. A verdade obteve a vitória. Os irmãos abandonaram seus erros e se uniram sob a terceira mensagem angélica. Deus os abençoou grandemente e aumentou seu número.” 17. Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, pág. 297 (Testemunhos Seletos, vol. 3, pág. 274).

18. “Nos primeiros dias da mensagem quando nosso número era pequeno, estudávamos diligentemente para compreender o significado de muitas passagens das Escrituras. Às vezes parecia não ser possível dar uma explicação. Minha mente parecia estar fechada à compreensão da Palavra; mas, quando nossos irmãos que se haviam reunido para estudar chegavam a um ponto em que não podiam ir além, e recorriam a fervorosa oração, o Espírito de Deus repousava sobre mim e eu era arrebatada em visão, sendo instruída a respeito da relação de uma passagem com outras passagens da Escritura. Estas experiências se repetiram reiteradas vezes. Assim, muitas verdades da mensagem do terceiro anjo foram estabelecidas ponto por ponto. Pensam vocês que minha fé nesta mensagem vacilará? Pensam que posso ficar calada quando vejo ser feito algum esforço para remover as colunas fundamentais da nossa fé? Estou tão cabalmente estabelecida nestas verdades tanto quanto é possível que alguém o esteja. Nunca poderei esquecer a experiência pela qual passei. Deus confirmou minha crença por muitas manifestações de Seu poder.” – Review and Herald, 14 de junho de 1906, pág. 8 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 38). Existem pelo menos seis relatos destas reuniões sobre o sábado e o santuário: Spiritual Gifts, vol. 2, págs. 47-49; Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 75-87; Testemunhos Para Ministros, págs. 24-26; Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 206 e 207; MR, vol. 3, págs. 412-414; Sermons and Talks, vol. 1, págs. 340-348. 19. Carta 66, 1897, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 84; ver também Testemunhos Para a Igreja, vol. 7, pág. 136. Essas pessoas “insultaram a Deus” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 64); estão “lutando contra Deus” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 234); e “estão procedendo como os filhos de Israel procederam reiteradas vezes”. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 70). 20. Para exemplos, considere Stephen Smith (Biography, vol. 1, págs. 490-492); B. F. Snook e W. H. Brinkerhoff, ibidem, vol. 1, págs. 416 e 473; vol. 2, págs 23, 44, 146-151; J. M. Stephenson e D. P. Hall, ibidem, vol. 1, págs. 310-315, 323, 332 e 336; Moses Hull, ibidem, vol. 2, págs. 53-58, 63, 65, 67 e 74; Dudley Canright, ibidem, vol. 3, págs. 152, 153, 263-267, 290 e 360; S. McCullagh, ibidem, vol. 4, págs. 275-286 e 453. 21. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 672 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 287 e 288). 22. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 154. “Quando percebo que alguns procuram intensamente algumas palavras que tenham sido traçadas por minha pena e a que possam atribuir suas interpretações humanas, a fim de manter suas posições e justificar um procedimento errôneo – quando penso nestas coisas, não é muito animador continuar escrevendo.” – Mensagens Escolhidas, livro 3, págs. 81 e 82. “As condescendências pecaminosas são mantidas, os Testemunhos rejeitados, apresentando-se aos outros muitas falsas desculpas para justificar a recusa. O verdadeiro motivo não é revelado. É uma falta de coragem moral, de uma vontade fortalecida e dirigida pelo espírito de Deus, para renunciar hábitos prejudiciais.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 675 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 289); ver também vol. 4, pág. 32. 23. Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 82. 24. Ibidem, pág. 68. 25. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, pág. 691 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 302). “Meu Instrutor disse-me: Diga a esses homens que Deus não lhes confiou a obra de julgar, classificar e definir o caráter dos testemunhos. Os que isso empreendem seguramente errarão em suas conclusões.” – Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 49. 26. “Escrevi tudo que tinha para dizer sobre a luz que recebi, e grande parte dela está agora irrompendo da página impressa. Há, do princípio ao fim de minhas obras impressas, uma harmonia com o meu ensino no presente.” – Review and Herald, 14 de junho de 1906 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 38). “Enquanto eu for capaz de realizar esta obra, as pessoas de-

Perguntas Para Estudo

1. Que significado você vê no fato de Ellen White ter escolhido o termo “mensageira” em vez de “profetisa” para descrever seu ministério? 2. Quais são alguns dos germes teológicos “que pairavam no ar” do cristianismo convencional, os quais Ellen White se sentiu compelida a rejeitar? 3. Com que doutrinas a Igreja Adventista do Sétimo Dia substituiu esses “germes”? 4. Por que Ellen White diz que seus escritos, principalmente os Testemunhos, foram escritos essencialmente para os membros da igreja? 5. Como podiam Paulo e Ellen White escrever cartas de conselho sem terem tido visões que inspirassem tais cartas? 6. De que maneira algumas pessoas, mesmo hoje, tornam os escritos de Ellen White sem “nenhum efeito”? Qual a barreira mais segura que podemos construir a fim de evitar a “rejeição” da autoridade de Ellen White?

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IV

A Voz de um Movimento

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Organização, Unidade e Desenvolvimento Institucional

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Crises Teológicas

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Evangelismo Regional e Global, e Relações Raciais

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Mordomia, Relações Governamentais e Envolvimento Humanitário

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Dissidentes Dentro e Fora

21a

Personalidades do Mundo Adventista de Ellen G. White (Seção de Fotos)

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A Voz de um Movimento

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O ministério profético de Ellen G. White

evangelho, os resultados seriam mínimos. Para ela, a mais elevada prioridade da igreja era refletir a vida cristã que tornaria o evangelho de Cristo atrativo e convincente.7 Organização e Unidade Ser a mensageira, contudo, significava estar muitas vezes à frente dos líderes do movimento, não apenas em percepções teológicas e suas aplicações práticas, mas também na constante insistência por unidade e organização. Ao comparar outros milenaristas da época como os mórmons e as testemunhas de Jeová, historiadores e sociólogos consideram “extraordinária” a rápida transição da instabilidade pós-milerita para a “organização bastante estável e uniforme” alcançada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Sugerem-se cinco razões para este fenômeno na expansão dos adventistas sabatistas: (1) eles se separaram dos outros pós-mileritas e milenaristas “após a reformulação de idéias”; (2) eles “pregavam não apenas o advento, mas as condições para ele”; (3) “essas condições eram validadas pela inspiração divina, por cujo meio o grupo adquiria uma fonte independente de inspiração, à parte das Escrituras”; (4) eles “estabeleceram um ministério profissional, o que abriu caminho para outras agências especializadas”; e (5) eles desenvolveram interesse adicional pela educação, regime alimentar, cuidado médico, liberdade religiosa e rigorosa observância do sábado, [o que] promoveu o avanço da denominação tanto do ponto de vista ideológico quanto institucional”.8 Nenhum desses cinco componentes teria redundado num movimento religioso mundial sem a presença e as mensagens de Ellen White. Suas mensagens à igreja eram de grande alcance. Por um lado, ela discutiu toda a amplitude da história da salvação; por outro, discorreu sobre o governo civil, o lar e questões de relações raciais, saúde e educação. O que surpreende é que toda essa instrução era criativa: sempre que seguidas fielmente, escolas e hospitais, casas editoras e institutos ministeriais, sociedades de beneficência e

Organização e Desenvolvimento Institucional
“Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.”1

O

ministério de Ellen White e o surgimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia são inseparáveis. Tentar entender um sem o outro tornaria a ambos ininteligíveis e inexplicáveis. Ellen White e a história da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em conceito e estrutura, acham-se tão integradas como a união das línguas anglo-saxônicas na formação da língua inglesa.2 Ellen e Tiago White foram o centro de união para os mileritas que se tornaram adventistas sabatistas (observadores do sábado). Tiago White, um organizador extremamente versátil, abrangeu como nenhum outro muitos aspectos simultâneos de um movimento florescente. De sua parte, movida por uma santa sinceridade e um inabalável compromisso, Ellen White fortaleceu o “pequeno rebanho” com visões audaciosas. Esta equipe de profetisa/administrador levou dentro de poucas décadas um grupo da Nova Inglaterra a uma missão internacional. Embora fossem o centro humano de um movimento mundial, não reivindicaram reconhecimento, recompensa nem mesmo comodidades terrenas.3 Se por um lado os White denunciaram destemidamente os males da ordem social, por outro, levaram dezenas de milhares de sua época a dar-se conta da maneira como o evangelho traz restauração espiritual, social e física nesta vida – tudo em cumprimento da ordem divina de preparar um povo para en-

contrar com o Senhor prestes a voltar. Com esta dupla ênfase – o abandono dos costumes prejudiciais das práticas mundanas e o compromisso de anunciar ao mundo os princípios do reino de Deus – surgiu uma rede internacional de instituições médicas e educacionais, apoiadas por dezenas de casas editoras e uma rede missionária mundial.4 A incontestável força orientadora por trás desse impulso era Ellen White. Sua “voz” unificadora e motivadora continua a fornecer luz e dinamismo muito tempo depois de sua morte em 1915.5 Apesar disso, um dos fatores inigualáveis que a distingue de outros que pretendiam ter o dom profético no século dezenove6 é que ela nunca se considerou como líder de um novo movimento. Nunca se desviou da percepção que tinha de si mesma de que era apenas uma mensageira de Deus para o movimento do advento. A Sra. White mantinha um dos olhos sobre a divina comissão apresentada em Apocalipse 14, uma tarefa que uniria todos quantos buscam a verdade, de todo continente, de todas as condições étnicas, sociais e econômicas; e o outro olho estava sobre o grupo central que devia tornar dignas de crédito essas boas novas do convite divino para os últimos dias a um mundo destinado a julgamento. Ela sabia que, sem os princípios do evangelho atuando na vida daqueles que proclamavam o

de temperança se espalhavam pelo mundo. O mais surpreendente ainda é que esta mulher, sem ter um cargo na igreja ou educação formal nas muitas áreas sob as quais versou profundamente, foi a principal inspiração na moldagem desses vários interesses em uma organização unida. A Igreja Adventista do Sétimo Dia não se desenvolveu a partir de uma crise ocorrida em alguma igreja anterior de onde surgiu um líder carismático a fim de levar seus seguidores para uma nova organização, como no caso de John Wesley e os metodistas. Nem surgiu por causa de uma contenda doutrinária, semelhante à origem de diversas igrejas luteranas e presbiterianas que existem hoje em dia. A Igreja Adventista do Sétimo Dia nasceu de um profundo despertamento espiritual conhecido como movimento milerita. O companheirismo criado pela crença na “bendita esperança” (Tito 2:13) – um dos temas centrais do Novo Testamento – manteve o jovem grupo unido. Esse companheirismo, esse senso de “família”, é o conhecido segredo da coesão mundial da igreja. Com seus líderes e membros convictos de que o movimento surgiu com o objetivo de preparar o caminho para a volta de Jesus (Apoc. 14), pecadores foram resgatados, apóstatas recuperados e jovens e idosos motivados a realizar seu potencial enquanto se unem num movimento evangelístico mundial. Na base de toda essa motivação e senso de pertencer a uma “família” mundial estiveram o desafio inspirador e a clara orientação de Ellen White. Ela e o marido sabiam, desde o começo, que motivação e companheirismo tinham que ser unificados e organizados. Sem uma organização unificadora, os sentimentos mais afetuosos logo se desgastariam em frustração e relacionamentos complicados. Através de todos os seus escritos, Ellen White deixou claro que a religião pessoal e a religião organizada são os dois lados da mesma moeda que chamamos “a igreja”.9 Nos primeiros anos da experiência adventista, a falta de organização levou a diversos

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problemas e decepção. Pastores autodesignados pregavam o que bem entendiam; até mesmo os “designados” viajavam sem salário ou despesas pagas. Surgiam divisões nos grupos de crentes dispersos, e não existia nenhum método para lidar com as heresias facciosas.10 Qualquer propriedade da igreja que eles usassem era mantida em nome de um membro específico; quando esse membro morria, a propriedade passava para parentes, alguns dos quais não eram membros da igreja. Por volta de 1853, Tiago e Ellen White insistiam na organização da igreja para eliminar pastores “não credenciados” e estabelecer uma base estável para a conservação das propriedades da igreja. Mas esse apelo em prol da organização encontrou forte resistência. Para muitos, organizar-se era “um retorno a Babilônia”.11 Os que eram contrários à organização ainda sentiam o aguilhão das igrejas organizadas que haviam recusado o chamado milerita. A liberdade religiosa que os adventistas haviam estado desfrutando por alguns anos, eles não queriam trocar pelo frio manto de uma igreja organizada. A organização, para eles, não se coadunava com a liberdade do evangelho.12 Em 1853, Tiago White, o “pai de nossa ordem eclesiástica atual”,13 escreveu na Review and Herald cinco editoriais sobre organização,14 com pouca ou nenhuma reação positiva. Mas o conselho tranqüilo e firme de Ellen White finalmente captou a atenção dos líderes da igreja, de modo que eles foram levados a ver o bom senso e a urgência do apelo para a organização por parte de seu marido.15 Realizaram-se muitas reuniões durante as quais os líderes estudaram a necessidade e o método de organização. Uma das primeiras considerações foi o nome para esta nova corporação de crentes adventistas. Em 1o de outubro de 1860, o nome finalmente escolhido foi “Adventistas do Sétimo Dia”.16 Mas aquela decisão pareceu ser o máximo que podia ser feito naquele tempo. Agora que possuíam um nome, os líderes acharam mais fácil registrar a Sociedade de Publicações dos Adventistas do Sétimo Dia, em 3 de maio de 1861, do que organizar igrejas! Contudo, a maneira como as igrejas locais se organiza-

riam e uniriam em algum tipo de federação foi finalmente estabelecida em 4 e 5 de outubro de 1861, pelo menos para Battle Creek e para a recentemente formada Associação de Michigan, a primeira associação a ser organizada. Em 1862, seis outras associações estaduais seguiram o exemplo. Um ano depois, de 20 a 23 de maio de 1863, a Associação Geral foi organizada.17 Centralização de Poder Em 1892 estavam-se formulando planos que fomentariam maior centralização de poder na liderança de Battle Creek. Em 19 de dezembro, Ellen White escreveu uma mensagem de quinze páginas da Austrália para a liderança em Battle Creek. Ela recapitulava as bênçãos da organização sobre a qual “Deus proporcionou luz especial. ... O sistema de organização alcançou êxito grandioso”. Mas também indicou os perigos da máquina burocrática. Alertou que alguns dos procedimentos atuais que pareciam opressivos não eram causados pela organização, e sim pelo abuso dela. Mais adiante, ela observou: “Ao recapitular a nossa história passada, havendo percorrido todos os passos de nosso progresso até ao nosso estado atual, posso dizer: Louvado seja Deus! Quando vejo o que Deus tem executado, encho-me de admiração e confiança na liderança de Cristo. Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.”18 As advertências e sugestões que Ellen White enviou da Austrália foram negligenciadas, estabelecendo o cenário para a Assembléia da Associação Geral em 1901. A reorganização da estrutura denominacional que ocorreu naquele ano foi radical e explosiva, mas prática. A formação de territórios de união entre a Comissão da Associação Geral e as associações locais descentralizou muitas das decisões da denominação. O aumento da Comissão da Associação Geral de uns poucos membros para vinte e cinco, com todos os presidentes de união como membros ex-officio, ampliou a base para tomar-se decisões. Estabeleceram-se métodos que garanti-

riam o fluxo de fundos de associações prósperas para as de recursos limitados. A organização em departamentos, como Departamento de Escola Sabatina, funcionariam não apenas na Associação Geral, mas nas uniões e associações. Talvez o maior desapontamento de 1901 foi a incapacidade de integrar na estrutura da igreja a Associação Beneficente e Médico-Missionária Internacional encabeçada pelo Dr. J. H. Kellogg – um problema que viria a se transformar na crise mais difícil da denominação até aquela data. Sem o conselho e a perseverança de Ellen White, não se teria levado a efeito a reorganização de que tanto se carecia. Não se pode exagerar a dramaticidade do acontecimento. Assim que o presidente da Associação Geral encerrou sua palestra de abertura em 2 de abril, a Sra. White, ausente na Austrália por nove anos, caminhou apressadamente em direção à plataforma e foi direto ao ponto. Depois de descrever brevemente como o Senhor de forma assinalada guiara aquele movimento através dos anos, ela disse aos líderes da igreja: “Vocês não têm o direito de administrar, a menos que administrem segundo a ordem do Senhor. ... O que queremos agora é uma reorganização. Queremos começar desde os alicerces, e construir sobre um princípio diferente. ... Deve haver mais que um, dois ou três homens a preocupar-se com todo o vasto campo. Grande é a obra, e não há mente humana capaz de traçar planos para a obra que precisa ser feita. ... De acordo com a luz que me foi concedida – e como deve ser realizada não posso dizer – deve-se introduzir maior vigor na força administrativa da Associação. ... Deve haver uma renovação, uma reorganização; é preciso introduzir nas comissões um poder e uma força que são necessários.”19 A reação foi imediata. Durante as deliberações, quando surgiam impasses, Ellen White percebia as questões envolvidas e fazia sugestões; os delegados, por sua vez, progrediam concorrendo com idéias adicionais e votos unânimes. Dentro de três semanas, a empolgante reorganização foi concluída, ex-

ceto a integração da obra médica com a Associação Geral.20 Os que comparam as instruções francas de Ellen White no início da Assembléia com a organização que foi adotada e depois seguida podem apreciar plenamente a nova vida e os benefícios sentidos pelo mundo quase que imediatamente – e tudo por causa da mensageira do Senhor. Essas modificações eram intricadas, fundamentais e de longo alcance; em alguns aspectos, novas e não testadas. Para uma pessoa que nunca estudou estrutura eclesiástica nem ocupou cargo de alto nível, a contribuição de Ellen White ao governo eclesiástico da Igreja Adventista é espantosa. L. H. Christian, oficial veterano da Associação Geral, escreveu: “Muitos têm perguntado se a organização eclesiástica mundial adventista é congregacionalista, presbiteriana ou episcopal. ... Embora tenha similaridades com outras igrejas, é realmente diferente, e um organismo ímpar. Surgiu como fruto das idéias criativas da mensagem do advento guiadas por Deus mediante o Espírito de Profecia. A Igreja Adventista é uma igreja com uma tarefa, e o Senhor lhe deu um corpo para cumprir a tarefa.”21 “Saiam de Battle Creek!” Ellen White se referiu à mudança de Rochester, Nova Iorque, para Battle Creek, Michigan, em 1855, como o tempo em que “o Senhor começou a mudar a nossa sorte”.22 Dentro de pouco tempo, junto com o crescimento da casa editora, estabeleceu-se o Instituto da Reforma de Saúde e por fim o Colégio de Battle Creek. As três instituições foram, em grande parte, resultado das visões da Sra. White e do talento organizacional de Tiago White.23 Contudo, à medida que o tempo passava e crescia a necessidade de pessoas que dirigissem essas instituições, surgiram todos os problemas associados com um gueto adventista. Juntamente com o sucesso mundano, vieram os traços humanos de inveja, mexericos e condescendência própria. Muitos membros vinham de comunidades pobres da Nova In-

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glaterra e da região central do país, esperando colocar os filhos nas escolas da igreja; a dissensão a respeito dos regulamentos dessas primeiras escolas contribuiu para o desassossego geral. Através dos anos, a Sra. White havia escrito e falado muito a respeito da decadente situação espiritual dos membros da igreja de Battle Creek. O ano de 1902 foi iniciado e encerrado com desastres terríveis. Em 18 de fevereiro o internacionalmente famoso Sanatório de Battle Creek foi inteiramente destruído por um incêndio. Durante a noite de 30 de dezembro, a Review and Herald Publishing Association também foi reduzida a cinzas. Na Assembléia da Associação Geral, em 3 de abril de 1903, a proposta impopular perante os delegados era: “Que os escritórios ou sede da Associação Geral se mudem de Battle Creek, Michigan, para algum lugar favorável a sua obra na Costa do Atlântico.” Ellen White levantou-se e disse: “Alguns pareciam pensar que, quando chegassem a Battle Creek, estariam mais próximos do Céu, que nesta cidade não teriam muitas tentações.” Eles não entenderam que “em Battle Creek... o inimigo trabalhava mais intensamente”.24 Ela relembrou aos líderes da igreja que durante anos Deus estivera advertindo para “sair de Battle Creek”. Recapitulou sua resposta aos dois jovens educadores (P. T. Magan e E. A. Sutherland) que lhe pediram conselho a respeito do futuro do Colégio de Battle Creek: “Tirem a escola de Battle Creek, se isto for possível.” A mudança, disse ela, foi um “sucesso”. Depois, ela falou sobre o futuro da casa editora: “A pior coisa que se podia fazer agora em favor do escritório da Review and Herald seria construí-la novamente em Battle Creek.” Mas ela ainda não tinha acabado. Incluiu a liderança da igreja: “Que os escritórios da Associação Geral e a obra de publicações se mudem de Battle Creek. Não sei para onde, se para a Costa do Atlântico ou se para outro lugar.” Sem dúvida, a instrução que ela ministrou

nessa reunião dissipou a hesitação. Formaram-se comissões de pesquisa e investigaramse propriedades desde Connecticut até New Jersey. A esperança era encontrar alguma coisa perto da cidade de Nova Iorque. Depois começaram a chegar cartas a Ellen White em reação à fervente insistência do presidente da Associação Geral. Conforme a luz recebida, ela não era favorável a Nova Iorque. Washington, D.C., no entanto, parecia ter vantagens especiais. A fórmula ainda funcionava: Deus não removerá dos seres humanos a tarefa de tomar decisões. Homens e mulheres devem fazer sua parte, enquanto Deus faz a Sua. Deus motiva as pessoas com luz suficiente para fazerem escolhas acertadas, sempre provendo, quando solicitado, a sabedoria para fazer a escolha correta e o poder para agir. Quando se fazem escolhas corretas, Deus tem um meio todo Seu de ratificar essas decisões. Esse não foi um tempo fácil para os líderes da igreja. Os membros constituintes da corporação da editora ameaçaram entrar na justiça. Os empregados da editora haviam investido grandes somas em seus imóveis em Battle Creek e agora temiam sofrer dano financeiro pessoal. A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, escreveu em julho de 1903: “Estamos num lugar horrível. Deus há de nos ajudar. Estamos indefesos. ... Quero dizer-lhes que agora compreendo, como nunca antes compreendi em toda a minha vida, a necessidade e o valor do Espírito de Profecia para a igreja. Satanás certamente está trabalhando neste tempo com todo o poder, sinais e prodígios de mentira. E isto ocorre de forma tão intensa e astuciosa que somente Deus pode enfrentar tal situação com sucesso. Nós que aceitamos as elevadas e sagradas responsabilidades desta obra devemos deixar que Deus nos ensine, e devemos ouvir a Sua voz.”25 Após a investigação preliminar, os líderes da igreja concluíram que Takoma Park, ao norte de Washington, D.C., preenchia as condições para ser o novo local da Review and Herald Publishing Association e da sede

da Associação Geral. Depois veio uma carta de Ellen White: “O Senhor me revelou claramente esse assunto. A obra de publicações que foi realizada em Battle Creek deve agora ser realizada nas proximidades de Washington. Se depois de algum tempo, o Senhor disser: Mudem-se de Washington, devemos mudar-nos.”26 Ao refletir sobre aquele momento, Daniells escreveu: “Pessoa alguma, a não ser quem passou por essa difícil experiência, pode apreciar o alívio que nos trouxe essa palavra de certeza.”27 Advertência Contra a Fusão de Instituições Para muita gente da área comercial, “fusão” sugere redução de custos e maior eficiência. Contudo, muitas pessoas estabelecidas como comerciantes têm descoberto que maior nem sempre significa melhor. Grandes corporações internacionais têm aprendido, para sua consternação devido a vendas perdidas, que fusão pode também significar ineficiência na centralização e perda de contato com o comprador em potencial. Na igreja, o apelo por unidade deve ser entendido em termos do propósito da igreja. As decisões jamais devem ser tomadas à parte das pessoas que devem implementar essas decisões e conviver com as conseqüências. Unidade nos alvos, como a História o tem demonstrado, não precisa ser definida em termos de decisões tomadas por poucos. A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem aprendido por experiência própria que a perversão da unidade com excesso de centralização, praticada sem controle e equilíbrio apropriados, produz “poder absoluto” e sinistra possibilidade de erro capaz de esmagar o corpo da igreja. Os primeiros adventistas, temendo o poder “babilônico” na organização da igreja, mantiveram suas instituições legalmente separadas umas das outras e da Associação Geral. Em fins da década de 1890, por exemplo, o Instituto de Saúde, fundado em meados da década de 1860, havia crescido para uma cadeia de vinte e sete instituições de saúde – todas administradas pela Associação Beneficente e Médico-Missionária Internacional, uma entidade independente da

Associação Geral. No princípio do século vinte, outros departamentos da igreja, como a Associação Internacional de Escola Sabatina, a Associação Internacional de Liberdade Religiosa e a Sociedade Internacional Missionária e de Publicações, também eram administradas por diretorias distintas da Associação Geral. Era boa ou má essa descentralização? Não era boa quando os diversos departamentos da igreja gastavam fundos desnecessários para colocar seus programas em funcionamento, muitas vezes em competição mútua. Apesar disso, havia algo de positivo no fato de cada organização estar perseguindo seus próprios objetivos sem ter sobre si um outro nível de pessoas tomando decisões, o que possivelmente retardaria o progresso e frustraria os planos elaborados por pessoas mais próximas do problema ou desafio. Mas todas as principais associações e departamentos tiveram seus próprios problemas com o excesso de centralização. A maior parte desses organismos eram sediados em Battle Creek, alguns mais tarde na Filadélfia e em Nova Iorque. Esses escritórios centrais tomavam decisões deixando muito pouca liberdade para as associações ou igrejas locais resolverem suas necessidades imediatas. O problema da Igreja Adventista na década de 1890 e princípios da década de 1900 pode ser entendido em termos de crescimento rápido e de líderes veteranos que não eram utilizados para a diversidade de desafios, não apenas em número, mas em variedade. Todas as acusações contra o “poder absoluto” e o vagaroso processo de tomar decisões eram bastante procedentes.28 Durante esse período, Ellen White fez soar o alarme a respeito dos problemas gerados pela fusão daqueles que tomavam decisões em Battle Creek. Ela teve motivos para ficar mais alarmada quando os líderes da área de publicações planejaram incorporar a Pacific Press Publishing Association com a Review and Herald Publishing Association, bem como todas as outras casas editoras do futuro.29 Com voz clara contra a fusão de casas editoras, instituições médicas e instituições edu-

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cacionais, ela anunciou em 1896 que a fusão “mostra que os homens procuram se apoderar do cetro do poder e manter o domínio sobre as mentes humanas”.30 Sobre a fusão da obra da igreja em um só lugar e nas mãos de uns poucos homens, ela escreveu: “Têm-se cometido erros nesse aspecto. A individualidade e a responsabilidade pessoais são assim reprimidas e enfraquecidas.”31 Além disso, ela previa o perigo em termos de normas inadequadas que se difundiriam por toda a parte sob uma administração coligada: “Quando tão grande poder é colocado nas mãos de umas poucas pessoas, Satanás fará esforços resolutos para perverter o juízo, insinuar errôneos princípios de ação, introduzir regulamentos incorretos; agindo assim ele conseguirá não somente perverter uma instituição, mas, por meio disso, obter domínio de outras e dar um molde errado à obra em lugares distantes.”32 O conselho de Ellen White sufocou por fim a tendência em favor das fusões. Casas editoras e escolas permaneceram soberanas com suas próprias juntas diretivas.33 Somente a obra médica resistiu às mensagens, e isto fez com que Battle Creek Sanitarium se separasse finalmente do controle denominacional.34 A reorganização radical e inovadora da estrutura da igreja na assembléia da Associação Geral de 1901 descentralizou mais ainda o processo de tomar decisões. Uniões por todo o mundo podiam agora tomar muitas decisões que até então teriam que esperar pela permissão de Battle Creek. Perigo de Ocultar a Identificação Adventista Uma das principais preocupações mencionadas na visão de Salamanca, em 4 de novembro de 1890,35 e nas visões recebidas nas semanas subseqüentes foi a respeito do perigo iminente de ocultar a identidade adventista, especialmente nos periódicos denominacionais. O enfoque imediato que deu origem à admoestação de Ellen White foi o plano apresentado por “homens influentes no sentido que, se a revista The American Sentinel retirasse as palavras ‘adventistas do sétimo dia’ de suas colunas, e não dissesse nada sobre o sábado, os grandes homens do mundo a pa-

trocinariam. ... Este procedimento é o primeiro passo numa sucessão de passos errados.” 36 Conforme relatou Uriah Smith, Ellen White falou na assembléia da Associação Geral em Battle Creek, Michigan, em 7 de março de 1891, sobre o “perigo de ocultar ou de manter em segundo plano os aspectos distintivos de nossa fé, pensando que isto evitaria o preconceito. Se nos foi confiada uma mensagem especial, conforme cremos, essa mensagem deve ser divulgada, independente dos costumes ou preconceitos do mundo, e não governada por procedimento de temor ou favor. ... O discurso foi oportuno, e causou profunda impressão na vasta congregação.”37 O argumento apresentado pela Associação Nacional de Liberdade Religiosa (que ainda não estava sob a jurisdição da Associação Geral) parecia plausível: (1) a liberdade religiosa era parte vital da terceira mensagem angélica; (2) as questões atuais da liberdade religiosa abriam muitas portas perante grandes auditórios; (3) esses princípios obteriam uma reação cada vez mais favorável, caso não fossem associados a doutrinas tais como o sábado e a segunda vinda; (4) se as diretrizes da revista Sentinel não pudessem ser modificadas, lançar-se-ia outra revista para promover seus interesses.38 Depois que Ellen White, no domingo de manhã, fez a exposição de fatos relativos às deliberações da noite de sábado, os líderes da Associação, incluindo A. F. Ballenger, reconheceram espontaneamente estarem errados em sua maneira de pensar. Aquela manhã de domingo viu ser revogada uma forte linha de ação, que fora votada apenas algumas horas antes.39 Apesar disso, as pessoas comprometidas com uma revista não sectária sobre liberdade religiosa finalmente conseguiram fazer o que queriam. Ao “buscar ‘uma esfera mais ampla de influência’, a revista Sentinel perdeu... sua vitalidade, sua circulação e, por fim, sua vida. Deixou de ser publicada... em 1904.”40 Mas a necessidade de uma revista sobre liberdade religiosa, uma revista comprometida

com a mensagem mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ainda permanecia. Em 1906, a revista Sentinel ressurgiu como Liberty. Estranho como possa parecer, porém, a mesma filosofia que motivara a revista Sentinel acabou moldando a nova Liberty! Antes da década de 1950, os redatores da Liberty trabalhavam sob a diretriz de que a revista “só tinha um ensino básico, que era a liberdade da alma. ... Não é sectarista em seu objetivo e conteúdo”.41 Com a mudança dos redatores em 1959, efetuou-se uma nítida mudança para que os princípios defendidos por Ellen White em 1891 tornassem a distinguir a revista de liberdade religiosa da igreja. A sabedoria do conselho divino e a coragem de seu novo redator foram autenticados quando a lista de assinatura saltou de 160.000 assinantes em 1959 como uma publicação trimestral para mais de meio milhão como bimestral! “A visão de Salamanca passou agora a fazer parte do preâmbulo da diretriz editorial.”42 Estabelecendo Instituições Educacionais e Médicas Instituto de Reforma da Saúde. O Instituto de Reforma da Saúde em Battle Creek, Michigan, o primeiro estabelecimento de saúde da denominação, foi uma reação direta à insistência de Ellen White ao comunicar a luz que lhe foi confiada. Relatando a visão recebida em Rochester, Nova Iorque, em 25 de dezembro de 1865, entre muitos outros princípios de saúde e admoestações, ela defendia uma instituição de saúde com dois objetivos: (1) beneficiar doentes e sofredores adventistas que precisavam das vantagens não encontradas nos populares “tratamentos hidroterápicos”; e (2) ser um meio “de divulgar nossos pontos de vista a muitos que dificilmente seriam alcançados pelos métodos comuns de pregar a verdade”.43 A perspectiva de estabelecer uma instituição médica em meados da década de 1860 parecia desanimadora, talvez impossível, do ponto de vista humano. Mas J. N. Loughborough, presidente da Associação de Michigan, reuniu seus líderes de comissão e disse: “Prometemos solenemente iniciar o empreendimento, arriscando-nos a fazer o que

foi aconselhado pelo testemunho, embora nos pareça uma carga pesada demais para erguermos.”44 Quatro meses depois, Uriah Smith, redator da Review and Herald, escreveu sobre essa principiante instituição que procurava conquistar renome: “Temos apenas que olhar para quatro meses atrás. Contemplamos agora um excelente terreno obtido, edifícios prontos para funcionar... e as atividades realmente começaram. Em nenhum empreendimento já levado a efeito por este povo, a mão de Deus se manifestou de maneira mais evidente como neste caso.”45 Outras instituições médicas devem sua existência ao discernimento e coragem visionária bem como ao sacrifício pessoal de Ellen White. Em 1902, ela escreveu ao presidente da Associação Geral: “O Senhor está me apresentando constantemente o sul da Califórnia como um lugar onde devemos estabelecer instituições médicas. ... Os hospitais devem ser estabelecidos nessa região do Estado.” Alguns dias depois, ela disse: “Durante meses o Senhor me deu instrução de que Ele está preparando o caminho para nosso povo adquirir propriedades de baixo custo nas quais existem edifícios que podem ser utilizados em nossa obra.”46 Paradise Valley Sanitarium. Ellen White pediu 2.000 dólares emprestados a um banco (em 1904) e incentivou a Sra. Josephine Gotzian a doar mais 2.000 a fim de comprar a propriedade do Paradise Valley Sanitarium, apesar da compreensível relutância por parte da liderança da associação – propriedade que havia custado aos donos originais 25.000 dólares.47 Glendale Sanitarium. Assim que o Paradise Valley Sanitarium foi adquirido, a Sra. White insistiu com a liderança a fim de que encontrasse uma propriedade para um hospital “nas proximidades de Los Angeles”. Sob o estímulo dela, foi feita uma pesquisa nos subúrbios de Los Angeles. Em Glendale uma propriedade desejável que valia 60.000 dólares foi comprada por 12.500 dólares.48 Loma Linda Sanitarium. A liderança da igreja achou que certamente havia cumprido suas responsabilidades ao lutar pelo desenvolvimento das instituições de Paradise Valley e

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Glendale. Mas Ellen White ainda não havia terminado. Ela recebera instruções de que a área de Redlands-Riverside era indicada como o lugar onde o próximo hospital devia localizar-se – e brevemente. Assegurou à liderança da associação que eles “podiam encontrá-la se quisessem”.49 Quando a descrição do hotel turístico de Loma Linda lhe foi apresentada enquanto participava da assembléia da Associação Geral em Washington, D.C., em 1905, ela respondeu que o lugar correspondia, em cada detalhe, à instrução vista em visão. Grande foi a tensão com respeito à verba necessária; a associação local estava sobrecarregada de débitos, principalmente devido às recentes aquisições recomendadas com insistência por Ellen White! Mas o tempo era primordial. A Sra. White enviou um telegrama ao dedicado John Burden: “Adquira a propriedade!” Os acontecimentos dos meses seguintes, durante os quais se arrecadaram os fundos necessários para fechar o negócio e a rápida expansão do centro de educação médica em Loma Linda, causam espanto e são motivo de gratidão. O preço final da compra foi de 38.900 dólares sobre um investimento inicial de mais de 150.000 dólares por parte dos antigos donos. A não ser pela orientação divina, por meio de Sua mensageira de Elmshaven, a Universidade de Loma Linda hoje não existiria.50 Avondale College. O estabelecimento do Avondale College por menos de 1.000 crentes na década de 1890, durante uma das piores depressões econômicas da Austrália, é mais um assombroso exemplo do sucesso que vem como resultado de se seguir o conselho da mensageira de Deus. Menos de quatro meses depois de Ellen White chegar à Austrália e por sua insistente recomendação, a liderança da igreja votou em dezembro de 1891 “que é nosso dever tomar providências imediatas para o estabelecimento de uma escola na Austrália”.51

Em 1893 a comissão de pesquisa localizou um terreno com 587 ha [1.450 acres], aproximadamente a 120 quilômetros ao norte de Sydney, perto de Cooranbong. Embora a terra fosse muito barata, a liderança da igreja achou que não serviria para uma fazenda, convicção compartilhada pelo serviço de agricultura do Estado. Ellen White permaneceu inamovível, enquanto outros vacilavam. Para demonstrar sua fé na orientação do Senhor, fez um empréstimo de 5.000 dólares para a compra do material de construção. Durante anos, o Avondale College foi considerado por muitos como a escola denominacional que mais se aproximava dos princípios educacionais expostos por Ellen White. Tornou-se um modelo dos benefícios resultantes de um programa de estudo e trabalho; do valor das indústrias da escola como fonte de trabalho estudantil bem como de um fluxo de caixa para ajudar no orçamento; do benefício para o estudante, para a escola e para a comunidade das atividades beneficentes comunitárias patrocinadas pelos alunos, projetos que reduziram a necessidade de extensos programas esportivos; do investimento de longo prazo nos jovens que se tornariam obreiros denominacionais e, acima de tudo, uma escolamodelo em defesa do espírito prático e sensato dos conselhos pedagógicos de Ellen White. O surgimento do Avondale College, depois que várias outras instituições educacionais se haviam estabelecido na América do Norte, foi realmente um novo começo na educação adventista. Ele se desenvolveu relativamente livre da pedagogia convencional que influenciou os colégios norte-americanos. Em 1897, Ellen White considerava o Avondale College “como a melhor escola que já vimos, em todos os aspectos, fora do nosso povo ou entre os adventistas do sétimo dia”.52

Referências
1. Life Sketches, pág. 196 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 162). 2. “Durante toda a sua longa vida, ela exerceu poderosa influência sobre os crentes adventistas do sétimo dia.” – Dictionary of American Biography, vol. 20, pág. 99. “A Sra. White era a reconhecida inspiração do movimento. ... Suas idéias estabeleceram o mundo do adventismo em sua obra médica, educacional e missionária ao redor do mundo.” – Hartzell Spence, “The Story of Religions in America – Seventh-day Adventists”, Look, XXII (24 de junho de 1958), pág. 79. 3. Na Assembléia Bíblica de 1919, A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, falou sobre a maneira como ele costumava ensinar aos jovens a relação existente entre Ellen White e o pensamento e a estrutura da Igreja Adventista do Sétimo Dia: “Eu desejaria começar pelo início deste movimento. Naquela época concedeu-se um dom a uma pessoa; e junto com aquele dom concedido àquela pessoa, veio também este movimento da tríplice mensagem. Eles surgiram juntos, no mesmo ano. Aquele dom foi exercido de forma constante e poderosa no desenvolvimento desse movimento. Os dois estiveram inseparavelmente ligados, e, por meio deste dom, ministrou-se clara instrução a respeito desse movimento em todas as suas fases durante setenta anos.” – “The Use of the Spirit of Prophecy in Our Teaching of Bible and History”, Spectrum, vol. 10, no 1, pág. 29. 4. Ver VandeVere, em Adventism in America, págs. 66 e 67. 5. “Desde sua morte [ocorrida em 1915] tem-se recorrido aos conceitos e pontos de vista de E. G. White em toda e qualquer questão enfrentada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia... de modo que em cada discussão sua aprovação era adotada ou incluída. Ainda hoje seus volumosos escritos são lidos, citados e discutidos tanto por pastores como por leigos da Igreja Adventista do Sétimo Dia, até certo ponto, mais do que os escritos de John Wesley no metodismo e talvez mais dos que as obras de Martinho Lutero nas diversas igrejas luteranas.” – Roy Graham, Ellen G. White, Co-founder of the Seventh-day Adventist Church (New York: Peter Lang, 1985), pág. 1. 6. Joseph Smith, dos mórmons, Mary Baker Eddy, da Ciência Cristã, etc., ver pág. 37. 7. “O evangelho deve ser apresentado, não como uma teoria sem vida, mas como uma força viva para transformar o caráter. Deus quer que Seus servos dêem testemunho de que, mediante Sua graça, os homens podem possuir semelhança de caráter com Cristo, e regozijar-se na certeza de Seu grande amor. ... Somos testemunhas de Deus ao revelarmos em nós mesmos a atuação de um poder divino. ... Esses preciosos reconhecimentos para louvor da glória de Sua graça, quando confirmados por uma vida semelhante à de Cristo, possuem irresistível poder, o qual atua para salvação de almas.” – A Ciência do Bom Viver, págs. 99 e 100; ver pág. 470. Ver também O Desejado de Todas as Nações, pág. 826. 8. Jonathan Butler, “The Making of a New Order”, em The Desappointed, págs. 199 e 200. 9. “Em todo este período os testemunhos para a igreja que vieram por intermédio da Sra. White abordaram freqüentemente, fato muito compreensível, esse estado de instabilidade em pessoas e movimentos. Sem este dom do Espírito Santo, conforme se provou repetidas vezes, os laços da fraternidade não teriam sido suficientes para unir o movimento. ... Permanece para nós agora o fato de que naqueles primeiros tempos em que não havia organização na igreja nem autoridade eclesiástica entre os adventistas observadores do sábado, o Espírito de Profecia por meio de Ellen White e a fé dos crentes na divina comissão constituíram a única agência disciplinadora do corpo, o único ponto de arregimentação dos fiéis, o último tribunal de apelação. Apesar disso, quão modestamente, com que piedoso temor e agonia de alma, ela apresentava seu testemunho! Nenhuma outra agência podia ter unido tanto enquanto purificava. O resultado foi um núcleo comparativamente ordenado, disciplinado e dirigido, pelo qual as gerações posteriores têm todo motivo para serem gratas.” – Spalding, Origin and History, vol. 1, pág. 293. 10. Os erros incluíam a fixação de data para a volta de Jesus, perfeccionismo (santificação total e impecabilidade), união espiritual (violação do sétimo mandamento), os santos tinham ainda que ir à antiga Jerusalém antes de Jesus voltar, etc. – Ver Tiago White, Review and Herald, edição extra, 21 de julho de 1851, 19 de agosto de 1851, 25 de novembro de 1851; Ellen White, Primeiros Escritos, pág. 101; Biography, vol. 1, págs. 216 e 217. 11. George Storrs escreveu em 1844: “Acautele-se de não procurar fabricar outra igreja. Nenhuma igreja pode ser organizada por invenção humana. Ela se torna Babilônia no momento em que é organizada.” – The Midnight Cry, 15 de fevereiro de 1844, citado em David Arthur, “Millerism”, em Gaustad, Rise of Adventism, pág. 168. 12. Godfrey T. Anderson, “Sectarianism and Organization, 1846-1864”, em Land, Adventism in America, págs. 36, 46 e 47; Jonathan Butler, “Adventism and the American Experience”, em Gaustad, Rise of Adventism, págs. 177 e 179. 13. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 119. 14. Review and Herald, 6, 13, 20 e 27 de dezembro de 1853. 15. Em setembro de 1852, Ellen White teve uma visão que inspirou um artigo publicado em fins de 1853, no qual ela diz: “O Senhor tem mostrado que a ordem evangélica tem sido demasiado receada e negligenciada. A formalidade deve ser banida, mas por fazê-lo não deve ser a ordem negligenciada. ... Homens de vida não santificada e não qualificados para ensinar a verdade presente entram no campo sem ser reconhecidos pela igreja ou pelos irmãos em geral, e o resultado é confusão e desunião. ... Esses mensageiros enviados de moto próprio são uma maldição para a causa. ... Vi que esta porta pela qual o inimigo entra para perturbar e levar à perplexidade o rebanho, pode ser fechada. Indaguei do anjo como poderia ser ela fechada. Disse ele: ‘A igreja precisa acorrer para a Palavra de Deus e estabelecer-se na ordem evangélica que tem sido subestimada e negligenciada.’ Isto é necessariamente indispensável para levar a igreja à unidade da fé.” – Primeiros Escritos, págs. 97-100. “Aumentando o nosso número, tornou-se evidente que, sem alguma forma de organização, haveria grande confusão, e a obra não seria levada avante com êxito. A organização era indispensável para prover a manutenção do ministério, para levar a obra a novos campos, para proteger dos membros indignos tanto as igrejas como os pastores, para a conservação das propriedades da igreja, para a publicação da verdade pela imprensa e para muitos outros fins.” – Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 26; Ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 210-216.

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ORGANIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL

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O ministério profético de Ellen G. White

16. Durante as reuniões, Ellen White permaneceu nos bastidores, mas logo que o nome foi escolhido ela enviou a seguinte confirmação: “Não podemos adotar outro nome melhor do que esse, que concorda com a nossa doutrina, exprime a nossa fé e nos caracteriza como povo peculiar. O nome Adventista do Sétimo Dia é uma contínua acusação ao mundo protestante. ... O nome Adventista do Sétimo Dia exibe o verdadeiro caráter de nossa fé e será próprio para persuadir aos espíritos indagadores. Como uma flecha da aljava do Senhor, fere os transgressores da lei divina, induzindo ao arrependimento e à fé no Senhor Jesus Cristo.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 223 e 224 (Testemunhos Seletos, vol. 1, págs. 79 e 80). Outro nome considerado foi “A Igreja de Deus”. – Ver Damsteegt, Foundations, págs. 254 e 255. 17. Godfrey T. Anderson, “Make Us a Name”, Adventist Heritage, julho de 1974, págs. 28-34. C. Mervyn Maxwell, Tell It to the World, págs. 125-146; Spalding, Origin and History, vol. 1, págs. 291-311; Schwarz, Light Bearers, págs. 86-103; Biography, vol. 1, págs. 420-431, 445-461; SDAE, vol. 10, págs. 880 e 1.046. 18. Life Sketches, pág. 196 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 162). 19. General Conference Bulletin, 3 de abril de 1901, págs. 23-26. 20. Maxwell, Tell It to the World, págs. 254-258; R. W. Schwarz, Light Bearers, págs. 267-281; R. W. Schwarz, “The Perils of Growth, 1886-1905”, em Land, Adventism in America, págs. 128 e 129; A. W. Spalding, Origin and History, vol. 3 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1962), págs. 19-46; Biography, vol. 5, págs. 70-96. 21. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, pág. 125. 22. Life Sketches, pág. 159. 23. Ver págs. 52 e 53. 24. Review and Herald, 14 de abril de 1903, pág. 17. 25. Carta de A. G. Daniells a Ellen G. White, 6 de julho de 1903, citada em Biography, vol. 5, págs. 275 e 276. 26. Carta 140, 1903, citada em A. G. Daniells, Abiding Gift, pág. 349. 27. Ibidem. Para contexto adicional, ver A. G. Daniells, Abiding Gift, págs. 343-352; Schwarz, Light Bearers, págs. 299-313; Schwarz, “The Perils of Growth, 1886-1905”, em Land, Adventism in America, págs. 131-133; A. W. Spalding, Origin and History, vol. 3, págs. 66-81; Biography, vol. 5, págs. 271-279. 28. Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, pág. 233; Schwarz, “The Perils of Growth, 1886-1905”, em Land, Adventism in America, págs. 123-125. 29. “A despeito de freqüentes conselhos em sentido contrário, os homens continuam a fazer planos para a centralização do poder, para juntar muitos interesses sob um controle único. Esta obra foi primeiramente iniciada nos escritórios da Review and Herald. As coisas inclinaram-se primeiro numa direção, depois noutra. Foi o inimigo de nossa obra quem lançou o chamado para a consolidação da obra de publicações sob um só poder controlador em Battle Creek.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, págs. 216 e 217. 30. Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 291. 31. The Publishing Ministry, pág. 157.

32. Testemunhos Para a Igreja, vol. 7, pág. 173; ibidem, vol. 8, págs. 217 e 218; The Publishing Ministry, págs. 131-158; Schwarz, Light Bearers, pág. 272; Biography, vol. 3, págs. 449-452. 33. Em meados da década de 1870, fora mostrado à Sra. White que a casa editora da costa oeste “devia permanecer sempre independente de todas as outras instituições; que não devia ser controlada por nenhuma outra instituição”. – Carta 81, 1896, citada em The Publishing Ministry, pág. 141. 34. Ver págs. 200-204 com respeito à crise do Battle Creek Sanitarium. 35. Ver pág. 149. 36. Manuscrito 29a, 1890, citado em Biography, vol. 3, pág. 469. 37. Review and Herald, 10 de março de 1891, pág. 160. 38. Life Sketches, págs. 312 e 313. 39. A. T. Robinson relatou que “homens de vontade dura como o ferro, que na noite anterior haviam demonstrado espírito de obstinada resistência, fizeram confissão de pecados com lágrimas e quebrantamento de voz. O Pastor Dan Jones disse: ‘Irmã White, eu achava que estava certo. Vejo agora que eu estava errado.’” – Biography, vol. 3, pág. 482. 40. Roland R. Hegstad, “Liberty Learns a Lesson”, Adventist Review, 15 de maio de 1986. 41. Ibidem. 42. Ibidem. As diretrizes atuais da revista Liberty refletem o conselho de Ellen White acerca das publicações denominacionais: A mensagem que os adventistas têm de dar “não é uma mensagem que os homens precisem acovardar-se de transmitir. Não precisam encobri-la, não precisam ocultar-lhe a origem e o propósito. ... Não devemos tornar menos preeminentes as verdades especiais que nos têm separado do mundo, e nos têm tornado o que somos. ... Devemos proclamar a verdade ao mundo, não de maneira tímida, destituída de espírito, mas na demonstração do Espírito e do poder de Deus.” – Life Sketches, pág. 329 (citado em Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, pág. 470). 43. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 485-495. 44. “Sketches of the Past”, No 133 em Pacific Union Recorder, 2 de janeiro de 1913, conforme citado em Dores Eugene Robinson, The Story of Our Health Message (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1965), pág. 150. 45. Review and Herald, 11 de setembro de 1866, pág. 116. 46. Cartas 138, 153, 1902, citado em Robinson, Health Message, pág. 335. 47. Robinson, Health Message, págs. 337-339; Schwarz, Light Bearers, págs. 314 e 315; Spalding, Origin and History, vol. 2, págs. 145-167; Biography, vol. 5, págs. 361-371. 48. Robinson, Health Message, págs. 340 e 341; Schwarz, Light Bearers, págs. 315 e 316; Spalding, Origin and History, vol. 2, págs. 145-167; Biography, vol. 5, págs. 372-376; SDAE, vol. 10, pág. 613. 49. Biography, vol. 6, pág. 11. 50. Robinson, Health Message, págs. 343-402; Schwarz, Light Bearers, págs. 316 e 317; Spalding, Origin and History, vol. 3, págs. 145-167; Biography, vol. 6, págs. 11-32. 51. Biography, vol. 4, págs. 24 e 25. 52. Scharwz, Light Bearers, págs. 202 e 203; Biography, vol. 4, págs. 24 e 25; 146-161; 287-322.

Perguntas Para Estudo

1. Por que muitos importantes adventistas do sétimo dia foram contra a organização da igreja? 2. Que condições predominantes na organização da igreja antes de 1901 fizeram Ellen White pleitear por uma reorganização radical quanto à maneira como a Igreja Adventista dirigia sua missão mundial? 3. Por que Ellen White insistia tanto em que a casa editora e a sede da Associação Geral saíssem de Battle Creek? 4. Quais alguns dos aspectos negativos da fusão de empreendimentos denominacionais na virada do século? 5. Qual era a verdadeira questão em debate sobre os regulamentos editoriais da Associação Nacional de Liberdade Religiosa em 1891? 6. Como poderia o conselho de Ellen White sobre os princípios de fusão aplicar-se hoje? Existem ocasiões em que a fusão (de associações, casas editoras, departamentos dentro de organizações, etc.) seria apropriada? 7. Examine a contribuição de Ellen White para o estabelecimento das instituições de saúde na Califórnia e mostre como essas instituições provavelmente não existiriam hoje sem a dramática insistência e perseverança da escritora.

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Crises Teológicas
“[Deus me deu luz] para corrigir erros capciosos e para especificar o que é a verdade.” 1

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través de toda a História, desde Caim e Abel, conforme Ellen White observou sabiamente, Satanás têm tentado “enganar e destruir o povo apresentando-lhe uma contrafação em lugar da verdadeira obra”.2 Cada movimento de reforma experimentou este fenômeno. O apóstolo Paulo teve que contender em seus dias com capciosas contrafações.3 Durante a Reforma protestante, teologias e movimentos religiosos falsificados importunaram Martinho Lutero, bem como John Wesley dois séculos depois. A própria natureza das contrafações exige reação imediata; se não forem controladas, a verdade corre o risco de fracassar até que uma voz clara se levante para revelar o erro. Esse tem sido o papel de Ellen White na Igreja Adventista do Sétimo Dia desde o início de seu ministério até hoje por meio das obras que publicou. Ao recapitular o fanatismo e as contrafações das décadas de 1840 e 1850, lembramo-nos de que esses mesmos erros serão enfrentados repetidas vezes até o fim do tempo.4

Contrafações nas Décadas de 1840 e 1850 Em 1845, antes de seu casamento com Tiago White, Ellen Harmon e outros enfrentaram um grupo em New Hampshire que parecia firme no Senhor. Ela soube logo que “eles pretendiam ser perfeitamente santos, declarando que se achavam acima da possibilidade

de pecar”. Os líderes lhe disseram: “Tudo o que temos que fazer é crer, e seja o que for que pedirmos a Deus, ser-nos-á dado.” Esse tipo de pensamento leva à crença de que “as afeições e desejos dos santificados eram sempre retos, e não corriam o risco de conduzi-los ao pecado”. Em muitos casos, este pensamento conduziu ao amor livre com todas as suas graves conseqüências.5 O grupo “antitrabalho”, por mais estranho que possa parecer hoje em dia, atraiu seguidores, principalmente entre os que se preocupavam com as necessidades de seu líder! Primeiramente em Paris, Maine, e depois em Randolph, Massachusetts, Ellen Harmon teve que apresentar reprovação, relembrando a todos os interessados que “razão e juízo” não deviam ceder terreno às impressões: “Deus ordenou que os seres por Ele criados trabalhem. Disto depende a felicidade deles.”6 A falsa humildade, acompanhada de impetuosa agitação por parte de alguns no Maine, trouxe descrédito aos primeiros adventistas antes de 1846. A jovem Ellen relatou: “Alguns pareciam achar que religião consistia em grande agitação e barulho. Falavam de maneira que irritava os descrentes. ... Regozijavam-se de sofrer perseguição. ... Alguns... professavam grande humildade, e achavam que o engatinhar pelo assoalho como crianças era evidência de sua humildade. ... Eu lhes disse claramente que... a humildade que Deus pede de Seu povo deve ser de-

monstrada por uma vida semelhante à de Cristo, não por arrastar-se pelo chão.”7 A freqüente marcação de datas tornou-se uma calamidade espiritual para aqueles que a praticavam e rejeitavam a admoestação de Ellen White. Ela escreveu: “Diferentes ocasiões foram marcadas para a vinda do Senhor, e insistia-se a tal respeito com os irmãos. O Senhor, porém, mostrou-me que elas passariam, pois o tempo de angústia deveria ocorrer antes da vinda de Cristo; e que cada vez que se marcasse uma data, e esta passasse, isto enfraqueceria a fé do povo de Deus. Por esse motivo eu era acusada de ser o mau servo que dizia: ‘O meu Senhor tarde virá.’”8 Na contracapa da Review, de 21 de julho de 1851, Ellen White fez uma descrição de uma visão recebida em 21 de junho: “O Senhor me tem mostrado que a mensagem do terceiro anjo deve ir, e ser proclamada aos dispersos filhos do Senhor, mas não deve estar na dependência do tempo; pois o tempo nunca mais será uma questão de prova. Vi que alguns estavam conseguindo um falso incitamento, despertado por pregarem sobre o tempo; mas a mensagem do terceiro anjo é mais forte do que o tempo possa ser.” Salvação Pela Fé – 1888 Quase oito anos depois da memorável assembléia da Associação Geral realizada em 1888 em Mineápolis, Minnesota, Ellen White recapitulou as decisivas questões teológicas abrangidas pelas mensagens que ela, E. J. Waggoner e A. T. Jones apresentaram naquela ocasião. Num franco testemunho dirigido ao conjunto de membros da igreja de Battle Creek, ela escreveu que muitos ainda “desprezavam” a essência da terceira mensagem angélica porque “odiavam a luz”. Nesse testemunho, como em muitos outros, a Sra. White enalteceu as apresentações feitas por Waggoner e Jones como uma “preciosa mensagem” que “o Senhor, em Sua grande misericórdia, enviou” a Seu povo. Fazendo um resumo desta “preciosa mensagem”, disse: “Apresentava a justificação pela fé no Fiador; convidava o povo para receber

a justiça de Cristo, que se manifesta na obediência a todos os mandamentos de Deus. Muitos perderam Jesus de vista. Deviam ter tido olhar fixo em Sua divina pessoa, em Seus méritos e em Seu imutável amor pela família humana. Todo poder foi entregue em Suas mãos, para que Ele pudesse dar ricos dons aos homens, transmitindo o inestimável dom de Sua justiça ao impotente ser humano. Esta é a mensagem que Deus manda proclamar ao mundo. É a terceira mensagem angélica que deve ser proclamada com alto clamor e regada com o derramamento de Seu Espírito Santo em grande medida. ... “A mensagem do evangelho de Sua graça devia ser dada à igreja em linhas claras e distintas, para que não mais o mundo dissesse que os adventistas do sétimo dia falam na lei, na lei, mas não ensinam a Cristo nem nEle crêem. ... “Este é o testemunho que deve ir por toda a largura e extensão do mundo. Apresenta a lei e o evangelho, unindo os dois num todo perfeito. ... Não têm estes [os filhos de Deus] mera fé nominal, uma teoria da verdade, uma religião legal, mas crêem com um propósito, apropriando-se dos mais ricos dons de Deus. ...” Ellen White encerrou seu vigoroso testemunho com estas vívidas palavras: “Não tenho uma mensagem suave a dar aos que por tanto tempo têm sido como que falsos sinaleiros, apontando na direção errada. Se vocês rejeitarem os mensageiros delegados por Cristo, rejeitam a Cristo.”9 Qual era, de um modo geral, o problema em Battle Creek? Apesar de todos os sacrifícios que haviam feito pela causa, muito cara ao seu coração, os líderes resolutos e laboriosos da igreja, de um modo geral, ainda não haviam compreendido plenamente o evangelho! Ela lhes disse que havia pouca ou nenhuma esperança para eles se continuassem a desprezar a “gloriosa oferta de justificação pelo sangue de Cristo, e a santificação pelo poder purificador do Espírito Santo”.10 Não fosse por Ellen White, as mensagens de Jones e Waggoner teriam sido esmagadas,

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e a história da Igreja Adventista do Sétimo Dia, depois da assembléia de 1888, teria sido drasticamente diferente da forma como a conhecemos hoje. Aquela assembléia representou um dos tempos mais difíceis de seu longo e tenaz ministério, “a mais penosa e incompreensível luta que já houve entre nosso povo”.11 “Rejeitada na sede”, a Sra. White, junto com Waggoner e Jones, levou a restauradora concepção de uma compreensão plena da justiça pela fé às igrejas por toda a América do Norte, primeiramente no circuito de reuniões campais e depois nos centros institucionais. As experiências em Ottawa, Kansas e South Lancaster, Massachusetts, foram especialmente memoráveis, e as mensagens proferidas por ela nessas ocasiões conservam-se instrutivas até hoje.12 Quais foram as questões mais importantes e os problemas principais? As questões foram as teológicas, e os problemas foram as atitudes. Em 1890, por ocasião da reunião ministerial em Battle Creek, Ellen White resumiu as questões teológicas naquilo que conhecemos hoje como Manuscrito 36, 1890. Empregou livremente neste documento a elipse da verdade à medida em que abria caminho com dificuldade através de profundas águas teológicas.13 Para enfatizar um princípio básico do evangelho, disse: “Seja este ponto plenamente estabelecido em todas as mentes: Se aceitamos a Cristo como Redentor, precisamos aceitá-Lo como Soberano.” A segurança cristã só pode ser reivindicada quando O “reconhecermos como nosso Rei e formos obedientes a Seus mandamentos”. Ela delineou claramente a fraqueza do mundo religioso contemporâneo com respeito aos princípios básicos do evangelho: “Enquanto uma classe de pessoas deturpa a doutrina da justificação pela fé e deixa de concordar com as condições estabelecidas na Palavra de Deus – ‘Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos’ – há um erro tão grande como este da parte dos que pretendem crer nos mandamentos de Deus e obedecer-lhes mas se colocam em oposição aos preciosos raios de luz – novos para eles – refletidos da

cruz do Calvário. A primeira classe não vê as maravilhosas coisas na lei de Deus para todos os que são praticantes de Sua Palavra. Os outros sofismam acerca de insignificâncias e negligenciam as questões mais importantes, a misericórdia e o amor de Deus. ... “Por outro lado, os religionistas em geral divorciam a lei do evangelho, ao passo que nós, por outra parte, quase fizemos o mesmo de outro ponto de vista. Não temos apresentado às pessoas a justiça de Cristo e a ampla significação de Seu grande plano de redenção. Deixamos de lado a Cristo e Seu incomparável amor, introduzimos teorias e raciocínios, e pregamos sermões argumentativos.”14 A questão básica em 1888 era como entender a plenitude da verdade evangélica conforme refletida nas palavras de João, de que o povo de Deus no fim do tempo guardaria os mandamentos de Deus e teria a fé de Jesus (Apoc. 14:12).15 Os adventistas ortodoxos entendiam claramente as exigências dos mandamentos de Deus, conforme particularmente destacadas no mandamento do sábado. Mas, como acontece muitas vezes na História, o pensamento correto nem sempre se pode unir com um claro compromisso de fé a Cristo, o Único capaz de salvar-nos da culpa e do poder do pecado. Os adventistas, de um modo geral, em sua ânsia de proclamar a negligenciada lei de Deus, tendiam a deixar a Cristo fora de Sua lei. Muitos pregavam sermões destituídos de Cristo, dando assim uma representação incorreta do que significa ter “a fé de Jesus”. Apoc. 14:12.16 Parte do problema surgiu pelo fato de os adventistas verem no mundo religioso em geral o perigo do antinomianismo (a crença de que a fé, como assentimento mental, é suficiente e que a obediência à lei é legalismo).17 Várias denominações estavam impregnadas de conceitos falsos de justificação e santificação. Muitos adventistas pensavam que Jones e Waggoner representavam uma rachadura na porta que levaria àqueles prevalecentes erros. Ellen White, contudo, transcendeu os temores de ambos os lados do conflito ao deixar

claro que o evangelho é a junção da lei (inclusive o sábado do sétimo dia) e da graça; do perdão e do poder; da absolvição e da purificação. Elevou o argumento teológico acima do impasse convencional de “ou... ou” para o nível do “ambos” (ou seja, lei e graça). Ela inseriu essa forte compreensão bíblica dentro das mensagens dos três anjos de Apocalipse 14. Ao focalizar essa reabilitação adventista do “evangelho eterno” (Apoc. 14:6), tornou clara e definida a mensagem da Igreja Adventista. Sua notável contribuição à crise de 1888 sobre salvação pela fé consistiu em unificar profundamente aquilo que vinha especificamente dividindo por séculos o mundo religioso e a Igreja Adventista. Além disso, suas mensagens demonstraram claramente que esta “preciosa mensagem” não consistia meramente no resgate de uma ênfase do século dezesseis, nem um empréstimo do acento metodista do século dezenove, como representado pelo livro de Hannah Whitall Smith, The Christian’s Secret of a Happy Life. Eram as apresentações de Waggoner e Jones nova luz para Ellen White? De um modo geral, não, conforme se pode deduzir da leitura das mensagens dela anteriores a 1888.18 Ela declarou em diversas ocasiões que essas grandes verdades haviam sido “indelevelmente gravadas em minha mente pelo Espírito de Deus” e que haviam sido “apresentadas reiteradas vezes nos testemunhos”.19 Mas ela viu na “preciosa mensagem” determinados aspectos novos, oportunos, que faziam parte da luz crescente chamada por ela de “verdade presente”: “A obra peculiar do terceiro anjo não foi ainda vista em sua importância. Deus pretendia que Seu povo estivesse muito além da posição que ocupa hoje. ... Não por ordem de Deus que a luz tem sido retida de nosso povo – a própria verdade presente de que careciam para este tempo. Nem todos os nossos pastores que estão proclamando a mensagem do terceiro anjo compreendem realmente o que constitui essa mensagem.”20 Durante esse período difícil, era possível

argumentar que, se a Sra. White houvesse sido mais específica a respeito, por exemplo, do significado exato de Gálatas 3, o conflito teria sido resolvido rapidamente. Na verdade, durante mais de um ano ela pesquisou em vão as matérias que havia escrito sobre o assunto. Chegou mesmo a levantar a seguinte pergunta em um sermão na assembléia de 1888: “Por que perdi o manuscrito e durante dois anos não pude encontrá-lo? Deus tem nisto um propósito. Ele quer que recorramos à Bíblia e obtenhamos evidência escriturística.”21 Mais uma vez os delegados de 1888 viram prevalecer, conforme vinha prevalecendo desde o início do ministério de Ellen White, o seguinte princípio: primeiro, o estudo da Bíblia; depois, a confirmação pela revelação divina. Em Mineápolis ela insistiu em que se fizesse cuidadoso estudo da Bíblia em espírito cortês, considerando os “dois lados da questão, pois tudo quanto queríamos era a verdade, a verdade bíblica, para ser apresentada ao povo”.22 Tempos depois, afirmou: “Não posso tomar minha posição nem de um lado nem de outro até ter estudado a questão [a lei em Gálatas].”23 Resistência à Luz Em uma declaração profunda feita a Uriah Smith em 1896, Ellen White tocou no assunto que continuaria a afetar os planos e crises denominacionais até que a chaga fosse curada. Depois de reafirmar que o “aio” em Gálatas 3 era a lei moral, ela escreveu: “A indisposição de ceder a opiniões preconcebidas, e de aceitar esta verdade, estava à base de grande parte da oposição manifestadas em Mineápolis [1888] contra a mensagem do Senhor através dos irmãos Waggoner e Jones. Incitando aquela oposição, Satanás teve êxito em afastar do nosso povo, em grande medida, o poder especial do Espírito Santo que Deus anelava comunicar-lhe. O inimigo impediuos de obter a eficiência que poderiam ter tido em levar a verdade ao mundo, como os apóstolos a proclamaram depois do dia de Pentecostes. Sofreu resistência a luz que deve ilu-

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minar toda a Terra com a sua glória, e pela ação de nossos próprios irmãos tem sido, em grande medida, conservada afastada do mundo.”24 Para a Sra. White, a ênfase na salvação pela fé durante o período 1888-1895 personificava a “terceira mensagem angélica”, especialmente quando essa mensagem se relacionava com a obra de Cristo no Lugar Santíssimo do santuário celestial. Era mais do que uma simples reabilitação da “justiça pela fé” conforme proclamada pelos reformadores. A luz adicional que o estudo da Bíblia havia apresentado perante a Associação Geral de 1888 confirmou o vínculo existente entre os mandamentos de Deus e a fé de Jesus numa união inseparável, uma união tão eficiente e interdependente na transformação dinâmica de vidas humanas como os dois pólos de uma bateria. Na ênfase de 1888, fez-se até certo ponto a ligação entre os resultados de uma aplicação pessoal da salvação pela fé e a obra finalizadora de Cristo no Lugar Santíssimo. Para Ellen White, a igreja permanecerá debilitada até que seus membros entendam e experimentem a verdade de que o enxergar Cristo na lei capacita homens e mulheres para serem obedientes àquela lei. Quando as pessoas virem a maneira como Cristo remove verdadeiramente a culpa que a lei condena, verão como Ele verdadeiramente capacita homens e mulheres a se tornarem o que a lei descreve. Assim procedendo, essas pessoas se tornam o que João predisse existiria na geração que proclama a mensagem do terceiro anjo (Apoc. 14:12). Assim, “Cristo Nossa Justiça” torna-Se aquele “assunto que absorve” todos os outros.25 Algumas das principais contribuições de Ellen White à Associação Geral de 1888 em Mineápolis e, por conseguinte, para nós hoje em dia abrangem: • Pontos de vista conflitantes devem ser discutidos com uma atitude apropriada; atitudes impróprias podem ser um sinal de que os conceitos são deficientes. • Estudantes sensatos da Bíblia não enfatizam pontos de importância secundária que

os afastem das questões primordiais, tais como detalhes sobre interpretação profética. • A essência do evangelho abrange a lei e a resposta de fé genuína, para que, pela graça de Cristo, creditada e comunicada, a intenção da lei e do evangelho seja cumprida. • Os líderes da igreja devem ser exemplos de receptividade para que a “nova luz” não seja excluída da igreja. • A “revelação da justiça de Cristo” em 1888 foi apenas o “começo da luz do anjo cuja glória vai encher a Terra” (Apoc. 18:1). • Esclarecer e apresentar de novo os princípios da “preciosa mensagem” que foi o início do “alto clamor” (Apoc. 18:4) tornará “o assunto que absorverá” todos os outros. Esse extenso legado feito à Igreja Adventista acha-se hoje registrado em muitos documentos daquele período. Pode-se argumentar vigorosamente que, sem a liderança profética de Ellen White naquela época, a Igreja Adventista do Sétimo Dia teria sido mortalmente ferida. Se ela não houvesse insistido em uma compreensão plena do que ela e outros estavam enfatizando em 1888 e nos anos logo a seguir, a igreja hoje não saberia o que significa cumprir seu papel na proclamação do “evangelho eterno”. A urgência das mensagens deste período, 1888-1896, persistem até hoje. Para estar realmente informado, uma pessoa deve reler as mensagens propriamente ditas, não através dos olhos de outro, mas de maneira direta como se o leitor de hoje fosse uma testemunha ocular ouvindo Jones, Waggoner e Ellen White pela primeira vez.26 Movimento da Carne Santa Uma trilha interessante estende-se desde as constantes discussões sobre a justificação pela fé acompanhando a assembléia de Mineápolis até a “mensagem da purificação” proclamada na Associação de Indiana na virada do século. Por volta de 1900, toda a comissão executiva da Associação de Indiana e quase todos os seus pastores estavam proclamando entusiasticamente que, para serem trasladados, os membros da igreja precisavam passar

pela “experiência do jardim”, recebendo a “carne santa” que Jesus possuía. Depois dessa experiência, os membros da igreja não estariam mais sujeitos a tentações “interiores” e não passariam pela morte; seriam trasladados! Como isso aconteceria? Eles criam que, quando o Espírito Santo viesse em plenitude, purificaria os membros da igreja (na “experiência do jardim”) de todos os seus pecados. Uma igreja purificada estaria então preparada para advertir o mundo da volta de Jesus, com o “poder do alto clamor” de Apocalipse 18:4. Na reunião campal de Indiana, realizada em 1900, Stephen Haskell fez o melhor que pôde para anular essa heresia, que se estendia por toda a associação. Em uma carta a Ellen White, que na época ainda se achava na Austrália, ele informou: “Quando declaramos crer que Cristo nasceu em humanidade caída, eles imaginavam que críamos que Cristo pecou, apesar de havermos declarado nossa posição de maneira tão clara que parecia não haver quem pudesse interpretá-la mal. “O argumento teológico deles sobre este aspecto específico parece ser este: Crêem que Cristo tomou a natureza de Adão antes da queda; revestiu-Se, assim, da humanidade conforme ela era no jardim do Éden, e, portanto, a humanidade era santa, e esta era a humanidade que Cristo possuía; e agora, dizem eles, chegou para nós o tempo determinado para nos tornarmos santos naquele sentido e depois termos a ‘fé para a trasladação’ e nunca mais morrermos.”27 As outras falsas doutrinas que Haskell e outros denunciaram incluíam: (1) a concessão do Espírito Santo era, antes de tudo, mediante manifestações físicas e milagres em vez de mediante a preparação do caráter para o serviço; (2) o perfeccionismo (entendido como “carne santa”) no sentido de não ser capaz de pecar porque nenhuma tentação surgia mais de dentro deles; (3) Jesus nasceu com “carne não pecaminosa”; (4) no momento da concepção, o Espírito Santo isolou Jesus da lei da hereditariedade; (5) as pessoas seladas não morrerão; e (6) as pessoas seladas recebem cura tanto física como espiritual. A respeito dessas doutrinas, Ellen White

declarou na reunião de nomeações da Associação de Indiana, em Indianápolis, em 5 de maio de 1901: “Não há um fio de verdade em todo o tecido.”28 Na assembléia da Associação Geral em 1901, ela combateu abertamente a heresia da carne santa e seus líderes na associação. No manuscrito elaborado previamente, ela disse em parte: “Aquilo que é ensinado com relação ao que se chama ‘carne santa’ é um erro. Todos podem obter agora coração santo, mas não é correto pretender nesta vida possuir carne santa. ... Nem um dentre vocês tem agora carne santa. ... É algo impossível. Se aqueles que falam tão livremente de perfeição na carne pudessem ver as coisas sob seu verdadeiro aspecto, recuariam horrorizados ante suas idéias presunçosas. ... Caso este aspecto de doutrina seja levado um pouco mais longe, conduzirá à pretensão de que seus defensores não podem pecar; de que uma vez que tenham carne santa, suas ações são todas santas. Que porta para a tentação se abriria assim!... “A maneira como as reuniões em Indiana têm sido dirigidas, com barulho e confusão, não as recomenda a mentes pensantes e inteligentes. Nada existe nessas manifestações que convença o mundo de que possuímos a verdade. Apenas ruído e gritos não são sinal de santificação nem da descida do Espírito Santo. ... O fanatismo, depois que começa e se permite que corra às soltas, é tão difícil de extinguir como o incêndio que tomou conta de um prédio. ... Precisamos contemplar a Cristo e assimilar Sua imagem mediante o poder transformador do Espírito Santo. Esta é nossa única salvaguarda para não sermos enredados pelas enganadoras ciladas de Satanás.”29 Depois de passar uma hora lendo o pronunciamento que ela preparara, Ellen White falou de improviso, trazendo à memória as lições aprendidas de fanatismos semelhantes contra os quais ela e seus colegas pioneiros tiveram que contender nas décadas de 1840 e 1850. Qual o resultado? No dia seguinte, o presidente da Associação de Indiana fez uma confissão sincera, dizendo, em parte: “Quando encontrei este povo, fiquei mais que alegre em saber que havia uma profetisa entre eles,

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e desde o princípio tenho sido firme crente nos Testemunhos e no Espírito de Profecia e seu ardoroso defensor. Tem-me sido sugerido por vezes no passado que o teste neste ponto de fé sobrevém quando o testemunho nos afeta diretamente. Como é do conhecimento de quase todos, no testemunho de ontem de manhã, fui submetido a esse teste. Mas, irmãos, posso dar graças a Deus nesta manhã por minha fé no Espírito de Profecia permanecer inabalável. Deus falou. Ele disse que eu estava errado, e eu respondo: Deus está certo, e eu estou errado.”30 Outros oficiais da Associação de Indiana também fizeram ampla e plena confissão de seus erros – e todos apontaram a mensageira do Senhor como a responsável pela iluminação deles. Algumas semanas depois, a comissão de nomeações da Associação de Indiana votou uma nova comissão da associação e a mudança dos principais líderes ministeriais. Com essas confissões, o Movimento da Carne Santa foi esfacelado.31 A Crise do Panteísmo O termo “panteísmo” deriva de duas palavras gregas: pan, “tudo”, e theos, “Deus”. No panteísmo, tudo manifesta a presença de Deus; a natureza e Deus são idênticos. Devido à má compreensão do papel do Espírito Santo, a igreja cristã durante dois mil anos caiu em diversas heresias que beiravam o panteísmo; algumas fizeram incursões diretas em território panteísta. Essa mesma compreensão errônea gerou em princípios da década de 1900 uma crise na Igreja Adventista. Nas décadas de 1840 e 1850, os ex-mileritas “espiritualizadores” não apenas enfatizavam que Jesus havia realmente “vindo” em 1844 para os “crentes”, mas também estavam “extremamente mergulhados” em suas práticas de êxtase na adoração. Além disso, muitos grupos estavam coligados com a crescente influência do espiritualismo moderno, primeiramente com os shakers, depois com o movimento das irmãs Fox em Hydesville, Nova Iorque. Mas, oculta sob o movimento dos “espiritualizadores”, achava-se a redução de Jesus a um “espírito” em vez de uma Pessoa física.32 Quando idéias panteístas se desenvolve-

ram meio século depois entre os adventistas do sétimo dia, Ellen White reconheceu as similaridades com os “espiritualizadores” que ela havia combatido na década de 1840 e começo dos anos 1850.33 Antes da morte de Tiago White em 1881, J. H. Kellogg compartilhou com os White algumas teorias da “nova luz” sobre a compreensão de Deus. Ellen White respondeu imediatamente que já havia “combatido isso antes” e que ele “jamais deveria ensinar essas teorias em nossas instituições”.34 Contudo, por volta de 1897, Kellogg estava introduzindo seus conceitos panteístas em um concílio ministerial que precedeu à assembléia da Associação Geral. Suas apresentações ficaram registradas no Boletim da Associação Geral de 1897. Expressões como as que se seguem foram entusiasticamente recebidas por aqueles que não eram capazes de ver aonde esses pensamentos levariam: “Que pensamento maravilhoso o de que este poderoso Deus, que mantém em ordem todo o Universo, está dentro de nós! ... Que coisa incrível que este altíssimo, onipotente e onisciente Deus Se tenha feito servo do homem ao dar à humanidade o livre-arbítrio, o poder para dirigir a energia existente dentro do seu corpo!”35 No fim da década de 1890, E. J. Waggoner também desenvolveu conceitos similares. Em virtude de sua reputação como estudante da Bíblia e do apoio anterior que recebera de Ellen White por seus ensinos sobre salvação pela fé em 1888-1892, a ligação de Waggoner com o Dr. Kellogg trouxe plausibilidade para ambos os homens. Na assembléia da Associação Geral de 1899, ele ensinou que homens e mulheres são capazes de superar suas doenças e viver para sempre, que cada respiração é “o sopro direto de Deus” nas narinas e que Deus está na água pura e no alimento de boa qualidade, pois “Deus está em toda a parte”.36 A partir dessas assembléias da Associação Geral e dos Boletins, esses “novos” e intrigantes pensamentos, panteístas até ao âmago, logo circundaram o mundo adventista. O que parece espantoso hoje é o fato de esse erro antigo em roupagem moderna, que muitas vezes empregou de modo errado declarações de Ellen White colhidas em sermões e arti-

gos, não ter sido combatido de maneira direta imediatamente após o seu surgimento.37 Mas Ellen White na Austrália estava alerta. Cartas haviam sido escritas muitas semanas antes da assembléia da Associação Geral de 1899 a fim de chegar a tempo de serem lidas para os delegados. A primeira carta, datada de 1o de março, tinha o título: “A Verdadeira Relação Entre Deus e a Natureza.” Em parte, ela escreveu: “A natureza não é Deus nem nunca foi. ... Na qualidade de obra criada por Deus, ela apenas dá testemunho do Seu poder. ... Precisamos pensar nisto cuidadosamente; pois em sua sabedoria humana, os homens sábios deste mundo, não conhecendo a Deus, tolamente deificam a natureza e as leis da natureza.”38 Este aviso devia ter sido suficiente para eliminar outros ensinos panteístas adotados por representantes da denominação. Mas essas claras afirmações foram ignoradas. As teorias panteístas pareciam adquirir novos defensores tanto entre os médicos do Sanatório de Battle Creek como entre os pastores no campo. Ao voltar da Austrália para assumir a liderança da Associação Geral, A. G. Daniells ficou atônito ao ouvir expressões tais como “um Criador de árvores na árvore”, e Deus nas flores, nas árvores e em toda a humanidade. W. A. Spicer, secretário recentemente nomeado para a Junta de Missão Estrangeira, havia acabado de passar vários anos como missionário na Índia, onde o panteísmo impregnava o hinduísmo. Ele reconheceu imediatamente os populares conceitos norte-americanos pelo que eles realmente eram. Em 18 de fevereiro de 1902, o mundialmente famoso Sanatório de Battle Creek foi reduzido a cinzas. Dentro de poucas horas o Dr. Kellogg estava fazendo planos para a reconstrução. Poucos dias depois estava pedindo ajuda financeira à Associação Geral. (Naquele tempo a denominação se achava em pesados débitos, em grande parte devido à expansão de instituições médicas.) Lembrando que estavam sendo levantados fundos para reduzir as dívidas em instituições educacionais mediante a venda do livro de Ellen White Parábolas de Jesus, Daniells sugeriu que o Dr. Kellogg escrevesse um livro destinado a

leigos sobre fisiologia e os tratamentos de saúde promovidos no Sanatório de Battle Creek. Ele achava que os adventistas podiam vender 500.000 exemplares para amigos, e todo o lucro seria empregado na reconstrução do hospital.39 Ao discutirem, porém, sobre o livro proposto, Daniells deixou claro para Kellogg que coisa alguma daquela “nova teoria” devia constar no livro, pois, se isso acontecesse, muitos membros da igreja não cooperariam na campanha. O doutor concordou rapidamente e, sem demora, começou a ditar o original de The Living Temple. Mas, assim que W. W. Prescott e W. A. Spicer leram as provas, iniciou-se o conflito sobre seu conteúdo.40 Vendo que a Comissão da Associação Geral não pretendia apoiar a publicação do seu livro, Kellogg desistiu de considerá-lo um empreendimento da igreja. Apesar disso, fez à Review and Herald Publishing Association uma encomenda pessoal de 5.000 exemplares.41 Cerca de um mês depois, em 30 de dezembro de 1902, um incêndio destruiu a casa editora com as chapas do livro já prontas para a impressão. Na assembléia da Associação Geral de 1903, outros assuntos além do The Living Temple tinham lugar de destaque na agenda. As decisões administrativas sobre o Sanatório de Battle Creek e a obra de saúde denominacional em geral transformaram-se numa luta de liderança, Kellogg contra Daniells. O doutor estava resolvido a reabrir o Battle Creek College (tanto o corpo discente como o docente já se haviam mudado para Berrien Springs, Michigan). Prescott, na qualidade de redator da Review, utilizava as páginas da revista para oferecer resistência ao empreendimento “imprudente” de Kellogg e denunciar os erros do seu panteísmo. Impreciso Sobre a Personalidade de Deus Durante aquele período, Ellen White escreveu ao Dr. Kellogg: “Você não é explicitamente claro sobre a personalidade de Deus, a qual representa tudo para nós como um povo. Você destruiu, por assim dizer, o próprio Senhor Deus.” Alguns dias depois, ela continuou: “Suas idéias são tão místicas que acabam destruin-

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do a verdadeira natureza das coisas, e a mente de algumas pessoas está ficando confusa a respeito do fundamento de nossa fé. Se você deixar que sua mente seja desencaminhada desse jeito, dará um molde errado à obra que fez de nós o que somos.”42 Mas a Sra. White não enfrentou o doutor abertamente na assembléia. Fora-lhe dito em visão que ela “não devia dizer nada que provocasse confusão ou disputa na assembléia”. Todo o conflito devia cessar para que todos os envolvidos vissem as coisas mais claramente.43 Desconsiderando o conselho da profetisa, o Dr. Kellogg havia mandado imprimir 5.000 exemplares do livro The Living Temple numa gráfica comercial. Agora mais pessoas do público em geral podiam ver por si mesmas a razão de os líderes da igreja estarem tão preocupados. Lados opostos se desenvolveram: os que estavam a favor viram esta “nova luz” como algo que conduziria a uma experiência religiosa mais profunda; os que a ela se opunham a encararam como algo que contribuiria para demolir a doutrina do santuário, gerar confusão sobre a função do Espírito Santo e tornar indistinta a verdade sobre as personalidades distintas da Divindade. Durante todo o verão Ellen White permaneceu em silêncio. Quando o Concílio Outonal da Associação Geral foi aberto em Washington, D.C., no dia 7 de outubro, todos sabiam que o conflito de Kellogg e o livro The Living Temple teria que ser abordado. Entre os que apoiavam Kellogg se achavam E. J. Waggoner, A. T. Jones e David Paulson, um jovem médico.44 Depois de uma animada reunião que durou o dia inteiro e foi até tarde da noite, quando Daniells retornou para casa encontrou um grupo de pessoas à sua espera. A primeira saudação deles foi: “O livramento chegou! Aqui estão duas mensagens da Sra. White.” As mensagens foram claras, concisas e sem ambigüidade: “Essas opiniões [The Living Temple] não têm a aprovação de Deus. São uma cilada que o inimigo preparou para estes últimos dias. ... O caminho da verdade fica bem perto do caminho do erro, e ambos os caminhos parecem um só para as mentes não

trabalhadas pelo Espírito Santo, as quais, por isso mesmo, não são rápidas para discernir a diferença entre a verdade e o erro.”45 Lidas perante o Concílio no dia seguinte, essas mensagens resolveram a questão para a maioria dos vacilantes. Daniells escreveu imediatamente para Ellen White, dizendo: “Nunca as mensagens de Deus foram tão necessárias quanto neste exato momento; e nunca as mensagens de Deus chegaram a Seu povo de maneira tão direta quanto essas que a irmã nos enviou. Elas eram exatamente o de que carecíamos, e chegaram precisamente no momento certo. ... O conflito foi severo, e não sabíamos aonde as coisas iriam dar. Mas sua mensagem clara, distinta, sublime chegou e resolveu o conflito. Não digo que todos os grupos chegaram à harmonia perfeita, mas a mensagem concedeu àqueles que estavam do lado certo força para permanecer na defesa de sua posição.” Novamente, na carta, Daniells enfatizou a extraordinária exatidão do tempo: “O Dr. Kellogg havia estado conosco por dois ou três dias. A atitude dele havia trazido até certo ponto confusão à mente de muitos de nossos pastores, homens que realmente não sabiam o que estavam defendendo. Sua mensagem chegou precisamente no dia certo – um dia mais cedo teria sido cedo demais.”46 “Enfrentem-no!” Depois de receber essa carta do presidente da Associação Geral, a Sra. White respondeu por escrito, explicando as circunstâncias que haviam inspirado aquelas mensagens oportunas. Nessa resposta deu a conhecer a visão em que vira o iceberg e a ordem do comandante: “Enfrentem-no!” Soube imediatamente qual era o seu dever. Começando a uma hora da madrugada, escreveu tão depressa quanto pôde. Quando suas ajudantes chegaram, já havia páginas para ser editadas. Passou todo o dia escrevendo, e as secretárias trabalharam durante toda a noite seguinte para que o material pudesse ser enviado no trem que saía de manhã. Trabalharam até ouvir o som do apito do trem. D. E. Robinson, um dos assistentes, pedalou em sua bicicleta tão rápido quanto pôde por quase três quilômetros para alcançar o

carro-correio. Dias depois, essas mensagens oportunas chegaram a Washington, D.C., nem um dia antes nem um dia depois!47 Ellen White escreveu pessoalmente a E. J. Waggoner, um dos principais defensores do livro The Living Temple, insistindo com ele para que mudasse de atitude: “Vi as conseqüências desses fantasiosos pontos de vista acerca de Deus, na apostasia, espiritualismo e amor livre. A tendência para o amor livre, que esses ensinos encerram, estava tão disfarçada que a princípio era difícil tornar claro seu verdadeiro caráter. Até que o Senhor me apresentasse, eu não sabia como denominálo, mas fui instruída a chamá-lo amor espiritual não santificado.”48 Com essas mensagens públicas agora perante a denominação e o The Living Temple disponível para todos se inteirarem das questões envolvidas, a luta foi intensa, especialmente em Battle Creek. Obviamente, isso envolvia algo mais do que a questão do panteísmo. Muitos que se identificavam com o ponto de vista do Dr. Kellogg sobre a administração do hospital também se sentiam inclinados a apoiar sua “nova luz”. Muita gente não tinha uma idéia clara da situação. Dois Partidos Definidos Na assembléia da Associação Lake Union, realizada em maio de 1904, a profunda desunião entre dois partidos definidos persistiu. Cada grupo era composto de influentes e renomados líderes de igreja. Cada grupo encarava de forma diferente e profunda as várias questões denominacionais. De acordo com E. K. VandeVere, que durante muito tempo foi chefe do departamento de História do Emmanuel Missionary College, as polaridades na assembléia de 1904 englobavam: Autoridade: Centralização versus descentralização. Ortodoxia versus nova teologia (panteísmo, etc.). Organização versus independência. Ministério pago versus ministério economicamente independente. Validade dos “testemunhos” de Ellen White versus ela sendo questionada e/ou ignorada. Obra médica como “braço” versus obra médica como “corpo”. Sucesso do Emmanuel Missionary College

versus reabertura do Battle Creek College. Incêndios em Battle Creek considerados “castigo” versus “acidentais”. Mudar-se para Washington versus valorizar o rótulo Battle Creek. Ortodoxia educacional versus educação experimental. Emmanuel Missionary College sendo controlado por um corpo de diretores versus os administradores da escola sendo guiados pelo Espírito. “Reformadores” Kellogg, Sutherland, Magan, E. J. Waggoner, A T. Jones versus administradores de primeiro escalão da igreja Daniells, Spicer, Prescott, Morrison.49 Em meio a essa efervescência, Ellen White vinha cada manhã, às onze horas, com sermões que incluíam: “O Fundamento de Nossa Fé”, “Lições de Apocalipse 3”, “Um Apelo por Unidade”, “Atentando Para Si Mesmo” e “Uma Necessária Mudança de Sentimento”.50 Nesses sermões, a Sra. White enfatizava os princípios que cada lado procurava defender. Sua esperança era a de que ambos os lados vissem as coisas em uma perspectiva mais ampla. Mas ela também via o que impedia ambos os grupos de compreender um ao outro. A atitude adotada por ambos os lados para com as várias questões era o principal obstáculo na resolução dos aparentes dilemas: “Anjos celestiais, enviados para ministrar sabedoria e graça, ficaram desapontados ao ver que o eu forçava caminho para fazer com que as coisas aparecessem numa luz errada. Homens falavam e discutiam, e introduziam conjecturas que não deviam ocorrer naquela reunião.”51 Perto do encerramento das reuniões, Ellen White teve uma visão. Depois de escrever um relato do que vira, entregou-o a W. C. White para que o lesse perante os delegados no último dia: “Na noite passada foram-me apresentados assuntos mostrando que coisas estranhas assinalariam o término da assembléia... a menos que o Santo Espírito de Deus transformasse o coração e a mente de muitos obreiros. Especialmente os missionários médicos devem buscar a transformação da própria alma pela graça de Deus.”52 As tensões continuaram a crescer. Para prestar a maior ajuda possível aos que ainda

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hesitavam, a Sra. White apressou a impressão dos Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, que continham uma parte intitulada: “O Conhecimento Essencial.”53 Além disso, elaborou rapidamente seu próximo livro de saúde, destinado especialmente ao público em geral, A Ciência do Bom Viver. Neste livro ela incorporou os mesmos princípios relativos à personalidade de Deus e Sua participação na cura das enfermidades, especificamente a parte intitulada “O Conhecimento por Excelência.”54 A Crise Ballenger/Santuário, 1905 A crise na doutrina do santuário em 1905 foi mais um dos resultados da má compreensão do papel do Espírito Santo no processo da salvação. Sempre que alguém esquece a relação existente entre a obra do Espírito Santo e os mandamentos de Deus e a fé de Jesus (Apoc. 14:12), a tendência é ou para o frio legalismo ou para opiniões acaloradas e fervente individualismo. O erro surge quando a obra do Espírito Santo é subestimada ao focalizar-se a morte vicária de Cristo; ou quando, ao enfocar-se o “Espírito habitando em nós”, negligencia-se a Cristo como Sacrifício e Sumo Sacerdote.55 A compreensão errônea do duplo papel que Cristo desempenha como Sacrifício e Sumo Sacerdote habilitador montou o cenário para o Movimento da Carne Santa, a crise panteísta e, posteriormente, a disputa sobre o santuário. Para a infelicidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia, parecia difícil para muitos na década de 1890, inclusive para E. J. Waggoner, John Harvey Kellogg, A. F. Ballenger e, durante algum tempo, W. W. Prescott, manter o equilíbrio em relação às mensagens de 1888 de que Cristo estava “pronto a comunicar vitória sobre os pecados futuros bem como a perdoar os passados”.57 A atenção desses homens concentrou-se na “vitória comunicada” e na manifestação do Espírito, passando por alto o papel primordial do Espírito Santo na transformação do caráter que precede as prometidas experiências da “chuva serôdia” e do “alto clamor”.58 Depois de “aceitar” as mensagens proferidas em 1888, em Mineápolis, esses líderes criam que Deus agiria sem demora enviando Seu Espírito de maneira assinala-

da, capacitando a igreja a “finalizar a obra” e assim apressar a volta de Jesus. Para algumas pessoas, este enfoque da obra do Espírito fazia-as crer que cada pessoa “cheia do Espírito” também receberia o dom do Espírito de profecia. Além disso, esses membros de igreja não precisariam mais da vigorosa organização denominacional, pois seriam guiados pelo Espírito.59 Desde o momento em que Ellen White voltou da Austrália em 1900, ela estivera enviando grande quantidade de cartas, públicas e particulares, advertindo dos enganos e erros que se estavam desenvolvendo entre os principais porta-vozes que não compreendiam a santificação, do mesmo modo como muitos líderes não haviam compreendido a observância dos mandamentos antes de 1888. Em 1903, ela escreveu a Daniells: “Muitas vezes tenho sido advertida contra as idéias excessivamente elaboradas sobre santificação. A menos que estejamos totalmente despertos, elas levarão a uma representação inaceitável da experiência que há de nos submergir. ... Durante a assembléia da Associação Geral de 1901, o Senhor me alertou contra as opiniões que estavam sendo reunidas e depois defendidas pelos irmãos Prescott e [E. J.] Waggoner. Recebi instruções de que essas opiniões eram como fermento introduzido na massa. Muitas mentes as receberam. As idéias de algumas pessoas a respeito de uma grande experiência chamada e considerada santificação têm sido o princípio de uma série de enganos que induzirá ao erro e à ruína a alma daqueles que as receberem. Pelo fato de alguns exagerarem as expressões freqüentemente empregadas pelo irmão E. J. Waggoner na assembléia, tive que proferir palavras que neutralizassem a influência dessas pessoas. ... Satanás está sem dúvida apresentando algumas doutrinas falsas que o irmão não deve aceitar. Os Pastores Waggoner e Prescott estão errados.”60 A. F. Ballenger cria erroneamente, junto com outros, que o Movimento da Carne Santa era a extensão lógica das mensagens de 1888. Ele via claramente que, desde que as mensagens sobre a justificação pela fé pregadas em 1888 circularam pela denominação, “estamos no tempo da chuva serôdia, mas o

derramamento do Espírito foi retido por causa de nossos pecados”.61 Ele via corretamente a ligação entre o caráter do povo de Deus e a conclusão de sua missão como testemunhas de Deus para os últimos dias. As mensagens de Ellen White haviam enfatizado isso durante muitos anos.62 Mas ele estava errado quanto à maneira como o Espírito Santo devia preparar o povo para testemunhar a chuva serôdia: cria que os crentes podiam reivindicar e receber a santificação enquanto reivindicassem e recebessem a justificação. Além disso, para ele, os crentes podiam reivindicar a promessa do Espírito pela fé assim como podiam reivindicar o dom da cura pela fé.63 A pregação de Ballenger era acompanhada de curas físicas, o que, para muitos, servia para aumentar a crença na teologia dele. Em que base Ballenger associava a recepção do Espírito Santo e a cura física? Ele cria que, pelo fato de Jesus haver tomado “sobre Si as nossas enfermidades, e... [levado] as nossas doenças”,64 as Escrituras “provam que o Evangelho inclui tanto a salvação da enfermidade como a salvação do pecado”.65 Qual foi a reação da Sra. White a essas “novas idéias”? Escrevendo a J. H. Kellogg em 1898, ela disse que algumas pessoas lêem a Bíblia sem estudo cuidadoso e depois, “cheias de ardor e zelo, apresentam teorias que, se fossem recebidas, atuariam contrariamente” àquilo que havia sido recebido desde 1844 como “uma cadeia de verdade. ... Essas pessoas anseiam por novas idéias e suposições que prejudicam o desenvolvimento simétrico do caráter. ... Aplique alguém toda a mente em alguma idéia incorreta, e há de desenvolver mais deformidade do que simetria.”66 Na assembléia da Associação Geral de 1905 em Washington, Ballenger apresentou três estudos de uma hora a respeito de sua “nova” luz sobre a doutrina do santuário. Em essência, sua tese era a de que Jesus, ao ascender ao Céu, entrou no segundo compartimento do santuário celestial, o Lugar Santíssimo. Antes da cruz, Ele estivera oficiando no primeiro compartimento, o Lugar Santo. Bal-

lenger não convenceu os membros da comissão. A comissão respondeu com uma exegese bíblica realizada décadas antes e confirmada por revelação a Ellen White. A resposta pareceu levar a um beco sem saída. Compreensão Errônea do Papel do Espírito Santo Uma década ou mais de má interpretação do papel do Espírito Santo na salvação pela fé enfraqueceu a compreensão de Ballenger a respeito do papel de Cristo na expiação. Concentrando sua atenção na instantaneidade da experiência purificadora obtida pela súplica ao Espírito Santo, tirou o olhar da função de Cristo como Sumo Sacerdote, tanto na primeira fase do ministério no Lugar Santo como depois no Lugar Santíssimo. Recusando-se a aceitar o ministério de correção de Ellen White, Ballenger começou a atacar sistematicamente a credibilidade dela em questões teológicas bem como em outras áreas. Em uma de suas reações públicas durante esse período, a Sra. White predisse: “Futuramente surgirão enganos de toda espécie, e careceremos de terreno sólido para nossos pés. ... Nem a mínima coisa deverá ser omitida de tudo quanto o Senhor instituiu. O inimigo introduzirá doutrinas falsas, tais como a de que não existe um santuário. Este é um dos pontos em que alguns se apartarão da fé. ... Estou orando para que o poder do Salvador seja exercido em favor daqueles que caíram nas tentações do inimigo. Eles não permanecem no amplo abrigo da Onipotência.”67 Ela escreveu posteriormente: “Ele [Ballenger] esteve reunindo grande quantidade de passagens bíblicas de modo a confundir as mentes devido a suas afirmações e mau emprego dessas passagens, pois a aplicação levava a conclusões erradas e não apoiava em nada o assunto que, segundo suas pretensões, justificaria seu ponto de vista. Qualquer pessoa pode fazer isso, e seguir seu exemplo para apoiar um falso ponto de vista; mas este era o seu próprio caso.”68 Depois de observar a maneira como Ballenger reagiu a conselho que ela lhe dera em 1891, a Sra. White continuou: “Outra vez

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A Voz de um Movimento

O ministério profético de Ellen G. White

nosso irmão Ballenger está apresentando teorias que não podem ser confirmadas pela Palavra de Deus. Constituiria um dos grandes erros sobrevindos a nosso povo retirar as Escrituras de seu verdadeiro lugar e interpretálas de maneira a fundamentar o erro que contradiz a luz e os Testemunhos comunicados a nós por Deus durante estes últimos cinqüenta anos. ... Declaro no nome do Senhor que as mais perigosas heresias estão procurando penetrar em nosso meio como um povo, e o Pastor Ballenger está prejudicando a própria alma. O Senhor me fortaleceu a fim de fazer esta longa viagem até Washington para, nesta reunião, dar meu testemunho na vindicação da verdade da Palavra de Deus e a manifestação do Espírito Santo na confirmação da verdade bíblica. A Palavra é infalível, inabalável e suporta a prova.” Ela continuou: “Não há verdade nas explicações das Escrituras que o Pastor Ballenger e os que com ele se associaram estão apresentando. As palavras são corretas, mas mal aplicadas para justificar o erro. Não devemos apoiar seu raciocínio. Não conduz a Deus. ... Sou instruída a dizer ao Pastor Ballenger: Suas teorias, repletas de primorosos encadeamentos e que precisam de tantas explicações, não são a verdade, e não devem ser apresentadas ao rebanho de Deus.”69 Em uma das reuniões públicas, Ellen White foi levada a relatar as primeiras experiências. Como fizera em várias ocasiões anteriores,70 descreveu a maneira como, nos anos iniciais, o intenso estudo da Bíblia precedera a “clara explanação das passagens que estivéramos estudando”, revelada em visão. Nada disso foi feito em segredo. “Os irmãos sabiam que, quando não em visão, eu não compreendia esses assuntos, e aceitaram como luz direta do Céu as revelações dadas.”71 Ela apresentou várias outras mensagens a diversos grupos presentes na assembléia de 1905, cada uma advertindo tanto a Ballenger como aos líderes da igreja a “não misturarem

teorias errôneas com a verdade de Deus”. Enfatizou que ele havia “permitido que sua mente aceitasse erros capciosos e cresse neles”. Se suas teorias fossem aceitas, “minariam as colunas de nossa fé”. Um dos problemas era que, removendo “os marcos antigos”, eles estavam “trabalhando como cegos”.72 Sob a iluminação divina, a liderança esclarecedora e unificadora de Ellen White nessas quatro crises teológicas – conflito sobre a salvação pela fé em Mineápolis em 1888; Movimento da Carne Santa em 1901 em Battle Creek; crise do panteísmo em 1903 em Washington, D.C.; e disputa sobre o santuário em 1905 – foi extraordinariamente oportuna e decisiva. Nenhuma outra pessoa envolvida nessas quatro crises potencialmente divisivas teria conseguido unificar a igreja e ajustar sua conduta rumo ao futuro. Conforme muitos freqüentemente observam, “foi ela quem desempenhou o mais importante papel na resolução dessas questões. ... Sem a voz autorizada de Ellen White, os resultados teriam sido muito diferentes.”73 Ellen White foi, na verdade, a voz do movimento do advento, não porque explicasse cada detalhe teológico e resolvesse cada crise por meio dos trovões do Sinai. Ela trabalhava no sentido de encontrar a melhor solução para o momento, esperando às vezes até que a melhor solução amadurecesse a fim de não desfazer a equação iniciada muitos anos antes: estudo da Bíblia confiável + confirmação por revelação divina = verdade presente. Parece que a maior e mais importante contribuição da Sra. White foi não perder de vista os fatos mais importantes da situação, pressentindo sempre as conseqüências danosas das falsas teorias. Tendo na mente a compreensão clara e global do evangelho, toda teoria que fizesse qualquer aspecto do evangelho parecer confuso captava sua cuidadosa e preocupada atenção. Ela guiou a igreja para fora do legalismo à direita e do fanatismo romântico à esquerda, sempre preocupada com a unidade e a missão distintiva da Igreja Adventista.

Referências
1. Carta 117, 1910, citada em Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 32. 2. O Grande Conflito, pág.186. 3. Atos 20:28-31; Col. 2:8, 16-23; II Tim. 4:3-5; Tito 1:9-16. 4. “Anos mais tarde foi-me mostrado que as falsas teorias promovidas no passado não cessaram de maneira nenhuma. Tão logo apareçam oportunidades favoráveis, elas ressurgirão. Não nos esqueçamos de que será sacudido tudo quanto pode ser sacudido.” – Life Sketches, págs. 92 e 93; ver Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 25-30. 5. Life Sketches, pág. 83. 6. Ibidem, pág. 87. Ver também págs. 50 e 559. 7. Ibidem, págs. 85 e 86. 8. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 72. 9. Testemunhos Para Ministros e Obreiros Evangélicos, págs. 91-97. 10. Ibidem, págs. 92, 94 e 97. Em seus escritos, Ellen White se referiu a A. T. Jones e a E. J. Waggoner mais de 200 vezes. A ênfase que ela deu à “justificação pela fé” em Mineápolis em 1888 era distintamente diferente da compreensão prevalecente entre os protestantes durante o século dezenove, um fato que nem sempre foi compreendido por aqueles que escreveram sobre este importante período. 11. Carta 82, 1888, em The Ellen G. White 1888 Materials, vol. 1, pág. 182 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 178); “Irmãos... devo dizer-lhes claramente que a conduta adotada para comigo e para com minha obra desde a Associação Geral em Mineápolis – sua resistência à luz e às advertências que Deus comunicou por meu intermédio – tornaram meu trabalho cinqüenta vezes mais difícil.” – Carta 1, 1890, ibidem, vol. 2, págs. 659; “a prova mais dolorosa de minha vida”. – Manuscrito 30, 1889, ibidem, vol. 1, pág. 354; “um dos capítulos mais tristes na história dos crentes na verdade presente”. – Ibidem, vol. 4, pág. 1.796. Ver pág. 234. 12. 1888 Materials, vol. 1, pág. 152; Schwarz, Light Bearers, págs. 187-192; Fé e Obras, págs. 59-84; Biography, vol. 3, págs. 416-418. 13. Para uma discussão sobre a elipse da verdade, ver pág. 260 e Apêndice P. 14. Fé e Obras, págs. 13 e 14. 15. Manuscrito 24, 1888, The Ellen G. White 1888 Materials (1888 Materials), vol. 1, págs. 217 e 218. 16. Review and Herald, 11 de março de 1890, págs. 1 e 2; Parábolas de Jesus, pág. 48; “Você pode dizer que crê em Jesus quando valoriza o preço da salvação. Você pode fazer esta afirmação quando sente que Jesus morreu por você na cruel cruz do Calvário; quando exerce uma fé inteligente e sensata de que a morte dEle lhe dá condições para parar de pecar e, pela graça de Deus, aperfeiçoar um caráter justo, comprado pelo sangue de Cristo e concedido a você.” – Review and Herald, 24 de julho de 1888. 17. Schwarz, Light Bearers, pág. 192. 18. Fé e Obras, págs. 29-58. 19. Manuscrito 24, 1888, 1888 Materials, vol. 1, págs. 217-218 (Mensagens Escolhidas, livro 3, pág. 172); ver também págs. 211 e 212; “Fizeram-me a seguinte pergunta: O que a irmã acha sobre a luz que estes homens estão apresentando? Ora, é o que eu tenho lhes apresentado nestes últimos quarenta e cinco anos – o incomparável encanto de Cristo. Isto é o que [eu] tenho procurado apresentar à mente de vocês. Quando o irmão Waggoner expôs essas idéias em Mineápolis, foi a primeira vez que ouvi este assunto ser ensinado de maneira clara por lábios humanos, exceto nas conversas entre mim e meu marido. ... Quando outro o apresentou, cada fibra do meu coração disse ‘Amém’.” – Sermão em Rome, Nova Iorque, 19 de junho de 1889, ibidem, págs. 348 e 349. 20. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 714 e 715 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 321 e 322); “Aquilo que Deus deu a Seus servos para falarem hoje talvez não tivesse sido a verdade presente vinte anos atrás, mas é a mensagem de Deus para este tempo”. – Manuscrito 8a, 1888, citado em Olson, op. cit., pág. 274; “Queremos a mensagem do passado e a mensagem nova”. – Review and Herald, 18 de março de 1890; “Estamos no dia da expiação, e devemos trabalhar em harmonia com a obra de purificação do santuário efetuada por Cristo. ... Devemos agora colocar diante do povo a obra que, pela fé, vemos nosso grande Sumo Sacerdote realizar no santuário celestial.” – Review and Herald, 21 de janeiro de 1890; “A obra mediadora de Cristo, os grandiosos e santos mistérios da redenção não são estudados nem compreendidos pelo povo que afirma ter luz à frente de todos os outros povos que habitam a face da Terra. Estivesse Jesus pessoalmente na Terra, e Se dirigiria a grande número dos que professam crer na verdade presente com as mesmas palavras com que Se dirigiu aos fariseus: ‘Errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.’... “Há verdades velhas e, contudo, novas para serem ainda acrescentadas ao tesouro do nosso conhecimento. Não entendemos nem exercemos a fé como deveríamos. ... Não somos chamados para adorar e servir a Deus utilizando os meios empregados em anos anteriores. Deus requer mais elevado serviço agora do que nunca antes. Ele requer o aperfeiçoamento dos dons celestiais. Colocou-nos numa posição em que precisamos de coisas mais elevadas e melhores do que jamais necessitamos antes.” – Ibidem, 25 de fevereiro de 1890; “Temos ouvido Sua voz mais distintamente na mensagem que esteve sendo pregada nestes últimos dois anos. ... Agora começamos a ter um pequeno vislumbre do que é a fé.” – Ibidem, 11 de março de 1890. 21. 1888 Materials, vol. 1, pág. 153; A. V. Olson, Thirteen Crisis Years (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1941), pág. 302. 22. 1888 Materials, pág. 221. 23. Ibidem, pág. 153; também em Olson, Thirteen Crisis Years, pág. 30. 24. Ibidem, pág. 1.575; ver também Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 234 e 235. Esta carta foi publicada pela primeira vez na Review and Herald, 13 de fevereiro de 1952. 25. Review and Herald, edição extra, 23 de dezembro de 1890, pág. 2; A. G. Daniells, Christ Our Righteousness (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1941), 128 páginas. 26. Review and Herald, “Repentance the Gift of God”, 1o de abril de 1890; 22 de novembro de 1892, “The Perils and Privileges of Last Days”; Maxwell, Tell It to the World, págs. 231-241; Olson, Thirteen Crisis Years, págs. 1-320; Schwarz, Light Bearers, págs. 183-197; Spalding, Origin and History, vol. 2, págs. 281303; Arnold V. Wallenkampf, What Every Adventist Should Know About 1888 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1988), págs. 1-92; Robert J. Wieland, The 1888 Message, An Introduction (Nashville, TN.: Southern Publishing Association, 1980), (Paris, OH: Glad Tidings Publishers, 1997), págs. 1-158; Robert J. Wieland e Donald K. Short, 1888 Re-examined, Revised and Updated (Leominster, MA: The Eusey Press, 1987), págs. 1-213; Biography, vol. 3, págs. 385-433. George R. Knight, From 1888 to Apostasy (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 1987). Ver George Knight, Angry Saints. 27. Carta a Ellen G. White, 25 de setembro de 1900, Arquivo de Documento 190 do Patrimônio Literário White. 28. G. A. Roberts, “The Holy Flesh Fanaticism”, Arquivo de Documento 190 do Patrimônio Literário White. 29. General Conference Bulletin, 23 de abril de 1901, págs. 419421; para uma versão abreviada, ver Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 31-35.

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CAPÍTULO 18
CRISES TEOLÓGICAS

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69. Ibidem. 70. Ver págs. 170 e 171. 71. Review and Herald, 25 de maio de 1905, pág. 17 (Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 207). 72. Manuscrito 62, 1905, citado em parte em Biography, vol. 5, págs. 411 e 412. Ellen White escreveu mais de cinqüenta páginas de cartas e manuscritos durante este período crítico. Ver Manuscrito 75, 1905, citado parcialmente em Biography, vol. 5, págs. 425 e 426; Carta 329, 1905 (Mensagens Escolhidas, livro 1, págs. 160-162), citada parcialmente em Biography, vol. 5, págs. 426 e 427; Carta 50, 1906, citada em Biography, vol. 5, págs. 427 e 428; e Manuscrito 125, 1907, citado parcialmente em Biography, vol. 5, pág. 428, no qual Ellen White escreveu: “Qualquer pessoa que procura apresentar-nos teorias que nos desviariam da luz a nós transmitida relativamente ao ministério no santuário celestial não deve ser aceita como professor.” Para um estudo bíblico sobre os textos do livro de Hebreus que Ballenger usava em apoio do seu ponto de vista de que Jesus entrou no Lugar Santíssimo no santuário celestial e para a refutação de seu principal argumento, ver William G. Johnsson, “Day of Atonement Allusions”, F. B. Holbrook, ed., Issues in the Book of Hebrews (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1989), págs. 105-120. 73. Schwarz, em Land, Adventism in America, pág. 109. “As dimensões da crise enfrentada pela igreja entre 1897 e 1911 indicam que, sem a guia do Senhor por meio do Espírito de Profecia, a igreja teria perdido sua mensagem especial ou se teria fraturado irremediavelmente.” – Bert Haloviak, “Pioneers, Pantheists, and Progressives: A. F. Ballenger and Divergent Paths to the Sanctuary”, pág. 52, original inédito, junho de 1980.

30. Ibidem, pág. 422. 31. William H. Grotheer, The Holy Flesh Movement (Florence, MS: Adventist Laymen’s Foundation of Mississippi, Inc., s.d.), págs. 1-65; Ella M. Robinson, S. N. Haskell, Man of Action (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1967), págs. 168-176; Schwarz, Light Bearers, págs. 446-448; Biography, vol. 5, págs. 39, 99, 100-107, 112 e 113. 32. Bull e Lockhart, Seeking a Sanctuary, págs. 56-62. 33. “Antes de completar 17 anos de idade, tive que dar meu testemunho contra elas [opiniões a respeito de Deus parecidas com as encontradas em The Living Temple] perante grandes agrupamentos de pessoas.” – Carta 217, 1903, citada em Biography, vol. 5, pág. 304. 34. Manuscrito 70, 1905, citado em Biography, vol. 5, pág. 281. 35. General Conference Daily Bulletin 1897, pág. 83. 36. General Conference Daily Bulletin 1899, págs. 57, 58 e 119. 37. A freqüente ênfase de Ellen White sobre o tema “Cristo habitando em vós”, aliada à ênfase igualmente pronunciada sobre a concessão do Espírito Santo em cumprimento ao apelo de Pedro de que os cristãos podem tornar-se “participantes da natureza divina” (I Ped. 1:4), foi tirada do contexto. Prevaleceram-se das afirmações dela para forjar o ensino de um Deus imanente que impregna toda a humanidade, tanto a convertida como a não convertida; assim como a idéia de que, ao obedecer às leis da vida, uma pessoa pode tornar-se como Deus, não restando assim nenhuma necessidade do auxílio do poder divino, nenhuma necessidade da morte vicária de Cristo, etc. Por trás tanto do Movimento da Carne Santa como do desenvolvimento panteísta, estava, na mente de alguns, a mudança do processo de santificação que prepararia o povo para um serviço mais completo (o tema da chuva serôdia e do alto clamor) para o Santificador que Se manifestaria de alguma forma física extraordinária. Por exemplo, líderes adventistas de renome estavam ensinando que receber o Espírito significava receber também a cura do corpo assim como da alma, que cabelos grisalhos seriam restaurados à cor natural, que a pessoa verdadeiramente guiada pelo Espírito não morreria! – Ver General Conference Daily Bulletin 1899, págs. 53-58, 119 e 120; Gilbert M. Valentine, The Shaping of Adventism (Berrien Springs, MI: Andrews University, 1992), págs. 159-163. 38. General Conference Daily Bulletin, pág. 157. 39. Certa pesquisa indica que o Dr. Kellogg talvez tenha sugerido a idéia. Os fatos claros são que tanto Daniells como Kellogg pensavam que a idéia do livro era uma solução perfeita para o levantamento de fundos. 40. Prescott alistou as três principais áreas em que ele e Kellogg discordavam profundamente: (1) “uma visão errônea de Deus e do lugar de Sua habitação”; (2) uma religião “que deixa de lado qualquer necessidade da expiação e da obra de Cristo como nosso Sumo Sacerdote no santuário superior”; e (3) “uma falha em reconhecer a diferença entre o pecador e o cristão mediante o ensino de que todo ser humano é um templo de Deus independentemente de sua fé em Cristo”. – Valentine, The Shaping of Adventism, pág. 162. 41. Valentine, The Shaping of Adventism, pág. 151. 42. Carta 300, 1903, e Carta 52, 1903, citadas em Biography, vol. 5, pág. 292. 43. Biography, vol. 5, pág. 293. 44. O jovem Dr. Paulson havia sido particularmente favorecido por Kellogg e estava agora apoiando a “nova luz” de seu benfeitor. Enquanto ele e Daniells voltavam para casa após uma longa discussão, ele abanou o dedo para Daniells, dizendo: “O irmão está cometendo o maior erro de sua vida. Depois que todo este tumulto passar, algum dia desses o irmão vai acordar e dar consigo revolvendo-se no pó, enquanto outro estará liderando a corporação.” Daniells endireitou-se e replicou: “Não creio em sua profecia. De qualquer modo, eu preferiria revolver-me no pó fazendo o que meu coração acre-

dita ser correto a andar como príncipe fazendo o que minha consciência diz ser errado.” – Daniells, Abiding Gift of Prophecy, págs. 336 e 337. No dia seguinte, o Dr. Paulson ficou profundamente impressionado com as mensagens de Ellen White lidas no Concílio, e reconheceu que estivera longe de Deus. Ele e sua esposa fundaram o Hinsdale Sanitarium. O Dr. Paulson tornou-se um exemplo notável de fé viva e um resoluto defensor do ministério de Ellen White. 45. Review and Herald, 22 de outubro de 1903; ver também Carta 216, 1903, citada em Biography, vol. 5, págs. 298 e 299. 46. Biography, vol. 5, pág. 300. Para outros exemplos da exatidão do tempo das visões de Ellen White, ver o capítulo 15. 47. Ibidem, págs. 299-302. 48. Carta 230, 1903, citada em Biography, vol. 5, pág. 303 (Evangelismo, pág. 602). Ver também Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, págs. 290-304. 49. Shaw, “A Rhetorical Analysis of the Speaking of Mrs. Ellen G. White”, págs. 315 e 316. Conquanto alinhados com algumas pessoas em determinados pontos de vista, muitos líderes não apoiavam essas mesmas pessoas em outros pontos. Embora Kellogg, Sutherland, Magan, Jones e Waggoner fossem “reformadores”, Sutherland e Magan não apoiavam Kellogg e outros em suas idéias panteístas. 50. Biography, vol. 5, pág. 336. 51. Ibidem, pág. 334. 52. Ibidem, pág. 338. 53. Páginas 255-335. 54. Páginas 409-466. Para os antecedentes da crise panteísta, ver A. G. Daniells, The Abiding Gift of Prophecy, págs. 340-342; Maxwell, Tell It to the World, págs. 214-216; Schwarz, Light Bearers, págs. 288-292; Schwarz, “The Perils of Growth”, em Land, Adventism in America, págs. 133-138; Spalding, Origin and History, vol. 3, págs. 130-144; Valentine, The Shaping of Adventism, págs. 145-166; Biography, vol. 5, págs. 402-404. 55. Ver pág. 262. Ver também “A Elipse da Verdade”, págs. 260 e 573. 56. Ver O Grande Conflito, pág. 488. 57. Schwarz, Light Bearers, pág. 188. 58. O Desejado de Todas as Nações, pág. 805. 59. A. T. Jones, redator da Review, concluía regularmente seus editoriais com as seguintes palavras: “Recebei o Espírito Santo.” Os oradores das reuniões campais do fim da década de 1890 apresentavam geralmente este enfoque paracletocêntrico. Provavelmente o mais eloqüente desses oradores foi A. F. Ballenger, um conferencista muito solicitado para reavivamento nas igrejas. Sua influência em Indiana repercutiu no Movimento da Carne Santa. 60. Carta 269, 1903, citada em BR, vol. 10, págs. 356 e 357. 61. Review and Herald, 5 de outubro de 1897, pág. 629; ver artigos relacionados nas págs. 411, 523 e 624; ver também General Conference Daily Bulletin, 1899, pág. 96. 62. Evangelismo, págs. 695 e 696; Testemunhos Para a Igreja, vol. 6, págs. 9-13. Ver também Parábolas de Jesus, págs. 69, 414416; Review and Herald, 31 de março de 1910, págs. 3 e 4. 63. Review and Herald, 3 de maio de 1898, pág. 288; “A cura física não é agora a verdade presente dos adventistas do sétimo dia”. – Ibidem, 4 de outubro de 1898, pág. 637; “O dom de curar... aparecerá quando recebermos o Espírito Santo, e não antes”. – Ibidem, 15 de novembro de 1898, pág. 740. 64. Mat. 8:17, citando Isa. 53:4: “Certamente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si.” 65. Signs of the Times, 13 de junho de 1900, pág. 371. 66. MR, vol. 21, págs. 57 e 58. 67. Review and Herald, 25 de maio de 1905, pág. 17. 68. Manuscrito 59, 1905, citado em Biography, vol. 5, pág. 408. Em 1891, A. F. Ballenger, o principal porta-voz que contendia por uma mudança na administração da American Sentinel, foi um dos líderes na Associação Geral em Battle Creek que confessaram publicamente seu erro e reafirmaram sua confiança na integridade do ministério de Ellen White – ver pág. 188.

Perguntas Para Estudo

1. Quais foram as questões básicas que dividiram os delegados na Associação Geral de Mineápolis em 1888? 2. Quais as questões básicas em jogo no Movimento da Carne Santa, e como Stephen Haskell e Ellen White diminuíram o perigo do problema? 3. Quais as questões básicas envolvidas na crise do panteísmo em princípios da década de 1900? 4. Qual o erro fundamental que ligou J. H. Kellogg, A. F. Ballenger e, posteriormente, E. J. Waggoner? 5. Por que Ellen White considerou as apresentações dos Pastores Jones e Waggoner em 1888 uma “preciosa mensagem”, “uma mensagem nova” que apresentava a voz de Deus de maneira mais distinta?

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CAPÍTULO

O ministério profético de Ellen G. White

Evangelismo Regional e Relações Raciais
“A concepção que vocês têm sobre a obra precisa ser grandemente alargada.”1

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s adventistas sabatistas estavam na década de 1840 grandemente empenhados em ajudar seu pequeno grupo a entender melhor o significado do Desapontamento de 1844.2 Os primeiros líderes estimulavam outros mileritas a não negarem sua experiência com o Advento. Apresentavam energicamente sua nova compreensão a respeito do ministério de Cristo no santuário celestial e a ligação do sábado do sétimo dia com o contexto mais amplo das mensagens dos três anjos de Apocalipse 14. Compreensivelmente, seu senso de missão foi frustrado por reações hostis tanto do público em geral depois do “constrangimento” de 22 de outubro de 1844, como dos mileritas observadores do domingo que amargamente rejeitavam a nova ênfase do sábado. Parecia que uma cortina de gelo isolava agora os primeiros adventistas sabatistas, levando-os à convicção de que, de certa forma, a porta da misericórdia se fechara para aqueles que haviam rejeitado as implicações mais profundas da mensagem milerita de 1844.3 Mas o senso de missão que envolvia a responsabilidade adventista de proclamar a mensagem ao mundo logo mudou. A influência e a clareza da jovem Ellen White foram a razão principal da mudança da mentalidade da “porta fechada” dos primeiros adventistas sabatistas para a mentalidade da responsabilidade de concluir a comissão evangélica. De fato,

“as visões de E. G. White tiveram profunda influência sobre as novas interpretações teológicas bem como sobre a consciência missionária que surgia; sem sua influência era improvável a sobrevivência dos primeiros adventistas sabatistas neste período de tumulto”.4 O senso (teologia) adventista de missão, que na época estava em desenvolvimento, deixou (mas não renunciou) de (1) reafirmar a experiência do Advento de 1844, para (2) restaurar determinadas doutrinas bíblicas negligenciadas que precisavam ser recolocadas no “evangelho eterno” e (3) reconhecer que este evangelho restaurado devia ser pregado a todo o mundo antes da volta de Jesus.5 Junto com a firme proclamação coerente da breve vinda de Jesus por parte do adventismo, estava seu princípio motivador e propulsor de restauração.6 Este princípio encerrava mais do que uma integração teológica dos ensinamentos bíblicos restaurados; incluía “o contexto da restauração física e espiritual do homem como a preparação necessária para a volta de Cristo”.7 Ellen White foi a principal porta-voz do princípio de restauração que deu forma à escatologia adventista.8 A ênfase teológica na restauração diferencia os adventistas do sétimo dia de outros grupos religiosos que enfatizam a proximidade ou até mesmo a iminência da Segunda Vinda. A teologia adventista do Advento continua a atrair os que querem “que sua vida tenha

sentido”. Em um estudo realizado pelo Instituto Ministerial da Igreja (Universidade Andrews), “setenta por cento dos novos crentes, segundo pesquisa realizada na Associação Geórgia-Cumberland, disseram que foram mais atraídos para a igreja pela ‘verdade e beleza de seus ensinamentos’. ... Poucas pessoas são atraídas para igrejas cuja teologia é cercada de condições. O evidente apelo ideológico do adventismo também pode ser uma função da visível certeza teológica da igreja.”9 Nos primeiros anos, os adventistas levaram a sério sua missão “mundial”, embora a tenham interpretado de forma limitada. A princípio eles criam que, “se a terceira mensagem angélica fosse pregada por todos os Estados Unidos, a mensagem teria sido assim pregada a todo o mundo”.10 Como podia ser isto? Uriah Smith, que se batia pelo conceito, concluía que, embora “não tenhamos informações de que a Terceira Mensagem está neste momento sendo proclamada em outro país além do nosso... nossa própria terra é composta de pessoas de quase todas as nações”.11 Até 1872, os adventistas em geral acreditavam que Mateus 24:14 estava sendo cumprido na rápida expansão das missões protestantes.12 Mas Ellen White estava sendo usada por Deus para elevar a visão da florescente denominação adventista. Na visão recebida em 1848, em Dorchester, Massachusetts, ela contou ao marido Tiago que ele devia começar um periódico e que “desde este pequeno começo foi-me mostrado assemelhar-se a torrentes de luz que circundavam o mundo”.13 Tal conceito parecia absurdo para as pessoas daquela época.14 Durante a década de 1850, os adventistas que tinham familiares ou amigos na Europa começaram a enviar-lhes literatura, e em pouco tempo encontravam-se grupos de guardadores do sábado no “velho” mundo. Em 1864, M. B. Czechowski, um adventista desde 1858, partiu para a Europa levando consigo suas convicções recém-descobertas. Isso levou finalmente à organização de um grupo de crentes observadores do sábado em Tramelan, Suíça.15 Em 1874, estimulada pelo interesse europeu, a Associação Geral enviou para a Suíça

a família de J. N. Andrews, os primeiros missionários oficiais da denominação para o estrangeiro. Ellen White comentou depois que Andrews era “o homem mais capaz em nossas fileiras”.16 Três anos depois, a família de John G. Matteson foi enviada para a Escandinávia a fim de reforçar o interesse na mensagem dos três anjos que fora despertado pela literatura.17 Por volta de 1890 havia missionários adventistas em aproximadamente 18 países, incluindo diversas nações européias, África, Rússia, Austrália, Índia e África do Sul. Durante esse tempo Ellen White esteve educando a igreja. Em 1871, em uma mensagem baseada numa visão do dia 10 de dezembro, ela apelou: “Os jovens devem se habilitar mediante a familiarização com outras línguas, a fim de que Deus os possa usar como instrumentos para comunicar Sua salvadora verdade aos povos de outras nações. ... Precisa-se de missionários que vão a outras nações para pregar a verdade de maneira ponderada e cuidadosa.”18 Em 1874, ela teve “um sonho impressionante” de “proclamar a terceira mensagem angélica ao mundo”. No sonho disseram-lhe que os adventistas estavam “alimentando idéias muito limitadas acerca da obra para este tempo. Vocês estão tentando planejar a obra de modo que possam envolvê-la com os braços. ... Muitos países estão esperando a luz avançada que o Senhor tem para eles. ... A concepção que vocês têm sobre a obra precisa ser grandemente expandida.”19 Dirigida por seu senso de missão, Ellen White passou dois anos na Europa, 18851887. Esses anos são minuciosamente historiados em Ellen G. White in Europe, 18851887.20 Assim como estivera ela intimamente envolvida na expansão do movimento do Advento na América do Norte, agora tinha muito que fazer para estabelecer a obra na Europa em princípios firmes. Não foi fácil trabalhar com muitas línguas e nacionalidades, mas sua instrução naquela época sobre como promover unidade e boa vontade tem sido, desde aquele tempo, bastante salutar pa-

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ra as relações culturais nacionais e internacionais.21 L. H. Christian, que foi administrador na Europa entre 1922 e 1936, escreveu: “O movimento do advento na Europa jamais teria sido o mesmo não fosse pela visita dela.”22 Ellen White era uma pessoa de mentalidade globalizada. A “maneira” como Mateus 24:14 se cumpriria, ela deixava nas mãos de Deus: “Deus fará o trabalho, se Lhe fornecermos os instrumentos.”23 Aquela que viu as “torrentes de luz” circundando o mundo em 1848, quando havia pouco mais de cem adventistas sabatistas, nunca desistiu daquela visão de um mundo iluminado pelas mensagens dos três anjos. Ela impeliu a igreja a propagar sua mensagem, estimulando-a a ser mais abrangente no cumprimento de sua então titubeante missão.24 Defensora Dinâmica do Evangelismo Público O treinamento deve preceder a prática. Nos dois anos que passou na Europa (1885-1887), a Sra. White deu àqueles que estavam abrindo novos campos evangelísticos sugestões claras e comprovadas de como serem mais eficientes. Uma das primeiras lições aprendidas nos Estados Unidos era a de que obreiros despreparados e inexperientes, não importando quão fervorosos fossem, não honravam a Deus com métodos ineficientes. Na quinta assembléia do Concílio Europeu (1887), realizado em Moss, Noruega, ela aconselhou: “Poderia haver-se realizado obra muito maior, caso nossos irmãos tivessem se dado ao trabalho, mesmo com grandes despesas, de instruir os licenciados antes de os enviarem para o campo de trabalho. Eles receberam permissão para colocar seu dom à prova. Não se acompanharam de obreiros experientes, mas saíram sozinhos. ... Não progrediram, nem exercitaram suas faculdades para tornarem-se homens capazes nas Escrituras.”25 A Sra. White não costumava substituir o entusiasmo pelo devido preparo ministerial: “Se os rapazes desejarem entrar para o campo [ministério público], não os desanimem de maneira nenhuma; mas deixem que aprendam o ofício primeiro.”26 Conforme Tiago White declarou, era sempre “uma vergonha para os adventistas do sétimo dia fazer um trabalho de segunda classe”.27

Importância de começar direito. Para Ellen White, as primeiras impressões eram importantes. Aqueles que representam a Igreja Adventista publicamente devem estar preparados tanto espiritual como profissionalmente, do contrário sua obra não seria permanente: “Há premente necessidade de que o trabalho em novos campos comece da maneira correta e traga o cunho divino. Muitos nesses novos campos estarão em perigo de aceitar a verdade ou com ela concordar que não têm uma genuína conversão de coração. Quando provados pela tormenta e tempestade, descobrirse-á que sua casa não foi edificada sobre a rocha, mas sobre areia movediça. O pastor deve possuir piedade prática e desenvolvê-la em sua vida diária e caráter. Seus sermões não devem ser exclusivamente teóricos.”28 “Começar direito” significa também causar boa impressão escolhendo bem o local de reunião;29 evitando “representações teatrais” e “notícias sensacionalistas... para despertar temores;”30 publicando artigos na “imprensa secular;”31 relacionando-se “com os pastores das várias igrejas;”32 mantendo suas mensagens “a par com os tempos;”33 trajando-se os pastores “de maneira adequada à dignidade de sua posição”34 e evitando os pastores tudo quanto possa ser considerado inculto em qualquer atitude ou comportamento que “cause aborrecimento ao auditório”.35 As apresentações públicas devem refletir o espírito e maneiras de Jesus. Um dos alvos do Espírito de Profecia é que Jesus seja exaltado e refletido em todos os empreendimentos de conquista de almas. Seja qual for o assunto que Ellen White discuta, o leitor é impressionado com o sentimento predominante de que Cristo é não somente nosso Salvador, mas também nosso Exemplo em todas as coisas. Seu modo de conquistar almas, seja levando indivíduos à salvação, seja dirigindo multidões para o Céu, oferece métodos claros e comprovados de eficiência evangelística. No capítulo “Nosso Exemplo”, no livro A Ciência do Bom Viver, Ellen White descreve como Jesus procurava chegar até as pessoas na condição em que se achavam. Escreve ela: “Buscava acesso ao povo por meio de suas mais familiares relações.”36 Ela freqüentemente enfatizava que é “indispensável compreender e seguir os corretos métodos de en-

sino de Cristo, bem como imitar-Lhe o exemplo”.37 O exemplo de Cristo compreendia: evitar “controvérsia”;38 identificar-Se “com os interesses e a felicidade”39 de cada pessoa; observar “a fisionomia dos ouvintes... a qual revelava haver a verdade atingido o íntimo”;40 falar com “simplicidade”, sem apresentar-lhes “muitas coisas de uma vez, para não lhes confundir a mente”, mas tornar cada ponto “claro e distinto”; apelar a todos os níveis intelectuais e sociais revestindo Suas mensagens “de tal beleza que interessavam e cativavam os maiores intelectos”;41 dosar Sua instrução à medida que o auditório estava pronto para recebê-la, restringindo “muitas coisas a cujo respeito Sua sabedoria O manteve sigiloso”.42 Levar o evangelho ao público em geral, inclusive a muita gente decepcionada com experiências religiosas anteriores, requer tato na seleção da seqüência dos assuntos a serem apresentados. Ellen White ensinou o caminho pelo exemplo e por persistente instrução. Ao enfatizar a necessidade de tato, ela escreveu: “Quando encontrarem pessoas que, como Natanael, estão prevenidas contra a verdade, não insistam muito fortemente em seus pontos de vista peculiares. Falem a princípio com elas de assuntos em que vocês possam concordar. ... Tanto vocês quanto elas serão levados a mais íntima ligação com o Céu, enfraquecer-se-á o preconceito, e será mais fácil chegar ao coração.”43 Ela elogiou as irmãs da igreja que se associavam à União Feminina de Temperança Cristã, insistindo com elas para que mostrassem possuir a “luz da vida” sobre “assuntos em que vocês podem estar de acordo”.44 Em muitas ocasiões Ellen White foi convidada a falar ao público em geral através de toda a América do Norte. Geralmente, ela escolhia os temas da temperança cristã e da piedade prática, desenvolvendo os assuntos de uma forma que comovesse profundamente seus ouvintes. Sabia que, iniciando com um assunto neutro e atual, conseguiria captar a benévola atenção dos ouvintes, favorecendo a apresentação posterior de mensagens mais

distintivas. Ela conhecia os princípios das boas relações públicas.45 Destacada Defensora do Evangelismo Urbano. Alguns podem perguntar como e por que uma mulher tão atarefada como Ellen White se envolveria em técnicas evangelísticas. Contudo, muitas são as mensagem escritas para líderes denominacionais e destacados evangelistas focalizando os métodos de ganhar almas em zonas urbanas.46 Por exemplo, seu conselho sobre evangelismo público, especialmente nas grandes cidades do mundo, levaram a novas atitudes para com o evangelismo urbano: “Achamo-nos reprovados diante de Deus em virtude de as cidades grandes, mesmo ao alcance de nossos olhos, estarem por trabalhar e por advertir. ... Não temos feito demais pelos campos estrangeiros, mas, comparativamente, não temos feito nada pelas cidades grandes que se acham à nossa própria porta.”47 Stephen e Hetty Haskell foram talvez os principais expositores do programa de Ellen White para alcançar as massas. Venda de livros de porta em porta, estudos bíblicos domiciliares, reuniões de obreiros para instrução sobre evangelismo pessoal, utilização da educação de saúde para despertar o interesse público, estudos bíblicos impressos, revistas evangelísticas, contato com líderes comerciais e profissionais, escolha de lugares adequados para as reuniões públicas – tudo isso foi usado na campanha levada a efeito por Haskell na cidade de Nova Iorque no começo da década de 1900.48 A liderança denominacional, preocupada com as diversas crises existentes na época, negligenciou a repetida ênfase de Ellen White sobre o evangelismo urbano. Mas ela não se deteve. Para ela, não apenas muitos milhões de pessoas estavam descendo à sepultura sem serem advertidos, mas também a pregação da tríplice mensagem angélica de Apocalipse 14 estava sendo gravemente prejudicada.49 Em 1909, ela enfrentou a questão com firmeza: o primeiro escalão da igreja, incluindo

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A. G. Daniells, presidente da Associação Geral, e W. W. Prescott, redator da Review, devia sair à frente no evangelismo público! Crendo que o conselho transmitido a esses irmãos em 1909 havia produzido apenas uma reação simbólica, em 1910 ela lhes escreveu com mais severidade: “Fui encarregada de transmitir aos irmãos a mensagem de que ambos precisam humilhar o coração perante Deus. Nem o Pastor Prescott nem o Pastor Daniells se acham preparados para dirigir a obra da Associação Geral, pois têm, em algumas coisas, desonrado ao Senhor Deus de Israel. ... Durante a última reunião em Washington, D.C., da qual participei, algumas coisas me foram reveladas claramente. ... A obra nas cidades não tem feito o progresso que deveria. ... Caso o presidente da Associação Geral estivesse completamente alerta, poderia ter visto a situação. Mas ele não entendeu a mensagem que Deus enviou. ... Não posso mais ficar calada.”50 Prescott fez planos para a obra evangelística, mas uma série de tragédias familiares se abateu sobre ele. Sua saúde ficou seriamente prejudicada. Com o passar do tempo, novas responsabilidades editoriais acabaram por ocupar-lhe o tempo.51 Daniells teve dificuldade em organizar suas responsabilidades administrativas. Durante esses meses, Ellen White escreveu para ele: “Redima o tempo perdido nos nove anos passados levando adiante agora a obra em nossas cidades, e o Senhor o abençoará e sustentará.”52 Essa constante insistência junto ao presidente da Associação Geral e a outros resultou em uma explosão de evangelismo urbano adventista nos anos que se seguiram.53 Dando o Exemplo nas Relações Raciais À semelhança do que aconteceu com muitas outras questões denominacionais importantes, Ellen White tomou a dianteira em registrar as dimensões morais envolvidas nas relações raciais, bem como nas sugestivas abordagens pragmáticas para resolver problemas durante tempos difíceis. Richard Schwarz escreveu que isso “levou Ellen White a fazer uma séria admoestação no sentido de despertar os adven-

tistas para compreender seu dever de compartilhar sua fé com os afro-americanos”.54 Antes de partir com destino à Austrália, na assembléia da Associação Geral de 1891, realizada em Battle Creek, a Sra. White fez seu primeiro apelo público em prol de um trabalho evangelístico entre os negros norteamericanos.55 Compreendendo as crescentes restrições que estavam sendo aplicadas aos negros por todos os Estados sulistas, ela reconheceu estar penetrando num tema explosivo, “mas não pretendo viver como uma covarde nem morrer como uma covarde”.56 Ela salientou que “o nome do negro é escrito no livro da vida, ao lado do nome do branco. ... Nascimento, posição, nacionalidade ou cor não podem elevar nem degradar os homens.” Além disso, os que “menosprezam um irmão por causa de sua cor estão menosprezando a Cristo”. Depois, ela abordou a negligência da igreja, reconhecendo com pesar que não temos “feito maior esforço pela salvação de almas entre os negros”. Admitiu que estava fazendo referência a “questões embaraçosas”; que se precisava de adventistas tanto brancos quanto negros para instruírem milhões que haviam sido “espezinhados” por tanto tempo; e que os obreiros da igreja no Sul “não devem levar as coisas a extremo e descambar para o fanatismo nesta questão”.57 Um dos primeiros a sentir o desafio foi James Edson White, filho de Ellen White.58 Impressor gráfico e criativo compositor de hinos, enérgico e culto, Edson associou-se a Will Palmer na produção do livro The Gospel Primer, que seria usado para (1) levantar fundos, (2) ensinar analfabetos a ler e (3) ensinar as verdades bíblicas em linguagem simples. Sabendo que não seriam bem-vindos entre os brancos sulistas, especialmente se vivessem entre os negros, construíram um navio fluvial (chamado Morning Star [Estrela da Manhã]), que durante vários anos foi para eles casa, oficina gráfica e capela. Esse esforço conjunto para ajudar a cumprir os alvos do apelo feito em 1891 por Ellen White foi avante com pouco apoio de recursos denominacionais. Mas a tenacidade de Edson, aliada

ao estímulo de sua mãe, trouxe como resultado o estabelecimento da presença adventista do sétimo dia junto ao rio Yazoo, em Nashville, Tennessee, e em Vicksburg, Mississippi.59 A Sra. White encarava a questão da barreira racial em dimensões mais amplas do que a maioria de seus contemporâneos. Em uma série de dez artigos publicados na Review and Herald,60 depois que Edson havia iniciado essa obra, ela apelou para os membros da igreja: “Nenhuma mente humana deve procurar traçar a linha entre quem é negro e quem é branco. Que as circunstâncias indiquem o que deve ser feito, pois o Senhor tem na mão a alavanca das circunstâncias. Quando a verdade exercer impacto sobre a mente tanto de negros como de brancos, quando as pessoas forem inteiramente convertidas, elas se tornarão novos homens e mulheres. ... Os convertidos dentre os da raça branca experimentarão uma mudança em sua maneira de pensar. O preconceito que havia herdado e cultivado para com a raça negra desaparecerá.”61 Ellen White encerrou o primeiro artigo da série de dez com um apelo e uma advertência: “Como um povo devemos fazer mais em prol da raça negra na América do Norte do que já temos feito. Neste trabalho precisaremos agir com cautela, dotados com sabedoria celestial.”62 Os nove artigos restantes voltaram a enfatizar os conceitos gerais do primeiro artigo, com várias sugestões sobre como as famílias brancas deviam mudar-se para o Sul a fim de compartilhar com os negros o que sabiam de agricultura e de outros ofícios. O objetivo era levar os negros a estabelecerem seus próprios programas de auto-ajuda. Mas o tempo e as circunstâncias logo mudaram. Os últimos anos do século dezenove e a primeira década do século vinte viram todas as conquistas que os negros haviam obtido desde a abolição revertidas violentamente. Surgiu durante este período o rígido e vergonhoso sistema de segregação, dando início ao que se chamou de a “traição dos negros”. Alguns se referem a este período como “a longa noite escura”, que durou até 1923.63 Em 1913, o presidente dos Estados Unidos ainda praticava a segregação em repartições

federais na capital da nação. Em 1890 o Mississippi tomou a iniciativa de eliminar o direito de voto dos negros; sete Estados logo seguiram o seu exemplo. O linchamento tornou-se um fenômeno racial sulista; alguns negros foram queimados vivos em fogueiras. Tanto no Norte como no Sul ocorreram grandes revoltas raciais. Ellen White se contradisse? Será que ela estava se acomodando às circunstâncias quando disse aos membros da igreja, brancos e negros, em 1908, que os negros não deviam esperar nem exigir igualdade social e que negros e brancos deviam adorar em prédios separados? Isso certamente dá a impressão de uma Ellen White bem diferente daquela líder corajosa e perspicaz da primeira metade da década de 1890! Podemos contestar essa crítica contra Ellen White observando-se os seguintes fatores: 1. Seu filho, Edson, estava nessa época demonstrando os princípios defendidos por sua mãe. Ele e seus companheiros estavam trabalhando em meio a tenebrosas sombras enquanto a segregação racial “Jim Crow” varria o Sul. A mãe de Edson mantinha estreito contato com ele e podemos, por meio da correspondência trocada entre eles, compreender onde estava o coração dela. Mãe e filho, quase sozinhos, durante tempos dificílimos, mostraram à Igreja Adventista como iniciar o trabalho nos Estados do Sul. 2. As circunstâncias em rápida mudança nos Estados do Sul exigiam um conselho oportuno e sem ambigüidade por parte da mensageira de Deus, que conseguia ver o amplo quadro que se desenvolvia. Ellen White nunca defendeu a antecipação do tempo de angústia.64 Reconhecia que o alvorecer de um dia melhor iluminaria por fim aquela noite escura de vergonhosa opressão contra os negros, mas também admitia que, “para este tempo”, eles deviam ser “‘prudentes como as serpentes e simples como as pombas’”. As medidas preventivas defendidas por Ellen White devem ser seguidas “até que o Senhor nos mostre um melhor caminho”.65 Ela pedia ânimo porque “Deus está estendendo Seu braço a fim de realizar uma obra poderosa

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melhantes a Cristo. ... Ninguém pense que não tem necessidade de golpe algum. Não existe pessoa nem nação que seja perfeita em todos os seus costumes e pensamentos. Uma precisa aprender da outra. Por isso, Deus quer que as diversas nacionalidades se amalgamem para chegarem a ser um só povo em suas maneiras de ver e propósitos. Será, assim, exemplificada a união que há em Cristo. ... Irmãos, contemplem a Jesus; imitem-Lhe as maneiras e o espírito, e não terão dificuldade alguma para alcançar esses diferentes tipos de pessoas. Não temos seis modelos para copiar, nem cinco; temos apenas um, Jesus Cristo. ... Eu os exorto, irmãos e irmãs, a não erguer um muro de separação entre as diferentes nacionalidades. Ao contrário, tratem de derrubá-lo, onde existir.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 179-181 (Testemunhos Seletos, vol. 3, págs. 378-380). 22. Christian, Fruitage of Spiritual Gifts, págs. 161 e 162. “Por muitos e muitos anos, nossos membros e seus filhos na Inglaterra, Suíça, Noruega, Dinamarca e Suécia nunca se cansaram de falar sobre a Sra. White. E quando, algumas vezes, em anos posteriores, alguns apóstatas ridicularizavam e faziam pouco caso do dom de profecia e da serva de Deus, nosso povo dizia: ‘Não concordamos com vocês. Nós a ouvimos falar. Temos testemunhado sua vida humilde, piedosa e inspiradora. Possuímos os seus livros, os quais concordam com a Bíblia e aprofundam nosso amor por Jesus.’” 23. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 107 (Testemunhos Seletos, vol. 3, pág. 341). 24. Maxwell, Tell It to the World, págs. 174-183; Emmet K. VandeVere, “Years of Expansion, 1865-1885”, em Land, Adventism in America, págs. 87-94; Schwarz, “The Perils of Growth, 1886-1905”, em Land, ibidem, págs. 116-119; Spalding, Origin and History, vol. 2, págs. 191-212. 25. Manuscrito 34, 1887, citado em Biography, vol. 3, pág. 369. 26. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, págs. 437-448. Os estudantes do Battle Creek College devem alcançar “mais elevada norma de cultura intelectual e moral” do que poderia ser encontrada em “qualquer outra instituição da espécie em nossa terra”. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 425. 27. Review and Herald, 24 de maio de 1877, pág. 164. 28. Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pág. 321. 29. Evangelismo, pág. 126; Delafield, Ellen G. White in Europe, pág. 99. 30. Evangelismo, págs. 136-139. 31. Ibidem, pág. 129. 32. Ibidem, pág. 143. 33. Ibidem, pág. 151. 34. Ibidem, págs. 145 e 673. 35. Ibidem, pág. 145. 36. A Ciência do Bom Viver, págs. 22 e 23. 37. Evangelismo, pág. 53. “Aprendam Seus métodos. Muito nos instruiremos para nosso trabalho, mediante o estudo dos métodos de trabalho de Cristo, bem como a maneira de Ele Se aproximar do povo. ... As palavras do Mestre eram claras e distintas, e foram pronunciadas com simpatia e ternura. Elas eram portadoras da certeza de que eram a verdade. Foi a simplicidade e fervor com que Cristo trabalhou e falou que atraiu a Si tantos ouvintes.” – Ibidem, pág. 53. 38. Ibidem, págs. 59, 172, 339, 340, 162 e 304; O Desejado de Todas as Nações, pág. 253. 39. A Ciência do Bom Viver, págs. 22-24. 40. Evangelismo, pág. 55. 41. Ibidem, pág. 56. 42. Ibidem, pág. 57. 43. Ibidem, pág. 446; “Apresentem a Jesus porque vocês O conhecem como seu Salvador pessoal. Deixem que Seu amor enternecedor, Sua graça preciosa jorrem dos lábios humanos. Não precisam apresentar pontos doutrinários a menos que sejam interrogados.” – Ibidem, pág. 442. 44. Beneficência Social, pág. 164. 45. Os sermões sobre temperança/saúde serão “um instrumento pelo qual a verdade pode ser apresentada à atenção dos não crentes. Eles raciocinarão que, se temos idéias tão sãs relativamente à saúde e à temperança, deve haver em nossa crença religiosa alguma coisa digna de investigação.” – Evangelismo, pág. 514. 46. Evangelismo, págs. 384-428; ver Howard B. Weeks, Adventist Evangelism in the Twentieth Century (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1969). 47. Ibidem, págs. 401 e 402. 48. Ella M. Robinson, S. N. Haskell, Man of Action, (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1967), págs. 177-195. Um dos princípios evangelísticos de Ellen White que Haskell levou a sério foi: “Caso houvesse metade dos sermões e duplicado esforço pessoal fosse feito pelas pessoas em seus lares e nas congregações, ver-se-ia surpreendente resultado.” – Evangelismo, pág. 430. 49. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 97-108; Review and Herald, 1o de julho de 1909. 50. Carta 58, 1910, citada em Biography, vol. 6, pág. 225; MR, vol. 6, págs. 73-77; vol. 10, págs. 362-364. 51. Valentine, The Shaping of Adventism, págs. 197-214. 52. Carta 68, 1910, citada em Biography, vol. 6, pág. 229; págs. 219-230; MR, vol. 19, págs. 123 e 124. 53. Schwarz, Light Bearers, págs. 336-341. 54. Schwarz, ibidem, pág. 235. 55. Por questão de coerência, empregamos neste livro os termos afro-americanos para negros, e caucasianos para brancos. Em seu esclarecedor livro sobre as relações raciais adventistas, publicado em 1970, Ron Graybill discute os diversos termos que designam as duas principais raças dos Estados Unidos: “Ellen White geralmente usava o termo ‘colored’ [negro] com referência aos de descendência africana, mas também ‘black’ [negro] e ‘negro’ [negro]. Algumas vezes ela chegava mesmo a referir-se a eles como ‘raça do Sul’ e ‘povo sulista’, bem como usava ‘obra sulista’ e ‘campo sulista’ para ‘a obra em favor dos negros’ no Sul.” – E. G. White and Church Race Relations (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1970), pág. 11. 56. The Southern Work (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1966), pág. 10. 57. Ibidem, págs. 12-18. 58. Schwarz, Light Bearers, pág. 236. 59. Ibidem, págs. 237-242. 60. Review and Herald, 2 de abril de 1895, 26 de novembro a 24 de dezembro de 1895, 14 de janeiro a 4 de fevereiro de 1896; também encontrado em Southern Work, págs. 19-65. 61. Review and Herald, 2 de abril de 1895, pág. 210. 62. Ibidem. 63. Graybill, Ellen G. White and Church Race Relations, pág. 18. Durante essa noite tenebrosa para os negros do Sul, Ellen White escreveu em 1908 advertências que alarmaram algumas pessoas que as leram, anos depois, sem entender as mudanças assustadoras que haviam ocorrido subseqüentemente às suas vigorosas e positivas declarações de 1895. Relembrou, por exemplo, aos líderes que, da Austrália, anos antes, ela advertira sobre a explosão da crise da barreira racial e como em pouco tempo afetaria a obra evangelística nos Estados do Sul. Ela preveniu: “Os obreiros não deviam fazer nenhum discurso político, e que a mistura de brancos e negros em igualdade social não devia de maneira nenhuma ser encorajada. ... Afirmei claramente que a obra em favor dos negros teria que seguir linhas de ação diferentes daquelas seguidas em algumas regiões do país em anos anteriores. Que seja dito o mínimo possível sobre a barreira racial, e que os negros trabalhem principalmente em favor dos de sua própria raça. Quanto a brancos e negros adorarem no mesmo edifício, isto não pode ser seguido como um costume geral proveitoso para ambos os grupos – principalmente no Sul. ... Isto é particularmente necessário no Sul, a fim de que o trabalho em favor dos brancos possa ser levado avante sem graves obstáculos. Providenciese para os crentes negros templos limpos e de bom gosto. Mostre-se a eles que isso é feito não para excluí-los da adora-

neste campo missionário, dentro das fronteiras de nossa própria nação”.66 3. O conselho de Ellen White durante esse período aterrador da história dos Estados Unidos revela sabedoria mais do que humana. Flexibilidade é sinal de sabedoria quando o tempo e as circunstâncias mudam. Embora o fato de morar na Austrália a houvesse impedido de ler os jornais desse período, ela via claramente as implicações da nova opressão contra os negros. Se atitudes “erradas” adotadas no trabalho em prol dos negros fossem interpretadas desfavoravelmente pelos brancos, a obra evangelística em favor destes corria perigo. Se os brancos inamistosos achassem que os negros estavam indo além de sua esfera social ao atenderem os evangelistas brancos, os negros estariam em perigo ainda maior.67 O conceito maior que Ellen White sempre manteve diante da igreja consistia em honrar a Deus mediante firme progresso em alcançar as pessoas sinceras, fossem elas brancas ou negras, ainda que o ritmo, às vezes, fosse retardado devido a circunstâncias imediatas. Sua predição de que aqueles tempos mudariam trouxe com certeza esperança para os que lutavam durante a noite escura. 4. A instrução que Ellen White ministrou à igreja, por preceito e por exemplo, preparou o caminho para os adventistas trabalharem nos Estados do Sul quando as circunstâncias se alteraram: (a) Ela cria na igualdade de toReferências
1. Life Sketches of Ellen G. White, pág. 289. 2. Provavelmente os adventistas sabatistas não contavam mais de 100 em 1849. Por volta de 1852, seu número aumentou para 250; por volta de 1863, quando a Igreja Adventista do Sétimo Dia foi organizada, os membros chegavam a 3.500. – Bull e Lockhart, Seeking a Sanctuary, págs. 111 e 112. 3. Damsteegt, Foundations, págs. 163 e 164. 4. Ver capítulo 44: “The Shut Door – a Case Study”. 5. Damsteegt, Foundations, pág. 295. 6. Ibidem. 7. Ibidem, pág. 296. “Nesta missão de restauração, o conceito da missão divina era reconhecido enquanto a função humana era colocada no contexto de uma cooperação divino-humana.” – Ibidem. 8. Ibidem, pág. 270. 9. Bull e Lockhart, Seeking a Sanctuary, pág. 117. 10. Spalding, Origin and History, vol. 2, pág. 194; Gottfried Oosterwal, “Continuity and Change in Adventis Mission”, em Vern Carner e Gary Stanhiser, The Stature of Christ (Publicação particular, Loma Linda, CA, 1970), págs. 45-57. 11. Review and Herald, 3 de fevereiro de 1859, pág. 87. 12. Review and Herald, 16 de abril de 1872, pág. 138; 16 de ju-

das as raças; (b) jamais estimulou a crença prevalecente por parte de muitos em sua época de que a raça negra era geneticamente inferior. Muitas vezes frisou: “Vocês vão se deparar com esta deplorável ignorância. Por quê? Porque as almas mantidas em cativeiro foram ensinadas a fazer exatamente a vontade daqueles que as chamam de sua propriedade e as conservam como escravos. ... Ora, existem os que são inteligentes. Muitos que não tiveram ocasião favorável revelariam resoluta capacidade, caso tivessem sido abençoados com oportunidades tais como seus irmãos mais favorecidos, os brancos, tiveram.”68 Em outras palavras, remova o cativeiro e os inevitáveis resultados da escravidão, dê aos negros a mesma oportunidade dos brancos, e como conseqüência a assim chamada ignorância desaparecerá. Ellen White teria sido mais bem compreendida a respeito das relações raciais através dos anos se a totalidade de suas declarações tivesse sido estudada no contexto de seu tempo. As tensões raciais adventistas teriam sido grandemente reduzidas se seus lúcidos princípios tivessem moldado as decisões pessoais e organizacionais. Otis B. Edward, educador negro de longa experiência, disse isso provavelmente melhor do que ninguém: “Talvez o maior estímulo para empenhos missionários em favor dos negros tenha vindo... de Ellen G. White.”69

lho de 1872, pág. 36. 13. Life Sketches, pág. 125 (Vida e Ensinos, pág. 128). 14. Spalding, Origin and History, vol. 2, pág. 195; Loughborough, GSAM, pág. 275. 15. Maxwell, Tell It to the World, págs. 158-164; Schwarz, Light Bearers, págs. 142-144; SDAE, vol. 10, pág. 428. 16. Maxwell, Tell It to the World, págs. 165-173; Schwarz, Light Bearers, págs. 144-147. 17. Schwarz, Light Bearers, págs. 147 e 148. 18. Life Sketches, pág. 204. 19. Ibidem, págs. 208 e 209. 20. D. A. Delafield, Ellen White in Europe, 1885-1887 (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1975). 21. “Alguns dos que vieram trabalhar nestes territórios missionários têm dito: ‘A senhora não compreende o povo francês; não compreende os alemães. Eles precisam ser tratados desta ou daquela maneira.’ Pergunto, porém: Não os compreenderá Deus? Não é Ele quem a Seus servos dá uma mensagem para as pessoas?... Embora alguns sejam arraigadamente franceses, outros entranhadamente alemães e outros profundamente americanos, todos chegarão a ser identicamente se-

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ção junto com os brancos porque eles são negros, mas para se promover o progresso da verdade. Compreendam eles que semelhante arranjo deve ser seguido até que o Senhor nos mostre um melhor caminho. ... À medida que o tempo avança, e aumentam os preconceitos raciais, em muitos lugares tornarse-á quase impossível obreiros brancos trabalharem em favor dos negros. ... Pastores brancos e pastores negros farão falsas declarações, despertando na mente das pessoas tal sentimento de antagonismo que elas estarão dispostas a destruir e matar. ... Sigamos o caminho da sabedoria. ... Ainda não chegou o tempo de trabalharmos como se não existisse preconceito. ... Se perceberem que, ao fazer certas coisas que lhes parecem perfeitamente corretas, vão atrapalhar o avanço da obra de Deus, evitem praticar tais coisas. ... Todas as coisas podem ser lícitas, mas nem todas convêm.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 199-215. 64. “Sejam nossos obreiros cuidadosos no falar, em todo tempo

e sob quaisquer circunstâncias. Estejam todos precavidos para que, por meio de expressões imprudentes, não tragam sobre si um tempo de angústia antes da grande crise que provará os seres humanos.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 6, pág. 395. 65. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, págs. 214, 215 e 207. 66. Ibidem, pág. 225. 67. As experiências de Edson White tornaram-se um experimento vivo (e chocante) em testar a hostilidade dos brancos para com os “forasteiros” que insistissem na melhoria de vida dos negros. Ver Graybill, Ellen G. White and Church Race Relations, págs. 53-69. 68. Carta 80-a, 1895, citada em Graybill, Ellen G. White and Church Race Relations, págs. 108 e 109. 69. “Origin and Development of the SDA Work Among Negroes in the Alabama-Mississippi Conference”, tese inédita de mestrado, Andrews University, agosto de 1942, pág. 21.

Perguntas Para Estudo

1. Quais foram algumas das preocupações imediatas dos primeiros adventistas sabatistas que suplantaram qualquer sentimento acerca de uma missão mundial? 2. De que maneiras significativas Ellen White estimulou seus colegas a pensarem em termos globais? 3. Que duas famílias foram oficialmente os primeiros missionários nomeados pela Associação Geral? 4. Quais os três princípios dinâmicos de evangelismo defendidos por Ellen White? 5. Por que se diz que Ellen White foi o “maior estímulo” no sentido de ajudar os adventistas do sétimo dia a estender seus esforços missionários em favor dos negros nos Estados Unidos? 6. Como você explica a aparente inversão de conselho a respeito da maneira de trabalhar em favor dos negros nos Estados sulistas da América do Norte entre 1895 e 1908? 7. Quais eram as elevadas expectativas de Ellen White com relação a um preparo de qualidade para pastores e evangelistas antes que eles assumissem formalmente responsabilidades públicas? 8. Mencione alguns dos “problemas complicados” enfrentados por aqueles que queriam evangelizar os negros norte-americanos em fins do século dezenove e início do século vinte.

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“Não precisamos sacrificar um princípio de verdade ao tirarmos vantagem de toda oportunidade para fazer avançar a causa de Deus.”1

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ma questão urgente durante a década de 1850 era como sustentar o ministério. Os pastores com família enfrentavam um desafio muito difícil quando tinham que depender da liberalidade dos crentes, principalmente quando poucas igrejas eram organizadas. Muitos só podiam pregar parte do tempo. Os White vendiam Bíblias e outros livros para complementar a pouca renda que recebiam de amigos. Além disso, prevalecia muitas vezes o sistema de permuta, pois o dinheiro era escasso, sobretudo numa sociedade que era em grande parte agrária. Em fins de 1858, Ellen White disse ao marido que o Senhor lhe havia mostrado que J. N. Andrews devia vir para Battle Creek, organizar uma classe bíblica e que, durante o estudo, desenvolveriam um plano bíblico para o sustento do ministério. Naquela classe bíblica realizada em janeiro de 1859, os líderes chegaram ao consenso de que o sistema do dízimo ainda era obrigatório e sugeriram um programa que chamaram de “Doação Sistemática sobre o princípio do dízimo”. Em 29 de janeiro a congregação de Battle Creek decidiu por voto unânime adotar o programa e publicar o plano na Review and Herald. O exemplo da igreja de Battle Creek deu o primeiro passo para outras igrejas seguirem.2 Por volta do mês de junho a Sra. White escrevia que “o plano da doação sistemática agrada a Deus”.3 Nos primeiros dias da implementação, o “plano” não fez distinção entre dízimos e ofertas, e tudo foi dedicado ao sus-

tento do ministério. Em janeiro de 1861, a Sra. White escreveu uma mensagem franca que definia mais claramente o princípio do dízimo, aplicando Malaquias 3:8-11 às obrigações atuais para com o Senhor. Ela delineou a maneira como o princípio do dízimo era justo para todos, tanto para os pobres como para os ricos, e que “corações serão experimentados e provados pelo plano da doação sistemática. ... Eis aí um teste aos de índole egoísta e cobiçosa”.4 Ellen White disse muitas vezes que “o dízimo é sagrado, reservado por Deus para Si mesmo. Tem de ser levado ao Seu tesouro, para ser empregado em manter os obreiros evangélicos em seu trabalho”.5 Definem-se como obreiros evangélicos os pastores e instrutores bíblicos, os professores de Bíblia em nossas instituições educacionais, os médicos pastores, os obreiros evangélicos aposentados e os obreiros em campos missionários em necessidade na América do Norte e no exterior.6 Deus tem abençoado o sistema de dízimo. Somente o dízimo dos membros da Divisão Norte-Americana atingiu em 1996 a quantia de 507.406.823 dólares.7 Alteração nas Normas da Igreja Para com o Auxílio do Governo Assim como sucedeu em relação a outros assuntos, a intervenção de Ellen White alterou também as normas dos adventistas do sétimo dia no que se refere ao relacionamento da igreja para com o auxílio do governo. Na ver-

dade, o conselho dela alterou por completo uma medida adotada pela assembléia da Associação Geral em 1895. No fim de 1893, A. T. Robinson, líder da igreja na implantação da obra na África do Sul, aproximou-se de Cecil Rhodes, que era tanto primeiro-ministro da Colônia do Cabo como diretor da Companhia Britânica na África do Sul. Naquele tempo, a companhia estava oferecendo grandes doações a diversas corporações missionárias para cultivarem a terra e educarem os nativos. Robinson precisava de terra e Rhodes era a única pessoa capaz de fornecê-la. Em resposta, Rhodes escreveu uma carta chancelada a seu representante em Bulawayo, instruindo-o a fornecer aos adventistas toda a terra de que eles precisassem. Escolheu-se um terreno de 4.856 hectares, que veio a ser o local do Solusi College, a primeira instituição educacional adventista entre povos não cristãos. O pequeno grupo de adventistas na África do Sul considerou este acontecimento uma intervenção providencial. Mas essa doação imobiliária não foi vista com alegria em Battle Creek. Os líderes de liberdade religiosa, inclusive A. T. Jones, declararam que a transação era uma flagrante violação do princípio da separação entre Igreja e Estado. Precipitaram-se numa luta, freqüentemente com palavras imprudentes. Crise Acalorada A questão chegou a um ponto crítico na assembléia da Associação Geral de 1895. Na realidade, os dois supostos itens sobre liberdade religiosa constantes na agenda eram: (1) doação de terreno na África do Sul e (2) isenção de taxas sobre propriedades da igreja. A assembléia votou que as igrejas norte-americanas recusassem a isenção de impostos e que os líderes sul-africanos fossem instruídos de que a igreja devia pagar por qualquer terra concedida. Encontrava-se na África do Sul, ao tempo em que chegou a decisão da Associação Geral, o experiente líder Stephen Haskell. Ele imediatamente despachou cartas de protesto ao presidente da Associação Geral e a W. C. White, filho de Ellen White. A Sra. White

escreveu uma carta de catorze páginas, na qual protestava veementemente contra essas duas medidas da Associação Geral, e enviou cópias aos principais obreiros de Battle Creek. Seis Princípios Básicos Expressos na Carta de Ellen White O trecho da carta que trata especificamente da aceitação de ajuda governamental, cerca de três páginas e meia datilografadas, foi publicado tempos depois em Testemunhos Para Ministros.8 Refletem-se nele seis princípios básicos:9 As decisões denominacionais devemse basear em “princípios corretos”. “Leiam esses homens [líderes de Liberdade Religiosa] o livro de Neemias com coração humilde, tocado pelo Espírito Santo, e suas falsas idéias serão modificadas, ver-se-ão princípios corretos, e a presente ordem de coisas será mudada.”10 • A aplicação desses “princípios” deve ser feita pelos líderes mais próximos do problema. “Deixem que o Senhor trabalhe com os homens que estão no lugar, e os que ali não estão andem humildemente com Deus, para que não saiam de seu lugar, e percam o rumo.”11 • Os “verdadeiros princípios” devem ser diferenciados dos falsos princípios. Embora Ellen White defendesse firmemente os princípios da liberdade religiosa, jamais empregou a expressão “separação da Igreja e Estado”. Ela insistia com os líderes da igreja para não construírem “um muro de separação entre si e o mundo, propagando suas próprias idéias e noções”.12 O não pensar claramente levaria os obreiros a “tomar um rumo que traga antes do tempo o tempo de angústia”. O pensar erroneamente dispensaria “quaisquer favores” esquivando-se do “auxílio que Deus tem movido os homens a dar para o avanço de Sua causa”.13 Os falsos princípios não se originam do Espírito Santo. Nos tempos do Antigo Testamento, o Senhor “moveu os reis pagãos a ir em seu [de Neemias] auxílio... de que tanto necessitavam”. Recusar ajuda governamental era “zelo... que não está de acordo com o entendimento”. Com referência aos líderes de Battle Creek, Ellen White foi clara: “Os

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movimentos que têm feito para pagar impostos sobre a propriedade do hospital e do tabernáculo têm manifestado um zelo e retidão de consciência que a todos os respeitos não são sábios nem corretos. Suas idéias sobre liberdade religiosa estão sendo entremeadas de sugestões que não vêm do Espírito Santo, e a causa da liberdade religiosa está adoecendo.”14 • Os conceitos corretos de mordomia fortalecem os princípios corretos de liberdade religiosa. Deus possui o mundo e “tem colocado os Seus bens nas mãos de incrédulos, mas eles devem ser usados para favorecer a realização das obras que devem ser feitas em prol de um mundo caído”.15 Através da História, Deus tem tocado “no coração dos reis e governadores em favor de Seu povo”. Ele usou Ciro e Dario da Pérsia para ajudar Neemias. “As pessoas devidas... [devem expor] aos que têm meios e influência as necessidades da obra de Deus. ... Devem procurar levar a verdade aos homens que estão em posições elevadas, e dar-lhes boa oportunidade de receber e pesar as evidências. ... O que nos quiserem dar devemos considerar um privilégio receber.” Além disso, por causa de falsos princípios de mordomia e liberdade religiosa, a igreja tem “afastado de nós privilégios e vantagens cujo benefício poderíamos ter desfrutado, porque escolhemos permanecer independentes do mundo”.16 • Os adventistas do sétimo dia devem usar de sabedoria ao decidir o que e quando implementar os “princípios corretos” na área da ajuda governamental. É dito aos adventistas que “não precisamos sacrificar um princípio da verdade, enquanto tiramos vantagem de cada oportunidade para fazer a causa de Deus avançar”.17 Por duas vezes em seu conselho sobre ajuda governamental, Ellen White admoestou os líderes a exercerem “a sabedoria da serpente e a inocência da pomba [para que] possamos obter deles [homens que estão em elevadas posições] vantagens, pois Deus quer mover-lhes o espírito para fazer muitas coisas em favor do Seu povo”.18 Além disso, os líderes devem evitar assumir

“posições extremas” e se afligir “com questões que não deviam ser consideradas ou causar preocupação”.19 A sabedoria em evitar “posições extremas” também aconselhava cautela ao aceitar ajuda governamental com cláusulas ocultas que viriam, naquele momento ou no futuro, a comprometer e restringir os programas ou princípios da igreja. A ajuda governamental deve ser rejeitada se compromete o propósito da igreja, embora não deva ser rejeitada devido a raciocínios com base em falsos princípios. • A ajuda governamental ou de qualquer outra fonte que esteja disposta a colaborar deve ser aceita com gratidão, caso, procedendo assim, “a verdade [ocupe]... um lugar de destaque e ... [seja] levantada em muitos lugares, em regiões distantes”.20 A Missão e o Colégio de Solusi foram o início de muitas (talvez centenas) outras instituições educacionais e médicas adventistas do sétimo dia na maior parte de todos os continentes onde a “verdade” será “estabelecida” devido à assistência do governo. A maioria dos países europeus e africanos exige que as escolas ligadas à igreja sejam licenciadas pelo governo. Depois de serem licenciadas, segue-se o financiamento governamental. O registro mostra que não se precisa abrir mão da verdade devido a essa ligação; sem a ligação, não haveria como a verdade “firmar pé” nesses países. Campeã da Unidade Cristã A Igreja Adventista do Sétimo Dia é um organismo internacional com diversos componentes que interagem constantemente com outras igrejas e governos nacionais. Embora esteja muito interessada na unidade dos cristãos, a Igreja Adventista não é membro do Concílio Mundial de Igrejas.21 É possível que Ellen White tenha sido a primeira a enfatizar esta grande preocupação bíblica. Ela removeu todo questionamento a respeito de serem os adventistas os únicos cristãos genuínos do mundo quando escreveu: “Apesar das trevas espirituais e afastamento de Deus prevalecentes nas igrejas que constituem Babilônia, a grande massa dos verdadeiros seguido-

res de Cristo encontra-se ainda em sua comunhão.”22 A atitude da Igreja Adventista para com o ecumenismo religioso não se baseia num senso de superioridade, mas na autopercepção que a igreja tem de sua história e seus ensinamentos. O início da Igreja Adventista, surgida do movimento milerita em princípios da década de 1840, teve muito a ver com a atitude da igreja para com as outras denominações. Durante anos, os primeiros adventistas consideraram-se um movimento profético com uma mensagem específica relativa à volta de Jesus e à preparação de um povo para ser trasladado por ocasião de Sua vinda. Em contraste com o pós-milenialismo predominante no século dezenove, os adventistas enfatizavam um advento iminente. Em contraste com o progresso social e a seleção natural para explicar o processo da evolução, os adventistas reafirmavam a história da criação como a base para o valor e responsabilidade humanos. O sábado tornou-se o foco central na ênfase sobre a semana criativa de sete dias de Gênesis 1 e 2. Pelo fato de essas doutrinas distintivas definirem a Igreja Adventista, é praticamente impossível ter harmonia com os pontos de vista formulados pelo Concílio Mundial de Igrejas.23 Apesar disso, Ellen White enfatizou, mais do que qualquer outro tema, a unidade da comunidade cristã. Sua eclesiologia (entendimento da igreja) segue as pegadas da “igreja” de Deus através do Antigo e do Novo Testamentos, estendendo-se pelos séculos até a volta de Jesus. A igreja é a “fortaleza de Deus” que tem existido “desde o princípio” com “almas fiéis” “em cada era”.24 Para ela, ser membro da igreja na Terra não equivale a estar automaticamente inscrito no “livro da vida do Cordeiro. É possível estar unido à igreja [uma denominação], e não estar unido ao Senhor”.25 Os freqüentes apelos da Sra. White em prol de unidade entre os cristãos destinam-se primordialmente aos crentes de sua própria denominação, os quais, segundo acreditava,

foram chamados à existência para “restaurar os princípios que são o fundamento do reino de Deus”.26 No contexto do século dezenove, ela apelou aos adventistas: “Se já houve tempo em que o povo de Deus devesse unir-se, é agora esse tempo. Deus nos confiou as verdades especiais para este tempo, a fim de as tornar conhecidas ao mundo. ... Não podemos agora correr o risco de dar lugar a Satanás nutrindo desunião, discórdia e lutas. ... Divisões na igreja desonram a religião de Cristo ante o mundo, e dão ocasião aos inimigos da verdade para justificar o seu procedimento. ... Que estamos fazendo para preservar a unidade, nos laços da paz?”27 O que ela quer dizer quando pede unidade dentro da igreja? Primeiramente, ela via a unidade do amor numa igreja internacional como um magnífico testemunho da oração de Cristo pela unidade em João 17.28 Este mesmo sentimento governa sua solene preocupação pela unidade entre “diferentes nacionalidades”29 e entre diferentes raças.30 Em segundo lugar, insistia com os pastores adventistas do sétimo dia para que se aproximassem “dos pastores de outras denominações. Orem por estes homens e com eles, por quem Cristo está fazendo intercessão. ... Como mensageiros de Cristo, cumpre-nos manifestar profundo e fervoroso interesse nestes pastores do rebanho.”31 Subentendido, porém, à sua ênfase inflexível sobre a unidade conforme cumprida na oração de Cristo em João 17, acha-se este simples conceito: não devemos sacrificar a verdade para alcançar a unidade. Depois de citar a oração de Cristo segundo a qual, pela unidade de Seu povo, o mundo pode ser atraído para Ele, ela escreveu: “Conquanto não devamos sacrificar um único princípio da verdade, deve ser nosso constante objetivo atingir este estado de unidade.”32 Promotora de Ajuda aos Desamparados Com grande ênfase e por mais de sete décadas, Ellen White forneceu à igreja vasta provisão de ternas e específicas instruções so-

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bre a responsabilidade do cristão para com os doentes, os deficientes físicos e os que se acham em desvantagem financeira. Seus conselhos escritos refletem sua prática pessoal. Seus diários estão repletos de interesse pelos pobres e sofredores. Por exemplo, seu diário de 1859, quando ela estava com 31 anos de idade, mãe de três garotos ativos, contém não apenas referências às muitas cartas que ela escreveu, mas também comentários sobre o que fez com a família, etc.: “2 de janeiro. – Dei à irmã Irving um casaco e um vestido quentes, e alguma coisa com que se agasalhar.” “3 de janeiro. – Paguei à irmã Bognes um dólar pelo casaco que fez. Ela não queria receber, mas achei que era meu dever darlhe. Ela é pobre e doente. Que o Senhor bondosamente cuide dela. Disse Jesus: ‘Os pobres sempre os tendes convosco.’ Que o Senhor nos liberte do egoísmo e nos ajude a cuidar dos ais alheios e a aliviá-los.” “6 de janeiro. – Dei à mãe de Agnes um vestido de meio uso. Eles são pobres. O esposo e pai está doente. Sua colheita não foi boa. Precisam comprar trigo para fazer pão, mas não têm com que pagar. Agnes é seu principal sustento. Tem apenas dezessete anos. São quatro filhos agora no lar. Irão sofrer, a menos que a igreja se interesse pelo seu bem-estar. Que o Senhor tenha misericórdia dos necessitados, e ponha no coração de Seus filhos lhes dispensarem ajuda liberal.” Sem parar os diários atravessam os anos.33 Seu exemplo pessoal acrescentou poder a suas palavras ao alistar outros em seu ministério de beneficência. Em 1860, ela escreveu as seguintes linhas na revista da igreja: “A reserva do Fundo dos Pobres, consistente de roupas, etc., para os que têm necessidade, está quase esgotada. E como há casos de necessidade constantemente surgindo, e um novo caso surgiu recentemente, pensei que seria bom que aqueles que têm roupas, roupas de cama ou dinheiro de que possam dispor, os enviassem imediatamente. Esperamos que não haja demora, pois auxiliaremos alguns que estão em necessidade tão logo tenhamos

tudo reunido. Enviem seus donativos para o Sr. Uriah Smith ou para mim mesma.”34 A dignidade da pessoa ajudada sempre era mantida em vista. Ellen White deixava claro que era apropriado dar roupas usadas aos necessitados somente se elas pudessem ser vestidas sem constrangimento: “Alguns de nosso povo me dizem: ‘Distribua suas roupas usadas para os pobres.’ Se eu desse aos pobres as roupas que remendo e alargo, não veriam como poderiam usá-las. Para eles eu compro material novo, forte e durável. Tenho visitado fábricas de tecidos e tenho comprado sobras que podem ter defeito mas se adquirem por preço reduzido, e beneficiam os que as recebem. Posso permitir-me usar as roupas velhas até que não possam mais ser reparadas. Comprei para seu tio excelente tecido para calças e camisa, e ele está agora suprido com roupa respeitável. Dessa forma, posso prover para grandes famílias com crianças roupas duráveis.”35 Em todos os arquivos de diário ou cartas de Ellen White se encontram pedidos para alguém, em benefício de outros, tais como este estudante necessitado: “Queira fazer o favor de perguntar ao irmão ______ quais as roupas que ele necessita, e o que for preciso, por favor forneça-lhe, e ponha-o em minha conta.”36 Naturalmente, Ellen White reconhecia que sua família e alguns outros não conseguiriam atender todas as necessidades extremas das pessoas à sua volta, inclusive os necessitados da igreja. Enquanto esteve na Austrália, ela organizou uma “Sociedade de Dorcas” para, até certo ponto, aliviar a preocupação que tinha para com os desamparados. Escrevendo a respeito de uma reunião de Dorcas realizada em seu lar, relatou: “Na noite passada tivemos uma sociedade de Dorcas em nosso lar, e minhas obreiras que me ajudam na preparação dos meus artigos para as revistas, e que cozinham e costuram, cinco delas, ficaram até meia-noite cortando roupas. Fizeram três pares de calças para as crianças de uma família. Duas máquinas de costura trabalharam até meia-noite. Penso que jamais houve gru-

po mais feliz de obreiros do que essas jovens na noite passada.”37 No próprio lar, que muitas vezes ficava repleto de parentes e colegas de trabalho doentes, os White trabalhavam em “obra médicomissionária”. Recolhiam os doentes desenganados pelos médicos e obtinham muitas curas pelo “poderoso Médico”: “Usávamos simples tratamentos com água, e então procurávamos dirigir os olhos dos pacientes para o grande Médico.”38 Como norma geral de vida, Ellen White costumava dar consideráveis quantias àqueles que careciam de auxílio financeiro. Às vezes estimulava outros a “associar-se” a ela em seus donativos. Muitas vezes deixava claro que, em geral, fazia doações com o propósito de ajudar os necessitados a se tornarem autosuficientes. Uma dessas ocasiões ocorreu em 1889 quando ela pediu a C. H. Jones para “juntar” 100 dólares dele aos 100 dela a fim de ajudar Nellie L., uma viúva carente com três filhos, que estava procurando instruir-se para trabalhar com o jardim da infância, a fim de “conservar os filhos consigo”. Escreveu ela: “Eu ajudarei Nellie com uma centena de dólares se você fizer o mesmo. ... Fará isso pelo amor de Cristo? Encorajará outros a ajudála a conseguir um começo na vida? Seria muito melhor fazer isso do que esperar e deixar Nellie ser consumida pela ansiedade e cuidados e cair na sua luta, deixando os filhos ao desamparo, sem mãe, para serem cuidados por outros. ... Eu sei que ela lutará com todas as suas forças para manter-se a si mesma.”39 Removendo o Preconceito À medida que desenvolvia a obra na Austrália, quando os adventistas eram apenas algumas centenas, Ellen White mostrou como era possível remover o preconceito “pela obra médico-missionária”: “Fizemos de nosso lar um hospital. Minha enfermeira [Sara McEnterfer, secretária pessoal da Sra. White] tratou com sucesso de alguns casos bem difíceis que os médicos tinham declarado incuráveis. Esse trabalho não ficou sem a sua recompensa. A desconfiança e o preconceito foram removidos. O coração do povo era conquistado e muitos aceitaram a verdade.”40 Através dos anos, a Sra. White deu instruções específicas sobre como indivíduos, e por

vezes a igreja como coletividade, devia cuidar dos “desafortunados, os cegos, os coxos, os afligidos, as viúvas, os órfãos e necessitados”. Disse que os cristãos que mostram piedade para com essas pessoas são representadas por Cristo como “como guardadores dos mandamentos, os quais terão a vida eterna”.41 Ela mesma, porém, encarava esse ministério para com os desafortunados de uma maneira equilibrada. Insistia para que os membros da igreja que enfrentavam dificuldades não fossem passados por alto na “tarefa organizada de alimentar a infeliz classe que se encontra na pobreza”: “Se vocês conhecessem a situação desse irmão e nenhum esforço fizessem para aliviá-lo e transformar sua opressão em liberdade, … seriam culpados perante Deus. Escrevo claramente, pois, segundo a luz que me é dada por Deus, há uma classe de trabalho que é negligenciada.” Ela chamou de “mal-orientado zelo” a atitude de passar por alto aqueles que “pertencem à família da fé e deixam o seu clamor de aflitos subir até Deus em virtude do sofrimento que podíamos aliviar”.42 Ellen White era específica a respeito da responsabilidade do cristão para com as viúvas com filhos,43 os órfãos e pais adotivos,44 os idosos45 e os cegos.46 Na década de 1890, o Dr. Kellogg estava alcançando os excluídos da sociedade em Chicago. Ellen White havia durante anos participado com ele em projetos semelhantes. Em 1898, contudo, escreveu-lhe dezessete cartas, muitas das quais tratavam do enfoque desequilibrado nas missões beneficentes patrocinadas pela Associação Médico-Missionária e Beneficente “em dezenas de grandes cidades norte-americanas, desde Nova Iorque até São Francisco”.47 “Deve-se realizar trabalho constante em favor dos excluídos da sociedade, mas esta obra não deve monopolizar toda a atenção. ... Não se deve aplicar todos os recursos nesta obra, pois os caminhos ainda não receberam a mensagem. ... Pessoa alguma deve neste momento visitar nossas igrejas solicitando recursos para o trabalho de resgatar os excluídos. Os recursos para susten-

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36. Ibidem, pág. 329. 37. Ibidem, pág. 334. 38. Ibidem, págs. 326 e 327. 39. Ibidem, pág. 327. Ellen White ressaltava freqüentemente que o objetivo em auxiliar os outros é ajudá-los a tornarem-se auto-suficientes. Ver Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, págs. 480 e 481; ibidem, vol. 6, págs. 188, 189, 278 e 279; A Ciência do Bom Viver, págs. 183-195; Historical Sketches, pág. 293; Review and Herald, 18 de abril de 1871; 3 de janeiro de 1899. 40. Ibidem, págs. 327 e 328. 41. Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, pág. 512 (Beneficência Social, pág. 209). 42. Beneficência Social, págs. 210 e 211; ver também Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, págs. 27-29; vol. 3, págs. 517 e 518. 43. Ibidem, págs. 214-219. 44. Ibidem, págs. 220-231. 45. Ibidem, págs. 237 e 238. 46. Ibidem, págs. 239-242. 47. Schwarz, Light Bearers, pág. 208. 48. Carta 138, 1898, citada em Biography, vol. 4, pág. 397. 49. Beneficência Social, pág. 246. 50. Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, págs. 184 e 185 (Beneficência Social, pág. 251). Encontram-se em Beneficência Social, págs. 253-255, advertências contra tornar fascinante a obra nas favelas e contra o perigo que ameaça rapazes e moças que se envolvem em trabalho em favor dos socialmente marginalizados. Jonathan Butler alista quatro razões para o alarme de Ellen White e o enérgico conselho dado ao Dr. Kellogg. O programa de Chicago, especificamente, era: (1) “excessivamente centralizado em relação à obra de missões no campo mundial”; (2) “exageradamente especializado em seu serviço em prol de uma única classe de pessoas”; (3) “corria o risco de desequilíbrio por apresentar um só tipo de ministério – o ministério médico;” e (4) “carecia da peculiaridade da igreja”. – “Ellen G. White and the Chicago Mission”, Spectrum, inverno de 1970, págs. 41-51. 51. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 368-385; vol. 7, págs. 37-39, 95-98, 110-114; vol. 9, págs. 89-149; Conselhos Sobre Saúde, págs. 493, 494, 554-556; Medicina e Salvação, pág. 303; Review and Herald, 18 de janeiro de 1912. 52. Butler, “Chicago Mission”, Spectrum, inverno de 1970, pág. 49.

tar essa obra devem vir... dos que não pertencem à nossa fé.”48 Embora sempre chamasse a atenção para o desafio de levar o evangelho a outros, “não importa quão caídos, quão desonrados e vis... possam ser”,49 Ellen White se esforçava claramente para não mostrar-se exagerada em nenhum aspecto: “O Senhor traçou nossa maneira de agir. Como povo não devemos imitar nem harmonizar-nos com os métodos do Exército de Salvação. Essa não é a obra que o Senhor nos mandou fazer. Também não é nossa obra condená-los nem falar duramente contra eles. Há no Exército de Salvação pessoas preciosas, abnegadas. ... Os obreiros do Exército de Salvação estão procurando salvar os negligenciados, espezinhados. Não os desencorajem. Deixem-nos fazer essa classe de trabalho pelos seus próprios métodos e a sua própria maneira. Mas a obra que os adventistas
Referências
1. Testemunhos Para Ministros, págs. 197 e 198. 2. Biography, vol. 1, págs. 387-393. O argumento bíblico baseava-se principalmente no apelo do Novo Testamento à ordem evangélica. Naquele tempo eles não tinham certeza de como separar o plano do dízimo das leis cerimoniais abolidas na cruz. O “princípio” do dízimo era considerado eficaz e tinha muito a ver com suas últimas conclusões. O conceito da “doação sistemática” tornou-se prático com as seguintes sugestões: (1) os homens de 18-60 anos deviam contribuir com 5 a 25 centavos cada semana; (2) as mulheres de 18-60 anos, com 2 a 10 centavos por semana; (3) depois, todos deviam “pôr de parte” semanalmente de 1 a 5 centavos “sobre todo e qualquer 100 dólares de propriedade que possuíssem”. 3. Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 190. Durante muitos anos o plano foi conhecido como “Irmã Betsy”. 4. Ibidem, págs. 220-223. 5. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 249 (Conselhos Sobre Mordomia, pág. 93). 6. Evangelismo, pág. 492; Testemunhos Para a Igreja, vol. 6, pág. 215; MR, vol. 1, págs. 189 e 192; Medicina e Salvação, pág. 245. 7. North American Division Statistical Report, quarto trimestre, 1996. 8. Testemunhos Para Ministros, págs. 197-203. 9. O manuscrito inédito “Ellen White and the Issue of Reception of State Aid”, de autoria de Roger Coon, levou o autor a pensar nos cinco primeiros princípios. 10. Testemunhos Para Ministros, págs. 200 e 201. 11. Ibidem, págs. 201 e 202. 12. Ibidem, pág. 202. 13. Ibidem. 14. Ibidem, págs. 200 e 201. 15. Ibidem, pág. 203. 16. Ibidem, págs. 197, 198 e 202. 17. Ibidem, págs. l97 e 198. 18. Ibidem, págs. 197 e 203.

do sétimo dia devem fazer o Senhor indicou claramente.”50 Essas advertências foram dirigidas contra a maneira errada como se fazia a obra missionária nas cidades. Era preciso corrigir o trabalho, e não acabar com ele. Ellen White foi mais explícita a respeito da obra que precisava ser feita nas cidades, dando forte apoio aos centros evangelísticos com seus restaurantes, centros de distribuição de literatura e, em alguns casos, alojamento para os obreiros envolvidos nos centros.51 Sempre que seu conselho era atendido, “o envolvimento urbano dos adventistas do sétimo dia mantinha o equilíbrio. Não caía na armadilha do movimento do evangelho social (mais pesado na parte de baixo com o humanitarismo) que se desenvolvia nesse período; também não era como o evangelicalismo conservador (mais pesado na parte de cima com o evangelismo) que se desenvolveu depois da Primeira Guerra Mundial”.52

Perguntas Para Estudo

1. Que seis princípios devem guiar os adventistas quando se relacionarem com a ajuda governamental? 2. Como você explica os princípios envolvidos na doação sistemática?

19. Ibidem, pág. 201. 20. Ibidem. 21. Por muitos anos, a Igreja Adventista tem enviado repórteres e, posteriormente, observadores que participam em diversas comissões de estudo patrocinadas pelo Concílio Mundial. Individualmente, alguns adventistas também trabalham como membros de comissões. 22. O Grande Conflito, pág. 390. 23. Para uma visão geral da influência de Ellen White sobre as abordagens da igreja ao ecumenismo, ver Graham, Ellen G. White, Co-founder, págs. 297-354. 24. Atos dos Apóstolos, pág. 11. “Todo o povo de Deus na Terra é um corpo desde o princípio até o fim do tempo. Ele tem uma Cabeça que dirige e governa o corpo.” – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, pág. 283. 25. Review and Herald, 17 de janeiro de 1893, pág. 33. 26. Profetas e Reis, págs. 677 e 678. 27. Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, págs. 236-239 (Testemunhos Seletos, vol. 2, págs. 77 e 80); ver também ibidem, págs. 179183; Mensagens Escolhidas, livro 2, págs. 158-161. 28. Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 188. 29. Ibidem, pág. 181. 30. Review and Herald, 17 de dezembro de 1895; ibidem, 24 de outubro de 1899; Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, pág. 209. 31. Testemunhos Para a Igreja, vol. 6, pág. 78 (Testemunhos Seletos, vol. 2, pág. 386); Evangelismo, págs. 143, 144 e 562. 32. Patriarcas e Profetas, pág. 520. Deve-se evitar comprometer a verdade por amor à unidade: “Um objetivo deve sempre ser mantido em mente; isto é, deve-se manter a harmonia e a cooperação sem comprometer um princípio da verdade que seja.” – Carta 37, 1887, citada em Counsels to Writers and Editors, pág. 79; ver também O Grande Conflito, pág. 45. 33. Beneficência Social, págs. 322 e 323. 34. Review and Herald, 30 de outubro de 1860, pág. 192. 35. Carta 89a, 1894, citada em Beneficência Social, págs. 328 e 329.

3. Como você defende o conceito de que os adventistas do sétimo dia são verdadeiramente ecumênicos? 4. Como Ellen White deu o exemplo na obra de beneficência social? 5. Que princípios guiaram Ellen White em seu programa humanitário pessoal? 6. Quais as vantagens de um ativo programa beneficente numa igreja local? Que diretrizes determinariam a distribuição de dinheiro em espécie e mercadorias? Aliste objetivos da obra social que valham a pena. 7. Examine o conselho dado por Ellen White ao Dr. Kellogg a respeito da missão dele em Chicago. Discuta o ponto de vista dela de que nossa obra não deve ser paralela à boa obra feita pelo Exército de Salvação.

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“Vendo, porém, Simão que, pelo fato de imporem os apóstolos as mãos, era concedido o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, propondo: Concedei-me também a mim este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo. Pedro, porém, lhe respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição. ... Teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te.” Atos 8:18, 19, 20-22.

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ratar com motivos é uma tarefa ingrata, mesmo para um profeta. Surge com muita freqüência nas atividades relacionadas com a igreja um conflito de motivos sobre o abuso de poder ou sobre a distribuição de verbas. A situação de Battle Creek na década de 1890 fornece um caso típico que mostra como lidar com ambas as áreas de problemas. A dívida denominacional havia aumentado dramaticamente em virtude da rápida expansão do hospital, do colégio e da editora. O aumento dos empreendimentos do Dr. Kellogg, inclusive a escola de medicina, o orfanato e o asilo para idosos, também havia drenado pesadamente os recursos adventistas.

Líderes com Motivações Seculares Enquanto estava na Austrália, em 1896, Ellen White ficou chocada com o excesso de centralização de poder e o gigantesco aumento de dívida que toda essa expansão estava gerando. Para ela, acrescentar edifício a edifício não dava uma descrição correta do caráter da obra. O que se precisava em Battle Creek não era de mais poder e prédios, mas que os líderes da igreja reconhecessem que “o próprio caráter precisava da graça transformadora de Cristo”,1 o que os habilitaria a representar a Cristo. Dois líderes, A. R. Henry, tesoureiro da Review and Herald Publishing Association, e Harmon Lindsay, tesoureiro da Associação Geral, eram a principal preocupação da profetisa. Ambos exerciam gran-

de influência nas decisões denominacionais. Henry, que fora banqueiro antes de tornarse adventista do sétimo dia, recebeu o convite para ir a Battle Creek em 1882 a fim de ajudar no desenvolvimento da editora. Em 1883 também lhe pediram para ser o tesoureiro da Associação Geral, função que exerceu até 1888, quando Lindsay se tornou tesoureiro. Simultaneamente, durante este período, além de acumular essas duas importantes responsabilidades, Henry ainda era membro das juntas diretoras de quase todas as instituições médicas e educacionais da denominação nos Estados do centro e do oeste.2 Embora fosse perspicaz em questões financeiras, Lindsay tinha personalidade menos forte que Henry. O presidente da Associação Geral, O. A. Olsen, descreveu-o como alguém que “fala pouco, mas resmunga bastante”. Apesar disso, ele fora tesoureiro da Associação Geral de 1874-1875. Os anos contínuos em que passou envolvido no desenvolvimento tanto do hospital quanto do colégio, assim como no controle das finanças da denominação, enquanto outros funcionários da Associação Geral iam e vinham, deram-lhe motivo compreensível para perceber o poder que detinha.3 Quando os novos presidentes assumiam o cargo, nada mais natural para eles do que buscar o conselho de tesoureiros “experientes”. O Pastor Olsen, um espírito longânimo e gentil, procurou “atenuar” a “linguagem

não cristã” e as rudes barganhas que caracterizavam os negócios denominacionais. Enquanto não chegaram instruções muito enérgicas de Ellen White, ele não se separou de Henry e Lindsay nem convocou outros homens para substituí-los. Ellen White enviou muitas cartas a Olsen, da Austrália, dando advertências enfáticas contra os princípios seculares que governavam os assuntos comerciais nas instituições de Battle Creek. “Temo e tremo”, escreveu ela, “pela alma dos homens que têm funções de responsabilidade em Battle Creek. ... Se o que eles fazem só exercesse influência sobre eles mesmos, eu podia respirar mais aliviada; mas sei que o inimigo está usando homens que ocupam cargos de confiança, mas que não são consagrados à obra nem sabem de que espírito são. Quando percebo que os homens ligados a eles também estão cegos e não conseguem enxergar o mal que está sendo feito pelo preceito e exemplo desses instrumentos não consagrados, parece-me que não consigo guardar silêncio. Tenho que escrever, pois sei que o molde que esses homens estão dando à obra não é segundo a vontade de Deus.”4 Embora estivesse solidária com o Pastor Olsen, Ellen White não poupou palavras: “Percebi que o irmão ficara de pés e mãos atados, submetendo-se mansamente a isto.” Pelo fato de Deus haver-lhe iluminado a mente, ela discerniu o que outros não conseguiam ver claramente: “As coisas estão tomando rumo errado.” Por detrás dos raciocínios superficiais, viu que os líderes da obra agiam “como se estivessem no lugar de Deus, ... tratando seus colegas de trabalho como se fossem máquinas. Não posso respeitar a sabedoria deles nem ter fé em seu cristianismo”. Escrevendo depois de maneira mais específica, ela declarou: “O Senhor me apresentou o perigo que ele [Henry] está correndo. Não espero mais nada a não ser que ele diga, como sempre tem feito: ‘Alguém contou à irmã White.’ Isto mostra que ele não tem fé em minha missão ou testemunho, e não obstante o irmão Olsen fez dele seu braço direito.”5 Em 1896, o Pastor Olsen fez sérios esforços

para mudar o secularismo que predominava entre os obreiros adventistas de Battle Creek. Na editora estavam A. R. Henry, Clement Eldridge e Frank Belden e outros que faziam valer suas idéias seculares. Além do secularismo, Olsen foi “atormentado” pela “descrença, ceticismo e indiferença manifestas por nosso povo em relação ao dom de profecia”.6 Pendendo Para o Rumo Errado Algumas das questões específicas que estavam pendendo para o “rumo errado” eram os salários desproporcionais pagos aos executivos da editora (e mais sendo reivindicados), a recusa persistente em aumentar o salário dos funcionários por mérito, o sentimento de desconfiança reinante entre os funcionários e a administração acerca do preço do trabalho por empreitada, a omissão em manter um programa de treinamento sistemático para aprendizes, a recusa em promover pessoas dentro da organização, a nomeação de supervisores sem qualificações espirituais, a omissão em dirigir trabalhos evangelísticos entre quantidade considerável de obreiros não adventistas, a relutância em reduzir a quantidade de trabalho comercial ou até mesmo em supervisionar serviços ofensivos e a falha em prover condições sanitárias básicas.7 Outro exemplo importante do procedimento dúbio e arbitrário por parte dos executivos da editora era a maneira como se relacionavam com os autores. Ellen White foi específica: “No passado, os editores se colocaram como Deus, para ditar, controlar, administrar como queriam e assenhorear-se da herança de Deus. Agiram de maneira enganosa no trato com os autores. Fui levada a concílios particulares e ouvi os planos esboçados. Homens têm conseguido fazer com que um escritor acredite que sua obra é um fracasso total, e que não querem ter nada a ver com o livro. O escritor não dispõe de recursos. Sente que está com as mãos atadas. Os homens falam e pensam sobre todo o processo, e conseguem fazer com que ele aceite os termos deles, que

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aceite pelos direitos autorais do livro o valor que eles oferecem. “A maneira como trataram com Frank Belden não foi leal nem justa em todos os seus aspectos. Não se fez justiça em relação a ele. O esforço para esmagar o irmão Bell e conseguir a posse dos livros foi uma demonstração desprezível, levando-o para o extremo oposto. Cérebros humanos têm sido comprados e vendidos.”8 A Sra. White aconselhou: “Que os autores não sejam constrangidos a abrir mão nem a vender barato os direitos dos livros que escreveram. Que eles recebam a justa parte que lhes compete dos lucros de sua obra; deixemnos então considerar seus recursos como um depósito de Deus, para ser administrado de acordo com a sabedoria que Ele comunica.”9 Seus conselhos a respeito de princípios comerciais idôneos pautados pela norma cristã tornaram-se um tesouro valioso para os adventistas do sétimo dia. Ela delineia claramente em seus escritos a diferença entre o espírito cristão e o espírito secular e egoísta.10 Reação Clara Contra os Dissidentes Case e Russell. Em 1853, H. S. Case e C. P. Russell, os primeiros dissidentes a se levantar no seio da Igreja Adventista do Sétimo Dia recém-formada (sete anos antes de ser organizada em Michigan, 1861, a primeira associação regional), fizeram duas acusações contra os White: (1) que eles estavam enriquecendo com a revista da igreja, e (2) que Ellen White estava sendo colocada acima da Bíblia. Ofendidos com o conselho que Ellen White lhes dera, lançaram em 1854 uma nova revista, Messenger of Truth, cujo objetivo era suplantar a Review and Herald. Naquele periódico imprimiram suas alegações contra a confiabilidade da Sra. White. Também acusaram Tiago de usar as doações da igreja em empreendimentos pessoais e de tirar proveito dos membros da igreja vendendo-lhes Bíblias a um preço mais elevado do que o pago por elas (após comprá-las por atacado e têlas despachado da cidade de Nova Iorque!). Case e Russell logo se associaram a outros membros críticos da igreja. Em junho de

1855, Ellen White teve uma visão pública em Oswego, Nova Iorque. Disse aos membros presentes na reunião que eles não deviam mais continuar sendo confundidos pelo grupo Messenger, que brevemente os dissidentes estariam lutando entre si e que em curto espaço de tempo nosso grupo de membros duplicaria.11 Stephenson e Hall. Simultaneamente ao grupo Messenger em Michigan, desenvolveuse em Wisconsin outro grupo de dissidentes liderados por J. M. Stephenson e D. P. Hall, ex-pastores do movimento milerita. Esses dois homens haviam feito ressurgir um ponto de vista doutrinário defendido por alguns mileritas segundo o qual Cristo, em Seu segundo advento, reinaria na Terra por mil anos, durante os quais o tempo de graça se prolongaria para que os judeus desempenhassem papel relevante na conversão das nações. Devido ao fato de Tiago White não ter publicado os pontos de vista deles na revista da igreja, Stephenson e Hall aliaram-se em outubro de 1854 ao grupo Messenger com sede em Michigan – uma grande decepção para Tiago, que julgava ter a confiança deles. Em novembro de 1855, na primeira assembléia realizada em Battle Creek, Michigan, após a mudança de Rochester, Nova Iorque, a Sra. White teve uma visão que animou aqueles que haviam sido confundidos pelo grupo da Era Vindoura, liderado por Stephenson e Hall. Naquela visão, ela revelou como esses dois homens haviam no passado estado convictos da integridade de suas visões, mas, ao fazer um exame mais extenso, descobriram que a teologia da Era Vindoura não concordava com determinadas visões. Ela viu o que havia por trás de suas [deles] palavras “suaves” e enganos. O conselho que ela apresentou à igreja em desenvolvimento foi: “A igreja de Deus deve seguir avante, como se tais pessoas não existissem no mundo.”12 Que aconteceu com esses dissidentes? Por volta de 1858, depois de contendas internas, todos seguiram rumos diferentes. Stephenson adotou outras doutrinas estranhas, envolvendo-se em “vergonhoso divórcio”, e acabou em um asilo de indigentes, um imbecil até a mor-

te. Hall entrou no ramo de investimentos imobiliários, mas sofreu uma falência que o levou à insanidade.13 Moses Hull. A trágica história de Moses Hull revela como as bondosas advertências dadas por Ellen White podem ser desconsideradas somente para prejuízo próprio. Hull uniu-se à igreja em 1858 e, dentro de pouco tempo, tornou-se pregador adventista de influência, chegando muitas vezes a tomar parte nos concílios gerais da igreja. Contudo, semanas depois de haver pregado um sermão evangelístico em 20 de setembro de 1863, ligou-se aos espiritualistas. O que aconteceu? Durante os dois anos que precederam a deserção dele, Ellen White o esteve advertindo contra seu egoísmo, cobiça, falta de habilidade administrativa e excesso de confiança nos próprios talentos.14 Em 1862, ele se envolveu em debates públicos com espiritualistas, alcançando êxito em converter alguns de seus ouvintes ao cristianismo. Mas em determinada ocasião, sem nenhum adventista para acompanhá-lo, realizou um debate em Paw Paw, Michigan, forte centro do espiritualismo. Excessivamente confiante na própria capacidade, logo percebeu (segundo suas próprias palavras) que sua “língua... parecia tão grossa quanto minha mão, e aquilo que muitas vezes eu havia usado como argumento pareceu-me um absurdo. Fui derrotado”.15 Duas semanas depois, em 5 de novembro de 1862, percebendo seu problema, Hull pediu aos White e a M. E. Cornell que fossem a sua casa em Battle Creek para orar por ele. Durante o período de oração, Ellen White teve uma visão. A respeito dela, escreveu: “Vi a condição do irmão Hull. Ele se encontrava em estado alarmante. Sua falta de consagração e piedade vital o expôs às tentações de Satanás. ... Encontra-se desatento ao próprio perigo que o ameaça. ... Ele foi-me representado como estando à beira de terrível precipício, pronto para saltar. Se fizer isso, será seu fim; seu destino eterno estará selado para sempre. ... Nunca deveria um homem sozinho ir debater com um espiritualista.”16 A seguir, os White levaram Hull consigo para um circuito de pregação pelo Estado de

Michigan, esperando que o companheirismo íntimo o ajudasse a libertar-se de seu cativeiro. Em 6 de junho de 1863, Ellen White enviou outra mensagem a Moses Hull. Analisando parte do problema dele, disse: “Quando deveria estudar o próprio coração, está empenhado em ler livros. Quando deveria aproximar-se de Cristo mediante a fé, você fica estudando. Vi que todo o seu estudo será inútil, a menos que você examine a si mesmo. ... Falta-lhe sobriedade e prudência fora do púlpito. ... Quando envolvido com os mais solenes temas, muitas vezes insere algo cômico para produzir risos, e isto destrói a força de toda a pregação. ... Não se encante com os comentários que irmãos tolos e ignorantes possam fazer com respeito a suas realizações. Se elogiam sua pregação, não permita que isso o ensoberbeça.”17 Três meses depois, porém, Hull saltou naquele “terrível precipício”. Tornou-se conferencista e escritor dos espiritualistas.18 Stanton em Montana. Enquanto Ellen White esteve na Austrália, A. W. Stanton, um irrequieto leigo de Montana, publicou uma compilação das declarações da Sra. White, que pareciam apoiar sua opinião de que a Igreja Adventista havia apostatado e se tornado Babilônia. Ele entendeu que chegara o tempo de parar de patrocinar financeiramente a igreja organizada e “sair dela”.19 Tempos depois, Stanton enviou um mediador à Austrália, esperando obter o apoio da escritora. Poderia ter poupado seu dinheiro, visto que ela já havia escrito seus comentários a Stanton em 23 de março de 1893. A recapitulação que ela fez do ensino bíblico a respeito do que João, o Revelador, queria dizer por “Babilônia” foi simples e convincente. De maneira direta, ela escreveu: “Se você está ensinando que a Igreja Adventista do Sétimo Dia é Babilônia, você está errado. Deus não lhe deu nenhuma mensagem assim para proclamar. ... Presumo que algumas pessoas poderão ser enganadas por sua mensagem, porque estão cheias de curiosidade e do desejo de alguma coisa nova.”20 Ela também escreveu para a Review quatro artigos intitulados: “A Igreja Remanescente

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Não é Babilônia.” Estes foram republicados depois em Testemunhos Para Ministros.21 Nessa série de artigos, a Sra. Ellen White deixa claro sua angústia em relação àqueles que apanham seleções de seus escritos e fazem com que pareçam apoiar os pontos de vista pessoais do compilador. “Ao tomarem desautorizadas liberdades”, escreveu ela, “apresentam ao povo uma teoria que engana e destrói. Em tempos passados, muitos outros fizeram a mesma coisa, e deram a parecer que os Testemunhos apoiavam posições que eram insustentáveis e falsas.” (Ver princípios de hermenêutica nas páginas 389-391.) Depois, relembrou aos membros de sua igreja: “Questões há nos Testemunhos escritos que não são para o mundo em geral, mas para os filhos de Deus.” (Ver págs. 176 e 177.) Embora concordasse que existiam males na igreja e continuariam a existir até o fim, sabia que “a igreja destes últimos dias há de ser a luz do mundo poluído e desmoralizado pelo pecado. A igreja, débil e defeituosa, precisando ser repreendida, advertida e aconselhada, é o único objeto na Terra ao qual Cristo confere Sua suprema consideração”.22 O conselho que Ellen White publicou pôs fim ao movimento de maneira tão rápida quanto a maneira como se havia desenvolvido. Anteriormente, na década de 1880, ela havia analisado a anatomia da apostasia e das estratégias de Satanás: • “Começa por influir sobre os espíritos de modo a despertar neles ciúme e descontentamento em relação aos que têm a liderança do trabalho. • “Discutem-se depois os dons, resultando daí serem eles amesquinhados, e acaba-se por desconsiderar as instruções dadas por meio de visões. • “Segue-se então o ceticismo com relação a pontos vitais de nossa fé, os sustentáculos de nossa posição. • “Vem depois a dúvida sobre as Escrituras Sagradas. • “Finalmente, a marcha descensional para a perdição.” A Sra. White continua em seu exame: “Quando os Testemunhos, em que uma vez se

acreditou, são postos em dúvida e rejeitados, Satanás sabe que os iludidos não se deixarão ficar por aí; e redobra de esforços até que os arraste a uma rebelião declarada, que se torne insanável e termine em destruição.”23 A Voz nem Sempre Bem-vinda Seria reescrever a história afirmar que os detratores de Ellen White foram somente os dissidentes, os líderes carismáticos que ressuscitaram erros teológicos caducos ou os pregadores das igrejas populares. O conselho e, às vezes, a reprovação nem sempre eram bemvindos, não importa a quem fossem dados. Se ela só houvesse feito elogios, teria sido aclamada como portadora de juízos favoráveis e extraordinários. Mas ela compartilhava a mesma preocupação dos verdadeiros profetas bíblicos. Desde os primeiros tempos de seu ministério profético, teve que contender com homens e mulheres obstinados, cujos motivos egocêntricos e pontos de vista antiescriturísticos precisavam ser denunciados.24 Em 1869, Ellen White, na época com 41 anos de idade, teve que contender novamente com calúnia, boatos e desinformações. Relembrando os itinerários de reuniões campais, escreveu: “As mentiras motivadas por pura malícia e inimizade, as invenções perversas proferidas e propagadas com o objetivo de destruir a proclamação da verdade, eram impotentes para afetar a mente daqueles que estavam realmente desejosos de saber o que é a verdade. Não duvidei por um momento que o Senhor me tinha enviado para que aquelas pessoas sinceras que haviam sido enganadas tivessem a oportunidade de ver e ouvir por si mesmas que tipo de espírito possuía a mulher que fora apresentada ao público sob tão falsa luz, para neutralizar a verdade de Deus.” Naquela carta, ela salientou um ponto que é sempre relevante: “Ninguém é obrigado a crer. Deus dá evidência suficiente para que todos se possam convencer pelo peso da evidência, mas nunca removeu nem nunca removerá toda oportunidade para dúvida, nunca forçará a fé.”25

Mais tarde, em outubro de 1869, os ataques maliciosos ficaram tão patentes que se nomeou uma comissão da liderança, composta por J. N. Andrews, G. H. Bell e Uriah Smith, para investigar as acusações lançadas contra Tiago e Ellen White. A comissão solicitou que fossem apresentadas as evidências que pudessem ser reunidas para documentar as alegações. Algumas semanas depois, atendendo o convite aberto da comissão, os White também solicitaram na contracapa da Review: “Os que souberem de coisas dignas de denúncia ou indignas de um cristão e de mestres do povo, a respeito da conduta geral da Sra. White e sobre mim, durante o período de nossas atividades públicas, tenha a bondade de imediatamente torná-las conhecidas ao escritório.”26 Em 26 de abril de 1870, o relatório em forma de folheto ficou pronto para distribuição. Os membros da igreja de toda parte tinham agora nas mãos a evidência decisiva de que as calúnias, os boatos e as desinformações contra o casal eram sem fundamento. O relatório não foi contestado. Na Review, começando no fim de 1869 e continuando em 1870, Tiago escreveu vinte e cinco artigos de primeira página sobre “Nossa Fé e Esperança, ou Razões por que Cremos Como Cremos”. J. N. Andrews, na época editor da Review, reforçou com um editorial de vinte proposições a respeito do uso das visões de Ellen White. Sobre o uso dos escritos de Ellen White como uma “prova”, Andrews escreveu: “Existem tais coisas... como pessoas que têm na providência de Deus uma oportunidade para tornar-se familiarizadas com a obra especial do Espírito de Deus, para que reconheçam que sua luz é clara, convincente e satisfatória. Para tais pessoas, consideramos que os dons do Espírito são claramente uma prova.”27 Em 1880 foi publicado o Testemunho No 29.28 Boa parte do conselho se dirigia ao “gueto” adventista que se estava desenvolvendo em Battle Creek. Alguns dos membros da igreja de Battle Creek, não preparados pa-

ra as reprovações e contestações, recorriam aos jornais da região para expressar seus sentimentos. Os redatores dos jornais de Battle Creek, bem como de Lansing, Chicago e Detroit, junto com os cidadãos de Battle Creek, também liam as rigorosas mensagens de Ellen White. E os jornais adoravam o conflito. Uriah Smith pediu ao Journal de Battle Creek a cortesia de imprimir uma resposta refutando algumas mentiras, o que foi concedido. Poucos dias depois, o correspondente Henry Willis escreveu no Journal: “Eu gostaria que todas as outras crenças religiosas em Battle Creek fossem tão fiéis aos princípios morais como a Sra. White e seus adeptos. Então não teríamos os detestáveis antros de vício, nem tabernas, nem tabacarias nem casas de jogo, nem ar poluído com os vapores do rum e desse letal destruidor de seres humanos, o fumo.”29 Em 1883, observando que Uriah Smith e outros pareciam frios em relação a seu trabalho, Ellen White convocou uma reunião com os funcionários da editora.30 Posteriormente, ela relatou, em parte, as observações que fez naquela reunião do dia 20 de agosto: “Os boatos mais extravagantes e incoerentes a respeito de minha posição, minha obra e meus escritos serão postos em circulação. Mas aqueles que tiveram uma experiência nesta mensagem e conhecem o caráter da minha obra não serão afetados por essas coisas, a menos que eles mesmos se tenham afastado de Deus e se tenham corrompido pelo espírito do mundo. Alguns serão enganados por causa de sua própria infidelidade. Querem crer numa mentira. Alguns traíram sagrados e importantes depósitos, e esta é a razão por que vagueiam nos labirintos da dúvida. ... Alguns há, mesmo entre os ligados a nossas instituições, que estão em grande perigo de naufragar na fé. Satanás trabalhará mascarado, da maneira mais enganosa, nestes ramos da obra de Deus. ... “Durante quarenta anos, Satanás empenhou os mais resolutos esforços para extirpar esse testemunho da igreja; mas tal testemunho tem continuado ano após ano advertin-

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SEÇÃO

IV
CAPÍTULO 21
DISSIDENTES, DENTRO E FORA

M E N S A G E I R A

D O

S