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ALVARO CARLINI CacHIMBo E Maracd: o Catimso pa Missao (1938) CENTENARIO DE NASCIMENTO DE MARIO DE ANDRADE ACERVO HISTORICO DiscoTEcA ONEYDA ALVARENGA CENTRO CULTURAL SAo PAULO 1993 Ua. Sai o Tivo? Nio acredito! Afinal, editar tres por intermiio da initia palin nio 16 tala ‘uo Fe. Esta epopsiaenvolve definiées © recursos _Sgfcativs, com diversas iplicages, tas com: deve ‘ou roa mit pica edit lives? Deve fn por meio de co-edigdes? Qual deve sera tage, a quem se dove doar lias? Doves coloea 0s los i venda, 2 ae rego? |S sei que pesuis como ext, sore to importante ‘spect do flor msl brad, merece nse tl “etpenbo para toms lx pies confome appa en. um excelente momento pars dvlgarmos a Miso de Pesquisas Foleliica,oganicada plo proprio Mévo de Andrade © Onexda Alvarengs em 1938, exjo acervo cencontrase muito bem conservado na Discotses ner Alvareng. (0 Centra Cultural So Paulo, gio da Secretaria Municipal de Catura, por interméato da Diseoteca (Oneyda Alvarena,apresinla est lio come o print de uma sére do publiagbese eventos, que vam, em titima insti, recuperar 0 atraso de mais de meio séeulo, na divulgacao dos resultados da Missio de Pesquisas Folds, Desde que assumimos a diesio deste Centro Cuitaral, em jane de 1983, estabelecemes como p0- ridade homenagear o grande pensador da cultura Dasa da primeira metale deste seul, o ado do Departamento de Cultura da cidade de Sao Paulo, hose ‘Secretaria Municipal de Cultura, enfin, 0 primsiro ‘rane sgtador cultural de Sin Paulo, 0 309, 350 de oss clara ‘Mais ands: a Discoteca Onenda Atareng, erada por Métio de Andrade em 1935, de onde partiu a Miso, e que foi digits por esta brava mulher, que hho the empresta © nome, € a maior discoteca do Bras, com um acer de 70,00 dscns, 40.000 art furaseliosespelalizades, A nossa homenagem n3o termina aqui Pretendenos moderizar & Discoesa Onejda Abarends ‘A meta é em dois anos, invesir em novos eaunamen tos, enriquever 0 acero fonogréfieo, informatzat a Mtn Braurrieser — "Rochedo Siahi", com modi enhida no Rio Grande do Norte, EMB 1.120 — Disco ME 10 — lade ‘Os outros discos da série ME, gavads entre 19961945, correspondem & = ME 1 a 3 — Carlos Gomes — “Sonata para quinteto de cordas — O Burrico de Pau”. Quarteto Haydn do Departament de Cltura de SP. ME I1-ME 18 — Francisco Mignone —“Mlaracatu de Chico Ret, Kurzwellersender Orchester ‘Berl, sb arencia do compositor. “ME 19-ME 22A — Camargo Guarnieri — “Treze CangSes de Amor". Camargo Cuamiert (nano), Cristina Maistany (cant) PME 228 — Camargo Guarnieri — “Cantign de Nina Camargo Guarnie(piano), Eunice de Conte (tino. = ME 23 a ME 25 — Seis Vals para Pano, de autora de Camargo Guarnieri Dinorah de CCanatho, Arthur Pereira, Francisco Mignone, Clorinda Resalo e Souza Lins. Ao piano, Amaldo Este 4 osigdes registradas nesses discos serviriam também de material divulgador da miisica produzida no Brasil em pases do exterior. " Sobre o resgate do folclore musical brasileiro, continuava 0 Deputado Paulo Duarte: “(u) Os registros cientificos do folclore musical brasileiro foram iniciados em maio de 1937. Contam com vinte e oito fonogramas, sendo que a Discoteca principiaré ainda no corrente ano uma viagem de cinco meses ao nordeste, a zona musical folclérica mais importante do pafs, a fim de colher material para o seu arquivo etnogréfico Os fonogramas incluem: uma congada mineira completa, a Danga de Santa Cruz realizada em Itaquaquecetuba em maio de 1937 varias dancas e cantigas mineiras. Suponho nao ser preciso insis- tir sobre a importincia da colheita urgente dessas manifestagdes ‘ue, infelizmente, tendem a desaparecer. (..)” ® Os registros fonogréficos musicais, uma vez coletados por especialistas, seriam “(...) destinados nao sé & documentagdo folelérica como para servir os estudos dos musicistas necessitados de uma fonte segura de expresso da miisica nacional. (..)" " Os registros de miisica folclérica realizados até aquela data foram con- sumados nos Estados de So Paulo e Minas Gerais, Sao eles, mais especifica- mente: Danga de Santa Cruz (em Itaquaquecetuba-SP, a 2 e 3 de maio de 1937, 4 fonogramas ); Congada (em Lambari-MG, 10 fonogramas); Embolada Mineira (em Lambari-MG, 1 fonograma); Cana-Verde (em Lambari- MG, 1 fonograma); Taquaral (em Lambari-MG, 1 fonograma); Modinha (em LambarieMG, 1 fonograma); Catereté (em Lambari-MG, 1 fonograma); Folia de Reis (em Lambari-MG, 9 fonogramas), totalizando os vinte e oito fonogramas anunciados pelo Deputado Paulo Duarte em seu discurso. * Esses fonogramas iniciaram a série F da Discoteca Piblica Municipal, destinada ao registro de folclore musical brasileiro. Os fonogramas acima relacionados correspondem a: F1-F4 — Danca de Santa Cruz; F5-F6 — Congada de Lambari; F7A/B — Embolada, Canaverde, Taquaral, Modinha, Catereté; F7B-F10 — Folia de Reis. 0 intuito de fornecer material musical folcl6rico para o aproveitamento tematico pelos compositores eruditos era uma preocupacdo constante no tra- 11 ~ef. CONTIER, AD. ~ “Bras Nove, Misca, Ngo e Modemidade” — Tese de Line Doctncia, ‘Sho Paulo, PPCLIILUSP, 1988, 12 — “Contra o Vandalsmo e o Extermini." 0 Esta de S, Paulo, 7 de outubro de 1987.1 13 — idem biden, p11. 14 — Cada fonograma correspond a uma fava de disco, e pode contr ras melodia reistradas fine terupiamente, 35 —ALVARENGA, 0. — opt 1942, ppl0-11, 18 balho e no pensamento gle Mario de Andrade. A inexisténcia de documen- taco musical publicada em forma de coleténea, fruto da imegularidade de expedigdes de caréter etnogrdfico para a coleta de material folclérico brasileiro, que possibilitara o aproveitamento artistico, além da realizagao de estudos comparativos com rigor cientifico, levou Mario de Andrade a apre- sentar na segunda parte do Ensaio sobre a Musica Brasileira (1928) um conjunto de 122 melodias de varias regides do Brasil, coletado em parte dire- tamente da fonte popular. Poi no Ensaio sobre a Mdsica Brasileira, considerada a primeira obra que direcionou os estudos de folclore musical em uma orientaco cientifica, que Mério de Andrade sistematizou seu projeto para a nacionalizagao da mési- ca brasileira, Esse projeto de nacionalizacio, fundamentado na mésica pura em oposi¢do & misica descrtiva ou programatica do século XIX, na técnica contrapontistica de composicio e, em especial, no aproveitamento de temas do folclore musical, foi apresentado no Ensaio sobre a Mtisica Brasileira onde Mério de Andrade estudou também algumas das constancias ritmicas, tonais- harménicas e formais de cantos folcléricos por ele recolhidos. * Annecessidade e “(..) @ émportincia da colheita urgente dessas mani- festagées populares que, infelizmente, tendem a desaparecer(..)", apon- tadas no discurso de Paulo Duarte & Assembléia Legislativa, refletem uma questo problemética que ganha proporgdes nas primeiras décadas do século XX: a dualidade erescente entre a misica folclérica rural, anénima, funcional, espontinea, salvaguarda dos valores ocultos e puros da nacionalidade brasileira vista como um todo homogéneo versus misica popular urbana emer- gente nos grandes centros como Sao Paulo ¢ Rio de Janeiro, “influéncia deletéria” " no dizer de Mario de Andrade, fruto das camadas subalternas influenciadas pelos imigrantes, impura, desorganizadora da visdo centralizada e tinica da cultura nacional, preconizada pelos modernistas da década de 20. Essa miisica popular brasileira, subsidiéria da can¢o e das dancas de sala européias, como 0 schottisch, a polca, a mazurca, comecou a fixar seus elementos préprios por volta de 1870. Sua evolucao, primeiramente nas formas da modinha e lundu, e posteriormente com a seresta e 0 choro, exe~ cutados pelos pianeiros e chordes do Rio de Janeiro (Chiquinha Gonzaga, ‘Sétiro Bilhar, Anacleto de Medeiros, entre varios outros), acabou por influen- ciar compositores com formaco erudita como Alexandre Levy, Ernesto Nazareth, Heitor Villa-Lobos, provocando uma dicotomia na questio nacional, desde entéo apoiada ma producio musical folclérica e rural. A situagio recrudesceu na medida em que o desenvolvimento dos meios de comunicagao de massa, em particular o ridio, em franca fase de implemen- 15 —cf CONTIER, A.D. op. cit 1988 17 —ANDRADE, N. de—op.ct 1972 18 —CONTIER, AD. opt 1988. 16 taco no Brasil, avancou, modificando e influen dos grandes centros urbanos, ® ‘Com formaco em mtisica completada no Consenat6rio Dramético e Musical de Sao Paulo, ministrando posteriormente aulas de Histéria da ‘Misica e piano nesta mesma instituico, Mario de Andrade j& havia, em anos imediatamente apés a realizacio da Semana de Arte Moderna, realizado vi gens de cunho etnogréfico por regides afastadas dos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e So Paulo. Assim, data de 1924, a visita de Mirio de Andrade a Minas Gerais, realizada conjuntamente por um grupo modernista de Sao Paulo (Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Paulo Duarte, entre outros), acompanhado do poeta francés Blaise Cendrars. Essa viagem, denominada pelo grupo de Viagem da Descoberta do Brasil, acom- panhou em Minas Gerais um momento tradicionalmente importante na regio: a quaresma e a Semana Santa, ” Modificando 0 projeto nacionalista modernista esbocado durante a Semana de 1922, que a principio teve énfase no dado estético e que progres- sivamente adquiriu um teor ideolégico *, a Viagem da Descoberta do Brasil nao resultou em uma coleta de documentos musicais. As observagdes rea- lizadas por Mario de Andrade foram aproveitadas em seu ciclo poético Clan do Jaboti, de 1924, em que 0 autor estlizou as solucdes técnico-iterarias populares, dedicando esses poemas a Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, entre outros: indo a populagao habitante “| Enganada pelo escuro Camalalé fala pro homem: Ariti, me dé uma fruta Que eu estou com foe. ~Ah, Estava com fome... 0 homem rindo secundou: -Zuimaaliiti se engana, Pensa que sou arti? Eu sou Pai-do-Mato. Era 0 Pai-do-Mato.” * illa.Lobos, 0 Choro e os Cros’, Musica SIA Cultura Nuscal, So Paulo, 20 —ef LOPEZ, TPA. in ANDRADE, M. de — “0 Turis Aprendis” — exabeecimento de testo, introdug3oe notas de Telé Porto Ancona Lopez. Sio Paulo, Ed. Duas Claes, 1976. 21 ~ CONTIBR, AD. opt 1988, 22 — ANDRADE, M, de “Poesias Completss", Cicuo do Lio, 1976. 165-167. YW Foi também por essa época que Mario de Andrade iniciou seu trabalho de coleta de documentaco musical folclérica, ampliando suas leituras especificas sobre esta area. Entendendo as regides Norte e Nordeste do Brasil como ricos reposit6rios de tradigao e cultura popular, Mario de Andrade planeja, em 1926, uma viagem etnografica para coletas de docu- mentos musicais. Seria a segunda Viagem da Descoberta do Brasil, a ser realizada pelo mesmo grupo que empreendeu a visita a Minas Gerais, com excegio do poeta Blaise Cendrars, e com uma postura de distanciamento favoravel a uma pesquisa mais sistemética. Por varios motivos, esta viagem foi adiada para o ano seguinte, 1927, com o roteiro agora se estendendo para a regio Amazénica, numa época do ano importante, pois Mario de Andrade e o grupo ld chegariam em meados de julho, periodo em que se realizam as principais dancas draméticas desta regiao, ‘A viagem & Amazénia acabou nao se transformando no que foi planeja- do, O grupo que acompanharia este trajeto, entre eles Paulo Duarte, ficou reduzido & presenca de Dona Olivia Guedes Penteado, mecenas das artes em So Paulo, e por sua sobrinha. Mario de Andrade nao péde desenvolver a contento seu projeto etnogrifico devido a este fato. Ficou atrelado, na maio- ria das vezes, a recepcGes oficias e as relages de respeito e cordialidade que envolviam homem e mulher: * “17 de julho — Vida de bordo. Amanhecemos em Trés Casas, mas nao desci, por ter safdo da cabina (sic), depois da partida do ote. (...) Estou meio amolado... Paradinhas sem descer. Com mil bombas! de-repente pus reparos que nesta historia de viagem com mulher, afinal as coisas mais titeis que eu poderia ver, nao vejo, nesta pajeacdo sem conta...Por exemplo, ainda nio visitei, de-fato, um seringal! (...)"* Realizada no perfodo de maio a agosto de 1927, essa viagem foi marca- da pela preocupacio etnografica, mostrando a Mario de Andrade a necessi- dade de colocar em andamento uma pesquisa mais sistematica nesta regio que se oferecia rica em tradic&o musical folclérica. Voltando a Séo Paulo, Mario de Andrade publicou suas notas de pesquisa e observacdes no recém- criado Diario Nacional, érgao do também recente Partido Democratico, sob o titulo de O Turista Aprendiz. ‘A viagem de maior interesse etnografico musical foi aquela realizada ao nordeste durante o perfodo de dezembro de 1928 a fevereiro de 1929. Desta vez sozinho, na qualidade de correspondente do Diario Nacional, Mario de Andrade visitou Pernambuco, Rio Grande do Norte e Parafba. Convivendo com seus amigos nordestinos (Camara Cascudo, Ascenso Ferreira, Ademar Vidal), Mario de Andrade trabalhou sobretudo na Paraiba e Rio Grande do 23 — ef. LOPEZ, TPA op ct 1976. 24 — idem idem, 1976 25 — idem ibidem, 1976. 8 Norte, recolhendo grande documentacao musical de cantadores convocados pelos amigos folcloristas. Assistiu ensaios e representagies de dancas draméti- cas, estucdou a religiosidade e a mtisica de feiticaria do Catimbé, passou o car- naval no Recife, conheceu 0 coqueito Chico Ant6nio ficando impressionado por sua capacidade de improvisagio. Além da pesquisa musical, registrou em seu diario de viagem seu interesse pela arquitetura, suas preocupacdes pelas condigdes de vida e trabalho do homem nordestino. (0s resultados etnogréficos musicais desta viagem de Mario de Andrade no foram publicados de imediato. Aproveitando muitos elementos dessa pesquisa em suas conferéncias, artigos e ensaios, a inteng’o de Mario de Andrade era a edicZo total dos dados numa obra de estudo e divulgacZo que se denominaria Na Pancada do Ganzé, numa referéncia a este instrumento de percussao extremamente popularizado na regiao do Nordeste brasileiro. ‘Trabalhando intensamente desde seu retorno em 1929 até 1933 na ordenacio dos resultados das pesquisas, com cerca de 900 melodias de ma- nifestagdes musicais populares e, munindo-se de leitura sistematica para estudé-los, Mario de Andrade nao chegou a publicar 0 Na Pancada do Ganzi. Falecendo antes da conclusio dos originais, esta obra foi organizada e publicada, ainda que em partes, por sua amiga e colaboradora Onevda Alvarenga: Miisica de Peiticaria no Brasil, Os Cocos, Dancas Dramaticas do Brasil (3 vol.), As Melodias do Boi e Outras Pecas. projeto de Na Pancada do Ganzé, se editadlo em um tinico volume, conforme os planos originais de Mario de Andrade, constituiria a maior coletinea de miisica folclérica brasileira até entao reunida. *” Este perfodo também marcou uma intensa atividade de Mario de Andrade, editando diversas obras no campo musical. Em 1929, publicou a coletinea Modinhas Impetiais; em 1931, elaborou, juntamente com Luciano Gallet e Anténio de $4 Pereira, a proposta de reestruturacao de Instituto Nacional de Mésica; em 1932, publicou a segunda edicdo do Compéndio de Histéria da Musica; em 1934, editou uma série de artigos seus, redigidos para a imprensa, reunidos sob o titulo Mitsica, doce Musica; em 1935, jé proximo de assumir a direcao do Departamento de Cultura, um estudo sobre Reis de Congo foi publicado no Boletin Latino Americano de Musica, coor denado pelo musicélogo Curt Lang Ciente que a questo da nacionalizacdo da misica brasileira nao se restringia somente neste aspecto etnogréfico, e que, pelo contrario, o aban- dono deste era reflexo de dificuldades em planos bem mais abrangentes (politico-ideolégicos, tais como a falta de uma politica oficial de apoio & pesquisa e as artes; a0 congelamento da estética do Romantismo aos pro- blemas decorrentes desse fator — a pianolatria, o desinteresse geral da bur- suesia pela temética nacional, a questo do ensino musical), * Mario de 26 — cf LOPEZ, TP.A.-op. cit 1976. 27 — ALVARENGS, 0. in ANDRADE, M. de ~ “Os Cocos” — Preficio,intreducio enotas de Oneyda ‘Alvareng, Séo Paul, Ed. Duns Cidade, 1984, 28 — cf CONTIER, AD. op. ct. 1988. st Andrade depositard suas energias no projeto de criacio do Departamento de Cultura de Sao Paulo. Em 1936, ja entao empossado no cargo de Diretor do Departamento de Cultura, Mario de Andrade manifestar-se-ia através de artigo para imprensa, lamentando-se sobre a precéria situagao da etnografia cientifica no Brasil, 0 que prejudicava os estudos especificos do folclore brasileiro, fundamental na construgo do conceito de brasilidade segundo os pressupostos modernistas: “(.) Faz-se necessério e cada vez mais que conhecamos 0 Brasil. Que sobretudo conhecamos a gente do Brasil. E entio, si recomemos aos livros dos que colheram as tradicées orais, e os costumes da nossa gente, desespera a falta de valor cientifico dessas colheitas. Sao descricdes imperfeitissimas, incompletas, a que muitas vezes fal- tam dados absolulamente essenciais. Séo selvas de quadrinhas bem vestidas, numa lingua muito correta, em que é manifesta a colabo- racdo do recolhedor. Sao miisicas reduzidas a ritmos simpl6rios, nao se sabe como recolhidas, a maior parte das vezes guardadas na meméria, e nao colhidas ditetamente do cantador popular © que vale tudo isso? Além de ser pouco em comparacéo com a riqueza absurda dos nossos costumes € do nosso folelore, além de ser pouco, vale pouco. E uma documentacao mal colhida, anticien- tifica, deficiente. H4 momentos em que o estudioso do assunto desanima ante esse montio de livros mal feitos e tem a impressao desesperada de que tudo deve ser repudiado, e nada pode servir como documentacio. ( A Etnografia brasileira vai mal. Faz-se necessario que ela tome imediatamente uma orientaco pritica haseada em normas se~ veramente cientificas. Nés nao precisamos de te6ricos, os tebricos virdo a seu tempo. Nés precisamos de mocos pesquisadores, que vio & casa do povo recolher com seriedade e de maneira completa 10 que esse povo guarda e rapidamente esquece, desnorteado pelo progresso invasor,(..)” \Varias foram as iniciativas do Departamento de Cultura no sentido de minimizar e tenlar solucionar esta situacdo dos estudos etnogrétficos no Brasil descrita por Mario de Andrade, Além da criacdo da Discoteca Publica Municipal, em 1935, e da realizacdo do I Congreso da Lingua Nacional Cantada, em 1937, trés outras atividades de importancia para o incremento do acervo documental destinado aos artistas ¢ estudiosos, e na orientacéo cientifica desta investigacio, ocorreram, sempre patrocinadas pelo Departamento de Cultura, em particular, pela Divisio de Expansao Cultural: 29 —"A Situagio Etnogytica do Bra”, Jornal Sintese, Belo Horizonte, n 1, outubro de 1985. 20 a fundacSo da Sociedade de Etnografia ¢ Folclore, em 1936; 0 envio do com- positor Camargo Guarnieri ao II Congresso Afobrasileiro, ocorrido em Salvador (BA), em 1937; e a realizacio da Missao de Pesquisas Folcléricas (MPF), expedicao de carater etnografico que percorreu as regides Norte ¢ Nordeste do Brasil no primeiro semestre de 1938. Uma das intengdes da Sociedade de Etnografia e Folclore, criada em 4 de novembro de 1936, fruto final de curso ministrado pela Sra. Dina Lévi- Strauss, antropéloga e esposa do também antropélogo Claude Lévi-Strauss, era exalamente fornecer uma orientacZo metodoldgica e cientifica aos estu- dos especfficas da érea no Brasil.” curso ministrado pela Sra. Dina Lévi-Strauss, patrocinado pelo Departamento de Cultura, foi estruturado em 21 aulas, sendo a tematica abordada subdividida em Antropologia Fisica e Folclore (Definicao, Cultura Espiritual — misica, danca, dramas, contos, provérbios — e Cultura Material = arquitetura, objetos). Desse curso participaram, entre varios outros, Luiz, Saia, responsdvel pela Missdo de Pesquisas Folcléricas que realizar-se-ia em 1938; e Oneyda Alvarenga, chefe da ja constituida Discoteca Publica Municipal. Ao término do curso, por sugestao de Mario de Andrade, foi cria- daa Sociedade de Etnografia e Folclore. * Em 2 de abril de 1937, em uma de suas reunides, foram discutidos aprovados os Estatutos da Sociedade, sendo eleita sua primeira Diretoria composta por, entre outros, Mario de Andrade (Presidente) e Dina Lévi Strauss (Primeira-Secretéria). Entre os sdcios fundadores encontram-se Claude Lévi-Strauss, Eméni Bruno, Mario de Andrade, Luiz. Saia, Camargo Guarnieri, Oneyda’Alvarenga, Plinio Ayrosa, Rubens Borba de Moraes, ‘Sérgio Millet. * Os dados obtidos com o primeiro trabalho de pesquisa realizado pela Sociedade de Etnografia e Folclore foram utilizados para a elaboragio de cartas geogrificas posteriormente enviadas ao Congresso Internacional de Folclore, ocorrido em Paris, em 25 de junho de 1937. Essa pesquisa teve como objetivo a verificaco das proibicées alimentares, das dancas populares e dos métodos de cura observados no Estado de Sio Paulo. Para sua exe- cucdo, foi enviado um questiondrio sobre os trés assuntos as instituicdes pablicas de todo estado e aos especialistas na érea do folclore. Mario de Andrade, na apresentacao deste questionario afirmava ser “(...) inuitil enca- recer a necessidade desta colaboracio ao Congreso Internacional de Folclore. (..)", ¢ continuava: “(..) So Paulo e o Brasil serdo assim repre- sentados dignamente pelas cartas geogrdficas paulistas, realizadas com ‘30 — Boletim da Sociedade de Etnograiae Folelore, Revita do Arquivo Municipal de SS0 Paulo, Departamento de Cultura, Anon. 1 1997 S31 — A documeniagio da Sociedade de Btnogafia¢ Folelore incusive 0 esumo das aulas do curso ministrado por Dina LéviStauss, se enconirano Contr Cultural So Paulo, aria TX, esta. tinhos 32.50, da Discotea Oneyda Aarne, 132 — “Esautos da Sociedade de Etnograi Folciore" — Revista do Arcuivo Municipal, Departamento de Cultura, So Paulo, n°49, 1987 a @ cooperacéo fraternal e altamente culta de todos. (...)” *. Cabe notar que, ainda em 1936, 0 Departamento de Cultura ja havia participado do Congresso Internacional de Folclore anterior, enviando relat6rios € mapas ‘geogréficos de manifestagdes populares observadas no Estado de Sao Paulo, sendo apresentados por Nicanor Miranda (Chefe da Diviséo de Parques Infantis), e que foram “..) alvas de expressivas felicitagoes por parte dos organizadores do Congresso realizado em Paris As atividades da Sociedade de Etnografia e Folclore reduziram-se ao minimo com a safda de Mério de Andrade da direcio do Departamento de Cultura em 1938. Apesar de ter sido extinta em 1941, quando era seu diretor Nicanor Miranda, a Sociedade de Etnografia ¢ Polclore promoveu, durante (0s anos de maior atividade, intimeras reunides abertas a0 piblico, em que eram apresentadas comunicagdes cientfficas sobre as atividades de pesquisa em folclore realizadas pelos seus sécios. Além disso, editou um Boletim, pu- blicado pela Revista do Arquivo Municipal, que informava as atividades ilti- mas da Sociedade e que contava com uma série de instrucées metodolégicas e sistematizantes para a coleta de dados folcl6ricos, efetuada pelos seus colaboradores voluntérios espalhados pelo Estado de So Paulo. ® No entanto, a instituicao responsivel pela coleta, estudo e divulgacio da parte musical era a Discoteca Publica, ligada & Divisio de Expansao Cultural, dirigida por Oneyda Alvarenga. Além das atividades j& men- cionadas, como o registro dos discos que compoem as séries do Arquivo da Palavra (AP), Musica Erudita Paulista (ME) e as primeiras gravagdes de folelore, a Discoteca também manteve um acervo de documentos musicais coletados por estudiosos e grafados, sem o registro mecénico, diretamente da fonte popular. Esses documentos, como jé afirmara 0 Deputado Paulo Duarte em seu discurso & Assembléia Legislativa de Sio Paulo, seriam uti- lizados para “(...) servir os estudos dos musicistas necessitados de uma fonte segura de expressdo da muisica nacional. (..)” *. Para suprir parte deste acervo da Discoteca Ptiblica Municipal foi enviado a Salvador (BA), em 1937, o compositor Camargo Guarnieri ‘Camargo Guarnieri, juntamente com o pianista Fructuoso Viana, acom- panhou as atividades do Il Congresso Afrobrasileiro, reunido na Bahia em janeiro de 1937. 0 resultado da viagem foi expressivo: além de registrar dangas e grafar em notaco musical cantos varios, Camargo Guarnieri trouxe consigo uma importante colec&o com cerca de 200 melodias de candomblés baianos. Paralelamente a isso, Camargo Guarnieri fotografou o samba, a capoeira e os préprios candombiés pesquisados. A colegio de melodias ¢ dados complementares recolhida por Camargo Guarnieri fi incorporada a0 133 — Questiondro da Sociedade de Exowafae Folclore, apresentado por Mésio de Andrade, datado de de abil de 1987 etm da Sociedade de Btnogafia eFoelore, Ano Ln. 3, 1937 am etados no toa sete Boletins da Sociedade de Enograa Foor, datadosde- outubro, ‘povembro edezembro de 1997; janeiro, fevereroe marco de 1998; janeiro de 1699, ‘36 — "Conta o Vandalism eo Extermina."O Estado de S. Pao, 7 de outubro de 1937.1. a Bo 2 acervo folclérico de registros nao mecnicos (anotacao musical direta) da Discoteca Péblica Municipal. No entanto, a necessidade de suprir o acervo de registros musicais efetuados por meias mecénicos (registros fonogréficos), principalmente das regides do norte e nordeste brasileiros, consideradas as regides mais ricas em tradigbes folcl6rico- musicais do Pais, levou a Discoteca Péblica Municipal, a patrocinar no ano de 1938, a realizacdo da Misso de Pesquisas Folcléricas (MPF), enviada a essas regides com o objetivo de documentar em discos o maior nimero possivel de mani- festagdes musicais, além de coletar dados complementares &s gravagbes efetuadas. B A Misso de Pesquisas Folcléricas “Gund Vamu dancé minha gente Com toda sastisfacao Pra mandé nossa cantiga Lé pra civilizagao. So Paulo vae uvi Coisa qui nunca uviu 0 céco da nossa terra Qui daqui nunca saiu, (.) Seus dotd, homé do Sul Nosso adeus vamu the dé E leve nossa cantiga LA pro vosso lug.” No discurso & Assembléia Legislativa, em outubro de 1937, o Deputado Paulo Duarte jé anunciava a realizagio da Missio de Pesquisas Folcldricas (MPF): “(.) sendo que a Discoteca principiara ainda no corrente ano uma viagem de cinco meses ao Nordeste, a zona musical mais importante do pais, a fim de colher material para seu fim etnogré- fico. (..)”* A realizacao da MPF, segundo 0 Deputado Paulo Duarte, atenderia “(o) indiretamente ao apelo lancado pelo Congreso Internacional das Artes Populares, reunido em Praga (1936), sob os ausptcios do Instituto Internacional de Cooperacéo Intelectual (...)”. Na seqiiéncia de seu discur- so, Paulo Duarte justificava: “(..) A maioria dos cantos ¢ melodias populares esto prestes a desaparecer. Sua conservacio é de uma grande importancia para a ciéncia e para a Arte. O Congresso (Internacional das Artes Populares) recomendou o seu registro fonogréfico no mais curto razo possivel. As notagées, por mais perfeitas que sejam, no substituirao o registro fonogritico, (.)" ® 837 — Textos originas da Misséo de Pesquisas Foleévcas (MPF) — Letra de um ceo caetado em ‘Tseaatu, Pemambuco, em 10 de margo de 1938, no gravado, nots de La Sin. Teno 1d Pasta 2 das transerigdesrealizadas por Oneyda Aharengs,armirio IX, escaninho 15, da Discotecs ‘Oneyda Aharenga do Centro Cufural So Paul (DOAICCSP), £38 ~ “Contra o Vandalisno © 0 Extermiio” 0 Estado de S. Paulo, 7 de outubro de 1987, . 11 39 — idem idem, p.11 ‘Apesar de anunciada para aquele ano de 1937, a MPF somente foi rea- lizada no primeiro semestre de 1938. As mudancas politicas ocorridas em rnovembro de 1937, com a decretaco do Estado Novo de Geto Vangas — ue colaborariam indiretamente para o afastamento de Mario de Andrade da diregao do Departamento de Cultura — provocaram um adiamento no in dda expedicio. Afinal, com verba ja reservada pela CAmara Municipal, os inte- grantes da MPF partem com destino ao Recife (PE) em fevereiro de 1938, para somente retornarem em julho desse mesmo ano. Para a realizac3o da MPR, Mério de Andrade redigiu diversas cartas de recomendacao destinadas aos seus amigos folcloristas (Camara Cascudo, Ademar Vidal, Ascenso Ferreira, entre outros), que foram entregues aos compo- nentes desta expedicao com intuito de facilitar a pesquisa e a coleta musical de rmanifestagdes fole6ricas j& conhecidas desses estudiosos. Além disso, Mario de ‘Andrade colaborou na eiaboracao do roteiro da viagem, na escolha dos mem- bros da equipe e no estabelecimento dos métodos para coleta. Em uma de suas cartas de recomendacio, datada de 21 de janeiro de 1938, sem destinatario definido, Mario de Andrade assinalou os objetivos fais da tealizagio da MPF: ata Toda a documentacao recolhida pela Missio, sera publicada para estudo e uso nacional. 0 Departamento de Cultura solicita de quantos brasileiros este documento lerem, a assisténcia, 0 conse~ Iho, e a acolhida jamais recusada pela generosidade nacional, certo de que sera por todos reconhecida a benemeréncia do tra- balho que se propés e que esta Missio realiza. Mario de Andrade. Diretor” ® No entanto, o vasto documental coletado por esta expedicao per- manece, ainda hoje, praticamente inédito. A situacao pouco fayoravel enfrentada pela Discoteca Pablica Municipal apds a saida de Mario de Andrade da direc3o do Departamento de Cultura, fez com que apenas uma parte nfima do acervo fosse publicada, ainda assim, somente oito anos apés 0 término da MPF, a partir de 1946, com os dois volumes da colecio do Arquivo Folclérico * e as publicagdes que subsidiariam as audicies dos dis- cos coletados por esta expedicao, a colecao Registros Sonoros de Folclore ‘Musical Brasileiro (RSFMB), com 5 volumes. * ‘A Missdo de Pesquisas Folel6ricas percorreu de fevereiro a julho de 1938, seis estados brasileiros (Pernambuco, Paraiba, Ceara, Piaul, Maranhlo “40 — Documentos orginal da MPF — “Carta de Recomendac.", Doc. n.o 128, rméio IX esani sho, da DOAICCS, 41 — ALVARENGA, O. org) — “Arquivo Follrico." @ vol: Melodias Regiradas Por Mies Nio- ‘Mecdnieos, 1946; CalogoTstado do Museu Pocirco da Dscoteca Pblica Municipal, 1950), ‘So Paulo, Discoteca Publi Municipal 42 —ALVARENGA, 0. (erg) — “Registos Sonoros do Folclore Musial Brasit.*(S vol: Xan, 4948, Tanborde-Mina ¢ Tamborde Crioulo, 1948; Catimbé, 1949; abussue, 1950; Cheganga de Maries, 1950), Sio Palo, Discotca Pblia Municipal. 26 ‘Membros de MPF: (da es, para di.) Martin Braurusieser, Luiz Sai, Benedlito Pacheco e Ant6nio ‘Ladeira, Teatro Santa Isabel, Recife (PE, marc de 1988. e Pard) com a incumbéncia de registrar em discos 0 folclore musical dessas regides, além de coletar informes complementares &s gravacies realizadas. A sistematizagio dos dados e divulgaco dos materiais coletados ficaram sob responsabilidade de Oneyda Alvarenga, chefe da Discoteca Publica Municipal, a quem os quatro integrantes da MPF respondiam diretamente. Os quatro integrantes da MPF foram indicados por Mario de Andrade. Eram eles: Luiz. Saia, Chefe da expedico, engenheiro e arquiteto, sécio da Sociedade de Etnografia e Folclore e pesquisador da Divisio de Documentacao Hist6rica e social; Martin Braunwieser, mtsico, maestro-assis- tente do Coral Paulistano e posteriormente maestro do Coral Popular (1937) do Departamento de Cultura, técnico em musicologia folclérica da Discoteca Piiblica, fundador e diretor musical da Sociedade Bach de Sao Paulo (1935- 1977); Benedito Pacheco, técnico do Departamento de Cultura e conhecedor da maquina de gravacdo Presto Recorder utilizada na expedi¢ao; ¢ Antonio Ladeira, auxiliar geral e assistente-técnico de gravacio. ‘Munidos da melhor tecnologia que a época dispunha, os quatro inte- grantes da MPF, prepararam-se para gravar, fotografar, cinematografar, reco- Iher e descrever 2 maior quantidade de manifestagdes populares que encon- trassem nas regides brasileiras percorridas. a material empregado para a realizaco desta expediao foi bastante volumoso: seis malas e trés bats que abrigavam gravador Presto Recorder, amplificador, 50 caixas de agulhas para reproduc’o, microfones com cabos e tripé, 237 discos virgens de 16, 14 e 12 polegadas, motor-gerador de eletrict- dade (110 volts), pré-amplificador, blocos de papel para pesquisa, aspirador de p6, esquemas graficos de funcionamento do gravador e gerador, fones de owvido, pick-up para o gravador, 17 saffras para gravacao, 108 filmes para fotografias, 15 filmes cinematograficos, cimera fotografica Rolleiflex com estojo,fltros e lentes, aparelho cinematogréfico Kodak com filtos e lentes, além de 4 pastas de couro para transporte dos discos. © Antes da partida, os responsdveis pela viagem da Missa de Pesquisas Folelricas — Luiz Saia como chefe da expedicio e porta-voz autorizado do Departamento de Cultura; e Martin Braunwieser, encarregado dos servicos musicais — receberam orientacdo para o procedimento metodoldgico de coleta folelérica de Mario de Andrade, através de textos selecionados sobre 0 assunto e de notas redigidas por ele mesmo. Além disso, esses dois inte- grantes da MPF, assinaram uma declaracdo afirmando reconhecer que toda a documentacao colhida na viagem pertencia 4 Discoteca Publica Municipal, se comprometendo a nao revelar o material recolhido sem a autorizacao expressa do Diretor do Departamento de Cultura. * Com todos os detalhes acertados, os integrantes da MPF partiram do porto de Santos (SP) com destino ao Recife (PE), a bordo do Itapagé, embarcagao da Companhia de Navegacao Costeira, em 6 de fevereiro de 1938. No dia seguinte, o Itapagé aportou no Rio de Janeiro, tendo Luiz Saia obtido outras cartas de recomendacio cedidas pelos escritores Arthur Ramos e Jorge de Lima, amigos de Mario de Andrade. Além disso, Luiz Saia tratou de divulgar a viagem da expedicao, concedendo entrevista ao Diario Carioca, onde reafirmou os objetivos da Missio de Pesquisas Folcléric ey 0 objetivo principal da Missio é a pesquisa do folclore musical. Para esse fim a Missao est4 devidamente equipada. Dispomos de uum aparelho de gravagao dos mais aperfeigoados ¢ modemos, ¢ de uma maquina cinematogréfica para a flmagem de dancas etc. Contudo, o nosso campo de aco nao se restringe ao folclore musical. Estende-se, também, a colheita de material relativo a costumes, arquitetura, enfim, a todas as modalidades da técnica popular. (..) Vamos trabalhar intensamente, certos de que esta- mos servindo causa da cultura nacional. (.." © 43 — Documentos origins da MPF — “Papéis Diversos.", Doc. n.o 6, armirlo IX, escaninho 2, DOAICCSP. ‘44 — Documentos origins da MPF — “Termos de Compromise”, Doc. 08 5 « 6, de 28.12.1957, mdrio IX, escannho 8, DOAICCSP. 45 — "Uma Grande Obra em Favor da Cultura Nacional.” Dirio Carioca, 8 de feverero de 1938, Hemeroteca Doc. 0 9x, DOAICCSE. 28 Na realidade, essa entrevista concedida ao Didrio Carioca nao foi rea- lizada pessoalmente com Luiz Saia, mas sim redigida por Antonio Bento de Aradjo Lima, residente na cidade do Rio de Janeiro, com dados fornecidos pelo Chefe da MP: Em correspondéncia enviada a Mario de Andrade, escrita abordo do Itapagé quando este estava a caminho de Vitoria (ES), datada de 9 de fevereiro de 1938, Luiz Saia se escusa pelos pequenos erros de informagao que a matéria jomalistica contém: “(..) Na entrevista que o Anténio Bento publicou no Carioca de 8.2.38 — 3? feira, safram alguns trechos que talvez possam parecer a voce, ndo digo a alguém daf, coisa minha. Tem um trecho dizendo que eu sou o pesquisador principal do Departamento (de Cultura) e da Sociedade (de Etnografia e Folelore). Isso por exemplo é coisa exclusiva do Antinio Bento. (... Eu nao tenho culpa delas. Dei os dados ao Anténio Bento e cle desenvolveu a redaco da entrevista a sua maneira. (.)” * A MPF aportou no Recife (PE) em 13 de fevereiro — depois de escalas realizadas no Rio de Janeiro (R), em Vit6ria (ES), Salvador (BA) € Maceid (CE) — tendo permanecido no estado do Peambuco até o dia 26 de marco de 1938, quando entao, viajou para Joao Pessoa, Paraiba. ‘A permanéncia da MPF no estado de Pemambuco contou com algumas diiculdades resultantes da delicada situacdo politica local, fruto da decretacao do Estado Novo, em novembro de 1937. O interventor do estado de Pernambuco, o secretério da Fazenda, Agamenon Magalhies, limitou a area de transito da MPP aos culos de sua influéncia, negando-se a dar apoio material a expedicao caso esta entrasse em contato com os opositores do Estado Novo, entre eles Gilberto Freyre. Além disso, a influéncia politica da Igreja, apoiada na Constituigio de 1934, que oficalizou o catolicismo como religiao no Brasil, decretou a persegui¢a0 policial de cultos afro-brasileiros e de feiticaria, como 0 Xango e o Catimbé, efetuando o fechamento de varios cents e terreinos, e if cultando sobremaneira os trabalhos de coleta da MPF. Em outra correspondén- cia enviada a Mario de Andrade, através de amigo para evitar a censura imposta aos correios, Luiz Saia relatou ao Diretor do Departamento de Cultura seu rela cionamento com o mundo oficial da cidade do Recife: “(..) Aqui no Recife foi absolutamente necessério entrar em contato com 0 mundo oficial. © Agamenon (Magalhées) me tratou muito bem, porém parece que a politica dele € deixar 0 bareo ser levado pela corrente que escolheu para as Secretarias. Ele é mais ou ‘menos um ponto morto que muito dificilmente podera resolver ‘qualquer coisa diretamente a favor ou contra o nosso trabalho. Dos Documentos originals da MPF — “Correspndincias.", Doc. no 31, de 09.02.1998, armirto IX, sscaninho 7, DOAICCSP, 2 secretirios 0 que esti mais em contato com a batina é 0 Manuel Lumambo com sua turma ultra direita da revista Fronteiras ”. Com a carta do Jorge de Lima * conversei com este tiltimo elemento do governo. Imediatamente ele me deu a entender que, si a Missio nao quisesse ser embaracada no seu trabalho aqui no estado do Pernambuco, eu deveria me afastar 0 mais possivel do Gilberto Freyre ou qualquer outro elemento que nao fosse da turma de Fronteiras. Qualquer desobediéncia da minha parte em relacio a este pedido, prejudicaria completamente o trabalho da Missio, pois os padres esto dando as cartas. Ora, esta turma catdlica ¢ ariana e erradissima. Por imposicao dela foram fechados os xangOs apreendido todo material das secGes. E verdade que estou vendo se consigo umas boas gracas para o Ascenso (Ferreira) encaminhar pelo menos a colheita das linhas melédicas destes xangés. Para conceder isso, tenho a impresso que a turma oficial esta fazendo absurdos de concessao. (..)"* No entanto, favorecendo-se da influéncia e das repercussbes nacionais e intemacionais que os trabalhos do Departamento de Cultura vinham obtendo, além do renome e prestigio de seu Diretor, a MPF, mediante ordem especial expedida pelo delegado de policia da capital pernambucana, reali- zou, em 26 de fevereiro de 1938, a gravaio do Xang6 de Idida Ferreira (Guida Mulatinho), no Teatro Santa Isabel, cedido pelo seu responsdvel Samuel Campello. ® Além disso, durante o perfodo em que permaneceu no estado de Pernambuco, de 18 de fevereiro a 26 de margo, a MPF visitou sete municipios realizando gravacdes e coletas de Bumba-Meu-Boi, canto de Carregadores de piano, além da danga dos fndios Pancarus, o Praia, na Vila do Brejo dos Padres, municipio de Tacaratu, distante cerca de 500 kilome- ‘tos do Recife, em pleno sertao pernambucano. No estado da Paraiba, com uma compreensio melhor por parte das autoridades e com uma situaco politica local mais favorével, fruto em certa medida da etema concorréncia entre esses dois estados (PE e PB), as atividades ‘da MPF se estenderam por um periodo mais longo, sendo as coletas folléricas realizadas de maneira mais proffcua. Durante o periodo de 26 de marco a 30 de ‘maio, a MPF realizou duas viagens ao interior da Parafba — & zona do Sertio e 3. zona do Brejo — além de coletas préximas & capital litordnea. No total, os integrantes da MPF visitaram cerca de 30 localidades desse estado brasileiro. 47 —Ainda em feereito, os integrantes da MPF concederam uma entrevista 2 revista Froneiras (CHemeroteca sobre a MPF." Doc. no 35s) Em um outro echo deste mesmo document, Lila Sala afma que Marvel Lumambo “pedi uma entrevista para a reacioniia revista dele. (.) Segundo ele, eta enrevisia fo uma atte “politica. 48 — Documentos originals de MPF — “Cartas de Recomendar.” Docs. nos 1 24, de 7 de fever ‘de 1938, arnirio IX, escaninho 7, DOAICCSP. 49 — Documentos originals da MPP —“Correspondéncias", Does. 34, de 16.02.1938, armério TX, ‘excaitho 7, DOAICCSP. 50 —Xangb: sas FM 1 a FM 14, Rejstros Sonoras de Folclore Musical Brasiio vol. 1, 198, 30 os i Membros de MPF a caminko do Brejo dos Padres, municipio ce Tacaratu (PE) —marco 1838 — ‘fotografia tirada por Martin Brouraveser Logo apés ao retorno da primeira viagem ao interior do estado da Paraiba, em 25 de abril de 1938, Luiz Saia comentou, em entrevista concedida & imprensa da capital, a compreensio e 0 apoio por parte das autoridades locais: 1) Acabamos de chegar do serto paraibano e trazemos dele uma profunda impressao, um entusiasmo aumentado pela gente nordestina, ¢ um sincero reconhecimento &s autoridades das cidades visitadas, que dispensaram aos componentes da nossa MissZo, a mais carinhosa acolhida. Quero mesmo frisar, antes do mais, um ponto importante: é a compreensao € 0 espirito de colaboracio que estamos encontrando nas autoridades paraibanas, pois dai vem predominantemente 0 éxito que vimos obtendo em nossos trabalhos. (.."" 51 —“Obteve Pleno Bxto no Interior Paaibano a Missio Foleliia da Municpalade de So Paulo A Unido, 27.08.1998, Hemeroteca Dec. n.0 45x. DOAICCSP. 31 0 entusiasmo justificava-se pelos mimeros. A quantidade de melodias e manifestagées musicais documentadas nos discos, filmes e fotografias, durante toda a estadia da MPF no estado da Paratha, supera a marca de 760, envolvendo cantos de pedintes, aboios, cécos, catimbés, cabocolinhos, Reis de Congo, entre varias outras. A partir de 31 de maio, a MPF desloca-se em diregao aos estados do Norte, com o intuito de registrar as festas juninas tradicionais na regiao, Por esta época, em Sio Paulo, Mario de Andrade foi afastado da iregio do Departamento de Cultura, mantendo no entanto, a chefia da Divisdo de Expansao Cultural por mais um breve perfodo, Com as mudangas politicas ocorridas com a instauracao do Estado Novo em novembro de 1937, e com a nova orientacio administrativa imprimida pelo ento prefeito Prestes Maia, a continuidade da MPF passou a ser questionada, devido aos gastos que este empreendimento implicava, Mario de Andrade, na qualidade de chefe da Divisio de Expansdo Cultural, encaminhou entao oficio a0 novo diretor do Departamento de Cultura, Francisco Pati, justifiaando que as ver- bas maiores destinadas para a realizagdo da expedicao ja haviam sido reser- vadas no exercicio administrativo anterior, e apontando as razées da con- tinuidade da MPF: ) — 0 rendimento cientifico da Missio tem sido simplesmente admirvel. A primeira remessa de objetos folcléricos, (para mais de trezentas pecas pernambucanas), quase todos obtidos gratis (sic), enriqueceu sobremaneira 0 acervo da Divisio. (...) — As cangées gravadas, pela sua variedade de géneros e seu niimero, do a So Paulo uma fonte incomparével no Brasil, para estudos sobre a musicalidade do Nordeste. Ja ricos pois de docu- mentacéo nordestina, deve agora a Missio estar partindo, (si jé no parti), para 0 Maranhio e Para, regiao inteiramente distinta, classificada como “Norte”. Assim, teriamos 0 Nordeste e 0 Norte para estudos cientficos e para o conhecimento dos nossos com positores. Si pequenos trabalhos técnicos publicados pela Discoteca (...) causaram grande interesse e numerosa cor- respondéncia no pais e no estrangeiro,¢ facil imaginar 0 que nao causara futuramente os estudos que realizarmos com a documen- taco que ora se colhe. — Ousa ainda esta Chefia lembrar que o trabalho que se esta rea- lizando no escapa do ambito de cultura do municipio. A docu- mentagio colhida fica em Sao Paulo, e sera objeto de estudos para os Paulistas precipuamente. E si cuidamos todos na atuali- dade de abrasileirar o Brasil e tornéo uma entidade realmente unida, talvez nao haja no pais regido mais afastada da essenciali- dade nacional que esta regio de Sao Paulo, a mais cruzada de 2 imigrantes de varia proveniéncia. (..) Que se nao realizem outras missdes no futuro, mas que se termine a que est4 em seu meio a Na realidade, esta defesa de Mario de Andrade pela continuidade da expedicio foi somente efetuada para fins administrativos, pois os integrantes da MPF, antecipando-se & resposta do novo Diretor do Departamento de Cultura,’ Francisco Pati, i haviam tomado providéncias para a viagem aos estados do norte do Brasil. Assim, em 31 de maio, a MPF partiu com destino 2 capital do Maranho, numa viagem realizada toda ela em um caminhio, percorrendo novamente o interior da Parafba, parte do Cearé, Piauf, para atingir So Lu‘s do Maranhao em 16 de junho. Durante o trajeto, realizado nos mais diferentes tipos de terreno, houve diversas paradas nao planejadas devido ao esforco e desgaste imposto 20 ‘caminho em que viajavam os integrantes da MPF. Por 72 horas foram ol gados a permanecer na cidade de Jaicés, no Piauf, devido & quebra do radi ador do veiculo. No dia seguinte & chegada em So Lu‘s do Maranhao, em 17 de junho, ‘a MPP iniciou trabalho de gravacdo registrando a danca do Bumba-Meu-Boi a miisica de feiticaria do Tambor-de-Mina e Tambor-deCrioulo. Também af, a MPF necessitou de autorizacao do delegado de policia da capital para proceder o registro da misica de feiticaria “(..) onde e como lhe aprowver, contanto que seja nos subtirbios desta capital. (..)"® No dia 21 de junho, os integrantes da MPF partem de Sio Lu‘s do Maranhao por trem com destino a Belém do Paré, la chegando no mesmo dia, Os trabathos de gravacZo ocorreram no perfodo de 29 de junho a 7 de julho, com o registro de Boi-Bumbis e Babassué (feiticaria). ‘0 regresso-a Si0 Paulo foi a bordo do mesmo Ttapagé, da Companhia de Navegaco Costeira, com escalas em So Luts (MA), Fortaleza (CE), Natal (RN), Salvador (BA) e Vitéria (ES), chegando em 19 de julho na cidade do Rio de Janeiro. ‘A totalidade do material coletado pela MPF é bastante vasta e diversifi- cada, com documentos interrelacionando-se entre si: cerca de 1500 melodias registradas em 169 discos de 78 rpm; 6 rolos cinematogréticos silenciosos de 16 mm documentando 12 manifestacGes folcl6rico-musicais; 1060 fotografias, contendo registros de arguitetura popular e religiosa, de cruzeiros, dos infor- antes e de outros detalhes, além de cerca de 7000 paginas com anotacdes das letras das melodias registradas, sobre poética popular, arquitetura, notas, e dirio sobre a viagem, distribuidas em 20 cadernetas de campo, cademos de misica e diversos papéis doados pelas fontes populares a MPP. Constam '52 — Documentos orgnals da MPF — “Exposigo dos Atos e Conseqiéncias da Miso (de Pesquisa) Foleldrieas em viagem pelo Nore do Pais" Comespondacias Doc. n.0 2900, arméro IX, esc rho 6, DOAICCSP. 153 — Documentos orginas da MPF — “Cartas de Recomendagio", Doc. n.o 12, de 17.06.1938, armério IX, escaninho 7, DONICCSP. 3 também do material coletado aproximadamente 600 objetos, entre instru- ‘mentos musicais, ex-votos, milagres e objetos de ritos de feiticaria como o Xang6 e o Tambor-de-Mina. Os registros fonograficos foram realizados em discos de acetato com base de aluminio. Esse frégil material, que impossibilitava a utilizacao pro- Tongada desses discos, além da necessidade de cépias indispenséveis para a divulgac&o e estudo desses registros fonograficos, levou a Discoteca Péiblica ‘Municipal & proceder a regravaco em cera de parte desses discos e a conse- Giente tiragem da matriz de metal. No entanto, a falta de apoio superior de- vido & safda de Mério de Andrade da direcdo do Departamento de Cultura, contando com grandes dificuldades financeiras, a Discoteca Piiblica Municipal pOde somente iniciar, ainda que em parte, 0 servigo de matrizacao dos originais coletados, nos anos de 1945-1946. Dos 169 discos registrados pela MPR, apenas cerca de 80 foram matrizados, passando a constituir a subsérie FM (Folclore Musical) do acer- vo da Discoteca Pablica Municipal, onganizado segundo sua diretora Oneyda Alvarenga. O restante dos registros musicais realizados pela MPF permanece nos discos originais de coleta que, juntamente com outros documentos musi- cais colhidos pela Discoteca, constituem a série F (Folclore), ainda hoje nao matrizados. No entanto, apés a regravagdo em 1992 dos discos originais para um sistema mais moderno de reproducio, este acervo péde ser recentemente devolvido & consulta pelos pesquisadores e ptblico interessado. * © contetido musical desses discos totaliza 48 manifestagdes musicais populares distribufdas nos seguintes géneros: cantos de trabalho (car- regadores de piano, aboios, carregadores de pedra), Cantos de Pedintes, Dangas Dramiticas (Reis de Congo, Bumba-Meu-Boi, Nau Catarineta, entre ‘outras), Cantos puros nao ligados & danca (Embolada, Desafio, Martelo, Quacirao, Repente, enire outros), Cantos de Feitigaria ( Xang6, Catimb6, Babassué, Tambor-de-Mina, entre outros), Dancas rituais de nticleos indi- genas civilizados (Praié e Toré), Dancas coletivas (cécos de varias modali- dades), Dangas solistas (carimbé), Jogos Infantis (Rodas) e de Musica Instrumental Pura (solos de viola). * Esses discos, gravados nos estados per- corridos pela MPF (Pernambuco, Parafba, Ceard, Piaui, Maranhio e Para) se encontram na Discoteca Oneyda Alvarenga, do Centro Cultural Sio Paulo (CCSP). Também 14 se encontram os informes complementares a esses re- gistros fonogréficos, constantes nas cadernetas de campo e demais papéi ainda na maior parte, sem a transcrigao realizada por Oneyda Alvarenga. Em seu trabalho de organizacao do material coletado pela MPF, con- sumindo quase vinte anos de suas atividades, Oneyda Alvarenga constituiu 54 — Durante o ano de 1992, todos os discos registrados pela antgn Discoteea Plea Municipal, incuindo-se aquees registrados pela MPF, foram agrupados ¢ regrarados em sistema D.A.T. (Digfal Saco Tape, lem de eoiados para Mtascasees de alta qualidade. Desa forma, em 1996 todo Acero Histrco da Diseoteea Publi Municipal pide novanente ser devovido ao pblico inteessado. 55 — ALVARENGA, 0, op. cit 1942. p.1041 34 10 seges, com o cruzamento de diversos datos. Para isso, efetuou a trans- crigZo de parte das cademetas de campo e papéis avulsos, apenas aquelas referentes ao texto das melodias e aos dados sobre os informantes, per- manecendo o restante ainda em seu estado bruto de coleta. Bssas cadernetas de campo foram anotadas, em sua maioria, por Luiz Saia, Benedito Pacheco e Antonio Ladeita. ‘Também se encontram no CCSP 0s quase 600 objetos recolhidos por esta expedicio, que depois da organizacao elaborada por Oneyda Alvarenga, constituiram o Museu Folclérico da Discoteca Publica Municipal. Atualmente, este Museu esté desarticulado e seus objetos se encontram res- guardados no subsolo do CCSP. As fotografias tiradas durante a viagem da MPF, abordando além das manifestagdes populares, aspectos das regides percorridas e registro dos informantes, se encontram preservadas na Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural Sao Paulo. Os filmes cinematogréficos silenciosos de 16 mm, documentando dangas e ritos de feiticaria, esto preservados na Fundacio Cinemateca Brasileira sediada em Sao Paulo. A sistematizacio dos informes coletados pela MPF, realizada por Oneyda Alvarenga, resultou na criacio de duas colegdes de divulgagao dos dados obtidos por esta expedic2o: a colecdo Arquivo Folelérico da Discoteca Piiblica Municipal, com dois volumes publicados e varios outros, plangjados (IMelodias Registradas Por Meios Nao-Mecinicos — 1946; Il- Catélogo Hustrado do Museu Folcl6rico da Discoteca Paiblica Municipal - 1950) e a colecdo destinada a subsidiar a audicio dos discos, contendo 0 texto poético das melodias registradas, além de dados gerais dos infor- mantes, denominada Registros Sonoros de Folclore Musical Brasileiro (RSFMB), com 5 volumes (I- Xango — 1946, II- Tambor-de-Mina ‘Tambor-de-Crioulo — 1948, Ill- Catimbé — 1949, IV- Babassué — 1950, V- Cheganga de Marujos — 1956). ‘A intengao inicial de se proceder & transcri¢ao gréfica em notacdo musical dos fonogramas registrados pela MPF, um dos motivos principais para a realizacfo desta expedicdo, foi iniciada em 1946 sob responsabilidade do compositor Camargo Guarnieri. No entanto, foram realizadas apenas transcricées experimentais de parte fnfima do acervo, que permanecem, a exemplo de praticamente todo 0 resto, ainda hoje, inéditas. 35 A divulgaggio e a preservacao do acervo da MPF: os discos. A divulgacdo e a preservacao do acervo coletado pela Missio de Pesquisas Foleléricas de 1938 no ocorreu de imediato. Enfrentando situa- cbes adversas desde a said de Mario de Andrade da direcio do Departamento de Cultura de Sdo Paulo, a Discoteca Piiblica Municipal somente péde iniciar essa etapa oito anos apds o término da expedigao. Em 1945, quando finalmente houve a concessio de verbas para a preservacio e divulgagao do acervo coletado pela MPF, Oneyda Alvarenga, chefe da Discoteca Piiblica Municipal, j4 havia organizado todo o material recolhido pela expedicZo: discos, textos poéticos, textos das melodias regis- tradas em discos, fotografias, filmes cinematograficos, cademnetas de campo, artigos de jornais (hemeroteca) etc. ‘A classificacdo e organizacéo original atribuida ao material registrado pela MPF, estabelecida pelos integrantes da expedicio, foi substitufda por outra, elaborada por Oneyda Alvarenga, no processo de incorporagao do ‘ovo material ao acervo jé existente na Discoteca Pablica Municipal, fruto de ‘pesquisas e registros fonogréficos musicais realizados em anos anteriores. Dessa forma, os discos registrados pela MPF tiveram a classificacio numérica determinada por Benedito Pacheco — Técnico de Gravac3o da MPP — substituida por outra mais completa. A classificagao de Benedito Pacheco, iniciava-se com o ntimero 101, 0 primeiro disco registrado: canto de car~ regadores de piano coletado no Recife (PE), em 18 de fevereiro de 1938; e ter- minava com o ntimero 269, toadas de Babassue, culto fetichista afro-brasileiro registrado em Belém do Para, no periodo de 5 a 7 de julho de 1938. * ( acervo em discos coletado pela MPF incorporar-se-ia & colegio de registros de folelore musical brasileiro pertencente & Discoteca Publica ‘Municipal. Essa colecto, designada pela letra F, de Folclore, j contava com. as gravagies realizadas pela Discoteca em 1937: um total de 10 discos de 12 e 16 polegadas, A classificagao desses discos registrados em acetato € a seguinte: F-1 a F-4, discos de 12 polegadas, documentando a Danca de Santa Cruz de Itaquaquecetuba (SP); F-5 a F-10, discos com 16 polegadas, registrando Folia de Reis, Cana-Verde, Modinha, entre outras manifestagbes, populares encontradas na cidade de Lambari (MG). (Os 169 discos de varias dimensdes (12, 14 e 16 polegadas), registrados pela MPF nos estados de Pernambuco, Parafba, Maranhao e Para, foram incorporados & série F da Discoteca Pablica Municipal, dando continuidade A classificacio pré-existente. Assim, 0 primeiro disco coletado pela expe- digo, com parte do canto dos carregadores de piano do Recife (PE), classifi- cado por Benedito Pacheco com 0 numero 101, passou a ser designado como F-11, ¢ 0 iiltimo disco (Benedito Pacheco - ntimero 269), com as toadas de Babassue coletadas em Belém do Paré, como F-175. 11— Documentos originals da MPF — “Cadernta de Discos n.o 1 — Benedto Pacheco’ amo TX, ‘xcaninho 3, DOAICCSP. 39 Entre o material escrito para o controle de gravaco, encontra-se uma pequena cadernela onde Benedito Pacheco anotou descritivamente cada faixa de disco. Essas faixas foram numeradas por Oneyda Alvarenga €, posteriormente, nomeadas por fonograma. A MPF gravou exatamente 1223 fonogramas. Esses fonogramas, no entanto, registram cerca de 1500 melodias, pois alguns deles contém mais do que um documento musical. A diferenca de 4 discos anotada entre o F-11 e F-175, do total de 169 unidades coletadas pela expedicio, se deve & deficiéncia das anotagGes origi- nais realizadas por Benedito Pacheco: por um lapso, o Técnico em Gravacao da MPF nao descreveu o contetido (cada fonograma de disco) de uma peque- nna parcela do material, precisamente aquela que se refere aos registros fono- raficos realizados na cidade de Tacaratu (PE) e Bardo do Rio Branco (PE), entre 0s dias 9 € 15 de marco de 1938. Devido a esse fato, Oneyda Alvarenga classificou esses quatro discos restantes, deslocando-os para o final da série, de F-176 a F-179.* A principal preocupacdo de Oneyda Alvarenga era a preservacao do acervo de discos registrados em acetato, Esse material, frigil e quebradii deveria ser copiado em cera e posteriormente matrizado em metal, possi tando a tiragem de cépias em vinil. Esse processo ce matrizacSo era o que a tecnologia em som do final da década de 30 dispunha para a preservacao de registros fonograficos. * © processo de matrizagao possibilitava principal- mente a tiragem de cépias em vinil para a divulgacao e estudo do acervo. No ‘entanto, esse processo implicava em gastos razoavelmente vultosos. Foi somente a partir da concessio de verbas oficiais para esse ¢ ou- tros fins, no ano de 1945, que a Discoteca Publica Municipal iniciou 0 servico de preservacio ¢ divulgacio do material coletado pela MPF. Assim, no perfodo de dezembro de 1945 a dezembro de 1946 foi matrizado 0 primeito lote de discos coletados pela MPF — com 87 unidades do total de 169 discos originais da expedicao, em 78 rpm e de diferentes dimensies — 12, 14 e 16 polegadas. Essas 87 uniclades com varias dimensées, foram matrizadas em um tamanho padrao de 12 polegadas, vindo a se transformar em 115 discos 78 rpm. Esses 115 discos ento matrizados e padronizados, correspon- dentes as 87 unidades originais, iniciaram uma subsérie da Discoteca Piiblica Municipal: a subsérie FM (Folclore Musical) pertencente também a série F original. Dessa forma, a série F continha a totalidade dos re- gistros musicais de folclore brasileiro efetuados pela Discoteca Publica Municipal, incluindo os discos matrizados e os ainda nao matrizados; 2—cf. Fchirio da Dscotea Piblica Municipal, subdiviio FONOGRAMA, onganieado por Onewda ‘Aharerg, localzado no aceryo DOAICCSP. 3 Vide nese sentido a enzerista com Benedta Pacheco vealizada em 25,061984, pela Divisio de Pesquisa do CCSP, ocalzads no Arquivo Mltmein, se 1 de clasfears, 40 enquanto que a série FM contaria somente com as gravagées ja preser- vadas pelo processo de matrizaclo * Oneyda Alvarenga organizou a matrizag3o desse primeiro lote com 87 dis cos originais, agrupando-os segundo uma classificacdo global das manifestacées ‘musicais registradas pela MPF. Assim, por exemplo, os discos FM-1 ao FM-51, correspondentes a F-20 a F:26, F-94 a F-99A, F-102, F-120 a F-123, F133 a F- 146A e F-168 2 175, formam um primeiro grupo de discos destinados ao registro de cantos de feiticaria coletados pela expedicdo: Xango (Pernambuco-Discos FN-1 ao FM-14); Tambor-de-Mina e Tambor-de-Crioulo (Maranhao-Discos FM-15 ao FM-28A); Catimb6 (Paraiba-Discos FM-28B 20 FM-38); e Babassué (Belém-Discos FM-39 a0 FM-51).° A preservacio de parte dos discos originais da coleta através do proces- so de matrizagao possi yu & Discoteca Ptiblica Municipal o inicio de seu projeto de divulgacéo do acervo. Em 1949, apds organizacdo do material complementar referente ao primeiro lote de discos, estes passaram a ser doz- es culturais como o Conservatério Dramatico e Musical de So Paulo, Escola Nacional de Misica (RJ), Discoteca Piiblica do Recife (PE), Faculdade de Filosofia, Ciéncias e Letras da USP *, além de serem co- mercializados ao piiblico em geral.* [As outras sres dle cisos organzadae pela Discoteca Pblica Muncpal sio a série ME (Misica Erucita,com o registro das abeas de compustrespaistas om residents em Seo Paul; e a wrie AP Arguivo da Palos), com duae subdivses: Homens Istes (com alocugdes de personalidades signicatias do ceniro citural bras) os restos desinados aos astuds de fondtica, Vide Parte I desta publcacio. 5 — Os outros discos também manizados com regstos de folelore musical bras, pertncente sub. ‘série FM da DiscotecaPaea Municipal ae techn fem a ee ee Te Ea Pa marle- ou do Varu-oi —cho-g8, 8 ca Beco dioutre mun-do Gui pelo de mmgh 8 ca bo-co outro mundo Qui gor-to de rar-gh, Aepaida 2 cs Texto: Mestre: Na torre da jurema eu v6, Pamaloca de Vaucd cheg6. (Bis) Coro: $6 cabéico d’outro mundo Qui gosto de xangé. (Bis) Obs.RSEMB III: “O coro é conduzido por uma voz feminina.” 5 4) Toada do Mestre Periquitinho SS = sil AG dk de Pan Fee gn-teall Ml Gh dade Passe gute feptide (nes Texto: Mestre: £ meu piriquitinho! E meu maracana! Coro: Ai Cida’ de Pass'o, De quatro cua! Cida’ de Pass'o = Cidade de Passaro Obs.RSFMB III: “O coro & conduzido por uma voz feminina. Acompanhamento de maracd, Ouvem-se também alguns ruidos secos, esparssos e pouco nitidos, causados talvez por batidas das flechas. No inicio o solista corta os E do primeiro verso. As ultimas silabas de cidade e pass’o sao praticamente mudas, ouvindo-se ‘Ai cidd de pd”. No geral sao levissimas as tiltimas sflabas de piriquitinho e quatro.” Obs.transcrigao musical: Os maracés acentuam a unidade de tempo da melodia, 16 5) Toada do Mestre José de Arruda Marcial (¢ = 85) Mess x z erro Mewes — wh ost Geir ru Ga Ucn ge a iro Jk Me a po o z 7e, Me Patria o6 eomtodes t-te ek -b5—codhera~ 86 Po brn Beptide 9 wes Oe: na tarceira letra, @ parte do Coro é a seguinte: Texto: Mestre: Meu Mestri Jusé de Arruda, Licenca eu quero jd, (Bis) Coro: Pa brined cum tod’os tribo (2) Dos cabéco de Arubd. (Bis) Mestre: Meu Mestri Jusé de Arruda, Licenca eu quero jd, (Bis) Coro: Pa brinad cum tod'as frecha Dos cabico de Arubé. (Bis) Mestre: Meu Mestri Jusé de Arruda, Dora donde vocé vem? (Bis) Coro: Eu venho de Belém, Eu v6 para Jerusalém. (Bis) Obs.RSFMB III: “Por causa do mecanismo de parada automdtica do gravador, 0 final do fonograma foi cortado. O coro é conduzido por uma voz feminina. Acompanhamento de maracd. Na primeira vez em que canta os seus dois versos da quadra inicial, 0 coro ndo fala “tod'os tribo”, como se ouve distintamente no bis. Embora no possamos garantir, parece que diz “tod’as tlibo” (tribos).” Obs.transcri¢ao musical: Maracés acentuam a unidade de tempo da melodia. ur DISCO FM. 32-A No, do origi: F. 123-8, fons. 829 « 632 1) Toada do Mestre [?] Santo Anténio d-3 - ‘Tom original Fagf a Thy oe asin A et men Su—fioteake vent went is Pe ve ‘it may Sen —tin-o-abo wa s Reet 2 wees ‘Texto: Mestre: Aif meu Santo Antonho vai! A‘-ai! meu Santo Antonho vera! (Bis) Coro: As onda du md Ié vai, Id vail (Bis) As onda du md Ié vem! Obs.RSFMB Ill: “O coro é conduzido por uma voz feminina. Acompanhamento de maracd.” (Obs.transcri¢ao musical: Maracés acentuam a unidade de tempo da melodia, us 2) Toada da Mestra Maria da Luanda J- 00 fee — 0 te = amd, 6 ta-emcdel 5-1 bncndn tga ne Laat Ot 2) Mestre oe ape porary eee as Mestre ore OE ayer een 6 es, anda,3 ln-en-dal "S18 Bnd pode al 0 Lae aed 0 ‘Texto: Mestre: O Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincando, st6 forgando na Luandat O Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincando c’os cabOco da Luanda! 0 Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincando c’os discipo da Luanda! O Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincado c’os cabéco da Luandat O Luanda, 6 Luanda! Que boa mesa féiz a Mestra da Luandat 0 Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincando, ‘st6 forgando na Luanda! O Luanda, 6 Luanda! ‘St6 brincando c'os cabéco da Luanda! O Luanda, 6 Luanda! Mestre: Que boa (mesa féiz a) Mestra da Luandal Obs.RSFMB Il: “O coro é conduzido por uma voz feminina. Acompanhamento de maracd. Luiz Saia registra nos comentarios sobre o disco — maracds E incompreensivel a terceira palavra da tiltima entrada do solista. Depois de muito owvé-la, pareceu-nos pinga, mas nada nada podemos afirmar. Além disso, o mestre parece pronunciar Aluanda e Aloanda.” Obs.transcrigao musical: Maracds acentuam a unidade de tempo da melodia, n9 3) Toada do Mestre Penduarana d= 0 ‘Texto: Mestre: Canta meu Mestre Penduardna! (Bis) Coro: Aqui chegé um Mestre Da Cidade de Luanda! (Bis) Mestre: Danca meu Mestre Penduarana! (Bis) Coro: — Agui chegé um Mestre ‘Da Cidade de Luanda! Bis) Mestre: Cura meu Mestre Penduarara! (Bis) Coro: — Agui chegé um Mestre Da Cidade de Luanda! (Bis) Mestre: Alimpa meu Mestre Penduardna! (Bis) Coro: Aqui chegd um Mestre Da Cidade de Luanda! (Bis) Obs.RSFMB III: “O coro € conduzido por uma voz feminina. Acompanha- mento de maracd, muito pouco audivel. Luiz Saia registra nos comen- tdrios sobre o disco — maracd.” Ohs.transcrigo musical: Maracés acentuando a unidade de tempo da melo- dia, 120 4) Toada de Fechar a Mesa sagen = Eee ems dean o6 oda d= da ~ de, Vem drome to dor ot ie Meee O-m mm ds = a Aepide $ ses ‘Texte Mestre: Varo discansd tod'as cidade, Varo discansd todos os Mestre! Core: Ora vamu discansd! Mestre: Vamo discansd todos os Mestre, Vamo discansd disciplos-mestre! Core: Ora vamu discansd! Mestre: £ vamo discansd o princ'pe-mestre, Vamo discansd cachimbos-mestre! Coro: Ora vamu discansd! Mestre: E vamo discansd 0 marca-mestre, Vamo discansd todas os Mestre! Coro: Ora vamu discansd! Obs.RSFMB IIL: “O coro é conduzido por uma voz feminina. Nos versos 2,5, 11 Luts Gonzaga pronuncia més, em vez de Mestre ou Meste.” yi 5) Toada da Mostra Sebastiana 1m eritnal ~ Df m otengamente (J = 65) ten ‘Text Mestre: Brincando eu fui, Brincando eu vortei. Coro: Brincando ex vim, Brincando eu cheguei. (Obs.RSFMB III: “O coro é conduzido por uma voz feminina.” 12 mestre Manuel Laurentino da Silva Itabaiana (PB) — 5.5.1938 Catimbé de Mestre Manuel Laurentino da Silva Itabaiana (PB) — Discos FM 32B a FM 37B 1-) Breves anotacGes sobre o culto, realizadas por Luiz Saia, extraidas das cadernetas de colheita n.5, pp.134-150; e n.9 pp.15-59. Organizacio de Oneyda Alvarenga - Texto 54-Pasta 6 e Texto 108-Pasta 10, publicado no RSFMB III, pp.81-83 / pp.92-95. Realizam a sessdo em volta de uma mesa comum, porém seo servico for grande carece uma mesa maior. Poe a bacia no meio e os resto das coisas. Pde o santo que tivé. Pensa em Deus primeiramente e em N.Senhora. Os irmaos presentes sentam-se em volta. O mestre diz as seguintes palavras para abrir a mesa: Eu péco a meu pdi poderoso que mi mande aqueles isprito mais in- levado im nome di Deus i venha meus cabdco du juremé i venha mi ajudé trabaid. Nao é pur custume,(€) divido a perciséo. Dat o mestre se manifesta e canta: Eu venho di altas flores etc. (linha do mestre Mané Cadete - guia deste mestre dono de sessdo) As ajudantes cantam junto com o mestre. Quando mestre si arritira da matéria diz: + Todos fiquem com Deus ia Virge Maria, O pessoal responde: ~ Deus acrescente as suas luzes im nome di Deus. O mestre Mané Laurentino da Silva tira em primeiro a linha do ‘mestre Mané Cadete porque este é 0 seu guia. Depois das linhas do mestre Mané Cadete (que sao tiradas em primeiro porque este mestre é 0 guia do Mané Laurentino da Silva) tiram é a linka de mestre José Ful6 da Noite. Este mestre José Fuld da Noite, vestido em azul e branco com uma estrela, é 0 mestre que governa 9s outros. Cantam a linha dele pra chamar os outros mestres para o tra- 125 batho. A pessoa que vai se curar ou arranjar qualquer coisa & que dé os presentes @ as coisas necessdrias pra sessao. A linha deste mestre é: Vinde vinde fulo da noite, etc. Vai repetindo, repetindo esta linha até 0 mestre chegd “que 0 sinhd conhece aquele balanco”. Quando 0 mestre abaixa ele diz: - Deus 0 salve, meus irmdo. Qui é qui qué meus irmdo. Responde-se: ~ Bu desejo bons auxilio di meu irméo. Entdo chega a matéria que vai si curd e a gente (0 que esta atuado) pergunta a ela: ~ que é qui qué ? Deve ser comprado um cachimbo de cereja (catt) que solte um fumaca boa. ‘Na mesa ainda deve ter incenso, alfazema, chifre de viado e de boi preto (rapa ele sem signal nenhurn), fumo. Enche 0 cachimbo de fumo e alfazema e diz (esta cerimOnia chama cagd 0 cat): Deus o salve calcado velho calgad6 di péis i méo vala-mi Nossa Sinhora ia Virge da Conceicao vala-mi Virge Maria ia Virge da Conceigéo incontrei cum dois coboco arredé 0 pé da cruis vala-mi Nossa Sinhora ia Virge da Conceigao O mestre desce e diz: - Deus 0 salve meus irmao. Qui é qui deseja ? A pessoa responde (ajudante): 126 ~ deseja a matéria (o fazedor do catimbé) calcd este catti O ajudante acende 0 cachimbo e o fazedor se enfumaga todo. 0 mestre, vindo entdo, diz: - Em nome de Deus que é que deseja. O doente responde: - Bu desejo em nome de Deus bons auxilio, etc. (como antes) Omestre, com o mestre atuado: ~ apois Deus 0 conceda. Quando 0 mestre desce 0 fazedor pede pra furnd no catii e diz (pro tronco da jurema): ~ Ti arritira irmaozinho para as onda do mar sagrado, onde ndo canta 0 galo nem se ouve a cristandade. E pede entdo que se retire da materia levando os esprito ruim e levd pro mar sagrado, Qualquer mestre que chegue vem deitando esta falacdo: ~ Deus 0 salve meus irmao. Quando é pra fazé 0 bem pega o catti do lado direito (desse lado solta a fuurnaga) (interrompido) bo) Material de Catimbé Caderneta n.5 (interior da Paraiba — Itabaiana) Catimbozeiro Mané Laurentino da Silva (tem por guia o mestre Mané Cadete) Material necessdrio pros mestres: Mestre Carlos — Incenso, bijult, véla, aguardente, mé di urucu, vinho e charuto. Bebe que faz gosto. wr Mestre Zé Pelintra — cigarros. Zé Pelintra é prosista muito. Gosta de mogas. Mestre Zé Coelho — bengale. Uma garrafinha de bibida e uma benga- linha em cima da mesa. ‘Mestre Cangarussti — curimbdque (tabaco). Este mestre é um velhinho. Mestra Junguéra — junca. Mestre Mané Maié — uma cuia de aguardente. ‘Mestre Marinhéro — aguardente e charuto. Cabocos di Urubd (mais de cem) — cachimbo e mel de abetha (estes cabocos juntamente com 0 Mestre Malunguinho tomam conta dos ca- ‘minhos). Mestre Malunguinho — bebidas. ‘Mestre Geraldino — uma bacia de flores (este mestre ndo bebe, s6 fuma. $6 procura flores pra cheird que é doutor). ‘Mestra Angelina (trés mocas) — incenso, bejul, cravo branco e rosa pra defumd ela. Tanto trabaiando e baixando ela tira tudo que tird (sic) porque ela é negra da costa. ‘Mestra Maria do Egito — flores. Mestre Tamandaré — flores e um charuto, ‘Mestre Mané Rumdo — vela. (a) Mestra Laurinda — azul. Mestre Daniel — cor-de-rosa. ‘Mestre Belarmino — cor branco e com careiro arreado de dro. Mestra N.Senhora da Concei¢ao — azul. Mestre Antonio Caboquinho: (...) azul. Jurema. (ood 128 2-) Ensaio de Sistematizagao dos Informes relativos ao Catimbé de Manuel Laurentino da Silva, elaborado por Oneyda Alvarenga. Publicado no RSFMB III, pp.96-118. Segundo as indicagdes de Luiz Saia, o culto praticado por Manuel Laurentino da Silva é denominado catimbé, ndo constando das notas nenhum registro especial sobre a sua denominagao. As finalidades mdgico-religiosas das suas praticas sao essencial- ‘mente as mesmas dos catimbés conhecidos: em principal, como decorre da referéncia constante a pessoa ou “matéria” que vai se tratar, curar as doencas; obtencdo de outros quaisquer beneficios para os que recorrem aos poderes do catimbozeiro e dos Mestres do outro mundo; atracao de males sobre terceiros. 0 documentério permite ver ainda: 4a) Influéncia sensivel do espiritismo, demonstrada pelas expresses usadas (“matéria”, “manifestar”, “baixar”, “guia”, “irmdo”, etc.) e pelo formulério com que se inicia 0 culto e se conversa com os Mestres sobre- naturais. 6) O culto da jurema, observdvel através dos canticos, da existéncia dos reinos miticos da Jurema, e do uso da planta entre as oferendas aos Mestres. ¢) A defumagdo exorcistica e curativa por meio do cachimbo, bem como a utilizagdo magica do fumo em outras modalidades: charutos, cigarros e rapé, empregados nas oferendas aos Mestre. A ceriménia é chamada “mesa” ou “sessdo”, conforme se vé dos documentos e dos canticos. As sessdes podem ser realizadas a pedido de quem delas necessite: é 0 que se depreende das notas em que Luiz Saia trata vdrias vezes do “fazedor do catimbd”, indicando com essa expressdo, a pessoa em favor de quem se exercem as praticas. O pessoal do catimbs de Manuel Laurentino da Silva compoe-se de: Mestre — Fungdes ndo especificadas. Ajudantes — Fungoes vagamente indicadas: apenas é assinalado que no cdintico do Mestre Manuel Cadete, elas “cantam junto com o mestre”. Provavelmente, isso sucederd em todos os mais. A mulher de Manuel Laurentino canta sempre com ele. Além de auxilid-lo na cantoria, é ela quem trava com os Mestres sobrenaturais, “manifestados” através do catimbozeiro, 0 ditdlogo ritual que os discos demonstram existir durante 0 transe meditinico, Desse fato é possivel deduzir-se que a ajudante ou as 129 qjudantes sejam uma espécie de acdlitas do mestre catimbozeiro. Nada indica, entretanto, se tal funcdo é especificamente feminina ou se é atribuivel a homens. Os informes nao dizem se a palavra “ajudante” foi ouvida dos informantes ou se é de uso de recolhedor. Por nossa prépria conta, nds também a empregamos, ao fazer a grafia dos textos, para de- signar a parte que neles cabe d mulher de Manuel Laurentino. Irmaos — Os fiéis. A palavra ocorre nas notas de Luiz Saia e nos falatorios com que os Mestres se manifestam. As divindades invocadas so consideradas espiritos e recebem o nome genérico de Mestres. Segundo os textos indicam, habitam um mundo sobrenatural, que parece dividido em reinos e cidades. Nesses domtnios miticos dever viver também as falanges de espiritos subordinados aos Mestres: as notas e 0 cdntico do Mestre dos Caboclos de Rei Salomdo (disco FM.35B n.2), falam nos caboclos de Urubd, “mais de cem”. Dos tex- tos deduz-se ainda que alguns Mestres, sendo todos, sao tidos como espiri- tos de fatecidos chefes de culto, pois que védrios cénnticos indicam lugares em que seguramente se acredita que tais Mestres viveram. A cada um dos mestres sao destinados objetos e coisas, de que 0 forne- cimento cabe a pessoa que recorre aos poderes das divindades. Nao se pode saber se esses materiais necessdrios aos trabalhos sdo oferendas aos Mestres, apetrechos ou insignias deles, ou ambas as coisas ao mesmo tempo. De uma série de anotagbes feitas por Luiz Saia parece resultar ainda que exista uma indumentéria caracteristica para cada um dos Mestres. Entretanto esse fato, de que ndo conhecemos informacao bibliogrdfica, é anotado de maneira bem obscura. Nao é explicado se a pessoa que recebe os Mestres é que se veste de modo determinado para cada um deles, ou se, da concepeao mistica das divindades participa a idéia de que elas, tendo aspectos fisicos particulares, se vestem de modos ¢ cares préprios. As divindades deste catimbé estado, diante dos informes disponiveis, na mesma precdria situacao jé assinalada no catimbs de Luis Gonzaga Angelo e que ainda assinalaremos no catimbé de Alagoa Nova. Embora Luiz Saia tenha registrado algumas indicacdes sobre os Mestres, em geral elas nada elucidam. Por impreciséo das pesquisas ou pela prépria inca- pacidade de esclarecimento do catimbozeiro informante, a verdade é que brota dessas notas e textos dos canticos, uma série de divindades mal explicadas ou naturalmente vagas e difusas. a) Nota do organizador: Os comentarios de Oneyda Alvarenga publicados no RSEMB III sobre as caracteristicas dos Mestres, seus atributos, reinos ou 130 cidades onde moram, indumentéria, objetos a eles destinados, deduzidos da documentacio original recolhida pela MPF, sero apresentados juntamente com 0 documentario musical do catimbo de mestre Manuel Laurentino da Silva, Itabaiana (PB). A sessdo do catimb6 realiza-se em tomo de uma mesa. Nao hd indi- cacao do lugar que nela acupa o mestre. Os “irmiéas” sentam-se em volta. Além das oferendas ou apetrechos dos Mestres, varidveis de acordo com cada um, apenas dois objetos rituais so mencionados: “a bacia’, que fica no centro da mesa e deve ser a ‘princesa” a que jé nos referimos ao examinar 0 catimbo de Luis Gonzaga Angelo; 0 cachimbo, chamado “catu”. Além deles, coloca-se sobre a mesa 0 “santo que tive’, isto é, qual- quer imagem catética que existir na casa ou que seja da devogdo do catim- bozeiro, assim entendemos. No decorrer dos informes e nos textos dos canticos nenhura refer- éncia aparece sobre o uso de um nome genérico para os objetos rituais. 0 tinico fato constatdvel é que os nomes dos mais importantes talvez sejam acompanhados da designagdo mestre, pois 0 cantico de Mestre Antonio da Cidade da Jurema do Rei Salomdo fala em “cuia mestra” (disco FM.35A n.1). As notas nada dizem sobre a existéncia de cinticos e de ceriménias cespeciais para a abertura de sessio. Para “abrir a mesa’, expressio escrita por Luiz Saia, existem, digamos, uma atitude espiritual e uma formula: a concentragdo (56 do mestre? de todos as presentes?), com 0 pensamento em Deus ¢ em Nossa Senhora, ¢ esta prece recitada pelo mestre: “Bu pego a meu Pai poderoso que mi mande agueles isprito mais in- levado in nome di Deus i venha meus cab6co ju juremd i venha mi ajudé a trabaid, Ndo é pur custume, é divido a percisdo” (T.54- PE65T.108-P.10 — Conf. a versio gravada no disco FM32B n.1) Os informes tratam da defumagdo ritual, mas ndo fica bem claro em que circunsténcias ela se pratica. Parece que hd uma ceriménia de defu- magdo com 0 cachimbo, precedendo a manifestacdo de cada um dos Mestres, ceriménia que tem o nome de cag, ou calear,o catu. fou) Nesse ritual de defumagdo hd um elemento obscuro: 0 pedido feito pela pessoa interessada no catimbé, dirigindo-se ao tronco da jurema. ‘Nada esclarece qual 0 sentido dado a este “tronco da jurema’’ invocagiio & drvore? o crente fala voltando-se na direcdo de uma dessas plantas, que deve existir no catimbé? na direcao mitica do mitico Reino da Jurema? o 131 “tronco da jurema” sdo os Mestres sobrenaturais, com quem o crente estd falando? A defumacéo, no catimbé de Manuel Laurentino, ndo é praticada sé com alfazema e furo, por meio do cachimbo. Outros materiais defu- mat6rios sdo requeridos, mas ndo vém explicado os processos e as circunsténcias do seu emprego: incenso, chifre de boi preto (“rapa ele sem sinal nenhum’) (2). Pelas oferendas ou apetrechos a eles destinados, vé-se que Mestre Carlos (FM 37A n°l) exige defumagdo com incenso benjoim, e Mestra Angelina (FM 37A n°2), com incenso, benjoim, cravo branco e rosa. Os Mestres sido invocados por meio de cénticos, de que o nome genérico ndo tem indicagdo nos documentos. Luiz Saia fala sistematica- ‘mente em “linha”. Apenas duas vezes ndo usou essa palavra: anotando 0 cdntico (ndo gravado) de Mestre Macambira, escreveu “ponto” (T.108- P10, p.6) e registrou que “Mestre Antonio Caboquinho da JuremaiNéo tem nenhuma toada” (FM 34B n°l) (T.108-P.10, p.6). Entretanto, em nenhum dos casos especifica se tais palavras foram ouvidas dos infor- ‘mantes. Os préprios cénticos ndo fornecem elementos esclarecedores. As palavras “ponto” e “toada” neles ndo aparece: linka & encontrdvel no cantico do Mestre D.Jodo do Outro Mundo (disco FM 33A n.2), mas parece ai empregada no sentido de sessdo de catimbs ou falange de espiritos. Os cdnticos sdo, na sua maioria, acompanhados por maracd, segundo se vé das anotacées que precedem os textos T54-P.6. Para alguns foi registrada a auséncia de acompankamento e para outros ficaram em branco as referéncias instrumentais. Sobre 0 uso do maracd, fica-se na ditvida se a sua auséncia, indicada em alguns céinticos, é ritual ow fortuita, pois que Luiz Saia, em seguida ao cantico do Mestre Manuel Maior (FM 34B n°3), excreveu: “entrou em funcdo 0 marac que é sis- temético” (T.108-P.10, p.2). Sistemadtico 6 para Manuel Maior ou para todos os Mestres? Apenas dois cdnticos indicam o emprego da gaita (flau- ta): 0 do Mestre dos Cabaclos do Rei Salomdo (PM 35B n°2) eo do Mestre Manuel Maior (FM 34B n°3). E de presumir-se que a gaita seja usada também no céntico de Mestre Malunguinho (FM 364 n°3), pois é ela um dos apetrechos destinado a esse Mestre. Obs.transcrigo musical: Apesar de referido, o acompanhamento ritmico do maracd esta praticamente inaudivel nos registros fonograficos do catimbé de Manuel Laurentino da Silva. Somente pode ser verificada a presenga de ruido constante nas toadas dos Mestres José Benedito (FM. 35A n°2), do Mar (FM 35B n’1), Caboclos do Rei Salomio (FM 35B n’2), Nosso Pai Poderoso (FM 35B n°3), Belarmino (PM 36B n°l), Carlos (FM 37A n°l), Maria do Egito (FM 37A n°3) e Tamandaré (FM 37B n°l), Além disso, nao ha nos registros fonogréficos deste mestre de Catimbé, a pre- senga de gaita (flauta).. 132 Os Mestres, chamatdos pelos céinticos, “manifestam-se”. As notas néo determinam quem seja apto a thes servir de médium; depreende-se que apenas o mestre do catimb, pois se lé num dos informes atrds citados: *O mestre (sobrenatural) com 0 mestre (do catimbé) atuado. Ao manifestar- ‘se, 0 Mestre maniém, com o ajudante do catimbozeiro, um didlogo que ‘gira em tomo de formulas esteriatipadas. (oJ) Os documentos nada explicam sobre o que acontece quando 0 Mestre se maniiesta, isto 6, sobre as atitudes do catimbozeiro ¢ os fatos que possam suceder durante o transe. Uma referéncia talvez de alcance geral, embora feita ao céntico de Manuel Cadete (FM 32B n°l), apenas conta que quando 0 Mestre chega, apds muitas repetigdes do cdntico, “o ‘sinh conhece aquele balanco’. ‘Nao existe igualmente informagoes sobre a existéncia de qualquer ordem estabelecida para a invocacdo dos Mestres. Apenas vem registrado que em primeiro ugar chama-se 0 Mestre Manuel Cadete, em segundo - Mestre Ful da Noite, e em ultimo lugar - Mestre Carlos. il Dada a prépria natureza dos catimbds, & possivel gue, tanto no de Manuel Laurentino quanto nos demais incluédos neste livro (RSEMB III), ndo exista realmente ordem fixa para a invocagdo dos Mestres. F de pres- supor-se que, sendo cada divindade especialista na concessdo de determi- nados bens fisicos ou morais, os crentes recorram aos Mestres segundo a necessidade que deles tenham. No caso do catimbé de Manuel Laurentino, a ordem fixa de invocacao de dois Mestres justifica-se pelas proprias fungdes que lhes sdo atribuidas: o primeiro a comparecer, Mestre Manuel Cadete, é 0 “guia” do catimbozeiro, cabendo-the naturalmente, como protetor ¢ orientador, “abrir a mesa’ em segundo lugar chama-se 0 Mestre José Ful6 da Noite, pois que suia missao é possibilitar 0 compareci- mento dos Mestres ao catimb6. Nao encontramos explicagdo para a cir- cunstdncia de Mestre Carlos ser invocado em tiltimo lugar. Nem nos documentos nem nos discos se extrai nenhuma infor- macéo sobre a existéncia de ritual para o encerramento da sessiio. Os documentos nada dizem, também, sobre a presenca ou auséncia de coreografia no catimbé de Manuel Laurentino. 133 Dados sobre os informantes catimbé de mestre Manuel Laurentino da Silva — Itabaiana (PB) Discos FM 32B a FM 37. Registros feitos em Itabaiana, estado da Paratba, em 05 de maio de 1988, pela Missio de Pesquisas Foleléricas. As pessoas que participaram da 0 deste catimbé sao as seguintes: ‘Maria da Conceio e mestre Manuel Laurentno da Sioa Manuel Laurentino da Silva, inf:220. Caboclo. 70 anos. Nascido em Buique, estado de Pernambuco. Pais: Agostinho Gomes da Silva e Felipa Maria da Conceigio, ambos nascidos em Buique, estado de Pernambuco. Vigiow por Fernando de Noronka e Recife. Aprendeu catimbé no Recife, em Coqueiral, aos 14 ow 19 anos. (Ha duplicidade nos registros da MPF). Nenhuma informagdo sobre 0 grau de cultura. Sobre a cor, Luiz Saia diz: “Parece ser mestico de cabocto com branco. Nao tem tracos de negros.” Mora num sitio retirado umas trés léguas da cidade de Itabaiana, Maria da Concei¢do, inf 221. Cabocla. Mais ou menos 30 anos. Nascida em S. Bento, hé dez léguas de Campina Grande, estado da Paraiba. Pais: Vencesidu da Silva e Idalina Maria da Conceigéo, ambos nascidos em 137 Ceard-Mirim, estado do Rio Grande do Norte. A inf, viajou de S. Bento a Itabaiana. Aprendeu o catimbs com 0 seu marido, inf.220. Nenhuma informacéo sobre o grau de cultura. Sobre o valor de Maria da Concei¢éo como informante, encontra-se na caderneta n.5, de notas de colheita, p.143, esta observagao de Luiz Saia: “A mulher sabe mais que 0 velho. Lembra 0 caso do Apolindria” (Apolindrio Gomes da Mota, babalorixa do Recife). Salvo indicacido em contrério, os cénticos sdo entoados juntamente pelos dois informantes. resire Manuel Laurentina e Maria da Conceicdo-detathe interior da casa 138 Vista frontal de casa de Manuel Laurentina da Silva 139 Q i i i i 3 a 2 - a 40 DISCO FM. 32-B No. do original F. 94-A, fons, 697 @ 639 1) Mestre Manuel Cadete dnt ss ane Tom original ~ sib we + oS e «aaa on — cs cs Sip SS = SSS Texto: Mestre: celem do Mestre Para tebe ib6 Pl Manae-d Cade = te aso fess So ne ee ere mene & Pas aa mo ee oem, gun eae SO (Agora) Eu peco a meu Pai poderoso qui me mande aqueles isprito mais inlevado im nome de Deus. Venha (2) meus cabico do Juremd evenha me ajuda trabaid im nome de Deus. Ajudante: Fala incompreensivel. Ambos (cantando): Eu venho de Altas Flore Com meu Jesuis Nosso Sink6, Percisei do Mestre Para trabathd. Foi Manué Cadete, Reis de Vajucé (Bis) Reina, reina, Rei reina, Jesuis Sinha! Meu pé di jurema, Quem ti arrancé? (Bis) Foi Manué Cadete, M1 Mestre curadé! (Bis) Reina, reina, Rei reina, Jesuis Sinko! Mestre (falado): Deus 0 salve, meus irmdo! Pra que me chamam aqui? Ajudante: Pra socorrer essa materia... im nome de Deus Poderoso. Obs.RSFMB Ill: “O mestre Manuel Laurentino vacila ao comecar a fala inicial. A palavra “agora’, pronunciada por ele ou por alguém da MPF, refere-se ao momento de entrada da gravacao.” 2) Mestre Manuel Cadete a oe pe do jeremy, Gum furrn-st? ee pd fe reome eam, Sas rane? Fel Ma-nof Cede ~ te, Men = te o-re-d8. Fal Ma-mad Conde — wy Me te coord eas pi-i~qui~ tin Mes ma-raea ~ a Meu -n-u- ae ety eee eee ine ma-racca~a8,6 rel don Pus - Ord NEatl 6 rel doe Peed ei Mien Meu craw brane, Meu erento gu, eu eww Bane, a ero = ee ee ee apts #0 28 ltrs ue ‘Texto: I Meu pé de jurema, Quem ti arrancé? (Bis) Foi Manué Cadete, Mestre curad6 (Bis) I Meus piriquitinho, Meus maracand, (Bis) reis dos pass’o, reis Nana! (Bis) Mm Meu cravo branco, Meu cravo galé, (Bis) reis dos pass'o, reis Nand! (Bis) wv Repete 1 v Repete IT Mestre: Hum... Deus 0 salve, meus irméo! Ajudante: Deus o salve, Mestre: Pra que me chamam aqui? Ajudante: Pra pidir a meus irmdos im nome de Deus puderoso para que ‘me mande aqueles isprito mais imnome de Deus! inlevado im nome de Deus, pra socorrer estas matéria qui istdo @ presenca divina im nome de Deus! Comentarios sobre o Mestre Manuel Cadete (RSFMB III): (disco AM 32B ns.1 e 2) (vide também Mestre Manuel Catende - disco FM 33B n.1). Curador. Rei de Vajucd. Mora na cidade de Altas-Flores? “Guia” de Manuel Laurentino da Silva e por isso invocado em primeiro lugar. segundo dos cénticos gravados de Manuel Cadete é formado por um elemento (quadra inicial) que aparece no primeiro, mais dois ele- ‘mentos (quadras 1 e 2) que sdo variantes do céntico atribuido no catim- 66 de Luis Gonzaga Angelo a Mestre Periquitinho (Disco FM 31B n.4). Nele se vé que a “Cidade dos Passaros” de Luis Gonzaga foi substituida por “Reis dos Pdssaros”. A versdo de Manuel Laurentino fala ainda em “3 “Reis Nand”. Este Reis Nand, que torna aparecer como refrdo no céntico de Mestre Tamandaré (disco FM 37B n.1), é invocacao ou formula magi ca comum nos canticos de catimbs, usada como refrdo, mas parece nao se referir a nenhuma entidade precisa ou pelo menos a nenhum Mestre. ‘Neste volume (RSFMB Ill) ela surge novamente, na forma “véia Nand eid”, como refrio de cdnticos de Mestre Carlos cothidos em Alagoa Nova (PB) (disco FM 38A n.3, FM 38B n.2). Oferendas ou apetrechos: ndo indicados. Indumentdria ou cor: ndo indicadas. 9) Mestre José Fulé da Noite ou Mestre Adivinhéo Limremente (d = 60) ‘sie aS SS SS a Yo du ~ indo cm tafe tart Me = GBs ‘nse mena de ere, 0 je - remade nil 2 meh tend we bole petite 2 ves Texto: Vinde, vinde, 0 FI6 da Noite, Reduzindo cum todos estados Mestre! Eu 'st6 na mesa da jurema, O jurema, 6 Jurema! Ermeia hora di reléjo, Sinhores Mestre venham me ajudd! Mestre: Hurt... E Deus 0 salve, irmdozinho! Ajudante: Deus 0 salve, meu pai! Mestre: E pra que me chamé6 aqui? Ajudante: Pidindo em nome de Deus, eu peco a meu pai poderoso para que me dais um auxilio para todos os meus bons irmaos qui istdo a preséncia, im nome de Deus poderoso, para dar um socorro a todas esta ‘matéria qui istd a preséncia divina, im nome de Deus! Obs.RSFMB II: “A dicedo da ajudante, rdpida e engrotada, dificultou bastante a grafia da parte falada deste fonograma.” a Comentério sobre 0 Mestre José Fulé da Noite ou Mestre Adivinhao (RSFMB III): “(disco FM 328 n. 3) — Govema os demais Mestres e chama-os para a sessdo de catimb6. Invocado (por essa razdo?) em segundo lugar. Oferendas ou apetrechos: vinho, bebida, mel e charuto (1.108-P.10). Indumentdria ou cor: azul e branco com estrelas. Registrando as indicacoes sobre Mestre Fulo da Noite, Luiz Saia interroga trés vezes se nao serd ele 0 mesmo Mestre Carlos. A razdo da pergunta ressalta das suas anotacdes sobre este tiltimo, nas quais vem transcrito um texto registrado por Camara Cascudo. Para Manuel Laurentino talvez ndo haja identidade. Parece-nos muito dificil a con- fusdo entre nomes téo precisos como José e Carlos. Por outro tado, as notas explicam que, enquanto Mestre José Fulo da Noite é invocado em segundo tugar, “nas sessées do Mané 0 Mestre Carlos é chamado por der- radeiro”. A tinica afinidade entre Mestre Carlos e Mestre José Fulé da Noite, observdvel nos documentos, est na quase completa identidade das oferendas que se fazem aos dois. Entretanto, documentos bibliogrétficos (Cémara Cascudo) atestam que 0 céntico dado por Manuel Laurentino como sendo do Mestre José Fulé da Noite ou Adivinhdo, é de fato um cantico atribuido a Mestre Carlos em outros catimbés.” DISCO FM. 33-A No, do original F. 94-B, fons. 640 a 643 1) Mestre Indcio ou Mestre Correia J. 0 fom origina! = Mtb ms Be 8 ume we ti Gri do Me-tel-2e Mere ae Wi-lk @ Co be, Slo Beds Soran stab ‘Texto: Eu s6 um cabéco velho, Correio de Mestre Ind'(cio). Moro na Vila do Cabo. ‘Sao Bras, Sdo Bras, Sao Bras. Mestre: Hum!... E Deus o salve, gerimundinho! Ajudante: Deus 0 salve, meu pai? (2) 5 Mestre: Anfdo pra que qui me chama? Ajudante: Pra ndis socorrer as matéria que estdo a preséncia, Ajudante e Mestre: im nome de Deus poderoso, Ajudante: para que fenham auxilio, protecdo divina, que tomem o caminho de Deus. Mestre: Erm nome de Deus! E todos fiquem com Deus e Deus fique com todos. Ajudante: Deus & pai de fod0s.......Deus acrescente suas luze ivi. rnudivino em nome de Deus poderoso. Obs.RSFMB III: “Na parte cantada hd a assinalar que, além dos desloca- ‘mentos da acentuagdo das palavras causados pela acentuagio musical, a palavra “Indcio” é pronunciada “Ind”. A parte falada, como sempre pro- nunciada depressa e sem clareza, é dificil de entender. A uiltima entrada da ajudante é quase totalmente incompreensivel.” Comentirio sobre Mestre Incio ou Mestre Correia (RSFMB Ill): “(disco FM 334 n. 1) — “Caboco moreno vestido de cabocolinko”, isto é, indo vestido com indumentéria convencional atribuida ao abortgene. Mora ou morou na Vila do Carmo ou Cabo. Oferendas ou apetrechos: nao indicados. Como bem acentua Luiz Saia no seu pequeno informe sobre esta divindade, o texto do céntico parece indicar que se trata de um Mestre Correio do Mestre Indcio, isto é, emissdrio do Mestre Indcio. Alids, é com esse nome bem preciso que tal Mestre aparece nos textos cothidos da catimbozeira Maria Placida (Recife — PE, nao gravado). E posstvel, entretanto, que Manuel Laurentino confunda os dois Mestres, Indcio ¢ seu correio. Informa Camara Cascudo que Mestre Indcio tem dois aspectos nos catimbds: para uns é um preto velho; para outros, se chama Indcio de Oliveira, considerado catimbozeiro em vida e pai de Mestre Carlos. 146 Pom original ~ Mi Asie apudorte aa saa Wements l= thy nG-éedieetomm - = Om iuercren (sao De. vem corte I= ha Mecaiie-M no 0—to mand! Ok muds Popstia 8 020s Texto: Vamu corré a linha, Im Cidade do 6tro mundo. (Bis) Ora vamu corré a linha, Manifestd no dtro mundo! (Bis) Mestre: Hum... E Deus 0 salve, irmazinhal Ajudante: Deus 0 salve, meu pai! Mestre: Antdo pra que qui me chama? Ajudante: Jim nome de Deus.ene-PAPQoninM@U HMAOun..S0COrrE estas matéria qui istdo a preséncia divina im nome de Deus poderoso com seus (2) sacrificio e poderes (?) divino im nome de Deus, cum Deus. ‘Obs.RSEMB Ill: “A repeticdo do céntico ndo é feita regularmente. Na primeira vez, cantam-se como esta indicado acima; na segunda vez nada é repetido; na terceira repetem-se s6 os dois tiltimos versos. A parte falada apresenta a mesma dificuldade para a graft, jd assi- nalada em cénticos anteriores.” Comentario sobre 0 Mestre D.Joao do Outro Mundo (RSFMB III): “(disco PM 334 n.2) — Caboclo (ndio). “Vestido de gaitinka e é cabocolinko”, dizem os informes. Evidentemente, “vestido de gaitinha” significa que este Mestre usa, ou tem entre seus apetrechos, uma flauta de taquara, do tipo do pife (ptfaro, péfano, pifre) empregado no nordeste. E da Cidade do Outro Mundo? Oferendas ou apetrechos: catu; gaita? Indumentdria ou cor: ves- tudrio convencional de ino? ut 8) Mostra Maria do Egito ou Mie d'Mgua d-5s esis opudante fn vii — Poff eden ack kealeleecee eB SES StS ae ree ee enters on F date Main aie 3 wes Texto: Maria e Madatena, Da rua da Fuloresta. S6 a Mestra da Jurema, E da Jurema eu s6 a Mestral Mestre: Humt... E Deus vos salve, irmdzinho! Ajudante: Deus 0 salve, meu pai! Mestre: Pra que fu me chamas aqui? Ajudante: Pra mim socorrer im nome de Deus esta preséncia (2) do ‘meu irmdo que istd aqui a preséncia divina im nome de Deus puderoso. Bons auxilio para esta matéria qui istd a preséncia im nome de Deus. Comentario sobre a Mestra Maria do Egito (RSFMB IID: (discos FM 33A n.3; FM 374 n.3) — Em trés pontos diferentes dos informes, esta Mestra aparece caracterizada de trés maneiras diferentes: nos dados inici- ais do T.108-P10, p.l, surge feito “uma moca (..) que (..) é abadessa do sé “as Mae-d'dqua’, em indicagdo que precede 0 texto do disco FM 37A, n.3 (.108-P.10); em outra breve nota antecedendo o texto do disco FM 334, n3, é *néga da Casta do Recife” (T108-P10, p.6). Luiz Saia con- densou tudo isso em duas das indicagdes com que precedeu os textos dos cinticos: “Indicagdes antropoméritcas: néga da costa que morou no Recite, na rua da Floresta. (...) Nome: Mestra Maria do Egito. Chamada Mée- dédgua ruma outra linha cantada por este mestre” (T.54-P6). Supomos possfvel indagar-se, entretanto, se os dois céinticos grava- dos ndo sero de duas Mestras distintas: um de Maria do Egito, que foi abadessa de convento e, ingressada no mundo sobrenatural, é uma divin: dade das dguas que mora na mitica cidade de Aguas-Tintas. O outro cénti- co pertenceria a Maria Madalena, negra da Costa que morou na rua da Floresta, no Recife. Oferendas ou apetrechos: flores. Indumentdria ou cor: vestida de branco, em traje de noiva, com wma rasa no peito e uma palma no cabelo.” 8 4) Mestre Menino 4200 sre & apante oS 0 me n-mo¥-td cto-rnmdo Mdm torr de Held me 7a én Gen bo~cumeu haha, Que a ae -ge went Coa emt OC eta 3 veer Texto: O menino ‘std chorando (choréno) Lé na torre di Belém. (Bis) Cala a boca, meu filirho (minino), Que tua mée logo ven! (Bis) Mestre: Hut... E Deus vos salve, irmazinha! Ajudante: Deus vos salve, mew Mestre: Antdo pra que me chama? Ajudante: Pra mim socorrer estas matéria qui aqui ** Mestre: Im nome de Deus! ist d preséncia im nome de Deus! A rapaziada (?) de Séo Paulo! Todos rapaizinho fique cum todos! ** Para socorrer im nome de Deus poderoso! Todos cum Deus! Deus acrescente suas luze divina im nome de Deus puderaso! Obs.RSFMB III: “A repetic@o dos versos do cantico ndo é feita regular- mente. Na primeira vez cantam-se como foi indicado acima; na 2 e 3° vezes 56 0s dois uiltimos versos sao bisados. No ponto marcado com o sinal ** ndo hé seriagao regular das falas de Mestre e ajudante. Elas se misturam de um modo impossivel de repro- duzir por escrito,” Comentario sobre Mestre Menino (RSPMB III): “(disco FM 334 n.4) — As notas ndo se referem a este Mestre. O texto do seu cantico pertence a um acalanto tradicional; conjugado ao seu nome, faz supor tratar-se de um deus crianga. ug DISCO FM. 33-B No. do originsl F. 95-4, fons. 644 a 646 1) Mestre Manuel Catende 4 io ‘Tom original ~ Si Me Mase Pecea — be teal ~ gi - a! Quando Pon forse me Sante Ue ‘Texto: Vamos todo meus irmao, Vamos trabaid 0 dia, Varnos chamar ao meu Mestre Pra acabé tudalegrial (Bis) Quando nesta casa intrei, Nesta casa de aligria, Foi cum Bom Jesuis dos Passo, Nossa mde Santa Maria! (Bis) Meu Divino Esprito Santo, Eu quiria trabaid 150 Com tréis pingo da jurema, Otros tanto de Ajuca! (Bis) Meu Divino Esprito Santo, Eu quiria trabaid Eleva aguela matéria, Quando vim traiz ela cd! (Bis) Mestre: Humt... Deus vos salve, irmazinha! Ajudante: Deus vos salve, meu pai! Mestre: Antdo pra que qui me chama? Ajudante: Jim nome de Deus eu pepo um aucxilio aos irméo im nome de Deus poderoso. Mestre: Entonces, entonces......(segue uma incompreensivel mistura- da das falas do Mestre e da ajudante) snnmmatéria qui istd a preséncia im nome divino de Deus. E todos cum Deus acrescente suas luze im nome de Deus puderoso. Comentario sobre o Mestre Manuel Catende (RSFMB III): “(disco PM 338 n.1) (wide também disco FM 32B ns.1 e 2) — Nenhuma informacao. 0 texto do seu cintico, cheio de versos-feitos usados em cénticos popu- lares catélicos, também nada esclarece. Tratar-se-d do Mestre Manuel Cadete ja visto, de que o nome tenha duplicidade de forma ou tenha sido pronunciado por Manuel Laurentino, por engano, com inversdo e nasa- lizagdo da stlaba final? ‘Nas notas que precedem 0 texto do céintico de Manuel Cadete, Luiz Saia escreveu e riscou a seguinte observagio: ‘nome: também chamado pelo catimbozeivo de Manuel Catende ou Bom Jesus dos Passos”. Ora, nas indi- cacdes existentes na caderneta de colheita n.5, p.138, ao lado do registro do Mestre Manuel Catenile lé-se quase essa mesma informagdo: ‘mestre é Bom Jesus dos Passos: A palavra “Passos” surge tanto no segundo cétntico de Manuel Cadete (disco FM 32B n.2) quanto no de Manuel Catende, mas com sentido fran- camente diverso. No cantico de Manuel Catede é visivelmente corruptela de ‘pdssaro", dada a enumeracdo de aves que ele encerra; no de Manuel Catende é invocagéo de Jesus, “Bom Jesus dos Passos’, que o Mestre diz acompanhd-lo ou em nome de quem se manifesta (disco FM 3B n.1). Entretanto, nada impossivel que, para Manuel Laurentino, “pass'0s”=pds- saros e “Passo”=passos da paixdo de Jesus se tenham se confundido e ‘sojam uma s6 coisa. Em resume: embora a semelhanga dos nomes, ou sua quase identi- dade, induza é supeita de que Manuel Catende e Manuel Cadete sao 0 ‘mesmo Mestre, os documentos ndo permitem que se esclareca esse ponto e suscitam mais uma dtivida: 0 Mestre ou Mestres assim chamados tém qualquer relacao com 0 Bom Jesus dos Passos?.” Ajudante: 151 2) Mestre Laurinda ou Mestre Lauriano Jee (teeta wee gue canton) | line Texto: Assubi di pau acima, Fui brincd co'a salambaia. (Bis) 6i minha Mestra (Prima) Laurinda, Me pegue sindo eu caio! (Bis) 67 Laurindat i Laurind'eu caio! Hum... E Deus vos salve, irmdzinha! Deus vos salve! Mestre: Ando pra que qui me chama? Para qui im nome de Deus socorrer estas matéria qui istéio a presenca divina im nome de Deus puderoso. Mestre: Antdo istamos aqui num sirvico pirigoso! Ajudante: Tamos, irmdo! Mestre: Ha hd hd hai! (h aspirado) Ajudante: Tudo aparece! Mestre: Nur tem nada ndo, irmazinhal Ajudante: A rapaziada do Sinhé Séo Paulo! Mestre: E pede filicidade a Deus.....(O Mesive ea ajudante seguem falando ao mesmo tempo, tomando impossivel a percepedo do que dizem. Apenas se entendem algumas palavras: “Santo Anténio’, “Virge Maria’, ‘peco protecdo a todas nés). 0 registro do Padre Anténio qui ndis hé de sé filz im nome de Deus! Ajudante: Im nome de Deus. Deus acrescente suas luze divina im nome de (2) Deus co'a Virge Maria. Com Deus. 152 Obs.RSFMB III (Luiz Saia): “(...) numa das vezes que ele pore ° ‘mesmo texto ao invés de dizer mestra disse prima.” ‘Depois da tltima vez que repete a linha 0 mestre Laurentino disse: oi Laurinda, oi Laurinda, eu cdiol Depois de cantar esta linha 0 mestre Laurentino deitou uma falacao sobre o trabalho perigoso que tavam fazendo para a rapaizada do sinhé Sao Paulo.” Comentério sobre Mestra Laurinda ou Mestre Lauriano (RSFMB III): “(disco PM 33B n.2) - Luiz Saia registra 0 nome desta Mestra indicando adiante dele, entre parénteses: “(ou mestre Lauriano?)”. Nao declara, entretanto, a razdo da pergunta. A explicagdo dessa nota interrogativa talvez resida na circunstincia de que o recolhedor ndo entendeu a propria letra, ao consultar suas notas sobre este catimbs. A p.138 da caderneta de cotheita n.5 contém uma indicagdo sobre as linhas gravadas no original deste disco, na qual se lé o primeiro verso do cénti- co (“Assubi de pau acima”), encimado pelo titulo muito legivel: “2° mestre Lauriano”. Ao lado do verso, entretanto, hd um registro entre parénteses, escrito sem nenhuma clareza, de que a primeira palavra tanto pode ser Mestre como Mestra e a segunda so tem bem clara a primeira silaba - “Lau”; com 0 conkecimento do céntico, é possivel ler-se ai “Laurinda’, mas na verdade é uma espécie de paipite, tanto mais quanto a indicagdo central reza “Mestre Lauriano”. Sobre esta Mestra ou este Mestre, a tinica informacdo existente diz: “azul”. 3) Mestre Caboclo Daniel Marcado e afbedo (¢ = 78) ras ae ode I ca-bt-co Deca Weve Deum oft, tp cxti-co Deni - @ Peptide ¢ vets Texto: Vivo (Ando) no mundo Como Deus qué! (Bis) Viva Deus no céu, Eo cabéco Danié! (Bis) 153 Mestre: Hum!... Deus vos salve, irmdzinha! Ajudante: Deus vos salve! Mestre: Anédo pra que qui me chama? Ajudante: Pra socorrer estas matéria qui istdo @ presenca divina im nome de Deus puderoso, meu irméo. A rapaziada do sinhé ‘Sao Paulo para socorrer pur onde eles andarem, viu? Mestre: Im nome de Deus! Ajudante: Cum Deus! (Mestre e ajudante prossequem, sussurrando coisas inaudiveis.) Comentario sobre Mestre Caboclo Daniel (RSFMB III): “(disco PM 33B n.3) — Nenhuma informagdo, nem nada que se possa depreender do céntico. Apenas vem anotado que sua cor é cor-de-rosa; seu nome indica que este Mestre é indio.” DISCO FM. 34-4 No. do original: F. 96-B, fons. 647 0 649 1) Mestre Caboclo de Pena (?) jee Tim eriginal = Pi Mt eo ete Pe Bete WG De ae Hi 0 d@ Sofnncs—sn, F deste lado ek te Fupsida 8 zee ‘Texto: Bu s6 a(s) Cabéca(s) de Pena, Bu venho da Vila Rid, Do rio de Sao Francisco, P-doutro lado de la. (Bis) Mestre: Hurt... E Deus vos salve, irmazinha! Deus vos salve! Mestre: Antdo pra que qui me chama? Ajudante: Pra mim socorré estas matéria qui isto ** @ presenca divina em nome de Deus.(?) Mestre: ‘dm nome de Deus qui todos fique cum Deus.’ Ajudante: Deus acrescente suas luzes. im nome de Deus puderoso. 154 0bs.RSPMB Ill: “A qjudante erra francamente e atrapatha o Mestre neste cntico. Assim é que, por exemplo, na primeira vez que cantam, enquanto 0 Mestre esta bisando os dois tiltimas versos, a ajudante esté cantando os dois primeiros; na sequnda vez ela forca a omissdo das palavras “eu venho’, etc. ‘Na parte falada, no ponto marcado com os asteriscos, superpbem- se falas do Mestre e da ajudante, com a daguele marcada com os sinais, *O que dizem fica, por isso, dificilmente audivel.” Comentério sobre Mestre Cahoclo de Pena ou Mestra Cabocla de Pena (RSEMB III): “(disco FM 344 n.1) — Nenhuma informacao. 0 nome re- gistrado por Luiz Saia ver do masculino: Mestre do Caboclo de Pena. O cantico, entretanto, diz “Eu 36 as Caboca de Pena’, com um plural que faz pensar ainda numa falange - os Caboclos ou Caboclas de Pena. Pelo cantica, vé-se mais que esta é uma divindade ou divindades que moraram na Vila Real, do Rio de Sao Francisco.” 2) Mestra Belarmina ou Mestre Belarmino Texto: 1 $6 a Mestra Belarmina, Da ful6 du Juremd. Tenho 0 meu caméro di 6ro Para nele eu passid. (Bis) Te seguintes S6 0 Mestre Belarmino, Da fuld du Juremd. Tenho o meu carnéro di 6ro Para nele eu passid (m'invultd) (Bis) Mestre: Hum... E Deus vos salve, irmdzinha! Ajudante: Deus vos salve! 155 Mestre: E antdo pra que qui me chama? Ajudante: Para mim socorré estas matéria**qui istd @ presenga divina im nome de Deus poderoso. Mestre: ‘Im nome de Deus. Qui todos fique com Deus e Deus fique com todos.” Ajudante: Deus acrescente suas luze divina im nome de Deus poderoso. Obs.RSFMB III: “No /ugar marcado com asteriscos comega a intercalar- sea fala seguinte do Mestre, marcada com os sinais * Comentério sobre Mestra Belarmina ou Mestre Belarmino (RSFMB III): “(discos FM 34A n.2; FM 36B ns.1 e 2) — Impossivel dizer com certeza se 4 divindade é masculina ou feminina, pois que ela foi vitima de muitas confuses, nas duas vezes em que Manuel Laurentino executou 0 cénti- co. Luiz Saia também assinalou a presenca de enganos (..), mas por sua vez confundiu-se também... Visto os cénticos insistirem mais na forma masculina, talvez se trate de um Mestre Belarmino. Homem ou mulher, @ unica informacao existente sobre tal entidade é esta: “cor branco ¢ com carnéro arreado de dro” (7.108-P10); “aparece com caméro de éro. Arreado, diz 0 mestre mané” (T.54-P6). O texto do céntico faz supor que Mestre Belarmino, ou Mestra Belarmina, se transforme em cameiro de ‘ouro, apareca nao “com”, mas “como” cameiro de ouro.” (vide Mestre do Envultamento FM 344 n°3). 3) Mestre do Envultamento d= is5 S — SS a Se Dem te nm le ene oes SS SS od Te Wannasien tn ip nele tte beet Aapetide 9 wses we ho o8 ty ‘Texto: De tonge, venho di tonge, eu venho de Manaca; Eeeu venko ca Virge Mée, Meus sinhore, Pra ti ajuda! (Bis) 156 Mestre: — Hum!.. E Deus vos salve, irmazinha! Ajudante: Deus vos salve! Mestre: Antdo pra que qui me chama? Ajudante: Para ndis socorré as matéria ** qui istd a presenga di néis (2). Mestre: ‘Im nome de Deus! Todos fique cum Deus!” Ajudante: Esta é @ rapaziada qui veio ontem cd aqui um trabalho sério nosso trabalho @ irmd istd fazendo md, @ presenca divina im nome de Deus poderoso. Obs.RSFMB III: ‘No lugar marcado com asteriscos comeca a intercalar- sea fala seguinte do Mestre, marcada com os sinais ‘ ‘A itima fala da ajudante é quase inteiramente incompreensive.” Comentario sobre Mestre do Envultamento (RSFMB III): “(disco FM 34A n.3) — Luiz Saia diz que este Mestre é também chamado Nossa Senhora da Conceicéo, fato bastante estranho, pois até agora ndo se tem nottcia de entidades andrdginas nos catimbds. Demais, no seu cantico, @ divindade diz muito claramente de si mesma, que “vem com a Virge Mae” e ndo é a Virgem Mée. Afora a especificagdo de que sua cor é azul, nada mais existe indicado para este Mestre, que 0 cantico fala morar ou ter morado em Manaca ou Manacd. “Envultamento”, como bem assinalou Luiz Saia, soa estra- nhamente na boca do povo. Alids, na auséncia de mais informes ou de esclarecimentos extratveis do texto do cantico, ndo nos é possivel saber gue significacdéo Manuel Laurentino e sua mulher emprestam a essa palavra. No céntico de Mestre Belarmino (discos FM 344 n.2; FM 36B ns.1 € 2), 0 verbo envultar surge com um sentido que parece ser ou tomar vulto, (aspecto) de, ou encarnar, na acepeao em que os espiritas empregam esta tiltima palavra, isto é: unir-se 0 espirito ao corpo, apos- sar-se um espirito do corpo de alguém. Assim, este Mestre do ‘Envultamento seria o Mestre que possibilita aos fiéis do catimbé os esta- dos de possesséo?". 157 DISCO FM. 34-B No. do original F. 98-A, fone. 650 2 652 1) Mestre Antonio Caboclinho da Jurema tos eee] Me tele du rie, Meguela crm cae dT peta 6 exes ‘Texto: Meu Santo Antonho di Lisboa, Onde é tua morada? (Bis s6 na 1*vez) No étro lado do rio, Naguela casa caiada. (Bis) Mestre: Huml... E Deus vos salve, irmazinhal Ajudante: Deus vos salve! Mestre: — Antdo pra que qui me chama? Ajudante: Pra mim socorré... (Neste ponto 0 Mestre corta a fala da ajudante e ambos dizem mais ou menos juntos o inicio da entrada seguinte:) Mestre e Ajudante: Fin nome de Deus! E todos fique com Deus e Deus fique com todos! Ajudante: Deus acrescente suas luze divina im nome de Deus puderoso! Faca bons auxilio, meus irmdo, nestas matéria qui istd & pre- senca im nome de Deus (0 Mestre fala junto 0 “im nome de Deus”), sdo a rapaziada do Sinh6 Sdo Paulo...... meus irmao mias irma todos socorressem éles...... sao desse Estado, Com Deus, viu? Na paz de Deus. Comentario sobre Mestre Ant6nio Caboclinho da Jurema (RSFMB III): “(disco FM 34B n.1) — Em uma de suas notas datilografadas, Luiz Saia diz que este Mestre é também chamado de Mestre Santo Anténio de Lisboa (7.54-P6). Entretanto, do exame das suas notas manuscritas na caderneta n.5 (= T.108-P.10), vé-se que: 1) Néo hd categsrica afirmagdo dessa identidade. Os dois nomes aparecem juntos uma tinica vez: na especificacdo do conteiido dos discos 158