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Carnavália

Parte 01

Ela era rude. Uma nobre, que se divertia saindo às ruas tacando farinha no
povo. Podia até ser divertido, não sei... Eu ficava preso, tendo que me
divertir escondido de noite. É, ela era cheia de dar ordens. Mas gostava,
curtia e ia embora. Eu gostava também, mas não podia fazer nada. Era feio
pra uma dama como ela ser vista com alguém como eu.

Mas com aquele meu jeito cadenciado eu a seduzi de vez. Ela se amarrou,
curtiu de verdade. Me deixou livre!

Mas eu queria mais. E ela também.

Parte 02

Sambando consegui tê-la sempre perto de mim. Nos amamos loucamente,


digo até que fizemos escola. Outras como ela gostaram da nossa maneira
de amar. Amor de verdade, ou fetiche, talvez. De qualquer forma, depois
que aprenderam com a gente, abandonaram suas sociedades luxuosas e
seus ranchos grandiosos, mas trouxeram algumas características deles para
nós. E se amaram verdadeiramente. Se encantaram com a nossa maneira
de fazer...

Agora já não falo mais de “mim”. Falo de nós, porque nos tornamos um só.
É o nosso samba e a nossa escola.

Parte 03

Aumentamos a família e nossos filhos não renegaram a raiz. Se saíram tão


bem que também fizeram escola. Sempre fizeram coisas boas, que nos
orgulham, seja com fantasia de cetim ou de papel. E nós, mesmo com a
idade, não perdemos o jeito. Ganhamos experiência, tradição. Nos
enroscamos e gostamos de tal maneira que nossas noite, até hoje, são
verdadeira kizombas. Verdadeiros espetáculos. O maior espetáculo da
Terra!

Pena que alguns de nossos filhos, com as suas fantasias de cetim,


esquecem que suas irmãs, suas co-irmãs, mais velhas ajudaram eles a
estarem onde estão. As pessoas que gostam das escolas de samba não são
alienadas à cultura; A maioria delas sabe a história do lugar onde vivem,
sabem apreciar uma verdadeira arte, não é à toa que são sambistas. Mas
elas podem se tornar escravas do luxuoso carnaval...

Mas nós, os veteranos, estamos aqui, mostrando nossa tradição. Mostrando


que o samba não pode e não vai morrer. Se suspirarmos não é de agonia. É
suspiro de alegria, porque estamos aqui mais uma vez, na avenida, no
espaço sideral ou na tela do seu computador. Ontem, hoje, sempre!
Epílogo

E hoje, não posso mais falar de nós me referindo a eu e ela. Hoje eu tenho
que falar de nós como nós e vocês. Porque vocês também fazem parte da
festa. Vocês que nos admiram o ano inteiro, real ou virtualmente. Vocês que
nos homenageiam. Vocês, os imperadores da folia virtual. O presente e o
futuro do samba!