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Texto Victor Guerra em Homenagem a Salvador Celia

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Publicado porrnpi
Texto de Victor Guerra em homenagem a Salvador Célia
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INSTRUÇÕES

PARA NÃO ESQUECER A VOZ DE SAL VADOR
Victor Guerra*

I

Nos dias de hoje, quando parece imperar a necessidade de manuais de instruções que nos ensinem a funcionar como seres humanos, muitas vezes nos deparamos com uma série de indicações "precisas" de como ser bons pais, de como fazer os bebês dormirem, etc. A necessidade de orientação e de conhecimento do ser humano é universal. O estar exposto à orfandade do não saber sacode nossas certezas e gera toda uma série de emoções negativas que põem em cheque a nossa autoestima. Por que falar disso no momento em que nos reunimos na apresentação de um livro tão importante que nos permite evocar, recordar a pessoa de Salvador? Porque Salvador sabia de tudo isso e dedicou parte de sua vida a ajudar os pais e os bebês a não ter medo de sua ignorância; ajudou-os a descobrir seu próprio manual, seus próprios conhecimentos, suas próprias potencialidades, sendo sua experiência emocional o instrumento fundamental. Salvador apelava sempre a sua empatia, ao seu próprio compromisso afetivo para estabelecer uma ponte entre os técnÍcos e os pais, entre os pais e o bebê, entre o bebê e o mundo. A Semana do Bebê é uma prova disso. Para isso, ele sabia que tinha que falar uma linguagem muito particular, a linguagem que implicava o corpo, que implicava os afetos, a surpresa, a espontaneidade: a infância da língua. Mas de que infância e de que língua falamos? Da mesma que fala o poeta Manoel de Barros: liAs palavras eram livres de gramáticas e podiam ficar em qualquer posição. Por forma que o menino podia inaugurar. Podia dar às pedras costumes de flor. Podia dar ao canto formato de sol. E, se quisesse caber em uma abelha, era só abril' a palavra abelha e entrar dentro dela. Como se fosse a infância da língua.
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se agora seguíssemos a ideia de Manoel e, em vez de a palavra abelha, pegássemos a palavra Salvador? Ao abri-la, descobriríamos que outras palavras estavam escondidas dentro de seu nome. Encontraríamos:
E

S de solidariedade.

Porque Salvador fez da solidariedade uma religião.

A de amor. Por acaso aqueles que estávamos perto dele não sentíamos o amor com que levava adiante a sua tarefa?

Victor Guerra é psicólogo e psicanalista,

membro da Associação Psicanalítica do Uruguai, coordenador e assessor de grupos de

pesquisa sobre a primeira infância. ex coordenador Cientifico, juntamente com Salvador Célia e Alberto Konicheckis. do Curso de Pósgraduação "Clínica da Perinatalidade e transtornos dos vínculos precoces" (UDELAR, ULBRA. Université Aix en Provence).

L de liberdade. Liberdade de pensamento em seu trabalho, que lhe permitia apelar tanto aos

conhecimentos científicos como à experiência cotidiana da vida. V de visão. Porque foi um dos visionários da Psiquiatria Comunitária, admirado por isso, considerado um mestre na Europa e nos Estados Unidos. A de arte. Por sua sensibilidade cada vez maior à relação entre a ciência e a arte, sua paixão pelo cinema, pela música, pelo teatro, pela dança, como forma de entender a complexa relação de uma mãe com o seu bebê.
D de dedicação. Salvador dedicou sua vida à tarefa de melhorar as condições de vida e de relação dos

bebês com seus pais. Ele era apaixonado pela origem, pelo início da vida afetiva dos bebês e também por dar origem a outros. Salvador era como uma fonte que convidava os outros a submergir no conhecimento da origem, do início do desenvolvimento de um bebê.
R de resiliência. Foi um dos conceitos que mais o apaixonaram, o de descobrir essa tenaz aderência à

o de origem.

vida que têm certos sujeitos que lhes permite sobreviver aos golpes sem perder a esperança. Uma vez descoberto tudo o que guardava a palavra Salvador, recomendamos a você que abra o livro, que o leia, que veja o CD e que se deixe levar pelos testemunhos, pelas fotos, pela alegria, pelo compromisso, pela emoção barulhenta de uma cidade (qualquer uma, a sua, a minha) que começa a vibrar, sentindo-se renascer porque pode acolher de uma maneira diferente um bebê e sua famz1ia. Depois, depois você seguramente estará comovido, e então faça o que Cristina Albuquerque, do UNICEF no Brasil, me sugeriu que fizesse para escrever este texto: "Inspire-se e deixe o seu coraçãofalar bem alto, como ele quiser." Fique em silêncio uns instantes, e talvez perceberá como, em um suave rumor do vento, surgirão muitas vozes: as vozes das pessoas da Semana do Bebê, que, como um envelope sonoro, cobrirão a pele da sua alma.
E se você prestar atenção especial, escutará, entre todas as vozes, a voz de Salvador, eterna, imutável, que,

com a mesma força de sempre, lhe dirá que a ilusão tem sentido e que é possível, ainda, unir-se para construir um destino diferente. Então, deixe que sua voz e a de Salvador se encontrem, deixe que se reconheçam, deixe que se abracem e deixe, por favor, que caminhem juntas pelas ruas da vida. Assim, não esqueceremos nunca nem a voz, nem o pensamento de Salvador Célia.
Os bebês do Brasil e do mundo agradecerão.

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