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Maquiavel - Justiça e Razão de Estado (Eduardo Augusto)

Maquiavel - Justiça e Razão de Estado (Eduardo Augusto)

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Trabalho de filosofia jurídica sobre Nicolau Maquiavel e sua influência no surgimento da Doutrina da Razão de Estado (Machtstaatsgedanke), de Eduardo Augusto, então-mestrando da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), São Paulo, Brasil, 2008.
Trabalho de filosofia jurídica sobre Nicolau Maquiavel e sua influência no surgimento da Doutrina da Razão de Estado (Machtstaatsgedanke), de Eduardo Augusto, então-mestrando da Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp), São Paulo, Brasil, 2008.

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FACULDADE AUTÔNOMA DE DIREITO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO “STRICTO SENSU” - MESTRADO FUNÇÃO SOCIAL DOS INSTITUTOS DE DIREITO PRIVADO

NICOLAU MAQUIAVEL
JUSTIÇA E RAZÃO DE ESTADO

Eduardo Agostinho Arruda Augusto Mestrando em Direito

São Paulo
Dezembro de 2008

Maquiavel, Justiça e Razão de Estado

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................................3 1. NICOLAU MAQUIAVEL .........................................................................................................3 1.2 FLORENÇA, A CAPITAL DO RENASCIMENTO ...........................................................................4 1.3 A DIPLOMACIA DE MAQUIAVEL ..............................................................................................5 1.5 A QUEDA DE MAQUIAVEL .....................................................................................................7 2. O PRÍNCIPE ...........................................................................................................................7 2.1 TRECHOS MARCANTES DE O PRÍNCIPE .................................................................................8 2.2 A SÍNTESE DO PODER: VIRTÚ E FORTUNA ..............................................................................9 3. INTERPRETAÇÕES DE SUA OBRA .....................................................................................9 3.1 A TÉCNICA METODOLÓGICA DA “VERITÀ EFFETUALE”............................................................10 4. MAQUIAVEL E A DOUTRINA DA RAZÃO DE ESTADO ....................................................10 4.2 A OPINIÃO DE ALGUNS ESTADISTAS ....................................................................................10 5. A JUSTIÇA EM MAQUIAVEL ..............................................................................................11 CONCLUSÃO ...........................................................................................................................12 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................13

Maquiavel, Justiça e Razão de Estado

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INTRODUÇÃO
Após a publicação de “O Príncipe”, Maquiavel passou a ser uma das figuras mais emblemáticas que buscaram decifrar a figura do Estado. Foi odiado por muitos, amado por outros e incompreendido pela grande maioria. Ao apresentar, de forma crua e nua, sua visão prática de como o Estado pode funcionar, Maquiavel dissecou as técnicas mais sórdidas utilizadas pelos soberanos para conquistar territórios, manter o poder e iludir a população. Apesar de não ser de autoria de Maquiavel, a máxima “os fins justificam os meios” representa exatamente o conteúdo de sua obra. O problema a ser investigado é se os ensinamentos de Maquiavel representam ou não a sua opinião de como deve funcionar o Estado, ou seja, se aquilo é a sua visão do Estado-ideal ou apenas um relato de sua experiência, ou seja, com base nas ações e reações que presenciou, apresentou os resultados obtidos, sem se importar em apresentar suas opiniões quanto à ética ou moral. O objetivo deste trabalho é demonstrar que, independentemente das reais intenções de Maquiavel, a obra “O Príncipe” cumpriu um importante papel na constante busca do ideal Justiça, mesmo que as técnicas apresentadas em sua obra sejam, na quase totalidade, atos de violação da dignidade da pessoa humana. Para cumprir esse objetivo, este artigo foi estruturado em cinco capítulos. O primeiro capítulo foi destinado a apresentar o conturbado panorama político e econômico da Florença renascentista em que viveu Maquiavel, para poder compreender como seu caráter foi moldado e a grandiosidade das experiências pelas quais passou. No segundo capítulo, foram apresentados alguns trechos de sua obra, os quais “falam por si só”, causando certo espanto pela forma direta e desapaixonada que revela os ardis dos soberanos. As mais variadas interpretações de sua obra, e os motivos dessa divergência de opiniões, são tratadas no terceiro capítulo. E, no quarto capítulo, foi discutida a polêmica sobre a doutrina da Razão de Estado, que defende a máxima “os fins justificam os meios”, isso porque muitos atribuem a Maquiavel a “paternidade” dessa doutrina. O quinto e último capítulo trata do conceito de Justiça e se ele, de alguma forma, foi beneficiado ou não pela obra de Maquiavel. Trata-se de discutir um paradoxo, ou seja, se uma obra que se apresenta como um “manual prático de tirania” tem o condão de auxiliar a busca da Justiça, em colaborar com a defesa da dignidade da pessoa humana. Por fim, o objetivo maior deste artigo é instigar o leitor a refletir melhor sobre o conceito de Justiça e sobre a necessidade de escolher e fiscalizar melhor os governantes. Tal reflexão ocorrerá com certeza, principalmente após a análise das mais sórdidas técnicas utilizadas há séculos por maus governantes para enganar o seu povo.

1. NICOLAU MAQUIAVEL
Nicolau Maquiavel (Niccolò di Bernardo dei Machiavelli) nasceu em Florença, Itália, em 3 de maio de 1469, no auge da Renascença. Sua família não era nem aristocrata nem rica. Seu pai era um advogado, um estudioso das ciências humanas, que se empenhou em transmitir uma educação clássica a seu filho.

O destino determinou que eu não sabia discutir sobre a seda, nem sobre a lã; tampouco sobre questões de lucro ou de perda. Minha missão é falar sobre o Estado. Será preciso submeter-me à promessa de emudecer, ou terei que falar sobre ele. 1
Fig. 1 - Nicolau Maquiavel.
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Nicolau Maquiavel, Carta a F. Vettori, de 13/3/1513.

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1.2 Florença, a capital do Renascimento O Renascimento é o período compreendido entre fins do Século XIII e meados do Século XVII, quando ocorreram várias transformações em diversas áreas do conhecimento que serviram de divisor entre a Idade Média e a Idade Moderna. Apesar de o termo ser mais comumente empregado para descrever a evolução nas artes, na filosofia e nas ciências, os maiores progressos ocorreram na cultura, sociedade, economia, política e religião, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo e uma ruptura com as estruturas medievais. O termo "Renascimento" representa a redescoberta e revalorização das referências culturais da antigüidade clássica, que serviram de mote para as mudanças amparadas por um ideal humanista e naturalista. O Renascimento cultural manifestou-se primeiro na região italiana da Toscana, tendo como principais centros as cidades de Florença e Siena, de onde se difundiu para o resto da Itália e depois para praticamente todo o Mundo.

Fig. 2 - Panorama atual da cidade de Florença, Itália, berço do Renascimento e uma das cidades mais belas do Mundo.

Florença é a cidade natal de Dante Alighieri (1265-1321); foi o local onde Miguelângelo (14751564) se formou (sob à orientação do Magnífico -e florentino- Lourenço de Médici) e esculpiu a famosa estátua de David; e onde se encontram obras do pintor e arquiteto Giotto (1266-1337) e de Leonardo da Vinci (1452-1519). Foi, também, em Florença que nasceram os Papas Leão X, Clemente VII, Clemente VIII, Leão XI, Urbano VIII e Clemente XII.

Fig. 3 - Leonardo da Vinci e uma de suas obras; Giotto; Miguelângelo e a estátua de David; e Lourenço de Médici.

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Foi exatamente nesse contexto que viveu Maquiavel, em uma Florença próspera, esplendorosa, mas cercada por instabilidade política, ilegitimidade de governos, tirania e despotismo. Dividida em pequenos Estados com desigualdades culturais, sociais e econômicas, a Itália estava sujeita a constantes invasões e conflitos. Após a queda da Família Médici, que governou Florença até 1469, a instabilidade e a desordem tomaram conta da península. Conflitos entre os Estados italianos; invasões francesas e espanholas com apoio interno; o pontificado de Alexandre VI, um papa espanhol da ambiciosa família Bórgia; a Igreja, sob o domínio de Júlio II, alia-se à França contra Veneza e, e seguida, cria a Santa Liga para livrar o território italiano do poderio francês.

Fig. 4 - A Itália do Século XVI imersa em conflitos e instabilidade política, econômica e social.

Nessa época não passava de poucos meses a permanência dos governantes no poder, cuja queda normalmente coincidia com a sua execução em praça pública. Foi diante desse panorama político que Maquiavel cresceu e teve seu caráter e habilidades (historiador, músico, poeta e conciliador) forjados para, definitivamente, entrar na História. 1.3 A diplomacia de Maquiavel Em 1948, com 29 anos de idade, Maquiavel foi empossado secretário da 2ª Chancelaria do Estado Livre da República de Florença, que era governado pelos “Dez Magistrados da Liberdade e da Paz”. Isso ocorreu logo após Savonarola, que substituiu os Médicis no poder, ter sido deposto, enforcado e queimado. Sua chancelaria cuidava dos assuntos da guerra e da diplomacia e, diante suas habilidades pessoais e profissionais (um excelente diplomata e assessor político), desempenhou importantes missões em prol dos interesses florentinos. Suas primeiras atividades diplomáticas foram as seguintes:   renegociou o soldo de um condottiere influente (que era filho da duquesa de Ímola) sem causar mal-estar político; e em seguida, negociou o apoio militar da duquesa para conquistar Pisa, que na época mantinha complicadas relações com Florença.
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Dos resultados positivos de suas missões, Maquiavel ganhou prestígio e, da experiência adquirida, escreveu seu 1º escrito político. Outra brilhante atuação de Maquiavel se deu na França, para onde teve que viajar para tratar de um assunto delicado com o rei Luís XII. O Monarca havia apoiado Florença na guerra contra Pisa, mas as tropas mercenárias enviadas pela França não cumpriram seu papel e, ainda assim, insubordinaram-se ao comando florentino, causando sérios problemas ao Estado florentino. Coube a Maquiavel e a um outro diplomata a difícil tarefa de levar tal reclamação ao soberano francês “sem ferir a sua honra”. Nessas viagens à França, Maquiavel conheceu outro tipo de Estado, que se formava ao redor de um Rei. De suas detalhadas observações, escreveu dois novos textos dedicados à forma como atuava a política francesa.

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Condottiere é o líder de grupo mercenário contratado para guerrear em nome de outros Estados. Naquela época, esse tipo de atividade era muito comum, sendo a forma de os Estados mais ricos avançarem suas fronteiras sem necessidade de utilizar parcela de seu próprio povo para atuar nos campos de batalha.

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Em 1502, coube a Maquiavel talvez a mais perigosa missão, a de negociar com o terrível César Bórgia, Duque de Valentinois, que era um Condottiere sanguinário, calculista e, segundo alguns relatos, imoral. César Bórgia era filho do ambicioso Rodrigo Bórgia, que desde 1492 era o Papa Alexandre VI (segundo rumores - sem confirmação - utilizou-se de sua fortuna para comprar a maior parte dos votos dos cardeais no conclave da sucessão do Papa Inocêncio VIII). César Bórgia estava conquistando várias regiões da Itália, em especial na região de Toscana, onde Florença está localizada. A negociação com César Bórgia resumia-se em deixar Florença fora das disputas entre os demais Estados da península e de não torná-la em um alvo para os objetivos imperialistas de Bórgia. O difícil objetivo era não participar de nenhuma guerra, nem declarar publicamente apoio a elas.

Fig. 5 - César Bórgia, o condottiere sanguinário.

Durante essas tratativas, Maquiavel deparou-se com Leonardo da Vinci, que atuava como arquiteto militar de Bórgia. Desse encontro surgiu um plano “vince-maquiavélico”, sugerido por Maquiavel e projetado por Leonardo: o de privar a inimiga “Pisa” das águas do rio Arno. Tratava-se do projeto de transposição do rio Arno, que visava a propiciar à Florença um acesso direto ao mar e monopolizar os sistemas de irrigação, energia e comércio fluvial. Esse projeto, no entanto, não saiu do papel.

Fig. 6 - O projeto de transposição do rio Arno (desenhos de Leonardo da Vince).

A instabilidade política na região era tão grave que os governantes deixados por César Bórgia nas várias comunas conquistadas começaram a tramar uma revolta para obter a independência. Ao descobrir o que estava ocorrendo, César Bórgia invadiu com suas tropas cada uma dessas comunas e dizimou todos os traidores. A Maquiavel coube comprovar que os líderes de Florença não faziam parte desse plano e, como prova de sua lealdade a Bórgia, Florença teve que delatar cada um desses governantes que tentaram captar o apoio florentino. Dessa delicada atuação diplomática, Maquiavel conseguir livrar Florença da invasão pelas tropas de César Bórgia e, diante de todos esses acontecimentos, elaborou um minucioso escrito sobre essa nova experiência. Após a morte de César Bórgia, suas tropas (“sob nova direção”) continuaram a atuar na Itália, resultando na expansão militar e territorial de Veneza. O Papa Júlio II, sucessor de Alexandre VI (que era pai de Bórgia), resolveu atuar contra a expansão veneziana. Coube a Maquiavel, representando os interesses pacíficos de Florença, acompanhar o Papa nessa missão de guerra.

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Dessa missão, Maquiavel surpreendeu-se com o temor reverencial existente sobre a figura do Papa, pois não conseguia acreditar que as temidas tropas mercenárias se renderam ao Chefe da Igreja sem esboçar nenhuma reação, mesmo tendo poderio bélico suficiente para vencer. Maquiavel participou de outras importantes missões diplomáticas que alimentaram ainda mais a sua visão político de como deve ser um Estadista. As principais foram as seguintes:  em 1508, foi a Roma negociar com o Imperador Maximiliano I, que pretendia restabelecer o Sacro Império Romano-Germânico - sua missão era defender a posição neutra de Florença (no entanto, Maximiliano foi derrotado por Veneza); em 1509, Maquiavel reorganizou as tropas e conseguiu vencer a guerra contra Pisa que durou 15 anos - desse episódio, resultou outro escrito sobre os acontecimentos;

Em 1510, a Igreja, Veneza e a Espanha se uniram contra a França, a tradicional aliada de Florença. Coube mais uma vez a Maquiavel negociar a posição neutra de Florença, o que conseguiu, liberando Florença de participar da guerra; no entanto, essa delicada posição política florentina custou muito caro a seus governantes. 1.5 A queda de Maquiavel Em decorrência do não apoio à Igreja na guerra contra a França, o Papa, em 1512, destituiu o líder Soderini (que foi para o exílio), extinguiu a República e devolveu à família Médici o comando de Florença. Acusado de política contra a família Médici, em 7/11/1512, Maquiavel foi demitido de suas funções, foi proibido de ausentar-se de Florença por um ano e impedido de adentrar qualquer prédio da administração pública. Em fevereiro de 1513, Maquiavel e outras pessoas foram presas e torturadas sob a acusação de estarem preparando uma conspiração contra o Governo Médici. Dias após esse episódio, os presos foram anistiados pelo Papa Leão X. Em decorrência desses fatos, Maquiavel isolou-se em uma de suas propriedades em San Casciano, passando por um período de ostracismo. Nessa fase complicada de suja vida, teve contato com outros escritores e dedicou-se a escrever suas obras mais célebres: “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio” (obra incompleta) e “O Príncipe”. Em 1520, com a morte de Lourenço II (vulgo Lorenzino), Júlio de Médici assumiu o poder de Florença e contratou Maquiavel para escrever a história da cidade. Em 1526, foi contratado pelo Papa Clemente VII para inspecionar as muralhas de Florença. Em maio de 1527, com a queda dos Médicis, houve a instalação da República, e Maquiavel, mais uma vez, foi tratado com desconfiança pelo novo Governo. Desolado por mais essa derrota, em 21 de junho, Maquiavel faleceu aos 58 anos de idade.

2. O PRÍNCIPE
A obra intitulada “O Príncipe”, escrita em 1513 (no primeiro ano de ostracismo) e publicada apenas após a morte de Maquiavel, certamente teve César Bórgia como modelo. O livro foi dedicado a Lourenço de Médici II e a ele foi enviada com uma carta de teor bastante enigmático.

“Acolha este pequeno presente como o mesmo espírito com que eu lho envio; pois, se com atenção o ler e considerar, reconhecerá nele o meu imenso desejo de que Vossa Magnificência alcance aquela magnitude que a boa sorte e as suas qualidades lhe pressagiam. E se Vossa Magnificência, do cimo de sua altura, lançar alguma vez os olhos para estes baixos lugares, verá quanto eu tenho sido vítima da injustiça e da adversidade.”
Fig. 7 - Nicolau Maquiavel em carta-dedicatória ao Lourenço de Médici II.
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Nicolau Maquiavel, Carta ao magnífico Lourenço de Médici, de 13/3/1513.

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A carta-dedicatória enviada ao monarca demonstra claramente o objetivo de Maquiavel reconquistar seu espaço no Governo de Florença. Tal dedicatória não obteve o resultado esperado e é provável que sua obra nem tenha sido lida por Lorenzino. A obra é um verdadeiro tratado sobre o Estado. E Maquiavel deixou bem claro essa intenção: “Compus um opúsculo, De Principatibus, no qual me aprofundo o quanto posso nas profundezas de meu tema, investigando qual a essência dos principados, de que 4 espécies podem ser, como são conquistados, conservados e por que se perdem.” 2.1 Trechos marcantes de O Príncipe Apesar de muitos citarem a expressão “os fins justificam os meios” como sendo de autoria de Maquiavel, isso nunca foi por ele escrito, apesar de a leitura de seu texto conduzir o leitor a essa conclusão. A simples citação de alguns trechos dessa magnífica obra é suficiente para compreender os motivos de ela ser tão contemporânea, apesar de ter sido escrita há quase cinco séculos. Também será o bastante para despertar emoções das mais díspares, haja vista a forma descritiva utilizada por Maquiavel, o que tornou sua obra enigmática, de difícil definição dos reais objetivos e opiniões do autor. O verbete “príncipe” utilizado em sua obra deve ser interpretado como “soberano”, ou seja, aquele que decide tudo em nome do Estado.  Quanto à linhagem (família) do monarca da terra conquistada:

“faça-a desaparecer”

 Quanto às providências iniciais após a conquista de um novo território:

“o Príncipe deve residir no local” (melhor opção); ou “destruição total”; ou “deixar a vida livre como antes, mediante forte tributação” (opção mais temerária).

 Quanto à opção de destruir a cidade conquistada:

“quem se torna senhor de uma cidade livre e não a destrói, por ela será destruído”

 Quanto à inevitabilidade da opressão:

“enquanto o povo não quer ser oprimido pelos grandes... os grandes desejam oprimir o povo”

 Quanto à dificuldade de manipulação do povo:

“a natureza dos povos é inconstante, e fácil é persuadi-los de uma coisa, mas difícil é mantê-los nessa persuasão”

 Quanto à conduta do Príncipe:

“o príncipe deve evitar as coisas que o tornam odioso e desprezível, satisfazendo o povo e fazendo-o contente”

 Quanto às qualidades do Príncipe:

“seria muito louvável que um príncipe possuísse todas as qualidades consideradas boas. Não sendo isto porém inteiramente possível, devido as próprias condições humanas, é necessário a um príncipe aprender a poder não ser bom”

 Quanto à necessidade do uso da força:

“existem dois modos de governar: um como as leis, outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo dos animais; não sendo muitas vezes o primeiro modo suficiente, convém recorrer ao segundo”

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Maquiavel, Carta a Francesco Vettori, de 10/12/1513.

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“tal parábola significa que é necessário ter-se por professor um ser meio animal e meio homem, ou seja, que um Príncipe precisa saber usar dessas duas naturezas, pois nenhuma delas subsiste sem a outra.”
Fig. 8 - A parábola do Centauro Quíron.

2.2 A síntese do poder: virtú e fortuna Em toda a sua obra, Maquiavel utiliza os verbetes virtú e fortuna, não havendo uma tradução única para esses termos que satisfaçam a idéia que visou a transmitir em cada trecho. A palavra virtú corresponde hoje à palavra “virtude”, de onde derivam “virtuoso” e “virtuosamente”, mas seu significado na época da Itália renascentista era um pouco diverso. De maneira geral, a virtú utilizada por Maquiavel significa “percepção seguida de atitude”, ou seja, uma energia ou vontade dirigida para um objetivo claramente definido. É a compreensão da verdade somada com a efetiva atitude de transformá-la. Alguns filósofos modernos definem virtú como uma “vontade econômica, simples e moralmente neutra”. A palavra fortuna, por outro lado, causa menos problemas de interpretação. Esse verbete referese à sorte (quer seja boa ou má), ao acaso, à oportunidade (quer seja propícia ou desfavorável). Para Maquiavel, virtú e fortuna são a síntese do poder, mas, como bem afirmou, a inevitabilidade da fortuna (da sorte, que pode ser ruim) deve ser compensada pela virtú, ou seja, pela perspicácia do Príncipe que saberá tomar as atitudes acertadas, no momento apropriado e na proporção adequada para que os objetivos do Estado sejam plenamente alcançados.  Quanto à síntese do poder:

“apenas por meio da virtú um príncipe pode vencer a instabilidade da fortuna e, assim, conservar seu poder”

3. INTERPRETAÇÕES DE SUA OBRA
A obra de Maquiavel somente foi publicada anos após a sua morte; e, desde então, tem gerado muitas controvérsias. As principais manifestações que ocorreram logo após a sua publicação foram as seguintes:    o Cardeal inglês Reginald Pole sentiu-se horrorizado (“obra do punho de Satã”) e os Jesuítas acusaram Maquiavel de ser contra a Igreja Católica; o Papa Paulo IV determinou a inclusão da obra no Index Librorum Prohibitorum (1559); Innocent Gentillet, no ensaio “Contre Nicholas Machiavel” afirmou que foi a leitura perniciosa de O Príncipe que instigou o trágico acontecimento denominado “a Noite de São Bartolomeu” (1572).

Atualmente, O Príncipe desperta as mais variadas opiniões, algumas mais técnicas outras mais apaixonadas. A diversidade de opiniões, conclusões e interpretações é resultado da forma inusitada e criativa utilizada por Maquiavel para escrever sua obra. De forma geral, as opiniões da atualidade são essas:     Maquiavel é um conselheiro de tiranos; Maquiavel é um conselheiro do povo (alertou o povo da técnica usada pela tirania); Maquiavel é um nacionalista apaixonado; Maquiavel é o fundador da ciência política moderna.

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3.1 A técnica metodológica da “verità effetuale” O motivo de toda essa polêmica em torno de O Príncipe é que Maquiavel, ao contrário de Platão, Aristóteles e São Tomás de Aquino, não pretendeu apresentar uma tese do “melhor Estado”, ou apresentar sua opinião de como as coisas deveriam ser. Maquiavel deu ênfase à verità effetuale, ou seja, a verdade efetiva das coisas. Com base em sua larga experiência de campo e na sua capacidade de observar e perceber 5 detalhes importantes, Maquiavel apresentou as características e condutas que efetivamente são capazes de, no mundo real, manter a ordem que sustentam o funcionamento de um Estado. Mas, afinal, qual seria a verità effetuale de sua obra?    seria a real opinião de Maquiavel? seria uma crítica velada da realidade? seria apenas algo para agradar os Médici e recuperar seu prestígio?

4. MAQUIAVEL E A DOUTRINA DA RAZÃO DE ESTADO
A doutrina da Razão de Estado surge no final da Idade Média e primeiros séculos da Idade Moderna, em reação ao sistema medieval, com a retirada do poder das mãos das autoridades feudais e da nobreza, concentrando-o agora nas mãos do Estado. Essa concentração de poder tem sido justificada como atributo essencial à soberania, para que o Estado tenha autoridade e força suficientes para impor as regras de conduta indispensáveis para uma convivência pacífica. Com base na verità effetuale, ou seja, numa visão realista e desencantada da natureza humana, alguns teóricos dessa doutrina afirmam que, “sem uma autoridade estatal capaz de impor as suas ordens de modo irresistível, é impossível garantir a ordem pública e a sociedade cairá inevitavelmente na 6 anarquia; por conseguinte, não será possível qualquer progresso moral, econômico e civil”. No entanto, essa doutrina traz séria preocupação uma vez que, partindo da necessidade de uma poderosa autoridade estatal, alguns defensores acabam concluindo que os governantes não apenas podem, mas devem utilizar todos os meios possíveis para atingir os objetivos do Estado. É a utilização da máxima “os fins justificam os meios” e dos ensinamentos extraídos da obra de Maquiavel. Surge novamente a polêmica da interpretação de O Príncipe. Teria Maquiavel defendido essa doutrina de “os fins justificam os meios” ? A doutrina do Estado-Potência (Machtstaatsgedanke), em que a sua defesa não se subordina a limites jurídicos, éticos ou religiosos, seria uma proposta efetiva de Maquiavel? Como interpretar corretamente a obra “O Príncipe”? A obra foi escrita com base em experiências do autor diante de uma Itália dividida e instável do Século XV. Pela metodologia utilizada (verità effetuale), Maquiavel limitou-se a apresentar fatos que presenciou e suas conclusões práticas sobre eles, sem contudo exprimir sua opinião quanto aos aspectos moral e ético. Além disso, seu discurso é por demais ambíguo, não ficando claro se trata-se de simples relato, de opiniões veladas, de crítica (esta ainda mais velada) ou de enaltecimento do sistema que afirma funcionar. Seja qual for a real intenção de Maquiavel, qualquer que seja sua verdadeira opinião sobre o assunto, é fato que sua obra inspirou muitos estadistas, tanto na utilização para o bem como para o mal. A afirmação de que Maquiavel é o pai da doutrina da Razão de Estado pode ser considerada verdadeira quanto à influência de sua obra, mas não há subsídios suficientes para afirmar ser ele defensor dessa polêmica ideologia. 4.2 A opinião de alguns estadistas A obra de Maquiavel foi comentada pela Rainha Cristina Wasa da Suécia (1632-1654), que se dedicou aos estudos e às artes, tendo contratado para trabalhar em sua corte vários artistas e pensadores, como o filósofo Renée Descartes.

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Efetivamente, Maquiavel possuía uma excelente virtú, que só não foi eficaz ao terminar sua melhor obra e dedicá-la ao soberano que não o reconduziu à corte. Parece ironia do Destino... Norberto Bobbio, Dicionário de política, disponível em “http://leonildoc.orgfree.com/enci/bobbio9.htm”.

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Quase dois séculos depois, a obra foi inteiramente comentada por Napoleão Bonaparte (17691821). Segundo consta, o abade Silvestre Guillon encontrou os comentários de Napoleão no interior de sua carruagem no dia 18 de junho de 1815, logo após a batalha de Monte São João, que foi o embate 7 decisivo de Waterloo.

“…e, para os possuir com segurança, basta ter extinguido a linhagem do príncipe que os dominava” * (Maquiavel) * “não me esquecer disto em todas as partes onde eu estabelecer a minha dominação.” (General Napoleão)
Fig. 9 - Comentário de Napoleão a trecho da obra de Maquiavel.

Outros estadistas e pensadores que fizeram comentários genéricos à obra de Maquiavel:  Benito Mussolini (El Príncipe, Argentina, Ed. Sopena):

“Afirmo que a doutrina de Maquiavel está viva hoje, depois de mais de quatro séculos, apesar de que os aspectos exteriores de nossa vida mudaram muito, não se tem verificado profundas variações no espírito dos indivíduos e dos povos.” (Martin Clauet Editores, 1986).

 Norberto Bobbio (Direito e Estado no Pensamento de Imannuel Kant):

“o príncipe não é mais somente livre dos vínculos jurídicos, mas também está além do bem e do mal, quer dizer, livre dos vínculos morais que delimitam a ação dos simples mortais. O maquiavelismo, neste sentido, é a exposição teórica mais audaciosa sobre o absolutismo do poder estatal.” (UNb: Brasília, 1984).

 Leon Trotsky, em sua biografia de Stalin:

“Esse retrocesso ao mais cruel maquiavelismo parece incompreensível para quem até ontem descansou na confortável confiança de que a história do homem desenrola-se numa linha ascendente de progresso material e cultural.” (STRATHERN, 2000).

5. A JUSTIÇA EM MAQUIAVEL
Definir Justiça é, de certa forma, impossível, uma vez que ela não aparece como um fato concreto, palpável, mas sim como um ideal desejado, um sentimento percebido, uma satisfação atingida. Mas essa percepção não é concreta, pois cada pessoa tem o seu próprio ideal, suas próprias necessidades e convicções. Além disso, esse sentimento é alterado com a evolução da sociedade, o que era considerado justo antes pode ser percebido como uma barbaridade nos dias de hoje, e vice-versa. Na Antigüidade, tentou-se definir Justiça, mediante preceitos genéricos, universalmente aceitos, mas que não servem para solucionar muitos casos concretos. Cícero publicou em "De natura deorum, III, 15" que "justitia suum cuique distribuit" ("a Justiça distribui a cada um o seu"). No "Republica I, vi, 331", Platão cita Simonide de Céos, do Século V a.C.: "a justiça é dar a cada um o que lhe é devido". Aulus Gellius, que nasceu no ano 130 d.C., cita um discurso de Catão, que viveu de 234 a 149 a.C., em que diz: "suum cuique uti atque frui licet" ("cada um pode usar e gozar do que é seu"). Na Judéia, Cristo já dizia: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (São Mateus cap. XXII, v. 21, São Marcos cap. XII, v. 17 e São Lucas cap. XX, v. 25).

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Conforme Nota da Editora Jardim dos Livros, na edição de 2007 de “O Príncipe” de Maquiavel, p. 25

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Nas "Institutiones, livro I, titulo I" de Justiniano, está assim codificada a definição de justiça: "justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi" ("justiça é a constante e permanente vontade de atribuir a cada um seu direito"). Ulpiano, um dos glosadores de Justiniano, que viveu de 150 a 228 d.C., escreveu (Pandecta, 1, 1, 10): “juris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere” (os preceitos do Direito são: viver honestamente, não causar dano a outrem, dar a cada um o que é seu). Na Idade Média repetia-se: "suum cuique tribuere tota est aequitas" ("Dar a cada um o seu é a justiça 8 total"). E Shakespeare, em "Andronico, 1, 2", cita o "suum cuique" como vindo do Direito Romano.

Fig. 10 - A estátua de Ulpiano e uma edição do Padencta (Digesto).

Vários estudiosos trataram de elucidar o que vem a ser essa Justiça tão esperada por todos. Das várias abordagens existentes, destaca-se a de Chaim Perelman, que apresenta não um conceito, mas as várias formas como a Justiça é percebida, comprovando que, para cada caso, a solução poderá ser atingida por critérios bem antagônicos. Enfim, a obra O Príncipe, de Maquiavel, colaborou com o conceito de Justiça ou seu efeito foi devastador para essa necessidade do ser humano? Um dos ensinamentos da arte da guerra é que, para combater o inimigo, deve-se saber tudo sobre ele. Sob esse prisma, mesmo supondo que o relato de Maquiavel represente sua opinião de como o Estado deve ser, a sua obra dissecou todos os ardis utilizados pelos mais sórdidos soberanos, propiciando a informação necessária para subsidiar os que lutam contra as tiranias. No fundo não importa a real intenção de Maquiavel, se era de defesa do sistema ou de uma crítica velada a ele. O que importa é que, com base em seus ensinamentos, a humanidade foi beneficiada, pois encontrou o que necessitava para combater o mal do despotismo, do autoritarismo e do mau governante. A busca da dignidade da pessoa humana é o fim da Justiça e, como muito bem afirmou Hegel, “a Justiça não é um dom gratuito da natureza humana, ela precisa ser conquistada sempre porque ela é uma eterna procura”.

CONCLUSÃO
A publicação da obra de Maquiavel prestou um importante serviço à humanidade, independentemente de suas reais intenções quando a escreveu. Por esse motivo, o adjetivo “maquiavélico” (“que tem, ou em que há perfídia, dolo, má fé; astuto, velhaco, ardiloso” - Dicionário Aurélio Eletrônico) não faz justiça ao autor de “O Príncipe”. Seu texto representou a queda da máscara utilizada pelos maus soberanos, serviu de alerta ao povo, a todas as gerações, pois tanto as técnicas (como os ensinamentos delas extraídos) continuam bem atuais, como afirmou com propriedade Benito Mussolini. Em decorrência, por mais polêmica que tenha causado, “O Príncipe” foi um marco importante para a maturidade do ser humano, que encontrou novos instrumentos e argumentos para continuar atuante na incessante busca da Justiça e na luta pela garantia da dignidade da pessoa humana.

8

todo esse histórico sobre o que foi escrito sobre Justiça na Antigüidade foi extraído da coluna de Sebastião Nery, disponível em “www.tribuna.inf.br/anteriores/2008/agosto/02-03/coluna.asp?coluna=nery”.

Maquiavel, Justiça e Razão de Estado

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BIBLIOGRAFIA
BOBBIO, Norberto & BOVERO, Miguelangelo. Sociedade e Estado na filosofia política moderna. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 13ª ed. Brasília: UNB, 2007. FERRAZ JR., Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito; técnica, decisão, dominação. São Paulo: Atlas, 1990. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. (com comentários de Napoleão Bonaparte e da Rainha Cristina da Suécia). São Paulo: Editora Jardim dos Livros, 2007. NERY, Sebastião. A Cícero o que é de Cícero. Rio de Janeiro: Tribuna da Imprensa “on line”, agosto de 2008 (disponível em “www.tribuna.inf.br/anteriores/2008/agosto/02-03/coluna.asp?coluna=nery”). PERELMAN, Chaim. Ética e Direito. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. SADEK, Maria Tereza. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtú. in Os clássicos da política. vol. 1, 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1991. WEFFORT, Francisco C. (org.). Os clássicos da política. vol. 1, 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1991.

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