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Literatura e Sociedade

Universidade de São Paulo Reitora Suely Vilela Vice-Reitor Franco Maria Lajolo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Diretora Sandra Margarida Nitrini Vice-Diretor Modesto Florenzano Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada Chefe Andrea Saad Hossne Vice-chefe Marcus Vinicius Mazzari Imagem da capa: Arnaldo Pedroso D`Horta Gravura D (detalhe) 1958 xilogravura 47 x 58,5 cm (mancha) Coleção particular Reprodução da obra: Vera Albuquerque

Literatura e Sociedade/ Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada/ Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/ Universidade de São Paulo. – n. 1 (1996) – . – São Paulo: USP/ FFLCH/ DTLLC, 1996 – Semestral Descrição baseada em: n. 10 (2007-8) ISSN 1413-2982 1. Literatura e sociedade. 2. Teoria literária. 3. Literatura comparada. I. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. CDD (21. ed.) 801.3

DTLLC

Literatura e Sociedade

Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada Número 11 São Paulo 2009.I ISSN 1413-2982

Conselho editorial
Adélia Bezerra de Meneses Antonio Candido Aurora Fornoni Bernardini Beatriz Sarlo Benedito Nunes Boris Schnaiderman Davi Arrigucci Jr. Fredric Jameson Ismail Xavier Jacques Leenhardt John Gledson Ligia Chiappini Moraes Leite Marlyse Meyer Roberto Schwarz Teresa de Jesus Pires Vara Walnice Nogueira Galvão

Comissão editorial
Cleusa Rios Pinheiro Passos (coord.) Ana Paula Pacheco Betina Bischof

organizadora
Maria Augusta Fonseca

Editorial

ste é o primeiro de dois números de Literatura e Sociedade, revista do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), centrado em estudos da obra teórico-crítica de Antonio Candido. E é por esse intermédio que rendemos a ele nossa homenagem. Optando por um debate diversificado e tendo como eixo uma das linhas de pesquisa do departamento – literatura e sociedade –, os números 11 e 12 da revista reúnem intelectuais do Brasil e do exterior. Consideramos o debate por diferentes abordagens e perspectivas críticas, contando com a colaboração de pesquisadores e estudiosos de diversas universidades do Brasil – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), USP – e do exterior (Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Itália, Inglaterra, Alemanha). As leituras contemplam várias áreas das humanidades, incluindo Sociologia, Historiografia, Filosofia, Antropologia, Dramaturgia, porém, a maior concentração dos estudos situa-se no campo da Literatura e da Crítica Literária. Os textos enviados em castelhano foram mantidos na língua de origem. Essas discussões ora se voltam para uma obra específica de Antonio Candido, ora se atêm a um determinado ensaio, ora focalizam um conjunto de análises interpretativas. Entre as obras destacadas estão: O observador literário; Formação da literatura brasileira; O método crítico de Sílvio Romero; A educação pela noite e outros ensaios; Presença da literatura brasileira; Tese e antítese; O discurso e a cidade; Vários escritos; Recortes; O albatroz e o chinês; Teresina etc.; Um funcionário da monarquia; Os parceiros do rio Bonito. Seguindo diretrizes da revista, os trabalhos foram ordenados em três partes distintas: Entrevistas, Ensaios e Depoimentos. À feição de um vestíbulo, está a

E

seção Entrevistas. Para essa abertura de Literatura e Sociedade 11, foram definidas e encaminhadas três perguntas a intelectuais que atuam em universidades do exterior: Beatriz Sarlo (Universidad de Buenos Aires), Candace Slater (Berkeley University), John Gledson (Liverpool University). Do Brasil, respondendo ao mesmo questionário, temos: Alfredo Bosi (USP), Iná Camargo Costa (USP), Davi Arrigucci Jr. (USP), Silviano Santiago (UFRJ), Roberto Schwarz (UNICAMP). O segundo bloco, formado pela seção Ensaios, dá forma ao corpo mais amplo da revista. Foi subdividido em cinco partes para as quais convergem diferentes obras e temas, identificados em: Passagens; Literatura e sociedade; Aspectos da Formação; Dinâmicas do texto; Resenhas. O texto inicial de Passagens é o ensaio “Antonio Candido e a Faculdade de Direito”, de Celso Lafer. Nele, o crítico discute a relevância da Faculdade de Direito na trajetória intelectual de Antonio Candido, observando caminhos de sua formação. Tal mapeamento põe em destaque discussões sobre escritores do romantismo brasileiro, formulações estéticas, e outras que enfeixam a literatura como direito do cidadão. Na sequência, Lilia M. Schwarcz apresenta “Introdução ou sobre segundos escalões”, que, como o próprio título indica, remete a uma obra de Antonio Candido, publicada em 2002, Um funcionário da monarquia. Ensaio sobre o segundo escalão, na qual se inclui biografia e percurso político de Nicolau Tolentino. O ensaio aborda temas relativos a práticas do favor, conservadorismo, entre outras questões que envolvem a sociedade no Brasil do Segundo Império. Nesse andamento, destaca-se ainda “Sílvio Romero (a crítica e o método)”, ensaio em que Antonio Arnoni Prado desvenda formulações de Antonio Candido, com respeito a abordagens sociológicas e a elementos literários, presentes num consagrado estudo sobre o crítico pernambucano. Nessa sucessão, encontra-se o tópico Literatura e sociedade, pondo em evidência o ensaio “Esquema argentino de Antonio Candido” em que Adriana Amante retoma a obra Literatura e sociedade, debatendo a produção do crítico e o alcance de sua reflexão para o entendimento de problemas relativos ao estudo da literatura argentina. Segue-se “A reflexão literária e política como acumulação”, de Salete de Almeida Cara, apresentando os primeiros ensaios de crítica literária de Antonio Candido, reunidos em Brigada ligeira (1945), que tinham sido publicados no jornal Folha da Manhã. Seu argumento é o de que os referidos escritos representam uma das bases para a formulação do método de leitura que o crítico logo depois irá desenvolver. De outra parte, Benjamin Abdala Jr. examina o texto “Literatura e subdesenvolvimento” de A educação pela noite & outros ensaios, em “Desenhos do crítico, inclinações da crítica”. Centrando-se nesse texto escrito em plena ditadura militar brasileira, o crítico valoriza o ineditismo de Antonio Candido, que focaliza a América Latina como um bloco cultural com traços em comum, apontando, ao mesmo tempo, para especificidades locais. Com foco na dramaturgia, encerra o segundo conjunto analítico “A dialética de Ricardo II”, texto em que Sérgio de Carvalho traz para a frente dos debates o ensaio “A culpabilidade dos reis”. Com ênfase na compreensão materialista do pensamento crítico de Antonio Candido, sublinha dinâmicas que envolvem a relação entre forma li-

terária e problemas de natureza social. No terceiro bloco, Aspectos da Formação, situam-se alguns estudos em torno de uma obra específica. Na abertura, o ensaio “A Formação e a história fraturada: uma dupla aproximação”, elaborado por dois críticos italianos, Ettore Finazzi-Agrò e Roberto Vecchi. Para ele confluem duas visadas críticas da obra de Antonio Candido, conjugando a ideia de formação e a de sistema literário na genealogia da literatura brasileira. O ensaio do crítico argentino Gonzalo Aguilar postula em “Antonio Candido y David Viñas: la crítica literaria y el cierre del pasado histórico” uma leitura comparativa entre as obras Formação da literatura brasileira e Literatura argentina y realidad política, focalizando dois importantes fundadores da crítica moderna latino-americana. Publica-se o texto na língua em que originalmente foi escrito. Esse elenco de textos se fecha com “Formação, hoje - Uma hipótese analítica, alguns pontos cegos, e seu vigor”. Nele, Luís Augusto Fischer discute o conceito de formação e noções sobre a nacionalidade, observando-os de diferentes perspectivas. No conjunto, Dinâmicas da obra, uma crônica de Telê Ancona Lopez, “A literatura como direito”, põe em destaque a literatura como uma importante dimensão para a vida, por sua força humanizadora, tendo no horizonte de suas conjecturas a obra Vários escritos de Antonio Candido. De outra parte, o texto elaborado por Maria Augusta Fonseca, “Batuque: cultura e sociabilidade”, reaviva um artigo de Antonio Candido quase desconhecido da crítica, “Opinião e classes sociais em Tietê”, publicado em 1947, tendo como foco a receptividade de uma festa da cultura popular afro-brasileira – “o batuque de umbigada”. Em Resenhas, situam-se dois estudos já divulgados e que são de total relevância para este debate sobre a produção de Antonio Candido. A primeira resenha, escrita por Murilo Marcondes de Moura, ilumina aspectos de Recortes, mostrando, no quadro de variedades de obras e autores, diversos movimentos da crítica, que passam da investigação de um panorama geral às questões específicas. De outro lado, em “Retrato do crítico jovem. Textos de Intervenção”, Sérgio Miceli apresenta a coletânea de dois volumes organizada por Vinicius Dantas, de que também faz parte Bibliografia de Antonio Candido, com enfoque na coerência e ao mesmo tempo no processo transformador de pontos vista crítico, tanto conceitual quanto analítico. A seção Depoimentos, que compõe a última parte desse aparato de reflexões, conta com José Aderaldo Castello em “Parceria crítica: Presença da literatura brasileira”, que, numa ampla exposição, mostra facetas da amizade e do convívio entre os dois intelectuais na academia. Dessa proximidade, resultou um estudo de grande fôlego, Presença da literatura brasileira. Na explanação de Carlos Vogt, “Depoimento sobre a formação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp”, encontram-se muitas outras dimensões da figura de Antonio Candido como professor, orientador, idealizador e executor de projetos fecundos voltados para o ensino, a pesquisa, em prol do cidadão e da instituição pública. Por fim, publica-se um discurso de saudação proferido por Aldo de Lima (UFPE) em maio de 2009, na USP, por ocasião da outorga do título de Doutor Honoris Causa ao Professor Antonio Candido, concedido pela Universidade Federal de Pernambuco.

A revista comporta ainda a seção Biblioteca, indicando Publicações do Departamento, referentes ao ano que a antecede, 2008, incluindo livros, capítulo de livros e produção ensaística em revistas indexadas. Em Apêndice, encontra-se a relação de autores e títulos publicados na Revista, desde o seu primeiro número. COMISSÃO EDITORIAL

Contents
Interviews
Beatriz Sarlo CandaCe Slater John GledSon alfredo BoSi iná CamarGo CoSta davi arriGuCCi Jr. Silviano SantiaGo roBerto SChwarz

Essays
passages
62 • Antonio Candido and the Law School
CelSo lafer

80 • Introduction, or about Second Echelons
lilia moritz SChwarCz

96 • Sílvio Romero (Criticism and Method)
antonio arnoni Prado

literature and society
112 • Antonio Candido’s Argentine Scheme”
adriana amante

128 • Literary and Political Reflection as Accumulation
Salete
de

almeida Cara

142 • The Critic’s Sketches, Criticism’s Inclination
BenJamin aBdala Jr.

156 • Richard II’s Dialectic
SérGio
de

Carvalho

aspects of the Formação
164 • The Formação, Today – An Analytic Hypothesis, Some

Blind Spots, and Its Strength”
luíS auGuSto fiSCher

Sumário
Entrevistas
Beatriz Sarlo CandaCe Slater John GledSon alfredo BoSi iná CamarGo CoSta davi arriGuCCi Jr. Silviano SantiaGo roBerto SChwarz

Ensaios
passagens
62 • Antonio Candido e a Faculdade de Direito
CelSo lafer

80 • Introdução ou sobre segundos escalões
lilia moritz SChwarCz

96 • Sílvio Romero (a crítica e o método)
antonio arnoni Prado

literatura e sociedade
112 • Esquema argentino de Antonio Candido
adriana amante

128 • A reflexão literária e política como acumulação
Salete
de

almeida Cara

142 • Desenhos do crítico, inclinações da crítica
BenJamin aBdala Junior

156 • A dialética de Ricardo II
SérGio
de

Carvalho

aspectos da Formação
164 • Formação hoje – uma hipótese analítica, alguns pontos

cegos e seu vigor
luíS auGuSto fiSCher

186 • Antonio Candido and David Viñas: Literary Criticism

and the Closing of the Historical Past
Gonzalo aGuilar

196 • Formation and Fractured History: a Double Approach
ettore finazzi-aGrò
and

roBerto veCChi

dynamics of the text
216 • Literature as Right
telê anCona loPez

220 • Batuque: Culture and Sociability
maria auGuSta fonSeCa

reviews
240 • Clippings
murilo marCondeS SérGio miCeli
de

moura

248 • A Portrait of the Young Critic

Testimonies
256 • Critical Partnership: Presença da Literatura Brasileira
JoSé aderaldo CaStello

264 • Antonio Candido in UNICAMP
CarloS voGt

274 • Criticism of the Enlightenment
aldo
de lima

280 •

Library
Publication of the Department

283 •

Appendix
Articles published To collaborators Where to find the periodical

186 • Antonio Candido y David Viñas: la crítica literaria y el

cierre del pasado histórico
Gonzalo aGuilar

196 • A formação e a história fraturada: uma dupla

aproximação
ettore finazzi-aGrò e roBerto veCChi

dinâmicas da obra
216 • A literatura como direito
telê anCona loPez

220 • Batuque: cultura e sociabilidade
maria auGuSta fonSeCa

resenhas
240 • Recortes
murilo marCondeS SerGio miCeli
de

moura

248 • Retrato do crítico jovem

Depoimentos
256 • Parceria crítica: Presença da literatura brasileira
JoSé aderaldo CaStello

264 • Antonio Candido na Unicamp
CarloS voGt

274 • Crítica do esclarecimento
aldo
de lima

280 •

BiblioteCa
Publicações do Departamento

283 •

ApêndiCe
Artigos publicados Aos colaboradores Onde encontrar a revista

Entrevistas

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beatriz sarlo
Universidad de Buenos Aires

LS: Quais os conceitos que consideraria mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? BS: En la Introducción a la Formação da literatura brasileira, como si no formara parte de las hipótesis sino de los supuestos previos, Antonio Candido señala lo que la literatura tiene como elemento irreductible y, al mismo tiempo, como cualidad social: “as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade”. Esta afirmación aparentemente sencilla abre todos los interrogantes sobre la materia subjetiva de lo literario, su origen oscuro y desconocido incluso para quien está escribiendo (sobre todo para quien está escribiendo), y el sistema de formas, géneros, temas y tramas que convierten lo que casi parece imposible decir (las “veleidades mais profundas”) en un discurso al que un grupo le asigna una dimensión comunicativa, y le reconoce la posibilidad de hablar sobre lo que ese discurso mismo no es (“diferentes esferas da realidade”). La literatura intersecta lo oscuro del sujeto y lo no necesariamente iluminado de la sociedad; empuja el acto privado de la escritura hacia una escena pública de conexiones y conflictos. Este potencial de pasaje de un lugar a otro es el que ha estudiado Antonio Candido de manera ejemplar. El pensamiento de Candido captura la doble orientación de la obra literaria (en un reportaje la comparó con un Jano bifronte: no es Jano sin uno de sus dos rostros, es Jano solamente porque tiene dos rostros),1 que no significa escisión entre “esto” y lo “otro” sino justamente lo contrario: confluencia inseparable de lo uno y lo otro, del lado secreto de lo social y de su lado público, de las experiencias subjetivas y las definiciones institucionales: dos corrientes que, una vez mezcladas, no permiten que se las devuelva a una independencia anterior a la mezcla.
Véase el reportaje que tuve el privilegio de hacerle a Antonio Candido en 1980, en Punto de Vista, número 3/8, reproducido en: Raúl Antelo (ed.), Antonio Candido y los estudios latinoamericanos, Pittsburg, Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, 2001, pp. 35-45.
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Candido realiza un giro que él mismo define como el momento en que la crítica (no la crítica sociológica, sino la crítica tout court) tiene la capacidad de considerar lo externo a la obra como interno a ella: “Neste nível de análise, em que a estrutura constitui o ponto da referêrencia, as divisões pouco importam […]”,2 porque los materiales externos dejan de serlo en el momento mismo en que se convierten en materiales de la obra. La dualidad de materiales sólo es un dato de la génesis, que la práctica literaria borra para que la obra exista: donde hubo dos, habrá entonces uno, pero un uno complejo (o, como podría decirse desde Marx: un uno concreto, hecho de múltiples dimensiones). Lo propio de la obra es este uno que es dos o más de dos, sin dejar de ser uno. Por eso, Candido es el crítico de los pasajes, no de lo que sucede del lado de aquí (subjetivo) y del lado de allá (social) sino de los procesos que los comunican y los sueldan. La crítica no los separa nuevamente para reestablecer el lado de aquí y el lado de allá, sino que debe trazar el itinerario de los movimientos por los que ambos lados han llegado a juntarse. Para Candido, la crítica es sintética, aun cuando comience cortando y raspando para encontrar las fisuras, los décalages, las refracciones. El análisis literario tiene un horizonte conceptual: la captación de esas caras que, sólo juntas, hacen la cabeza de Jano. Candido ha enfrentado el problema que desveló a la crítica literaria del siglo XX abordándolo con instrumentos diferentes a los de los clásicos Lukács, Tiniánov, Adorno y, más tarde, Raymond Williams. La originalidad de Candido está, por una parte, en la mirada que entrenó desde muy joven no sólo en la literatura sino en la investigación que produce Os parceiros do rio Bonito, en su formación antropológica y sociológica, en una tradición de pensamiento socialista, en su inclinación por la historia (de otro modo sería inconcebible su Formação, historia de una literatura nacional de las que Jauss afirma que ya no se escriben a mediados del siglo XX, cuando la historia ha entrado en cuestión). Pero a esa originalidad, si se le quiere hacer justicia, habría que darle el mismo trato que Candido da a la literatura: sus conceptos son también bifrontes y, a la vez, inescindibles. No provienen del método, sino que se originan en una experiencia de lo estético que, luego, se transforma en indicaciones de método, casi siempre formuladas como explicación de una lectura más que como camino previo a ella. En Candido, la idea de lo que la literatura es se impone de modo mucho más fuerte que la indicación de lo que la crítica debe hacer con la literatura y, en este sentido, se diferencia de las recetas estructuralistas que circularon desde fines de los años cincuenta: “Sem alarde de método ou de terminología, passando ao largo do estruturalismo […]”.3 Para Candido no existe una estructura invariante de la ficción, sino ficciones que resuelven, de modo diferente y con diferentes conflictos, la interiorización de lo externo en la obra literaria. A esta resolución la denomina reducción estructuLiteratura e sociedade. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2006, p. 17. Roberto Schwarz. Pressupostos, salvo engano, de “Dialética da malandragem”. En: Que horas são? São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p. 129.
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ral, “o processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa ficcional, componente de una estrutura literária, permitindo que esta seja estudada em si mesma, como algo autônomo”.4 Está claro entonces que no se trata de la realización literaria de una estructura mítica o ficcional (como en las “aplicaciones” del modelo de Propp a la literatura que tuvieron su prestigio teórico), sino de un momento original, propio de la obra y de su escritura, que mezcla más dimensiones sociales concretas que la simple realización de una estructura narrativa universal. En este sentido, Candido es aquello que eligió ser: un crítico literario, no un sociólogo ni un semiólogo de la literatura, aunque conozca el métier y sepa de qué está hablando cuando se habla de función social, de función ideológica, de público, de figuras de autor y de campo literario. Su persistencia en la hipótesis de que todo lo que hay de social en la literatura está allí porque ha sido escrito, es decir porque ha sido objeto de un proceso formal, es la idea más difícil de sostener si no se lo hace descollando en una lectura de los textos que termine ofreciendo, como el don principal de la crítica, la síntesis de los dos rostros de Jano. LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? BS: Leí, en 1977, en Escritura, la revista editada por Angel Rama, en Caracas, un ensayo de Antonio Candido que, en esa historia de sordos que la crítica literaria argentina mantenía respecto de la brasileña, cambió para siempre mi campo de intereses. Desde aquella lectura, “lo brasileño” pasó a ser para mí un área crítica indispensable a la que yo, difusora y víctima de un cosmopolitismo incompleto, había llegado imperdonablemente tarde. Se trata, por supuesto de “El paso del dos al tres. Contribución al estudio de las mediaciones en el análisis literario”.5 Candido juzga necesario comenzar señalando los límites que encerraban las “aplicaciones” del estructuralismo a la descripción de la obra literaria, que propuso modelos binarios de organización semántica y/o narrativa de los textos. Después de veinte años desconstructivos, parecen muy lejanos aquellos proyectos a los que no les viene mal el calificativo de formalismo heavy metal que finalmente se desdoblaba en un contenidismo igualmente metálico. Sin embargo tuvieron su apogeo en los sesenta y desbordaron hasta comienzos de los setenta, momento en que Candido publica su artículo. Éste puede leerse, entonces, como una intervención polémica en el campo de la teoría. Candido, con sostenida prudencia, no dice tanto, y se limita a afirmar que se trata de una “cuestión de método”; sin embargo, el planteo que sigue es teórico: “la cuestión de pasar del 2 al 3” tiene como hipótesis de base que la oposición binaria no alcanza a captar la complejidad ni de la obra literaria ni de la sociedad, porque “un análisis excesivamente
O discurso e a cidade. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2004, p. 9. Escritura; teoría y crítica literarias, año II, número 3, enero/junio 1977 (primera edición: Revista de História, USP, número 100, 1974). Las citas provienen de la versión en español.
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dominado por la pasión de la simetría tiende a ser estático, incluso cuando se preocupa por elementos tan dinámicos, en principio, como son la evolución, el cambio, la transformación”. Para Candido, la cuestión es descubrir de qué modo operan las mediaciones entre naturaleza y cultura, para el caso el pasaje entre Cortiço y Sobrado, señaladas por Affonso Romano de Sant’Anna en su análisis de la novela de Aluísio Azevedo. Y, entre naturaleza y cultura, señala un tercer término, la sociedad, a la que caracteriza integrando varias dimensiones que son, a su vez, raciales, productivas, ideológicas, valorativas y no admiten, a su turno, ser pensadas de modo binario (el Negro no es sólo el negro, sino todos los que pueden ser tratados como esclavos y fuente de trabajo productivo, y esta precisión redefine “la clasificación étnica”). Un análisis fino de los avatares del “portugués” dentro de este campo triádico permite no sólo dialectizar la primera oposición sino ampliar el campo interpretativo de O cortiço. En páginas breves y luminosas Candido ha pasado no sólo del 2 al 3, sino también del texto a un proceso que lo incluye: el orden social de acumulación en Brasil del siglo XIX. En “Dialética da malandragem”, Candido no sólo sigue las peripecias que definen un mundo del orden y otro del desorden, sino que, precisamente al seguirlas, analizando de manera muy próxima tanto la anécdota como su narración, concluye que en las Memórias “ordem e desordem, portanto, extremamente relativas, se comunicam por caminhos inumeráveis” (un “balanceio caprichoso” entre el bien y el mal, agrega más adelante).6 Finalmente, este balanceo, después de descubiertas todas las mediaciones narrativas, indica una clave de la sociedad brasileña que habría ganado “em flexibilidade o que perdeu em inteireza e coerência”. Con movimientos tan poco subrayados como libres de cualquier sociologismo exterior a la descripción literaria, Candido pasa de la organización de las ficciones a la lógica social que muchas veces estas ocultan. LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? BS: Paulo Arantes ha señalado que la Formação da literatura brasileira comparte con las obras clásicas de Gilberto Freyre, Sergio Buarque y Caio Prado Jr. una categoría, en la que también los ubica Roberto Schwarz, la de “mestres do ensaio de interpretação do Brasil, que haviam repassado a gênese de nossos irregulares padrões de sociabilidade e vida econômica”.7 Esto pone a Candido en una línea que me resulta familiar en Argentina: Ezequiel Martínez Estrada, José Luis Romero y Tulio Halperin Donghi, por ejemplo; a ellos debería agregarse, del
6 El “malandro” vive precisamente en este balanceo; Roberto Schwarz señala el esfuerzo de Candido por identificar un “tipo social”, en un país donde el balanceo sería inevitable porque las ideas están “fuera de lugar”, es decir, fuera de centro, desplazadas. 7 Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo. En: Otilia Beatriz Fiori Arantes y Paulo Eduardo Arantes. Sentido da Formação. São Paulo, Paz e Terra, 1997, p. 14.

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lado uruguayo, Carlos Real de Azúa y Ángel Rama, con quien Candido diseñó una historia comparada de la literatura latinoamericana que fue el último gran emprendimiento colectivo de Rama antes de su muerte en 1983. Desde mediados de los años cincuenta, así como prevaleció el estructuralismo enragé al que hice referencia más arriba, la sola idea de un “ensayo de interpretación” resultaba poco menos que abominable para la sociología científica, por lo menos tal como comenzaba a conquistar y modernizar la universidad argentina que, en ese aspecto y por diversas razones, fundamentalmente políticas, no había pasado por el curso de modernización teórica que definió en Brasil a la de San Pablo. En el caso argentino, se oponía “ensayo de interpretación” a “análisis científico” de los hechos sociales, y se condenaba el primero a una especie de infierno donde tanto la palabra “ensayo” como la palabra “interpretación” resultaban igualmente abominables. La otra diferencia perceptible, si comparan los dos países, es que en Brasil la praxis de y en la universidad8 sobre intelectuales activos en la vida pública y no sólo en los espacios académicos, como es el caso de Candido, tiende puentes entre el campo cultural y el universitario. Por razones que deben buscarse tanto en la historia política como en la historia intelectual, el caso argentino difiere del brasileño: cuando la universidad argentina se moderniza, el período es breve y concluye en 1966 con un golpe de estado que arroja a los académicos al exilio o, por lo menos, los desaloja de la universidad. La oposición entre mundo universitario y campo intelectual es fuerte y por eso mi generación no conoce dentro de la universidad figuras como la de Antonio Candido, que son emblemáticas en Brasil. Similar al caso argentino es el uruguayo, con Ángel Rama como exiliado errante y gran maestro lejano. Este desvío por la historia es el que me permite pensar algunos aspectos de la escisión argentina entre ensayo de interpretación y construcción disciplinar de hipótesis sobre la cultura o la sociedad. En Brasil, ambas prácticas coexistían en el medio universitario y sus autores habían recibido formaciones originadas en ese mismo medio dotado de una continuidad que el caso argentino y uruguayo desconoce. Por lo tanto, cuando Paulo Arantes afirma que Formação da literatura brasileira pertenece al ensayo de interpretación, está definiendo un tipo de textualidad que, más allá de las grandes polémicas literarias, estéticas o históricas, obtiene un reconocimiento tanto en la esfera pública como en la académica. El ensayo de interpretación funciona de un lado y del otro porque hay una matriz ideológica (humanista, iluminista, pedagógica, socialista) que lo hace posible. Creo esta dimensión pública del ensayo es una de las razones de la persistencia y el peso de Candido. Sin duda, también ella se origina en que sus tesis pue8 Italo Morriconi la define así: “…predominância da USP como fonte de um pensamento humanístico disciplinar, nacionalmente presente” (Conflito e integração. A pedagogia e a pedagogia do poema em Antonio Candido – notas de trabalho. En: Raúl Antelo (ed.). Antonio Candido y los estudios latinoamericanos, p. 251).

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den ser discutidas y retomadas en los nuevos textos que se escriban hoy, lo cual implica la construcción de una filiación o de un conflicto pero siempre, en todo caso, de una actualidad renovada. Pero hay algo más evidente y, al mismo tiempo, más secreto: la forma misma del ensayo. No puedo terminar estas líneas sin mencionar algunos textos breves, como las “Quatro esperas”, donde Candido construye perfectas miniaturas críticas a partir de Cavafis, Kafka, Dino Buzzati y Julien Gracq. Son páginas que atestiguan la presencia de un lector refinado y reflexivo, desplegando el saber y la sensibilidad en la mejor tradición de la escritura literaria. Y, casi en el otro extremo de un mapa de ideas y experiencias, el ensayo sobre Teresina Carini Rocchi, donde se entrecruzan los hilos de la biografía, la historia de una remota cultura de izquierda y los propios recuerdos: texto próximo y cálido, suspendido entre la reconstrucción y una cierta nostalgia. Bellas escrituras, si se quiere “menores”, suspendidas en la poderosa arquitectura de una obra mayor.

22 Literatura e Sociedade

CandaCe slater
University of California, Berkeley, USA

LS: Quais os conceitos mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? A maioria das pessoas com quem tenho a honra de dividir estas páginas são brasileiros natos. Todas têm atrás de si carreiras notáveis, dedicadas à análise literária e cultural e próximas de Antonio Candido – isto é, tanto do autor de uma longa série de obras decisivas como também da figura central na vida intelectual do país. Em vista disso, creio que pode ser útil, à guisa de prefácio a meus comentários, explicar que ouvi o nome de Antonio Candido pela primeira vez quando era uma incipiente aluna de graduação da Universidade de Stanford, na década de 1970, ou seja, numa época em que o Brasil costumava ser visto, nos Estados Unidos, como um curioso apêndice da América Latina. Minha carreira universitária começou numa era em que muitos acadêmicos seguiam enamorados do New Criticism, do estudo de textos em si e por si mesmos. Adentrar o campo da literatura latino-americana num momento em que o assim chamado boom ainda conservava seu ímpeto significava penetrar num mundo em que, de chofre, as obras literárias não podiam ser compreendidas fora de um contexto social e histórico. Os primeiros livros de Antonio Candido com que eu viria a travar contato – Tese e antítese e Literatura e sociedade – aderiam, em termos gerais, a essa visão mais ampla e socialmente engajada da literatura. Contudo, eles também se destacavam em aspectos imediatamente flagrantes. Sobretudo, os livros sublinhavam uma série de elos complexos entre a literatura e outras espécies de relação social. Diferiam, assim, de um bom número de estudos que traçavam vínculos fáceis entre texto e contexto. Nos dois livros, as obras literárias emergiam como uma espécie poderosa de mediação – intricadas, multifacetadas e vitais. Esse caráter intricado tornava impossível reduzir os textos a esquemas ideológicos óbvios e dados de antemão. Ao contrário de muita crítica marxista de mão pesada em voga naqueles dias, as análises de

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Antonio Candido eram finamente calibradas e infalivelmente sutis. Uma coisa dificilmente produzia uma outra por via causal direta; as palavras pareciam capazes de guardar sentidos ocultos justamente quando pareciam mais transparentes. Os gêneros literários eram ao mesmo tempo fixos e fluidos, assumindo novas formas às mãos de autores que, por vezes, bem podiam não ter completa consciência do poder dessas formas. Além disso, tanto Tese e antítese como Literatura e sociedade sugeriam que a literatura e a crítica literária deviam ser entendidas, em algum nível, como empreendimentos morais. Uma vez que existiam num mundo de interesses econômicos e classistas em competição, as obras de arte necessariamente assumiam alguma posição diante do estado das coisas. Essa atitude moral não precisava se traduzir numa posição política declarada. Ela bem podia, aliás, revelar um feixe de contradições que, por sua vez, sinalizavam pontos de penetração profícuos em textos que podiam ser julgados tanto pelos critérios literários costumeiros (vocabulário, ponto de vista, etc) como por descompassos entre o que seus autores diziam explicitamente e o que as obras em pauta pareciam de fato mostrar. Por fim, num momento caracterizado por sentimentos revolucionários muitas vezes efusivos, a escrita de Antonio Candido destacava-se por sua contenção. Muito de sua força provinha de uma espécie de understatement que refletia um ceticismo inabalável, mas pródigo de simpatia humana. Além disso, por mais que a justiça e a injustiça fossem forças reais em ação na obra submetida à investigação crítica, sua presença era muitas vezes esquiva e difícil de retraçar. Essa dificuldade sublinhava o fato de que a literatura era vista como fundamentalmente cinética: seu convite perpétuo à reinterpretação fadava-a ao movimento perpétuo. Ao mesmo tempo em que eram sempre postos no papel por indivíduos ávidos por expressar uma visão pessoal, os textos literários eram também inevitavelmente propriedade de um grupo específico, situado num momento histórico preciso. A tarefa do crítico, portanto, consistia em determinar o lugar de um certo bloco de palavras tanto numa dada página como nos recessos e recantos de uma existência vivida em comum. LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? Minha seleção de Os parceiros do rio Bonito como exemplo do conjunto da produção intelectual de Antonio Candido reflete, sem dúvida, meu próprio interesse de longa data em formas “folclóricas” como as histórias de peregrinação, os relatos amazônicos e nordestinos sobre o “mundo encantado” e a literatura de cordel. Contudo, por mais que seja parcialmente pessoal, minha seleção também remete à inestimável perspectiva comparatista que se evidencia nessa única incursão de Antonio Candido nas ciências sociais. Num ensaio ponderado sobre as implicações de Parceiros para a disciplina da Sociologia no Brasil, o professor Luiz Antonio C. Santos faz notar, em ter-

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mos convincentes, o “compromisso ético-político de denúncia” e a “opção clara pela simplicidade” do livro, que contrastam com o jargão profissional. Após realçar a habilidade com a qual o estudo transita de um corpo de teoria sociológica para outro, sempre que essa “transgressão” promete iluminar o objeto de estudo, ele chama a atenção para uma determinada “postura ética diante do mundo acadêmico” que se exprime na aversão de Antonio Candido ao autoelogio. Muito embora tenham em mira os cientistas sociais, essas observações também despertam o leitor para uma consideração mais ampla de Parceiros como precursor e como compêndio de qualidades que marcam a obra mais explicitamente literária de Antonio Candido. Vale a pena enfatizar a ligação existente entre o livro e o corpo mais amplo da obra. Antes de mais nada, Os parceiros do rio Bonito estuda a mudança em seu sentido mais amplo. Análise em profundidade de um certo segmento da sociedade caipira no interior do estado de São Paulo, o livro é também um retrato vívido de uma sociedade mais ampla em plena transição. Muito embora documente as práticas diárias de um certo grupo de pessoas, seu verdadeiro tema é o Brasil do fim da década de 1940 e do começo da década de 1950 – de uma época em que mudanças sociais maciças, associadas à urbanização, estavam rapidamente pondo de lado um modo de vida consagrado pelos tempos no interior do país. A linguagem do livro é claramente acadêmica, mas ainda assim seu autor sabe evocar o drama de uma comunidade chamada a testemunhar seu próprio desaparecimento. A profunda ambivalência inerente às evocações caipiras, mais e mais idealizadas, de um passado claramente imperfeito encontra eco nas análises que Antonio Candido dedicou a autores surpreendidos por transformações que muitas vezes desafiam aqueles mesmos valores que eles se propunham a enaltecer. Muito embora não toque em questões literárias de modo mais seguido, Parceiros não deixa dúvida quanto à visão das formas expressivas como forças sociais. Inicialmente concebido como tese de doutorado sobre as letras que acompanhavam o cururu – a “dança cantada” característica do interior de São Paulo –, o livro que Antonio Candido viria a publicar uma década mais tarde é sobretudo uma meditação sobre a transformação de todo um modo de vida. O que poderia facilmente não ter sido mais que um livro sobre folclore, apinhado de referências a índices de motivos e esquemas de rima, converteu-se num estudo de um mundo em fluxo. Na medida em que focaliza o lugar da cultura e da sociabilidade humana num mundo tantas vezes reduzido a “enunciados políticos” ou a considerações estreitamente econômicas, o livro se converte num argumento convincente em prol da análise literária e cultural. O uso de dados quantitativos em Parceiros (descrições detalhadas do consumo de calorias pelos caipiras, por exemplo) só faz enfatizar a necessidade do quadro mais amplo em que essa informação se insere. Repetidas vezes, Antonio Candido transforma descrições instrumentais de práticas econômicas cotidianas em observações nuançadas de trocas sociais.

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Como resultado, a verdadeira dança de que trata o livro é menos o cururu e mais as piruetas verbais que os indivíduos devem executar a fim de conservar a dignidade, ao mesmo tempo em que matam a fome. Conforme Antonio Candido nota com precisão lírica, “a comida é sempre considerada indigna por quem oferece e de raro paladar por quem aceita”. Essa coreografia cuidadosa prossegue à medida que o anfitrião caipira lamenta a parcimônia da refeição e o hóspede responde, exaltando sua abundância. “Qualquer infração desses padrões acarreta ressentimentos profundos e duradouros”, observa Antonio Candido, sugerindo assim a que ponto algo de aparentemente tão concreto quanto devorar um frango assado é sempre, também, um ato profundamente simbólico. A percepção lúcida que o autor tem das ficções necessárias à vida social tende a impregnar observações factuais com um elemento de poesia inesperada. A profunda consciência dessas ficções que há em Parceiros não impede relances de identificação apaixonada com as pessoas que figuram em suas páginas. A breve evocação de Pio Lourenço Corrêa (“admirável tipo de fazendeiro paulista, culto e reto”) vibra com uma admiração genuína, que a economia verbal torna mais intensa. “A sua conversa era uma lição constante; a sua experiência, imensa; a sua memória, prodigiosa”, diz o autor numa única frase resplandecente, cuja compressão sugere uma familiaridade respeitosa, fruto de longas horas de conversa. A descrição de tantos outros informantes, gente o mais das vezes analfabeta, como “homens da mais perfeita cortesia, capazes de se esquecerem de si mesmos em benefício do próximo” vem igualmente confirmar este ponto. A decisão de fechar o livro com um apêndice contendo três histórias narradas por um dos entrevistados, Nhô Roque, sugere que, por mais fielmente que Antonio Candido orquestre a experiência desses homens, a última palavra é sempre deles. Registro de primeira mão da transformação de um interior antes isolado, Parceiros não por isso deixa de recordar outras tantas análises mais diretamente literárias de Antonio Candido em sua preocupação com a questão mais ampla da justiça e da injustiça. Por mais que permaneça estritamente voltado para seu tema imediato, o livro não por isso deixa de formular uma posição política que transcende grupos específicos e momentos históricos determinados. Sem nada de passadista ou sentimental, o autor insiste na enormidade da perda cultural em curso. De modo que não deixa de lembrar os retirantes de Graciliano Ramos em Vidas secas, os parceiros de Antonio Candido, voltando-se cada vez mais para a cidade, são forçados a abandonar alguma coisa que, áspera como era, lhes era também peculiar. A força poética das observações mais factuais do livro estende-se a seu título. À primeira vista, nada poderia soar tão chão quanto Os parceiros do rio Bonito. “Parceiros” designa uma forma de propriedade da terra amplamente documentada pelos cientistas sociais; “rio Bonito” é um topônimo dos mais comuns. Contudo, as muitas camadas das observações subsequentes convidam o leitor familiarizado com o texto a encontrar no título mais coisas do que de início

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saltam à vista. Desta perspectiva mais lírica, os parceiros tornam-se não apenas coproprietários de parcelas de terra agrícola, mas também parceiros de um legado comum – ainda que de modo desigual – a todos os brasileiros. Do mesmo modo, o rio Bonito, tão pedestre, passa a sugerir aqueles enormes rios míticos no coração do continente largamente desconhecido que os mapas coloniais desenhavam. É esse Brasil – ao mesmo tempo lar de pessoas reais e fabuloso ato de imaginação – que rebrilha em muitas das meticulosas dissecções de textos literários às mãos de Antonio Candido. As longas horas que passou observando pessoas reais nutriram sua percepção de personagens literários; a complexidade que ele reconheceu em informantes de carne e osso permitirá que ele aborde uma vasta galeria de figuras inventadas como similarmente humanas. LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência no cenário atual? Tantos aspectos do que Antonio Candido representa em termos de perspectiva crítica foram absorvidos pelo mainstream da reflexão sobre a literatura brasileira, tantos de seus argumentos são hoje ponto de partida mesmo para críticos que saem a campo para refutar esta ou aquela de suas opiniões, que se torna difícil responder em termos significativos à pergunta sobre a relevância de sua obra para um presente em vias de globalização. Seria relativamente fácil produzir uma lista de afirmações e atitudes (referências em Parceiros a “mentalidades primitivas” ou “culturas rústicas”, por exemplo) que hoje nos pareceriam obsoletas ou seriamente equivocadas. De resto, pode-se bem imaginar Antonio Candido dedicando-se alegremente a compilar uma tal lista para uso desta nossa era eletrônica. Contudo, a ideia de que a literatura e a sociedade estão de fato interligadas de modo complexo e intricado constitui, a esta altura, um quase-truísmo, que críticos diversos interpretam de inúmeras maneiras. Do mesmo modo, difundiu-se por toda parte a noção de que mesmo a obra mais deliberadamente pós-moderna da literatura brasileira há de propor questões espinhosas quanto à justiça e à injustiça. Afirmar que tais ideias se originaram com Antonio Candido ou são peculiares a sua obra seria grosseiramente impreciso. Ao mesmo tempo, minimizar o papel de Candido na articulação e disseminação de tais ideias num momento singularmente importante da história do país seria igualmente míope. Mais para o fim de sua “Notícia da atual literatura brasileira: Instinto de nacionalidade”, publicada originalmente em 1873, Machado de Assis afirma que “o que se deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”. Machado prossegue, sublinhando a necessidade premente de se forjar uma tradição crítica digna da literatura que então nascia e esboçando o papel que caberia ao crítico nesse processo. Mas, a despeito da divisão do trabalho intelectual que o ensaio propõe, não há dúvida de que o

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crítico deve partilhar integralmente desse “sentimento íntimo”, se quiser julgar com acerto uma dada obra literária. A fidelidade apaixonada a um Brasil sempre fluido, que flui como um perdurável rio bonito através de Parceiros e de todos os escritos de Antonio Candido, garante seu lugar no presente. Essa fidelidade é seu legado para um futuro que ele ajudou a conformar. Tradução de Samuel Titan Jr.

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John gledson
Liverpool University, UK

LS: Quais os conceitos que consideraria centrais e mais fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? Para ser sincero, e pedindo perdão por não responder diretamente à pergunta, o aspecto da obra de Antonio Candido que mais me atrai, e que sempre me atraiu, é justamente a ausência de preconceitos. Nada é excluído a priori, toca-se sem embaraço em assuntos difíceis (o preconceito antiportuguês no ensaio sobre O cortiço, por exemplo); o que também sempre me impressionou é a enorme variedade de assuntos que ele sabe trazer à baila em qualquer situação (o jornalismo satírico da Regência na “Dialética da malandragem”, por exemplo). Isso se chama erudição, suponho, mas é mais do que isso – é uma capacidade de transitar entre a literatura e o seu entorno social e histórico que é modelar, e que poucos possuem.  LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? Se for acreditar no meu exemplar de Vários escritos, são os ensaios, lidos e relidos, sobre Machado (“Esquema de Machado de Assis”), e Drummond (“Inquietudes na poesia de Drummond”). Ambos foram escritos para leitores ou ouvintes estrangeiros, mas isso não impede que sejam dos (os?) melhores ensaios sobre esses escritores, que oferecem comparações iluminadoras com romancistas e poetas estrangeiros, e que tocam não só nas obras consagradas, mas também nas “menores” (é o caso dos contos de Machado). O mais extraordinário é que esses ensaios funcionam admiravelmente como apresentações para o leitor novato, mas ainda os releio, com vinte, trinta anos de traquejo com Drummond e Machado. LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? Como não iria ter? Uma crítica tão aberta, tão capaz de transitar entre várias disciplinas, que não se limita ao Brasil, sem deixar de valorizar o “nacional”, tão

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tolerante – talvez seja isso que queria frisar. Em duas ou três ocasiões, discordei dele, ou não segui o seu ponto de vista, em assuntos bem menores, aliás – a moral da história de “Singular ocorrência”, ou a importância ‘nacional’ de A moreninha são dois exemplos que me ocorrem. Mas me senti inteiramente à vontade para citá-lo, explicar a minha divergência, sem sentir que isso fosse causar espécie – e mais, sempre vale a pena citá-lo por extenso, porque seu ponto de vista é sempre exposto com tal clareza que ajuda a pensar e a expor o nosso argumento.

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alfredo bosi
Universidade de São Paulo

ANTONIO CANDIDO - MESTRE DA MEDIAÇÃO

Algum tempo antes da voga estruturalista e do simultâneo revival marxista, que tiveram seu pico no fim dos anos 1960, a nossa historiografia literária foi agraciada pela publicação de duas obras capitais que, cada uma a seu modo, tentaram dar uma saída feliz para o impasse até então insuperado: formalismo ou historicismo? Trata-se da História da literatura ocidental de Otto Maria Carpeaux, escrita entre 1944 e 1945, mas só publicada em 1958; e da Formação da literatura brasileira de Antonio Candido, redigida entre 1945 e 1957, mas só publicada em 1959. As duas obras foram concebidas como histórias da literatura, e ambos os autores tomaram a sério o significado dos dois membros da expressão: a historicidade da cultura, isto é, a inserção da obra no tempo e no espaço das ideias e dos valores; e o caráter expressivo e construtivo do texto literário na sua individualidade. Comparada com a História da literatura ocidental, a Formação da literatura brasileira de Antonio Candido dá a impressão de um conjunto mais ordenado e coeso em que predominam, desde as primeiras páginas, as ideias matrizes de sistema, integração e equilíbrio funcional. Mas o historiadorcrítico está plenamente consciente de que o equilíbrio é transitório, pois “quem quiser ver em profundidade tem de aceitar o contraditório, nos períodos e nos autores”, porque, segundo uma frase justa, ele “é o próprio nervo da vida”.1
LS: Quais os conceitos que consideraria mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? [LS: O entrevistado optou por incluir as respostas num conjunto unificado] 1 Formação da literatura brasileira (momentos decisivos), São Paulo, Martins Editora, 1959, p. 24.

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A literatura, no vestíbulo da Formação, se dá como um sistema objetivo que faz parte de outro sistema, o da civilização, da qual é “um aspecto orgânico”. Dentro do sistema literário, Antonio Candido articula três subconjuntos: o dos produtores literários, o dos receptores ou leitores e um “mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem traduzida em estilos), que liga uns aos outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece, sob este ângulo, como um sistema simbólico”.2 Em seguida, a ideia de sistema vem complementada em dois níveis: o da integração dos seus elementos (no caso, os escritores) em um conjunto; e, como resultante dessa integração, a continuidade na transmissão do referido conjunto, que vem a dar na tradição. Trata-se de uma concepção funcional das expressões simbólicas, que tomam corpo, recebem status público e entram para o cânon da história literária à medida que funciona o tripé sistêmico: escritores, público e mecanismo transmissor (linguagem). Segundo essa mesma perspectiva, definida como “ponto de vista histórico”, “as obras não podem aparecer em si, na autonomia que manifestam, quando abstraímos as circunstâncias enumeradas”. Subsiste no esquema acima a distinção entre (1) a obra, vista em si, do ângulo da sua integridade estética, e (2) a obra situada no conjunto de produtores, receptores e mecanismos de linguagem. Ou seja: o olhar estético percebe a manifestação de uma autonomia da obra, que, porém, o “ponto de vista histórico” não privilegiaria, na medida em que está voltado antes para as relações culturais públicas do que para a dimensão da criação individual. Aparentemente vigora, neste momento de abertura da Formação, uma dupla concepção de historicidade, que oscila entre a Sociologia positiva e a visão dialética. Pela primeira, Candido encarece o termo sistema com o seu corolário de implicações: a integração do escritor e do público, a funcionalidade dos mecanismos de transmissão, a objetividade institucional dos fatores de divulgação responsáveis pela “formação da rotina”. O corpus desta abriga um alto número de obras que, apesar da sua mediocridade e insignificância estética, apontada pelo crítico, tem acesso ao sistema por força da sua presença pública. Mas, pela segunda visada, o crítico avança metodologicamente ao afirmar que “o ponto de vista histórico não desejaria, em nossos dias, reduzir a obra aos fatores elementares”, o que muda a qualidade e o alcance do termo “histórico”. Creio que este segundo pressuposto é mais promissor e fecundo do que o primeiro, o qual, deixado a si mesmo, correria o risco de identificar como

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Op. cit., p. 17.

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propriamente “históricos” sobretudo os mecanismos da cultura letrada instituída, como os “gêneros públicos”, a “poesia a reboque” e as rotinas acadêmicas, que visivelmente não constituem nem a raiz nem o cerne da expressão artística, aquela “forma viva da experiência” de que falava o admirável historiador hegeliano da literatura italiana, Francesco De Sanctis. Para De Sanctis só fica o que significa. De todo modo, tratando-se de uma obra em que a erudição é sempre acionada em função de juízos de valor e exercícios de gosto, a Formação da literatura brasileira tempera a consideração dos mecanismos da cultura com a valorização estética da obra individual, expressiva, densa de significado. Se nem sempre a economia e a discrição metodológica de Antonio Candido lhe permitem estadear o conceito dialético de história literária, na verdade, este se realiza nas belas análises de autores e textos que representam os pontos altos do livro: momentos em que o crítico faz sem alardear o que outros alardeiam sem fazer. Então aparecem, em ato, tanto os traços psicológicos fortes e pertinentes que diferenciam um poeta de outro, um narrador de outro, como as formas esteticamente pregnantes e bem articuladas para as quais vai a preferência do gosto do crítico. Assim, apesar da largueza com que Antonio Candido acolhe, na Formação, o limbo apoético em que se moveram nossas letras entre Silva Alvarenga e Gonçalves Dias (meio século sem um poeta autêntico), resulta com toda evidência do seu discurso que só contam em última instância para a crítica literária “a força da personalidade” e a “intuição artística”. Ultrapassadas internamente (embora não explícita e enfaticamente) as metáforas iniciais de “organismo” e de “sistema”, vai-se afirmando, ao longo da Formação, a ideia da complexidade e unicidade expressiva e construtiva de cada obra de arte, cujo nexo com os valores e os padrões de gosto não se subordina passivamente às convenções correntes, podendo, ao contrário, problematizá-las e subvertê-las. É nos estudos monográficos que o melhor do pensamento do crítico se vê em ato. Em pleno Romantismo (1852), Manuel Antônio de Almeida aparece como figura “extravagante” em virtude da sua visão desenganada e concessiva pela qual os opostos de Bem e Mal se neutralizam na sarabanda que é a história de Leonardo nas Memórias de um sargento de milícias. Entretanto, para Alencar (que estreia nos mesmos anos 50), é precisamente o choque entre o Bem e o Mal que, segundo a leitura de Candido, desencadeia os enredos nos quais o herói é sempre o herói, a heroína heroína, e o vilão vilão. Alencar não retoma absolutamente nem aproveita Manuel Antônio de Almeida, assim como Taunay não será perfazimento de Bernardo Guimarães, embora ambos tratem de matéria regional. A descontinuidade, isto é, a diferenciação dos olhares, das ênfases e dos tons, se é espinho para o sociologismo compactante, não constitui problema para o historiador das produções imaginárias familiarizado com a diversidade dos processos simbólicos.

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Voltando aos riscos da pura cronologia: no fundo, que relação interna, consistente, pode armar-se entre as dispersas tentativas dos nossos esforçados e pragmáticos importadores do Romantismo, ou dos epígonos do Arcadismo, e a criação e o vigoroso travamento poético de I-Juca Pirama, de Iracema, da Lira dos vinte anos, do Cântico do calvário ou das Vozes d’África?3 Motivos, tons, ritmos e imagens poéticas são expressões, e não se reproduzem nem evoluem sistematicamente como espécies, conforme pretendiam os doutrinadores positivistas e evolucionistas, mesmo porque motivos, tons, ritmos e imagens não vivem, nem estética nem historicamente em algum depósito literário, fora das obras singulares e irrepetitíveis que lhes dão, afinal, coerência, significado e beleza, condições da sua permanência na memória de gerações de leitores. A vida da cultura que abriga e permeia as criações poéticas tem dimensões que transcendem as conjunturas que as viram nascer. “É que a literatura”, diz Antonio Candido, “não tem um fator que a determine, nem são os acontecimentos políticos ou as modificações econômico-sociais que nutrem o gênio dos poetas”.4 Realçando as peculiaridades de expressão e a estrutura de cada obra, Candido aponta para a construção de um novo método histórico que corrigiria o que ele próprio deplora como “exageros do velho método histórico, que reduziu a literatura a episódio de uma investigação sobre a sociedade, ao tomar indevidamente as obras como meros documentos, sintomas da realidade social”. 5 Palavras que um Croce assinaria, e que guardam uma candente atualidade quando a prática dos Estudos Culturais (Cultural studies) voltou a tratar o texto literário como variante da indústria cultural ou mero instrumento de lobbies. A dupla concepção de historicidade, de um lado sociológica, de outro dialética, tende a resolver-se taticamente, na Formação, ao enfrentar o problema da literatura como expressão da nacionalidade. O tema é recorrente e virou o banco de prova de nossa historiografia cultural. Se Antonio Candido tivesse reproduzido acriticamente os esquemas deterministas de Sílvio Romero, seu alegado mestre, ou as posições ecléticas de José Veríssimo, Araripe Jr. e Ronald de Carvalho, dificilmente a sua perspectiva teria fugido à tradição de aplicar a autores e obras o critério da “representatividade nacional”.
3 Poeta e leitor de gosto, Manuel Bandeira não transcreveu em sua Apresentação da poesia brasileira nenhum poema composto entre as Liras de Gonzaga e a “Canção de exílio” de Gonçalves Dias: meio século sem autêntica poesia digna de registro em uma antologia que percorre toda a nossa história literária. É vago, portanto, dizer que a poesia “existe na História”: é preciso conhecer por dentro qual é a história imanente em cada expressão lírica; o que leva às vezes o intérprete a saltar as barreiras do espaço local e do tempo do relógio a fim de historiar quais valores, ideais e afetos foram trazidos, conscientemente ou não, ao drama da escrita. E a História da humanidade que recebeu a obra de arte já não será a mesma História que a precedeu. 4 Op. cit., II, p. 247. 5 Op. cit., I, p. 23.

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Mas o Modernismo não passara em vão. Mário de Andrade e Tristão de Athayde, Augusto Meyer e Álvaro Lins, para citar nomes que contam, tinham se debruçado sobre o caráter concreto e singular da criação ficcional. Em paralelo, a cultura universitária dos anos 40 não ignorava a revolução que a sociologia do saber, a fenomenologia, o existencialismo, o marxismo e a psicanálise estavam operando nos métodos das ciências humanas que na Europa já havia muito se distinguiam das ciências exatas e naturais. Esse clima intelectual, rico de fermentos contraditórios, propiciava uma nova compreensão histórica da literatura, que, comportando embora uma dimensão difusamente nacional, não cedia ao critério estritamente localista sob pena de comprometer os valores de liberdade, subjetividade e universalidade da produção simbólica. Vejamos como Antonio Candido equaciona os dados do problema. Uma ou outra notação esparsa nas páginas conceituais da Formação poderia fazer o leitor crer que o encarecimento dos conteúdos locais e o correlato “nacionalismo empenhado” teriam dado à literatura brasileira “sentido histórico”; ou que a mesma concepção localista tenha sido “historicamente do maior proveito”; ou, enfim, que “dum ponto de vista histórico, sobretudo, é evidente que o conteúdo brasileiro foi algo positivo, mesmo como fator de eficácia estética, dando pontos de apoio à imaginação e músculos à forma”.6 São afirmações que se compreendem no contexto e basicamente creditam a solução do problema a diferenças de períodos culturais. Assim, nos anos de formação do Romantismo brasileiro, coincidentes com a emancipação do Estado nacional, o critério nacionalista teria sido útil, funcional e, no limite, estimulante para o trabalho de ficção. Com o passar dos anos, porém, e sobretudo nas fases modernista e pós-modernista (em que o crítico se situa e escreve), o mesmo critério se teria mostrado “inviável” e até mesmo “calamitoso erro de visão”.7 Essa distinção entre um nacionalismo romântico proveitoso e um nacionalismo posterior calamitoso me parece, salvo melhor juízo, devedora daquela primeira concepção restrita de historicidade, pela qual é ponto de vista histórico o que espelha a ideologia e os modos típicos e predominantes de pensar, sentir e dizer de um determinado período em uma determinada formação social. Em contrapartida, é estético o que representam as operações de construção e expressão da obra, que sobrevivem ao seu tempo (cronológico) e não se reduzem à recolha dos dados do presente imediato. Tal dicotomia, porém, é contornada e felizmente superada quando Antonio Candido, penetrando nas obras de maior força, românticas ou não,

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Op. cit., p. 22. Idem, ibidem.

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nelas descobre flexíveis articulações do social público e do estético individualizado, libertando-se de didáticas e abstratas oposições. Então, a ideia mesma de historicidade toma fôlego e se amplia na direção do passado, que revive na memória, ou do futuro, que pulsa no desejo e na imaginação, não se confinando a um sincronismo sem janelas. O sentimento do nacional encontra aí também o seu lugar, não como regente ubíquo e onipotente imposto aos mais diversos compositores das mais diversas melodias, mas como um tema, um refrão, às vezes um fundo musical que ora parece tudo invadir, ora quase desaparece em surdina, ao longe.
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Creio que a procura de esquemas uniformes de método no discurso de Antonio Candido nem sempre é o melhor caminho para avaliar a riqueza surpreendente da sua obra. Comparem-se, por exemplo, as vibrantes leituras de romance enfeixadas em Tese e antítese, a meu ver seu ponto mais alto, com algumas considerações teóricas didáticas propostas em Literatura e sociedade, sempre lembrando que umas e outras foram escritas entre os anos de 50 e 60, momento de plena maturação do seu talento crítico. Nos ensaios de Tese e antítese, o discurso do intérprete ascende a uma concepção expressivo-construtiva da obra narrativa. Nas suas palavras, os textos “abordam problemas de divisão ou alteração, seja na personalidade, seja no universo da sua obra”. O estudo sobre O conde de Monte Cristo, “Da vingança”, vai fundo na sondagem do arcano e nunca exaurido tema da “complexidade contraditória de cada um”. O ensaio mostra “como um homem vê surgir em si mesmo outro homem, antes inexistente ou ignorado, que age em contradição com o primeiro, e no entanto compõe, ao mesmo título que ele, o mapa febril da personalidade”. Para tanto, são marcadas as peripécias da história, e o processo narrativo aparece relacionado com a transformação do protagonista: “De Edmundo Dantès surge um vingador satânico, o conde de Monte Cristo”. Ao longo da análise, imbricam-se: (a) observações sobre o tema básico da vingança, que vem de longe como expressão agônica do desejo de compensar situações de dano sofridas na luta entre indivíduos; (b) considerações estruturais sobre os efeitos de movimento que a forma romance propicia quando se explora esse tema; (c) enfim, discretos acenos à atmosfera turbulenta de um certo Romantismo operante na escrita de Dumas na sua variante individualista, byroniana. Variante à qual se pode aplicar, cum grano salis, o adjetivo “burguesa”, sendo esta qualificação forçosamente genérica em razão do polimorfismo de um nome dado a uma classe, cujo arco de formação e vigência na história do Ocidente está completando um milênio. Um ponto de vista diferenciado entreveria traços rebeldes, logo virtualmente antiburgueses, na conduta satânica do vingador. Mas a pródiga poli-

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valência com que a linguagem sociológica adota o termo “burguês” favorece o seu uso para classificar ora atitudes convencionais, ora atitudes malditas. Quem já não ouviu falar não só em conformismo burguês, mas também em individualismo burguês? Em racionalismo burguês ao lado de irracionalismo burguês? Em conservadorismo burguês ao lado de liberalismo burguês? Em compromisso pequeno-burguês ao lado de radicalismo pequenoburguês? Dizia Alberto Moravia da Itália contemporânea: “Oggi non c’è che borghesia!” Assim, o termo que tudo abraça, nada segura. De todo modo, na visada de Antonio Candido, o vínculo do romance de Alexandre Dumas com a sociedade, longe de estreitar-se em um historicismo menor, que o reduziria à variante literária da crônica policial da França “burguesa” nos anos de 1830, aparece mediado pela tela da cultura romântica em que valores contrastantes precisam, para se projetarem, de um poderoso imaginário romanesco e mítico. Em vez de supor a onipotência de uma forma social externa, já pronta e homogênea, que ao romancista não restaria senão imitar, Antonio Candido escava e faz virem à tona as forças latentes de um tempo em ebulição, o Romantismo europeu, que encontrou na composição móvel do romance de aventura o canal adequado para a exploração das suas paixões e de seus ideais. “Sob a correção impecável da aparência e das maneiras, Monte Cristo manifesta em profundidade certos aspectos da fúria demoníaca, sanguinolenta, que o aproxima das personagens criadas pela corrente “frenética” do Romantismo.” Neste dilatado historicismo cultural, cabem leituras biográficas e existenciais como o estudo juvenil Entre o campo e a cidade, que dá conta da inflexão tradicionalista do último Eça de Queirós, o estilizador brilhante da vida rural portuguesa que começa na Ilustre casa de Ramires e se afirma em A cidade e as serras contra a maré cosmopolita que avançava por toda a Europa no fim do século XIX. Aqui, diz Candido, “às razões de natureza sociológica vêm juntar-se outras, porventura mais importantes, da própria vida do romancista, que de certo modo foi uma capitulação discreta, mas progressiva, em face do que antes combatera”. O ponto de vista do narrador acompanhava, portanto, a curva do Eça intelectual refinado que, saturado de sofisticação, escolhia do repertório ideológico disponível no meio cultural luso apenas os valores tradicionais afins ao seu estilo de vida. Mais uma vez, a sociedade, no caso a sociedade portuguesa do fim do século, não é vista como uma coisa uniforme e compacta que o romance espelharia passivamente. Há seleções, porque a cultura é uma rede de diferenças. Vigorosamente enraizada no drama do indivíduo “ilhado” e “independente das circunstâncias de luta” é o ensaio sobre Joseph Conrad, Catástrofe e sobrevivência. Aqui não se vislumbra o menor traço de causalismo, isto é, de vigência de esquemas externos e abstratos pesando sobre a leitura da composição narrativa, ou moldando, de fora para dentro, pensamentos e comportamentos das personagens principais. O conflito doloroso de ideais

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éticos e instinto de sobrevivência em Lord Jim é figurado de tal modo que apareçam ressaltados os seus componentes humanos universais. A paisagem evocada, os ambientes, os episódios aventurosos e tudo quanto pode servir de quadro espaço-temporal ao romance configura-se em função do drama que cada protagonista de Conrad está como que fadado a viver no âmago da sua consciência. O efeito de sugestão obtido pelas descrições de Conrad “é o avesso da reportagem”, o que não diminui, antes acresce, o sentimento de realidade moral que sai das páginas do grande escritor. Do homem ilhado passa o leitor de Tese e antítese para o “homem subterrâneo” de Graciliano Ramos com referências explícitas ao modelo dostoievskiano. É o homem que da angústia de uma vida degradada ou do fundo sórdido do cárcere arranca uma singular “capacidade de compreender e perdoar”. Significativamente, este ensaio sobre o mais classicamente realista dos nossos narradores dos anos 1930 insiste na força motriz das projeções como organizadora da narrativa e responsável pelo clima existencial das obras-primas, Angústia, São Bernardo e Vidas secas. Esta última, tão explorada pela rotina escolar como documento impessoal da pobreza nordestina, “conserva, sob a objetividade da terceira pessoa, o filete da escavação interior”. Leia-se o capítulo “O menino mais velho” para entender a verdade da asserção. O que está dentro e se faz palavra é ora ressôo, ora contraponto do que está fora. E este é o sumo do ensaio pioneiro sobre Grande sertão: veredas, que dá o devido lugar e peso às instâncias míticas pelas quais Guimarães Rosa penetrou no real natural e histórico, o Sertão, descrevendo-o, transfigurando-o, interpretando-o, universalizando-o. “O homem dos avessos” está na base do conceito de surregionalismo, ou regionalismo suprarreal, com que Antonio Candido definiria a obra de Guimarães Rosa.
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Comparadas com as conquistas admiráveis que representam as leituras de Tese e antítese, as páginas didáticas de Literatura e sociedade podem aparecer um tanto esquemáticas na medida em que nelas o crítico precisou enfrentar problemas metodológicos gerais e mais áridos, como é o caso do texto de abertura, “Crítica e sociologia”. A ênfase é aqui dada à função que a estrutura social pode exercer na composição da obra literária. Mas é visível no tom do discurso de Antonio Candido o propósito de não absolutizar nem reificar essa função, admitindo-a sempre como possível, mas não como única, suficiente, ou universal. A título de exemplo, o crítico analisa a composição de Senhora de José de Alencar. A estrutura social burguesa baseada na compra e venda de mercadorias teria fornecido a Alencar o tema do casamento por interesse, no caso a história de um jovem sem recursos que se vende a uma noiva rica. Trata-se de “uma longa e complicada transação”. No romance, essa transa-

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ção, “com cenas de avanço e recuo, diálogos construídos com pressões e concessões”, é apresentada como um verdadeiro duelo conjugal. “O duelo representa a transposição, no plano da estrutura do livro, do mecanismo de compra e venda”. Em termos gerais, o elemento social “é fator da própria construção artística, estudado no nível explicativo e não ilustrativo”. “O externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica para ser apenas crítica.” Dado o exemplo e formulada a conceituação, Antonio Candido toma o cuidado de negar que o “ângulo sociológico” possa ser “imposto como critério único, ou mesmo preferencial, pois a importância de cada fator depende do caso a ser analisado”. Esta ressalva é da maior pertinência, pois relativiza a tese que a leitura determinista propõe como critério absoluto, ou seja, a tese de que a composição imanente na obra imita obrigatoriamente a estrutura suposta ou atribuída da sociedade em que foi escrita.8 O problema tem faces que merecem novos esclarecimentos. Para tanto, vale a pena retomar o exemplo de Senhora, que parece ilustrar tão cabalmente o princípio do “externo que vira interno”. Nos termos de Candido, o assunto do romance é “ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes na época, como o casamento por dinheiro”. O que significa essa dupla e contrastante operação de representar e desmascarar o modo utilitário de tratar o laço conjugal? Significa que a cultura romântica do século XIX, revivida pelo ethos de Alencar, não só percebia e transpunha situações empíricas para o registro da ficção, mas as julgava, moralmente as condenava e idealisticamente aspirava a redimi-las, fazendo reverter a conduta dos seus agentes ao convertê-los em almas nobres, capazes de superar o vil utilitarismo em que haviam caído. Assim, a representação não é passiva nem mecânica, nem estática, na medida em que o foco narrativo toma consciência dramática do interesse econômico, este, sim, inequivocamente burguês. Será, pois, necessário distinguir, na interpretação histórica de Senhora, e continuando rente às notações de Antonio Candido: o momento de representação do quadro social fluminense do meio do século, no que se refere aos costumes matrimoniais, dado que cabe à sociologia da literatura conferir; e o desmascaramento das ações reificadoras do elo conjugal: atitude de denúncia que só uma visão dialética da cultura romântica é capaz de discernir enquanto sondagem da tensão moral que rege a narrativa. No seu fazer-se, o romance não se sustentaria de pé se o “fato” da transição se mantivesse imune ao julgamento que pesa o tempo todo sobre ele, e que o olhar desafiador de Aurélia encarna vigorosamente até inspirar a conversão de Seixas: “As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servia de trono”. Em Alencar, romântico até a medula, a honra da pessoa
8 O crítico voltou a tratar da relação entre estrutura social e composição narrativa no prefácio a O discurso e a cidade. São Paulo, Duas Cidades, 1993.

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deve finalmente vencer o interesse, e só o sacrifício sincero deste merece respeito e recompensa. Sabemos que Machado de Assis, antirromântico até a medula, não consolaria nem a si nem a seus leitores com essa bela crença, mesmo porque a sua concepção de “interesse” não só habitava como atravessava e transcendia a esfera datada do nosso utilitarismo patriarcal, burguês e fluminense. O interesse, tomado como universal motivação e mola das ações humanas, domina a visão do homem e da sociedade, concepção que Machado compartilhava com os moralistas seis-setecentistas. Pouco se ganha, no caso, ao forçar a nota das continuidades de assunto rastreáveis de Alencar a Machado, quando o núcleo vivo da ficção se constrói pela perspectiva e se realiza pela estilização, e em ambos é a diferença que avulta, e não a semelhança. A releitura de Senhora, exigindo que se atente para as instâncias diferenciais de reflexo do quadro e reflexão sobre o quadro, de espelho e resistência, de matéria empírica e perspectiva organizadora, contribui para induzir um modelo de historicidade complexa do texto ficcional, modelo cultural que compreende a dialética de representação e consciência, de mimesis e dinâmica projetiva. Anos depois, no antológico ensaio “Dialética da malandragem”,9 o intérprete amarra três princípios genéricos que, em proporções diferentes, concorreram para estruturar a narrativa das Memórias de um sargento de milícias. A rigor, nenhum deles daria conta, por si mesmo, da complexidade aparentemente simples do romance. O princípio do Realismo tout court. Este significaria a fidelidade cabal à matéria historicamente documentável; mas sabe-se, desde as observações de Mário de Andrade, que, apesar da forte presença de cor local, a obra omite elementos fundamentais da vida social brasileira “no tempo do Rei”, como, por exemplo, o escravo negro e, em geral, o vário espectro das classes dominantes. Trata-se de uma representação bastante seletiva que não deve ser tomada abusivamente como alegoria do povo brasileiro. Mário de Andrade fala em baixa burguesia; Antonio Candido identifica faixas da população do Rio de Janeiro que se situariam entre a ordem social (policial, forense, eclesiástica, militar) e a desordem dos semidesocupados, vagabundos, “caboclos” ou “ciganos”. A presença destes últimos segmentos já levou mais de um crítico a propor para as Memórias a categoria discutível de “romance picaresco”. De todo modo, a fonte documental, embora considerável, não seria aqui determinante. Trata-se, diz Candido sugestivamente, de uma “fábula realista”. Na evocação de um cotidiano verossímil, o romancista teria introduzido a cunha do imaginário folclórico não só brasileiro, mas universal, mediante o uso de
9 O ensaio, publicado inicialmente na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 8, 1970, integra o volume O discurso e a cidade, op. cit.

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arquétipos arcaico-populares dentre os quais se sobressai a figura do trapaceiro sem maldade, o trickster, de que Pedro Malasarte seria uma variante. Outros componentes arquetípicos estariam também presentes, e uma análise estrutural das funções na linha de Propp poria em relevo os actantes – o herói e seus coadjuvantes e os vários adversários que, conforme as situações vão e vêm, podem mudar-se em aliados. O desfecho feliz, no qual à esperteza se junta boa dose de acaso, ajuda a consolidar a hipótese de que acontece nas Memórias também uma história de aventuras de um herói bem-fadado. Mas a aliança de crônica ao rés-do-chão e subtexto folclórico ainda não cobre o campo todo das hipóteses genéticas do ensaio. Restaria descobrir o princípio unificador do romance, que é o ponto de vista do seu orquestrador. Aqui, Antonio Candido diverge de Mário de Andrade. Este sublinhou o viés depreciativo e sempre caricato do olhar de Manuel Antônio de Almeida, que veria nos seus figurantes uma fauna sem grandeza movida por instintos e interesses rasteiros, e os teria tratado de modo distanciado, no fundo impiedoso e manifestamente antirromântico. A apreciação de Antonio Candido é não só mais matizada, é francamente empática. Embora reconheça o caráter de “títere” e “fantoche” de Leonardo e, portanto, a falta de consistência psicológica e moral do protagonista, aliás extensiva a outras personagens, o intérprete entende esse vazio de vida interior e de consciência à luz do triunfo da peripécia, que confirma em cada lance o teor aventuroso ou aleatório do enredo. E o ganho maior vai para o lado da perspectiva ideológica que, do começo ao fim das Memórias, projetaria o quadro feliz de um “mundo sem culpa”, alheio ao ethos das classes dominantes e conatural à “amoralidade popular”, expressão que, abstraída do contexto peculiar construído pelo romancista, mereceria uma firme dialetização.10 Retomando o lado fecundo do método de Antonio Candido, a identificação de um tríplice esquema genético na construção das Memórias (realismo representativo, fábula popular e projeção de um mundo sem culpa) confirma a tendência do crítico para a análise das mediações, bem como o seu cuidado, já manifesto na Formação, de evitar reduções ou sobredeterminações, quer sociológicas, quer psicológicas.

10 De passagem, uma dúvida menor: parece problemático aproximar o ethos popular leve, alegre e indulgente que enforma as Memórias de um sargento de milícias e o moralismo ferino de Gregório de Matos, fidalgo cioso de seu status e contumaz discriminador de negros, judeus, pais-de-santo, homossexuais e mulheres de vida airada. Tampouco a amoralidade abertamente transgressora do oswaldiano Serafim Ponte Grande pode ser chamada de popular: o seu mundo e o da alta burguesia que viaja por desfastio em cruzeiros de luxo. Em outras palavras: há malandragens e malandragens e, neste caso, as disparidades de contexto, de olhar e de tom não aconselham o estabelecimento de uma linhagem histórico-literária que representaria a comicidade popular brasileira.

Em Antonio Candido, como em Otto Maria Carpeaux, toma forma uma nova historiografia, para a qual a história das expressões simbólicas se abre para dimensões existenciais e culturais múltiplas que não as reduzem à condição de alegorias ideológicas.

Quanto a uma possível afinidade entre Macunaíma e as Memórias, ressalvada a figura do trickster, impõem-se diferenças visíveis a olho nu. Na rapsódia de Mário de Andrade, o vetor é a construção de uma alegoria multiétnica e “desgeograficada” do povo brasileiro mediante intenso apelo às mitologias indígenas e afro-brasileiras (em geral, pouco amenas), tudo combinado com passagem de paródia e invenções léxicas. É frequente também em Macunaíma o trato desabusado de situações eróticas forradas de palavras de aberto significado sexual; o que, como observou Candido, está ausente da prosa discreta de Manuel Antônio de Almeida aqui e lá apenas maliciosa, ludicamente maliciosa. Muitas e variadas vozes tem o povo, e muitas e variadas faces, e cada escritor colhe seu bem onde o encontra.

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Universidade de São Paulo

LS: Quais os conceitos que consideraria mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? ICC: Antonio Candido não tem obra historiográfica, pelo menos não no sentido usual. E sua verdadeira contribuição para a história da literatura no Brasil, que consiste em pensar a produção literária aqui neste fim de mundo como um processo extremamente contraditório, até agora não foi devidamente incorporada por aqueles que se dedicam a este trabalho. Formação da literatura brasileira, que muita gente insiste em considerar uma história da literatura brasileira, para melhor criticá-la por aquilo que não é (e dizer que falta isto, falta aquilo...), vem a ser nada mais nada menos que uma das principais obras do conjunto de ensaios de interpretação do Brasil que levam o nome de “Formação”, como já demonstrou Paulo Arantes. Este livro de Antonio Candido, entre outras coisas, com análises até hoje insuperadas de incontáveis obras da literatura que se produziu no Brasil nos séculos XVIII e XIX, toma como problema (e ponto de partida) a seguinte pergunta, que decorre da constatação de uma contradição básica na ideologia da literatura brasileira: como explicar que, em país que não se formou, tenha-se formado uma literatura tão relevante que produziu até um escritor do nível de Machado de Assis? Só o problema já distingue o nosso crítico dos românticos e demais idealistas, que acreditavam, e ainda acreditam, ser possível contribuir para a formação (ou construção) do país através da literatura, pois estamos falando de um profundo analista do Brasil que já declarou em entrevista ser este um país horroroso, um dos piores do mundo e, por este feito, classifica as nossas classes dominantes como delinquentes. Na obra crítica, da qual Formação da literatura brasileira faz parte, o conceito central, e por isso mesmo raramente enunciado, é o de dialética, entendida como o único método em condições de explicar o movimento do pensamento (e, por consequência, tanto no trabalho literário quanto no trabalho crítico), na medida em que expõe os modos e as contradições nos quais o conteúdo (a experiência

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social brasileira) vira forma e as formas viram conteúdo. No capítulo “Formas viram conteúdo”, nosso Mestre também ensinou a ver como a nossa literatura é um galho secundário da literatura portuguesa que, por sua vez, é um arbusto de segunda ordem da literatura ocidental (europeia). Entre outras coisas, trata-se de entender que, como tudo o mais que define o Brasil, país que vem se construindo sobre o genocídio das populações nativas, a exploração de contingentes africanos escravizados, e de trabalhadores pobres expulsos de diversos países da Europa, a própria literatura faz parte do processo de dominação enquanto veículo de imposição da língua portuguesa e dos valores da civilização cristã-ocidental, a par da concomitante desqualificação de todas as demais línguas que, não obstante continuarem a ser faladas, não obtêm direito de cidadania no país. Por último, é por ser fundamentalmente dialética que Formação da literatura brasileira ensina a ver como e por que as formas importadas e prontas “não funcionaram” e assim mesmo “funcionaram” aqui (está no prefácio: “uma aclimação penosa da cultura européia”) até que os nossos escritores se colocaram a tarefa de “dotar o país de uma literatura” e, para tal, passaram a dialogar criticamente entre si e com os seus antecessores locais. Foi este diálogo crítico que permitiu, finalmente, a produção dos ajustes necessários nas formas importadas para que as obras pudessem começar a configurar uma “literatura brasileira”. Foi o que fez Machado de Assis e, por isso, com este escritor já é possível proclamar habemus litteraturam. O que, por sua vez, não quer dizer muita coisa, já que o país prosseguiu e prossegue em construção, aprofundando a barbárie generalizada a que muito consumidor de literatura (críticos literários incluídos) chama de civilização. E sendo o Mestre dialético, para ele, esse mesmo consumo de literatura (qualquer que seja: nacional ou importada) tem função humanizadora na medida em que, por sua própria natureza, a literatura contribui para dar forma à nossa percepção crítica do país e do mundo. Por isso mesmo, o Mestre sempre foi favorável à luta pela erradicação do analfabetismo no país que, como todos sabem, até bem pouco tempo atrás era da ordem de 70% da população. Com essa consciência (enunciada em crônica em termos exatos por Machado de Assis), a pergunta que deu origem a Formação da literatura brasileira pode ser formulada de outra maneira: o que significa a literatura em um país que não sabe ler? LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? ICC: Como o método pauta a obra como um todo, não há razão para destacar nenhuma. Apenas a título de curiosidade, recentemente (2002) foi resgatado do esquecimento um artigo de autoria de Antonio Candido publicado na revista Sociologia em 1948. Trata-se de uma introdução ao estudo da aristocracia europeia, O nobre. Ali se pode ver o processo histórico no qual se forjou essa categoria social: na prestação de um serviço de caráter econômico-militar (proteção armada dos domínios dos senhores) que era recompensado com os chamados feudos, porções de terra que, muito mais tarde, passaram a corresponder a títulos, como

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os de duque, marquês, conde e outros. Novamente, não se trata de escrever uma história dessa categoria social, mas de expor o processo histórico que a produziu. E, ao fazê-lo, nosso Mestre está permanentemente atento ao modo como as formas viram conteúdo, inclusive literário e, sobretudo, às formas do conteúdo, que sempre é histórico. Com isso, ele pode explicar sem as habituais mistificações o significado e os interesses muito materiais sobre os quais se assentam noções aparentemente inefáveis como ‘honra’, ‘fidelidade’, ‘perjúrio’ e assim por diante. Avançando mais um pouco, podemos dizer que honra, fidelidade e perjúrio são formas de relações sociais que depois se transformaram em conteúdos de poemas, romances, peças teatrais, etc. Na mesma entrevista, concedida em 1995 a professores nordestinos e publicada em Investigações em 1997, acima referida, encontra-se a seguinte declaração a respeito de seu método: “tanto a partir da sociologia acadêmica quanto a partir do marxismo, eu fiquei com duas obsessões. A primeira obsessão é explicar o aparente pelo oculto, e a segunda é raciocinar em função dos contrários. Tudo o que eu escrevo, pode-se notar mais visível ou menos visível, é sempre feito em função dos contrários, é um processo dialético, é e não é, pode e não pode, era e não era. A partir daí eu procuro tirar minhas diretrizes.” LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? ICC: Seria bom se tivesse, mas, pelo menos até a mais recente crise do mercado financeiro globalizado, que, segundo um articulista do Financial Times, tem potencial para destruir a própria legitimidade do capitalismo (eles preferem dizer economia de mercado), os tempos não são favoráveis a esse grau de exigência crítica. Pelo contrário, a hegemonia ainda está com a desconversa do mercado, tanto o da produção em geral, inclusive a literária, quanto o das carreiras acadêmicas. Até os pesquisadores simpatizantes da obra de Antonio Candido acabam se curvando aos ditames mercadológicos que, é bom não esquecer, são impostos pelas agências estatais de fomento à pesquisa e acabam determinando até mesmo o rumo das linhas de pesquisa, que nunca foram tão diretamente submissas a critérios de “produtividade” como agora (quem já participou da elaboração de um relatório Capes sabe do que estou falando). Não se forma em dois anos um pesquisador com interesse pelo pensamento dialético, na caridosa hipótese de que haja professores dispostos a promover tal formação, assim como em uma semana não é possível escrever um “paper” (para participação em congresso) que contenha alguma contribuição crítica relevante. Dialeticamente, o cenário atual por assim dizer pede a perspectiva de Antonio Candido, mas não se pode esperar demais de trabalhadores cerebrais que precisam garantir suas carreiras e assegurar o leite das crianças... Por enquanto, são as relações capitalistas de produção que dão régua e compasso a todos. A perspectiva de Antonio Candido depende da posição política por ele adotada desde a mais tenra juventude: “O socialismo tinha se tornado aos poucos para mim a convic-

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ção arraigada de que é o melhor sistema para organizar a sociedade de maneira mais humana; dessa convicção nasceu o sentimento de que, se assim é, cada um deve fazer alguma coisa por ele na medida das suas forças.” Sem a perspectiva do socialismo, o pensamento dialético também não tem interesse. Para concluir apresentando a principal razão para a vigência meramente residual de sua perspectiva crítica, podemos citar, com as devidas adaptações, um autor revolucionário que o Mestre sempre leu com interesse: “supondo que não seja diretamente hostil às idéias coletivistas, na melhor das hipóteses a intelligentsia permanece distante e indiferente em relação à vida e às lutas das massas trabalhadoras. Quanto mais claramente o socialismo revela o seu conteúdo, quanto mais fácil para que todas as pessoas compreendam a sua missão histórica, mais decididamente a intelligentsia se afasta dele, pois esta camada social é constituída por pessoas demasiado enfastiadas, demasiado cínicas, com um ar por assim dizer excessivamente blasé para que suas almas sejam tocadas por uma revelação, mesmo a mais comovente, a respeito do significado cultural do socialismo.” Uma ruptura política com a burguesia e seus interesses ideológicos só pode ser pensada se não acarretar graves consequências materiais e morais para cada trabalhador cerebral. O prestígio de Antonio Candido em nosso mundinho intelectual se explica pelas condições da época em que produziu sua obra e formou mais de uma geração de discípulos. Mas a mudança dos ventos, aliada ao combate sistemático às suas proposições críticas, bem como a sua recusa em se adaptar à degeneração antirrevolucionária da nossa intelligentsia universitária, primeiro minaram sua “popularidade” e, mais recentemente, têm impedido até mesmo a leitura honesta de sua obra por parte dos novos candidatos a luminares da ideologia da literatura.

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Universidade de São Paulo

QUESTÕES SOBRE ANTONIO CANDIDO1

1.
Quando entrei na FFCLUSP em 1961, demorei a encontrar apoio bibliográfico para o que eu buscava diante da necessidade de compreensão crítica das obras literárias que tinha de examinar. Os manuais existentes eram esquemáticos e rasos, e mesmo os melhores, como o de Wolfgang Kayser, deixavam a desejar, para não citar os que simplificavam seus semelhantes franceses, provenientes da tradição da “explication des textes”, já de si um tanto mecânicos. Foi com emoção que comecei a ler os primeiros estudos de Erich Auerbach, Leo Spitzer e Dámaso Alonso que a voga da estilística nos anos 60 fez cair em minhas mãos. Mas a descoberta decisiva e mais próxima foi a de Antonio Candido, que mudava de fato naqueles anos a direção dos estudos literários na universidade brasileira, abrindo-os para a reflexão sobre a literatura moderna, para os problemas teórico-críticos das disciplinas recentes de teoria literária e literatura comparada e para uma visão diferente de nosso passado literário com sua nova concepção de história da literatura, tal como a formulara na Formação da literatura brasileira. Dele eu já lera a Brigada ligeira e alguns artigos esparsos de jornal, mas foi a leitura da “Introdução” do grande livro de 1959 que me deu o que eu procurava:

1 Respondi de forma bastante livre as perguntas que me foram encaminhadas por Maria Augusta Bernardes Fonseca. LS: Quais os conceitos que consideraria mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual?

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uma diretriz conceitual para escorar e esclarecer a prática da análise e da interpretação dos textos. A Formação é basicamente um livro de crítica, ainda que escrito de um ponto de vista histórico, e as notáveis análises que se acham ao longo dela estão fundadas no repertório conceitual, exposto com clareza meridiana em sua abertura. O fundamental é aí a concepção do texto como um resultado, cuja relativa autonomia não dispensa para sua compreensão crítica os fatores externos – psíquicos e sociais – que o motivaram e podem estar presentes nele como componentes estéticos da forma significativa, atuantes nas projeções de seus significados. Esta concepção permite adotar uma estratégia maleável e móvel de abordagem dos textos. Graças a ela, é possível encará-los em sua particularidade e integridade, sem deixar de considerar a pertinência estética dos fatores histórico-sociais como constituintes de sua estrutura que pode então ser analisada por si mesma, sem ser reduzida, como se fazia e se faz com frequência, a mero documento da realidade social. Superando tanto o formalismo, limitado à absolutização da autonomia estrutural, quanto o reducionismo sociológico, a proposta de leitura crítica de Antonio Candido é integradora e procura se adequar a uma obra de arte que resulta ela própria da integração coerente das contradições da experiência histórica, sendo, por isso mesmo, capaz de nos proporcionar a experiência estética da estrutura. Mais tarde, a noção do texto como resultado vai encontrar uma nova formulação no conceito de redução estrutural, que permitirá a Antonio Candido esclarecer cada vez melhor sua ideia de que só pelo estudo da forma é possível apreender convenientemente os aspectos sociais, como se vê pelos ensaios que escreveu sobre os naturalistas (Aluísio Azevedo, Émile Zola e Giovanni Verga) e pelo admirável ensaio sobre Manuel Antônio de Almeida, no qual a integração entre texto e contexto se processa por uma visão dialética. Até hoje é difícil imaginar um instrumento de trabalho mais fino, abrangente e adequado à compreensão do texto literário do que esse que Antonio Candido elaborou com sua proposta teórica e sua incomparável prática de analista de textos, da qual depende, na verdade, a construção de sua teoria. Isso demonstra que antes de tudo ele é um extraordinário leitor, cujo olhar arguto, sensível e imaginativo sabe captar todo pormenor significativo de uma obra sem perder a mobilidade de lhe dá a compreensão histórica.

2.
Mas há ainda outro conceito fundamental exposto na referida “Introdução” sobre o qual é preciso refletir, quando se considera o ponto de vista histórico que rege aí a perspectiva da crítica. A leitura do livro todo me fez ver que provavelmente entre os conceitos principais da Formação, o mais fecundo, anunciado também de início, mas plenamente desenvolvido no

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corpo do trabalho e desdobrado e enriquecido em vários ensaios posteriores ao longo da carreira do crítico, é o conceito de tradição literária, “sem a qual não há literatura, como fenômeno de civilização”.2 Ele deriva decerto da concepção da literatura como sistema e, corretamente entendido como ali se formula e se desenvolve, suas consequências permanecem vivas como uma das maiores contribuições do autor à compreensão em profundidade da literatura brasileira. Através da tradição não se constitui apenas a continuidade literária, com a transmissão da tocha entre os autores e a troca ou a alternância de padrões e valores que se aceitam ou rejeitam, mas se exprime o sentido histórico mais fundo do processo pelo qual as obras se articulam no tempo, mediante a assimilação do passado e a invenção das novas formas em correspondência com os novos contextos que cada época traz. Na verdade, é no processo da tradição que se exprime a síntese das tendências universalistas e particularistas que define a formação da literatura brasileira, como se vê no caso maduro de Machado de Assis. Seu romance, como mostra Antonio Candido, “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores” – Macedo, Manuel Antônio, Alencar – e dependeu da “consciência de sua integração na ficção romântica” para se constituir em sua originalidade que nasce da superação dos que vieram antes e da distância que soube manter dos modelos estrangeiros, fazendo “literatura universal pelo aprofundamento de sugestões locais”.3 Desse movimento profundo produzido pela inter-relação dinâmica das obras e dos autores o olhar do crítico retira o melhor de sua força e sua perspectiva de longo alcance, o que lhe permite dar com seus mais penetrantes achados. Assim, por exemplo, no exame da poesia de Mário de Andrade – outro autor em quem o pensamento sobre o sentido da tradição é essencial à consciência crítica –, em seu nexo com a herança romântica. Com efeito, na análise do poema “Louvação da tarde” que constitui o núcleo do ensaio sobre “O poeta itinerante”, 4 Antonio Candido não apenas desencava das cartas entre Mário e Manuel Bandeira o vínculo peculiar que liga a poesia itinerante da “Louvação” à lírica ambulante e meditativa dos românticos, como demonstra que o seu autor, através da “citação quase paródica dos traços românticos”, ao mesmo tempo resgata e supera a tradição a que se reporta.

2 Cf. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). São Paulo, Martins Editora, 1959, vol. 1, p. 18. 3 As citações foram retiradas do item inicial, “Um instrumento de descoberta e interpretação”, do capítulo III sobre “O aparecimento da ficção” na Formação da literatura brasileira. Ed. cit., vol. 2, pp. 117-118. 4 Ensaio incluído em Antonio Candido. O discurso e a cidade. São Paulo, Duas Cidades, 1993, pp. 257-278.

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Quando analisei a poesia reflexiva de Carlos Drummond de Andrade, perpassada de drama e pensamento, pude avaliar o quanto o poeta mineiro, cuja atitude antirromântica é tão característica, dependeu de Mário na formação de sua lírica meditativa e, paradoxalmente, através desse vínculo estudado por Antonio Candido, da tradição romântica. Creio que isso demonstra a profundidade e a permanência das relações que unem as obras no sistema coerente de uma literatura como a nossa, tal como a entendeu e deu a ver o seu melhor intérprete.

3.
Num conhecido ensaio de 1865, “O ideal do crítico”, Machado de Assis condiciona a existência de uma grande literatura à presença atuante de uma crítica fecunda. Esta representa uma vitória sobre o ódio, a camaradagem e a indiferença; depende de uma “ciência literária” e se apoia necessariamente na análise. Combinando ciência e consciência, independência, tolerância, moderação e urbanidade de expressão, além de uma imprescindível perseverança, só assim consegue realizar sua árdua proposta e exercer em seu meio aquela fecundidade essencial à geração das grandes obras. Durante mais de 60 anos, Antonio Candido vem cumprindo entre nós, com admirável perfeição, o ideal do crítico de Machado de Assis. Desde sua Brigada ligeira (1945) até os Recortes (1993) e O albatroz e o chinês (2004) – seus livros mais recentes em que a memória se mostra como caminho e instrumento do desvendamento inquiridor da melhor qualidade – temos uma prova concreta de sua vitalidade, de sua penetração analítica e do poder de atuação de seu magistério crítico. Nos Recortes, em que a brevidade não desdenha da complexidade, há um pequeno texto sobre “Realidade e realismo (via Marcel Proust)” no qual sua velha paixão pelo escritor francês se junta à sua preocupação medular pela forma como a realidade se apresenta na literatura, eixo de toda a sua reflexão desde os primeiros tempos do jovem crítico dos rodapés da Folha da Manhã e dos artigos reunidos em Brigada ligeira. Trata-se de uma das visões mais agudas e concentradas sobre esse problema que conheço. Nela o crítico acompanha o olhar do romancista desejoso de ir além da fidelidade documentária da narrativa em busca de algo mais geral, “que pode ser a razão oculta sob a aparência dos fatos narrados ou das coisas descritas, e pode ser a lei destes fatos na sequência do tempo”.5 Junto com o narrador acompanha então o tratamento dos pormenores, cuja presença, especificação e mudança são os pilares de todo realismo. Neles jaz ainda a chave de superação do realismo documental, pois no registro das mudanças que o tempo imprime ao detalhe pode se introduzir

5

Cf. o ensaio citado em Recortes, São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 123.

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a duração e com ela a história penetra no cerne da representação da realidade. É assim que o crítico desemboca, com Proust, na consideração de uma espécie de “transrealismo, literariamente mais convincente do que o realismo referencial”, 6 por permitir a liberdade da imaginação mediante a transfiguração do pormenor, que tem o poder de criar uma realidade além da que experimentamos. Demonstra, desse modo, como a arte narrativa de Proust depende de um enfoque dinâmico e poliédrico, contrapondo-se ao tratamento estático e plano do realismo tradicional: está voltada para uma visão reveladora da realidade que se ergue pela síntese fundada na analogia entre os detalhes, capaz de desvendar seu significado unitário. Por isso mesmo, valoriza a metáfora, mais que a descrição, pois por meio dela enlaça as semelhanças e une a variedade dos pormenores. Como esse encadeamento analógico de objetos, lugares e pessoas se desdobra no tempo, o narrador tem a possibilidade de captar a relativa permanência da estrutura sob o processo que a constitui – é que ele opera com uma visão integrativa pela qual o estático e o dinâmico, a estrutura e o processo se fundem na síntese. Através dessas vinculações ocultas entre os pormenores, a arte do narrador luta contra o tempo, pois faz emergir um modelo permanente em meio à dissolução das coisas. A memória, musa da narrativa, ao remontar o passado, mostra que o que passa só ganha significado ao desvendar o que permanece e, a uma só vez, reflui sobre o detalhe permitindo compreender seu valor no processo. Como nos livros infantis em que os números ligados pela ponta de um lápis delineiam uma figura, as vinculações fazem emergir o modelo da união dos pormenores, que só então, nessa relação dinâmica entre tempo e modelo, revelam seu verdadeiro sentido. Nesse desenho do narrador que nasce da observação detalhada das coisas passageiras se pode ver também uma metáfora do trabalho do crítico, em busca da integração e da coerência que definem a forma literária frente à realidade do mundo e foram sempre alvos preferenciais de sua longa jornada em meio à multiplicidade aparentemente caótica dos textos. Durante sua formação como narrador nos anos 30, Jorge Luis Borges, interessado também no modo como se apresenta literariamente a realidade (e a irrealidade), descobriu que o método mais difícil e eficiente de postular a realidade na arte narrativa depende da invenção de “pormenores lacônicos de longa projeção”. 7 E foi levado então a reduzir o princípio de causalidade que rege a construção do enredo do romance, que ele aproxima paradoxalmente da magia, com seus jogos de vigilâncias, ecos e afinidades, a

Idem, ibidem, p. 125. Cf. Jorge Luis Borges, “A postulação da realidade” em sua Discussão (1932). Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo, Companhia. das Letras (2008), p. 77.
6 7

davi arriguCCi Jr.

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uma verdadeira fórmula lapidar: “Todo episódio, num relato cuidadoso, é de projeção ulterior”. 8 O breve ensaio de Antonio Candido lança inesperada luz sobre as preocupações do então jovem Borges, anticonfessional e tão diferente de Proust, demonstrando a percuciência e o longo alcance de sua visada para além do espaço a que se limitava. Creio que não preciso dizer mais para demonstrar a força viva de seu modelo crítico.

8

Cf. “A arte narrativa e a magia”, in op. cit., ed. cit., p. 91.

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silviano santiago
Universidade Federal do Rio de Janeiro

LS: Quais os conceitos que consideraria mais centrais e fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? Na vasta e diversificada obra de Antonio Candido, a organicidade na elaboração, divulgação e circulação do aparato conceitual – tanto o crítico quanto o historiográfico - é a principal característica. Nesse sentido, salientar em tal ensaio, ou em tal livro, esse ou aquele conceito predominante seria desfalcá-la do que a torna significativa, original e poderosa no contexto da cultura brasileira e latino-americana. A imagem que encontro para explicar o jogo entre a saliência persuasiva do detalhe e a totalidade encantadora da organicidade é a do calidoscópio. Os conceitos marcantes - pequenos pedaços coloridos de vidro - são refletidos por espelhos dispostos ao longo da extensa obra, de modo que, quando o leitor a ativa pela leitura sensível e inteligente, enxerga imagens múltiplas em arranjos simétricos. LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? Se vista e apreciada da perspectiva do Autor, tudo é exemplar na obra de Antonio Candido – imagens múltiplas em arranjos simétricos. Espacializo a comparação com o calidoscópio para lembrar a perfeição atingida em quadro de Mondrian. No entanto, e eis o heroico em termos das sucessivas gerações que se seguiram ao mestre paulista, há que forcejar a entrada crítica alheia numa obra que o tempo e a academia tornaram canônica. Um dia, Mondrian encontra pela frente Josef Albers, Ligia Clark ou Hélio Oiticica. Os ensaios reunidos em Literatura e sociedade são os que me incitam a resistir à sobrecarga persuasiva da exemplaridade. Por que são eles que me motivam e me levam a articular a voz própria em sala de aula ou no papel? Lembrar o peso da “desconstrução” em minhas leituras de

silviano santiago

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Antonio Candido seria uma resposta fácil, mas certamente consequente. Teria o objeto desconstruído (de maneira mais eloquente: o Autor) sido atento às fraturas expostas? Por não ser cúmplice, fala o silêncio. LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? Por vir atada a exemplos precisos e gloriosos da criação literária e artística, por estar sendo sempre relativizada por referências à força do pensamento alheio, tanto o nacional quanto o universal, a leitura crítica e historiográfica de Antonio Candido não se encarquilha. Ou melhor, se chega a encarquilhar, é para melhor exibir aos mais jovens a sensatez da experiência vivida - refletida e sonhada. Que vale o lustre da pele escanhoada de rapaz frente aos fios longos e bem aparados da barba senhorial? 2/12/08

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roberto sChwarz
Universidade Estadual de Campinas

LS: Quais os conceitos que consideraria centrais e mais fecundos na obra crítica e historiográfica de Antonio Candido? Até onde vejo, Antonio Candido nunca foi fanático de conceitos, nem aliás de métodos. No seu trabalho a acuidade estética e a reflexão histórica pesam mais que a teoria abstrata, a qual qualificam segundo a circunstância. Sem prejuízo da bibliografia atualizada, a relação independente com as inovações conceituais de Europa e América do Norte é um dos segredos da sua inteligência crítica. Contrariando os nossos hábitos novidadeiros, ele as submete à verificação da experiência cultural acumulada no país, que não é posta de lado, ou melhor, que é valorizada como um fator de conhecimento. Em particular nos estudos sobre matéria brasileira, estas verificações têm valor estratégico, pois trazem à luz o desajuste entre as categorias hegemônicas do momento, elaboradas nos países centrais, e as nossas realidades periféricas. A substância estética e social-política destes desajustes tem interesse profundo – desde que sejam assumidos –, seja para a autoconsciência dos brasileiros, seja para a compreensão dos desníveis gerais da sociedade moderna. Também em relação aos conceitos que ele próprio cunhou, Antonio Candido foge à rigidez. A ideia da redução estrutural, por exemplo, que comanda os seus ensaios mais ambiciosos, é uma resposta muito bem achada para a questão talvez mais espinhosa da crítica moderna, a saber, a relação interna e nunca automática entre literatura e vida social. É uma elaboração de ponta, que poderia comportar uma discussão separada e erudita, no quadro das teorias da mimese: como entender o processo de estruturação, mediante o qual o artista configura, a partir do dado externo, uma generalidade que é anfíbia, tanto organizando a obra como esclarecendo o real? A obra que resulta dessa estruturação é autônoma, regida por uma regra própria, ao mesmo tempo em que fala do mundo. Mas não é por aí que vai o crítico. À discussão teórica centrada em conceitos mais ou menos isolados, separados de sua esfera real de atuação, ele pre-

roberto sChwarz

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fere a interpretação em funcionamento, cujos problemas e resultados (que são valiosos também fora do campo literário) vão surgindo passo a passo. É como se na prática opinasse que as discussões doutrinárias, com seu universalismo implícito e distância do objeto, ficam aquém da complexidade e do interesse do trabalho crítico. Por este lado o roteiro dos ensaios, com suas etapas muito diversas, cujo encadeamento é sempre uma surpresa, talvez seja mais elucidativo do que a indicação dos conceitos principais. LS: Neste sentido, que obra ou que ensaio lhe parece exemplar? Se for para escolher, fico com “Dialética da malandragem” e “De cortiço a cortiço”, em que está realizado o principal do projeto de Antonio Candido. São ensaios inovadores em muitas frentes, cuja envergadura, apesar do prestígio, não foi devidamente avaliada. Talvez porque ficaram confinados ao campo acadêmico dos estudos brasileiros, que, entretanto, eles desprovincianizaram de maneira decisiva. Como a nossa ideia de adiantamento é reboquista, mais ligada ao rótulo que à coisa, foi pouco notada a concepção nova de forma que propunham. Sem incorrer em reducionismo, esta desenvolvia um modo materialista de articular os planos estético e social. O seu impulso teórico se contrapunha às tendências internacionais em voga, basicamente antirreferenciais, ao mesmo tempo que abria espaço para a experiência artística e histórica local, que era puxada para um âmbito de debate a que não estava acostumada. A razão desses avanços não era nenhum ufanismo, mas o sentimento analiticamente consolidado do caráter internacional das coisas locais, e – mais surpreendente – do valor destas para uma visão compreensiva da atualidade em sentido amplo. Tratava-se de tirar o país do limbo artístico a que parecia condenado pelo atraso e de lhe reconhecer a capacidade de gerar formas à altura do tempo. O sentido agudo da condição periférica impunha às concepções universalistas ou hegemônicas do presente uma diferenciação sui generis. À primeira vista, nem as Memórias de um sargento de milícias nem O cortiço, objetos respectivamente dos dois ensaios, se qualificam como livros maiores. Pelo contrário, a despretensão de um e os chavões naturalistas do outro saltam aos olhos. A renovação crítica no caso consistiu em apontar neles uma dinâmica de fundo despercebida até então, de grande alcance, que estava para além das intenções do autor, podendo contrariá-las. Observe-se o interesse do passo, em que livros bons, mas marcados por limitações, são transformados em obras notáveis, graças às verdades que os achados do crítico souberam desentranhar de sua organização, inclusive de seus ritmos. A certa altura Antonio Candido observa que a violência social de O cortiço é maior do que supunha o romancista. Ao indicar o descolamento entre as intenções do escritor e o significado da ficção, ele confere a esta uma espessura e uma autonomia de tipo novo, que se transmitem também à leitura, tornada

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muito mais ativa (e moderna). Se os propósitos do artista deixam de ter a última palavra, esta passa para dentro do texto, cuja forma ou movimento interno lhes redefine o alcance e até o sentido. Analogamente o crítico adquire independência, pois passa a estar a serviço da obra – com a sua compleição voluntária e involuntária – e não do autor. Por aí, Antonio Candido se filia à tradição da dialética não-dogmática, para a qual a configuração literária prevalece sobre as convicções autorais. Embora contrária ao senso comum, não é uma ideia difícil. Mal ou bem, o trabalho da estruturação que impõe a sua consistência ao artista, escapando ao projeto explícito deste e às suas limitações, é uma experiência corrente. Trata-se da ideia materialista de forma, para a qual as intenções não são tudo. Estas não evoluem no vácuo, ou melhor, são afetadas e reconfiguradas pelos materiais sobre os quais trabalham, que são portadores de energia histórica por sua vez e as historicizam de torna-viagem. Controlado ou descontrolado, este refluxo sobre os propósitos do autor é parte plena da forma artística nesta acepção. Dito isso, observe-se que nos dois romances estudados por Antonio Candido a dissociação entre intenção e resultado tem um eixo particularmente brasileiro, com problemas de classe próprios. Os movimentos de fundo que o crítico estuda articulam dimensões da sociedade nacional que, além de inconfessadas, a distinguem de seus paradigmas europeus e a tornam problemática num sentido diferenciado. São por assim dizer segredos históricos, ligados aos arranjos sociais peculiares à ex-colônia, os quais se mostram dotados de potência estruturante. Digamos que a noção materialista de forma, com antena para a contradição entre forma e materiais, tem oportunidade particular em sociedades dependentes, de periferia, induzidas pela ordem geral das coisas a pensar em si mesmas com categorias que não se aplicam bem a seu caso. Passo a passo, estes ensaios transformam a leitura de livros importantes da literatura brasileira, dando-lhes nova altura: rediscutem a sua relação com os modelos internacionais; identificam um vínculo inédito e de fundo, mais ou menos inconsciente, com o processo social do país; apoiados nessa afinidade, exploram a sua consistência formal, com resultados literários e extraliterários de sumo interesse; em veia comparatista, por fim, refletem sobre o significado contemporâneo da experiência configurada nos romances. São operações muito diversas entre si, que entretanto nada têm de arbitrário. O seu conjunto responde em profundidade e objetivamente a necessidades da crítica em países como os nossos. Dependendo sempre de invenção e longe de qualquer pitoresquismo, há um fio ligando por dentro a originalidade da crítica, a originalidade das obras e a singularidade das experiências históricas. LS: A perspectiva de Antonio Candido tem vigência crítica no cenário atual? No essencial a obra de Antonio Candido foi escrita nos anos 50 e 60 do século passado, com vigoroso propósito de superação e síntese. Por um lado, afirmava

roberto sChwarz

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o primado da forma na discussão literária, em oposição à historiografia positivista, ao marxismo vulgar e ao sociologismo, influentes naquela data. Por outro, em oposição ao formalismo, buscava estabelecer o substrato social da própria forma, a qual situava. No conjunto tratava-se de desdogmatizar a reflexão de esquerda e de ganhar para ela os acertos da análise formal, geralmente cultivada em espírito antipolítico ou conservador. O terreno dessa discussão era internacional, com pólos no New Criticism americano, na crítica inglesa, nos debates francês e italiano. Devido às barreiras que a 2ª Guerra Mundial impôs à circulação das ideias, ficavam faltando as posições do marxismo heterodoxo alemão, com as quais as convergências são notáveis. Basta pensar nas formulações paradoxais de Adorno sobre a autonomia da arte como fato social, ou sobre a forma como conteúdo histórico sedimentado. Quanto ao Brasil, Antonio Candido livrava do acanhamento provinciano ou localista os traços de sua feição cultural, reinterpretando-os no quadro da atualidade, como problema. A procura da articulação produtiva – ou mutiladora – entre as condições da ex-colônia e a modernidade fazia parte da luta contra o subdesenvolvimento, com sua aposta no dinamismo interno do país, que estava devendo um passo. Sob esse aspecto, há um paralelo instrutivo a ser feito com o melhor da sociologia e da economia política do período. Passados os anos, o conjunto destas posições foi submergido, mas não refutado, pela maré pós-moderna. Saíram de cena a negatividade, a dialética e suas promessas de transformação, e entraram as teses do fim da história. A expansão avassaladora do capital, que deixou de ter limite externo, tornando-se global, mudou a paisagem. Entretanto será verdade que a qualidade estética, a consistência interna, o “close reading”, a substância social da forma, as problemáticas nacionais das ex-colônias e a própria ideia de crítica perderam a razão de ser? Embora o horizonte polêmico seja outro, só um cego não nota que estas exigências permanecem vivas, sob pena de regressão intelectual. Cabe às novas gerações retomar o assunto.

Ensaios

passagens

62 Literatura e Sociedade

Antonio Candido e a FaCuldade de Direito

Celso lafer
Universidade de São Paulo

Resumo
O artigo discute o papel da Faculdade de Direito no percurso de Antonio Candido, seja na formação da sua experiência de cidadania, seja na sua obra de crítico literário interessado nos temas e obras do Romantismo brasileiro que emanaram das Arcadas. Trata de como equacionou a relação entre Direito e Literatura por meio da formulação de um direito à literatura.

Palavras-chave
Antonio Candido; Faculdade de Direito; Experiência de cidadania; Romantismo Brasileiro; Direito à literatura

Abstract
The article examines the role of the Law School in the life and work of Antonio Candido. discusses what the Law School represented in his experience of citizenship and singles out the relevance for his activities as a literary critic of facets of Brazilian Romantism that emanated from the Law School. articulates how his formulation of the “right to literature” links Literature and Law.

Keywords
Antonio Candido; Faculdade de Direito; Experience of citizenship; Brazilian Romantism; Right to literature

Celso lafer

Antonio Candido e a Faculdade de Direito 63

I

ntonio Candido é um grande intelectual, um professor extraordinário e uma figura humana exemplar. A sua obra – que abre caminhos para o entendimento do Brasil, da sua literatura e da criação artística, e a sua rica personalidade, que reúne tantas virtudes – oferecem ao estudioso mais de um ângulo para explicar as razões da sua autoridade intelectual. Esta é a de um grande Mestre que, no correr dos anos, tornou-se um ponto de referência da cultura brasileira. Daí a multiplicidade dos estudos dedicados ao seu percurso e as homenagens intelectuais que vem recebendo por ocasião dos seus 90 anos. Estas foram antecedidas, num adensamento crescente, pelas que celebraram os seus 60, 70 e 80 anos, e que assinalam, no pluralismo das perspectivas discutidas, a força da sua presença na vida cultural do nosso país. Esta presença é de natureza geral, mas tem uma dimensão própria para os que foram seus alunos, tiveram o privilégio de assistir às suas aulas e beneficiaram-se do paciencioso empenho com o qual sempre cuidou da formação dos que com ele estudaram. É o meu caso, como posso dar meu afetuoso e reconhecido testemunho desde o tempo em que fui seu aluno no curso de 1961, de graduação, sobre Teoria e Análise do Romance dado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP na disciplina por ele criada e regida de Teoria Literária e Literatura Comparada. A disciplina levou à institucionalização da área na USP. Está na origem do atual Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH e da sua revista Literatura e Sociedade. Este número da Revista para a qual tenho a satisfação de colaborar, está voltado para estudos e depoimentos sobre a obra e a personalidade intelectual de quem foi, na USP, o inspirador e catalisador deste campo de estudos. Um campo, como ele diz num ensaio sobre Literatura

A

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Comparada inserido em Recortes, que tem o seu papel próprio num país como o Brasil, “caracterizado pelo cruzamento intenso das culturas”. Para explicar o significado pessoal desta minha colaboração, permito-me lembrar o que disse na nota introdutória de agosto de 1962 do meu O judeu em Gil Vicente. Este livro, que Antonio Candido prefaciou com generosidade, foi elaborado no período em que fui seu aluno e na nota qualifiquei-o como “o querido mestre e amigo que, pelo exemplo de sua obra e com o encanto da sua figura humana, tem sido o nosso guia a quem este trabalho e a nossa própria formação intelectual tanto devem”. Passados tantos anos, reitero esta afirmação de jovem com gratidão, virtude que, como observa Comte-Sponville com inspiração spinozeana, expressa o sentimento que acompanha a ideia da sua causa, que é, no caso, a generosidade de um grande Mestre e Amigo. A aspiração de compartilhar o alcance da reflexão de Antonio Candido me levou, no correr dos anos, em mais de uma ocasião, a escrever sobre a sua obra. Faço uma sucinta remissão a alguns destes estudos, necessária para explicar a escolha do tema desta colaboração: Antonio Candido e a Faculdade de Direito.

II
Em Esboço de figura, livro que organizei para comemorar os seus 60 anos, procurei mostrar que uma das chaves para o entendimento do seu percurso é a fecundidade de uma inquietação recorrente, que se traduz na reflexão sobre a dialética da ordem e da desordem, do “a favor” e “do contra”. Este oximoro, como todo oximoro bem sucedido, combina opostos que parecem excluir-se mutuamente. No contexto da obra de Antonio Candido reforçam a argúcia da sua análise, a ela conferindo uma profundidade própria, atenta à complexidade das incoerências e contradições. Propiciam o alcance de seus juízos reflexivos que, ao modo kantiano, extraem, na paixão pelo concreto da especificidade das obras o seu alcance geral. Elaborados com a qualidade de uma escrita singular, conferem à sua crítica literária a rara dimensão da criação. É por isso que ele não é apenas O observador literário, como disse em nota de 1959, a este seu livro, mas um criador que, na sua crítica, como na perfeição de suas aulas, é capaz “de cercar de muitos lados as faces da vida refletidas na literatura”. No estudo que elaborei para Dentro do texto, dentro da vida, livro organizado por Maria Ângela D’Incao e Eloísa Faria Scarabôtolo que celebrou os seus 70 anos, examinei as suas posições políticas e a interação que comportam com a sua obra e visão das coisas e do mundo. No trato destas posições, representativas do grande tema dos desafios da participação do intelectual na política no século XX, procurei mostrar que se caracterizam por duas vertentes distintas, porém complementares: (a) a da resistência democrática à ordem do arbítrio nos períodos ditatoriais que viveu – o Estado Novo e o Regime Militar – e (b) o da afirmação de uma identidade socialista, animada pelos sentimentos de fraternidade igualitária e complementada pelo pensar e pelo agir, na vivência das nossas experiências democráticas. Na sequência da minha análise procurei

Celso lafer

Antonio Candido e a Faculdade de Direito 65

mostrar como, na sua reflexão, a interação entre a política, visualizada como a ordem da igualdade, e a literatura, vivida como a aventura da liberdade criativa, ecoa de maneira própria o oximoro anteriormente apontado. Nos 80 anos de Antonio Candido, a Folha de S. Paulo organizou um suplemento do Mais!, dedicado a celebrar o evento. Contribuí com um pequeno artigo no qual explorei, pela primeira vez, a relação entre Antonio Candido e a Faculdade de Direito de São Paulo. Retomo o tema neste texto, pois a Faculdade de Direito tem uma relação com a sua vida e a sua obra e esta relação tem pontos de contato com as análises empreendidas nos meus dois estudos acima sumariados.

III
Antonio Candido completou o curso secundário no Colégio Universitário, anexo à Universidade de São Paulo. Cursou, em 1937 e 1938, a sua primeira seção que funcionava na Faculdade de Direito e preparava os alunos para o ingresso no ensino universitário de Direito, Filosofia, Ciências Sociais, Geografia e História. Fez e passou, em 1939, dois exames vestibulares, o para a Faculdade de Filosofia e o para a Faculdade de Direito. Assistia, de manhã, às aulas de Direito e, à tarde, as da Faculdade de Filosofia. Formou-se em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia. Fez o curso de Direito até o quinto ano – com pouca assiduidade a partir do quarto ano, quando foi nomeado assistente de Fernando de Azevedo na Faculdade de Filosofia – não tendo feito o exame final de conclusão do curso, como narra na entrevista a Gilberto Velho e Yonne Leite publicada na Revista da SBPC, Ciência Hoje (vol. 16, n. 91, junho de 1993). Nesta mesma entrevista, diz que se considera oriundo de duas Faculdades e, realçando a importância fundamental da Faculdade de Filosofia na sua formação, registra também: “[...] tenho apego pela Faculdade de Direito, onde me iniciei na militância política”. Qual é o significado deste apego? Diz Hume, em A treatise on human understanding (Parte IV, 6), que a memória não produz mas descobre a identidade pessoal, mostrando-nos a relação de causa e efeito entre as nossas diferentes percepções. Neste sentido, como procurarei mostrar, a memória de Antonio Candido sobre a sua passagem pelas Arcadas, debaixo das quais viveu sete anos, dois no pré-jurídico do Colégio Universitário e cinco no curso de bacharelado, contribui para explicar a especificidade da sua identidade. Assim, no discurso que pronunciou em 30 de agosto de 1984 ao receber o título de professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ao refletir sobre o seu percurso e sobre a importância da Faculdade de Filosofia na sua formação, na sua vida e no papel por ela desempenhado no ensino e na cultura do país, não deixou de registrar seu apego pela Faculdade de Direito. Diz neste discurso “O saber e o ato”, publicado em Língua e Literatura (ano X, vol. 10-13, 1981-1984): “Em 1939 fui admitido no curso superior em duas escolas: esta e a de Direito. Se a minha vocação estava aqui, na de Direito,

66 Literatura e Sociedade

recebi o ensino de alguns mestres exemplares, mergulhei durante anos numa das melhores bibliotecas de São Paulo e, sobretudo, recebi do ambiente o estímulo para definir uma consciência política. Nela me iniciei na atividade contra a ditadura daquele tempo – primeiro entre colegas liberais, depois entre colegas socialistas, reunidos para o mesmo combate. A Faculdade de Direito foi a minha grande escola de cidadania”. Recortes, que já mencionei ao tratar de Literatura Comparada na USP, é um livro de Antonio Candido que obedece, na sua composição, a uma lógica fragmentária. Esta lógica traduz, no seu pluralismo, o significado da obra, pessoas e instituições representativas do seu tempo afetivo e intelectual, como apontou Antonio Arnoni Prado na colaboração para o livro Antonio Candido – pensamento e militância, organizado por Flávio Aguiar e voltado para a celebração dos seus 80 anos. Para os propósitos da sua relação com a Faculdade de Direito, é significativo, em Recortes, o texto “Nas Arcadas”. Nele Antonio Candido evoca suas lembranças da Faculdade de Direito com destaque para a “trepidação do inconformismo” dos estudantes em relação ao Estado Novo e à sempre presente atividade literária, e situa estas vertentes da sua experiência no contexto da histórica tradição da Faculdade de Direito na vida brasileira. Sobre a constância do seu apego pela Faculdade de Direito, vale ainda a pena lembrar o discurso que pronunciou em 20 de agosto de 2008 ao receber o troféu do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano. Nele apontou que uma das suas alegrias naquele momento era a de recebê-lo na Faculdade de Direito, na qual estudou e na qual começou “a militância contra as ditaduras”, seja como um dos fundadores do Partido Libertador, que surgiu nas Arcadas como partido estudantil em 1939, seja subsequentemente como um dos fundadores da Frente de Resistência formada quando estava no quinto ano “por estudantes liberais e socialistas”. Mencionou que “sempre me senti uma espécie de aluno permanente que ainda não cumpriu a sua tarefa, mas tenho a honra de ser bacharel do XI de Agosto, grau que me foi conferido solenemente por uma turma de formandos”. Por isso trazia, naquele momento, “na lapela o distintivo do Centro, quase igual ao que em seguida ao trote de 1939, depois de raspado o cabelo e pagas as devidas taxas, recebi junto com a flâmula e o diploma de burro em bom latim macarrônico, diploma que conservo como antídoto salutar contra eventuais assomos de vaidade [...]”. Como se verifica, associado ao apego, a dimensão explícita da identidade de Antonio Candido, que tem a sua origem na Faculdade de Direito, é a da sua consciência política. Foi a experiência da ação conjunta de estudantes liberais e socialistas na luta contra o Estado Novo que teve o seu papel no modo da atuação política que assumiu na luta contra o regime militar instaurado em 1964. Como disse na entrevista dada a Heloísa Pontes, publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais (vol. 16, n. 47, outubro de 2001): “em tempos de fechamento as esquerdas e os liberais se unem; em tempos de abertura dá-se a decantação”.

Celso lafer

Antonio Candido e a Faculdade de Direito 67

Desta formulação vem a sua concepção, no período do regime militar, da relevância das Frentes Amplas que não são uma expressão “de oportunismo político”, pois entende, como documentei na minha mencionada colaboração para o livro Dentro do texto, dentro da vida, que liberais autênticos e progressistas representam princípios e valores permanentes. Nas suas palavras, na entrevista a Jorge Cunha Lima, intitulada “Democracia e Socialismo”, publicada na Isto É de 7/9/1977: “Pessoalmente sinto que o meu lado direito encosta com lealdade no seu lado esquerdo, formando um território comum, que permite a conversa e a ação também comuns”. Em 1977, no contexto da validade desta ação comum mais ampla reiterou, paradigmaticamente, como professor, sua experiência de estudante que, nas Arcadas, viveu a “trepidação do inconformismo”. Voltou à Faculdade de Direito e assinou, como bacharel honorário, a Carta aos brasileiros elaborada por Goffredo Telles Jr. e lida no pátio da Faculdade em 8 de agosto de 1977, como um dos grandes eventos políticos que assinalaram o sesquicentenário da fundação dos cursos jurídicos no Brasil. A Carta reivindicava a restauração do Estado de Direito e contribuiu para a erosão do arbítrio do regime militar e para a posterior redemocratização do país nos anos 80. No entender de Antonio Candido, foi “um ato de bravura refletida”, “simbolicamente legitimado por uma espécie de sanção popular” por conta das “manifestações de rua que ocorreram em seguida à leitura no centro da cidade” e que “despertou uma série de pronunciamentos em vários setores, equivalentes a uma onda de opinião democrática”. No seu texto inserido no livro coletivo Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos brasileiros, publicado em 2007, de onde extraí as referências acima, lembra que fez parte da “Comissão de professores que esperaram Goffredo da Silva Telles Junior no Largo de São Francisco e o introduziram no Pátio das Arcadas”. Registra que tinha sido informado da elaboração do documento por José Carlos Dias e José Gregori e afirma: “A leitura foi eletrizante e um dos momentos mais altos de vibração cívica de que participei na vida”. Na decantação da sua identidade socialista em tempos de abertura que se traduziu no pós-Estado Novo, na sua participação no Partido Socialista Brasileiro e na época que se inicia com a erosão do regime militar, pela sua adesão ao PT, do qual foi fundador, também teve o seu papel numa dialética de complementaridade à memória política e afetiva do convívio acadêmico na Faculdade de Direito. Neste sentido, lembro a dedicatória a Teresina etc. O livro, que reúne ensaios que conjugam problemas culturais e políticos, contém o seu belo estudo sobre D. Teresina, a militante socialista italiana que viveu em Poços de Caldas, com a qual conviveu e que o influenciou. D. Teresina, diz ele, “ilustrava de maneira admirável o que é “ser socialista”, tendo ele realçado, no seu perfil, “os sentimentos e a ética de um socialista”. Teresina etc. é dedicado aos seus amigos e parceiros de atuação política que compartilhavam os valores do “ser socialista”. Estão contemplados na dedicatória, Aziz Simão,

68 Literatura e Sociedade

Arnaldo Pedroso d’Horta, Febus Gikovate, Paulo Emílio Sales Gomes e seus companheiros de Esquerda, na Faculdade de Direito, Germinal Feijó e Antonio Correia Costa.

IV
A relação de Antonio Candido com a Faculdade de Direito não se circunscreve à dimensão política de sua identidade acima sumariada. Passava horas na biblioteca que evocou em “O Saber e o Ato”, como relata numa entrevista dada em 1986 a Reflexo, o jornal dos alunos do 1º ano da Faculdade (n. 3, outubro de 1986). “Gostava do ambiente sossegado, com o retrato de Álvares de Azevedo ali no canto”. Foi lá que leu “os clássicos da crítica francesa, como Sainte-Beuve, Taine, Brunetière, Faguet”, que foram relevantes, observo eu, na sua formação de crítico. Nesta entrevista dada a alunos do primeiro ano mencionou a importância que para ele teve o convívio acadêmico. O convívio acadêmico, além de ter propiciado “a escola de cidadania” teve também um papel na sua obra. Este papel está vinculado ao significado da Faculdade de Direito como um local de memória – ao modo indicado por Pierre Nora – da vida política, cultural e social do Brasil, para a qual foi decisivo o alcance do convívio acadêmico no correr de uma trajetória histórica que se iniciou com a sua criação em 1827. O significado deste convívio para a vida brasileira foi examinado por A. Almeida Jr. – eminente educador, professor de Antonio Candido na Faculdade de Direito e de quem foi próximo – em estudo publicado na Revista da Faculdade de Direito (vol. XLVII, 1952). A este estudo Antonio Candido se refere em seu “A Literatura na evolução de uma comunidade”, texto recolhido em Literatura e Sociedade. Aponta, com base em Almeida Jr., que a Faculdade, no século XIX, foi um meio plasmador de mentalidades e um ponto de encontro de quantos se interessavam pelas coisas do espírito e da vida pública que contribuiu para a formação da nacionalidade ao criar um vínculo de solidariedade entre aqueles que, na Academia do Largo de São Francisco, foram elaborando a sua visão de país, dos homens e do pensamento. Em “Nas Arcadas” registra Antonio Candido que a Faculdade de Direito no seu tempo não era mais o único lugar aonde iam “os dirigentes de toda a vida do país, desde a economia até a literatura”, mas havia ainda algo da força deste passado quando lá estudou. Isto incluía a atividade literária, e menciona a coletânea Poesia sob as Arcadas organizada por Ulysses Guimarães. A coletânea reflete o trabalho da Casa e nela aponta, com apreço, a produção de Afrânio Zucolotto, Domingos Carvalho da Silva, Mário da Silva Brito e Péricles Eugênio da Silva Ramos. Deste, que foi um grande estudante e subsequentemente um grande erudito e seu amigo, destaca o poema “Propiciação”. Antonio Candido, como tantos que o antecederam e sucederam, participou da atividade literária da Faculdade. Colaborou na revista estudantil O Onze de

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Agosto e para o número 1 de junho de 1941 (ano XXXVIII), de cuja Comissão de Redação participava Péricles Eugênio da Silva Ramos, escreveu “Notinha sobre Mário de Andrade”. Este artigo coincide no tempo com o seu primeiro comentário sobre livros no número inaugural de Clima (maio de 1941) e provavelmente o antecede na redação. Neste sentido pode-se dizer que o início da atividade de Antonio Candido como crítico literário também está vinculado à Faculdade de Direito. Nesta “Notinha” considerou o poema de Mário, “Louvação da tarde”, “um dos cimos de sua obra” e pontuava que o poeta “numa singeleza de atitude e numa singeleza de língua” mostrou que não precisava “revolucionar céus e terras para criar grande poesia”. Muitos anos mais tarde, em O discurso e a cidade, o crítico maduro, em abrangente análise, confirmou a sua intuição de jovem. No ensaio “O poeta itinerante” realça a importância do poema e explica como em “Louvação da tarde” Mário de Andrade mostrou que “era capaz de passar do modernismo propriamente dito à modernidade, que recupera a tradição ao superá-la”. Um dos propósitos que presidiu a elaboração de Formação da literatura brasileira, uma das obras fundamentais do percurso de Antonio Candido, foi escrever, no século XX, com domínio da literatura comparada, “uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”. O livro foi construído articulando os momentos decisivos desta história por meio da análise de obras, autores e públicos dos séculos XVIII e XIX. No século XIX, a Faculdade de Direito foi uma decisiva base de sustentação deste desejo dos brasileiros de ter uma literatura. Com efeito, naquela época, nela estudaram e conviveram grande parte dos escritores que, elaborando nas Arcadas a sua visão do país, em seu processo criativo buscaram dar conta da missão de criar uma literatura própria, “procurando uma nova morada” para “o espírito do Ocidente”. É por esta razão que, na segunda parte de Formação, dedicada basicamente ao Romantismo brasileiro, são analisadas tantas obras de egressos da Faculdade de Direito, de romancistas como José de Alencar aos poetas tutelares das Arcadas, honrados no Salão Nobre: Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Castro Alves. Na construção “de uma nova morada” para as Letras, o Romantismo, como movimento literário da cultura ocidental, por valorizar os particularismos do “espírito dos povos” prestou-se à estilização das tendências locais. Deste modo conjugaramse as Letras e o instinto de nacionalidade no Brasil do século XIX tendo, nas Arcadas, um grande centro aglutinador e irradiador do propósito da formação de uma literatura brasileira, distinta da matriz lusitana. Como é sabido, um dos pressupostos de Antonio Candido do processo da formação do sistema literário brasileiro é a interação dinâmica de autores, obras e públicos, com uma certa continuidade da tradição. Isto foi levando a um adensamento de referência mútua, sentido como uma participação na tarefa da construção cultural do país, como realça Roberto Schwarz na sua colaboração para o livro Antonio Candido – pensamento e militância. Por isso, além de obras e autores, estudou os seus públicos. Observo que, da especificidade literária e

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sociológica da relação Escritor/Público, tratou em ensaio que integra Literatura e sociedade. Nele aponta que “o autor só adquire plena consciência da obra quando ela é mostrada através da reação de terceiros. Isto quer dizer que o público é condição do autor conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua revelação”. Na análise desta revelação, dada pelo público, deu o devido destaque às consequências literárias do convívio acadêmico. Neste sentido cabe destacar o já mencionado ensaio “A literatura na evolução de uma comunidade” que também faz parte de Literatura e Sociedade e cujo período de elaboração é o da época em que escreveu Formação. No ensaio mostra como os estudantes da Faculdade, num certo momento do século XIX, formaram a sua sociabilidade específica, criaram um grupo que se justapôs à então modesta e provinciana cidade de São Paulo e, com o seu ethos próprio, configuraram um gosto que marcou o Romantismo brasileiro. Emanaram essencialmente da Faculdade, no âmbito do Romantismo, os traços da melancolia, do satanismo e da atração pela morte. Estes traços do contexto, interiorizados esteticamente, caracterizam paradigmaticamente a obra de Álvares de Azevedo. À análise destes traços dedicouse posteriormente no estudo sobre Macário e Noite na taverna – narrativas em prosa do menino prodígio – em A educação pela noite, título do ensaio que deu nome ao seu livro, publicado originalmente em 1987. Álvares de Azevedo, o poeta cujo retrato gostava de apreciar como estudante na frequentação da Biblioteca da Faculdade de Direito, é por ele tido “como talvez o mais interessante do nosso romantismo” e a sua obra exprime uma revolta em relação aos valores convencionais. É, assim, representativa da dialética da ordem e da desordem que apontei como um dos seus temas recorrentes. Integra, na sua obra, a importância do topos de “Educação pela noite”, realçado por João Luiz Lafetá na sua colaboração para Dentro do texto, dentro da vida, e é um contraponto ao tema das “luzes” da Ilustração, que permeia a primeira parte de Formação da literatura brasileira. Também é um fruto da convivência acadêmica dos alunos da Faculdade a poesia do bestialógico pantagruélico. A grande figura desta poesia é Bernardo Guimarães, colega e companheiro de Álvares de Azevedo. A esta poesia, que pode ser vista como manifestação de negatividade, que contraria tanto a ordem quanto a finalidade do discurso, Antonio Candido dedicou um instigante ensaio de O discurso e a cidade. São traços do espaço poético criado pela poesia pantagruélica, a graça do absurdo, o cômico, o sadismo, a obscuridade e o tema da brincadeira de que são exemplos “A orgia dos duendes”, “A origem do mênstruo” e “O elixir do pajé”. Esta poesia é uma expressão do Romantismo paulistano que exprime a sociabilidade especial dos alunos da Faculdade na provinciana vida de São Paulo que se libertavam das convenções por atitudes de negação. É assim, também, uma expressão da recorrente dialética “do a favor” e “do contra” identificadora das inquietações que permeiam a obra de Antonio Candido.

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No livro de amadurecida síntese expositiva, O Romantismo no Brasil, Antonio Candido retoma suas considerações sobre a poesia do Romantismo paulista, fruto do meio da Faculdade de Direito no século XIX, discutindo, com suas especificidades próprias, o elo que vai de Álvares de Azevedo a Bernardo Guimarães e seus companheiros de produção poética. Uma outra vertente da ligação de Antonio Candido com a Faculdade tem a sua origem no seu interesse pela literatura dos viajantes do século XIX. Na já mencionada entrevista a Heloísa Pontes, conta que, com pouco menos de 14 anos, por sugestão do seu pai, uma das suas iniciações ao conhecimento do Brasil foi a leitura de A segunda viagem ao Rio de Janeiro e à província de Minas Geraes de Saint-Hilaire. Os viajantes ofereceram a Antonio Candido muito material para a reconstituição histórica da vida caipira tradicional na primeira parte de Os parceiros do Rio Bonito – na origem a sua tese de doutorado em Ciências Sociais. Foi a importância do conhecimento do país que as viagens pelo Brasil fornecem que o instigou a organizar, apresentar e anotar em edição de 1995, os Apontamentos de viagem (de São Paulo à capital de Goiás, desta à do Pará pelos rios Araguaia e Tocantins e do Pará à Corte) de J. A. Leite Moraes, originalmente publicado em 1883 e muito representativo dos melhores livros de viagem da época. Leite Moraes, explica Antonio Candido na introdução, “representa bem as gerações românticas da Faculdade de Direito de São Paulo, das quais tem muitas marcas”. Nela ingressou em 1853 e, como era da praxe do convívio acadêmico, participou da vida literária das Arcadas. Foi um aluno aplicado numa turma integrada por Lafaiete Rodrigues Pereira, que veio a ser um dos grandes juristas brasileiros. Tornou-se um advogado criminalista, político e jornalista de fama. Foi lente catedrático de Direito Penal e deixou marcas no folclore acadêmico, inclusive a sua tirada sobre a correlação entre delito e pena: “Na quadrilha do direito o crime dança de vis a vis com a pena”. O livro, anotado por Antonio Candido com o seu conhecimento do Brasil, é a consequência da nomeação de Leite Moraes para Presidente da Província de Goiás em 1881. É uma narrativa da sua viagem de ida a Goiás e da volta de Goiás por Belém do Pará e de Belém do Pará para São Paulo. Caracteriza-se pelo sentimento penetrante da natureza e pela capacidade de registrar, de maneira expressiva, fatos e costumes apreendidos por uma pessoa, “muito interessado em averiguar tudo, inclusive para poder orientar o progresso, grande miragem dos homens cultos naquele Brasil atrasado e desconhecido”. Na Introdução Antonio Candido traça o perfil do prof. Leite Moraes que é, assim, uma importante contribuição às memórias acadêmicas da Faculdade de Direito de São Paulo. Além do interesse próprio do livro e desta contribuição à História da Faculdade, que Antonio Candido conhece bem pela leitura de Almeida Nogueira e Spencer Vampré, seus grandes cronistas – muito utilizado nos estudos acima mencionados sobre o romantismo paulista, vale a pena lembrar outro ponto de contato. Leite Moraes é o avô de

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Mário de Andrade, por quem Antonio Candido sempre teve a maior admiração, manifestada inauguralmente na sua contribuição de 1941 à Revista O Onze de Agosto.

V
No percurso de Antonio Candido um ponto alto da sua convergência com a Faculdade é o texto “O direito à literatura”, na sua origem palestra dada num curso organizado em 1988 pela meritória Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, da qual fez parte. A palestra, como outras do ciclo, foi proferida na Sala dos Estudantes da Faculdade e posteriormente integrou volume sobre várias facetas dos Direitos Humanos, organizado por A. C. Ribeiro Fester. Subsequentemente, “O direito à literatura” foi incorporado em Vários escritos a partir de sua terceira edição. O texto tem como característica uma conjugação muito própria do Direito e da Literatura. Neste sentido, até simbolicamente por ter sido uma conferência pronunciada na Faculdade, é um compromisso que o antigo aluno, bacharel honorário do XI de Agosto e subscritor da Carta aos brasileiros, saldou com a sua formação jurídica, integrando-a com a sua concepção de literatura e a sua visão da política. A afirmação histórica dos direitos humanos, que se inicia no século XVIII com as primeiras Declarações de Direitos, representou uma nova concepção da convivência coletiva. Assinalou a positivação jurídica do valor da dignidade humana. Articulou a passagem, no plano do Direito, do dever dos súditos para os direitos do cidadão, como aponta Bobbio em A Era dos Direitos. Inaugurou, na teoria política, o início da consolidação democrática da perspectiva ex parte populi, delimitadora da perspectiva ex parte principis. Tem como ponto de partida as aspirações da tradição humanista das luzes da Ilustração segundo “a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas” – para recorrer às palavras de Antonio Candido no discurso proferido na Faculdade ao receber, em 2008, o Prêmio Juca Pato. Em síntese, como diz em “O direito à literatura”, os direitos humanos nutrem-se das ideias amadurecidas nos séculos XVIII e XIX que geraram o liberalismo e o socialismo e das possibilidades que as conquistas do progresso técnico trariam para encaminhar a solução das grandes desarmonias que geram a injustiça. Existe, como é sabido, um descompasso entre aquilo que almejam os direitos humanos e a prática, mas cabe, como diz Antonio Candido, aos que neles acreditam empenhar-se em fazer coincidir a teoria com a realidade. No seu caso, o empenho em prol desta coincidência é a expressão de um dever moral – dever que explica tanto a sua militância partidária quanto a não-partidária. É fruto da dimensão do seu “ser socialista”, à maneira de D. Teresina, na qual o valor da igualdade flui “de dentro para fora”, a partir daquilo que constitui uma espécie de “cerne ético”, como analisa Walnice Nogueira Galvão em ensaio que integra o seu Tapete afegão.

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Para a luta em prol da afirmação dos Direitos Humanos vem contribuindo, aponta Antonio Candido, uma mudança de mentalidade, “um progresso no sentimento do próximo” que fez com que o mal, ainda que praticado, tenha deixado de ser proclamado, ou seja, tenha deixado de ser tido como parte integrante e inevitável da natureza das coisas. Exemplifica o sinal dos tempos novos em relação ao mal radical da barbárie nazista com o Tribunal de Nuremberg. Numa outra chave, aponta mudanças no comportamento cotidiano e na fraseologia das classes dominantes no Brasil em relação ao pobre e ao negro. A discussão da mudança de mentalidade como uma das fontes materiais, favorecedora da positivação jurídica dos Direitos Humanos, é elaborada de maneira muito própria pelo estudioso de literatura. Com a sensibilidade do seu “ser socialista”, realça Antonio Candido que, a partir do século XIX, “o pobre entra de vez na literatura como tema importante”. Daí a exemplaridade de Os miseráveis de Victor Hugo e o Oliver Twist de Charles Dickens. Explica, assim, que “o que hoje chamamos de direitos humanos pode dar à literatura uma força insuspeitada”. Neste contexto pontua o significado de vários livros de Émile Zola, da série dos Rougon-Macquart e no Brasil, pós-Revolução de 1930, o romance de tonalidade social, explícito com Jorge Amado e implícito com Graciliano Ramos. O pano de fundo destas amplas considerações de Antonio Candido está lastreado nos estudos que, como crítico, dedicou, por exemplo, a L’ assommoir de Zola (Degradação do espaço) e ao O cortiço de Aluísio de Azevedo (De cortiço a cortiço) incorporados no O discurso e a cidade, a Graciliano Ramos em Ficção e confissão e a Jorge Amado em Brigada ligeira. O ponto de partida da afirmação dos Direitos Humanos é a generalização do princípio da igualdade e o seu corolário lógico, o princípio da não discriminação. Em termos próprios e muito precisos, em função do “cerne ético” acima mencionado, Antonio Candido formula o que significa a generalização destes dois princípios e as suas dificuldades. Trata-se de “reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo”, o que não é fácil, inclusive no plano individual, pois “a tendência mais forte é achar que os nossos direitos são mais urgentes que os do próximo”. Fundamenta a razão de ser da tutela dos direitos humanos no conceito que evocou em Os parceiros do rio Bonito de “bens incompressíveis” do padre Lebret, ou seja, os que não podem nem devem ser negados a ninguém. Neles inclui “não apenas os que asseguram sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual” e afirma: “São incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão, etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer”. Postula, assim, a interdependência e a indivisibilidade entre os direitos civis e políticos – herança do liberalismo – e os direitos econômico-sociais-culturais – herança do socialismo, contemplados de maneira integrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.

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Propõe, a seguir, a questão básica do seu texto: a fruição da arte e da literatura é um bem incompressível? Inicia a discussão apontando que a literatura concebida num sentido amplo, como toda criação de toque poético, ficcional ou dramático, aparece claramente “como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos”. Com efeito, são múltiplos e diversificados em todos os tipos de cultura os estímulos à criação literária, por ele examinados em ensaio de Literatura e Sociedade. Derivam do fato de que não há povo ou homem que possa viver “sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação” que corresponde, assim, “a uma necessidade universal que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito”. Daí a fundamentação da especificidade do direito à literatura, no sentido amplo, que inclui a cultura popular, no rol dos direitos humanos. Antonio Candido elabora a fundamentação do direito à fruição generalizada da criação ficcional e artística como um bem incompressível por ser uma necessidade básica, apontando: “Assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem literatura”. A literatura, como “o sonho acordado das civilizações” é um fator indispensável de humanização e “confirma o homem na sua humanidade”. Confirma “porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”. Daí, na perspectiva ex parte populi que os direitos humanos consagram, a titularidade de um direito de crédito ao generalizado acesso de todos aos diferentes níveis de cultura, sem distinção entre cultura popular e cultura erudita. É deste modo que Antonio Candido explicita com originalidade a razão de ser do direito de toda pessoa participar livremente da vida cultural da comunidade e de fruir as artes, consagrado no artigo XXVII – I da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Na discussão do direito à literatura como um igualitário direito de crédito, nos termos acima mencionados, Antonio Candido aprofunda a sua reflexão explicando o seu papel na formação do ser humano. Este papel não é apenas o de divertir, edificar e instruir segundo os clássicos critérios externos que justificariam a literatura segundo padrões oficiais, religiosos ou ideológicos. “A literatura é uma atividade sem sossego” como aponta num ensaio (Timidez do romance) inserido em A educação pela noite, no qual trata da justificação do romance analisando livro de Facan de 1625 – provavelmente o primeiro tratado sobre o romance em prosa – sublinhando, na conclusão, que “o romance representa o desejo de efabulação, com a sua própria verdade”. A literatura, como “uma atividade sem sossego”, confirma e nega, propõe e denuncia; “não corrompe nem edifica”, mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”. É o caso, por exemplo, do já referido espaço poético criado pela poesia pantagruélica dos alunos da Faculdade. Daí o significado tanto da

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literatura sancionada, quanto da proscrita, que abrem a nossa compreensão para a natureza, a sociedade e o semelhante. É a “poderosa força indiscriminada da iniciação à vida” da literatura, fruto da liberdade “tanto do criador, no momento de conceber e executar, quanto do receptor, no momento de sentir e apreciar”, para recorrer ao que diz no ensaio “Estímulos à criação literária” de Literatura e sociedade, que fundamenta o seu papel na formação do ser humano. Desta análise do direito à literatura e do seu papel na formação do ser humano resulta uma dimensão de liberdade sustentada por Antonio Candido: a da liberdade como Bildung, que enseja o desabrochar do potencial humano através da autônoma construção e amadurecimento da personalidade de cada indivíduo. Esta construção transita pelo “sancionado” e pelo “proscrito” em consonância com o significado da dialética da ordem e da desordem, do “a favor” e do “contra” no percurso da sua obra e das suas inquietações. Daí a contribuição própria de Antonio Candido à fundamentação do direito à livre manifestação e circulação da criação artística contemplado no artigo 5º, IX da Constituição de 1988. Neste sentido, ao sustentar o direito à literatura como um bem incompressível e à maneira do que propõe Bobbio em Política e cultura, advoga uma política de cultura, ou seja, uma defesa dos homens de cultura em prol das condições da existência e desenvolvimento da cultura. Contrapõe-se, assim, à planificação da cultura por critérios externos à literatura, de que são exemplos, como aponta no já referido ensaio “Timidez do romance”, as exigências políticas do realismo socialista, nos anos do stalinismo, ou as da aplicação das normas da religião ou da moral dominante, voltadas para inculcar princípios e conhecimentos aceitos pela ordem vigente, que desconsideram ex parte principis a verdade da literatura que nem corrompe nem edifica, em função das suas características próprias. Com efeito, a verdade da literatura não está na intenção do autor. A intenção pode ser um estímulo à criação literária, mas a verdade própria da literatura é o texto, não o contexto de intenções e estímulos que estão na sua origem. O impacto, por exemplo, da obra de Castro Alves na luta contra a escravidão, explica Antonio Candido, resultou da sua capacidade e do seu talento “de elaborar em termos esteticamente válidos os pontos de vista humanitários e políticos”. Desta elaboração tratou num estudo de Recortes sobre “O navio negreiro”, poema de 1868, composto em São Paulo pelo acadêmico de Direito Castro Alves. Por isso afirma: “em literatura uma mensagem ética, política, religiosa ou mais geralmente social, só tem eficiência quando for reduzida a estrutura literária, a forma ordenadora”. O poder humanizador da literatura, que enseja a liberdade como “Bildung”, resulta da obra como um objeto construído, fruto da “força da palavra organizada”. Assim, “um poema hermético, de entendimento difícil, sem nenhuma alusão tangível à realidade do mundo ou do espírito” pode desempenhar este papel humanizador, “pelo fato de ser um tipo de ordem, sugerindo um modelo de superação do caos”. Neste sentido, a experiência literária bem sucedida dá

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uma ordem à desordem. Dela é um exemplo a obra de Álvares de Azevedo, para voltar à poesia do romantismo que emanou da Faculdade. A ordem na literatura, no entanto, tem uma característica especial: a de ser constitutivamente pluralista. Cada texto tem a sua própria, específica e singular maneira de exprimir e organizar a emoção e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos. O artista serve à sua arte cuidando, com autônoma liberdade, desta organização – desta ordem singular – que supera o desordenado caos originário do material bruto com o qual trabalha. Neste sentido, “O direito à literatura” sustenta tanto a liberdade como o não-impedimento, ou seja, a tutela legal da permissão de criar, quanto a liberdade positiva da autonomia, vale dizer, dar à liberdade da criação artística espaço para reger-se pelas suas próprias normas. A base de sustentação destas duas liberdades provém de uma concepção pluralista da cultura que se contrapõe ao monismo da concentração e unificação do poder ideológico, que é o que se exerce sobre as mentes, por meio da palavra, através da produção e transmissão de ideias. A afirmação do pluralismo cultural em contraposição ao monismo em “O direito à literatura” é uma contribuição à teoria democrática. O pluralismo da verdade da literatura afirmada em “O direito à literatura” tem o seu lastro na postura de Antonio Candido como crítico literário, da qual é expressão o que qualifica como “crítica de vertentes”. Esta é a que procura ajustar o tratamento crítico “às características da escrita, não apenas quanto à espécie (poema pessoal, romance social, síntese do período, etc.), mas também quanto à fatura”, para usar suas palavras no prefácio de 2003 à edição portuguesa de 2004 de uma coletânea de seus textos (O direito à literatura e outros ensaios). Requerem abordagens distintas textos translúcidos, que parecem reproduzir a realidade, como os romances realistas de Zola e Aluísio de Azevedo, e textos opacos, que parecem produzir uma realidade própria, como o poema “À espera dos bárbaros” de Kavafis ou o romance de Buzzati, “O deserto dos tártaros”. É o que mostram os estudos que integram O discurso e a cidade. A prática de uma crítica de vertentes que obedece à inclinação de cada texto é a que vem ensejando, na obra de Antonio Candido, o deslinde reflexivo que extrai criativamente do particular de uma obra o seu significado geral, situando-a no saldo das aquisições humanas. É deste modo que, criativamente, ajuda os seus leitores a participarem “por conta própria da extraordinária aventura da liberdade que é a literatura”, para valer-me de palavras suas no mencionado prefácio à edição portuguesa de O direito à literatura e outros ensaios. A crítica de vertentes requer tolerância intelectual. Desta maneira, a sua concepção e prática em termos de direitos humanos, tal como articulada por Antonio Candido, respalda o artigo XXVI da Declaração Universal que, ao prever o direito à instrução, estipula que deverá ser orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e promoverá a compreensão e a tolerância.

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VI
Antonio Candido reiterou, no correr dos tempos, o seu apego pela Faculdade. Nesta minha colaboração procurei explicitar as razões deste apego – afetivas e intelectuais – que explicam o significado da Faculdade no seu percurso e na sua obra. Segui a linha sugerida por Hume, ao tratar da memória, indicando como a interação de causa e efeito de diferentes percepções contribui para entender a sua identidade pessoal e intelectual. Cabe, no fecho deste trabalho, como professor titular da Casa, dizer que a Faculdade também tem apego pelo seu antigo aluno, que exemplificarei com três manifestações institucionais. A primeira foi na votação do Conselho Universitário, na sua sessão 210, de 9/8/1945 que, funcionando como Congregação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, desempatou, em favor de Mário de Souza Lima (que era o regente interino) e em detrimento de Antonio Candido, o concurso para o provimento da Cadeira de Literatura Brasileira para o qual se inscreveram seis candidatos. Num ensaio de Recortes, Antonio Candido relata as peripécias deste concurso, que disputou aos 26 anos, e que acabou por dar-lhe, com a tese sobre o método crítico de Sílvio Romero, o título de livre-docente da literatura brasileira que foi, mais adiante, o passaporte de titulação da sua passagem do ensino da Sociologia para o de Letras. Obteve cinco indicações da Banca, mas dois também indicaram Souza Lima e um Oswald de Andrade. Subsequentemente, os três examinadores que haviam votado nele e também nos dois acima mencionados, desempataram em seu detrimento, ficando, assim, Souza Lima com duas indicações, Oswald com uma e ele com duas. No Conselho Universitário Antonio Candido teve cinco votos minoritários respaldando a sua indicação. Um deles foi o de Ernesto de Moraes Leme – que tinha sido seu professor de Direito Comercial, que o apreciava como crítico e com o qual manteve, no correr dos tempos, um bom relacionamento. A penúltima manifestação foi a que lhe foi prestada no Salão Nobre pela Diretoria da Faculdade e pela Associação dos Antigos Alunos, em 2005. Foi distinguido, entre os antigos alunos, por suas destacadas atividades fora do segmento jurídico, como o crítico literário mais considerado do país, como relata Folha dobrada, o informativo da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (ano 4, nº 17, setembro de 2005). A última foi em 20 de agosto de 2008, por ocasião da entrega do prêmio Juca Pato, quando recebeu, de Lygia Fagundes Telles, a láurea de Associado Benemérito da Associação de Antigos Alunos e do diretor da Faculdade, João Grandino Rodas, o diploma do Colar do Mérito Acadêmico das Arcadas da São Francisco. O Colar do Mérito Acadêmico, criado em junho de 2007, no contexto do aniversário dos 180 anos da Faculdade, foi concedido pela primeira vez, por deliberação unânime da Congregação, a Antonio Candido como também relata Folha dobrada, o informativo da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP (ano VII – nº 9, julho/setembro 2008). Os consideran-

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dos que levaram à deliberação da Congregação sintetizam os argumentos deste texto, que são indicativos do reconhecimento dos relevantes serviços que a sua obra e ação prestaram à Faculdade, ampliando o entendimento do seu papel como um local de memória na vida brasileira. Permito-me concluir com uma nota pessoal. No curso em que fui seu aluno sobre Teoria e Análise do Romance foram discutidos vários tipos de personagens, desde as mais próximas do tipo até as mais complexas. No ensaio “A personagem do romance”, que integra A personagem de ficção – livro que reúne as colaborações de expositores convidados do curso – observa Antonio Candido que a marcha do romance moderno tem como uma das suas notas tratar as personagens como “seres complicados, que não se esgotam nos traços característicos, mas têm certos poços profundos, de onde pode jorrar a cada instante o desconhecido e o mistério”. Este tema do curso é uma das facetas da sua obra de crítico, voltada para a análise da complexidade contraditória de personagens que, com seus altos e baixos, integram o universo ficcional de vários escritores. Este problema, difundido pelo Romantismo, é o fio condutor dos ensaios sobre Alexandre Dumas, Joseph Conrad, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, que integram Tese e antítese que li assim que foi publicado em 1964, na sequência das inquietações intelectuais suscitadas pelo curso. No correr dos anos e também subsequentemente com um saber de experiência, fui me dando conta da relevância disso para o entendimento da vida política. Com efeito, como adverte Octavio Paz no prólogo a La letra y el cetro, o volume 9 de suas obras completas, ninguém deveria escrever sobre temas de filosofia e teoria política sem ter lido e meditado sobre o legado dos grandes poetas e romancistas – os trágicos gregos, Shakespeare, Dante, Cervantes, Balzac, Dostoievski. A História e a Política, continua ele, são os domínios da eleição do particular e do único, da paixão, dos conflitos, dos amores, dos ódios, dos ciúmes, da admiração, ou seja, de tudo de bom e de tudo de mau que faz parte do ser humano. Por isso, na política sempre ocorre, tanto no mando quanto no desmando, o enlace entre as forças impessoais dos processos sócio-históricos e o bom e o mau das paixões humanas. A literatura nos dá acesso ao entendimento desta complexidade, como mostra Antonio Candido na sua análise do mando e da transgressão no Ricardo II de Shakespeare, ensaio de 1992 que integrou o volume coletivo Ética, organizado por Adauto Novaes. Hannah Arendt, na sua reflexão, frequentemente recorreu à literatura como via de acesso ao entendimento da realidade política. Quando fui seu aluno, em 1965, em Cornell, no curso sobre As Experiências Políticas no Século XX, uma parte significativa da bibliografia indicada era ficção. Incluía romances de Ernst Jünger, William Faulkner, André Malraux, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Thomas Mann, Boris Pasternak e poesias de Brecht e René Char. O acesso ao contraditório pluralismo do bom e do mau, do “a favor” e o “do contra”, da ordem e da desordem, foi o que, na minha formação, logrei perce-

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ber no homo fictus do curso sobre Teoria e Análise do Romance. Foi a base para começar a entender o quanto de “os crespos do homem” existe nos seres vivos. Por isso sou um antigo e sempre aluno de Antonio Candido, não só de Teoria Literária e Literatura Comparada, mas de vida.

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Introdução ou sobre segundos esCalões

lilia moritz sChwarCz
Universidade de São Paulo

Resumo
O presente artigo comenta aspecto da obra de Antonio Candido, tendo como objeto e fio condutor o livro Um funcionário da monarquia: ensaios sobre o Segundo Escalão. Mais do que uma biografia, a trajetória de Nicolau Tolentino serve de pretexto para que o crítico refaça percursos sentimentais, e de sua família, mas também reverbere alguns conceitos presentes em sua obra estendida. Estamos falando de temas como radicalismo, favor, filhotismo e conservadorismo; práticas que caracterizaram o Império brasileiro, mas também uma forma de fazer política, uma certa sociabilidade local.

Palavras-chave
Antonio Candido; Percursos sentimentais; Radicalismo; Favor; Conservadorismo; Império brasileiro; Funcionários públicos; Modelos de apadrinhamento

Abstract
This article focuses a particular aspect of Antonio Candido’s work, having the book “Um funcionário da monarquia: ensaios sobre o segundo escalão” as object and guidance. More than a biography, the trajectory of Nicolau Tolentino may be seen as a kind of pretext for the critic to deal with different subjects: family, conservadorism, radicalism, “favor”. All of them may be understood as important concepts that define a particular way of making politics in the Brazilian empire.

Keywords
Antonio Candido; Sentimental course; Radicalism; “Favor”; Conservadorism; Brazilian empire; Civil service employees; Favoring models

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á se foi o tempo em que a historiografia nacional se dedicava a estudar, com exclusividade, personagens vitoriosos e envoltos na aura dos “bem sucedidos”. Ao contrário, uma série de estudos tem se dedicado a investigar agentes anônimos, personagens humildes, ou mesmo sujeitos históricos cuja vivência ao invés de resultar num histriônico sucesso, acabou em retumbante fracasso. Se esse não é exatamente o caso em questão, de toda maneira vale a pena prestar atenção na trajetória desse agente um tanto desconhecido, que por mais que tenha se dado bem na política do Segundo Reinado, nunca foi um protagonista afamado ou esteve envolto em episódios mais exemplares ou dignificantes. Estamos falando de Nicolau Tolentino, nascido em setembro de 1810, na zona rural de São Gonçalo, local que depois ganharia o nome de cidade de Niterói. Filho de lavradores modestos, Tolentino seguiria carreira no funcionalismo publico, ocupação que na época era entendida como uma “cadeia da felicidade”; uma forma de estar perto dos “donos do poder”. Essa é também a personagem selecionada por Antonio Candido, nessa pequena biografia afetiva: um perfil delicado deste que foi o avô de sua mãe e de quem ouvira, desde menino, muito falar. No entanto, e como bem mostra Antonio Candido – nessa investigação cuidadosa, que tomou dez longos anos de pesquisa e fez o estudioso familiar passar por vários acervos e documentos –, essa carreira fora consagrada ao Segundo Escalão, conforme já revela o subtítulo do belo livro Um funcionário da monarquia: ensaios sobre o Segundo Escalão. Mas se a história tem sido severa com aqueles que não ocupam postos de maior evidência, a partir deste livro Tolentino foi retirado do esquecimento e do jogo seletivo da memória oficial para se converter em artífice principal da narrativa. Uma história que conta a trajetória deste self-made man num contexto em que o que se afirmava como qualidade maior não era o desempenho, mas antes o “favor”.1
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Voltaremos ao tema mais à frente neste mesmo artigo.

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Por outro lado, nessa sociedade tão bem definida por Machado de Assis a partir da figura do Medalhão, ser funcionário público era não só garantia de um porto-seguro, como de renda, prestígio e posições bastante estáveis; nesta estrutura que se entendia como “tradicional”, mas investia em títulos honoríficos como forma de driblar a provisoriedade de uma monarquia Bourbon e Bragança inesperadamente instalada nos trópicos.2 Ao contrário, no Rio de Janeiro de meados para o final do XIX abundavam nobres, entre alguns poucos condes, raros duques, certos marqueses e muitos barões (sobretudo os “sem grandeza”), que desenhavam em seus brasões a tradução dessa nova heráldica tropical: ao invés dos temas simbólicos e consagrados, eram no Brasil as moscas, eventos históricos datados, plantas e até negros que figuravam nos brasões dessa nobreza recente, fruto em boa parte dos ganhos da cafeicultura.3 E Tolentino seria até Conselheiro, ascendendo como podia nesta sociedade, que sem ser estamental, também se movia pelo lustro e pela demonstração de honraria. É por isso que a despeito de não ser “típico”, Tolentino foi absolutamente representativo de seu contexto; um tipo social daquele tempo – como bem mostra Antonio Candido –; um alto funcionário que extravasa a burocracia sem, porém, chegar a uma liderança de maior abrangência. Esses casos mostram como a história é feita de atos cotidianos, banais até, e como a construção do Império restava nas mãos da burocracia estatal, tão afeita a regras e ordens pré-determinadas. Ao analisar as crenças de um moleiro de Friuli, o historiador Carlo Ginzburg mostrou como o que interessava entender a partir da figura de Menocchio não era o fato de ele bem representar o pensamento campesino da época; ao contrário, era em suas ambiguidades e ambivalências que residiam as possibilidades de anunciar todo um universo mental presente naquele contexto, mas apagado pela mão forte do tribunal da inquisição ou pela voga dos homens pouco afeitos à lembrança da memória e da cultura oral. No caso de Tolentino, é possível dizer que, sem pertencer à camada popular, também não fez parte da elite dos bem-nascidos. A personagem poderia ser definida como membro de um grupo significativo numericamente, o funcionalismo, que com o crescimento urbano ganhava maior proeminência tanto em termos de quantidade como de qualidade. Ou seja, a partir de 1859 já existia alguma chance de se ascender na hierarquia administrativa do Império por meios próprios. Por outro lado, desde os anos 1870, tomava vulto a figura do profissional liberal (mais claramente caracterizados a partir do grupo dos bacharéis: médicos e advogados), provenientes das faculdades locais. No entanto, sem dependerem totalmente da agricultura e da grande propriedade, tais carreiras também não eram
2 Machado de Assis. “Teoria do medalhão”. In: Machado de Assis. Papéis avulsos. Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Garnier, 1882/1989. 3 No livro As barbas do imperador, (São Paulo, Companhia das Letras, 1999) tive oportunidade de desenvolver com mais cuidados uma reflexão sobre o processo de nobilitação no Brasil. Vide também, entre outros, interessante reflexão de José Murilo de Carvalho no livro Teatro de sombras (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1980).

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autônomas ou independentes, e sempre tiverem no Estado seu maior cabide de emprego. Desta maneira, esses senhores vivenciavam uma situação paradoxal: sua posição lhes franqueava uma independência decisória que a realidade da governança do Império acabava por negar.4 Por fim, numa sociedade que tinha preconceito e ojeriza ao trabalho, sobretudo o manual, e que o identificava aos escravos, sujeitos que efetivamente trabalhavam eram vistos, no mínimo, sob suspeita. E esse foi o caso de nossa personagem, que conheceu suas glórias, mas as perdeu também. Tolentino exemplifica, pois, a trajetória das nascentes camadas médias brasileiras que, sem assistir de camarote ao teatro do Império, procuravam à sua maneira tomar parte do espetáculo que então se montava. Aí está, conforme define o próprio autor desta biografia: “um perfil com valor de paradigma”.

“Um tal de Tolentino”: sobre uma trajetória tão comum que é por certo diversa
Segundo Antonio Candido, pouco se sabe sobre a formação de Nicolau Tolentino. O encontramos já em fevereiro de 1826, pedindo para ser nomeado como praticante não-remunerado na Mesa de Consciência e Ordem; uma maneira de entrar na carreira do funcionalismo de forma convencional, e seguindo as regras do jogo imperial. Parece que teria logrado a nomeação logo neste momento, mas sua vida funcional começaria, na verdade, apenas dois anos depois. O fato é que ele seguia a tradição da família, que consistia em se aferrar a seu posto (e “à vassoura que varria o chão da repartição”) até conseguir qualquer forma de efetivação. Tolentino seguia também a prática dos favores e mercês que grassavam então, e que garantiam um bom posto a partir de um relativo controle das relações pessoais. Funcionários públicos eram justamente, e em geral, aqueles que carregavam uma boa carteira de nomes em seus bolsos e coletes, e que se contentavam em começar por baixo. Por isso é que se sugere que, antes de ser nomeado para o posto de praticante, nossa personagem atuou como contínuo ou servente, até obter algum ganho significativo ou posição oficial. Antonio Candido atesta que Tolentino sabia, a essas alturas, duas línguas estrangeiras e possuía boa biblioteca em casa, o que deveria diferenciá-lo dos demais pretendentes ao cargo, ainda mais no contexto do Rio de Janeiro; atrasado culturalmente e quase sem livrarias públicas. E a carreira parecia lhe assentar bem, tanto que já em 1843 foi promovido a oficial maior e condecorado no grau de cavaleiro com a Ordem de Cristo. Ao que tudo indica, já angariara alguma fama como bom funcionário, uma vez que em 1845 acumulava a função de inspetor interino da Alfândega do Rio de Janeiro, recebendo nova condecoração da Ordem da Rosa, já no grau de oficial. Tal cargo combinava com a comenda, sobretudo nesta “sociedade de mercês e prebendas”, e cuja atividade comercial, e no porto do Rio de Janeiro, avolumava-se. O posto
4 Para uma leitura mais ampla do perfil desses novos profissionais liberais do Império sugiro, entre outros, José Murilo Carvalho. Teatro de sombras. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1986.

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facultava, por fim, o ticket de entrada para uma categoria social nova, pertencente prioritariamente às camadas sociais mais altas; o que pedia por uma união também à altura. Já se delineia, portanto, o perfil do homem que consegue ascender nessa estrutura que misturava classe com honraria: uma boa capacidade de trabalho com boas qualidades para agenciar e negociar bons empregos e posições. Para a mentalidade prática de Tolentino, casamento era como um contrato rentável, e tratava-se de encontrar a noiva certa, conforme os bons padrões da época. Tolentino nesse momento já contava com 34 anos feitos, e encontrou uma noiva de 22, que para os costumes do tempo, já estava um pouco “passada”; sem beleza, mas de família estável e com posses. Mariquinhas era filha de fazendeiros de Inhaúma, os quais possuíam terras também na Barra da Tijuca. A família formou não só militares como juristas, e correspondia exatamente ao padrão que Tolentino procurava. A noiva era também, por parte de suas primas – a Viscondessa de Cananéa e a Baronesa de Massambará –, parente de alguns dos maiores fazendeiros de café da Província do Rio de Janeiro. E, por onde se olhasse, as relações de parentesco de Mariquinhas pareciam recomendadas para um burguês funcionário, que procurava dar algum grau de estabilidade e de “tradição” para a sua carreira que, a essas alturas, ascendia a olhos vistos e começava a mostrar-se promissora. O perfil do casal também atesta a existência de certo aburguesamento durante o Império, que permitia a entrada de novos elementos nos circuitos considerados mais aristocráticos da corte. Por outro lado, aí estava uma nobreza, ela própria, criada por mérito, e que, diferente da europeia, conseguia seus títulos não em função do nascimento, mas antes das conquistas mais mundanas que ia realizando. Se boa parte dela era proveniente do café – e, portanto, também não carregavam qualquer tradição ou “berço”, segundo os termos da época –, alguns poucos funcionários públicos desmentiam a ideia da rigidez alardeada por esta sociedade.5 E nosso Tolentino seria um deles, galgando posições e honrarias a partir dos serviços que prestava e das boas relações que agenciava. Quando em 1846 lhe nasce o filho primogênito, Tolentino sofre seu primeiro revés nesse mundo nada fácil da política: perde o cargo de inspetor interino da Alfândega. O cargo era bom e garantia visibilidade nesse mundo em que quase tudo passava pela alfândega e por seu controle. Nosso funcionário foi rigoroso demais, nesse ambiente do “jeitinho” e perderia o lugar por não negociar. No entanto, já em 1859 encontrava-se Tolentino nomeado para dirigir a Segunda Contadoria da Diretoria Geral de Contabilidade. Morava então na rua do Catete 102, e o posto de contador, ou melhor de contador-chefe, representava uma nova e importante etapa na carreira, a qual, mesmo com certos tropeços, lhe
5 Vide, entre outros, Rui Vieira da Cunha. Estudo da nobreza brasileira. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1966. 2 volumes; Rui Vieira da Cunha. Figuras e fatos da nobreza brasileira. Rio de Janeiro, Ministério da Justiça e Arquivo Nacional, 1975; Vera Lúcia Bottrel Tostes. Estrutura familiar e simbologia na nobreza brazonada; províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, século XIX. Dissertação de mestrado, Departamento de História, USP, São Paulo, 1989. Vera Lúcia Bottrel Tostes. Princípios de heráldica. Rio de Janeiro, 1993.

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corria bem. Tanto que em agosto de 1852 o casal seria convidado para participar do baile que o Imperador ofereceu ao Corpo Legislativo no Palácio da Cidade. Sem ser bem-nascido, nossa personagem era bem casada e o convite significava um comprovante simbólico de pertença a essa sociedade das marcas estritas. Antonio Candido, assim, como uma espécie de detetive de arquivos, mas atento a símbolos e marcas rituais, vai conduzindo assim seu leitor por essa trajetória que, não sendo exponencial, representa exemplarmente certo grupo, afeito a demonstrações de inclusão social. Fazer parte do circuito do rei era uma dessas marcas, e compartilhar dos eventos da Corte era sinal certo de ascensão social. E Tolentino conheceria novas guinadas ao ser chamado para consolidar e amortizar a dívida pública da República Oriental do Uruguai com o Brasil. Logo se mudaria com a família para Montevidéu, e o posto significaria, como bem mostra o biógrafo, uma inflexão na carreira de Tolentino, mais acostumado com a rotina burocrática. Tratava-se de um acordo datado de 1851 entre os dois países, e o objetivo final era definir de que maneira, como e quando, as somas que o Uruguai devia ao Brasil – desde a independência de 1828 – seriam ressarcidas. Em Montevidéu, Tolentino estreitaria relações com Paranhos, então no começo de sua fulminante carreira política. Por sinal, participar dessa contenda era presenciar a disputa de um local estratégico dentro da lógica política do Segundo Reinado. A região do Prata apresentava uma temperatura elevada já nesse contexto, e uma colaboração com o Uruguai bem que viria a calhar.6 Tolentino surgia, assim, como “homem de confiança” de Paranhos e sua participação lhe franquearia o reconhecimento do governo. E a recompensa viria sob a forma do título de conselheiro; galhardão polpudo na lógica do Império. Sem ser Conselheiro do Estado – privilégio honorífico e hereditário de apenas doze membros e doze suplentes –, nossa personagem ganhava uma mercê basicamente honorífica, mas que possuía um valor especial dentro dessa estrutura monárquica, afeita a esse tipo de reconhecimento e de demonstração. E Tolentino entraria numa maré de sorte ao ser indicado, em 1856, como fiscal do Banco do Brasil; depois como vice-presidente da Província do Rio de Janeiro; para por fim exercer a presidência no lugar de Luís Antônio Barbosa que se licenciara para ocupar a cadeira de deputado geral pelo Partido Conservador. Como bem assinala Antonio Candido, era a primeira vez que a Província mais importante do Império – de onde surgiam as vogas culturais, e também as determinações políticas e econômicas – era governada por um funcionário sem maior
6 A chamada região do Prata foi estratégica durante todo o período do Segundo Reinado, até o começo dos anos 1870, quando termina a desastrosa guerra do Paraguai. Tanto, que a política na região é entendida pelos estudiosos do período, como o momento de apogeu, mas também de declínio da Monarquia brasileira. Sobre o tema vide, entre outros, Francisco Fernando Monteoliva Doratioto. O conflito do Paraguai. A grande guerra do Brasil. São Paulo, Ática, 1996; José Murilo de Carvalho. A construção da ordem. A elite política imperial. Rio de Janeiro, Campus, 1980, UFRJ/Relume Dumará, 1996; José Murilo de Carvalho. Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro, Vértice, IUPERJ, 1988. UFRJ/Relume Dumará, 1996.

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trânsito nas altas burocracias do Segundo Reinado, e mais: sem filiação a partido político. Essa era a época em que se digladiavam conservadores e liberais, e que o imperador, para garantir o controle, oferecia cargos a ambos os partidos de maneira quase previsível. É certo que o período era de conciliação entre os dois partidos, o que mais uma vez favoreceu a aceitação de nosso amigo. Mesmo assim, o fato de Tolentino não ser um Parlamentar, ou um político consagrado ao exercício da função, causou certa estranheza. Por certo, nomeando-se um funcionário de carreira, se procurava aplacar o absenteísmo que era prática política costumas nesse momento, assim como melhorar a qualidade técnica dos serviços prestados.7 Não poucos presidentes mal puseram o pé na sua Província e o momento merecia toda atenção. Depois da lei que terminou com o tráfico de escravo e da Lei de Terras que condicionou a propriedade rural, o contexto era de apreensão geral e seria bom contar com um funcionário presente. Por sinal, Tolentino atuaria mais como funcionário técnico do que como político dado a honras e méritos e a recepção de começo pareceu das mais positivas. Não obstante, a simpatia inicial se transformaria rapidamente numa oposição radical. Enquanto nossa personagem compactuou com a política local, ninguém lhe negava uma boa apreciação. Já quando se viu obrigado a empreender reformas contrárias aos interesses dos diferentes grupos políticos a reação não se fez esperar e acabou por resultar na saída do nosso leal funcionário. Tolentino parece ter tomado a sério (demais) sua nova função, e passou a implementar reformas na educação, na inspeção pública, na administração, e até mesmo no clero: era afinal um bom funcionário e não um político de carreira. O fato é que a oposição movimentou-se de maneira rápida e efetiva: se até então jamais havia existido oportunidade para se lembrar da origem social do presidente, é exatamente nesse contexto que a “real” situação surge sublinhada, como um marcador de diferenças, e se ilumina para distinguir competências. E assim, as novas medidas ao invés de serem entendidas como acertadas e até necessárias, foram em seu conjunto consideradas, como escreve Candido, “de uma petulância intolerável”. Os termos oscilavam ao sabor dos humores, e não se admitia que um obscuro funcionário quisesse executar posturas jamais imaginadas pelos poderosos estadistas que haviam lhe antecedido no cargo. Tolentino confundia eficiência com autonomia, e seus atos não combinavam com o filhotismo político largamente praticado. O que se esperava do funcionário “capaz” era apenas um pouco de tintura numa sociedade que abusava dos favores e dos privilégios do emprego público. E Tolentino insistia, tentando coibir, por exemplo, o abuso de licenças e afastamentos remunerados, ou o arbítrio das nomeações. Promoveu, pois, a formação de juntas administrativas assim como estabeleceu concursos de ingresso e promoções sem saltos previamente definidos.
Sobre a prática do absenteísmo político vide também o interessante artigo de Sérgio Buarque de Holanda. O Brasil monárquico 5. In: Sérgio Buarque de Holanda. O Império e a República. 2 ed. Rio de Janeiro/São Paulo, Difel, 1977.
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Não é difícil, portanto, entender como se organiza a oposição a Tolentino, e não vale a pena repetir os exemplos bem selecionados por Antonio Candido. O fato é que deputados e políticos da Província, outrora impressionados com o bom funcionário, agora pressionavam por sua demissão. E Tolentino, isolado politicamente, seria obrigado a deixar a Presidência, alegando uma doença recémcontraída. Por sua vez, a nomeação de Almeida Pereira parecia uma espécie de desforra, uma vez que o político era quase um anti-Tolentino. Era bem-nascido; formara-se bacharel em direito pela prestigiosa escola de São Paulo; era fazendeiro rico, deputado geral e colega de estadistas eminentes. Enfim, temos aí um típico exemplo dos políticos do Império. Como bem conclui Candido, o conflito que levou à demissão de Tolentino bem representa a nossa tradição administrativa, que provém da formação ibérica, a qual sempre apostou em conciliações e no caráter de prebenda.8 Havia aí um conflito de mentalidades. Longe da tradição luterana e racional, no Brasil imperava o senso de patrimonialismo, e Tolentino deve ter tido pouco tempo para aprender acerca dessa arte de negociação e da acomodação, durante sua formação como funcionário público. Por sinal, os termos dos artigos de jornal, que Antonio Candido reproduz, revelam o preconceito vigente nesse país, que sempre desconsiderou o trabalho cotidiano. É por isso que se sua condição de funcionário de formação em um primeiro momento (o da sua indicação) não foi destacada – ou melhor, foi até elevada –; já nesse segundo contexto apareceu como uma espécie de juízo final a se abater sobre Nicolau Tolentino. É nesses momentos que aparece o famoso discurso do “você sabe com quem está falando”, e o universo de “pessoas” – com seu cartel de relações – se impõem ao dos indivíduos.9 Sem vínculos sociais a fortalecê-lo, Tolentino voltava a ser caracterizado, e mal caracterizado, meramente a partir de sua função; o que representava muito pouco nesse mundo das mercês e dos cargos simbólicos. Seu lugar era na burocracia e não nos postos de mando; que pareciam cair melhor nas mãos de políticos de formação e, sobretudo, bem-nascidos. Mas se a passagem pela Presidência da Província acabou de maneira desastrosa, o fato é que não condicionou ou afundou o futuro de Tolentino. Já em 1861 ocupava o segundo gabinete presidido pelo marquês de Caxias, cujo mentor era o então ministro da Fazenda, José Maria da Silva Paranhos, que parece não ter se esquecido do antigo protegido. De maneira que Tolentino seria logo nomeado como membro do Conselho Fiscal, da recém-fundada Caixa Econômica. Se não tinha jogo de cintura, parece que lhe sobrava competência técnica; mercadoria rara nessa sociedade marcada pela falta de profissionais bem formados. Passaria a atuar novamente na Alfândega, como vimos uma das mais complexas repartições do Ministério da Fazenda. Nossa personagem aceita o cargo, mas a contragosto, e apenas como de8 Para uma boa discussão sobre a importância ibérica na nossa formação sugiro, entre outros, Richard Morse. Espelho de Próspero. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 9 Refiro-me aqui ao famoso ensaio de Roberto Da Matta “Você sabe com quem está falando?” In: Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro, Record, 2005.

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monstração de amizade a seu antigo protetor. A sua última experiência lhe custara muito, e fora obrigado a engolir o orgulho, quando pediu a demissão. E rapidamente Tolentino se veria envolvido em mais um conflito por conta de sua incontornável “mania” de sanear os lugares por onde passava. Demitido em 1862 pelo próprio imperador, seria derrubado mais uma vez do mesmo cargo. Esse acúmulo de passagens desastrosas faria com que Tolentino se convertesse em bardo de sua própria sorte. Publicaria um livro, que serve, entre outros, como bom testemunho da prática endêmica do patronato; entendida por Tolentino como “uma peste!”. O caso recente vivenciado na Alfândega, assim como a experiência como Presidente de Província só comprovavam a lógica deste regime que se baseava no favor, na clientela e no “aproveitamento geral”, que fazia parte da prática de várias camadas sociais. Não se pode ir contra toda uma sociedade, e a intransigência de Tolentino era prova de pouca “sociabilidade”, ou melhor, do uso pouco flexível e adaptado da sociabilidade. Mas a situação começaria de novo a mudar, e em 1871 já vemos Tolentino ser nomeado para o Conselho Fiscal da Caixa Econômica; a mesma função que exercera de 1861 a 1862. O mundo dá voltas e parece que sobravam espaços para funcionários de boa formação. Ele receberia mais uma prova de prestígio em 1872, ao ganhar uma promoção na Ordem da Rosa: de oficial passava a grande dignatário. Aí estava, de fato, uma grande honra, que parecia forçar Tolentino a se acomodar às funções mais técnicas. Em 1874, receberia nova função: seria indicado como diretor da Academia Imperial de Belas Artes e da Pinacoteca, cargos que exerceu até março de 1888. Nesse caso, porém, valeu-lhe mais seu pendor pessoal pelas artes, e o suposto de que lá atuaria apenas como diretor; simbolicamente como diretor. Mas a história seria mais uma vez diferente, para alguém que já havia demonstrado que uma posição, por mais paradoxal que possa parecer, não é nunca, e apenas, uma mera posição. Além do mais, naquele local, desde a sua origem, imperava a discórdia. São famosas as desavenças que opuseram o grupo de franceses chegados em 1816 e o grupo de portugueses. Cada qual reclamava para si os méritos suficientes ou direitos para exercer o mando na Instituição, e tal situação se perpetuaria durante o Segundo Reinado.10 Tolentino, disposto bem no meio da desavença geral fez o que pôde, e não poucas vezes acabou por optar pelo lado mais conservador. Esse é o caso de seu apoio ao grupo de Victor Meireles e ao modelo de nacionalismo oficial, e seu fechamento ao grupo Grimm, que nesse momento proclamava a necessidade de renovação no paisagismo e advogava a importância da pintura ao ar livre. Mas o fato é que, com altos e baixos, a vida continuava. Casaria “bem” o filho, nessa política de aproximação com os poderosos; atuaria de maneira firme na
10 No livro O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João VI (São Paulo, Companhia das Letras, 2008) narro um poucos as intrigas que haviam grassado naquele ambiente. Para uma visão mais abrangente, e que chegue até o Segundo Reinado, sugiro, entre outros, a leitura de: Adolfo Morales de los Rios Filho. O ensino artístico: subsídios para sua história, um capítulo, 1816-1889. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1942.

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transformação de Poços de Caldas em instância termal, e veria o seu filho médico morrer no ano de 1878. Adoentado em 1888, e contando com 78 anos, Tolentino acaba por pedir demissão da Academia, acabando assim com sua longa carreira dedicada ao funcionalismo: foram mais de sessenta anos que o transformaram em “doutor” nesse tipo de atuação. O derradeiro ato desta história, por dentro do Império, foi a promoção na Ordem de Cristo ao grau de Comendador, ainda no ano de 1888. A monarquia estava com seus dias contados e a Regente Isabel convidaria Tolentino para ir ao Palácio. Como conta Antonio Candido, esse narrador privilegiado, em letra trêmula Tolentino teria respondido que, sim, faria todos os esforços para estar presente, no dia seguinte, ao encontro. Não se sabe se o novo Comendador teria conseguido honrar ao compromisso. O fato é que a abolição ocorreria em cinco dias, e a Regente não teria tido tempo para reclamar, caso se sentisse contrariada em seu pedido. Quem sabe, teria sido informada, também, do estado de saúde de nossa personagem, que morreria em menos de dois meses, a 3 de julho daquele ano. Funcionário que ascendeu por competência e mérito, caso estranho ao ambiente de favores que pairava no Império, Tolentino não viu a Monarquia cair e muito menos a chegada da República que surgia alardeando, num primeiro momento, uma nova racionalidade e “civilização”. Se Tolentino se adaptaria aos novos tempos não há como saber. Afinal, mal deu conta de entender com quantas medidas se fazia, exatamente, um bom funcionário do Império.

Como vestir os calçados do morto
O historiador Evaldo Cabral de Melo certa vez disse que é tarefa do historiador “vestir os calçados do morto”. Se não é preciso exagerar na responsabilidade, vale a pena prestar atenção na amplitude do desafio.11 Não há como entrar em tempo alheio sem sentir certo estranhamento; notar que se está em um universo social distinto do nosso.12 Os episódios que parecem, à primeira vista, mais hilários ou até dramáticos, ganham outra escala a partir da distância que só a temporalidade confere. Viaja-se no espaço, mas também no tempo, e Antonio Candido é mestre nesse tipo de condução. Nada como viajar bem acompanhado por esse crítico literário, que se transforma em historiador de carteirinha e também em detetive à procura de símbolos, sinais e indícios. Pois nessa trajetória não se procura apenas por grandes eventos, mas também por pequenos detalhes, que massacram o cotidiano. Uma mercê, um convite para um baile, um artigo de jornal... Vários sinais vão compondo essa biografia de uma personagem que, regularmente, não ganharia tratamento como esse.13
11 “Entrevista com Evaldo Cabral de Mello”. In: Leituras críticas sobre Evaldo Cabral de Mello. Lilia Moritz Schwarcz (org.). Belo Horizonte/São Paulo, Editora da UFMG/Perseu Abramo, 2008. 12 Vide nesse sentido, Robert Darnton. Grande massacre de gatos e outros ensaios de história cultural. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976 13 Referência ao método indiciário de Carlo Ginzburg. Vide Mitos, emblemas e sinais. São Paulo, Companhia das Letras, 1997.

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Documento é como faísca e Antonio Candido parece não deixar passar qualquer traço desta personagem de segundo escalão, mais normalmente engolido pela pátina do tempo, que é sempre perversa com aqueles que não se destacam como artífices de discursos vitoriosos da nacionalidade. Por essas e por outras é que o livro Um funcionário da monarquia é um pouco um discurso ao revés. Ao revés, em primeiro lugar, porque seleciona um sujeito pouco destacado, ao menos para os moldes mais corriqueiros. Por outro lado, parece um pouco uma biografia pelo lado dos fundos, pois apresenta uma personagem que escapa aos modelos consagrados do Segundo Reinado, onde reinava incólume o filhotismo. Num mundo de medalhões e de apadrinhamentos, Tolentino era quase um peixe fora d’água que à sua maneira respirou.14 Não só Machado deixou registros sobre a inércia que pairava sobre o funcionalismo público. Também Lima Barreto, em contexto um pouco mais tardio, mostrou como os funcionários da jovem República guardavam os costumes já consagrados durante a monarquia. “Mas, como dizia, todos nós nascemos para funcionário público. Aquela placidez de ofício, sem atritos, nem desconjuntamentos violentos; aquele deslizar macio durante cinco horas por dia; aquela mediania de posição e fortuna, garantindo inabalavelmente uma vida medíocre – tudo isso vai muito bem com as nossas vistas e os nossos temperamentos. Os dias no emprego do Estado nada têm de imprevisto, não pedem qualquer espécie de esforço a mais, para viver o dia seguinte. Tudo corre calma e suavemente, sem colisões, nem sobressaltos, escrevendo-se os mesmos papéis e avisos, os mesmos decretos e portarias, da mesma maneira, durante todo o ano, excetos os dias feriados, santificados e os pontos facultativos, invenção das melhores da nossa República”.15 O literato, que amargurou o ofício de amanuense durante alguns anos, denuncia a prática do funcionarismo; não só o uso de privilégios como a inércia que se instalava sob todo aquele que ganhava tal função, mais entendida como uma dádiva. Já nosso Tolentino foi em tudo diferente do padrão. Modelo de self-made man nossa personagem é quase um Dom Quixote um pouco envergonhado, uma vez que, apesar de lutar para melhorar a eficiência do funcionalismo e das repartições por onde passou, nunca foi “um inconformado”, como bem mostra Antonio Candido. Seguindo tal raciocínio, pode-se notar como algumas das interpretações mais conhecidas da obra do crítico literário aparecem como numa drágea nesse pequeno e inquietante livro de memória e de história. É possível pensar, em primeiro lugar, que Tolentino poderia ser definido como um “radical”; não um “revolucionário” perdido no Império de Pedro II. Se seguirmos o modelo proposto no belo ensaio de Antonio Candido, “Radicalismos”, fica fácil arriscar interpretar que nosso funcionário, com sua maneira um pouco enviesada, reafirmava carac-

Vide não só o famoso conto de Machado de Assis, “Teoria do medalhão”, já mencionado neste ensaio, como a obra de Lima Barreto. Memórias do escrivão Isaias Caminha. São Paulo, Brasiliense, 1982. 15 Lima Barreto. “Três gênios de secretaria”, p. 2.
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terísticas da elite brasileira, na qual o pensamento conservador corresponde a um traço fundamental.16 Afinal, segundo Candido, nossa oligarquia, em sua maior parte, sempre foi “radical”: propôs reformas importantes, mas sempre prevendo saídas harmoniosas e nada antagônicas. É certo que Tolentino escorregou por vezes, ao não entender que em certas situações nada se pode fazer contra uma estrutura assentada em ordens de privilégio e não de competência. Mas é certo que nunca atentou, também, contra o sistema e, ao contrário, acabou por conciliar, mesmo que às custas da própria carreira. Como bom “radical”, nossa personagem atuou de maneira progressista e transformadora, porém nunca revolucionária. Nunca se propôs a ser um intérprete da nação e muito menos pensava em projetos de maior envergadura, como os “radicais” que Candido analisa em seu ensaio: Joaquim Nabuco, Manuel Bonfim e Sérgio Buarque de Holanda. Não obstante, Tolentino era um “radical” do dia-a-dia, que desfazia de certas engrenagens silenciosamente acionadas. O termo radical vem de raiz, e Tolentino nunca abriu mão dela; um bom exemplo foi seu apego irrestrito aos títulos honoríficos e aos convites que provinham da monarquia. Nosso funcionário sempre quis ser um Conselheiro e se orgulhou quando virou Comendador; apegou-se a essas promoções simbólicas como quem se agarra a uma boia de proteção. Afinal, elas eram sinais, visíveis para todos, não só de estima como de pertença. Pertença a uma elite de poucos e em geral bem-nascidos. Portanto, se nossa personagem pretendeu ascender a partir de méritos próprios, nunca abriu mão de títulos que lembravam mais uma sociedade de mercês e estamentos do que de promoção individual. Essa era mesmo uma nobreza de “méritos”, mais do que de nascença, haja vista a grande quantidade de barões sem nobreza provenientes da agricultura ascendente. E Tolentino faria parte de um grupo ainda mais excepcional: não daqueles que subiam conforme enriqueciam, mas dos que ganhavam novos postos e títulos a partir da atuação pessoal e meritória. No entanto, nem por isso abriu mão das honras e prebendas: longe do mundo dos que recebiam títulos porque faziam parte do “mesmo clube” – e se reconheciam como tal –, nossa personagem entrou pela porta de serviço, mas jamais menosprezou tais honras que conferiam mais lucros simbólicos do que pecuniários. Sem ser exatamente contraditório, Tolentino era, pois, um “radical passageiro”. Tolentino acomodou-se bem a essa sociedade de títulos copiados e traduzidos da Europa, justamente num momento em que no Velho Continente tentavase, sem muito sucesso, apagar esse tipo de marca do Antigo Regime. Sem ser nobre, Tolentino acumulou títulos que para ele representavam escaladas perigosas nessa sociedade de alpinismos inesperados. Paradoxalmente, essa era uma estrutura mais flexível do que outras contemporâneas à nossa, e que impunham mais obstáculos à ascensão, senão econômica
16 Antonio Candido. “Radicalismo”, Revista do Instituto de Estudos Avançados, vol. 4, n. 8, São Paulo, Universidade de São Paulo, 1988.

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ao menos social. Ascendia-se no Brasil, e ainda mais na Corte do Rio de Janeiro, pelo acúmulo de dinheiro, por posses, por posições políticas e também pelo mérito e competência. Raros o fizeram, mas Tolentino é exemplo forte demais para parecer um mero acaso. Como lembra Antonio Candido, na entrevista que concedeu na época da publicação deste livro, foi Sérgio Buarque de Holanda, no seu livro Raízes do Brasil, quem melhor destacou o lado informal da sociabilidade brasileira, e o caráter frouxo de nossas instituições nacionais; não sem lembrar que esse era traço negativo de nossa sociedade. Não foram poucos os pensadores que atentaram para essa questão. Mas foi Sérgio Buarque de Holanda que, já em 1936, chamava a atenção para um traço definido da cultura brasileira, conhecido por meio da expressão de Ribeiro Couto, que afirmava que daríamos ao mundo “o homem cordial”. No entanto, para Holanda cordialidade não significava “boas maneiras e civilidade”. Na civilidade, dizia ele, “há qualquer coisa de coercitivo [...] é justamente o contrário de polidez. Ela pode iludir na aparência”.17 Na verdade, o famoso historiador estava mais interessado em entender como cordialidade vinha do “coração”, ou melhor, falava das relações pautadas na intimidade e na afetividade e que, portanto, desconheciam o formalismo. Tal qual um ética de fundo emotivo, no Brasil imperaria “o culto sem obrigação e sem rigor, intimista e familiar”.18 Raízes do Brasil trazia assim um alerta ao apego irrestrito dos “valores da personalidade” numa terra onde o liberalismo impessoal teria se caracterizado apenas como um “mal-entendido”.19 Em questão estava, dessa maneira, a possível – e desejável – emergência de instâncias de representação que se sobrepusessem às persistentes estruturas intimistas, que acabavam por impedir a formação de bases mais públicas e avessas ao patrimonialismo. Tolentino foi, a seu modo, uma vítima e um sobrevivente dessas estruturas. Seus reveses lembram a vida difícil de um funcionário que se faz por mérito e não por favores. Seus cargos, por sua vez, mostram como certa insistência e uma boa carteira de relações poderiam servir para contornar estruturas só aparentemente rígidas. Também o antropólogo Roberto Da Matta retomou essa complicada relação entre esferas públicas e privadas de poder, mostrando a existência no Brasil de uma sociedade dual, onde conviveriam duas formas de conceber o mundo. Um mundo de “indivíduos” sujeitos à lei e outro de “pessoas”, para as quais os códigos seriam apenas formulações distantes e destituídas de sentido.20 Tolentino muitas vezes esbarrou nesse mundo de “pessoas” e em vários momentos lidou mal com esse lado informal, mas consistente, de nossas relações sociais.
Sérgio Buarque de Holanda, 1936, p. 107. Sérgio Buarque de Holanda, 1936, p. 101. Diz o historiador: “É que nenhum desses vizinhos soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade que parece constituir o traço decisivo dessa evolução, desde tempos imemoriais” (32). 19 Sérgio Buarque de Holanda, 1936, p. 119. 20 Roberto Da Matta, 1981.
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Nossa sociedade seria, pois, mais marcada por relações de simpatia do que de “categoria”, para ficarmos com os termos de Antonio Candido, e a filosofia de nosso serviço público lembraria mais o modelo ibérico, que pressupõe o favor, do que o ideal ascético da competência. Cordial, destaca Holanda, vem de “cor” – coração – e nossas relações permaneceriam vinculadas a laços afetivos o que, de certa maneira, limitaria nossa entrada na modernidade. Mais ainda, aí estaria um traço basicamente nacional, que a despeito de não ser “essencial” e imune ao tempo, se revelaria tão persistente como nosso radicalismo. É nesse sentido que se podem traçar paralelos com a expressão “dialética da malandragem”, elaborada em ensaio clássico de Antonio Candido.21 Por meio da figura do bufão, que aparece com certa regularidade na literatura brasileira, e tendo como base o romance de Manuel Antonio de Almeida – Memórias de um sargento de milícias –, Candido destrincha uma estrutura particular e de certa maneira original, uma certa dialética da ordem e da desordem na qual tudo seria lícito e ilícito, burla e sério, verdadeiro e falso. Nesse local, a intimidade seria a moeda principal e o malandro reinaria, senhor dessa estrutura avessa ao formalismo que leva à “vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, manifesta a penetração dos grupos, das idéias e das atitudes mais díspares [...]”.22 Ora nosso Tolentino, funcionário da lei, teria que aprender a negociar ou a se calar, se quisesse fazer parte desse circuito dos poderosos. Por isso, assim como não abriu mão das mercês e honrarias, também traçaria planos certeiros que implicavam em achegar-se à oligarquia de posses ou de mando. Casaria bem, assim como faria bons matrimônios para seus filhos; consciente que para além do mérito era preciso “dar um tapa na sorte”, para não cair na sina do azar. Além do mais, aceitaria de bom “coração” o bom olhar de amigos seus da política que o colocariam em posições de mando. É certo que fazia sua carreira a partir da demonstração da sua eficiência, mas nada como acomodar outros tipos de “competências”, como essa de fazer boas alianças e de estar ao lado das pessoas certas. Assim, nossa personagem fez parte, pelas bordas, dessa sociedade das ambivalências e ambiguidades. Num mundo marcado pela escravidão, e no limite pela posse de um homem sob o outro, o discurso do liberalismo sempre significou uma contradição fundamental a dinamitar o terreno seguro dessa monarquia, que se entendia como iluminada e progressista. Por outro lado, a monocultura e o sistema latifundiário opunham-se à imagem do mecenato de Dom Pedro, vendido a bom preço no Velho Continente. Essa era mesmo uma sociedade de contrastes e o favor era moeda forte, a desfilar por entre tantas encruzilhadas. Esse tipo de discussão nos conduz de volta ao já clássico debate entre Maria Sylvia de Carvalho Franco e Roberto Schwarz,
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Antonio Candido. Dialética da malandragem, 1970/1993. Idem, ibidem, p. 51

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travado na década de 1970.23 A autora analisava, entre outras questões, a importância do favor nas relações entre fazendeiros e homens livres na ordem escravocrata. Segundo Maria Sylvia o fato do tropeiro usufruir da hospitalidade do fazendeiro – que cedia pastagens para a sua tropa – trazia consequências perversas: “se esta prática aumenta-lhe o ganho, o preço inconscientemente pago por isto não é pequeno, pois atinge sua própria pessoa, colocando-o na situação de retribuir com seus serviços os benefícios recebidos”24 Cria-se assim uma relação de dependência que implicaria em trocas constantes de favores e é ai que entramos em terreno comum. Diz Maria Sylvia que a troca pressupõe igualdade entre as partes e ocorre, aparentemente, entre pessoas livres e iguais. No entanto, a lógica interna é outra: na mesma medida em que o fazendeiro enriquece mais rápido que o tropeiro, também aumenta a dependência do segundo em relação ao primeiro. Dessa maneira, para a autora, o favor seria uma espécie de ideologia já que parte de uma premissa falsa: a suposta igualdade entre as partes oculta a realidade da hierarquia do poder. Por fim, a relação de favor camuflaria a possibilidade do trabalhador-livre perceber de que maneira o fazendeiro manipula a situação com vistas à dominação. É justamente pautada nesse tipo de reflexão que Maria Sylvia desautorizaria o uso das ideias liberais no Brasil, dizendo que as mesmas teriam sido absorvidas tal qual ideologia, uma vez que as noções de igualdade e de liberdade obscureceriam as verdadeiras relações de dominação, baseadas na troca de favor. Estaríamos assim, retomando apenas a ideia da manipulação ideológica, presente na dádiva e no “falso favor”? É justamente opondo-se a essa concepção meramente ideológica e política do favor que Roberto Schwarz, recuperando ideias de Antonio Candido, vai desenvolver uma contra-argumentação, ao mostrar como as ideias liberais de igualdade e cidadania jurídica foram justamente traduzidas para o Brasil como favor. Tal “tradução” não viria para encobrir a cidadania, uma vez que o próprio conceito de cidadania seria diferente daquele conformado pelas revoluções burguesas europeias do século XVIII. Assim, a ideia de favor e de privilégio se sobreporia, por aqui, ao conceito de cidadania e seria, mais propriamente, uma versão local. Por isso “as idéias estariam fora do lugar” uma vez que transportadas de outro contexto teriam sido ressignificadas, e adquirido, em um contexto diferente, sentidos distintos. O favor não diluiria a hierarquia – ao contrário, a reporia – mesmo porque todos parecem saber e reconhecer a hierarquia, que passa a ser peça internalizada nesse jogo da profunda intimidade; do jogo do cor. Não se trata, dessa maneira, de apenas desconstruir discursos na chave política e ideológica, mas antes entender porque esses “textos” continuavam a fazer tanto sentido. No limite, é fácil rir do passado, mais difícil é se permitir compreender. E o caso de nosso Tolentino, justamente por ser um funcionário de Se23 Maria Sylvia de Carvalho Franco. “Dominação pessoal” In: Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, 1975. Roberto Schwarz. “As idéias fora do lugar” In: Ao vencedor as batatas. São Paulo, Duas Cidades, 1977. 24 Carvalho Franco, op. cit, p. 65.

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gundo Escalão, ilumina estruturas mais profundas. Sem ser o Leonardo Patarra, Tolentino era também “esperto” dentro do seu ofício e sofreu quando não foi. Se Antonio Candido tem razão ao mostrar que ele representaria o outro lado do “Medalhão”, quem sabe seria possível arriscar dizer que ele era também “esse lado”. Era um radical. Ou seja, que tentou reformas, isso tentou, mas também trafegou à sua maneira nesse mundo da ordem e da desordem. Fez-se comendador e conselheiro, teve sua casa, terminou como diretor de uma instituição de prestígio e morreu com os louros de uma carreira difícil coroada por seus méritos, mas também por símbolos deste mundo do favor; que tanto lhe negou um. Quer nos parecer, pois, que Tolentino é mais uma personagem desse mundo das ambivalências. Sem ser um malandro; sem contar com favores, ou ter o dote do jeitinho, também deu um jeito de ascender nessa sociedade permissiva a certa flexibilidade. A obra Um funcionário da monarquia é assim um bom exemplo de como uma produção abrangente como a de Antonio Candido não se prende a etiquetas fáceis e invade terrenos. Aqui lemos a obra de um historiador dos mais perspicazes, mas também o resumo de uma interpretação que foi se conformando a cada novo livro. No caso deste livro, voltamos ao pensamento de Antonio Candido a partir de várias pistas: o favor, a intimidade como moeda, o radical. Aqui a história serve como suporte para pensar em interpretações de mais alto alcance e não se limita a repisar um caso isolado. O mérito da carreira de Tolentino é um contraexemplo para pensarmos (pelo outro lado do espelho) nesse mundo dos favorecimentos, dos parentescos, dos prestígios e posições visíveis. A trajetória também ilumina, pelo lado da área de serviços, como funcionava essa sociedade da prebenda e dos títulos honoríficos. Sem “ganhar” os seus, Tolentino teria conquistado muitos deles. Mas a pesquisa de Antonio Candido permite mais: entender como funcionava, por dentro, essa sociedade em que se negociava a cada dia lugares, títulos, relações e mecenatos. Tolentino só triunfou nessa sociedade, pois nem sempre insistiu, apenas, no mérito. É fato que sempre apostou nessa sua qualidade como seu “dote” maior e mais efetivo. No entanto, quando foi preciso “agenciar” relações e contratos sociais o fez também com sua famosa competência. Nicolau Tolentino é personagem de segundo escalão, mas é também mote de uma trajetória afetiva. Nesse caso, o conceito de cor, como coração, funciona com seu sentido mais original e vemos Antonio Candido reescrevendo, também, a história de sua família e sua história. Se não é nossa intenção cair num psicologismo rápido, quem sabe cai bem destacar como seleções afetivas, são muitas vezes, como nesse caso, saídas acertadas. Aqui não temos uma “obra de segundo escalão”, como poderia parecer numa visão mais apressada. Em Um funcionário da monarquia vemos desfilar, de maneira desavisada, uma série de supostos presentes de forma mais direta em outros livros de Antonio Candido. Tolentino é, assim, texto e pretexto para retomarmos temas que fazem do mestre um grande intérprete da nossa nacionalidade.

96 Literatura e Sociedade

Sílvio Romero (a CrítiCa e o método)

antonio arnoni prado
Universidade Estadual de Campinas

Resumo
Este artigo procura mostrar como Antonio Candido, ao mesmo tempo em que não encontra uma formulação propriamente literária no método crítico de Sílvio Romero, depara-se com uma proposição sociológica, moderna e positiva que o leva a aperfeiçoá-la, ajustando-a aos elementos literários nela implícitos.

Palavras-chave
Método; Crítica; Sílvio Romero; Antonio Candido

Abstract
The aim of this article is to explain how Antonio Candido, looking for a literary feature based on the critical method of Sílvio Romero, falls in with a fertile sociological proposal which he improves not only by bringing it up-to-date, but also by adjusting all its literary implied elements.

Keywords
Method; Critics; Sílvio Romero; Antonio Candido

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ntes de Sílvio Romero, quem falou em método no âmbito dos estudos literários brasileiros foi o jovem Capistrano de Abreu, que, em conferência1 de 1875, publicada no jornal O Globo, sugeria duas entradas possíveis para a abordagem da obra: a do método qualitativo, que se interessava pelo produto da criação literária em si mesmo, procurando julgá-lo e fixar-lhe um valor; e a do método quantitativo, que se voltava para o processo de formação da obra, baseado na definição do estado psíquico e social que a determinava sob “a convicção de que a sociedade era regida por leis fatais”. O que a Capistrano então parecia um avanço, se valeu como projeto, não significou para a crítica um caminho eficaz que a levasse à dimensão literária propriamente dita. É claro que havia no meio a inerrância dos determinismos e com ela o delírio científico a espalhar aos quatro cantos do pensamento nacional teorias como as de Taine e de Buckle, de Haeckel e de Spencer, de Comte e de Littré. Mas o que sobrou do método, além da certeza de que a criação literária era um mero resultado das leis físicas e naturais, foi um movimento que deslocou definitivamente o foco da crítica, ali sufocada pela certeza de que o conjunto daquelas influências a sujeitava a compreender as obras apenas enquanto parte de um processo cujo alvo maior era a expressão natural da sociedade. Dirigida ao gosto dos homens ilustrados, que “reservavam toda sua veneração para as obras européias” e só liam as nacionais “por favor e até com malevolência”, essa hipótese de Capistrano – ele mesmo um crítico sazonal que o historiador depois abafou – vinha aumentar o barulho da época para demonstrar a verdade de que a nossa literatura não podia se desenvolver plenamente por causa da enorme “atrofia de suas condições orgânicas”.
1 Depois recolhida, sob o título de “A literatura brasileira contemporânea”. In: Ensaios e estudos – crítica e história (1ª série). Rio de Janeiro, Briguiet, 1931, p. 61.

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Sabemos que essa é apenas uma das muitas direções que os determinismos da crítica naturalista suscitaram entre nós com sua repulsa ostensiva à velha retórica do estilo e do bom gosto. E se de fato a hipótese de Capistrano apenas registra uma tendência que se expandiria depois com a segunda fase do movimento intelectual a que Sílvio Romero chamou de Escola do Recife, a verdade é que, desviando o seu método para o campo dos estudos históricos, Capistrano como que deixou a Sílvio Romero a enorme tarefa de disciplinar o caos que então imperava no pensamento e na crítica, naquele momento de celebração científica em que se combatia o idealismo romântico, repelindo os artifícios do indianismo, a pouca expressividade da raça, a inviabilidade do meio e o atraso da nossa cultura. Interessante é que foi justamente esse combate aos desarranjos do pensamento e da cultura que marcou a figura de Sílvio Romero como o algoz das nossas fragilidades, surgindo grande parte de sua obra de crítico e de polemista como uma espécie de resultado inevitável de um temperamento hostil às construções tidas como respeitáveis e aos princípios havidos como superiores ao seu próprio entendimento. Araripe Júnior, que dividiu com ele e com José Veríssimo a linha avançada da crítica do período, escrevendo sobre a Etnologia selvagem, não hesitou em afirmar que a crítica de Sílvio agredia ideias, abstrações e princípios filosóficos com a única intenção de encarná-los num homem ou num grupo de homens capaz de irritar-se o suficiente para que a luta se tornasse mais pitoresca e interessante. Para o autor do Movimento de 1893, o Brasil foi a primeira vítima que Sílvio Romero “ligou ao potro”. Afinal – argumentava – para Sílvio, este país pouco significava diante do peso da mentalidade europeia: “desgraçado mestiço, que esmorecia à margem dos grandes rios, na sua indolência tropical, deixava-se adormecer sob a capa dessas mesmas palmeiras que Gonçalves Dias celebrou em seus versos, embalado nos sonhos da jurema [...]”. Vem daí uma propensão que até certo ponto permanecerá inalterável no conjunto da avaliação da obra e da personalidade de Sílvio Romero. É verdade que Araripe soube ver a dimensão integradora da pesquisa histórica e das incursões pioneiras de Sílvio nos substratos da poesia popular e do folclore, mas pouco disse e quase nada refletiu acerca de sua tenacidade em busca de um método que aprimorasse a função da crítica literária e da própria literatura no quadro instável de seu criticismo totalizador e generalizante que, sob a égide da ciência e da estoliteratura, misturava o literário à etnografia, à jurisprudência, à história e às ciências naturais. É que, em se tratando de Sílvio Romero, a primeira impressão foi quase sempre a que ficou, e o que ficou foi essa sensação de demolição e rudeza que, nos termos de Araripe Júnior, convertia a sua crítica num “azorrague empunhado por mão vigorosa e empregado com ira e violência” para superar – como única instância viável – o impasse do nosso atraso. Bem vistas as coisas, no entanto, é bem possível que a aspereza desse temperamento não esteja longe de um ressentimento encoberto – um quase despeito, por que não? – daquele objetivo descrédito com que Machado de Assis, ao escre-

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ver em dezembro de 1879 sobre “A nova geração”, se recusou a ver nos Cantos do fim do século – como propunha Sílvio Romero no prefácio – uma formulação científica da poesia, alegando que lhe faltava a essencial “intuição literária”.2 Sabemos que Machado não ficou sem resposta, ao ser depois apresentado por Sílvio como nada mais que um representante incapaz da sub-raça, inteiramente inábil para a criação literária: poeta de terceira ou quarta ordem, prosador enfadonho que só fazia imitar o humor e a ironia dos escritores formados nas civilizações superiores, além de trôpego estilista, embotado “por uma perturbação qualquer nos órgãos da fala”. Não é o caso de retomar aqui as razões meticulosas com que Lafayette Rodrigues Pereira, num argumento primoroso em defesa de Machado, anteciparia para a crítica, nas suas Vindiciae, a impressão de que Sílvio Romero só sabia “obter pelo escândalo do insulto o que não podia conquistar pelo talento”. Trata-se apenas de reafirmar que é desse quadro de rispidez e descomedimento que brotarão as principais questões com que boa parte da crítica literária oporá restrições ao legado e à personalidade do autor da História da literatura brasileira; a tal ponto que o próprio Tobias Barreto, de quem Sílvio Romero foi o arauto e um dos mais incansáveis divulgadores, não deixou de registrar, em seus Estudos alemães, que a crítica literária de Sílvio, menos que reflexão literária, era coisa de polemista descomprometido com os juízos estéticos, por ser a polêmica naturalmente subjetiva e a crítica exatamente o inverso. Para Tobias Barreto, os escritos críticos de Sílvio Romero eram trabalho de crítica retroativa que se resumia a um autêntico processo de anatomia literária “onde o escalpelo faz a primeira figura, sempre firme e inexorável”, entrando as obras e os autores estudados apenas como “preparados anatômicos metidos em espírito, a fim de serem conservados para uma época mais esclarecida”.3 No centro desses debates, que, aliás, não evitaram que se transformasse num dos principais desafetos de Sílvio Romero, José Veríssimo – mesmo discordando de suas ideias – foi o primeiro a refletir sobre elas de um modo sereno e objetivo. Foi o primeiro, por exemplo, a atribuir validade aos esforços ordenadores de Sílvio frente à desorganização dos critérios e dos princípios teóricos em discussão, ao mostrar que a desordem ali reinante não era incompatível com o progresso da crítica, servindo-lhe – muito ao contrário – de provocação e estímulo. Longe das igrejinhas e dos conventículos, empenhos metodológicos como os de Sílvio repre-

2 Lembremos, a propósito, que Clóvis Bevilacqua, grande amigo e admirador de Sílvio Romero, em conferência proferida no Rio de Janeiro, em 25 de setembro de 1925, ressalta a contrariedade deste último por não haver recebido dos acadêmicos do Sul, a quem acusava de ignorar injustificadamente os filósofos da Escola do Recife, o mesmo reconhecimento de que desfrutava no Norte do país. Segundo Bevilacqua, a convivência com a Academia não foi suficiente para assimilá-lo, nem para modificar o perfil mental que Sílvio sempre manteve ligado ao movimento do Norte, que reunia, na opinião do grande jurista, o que havia de mais representativo na cultura do país. 3 Ver Tobias Barreto. “O partido da reação em nossa literatura”. In: Estudos alemães, edição das Obras completas. Sergipe, edição do Estado de Sergipe, 1926, vol. 8, p. 450.

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sentavam, para Veríssimo, uma forma positiva de fazer frente à limitação teórica dos velhos princípios que, naquele momento, só faziam agravar o nosso atraso no terreno dos estudos literários. Não que deixasse de fazer restrições aos critérios de Sílvio Romero, ou de apresentar, com intuição e clareza, uma leitura produtiva de suas principais intenções. Sobre estas, por exemplo, estão as análises em que ultrapassa os descontroles de temperamento, para explicar que, por mais acirrados que se mostrem, eles não bastam para deslustrar os méritos de uma obra como A história da literatura brasileira, para Veríssimo “um acontecimento literário de primeira ordem”, mesmo não sendo um modelo de coerência de estrutura e composição. Nessa nova maneira de ver, o que antes se atribuía apenas à formulação impulsiva, derivada de um temperamento crítico exacerbado, passa agora a integrar-se às articulações de conjunto, o que não apenas antecipa a dimensão literária da análise, até então absolutamente fora de foco, como também permite alcançar outras formas de leitura, já em franca expansão frente ao peso do contexto antirretórico, a exigir soluções diferentes. É esse o momento em que se diversificam os planos e a própria natureza do método crítico, o que implica o aprofundamento das distinções entre os elementos de imaginação estética e os de lógica interna; de texto literário e de contexto crítico; de forma e de gênero; de intuição subjetiva e de estilo de época; de influência estética e de expressão ideológica; de apropriação histórica e de notação biográfica. E se é verdade que, mesmo havendo apontado a dimensão artística como um traço distintivo da obra literária, Veríssimo não chegou a propor com clareza um critério equivalente para a crítica, foi graças às leituras que dirigiu à obra de Sílvio Romero e aos debates da época, que praticamente abriu uma espécie de hermenêutica romeriana para os críticos que vieram depois. Afinal foi com José Veríssimo, criticando a obra de Sílvio, que amadureceu o critério de só definir um estilo ou uma tendência depois de considerar o conjunto inteiro das obras e do período estudado; de só falar em corrente, escola, ou movimento literário quando nestes se pudesse identificar, mais que a presença de autores, a influência recíproca de uma obra sobre outra em sua evolução ou transformação no tempo; e de só avaliar a pertinência de seus próprios juízos depois de conhecer o conjunto das ressonâncias críticas inovadoras, indispensáveis à compreensão do autor ou do tema em análise. Por isso não rebaixou o temperamento polêmico de Sílvio Romero, apesar de reconhecê-lo. Ele o confirma ao nos falar, por exemplo, do seu modo nervoso de raciocinar; da índole propagandística de seu espírito; do ritmo apaixonado com que “às vezes, em tom de chalaça, dá vida e calor à sua exposição”. Mas com a diferença de que vai além; ao contrário de Ronald de Carvalho, por exemplo, para quem a exuberância individual de Sílvio é o real motivo que o leva a ler os autores em lugar das obras; a julgar a cultura através da raça, e a condenar mais os homens que os princípios, ao contrário de Ronald, Veríssimo abre caminho

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para diluir os exageros emocionais do crítico sergipano nos resultados positivos de sua obra conjunta. O problema é que, ao fazê-lo, mesmo distinguindo a natureza relativa das oscilações do sujeito, Veríssimo não completa – em sua leitura de Sílvio Romero – a passagem para a identificação objetiva de um método capaz de explicar por que, nele, as qualidades de expressão não decorrem da forma apenas como atributos gramaticais e estilísticos, mas como exigências mais complexas, como virtudes mais singulares na íntima conexão entre o pensamento e o seu enunciado – conforme tentou explicar na Introdução da sua História da literatura brasileira. E se é certo que foi capaz de conceber com clareza uma história literária constituída de obras e não de autores, também é verdade que, no terreno da crítica, não chegou a descrever os critérios pelos quais o censo comum – tão valorizado por ele – se impunha como instância legitimadora da qualidade literária. De tal modo que muitas das restrições que impôs a Sílvio Romero (“contradições, inexatidões de fato e de juízo, repetições, generalizações, imparcialidades”) permaneceram criticamente tão indistintas quanto indistintos lhe pareceram os critérios utilizados por Sílvio. Daí a permanência, no panorama da crítica, de concepções emperradas tanto pela associação arbitrária entre estética e temperamento, como no Tristão de Athayde dos Primeiros estudos, quanto pela conversão igualmente arbitrária do estético em critério de hegemonia cultural, como no João Ribeiro de Páginas de estética, por exemplo; pois se o primeiro não define as bases pelas quais só a dimensão estética é capaz de revelar a expressão peculiar de um temperamento; o segundo nem ao menos esclarece a natureza dos motivos críticos que elegem as tradições da cultura dominante como única instância legítima a moldar estilos e temperamentos superiores. Não foi à toa que, no interior desse marasmo metodológico, Mário de Andrade lastimou, em 1931, que permanecessem inalterados os “defeitos por assim dizer tradicionais na crítica literária brasileira desde Sílvio Romero”, quando se estabeleceu, segundo ele, o princípio de ajuntar as personalidades e as obras, pela precisão ilusória de enxergar o que não existia ainda.
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É para a ordem instável desses fatores, aqui examinados na consideração de apenas alguns de seus inúmeros aspectos, que se dirigem as reflexões do jovem Antonio Candido em seu livro O método crítico de Sílvio Romero, publicado em 1945 originalmente como tese universitária interessada em discutir essa atrofia – acesa ainda até quase o final dos anos de 1930 –, buscando compreendê-la nas contradições internas de suas próprias certezas. É, de fato, o que nos sugere, ao penetrar naquela voragem de verdades científicas; de um lado, espantado com a coragem quase desfaçada com que Sílvio Romero – um homem “embriagado pelo advento de tantas disciplinas novas que lhe prometiam a chave do conhecimento” – propunha assumir a reorgani-

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zação de um processo integral de crítica à cultura brasileira; e, de outro, convencido de que muitas daquelas bazófias escondiam leituras de segunda mão, envenenadas pelo despeito do temperamento e a ostentação intelectual alinhada à burguesa emergente, cada vez mais interessada em ocupar o lugar do patriciado rural em franca decadência. Mas não é apenas a retomada dessas contradições que dará ao ensaio de Antonio Candido a eficácia de seu alcance. Nos diferentes planos em que se reparte, se a precisão do desbaste trata logo de marcar a distância entre a verdade dos princípios propalados e a natureza da crítica literária propriamente dita, os resultados do corte vão muito mais longe, ao revelar o quanto pesaram no coração do nosso atraso as desfigurações do determinismo e do método histórico frente à incapacidade de dosá-los com equilíbrio na árdua tarefa de interpretar a cultura. Um resultado preliminar é que, mesmo não encontrando o crítico literário Sílvio Romero, Antonio Candido reconstrói o contexto das ideias que o impediam de sê-lo naquele instante da vida intelectual brasileira, o que faz de seu Método crítico uma investigação ao avesso da crítica, em que a análise supera a mera investigação do temperamento e as hipóteses de afirmação literária dependem de sua própria superação ideológica, dando ao inconformismo com o presente um sinal de ruptura que, mesmo sem ser científico, é renovador e faz história naquele contexto em que as letras perdiam os privilégios do cânone retórico com que velha crítica as concebia e avaliava. Isso significa que, diferentemente do que fez a crítica da época, e grande parte da que a sucedeu, o jovem Antonio Candido se recusou desde logo a tomar Sílvio Romero ao pé da letra; e, ao invés de prender-se ao ajuste crítico de seus argumentos apenas enquanto juízos lógica ou literariamente desarticulados, preferiu recuperá-los no âmbito da desarticulação mais ampla daquele momento em que, como homem de seu tempo, inebriado pelo alvoroço das ciências que a tudo revolviam, Sílvio lançava-se ao esforço de transformar a crítica numa instância capaz de nos libertar do peso das raças inferiores, dos rigores do clima, do ensino jesuítico superado, dos vícios políticos coloniais e dos excessos do romantismo. É nessa direção que O método crítico se organiza, depois de traçar uma ampla trajetória dos primórdios da crítica literária brasileira, da revista Niterói à Minerva Brasiliense; de Varnhagen a Joaquim Norberto, passando por Sotero dos Reis e Pereira da Silva; por Januário Barbosa e o cônego Fernandes Pinheiro, sem esquecer a colaboração dos críticos da Academia Francesa do Ceará; da grande influência da Escola do Recife e de periódicos como A crença, Americano e o Movimento, para não mencionar o papel fundamental da Revista do Brasil, sobretudo na segunda fase. Repartido em três segmentos harmônicos, que amarram o capítulo da crítica pré-romeriana às considerações do problema crítico em Sílvio Romero e ao significado de sua obra para a época, o ensaio de Antonio Candido segue rigorosamente a expansão temático-cronológica da obra crítica de Sílvio Romero, pondo-a simultaneamente em confronto com o peso cultural do passado e as transformações radicais do presente.

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A grande importância do segmento de abertura, concentrado na leitura cerrada dos escritos, publicados por Sílvio Romero entre 1869 e 1875,4 vem de que nele estão contidos os primeiros efeitos do choque inevitável dos valores em jogo. Nele, vamos aos poucos conhecendo os principais elementos da formação de um crítico que, por se julgar um esteta moderno encarregado de estabelecer cientificamente os fundamentos da cultura brasileira, mesmo transformando a crítica literária num mero apêndice desse processo, não deixa de concebê-la de um modo intuitivo e enriquecedor. Aqui não basta apenas referir o quanto a leitura de Antonio Candido se distancia das interpretações regulares da época, ajudando a compreender o casuísmo das zeverissimações ineptas, ou mesmo os da obnubilação brasílica, tão emblemáticos daquele instante em que, sem haver encontrado o próprio método, a crítica se abria a todas as influências, desviando-se dos padrões do gênero e das imposições do gosto. O que é preciso ressaltar, no entanto, é que, a partir de agora, o conjunto desigual da obra e do temperamento de Sílvio Romero passa a ser visto por um critério de análise em que, pela primeira vez, os equívocos e as fragilidades, o pensamento complicado, confuso e mal escrito, apesar de misturarem as coisas, não deixam de significar “um esforço interessante para assumir posição mais inteligente”. Ao ordenar a embaralhada das reviravoltas, esse primeiro desbaste de Antonio Candido desvenda dois aspectos inovadores no método crítico de Sílvio Romero: a intuição relativista e o critério pragmatista em poesia. A primeira porque lhe permitiu improvisar sobre o dogmatismo excessivo de seus mestres, o que compensou os males da influência positivista mal digerida com a vantagem de haver afirmado em seu espírito “o senso de complexidade do fenômeno literário”; e o segundo, porque esse dogmatismo pessoal o levou a conceber a poesia como um instrumento de progresso social ou um meio de conhecimento objetivo, aspecto que constitui, como explica Antonio Candido, uma das bases da sua crítica. A consequência é que esse espírito improvisador, ao mesmo tempo em que traz a marca do bacharel recheado de cientificismo balofo, tão característico daquele tempo, destoa do pesado determinismo de então, fazendo de Sílvio um doutrinador pragmático que não se vê obrigado a entrar em detalhes ou a dar exemplos acerca de teorias ou de obras que critica. E se é verdade que, por um lado, esta atitude frequentemente conduziu a generalizações e a metas inatingíveis, também é certo que, de outro, ela confirmou uma tendência para valorizar, na po-

4 Pertencem a esta etapa o artigo “Realismo e idealismo” (23 mai.1872); os artigos escritos entre 1873 e 1874, que formam quase todo o volume A literatura brasileira e a crítica moderna (1880); o artigo “Uns versos de moça”, que integra os Estudos de literatura contemporânea com o título de “A alegria e a tristeza na literatura”; o ensaio “A poesia de hoje” (nov. 1873), que serve de prefácio aos Cantos do fim do século (1878); o estudo “Se a economia política é uma ciência” (1873); o estudo “Um etnólogo brasileiro: Couto de Magalhães” (1875); os artigos que formam A filosofia no Brasil (1876); os Estudos sobre a poesia popular no Brasil (1879); a dissertação A literatura brasileira e a crítica moderna (1880), com a qual Sílvio Romero conquistou a cátedra de Filosofia no Colégio Pedro II.

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esia, aquela espécie de intuição genérica que – no dizer de Antonio Candido – a aproximava da vocação progressista e do lirismo autêntico do poeta frente à importância de “encarar o povo brasileiro na sua complexidade de mestiço”. Ao procurar compreender os esforços de Sílvio Romero para chegar a uma formulação propriamente literária nesse conjunto de proposições tão distanciadas da natureza da literatura e da crítica, o que ressalta das distinções de Antonio Candido é o contraponto intelectualmente contrastivo das razões que a determinam. Entre estas, por exemplo, o fato de considerar a evolução social e a realidade étnica “para propor ou negar pontos de vista literários”; e a ênfase de que, nesse processo, a literatura é um reflexo da índole do povo, são aspectos inovadores que, somados à argúcia e à rara independência intelectual de Sílvio, vieram confirmar a necessidade de uma crítica destemida e livre que, mesmo com os “tropeços das coisas ditas sem pensar, no calor da descoberta e da emulação”, alinhou o Brasil às correntes intelectuais da época e neutralizou a submissão excessiva dos retóricos aos postulados da crítica francesa. Traços como estes – nos diz Antonio Candido – é que permitem harmonizar as ambiguidades desse homem que, carregado de arianismo, “não escamoteia a questão da mestiçagem” e postula para a crítica – ainda que não a fundamente enquanto operação literária – uma forma de intervenção intelectual destinada a reagir aos valores de uma cultura implantada por estranhos e insensível às “leis da formação da nossa vida mental”. É dele que parte a primeira advertência às limitações do nacionalismo romântico, desqualificando-o em favor da modernidade da consciência universalista, tanto mais urgente, a seu ver, quanto mais necessário lhe parecia o advento de uma geração vigorosa, caldeada no tempo por um alto grau de mestiçagem que nos habilitasse a encontrar a nossa própria consciência enquanto povo. Só então se poderia pensar em avaliar a realidade brasileira “a partir do processo de fusão e assimilação de seus elementos componentes”. Esta é a razão para que n’A literatura brasileira e a crítica moderna – talvez a obra mais representativa dessa primeira fase – a tarefa propriamente literária da crítica se restrinja a critérios muito pouco literários, se defrontados com os objetivos mais amplos daquilo que Sílvio Romero chamava de criticismo. Limitada à seleção e à avaliação dos escritores que mais contribuíam para esse processo de desenvolvimento cultural, a crítica literária não se livra das intercorrências do meio, da raça, da evolução histórica, dos costumes e das tradições, em busca da missão mais elevada de orientar o pensamento e o avanço das instituições, à luz dos modernos princípios científicos. É com esse espírito, segundo Candido, que Sílvio destaca, em Gregório de Matos, o despertar da consciência nacional, através da fusão das três raças formadoras; em Tomás Antonio Gonzaga, a transformação brasileira do lirismo português; em Martins Pena, a sátira da burguesia lusitana; em Álvares de Azevedo, a manifestação do moderno cosmopolitismo que se desligava de Portugal; e, em Tobias Barreto, o início da crítica da nossa realidade. De grande importância, no caso, é a distinção de critérios com que estes autores são analisados por ele, quer dizer: tomados literariamente, não significa que

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valham, para Sílvio Romero, pelos méritos de concepção ou de intuição artística; valem, isto sim, pelo que representam enquanto “arma de combate para renovar a mentalidade brasileira”; ou seja, o aspecto literário entra aqui como mero subsídio, como uma expressão crítica de valor secundário no projeto mais largo de reconstrução de uma nova consciência dos problemas nacionais, – nos diz Candido. O resultado é que a interpretação destes poetas conta mesmo é pelo valor extensivo que eles agregam ao conjunto das análises englobadas pelo criticismo, integrando ao espírito geral da nação a concepção moderna de uma poesia construída a partir da fusão de todos os elementos étnicos do país.
***

O fato de que o próprio Sílvio Romero jamais se considerou um crítico propriamente literário, exigiu que o ensaio de Antonio Candido estabelecesse uma espécie de ajuste contínuo não apenas na concepção amoldável dos seus pressupostos, como também na variação constante da estratégia de leitura, sempre pronta a assimilar as transformações do acessório em traço principal, valorizando o que a muitos parecia secundário, e concluindo pela irrelevância de muitos aspectos, que, à maioria dos críticos, sempre se afiguraram como coisa de primeira ordem. Isso explica a importância dos achados, embutidos seja na inobservância dos critérios literários, seja na própria inviabilidade de aprimorá-los num país de literatura secundária, nutrida pela mentalidade da imitação e do atraso; mas também explica a relevância dos aspectos submersos no cientificismo precário e desordenado de Sílvio Romero, que Antonio Candido alinha aos efeitos do critério individual que vai aos poucos amaciando o dogmatismo implacável do autor das Zeverissimações ineptas. Tais observações parecem confirmar-se a partir do segundo e do terceiro segmentos do ensaio, quando na verdade se anunciam e discutem os elementos fundamentais à configuração do método crítico. Frente a eles talvez caiba dizer que, se no segundo segmento,– que se estende de 1880 a 1888,5 – quanto mais Antonio Candido se debruça sobre o crítico literário, tanto menos o reconhece; no terceiro, – que vai de 1888 a 1914,6 – quanto mais discute o sociólogo, tanto mais se aproxima das convergências literárias que irradiam para a sua vocação de crítico. Aqui, há uma série de razões a considerar; como o próprio Candido assinala, o ano de 1880 abre um momento de virada na trajetória intelectual de Síl-

5 As análises deste segmento se concentraram nos Estudos sobre a poesia popular no Brasil (1888), antes publicadas na Revista Brasileira (2ª fase); no estudo Da interpretação filosófica na evolução dos fatos históricos (1885); na Introdução à literatura brasileira (1881); e no estudo O naturalismo em literatura (1882). 6 Antonio Candido inclui aqui a leitura de “certos escritos menores”, entre os quais os Novos estudos de literatura contemporânea (1898); os Ensaios de sociologia e literatura e Martins Pena (1901); os Outros estudos de literatura contemporânea (1906); o estudo Da crítica e sua exata definição (1909); e as Provocações e debates (1910).

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vio Romero; com ele tem início uma fase de “cristalização das ideias que vinham amadurecendo através de toda a década de 1870, e que vão frutificar até o fim de sua vida”, quando começam a se aperfeiçoar alguns critérios de análise voltados mais livremente para a expressão artística do povo brasileiro a partir do folclore, tomado agora como produto da miscigenação. Mas não é só. Mais distanciado de Buckle, seu grande paradigma da fase naturalista, Sílvio Romero já admite para a crítica a condição de quase ciência; assim, ao mesmo tempo em que define, nos Estudos sobre a poesia brasileira, o fator étnico como um elemento-chave na interpretação da cultura, amplia os contornos de seu método para novas direções, transferindo do negro para o mestiço o papel de agente transformador por excelência; substituindo a rigidez do positivismo pela mobilidade de um evolucionismo integrado às influências do meio; e trocando o antigo determinismo naturalístico por um realismo crítico que acrescenta ao seu critério científico da história um interesse cada vez maior pela ação combinada da natureza e do homem. Isso tudo nos mostra, na hipótese de Antonio Candido, que, se parecia impossível a Sílvio Romero fazer crítica literária sem levar em conta as influências geográficas, climáticas e fisiológicas, a partir de 1880, com a adesão à variedade do fator humano, definiu-se em seu método uma libertação contínua do despotismo da natureza e da tirania dos princípios, determinando a prevalência das leis mentais sobre as leis físicas. Aplicado ao estudo da literatura brasileira, a maior consequência desse novo critério para a crítica de Sílvio Romero foi a substituição do funcionalismo de Taine por um pragmatismo crítico, “que sobrepõe à representatividade do escritor o critério da sua utilidade coletiva”. Não que Sílvio tenha deixado de ser tainiano; isso jamais aconteceu; o que ocorre é que, agora, como mostra Antonio Candido, ele amplia as metas do estudo biográfico das personalidades, concebido por Edmond Scherer, para aplicá-las mais concretamente, como nexo causal, ao estudo dos fatos e das considerações gerais. Esse dado embutido é que dará fundamento à sua decisão de escrever uma introdução naturalista à história da literatura brasileira, apoiado num critério étnico e popular, com vistas a explicar a chave do caráter nacional. O dado a ressaltar é o modo como Antonio Candido, mesmo reconhecendo a natureza pouco literária contida no cerne dessa decisão, articula a redução naturalista da história literária, aí implícita, com as possibilidades de o determinismo literário – até então um mero acessório – abrir caminho a uma concretude maior no tratamento propriamente literário da literatura. Ocorre que nem sempre o entusiasmo de Sílvio pelo método naturalista conviveu em harmonia com os critérios mais livres no estudo da produção artística nacional. Apesar do amadurecimento que veio experimentando ao longo do tempo, é ainda o ímpeto cientificista que marca o compasso na Introdução à história da literatura brasileira. À frente de sua lógica, a ação do meio e da raça permanecem irredutíveis; os elementos da crítica ainda são a mesologia de Buckle, a etnologia de Thierry e Renan, a fisiologia de Taine, a psicologia de Sainte-Beuve, o historicismo de Villemain e o julgamento científico de Scherer.

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E mais: a crer no que reivindica em O naturalismo e a literatura, por exemplo, o objeto da crítica moderna não é propriamente a literatura, e sim “a totalidade das criações da inteligência humana”, avaliadas sob o método histórico-comparativo, na perspectiva irrefutável de que a evolução se impõe à criação literária como faz com todos os organismos vivos e com a própria história dos homens. De tal modo que a sua aplicação vai tanto na direção das línguas e da filologia, quanto na das religiões e da mitografia, da etnologia e do folclore, da jurisprudência e das ciências naturais. Assim, por mais inadequada que se configure a Antonio Candido a fisionomia literária do crítico projetado por Sílvio Romero, é – digamos – no preenchimento de seus intervalos; na iluminação gradual dos conteúdos implícitos no que Sílvio sugeriu, mas não fez avançar; esboçou, mas não soube exprimir; pressentiu, mas não conseguiu formular; é na discussão integradora desses intervalos que as análises de Antonio Candido redimensionam a contribuição positiva de seus desequilíbrios. Daí a grande importância do terceiro segmento para a lógica do ensaio. É a partir dele, por exemplo, que começamos a perceber o verdadeiro alcance do fator humano como critério de julgamento, indispensável não apenas por restringir os exageros da crítica naturalística, mas sobretudo por integrar a contribuição do escritor no desenvolvimento geral das ideias de seu tempo (“dar a palma a quem merece”). Por este aspecto é que compreendemos a recusa de Sílvio Romero em ver a obra como resultado de um realismo puramente fotográfico e inerte que se limitasse a copiar a realidade, ignorando a intuição científica e moderna inerente à imaginação criadora. Ao nos mostrar que, em Sílvio, a lei que rege a literatura é a mesma que preside à evolução transformista do espírito humano, Antonio Candido acrescenta a essa conclusão metodológica a observação implícita de que, para o autor dos Últimos harpejos, a personalidade do escritor deve aparecer nas obras literárias, igualmente modelada pela evolução espiritual das épocas. Por isso, confirmando-se na História da literatura brasileira como produto autêntico de um processo de esclarecimento em contínua expansão, a ênfase na expressão humana da criação literária representa, para a interpretação da cultura, um fator mais importante do que a própria ação do meio físico, o que demonstra um aberto desacordo de Sílvio Romero com o determinismo mais naturalista da fase anterior. Para Sílvio, agora, – nos diz Candido – se a literatura permanece sujeita à evolução e nisso se comporta como os organismos biológicos, um dado novo impõe a diferença de que ela não se deixa assimilar por aqueles, conforme o demonstra o capítulo V do segundo volume da História da literatura brasileira, citado por Antonio Candido para confirmar que o determinismo mesológico e a tríade tainiana já não bastam por si sós para explicar o problema da criação literária. Mas é preciso distinguir. Fator primordial, que Sílvio reconhece como um centro de energia atuando como substrato irredutível às imposições da história, o valor individual, apesar de importante, não pressupõe a compleição literária de seu método crítico. Para Sílvio Romero, – nos diz Candido – a base fundamental

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é a raça, “compreendida menos do ponto de vista físico e mais do ponto de vista etnográfico”; o que implica dizer que, em sua História da literatura brasileira, “se o meio é um agente de diferenciação, a raça é integradora por excelência”, abrindo-se à assimilação gradativa de novos fatores sociais na explicação dos períodos, das tendências, da afirmação dos gêneros literários e da própria individualidade dos autores. Nesse conjunto, se os critérios literários não definem o ponto de chegada, os critérios sociológicos se encarregam de fazê-lo com base na força individual e na capacidade inventiva dos autores, classificando, pela seleção histórica do mérito, os mais expressivos – nos termos de Sílvio Romero, os representative men do pensamento e da cultura. A verdade é que o método propriamente literário ainda permanece longe das constatações de Antonio Candido. Como ele mesmo reconhece a esta altura do ensaio, Sílvio é demorado em suas análises; não tem finura psicológica que lhe permita dar vida à fisionomia literária dos escritores que examina; seus textos se arrastam e não apresentam nem “a intuição analítica, nem a volúpia serena, que leva o crítico a aventurar-se na alma dos autores”. Mas, ao mesmo tempo, é ágil na captação das influências do meio social e do momento cultural, “preferindo integrar a diferenciar”. E o mais grave é que não mostra serenidade, é apressado e vai muito rapidamente da análise do traço pessoal para a interpretação do contexto, procurando sempre no escritor estudado “um resumo ou padrão da época”. Pior é que, insistindo em se valer do vocabulário científico e das razões biológicas, acaba quase sempre descambando pelo superficialismo dos paralelos acomodatícios, sem grande valor de comprovação ou certeza. Mas ainda assim é preciso distinguir. E, assinalar que, mesmo diante de tudo isto, não há como descartar uma verdade irrecusável para Antonio Candido: é que, mesmo recorrendo a tanta lantejoula científica, o naturalismo de Sílvio Romero nunca foi tão radical quanto parece, o que pode ser visto pela intuição sociológica com que descartou bem cedo a obsessão cientificista do tainismo exorbitante, mesmo mantendo a coerência de não excluí-lo de seu horizonte de trabalho. Somente aqui é possível avaliar o quanto a vocação do sociólogo Sílvio Romero infundiu no espírito de Antonio Candido os elementos de uma intuição mais consentânea com a formulação de um método, se não propriamente literário, ao menos mais integrado à natureza artística das criações do espírito humano. De fato, é nesse momento do livro que se expande, em expressão de grandeza, a maioria dos achados latentes nos critérios anteriores. A partir daí, ficam mais claras, por exemplo, as razões pelas quais Sílvio Romero converte a poesia na maior realização espiritual do povo brasileiro, por desvendar-lhe a alma com base nas tradições e na inspiração popular. Também aí é que vemos ganhar corpo a certeza, em Sílvio, de que o princípio do desenvolvimento humano “penetrou primeiro nas ciências do homem e só depois nas ciências da natureza”, e não o contrário, como propagava o cientificismo de seus mestres naturalistas. É quando ele percebe que, não havendo mais um nexo determinante entre a natureza e a obra em si mesma, a tarefa do crítico é mergulhar no pro-

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Sílvio Romero (a crítica e o método) 109

cesso que se realiza através do grupo social, motivo que o leva – segundo Antonio Candido – a fugir da crítica dissertadora, preocupada apenas em descrever, e assumir a crítica propriamente sociológica que – nos termos de Sílvio – “discute para esclarecer e esclarece para concluir”. O salto parece grande se lembrarmos que esclarecer e concluir eram fundamentos que dependiam apenas da verificação dos fatores físicos; e que só estes bastavam para a finalidade de descrever o valor histórico do escritor. A diferença é que, a partir de agora, isso só será possível admitindo o caráter sociológico de seus pressupostos. É verdade que isto é pouco, mas – em se tratando de Sílvio Romero – nos diz Candido que é tudo que se pode avançar na configuração de um método para o qual até então só havia sentido em falar-se em crítica geral, sem qualquer distinção da realidade concreta das diversas críticas contidas nas outras séries do pensamento humano (a literária, a científica, a musical, a filosófica...). De tal modo que, mesmo levando em conta que Sílvio Romero não foi capaz de perceber o alcance da dimensão artística da obra face ao conjunto dos fatores físicos que a determinam, não há como negar que do traço inovador de seu materialismo mitigado – na expressão de Antonio Candido – saíram os critérios decisivos da mestiçagem moral que está na base da sua teoria da literatura brasileira. Diante desse novo caminho, o empenho crítico de Antonio Candido é definitivo ao nos revelar a dimensão moderna de um intérprete da cultura brasileira cujo método transcende o marasmo de seu próprio tempo, superando o formalismo emperrado da retórica do gosto pela discussão sempre renovada dos temas mais fundos da alma nacional. Crítico de cultura? Sociólogo? Esteta? Cientista? Crítico naturalista recheado de positivismo? Pouco importa – nos dirá Antonio Candido –, pensando na contribuição que ele trouxe para a atualização do sentido e da própria natureza da crítica literária brasileira posterior ao romantismo. É que apesar da passagem do tempo – ele observa – Sílvio Romero permanece no centro da nossa historiografia literária. E arremata: “muitos de nós, que lidamos com a crítica e às vezes temos a pretensão de renová-la, passaremos, de certo, com os nossos livros e artigos, a nossa erudição mais exata, o nosso sentido mais puro do fato literário. Ele ficará – com os seus erros cada vez mais apontados, as suas teorias cada vez mais superadas”. Faltou dizer, no entanto, que se Sílvio Romero não logrou estabelecer os critérios do método crítico que o velho Capistrano anunciou, e pôs de lado ao mergulhar na investigação da história, Antonio Candido prosseguiu na busca da formulação literária que escapou a Sílvio, completando-a e enriquecendo-a na complexidade mais densa de seus pressupostos. Sob este aspecto, não apenas demonstrou que os fatores externos, ao tornarem-se internos, assumem função decisiva na composição da estrutura literária da obra em si mesma, como também ampliou a dimensão crítica do fator humano, tão caro a Sílvio Romero, ao insistir em que, articulado à figuração dessa mesma estrutura, ele encarna o quinhão da fantasia cuja liberdade é indispensável para modificar a ordem do mundo, “justamente para torná-la mais expressiva”. Por este lado,

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Candido acrescentou à tese romeriana de que a obra é um aspecto da estrutura da sociedade, a distinção crítica de que, sendo também uma forma de comunicação expressiva, ela depende essencialmente da intuição do autor, seja na fase criadora, seja na fase receptiva, pois que constrói um tipo de linguagem que só manifesta o seu conteúdo na medida em que também é forma, ou seja, no momento em que se define como expressão. Mas também é preciso dizer, para encerrar, que há momentos em que ambos se aproximam; em que ficamos com a impressão de que por vezes Sílvio Romero parece ter sido para o jovem Candido o que Taine ou Spencer significaram para ele mesmo. É o sentimento que nos vem, por exemplo, quando Antonio Candido, já no final do ensaio, ao refletir sobre o significado de Sílvio Romero para o seu próprio tempo, nos fala da coragem, da insistência com que Sílvio atribuía à literatura e às artes a afirmação social e humana da nossa própria libertação, – matéria e desígnio que a obra crítica de Antonio Candido acabaria transformando numa das expressões mais lúcidas e empenhadas da história moderna das Letras brasileiras.

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Esquema argentino de Antonio Candido

adriana amante
Universidad de Buenos Aires New York University en Buenos Aires

Resumo
O artigo tenta trabalhar algumas linhas propostas por Antonio Candido em Literatura e sociedade em relação com a sua própria obra e com alguns textos fundamentais da crítica literária da Argentina, para poder pensar de novo – a partir do decisivo aporte do crítico brasileiro – alguns problemas que se planteiam também na literatura daquele país.

Palavras-chave
Dialética; Crítica; História da literatura; Argentina; Escritura

Abstract
The essay explores some ideas proposed by Antonio Candido in Literatura e sociedade in connection to his own work and to some other fundamental texts of Argentine literary criticism. The goal of the essay is to think again – from the point of departure of the decisive contribution of the Brazilian critic – some problems also developed in literary texts of that other country.

Keywords
Dialectics; Criticism; History of literature; Argentina; Writing

adriana amante

Esquema argentino de Antonio Candido 113

Evidentemente, las artes y los actos de enseñanza son, en el sentido propio de este término tan denostado, dialécticos. George Steiner, Lecciones de los maestros

s tanto lo que se ha escrito sobre la obra de Antonio Candido en el Brasil que no resulta fácil abordarla de nuevo. Sin embargo, para los argentinos todavía queda un resto que justifica el atrevimiento. Porque pese al voluntarismo ideológico que implicó, primero, la publicación en la revista Punto de Vista del reportaje que le hizo Beatriz Sarlo en 1980; tres años después, la inclusión de “Estrutura social e função histórica” en el libro Literatura/Sociedad, que Sarlo escribe con Carlos Altamirano; y –más acá – el libro organizado en 2001 por Raúl Antelo para el Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana de la Universidad de Pittsburg (como era de suponer, de restringida circulación fuera del ámbito académico), en la Argentina – en el mejor de los casos – se tiene conciencia de la importancia del trabajo de Candido pero no necesariamente conocimiento detallado de sus propuestas y de su profusa y profunda producción.1 Al margen de los obstáculos que pueda seguir presentando la diferencia idiomática, y que a esta altura no debería ser una excusa sino un minus, el modo en que Candido produce y publica sus escritos puede servir al mismo tiempo como álibi para seguir manteniéndose en el borde.2 Los textos publicados por el crítico brasileño, que son más de quince, no están a disposición, y las librerías y las bibliotecas argentinas no parecen darse por aludidas.3
1 Reportaje de Beatriz Sarlo a Antonio Candido, Punto de vista, año 3, número 8, Buenos Aires, marzo-junio de 1980; Beatriz Sarlo y Carlos Altamirano, Literatura/Sociedad, Buenos Aires. Hachette, 1983; Raúl Antelo (ed.), Antonio Candido y los estudios latinoamericanos, Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, Universidad de Pittsburgh, 2001. Muchos de los brasileñistas argentinos, que creemos encontrar la cifra en ese gesto de Sarlo y Altamirano, tal vez seamos concretamente su consecuencia ideológica. 2 Las antologías de Biblioteca Ayacucho o de Fondo de Cultura Económica, por ejemplo, conjuran en parte esa dificultad: Antonio Candido, Crítica radical, Caracas, Biblioteca Ayacucho, 1991; y Ensayos y comentarios, São Paulo, Editora da Unicamp y Fondo de Cultura Económica, 1995. 3 Antelo abre el prólogo al texto sobre Candido que organiza considerándolo “un crítico aislado” también en su propia lengua por la cantidad de artículos que todavía están dispersos.

E

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Quiero analizar la trama que Antonio Candido urde siguiendo las ideas que propone, reescribe, expande, retoma, vuelve a poner a prueba, y eventualmente continúa, amplía o corrige. Voy a indagar sobre todo cómo es el método compositivo de la escritura de su pensamiento más que los conceptos teóricos que maneja, que tan brillantemente han sido estudiados por los críticos brasileños; abordaré no tanto sus ideas críticas como su escritura crítica, para analizar en particular Literatura e sociedade o, mejor, para pensar a partir de y en torno a Literatura e sociedade algunas líneas que me parecen fundamentales.

1
No es que Candido no haya publicado obras concebidas y escritas como una unidad en sí: no otra cosa son la Formação da literatura brasileira (1959) y Os parceiros do rio Bonito (1964), sintomáticamente, un libro por encargo cuya escritura le llevará una década y la edición de su tesis de doctorado en Ciencias Sociales, respectivamente. Pero es por demás conocido que, en general, la obra de Candido va encontrando su forma en artículos que se distribuyen por separado y luego van integrando (el propio crítico va haciéndolos integrar) unidades mayores al paso que sigue pensando y escribiendo, y también editando y reeditando. En su método compositivo, las nociones de obra orgánica y de obra fragmentaria no se excluyen. Antes bien, podríamos postular la posibilidad de una organicidad de fragmentos. Cuando reedita Vários escritos, en 1995, justifica la reproducción de algún artículo que también está en una inesperada reedición de Brigada ligeira –su primer libro– (“o que significa ter no mercado os mesmos ensaios em dois livros”), puesto que vino a formar un conjunto con otras piezas en un nuevo sistema que prefiere no desmontar. Porque el método compositivo de Antonio Candido trama una red espaciotemporal. Los artículos y “coletâneas” que se van sucediendo son la condensación, en el espacio del libro, de un momento en que está pensando (aun si diversas cosas) en una más o menos homogénea dirección crítica y teórica. Tal vez de los libros de Candido pueda decirse lo que Michel Foucault de la biblioteca considerada como heterotopía: que son un espacio donde se acumula indefinidamente tiempo. Y si bien no indefinidamente, Candido va cortando arbitrariamente con las publicaciones ese continuum de pensamiento que, incluso cuando vaya desarrollándose y hasta mutando, es un devenir constante de esa acumulación (que parece indefinida) de tiempo. En este sentido, el título de su libro Recortes (de 1993) es bien representativo de ese método de escritura que determina un modo de concepción de unidades y conjuntos y, consecuentemente, de publicación. En ese continuum con cortes que es la obra de Candido, cuando se aborda uno de sus textos no sólo se siente la necesidad imperiosa de ir, organizada y prolijamente, a ver cómo se inserta en la línea de su producción sino que inevitablemente va asaltando la pulsión por derivar de un artículo a otro, de un libro a otro, buscando las constantes, los cambios, las “retomadas” de sus propias “linhas evolutivas”, para decirlo con una expresión que Caetano Veloso ha usado en relación

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con João Gilberto. Porque ningún artículo, por contundente que sea, se clausura en sí mismo. “Toda nuestra formación teórica y crítica está basada en la idea de sucesión temporal homogénea y con una tendencia a no reconocer las contradicciones. El principio de identidad y de tercero excluido rige siempre nuestros pensamientos”, sostuvo Candido cuando un grupo de especialistas latinoamericanos se reunió a discutir la concepción de una historia de la literatura latinoamericana.4 Para él se planteaba la necesidad de afrontar con otros hábitos críticos que los que se tenían (y se tienen) el hecho de que existan temporalidades múltiples entre las diferentes literaturas nacionales o incluso entre diferentes manifestaciones literarias dentro de un mismo país. Pero éste no debería haber sido un problema que él no estuviera en condiciones de sortear, porque incluso fuera ya de la cuestión historiográfica son precisamente las contradicciones las que Candido asume de manera explícita (lo que terminará resultando programático no sólo para el contexto brasileño sino –es deseable– para el latinoamericano) en “Dialética da malandragem”, artículo publicado por primera vez en 1970, al proponer un juego de interacción entre el polo del orden y el del desorden como clave de funcionamiento del texto que Manuel Antônio de Almeida publica entre 1852 y 1853, que lo es también del de la sociedad en que se produce.5 Claro que la idea de la dialéctica como modo de funcionamiento y a la vez como principio constructivo, central en ese texto que resultó determinante, viene proponiéndola y madurándola Candido desde mucho antes, como se ve – por caso – en Literatura e sociedade, libro editado en 1965 pero que reúne textos de 1953, 1954, 1955 o 1961 junto con otros para la fecha inéditos. Varias inflexiones de lo dialéctico, como la propuesta de una interpretación no mecanicista entre medio social e obra, aparecen bien manifiestas ya en ese libro y se suma a otras, por ejemplo, cuando arriesga que
“Se fosse possível estabelecer uma lei de evolução da nossa vida espiritual, poderíamos talvez dizer que toda ela se rege pela dialética do localismo e do cosmopolitismo, manifestada pelos modos mais diversos. […] O que temos realizado de mais perfeito como obra e como personalidade literária (um Gonçalves Dias, um Machado de Assis, um Joaquim Nabuco, um Mário de Andrade), representa os momentos de equilíbrio ideal entre as duas tendências. Pode-se chamar de dialético a este processo porque ele tem realmente consistido numa integração progressiva de experiência literária e espiritual, por meio da tensão entre o dado local (que se apresenta como substância da expressão) e os moldes herdados da tradição européia (que se apresentam como forma da expressão)”.6
4 Cf. Ana Pizarro (coord.). La literatura latinoamericana como proceso, Buenos Aires, Centro Editor de América Latina, 1985, p. 43. 5 “Dialética da malandragem” aparece en la Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, número 8. Véase un análisis de lo dialéctico en Paulo Eduardo Arantes, Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira. Dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992. 6 Antonio Candido, “Literatura e cultura de 1900 a 1945”, en Literatura e sociedade. Estudos de teoria e história lietarária. Trabajo con la octava edición: São Paulo, T. A. Queiroz (ed.), 2000, pp. 109-110.

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No otra cosa sucede en “Estructura literária e função histórica”, otro de los artículos que componen el libro, en el que Candido trabaja la ambigüedad, no estilística sino “estructural”, de o Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão. Hay ahí una Dialética da malandragem en ciernes porque, como lo hará para el libro del siglo XIX, en este texto del siglo XVIII analiza el principio constructivo de una obra que también lo es de una forma nacional.7 En “Literatura de dois gumes”, conferencia que da en 1966 y de la que editará versiones en 1968 y 1969 para después incorporarlo como artículo en A educação pela noite e outros ensaios, de 1987, aparte de trabajar también la relación entre literatura y sociedad, se pronuncia igualmente sobre la “atitude [crítica] adotada”, que “pode ser definida como sentimento dos contrários, isto é: procura ver em cada tendência a componente oposta, de modo a aprender a realidade da maneira mais dinâmica, que é sempre dialética.8 Dentro de este contexto de posicionamiento crítico, es posible estimar el verdadero tenor de la valorización que Antonio Candido hace de la obra de Gilberto Freyre, que se deja ver en Literatura e sociedade y se manifiesta declaradamente en “Aquele Gilberto”, de 1987, otro de los textos “de caráter circunstancial” que se incluyen en Recortes junto con “Um crítico fortuito”, de 1962, en el mismo libro, donde puede encontrarse otra clave de lectura para entender cómo lee y piensa Candido, al observar cómo lee y piensa a G. Freyre. De algún modo marca un antecedente en una posible tradición de “obra de sociólogo e historiador da cultura”, como define para el caso del discípulo de Franz Boas. Lo que no significa que deba pensarse a Candido como alguien que hace crítica sociológica, como él se ha encargado de señalar con cierto énfasis en Literatura e sociedade, sino como quien hace crítica, una crítica que no entiende lo social como un factor externo que resulta determinante para la obra sino como lo externo que deviene intrínseco de la obra. No se encolumna tampoco en la postura “nacionalista” de Freyre, que busca (y prefiere) en las obras literarias aquello que permita descubrir y confirmar lo brasileño, ya que a Candido le interesa menos, por ejemplo, cuándo una literatura se convirtió en brasileña que indagar cuándo el Brasil pudo tener una literatura o, sea, cuándo se dieron y se dan las condiciones para tenerla. Pero sí festeja claramente el modo dialéctico de Freyre trazando una línea que puede recuperarse perfectamente en su sistema crítico dentro del cual el modo dialéctico de funcionamiento de un texto es altamente elocuente acerca del funcionamiento del Brasil:
“Lembremos ainda as grandes imagens diretoras, as imagens gerais que estruturam todo um estudo crítico, como, no que escreveu sobre Alencar, a contraposição entre ambiente aberto do campo e ambiente fechado da sala, encarnando os pólos do brasileirismo e do urbanismo europeizante, mas também da

7 Esa misma ambigüedad es la que permite la doble interpretación histórica que se ha dado del libro: como lusitanista y como indianista. 8 “Literatura de dois gumes”. En: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo, Editora Ática, 1989, p. 164.

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tirania doméstica e da liberdade revoltosa, segundo os quais se ordena a sua obra. Essas imagens duais abundam em Gilberto Freyre e servem para mostrar o seu movimento dialético e integrador, sempre deslizando entre a casa-grande e a senzala, o sobrado e o mocambo, a ordem e o progresso, a precisão racional e a fantasia, a análise técnica e as liberdades artísticas da intuição e do prazer estético”.9

Pero, como dije más arriba, su propio pensamiento está dispuesto a hacerse cargo de las posibles contradicciones (de las obras, de los principios constructivos e incluso del propio método crítico) y por eso podemos encontrar en el artículo de 1992 sobre “Navio negreiro” de Castro Alves que incluye en Recortes un avatar donde los contrarios, antes que combinarse dialécticamente, se expulsan sin más. Lo que se conjuga en los enredos urbanos o burgueses de Almeida o Machado de Assis tal vez encuentre en el tema de la esclavitud el límite, donde el “movimento das antíteses, das oposições que não se cruzam nem se unificam, gera estrofes admiráveis”.10 Tanto la dialéctica que combina opuestos como las antítesis irreconciliables no son cuestiones ajenas a otras literaturas, como es el caso de la argentina. Por eso algunos problemas cruciales del análisis de las obras que la componen pueden pensarse en sintonía con el abordaje de Candido, como él mismo lo propone al considerar al Facundo de Sarmiento (al que llama atinadamente por su título original: Civilización y barbarie) como el inaugurador de una línea de pensamiento latinoamericano en la cual la “reflexão sobre a realidade social foi marcada pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das intituições”.11 Sin estar filiados explícitamente con Candido, es interesante ver cómo algunos textos clave de la crítica literaria argentina pueden volver a pensarse desde sus propuestas. Por ejemplo, los que Ricardo Piglia escribió sobre Sarmiento. Por un lado, “Notas sobre Facundo” (de 1980), uno de los textos más agudos e iluminadores de la crítica argentina, en el que Piglia considera la barbarie del letrado que cita la cultura europea de modo errado y donde, al analizar focalizadamente el texto de un autor, encuentra –como Candido en Memórias de um sargento de milícias o en Caramuru– el modo de funcionamiento o la cifra de la cultura argentina.12 También en “Sarmiento, escritor” (de 1998), donde postula que
“El Facundo viene a establecer una relación imaginaria entre dos universos yuxtapuestos y antagónicos. Los problemas de la forma literaria del libro están concentrados en la y del título. (Nadie tiene
9 Antonio Candido, “Um crítico fortuito (mas válido)”. En: Recortes, São Paulo, Companhia das letras, 1993, p. 88. Candido cuenta, además, cuán fascinante le resultaba a su generación el desparpajo con que G. Freyre estudiaba la sexualidad y las relaciones familiares. 10 Antonio Candido, “Navio negreiro” En: Recortes, p. 52. 11 Antonio Candido, “O significado de Raízes do Brasil”. En: Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das letras, 1995, p. 12. 12 Ricardo Piglia, “Notas sobre Facundo”, en Punto de vista, año 3, número 8, Buenos Aires, marzojunio de 1980, el mismo número en que aparece el reportaje de Sarlo a Candido, como ya mencionamos en Florencia Garramuño y Adriana Amante, “Partir de Candido”, en Raúl Antelo (ed.), Antonio Candido y los estudios latinoamericanos.

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un sentido tan personal de la conjunción como Sarmiento. Su escritura une lo heterogéneo. El polisíndeton es el sello de su estilo.) En ese punto se concentra la tensión entre política y ficción. La política tiende a que esa y sea leída como una o. La ficción se instala en la conjunción. El libro está escrito en la frontera: situarse en ese límite es poder representar un mundo desde el otro, poder narrar el pasaje y el cruce”.13

Por su parte, en un artículo de 1970 –el mismo año de la “Dialética da malandragem”–, Noé Jitrik había visto las “raíces hegelianas” del método de conocimiento que Sarmiento puso en funcionamiento en la postulación de la dicotomía civilización-barbarie y que sin embargo –advierte el crítico–, no prevé una síntesis sino el triunfo de alguno de los términos de la oposición. El sistema de oposiciones ilimitadas (en el que, antes que superación, lo que se plantea es la imposición de optar) es, por su parte, el principio constructivo del libro que Jitrik le dedica al análisis del Facundo.14 La afinidad puede volver a encontrarse en el intento de analizar el juego dual de oposiciones en “Cambaceres: adentro y afuera”, un texto que Jitrik publica en 1960 y que no sólo podemos conectar con los artículos del brasileño que ya hemos mencionado sino incluso pensarlo en relación con su abordaje de O cortiço, de Aluísio Azevedo, particularmente con el artículo “A passagem do dois ao três (Contribuição para o estudo das mediações na análise literária)”, de 1974.15 En ambos casos, se está trabajando sobre propuestas naturalistas. Jitrik analiza el gusto por los contrastes que viene del romanticismo pero que ciertas manifestaciones del naturalismo transforman en un sistema que busca conciliar las oposiciones y, aún más, que en Sin rumbo –la tercera y penúltima novela de Eugenio Cambaceres– se convierte en táctica de ocultamiento. La escena en que Andrés, el protagonista hastiado de una vida urbana y una sociedad que no le despiertan ya el menor interés, lleva a su amante a una garçonnière de fachada miserable tras de la cual se abre un ambiente de gran refinamiento moderno (“–¿Por qué tan lindo aquí y tan feo afuera? –Porque es inútil que afuera sepan lo que hay adentro”), lejos de resultarle incidental, constituye para el crítico argentino un “núcleo significativo” que marcará una constante en cierta tradición literaria argentina: la que intenta pensar o reforzar el predominio de una clase ante el peligro de pérdida por disolución social por medio de un método de entender la realidad, pero que en la última novela de Cambaceres, En la sangre, con el arribismo social del hijo de un inmigrante italiano, se mostrará cómo puede ser socavado y resquebrajado. El
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Ricardo Piglia, “Sarmiento, escritor”, en Revista de Filología, Buenos Aires, Año XXXI, 1-2, 1998,

p. 26.
14 Noé Jitrik, “Para una lectura de Facundo, de Domingo F Sarmiento”, en Ensayos y estudios de . literatura argentina, Buenos Aires, Galerna, 1970; y Muerte y resurrección de Facundo, Buenos Aires, Centro Editor de América Latina, 1983. 15 En O discurso e a cidade, de 1993, Candido publicará “De cortiço a cortiço”, artículo que escribe en 1973 pero que publicará completo en 1991. Antes, aparecen dos versiones parciales, “A passagem do dois ao três”, en 1974; y “Literatura-sociologia”, en 1976.

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mayor esfuerzo de Candido en su propio abordaje es “passar do dois ao três” para romper con el estatismo al que la dualidad condena, y recusa el estructuralismo que, fijado en el número dos – lo que puede ser de utilidad para el análisis interno de la obra –, no encuentra el modo de pasar del análisis a la interpretación. La misma preocupación movía pocos años antes a Jitrik en la que él mismo llamó su
“etapa ‘sociológica’, atravesada por preocupaciones ideológicas y políticas. Pienso que, metodológicamente hablando, lo más importante de esta experiencia es la idea de la ‘significación’ que toda palabra literaria, que todo gesto formal comporta. […] Todo esto, además, sale de la experiencia que significó para mí la revista Contorno: […] así como lo fue para Contorno, en estos Estudios y ensayos se trata de organizar un conocimiento de la literatura argentina pero no sólo eso sino también un conocimiento crítico y no sólo eso sino también se trata de no descartar un orden de sentidos vigentes históricamente desde los cuales o en los cuales pueden recortarse los sentidos que las obras principales de nuestra literatura ponen en movimiento”.16

Candido, al final de su artículo, como quien arenga, propone:
“Todavia, voltemos à análise interna, como ponto de partida para compreender melhor o externo, agora, não como genérico, mas enquanto mundo, vida que nutre a obra. E uma vez chegando neste, podemos refazer o caminho em sentido inverso […]. Procuro construir um modelo de que desvende a estrutura interna, singular da obra. Há, portanto a possibilidade de um método reversível, que se move nos dois sentidos, e que supere o formal e o não-formal na medida em que chega a este partindo daquele e àquele partindo deste”.

Ambas posiciones plantean una articulación entre lo social y la obra que no determina una dirección única para la indagación de sentidos. Y para volver al caso específico de Candido, incluso ni siquiera podemos hablar de determinación o condicionamiento, ya que lo que él plantea es que la crítica literaria debe trabajar en el sentido de volver interno lo que es externo. No se trata, como queda bien claro desde Literatura e sociedade, de recurrir a lo sociológico como un agregado, sino de asimilar lo social a la manifestación estética, entender lo social y lo histórico como constitutivos de la estructura formal de la obra que entonces, al ser estructura, deja de ser externo para convertirse en interno.17 Es sobre la base de esa concepción que, como bien señala Lígia Chiappini, Candido sostiene la autonomía relativa de la obra literaria sin considerar los hechos sociales funcionando en paralelo y separadamente sino proponiendo la “forma como histórica e social, do aparentemente externo à obra como interno a ela, o social e o histórico, por sua vez, na forma”.18

Noé Jitrik, Ensayos y estudios de literatura argentina, pp. 7-8. Cf. particularmente “Crítica e sociologia (Tentativa de esclarecimento)”. En: Literatura e sociedade. 18 Lígia Chiappini, “Os equívocos da crítica à ‘Formação’”. En: Maria Ángela D’Incao e Eloísa Faria Scarabôtolo (orgs.). Dentro do texto, dentro da vida. Ensaios sobre Antonio Candido, São Paulo, Companhia das Letras, 1992, p. 171, subrayado en el original.
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Esta postura permite resolver el problema al que la crítica se enfrenta cuando no sabe de qué modo establecer relaciones entre las series: literaria, social, económica, histórica. Pero Candido llegará a decir, profundizando y volviendo más explícitos y claros algunos de los presupuestos iniciales de Literatura e sociedade, que las series no deberían considerarse como algo separado que puede ser puesto en relación, sino como una unidad integrada y totalizadora. Es en “A passagem do dois ao três” que lo dice: no es cuestión de pensar en series discernibles y a las que se pueda eventualmente hacer entrar en conexión. De lo que se trata es de ver la “constituição da estrutura enquanto elaboração da totalidade, que é o mundo, a sociedade”. Así es como puede ver en la dicotomía civilización-barbarie el esqueleto (la palabra que Candido usa es “arcabouço”) del Facundo, que será también el de Os sertões, de Euclides da Cunha,19 y ve – como Jitrik en Cambaceres – el modo en que un autor, una obra, una sociedad proponen una forma de indagarse y pensarse y de reflexionar sobre la realidad para tratar de entenderla. Jitrik ha visto en el par antinómico, “más que una fórmula feliz, un punto de partida constitutivo de la obra; recorriendo sus transformaciones la obra se incorpora y desnuda sus significaciones esenciales, esa afirmación de un conflicto real que define más que todos los esquemas la historia de mi país”.20

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Antonio Candido piensa el sistema literario entramado con lo social; y es precisamente la indagación de las modalidades, sentidos, direcciones y relaciones de esa trama lo que constituye el objeto de su crítica, y en particular el de su libro Literatura e sociedade. También trabaja la trama sincrónica poniendo la serie en relación diacrónica, esto es: interpelando el desarrollo histórico que construye una
Antonio Candido, “O significado de Raízes do Brasil”, p. 12. Noé Jitrik, “Para una lectura de Facundo”, p. 31. No hubo, entre Jitrik y Candido ninguna relación personal, como sí la hubo entre el brasileño y Ángel Rama, cuyas consecuencias intelectuales aborda con minuciosidad Pablo Rocca en su libro Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano, Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2006. Es precisamente en ese libro donde se cita una carta de Candido a Rama –de 1979– donde, en procura de personas interesantes que puedan ir a dar cursos en la Universidade de Campinas y entre los cuales da por sentada la inclusión de Rama, le menciona a Jitrik (p. 351). Cuando le comenté a Jitrik que iba a trabajar algunas relaciones entre sus propuestas críticas y las del brasileño, preguntándole si habían mantenido algún contacto intelectual concreto, dijo que no, pero que había un espíritu de época, que puede encontrar sus puntos de anclaje en el libro América Latina en su literatura, compilado por César Fernández Moreno en 1972, y en el proyecto de la Biblioteca Ayacucho que llevó adelante Rama en su exilio. Los textos argentinos de Jitrik y de Piglia que incluí en el trabajo (que podría extenderse a otro que también resulta determinante: “Una vida ejemplar: la estrategia de Recuerdos de provincia”, el texto de Sarlo y Altamirano que indaga el acceso de Sarmiento a los libros como una cultura de segunda mano), merecerían salir de una circulación exitosa pero restringida al ámbito académico para encontrar, tanto en la Argentina como en Latinoamérica, la consideración y la trascendencia que se merecen. Quiero recordar, además, que así como lo hice para los casos mencionados, puede también trabajarse la vinculación conceptual entre las propuestas de Candido y las de Adolfo Prieto, particularmente la de sus libros Sociología del público argentino, Buenos Aires, Levitán, 1956; y Literatura y subdesarrollo, Rosario, Editorial Biblioteca, 1968.
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tradición (como aquella a la que se refiere cuando trata la “de auditório”)21; pero también poniendo el foco en la línea consecutiva entre diferentes períodos, donde Candido – lo sabemos claramente ya por Formação da literatura brasileira – no busca el corte sino la continuidad, aun cuando se dé en la sucesión de propuestas diferenciadas, como sucede con su abordaje de la arcadia y el romanticismo. O cuando traza la serie que inicia o Uraguai, de Basílio da Gama, y se continúa con el romanticismo indianista y luego con Os sertões, en “Letras e idéias no período colonial”, también de Literatura e sociedade. Y, como se ve en el final de esa misma parte, cuando resume lo que ha venido haciendo, que es abordar las letras y las ideas del Brasil colonial (y los escritores más representativos y aprovechables, según un término que él mismo emplea), “segundo as grandes diretrizes que as regeram” porque así es como aparecen el orden y “certa coerência”.22 Como en otras tantas ocasiones, al final de este texto, Candido hace un resumen que, por un lado, tiene el afán didáctico que promueve toda repetición. Pero, por otro, se ve que nunca es una repetición sino que, antes que en un mero resumen, se convierte en una summa que vuelve a pensar más esquemáticamente lo mismo que ya ha desplegado (y cuando digo esquema no digo simplificación, sino claridad y síntesis). A veces, esa summa final se convierte en la síntesis de la síntesis, lo que se vuelve particularmente evidente en “A literatura na evolução de uma comunidade”, incluido también en Literatura e sociedade. Si ya el abordaje de movimientos (pensados frecuentemente como momentos) era un nuevo modo de síntesis conceptual de la historia de la literatura vista desde “suas relações com a comunidade”,23 ahora hay una nueva síntesis conceptual de la síntesis conceptual, que hace el esquema más teórico de lo que antes se abordó desde la crítica que hace historia o viceversa, o desde la historia que hace un crítico literario. Ahí ya casi no hay nombres o títulos (algunos de los cuales eran cifra de lo que venía estudiándose, como Oswald o Mário de Andrade o Macunaíma). Ahora, sólo la estructura (eso es un esquema que no es simplista) del desarrollo de la literatura en la historia y la comunidad paulista. Los esquemas no son ajenos a la forma didáctico-conceptual de la crítica de Candido. Recordemos uno de sus artículos más reconocidos, que se titula precisamente “Esquema de Machado de Assis” (en Vários escritos, 1970), que tiene por origen una conferencia dada en los Estados Unidos en 1968 y que está determinado por el imperativo de la síntesis, que le marca el tono. Es una síntesis que piensa, analiza, elige, organiza y ordena didácticamente, explicando, enseñando. Selecciona algunas cuestiones (la carrera intelectual de Machado, la excelencia de una obra que no trascendió fuera del Brasil) y aborda algunos puntos (como el arcaísmo machadiano que deviene moderno después de la experiencia de la

Antonio Candido. “O escritor e o público”. En: Literatura e sociedade. Idem op. cit. Literatura e sociedade, p. 107. 23 Idem op. cit. “A literatura na evolução de uma comunidade”, en Literatura e sociedade, p. 165.
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vanguardia), iluminadores también de lo que no aparece, de lo que no se analiza, como una muestra que enseña algo (o sea: que muestra y explica), a partir de lo cual, quien lee puede analizar lo que acá no ha entrado o no ha sido considerado de modo directo o exhaustivo. Ésa (y no la que tiene pretensiones enciclopedistas) es una didáctica bien entendida. Al margen de ese excelente servicio, no sería impensable que el tono de Literatura e sociedade nos suene ahora un poco arcaico, lo mismo que su diseño y estructura de exposición, que va organizando el material en cuadros (no necesariamente dibujados, pero conceptualmente distribuidos), donde diferencia – por ejemplo – factores internos y externos, enumera y trata brevemente diferentes abordajes sociológicos de la literatura y se esmera en dejar particularmente claras las diferentes funciones de la literatura: total, social o histórica e ideológica. Ese tono y ese orden pueden provenir, no sólo de su desempeño como profesor universitario, que es ciertamente constitutivo de su método crítico, sino que también podrían vincularse con la necesidad de hacer llegar, indicar, mostrar, señalar un nuevo modo de leer, de considerar una obra literaria y una literatura, y de hacer crítica. Al introducir un nuevo método crítico también hay que enseñar qué hacer y cómo hacerlo. En este sentido, Candido es consciente de que en Literatura e sociedade está incorporando y proponiendo aspectos sobre los que no se ha depositado atención antes. El libro aborda un problema que inicia una nueva línea, para la que no sólo no hay (o habrá que construir) una tradición sino que resulta novedosa y distinta, y – no es improbable – incluso perturbadora. Su didactismo se traslada claramente a otros campos y con gran poder de síntesis es capaz de reproducir los presupuestos básicos de su libro del 65 en el reportaje que le hace Beatriz Sarlo en 1980. Allí expone claramente, por un lado, las funciones (total, social e ideológica) de la obra literaria;24 por otro, el proceso estructurante que convierte aspectos sociales en una estructura de palabras que no es un documento sino una obra estética, que ya no es lo mismo que lo real (social o psicológico) porque está marcada por la mediación; e ilumina esto último, que es el objeto central de Literatura e sociedade, con lo que constituye el centro de su reflexión en “Dialética da malandragem”: “La fuerza de este libro [se refiere a Memórias de um sargento de milícias] no proviene de su carácter estrechamente documental, sino de su extraordinaria solución literaria. […] Si considero a la novela como texto documental tengo que admitir que es un fracaso completo”, porque no alude ni a la esclavitud ni a la transformación de la ciudad de Río de Janeiro. Es por eso también que, cuando Candido emprende el estudio del romanticismo, sin duda ya en la Formação da literatura brasileira pero de manera parti-

“La función ideológica del poema [es] la apuntada por su autor; […] la función social es la que se ejerce independientemente de la voluntad del autor; […] la función total […] sólo puede ser captada en relación con la concepción estética que dota de universalidad a la obra”. Aunque es el subtítulo de una de las partes de Literatura e sociedade, todos los artículos de Candido podrían ser considerados una “Exposição didática”.
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cular también en el análisis que hace del movimiento en Literatura e sociedade, puede entenderse que, más que una idea y panorama de un momento histórico cultural, lo que busca comprender es el modo en que una literatura piensa y se propone como sistema orgánico. El Romanticismo y el Arcadismo constituyen los “momentos decisivos” que el crítico elige analizar en su intento de cumplir con la escritura de una historia de literatura del Brasil: o sea, momentos en los cuales las manifestaciones literarias adquieren “características orgânicas de um sistema”; o, como agrega en Literatura e sociedade: los momentos “que mudam os rumos e vitalizam toda a inteligência”.25 Admitiendo que usa el término “período”, pero que ante todo prefiere dar cuenta de una idea de movimiento, en el sentido de pasaje y comunicación entre fases, como aclara en Formação, en Literatura e sociedade alternará con frecuencia entre los términos “movimiento” y “momento”, como se ve en “A literatura na evolução de uma comunidade”, que de entrada enuncia algo que no es la primera vez que se trata pero que se repite didáctica y concentradamente: las condiciones para que haya, antes que una literatura brasileña, una literatura. Si bien coincido con el propio Candido cuando destaca, entre los textos que componen Literatura e sociedade el que Sarlo y Altamirano elegirán para incorporar como apéndice en Literatura/Sociedad, “porque es una demostración práctica de los puntos de vista teóricos.26 “A literatura na evolução de uma comunidade” me parece fundamental porque permite ver perfectamente la relación y articulación entre literatura y medio social en el sentido establecido por los presupuestos del texto en el que se incluye. Pero sobre todo porque en él se organiza una historia de la literatura de la ciudad de São Paulo considerada desde el análisis de los agrupamientos que van evolucionando. Uso la palabra del título, aunque debe tenerse en cuenta que en Candido no implica una idea positivista del término; la uso en el sentido más cercano al de la palabra “desenvolvimento” en portugués para ver algo que se desarrolla, pero que en castellano sirve para pensarlo literalmente como lo que se desenvuelve, como quien dice que actúa o que se despliega, y no necesariamente que mejora. Aunque, en el análisis del último movimiento – el Modernismo –, gana la sensación de que algo de otro tipo se consigue, que a algo de otro tipo se llega, como cuando se obtiene un logro. No en sentido de perfeccionamiento sino de consecución. El Modernismo es uno de los momentos decisivos porque lleva el interés del grupo a la “sociedade total”, que es a su vez su “fonte inspiradora” y la que le marca los “límites de ação”. Lo que Candido traza en este texto es una breve historia (¿una pequeña historia, como quien dice una petit histoire?) de la literatura de São Paulo. Y, por debajo

25 Antonio Candido, Formação da literatura brasileira (momentos decisivos), Belo Horizonte - Rio de Janeiro, Itataia, 1993, vol. 1, p. 41; y Literatura e sociedade, p. 112. 26 Lo dice en el reportaje de Sarlo. También como apéndices al libro de los críticos argentinos entran el que ellos mismos escriben sobre Sarmiento al que aludí y el de Ángel Rama “Indagación de la ideología en la poesía: los dípticos seriados de “Versos sencillos”.

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de su apariencia simple, se desenvuelve (se despliega, pero también se alcanza) la profundidad de un abordaje que estudia de nuevo ciertos momentos de la literatura de esa ciudad poniendo el foco en los agrupamientos, lo que permite ver con claridad cómo una cuestión social se vuelve intrínseca a las obras literarias y de qué modo esa perspectiva y ese eje marcan un modo de hacer la (una) historia de la literatura. Así, nunca se trata de un panorama enciclopédico (uso la palabra “panorama”, cara a Ángel Rama que, si bien parecería no haberla tomado de Candido, como sí hizo con la idea de sistema, en este contexto puede ser considerada un derivado de esa misma idea de sistema, que es un conjunto de obras pero también la articulación entre autor-público-obra). En este caso, si hay nombres es porque aparecen como integrantes o emergentes del grupo en cuestión. Si se dan características del movimiento (que a veces se menciona como “momento”) es porque han sido pensadas en relación con el funcionamiento del grupo.27 De este modo, los momentos están caracterizados, antes que por fechas (aunque no se omitan), por la configuración de una secuencia organizada por conformaciones grupales para “sugerir o papel das formas de sociabilidade intelectual, e da sua relação com a sociedade, na caracterização das diferentes etapas da literatura brasileira em São Paulo”. Entonces, la periodización (tomado el término en un sentido laxo) no sigue el calendario sino los siguientes agenciamientos: “um grupo virtual”, “um grupo real”, “o grupo se justapõe à comunidade”, “a comunidade absorve o grupo”, “o grupo se desprende da comunidade”. Ese último momento es el que corresponde al Modernismo. Y aquí Candido da una de las más interesantes definiciones de ese movimiento que se inicia con la Semana da Arte Moderna de 1922. Definición que ayuda a resolver (o a asumir) las contradicciones que puede generar el Modernismo y a superar las incomodidades de las perspectivas críticas que intentan reducir el momento a una cuestión de clase, manifestado en un grupo cerrado de artistas con dinero, al considerarlo un movimiento nuevo que viene a darle a la literatura “amplitude ainda maior, fundando-a, não no gosto e no interesse de um limitado setor da sociedade, mas na vida profunda de toda esta, na sua totalidade” y que “faz da literatura um bem de todos”. Aquí se ve otra inflexión de lo social, que articula con sentido político una literatura y una ciudad: “Há uma história de la literatura que se projeta na cidade de S. Paulo; e há uma história da cidade de S. Paulo que se projeta na literatura”. Hay aquí una lectura profundamente ideológica de la literatura. Así como en la Formação da literatura brasileira, arcadia y romanticismo son los dos momentos decisivos, en Literatura e sociedade lo son romanticismo y modernismo, y en una afirmación que ratifica la

27 Algo del espíritu de los bosquejos – como los de Joaquim Norberto de Sousa Silva –, particularmente útiles para la conformación de las literaturas nacionales en la primera mitad del siglo XIX, pervive –me parece– en estas pequeñas historias de la literatura donde hay en juego, por parte del crítico, una misión de compromiso intelectual.

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perspectiva política, sostiene que ésos son “dois momentos em que a cidade se projeta sobre o país, e procura dar estilo às aspirações do país todo”.28 Aquí se ve, de manera ejemplar, lo que va del S. XIX al XX, como en la Formação se ve el del S. XVIII al XIX. Lo que podemos aprender de Formação es cómo hacer historia de la literatura sin ser abarcadores y exhaustivos hasta el enciclopedismo o el acopio de datos nimios. Lo que podemos aprender de Literatura e sociedade es, entre tantas otras cosas, cómo hacer crítica haciendo historia de la literatura e historia de la literatura desde una perspectiva crítica. Y cómo leer las obras en la historia y con la historia y no la historia en las obras como algo externo a lo que la obra sería ni como un precipitado documental. Como confirma Ligia Chiappini: “para esse crítico-teórico-historiador, não há crítica fora da história”.

3
La línea temporal del método compositivo de Antonio Candido es, como él pretendía que se admitiera para la historia de la literatura latinoamericana, múltiple y de diferentes ritmos temporales, y está evidentemente marcada por circunstancias específicas de la política brasileña.29 Por eso no está de más ubicar algunos de los textos que traté en una temporalidad política para pensar ciertas líneas de la producción intelectual de un crítico comprometido: Literatura e sociedade se publica un año después del golpe militar de 1964. Se publica en 1965, año en el que aun sin aludir a esta circunstancia de modo explícito, sintomáticamente Paulo Arantes se centra para encontrar un hilo conductor, un punto de condensación en su abordaje de la “formação da cultura filosófica uspiana” a través de la gestión cultural de un grupo de académicos que incluye al propio Candido y a su compañera, Gilda de Mello y Souza.30 Y si se tiene en cuenta que, además de la netamente ideológica articulación entre lo estético y lo social, el abordaje crítico dialéctico que empieza a tomar forma y a ganar contundencia en esos primeros ensayos de Literatura e sociedade aparece en dictadura, no resulta tampoco irrelevante el dato de que para el momento en que con la “Dialética da malandragem” alcance su más brillante y sintética formulación, el gobierno militar que no había sido del todo inflexible con las manifestaciones culturales ya había ajustado todas las clavijas luego del golpe dentro del golpe que se da a partir del Acto Institucional número 5, de diciembre de 1968.

Antonio Candido. Literatura e sociedade. pp. 165-167. Sobre las temporalidades múltiples en Candido, véase Flora Süssekind, “Relógios e ritmos. Em torno de um comentário de Antonio Candido”, en A voz e a série, Rio de Janeiro/Belo Horizonte, Sette letras/Editora da UFMG, 1998. 30 Cf. Paulo Eduardo Arantes, Um departamento francês de ultramar. Estudos sobre a formação da cultura filosófica USPiana (Uma experiência nos anos 60), Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994. Para un perfil político-académico de Candido, ver también Célia Pedrosa, Antonio Candido: a palavra empenhada, São Paulo, Edusp, 1994.
28 29

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Literatura e sociedade está compuesto, como dije que es usual en Candido, por textos que ya estaban escritos, a los que suma algunos especialmente pensados para integrar esa unidad. Por eso, si bien es un texto que acaba componiéndose, también es pensado como totalidad. Porque hay una totalidad conceptual que se urde en el montaje y la organización de las partes y que, a la vez, estructura el compuesto. Los artículos que van a dar a otros libros concebidos más explícitamente que éste como una “coletânea”, en su brevedad relativa también encierran una totalidad: pienso en “Literatura e subdesenvolvimento” o “Literatura de dois gumes”, para no volver a mencionar la “Dialética da malandragem”. Candido va escribiendo por focalizaciones parciales (que no deben considerarse fragmentarias, salvo que pensemos el fragmento, al modo romántico de la escuela de Jena, como un todo) una obra crítica que se recorta sobre una totalidad virtual. Cada focalización es, a la vez, una parte que integra ese work in progress permanente que es su obra, como totalidad en marcha y proyectual. Pero cada focalización puede ser vista, también, como una pequeña totalidad, epítome del modo de conjunto (y de la coherencia) que tiene esa obra. Leer la obra de este crítico brasileño no sólo sirve para conocer y pensar cómo funciona la literatura de su país. Nos sirve para ver cómo pensar también otras literaturas, como lo ha demostrado Ángel Rama en relación con algunas manifestaciones de la literatura rioplatense. Aparte del texto del uruguayo sobre “El sistema literario de la literatura gauchesca”, que puede filiarse de modo ostensible con la idea de sistema de Candido, creo que la articulación entre gauchesca e historia que hace en “De la poesía política popular a la poesía de partido: Hilario Ascasubi y Estanislao del Campo”, fundamentalmente al proponer las etapas de la gauchesca pero no sólo por eso, es – no con el mismo método crítico pero sí con los mismos eficaces resultados – una inteligentísima (y didáctica) articulación entre forma histórica y forma estética. Fuera de algunas consideraciones centrales pero breves, como la que ya trabajé en relación con Sarmiento, y algunas otras menciones a Jorge Luis Borges, Esteban Echeverría y Rafael Obligado (en “Literatura e subdesenvolvimento”) o a Cortázar (en “A nova narrativa”), Candido no se ocupó específicamente de la literatura argentina. Pero no sería para nada justo reclamárselo. Su obra sirve igual – y mostrarlo es una de las intenciones de mi artículo – para que nosotros podamos seguir pensándola. O para que encontremos en su obra nuevas posibilidades de abordaje. Para poder pensar, entonces, la dialéctica en la relación copulativa entre civilización y barbarie porque es precisamente en esa puesta en contacto (y, por ende, en fricción pero también en contaminación) que radica lo peligroso de la dicotomía que marca a la nación argentina. Juego dialéctico que pueden poner de manifiesto incluso en sus propias trayectorias y proyectos Alberdi y Sarmiento a partir de la polémica que mantienen en 1853, encarnando respectivamente los polos del orden y del desorden entre los que va oscilando la formación cultural y política de la Argentina.31

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La obra de Candido me permite entender incluso, aunque no sean explícitamente sus postulados los que lo hayan generado, que una Historia crítica de la literatura argentina como la que dirige precisamente Noé Jitrik pueda tener, junto con tomos que se ocupen de ciertos momentos –como una forma dinámica de la movilidad entre fases – dos tomos que no están pensados desde la idea de período sino de autor. Entonces, Sarmiento o Macedonio Fernández (que de esos tomos se trata) pueden ser pensados como momentos decisivos de la (historia de la) literatura argentina.32 Lo que en Literatura e sociedade plantea Candido respecto de la “tradição de auditório”, formada por una literatura que fundamentalmente se oye o se hace oír (“A grande mayoría dos nossos escritores, em prosa e verso, fala de pena em punho e prefigura um lector que ouve o som da sua voz brotar a cada passo por entre as linhas”)33, también sirve para pensar ciertas manifestaciones de la gauchesca, como los papeles de Hilario Ascasubi que se hacían circular entre los soldados durante el Sitio de Montevideo y, por supuesto, también la lectura en voz alta que se hace del Martín Fierro en la campaña para servicio de los iletrados. Pero también le es aplicable perfectamente a la gauchesca lo que Candido piensa para el indianismo cuando desmiente de modo rotundo a Capistrano de Abreu, quien filia el indianismo con lo popular, para afirmar terminante que “[a] sua raíz é erudita”. Y si, como fui proponiendo, el pensamiento crítico de Candido puede ayudar a pensar de nuevo la relación entre realidad y ficción y la articulación entre contrarios, es necesario marcar que no sólo es posible volver desde ahí a Sarmiento, a quien Candido ha colocado en un lugar central, sino también a Jorge Luis Borges, con cuyo proyecto estético ha admitido no sentir particular afinidad: “É um escritor fascinante, mas devo dizer que não tenho por ele a admiração quase fanática que despertou no Brasil. Com risco de dizer uma heresia, penso que é um grande escritor menor”.34 Sin querer yo misma pecar por herejía pero tampoco por exceso de devoción, quiero proponer que tal vez sea precisamente Borges el escritor en el que mejor puedan pensarse las propuestas de Candido de superación del 2 por el 3 o las consideraciones dinámicas y sintéticas de las díadas y polarizaciones que han sido modos de indagación estructurales de la literatura desde por lo menos el siglo XVIII, como se ve en los cuentos “El Sur” o “Historia del guerrero y de la cautiva”. Porque Borges entendió bien que el problema más interesante que debía plantear no era el de la exclusión sino el de la combinación de los contrarios.
31 Trabajé la relación de las trayectorias y proyectos de los dos argentinos desde la dialéctica de Candido en mi tesis de doctorado sobre “La literatura del exilio en el Brasil en la época de Rosas”, defendida en la Universidad de Buenos Aires en 2006 (en prensa). 32 La Historia crítica de la literatura argentina, que empezó a ser editada por Emecé en Buenos Aires en 1999, está compuesta por doce volúmenes, de los que ya han salido siete. La dirección general es de Noé Jitrik y cada tomo tiene, a la vez, un director. 33 Antonio Candido. Literatura e sociedade, p. 81. 34 Reportaje de Pablo Rocca a Antonio Candido, en Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal y el Brasil, p. 420.

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A reflexão literária e polítiCa Como aCumulação

salete de almeida Cara
Universidade de São Paulo

Resumo
O volume Brigada ligeira, publicado em 1945, é a primeira obra de Antonio Candido e reúne dez dos textos dentre os que ele publicou como crítico literário (ou “crítico titular”, o termo da época) do jornal Folha da Manhã, entre 1943 e 1945, quando ainda era professor de Sociologia da Universidade de São Paulo. A hipótese é a de que esses rodapés funcionaram como um patamar para a construção do seu método crítico, que irá se especificar dali em diante, com desdobramentos que não se circunscrevem apenas à obra do próprio crítico.

Palavras-chave
Crítica literária; Prosa de ficção; Forma; Conteúdo; Acumulação

Abstract
The volume Brigada ligeira, published in 1945, is Antonio Candido’s first work and gathers ten texts among those published by the author as literary critic of the newspaper Folha da Manhã between 1943 and 1945, when he was still Sociology professor at the University of São Paulo. The hypothesis is that these reviews functioned as a platform for the elaboration of his critical method, which would subsequently be refined, with consequences not restricted to the critic’s own work.

Keywords
Literary criticism; Prose fiction; Form; Content; Accumulation

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“Para tudo isso, o crítico não dispõe de nenhuma faculdade extraordinária – como levantar as tampas dos crânios ou farejar o princípio dos princípios. [...] O que ele dispõe, como toda gente, são cinco sentidos e mais um pobre cérebro. Por eles tem de passar tudo o que vem do mundo – das coisas, dos homens e dos livros”. (Antonio Candido, 1943)

uando Antonio Candido recebeu o Troféu Juca Pato, em 20 de agosto de 2008, fez um discurso de agradecimento sem meias palavras, lembrando sua atuação na Associação Brasileira dos Escritores e, a partir de 1943, como “crítico titular” da Folha da Manhã (hoje Folha de S. Paulo), os promotores do prêmio. Referindo-se a si mesmo como um “intelectual bem antigo, bem fora do tempo”, um “espírito talvez obsoleto de velho intelectual participante”, ele reverteu vigorosa e ironicamente qualquer postura reverente e embalsamada que poderia caber frente a um homenageado que carregasse, sem tino crítico, os traços simples de um universalista, de um nacionalista ou de um humanista de boas intenções.1 Naquela noite na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, atando o presente à experiência do passado, Antonio Candido respondeu aos que costumam vê-lo “como alguém preso a uma visão de tipo teleológico da história e do pensamento”, ou como “crítico ‘ilustrado’, devidamente entre aspas”, segundo afirmou. Não se tratava de ignorar, em 2008, o baque sofrido pelas posições socialistas, nem de repetir a confiança ainda possível depois de 1930, quando a industrialização prometia e os opositores políticos, no Brasil e fora dele, podiam ser distinguidos com clareza. A assumida fidelidade à tradição humanista ocidental – “devo esclarecer que, ao contrário do que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio” – e a renovação da boa aposta na capacidade de aperfeiçoamento do homem e da sociedade, no rumo de melhores “condições sociais econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica” – uma força integradora, não apenas nacional, mas internacional – só ganha sentido no reconhecimento de que “o tempo presente parece duvidar e mesmo negar

Q

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O discurso pode ser lido em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3118896-EI6581,00.html.

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essa possibilidade”, e de que é preciso agir para “impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade”. De modo que a aposta pressupõe um horizonte de transformação profunda da “nossa sociedade desigual e mutiladora”, donde a renovação das convicções socialistas. Em 2008, admitida a derrota geral, ele mantém a antiga intenção de escapar dos conservadorismos antimodernos e anti-ilustrados e, sem que as nomeie, leva a pensar nas atitudes presumidamente transgressoras que, no entanto, replicam hoje a relevância meramente discursiva dos defensores das diferenças, que preferem dissentir sem consequências. Nesse passo, os anti e os pós-modernos dão-se as mãos para procurar singularidades, sem questionar o fundamento das desigualdades no atual estágio capitalista de integração excludente. E já que o tema das desigualdades e diferenças foi encampado como assunto midiático, é preciso desconfiar quando ele se torna objeto preferencial. De fato, falar em socialismo até parece coisa bem antiga, bem fora do tempo. No entanto, a ratificação dos propósitos de Antonio Candido, em 2008, responde mais uma vez ao tempo presente e esclarece que o compromisso com a vida contemporânea sempre foi um dos eixos e uma das lições decisivas do seu método crítico. A lembrança do seu aprendizado de leitor de literatura nos rodapés da Folha da Manhã, quando ainda era assistente de Sociologia na Universidade de São Paulo, pode atar as pontas de um percurso que, desde sempre, não se embebeu em falsas ilusões nacionalistas e nem perdeu a chance de usar um instrumento formal próprio ao romance moderno, a ironia, para desmontar a também falsa ilusão de precedência do umbigo sobre o mundo, traço universal de classe. Um “esforço para esclarecer os acontecimentos presentes” – tal foi a divisa com a qual se apresentou aos leitores de jornal, em 1943. É bom lembrar que logo mais, em 1945, o apelo ao “retorno à ordem” na poesia, em oposição à liberdade formal modernista, não pode ser dissociado de uma posição política conservadora, vinculada ao interesse em ocupar o espaço público sem constrangimentos ou enfrentamentos ideológicos. Ao contrário, o movimento crítico de Antonio Candido não perde de vista que a autonomia imposta pelo processo de modernização ao lugar ocupado pela arte se dava, aqui, nos termos da dupla herança – em processo, repito – de formas modernas mescladas à tradição paternalista-colonial. A convivência entre liberdade crítico-formal, de extração modernista, e os entulhos pré-modernos da nossa formação serão repostos de modos diversos, todos eles problemáticos e não pelas mesmas razões. Por isso mesmo, ao invés de descambar numa mera questão de estilo literário, a tensão da autonomia literária vai impor ao crítico uma concepção mais exigente de método que, no caso brasileiro, começa a ser esboçada nos anos 40, como se verá, e com alcance não apenas nacional. Por enquanto, anoto que a percepção da mescla entre moderno e pré-moderno, nos rodapés daqueles anos, vem da sua decisão de manter um pé na his-

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tória e nas condições efetivas do presente, e outro no tratamento literário que os romances lhes conferem. O crítico não finge revelar o que já está dado na própria realidade, e tampouco despreza as revelações trazidas pelas tentativas e resultados, bem ou mal sucedidos, de elaboração formal dos materiais do tempo. E os rodapés assumem um lugar sem condescendência nem paternalismo com o leitor, ainda que o jornal lhe fizesse “procurar clareza e simplicidade na escrita”, como falou no discurso do Prêmio Juca Pato. Desde o início, a prosa de Antonio Candido é límpida e complexa. Na sequência do esforço modernista para transformar em rotina as reflexões sobre o Brasil, que implicou nos anos 30 um maior planejamento das instituições (e incluiu a criação da Universidade de São Paulo), Antonio Candido assume falar de um lugar de classe, mas na contramão de qualquer “ilusão ilustrada” (que, de resto, será seu assunto na tese de doutorado sobre Sílvio Romero, escrita entre 1944 e 1945) e de qualquer pretensão de superioridade. Para isso foi decisivo o clima de reflexão incentivado por uma universidade ainda distante do processo de especialização no qual ela também embarcaria mais tarde. Naquele momento, ainda estava longe de tomar como modelo o que Russell Jacoby, ao tratar da universidade americana, reconhece como o “capitalismo acadêmico” que ali se desenha desde os anos 20, mesclando política de financiamentos, privatização, despolitização e produções críticas escritas para seminários e não para serem lidas e que, por isso, necessitam de uma “literatura secundária” de comentadores que as expliquem e roteirizem em outros livros ou compêndios.2 Brigada ligeira, o livro de estreia de Antonio Candido, reuniu em 1945 textos escritos em 1943 e 1944, quase todos sobre romancistas que acabavam de lançar seus livros. Oswald de Andrade, José Geraldo Vieira, José Lins do Rego, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Cyro dos Anjos. Fernando Sabino, Clarice Lispector, Rosário Fusco e Georges Bernanos – escritor francês que viveu no Brasil entre 1938 e 1945. No conjunto, os dez rodapés mostram como a consideração dos condicionamentos sociais que presidem a fatura dos romances traça os fundamentos de uma ordem mais ampla, a partir dos seus resultados literários inevitáveis. Antonio Candido situa esses rodapés que escreveu como crítico titular do jornal nos anos 40, cargo para o qual foi indicado pelo companheiro da “geração de Clima” Lourival Gomes Machado, no âmbito da militância contra o Estado Novo, que integrou desde 1942, depois do “movimento armado” de 1930. Eles eram “cinco ou seis laudas tamanho ofício a dois espaços sobre os livros da hora”, entregues semanalmente. Ao republicar alguns deles, sugere que possa ter “politizado talvez um pouco demais a minha atividade crítica”. O que esses

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Cf. Jacoby Russell. Os últimos intelectuais. São Paulo, Edusp/Trajetória Cultural, 1987, p. 180.

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primeiros rodapés podem ensinar sobre a tarefa de um crítico participante, a partir do contexto brasileiro, pois é disso que se trata?3 Já que uma posição política, por melhor que seja ela nos termos do seu tempo, não é suficiente para construir um método crítico, é preciso verificar de que modo essa posição estava contida no compromisso com a vida contemporânea, mas, sobretudo, como o compromisso político implicou um senso agudo das particularidades das formas e conteúdos dos “livros da hora”, examinados à luz do andamento de impasses não apenas nacionais. Por esse caminho, Antonio Candido considerou a atividade crítica, desde 1943, um “instrumento de conhecimento”. Seguindo à risca o chamado feito pelo crítico em janeiro de 1944, lembro que “o mundo não é só doutrina, há a passagem, sempre grave e decisiva, da teoria à prática”. Passar da teoria à prática significa acompanhar de que modo o crítico lidou com as forças libertárias e as forças reacionárias “tão vivas dentro da literatura”. Em 1944 ele sinaliza os riscos em falar em “estilo de época”, segundo uma visão orgânica que pressupõe a inexistente sincronia entre expressão literária e situação político-social, e que se aferra a aparências que podem levar, erroneamente, a dar mais atenção “aos fenômenos de condicionamentos do que à própria obra condicionada”. Na sequência, ele se opõe também à visão hegemônica norte-americana da obra literária como um “organismo” e, nesse sentido, totalmente independente de determinações extraliterárias. Desenha-se aí uma posição crítica de largo fôlego, que tem seu lugar histórico e que, como ele mesmo afirma, levava em conta uma necessidade da própria situação brasileira. Por isso não pode deixar de considerar, ainda que de modo implícito nas leituras e, sobretudo, no conjunto delas, que a contradição é, entre nós, um dado permanente da rotina. Ao publicar a coletânea de rodapés, ele não altera nenhum dos antigos pontos de vista ainda que, “razoáveis” naquele tempo, possam ter sofrido “o desgaste de quase meio século, tornando-se nalguns casos erros de conceito e avaliação”, como se lê no prefácio de 1992. Trata-se agora de retomá-los, numa leitura que não tem essa avaliação como medida ou pressuposto, ainda que possa por vezes concordar com ela.

3 Vinicius Dantas lembra que a crítica de rodapé de Antonio Candido é marcada por questionamentos e autorretificações – uma “crítica funcional”, como ele dizia – e, reconhecendo que o interesse mais propriamente literário, a partir de 1945 no Diário da Manhã, vinha se opor à politização simplificadora do debate, reconhece também que, “contrariamente ao que diz o próprio Antonio Candido”, “as duas fases de seu rodapé crítico são atravessadas pelo mesmo esforço crítico-teórico de especificação da matéria social, pelo mesmo cuidado de articular cada elemento particular de uma obra à sua significação total. Se insistiu no começo, com veemência e algum esquematismo nas motivações condicionadoras das obras, é raro que as trate como produto de fatores externos, subestimando a autonomia artística delas; mesmo na hora funcionalista mais ardorosa (a fase da Folha da Manhã, em que fez julgamento francamente ideológicos, a representação sempre significa para ele plasmar a matéria social, inventar tanto quanto reproduzir”. (In: Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 2002, p. 17).

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Meu interesse será menos avaliar os passos desses juízos em cada um dos ensaios, e mais tentar apreender o movimento geral que os preside. Há nele a aventura singular de uma crítica que apanha a experiência do tempo, exposta pelos percalços da prosa de um romance que, nos inícios dos anos 40, procura seu lugar num contexto de especialização do trabalho intelectual, e de uma experiência político-social atribulada, a exigir participação dos intelectuais. Ao mesmo tempo, o crítico afrontava o desinteresse mais geral do leitor pelas contradições da nossa vida social, num âmbito de debates ideologizados e de uma compreensão tradicional da obra literária, fosse como produto meramente estético ligado à ideia de Belo e a sentimentos de harmonia, fosse como produto no qual se pudesse aplicar preceitos e regras, independente de quando e onde ele tivesse sido escrito e lido. Por isso foi fundamental que seu método não dependesse unicamente de princípios gerais e se armasse de uma decisiva noção da historicidade das formas, capaz de abalar certo conceito de estético impotente para operar os seus próprios limites históricos. Explico melhor: chega a espantar que não haja pregação estética naqueles rodapés, mas exame atento dos objetos, atitude crítica que reforça um princípio crítico realista e faz com que os próprios romances forneçam os termos dos problemas que expõem (nem sempre como sinônimo de bom resultado literário), e que o crítico apresenta aos leitores. O texto com que abre seu trabalho semanal na Folha da Manhã em 1943, “Notas de crítica literária”, formula a questão nos termos dos debates do momento. De um lado, o crítico se opõe ao que seria uma “crítica científica”, que teria intenções de chegar a “fórmulas aplicáveis ‘objetivamente’. O que ele chama “monstruosidade”, e onde reconhece “um dos muitos pedantismos criados pela pretensão dos homens de letras”. De outro, se opõe à crítica impressionista, concebida como “uma aventura da personalidade, um passeio através das obras e dos autores com o intuito exclusivo de penetração e de enriquecimento pessoal”4. Finalmente, ele adere à ideia de que a tarefa do crítico seria a de procurar encontrar o “sistema de relações” que prende a obra “ao seu momento e a posição dele, leitor, entre ambos”. Ainda neste artigo de abertura da coluna, Antonio Candido expõe uma preferência que merece atenção, e diz respeito à sua escolha do “crítico partidário” e não do “eterno disponível” – disponibilidade intelectual e não emocional que, sob pretexto de evitar sectarismos, “é positivamente uma falta de caráter (não no sentido moral, está visto, encore que...)”. A expressão em francês reforça ironicamente seu juízo. Torneios de época, que Antonio Candido fez questão de preservar para “manter o ar do tempo” e dar a ver um “hábito provinciano e colonizado que naquela altura ainda existia”, como conta no prefácio à edição de 1992 de Brigada ligeira, onde chama os

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O texto está publicado em Vinicius Dantas, op. cit., pp. 23-30.

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rodapés de “artigos frequentemente bisonhos”. Um ano depois, revendo o texto de abertura e os rodapés, não lhe resta senão concordar com o que tinha proposto na abertura de “Notas de crítica literária” e formular mais algumas lições de método. Ao responder aos amigos que teriam observado um certo exagero no privilégio que conferia ao condicionamento da obra em detrimento do que seria sua essência, pondera que “numa obra não há essência, porque uma obra é um lugar (sentido geométrico) de influências e de ressonâncias – da época, das condições sociais e da psicologia do autor”, opondo-se à posição de fundo católico, defendida por Álvaro Lins. E continua, num trecho também marcado pela ironia que merece reflexão, pela força com que, lidando com posições do tempo, alcança posições críticas nossas contemporâneas que, de outros modos e por outros meios, mantém o recorte essencialista: “Arriscando amarrotar os vincos em que se comprazem os cérebros espiritualistas, direi que dura aquilo que é condicionado: descobrir aquilo que condiciona é explicar a razão e a natureza do fenômeno da duração artística – embora seja mais estético e mais profundo aceitar o incondicionado, o que importa na hipótese, para mim inadmissível, da transcendência dentro da criação”. 5 Por isso sua aposta na formação do moderno romance brasileiro implicou a consideração dos momentos mais fracos, das “irregularidades” e dos “altos e baixos”, analisados no âmbito dos projetos particulares de prosa, e sempre numa visão de conjunto com a realização dos contemporâneos, nacionais e estrangeiros. E implicou também a valorização da produção média, a exemplo de um Érico Veríssimo, com passos firmes na direção de um maior número de leitores,ou de um Jorge Amado. Se Jorge Amado e José Lins do Rego nada devem “aos múltiplos Steinbecks de todos os hemisférios”, todavia ainda lhes falta “a capacidade de fazer da língua um instrumento de pesquisa e descoberta”.6 O esforço aplicado e competente de contar a vida “como elas nos parece”, de modo novelesco, é visto como faca de dois gumes que, no entanto, não pode ser desprezado “num país em que as elites de toda a espécie se separam decididamente do povo”. Ou que compensam a falta de base sólida e o que tem de relativo “por uma consciência exagerada da própria dignidade”, cultivando a mania de “decretar e revogar decretos literários”. A hipótese que proponho é ver os rodapés como patamar de um processo de acumulação que se deu não apenas no interior da obra do próprio crítico. E que, para isso, contou com a força de uma negatividade crítica que revela e problematiza seus objetos. Se alguns romancistas estavam cumprindo uma nova etapa da antiga função civilizadora da nossa literatura, o campo literário era no entanto diversificado, e

Idem, op. cit., p. 32. Cf. “Romance popular” e “Uma tentativa de renovação”, In: Brigada ligeira. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2004, 3ª edição revista pelo autor.
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nele cabia também um romance como a “Quadragésima porta”, de José Geraldo Vieira, cuja atmosfera “não foi perturbada pelo movimento renovador de Trinta”. Ele então é lido na chave de sintoma, com seu aristocratismo e “esteticismo catolizante” funcionando, no conjunto das outras publicações daqueles anos, como dissonância reveladora. Nenhum interesse pelo gosto do público, nem pelo tempo presente, nem pelo país. Destaco a leitura deste romance de caráter indiscutivelmente conservador, escrito num tom que parecia superado mas que, estando na lista das publicações de 1943 e nas páginas da Folha da Manhã, por certo correspondia a uma atmosfera mais generalizada do que pontual, alcançando também seus leitores.7 O ensaio, de notável humor e irresistível ironia, dá conta de uma presença que ainda estava lá, na narrativa e na vida, a do pretenso aristocratismo do intelectual cosmopolita, deslumbrado com a Europa, estrangeiro no próprio país, vindo de uma camada social que tinha pesado “na orientação política, artística e literária do Brasil, no período que vai do encilhamento ao crack de 1929”, consumidor de importados de toda a sorte, “em equilíbrio instável sobre uma economia semicolonial”. E dá conta das “artimanhas da consciência reacionária” frente às questões sociais. Elas valem ainda hoje, com figurino atualizado. No romance, um “cortejo de tabus” – “supremacia do Espírito”, “redenção moral pela Arte”, “predominância das elites cultas” – comanda o desfile de personagens, cujos problemas na vida “são sanados graças ao numero respeitável de ações nas grandes companhias internacionais”. Por isso tem-se “um despotismo de belas almas. Belas almas por todo o lado”, e um “Umbigo maior que o Mundo” (sem que, no entanto, ele fosse o do Príncipe Kropotkine, anota com ironia). Usando para o próprio autor o pressuposto exposto para uma personagem – “a posição material no mundo há sempre de [lhe] pedir as contas e traçar diretrizes” –, é na posição do primeiro diante da Revolução Russa de 1917 que o crítico vai buscar as diretrizes do romance, que conferem a uma personagem, no seu retorno daquele país, a condição de “assumir um ar de devaneio compreensivo quando se falar à mesa dos problemas sociais. E, sobretudo, comprou um direito inestimável: o de, justificadamente e sem remorsos, continuar voando nos seus aviões de motores poderosos e jogando golfe em Arcachon”. O crítico faz questão de sublinhar a falta de solidariedade entre essa burguesia internacionalizada, de mobilidade espacial e relações sociais com intelectuais e artistas do mundo, e as figuras populares que comparecem apenas como funcionários e empregados domésticos. O único pequeno proprietário é enganador, picareta e grosseirão. A leitura crítica mostra o tratamento formal que alegoriza (no mau sentido) os grupos politicamente antagônicos, transformando as opções políticas em problema transcendental de escolhas humanas, e usando as personagens ao bel-prazer de uma posição intelectualista e de classe.
7

Cf. “O romance da nostalgia burguesa”. In: Brigada ligeira.

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Ao final, consentindo qualidades, a despeito do malogro minuciosamente apontado na conjunção entre o melodramático e o ridículo dos traços, acredita ainda que o romance poderá permanecer, mas deseja “ardentemente que nunca mais sejam possíveis no Brasil obras semelhantes e classes que as tornem viáveis e significativas”. Uma avaliação que, por certo, diz respeito a uma cidade letrada brasileira que não corresponde à escolha do crítico. Como terá entendido a graça irresistível desse rodapé e essa avaliação final aquele leitor que lhe escrevera uma carta, depois de ter lido “Reflexões a lápis rosa”?8 Os resultados do encontro dos escritores com seus assuntos são tão problemáticos quanto uns e outros, escritores e assuntos. Sem esquecer os leitores. Para o crítico que procura esmiuçar o peso conferido às experiências individuais no movimento geral da sociedade, construindo sua reflexão em torno do tratamento literário das condições do sujeito no mundo em uma “época de crise”, voltada para uma exacerbação personalista, também o senso da composição, a “capacidade ordenadora do escritor” em relação ao material configurado na trama como “lugar histórico” de cristalização de estruturas, a relação do narrador com aquilo que narra e a composição das personagens contam uma história, também tem o que dizer. Para chegar a Jorge Amado, por exemplo, ele traça um painel em que distingue o romance escrito para a classe do romance de classe que, no entanto, seria capaz de distanciamento crítico e interesse pelas questões populares. E o jogo de planos que sustenta Fogo morto, a maior obra de José Lins do Rego, ao configurar as personagens tal como o exige a própria natureza do seu assunto – decadência e transição social –, escapa do intelectualismo de Marco zero de Oswald de Andrade e do romance de José Geraldo Vieira.9 Um intelectualismo que, na sua abstração, pode ser encarnado também pelo interesse “do mistério pelo mistério” de um escritor surrealista no Brasil (no caso, Rosário Fusco), transplante que o crítico avalia como diluição, pois aqui o surrealismo seria antes técnica e “ginástica mental”, ao simplesmente adotar aquilo que, na experiência europeia, era sintoma da crescente dissociação entre as ideologias burguesas e sua significação social. Naquela altura dos anos 40, mesmo na Europa, a repetição de processos técnicos surrealistas já era usada como sinônimo de puro relativismo, “num mundo livre de contingências”, e não

8 Como exemplo curioso dos enganos – voluntários ou não – quanto ao lugar de onde o crítico escrevia, remeto ao comentário do crítico sobre uma carta que teria recebido de um leitor que,“tomando ao pé da letra o estilo indireto e irônico das “Reflexões a lápis rosa”, o acusou de clerical e integralista! Essas são as informações de Vinicius Dantas sobre o artigo: “é um rodapé publicado dois meses antes, no qual Antonio Candido comenta uma História universal para uso dos ginásios, escrita por Irmãos Maristas, usando a carapuça de um reacionário para sublinhar a empostação anti-iluminista e antimoderna do livro” (In: Textos de intervenção. Seleção, apresentação e notas de Vinicius Dantas, op. cit., p. 36). 9 Cf. “Poesia, documento e história”, sobre Jorge Amado e “Um romancista da decadência”, de José Lins do Rego. In: Brigada ligeira.

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corresponderia a nenhum esforço de experimentação. Esforço que, entre nós, mal ou bem, ainda podia participar de uma tentativa de superação do atraso na trilha do Modernismo.10 É esse esforço que ele vê em Clarice Lispector, que integra uma das linhas de força dos escritores frente aos desafios do projeto moderno brasileiro, naqueles anos 40. A “tentativa de renovação” de Clarice Lispector vem depois de Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade e de Macunaíma, de Mário de Andrade. Uma outra linha viria do tratamento, sem lirismo, conferido pelo romance de 30 ao homem do campo, integrado como “massa dominada”. Problema que estava longe de ter sido resolvido na vida prática, como lemos no rodapé sobre Jorge Amado. Escrevendo sobre Clarice quando ela acabava de publicar seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, a língua será tomada como mediação material de uma experiência social, que também nela se acumula. “Como é sabido, uma das tragédias de quem escreve em português é o fato da nossa ser uma língua, a bem dizer, ainda não suficientemente polida pelo pensamento”. O processo comum de formação da língua e da sociedade arma um campo histórico e intelectual deficitário – filósofos retóricos e literatos sentenciosos. “No ensaio e na reflexão, é preciso reconhecer que somos pobres, paupérrimos.” A aventura desassombrada da escritora na descoberta do cotidiano dependeu de ter forjado um instrumento de expressão inalienável dessa experiência: “os vocábulos são obrigados a perder o seu sentido corrente para se amoldarem às necessidades de uma expressão muito sutil e muito tensa, de tal modo que a língua adquire o mesmo caráter dramático que o entrecho”, ele observa, mostrando que é assim que a personagem recusa “violentamente a lição das aparências” e luta “por um estado inefável”. Mas, com Clarice, a aventura do sujeito nada tem a ver com o umbigo satisfeito: ela expõe limites e ilusões de uma consciência atilada e irremediavelmente apartada do que pensa querer alcançar.11 Como o crítico admite, talvez tenha sido Oswald de Andrade, no que escreveu entre 1922 e 1943, que colocou à prova, mais do que todos, o seu modo de observação da obra e de suas determinações sociais e pessoais. “O sr. Oswald de Andrade é um problema literário.” Três fases misturadas, uma evolução contraditória, mudanças no percurso, cronologia das publicações como pista falsa, “atitude católica e pós-parnasiana” de antes de 1922 aparecendo nos romances de 1935 e de 1943, A escada vermelha e A revolução melancólica, a coexistência da sátira feroz de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1935) com o “rompante gongórico” da primeira versão da Trilogia do exílio. O que fazer com tudo isso, a não ser acompanhar o rumo das contradições?12

Cf. “Surrealismo no Brasil”. In: Brigada ligeira. Cf. “Uma tentativa de renovação”. In: op. cit. 12 Cf. “Estouro e libertação”. In: op. cit.
10 11

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O método de leitura adotado pelo crítico é uma sugestão de A revolução melancólica, que o crítico lê no calor da hora um tanto decepcionado, e aguardando os volumes seguintes do ciclo Marco zero. A técnica pontilhista não dá conta da amplidão do assunto, da intenção de “afresco social” e de “romance mural”. Da manutenção dos recursos de síncope narrativa “resulta apenas um panorama detalhístico, do qual não ressaltam a unidade e a largueza desejadas”, ou seja, a totalidade multifacetada se esvai nos retalhos recortados pela “técnica miudinha”, independente da força do assunto que fica abafada: a Revolução de 1932 e a burguesia em plena crise do café à véspera da revolução, com todos os seus participantes sociais, sem “possibilidade dialética de ultrapassar as fraquezas, vencendo-as num desenvolvimento fecundante”. Assim, “na poeira de suas pinceladinhas, o sr. Oswald de Andrade vai largando tinta de muitas cores”, incluindo a redução da psicologia a detalhes pitorescos. E o valor documentário, que também existe, fica secundário. A providência de um método crítico sugerido ao crítico pelo próprio romance será, portanto, a de distinguir soluções técnicas (ou artifícios) de formas literárias que possibilitem conhecimento, e entender essas mesmas soluções técnicas ou formas como constitutivas de seus conteúdos, como significativas elas também. Como, muitas vezes, os conteúdos são reprimidos em “lugares-comuns morais e intelectuais”, o procedimento exigido pelos romances confirma a condição problemática do escritor e de suas narrativas. Tomada a decisão, ela é um ovo de Colombo que se completa quando o crítico dá mais uma volta ao parafuso, relacionando a “evolução moral e mental” do escritor com “a transformação social do país”. Por isso, apesar dos resultados formais do par Miramar-Serafim, que tem no primeiro romance do par “um dos maiores livros da nossa literatura”, o esteticismo burguês do escritor dá apenas uma trégua, e os valores provisórios que adota ficam a espreitar entre um romance e outro. Deixo para o final o rodapé sobre O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos. Antonio Candido faz questão de retomar um romance publicado mais de cinco anos antes, em 1936, percebendo que na narrativa em primeira pessoa, que nos punha diante de “um burocrata lírico” fraco e infeliz, havia um movimento em falso. No romance formalmente cavado pelo autor, Belmiro vive vicariamente pela escrita e é jogado pela sensibilidade entre “arquétipos” do passado, que a memória não consegue redimir, e o presente insuficiente. Mas a evasão é também a fonte de seu equilíbrio. “Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação”, diz o amanuense (a citação é do crítico). A “solução intelectual” desse Belmiro é uma deficiência (“é um candidato ao ceticismo integral e à imobilidade através do relativismo”), que o crítico debita na conta dos “efeitos da inteligência” e do conhecimento, mas resgata pela tensão que está posta entre o lírico (“que quer se abandonar”) e “o analista dotado de humour”. O burocrata lírico, como se vê, está esgarçado entre a ordem do

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mundo e a vida poética, entre o passado provinciano e a sofisticação intelectual – e “tais desnivelamentos”, ele mesmo acredita, “sustentam o equilíbrio”. O impulso apaziguador da inteligência, sendo reconhecidamente falso, leva o crítico à pista de uma “conspiração geral” da sociedade e “dos poderosos deste mundo” para “belmirizar” o intelectual e reluzi-lo a um “desfibrado pela prática cotidiana da introspecção”. E o crítico retoma o motivo que organiza Brigada Ligeira, herança das reflexões marioandradinas, a saber, o das relações entre a experiência individual e aquela “sociedade organizada”. Ou como diz em outro momento, o romance mostra as “perspectivas desoladoras e paralisantes” do intelectualismo pequeno-burguês. “Coisas em que a gente se põe a matutar...” Em 1964, quando Roberto Schwarz retoma O amanuense Belmiro, localiza ali uma “significação dramática” para além das personagens (Belmiro versus o pai fazendeiro) e até dos próprios fatos (o fim do mundo rural), os primeiros referidos ao mundo coletivo que os segundos circunscrevem, sendo a narrativa de Belmiro, nesse âmbito, uma tentativa de chegar à vida sem levar em conta, no entanto, a própria vida. A convivência em Belmiro daquilo que, em princípio, deveria estar em campos opostos (“o democratismo e o privilégio, o racionalismo e o apego à tradição, o impulso confessional que exige veracidade e o temor à luz clara”) dá em pasmaceira, que não leva a lugar nenhum, mas é recompensada pelas “puras e melhores emoções” (segundo Belmiro, citado por Schwarz). O crítico observa um “equilíbrio difícil” entre o que é socialmente determinado nas evocações de Belmiro e o que falta para caracterizar, de modo mais pleno, suas limitações. Ao explicitar a relação entre a situação pessoal de Belmiro e a paralisia social, pela contaminação entre privilégio rural e privilégios da burocracia urbana (“Belmiro passou do mesmo ao mesmo”), Schwarz sugere que o viés lírico – a perspectiva do burocrata – desenha o peso de um passado ainda vivo e é mediação de uma continuidade histórica a ser matutada. Dado o passo decisivo, a narrativa em primeira pessoa de Belmiro fica à espera de ser ainda mais cavada. Até mesmo porque com o golpe militar de 1964 (e seu desdobramento em 1968), o conservadorismo brasileiro levava a melhor e o lugar do país e da sua cultura, incluindo a popular, começava a fazer água quanto às possibilidades de uma integração, que não fosse no nível rebaixado da cultura de massas, como Antonio Candido escreverá nos anos 70.13 Em 1959, para dar conta dos romances oitocentistas brasileiros, Antonio Candido mostrara que, ao escritor dilacerado por uma “dupla fidelidade” à realidade local e aos modelos narrativos do romance europeu, tinha sido possível realizar uma experiência intelectual assentada na formação colonial do país e na ambiguidade de suas classes cultas. Num enfoque distanciado, dera a ver que, ao responder à dupla fidelidade com positividade, pensando ser possível

13 Cf. “Literatura e subdesenvolvimento”. In: A educação pela noite. 5ª ed. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2006.

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construir tipos nacionais sustentados apenas nas peripécias do enredo, aquele escritor respondera ao projeto de verossimilhança, implícito na própria forma do romance, por meio de um “pequeno realismo” que embaralhava as chaves românticas e realistas.14 A reflexão abre de saída uma questão de método, com desdobramentos posteriores. Nessa mesma direção dois anos depois, em julho de 1961, Antonio Candido fará uma intervenção nos debates do II Congresso de Crítica e História Literária de Assis. E ali distinguirá uma sociologia da literatura (“tratamento externo dos fatores externos”) de uma crítica que apreenderia o fator social não apenas como fornecedor de matéria, ou meio para algum achado estético, mas como material constitutivo da própria forma literária.15 É pela pista da “dupla fidelidade” de Antonio Candido, que depois se desdobrará no “espetáculo do anacronismo” da combinação entre arcaico e moderno estudado por Roberto Schwarz entre 1969 e 1970, em “Cultura e Política, 1964-1969”, que Paulo Arantes põe de novo na roda, em 1992, O amanuense Belmiro, interessado nos fundamentos sociais que sustentam a mescla entre nosso arcaísmo moderno e nossa modernidade arcaica, e na permanência daquela experiência intelectual: “os movimentos sem progresso da consciência nacional dividida”. Como lembra Arantes, a mescla volta a ser matéria literária quando voltam à cena histórica os deserdados das novas promessas de modernização, abortadas pelo golpe militar de 1964, e provocando uma “revanche da província, dos pequenos proprietários, dos ratos de missa, das pudibundas, dos bacharéis em leis, etc”, segundo Schwarz no ensaio acima referido16. De onde poderão falar dali em diante um escritor e um crítico, quando o atraso revanchista passar a se expor literariamente através das mais vistosas formas modernas? Como se lê na orelha do volume Literatura e sociedade, saíram das notas do curso que Antonio Candido deu, em 1965, na Universidade de Paris, alguns ensaios que estariam sendo publicados nos inícios dos anos 70, como a “Dialética da malandragem”. Naquele momento, na contramão do estruturalismo e do antirrealismo da moda, o crítico dava sequência à chave materialista do seu método. No processo, os rodapés dos anos 40 funcionaram como uma primeira reflexão sobre conteúdos e formas: a concepção da língua e da literatura como produções sociais e mediações da vida histórica, no sentido exigente que veio

14 Cf. Antonio Candido. Formação da literatura brasileira. Momentos decisivos (1750-1880). 11ª ed. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2007. 15 A intervenção foi desenvolvida no texto “Crítica e sociologia (tentativa de esclarecimento)”. In: Literatura e sociedade. 10ª ed. Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2008. 16 “O pensamento caseiro dos ‘fazendeiros do ar’ e seus descendentes – cuja mistura característica de inconciliáveis estudar anos antes num ensaio sobre Amanuense Belmiro – finalmente alcançara

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da experiência daqueles anos e já não perdia de vista o caráter particular de impasses cujos termos, como se viu, tinham origem internacional. Desse modo, um campo de acumulação se fez não só no interior dos seus próprios trabalhos críticos, mas também entre os críticos interessados nos vínculos entre obra literária e matéria social problemática.

a eminência histórica. Seria então o caso de converter essa paródia involuntária em conhecimento conferindo uma outra relevância ao nosso fundo de quintal. Roberto lembraria a seguir que apesar de vitoriosa essa liga dos vencidos de ontem não chegara a se impor, sendo suplantada pela subseqüente maré internacionalizante do capital”. Cf. Paulo Arantes. Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992, p. 32.

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Desenhos do CrítiCo, inClinações da CrítiCa

benJamin abdala Junior
Universidade de São Paulo

Resumo
O ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”, de Antonio Candido, foi uma resposta ao confinamento imposto pela ditadura militar brasileira. Aponta para perspectivas político-literárias, que situam a América Latina como um bloco cultural e têm em vista verificar o que as literaturas da região têm de próprio e em comum. O sentido do gesto do crítico literário pode ser apreendido, na atualidade, em inclinações correlatas, quando se impõe a necessidade de se pensar nos blocos comunitários supranacionais, para fazer face às assimetrias dos fluxos culturais.

Palavras-chave
Comunitarismo cultural; Literatura e política; Literaturas latinoamericanas; Estudos comparados

Abstract
The essay “Literatura e subdesenvolvimento” [“Literature and underdevelopment”], by Antonio Candido, was written as a response to the confinement imposed by the Brazilian military dictatorship (1964-1985). It points out to political-literary perspectives, situating Latin America as a cultural block and aiming to verify what is particular and what is common among the literatures produced in this region. The sense of Candido’s gesture can be apprehended, nowadays, in correlative critic inclinations, as long as we sense the necessity of thinking about supra-national communitarian blocks in order to face up to the asymmetries among cultural fluxes.

Keywords
Cultural blocks; Literature and politics; Latin american literatures; Comparative studies

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Desenhos do crítico, inclinações da crítica 143

grande mídia, antes do grande crack financeiro, cujos efeitos estão atingindo o conjunto da sociedade em escala planetária, naturalizou a imagem utópica do mundo das finanças: desregulamentação e flexibilidade como modelo para a economia, um desenho naturalmente extensivo às práticas sociais e culturais. De acordo com a reiterada agenda que pautava os meios de comunicação, desregulamentação se afinaria com competitividade e, esta, com liberdade. O individualismo confundido, assim, com humanismo. E a conta está sendo paga coletivamente, sob mediação das esferas de estado. Adapta-se, assim, o próprio capitalismo à nova situação, como já o fizera no crack de 1929. Encaminha-se novamente para as estratégias e formulações discursivas que até há pouco lhe eram avessas. Procura definir práticas reguladoras e reintroduz a necessidade de se pensar na idéia de planejamento, nas pegadas de teorias neokeynesianas. Na vida cultural, discursos e práticas tendentes à administração da diferença – uma maneira de se exercer e justificar a ordem hegemônica –, acabam por emergir para primeiro plano. São exaltadas pela mesma mídia as potencialidades da democracia liberal, através de Barack Obama, alçado à presidência dos Estados Unidos. E o que seria uma possível emergência de uma população colocada à margem – não só de negros, mas também de latino-americanos e outros grupos étnicos (para o norte-americano preconceituoso, os étnicos são os outros) –, transforma-se em motivo de exaltação da vitalidade do sistema, estratégia para minimizar o fato de que ele está numa de suas crises. Na base econômico-social, a busca de soluções traz para primeiro plano modelos de salvação anteriores, como os utilizados no outro crack das finanças (1929). Haveria hoje a possibilidade de um novo New Deal, como o que embalou os anos de 1930, com o presidente Roosevelt? Cabe recordar que vieram dessa tendência liberal-democrática políticas reguladoras, com ações estatais e inclinações sociais. Essa administração veio

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a tornar possível a hegemonia norte-americana, no após-guerra. Não obstante seu sentido político no quadro mais geral da competição capitalista ancorada nos estados nacionais, os ideais no New Deal contribuíram, também no após-guerra, para a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), voltada então, sob os escombros da guerra, para a resolução de problemas de caráter econômico, social, cultural e, mesmo, humanístico. É diante dessa situação que a leitura do ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”1, de Antonio Candido, traz subsídios para reflexões e aponta para atitudes no âmbito da crítica literária que merecem discussão. Como contexto para nossas observações, convém recordar que a ONU, pela Carta de 1946, pautava-se pelo princípio de autodeterminação dos povos. Foi através das ações dessa organização e também pelo seu reconhecimento dos novos países egressos das malhas coloniais, nos anos 50 e 60, que foi possível a constituição do bloco dos países não-alinhados, do então chamado Terceiro Mundo. Mais e mais, entretanto, a ONU – sucumbida à hegemonia norte-americana – afastou-se de seus princípios e acabou na prática por substituir colonialismo, por neocolonialismo e imperialismo, marcadamente pela força e poder de fogo (econômico e militar) de seu restrito Conselho de Segurança. O distanciamento tornou-se ainda maior, nas últimas décadas, pelo vertiginoso processo de americanização do mundo, sob a batuta do capitalismo financeiro. A utopia neoliberal, centrada psicossociologicamente na hipertrofia do indivíduo, ganhou as consciências, enredando-as na perspectiva umbilical de uma formação que constituiria o ponto de chegada da vida social. Estaríamos, então, no melhor dos mundos. Aos excluídos, abria-se o caminho para horizontes recessivos. Entre eles, o refúgio para horizontes milenaristas, corolário da naturalização neoliberal. Do ponto de vista do conhecimento, a hegemonia dessas formulações neoliberais levou a se proclamar como ultrapassadas quaisquer tendências reguladoras ou de desenho de práticas sistêmicas, mesmo em aberto, à maneira (ou não) do pensamento dialético. Foi o que aconteceu com quaisquer práticas que pudessem evocar o terceiro-mundismo dos tempos de afirmação da ONU. Os novos países, em políticas pós-coloniais ou no contraponto do imperialismo, procuraram nortear suas ações para a possibilidade de atingir novas margens. Não conseguiram deslanchar, entretanto, no quadro político mais amplo, como um bloco supranacional. Sob a fria pressão dos outros dois mundos, acabaram por desmanchar seus horizontes alternativos. Voltam a se esboçar hoje, após a derrocada soviética, tendências análogas àquelas que motivaram os terceiro-mundistas. Ganham peso econômico países tradicionalmente colocados à margem, como o Brasil. Abre-se ainda a possibilidade de se construir, no plano sócio-cultural, políticas tendentes a um mundo mais aberto à diferença e ao diálogo. Em relação à circulação, afirma-se a motivação para articulações em rede, desde as esferas geopolíticas até as áreas da cultura. Em face dessas
1 Antonio, Candido. “Literatura e subdesenvolvimento”. A educação pela noite e outros ensaios. 2. ed. São Paulo, Ática, 1988, pp. 140-162.

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articulações torna-se necessário o efetivo estabelecimento de fronteiras múltiplas para dar consistência à política desses países ou blocos supranacionais. A constituição dos blocos torna-se necessidade política. No caso brasileiro, blocos geograficamente mais próximos como o do Mercado Comum do Sul (Mercosul), ou mais distantes, como o dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

Atitude intelectual
“Literatura e subdesenvolvimento”, escrito em 1969, foi publicado numa época de acirramento da repressão por parte do regime militar brasileiro, o que solicitava atitudes contra o confinamento ditatorial por parte do intelectual preocupado com questões político-sociais. Nessa atmosfera de sufoco, era estratégico, no campo da literatura e cultura, somar forças contra a brutalidade da ascensão conservadora que tomava conta da América Latina. Ao mesmo tempo, essas articulações constituiriam manifestações de solidariedade em relação aos poucos países que ainda faziam face a essa maré avassaladora. Para tanto, era imprescindível suprir a ausência de efetiva comunicação entre o Brasil e os demais países América hispânica, para nos atermos aos mais próximos. Laços culturais comuns efetivamente existiam, desde os tempos coloniais, mas foram escamoteados pelas elites, afeitas a formas de dominação dentro do fluxo Norte/Sul. Não era dominante, nos fluxos assimétricos dessa relação dual, relevar formações históricas comuns, como as que provinham da bacia cultural mediterrânea ou das diferentes mesclagens com povos ameríndios e africanos. Como é de se observar, estamos associando o conceito de sistema literário de Antonio Candido ao de fluxo cultural. Os fluxos assimétricos suprimem cada vez mais distância por velocidade, tendo em vista impor a literatura como produto, afeito aos processos mercadológicos administrados desde os centros hegemônicos. Diante do quadro político ditatorial dos anos de 1970, violentamente autoritário e discricionário, tornou-se politicamente relevante pensar a América Latina em bloco, a partir de suas carências, numa perspectiva popular. Ao mesmo tempo, essa atitude levaria a nos conhecer melhor no que tínhamos de próprios e em comum. É interessante observar que as articulações de solidariedade do campo intelectual são supranacionais e, o ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”, logo de saída, numa inclinação supranacional do campo intelectual, acabou por ser publicado fora do país. Foram traduções da Unesco, numa revista de língua francesa e numa publicação coletiva em língua espanhola.2 A primeira edição em livro no Brasil só veio a ocorrer nos tempos da abertura política, quando essa coletânea foi traduzida para a língua portuguesa.3 O ensaio saíra anteriormente no primeiro número de uma revista brasileira ligada à resistência política.4

2 Cahiers d`histoire mondiale. trad.: Claude Fell. Neuchâtel, Unesco, XII, 4, 1970, e César Fernández Moreno (Coord. e Introd.). América Latina en su literatura. México, Unesco/siglo Veintiuno, 1972. 3 São Paulo, Perspectiva, 1979. 4 Argumento I, 1o out. 1973.

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A trajetória das edições do ensaio já é ilustrativa das articulações do campo intelectual, indicando sobrevivência da área terceiro-mundista da Unesco, na Europa, ou no México, quando o ensaio foi inserido numa coletânea, onde as literaturas da América Latina são estudadas em bloco. Janelas abertas, diríamos, no jargão e com maior ênfase nos dias de hoje, de forma a propiciar interações, tendo em vista reflexões de ordem política. Com o ensaio, abriu-se até então o canal de comunicação que nos parece de maior impacto para o conhecimento da Literatura Brasileira nos países hispano-americanos e também das conformações histórico-culturais que ela mantém com as do conjunto das literaturas nacionais da América Latina. O percurso discursivo de “Literatura e subdesenvolvimento” é ilustrativo do processo político análogo de nossas formações históricas, desde os tempos coloniais. Logo no início, Antonio Candido analisa o significado de pátria na Literatura Brasileira e estabelece pontes com as dos imaginários correlatos de escritores hispano-americanos. Em comum, os intelectuais latino-americanos aclimataram o utopismo do processo colonial, onde a América seria o lugar da liberdade, para projetá-la hiperbolicamente, quando da independência política. A ideia de pátria estava estreitamente associada à de natureza, por onde entrava a exaltação dos exotismos e da cor local, de gosto europeu. A imagem eurocêntrica relevando inclinações nativistas. Essa visão idílica, além de procurar compensações para nossas carências, mostra uma intelectualidade dividida entre Europa e América, cujo bom exemplo brasileiro foram as conhecidas oscilações de Joaquim Nabuco, cujos efeitos se projetam até a atualidade. Vieram dos tempos coloniais o hábito de se importar, muitas vezes acriticamente, modelos estrangeiros, descartando as formas de conhecimento desenvolvidas no próprio país. Joaquim Nabuco, eurocêntrico, já destacava que era característica de qualquer brasileiro de seu tempo, com alguma formação na cultura erudita, essa divisão entre Europa e Brasil.5 Isso porque a cultura do Velho Mundo conteria, acumuladas, a memória da trajetória humana e era, por isso, critério e repertório para as referências que marcavam e sensibilizavam o imaginário dos intelectuais brasileiros. O Novo Mundo, como uma criança, sem memória cultural e de história recente (desconsidera-se aqui a história dos povos ameríndios e africanos), era dependente desses modelos. Impunha-se, pois, um novo ponto de vista crítico, para o intelectual situado no solo americano, o que no caso brasileiro começou a se esboçar, só a partir da década de 1930, de acordo com Antonio Candido, afirmando-se, sobretudo a partir desse momento, uma forma de consciência crítica de nossas carências:
A consciência do subdesenvolvimento é posterior à Segunda Guerra Mundial e se manifestou claramente a partir dos anos de 1950. Mas desde o decênio de 1930 tinha havido mudança de orientação, sobretudo na ficção regionalista, que pode ser tomada como termômetro, dadas a sua

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Joaquim Nabuco. Minha formação. 13. ed. Rio de Janeiro. Topbooks, 1999.

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generalidade e persistência. Ela abandona, então, a amenidade e a curiosidade, pressentindo ou percebendo o que havia de mascaramento no encanto pitoresco, ou no cavalheirismo ornamental, com que se abordava o homem rústico. Não é falso dizer que, sob esse aspecto, o romance adquire uma força desmistificadora que precede a tomada de consciência dos economistas e políticos.6

Rompem-se assim, nos países latino-americanos, a “segregação aristocrática da era das oligarquias”,7 mas surgem novas formas de manipulação, que vêm através da cultura de massas. Poder-se-ia acrescentar, contextualizando essa constatação para as últimas décadas: os novos hábitos inculcam, para além do gosto e da propaganda implícitas, pelos quais se afirmam a dominação imperialista, apontadas por Antonio Candido no ensaio publicado em 1970, a naturalização desses gestos. Levou à hipertrofia da cultura de mercado. Consumir acabou por se tornar uma forma de exercer a liberdade, atitude continuamente inculcada pela mass media. Coloca-se para a literatura, para Antonio Candido, uma outra atitude, consubstanciada na missão de reverter esses fluxos.

A alienação e as aclimatações
A intelectualidade latino-americana do período pós-independência exaltou, como é sabido, a natureza de seus respectivos países e, diante de nossas carências, adotaram uma forma de “consciência amena”, como a define Antonio Candido. Como a literatura, vista enquanto sistema, operacionaliza-se nas interações da cadeia comunicativa, nossos escritores acabaram por “flutuar” sobre a sociedade, como se constituíssem um grupo à parte:
Como o ambiente não os podia acolher intelectualmente senão em proporções reduzidas, e como os seus valores radicavam na Europa, para lá se projetavam, tornando-a inconscientemente como ponto de referência e escala de valores; e considerando-se equivalentes ao que havia lá de melhor.8

Não foram suficientes projetos pedagógicos que esses grupos vislumbravam como suficientes para desenvolverem seus países do ponto de vista cultural. Restritos às elites, esses projetos na área educacional, que vieram do período pós-independência e que chegam até a época da “consciência do subdesenvolvimento”, mostram-se inócuos, justamente pela ausência de uma inserção social mais profunda e mobilizadora. Dom Pedro II tinha essa “consciência amena”, assim como Sarmiento, Andrés Bello e Rómulo Gallego. Entre os críticos brasileiros, Antonio Candido resgata Manuel Bonfim, que publicou justamente uma obra intitulada A América Latina, onde analisa a persistência do estatuto colonial na época de pósindependência, através das adaptações das elites, que comutaram formas de dominação coloniais pelas do imperialismo.

Idem, ibidem, p. 142. Idem, ibidem, p. 146. 8 Idem, ibidem, p. 148.
6 7

148 Literatura e Sociedade

No plano da criação literária, o deslocamento de nossos escritores não resultou apenas um exercício de alienação cultural, pois as ambiguidades de posição de muitos deles levaram-nos a firmar posições de relativa independência cultural, mesclando modas europeias a uma tradição mais conservadora, proveniente de ambientes provincianos, sem se reduzir a eles. Uma aclimatação, poderíamos acrescentar, movida pela vontade de afirmar o regional ou o nacional. Assim, no assim chamado Modernismo, nos países de língua espanhola – equivalente aos movimentos parnasianos e simbolistas no Brasil –, entre muitas produções irrelevantes, Antonio Candido reconhece mérito de um Rúben Darío, Herrera y Reissig, Bilac e Cruz e Sousa. Interessante a se destacar nessas apropriações do repertório europeu, é a assimetria dos tempos, que abre a possibilidade de o contexto situacional de cada país imprimir novos sentidos a uma tendência literária, diferentemente do que ela provoca à mesma época no país de origem. Por exemplo, enquanto o Naturalismo já era considerado sobrevivência na Europa enquanto tendência, em países como os da América Latina ele fornecia repertórios legítimos para uma literatura bem realizada e de intervenção social, como ocorreu nos anos de 1930. Mesmo no quadro político-cultural da dependência, abre-se a possibilidade de reversão de fluxo, como aconteceu com escritores relevantes, como Ruben Darío em relação à antiga metrópole e escritores brasileiros como Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego em relação ao Neo-Realismo português. Estabelece-se, assim, o que Antonio Candido apontou como “causalidade interna”, que é fundamental para a superação da dependência nas esferas da literatura. O crítico reconhece os limites dessa denominação, mas a inclinação desse olhar para repertórios nacionais se efetivou na prática literária de escritores brasileiros como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto no Brasil, e Jorge Luís Borges, na Argentina. Valem-se de um repertório proveniente de forma dominante (mas não só) da experiência literária interna. Já a projeção externa da obra desses escritores depende, entendemos, de fatores que impediram que a obra de Machado de Assis fosse conhecida e circulasse pelos países europeus, com traduções em outras línguas. É que a circulação cultural depende do prestígio e acesso ao suporte linguístico, apontado por Antonio Candido, e também dos interesses editoriais e da própria imagem do país no exterior. A inversão do fluxo cultural associa-se a questões políticas mais amplas, independentemente da capacidade de cada país produzir obras significativas.

Inter-relações, interações
Uma nova situação começou a ser configurada nos anos de 1980, como esclarece Antonio Candido em nota de rodapé à edição da coletânea A educação pela noite e outros ensaios. Começou a se efetivar uma maior circulação de textos literários na América Latina, marcadamente através da ação cultural de Cuba. Afirma-se, assim, o campo intelectual latino-americano e, com ele, nosso comu-

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Desenhos do crítico, inclinações da crítica 149

nitarismo cultural num direcionamento supranacional. É de se entender que na atualidade se torna cada vez mais imperativa a necessidade de se entender que o nosso mundo é de fronteiras múltiplas, sendo importantes estreitar esses laços comunitários e entender que outras laçadas comunitárias são igualmente necessárias. Do comunitarismo cultural, que nos levam a outros blocos, ao econômico e ao social. Se o processo unidirecional da globalização indefine fronteiras em favor do capital hegemônico, essa mesma indefinição propicia maior definição de articulações supranacionais, como o dos movimentos étnicos, de gêneros, etc. Ou como diz Antonio Candido,
num momento em que a lei do mundo é a inter-relação e a interação, as utopias de originalidade isolacionista não subsistem mais no sentido de atitude patriótica, compreensível numa fase de formação nacional recente, que condicionava uma posição provinciana umbilical.9

Suas palavras referem-se à perspectiva ingênua (às vezes conservadora) de se limitar às fronteiras nacionais. Há quarenta anos, e muito mais em nossos dias, o que era dependência vai se inclinando para um ajuste de “interdependência cultural”, através de escritores que têm a consciência da “unidade na diversidade” e que ao refletirem sobre o desenvolvimento produzem obras originais, revertendo os fluxos tradicionais entre a América Latina e os países coloniais ou imperialistas. Entre outros exemplos indicados por Antonio Candido, é o que ocorre com Julio Cortázar, que combina de forma criativa e original “fidelidade local e mobilidade mundial”.10 Através da “consciência do subdesenvolvimento” supera-se o que podemos apontar como a dicotomia entre o que o crítico brasileiro chama de “aceitação indiscriminada” e a “ilusão de originalidade” em relação aos fluxos externos. Foi essa consciência que levou Alejo Carpentier a incorporar técnicas surrealistas e referências transnacionais. Importa, para tanto, que o escritor tenha consciência aguda da crise em que ele se vê mergulhado e procure atingir um universal, a partir do local de onde se fala. E se a realidade latino-americana era sobretudo rural ou regional, foi daí que começou a ser desenvolvida a consciência de nossas carências, chegando depois às regiões urbanas, ou diríamos ainda suburbanas. São numerosos os autores de língua portuguesa e espanhola citados por Antonio Candido nessa trajetória de uma consciência aguda da crise que nos envolve. Escritores quase todos com obra capaz de produzir impactos literários também em leitores de outros idiomas, em produções que acabaram por serem traduzidas. Aí se encontram, entre outros, um Astúrias e um Graciliano Ramos. Mais recente, como uma tendência posterior a essa consciência aguda da crise, – é de se entender, sem descartá-la –, Antonio Candido propõe um novo momento “que se poderia (pensando em surrealismo, ou super-realismo) chamar-se
9

10

Idem, ibidem, p. 154. Idem, ibidem, p. 155.

150 Literatura e Sociedade

super-regionalista. Ela corresponde à consciência dilacerada do subdesenvolvimento”.11 Estão neste caso as obras de Guimarães Rosa e Juan Rulfo. Os impactos literários supranacionais indicam que ocorreram “impactos humanos” apontados por Antonio Candido. As marcas mais localistas mesclam-se com aquelas que vêm de outras culturas e em seus múltiplos registros nacionais. São experiências históricas que se colocam, na escrita, num processo que tende ao que falta, na perspectiva do campo intelectual e que se consubstanciam nas séries discursivas que são apropriadas pelo discurso literário. Estão aí presentes formulações do imaginário marcados pela crioulidade, isto é, uma cultura híbrida, mesclada, onde pedaços de várias culturas se disputam, em processo contínuo, na cadeia comunicativa que chega ao leitor. Nesse processo, nenhuma literatura (ou cultura) aprende apenas a partir de sua própria experiência, mas esta é fundamental, para Antonio Candido, para dar sequência à formulação de um pensamento crítico interno aos países da América Latina. E a inclinação da novelística latino-americana, com um Arguedas, García Márquez, Roa Bastos e Guimarães Rosa, a partir do local, diríamos, desloca a representação, de forma subversiva, afastando a possibilidade de restrição a aspectos fenomênicos dessa realidade. Esse deslocamento, mais que horizontal, é vertical, na palavra escrita. Opõe-se à assimilação da visão pitoresca que vem da ótica eurocêntrica (ou externa), própria da divisão do campo de simbolização imposta pela hegemonia cultural, assimilada pelos seus sublocadores internos. Nessas narrativas, os escritores estabelecem interlocuções em múltiplos registros culturais. Crioulamente, diríamos, num movimento de consciência ativa da diferença que marca o processo identitário, com a identidade sempre colocada no plural, quer em nível individual ou coletivo. A diferença, assim, não constitui uma forma de guetização, como a apresentada pelo multiculturalismo. Diferença entendida como um processo que tende a, em aberto.

O escritor e o crítico
Nessa época, escritores como Guimarães Rosa e Garcia Marques tornavam-se conhecidos e eram traduzidos para outros idiomas, mas é interessante destacar que na América Latina foi notável a presença da música popular, com a poesia de suas letras, como ocorreu com Chico Buarque de Holanda. A oralidade na poesia de um Chico e na prosa de ficção de um Guimarães Rosa. Registros cultos da linguagem apropriados na perspectiva popular da cidade ou do matuto do campo. A literatura saía assim de seus casulos, procurando estabelecer pontes com outras mídias, como anteriormente o fizera com o teatro, o cinema e outras artes. O importante era o desafio de se falar, ao mesmo tempo, em vários registros, como os poemas cantados de muitos poetas da América Latina, apontados por Antonio Candido (Nicolas Guillén, Mário Benedetti), com registros orais e escritos.

11

Idem, ibidem, p. 161-162.

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Desenhos do crítico, inclinações da crítica 151

Os africanismos de Gilberto Gil ganharam um publico amplo, mesclando o popular ao erudito. Configura e atualiza tradições poéticas eruditas da língua portuguesa, um certo vanguardismo da escrita e as letras dos lunduns que nos levam a um Domingos Caldas Barbosa. Nessas apropriações crioulas latino-americanas, desenham-se culturas de liberação do corpo, em ritmos africanos e ameríndios, para se exorcizar os medos das ditaduras. Dessa forma, ao incorporar perspectivas mágicas que vêm dessas culturas, escritor fica livre para voar, sem os constrangimentos que nos levam a adequar às modas ditadas pelos fluxos hegemônicos. Nos vôos, projetam-se os desejos e as carências de atores históricos que acessam a rede supranacional em seus lócus híbridos. Esta é a vetorização, do lócus particular aos mais gerais, e não o inverso, onde o campo hegemônico figure ideologicamente como ponto de chegada. É necessário que se atente para o fato de que não estamos sozinhos no mundo e que as práticas discursivas tendem a apresentar processos de modelização equivalentes, de acordo com os desenhos das articulações dos modos de produção dominantes. Se a modernidade pode ser vinculada ao construtivismo da produção industrial, a pós-modernidade articula-se a processos de modelização afins das aspirações do capitalismo financeiro. Antonio Candido tem consciência do lugar de onde acessa o mundo. Sem a comodidade de enfoques pré-estabelecidas que só levam a caminhos já configurados, seu discurso crítico alarga para a América Latina questões centrais da sociedade e do campo intelectual brasileiro. Nesse sentido, a publicação de “Literatura e subdesenvolvimento” ao voltar-se para a necessidade de se pensar a América Latina em bloco traz um gesto correlato ao que ele havia desenvolvido em suas críticas de Literatura Brasileira, em que a literatura é vista como um processo do conhecimento. A crítica necessária, substantiva, capaz de contribuir para a dinamização do campo intelectual. Foi assim que o crítico contribuiu, também no “calor da hora” das primeiras edições, para a emergência de escritores tão diferentes, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Pelas margens sociais, relevou escritores como João Antônio, entre tantos outros que poderiam ser arrolados. Suas leituras foram igualmente um contributo para reativações e redirecionamentos de leitura de autores como Graciliano Ramos, quando passou a situá-lo diante das carências de nossos referenciais histórico-sociais.

Literatura comparada e a Ibero-Afro-América
“Literatura e subdesenvolvimento” situa-se no campo da literatura comparada e se pauta não apenas por um comparatismo que veio das imposições de nossa formação histórica, mas também pelo desejo de o crítico pensar as literaturas latino-americanas em bloco, conforme indicamos. Trata-se, pois, de um comparatismo prospectivo, para nos conhecer e nos pensar politicamente. Ao comparatismo da necessidade, soma-se o da cooperação e solidariedade, conforme temos procurado desenvolver em relação aos países de língua oficial portuguesa. Convém estender essas inclinações de solidariedade da América Latina, na atualidade, para os países de língua portuguesa que se libertaram do jugo

152 Literatura e Sociedade

colonial, cinco anos após a primeira publicação de “Literatura e subdesenvolvimento”. O desenho do crítico, assim situado, e suas equivalências discursivas. Os laços históricos entre Brasil, Portugal e África eram evidentemente anteriores. Importa destacar que esses laços são extensivos à América Latina e os países africanos colonizados por Portugal podem ser também estudados numa perspectiva ibero-afro-americana. À hegemonia das culturas europeias na América Latina, superpõem-se, mais ou menos, conforme o país ou regiões, as culturas africanas e ameríndias. Na África de língua oficial portuguesa, a literatura e cultura do Brasil sempre se fizeram presentes, como também mais pontualmente as iberoamericanas, em especial quando dialogaram com a África. Um bom exemplo ilustrativo dessa circulação foi uma coletânea de estudantes africanos, que se agregavam nos inícios dos anos de 1950, na Casa dos Estudantes do Império, de Lisboa: o caderno Poesia negra de expressão portuguesa (1953), organizado por Francisco Tenreiro e o angolano Mário Pinto de Andrade.12 Houve a preocupação dos organizadores dessa antologia impressa em Lisboa, de imbricarem, nos poemas e nas reflexões teóricas do prefácio e do posfácio, perspectivas da vanguarda política com os da vanguarda literária. Vale recordar que esta é uma inclinação similar à apontada por Antonio Candido em relação à melhor produção literária da América Latina, no após-guerra. É na atmosfera dessa modernidade ativa que procedimentos que levam a articulações supranacionais confluem para os identificados com os africanos, de forma a construir um imaginário político de libertação nacional e social. A coletânea foi organizada na esteira da antologia negra de expressão francesa, publicada anos antes, com o famoso prefácio de Jean-Paul Sartre, o “Orfeu negro”. Essa determinação supranacional se fez em torno do movimento negro, mas as diferenças em relação ao seu deslocamento para outro contexto já se fazem sentir nos poetas e nos poemas escolhidos. Nicolás Guillén foi colocado na dedicatória da antologia como a “voz mais alta da negritude de expressão hispanoamericana”. Mais: é surpreendente que logo no início da antologia de língua portuguesa, a inserção de um poema do poeta cubano no original, em castelhano. E o poema não fala de negritude – o específico do negro -, mas de miscigenação étnica e cultural, destacando a condição proletária, que vem do discurso marxista:
(...) Estamos juntos desde muy lejos, jóvenes, viejos, negros y blancos, todo mezclado; uno mandando y otro mandado, todo mezclado; Santa Maria y otro mandado, todo mezclado; todo mezclado, Santa Maria, San Berenito, todo mezclado,
12 Francisco Tenreiro; Mário Pinto de Andrade. Poesia negra de expressão portuguesa. 2. ed. Linda-aVelha, África-literatura, arte e cultura, 1982.

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todo mezclado, San Berenito, San Berenito, Santa Maria, Santa Maria, San Berenito, todo mezclado. (...)13

É significativo que se registre o fato de que numa pequena antologia de autores de língua portuguesa se abra espaço – uma espécie de pórtico poético – para um escritor de língua castelhana. Nicolás Guillén era um mestiço, representativo da crioulidade cubana. Vem também da crioulidade a seleção dos poetas nacionais de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, reunindo poetas de origem étnica branca, negra e mestiça. Culturalmente, eram todos explicitamente híbridos e tendentes a articulações com os países de língua portuguesa e espanhola. Observe-se, nesse sentido, o seguinte fragmento do poema “Coração em África”, de um dos organizadores da antologia, o são-tomense Francisco José Tenreiro, que aponta para a comunidade cultural ibero-afro-americana:
(...) de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das gomas de Pomar vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele dos homens brancos amarelos negros (...)14

A administração da diferença
Tenreiro é um dos atores do campo intelectual transnacional para quem “a pretidão do mundo (...) ultrapassa a própria cor da pele dos homens brancos amarelos negros”. Seu poema é uma laçada não apenas para o comunitarismo que se faz pela Ibero-Afro-América, mas também com os atores negros da África, Caribe e Estados Unidos. É diante dessa afirmação, que convém reatar os fios, com a atualidade deste momento da eleição de Barack Obama, seguramente um golpe no conservadorismo norte-americano que se afirmou com o macarthismo, à revelia dos princípios estabelecidos na carta da ONU de 1946. Talvez seja um triunfo da tendência da administração da diferença, afim do multiculturalismo, por sobre a prepotência imperial dos últimos tempos. Se Obama escreveu um livro progressista como A ousadia da esperança, comprometido com o que Edward Said chamou de “outro EUA”, hoje ele já se mostra em posição diferente, em face de seus compromissos eleitorais. A mídia proclama um renascimento norteamericano, isto é, das elites, e não um “renascimento negro”, dos excluídos não apenas negros, mas também brancos, amarelos e mestiços, como Obama. Neste momento pós-neoliberal, a afirmação de uma tendência mais tolerante, que é a da administração da diferença, não deixa de constituir uma maneira de se preservar a hegemonia. Seus discursos já apontam nessa direção.
13 14

Op. cit., p. 56. Idem, ibidem, p. 68.

154 Literatura e Sociedade

Mostram-se atuais, pois, estratégias de estudos comparados voltados para os blocos culturais, como o da América Latina, perspectiva inaugurada por Antonio Candido, “no calor da hora”, para nos valer de um título de Walnice Nogueira Galvão. A solidariedade comunitária como forma de articulações supranacionais, que devem se respaldar em estruturas sociais com inclinações libertárias. É importante reiterar, conforme temos enfatizado em vários momentos, que o acesso à rede supranacional se faz num lócus enunciativo determinado, e Antonio Candido estava no Brasil. Se um crítico literário tem seu contexto situacional numa universidade norte-americana, por exemplo, ele não pode desconsiderar o fato de que seu discurso pode estar associado a estratégias hegemônicas desse país. Este, pelo consenso hegemônico, pode inclusive não apenas aceitar, mas também a promover a capitalização da diferença. Uma diferença evidentemente que se consubstancia em produtos, desde a imagem democrática do país hegemônico até a mercadorias mais diretamente comercializáveis. Não se pode esquecer a posição dos Estados Unidos como único país a defender a inserção da cultura como “produto”, na Organização Mundial do Comércio. Haverá, para além do diretamente comercializável, um “reconhecimento” internacional da instituição onde esse crítico trabalha, o que certamente atrairá alunos, inclusive dos países não-hegemônicos. A partir dessa situação, serão criadas as condições para convênios interinstitucionais com esses países. É provável que o fluxo cultural hegemônico, configurado em teorias e correntes críticas, acabe por ter um entreposto associado. Se esse porto for efetivamente crítico, é de se presumir que veiculará fluxos de natureza diferente daqueles da estandardização que norteia a cultura de massa, mas suas práxis não deixarão de apresentar vetorização equivalente. Sem reconfigurações das redes discursivas intervenientes a dinâmicas contra-hegemônicas, de maneira a se estabelecer fluxos recíprocos, o novo lócus pode ser um porto que corre o risco de ser no máximo uma particularidade de um desenho mais abrangente da administração da diferença. O lócus determinante do fluxo, no caso da sublocação subalterna, não deixa de estar no centro hegemônico. É próprio das estratégias de legitimação da hegemonia tolerar a diferença, desde que seja uma diferença administrada, quase sempre prevista e elaborada, enquanto possibilidade de abertura, desde o centro do fluxo. Tais observações valem tanto para o vestuário quanto para as modas críticas. Através de estratégias de convergência dessa modalidade de administração, a incorporação orgânica da diferença poderá inclusive constituir fator de dinamização da rede hegemônica. Os atores de um campo intelectual supranacional efetivamente crítico devem estar atentos para o implícito das formulações hegemônicas. Atualizações desses repertórios, nesse sentido, não podem ignorar os cruzamentos discursivos de contextos situacionais provenientes das relações de pertencimento desses sujeitos. Mesmo adotando atitudes como se estivessem em situações psicossociais de migrantes, eles não dialogam em abstrato, mas com culturas diferentes, provenientes de experiências históricas que têm suas singularidades. E estar nos

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Estados Unidos não é como estar no Brasil ou em qualquer outra parte do planeta, como aparece nos discursos globalizadores tendentes à neutralização da diferença e à sublocação do mesmo. Se os óculos críticos advindos dessa circulação cultural podem aguçar a percepção, em função da própria criticidade eles não podem implicar convergências ópticas inclinadas à preservação da continuada colonização do imaginário nas regiões ou países situados na periferia do capital. Faz parte da ideologia desse processo de colonização, entendemos, a consideração acrítica, dissociada de situações históricas, de um certo relativismo nômade, que resvala sem se fixar, sem deixar de seguir o curso dos fluxos dominantes. Mesmo o migrante – é de recordar o caso de Edward Said – conecta-se através de redes, mas reside e vincula-se a malhas sociais definidas.

Referências bibliográficas Antonio Candido. “Literatura e subdesenvolvimento”. In: Antonio Candido. A educação pela noite e outros ensaios. 2. ed. São Paulo, Ática, 1988. Joaquim Nabuco. Minha formação. 13. ed. Rio de Janeiro, Topbooks, 1999. Francisco Tenreiro; Mário Pinto de Andrade. Poesia negra de expressão portuguesa. 2. ed. Linda-aVelha, África-literatura, arte e cultura, 1982.

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A dialétiCa de Ricardo ii

sérgio de Carvalho
Universidade de São Paulo Teatro. Companhia do Latão

Resumo
A atitude crítica de Antonio Candido decorre de uma compreensão materialista da forma literária, que não separa comentário histórico e análise formal, sempre articulando os dois campos na sua leitura dialética. “A culpabilidade dos reis”, ensaio que focaliza a peça Ricardo II de Shakespeare, é um exemplo revelador dessa prática analítica.

Palavras-chave
Análise formal; Comentário histórico; Leitura dialética

Abstract
The critical aim of Antonio Candido results of the materialistic understanding of the literary form that does not separate historical comment and formal analysis, always articulating both territories in his dialectical reading. “The kings’ fault”, essay in which he focuses Shakespeare’s tragedy Richard II, is a revealing example of such analytical practice.

Keywords
Formal analysis; Historical comment; Dialectical reading

sérgio de Carvalho

A dialética de ricardo ii 157

á se observou que a atitude crítica de Antonio Candido decorre de uma compreensão materialista da forma literária. Ao invés de separar o comentário histórico e a análise formal, de tratá-los como opostos, ele articula os dois campos, de modo a tornar legível na forma literária os seus “ritmos sociais preexistentes”.1 Uma demonstração exemplar dessa técnica dialética de Antonio Candido se encontra na palestra “A culpa dos reis: transgressão e mando no ‘Ricardo II’”, escrita para integrar um ciclo de debates sobre Ética.2 Sendo texto destinado ao ouvido do público, sobre assunto teatral, encontra-se ali um cuidado argumentativo que deixa visível a dimensão de uma pedagogia da crítica contida na maioria de seus ensaios. É como se o crítico estivesse – ao lado do trabalho de análise e interpretação da obra – realizando uma explicação didática de seu método. E talvez seja esse um dos aspectos mais notáveis na palestra sobre Ricardo II, de Shakespeare. Dentre as peças chamadas histórias pela edição de 1623, Ricardo II é uma das favoritas da crítica shakespeariana mundial. Ela está na abertura de uma “tetralogia” dominada por uma personagem, Bolingbroke, que se torna o rei Henrique IV, sendo fundamental, portanto, para a compreensão do conjunto. E a maioria de seus temas centrais, em torno da disputa de poder numa época que se desnorteia quanto a seus “sistemas de mando”, reaparece na outra “tetralogia” de crônicas históricas (escrita anteriormente por Shakespeare), sobre o período mais recente da Guerra das Duas Rosas. Sendo assim, Ricardo II é uma peça que já foi muito debatida. Tanto no que diz respeito a seus aspectos históricos, como na descrição de suas imagens lite-

J

A expressão é de Roberto Schwarz. As conferências do ciclo foram reunidas no volume Ética, organizado por Adauto Novaes, São Paulo, Companhia das Letras e Secretaria Municipal de Cultura, 1992.
1 2

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rárias fundamentais. Se considerarmos apenas o primeiro desses campos de pesquisa, uma das referências utilizadas por Candido, o clássico Shakespeare’s history plays, de E.M.W. Tillyard, de 1946, continua a ser uma obra importante. Ainda é dos melhores estudos sobre o pensamento político e filosófico da época elisabetana e permite entender a diferença entre a versão shakespeariana e sua fonte de informações históricas, as Chronicles of England, Scotland and Ireland, de Rapahel Holinshed. É com Tillyard que Candido ressalta o caráter medieval do Rei Ricardo, sua dependência de uma concepção ritualística da realeza, enquanto o usurpador Bolingbroke “abre uma nova era, na qual o poder depende, sobretudo, da capacidade”,3 de uma legitimidade que não emana da tradição, mas da eficiência política e econômica. Por outro lado, no terreno dos estudos da linguagem, Candido se serve de críticos atentos às tendências formais predominantes nos versos de Shakespeare. Não são poucas as descrições publicadas sobre o “imaginário de Shakespeare”, suas figuras simbólicas mais frequentes, sua técnica de impregnar a peça de um metaforismo dominante, o que ocorre, por exemplo, nas muitas menções à decomposição natural, à podridão, numa peça como Hamlet, em que a “carne maculada” se converte em “terra úmida” etc. Ou no próprio Ricardo II, onde as metáforas do sangue derramado se alternam com comparações entre a situação política e a vida das plantas, a ponto de uma teórica como Caroline Spurgeon dizer que as imagens da peça “são basicamente vegetais”.4 A novidade crítica de Candido, incomum mesmo entre os poucos que se dispõem a extrair sentidos das metáforas e hipérboles shakespearianas, é dar a ver em Ricardo II uma dialética entre os símbolos e a perspectiva histórica. Ele revela as configurações externas através das imagens e ritmos da peça, realizando uma interpretação dos enunciados formais com vistas a um debate mais geral sobre a representação histórica do poder.

Fluidificação das categorias
Na medida em que algo da própria dialética do Crítico parece se expor pedagogicamente no seu trabalho, é compreensível que Candido dê início ao comentário pela exposição da categoria central da análise (o “mando de natureza política”) para, em seguida, apresentar um “esqueleto da ação” da peça. No extremo oposto do exame formal, ele prepara o ouvinte para o debate enquanto seleciona os aspectos da história que mais lhe interessam: o rei Ricardo, após mandar matar um de seus tios, tem que se haver com uma troca de acusações entre seu primo Bolingbroke e um duque. Após banir os contendedores do reino, ele pratica uma série de arbítrios, todos motivados pelo interesse em levantar fundos de guerra: arrenda os bens da Coroa, não ouve conselhos e efetua confiscos dos nobres,

3 4

Antonio Candido. “A culpa dos reis: transgressão e mando no ‘Ricardo II’”. In: Ética, 1992, p. 89. Idem, ibidem, p. 90.

sérgio de Carvalho

A dialética de ricardo ii 159

sendo o mais grave deles o da herança do exilado Bolingbroke, filho de João de Gante. O retorno em armas do primo expropriado, ao qual se juntam diversos duques descontentes, gera o desenlace trágico de Ricardo. O que se destaca no resumo de Candido, bem mais detalhado do que este, é o quanto a confiança de Ricardo na força de seu poder de origem divina é confrontada com um “vazio em torno de sua pessoa”. Além disso, vê-se no resumo uma relação de atos que não decorrem puramente da responsabilidade individual, sendo antes a “história de uma desestruturação do mando”. Essa ênfase na dimensão pública da fábula se liga a uma percepção fina da técnica shakespeariana em Ricardo II: a ficção não provém apenas dos atos incompetentes da figura central, ou da reação desmedida de seus contrários, mas de um conjunto complexo de fatores que – especialmente se adotarmos o ângulo da estrutura do mando – rompe a unidade entre o princípio legitimador, a função que o materializa, e a pessoa que desempenha essa função. É com base nisso que Candido pode afirmar que a estrutura de poder real (tripartida entre direito divino, unção religiosa e personalidade) condiciona a ação dramática e o sistema simbólico da peça:
Assim, nas partes iniciais avultam as imagens ligadas ao sangue, veículo do direito divino, pois é o momento em que se define a legitimidade do mando e aparecem os atentados do rei à ordem que ele deve assegurar. No meio da peça avultam imagens vegetais e cósmicas, assim como referências à unção; elas marcam a crise do poder, com perda conseqüente da ligação mística entre rei e natureza, compreendendo-se que Ricardo se apegue a isto como tábua inútil de salvação. Na parte final, perdida a sua autoridade, destacam-se imagens materiais, que mostram a dissociação entre função e a pessoa, pois Ricardo perdeu a realeza e se tornou apenas um indivíduo.5

A análise que se segue, interessada na interpretação dessas metáforas dominantes, é espantosa por diversas razões. Em primeiro lugar, por dialetizar as descrições convencionais sobre o imaginário da peça, sem deixar de utilizá-las. Ao percorrer mais de perto os versos de Shakespeare, Candido mostra que os sistemas simbólicos de Ricardo II não são estáticos como sugerem suas fontes famosas, mas dinâmicos. Assim, a alternância entre o metaforismo sanguíneo e o vegetal é tão rápida que, por vezes, se constitui como unidade: aos olhos da Duquesa viúva, seu marido morto é um “vaso do sagrado sangue de Eduardo”, um “ramo florescente”, “um real tronco despedaçado”, amputado pela “foice rubra do assassinato”. Na medida em que o sangue e a seiva vegetal não se distinguem, as metáforas dominantes em pelo menos dois terços de Ricardo II serão mais bem compreendidas como sendo da ordem do fluido, observação certeira em que Candido destaca, sem usar o nome, uma característica de composição dialética subjacente à visão teatral de Shakespeare. É um mundo dramatúrgico que se articula por meio de processos cambiantes, irregulares, materiais.

5

Idem, ibidem, pp. 89-90.

160 Literatura e Sociedade

A reincidência da metáfora seiva-sangue revela a transitoriedade da vida como assunto imanente à forma. Ao invés de encontrar nessas figurações ecos alegóricos da Queda do Paraíso ou efeitos da retórica religiosa, o que seria possível diante da influência estrutural das moralidades medievais no teatro elisabetano, Candido revela, na imagem literária, uma dinâmica histórica: o sangue ungido que legitima Ricardo no poder é o mesmo que legitima o vínculo entre o senhor e sua propriedade rural. A expropriação desse direito considerado “sagrado” pela nobreza põe abaixo o sistema simbólico como um todo, arruinando a legitimidade do próprio Rei. É uma ordem de mundo baseada no privilégio transmitido pelo sangue essa que aparece em risco provisório na peça, necessitando de uma renovação pela força e eficiência técnica. Sangue ainda é dinheiro, no limiar da era do time is money:
Vemos então que por baixo do sistema simbólico dos fluidos, por baixo da união mágica entre o rei e a terra, está efetivamente a realidade da posse desta terra, por meio da ação legitimadora da realeza. O sangue é importante, em boa parte, porque define essa relação de apropriação.6

Descontinuidade e ambiguidade
Muitos atores já devem ter notado que a personagem do rei que dá título à peça só assume o centro da cena na etapa final da história. É quando perde a majestade para Bolingbroke que Ricardo manifesta sua individualidade em monólogos de inesperada consciência trágica. Numa peça toda ela descontínua, essa mudança radical não deveria causar estranheza. Mas Shakespeare, para além de deslocar o movimento narrativo para uma dimensão mais pessoal, passa a se utilizar de metáforas referentes a objetos comuns, e conectadas a alguma ação gestual, como na famosa cena em que Ricardo pede um espelho para que possa enxergar sua nova imagem sem realeza. Essa virada não passa despercebida a Antonio Candido. A última parte de sua triádica palestra (como a própria leitura que empreende do texto) é dedicada a comentar o relevo que o poeta dá à personalidade de Ricardo na contemplação do esvaziamento da própria função. A operação crítica mais fascinante aqui é a de apontar a intensificação da ambiguidade discursiva, o que se vê no uso da ironia como ferramenta literária, tanto para relativizar a autoconsciência da personagem sobre seu contexto como para imprimir dubiedade à lição transmitida ao espectador. Na roda da fortuna, o baldo cheio de lágrimas de Ricardo mergulha no poço, enquanto o balde vazio de Bolinbroke oscila, sem peso, no alto. A ambiguidade se estende ao todo da peça. A impotência de Ricardo preso corresponde a sua lucidez. Desapossado de sua função política, ele encontra sua realidade de gente: “Como vós, eu vivo também

6

Idem, ibidem, p. 95.

sérgio de Carvalho

A dialética de ricardo ii 161

de pão, padeço privações, necessito de amigos, sou sensível às dores”, diz a personagem num apelo de reconhecimento. Seu algoz, Bolingbroke, sonha com uma cruzada à Terra Santa para pagar (com a morte dos bárbaros) a culpa do regicídio. As ambiguidades, formas paralisadas da dialética, colaboram também, nas cenas finais, para o crescimento da dimensão gestual da escrita shakespeariana. Nas peças históricas, em que grandes processos são encenados aos saltos, sem uma lógica unitarista presidindo a ação, essa visibilidade do gesto – o grande responsável por desencadear a colaboração imaginativa do público – estabelece a medida simbólica da ação humana em relação à época. Mesmo sem tocar nesse aspecto (a relação entre atores e público) que permite entender parte da lógica visual do teatro shakespeariano, Candido flagrou seu dinamismo profundo, sua irregular e viva dialética entre figurações individuais e históricas. O vozerio múltiplo e material contido numa peça como Ricardo II, seus tantos ritmos diversos, só pode ser compreendido se a atitude de concretização do espectador também for fluidificadora. Num autor modelar como Shakespeare, a ação teatral é feita de muitas temporalidades. No avesso do presente do palco, várias épocas se articulam. E sempre, lá no fundo da imaginação elisabetana, está a morte. Para despertar os vivos na boca de cena.

aspectos da Formação

164 Literatura e Sociedade

Formação hoJe – uma hipótese analítiCa, alguns
pontos Cegos e seu vigor

luís augusto fisCher
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo
O ensaio propõe uma interpretação crítica sobre o conceito de formação, central na obra de Antonio Candido. O conceito é analisado em suas conexões com a noção de nacionalidade; postula-se que, na trajetória do autor, haja dois momentos fortes de abordagem ao tema nacional, no primeiro dos quais, anterior a 64, a formação é vista como dependente da validação das teses modernistas, circunstância que impõe alguns pontos cegos ao conceito, aqui descritos, os quais, porém, não esvaziam toda a força da ideia formativa, que permanece válido para descrever processos culturais em certas periferias da civilização europeia.

Palavras-chave
Formação da literatura brasileira; Antonio Candido; Modernismo paulista; História da literatura

Abstract
This essay proposes a critical interpretation of the concept of formation, which is central in the work of Antonio Candido. The concept is analyzed in terms of its connections to the notion of nationality, and it is argued that there are two significant moments in the author’s treatment of the national theme. In the first of them, prior to 1964, formation is seen as dependent on the validation of the thesis of modernism, and is thus limited by certain blind spots, here described. These blinds spots, however, do not invalidate the idea of formation, which remains useful for describing cultural processes in certain peripheral areas of Western civilization.

Keywords
Formation of Brazilian literature; Antonio Candido; Paulistan Modernism; History of literature

luís augusto fisCher

Formação hoje – uma hipótese analítica, alguns pontos cegos e seu vigor 165

ara tentar fazer jus desde o começo ao valor da obra de Antonio Candido, será preciso imediatamente comentar o traiçoeiro título “Formação, hoje”,1 que toma como referência central o clássico Formação da literatura brasileira — Momentos decisivos.2 A primeira vontade seria a de completar o enunciado com um ponto de interrogação, nem que fosse para referir a dúvida, que é de todos nós, sobre a pertinência e o cabimento de uma visão construtiva, embutida na ideia genérica de formação, neste tempo em que vivemos, carregado de decomposição, derrubada, destruição, tudo imerso num notável internacionalismo, tanto aquele positivo, que entra na casa das pessoas cultas como informação diária, pela leitura de jornais e revistas, pela televisão ou pela internet, quanto aquele negativo, muito mais decisivo e nem sempre visível, que rege as nossas vidas na forma de capital especulativo, que chove neste ou naquele país e hoje em dia nem precisa se preocupar em estacionar por algum tempo onde quer que seja, num ritmo deletério que está em pleno vigor e que a recente crise, emergida no mercado financeiro, veio demonstrar com clareza. Mas tal discussão nos levaria para muito longe do que aqui se pretende e cabe: uma rápida reflexão sobre o lugar da ideia de formação, tal como esposada e desenvolvida por Candido, procurando flagrar e explicitar alguns pontos cegos de sua visada, para ao fim afirmar seu interessante valor no mundo de hoje.

P

Dois comentários atuais
Duas recentes publicações, oriundas de dois ambientes acadêmicos diversos e a partir de pressupostos igualmente distintos, ajudarão a avaliar o quanto, e como,
1 Este ensaio deve parte substantiva das concepções que apresenta ao seminário sobre História da Literatura que temos levado adiante no Instituto de Letras da UFRGS. Os parceiros intelectuais dessa jornada são vários alunos e alguns colegas, dentre os quais é preciso mencionar Homero Araújo, Ian Alexander, Antônio Sanseverino e Marcelo Frizon 2 Edição em uso: Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1975, 5ª ed. (Edição original: 1959).

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ainda faz sentido frequentar essa palavra, esse conceito, ao mesmo tempo tão central na obra de Candido e em parte substantiva do melhor ensaio brasileiro do século 20, quanto passível de arguição. Estamos falando do ensaio “O cânone como formação: a teoria da literatura brasileira de Antonio Candido”,3 de Abel Barros Baptista, e A passagem do três ao um,4 de Leopoldo Waizbort. Baptista, professor de Literatura Brasileira em Portugal, tem sido o mais notável dos críticos do que ele considera, com interessantes razões, o nacionalismo de Antonio Candido, no contexto de pensar o ensino de literatura brasileira fora do Brasil contra os condicionantes nacionais imediatos; Waizbort é professor da área da Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), e em seu livro promove uma aproximação de grande alcance entre Candido (e Raymundo Faoro e Roberto Schwarz, figuras-chave na renovação do debate machadiano) e a tradição dos críticos e historiadores da chamada filologia alemã, especialmente Ernst Curtius e Erich Auerbach. Vale retomar de modo ultrassintético o significado elementar da formação. Como se sabe, Candido propôs um conceito novo para pensar a literatura brasileira em seu estudo Formação da literatura brasileira, concebido nos anos 40, redigido entre 45 e 51, e publicado no final dos anos 50. Segundo ele, em parte respondendo a um debate já antigo no Brasil de então, não interessava tanto definir quando a literatura brasileira havia supostamente nascido, mas sim especificar quando e como ela se formava, isto é, quando e como ela mostrava um processo que combinava, num mesmo sistema de forças, a internalização dos mecanismos de concepção e produção de literatura, em oposição à mera cópia de modelos já assentes, e a criação de uma tradição interna, em que autores, obras e público leitor circulassem continuadamente no país. A fórmula é enxuta e, vista à distância, tem um quê de mecanicista, ao opor o nacional ao internacional e atribuir virtudes aparentemente excelsas à construção interna do sistema literário; posta em circunstância concreta, porém, a coisa muda: Candido pensa justamente em dois momentos da literatura no Brasil, o Arcadismo e o Romantismo, que são paralelos ao processo de Independência do país, com o que aquele aspecto mecanicista, se não desaparece de todo, ganha ao menos em concretude histórica, porque se tratava, para os escritores do tempo, de defrontar a literatura com as grandes tarefas de invenção da nacionalidade. Em muitos outros momentos da obra de Candido, essas questões voltaram ao debate e ganharam matizamento, aqui num artigo ou capítulo de livro, ali numa conferência, mais adiante em uma entrevista, isso para não falar de comentários de variada inspiração e extensão, levados a efeito por discípulos como Roberto Schwarz (por exemplo, em “Os sete fôlegos de um livro”, em Seqüências brasileiras)5 ou por antagonistas como Haroldo de Campos (por exemplo, em O sequestro do barroco)6. Mas as linhas gerais de seu esquema conceitual aqui estão.
Em O livro agreste. Campinas, Editora Unicamp, 2005. São Paulo, Cosac Naify, 2007. 5 São Paulo, Companhia das Letras, 1999. 6 Por extenso O seqüestro do Barroco na formação da literatura brasileira — o caso Gregório de Mattos. 2ªed. Salvador, Fundação Casa de Jorge Amado, 1989.
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Quanto ao aparente mecanicismo, vale lembrar um artigo da mesma época, “O escritor e o público”, de 1955, incluído em Literatura e sociedade;7 ali, Candido dirá, matizando este esquema: “A literatura é pois um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. A obra não é produto fixo, unívoco ante qualquer público; nem este é passivo, homogêneo [...]. São dois termos que atuam um sobre o outro, e aos quais se junta o autor, termo inicial deste processo de circulação literária, para configurar a realidade da literatura atuando no tempo” (p. 74).Veja-se que aqui temos a consideração de um papel central da recepção na existência da literatura, ainda antes que um Jauss apresentasse suas provocações à teoria literária a partir justamente da valorização do papel da leitura, na famosa conferência de 1967.8 O esquema que tem desdobramentos vários. Um deles, percebido por muitos e explicitado por Paulo Arantes, mostra que o sentimento de formação esteve presente em alguns dos melhores pensadores brasileiros do século 20: nos anos 30 e 40, floresceu em Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior; nos anos 50, ganhou novos contornos na geração mais jovem, a de Antonio Candido, Raymundo Faoro, Celso Furtado. Isso quer dizer que Candido de algum modo e com sua especificidade entrou numa conversa de largo fôlego, que ocupou gente da melhor qualidade, todos marcados por um viés renovador do pensamento: a ideia de formação, assim, foi um terreno comum para pensar o Brasil, da sociedade colonial ou imperial, quanto ao Estado ou à economia, sempre tendo como ponto de fuga e de convergência a atualidade brasileira, que tanto nos anos 1930/40 quanto mais ainda nos 1950 mostrava seu aspecto de enigma — de um lado um intenso desenvolvimento, capaz de emparelhar o Brasil com o que de mais sofisticado havia no Ocidente, e de outro uma sociedade profundamente desigual, incapaz de prover o mínimo de integração aos de baixo, herdeiros da condição servil que atravessou nossa história. A ideia de formação, assim, é sempre empenhada, para usar também aqui uma ideia-força do mesmo Candido. O tempo passa, Candido e sua ideia de formação ganham estatura (seguidores, detratores, leitores fracos que banalizam seu pensamento, críticos argutos, banalização, diluição via livros didáticos, mas igualmente dissertações e teses criativas, etc.); e neste novo século, já distantes daquelas conjunturas progressistas que deram fôlego aos pensadores formativos — primeiro a conjuntura pósRevolução de 30, de combate às oligarquias regionais, desenvolvimento da indústria, concessão de benefícios aos de baixo, e depois a conjuntura dos últimos anos 50, já no clima da Guerra Fria, em que o imperialismo norte-americano era visível e se ensejavam ações de esquerda e/ou renovadoras, como a alfabetização de Paulo Freire, a construção de Brasília, a radicalização política pelas ditas “reformas de base”, a criação da Bossa Nova —, como está a coisa? Verdade que,
São Paulo, Nacional, 1976, 5ª ed. (1ª ed, 1965). Tradução brasileira: A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Telaroli. São Paulo, Ática, 1994.
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tudo considerado, agora de novo convivemos com alguma perspectiva progressista e renovadora: pois não estamos aí a distribuir bolsas que fazem transferência direta de renda para os miseráveis, como se imaginava dever fazer, e, pela boca do presidente Lula, não estamos a badalar o etanol como uma saída para vários dos impasses centrais do mundo, este mundo que anda de automóvel e transporta de caminhão? Mas verdade também que em pelo menos uma dimensão central a tese formativa balança: a atual onda de mundialização dos mercados derrubou o valor do nacional, arrastando para a lata de lixo da história muita coisa tida até há pouco como intocável. Nesse quadro, Leopoldo Waizbort promove uma avaliação do trabalho de Candido por uma pauta de grande valor, que começa por colocar o debate num patamar inédito — trata-se de averiguar e medir as relações entre Candido e Auerbach. O estudo mostra que a noção de sistema em Candido é muito próxima da noção de sistema em Curtius; e mostra que Candido, ao discutir, em sua Formação, os “momentos decisivos”, revela total afinidade com a ideia de Auerbach em seu clássico Mimesis e a de Curtius em seu igualmente clássico Literatura européia e Idade Média latina: nos três, o que se busca é a história como totalidade, não como completude; a história orientada por um problema, não a história como o acúmulo linear de informações; uma história da literatura brasileira, ou ao menos o debate sobre tal história, pensada não mais como a busca de um essencial nacional (ou mesmo nacionalista), como costumavam ser as histórias de literatura nacional no século 19, mas como a construção de uma interpretação autoconsciente. Abel Baptista, vindo por outro lado em seu movimento mental, procura desvelar a porção de nacionalismo inscrita na ideia de formação. Em leitura minuciosa e inteligente, de inspiração desconstrucionista, desenvolve um extenso comentário sobre o continuum histórico que começa no Romantismo, passa pelo Modernismo e alcança a criação da USP e a obra de Antonio Candido, continuum que sempre vincula a literatura feita no Brasil à tarefa de construir o Brasil, vínculo que Baptista acusa Candido de perpetuar e que teria como um desdobramento fatal o que chama de “sequestro nacionalista” de Machado de Assis, que só seria legível, segundo o Candido de Baptista, num curto-circuito que obriga Machado a ser apenas nacional. A crítica é interessante, mas creio que é injusta nos termos em que está feita: interessante porque desvela, com ar de escândalo, uma quantidade realmente existente de nacionalismo na ideia de formação (de minha parte, tenho discutido algo parecido, mas tendo em vista algo que está fora do horizonte de Baptista, a saber, a ideia de formação como parte da construção da hegemonia paulista no cenário intelectual brasileiro, tal que, entre outras coisas, restringe-se o alcance e o sentido da ideia de “modernismo” ao episódio paulistano e a Mário de Andrade, majoritariamente, em prejuízo de outros modernismos havidos no Brasil — adiante voltaremos ao ponto); mas injusta porque atribui a Candido um poder que ele não tem, já que ali onde Baptista divisa um ato de vontade crítica de Candido está mais uma construção histórica, justamente

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a construção da hegemonia do pensamento paulista/modernista, num país que, além disso, realmente tem algo de um narcisismo e mesmo de autismo, em função talvez de sua riqueza ainda inesgotada, de sua extensão, de sua condição de único país de sua língua na vizinhança, da desproporção entre seu gigantismo e a relativa pequenez da antiga metrópole, tudo isso ainda organizado numa tradição de Estado centralista à moda latina, que vive de hegemonias excludentes no plano do pensamento e mesmo das artes — fatos esses que, repito, Baptista desconsidera, para atribuir a Candido e à ideia de formação a responsabilidade pelo nacionalismo que de fato há no Brasil. Valeria, a propósito, retomar um artigo secundário (mas precioso para o presente raciocínio) de Candido a este respeito. Refiro-me a “Uma palavra instável” (em Vários escritos9). Texto escrito em 1984, ele faz um recorrido dos sentidos variados que a instável palavra “nacionalismo” conheceu, desde a meninice do autor, no começo do século 20. Conhecendo altos e baixos, prestígios à direita e à esquerda, o termo teve, nos anos 30, que são os da formação acadêmica do autor, assim como nos anos pós-Segunda Guerra, que são os da produção de parte substantiva de sua obra (nomeadamente o livro aqui em causa, a Formação da literatura brasileira), uma positivação peculiar, todo um prestígio marcante. Evocando essas duas conjunturas, Candido dirá que, no decênio de 30, quando foram finalmente organizadas faculdades de Filosofia, Letras e Humanidades no Brasil (como a USP , modelo do raciocínio aqui), firmou-se um pequeno paradoxo, que consistiu em desenvolver-se pensamento com um forte sentido nacional, mas derivado da atuação de professores estrangeiros, isso tudo sendo uma espécie de desdobramento das teses modernistas que, na figura de Mario de Andrade, se apresentaram dotadas dessa nova valorização do nacional, mas por instigação estrangeira; e no período seguinte, após 1945, houve, para o autor, “por parte das esquerdas, fusão da luta de classes com a afirmação nacional (através do antiimperialismo)” (p. 223). Num e noutro momento, se pode constatar o valor positivo do nacional, do nacionalismo mesmo, na visão de Candido — positividade que, em 1984, na luta pela redemocratização ainda em curso e nos momentos finais da Guerra Fria (mas ninguém sabia que o eram) ele repete, ao dizer: “Hoje, nacionalismo é pelo menos uma estratégia indispensável de defesa, porque é na escala da nação que temos de lutar contra a absorção econômica do imperialismo” (p. 224). É preciso levar em conta essas três conjunturas, que correspondem a três momentos importantes da trajetória de Candido, para evitar um anacronismo agora em alta, a saber, o de fazer tábula rasa com todo e qualquer sentimento nacional ou mesmo nacionalista, considerando qualquer coisa que envolva tomar a nação positivamente como uma besteira: o caso é que, neste começo de século 21, após o desmonte neoliberal do “welfare state” onde ele existia e do desmonte das estratégias nacionais de desenvolvimento mais ou menos autônomas (como foi o caso do período getulista no Brasil e do Estado que ele engendrou, por exemplo),
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parece aos liberais que qualquer nacionalismo é igual a atraso; mas tal posição é também ela, claro, histórica, mas pretende-se acima da história, como de resto sempre ocorre com a ideologia do capital. Se não tomarmos tal historicidade em conta, realmente fica fácil acusar toda a ideia de formação como uma velharia, um conservadorismo, um retrocesso mental. (Fácil, fácil, na verdade apenas em momentos de euforia: a crise de outubro de 2008, comparada em vários graus com a Quebra da Bolsa de 1929, fez os ardorosos defensores do Estado Mínimo — assim como, no plano mais ameno das Letras, os combatentes da ideia da formação — esquecerem o discurso antiestado alegremente, para passarem o chapéu arrecadando em seu favor o dinheiro do mesmo Estado.)

Duas fases na reflexão sobre o nacional
Candido, que como se vê, tem realmente muito de nacional em seu pensamento e é de fato um iluminista (como diz Abel Baptista, mas num tom quase de acusação) de esquerda, pensou a ideia de formação para a literatura e para o Brasil, mas nunca intentando uma restrição de horizonte para os leitores brasileiros, naturalmente. No entanto, vale um esforço a mais para discutir se e quanto essa visada informada pelo nacional restringe o alcance do debate sobre a formação da literatura brasileira. Arriscando uma generalização, diria que a obra de Candido, tomada a régua dessa questão nacional como referência, tem duas fases distintas que, à medida que o tempo passa, se tornam mais nítidas, creio. (Certo, qualquer divisão em etapas tem o vício de sugerir um abismo entre as partes, uma distinção total, como se de fato se tratasse de duas vidas em sucessão, sem uma comunicar-se com a outra — vício em que não pretendemos incorrer agora, mantendo como se deve uma perspectiva mais sutil, que considere as interpenetrações, as continuidades, as mudanças delicadas, marcas estas que certamente vão ser encontradas na obra vasta de Candido; ainda assim, para efeitos de argumentação vamos manter a postulação da divisão.) A primeira fase, correspondente aos anos da maturação do autor (nascido em 1918), se estendem até a virada de 1950 para 1960, e pode ser simbolizada sinteticamente na edição da Formação, mas envolve vários ensaios e livros, dentre os quais, para os nossos fins, precisamos citar principalmente os escritos contidos em Literatura e sociedade, em especial o já citado “O escritor e o público” (redigido em 1955) e “Literatura e cultura de 1900 a 1945” (em 1950). A segunda fase é a seguinte, englobando os livros posteriores. Do ponto de vista biográfico, a primeira fase transcorre principalmente no ambiente da Segunda Guerra e do período democrático que se lhe segue, no Brasil, sendo marcada pelo curso de Ciências Sociais, pela tese de Sociologia Parceiros do rio Bonito e pela tese sobre a obra de Sílvio Romero, num período em que o autor, crítico militante em revista e jornal, é professor de Sociologia; a segunda fase corresponde ao tempo em que Candido migra para o magistério de Literatura, primeiro em Assis e depois em São Paulo mesmo, num período que vai ser assinalado pelo golpe de 64 e por seu recrudescimento em 68. Se é certo que nos dois tempos Candido permanece um

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sujeito de esquerda, seja militando no PSB, seja ajudando a fundar o PT, também é certo que os ambientes dominantes serão muito distintos, quanto a liberdades públicas, para não ir muito longe, assim como quanto à vida na cidade de São Paulo, cuja população passa do pouco mais de milhão do começo dos anos 30 para a massa que sobe à dezena de milhões nos anos 90. Por que essa divisão, se o que estamos averiguando é a dimensão do nacional em sua obra? A resposta sintética é assim: na primeira fase, Candido parece empenhar-se profundamente (e creio que quase sempre conscientemente) na validação do Modernismo, seja saudando as obras renovadoras oriundas daquele âmbito, seja interpretando e reinterpretando o passado da literatura e da cultura do Brasil pela lente polida nos anos 20. Dizendo de modo mais direto e cru: a dita primeira fase da obra de Candido é sim marcada de nacionalismo — aquele que ele mesmo definiu como progressista nas conjunturas de 30 e de final dos 50, aquele que dava fôlego a projetos nacionais progressistas, que tinham em vista maior democracia formal, criação de riqueza e sua distribuição mais homogênea, oferta de escola de qualidade para todo mundo.10 A segunda fase, em parte contrariando esta primeira, será menos marcada por tal empenho de validação do Modernismo — talvez porque o Modernismo, dos anos 1960 em diante, já havia conquistado posição canônica nas novas descrições da história da literatura, no ensino, no paradigma crítico e acadêmico em sentido amplo, e mesmo no campo da produção artística (quando menos, veja-se o papel central que certa parte das teses modernistas paulistas, bem como ao menos uma de suas figuras centrais, Oswald de Andrade, será reconhecido por Caetano Veloso como uma importante referência na formulação do chamado Tropicalismo), e por isso não era mais o caso de tentar validá-lo, uma vez que, para dizer de modo um tanto bíblico, seu tempo havia chegado. Assim, não é que a dimensão do nacional não tenha frequentado a preocupação de Candido; é que ela não era mais uma questão estruturante de seu pensamento. Vejamos alguma demonstração dessa hipótese de divisão. Na primeira fase, Candido produz ensaios notáveis, como os dois que mencionamos acima, redigidos em 50 e 55, época em que estavam sendo escritos os três grandes ensaios, a Formação, a tese sociológica e o exame da obra de Sílvio Romero. Não é o caso de apreciar cada um deles em particular, mas creio que se pode dizer que atuava neles, como uma ideia-força a unificar o sentido do trabalho, aquela busca da validação do Modernismo, como dito antes, o que se verifica explicitamente no ensaio “Literatura e cultura de 1900 a 1945”,11 por exemplo, na seguinte passagem: “Na literatura brasileira, há dois momentos decisivos que mudam os rumos e vitalizam toda a inteligência: o Romantismo, no século XIX (1836-1870) e o ainda chamado Modernismo, no presente século (1922-1945).
10 No citado ensaio, Roberto Schwarz descreve de modo mais extenso este período: “O nacionalismo desenvolvimentista, que tinha como adversários inevitáveis o latifúndio e o imperialismo, imprimia ao projeto de formação nacional uma dimensão dramática, de ruptura, que por momentos se avizinhava da ruptura de classes e da revolução socialista” (Op. cit. p. 56); eis aqui uma interpretação diretamente política do ânimo nacional dessa fase da obra de Candido. 11 Em Literatura e sociedade, op. cit.

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Ambos representam fases culminantes de particularismo literário na dialética do local e do cosmopolita; ambos se inspiram, no entanto, no exemplo europeu” (p. 112). O leitor de Candido deve ter reconhecido a expressão “momentos decisivos” de outra fonte, justamente no subtítulo da Formação da literatura brasileira, sendo de registrar que nela os momentos são o Arcadismo e o Romantismo. Sim, os três são decisivos, e talvez pudéssemos dizer o mesmo de outros momentos, igualmente, como o Realismo (no final do século 19, assim como na década de 1930, quando menos). O caso é que, mesmo havendo adjetivação diferenciada para tal decisividade (no ensaio se trata de dois momentos localistas, enquanto no livro se trata de um momento cosmopolita e outro localista, com atitudes estéticas opostas, ainda que ambos estejam ligados pela “vocação histórica” de fazer existir sistema literário entre nós), não se pode deixar de ver que há permanência de um valor fundante em tudo, a saber, o valor do nacional, seja como cenário social do sistema, seja como matéria-prima. Lendo-se o ensaio para mais adiante, vai-se verificar que a toda hora volta a vontade de marcar o Modernismo como vitorioso, com aplauso do autor (visto à distância, o movimento do espírito do autor dá a nítida sensação de estar imbuído da certeza revolucionária, neste caso a modernista antiparnasiana e antiacadêmica, o que lhe confere serenidade no exercício dos juízos, para além daquela que deriva do temperamento e da qualidade pessoal do autor): a Semana de Arte Moderna é diagnosticada como catalisador dos anseios de libertação em relação à “literatura de permanência”; Macunaíma é dado como a obra central e mais característica do movimento, e esta última palavra é tomada em sentido amplo, fazendo equivaler “Modernismo” com “renovação”, ainda que nem sempre se explicitem os laços entre os modernistas paulistas e as várias renovações do período; a literatura renovadora é dada como fruto de desrecalque localista e assimilação da vanguarda europeia, ou seja, positivada pelos dois lados, o brasileiro e o internacional; a “libertinagem espiritual” do Modernismo é vista como uma contribuição para o confronto com o conservadorismo e a tal literatura de permanência. Assim por diante. Candido não diz nunca, mas nós cá adiante podemos dizer, interpretando-o, que o Modernismo, visto em seu epicentro paulista e em seus (para Candido) desdobramentos por toda parte (no romance realista de 30, por exemplo), é a forma estética da aceleração do vibrante século 20, que se dá numa atmosfera leiga, não-católica e, fundamental, fora do Rio de Janeiro, a capital e a sede da literatura de permanência; é, em menos palavras ainda, a forma moderna leiga a que São Paulo dá forma, em sua disputa para tomar a hegemonia em mãos cariocas até então. (Mas isso são palavras e ideias minhas, não de Candido, que adiante retomo.) Isso quanto à primeira fase. A segunda, como dito antes, se caracteriza na biografia do autor como a fase de sua profissionalização acadêmica na área de Letras, propriamente, e será acompanhada na história do país pelo Golpe Militar e seus desdobramentos terríveis, especialmente na área da inteligência, no que nos interessa aqui. Mais ainda, nesta segunda etapa de seu pensamento quanto ao tema do nacional, o que de mais significativo encontraremos em matéria de produção

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intelectual parece menos ligado a essa preocupação brasileira, e mais conectado com temas tópicos da literatura, brasileira ou não. De imediato, qualquer leitor de Candido vai lembrar alguns ensaios luminosos, como a “Dialética da malandragem” e “Literatura e subdesenvolvimento”, ambos publicados em 1970; “Os primeiros baudelairianos no Brasil”, de 1973; “A passagem do dois ao três”, de 1974; uma série de artigos contendo análise particulares de obras, poemas, romances, brasileiros e estrangeiros, alguns reunidos num volume como Na sala de aula (São Paulo, Ática, 1985); isso ainda se contar uma porção generosa de textos de combate à ditadura e apoio à redemocratização do país, temas abordados direta ou indiretamente, sempre com clareza e disposição.12 De tal forma vai a coisa que temos, nesta fase, uma diminuição das preocupações de leitura sistêmica da literatura brasileira (sem prejuízo de haverem sido concebidas e escritas algumas visadas empenhadas na história, como é o caso especial de Iniciação à literatura brasileira13), ao lado de uma marcante preocupação com as discussões literárias de obras isoladas, em ensaios que, pode-se dizer, ganham em matizamento e profundidade teóricas, como é o caso exemplar do artigo sobre as Memórias de um sargento de milícias (a mencionada “Dialética da malandragem”) e aquele sobre O cortiço (“De cortiço a cortiço”), ou aquele sobre o romance Os Malavoglia (“O mundo-provérbio”).14

Pontos cegos da ideia de formação
No famoso ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”, citado há pouco, podemos iniciar outro momento deste comentário sobre o vigor e a vigência da ideia de formação. Este texto, bastante conhecido, discutiu, no calor da pior hora da ditadura brasileira, algumas mazelas da vida nacional, mas agora em perspectiva latino-americana. Era o começo dos anos 70, por sinal a mesma época em que o movimento cepalino, também ele latino-americanista, se expressou de modo forte, da parte de pensadores brasileiros envolvidos com aquela instituição, como Fernando Henrique Cardoso; e aqui temos um sintoma da sincronia das preocupações: agora, também para Candido se tratava de pensar as coisas brasileiras num quadro mais amplo, ao menos subcontinental, vendo as marcas compartilhadas entre o Brasil e os demais países da região, muitos deles, de resto, mergulhados em ditaduras militares igualmente. Candido ancora suas considerações, neste caso, não nos momentos decisivos antes mencionados, mas sim num tema e em seu tratamento literário: o tema é a vida rural, e seu tratamento literário vem a ser aquilo que em geral aparece sob o rótulo de “regionalismo”. Vai ver o ensaísta que há muitas realizações narrati12 Para todas essas referências, é preciso mencionar o imprescindível trabalho de Vinícius Dantas em Bibliografia de Antonio Candido. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 2002. 13 Trata-se de um panorama para estrangeiros, escrita em 1987 para obra coletiva que seria lançada como parte das comemorações do quinto centenário do descobrimento da América, e publicada em português, no Brasil, em 1997. Edição atual, Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2004, 4ª ed., revista pelo autor. 14 Esses três ensaios estão editados no volume O discurso e a cidade. São Paulo, Duas Cidades, 1993.

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vas sobre essa matéria, algumas idealizadoras (durante o Romantismo), outras críticas (no âmbito do romance realista pós-30), que seriam fruto de diferentes consciências sobre o atraso, a primeira “amena”, a segunda “catastrófica”, tudo isso alcançando um ponto novo na obra de Guimarães Rosa, que teria transfigurado a mesma matéria, agora alcançando algo da ordem do sublime (mas Candido não usa este termo: ele fala, aliás, na vinculação desse “super-regionalismo”, dessa sublimação do regionalismo em Rosa, como vinculado a uma “consciência dilacerada do subdesenvolvimento”, dilaceração que me parece difícil de detectar na obra do autor de Grande sertão: veredas, autor que em parte celebra o mundo patriarcal rural ao mesmo tempo que faz o luto por sua ultrapassagem histórica). Essas observações, de grande alcance descritivo, vêm casadas com uma leitura sombria do presente e do futuro, eis que os de baixo, mercê da urbanização acelerada e do êxodo rural concomitantes, estavam passando de um estágio folclórico primitivo para outro igualmente folclórico urbano, com a mediação mais ou menos diabólica dos meios de comunicação massivos. Os laços entre os termos presentes no título, literatura e subdesenvolvimento, vão sendo tramados para mostrar, por exemplo, que a permanência do segundo implica um rebaixamento do horizonte mental, a manutenção da “dependência cultural” (termo usado pelo autor), numa equação que no contexto dos anos 70 tem sentido de combate à ditadura –que, é bom lembrar, negava que o Brasil fosse “subdesenvolvido”, termo que a esquerda usava como uma acusação contra os militares, estes preferindo dizer que éramos um país “em desenvolvimento” – mas que, vista agora, padece de certo esquematismo, ao aproximar subdesenvolvimento, mundo rural, naturalismo e literatura regionalista ruim. É como se Candido estivesse fazendo, digo eu agora em síntese um tanto irreverente, o luto pelo fim do projeto iluminista, moderno, certamente francófilo, que ele identificava na construção do sistema literário no Brasil até então, do Arcadismo ao Modernismo, passando pelo Romantismo (os três “momentos decisivos”) e pelo final do século 19. Aliás, este final do século 19 merece uma consideração aqui, para entender melhor os anunciados pontos cegos da formação. Esta vinculação feita por Candido entre subdesenvolvimento, naturalismo e tema rural (o “regionalismo”) dá o que pensar. Por que não comparece em seu raciocínio, digamos, Aluísio Azevedo? Acaso sua notável literatura não é uma súmula de subdesenvolvimento e naturalismo, apenas que debruçado sobre matéria urbana? E, tomando nós o problema por um outro lado, por que Machado de Assis só aparece no ensaio como uma exceção total, e não como quem tivesse também lidado com o que nos anos 1970 se chamava de subdesenvolvimento, eis que também sua obra lida com certas dimensões da dependência do Brasil em relação à Europa? Esta segunda pergunta é fácil de responder: Candido não alinhou Machado em seu ensaio que mostra os nexos entre literatura e subdesenvolvimento porque tal dimensão não era clara, ou não estava explicitada claramente, feito que justamente alguns anos depois deste ensaio é que virá a público, especialmente pela obra de um discípulo de Candido, Roberto

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Schwarz; daí não ter o ensaísta arrolado Machado entre as evidências daqueles nexos. Mas e a primeira pergunta, sobre Aluísio Azevedo, como se pode responder? Por que motivos Candido não acolheu o autor de O cortiço entre os casos fortes de literatura envolvida com subdesenvolvimento e vazada em linguagem e estrutura naturalista — e mais ainda sabendo nós que Candido aprecia muito este romance brasileiro? A resposta é difícil de encontrar, mas, uma vez encontrada, salvo engano, nos ajuda a entender os tais pontos cegos da ideia de formação. Ocorre que, no ensaio que estamos apreciando, a ênfase toda começa pela ligação biunívoca entre subdesenvolvimento e mundo rural, o que deixa o mundo urbano fora do foco, que se concentra nas obras “regionalistas”. Mas os de baixo que Azevedo enfoca, não são eles também algum índice do subdesenvolvimento? Não é o caso de vê-los talvez mesmo em linha com o atraso do mundo rural? Se não, por que não? Minha resposta para tais questões vai na direção de mostrar que Candido cultiva uma perspectiva urbanocêntrica, a partir do modernismo paulista, e por isso pensa as obras ligadas a temas urbanos como pertencendo a um mundo mais desenvolvido, que se rege pelas leis gerais da literatura sem adjetivo pátrio; por isso, ficam fora do debate sobre literatura e subdesenvolvimento Machado, Aluísio Azevedo e, poderíamos acrescentar, Lima Barreto e toda a dita “literatura de permanência” acima mencionada, para não falar dos romancistas que frequentaram o tema urbano nos anos 1930 e 1940. É como se Candido tomasse em conta duas literaturas brasileiras, ou melhor, duas ordens de literatura brasileira: uma delas, que aparece no centro desse ensaio e já havia ganhado destaque na primeira fase de sua obra, é aquela que se vincula ao tema nacional, à busca de identidade, à tentativa de superação da dependência cultural, etc., quer dizer, é aquela que cabe bem no debate sobre construção do sistema nacional de literatura; a outra literatura brasileira é aquela que ele tomará como literatura, não como nacional, e tem seus exemplos mais subidos em casos como o de Aluísio Azevedo, Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis (ainda que este seja uma espécie de sombra na obra de Candido, muito mais do que objeto: Machado está no ponto de chegada da Formação, mas sem merecer descrição naquele livro; Machado é objeto de uma conferência que virou artigo, e ali sua obra é apresentada de modo panorâmico, sem ganhar iluminação analítica profunda; Machado está por tudo, como o crítico que entendeu não ter cabimento a prisão nacionalista, como disse em seu famoso “Notícia da atual literatura brasileira — Instinto de nacionalidade”, sem deixar de ler a tradição local, a ser superada por ele mesmo). Assim, se for razoável esta proposição de que há na obra crítica de Candido essas duas literaturas brasileiras — uma ligada ao tema nacional, que o autor centraliza em sua obra anterior a 1960 e que em “Literatura e subdesenvolvimento” mais uma vez ocupa o centro da cena como objeto e como limite, e a outra que escapa disso, que é simplesmente literatura, como Machado, o Realismo-Naturalismo e a “literatura de permanência”, uma literatura não-nacional, cosmopolita —, podemos avançar um passo mais no rumo já traçado, de discernir o que me parece serem os pontos cegos na concepção de formação. Antes de mais, poderí-

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amos dizer que Machado é um ponto cego: o esquema conceitual da formação ao mesmo tempo o coloca no centro de sua concepção e fora dela — no centro, porque ele é a evidência de um sistema formado, Machado sendo visto aqui como o crítico que entendeu as virtudes e as limitações da tradição local, e fora, porque ele não é alcançado pelas restrições do mesmo sistema, Machado sendo visto aqui como o ficcionista que superou os acanhados debates localistas emancipando-se das injunções nacionais. Em posição mais sutil estão outros pontos cegos: um, uma certa naturalização da concepção do Brasil; dois, uma certa naturalização da concepção de Europa; e três, o menos relevante desta sequência para os fins de nossa análise, uma certa naturalização da concepção da sociedade de classes. O terceiro caso pode ser sumariamente apresentado aqui na forma de evocar o tipo de análise feito por Pierre Bourdieu (mas poderíamos pensar também em Raymond Williams e no multiculturalismo, que compartilha muito com Bourdieu), que, não sendo um crítico literário, mas pura e duramente um sociólogo, mostra o caráter de classe de hábitos culturais, dentre os quais o apreço pela chamada alta cultura, tudo isso sendo analisado como contingente, como historicamente condicionado. Candido, ao contrário — e com ele todos os críticos literários e a maioria dos que se dedicam ao estudo da literatura, entre os quais este comentador aqui —, naturaliza a excelência de certos livros que, em outro contexto, são chamados de canônicos, e procura ver neles, em seus movimentos internos e em suas entranhas, mais do que nos contextos de origem, o modo como grandes artistas registraram, estilizaram, transmutaram a experiência vital, inclusive das classes sociais da sociedade em causa. Os grandes artistas, não os pequenos, os tentativos, não os que produziram obra dita menor. Repito que tal é a tendência histórica dos estudos literários, o que não pode nos impedir de ver aí uma naturalização, ainda mais quando temos hoje tantas visões alternativas produzindo interpretações relevantes, mesmo em termos estritamente literários, como é o caso de Franco Moretti, que, aliás, discute abertamente esta naturalização15 para contrapor-se a ela (e ao estudo exclusivo dos canônicos). Os outros dois pontos cegos são talvez de mais difícil enunciação em detalhe, mas, sabendo dos limites deste ensaiozinho aqui, vamos apresentá-los também brevemente. São duas naturalizações: a de Brasil e a de Europa. Como se pode vê-las? Quanto à Europa, está ainda por ser feita uma análise extensiva sobre a figuração que sobre ela Candido faz em sua obra, em vários momentos. Para mencionar apenas um, vale retomar o famoso prefácio da primeira edição da Formação da literatura brasileira, momento em que o autor propôs uma imagem que lhe trouxe bastante incômodo, ao afrontar suscetibilidades nacionalistas brasileiras (quando nomeou a literatura brasileira como “galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”,16 momento que
15 Veja-se, por exemplo, seu Signos e estilos da modernidade — Ensaios sobre a sociologia das formas literárias (trad. Maria Beatriz Medina). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2007, a contar do primeiro ensaio, “A alma e a harpia — Reflexões sobre as metas e os métodos da historiografia literária”. 16 Op. cit., p.9.

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aqui pode ser mais uma vez invocado mas com outra finalidade, a de mostrar que Candido, a bem de salientar a precariedade da literatura de língua portuguesa, a feita em Portugal e a feita no Brasil, compara essas ralas tradições com as de outras línguas europeias (francês, italiano, inglês, alemão e, com certa restrição, russo e espanhol), em que a literatura é dada como maior, mais madura, por serem arbustos de primeira ordem naquele jardim metafórico e proverem seus leitores com tudo de que eles podem necessitar para “elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias”, numa sucessão argumentativa em que as comunidades de língua e de nação são niveladas, sem que sejam sempre coincidentes (o alemão é o exemplo mais eloquente no território europeu, por ser língua de mais de uma nação, e o inglês o mais forte para além das fronteiras nacionais). Dizendo de outro modo: por certo este suposto leitor que lê inglês como sua língua materna incorporaria a seu acervo potencial obras escritas em toda parte, digamos Inglaterra, Irlanda, Escócia e mesmo Estados Unidos; e por que não seria assim para o leitor do português como língua materna entre as obras escritas em Portugal e no Brasil?17 Quer dizer: na tensão Brasil-Portugal é preciso separar, mas nos casos alemão e inglês, sem ir mais longe, não é. Por quê? Certo, entre as nações de língua alemã não há a relação entre metrópole e colônia; mas no inglês há, mais ou menos como no português e no espanhol. Mas vejamos outro exemplo da naturalização da ideia de Europa, colhido em texto já mencionado, aquele ensaio “Literatura e cultura 1900-1945”; nele, como em várias outras partes (talvez especialmente em textos do que chamei aqui de primeira fase de Candido), aparece a oposição simples entre o Brasil e a Europa, por exemplo, assim: “O intelectual brasileiro, procurando identificar-se a esta civilização [americana, nova, tropical – LAF], se encontra todavia ante particularidades de meio, raça e história, nem sempre correspondentes aos padrões europeus que a educação lhe propõe”.18 O leitor de 2008 tem o direito de perguntar: qual padrão europeu? Quer dizer francês, não? Por certo não se trata de um suposto padrão inglês, ou britânico, nem alemão, ou germânico, ou mesmo espanhol andaluz, etc. E, bem, nem “francês” é bem isso, porque há a Bretanha, há o sul, há a fronteira com a Alemanha. É provável que ao dizer “padrão europeu” Candido estivesse dizendo, mais especificamente, o padrão parisiense, mais ou menos tal como filtrado pela intelectualidade lisboeta. Candido — que viveu um tempo de formação pessoal na França, com a família, e é um leitor apaixonado de Proust, embora pouco o mencione em sua obra —, Candido mesmo diz, como se sabe, que nomeadamente na Formação tomou o ângu17 Outro exemplo, este diagnosticado por Ian Alexander, em debate: no citado ensaio “Literatura e cultura de 1900 a 1945”, Candido menciona “As terríveis ousadias de um Picasso, um Brancusi, um Max Jacob, um Tristan Tzara”, europeus vanguardistas, como “mais coerentes com a nossa herança cultural do que com a deles” (Literatura e sociedade, p. 121); o caso é que tais autores, consideradas as suas origens individuais, são na verdade menos europeus genéricos e mais europeus da periferia (um andaluz, um romeno, um bretão, mais um romeno), que acorreram a Paris, o centro, para fazer carreira e encontrar eco. Ver o ensaio de Ian Alexander “Leituras novo-mundistas”, em Outra travessia. Revista de Literatura (UFSC), n. 6, p. 7-30, 1º semestre de 2007. 18 Op. cit., p. 110.

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lo dos românticos brasileiros como ponto de partida, como termo a partir do qual as coisas são observadas. Pode ser verdade; mas também pode ser, penso eu, que nessa fusão entre o comentarista de literatura na metade do século 20 e o escritor ou o intelectual romântico brasileiro de meados do século 19 vá um tanto de modernismo paulista — Candido pôde mover seu ponto de vista para aquela conjuntura nacionalista porque estava animado, cem anos depois, de um sentido construtivo também nacional19, e também fundador (refundador), por certo não ufanista, sentido cuja força vem das teses e da leitura de mundo do Modernismo tal como concebido e praticado em São Paulo. Neste ponto, minha coincidência com a visão de Abel Baptista é grande: realmente é palpável este continuum Independência-RomantismoModernismo-USP-Candido/Formação (e seria possível acrescentar, vistas as coisas em 2008, que há ainda o desdobramento deste continuum no plano político imediato, com a criação e a prática dos partidos modernos brasileiros, que se chamam PT e PSDB, à esquerda e à direita deste mesmíssimo continuum, para o bem e para o mal); só que, deste ponto em diante, de minha parte é preciso marcar uma grande distância em relação às conclusões de Abel Baptista, que, por absolutizar a ideia de nacional, retirando-a da história — história em que o nacional é objeto de disputa a cada conjuntura, como o próprio Candido examinou, no artigo antes citado, “Uma palavra instável”, em Vários escritos, e portanto ostenta matizes de esquerda e de direita, progressistas e regressivos, conforme o caso —, como que condena a visão formativa aos infernos do nacionalismo, isto é, do que ele considera um conservadorismo, cujo desdobramento ele chama de “sequestro nacionalista” de Machado de Assis, autor que, não sendo de fato um nacionalista, Baptista considera que foi embretado, pela crítica brasileira, numa entalada brasileira exclusivista20. De todo modo, é preciso ver que Candido de fato naturaliza uma noção de Brasil, que aparece em sua obra empenhada no debate do nacional num patamar de generalidade parecido com aquele em que está a noção de Europa, como vimos acima, no aludido “padrão europeu” com que se media o intelectual brasileiro. E o faz a partir de um motor que se chama, implícita ou explicitamente conforme o texto que tomarmos em conta, Modernismo, motor que eu considero necessário qualificar como Modernismo paulista. O próprio Miceli foi quem primeiro iluminou a questão, ao menos na minha leitura: em seu conhecido Poder, sexo e letras na República velha (Estudo clínico dos anatolianos)21, ensaio publicado em 1977, já no primeiro parágrafo, a propósito de apresentar o termo “pré-modernismo”, se lê: “A história literária adotou tal expressão com vistas a englobar um conjunto de letrados que, segundo os critérios impostos pela “ruptura” levada a cabo pelos modernistas, se colocariam fora da linhagem estética que a vitória política do modernismo entronizou como dominante”, com itálico meu. Quer dizer:
19 Na descrição de Schwarz, Candido “encara com simpatia o empenho patriótico e formador daquela geração” (op. cit., p. 53), com grifo meu. 20 O argumento do autor está exposto de modo extenso em A formação do nome — Duas interrogações sobre Machado de Assis. Campinas, Editora Unicamp, 2003, especialmente na Parte I. 21 Edição atual: Intelectuais à brasileira. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.

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se trata de apresentar a dimensão política da criação da categoria “pré-modernismo”, fruto de uma vitória — e quem diz vitória diz luta, naturalmente. Luta pelo poder de nomear, neste caso no plano aparentemente inofensivo da história literária; e quem conquistou este poder de dar nome aos bois, às vacas e a todos os seres vivos da paisagem literária brasileira foi exatamente o Modernismo, e, acrescento eu, o Modernismo em sua versão paulista (bem, talvez haja sido o único modernismo no Brasil a merecer um nome assim, que agrega a noção de vanguarda heroica à de movimento consistente, ponta de lança e a tropa comum, como, aliás, o mesmo Candido vai defender, com análise muito mais fina do que esta aqui, exemplarmente no citado artigo “Literatura e cultura 1900-1945”, texto que neste particular segue de perto o raciocínio de Mário de Andrade no conhecido ensaio “O movimento modernista”, conferência proferida em 1942 em que, a título de fazer um balanço dos vinte anos da Semana de Arte, diz ele, num notável golpe de palavras, que, contra a opinião negativa de que “a estética do Modernismo ficou indefinível”, essa indefinição é a “milhor razão-deser do Modernismo!”22, na prática afirmando que então toda a liberdade é Modernismo. A equação do ensaio é Semana de Arte Moderna é igual a Modernismo, de um lado; de outro, a liberdade e a saudável indefinição de rumos é igual a Modernismo — faltou evidenciar a outra igualmente, o que me encarrego de fazer aqui: para Mário de Andrade, como creio que em parte para Candido, da Semana de Arte Moderna depende a liberdade de que os escritores desfrutam. Difícil para mim aceitar que tanta coisa, da vigorosa poesia à variada crítica passando pelo exuberante romance dos anos 30 e 40, tenha dependido da Semana de Arte Moderna; parece mais sensato ver nessa equação um golpe retórico, golpe no sentido também político-militar, tanto quanto a metáfora da vanguarda a que se afeiçoa a visão modernistocêntrica. Golpe que se soma à dita naturalização da ideia de Brasil, presente no Candido que colabora decisivamente para entronizar o Modernismo como vitorioso naquela luta. Tal naturalização fica visível talvez em particular para quem, como este comentador aqui, observa o fenômeno da literatura brasileira a partir de uma formação regional (a gaúcha) que alia muito de reativo contra a visão nacional construída primeiro no Rio do Romantismo e depois na São Paulo do Modernismo, e sendo reativo há muito de conservador, com muito de legítimo pela organização interna de um genuíno sistema literário, com o funcionamento do célebre triângulo de autores-obras-público leitor e a consecução de uma tradição local. Essa circunstância não é a única que permite ver aquela naturalização, mas certamente é uma das mais favoráveis, eis que toma como ponto de partida e de observação um sistema local firmemente constituído que, ademais, e atipicamente em relação à experiência brasileira, compartilha temas e formas, assim como base econômica e paisagem, com sistemas literários não-brasileiros, especificamente os platinos (se é que não se trata de apenas um sistema platino, a envolver o Uruguai e a Argentina, ou ao menos as províncias platinas da Argentina).
22

Em Aspectos da literatura brasileira. São Paulo/Brasília, Martins/INL, 1972, 4ª ed., p. 251.

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Para dar um exemplo concreto: vistas as coisas a partir do sistema gaúcho, a poesia modernista paulista, em qualquer das versões consagradas (Mário e Oswald em particular), obedece a um padrão reconhecível logo, porque toda ela se organiza estética e politicamente como um enfrentamento ao Parnasianismo, e isso fez sua fortuna, até hoje, como se lê em qualquer livro didático; ora, a poesia moderna no Sul teve nada que ver com o Parnasianismo e foi mais que tudo um desdobramento ou uma superação do Simbolismo, estética experimentada intimamente pelos mais interessantes poetas gaúchos do período (Augusto Meyer, Athos Damasceno, Felippe de Oliveira, Ernani Fornari e mesmo Mario Quintana23); e esta diferença é o motivo suficiente para que tais poetas não sejam acolhidos no cânone modernista paulistocêntrico. (Claro que estamos aqui falando apenas da dimensão retórica da coisa; mas valeria a pena um mergulho no empuxo histórico mais decisivo para essas diferenças, que se marcariam na distinção entre a força da economia paulista, que experimentou um arranco incomparável em termos brasileiros, um solavanco de todo inegável, e a relativa normalidade do desenvolvimento da economia gaúcha no mesmo tempo, aliando uma arrancada industrial importante à base agropecuária, mas sem aquele salto paulista, em última análise justificador do afã modernista pela atitude vanguardista.) Uma última palavra sobre a naturalização da ideia de Brasil, que gera o ponto cego que estamos trazendo à luz: no prefácio que Candido escreve para Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945), de Sérgio Miceli24, lemos o enorme desconforto (que vem, porém, imerso numa elegante aceitação da tarefa do prefaciador, que admite a força da análise que está apresentando) que nosso autor sente ao ver enunciada com toda a clareza a dimensão de luta política da ação modernista, empreendida por amigos seus, aliados seus. Candido abre o texto afirmando a inutilidade dos prefácios, inclusive o dele, elogia o pesquisador empenhado em desvendar seu objeto e, a seguir, apresenta-se como solidário com os intelectuais que são analisados por Miceli, eis que todos, incluindo o autor do estudo, pertencem “ao que um proustiano poderia por extensão talvez indevida, mas sugestiva chamar de ‘a grande e lamentável família’ dos intelectuais”.25 Aquele “proustiano” foi italicizado por mim para marcar a adjetivação que parece saída das profundezas do prefaciador, que viu no estudo de Miceli muitos méritos, mas também algo perturbador, que funciona, para Candido, como uma condenação das ações daqueles intelectuais modernistas — condenação que, a juízo deste leitor aqui, não existe, condenação que é na verdade um desvendamento de tipo sociológico, puro e duro, como leremos no corpo da análise, por exemplo, quando Miceli analisa certos “instrumentos de luta” política da oligarquia paulista, derrotada em 32, tais como a criação da Escola de Sociologia e Política e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na USP, assim como a criação do Departamento
23 Escusada a autocitação, veja-se, para dados, meu ensaio Literatura gaúcha — História, formação e atualidade. Porto Alegre, Leitura XXI, 2003. 24 Op. cit. Este ensaio teve sua primeira edição em 1979. 25 Idem, ibidem, p. 71.

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Municipal de Cultura. Chamar de “instrumentos de luta”26 política a criação da escola em que estudou e o setor em que trabalhou Mário de Andrade talvez tenha parecido a Candido uma demasiada politização do debate. Aliás, igual desvendamento Miceli vai operar também quanto à outra dimensão do fenômeno, ao mostrar que a ação dos modernistas no campo amplo em que atuaram, para além da criação artística e alcançando a gestão cultural propriamente dita, foi uma permanência da “galomania de seus antecessores anatolianos”,27 observação que igualmente pode ter parecido um pequeno escárnio, a demonstrar uma intensa continuidade bem ali onde os modernistas queriam que se visse ruptura ou mesmo pura invenção.28 São esses, enfim, alguns pontos cegos da ideia formativa de Candido, que se tornam visíveis quando olhados a partir de uma outra conjuntura histórica, este começo de século 21, e de outra formação sistêmica, neste caso a sulina. (Poderia também alinhar outro ponto de onde parte esse olhar em busca de pontos cegos, seguindo aqui a observação de Schwarz no artigo citado já algumas vezes: diz ele, em texto publicado em 1999, que “No momento, o sistema literário nacional parece um repositório de forças em desagregação”.29 Mas tenho mais dúvidas do que certezas quanto a este diagnóstico. Será mesmo que se encontra em desagregação o sistema literário nacional? Ou será que de fato o que se encontra desagregado é o projeto modernista tal como concebido — e, importante lembrar, levado a efeito completamente, do mais sofisticado debate acadêmico ao plano cotidiano das salas de aula pelo território afora —, estando o sistema literário empírico no Brasil (os autores, os livros, os leitores, a indústria editorial, o sistema escolar, etc.), enquanto isso, desenvolvendo sua trajetória em país sem projeto autônomo, ou melhor, sem a ilusão autonomista que nos anos 50 dava fôlego para aquelas leituras formativas? O projeto modernista, quer dizer: o projeto unitarista do Modernismo de feição paulista, aquele que reinterpretou o passado contra a interpretação hegemônica centrada no Rio imperial, agora em favor de uma ideia que era ao mesmo tempo moderna, pela liberdade que postulou e praticou (representando a força burguesa paulista daquele momento), e antiga, pelo centralismo de sua concepção, que perpetua a visão luso-brasileira, católica, de hegemonia excludente.) Por isso, dadas essas condições de leitura, vimos que o autor elide alguns aspectos que, de um ângulo sociológico igualmente materialista, mas mais próximo do marxismo (Bourdieu, Miceli) e menos nacional (Abel Barros Baptista, além deste comentador aqui, em galhos diferentes), merecem reflexão: de fato, a ideia de formação em Candido não busca força em seu raciocínio na luta (ou na diferença) de classes, assim como não considera com ênfase a diversidade de forças,
Idem, ibidem, p. 101. Idem, ibidem, p. 186. 28 Eu mesmo tenho escrito sobre o tema algumas vezes. Seja-me permitido mencionar outro livro, Literatura brasileira — Modos de usar. Porto Alegre, L&PM, 2007. 29 Op. cit., p. 58.
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interesses, tensões e formações regionais existentes dentro do Brasil e cuja existência impõe problemas à ideia genérica de identidade nacional brasileira, e da mesma forma não leva em conta a diversidade que se encobre sob o rótulo genérico de Europa. E eis aqui três questões de amplo interesse para o debate literário, penso eu que especialmente aquele que queira honrar a mesmíssima tradição materialista de que Candido é um expoente brasileiro dos mais altos.

A força da ideia de formação, hoje
Feitas todas essas ressalvas críticas, que pretendem ser uma conversa dentro da tradição formativa com vistas a seu avanço epistemológico, é hora de encerrar esta reflexão evocando agora a força positiva da perspectiva da formação nos tempos de hoje. Encerramento que será sumário, como convém a um texto que já se estendeu demais e como cabe a um quadro histórico em que as coisas são menos claras do que já foram, especialmente no debate sobre história da literatura pelo ângulo da tradição materialista. Certo que temos um repertório muito estimulante de trabalhos que tentam encontrar caminhos para quem, como é o caso deste que aqui escreve, quer manter em mente a visada formativa, não pelos motivos nacionalistas efusivos de tempos atrás, mas pelo que ela oferece de interpretação orgânica da história quando vista a partir de uma posição periférica, o Brasil, o sul do Brasil ou o Prata, por exemplo. É o caso dos trabalhos de Roberto Schwarz e de Franco Moretti, para ficar em dois grandes nomes, que entre si apresentam notáveis diferenças, mas importantes convergências. A força principal da noção de formação e de tudo que ela implica é esta: a capacidade de oferecer uma visada de conjunto sobre literaturas, autores, circuitos de leitura, e mesmo sobre outras instâncias e linguagens artísticas, como a canção ou a escultura, o cinema ou o desenho, nascidas e desenvolvidas em países colonizados, e em particular para os que foram colonizados por países europeus em regiões sem cultura letrada desenvolvida anteriormente, o que significa dizer as Américas, a Oceania e partes da África subsaariana,30 talvez não mais do que isso (quer dizer, ficam fora desse horizonte, creio, países que passaram por períodos de colonização europeia, mas dispunham de história cultural letrada anterior, como a Índia, o Oriente Médio, o Sudeste Asiático). Mas também não menos que isso: seja para pensar a arquitetura ou a pintura, a organização das instituições culturais ou a maneira de se pensar no mundo, especialmente para discutir a literatura e as coisas a ela associadas, a noção de formação está viva porque é capaz de mostrar e descrever o esforço dos países e das regiões (supranacionais, talvez, como queria Ángel Rama, e infranacionais também, como creio) em verem-se no processo de conquista de autonomia, seja ela a política formal (como a Independência do Brasil pode ser um paradigma), seja ela ideológica mas não institucional (como é o caso do Rio Grande do Sul, talvez de Pernambuco, possivelmente
30 Este conjunto de países e regiões Ian Alexander, no citado artigo, chama apropriadamente de Novo Mundo.

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de outros casos). Vale a propósito lembrar que o recém-citado Ángel Rama cogitou descrever a literatura das Américas a partir do que chamou de “comarcas”, entidades ou supra ou infranacionais, sempre conectadas a um sentido formativo; Jorge Ruedas de La Serna estudou o caso mexicano pelo filtro formativo; no Brasil, inúmeros estudos demonstram a vitalidade da perspectiva formativa para descrever quadros específicos, como é o caso da arquitetura no trabalho de Otília Arantes, ou de uma visada de conjunto, como é o caso de alguns ensaios de Paulo Arantes;31 Homero Araújo estendeu o raciocínio formativo a João Cabral;32 o já citado Ian Alexander tem pensado a situação da literatura da Austrália em diálogo com a noção de formação; desculpada a deselegância de mais uma autocitação, venho de publicar um estudo em que aproximo Machado e Jorge Luis Borges (e depois Poe) exatamente pelo viés formativo, que tanto um desempenhou no Brasil quanto o outro na Argentina (e o terceiro nos Estados Unidos).33 Em cada um desses casos, a lente formativa permite discernir uma construção objetiva ocorrida nas periferias do mundo ocidental, composta pelo desejo (mais e menos consciente por parte dos atores, conforme o caso) de obter expressividade formal e conquistar audiência para sua voz, que se nutre, como sempre ocorre, preponderantemente de materiais locais e formas não-locais, com a mediação de uma voz e/ou um pensamento local;34 expressividade e audiência que só se conseguem numa tensão entre repetir o já-feito e ousar fazer o nunca-feito; noutra tensão entre pertencer a um sistema não-local e criar um sistema local; e, noutra ainda, entre proximidade e distância do criador e do público, cada um por sua vez, em relação tanto ao mundo local quanto ao mundo não-local, como igualmente em relação às formas locais, que antes do processo formativo ou não existem ou não se evidenciaram ainda, e às formas não-locais. De modo mais sintético: formação se cria num sistema de três tensões, que se combinam diversamente, entre centro e periferia (não necessariamente nacional, repitamos), entre criador e público, entre matéria e forma. Uma teia complexa de forças em confronto, que nunca vão dar como resultado uma coisa meramente óbvia e esperada, salvo se estivermos falando de arte trivial; teia complexa que, nos melhores casos, será enunciada por artistas e intelectuais no momento em que maturarem as relações intelectuais e sociais, permitindo o vislumbre da realidade local atravessada por aquelas tensões (foi o caso de Borges para a literatura argentina, ou de Noel Rosa na canção brasileira), e/ou, em casos talvez não muito regulares, no momento em que aparecer um gênio capaz de discernir essa rede de tensões ainda antes que ela esteja visível para muitos (Machado para o Brasil, Poe para os Estados Unidos).
31 Veja-se, para os dois casos, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa. Sentido da formação — Três estudos sobre Antonio Candido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1997. 32 O poema no sistema – A peculiaridade do antilírico João Cabral na poesia brasileira. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1999. 33 Machado e Borges (e outros ensaios sobre Machado de Assis). Porto Alegre, Arquipélago, 2008. 34 Essa síntese ultrabreve está no ensaio “Conjecturas sobre a literatura mundial”, de Franco Moretti (no livro Contracorrente: o melhor da New Left Review em 2000, organizado por Emir Sader, com tradução de Maria Alice Máximo e outros. Rio de Janeiro, Record, 2001).’

184 Literatura e Sociedade

E vale uma última nota histórica sobre o papel da ideia de formação no debate brasileiro. Cada vez que se olha para o quadro mental da cultura de nosso país nos anos entre, digamos, 1920 e 1950, mais se salienta o enorme valor das proposições de Antonio Candido, pelo contraste que fazem, agora menos do que antes no plano político, mas agora mais do que antes no plano científico: é que Candido, como a maior parte de seus companheiros de geração em São Paulo (Paulo Emilio e Sérgio Buarque em particular), protagonizou não apenas o debate conceitual ilustrado, como se sabe que ele de fato protagonizou, mas também esteve à frente de uma atitude mental rara e preciosa, que era simultaneamente leiga — significando particularmente não-católica, o que no contexto significa não-espiritualista, pró-materialista, pró-empirista — e de esquerda não-estalinista — quer dizer, sem as preocupações doutrinárias que desembocaram na defesa do realismo socialista, portanto longe da atitude que fazia da crítica literária uma mera sucursal do projeto político comunista naquela conjuntura. Não é pouca coisa o que essa duas virtudes trouxeram ao quadro do debate; para além do empenho conceitual derivado da ciência social que revolucionou a discussão sobre crítica e história da literatura, esses marcos do pensamento leigo e de esquerda democrática fizeram — fazem — uma diferença decisiva em favor da obra por eles gerada, pela mão do mestre Candido. Agosto-outubro de 2008

186 Literatura e Sociedade

Antonio Candido y David Viñas:
la CrítiCa literaria y el Cierre del pasado históriCo
gonzalo aguilar
Universidad de Buenos Aires - Conicet

Resumo
Neste texto se ensaia uma comparação entre dois livros fundadores da crítica literária moderna latino-americana: Formação da literatura brasileira de Antonio Candido e Literatura argentina y realidad política do argentino David Viñas. A partir de uma análise de seus postulados, investigam-se as diferenças e o porquê desta fundação tão diversa no Brasil e na Argentina.

Palavras-chave
Dialética; Literatura nacional; Historicidade

Abstract
This text compares two seminal books in modern Latin American literary criticism: Antonio Candido’s Formação da literatura brasileira and Argentine critic David Viñas’ Literatura argentina y realidad política. Through a comparative analysis of their basic postulates, differences are assessed and the reasons for the notable dissimilarities between the Brazilian and the Argentine foundational books are explored.

Keywords
Dialectic; National literature; Historicism

gonzalo aguilar

Antonio Candido y David Viñas: la crítica literaria y el cierre del pasado histórico 187

n los estudios comparativos de crítica latinoamericana, Antonio Candido siempre ha sido puesto en relación – indefectiblemente – con Ángel Rama. Las afinidades que existen entre ambos escritores, el hecho de que se hayan conocido personalmente y de que Rama haya reconocido la importancia de Formação da literatura brasileira en su propia obra son algunos de los factores que explican el lugar privilegiado que se le ha otorgado a esta comparación. Sin embargo, la idea de afinidad que rige el cotejo entre Candido y Rama no deja de tener sus efectos negativos: por un lado, desemboca casi inexorablemente en un esquema de “vidas paralelas” que suprime la singularidad de cada obra y que lleva a la crítica a subrayar, encontrar y hasta inventar coincidencias y semejanzas.1 Por otro, el cotejo entre ambos tiende a obturar otras relaciones menos pendientes de las afinidades y de los contactos personales. Con el objetivo de ampliar el juego comparativo y de eludir la tentación identitaria de vincular solamente aquello que supuestamente se asemeja, propongo en este trabajo confrontar la Formação da literatura brasileira de Antonio Candido con un libro que fue editado pocos años después y que forma parte del canon de la crítica moderna argentina: en refiero a Literatura argentina y realidad política de David Viñas, cuya primera edición es de 1964.2 La historiografía posterior ha señalado un rasgo que caracteriza el papel que ambos escritores han desempeñado en sus respectivos países: según una idea que tuvo gran aceptación, Antonio Candido y David Viñas fueron los fundado1 Una excepción la configura el documentado libro de Pablo Rocca que confronta las obras de Ángel Rama con las de Antonio Candido y Emir Rodríguez Monegal: Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: Dos caras de un proyecto latinoamericano. Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2006. 2 David Viñas nació en la Argentina en 1927 y es novelista, ensayista y dramaturgo. Fue integrante y miembro fundador de la revista Contorno que modernizó la crítica literaria argentina (en esta revista participaron, entre otros, Ismael Viñas, Noé Jitrik, León Rozitchner, Ramón Alcalde, Adelaida Gigli, Oscar Masotta y Juan José Sebreli). Esta generación fue denominada por la crítica “denuncialista” por la

E

188 Literatura e Sociedade

res de la crítica moderna. Pero en tanto ‘fundadores’ ellos son muy diferentes entre sí no solo por la fisonomía que le otorgaron al acto fundacional, sino también por los efectos que sus obras tuvieron en la crítica que les sucedió.

Contextos de pensamiento
Literatura argentina y realidad política consta, en su primera versión, de cuatro partes: “Constantes con variaciones”, “El liberalismo: negatividad y programa”, “El apogeo de la oligarquía” y “La crisis de la ciudad liberal”. Mientras las tres últimas partes trazan el consabido esquema emergencia, apogeo y decadencia, la primera (“Constantes con variaciones”) trabaja con dos tópicos que si bien se enuncian durante el Romanticismo, se mantienen como invariables de la cultura argentina siendo detectables aún en los escritores contemporáneos. El primer tópico ya había sido enunciado en “Los dos ojos del romanticismo”, artículo publicado en Contorno. Hay en el Romanticismo argentino, según la opinión de Viñas, una suerte de mirada estrábica con un ojo que mira hacia la patria y otro que mira hacia Europa. Viñas desarrolla este argumento en relación con los primeros viajeros de la Independencia hasta llegar al viaje de izquierda de los años cincuenta en la figura de León Rozitchner (1924), un compañero de generación del propio Viñas, cuyo viaje tendría un sentido crítico y desmitificador tanto con el embelesamiento por Europa de las generaciones anteriores como con el carácter conservador y elitista de esa mirada. Rozitchner es el viajero de izquierda que, en diálogo con Sartre y Merleau-Ponty, puede superar dialécticamente la tradicional postura de servilismo y sumisión de la periferia hacia las metrópolis europeas, principalmente París. El otro tópico es el de los “criados” y “niños favoritos”, algo bastante semejante a la figura del “agregado” que trabaja Roberto Schwarz en Machado de Assis, que Viñas extiende desde la novela romántica Amalia de José Mármol (1818-1871) pasando por un integrante de la generación del 80 – Lucio V. López (1848-1893) y su novela La gran aldea – hasta llegar a Beatriz Guido (1924-1988). Ambos tópicos – deseo e impotencia por ser como Europa y necesidad del criado para confirmar la condición de amo del escritor – llevan a Viñas a una impugnación en conjunto de una tradición a la que denomina, alternativamente, “proyecto liberal” o “oligárquico”. El saldo general es claramente negativo y la clase dominante aparece construyendo una literatura subordinada a un proyecto político que, a medida que pasa el tiempo, deja ver su carácter antidemocrático, antipopular y dependiente del capitalismo metropolitano. Si el libro, pese a su negatividad, está lejos del panfleto o de la mera denuncia, es por el efecto encantatorio que produce la escritura de Viñas que elude el anquilosamiento de la escritura acadesmitificación que hizo de la tradición, la historia nacional y los escritores consagrados. Algunas de las novelas más importantes de Viñas son Cayó sobre su rostro (1955), Un Dios cotidiano (1957), Los dueños de la tierra (1958), Dar la cara (1962), Cuerpo a cuerpo (1979) y Prontuario (1993). En el campo de la crítica, además de Literatura argentina y realidad política, hay que mencionar Indios, ejército y fronteras de 1982.

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démica y utiliza recursos retóricos sorprendentes, con un léxico provocativo y una capacidad para acuñar conceptos y fórmulas eficaces que, con el tiempo, se convirtieron en lugares comunes de la crítica. Algo de las conversaciones y discusiones alrededor de la mesa de café – tan típicos de la intelectualidad porteña – se traspasa al ritmo andante del libro que todavía hoy sigue siendo cautivante.3 Así, a propósito de las Causeries de Lucio V. Mansilla, escritor de la generación del ochenta, Viñas escribe:
El gentleman causeur exhibe su intimidad, se declara desgraciado, pero la mostración de su miseria se da hacia un auditorio privilegiado y referida a un escenario de excepción: entre el causeur y su auditorio se ha tendido un vaso comunicante y como ese conducto es recorrido solo por un fluido azul hasta las propias miserias se convierten en valores. Es el precio que se paga por ser un sólido y elegante servidor de su clase: el spleen es una enfermedad de señores y tomar a la literatura como antídoto contra el aburrimiento el dato principal de un síndrome de clase.4

Una de las peculiaridades del planteo de Viñas es que a la vez que ha ofrecido una grilla de lectura de la literatura argentina siglo XIX, sus extensiones hacia el siglo pasado son más esporádicas y sólo raramente poseen la eficacia de las lecturas que hace de los textos decimonónicos. Aunque la primera versión – en consonancia con el argumento de denunciar la tradición liberal – termina en 1910, año del Centenario de la Revolución de Mayo, en sucesivas reescrituras y reediciones, Viñas incorporó a escritores contemporáneos como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges y Rodolfo Walsh. De todos modos, buena parte de los grandes escritores del siglo XX (Borges, Macedonio Fernández, Oliverio Girondo, Alejandra Pizarnik o Manuel Puig, por nombrar sólo algunos) quedan afuera de sus planteos. Esto se debe a que Viñas es particularmente sagaz para leer los modos de una literatura que está al servicio de un proyecto político pero que no tiene una respuesta a los procesos modernos de autonomización que comienzan, por lo menos, a fines del siglo XIX con el Modernismo rubendariano sino antes. Los términos del título (literatura, argentina, realidad, política) son intercambiables, permutables y se condicionan mutuamente, aunque el factor político termina siendo el más determinante. La denuncia se centra en el nexo entre literatura y política y cuando ese nexo se vuelve más complejo, la denuncia pierde su principal anclaje. Otra razón explicativa de lo decimonónico de su perspectiva lo proporciona Carlos Altamirano quien, en la presentación del libro Historia de los intelectuales en América Latina, definió a los integrantes de Contorno como “historiadores de las elites”. Viñas organiza el libro según los ciclos de la elite y a la vez la historiza: los textos que produjeron dejan de ser canónicos o sagrados y son leí3 Tomo esta observación de una intervención de Graciela Silvestri en el Seminario de Historia de las ideas, los intelectuales y la cultura “Oscar Terán”, realizado en el Instituto Ravignani de la Universidad de Buenos Aires, en el que se le dedicó una reunión a David Viñas. 4 David Viñas. Literatura argentina y realidad política. Buenos Aires, CEAL, 1982, p.178 (reproduce la versión de 1964).

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dos en contrapunto con el proyecto autoritario de la elite liberal (aunque sería más exacto decir conservadora, malentendido que se continúa hasta el día de hoy en la terminología política argentina). Mi hipótesis es que la posibilidad de hacer una historia de las elites y de su literatura sólo es posible después de la profunda modernización que se vive en los años cincuenta, cuando una nueva camada social comienza a ocupar posiciones claves en la producción cultural (porque en las vanguardias, más allá de su radicalismo, los protagonistas seguían proviniendo básicamente de las elites). Fue esa encrucijada particular de los años cincuenta – que en la Argentina se denominó “desarrollismo”– la que permitió a estos jóvenes – todos ellos provenientes de la Universidad de Buenos Aires – cierta distancia para observar la historia de un grupo que hasta no hace muchos años había controlado los resortes claves de poder. En el caso argentino, esta perspectiva estuvo marcada por la existencia de los primeros gobiernos peronistas (1945-1955) que no lograron hacer un recambio cultural de importancia a la vez que obturaron la posibilidad de que los jóvenes grupos de izquierda, desencantados con el Partido Comunista, tuvieran una relación menos conflictiva con la cultura popular, incluida dentro de la órbita del peronismo. Críticos con el peronismo, los integrantes de Contorno se alejaron también de los intelectuales tradicionales, ligados a la elite y a las posturas liberales. Esto les permitió abandonar la circularidad de las posiciones disponibles para observar con mayor distancia, gracias al intervalo producido por la modernización y la situación política, el papel que había desempeñado en la historia argentina la elite dirigente, comprometida en bloque con el antiperonsimo. El enunciado que abre la primera versión de Literatura argentina y realidad política, entonces, debe leerse como la descripción del proyecto de una elite a la que se considera en estado terminal: “La literatura argentina es la historia de la voluntad nacional”. La ironía es evidente porque es esta “voluntad nacional” la que será puesta en cuestión. Erigida como objeto de la crítica y sujeto de la historia, la voluntad nacional que se organiza durante los años de la Independencia y del Romanticismo, puede ser vista a mediados del siglo XX como agotada y fracasada. Con distintos matices, en las sucesivas reescrituras del libro, Viñas intentará acechar y atrapar esta “voluntad nacional” con una serie de tensiones y contradicciones que no podían escapar al crítico: porque si la “voluntad nacional” ya cumplió su ciclo, ¿por qué mantener la afirmación de su existencia en presente? En la edición de 1971, titulada De Sarmiento a Cortázar (Literatura argentina y realidad política), se lee: “la literatura argentina es la historia de la voluntad nacional encarnada en una clase con sus textos, proyectos, modelos y procedimientos”, donde el término clase acentúa la perspectiva marxista del autor que ya articulaba casi todos los argumentos de la primera versión. Finalmente, en la versión de 2005, la frase inaugural aparece de la siguiente manera: “La literatura argentina se va justificando como la historia de un proyecto nacional”. A renglón seguido, se habla de los “momentos culminantes” como aquellos que van puntuando la periodización. El “proyecto nacional” (sintag-

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ma, por otro lado, muy utilizado por el peronismo) se expresa con el gerundio “justificando”, como abriendo la posibilidad de diferentres reencarnaciones en diferentes actores sociales (movimiento que le permite extender hasta el presente el periodo abarcado). Es como si el gran drama – otro término viñesco – de la literatura argentina fuera su imposibilidad de escapar de su posición dominante y señorial en el entramado social aunque para eso haya que dejar en un segundo plano la dinámica de la autonomización literaria. El inicio de Literatura argentina y realidad política puede evocarle al lector reminiscencias del primer capítulo de Formação da literatura brasileira:
“Esses críticos conceberam a literatura do Brasil como expressão da realidade local e, ao mesmo tempo, elemento positivo na construção nacional. Achei interessante estudar o sentido e a validade histórica dessa velha concepção cheia de equívocos, que forma o ponto de partida de toda a nossa crítica, revendo-a na perspectiva atual. Sob este aspecto, poder-se-ia dizer que o presente livro constitui (adaptando o título do conhecido estudo de Benda [Esquisse d’une histoire des Français dans leur volonté d’être une nation]) uma história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”.5

El reconocimiento de una voluntad o de un deseo del otro es, en ambos casos, fundamental para historiar una literatura, situación que no impide sino que más bien requiere un distanciamiento. Este distanciamiento lo proporciona el método dialéctico con la diferencia de que en Viñas la negación es exterior mientras en Candido se complementa con el momento de identificación que no se abandona a lo largo del libro. Considero que las diferentes posturas en relación con esa voluntad explican las diferencias de los recorridos y de los argumentos de uno y de otro. En Viñas se produce una situación traumática que impide el cierre de esa tradición (la exterioridad no admite negociaciones) mientras en Candido la formación cumple su ciclo a fines del siglo XIX y en la figura de Machado de Assis. Esto puede observarse, por ejemplo, en el hecho de que Candido sólo haya dado por concluido su libro una vez editado y sólo haya hecho pequeñas correciones y un prefacio en 1962. Literatura argentina y realidad política, en cambio, es un libro abierto, sometido a diferentes versiones y reescrituras: no hay punto final porque el proceso identificatorio de Viñas con el pasado literario argentino es mucho más traumático. Se trata de un ciclo que no puede cerrarse y que no deja de abrirse con el devenir histórico: la idea de que la literatura argentina es fundada con una violación – la que se lee en la novela Amalia de José Mármol – retorna con la dictadura militar y el secuestro y la posterior desaparición del escritor Rodolfo Walsh, más de cien años después. Las “constantes” desbaratan los procesos de formación (de ahí la importancia del gerundio en la última versión). A diferencia de Antonio Candido que en las diferentes reediciones de su libro hizo pequeñas correcciones y eventualmente agregó “prefacios”, las diver5

Antonio Candido. Formação da literatura brasileira 1. São Paulo: Martins, 1975, p. 25.

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sas modificaciones del libro de David Viñas están vinculadas con los cambios políticos. El carácter de los epígrafes deja ver estos vaivenes: del Robert Escarpit en la primera edición, pasando por Mao Tse-Tung en la edición de 1971, hasta Terry Eagleton en 2005. En las reescrituras, Viñas agregó páginas, mezcló capítulos, reorganizó el conjunto, modificó los índices. En 1971, publicó De Sarmiento a Cortázar (Literatura argentina y realidad política) con dos nuevos capítulos y como parte de un programa más completo de historia de la literatura argentina que iría a constar – según el proyecto presentado en el prólogo – de los siguientes volúmenes: “De Sarmiento a Cortázar”, “El liberalismo: negatividad y programa”, “El apogeo de la oligarquía”, “La crisis de la ciudad liberal”, “Señores, bohemios y anarquistas”, “Yrigoyenismo, clases medias y vanguardia”, “La década infame”, “El peronismo” y “Del 55 al 70”. Los títulos corresponden más a una periodización hecha según la serie política que la literaria (Yrigoyen fue el presidente en dos periodos de 1916 a 1922 y de 1928 a 1930, “55” se refiere a la fecha en la que fue derrocado el gobierno de Perón, etc.). Finalmente, estos libros proyectados y nunca escritos pasaron a formar parte de una Historia social de la literatura argentina que está siendo editada actualmente.6 En 2005, Viñas volvió a reeditar Literatura argentina y realidad política cambiándole el título (Literatura argentina y política) e introduciendo algunos cambios. Es como si no pudiera poner punto final, como si la tensión entre la propuesta de una clave para leer la literatura decimonónica y la necesidad de intervenir en el presente no pudiera ser resuelta, hecho que – creo yo – no debería asignarse a las sucesivas frustraciones de la política argentina sino a la resistencia de Viñas a considerar el ciclo de la “ciudad liberal” concluido y agotado. Oliverio Girondo, Victoria Ocampo, Jorge Luis Borges, Bioy Casares o Manuel Mujica Láinez son miembros de la elite pero la autonomización literaria que construyen o por la que deben pasar funda una situación absolutamente nueva y discontinua en relación con los escritores-políticos o “gentleman”, como los llama Viñas, del siglo XIX. El movimiento de Candido se asemeja metódicamente al de Viñas pero uno de sus aportes centrales no está en extender interminable y traumática el proceso de formación sino de introducir en él un elemento al que considera fundacional (el movimiento arcádico) y que se encuentra ya concluido (es decir, reabre el pasado en función del presente y no el presente en función del pasado). En términos metodológicos, entonces, hay un rechazo a la crítica impresionista y se plantea la necesidad de un acercamiento sistemático a la literatura que considere sociológicamente la importancia de la obra, la formación del público y la figura del autor (sin abandonar los penetrantes close readings aplicados a los textos de los autores estudiados). Con esos presupuestos, Candido recupera al
6 Son volúmenes colectivos dirigidos por críticos elegidos por Viñas, quien es el director general de la colección. Algunos títulos son “4 de junio y peronismo clásico (1943-1945-1955)”, “Neoperonismo y modernidad (1966-1976)” e “Indios, montoneros, paraguayos (1853-1861-1879)”, llegando a editarse hasta el momento sólo dos títulos: “Yrigoyen, entre Borges y Arlt (1916-1930)”.

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movimiento arcádico como una etapa de la formación a la que después se agregaría la del Romanticismo, haciendo una transformación clave en lo que denomina, en el prefacio a la segunda edición de 1962, “vida nacional”.7 Reivindica, de ese modo, en momentos en que la modernización está transformando vertiginosamente a la nación, un movimiento – el arcádico – que había sido visto por la crítica como alienado y espurio, y propone, por el contrario, que “fue admirablemente ajustado a la constitución de nuestra literatura” y que contribuyó a una vida nacional abierta y dinámica. Parece evidente que lo que le interesa reivindicar a Candido es el pasado iluminista y un estilo, el neoclásico, con el fin de postular una modernidad más universal y racional y menos implicada en la ideología nacionalista e historicista del Romanticismo. No escapó a algunos lectores, como Haroldo de Campos, la organicidad y el esquema evolutivo en el que estaba implicado el proyecto de Candido, pero también puede verse esta organicidad como una necesidad de reafirmar tanto un pasado relativamente autónomo como un sistema que se configura sobre la base de los esfuerzos de publicistas y letrados. A diferencia del libro de Viñas, A formação es un libro cerrado con un trazado que no responde al esquema emergencia, apogeo, caída sino que, en sus “momentos decisivos”, avanza hacia la conformación y a la estabilización de una literatura. En todo caso, Candido ha revisado (es decir, reabierto) su libro en dos ensayos de fines de los sesenta, “Literatura y subdesarrollo” y “Dialética da malandragem”, que se detienen sobre aquellos objetos que son opacos para las “racionalizaciones ideológicas reinantes” de la modernización cosmopolita y del moralismo decimonónico de la norma burguesa. En ambos, Candido cuestiona las construcciones que, desde una perspectiva evolucionista, se habían hecho de la literatura: en el primero, sosteniendo la persistencia del regionalismo en la literatura latinoamericana; en el segundo, recuperando una tradición satírica que estaba excluida de la formación de la literatura brasileña que había descrito en su libro. Más que reabrir el libro, investiga aquello que – a causa de su identificación con “el deseo de tener una literatura”– había sido excluido o reprimido.

La dialéctica
Tanto a Viñas como a Candido, la dialéctica como figura del pensamiento les sirvió para aventurarse en la tradición con la distancia crítica que provee la negación. Es necesario tener en cuenta que esas tradiciones – sobre todo en el caso argentino – todavía no habían sido recolocadas por la crítica literaria en tanto disciplina (es decir, considerando la singularidad de la operación literaria). Sin duda, las vanguardias habían hecho un trabajo fundamental de antagonismo y distanciamiento paródico y los años treinta habían puesto de relieve la necesidad de recomponer o de trazar lazos con la tradición, pero lo que su7

Antonio Candido. Formação da literatura brasileira 1, op.cit., p.18.

194 Literatura e Sociedade

cede con Formação y literatura argentina y realidad política es algo radicalmente nuevo: la posibilidad de cerrar un ciclo del pasado, de acercarse a él de un modo dialéctico (mediante la empatía y la negación), de reflexionar con el instrumental de la crítica literaria moderna y de repensar las escenas de fundación de la literatura nacional. Hay que imaginarse a ambos críticos caminando por sus ciudades (San Pablo y Buenos Aires), urbes ya estabilizadas pero a la vez en plena mutación, con tradiciones propias y que encaran la modernización vertiginosa de los años cincuenta. Desde la opulencia de las calles paulistas o porteñas que reorganizan el territorio nacional, el pasado nacional aparecía como algo que, en tanto había sido dejado atrás, debía ser descifrado. El salto modernizador no era solamente hacia el futuro sino que también – y aquí también la dialéctica gobierna – realizaba desplazamientos hacia atrás y hacia adelante, preservando algo de aquello que negaba como resultado de los movimientos del pensamiento. Sin embargo, es en la dialéctica misma en donde los métodos de Candido y Viñas divergen y se vuelven profundamente diferentes entre sí. Para Candido, el momento de identificación es necesario y establece el tono comprensivo – y por momentos lleno de afectividad – que atraviesa todo el libro. El deseo de tener una literatura es compartido por el propio crítico aunque eso, por supuesto, no lo exime de advertir que se trata de una “velha concepção cheia de equívocos”. Esta constatación no impide que la relación entre dialéctica y modernización sea, en Candido, de ampliación, de incorporación y, más aún, de estabilización entre los diferentes componentes. La razón de esta plasticidad dialéctica radica en que Candido no discute si la literatura brasileña ya está formada o no, sino el método con el que evaluamos ese hecho (la deuda de Candido con otros historiadores de la literatura, como Sílvio Romero, es mayor la que Viñas tiene con Ricardo Rojas, el primer historiador de la literatura argentina). El momento afirmativo en Viñas, en cambio, excluye la identificación: la literatura argentina está fundada sobre una violación y ese trauma no puede ser apaciguado por el pensamiento crítico. Más bien, la violación continúa como una constante y eso hace que Literatura argentina y realidad política no sólo no pueda concluirse sino que exija ser reescrito, reabierto y reactualizado hasta el día de hoy. Los “momentos” en Candido son decisivos, es decir, avanzan en función del concepto progresivo y acumulativo de la formación. En Viñas son culminantes, son la manifestación de un origen que funda una realidad política traumática que todavía no se ha clausurado. La afirmación y la negatividad dialécticas se hacen, ambas, desde una exterioridad que proporciona – en el planteo de Viñas – la única mirada crítica posible. La gestualidad viñesca es, por supuesto, más atronadora y rebelde que el estilo discreto y equilibrado de Candido, pero los efectos de su discurso son mucho más paralizantes. El hecho fundamental que hace a ambos libros comparables es, entonces, la presencia del método dialéctico – aunque sus usos sean absolutamente divergentes – y la necesidad de historizar en el caso de Viñas y rehistorizar en el de

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Candido una tradición en un momento en que la modernización requiere nuevas imágenes del pasado. Por eso, en ambos, la historia no es un objeto (ambos eluden el término en sus títulos) sino una exigencia general del pensamiento crítico. Una historicidad, un sentido histórico, para leer el presente en las constelaciones de las literaturas nacionales.

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A formação e a história fraturada:
uma dupla aproximação

ettore finazzi-agrò
Università di Roma “la Sapienza”

roberto veCChi
Università di Bologna

Resumo
Leitura combinada e dialógica do conceito de Formação de acordo com duas linhas críticas: a semântica da ideia de Formação a partir de uma desmontagem das suas matrizes constitutivas no contraponto com a genealogia, a Formação como armação de um sistema não-fechado capaz de captar o movimento genealógico de aquele conjunto de eventos que chamamos de Literatura Brasileira.

Palavras-chave
Formação; Genealogia; Teorias da História Literária

Abstract
Combined and dialogic essay on the concept of Formation, built in accordance with two critical lines: the semantics of the idea of Formation from a disassembly of its constituent matrices in the counterpoint with the concept of genealogy, the Formation as a device of an open system capable of capturing the genealogical movement of that set of events that we call Brazilian literature.

Keywords
Formation; Genealogy; Theories on Literary History

ettore finazzi-agrò, roberto veCChi

A formação e a história fraturada: uma dupla aproximação 197

1. Antonio Candido: o saber como relação

ma cifra que julgamos caracterizar a obra de Antonio Candido e que talvez vá além até do seu inestimável legado crítico é que a pesquisa mais sofisticada sobre a literatura sempre se combina com a prática anônima da “sala de aula”, como em inúmeros casos ele nos mostrou. Ou seja, os cumes da contundência interpretativa, da originalidade metodológica, da lucidez histórica, se extenuariam em um exercício no fundo autorreflexivo e estéril, se não encontrassem na humildade explicativa, na afabilidade das relações com os mais novos, na paixão pela transmissão do saber, o seu terreno político de atuação e diálogo: um saber que surge então como relação. É também em virtude dessa imagem que guardamos de Antonio Candido, da sua mestria não como instância retórica mas como prática efetiva que acaba por modificar também a função crítica que a antecede, que resolvemos construir a presente contribuição crítica, a partir de uma experiência didática que nos associou. Em 2001, de fato, como professores visitantes no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/Unicamp), ministramos um curso monográfico na Pós-Graduação de Teoria e História Literária, que tinha como objeto uma reflexão abrangente sobre os problemas de historiografia da literatura a partir de novas conceitualizações que abarcassem categorias críticas como genealogia e residualidade. O nosso projeto se baseava essencialmente no uso da monumental Formação da literatura brasileira de Antonio Candido como dispositivo crítico extraordinariamente eficaz para repensar a história da literatura brasileira a partir da sua singular e fértil proximidade com o conceito de genealogia elaborado no começo da década de 70 por Michel Foucault. A ocasião, promovida pela Profa. Maria Betânia Amoroso, se revelou excelente e foi a matriz

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de muitos outros projetos de pesquisa que a partir daquele momento desenvolvemos em conjunto, como por exemplo a pesquisa sobre as relações entre trágico moderno e literatura e cultura brasileiras. Daquela experiência seminal construída em conjunto sobraram questões, problemas, interrogações que por um lado se orientaram para a formulação de alguns ensaios críticos, por outro proporcionaram o material construtivo para a formulação de dois textos que aqui pensamos reunir de forma combinada, embora completamente autônoma, como registro de um diálogo inexaurível com a Formação de Antonio Candido. No primeiro texto que funciona preliminarmente, Roberto Vecchi procura definir no contraponto genealógico uma semântica própria e “plural” da ideia de Formação a partir de uma desmontagem das suas matrizes constitutivas. No segundo texto, Ettore Finazzi-Agrò analisa em chave paradigmática como a armação de um sistema não-fechado, como uma história da literatura, mas aberto e historicamente poroso como a Formação representa o modo mais adequado para captar o movimento de continuidades e rupturas, de inclusões e exclusões – genealógico, portanto – sobre o qual se acumula aquele conjunto de eventos que chamamos de literatura brasileira. Baseadas em uma bibliografia substancialmente comum pela circunstância que as originaram, as duas reflexões se desdobram acompanhando rumos próprios, às vezes expondo aproximações, outras vezes singularidades. Valem como tentativa de articular, de certo modo, um “saber em relação”, da sala de aula para o ensaio e vice-versa e, sobretudo, neste contexto, como tributo à magistral lição que Antonio Candido desse duplo papel inseparável de pesquisador e professor continua incansavelmente nos dando.

2. Genealogia/Geologia: as semânticas da Formação
É redundância ou insuficiência definitória considerar a literatura brasileira – a cultura também, em certo sentido – uma genealogia “dos vazios”?1 Ao lado da consistência de séries históricas que implicam uma configuração do tempo tributária da crítica ao historicismo de Benjamin ou que repensa na plenitude do tempo do espaço nacional esboçado por Bakhtin, a genealogia surge aqui como um motivo denso, com funcionalidade de conceito, que remete, como é óbvio, para a revisão foucaultiana sobretudo da chave interpretativa adotada por Nietzsche na Genealogia da moral. Já há muito, em particular na vertente dos estudos culturais ou literários, a genealogia é aproveitada como contramotivo, ao mesmo tempo desarticulador e rearticulador, do pseudo continuum da historiográfia literária e da institucionalização canônica onde a “wirkliche Historie”, a história efetiva de Nietzsche, é abordada e criticamente rediscutida. Podem-se mencionar, a título de exemplo no âmbito brasileiro, pelo menos três casos, entre muitos outros, em que tal perspectiva é trilhada com extrema

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Raul Antelo. “Genealogia do Vazio”. In: Studi Portoghesi e Brasiliani. I, 1999, p. 57-68.

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lucidez, na incorporação de uma análise inovadora como a de Foucault. Flora Süssekind, antes de tudo, a assume como entrada de O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem extraindo a distinção entre origem e começo histórico para enfocar a obsessão pela origem que se depreende na formação da literatura brasileira ainda que o seu discurso se dirija basicamente para um “começo histórico” (na acepção foucaultiana opositiva) específico desse processo, ou seja, o surto do narrador ficcional2 pondo a tônica, portanto sobre a dupla trilha que essa ideia genealógica permite percorrer. Raúl Antelo, na esteira de Flora, concentra uma leitura da significação como vazio a que Foucault alude de acordo com a lógica dispersiva, por um lado dirigindo seu olhar para as ficções do século XIX que se fundam nas ideias de identidade como território e de território como vazio na vigência dos modelos europeus, por outro na contemporaneidade com o esgotamento dos discursos críticos: a sugestiva proposta (que encontra respaldo na constelação Euclides da Cunha/Milton Hatoum, conforme Antelo)3 mostra como o uso categorial da genealogia permite captar, no traço flutuante da literatura, o discriminado, o ruído, o indizível, o vazio justamente. Mais em uma vertente continental, Idelber Avelar recolocou a chave para mapear a invenção do “identitema” América Latina tentando resgatar as heterogeneidades silenciadas pelas versões oficiais da história.4 Como se depreende, a genealogia, que como se sabe representa um ramo secundário da história, enquanto, etimologicamente, “discurso sobre a estirpe”5 é explorada na sua intensidade metafórica-conceptual. Perante a crise do telos da história6 e das filosofias da história que a modernidade induz, a história genealógica surge como “anti ciência”7 como antimétodo, ou melhor, como forma assistemática de destruição das falsas continuidades e do contexto da história efetiva. Mas a genealogia pertence plenamente àquele círculo de “obsessões” próprias da cultura brasileira e o que se problematiza, aqui, é que ela tenha, no contexto crítico brasileiro, uma semântica própria. Partindo dessas premissas que se inscrevem na constelação do contemporâneo, fica patente que o conceito crucial em jogo, o que direta ou indiretamente, de maneira fantasmática ou material é questionado é o da “formação”. Antonio Candido é de fato quem aponta, em várias ocasiões, de modo exato e pertinente

2 Flora Süssekind. O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, pp. 15-19. 3 Raul Antelo. “Genealogia do Vazio”. In: Studi Portoghesi e Brasiliani. I, 1999, p. 58. 4 Idelber Avelar. The untimely present. Postdictatorial Latin American fiction and the task of mourning, Durham and London, Duke University Press, 1999, p. 39. 5 Michel Foucault. “Nietzsche, la genealogia, la storia.” In: Microfisica del potere. Tr. it. Giovanna Procacci; Pasquino, Pasquale, Torino, Einaudi, 1977, p. 36. (ed. or.“Nietzsche, la généalogie, l’histoire.” In: Hommage à Jean Hyppolite. Paris, PUF 1971, p. 145-172). , 6 Remo Bodei. Se la storia ha un senso. Bergamo, Moretti & Vitali, 1997, p. 55. 7 Jürgen Habermas (1988) Il discorso filosofico della modernità. Dodici lezioni. 2ª edizione. Laterza Bari, 1988, pp. 252-253. (ed. or. Der Philosophische Diskurs der Moderne. Zwölf Vorlesungen, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1985)

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para a ação de uma “tendência genealogica” nas próprias dobras do processo de formação da literatura brasileira. Mas qual é o sentido que a genealogia assume no momento em que, por uma evidente metaforização, se coagula em conceito? É oportuno notar, de fato, o deslocamento semântico que marca o sentido do termo genealogia. Cujo uso próprio vigora com um amplo repertório de exemplos no curso da própria formação em sentido nacional(ista) da literatura e é a esse sentido próprio que Antonio Candido remete quando assume o termo genealogia e quando retrata o literato comprometido no esforço de dotar o País de uma literatura como genealogista. A ânsia de ter raízes num país sem tradições, a procura obsessiva de uma origem, de um fundamento, de um começo histórico, repercutirá, pelo contrário, constantemente como uma fratura ou uma falta (que já Sílvio Romero denunciara como “falta de seriação nas idéias, a ausência de uma genética” apud Arantes).8 Gonçalves de Magalhães, por exemplo, se refere a essa preocupação com a proveniência, como fator indispensável para corresponder à demanda de origens do país: “Há mister reunir todos os títulos de sua existência para tomar o posto que justamente lhe compete na grande liga social, como o nobre recolhe todos os pergaminhos da sua genealogia, para em face do Rei fazerse credo de uma nova graça” (“Ensaio sobre a história da literatura do Brasil” de 1836 apud Süssekind).9 Um uso semanticamente impecável da genealogia que se casa com a inclinação “morfológica” das disciplinas que fornecem as ferramentas básicas para a construção dos dispositivos nacionalistas como o interesse linguístico que se desdobra nas preocupações de ordem filológica ou etimológica desvendando – elas também – o interesse pelas origens, em uma visão marcada pela especulação linguística humboldtiana (a partir de uma metáfora organicista da língua). Em suma, a genealogia que aqui se descortina (e os genealogistas que a praticam) é a própria, sem nenhum deslize abstratizante ou figurado. Trata-se, no entanto, de usar ideologicamente o termo (transformando assim o processo genealógico em fato histórico, conforme Finazzi-Agrò, p. 15)10 para resolver o emaranhado indestrinçável da “origem” da nação “narrada” pela literatura. A recorrência sincrônica do termo (quase homóloga, se diria, à “obsessão nacional” que no século seguinte será o conceito de formação) contribui a mostrar um elemento fundador importante da Formação da literatura brasileira de Antonio Candido que proporciona um motivo de pesquisa interessante. Sempre Flora, expõe com precisão os dois gumes, os patamares múltiplos da questão genealógica misturando Conrad, Verne e Callado e falando assim de “linhas duplas, linhas de sombra, mapas e marcos de terras inundadas e formigueiros, em vez de

8 Paulo Eduardo Arantes. “Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo”. In: Otília Beatriz Fiori Arantes; Paulo Eduardo Arantes. Sentido da Formação. São Paulo, Paz e Terra, 1997, p. 15. 9 Flora Süssekind. “O escritor como genealogista”. In: América Latina. Palavra, literatura e cultura. Ana Pizarro (Org.), Vol. II. São Paulo, Memorial, Campinas, Unicamp, 1994, p. 478. 10 Ettore Finazzi-Agrò. (1999) “Geografias da memória e literatura brasileira entre história e genealogia”. In: Brasil/Brazil. Porto Alegre, v. 22, n. XII, 1999, p. 9-20.

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reafirmação de essências e atemporalidades”.11 Mas voltando para Antonio Candido e deixando por um momento de lado a Formação, em dois textos famosos e temporalmente bastante próximos em que retoma questões deixadas em aberto no opus magnum de 59, o crítico coloca de modo exemplar os termos da assim chamada “tendência genealógica” (sempre posta entre aspas pelo próprio crítico) da literatura brasileira, depreendendo-a portanto, poder-se-ia dizer, de uma metarreflexão sobre a própria Formação. No primeiro texto, “Estrutura literária e função histórica”, publicado pela primeira vez em 1961, percebe-se, entranhada na leitura de Caramuru de Santa Rita Durão, uma reflexão interna sobre a ideia de genealogia. Avaliando as tentativas de inventar uma tradição – a brasilidade – pela inserção do que era advertido como específico (paisagem e aborígene) os românticos articularam uma busca retrospectiva à procura dos verdadeiros predecessores: gesto esse que se insere numa tendência mais ampla “típica da nossa civilização, e que se poderia chamar tendência genealógica, tomando a expressão em sentido bem lato”.12 A ressalva (em sentido bem lato) merece atenção porque amplifica, ainda que propositadamente não em abstrato, a área semântica do termo, encaminhando-se para a sua conceitualização. No aprofundamento do estudo de fato, em função atributivo-qualificativa, a ideia expande o seu significado: refere-se ao “processo de construção genealógica”13 para representar o afã romântico da “composição” de uma continuidade, de uma tradição “nova” e “respeitável”, colocando as raízes do “movimento genealógico” nos pródromos do Romantismo no plano literário e no século XVIII no que diz respeito à visão histórica. Mapeando esses precursores, Candido detecta uma “aspiração genealógica” precisando que é necessário encará-la em “sentido amplo” (ainda que a pista se entrecruze com o esforço nobiliárquico e “linhagístico” da época na procura de definir os ramos da aristocracia local). A leitura da épica de Durão é virada para mostrar as razões pelas quais o poema se prestou para o seu aproveitamento genealógico (ambiguidade estrutural e afirmação da ideologia religiosa, mitopoiese – locus amoenus brasílico – e motivos heroicos que fundam uma dignidade da tradição local, mestiçagem e encontro de civilizações etc.). No segundo trabalho, concebido em 1966, “Literatura de dois gumes”, a perspectiva genealógica é reglosada de modo ainda mais explícito como conjunto categorial, tratando da correlação entre literatura e formação nacional. Neste contexto, a ênfase recai sobre a tendência genealógica anteriormente esboçada, pondo o século XVIII como matricial de valores formadores. A aproximação da literatura da época, permite esclarecer a dimensão da “tendência genealógica”,

11 Flora Süssekind. O Brasil não é longe daqui. O narrador, a viagem. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 15. 12 Antonio Candido. “Estrutura literária e função histórica”. In: Antonio Candido. Literatura e sociedade. 7ª ed, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1985a, p. 171. 13 Idem, Ibidem, p. 172.

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sempre com a ressalva do sentido amplo, para “designar a interpretação ideologicamente dirigida do passado com o intuito de justificar a situação presente. Ela corresponde à formação da consciência das classes dominantes locais que, depois de estabilizadas, necessitavam elaborar uma ideologia que justificasse a sua preeminência na sociedade”.14 Sobre o seu funcionamento específico, a idealização do índio como emblema do nacional é adotado como exemplo justamente porque a tendência “consiste em escolher no passado local os elementos adequados a uma visão que de certo modo é nativista, mas procura aproximar-se o mais possível dos ideais e normas européias”.15 O indianismo nacionalista com seu desejo de inventar no século XIX um passado “nacional” marcado pela diferença da metrópole colonizadora e de seus valores culturais marca o apogeu dessa tendência cujos alicerces eram bem mais profundos.16 É oportuno resenhar os lugares em que Candido lança mão da genealogia já fora de um sentido próprio (se considere a similitude adotada por Gonçalves Magalhães) mas extraído do seu contexto sincrônico em chave, poderíamos dizer, de metáfora crítica que se articula a partir de uma matriz prática, de modo latamente abstrato. Esse gesto, pode-se observar, remete para o importante questionamento das relações (tensas ainda que não hierarquizadas) entre metáfora e conceito. É evidente que surge uma diferença, e não pequena, entre o sentido da genealogia de Candido e o que um pouco mais tarde (em 1971) definirá Foucault. Seria errado cair na sugestão nominalista (pelo rótulo genealógico) e frisar as coincidências, ocultando assim as diferenças mais espessas. Mas ao mesmo tempo, como foi assinalado, talvez seja possível detectar uma “ligação involuntária” (Finazzi-Agrò, p. 13)17 entre elas, justamente a partir desse impulso metaforizante (o sentido lato que frisa) perceptível na “tendência genealógica” que a Formação assinala. Assim como evidente se torna a diferença entre a genealogia como prática ideológica dos românticos e a genealogia como ferramenta crítica de Antonio Candido. A remetaforização, a reinvenção tropológica como fenômeno próprio de um processo de recuperação crítica e autocognitiva, de redescoberta do passado, marca o Modernismo (e a crítica que dele derivou) instituindo de algum modo uma relação com uma outra estação estética onde houve, não só em termos locais, uma profunda operação de remetaforização: o Romantismo. Aliás, a ideia de remetaforização com que estamos lidando de alguma forma nos remete à teoria estética romântica, revelando pontos de contatos de certas vertentes do Modernismo com o Romantismo.18 Apesar do seu interesse pelo simbólico, a estética

14 Antonio Candido. “Literatura de dois gumes”. In: Antonio Candido. A educação pela noite & outros ensaios. 2ª ed, São Paulo, Ática, 1989, pp. 172-173. 15 Idem, ibidem. 16 Idem, ibidem, p. 175. 17 Ettore Finazzi-Agrò. “Geografias da memória e literatura brasileira entre história e genealogia”. In: Brasil/Brazil, Porto Alegre, v. 22, n. XII, 1999, p. 9-20. 18 Raul Antelo. “Histórias do Brasil”. Revista Brasileira de Literatura Comparada, Niterói, I, 1991, p. 85.

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romântica aponta para uma perda por parte da metáfora da forma de figura e, neste sentido, o Romantismo promoverá uma remetaforização extrema das formas artísticas negando o aspecto retórico e institucional do funcionamento da metáfora.19 O modo de leitura da Formação é hoje essencial para compreender inclusive as observações críticas que lhe foram dirigidas. Entre os reparos, se podem lembrar os formulados por Luiz Costa Lima, ao estudar a concepção da história literária. Em rápida resenha, o crítico sinaliza o fato de a Formação manter uma concepção cordial da crítica, na esteira do Sérgio Buarque, que afastava a literatura do espaço público20 a propensão pelo pendor descritivo e não-analítico da história, a descomplificação da sua própria interpretação, a ideia da literatura como sistema coerente (orgânico) com extensão nacional, as fontes teóricas em que se apoia: a ideia de estrutura de Lévi-Strauss, a coerência depreendida do funcionalismo antropológico inglês (Radcliffe Brown) e inspirada em analogias com o contexto biológico. A importância do ponto de vista ou do posicionamento crítico através do qual a Formação se assume é, de fato, essencial (como não escapa ao próprio Candido no prefácio da Formação)21 e muitos dos debates também recentes – às vezes polêmicos – decorrem da situação e do contexto teórico com que o intérprete da metáfora conceptual se situa. Agora, à luz dos discursos críticos que se debruçaram sobre a obra, se pode pensar que a ideia de formação (e as várias formações) tenha criado um gênero próprio na tradição crítica brasileira, um gênero carregado de uma historicidade que problematiza ex post, diríamos, a leitura decorrendo da inscrição das obras em outro gênero, por exemplo, a Formação de Candido na historiografia literária. Não é esse um deslize de campo, mas a definição de um modo específico de leitura a partir da própria pregnância do conceito de formação. O que ocorre na Formação é um gesto de algum modo fundador. Candido não historiciza um processo (a genealogia que se constrói à procura de uma origem que, na verdade, é uma falta) o que significaria repetir o esforço dos românticos, isto é, tornar a genealogia história. Candido, pelo contrário, sequencia o processo, ou seja, promove uma espécie de genealogia (ou geologia?) da genealogia. Aqui se define a diferença básica que decorre da especificidade da “formação” como gênero, aliás não só literário. Para compreender essa especificidade, é preciso recuperar alguns critérios que fundam a Formação e que se explicitam na própria contratualização que o crítico faz logo na entrada da obra. Não é um acaso que a “tendência tropológica” própria do Modernismo e da suas remetaforizações, encontre logo em uma metáfora forte, organicista, o seu ponto de fuga

Giuseppe Conte. Metafora. Milano, Feltrinelli, 1981, p. 28. Luiz Costa Lima. “Concepção da história literária na Formação”. In: Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro, Rocco, 1991, p. 154. 21 Antonio Candido. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 7ª ed., Belo Horizonte, Itatiaia, 1981, v. I. p. 23.
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(uma metáfora vegetal fundadora assim como se encontra em outra “formações” célebres como, por exemplo, das raízes em Sérgio Buarque de Holanda). Trata-se de uma árvore (genealógica?) em que se inscreve a literatura brasileira, ou seja, na famosa citação do prefácio da 1ª ed.: “A nossa literatura é um galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas [...]”.22 O tropo, no entanto, serve para introduzir o assunto a partir da condição de dependência dessa literatura da “experiência de outras letras”, isto é, o estudo das suas fases formativas. Formação que se conceitua – fora de metáforas — na definição da literatura como sistema de que se depreende a vontade ininterrupta de obras e autores, a vontade de fazer uma literatura nacional, que não passa da “história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura”.23 Agora o que é interessante é compreender como Candido escapa dos modelos de história literária canônicos, teleológicos ou genéticos. Há uma articulação fundamental na Formação que talvez constitua o seu cerne característico e “genológico”. De acordo com o dissecamento de Roberto Schwarz e Paulo Arantes, podemos dizer que essa articulação deixa rastos em vários lugares, por exemplo, quando demarca o seu território como “síntese de tendências universalistas e particularistas”24 ou como “livro de crítica, mas escrito do ponto de vista histórico”25, ou quando invoca um método que seja “histórico e estético”26 ou se define como “tentativa de correlacionar as partes em função de pressupostos e hipóteses, desenvolvidos com vista à coerência do todo”27, sempre para ficarmos nas entradas doutrinárias da obra. A “providência”, para ficar na terminologia de Paulo Arantes, que parece decisiva, nessa perspectiva, é a que se refere ao ato de “correlacionar” e que pode encontrar seu nome próprio em outro verbo, “configurar”. Não é só um verbo recorrente na Formação, mas o fato de remeter à própria figura como elemento reestruturador da dispersão das “manifestações literárias” que dá corpo ao sistema que se forma e que forma a sua forma. E a ideia de figura remete já em si para o resto, para uma (meia) verdade fragmentada e precária, que condensa em si um traço decisivo da modernidade que é o andersdenken – o pensamento outro – e, como explica Franco Rella, “La figura descrive la caducità, la transitorietà la precarietà del tempo della crisi [...] è il movimento stesso di ‘un altro pensiero’ [...] tiene insieme due mezze verità che sempre si manifestano nel tempo della modernità: la massima astrazione del concetto e la massima forza di ciò che è stato via definito mito, sragione, analogia, immagine. La figura, come dice Musil, abita fra questi due mondi”.28 E sempre Rella associa a figura à metáfora no sentido de Proust, a redenção dos fragmentos das imagens de um sentido individual que se solda a um destino e a

Idem, ibidem, p. 9. Idem, ibidem, p. 25. 24 Idem, ibidem, p. 23. 25 Idem, ibidem, p. 24. 26 Idem, ibidem, p. 16. 27 Idem, ibidem, p. 19. 28 Franco Rella. Miti e figure del moderno. Milano, Feltrinelli, 1993, p. 10.
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uma história coletivos através da possibilidade de transmissão das figuras.29 Isso dá conta então de conceitos chave da formação como, por exemplo, o que segue:
Mas há várias maneiras de encarar e estudar a literatura. Suponhamos que, para se configurar plenamente como sistema articulado, ela dependa da existência do triângulo “autor-obra-público”, em interação dinâmica, e de uma certa continuidade da tradição. Sendo assim, a brasileira não nasce, é claro, mas se configura no decorrer do século XVIII, encorpando o processo formativo, que vinha de antes e continuou depois.30

Nesse “corte periodológico” é a dimensão do não-corte que emerge. Não é uma origem, mas uma “problemática dos inícios”, inícios “discretos” como os que Foucault e a genealogia apontam para a oposição ao mito da origem. É pelo viés particular da formação (como gênero ou figura) e da forma a que a formação remete que podemos talvez captar uma relação mais estrita entre formação e genealogia. A formação de fato se constrói a partir de uma outra metáfora “organicista”, não vegetal mas de qualquer modo sempre natural: a da geologia.31 Além da paronomásia muito sumária, é claro o sentido diferencial de geologia e genealogia. Assim como um outro aspecto importante que é preciso frisar é o do caráter menos visível, morfológico, da formação. A formação de fato (que, aliás, em alemão, isto é, no contexto crítico onde originariamente se define, numa das suas acepções originárias, a de Bildung, pode significar também cultura), se funda basicamente sobre um dualismo tropológico que a torna particularmente eficaz como instrumento crítico. Ela é marcada pelo menos por duas tendências semânticas dominantes e complexamente conjugáveis entre si, uma estática, outra morfológica, onde a formação é a configuração – a forma – dos objetos por considerar, dispostos em um mesmo plano, portanto sincrônica e objetal, e outra dinâmica, onde a formação acentua seu aspecto menos evidente, ou seja, o processual, enquanto processo que dá ou toma forma por parte de um sujeito, portanto diacrônico e “subjetal” diríamos.32 Se elegermos esse dualismo entre formação e forma, percebemos como esse, na medida em que traça diacronicamente um movimento, um processo, retalha formas sincrônicas reais das relações implicadas (que não decorrem da experiência imediata), mas desvendam um nexo interno aos movimentos e às coisas. Podemos também colocar a questão em outros termos: no plano teórico, ao configurar o movimento histórico de formação das sociedades modernas (e não de uma diretamente), seu desenvolvimento combinado e interdependente de cen-

Idem, ibidem, p. 11. Idem, ibidem, p. 16, grifo nosso. 31 Geologia aqui usada não no sentido abstratizante, impróprio de geografia que Candido reconhece por exemplo em Sílvio Romero (Antonio Candido. O método crítico de Sílvio Romero, São Paulo, EDUSP, 1988) pela fascínio “cientificista” dos termos, em detrimento da precisão conceptual. 32 Sergio Scamuzzi. “Formazione sociale”. In: Norberto-Matteucci Bobbio Nicola. Dizionario della politica. vol. II, Novara, De Agostini, 2006, p. 27.
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tros e periferias extrai figuras polivalentes e significativas que, a partir de um recorte específico, como, por exemplo, a formação econômico-social do Brasil na época moderna, desvendam as leis de funcionamento real do sistema. O que talvez explique o pendor genealógico que a Formação de Candido aparenta, no sentido de configurar formas da formação que são ao mesmo tempo natureza e processo. A Formação na verdade é um dispositivo crítico sofisticado (como Paulo Arantes explica muito bem) não só pelo seu conteúdo cognitivo, mas pelo funcionamento do sistema que configura para produzir conhecimento: a Formação, reconstruindo a formação e a forma da literatura da semiperiferia, se torna um instrumento crítico de grande porte para interpretar muitos outros problemas teóricos sempre no recorte da especificidade local. A formação enquanto processo e morfologia só num plano aparente é dotada de uma homogeneidade, de uma linearidade própria (se assim fosse, a genealogia se tornaria história como para os românticos). Na verdade, a forma dominante e paradoxal da formação é a antítese da compacidade, é fragmentária, se configura por cacos, raízes, escombros, restos de processo interruptos: a modernidade como projeto incompleto encontra aqui uma sua poderosa figura. E é em Machado de Assis que a formação se pode considerar conclusa pela forma que produziu, atestando a superação da dependência cultural externa: através dela se afirma “a matriz prática na qual se entroncam, se alteram e confirmam mutuamente experiência social, material estético e esforço de estruturação”33 com uma adequada acumulação literária que não induza a considerar cada momento um marco zero da literatura nacional. Com Machado, a formação se completa porque se dá a consciência não de completude, da configuração totalizadora mas, pelo contrário, da má formação, da formação incompleta, descontínua (veja-se Sílvio Romero e, em particular, José Veríssimo) quando se adianta de algum modo aquele que será o principal pressuposto doutrinário modernista, a “brasilidade” onde o atraso é pensado como forma de uma temporalidade própria, condição específica de estar na experiência da nacionalidade. Na dupla dimensão machadiana, comparatista e cumulativa,34 portanto efetivamente tradutora, de que Candido reconstrói a arqueologia, se exibe a forma moderna dessa inscrição que é geológica (mostrando o processo e o resultado do processo) e genealógica (mostrando o resto do que se manteve “na dispersão que lhe foi própria”, como atesta Foucault,35 ao definir a genealogia com seu traço, justamente, “residuário”). A sua exploração se torna assim genealogia (no sentido figurado) da genealogia (no

33 Paulo Eduardo Arantes. “Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo”. In: Otília Beatriz Fiori Arantes e Paulo Eduardo Arantes. Sentido da Formação. São Paulo, Paz e Terra, 1997, p. 31. 34 Idem, ibidem, p. 32. 35 Michel Foucault. “Nietzsche, la genealogia, la storia”. In: Microfisica del potere. Tr. it. Giovanna Procacci e Pasquale Pasquino. Torino, Einaudi, 1977, p. 75.

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sentido semipróprio) detectável na formação da cultura nacional, afastando-se das histórias literárias teleológicas ou genéticas, para ocupar um espaço próprio. O que ela perfaz, de fato, é algo que nos parece ao mesmo tempo próximo e distinto da arqueologia-genealogia da história foucaultiana (que se constrói como arqueologia do saber e genealogia do poder),36 proximidade que se atesta por outros vínculos: a história como contramemória, a crítica da Origem, o resgate do corpo e do desejo históricos etc. A Formação pode ser vista assim como o registro da transformação (do processo) e do que se conservou (o resto, justamente) nessa transformação de vontades, desejos, acertos e, sobretudo, desacertos cuja acumulação torna possível a Machado cultivar aquela “tradição estreita” onde a experiência histórica local se sedimentava37 que, combinada com a tradição clássica, configura heterogeneamente a sua grande obra. Registro de restos que remete também para o processo, mas que, metonimicamente, de algum modo nos fala, em seus interditos, em seus interstícios também das perdas, do que se esvaiu e não se conservou, na formação interrupta ou distorcida em que permanecem os resquícios do passado. E do resto como forma de ser e estar nessa modernidade própria, com uma consciência lúcida que, no entanto, não apaga a melancolia sutil pelo que se quebrou e não poderá, nunca mais, ser recomposto.

3. Decisão/Sistema: os paradigmas da Formação
Porque retomar e colocar em foco, mais de meio século depois da sua primeira edição, uma obra, aliás, tão trabalhada e discutida, como Formação da literatura brasileira? Porque olhar, mais uma vez, para um texto que o próprio autor tentou apresentar apenas como um esboço historiográfico, como uma “orientação geral” e não – o que ele de fato é – como um estudo, de certo modo definitivo, sobre como fazer a história da literatura num país periférico? Diante da dificuldade – ou até da impossibilidade – de se adiantar mais uma vez no coração do problema, de enfrentar de forma original as questões colocadas por esse volume, publicado há tanto tempo, acho que a única solução seria, talvez, a de se mover pelas margens do discurso de Antonio Candido, tentando esclarecer algumas inquietações de cunho teórico que as afirmações do Mestre continuam suscitando entre os seus discípulos e os seus antagonistas, entre os seus doxógrafos e os seus exegetas tardios. Depois de ter enfrentado, embora de forma heteróclita e sumária, a questão de como o método de Candido possa ser enquadrado dentro das teorias historiográficas do séc. XX,38 acho que é necessário, agora, ligar o meu discurso sobre o

36 Paul Veyne. Michel Foucault. La storia, il nihilismo, la morale, 1998. In: Guareschi, di Massimiliano e Verona, Ombre Corte (ed.) Foucault révolutionne l’histoire. Paris, Seuil, 1979. p. 63. 37 Roberto Schwarz. “Sobre a formação da literatura brasileira”. In: Seqüências brasileiras. São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p. 22. 38 Refiro-me, aqui, ao meu ensaio “Em formação. A literatura e a configuração da origem” (FinazziAgrò, 2001, pp. 165-182).

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paralelismo entre o conceito de “formação” e o uso genealógico da história a uma reflexão (também ela, talvez, heterodoxa e, certamente, resumida) sobre a noção de “sistema” que aparece logo no primeiro capítulo da obra de 1959. De fato, como foi em parte notado (conforme, por exemplo, Arantes),39 sublinhar a possibilidade de falar em literatura – e, consequentemente, na possibilidade de uma história nela embasada – só a partir da sua constituição em sistema orgânico, prevendo a existência de alguns elementos fundadores, remetendo, por sua vez, a uma estrutura fincada no tempo, coloca em jogo a questão da tradição e da sua articulação com a dialética do “novo”. Se, com efeito, podemos considerar a formação como um “processo”, como é que este movimento de aquisição/recuperação do passado e, ao mesmo tempo, de rompimento com ele, de superação constante daquilo que é (já) formado, se ajusta com a exigência de estabilidade, quase de cristalização do tempo e no tempo presumido pelo termo “sistema”? Dito de outra forma, se a formação é entendida enquanto formação de um sistema, qual seria o lugar (e o tempo) da mudança? E como estudar um objeto ou um fenômeno em constante devir se colocando do lado da estabilidade do conceito de “sistema”? Sei que essas questões podem parecer marginais – e o são de fato, surgindo justamente às margens do discurso historiográfico, ou seja, sobretudo no início e no fim do percurso empreendido por Antonio Candido, sem todavia deixarem de ser perguntas que envolvem o estatuto teórico nuclear sobre o qual assenta a Formação. Como frequentemente acontece, se poderia dizer que é a partir dos limiares e se movendo sobre ou entre eles que se pode apanhar o sentido geral e, ao mesmo tempo, profundo e escondido daquilo que, no caso presente, eu chamaria de “panorama hermenêutico”. E de resto, o grande crítico parece se aperceber logo da aporia que se instala na dicotomia entre “formação” e “sistema”, acrescentando a eles a perspectiva “momentânea”: ou seja, construindo uma história que se sustenta sobre (ou balança entre) os dois pólos da transformação e da estabilidade, ele chega de imediato a entender que apenas numa fragmentação infinita da continuidade é possível recuperar una dimensão temporal de compromisso, em que o processo de formação e a cristalização dentro de um sistema se combinam apenas em “momentos decisivos” – definição que eu leio, de fato, como opção para uma temporalidade discreta, em que cada instante (cada presente) é resumo do passado e possibilidade de futuro. Este caráter continuamente virtual do fato literário, remetendo, por um lado, para a fatal “inatualidade” ou “intempestividade” de cada (grande) obra de arte, não esquece, pelo outro, que toda criação/indicação de um tempo novo prevê a recuperação/manutenção do Tempo na sua totalidade. Como o esquecimento habita necessariamente dentro da memória – e um só existe em função da outra –, assim todo processo de reconstrução hipotética do passado assenta num ato de

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Paulo Eduardo Arantes, 1997, p. 165-182.

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A formação e a história fraturada: uma dupla aproximação 209

de-cisão (os momentos são, de fato, “decisivos”), isto é, etimologicamente, num “corte” que deixa fora a tradição no mesmo gesto com que a inclui no presente e a projeta para o futuro. Nesse sentido, a Formação é um tratado histórico (e, ao mesmo tempo, um discurso/percurso crítico, por isso mesmo “discreto” e “discricionário”) que exclui na inclusão, que excetua integrando no interior dele tudo aquilo que, aparentemente, é marginalizado ou até descartado. Por isso, aliás, parecem-me totalmente fora do eixo ou do foco, na sua peremptória e magistral atribuição de sentido, as polêmicas (também recentes) sobre a inadequação ou a inadimplência da obra de Candido: porque, de fato, ele não quis fazer uma História no sentido clássico e tradicional do termo, adotando um critério – também ele fatalmente subjetivo – de ordenação con-sequencial dos eventos, a partir de uma origem suposta e hipotética para chegar a um presente duvidoso e escorregadio, mas assinalar o funcionamento peculiar do tempo brasileiro, feito de avanços e retrocessos, de polirritmias e descompassos, de anacronismos e de acelerações vertiginosas.40 A noção de “sistema” funciona, nessa proposta problemática, apenas como indicação de uma duração dentro da fluidez e da reversibilidade do tempo histórico brasileiro. Se poderia até afirmar que Candido tenta conjugar, à maneira de Bergson, durée e évolution créatrice supondo que “la détente et la contraction sont relatives, et relatives l’une à l’autre. [...] Il y a toujours de l’étendue dans notre durée, et toujours de la durée dans la matière”41 – e precisando, obviamente, que a res extensa, sobre a qual se debruça o Eu que, fazendo história, reflete e critica, é a materialidade da prática artística, da experiência literária pensada como algo que permanece na sua constitutiva volatilidade e ulterioridade; como, enfim, algo de sólido (o texto) “desmanchando”, fatalmente, “no ar” do seu contínuo e imprevisível re-uso e consumo. Acusar Candido de ter deixado fora da sua análise, de ter recalcado ou até sequestrado a fase Barroca, ou a “tradição afortunada”, ou ainda a herança literária portuguesa, significa, a meu ver, desentender aquilo que está em jogo na dialética “im-perfeita” balançando entre formação-sistema-decisão. De fato, combinando os três termos podemos chegar a compreender que aquilo que conta não é o que fica fora, mas aquilo que é “tomado fora” (no sentido etimológico da “exceção”). O Barroco, nesse sentido, assim como mais vagamente “o espírito brasileiro” e, do lado oposto, o legado da cultura portuguesa ecoam, justamente, no vazio da sua ausência, se tornando presentes nos momentos decisivos em que o processo formativo deságua em formas sistemáticas: todo o passado é ali recuperado no seu caráter virtual, suspenso, por instantes, num presente anacrônico em que memória e esquecimento se sustentam de forma mútua. Ou seja, o que não está ali é todavia ali recuperado ou antecipado, mas sempre virtualmente presente na forma enigmática do “desejo”: e a história da literatura se torna, enfim, a “histó-

Alfredo Bosi (1992) “O tempo e os tempos”. In: Adauto Novaes (Org.). Tempo e história. São Paulo, Companhia da Letras/Secretaria Municipal de Cultura, 1992, pp. 19-32. 41 Gilles Deleuze. Le bergsonisme. 3a ed., Paris, PUF 2007. pp. 89-90. ,
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210 Literatura e Sociedade

ria dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura” – o que impediu, aliás, a quem partia da ideia da existência de uma “consciência da brasilidade”, de ver que em Candido esta consciência é fruto mais de uma ilusão ou de um pacto simbólico (como aliás toda forma de nacionalismo), que de uma concreta situação mental e material. Longe de qualquer localismo, a visão sustentada pelo grande crítico brasileiro é, por contra, aquela de um espaço atravessado por forças heterogêneas, cada uma ligando-se à outra de que é condição e pela qual é condicionada, num quadro multilinear em que os fatores sociais se juntam aos dados propriamente históricos sem chegar, porém – senão dentro e através de momentos decisivos –, a determinar um quadro coerente, em que uma determinada ordem social chegue a produzir um certo tipo de expressão artística.42 O processo formativo, nesse sentido, não tem nem origem nem fim, ou melhor, o início é apenas uma hipótese (a poesia arcádica, tributária, porém, do modelo europeu) e a con-clusão (que, na verdade, se manifesta como ex-clusão – ou, mais uma vez, como “exceção inclusiva” da figura e da obra de Machado de Assis) não tem muito a ver com o início do processo, sendo por sua vez a origem hipotética de outra coisa ainda, de outra linha de evolução produzida por um desvio. Um tempo plural, enfim, que pretende um discurso também ele polifônico e sem limites certos, nem históricos nem de significado. Estamos, nesse sentido, antes e longe de certo determinismo crítico que começou a circular e a se firmar poucos anos depois: ficando no âmbito da teoria e da crítica italianas, por exemplo, não enxergo pontos de contato entre a noção de sistema utilizada por Candido, e a visão da “literatura como sistema e como função” teorizada por um importante estudioso italiano de inspiração marxista e divulgada poucos anos depois da saída da obra brasileira.43 Escrevendo numa época anterior à chegada da onda estruturalista e ainda marcada, em parte, pelo New criticism, Candido, com efeito, se furta a qualquer “funcionalismo” rígido, a qualquer esquema de pensamento vendo na literatura apenas um epifenômeno dos fatos sociais e legível, então, segundo paradigmas totalizadores, tanto assim que, mais uma vez, a ótica por ele utilizada é não a da história de eventos ideologicamente determinados e sim de um desejo comum, ou melhor, de um desejo fundando uma comunidade e sendo por ela sustentado – uma espécie de “comunidade imaginada”, para utilizar uma expressão muito em voga alguns anos atrás.

42 Nesse quadro de repensamento da relação, postulada pelas teorias marxistas, entre estrutura e superestrutura, seria bom lembrar a definição que ainda Gilles Deleuze deu, justamente, da primeira das duas noções: “cada estrutura apresenta estes dois aspectos: um sistema de relações diferenciais, segundo as quais os elementos simbólicos se determinam de forma recíproca; um sistema de singularidades que corresponde a essas relações e delineia o espaço da estrutura. Cada estrutura é uma multiplicidade” (Gilles Deleuze. “À quoi reconnaît-on le structuralisme?”, In: François Châtelet (Org.). Histoire de la philosophie. Idées, doctrines. Vol. VIII (Le XXème siècle), Paris, Hachette, 1973.). Acho que esta visão orgânica e, ao mesmo tempo, plural se ajusta bastante bem ao funcionamento da idéia de sistema dentro da obra de Candido. 43 Guido Guglielmi. La letteratura come sistema e come funzione. Torino, Einaudi, 1967.

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A formação e a história fraturada: uma dupla aproximação 211

Como todos os desejos, também o desejo de ter uma literatura não tem nem uma origem pontual nem um desenvolvimento linear, se submetendo a uma lógica própria, desligada de qualquer determinismo histórico ou social. Não que o fator social seja ausente ou desconsiderado, assim como a forma do discurso é ainda aquela ligada a um tratamento histórico dos fatos literários, mas é como se ambas (história e sociedade) fossem determinantes para a literatura e, ao mesmo, determinadas por ela. O que, aliás, conhecendo um pouco a evolução cultural brasileira, pode ser facilmente verificado, a partir, por exemplo, da figura de José de Alencar cuja literatura é, certamente, dependente e tributária de uma ideologia burguesa e de cunho nacionalista, mas que sendo, por um lado, um “fato” dentro da história literária, cria ou inventa, pelo outro, “fatos” (personagens, situações, linguagens, metáforas...) que configuram uma história nacional. E nessa circularidade se torna impossível definir o que é produto e aquilo que produz, reabrindo continuamente o discurso propriamente historiográfico, visto que a história é, mais uma vez, espelho de uma dinâmica social colocada no tempo e fruto, por sua vez, de uma prática simbólica que cria o seu tempo, misturando, de modo arbitrário e mistificador, memória e esquecimento. De resto, o próprio Candido irá explicar poucos anos depois da publicação da Formação – com palavras mais claras de que as minhas e sempre a partir de um romance de Alencar (Senhora) – como ele via a relação entre literatura e sociedade num dos seus ensaios mais conhecidos: “Uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou linguística, para utilizar livremente os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente”. E ele acrescentará um pouco mais adiante: “O perigo, tanto na sociologia quanto na crítica, está em que o pendor pela análise oblitere a verdade básica, isto é, que a precedência lógica e empírica pertence ao todo, embora apreendido por uma referência constante à função das partes”.44 A coerência, enfim, pode estar ou não na obra (ou num conjunto de obras), sem a necessidade de atribuir sentido a partir de uma ótica de análise pré-determinada, tanto mais que, no exemplo considerado, se, por um lado, o Romantismo de Alencar é com certeza produto da história e da sociedade do seu tempo, ele pretende, pelo outro, inventar uma história e uma sociedade, pretende – e consegue, em boa medida – criar uma cronotopia própria, se colocando fora ou ao lado do presente; se (auto) legitimando, mais uma vez, apenas dentro e através de um contexto que eu chamaria de “optativo” e que interpreta, de forma imaginária, a ideologia (as aspirações para o futuro e os mitos de fundação) da comunidade letrada. Voltamos assim, na minha opinião, a enfrentar as questões colocadas no começo deste texto: como é que se pode formar e firmar um sistema sociocultural (o famoso triângulo autor-obra-público) dentro de um processo histórico e
Antonio Candido. “Crítica e sociologia” (1961). In: Literatura e sociedade. 6ª. ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1985b, pp. 3-16. Nesta coletânea de ensaios, como todos sabem, Candido colocou em foco, de forma crítica, as teorias sobre o “espelhamento” entre estrutura e superestrutura.
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212 Literatura e Sociedade

evolutivo que responde a uma lógica do “desejo”, desligada de qualquer verificação empírica e funcionando de forma cambaleante e inconsequente? Como se pode, finalmente, instalar a durée, enquanto manutenção memorial do passado, no corpo da évolution créatrice, enquanto projeção optativa (ou intuitiva) no futuro? Repito, mais uma vez, que a resposta a estas perguntas pode ser encontrada nas margens do livro: ou seja, na constituição do sistema literário ao longo do século XVIII e na ausência de Machado de Assis que representa, na verdade, o ponto final da formação daquele mesmo sistema. Podemos inferir, desse duplo movimento de inclusão e de exclusão, de aceitação e recusa, que na verdade aquilo que interessa a Antonio Candido não é a construção de um discurso histórico formalmente “fechado”, e sim a indicação de um sistema literário “aberto”, atravessado por linhas de força que não têm, propriamente, nem começo nem fim, mas apenas cortes e/ou pontos de sutura, mudanças improvisas de rumo e/ou permanências, sobreposições e/ou distanciamentos, inovações e/ou recapitulações, fugas para frente, enfim, e/ou suspensões epocais (ainda no significado originário da palavra epokhé). Desse movimento contínuo e continuamente interrompido, desse conjunto multilinear de tempos é possível fazer apenas uma cartografia provisória, continuamente reversível e revisível, mantendo todavia a capacidade de ler “em geral” esta acumulação contínua e ziguezagueante de eventos. A noção de “sistema” é funcional a essa vontade de sublinhar a descontinuidade dentro de um continuum discursivo, que, como já tentei explicar, retoma cada vez o passado no “momento decisivo” de uma mudança de direção daquele discurso/percurso histórico: o passado é de cada vez recapitulado no presente da decisão e projetado num futuro que, por sua vez, se dispõe a funcionar como base para uma “outra história”. Falar das Academias e da poesia arcádica como começo da formação e não falar na obra de Machado de Assis como ponto de chegada significa, nesse sentido, instituir fronteiras movediças para um processo histórico que evolui aos solavancos, através de resumos e distensões, através de retrocessos e saltos para frente, através de hiatos e persistências. De resto, o método histórico-crítico de Candido é também ele, como já foi notado,45 resumo e superação de modelos historiográficos vindos do século anterior: a Formação seria, nesse sentido, um “momento decisivo” recapitulando as leituras e atualizando os discursos de Sílvio Romero e de José Veríssimo e os “fazendo passar” para o presente de uma escrita crítica que se apresenta, por sua vez, como provisória, como “formativa” de um cânone e que se dispõe a ser, ela mesma, ultrapassada por uma “outra história”, por novos cânones e novos argumentos. Para retomar a famosa metáfora vegetal (entendida ainda como um “levar através”, um “fazer passar”, justamente, para outro sentido ainda em gestação
Paulo Eduardo Arantes. “Providências de um crítico literário na periferia do capitalismo”. In: Otília Beatriz Fiori Arantes e Paulo Eduardo Arantes. Sentido da formação. São Paulo, Paz e Terra, 1997, pp. 22-27.
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ettore finazzi-agrò, roberto veCChi

A formação e a história fraturada: uma dupla aproximação 213

ou em formação), a obra poderia ser considerada um “ramo secundário” de uma árvore historiográfica também ela secundária no jardim da história (literária) – sempre que se saiba que secundário, aqui, não significa exatamente “menor”, mas, ainda no seu sentido etimológico, aquilo que vem depois e, ao mesmo tempo, se coloca ao lado, se propondo como começo virtual de um novo sistema discursivo, de um novo paradigma; aquilo que fica fora do lugar ou do “local” da cultura e, contemporaneamente, dentro de um sistema histórico-crítico global, mantendo sempre o seu caráter seminal e incontornável. Relendo esta obra escrita há mais de cinquenta anos, podemos, em conclusão, colocar em perspectiva o aparato de polêmicas que a acompanhou (e, em certa medida, a continua acompanhando) desde o seu aparecimento, confirmando que, apesar (ou exatamente por causa) da sua assumida reversibilidade, ela representa um marco crítico fundamental num processo de revisão da historiografia pós-colonial. A sua importância e a sua duração, em suma, continuam sendo garantidas pela sua natureza, ao mesmo tempo, sistemática e aberta, suspendendo-se na evolução de um discurso hermenêutico que a excetua e a retoma como um externo que fica sempre interno a qualquer avaliação crítica da literatura brasileira – como, enfim, um “momento decisivo” de um percurso histórico que, como toda história, deveria manter-se necessariamente sem origem e sem destino, pairando livre na concretude cortante da sua in-decisão.

Referência Raul Antelo. Algaravia. Discursos de nação. Florianópolis, Editora da UFSC, 1998.

dinâmicas da obra

216 Literatura e Sociedade

A literatura Como direito

telê anCona lopez
Universidade de São Paulo

Resumo
Escrito no feitio conciso de uma crônica, o texto destaca o caráter de “conversação” que preside os ensaios em Vários escritos de Antonio Candido. O objetivo é mostrar que essa coletânea ilumina descobertas e cogitações relativas a autores, obras, história, criação literária, conceitos, sempre enfeixando relações entre homem e sociedade.

Palavras-chave
Crônica; Criação literária; Conversação; História; Sociedade

Abstract
Written as a kind of chronicle, this text emphasizes aspects related to conversations in the essays of Antonio Candido’s Vários escritos. Its aim is also to show that this diversified assemblage of texts illuminates discoveries and thoughts related to authors, works, literary creation, concepts, always building relations between man and society.

Keywords
Chronicle; Literary creation; Conversation; History; Society

telê anCona lopez

A literatura como direito 217

epois de tentativas, desisto de um estudo circunstanciado sobre Vários escritos para me entregar a esta espécie de crônica, cuidando especialmente de “O direito à literatura”, ensaio de 1988, integrante da coletânea a partir da terceira edição, de 1995, quando o autor reorganiza a obra lançada em 1970 pela Livraria Duas Cidades. A editora paulistana continua encarregada do livro, tendo se associado, em 2004, à carioca Ouro sobre Azul. Vários escritos abre-se com afetuosa elegância: “A Emílio Moura, grande poeta e grande amigo,/ O.D.C.”, isto é, oferecida, dedicada e consagrada a este importante nome da nossa poesia, no século XX. O título guarda, na virtude da simplicidade, ensaios da maior relevância, nos quais o conhecimento teórico e a erudição se ligam, de forma indissolúvel, à imaginação crítica que assegura a interpretação original. Vários escritos, além de trilhar a interdisciplinaridade na história, na filosofia e na política, sabem a memórias e à autobiografia na apresentação paralela espirituosa, por vezes lírica, de momentos e casos da vida literária. Na epígrafe colhida na ficção de Lewis Carroll – “[...] what is the use of a book, thought Alice, without pictures or conversations?” –, o ensaísta se pergunta com humor e interroga seus leitores: quê outra serventia um livro possui? A quê vem este conjunto de estudos? Considerando o caráter de porta-voz ou abre-alas das epígrafes, percebe-se, nas feições que Antonio Candido dá à coletânea, sua resposta ao nonsense selecionado. Este seu livro serve para difundir descobertas e cogitações suas relativas a obras, autores, à criação literária; a conceitos, à história, ao homem e à sociedade; atualiza questões estéticas e reúne matéria digna de um banquete à Platão. Ao prender o leitor no circuito de uma prosa vibrante, estribada na argumentação sólida, na estrutura bem arquitetada e no estilo inconfundível que combina o vocabulário crítico rigoroso com a linguagem isenta de pretensão retórica ou chavões acadêmicos, Vários escritos são conversations. Elevada causerie que encantaria Saint-Beuve. Versam com liberdade sobre o que interessa

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218 Literatura e Sociedade

ao autor e fazem com que a crítica e a história literária conversem com as memórias. As descobertas decalcadas na pesquisa em fontes primárias, em documentos de época, convivem com as iluminações do crítico e com a petite histoire. No encadeamento dos títulos, a lógica é da colocação aleatória, desprezada a cronologia da redação, bem como a sequência temporal nos assuntos e obras escolhidos. Esta lógica sui generis anima a pluralidade do conjunto e, dentro dela, a autonomia de cada título, o que autoriza a leitura igualmente aleatória, em nada escolar. Além disso, Vários escritos tem pictures para alegrar Alices, quando o enfoque de certas cenas e acontecimentos ilustra a prosa do memorialista, aproximando-a do cinema. Basta lembrar Oswald de Andrade e amigos que descem, como num filme, a rua Martiniano de Carvalho até a “enorme casa fantástica”; o encerramento do I Congresso de Escritores Brasileiros, em janeiro de 1945, captado num close, ou determinadas sequências na construção da história de Paulo Emílio. Distancio-me, porém, de Machado, Oswald, Drummond, dos ultramarinos, dos outros títulos para destacar “O direito à literatura”, ensaio que ao fundir, com rara pertinência, teoria literária, filosofia e análise de texto, nos confirma em nosso prazer cotidiano da leitura e em nosso mister de professores. Na origem foi a conferência que, em 1988, ampliou a palestra “A literatura e a formação do homem”, realizada no início da década de 1970, na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (acha-se na revista Remate de Males do Departamento de Teoria Literária do IEL/Unicamp, n. especial Antonio Candido, 1999. p. 81-89). Fez parte de um curso promovido, naquele ano, pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e, antes de figurar em Vários escritos, veio no livro de Antonio Carlos Ribeiro Fester, Direitos humanos e...1 E, há algum tempo, essa meditação magistral de Antonio Candido tem me valido como estudo de átrio, em cursos de Literatura Brasileira, na graduação e na pósgraduação. Em uma das vezes, “O direito à literatura” reverberou, candente, no depoimento de uma aluna:
“Minha mãe, que é faxineira, me pediu para tirar na biblioteca poesias do Drummond. Eu disse que era bobagem porque ela não entenderia. Agora, depois desta discussão, já levei o livro e fico pensando na necessidade e no direito dela que, afinal, pude compreender.”

“O direito à literatura” põe em letra de forma o filósofo que seus alunos e amigos têm a felicidade de escutar. Norteado por ideias de cunho socialista, Antonio Candido recorre ao seu cabedal de teórico e crítico para expor a função humanizadora da literatura, diretamente vinculada à satisfação de uma necessidade incontestável do ser humano, cravada na psique de todos nós – o sonho, a efabulação que transfiguram a vida na criação literária. Esta, como arte, vale sempre como elevada expressão da liberdade do homem, conforme para Octavio Paz.

1

Antonio Carlos Ribeiro Fester. Direitos humanos e..., São Paulo, Brasiliense, 1989.

telê anCona lopez

A literatura como direito 219

Não pretendo me estender no comentário, mas apenas lembrar a nossa responsabilidade de professores. Todos defendemos e proclamamos – é óbvio! – o direito que Antonio Candido esmiúça, e, frequentemente, muitos vedam a descoberta da literatura, na experiência dos alunos. O estudo da teoria e da crítica, que prescrevemos, é fundamental, instrumenta, apoia; porém, quando se transforma na finalidade precípua de cursos e disciplinas, ignora o direito à literatura. Penso que o desdém ao mergulho no texto, à análise paciente dos elementos que o constituem, à capacidade de fruir poesia, ficção e crônica, condena o estudante ao magister dixit. Convida-o a se limitar em termos de evolução, humanização. Revejo, em minha mente, a sala de aula lotada e nós, alunos, trabalhando com Antonio Candido, durante um semestre inteiro, o poema “Louvação da tarde” de Mário de Andrade.

220 Literatura e Sociedade

Batuque: Cultura e soCiabilidade

maria augusta fonseCa
Universidade de São Paulo

Resumo
Este comentário destaca o artigo “Opinião e classes sociais em Tietê” de Antonio Candido e seu interesse na receptividade de um “batuque de umbigada” – dança ritual da cultura africana que se enraizou no Brasil. A intenção é mostrar o pioneirismo de sua abordagem crítica voltada para o campo dos estudos culturais, e vinculada a uma visão sociológica. Como elemento de apoio para as discussões, juntam-se neste mesmo texto informações sobre características e trajetórias dessa dança ritual.

Palavras-chave
Antonio Candido; Batuque; Recepção; Cultura popular; Classes sociais

Abstract
This commentary focuses the article “Opinião e classes sociais em Tietê” of Antonio Candido dealing with the reception of a “batuque of umbigada (belly button)” – ritual dance of the African culture rooted in Brazil. The intention is to show his pioneer criticism in the field of cultural studies related to a sociological view. To support the discussion, some information about characteristics and trajectories of this ritual dance is also added.

Keywords
Antonio Candido; Batuque; Reception; Popular culture; Social classes

maria augusta fonseCa

Batuque: cultura e sociabilidade 221

“A primeira imbigada É o Rudorfo que dá. Também só Rudorfo Eu também quero dá. Batuque na cozinha Sinhá num qué Pra móde o batuque Quebrei meu pé.”

s versos em epígrafe, constituídos por quatro dísticos à feição de um responsório, remetem a cantorias de uma representação da cultura popular brasileira, de origem africana, conhecida como “batuque de umbigada”. A transcrição das trovas, publicadas por Oneyda Alvarenga1 em Música popular brasileira, nos permite situar algumas características dessa modalidade de batuque: tom brincalhão; marcação de ritmo; referência direta a um movimento corporal importante na coreografia; orientação de sequência gestual. Além de indicar atuações dos intérpretes, os versos aludem ainda a um interdito – “sinhá num qué” – e a uma consequência advinda dos saracoteados do corpo – “quebrei meu pé”. Embora o termo “batuque” seja utilizado neste comentário na acepção específica de “batuque de umbigada”, sabemos que seu uso é de amplo alcance. Em tempos distantes, os exploradores portugueses aplicavam o vocábulo a “toda dança de negros na África”.2 Também “chamavam batuque aos tambores ou à dança”.3 Seguindo informações de Luís da Câmara Cascudo, “batuque” ainda resume toda expressão musical de negros acompanhada por instrumento de percussão. No seu Dicionário do folclore brasileiro, rastreia vários outros significados, registrando, por exemplo, que no Rio Grande do Sul o “batuque” se aproxima de “uma modalidade do candomblé baiano ou da macumba carioca”.4

O

1 Coligidas em 1935 na cidade de Varginha (MG) e transcritas em Oneyda Alvarenga. Música popular brasileira. São Paulo, Duas Cidades, 1982. 2 Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do folclore brasileiro. Vol. 1, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1969, p. 229. 3 Idem, ibidem, p. 230. 4 Idem, ibidem, p. 231.

222 Literatura e Sociedade

Sobre as festas de batuque, no conjunto da vida cultural brasileira, há referências até nas Cartas chilenas, importante obra literária satírica que circulou em Vila Rica no século XVIII.5 No século seguinte, no Brasil de Dom João VI, os batuques chegaram a fazer parte de festividades oficiais, conforme se lê em A vida dos escravos no Rio de Janeiro — 1808-1850.6 Mas, segundo a autora da obra, Mary Karasch, a tolerância da elite foi breve, já que “o governo acabou proibindo a congregação de grande número de escravos, porque as autoridades as consideravam perturbações da ordem pública. A partir de então, a polícia prendia todos os que apanhava dançando o ‘batuque’”.7 A despeito das perseguições, porém, a população escrava continuou folgando seus batuques nos tempos imperiais. O “batuque de umbigada”, herança de escravos africanos, foi mantido pelos negros libertos e pela gente humilde moradora das zonas rurais e da periferia urbana. Originária de ritual pagão e marcada por forte apelo sensual, essa dança foi tratada com muito desprezo pela elite citadina. Um exemplo de manifestação preconceituosa alcança a seguinte explicação sobre o batuque: “dança de sapateado e palmas, ao som de cantigas acompanhadas só de tambor, quando é de negros, ou também de viola e pandeiro, quando entra gente mais asseada, dizia Macedo Soares numa definição que se vulgarizou”.8 O comentário externado por uma figura culta e de destaque na vida pública brasileira não é fato único. Mas há casos em que a reprovação e rejeição não traduzem arrogância de classe, e sim manifestam sentimentos recalcados de insegurança social. É o que se depreende de observações factuais, e de interpretações de Antonio Candido, formuladas em “Opinião e classes sociais em Tietê”,9 texto que orienta a presente leitura. O artigo em eixo resultou de uma pesquisa por ele realizada em 1943, na “capital da zona batuqueira”.10 Na oportunidade, com 25 anos de idade, Antonio Candido compunha um grupo de professores (e de pós-graduandos) do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP). Tendo à frente o prof. Roger Bastide, o grupo viajou para Tietê em missão de estudo. Participavam dessa caravana Gilda de Morais Rocha (pouco depois, de Mello e Souza), Lavínia Costa Vilela, Gioconda Mussolini e José Francisco de Camargo. Essa missão de pesquisa, levada a efeito na primeira década dos anos de 1940, mostra o interesse que, por esse tempo, as manifestações da cultura popular brasileira despertavam no meio acadêmico ligado às humanidades. Entre os
5 Tomás Antônio Gonzaga. As cartas chilenas. Fontes textuais. Estudo crítico de Tarquínio J.B. Oliveira sobre esta obra, atribuindo autoria a Tomás Antônio Gonzaga. São Paulo, Ed. Referência, 1972. 6 Cf. Mary C. Karasch. A vida dos escravos no Rio de Janeiro — 1808-1850. Trad. Pedro Maia, São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 7 Karasch, op. cit., p. 328. 8 Cascudo, op. cit., p. 229. 9 Antonio Candido. “Opinião e classes sociais em Tietê”. Sociologia. São Paulo, Escola de Sociologia e Política, v. VII, n. 2, pp. 97-112, 1947. 10 Alceu Maynard Araújo. Folclore nacional — Danças. Recreação. Música. Vol. II, São Paulo, Melhoramentos, 1964, p. 231.

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professores estrangeiros, basta citar os nomes de Lévi-Strauss e de Roger Bastide. Essa viva preocupação, porém, era devedora de caminhos desbravados por Mário de Andrade na década anterior (anos 30) e que foram por ele continuados até sua morte em fevereiro de 1945. De sua parte, Mário de Andrade levava adiante preocupações e questionamentos de fundo que ele mesmo e outros modernistas de São Paulo partilharam já nos anos de 1920, com o olhar voltado para o conhecimento de nossas raízes populares (no tocante à expressões da língua e da cultura). Cada qual a seu modo procurou fundir esse universo no âmbito de suas inquietações artísticas. Por esse intermédio, os modernistas não só estimularam e facultaram uma nova compreensão da cultura brasileira, como trouxeram para suas obras o caldo substancial e diversificado da miscigenação local, até então desprezado ou idealizado na arte. Nesse entender serve um juízo de Mário de Andrade, veiculado numa entrevista que concedeu em 1925, considerando que “de todas as tentativas de modernização artística do mundo, talvez a que achou melhor solução para si mesma foi a brasileira”.11 Significa dizer que, embora os integrantes do movimento modernista estivessem em sintonia com processos artísticos transgressores, propostos pelas vanguardas europeias de seu tempo, de outro lado também aprofundaram conhecimento sobre problemas locais, propondo dialeticamente a assimilação da particularidade brasileira, como Antonio Candido divisou. Com respeito aos usos da língua, as subversões praticadas pelos nossos modernistas mostravam ainda a incorporação de muitos recursos expressivos da oralidade, uso de termos emprestados de outras línguas e assimilação de termos e expressões oriundas da língua geral (tupi-guarani), que tanto serviram para oxigenar sua linguagem artística. Em tempos mais atuais, ao justificar seu próprio modo de escrever, no prefácio ao livro O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, o historiador Luiz Felipe Alencastro relembra que “numa cultura tradicionalmente oral como a nossa, um meio privilegiado de patentear a presença do passado consiste em dar relevo à perenidade das palavras. Das palavras, dos coloquialismos — ainda vivos agora — grafados nos textos, na linguagem das estradas, das ruelas e das praias brasileiras [...]”.12 A declaração tem afinidade com o que Telê Ancona Lopez antes enfatizou num texto sobre Clan do Jaboti. A seu ver, Mário de Andrade “transformará em prática culta a validade estética ou técnica de soluções populares, iluminada por uma consciência de Brasil que se propõe crítica dentro de uma poesia de circunstância”.13 Nessa direção, retomando questões enunciadas e ampliando perspectivas, não seria demais afirmar que Antonio Candido se aproxima daquelas preocu11 Mário de Andrade. “1925 – Assim falou o papa do futurismo”. In: Telê Porto Ancona Lopez. (org.) Entrevistas e depoimentos. São Paulo, T.A. Queiroz, 1983, p. 17. 12 Luiz Felipe de Alencastro. O trato dos viventes: a formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 10. 13 Telê Porto Ancona Lopez. Introdução. In: Mário de Andrade. O turista aprendiz. São Paulo, Duas Cidades/SCT, 1986, p. 16.

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pações que mobilizaram o pensamento modernista, dando-lhes continuidade não apenas no âmbito dos artigos de crítica literária, que ele já veiculava pelo jornal na década de 40, mas também no âmbito de sua pesquisa acadêmica, como exemplifica “Opinião e classes sociais em Tietê”. Reportando-se ao período de sua formação, num recorte que vai da Revolução de 30 ao Estado Novo, o crítico observa numa entrevista concedida em 1976: “Nesse período, vimos a expansão dos estudos sociais sobre o negro em geral sobre as populações pobres; vimos minguar o ufanismo e a ideologia patrioteira dos livros de leitura. Isso favoreceu a formação de um pensamento radical, no qual me desenvolvi na mocidade.”14 Em Literatura e sociedade, obra publicada por Antonio Candido em 1965, o crítico pinçou com acuidade a ideia de que os modernistas brasileiros foram os primeiros a perceber a coincidência entre os interesses da vanguarda (voltados para o primitivismo) e traços da cultura brasileira, reconhecidos tanto na sua atualidade como no passado recente. Com isso em vista, lembra-se que no campo da cultura (mas não apenas) os modernistas se nutriram de leituras que remontam ao nosso passado colonial, mergulhando em escritos de Pero de Magalhães Gândavo; cartas dos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega; textos de frei Vicente do Salvador; obras como as de Jean de Léry e Claude D’Aubigny, sem, contudo, deixar de perceber criticamente o viés impressionista do conteúdo, e de considerar a visão de fora aliada às visões de classe. Mas, além das informações extraídas do acervo colonial, os modernistas se valeram de referências dadas por escritores do século XIX que puseram em destaque a cultura popular, a exemplo de Gonçalves Dias e José de Alencar, mesmo se opondo ao modo de olhar. Do final daquele século, nomes como os de Capistrano de Abreu (principalmente), Sílvio Romero e Couto de Magalhães somaram-se a muitos outros que alimentaram reflexões dos nossos modernistas na sua apreensão do legado popular. Assim, explorando muitos caminhos, procuraram formular um entendimento amplo e aprofundado do país, pondo em evidência nossa diversidade cultural e expressiva, e fundindo-a em nova perspectiva na literatura culta. Nesse particular, foi fundamental o papel desempenhado por Mário de Andrade na segunda metade da década de 20. Basta mencionar O turista aprendiz (anotações de viagem ao Norte realizada em 1927 e outra ao Nordeste do Brasil) e Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), rapsódia em que forja um verdadeiro compêndio de cultura popular. Nessa obra-prima, Mário de Andrade reverteu quadros de rebaixamento, redimensionando a arte erudita também por esse viés. À lista por ele encabeçada juntam-se Tarsila do Amaral na pintura; Villa-Lobos na música; Oswald de Andrade com os manifestos da década de 20 e o cancioneiro Pau Brasil; o poema Cobra Norato de Raul Bopp; Libertinagem de Manuel Bandeira; Retrato do Brasil de Paulo Prado. Na década de 30, a dedica14 Antonio Candido. “Entrevista – Sobre o trabalho teórico”, Revista Trans / Form / Ação 1. São Paulo, Unesp, 1976, p. 12.

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ção de Mário de Andrade no tocante à cultura popular ganhou um sentido ainda maior do ponto de vista de suas pesquisas individuais, pela tentativa de aprofundar e sistematizar os estudos feitos nesse campo. É o período em que ocupa um cargo público de destaque, organizando e dirigindo o Departamento de Cultura do Município de São Paulo. Nessa oportunidade, Mário de Andrade criou um setor ligado aos estudos do folclore e de etnografia. E foi por sua iniciativa que se instituiu um curso de Etnografia em São Paulo, primeiramente ministrado por Dina Lévi-Strauss. No âmbito desses estudos projeta-se o trabalho desenvolvido por sua discípula Oneyda Alvarenga. Entre outros esforços nessa direção, alinha-se ainda a contribuição de peso do historiador Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil (1936), pondo em foco a mescla cultural brasileira. Isso sem esquecer Gilberto Freyre, com Casagrande e senzala (1931), e nomes como os de Câmara Cascudo e de Ascenso Ferreira, entre outros estudiosos. Desse modo, a leitura inovadora da cultura popular, que despontou no Brasil na década de 1920, adentrando pelos anos 30 e 40, colocou em xeque padrões da elite intelectual, marcando posição num tempo em que “as letras, o público burguês e o mundo oficial se entrosavam numa harmoniosa mediania”.15 Pela amplitude e pela diversidade de interesses, tais estudos sobre a cultura brasileira abriram horizontes que certamente ultrapassam aquele de uma problemática local. Visto assim, mesmo que não reconhecido, ou esquecido como diálogo pioneiro, os estudos culturais se antecipam no Brasil das primeiras décadas do século XX como projeto e realização consistente, particularmente no período áureo do Modernismo brasileiro. Dessa perspectiva, é curioso notar que a febre dos estudos culturais no Brasil, que entrou na pauta acadêmica na década de 90, por influência europeia e norte-americana, ficou desvinculada dos estudos e pesquisas pioneiras que por aqui ocorreram, o que fortalece “o sentimento da contradição entre a realidade nacional e o prestígio ideológico dos países que nos servem de modelo” 16, seguindo o juízo crítico de Roberto Schwarz em “Nacional por subtração”. A observação tanto no campo comparativo como no campo das antecipações dos estudos culturais serve para mostrar que, sem se dar conta de uma tradição já existente no país, os de cá confirmam a avaliação de que no Brasil, retomando Schwarz, “a cada geração a vida intelectual parece começar do zero”.17 De volta às questões formuladas por Antonio Candido, e seguindo seu raciocínio valorizador do movimento de 22, lembra-se que para o crítico “o nosso modernismo importa essencialmente em sua fase heroica, na libertação de uma série de recalques históricos, sociais, étnicos, que são trazidos triunfalmente à tona da consciência literária. Este sentimento de triunfo, que assinala o fim da posição de inferioridade no diálogo secular com Portugal e já nem o leva mais em conta, define a originalidade própria do Modernismo na dialética do geral e do particuIdem, ibidem, p. 119. Roberto Schwarz. “Nacional por subtração”. In: Cultura e política. São Paulo, Paz e Terra, 2001, p. 109. 17 Idem, ibidem, p. 110.
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lar”.18 E é essa visão, certamente, que permitirá aos modernistas pôr em prática uma verdadeira transformação nos meios de expressivos, priorizando na arte a linguagem de uso cotidiano, já muito misturada, e que permitiu definitivamente distinguir marcas expressivas do português do Brasil. Esse traço afirmativo, que libertou o pensamento colonizado de certas amarras, foi entendido por Antonio Candido como parte do “desrecalque localista”.19 Indo nessa direção, considera-se que a própria expressividade adotada por Antonio Candido em “Opinião e classes sociais em Tietê” mostra que, desde muito cedo, assimilou em seus escritos muitas lições do movimento modernista. Por isso, embora tenha se apoiado em critérios científicos para elaborar seu estudo, o articulista procura evitar o jargão pedante do domínio culto, exprimindo sua visão crítica numa linguagem acessível e sem meias palavras: linguagem clara, liberta dos artificialismos e sempre afinada a uma reflexão dialética sobre o tema que propõe examinar. Em “Movimentos de um leitor: ensaio e imaginação crítica em Antonio Candido”20, Davi Arrigucci Jr. enunciou questões relativas à feição inovadora da expressividade do crítico, observando que ele seguia na contramão de certa tendência acadêmica: “Essa impressão literária e ao mesmo tempo marcada pela oralidade, que ele nos provoca, sugere uma continuidade com a herança do Modernismo, um pouco inesperada à primeira vista, num crítico que pertence a uma geração sabidamente caracterizada pela formação universitária”.21 Para retomar fios da meada, de volta a 1943 e àqueles ilustres pesquisadores desembarcados em Tietê, é oportuno lembrar que o grupo do prof. Roger Bastide era convidado de intelectuais da cidade e da autoridade política local, o prefeito Olegário Bueno de Camargo Penteado (“Seu Olegarinho”). Vale lembrar que se tratava de uma viagem feita especialmente para assistir à festa de um batuque, ocorrida num sábado do mês de maio.22 Dado o caráter de exceção, por causa dos visitantes, o espetáculo foi deslocado de seu espaço habitual (a zona periférica) para um lugar privilegiado no espaço urbano. A deferência do prefeito aos acadêmicos pesquisadores acabou revertendo também em manifestação de prestígio aos batuqueiros. Ou seja, permitiu-se a demonstração festiva da plebe num espaço que lhe era interdito. Tal
Antonio Candido, op. cit., p. 119. Antonio Candido. Literatura e sociedade. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1973, p. 121. 20 Davi Arrigucci Jr. Movimentos de um leitor: ensaio e imaginação crítica em Antonio Candido. In: Maria Angela D’Incao e Eloisa Faria Scarabôtolo (org.). Dentro do texto, dentro da vida, ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo, Companhia das Letras/Instituto Moreira Salles, 1992, pp. 181-204. 21 Idem, ibidem, p. 183. 22 Tudo leva a crer que aquele espetáculo também fazia parte de comemorações já tradicionais da assinatura da Lei Áurea, em especial por parte de descendentes de escravos. De acordo com depoimento de batuqueiros, depois de 13 de maio de 1888, a data fora reservada para apresentações da dança; eles explicavam que havia na escolha uma declaração de liberdade, fazendo valer o direito de representação no espaço público, embora isso acontecesse numa zona de periferia. Cf. No repique do tambu: o batuque de umbigada paulista. Direção e roteiro de Rubens Xavier e Paulo Dias. São Paulo: Associação Cultural Cachuera! Rede SescSenac de Televisão; TV Cultura, 2003. 1 cassete (55 min): son., cor; VHS. Devo a indicação e o empréstimo ao historiador Milton Ohata.
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concessão revoltou moradores da cidade, a ponto de provocar uma verdadeira “comoção da consciência coletiva”, conforme escreveu Antonio Candido. Depois do espetáculo, que varou a madrugada, o grupo liderado por Roger Bastide retornou a São Paulo. Por causa da recepção negativa, porém, Antonio Candido decidiu permanecer na cidade a fim de avaliar as repercussões daquela festa no meio social. De acordo com seu relato, “nos quatro dias que sucederam o batuque” ele se dedicou à tarefa de conversar e entrevistar pessoas de diferentes estratos sociais, para entender melhor as reações e a natureza da recepção negativa. Na amostragem diversificada, incluiu a figura do cônego (autoridade clerical), o prefeito (autoridade civil), intelectuais (professores, jornalistas, advogados, estudantes), e outros moradores da cidade com quem manteve diálogos, seja em reuniões com as famílias, seja em encontros individuais. Movendo-se entre velhos e jovens, homens e mulheres, ricos, remediados e pobres, Antonio Candido também garimpou informações de terceiros para cruzar opiniões. Somam-se a isso outras atitudes observadas que contribuíram para a interpretação dos dados que recolheu. Essa análise feita com base numa situação de exceção trouxe à tona problemas de fundo relacionados ao convívio coletivo e aos bens culturais da comunidade. Por esse intermédio, o sociólogo-pesquisador detectou campos de tensão e conflitos no meio citadino, que, na vida diária, provavelmente se escondiam sob a aparência do convívio cordial entre classes. Assim, ao iluminar questões relacionadas àquela festa do batuque, pela receptividade negativa, Antonio Candido detectou manifestações de preconceito, envolvendo vida social, cultural, econômica, religiosa.

O aparente e o oculto
Indagado, recentemente, sobre a possibilidade de republicar “Opinião e classes sociais em Tietê”, Antonio Candido se opôs à ideia por considerar o trabalho datado e muito singelo. Mas, mesmo levando em conta as restrições que consideram a superação de alguns argumentos, válidos apenas para a época, o cerne da pesquisa se mantém atual. E, diga-se, no tocante à recepção do batuque, a aproximação que faz é também original. De acordo com sua exposição, a pesquisa se apoiou em vários “instantâneos” apreendidos do cotidiano, que serviram de base para a análise e interpretação dos dados, objetivando “desvendar o aparente pela exceção”, conforme suas palavras. Nesse entender, Antonio Candido mostra o interesse e a relevância que situações momentâneas de desordem assumem na sua investigação crítica. No artigo em questão, com foco em relacionamentos no meio social, a ruptura de uma norma unilateral assumida na vida diária bastou para reverter e aflorar um conflito latente, mas recalcado (oculto) pela aparência de um convívio harmonioso. Ainda mais: por esse filão da cultura popular, que permeia relações entre cultura e sociabilidade, notase que a preocupação também estará na alça de mira de outra pesquisa de sua lavra. Neste sentido, arriscaria dizer que, no processo de amadurecimento do crítico, o artigo em pauta antecipou algumas questões de Os parceiros do rio Bo-

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nito, estudo iniciado em 1947 e concluído em 1954, apresentado como tese de doutoramento em Ciências Sociais (na FFCL-USP). Mas até sobre esse trabalho, de reconhecida complexidade crítica, Antonio Candido observou, no prefácio escrito em 1964, que “os dados numéricos envelheceram, a própria situação estudada se alterou localmente”.23 Numa visão do conjunto, porém, reconheceu pontos de vista que ainda dão validade e fôlego ao estudo: “[...] talvez este trabalho ainda tenha algum interesse para os que acham que a reforma das condições de vida do homem brasileiro do campo não deve ser baseada apenas em enunciados políticos, ou em investigações especializadamente econômicas ou agronômicas; mas também no estudo da sua cultura e da sua sociabilidade”.24 Na pesquisa feita em 1943, em Tietê, Antonio Candido elaborou um sensível diagnóstico de reações negativas, positivas e conflitantes, causadas pelo impacto da apresentação de um batuque de umbigada. Para organizar os dados coligidos, dividiu e classificou segmentos sociais de acordo com o seguinte esquema: a) Definiu a classe I como “uma aristocracia ligada à terra, seja por posse, seja por tradição de origem brasileira na grande maioria. Mesmo quando as fortunas se fizeram ou aumentaram no comércio, os membros dessa aristocracia pertencem a família de origem rural. É de notar que várias famílias deixaram inteiramente, ou quase, Tietê, vindo se estabelecer em S. Paulo, com a opulência devida ao café no seu período áureo. Acrescente-se ao quadro os altos funcionários”. b) Na classe II, concentrou a população burguesa, subdividindo-a em IIa e IIb. A primeira, constituída pela “camada mais estável, composta de pequenos proprietários, pequenos comerciários, pequenos fazendeiros, pequenos funcionários”; e a segunda, abrangendo “uma camada ainda em ascensão, quer pela origem muito recente da propriedade ou da função, quer pela dependência de pequenos salários, e ainda muito próximo ao povo”. c) Por fim, distinguiu a classe III como aquela constituída por “uma plebe de trabalhadores, com grande porcentagem de negros e mulatos, na qual existiam, ao tempo da pesquisa, alguns ex-escravos (estivemos com, pelo menos, quatro)”.25 Pelo viés dessa constituição social, Antonio Candido observou que a resistência ao batuque derivava de forma acentuada da população de classe média, tanto na “camada mais estável”, como naquela “camada ainda em ascensão”. Sua pesquisa também mostra que havia nuances nas atitudes de rejeição, que variavam das desaprovações extremadas às manifestações contraditórias. Esse último sentimento foi assim explicitado: “A situação começou a esclarecer quando fiquei
23 Antonio Candido. Prefácio. In: Antonio Candido. Os parceiros do rio Bonito. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 2001, p. 13. 24 Idem, ibidem, p. 14. 25 Antonio Candido. Opinião e classes sociais em Tietê, pp. 97-112. A citação foi extraída de cópia datilografada, p. 4, equivalente à p. 101 da referida revista Sociologia.

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sabendo [...] que muitos dos meus informantes haviam ‘folgado batuque’ em tempos passados. [...] mas na presença das mães, ou irmãos idosos, mostraramse confusos.”26 E, não deixa de ressaltar que, em geral, a condenação partia das mulheres e dos mais velhos, que protestavam e declaravam ser uma “pouca vergonha” “cair no batuque”. Nessa toada, alguns exprimiram sentimentos de humilhação, outros de revolta, outros de insegurança. Sobre muitos juízos pesava a pregação de certa moral cristã, bem como deles afloravam preconceitos raciais. Tais manifestações muitas vezes se traduziam pelo uso de termos de cunho pejorativo expressos por grupos e indivíduos da classe II (IIa e IIb). Numa gama de opiniões, que vai da “tolerância” à “recusa”, o sentimento contra pode ser sintetizado na seguinte pergunta:
Será que não há em Tietê outra coisa para mostrar, além dessa negrada?

Nada disso nos surpreende, mesmo nos dias de hoje, quando aqueles que ascendem socialmente passam a assumir outras posições e a adotar opiniões alheias e preconceituosas, manifestando atitudes conservadoras (da política aos bens culturais), que talvez antes não tivessem. Seguindo interpretações do crítico, os que ascendem passam a renegar (por insegurança) seu passado recente, que então encaram como vergonha. Significa dizer que sendo o batuque manifestação cultural de negros e de pobres (classe III), tendia a ser bem mais rejeitado pela população integrante da classe II. Afinal, aquela festa colocava em desordem o universo aparentemente estável de uns e, de modo provocador, parecia expor abertamente fragilidades de classe relacionadas à origem modesta. Na visada de Antonio Candido, porém, se para essa camada social (designada como classe II) era lamentável a exibição daquela festa do batuque, para outros, oriundos desse mesmo estrato, como professores, advogados, jornalistas, estudantes da cidade, a oportunidade servia para a “apreciação de uma conjuntura que apelava para o seu esclarecimento e a sua cultura”. Também aqui o contraditório se explica pela marca de exceção, porque eles “formavam, ideologicamente, um todo autônomo, funcionando enquanto grupo diferenciado das classes, cortando-as verticalmente”.27 Significa dizer que a aprovação superava naquele momento (pelo menos) um juízo restritivo, assim contribuindo para juntar indivíduos e romper barreiras de classe. Nesse conjunto, o juízo mais inusitado punha no centro da discórdia-concórdia o vigário local, permitindo, também por esse intermédio, detectar problemas e atitudes em relação ao público e ao privado. Por exemplo, o vigário declarava de modo ostensivo que era “maléfico” para a população de Tietê o fato de se apresentar a dança do batuque no espaço urbano. Mas, separando a autoridade clerical por ele investida daquela de suas opiniões pessoais, contraditoriamente,
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Idem, ibidem, p. 101. Idem, ibidem, p. 107.

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confessou em conversa reservada que, se o espetáculo se restringisse ao território rural, “até eu ia”. Ou seja, a queixa se voltava para o espaço liberado para a representação de uma dança que considerava lúbrica — ressalve-se, condenada para os fiéis, mas não para ele. Assim, aquela situação de desordem, ainda que provisória, representava um desacato para o clérigo, pois, no seu entender, resultava na desmoralização da autoridade religiosa, colocando em xeque o próprio poder da Igreja que, por meio dele, era exercido sobre os fiéis. A propósito dessa autoridade eclesiástica, Antonio Candido anota:
“E observe-se, para finalizar o quadro, que o maior inimigo da festa, inimigo que me recebeu com a maior franqueza, e com ela nada escondeu de seu profundo ressentimento, foi o vigário local, Cônego.”

Os relatos reforçam marcas de preconceito e sentimento de rejeição que acompanham a dança do batuque e os batuqueiros, desde longa data, em sua trajetória no país. Derivam de estigmas de insegurança, muitas vezes impressos no desejo de apagar vestígios da origem mestiçada, embora esta seja a base formadora do povo brasileiro. Vista por esse ângulo, a situação de confronto permanente, por rejeição de classe e mentalidade atrasada, parece representar um fator decisivo para o desaparecimento quase que total do batuque nos dias de hoje. Significa dizer que com essa atrofia perde-se um traço fecundo da herança popular, porque, além de desfibrar uma dada realidade da vida cotidiana, essa festa coletiva também preserva na sua estruturação traços indicativos de um rico sincretismo cultural, como bailado coreográfico, dança ritual, palavra cantada, percussão musical, etc. Em O homem e o sagrado28, Roger Caillois apresentou a festa como um fator determinante para a vida humana, explicando que é “para a sua memória e para o seu desejo, o tempo das emoções internas e da metamorfose do seu ser”.29 Como uma dança ritual e popular, o batuque permite extravasar sentimentos diversos, pelo meneio do corpo, pela gestualidade sedutora, além da malícia e do espírito brincalhão presentes nas cantorias. Sendo assim, convergem diferentes tipos de subversão nesse ritual sincrético, que se opõe à ordem oficial instituída. Na concepção de Bakhtin, que estudou a festa popular na cultura europeia medieval, essa manifestação era “a forma que revestia a segunda vida do povo que penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, da liberdade, da igualdade e da abundância”.30 No caso específico do “batuque de umbigada”, a rejeição cultural se coloca como um diferenciador de classe, também atrelado à moral preconizada pela

28 Roger Callois. “O sagrado de transgressão: teoria da festa”. In: Roger Callois. O homem e o sagrado. Lisboa, Edições 70, 1988, pp. 95-124. 29 Idem, ibidem, p. 97. 30 “[...] la forme qui revêtait la seconde vie du peuple qui pénétrait temporairement dans le royaume utopique de la universalité, de la liberté, de la égalité et de l´abondance”. Mikhail Bakhtin. L´oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance. Trad. do russo por Andrée Robel. Paris, Gallimard, 1970, p. 17.

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igreja. Afinal, batuqueiros pertencem a uma classe de despossuídos, ou seja, representam um coletivo sem voz no conjunto da sociedade e do qual se pretende o apagamento da memória. Há casos, porém, em que manifestações artísticas populares se glamorizam (como é o caso do carnaval), ganhando projeção na mídia, ou, como expressão regional vistosa (o bumba-meu-boi é um exemplo), servindo para turista ver. Como o batuque é dança de terreiro, considerada lasciva, praticada por gente humilde, sem vestimentas especiais, a visibilidade pública em demasia passa a incomodar. Nesse caso, a reação censora parece reforçada na expressão de desapontamento de alguns moradores de Tietê, que ficaram inconformados porque o batuque havia se transformado no centro das atenções. A pergunta formulada por um morador perplexo permite aquilatar o grau de preconceito e de ignorância intelectual de quem indaga:
O que quererão esses moços de São Paulo com o batuque? Será que batuque serve para alguma coisa?

Na pesquisa em foco, Antonio Candido partiu de um caso particular para colocar em evidência problemas incrustados nas relações de classe no Brasil, num quadro em que figuram situações e atitudes, influências e juízos de valor. Os exemplos tomados de “Opinião e classes sociais em Tietê” e a própria trajetória do batuque ajudam a compreender algumas dinâmicas do presente pela não-superação de problemas do passado. Dessa perspectiva, o batuque contribui aqui para mostrar facetas de uma “[…] longa tradição de intolerância e violência” no Brasil. Seguindo Luiz Felipe Alencastro, e desta vez em “Os fantasmas da memória”31, podemos argumentar que tal tradição “foi gerada entre nós pela Inquisição e pelo escravismo”. Parte disso se confirma no relato de Antonio Candido, outro tanto cabe ainda explicar neste comentário. Afinal, resta saber, com algum detalhe, que festa é essa capaz de gerar tanto desconforto e polêmica. É tempo de apresentar o “batuque de umbigada” por alguns de seus traços particulares, bem como situá-lo na vida cultural brasileira por movimentos de sua trajetória.

Características e trajetórias
O “batuque de umbigada” é uma dança que mistura expressividades e se caracteriza por peculiaridades coreográficas. Praticada por homens e mulheres, dispostos em roda ou em fileiras, funde em seu repertório a palavra cantada, movimentos corporais, ritmo musical marcado por instrumentos de percussão, como tambu (maracá ou maracá, espécie de chocalho), quingengue, matraca, guará e guanazamba (o maior dos tambores usados no batuque). Sua representação requer um figurante que se aparta do grupo, para o meio da roda, ou para fora da fila, em contínua alternância. Como dança ritual de reprodução, a sensualidade corporal é sempre explorada por reque31 Luiz Felipe de Alencastro. “Os fantasmas da memória”. São Paulo, Folha de S. Paulo, 19 dez. 2004, Caderno Mais!, p. 3.

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bro das cadeiras, meneios dos braços, estalidos da língua, ajustando-se aos passos da dança, a exemplo do corta-jaca e da umbigada. Esta última tem por objetivo “trazer um novo solista para a roda”. Assim, por metonímia, a “umbigada” (e a forma variante “imbigada”) traduz a própria dança. No entender de Oneyda Alvarenga, a gestualidade “pode ser real, estilizada, ou substituída por um elemento que tenha a mesma função”.32 Ainda, vários cantos guardados por transmissão oral e trovas de improviso servem de apoio para a dança. Neles predominam as palavras de feição maliciosa, notadamente picantes, num contínuo jogo de duplo sentido. Estudiosos do folclore, como Mário de Andrade, atestam que esse é de fato um “nome geral de danças africanas”. Mas, no verbete samba, que foi incluído no Dicionário musical brasileiro (publicação póstuma), o crítico procurou estabelecer diferenças: “O samba rural de negros paulistas (e possivelmente de toda região central do país) se distingue bem na coreografia e no ritmo musical, dos sambas e baianos nordestinos. Este se aproxima bem mais do maxixe, tem a síncopa (existente ou não) como elemento básico do ritmo. Já o samba paulista, também na terminologia popular nomeado ‘batuque’, não tem a síncopa como base rítmica e é um verdadeiro one-step [um passo para frente e dois para trás] bem batido nos tempos, exigindo a coreografia andadeira do one-step.”33 Oneyda Alvarenga segue nessa trilha, explicando que em determinados lugares a dança do “Batuque” era conhecida como “Samba”. Para evitar confusão, exemplifica: “Na cidade paulista de Tietê existe um samba em que os dançarinos se dispõem em fileiras opostas, homens de um lado, inclusive os instrumentos, mulheres de outro. […]” E acrescenta: “O texto poético registrado por Benedito Pires de Almeida ao se referir a esse Samba, é exatamente o mesmo de um Batuque que colhi em Minas Gerais [o mesmo registrado na epígrafe], apenas com a substituição da palavra Batuque por Samba.”34 Um documento bastante singular sobre o assunto é o de João Maurício Rugendas (1802-1858) que, na obra Viagem pitoresca através do Brasil, especificamente no capítulo “Usos e costumes dos negros”, registrou: “A dança habitual do negro é o batuque. Apenas se reúnem alguns negros e logo se ouve a batida cadenciada das mãos; é o sinal de chamada e de provocação à dança. O batuque é dirigido por um figurante; consiste em certos movimentos do corpo que talvez pareçam demasiado expressivos; são principalmente as ancas que se agitam; enquanto o dançarino faz estalar a língua e os dedos, acompanhando um canto monótono, os outros fazem círculo em volta dele e repetem o refrão.” 35 Como se pode confrontar, a descrição coreográfica do batuque feita por

Oneyda Alvarenga, op. cit., pp. 147-148. Mário de Andrade. Dicionário musical brasileiro. São Paulo, EDUSP, 1989. Oneyda Alvarenga; Flávia Camargo Toni (Coord.). Verbete “samba”. 34 Idem, ibidem, p. 156. Em Os sons dos negros no Brasil (São Paulo, Art Ed., 1988) José Ramos Tinhorão também confirma que os negros chamavam a umbigada de semba, com a variante samba. 35 João Maurício Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo, Martins, 1949, p. 197.
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Oneyda Alvarenga em Música Popular Brasileira tem muitos pontos de contato com aquela de Rugendas, especialmente quando explica que “a dança consiste em meneios violentos das ancas, sapateados, palmas, estalar de dedos; apresenta como elemento específico a umbigada que o dançarino ou dançarinos solistas dão nos figurantes da roda que escolhem para substituí-los. Assim ritmada e sensualmente motivada, a dança se desenvolve acompanhada por instrumentos musicais de percussão […]”.36 Para ampliar um pouco mais o quadro de informações a respeito do batuque proveniente dos viajantes do século XIX, tome-se uma descrição pontual de George Wilheim Freireyss37, com detalhes sobre a coreografia: “Entre as festas merece atenção a dança brasileira o batuque. Os dançarinos formam roda, e ao compasso de uma guitarra (viola), move-se o dançador no centro, avança e bate com a barriga na barriga de outro da roda, de ordinário, pessoa de outro sexo. No começo, o compasso da música é lento, porém, pouco a pouco, aumenta, e o dançador do centro é substituído cada vez que dá uma umbigada; e assim passam noites inteiras”.38 Nessa exposição, Freireyss se refere ao acompanhamento musical e aos movimentos que estimula, dando destaque ao baixo corporal, como umbigo e ventre, aos movimentos de aproximação entre o homem e a mulher, ao toque de corpo, e depois a retirada, confirmando o choque provocado pela dança em contrariedade com preceitos de uma tacanha moral religiosa: “Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão também por que tem muitos inimigos, especialmente entre os padres. Assim, por exemplo, um padre negou a absolvição a um paroquiano, acabando desta forma com a dança, porém, com grande descontentamento de todos. Ainda há pouco dançava-se o batuque em Vila Rica (Ouro Preto) numa grande festa e na presença de muitas senhoras, que aplaudiam freneticamente. Raro é ver outra dança no campo, porém, nas cidades, as danças inglesas quase que substituíram o batuque”.39 Há situações, porém, em que o olhar do europeu apenas sinaliza o que considera estranho em relação a culturas desconhecidas do branco (não sendo o índio, era o africano), tão exóticas quanto a natureza exuberante em seu redor. Assim os naturalistas austríacos J. B. von Spix e C. F Ph. von Martius situaram o batuque . em Viagem pelo Brasil (1817-1820):
“Na Estiva, uma quinta solitária, com vastos campos magníficos, circundados ao longe de montanhas isoladas, estavam os moradores em festa, dançando o batuque; mal souberam da presença de viajantes estrangeiros, convidaram-nos para entrar e presenciar os divertimentos.”

Na sequência detalham o espetáculo:
Oneyda Alvarenga, op. cit. Freireyss viajou pelo Brasil na companhia do barão de Eschwege, nos anos de 1810 (Luís da Câmara Cascudo, op. cit.) 38 Luís da Câmara Cascudo, op. cit. 39 Idem, ibidem.
36 37

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“[…] o batuque é dançado por um bailarino só e uma bailarina, os quais, dando estalidos com os dedos e com movimentos dissolutos e pantomimas desenfreadas, ora se aproximam ora se afastam um do outro. O principal encanto desta dança para os brasileiros está nas rotações e contorções artificiais da bacia, nas quais quase alcançam os faquires das Índias Orientais”.40

E a propósito do acompanhamento musical, eles consideram que o batuque é um bom exemplo da “disposição alegre” do brasileiro, “pronto para divertir-se”. Acrescentam ainda outros detalhes sobre a festa do batuque: “Dura às vezes, aos monótonos acordes da viola, várias horas sem interrupção, ou alternado só por cantigas improvisadas e modinhas nacionais, cujo tema corresponde à sua grosseria. Às vezes aparecem também bailarinos, vestidos de mulher. Apesar da feição obscena desta dança, é espalhada em todo o Brasil e por toda parte é a preferida da classe inferior do povo, que dela não se priva, nem por proibição da Igreja. Parece ser originária da Etiópia e introduzida pelos escravos negros, no Brasil, onde criou raízes como muitos outros hábitos deles”.41 Destacam a condenação da Igreja e a censura de classe, mas não deixam de contrapor a resistência dos batuqueiros a esses vetos. Em desacordo com o que mais tarde escreveu Paulo Prado em Retrato do Brasil (1928), os naturalistas não fixam o traço de “povo triste”, mas coincidem na ênfase à “sensualidade” e à sedução. O batuque, como representativo de uma dada realidade cultural, porém, não pode ser isolado em sua gestualidade corporal nem se fixar num entendimento psicológico (embora sem descartá-lo), porque o ritual em que se integra contém forte potencialidade de agregação (hábitos, práticas, modos de relacionamento, expressão individual e coletiva, crenças) de um grupo que originalmente foi apartado de seu meio. Situado como manifestação pagã, ligada aos rituais de reprodução, essa dança de negro, com pecha de dança lúbrica, parece desde longa data ter abalado preceitos da moral cristã. Segundo informa Câmara Cascudo, havia “uma lei de D. Manuel [o Venturoso] proibia o batuque em Portugal quinhentista”.42 A dança continuou adjetivada como vil, indecente e pecaminosa no Brasil colonial de Dona Maria I (a Louca). A comprovação disso sai de alguns versos das Cartas chilenas43. Na Carta 6a (versos 245-246), “Festas em Vila Rica”, lê-se:
A ligeira mulata em trages (sic) de homem Dança o quente lundu, e o vil batuque; […]

Também na undécima Carta, “Amor, ciúme e ódio”, o missivista Critilo nos remete uma vez mais ao tema (versos 141-147), mas por voz alheia, tomada de um participante da dança:
40 J. B. von Spix e C. F Ph. von Martius. Viagem pelo Brasil (1817-1820). Trad. Lúcia Furquim . Lahmeyer. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1981, p. 180. 41 Idem, ibidem, p. 180. 42 Luís da Câmara Cascudo. Dicionário do folclore brasileiro. Verbete “batuque”. 43 Tomás Antônio Gonzaga. As cartas chilenas. Fontes textuais. Estudo crítico de Tarquínio J.B. Oliveira sobre esta obra, atribuindo autoria a Tomás Antônio Gonzaga. São Paulo, Referência, 1972.

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[…] ‘Fizemos nesta noite um tal batuque; […] Só um, senhor, não houve que lascivo Com ella não brincasse: todos elles De bebados, que estavão, não podérão O intento conseguir; só eu mais forte…’ Apenas isso diz o vil criado, […]

Na atualidade, um estudioso do folclore brasileiro, Alceu Maynard Araújo, acresce informações, descrevendo o “batuque de umbigada” em suas funções específicas, ao mesmo tempo em que reitera características de sua coreografia. E, a propósito, destaca a presença de gestos de saudação, lembrando que são importantes por causa das relações de parentesco existentes entre os pares: pais, irmãos, afilhados. Em razão disso, considera que certo cumprimento “examinado à luz da antropologia cultural mostrará que os batuqueiros fazem o ‘granché’ [do fr. grand chaîne, grande corrente] porque este evitará o incesto, o que temem praticar. […], pois aquele tabu sexual é uma observância já encontrada nas sociedades pré-letradas. Só este argumento, sem falar dos movimentos da umbigada, que no fundo são representação do ato genésico, nos dá prova suficiente para afirmarmos que o Batuque é uma dança do ritual da reprodução”.44 Maynard prossegue em sua argumentação, explicando que “algumas danças a Igreja abominou, interditou, dentre elas o Batuque por ser sensual e ligado à prostituição da senzala; mas o senhor de escravos fazia ‘vista gorda’, permitindo-o e foi por isso que chegou até nossos dias”.45 Nesse caso, bem anterior ao texto de Maynard, o artigo de Antonio Candido já aludia à relação entre senzala e casa-grande com respeito ao batuque. Nesse quadro aproximativo, retomo um dos dísticos citados na epígrafe deste trabalho, para atrelar a “vista gorda” dos senhores, tolerando o batuque nos seus domínios rurais, e, de outra parte, sem objetar ou questionar a autoridade da “senhora” quanto a seus domínios de mando, a casa-grande. No caso específico, é a mulher do proprietário rural que determina o espaço interdito da dança, conforme testemunha o canto: “Batuque na cozinha/Sinhá num qué”.

Caminhos e descaminhos
O levantamento feito não é aleatório, embora pretenda ser apenas indicativo de um possível canal por onde escoam preconceitos na sociedade, reafirmando o processo de desagregação da cultura popular no Brasil, por objeções oriundas de uma ideologia de classe dominante. Ao situar traços da cultura e da sociabilidade, observando diferentes dinâmicas entre as partes, em “Opinião de classes sociais em Tietê”, Antonio Candido nos permitiu desvendar conflitos, contradi44 45

Alceu Maynard Araújo, op. cit., p. 232. Idem, ibidem, p. 232.

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ções, tensões sociais. Nesse processo, mostrou que ideologicamente o batuque implicava pouca consequência para o grupo constituído por pessoas das classes I e III. Mas, de outra parte, explicitou atos contraditórios quando estavam em jogo interesses e poder de coerção, em particular aqueles exercidos pela Igreja católica (embora, individualmente, o vigário não fosse “contra”). Por fim, localizou em segmentos sociais (classe IIa e IIb) a repulsa mais direta à dança dos pobres, atinando para o comprometimento de certa “situação de classe”. Nesse caso, vale reforçar que em 1943, metade do século XX, tal comportamento era característico da mentalidade provinciana dos pequenos centros. Essa população urbana ligava seus sentimentos de insegurança à formação de juízos com base na aparência e na opinião alheia. A recusa em relação à festa do batuque, movida pela moral de classe, implicava tentativa (muitas vezes inconsciente) de destruição de um patrimônio artístico-cultural e desrespeito à liberdade de manifestação, igual para todos. Mudado de lugar e tempo, o comportamento restritivo ainda hoje parece reiterar aquelas motivações de rejeição e de exclusão, que historicamente cercam o batuque — símbolo de pobreza associada à herança da senzala — seja por atitudes de autoridade constituída, seja por cidadãos comuns. Entrando no século XXI, o moralismo que execrava e negava o batuque parece eclipsado por muitos espetáculos televisivos, que seguem impingindo novos padrões de comportamento a um largo espectro da população. Esse novo artifício de manipulação do gosto público se dá de cima para baixo e está sempre atrelado a interesses mercantis. No caso, a poderosa força econômica que está por trás da comunicação televisiva (mas não apenas) atinge com sua mística tentacular as classes IIa e IIb (média e média baixa) e também a classe III (plebe de trabalhadores), progressivamente, desde a década de 50. A esse público consumidor de mercadorias foi-se pouco a pouco impondo uma lubricidade sem antepassado cultural, mas certamente considerada “positiva” pelos manipuladores. Assim, a sexualidade passa a ser vendida como qualquer outra mercadoria de consumo, muitas vezes mascarada por um duvidoso gosto artístico. Visto por esse ângulo, tudo indica que o moralismo que execrava e negava o batuque foi eclipsado. A classe social I (que operou mudanças sociais nos tempos da industrialização galopante e manobra seus interesses pelos meios televisivos) encontrou sua base de consumidores nas classes II (a e b) e III, numa inusitada junção. E agora, impondo-lhes um padrão e um gosto desprovido de lastro, acena com uma lubricidade positiva. A essa altura, então, caberia perguntar: nessa longa trajetória, o que terá mudado em relação ao batuque no âmbito da vida cultural brasileira? Pelo que se observa, os que conseguem passar da classe III para a classe IIb continuam mudando rapidamente de valores, rejeitando o que consideram marca de origem, não mais em relação à cultura que se pasteurizou, mas em relação à política, em que a ideologia da classe dominante ainda conta como valor a ser copiado. Por fim, retomando questões, valho-me de depoimentos do vídeo No repique do tambu: o batuque de umbigada paulista, em que os batuqueiros entrevistados relatam que agentes policiais e delegados investigadores, ainda hoje, continuam in-

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vadindo o terreiro da dança para fazê-la terminar. Esses batuqueiros de São Paulo resistem, lutando não só para assegurar a continuidade de um legado cultural, mas também para preservar aprendizados, valorizando diferentes meios de relacionamento social. Esse pequeno grupo de batuqueiros continua sendo formado pela plebe de trabalhadores, negros, mulatos, caboclos e outros mais. E são testemunhas de que o preconceito e as atitudes restritivas e coercivas permanecem nos dias de hoje. Por outras referências contextuais, relevantes em relação ao tema tratado, acrescenta-se aqui uma reflexão de Florestan Fernandes, extraída de Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, em que aproxima essas questões: “É certo que várias influências formativas precedem as experiências do imaturo na área do folclore. Mas, se considerarmos as atitudes sociais de vida, que regulam a atualização e a repetição de tais experiências, é inegável também que se podem distinguir dois níveis de influência sócio-dinâmica do folclore. Um deles revela-se mediante a interação com outras pessoas [...]; outro se evidencia através das categorias de pensamento (símbolo) [...]”.46 No caso da presente leitura, o batuque é apenas um exemplo dos conflitos existentes entre cultura, sociabilidade e marginalidade econômica, numa sociedade (como a nossa) que ainda nega o direito de todos à mesma cidadania, conforme se gravam em muitas outras opiniões e atitudes de classe. Quanto à herança cultural e à vida cotidiana, esquecemos que, atuando como experiência de convívio no meio social, a tradição popular, se não for enrijecida, poderá cumprir em diferentes graus e circunstâncias um importante papel mediador, transformando-se em fator dinâmico de agregação e não em fator de alienação do coletivo, como acontece com a manipulação de classe exercida pelos meios de consumo mercantil.

46 Florestan Fernandes. “O folclore de uma cidade em mudança”. In: Florestan Fernandes. Folclore e mudança social na cidade de São Paulo. Petrópolis, Vozes, 1979, pp. 17-18.

resenhas

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ReCortes

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Universidade de São Paulo

Resenha de Recortes. Antonio Candido. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. Essa resenha foi publicada originalmente na Revista Novos Estudos CEBRAP, n. 36, julho de 1993. Review of Recortes. Antonio Candido. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. This review was originally published in Revista Novos Estudos CEBRAP, n. 36, July, 1993.

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ecortes reúne cinquenta escritos de Antonio Candido, abrangendo um período de vinte anos (1972-1992), elaborados para circunstâncias muito diversas: revistas, jornais, palestras, prefácios, encarte de discos etc. Do total, sete são inéditos, o que não quer dizer, necessariamente, que sejam os mais atuais – um deles é mesmo dos mais antigos e parece ter encontrado espaço para publicação tardia pelo seu veio memorialístico (em uma de suas vertentes): a de “evocar amigos mortos”. O aspecto ostensivo do livro é, portanto, o de uma miscelânea, a que se refere diretamente o título escolhido. Por esse fato, o próprio autor sentiu a necessidade de fornecer uma “explicação” que poderia ser sintetizada do seguinte modo: os escritos reunidos, em geral “curtos” e de “caráter circunstancial”, compõem um “livro solto”, diverso nesse sentido dos anteriores, diversidade esta reforçada ainda pela “tonalidade pessoal” de vários deles. A ausência de um “cunho analítico mais sistemático” ou, para retomar os termos de outro livro, “de maior empenho teórico” pode levar imediatamente à conclusão de que estamos diante de uma obra menor de Antonio Candido. Ainda na “explicação” encontra-se uma espécie de advertência em que o autor parece se antecipar a essa possibilidade de recepção: “muitas vezes um crítico se realiza bem nos escritos de circunstância, tanto quanto nos mais elaborados”. Finalmente, uma palavra sobre a ordenação de material tão heterogêneo: alguns dos textos se “apresentam com os vizinhos imediatos”. Os dados da explicação têm interesse direto para o enfoque não apenas do livro em questão, mas também de aspectos de toda obra de Antonio Candido. Afinal, outros de seus livros, como Brigada ligeira, O observador literário, Teresina etc. (que parece ter inaugurado os escritos de “tonalidade pessoal” ou memorialísticos) não deixam de reunir textos “circunstanciais”; o mesmo poderia ser dito de Na sala de aula, caso estendamos o conceito de circunstância ao de funcionalidade (a do “livro didático”).

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Nesse caso, poderíamos dizer que boa parte da obra do crítico foi realizada em ensaios mais ou menos curtos, cujo alcance mais amplo cabe apreender. O contraste mais evidente com esses livros está na Formação da literatura brasileira, sua obra de maior fôlego. Mas mesmo aqui (e em outros livros afins, como Literatura e sociedade ou Tese e antítese) opera-se uma divisão em textos menores, pequenas “monografias”, que podem ser (e tantas vezes são) lidos separadamente, o que provavelmente não desagrade de todo ao autor, pois talvez tivesse sido esta uma de suas intenções: escrever também um “livro de consulta”. Consequentemente, podemos supor que os livros que reúnem textos menos tramados entre si apresentem igualmente uma discussão interessada em questões teóricas vitais, ainda que com aparência despretensiosa. O que se pretende afirmar é que, malgrado a sua diferença ostensiva, existem diversas intersecções entre os escritos de “circunstância” e os “mais elaborados” de Antonio Candido. Tais afinidades provêm de um ponto de vista – essencial no crítico – que consiste em recortar, quando o objetivo é fornecer um panorama geral, questões específicas relativas a problemas, obras e autores singulares (como na Formação) e, por outro, ampliar, quando o objetivo é investigar o específico, para questões mais gerais (o que seria o caso de Recortes). Tal ponto de vista poderia ser resumido num primeiro momento como sendo “do contra”, no sentido de pensar a contrapelo, tangido a todo instante pelo “sentimento da contradição”, e que deve ser entendido como um exercício sumamente escrupuloso de observar o objeto a ser conhecido em suas dimensões as mais variadas. Tal posição responde ainda a um propósito didático muito nítido e de difícil execução: aquele de apresentar um assunto na totalidade de seus elementos formadores. Antes de entrar em Recortes, que sejam mencionados pelo menos dois exemplos particulares daquela postura. O primeiro diz respeito ao interesse de Antonio Candido pela obra de Álvares de Azevedo, normalmente descuidada pela nossa crítica. O primeiro dos três textos sobre o poeta parece já revelar o que teria motivado a atenção do crítico: a posição aristocrática e transfiguradora do autor de “Idéias íntimas” tornava-o dissonante (e, portanto, interessante) em relação ao nacionalismo literário ainda hegemônico naquele instante de nosso romantismo, e diretamente responsável pelo acanhamento do impulso imaginativo de várias obras do período. A motivação é, como se vê, a tensão dialética, no caso, entre função social e gratuidade da obra literária. O segundo exemplo se refere a um parágrafo incrustado na Formação, no qual Antonio Candido esboça uma microhistória da lírica brasileira de Cláudio Manuel da Costa a Manuel Bandeira e Mário de Andrade; nela se configura uma espécie de evolução da nossa poesia pelo aprofundamento ou adensamento de características inerentes à linguagem poética em sua tendência a despregar-se da realidade imediata: trata-se de uma “depuração progressiva do lirismo”, “longa aventura da criação que virá terminar no balbucio quase impalpável de alguns modernos”. Entre esses dois polos – o da comunicação e o do hermetismo – cria-se uma tensão paralela à do exemplo anterior. Por outro

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lado, ao encarar as obras isoladamente, o crítico irá investigar a tensão entre aqueles mesmos extremos em cada caso particular. Em Manuel Bandeira, “uma espécie de transcendência” ao lado da “adesão fervorosa à realidade material do mundo”; em Cláudio Manuel, “o equilíbrio da naturalidade” entre o didatismo setecentista e a persistência de traços cultistas, e, sobretudo, os problemas da exterioridade de uma convenção literária ao ser enxertada na paisagem de sua terra natal. Algumas dessas questões são novamente atualizadas em Recortes, como pode ser observado, entre tantos outros, nos textos “A vida ao rés-do-chão”, em que um gênero despretensioso como a crônica pode proporcionar o impulso transfigurador, embora discreto, e naquele sobre “As transfusões de Rimbaud”, em cuja poesia difícil e desconcertante se repropõe o horizonte real de onde ela brotou. Um dos exemplos mais felizes deste método (que na verdade se recusa a tomar-se como tal) talvez esteja logo no primeiro escrito do livro, em cujo movimento podemos vislumbrar o que está dito acima. Antes de abordar o “Drummond prosador”, o crítico já se aparelha, sem fazer alarde disso, para o aspecto mais agudo do problema e tantas vezes discutido: as relações entre a poesia e a prosa drummondianas. Em geral, encara-se a questão de modo esquemático. Ao mesmo tempo em que se gosta de ambas a sua separação aparece como inevitável, já que elas corresponderiam a dois momentos bastante distintos: o da poesia, mais complexo, o da prosa, mais leve. A divisão é em tese correta, mas nela já se insinua o olhar cristalizado de considerar a primeira como indispensável e a segunda como descartável, o que é afinal uma maneira de não resolver o problema. Para mostrar a interação entre ambas, o autor inicia o texto já sensível à permeabilidade de esferas diferentes. Num primeiro momento, é realçada a “singularidade do traço”, ou a marca “inconfundível” de Drummond. Em seguida, a ampliação: tal especificidade pode ser mais bem compreendida se vinculada a uma época e a um lugar determinados, à Belo Horizonte dos anos 20. Ali, alguns escritores (além de Drummond, Pedro Nava, Emílio Moura, Abgar Renault, Ciro dos Anjos, Guilhermino César) podem ser aproximados por certo “ar de família”: a dos escritores de província, ao mesmo tempo receptivos à novidade e ainda presos ao gosto tradicional. Tal “disposição dupla” imprime ao trabalho desses escritores a mescla entre riqueza e liberdade (propriamente modernas) e correção e rigor, feitas com o “sumo dos clássicos”. Esta mescla seria a característica diferenciadora da “modernidade mineira”, de cujo “estilo comum Drummond decantou a sua variante”. Ora, tal intersecção entre “universo rico em imaginário” e “penetração analítica”, entre lirismo e objetividade, portanto, teria predisposto “naturalmente” Drummond à prosa, à “ficção pura”. Isto é, os “movimentos mais livres”, em geral encontrados na poesia, estavam porosos ao “corte clássico” e reflexivo, mais adequado à prosa, sendo esta porosidade de “matriz possivelmente mineira”. Em seguida, observam-se os vários graus possíveis desta aproximação entre os gêneros: desde os antípodas – lírica e crônica – àquele que pode efetuar a passagem entre eles – a prosa de ficção, sem contar os elementos narrativos no interior dos poemas ou, inversamente, elementos líricos no interior da prosa, mistura que se

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mostra mais palpável nos textos drummondianos de memória. Resumindo até aqui: a especificidade do indivíduo é relacionada a características geracionais e, paralelamente, a divisão estanque dos gêneros ao seu diálogo. A atividade crítica se constitui, portanto, como a explicitação de vasos comunicantes entre realidades cujos nexos parecem à primeira vista externos. O mais importante é que, ao fazê-lo, Antonio Candido não se esquiva da hierarquia ou do juízo de valor, da escolha enfim, caindo na armadilha da falsa complexidade que nada mais faz senão relativizar tudo o que vê. Os polos estão bem definidos em sua singularidade, as suas diferenças prevalecem, mas o enfoque vai para o confronto problemático entre tais extremos, de que resulta a integridade da obra e do projeto do escritor. A plataforma concreta de que parte o crítico aparece no movimento seguinte do ensaio: há uma análise rápida, embora muito pormenorizada, de um trecho da prosa de ficção de Drummond. Por tal análise, percebemos que elementos figurados típicos da poesia convivem com a referencialidade própria da prosa, e que tal mescla é o centro da composição. Em outras palavras, toda a rede de relações do texto crítico tem seu ponto de partida na leitura direta das obras (parafraseando o crítico na análise supracitada, podemos dizer que esta foi, cronologicamente, a primeira operação, embora apareça já perto do final do ensaio). Uma segunda ampliação, associando Drummond a Montaigne, pela faculdade de ambos em associar “o detalhe insignificante à reflexão cheia de consequências”, prepara o fechamento do ensaio (na verdade uma conclusão aberta), onde nos é devolvido, modestamente, o problema proposto no início – como avaliar a prosa de um poeta excepcional? – mas já agora após um percurso totalizante dos seus desdobramentos mais essenciais. Esse ponto de vista de reduções e ampliações implica, em partes iguais, o movimento da interiorização no texto e a sua abertura para elementos “externos”, suscitada pela própria materialidade da obra observada. Nos dois casos, estabelecer relações: entre os elementos internos à obra e entre esta e aspectos externos de vária ordem – sociais, biográficos, geracionais, referentes à tradição literária etc. Não estaria errado afirmar, consequentemente, que a atividade crítica em Antonio Candido seja uma junção equilibrada entre, na falta de termo melhor, sagacidade para ler e repertório para compreender e avaliar melhor o que se está lendo; entre talento e erudição. Compreende-se então por que o próprio crítico não insiste em palavras de ordem metodológicas, pois tudo parece simples e óbvio. Esse olhar bifronte (Murilo Mendes diria: armado de microscópios e telescópios) vai discernindo e contrapondo diferentes camadas de sentido dos objetos sobre os quais repousa, de maneira que todas as realidades nos parecem contraditórias e divididas. Há uma ênfase na configuração tensa e antinômica das obras e de seus autores, da vida pública e pessoal, que funciona como o baixo contínuo capaz de proporcionar – se isso for importante – certa similitude entre os escritos do livro. São os “dois Oswalds”, o irreverente e o moralista, a sua garçonnière, “aberta e fechada” para o mundo, a própria pronúncia equívoca de seu nome; a mascarada

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na estação de cura de Poços de Caldas, onde a atmosfera de festa e a suspensão da rotina escondem as doenças que reuniram os convivas; a “estética anestésica” de Érico Veríssimo; os conflitos de Rosenfeld entre o ser útil e o manter-se livre; os atos involuntários em Xavier de Maistre e Machado de Assis; as “assimetrias” entre o Brasil e a América hispânica etc. É inegável que são conflitos de ordem muito variada e de profundidade desigual, mas eles dão o tom dos diferentes pedaços do livro. Tal visão torna premente a necessidade de síntese, sem a qual tudo não passaria da reprodução incessante de dualidades, insolúveis em si mesmas. Nesse sentido, são esclarecedores alguns textos do livro, como aqueles sobre Roger Bastide e Ángel Rama, com os quais Antonio Candido demonstra visível simpatia precisamente pelo seu movimento de articulação de categorias dissonantes: a “flexibilidade e abertura” do primeiro ao procurar mostrar “a tradução estética dos fatores externos” e, no segundo, o reconhecimento de “modos” diferentes na literatura latino-americana, articuláveis em uma dialética própria à nossa condição; também em Otto Maria Carpeaux, cujo “método integrativo” pressupõe um “movimento incessante entre os opostos”. Outro aspecto que parece efetuar movimento de unificação seria o de tomarse como referência. Expressões como “no meu tempo de moço”, “eu o vi”, “eu o ouvi dizer”, “entre os quais eu”, “tanto quanto lembro”, “foi o meu caso” ou, mais atenuadamente, “os da minha geração” também perpassam muitos dos escritos, culminando naqueles diretamente autobiográficos. Isso nos conduz a outra vertente do livro, a que o próprio Antonio Candido denominou de escritos de “tonalidade pessoal”. A expressão é importante, pois revela como o autor acha que eles devem ser lidos: o caráter intimista é admitido, mas também relativizado, sugerindo que mais uma vez estamos diante de algo dividido. De fato, ao tomar-se como centro, ou testemunha direta, o olhar está sempre a perscrutar determinações mais gerais, como querendo indicar que a verdade íntima guarda relações profundas com o que se acha fora dela. Creio ser possível distinguir, basicamente, dois tipos desses escritos: o primeiro, que fala de algo “externo” (pessoas, acontecimentos), mediado pela experiência direta; o segundo, que fala de si abertamente, associando a própria experiência a conteúdos genéricos. Como exemplo do primeiro tipo, consideremos o discurso efetuado na Unicamp por ocasião da abertura de novas dependências na biblioteca daquela instituição (“O recado dos livros”). O espaço é público por excelência e, para valorizar precisamente um serviço dessa natureza, Antonio Candido defende a ideia segundo a qual é possível acompanhar a história da mentalidade de um período, e as suas transformações sucessivas, pelo estudo de bibliotecas particulares, desde que se conheçam os momentos progressivos de sua constituição. Para tanto, ele vai tomar como exemplo um acervo que conhece em detalhes e que ele próprio havia doado para a Unicamp juntamente com os irmãos: a biblioteca de seu pai. A mistura entre o público e o privado não podia ser maior, mas a ocasião tende ao primeiro e chega a ser comovente a descrição das sete camadas sucessivas da biblioteca do pai ser associada às mutações de gosto da época e a outras questões impessoais.

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É, por um lado, parte da história de uma vida, afetivamente central para o crítico, mas é também modo de ver a história de um período, sobre o qual recai a ênfase. Exemplo admirável do segundo tipo é o texto sobre a experiência berlinense do autor, então com onze anos (“Verão berlinense”). É o encontro infantil com um desenho vistoso e uma inscrição mal compreendida, sobre os quais ele posteriormente “pensaria muito a respeito”: a suástica acompanhada de uma ameaça aos judeus. A tensão está aqui no interesse ingênuo despertado pelo símbolo, esclarecido retrospectivamente pelos horrores que ele traria consigo. Na verdade, três tempos se distinguem nesse progressivo esclarecimento: o da infância, momento propriamente dito daquele encontro, o da adolescência, quando ele fica informado do seu significado, e o último, o da narração, que tem atrás de si todo o resultado da barbárie nazista. Naquela experiência infantil, o narrador estava acompanhado de um rapaz de Ribeirão Preto, de nome Miguel, portador de um mal singularíssimo e que motivara sua ida a Berlim para tratamento: uma semente de melancia instalara-se em seu pulmão corroendo tudo ao redor, levando-o finalmente à morte após operações sucessivas. Em uma troça bairrista entre o rapaz paulista e o narrador mais os irmãos, todos mineiros, algo dramático e mais amplo toma a cena: o primeiro caçoava – “Queijo de Minas tá bichado, seu Mé”, os três respondiam “com entusiasmo selvagem” – “Café de São Paulo tá carunchado, seu Mé”. A resposta parece ter calado fundo no rapaz doente, que interrompeu a brincadeira, melancólico. A explicação, também retrospectiva, do narrador para a retração tão repentina de Miguel é exemplar: talvez ele já soubesse algo sobre a situação precária do café na vida econômica da época, a qual, associada à sua condição de quase inválido, tornava mais do que sombrio seu futuro de filho de fazendeiro, sem contar, ainda, a provável culpa de ser um dependente dispendioso em tempos difíceis. Outro pormenor semelhante no texto: a morte de Gustav Stresemann, então ministro das Relações Exteriores da República de Weimar, e cujos desdobramentos seriam enormes, ocorreu por uma doença fatal, curiosamente a mesma do gerente do hotel em Paris para onde retornou a família depois da estada berlinense. Nos dois casos, é como se a doença em si, de modo inexplicável, com o seu recado de morte e tragédia, viesse se alastrando a uma dimensão coletiva, semelhante aos incêndios provocados em sequência com o intuito de impingir a culpa aos judeus, o que o menino e seus pais ainda não podiam compreender àquela altura. Quem sabe, também, se as presenças próximas e insuspeitadas de Sérgio Buarque de Holanda e Erwin Piscator (havia ainda um escritor entre os hóspedes da mesma pensão) não tenham sido tomadas, aos olhos já maduros do narrador, como outro sinal antecipador? No caso, de seus próprios interesses futuros, emblematicamente associados, já nessa experiência infantil, ao confronto com os problemas sociais. Tais intromissões, do sério no ingênuo e do geral no particular, transformam o inocente e o gratuito em pontos de ressonância de acontecimentos muito amplos que mudariam a vida de todos, coisas tremendas que se preparavam e que vinham encerrar a infância em todos os sentidos.

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“Ficamos homens numa ditadura e envelhecemos noutra”. Tal constatação, que é também desabafo, nos reporta a outra série de textos do livro, aqueles que procuram evocar amigos mortos do autor: professores e intelectuais, com destaque para a sua intervenção na vida pública. Por esses retratos de terceiros, como sempre, é possível traçar o perfil do próprio retratista. Trata-se aqui da vivência propriamente política de Antonio Candido, acirrada em momentos de suspensão intensa da liberdade, como naqueles dois marcos não apenas de sua vida pessoal e dos de sua geração, mas de nossa história recente. História de lutas que só compensa atualizar pelo que elas comportam de fator coletivo de resistência, ainda que venham focalizadas pela intervenção de pessoas singulares com as quais ele conviveu intimamente. Por alguns desses textos, como aqueles sobre Febus Gikovate e Aziz Simão, podemos acompanhar as vicissitudes de certa esquerda brasileira, antistalinista não apenas formalmente, mas incorporando na prática militante a “liberdade de pensamento e o respeito às opiniões divergentes”, além de uma reflexão, de base marxista, mais atenta a problemas específicos de nosso país. O percurso resumido é o seguinte: a União Democrática Socialista (UDS), fundada em 1945, “primeiro grupo em São Paulo anti-stalinista sem ser trotskista”, base mais consequente do futuro Partido Socialista Brasileiro (1947), que sobreviveu algum tempo após 1964. O que veio depois já se sabe: a adesão de primeira hora de Antonio Candido ao Partido dos Trabalhadores. Na mesma linha, há três textos sobre Cuba: escritos em tempos e tons diferentes, eles revelam a persistência da convicção socialista que também ultrapassa os quadros de sua geração e permanece como futuro aberto. Mas o alcance de tais evocações fica muito parcial, caso não se mencione o lado afetivo que as cerca: elas tratam da “retidão”, do sentido de solidariedade, das conversas animadas, das idiossincrasias, que ressaltam em meio aos problemas gerais. A mediação é sempre a literatura que, neste caso, pela sua possibilidade de integrar o privado e o público, penetra discretamente nos próprios textos do livro. Por meio da exploração de determinado eixo, recorrente em toda a obra do autor – o da visão multiplicada e articuladora – procurou-se resenhar alguns aspectos do livro Recortes. O que ficou de fora não é menos importante: o incrível barão Von Andrian zu Werburg, com seu enorme bigode e sua penosa artrite, aristocrata de um império extinto e escritor fin-de-siècle, vendo sua vida declinar nas estranhas paragens de Poços de Caldas; a “mentalidade renovada” da época da rua Maria Antônia; o realismo complexo de Proust... Ao que parece, esses “vários escritos” acabaram encontrando uma coerência profunda, visível para o autor apenas a posteriori, já que não pôde haver nenhuma trama intencional para unificá-los. Como se diz nesses casos, ela apenas se impôs. Tal coerência nos faz voltar ao título e supor que “recortes” seja um nome também bifronte, insinuando, para além do sentido de dispersão, a leitura das partes para compor um todo, que pode nos devolver, nesse novo livro, a integridade humana e intelectual de Antonio Candido.

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Retrato do CrítiCo Jovem

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Universidade de São Paulo

Retrato do crítico jovem. Resenha Textos de intervenção. Antonio Candido. Vinicius Dantas (Org.) Bibliografia de Antonio Candido. Vinicius Dantas. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 272 p. (vol. 1), 392 p. (vol. 2). A portrait of the young critic. Review of Textos de intervenção. Antonio Candido. Vinicius Dantas (Org.) Bibliography of Antonio Candido. Vinicius Dantas. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 272 p. (vol. 1), 392 p. (vol. 2).

*Com alguns retoques, resenha publicada no Jornal de Resenhas, Folha de S. Paulo, Discurso Editorial, n. 89, 14 de setembro de 2002.

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ugiro que se leiam os textos desta coletânea em sequência cronológica, buscando um apanhado das atividades de Antonio Candido em cada conjuntura de vida e trabalho. O intuito é deslindar com nitidez os contornos de sua munição crítica ao longo dos anos 40 e 50, momento decisivo de formação do crítico literário, para cujo entendimento os trabalhos agora coligidos trazem subsídios provocativos. Esse recorte se justifica ainda pelo fato de quase 60% dos textos se enquadrarem nessa etapa probatória. Antonio Candido tinha 24 anos ao iniciar o rodapé literário na paulistana Folha da Manhã em janeiro de 1943. Havia concluído o curso de Ciências Sociais no ano anterior, pela Universidade de São Paulo, quando se tornou primeiro assistente na cadeira de Sociologia 2, a convite do titular Fernando de Azevedo. Naquele ano de 1942, a morte do pai, médico, apressou o jovem bacharel a tomar uma decisão que o tirou em definitivo do que parecia até então indeterminado: abandona o quinto e último ano da Faculdade de Direito. Nesse passo, ele fizera o primeiro descarte importante, desistira da carreira liberal tradicional em favor das incertezas de uma aventura intelectual. Já em 1945, apesar de não ter ganhado o concurso para a cadeira de literatura brasileira, a aprovação lhe garantiu o título de livre-docente com a tese Introdução ao método crítico de Sílvio Romero, publicada no mesmo ano; somente em 1954 defenderia o doutorado em Sociologia com a tese Os parceiros do rio Bonito, que demorou dez anos para sair em livro. A partir de 1958, a opção definitiva pela literatura levou-o a aceitar o posto de professor de literatura brasileira na Faculdade de Assis, no interior do Estado. Esse vaivém de compromissos demarca os problemas de fundo com que teve de lidar nessa fase definidora de seu trabalho intelectual, dividido entre a sociologia e a literatura, sentindo-se preso às obrigações da posição docente sem querer prejudicar a visibilidade no campo literário. Ressalto as atribulações desses

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anos de formação, como que pulsando em surdina na trama textual, porque estão entranhadas nos artigos ora divulgados. Essa dupla lealdade intelectual e disciplinar aflora amiúde no teor substantivo de sua produção como crítico literário na imprensa. Até o feitio assumidamente sociológico de sua atitude, ou então as invectivas de indignação política contra as elites nativas, são traços reveladores dos dilemas com os quais devia estar se havendo.

Mutações do ideário crítico
Ao convidar o leitor a essa volta no tempo, queria focalizar a unicidade de pontos de vista, reconhecível desde o início, para que apreendêssemos as mutações de fundo assumidas por Candido, quer em relação à interpretação da obra literária, tão evidente, por exemplo, nos registros cambiantes por que vão passando as noções de contexto e mimese, quer no tocante à adoção, na prática como crítico militante, de critérios extraliterários de todo cabíveis. Para tanto, a marca temporal garante um engate firme tanto dos ligamentos quanto das descontinuidades entre postura conceitual e fatura analítica. Assim, poder-se-ia entender os textos teóricos à luz das análises de poesia do mesmo período, incluídas no bloco seguinte, o que convenceria o leitor de uma ligação orgânica entre doutrina e exegese. Contudo, o caminho certeiro seria testar tal coerência por meio das resenhas de obras de ficção, ausentes aqui, reunidas pelo autor em Brigada ligeira, o livro de estreia em 1945. Ainda que as notações sobre poesia possam sinalizar maior aderência aos fundamentos de sua postura crítica, as apreciações entusiastas dos romancistas brasileiros da época – Clarice Lispector, Ciro dos Anjos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo, em especial os dois últimos – mobilizam parâmetros não enunciados no paradigma norteador. Nesses casos, o crítico se mostra receptivo às circunstâncias mutantes do mercado editorial, em pleno estouro da literatura de ficção, às exigências de uma camada emergente de leitores, antenado às condições prevalecentes naquela etapa expansiva do sistema literário. Até mesmo a preferência de Candido em recolher as resenhas sobre ficção brasileira contemporânea, inclusive de autores que eram os carros-chefe em termos de vendas, demonstra a sensibilidade aguçada do jovem crítico para as tendências dominantes do período. Tais incursões eram temperadas por uma persistente conduta política de esquerda, em aceno explícito de conversa com o ideário desses escritores. Em meio ao balanço do primeiro ano de crítica, Candido busca esclarecer sua concepção da obra literária, a ênfase no condicionamento em desfavor da “essência”, para retomar o linguajar da época: “Descobrir aquilo que condiciona é explicar a razão e a natureza do fenômeno da duração artística”. Portanto, ao reiterar que o condicionante social e histórico, longe de ser a moldura da literatura, constitui “a própria substância da sua realidade artística”, ele estaria tomando posição diante de um estado da vida cultural no qual a literatura desempenhava papel de protagonista. Mesmo que nada disso se aplique ao presente, persistem os riscos

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de anacronismo quando se tenta ajuizar certos fundamentos, desatando-os do viveiro circundante, daí a vantagem do lembrete genético. Ao estrear como crítico regular no Diário de S. Paulo, em setembro de 1945, Candido virou de ponta-cabeça sua acepção de contexto e, por conseguinte, o modo de enxergar a majestade da obra literária, isto é, “a magnífica especificidade graças à qual toda obra de valor é literária antes de ser sociológica ou política ou interessada ou desinteressada”. Oito anos depois, já docente de literatura, ele se mostra mais inclinado a burilar os parâmetros da apreciação literária, num esforço de amoldá-los à variedade da experiência humana. Decerto adotou tal viés no sentido de reagir à extremada politização do debate literário naquele momento.

O contexto e a obra
As duas versões da análise em torno do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, textos fortes desta coletânea, propiciam um equacionamento inspirado das mediações entre o contexto e a obra, ensaio geral do que serão os estudos esplêndidos de Candido no futuro. Já se pode detectar aí o rendimento de algumas ideias-chave do paradigma interpretativo da maturidade. Em lugar dos riscos reducionistas de privilegiar um dos termos – contexto e obra –, Candido nomeia alguns processos pelos quais o elemento social se transfigura em “fator de condição da estrutura”, fazendo incidir o nervo da análise sobre a forma “como verdadeira manifestação do social na obra”. O artigo “Euclides da Cunha, sociólogo” (1947) oferece indicações palpáveis dessa tensão criativa de Candido, a essa altura ainda hesitante entre fazer sociologia ou crítica literária. O texto inteiro se arma como se o ensaísta quisesse pôr à prova o grau de acerto sociológico de Os sertões, ora tentando averiguar a presença de conceitos e influências no esquema explicativo de Euclides, ora cobrando o fato de ele não atender aos padrões então vigentes de rigor científico por estar ancorado em vertentes teóricas superadas. Não obstante, e a despeito das bobeadas de Euclides como sociólogo, Candido procura resgatar a interpretação euclidiana pela criatividade excepcional e pelos lampejos visionários. Aliás, não deve ter sido fácil a reconversão do manancial sociológico recémabsorvido em estofo de uma crítica literária inovadora. Sem falar na ginástica para se livrar da terminologia cientificista ou filosofante, adquirida na década e meia de convívio com os mestres estrangeiros. Conforme sugerem as alterações de percurso no plano disciplinar e as mutações no arcabouço do trabalho crítico, tenho a impressão de que, pelo menos até meados dos anos 50, quando sucede a defesa do doutorado em Sociologia (1954), Candido continuou indeciso sobre que rumo tomar. A leitura de Os parceiros do rio Bonito comprova o investimento considerável despendido pelo autor na feitura do trabalho: período espichado de um trabalho de campo no capricho; montagem de um argumento bem urdido, original e um bocado dissonante do culturalismo raso dos estudos de comunidade em voga, fazendo confluir águas de muitas nascentes; narrativa primorosa, em cujo ritmo

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maneiro se mesclam à perfeição componentes descritivos e inflexões interpretativas. Talvez o jovem Candido não tivesse mudado de rota se a recepção ao trabalho tivesse sido um pouco menos reticente por parte dos colegas e contemporâneos. Pelo que consta, ele próprio teria ficado inseguro quanto aos avanços obtidos. Além de postergar a publicação da tese até 1964, Candido modificou os termos com que havia justificado o objeto e os resultados da monografia, talvez no intuito de torná-la mais compatível com o itinerário de crítico literário. O segundo momento da virada disciplinar e intelectual toma vulto no projeto do que viria a ser a obra Formação da literatura brasileira. Candido vislumbrou nessa encomenda do editor Martins a oportunidade rara que lhe permitiria aplicar a bagagem de um enfoque sociopolítico a materiais literários, derivando desse embate uma leitura vigorosa do arcadismo e do romantismo, de sua contribuição, na linguagem, no repertório de ideias, na expressividade, para a construção da nacionalidade. Era o adeus em grande estilo à Sociologia, agora de certo modo deglutida em outra paragem, e o marco inaugural de um estilo inédito de exercer o ofício de crítico e historiador da literatura. Ainda que não quisesse continuar sociólogo, o Candido, homem feito, deve ter se dado conta de que não seria possível assumir a nova identidade intelectual e profissional sem romper com a pasmaceira da chamada crítica imanente.

Reminiscências
Outra série marcante na coletânea abrange os relatos memorialísticos, mistura saborosa de autobiografia encabulada, depoimento e documento de época, os quais me lembraram de imediato o tom afetuoso e cortante de Teresina, etc, um “capolavoro” do autor. O retrato cubista de Fernando de Azevedo, a começar pela troça hierárquica do título, Doutor Fernando (1994), faz justiça à grandeza de sua atuação como liderança educacional, em contraste com a acanhada estatura intelectual, dando a ver como se ia constituindo na prática a experiência acadêmica, os entreveros entre catedráticos e assistentes, as reações corajosas à intromissão política na universidade, num relato que vai se compondo por adendos à maneira de um mexe-mexe. Duas heroínas (1984) homenageia ex-escravas que conheceu quando menino na cidade mineira de Cássia: figuras voluntariosas, que expressam as energias represadas de um povo sofrido e castigado, capazes de peitar as piores vicissitudes para levarem a cabo seus projetos – a construção de uma igreja e o revide por uma desfeita, na contramão dos interesses dominantes. Dito assim, de enfiada, perde-se muito da verve dos causos, do cantabile jeitoso com que encadeia incidentes triviais, história, emoções embargadas, cumplicidade, lenda e tirada moral. Adoniran Barbosa (1975), codinome de João Rubinato, é uma evocação de São Paulo entre as guerras, da metrópole erguida pelos imigrantes, na qual o ensaísta pontua os ingredientes populares que nutrem a língua ítalo-brasileira dessa paulistana “antivoz rouca”.

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Vinicius Dantas, o organizador de ambos os volumes, merece nota dez pelos acertos do projeto e pela excelência do trabalho crítico empreendido. Os critérios de seleção e organização dos textos revelam domínio do assunto; as apresentações se destacam pela medida certa de opinião e discernimento político; o aparato crítico pode ser ilustrado por notas de rodapé primorosas, juntando evidências pertinentes, a ponta do iceberg de uma cuidadosa pesquisa de fontes. Mas seu melhor contributo é fazer ler e matutar a respeito da obra e da trajetória intelectual do mestre de todos nós, em especial daqueles do contra, que nele têm buscado inspiração para identificar causas pelas quais valha a pena ser a favor.

Depoimentos

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ParCeria CrítiCa: Presença da literatura brasileira
José aderaldo Castello

esta entrevista,1 José Aderaldo Castello – o “professor completo”, segundo Antonio Candido – lembra os “momentos decisivos” da formação dessa amizade e dessa parceria que muito contribuíram, em tempos amenos ou adversos, para a dignidade universitária e para o patamar de excelência que os estudos de nossa literatura consolidaram nas últimas décadas. Mais não pôde ser dito porque as palavras por vezes cederam lugar a pausas silenciosas, na emoção das recordações da longa caminhada compartilhada com o amigo. “Eu tive a grande sorte do convívio e da colaboração do Antonio Candido na minha carreira, é o que posso dizer [...]”, sintetizou Castello. * A Presença da literatura brasileira é um dos frutos mais conhecidos da amizade e da parceria intelectual que ligam por décadas o Sr. ao Professor Antonio Candido. Como nasceu o projeto da Presença? Tivemos, Antonio Candido e eu, um convívio muito próximo um do outro desde os tempos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Ele na ca1 Concedida em 7 de janeiro de 2009 a Leila V. B. Gouvêa, pós-doutoranda em Literatura Brasileira junto ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). [Candido e Castello: momentos decisivos de uma parceria exemplar] Uma das mais profícuas parcerias intelectuais na Universidade de São Paulo tem sido decerto aquela tramada, no último meio século, por dois de seus hoje professores eméritos da área de Letras, Antonio Candido de Mello e Souza e José Aderaldo Castello. Dentre os frutos brotados dessa amizade impulsionada pela convergência de ideias e de ideais incluem-se nada menos do que a célebre Presença da literatura brasileira, obra a quatro mãos que

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deira de Teoria Literária e eu na cadeira de Literatura Brasileira. A Presença é uma consequência desse convívio. A editora Difusão Europeia do Livro, a Difel, publicava então a Presença da literatura portuguesa e resolveu fazer obra similar voltada para a nossa literatura. A ideia, creio que com inspiração em modelos franceses, partiu do Vitor Ramos, que era uma espécie de assessor do editor [Paul Jean] Monteil, na Difel. Mais do que uma antologia, pensava-se em uma história da literatura através dos textos, ou exemplificada pelos textos. Tanto que as primeiras edições traziam o subtítulo “História crítica e antologia”. Havia os três enfoques: o histórico, o crítico e a seleção dos textos que exemplificavam tanto a parte teórico-crítica quanto a parte teórico-histórica propriamente dita. Dentro desse plano original, proposto pela própria editora, o Antonio Candido foi convidado a fazer a Presença da literatura brasileira, e me convidou a realizar o trabalho em coautoria com ele. Trabalhamos juntos por dois ou três anos, de maneira intensa, com reuniões frequentes, em geral semanais, na Rua Maria Antônia, no prédio menor, onde ficavam nossos gabinetes. Esses encontros por vezes duravam mais de cinco horas. Começamos pelo planejamento geral, com a definição dos critérios que deveríamos adotar fundamentalmente em termos de seleção geral de autores, de obras e de textos. Os Srs. mesmos os selecionaram, não? Todos os autores e textos foram selecionados por nós. No caso dos autores vivos, pedíamos a autorização para publicação. Distribuímos os autores por partes: as introduções gerais, as apresentações dos autores e das respectivas obras. Uma distribuição mais ou menos equitativa materialmente. Partimos do seguinte princípio: primeiro a seleção dos autores, a partir do critério de escolha daqueles que fossem mais significativos, no sentido mais amplo e complexo possível, e ao mesmo tempo mais consagrados. Respeitamos muito a questão da consagração da tradição, mas, evidentemente, confirmávamos pela nossa crítica e interpretação dos textos a importância real do autor, seu valor histórico e, acima de tudo, seu valor literário, que representasse uma permanência através do tempo. Assim, houve primeiro a escolha dos autores. A partir daí selecionamos as obras. O plano geral consistia no seguinte: a elaboração de introduções, ou de apresentações, que dessem um panorama geral da época e do momento em que viveu cada autor, para o situarmos; em segundo lugar, uma apresentação do autor, do conjunto de sua obra, que fosse objetiva e o mais sintética possível. Nosso intuito era dar uma ideia da importância do autor, dentro daquele contexto histórico e com uma proformou gerações de estudantes e professores; a estreita colaboração em prol do desenvolvimento do IEB, fundado em 1962 por Sérgio Buarque de Holanda, e metamorfoseado ao longo dos anos em polo de pesquisa dos mais conceituados no Brasil e no mundo; afora a sábia divisão de trabalho estabelecida por ambos quando, um na cadeira de Teoria Literária e Literatura Comparada (Antonio Candido), outro na de Literatura Brasileira (Castello), definiram as linhas de pesquisa da emergente pós-graduação, sob enfoque interdisciplinar.

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jeção através do tempo. Vinha depois a apresentação da obra, dando uma ideia do seu valor, seu significado e sua importância, equacionada com a apresentação geral do autor e com a apresentação da época, sempre procurando um entrosamento dessas partes. E havia então a seleção dos textos e uma interpretação objetiva e sintética, uma espécie de conceituação do valor, da importância literária da obra. No caso dos prosadores, em geral escolheu-se uma única obra. Sim. Em geral optamos por transcrever excertos de um único romance selecionado em meio a uma determinada obra, pois não seria possível uma generalização. Já no caso da poesia, procuramos dar uma visão mais global do conjunto da obra poética de cada autor. Convém enfatizar que não trabalhamos de maneira estanque, cada um com sua seleção. Não, eu devia ler a seleção do Antonio Candido e o Antonio Candido devia ler a minha seleção, assim como os textos de apresentação. De forma que, lendo os textos e escolhas dele, eu tinha toda liberdade de acrescentar, de modificar ou de alterar ou propor, e vice-versa. Só que eu corrigia muito menos do que ele... [risos]. Conversávamos, trocávamos ideias, não havia suscetibilidades. O resultado é que saiu daí uma obra com unidade perfeitamente equilibrada, segundo disseram. Por exemplo, observou-se que não seria possível identificar qual de nós tinha escrito (ou selecionado) sobre determinado autor, constatando-se na Presença uma uniformidade perfeita, uma obra que não se destoa do ponto de vista do estilo, da linguagem, em que há uma harmonia completa. Talvez porque foi um trabalho feito com muito amor simultâneo e com muito respeito intelectual, tivemos a consciência livre e aberta para receber todas as sugestões, de um lado e do outro. Esse entendimento naturalmente contemplou desde o acordo até as origens de nossa literatura... Adotamos um critério de grande respeito às posições mútuas em termos de problemas de origem, do começo, do fim etc. Por exemplo, partimos do princípio mais geral de reconhecer o que chamaríamos de raízes dos fundamentos – do período colonial, evidentemente. E aí estava o princípio da seleção, que seria a partir do período colonial. Seleção, enfim, daquilo que era por vezes uma criação literária externa, de Portugal, da metrópole, mas voltada para o Brasil. O fundamental é que já houvesse um enfoque brasileiro de um problema que era visto pelo colonizador. Havia então um processo de identificação ou um processo de geração de identidades, o que era fundamental para haver ponto de vista histórico através do tempo. Concluímos, nós dois, que não importava se um autor era considerado português ou não. Mas, se ele escreveu sobre o Brasil, era preciso ver até que ponto isto que escreveu se projetou através do tempo e contribuiu com um subsídio fundamental para um enriquecimento literário nosso através do tempo. Esse foi mais ou menos nosso critério e nossa visão do período colonial. Não pensávamos, evidentemente,

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que existisse uma literatura brasileira no período colonial, mas que existiam então as raízes e os fundamentos dessa literatura brasileira, os quais iriam se consolidar em fins do século XVIII e meados do século XIX, com o Romantismo. Dentro desse critério, íamos selecionando os textos que fossem representativos, não apenas do autor selecionado, mas em termos da contribuição do autor para esse processo, ou nesse processo. Foi alguma coisa muito pensada e muito refletida, daí a unidade que, independentemente de outro julgamento, existe na obra. Unidade também do ponto de vista teórico, não é mesmo? Sim, em nenhum momento nos preocupamos em impor a visão teórica de a, de b ou de c, de ninguém. Trabalhamos com uma visão isenta de qualquer compromisso ideológico, de qualquer compromisso com teorias literárias, embora naturalmente houvesse um reflexo delas, pois afinal era um trabalho de reflexão a partir da formação de cada um dos coautores, mas não havia ostensivamente um compromisso nesse sentido. Procurávamos a imparcialidade do julgamento tanto quanto possível. Nos próprios autores selecionados, nós procurávamos atuar dentro de uma isenção total de preferências pessoais. Eu me lembro que só uma vez nós nos deparamos com um problema na seleção de autores. Estava até presente o Paulo Emílio Salles Gomes que, excepcionalmente, assistiu a uma de nossas reuniões, exatamente aquela. E, quando chegamos a esse ponto, o Paulo Emílio dava risadas. Não foi propriamente uma divergência, mas uma questão de preferências um pouco afetivas – da parte do Antonio Candido em relação a um autor mineiro, e da minha parte em relação a um autor cearense. Não concordávamos sobre qual deles deveria ser incluído, qual deles excluído. Mas logo acabamos conciliando e deixando os dois. E quais eram esses autores? Um era o Domingos Olímpio, autor de Luzia-Homem, que é um belo romance da seca no Ceará, com reflexo também em política do cangaço etc. E o outro, se não me engano, era o Alvarenga Peixoto. Bem, só pelo fato de ele ser do Arcadismo e de Minas Gerais... [risos] A Presença teve grande importância na formação de mais de uma geração de estudantes e de professores de literatura, por todo o país. Poderia falar sobre isso? Tenho impressão de que a obra, que alcançou mais de trinta edições, teve sucesso... E em certo sentido ainda sobrevive. O que eu sei, é que nós, os autores, e penso que em nome dos dois posso dizer isso, nunca adotamos o livro, nunca o indicamos como referência bibliográfica. Conforme a postura de elegância e ética que sempre marcou os dois mestres...

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O que eu sei é que o livro foi muito adotado nas faculdades de filosofia do Brasil inteiro. Até a 15ª ou 16ª edição apareceu em três volumes, passando depois, por sugestão da editora que absorveu a Difel, que foi a Bertrand do Brasil, a dois volumes, com mais cerca de quinze edições. Um livro sempre reeditado, sucessivamente. Foi uma contribuição do pensamento uspiano na área de Letras, à comunidade de estudiosos da literatura brasileira no país todo, não? O trabalho chegou a ser revisto, em alguma oportunidade? Não propriamente, salvo quando foi reunido em dois volumes. Mas tínhamos a intenção de atualizá-lo, avançando um pouco no tempo. Porque fomos até fins do Modernismo, quando cessava a euforia modernista, passando a haver uma diluição de tendências diversas. Aí então paramos. Não quisemos avançar mais no tempo pelo risco de se perder a perspectiva, a visão crítica retroativa. Há plano ainda dessa atualização? No momento, não. Seja qual for o seu valor, toda obra tem a sua história e os seus limites de sucesso, ou não, e sua permanência no tempo é muito relativa. Sabe-se que marcou e teve uma importância na época, pelo sucesso editorial, o que é muito difícil de encontrar no gênero, não é? Incluindo uma das primeiras antologias que abarcaram o Modernismo... Até então, tínhamos boas antologias, mas eram antologias muito secas, sem enquadramento da época, das tendências do momento, por vezes sem notícia biobibliográfica do autor. Em sua maioria, não tinham o caráter de uma história literária através dos textos. O que é preciso pensar é que fizemos uma história literária através dos textos – não apenas interpretação nossa, mas textos que confirmavam nossas interpretações. E com bibliografia selecionada e atualizada de cada autor, além da recomendada sobre cada um deles, até aquele momento. Sempre com a preocupação de oferecer ao leitor condições de situar melhor a obra, de a ela poder retornar e ressituar o texto, dando-lhe a interpretação que lhe conviesse. Porque nos preocupamos em deixar a abertura para uma interpretação livre e independente dos leitores. Poderia lembrar um pouco de sua convivência com Antonio Candido enquanto seu colega de docência na USP? Antes disso, lecionamos os dois na Universidade Mackenzie. Antonio Candido, o que poucos sabem, foi o primeiro professor de Literatura Brasileira da Universidade Mackenzie, logo que esta foi fundada. Mas ele ficou pouco tempo

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lá, só um semestre. O segundo fui eu, convidado a substituí-lo. Logo depois ele vai para Assis lecionar, retornando à USP já como convidado para ser professor de uma disciplina nova, recém-criada, Teoria Literária e Literatura Comparada, cadeira paralela à de Literatura Brasileira. Ele já estava então numa fase de separação da sociologia. Eu falo separação porque um colega nosso dizia, espirituosamente, que o Antonio Candido tinha se casado com a sociologia, mas que vivia de namoro com a literatura. Um dos inspiradores da criação dessa cadeira, entre outros, foi o Professor Mário Pereira de Souza Lima, o primeiro catedrático de Literatura Brasileira da USP. Quanto a mim, livre-docente e assistente de Souza Lima, fiquei como professor interino de Literatura Brasileira, aguardando concurso. Por fim assumi a cátedra. E foi nessa fase que começou o relacionamento mais estreito entre mim e Antonio Candido. Ele assumiu a nova disciplina, mas continuou com seu amor quase exclusivo, único e fidelíssimo à literatura brasileira. Daí o enfoque interdisciplinar na docência de ambos? Passou a haver um relacionamento muito íntimo entre as duas cadeiras. Com Antonio Candido, eu costumava brincar que a dele iria mudar de nome, passando a se chamar “literatura comparada brasileira”. Ou melhor, “teoria da literatura e da literatura comparada do Brasil com o estrangeiro”, mais ou menos isso. Houve sempre um entrosamento perfeito, entre nós e nossas cadeiras. Discutíamos os programas de um lado e de outro, para que não houvesse choques nem repetição. Se um autor era importante para uma cadeira, era importante para a outra. E havia um relacionamento harmonioso, perfeito. As duas cadeiras funcionaram assim passo a passo, paralelamente, sem conflito, sem atrito, sem competição, numa perfeita colaboração recíproca. Daí, sim, esse enfoque interdisciplinar, graças a esse clima de entrosamento. Não se pensava necessariamente nessa ideia de interdisciplinaridade; ela passava a existir automaticamente, à medida que havia uma harmonia de posições, de interpretações, ao mesmo tempo com independência, evitando choques, conflitos e polêmicas. Se Teoria Literária tomasse um autor, como Machado de Assis, para um determinado exemplo formal, na outra cadeira evitava-se que houvesse interpretação do mesmo autor sob enfoques diferentes, ou vice-versa. Caso contrário, poderia desorientar o aluno. Havia também um problema de escrúpulo. Durante o tempo em que Antonio Candido esteve na ativa – eu me aposentei um pouco depois dele –, houve sempre um entrosamento perfeito e harmonioso entre o grupo dele e o grupo de brasileira. Como tinha ocorrido em nosso trabalho relacionado à Presença, nunca houve divergências de interpretação, ou de outra ordem, quanto ao valor de determinado autor. Foi um trabalho muito bonito, muito intenso, de colaboração e entendimento entre as duas cadeiras. Não só se discutiam programas, mas também linhas de pesquisa. Na época em que começou a pós-graduação, mestrado e doutoramento, o Antonio Candido optou por uma linha de pesquisa relacionada às histórias literárias, e eu por uma linha de pesquisa relacionada às revistas literárias brasileiras. Nas-

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ceram assim uma programação e a elaboração de várias dissertações e teses nas duas áreas. Também para que não houvesse um choque de temas, de escolhas, ou enfoques repetitivos. Este foi um dos aspectos da colaboração recíproca entre as duas cadeiras. Ele, a partir do domínio da teoria geral literária, e no meu caso de uma ação mais prática, mais efetiva da criação literária etc. Na pós-graduação, distinguimos essas áreas para evitar que se ficasse reincidindo ou repetindo. Essa parceria coincidiu mais ou menos com a fundação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), em 1962. E ambos os Srs. também tiveram um papel da maior importância nesse instituto... Sim, é preciso destacar o papel muito importante do Antonio Candido no IEB. Ele sempre teve uma participação e um grande interesse pelo IEB, sempre acompanhou de perto todos os trabalhos e colaborou de maneira preciosa com o IEB. Sempre acreditou no instituto e espero que ainda acredite. Quando o IEB foi criado, o Professor Souza Lima já estava prestes a se aposentar. E como eu tinha sido nomeado professor interino e, um ano depois, houve o concurso de cátedra, eu passei a assumir a posição de representação da literatura brasileira no IEB. Isso desde a primeira administração, do Sérgio Buarque de Holanda, que durou dois anos, e a seguir a de Egon Schaden, também de dois anos, na qual passei a colaborar e a participar do processo de implantação efetiva do IEB. Assumi então a direção do instituto, em sucessão a Schaden, ali permanecendo por quatorze anos. Dados o valor e a importância do Sérgio, foi muito importante a sua fundação do IEB. Mas ele era desligado do ponto de vista da administração, que começou a ser impulsionada pelo Egon Schaden. A partir daí, o IEB começou a crescer dentro da universidade e a ganhar um significado muito grande, não só nacional, mas também em representação mundial, internacional. O Antonio Candido esteve muito ligado ao IEB por duas razões. Primeiro, por causa desse relacionamento com a própria literatura brasileira, sendo o instituto, desde os primeiros tempos, um dos grandes focos de pesquisa e de estudos de nossa literatura. E possuidor de um acervo extraordinário, riquíssimo, inigualável – à exceção evidentemente da Biblioteca Nacional –, e que deu uma abertura muito grande para os estudos literários na Universidade de São Paulo. Antonio Candido também esteve ligado ao IEB em decorrência do destino do acervo do Mário de Andrade. O Dr. Carlos de Moraes Andrade, irmão de Mário, tinha procurado Antonio Candido para dar um destino ao acervo do escritor, formado pela extraordinária coleção de artes plásticas, com mais de 400 peças, além de cultura popular, biblioteca, arquivo pessoal etc. E Antonio Candido propôs o IEB, e teve um papel fundamental nessa negociação. Graças a essa decisão, o IEB possui talvez o acervo mais rico do Brasil em termos de arte modernista brasileira. Existia uma coleção importante no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, mas que foi destruída por um incêndio. Lembre-se que, como compensação, a família de Mário recebeu uma importância hoje irrisória, equivalente quase ao valor de um

José aderaldo Castello

Parceria crítica: Presença da literatura brasileira 263

único quadro. Entramos em entendimento com a família e foi constituída uma comissão. Ela era formada por um grande alfarrabista de São Paulo na época, o Américo de Souza Pinto, por Walter Zanini, então no Museu de Arte, e eu mesmo, como diretor do IEB. Lembro-me de que um dia o chefe de gabinete do Arrobas Martins, então secretário de Planejamento do governo do Estado, veio propor que eu renunciasse à incorporação do acervo de Mário no IEB, pois havia plano de criação de uma Casa Mário de Andrade pelo governo paulista. Evidentemente eu me recusei, observando que quem poderia decidir sobre o destino do acervo era o Dr. Carlos de Moraes Andrade, e não eu. Afinal, já tínhamos entrado em entendimento. Ponderei ainda que a Universidade de São Paulo era uma instituição permanente através do tempo. E que, portanto, seria mais justo que o acervo viesse para cá, em lugar de ficar ao sabor de políticas e de direções que constantemente mudam. Disse então que não abria mão dos entendimentos com o Dr. Carlos – que, ao que sei, nem sequer recebeu o emissário do governo paulista. A incorporação do acervo de Mário, intermediada por Antonio Candido, foi um grande impulso ao IEB... Sem dúvida. Ele veio se somar a um já rico patrimônio: a biblioteca de Yan de Almeida Prado e, entre outras, as coleções Lamego e de Jorge Tibiriçá. Por fim, ainda quanto a Antonio Candido, eu tive a grande sorte do nosso convívio e de sua colaboração na minha carreira. É o que posso dizer.

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Antonio Candido na UniCamp

Carlos vogt
Universidade Estadual de Campinas

cho que, de um ponto de vista mais subjetivo, as coisas aconteceram − quero dizer, as coisas relacionadas com o tema em questão −, quando eu vim de Sales Oliveira para Ribeirão Preto, depois para São Paulo para fazer o curso de Letras, na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, à rua Maria Antonia. Foi lá, em 1962, que conheci o professor Antonio Candido, no curso de Teoria Literária e Literatura Comparada que ele oferecia para o primeiro ano dos alunos do curso de Letras. Segui seu aluno, regular, ouvinte, irregular, em toda a graduação e, nos anos 1968 e 1969, fui também seu estudante no programa do curso de pós-graduação em que, além dele, brilhavam os astros e as estrelas de Gilda de Mello e Souza, Paulo Emílio Sales Gomes, Rui Coelho e Oswaldo Elias Xidieh. Isso tudo acontecendo no cenário político da ditadura militar que recrudescia no país e que, na cena da FFCL, se manifestava na ação violenta da polícia, abrigada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) no vizinho Mackenzie, e que resultou na destruição das condições de funcionamento e no consequente fechamento dos prédios, além da morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães, do ferimento, também por bala, de estudantes universitários e de uma grande quantidade de feridos entre os participantes do que ficou conhecido como A batalha da Maria Antonia. Em 1968, o prédio da Maria Antonia, ocupado pelos estudantes, ressoava os acontecimentos internacionais da França e dos Estados Unidos e era palco do movimento das paritárias em que discutíamos a reforma do ensino superior, a

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abolição da cátedra e de outros componentes institucionais e comportamentais da verticalidade que então caracterizava a estrutura e o funcionamento da universidade no Brasil. Em 1969, já no segundo ano do curso de pós-graduação, fomos para o prédio da Geografia e História, na Cidade Universitária. No primeiro semestre, o professor Candido estava nos EUA, como convidado acadêmico em Yale, se bem me lembro, como já acontecera em parte do ano anterior. Foi assim que tive, neste último caso, a oportunidade de ser aluno do professor Xidieh que, a convite do professor Candido, o substituía, e da professora Gilda de Mello e Souza, substituindo-o, também, em algumas aulas e seminários sobre estética que, em 1969, já ocorriam na Cidade Universitária. No curso de graduação na USP, havia sido aluno do professor Albert Audubert, na antiga cadeira de francês. Por várias vezes, o professor Audubert tinha me proposto ir para a França com uma bolsa do governo francês. Devido a compromissos econômicos e financeiros que eu já contraíra, não encontrava, apesar do desejo de aceitar a oferta, meios para sair do país só como bolsista. Mais ou menos no meio do ano de 1969, depois de um encontro com o professor Audubert, combinei com ele retomarmos o assunto da viagem à França. Em agosto, quando fui visitá-lo em seu apartamento na Alameda Santos, deu-me a notícia de que Universidade Estadual de Campinas − a Unicamp −, criada três anos antes, em 1966, estava desenvolvendo um programa para a implantação, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), de um Departamento de Linguística. Queria indicar o meu nome para integrar um grupo de quatro pessoas que seriam contratadas pela Unicamp e seguiriam para Besançon, com uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), para fazerem uma licenciatura e um mestrado em linguística. Convite aceito, fui a Campinas, com uma carta de apresentação do professor Audubert, procurar o professor Fausto Castilho, coordenador e um dos fundadores do IFCH, além de responsável pela criação do programa de linguística na universidade, tendo estado ele próprio em Besançon onde fortaleceu o seu entusiasmo intelectual e acadêmico com as possibilidades epistemológicas da boa convivência da linguística com a lógica e com a matemática. Essa convivência, que certamente ajudou a embasar o apodo de ciência-piloto com que a linguística foi apresentada durante um bom tempo, principalmente na efervescência do estruturalismo europeu nas décadas de 1960 e de 1970, aliada às circunstâncias de ter o professor Castilho convivido com a experiência viva dos estudos que então se produziam na França, tudo isso contribuiu para que o modelo teórico e metodológico a ser implantado na Unicamp buscasse reproduzir, em Campinas, o que vinha acontecendo no cenário internacional no campo da linguística e das ciências humanas, em geral. Ao conversar com o professor Castilho, informei-lhe também ser aluno do professor Candido, o que o deixou bastante satisfeito, já que, como eu viria a

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saber na sequência de nosso diálogo, era ele um dos responsáveis pela orientação do processo de formação do que viria, mais tarde, a ser chamado “Grupo de Campinas” que, na verdade, se constituiu em duas etapas: na primeira, em 1968, contrataram-se pela Unicamp e seguiram para Besançon, com bolsa da Fapesp, os professores André Villalobos, Angelo Barone, Antonio Augusto Arantes e Luiz Orlandi; na segunda, em 1969, os professores Carlos Franchi, Haquira Osakabe, Rodolfo Ilari e eu próprio. Os integrantes da primeira turma vinham de áreas diferentes: um da sociologia, outro da matemática, o terceiro da antropologia e o último da filosofia; os da segunda vinham de letras, sendo que Franchi era também formado em Direito. A ideia de enviar pessoas com origens acadêmicas diversas para o mesmo centro de estudos linguísticos atinha-se ao que foi dito antes a propósito da concepção da linguística como ciência piloto na grande área das Humanas e, mais especificamente, no caso da Unicamp, à própria concepção dos cursos de graduação, que suponham um studium generale, como gostava de dizer o professor Fausto Castilho, um ciclo básico, como ficou tecnicamente chamado, com matérias comuns a todos os cursos oferecidos pelo IFCH. Quando falei com o professor Candido que tinha estado em Campinas com o professor Fausto Castilho por recomendação do professor Audubert, recebi dele a aprovação imediata e firme, logo concretizada numa carta de referência que passou a ser para mim como que um documento de minha identidade acadêmica, institucional e intelectual que por ele se constituía e se fundava, restando para a frente a responsabilidade de lhe fazer jus e a satisfação de tê-lo obtido para o desafio de poder merecê-lo. O professor Antonio Candido indicou ou avalizou todos os nomes dos que constituíram o Grupo de Campinas. No caso da segunda turma, a Fapesp, fundada então havia poucos anos, em 1962, não internalizara ainda de todo, na sua dinâmica de fomento à pesquisa, o apoio sistemático às Humanidades e tampouco tinha no seu escopo de ação financiar programas institucionais como esse da Unicamp para a formação de quadros docentes já contratados pela universidade. A primeira turma tinha passado; agora, uma segunda leva, repetindo a dose, não seria tão fácil de passar pela aprovação da Fapesp e de seus dirigentes, em especial o seu diretor científico, na época o professor Oscar Sala, do Instituto de Física, da USP. Aqui, a persistente insistência do professor Fausto Castilho e a tranquila e firme convicção da importância do projeto que tinha o professor Candido, aliada ao profundo respeito de que sempre gozou entre todos com quem convivia na vida institucional, acadêmica e intelectual, levaram a fazer ceder os argumentos de resistência da Fapesp e as bolsas foram aprovadas e concedidas. Quando voltamos, com os objetivos acadêmicos cumpridos e assumimos as atividades no Departamento de Linguística, logo em 1972, a Unicamp enfrentou sua primeira crise institucional, tendo o professor Zeferino Vaz, seu reitor, sobre-

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vivido a ela e conseguido afastar da universidade vários professores que lhe eram adversos, entre eles o professor Fausto Castilho, que mais tarde seria, na gestão do professor Pinotti, reintegrado à instituição. Durante todo o processo crítico por que passou a universidade, a referência em que para ela se constituiu o professor Antonio Candido foi fundamental para que as coisas retomassem o seu ritmo de normalidade produtiva, particularmente nas humanidades, bastante envolvidas no desenrolar dos acontecimentos que pautaram a crise. O fato é que o professor Zeferino Vaz tinha pelo professor Candido um enorme apreço intelectual, pessoal e existencial e já havia feito, desde sua vinda para Campinas, algumas tentativas de sedução institucional para trazê-lo para a Unicamp. O professor Antonio Candido não vinha, mas se mantinha reciprocamente atencioso para com o professor Zeferino Vaz, para com a Unicamp e, especialmente, para com o projeto do Grupo de Campinas. Entre 1974 e 1976, os quatro integrantes da segunda turma do “Grupo” fizeram seus doutorados com viagens e estadas em instituições internacionais, sempre com o apoio institucional do professor Zeferino Vaz e o aval acadêmico do professor Antonio Candido. A Unicamp crescia e já passara por sua primeira crise de adolescência institucional. Saíra-se bem e o que não se resolveu no imediato foi sendo resolvido depois, como a volta do professor Fausto Castilho acima referida. O número de alunos aumentava com o número de cursos de graduação e de pós-graduação oferecidos e os departamentos discutiam suas necessidades de aumento das cargas horárias para as disciplinas específicas de cada curso de bacharelado e de licenciatura. Aos poucos, a concepção de curso que suponha o conjunto de disciplinas básicas comuns para as grandes áreas acadêmicas ia perdendo força e fortalecendo a tendência para o nascimento de institutos e faculdades do que até então se organizava como departamento. No estatuto da Unicamp e em seu plano diretor estava prevista a criação de uma Faculdade de Letras, cujo desenho geral era coincidente com o que tradicionalmente caracteriza as instituições da área: vários departamentos, tantos quantos forem as pressões internas e externas para a sua criação e proliferação. Uma estrutura institucional feita, portanto, de justaposição de peças. Para tentar evitar que o mesmo ocorresse na Unicamp e fugir, assim, do que o seu plano diretor previa e na época ameaçava desencadear, o Departamento de Linguística, do qual me tornei chefe logo em seguida à obtenção do doutorado, em 1974, propôs-se, ainda no IFCH, a começar a oferecer cursos de bacharelado e de licenciatura em Letras (língua portuguesa e literaturas brasileira e portuguesa). Para isso era preciso, além do que o Departamento de Linguística já oferecia, oferecer latim e as literaturas da grade curricular. O professor de latim foi contratado e deu-se início, com o apoio e a orientação do professor Candido, ao proces-

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so de contratação dos professores que viriam atender a necessidades relativas às aulas de literatura brasileira e literatura portuguesa, constituindo-se, assim, um grupo que marcou época na história da Unicamp e que seria o núcleo inicial do futuro Departamento de Teoria Literária. Faziam parte do grupo, mesmo que vindos em momentos, às vezes, diferentes, os professores Adélia Bezerra de Meneses, Antonio Arnoni Prado, Berta Waldman, Edda Arzua Ferreira, Jesus Durigan, João Luiz Lafetá, José Miguel Wisnik, Maria Lucia Dal Farra, Marisa Lajolo, Modesto Carone, Roberto Schwarz, Suzi Frankl Sperber, Vera Chalmers e Yara Frateschi Vieira. O Departamento de Linguística havia recebido, algum tempo antes, também vários professores do programa de pós-graduação do Museu Nacional, entre eles, Aryon Rodrigues, Brian Head e Antonio Carlos Quícoli, já contando em seu quadro com os professores Ataliba Castilho, que viera de Marília e Marcelo Dascal, voltando de Israel. Não faltava, pois, densidade crítica ao departamento, onde, ao contrário, sobravam competências para as quais era preciso e desejável desenhar um novo espaço institucional que pudesse abrigá-las mais adequadamente e onde pudessem exercer suas atividades intelectuais e acadêmicas com mais proveito para os objetivos de ensino e pesquisa da universidade. Conversávamos muito com o professor Zeferino Vaz a respeito da conveniência da criação da unidade de Letras, tal como prevista no plano diretor e da oportunidade de se criar na Unicamp algo novo, a partir do que já se desenvolvia no Departamento de Linguística que, agora, agregava também o grupo de teoria literária, oferecendo, além do bacharelado em linguística, a licenciatura em Letras - português, língua e literatura. O professor Zeferino Vaz mostrava-se sensível aos argumentos que lhe eram apresentados e penso que aquele que de fato o convenceu, e mesmo persuadiu, foi o da possibilidade de termos o professor Antonio Candido como coordenador dos trabalhos para a criação e implantação da nova unidade, concebida fora do modelo tradicional e sobre a experiência que então se desenvolvia no próprio Departamento de Linguística, cujas feições institucionais e acadêmicas já se modificavam pela presença do grupo de teoria literária. Pude, nessa ocasião, dizer ao professor Zeferino Vaz que estávamos diante da oportunidade única de trazer o professor Candido para dirigir o novo instituto, desde que este evitasse a tradicional segmentação das faculdades de Letras e refletisse as experiências que já se realizavam na Unicamp, tanto do ponto de vista das práticas de ensino, que associavam linguística e literatura, como do ponto de vista teórico, que fundamentava as referidas práticas dando-lhes organicidade estrutural e funcional. Para ganharmos tempo institucional, e como estratégia para alongar o prazo de aplicação do estatuto da universidade que previa a criação do Instituto de Letras, foi acordado com o professor Zeferino Vaz que fosse nomeado coordenador desse instituto o professor Manoel Tosta Berlinck, então diretor do Instituto de

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Filosofia e Ciências Humanas, ao qual pertencia o Departamento de Linguística, do qual eu era chefe, tendo sido nomeado também coordenador associado do referido Instituto de Letras. Em outubro de 1975, encaminhávamos ao professor Zeferino Vaz um anteprojeto para a implantação do Instituto de Letras que, além dos cursos de graduação e pós-graduação já oferecidos pelo Departamento de Linguística, ainda no IFCH, propunha a criação de uma graduação, licenciatura em português e literatura de língua portuguesa, e de uma pós-graduação em teoria literária, com ligações em áreas conexas da linguística e das ciências humanas. O cronograma apresentado nesse anteprojeto, cuja elaboração se deveu ao grupo de teoria literária, sob a orientação do professor Antonio Candido, era o seguinte: a) Agosto de 1976 – Abertura de inscrição e seleção para o curso de pósgraduação (mestrado em Letras – área de concentração em teoria literária), com número de vagas a ser oportunamente fixado. b) Março de 1977 – Início do curso de pós-graduação. c) Novembro de 1976 – Fim do currículo provisório para a adaptação dos bacharéis em linguística à licenciatura em português. d) Março de 1977 – Início do currículo definitivo para licenciatura em português e literatura em língua portuguesa, oferecido com opção para alunos do IFCH (curso básico), e ainda sem realização de vestibulares. e) Janeiro de 1978 – Primeiro vestibular para o Instituto de Letras, com número de vagas a ser oportunamente fixado. Caminhava-se, desse modo, para a formalização do Instituto de Letras sob uma nova configuração acadêmica que, então, já superava a possibilidade de se ver na Unicamp a adoção do modelo tradicional das faculdades de Letras que todos queríamos evitar. O fato decisivo para essa mudança de rota deu-se com a aceitação, pelo professor Candido, do convite que mais uma vez lhe fazia o professor Zeferino Vaz para dirigir a nova unidade de ensino e pesquisa da Unicamp. Tive a honra, a distinção e, sobretudo, o prazer e a alegria de ter recebido do professor Zeferino Vaz a tarefa de tentar convencer o professor Candido a aceitar o convite, o desafio e a aventura acadêmica da criação e implantação não apenas de uma nova unidade na Unicamp, mas de uma totalmente nova concepção da unidade que se iria implantar. Num fim de tarde, já anoitecendo, fui, como havia combinado com ele, à casa do professor Candido, à rua Bryaxis, antiga rua Alice, no Itaim Bibi, para voltarmos, na conversa, ao assunto unicampense. Ali, na sala de estar, contígua à sala de jantar, onde a mesa, também de trabalho, emoldurada pelas estantes que traziam parte da biblioteca de dona Gilda e do professor Candido, onde estivera várias outras vezes para os encontros amigos

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e de orientação, enfatizei, na conversa, o argumento de que a única possibilidade de alteração do modelo de Letras a ser implantado em Campinas era a de que o professor Candido aceitasse dirigir o novo projeto e coordenasse a equipe a que seria dado concebê-lo e desenhá-lo para substituir o que estava previsto no estatuto da universidade. Não era só um argumento; era também um fato, pois o reitor da Unicamp dizia, com convicção e firmeza, que a condição para aceitar e encaminhar a mudança era ter o professor Candido a conduzi-la. Do contrário, dizia ele, nada feito! Com o seu jeito cortez, afável, bem-humorado, seguro na dúvida e na certeza, o professor Antonio Candido, chamando-me Carlinhos, como sempre fez, no carinho protetor e habitual do tratamento com os seus alunos, estudantes e amigos, disse-me, então, que aceitava. E a conversa seguiu, já ali mesmo, antecipando, no que ele dizia, as linhas mestras que dariam sustentação ao que depois viria ser, logo no futuro imediato, o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), com uma proposta que consolidava a que estava contida no anteprojeto do Instituto de Letras, acima mencionado, avançando-a no sentido de uma superação, e da realização de uma grande novidade acadêmica no cenário institucional da educação superior no estado de São Paulo e no país. No dia 30 de novembro de 1976, o professor Wilson Cano, que sucedera o professor Manoel Berlinck na direção do IFCH, e eu próprio, na qualidade de chefe do Departamento de Linguística, enviávamos ao professor Zeferino Vaz o projeto de constituição do Instituto de Estudos da Linguagem, elaborado sob a coordenação do professor Antonio Candido de Mello e Souza que, como consta do ofício de encaminhamento, deveria, pelos entendimentos mantidos com o reitor Zeferino Vaz, assumir a futura direção desse instituto. O ofício do professor Candido, também datado de 30 de novembro de 1976, dirigido ao professor Zeferino Vaz, trazia:
Magnífico Reitor: Tenho a honra de passar às suas mãos a proposta de um Instituto de Estudos da Linguagem, nome que nos pareceu mais adequado a uma concepção renovadora que o de Instituto de Letras, anteriormente previsto, por motivos que Vossa Magnificência verá expostos no documento anexo. Este provém das atividades da comissão eleita pelos docentes de Lingüística e de Teoria Literária a fim de elaborá-lo. Como convidado por Vossa Magnificência para coordenar oportunamente a implantação do novo Instituto, atendi ao chamado dos colegas para presidir os trabalhos e, a partir da primeira quinzena de outubro, tivemos reuniões semanais, de que resultaram alguns documentos e notas preparatórias, bem como extensa troca de idéias. A seguir, o texto foi apresentado, para apreciação e comentário, a uma assembléia de docentes daquelas disciplinas, que o discutiram amplamente e propuseram modificações. A redação final encaminhada agora à alta consideração de Vossa Magnificência e dos órgãos competentes, representa, assim, o resultado de um processo que lhe assegurou elevado teor consensual. Neste ensejo, apraz-me ressaltar a dedicação dos membros da comissão, a cuja lucidez e espírito universitário se deve o presente documento, e que são os seguintes colegas: Aryon Dall’Igna

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Rodrigues, Ataliba Teixeira de Castilho, Carlos Alberto Vogt, Haquira Osakabe, Maria Lúcia Dal Farra, Vera Maria Chalmers, Yara Frateschi Vieira. Queira Vossa Magnificência aceitar a expressão dos meus sentimentos de perfeita estima e real consideração. a) Antonio Candido de Mello e Souza

O documento, definindo o IEL, dizia, curta e objetivamente:
Unidade de ensino e pesquisa, nos níveis de graduação e pós-graduação, destinada a formar docentes e pesquisadores no domínio dos estudos sobre a linguagem humana em suas diversas manifestações.

No capítulo da justificativa, o documento anotava:
A proposta de criação, na Unicamp, de um Instituto de Estudos da Linguagem tem como objetivo fundamental: assegurar as condições para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino, nas áreas do conhecimento que tenham por denominador comum o fenômeno da linguagem humana nos múltiplos aspectos da sua natureza complexa (físicos, biológicos, psíquicos, sociais, estéticos) e nos usos culturais que dela fazem as diversas comunidades. Na base desta concepção, está o intuito de propor um modelo diferente do que foi elaborado no Brasil no começo do decênio de 1930 e vem sendo aplicado, desde então, com variantes maiores ou menores. Tal modelo, de cunho enciclopédico, previa unidades demasiado abrangentes, que compreendiam a criação simultânea, em pé de igualdade teórica, de um grande número de cursos de línguas e literaturas, sem definir uma base comum que regesse o seu entrosamento e desenvolvimento. Embora se justifique à luz do momento histórico e tenha prestado serviços relevantes, tal modelo foi superado, como era natural, por concepções novas, devidas sobretudo ao progresso de duas disciplinas gerais, a Lingüística e a Teoria Literária. São elas que propomos para núcleo de um novo Instituto, cuja estrutura deve ser concebida como entrosamento orgânico de atividades, não como justaposição mecânica. A Lingüística se distinguiu nos últimos decênios pelo esforço de constituir um objeto próprio para a prática científica, elaborando métodos adequados para descrever as línguas naturais. Os resultados obtidos permitiram, mais recentemente, utilizar formalismos lógico-matemáticos e métodos hipotético-dedutivos, que aliam o rigor na verificação dos conceitos e noções a um acentuado poder heurístico. Por outro lado, alguns ramos da lingüística (por exemplo: a psicolingüística e a sociolingüística) se beneficiaram das perspectivas e técnicas de outras disciplinas no levantamento e na análise de dados da atividade verbal. Assim, a elaboração da teoria e das técnicas da lingüística tem tido conseqüências importantes para o ensino das línguas e a renovação dos seus métodos, assim como para o estudo do texto literário, fornecendo novos procedimentos de análise e pontos de abordagem, de maneira a constituir um conjunto de informações indispensáveis a qualquer bacharel em estudos literários e lingüísticos. A Teoria Literária, sob o impacto desta e outras influências, procurou ultimamente dar um cunho científico às especulações sobre o objeto literário, salientando a descrição baseada em critérios objetivos, não valorativos. Com isso, foi possível corrigirem grande parte do que havia de excessivo (não de justificável) em certos exclusivismos teóricos tradicionais, que dilaceravam o estudo da literatura reduzindo-o: (a) a operações de pura erudição filológica e histórica, com pouca capacidade de integrar os resultados da pesquisa, a não ser em esquemas estreitamente deterministas; (b) a dissolver a sua especificidade, devido à hipertrofia do interesse pelo estudo dos fatores externos; (c) a praticar a avaliação pura e simples, com base no critério incontrolável do gosto e da intuição. No entanto, embora seja indispensável incorporar e fecundar a mencionada busca de

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critérios objetivos, convém salientar que estes devem contribuir para aumentar a pertinência do trabalho crítico, mas não para suprimir as suas características próprias. O suporte indispensável à renovação dos estudos literários deve ser uma Teoria Literária capaz de utilizar os procedimentos modernos de delimitação de unidades e definição de seu relacionamento no interior do texto, estimulando ao mesmo tempo a avaliação estética e o senso do seu correlacionamento com os domínios cobertos pelas ciências humanas. Isso posto, é preciso ressaltar que tanto a Lingüística quanto a Teoria Literária tem por denominador comum a linguagem, ponto de partida do conhecimento propriamente humano, condição do desenvolvimento cultural. Tomada como terreno básico, a linguagem permite a troca de experiências, a fecundação recíproca e a definição de tarefas comuns sem prejuízo das tarefas específicas de cada uma delas. Um Instituto universitário, voltado ao estudo da linguagem humana compreendida em toda a sua plenitude, se caracterizará, pois, pela unidade fundamental do seu objeto, assim como pelos contatos que, a partir do mesmo, se estabelecerão com os demais setores universitários. É importante ressaltar o que há de comum e o que há de diferente, inclusive porque assim será possível focalizar com maior eficiência o problema da formação do especialista em língua e do especialista em literatura, evitando a posição tradicional, em grande parte utópica, do especialista em ambas. A partir deste núcleo o Instituto poderá aumentar, fundar outros Departamentos, abranger campos cada vez mais numerosos de estudos lingüísticos e literários. Mas isso virá como resultado de um crescimento orgânico, à medida que aparecerem necessidades reais e possibilidades seguras. Como conseqüência desse espírito, o IEL dará destaque às atividades de pesquisa e à formação de quadros qualificados, privilegiando a pós-graduação. Os modelos tradicionais atacavam ao mesmo tempo, virtualmente, todos os campos de estudo em todos os níveis. Mas uma Universidade jovem deve optar, escolher com firmeza os seus pontos de concentração, visando à excelência. Ora, não é possível alcançar desde logo a excelência em muitos setores e muitos níveis, além disso, os recursos necessários para dar corpo à fórmula proposta aqui são menores do que os exigidos pelo modelo tradicional e sua tendência ao gigantismo. Resumindo, preconizamos o modelo acima, exposto em suas grandes linhas, por três razões principais: 1. porque permite definir uma filosofia moderna de ensino e pesquisa da língua e da literatura; 2. porque permite concentrar os esforços em setores básicos, de que dependem os demais e, sendo limitados inicialmente, facilitam a busca da excelência; 3. porque a sua implantação é menos onerosa em recursos humanos e materiais que a dos modelos tradicionais.

O parecer do professor Sérgio Porto, à época Coordenador Geral dos Institutos, foi curto e incisivo: “Sou completamente favorável e apoio integralmente o pedido.” Em dezembro de 1976, criava-se o Instituto de Estudos da Linguagem na Unicamp, comportando o Departamento de Linguística, o Departamento de Teoria Literária e o Centro de Linguística Aplicada, que já existia junto ao Departamento de Linguística. Nos anos subsequentes, o Centro deu origem ao Departamento de Linguística Aplicada, no IEL e um novo projeto deu origem ao Centro de Ensino de Línguas (CEL), diretamente ligado à reitoria da Unicamp. O professor Candido foi designado o primeiro diretor do IEL, tendo como seu associado o professor Carlos Franchi, que o sucedeu, quando o professor Zeferino Vaz, depois de 12 anos na condução da universidade, deixou a reitoria e foi substituído pelo professor Plínio Alves de Moraes.

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O compromisso do professor Candido com o professor Zeferino estava cumprido: o novo Instituto de Estudos da Linguagem estava fundado e implantado. Ficávamos nós com o compromisso de dar seguimento acadêmico e institucional ao que o professor Candido havia criado. Ficávamos também com saudades bem fundadas de sua sábia e generosa presença no cotidiano da juventude do IEL, que cresceu, amadureceu, vingou, guardando o desafio constante de fazer jus à inventividade intelectual, acadêmica e institucional da origem de sua criação.

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CrítiCa do esclarecimento

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indicação do Setor de Estudos Literários do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco para homenagear o Professor Antonio Candido com o título Doutor Honoris Causa, e o seu deferimento pelo Conselho Universitário, reafirma a vocação da cultura de Pernambuco para confiar e reconhecer na Arte, na Ciência e na Filosofia formas de conhecimento obrigatoriamente compromissadas com o progresso espiritual e social do ser humano. A longa tradição deste velho, nobre e republicano Estado sempre esteve identificada com as grandes utopias direcionadas para as liberdades humanas e as soluções dos problemas da humanidade. As utopias republicanas de Frei Caneca, as utopias abolicionistas de Joaquim Nabuco, as utopias de Paulo Freire para uma Educação como prática da liberdade, as utopias de Josué de Castro contra a fome expressam a tenacidade e a obstinação de seu povo que historicamente tem acreditado na razão como instrumento basilar para o ser humano vencer suas necessidades históricas e superar suas dessemelhanças. Na contemporaneidade do século XXI, Pernambuco continua sua tradição racionalista identificada em pesquisas desenvolvidas, dentre outros órgãos públicos, no campus da sua maior Universidade Federal, avaliadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) de máxima excelência acadêmica a exemplo da pós-graduação em Física, Química e Ciências da Computação. Qualidade de pesquisa também reconhecida por este mesmo órgão de fomento em outros programas de pós-graduação tais como História, Letras, Psicologia Cognitiva, Administração, Matemática, Direito, Tecnologias Energéticas e Nucleares, Medicina Tropical, Engenharia Civil, Ciências Biológicas, Nutrição, Geografia, Desenvolvimento Urbano, dentre outros.

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Universidade Federal de Pernambuco

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Crítica do esclarecimento 275

Essas pesquisas aprofundam o trabalho, a qualificação e a responsabilidade teórico-científica, assim como o compromisso social, de uma Universidade cujas bases formadoras vêm da união da Faculdade de Direito do Recife, que teve Tobias Barreto como um de seus mais ilustres docentes e onde estudou significativa parcela da intelectualidade brasileira do século XIX, a exemplo de Sílvio Romero, Araripe Junior, Castro Alves, Martins Junior, Capistrano de Abreu; da Escola de Engenharia de Pernambuco, onde foi aluno e professor o Poeta-engenheiro-calculista Joaquim Cardozo; da Faculdade de Medicina do Recife e das Escolas anexas de Odontologia e Farmácia, onde Jorge Lobo identificou a lacaziose, enfermidade também conhecida por mal de Jorge Lobo predominante na América do Sul; da Faculdade de Filosofia do Recife e da Escola de Belas Artes, onde Evaldo Coutinho ensinava que “a Arquitetura é um gênero artístico autônomo, cujos valores estão nos espaços internos onde elementos como luz, sombra, temperatura, ruído e silêncio são fundamentais” e onde também defendia que “Deus é arquiteto”. Hoje, este campus de insignes láureas acadêmicas confirma sua vocação para distinguir as grandes produções de conhecimento empreendidas pela Ciência, pela Arte e pela Filosofia, outorgando o título Doutor Honoris Causa ao Professor Antonio Candido de Mello e Souza, cujo pensamento, de engenho e arte, é, há décadas, referência obrigatória no curso de Letras e cuja autoria de clássicos como o monumental Formação da literatura brasileira e de ensaios antológicos a exemplo de Literatura e subdesenvolvimento, Literatura de dois gumes, Ficção e confissão, Crítica e sociologia, A literatura e a vida social, Estímulos da criação literária, A vida ao rés-do-chão, Dialética da malandragem, tem sido o apoio teórico para monografias, dissertações e teses apresentadas à graduação e ao programa de pós-graduação. Quando, em 1995, organizamos em nosso Departamento a II Semana de estudos literários, cujo tema debateu “Literatura, Sociologia, Educação” e cujo homenageado foi o Professor Antonio Candido, este atendeu o nosso pedido para gravar uma entrevista, que aconteceu em sua residência no Itaim. Dentre as perguntas que lhe fiz uma foi sobre a razão, a outra sobre a dialética. Acerca da razão, perguntei-lhe o seguinte: “a razão, como instrumento de emancipação e promoção da humanidade, teve também, neste século, seus defensores convictos. O Sr. também acredita que, através da razão, o ser humano pode emancipar-se, promover-se?” Respondeu nosso Mestre: “eu acredito. Nesse sentido eu sou bastante racionalista. Uma das grandes conquistas do nosso tempo foi a demonstração de como as forças irracionais são poderosas no homem e têm que ser levadas em conta. O problema é o seguinte: é não deixar que as forças irracionais sejam a tônica. Porque, como dizia Hauser, na História social da arte e da literatura, desde o século XVIII o homem tem uma tendência muito grande para explicar o aparente pelo oculto. O marxismo é assim, ele explica a superestrutura pela infraestrutura, Niestzsche é assim, Hartmann é assim, na Filosofia do inconsciente, Freud, mais do que todos, é assim quando faz da nossa razão um simples afloramento

276 Literatura e Sociedade

de uma massa de inconsciente formidável. Então o nosso tempo tem essa vantagem de adquirir consciência, vamos dizer, das forças não-racionais do homem, mas a única salvação do homem é dar a hegemonia na nossa fórmula pessoal, aos ditames da razão. De maneira alguma deve apagar no homem o predomínio da razão, que é nosso único guia nesse mundo irracional.” A propósito da dialética, perguntei-lhe em que o método dialético foi importante no seu itinerário de observador literário. A resposta é a seguinte: “pergunta que me parece muito pertinente e que respondo com muito prazer, porque aí está um dos apoios do meu trabalho intelectual. Na Sociologia sempre houve uma grande discussão sobre forma e conteúdo. Existe uma teoria sociológica alemã, que eu estudei muito, a Sociologia Formalista, que dizia que a gente deve estar apenas na forma dos fenômenos. Competição. A Sociologia, sobretudo, das formas; e é com as formas na mão que eu me dirijo aos conteúdos. E havia outras correntes que diziam não, a Sociologia é, sobretudo, descrição do real, e essa descrição assume certos caminhos [...]. Eu me formei no meio dessas discussões e no meu tempo o grande conceito em Sociologia, em Antropologia era: como é que os tipos de comportamentos humanos se ordenam em função de uma finalidade? A sociedade é, toda ela, regida por comportamentos que se entrelaçam formando uma sociabilidade, mas sempre em vista de um fim. Isso é o funcionalismo e teve grande influência sobre mim. E, finalmente, desde moço li bastante marxismo e a partir daí, realmente, essas posições, tanto a da sociologia acadêmica, quanto a do marxismo, foram muito importantes para mim, e aí eu respondo a sua pergunta, porque tanto a partir da sociologia acadêmica, quanto a partir do marxismo, eu fiquei com duas obsessões. A primeira obsessão é explicar o aparente pelo oculto e a segunda é raciocinar em função dos contrários. Tudo o que eu escrevo, pode-se notar mais visível ou menos visível, é sempre feito em função dos contrários, é um processo dialético, é e não é, pode e não pode, era e não era. A partir daí eu procuro tirar minhas diretrizes [...].” Com estas perguntas, queria ouvir do próprio Professor Antonio Candido a confirmação do que já se verificara a respeito do seu procedimento metodológico. Qual a importância e a utilidade desta metodologia, procedimento de um pensamento racional e dialético, para o estudo teórico-crítico de uma literatura produzida no contexto de uma cultura dependente, mestiça, de um povo que, embora há muito tempo brasileiro, protagonista da vasta metáfora do projeto literário e cultural aqui desenvolvido, seja, ainda hoje (por falta, dentre outros fatores, de uma educação pública que lhe assegure o letramento literário) alienado da sua própria Literatura? É importante porque tem reiterado e ensinado a gerações de professores, pesquisadores, críticos, intelectuais, estudantes e leitores que a Literatura, além de prazer estético, é expressão de cidadania, um direito inalienável, como está bem ilustrado em O direito à literatura. É importante porque o conjunto da sua obra move-se sob uma vasta lição de humanismo na medida em que a maior personagem do seu trabalho de obser-

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Crítica do esclarecimento 277

vador literário não é a literatura e suas formas ou estruturas encantatórias, mas o seu maior protagonista: o ser humano. O ser humano e suas necessidades históricas; o ser humano e suas inquirições acerca do vasto mundo; o ser humano e suas utopias; o ser humano cuja humanidade a literatura tem a capacidade de confirmar, como defende o nosso Professor em A literatura e a formação do homem, e cuja comprovação de tese, digamos assim, está demonstrada, por exemplo, em Ficção e confissão, onde ele pretendeu “captar a visão do homem na obra de Graciliano Ramos”, e onde ao considerar o autor como uma possibilidade de explicação da obra, ele ratifica seu humanismo ao mostrar que é o ser humano a grande inquietação de seus estudos e de suas investigações. Humanismo que se esclarece em uma de suas concepções sobre a literatura como “aspecto orgânico da civilização” (Formação da literatura brasileira) e que o aproxima dos gregos, os quais, na lição de Werner Jaeger, “estavam convencidos de que a educação e a cultura não constituem uma arte formal ou uma teoria abstrata, distintas da estrutura histórica objetiva da vida espiritual de uma nação; para eles, tais valores concretizavam-se na literatura, que é a expressão real de toda cultura superior” (Paidéia). Humanismo cujo empenho de promover a dignidade do ser humano brasileiro tem esclarecido como a nossa Literatura metaforizou a construção da identidade e do caráter nacional, as nossas interrogações diante da vida e de suas finalidades; diante das nossas semelhanças e dessemelhanças; diante das nossas igualdades e desigualdades. São esclarecimentos que colocam o seu Autor no grupo de grandes intérpretes do Brasil a exemplo de Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda. Associando sua erudição a um texto escrito possível de ser lido e compreendido, o Mestre da crítica literária brasileira apresenta lições para pensar e problematizar a nossa Literatura não apenas no campo da teoria e das ideias, como também a esclarece, por exemplo, Na sala de aula, sugestivo título de um dos seus livros onde “maneiras possíveis de trabalhar o texto” sugeridas ao professor e ao estudante esclarecem os efeitos estéticos da literatura e sua legitimidade como suporte no processo de apropriação crítico-reflexiva do mundo pelo ser humano. Estratégia de um Educador e de um Professor, cujo exercício do magistério, nas palavras de Francisco Iglesias (Antonio Candido, o escritor e o político), chega a ser missão, e cujo espírito esclarecedor das vocações estéticas e libertárias da Literatura o aproxima de uma das grandes pedagogias contemporâneas que teorizou a Educação como prática para as liberdades humanas. Neste contexto, lembremonos mais uma vez da conferência O direito à literatura e de mais outros ensaios, a exemplo do que ele ilustra em Literatura e subdesenvolvimento numa época em que ainda a nossa Universidade quase não pensava sobre políticas e práticas educacionais para o ensino de Literatura, nem a pesquisa sobre Escola, Meios de Comunicação de Massa e Literatura era tema para produção de dissertações e teses acadêmicas como ocorre desde as três últimas décadas do século XX até a contemporaneidade do século XXI.

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A todos os professores, sobretudo os do ensino fundamental, e a todos os estudantes que se preparam para o magistério do ensino da leitura literária, a lição do Mestre Candido, transcrita a seguir, é obrigatória porque esclarece equívocos, supera erros e faz entender que para se estimular, sobretudo entre crianças e adolescentes, o gosto pela leitura literária tem de se ler literatura, naturalmente numa proporção de desafios que considere não só os estádios cognitivos, usando a terminologia piagetiana, como a maturidade do aluno: “[...] na maioria dos nossos países há grandes massas ainda fora do alcance da literatura erudita, mergulhando numa etapa folclórica de comunicação oral. Quando alfabetizadas e absorvidas pelo processo de urbanização, passam para o domínio do rádio, da televisão, da história em quadrinhos, constituindo a base de uma cultura de massa. Daí a alfabetização não aumentar proporcionalmente o número de leitores da literatura, como a concebemos aqui; mas atirar os alfabetizados, junto com os analfabetos, diretamente da fase folclórica para essa espécie de folclore urbano que é a cultura massificada” (Literatura e subdesenvolvimento). O trabalho humano e intelectual do Professor Antonio Candido, construído sob as influências da tradição e, naturalmente, do seu tempo histórico, confirma as palavras de Dante Alighieri acerca da importância do passado como herança para os que se inclinam a amar a verdade: “o principal interesse de todos os homens que pela sua natureza superior são inclinados a amar a verdade, parece-me que seja este: assim como foram enriquecidos pelos antepassados, possam dar a mesma riqueza àqueles que virão depois deles” (Da monarquia). A história nos mostra que a natureza superior do Mestre Antonio Candido, de razão e esclarecimento,1 enriquece o presente e projeta-se para um futuro humano no ritmo e no verso, na poesia e nas utopias do Poeta do Mundo grande: — Ó vida futura! Nós te criaremos. Professor Antonio Candido de Mello e Souza, a Universidade Federal de Pernambuco, de maneira especial o Departamento de Letras, com honra e acatamento,2 o estima e o saúda! Aldo de Lima
Esclarecimento no sentido da Aufklärung, que não é apenas um conceito histórico-filosófico, mas uma expressão familiar de língua alemã, que encontra um correspondente exato na palavra portuguesa esclarecimento em contextos como politische Aufklärung (esclarecimento político). As duas palavras designam, em alemão e em português, o processo pelo qual uma pessoa vence as trevas da ignorância e do preconceito em questões de ordem prática (políticas, religiosas, etc); [...] o esclarecimento que resulta da reflexão e da crítica. Kant define a Aufklärung como um processo de emancipação intelectual resultando, de um lado, da superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria e, de outro, da crítica das prevenções inculcadas nos intelectualmente menores por seus maiores (superiores hierárquicos, padres, governantes, etc.). In: Dialética do esclarecimento, de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. 2. ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1985. Nota preliminar do tradutor Guido Antonio de Almeida, p. 7-8. Registro meu débito com Adorno e Horkheimer a respeito do título deste texto. 2 Alçando os olhos, de respeito entrado, / O Mestre vejo dos que mais se acimam / Em saber, de filósofos cercado. / Todos com honra e acatamento o estimam”. Dante Alighieri ao referir-se a Aristóteles n’ A divina comédia, IV Canto. Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro. São Paulo, Edigraf, 1958, p. 27.
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BiblioteCa

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Publicações do dePartamento Livro
Maria Augusta Fonseca. Por que ler Oswald de Andrade. São Paulo, Globo, 2008, 170p. Com foco em Oswald de Andrade, esta publicação tem como objetivo discutir aspectos da produção do escritor, buscando alcançar algumas sínteses interpretativas voltadas para a sua atuação no campo da ficção, poesia, memória, teatro, jornalismo. O livro está contido em 5 partes, pré-estabelecidas, a saber: retrato do artista; cronologia; ensaio de leitura; entre aspas; e estante. Trata-se de formato definido para a coleção Por que ler, que foi lançada pela editora. Os quatro primeiros títulos incluem Dante Alighieri, Jorge Luis Borges, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade.

Capítulo de livro
Sandra Nitrini. “Paralelo despretensioso: Budapeste, de Chico Buarque e Avalovara, de Osman Lins.” Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea... Brasília, UNB, 2008, pp.191-200 . Volume 31. ISBN 1518-0158. Paralelo motivado pela formulação crítica de Luiz Antonio Giron, que evoca Osman Lins, ao se referir à linguagem ou à sua impossibilidade como a grande personagem do romance de Chico Buarque. O jogo entre o real e o fictício, entre autor e personagem-escritor, uma das linhas mestras dos dois romances, fundamenta a leitura comparativa proposta neste artigo, que contempla também outros recursos e eixos temáticos comuns a estas obras de autores com propostas literárias completamente diferentes e oriundas de contextos, ora propícios à noção de autoria, como é o caso de Avalovara, ora não, como o de Budapeste. Iumna Maria Simon. “Situação de sítio”, In: Celia Pedrosa; Ida Alves (Org.). Subjetividades em devir. Estudos de poesia moderna e contemporânea. Rio de Janeiro, 7Letras, 2008. pp. 133-147. No panorama recente da poesia brasileira surpreendeu o aparecimento, em 2001, do poema “Sítio” de Claudia Roquette-Pinto, poeta até então tida como intimista, metaforizante, trancada no seu mundo privado e burguês. O foco desta abordagem é discutir como foi possível à autora formular nesse poema um estudo sobre o medo e a violência, sem abrir mão da sua imagética introspectiva e da sua experiência poética anterior, centrada numa escrita referencialmente rarefeita.

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Revista indexada
Marcus Vinicius Mazzari. “Figurações do mal e do maligno no Grande sertão: veredas”, Revista do Instituto de Estudos Avançados, São Paulo, v. 22, n. 64, 2008. Este ensaio constitui o segundo capítulo de um estudo sobre a trajetória de Riobaldo em sua oscilação entre o pacto fáustico e a tradição do chamado “romance de formação e desenvolvimento” (Bildungs- und Entwicklungsroman). Partindo de um trecho do romance O homem sem qualidades em que Musil discute os obstáculos que se colocam à arte da narrativa no século XX (antecipando reflexões teóricas de Adorno, Auerbach, Rosenfeld etc.), o estudo enfoca, no primeiro capítulo, traços do Grande sertão que o vinculariam a um épico mais primitivo. Também se estabelecem aqui algumas relações com o Doutor Fausto de Thomas Mann, romance que tem igualmente no pacto demoníaco o seu motivo nuclear. Quanto ao presente texto, está voltado às formas e imagens que o relato de Riobaldo dispensa aos conceitos de “mal” e de “maligno” (assim como ao seu entrelaçamento). Em seguida, enfoca a personagem de Hermógenes, que encarna uma espécie de principium maleficum que dificilmente encontra paralelo na literatura ocidental. Para expor essa especificidade da personagem rosiana, o estudo procede por fim a uma comparação com a representação do Mal (e sua correspondente personagem) no romance barroco Simplicissimus, de Grimmelshausen. Edu Teruki Otsuka. “Rixas no tempo do rei”. Revista USP, n. 79, São Paulo, setembro-outubro-novembro de 2008, pp. 132-141. (Dossiê “Família Real no Brasil”). O artigo discute as relações entre a representação literária e o dinamismo histórico-social nas Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, focalizando as referências históricas e as indefinições formais do romance.

ApêndiCe

284 Literatura e Sociedade

Artigos publiCados
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Aos Colaboradores
A revista Literatura e Sociedade está aberta a colaboração na área dos estudos literários, teoria literária, literatura comparada, ensaio de caráter teórico ou voltados para a interpretação de autores e obras. Os ensaios não precisam ter limite definido de páginas, nem seguir normas de apresentação. Pede-se, entretanto, que os colaboradores procurem, na medida do possível, reproduzir algumas poucas normas comuns aos textos da revista, como as notas de rodapé, as indicações bibliográficas em itálico e completas, o nome do autor com a instituição a que está ligado, quando for o caso, além de uma boa revisão do texto, antes de enviá-lo à Comissão Editorial. Junto com o texto, o autor deverá enviar um resumo em português de 3 a 5 linhas e 3 palavras-chave. É aconselhável que os textos tragam, ao final, a data de redação. Recebido o texto, a referida Comissão o submeterá a um parecer externo à revista, informando posteriormente ao autor o resultado da avaliação. A Comissão reserva-se o direito de não publicá-lo no número imediatamente posterior ao parecer, caso entenda que por critérios editoriais o texto se tornaria inadequado para aquele número. Endereço para correspondência Literatura e Sociedade (USP-FFLCH-DTLLC) Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 Cidade Universitária - São Paulo (SP) 05508-900 fone: (11) 3091 4312 fax: (11) 3091 4865 e-mail: revflt@usp.br flt@usp.br

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Literatura e Sociedade, n. 11 São Paulo, 2009 ISSN 1413-2982

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