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O papel do sesmt

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SESMT / O papel do SESMT

IDÉIAS

o papel do SESMT Serviço Especializado é um bom parceiro para os novos tempos Cosmo Palasio de Moraes Jr*

Um dos objetivos dos Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) é contribuir decisivamente para a continuidade das operações dos locais onde atua. Quem ainda não consegue visualizar desta forma está desatualizado. Mais uma vez, o SESMT é o centro das atenções. Lamentavelmente, não se trata da discussão necessária para melhorias da atuação do mesmo, antes, algumas cabeças tentam provar com argumentos teóricos que os SESMTs oneram as empresas, quando na verdade o que mais onera as empresas e o país são mesmo os teóricos de plantão. Ao mesmo tempo, embutida nesta discussão, volta à tona a forma de tratar saúde com ótica política. Se queremos de fato modernizar este país, o âmbito das discussões deve ser sempre técnico e precisamos atrelá-lo a algo que seja o humanismo. Antes de iniciarmos de fato nosso assunto é preciso que façamos algumas considerações básicas. Algumas pessoas precisam e ainda não entenderam que o mundo mudou e consequentemente o Brasil também mudou e está mudando. Mesmo nos países onde a discussão dos assuntos era totalmente centralizada, o modelo faliu. Embora a mudança seja global, cabe entender que cada região, cada país, tem suas peculiaridades, visto que obviamente já tinham antes graus de evolução, principalmente na relação capital x trabalho, muito diferenciados. Trocando em miúdos, vale lembrar que a globalização atende os interesses econômicos, mas, com certeza, irá demorar um pouco mais para padronizar outros itens. Portanto, embora não possamos perder o "trem da história", antes não devemos perder a "linha da realidade" e assim, sabermos que até que encontremos a maturidade de outros países precisamos manter modelos e sistemas que assegurem o funcionamento de nossas instituições. Deixá-las de lado com base apenas em teorias e possibilidades é expôr vidas humanas. Deficiência cultural - Distante das discussões tendenciosas, vale a pena olhar o SESMT com olhos da neutralidade. Um tanto quanto recente, o SESMT veio suprir uma deficiência cultural que até então não foi corrigida. É inegável que o respeito pela integridade física dos trabalhadores evoluiu muito pouco nos últimos anos. Muitos empresários ainda enxergam a mão-de-obra como algo descartável e de fácil substituição, usando-a e encaminhando-a à previdência quando a tornam inválida. Ao mesmo tempo, também os trabalhadores chegam ao mercado de trabalho com uma deficiência cultural imensa relativa ao assunto saúde, mesmo porque desde cedo o assunto é tratado com total descaso devido a uma série de fatores que não cabem neste texto. Em meio a isso tudo, sobrevive o Estado, que por um lado cria facilidades para a implantação de novas indústrias e por outro, paga as contas da infortunística. Ao mesmo tempo, fecha os olhos para as gritantes condições de trabalho, mantendo em condições precárias os órgãos fiscalizadores. Em meio ao jogo, encontram-se também as representações dos empregados, divididas em extremos que vão do radicalismo sem qualquer base técnica à comodidade de quem prefere desconhecer o assunto ou trata-o apenas como mais um item de pauta. Tudo isto encaminha o assunto para uma grande balbúrdia, a qual se juntam os eternos interessados em tirar proveito, aqueles que sem qualquer escrúpulo querem sempre ganhar a qualquer custo. E mais do que lamentável observar que um assunto que diz respeito à vida humana e sua dignidade, seja encarado e tratado de tal forma. Afirmar que os SESMTs nada fazem é temeroso, pois, com certeza, ao longo destes anos, sozinhos, fizemos muito mais do que todas as outras partes que se omitiram. Ao mesmo tempo, não é possível afirmar que os SESMTs tenham conseguido tudo que era preciso. No entanto, são capazes de

fazê-lo. Com certeza, ao longo de todo este tempo, adquirimos conhecimentos e meios que nos possibilitam hoje, diante de condições favoráveis e adequadas, dar um salto de evolução para o assunto que nos compete. E preciso mudar a rota do avião que já está em vôo. Colocar outro em vôo e perder todos estes anos de trajeto, e as conseqüências, com certeza, seriam catastróficas. O extremismo, com certeza, favorecerá sempre apenas a minoria. Qualquer pessoa um pouco mais razoável e com um pouco de conhecimento sobre trabalho, in loco, sabe das dificuldades que os SESMTs encontram, mesmo porque sua criação o inseria como parte de todo o sistema, sendo que até então, apenas esta parte, o SESMT, funciona de forma mais atuante. Quem faz segurança não é apenas a NR-4, antes é a fiscalização, as representações dos empregados, etc. No entanto, embora jamais tenham se envolvido o suficiente, com brilhantes e raras exceções, de repente agora desejam fazer do SESMT o bode expiatório, quando apenas este, por todo este tempo, fez sozinho frente aos problemas. Tal forma de agir é injusta e tendenciosa. Precisamos de um grande fórum para fazer funcionar o que temos, não mais apenas pela questão da prevenção de acidentes pura e simplesmente. Rótulos - De tanto ouvirmos falar em modernidade, qualidade e globalização, tais palavras começaram a chamarnos a atenção. A primeira coisa que percebemos é como tantas outras coisas em nosso mundo, vieram somente os rótulos sendo que os conteúdos certamente ficaram por conta dos criadores. A filosofia da coisa em si, ainda está muito distante, fica quase impossível para um trabalhador de terceiro mundo conceber o que é qualidade quando sua qualidade de vida e valores com que a conduz são antagonicamente diferentes. As pessoas constroem e elaboram a partir de sua concepção. Isso é instintivo, faço o que é valor para mim e mesmo sendo treinado e executando correto por um dado período, acabo em certo momento retornando ao "automático" das minhas convicções. Se quem produz não consegue consumir, também não consegue entender o papel do consumidor, isto é óbvio. Mas o caminho não tem volta, mesmo porque a sobrevivência das macro estruturas começa a depender destes pequenos detalhes e, portanto, ou seremos produtivos com qualidade, ou deixaremos todos de existir. E a regra do jogo. Mais uma vez estamos diante de um jogo desigual, visto que quem elaborou as regras já tinha saído antes do ponto de início desta corrida. Não nos cabe lamentar - estamos falando de sobrevivência , nos cabe correr atrás, utilizarmos de nossa reconhecida criatividade. Neste ponto, entre outras coisas, surge a necessidade de termos ambientes de trabalho adequados. Ora, já temos um pais com a população empobrecida e com um nível cultural próximo aos países do continente africano. Parte de nossa população já trás seqüelas obtidas com as deficiências alimentares, nossa malha de transportes foi esquecida como tempo... e mesmo assim, precisamos competir. De imediato, não temos nem tempo e menos ainda recursos para consertarmos os problemas estruturais. No entanto, podemos sim mexer nos locais de trabalho, podemos sim evitar mais perdas com afastamentos e invalidez, podemos, inclusive, a partir do local de trabalho, iniciarmos um processo de educação para a qualidade de vida, invertendo o processo educativo. Mais do que nunca, o SESMT deverá estar atuando, engana-se quem pensa o contrário, porque se o descumprimento das leis não implica geralmente em sanções, as conseqüências deste descumprimento (acidentes, doenças e mortes) não têm como serem desconhecidas e redundam em prejuízos diretos e indiretos, descontinuidade do processo produtivo, conflitos capital x trabalho e mais recentemente em ações civis de grande vulto. Com certeza, os problemas não pararão por aqui, visto que num prazo muito curto de tempo, devido às evoluções vividas no mundo, empresas que não forem preventivamente corretas terão seus produtos rejeitados pelos consumidores, em especial do primeiro mundo. Antes, vale lembrar que é impossível produzir com qualidade em ambientes hostis e que, portanto, as grandes somas gastas em treinamentos ou similares acabam não atingindo seus objetivos quando não gastamos também com a correção do ambiente. E impossível ter concentração para operações em ambientes ruidosos e mal-iluminados, sombrios e cheios de contaminantes químicos. Acreditamos que antes da "histeria da qualidade do produto" é preciso a razoável análise das condições de qualidade para quem produz. Isso é uma proposta lógica e segura. Revisão de conceitos - Apesar de toda a discussão em tomo do SESMT, é possível com certeza

afirmar que no momento atual nenhuma outra área dentro das empresas possa ser mais parceira para alcançar os objetivos necessários. Para que isto ocorra, é preciso antes de mais nada uma revisão de conceitos de todas as partes. Deve o empregador olhar para as suas necessidades e chamar seu grupo especializado em ambiente de trabalho para uma ampla discussão. Deve o governo incentivar a manutenção dos SESMTs na condução de um programa de resgate das condições de segurança e respeito à vida na maneira mais holística que se possa entender. Devem os representantes dos empregados também levar suas ansiedades e expectativas aos empregadores e SESMTs, discutindo de forma ampla não seus interesses menores, mas o todo da problemática, investindo maciçamente em educação dos trabalhadores. Em tudo isto, cabe ao SESMT rever urgentemente seus posicionamentos, o que muitos já fizeram, e justaposicionarem-se como facilitadores da continuidade e qualidade da produção, agindo desde o projeto de novas instalações ou alterações significativas (o que, inclusive, já é nossa prerrogativa), atuando lado a lado com todas as áreas de uma empresa, mostrando e apontando as deficiências e sugerindo e contribuindo para a implantação das soluções. O integrante do SESMT deve ser a pessoa ativa voltada à antecipação de problemas específicos de sua área que possam inibir a competitividade da empresa. Para que tudo isso ocorra, basta apenas que todas as partes abram suas janelas como já vem ocorrendo em muitos lugares. Os SESMTs não devem ser, e as empresas não devem permitir que sejam, grupos de policiamento, visto que a formação destes profissionais é muito ampla para torná-los restritos a ações tão limitadas. As empresas que adotam este modelo perdem dinheiro e, mais do que isto, perdem a capacidade criativa de profissionais capazes de contribuírem imensamente para a obtenção de seus objetivos. Os SESMTs devem ser constantemente atualizados, visto que as modernizações têm sido rápidas e para que elas ocorram investe-se apenas na área produtiva. Ocorre, quando da implantação na nova tecnologia, surgirem problemas que comprometem a efetivação imediata do mesmo. Problemas estes que deveriam ter sido evitados com a presença do profissional especializado já na fase inicial. Portanto, é preciso rever conceitos. Os resultados com certeza, serão gratificantes.

* Cosmo Palasio de Moraes Junior é técnico de Segurança do Trabalho em Taubaté (SP). Copyright 1988/1999 MPF PUBLICAÇÕES LTDA. - http://www.protecao.com.br

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