Você está na página 1de 7
SOPHIE CALLE Histérias reais AGIR O retrato Eu tinha nove anos. Mexendo na correspondéncia de minha mie, encontrei uma carta enderecada a ela que comegava assim: “Que- rida, espero que vocé esteja pensando seriamente em colocar nossa Sophie num internato...” A carta era assinada por um amigo de mi- nha mae. Cheguei & conclusao de que ele era meu verdadeiro pai. Quando ele vinha nos visitar, eu me sentava no seu colo e olhava bem nos seus olhos, esperando uma confissao. Diante da sua indife- renga e do seu mutismo eu acabava tendo minhas diividas. Entao, ia reler a carta roubada. Eu a tinha escondido atrés do quadro da sala de jantar, uma pintura da escola flamenga do final do século XV intitulada Luce de Montfort que representava o busto de uma jo- vem mulher num corpete cor-de-rosa, com o perfil ligeiramente voltado para a esquerda, o olhar frontal, e o rosto emoldurado por uma touca branca engomada. O sapato vermelho Tinhamos onze anos, Amélie ¢ eu, ¢ toda quinta-feira & tarde, entre as quatorze ¢ as dezessete horas, sistematicamente, percorrfamos as grandes lojas de departamento para surrupiar alguma coisa. Um ano se passou. Um dia, a mae dela, desconfiada, inventou que tinha rece- bido a visita de um policial que havia nos visto, mas que, por causa da nossa idade, nos daria uma segunda chance: a partir de entao, ele ficaria de olho e, se nao fizéssemos mais nenhuma bobagem, estarfa- mos perdoadas. Passamos as semanas seguintes andando pelas ruas tentando adivinhar quem, entre todos os homens & nossa volta, era 0 policial que nos seguia e, depois, tentando nos livrar dele, quando achavamos té-lo localizado. Nao tinhamos mais tempo para roubar. Nosso tiltimo furto foi um par de sapatos vermelhos grandes demais para nés. Amélie ficou com o pé direito, eu, com o esquerdo. O nariz Eu tinha quatorze anos e meus avés queriam corrigir algumas das mi- nhas imperfeigées. Iriam refazer meu nariz, esconder a cicatriz da minha perna esquerda com um pedago de pele retirado das nddegas e, ainda, corrigir minhas orelhas de abano. Eu nao estava conven- cida, mas me tranquilizaram: eu poderia desistir até 0 tiltimo ins- tante. Foi marcada uma consulta com o doutor F., famoso cirurgiio plastico. Foi ele que acabou com as minhas duividas. Dois dias antes da operagao, ele se suicidou. rr A carta de amor Sobre a mesa, est4 jogada displicentemente, hé anos, uma carta de amor. Nunca havia recebido uma carta de amor. Encomendei uma a um escritor de cartas, Oito dias depois, recebi uma linda carta de se- te paginas, escrita 4 mao, em versos. Tinha custado cem francos, ¢ 0 homem dizia: “...sem fazer um 86 gesto, segui vocé por toda parte...” 23 Acama 7 de outubro de 1979, 0 inquilino foi se deitar e ateou fogo as rou- Era a minha cama. A cama onde dormi até os dezessete anos. pas. Morreu. Os bombeiros jogaram a cama pela janela, Ela ficou Depois, minha mae a colocou num quarto que foi alugado. No dia nove dias abandonada no patio do edificio. Axicara