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O Trabalho No Brasil

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O Trabalho no Brasil

As relações de trabalho no Brasil são totalmente desfavoráveis ao trabalhador e nessa esteira seguem as condições de trabalho as quais em regra são precárias haja vista o nefasto histórico verificado nos acidentes do trabalho. Os números oficiais, nitidamente insubsistentes, com relação aos acidentes do trabalho são preocupantes e registram mal grado um número elevado de óbitos. Oficialmente o Estado Brasileiro, com base em extensa legislação trabalhista, também chamada de Leis Sociais, e mais muitas leis de caráter ordinário – leis comuns - estaria teoricamente dotado de um guarda-chuva adequado a oferecer proteção e amparo a todos os que têm que trabalhar para sobreviver. Não bastassem essas leis federais, estaduais, municipais, acordos internacionais de papel, onde os governantes de plantão prometem respeito às resoluções da Organização Internacional do Trabalho – OIT – temos ainda vários artigos na Constituição Federal que regram várias condutas a serem observadas pelos empregadores, sejam eles públicos ou privados. Existem comentários de toda ordem que o Brasil seria sob o ponto de vista legal, o país melhor estruturado com relação a ter um conjunto de leis que efetivamente protegem os trabalhadores. Somente que a intenção nesse particular não faz a razão. A realidade dos trabalhadores do Brasil se encontra demasiado distante do idealizado nas chamadas leis sociais. Uma das contradições do discurso e a prática é o numero astronômico de trabalhadores que estão na informalidade. São obviamente os que mais estão expostos ao infortúnio – acidentes - do trabalho. Não bastasse isso são os que menos ganham e não raro se sujeitam a trabalhar em troca de um prato de comida, moradia, sem limites na jornada de trabalho, arrastando não raro junto de si, outros membros da família que com isso acabam trabalhando “de graça”. As crianças e mulheres, nesses casos, são as mais penalizadas, pois além de não receberem salário, tem que dar conta do serviço, geralmente penoso e insalubre. Milhares de crianças em idade escolar no Brasil todo ano deixam de freqüentar as salas de aula e milhões de crianças que só deveriam estudar tem como prioridade o trabalho. Nesse rol de trabalhadores excluídos dos direitos sociais incluímos os milhões que labutam em lixões a céu aberto, moradores de rua, camelos, chapas, pescadores, trabalhadores rurais sem terra, diaristas que se submetem a serviços por jornada. Milhões de homens e mulheres também têm que trabalhar mesmo em serviços formais, sem Carteira Assinada, pois os empregadores, que adotam esse tipo de conduta, ou seja, condicionam o “emprego” à informalidade, aumentam seus já portentosos lucros, pois deixam de recolher os tributos sociais. A luz dos números que compuseram a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio de 2008 (PNAD2008) a população do país era de 189, 952 milhões de pessoas. O Brasil tinha em 2008, no fulgor dessa pesquisa População Economicamente Ativa (PEA) estimada em 99,5 milhões de pessoas. No grupo, Pessoas Ocupadas éramos 92,4 milhões, desses 31,9 milhões teriam Carteira Assinada. A esse número acresce-se os Servidores Públicos, que perfazem pouco mais de 8 milhões, os Profissionais Liberais (médicos, odontólogos, advogados, engenheiros, etc.) perfazem número próximo a 5 milhões. Seguem esses números, 16,1 milhões de pessoas ocupadas no meio rural em 2008. Destes 3,5 milhões seriam de assalariados informais, ou seja, sem direitos sociais plenos. Não tem muito o Governo Federal decidiu flexibilizar ainda mais as relações de trabalho no campo, criando a figura do trabalhador temporário, como se no Brasil não fossemos todos temporários. Os estudos otimista apontam para algo próximo a 12 milhões o número de desempregados, isso para o ano de 2008. “A Pnad mostrou que dos 92,4 milhões de pessoas ocupadas em 2008, 58,6% (54,2 milhões de

pessoas) eram empregados; 7,2% (6,6 milhões), trabalhadores domésticos; 20,2% (18,7 milhões), trabalhadores por conta própria; 4,5% (4,1 milhões de pessoas), empregadores; 5,0% (4,6 milhões), trabalhadores não remunerados; 4,5% (4,1 milhões), trabalhadores na produção para o próprio consumo e 0,1% (0,1 milhão), trabalhadores na construção para o próprio uso”.

Caxias do Sul, 09 de junho de 2010.

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Os trabalhadores com Carteira assinada, a despeito de toda publicidade institucional, acabam nessa historia sendo minoria e infelizmente sendo remunerados com baixos salários. Raros são os trabalhadores que não vivem assolados pelo fantasma do desemprego e substituição nas linhas de produção por outros, que por estarem fora do mercado do trabalho – desempregados - se obrigam a aceitar salários menores. A adoção de políticas neoliberais pelo Estado brasileiro a partir dos anos 90 do Século XX, em muito reduziu o valor dos salários dos trabalhadores. Milhões também foram precarizados por conta do desemprego e milhares ficaram sujeitos a trabalhos terceirizados, os quais reduzem absurdamente os direitos sociais, isso quando eles existem. A praga das tais de Cooperativas de Trabalho, vigarice sem precedentes na historia do Brasil, “asseguram” somente quanto muito, um salário mínimo legal aos trabalhadores que se vem premidos a nelas se empregarem para não perecerem de fome. Esse tipo de „empreendimento‟ reduz ao absurdo as condições de trabalho e quase que ao absoluto os direitos sociais. Os trabalhadores de uma cooperativa de trabalho apertados pela necessidade “aceitam” trabalhar, por exemplo, em condições insalubres sem receberem junto ao salário mensal a indenização por estar trabalhando em local deletério. Infelizmente a situação em tela é regra e absolutamente legal dentro da ordem republicana do Brasil. Caso notório, que atinge as raias do absurdo é a situação do trabalhador domestico em nosso país. A Constituição Federal legítima condição impar, ou seja, tem os domésticos menos direitos que os trabalhadores formais da chamada iniciativa privada. Somente nos fixaremos no aspecto jornada de trabalho. Enquanto que legalmente o trabalhador esta obrigado há trabalhar 44 horas semanais o trabalhador doméstico tem que trabalhar quantas o empregador quiser e mais não ganha nada por isso, ou seja, o trabalho extraordinário não gera direito nem valores, algo obviamente muito próximo ao regime escravocrata. Não é gratuito no Brasil, que de um contingente de 6,5 milhões de empregadas domésticas, somente 1,5 milhão tenha carteira de trabalho assinada, as restantes cinco milhões trabalham na informalidade. As pesquisas efetuadas junto a essas trabalhadoras atestam sua baixa escolaridade, quando não totalmente analfabetas e sua origem predominantemente de afro descentes. A situação das mulheres, crianças e homens do campo, não é diferente da vivida nos cinturões de miséria do meio urbano. Mesmo os pequenos agricultores – agricultura familiar – em sua grande maioria encontram enormes dificuldades para tirar o sustento da terra. Enquanto o agronegócio recebe crescentes aportes de recursos públicos para sua expansão, a agricultura familiar tem que mendigar. Todo ano milhares de pessoas abandonam o campo, sendo que a maioria somente muda de domicilio. De uma vida sofrida no campo para uma vida miserável nas favelas, mocambos ou cortiços das cidades brasileiras. Os excluídos do campo, sem-terra, são mais de „12 milhões‟ (4,8 milhões de famílias estão à espera de chão para plantar). Num país de dimensões continentais soa absurdo que uns poucos latifundiários tenham se apoderado das principais terras cultiváveis enquanto que milhões estão impedidos de produzir para o próprio sustento.

O Censo Agropecuário de 2006, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou 4.367.902 estabelecimentos de agricultura familiar. Eles representavam 84,4% do total, mas ocupavam apenas 24,3% (80,25 milhões de hectares) da área dos estabelecimentos agropecuários brasileiros. Os estabelecimentos não familiares representavam 15,6% do total e ocupavam 75,7% da sua área -(1% dos proprietários de terra no Brasil controlam 46% dos 600 milhões de hectares escriturados em cartório. Dentro dos 1%, temos 27 mil fazendeiros que possuem fazendas acima de 2 mil hectares que controlam, hoje, 178 milhões de hectares. O maior deles é de uma construtora de Curitiba, que é dona de 4 milhões de hectares.

Caxias do Sul, 09 de junho de 2010.

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A agricultura familiar é a grande responsável pela produção de alimentos no país. Em 2006, a agricultura familiar era responsável por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café (parcela constituída por 55% do tipo robusta ou conilon e 34% do arábica), 34% do arroz, 58% do leite (composta por 58% do leite de vaca e 67% do leite de cabra), 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. A Folha de São Paulo publicou, em 27 de março de 2010, notícia segundo a qual a Confederação Nacional de Agricultura (CNA), realizara pesquisa acerca do cumprimento das normas trabalhistas nos estabelecimentos rurais. Durante a pesquisa, visitaram-se mil e vinte fazendas. A própria CNA divulgou que menos de 1% dos estabelecimentos rurais investigados respeitam as leis trabalhistas.
Já os trabalhadores que tem vínculo com a estrutura do Estado Brasileiro (União, Estados e Municípios) e distribuídos dentro dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário tem leis especificas que os regem. A normatização geral se encontra na Constituição Federal, a qual os classifica não como trabalhadores, mas sim como Servidores Públicos. Cumpre destacar, mesmo assim, que sob o manto da legalidade o Estado emprega no Brasil milhares de trabalhadores com Carteira assinada, ou seja, são os que trabalham nas chamadas empresas mistas. Na verdade essas não são mais do que empresas privadas sob controle acionário do Estado. Muitos investidores privados se associam a essas iniciativas do Estado, daí o nome Empresa Mista. De modo geral estes trabalhadores percebem salários maiores que a média de mercado e tem qualificação geralmente igual aos grandes empresas da iniciativa privada. Nesse rol citamos a título de simples exemplo a Petrobras, Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, sempre lembrando que Estados e muitos Municípios (Prefeituras) também possuem empresas mistas sob seu controle, contratando conseqüentemente trabalhadores por essa via. O Estado, por meio de seus condutores, criou ao longo do tempo, inúmeras e injustificáveis diferenças entre os servidores públicos. Duas situações básicas são nitidamente verificáveis. Enormes diferenças de salários e existindo também diferentes cargas horárias a serem cumpridas, ou seja, quanto menos ganha, maior e a jornada de trabalho. O resultado disso é que uns percebem valores inclusive acima do pago ao Presidente da Republica e a grande massa valores ínfimos. É regra nesse particular, que os Servidores da maioria das Prefeituras do Brasil tenham em média seus vencimentos limitados ao salário mínimo. Não bastassem esses anacronismos o Estado brasileiro possivelmente seja o maior empregador de mão-de-obra terceirizada, respaldando com isso a precarização do trabalho. Merece serem lembrados também os trabalhadores contratados diretamente pelo Estado – com carteira assinada - sob a denominação de “Empregado Publico”. Essa mazela 100% legal assegura ao Estado que estes trabalhadores tenham jornadas maiores com salários menores e nenhuma perspectiva de ascensão funcional no serviço público. Nesse compito estão Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Endemia. O Estado brasileiro além de altamente ineficiente, autoritário e burocrático carece diferentemente das estruturas estatais dos países desenvolvidos de uma estatocracia e de uma meritocracia. As decisões do Estado estão confiadas às políticas de governo – os cargos de direção da Republica são político partidários e não técnicos - enquanto que a condução do Estado deveria ser permanente, portanto estar em mãos de servidores públicos de carreira, o que asseguraria no mínimo o seguimento nos projetos. A maioria dos Servidores Públicos no Brasil não tem Plano de Carreira, com isso campeando as anomalias – vantagens para uns, desprezo para com a maioria - e incerteza absoluta na recomposição dos “salários” frente à inflação. O desinteresse no exercício da função é acentuado, pois não existe perspectiva de valorização funcional.

Caxias do Sul, 09 de junho de 2010.

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A princípio a penalização do trabalhador brasileiro segue alguns parâmetros gerais. Um deles é o baixo salário. Não existe uma política estatal abrangente para a questão do salário. Demagogicamente o salário mínimo recebeu reajustes pouco acima da inflação oficial no presente gestão da República, (2003/2010). Os aposentados que ganhavam acima do mínimo e que também teriam direito a recomposição ficaram fora. Os trabalhadores formais, nesse caso majoritariamente urbanos somente conseguem recompor seus salários na chamada data base, isso quando conseguem, e somente uma vez ao ano, como se a inflação não fosse diária e apurada mensalmente. Averiguasse nesse caso a subordinação das entidades oficiais (pseudo sindicais) ao Estado, por isso se omitindo da luta permanente por melhores salários e condições salubres de trabalho. Outra nefasta tradição brasileira e a concentração de renda. A maioria pouco recebe, e uma elite, de poucos, se apoderam de valores gigantescos. Em suma o Brasil apresenta um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. Outro são as condições de trabalho, em regra, também entre as piores do planeta. Acidentes do trabalho e doenças ocupacionais são infeliz rotina do mundo do trabalho. Não bastasse isso, os direitos sociais são ignorados. Milhões não têm Carteira do Trabalho assinada e com isso ficam sem perspectiva de aposentadoria. Essa situação também se estende as indenizações de caráter pecuniário. O trabalhador formal tem com base na CLT e na Constituição e outras leis laborais, alguns direitos que são transformados em um pouco de dinheiro. Um deles é o precário seguro desemprego que protege o desempregado formal por alguns meses. O trabalhador informal – sem carteira assinada - acaba ficando fora inclusive dessas migalhas. A condição do trabalhador brasileiro também é árida no quesito educação. Além da baixa qualidade da educação pública, onde se insere a miserável remuneração dos profissionais que trabalham nas escolas, a grande maioria dos trabalhadores abandona precocemente os estudos, pois tem que trabalhar. Com baixa escolaridade e sem qualificação sua ascensão social é fruto proibido. Observamse aqui inquietantes situações. Milhares de crianças em idade escolar todo ano deixam de comparecer aos bancos escolares, pois com cinco ou seis anos já trabalham, principalmente no interior. Outro dado preocupante é que milhões de crianças trabalham em paralelo a sua vida escolar. Pelo PNAD2008 são 250 mil crianças que deixam de ir a escola todo ano e 4 milhões que trabalham e estudam. Não é a toa que temos 14 milhões de analfabetos e entre 30 e 45 milhões de analfabetos funcionais. Os impostos, de tributação indireta, ou seja, tributos que atingem a todas as camadas sociais penalizam assustadoramente os excluídos do Brasil. Esses contribuem paradoxalmente com 50% de tudo o que é arrecadado com essa forma de recolhimento para com os cofres do Estado. O mesmo tanto de impostos que paga o pobre por um quilo de alimento, paga o abastado. Nessa cicatriz a inserção da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho, no Brasil, está ligada à perda do poder aquisitivo dos salários e a crescente necessidade de que a mulher trabalhe para complementar a renda familiar. Essa situação permite que parte dos empresários prefira mão-de-obra feminina. As mulheres, por necessidade de trabalhar, sujeitam-se a salários menores do que os dos homens, mesmo quando exercem função idêntica e na mesma empresa. As conseqüências da exploração desenfreada da mão-de-obra brasileira, ancorada nos baixos salários e no desemprego de milhões de trabalhadores, trás conseqüências nefastas para os mais pobres. Sobrevivem no limite da fome, da falta de moradia, não tendo recursos para cuidar de sua saúde e estão permanentemente reféns de uma saúde pública que de certo só tem regredido no atendimento. A cidadania, preconizada pela Constituição Federal, dentro dos parâmetros do Estado Democrático e de Direito é letra morta. O salário que deveria ser compatível as necessidade de uma família é primeiro quesito a ser desconsiderado. Aos trabalhadores, diante de tanta insensatez, resta continuar sua batalha. Revoltar-se, exigir, ocupar, fazer greves, não são arremedos do desespero, mas indicadores de que de todas as formas possíveis os excluídos nesse país sempre se empenharam para mudar sua dura condição. A organização é a mais importante ferramenta de que dispõe todos os explorados, pois romper com as amarras da espoliação é tarefa dos próprios trabalhadores.

Caxias do Sul, 09 de junho de 2010.

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