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Análise de conteúdo do filme Peixe Grande

Análise de conteúdo do filme Peixe Grande

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Publicado porChristian Farias
Análise de conteúdo do filme Peixe Grande (2003) de Tim Burton realizada pelo jornalista Christian Farias de Avila
Análise de conteúdo do filme Peixe Grande (2003) de Tim Burton realizada pelo jornalista Christian Farias de Avila

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Published by: Christian Farias on Jun 01, 2010
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Filme Grande

Christian Farias de Avila

Diferentemente de suas obras anteriores, Tim Burton anuncia em Peixe Grande (2003) um drama que inverte certos conceitos estabelecidos em filmes como Edward Mãos de Tesoura (1990) e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999). Em Peixe Grande, Burton trabalha com personagens que habitam a realidade, explorando as relações de forma densa, humana, mas ao mesmo tempo simples e emocional. A imaginação do diretor passa pelo nascimento do protagonista Edward Bloom, um bebê escorregadio que os médicos não conseguem segurar, dessa forma nasce uma lenda, um personagem tão grande quanto sua história. O roteiro aborda a afinidade de um pai com seu filho, suas histórias e seu passado. O filho de Ed, Will, não acredita nas façanhas contadas repetidamente pelo seu benfeitor e acaba procurando por conta própria a verdade por trás delas. Billy Crudup fica com a missão mais difícil do longa: ir contra o espectador que se identifica de cara com Ed. Edward possui uma vida diferenciada, logo na infância tem um problema de crescimento e fica de cama por um longo tempo, apenas lendo enciclopédias, enquanto seu corpo cresce incessantemente. Uma metáfora de um crescimento intelectual, Ed fica grande demais para sua pequena cidade, e logo em seguida começa sua peregrinação ao que é uma longa jornada. Enquanto está de cama, sua roupa é idêntica à usada por Johnny Depp em Edward Mãos de Tesoura, até mesmo os vilarejos que trabalha na adolescência são de mesma aparência. Este filme mostra histórias e acontecimentos bizarros que o diretor faz questão de humanizar de forma sutil. Todos os principais acontecimentos são rodados com atores e sem grandes efeitos especiais, desde as cenas com animais, até o homembala que é lançado pelo canhão. Tudo isso dá uma dimensão do conflito da fantasia e da realidade presente na obra. Burton conta todas as histórias partindo do imaginário, e estabelece logo em seguida conexão firme com o factual. Mesmo sendo uma adaptação do livro homônimo de Daniel Wallace, o roteiro se mostra complexo e com ótimas mudanças, distanciando as duas obras.

Tim Burton possui uma admiração grande pelo cinema silencioso, pelos atores deste período e principalmente pela linguagem corporal presente na época. Desta forma, utiliza a pantomima como atributo fundamental em cenários como a cidadezinha de Espectro, onde os habitantes possuem ótima qualidade de vida, mas passam ao espectador a necessidade daquela população em viver emoções e conflitos. A transição de Ed pelo mundo convencional e pela cidade maravilhosa de Espectro pode ser lida como uma referência ao imaginário perfeito realizado por Chaplin em O Garoto, onde os conflitos de um homem e seu filho esbarram em uma cidade dos sonhos onde o pecado não existe. Espectro possui diversas características especiais a serem analisadas. Os habitantes não utilizam sapatos, para dificultar a fuga deste território. Essa abordagem se fundamenta na comodidade humana, no conformismo do homem em situações favoráveis. Edward não resolve fugir de Espectro, mas sim procurar mais desafios, pensando em algo além daquela satisfação pontual. Mesmo descalço, enfrenta uma floresta obscura (característica marcante de Burton) e é confrontado por diversas forças naturais, como árvores assassinas, mas acredita sempre que seu futuro será condolente. As histórias de Edward Bloom possuem grande ligação com o nome do filme. Um peixe grande resulta em um homem com feitos enormes que alimenta a imaginação de todos e que fomenta mensagens e significados aderentes. A água, muito presente nas filmagens, representa não só o habitat desse homem, mas também a metáfora da transparência. Olhar algo através da água é não ter a certeza de sua dimensão real, que dispensa a precisão, mas que envolve a fonte real da vida humana. Uma das cenas mais belas do filme é o encontro de Ed com a mulher de sua vida. Burton utiliza mímicos treinados para estabelecer como símbolo o tempo, que pára quando o amor aparece para o protagonista, estabelecendo uma proximidade do cinema com a realidade, do sentimento maior existente com a função estética que o cinema possui. Parar o tempo é imortalizá-lo, e desta forma o cinema funciona, não só para contar histórias, mas para deixá-las permanentes no imaginário comum. Ao voltar à cidade de Espectro, Ed se depara com um terreno desfigurado. Aquele código de perfeição fora quebrado, e as casas estão completamente destruídas e tortas. Ao comprar a cidade e reformá-la, Ed estabelece a relação do homem com seu passado. Ele volta para consertar os erros, para fechar lacunas, e para sentir o verdadeiro valor da nostalgia.

“Um homem conta tantas vezes suas histórias que se torna uma delas”, essa frase demonstra a conexão de Ed com seu filho, mas também, a ligação de um diretor de cinema com suas obras. A cena da recepção de Edward, carregado pelo filho, por todos que passaram pela sua vida é uma celebração da grandeza que pode ter um ser humano. Burton finaliza sua obra dando valor imenso ao real, talvez inédito em sua carreira, e passando a limpo as histórias de Ed. Pode-se ver no seu velório o quão importantes foram para formar o caráter do personagem. As fábulas não se perdem, apenas mudam de meios. Com isso, Burton demonstra nas últimas cenas o que a reputação de um personagem representa: os netos de Ed comentando suas histórias. Peixe Grande é uma sinfonia de metáforas, de mistérios, que são bravamente apresentados por Tim Burton. Além de ser um drama, de contar as peripécias de um protagonista, Peixe Grande é a representação máxima do cinema, da mágica representação do tempo e de como um fato, por menor que ele seja, pode se tornar eterno.

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