Você está na página 1de 2

COMO ASSAR UM PEIXE

Recentemente, durante um debate em um workshop de FORMAÇÃO DE LÍDERES


PARA EQUIPES DE ALTO DESEMPENHO a um grupo de uma Empresa Atacadista,
um homem de meia idade fez o primeiro comentário. Eu já o havia identificado como
um dos líderes, pois a cada vez que eu desafiava o grupo percebia que muitos
olhavam para ele a fim de ver qual seria sua reação.

- Isto que você disse é muito bonito, mas não se aplica aqui. Temos o estado da
arte em tecnologia, mas lutamos contra cronogramas, produtividade e necessidade de
resultados. Devido a última reestruturação nem todos têm a mesma experiência, o que
faz com que trabalhemos de forma árdua e com freqüência após o expediente.
Trabalhamos no limite. Aqui, não vejo possibilidade de aplicar estes novos conceitos,
minha opinião é que devemos continuar no bom e velho estilo de gerenciamento.

Imediatamente, observei um conjunto de cabeças concordando com a colocação.


Partindo de um líder, aquela afirmação era significativa e refletia uma situação de
alerta para a Empresa. Ao responder contei uma historia que ouvira de um participante
em um seminário em Minas Gerais.

Um jovem casal recebe a visita da sogra e a nora prepara um peixe que sua mãe
servia em ocasiões especiais. Mesmo a contragosto, a sogra foi obrigada a fazer
elogios, porém com uma pergunta: qual o motivo de ter servido somente a parte
central dos peixes? Eram dois bonitos pintados, mas a nora somente aproveitara o
terço central de ambos. Seu filho economizaria se tivesse preparado apenas um peixe
inteiro.

A nora explicou que assim deveria ser preparado, pois era uma receita de família,
resposta que não convenceu nem a sogra e nem seu jovem marido. Em outra
oportunidade, ainda intrigado, o marido perguntou à mãe de sua esposa a razão de
somente aproveitar a parte central do peixe e a resposta foi a mesma: assim deveria
ser preparado, pois sua mãe sempre fizera desta maneira. Resposta que também não
satisfez o genro.

Um mês depois, o jovem casal fez uma visita aos avós da esposa. Uma excelente
oportunidade para que se esclarecesse a historia de somente utilizar a parte central do
peixe naquela receita. A resposta da avó foi surpreendente e simples: "Éramos pobres
e morávamos no sítio. O peixe era farto e pescado em um rio que cortava nossa
propriedade. Tínhamos somente uma velha assadeira pequena onde não cabia um
peixe inteiro, portanto aproveitávamos somente a parte que tinha mais carne e que
coubesse na assadeira".

Muitos gestores trabalham com tecnologias, ferramentas e conhecimentos do


século XXI, mas com conceitos comportamentais do século passado. O ato de Liderar
transforma o profissional qualificado em qualificante, com importantes contribuições ao
desempenho das equipes, resultando em expressivos ganhos operacionais para a
empresa e com conseqüente aumento da eficiência e redução da pressão individual.

O líder que serve, cultiva na equipe o comprometimento e a capacidade de


aprender, introduzindo entre outras a prática do mentoring com a criação de
"multiplicadores parceiros", onde todos aprendem com todos. Através da prática do
mentoring pode-se introduzir e disseminar princípios através da organização,
caracterizar e unir uma equipe de trabalho e principalmente, fazer com que todos
pensem e executem, sem ficar muito engessados com métodos estabelecidos no
passado e que possivelmente hoje são obsoletos e redutores da eficiência e prazer no
trabalho.

O ato de raciocinar e decidir em benefício do grupo, característica do ser humano,


parece ser uma heresia do funcionário comum nos dias de hoje. De modo contrário ao
que víamos no passado, é muito importante que cada colaborador seja um
empreendedor em seu posto, que quebre paradigmas em benefício do todo e que
busque, através de seu raciocínio, melhorar cada vez mais o desempenho, seu e do
grupo.

Esta mudança de comportamento é conseguida através do mentoring que é feito


pelo líder-servo que quase sempre não ensina nada de novo, mas estimula o uso do
raciocínio e da criatividade para aprimorar desempenhos. Isto requer doação,
paciência e principalmente: sabedoria. O mentor não tem receio de compartilhar a sua
experiência, pois sabe que quanto mais eleva o nível do grupo, mais a sua liderança
se torna eficaz.

Pode parecer piegas ou utópico, mas desconheço métodos de liderança eficaz


que não passem pela constatação de que todos os membros do grupo se sintam
amados pelo seu líder. Não conheço também um grupo verdadeiramente eficiente,
onde esta troca de sentimentos não esteja presente, pois o respeito, a camaradagem,
a confiança fazem com que cada um disponibilize o que tem de melhor em benefício
de todos.

Nós que atuamos com gestão de pessoas devemos ter bem claro que as
mudanças neste século são mais rápidas que no século passado e que temos que
filtrar o excesso de informações e acompanhar estas mudanças, mas talvez em algum
momento descubramos que tudo isto é muito antigo, sempre esteve aí para ser
utilizado, porém pela nossa característica predominantemente racional, não tenhamos
tido a vontade política de perceber e usufruir.

Podemos ainda estar assando peixe grande em assadeira pequena, talvez


desprezando a melhor parte...

Cleyson Dellcorso – contato@dellcorso.com.br

Blog – www.dellcorso.blogspot.com

Publique gratuitamente este material como colaboração para seu


site, revista ou blog . Basta colocar um link para o site de
Cleyson Dellcorso – www.dellcorso.com.br