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CENTRO UNIVERSITÁRIO METODISTA IPA

CURSO DE ADMINISTRAÇÃO

Eliezer Pedroso Rosa

A ADMINISTRAÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DE ECONOMIA SOLIDÁRIA


COMPARADA A DE EMPRESAS CAPITALISTAS

PORTO ALEGRE
2009
ELIEZER PEDROSO ROSA

A ADMINISTRAÇÃO DE EMPREENDIMENTOS DE ECONOMIA SOLIDÁRIA


COMPARADA A DE EMPRESAS CAPITALISTAS

Trabalho de Conclusão do Curso de Administração do


Centro Universitário Metodista IPA como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel em
Administração.

Orientador: Prof. César Luciano Filomena

PORTO ALEGRE
2009
Dedico este trabalho à minha companheira
Mariana, pelo apoio e pelas idéias que
ajudaram a compor a pesquisa.
“Quando o extraordinário se torna
cotidiano, é a revolução.”
Ernesto “Che” Guevara
RESUMO

Os empreendimentos de economia solidária se diferenciam dos modelos


tradicionais de organização essencialmente pela utilização de práticas democráticas
e igualitárias na sua administração e pelo emprego da autogestão, que consiste no
nível pleno de participação alcançado pelos membros de uma organização, pois
compete a todos a responsabilidade de planejar, executar e controlar os processos.
Esse sistema diferenciado de organização do trabalho elimina a submissão e a
separação entre comandantes e comandados, bem como a visão utilitarista sobre o
trabalhador, considerado recurso de produção nas empresas capitalistas.
O presente trabalho analisa a administração de empreendimentos solidários
em comparação com as metodologias tradicionais utilizadas pelas empresas
capitalistas, apontando as principais diferenças entre estes modelos organizacionais
nos critérios de gestão, colaboração, democracia, divisão do trabalho, pessoas e
sustentabilidade. Além de relacionar as principais dificuldades encontradas pelos
empreendimentos de economia solidária na sua administração, aponta as vantagens
e desvantagens encontradas pelos participantes destas organizações, identifica os
principais fatores que influenciam no seu desenvolvimento e analisa criticamente as
potencialidades e limites deste tipo de organização.
A primeira parte da pesquisa constitui-se de um estudo histórico, que se inicia
com uma breve descrição da organização econômica e do modo de produção no
sistema feudal, analisa a sua transformação com a transição ao sistema capitalista e
as causas que levaram ao surgimento da economia solidária durante a Revolução
Industrial, até o seu ressurgimento no final do séc. XX como forma de resistência ao
neoliberalismo. Posteriormente, é apresentada uma pesquisa empírica, realizada
com 8 organizações do setor do vestuário situadas nas cidades de Porto Alegre e
Gravataí, sendo 4 empreendimentos solidários e 4 empresas capitalistas, em que a
metodologia utilizada para análise é a teoria weberiana dos tipos ideais,
estabelecendo afinidades eletivas para comparação entre as organizações e entre
as características dos seus modelos teóricos construídos.
Os resultados da pesquisa empírica revelam que, apesar das dificuldades
encontradas nas áreas de marketing e finanças, os empreendimentos solidários do
setor do vestuário possuem, em geral, melhores indicadores de desenvolvimento da
sua administração do que as empresas capitalistas, e que estas organizações
fornecem aos seus associados melhores condições de trabalho e desenvolvimento
profissional. O resultado da pesquisa histórica evidencia a importância da economia
solidária como método de reinvenção da emancipação social e destaca a
necessidade de um marco legal específico e de uma ampliação de políticas públicas
para o desenvolvimento deste tipo de organização no Brasil.

Palavras-chaves: Economia solidária. Autogestão. Trabalho. Autonomia.


LISTAS DE ILUSTRAÇÕES

Quadro 1 – Relações entre tipos ideais e afinidades eletivas ................................... 58


Quadro 2 – Análise comparativa das organizações pesquisadas segundo os tipos
ideais construídos e os indicadores de desenvolvimento ........................................102
Quadro 3 – Indicadores de desenvolvimento por organização ...............................106
Gráfico 1 – Resumo dos indicadores de desenvolvimento ......................................106
LISTAS DE SIGLAS

ADS: Agência de Desenvolvimento Solidário


Anteag: Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão
CUT: Central Única dos Trabalhadores
FBES: Fórum Brasileiro de Economia Solidária
IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ONG: Organização Não-Governamental
SEBRAE: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SIES: Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária
SIVERGS: Sindicato das Indústrias do Vestuário do Rio Grande do Sul
UNISOL: União e Solidariedade das Cooperativas Empreendimentos de Economia
Social do Brasil
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 10
1.1 PROBLEMA DE PESQUISA .............................................................................. 14
1.2 OBJETIVOS DA PESQUISA .............................................................................. 15
1.2.1 Objetivo Geral ................................................................................................. 15
1.2.2 Objetivos Específicos .................................................................................... 15
1.3 JUSTIFICATIVA .................................................................................................. 15
1.4 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO ............................................................................ 17
2 REFERENCIAL TEÓRICO .................................................................................... 19
2.1 ECONOMIA E ADMINISTRAÇÃO NOS DOIS MODELOS ................................. 19
2.1.1 Visão clássica da economia e da administração ......................................... 19
2.1.2 Economia e administração em economia solidária..................................... 21
2.2 COMPARAÇÃO ENTRE OS MODELOS ADMINISTRATIVOS DA EMPRESA
CAPITALISTA E DOS EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS ................................... 26
2.2.1 Gestão: heterogestão x autogestão.............................................................. 26
2.2.2 Colaboração: solidária x competitiva .......................................................... 32
2.2.3 Democracia .................................................................................................... 36
2.2.4 Divisão do trabalho ........................................................................................ 40
2.2.5 Pessoas: recursos humanos x sujeitos ....................................................... 45
2.2.6 Sustentabilidade ............................................................................................. 51
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS............................................................... 56
3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA .................................................................. 56
3.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA ........................................................................... 58
3.3 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DA COLETA DE DADOS ................................ 58
3.4 TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS ................................................................... 59
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO DA PESQUISA ................................................... 61
4.1 PESQUISA HISTÓRICA .................................................................................... 61
4.2 PESQUISA EMPÍRICA ...................................................................................... 73
4.2.1 Descrição do processo de seleção das organizações ................................ 73
4.2.2 Caracterização das organizações pesquisadas .......................................... 74
4.2.2.1 Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens) ......................... 74
4.2.2.2 Henrique Fontana & Cia. LTDA (DiTrevi Jeans) ............................................ 78
4.2.2.3 Coopermodas ................................................................................................ 81
4.2.2.4 Anglia Industrial LTDA (Confraria Masculina) ................................................ 83
4.2.2.5 Construsol ..................................................................................................... 86
4.2.2.6 ACTI Com. Serv. de roupa LTDA (Office Collection) ..................................... 88
4.2.2.7 Gerasol .......................................................................................................... 90
4.2.2.8 JAAN Ind. Com. Confecções LTDA (JAAN Uniformes) ................................. 92
4.3 ANÁLISE COMPARATIVA DAS ORGANIZAÇÕES ............................................ 95
5 CONCLUSÕES E SUGESTÕES .........................................................................106
REFERÊNCIAS.......................................................................................................111
APENDICE A – Roteiro de entrevista ...................................................................116
10

1 INTRODUÇÃO

O Brasil viveu uma longa fase de estagnação econômica, iniciada na década


de 1980 e agravada pelas políticas neoliberais de abertura do mercado nacional aos
produtos estrangeiros durante a década de 1990. O movimento internacional da
globalização provocou mudanças profundas nas estruturas econômicas e políticas
dos países em desenvolvimento, nos quais termos como economia de mercado,
privatizações e investimentos estrangeiros tornaram-se comuns. A quebra de
barreiras transnacionais proporcionou a integração monetária, financeira, econômica
e tecnológica entre todos os continentes, desprotegendo a indústria nacional frente
ao mercado estrangeiro. Fragilizadas pela concorrência das multinacionais,
inúmeras empresas nacionais faliram, aumentando consideravelmente o índice de
desemprego e informalidade no país (ARROYO; SCHUCH, 2006).
Segundo Singer (2008), uma das alternativas encontradas pelos
trabalhadores diante da perspectiva de desemprego foi a tomada de empresas
falidas ou em via de falência, ressuscitando-as como cooperativas autogestionárias,
passando a serem seus próprios patrões. Além da falência de empresas, Arroyo e
Schuch (2006) apontam o desenvolvimento tecnológico e as novas técnicas de
gestão como uma das causas do surgimento de empreendimentos de economia
solidária. Nas últimas décadas, a organização do trabalho mudou, fazendo com que
as empresas capitalistas reduzissem seus quadros de mão-de-obra devido à
inserção de novas tecnologias e técnicas de trabalho. Ao mesmo tempo em que se
desenvolveu um aumento da eficiência e da capacidade produtiva, observou-se o
crescimento do número de desempregados, de maneira muito semelhante ao
ocorrido durante a primeira Revolução Industrial. A subcontratação de serviços
autônomos e cooperativos cresceu, e o trabalho regular e permanente foi sendo
parcialmente substituído pelo trabalho temporário.
Com o aprofundamento do processo de globalização a partir do final do
século XX, a terceirização foi adotada como uma nova estratégia de reestruturação
produtiva dentro do capitalismo. Inspirada no modelo toyotista de produção, ela
implementa uma nova forma de relação entre capital e trabalho. A terceirização
acaba caracterizando-se por um caráter dúbio, pois ao mesmo tempo em que
precariza as relações de trabalho, através da redução de salários, direitos,
11

benefícios e condições de trabalho, por outro lado possibilita a independência do


trabalhador, através da criação de empreendimentos autônomos e de um novo tipo,
diferente daquele modelo tradicional de organização que lhe trouxe prejuízos
(ARROYO; SCHUCH, 2006).
Nessa conjuntura, diversas entidades se organizaram para apoiar este novo
movimento de emancipação dos trabalhadores, como a ADS (Agência de
Desenvolvimento Solidário), vinculada à CUT (Central Única dos Trabalhadores), a
Anteag (Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão) e a
Cáritas (entidade vinculada a Igreja Católica), sob forma de fóruns, redes e
associações de apoio a estes empreendimentos (ARROYO; SCHUCH, 2006). O
crescimento deste tipo de iniciativas, voluntárias, solidárias e responsáveis
socialmente, chama atenção para o descontentamento das pessoas com o modo de
vida individualista, utilitarista e competitivo do sistema econômico capitalista
(ARROYO, 2008).
A crise atual do capitalismo, desencadeada pelo colapso do sistema
financeiro norte-americano, aponta para o fim da hegemonia do pensamento
neoliberal. As conseqüências desta crise primordialmente financeira já podem ser
sentidas na economia real ao redor do globo por diversos fatores como a redução da
oferta de crédito e pelo aumento do desemprego. Segundo Pinheiro e Athayde
(2009, p. 42), “desde 1957, uma recessão não provocava o fechamento de tantos
postos de trabalho pelo mundo [...]. Em cinco meses, o Brasil perdeu 730 mil vagas”.
Antevendo a crise atual do neoliberalismo, Singer (2008, p. 114) afirmou que
“a economia solidária só teria perspectiva de desenvolvimento se a economia
capitalista mergulhasse numa depressão longa e profunda (como a da década de
1930, por exemplo) [...]”. Em entrevista concedida ao site Terra Magazine em 3 de
março de 2009, Singer apontou o aparecimento de um novo surto de
empreendimentos de economia solidária (semelhante ao que ocorreu na década de
1990) em decorrência dos desempregos gerados pela crise, e apontou o
fortalecimento da economia solidária como uma solução, tanto para as
conseqüências quanto para as causas desta crise, já que os empreendimentos de
economia solidária sofrem menor impacto dessa crise financeira por não praticarem
especulação e atuarem na economia real, baseada em produtos e serviços, e por
terem de repartir os ganhos, por menores que sejam, entre os sócios, não havendo
demissões.
12

Porém, são necessárias políticas públicas adequadas, que tratem estas


atividades, consideradas informais, porém legitimas, não como um problema social,
mas como parte da solução econômica para direcionar o desenvolvimento nacional
rumo a inclusão e a sustentabilidade (ARROYO e SCHUCH, 2006). No presente
momento, está em tramitação no Senado Federal o Projeto de Lei Nº 7.009, de
2006, que dispõe sobre a regulamentação das cooperativas de trabalho. A
legislação anterior, a Lei Geral do Cooperativismo (Nº 5.764 de 1971), deixava
inúmeras brechas com relação ao cumprimento dos princípios do cooperativismo,
dando margem a precarização do trabalho através de falsas cooperativas, que
terceirizam trabalhadores com o objetivo de diminuir custos trabalhistas. Com a
aprovação da nova lei, que já passou pela Câmara dos Deputados, este problema
tende a desaparecer, pois a regulamentação torna-se mais clara e rigorosa, visando
manter condições de trabalho diferenciadas para um tipo de empreendimento
diferenciado.
Além da necessidade de um marco legal específico para os empreendimentos
solidários, são várias as dificuldades encontradas pelos que buscam uma
associação produtiva diferente dos modelos tradicionais de organização, como a
pequena quantidade de políticas públicas, sobretudo na obtenção de crédito,
somando-se ao fato de que os trabalhadores participantes da economia solidária, na
maioria das vezes, não possuem experiência e conhecimentos na gestão de
negócios.
Porém, não se deve desvalorizar as potencialidades deste tipo de organização.
Conforme Lisboa (2005, p. 114), a economia solidária “permite expressar a
economia não mais como o fim supremo, mas apenas como um instrumento que
tem como finalidade o sustento da vida e a melhoria da condição humana”. A
preocupação com a rentabilidade econômica não se exclui, mas suas operações se
pautam pelo respeito aos valores éticos e sociais.
Os empreendimentos autogestionários clamam pelo coletivo e com isso podem
apontar para práticas mais democráticas e igualitárias. A autogestão consiste no
nível pleno de participação alcançado pelos membros de uma organização, pois
cabe a todos planejar, executar e controlar os processos. Esse sistema diferenciado
de organização do trabalho elimina a submissão e a separação entre comandantes e
comandados, bem como a visão utilitarista sobre o trabalhador, considerado recurso
de produção, mesmo com a adição do predicado “humano”, nas empresas
13

capitalistas. Um dos objetivos da economia solidária é a devolução da autonomia ao


trabalhador, restaurando sua condição de sujeito, sendo que sua viabilidade,
portanto, está vinculada à posse coletiva dos meios de produção, em que a
participação constitui ato que se tem o direito e o dever de exercer (CASTANHEIRA;
PEREIRA, 2008).
A economia solidária parece ser a gestação de uma nova possibilidade dentro
da lógica capitalista, uma organização social e econômica que começa a buscar na
inclusão a solução dos seus problemas. A cooperação e a solidariedade são os
focos inegáveis desta estratégia. Há clara evidência do papel de estratégias
cooperativas na sustentação de empreendimentos atualmente, dando relevância
para redes, cadeias, clusters, aglomerados, arranjos e sistemas produtivos
(ARROYO, 2008).
O conceito de economia solidária, para Singer (2008), se refere à organização
de produtores, consumidores e/ou poupadores, entre outros, que se diferenciam por
estimularem a solidariedade entre si mediante a prática da autogestão e por
praticarem a solidariedade para com a população trabalhadora, com ênfase na ajuda
aos mais desfavorecidos.
Segundo Nascimento (2009), a invenção da economia solidária porta em si
uma espécie de ressurreição de valores que fazem parte da cultura do movimento
operário: solidariedade, autogestão, autonomia, mutualismo, economia moral, entre
outros. Nesse sentido, economia solidária e autogestão, se não são sinônimos, são
termos que caminham juntos. Podemos afirmar que não há autogestão sem
economia solidária e que não pode haver economia solidária sem autogestão.
A partir da identificação das características dos empreendimentos de economia
solidária e da presente expansão deste novo tipo de organização, verifica-se a
necessidade do estudo de métodos diferenciados de gestão para estes
empreendimentos. Pesquisas sobre as novas práticas e potencialidades dessas
organizações vêm sendo desenvolvidas dentro das universidades, nas mais diversas
áreas de conhecimento, passando pela economia, psicologia e ciência social. As
teorias da administração não podem negligenciar ou subsumir esta forte corrente
que agrega um novo modelo e uma nova lógica ao sistema e que representa um
salto qualitativo em diversos aspectos sobre os modelos tradicionais de organização.
O presente trabalho busca analisar a gestão de empreendimentos solidários e
de empresas capitalistas através de uma comparação entre os dois modelos, além
14

de apontar as principais diferenças entre empreendimentos semelhantes, na gestão


dos dois tipos de organização. Para tanto, esta pesquisa irá destacar os pontos de
divergência e convergência entre cooperação e competitividade, identificar os
principais fatores de conjuntura interna e externa necessários para o
desenvolvimento da economia solidária e analisar criticamente as potencialidades e
limites deste novo tipo de organização.

1.1 PROBLEMA DE PESQUISA

Na mais recente pesquisa realizada sobre os empreendimentos de economia


solidária no Brasil, executada pela Rede Inter-universitária de Estudos e Pesquisas
em consórcio com a ADS, obteve-se dados que demonstram que uma grande parte
desses empreendimentos (62%) encontra-se com dificuldades na gestão da sua
organização e que somente 31% conseguem distribuir remuneração acima de um
salário mínimo para os seus sócios (FBES, 2009).
Este trabalho busca questionar e analisar criticamente as características das
práticas de administração de empreendimentos de economia solidária no Brasil,
comparando-as com as empresas capitalistas e avaliando as condições de
desenvolvimento e potencialidades deste tipo de organização. Para tanto, será
utilizado o método weberiano dos tipos ideais, onde serão definidos modelos
teóricos para comparação, podendo ou não ser comprovados pelo estudo empírico.
Serão definidos os critérios para avaliação conforme os objetivos gerais e
específicos da pesquisa e escolhidos oito atores, sendo quatro empreendimentos de
economia solidária e quatro empresas capitalistas.
Portanto, através deste método de pesquisa, pretende-se responder a seguinte
questão: Os empreendimentos de economia solidária podem atingir melhores
indicadores de desenvolvimento da sua administração do que as empresas
capitalistas e se apresentar como uma alternativa concreta ao modelo hegemônico
de organização, dada a atual conjuntura econômica no Brasil?
15

1.2 OBJETIVOS DA PESQUISA

1.2.1 Objetivo Geral

Analisar a administração de empreendimentos de economia solidária


comparada às metodologias tradicionais de empresas capitalistas.

1.2.2 Objetivos Específicos

 Identificar as principais diferenças na administração de empreendimentos de


economia solidária e de empresas capitalistas.
 Analisar as dificuldades encontradas pelos empreendimentos de economia
solidária no desenvolvimento das suas atividades.
 Apontar as vantagens e desvantagens encontradas pelos participantes neste
novo tipo de organização.
 Identificar os fatores de conjuntura interna e externa necessários para o
desenvolvimento de empreendimentos de economia solidária no Brasil.
 Analisar as potencialidades e os limites deste novo tipo de organização.

1.3 JUSTIFICATIVA

A economia solidária tem sido uma resposta importante dos trabalhadores e


dos movimentos sociais em relação às transformações ocorridas no mundo do
trabalho e à nova etapa do capitalismo, caracterizada pelo desemprego estrutural e
pela desvalorização do trabalho produtivo em relação à acumulação financeira
(SINGER, 2008).
Conforme dados do Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária
(SIES), no Brasil existem aproximadamente 21.885 organizações coletivas,
16

envolvendo 1.647.029 participantes, organizados sob forma de autogestão, que


realizam atividades de produção de bens e de serviços, crédito e finanças solidárias,
trocas, comércio justo e consumo solidário (FBES, 2009). Arroyo (2008, p. 73)
destaca que “o modo capitalista de vida aprofunda o individualismo, o egoísmo, a
ganância, a competição pura e a concentração de renda e poder, proliferam
iniciativas solidárias que vão além da tradição da filantropia”.
Segundo Lisboa (2005), a economia solidária apresenta um novo paradigma
produtivo, em sintonia com novas possibilidades organizacionais e proporcionando
outra visão de progresso, que inclui novas formas de viver e se relacionar, tanto
entre os homens quanto entre os homens e a natureza.
Os resultados de projetos alternativos comunitários e experiências coletivas de
economia solidária, ou formas solidárias de produção, têm se mostrado promissores
na construção de novas formas possíveis de produção de riqueza socialmente
distribuída. Estes empreendimentos, que usam a propriedade comum, a
cooperação, a democracia e a autogestão, se mostraram capazes de dar resultados
concretos, que garantem a sobrevivência econômica dos participantes, além de
garantir a construção de relações de trabalho mais justas e conscientemente
orientadas.
Alguns autores, como Arroyo e Schuch (2006), estabelecem pontos de
contato indissolúveis entre economia popular (incluindo aí iniciativas informais) e
economia solidária, por ambos os modelos compartilharem certos valores que os
diferenciam da forma mais formalizada e tradicional de economia e constituírem a
base desse novo modelo econômico. Considerando esse recorte teórico, os autores
apresentam dados que justificam a importância do estudo desses empreendimentos:

Estamos tratando de cerca de 20 milhões de brasileiros, definidos pelo


Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como ‘trabalhadores
por conta própria’, ‘micro e pequenos empresários’. Segundo o Sebrae
(Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), isso se refere
ao segmento que gera 80% dos postos de trabalho do país –
proporcionando 95% dos novos postos de trabalho – e que movimenta em
torno de 30% do PIB do Brasil (ARROYO; SCHUCH, 2006, p. 70, grifo dos
autores).

Conforme Lisboa (2005), a economia solidária não se norteia nem pela


rentabilidade máxima do capital, nem pela exacerbação do interesse individual.
Sendo assim, é possível repor o sentido originário do termo economia (cuidado da
17

casa) sem perder o sentido mais comum (economizar, usar racionalmente as fontes
de riqueza, com menos tempo e recurso).
Pretende-se investigar as potencialidades e limites desta iniciativa a partir da
comparação com o modelo atual de organização e com as metodologias tradicionais
de administração de empresas.

1.4 ORGANIZAÇÃO DO ESTUDO

No primeiro capítulo, a introdução busca apresentar conceitos básicos sobre a


economia solidária, bem como situar o leitor no contexto histórico e econômico do
seu surgimento no Brasil. Ao analisar as características deste novo tipo de
organização, levanta-se o seguinte problema de pesquisa: Os empreendimentos de
economia solidária podem atingir melhores indicadores de desenvolvimento da sua
administração do que as empresas capitalistas e se apresentar como uma
alternativa concreta ao modelo hegemônico de organização, dada a atual conjuntura
econômica no Brasil?
Posteriormente, apresentam-se os objetivos da pesquisa, divididos em
objetivo geral e objetivos específicos. A justificativa demonstra as razões e a
importância da realização da pesquisa sobre estas organizações, enquanto a seção
seguinte demonstra a organização do estudo do presente trabalho.
No segundo capítulo, o referencial teórico visa estabelecer características
para a comparação entre os tipos ideais dos empreendimentos solidários e das
empresas capitalistas, partindo da visão de economia e de administração dos dois
tipos de organização para a análise dos seus modelos administrativos. Para tanto,
cada seção posterior abordou um dos seguintes critérios: gestão, colaboração,
democracia, divisão do trabalho, pessoas e sustentabilidade.
No terceiro capítulo são expostos os procedimentos metodológicos,
evidenciando a caracterização e delimitação da pesquisa, as técnicas e instrumentos
de coleta de dados e as técnicas de análise dos dados, tanto da pesquisa histórica
sobre o surgimento dos empreendimentos de economia solidária quanto da pesquisa
empírica com as oito organizações selecionadas.
18

No capítulo 4 são apresentados os resultados e a discussão das pesquisas


histórica e empírica, bem como a descrição do processo de seleção das
organizações e a caracterização das organizações pesquisadas. Após a
demonstração da análise comparativa das organizações, no capítulo 5 são descritas
as conclusões e sugestões perante os resultados obtidos da pesquisa, bem como as
considerações finais do estudo realizado.
19

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Este capítulo visa estabelecer características para a comparação entre os


tipos ideais dos empreendimentos de economia solidária e das empresas
capitalistas, partindo do nível mais amplo, da sua lógica econômica, ao nível mais
específico, da estrutura organizacional.

2.1 ECONOMIA E ADMINISTRAÇÃO NOS DOIS MODELOS

Nesta seção serão abordados conceitos gerais sobre economia e


administração e a forma como eles se inter-relacionam nos dois modelos de
organização.

2.1.1 Visão clássica da economia e da administração

A palavra economia vem do grego, da junção das palavras oikos (casa) e


nomos (costume ou lei), designando assim algo como “regras da casa” ou
“administração da casa”. A economia como ciência tem como marco a publicação da
obra “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, em 1776. Nesta obra Adam Smith
identifica o trabalho, a terra e o capital como os principais fatores de produção de
maior importância para a riqueza de uma nação. Ele diz que a condição “ideal” para
uma economia é a sua auto-regulação, regida por uma “mão invisível”, onde o
mecanismo do mercado seria o único responsável por definir as necessidades da
sociedade e a maneira de supri-las (HEILBRONER, 1996).
Adam Smith realizou um vasto estudo sobre o processo de divisão do
trabalho, pois via nele um fator evolucionário poderoso para propulsionar a
economia. Ele considerava que quanto mais estivesse dividido o trabalho em uma
sociedade, mais ela estaria desenvolvida, pois a especialização da mão-de-obra,
20

oriunda desse processo, elevaria os padrões de qualidade do seu trabalho (SMITH,


1996).
Outros pensadores como Thomas Malthus, David Ricardo e John Stuart Mill
deram continuidade em seus estudos a esta linha de pensamento, que hoje é
conhecida como economia clássica ou liberalismo econômico. Nesta linha de
pensamento, a propriedade privada é considerada um direito “sagrado” e inviolável,
e o Estado deveria limitar-se a garantir este direito deixando que a iniciativa privada
agisse livremente. Acreditava-se que o aumento da produtividade pela máxima
eficiência e a livre concorrência entre os agentes econômicos levaria a um ponto de
equilíbrio entre oferta e demanda no mercado, formando assim uma economia
baseada na competitividade (HEILBRONER, 1996).
Outro ponto essencial abordado pela escola clássica de economia foi a
relação econômica entre patrão e empregado através do salário. David Ricardo
descreveu a “lei férrea dos salários”, onde o preço natural do trabalho é determinado
pelo preço das necessidades essenciais do trabalhador, como moradia, alimentação,
saúde, vestuário, etc., de forma a simplesmente manter a sua condição de
trabalhador e possibilitar a reprodução de mão-de-obra. Sendo assim, com o
aumento do preço dessas necessidades básicas, o preço do trabalho se eleva; com
a diminuição, o preço do trabalho cai (HUBERMAN, 1981).
A mesma linha de pensamento pode ser percebida no utilitarismo, doutrina
estruturada por Jeremy Bentham e John Stuart Mill na primeira metade do século
XIX, considerando que toda decisão humana se apoiava em um cálculo de utilidade
com relação à sua conseqüência ou resultado. Na economia, o utilitarismo
consolidou a idéia de que os indivíduos tomam decisões sempre racionais,
buscando maximizar seus ganhos e lucros. A partir desta idéia ele traduziu bem-
estar e felicidade em conforto material, e, dentre outras, fez a idéia de “acumulação”
tomar o significado de prosperidade e a de “crescimento” o de desenvolvimento
(ARROYO, 2008).
Apesar das inúmeras transformações ocorridas na sociedade desde a
publicação das obras destes pensadores, suas idéias ainda representam, em
diversos aspectos, a base teórica do capitalismo moderno. Alguns autores, como
Chiavenato (1983), consideram-nos como precursores fundamentais dos princípios
da administração científica que viriam a ser postulados posteriormente por Frederick
Taylor entre 1885 e 1910.
21

Preocupado em eliminar o desperdício e elevar a produtividade, Taylor


desenvolveu métodos e técnicas de engenharia industrial que levaram à
organização racional do trabalho. A partir do seu “Estudo de Tempos e Movimentos”,
ele passa a recomendar definição de padrões para execução de tarefas
operacionais, aprofundando assim o processo de divisão do trabalho industrial.
Anteriormente o supervisor deixava a critério de cada operário a execução de seu
trabalho para encorajar a sua iniciativa. Com a Administração Científica ocorre uma
repartição de responsabilidade: a gerência pensa e decide, ao passo que o
trabalhador simplesmente executa o que lhe foi determinado (CHIAVENATO, 1983).
A Administração Científica baseou-se no conceito de homo economicus ou
homem econômico. Explicitamente baseada na idéia do utilitarismo, ele afirmava
que toda pessoa é influenciada principalmente por recompensas materiais. Segundo
Chiavenato (1983), esse conceito parte de uma visão estreita da natureza humana,
pois via o operário, a priori, como um indivíduo limitado, mesquinho e preguiçoso.
Com a Teoria Clássica da Administração, Henri Fayol enfatiza o estudo da
estrutura da organização, a divisão dos seus departamentos e funções
administrativas como base para o alcance da eficiência. Ele define o ato de
administrar como: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. Estas funções
administrativas deveriam estar proporcionalmente distribuídas por todos os níveis
hierárquicos da empresa, porém centralizadas nos diretores, gerentes, chefes e
supervisores (CHIAVENATO, 1983).
Os autores clássicos da administração criaram uma teoria baseada na
heterogestão 1. Utilizaram métodos como a divisão do trabalho, a especialização, a
padronização de atividades, a departamentalização e a unidade de comando, de
maneira prescritiva e normativa. Segundo Chiavenato (1983, p. 72), “o racionalismo
da Teoria Clássica visa a eficiência do ponto de vista técnico e econômico; a
organização é um meio para atingir a eficiência máxima”.

2.1.2 Economia e administração em economia solidária

1
A heterogestão aplica a administração hierárquica, formada por níveis sucessivos de autoridade,
entre os quais as informações e consultas fluem de baixo para cima e as ordens e instruções de cima
para baixo (SINGER, 2008).
22

Conforme Laville e Gaiger (2009), o conceito de economia solidária se refere


a acepções variadas que giram ao redor da idéia de solidariedade, em contraste
com o individualismo utilitarista, que visa apenas a lucratividade e caracteriza o
comportamento econômico predominante nas sociedades capitalistas. Os autores
continuam desenvolvendo este conceito afirmando que:

O termo foi cunhado na década de 1990, quando, por iniciativa de cidadãos,


produtores e consumidores, despontaram inúmeras atividades econômicas
organizadas segundo princípios de cooperação, autonomia e gestão demo-
crática. As expressões da economia solidária multiplicaram-se rapidamente,
em diversas formas: coletivos de geração de renda, cantinas populares,
cooperativas de produção e comercialização, empresas de trabalhadores,
redes e clubes de troca, sistemas de comércio justo e de finanças, grupos
de produção ecológica, comunidades produtivas autóctones, associações
de mulheres, serviços de proximidade, etc. Essas atividades apresentam
em comum a primazia da solidariedade sobre o interesse individual e o
ganho material, o que se expressa mediante a socialização dos recursos
produtivos e a adoção de critérios igualitários (LAVILLE; GAIGER, 2009, p.
162).

Lisboa (2005) afirma que uma das originalidades da economia solidária é


estar no mercado sem se submeter à busca do lucro máximo, como se evidencia
pela prática do preço justo dos seus empreendimentos. A preocupação com a
rentabilidade econômica não se exclui, mas suas operações se pautam pelo respeito
aos valores éticos e humanistas. Singer (2008, p. 9), complementa dizendo que “a
chave desta proposta é a associação entre iguais em vez do contrato entre
desiguais [...] é outro modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade
coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade individual.”
A solidariedade remete à noção de que o melhor para alguém depende de ser
melhor também para o outro para que se realize de forma sustentável. Os autores
buscam afirmar a diferença entre solidariedade e caridade, propondo superar essa
dicotomia através da compreensão da interdependência humana (ARROYO;
SCHUCH, 2006).
Sobre as origens da solidariedade e da cooperação, Heilbroner (1996) afirma:

Desde que desceu das árvores, o homem encarou o problema da


sobrevivência, não como indivíduo, mas como membro de um grupo social.
A continuidade de sua existência é testemunho de que ele conseguiu
resolver o problema; mas a continuidade também da carência e da miséria,
até mesmo nas mais ricas nações, é evidência de que essa solução foi, no
mínimo, parcial. [...] o homem só conseguiu perpetuar-se por ser uma
23

criatura socialmente cooperativa. Mas justamente o fato de o homem


depender de seu semelhante tornou o problema da sobrevivência
extraordinariamente complicado. O homem não é uma formiga,
convenientemente equipada com instintos sociais já ao nascer
(HEILBRONER, 1996, p. 17).

Conforme Gaiger (2008), seria ilusório acreditar em um altruísmo


generalizado, capaz de banir naturalmente qualquer sinal de utilitarismo. É possível
dizer que a economia solidária representa um caso em que se pode realizar
interesses não utilitários, mas isso não autoriza supor que esses vínculos sociais
não incluam relações inexoravelmente híbridas, incluindo dosagens de
solidariedade, altruísmo, pragmatismo e interesse próprio.
Na origem da organização social humana, foi a capacidade de cooperação
que conferiu capacidade de sobrevivência, através da competitividade diante de
espécies mais aptas. No entanto, na medida em que a sociedade foi ficando mais
complexa e as ameaças externas à sobrevivência diminuíram, a competição se
tornou uma possibilidade de desenvolvimento humano (ARROYO, 2008).
A partir dessas idéias, é possível perceber que a composição cooperação-
competição é inseparável, sendo que nenhuma das duas formas de relação social é
inata, mas sim desenvolvida em um determinado contexto de necessidades a serem
supridas. No entanto, pode-se observar que os pensadores da economia clássica
pregam a competição como inata e essencial ao desenvolvimento humano, o que
tem levado a uma economia desigual e exclusiva.
Segundo Singer (2008, p. 9), “a solidariedade na economia só pode se
concretizar com igualdade entre os que se associam para produzir, comerciar,
consumir ou poupar.” Ele afirma que para que houvesse igualdade entre os
membros de uma sociedade, a base de sua economia deveria ser a solidariedade
em vez da competitividade. A autogestão 2 é condição sine qua non para que haja
igualdade nos empreendimentos de economia solidária.
Presente em todos os aspectos da economia solidária, a autogestão passa à
primeira vista uma impressão de autonomia completa e auto-regulação econômica;
no entanto, este sistema não visa à eliminação do Estado ou à diminuição do seu
papel, como prega o liberalismo econômico. O Estado tem um papel muito
importante para esta forma de economia, através da implementação de políticas

2
A autogestão é um modelo de organização democrática que privilegia a democracia direta e que não
dispõe de hierarquias. As decisões são tomadas através de assembléias (MOTHÉ, 2009).
24

públicas que incentivem o fomento dos empreendimentos solidários, bem como


legislação específica apropriada para este modelo.
Teóricos da economia solidária, como Gutierrez (1986) e Singer (2008),
defendem que a autonomia é absolutamente necessária dentro do empreendimento,
ou seja, no nível microeconômico, mas o Estado pode ser essencial para possibilitar
a sobrevivência e promover a igualdade dos empreendimentos, vendo-os em um
nível macroeconômico e promovendo a redistribuição dos lucros entre os
empreendimentos bem e mal sucedidos, proporcionando o funcionamento de uma
nova lógica econômica como conjunto, que substitui a concorrência pela cooperação
mútua.
No nível interno deste novo tipo de organização, outro modo de garantir a
igualdade é a alteração dos princípios da divisão do trabalho para um novo modelo,
que pressupõe a rotatividade entre as tarefas, tanto operacionais quanto
administrativas, visando eliminar o estado de alienação do trabalhador nas diversas
etapas do processo produtivo (SOUZA; CUNHA; DAKUZAKU, 2003). A preocupação
da administração clássico-científica com o aumento da produtividade, não levou em
conta a desumanização do trabalho, que levou os operários a serem vistos e
tratados como máquinas ou meras peças produtivas.
Essa nova divisão do trabalho dos empreendimentos solidários se apresenta
como um contraponto ao modelo proposto por Adam Smith. Bueno (2005) cita Marx
para demonstrar os efeitos do sistema mecanicista de divisão do trabalho,
demonstrados na alienação do trabalhador:

O trabalho alienado: 1) aliena a natureza do homem e 2) aliena o homem de


si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital, assim também
o aliena da espécie. Ele transforma a vida da espécie em uma forma de vida
individual. Em primeiro lugar, ele aliena a vida da espécie e a vida
individual, e posteriormente transforma a segunda, como uma abstração,
em finalidade da primeira, também em sua forma abstrata e alienada. Pois,
trabalho, atividade vital, vida produtiva, agora aparecem ao homem apenas
como meios para a satisfação de uma necessidade, a de manter sua
existência física. A vida produtiva, contudo, é vida da espécie. É vida
criando vida. No tipo de atividade vital, reside todo o caráter de uma
espécie, seu caráter como espécie; e a atividade livre, consciente, é o
caráter como espécie dos seres humanos. A própria vida assemelha-se
somente a um meio de vida (MARX apud BUENO, 2005, p. 163).

Segundo Gaiger (2006), a economia solidária e a autogestão residem


primordialmente numa experiência de emancipação do trabalho desumanizado e
25

desprovido de sentido, na restituição do trabalhador à condição de sujeito de sua


existência, na superação do seu estado de alienação:

Esboroam-se os círculos reiterativos da alienação: o produto não se opõe


ao trabalhador como dantes, quando o comandava como força
independente, como se lhe coubesse o lugar do criador; o trabalhador já
não está apartado do resultado do seu trabalho, que passa a ver como seu;
tampouco segue alheio a si próprio, alienado a uma força sua e, não
obstante, instrumento do seu jugo. A experiência da autogestão e da
cooperação no trabalho dá curso à reflexidade crítica dos indivíduos,
ensejando um processo de subjetivação auto-referenciada, no qual ganham
sentido e corpo outras identidades e outros horizontes éticos. Uma
operação vital, no contexto atual de urgência de novas experimentações,
dotadas de uma razão projetiva que as impulsione a seguir insistindo em
humanizar a civilização (GAIGER 2006, p. 538).

Com o objetivo de evitar a desigualdade e a alienação, a economia solidária


realiza a sociabilização dos meios de produção entre os associados, de forma que
todos sejam sócios e não meramente empregados de outrem. Do mesmo modo, não
existem salários, mas sim retiradas, cuja proporcionalidade é definida em
assembléia por todos os membros do empreendimento, possuindo uma variabilidade
entre a menor e a maior retirada muito menor do que nas empresas capitalistas.
Além disso, o que nas empresas capitalistas é denominado “lucro” e pertence
unicamente ao(s) proprietário(s), nos empreendimentos solidários é chamado de
“sobras”, que são em parte divididas igualitariamente entre todos os associados e
em parte depositadas em um fundo indivisível que visa à manutenção do
empreendimento. Esses mecanismos visam à igualdade e à desalienação do
trabalhador, a partir do momento em que ele não tem somente o direito de participar
do empreendimento em todos os âmbitos, mas também responsabilidade direta
sobre os seus próprios ganhos, através dos lucros e prejuízos da empresa que
também é sua (SINGER, 2008).
Lisboa (2005) afirma que a economia solidária configura um novo modo de
produção, com potencial civilizador superior ao do capitalismo, que cultiva o
individualismo, o egoísmo e o consumismo que tem depredado os recursos naturais
do planeta de maneira irreversível, ameaçando a continuidade da espécie humana.
O capitalismo gerou um modelo de vida nos países ricos que não pode ser
estendido a toda humanidade, tratando-se de um sistema altamente excludente
(FURTADO, 1996). A economia solidária busca justamente na inclusão a solução
26

para os seus problemas. Porém, há muitos desafios a serem enfrentados para sua
consolidação de ordem política, econômica e ético-cultural.
A estes novos conceitos e princípios de economia e administração é que o
trabalho se filiará para a análise comparativa dos modelos administrativos da
empresa capitalista e dos empreendimentos de economia solidária.

2.2 COMPARAÇÃO ENTRE OS MODELOS ADMINISTRATIVOS DA EMPRESA


CAPITALISTA E DOS EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS

Esta seção estabelece as condições para comparação de alguns dos


principais pontos de divergência entre os modelos de administração na empresa
capitalista e dos empreendimentos de economia solidária, buscando práticas e
conceitos na teoria existente.

2.2.1 Gestão: heterogestão x autogestão

A semântica do termo heterogestão parte do pressuposto da separação entre


comandantes e comandados. Dentro das organizações, Henri Fayol conceituou as
funções da empresa e afirmou que estas funções deveriam estar distribuídas em
departamentos (técnico, contábil, comercial, financeiro, etc.), enquanto, por outro
lado, centralizou as funções administrativas (prever, organizar, comandar, coordenar
e controlar) em um único departamento. Este é um ponto fundamental para entender
a heterogestão nas empresas capitalistas. Os conceitos elaborados por Fayol visam
levar a uma estrutura organizacional de forma piramidal, baseada na unidade de
comando (CHIAVENATO, 1983).
Max Weber, a partir do seu estudo sobre os tipos de sociedade, propôs um
novo modelo de organização baseado no racionalismo e na formalização, conhecido
como modelo burocrático. Na sua visão, as teorias anteriores se revelaram
extremistas e incompletas sobre a organização. Este modelo afirma que a
burocracia é uma organização ligada por normas e regulamentos estabelecidos
27

previamente por escrito, que devem cobrir todas as áreas da organização. Assim
como no taylorismo, as rotinas e os procedimentos devem ser padronizados. A
distribuição das atividades deve ser feita de maneira impessoal, ou seja, em termos
de cargos e funções previamente estabelecidos. Os cargos devem ser estabelecidos
segundo o princípio da hierarquia: cada cargo ou função inferior deve estar sob o
controle da supervisão de um cargo superior. Daí a necessidade de hierarquia para
definir as chefias nos vários escalões de autoridade. Weber afirma que a escolha
das pessoas na organização não deve se basear em preferências pessoais, mas sim
no mérito e na competência técnica; com isso, defende a especialização da
administração através de sua profissionalização. No modelo burocrático, a posse
dos meios de produção e a administração da empresa não precisam coincidir, pois
administrar requer conhecimentos especializados que o proprietário ou os acionistas
não necessariamente dominam. Desta forma, a heterogestão se efetiva como
necessidade de especialização técnica da função administrativa (CHIAVENATO,
1983).
A teoria de Weber de fato foi utilizada, e, apesar de ter sofrido as chamadas
disfunções, ela se evidencia no domínio da classe dos administradores sobre a
autoridade nos mais diversos tipos de organização, como empresas, governos e até
mesmo Organizações Não-Governamentais (ONGs). Essa nova classe social,
conhecida hoje como tecnoburocracia, constitui o centro do poder no capitalismo
pós-industrial. Gustavo Luis Gutierrez (1992) em um artigo da Revista de
Administração de Empresas faz a seguinte citação:

Embora a posse legal dos meios de produção ainda esteja na mão dos
capitalistas, no curso das últimas décadas, a administração real dos
instrumentos de produção tem resvalado, constantemente, e cada vez
mais, das mãos dos capitalistas para os administradores. É que a
administração dos ramos mais importantes da indústria moderna
transcende o privilégio legal da posse e requer, demanda, exige
competência especializada (GUTIERREZ, 1992, p. 61).

A organização hierárquica das empresas capitalistas (dirigidas pelos


tecnoburocratas) pressupõe que, na medida em que se sobe na hierarquia, o
conhecimento sobre a empresa se amplia, de forma que nos níveis mais altos o
conhecimento deveria ser total, já que cabe aos ocupantes desses cargos tomar
decisões estratégicas sobre os rumos futuros da empresa.
28

Singer (2008, p. 17) aponta que esta descrição da empresa não é totalmente
realista “porque não considera os efeitos da competição entre setores e grupos de
empregados situados nos níveis intermediários e elevados da hierarquia gerencial”,
sobretudo nas grandes empresas, onde grupos rivais disputam a destinação dos
fundos de investimento, “cada um demandando mais capital para expandir o setor
em que exerce poder” (SINGER, 2008, p. 17).
Cada diretor ou gerente busca obter mais verbas para os seus setores. A
competição exacerbada entre setores e grupos rivais, embora sempre vise aumentar
a lucratividade, pode prejudicar o funcionamento da empresas como um todo. Entra
em jogo o prestígio do profissional tecnoburocrata, em busca de autodivulgação nos
meios de comunicação, onde tenta vender-se a preços crescentes. A alta gestão
precisa coibir o que seria excesso de competição, sem coibir a competição sadia,
vista como essencial para obter o esforço máximo dos empregados. Mas, para tanto,
seria preciso que ela tivesse toda a informação sobre o que se passa na empresa, o
que a própria competição torna improvável (GUTIERREZ, 1992; SINGER, 2008).
Com o intuito de solucionar estes problemas, teorias mais recentes da
administração vem criando novos modelos organizacionais baseados no estudo das
relações humanas, na redução dos níveis hierárquicos, na administração
participativa, nos grupos semi-autônomos, nos ciclos da qualidade total, etc.; porém,
estes novos modelos ainda não conseguiram acabar com características
remanescentes das teorias anteriores na maioria das organizações e nem subverter
a sua característica fundamental de heterogestão. Singer (2008, p. 18) diz que
“dentro dessa contradição a heterogestão funciona, sempre à procura de novas
fórmulas que lhe permitam extrair o máximo de trabalho e eficiência do pessoal
empregado”.
As escolas da administração realizaram as mais diversas abordagens sobre
as organizações e o seu funcionamento, buscando alcançar por diferentes vias um
modelo ideal de organização. Este modelo ideal, dentro do sistema capitalista,
significa obter o total comprometimento dos empregados, conciliando os seus
interesses com os da organização, e a maior rentabilidade para o capitalista sobre o
seu investimento. Entretanto, as principais dificuldades encontradas pelos teóricos
da administração em atingir este objetivo podem ser resumidas em um problema
fundamental, que extrapola a forma com que uma empresa se organiza
internamente. Este problema se reflete na lógica do próprio sistema econômico
29

capitalista, que antagoniza os interesses do(s) proprietário(s) da organização e dos


trabalhadores que dela fazem parte, separando-os em figuras distintas na economia.
Já na autogestão, não se separam proprietário e trabalhador, nem
comandante e comandado. Na economia solidária, todos que trabalham no
empreendimento detêm posses iguais, com os mesmos direitos de decisão sobre o
seu destino. Nela, a situação do trabalhador é o inverso da vivida na empresa
capitalista, já que cada membro do grupo é responsável pela gestão, participando
plenamente dos resultados alcançados, sejam eles sobras ou prejuízos. Como não
há prioritariamente hierarquia, a união consciente e solidária entre os trabalhadores
é essencial para o bom funcionamento da organização. O indivíduo passa por uma
mudança completa de situação quando deixa de ser assalariado e torna-se
associado, pois para o assalariado as escolhas são restritas às determinações dos
seus superiores, em função de razões que ele desconhece. Na autogestão, cada um
é responsável pelas suas próprias decisões, mas também é responsável pelos
demais, o que expande o conhecimento mútuo de todos os associados e a
importância do seu inter-relacionamento (CASTANHEIRA; PEREIRA, 2008).
Lechat e Barcelos (2008), também apontam as diferenças entre as relações
de trabalho e de gestão na empresa capitalista e nos empreendimentos solidários:

As relações de trabalho autogestionárias se apresentam como antagônicas


com as relações capitalistas de assalariamento, exploração dos
trabalhadores, separação entre gestão e execução, entre trabalho manual
e trabalho intelectual. A autogestão se opõe a práticas paternalistas,
assistencialistas e clientelistas, bem como evita a corrupção dos dirigentes.
A autogestão é associada a uma nova concepção de democracia
participativa e de exercício efetivo da cidadania. (LECHAT; BARCELOS,
2008, p. 99).

Conforme expressam esses autores, a empresa solidária se administra


democraticamente, ou seja, pratica a autogestão em seu nível pleno. Dependendo
do seu porte, as decisões são tomadas em assembléias que contam com a
participação de todos os seus membros, onde cada um tem direito a um voto, ou
ainda por delegados escolhidos por cada seção ou departamento para deliberar em
nome de todos. Na maioria dos empreendimentos, são eleitos conselhos
(administrativos, fiscais, etc.) que têm por objetivo decidir sobre questões
quotidianas, de menor porte estratégico, para agilizar o andamento dos processos,
enquanto as questões mais importantes, de maior porte estratégico, são decididas
em assembléia (SINGER, 2008).
30

Sobre a possibilidade de organização de estruturas hierárquicas na gestão de


empresas autogestionárias, Singer (2008) afirma que:

Empresas solidárias de grandes dimensões estabelecem hierarquias de


coordenadores, encarregados ou gestores, cujo funcionamento é oposto do
de suas congêneres capitalistas. As ordens e instruções devem fluir de
baixo para cima e as demandas e informações de cima para baixo. Os
níveis mais altos, na autogestão, são delegados pelos mais baixos e são
responsáveis perante os mesmos. A autoridade maior é a assembléia de
todos os sócios, que deve adotar as diretrizes a serem cumpridas pelos
níveis intermediários e altos da administração (SINGER, 2008, p. 19).

Outro autor que examina as estruturas de autoridade e a tomada de decisão


na autogestão é Gutierrez (1988, p. 7), afirmando que “neste tipo de empresa as
decisões são tomadas de forma coletiva, pela obtenção de um consenso para a
ação prática entre os membros envolvidos, através do conhecimento geral das
questões”. Gutierrez (1988) ainda afirma que este modelo de organização preserva
o lado sadio da burocracia proposta por Weber, que determina que as organizações
devem ser pautadas pela racionalidade e formalidade, mas exclui a mecanização e
padronização do trabalho, que desprovê as tarefas de sentidos, e elimina a
formação de uma tecnoburocracia e de seus sucessivos níveis hierárquicos, que
acarretam os problemas acima citados, e que são freqüentemente encontrados nas
empresas capitalistas.
A partir da análise das mais recentes técnicas de participação dos
funcionários na gestão de empresas capitalistas, desenvolvidas pela teoria da
administração, Gutierrez (1988) demonstra porque estas técnicas não levam à
autogestão:

Tendo como pano de fundo os velhos, mas funcionais, princípios da Escola


de Relações Humanas, a tão conhecida “caixinha de sugestões” tem
assumido aspectos modernos e aperfeiçoados, dando espaço aos Círculos
de Controle de Qualidade, programas de enriquecimento de tarefas,
consultas internas através da eleição de representantes, grupos semi-
autônomos de trabalho, etc. Acreditar que este processo só serviu para
trazer bem-estar aos trabalhadores ou, pelo contrário, só serviu para
aumentar o lucro dos patrões [...] é, sem dúvida, uma visão parcial ou
reducionista do que está acontecendo. [...] É importante, porém, ressaltar
que esses mecanismos [...], mostram-se incapazes de gerar uma empresa
autogerida, provavelmente, por não alterarem as condicionantes
ideológicas da empresa moderna. [...] As práticas participativas [que estão
sendo adotadas pela administração tradicional] cumprem um objetivo
imediato de aliviar tensões. (GUTIERREZ, 1988, p. 9).
31

Sobre a criação de empreendimentos augestionários, Lechat e Barcelos


(2008) dizem que não basta querer implantar a autogestão, é preciso criar condições
para sua efetivação. A autogestão não é uma qualidade que um empreendimento
possua ou não, é um processo de constante gestação que pode sofrer avanços, mas
também retrocessos. É um processo que exige vigilância.
Singer (2008) aponta como dificuldade o desinteresse dos sócios em engajar-
se nas atividades adicionais que a prática democrática exige. Esse desinteresse,
segundo Singer, é fruto de uma cultura engendrada na nossa sociedade de divisão
do trabalho que leva a uma provável lei do menor esforço. Os indivíduos, na maioria
das empresas capitalistas, são reduzidos a uma única tarefa; portanto, passar a ter
consciência e participação tanto dos processos operacionais quanto administrativos
demanda um maior esforço e uma quebra de paradigma. Se a desatenção virar
hábito, informações passam a se concentrar em uma elite dirigente, mas, em geral,
não é a direção que sonega informações aos sócios, e sim estes que preferem dar
um voto de confiança para que a direção decida no lugar deles.
Neste sentido, Gutierrez (1988) afirma que é indiscutível a necessidade do
engajamento consciente de todos os membros envolvidos na organização. E é
importante também que se avance na discussão de modelos teóricos, assim como
na análise das experiências concretas já realizadas e em andamento na América
Latina e na Europa.
Finalmente, Gutierrez (1988) e Singer (2008) concordam que os modelos de
autogestão e heterogestão servem para projetos de organização e sociedade
diferentes, cada um com a sua finalidade. A heterogestão, forma tradicional de
organizar o trabalho, cumpre um papel importante no alargamento e na reprodução
ampliada da busca pelo poder e pelo lucro, principalmente por inculcar nas pessoas
um modo de agir e pensar em que meios e fins não são confrontados, em que o
indivíduo se exime da sua responsabilidade pessoal, transferida para a organização
em que atua, assim como pela “obsolescência” dos juízos de valor diante da
“eficiência” da técnica. A autogestão surge como uma possível alternativa para
encontrar uma melhor relação entre trabalho e homem, visando democratizar os
instrumentos de gestão e igualar os trabalhadores como capazes de decidir o seu
próprio caminho.
32

2.2.2 Colaboração: solidária x competitiva

A palavra solidariedade remete, tipicamente, a dois conceitos diametralmente


opostos, baseados em diferentes princípios e necessidades. A solidariedade
filantrópica (ou caridade) apela para ideais altruístas e moralizantes, concentrando-
se em questões urgentes e na preservação da paz social, apaziguando as relações
conflituosas. Esse tipo de solidariedade, por tratar-se de uma relação entre
desiguais, facilmente acaba com as formas de hierarquização, pois a caridade torna-
se um meio de autoridade e dominação dos “incluídos” frente aos “excluídos” a partir
do momento em que aquele que assiste outrem tem poder sobre este através da
gratidão e do sentimento de reciprocidade. A caridade acaba por reforçar a
desigualdade, perpetuando as condições estabelecidas entre os membros de uma
sociedade. A segunda forma de solidariedade tem como princípio a democratização
societária a partir da cooperação, resultando de ações entre iguais, opondo-se assim
ao princípio de caridade. Dessa forma, não deve haver noções de autoridade e
hierarquia imperando, e a relação estabelecida é direta e igualitária, de ajuda mútua
e consciente, visando emancipar todos os agentes da ação. Essa concepção
reinsere a economia em seu papel de meio para fins de sustentabilidade e é a esse
conceito que a economia solidária se vincula (LAVILLE, 2009).
A competitividade é um tipo de colaboração que se estabelece com base na
rivalidade. Ela pressupõe a existência de vencedores e perdedores através da
disputa incessante por objetivos comuns. A competitividade recorre a noções
egoístas, nem sempre centradas na ética, gerando necessariamente desigualdade,
uma vez que não é possível uma disputa sem perdedores. Empresários que foram à
falência perdem o seu capital, os bancos por sua vez irão dificultar o crédito aos que
já fracassaram uma vez. Desempregados, quando ficam muito tempo sem emprego,
têm menos chances de serem aceitos, assim como os que são mais idosos. Os
reprovados em vestibulares precisariam se preparar melhor, mas, como já gastaram
seu dinheiro fazendo cursinho, a probabilidade de que o consigam é cada vez menor
(SINGER, 2008).
Na economia, dificilmente as relações de solidariedade ou de competitividade
ocorrem sozinhas, em forma pura; na prática, ambas coexistem, havendo,
geralmente, predominância de uma das formas sobre a outra. Arroyo (2008) afirma
33

que não há antagonismo entre competitividade e solidariedade; estas duas


estratégias quase sempre ocorrem de maneira complementar. Porém, percebe-se
resultados diferentes em situações em que ocorre a predominância da solidariedade
em relação a situações em que ocorre a predominância da competitividade. O autor
cita Singer para esclarecer o domínio da competitividade na economia:

A competição é boa de dois pontos de vista: ela permite [...] escolher o que
mais nos satisfaz pelo menor preço; e ela faz com que o melhor vença [...].
(Mas) o que acontece com os empresários e empregados das empresas
que quebram? [...] o capitalismo produz desigualdade crescente,
verdadeira polarização entre ganhadores e perdedores. Enquanto os
primeiros acumulam capital, galgam posições e avançam nas carreiras, os
últimos acumulam dívidas pelas quais pagam juros cada vez maiores, são
demitidos [...] tornam-se inempregáveis [...]. (SINGER apud ARROYO,
2008, p. 77).

Onde a combinação entre solidariedade e competitividade é presidida pela


competição, a tendência é a de exclusão dos “derrotados”, o que, em um sistema
entrelaçado e indissolúvel como é o caso da economia, significa perda para todos.
Na verdade, os “excluídos” permanecem no sistema pesando como força de
trabalho inativa e demandante de serviços de educação, assistência, saúde e
segurança, onerando o Estado, mesmo sem poder contribuir, e cooperando para a
geração de um ambiente propício à violência social, depreciando a qualidade de vida
de todos. Por outro lado, a cooperação pura, desvinculada de estratégias
competitivas subordinadas, leva à estagnação e à perda de qualidade. Onde a
competição é presidida pela solidariedade, não se exclui a busca por inovações e
melhor qualidade, mas essa prática se realiza de forma secundária, porquanto a
solidariedade seja o centro no qual se pautam as ações na economia, não gerando,
dessa forma, exclusão (ARROYO, 2008).
Esta percepção é responsável por uma mudança de paradigma dentro do
próprio sistema capitalista, onde alguns setores econômicos têm buscado na
cooperação uma nova estratégia para obter vantagens competitivas sobre outros
grupos, através da formação de clusters, arranjos, aglomerados e cadeias
produtivas. Nestas formas de organização, as empresas de uma mesma zona
geográfica cooperam entre si para fortalecerem-se no mercado. Arroyo (2008),
citando Porter, explica o espírito dessa nova estratégia:
34

A economia deve ser tratada como no esporte, onde a competição se dá


subordinada à consolidação da cooperação em torno dos termos
regimentais e regulatórios que servirão de arcabouço político, ético e
instrumental para que a competição, seja qual for seu resultado, contribua
para a melhoria do ambiente sistematicamente “Assim, os aglomerados
seriam definidos como um sistema de empresas e instituições inter-
relacionadas, cujo valor como um todo é maior do que a soma das partes”
(PORTER apud ARROYO, 2008, p. 80).

A “Teoria dos Jogos” na economia, criada por John Nash, retoma a


centralidade da cooperação no processo socioeconômico. Hirschman, ao apresentar
a sua teoria dos “Efeitos em Cadeia”, afirma que a cooperação entre os agentes
econômicos é um elemento relevante para elevar o seu grau de eficiência e eficácia
(ARROYO, 2008).
Maximiano (2000) diz que, para serem eficazes, as empresas precisam ser
competitivas. Para serem competitivas as empresas precisam ter desempenho
melhor que outras que disputam os mesmos clientes. Uma empresa é competitiva
quando tem alguma vantagem sobre seus concorrentes. Maximiano resume as
vantagens mais importantes que podem ser obtidas por uma empresa em:
qualidade, custo baixo, velocidade, inovação e flexibilidade. Ele acrescenta ainda
que alcançar essas vantagens competitivas depende do entendimento e da correta
aplicação dos conceitos da eficiência e da eficácia.
Segundo Maximiano (2000, p. 115) “a eficiência de um sistema depende de
como seus recursos são utilizados. [...] O princípio geral da eficiência é o da relação
entre esforço e resultado. Quanto menor o esforço necessário para produzir um
resultado, mais eficiente é o processo”. O autor afirma que os critérios mais
importantes para avaliar a eficiência de uma organização são a produtividade e a
qualidade, sendo o primeiro a relação entre resultados obtidos e recursos utilizados
pela organização e o segundo a coincidência entre o produto ou serviço e sua
qualidade planejada.
Gaiger (2009) afirma que, na economia solidária, o conceito de eficiência se
amplia, pois contabiliza tanto o dispêndio de recursos diretamente utilizados pela
organização, quanto os custos indiretos revertidos para a sociedade ou transferidos
para gerações futuras. Sendo assim, a eficiência compreende a materialização de
benefícios sociais, e não meramente monetários ou econômicos. No âmbito das
preocupações das empresas capitalistas, a eficiência refere-se essencialmente à
exigência de otimizar-se a relação custo/benefício, pela decisiva incidência desta
35

sobre a rentabilidade ou a taxa de lucro dos negócios; assim, ela é compreendida


como o equacionamento de variáveis reduzidas ao plano econômico.
Classicamente, o custo representa perdas de capital inevitáveis ao processo
produtivo, tais como: consumo de matérias-primas, depreciação de máquinas,
tratamento de efluentes, remuneração da força de trabalho, impostos, etc., o que
implica a necessidade de reduzi-lo, sob o prisma dos investidores. Com a separação
entre investidores e a massa dos trabalhadores, as decisões sobre eficiência são
uma prerrogativa do capital, nos limites dos seus fins intrínsecos e como parte de
sua reprodução ampliada. A eficiência capitalista é utilitarista, não considerando os
benefícios sociais gerados pela ação econômica, tais como postos de trabalho,
valorização do ser humano, preservação do ambiente natural e qualidade de vida.
Para Maximiano (2000), eficácia é a relação entre resultados e objetivos. Ele
afirma que para que uma empresa seja eficaz ela precisa ter a sua orientação
voltada para o mercado e não apenas para o processo produtivo. Para avaliar o grau
de eficiência de uma organização é necessário conhecer os seus objetivos e os
resultados que ela vem alcançando.
Segundo Gaiger (2009), uma visão alternativa de eficiência leva
necessariamente à discussão sobre a eficácia, isto é, sobre os fins a serem
alcançados e as possibilidades de atingi-los. Tais fins, longe de se restringirem ao
faturamento e ao crescimento econômico, ou ainda a uma relação entre empresa e
mercado, vinculam-se à satisfação de necessidades e a objetivos materiais,
socioculturais e ético-morais dos indivíduos e da coletividade, de curto ou de longo
prazo. A racionalidade em questão compõe-se de valores dirigidos à qualidade de
vida do grupo diretamente envolvido e à garantia de melhorias para a sociedade.
Sob essa ótica, eficiência e eficácia podem ser classificadas como o conjunto de
meios e fins que, além da reprodução simples dos indivíduos e da preservação de
sua vida biológica e social em níveis moralmente aceitáveis, promovam a
reprodução ampliada da vida, em todos os seus aspectos. Esse desenvolvimento
apresenta-se durável e sustentável no tocante à qualidade de vida, que contempla,
além dos aspectos materiais, o nível consciente dos desejos, o acesso igualitário a
um sistema de justiça e o abrigo contra a repressão política, as violências física e
psíquica e outras fontes de sofrimento.
A visão dos conceitos de eficiência e eficácia dentro da economia solidária
parece estar mais de acordo com a busca da efetividade. Segundo Batista Júnior
36

(2004), a efetividade é a manifestação externa daquilo que foi gerado dentro da


organização, buscando a satisfação das necessidades do cidadão, o bem comum.
Esta definição, segundo Gandolfi (2006), também pode ser relacionada com justiça
social, na medida em que a efetividade é um indicador do impacto das ações da
organização em relação às expectativas da sociedade.

2.2.3 Democracia

A palavra democracia surge na Grécia Antiga para designar uma forma de


organização das cidades (polis) que foram subdivididas em unidades sociopolíticas
denominadas demos (palavra grega que significa “povo”), visando à
descentralização da autoridade (kratos). Todo cidadão do demos tinha o direito de
participar diretamente do poder. Embora Atenas tenha sido o berço da democracia,
mulheres, estrangeiros e escravos (que representavam a maior parte da população)
não participavam das decisões políticas da cidade. Em Roma, em um período
seguinte, se estabelece um regime semelhante, onde as cidades também são
subdivididas em unidades sociopolíticas, mas a participação no poder era indireta
para grande parte da população. Os não-proprietários ou os pobres tinham direito a
eleger um representante para defender e garantir seus interesses. Esse regime era
chamado oligarquia. Fazendo uma analogia com os dias atuais, podemos verificar
grandes semelhanças entre a oligarquia romana e o que chamamos hoje de
democracia representativa, e entre a democracia grega e o que chamamos
democracia participativa (CHAUÍ, 2006).
Desde a Revolução Francesa e a criação do Estado liberal no século XVIII, a
democracia representativa tem sido adotada como forma de governo pela maioria
dos países do mundo. No entanto, a prática democrática tem se limitado, na maioria
das vezes, à eleição de representantes para a administração do espaço público. As
organizações privadas, como as empresas capitalistas, têm originalmente a
autoridade e o poder decisório vinculados unicamente ao(s) seu(s) proprietário(s),
constituindo assim uma autocracia (sistema de poder típico do sistema feudal). A
empresa moderna, tal como a conhecemos atualmente, passou por várias etapas
distintas durante seu desenvolvimento, definidas geralmente pelas diversas escolas
37

da administração. A partir da expansão da empresa capitalista da pequena oficina e


comércio para a grande indústria, o proprietário-capitalista se viu obrigado a dividi-la
em departamentos e a delegar uma parte de seu poder a alguns subordinados
(conforme já descrito na seção 2.2.1), que vieram a dar origem posteriormente a
classe dos administradores, gestores ou tecnoburocratas (GUTIERREZ, 1986).
Desde então, esta tem sido a estrutura de autoridade tradicionalmente
encontrada na maioria das empresas capitalistas, com o poder sobre a organização
e os trabalhadores dividido entre o(s) proprietário(s) da organização e os seus
gestores. Como o número de proprietários e gestores é geralmente menor do que o
de trabalhadores-empregados, os critérios para a escolha dos gestores são
definidos, via de regra, pelo(s) proprietário(s), e a opinião dos trabalhadores não é
obrigatoriamente consultada para tomada de decisões; este tipo de organização não
pode ser considerada, sob nenhum ponto de vista, uma instituição democrática
(GURIERREZ, 1986). Neste sentido, ela tem servido primordialmente aos interesses
das classes dos capitalistas e dos tecnoburocratas em detrimento da classe dos
trabalhadores, assim como o feudo servia aos interesses dos suseranos e vassalos
sobre os seus servos.
Em 1929, a teoria das relações humanas, que tinha entre seus autores Elton
Mayo, já falava sobre a necessidade de humanizar e democratizar as organizações,
libertando-as dos conceitos rígidos e mecanicistas da teoria clássica e adequando-
as aos novos padrões de vida do povo americano. Mas foi somente a partir da
década de 1950 que teorias como as da escola neoclássica da administração,
liderada por Peter Drucker, refletiram em algumas mudanças nas estruturas de
autoridade das empresas capitalistas. O modelo japonês do toyotismo incentivou a
participação dos funcionários nas decisões para a busca pela qualidade total. Nos
anos 60, o modelo sueco do volvismo desenvolveu grupos semi-autônomos de
trabalho com o enriquecimento das tarefas dos trabalhadores (CHIAVENATO, 1983).
No entanto, Gutierrez (1986) afirma que estas novas formas de organização do
trabalho se constituem, essencialmente, numa reação a uma nova conjuntura social,
onde o capitalismo se vê obrigado a interagir com o amadurecimento das lutas
operárias, por um lado, e com o acirramento da concorrência e das crises cíclicas,
típicas do sistema, pelo outro. O autor ilustra esse processo citando Forghieri:

Particularmente na França, a adoção de formas participativas na indústria


seguiu-se aos movimentos grevistas mais importantes a partir de 1968,
38

quando praticamente todo país foi afetado. A interpretação do patronato


francês acerca daqueles movimentos grevistas, alarmantes para o sistema
produtivo vigente, indicavam que os trabalhadores precisavam ter mais
liberdade no trabalho, encontrar maior satisfação na realização de suas
tarefas, participar mais nas decisões que afetassem suas condições de
trabalho, sugerir modificações em benefício do trabalho, reencontrar-se
enfim com os objetivos da empresa e fruir seu merecido bem estar
(FORGHIERI apud GUTIERREZ, 1986, p. 15).

Mesmo com uma relativa ampliação da participação dos trabalhadores nos


processos decisórios, definida por alguns autores como empowerment ou
empoderamento, esta se deu principalmente nas operações de baixo conteúdo
estratégico. Gutierrez (1986), explica que essa limitação ocorre devido ao fato de
que o objetivo primordial dessa tendência é estimular a motivação dos funcionários
através de uma pequena autonomia, e não promover uma real democratização do
poder nas organizações. Essa motivação se dá através da crença por parte do
funcionário (atualmente chamado de colaborador) de que há efetiva participação sua
nas decisões, quando, na verdade, o que ocorre é uma forma de referendar as
decisões tomadas, em última instância, pelos tecnoburocratas (atualmente
chamados de líderes ou gestores), legitimando assim as suas decisões.
A tentativa de desenvolver a democracia nas empresas capitalistas, exigida
pelos trabalhadores, conceituada pelas teorias mais recentes da administração e
aplicada pelos tecnoburocratas, acaba demonstrando-se, na maioria das vezes,
como somente mais uma forma limitada de democracia representativa, aos moldes
da oligarquia romana. É axiomático que os sistemas político e jurídico romanos
representam uma das bases culturais da civilização ocidental. A oligarquia
constituída na empresa capitalista moderna surge como uma ruptura à autocracia
originária deste tipo de organização, onde somente o seu proprietário exercia o
poder formal. Ela foi viabilizada pelo surgimento da tecnoburocracia, a partir do
momento em que conhecimento e técnica passaram a ser considerados também
instrumentos de poder.
Castanheira e Pereira (2008) acreditam que a autogestão na economia
solidária se constitui em um sistema de organização democraticamente superior à
democracia formal praticada no capitalismo, pois, a partir do momento em que os
trabalhadores adquirem o domínio das suas condições de trabalho, eles tornam-se
aptos, também, a deter o controle de suas vidas sociais. Logo, não se trata mais de
participar de um poder, mas de ter um poder.
39

A economia solidária não se esconde sob uma promessa de progresso


científico e tecnológico ilimitado, supostamente desprovido de pretensões políticas,
para justificar as suas ações. Segundo Gaiger (2008), a economia solidária se
constitui explicitamente como um projeto político de transformação da sociedade.
Ela supõe indivíduos reconhecidos como sujeitos dotados de livre-arbítrio e
comporta iniciativas de múltiplas organizações que visam à ampliação do regime
democrático, desdobrando a democracia política representativa (exercida no Estado)
em mecanismos de participação direta e estendendo-a para a esfera econômica
(empresas).
Na economia solidária, administração democrática significa auto-
administração. Como não há separação entre as figuras de proprietário, gestor e
trabalhador, os associados são a autoridade suprema, com poder para decidir sobre
todos os aspectos importantes da sua organização. Ela parte do pressuposto de que
não há ninguém melhor do que os associados para conhecer seus interesses
econômicos e, por isso, devem ser eles a determinar diretamente as decisões. A
partir de determinado tamanho, o empreendimento, geralmente organizado sob a
forma de cooperativa, realiza a tomada de decisões através de uma assembléia
geral (SCHNEIDER, 2003).
A assembléia de todos os associados é a instância máxima de autoridade e
poder da organização, já que nela são tomadas as decisões de maior porte
estratégico. Cada associado tem direito a um voto, independente da sua cota de
capital integralizada no empreendimento. Desta forma, todos os membros têm a
mesma posição e o mesmo poder. Enquanto agrupamento de pessoas responsáveis
por sua economia, não cabe, nas cooperativas, o voto proporcional ao capital como
nas sociedades anônimas capitalistas, pois introduzi-lo poderia representar a
fragmentação dos membros em diversos grupos de interesses e classes conflitantes,
descaracterizando assim a essência da economia solidária como uma associação
entre iguais (SCHNEIDER, 2003).
Para realizar a administração de questões rotineiras na cooperativa, de menor
conteúdo estratégico, os associados realizam, através de assembléia geral, a
eleição de dirigentes. Os dirigentes sempre devem ter bem presente que são os
mandatários dos sócios e não ao contrário. Para isso, a cooperativa conta com
dispositivos previstos no seu estatuto que regulam a destituição de dirigentes do seu
40

cargo em caso de abuso de poder, buscando evitar assim a formação de uma elite
de poder na organização e preservar a sua democracia. (SCHNEIDER, 2003).
O projeto de democratização presente na economia solidária claramente não
se limita a uma nova forma de organização econômica, mas visa também um projeto
de sociedade. Alguns governos locais já estão desenvolvendo projetos de ampliação
da democracia formal do Estado liberal, mesclando práticas representativas com
participativas, através da criação de fóruns regionais e assembléias de orçamento
participativo, que geralmente apóiam e recebem apoio das iniciativas de economia
solidária (ARROYO; SCHUCH, 2006). No momento da criação da democracia, na
Grécia Antiga, os cidadãos decidiam em praça pública o destino da cidade, tratando
diretamente de seus interesses. Hoje, a economia solidária visa restabelecer o
sentido original da democracia de forma efetivamente participativa, tratando não
somente de um novo modelo de organização empresarial, mas sim desta como um
meio para uma sociedade mais justa e democrática.

2.2.4 Divisão do trabalho

No decorrer da história econômica da humanidade, pode-se encontrar


diversas formas de divisão do trabalho, tendo cada uma surgido em consonância
com o desenvolvimento das forças produtivas de cada sociedade. A Revolução
Agrícola marca a primeira forma de divisão do trabalho, com a separação de
atividades conforme idade e sexo. Com o surgimento da agricultura, ocorre uma
grande ampliação da capacidade produtiva, e, pela primeira vez, o trabalho deixa de
servir unicamente a subsistência e passa a gerar excedentes (HUBERMAN, 1981).
A produção de excedentes dá origem a uma série de novas atividades de controle e
organização da produção, normalmente menos vinculadas ao trabalho manual.
Surge assim a primeira separação entre trabalho manual e trabalho intelectual
(GUTIERREZ, 1988).
Com o desenvolvimento das forças produtivas proporcionado pelo sistema
feudal, surge a figura do mestre artesão, que em sua pequena oficina empregava
jovens aprendizes chamados de jornaleiros. Os jornaleiros eram encarregados da
realização de tarefas mais simples, designadas pelo mestre, enquanto este podia
41

dedicar-se a aquisição de clientes. Naquela época, não era necessário grande


capital para dar inicio a um negócio; portanto, a divisão do trabalho se dava
basicamente devido ao conhecimento sobre a produção de mercadorias. Sendo
assim, após algum período como aprendiz, o trabalhador poderia abrir a sua própria
oficina. A posição de controle sobre a produção, exercida pelo trabalho intelectual
desde a Revolução Agrícola, passou a permitir gradativamente o subjugamento do
trabalho manual (HUBERMAN, 1981).
Após a queda do modo de produção feudal e a introdução do sistema
capitalista, a Revolução Industrial desencadeia um grande aprofundamento no
processo de divisão do trabalho, elevando a capacidade produtiva a níveis jamais
vistos. A partir deste momento, a divisão do trabalho ganha o sentido vigente até os
dias de hoje: especialização. Sobre este processo, Adam Smith (1996, p. 65)
escreve a primeira frase de sua principal obra: “O maior aprimoramento das forças
produtivas do trabalho, e a maior parte da habilidade, destreza e bom senso com os
quais o trabalho é em toda parte dirigido ou executado, parecem ter sido resultados
da divisão do trabalho”. No entanto, com a especialização do trabalho Smith não
visava apenas o aumento da produtividade das empresas capitalistas, mas também
buscava, a partir dela, a viabilização de um comércio livre entre as nações, conforme
explica Huberman (1981):

Se a maior produtividade é proporcionada pela divisão do trabalho, e a


divisão do trabalho é limitada pelo tamanho do mercado, então, quanto
maior este, tanto maior o aumento da produtividade - isto é, tanto maior a
riqueza da nação. E como com o comércio livre os mercados se ampliam ao
máximo possível, temos também a máxima divisão do trabalho possível, e,
portanto, um aumento da produtividade também ao máximo possível.
Portanto o comércio livre é desejável (SMITH apud HUBERMAN, 1981,
p.130).

Através do livre comércio entre as nações, Smith afirmava que cada país
desenvolveria os produtos que estivesse mais apto a oferecer ao mercado mundial,
formando assim uma divisão internacional do trabalho. Esta divisão do trabalho
direciona uma especialização produtiva global, já que cada país fica designado a
produzir um determinado produto ou partes de um produto. Por exemplo, um carro,
que pode ter os seus componentes oriundos de diversos países. Smith afirmou que
esse processo permite que cada país que se especializar nas mercadorias possa
produzir a um menor custo, e com isso, aumentar a riqueza total do mundo (SMITH,
42

1996). Todavia, Smith não levou em consideração na formulação do seu sistema de


divisão internacional do trabalho as crescentes desigualdades que ele produziria.
Uma vez que nem todos os países se encontram no mesmo estágio de
industrialização e desenvolvimento tecnológico, resta aos menos desenvolvidos
fornecer matéria-prima aos países mais industrializados, e a estes a confecção do
produto final. Desta forma, gera-se uma relação desigual de eterna dependência,
pois os países com o nível de industrialização mais elevado sempre fornecerão um
produto com maior valor agregado e, conseqüentemente, obterão maiores taxas de
lucro sobre os menos desenvolvidos (FURTADO, 1996). De fato, este sistema
proporcionou um grande aumento da riqueza total do mundo, mas ao preço da
perpetuação da desigualdade entre os países de primeiro e de terceiro mundo, que
até hoje não pôde ser solucionada.
Na organização das empresas capitalistas pós-Revolução Industrial, a divisão
do trabalho segue o caminho proposto por Adam Smith e aperfeiçoado pelos
teóricos da administração científica (conforme exposto na seção 2.1.1). Henry Ford
foi um dos primeiros a implantar este modelo, sendo o precursor da produção em
massa com a adoção da linha de montagem (CHIAVENATO, 1983). A linha de
montagem permitiu que a função do trabalhador fosse especializada a tal ponto que,
durante uma jornada média de 10 horas de trabalho, sua única atividade fosse a de
apertar parafusos.
Com o aprimoramento das forças produtivas, proporcionado pelo modo de
produção capitalista, aprofunda-se a divisão do trabalho. Originária da divisão entre
trabalho manual e intelectual, ela agora integra uma nova estratégia de crescimento
econômico através da especialização. Com o desenvolvimento da grande indústria
capitalista, a possibilidade de abrir o seu próprio negócio não se configura mais
como alternativa para a maior parte dos trabalhadores, como acontecia no sistema
feudal, devido à concorrência desproporcional. Resta à grande massa dos
trabalhadores, assim como para os países subdesenvolvidos na divisão
internacional do trabalho, vender apenas a sua matéria-prima, ou seja, a sua mão-
de-obra.
O contexto cultural criado pela noção liberal de liberdade individual, as
pretensões sociais e políticas burguesas, o individualismo, o utilitarismo, as
possibilidades tecnológicas da Revolução Industrial e a divisão social do trabalho
compuseram o ambiente da apartação entre trabalhador e trabalho (ARROYO,
43

2008). A fim de analisar as conseqüências da divisão do trabalho no modo de


produção capitalista, Karl Marx desenvolve o conceito de alienação, defendendo a
tese de que a especialização do trabalho faz com que o trabalhador não tenha
consciência do produto do seu trabalho, permitindo assim ao capitalista uma
apropriação do seu valor.

A alienação, de modo geral, é o estado do indivíduo que não mais se


pertence, que não detém o controle de si mesmo, que está privado dos seus
direitos fundamentais, passando a ser como uma coisa. Está alienado,
portanto, quem está fora de si, quem perdeu sua própria identidade,
tornando-se um outro de si mesmo. Assim, a alienação, para Marx, é o
processo de despossessão, vivido pelo sujeito humano que perde sua
própria essência, que é projetada em outro sujeito. No seu entendimento, a
alienação fundamental é aquela que ocorre na prática do trabalho, no
sistema capitalista, onde o proletário é separado dos meios e dos produtos
de sua atividade produtiva, sua obra sendo apropriada pelo outro capitalista
(SEVERINO apud BUENO, 2005, p. 14).

Ao analisar a situação enfrentada pelo trabalhador alienado, Arroyo (2008)


afirma, sob uma perspectiva marxista, que ao mesmo tempo em que a linha de
montagem se decompunha em operações simples, fazendo com que a
interdependência entre os indivíduos aumentasse, a capacidade produtiva
aumentava exponencialmente sem, no entanto, garantir sobrevivência e segurança
para os trabalhadores, já que a acumulação estava fortemente concentrada entre os
capitalistas. Por isso, era necessária a formulação de uma nova divisão do trabalho.
Conforme Lisboa (2005), Marx não postulou que a autogestão seria o reino da
liberdade, mas sim que se trataria de um caminho para emancipação do homem no
trabalho, a partir do domínio da produção material. Em face da complexidade da
moderna divisão do trabalho, onde grande parte das atividades especializadas é
predeterminada, não seria possível suprimir completamente a heteronomia 3 no
processo produtivo, eliminando assim completamente a ocorrência de alienação. As
relações heterônomas na economia persistem mesmo em atividades produtivas
autônomas, através da predeterminação dessas atividades pelo mercado, que não
pode ser simplesmente rechaçado. Diante desse quadro, deve-se considerar o
processo de autonomia na heteronomia. O trabalho em grupos autônomos não
suprime a heteronomia, mas a desloca; no contexto produtivo complexo da vida
moderna não há possibilidade de autonomia pura, já que não há quem viva sozinho.

3
Heteronomia é um conceito criado por Kant, que corresponde às leis recebidas. Ao contrário de
autonomia, consiste na sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma coletividade.
44

Trata-se, antes sim, de autonomia na dependência, pois autonomia absoluta é


autismo social, e heteronomia plena é alienação. Assim como competitividade e
cooperação, autonomia e heteronomia coexistem através da divisão do trabalho; no
entanto, existe uma mudança qualitativa na prevalência de uma sobre a outra.
Segundo Gutierrez (1988), a empresa autogerida, protótipo de organização
na economia solidária, tem se encaminhado para a diminuição, mesmo que
gradativa e respeitando condições e vocações naturais, da separação entre trabalho
intelectual e trabalho manual, tentando recompor, dessa forma, a tarefa laborativa,
considerando o homem como um ser completo. Esse processo não visa transformar
trabalho em puro prazer, mas sim diminuir ou eliminar o mal-estar social causado
pela frustração decorrente da utilização parcial das potencialidades humanas, típica
da divisão taylorista do trabalho, causadora de diversas formas de alienação
patológica. O autor indica a possibilidade de amenização da alienação em duas
frentes: a física (através da posse coletiva dos meios de produção e da diminuição
da divisão do trabalho) e a intelectual (através da adoção de formas participativas de
administração da produção).
Na economia solidária, a divisão do trabalho se dá de diversas formas,
dependendo do empreendimento em questão, mas sempre com objetivo de manter
o trabalhador consciente da sua participação na criação da mercadoria e das fases
do processo produtivo. Pode haver uma divisão do trabalho nos níveis operacionais,
de forma que grupos executem um conjunto de funções similares que componham
uma etapa do processo produtivo, mas, mesmo neste caso, procura-se manter
consciência das outras etapas do processo de forma que não haja distanciamento
entre o trabalhador e o produto do seu trabalho, evitando assim que tarefas
específicas virem fins em si mesmos. Outra forma de divisão do trabalho na
economia solidária é o sistema de rotatividade, de forma que certas atividades de
benefício geral sejam exercidas por todos. Porém, o principal diferencial na relação
de divisão do trabalho na economia solidária deve estar centrado na democratização
das atividades administrativas. Teoricamente, não deveria haver uma divisão rígida
do trabalho no sentido gerencial, sendo que, quando necessários, esses cargos
deveriam ser eleitos (conforme descrito na seção anterior) e subordinados à
assembléia geral, órgão máximo de poder decisório (SOUZA; CUNHA; DAKUZAKU,
2003; SINGER, 2008).
Um exemplo de empreendimento solidário onde ocorreu rotatividade na
45

distribuição do trabalho foi a experiência dos kibutzim (palavra hebraica que significa
“estabelecimento coletivo”) israelenses, onde se formou uma sociedade comunal em
sistema de rodízio para todas as atividades. Os trabalhadores passavam por
experiências em diversas atividades até se estabelecerem em uma área. Também
houve atividades menores, mas de benefício de todos, como a limpeza dos
banheiros, que deveriam ser exercidas rotativamente por todos os membros. Esse
projeto também acaba por desenvolver um modelo de vida em comunidade nos
moldes dos princípios solidários, demonstrando como uma forma de organização
originada na economia pode expandir-se para outros campos da vida social. Os
kibutzim são chamados cooperativas integrais justamente por agregarem em sua
estrutura a promoção de serviços sociais aos associados, como educação, saúde e
moradia, com os mesmos princípios que regem as relações econômicas, tais como
cooperação, solidariedade e divisão não-hierárquica do trabalho (GOMIDE, 2003).
Esse sistema pode promover a desalienação do trabalhador, que passa a
conhecer as atividades necessárias a sua sobrevivência e o seu papel na sociedade.
Dessa forma, a divisão do trabalho, quando necessária, passa a ser um processo
consciente e definido pelos próprios trabalhadores. Esse processo pode suscitar,
inclusive, uma nova dinâmica para a divisão internacional do trabalho, através da
adoção de práticas de comércio justo 4, que visem estabelecer uma nova relação
entre os países ricos do norte e os países pobres do sul do mundo, e que não
busque apenas menores custos de produção e maior lucratividade, mas sim, a
sustentabilidade econômica e social em escala global (COTERA; ORTIZ, 2009).

2.2.5 Pessoas: recursos humanos x sujeitos

Segundo Maximiano (2000), o conceito de organização se refere a um


conjunto de pessoas que realizam tarefas, em grupo ou individualmente, de forma

4
Comércio justo é o processo de intercâmbio de produção-distribuição-consumo, visando um
desenvolvimento solidário e sustentável. Esse desenvolvimento procura beneficiar, sobretudo, os
produtores excluídos ou empobrecidos, possibilitando melhores condições econômicas, sociais,
políticas, culturais, ambientais e éticas [...], tais como o preço justo para os produtores, educação
para os consumidores e desenvolvimento humano para todos e todas, respeitando os direitos
humanos e o meio ambiente de forma integral. O comércio justo traduz-se no encontro fundamental
entre produtores responsáveis e consumidores éticos (COTERA; ORTIZ, 2009).
46

coordenada, visando atingir um objetivo ou finalidade comum através da utilização


dos meios e recursos disponíveis.
Chiavenato (2003, p. 11) inicia um de seus livros sobre gestão de pessoas
nas organizações afirmando que “toda organização, para alcançar seus objetivos de
maneira eficaz, concentra-se com maior ênfase naqueles recursos que lhes são
mais problemáticos, difíceis e escassos, em detrimento da preocupação e atenção
aos recursos mais fáceis e abundantes”. Esta definição genérica sobre a
preocupação tradicional da administração com o ser humano nas organizações
aponta para uma visão onde as pessoas (trabalhadores-empregados) e os objetos
(matéria-prima, maquinário, produtos, etc.) na empresa capitalista estão postas em
um mesmo nível, e que qualquer qualificação de prioridade entre elas se dá em
relação a sua disponibilidade. Daí a denominação comum de “recurso”.
O autor exemplifica sua afirmação demonstrando a evolução da importância
dos “recursos humanos” nas organizações:

Os Recursos Humanos, décadas atrás, constituíam o exemplo típico de


recursos fáceis e abundantes. Era muito comum encontrar-se, nas portarias
das fábricas e construções, um contingente enorme de assíduos candidatos
que aguardavam penosamente e longamente sua vez de atendimento. Até
àquela época, os Recursos Humanos disponíveis eram mais que
suficientes para as necessidades das organizações. Em uma situação
de oferta abundante de pessoal, as organizações podiam despreocupar-se
em fazer investimento na área (CHIAVENATO, 2003, p. 11, grifo nosso).

Deve-se aqui questionar, dentro desta visão de organização, o que deveria


acontecer com este excedente de pessoal, não “aproveitado” pelas organizações,
uma vez que a sua visão macro da economia não pressupõe qualquer tipo de apoio
econômico por parte do Estado à população desempregada, taxando este tipo de
iniciativa como assistencialismo.
Se, historicamente, as condições para os trabalhadores excluídos das
empresas capitalistas não eram boas, para os trabalhadores empregados, com raras
exceções, elas também não eram muito melhores. Conforme descrito na seção 2.1.1
e aprofundado na seção 2.3.4, as teorias clássicas da administração,
essencialmente preocupadas com a maximização dos lucros para os capitalistas,
desenvolveram um ambiente mecanicista, alienador, utilitarista e individualista para
a realização do trabalho humano. Desta maneira, o trabalhador, entendido como um
“recurso”, assim como as demais mercadorias utilizadas pela organização na
47

produção, representa meramente um custo inevitável que viabiliza a busca das


organizações pelos objetivos dos seus proprietários. Neste caso, é o próprio
conceito de eficiência das empresas capitalistas que afirma que os custos devem ser
reduzidos ao máximo para que as organizações possam atingir melhores resultados,
mesmo sendo estes custos com “mão-de-obra”. Esta lógica ainda está presente em
grande parte das empresas capitalistas.
No entanto, os impactos da terceira Revolução Industrial (científica e
tecnológica), ocorrida na segunda metade do século XX e proporcionada pelo
advento da informática e da robótica, refundaram as bases organizacionais do
capitalismo moderno, engendrando o que ficou conhecido como a sociedade da
informação e do conhecimento. Segundo Chiavenato (2003, p. 13), “neste novo
contexto, as pessoas deixam de ser o problema das organizações para ser a
solução de seus problemas”.
Em uma sociedade fundada na informação e no conhecimento, as pessoas
não podem mais ser vistas como máquinas, pois não basta mais a realização de
movimentos repetitivos; entra em jogo a utilização do que ficou conhecido nas
empresas capitalistas como “capital intelectual”. A era da informação elevou o
conhecimento ao nível de recurso organizacional mais importante da sociedade,
provocando uma mudança de paradigma nas organizações participantes deste novo
momento de desenvolvimento das forças produtivas. Nestas organizações, ocorreu
uma sistemática valorização de quadro funcional (CHIAVENATO, 2003).
Esta valorização não decorre de uma mudança de relação entre as
organizações capitalistas e os seus “recursos humanos” (apesar de uma recente
mudança de termos), mas sim do fato de que a oferta de pessoal com qualificação
para a realização de tarefas nestas organizações não é mais abundante como em
situações anteriores, devido à nova complexidade dos processos. Para estas
organizações (que apesar de serem as maiores empresas capitalistas, geram o
menor número de empregos em relação aos demais setores da economia),
conforme Chiavenato (2003, p. 14), “a importância do trabalhador intelectual [...] é o
divisor de águas entre as empresas bem sucedidas e aquelas que ainda pretendem
sê-lo. [...] A competitividade das empresas depende agora do conhecimento”. Desta
maneira, torna-se vital para as empresas capitalistas a valorização dos seus
funcionários: a organização da terceira Revolução Industrial busca reter os seus
talentos, a fim de preservar e desenvolver o seu “capital intelectual” e manter a sua
48

competitividade frente às novas condições do mercado.


Segundo Chiavenato (2003), as organizações valorizam os seus funcionários
através de uma compensação pelo seu trabalho realizado. Esta compensação pode
ser financeira, como salários, prêmios e comissões, ou não-financeira, como
reconhecimento, segurança no emprego e orgulho. Destas, segundo o autor, o
salário representa o elemento mais importante. Salário é a retribuição em dinheiro
ou equivalente paga pelo capitalista ao seu empregado em função do cargo que este
exerce e dos serviços que presta durante um determinado período. Como nas
empresas capitalistas o salário do trabalhador é definido (pelos gestores) com
relação ao seu cargo e ao seu tipo de jornada de trabalho (horista, diarista ou
mensalista), esta remuneração não está necessariamente vinculada ao valor
produzido pelo funcionário na organização. Por isso, Karl Marx, nos seus estudos
sobre o capitalismo, denunciou que a principal forma de compensação dos
trabalhadores nas empresas capitalistas é, na verdade, um meio para exploração.
Marx quis esclarecer como o modo de produção capitalista explora o trabalhador, e,
para isso, desenvolveu a teoria da mais-valia. Sobre esse processo, ele afirmou que:

O valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade total de trabalho


nela encerrada. Mas parte dessa quantidade de trabalho é realizada num
valor, pelo qual foi pago um equivalente na forma de salário; parte dela é
realizada num valor cujo equivalente não foi pago. Parte do trabalho
encerrado na mercadoria é trabalho pago; parte é trabalho não-pago.
Vendendo a mercadoria pelo seu valor, ou seja, pela cristalização da
quantidade total do trabalho nela empenhado, o capitalista a está
necessariamente vendendo com lucro. Vende não apenas o que ela lhe
custou, embora tenha custado o trabalho de seu operário. O custo da
mercadoria para o capitalista e seu custo real são coisas diversas. (MARX
apud HUBERMAN, 1981, p. 200).

Como tudo se desenrola de maneira desigual no sistema capitalista, a terceira


Revolução Industrial ainda não chegou efetivamente à maior parte das organizações
e da população. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE, 2007), cerca de 68% da população brasileira nunca teve acesso a internet,
por exemplo. Desta forma, ficou ainda mais acentuada a separação entre o trabalho
intelectual e o trabalho manual. Ao mesmo tempo em que o primeiro gozou de maior
valorização e reconhecimento nas empresas (devido à formação do seu capital
intelectual), o segundo foi ainda mais marginalizado, quando não eliminado.
Nas empresas capitalistas, os trabalhadores, considerados recursos de
49

produção, ganham salários desiguais. Assim como ocorre na compra de


mercadorias, onde cada tipo de produto ou marca possui um valor, existe um grande
escalonamento dos níveis de salários em relação à oferta e demanda de cada tipo
de profissional no mercado (SINGER, 2008). Esta desigualdade se legitima devido a
uma cultura de “meritocracia”, difundida por toda sociedade com ajuda dos meios de
comunicação. Dotada de valores burgueses e tecnoburocratas, essa cultura
estabelece a noção de que é mais oneroso angariar títulos de formação técnica na
universidade do que a execução de trabalho manual pesado. Desta forma, ela
justifica que um técnico especializado, que exerce suas atividades com as melhores
condições de trabalho existentes, ganhe 20 vezes mais do que um trabalhador
braçal, que muitas vezes realiza atividades altamente insalubres. Por fim, essa
cultura de “meritocracia”, axiomaticamente mais vinculada à noção de status quo do
que realmente a de esforço ou empenho no trabalho, se efetiva na assimilação
coletiva dos seus parâmetros por parte dos trabalhadores não-especializados
(GUTIERREZ, 1986). Estes, em grande maioria, a defendem com o intuito de um dia
poderem desfrutar dos seus benefícios, mesmo que esta posição esteja
historicamente reservada a uma parcela ínfima da população no sistema capitalista.
Na economia solidária, os empreendimentos se apresentam como a antítese
deste modelo de relação entre organização e seus trabalhadores. As pessoas não
são mais vistas como “recursos humanos”, objetos ou mercadorias, mas sim como
sujeitos de sua própria existência (CORAGGIO, 2009). Isso quer dizer que são os
próprios trabalhadores que definem coletivamente e democraticamente as suas
funções, cargos e tarefas, porque todos são iguais. Nela se efetiva de uma maneira
mais realista o conceito de organização como um grupo de pessoas com objetivos
comuns, uma vez que na empresa capitalista, geralmente, as pessoas possuem
objetivos antagônicos devido à formação de diversos grupos de interesse
estimulados pela competitividade (SINGER, 2008).
Uma vez que as organizações de economia solidária não partilham da visão
capitalista de mercadoria sobre os seus trabalhadores, elas também não se valem
de uma relação de oferta e demanda de mão-de-obra para determinar o valor do
trabalhado realizado na organização. Separa assim, de maneira bem distinta e
recolocando nos seus devidos lugares, pessoas e objetos, trabalhadores e matéria-
prima, o valor do trabalho humano e o custo das mercadorias, e assim por diante. O
conceito de eficiência neste modelo de organização (conforme descrito na seção
50

2.3.2), não coloca em check a preocupação com as pessoas quando da


necessidade de preocupação com os meios e recursos de produção, nem classifica
os seres humanos como abundantes ou escassos como nas empresas capitalistas.
A divisão do trabalho entrelaçou as atividades humanas de tal maneira que
não é mais possível remover algum conjunto de profissionais sem que isso afete a
vida de todos. Por isso, todos os trabalhadores são igualmente necessários ao bom
funcionamento da economia, independente do tipo de trabalho que prestem,
intelectual ou manual. Com base nesta conclusão, os empreendimentos de
economia solidária visam dividir os seus ganhos de maneira igualitária entre os
associados. Na empresa solidária, cada tipo de associação define coletivamente,
através de uma assembléia geral, o sistema de distribuição dos seus resultados. Os
sócios não recebem salários, mas realizam retiradas de acordo com a receita total
obtida na organização. Alguns empreendimentos, por questão de princípio, adotam a
igualdade nas retiradas; no entanto, grande parte dos empreendimentos solidários
ainda opta por certa desigualdade em determinadas funções, que, em geral,
acompanha o escalonamento vigente nas empresas capitalistas, porém com
diferenças muito menores entre as maiores e menores retiradas (SINGER, 2008).
O fato de uma parte das empresas solidárias aceitarem certa desigualdade
nas retiradas, particularmente no que se refere a trabalho intelectual e trabalho
manual, se deve aos valores e costumes da sociedade capitalista onde a maioria
acha “natural” que alguns trabalhos valham mais do que outros, pois os
trabalhadores aceitam e defendem a hierarquia profissional a que foram
acostumados. Em outros casos este tipo de divisão é escolhido para não perder a
colaboração de cooperados mais qualificados, que poderiam obter melhor
remuneração em empresas capitalistas (SINGER, 2008). No entanto, este tipo de
diferenciação entre os associados não deve levar a pensar que não há muita
diferença entre trabalhar numa empresa capitalista ou solidária, pois esta é uma
falsa impressão. Segundo Singer (2008, p. 13) “na empresa capitalista, os salários
são escalonados tendo em vista maximizar o lucro”, sendo que as decisões sobre os
salários são tomadas por dirigentes que participam nos lucros e cuja posição estará
ameaçada se a empresa que dirigem obtiver taxa de lucro menor que a média das
empresas capitalistas (SINGER, 2008).
A economia solidária visa reverter a situação em que está fundada a empresa
capitalista, re-humanizando o trabalho através da devolução da autonomia aos
51

trabalhadores. É preciso abolir determinados princípios intrínsecos à organização


capitalista, como o mecanicismo, a alienação, o utilitarismo e a visão individualista
tanto dentro quanto fora da sua organização. Para tanto, é necessário um longo
percurso de readaptação dos trabalhadores a uma nova condição dentro da
organização, desta vez centrada no reconhecimento do valor humano na sua
produção social. Nesse processo, é essencial que o trabalhador possa perceber-se
como sujeito, alguém que pratica uma ação de forma consciente e responsável por
todas as suas implicações, e não como um mero recurso de produção contratado
através de salário e alocado em uma tarefa específica. Neste sentido, o trabalhador
integra a organização como parte indispensável na busca pelo seu objetivo para
com a sociedade, ao invés de como um custo inevitável para a obtenção e
acumulação de lucro por parte do capitalista.

2.2.6 Sustentabilidade

É muito comum confundir desenvolvimento econômico, termo que se refere


ao fenômeno que ocorreu em algumas partes do mundo como Estados Unidos,
Canadá, Europa Ocidental e Japão, com um tipo de aumento da riqueza material
verificado na maioria dos países, conhecido como crescimento econômico. O
crescimento econômico é expresso pelo aumento do Produto Nacional Bruto (PNB)
que consiste no somatório de todos os bens e serviços produzidos em um
determinado país. Segundo Arroyo e Shuch (2006, p. 42) “o Brasil, assim como
outros países não considerados desenvolvidos, conheceu momentos de grande
crescimento econômico que não resultaram necessariamente em desenvolvimento
econômico”.
Enquanto o crescimento econômico tem uma dimensão quantitativa, expressa
pelo PNB, o desenvolvimento econômico, além desta, possui uma dimensão
qualitativa, que incorpora investimentos em serviços públicos como educação, saúde
e segurança, que melhoram a qualidade de vida da população em seus diversos
aspectos. Não é possível dizer que o padrão de vida da população brasileira, no seu
conjunto, melhorou proporcionalmente ao crescimento do PNB. O que ocorre é que
o crescimento do PNB é absorvido de maneira desigual pelos segmentos
52

socioeconômicos, além de grande parte ser transferida para outros países, pela
apropriação de lucros das multinacionais, por exemplo. No Brasil, uma minoria
pratica padrões de consumo semelhantes aos dos países desenvolvidos e uma
enorme maioria sobrevive em situação de pobreza e miséria. É a enorme
concentração de renda verificada no país que, entre outros motivos, impede que o
crescimento econômico ocorrido ao longo da história se transforme em
desenvolvimento econômico (ARROYO; SHUCH, 2006).
É possível identificar certa evolução do conceito de desenvolvimento
econômico ao longo do último século. Inicialmente associado ao crescimento
material, nos anos 50 e 60 este conceito atualizou-se com a inclusão de questões
sociais, em decorrência da situação dos países afetados pela Segunda Guerra
Mundial. Recentemente, o debate em torno deste termo passou a incluir questões
ambientais. Desde o início dos anos 70 a questão ambiental vem mobilizando partes
crescentes da opinião pública, deflagrada pela crise energética global e pela
preocupação em relação aos grandes acidentes ambientais causados por petroleiros
e usinas atômicas, entre outros. A partir de então, se iniciaram diversos estudos
sobre os perigos da poluição e sobre os limites do uso indiscriminado dos recursos
naturais do planeta. Em meados dos anos 1970, Celso Furtado já alertava que, se
todos os países do mundo pudessem atingir o nível de desenvolvimento econômico
dos países ricos, não haveria recursos suficientes no planeta para sustentar este
desenvolvimento, devido aos níveis de consumo praticados por estes países:

O apelo ao consumismo é muito forte. Ninguém quer renunciar à


possibilidade de, algum dia comprar um novo vídeo cassete, um carro mais
avançado, um forno de microondas, [...]. Nossa vida pessoal é um contínuo
processo de aquisição de bens de consumo, comprados muitas vezes por
hábitos consumistas e esbanjadores automáticos, que adotamos em virtude
de esquemas persuasivos de marketing lançados maciçamente sobre nós
[...]. O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de
vida é de tal modo elevado que qualquer tentativa de generalizá-lo levaria
inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em perigo as
possibilidades de sobrevivência da espécie humana. Temos assim a prova
definitiva de que o desenvolvimento econômico – a idéia de que os povos
pobres poderão algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos
ricos – é simplesmente irrealizável (FURTADO, 1996, p. 161).

Assim, Furtado considerava um mito a busca na qual se encontram a maioria


dos países capitalistas do mundo, pois ela não é, sob nenhum ponto de vista,
sustentável. Ainda que os avanços tecnológicos possam reduzir substancialmente o
53

nível de utilização dos recursos naturais na produção e manter por bastante tempo o
crescimento da base material das populações, é forçoso reconhecer que cedo ou
tarde o limite da capacidade produtiva do planeta será atingido. Nesta mesma linha
de pensamento, Lisboa (2005) afirma que:

O desenvolvimento estava fundado na crença de que poderia ser


universalizado no espaço e durável no tempo. Esse mito hoje se
desmascara, pois sabemos que o desenvolvimento não é para todos (crise
de justiça) nem é sustentável (crise da natureza). O crescimento pelo
crescimento, tal como definido pela dinâmica capitalista da reprodução
ampliada (D-M-D’), é a ideologia da célula cancerosa (LISBOA, 2005).

Com a incorporação desta noção de consciência social e ambiental na


equação do desenvolvimento econômico chegou-se a concepção de
desenvolvimento sustentável. No entanto, a noção de sustentabilidade se encontra
hoje em disputa entre a visão apoiada pelas empresas capitalistas e a visão
defendida pelos empreendimentos de economia solidária.
Na visão da empresa tradicional, a sustentabilidade se apresenta como um
adjetivo do padrão atual de desenvolvimento, sendo o meio pelo qual se tornaria
possível a internalização dos custos ecológicos do padrão de produção no próprio
sistema. Isso tornaria o sistema mais eficiente na utilização de recursos e energia, e,
portanto, mais durável. A questão se concentraria em respeitar a capacidade de
carga da natureza, mas não haveria necessidade de modificar o modo de produção.
Nessa perspectiva, fala-se em “capital natural”: o meio ambiente é encarado como
mercadoria, passível de compra e venda:

[...] bastaria manter constante o capital natural para garantir a durabilidade


do desenvolvimento econômico. A preocupação central deveria ser com os
riscos de perda irreparável do capital natural e com a garantia de
substituição do capital natural, quando diminuído, pelo capital criado. [...] o
mercado se encarregaria de decidir quantos seres humanos a Terra
suporta, qual o limite para o crescimento econômico e até que ponto pode a
tecnologia resolver os problemas relacionados com a finitude dos recursos
naturais e com a capacidade da natureza de se renovar (ARROYO;
SCHUCH, 2006, p. 49).

Portanto, segundo a visão das empresas capitalistas, a busca pela


sustentabilidade visaria apenas poupar os recursos naturais, melhorando o
desempenho da economia, o que seria suficiente para gerar mais bem-estar social.
Desta forma, o problema não estaria no modo de produção, mas apenas no desafio
54

de não ultrapassar a capacidade de carga da natureza, restringindo assim a questão


a um problema de ordem exclusivamente tecnológica de manutenção do capital
natural. A lógica da ecologia passa a fazer parte da lógica do mercado. Pode-se
perceber que esta visão de sustentabilidade está relacionada com a manutenção do
processo industrial capitalista, sem levar em conta a desigualdade no modo de
apropriação da natureza e tampouco contemplar valores sociais, culturais e éticos
(ARROYO; SCHUCH, 2006).
Com o foco centrado exclusivamente no lucro, as empresas capitalistas,
muitas vezes, simplesmente revestem-se de uma fachada de sustentabilidade com
intuito de promover a sua reputação e imagem na sociedade, através de campanhas
publicitárias e patrocínio de eventos.
Já na visão da economia solidária, a sustentabilidade apontaria para um
rompimento com o estilo de desenvolvimento atual, que se fixa em noções como o
progresso infinito e a superioridade do homem frente à natureza. A crise ambiental
seria a prova de que o sistema de acumulação capitalista é insustentável, pois
depreda o ambiente e promove a desigualdade. Portanto, a noção de
sustentabilidade estaria intrinsecamente ligada à construção de uma nova ética e de
novos paradigmas de relação do ser humano com a natureza. Para isso, seria
necessário radicalizar a democracia e promover mudanças culturais que privilegiem
novas noções de riqueza e prosperidade, bem como o respeito aos direitos humanos
e o estabelecimento de novos padrões de consumo e produção, construindo assim
uma ética ecológica (ARROYO; SCHUCH, 2006).

[...] o mercado passa a merecer uma regulação legítima e democrática, sem


que signifique uma amarra aos fatores de produção, na medida em que o
consumidor ganha a dimensão de cidadão e passa a exercer com clareza e
informação seu papel, de maneira organizada e consciente das
conseqüências sociais e ambientais de seus próprios hábitos de consumo.
Desse modo, valoriza-se aquilo que trouxer melhor benefício, não mais no
imediato, mas na perspectiva das futuras gerações, até mesmo pagando um
pouco mais por isso, como indica o comportamento de algumas
sociedades/mercados, como na Holanda, que já recusam produtos que
degradam o meio ambiente ou lucram com trabalho infantil (ARROYO;
SCHUCH, 2006, p. 53).

Nesta concepção sistêmica e holística, o debate em torno da sustentabilidade


envolveria, além dos aspectos econômicos, aspectos relacionados às ciências
físicas e biológicas, à cultura, ao direito, à política e à ética. Desta forma, visa, além
55

de preservar a natureza e a biodiversidade, garantir a heterogeneidade cultural, o


pluralismo político e as relações dinâmicas entre o local e o global. Além disso, seria
instrumento de inclusão social e de elevação da qualidade de vida, de promoção da
distribuição de renda e da riqueza, da universalização da educação, da saúde, da
habitação e da seguridade social. Assim, a sustentabilidade se traduziria na busca
pelo equilíbrio entre relações de gênero, respeito às minorias, construção da
cidadania e participação popular no planejamento e na gestão das políticas públicas,
a partir de uma nova idéia de sociedade e de como esta se relaciona com o meio
ambiente (ARROYO; SCHUCH, 2006).
É preciso controlar a expansão da acumulação capitalista, estabelecer limites
na utilização de matéria e energia e redistribuir as atividades econômicas no
território global, reconhecendo que há espaços que precisam ser preservados e
espaços que precisam ser economicamente dinamizados e desenvolvidos nos mais
diversos aspectos. Outro autor que define a sustentabilidade na economia solidária é
Washington Novaes (2006), sintetizando esta nova visão:

A sustentabilidade emerge da crise do esgotamento das concepções de


desenvolvimento enquadradas nas lógicas da racionalidade econômica, que
subjugou o social, o cultural, o político e a natureza às conseqüências
lógicas do desenvolvimento econômico. A sustentabilidade obriga a
racionalidade econômica a considerar outras dimensões culturais, éticas,
simbólicas e místicas. A sustentabilidade significa uma reforma radical nas
noções clássicas de ciência, intimamente ligadas apenas à eficácia e à
racionalidade econômica (NOVAES, 2006, p. 20).

Portanto, a economia solidária torna-se, ao mesmo tempo, lugar e mecanismo


privilegiado para a construção de um modelo de desenvolvimento sustentável. Este
desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades do presente, sem
comprometer as possibilidades das gerações futuras de atenderem as suas próprias
necessidades. Significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um
nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e
cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e
preservando as espécies e os habitats naturais (ARROYO; SCHUCH, 2006).
A estes conceitos e princípios de sustentabilidade é que o trabalho se filiará
para a análise comparativa dos tipos ideais da empresa capitalista e dos
empreendimentos de economia solidária.
56

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Neste capítulo são descritos os procedimentos metodológicos que servem de


base para a pesquisa desenvolvida no presente projeto.

3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA

A primeira parte da pesquisa trata-se de um estudo histórico, que reconstitui


as origens e o caminho percorrido pelos empreendimentos de economia solidária
desde a utilização de formas cooperativas de trabalho durante a Idade Média,
passando pelo surgimento da economia solidária durante a primeira Revolução
Industrial, até o seu ressurgimento no final do séc. XX. Posteriormente, é
desenvolvida uma pesquisa empírica, seguida de uma análise comparativa entre
empresas capitalistas e empreendimentos solidários quanto a sua administração,
cuja metodologia é a teoria weberiana dos tipos ideais, estabelecendo afinidades
eletivas para comparação dos tipos pré-estabelecidos destas organizações. Trata-se
de uma pesquisa de caráter exploratório que estabelece hipóteses que serão
confirmadas ou não durante a análise da pesquisa.
Quintaneiro e Barbosa (2003), analisando a teoria de Weber, afirmam que:

Na medida em que não é possível a explicação de uma realidade social


particular, única e infinita, por meio de uma análise exaustiva das relações
causais que a constituem, escolhem-se algumas destas por meio da
avaliação das influências ou efeitos que delas se pode esperar. O cientista
atribui a esses fragmentos selecionados da realidade um sentido, destaca
certos aspectos cujo exame lhe parece importante - segundo seu princípio
de seleção - baseando-se, portanto, em seus próprios valores. [...] Esse
modelo de interpretação-investigação é o tipo ideal, e é dele que se vale o
cientista para guiar-se na infinitude do real (QUINTANEIRO; BARBOSA;
OLIVEIRA, 2003, p. 102).

O estudo busca apontar as principais diferenças a partir de empreendimentos


semelhantes quanto a aspectos como: atividade econômica, área de atuação e porte
da organização. O trabalho analisou a administração das organizações selecionadas
a partir de variáveis qualitativas, descritas nas relações do quadro abaixo:
57

Tipos Ideais Empresa


Empresa Empreendimento Empreendimento
Capitalista Capitalista Solidário Solidário
menos
Afinidades Eletivas mais desenvolvida mais desenvolvido menos desenvolvido
desenvolvida
Heterogestão; as Heterogestão; as Autogestão; as Autogestão; as
decisões são delegadas decisões são decisões são decisões são
pelo(s) proprietário(s) centralizadas no(s) descentralizadas, delegadas pelos
aos seus gestores proprietário(s) da tomadas por todos os próprios trabalhadores
(tecnoburocratas), empresa, não trabalhadores em a uma elite dirigente
organizados de forma havendo assembléia ou através que se perpetua na
Gestão hierárquica, que participação dos de conselhos eleitos. gestão da
promovem uma certa funcionários na Desta forma, cada organização, por
autonomia dos gestão. membro é participante questões técnicas ou
trabalhadores como ativo e responsável por falta de
forma de estímulo pela gestão da participação dos
motivacional. organização. associados.
A competitividade A competitividade A solidariedade A solidariedade
prevalece sobre a inibe a cooperação. prevalece, fundando prevalece, porém não
cooperação, buscando A organização não uma nova relação é capaz de fundar
os menores custos e alcança níveis de capaz de manter sua uma relação viável
fazendo com que os eficácia e eficiência viabilidade econômica. economicamente.
Colaboração melhores vençam. Os necessários para Os conceitos de Os conceitos de
conceitos de eficiência e se manter eficiência e eficácia eficiência e eficácia se
eficácia se restringem a competitiva no abrangem questões assemelham aos das
formas de maximização mercado, gerando éticas, ambientais e empresas capitalistas.
dos lucros. exclusão. humanistas.
O poder é dividido entre O poder e a O poder é exercido O poder é exercido
o(s) proprietário(s) e os autoridade são pelos trabalhadores, por uma elite dirigente
gestores, que legitimam centralizados no(s) com a supremacia da de trabalhadores que
as suas decisões proprietário(s), de assembléia geral, toma decisões sem se
Democracia através de uma relativa forma que não onde cada trabalhador submeter à aprovação
participação formal dos ocorre administra- tem direito a um voto em assembléia
trabalhadores neste ção democrática (democracia (democracia
processo (oligarquia). (autocracia). participativa). representativa).
Busca a especialização A divisão mais Busca reorganizar o Tem dificuldades em
do trabalhador através rígida entre as agrupamento das modificar a divisão do
da separação entre funções gera um atividades manuais e trabalho praticada
trabalho manual e trabalho alienante, intelectuais, conside- pelas empresas
intelectual. Separa as mecanicista e rando o homem como capitalistas devido à
Divisão do funções administrativas desprovido de um ser completo. formação de uma elite
Trabalho das demais exercidas sentido para o Estabelece a dirigente ou por falta
na organização, trabalhador. rotatividade entre as de conhecimento
gerando alienação dos tarefas tanto técnico dos seus
trabalhadores sobre o operacionais quanto associados.
processo produtivo. administrativas.
São consideradas o São consideradas São consideradas São consideradas
diferencial competitivo mercadorias, sujeitos responsáveis sujeitos, no entanto, o
das organizações, por recursos, que e competentes pela empreendimento não
formarem o seu “capital representam um definição das suas consegue estabelecer
intelectual”. Os salários custo inevitável na próprias ações. Como a igualdade na divisão
são desiguais, definidos produção. Sofrem forma de romper com de ganhos entre os
Pessoas para cada cargo de exploração o utilitarismo capita- trabalhadores devido a
acordo com uma relação crescente de mais- lista, é estabelecida a uma questão cultural
de oferta e demanda no valia e possuem igualdade na divisão ou ao medo de perder
mercado de trabalho. más condições de de ganhos entre os os cooperadores mais
A empresa busca trabalho. trabalhadores. qualificados para as
manter os seus talentos. empresas capitalistas.
Visa otimizar a utilização Reveste-se de uma Visa à construção de Não consegue
dos recursos naturais fachada de uma nova ética e de desenvolver um novo
através de novas sustentabilidade novos paradigmas de modo de produção
tecnologias, bem como para promover a relação do ser capaz de realizar
compensar os impactos sua reputação na humano com a práticas sustentáveis
negativos da produção sociedade. No natureza e entre si. na execução das suas
através de projetos entanto, não Concebe um novo atividades.
Sustentabilidade socioambientais, mas desenvolve modo de produção
sem alterar o modo de práticas através da adoção de
produção atual que tem sustentáveis de práticas sustentáveis
o seu eixo central no produção e nas suas atividades.
consumismo. consumo. Substitui o consumis-
mo pelo consumo res-
ponsável e consciente.
Quadro 1 – Relações entre tipos ideais e afinidades eletivas
Fonte: Adaptado de Arroyo (2008), Cattani (2009), Chiavenato (1983), Furtado (1996), Gaiger (2006),
Gutierrez (1988), Maximiano (2000), Singer (2008).
58

3.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA

A pesquisa histórica se inicia com uma breve descrição da organização


econômica e do modo de produção no sistema feudal, e a seguir analisa a sua
transformação com a transição ao sistema capitalista e as causas que levaram ao
surgimento do movimento operário durante a Revolução Industrial. Logo após, é
descrita a evolução histórica deste movimento até a criação do movimento
cooperativista e o surgimento dos primeiros empreendimentos de economia
solidária. Foram contempladas as experiências de organizações autogestionárias na
Iugoslávia e na Espanha pelo reconhecimento da sua colaboração na consolidação
do que se entende hoje por empreendimento de economia solidária. Em seguida, é
abordado o ressurgimento dos empreendimentos solidários como forma de
resistência ao neoliberalismo. Este trabalho partiu da análise de livros e artigos
científicos que demonstram os sentidos e experiências desta forma de organização
e a sua racionalidade econômica própria.
Na pesquisa empírica, a análise comparativa envolve oito organizações,
sendo quatro empresas capitalistas e quatro empreendimentos de economia
solidária, localizados nas cidades de Porto Alegre e Gravataí. A atividade econômica
escolhida para a seleção das organizações foi a de produção de vestuário, e o porte,
tanto das empresas capitalistas quanto dos empreendimentos solidários,
compreende entre 20 e 80 funcionários/associados. Foram feitas entrevistas com
formulários contendo perguntas abertas com um gestor em cada organização
visitada, a fim de investigar a sua estrutura organizacional e as técnicas e métodos
de gestão mais utilizados.

3.3 TÉCNICA E INSTRUMENTOS DA COLETA DE DADOS

A pesquisa histórica foi desenvolvida a partir de material bibliográfico e


documental, como livros e artigos científicos. Segundo Gil (1996), a pesquisa
bibliográfica possui a seguinte definição:
59

A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado,


constituído principalmente de livros e artigos científicos. [...] Boa parte dos
estudos exploratórios pode ser definida como pesquisa bibliográfica. As
pesquisas sobre ideologias, bem como aquelas que se propõem à análise
das diversas posições acerca de um problema, também costumam ser
desenvolvidas quase exclusivamente a partir de fontes bibliográficas (GIL,
1996, p. 47).

A pesquisa documental assemelha-se à pesquisa bibliográfica, sendo que a


diferença essencial entre estes tipos de pesquisa reside na natureza das fontes.
Enquanto a segunda se utiliza principalmente de obras de vários autores sobre um
mesmo assunto, a primeira baseia-se em materiais que ainda não receberam um
tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaboradas de acordo com os
objetos da pesquisa (GIL, 1996).
O instrumento utilizado para coleta de dados da pesquisa empírica foi o
formulário, que, segundo Gil (1996, p. 89), “pode ser definido como a técnica de coleta
de dados em que o pesquisador formula questões previamente elaboradas e anota as
respostas”. Este formulário (APÊNDICE A) constitui-se de 40 questões, divididas em
7 blocos: 10 questões para definição do perfil do entrevistado e da sua organização,
5 questões sobre a gestão da organização, 5 questões sobre as formas de
colaboração da organização, 4 questões de investigação sobre as práticas
democráticas da organização, 6 questões sobre a divisão do trabalho, 6 questões
sobre as pessoas na organização e 5 questões sobre sustentabilidade.

3.4 TÉCNICA E ANÁLISE DE DADOS

O método utilizado para a análise de dados é o hipotético-dedutivo, que,


conforme Lakatos e Marconi (1995, p. 81) “se inicia pela percepção de uma lacuna
nos conhecimentos, acerca da qual formula hipóteses e, pelo processo de inferência
dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese”. É
importante saber que a dedução, parte deste método, é um tipo de pesquisa que
parte de teorias e leis para fenômenos particulares, em uma conexão descendente.
As hipóteses são estabelecidas através da comparação com outros estudos, que,
conforme as autoras, “resultam de o pesquisador ‘basear-se nas averiguações de
outro estudo ou estudos na perspectiva de que as conexões similares entre duas ou
60

mais variáveis prevalecem no estudo presente’” (TRUJILLO apud LAKATOS;


MARCONI, 1995, p. 144).
Para analisar o nível de desenvolvimento de cada organização pesquisada,
foi definida uma pontuação para os critérios avaliados, onde foi estabelecido o peso
1 para critérios desenvolvidos e peso 0,5 para critérios em desenvolvimento, sendo
considerado nulos (0) os critérios não-desenvolvidos. Para obter-se o índice geral de
desenvolvimento de cada organização, foi utilizada a seguinte fórmula:

 100 
I g = (C d + (Ce * 0,5)) *  
 30 

Nesta equação, a variável Cd equivale ao número de critérios desenvolvidos,

Ce equivale ao número de critérios em desenvolvimento, Ig equivale ao índice geral


de desenvolvimento da organização e 30 corresponde ao número de critérios
avaliados.
Considerando a pequena quantidade de estudos disponíveis sobre a gestão
de empreendimentos solidários e as dificuldades encontradas por estas
organizações na sua administração, esta pesquisa visa auxiliar na criação de novos
trabalhos acerca do assunto, colaborando assim para o desenvolvimento desse tipo
de empreendimento no país.
61

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO DA PESQUISA

Neste capítulo são apresentadas as informações coletadas nas pesquisas


histórica e empírica, bem como suas respectivas análises.

4.1 PESQUISA HISTÓRICA

Durante a Idade Média, a organização social, política e econômica do sistema


feudal se dava de forma descentralizada. O espaço físico disponível para a
realização das tarefas pelos trabalhadores dessa época, como os agricultores, os
sapateiros e os alfaiates, era a sua própria casa ou algum terreno concedido pelo
senhor feudal. O artesão transformava o seu lar em oficina, espaço de trabalho
onde, com a ajuda dos seus familiares e de jovens aprendizes, confeccionava os
seus produtos e realizava a venda diretamente aos seus clientes. O crescimento
populacional ensejado pelo aumento da produtividade, verificado em meados do
século XIV, acelerou o ritmo de surgimento e expansão das cidades. Dentro dos
espaços urbanos, intensificou-se a atividade comercial que passou a ser praticada
também a longas distâncias. Com isso, as cidades tinham de proteger o seu
artesanato da concorrência estrangeira. Para essa finalidade foram criadas as
corporações de ofício, associações de ajuda mútua entre os artesãos e mercadores,
que atuavam na defesa dos seus interesses sociais e econômicos e na organização
das suas atividades, estabelecendo uma relação de igualdade e fraternidade ao
invés da concorrência entre os seus membros. A corporação de ofício permitia o
monopólio local dos respectivos artesanatos aos seus participantes em troca da
garantia da qualidade dos produtos e da prática do preço justo (HUBERMAN, 1981).
A Revolução Francesa de 1748 escancarou as portas para o capitalismo e a
economia de mercado, baseando-se em ideais como a primazia dos direitos
individuais, liberdade de empreendimento, liberdade de comércio, etc. Com essa
mudança de paradigma, desenvolve-se uma oposição clara e forte à organização
econômica do Antigo Regime. Neste contexto, sob um ideal de instituir a igualdade
de tratamento entre cidadãos, a Revolução Francesa decide suprimir toda forma de
62

“intermediário” entre indivíduo e Estado. Dentre outras medidas, a burguesia que


ascendia ao poder político na França – e mais tarde em toda a Europa – determinou
a proibição das associações, sindicatos, greves e corporações de artesãos através
do decreto de Allarde, complementado pela lei Le Chapelier (1791), que proibia aos
operários toda forma de solidariedade. (DEMOUSTIER, 2001).
Aos poucos as mudanças iniciadas na França passaram a se difundir de
diversas formas em grande parte do continente europeu. Com a dissolução das
corporações, estabeleceu-se um sistema de concorrência entre os artesãos e a
prática do preço justo foi gradativamente sendo substituída pelo preço de mercado.
A facilidade que os trabalhadores tinham para abrir a sua própria oficina e a
igualdade de tratamento entre os artesãos, instituída pelas associações, tornou-se
algo do passado. Certos mestres mais afortunados passaram a olhar com
superioridade seus irmãos menos afortunados e a contratá-los como assalariados
para desempenhar as tarefas que antes realizavam em conjunto. Deste modo, o
patrão poderia se dedicar ao comércio e aos assuntos externos, enquanto os
empregados cuidavam da produção. Assim, o poder político e econômico passou
das mãos dos senhores feudais às mãos de uma burguesia capitalista em formação
(HUBERMAN, 1981).
Com a implantação do Estado liberal e a proibição de toda forma de
associação entre os trabalhadores, as famílias operárias ficaram sós diante do
mercado, dos empregadores e dos comerciantes (DEMOUSTIER, 2001). A
expansão dos mercados fez com que a estrutura do Antigo Regime se tornasse
obsoleta, pois esta se destinava ao atendimento de um mercado local e estável. Os
artesãos estavam preparados para realizar o comércio de uma cidade, mas o
comércio mundial era coisa totalmente diversa. A figura do intermediário, advinda de
alguns mestres mais afortunados, chamou para si a tarefa de fazer com que as
mercadorias produzidas pelos trabalhadores chegassem ao consumidor, que podia
estar a milhares de quilômetros de distância. Desta forma, o intermediário assume
as funções de mercador e comerciante, entregando a matéria-prima aos artesãos
(que ainda realizavam o trabalho em suas casas) e recebendo de volta o produto
acabado. O intermediário, ao perceber as vantagens da especialização, iniciou um
processo de reorganização da produção com objetivo de aumentar a produtividade,
conforme descrito por Adam Smith (1996):
63

Um operário desenrola o arame, um outro o endireita, um terceiro o corta,


um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação da
cabeça do alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-se 3 ou 4
operações diferentes; montar a cabeça já é uma atividade diferente, e
alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes também
constitui uma atividade independente. [...] Se, porém, tivessem trabalhado
independentemente um do outro, [...] certamente cada um deles não teria
conseguido fabricar 20 alfinetes por dia, e talvez nem mesmo 1 (SMITH,
1996, p. 66).

Devido à grande demanda de exportação para o Oriente, os intermediários


estavam ansiosos para acelerar a produção. Um número cada vez maior de
empregados era necessário para atender a crescente procura por força de trabalho.
Como os artesãos, antigos membros das corporações, já não eram suficientes para
dar conta do trabalho, homens, mulheres e crianças das aldeias passaram a ser
recrutados. Estes, por sua vez, não possuíam as ferramentas e o espaço de trabalho
necessário para produção. Com o objetivo de obter maior controle sobre a produção
e fornecer um espaço adequado aos trabalhadores das aldeias, os intermediários
passaram a construir edifícios próprios para a realização do trabalho. Ao invés de
entregar a matéria-prima para que os trabalhadores transformassem-na em produto
final na sua própria casa, o intermediário iniciou um processo de centralização da
produção em um único local, construindo assim a base do que viria a ser indústria
capitalista moderna (HUBERMAN, 1981).
Diversas inovações tecnológicas, com profundo impacto no processo
produtivo, ocorreram na Inglaterra em meados do século XVIII e desencadearam o
evento que ficou conhecido como Revolução Industrial. Com a criação dos grandes
centros industriais, contingentes populacionais saíram do campo para cidade em
busca de trabalho. O excesso de mão-de-obra resultante desse processo permitiu
aos capitalistas industriais explorar de maneira jamais vista o trabalho dos operários,
submetendo-os a uma jornada de trabalho de 16 horas na operação de máquinas
(muitas vezes insalubres) em troca de salários miseráveis. Mulheres e crianças
também passaram a ingressar no mercado de trabalho em condições piores. Essa
força de trabalho nova e despreparada enfrentou, durante um século, péssimas
condições de vida. Oficialmente proibidos, nesse período, de se organizarem em
associações para a defesa dos seus interesses de trabalho, os operários são
geralmente vítimas de grande exploração. Esse fenômeno levou à polarização da
sociedade em duas classes antagônicas: a dos capitalistas-proprietários dos meios
64

de produção e a dos proletários-vendedores de sua força de trabalho, gerando uma


relação de aguda oposição entre capital e trabalho. Esse modo de produção
provocou, por sua vez, concentração de riquezas nas mãos da minoria capitalista,
em prejuízo da maioria da população (SCHNEIDER, 2003). É importante
compreender que nessa nova fase da organização industrial os trabalhadores não
são mais donos nem da matéria-prima nem das suas ferramentas de trabalho como
eram os artesãos das corporações de ofício. Eles não vendem o produto acabado ao
capitalista, mas sim sua força de trabalho.
A igualdade de tratamento entre cidadãos (de origens desiguais) e a livre
concorrência não trouxeram o equilíbrio prometido pelo liberalismo: ao contrário,
instauraram uma ordem social injusta e imoral. Era necessária uma forma de
resistência ao espantoso empobrecimento dos trabalhadores provocado pela difusão
das máquinas e da organização fabril da produção. Arroyo e Schuch (2006) afirmam
que:

Os primeiros focos de pensamento da economia solidária surgem no início


do século XIX na Europa, com grande ênfase na França, cujos principais
pensadores foram Claude Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-
1873), Pierre Proudhon (1809-1865), e, na Inglaterra, Robert Owen (1773-
1858). Eles elaboraram modelos de sociedade mutualista, cooperativista e
solidária, porém não apresentaram uma formulação objetiva de como
transformar a sociedade da época e, em virtude disso, foram chamados por
Karl Marx de socialistas utópicos (ARROYO; SCHUCH, 2006, p. 25).

Os socialistas utópicos tiveram idéias diferentes entre si e propuseram


soluções diversas aos problemas da sociedade capitalista, mas possuíam em
comum teorias que reivindicavam a igualdade real entre os cidadãos e não apenas
aquela liberdade ideal promovida pela Revolução Francesa. Na primeira década do
século XIX, Robert Owen era proprietário de um imenso complexo têxtil em New
Lenark, Inglaterra. Em vez de explorar plenamente os trabalhadores que empregava,
Owen decidiu limitar a jornada de trabalho e proibir o emprego de crianças, para as
quais construiu escolas. O tratamento diferenciado que Owen dava aos assalariados
resultou em maior produtividade do trabalho, o que tornou sua empresa bastante
lucrativa, apesar de gastar mais com a folha de pagamento. Em 1815, a Grã-
Bretanha entrou em uma profunda depressão econômica em decorrência de um
longo ciclo de guerras na Europa. Em 1817, Owen apresentou uma proposta ao
governo britânico para auxiliar as vítimas da pobreza e do desemprego e
restabelecer o crescimento da atividade econômica. Seu plano previa a distribuição
65

de terras aos pobres e a construção de Aldeias Cooperativas, em cada uma das


quais viveriam cerca de 1.200 pessoas trabalhando na terra e em indústrias,
produzindo assim sua própria subsistência. Os excedentes de produção poderiam
ser trocados entre as Aldeias. Deste modo, os pobres seriam reinseridos à produção
em vez de permanecerem desocupados e não precisariam se submeter à
exploração nas fábricas capitalistas. Mas, na segunda metade do século XIX, o
governo britânico se negou a implementar o plano de Owen (SINGER, 2008).
Na França, Charles Fourier desenvolveu uma teoria “onde a sociedade
deveria se organizar de uma forma que todas as paixões humanas pudessem ter
livre curso para produzir uma harmonia universal”, conforme afirma Singer (2008, p.
36). O objetivo principal dessa organização social era dispor o trabalho de uma
forma que ele se tornasse atraente para todos. Para viabilizar esta sociedade,
Fourier concebeu a idéia do falanstério, uma comunidade suficientemente grande
(com aproximadamente 1.800 pessoas) para oferecer a cada um ampla liberdade na
escolha do seu trabalho. Mas o falanstério não é coletivista como a Aldeia
Cooperativa de Owen: nele ainda se preservam a propriedade privada e o mercado
como principal forma de trocas. De todo modo, Fourier propõe diversos mecanismos
de redistribuição das riquezas para evitar que a sociedade se polarize entre ricos e
pobres. Na prática, houve poucas experiências de falanstérios na França, tendo um
maior número surgido nos Estados Unidos. Estima-se entre 40 e 50 a criação de
falanstérios durante as depressões econômicas americanas do século XIX. A idéia
de que todos poderiam viver em comunidades autogeridas, sem a necessidade de
um Estado, fez com que Fourier fosse considerado um predecessor dos anarquistas
(SINGER, 2008).
Saint-Simon, filósofo e economista francês, é considerado um dos mais
importantes precursores do Socialismo, tendo cunhado a famosa frase: “a cada um
segundo sua capacidade, a cada capacidade segundo seu trabalho”. Este teórico,
quando fala em sociedade, imagina algo como uma grande fábrica, na qual a
exploração do homem pelo homem seria substituída por uma administração coletiva,
sendo que, neste contexto, não caberia mais a existência da propriedade privada.
Porém, nesta sociedade idealizada, haveria ainda certa desigualdade, pois,
baseando-se no modelo fabril, Saint-Simon previa hierarquização, sendo que no
topo estariam engenheiros, diretores de produção, cientistas e artistas, e abaixo
estariam os trabalhadores que executariam os projetos. Este foi o primeiro teórico a
66

perceber que o caráter da luta de classes estava intimamente ligado à economia e


que seria através dos trabalhadores que o futuro seria construído; todavia,
acreditava ele, somente se guiados por alguém. Por isso, Saint-Simon, bem como
Fourier, acreditava que era necessária a participação da burguesia em um processo
de modificação social, pois só das classes superiores poderia partir a iniciativa de
uma mudança (HUBERMAN, 1981).
Proudhon, considerado precursor do anarquismo, defendia uma sociedade
formada por pequenos produtores que utilizariam certificados de circulação ao invés
de dinheiro, trocando serviços sem a sobreacumulação financeira. A base da
teorização de Proudhon é a crítica à propriedade, que ele considera um “roubo”. O
pensador dá grande atenção também ao trabalho como construção coletiva (e não
individual), criticando a divisão do trabalho, que seria o princípio do pauperismo, pois
esta divisão é o pretexto para baixos salários. Acreditava Proudhon que a economia
deve ser entendida como ciência da produção humana, e não da produção material;
este pensamento leva a uma quebra de paradigma em relação à economia clássica,
centrada agora, enquanto economia política, no humano manifesto no trabalho
(ALMEIDA, 1983).
Estes teóricos, além de grandes idealizadores do Socialismo, foram também
protagonistas dos movimentos sociais e políticos de suas respectivas épocas.
Durante seu período de vida, tanto na França quanto na Inglaterra, havia proibições
quanto a associações civis, como a já citada Lei Le Chapelier e os Combination
Acts. Estes pensadores foram militantes ativos na causa trabalhista, lutando contra
estas leis e procurando criar alternativas aos trabalhadores. O cooperativismo
recebeu destes pensadores inspiração e base teórica, a partir dos quais os
participantes de empreendimentos solidários foram construindo novos caminhos,
através do método da tentativa e do erro (SINGER, 2008).
Após a revogação dos Combination Acts, em 1824, começa na Inglaterra um
surto de experiências cooperativas, bem como de movimentos sindicais. Baseada
nas necessidades dos trabalhadores frente à crescente exploração econômica e
orientada pelos princípios dos primeiros pensadores socialistas, surge na Inglaterra,
em 21 de dezembro de 1844, a primeira experiência bem-sucedida do que viria a ser
este novo modelo de organização. A cooperativa “Sociedade dos Pioneiros de
Rochdale” tinha a pretensão de instaurar um novo sistema econômico e social
baseados na cooperação e na solidariedade. Foi fundada por 28 trabalhadores,
67

dentre eles tecelões, alfaiates, carpinteiros e marceneiros. Já em 1848 possuía 140


membros, e em 1849, com a falência do principal banco da região, passou a ter 390
membros, enquanto o capital da cooperativa passou de 30,00 libras para 1.194,00
libras. Em 1860, já com 3.450 sócios, o seu capital era de 152.000,00 libras. A sua
importância não se limita ao fato de ter sido a primeira cooperativa formal a ser
fundada, e nem à evidente constatação do seu sucesso, mesmo dentro do ambiente
altamente competitivo da sociedade capitalista: além disso, a “Sociedade dos
Pioneiros de Rochdale”, em seu funcionamento, definiu as características
fundamentais do pensamento cooperativo que viria a ser a base das organizações
cooperativas até os dias de hoje (SCHNEIDER, 2003). Segundo Singer (2008, p.
27), “seria justo chamar essa fase inicial de sua história de ‘cooperativismo
revolucionário’, o qual jamais se repetiu de forma tão nítida. Ela tornou evidente a
ligação essencial da economia solidária com a crítica operária e socialista do
capitalismo”.
A multiplicação do número de sindicatos e de cooperativas em diversos
países europeus elevou o nível de organização do movimento operário até a
fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, também conhecida como
Primeira Internacional. No entanto, os seus membros estavam divididos por um
debate interno quanto à análise do capitalismo e a maneira de se emancipar da sua
dominação. Nos congressos de Paris, Lyon e Marselha, entre 1876 e 1879, os
marxistas se opõem aos proudhonianos e saem vitoriosos. Os marxistas denunciam
o modelo das manufaturas capitalistas inglesas e defendem a tomada do poder
político pelo proletariado para suprimir o antagonismo entre classes sociais; os
proudhonianos, mais próximos das concepções liberais dos economistas franceses,
defendem uma revolução econômica a partir do modelo da produção independente,
valorizando a produção coletiva e organizando as trocas econômicas por meio do
mutualismo e do federalismo. Karl Marx acusa as teses de Proudhon de ilusões
imediatas, que promoveriam mudanças excessivamente parciais. Devido aos
diversos embates travados entre a ala sindical e cooperativa do movimento operário,
os trabalhadores franceses optam pela sua divisão em dois movimentos distintos: o
movimento operário e o movimento cooperativo. Esta decisão também foi
alimentada pela lei 1884, que reconhece a liberdade sindical, mas limita os
sindicatos a uma ação de defesa profissional, proibindo-os de gerir diretamente
68

atividades econômicas remetidas a outras formas de organização (DEMOUSTIER,


2001).
Com a Revolução Russa de 1917, as teses de Karl Marx e Friedrich Engels,
principais autores do que ficou conhecido como “socialismo científico”, foram
transformadas por Lênin em possibilidade política concreta e ganharam o mundo,
inspirando dezenas de revoluções. Porém, a proposta de substituição total e
absoluta da dinâmica de mercado pelo planejamento estatal mostrou-se ineficaz
para construção democrática naquele momento, como pode ser verificado pela
resistência dos kolkhozy (fazendas coletivas) à adoção dos “Planos qüinqüenais”,
implementados por Stálin na União Soviética. A formação de um partido único levou
à concentração do poder nas mãos de uma elite dirigente, semelhante à
tecnoburocracia dos países capitalistas. A partir da avaliação do que ficou conhecido
como “socialismo real”, pensar a economia com base na solidariedade demonstrou-
se essencial para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e
democrática (ARROYO; SCHUCH, 2006).
A palavra autogestão é relativamente recente, tendo aparecido na língua
francesa no início dos anos 1960 como tradução literal da palavra servo-croata
samoupravlje (samo equivale ao prefixo grego auto e upravlje equivale
aproximadamente à gestão), e nasceu para descrever a experiência político-
econômico-social da Iugoslávia, iniciada por Josip Broz Tito, em ruptura com o
stalinismo. O Partido Comunista Iugoslavo seguiu os modelos sugeridos pela União
Soviética desde a sua fundação em 1919 até o final dos anos 1940, quando ocorre o
rompimento entre os dois países. Desde então, o modelo econômico da Iugoslávia
encaminhou-se no sentido de uma descentralização e, em 1950, o governo decide
pela introdução do sistema autogestionário, embasado (mesmo que não
declaradamente) em diversos aspectos do corpo teórico proposto por Proudhon. Os
diferenciais da organização econômica adotada pela Iugoslávia quando do seu
rompimento com a URSS foram a autogestão e o planejamento social, aliados à
manutenção do mecanismo de mercado (VENOSA, 1982; ALMEIDA, 1983).
Durante aproximadamente cinco séculos a história iugoslava havia tido como
unidade econômica fundamental a zadruga, que consistia em pequenas
comunidades, onde conviviam entre 10 e 80 membros, constituídas por várias
famílias consangüíneas ou com relações de parentesco, que possuíam em comum
os meios de produção, bem como regulavam em conjunto a propriedade e a vida da
69

comunidade. As zadrugas se consolidaram entre os povos eslavos e resistiram às


grandes transformações históricas do período. Esta experiência é comparável com
outras formas de comunismo doméstico primitivo, como o “ayllu” inca e o “kibutz”
israelense. O longo período em que as zadrugas foram uma importante forma de
organização econômica parece influir decisivamente para a posterior formação dos
empreendimentos autogestionários encontrados na Iugoslávia no século XX,
conforme afirma Venosa (1982):

Os princípios de ajuda mútua que encontramos presentes ainda hoje não


somente nas cooperativas agrícolas, mas também nas organizações de
trabalho associado, podem ser entendidos como sendo indicativos de
persistência e transformação das formas de solidariedade praticadas na
Iugoslávia durante séculos (VENOSA, 1982, p. 26).

Ao lado das práticas coletivas e de solidariedade mútua existiam também


normas de eqüidade e participação igualitária no processo de tomada de decisão.
Estas regras tornavam a zadruga distinta da família patriarcal, onde a estratificação
do poder e a hierarquia de privilégios eram acentuadas. O processo de decisão era
democrático e a divisão do trabalho se dava segundo sexo, idade e grau de
parentesco. A liderança e a chefia eram exercidas pelo “domacin”. A aptidão para o
trabalho e a realização de negócios era o principal requisito para a escolha do
“domacin”, que assumia um papel de direção econômica, moral e de vigilância, mas
também participava dos trabalhos na comuna local. Apesar de sua autoridade, ele
não deixava de consultar aqueles que eram ao mesmo tempo seus subordinados e
seus pares. Como a autoridade do chefe era delegada, ele conservava seu posto
enquanto gozasse da confiança e do respeito da comunidade. No caso de abuso
dos seus direitos, um conselho formado pelos adultos casados da comunidade tinha
o poder de destituí-lo do cargo. Este conselho era a instância máxima de decisão.
Acerca destas considerações sobre a zadruga, Venosa (1982) afirma que:

Comparando-se o modelo de autogestão das empresas iugoslavas e as


características de funcionamento da zadruga, podemos observar algumas
similaridades claras [...]. Reconhece-los equivale a desmistificar o credo da
autogestão, como o futuro inexorável, como estágio superior. Seria, em
última instância, reconhecer que, se a autogestão existe bem ou mal na
Iugoslávia, é devido ao fato de que ela era uma forma de organização
possível. No limite estaríamos também sugerindo a impossibilidade de
intelectuais com origem social em frações de classes dominantes
“adivinharem” qual a melhor organização para a classe operária (VENOSA,
1982, p. 34).
70

Outra experiência importante de autogestão no século XX ocorreu durante a


Guerra Civil Espanhola. Após a I Guerra Mundial, a Espanha passou por um período
de grande instabilidade política, quando se intercalavam épocas de quase ausência
de governo com épocas de ditadura militar. Nos anos 30 do século XX, a Espanha,
governada pela “trindade reacionária” (Exército, Igreja e Latifúndio), representava
um anacronismo frente ao restante da Europa, moderna politicamente. Por um lado,
a monarquia estava definitivamente fora de questão, e por outro, o país não parecia
apto a uma república burguesa. A proclamação da república em 1931, o motim
militar de 1932, a supressão, pelo governo, de um movimento anarquista em 1933 e
a repressão, pelo exército, de um movimento popular austríaco em 1934 levam a
esquerda partidária espanhola à vitória eleitoral por maioria absoluta em 1936. O
exército e outros segmentos sociais conservadores da Espanha se revoltam contra o
novo governo socialista, e, neste mesmo ano, eclode a Guerra Civil Espanhola.
Segundo Almeida (1983, p. 50), “por todo o país, os trabalhadores e os camponeses
tomaram as fábricas e as terras abandonadas por seus proprietários em virtude da
guerra, dando início a um sistema autogestionário que vigorou até 1939, quando a
ditadura fascista toma o poder”.
Nas fábricas, reduziu-se a jornada de trabalho, a disparidade de salários foi
contida através do estabelecimento de teto mínimo e máximo, a aposentadoria foi
regulada por 35 anos de trabalho ou 70 anos de idade compulsória; nas
coletividades camponesas, foram criados salários-família e aposentadorias,
fundaram-se bibliotecas e escolas, médicos e veterinários foram contratados, houve
aumento da terra arável e impulso à avicultura. A coletivização não se deteve nas
fábricas ou pequenas aldeias, mas expandiu-se por todo o território nacional, através
de congressos e federações. Porém, esse movimento teve um grande inimigo: o
Banco, que estava em poder da burguesia republicana. Como os socialistas e o
PPCC espanhóis não quiseram obrigar a burguesia a comprar armas com o ouro do
Banco, estas foram adquiridas com ouro do Estado e fornecidas pela URSS, que
vivia em uma organização absolutamente diversa da espanhola naquele momento e
brindou somente seus partidários e a burguesia, que desejava recuperar as fábricas
e as terras. O apoio da URSS foi muito controverso e gerou o esfacelamento do
movimento, conforme afirma Almeida (1983, p. 50): “A divisão dos trabalhadores
provocada pela URSS e sua atitude conciliatória com a burguesia espanhola
levaram a coletivização à morte”.
71

As organizações autogestionárias espanholas se organizavam internamente


da seguinte maneira: o proprietário é substituído por um conselho de trabalhadores
nomeado, que pode ser destituído a qualquer momento. Este conselho, que
representa o pessoal, dá coesão e coordena o trabalho, é constituído por operários,
empregados e técnicos, sendo que nenhuma força estranha aos próprios
trabalhadores interfere no trabalho do conselho, havendo autonomia completa.
Externamente, os conselhos relacionam-se entre si conforme afinidades funcionais,
formando seções de produtores de artigos afins (sindicatos de indústria ou ofício);
porém, estas novas instituições não têm ingerência alguma na estruturação interna
dos locais de trabalho, salvo na resolução de questões mais globais, como a
modernização do instrumental, a fusão ou coordenação de fábricas, a supressão de
estabelecimentos improdutivos ou pouco rentáveis, etc. Os sindicatos coligam-se de
acordo com as funções básicas da economia (necessidades fundamentais, matérias-
primas, relacionadores, indústrias de elaboração, etc.) em 17 Conselhos de ramo,
que se unem por delegações ao Conselho Local de Economia, e este ao Conselho
Regional, e, por fim, ao Conselho Federal de Economia, formando uma cadeia que
visava permitir uma vinculação entre todas as funções para formar um conjunto de
processo de produção e distribuição. Esses poderes são administrativos, recebendo
as diretrizes de baixo e devendo ajustar-se às resoluções anteriores; trata-se de um
quadro de relações e nada mais (Almeida, 1983). Como se pode perceber pela
descrição acima, muitas características da experiência autogestionária espanhola
são relacionáveis com o ideal esperado de um empreendimento solidário hoje.
Durante grande parte do século XX, movimentos cooperativos e
autogestionários sofreram certa diminuição, aparentemente devido ao Estado de
bem-estar social (Welfare State) estabelecido no período pós-crise de 1929 com a
teoria keynesiana, que defende a intervenção do Estado na economia. Esta forma
de organização se desenvolve mais fortemente na Europa, principalmente com a
ampliação do conceito de cidadania, com o fim dos regimes totalitários europeus e
com a hegemonia de governos social-democratas. Neste modelo, o Estado é visto
como protetor social e organizador econômico, sendo que, conforme seus princípios,
todo indivíduo tem certos direitos inalienáveis que deveriam ser garantidos pelo
poder público, como educação, assistência médica, auxílio ao desempregado,
garantia de renda mínima, etc. Desta forma, com um Estado forte e responsável pelo
indivíduo, o desemprego era praticamente nulo. Na medida em que direitos sociais e
72

trabalhistas foram sendo conquistados, o movimento operário passou a lutar pela


manutenção e ampliação destas conquistas em vez de lutar contra o assalariamento
através da busca de uma alternativa emancipatória (SINGER, 2008).
Apesar dos bons resultados do Estado de bem-estar social no início, na
segunda metade da década de 1970 surge uma nova crise do sistema capitalista, a
crise do petróleo, que resulta em um forte movimento contra o keynesianismo. Este
movimento defende que a “mão invisível” do mercado, mencionada por Adam Smith,
substituiria com vantagem a regulação estatal existente até aquele momento,
propondo, portanto, uma re-atualização dos ideais liberais que ficou conhecida como
neoliberalismo. Com cidadãos e trabalhadores sós novamente frente ao mercado,
sem a proteção de um Estado regulador, ressurge a onda de desemprego e a
conseqüente flexibilização dos direitos trabalhistas adquiridos, já que aqueles que
mantêm seu posto de trabalho obrigam-se a se sujeitar a piores condições de
trabalho. Nesse contexto, reaparece o processo cooperativista/associativista, com
objetivo de lutar contra a exclusão social, salvar e criar empregos. Surgem também
movimentos sociais e étnicos que trouxeram como conseqüência uma nova visão
social quanto à política, economia e relação do homem com o meio ambiente
(ARROYO; SCHUCH, 2006).
De acordo com Arroyo e Schuch (2006), as idéias de economia solidária
começaram a ser fortemente difundidas no Brasil através da chegada das notícias
da Revolução Francesa e das idéias dos socialistas utópicos, trazidas pelos
imigrantes europeus no final do século XIX. Formaram-se sindicatos, cooperativas e
ligas camponesas fortemente ligadas entre si. Na década de 1980, constata-se um
forte endividamento dos países em desenvolvimento graças às políticas
keynesianas, que se estenderam de 1945 a 1975, o que dificultou o acesso ao
crédito. A década de 1990 é marcada pela globalização, em que se formam blocos
econômicos com integração monetária, econômica e financeira e o avanço
tecnológico quebra barreiras políticas, econômicas e sociais, tudo sob a hegemonia
neoliberal. Essas décadas são de sucessivas crises financeiras que abalaram o
crescimento econômico, causando não somente desemprego, mas também a
diversificação das relações de trabalho: crescem formas alternativas, como o
trabalho por conta própria, o trabalho coletivo/solidário, o trabalho informal, e até
mesmo o trabalho escravo e infantil. Nesse contexto, a economia solidária ressurge
como defesa da classe trabalhadora ao processo neoliberal de abertura da
73

economia e de privatizações que se iniciou com o presidente Fernando Collor de


Mello e continuou durante os mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso,
multiplicando a pobreza no país (ARROYO; SCHUCH, 2006).

4.2 PESQUISA EMPÍRICA

4.2.1 Descrição do processo de seleção das organizações

Na primeira etapa da análise comparativa, entrou-se em contato com o


Sindicato das Indústrias do Vestuário do Rio Grande do Sul (SIVERGS) e o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) com o objetivo de
obter uma listagem das empresas em que a pesquisa pudesse ser aplicada. As
relações enviadas totalizaram 120 empresas; a partir de então, foi realizada uma
organização das listagens recebidas, agrupando as empresas conforme o número
de funcionários, a localidade e o tipo de produto confeccionado. A etapa seguinte
consistiu em realizar um primeiro contato, por telefone ou e-mail, com as 60
empresas selecionadas a partir dessa organização. Nessa etapa, foram encontradas
diversas dificuldades, pois grande parte das empresas não demonstrou interesse em
participar da pesquisa devido à falta de tempo. Ao fim dessa fase, de um universo de
60 empresas, 4 aceitaram participar do estudo em questão, a saber: a Confraria
Masculina, a DiTrevi Jeans, a JAAN Jeans e a Office Collection.
Quanto aos empreendimentos de economia solidária, tinha-se conhecimento
prévio da existência da Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens)
devido ao seu destaque, e desde o primeiro contato houve claro interesse em
participar da pesquisa, como é de praxe nesta cooperativa. A atual presidenta da
Univens, Nelsa Nespolo, ocupa também o cargo de Secretária Geral da UNISOL
Brasil, e forneceu o contato de outras 3 cooperativas: Coopermodas, Construsol e
Gerasol, que também se prontificaram a colaborar com o estudo em questão.
Finalizada a etapa dos contatos telefônicos, todos os empreendimentos
selecionados foram visitados e os dados foram coletados através do formulário
aplicado pessoalmente por um entrevistador.
74

4.2.2 Caracterização das organizações pesquisadas

Nesta seção, são descritas as informações obtidas através dos formulários


aplicados durante a pesquisa empírica nas organizações.

4.2.2.1 Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens)

A Cooperativa Univens foi fundada em maio de 1996, quando 35 mulheres,


frente à dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal, reuniram-se para a
formação de uma alternativa de inclusão econômica. Atualmente sediada na Rua
Afonso Paulo Feijó, número 501, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, a Univens
conta com 25 trabalhadores e produz uniformes para indústrias, escolas, creches e
academias, além de camisetas, agasalhos, calças, moletons e sacolas, realizando
também serigrafia em tecido. Entre seus clientes estão diversas empresas e
instituições como sindicatos, prefeituras e eventos como o Fórum Social Mundial.
Inicialmente, havia sido agendada uma entrevista com a presidente da
cooperativa, Sra. Nelsa Nespolo. No entanto, durante a visita realizada na sede da
organização, a Sra. Elisete Coelho Silva, costureira associada à cooperativa desde a
sua fundação, foi indicada para responder as questões deste trabalho.
Na organização interna da cooperativa, as funções de cunho administrativo
são desempenhadas por uma diretoria executiva, composta por presidente, vice-
presidente, dois secretários e dois tesoureiros. Além deste órgão, existe um
conselho fiscal composto por seis trabalhadores. Estes cargos são definidos através
de eleições realizadas de 3 em 3 anos, nas quais todos os trabalhadores têm igual
direito à candidatura. No entanto, tem-se observado a permanência da mesma
dirigente na presidência desde o princípio da cooperativa, por vontade geral dos
trabalhadores. Apesar disso, estas instâncias não se configuram como níveis
hierárquicos na organização: elas estabelecem apenas uma forma de divisão do
trabalho, uma vez que todos os trabalhadores são consultados antes da tomada de
decisões de nível tático e estratégico. Os cargos dirigentes têm autonomia apenas
para a realização de atividades operacionais de âmbito administrativo.
75

Todos os trabalhadores realizam tarefas na produção, independente de


pertencerem ou não à diretoria ou ao conselho de administração. A distribuição das
tarefas de produção entre os trabalhadores é realizada pela presidente da
cooperativa, que no inicio de cada dia separa os pacotes com os pedidos dos
clientes e entrega aos trabalhadores. Eles realizam o seu trabalho com total
autonomia de forma e horário, inclusive podendo optar entre trabalhar na sede da
cooperativa ou em sua própria casa. As etapas do processo produtivo são divididas
em corte, costura e serigrafia, sendo todas realizadas na própria cooperativa. A
partir do pedido do cliente, são solicitados de 10 a 15 dias de prazo, nos quais se
realizam a compra do tecido, a produção e a entrega. O sistema de produção é
semelhante à organização em células, onde pode haver rotatividade entre as tarefas
de um mesmo setor, ou até mesmo entre setores diferentes, conforme o interesse
de cada trabalhador.
A circulação de informações sobre os objetivos, metas e questões
estratégicas da organização entre os trabalhadores acontece através de uma
assembléia mensal, onde são expostos os principais acontecimentos do período e é
debatido o planejamento das ações para o período subseqüente. Esta é a principal
ferramenta de envolvimento dos trabalhadores nos processos de tomada de
decisão. No entanto, todos participam ativamente, inclusive em tarefas do dia-a-dia,
como realização de compras, vendas, trabalhos de banco, limpeza, etc. Além da
assembléia mensal, outros instrumentos são utilizados para garantir o envolvimento
e a rotatividade dos trabalhadores nas tarefas diárias, como a utilização de listas de
disponibilidade para cada tarefa. Estes instrumentos se aplicam igualmente para os
dirigentes da cooperativa. Atualmente, a grande maioria dos trabalhadores
apresenta interesse ativo em participar da gestão do empreendimento. Foram
criadas cláusulas no estatuto da cooperativa para garantir a participação de todos
nas assembléias mensais, sendo que, segundo essas regras, nenhum trabalhador
pode faltar a mais de três reuniões, e o seu descumprimento resulta em multa.
Perguntada sobre a importância dos produtos da organização frente à
sociedade, Silva afirmou que o trabalho da cooperativa atende a necessidades
básicas de consumo, sendo uma atividade essencial na sociedade. Além disso, o
trabalhador sente orgulho ao ver o trabalho acabado e reconhece a importância de
ter participado de todo o processo produtivo, e não apenas de uma etapa; dessa
forma, o trabalhador se percebe no que produziu, diferentemente do que acontece
76

geralmente em uma empresa capitalista. Na sua visão, o principal objetivo da


cooperativa é garantir o sustento das muitas famílias que estão por trás dos
trabalhadores envolvidos e crescer cada vez mais para agregar novos
trabalhadores.
A produção individual (costureiras) ou por setor (corte e serigrafia) é o fator
que determina os rendimentos auferidos pelos trabalhadores e dirigentes da
organização. O processo de controle sobre a produção se dá através de uma
caderneta que é mantida pelas próprias costureiras, e ao final de cada mês é
realizado pela tesouraria o cálculo da remuneração de cada uma conforme a sua
produção. Já entre os trabalhadores do corte e da serigrafia, o controle se dá de
forma unificada e o rendimento no final do mês é dividido de acordo com o número
de trabalhadores. O recolhimento do INSS fica a cargo de cada trabalhador. As
despesas da cooperativa (água, luz, telefone, etc.) são divididas igualmente entre os
trabalhadores e abatidas do rendimento mensal. Além disso, 10% da remuneração
de cada trabalhador é retida pela cooperativa, sendo, atualmente, 5% destinado a
um fundo de reserva (relativo a despesas extras), e os outros 5% reservados para a
distribuição de uma espécie de “13º salário”.
Considerando que a remuneração depende basicamente da produção, a
escala de diferença entre o menor e o maior ganho pode variar bastante.
Atualmente, a faixa salarial fica entre R$ 500,00 e R$ 1.500,00. Por exemplo,
algumas costureiras já aposentadas, senhoras mais velhas que já tem um ritmo mais
lento de trabalho, continuam costurando para complementar a renda, mas ganham
menos do que as que produzem mais e mais rápido. A divisão de lucros ocorre
anualmente e de forma igualitária, excetuando os trabalhadores que ainda não
completaram um ano e, por isso, recebem proporcionalmente ao período trabalhado.
Além dos benefícios financeiros, a cooperativa proporciona aos seus associados
oportunidades de educação continuada, através de parcerias com instituições de
ensino.
A postura estimulada pela organização no desenvolvimento das funções de
produção é a cooperação, tanto que ocorre o compartilhamento de conhecimentos
entre os trabalhadores, como quando da entrada de novos cooperados, que são
auxiliados pelos mais antigos. Porém, como a remuneração é proporcional à
produção, existe certa competitividade espontânea entre as costureiras. Como o
ritmo de produção varia entre os trabalhadores de acordo com suas próprias
77

condições (idade, disponibilidade, experiência, etc.), alguns deles conseguem obter


uma produção maior e, portanto, uma maior remuneração ao final do período de
trabalho. A cooperativa busca manter em seus produtos o padrão de preços
operados pelo mercado; mesmo desta forma, há uma preocupação interna em
distribuir entre as partes envolvidas a remuneração obtida pelo produto de forma
justa. Em virtude da sua política de inclusão social, a cooperativa institui a
prioridade aos moradores da vila onde se estabelece, ou das proximidades, como
critério para entrada de novos cooperados. Atualmente, é cobrada uma cota de R$
260,00 quando do ingresso na organização, que serão devolvidos em caso de
desligamento, o que, todavia, ocorre pouco na cooperativa. Na maioria das vezes,
estes acontecem por iniciativa dos próprios trabalhadores. Quando há quebra de
algum regulamento da cooperativa, todos os trabalhadores decidem em conjunto na
assembléia geral as medidas a serem tomadas, já que o presidente não possuiria
autoridade para tomar esse tipo de decisão sozinho.
Não há preocupação, por parte da cooperativa, com as demais empresas
atuantes no mesmo seguimento. A sua demanda se dá principalmente por meio de
encomendas, de forma que os próprios clientes realizam os pedidos. A Univens já
possui uma fatia de mercado consolidada e uma utilização plena da sua capacidade
de produção; deste modo, ela não realiza esforço de vendas. O único ponto
comercial que a cooperativa mantém é uma loja no Mercado Público de Porto
Alegre, a Porto Alegre Solidária.
Como parte da sua estratégia de colaboração com demais empreendimentos
de economia solidária, a Univens integra a Cadeia Ecológica do Algodão Solidário
Justa Trama, de abrangência nacional. Os empreendimentos pertencentes a esta
cadeia cobrem todos os elos da indústria têxtil, desde o plantio do algodão até a
confecção das roupas, contando com mais de 700 associados. Em todos os estágios
da cadeia produtiva há uma política de promoção de um novo modelo de
desenvolvimento baseado na sustentabilidade e na solidariedade: o algodão é
cultivado sem o uso de agrotóxicos e utilizando técnicas de conservação do solo e
da água, e o fio e o tecido são confeccionados com o cuidado de não contaminar o
algodão; além disso, todas as etapas do processo são realizadas por trabalhadores
cooperados, de forma que a marca pertença a todos os envolvidos.
A cooperativa possui diversos projetos envolvendo a comunidade, dentre os
quais se destacam uma creche comunitária, um centro social para crianças e um
78

centro de cultura, além de participar do projeto Brasil Alfabetizado. Além disso, no


que se refere a práticas de consumo responsável, a organização reaproveita ou doa
a terceiros todas as sobras de produção, para a confecção de brinquedos, por
exemplo. Entretanto, o controle sobre a matéria-prima e a forma como ela é
produzida só é observado no que tange à Justa Trama.
A organização já recebeu benefícios do Estado na forma de linhas de crédito
especiais e doações da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil; no entanto,
a maior parte do apoio recebido adveio de ONGs, como a UNISOL, e organizações
sindicais. Os apoios mais significativos vêm da organização do próprio movimento
solidário e de sua relação com outros movimentos sociais e trabalhistas, porquanto
os governos ainda não atuem de forma expressiva nesta área.

4.2.2.2 Henrique Fontana & Cia. LTDA (DiTrevi Jeans)

A DiTrevi Jeans é uma empresa gaúcha com 53 anos de atuação no mercado


de vestuário. Caracteriza-se como uma empresa familiar, comandada hoje por um
dos filhos do seu fundador. A organização conta atualmente com 80 funcionários,
estando 48 destes alocados na área de produção. Sua principal linha de produtos é
a de calças e camisetas, voltada para o público adulto, feminino e masculino, das
classes B e C. Para o público feminino, além das peças tradicionais em jeans, a
DiTrevi cria e confecciona vestidos, blusas e conjuntos. No inverno, além da coleção
ditada para a estação, também são confeccionadas jaquetas e, no verão, bermudas
masculinas e femininas. Todos os produtos são lançados sob uma marca própria e
cada confecção é desenhada pelos seus próprios estilistas. A distribuição é
realizada por 18 representantes que atuam nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e
Sul. Hoje, a marca está presente em mais de 1.000 pontos de venda e está situada
entre as principais marcas do Sul do Brasil.
A entrevista foi realizada com o Sr. Paulo Fontana, que ocupa atualmente o
cargo de sócio-diretor da empresa e trabalha nela há 27 anos. Além do nível dos
sócios-diretores, a empresa conta com mais dois níveis hierárquicos, compostos
pelos gerentes e pelos trabalhadores. A organização está dividida nos setores:
administrativo (que engloba a contabilidade, realizada internamente), faturamento e
79

produção. Ela conta também com uma loja própria que atua no varejo e como
pronta-entrega para outros lojistas; no entanto, a comercialização se dá
principalmente através de representantes. Ocorrem três lançamentos de coleções
durante o ano: primavera-verão, alto-verão, e outono-inverno. Dentro das etapas do
processo produtivo, primeiramente é desenvolvido o design da coleção; após a
aprovação dos protótipos, são confeccionadas 18 amostras de cada modelo, que
são repassadas aos representantes. Os representantes visitam os clientes em seus
Estados e enviam os pedidos à produção, que é subdividida nas seguintes fases:
molde, risco, infesto do tecido (processo de abertura do tecido na mesa de corte),
corte, separação, costura, acabamento, embalagem e expedição.
Grande parte dos processos já estão padronizados e a produção é realizada
de forma “mecânica” pelos trabalhadores. Os supervisores de produção realizam a
distribuição das tarefas entre os trabalhadores e controlam a seqüência do trabalho
na fábrica. Os trabalhadores estão dispostos entre os setores segundo as suas
especialidades. Não se verifica a possibilidade de autonomia dos trabalhadores no
desempenho das suas tarefas; no entanto, há rotatividade de trabalhadores entre
tarefas semelhantes. A programação da produção é determinada pelos sócios-
diretores e gerentes da fábrica através de uma reunião que é realizada a cada
bimestre. Nesta reunião são estabelecidas metas diárias de produção, que são
repassadas aos trabalhadores no chão de fábrica pelos gerentes. Esporadicamente
são realizadas novas reuniões de cúpula para controlar o cumprimento das metas do
período. Normalmente não há o envolvimento dos trabalhadores nos processos de
tomada de decisão; eventualmente alguns trabalhadores são consultados, quando
ocorre algum problema mais sério na produção, mas essa prática não é muito usual.
Os gestores percebem o interesse por parte de alguns trabalhadores em dar a sua
opinião sobre os processos de gestão da empresa; no entanto, os sócios preferem
não utilizar métodos de participação dos funcionários. Não existe nenhum
instrumento formal na empresa para a coleta da opinião dos trabalhadores, nem
eleições para os cargos de gerência ou supervisão: todos os ocupantes de cargos
de chefia são selecionados pelos proprietários da empresa.
O critério para a definição dos salários dos trabalhadores de produção é o
piso estabelecido pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário de
Porto Alegre, que hoje se situa em R$ 506,26 para novos contratados e R$ 556,61
para efetivados (após os 90 dias do contrato de experiência). Não há nenhuma
80

política de divisão de lucros entre os funcionários. A escala de diferença entre o


maior e o menor salário, considerando as demais funções, além da produção, é de
10 vezes. A organização não estimula a formação e qualificação continuada dos
trabalhadores; no entanto, existe uma política de contratação de estagiários em
grande número, os quais na maioria das vezes são efetivados. Para a contratação
de novos trabalhadores, é realizada uma entrevista, onde o gestor avalia as
habilidades do candidato e verifica seu histórico em outras empresas; é levada em
conta também a sua estrutura familiar para a aceitação na empresa. Não é
registrado um grande índice de rotatividade de trabalhadores na empresa, todavia,
cabe apenas aos gestores e sócios-diretores a decisão sobre o desligamento de
funcionários.
A postura fomentada internamente pela DiTrevi, entre os seus funcionários,
na busca pelos resultados, é a cooperação, pois a competição é avaliada como
inapropriada dentro do ambiente de produção. Já no âmbito externo, de mercado, a
empresa atua com base na competitividade. Sua principal estratégia de competição
é a diferenciação dos seus produtos; para tanto, ela investe fortemente em
pesquisas com foco em modelagem e design, buscando uma combinação ideal
entre conforto e beleza para os seus produtos. Por não se tratar de uma marca
muito famosa, a DiTrevi procura manter um preço médio frente aos seus
concorrentes. Para auxiliar a definição dos preços dos produtos, é utilizada uma
planilha de custos que envolve itens como impostos, obrigações, matéria-prima e
mão-de-obra. A organização não participa de nenhuma rede ou cadeia; entretanto,
faz parte da setorial de confecção do SEBRAE, que reúne mensalmente
empresários da área para realização da troca de informações sobre o setor.
Na perspectiva de Fontana, a sua empresa faz um trabalho social, além de
lucrativo, pois atua a 53 anos de forma “correta”, com todos os impostos legalizados
e todas as leis trabalhistas obedecidas, além de ofertar um produto de desejo aos
seus consumidores - a moda, que proporciona a sua auto-realização. Para Fontana,
a importância dos trabalhadores é total dentro da empresa, pois sem eles nada do
que foi conquistado seria possível. O principal objetivo da organização hoje é a
ampliação da sua participação no mercado nacional, expandindo as suas vendas
para todos os Estados do Brasil. A organização não desenvolve nenhum tipo de
projeto socioambiental, não possui nenhum critério que valorize o respeito ao meio
ambiente e a remuneração justa dos trabalhadores na seleção dos seus
81

fornecedores, não estimula a prática de consumo responsável e solidário, nem


trabalha com alguma política de inclusão de pessoas excluídas; no entanto, existem
planos para a criação de práticas neste sentido no futuro.

4.2.2.3 Coopermodas

A Coopermodas, situada na Rua Vigário José Inácio, número 303, sala 6, no


Centro de Porto Alegre, participa há 6 anos do ramo de vestuário, produzindo uma
grande variedade de artigos, como kimonos e camisetas. A cooperativa não possui
lojas próprias: apenas comercializa a sua produção diretamente para outras
empresas. Atualmente, conta com 20 trabalhadores, todos atuando diretamente na
produção. A entrevista foi realizada com a Sra. Jussara Morales, associada da
cooperativa desde a sua fundação e ocupante do cargo de coordenadora geral.
Conforme Morales, a cooperativa não possui níveis hierárquicos e não existe
uma distinção clara entre os setores da organização. Cada trabalhador realiza
tarefas com as quais está mais familiarizado, tendo total autonomia para isso. A
circulação de informações sobre os objetivos, metas e questões estratégicas da
organização se dá através da assembléia geral, que ocorre anualmente; porém, as
cooperadas realizam reuniões informais, sem periodicidade definida, para trocar
informações e tomar decisões no período entre as assembléias, pois o custo de
realização da assembléia geral, em um período menor de tempo, é muito elevado
para a cooperativa. Morales afirma que não há muito interesse por parte dos
trabalhadores em participar da gestão: apenas 4 ou 5 pessoas se interessam, e,
aparentemente, a grande maioria preocupa-se somente em garantir a sua
remuneração financeira. Existem eleições para os cargos dirigentes entre os
trabalhadores: de 2 em 2 anos é renovada a diretoria, que possui 4 membros, e
anualmente é renovado o conselho fiscal.
A postura fomentada internamente pela organização na busca pelos
resultados é a cooperação. O processo produtivo se inicia com o recebimento do
pedido do cliente, logo após é realizada a compra do tecido e seguem-se as etapas
de corte e costura. A serigrafia é terceirizada, e após esta etapa os produtos são
embalados e enviados para o cliente. A divisão do trabalho entre estas etapas se dá
82

de acordo com a especialidade e a experiência dos trabalhadores. Não há nenhuma


política específica de rotatividade, mas todos sabem desempenhar diversas tarefas
para preencher lacunas, quando necessário.
Na sede da cooperativa trabalham atualmente 4 associados, e os demais
trabalham em sua própria casa. Toda a produção realizada na sede da cooperativa é
dividida por 5 partes iguais, sendo 4 partes convertidas em remuneração para os
trabalhadores da sede e a quinta parte reservada para o pagamento dos custos e
despesas de produção, bem como para o re-investimento na cooperativa. Os
associados que não realizam o seu trabalho na sede da cooperativa recebem de
acordo com a sua produção, não havendo valor fixo nem quota de divisão pré-
determinada. De sua remuneração também é descontada uma parte para o re-
investimento na cooperativa. Devido ao sistema distinto de remuneração aos
associados, a escala de diferença entre a menor e a maior retirada sofre oscilação a
cada período, podendo chegar a 10 vezes; no entanto, a média mensal é de 5 vezes
de diferença. Atualmente não existe nenhuma política de divisão de lucros ou
sobras, pois todo o excedente não pago aos trabalhadores acaba sendo gasto ou re-
investido na cooperativa por conta das suas dificuldades financeiras.
O principal critério para a entrada de novos associados na cooperativa é o
conhecimento dos processos de produção da indústria, pois não são realizados
cursos internos de capacitação profissional. Não se possibilita a formação e
qualificação continuada dos trabalhadores pela dificuldade de se estabelecer
parcerias com instituições de ensino. Atualmente, é cobrada uma quota de R$
200,00 para a entrada de novos associados. Todo o desligamento é votado em
assembléia, mas isso não ocorre com muita freqüência. O valor referente à cota de
associação não tem sido devolvido ao trabalhador devido às dificuldades financeiras
que a cooperativa vem enfrentando.
A relação predominante entre a cooperativa e o mercado é de competição. No
entanto, a organização não possui nenhuma estratégia definida de competitividade
frente aos seus concorrentes, pois, de acordo com Morales, é muito difícil concorrer
com as empresas capitalistas, que possuem capital de giro, um número maior de
trabalhadores, maior poder de barganha com os fornecedores, etc. A cooperativa
tem alguns clientes antigos que seguem com ela, e não visualiza possibilidades de
expansão do seu negócio.
A Coopermodas não participa de nenhuma rede ou cadeia produtiva, e
83

considera que o meio cooperativo é muito individualista. Segundo Morales, o


cooperativismo seria somente um nome: os ideais são bonitos, mas na prática não
há muita cooperação entre os empreendimentos. Pode-se perceber que, devido às
dificuldades enfrentadas pela cooperativa, a sua coordenadora demonstra uma certa
frustração em relação ao movimento da economia solidária em si. O
empreendimento não desenvolve nenhum tipo de projeto socioambiental, não possui
nenhum critério que valorize o respeito ao meio ambiente e a remuneração justa dos
trabalhadores na seleção dos seus fornecedores, não estimula a prática de consumo
responsável e solidário, nem trabalha com alguma política de inclusão de pessoas
excluídas.
A organização não recebe e nunca recebeu nenhum tipo de apoio ou
benefício do Estado ou de outras instituições para o desenvolvimento das suas
atividades. Morales considera que a estrutura organizacional da Coopermodas se
assemelha em diversos aspectos com a das empresas capitalistas. Ela afirma que o
fato de estarem constituídas como cooperativa não lhes traz nenhum benefício, e
inclusive gera dificuldades na comercialização dos seus produtos, devido ao
preconceito existente no mercado em relação a este modelo organizacional. O
principal objetivo da cooperativa é manter financeiramente os trabalhadores e suas
famílias.

4.2.2.4 Anglia Industrial LTDA (Confraria Masculina)

A Confraria Masculina atua na criação e na confecção de moda masculina,


oferecendo aos seus clientes uma ampla linha de vestuário em trajes sociais e
esportivos. Conta também com uma coleção de calçados e acessórios, como
gravatas e cintos. A sua fábrica fica situada na Avenida Chicago, número 257, no
bairro Floresta, em Porto Alegre. Além da unidade industrial, a empresa possui uma
ampla rede de lojas ao consumidor final, estabelecidas nos principais pontos de
venda de Porto Alegre, como os shoppings Total, Iguatemi, Praia de Belas e Rua da
Praia, além de uma loja na Rua Borges de Medeiros, no centro da cidade. Ao todo, a
organização conta com a colaboração de 40 funcionários, sendo 20 destes alocados
nos processos de produção. Os dados deste trabalho foram fornecidos pelo Sr.
84

Carlos Frederico Schnaedecke, proprietário da Confraria Masculina.


A indústria fabrica apenas para as suas próprias lojas. Não há a realização de
pedidos ou encomendas pelos clientes. O principal critério que determina a
produção é sazonalidade: a estação do ano determina se serão produzidas mais
camisetas de manga curta ou longa, por exemplo. Conforme as vendas das lojas, o
ritmo de produção na fábrica é aumentado ou diminuído. Para cada estação é
realizada a pesquisa dos melhores fornecedores; logo após a entrega do tecido ele é
encaminhado para o corte e a costura. Depois de finalizadas as peças, estas são
embaladas e enviadas para as lojas. Todas as etapas do processo produtivo já
estão previamente definidas, e os trabalhadores já são contratados para realizar
uma determinada tarefa ou um grupo de tarefas conforme as suas habilidades. Não
há nenhum sistema definido de rotatividade de funcionários entre as diferentes
tarefas realizadas pela organização; no entanto, eventualmente ocorrem
recolocações por motivo de desligamento de algum trabalhador.
A autoridade na empresa está disposta em 3 níveis hierárquicos. No topo da
pirâmide está o proprietário, em um nível intermediário estabelecem-se os gerentes
da indústria, e, na sua base, encontram-se os trabalhadores. A gerência é
encarregada de repassar aos funcionários as metas e objetivos de produção,
definidos pelo proprietário, e de fiscalizar a sua produtividade. Todos os processos
de tomada de decisão são realizados no topo da estrutura organizacional; sendo
assim, não ocorre envolvimento dos trabalhadores nas questões estratégicas. Os
trabalhadores se ocupam apenas de tarefas operacionais, reproduzindo o que lhes
foi determinado pelos gerentes de produção. Nesta configuração das relações de
trabalho, não há autonomia por parte dos funcionários da produção na realização do
seu trabalho, pois as suas tarefas são padronizadas, controladas pelos gerentes da
empresa e realizadas de forma repetitiva.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de participação dos trabalhadores
na gestão da organização, conforme os modelos mais recentes de administração
adotados por empresas de outros setores, Schnaedecke afirmou que na indústria do
vestuário não se considera necessário consultar os funcionários além do nível
gerencial para a tomada de decisão. Antigamente, havia uma caixa de sugestões
para os trabalhadores na sua empresa, mas este sistema foi desativado por falta de
uso. Não é percebido, por parte de Schnaedecke, qualquer interesse de participação
dos trabalhadores na gestão da organização. Segundo ele, os funcionários não
85

possuiriam a base necessária para isso. Com base nestas afirmativas, a


organização não utiliza nenhum instrumento de empoderamento do trabalhador ou
de gestão democrática nos seus processos.
A empresa não utiliza a concessão benefícios por produção como forma de
estimular a produtividade: aposta-se na postura de colaboração entre os
trabalhadores como forma de ampliar os ganhos para a organização. Para se tornar
competitiva no mercado, a empresa faz grandes investimentos em pesquisa,
procurando atender os itens de maior procura pelos seus clientes, e busca manter o
seu custo interno o mais baixo possível em relação aos seus concorrentes. A
Confraria Masculina não participa de nenhuma rede ou cadeia produtiva, de forma
que ela não efetiva um modelo de cooperação na sua relação com o mercado.
O sistema de remuneração dos funcionários da empresa é baseado no
padrão do mercado e da indústria do vestuário, o que consolida um valor médio de
R$ 556,61 de salário para os trabalhadores. Alguns funcionários ganham um pouco
mais de acordo com as suas habilidades e a disponibilidade de cada tipo de mão-de-
obra no mercado de trabalho. A escala de desigualdade entre o salário dos
trabalhadores da produção e as demais funções exercidas na empresa é de 4 vezes
entre o menor e o maior. Não é praticada nenhuma política de divisão de lucros
entre os trabalhadores. Não existe nenhum programa de qualificação técnica dos
funcionários; apenas eventualmente a empresa os auxilia na realização de cursos de
informática. A entrada de novas pessoas na organização ocorre de acordo com a
necessidade de mão-de-obra: buscam-se novos profissionais quando ocorrem
saídas ou quando é necessário ampliar a produção. Os principais critérios para
contratação são habilidade, tempo de experiência e custo da mão-de-obra. As
principais causas de desligamento de trabalhadores são aposentadorias e
problemas de família ou de doença.
A organização não desenvolve nenhum tipo de projeto socioambiental, pois
avalia que não há necessidade, já que ela se considera uma indústria limpa, que,
por não trabalhar com produtos químicos, não agride o meio-ambiente. Em linhas
gerais, a composição dos seus preços é realizada de acordo com os custos de
insumos acrescidos dos custos de mão-de-obra. Não ocorre a inserção de pessoas
excluídas na organização, pois, segundo Schnaedecke, existem poucos portadores
de deficiência que possuem habilidades para a costura. Na visão do proprietário da
Confraria Masculina, os seus produtos não são significativamente importantes do
86

ponto de vista social, pois a sociedade não ficará melhor ou pior por conta deles.
São todos produtos de mercado que atendem a uma demanda específica como
muitos outros. Deste modo, a sua organização busca apenas diferenciá-los para
atingir uma maior penetração a um preço adequado.

4.2.2.5 Construsol

A Construsol, sediada na Rua Marcos Cruchin, número 160, no bairro Vila


Farrapos, em Porto Alegre, é composta por um grupo de 20 costureiras, formado há
5 anos, que produz essencialmente por facção. Neste sistema, as fábricas de
grande porte terceirizam a etapa de costura do seu processo produtivo, entregando
o molde e o tecido já cortado às costureiras, que realizam o fechamento das peças e
as entregam como produto acabado. As encomendas ocorrem em grandes
quantidades, no entanto, a margem de ganho das costureiras é muito pequena. A
cooperativa tem dificuldades de estabelecer uma linha própria de produtos,
vinculando a sua demanda quase que exclusivamente aos pedidos das fábricas.
Deste modo, ocorre uma grande oscilação de oportunidades de trabalho dentro da
cooperativa, sendo que, no momento da realização da entrevista, apenas 3
trabalhadores estavam efetivamente produzindo. A Sra. Ivone Beatriz Gomes
Rodrigues, associada há 5 anos e atual coordenadora da organização, forneceu as
informações para o presente trabalho.
Apesar da existência de um nível de coordenação do trabalho, este não se
configura como nível hierárquico, já que os trabalhadores têm ampla autonomia para
desenvolver o seu trabalho, inclusive havendo rotatividade das pessoas entre as
diferentes tarefas realizadas pela cooperativa. Segundo Rodrigues, o trabalho
extremamente especializado, como ocorre nas fábricas capitalistas, onde cada um
realiza apenas uma função repetitivamente, é muito degradante para o trabalhador
e, desta forma, ele não tem a possibilidade de evoluir profissionalmente. No entanto,
apesar deste sistema diferenciado de divisão do trabalho, não é verificado o
envolvimento ativo de todos os trabalhadores nos processos decisórios,
principalmente porque há grande frustração em relação ao desenvolvimento lento da
cooperativa. Desta forma, a organização ainda não possui um processo definido
87

para circulação de informações sobre objetivos, metas e questões estratégicas entre


os trabalhadores. Na maioria das vezes, estas informações são repassadas através
de conversas informais, ficando restritas ao grupo que está produzindo. Atualmente,
devido ao pequeno número de cooperados na produção, não são realizadas
assembléias, mas existem eleições para os cargos dirigentes de 2 em 2 anos.
A organização possui etapas distintas no seu processo produtivo dependendo
do tipo de cliente. Quando o cliente é uma pessoa física, ele realiza o pedido na
sede da cooperativa, então as costureiras adquirem a matéria prima, realizam o
desenho, o corte, a confecção e a entrega do pedido ao cliente. Quando o cliente é
uma fábrica, ele adquire a matéria prima junto aos seus próprios fornecedores,
elabora os moldes das peças, que muitas vezes já chegam cortadas às costureiras,
que então realizam apenas o fechamento das peças, e os produtos acabados são
repassados para a fábrica.
A postura fomentada internamente para a busca de resultados é a
cooperação, sendo que as trabalhadoras com mais habilidade e experiência buscam
auxiliar no trabalho das outras. A organização não possui nenhuma estratégia
definida de competitividade frente ao mercado, pois, em seu sistema de trabalho,
são os seus clientes (as fábricas que terceirizam uma parte da sua produção) que
determinam o valor que será pago por cada peça confeccionada. Deste modo, a
cooperativa não possui poder de barganha 5 e muitas vezes é levada a aceitar um
valor muito baixo pela realização do seu trabalho, uma vez que a demanda por
produção própria é muito baixa. Também não há nenhum tipo de relação definida
com outras cooperativas, seja de competição ou de cooperação, até porque, quando
uma cooperativa tem aumento de demanda, geralmente ela busca agregar novos
trabalhadores, e não repassar o trabalho para outra cooperativa. Do mesmo modo, a
Construsol não participa de nenhuma rede ou cadeia produtiva; segundo Rodrigues,
as redes existentes de economia solidária são muito fechadas. A cooperativa já
recebeu apoio de sindicatos e entidades como a Cáritas Brasileira, mas não de
órgãos governamentais.
Diferentemente das cooperativas citadas anteriormente, a Construsol não
adotou um sistema de ganho por produção, por considerar que isso não é justo e

5
O poder de barganha é definido por Michael Porter como uma das cinco forças de mercado que
devem ser estudadas para que uma organização possa desenvolver uma estratégia empresarial
eficiente (MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 2000).
88

gera animosidade entre as trabalhadoras. Há uma divisão igualitária, inclusive nos


excedentes anuais, sendo que não há nenhuma escala de diferença de ganhos.
Desde a fundação da cooperativa, ainda não houve nenhum novo ingresso,
tampouco desligamento de associados. Devido às dificuldades financeiras da
organização, não houve possibilidade até o presente momento de propiciar a
formação continuada e a qualificação das trabalhadoras.
Na visão de Rodrigues, a importância dos seus produtos e da sua
organização é garantir a subsistência dos trabalhadores, e o seu principal objetivo
no momento é fazer a cooperativa crescer, adquirindo novos clientes, para assim
poder agregar novos trabalhadores ao empreendimento. A cooperativa não tem
conseguido realizar nenhum tipo de projeto socioambiental na comunidade em que
está inserida, entretanto as trabalhadoras se envolvem pessoalmente em projetos
deste tipo. Também não há na organização nenhum tipo de critério que valorize o
respeito ao meio ambiente e a remuneração justa dos trabalhadores na seleção dos
seus fornecedores, bem como a inserção de pessoas excluídas ou alguma forma de
estímulo à prática de consumo responsável e solidário.

4.2.2.6 ACTI Com. Serv. de roupa LTDA (Office Collection)

A Office Collection é uma empresa gaúcha com 17 anos de atuação no


segmento de vestuário profissional. Especializada na confecção de uniformes para o
setor hoteleiro, hospitalar e de aviação, a empresa tem a sua sede estabelecida em
Porto Alegre, na Rua Sete de Abril, número 349, mas atende clientes em todo o
Brasil através dos seus escritórios comerciais em São Paulo, Brasília, Minas Gerais,
Santa Catarina e Rio de Janeiro. Ao todo, a empresa conta com uma equipe de 70
funcionários, sendo 40 destes destinados à produção. Ao ser contatada sobre a
possibilidade de realização deste trabalho, a Sra. Luiza Stadtlander, proprietária da
organização, indicou a sua gerente comercial, Sra. Andriele Becker, para a
realização da entrevista.
Atualmente, a empresa está subdividida em 6 setores para o desenvolvimento
das suas tarefas, a saber: financeiro, comercial, modelagem, produção, expedição e
de representação. Segundo Becker, existem 3 níveis hierárquicos dentro da
89

organização; os funcionários são subordinados aos gerentes, que por sua vez são
subordinados aos proprietários. Os processos de produção já estão todos
previamente definidos, de modo que não se verifica muito espaço para a autonomia
dos trabalhadores no desenvolvimento das suas funções. A empresa não realiza um
controle de produção baseado no estabelecimento de metas como as demais: o
controle sobre o ritmo de produção é realizado diretamente pelos gerentes. Alguns
gerentes consultam, de maneira informal, a opinião de seus funcionários para a
tomada de decisões, mas este procedimento depende do perfil de cada gerente,
uma vez que não se trata de uma política estabelecida pela organização. Alguns
trabalhadores demonstram interesse em expor as suas opiniões sobre a gestão da
produção e da empresa como um todo, mas esta oportunidade não é explorada de
forma ampliada pela empresa. Nenhum instrumento formal é adotado para a
efetivação de práticas democráticas, como a realização de assembléias para
definição dos rumos da organização, a coleta da opinião dos trabalhadores ou a
realização de eleições para os cargos de gestores.
O processo produtivo se inicia através da realização do pedido, que é
encaminhado por algum dos escritórios comerciais da empresa; logo após, as peças
são destinadas ao corte, à costura, ao acabamento, à supervisão da qualidade e,
por fim, à expedição. Não há rotatividade por parte dos trabalhadores entre as
diferentes tarefas da produção devido ao alto nível de especialização exigido para
cada tarefa. Assim como as demais empresas capitalistas entrevistadas, a Office
Collection se baseia no piso do Sindicato do Vestuário para definir os salários dos
seus funcionários, e não existe nenhuma política de repartição de lucros. Existe um
sistema de treinamento dentro da própria empresa, pelo qual passam todos os
funcionários recém-contratados antes de iniciarem as suas atividades na empresa.
Segundo Becker, a principal causa das pessoas se desligarem da empresa é o
stress excessivo na produção.
Com relação às formas de colaboração interna, a noção de interdependência
é estimulada entre os trabalhadores, com o objetivo de favorecer a cooperação na
busca pelos resultados. Já com relação às formas de colaboração externa, de
acordo com Becker, a empresa possui um produto diferenciado de alto padrão, com
um longo histórico de reconhecimento da sua qualidade pelo mercado, que facilita
suas vendas e fideliza os seus clientes. Deste modo, a estratégia de atuação no
90

mercado adotada pela empresa é a do Oceano Azul 6, uma vez que não há
preocupação em relação aos seus concorrentes. A empresa opera de forma isolada
no mercado, não participando de nenhuma rede ou cadeia produtiva. Desde a sua
fundação, ela nunca recebeu nenhum tipo de apoio ou benefício por parte do
Estado.

4.2.2.7 Gerasol

A Gerasol, sediada na Rua Dona Cledi, número 665, no bairro Caveira, em


Gravataí, é uma cooperativa estabelecida há 20 anos no mercado, que compreende
9 trabalhadores. A organização trabalha principalmente por facção, mas também
com produção própria, procurando priorizar este serviço em detrimento do trabalho
terceirizado. A cooperativa envolve-se eventualmente em feiras e eventos de
economia solidária, buscando valorizar seu trabalho próprio. A entrevista foi
realizada com a Sra. Marilaine Sagiomo, atual tesoureira da cooperativa, associada
há 2 anos e meio.
Conforme observado nas demais cooperativas pesquisadas, a Gerasol se
organiza através de uma pessoa responsável por coordenar e dividir o trabalho
(presidente), mas essa forma de organização não se efetiva como nível hierárquico.
Os trabalhadores realizam suas tarefas de forma absolutamente autônoma, sendo
que, eventualmente, dependendo do tipo de trabalho, um ensina ao outro como
realizá-lo. A circulação de informações de cunho administrativo da organização entre
os trabalhadores se dá diretamente através do coordenador, que as repassa
conforme julga necessário pelos planos relativos à demanda de serviço. Há boa
participação dos trabalhadores na gestão da cooperativa, sendo que os
coordenadores se encarregam das tarefas administrativas, mas todos se mantêm
informados sobre os rumos da organização, havendo, assim, envolvimento geral.
Internamente, a Gerasol estimula a cooperação entre os trabalhadores, de

6
Modelo de estratégia desenvolvida por W. Chan Kim e Renée Mauborgne, que afirma que as
empresas, ao invés de concorrer com os seus rivais no mercado, devem buscar novos nichos e
diferenciar os seus produtos, fazendo da concorrência um fator irrelevante (MINTZBERG;
AHLSTRAND; LAMPEL, 2000).
91

forma que uma complemente o trabalho da outra. A única estratégia para tornar a
cooperativa competitiva é o controle do preço em relação ao mercado, realizando
inclusive pesquisas neste sentido. Perguntada sobre a relação entre a organização e
os seus concorrentes de mercado, Sagiomo afirmou que prevalece a cooperação, já
que há integração entre os empreendimentos de economia solidária, através de
fóruns, feiras e diversas atividades em conjunto, sendo que a Gerasol participa de
diversas organizações e eventos deste tipo. A maior parte do apoio recebido pela
cooperativa vem de sindicatos e de instituições ligadas à economia solidária, através
da doação de máquinas e equipamentos; entretanto, atualmente as trabalhadoras da
cooperativa estão recebendo aulas de administração realizadas pela Prefeitura
Municipal de Gravataí, que recentemente criou a Secretaria Municipal da Economia
Solidária, com o objetivo de apoiar estes empreendimentos.
O principal instrumento democrático utilizado na cooperativa é a assembléia
geral, porém, devido ao pequeno número de cooperadas e à baixa demanda de
serviço, não há freqüência exata, sendo que os trabalhadores se reúnem quando há
necessidade. A meta é que a assembléia se realize uma vez por mês. As eleições
para cargos dirigentes e conselho fiscal se realizam de 3 em 3 anos, sendo que
todos os trabalhadores têm igual direito à candidatura.
Porquanto a Gerasol trabalhe freqüentemente por facção, as etapas do
processo produtivo se dão da seguinte maneira: geralmente, o tecido já vem
cortado, sendo que o que é realizado na cooperativa é a costura. Como as fábricas
são maiores do que as cooperativas, são elas que determinam o valor a ser pago
por unidade. Por não possuir poder de barganha, a cooperativa tem de aceitar um
valor irrisório pelo seu serviço. No entanto, esta é uma modalidade de trabalho que
possui uma demanda mais estável do que a dos clientes próprios da cooperativa e
ela viabiliza sua continuidade. O ideal da cooperativa é que ela possa trabalhar cada
vez mais com seus próprios produtos e clientes. O fator que determina a divisão do
trabalho na cooperativa é a experiência; porém, todos os trabalhadores realizam
diversas tarefas, e uns auxiliam aos outros em suas tarefas: os trabalhadores mais
rápidos, que terminam antes o seu trabalho, ajudam os outros para que todos
possam ter o mesmo rendimento. A maior importância da cooperativa, na visão de
Sagiomo, é a qualidade dos produtos, que geram uma boa imagem. Neste
momento, a cooperativa está focada em obter uma sede própria, pois atualmente
está funcionando na casa de um dos cooperados.
92

As remunerações são absolutamente igualitárias, sendo que, ao final do mês,


o rendimento é calculado e dividido em partes iguais, retirando-se os gastos
efetuados no período e os 10% referentes ao fundo da cooperativa. A divisão de
excedentes é realizada também de forma igualitária, de forma que todas os
cooperados são responsáveis pelo empreendimento e estão sujeitos a arcar com
prejuízos na mesma medida em que têm direito de receber os excedentes.
Conforme Sagiomo, para ingressar na Gerasol basta saber costurar e ter força de
vontade. O estatuto da cooperativa prevê o pagamento de uma cota de capital para
o ingresso de um novo cooperado, mas atualmente essa cota não está sendo
cobrada, pois a cooperativa está passando por um momento de reestruturação. Até
o presente momento, só ocorreram desligamentos da cooperativa por vontade
própria dos trabalhadores.
No momento, a Gerasol não desenvolve projetos socioambientais na
comunidade, mas pretende fazê-lo assim que a sede da cooperativa estiver
construída. Existem planos de integração com as escolas da região, oferecendo
cursos de costura e serigrafia para ajudar no desenvolvimento da comunidade, bem
como de inclusão de pessoas excluídas no empreendimento. A cooperativa também
tem tido dificuldades de pôr em prática o que se refere à formação e qualificação das
trabalhadoras. A organização estimula a prática de consumo responsável e solidário
através de práticas de reaproveitamento e reciclagem de materiais, mas não possui
nenhum critério que valorize o respeito ao meio ambiente e a remuneração justa dos
trabalhadores na seleção dos seus fornecedores, pois tem se preocupado
basicamente com o preço e a qualidade dos materiais comprados.

4.2.2.8 JAAN Ind. Com. Confecções LTDA (JAAN Uniformes)

A JAAN Uniformes atua desde 1988 no ramo de uniformes profissionais,


atendendo a diversos segmentos, como indústrias, empresas do ramo alimentício,
hospitalar, de segurança, condomínios, entre outros. É especializada na elaboração
e confecção de calças, camisas, jaquetas, guarda-pós, macacões, bermudas,
camisetas, moletons, botinas, sapatos e outros produtos do setor. Dentre os seus
principais clientes estão a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, a Petrobrás, o
93

Shopping Total e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua fábrica está
estabelecida na Rua Amapá, número 511, no bairro Nonoai, em Porto Alegre, onde
atualmente trabalham 20 funcionários, sendo 10 destes alocados na produção.
Nesta empresa foi entrevistado o Sr. Arthur Pereira, que ocupa atualmente o cargo
de Administrador da Produção.
A empresa está dividida em 5 setores: administrativo, corte, produção,
serigrafia e acabamento. Por não possuir lojas próprias, todos os pedidos são
realizados diretamente pelos clientes através do seu site ou via telefone. Existem 3
níveis hierárquicos na empresa, compostos pelos sócios, gerentes e trabalhadores.
Todos os processos são padronizados. No início do dia, os gestores organizam e
distribuem as tarefas entre os trabalhadores e determinam a forma com que elas
devem ser desempenhadas, informando-os sobre as metas de produção. Não se
verifica a possibilidade de autonomia por parte dos trabalhadores no desempenho
das suas tarefas. Os trabalhadores não são envolvidos nas questões estratégicas;
eventualmente, eles participam das decisões de assuntos operacionais da produção,
quando surgem problemas no desenvolvimento do seu trabalho, como falta de tecido
ou a necessidade de adaptação de alguma peça. A postura estimulada internamente
pela organização é de cooperação, mas externamente as relações são
absolutamente competitivas, sendo que a empresa não participa de nenhuma rede
ou cadeia produtiva. A estratégia de competição da JAAN Uniformes se baseia no
posicionamento, através da ênfase na qualidade e exclusividade dos seus produtos,
bem como na rapidez da produção e na entrega dos pedidos, que geralmente
supera a de seus concorrentes. Além disso, a empresa possui um site e uma equipe
de vendedores para impulsionar suas vendas.
Na primeira etapa do processo produtivo, os vendedores encaminham os
pedidos para o departamento comercial, que tem a função de verificar o tipo de
material necessário para a produção e a sua disponibilidade em estoque. Logo após,
os tecidos são enviados para a etapa de risco e corte. Em seguida, as peças são
costuradas e fechadas. O último estágio é o de acabamento, onde são pregados os
botões e as peças são passadas e embaladas. Em média, o tempo de entrega do
pedido ao cliente é de 15 dias. Cada setor já possui a sua divisão pré-estabelecida e
os trabalhadores são alocados segundo as suas especialidades. A rotatividade dos
trabalhadores entre as tarefas só ocorre em situações excepcionais, quando há, por
exemplo, um pedido de grande urgência e os funcionários são recolocados para que
94

seja possível cumprir o prazo estabelecido.


Quando perguntado sobre a utilização de instrumentos democráticos na
tomada de decisões, Pereira afirmou que a empresa não utiliza nenhum instrumento
formal para a coleta da opinião dos trabalhadores, apesar de alguns trabalhadores
demonstrarem interesse em participar dos processos decisórios. Não existem
eleições para os cargos de gerência, sendo que todos os ocupantes de cargos de
chefia são selecionados pelos proprietários da empresa e geralmente são
contratados externamente.
Segundo o Pereira, a importância da JAAN Uniformes frente à sociedade está
relacionada com a necessidade dos seus clientes de uma boa apresentação, por
parte dos seus funcionários, para a realização de novos negócios. A empresa
trabalha primordialmente com a confecção de uniformes e considera este o principal
cartão de visita das empresas. O maior objetivo da organização é a busca do
reconhecimento no mercado da qualidade dos seus produtos.
Assim como as demais entrevistadas, no que se refere aos critérios para a
definição dos salários, a empresa segue o padrão da categoria, considerando o piso
do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário de Porto Alegre. É
verificada uma pequena variação para alguns funcionários de acordo com a sua
habilidade e tempo de trabalho na empresa. A escala de diferença entre o menor e o
maior salário é de 2 vezes; porém, esta escala foi estabelecida desconsiderando a
área de vendas, que atinge salários maiores devido ao comissionamento. Não existe
nenhuma política de divisão de lucros entre os trabalhadores. Diferentemente das
outras organizações pesquisadas, o principal critério para a contratação de novos
funcionários é a indicação. O quadro de funcionários se mantém estável, ao passo
que não é registrada grande rotatividade de pessoas. O desligamento de algum
funcionário geralmente só ocorre quando ele não atinge as metas de produção. A
organização não desenvolve nenhum tipo de projeto socioambiental, pois acredita
que não agride de nenhuma forma o meio ambiente; não possui nenhum critério que
valorize o respeito ao meio ambiente e a remuneração justa dos trabalhadores na
seleção dos seus fornecedores, não estimula a prática de consumo responsável e
solidário, nem trabalha com alguma política de inclusão de pessoas excluídas.
95

4.3 ANÁLISE COMPARATIVA DAS ORGANIZAÇÕES

Dentre todas as organizações pesquisadas, a Univens é a que possui os


melhores indicadores de desenvolvimento, além de o maior número de afinidades
eletivas com o tipo ideal de um empreendimento de economia solidária bem
desenvolvido. As características da sua organização, tanto interna quanto
externamente, preenchem praticamente todos os requisitos para a sua classificação
como um empreendimento solidário bem sucedido, no que se refere à análise da
sua gestão, colaboração, democracia, do seu tipo de divisão do trabalho, a
valorização dos seus trabalhadores e das suas políticas de sustentabilidade.
É verificado o nível pleno de efetivação do sistema de autogestão, uma vez
que as decisões são descentralizadas, sendo tomadas pelos trabalhadores através
da assembléia mensal e de outras formas que buscam o envolvimento de todos na
administração do empreendimento. A posse coletiva dos meios de produção e os
métodos democráticos de gestão garantem a não existência de níveis hierárquicos
entre os trabalhadores ocupantes de cargos de direção e os demais. A realização de
eleições de 3 em 3 anos para os cargos dirigentes, juntamente com a alternância de
trabalhadores nestes cargos (com exceção do cargo de presidente, que é ocupado
pela mesma pessoa desde a fundação da cooperativa), e os métodos de
participação direta dos trabalhadores, qualificam esta organização como uma
democracia participativa.
A Univens mantém uma periodicidade adequada para a realização da sua
assembléia geral, em um espaço de tempo nem muito curto, que poderia gerar
prejuízo à produção, e nem muito longo, que poderia distanciar os trabalhadores dos
acontecimentos e das decisões tomadas pelos dirigentes. Já os demais
empreendimentos solidários possuem dificuldades em realizar as suas assembléias
regularmente, por isso se utilizam de instrumentos informais para a tomada de
decisões de curto prazo, como a realização de reuniões e conversas entre os grupos
envolvidos. No entanto, eles realizam eleições para os cargos dirigentes de acordo
com a freqüência estabelecida nos seus estatutos. Deste modo, as dificuldades em
obter a plena participação da maioria dos trabalhadores na gestão do
empreendimento, devido em grande parte a uma cultura de heterogestão dominante
na sociedade, podem qualificá-los como uma democracia representativa.
96

Na Univens, as pessoas são consideradas sujeitos competentes e


responsáveis pela definição das suas próprias ações, diferentemente das empresas
capitalistas, onde, neste seguimento, elas ainda são tratadas como recursos de
produção. Em comparação com todas as organizações pesquisadas, a Univens é a
que fornece as maiores remunerações para os seus trabalhadores, podendo chegar
a um valor mensal de R$ 1.500,00 (cerca de 3 vezes mais do que a média das
empresas capitalistas) e a distribuição anual de excedentes na faixa dos R$
3.000,00. A adoção do critério de igualdade na divisão dos excedentes anuais e de
desigualdade na divisão dos rendimentos mensais (atrelados à produtividade de
cada trabalhador) demonstra a combinação de políticas de solidariedade com
métodos tradicionais que estimulem o aumento da produtividade e mantenham os
trabalhadores mais habilidosos associados à cooperativa. Todavia, a solidariedade
prevalece sobre a competição, como pode ser observado pelo auxílio concedido dos
mais habilidosos aos trabalhadores com um ritmo menor de produção, fundando
uma relação capaz de conservar sua viabilidade econômica e de modo que os
conceitos de eficiência e eficácia abranjam também questões éticas, sociais e
ambientais. No grupo das cooperativas pesquisadas, a Univens é a única que
proporciona a qualificação continuada dos seus trabalhadores, internamente e
através do estabelecimento de parcerias com instituições de ensino.
Os trabalhadores realizam o seu trabalho com autonomia de forma e horário;
existe um sistema de rotatividade tanto entre tarefas de produção quanto entre
tarefas de produção e administrativas, de forma que se efetiva a busca pelo
reagrupamento das atividades manuais e intelectuais e a criação de um novo
sistema de divisão do trabalho mais consciente, diverso do modelo mecanicista e
alienante, advindo das teorias tayloristas e empregado até os dias atuais pelas
empresas capitalistas pesquisadas. Nas cooperativas, a percepção da importância
da organização e dos seus produtos frente à sociedade está vinculada à
necessidade básica do ser humano de se vestir e à auto-realização dos seus
trabalhadores como membros do tecido social, diferentemente das empresas
capitalistas, que se associam ao desejo ou à imagem dos seus clientes ou sequer se
consideram importantes na sociedade, como é o caso da Confraria Masculina.
Dentre todos os empreendimentos pesquisados, a Univens é a organização
que mais recebeu apoio de instituições governamentais e não-governamentais, o
que pode apontar uma das causas do seu êxito. Ela é a única organização que
97

integra uma cadeia produtiva de abrangência nacional, a Justa Trama, da qual se


origina a sua principal linha de produtos. A partir desses produtos, a cooperativa visa
à construção de um novo modelo de desenvolvimento e de novos paradigmas de
relação do ser humano com a natureza e entre si, pois toda a matéria-prima é
cultivada sem a utilização de agrotóxicos e todos os trabalhadores que fazem parte
da cadeia são membros de empreendimentos de economia solidária.
Já entre as empresas capitalistas pesquisadas, a DiTrevi Jeans se apresenta
como a mais próxima do tipo ideal de empresa capitalista bem desenvolvida, pois
nela verifica-se a possibilidade de rotatividade de trabalhadores entre tarefas
semelhantes e uma relativa participação deles nos processos decisórios, mesmo
que sem a utilização de um instrumento definido para a consulta dos trabalhadores.
Ao lado da DiTrevi, a Office Collection possui os melhores índices de envolvimento e
interesse dos trabalhadores na gestão da organização; no entanto, o envolvimento
dos trabalhadores ocorre de maneira informal e reduzida ao escopo de questões
operacionais da produção, de modo que os trabalhadores não tomam conhecimento
dos assuntos estratégicos de sua organização. Conforme já visto, o poder de
decisão fica centralizado, em última instância, nos sócios-diretores, que delegam
uma parte da sua autoridade aos gerentes-supervisores, configurando uma
administração oligárquica.
De modo geral, nas empresas capitalistas o proprietário e os gestores têm
concentrado em suas mãos o poder de contratação e desligamento de trabalhadores
da organização, ao contrário do que acontece nos empreendimentos de economia
solidária, onde, devido à relação de igualdade e à não-separação entre
comandantes e comandados, todos os desligamentos precisam ser votados em
assembléia, com a participação de todos os trabalhadores. Além deste método de
desligamento, a Univens possui um critério diferenciado para a entrada de novas
pessoas na cooperativa, pois de acordo com a sua política de inclusão e
desenvolvimento local, somente são aceitos trabalhadores que residam nas
proximidades da organização. As empresas capitalistas se baseiam geralmente na
experiência, nos conhecimentos, no custo e nas habilidades dos trabalhadores para
realizar contratações e também se utilizam de indicações. As demais cooperativas
possuem critérios semelhantes às empresas capitalistas e não possuem métodos
bem definidos no tratamento de questões de pessoas, uma vez que há baixo índice
de rotatividade e esta não é uma preocupação.
98

A DiTrevi é a organização de maior porte entre as pesquisadas (80


funcionários no total) e de maior tempo no mercado (53 anos); no entanto, a faixa de
remuneração dos seus trabalhadores da produção segue o mesmo padrão das
demais empresas capitalistas, vinculado ao piso do Sindicato dos Trabalhadores nas
Indústrias do Vestuário de Porto Alegre, que se situa entre R$ 506,26 e R$ 556,61.
A empresa conta também com a maior desigualdade de remuneração dentre as
empresas capitalistas, de 10 vezes, e é a única deste grupo que não proporciona a
qualificação continuada dos trabalhadores.
É verificada certa incongruência entre os discursos e práticas dos
proprietários e gestores das empresas capitalistas no que se refere à importância
dos trabalhadores da produção, pois, ao mesmo tempo em que afirmam que sem
estes nada do que foi conquistado seria possível e que a sua importância é total
dentro da organização, estes trabalhadores são os que possuem os menores
salários e as piores condições de trabalho, ao contrário do que acontece nos
empreendimentos solidários. No que se refere a estes últimos, o discurso e a prática
assemelham-se e seguem vinculados à teorização, que indica a necessidade de
valorização do ser humano na organização como forma essencial deste novo tipo de
empreendimento. O modelo solidário, altamente participativo, tem potencial
libertador para seus participantes, que podem desenvolver-se além do nível
operacional da produção, limitação esta observada nas empresas capitalistas deste
segmento. A utilização de instrumentos democráticos, a autonomia e o incentivo a
práticas cidadãs e sustentáveis colocam o trabalhador em um novo patamar de
crescimento profissional, estimulando suas potencialidades como um todo: o
trabalhador é capaz de sentir-se responsável por si mesmo e pelo empreendimento
do qual participa, enxergando-se no seu trabalho e nos efeitos deste na sociedade.
A Univens e a Coopermodas optam por um sistema misto de distribuição
igualitária e remuneração proporcional à produção entre os seus trabalhadores,
enquanto a Construsol e a Gerasol mantêm um sistema único de divisão igualitária
de rendimentos e excedentes, mas possuem planos de adoção de um sistema de
remuneração vinculado à produção. No grupo das empresas capitalistas
pesquisadas, nenhuma organização utiliza sistemas de remuneração variável nem
realiza divisão de lucros entre os trabalhadores.
Dentre todas as organizações pesquisadas, solidárias e capitalistas, a
Univens é a única que realiza projetos socioambientais na comunidade em que está
99

inserida, considera critérios sustentáveis para a seleção de fornecedores e possui


uma política de inclusão de pessoas. Do mesmo modo, a Univens juntamente com a
Coopermodas e a Gerasol, são as únicas que estimulam a prática de consumo
responsável entre os seus trabalhadores. Entretanto, nenhuma organização
pesquisada considera critérios de sustentabilidade para a definição dos preços de
seus produtos.
Os pontos em que as empresas capitalistas se apresentam em um estágio
mais avançado de desenvolvimento do que os empreendimentos de economia
solidária são: a elaboração de estratégias competitivas, a comercialização e a
organização da confecção de produtos próprios e a composição de preços de venda.
Em geral, as cooperativas buscam dentro da sua rede de relacionamentos (clientes
fidelizados, redes, feiras de associativismo e outras organizações) os meios para
conquistar novos negócios e manter as suas vendas, de modo que não é realizado
nenhum esforço adicional de vendas. A despreocupação com os seus concorrentes
de mercado, bem como a falta de um planejamento formal de marketing e vendas,
pode tornar estas organizações vulneráveis às ameaças externas. Com exceção da
Univens, os empreendimentos de economia solidária têm dificuldades em
comercializar a sua linha de produtos próprios, tendo que recorrer à prestação de
serviços de facção para viabilizar economicamente a continuidade da organização.
De modo geral, os empreendimentos de economia solidária se baseiam nos preços
de mercado como principal ou único critério para a determinação dos preços dos
seus produtos, o que aponta para uma dificuldade interna de controle dos seus
custos que viabilize a elaboração de uma política própria de definição de preços.
Os empreendimentos de economia solidária se apresentam em um estágio
mais avançado de desenvolvimento em relação aos critérios de gestão, pessoas,
divisão do trabalho, democracia e sustentabilidade em geral. É inegável a
modernização dos processos de gestão promovida pelos empreendimentos
solidários. Enquanto as empresas capitalistas do setor do vestuário continuam
utilizando métodos tayloristas de organização da produção e de tomada de
decisões, restringindo suas possibilidades de crescimento e aprimoramento
administrativo, as organizações solidárias, mesmo em um nível incipiente de
desenvolvimento, promoveram uma reformulação completa no modelo de
administração dos seus empreendimentos. Foram eliminados os níveis hierárquicos,
considerados imprescindíveis para a aplicação da autoridade dentro de uma
100

organização, segundo Weber. As funções administrativas (prever, organizar,


comandar, coordenar e controlar) não só foram distribuídas entre os setores, ao
contrário do que postulava Fayol, como também foram incorporadas às
responsabilidades de cada trabalhador. O empoderamento não se limitou a uma
autonomia relativa à decisões do dia-a-dia, de baixo ou nenhum conteúdo
estratégico, conforme se verifica nas modernas corporações capitalistas. A prática
da autogestão como alternativa à heterogestão iniciou um processo de emancipação
do trabalhador que, além de positivo para o próprio, mostra-se potencialmente
positivo para o empreendimento, pois o maior empenho do trabalhador contribui
muito para o desenvolvimento da organização, na medida em que há
comprometimento geral e coletivo na busca pelos resultados.
A sistematização dos dados da análise comparativa, juntamente com a
estruturação e o cálculo dos indicadores de desenvolvimento das organizações
pesquisadas, segue demonstrada abaixo nos quadros 2 e 3 e no gráfico 1:
101

Organizações Empreendimentos de Economia Solidária Empresas Capitalistas


Critérios de Confraria Office JAAN
Desenvolvimento
Univens Coopermodas Construsol Gerasol DiTrevi
Masculina Collection Uniformes
Níveis Não existem níveis Não existem níveis Não existem Não existem níveis Existem 3 níveis Existem 3 níveis Existem 3 níveis Existem 3 níveis
hierárquicos hierárquicos níveis hierárquicos hierárquicos hierárquicos hierárquicos hierárquicos
hierárquicos hierárquicos

Autonomia Há grande Há grande Há grande Há grande Não há autonomia Não há Não há autonomia Não há
autonomia por parte autonomia por autonomia por autonomia por por parte dos autonomia por por parte dos autonomia por
dos dos trabalhadores parte dos parte dos parte dos trabalhadores parte dos trabalhadores parte dos
trabalhadores trabalhadores trabalhadores trabalhadores trabalhadores trabalhadores

Circulação de Circulação de Circulação de Não há processo Circulação de A gerência repassa A gerência A gerência A gerência
informações informações definido para a informações somente repassa somente repassa somente repassa somente
informações operacionais, táticas através de circulação de informal através informações informações informações informações
entre os e estratégicas assembléia anual informações dos coordenadores referentes à referentes à referentes à referentes à
trabalhadores através de e de reuniões produção produção produção produção
Gestão

assembléia mensal informais


Grau de Envolvimento ativo Envolvimento dos Envolvimento Envolvimento Envolvimento Os trabalhadores Envolvimento dos Os trabalhadores
dos trabalhadores, trabalhadores somente dos informal dos informal dos não são trabalhadores em não são
envolvimento através de através de trabalhadores trabalhadores, trabalhadores, envolvidos nos decisões envolvidos nos
dos assembléia mensal e reuniões informais, diretamente através do contato eventualmente e processos de eventualmente e processos de
trabalhadores de outros sem periodicidade envolvidos na com os somente no que se tomada de somente no que se tomada de
na gestão instrumentos definida produção, de coordenadores refere a decisão refere a decisão
quotidianos maneira informal procedimentos procedimentos
operacionais operacionais
Interesse dos Interesse ativo dos A grande maioria A grande maioria Interesse ativo dos Há interesse dos A grande maioria Há interesse dos Há interesse dos
trabalhadores pela dos trabalhadores dos trabalhadores pela trabalhadores, mas dos trabalhadores trabalhadores, trabalhadores,
trabalhadores gestão, e utilização não se interessa trabalhadores gestão a empresa não não se interessa mas a empresa mas a empresa
na gestão de instrumentos para pela gestão não se interessa utiliza e/ou não pela gestão não utiliza e/ou não utiliza e/ou
garantir o pela gestão explora métodos não explora não explora
envolvimento de participação métodos de métodos de
participação participação
Postura Prevalece a Cooperação Cooperação Cooperação Cooperação Cooperação Cooperação Cooperação
cooperação, mas há
interna dos certo nível de
trabalhadores competitividade
Colaboração

Estratégias A única estratégia Não há estratégia Não há estratégia A única estratégia As estratégias A principal A principal As estratégias
competitiva é manter competitiva competitiva competitiva é competitivas são estratégia estratégia competitivas são
competitivas o preço de mercado manter o preço de diferenciar o competitiva é competitiva é a qualidade do
mercado produto e manter o manter o custo elevar a qualidade produto e a
preço acessível interno o mais dos produtos rapidez da
baixo possível entrega dos
pedidos
102

Relação com Não há preocupação Não há Não há Há integração com Há relação Há relação Não há preocupa- Há relação
com concorrentes, preocupação com preocupação com empreendimentos competitiva com os competitiva com ção com concor- competitiva com
concorrentes pois a organização já concorrentes, mas concorrentes semelhantes concorrentes no os concorrentes rentes, pois a os concorrentes
possui uma fatia de pode-se dizer que mercado no mercado organização já no mercado
mercado consolidada há competitividade possui uma fatia
de mercado
consolidada
Participação Participa de uma Não participa de Não participa de Participa de Não participa de Não participa de Não participa de Não participa de
cadeia produtiva, a rede ou cadeia rede ou cadeia organizações de rede ou cadeia rede ou cadeia rede ou cadeia rede ou cadeia
em redes ou Justa Trama produtiva produtiva economia solidária produtiva produtiva produtiva produtiva
cadeias
Apoios Já recebeu apoio Nunca recebeu Já recebeu apoio Já recebeu apoio Nunca recebeu Nunca recebeu Nunca recebeu Nunca recebeu
governamental, de apoio de ONGs e governamental, de apoio apoio apoio apoio
recebidos ONGs e sindicatos sindicatos ONGs e sindicatos

Instrumento Há assembléia geral Há assembléia Há assembléia Há assembléia Não há nenhum Não há nenhum Não há nenhum Não há nenhum
geral geral geral instrumento formal instrumento de instrumento formal instrumento de
de coleta de de coleta da coleta da opinião de coleta da coleta da opinião
opinião dos opinião dos dos trabalhadores opinião dos dos trabalhadores
trabalhadores trabalhadores, mas trabalhadores,
são realizadas mas são realiza-
consultas informais das consultas
informais
Democracia

Freqüência A assembléia geral A assembléia geral Não há Não há freqüência Não há freqüência Não há freqüência
ocorre mensalmente ocorre anualmente freqüência definida para a definida definida
da coleta de definida para a assembléia geral
- -
opiniões assembléia geral
Eleições Há eleição para Há eleição para Há eleição para Há eleição para Não há eleições Não há eleições Não há eleições Não há eleições
cargos dirigentes cargos dirigentes cargos dirigentes cargos dirigentes para cargos para cargos para cargos para cargos
dirigentes dirigentes dirigentes dirigentes
Freqüência De 3 em 3 anos para De ocorrem de 2 De 2 em 2 anos De 3 em 3 anos
direção executiva em 2 anos para
das eleições (mas a presidente se direção executiva
perpetua no cargo) e e anualmente para - - - -
anualmente para conselho fiscal
conselho fiscal
Etapas do As etapas do As etapas do As etapas do As etapas do As etapas do As etapas do As etapas do As etapas do
processo produtivo processo produtivo processo processo produtivo processo produtivo processo processo produtivo processo
Divisão do Trabalho

processo são bem definidas, e são bem definidas, produtivo são são bem definidas, são bem definidas, produtivo são são bem definidas, produtivo são
produtivo todas são realizadas mas parte do bem definidas, mas a organização e todas são bem definidas, e e todas são bem definidas, e
na própria processo é mas a trabalha por facção realizadas na todas são realizadas na todas são
organização terceirizada organização própria realizadas na própria realizadas na
trabalha por organização própria organização própria
facção organização organização
Critérios de Conforme Conforme Conforme Conforme Conforme Conforme Conforme Conforme
especialização do especialização do especialização do especialização do especialização do especialização do especialização do especialização do
divisão do trabalhador trabalhador trabalhador trabalhador trabalhador trabalhador trabalhador trabalhador
trabalho
103

Rotatividade Pode haver Pode haver Pode haver Pode haver Pode haver Não há Não há Não há
rotatividade entre rotatividade entre rotatividade entre rotatividade entre rotatividade rotatividade rotatividade rotatividade
entre tarefas tarefas e entre tarefas e entre tarefas e entre tarefas e entre somente entre
setores setores setores setores tarefas similares
Importância Atende a Mantém Mantém Atende as Propicia a A organização Colabora com a Colabora com a
necessidades financeiramente os financeiramente necessidades dos realização do não se enxerga boa imagem dos boa imagem dos
social da básicas de consumo trabalhadores os trabalhadores clientes com desejo de como importante clientes, já que clientes, já que
organização e leva à auto- produtos de consumo dos do ponto de vista trabalha com trabalha com
realização dos qualidade clientes social uniformes uniformes
trabalhadores
Principal Crescimento da Manter Crescimento da Obter uma sede Expandir as Proporcionar um Atingir cada vez Ser reconhecida
organização para financeiramente as organização para própria para vendas para todo o produto mais clientes no mercado por
objetivo da garantir o sustento e agregar mais viabilizar o país diferenciado por sua qualidade
organização trabalhadoras e
agregar novos trabalhadores crescimento da um preço
suas famílias
trabalhadores organização adequado

Critérios de Nos setores de corte Os trabalhadores Divisão igualitária Divisão igualitária A organização A organização A organização A organização
e serigrafia, a divisão que realizam suas de ganhos de ganhos segue o padrão da segue o padrão segue o padrão da segue o padrão
definição de de ganhos é atividades em casa indústria e do da indústria e do indústria e do da indústria e do
remuneração igualitária; na recebem por comércio para comércio para comércio para comércio para
dos costura, a produção, e os que definir os salários definir os salários definir os salários definir os salários
trabalhadores remuneração é trabalham na
definida por cooperativa
produção dividem os
rendimentos
igualitariamente
Escala de 3 vezes 5 vezes, mas pode Não há diferença Não há diferença 10 vezes 4 vezes 2 vezes (sem
chegar a 10 vezes de ganhos de ganhos considerar
diferença de - comissões dos
rendimentos vendedores)
Pessoas

Divisão de Divisão igualitária de Não há divisão de Divisão igualitária Divisão igualitária Não há divisão de Não há divisão de Não há divisão de Não há divisão de
excedentes excedentes devido de excedentes de excedentes lucros lucros lucros lucros
lucros a dificuldades
financeiras

Qualificação Há treinamentos A qualificação A qualificação A qualificação Há uma política de Eventualmente é Eventualmente é Eventualmente é
internos e parcerias continuada dos continuada dos continuada dos capacitação estimulada a estimulada a estimulada a
continuada com instituições de trabalhadores não trabalhadores trabalhadores não interna de qualificação qualificação qualificação
dos ensino é propiciada não é propiciada é propiciada estagiários continuada dos continuada dos continuada dos
trabalhadores trabalhadores trabalhadores trabalhadores

Critérios para Morar nas Conhecer o Conhecer o Conhecer o Entrevista, Habilidade, Disposição de Indicação
proximidades e trabalho e pagar trabalho; mas trabalho; verificação do experiência, aprender, pois os
entrada de pagar cota de cota de ingresso ainda não houve atualmente a cota histórico em outras custo, etc. processos são
pessoas ingresso novos ingressos de ingresso não é empresas e ensinados lá
cobrada análise da dentro
estrutura familiar
104

Critérios para Todo desligamento é Todo desligamento Ainda não houve Só ocorrem A decisão é do A decisão é do A decisão é A decisão é do
votado em é votado em nenhum desligamentos por proprietário e dos proprietário e dos somente do proprietário e dos
desligamento assembléia assembléia desligamento vontade do gestores gestores proprietário gestores
de pessoas trabalhador
Projetos Realiza diversos Não realiza Não realiza Não realiza Não realiza Não realiza Não realiza Não realiza
projetos projetos projetos projetos projetos projetos projetos projetos
socioambien- socioambientais socioambientais socioambientais socioambientais socioambientais socioambientais socioambientais socioambientais
tais
Critérios Há critérios de Não há critérios de Não há critérios Não há critérios de Não há critérios de Não há critérios Não há critérios de Não há critérios
sustentabilidade para sustentabilidade de sustentabilidade sustentabilidade de sustentabilidade de
sustentáveis seleção de para seleção de sustentabilidade para seleção de para seleção de sustentabilidade para seleção de sustentabilidade
para seleção fornecedores fornecedores para seleção de fornecedores fornecedores para seleção de fornecedores para seleção de
Sustentabilidade

de somente no que se fornecedores fornecedores fornecedores


fornecedores refere à Justa Trama

Consumo Há reaproveitamento Há Não há práticas Há Não há práticas de Não há práticas Não há práticas de Não há práticas
e doação de sobras reaproveitamento de consumo reaproveitamento consumo de consumo consumo de consumo
responsável de produção e doação de responsável e doação de responsável responsável responsável responsável
sobras de sobras de
produção produção
Composição Conforme preço de Conforme preço de Conforme preço Conforme o preço De acordo com os De acordo com De acordo com os De acordo com
mercado mercado de mercado de mercado custos os custos custos os custos
de preços

Inclusão Há política de Não há nenhuma Não há nenhuma Não há nenhuma Não há nenhuma Não há nenhuma Não há nenhuma Não há nenhuma
inclusão dos política de inclusão política de política de inclusão política de inclusão política de política de inclusão política de
trabalhadores da inclusão inclusão inclusão
comunidade

Quadro 2 – Análise comparativa das organizações pesquisadas segundo os tipos ideais construídos e os indicadores de desenvolvimento

Legenda:

Estágio de desenvolvimento dos critérios avaliados:

Desenvolvido

Em desenvolvimento

Não-desenvolvido

Fonte: Adaptado da coleta de dados


105

Indicadores
Desenvolvidos Em desenvolvimento Não-desenvolvidos Índice Geral de
(Peso=1) (Peso=0,5) (Peso=0) Desenvolvimento
Organização
Univens 23 6 1 86,66%
Coopermodas 10 8 12 46,66%
Construsol 12 5 13 48,33%
Gerasol 16 8 6 66,66%
DiTrevi 5 9 16 31,66%
Confraria Masculina 3 5 22 18,33%
Office Collection 4 10 16 30%
JAAN Uniformes 3 6 21 20%

Quadro 3 – Indicadores de desenvolvimento por organização


Fonte: Adaptado da coleta de dados

30

25

20

15

Desenvolvidos
10 Em desenvolvimento
Não-desenvolvidos

0
vi
ns

es
as

a
ol
l
so

re

io
lin
as

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ve

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oo

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N
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C

ffi
fra

JA
O
on
C

Gráfico 1 - Resumo dos indicadores de desenvolvimento


Fonte: Adaptado da coleta de dados
106

5 CONCLUSÕES E SUGESTÕES

A comparação entre a administração de empreendimentos de economia


solidária e de empresas capitalistas revela que a posição ocupada pelo trabalhador
é a diferença essencial entre esses dois modelos, sendo esta a chave fundamental
para compreender o seu desenvolvimento diferenciado. Enquanto uma restringe
suas funções a produzir, a outra instiga sua capacidade de pensar e decidir;
enquanto uma aposta na supervisão e na padronização das suas tarefas para o
aumento da produtividade, a outra busca na autonomia e no comprometimento do
trabalhador a sua própria auto-realização. É a partir do reconhecimento
institucionalizado do papel central exercido pelo trabalhador na organização que os
empreendimentos solidários se distinguem das empresas capitalistas,
estabelecendo um novo paradigma de administração onde métodos participativos
são priorizados e a promoção da autonomia no trabalho é concretizada. A
centralização do poder decisório na figura dos proprietários e gestores dá lugar à
supremacia da voz dos trabalhadores através da assembléia geral. Os níveis de
autoridade e responsabilidade, balizados por sucessivos graus de hierarquia, são
substituídos pelo comprometimento individual engendrado na lógica coletiva. A
sociabilização dos meios de produção e a equidade de voto por trabalhador
demonstram que as partes mais importantes de uma organização são pessoas e
não as suas cotas de capital. Desta forma, a organização tradicionalmente
oligárquica não possui mais legitimidade e a democracia surge como meio de
deliberação coletiva dos rumos da organização. Assim, o trabalhador, outrora
coadjuvante do chão de fábrica, passa à protagonista do seu próprio
empreendimento.
Através da convergência da pesquisa histórica e da análise comparativa,
pode-se verificar que o setor do vestuário mantém um dos maiores níveis de
exploração de trabalhadores desde a Revolução Industrial, em parte pela baixa
especialização exigida pelas suas atividades, e em parte devido à desvalorização do
trabalho manual presente até os dias atuais. Além disso, a fraca representatividade
do sindicato da categoria parece ser um fator relevante para a manutenção da
situação precária das condições de trabalho neste seguimento. Porém, acima de
tudo, observou-se que a modernização dos métodos de administração não é uma
107

tendência no ramo do vestuário entre as empresas capitalistas, pois apesar dos


indicadores de desenvolvimento avaliados na sua gestão serem muitas vezes
negativos, as empresas pesquisadas se mostraram bem estabelecidas no mercado
e com grande potencial de crescimento. Aparentemente, as novas teorias da
administração, que apontam para uma tendência de valorização das pessoas dentro
das empresas enquanto “capital intelectual”, parecem aplicar-se somente às
organizações pertencentes a seguimentos desenvolvidos com a Terceira Revolução
Industrial, onde a Era da Informação e do Conhecimento proporciona uma relação
de oferta e demanda de mão-de-obra favorável aos trabalhadores especializados,
que representam uma pequena parcela da população brasileira.
Os empreendimentos de economia solidária, ao reorganizar o agrupamento
das atividades manuais e intelectuais, proporcionam melhores condições de trabalho
aos seus integrantes. Através da análise comparativa, verificou-se um salto
qualitativo dos empreendimentos solidários em relação às empresas capitalistas na
remuneração dos seus trabalhadores (mesmo nas cooperativas que passavam por
reestruturação e dificuldades financeiras), na promoção da autonomia no trabalho,
no grau de envolvimento dos trabalhadores na gestão, no estabelecimento de novas
formas (menos alienadoras) de divisão do trabalho e na utilização de práticas
sustentáveis. De modo geral, os instrumentos de gestão utilizados pelas
cooperativas demonstram-se mais atualizados. em termos de evolução da ciência
administrativa, do que os das empresas capitalistas. No entanto, neste estudo
exploratório, verificaram-se dificuldades em relação a algumas áreas específicas
como marketing e finanças. Parte deste problema se refere ao nível de
desenvolvimento das próprias organizações; entretanto, a falta de uma teoria da
administração (e inclusive de uma linguagem administrativa) específica para estes
empreendimentos dificulta a resolução destes problemas. Verifica-se a necessidade
de estudos mais aprofundados para esta finalidade, uma vez que as ideologias
capitalistas perpassam praticamente todas as áreas da administração convencional,
e isso exige um grande esforço de separação de premissas puramente ideológicas
das técnicas e métodos de apoio à gestão.
De acordo com a análise apresentada, as principais dificuldades encontradas
pelos empreendimentos solidários no desenvolvimento das suas atividades se
apresentam relacionadas ao seu composto de marketing. Poucas organizações
desenvolvem suas vendas destinadas ao consumidor final, vinculando-as a sua linha
108

de produtos próprios. A grande maioria presta serviços à indústria, estabelecendo


uma relação de semidependência de um pequeno grupo de clientes corporativos
que lhe impõe uma série de restrições. Outro ponto de fragilidade dos
empreendimentos solidários analisados parece estar associado à sua política de
preços e custos internos. Ao passo que as cooperativas não possuem um controle
adequado de seus custos, elas são obrigadas a buscar no mercado (onde os
critérios são definidos pelas empresas capitalistas) uma política de preços mais
compatível com os seus produtos. Além da Univens, nenhuma cooperativa
demonstrou a utilização de canais de distribuição adequados para a comercialização
dos seus produtos. Ao contrário das empresas capitalistas, que de modo geral
possuem boas práticas na administração das suas vendas, os empreendimentos
solidários parecem preservar uma relação de sujeição às ações do seu movimento,
como a realização de feiras e eventos, para impulsionar as suas vendas, o que pode
prejudicar a sua autonomia externa e inviabilizar o seu crescimento. A sua
sobrevivência no mercado exige o investimento na construção de novas formas de
comunicação que permitam o contato com os seus consumidores através de uma
relação que expresse seus valores e a sua identidade.
A análise da cooperativa Univens possui um papel importante dentro deste
trabalho, pois, além de fornecer as bases de comparação entre teoria e prática e
entre os demais empreendimentos de economia solidária, a sua existência
demonstra a viabilidade econômica, social e política deste tipo de empreendimento
dentro da conjuntura atual do sistema econômico capitalista. A sua opção por um
sistema de remuneração variável, em contraste com as teorias pesquisadas, acena
para uma provável incompatibilidade entre uma política de plena igualdade de
remuneração e o crescimento dos empreendimentos solidários, dadas as condições
de mercado já observadas. O auxílio do Estado e das demais instituições de apoio
foi percebido como imprescindível para o desenvolvimento da cooperativa, o que
aponta para a necessidade de criação de políticas públicas específicas para o
fomento dos empreendimentos solidários. Além da aprovação do marco legal, citado
no inicio deste trabalho, que se encontra em tramitação no Congresso Nacional,
políticas de concessão de crédito e de apoio à gestão destas organizações, como os
cursos de administração fornecidos pela Secretaria Municipal de Economia Solidária
da Prefeitura Municipal de Gravataí, precisam ser ampliados para impulsionar o
desenvolvimento destes empreendimentos.
109

De acordo com as informações levantadas pela pesquisa histórica em


conjugação com a análise comparativa, é possível afirmar que os empreendimentos
de economia solidária, que outrora se apresentavam como uma forma de resistência
anticapitalista, hoje configuram uma alternativa concreta de organização econômica,
seja aos excluídos deste sistema, seja aos não-adeptos dos seus valores
individualistas, egoístas e utilitaristas. Ao contrário do que se verificou em outros
momentos históricos de grande emergência de empreendimentos solidários, a partir
dos anos 90 houve uma significativa tomada de consciência de movimento, quando
diversos modelos coletivos (cooperativas, associações, clubes de troca, etc.) se
unem sob um mesmo nome e um mesmo ideal. Paralelamente, ocorre o
reconhecimento institucional, quando se torna evidente que há um movimento
formado, com suas particularidades a serem atendidas, e que o Estado deve estar
presente e atento a isso (DEMOUSTIER, 2001).
Dentro de uma visualização ampliada, os empreendimentos solidários podem
criar uma nova dinâmica econômica pautada pela solidariedade (que preconiza a
inclusão) ao invés da competitividade (caracterizada pela exclusão), além de
melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Seus limites se verificam pela
dificuldade de se estabelecer no mercado concorrendo com empresas capitalistas
melhor estruturadas e contando com uma estrutura econômica, social e política
montada a seu favor. Outro ponto importante é a questão cultural, necessária para o
fortalecimento das relações solidárias internas e externas aos empreendimentos.
Atualmente, trabalhadores com histórico em empresas capitalistas, onde são
inibidos de participação nos processos decisórios, demonstram dificuldade de
adaptação a um ambiente mais colaborativo e participativo, preferindo delegar as
suas decisões a outros membros da cooperativa. Esta postura fragiliza o
desenvolvimento dos empreendimentos de economia solidária, uma vez que propicia
a formação de uma elite dirigente, capaz de submeter os trabalhadores às mesmas
condições de desigualdade verificadas nas empresas capitalistas.
Por fim, o que está em causa é a própria reinvenção da emancipação social.
O modelo centralizador da economia, aplicado pelo socialismo soviético como forma
de superação da exploração capitalista, demonstrou-se incompatível com as
liberdades individuais e democráticas a partir da formação de uma elite partidária. A
evolução da estrutura social no sistema capitalista se seguiu no sentido contrário do
previsto pelos pensadores marxistas: ao invés da progressiva polarização da
110

sociedade em duas classes antagônicas, verifica-se hoje uma diversificação da


estratificação social. Dessa forma, o método “científico” para construção de uma
sociedade socialista, elaborado por Marx e Engels, tornou-se tão improvável quanto
as doutrinas “utópicas” concebidas por Owen, Fourier, Saint-Simon e Proudhon.
Deste modo, a luta anticapitalista ensejada pela economia solidária caracteriza-se
como uma retomada dos resíduos viáveis das idéias postuladas pelos pensadores
socialistas pré-marxistas (DEMOUSTIER, 2001). Historicamente, os trabalhadores
implantaram a autogestão em situações revolucionárias de mudanças políticas.
Hoje, é uma revolução cultural, política e socioeconômica que a proposta
autogestionária da economia solidária se propõe a realizar. Ao contrário do que
acontece no sistema capitalista e na política neoliberal, o movimento da economia
solidária visa edificar uma sociedade voltada para a emancipação do ser humano.
Um ser humano integral com sua inteligência, suas capacidades, seus desejos e
necessidades, cujas qualidades individuais são valorizadas na medida em que são
colocadas a serviço da coletividade. A formação deste trabalhador associado deve
ultrapassar a dicotomia do pensar e do agir, ultrapassar a dimensão do seu
empreendimento, entender o contexto político e socioambiental mais amplo no qual
se situa e trazer a compreensão da necessidade de uma sociedade mais justa,
igualitária e democrática em todos os níveis do seu desenvolvimento (LECHAT;
BARCELOS, 2008).
111

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116

APENDICE A – Roteiro da entrevista

Formulário

Perfil do entrevistado:

Empresa: ___________________________________________________
Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino
Idade: _________
Cor: ( ) Branco ( ) Preto ( ) Pardo ( ) Amarelo ( ) Índio ( ) Não sei responder
Função na empresa: _______________
Tempo de trabalho na empresa: ______
Grau de escolaridade: ______________
Renda:
( ) até 1 salário mínimo ( ) de 1 a 2 salários mínimos
( ) de 2 a 3 salários mínimos ( ) de 3 a 4 quatro salários mínimos
( ) acima de 4 salários mínimos

Nº total de trabalhadores na empresa: _____


Nº de trabalhadores na produção: _____

Gestão:

1) Quantos níveis hierárquicos existem na organização entre os setores, gestores,


dirigentes e trabalhadores?

2) Como se dá à autonomia dos trabalhadores em relação ao desempenho das suas


tarefas no trabalho?

3) Como acontece a circulação de informações sobre os objetivos, metas e questões


estratégicas da organização entre os trabalhadores?

4) Como é realizado o envolvimento dos trabalhadores na gestão da organização,


principalmente no que tange à tomada de decisões? Todos participam?

5) Há pré-disposição e interesse por parte dos trabalhadores na participação dos


processos de gestão da empresa?
117

Colaboração:

6) Como você avalia a postura fomentada internamente pela sua organização entre
os trabalhadores na busca pelos resultados? Busca-se mais a cooperação ou a
competitividade?

7) Quais as principais estratégias da organização para que ela se torne competitiva


no mercado? Quais as suas vantagens competitivas?

8) Como se dá a relação entre a organização e os seus concorrentes de mercado?


Prevalece a competição ou a colaboração?

9) A organização participa de alguma rede ou cadeia produtiva?

10) A organização recebe ou já recebeu algum tipo de apoio ou benefício do Estado


na forma de isenção fiscal, linhas de crédito especiais, etc. para o desenvolvimento
das suas atividades?

Democracia:

11) Existe algum instrumento formal na sua organização para coleta da opinião dos
trabalhadores sobre os rumos da organização, como assembléias, plenárias, etc.?

12) Caso exista, com que freqüência este instrumento é utilizado?

13) Existem eleições para os cargos dirigentes na organização entre os


trabalhadores?

14) Caso existam, com qual freqüência há alternância de trabalhadores nos cargos
de direção?
118

Divisão do Trabalho:

15) Quais as etapas do processo produtivo na sua organização?

16) Quais os critérios utilizados para a realização da divisão do trabalho entre os


trabalhadores na organização?

17) Há rotatividade dos trabalhadores entre as diferentes tarefas realizadas pela


organização?

18) Na sua visão, qual a importância dos produtos da sua organização frente à
sociedade? E qual a importância dos trabalhadores nesse processo?

19) Na sua visão, qual o principal objetivo da sua organização?

Pessoas:

20) Quais os critérios para a definição dos rendimentos/salários?

21) Qual a escala de diferença entre o menor e o maior rendimento/salário da


organização?

22) Existe alguma política para divisão de lucros/excedentes? Quais os critérios para
a repartição?

23) Possibilita-se a formação e qualificação dos trabalhadores? Existem incentivos à


educação continuada dos membros do empreendimento?

24) Quais os principais critérios de seleção para entrada de novas pessoas na


organização?
119

25) Quais os principais critérios e/ou causas para o desligamento de pessoas da


organização?

Sustentabilidade:

26) A organização desenvolve algum tipo de projeto socioambiental na comunidade


em que está inserida?

27) A organização possui algum critério que valorize o respeito ao meio ambiente e
a remuneração justa dos trabalhadores na seleção dos seus fornecedores?

28) A organização estimula a prática de consumo responsável e solidário?

29) Em linhas gerais, como se dá a composição dos preços dos produtos da


organização?

30) Ocorre a inserção de pessoas excluídas?