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Resenha: Deus, um delírio / Richard Dawkins; tradução de Fernanda Ravagnani – São Paulo : Companhia

das Letras, 2007

por Gabriela B. Munin


Estudante do curso de bacharelado e licenciatura em História, Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo

Quando o assunto é religião, muitas pessoas preferem guardar suas opiniões para si, por acharem
que o debate, na maioria das vezes, pode se tornar agressivo ou por não sustentarem argumentos
suficientes para a defesa de suas crenças. Um dos embates mais polvorosos quando tocamos neste
assunto, é a eterna discussão entre ateus e religiosos. O nono livro do biólogo e divulgador do ateísmo
Richard Dawkins, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, destrincha cada pedacinho do
pensamento religioso e utiliza de critérios científicos para explicar alguns fenômenos relacionados a
criações socioculturais, como a própria religião e a moral.
O autor aponta diversas irracionalidades cometidas por religiões em um tom de confronto,
principalmente às abraâmicas (cristianismo, judaísmo e islamismo), sugerindo que a crença destes grupos
é um dos grandes males dos tempos modernos.

O livro consta de 10 capítulos, que são divididos basicamente em duas partes. Na primeira parte,
que engloba os 4 primeiros capítulos, ele expõe argumentos para a improbabilidade da existência de Deus.
Utiliza o princípio da hipótese de Deus, explana sobre a religião einsteiniana, apresenta as debilidades dos
argumentos que tentam defender a crença num Deus de forma filosófica e científica, tentando
desmascarar diversos destes, ataca alegações de fundamentalistas religiosos que fomentam o ensino do
design inteligente e sugere hipóteses que estabelecem uma origem biológica para as crenças
sobrenaturais.

A segunda parte da obra discute as relações entre religião e moralidade. O autor utiliza como base
para o seu argumento, a sugestão de que a Bíblia é um livro repleto de sangue e comportamentos
violentos e que as religiões são encorajadoras do fanatismo, homofobia e responsável por diversas outras
influências negativas para a sociedade, condenando inclusive a prática da doutrinação religiosa para
crianças, igualando isso a uma forma de abuso psicológico. Como o restante do discurso que dá o tom ao
seu livro, Dawkins utiliza novamente de uma metodologia biológica, dessa vez para explicar a moral.
Encerrando o livro, Dawkins conclui o fenômeno de Deus com uma explicação de física quântica,
mostrando que tudo o que existe ao nosso redor é composto por 99,999...% de espaço vazio (gap) e inclui
a questão de que a religião, apesar de seus problemas, preenche este vazio. Mas, de acordo com ele, esse
“vazio” é melhor preenchido por meios não-religiosos, como a ciência e a filosofia, bens libertários que
nos fazem enxergar o que está ao nosso redor no universo.

O maior problema da obra de Richard Dawkins é o exagerado tom de confronto utilizado. O autor
chegou a utilizar a seguinte frase: “Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que
o abrirem serão ateus quando o terminarem”. Porém o resultado que ele buscava, não foi alcançado. O
autor ataca todas as religiões, acerta em alguns argumentos, mas deixa a desejar em sua ambição
filosófica. O proselitismo utilizado é tão irritante quanto livros de cientistas que dizem “provar” a
existência de Deus. Algumas de suas explicações biológicas são inaceitáveis, como por exemplo tentar
estabelecer uma origem biológica para crenças sobrenaturais e para explicar o fenômeno humano da
moral, pois tais coisas devem ser explicadas pelas ciências sociais, não pelas naturais.

Alguns dados posteriores ao lançamento do livro, mostram que o lançamento causou um


crescimento de 50% nas vendas dos livros sobre religião e espiritualidade, de 120% no número de vendas
da Bíblia e um aumento enorme de defensores do design inteligente.

Em certo ponto de sua obra, Dawkins nos diz que a verdade em si não é absoluta, e que cada um
tem sua verdade, ou cada um busca a verdade que lhe convém. Este foi o único ponto em que o autor foi
completamente feliz. A impressão é a de que se ele mesmo está de acordo com isso, não há propósito em
escrever uma obra para ir contra o pensamento religioso e atingir apenas um público de pessoas que se
encontram “em cima do muro”.