Você está na página 1de 40

MUSICA NA DITADURA

jr

MUSICA NA DITADURA jr comunicações

comunicações

MUSICA NA DITADURA jr comunicações

mORDAÇA

elainegomes

ImAgINE NãO poder falar, vER OU OUvIR.

Imagine alguém decidindo a quanta informação você tem direito, usando critérios que você desconhece e não aprova.

ImAgINE pERDER O DIREItO DE ESCOlhER O qUE é E O qUE NãO é ApROpRIADO.

Não poder mais decidir.

ImAgINE SER pROIbIDO DE fAzER A úNICA COISA qUE vOCê SAbE fAzER pARA gANhAR A vIDA.

Imagine ser expulso de seu país.

ImAgINE pERDER. ImAgINE tER mEDO.

ImAgINE

fAzER NADA.

tER

RAIvA

E

NãO

pODER

ImAgINE CAlAR E CAlAR E CAlAR

ISSO é censura.

2 www.revistapop.com.br

REPÓRTERES E FOTOS Elaine Gomes e Ariane Mazza FOTOS DE ARQUIVO Divulgação DIRETOR DE ARTE
REPÓRTERES E FOTOS Elaine Gomes e Ariane Mazza FOTOS DE ARQUIVO Divulgação DIRETOR DE ARTE
REPÓRTERES E FOTOS Elaine Gomes e Ariane Mazza FOTOS DE ARQUIVO Divulgação DIRETOR DE ARTE
REPÓRTERES E FOTOS
Elaine Gomes e Ariane Mazza
FOTOS DE ARQUIVO
Divulgação
DIRETOR DE ARTE
Alex Oliveira
DE ARQUIVO Divulgação DIRETOR DE ARTE Alex Oliveira CONSELHO EDITORIAL Eduardo Rocha, Tânia Trajano e Mirian

CONSELHO EDITORIAL Eduardo Rocha, Tânia Trajano e Mirian D. Vaz Mano

EDITORES-CHEFES Elaine de Almeida Gomes, Alex Oliveira, Ariane Mazza, Cláudia Urbaniski, Vinicius Gonçalves, e Marcos Roberto

REVISÃO Elaine Gomes e Cláudia Urbaniski

e Marcos Roberto REVISÃO Elaine Gomes e Cláudia Urbaniski PRODUÇÃO EDITORIAL Elaine Gomes e Alex Oliveira

PRODUÇÃO EDITORIAL Elaine Gomes e Alex Oliveira

Urbaniski PRODUÇÃO EDITORIAL Elaine Gomes e Alex Oliveira DIRETOR COMERCIAL Caio Cassinelli JR comunicações POP Uma
Urbaniski PRODUÇÃO EDITORIAL Elaine Gomes e Alex Oliveira DIRETOR COMERCIAL Caio Cassinelli JR comunicações POP Uma

DIRETOR COMERCIAL

Caio Cassinelli

JR comunicações

POP Uma publicação da JR Comunicações Ltda. Redação: Rua Carlos Sampaio, 219 Bela Vista PARA ASSINAR pop@revistapop.com.br

gal costa:

exuberância

é protestar

ÍNDICE

6 OS fEStIvAIS

Efervescência musical pura

10 pOEtA

Mesmo calado o peito resta a cuca

12 zOmbEtEIRO

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

14 CONtEStADOR

Sobre a cabeça os aviões

16 DUAS CARAS

Só quem viu que pode conta

18 pOlêmICO

Com gente é diferente

20 CENSURADOS

O terror de uma sexta feira treze

28 RECEItA INDIgEStA

O terror de uma sexta feira treze 28 RECEItA INDIgEStA Paulo César Araújo e Zé Rodrix

Paulo César Araújo e Zé Rodrix revelam quais receitas eram rejeitadas pela ditadura

32 bREgAS?

As vítimas da patrulha moral

34 CANtEmOS JUNtOS

Entrevistamos Ravel, autor de “Eu te amo meu Brasil”

e doutor da fgv,

gomes, professor

dos festivais, do lado de quem estava lá.

tapias

pop entrevista mauro

a história

para contar

A plAtéIA EStá ChEIA.

A maioria são estudantes universitá-

rios. Todos aguardam ansiosamente

a decisão do jure. Quem irá ganhar?

Sabiá ou Pra não dizer que não falei das flores. Chico Buarque ou Vandré? Dois símbolos de resistência à Dita- dura Militar. O público já tinha decidi- do: Vandré é o favorito. Sua musica

sintetiza o sentimento da nação, lutar pela liberdade, pelo fim do “Regime”. Mas o resultado não foi bem esse. “Era como um campeonato de futebol. Havia torcida organizada, o pessoal comparecia”, comenta Mauro sobre o ambiente dos festivais. Lembra também que “foi um período de mudanças, tanto no Brasil quanto no mundo. Os padrões eram quebrados diariamente. E isso acabou chegando no Brasil.”

O EmbRIãO CUltURAl

Os Festivais da Música Popular Brasileira (MPB) mudaram a história do país. Eles foram o embrião do que se tornaria a nata da produção cultu-

ral e intelectual dos anos seguintes. O formato era simples. Alguém inscre- via uma música e se apresentava ao público que, junto com o júri, decidia qual era a melhor. Um contato direto entre o artista e o público. A idéia de fazer os Festivais veio da Itália, na cabeça de Tito Fleury.

O advogado e radialista, depois de

acompanhar o Festival de San Reno, quis fazer algo semelhante no Brasil.

6 www.revistapop.com.br

A primeira experiência de um Festival foi produzida pela Record, em 1960, mas não foi um sucesso estrondoso. Na verdade, passou longe disso. Ainda não havia músi- cos famosos na final e, diferente do prometido, não foi transmitido pela televisão, só pelos rádios. Na metade dos anos 60, Solano Ribeiro, amadureceu a idéia dos Festivais de Fleury. Ele queria trazer a música universitária e os novos compositores e intérpretes para a televisão, e conseguiu. Em 6 de abril de 1965, o Festival foi ao ar pela TV Excelsior Rio. Foi um sucesso. A campeã, foi Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina. Mais que um sucesso, Arrastão foi um divisor de águas. Um marco. Deste ponto em diante, Elis criou algo que marcou para sempre a cultura dos Festivais: o termo “de- fender uma música”. Não tinha mais volta, nada mais seria como antes. Os programas de auditório, aqueles onde um cantor famoso ficava horas se apresentando, estavam acaba- dos. Surgia um novo tipo de produto de entretenimento, onde o público avaliava e decidia o que era melhor, onde a crítica era livre, sem medo. Um produto que dava liberdade de decisão, algo que desaparecera pou- co a pouco do país desde o dia 31 de março de 1964, o dia da “revolução”.

múSICAS DE fEStIvAIS: O pERÍODO mAIS féRtIl DA mpb

O cerco dos militares foi se fechando.

Os Atos Institucionais eram impostos e, cada um ao seu modo, iam asfi- xiando a liberdade do povo brasileiro. Universidades, jornais, músicas, livros, pessoas, opiniões e até o pensar - tudo

foi, gradativamente, proibido. “Foi uma época difícil, muitas coisas

não podiam ser abordadas abertamen- te”, lembra Mauro. “Essa postura foi se estendendo para a música”

O povo ansiava por liberdade. Todos

queriam falar, gritar, ouvir, opinar. Queriam continuar vivendo os Anos Dourados. Esse sentimento foi dando força aos festivais, pois, diferente do resto do país, neles a opinião pública era algo realmente importante. O anseio do público por uma postura de oposição aos militares foi sacado e cantado por Geraldo Vandré. Com esse feeling, o cantor e compositor conse- guiu, facilmente, ganhar notoriedade e ser campeão do II Festival da Excelsior com a música Porta Estandarte. A Record não ficou atrás. Vendo o sucesso dos festivais da Excelsior, fez também o seu II Festival, este com um charme a mais: a transmissão nacional. Na final deu Vandré, com Disparada, contra A Banda, música de Chico Buarque - até então, um jovem estudante de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Univer- sidade de São Paulo (FAU-USP).

Com a transmissão nacional, o Festival virou um espetáculo. “Parecia uma final de campeonato de Futebol”, diz Mauro. O assunto foi comentado por cronistas dos principais veículos de comunicação. Segundo o júri, A Banda ganhou, mas Chico não gostou da idéia. Ele achava a musica de Vandré superior a dele. No palco, chegou a ameaçar recu- sar o prêmio, caso anunciassem sua vitória. Então, depois de algumas negociações e muita confusão, foi proposto o empate. Ainda no ano de 66 foi criado mais um Festival,

o Festival Internacional da Canção (FIC), que foi veiculado pela TV Rio. O FIC, na verdade, era um festival ‘2 em 1’. Nele havia uma primeira fase nacional e, depois, a música vencedora competia

“Era como um campeonato de futebol. havia torcida organizada, o pessoal comparecia, foi um período de mudanças, tanto no brasil quanto no mundo.”

com outras músicas de convidados internacionais.

A campeã da fase nacional do primeiro FIC, foi

Saveiros, de Dory Caymmi, interpretada por Nana Caymmi, sua irmã. A música ficou em segundo lugar na fase internacional. Até o ano de 1967, as músicas ficavam conhe- cidas pelos interpretes e não pelos autores. Era:

Arrastão da Elis, ou a música da Nana Caymmi. Mas essa postura, e muitas outras coisas, muda- ram com o III Festival da Record.

O tRAmpOlIm DA fAmA E DO pROtEStO

O III Festival da Record foi o principal trampolim para grandes nomes da MPB, como Gilberto Gil

e Caetano Veloso que, junto com outra novidade

da época, Os Mutantes, criariam, mais tarde, em 68, um dos movimentos mais revolucionários do Brasil: a Tropicália. Naquele ano de 67, esses personagens mostravam o que estavam propostos

a fazer: abalar os alicerces da nação. Desta vez o público foi o diferencial, no lado bom e no ruim. A maioria era composta de estu- dantes treinados na arte de decifrar mensagens. Eram capazes de perceber as idéias sutis deixa- das pelos compositores da nova MPB. Mas, como sempre, existiam os preferidos. Neste caso, os que falavam mais abertamente sobre o regime. Foi neste Festival que aconteceu o incidente

com as vaias do público a Sérgio Ricardo. O com- positor não conseguiu completar sua apresentação de Beto bom de bola e, enfurecido, reclamou com

a platéia. Não contente, arrebentou o seu violão e

jogou os restos na galera. Também em 67 a TV Globo fez o II FIC, que trouxe para o grande público outro grande nome, Milton Nascimento, que inscreveu três canções:

Travessia, Morro Velho e Maria minha fé. Anos de-

na VanguarDa

De Kurt

cobain, sérgio

ricarDo

Desanca o

pÚblico

Velho e Maria minha fé . Anos de- na VanguarDa De Kurt cobain, sérgio ricarDo Desanca
Velho e Maria minha fé . Anos de- na VanguarDa De Kurt cobain, sérgio ricarDo Desanca
Velho e Maria minha fé . Anos de- na VanguarDa De Kurt cobain, sérgio ricarDo Desanca
Velho e Maria minha fé . Anos de- na VanguarDa De Kurt cobain, sérgio ricarDo Desanca
pois, este festival, curiosamente, ficou conhecido como “festival de Traves- sia ”, a segunda colocada,

pois, este festival, curiosamente, ficou conhecido como “festival de Traves- sia”, a segunda colocada, e não como “festival de Margarida”, a campeã. Pronto! Estava feito e consolidado:

agora existia uma estrita relação entre o público, os compositores e

a mensagem que seria passada.

A insatisfação com os militares, a

oposição a tudo que aquela ditadura

significava, o descontentamento. Quanto mais explicita era a mensa- gem, melhor a aceitação do público. Mas o sonho não era para sempre.

1968, o ano do Silencio. o início do fim.

“Nos jornais, não era incomum aparecerem receitas de bolos ou po- emas no lugar das matérias censura- das”, diz Mauro. “Com a música não foi diferente.” Muitas coisas aconteceram neste ano. Festivais de Samba, o AI-5, exílio de alguns, a proibição da veiculação de músicas, o auge e a derrocada de toda uma Era, que teve como clímax a final entre Pra não dizer que não falei das flores, de Vandré, versus Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. Era o fim dos Festivais. Solano Ribeiro, o homem respon- sável por aprimorar os festivais, assu- miu o comando da I Bienal do Samba, da TV Record. Esse evento contou com gigantes da antiga e da nova MPB: Baden Powell, Zé Kéti, Chico Buarque, Ciro Monteiro, Paulinho da Viola, entre outros. Mas não foi o centro das atenções. O momento crucial da Era dos Fes- tivais foi o III FIC (TV Globo,1968). Os estudantes de Teatro da Universi-

8 www.revistapop.com.br

dade Católica (TUCA), que tinham a fama de ser os mais politizados entre os que freqüentavam os Festivais, estavam irredutíveis. Para eles, não existiam meias palavras. Queriam oposição aberta contra o Governo Ditatorial. Ser talentoso não era o

bastante, era imprescindível a atitude. Não perdoaram nem Caetano, Gil e os Mutantes, que não conseguiram nem terminar de defender a música É proibido proibir. Então, em meio a vaias, Caetano berrou e criticou a platéia por sua postura. o teatro da Universidade Católica estava lotado. A platéia marcava presença. Todos aguardavam an- siosamente o desfecho do júri. Quem ganharia? Sabiá ou Pra não dizer que não falei das flores? Chico Buarque ou Vandré? Dois símbolos de resistência

à Ditadura Militar. O público já tinha decidido: Vandré era o favorito. Sua musica sintetizava o sentimento da

nação, a luta pela liberdade, o fim do “Regime”. “Caminhando e cantando,

seguindo a canção

tado não foi esse. Como aconteceu na vida real, na redação da Realidade, na saída do

elenco de Roda-Viva, nas ruas, nas

universidades

lugares não aconteceu o que todos queriam. Em 1968, não foi Vandré quem ganhou. O público vaiou tor- rencialmente. Não podia ser esse o resultado. Em meio a confusão, Vandré disse a famosa frase: “A vida não se resume em Festivais”. Sabiá ganhou e não só a fase na- cional do III FIC, como também levou

o troféu internacional do evento. Em 23 de setembro, a música de

”.

Mas o resul-

Enfim, em todos os

O público já tinha decidido: vandré

era o favorito. Sua musica sintetizava

o sentimento

da nação, a luta pela liberdade, o fim do regime.

“Caminhando

e cantando,

seguindo a

canção

resultado não foi exatamente esse

Vandré foi proibida de ser executada nas rádios e locais públicos, em todo

o território nacional. Pra não dizer que não falei das flores, virou o hino da resistência. Na sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, foi baixado o AI-5, a censura prévia. Os novos arquitetos da MPB foram exilados. Os Festivais perde- ram a força e o interesse da popula- ção. O público já não se importava com os resultados, a mensagem não era mais para ele. O quinto e último Festival da Record teve como campeã Sinal fechado, de Paulinho da Viola, que competiu com outras músicas que não deram trabalho para

a censura. A Tropicália explodiu mas,

com o exílio de Gil e Caetano, o mo- vimento terminou. E assim termina a Era dos Festivais, o período mais fértil da MPB. ViniciUS GonÇalVeS

”.

mas o

OS CAmpEÕES 1. os tropicalistas eM cena I Festival Nacional da MPB (TV EXCELSIOR, 1965):
OS CAmpEÕES 1. os tropicalistas eM cena I Festival Nacional da MPB (TV EXCELSIOR, 1965):

OS CAmpEÕES

1. os

tropicalistas

eM cena

I Festival Nacional da MPB

(TV EXCELSIOR, 1965):

Intérpretes, como Elis, ‘defendem suas musicas’, o público decidia e a história começava a mudar

1º) “Arrastão” (Edu / Vinícius)

2º) “Valsa do amor que não vem” (Baden / Vinícius) 3º) “Eu só queria ser” (Vera Brasil / Mirian Ribeiro)

II Festival Nacional da MPB

(TV EXCELSIOR, 1966)

“E não cantava se não fosse assim por dores e tristezas que bem sei,um dia ainda vão findar”

1º) “Porta estandarte” (Geraldo Vandré / Fernando Lona)

2º ) “Inaê” (Vera Brasil / Maricene Costa) 3º ) “Chora réu” (Luís Roberti / Adílson Godoy)

II FESTIVAL DA MPB

(TV RECORD, 1967)

Nesta cena, a personagem principal é a platéia, que dão o apoio aos futuros tropicalistas:

Caetano, Gil e Cia. 1º) “Ponteio” (Edu Lobo / Capinam) 2º) “Domingo no parque” (Gilberto Gil) 3º) “Roda viva” (Chico

Buarque) 4º) “Alegria, alegria” (Caetano Veloso)

II FIC (REDE GLOBO, 1967)

Ironia do destino ou não, nem sempre os primeiros são lembrados. Aqui está o festival de Travessia e não de

Margarida 1º) “Margarida” (Gutemberg Guarabira) 2º) “Travessia” (Milton /

II

Festival da MPB

Fernando Brant)

I Bienal do Samba

(TV RECORD, 1966)

3º) “Carolina” (Chico

Empate mais que merecido. Dividiram o prêmio, Vandré com “a morte, o destino”

Buarque)

e Chico “vendo a banda

(TV RECORD, 1968)

passar” 1º) “A banda” (Chico Buarque) e “Disparada” (Geraldo Vandré / Theo de Barros) 2º) “De amor ou paz” (Adaulto Santos / Luís Carlos Paraná) 3º) “Canção para Maria” (Paulinho da Viola / Capinam)

Solano Ribeiro, o arquiteto dos Festivais, volta e comanda a elite do Samba em uma mistura da nova e da velha MPB 1º) “Lapinha” (Baden / Paulo César Pinheiro) 2º) “Bom tempo” (Chico Buarque) 3º) “Pressentimento” (Elton Medeiros / Hermínio Bello de

I

Carvalho)

III FIC (TV GLOBO, 1968)

“Era assim: o que quisesse que tivesse, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol? ”

tinha

para esse “Festival Modelo” 1º) “Sabiá” (Chico Buarque / Tom Jobim) 2º) “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré) 3º) “Andança” (Paulinho Tapajós / Danilo Caymmi / Edmundo Souto)

tudo foi um ensaio

IV Festival da MPB

(TV RECORD, 1968)

Tentaram, mas não era a mesma coisa, afinal “A vida não se resume em festivais” 1º) “São, São Paulo meu amor” (Tom Zé) 2º) “Memórias de Marta Saré” (Edu Lobo / Guarnieri) 3º) “Divino, maravilhoso” (Caetano / Gil)

2 platéia Do

iV FestiVal

Da MÚsica

popular

brasileira Da

tV recorD

3. no DetalHe, o célebre ViolÃo De sérgio ricarDo

caetano eM Mais uM Discurso inFlaMaDo

brasileira Da tV recorD 3. no DetalHe, o célebre ViolÃo De sérgio ricarDo caetano eM Mais
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br

10 www.revistapop.com.br

10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br
10 www.revistapop.com.br

zOm

NO mEIO de toda essa penumbra que foi a ditadura militar, havia aqueles que tinham coragem e disposição para fazer o que era certo: Lutar pela liber- dade de expressão. A melhor forma de lutar contra um sistema que obrigava seus cidadãos ao silêncio,foi cantando. Certamente uma das pessoas que mais contribuiu com esse processo foi Gilberto Gil. Nessa época,Gil era um jovem de 26 anos,um universitário cheio de idéias revolucionárias.Foi cursando a faculdade de Administra- ção que o cantor conheceu sua trupe:

Caetano Veloso, sua irmã Bethânia, Gal Costa e Tom Zé.Todos jovens e muito interessados pela música. O preconceito racial na década de

bE

tEI

A fusão de irreverência e inteligência pela liberdade de idéias

60 era forte,Gil não ligava e abusava. Mantinha seus cabelos crespos com um certo volume,tinha as costeletas bem crescida,quase se juntando com seu bigode e cavanhaque,ambos com- pridos e pontudos.Suas largas vestes eram bem coloridas que,de vez em quando,eram completadas com diver- sos colares,as sandalias complementa- vam o vísual único e chamativo.Gilberto se destacava em vários sentidos. Baiano como é,Gilberto Gil não se deixou calar fácil pela pressão da ditadura militar. Assim como um mo- leque birrento que bate o pé quando ouve um não da mãe,Gil fez de sua música um instrumento de conscien- tização e protesto.O surgimento do movimento tropicalista fez com que o regime militar se visse ameaçado pelas letras de contestação,era mais lenha na fogueira de Gil. A prisão, no fim de 68, não foi o suficiente para conte-lo. O tempo de reclusão fez com que suas idéias para novas composições trabalhas- sem com força total.Gilberto Gil não era burro,longe disso,sabia que após suas musicas tinham destino certo.Gil deixou a música Aquele abraço, antes de partir para seu exílio na Inglaterra,a irreverência da música casou muito

RO

um meio de protestar e ser levado a sério. A vivacidade que todo o jovem apresenta se combinou com os ideais corretos enraizados no compositor. Sua voz era uma poderosa arma que não tinha a intenção de ferir, apenas atordoar,fazer barulho,acordar.Saben- do muito bem do risco que corria,Gil seguiu em frente,protestou e se saiu bem,sorte que nem todos tiveram. Um coisa era certa,Gilberto Gil não queria ficar na história,se pudesse gostaria que,essa em particular,fosse esquecida. maRcoS RoBeRTo

bem com o ritmo de samba. Gil voltou ao Brasil em 72, mas foi no ano seguinte que ele mostraria que continuava o mesmo de sempre e que sua prisão não o amedrontou. A músi- ca Cálice foi proibida de ser gravada e cantada por causa do jogo lingüístico que permitia uma dupla interpretação com a palavra “Cale-se”.Desafiando a censura,Gilberto Gil cantou a música em uma show para estudantes em homenagem a Alexandre Vanucchi Leme,uma vítima do regime militar. Gilberto Gil encontrou na baderna

12 www.revistapop.com.br

CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma
CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma
CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma
CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma
CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma
CON tES ta “minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma

CON

tES

ta

“minha mãe me deu ao mundo de maneira singular me dizendo uma sentença: pra eu sempre pedir licença, mas nunca deixar entrar”

DOR

14 www.revistapop.com.br

qUEm O vê hOJE centrado, de cabelos grisalhos bem cortados, vestindo esporte fino ou, de

qUEm O vê hOJE centrado,

de cabelos grisalhos bem cortados, vestindo esporte fino ou, de vez em quando um terno, sentado em um ban-

quinho, cantando e tocando violão, não imagina que ele já usou roupas espal- hafatosas, coloridas, despojadas, uma juba indomada e foi um dos precursores do movimento mais revolucionário da música brasileira, a Tropicália. Caetano era uma criança diferente, que adorava ouvir no rádio os ído- los da música popular. Quando sua irmã mais nova nasceu, Caetano determinou: ela vai se chamar Maria Bethânia. E assim foi. Inspirado pela canção que dizia “Maria Bethânia, tu és para mim, a senhora do engenho”, na voz potente de Nelson Gonçalves,

o menino, então com quatro anos de

idade, nomeou sua irmã, que seria sua companheira para todas as horas. Caetano Veloso é um baiano atípico, que, não se contentando com som- bra, rede e água fresca, arregaçou as mangas, entrou e saiu da faculdade de filosofia - sem se formar -, e caiu no mundo da MPB para mudá-lo de uma maneira irreversível. Mais do que um crítico social, como todos os “emepebistas” de sua época,

ele foi além. Transgrediu as regras da

censura, “da moral e dos bons costumes”

e até da música tradicional. Trouxe,

junto com a elite musical de sua época,

a alegria de ser brasileiro em tempos

difíceis em que amar o país e lutar pela

liberdade eram sentença de tortura e morte nos porões escuros da Ditadura. Com apresentações alegres, coloridas

e saltitantes, Caetano foi lapidando o

caminho que o tornaria famoso. Num país em que tudo era proibido, ele instigou, gritou e numa fusão de vaias

e guitarras elétricas sentenciou: É

Proibido Proibir! Entre tomates, ovos e

pedaços de madeira ele continuou: “São

a mesma juventude que vão sempre,

sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada”. Caetano era contestador, inconformado.

Cantava prazeres simples e versos cheios de duplo sentido, como em Alegria, Alegria: “sem lenço, sem docu- mento, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo, amor. Eu vou! Por

que não? (

sem livros e sem fuzil, sem fome sem telefone, no coração do Brasil”. O que poderia acontecer com alguém abusado como ele depois do AI-5? O exílio, é claro. Mas nem isso o segurou. De Lon- dres escrevia para O Pasquim e continu- ava compondo. Tiraram-lhe o direito de estar na sua terra, com seu povo. Sua liberdade lhe foi tirada. Mas ninguém podia censurar seu pensamento, suas idéias e ideais. Não se controla a fertilidade de sua criação. Do outro lado do oceano, o povo esperava. Não por suas irreverentes apresentações tropicalistas, nem por suas roupas, muito menos pelos “caracóis dos seus cabelos”. Queriam suas idéias, sua voz. O jeito Caetano

de dizer: “eu vim aqui pra acabar com isso”. A voz debochada de quem não tem medo de contestar. Queriam sua

)

Por entre fotos e nomes,

liberdade, sua petulância. As roupas coloridas, cabelos, trejeitos, apresentações: tudo era planejado. A idéia era chocar, desestruturar qualquer realidade conservadora. Homens de verdade tinham que ter cabelos curtos? Os dele eram grandes, compridos e despenteados. Homens não usam brin- cos? Ele usava. Vestia-se com trapos, às vezes apresentava-se sem camisa. As músicas precisam ter formatos de tempos específicos, 4x4, 8x8, uma matemática lógica? Esqueça, ele as descompassou. Trouxe a guitarra para

a música brasileira, trouxe cores para a

realidade tão negra imposta pelo regime militar, trouxe vida, rebeldia e atitude para um país de pasmados. Caetaneou

a história do Brasil. Ontem, na Ditadura, escreveu uma história de oposição e resistência. Ontem, no exílio, provou que a distância não o silenciaria. Ontem, ele mudou os rumos da música e da cultura. Hoje, bem vestido, um exemplo de avô bem vivido. Talvez não tenha mais energia para comandar um show tropi- calista, gritar e contestar. Mas, embora o contexto seja outro, se Caetano resolver abrir a boca, se algo lhe desagradar, ele ainda pode incomodar e se erguer contra nossa frágil República, contra a passividade do povo. Se ele fez o que fez na Ditadura, contestar a atualidade não seria nenhuma missão impos- sível. Afinal, o leão pode perder a juba, mas nunca perde a majestade. E, com certeza, o povo ainda ”gosta muito de te ver, Leãozinho, caminhando sobre o sol” clÁUdia URBaniSKi

DUAS

CARAS

WIlSON SImONAl pode ser

considerado sortudo e azarado ao mes- mo tempo. Assim como sua carreira ex- plodia em sucesso meteórico,foi como a queda de um meteoro que Simonal se chocou contra o chão.Isso graças as acusações de delator que sofrera durante o período do Regime Militar. Sorriso inconfundível, Wilson Simonal poderia passar fácil por algum cantor

americano.O quartel do exercito foi seu primeiro palco, mas logo passou para bailes e boates. Quando começou a cantar profissionalmente,foi encontrado por Carlos Imperial,que percorria clubes noturnos em busca de novos talentos. Foi assim que ele acabou achando cantores como Roberto e Erasmo

Carlos,Tim Maia e

A primeira musica cantada por Simonal foi Terezinha, nome de uma namorada que virara sua mulher e mãe de seus três filhos. A canção seguia o ritmo de sucesso da época,o chacha- cha.Sucesso garantido. Um novo ritmo musical chamado Pilantragem, uma mistura de Rock, Samba, Bossa Nova e Iê iê iê, surgiu no cenário musical e Wilson Simonal era um dos que aderiram à novidade. Era com a Pilantragem que o cantor se apresentava nos festivais de música. Ele se apresentava nos mesmo palco de

nomes tão conhecidos como ele. No fim das contas,sua popularidade crescente arrancava aplausos eufóricos da platéia. Em pouco tempo, o cantor ganhou um programa de TV só seu, era o

“Show em Si

era Carlos Imperial,o mesmo que o encontrara em uma boate. A Carreira

Wilson

Simonal.

Monal”. Quem o dirigia

16 www.revistapop.com.br

de Simonal estava no topo,comandar um programa só seu, só servira para deixá-lo em maior evidência. Simonal não participou de nenhum protesto contra a Ditadura Militar,

nem era a favor. Ser alienado a esse assunto não era coisa que agradava aos outros músicos que sofriam com

a dura censura,a pose de Não é pro-

blema meu não era bem vista.O único protesto que o cantor se engajou,foi o de combate a discriminação racial no mundo todo.Enquanto Martin Luther King e Malcon X pregavam a igualda- de racial,Wilson Simonal escreveu a música Tributo a Martin Luther King. Mas a canção teve que ser proibi- da de ser executada.O sucesso da canção e o teor revolucionário foram motivos mais do que suficientes para que fosse censurada. Como que da água para o vinho, Simonal tinha mudado sua postura diante do sucesso estrondoso que fizera. A simpatia que irradiava deu lugar a prepotência.Em diversas entrevistas,respondia suas perguntas em tom ríspido e mal educado.Os repórteres já cultivavam uma certa antipatia pelo cantor. A má imagem pública veio como uma bomba, anunciando o seu declínio. Na copa do mundo de 70,Wilson Simonal fazia shows no México e seu sucesso

servia como propaganda que o governo militar fazia do Brasil.Se Simonal fazia sucesso,o seleção brasileira ia bem e

o Brasil era o País dos Sonhos.Mesmo

alienado a tudo isso,o estigma de Pró- Ditadura já o tinha contaminado. Foi em 7 de setembro de 1971 que

De inocente a vítima, mais um que sofreu sem cometer crime algum.

o jornal O Pasquim publicou uma

charge de Simonal, insinuando que ele servira de delator. Nesse momento sua carreira estava sepultada para

sempre,principalmente quando o boato de ter denunciado Caetano Veloso e Gilberto Gil se espalhou. Rádios, gravadoras e o publico boicotavam o cantor, que agora, mal conseguia encher uma casa de show. Seus discos eram um fracasso de vendas e não tinha nada que fizesse esse cenário mudar. Toda essa repulsa fez com que Wil- son Simonal sumisse abalado moral e

repulsa fez com que Wil- son Simonal sumisse abalado moral e fisicamente, se entregou ao alcoolismo
repulsa fez com que Wil- son Simonal sumisse abalado moral e fisicamente, se entregou ao alcoolismo
repulsa fez com que Wil- son Simonal sumisse abalado moral e fisicamente, se entregou ao alcoolismo

fisicamente, se entregou ao alcoolismo

e

adoeceu. No ano 2000 Simonal falece

e

só três anos depois um documento

inocentando Simonal de qualquer acusação veio a público, já era tarde demais e a brilhante carreira de Wilson Simonal virou história.História de alguém que virou vítima sem fazer nada. maRcoS RoBeRTo

carreira de Wilson Simonal virou história.História de alguém que virou vítima sem fazer nada. maRcoS RoBeRTo
carreira de Wilson Simonal virou história.História de alguém que virou vítima sem fazer nada. maRcoS RoBeRTo
carreira de Wilson Simonal virou história.História de alguém que virou vítima sem fazer nada. maRcoS RoBeRTo
carreira de Wilson Simonal virou história.História de alguém que virou vítima sem fazer nada. maRcoS RoBeRTo
pOlê vANDRé 18 www.revistapop.com.br
pOlê vANDRé 18 www.revistapop.com.br
pOlê vANDRé 18 www.revistapop.com.br
pOlê vANDRé 18 www.revistapop.com.br

pOlê

vANDRé

18 www.revistapop.com.br

O vIRgINIANO Geraldo Pedro-

sa de Araújo Dias, nascido em 12 de setembro de 1935, é o primeiro filho do casal José Vandregísilo e Maria Eugê- nia. Ainda garoto, Vandré já demonstra- va um gênio difícil, e foi internado pelo pai no Colégio São José, em Nazaré da Mata, interior de Pernambuco. Sempre demonstrou interesse em cantar no rádio, tendo participado de diversos festivais de canto no colégio. No começo da década de 50, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde conheceu pesso- as ligadas ao meio artístico, como

o compositor Valdemar Henrique,

Baden Powell e Luís Eça. Ingressou na faculdade de Direito da UFRJ (Uni- versidade Federal do Rio de Janeiro). E se ligou aos movimentos estudan-

tis, participou ativamente do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi então, que Geraldo conheceu seu primeiro parceiro na música, Car-

los Lyra. Passou então a se interessar mais pela composição, abandonando

a idéia de tornar-se cantor. Fez a letra

da música de Carlos Lyra Quem qui- ser encontrar o amor, gravada em abril

de 1961. Em 1962 apresentou-se no Juão Sebastião Bar, em São Paulo, iniciando trabalhos com Luís Roberto, Baden Powell e Vera Brasil. Nesse mesmo ano gravou com Powell e Vinícius, Samba em prelúdio. Em dezembro de 1964, gravou

o seu primeiro LP, Geraldo Vandré, com as músicas Fica Mal com Deus e Menino das Laranjas. No ano seguinte (1965) defende Sonho de um Carna- val, de Chico Buarque, no I Festival de MPB da TV Excelsior. Em 1966,

vence a segunda edição do mes- mo festival com Porta-Estandarte, sua composição em parceria com

Fernando Lona, defendido por Tuca

e Airto Moreira. Vandré tornou-se

cada vez mais famoso no ambiente dos festivais. Sua música Disparada, interpretada por Jair Rodrigues, em- pata em primeiro lugar com A Banda de Chico Buarque no Festival da TV Record. No ano de 1968 Caminhando (Pra Não Dizer que Não Falei de Flores) conquista o segundo lugar no festival da TV Globo, apesar de ser favorita do público, perdendo para Sabiá. Em 1967, a TV Record, de São Paulo, concedeu-lhe um programa, Dispara- da, com direção de Roberto Santos. Com a promulgação do AI-5 e

o acirramento da ditadura, se viu obrigado a deixar o país. Então, seguiu para a Argélia, onde assistiu ao Festival Pan-Africano, viajan- do depois para a então Republica Federal da Alemanha, ocasião em que gravou alguns programas para a televisão da Baviera. Esteve na Grécia, Áustria, Bulgária, cantando em povoados do interior. Gravou o LP Das terras de Benvirá, lançado no Brasil pela Philips em 1973, com Na terra como no céu, Canção primeira e De América. Mais tarde compôs Fa-

biana em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira). Nos anos 90 foram lançadas coletâneas com diversas raridades de obras suas. Muitos o consideram louco. Certa- mente, ele não tem certas conven- ções sociais. Mas a verdade é, ele

é apenas um homem que buscou a beleza pra tentar ser feliz. aRiane maZZa

“Sem beleza não existe o homem feliz”

mICO

CENSU 20 www.revistapop.com.br
CENSU 20 www.revistapop.com.br

CENSU

CENSU 20 www.revistapop.com.br

20 www.revistapop.com.br

Como uma sexta feira 13, em dezembro de 1968, marcou a

RADOS

geralDo VanDré eM perForMance De “caMinHanDo e cantanDo”
geralDo VanDré
eM perForMance
De “caMinHanDo
e cantanDo”
VanDré eM perForMance De “caMinHanDo e cantanDo” instituição do AI-5 e a morte da liberdade de

instituição do AI-5 e a morte da liberdade de expressão no brasil.

O REgImE mIlItAR no Brasil durou de 1964

a 1985. Durante este período, foi instituído o AI-5 que

estabeleceu o fechamento do Congresso Nacional, das assembléias legislativas, e câmaras de vereadores. Decretou a intervenção nos territórios, estados e municí- pios. Cassou mandatos eletivos e suspendeu os direitos

políticos por dez anos de todos aqueles que se opunham

à ditadura militar. A liberdade individual de todo o cidadão brasileiro foi cancelada e todos os opositores ao regime passaram a ser vigiados. Toda a forma de criação estava cerceada. Não apenas

a música, mas o teatro e os livros (bem como a mídia ge- ral) foram duramente vistoriados e avaliados por militares de inteligência tacanha e capacidade de ponderação nula.

A intervenç ão, na forma de censura prévia, dava aos mi-

litares autoridade e poderes para vetar músicas e interrogar (além de prender, torturar e exilar) cantores e compositores. O cantor e compositor Raul Seixas, numa apresentação ao vivo em 1980, mencionou a existência de um “dicio- nário da censura”. Aos artistas, cabia criar dentro da impossibilidade. E muita coisa foi criada.

DOIS pESOS, NENhUmA mEDIDA

Havia duas censuras distintas, a perseguição política - di- rigida aos músicos engajados, a elite da MPB, e a persegui- ção moral- voltada aos cantores mais populares, os bregas. Nos festivais de música popular, ou em suas apresen- tações públicas. Nos discos, nas entrevistas e onde era possível, eles cantaram e contaram ao mundo e a todos nós o que estava acontecendo nos “porões da ditadura”. Gilberto Gil e Caetano Veloso, foram expatriados para a europa e Chico Buarque de Hollanda acabou seguindo o mesmo rumo, antes que fosse expulso.

O medo e a paranóia tomaram conta de todos. O cantor

Wilson Simonal, foi (injustamente) acusado de ser infor- mante dos militares, entregando os colegas que apoiavam

a esquerda. Acabou no esquecimento por nunca mais

conseguir o mesmo espaço no cenário musical brasileiro. Os irmãos Dom e Ravel, um dos maiores fenômenos da música nacional, foram tachados de “colaboradores do Regi- me” e tiveram a vida e a carreira modificadas para sempre.

SExtA fEIRA 13

O dia D da censura no Brasil. As trevas da proibição

apagam notícias e calam vozes para que a população cega, não tome consciência do que acontece no país. Com a violência e a truculência caminhando a passos largos e impunes, a música de protesto, cifrada e desafia- dora se transforma na única bandeira cultural de acesso possível a um público perplexo e perdido. Centenas de canções foram proibidas, outras tantas foram alteradas pelos próprios compositores para driblar

a censura. Num jogo de mostra e esconde, os artistas

tentavam (com algum sucesso) enganar censores dispos- tos a coibir excessos, num verdadeiro festival de critérios equivocados, subjetivos e abusivos.

O AI-5 foi o grande instrumento da mordaça, até can-

ções que não tinham mensagens subliminares recebiam as mais diversas interpretações por parte dos militares. Foi o que aconteceu com Severina Xique Xique, do com- positor Genival Lacerda, cuja proibição foi justificada pelo

22 www.revistapop.com.br

“protesto de várias famílias cearenses” revoltadas com o uso da palavra boutique, a qual suspeitavam ter duplo sentido. Esse era o tipo de informação e justificativa dos censores.

A mORtE, O DEStINO, tUDO EStAvA fORA DE lUgAR

Grandes manifestações surgiram com os Festivais de Música, e repercutiram em todas as classes. O interesse e

a mobilização pública, ultapassaram o âmbito universitário

e sensibilizaram pessoas de todas as áreas, que à medida que os fatos iam ocorrendo, faziam seus protestos pelo fim do regime militar. Os festivais projetaram a música popular brasileira dos anos 1960 para a televisão, que se transformou num novo veículo de divulgação da música.

O tempo se encarregou de valorizar as músicas dessa

época e eternizá-las.

O primeiro grande momento da era dos festivais foi sem

dúvida o II Festival da Record de 1966, a disputa acirrada,

entre Disparada de Geraldo Vandré e Théo de Barros, e A Banda de Chico Buarque de Holanda, dividiu o público. O resultado final foi o empate das duas canções, sendo que

a canção de Vandré anunciava uma tendência mais crítica

da desigualdade social. Esta seria a postura que marcaria

a turma da elite, os engajados da MPB.

COm A vIOlêNCIA

A múSICA

DE pROtEStO

SE tRANSfORmA NA

úNICA fORmA

DE ESbRAvEJAR

CONtRA O REgImE

SEgUINDO A CANçãO

Em setembro de 1968, o compositor Geraldo Vandré

participou do terceiro festival internacional de canção com

a música Pra não dizer que não falei de flores. A música

rapidamente foi proibida de ser veiculada e Vandré abriu a

fila dos artistas perseguidos pela ditadura militar. Como uma moda adolescente que surge com força sem que sua origem possa ser identificada, os artistas e a censura imediatamente passaram e disputar as paradas de sucesso. Chico Buarque, que em suas letras deixava claro seu descontentamento com o regime militar, é autor de Apesar de você, canção que aparentemente trata da

briga de um casal, com interpretação lógica e inconteste de uma mensagem ao terceiro presidente militar Emílio Garrastazu Médici. Após o sucesso, a música foi vetada com

a suspeita de duplo sentido. Cálice, outra famosa canção de

o priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo” Chico, também passou despercebida pela
o priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo” Chico, também passou despercebida pela
o priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo” Chico, também passou despercebida pela
o priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo” Chico, também passou despercebida pela

o priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo”

priMeiro Disco: caetano e gil na graVaÇÃo De “DoMingo” Chico, também passou despercebida pela censura, sendo

Chico, também passou despercebida pela censura, sendo vetada meses após sua veiculação. Para driblar a censura, Chico Buarque assinou músicas como Acorda amor e Jorge maravilha com o

heterônimo Julinho da Adelaide. A caneta da censura não poupou nin- guém. Artistas populares que ficaram ta- chados como bregas, também foram víti- mas dos sensores. Como Chico Buarque, Odair José também foi censurado. Com

a diferença de que no caso dos cantores

bregas, a patrulha era moral. Não só de luta e resistência viviam os censurados, de amor livre e sexo também.

tACANhOS E RACIStAS

Autor de grandes sucessos da música brasileira, Luiz Ayrão foi outro que teve problemas com os

militares, sua resposta descontraída

à canção Meu caro amigo, de Chico

Buarque, incomodou a censura e a música foi proibida.

Um dos maiores sucessos de João Bosco e Aldir Blanc, Mestre sala dos mares foi gravada inicialmente com

o nome de Almirante negro, mas os

autores tiveram que mudar o nome, já que a palavra “negro” não era bem vista. Blanc conta em entrevistas

feitas na época, que os militares eram extremamente racistas e achavam que

o título da canção era uma apologia

aos negros. A divisão de censura de diversões públicas, conhecida como DCDP, era

o órgão responsável pela censura pré-

via de letras musicais. Uma censora de nome Odete Martins em entrevista ao site censuramusical.com, explicou como era a sistemática da censura:

“era muito simples o negócio, eles mandavam de Brasília as ordens de que tipo de mensagens a gente devia procurar nas músicas. Uma época mandava prestar mais atenção na

política, ou nas drogas

Dois artistas muitos lembrados quando se fala em censura são os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, que foram exilados e antes disso fica- ram retidos em Salvador. A patrulha,

ora política, ora moral tinha seus alia- dos. Caetano compôs Deus e o Diabo que só foi liberada após negociações

e mudanças na letra original. Assim

que a canção foi liberada, um conselho de pastores evangélicos enviou cartas

à Divisão de Censura de Brasília

pedindo maior atenção nas letras que liberavam.

pROvA DO

CRImE

maior atenção nas letras que liberavam. pROvA DO CRImE carta De pastores eVangélicos peDinDo a censura

carta De pastores

eVangélicos peDinDo

a

censura De “Deus

e

o Diabo” DeViDo ao seu conteÚDo proFano

A hORA ChORA DE tRIStEzA E DOR

Gilberto Gil sofreu com os cortes das músicas Sonho mo- lhado e Tradição, ambas consideradas vulgares e impróprias. Os irmãos Dom e Ravel ficaram eternamente associa- dos ao governo militar, principalmente por músicas como Eu te amo meu Brasil, adotada pelos militares e transfor- mada em hino. Gravada pelo grupo Os Incríveis a canção era tocada durante as subidas e descidas na rampa do Palácio do Planalto. Ravel se defende da acusação que a música tenha caráter ufanista intencional: “essa mentira que se tornou pública, pelos maus jornalistas da época que nos perseguem até hoje dizendo que nós somos puxa- sacos do governo, fabricados pela ditadura militar, se tornou verdade perante a opinião pública. Mas eu não fiz música encomendada pra ninguém não”. Ravel recorda os cortes dos censores, como foi o caso da música Animais irracionais, censurada em 1974. Além do veto dos militares, a dupla sofreu perseguição das patrulhas políticas da esquerda. Em 1977 os militares comemoravam o décimo terceiro ano no poder, e foi quando Luiz Ayrão lançou o sam- ba Treze anos, um dos mais contundentes protestos contra o regime. Em depoimento ao historiador Paulo Cesar Araújo no livro Eu não sou cachorro não, o cantor lembra: “quando reparei que eram treze anos, eu logo pensei em fazer uma música sacaneando esses caras”. Treze anos foi vetada, mas aproveitando que o Congresso Nacional discutia a lei do divórcio, o compositor alterou o título para O divórcio. E os militares aprovaram. Entre os artistas perseguidos, Jair Rodrigues foi um dos que jamais sofreram com a censura, por motivos subjetivos

os mesmos critérios ininteligíveis que sempre acompa-

e

nhavam os censores do Regime, ele era deixado em paz.

A partir de 1979, os ventos da anistia começam a soprar

e algumas das canções vetadas são liberadas. Depois

disso, começam a voltar artistas, políticos e intelectuais.

A música amordaçada foi recuperando a voz e quem

fechasse os olhos seria capaz de ouvir os violinos da intro- dução de Baby de Caetano Veloso: Baby, Baby, há quanto

tempo

elaine GomeS

A pARtIR DE 79

vENtOS DA ANIStIA

vOltAm A SOpRAR:

lIbERDADE!

24 www.revistapop.com.br

DéCADAS DE

ChUmbO

lIbERDADE! 24 www.revistapop.com.br DéCADAS DE ChUmbO coM a ViolÊncia, a repressÃo cHegaVa no liMite Anos 60

coM a ViolÊncia, a repressÃo cHegaVa no liMite

Anos 60

Com o gosto doce e a leveza da década anterior ainda presentes, os anos 1960 foram o começo da elevação

da temperatura nas águas do mundo. O mundo construiu

o muro de Berlin, matou J. F. Kennedy e Martin Luther

King. A primeira fatura da guerra do Vietnã veio alta e os protestos começaram a pipocar. Os primeiros corações foram transplantados e todos bateram mais forte quando

a Apollo 11 pousou em solo lunar. Nossa capital foi trans-

ferida para Brasília. Jânio foi eleito e se deselegeu. Os Beatles lançaram seu primeiro Lp e os militares brasileiros tomaram o poder.

Anos 70

A década de 1970 inaugurou os microprocessado- res e consagrou a TV a cores. No Chile chega ao fim o curto governo de Salvador Allende, deposto em mais um golpe dos militares. Os portugueses, ora pois, com sua revolução dos cravos, destituem os golpistas de farda; enquanto os americanos voltam para casa derrotados ao final da Guerra do Vietnã. Elvis morre e o sonho dos Beatles acaba. Um Nixon exposto e envergonhado re- nuncia à presidência nos Estados Unidos enquanto aqui, Ernesto Geisel com suas quatro estrelas sobe a rampa do planalto.

Anos 80

Década de 1980, Maradona entrega a taça do mundo

para os argentinos. A Apple lança o Macintosh e o Brasil vê

o nascimento do seu primeiro bebê de proveta. O cometa

Halley aparece nos céus iluminados pelos mísseis da Guerra

das Malvinas e o mesmo céu vê o nascimento da estrela do Partido dos Trabalhadores. Nossa geografia muda com a transformação de Rondônia, Amapá e Roraima em estados

e com a criação do estado do Tocantins. No cinema, vemos ET e dançamos com Michael Jackson ao som de Thriller, comemorando a queda do Muro de Berlim.

tROpICAlIStAS

tROpICAl IStAS rita lee,arnalDo baptista e sérgio Dias : Mutantes Do passaDo É o fim da

rita lee,arnalDo baptista e sérgio Dias : Mutantes Do passaDo

É o fim da ditadura no Brasil. O presidente, eleito por voto indireto, morre antes de assumir deixando para o

vice a tarefa de promulgar a nova Constituição.Era o início de uma carreira de sucesso para os baianos Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, Gilberto Passos Gil Moreira

e Maria da Graça Costa Penna Burgos, conhecida pelos amigos como Gal. Em 1967, já inseridos no cenário

musical, Gil grava um disco solo e outro com Caetano. Os discos revelam a criatividade dos dois e a grande influência da Bossa Nova e do Samba Canção. Além disso, surge a graciosidade da voz de Gal Costa. Para eles não era o suficiente: a efervescência de seus pensamentos e idéias e a vontade de encontrar um novo sentido para sua música fez com que ambicio- nassem uma nova estética musical. Inspirados pelo movimento Antropofágico da Semana de Arte Moderna de 1922 – que pregava que era importan-

te

deglutir a cultura exportada pelas potências mundiais

e

depois misturá-las a elementos da cultura local –, os

baianos juntaram-se a músicos como Tom Zé, Mutantes,

o guitarrista Lenny Gordon, o maestro Rogério Duprat e o

poeta Torquato Neto para criarem o Tropicalismo. Misturando guitarras elétricas e triângulos nordestinos numa mesma canção, eram incontestavelmente inovado- res. Mas, para alguns, isto era uma afronta, uma heresia.

Entre vaias e aplausos, a guitarra elétrica foi apresenta- da no Festival de Música Popular Brasileira, 1967, na TV Record. Entre as dez finalistas, Alegria, Alegria, de Cae- tano e Domingo no Parque, de Gil, acompanhado pelos Mutantes. Considerando o resultado como positivo – a canção de Caetano ficou com a quarta colocação e a de Gil foi a vice-campeã – os dois gravaram seus primeiros discos tropicalistas. Ainda nesse impulso, Os Mutantes e Gal fizeram o mesmo. Com arranjos de Rogério Duprat e

a colaboração de Lenny Gordon na guitarra, o Tropicalis-

mo era um sucesso. Mas não absoluto. Nesse mesmo ano, artistas como Elis Regina, Edu Lobo e Geraldo Vandré marcharam, junto com centenas de pessoas no centro de São Paulo, contra a guitarra elétrica. Em 1968 grava-se o antológico Tropicália - Panis et Circenses, disco que eterniza a união entre todos os artistas que aderiram ao movimento. Vê-se no Tropicalismo uma proposta de ruptura, mas que, ao mesmo tempo, reincorporava com aquilo que rompia. Isso fica implícito nas roupas, nos cabelos, nas atitudes e na informalidade. Mas, como tudo chega ao fim, Caetano e Gil foram presos e exilados pela Ditadura Militar e, quando voltaram, a Tropicália havia virado história. CLÁUDIA URBANISKI

a JoVeM guarDa: MesclaVa MÚsica,
a JoVeM guarDa:
MesclaVa MÚsica,

coMportaMento e

MoDa: alienaDos?

guarDa: MesclaVa MÚsica, coMportaMento e MoDa: alienaDos? JÁ roberto carlos optou por uM eMbate inDireto coM

JÁ roberto carlos optou por uM eMbate inDireto coM os Militares. seu protesto era lÚDico

e MoDa: alienaDos? JÁ roberto carlos optou por uM eMbate inDireto coM os Militares. seu protesto
e MoDa: alienaDos? JÁ roberto carlos optou por uM eMbate inDireto coM os Militares. seu protesto
e MoDa: alienaDos? JÁ roberto carlos optou por uM eMbate inDireto coM os Militares. seu protesto

O

pRESIDENtE

DEpENDE A

REvOlU-

fRUStRADOS

pRESIDENtE

tRIbUNAl

gURANçA NA-

DA REpúblICA

REStAURAçãO

CIONáRIO, Ex-

OS IDEAIS SU-

DA REpúblICA

DE CONtAS,

CIONAl, E SEm

fEDERAtIvA

DA ORDEm

ERCIDO pElO

pERIORES DA

pODERá

SERá ExER-

AS lImItAçÕES

DO bRASIl

INtERNA E DO

pRESIDENtE

REvOlUçãO,

DECREtAR O

CIDA pElO DO

pREvIStAS

, OUvIDO O

pREStÍgIO

DA REpúblICA,

pRESERvANDO

RECESSO DO

RESpECtIvO

NA CONStItU-

CONSElhO DE

INtERNA-

AO CONvOCAR

A

ORDEm, A

CONgRESSO

EStADO,

IçãO, pODERá

SEgURANçA

CIONAl DA

O

CONgRESSO

SEgURANçA,

NACIONAl, DAS

EStENDENDO

SUSpENDER

NACIONAl, E

NOSSA pátRIA”

NACIO-

A

tRANqüIlI-

ASSEmbléIAS

SUA AçãO àS

OS DIREItOS

(pREâmbUlO

NAl pARA DIS-

DADE, O DE-

lEgISlAtI-

fUNçÕES DE

pOlÍtICOS DE

CONSID-

DO AtO INStI-

CUtIR, vOtAR E

SENvOlvImEN-

vAS E DAS

AUDItORIA,

qUAISqUER CI-

ERANDO qUE

tUCIONAl Nº 1,

pROmUlgAR A

tO ECONômICO

CâmARAS DE

JUlgAmENtO

DADãOS pElO

A

REvOlUçãO

DE 9 DE AbRIl

NOvA CONStI-

E CUltURAl E

vEREADORES,

DAS CONtAS

pRAzO DE 10

bRASIlEIRA DE

DE 1964);

tUIçãO, EStA-

A hARmONIA

pOR AtO COm-

DOS ADmIN-

ANOS E CAS-

31 DE mARçO

bElECEU qUE

pOlÍtICA E

plEmENtAR,

IStRADORES

SAR mANDA-

DE 1964 tEvE,

CONSID-

EStA, Além DE

SOCIAl DO

Em EStADO

E

DEmAIS

tOS ElEtIvOS

CONfORmE

ERANDO qUE O

REpRESENtAR

pAÍS COmpRO-

DE SItIO OU

RESpONSávEIS

fEDERAIS,

DECORRE DOS

gOvERNO DA

“A INStItUCIO-

mEtIDOS pOR

fORA DElE,

pOR bENS

EStADUAIS E

AtOS COm OS

REpúblICA,

NAlIzAçãO

pROCESSOS

Só vOltANDO

E

vAlORES

mUNICIpAIS.

qUAIS SE INStI-

RESpON-

DOS IDEAIS E

SUbvERSIvOS

OS mESmOS

públICOS.

tUCIONAlIzOU,

SávEl pElA

pRINCÍpIOS DA

E

DE gUERRA

A

fUNCIONAR

pARágRAfO

fUNDAmENtOS

ExECUçãO

REvOlUçãO”,

REvOlU-

qUANDO CON-

ARt 3º - O

úNICO - AOS

E

pROpóSItOS

DAqUElES

DEvERIA “AS-

CIONáRIA;

vOCADOS pElO

pRESIDENtE

mEmbROS DOS

qUE vISAvAm

ObJEtIvOS E

SEgURAR A

pRESIDENtE

DA REpúblICA,

lEgISlAtIvOS

A

DAR AO pAÍS

pElA ORDEm

CONtINUIDADE

CONSIDERAN-

DA REpúblICA.

NO INtERESSE

fEDERAl, ES-

Um REgImE

E

SEgURANçA

DA ObRA REvO-

DO qUE tODOS

NACIONAl,

tADUAIS E mU-

qUE, AtEN-

INtERNAS, NãO

lUCIONáRIA”

ESSES fAtOS

§

1º - DECREtA-

pODERá DEC-

NICIpAIS, qUE

tIvEREm SEUS

mANDAtOS

CASSADOS,

DENDO àS

Só NãO pODE

(AtO INStI-

pERtURbA-

DO O RECESSO

REtAR A INtER-

ExIgêNCIAS DE

pERmItIR

tUCIONAl Nº

DORES, DA

pARlAmEN-

vENçãO NOS

Um SIStEmA

qUE pESSOAS

4,

DE 7 DE

ORDEm SãO

tAR, O pODER

EStADOS E mU-

JURÍDICO E

OU gRUpOS

DEzEmbRO DE

CONtRáRIOS

ExECUtIvO

NICÍpIOS, SEm

NãO SERãO DA-

pOlÍtICO, AS-

ANtI-REvOlU-

1966);

AOS IDEAIS

CORRESpON-

AS lImItAçÕES

DOS SUbStItU-

SEgURASSE

CIONáRIOS

E

à CONSOl-

DENtE fICA

pREvIStAS NA

tOS, DEtER-

AUtêN-

CONtRA ElA

CONSIDERAN-

IDAçãO DO

AUtORIzADO

CONStItUIçãO.

mINANDO-SE

tICA ORDEm

tRAbAlhEm,

DO, NO ENtAN-

mOvImENtO

A

lEgISlAR

O

qUORUm

DEmOCRátICA,

tRAmEm OU

tO, qUE AtOS

DE mARçO DE

Em tODAS AS

pARágRAfO

pARlAmENtAR

bASEADA NA

AJAm, SOb

NItIDAmENtE

1964, ObRIg-

mAtéRIAS E

úNICO - OS IN-

Em fUNçãO

lIbERDADE,

pENA DE EStAR

SUbvERSIvOS,

ANDO OS qUE

ExERCER AS

tERvENtORES

DOS lUgARES

NO RESpEItO

fAltANDO A

ORIUNDOS DOS

pOR ElE SE

AtRIbUIçÕES

NOS EStADOS

EfEtIvAmENtE

à

DIgNIDADE

COmpROmIS-

mAIS DIStIN-

RESpONS-

pREvIStAS

E

mUNICÍpIOS

pREENChIDOS.

DA pESSOA

SOS qUE AS-

tOS SEtORES

AbIlIzARAm

NAS CONStItU-

SERãO NO-

hUmANA, NO

SUmIU COm O

pOlÍtICOS E

E

JURARAm

IçÕES OU NA

mEADOS pElO

ARt 5º - A

COmbAtE à

pOvO bRASIl-

CUltURAIS,

DEfENDê-lO, A

lEI ORgâNICA

pRESIDENtE

SUSpENSãO

SUbvERSãO E

EIRO, bEm

COmpRO-

ADOtAREm AS

DOS mUNICÍ-

DA REpúblICA

DOS DIREItOS

àS IDEOlOgIAS

COmO pORqUE

vAm qUE OS

pROvIDêNCIAS

pIOS.

E

ExERCERãO

pOlÍtICOS,

CONtRáRIAS

O

pODER

INStRUmEN-

NECESSáRIAS,

tODAS AS

COm bASE

àS tRADIçÕES

REvOlU-

tOS JURÍDI-

qUE EvItEm

§

2º - DURANtE

fUNçÕES E

NEStE AtO,

DE NOSSO

CIONáRIO, AO

COS, qUE A

SUA DEStRU-

O

pERÍODO DE

AtRIbUIçÕES

ImpORtA,

pOvO, NA lUtA

EDItAR O AtO

REvOlUçãO

IçãO,

RECESSO, OS

qUE CAIbAm,

SImUltANEA-

CONtRA A

INStItUCIONAl

vItORIOSA

SENADORES,

RESpECtIvA-

mENtE, Em:

CORRUpçãO,

Nº 2, AfIRmOU,

OUtORgOU à

RESOlvE

OS DEpUtADOS

mENtE, AOS

bUSCANDO,

CAtEgORICA-

NAçãO pARA

EDItAR O

fEDERAIS,

gOvERNA-

I - CESSAçãO

DEStE mODO,

mENtE, qUE

SUA DEfESA,

SEgUINtE

EStADUAIS

DORES OU

DE pRIvIlégIO

“OS. mEIOS IN-

“NãO SE DISSE

DESENvOlvI-

E

OS vERE-

pREfEItOS,

DE fORO pOR

DISpENSávEIS

qUE A RES-

mENtO E bEm-

AtO INStItU-

ADORES Só

E

gOzARãO

pRERROgAtIvA

à

ObRA DE RE-

OlUçãO fOI,

EStAR DE SEU

CIONAl

pERCEbERãO A

DAS pRER-

DE fUNçãO;

CONStRUçãO

mAS qUE é E

pOvO, EStãO

pARtE fIxA DE

ROgAtIvAS,

ECONômICA,

CONtINUARá”

SERvINDO DE

ARt 1º - SãO

SEUS SUbSÍ-

vENCImENtOS

II

- SUSpENSãO

fINANCEIRA,

E, pORtANtO,

mEIOS pARA

mANtIDAS A

DIOS.

E

vANtAgENS

DO DIREItO DE

pOlÍtICA E

O

pROCESSO

COmbAtê-lA E

CONStItUIçãO

fIxADOS Em

vOtAR E DE

mORAl DO

REvOlU-

DEStRUÍ-lA;

DE 24 DE JA-

§

3º - Em CASO

lEI.

SER vOtADO

bRASIl, DE

CIONáRIO Em

NEIRO DE 1967

DE RECESSO

NAS ElEIçÕES

mANEIRA A

DESENvOlvI-

CONSIDERAN-

E

AS CONStItU-

DA CâmARA

ARt 4º - NO

SINDICAIS;

pODER EN-

mENtO NãO

DO qUE, AS-

IçÕES EStAD-

mUNICIpAl, A

INtERESSE DE

fRENtAR, DE

pODE SER

SIm, SE tORNA

UAIS, COm AS

fISCAlIzAçãO

pRESERvAR A

III - pROIbIçãO

mODO DIREItO

DEtIDO;

ImpERIOSA

mODIfICAçÕES

fINANCEIRA

REvOlUçãO,

DE AtIvIDADES

E

ImEDIAtO, OS

A

ADOçãO

CONStANtES

E

ORçAmEN-

O

pRESIDENtE

gRAvES E UR-

CONSIDERAN-

DE mEDIDAS

DEStE AtO

táRIA DOS mU-

DA REpúblICA,

OU mANIfES- tAçãO SObRE

gENtES pROb-

DO qUE ESSE

qUE Im-

INStItUCIONAl.

NICÍpIOS qUE

OUvIDO O CON-

ASSUNtO DE

lEmAS DE qUE

mESmO pODER

pEçAm SEJAm

ARt 2º - O

NãO pOSSUAm

SElhO DE SE-

NAtUREzA

26 www.revistapop.com.br

pOlÍtICA;

pRESIDENtE

pODERá, ApóS

pOpUlAR.

SOARES

DA REpúblICA

INvEStIgAçãO,

hélIO bEltRãO

Iv - AplICA-

pODERá mEDI-

DECREtAR

ARt 11 -

AfONSO A.

çãO, qUANDO

ANtE DECREtO,

O

CONfISCO

ExClUEm-SE

lImA

NECESSáRIA,

DEmItIR,

DE bENS DE

DE qUAlqUER

CARlOS f. DE

DAS SEgUINtES

REmOvER,

tODOS qUAN-

ApRECIAçãO

SImAS

mEDIDAS DE

ApOSENtAR

tOS tENhAm

JUDICIAl

SEgURANçA:

OU pôR Em DI-

ENRIqUECIDO,

tODOS OS AtOS

SpONIbIlIDADE

IlICItAmENtE,

pRAtICADOS

A)

lIbERDADE

qUAISqUER

NO ExERCÍCIO

DE ACORDO

vIgIADA;

tItUlARES DAS

DE CARgO

COm EStE AtO

gARANtIAS

OU fUNçãO

INStItUCIONAl

b)

pROIbIçãO

REfERIDAS

públICA,

E SEUS AtOS

DE fREqüEN-

NEStE ARtIgO,

INClUSIvE DE

COmplEmEN-

tAR DEtER-

ASSIm COmO

AUtARqUIAS,

tARES, bEm

mINADOS

EmpREgADO

EmpRESAS

COmO OS

lUgARES;

DE AUtAR-

públICAS E

RESpECtIvOS

qUIAS, EmpRE-

SOCIEDADES

EfEItOS.

C)

DOmICÍlIO

SAS públICAS

DE ECONOmIA

mIStA, SEm

pREJUÍzO DAS

DEtERmINADO,

OU SOCIE-

ARt 12 - O

DADES DE ECO-

pRESENtE AtO

§

1º - O AtO

NOmIA mIStA,

SANçÕES pE-

INStItUCIO-

qUE DECREtAR

E

DEmItIR,

NAIS CAbÍvEIS.

NAl ENtRA Em

A SUSpENSãO

tRANSfERIR

vIgOR NEStA

DOS DIREItOS

pARA A

pARágRAfO

DAtA, REvOgA-

pOlÍtICOS

RESERvA OU

úNICO -

DAS AS DIS-

pODERá fIxAR

REfORmAR

pROvADA A

pOSIçÕES Em

REStRIçÕES

mIlItARES

lEgItImIDADE

CONtRáRIO.

OU pROI-

OU mEmbROS

DA AqUISIçãO

bIçÕES RElA-

DAS pOlÍCIAS

DOS bENS,

bRASÍlIA, 13

tIvAmENtE AO

mIlItARES, AS-

fAR-SE-á SUA

DE DEzEm-

ExERCÍCIO DE

SEgURADOS,

REStItUIçãO.

bRO DE 1968;

qUAISqUER

qUANDO fOR

147º DA

OUtROS DIRE-

O

CASO, OS

ARt 9º - O

INDEpENDêN-

ItOS públICOS

vENCImENtOS

pRESIDENtE

CIA E 80º DA

OU pRIvADOS.

E

vANtAgENS

DA REpúblICA

REpúblICA.

pROpORCIO-

pODERá

§

2º - AS

NAIS AO tEmpO

bAIxAR AtOS

COmplEmEN-

A. COStA E

mEDIDAS DE

DE SERvIçO.

SIlvA

SEgURANçA DE

 

tARES pARA

lUÍS ANtôNIO

qUE tRAtA O

§

2º - O DIS-

A

ExECUçãO

DA gAmA E

ItEm Iv DEStE

pOStO NEStE

DEStE AtO

SIlvA

ARtIgO SERãO

ARtIgO E SEU

INStItUCIONAl,

AUgUStO

AplICADAS

§

1º AplICA-

bEm COmO

hAmANN

pElO mINIS-

SE, tAmbém,

ADOtAR, SE

RADEmAkER

tRO DE EStADO

NOS EStADOS,

NECESSáRIO

gRüNEWAlD

DA JUStIçA,

mUNICÍpIOS,

à

DEfESA DA

AURélIO DE

DEfESA A

DIStRItO

REvOlUçãO,

lyRA tAvARES

ApRECIAçãO

fEDERAl E

AS mEDIDAS

JOSé DE

DE SEU AtO

tERRItóRIOS.

pREvIStAS

mAgAlhãES

pElO pODER

NAS AlÍNEAS

pINtO

JUDICIáRIO.

ARt 7º - O

D

E E DO § 2º

ANtôNIO

pRESIDENtE

 

DElfIm NEttO

ARt 6º - fICAm

DA REpúblICA,

DO ARt. 152 DA CONStItUIçãO.

máRIO DAvID

SUSpENSAS

Em qUAlqUER

 

ANDREAzzA

AS gARANtIAS

DOS CASOS

ARt 10 - fICA

IvO ARzUA

CONStItUCION-

pREvIStOS NA

SUSpENSA

pEREIRA

AIS OU lEgAIS

CONStItUIçãO,

A

gARANtIA

tARSO DUtRA

DE: vItAlICIE-

pODERá DE-

DE hAbEAS

JARbAS g. pAS-

DADE, mAm- OvIbIlIDADE E

CREtAR O ES- tADO DE SÍtIO

CORpUS , NOS CASOS DE

SARINhO máRCIO DE

EStAbIlIDADE,

E

pRORROgá-

CRImES pOlÍtI-

SOUzA E

AI-5

bEm COmO A

lO, fIxANDO

COS, CONtRA

mEllO

DE ExERCÍCIO

O

RESpECtIvO

A

SEgURANçA

lEONEl

Em fUNçÕES

pRAzO.

NACIO-

mIRANDA

pOR pRAzO

NAl, A ORDEm

JOSé COStA

DECIfRE-0

CERtO.

ARt 8º - O

ECONômICA

CAvAlCANtI

pRESIDENtE

E SOCIAl E

EDmUNDO

§

1º - O

DA REpúblICA

A ECONOmIA

DE mACEDO

pAUlO CESAR DE ARAúJO é jornalista, historiador e mestre em Memória Social. Autor de Eu não sou cachorro não - música popular brasileira na ditadura militar (livro que descreve a censura imposta aos artistas populares brasil- eiros) e da polêmica, censurada e proibida biografia Roberto Carlos em detalhes.

zé RODRIx é cantor, compositor, publicitário e escritor. Fez parte dos grupos: Momento Quatro; Som Imaginário; Sá, Rodrix e Guarabyra e Joelho de Porco. Autor de grandes sucessos da música nacional como Casa no Campo, gravada por Elis Regina e Soy latino americano, entre muitos outros.

Paulo César e Zé Rodrix receberam a POP na Casa Mario de Andrade, em São Paulo. elaine GomeS

Porque um livro sobre a censura na música brega? Paulo César Araújo - Quando come- cei a me aprofundar nas pesquisas sobre a censura musical no regime militar, já havia bastante escrita sobre a elite da MPB e artistas como Chico, Milton, Gonzaguinha. Sobre os bregas e a censura moral desse período pouco se falava.

Como era a patrulha moral, paralela à política? PCA - Todos foram muito censura- dos, principalmente o Odair José. E basicamente pela questão moral. Al- gumas vezes por questões políticas, mas principalmente por questões

morais. Esses artistas foram vítimas disso. Odair José foi com certeza o mais censurado entre os cantores e compositores da época da ditadu- ra. Várias canções foram vetadas, justamente porque ele enfatizava o sexo, a cama, a pílula, temas que nesse período eram considerados pelos militares como obscenidades.

Falar de sexo, de prostituição um atentado violento ao pudor!

Era

A lógica da censura moral em relação à política era semelhante? Aquele enfrentamento, as tentativas de burlar os censores, era tudo igual? PCA - Era sim. Da primeira vez que ele fez uma canção e foi proibida, ele continuou fazendo as músicas, ele continuou provocando, as mú- sicas continuaram sendo proibidas, mais ou menos o que acontecia com o pessoal da MPB que nem sabia que era proibido falar de política e protesto, mas eles tentavam mudar

alguma coisa aqui, outra ali

José, por exemplo, fez, em 1973, uma canção chamada Em qualquer lugar, que falava apenas isso: “em qualquer lugar, na minha cama, dentro do meu carro, debaixo do chuveiro é bom sempre em qualquer lugar”. Os censores, é claro, se es- candalizaram. A canção foi vetada e ele tentou conversar, modificar, mas não teve jeito: a canção foi banida.

Odair

Zé Rodrix teve letras proibidas por atentarem contra a moral

e os bons costumes. As

músicas eram Velha Questão

e Somos o que você quiser e

Abaixo a cueca. Você já estava esperando esse veto? Zé Rodrix - Sabíamos de todos os vetos. O problema é que nós estávamos vivendo uma situação em que não havia mais motivo, não havia mais substância para impor a

ditadura em moldes políticos. Ainda existiam pequenos grupos políticos que faziam muito barulho, mas o grande inimigo da ditadura passou

a ser o comportamento, a revolução

sexual, a liberação dos costumes. A coisa mais importante é que a gente seja livre de preconceito ideológi- co, político ou religioso para poder viver. Nesta época era impossível, eram tempos de “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Ou você se comportava

desse jeito ou era melhor ir embora.

A gente brincava muito com a frase:

“o último a sair, apague a luz do aeroporto.

Qual era o sentimento de ter que submeter toda e qualquer composição aos censores? ZR - Acho que cada um cumpria o

seu papel. Nós compúnha- mos e eles censuravam. Eu nunca pratiquei auto-

censura e não me preocu- pava. Eu mandava para

a gravadora, que enviava

para a censura, que dava seu parecer. Eu enfrentei problemas com a censura até 1982, quando nós fize- mos o disco Saqueando a

cidade com o grupo Joelho de Porco. Nós tivemos duas canções censura- das, inclusive a música título do disco. Na época, havia aqueles saques de supermercados e eles acharam que a gente tava apoiando. E olha que isso

foi já no tempo de abertura.

Eu não tive problemas com

a censura. A censura é que teve problemas comigo. Censuraram uma série de canções, não tinha como escapar.

Era comum essa negociação dos músicos com os censores?

PCA - Era sim, não tinha outra saída, até por que, quando uma canção era vetada, o compositor era chamado pra se explicar.

O Chico tentava, os outros

cantores também tenta-

vam, era muito comum.

O Odair fez uma canção

chamada A primeira noite de um homem, que falava da ansiedade que envolve

o jovem no seu primeiro

relacionamento sexual. A

censura proibiu, ele recor- reu e marcou (através de um executivo da gravadora) um encontro com o Gal. Golbery do Couto e Silva (chefe do Serviço Nacional de Informação). Ele costu- mava receber os artistas. Quando a novela Roque Santeiro foi proibida, ele recebeu parte do elenco. Receber ele recebia, mas

não adiantava nada

o Odair foi e, chegando

lá, disse: “General, o que

Mas

o Odair foi e, chegando lá, disse: “General, o que Mas incomodou nessa letra? O disco

incomodou nessa letra? O disco está pronto, vai ser lançado”. Ele disse que

o General nem levantou

os olhos e disse simples- mente que a canção foi tirada e arquivada. O Odair mudou uma palavra ou outra e mandou outra vez pra outros censores e eles aprovaram achando que era outra música. Ele tem o maior orgulho de ter enga-

nado o general!

Com o cantor Waldick

Soriano a patrulha era dupla, tanto moral como política, não é isso?

PCA - Com ele era sim, e é curioso porque aí a questão

política atravessa a questão moral ou faz uma associa- ção política onde apenas era uma canção românti- ca. Talvez uma das mais lindas canções de Waldick seja Tortura de amor, uma canção composta em 1962 que, naquele ano, fez um sucesso relativo. Em 1964 ele regravou essa canção num disco comemorativo e

aí veio a ordem da Polícia

Federal proibindo a exe- cução. Não podia tocar no

rádio (algumas vezes eles proibiam a música de ser tocada em qualquer lugar,

outras vezes, só não podia tocar no rádio!). O grande

problema foi a palavra “tortura”. Os militares não admitiam que falassem a palavra “tortura” e pelo

visto nem “amor”

(risos).

Torturar podia, o que não podia era falar a palavra PCA - Eles tinham umas implicâncias específicas até interessantes, por- que retinham coisas sem importância e liberavam outras por pura ignorância. O Agnaldo Timóteo, por exemplo, resolve em 1975, fazer uma música cha- mada Galeria do amor e eles liberaram! Ele estava falando da Galeria Alasca, um ponto de encontro gay no Rio de Janeiro. Tudo bem que 75 já era um período de abertura, mas a censura moral continuou. Ele fala, na música que “na galeria é assim, onde quem é gente como a

gente se entende, onde se pode amar livremente”. Ele me disse: “olha Paulo, eu

Zé roDrix Musicou uMa receita De bolo

“olha Paulo, eu Zé roDrix Musicou uMa receita De bolo várias canções foram vetadas porque enfatizavam

várias canções foram vetadas porque enfatizavam o sexo, a pílula Acima de tudo, sofríamos uma censura moral”

paulo césar

chegava de viagem parava o carro e ia pra Galeria Alasca. Se eu colocas- se que a Galeria Alasca é assim, que

as pessoas de lá são assim e assim fatalmente a música ia ser proibida” Eu perguntei se ele não tinha receio e ele me disse que se houvesse proble-

ma, ele daria porrada

por um lado você conseguia driblar a censura, não havia lógica. Algumas vezes passava e outras não! O Zé tem uma história ótima sobre essas implicâncias.

Na verdade,

paulo c. araÚJo DestrincHou “os bregas”

observações bem bacanas ZR - A grande vantagem que eu vi no livro do Paulo, foi que ele teve cora- gem de destroçar todos os mitos da época. O livro acabou com histórias que eram totalmente ilusórias. Eu acho que a gente precisa, antes de tudo, se livrar de alguns mitos. Um deles, por exemplo, quando o grande mestre fala no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão responsável pela censura), a gente tem que reconhecer que homens hoje considerados gênios da raça, os me-

que homens hoje considerados gênios da raça, os me- Que história? ZR - Olha, eu tava

Que história? ZR - Olha, eu tava cansado de ser cen- surado, tava de saco cheio desse jogui- nho deles e um dia peguei um caderno de receitas da minha avó e musiquei um

bolo que ela sempre fazia. A letra era só:

tanto de açúcar, tanto de farinha, bate,

assa

o bolo da minha avó! Proibiram uma receita de família!!!! (risos)

Mandei e eles vetaram! Vetaram

Zé Rodrix, antes da entrevista nós estávamos falando da importância do livro Eu não sou cachorro não, do Paulo, você fez umas

lhores compositores que o país teve, foram comprados pelo DIP para fazer

músicas em homenagem ao ditador da época, que era o Getúlio Vargas e que não abria mão disso. Ele queria ser elogiado, queria lançar a idéia de que o Brasil era um país fenomenal

e maravilhoso, você não podia falar

o contrário. Na ditadura de Getúlio, a polícia chegava, dava porrada e não queria nem saber. Os caras usam critérios estúpidos, porque eles eram completamente desesperados, nós, no meio dos compositores, tínhamos uma prática

30 www.revistapop.com.br

que para nós era muito interessante, a gente dizia assim: “olha , cada um na sua função: a gente compõe, eles censuram, a gente compõe, eles censuram

Era um jogo assim descarado? Os militares, os censores tinham consciência disso? ZR - É lógico que tinham, era bem assim. Mas aí a gente viu que não dava, e começamos a usar truques. Por exemplo, tem uma canção que se chama Pássaro que originalmen- te chamava O tocador e estava no nosso segundo disco (Terra, de Sá Rodrix e Guarabyra), e aí a censura proibiu. Quando a gente quis gravar no disco seguinte, mudamos o nome pra Pássaro e colocamos que seria gravada pelo Tonico e Tinoco e eles aprovaram! Pra eles o problema era o conjunto de informações, daí bastava fazer determinadas manobras.

Mas as manobras nem sempre funcionavam ZR - O problema é que eles defen- diam uma moral que não era modifi- cada, que era a mesma sei lá desde quando. Eu tenho uma letra que eu fiz com o Paulo Coelho que eles riscaram de caneta vermelha: “fere a moral e bons costumes da família bra- sileira”! O mais importante é perceber que todos fomos censurados, todos! A censura não caiu especificamente em cima de alguns que, de deter- minada maneira, se privilegiaram disso. A censura caiu sobre todos e os verdadeiramente censurados são aqueles que nunca puderam gravas suas canções. Tem um camarada chamado Sirlan que ganhou um fes- tival. Ele fez um disco, era o começo da carreira dele, o disco foi todo cen- surado, vetado de ponta a ponta. O cara enlouqueceu, se meteu no meio do mundo e nunca mais apareceu.

Não dava vontade de desistir, de

deixar pra lá? ZR - Olha, o Taiguara morreu com 274 canções censuradas que nunca vieram ao público. Este é o cara censurado, estes são verdadeiramen- te censurados, porque a sua carreira foi interrompida. Eu tenho um amigo que é advogado que diz assim “vocês são muito bobos, você deviam agora

meter a boca

o Governo não está

pagando indenizações pra todo mun- do? Eu acho que todos os cantores que foram censurados deviam entrar com um processo, alegando danos morais e lucros cessantes. Você podia dizer: olha censuraram minha canção (é uma esculhambação você ficar penalizando o Brasil) eu tava indo muito bem, minha música tava muito boa, eu ia ficar milionário com essa canção, mas o governo me impediu de ficar milionário, e agora eu quero minha indenização”. Isso ainda vai acontecer! (risos).

Como era o sentimento de mandar mensagens cifradas pra população que não sabia nem entendia bem o que acontecia? ZR - A população estava a favor, a população queria o golpe, estava apoiando o golpe. Só em 1966 é que as pessoas começaram a se desagra- dar, aí veio o AI-5 em 1968 e a ver- dadeira face do regime ficou exposta. Mas de 1964 até 1966 o Golpe era aplaudido pela população brasileira não há o que dizer contra isso. O povo brasileiro gostava do Golpe. A censura existia e existe até hoje porque parte da sociedade apóia o dever da censu- ra . Um exemplo era o Chacrinha que era censurado e que muitas vezes se pegava dizendo “como que a censura deixou a capa dessa revista com a Gal Costa ?”, ou seja: o Chacrinha era censurado, e pedia censura.

Você falou que hoje ainda existe censura. ZR - Existe censura sim, não era só naquela época, hoje se fala muito:

“como deixam essa música de funk tocar nas rádios, isso é uma ofensa

pra família brasileira, uma baixaria”.

É exatamente a mesma coisa, o

mesmo blá blá blá, conversa fiada

de gente que não sabe reconhecer

o respeito essencial e não permite

que ninguém pense diferente dele. Este continua sendo o verdadeiro motivo de ainda haver censura no

Brasil, é a incapacidade de aceitar

o diferente, um homem que pensa

diferente de mim precisa ser calado.

Muitos registros dizem que a postura de patrulha ideológica acabava escondendo sentimen- tos de racismo e homofobia. A própria esquerda perseguia seus

desafetos. Era assim mesmo? ZR - Foi um movimento terrível em que essa censura, a da moral e dos bons costumes, teve toda a colabo- ração das pessoas que deveriam ter lutado contra ela. Foram os movimen- tos contra o Wilson Simonal, Tony Tornado e Erlon Chaves. Foram coisas

rigorosamente movidas contra a moral

e os bons costumes.

A sociedade brasileira tinha imensa difi- culdade de ver negros em posições de destaque, casados com loiras, levando

uma vida legal e com importância social. Era assim que a banda tocava. Esses são três casos emblemáticos, porque os próprios movimentos de es- querda, as pessoas que deveriam estar lutando contra isso, ficaram rigorosa- mente a favor da censura.

A imprensa também? ZR - Eu me recordo da campanha escrota e torpe que o Pasquim fez contra o Simonal. Era uma coisa pes- soal. Sei disso, pois quando foi com- provado que o Simonal não tinha feito nada – e que nada daquilo era ver- dade – logo após a morte dele, foram entrevistar várias pessoas e quando perguntaram para o Jaguar, ele disse:

“era dedo duro sim e para mim não vai deixar de ser porque nunca gostei deste crioulo”. A relação era essa. Eu me recordo que o Pasquim era muito engraçado. Por exemplo, a música tema do jornal era País Tropical, mas só cantada pelo Jorge Bem. Quando era cantada pelo Simonal era uma merda. Quando Erlon Chaves dançou

e beijou as loiras no palco, na saída

ele foi preso e ficou três meses desa- parecido, tomando porrada e os caras dizendo: “Aí negão, vai aprender o

teu lugar”. Tony Tornado, quando co- meçou namorar a Arlete Salles, uma loira, foi um escândalo.

Pra finalizar eu gostaria de saber se você acha que seu trabalho ficou prejudicado pela censura.

ZR - Eu sempre tive a visão que cada um cumpre seu papel: eu sou criador

e vou criando. Não pode uma canção,

eu crio outra, se corta um verso, eu

escrevo outro, como naquela músi- ca do Paulo César Pinheiro. Agora, esse movimento todo de pedidos de reparação (que músicos e artistas vêm fazendo) tem uma coisa de

vingança muito forte. Pra mim não faz o menor sentido. A ditadura já passou. A censura foi um momento ridículo da nossa vida nacional e, se conseguirmos rir desta época, nós vamos vencê-lo. A gente precisa começar a rir destes momentos. E rir mesmo para que eles percam valor. A censura é profundamente triste. Ela fica impregnada nas pessoas que tentam refazer sua vida de uma forma que não é mais possível e acabam agindo exatamente como os censo- res, porque elas ficam te impondo um comportamento da mesma forma que os censores impuseram a elas. Ou seja, totalmente ridículo.

os censores impuseram a elas. Ou seja, totalmente ridículo. Um dia peguei um caderno de receitas

Um dia peguei um caderno de receitas da minha avó e musiquei um bolo que ela sempre fazia. mandei e eles vetaram! vetaram o bolo da minha avó!” zé rodrix

bREgAS

Sempre tratada como “musica de alienação e conteúdo ufanista”, a música conhecida como brega tem mais a dizer do que o dizem dela

A INtENSA pRODUçãO de música

popular cafona durante a ditadura militar é quase sempre esquecida nos livros, artigos e estudos que se propõem a relatar a história musical da época. Mas por que esses artistas que eram tão ouvidos e aclamados pelo povo, que compunham músicas para as classes “menos favorecidas”, que vendiam milhares de discos e que eram parte integrante da história foram esquecidos por ela?

“eu nÃo sou cacHorro nÃo” nos anos 60, MoDerno era ser brega

nÃo sou cacHorro nÃo” nos anos 60, MoDerno era ser brega AlIENAçãO pOlÍtICA? tAlvEz 1968, ano
nÃo sou cacHorro nÃo” nos anos 60, MoDerno era ser brega AlIENAçãO pOlÍtICA? tAlvEz 1968, ano

AlIENAçãO pOlÍtICA? tAlvEz