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Esse artigo é resumo de uma palestra proferida em 1990 e publicada no livro

Vida a Dois. Meu objetivo aqui é tratar de um tema básico: as questões do


amor e do casamento.
Desde 1975, no meu livro Dificuldades do Amor, venho apontando,
junto a vários outros autores americanos, a clara relação que existe entre
certos tipos de encantamento amoroso – em particular a paixão – e os vícios,
ou as dependências psíquicas em geral. Na verdade, o amor e o vício são
muito parecidos, porque ambos determinam o mesmo tipo de busca
desesperada do objeto – e nesse sentido enquadra-se também o vício do
cigarro, cujo tema é profundamente tratado no meu livro Cigarro: Um Adeus
Possível. Além deste, há mais dois outros, também de minha autoria, que
abordam a temática do vício: Vício dos Vícios e Deixar de Ser Gordo.
Falar sobre esse assunto não foge muito ao que desejo abordar aqui,
mais persistente e obsessivo, que é o do amor. Versar sobre as questões do
amor e do casamento, homem e mulher significa falar da necessidade absoluta
de separar sexualidade de amor como dois impulsos essencialmente
antagônicos. É uma visão heterodoxa: o próprio Freud o considerava como
uma expressão sublimada da sexualidade e, portanto, colocava os dois
impulsos na mesma categoria, gerando um enorme volume de equívocos que a
maioria dos profissionais de psicologia continua cometendo até hoje. Tal
volume leva a um amontoado de complicações no plano teórico, determinando,
provavelmente, subprodutos graves – como em um problema de matemática
em que se erra em uma conta: a dificuldade vai aumentando e se agravando
ao passar às etapas seguintes.
Para mim, o amor é um impulso que surge desde o momento do
nascimento e busca devolver à criança a paz sentida durante o período uterino;
ou seja, o amor como busca de harmonia através da aproximação física e,
talvez mais tarde, espiritual com outro ser humano, ou como fenômeno
obrigatoriamente interpessoal que busca a paz. Convém lembrar que o nosso
primeiro objeto de amor é a mãe.
As manifestações da sexualidade surgem pela primeira vez no fim do
primeiro ano de vida e fazem parte do processo de individuação, isto é, quando
a criança começa a se reconhecer como criatura independente da mãe e inicia
a pesquisa do próprio corpo. E é quando ela realmente descobre que ao tocar
certas partes provoca-lhe uma sensação muito especial: um tipo de excitação
física percebida como agradável. É a excitação sexual – fenômeno de
desequilíbrio, ao contrário do que acontece com o amor, que é um fenômeno
homeostático e a sexualidade é um desequilíbrio homeostático. Amor é paz,
aconchego e sexo é excitação, ação, movimento.
É talvez por essa razão que Freud tenha tão insistentemente falado na
idéia de sexo como impulso vital por excelência. Na realidade, para mim e do
ponto de vista mais teórico, o instinto do amor ou o amor como instinto
substitui, na concepção psicanalítica, o conceito de instinto de morte. Freud
reconhecia a existência da dupla tendência no ser humano: uma para a ação e
outra para a inércia, ou para a paz e para a ausência de tensão; só que ele
considera isso como uma busca da morte. E acho mais razoável imaginar que
o ser humano, ao buscar algo, procure reencontrar o que já vivenciou ao invés
de buscar encontrar o que desconhece.
Do ponto de vista técnico ou científico, não podemos considerar a
morte um fenômeno conhecido. É possível que algumas pessoas pressintam
acerca do que acontece na hora da morte; mas não nos baseemos nisso. Aliás,
para o próprio Freud, como ateu, foi difícil imaginar coisas sobre a morte, até
porque, um ateu não pode ter nenhuma idéia do que ela realmente seja, a não
ser a suposição de que, pela falta de oxigenação das células cerebrais, o
indivíduo pare apenas de sentir. Mas não sabemos se isso é obrigatoriamente
paz ou não; é apenas uma conjetura e não podemos conjeturar, temos de ter
coisas um pouco mais sólidas. Podemos fazer conjeturas em psicologia, mas
elas têm de um dia se transformar em experimentos que possam ser
confirmados ou infirmados. Um dos grandes problemas contemporâneos e,
principalmente, da psicanálise é esse: colecionar um enorme volume de
hipóteses que não podem ser questionadas nem afirmativa e nem
negativamente. Quer dizer, ficam como autos-de-fé: quem acredita, acredita,
quem não acredita, acreditasse!
Então, essa separação entre sexo e amor parece-me absolutamente
fundamental, sobretudo porque o amor, além de ser um fenômeno interpessoal,
é uma busca permanente do ser humano em todas as outras fases da vida,
completamente diferente, em essência, da busca sexual. É evidente que a
partir da puberdade, quando ambos se misturam, isso pode virar uma série de
confusões, já que as buscas amorosas e depois eróticas tentam encontrar um
caminho comum; e isso nem sempre é tão automático ou fácil; volto a dizer: o
amor é obrigatoriamente um fenômeno interpessoal, não existindo, portanto,
por si mesmo; ele só existe por um objeto externo; e é paz, é homeostase.
O sexo – na sua origem pelo menos – é um fenômeno essencialmente
pessoal, ou seja, a criança descobre a sexualidade tocando em si mesma. A
idéia de que a sexualidade infantil é basicamente auto-erótica aparece de
forma clara na obra de Freud. Na minha opinião, ela persiste como tal pela vida
afora, apesar de surgirem elementos interpessoais a partir da puberdade; mas
é basicamente um fenômeno pessoal, é excitação e não harmonia, é o oposto
do amor. Isso, certamente, poderá ser o responsável por alguns dos
ingredientes mais fundamentais das dificuldades posteriores de todo o ser
humano.
Se vocês quiserem colocar isso em um outro tipo de linguagem e
adotar, por exemplo, a maneira de pensar de um filósofo importante desse
século – chamado Arthur Koestler –, poderíamos falar mais sobre a dupla
tendência do ser humano: uma para a integração (em um livro de sua autoria
intitulado Jano, que é um deus antigo de duas faces) –, ou seja, a tendência
para se sentir parte de um todo maior, que corresponderia à manifestação do
que estou chamando de instinto do amor – e uma outra para a individuação e a
individualidade; o indivíduo quer ser parte de um todo e ser unidade em si
mesmo. Esta tendência corresponderia, basicamente, à manifestação sexual,
que na sua versão adulta se acresce de um ingrediente importantíssimo que eu
venho chamando de vaidade (um fenômeno auto-erótico ligado ao prazer de se
exibir).
Dessa forma, essa dupla tendência corresponde à dualidade básica
de todos nós; e obviamente, as boas soluções para a vida são aquelas que
encontram soluções de harmonia entre a dupla tendência assim oposta, o que,
evidentemente, não é fácil! Isso explica por que nesses últimos dez mil anos de
história os resultados obtidos para solucionar a questão do homem não são tão
brilhantes. Se assim o fosse, certamente já teríamos soluções mais bem-
sucedidas e harmoniosas há muito tempo. Nós estamos tentando resolver um
quebra-cabeça muito complicado, que é encontrar uma solução que satisfaça
todas as partes do psiquismo humano.
Falar de casamento também significa ter de separar casamento de
amor. Pode parecer ingenuidade de minha parte falar isso, mas na cabeça das
pessoas, notadamente na dos jovens, amor e casamento não se separam. E
mesmo nas cabeças mais adultas, o amor intenso pede casamento, o que
ainda é entendido como um compromisso sólido, estável e de coabitação entre
duas pessoas.
De fato, amor e casamento também têm de ser claramente separados
em duas categorias: o amor é uma emoção e o casamento é uma instituição –
derivada do amor há muito pouco tempo e, aliás, não com resultados
brilhantes. Nos tempos em que o casamento derivava de outras causas que
não o amor (arranjos racionais entre famílias), parecia ter um número maior de
bons resultados; isto, sem dúvida, requer a necessidade de revermos os
termos do que acontece quando adolescentes e adultos jovens se encantam
emocionalmente. E aí entramos em um outro problema fundamental: o
encantamento. O que faz com que uma determinada pessoa, em um dado
momento neutra para mim, se transforme repentinamente em um ser especial,
único, sem o qual não posso mais viver? O que provoca essa mágica? Esta
pessoa seguramente será uma figura que substituirá a materna; mas, na minha
opinião, ao mesmo tempo nada tem a ver com a mãe. Será que sempre
escolhemos as pessoas ou os objetos amorosos adultos de acordo com algum
problema que tivemos com ela?
Ao se falar, por exemplo, que um homem escolhe a mulher conforme
a imagem e semelhança da mãe quando teve uma boa relação com ela, não se
está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher parecida com a mãe ou o oposto
dela porque todas as mulheres do mundo são parecidas ou opostas a ela. Será
que sempre escolhemos os objetos amorosos adultos de acordo com algum
problema que tivemos com ela? Ao se falar, por exemplo, que um homem
escolhe a mulher conforme a imagem e semelhança da mãe quando teve uma
boa relação com ela, não se está esclarecendo nada: ele escolhe a mulher
parecida com a mãe ou o oposto dela, porque todas as mulheres do mundo
são parecidas ou opostas à sua mãe.
Esse tipo de explicação não leva a lugar algum; então é muito
perigosa essa relação entre os eventos infantis e as coisas adultas; aliás, tenho
um certo pavor a esse tipo de raciocínio – tão ao gosto de muitos profissionais
de psicologia – que nos leva a imaginar que o adulto se transforme dessa ou
daquela maneira por causa de certo trauma. Tantas pessoas transformaram-se
do mesmo modo e não tiveram o mesmo trauma. É preciso um espírito um
pouco mais rigoroso e científico. O fato de a explicação ser lógica e bonita não
garante a sua veracidade. Para tal, precisamos usar critérios um pouco mais
apurados.
Não quero ser exageradamente behaviorista (a minha especialidade é
basicamente psicanalítica), mas tenho formação médica e, nesse sentido,
muito rigorosa: acho que conceitos têm de ser comprovados e não
simplesmente ser bonitos. Em psicologia, as pessoas fascinam-se mais com a
estética do que com a verdade. O fato de o conceito ser bonito, lógico e
harmonioso parece agradar mais do que se fosse verdadeiro. A busca da
verdade parece ser um caminho muito pouco percorrido nesses últimos
tempos. Indubitavelmente, é preciso buscá-la. Caso contrário, chegaremos a
um amontoado de conceitos pouco úteis, o que resulta, até mesmo, em um
certo desprestígio profissional perante algumas pessoas e notadamente na
área médica, dada a visão pouco objetiva e de maus resultados na prática.
Sobre o amor adulto, penso como Platão, que, aliás, é um dos autores
mais fascinantes a tratar essa questão (trabalhou esse tema em alguns de
seus diálogos mais lindos, O Banquete, Fedro e um diálogo sobre a amizade,
que se chama Menon); para ele – Platão - , na vida adulta, o amor deriva da
admiração. Portanto, o encantamento se dá porque o indivíduo admira no outro
algo muito especial, que, evidentemente, vai depender dos seus próprios
critérios de admiração, os quais são variáveis dependendo da época e também
em função da própria auto-estima. Apenas para vocês terem uma idéia do que
estou querendo dizer: quando o indivíduo tem de si um juízo negativo, a
tendência para o encantamento pelo oposto é quase inevitável. Este acaba por
determinar um tipo de encantamento que talvez seja muito interessante em
certos aspectos; mas do ponto de vista prático, ou seja, daquilo que o
casamento tem de concreto, vai implicar relações catastróficas – pelo menos
atualmente.
Hoje em dia, existem algumas diferenças em relação ao que era no
passado, onde o homem "dava as cartas" dentro da relação conjugal; as
mulheres obedeciam e pronto! Na atualidade, os dois pensam. E assim sendo,
é evidente que afinidades intelectuais, de pontos de vista, projetos de vida e
objetivos transformam-se em coisas fundamentais, porque garantem a
harmonia. Diferenças acabam por determinar brigas, tensões e contradições de
todo o tipo – tanto que hoje é difícil imaginar que o casamento possa existir e
funcionar bem, a não ser quando baseado em afinidades.
Isso não foi sempre assim, e o próprio Freud defendia a idéia de que
as boas ligações afetivas eram entre opostos. Em Introdução ao Narcisismo,
ele afirma isso e acha até que se ligar a pessoas afins é uma expressão
narcisista, o que quer dizer que a pessoa tem amor por si própria e só
consegue amar alguém parecido consigo mesma. Na realidade, não vejo
assim. O indivíduo que estiver satisfeito com o seu jeito de ser tende a achar
graça em pessoas semelhantes a ele, sem isso significar narcisismo ou
ausência da capacidade de amar a terceiros, mostrando claramente boa
aceitação em relação à sua pessoa. Se gosto de conviver com alguém meigo,
calmo, educado, não-agressivo e generoso, não há razão para chamar isso de
narcisismo, a não ser como o jogo de palavras que, a partir de um certo ponto
de sua obra, visava a busca da coerência com a teoria (o que, na minha
opinião, era um dos grandes problemas de Freud). Quer dizer, ele já
estabelecera o conceito de narcisismo, que significava amor por si mesmo – o
que, aliás, também não é o meu ponto de vista.
Para mim, os narcisistas, com esse temperamento mais egoísta que
lhes é peculiar, são pessoas que na verdade se odeiam, têm de si um péssimo
juízo. Sabem que são um blefe! Uma mentira! Então, também não há amor por
si mesmo no narcisismo: ele é um jogo de faz-de-conta, onde as pessoas agem
como se fossem extraordinárias, sabendo que não o são. E não querem que
ninguém saiba a verdade. O encantamento por opostos parece-me
basicamente um sinal de baixa aceitação de si mesmo. Há uma outra razão
que leva as pessoas ao encantamento pelo oposto, que tratarei mais
adiante.De qualquer modo, o amor deriva da admiração e pode se dar entre
todos os tipos de pessoas. Posso encantar-me com quem nada tem a ver
comigo. Agora, com relação ao casamento, se tal encantamento se der apenas
porque a amo e as diferenças existirem como um fato marcante, provavelmente
irão minar e destruirão a relação afetiva e o próprio casamento em
pouquíssimo tempo.
Há estudos interessantes feitos nos Estados Unidos. Americanos são
o oposto dos psicanalistas: eles medem e pesquisam tudo, tornando-se
objetivos até demais em certos aspectos. Estudaram pessoas, por exemplo,
que se casaram menos apaixonadas mas segundo critérios racionais de
afinidade, ou seja, um casamento racional – mais ao gosto de nossos avós. O
sentimento era menor em uma primeira fase, mas, no final de cinco anos de
vida em comum, as relações afetiva, conjugal e amorosa cresceram. Pessoas
com um bom relacionamento apegam-se umas às outras. Por que não haveria
um avanço do aconchego e da boa qualidade afetiva com o passar do tempo?
Ao contrário, as que se casam apaixonadas, mas ricas em diferenças
fundamentais – de caráter, estrutura, projeto de vida – cinco anos depois,
aproximadamente, divorciam-se.
Portanto, não basta que elas se amem para que o casamento perdure.
Casamento é um assunto diferente de amor; ele também exige afinidades
práticas por ser uma sociedade civil, uma instituição para fins práticos. E se
não for respeitado esse lado prático, lógico e objetivo, as coisas não evoluirão
favoravelmente, o que significa acabarmos efetivamente com a idéia de que o
amor tem de estar em oposição à razão. Ambos têm de andar juntos para que
o casamento não aborte. Aliás, é preciso olhar com objetividade para os fatos
outra vez. Aproximadamente 90% dos casamentos são fracassados em menos
de sete anos. Com relação ao número de divórcios, possivelmente ele seja
menor.
Portanto, é preciso saber que o casamento é uma empreitada de alto
risco e, portanto, torna-se necessário que a razão dela participe. Aliás, o
desprezo pelo lado racional do ser humano é a outra face da modernidade
psicológica, em que o importante é sentir e não mais pensar. É querer que o
humano seja subumano. Não aprovo o oposto: as pessoas querem que o
humano seja sobre-humano, pronto para a caridade, a renúncia, o sacrifício
integral. Mas também não gosto do desprezo pela razão, que faz o homem
parente próximo demais do macaco. Existe um lugar nessa escala para nós.
Não somos macacos e nem santos. Há um ponto intermediário no qual
podemos ficar e com a razão absolutamente em ação e funcionamento.
Então, eu gostaria de me dedicar agora à análise do que penso serem
os maiores obstáculos à felicidade sentimental e, portanto, conjugal. Já ficou
claro o que eu queria passar, que é a noção bastante evidente de separação
entre sexo e amor e entre amor e casamento: o amor é um encantamento e o
casamento é uma sociedade – o encantamento é apenas um dos critérios que
pode definir a sociedade.
No passado, o critério era apenas racional. Nesses últimos anos, ele
tem sido puramente sentimental e a minha proposta é que seja misto – para
quem deseja se casar. E não há antagonismo nisso. Posso perfeitamente me
encantar por uma pessoa que seja também razoável dos pontos de vista lógico
e prático, viável para a vida em comum, ou seja, com maior maturidade, já que
eu me encanto por pessoas mais parecidas comigo, o que significa
desenvolvimento pessoal. Enquanto eu não estiver feliz como sou, de nada
adianta dizer: me amo ou devo me amar. Só me contentarei com a minha
maneira de ser ao conseguir ser próximo do que considero ideal. Ninguém
sentir-se-á intimamente feliz caso não se pareça com aquilo que valoriza nos
seres humanos. Não há chance de se enganar. Pode até tentar iludir os outros,
como fazem os narcisistas, porém, conhecem a verdade e jamais poderão se
aceitar como são. Por isso o trabalho é longo e penoso; o indivíduo precisa
evoluir para realmente aceitar as suas limitações, conhecer-se e trabalhar
seriamente no seu processo de crescimento se quiser elevar a auto-estima. E
aí a tendência será para se encantar com pessoas parecidas e também para
que esse encantamento seja compatível com as necessidades práticas da
relação conjugal.
Uma das maiores dificuldades para uma boa vida conjugal tem a ver
com a inveja, que é um sentimento muito pouco estudado. Na verdade, quem
mais estudou a emoção em nosso meio foram os umbandistas, pais-de-santo e
outras pessoas ligadas a esse tipo de religião, onde o tema fundamental foi
sempre a inveja. Os profissionais de psicologia não gostam de temas como
inveja e vaidade, a não ser que sejam vistos de passagem; ou usam os termos
como se fossem claros e conhecidos em suas nuanças por todas as pessoas.
Essa não é a minha posição. Para mim, a inveja é um elemento
importantíssimo que deriva também da admiração, como o amor. Ninguém vai
invejar alguém que não seja rico em qualidades, mas sim por admiração, do
mesmo modo que amamos porque admiramos. Só que a sensação de inveja é
de humilhação: o indivíduo sente-se inferiorizado ao se comparar com as
qualidades da outra pessoa, ferido na sua vaidade e, por isso mesmo, com
tendência a desenvolver uma reação de raiva, agressividade, revolta contra
aquele que lhe provoca a inveja.
Então, quanto maiores as diferenças entre as pessoas que se unem,
maior o ingrediente de inveja, que competirá com o amor. Portanto, a inveja
estará presente na relação com força igual ou maior que o amor; na verdade,
maior que o amor nas relações entre opostos, definindo esta posição que todos
conhecem: as pessoas ficam juntas, brigam muito, mas não se separam,
porque se admiram e se odeiam ao mesmo tempo por não possuírem os
valores que tanto admiram uma na outra. O outro é tão rico no que não se
tem ... Por exemplo: se para uma pessoa tímida, que se casa com outra
extrovertida, ser tímida lhe é penoso, a sua tendência é ter uma intensa inveja
desta criatura. E todo tímido acha isso, porque, na psicologia americana dos
últimos quarenta anos, a extroversão passou a ser qualidade, embora não
fosse essa a opinião de Schopenhauer; para ele, o extrovertido é o indivíduo
que não agüenta o tédio de ficar consigo mesmo.
A tendência da inveja é agressiva, é sabotagem, é tentar derrubar o
outro, é fazer mal ao outro. E essa relação define aquilo que podemos chamar
de "inimigos íntimos", que são a grande maioria das relações conjugais onde
há briga, tensão, ações para sabotar, minar e destruir, às vezes a pretexto de
ciúme, o qual é usado até para encobrir a inveja. Mas é importante lembrar que
nem tudo é ciúme. Muito daquilo que se diz ser ciúme é inveja. Por exemplo:
não querer que o outro vá aqui ou ali não é só por medo de ele fazer isso ou
aquilo, mas porque só o fato de ele fazê-lo já é suficiente para me deixar
aborrecido, pois estará fazendo aquilo que eu gostaria de fazer.
É preciso registrar, ainda, que existe outro fator que ativa muito a
questão da inveja: a imaturidade; quer dizer, o tipo humano mais narcisista,
cujo perfil se define fundamentalmente como o tipo extrovertido, egoísta,
agressivo, intolerante a frustrações, a arbitrariedades e invejoso, porque tem de
si uma péssima avaliação. A maior prova de que ele não se ama é a enorme
inveja que sente; são muito mais ferinos, maldosos e profundamente invejosos
porque sabem que são um blefe! Nas relações entre opostos, quase sempre
um é mais egoísta, mais narcisista, enquanto que o outro é mais generoso,
"panos quentes", tolerante a contrariedade e, ao mesmo tempo, mais tímido,
mais quieto e que também tem de si – principalmente no período da
adolescência – um juízo muito negativo. Porém, o mais generoso tem uma
inveja menos ferina, menos malvada, menos destrutiva; talvez sofra mais, mas
é menos maldoso no sentido de agir para derrubar o outro. Então, um dos
ingredientes que torna a inveja mais terrível é a imaturidade emocional do
narcisista.
Desde 1980, em meu livro Em Busca da Felicidade, faço severas
restrições à generosidade. Mas ela é, sem dúvida, um passo adiante em
relação ao egoísmo, que é uma coisa meio subumana. É o homem sem razão,
sem lógica, querendo só cuidar do que é seu, exatamente como qualquer
animal. E o generoso é meio sobre-humano. Ele "passa do ponto", fica mais
para santo do que para humano; certamente, um reforça o outro, formando
uma associação que chamo de "amor entre opostos", amor por diferenças e
que Erich Fromm, em A Arte de Amar, denomina de "relação
sadomasoquista", sendo que o generoso é o masoquista e o egoísta é o
sádico. Não aprecio esses termos por causa da conotação sexual que está
implícita neles, até porque, para mim, a questão não é sexual.
Existe um outro elemento ainda que considero muito importante: a
inveja entre os sexos. Freud já falava, em parte, sobre a inveja que algumas
mulheres costumam ter dos homens por causa do pênis. Desenvolvi mais
extensivamente o tema da inveja masculina no meu livro Homem: Sexo
Frágil?, que, a meu ver, é muito maior que a feminina. A grande maioria dos
homens inveja as mulheres. E isso principalmente porque durante o período da
adolescência eles as desejam muito mais do que se sentem desejados. Por
volta dos 14 anos, eles se apaixonam pelas meninas e elas praticamente os
ignoram, provocando-lhes uma sensação de inferioridade, rejeição,
humilhação, que parece não desaparecer jamais. Fica uma espécie de espinho
engasgado na garganta e que, na minha opinião, está na origem de todo o
machismo; esse prazer masculino de derrubar, agredir, depreciar, insultar as
mulheres é, seguramente, dor-de-cotovelo, a qual deriva dessa sensação de
inferioridade sexual.
Portanto, há diferenças entre o feminino e o masculino basicamente
ligadas à importância da visão como desencadeadora do desejo sexual. Isso
na adolescência se transforma em algo que os homens sentem como grande
inferioridade. Esta também foi a visão de Freud, cuja observação consta em
uma pequena nota de rodapé em um de seus melhores trabalhos intitulado O
Mal-Estar na Civilização, onde deixou um germenzinho disso ao dizer que o
que aconteceu com o homem foi a passagem, por força da evolução
"genética", da importância do olfato para a da visão. A partir desse livro
comecei a desenvolver esse aspecto até o limite de sua importância
fundamental por não ser um fato qualquer; a passagem para a visão determina
a posição ativa masculina, o que incomodou muito as feministas nos anos 70,
nos Estados Unidos, e no início dos anos 80 aqui no Brasil; a palavra "ativa" é
registrada pelos homens não como algo que implica superioridade, mas sim
inferioridade, porque ser ativo não é uma vantagem: aproximar-se de uma
mulher e poder ouvir um "não" é uma sensação de risco que não agrada a
ninguém.
A inferioridade sexual masculina logicamente também está presente
na "hora agá". O homem pode fracassar e o seu fracasso é ostensivo, é
público; toda a cultura machista, curiosamente, louvou as vantagens do homem
até para neutralizar essa inferioridade; isto atrapalhou ainda mais, porque
depois ele não conseguiu corresponder a essa superioridade masculina que a
cultura tanto louvou! Sabem por quê? Porque ela é falsa! O machismo oprime,
antes de tudo, o próprio homem. Então, na "hora agá" pode não haver ereção.
E como é que fica o homem diante dessa possibilidade o tempo todo?
Sentindo-se cada vez mais inferior. Aliás, quanto mais se louvar uma
superioridade que não existe, mais inferior ele vai se sentir – e obviamente com
raiva; mas não é uma raiva que se origina do nada: é raiva do homem que
queria ser mulher. Há aqueles que sabem disso e aceitam essa verdade mais
docilmente – talvez sejam invejosos menos perigosos. Os homossexuais
muitas vezes ostentam essa postura e no limite disso estão os travestis. Não
há muitos casos do contrário, ou seja, há muito mais homens querendo ser
mulher do que vice-versa (o carnaval é prova disso). Então, são fatos e não
hipóteses. A inveja feminina é menor e não é universal.
Muitas moças, quando crianças, quiseram ser homem pelas
vantagens sociais que esse fato implica: o menino pode brincar na rua, fazer
xixi de pé no banheiro, na estrada, no carro, etc. Enfim, pequenas vantagens
técnicas. Ao chegarem por volta dos 14 anos – especialmente quando
começam crescer os peitinhos, se tornam mais bonitinhas e os meninos
começam a mexer com elas – se esquecem rapidamente de que queriam ser
homem. Agora, o que desejam é provocar os homens e tê-los nas suas mãos.
Pode ser ainda que reste uma pequena irritação contra os homens, vestígios
do tempo da infância, que, em certas mulheres, se transforma em um desejo
de dominação às vezes mais maldoso, causador de dificuldades sexuais
nessas pessoas. A não-aceitação da condição feminina é coisa importante,
mas não é esse o tema aqui.
Há, ainda, um outro fator ligado a essa escolha entre opostos, comum
nos primeiros anos da mocidade: é o elemento erótico, que muito
freqüentemente puxa para um encantamento entre opostos. Especialmente na
psicologia masculina, a sexualidade acaba se relacionando à raiva, à
agressividade, mais do que ao amor. Uma das coisas mais tristes da psicologia
masculina – e uma das mais difíceis da relação homem/mulher – é o fato de
que o desejo sexual masculino é muito maior quando existe um certo
ingrediente de raiva e não um grande amor.
No entanto, no grande encantamento amoroso e sobretudo na paixão,
a tendência é para total inibição sexual masculina – pelo menos durante um
certo tempo. Isso deu origem, por exemplo, ao amor romântico nos séculos
XVIII e XIX, quando todos os poetas louvaram o amor verdadeiro como sendo
platônico, ou seja, assexuado, e quando o encantamento amoroso era de tal
importância que o sexual passou a ser rebaixado. Talvez a ternura crescia a
ponto de bloquear o tesão. Mas, no meu entender, o fenômeno é mais
complicado do que isso. A ternura, quando cresce, corre pelo mesmo caminho,
obstruindo o tesão que se ativa mais pela raiva e pela agressividade; toda a
cultura masculina é nesse sentido.
Diga-se a propósito que os próprios palavrões, que são terminologia
basicamente masculina, são o reflexo claro disso: eles definem essa
associação entre sexualidade e agressividade. São termos de conotação
claramente sexuais usados com o intuito agressivo, definindo essa relação
entre sexualidade e agressividade, presente na maior parte dos homens, e que
sem dúvida pode levar um homem a se encantar por uma mulher que lhe
provoca raiva e, conseqüentemente, tesão e não amor. E a mulher que provoca
raiva em geral é o oposto dele, o que o irrita muito; pessoas que agem e
pensam de maneira totalmente diversa da nossa acabam provocando raiva, e
essa raiva pode provocar o tesão. E se o elemento erótico for muito importante
na escolha, mais do que o elemento racional e de admiração que define o
amor, pode perfeitamente ser mais um fator que levará a uma escolha
inadequada, que é evidentemente o maior problema das relações conjugais.
Há, ainda, muitos outros problemas na relação conjugal, mas na
impossibilidade de abordar todos aqui, me aterei apenas a mais dois. Um deles
é o medo do amor – tema curioso que comecei a desenvolver em 1978 no meu
livro O Instinto do Amor e que nunca havia sido abordado anteriormente.
Todas as grandes histórias de amor, especialmente as paixões, não tiveram
continuidade e nem deram certo, aparentemente, em virtude de obstáculos
externos. Em Romeu e Julieta, o impedimento residia nas famílias. Na prática,
os obstáculos externos são muito freqüentes: as pessoas são casadas, têm
filhos pequenos, há dificuldades para a separação problemas materiais ligados
a ela, etc.
A minha experiência tem mostrado de modo claro que estes
obstáculos externos à plena realização amorosa não são o verdadeiro
problema. Divórcios tornaram-se possíveis. Ninguém mais se atém aos
impedimentos familiares, nem à opinião dos pais; os filhos já não são
problemas intransponíveis e metade das crianças já são filhos de pais
separados; apesar disso, as pessoas continuam fugindo do amor
desesperadamente. O obstáculo é interno; caso fosse externo, seria ótimo,
porque se atribuiriam a ele as dificuldades, como se o problema fosse o
impedimento de ordem social. E não é verdade! Ele é absolutamente interno!
Esse medo de amor provavelmente tem a ver com a perda da individualidade.
Se voltarmos àquela idéia inicial de que existem no homem duas tendências –
uma para a integração e outra para a individuação –, quanto mais forte e
entrosado o amor e quanto mais afins as pessoas forem, mais a tendência para
dar certo existe, maior será a possibilidade de esse elemento de integração ser
satisfeito e, talvez, para o elemento de individuação se sentir ameaçado,
abalado. Diante disso, começamos a nos "travar" por medo de nos diluirmos,
de nos fundirmos na outra pessoa.
Há em nós essa vontade de diluição e, ao mesmo tempo, pavor dela.
Além do mais, nas histórias de amor – e eu acompanho centenas delas por ano
– vemos essa dupla tendência: fascínio e medo presentes o tempo todo. Os
indivíduos fascinam-se pelas histórias amorosas e entram em pânico diante
delas.
É evidente que o amor, quando entre pessoas muito afins, é uma
emoção muito forte. Dá uma sensação de simbiose, de diluição, onde um vai
se perder no outro e isso pode ameaçar muito a individualidade. Muitas vezes
são buscadas soluções intermediárias. Uma delas é a busca de pessoas
opostas, com quantidade de defeitos suficientes para que a simbiose não se dê
profundamente. Do mesmo modo que as qualidades fascinam e determinam a
integração, os defeitos repelem. Então, uma cota certinha de qualidade e
defeitos define uma coisa intermediária, um meio-termo ao qual o indivíduo se
sente ligado, mas não a ponto de ameaçar a sua individualidade.
Uma outra solução é amar desesperadamente alguém que não nos
ame muito. Neste caso, tendemos a nos fundir no outro, mas este não nos dá
muita atenção, nos humilha, nos deixa meio sós ... E agüentamos, porque isso
nos dá certo equilíbrio. Estamos sempre correndo atrás da pessoa e ela não
nos dá muita atenção. Isso também resolve o compromisso entre simbiose,
integração e individuação.
Uma outra hipótese é nos encantarmos por uma pessoa bastante
diferente de nós; além dos "defeitos", ela possui uma outra freqüência de
ondas, pensa e sente de outro modo, manifesta-se diferentemente. Logo, não
temos o problema da fusão, nos livramos de algo que nos apavora, ameaça a
individualidade e determina o surgimento fortíssimo do que venho chamando,
desde 1980, de "medo da felicidade".
Nada provoca nas pessoas maior sensação de felicidade do que o
encaixe amoroso. Por outro lado, nada provoca no ser humano maior pavor do
que a felicidade. E ao se aproximar o encaixe amoroso, as pessoas sujeitam-se
a qualquer negócio para se afastar, porque a sensação de felicidade, plenitude,
completude e harmonia é tamanha que o indivíduo passa a ter certeza de que,
no mínimo, um raio cairá sobre a sua cabeça e ele, seguramente, morrerá. E a
sensação é essa mesma, é fortíssima; quem ainda não a sentiu é porque não
chegou perto da felicidade; ao chegar, verão que isso é absolutamente
verdadeiro, não é uma hipótese, é um fato. É um medo difuso, uma iminência
de catástrofe responsável pela existência milenar dos rituais supersticiosos; e o
medo da felicidade é a sua causa: pessoas batendo na madeira e fazendo
"figas" quando estão muito felizes. Se não houvesse medo não existiria esse
ritual de proteção da "ira dos deuses" – parece que até eles se enfurecem
quando estamos muito felizes. Tememos a nossa destruição pelos invejosos. E
todo o conceito de "olho gordo" também se fundamenta e vem à tona nesse
medo da felicidade. Sentimos que não temos estrutura para suportar tudo o
que temos e que, certamente, algo de ruim nos acontecerá. Com isso, nós
mesmos malogramos nossa felicidade; antes que os deuses "nos matem",
destruímos sozinhos aquilo que nos está dando tanta alegria!
Essa é a grande causa da maior parte das brigas e dificuldades entre
as pessoas que se amam demais e se entendem muito bem; sempre inventam
um problema para ficar na dúvida se devem ou não ficar juntas. Não havendo
obstáculos externos, quando jovens e decidem se casar, um sempre acaba
falando ao outro: "Não sei se estou pronto, se quero, se já é hora", etc.;
começa-se a procurar "pêlo em ovo". Quando demoram mais na decisão de se
casar, aumenta a chance de ser um bom casamento! Uma mau casamento
pode ser decidido em três dias. Na verdade, o problema é "apenas" o medo da
felicidade manifestando-se e, por vezes, bloqueando a sexualidade
principalmente nos homens, o que é muito fácil, pois o homem é um animal
fraco e meio assustado.
O medo da felicidade implica atraso na coragem de as pessoas se
comprometerem e errarem na escolha (assim, não correrão o risco de
"morrerem destruídas por um raio"). Se o ficar rico redunda em muita
felicidade, é preferível ficarmos pobres, porque assim "garantiremos a nossa
sobrevivência". É dessa forma que aparece psiquicamente a questão do medo
da felicidade. E temos de tentar entender a sua origem; creio que está ligada
ao trauma do nascimento e, portanto, é uma coisa dificílima e sem "cura". Não
conheci ninguém sem esse medo.
Sem dúvida, existem pessoas com menos medo; e elas são os nossos
ídolos – dotadas de uma incrível coragem em todos os níveis, até no
profissional. Mas aí, ao serem bem-sucedidas nessa área, destroem o
sentimental. Quero ver as pessoas felizes e também que tudo lhes dê certo,
porque dar certo no sentimental e ficar pobre é fácil. Quero que o indivíduo
consiga tudo o que for bom para ele sem entrar em pânico, nem ter de
"negociar" com os deuses, fato este curiosíssimo; sim, porque são negociações
exatamente como as salariais: "Tenho isso, então dou aquilo; abro mão
daquele outro; sustento meu irmãozinho vagabundo porque assim apaziguo a
minha culpa de ter as coisas que tenho". E assim todos vão negociando
sempre para aplacar a "ira dos deuses".
De uma forma ou de outra, nosso cérebro registrou a fase da simbiose
uterina como um período de harmonia – talvez sem contratempos – quando
comparado com o que acontece depois do nascimento. O primeiro registro
cerebral é a harmonia e o segundo é a sua dramática ruptura: o nascimento,
que é o grande trauma, tão bem descrito por Otto Rank – na minha opinião, um
dos psicanalistas mais importantes. Sempre que se chega a uma sensação de
harmonia parece que se ativa a lembrança em algum lugar do cérebro que nos
assusta. Agora, não é mais o nascimento, é a morte. A destruição parece que
se torna iminente sempre que a situação está muito agradável.
Volto a dizer: nada provoca uma sensação de medo mais forte que a
felicidade amorosa, até por ser o que mais se parece com a simbiose uterina e,
portanto, com a origem do próprio fenômeno, do medo da felicidade. A
sensação de paz representa o útero. Se tudo estiver bem, evidentemente a
próxima sensação é a de que algo horrível acontecerá e destruirá a paz.
Todo o pensamento místico e religioso acabou por reforçar isso
terrivelmente com concepções ligadas à idéia de que o prazer e a felicidade
são pecados, ou, pelo menos, não são grandes virtudes; mas o sofrimento, o
sacrifício e coisas desse tipo o são. Portanto, quando o indivíduo está feliz,
além de ter o medo da felicidade – e, conseqüentemente, essa sensação
desagradável de iminência de tragédia –, também começa a se sentir em
pecado. E esta sensação parece aumentar as chances de real punição, não só
pela inveja dos humanos, mas também pela "ira dos deuses".
Para mim, esse é o grande obstáculo para se atingir a felicidade e
está sendo subestimado. Não há solução absoluta para isso: a consciência –
saber que tais mecanismos existem e que quando está tudo bem tendemos a
fazer bobagens – é fundamental. Quantas vezes não ouvimos: "Está tudo bom,
mas estou com medo de que não vai durar". O que isto significa? Eu mesmo já
não estou agüentando tanta felicidade e tomarei uma providência para liquidar
esse bem-estar, me autodestruir.
Hoje em dia, quando tenho um pensamento desse tipo, imediatamente
penso: "O que é que vou fazer por não estar suportando tanta felicidade?" Eu
me interdito, quer dizer, me impeço de fazer qualquer coisa que fuja da minha
rotina básica, e se o fizer será destrutivo. Estou prontinho para cometer um
erro, porque estou muito bem! E isso reativa um reflexo condicionado profundo
e difícil de ser desfeito totalmente.
Enfim, termino reforçando um elemento, digamos assim, mais geral e
mais teórico. A verdade é que nestes 100 anos de desenvolvimento da
psicologia, as questões do amor e do casamento em nada evoluíram. As
pessoas continuam pensando muito mal sobre o assunto, além de
desinformadas. Foram muito mais bem informadas sobre a questão sexual do
que sobre a questão romântica. A desinformação grassa e um amontoado de
idéias, na minha opinião, duvidosas – pelo menos não-provadas – abundam, as
quais, insisto, deveriam ser banidas do nosso pensamento. Conjeturas que não
podem ser confirmadas ou infirmadas são um perigo para o pensamento;
deixam-nos em uma situação meio sem saída. Elas passam a ser uma questão
de fé e a ciência não pode viver de questões de fé. Bons conceitos têm de
levar a bons resultados, caso contrário, é porque não são bons. Quando teoria
e prática não combinam, tem de valer a prática. E na nossa especialidade,
muitas vezes tem valido a teoria, que é o que não nos interessa; só se ela
chegar a algum resultado prático, concreto, útil e de valia.
A psicologia é uma ciência prática que deve servir para ajudar as
pessoas a melhorar a sua qualidade de vida, o seu relacionamento consigo
mesmo e com os demais. Idéias devem ser postas em prática; mas se elas
forem falsas e falhas – o que aos poucos é o destino de todas elas –, devem
ser substituídas por novas. Temos de retomar a noção de uma ciência em
atividade, como aconteceu nos primeiros anos da psicanálise, e a idéia de uma
ciência em processo de desenvolvimento e mudança.
Não estou defendendo aqui dramática e fanaticamente as minhas
idéias. Apenas abordei algumas delas e as exponho a julgamento. Se
aparecerem opiniões mais consistentes e que contradigam as que aqui foram
colocadas, abandonarei imediatamente as minhas idéias e procurarei me
adequar às novas, que expliquem e justifiquem melhor os novos fatos.
Para mim, esta é a essência de um modo aberto de pensar que
poderá levar a bons resultados. E estamos aqui para colecionar novos dados –
trabalhando, todos, em assuntos de psicologia, para que um dia ela se
transforme em uma ciência a mais objetiva e útil possível.