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Páginas de Plágio e Preconceitos

Parte I

Todos os Caminhos Levam a Roma, Todas as Direções vêm da Grécia

PORQUE SEMPRE VOLTAREMOS AOS CLÁSSICOS

ao grande helenista de nosso tempo (in memoriam)

O avô pensou em escrever um livro. Foi só um meio pensamento, como homem vivido que era,

tanta coisa acumulada, soube logo que não bastaria. Não é assim que as coisas são. Ele sabia exatamente

o que significava dizer que as coisas antigas são sempre melhores do que as sucessoras, não se tratava de

um saudosismo injustificado. Ele tinha argumentos. E papel vira cinza; o que fica registrado mesmo é

aquilo que é dito e ouvido com sentimento, e se registra na alma, para além da razão e, por isso mesmo

permitindo que o homem possa viver consigo mesmo. Não eram assim as coisas? E como chegaram belas

até nós, indestrutíveis. E não era só isso. Via também que aquilo que era escrito acabava tendo dono,

sendo propriedade de alguém. Será que as pessoas refletem sobre a barbaridade/aberração/sem

noçãozice/anormalidade que é uma pessoa achar que pode ser proprietária de uma história? Apropriar-se

sim, é o que se deve fazer, as histórias devem pertencer a todos, serem criadas e recriadas por todos a todo

momento. Quantos foram Homero, importa se foi realmente Hesíodo quem escreveu a Teogonia?

Perrault, Baptiste, Grimm, Andersen, pouco importa. Chapeuzinho Vermelho e outras histórias já

estavam lá. E se podemos nos apropriar delas não é porque os livros nos contam, mas porque existiram

rodas, em torno de fogueiras, alegres, em que se falou, se ouviu, e as coisas não foram esquecidas.

Sempre que pudesse, então, contaria uma nova história, para que a criança crescesse sabendo

verdades que valessem a pena. Falou do Universo, falou dos Deuses mas, sobretudo, falou dos Homens.

Certo dia pôs o garoto diante de si, na varanda, ao ar livre, o mesmo ar que os heróis respiraram, e pediu
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que imaginasse a maior biblioteca que coubesse em sua imaginação. O menino não imaginou, apenas

trouxe à mente a imagem resgatada pela memória de uma grande biblioteca que teria visitado. Hoje em

dia as portas da imaginação estão quase fechadas, sobra apenas uma fresta. E as portas são pesadas.

“Houve um grande jovem, meu pequeno, que quis construir a maior biblioteca do mundo. Não só

isso, ele queria que o mundo fosse dele. E, no seu tempo, conseguiu. Mas um dia seu reino foi destruído,

e muitas coisas grandiosas que ele construiu também, até mesmo a biblioteca. E depois disso muitos

livros foram queimados, em muitos lugares, e por motivos diferentes. Às vezes por acidente, às vezes

porque algumas pessoas acreditavam que haviam livros tão perigosos, que precisavam ser destruídos.

Valeu a pena o esforço do jovem Alexandre? Alguém poderia ler todos os livros que ele ajuntou? E se

tantas bibliotecas e livros foram destruídos, por que existem tantas histórias a serem contadas? Porque as

histórias ficam dentro da gente, e quando não ficam, a gente inventa. E tem mais. Alexandre quis guardar

toda a história do mundo, registrada em uma espécie de papel, chamado papiro. Isso era uma inovação.

Antes do papiro ser inventado, as pessoas anotavam o que precisavam anotar em pedacinhos de barro, e

não se importavam se aquilo fosse destruído ou não. Mas o Destino determinou que as coisas fossem

diferentes. A novidade, o papiro, facilmente pegava fogo. O velho barro, que em água se dissolve,

endurece no fogo, e por isso sabemos algumas coisas sobre povos muito antigos. Mesmo sem saber, os

homens de antigamente faziam quase sempre a coisa certa.”

Homens onça.

PHILIA E AMICITIA: QUERELAS DE ARISTÓTELES E CÍCERO

a um norte americano que, apesar disso, sabia escrever

definição do conto

UM CONTO SOBRE MULHERES


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a Melinda and Melinda

elementos da narrativa

SOBRE QUEM VENCEU A GUERRA

ao russo Vladimir e a Tzvetan

maravilhoso

Era uma vez, num reino muito distante, um rei chamado Príamo. Príamo amava sua terra sobre

todas as coisas, por isso seu país era cercado por uma muralha indestrutível. Todos viviam felizes nesta

terra, Príamo, seus cinquenta filhos e Hécuba, sua esposa.

Certo dia, no entanto, um de seus filhos, Alexandre, foi encantando por uma fada da floresta, a

fada do amor. E esta fez com que ele se apaixonasse por uma rainha de uma terra muito distante da sua.

Não importaram os obstáculos; Alexandre foi até o país em que vivia a princesa e, com ajuda da fada do

amor, raptou-a e levou-a para o seu país, de fortes muralhas.

ALEXANDRE E AUGUSTO

ao búlgaro somente

fantástico

AO MODO DE NOSSA GENTE

idem
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estranho
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Parte II

Eurípides Revisitado

MEDÉIA

(ou De Anima Feminae)

A quem vem o destino de núpcias


e cabe cuidadosa esposa concorde consigo,
para este desde cedo ao bem contrapesa o mal
constante. E quem acolhe uma de raça perversa
vive com uma aflição sem fim nas entranhas,
no ânimo, no coração, e incurável é o mal.
Teogonia, Hesíodo

I Jornada do herói mitológico, por De Sica e recriada

Eterno retorno do mesmo. Diário. Acordar nunca tão cedo. Despregar-se do sonho. Só nele vale o

esforço da existência arrastada. Encontro obrigado com o sol. Ensaio para si mesma do fingimento que

possibilita, na maior parte das vezes, suportar. Preciso é estar bem trajada, preciso é exercitar as terapias

do bom convívio, fazer que a creiam bastada em si. Vivendo os dias em função do mundo. Encaixa em si,

muito bem coladas, as insígnias da auto-suficiência, de uma plenitude que só mesmo neste teatro é que
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pode ser. A mais egoísta é a máscara da bondade. Olhar ao outro em busca do seu reflexo, a visão mais

profunda que pode ter de sua própria grandeza. É o revés da máscara, a envaidecedora Gratidão.

Inculpável, no entanto. Demora-se a perceber – alguns nem notam – a perversidade intrincada à

condição de ser mulher. Grande dilema. Todavia o é somente por um equívoco. Cantam-na majestosa os

poetas; por ela cantam, quando em sua forma de Musa – Musa que um dia revelou ao antigo poeta saber

dizer mentiras tais quais fatos. Não fosse isso bastante, disseram os mitos, anunciaram o perigo, Pandoras

e Evas várias foram enviadas ao homem.

Contudo, e faz-se de novo, com nova nuance, o dilema, o perigo e a perversidade são aparentados

ao engano e ao ardil. Assim, por vezes irrefletidamente, segue a mulher em sua natureza danosa, por

outras tramando sábio dolo. E um deus incônscio ou folgazão deve ter criado o néscio homem.

II Encontro com o Mentor

Cuidadosamente guardadas estão as circunstâncias da descoberta de algumas palavras.

Dissimulada. Predicado de mulher duvidosa, desde sempre. Anelo e embargo. Duma música cristã da

infância. “Nada embargar pode o encontro com o Senhor, pelo qual a igreja, sua fiel esposa anela”. O

obnubilado da solidão de uma história. Curioso é o momento em que cada palavra ultrapassa o seu

acontecer na pessoa. Num repente, o que parecia um rememorar fortuito, tornar-se numa intrincada trama

de Fortuna. Penetra-se ingênuo no reino das palavras. Narciso embriagado. Pois eis que mergulhar no

nome é presentificar. Nome que é Nume. A palavra que se pensa ao acaso tornar-se companheira foi uma

escolha feita às cegas, porque se crê na casualidade, mas trata-se de um momento em que se abraça a

palavra, porque antes ela já se apossara do hospedeiro. E é impossível passar indene. Há perigo na

imersão no Nome. A delícia primeira transmutada. Intoxicação. E eis que brota o falar inimpedível, a

palavra astuta se desprende do hospedeiro, já madura, fazendo-o crer que ao pronunciá-la é a si que

liberta. Engano ardiloso do Nome. E a palavra já não se produzirá. Perdeu-se o seu amante em suas

malhas. Não pode usá-la, é servo seu agora.


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III obnubilar

Turva-se o pensamento. As palavras não são companheiras, são conselheiras astutas, fraudulentas.

A um só tempo guiam pelo reto caminho e o perturbam. Leitura e escritura tornam-se sapiência e enleio,

graça e suplício. Alentam e esmorecem. É da natureza delas ora o alto ora o baixo. Mas mesmo em toda

sua complexidade, não bastam. Chega o interminável instante em que se forma e consolida na garganta o

rijo nó. Misto de falta e excesso. São vírgulas demais, alguma parte elidida: sujeito indeterminado.

Letargia e intempérie. Vocábulos que pululam súbitos e amiúde. Letargia faz lembrar o estado dos

que estão sob o efeito de um narcótico. Contudo não é assim que se define o que se sente. Salvam os

dicionários que desmentem a primeira impressão. Um sono patológico e prolongado, estado de apatia. É

como estar sob efeito de um filtro, ser vítima de feitiço de preto. E o que dizer das intempéries? E por que

estariam estas ligadas de algum modo àquela? Mau tempo, inclemência das condições atmosféricas. Nada

mais dizem os dicionários. É o afeto que trespassou muitos tempos, revirou incontáveis espaços. Bóreas

agitando-se furioso numa velha carcaça enfastiada.

IV anelo

Tornou-se pesada a máscara. Impraticável sustentar uma verdade na qual não se crê. Arrefeceu o

ânimo. Finge inutilmente, passeia pela vastidão da invenção, cria mundos e tempos de ser só, de olhos

fechados, no pensamento. Imitação tosca dos ilusionistas do verbo. Grito ardente, do fundo deste claustro

em ruínas, de pequeno toma eco. É berro, é vibração, som. A onda sorrateira acha brechas na falsa-

hermética carapuça.

Que teça suaves amarras, doces ardis, cada ato e uma vida de mentira; às vezes, consigo mesma,

sabe admitir.

V “El amenazado”
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Perversas, traidoras, embaralham-se. Que se trilhe então a nova via, desse rasgar de folhas.

Entrega-se, quase livre de artifícios – pois que é mulher –, delatada por um Nome.

E como parece bom. Anos de auto-abandono. Cárcere invisível. Ri agora, faz tolices, e alegra-se

delas. Sente o sol mais forte agora que não fecha os olhos.

Tanto esforço extraviado de ser maior, de ser mais, diferente. Superlativa e antônima. Ignorando o

mundo ignorara que o mais simples podia ser o Belo. Verso livre. Lança fora a rigidez das formas. Não se

produzirão mais quadrados sonetos. O que vale é o sentir a poesia em todo seu volume, no máximo de sua

realização, o fim na pessoa, além da página. Nunca mais leitora, nunca mais copista, nunca mais cativa

das palavras, autora dos próprios atos e desejos.

VI embargo

Traição do tálamo. Tormenta, turbilhão, tremor. Trismo, taquicardia, transpiração. Torto tosão.

Torpe tábido trapaceiro temerário. Trança-se a trama. Toca um trilo tétrico. Trono de treva. E também à

tola que tripudia, teça-se túnica tortuosa que tristeza trará ao todo.Trágico termo.

VII dissimulada

Grande delito renunciar às conselheiras e aliadas. Já era avisado que mesmo em face do maior

encanto, resoluto o corpo devia conservar-se imóvel. Deu-se voz à matéria sem préstimo. Volver então à

palavra. Ressuscitar o Nume. Mas se todas as mulheres trazem consigo Medéia latente, outras ainda

carregam o dom de Tétis. Assim, ao lado sempre alguém a quem chamar mãe. Vaticínio doloroso

provém: o ferro que empunhas tem duplo corte. Mas tal qual com o decifrador, ocorre que seu fio está

sempre já tramado, e a escolha determina-se. Liberdade é uma palavra, apenas.

VIII “The cask of Amontillado”


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Desde o princípio é o verbo, dele tudo se cria, e por ele tudo se pode arruinar. As palavras são

como a luz, depois de atravessado o prisma. Muitas cores tem a palavra. Podem acender, podem apagar.

Podem salvar e podem perder. Escolhe pois.

Uma palavra, no entanto... Mulher: esposa, consorte, senhora, dentre tantas outras possíveis

definições. Se traída, “a femina, nil femina ulla discrepat.” E todas serão Medéias.

Escolhe pois. Escolhe e todo o peso da escolha recairá sobre ti. Palavras duras ecoarão alto. Serão

pronunciadas com todo peso e força. Escolheste? Recebe então a paga. Qual dentre elas escolherá agora?

Não há mais escolha. Ouve atentamente e sofre o ressoar de cada uma. Surpresa. Espanto. Horror.

Sangue. Vísceras. Morte. Perda. Destruição. Grito. Berro. Clamor. Choro. Lamento. Dor. Dilaceração.

Ruína. Medo. Tormento. Tortura. Suplício. Aflição. Angústia. Arrependimento. Mágoa. Desolação.

Tristeza. Solidão. Vazio. Ausência.

IX Odisseu

O Sol estende seus braços. Hora de voltar para o mundo simples que deixara. Onde há calor, onde

sempre há verão. Onde não anoitece. Que seja Ítaca, depois vinte ou incontáveis anos, ora na dura

batalha, ora no mar que não se cansa do ir e vir, “maldito fazedor de viúvas”; mas uma Ítaca suave,

transformada em Pasárgada, sem inimigos para enfrentar e onde se pode viver ao lado do rei ou no

completo anonimato. Depois de tudo, haverá cicatriz que a denuncie?

X “Die Verwandlung”

Palavras são amigas, palavras são traidoras. Falso mentor que outrora se apresentara, constituia-se,

em verdade, na mais dura provação do herói. Difícil é perceber, difícil é aceitar, e sempre haverá

resíduos. Não se pode ser absolvido de um mundo de palavras sangrentas. No entanto, sempre haverá

outras linguagens.
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PAI

É comum, ainda hoje, ouvir na velha e esquecida terra do pai o também velho, mas não esquecido,

ditado que, subtraídas as variações, quer dizer o seguinte: “O excesso de estudo pode levar à loucura”.

Partiu então a filha. “Foi estudar longe”, dizia o pai, explicando aos curiosos – que sempre os há –

a partida da moça. Do seio de uma família de fazendeiros provinda, ela sempre fora diferente. “Simplória

a menina”, assim o pai a adjetivava. Antes fosse uma imprecação, no entanto e ao contrário, nada de

tolice havia no espírito da menina. A estranheza que a caracterizava, indício era de outro mal.

De princípios – a princípio e por princípios –, o pai era contrário. “Bobagem”. Mas estava lá a

mãe, “bicho do demo”, assim talvez sejam mesmo todas as mulheres. E a coisa se fez. Pra lida a menina

nunca servira. A mãe inutilmente tentava naquelas tardes idas ensinar-lhe algo dos afazeres da casa.

Cozinhar, cuidar da lavagem das roupas, pregar botões, fazer pequenos remendos. Mas a pequena tinha lá

sua cabeça em universos quiméricos. Tudo o que fazia era ficar como que acabrunhada pelos cantos, a

roer livros velhos. Antigos tratados de medicina que vinham de um tio que estudara na primeira faculdade

do país, despejados no depósito de esquecimentos que era a velha casa da fazenda; às voltas com livros de

anatomia, cujas ilustrações era ela pega, por vezes, a copiar.

O tino para curar os desvalidos, que nas brincadeiras de infância se revelava, ia se confirmando na

adolescência: a menina, a perder-se pela fazenda, bem conhecia as ervas da terra, o que muito ajudava

naquele pedaço do mundo onde tudo parecia estar tão distante. Assim e a contragosto do pai, foi a moça

cursar medicina. Ter nas mãos o poder de manutenção da vida, a libertação das dores dos enfermos.

Todavia, toda moeda tem, inevitavelmente dois lados. A mão pode se abrir para afagar; pode se fechar

num golpe fatal.

Tantos anos, só depois de quase formada tornou a moça. Bonita, pé de milho crescido, a palha

rachando, bem em tempo de ser colhida. E trouxe novidades do outro lado do mundo. Mas a maior delas

era ele. Sim, em tempo de ser colhida, e escolhera a mão que arrancaria a espiga. O pai, talvez por não
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querência de perder hábito, desaprovou de imediato a união: “Jasão! O nome já traz mau agouro!”. Jaz,

jazigo. Jasmins, jacintos. E nesse embate prosseguiam. O pai nas crendices inventadas por pirraçar, ela

enlevada e sublevada pelos perfumes de amor que absorvia daquelas flores.

O pequenino se havia conquistado também pelos tantos predicados do cunhado que havia de ser.

Sim, era um rapaz coberto de atributos. Não só era alegre – divertia o menino com tolices –, muito mais

que isso. Jovem, porém carregando postura viril dos homens que não descumprem promessas. Era justo

disso que o pai desconfiava. Talvez fosse bom demais – ele pensava isso mesmo, nem tanto por estimar o

moço, mas essencialmente por desprezar de modo infinito a filha. Também não podia negar, era mesmo

notável. Noutro tempo poderia ter sido príncipe, um rei, prestes a sentar-se num rico trono.

Inúteis preces ao diabo, que homem que é homem, na hora do duro é com o cão que se assenta. O

sujeito que veio de longe, e nem parecia estar cansado, carregara de volta ao outro lado do mundo a filha.

Pequeno dano. Aquela já era dada por perdida há muitos anos, talvez desde que nascera. Não prestava.

Mas levar o menino? Foi rindo-se o pobre.

Outros tantos anos se passaram. Poucos de fato, no entanto desmedidos para o pai que do filho

nada sabia. Para os velhos o tempo costuma passar rápido, mas cada minuto sem o menino era palpável, e

pesava. Que fizera dele o mundo? Só sabia o que dele mesmo fazia este traiçoeiro tempo. A cada dia,

deitado em sua cama, de olhos fechados, se se concentrasse um pouco, sentia abrir-se vagaroso um novo

sulco na face. As unhas iam ficando amarelas e grossas. O falar quase não vinha. Palavras com mulher?

Poderia ela dar-lhe outro filho varão, um companheiro? Se não, então não valia.

Seu império havia sido saqueado, foi destituído do bem mais precioso. E quem causara a sua

ruína? O homem cheio de impáfia e a filha traidora. Com seus encantos, talvez mágicas secretas,

enfeitiçara o irmão, para que a seguisse.

Volta a moça pela última vez à casa paterna, não é mais tempo de colheita. A palha lhe fora

arrancada. A polpa já endurecida fora moída. Mas sempre resta a aspereza do sabugo. Essa mulher gasta

não era o filho pródigo, e nem dele, por boca dela, quis saber notícia. Não lhe acreditaria, preferiu ter por

verdadeiro qualquer história boa que inventasse. Não gozou deste alento e, no seu último sonho triste não

deixou de sentir vivamente o mal estar, a estranheza pela filha que, cultivados, floresceram ódio. Neste
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sonho dos que sabem que vão morrer, viu o menino sendo retalhado, rasgado, dividido. Na longa

viagem para o outro lado do mundo, ia ela deixando os pedaços moles do menino: na cerca da fazenda, na

estrada de terra, no capim do atalho e, por fim, no longo mar de incertezas em que todos naufragariam.

ABSIRTO

Pobre garoto inocente. Tinha ele onze anos quando, no meio da brincadeira de pular corda, ela

pegou do brinquedo e amarrou-o na cerca para fazer cócegas. Não bastasse isso, baixou-lhe as calças e se

foi, deixando o menino à espera de um passante, um empregado qualquer da fazenda que o soltasse

depois de algum riso.

Voltou contrariado, mas como sempre, num sorriso sem dentes, meio de canto, num olhar a um só

tempo maldoso de leve e brincalhão, estava desarmado. Às vezes ela chegava a ser cruel, mas o que ele

sabia mesmo, era das histórias que ela vinha lhe contar. Falava de heróis e monstros terríveis. Ele

arregalava os olhos, atento, e desenhava com a mão, no espaço vazio, o labirinto onde se debatia o

Minotauro.
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Existia um mundo que pertencia só aos dois. Ela lhe ensinava brincadeiras, fazia-lhe presentes,

mostrava lugares secretos, inventava truques bobos com os quais se divertiam. Foi com ela também que,

antes mesmo de ir à escola, ele aprendeu a ler. Chegou até a escrever versos. Pena que fosse pouco

sensível. Só o leitor máximo pode ter boa pena; e há ainda que se ter esforço e talento – que é uma forma

disfarçada de dedicação. O infeliz não possuía ambos e, ao contrário, contava ainda com a inevitável

estupidez juvenil.

escritos de Absirto?

Ainda não sabia, mas a seguiria por toda parte, até o fim, como que encantado. Cegamente

deixaria para trás o pai, o calor, o pudor, Deus. Entregaria-lhe um dia a alma, tão logo, a vida.

Ela tinha algo de sobre-humano, mais do que o natural. Assim, a heroína mágica, protegeria-o

com a pele de leão que, segundo ela, ganhara de presente do próprio Héracles. Era natural que fosse atrás

dela, ainda mais agora que trazia um novo amigo, um moço engraçado que lhe contava piadas pueris e

fazia brincadeiras de enganar.

A casa da fazenda tinha muitos quartos, era difícil encontra-la na brincadeira de esconde-esconde.

Ali era tudo diferente. Era difícil esconder-se e, logo mais, seria impossível ocultar a fantasia. O tempo

passava, ele crescia, e a habitação ficava menor. Esbarravam-se, faltava espaço, faltava ar. Por onde quer

que andasse, para o lado que se voltasse, encontrava um rastro fresco da irmã. Olhava-a agora de um

modo novo, incomodado. Ela o asfixiava.

Naquela mistura de tudo, de todos, de corpos e idéias, roupas e livros, na confusão dos dias e

horas, encontrou certa vez algum escrito.

Nada me perguntes deste dia

O que fiz, senti ou desejei

Não indagues

Não perscrutes

Não investigues

Não busques o que não queres


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Não procures o que não quer ser achado

Não tentes adivinhar

O que tampouco eu conheço

Nada me perguntes sobre nada

Pouco vale saber o que vai cá dentro

É tudo pouco definido e móvel

Uma sucessão de sentimentos indistintos

Uma desordem de antônimos

Nada que valha a pena entender

Pois que num instante se percebe

No outro já é oposto absoluto

Nada passível de apreensão

Sentires e idéias vão e voltam

Livres, compreendem-te e confundem-te

Larga-me, abandona-me no vazio

Que é o convívio com tantas formas

Signos assombrosos, cheios de significado

Instáveis, indecifráveis

Triste de mim que me desobrigo do mundo

Que me rendo a este universo de poesia

Que me entrego aos devaneios do espírito

Que só conhece uma linguagem

Numa oficina onde tudo se cria livremente

Não pode Gepeto conter o seu boneco mentiroso.


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Há coitados que nunca resignificarão qualquer texto, pobres de espírito que, no entanto,

desconsiderada esta falha – que não julgam possuir –, vivem desacorrentados. Há miseráveis que o

superinterpretarão e a estes a salvação não virá.

Já pressentia, não queria crer, mas sabia para si que tais versos, ela os escrevera na ânsia das

noites quentes, no silêncio abafado do quarto contíguo. Ela o queria, ela também o queria e ele agora

podia desprender a respiração, soltar os braços, descontrair os músculos.

A inquietação transmutara-se. Que topasse com ela, que se esbarrassem. O espaço voltou a se

fazer imenso e ele desejava cada encontro que parecesse casual. A verdade é que ele a espreitava a todo

instante. Esperava o momento mágico, como nos truques da infância, em que, sem que ele percebesse, a

moeda desapareceria da mão, e surgiriam então flores, e fossem envolvidos pelo aroma, e se unissem com

naturalidade, gêmeos, Cástor e Pólux, constelação apaziguada.

Numa das tardes do espiar, deu-se conta de que, tão imerso estava no encantamento de seus

desejos e crenças, esquecera-se do tal moço alegre, que o entretinha fazendo troças de toda sorte. Era ele

o amado, ele o amante, ele o dono dos poemas, ele o proprietário de seu corpo, ele o possuidor de sua

alma, ele o senhor se sua magia.

Reconheceu então em si mesmo a monstruosidade da velha história do Minotauro, a união

interdita, o caráter das coisas, o que lhe obstava a efetivação do desejo.

Abandonou-se a si próprio, sentiu-se estilhaçado, como se com suas próprias mãos ela o picasse

em partes miúdas, irrecuperáveis. Quando se atirou o corpo nada mais era, pois que a alma já estava

inteiramente partida. A divisão física que se pôde ver, foi do sangue, que se largava da carne fria,

escorrendo no asfalto, na desesperada tentativa de purificar-se da mácula, de arrancar dele a parte dela

que até ali o perseguira.

CREÚSA

1º DIA
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Sem grandes novidades. Fui ao colégio, encontrei as meninas, combinamos de ir na casa da

Pepê de tarde... acho uma chatice. A Heleninha só fica falando dos meninos. A Pepê parece minha avó.

Ao invés de ficar com a gente, fica o tempo todo fazendo tricô. Parece até que vai acabar o mundo se ela

parar de tricotar... Nem sei porque ainda vou lá. Acho que é só por não ter o que fazer em casa. Ah! Outra

coisa, parece que vamos trocar de professor. Parece que a professora de história vai embora, não sei

porque, ou o professor de latim, não tenho certeza. Mas é só... sei lá. Acho que por hoje é isso.

2º DIA

Comecei o dia muito mal. A Heleninha veio brigar comigo por causa do Alexandre. Acha que eu

quero namorar com ele. Ficou com ciúme só porque o pai dele foi lá em casa jantar com meu pai na

semana passada pra fecharem um negócio e levou ele junto. Eu nem olho pra ele. Acho ele até bonitinho,

todo mundo acha. As meninas morrem por causa dele. Mas para mim é mais um moleque chato e metido

que acha que pode ter o que quiser só porque é bonito e rico. E por falar em bonito, o novo professor anda

fazendo sucesso. Só falam nele. Eu não achei nada de mais.

3º DIA

Hoje foi a primeira aula do professor novo. Odeio isso. Queria que começasse na segunda. Acho

tão estranho quando as coisas começam pela metade... parece que não vai dar certo, sabe? A aula até que

foi bacana. Mas ele não entrou na matéria direito. Hoje foi mais pra se apresentar mesmo. Aí ele ficou

falando das viagens que ele fez, trouxe fotos de vários monumentos de um monte de países. O que achei

mais legal foi a explicação que ele deu sobre porque os bárbaros eram chamados de bárbaros antigamente.

Não lembro direito. Mas é muito interessante. Os bárbaros não eram uma gente sem civilização, sem

cultura. Eram iguais aos outros. Até mais legais eu achei.

Que vergonha, é embaraçoso, mas por outro lado é bom que eu tenha guardado isso, só está aqui

porque não vi antes, senão já teria jogado fora faz tempo e é justamente o que acho que vou fazer agora,

ou talvez não, já não é a primeira vez que eu me sento nesse chão gelado, toda vez que fico mexendo nas

coisas velhas fico imaginando um monte de coisas, aí os pensamentos vêm difusos, difuso? será que é

difuso mesmo? não sei bem o que essa palavra significa, a gente usa um monte de palavras sem saber o
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sentido direito, pelo menos eu, deve ter pessoas cultíssimas no mundo, mas então eu tinha 11 anos

quando escrevi, eu sempre começava um diário e rasgava, tinha vergonha que alguém visse, ficava

arrependida do que tinha escrito, achava feio, queria mudar o estilo da escrita, mesmo nessa época eu já

pressentia os diferentes estilos, como será que as coisas foram acontecendo? é isso, está aqui registrado,

ele não me impressionou, e quatro anos depois eu estava lá, começando esse relacionamento sem sentido,

eu era tão certinha, e de repente, logo eu, o professor, mas me lembro que demorei muito para aceitar a

idéia, para o primeiro beijo, e foi o primeiro beijo mesmo, é lógico, eu era a certinha, fico vermelha agora

de me imaginar naquele tempo, que coisa estranha, como foi mesmo? tão importante e eu esqueço de

tanta coisa, até do começo, mas um dia sem querer esbarrei meu braço em sua mão, era quente, olhei nos

olhos, fiquei vermelha, deve ter sido assim, ou do jeito que eu quiser lembrar, a memória é minha e eu

acho fantástico esse mundo inverossímil da mente, saí, me escondi, sentava no fundo, baixava a cabeça,

depois foi chegando perto, devemos ter começado a provocar encontros e simplesmente foi, não importa,

mas que loucura, eu tinha quinze anos, é normal que uma menina se apaixone pelo professor, mas a

correspondência, acho que é algum tipo de patologia, aliás, acho que descobri do que sofre a Heleninha,

depois preciso falar com ela, estranho, fiquei com uma raiva naquele dia, e o coitado do marido da

Heleninha, não, eu não tenho nada com isso, que horas serão agora? hoje tenho que dormir cedo, eu acho

que eu gostava dele porque ele era grande, meio heróico, sei lá, nem gosto de homem desse tipo, mas

parecia que era a coisa mais importante do mundo, eu fantasiava como seria o primeiro beijo, embaixo da

chuva, sei lá por que, não posso esquecer de comprar requeijão, eu não comia requeijão nessa época, era

tão enjoada, do que mais não gostava? aquele doce estranho, ambrosia, acho, quanta coisa, o que será que

aconteceu com essa gente? ela se saiu bem, mas se eu soubesse, a culpa não foi minha, eu não fazia idéia,

me dá um certo nojo de lembrar agora, isso aqui ele trouxe da última viagem pra Europa, não faz mal

guardar, não lembra nada, não dá pra sentir raiva, mas eu queria que tivesse sido igual a todo mundo, eu

pensava que estava tão à frente do meu tempo, dela eu tenho até dó, agora me ponho no lugar eu faria o

mesmo, sem hesitação, nessas horas a gente não pensa, de todo jeito acho que morri pra ela mesmo, odeio

esses barulhos quando estou sozinha em casa, será que ligo? não, ela vai começar com aquelas bobagens,

Heleninha em doses homeopáticas, desde sempre, nunca aprendo, parece história inventada, parece que
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está tão longe, o médico disse que é memória seletiva, que eu preferi esquecer algumas coisas, queria

esquecer do sábado, que vexame, que cheiro de café, não posso, vai atrapalhar, esqueci de pôr o lixo pra

fora, não consigo enxergar agora o que vi naquele homem, como eu era idiota, também, o senso estético

muda ano a ano, isso deve ser problema, crise de personalidade, falta de identidade, acho que sou um

pouco, minhas unhas estão horríveis, senso estético, senso de direção, eu não tenho senso nenhum, já dá

pra ver, eu gosto de mim assim, mas podia ser de outro jeito, era bom também... a campainha, logo agora,

pernas dormentes.

Dois rapazes. Pôde reparar na limpeza dos uniformes que não estavam amarrotados àquela hora do

dia. Deixaram um pacote bonito. Havia feito alguma encomenda? Os entregadores se foram.

JASÃO

Encontrou-se no local, uma carta que, de certo modo, justifica seu desaparecimento. Uns dizem

que fugiu, outros relatam que o viram ascender aos céus. Dizia-se que era alcoólatra, o que comprovam os

poucos documentos de que se dispõe, mas uns quiseram acreditar que aqueles espasmos e delírios eram

fruto de arrebatamento divino. O certo é que a verdade se perdeu, ainda que tais ocorrências estejam

situadas num momento muito pouco distante do presente. Acontece que os tempos são outros, impera a

agilidade e, neste ritmo frenético, facilmente histórias, coisas e pessoas se dissolvem. Em contrapartida,

não desapareceu no Homem ainda a necessidade de criar mitos. Para que se tenha maior clareza dos fatos,

vão anexados à carta dois documentos que atribuem graves delitos ao sujeito. Foram excluídas algumas

partes dos documentos que seguem, a fim de preservar as identidades dos demais citados, já que a

investigação tem como objeto único o homem-meio-mito do nosso tempo. Também foram suprimidos

quaisquer objetos que pudessem identificar datas e locais, como timbres, assinaturas e outros, visto ser

esta uma exposição considerada ilegal, já que tais documentos não foram liberados ao público. Com base

em análise minuciosa dos papéis encontrados, acredita-se que havia ainda outros documentos, no entanto,

não foi possível acessa-los, nem se sabe ao certo se foram conservados.


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Documento 1: Carta não datada (transcrita de cópia do documento original)

Acusai-Me vós, que julgais não ter pecado. Sou mesmo culpado e admito, e grito alto. Ouçais

todos: culpado sou de amar, de amar de um amor da maior inocência e candura, o qual mundanos vis

como vós ignorais, crendo-o erroneamente impuro e maculado. Maiores são as leis de todo o sempre do

que as vãs tábuas edificadas pelo homem. Deus Me absolverá do que ora nomeais crime, pois que o

Próprio criou o sentimento.

Vossas mentes são incapazes de perceber o que ora digo, de toda maneira, crédulo, confiante no

porvir, deixo ao mundo tal missiva, como que um testamento de virtude, pois que segui d’Ele os

preceitos, e amei. Amei ao próximo mais do que a Mim, mais do que pude, mais do que se pode, mais do

que o Próprio Filho à humanidade. Pensais vós que blasfemo? Ou então que desvario? Enganai-vos,

tendes diante de vós o segundo enviado.

Para que entendais é preciso que vos conte uma parábola, preciso não é, mas trata-se de hábito

familiar. Havia num lugar qualquer, que pouco importa, uma gente, que importa tampouco, e que era

cheio de coisas tão desimportantes quanto o próprio lugar. Não percais tempo em imaginar tal cenário,

concentrai vossas forças em enxergar aquela coisa miudinha, aquela beleza doce e casta que brotara em

meio a toda esta inutilidade. Pois bem, o Senhor cuidou dela, acariciou-a, carregou-a ao colo, fez toda

sorte de mimos. No entanto, o diabo estava à espreita, a escutar pelas frestas das portas e janelas e,

naturalmente, enciumou-se. O demônio quis levar deste mundo a pequena pérola, mas o Senhor lutou.

No último instante, resguardada a jóia, o Senhor, por Sua misericórdia, poupou o senhor das trevas.

Pois este é o mandamento único do qual sou porta-voz: amai aquilo que é Belo, e basta. Daí deveis

saber que não é correto amar a todos, e sim desprezar e lutar contra todos os que querem destruir o Belo.

Saibais, assim, que, seguindo tal mandamento, nunca incorrereis em falta, ainda que os parvos doutores

da Terra isso apregoem; saibais do mesmo modo que, nessa mesma Terra, nem todos são filhos de Deus.

Ao contrário, o mundo está infestado por criaturas do inferno.

Não sejais pois incautos, observai. Abri vossos olhos e percebais de que natureza é o verdadeiro

pecado. Muitos desprezarão Minhas palavras. Muitos julgar-Me-ão néscio. No entanto, em verdade vos
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digo: ouvi Minhas palavras, aceitai o mandamento único, e de vós serão todas as delícias da Terra e, ao

gozardes delas, atingireis todas as vezes as alturas.

Documento 2: Ação de separação litigiosa (escaneado de cópia do documento original, contendo

alterações anteriormente justificadas)

Medéia, nacionalidade XXXXXX, casada, Médica, inscrita no CPF sob n°

000.000.000-00 e no RG sob n° 00.0000-00 SSP/XX, residente e

domiciliada em cidade X – UF X, à rua X , n° 000, bairro X, vem à

presença de Vossa Excelência, com fulcro no art. 5°, caput, da Lei n°

6.515, de 26 de Dezembro de 1977, propor AÇÃO DE SEPARAÇÃO LITIGIOSA

contra JASÃO, grego, naturalizado brasileiro, casado, Professor,

inscrito no CPF sob n° 000.000.000-00 e no RG sob n° 000.000 - SSP/XX,

residente e domiciliado em cidade X – UF X, à rua X n° 000, bairro X,

pelos seguintes fatos e fundamentos de direito:

I - DOS FATOS:

01. A Separanda está casada, sob o regime da Comunhão Universal de

Bens, com o Separando, desde XX/XX/XXXX, de acordo com a Lei n° 1.110,

de 23 de maio de 1950, conforme fotocópia da certidão de casamento

anexa à presente peça vestibular;

02. Ocorre, que há mais ou menos 01 (um) ano, desmotivadamente, o

separando vem descumprindo com suas obrigações de cônjuge-varão, no

tocante ao sustento da família, companheirismo, afetividade com a

esposa, proteção, manutenção das demais despesas do lar e chegando em

casa embriagado e deixando de ter relações conjugais com a esposa,

estando também envolvido com prostitutas e jogos de azar;

03. Durante todo o período acima descrito, o separando não dirigiu

nenhuma palavra sutil à esposa, apesar de viverem sob o mesmo teto,


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dormindo em quartos separados, tornando a convivência humilhante e

insuportável, uma vez que tal relação só vem a prejudicar a saúde

psicológica da separanda;

04. Outrossim, o separando por diversas vezes e durante vários dias

abandonou o lar conjugal, sendo que, segundo relatos de testemunhas, o

mesmo se encontrava, nestas ocasiões, junto à menor XXXXXXXXX, o que

caracterizaria ainda crime de corrupção de menor, como previsto pela

lei 2252/54, delito que encontra-se em processo de julgamento e toda a

documentação envolvendo o caso está anexada a este documento;

05. Diante de um quadro de privações materiais e afetivas, do

desrespeito do separando com sua cônjuge, do desamor inquestionável,

não resta a menor dúvida de que o mesmo violou e continua violando

gravemente os deveres do matrimônio, resultando numa insuportável

convivência em comum e numa impossibilidade de coabitação, não

restando outra medida, senão a busca ao Poder Judiciário da competente

decretação da separação judicial e suas conseqüentes providências.

II - DO USO DO NOME:

01. A separanda pretende exercer a faculdade prevista no art. 17, § 2°

, da Lei n° 6.515/77, continuando a utilizar o nome de casada, ou

seja, XXXXXXXXXXXX.

III - DOS BENS DO CASAL E DA NECESSÁRIA PARTILHA:

IV - DO DIREITO:

01. O pedido de separação judicial encontra amparo legal no art. 5° ,

caput, da Lei n° 6.515/77, que estabelece a norma de que a separação

judicial pode ser pedida por um só dos cônjuges quando imputar ao

outro conduta desonrosa ou qualquer ato que importe em grave violação

dos deveres do casamento e tornem insuportável a vida em comum;


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02. Na presente peça vestibular, ficou cabalmente demonstrada a

infração pelo SEPARANDO dos deveres matrimoniais positivados no art.

231, especialmente em seus incisos II, III e IV, do Código Civil;

03. Assim sendo Excelência, a pretensão da SEPARANDA encontra amparo

legal, jurisprudencial e doutrinário, sendo legítima, necessária e

urgente, sob pena de prejuízo irreparável sob todos os aspectos à sua

família, merecendo pois a proteção da tutela jurisdicional do Estado,

uma vez que encontram-se presentes os pressupostos processuais do

periculum in mora e fumus boni iuris, autorizadores do deferimento de

pedidos liminares.

V - DO PEDIDO:

Diante do exposto, requer a Vossa Excelência:

a) LIMINARMENTE, a imediata decretação da separação de corpos, nos

termos do art. 7° , caput e § 1° , da Lei n° 6.515/77, e 223, do

Código Civil, como forma de garantir a tranqüilidade e segurança da

separanda.

Nestes termos,

Pede deferimento.

São Paulo, 09 de dezembro de 2007

Documento 3: Denúncia de tentativa de homicídio (escaneado de cópia do documento original, contendo

alterações anteriormente justificadas)

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE (XXX), por seu Promotor de Justiça

que oficia perante este D. Juízo, no exercício de suas atividades, com

base no inquérito policial anexo, vem à presença de V. Exa., oferecer

DENÚNCIA contra JASÃO, (Nacionalidade), (Estado Civil), (Profissão),


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nascido em (...../....../.........), natural de (.................),

portador da C.I. nº (...................), inscrito no CPF sob o nº

(..................................), residente à Rua

(..........................................), Nº (.....), Bairro

(....................), Cidade

(.....................................), Estado (....), CEP.

(.....................), pelos fatos e fundamentos a seguir expostos:

Conforme o Inquérito Policial em anexo, no dia (... /...../........),

por volta das (....) horas, o denunciado dirigiu-se à residência da

vítima, sozinho e, após discussão com a mesma, agrediu-a de modo

violento, o que, dados os fatos conforme relatados pela vítima, veio a

constituir tentativa de homicídio.

A polícia compareceu ao local logo após o evento, juntamente com as

equipes médicas. O denunciado foi abordado pela polícia ainda dentro

da residência da vítima. Provavelmente tomado pelos efeitos de alta

ingestão alcoólica, este encontrava-se dormindo quando foi

surpreendido pelos policiais, que procederam à prisão em flagrante.

O denunciado apresentava altíssimo nível de embriaguez, cuja

constatação prescindia de qualquer teste, vez que a fala pastosa, o

andar incerto e dificultoso, o rubor dos olhos e o odor de álcool que

dele exalava indicavam com clareza o crítico estado do denunciado,

circunstâncias estas narradas tanto no boletim de ocorrência quanto no

auto de prisão em flagrante lavrados pela autoridade policial

(fls.......................).

Exames periciais realizados no local da agressão requisitados pela

autoridade policial presidente da peça inquisitorial constataram que,

conforme se percebe dos laudos às folhas.........e........., o

denunciado,
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Testemunhas ouvidas na fase pré-processual relataram que, por

diversas vezes, não só elas próprias como outras pessoas tentaram

persuadir o denunciado, no sentido de que este não fosse à residência

da vítima, pois, dado o litígio em que se encontravam e por seu

histórico de agressões provocadas por embriaguez poderia dar azo a

conseqüências desastrosas.

Um dos testemunhos dá conta de que, em certo momento (minutos antes do

denunciado iniciar seu trajeto), mais uma vez interpelado e chamado a

desistir da ida à sua antiga residência, o denunciado afirmou: "-

Dane-se, morra quem morrer!"

Desta forma, o denunciado cometeu o crime de tentativa de homicídio,

incorrendo na sanção do artigo 359 do Código Penal.

Isto posto, requer esta Promotoria de Justiça seja recebida a presente

denúncia e processado o acusado, sendo citado para interrogatório e

demais procedimentos de praxe, pena de revelia, ouvidas as testemunhas

abaixo elencadas na instrução, a qual terá o Rito Ordinário (artigo

394 e seguintes do CPP), e, afinal, condenando-lhe nas penas cabíveis.

1. NOME DA TESTEMUNHA 1, devidamente qualificada às fls. ....)

2. NOME DA TESTEMUNHA 2, devidamente qualificada às fls. (....

3. NOME DA TESTEMUNHA 3, devidamente qualificada às fls. (....

Local, data. (Nome e assinatura do Promotor de Justiça).

CREONTE

Eu morri. Brás Cubas teve esse direito, de ver tudo, saber tudo, cada pensamento, cada murmúrio,

enfim. Sou um espectro agora. E não me seja negado isso já que Shakespeare abriu precedentes.
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Eu vim para complicar e não para resolver; ou não, leia-se o inverso. Às vezes me esqueço. É

que aqui do outro lado é como um espelho. Aliás, por falar nisso, não há nada de fenomenal por essas

bandas. Mas deixemos disso. Outra hora escrevo um tratado sobre os seres, criaturas animais e vegetais,

enfim, as riquezas deste novo mundo que vocês aí chamam de Paraíso. (Eu não tinha sabia disso,

lembrem-se de que não sou cristão: sou Grego!).

Sem me perder nas piadas; embora realmente valha mais perder o amigo do que a piada, até

porque os amigos não valem nada. Cortem-se as divagações.

Tudo começa então... Isso está errado. Ah, sim, como fazem vocês, depois dos Grimm – passei a

exercitar a rima do lado de cá. Era uma vez, num lugar muito, muito distante, uma mulherzinha ordinária

– ela matou minha filha e eu, oras, como deveria chamá-la? Mas esta parte é quase o fim da história.

Sigamos o fio – aliás esta história de “não perder o fio da meada” também é do meu povo. A idéia

é da moça Ariadne. – Teseu, segure as pontas: Neste lugarzinho, vivia tranqüila a mulherzinha. Era feia e

carrancuda e ninguém estava disposto a tomá-la por esposa. Só se casou porque chegou lá um rapazola

interesseiro. Para conquistar o reino dele tinha que roubar o reino dela. (É assim que se fazem os

impérios).

O pai da moça não era bobo nem nada. “Leva aí essa pele de cabrito! Só com a condição de levar

consigo a ovelha negra da família.”

Esse rapaz, que se chamava Jasão, pobrezinho, tinha uma sandália só. Veio me pedir um sapato

(eu era rei e rico) e levou-me a filha, o safado.

Não se esqueçam de que morri velho, minha memória é fraca. Eu tinha deixado passar o Absinto.

Absinto foi uma bebida que a moça (a primeira, a feiosa) inventou para deixar o moço Jasão bêbado. O

teor alcoólico naquela época ainda era bem elevado. O pai da moça má ficou muito bravo porque ela

levou o Absinto, já que todos nós, gregos, troianos, bárbaros e afins éramos muito bons de copo. Mas ela

precisava, coitada. Assim, ela teve dois filhotes.

Neste momento eu entro na história – e logo saio, já contei que ela me matou, não que quisesse de

verdade, mas o fato é que eu acabei morrendo. – Então veio Jasão pedir a sandália. Minha filha, a que tem
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nome de doméstica, tinha um dia cruzado com o tal, ficou apaixonada e coisa e tal, mas ele saiu

correndo (naquela época os homens se davam melhor com os homens, vocês sabem) e perdeu a sandália.

A pobre coitada ficou anos adorando a sandália, criou o templo da sandália, instituiu o culto à

sandália, pôs a sandália em redoma de vidro (sim eu copiei isso do francês da cobra que comeu o elefante

– quantos doidos soltos no mundo! E ficam famosos...).

Vocês já devem ter imaginado o final da história. Ele chegou, ela o reconheceu e pronto. No fim

das contas ela preferia cultuar a sandália. O moço estava barrigudo, não largava o Absinto – tornara-se

um vício – e tinha, o que já era de se esperar, um pé maior e mais feio do que o outro. Algo como,

Cinderela na esquerda, Frodo na direita.

Casaram-se, de qualquer forma, foi assim que determinou o “mais trágico dos trágicos”, o

Destino, a desfortunada Fortuna, o Deus único e verdadeiro – a propósito, o paganismo anda fora de

moda. Já faz uns dois mil anos que ser politeísta virou cafona.

Tínhamos nos esquecido da feiosa. Éramos bastante liberais na época mas bigamia era um troço

complicado.

As pessoas são tão previsíveis. Ela matou a minha Creusa, já disse, e eu morri junto. E depois de

tudo isso, só ela viveu feliz para sempre.

O Jasão era mesmo um maricas, natural que fosse esquecido, morreu, honrosamente, atingido na

cabeça, acidentalmente, por um cabo de vassoura. Quem entrou para os anais da História, manografou a

calçada da fama, foi a feiosa, por conta de uma banalidade. Subiu na torre, jogou as criaturas pela janela.

Não creio que tenha atingido o sucesso por este evento. Tenho para mim que ficou famosa por causa da

feiúra. Isso, realmente, lembro-me, tem um espelho, uma maçã, mas isto é conto para outra das mil e

tantas noites da eternidade.


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Parte III

OutrosTempos, Outros Rumos

SENHOR DE ELEFANTES, CAVALOS, HOMENS E ABSURDOS

sem teoria nenhuma

Esta é a história de um homem que filosofias, do nosso tempo ou de outros, nunca poderão

explicar ou entender. Não há quem possa abarcar o inabarcával. O maior derrotado que a História

conheceu. Aníbal Barca: inexplicável selvagem engenhoso.


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O que pensava Aníbal? “Suponhamos, que tudo é de supor”. Quase o mesmo que pensou

Xerxes. Mas não tinha o guerreiro africano, ao pé de si, milhares, atrás de milhares. E, diferente deste

último, não temeu que tudo estivesse acabado em um século, muito menos chorou. Que Xerxes e os

fracos se dispussem a isso. Quanto a ele, daria melhor fim ao olho que lhe restara.

Pressentia então a fama que conquistaria? Estava a entregar a vida de muitos homens, a sua, e a

estragar o seu corpo, que iria sempre à frente na batalha, e sabia disso; mais do que ninguém estava

cônscio das infinitas mortes e do fim de seu império. Nada havia que o demovesse, e já nem mais se

queria, tão lúcido ele se mostrava, e tão confiante – na morte certa, mas isso os outros não precisavam

saber.

Isto daria razão a um comandante que cruzasse os Alpes, para chegar gasto e morrer fazendo

violência, em um último fôlego. Imprimir o nome de Cartago na história, por mil anos, ainda que fosse

por sua absoluta queda.

Engano. Com nada disso sonhava o General. Fiava-se em algo que ouvira tempos atrás, não podia

saber onde, nem quando exatamente. Sem a loucura, não passava o homem de uma besta sadia. Pedaço de

carne morta ainda capaz de procriar. Era nisso que pensava Aníbal, parado em sua tenda, sentado, pernas

abertas, braços apoiados sobre as pernas, cabeça sempre erguida.

Pensou que qualquer coisa não valia nenhum esforço. As obras estariam ali, se permanecessem

não teriam dono, ou seriam atribuídas ao mais inútil dos homens. Será mesmo que o jovem da Macedônia

fizera tudo aquilo? “Quem construiu a Tebas de sete portas?”. Não importa quem fez, tampouco importa

o que é feito, que tudo se destrói, e se constrói, cai e se levanta, desfaz-se em areia, que torna a erguer

novos palácios.

Não amava a sua terra, apenas gostava dela. Era como qualquer outra. Em toda parte haveria

homens iguais. Haveria disputas vãs por terras e impérios. Nada disso valia a pena. Não era por Cartago

que lutava, pela expansão do império ou por seu povo. Também não tinha um Pátroclo a quem vingar.

Nada. Não cabia em si, e não queria ser igual nem parecido a todos os homens que em toda parte

são iguais. Tinha a trágica consciência de que o pequeno homem sobre nada tem controle, de que a

liberdade só se atinge ignorando-se destinos, projetos, estratégias. O único plano deste grande louco – que
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todos julgavam um gigante astuto e destemido, defensor da pátria e da honra, como nos contam as

histórias– era fazer em si o maior império de todos os tempos.

E imperou sobre seu próprio corpo. Entregou-o à própria sorte, em nome de dar fermento ao

espírito. Enquanto morria, perfurado por lanças e espadas várias, criava uma ilusão de vencedor, mais

forte do que qualquer realidade que se possa inventar, olhando, com a única vista, empapada de sangue de

muitos homens, os curiosos trajes romanos. Disciplinados, em marcha coordenada, reluzentes, iguais, não

bastasse no espírito, externando esta constatação horrível. Mas esta não é a grande verdade da História. E

o que importa?

Que se esforçem – e o fazem – todos os especialistas. Aníbal Barca é indecifrável. Escancarem-se

então as portas da invenção. Que faça a literatura o que nenhum conhecimento pode explicar. Depois de

longos anos de aventuras desmedidas, naquele momento derradeiro, sozinho, bebendo do vidrinho o licor

da vida eterna, já em meio a alucinações provocadas pela droga, unido à cavalaria assíria de seus

devaneios, quem pode saber o que perdeu Aníbal? Quem pode imaginar o que ele conquistou?

OS GRANDES HOMENS CUJAS HISTÓRIAS NUNCA SÃO CONTADAS

um conto marxista

“Fale-me sobre Marx”, disse a moça realmente interessada. Interessou-se também o estudante

alemão intercambista da mesa ao lado, que logo mudou de mesa. É que na Alemanha não se estuda Marx,

nem Heidegger, nem Bloch, nem ninguém, me parece. E os desgraçados que podem ler o original.

A moça – é bem estranho dizer isto – entendia um pouco das coisas; parecia estar acompanhando

a discussão e compreendendo boa parte dela – talvez fosse dissimulação, o que é mais provável, mas digo

que ela enganava bem. É realmente estranho falar de mulheres que entendem das coisas. Esta é uma das

grandes questões que me intrigam hoje em dia. Elas falam alto, falam agudo e falam sem parar: como

alguém pode pensar desse jeito? Mas tudo bem, eu acho. O mundo anda virado mesmo. Tem negro

virando imperador; movimentos gays tomando a cidade, gays tomando a cidade, gays governando a

cidade.
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Quanto ao Marx, eu também estava lá, e também quis ouvir a conversa, afinal o rapaz parecia

entender do assunto. Eu não costumo admitir, mas sou daqueles marxistas que nunca leram Marx,

pegaram alguma coisa de orelhada, e nem são marxistas de verdade, só quando convém para ser aceito no

grupo. Certa pessoa disse um dia que é bastante comum a leitura axial de Marx: o sujeito bota o

Manifesto (sempre o Manifesto) embaixo do braço e carrega o livro próximo à axila durante grande parte

do dia, especialmente quando há público. Talvez por isso eu nunca tenha lido. Esses exemplares de

biblioteca, vai saber por onde andaram. E é claro, eu nunca compraria um. Prefiro conservar a imagem do

Marx que eu conheço, fazendo aquecimento, naquele quadro ótimo de Monty Python. Teoria alguma

superará esta imagem. Nem gregos, nem alemães: venceram os ingleses.

De qualquer forma, o rapaz notou que eu também estava interessado e me puxou para a conversa.

As pessoas socializam o conhecimento, principalmente quando tem mulher bonita por perto. A cerveja

ninguém socializou, no entanto, quando chegou a calabresa, acho que entendi um pouco sobre a divisão

igualitária. Será que Marx pensou nisso? A constituição de pequenos grupos gera entre seus constituintes

um senso inigualável de respeito ao companheiro. São estudantes miseráveis e esfomeados que servem-se

da linguiça com parcimônia, com vagar, para não demonstrar o quanto são miseráveis e esfomeados. Não

entendi mais nada. Sempre achei que essa coisa de aparência e essência fosse um coisa burguesa e

capitalista. Grande teoria. É bonito ser comunista. Em certos meios, é claro, e naturalmente, o que

também é claro.

A moça está convencida de que o marxismo é muito legal. Vai virar comunista. Vai comprar

camiseta com a cara do Che, vai entrar para o movimento do voto nulo, vai queimar o soutien, parar de

depilar as pernas, enfim. O alemão não entendeu nada, óbvio. Só uma questão linguística, fique isso claro,

não uma limitação intelectual, como no caso da moça.

Tenho que dizer que a moça era um pouco diferente, e todos respeitavam as suas singularidades.

Nenhum problema que não compartilhasse a cerveja com os companheiros. Todos entendiam o quanto era

saudável a não ingestão de bebida alcoólica e ela podia beber tranquilamente a sua coca-cola.

Não me lembro mais de muito coisa, confesso que bebi um pouco, mas sei o quão instrutiva foi a

noite. Não bastasse todo o aprendizado ao qual já me referi, soube, ainda, o que era a desigualdade e a
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luta de classes. Na hora da conta é cada um por si. Começa a discussão sobre quem bebeu mais, quem

bebeu menos, a moça que só tomava coca, o alemão que não gostava de calabresa porque tinha cebola. O

dinheiro da moça não dava, o alemão fingiu que não ouviu, disfarçou, foi ao banheiro. O moço tão

instruído resolveu o problema. Solidário à causa da moça, passou toda a conta no cartão de crédito,

recusou-se a pagar os dez por cento, afinal, segundo ele, isso estimulava alguma coisa de que agora não

me lembro. Levou-a ainda até sua casa, no carro de marca francesa, com peças fabricadas na China,

montagem brasileira e etecétera. Pátrias irmãs, muito bonito isso. Não sei mais o que aconteceu, não sou

um narrador onisciente – e nem quero, essa coisa de querer ser uma abelhinha é assunto de mulher – mas

creio ter sido bem instruído pelas teorias do rapaz e, seguindo a lógica marxista, provavelmente agora ele

ensinará à moça o valor da troca, a importância de despir-se de certas coisas em prol dos companheiros.

Muito inteligente esse rapaz.

Auto denominar-se marxista acaba por fazer com que o indivíduo se insira em uma grupo. Há

identificação entre os sujeitos, como em qualquer outro grupo. O marxismo torna-se uma marca.

O discurso marxista se perde ao se discutir algumas coisas com a educação.

QUANDO SE UNEM OS IMPÉRIOS DEVASTADOS

Estruturalismo e Semiótica

VIDAS DOS (PERDEDORES) QUE FICARAM

observações afetuosas sobre a Fenomenologia

Fenomenologia: busca de compreensão intuitivamente de fenômenos puros, de forma a-histórica.

Distante da prática propõe mais a contemplação dos tipos. Suprimem-se as condições sociais. Para
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Heidegger deve-se abrir passivamente ao texto, assumir postura de servilismo diante da obra. Uma

auto-abnegação escravista.

HISTORINHA DE ALGUNS LOUCOS

torcendo para que Freud explique

A prática do harakiri, os homens bomba, os kamikaze, os suicídios dos japoneses quando se viam

diante da derrota, a fim de não tombarem por mãos inimigas.

“A motivação da sociedade humana é, em última análise, econômica”. Esta é uma frase de Freud,

e não de Marx, como se poderia esperar. Mas a psicanálise, ao abordar a economia desta maneira, vem

propor justamente que não se pense nela, que deve ser desconsiderada. O homem deve deixar as

repressões desta sociedade. Trata-se de uma visão burguesa sobre os problemas do homem moderno que,

no entanto, não se envolve com a economia. O mal estar do homem não é associado ao sistema capitalista

em que vive, mas à sua própria essência. Bloch diz que Freud fala tanto das “pulsões”, mas deixou de

lado uma pulsão fundamental: a fome. Definitivamente Freud não discute o social.

CANTO DESCARADO DA DERROTA

elogio aos Pós-modernos

Diz Whitman que batalhas são perdidas com o mesmo espírito com que são ganhas. É algo a se

pensar. O que dizer dos que desde o princípio do conflito o dão por perdido?