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A Estrela do Norte Iluminando até o Sul

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A Estrela do Norte Iluminando até o Sul. Um estudo sobre a União do Vegetal, de Sérgio Brissac.
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A ESTRELA DO NORTE ILUMINANDO ATÉ O SUL

U MA E TNOGRAFIA DA U NIÃO DO V EGETAL
EM UM CONTEXTO URBANO

Sérgio Góes Telles Brissac

Universidade Federal do Rio de Janeiro Museu Nacional Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

Dissertação de Mestrado

Orientador: Prof. Dr. Otávio Velho

Rio de Janeiro 1999

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A ESTRELA DO NORTE ILUMINANDO ATÉ O SUL
UMA ETNOGRAFIA DA UNIÃO DO VEGETAL EM UM CONTEXTO URBANO

Sérgio Góes Telles Brissac

Dissertação de Mestrado submetida ao corpo docente do Programa de PósGraduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.

Aprovada por:

___________________________________________________ Prof. Dr. Otávio Guilherme Cardoso Alves Velho

- Orientador

___________________________________________________ Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte

___________________________________________________ Profa Dra Regina Novaes

Rio de Janeiro 1999

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Brissac, Sérgio Góes Telles A Estrela do Norte iluminando até o Sul: uma etnografia da União do Vegetal em um contexto urbano / Sérgio Góes Telles Brissac. Rio de Janeiro: UFRJ / MN / PPGAS, 1999. IX, 148 p. il. 30 cm. Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social.

1. Antropologia.

2. Ayahuasca.

3. Religião - Brasil -

União do Vegetal. I. Título.

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A José Gabriel da Costa, Mestre e Autor da União do Vegetal

A Lyzette, minha mãe, e Ney, meu pai, por toda a força, a coragem e o amor que vêm me transmitindo

MINHA GRATIDÃO

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- Ao meu orientador Prof. Otávio Velho, por sua amizade, compreensão e estímulo, e por ter, com a sua inspiradora sensibilidade à religião, me iniciado nos caminhos da Antropologia - Aos professores Pierre Sanchis, Regina Novaes e Leila Amaral Luz, que me animaram e apoiaram por ocasião da entrada no mestrado - Ao Prof. Carlos Alberto Afonso, por sua generosidade e pelo precioso auxílio no momento da conclusão deste texto - Aos meus professores no curso de mestrado em Antropologia, Luiz Fernando Dias Duarte, Gilberto Velho, Moacir Palmeira, José Sérgio Leite Lopes, Carlos Fausto, Luis de Castro Faria e Michael Heckenberger - À CAPES, que me concedeu a bolsa de estudos para o mestrado - A Thaïs Martins Echeverria, amiga que me apresentou à União do Vegetal em Campinas e com carinho vem me acompanhando - Aos colegas no estudo das religiões ayahuasqueiras Luis Eduardo Luna, Afrânio Patrocínio de Andrade, Bia Labate, Wladimyr Sena do Araújo, Sandra Goulart, Edward MacRae e Clodomir Monteiro, Gustavo Pacheco e Benny Shanon - A Cristina Patriota de Moura, pela sua amizade e valioso apoio - Aos meus colegas de mestrado Maria Macedo Barroso, João Felipe Gonçalves, Laura Masson, , Valéria Torres da Costa e Silva, Edmundo Marcelo Pereira, Hyppolite Brice Sogbossi, Hernan Gómez, Jorge Fernando Pantaleón, José Gabriel Corrêa, Pedro Alvim Leite Lopes, Ayrton José Germano e André Luiz Correia Lourenço - Aos funcionários da Secretaria e da Biblioteca do PPGAS: Tânia Lúcia Ferreira da Silva, Aurora Fernandes, Vera Gutierrez, Adilson Moreira Fontenelle, Rosa Maria Gonçalves Pereira, Isabel Cristina de Souza Mello, Washington Rodrigues da Silva, Rita de Souza Santos Saraiva, Maria Izabel Wernesbach Moreira, Lourdes Cristina Araújo Coimbra e Carla Regina Paz de Freitas, pela atenção e disponibilidade em auxiliar - Ao P. Aloir Pacini, companheiro na Antropologia e na Companhia de Jesus, pela força e pelo estímulo na caminhada - À Companhia de Jesus, que vem me apoiando na realização deste trabalho, na pessoa do P. Francisco Ivern, Provincial que me confirmou no direcionamento para a Antropologia, e do P. José Antonio Netto de Oliveira, atual Superior da Província do Brasil Centro-Leste - Aos Padres Donizetti Tadeu Venâncio, Luiz Fernando Klein, José Luis Fuentes, Acir Miranda, Valdeli Costa, Spencer Custódio Filho e ao Ir. Antônio Marques, meus companheiros de comunidade - Aos Padres Luiz AntônioMonnerat, Walter Salles e toda a comunidade do Noviciado de Campinas, que com carinho me acolheu nos três meses do trabalho de campo - Aos Padres Henrique de Lima Vaz, Ulpiano Vázquez, João Batista Libânio e demais professores do CES-SJ pela formação filósofico-teológica que recebi - À União do Vegetal, na pessoa do Mestre José Luiz de Oliveira, Mestre da Origem e Assistente do Mestre Geral Representante, pelo apoio e amizade

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- Ao Mestre Raimundo Monteiro de Souza, que primeiramente acolheu minha proposta de estudar os discípulos da UDV, quando Mestre Geral Representante, ao Mestre Florêncio Siqueira de Carvalho, atual Mestre Geral Representante e ao Mestre Clóvis Cavalieri Carvalho, Mestre Central da 5ª Região - Ao Mestre Edison Saraiva Neves, Presidente da Diretoria Geral da UDV, e ao Mestre Raimundo Nonato Marques, ex-Mestre Geral Representante, pela confiança que em mim depositaram, autorizando esta pesquisa - A toda a irmandade do Núcleo Alto das Cordilheiras, pela generosa acolhida, pela amizade e pelo seu auxílio, fundamental para a realização deste trabalho; especialmente sou muito grato aos Mestres Spencer, Sérgio, Fernando, Mauro e Luiz Fernando; às Conselheiras Lúcia, Íris, Ilka e Zezinha; ao Conselheiro Vagner e à minha amiga Nélia - À Conselheira Lúcia Gentil pela dedicação e carinho com que acompanhou meu trabalho - A Ernesto Boccara, Spencer Pupo Nogueira, Maria Carolina Santos e Fernando Ramos, por possibilitarem a todos que lerem este trabalho uma visão da beleza de sua arte - À Conselheira Ivone Menão e ao Conselheiro Renato Palet, do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV, pelo importante auxílio; ao Mestre Márcio da Rós e equipe do escritório da Diretoria Geral, pelos dados do censo; a José Clóvis Santos e Mestre Yuugi Makiuchi, pelas fotos - A Fernando Polignano, Marco Aurélio e Maria Amélia Ramos, Marcelo Muniz e Maria Célia Furtado, Jorge e Fátima Condé, Antonio Honorio, Victor Sabbagh, Paulo Bourroul, Luis Antonio e Lacy, Bruno e Michelle Wider, Carlos Queiroz, José Luis Petruccelli, José Augusto Pádua, Myrna do Rego Monteiro, Luiz Eduardo Parreiras e Oraida de Souza, Marcelo e Márcia Cunha, Guilherme Oberlaender, José Renato Pessoa, Henrique Boechat de Lacerda, Celina Sodré e tantos amigos da União do Vegetal... - A Luiz Daré, Tereza Moreira e Nei, através de quem cheguei a conhecer a União do Vegetal, pela amizade fiel - A Maria Ferreira, Nilton Leôncio, Jandira, João, Antonieta, Arlinda, Paulo e todos os meus irmãos e irmãs da Comunidade Nossa Senhora Aparecida, na Rocinha, com quem venho celebrando a fé nestes três anos no Rio de Janeiro - À Ir. Maria de Lourdes do Sagrado Coração de Jesus, Neuza Cazula, Denair e Therezita, pelas orações - A Vera Lúcia Garcia Medeiros, Lindalva Vitor Ferreira Alves, Marli Ana Camilo, Carlos Alberto Perón e todos os funcionários da Residência João XXIII - A Helcio, Lise, Denise, Ana Lúcia, Amaral, Leopoldo, Ana Paula e todos os amigos - A Juliana, minha irmã querida, Mariza, Viô, Leonor, Carmen, Christiana e toda a minha família, pelo carinho para comigo - A Jailton Gomes de Jesus, por ser o amigo que é

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RESUMO

Esta dissertação apresenta a etnografia de um núcleo da União do Vegetal (UDV), religião brasileira fundada em 1961, na Amazônia, por José Gabriel da Costa e atualmente disseminada pelo território brasileiro. A UDV tem como elemento central de seu ritual a ingestão de um chá denominado Hoasca ou Vegetal, preparado com duas plantas: o cipó mariri (Banisteriopsis caapi) e o arbusto chacrona (Psychotria viridis). Esse chá, de propriedades psicoativas, é utilizado amplamente na Amazônia ocidental, sendo também denominado ayahuasca, yajé e Daime. A pesquisa de campo foi realizada em um contexto urbano, estudando-se, em 1998, o Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, São Paulo. Através dessa etnografia, buscase captar a estrutura matricial da UDV, os seus aspectos constitutivos. Estes são identificados segundo um esquema triádico: o modelo organizacional, a narrativa histórica e a experiência simbólica. O primeiro capítulo apresenta a estrutura institucional do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal; o segundo traça o itinerário histórico da sua formação, a partir das narrativas dos participantes; e o terceiro aborda a vivência dos discípulos urbanos da UDV, apontando para a originalidade da experiência religiosa com o chá Hoasca, que plasma a matriz da União do Vegetal.

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ABSTRACT

This dissertation presents the ethnography of a nucleus of the União do Vegetal (UDV), a Brazilian religion founded in 1961 in the Amazon region by José Gabriel da Costa and now spread throughout the Brazilian territory. The UDV has as the central element of its ritual the ingestion of a tea denominated Hoasca or Vegetal, made from two plants: the liana mariri (Banisteriopsis caapi) and the shrub chacrona (Psychotria viridis). This tea, with psychoactive properties, is widely utilized in the western Amazon region, and it is also called ayahuasca, yajé and Daime. The field work involved was carried out within an urban context in Campinas, State of São Paulo, Brazil, in 1998, the Núcleo Alto das Cordilheiras being the object of this study. By this ethnography, it is sought to grasp the matrix structure of the UDV, its constitutive aspects. These are identified according to a triadic scheme: the organizational model, the historic narrative and the symbolic experience. The first chapter deals with the institutional structure of the Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (Beneficent Spiritualist Center União do Vegetal); the second traces the historic itinerary of its formation, originating from the narratives of its participants; and the third exposes the experience of the urban disciples of the UDV, thereby pointing to the originality of the religious experience with the Hoasca tea which moulds the matrix of the UDV.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... p. 1

1. GEOMETRIA DA ESTRELA
1.1. 1.2. 1.3. ESTRUTURA INSTITUCIONAL DA UNIÃO DO VEGETAL ........................p. 8 O NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS EM CAMPINAS .........................p. 23 OS DISCÍPULOS DO ALTO DAS CORDILHEIRAS ......................................p. 37

2. A ESTRELA DO NORTE
2.1. 2.2. 2.3. A VIDA DE MESTRE GABRIEL ...................................................................p. 50 OS PRIMEIROS ANOS DA UNIÃO DO VEGETAL EM PORTO VELHO ...p. 64 A PRESENÇA DA UDV EM SÃO PAULO A PARTIR DOS ANOS 70 ........p. 80

3. A ESTRELA ILUMINANDO
3.1. 3.2. 3.3. ALGUMAS HISTÓRIAS DE VIDA ..................................................................p. 87 ALCANÇAR O ALTO DAS CORDILHEIRAS ..............................................p. 100 O ENGLOBAMENTO NA FORÇA DA BURRACHEIRA ...............................p.131

CONCLUSÃO: O ITINERÁRIO DA DISSERTAÇÃO ..............................................p.139 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ p.141 ANEXOS.................................................................................................................. p. 149

INTRODUÇÃO

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“Isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!” João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

As absolutas estrelas são consideradas inefáveis pelo jagunço Riobaldo Tatarana. No entanto, ele teima em delas falar. Distendendo ao máximo as virtualidades do verbo, ele performatiza a sua busca de ultrapassagem da inefabilidade. E assim como ele, também os poetas cantam, os místicos balbuciam, os profetas gritam, movidos por essa aragem do sagrado. E não somente esses, mas também aqueles que desposaram o lógos apodeiktikós a razão demonstrativa - teimam em falar daquilo que cabe no brilho da noite. Dentre esses últimos eu me incluo, e nesta dissertação buscarei falar da Estrela do Norte, a partir do modo como as retinas do Sul captam a luz que ela irradia. As raízes desta dissertação remontam a 1992. Naquele ano, no dia 4 de julho, tive meu primeiro contato com o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV), participando de uma sessão em Campinas, Estado de São Paulo. Trinta e um anos antes, em 1961, a União do Vegetal (UDV) havia sido fundada na floresta amazônica, num seringal boliviano próximo à fronteira com o Brasil, por José Gabriel da Costa, chamado por seus discípulos de Mestre Gabriel. Articulando elementos do catolicismo popular, do xamanismo amazônico, do espiritismo kardecista e dos cultos afro-brasileiros, a União do Vegetal tem como centro de seu ritual a ingestão de um chá denominado Hoasca ou Vegetal, preparado com duas espécies vegetais: o cipó mariri (Banisteriopsis caapi) e o arbusto chacrona (Psychotria viridis). Esse chá, de propriedades psicoativas, é utilizado amplamente na Amazônia ocidental, por populações indígenas ou não, em áreas do Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, recebendo diversos nomes, entre os quais, ayahuasca, yajé, Daime. Além da União do Vegetal, há no Brasil várias instituições religiosas que fazem uso ritual da mesma bebida. Essas outras correntes podem ser classificadas esquematicamente em duas vertentes: a do Santo Daime e a da Barquinha. Na

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UDV, o uso do chá é “para efeito de concentração mental”1, segundo o seu Regimento Interno. A primeira sessão da qual participei em Campinas foi com o grupo que posteriormente se tornou o Núcleo Alto das Cordilheiras. Fui convidado por uma amiga, que no momento fazia mestrado em Antropologia Social na Unicamp. O grupo recebeu-me gentilmente, e me senti bem acolhido, apresentando-me como religioso católico, membro da Companhia de Jesus. A sessão foi dirigida por uma mulher, a conselheira esposa do então Mestre Responsável por aquela unidade da União do Vegetal. O grupo havia recentemente se desmembrado do primeiro núcleo de Campinas, o Lupunamanta. E tinham sido precisamente as pessoas mais antigas na União do Vegetal que decidiram, diante do grande número de pessoas do Lupunamanta, se reunir para iniciar uma nova distribuição de Vegetal. Portanto, deparei-me com um grupo maduro, perfazendo em torno de 30 pessoas, formado em sua maior parte por gente que já bebia o chá Hoasca há alguns anos. A sessão foi brilhante e nela decidi prosseguir minha observação em núcleos do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, ao invés de no pequeno grupo que havia visitado anteriormente. Alguns meses antes, no dia 7 de março de 1992, conheci pela primeira vez um grupo usuário do chá Hoasca. Nesse tempo, morava na Cidade de São Paulo e trabalhava como professor em um colégio. Fizera graduação em Filosofia e pensava em um mestrado futuro em Antropologia Social, possivelmente acerca das religiões afro-brasileiras. Assim, tinha querido conhecer aquele grupo, de aproximadamente sete pessoas, que bebia o chá sem uma estrutura institucional, na medida em que haviam se distanciado de uma dissidência da União do Vegetal2. Tendo participado de algumas sessões com essas pessoas, interessei-me em conhecer o grupo original, o CEBUDV, o que logo veio a acontecer naquela noite de 4 de julho do mesmo ano. Sentia-me vivenciando uma experiência de diálogo inter-religioso, partilhando com membros de uma crença diversa da minha uma busca espiritual de auto-conhecimento e abertura para o transcendente, vivenciada por eles com a mediação de um veículo considerado propiciador de uma expansão da consciência.
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Artigo 1o , Parágrafo Único, do Capítulo I do Regimento Interno do CEBUDV. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 92). 2 Vide no anexo 1 o quadro das dissidências da UDV, com informações que obtive sobre as mesmas.

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Em 1992, fui duas vezes na Distribuição da UDV de Campinas e depois freqüentei o Núcleo Samaúma de São Paulo, o primeiro que foi fundado na Região Sudeste, em 1972. Comecei a participar de cada sessão quinzenal da UDV. Também conheci o Santo Daime, no Rio de Janeiro, e uma dissidência da UDV em São Paulo. Em 1993, mudei-me para Belo Horizonte e dei seqüência ao contato com a União do Vegetal, no Núcleo Rei Salomão. Em 1996, transferi-me para o Rio de Janeiro, para iniciar o Mestrado em Antropologia Social, e fui ordenado padre da Igreja Católica. Mantive o contato com a UDV, freqüentando as sessões do Núcleo Pupuramanta, em Vargem Pequena, Jacarepaguá. Enquanto antropólogo, dava continuidade à observação e à reflexão acerca da UDV e enquanto ministro da Igreja Católica, buscava vivenciar uma atitude de respeito diante da alteridade e de empenho no diálogo inter-religioso. Em 16 de agosto de 1998, voltei a Campinas, fazendo-me presente em uma sessão no Núcleo Alto das Cordilheiras, formado por aquelas pessoas que eu encontrara em 1992. Voltava como mestrando em Antropologia Social pelo PPGAS do Museu Nacional, para iniciar meu trabalho de campo. Ou melhor, este havia começado seis anos antes, e depois desse período de tempo eu voltava àquele grupo, com o objetivo de realizar a fase intensiva da experiência etnográfica. Este breve recorrido de minha trajetória é apenas para propiciar ao leitor alguma noção das implicações deste percurso na construção da dissertação. Observo que a minha condição específica, enquanto ministro ordenado de outra religião, evidentemente teve o seu impacto neste trabalho. A primeira reação das pessoas - inclusive dos discípulos da UDV - costumava ser de perplexidade: “Você é padre? Estudando a União do Vegetal?” Desse espanto inicial, ia-se às vezes para uma atitude de desconfiança: “Quem será esse aí? Um espião da Igreja?” Igualmente em alguns de meus companheiros jesuítas pude constatar uma certa estranheza diante desse tema “insólito”. Felizmente, com a grande maioria das pessoas da União do Vegetal com quem mantive contato essas fases foram superadas com o estabelecimento de uma relação de mútuo conhecimento e confiança. E com muitas pessoas essa relação intensificou-se, na constituição de sólidos e verdadeiros laços de amizade. Foram-me necessárias paciência e

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determinação para ir ultrapassando essas etapas. E ao longo do tempo vivi a gratificante experiência de ser acolhido, recebendo apoio, confiança e afeição de um significativo número de pessoas, em diversos núcleos da UDV. Assim, se no início minha pertença a uma ordem religiosa da Igreja Católica parecia quase inviabilizar uma pesquisa antropológica na UDV, posteriormente, especialmente no trabalho de campo no Núcleo Alto das Cordilheiras, essa condição foi algo que até mesmo me auxiliou no relacionamento com os discípulos da União. Desse modo, meu lugar social de antropólogo-padre-amigo propiciou-me uma mescla de proximidade e distanciamento fecunda para a minha pesquisa e reflexão, as quais reconheço, desde já, situadas. Nesta dissertação limitar-me-ei ao estudo do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, renunciando a qualquer intento comparativo com as demais religiões usuárias da mesma bebida psicoativa. Isto não somente por carecer de uma experiência etnográfica com as comunidades do Santo Daime ou da Barquinha, mas também por considerar que a União do Vegetal constitui um campo com uma autonomia e relevância específicas. O programa desta dissertação é apresentar a estrutura matricial da UDV, através da etnografia de um de seus núcleos, situado em um contexto urbano. O Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, cidade com aproximadamente 900 mil habitantes3, foi escolhido como o lugar para o trabalho de campo desta pesquisa. Não que ele pudesse ser considerado como adequado para uma “amostragem representativa” da UDV no Brasil, nem mesmo da UDV na Região Sudeste. Mas, tendo em vista o perfil de seus participantes, é possível considerá-lo como emblemático de um núcleo da União do Vegetal em um contexto urbano sob o impacto da modernidade. Ora, constata-se a tendência de que essa estrutura matricial vem se reproduzindo cada vez mais nas grandes cidades brasileiras. Assim, a escolha desse local apresenta-se como procedente não só em termos de compreensão do momento presente da UDV no Brasil, mas também num enfoque prospectivo. Além do trabalho de campo nesse núcleo, desde 1992 tive a oportunidade de conhecer quinze outras unidades do CEBUDV, situadas principalmente em áreas urbanas da Região Sudeste4. A observação desses núcleos me foi valiosa para que eu pudesse
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Segundo o IBGE, Campinas contava em 1996 com 908.906 habitantes. Dados da contagem populacional de 1996. Disponível na INTERNET via http://www.ibge.org/informacoes/estat1.htm. Arquivo consultado em 1999.
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Vide, no anexo 4, a lista das unidades do CEBUDV já visitadas por mim.

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discernir melhor que aspectos do Núcleo Alto das Cordilheiras deviam ser considerados como peculiaridades suas e quais poderiam ser vistos como indicativos de uma tendência mais ampla da UDV em contexto urbano. Também foi de suma importância para esta dissertação o acesso a fontes históricas orais diretas e indiretas, através de entrevistas de mestres que conviveram com o Mestre Gabriel e da pesquisa nos arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV, em sua Sede Geral, em Brasília. O que entendo aqui por estrutura matricial? Trata-se dos aspectos constitutivos da União do Vegetal, que podem ser identificados segundo um esquema triádico: o modelo organizacional, a narrativa histórica e a experiência simbólica. O objetivo não é fazer um mapeamento completo da organização matricial da UDV, mas colocar a ênfase sobre estes aspectos: institucional, histórico e simbólico, reconhecendo, todavia, que a matriz é mais vasta do que esses três aspectos. É importante considerar que o aspecto doutrinário é um elemento constitutivo essencial em toda a matriz de uma tradição religiosa. No início de minha aproximação da União do Vegetal, minha intenção era estudar sua cosmologia e metafísica, a partir de sua narrativa doutrinária e de suas formulações no ritual. Mas uma dimensão emblemática da UDV é que a partilha da doutrina é parte da própria economia simbólica desta religião, em particular a proibição da divulgação desses princípios fora da comunidade ritual. Portanto, o aspecto doutrinário não é referido neste trabalho por razões de uma ética etnográfica, segundo o modo de minha experiência de contato com a UDV. Limito-me aqui a compendiar as principais informações acerca da doutrina, publicadas pelo próprio CEBUDV:
“A União do Vegetal professa os fundamentos do Cristianismo, resgatando-os em sua pureza e integridade originais, livres das distorções que lhes imprimiu, ao longo dos séculos, a mão humana. [...] A conseqüência mais grave desse fenômeno [fim da transmissão oral da doutrina] - um subproduto da institucionalização do Cristianismo foi o desvio doutrinário, que resultou na exclusão de pelo menos uma Verdade de Fé da doutrina de Jesus Cristo, fundamental para a perfeita compreensão do conceito de Justiça Divina: a reencarnação. [...] A doutrina da União do Vegetal é cristã porque sustenta que Jesus Cristo, Filho de Deus, é a expressão da Divindade e Sua Palavra aponta o caminho da Salvação para a humanidade. A União do Vegetal crê na Virgem Maria, Nossa Senhora Imaculada, mãe de Jesus. [...] A União do Vegetal considera o

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chá Hoasca uma dádiva de Deus, um instrumento para acelerar a caminhada evolutiva do homem, devolvendo espiritualidade a uma civilização inebriada pela lógica cientificista. Mesmo assim, não vê o chá como um fim em si mesmo, mas como um veículo para uma caminhada que exige sacrifícios e renúncias e cuja base é a doutrina de fundamentação cristã, aprofundada pelos ensinamentos transmitidos por Mestre Gabriel. [...] Trata-se de religião que já existira na Terra, muitos séculos antes de Cristo. Sua origem data do século X A.C., no reinado de Salomão, rei de Israel. Por razões diretamente ligadas ao baixo grau de evolução espiritual da humanidade na época, a União do Vegetal desapareceria por longo período. Ressurge entre os séculos V e VI, no Peru, na civilização Inca (cujo advento e apogeu a historiografia oficial registra apenas entre os séculos XIII e XIV).” (CENTRO

ESPÍRITA

BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1989, p. 22.23.26.34.35). No aspecto estrutural, abordarei não apenas os elementos característicos da instituição denominada Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, mas também indicarei certos traços estruturais da experiência com a Hoasca. A questão da história, nesta dissertação, necessita de uma explicação. Não se trata de uma historiografia da UDV, mas de uma reconstrução histórica a partir das próprias narrativas dos participantes. Esta narrativa “histórica” é, portanto, parte do processo da representação nativa. Mas, ao mesmo tempo não se trata da narrativa fundante da União do Vegetal, a História da Hoasca, e das demais Histórias do corpus doutrinário, na medida em que estas pertencem ao plano do domínio reservado do discurso, aquilo que indiquei como um limite desta abordagem. Assim, o termo narrativa histórica indica aqui a história formativa da UDV, seu processo de formação e disseminação entre os anos 60 e 90, tal como é descrito por seus protagonistas. Finalmente, o problema da experiência simbólica a partir do uso ritual do chá Hoasca, será descrito a partir de histórias de vida de alguns membros e de categorias fundamentais do discurso nativo, que apontarão para o que designei neste trabalho como “o englobamento na força da burracheira”. “A Estrela do Norte iluminando até o Sul” é um título inspirado na Chamada Estrela do Norte, de Mestre Gabriel. A Estrela do Norte evoca a própria União do Vegetal, que seus discípulos reconhecem como uma realidade que está “no alto” e vem iluminando os seres humanos que se encontram “aqui embaixo”. Assim, essa estrela, cujos raios, originários do céu, alcançam e clareiam a terra, pareceu-me bela metáfora para falar de uma

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matriz que é princípio de constituição e reprodução, um eidos - sempre corporificado - que se concretiza em contextos locais específicos. Além disso, o binômio norte-sul pode trazer à mente do leitor a origem amazônica da UDV e a sua disseminação nas terras urbanas do “sul” brasileiro, nas quais o Núcleo Alto das Cordilheiras se situa. Mesmo que seja para, em seguida, superar essa antinomia e compreender que, desde o início, a dimensão urbana está presente no “norte”, e o “norte” na vivência urbana dos discípulos do “sul”, numa interação dialética. Ao longo dos sete anos de meu contato com a UDV, este foi o trabalho que resultou de um comprometimento entre pesquisa e ética etnográfica. Desta forma, foram os aspectos da organização institucional, a importância da narrativa histórica como processo de autorepresentação fundacional e o acesso à experiência simbólica dos participantes que determinaram o percurso etnográfico desta dissertação, na busca de um delineamento da matriz da “Estrela do Norte”.

4. A GEOMETRIA DA ESTRELA

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4.1.

A ESTRUTURA INSTITUCIONAL DA UNIÃO DO VEGETAL
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Fernando Pessoa, Mensagem

Certa vez, encontrei no mural de um núcleo da UDV na Cidade de São Paulo, o São João Batista, este verso de Fernando Pessoa que escolhi como epígrafe. O mural apresentava as atividades dos membros do núcleo na construção de seu templo definitivo. O verso de Mensagem servia de mote e estímulo para o comprometimento das pessoas com aquela obra, que eles apontavam como querida por Deus e sonhada pelo homem. E mais do que a obra de tijolos e cimento daquele templo, percebo que há entre a maioria dos discípulos da UDV o sentimento de participarem de uma obra mais ampla: a implantação e solidificação no Brasil e, na seqüência, pelo mundo afora, de uma instituição denominada Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Portanto, ainda que o objeto central desta dissertação seja a vivência dos participantes urbanos da União do Vegetal, considero necessário iniciar situando o leitor com alguns dados acerca da instituição à qual tais participantes aderem, contribuindo para sua continuidade e expansão no Brasil urbano. Assim, neste capítulo, com um corte sincrônico, brevemente abordarei como que a “geometria” da estrela, as linhas básicas da estrutura dentro da qual se insere a agência dos indivíduos que observei. Os núcleos e sua organização A UDV organiza-se, no nível local, em núcleos. O núcleo é o lugar onde se reúnem quinzenalmente os participantes, designados de sócios, para beberem o chá Hoasca dentro de um ritual, denominado sessão. Quando uma unidade local é iniciada, primeiramente é chamada de distribuição autorizada, depois de pré-núcleo e só posteriormente, quando adquire uma estrutura material mais sólida e um quadro de participantes na hierarquia mais amplo, é que atinge o nível de núcleo. O início de uma distribuição autorizada costuma contar com por volta de 30 participantes. Já em um pré-núcleo o número de sócios é da ordem de grandeza de 50. E um núcleo, por sua vez, pode ter desde uns 70 até por volta de 200 participantes. Porém, é comum que, ao alcançar o patamar de 150 sócios, o núcleo já

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comece um processo de segmentação, pelo qual algumas pessoas se dispõem a sair do núcleo e principiar uma distribuição autorizada em outro local da mesma cidade5. No aspecto “espiritual”, o núcleo é dirigido, por um Mestre Representante. Esta função é assim nomeada porque aquele que a ocupa representa o Mestre Gabriel, fundador da UDV. O Representante integra o Quadro de Mestres (QM), o conjunto daqueles que têm a função de comunicar a doutrina da União do Vegetal, designados com o nome de maior poder simbólico na UDV: Mestre. Dentre os Mestres é feito um rodízio a cada dois meses, para que um deles ocupe o lugar de Mestre Assistente, responsável por assistir o Mestre Representante e os discípulos e conservar a disciplina durante o ritual. Até o presente, só há uma mulher no Quadro de Mestres, Raimunda Ferreira da Costa, a Mestre Pequenina, esposa de José Gabriel da Costa, que foi convocada por ele ao QM. Ainda que não haja uma lei escrita da UDV vedando esse lugar às mulheres, muitos (e muitas) consideram que somente os homens podem chegar a ser mestres. Depois do Quadro de Mestres, há na hierarquia o Corpo do Conselho (CDC), formado pelos Conselheiros e Conselheiras, auxiliares dos Mestres, junto com os quais formam a Administração do núcleo. Em seguida, há o Corpo Instrutivo (CI), formado por aqueles discípulos que já freqüentam a UDV há um certo tempo e têm um compromisso de participação maior nas atividades, tendo sido convocados pelo Mestre-Representante para assistir as sessões instrutivas, vedadas aos demais sócios, durante as quais são transmitidos os ensinamentos restritos da União do Vegetal. Por fim, há o Quadro de Sócios (QS), formado por todos os discípulos que se associam ao CEBUDV. Essas “classes de discípulos” podem ser compreendidas de dois modos: num sentido estrito, referindo-se apenas ao segmento que designam, ou num sentido abrangente, incluindo também os segmentos superiores na hierarquia. Assim, num sentido estrito, os discípulos do Quadro de Sócios são aqueles sócios que não são do CI, nem do CDC, nem do QM. Já segundo um sentido abrangente, até mesmo os mestres fazem parte do QS6. Este
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Recentemente, houve uma mudança das diretrizes da Diretoria Geral acerca desse processo. O procedimento mais comum agora tem sido de manter o novo grupo reunido por um tempo no núcleo original. Somente quando esse grupo se torna mais numeroso e já tem adquirido um terreno para sede definitiva, é que ele sai , formando um pré-núcleo, sem passar pela fase de distribuição-autorizada. 6 De acordo com o Estatuto da UDV, “o quadro de filiados do Centro, entre fundadores e efetivos, compreende três classes de sócios: Mestres, Conselheiros e Discípulos”. Artigo 39 do Estatuto. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 86). Para mais informações a respeito da estrutura hierárquica da UDV, consultar: GENTIL, Lucia Regina Brocanello e GENTIL, Henrique Salles. O

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duplo sentido pode ser expresso num diagrama de círculos concêntricos, no qual as cores distintas indicam o sentido estrito e o desenho dos círculos, os maiores englobando os menores, indicam o sentido abrangente:

QUADRO DE MESTRES CORPO DO CONSELHO

CORPO INSTRUTIVO

QUADRO DE SÓCIOS

No “plano material”, o núcleo está sob a direção de um presidente, também mestre, que encabeça uma diretoria (presidente, vice-presidente, 1o e 2o secretários, 1o e 2o tesoureiros, orador oficial), eleita por todos os sócios para um mandato de dois anos. À diretoria cabe, entre outras funções, coordenar as atividades necessárias para a estruturação material do núcleo, tais como: obras de construção do templo, casa de preparo do Vegetal, cantina, banheiros, berçário; plantio de mariri e chacrona; eventos para a arrecadação de fundos para as obras; organização do pagamento da mensalidade dos sócios7. Há ainda a

uso de psicoativos em um contexto religioso: a União do Vegetal. In: LABATE, Beatriz, ARAÚJO, Wladimyr Sena, no prelo. 7 O valor médio da mensalidade, por todo o Brasil, é de 10 % do salário mínimo. Mas não há necessariamente o mesmo valor para todos os núcleos, podendo haver algumas variações, de acordo com as necessidades e condições do grupo. No Núcleo Alto das Cordilheiras o valor atual da mensalidade é de R$ 15,00. Há também o Fundo de Participação, que se remete mensalmente para a Sede Geral, atualmente no valor de R$ 5,00 por pessoa. Além disso, há a Taxa de Preparo, na ocasião em que se faz preparo (a cada 4 meses aproximadamente). O valor é bem variável, para cobrir os gastos de transporte do mariri e da chacrona e preparo do chá. Quanto a essas três taxas, importa observar que nos casos em que o sócio não pode pagar o valor completo, é possível a ele falar com os responsáveis e só pagar o que estiver ao seu alcance.

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função da Ogan8, mulher responsável por coordenar a arrumação do templo e sua limpeza, assim como o que se refere à alimentação. Essa função é ocupada pelas Conselheiras, em rodízio com duração de dois meses. O nome desta função é uma reminescência do tempo em que Mestre Gabriel participava de cultos afro-brasileiros, nos quais, entre os ogãs, auxiliares de confiança do chefe do terreiro, há aqueles que têm a responsabilidade de zelar pela ordem, limpeza e conservação do terreiro.

A Sede Geral e os Departamentos no nível nacional Até 1982, a Sede Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal localizavase na cidade de Porto Velho, Rondônia. Naquele ano, houve a transferência da Sede Geral para Brasília, Distrito Federal. Na Sede Geral fica o Mestre Geral Representante, autoridade máxima do CEBUDV. Ele é eleito para um mandato de três anos pelo Conselho de Administração, formado pelos mestres representantes de todos os núcleos, os mestres da origem (aqueles que receberam do Mestre Gabriel a estrela de mestre) e mais alguns mestres da Sede Geral, reunidos em sessão. No seu “aspecto material”, o CEBUDV é administrado por uma Diretoria Geral, eleita para um mandato de três anos pelo mesmo Conselho de Administração. A Diretoria Geral tem seus trabalhos dirigidos por seu Presidente, ao qual “compete representar a sociedade”9. Há, no nível nacional, departamentos que cuidam de áreas específicas: o Departamento Jurídico, o Departamento de Memória e Documentação (DMD), o Departamento Médico-Científico (DEMEC) e outros. O DMD foi chamado, a princípio, de Centro de Memória e Documentação e “é responsável pela memória institucional da UDV, coleta e registra o que diz respeito às suas origens e à história do Mestre Gabriel” (GENTIL, GENTIL, no prelo). Por sua vez, o DEMEC foi fundado com o nome de Centro de Estudos Médicos (CEM) e “dedica-se a assessorar a Administração Geral nos assuntos referentes à saúde dos associados em todos os seus aspectos e desenvolve pesquisas biopsicofarmacológicas em parceria com instituições científicas nacionais e internacionais.” (Id.). Em novembro de 1995, o então CEM realizou a Conferência Internacional de Estudos

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Palavra grafada com an no Boletim da Consciência em Organização, 7ª Parte. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 67). 9 Estatuto do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Artigo 11. (Id., p. 81).

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da Hoasca, no Hotel Glória, na Cidade do Rio de Janeiro. Atividade emblemática do esforço do CEBUDV em se estruturar institucionalmente e em conquistar credibilidade diante do Estado, da opinião pública e da comunidade científica, a Conferência teve a participação de um número significativo de pesquisadores de instituições acadêmicas nacionais e do exterior. Vinculada à UDV, existe a Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico (ANEDE), ONG com objetivo de uma atuação ambientalista, que recebeu a doação de uma ONG norte-americana de um seringal de 8.025 hectares no Estado do Acre, o Seringal Novo Encanto. Além dos projetos de desenvolvimento sustentável no seringal, a ANEDE tem monitores e sócios em cada unidade da UDV, os quais tem realizado iniciativas de conscientização ecológica no nível local. O processo de legalização do uso ritual da Hoasca Em 1985, a Divisão de Medicamentos do Ministério da Saúde (DIMED) incluiu o Banisteriopsis caapi em sua lista de substâncias proibidas. A direção do CEBUDV dirigiuse à Polícia Federal, para informá-la da interrupção do uso ritual da Hoasca em acatamento à determinação do DIMED. Também apresentou ao Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN) uma solicitação de exame da questão. O Dr. Domingos Bernardo Gialuisi da Silva Sá, jurista conselheiro do CONFEN, foi designado presidente de um Grupo de Trabalho (GT) de conselheiros do referido órgão para estudo e elaboração de um parecer10. Os integrantes do GT realizaram visitas às comunidades usuárias do chá, em Rio Branco, Acre: o Alto Santo, comunidade originária do Daime, a Colônia Cinco Mil da vertente CEFLURIS do Daime, e o Núcleo do CEBUDV. Também foram visitados a comunidade Céu do Mar, no Rio de Janeiro, e o Seringal Céu do Mapiá, no Amazonas, ambos do CEFLURIS. Finalmente, o GT esteve no Núcleo Pupuramanta, do CEBUDV, no Rio de Janeiro. Na conclusão dos trabalhos, em 1986, o CONFEN deliberou que o Banisteriopsis caapi fosse excluído da llista de produtos proscritos da DIMED, na medida em que, como afirma o Dr. Domingos Bernardo de Sá,
“não pôde o Grupo de Trabalho apurar um único registro, objetivamente comprovado, que levasse à demonstração inequívoca de prejuízos sociais causados, especificamente, pelo uso até então feito da ayahuasca”. (SÁ, Domingos Bernardo Gialuisi da Silva

Ayahuasca, a consciência da expansão 1996, p. 15).
O Dr. Domingos Bernardo Gialuisi da Silva Sá narrou as atividades do GT no artigo inédito Ayahuasca, a consciência da expansão, que me foi gentilmente cedido pelo autor.
10

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No entanto, esse parecer tinha ainda um caráter provisório, até que fossem completados os estudos dos “múltiplos aspectos envolvidos no uso ritual de substâncias derivadas de espécies vegetais, por comunidades religiosas ou indígenas, tais como os sociológicos, antropológicos, químicos, médicos e da saúde, em geral.”11 Assim, o mesmo jurista continuou presidindo o GT que em 1992 emitiu o parecer final sobre a questão da legalização do uso ritual da ayahuasca, parecer que foi aprovado por unanimidade pelo CONFEN, determinando que
“a ayahuasca, cujos principais nomes brasileiros são “Santo Daime” e “Vegetal”, e as espécies vegetais que a integram, o “Banisteriopsis Caapi”, vulgarmente chamado de cipó, jagube ou mariri e a “Psychotria Viridis”, conhecida como folha, rainha ou chacrona, devem permanecer excluídos das listas do DIMED ou do órgão que tenha a responsabilidade de cumprir o que determina o art. 36 da Lei 6.368, de 21/10/1976, atendida, assim, a análise multidisciplinar constante no Relatório Final de setembro de 1987 e do presente parecer.”12

Ao fundamentar esta decisão, o Dr. Sá aponta que:
“Há mais de seis anos o uso da ayahuasca é legítimo no Brasil, desde a interdição de 1985, suspensa em 1986, e não se tem notícia de um único caso, cientificamente comprovado, de problemas mentais efetivamente causados pelo referido uso. Tampouco há referência a abuso ou qualquer outro comportamento perturbador da ordem social.”

E chega a relativizar e questionar o aplicação do termo “alucinógeno” à ayahuasca:
“há, porém, conceitos intocados, mas não intocáveis que, de fato, constituem-se, muito mais, em preconceitos, visto que, tantas vezes, são fruto de idéias simplesmente herdadas e aceitas, sem jamais terem sido submetidas a qualquer análise crítica. Um deles é o que se refere a alucinógeno e alucinação. Ao se definir, por exemplo, que alucinação é percepção sem objeto, penetra-se em campo conceitual de extrema dificuldade.”

Assim, depois de citar Mircea Eliade, que indica a falibilidade dos conceitos para expressar as experiências extáticas, transcendentes ou metafísicas, ele conclui que é
“difícil o exame desapaixonado da questão, considerada a carga emocional que envolve o termo alucinação, cujo verdadeiro significado é, praticamente, impossível de traduzir conceptualmente.”
11 12

Resolução n. 6 do CONFEN, de 4 de fevereiro de 1986, publicada no D.O.U. de 5 de fevereiro de 1986. Parecer final do GT do CONFEN, presidido por Domingos Bernardo de Sá, de 2 de junho de 1992.

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O efeito do chá Hoasca na fisiologia humana O chá Hoasca, preparado com o cipó Banisteriopsis caapi e o arbusto Psychotria viridis, tem como princípios ativos os alcalóides derivados beta-carbolínicos da harmina, tetrahidroarmina e harmalina, provenientes do Banisteriopsis, e a N,N-dimetiltriptamina (DMT), da Psychotria. A atuação dessas substâncias no sistema nervoso central do ser humano é descrita, de modo bem acessível a leigos, por Dennis McKenna, que inicia esclarecendo que usa o termo “alucinógeno” com “o objetivo de obedecer à nomenclatura científica padronizada”, que o utiliza para referir-se a uma “substância que quando chega ao sistema nervoso humano produz alterações perceptivas e/ou do estado de consciência”. Ele inicia apontando a atuação da DMT:
“É o componente principal quanto aos efeitos alucinógenos do chá. É inativo quando usado oralmente, pois é rapidamente degradado por uma enzima presente em quase todos os tecidos, principalmente no fígado - a monoaminoxidase (MAO). Essa degradação é que causa a sua inativação. A ação da DMT é explicada pela semelhança estrutural que mantém com a serotonina, importante neurotransmissor do sistema nervoso central.” (MCKENNA, 1991, p. 15)

Na seqüência, é descrita a ação das beta-carbolinas provenientes do Banisteriopsis:
“O outro grupo de alcalóides é o das Beta-Carbolinas, das quais encontramos, no chá, a Harmina, a Harmalina e a Tetrahidroharmina, como componentes principais. Sua ação no sistema nervoso se verifica somente em dosagens muitas vezes mais altas do que as encontradas normalmente na Hoasca. Sua ação principal, porém, é a de anular as monoaminoxidases (MAO) do organismo. São encontradas principalmente no Mariri.” (Id.)

Assim, a interação das beta-carbolinas e da DMT é o que produz a atuação da Hoasca no organismo humano:
“Pode-se ver que a união desses dois vegetais num mesmo chá representa uma solução bem inteligente, pois possibilita sua ação no sistema nervoso mesmo quando usada por via oral. As Beta-Carbolinas ocupam-se das enzimas, abrindo espaço à ação da DMT. Aos poucos, os tecidos vão fabricando mais monoaminoxidases (MAO) e, ao termo de algumas horas, já não se sentem os efeitos do chá, pela degradação que aos poucos é feita da DMT”. (Id.)

Na Conferência Internacional de Estudos da Hoasca, realizada em 1995 no Rio de Janeiro, foram apresentados os resultados de uma pesquisa internacional articulada pelo

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então Centro de Estudos Médicos da UDV, com a participação de nove universidades e instituições de pesquisa do Brasil, Estados Unidos e Finlândia. A pesquisa, Farmacologia Humana da Hoasca, foi realizada pela Escola Paulista de Medicina, Unicamp, UERJ, Universidade Federal do Amazonas e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, do Brasil, pelas Universidades da Califórnia, do Novo México e de Miami, dos Estados Unidos e pela Universidade de Kuopio, da Finlândia. O projeto era constituído de cinco partes: botânica e fitoquímica, clínica, psiquiatria, avaliação de usuário por longo período e estudos em animais. Em Manaus foi feita a fase de campo da pesquisa, com 15 membros do Núcleo Caupuri, que bebiam o chá há pelo menos 10 anos, e outros 15 não usuários da Hoasca, como grupo de controle. Com esses 30 voluntários foram realizados extensos exames clínicos, laboratoriais e aplicação de questionários, segundo os padrões científicos internacionais. Houve também monitoramento clínico dos 15 usuários durante o período de efeito da Hoasca. O resultado da pesquisa apontou que a Hoasca “não causa qualquer padrão de dependência, abuso, overdose ou abstinência” (FABIANO, 1996, p. 4). Além disso, “não foi observado o surgimento de distúrbios mentais posteriores ao uso do chá”. (Id.) A coordenação da pesquisa foi de Charles Grob, da Divisão de Psiquiatria da Criança e do Adolescente da Universidade da Califórnia, que, em artigo acerca dos efeitos psicológicos da Hoasca indica que
“Psychiatric diagnostic assessments revealed that although an appreciable percentage of our long term hoasca using subjects had had alcohol, depressive or anxiety disorders prior to their initiation into the hoasca church, all disorders had remitted without recurrence after entry into the UDV. Such change was particularly noticeable in the area of excessive alcohol consumption [...]. All eleven of these subjects with prior involvement with alcohol achieved complete abstinence shortly after affiliating with the hoasca church.” (GROB, 1996, p. 90).

Concluindo, Charles Grob afirma que:
“The ceremonial use of hoasca, as studied within the framework of this research project, is clearly a phenomenon quite distinct from the conventional notion of ‘drug abuse’. Indeed, its apparent impact upon the subjects evaluated in the course of our inquiries appears to have been positive and therapeutic, both in self report as well as in objective testing.” (Id., p. 93)

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Uma nova perspectiva As plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis são um recurso genético disponível às populações da região amazônica, na qual essas plantas são nativas, e à população brasileira de modo geral, na medida em que a expansão das religiões usuárias da ayahuasca disseminou o plantio dessas espécies vegetais pelo território brasileiro. Tradicionalmente, muitos povos da Amazônia, indígenas ou não, conhecem os procedimentos e técnicas para a utilização dessas plantas como um meio para a obtenção de um estado alterado de consciência. Assim, uma perspectiva jurídica consistente, sob o ponto de vista antropológico, é considerar o uso de Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis como uma manifestação cultural associada a recurso genético da biodiversidade da Amazônia. Tal perspectiva fundamenta-se também nos princípios defendidos pela Convenção sobre Diversidade Biológica13, assinada por ocasião da Eco 92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro, em junho de 1992. O texto do tratado, já assinado por 175 países, afirma em seu artigo 1º que:
“Os objetivos desta Convenção, a serem cumpridos de acordo com as disposições pertinentes, são a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos [...].”

Um episódio recente de “pirataria genética”, quando um cidadão norte-americano14 patenteou uma variedade de Banisteriopsis, suscitando um protesto maciço de comunidades indígenas de diversos países, aponta para a necessidade de se salvaguardar os direitos relativos aos conhecimentos tradicionais, associados a recursos genéticos, de comunidades locais e populações indígenas.

Cf. Decreto Legislativo n. 2, de 3 de fevereiro de 1994, que ratificou a Convenção no Brasil. Disponível na INTERNET, via http://www.mma.gov.br/port/CGMI/aviso/frame.html, no site do Ministério do Meio Ambiente. Arquivo consultado em 1999.

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No dia 17 de janeiro de 1986, Loren Miller recebeu uma U.S. patent de planta n. 5751, com base na alegação de que descobrira uma nova variedade diferente de Banisteriopsis no Equador, o que foi amplamente questionado. Esta patente, válida somente no território norte-americano, não resultou em nenhum efeito prático relativo ao uso da ayahuasca, mas foi considerado um precedente perigoso. (José Augusto Pádua, comunicação pessoal).

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As dimensões do CEBUDV O Centro Espírita Beneficente União do Vegetal realizou em 1998 um censo geral dos seus participantes, sob a coordenação de Suely Martins Bomfim Melo, do Núcleo Senhora Santana, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Já em 1991 e 1994, Glória Mura, do mesmo núcleo, havia coordenado recenseamentos da instituição (MURA, 1995, p. 7). Este é mais um elemento que indica o empenho do CEBUDV em sua organização institucional. O mapa ao lado apresenta a distribuição de unidades administrativas do CEBUDV no território brasileiro. A administração da UDV dividiu o Brasil em regiões, cujo responsável é chamado de Mestre Central. As regiões são as seguintes, com o respectivo número de sócios15:

Sede Geral 1ª Região 2ª Região 3ª Região 4ª Região 5ª Região 6ª Região 7ª Região 8ª Região 9ª Região 10ª Região 11ª Região 12ª Região 13ª Região TOTAL

Brasília, DF Rondônia (Porto Velho e Guajará Mirim) Amazonas, Pará, Roraima e Amapá São Paulo e Caldas, MG Bahia Rio de Janeiro e Espírito Santo Rondônia (demais municípios) Acre Goiás e DF (sem a Sede Geral) Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul Paraíba, Pernambuco, Alagoas Ceará Minas Gerais Mato Grosso e Mato Grosso do Sul

177 sócios 528 sócios 1105 sócios 722 sócios 545 sócios 428 sócios 565 sócios 535 sócios 416 sócios 353 sócios 388 sócios 365 sócios 567 sócios 386 sócios 7080 sócios

O número total de sócios de cada região inclui os filhos de sócios, adolescentes com idade entre 12 e 18 anos, que freqüentam a UDV.

15

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Apresento a seguir o número dos participantes de cada região administrativa, segundo cada uma das classes de filiados: membros do Quadro de Sócios (QS), do Corpo Instrutivo (CI), do Corpo do Conselho (CDC) e do Quadro de Mestres (QM). Também indico o número de filhos dos sócios na faixa de 12 a 18 anos (somente aqueles que freqüentam a UDV), de adventícios (os que beberam o Vegetal pela primeira vez no CEBUDV) no ano (98), o número de pessoas que se associaram no ano e o número daqueles que foram afastados no ano. Finalmente, o número total de filiados: 5903; e o número total somado ao número de adolescentes que bebem o chá: 7.080. Eis o quadro geral do censo: Regiõe QS CI CDC QM 12 a Adven Assoc s 18 t. . 64 31 20 25 37 54 6 Sede G. 101 202 89 42 94 343 35 1a. 488 305 91 37 184 418 120 2a. 286 221 84 41 90 284 90 3a. 230 149 75 17 74 292 88 4a. 158 156 44 16 54 240 56 5a. 139 169 83 40 134 410 62 6a. 194 151 68 22 100 476 56 7a. 138 117 43 17 101 216 54 8a. 135 114 35 17 52 187 51 9a. 157 118 43 21 49 221 86 10a. 168 94 44 15 44 120 57 11a. 183 193 65 22 104 201 48 12a. 155 115 41 15 60 269 64 13a. Total 2596 2135 825 347 1177 3731 873 Afas Assoc t. . 12 140 21 434 158 921 53 632 34 471 58 374 61 431 67 435 31 315 26 301 48 339 40 321 36 463 29 326 674 5903 Assoc. + Adol. 177 528 1105 722 545 428 565 535 416 353 388 365 567 386 7080

Considerando-se a distribuição dos associados segundo as cinco regiões brasileiras, tem-se o seguinte quadro: NORTE SUDESTE NORDESTE CENTRO-OESTE SUL TOTAL 1ª 2ª 6ª e 7ª Regiões 3ª 5ª e 12ª Regiões 4ª 10ª e 11ª Regiões 8ª e 13ª Regiões + Sede Geral 9ª Região 2.733 sócios 1.717 sócios 1.298 sócios 979 sócios

353 sócios 7080 sócios

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Esta distribuição regional pode ser representada pelo seguinte gráfico, que indica as proporções de cada região brasileira no total de associados do CEBUDV:

Distribuição dos associados nas regiões brasileiras
5% 14% 39% 18% Norte 2733 Sudeste 1717 Nordeste 1298 Centro-Oeste 979 24% Sul 353

Pode-se também elaborar um outro gráfico, no qual seja apresentada a distribuição geográfica da UDV, segundo a dimensão das cidades onde se localizam os núcleos. Assim, poder-se-á perceber melhor qual a significativa proporção do CEBUDV presente em meios claramente urbanos e sob um maior influxo da modernidade. Mostro, então, os dados do Censo de 1998 da UDV e comparo-os com as informações da Contagem da População de 1996, do IBGE16. De maneira bem esquemática, classifico as cidades brasileiras a partir do número de seus habitantes. Para a confecção destas tabelas, convencionei três faixas de população para a caracterização da dimensão das cidades. Considerei “metrópoles” as cidades brasileiras de mais de 900 mil habitantes. Assim, são 12 cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Manaus, Belém e Campinas. Em todas elas há unidades do CEBUDV, em algumas várias, totalizando 30 núcleos. Nesses, em 1998 estavam associados 3.349 discípulos, ou seja, 47 % do total da UDV no Brasil. Denominei “cidades médias” aquelas com mais de 100 mil e até 900 mil habitantes. Nessas, estavam presentes 2.343 discípulos, que representavam 23 % do total. E, finalmente, contei como “cidades pequenas” aquelas com população de até

Vide, no Anexo 3, as tabelas completas com o número de associados por município brasileiro, comparado com a população do respectivo município.

16

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100 mil habitantes. Nessas cidades, havia 1.388 sócios da UDV, isto é, 20 % do total nacional. Ainda que esta metodologia suscite dificuldades17, penso que ela pode ser útil como simples recurso expressivo, que aponta diretamente para a constatação, por exemplo, de que 80% dos discípulos da UDV no Brasil são habitantes de cidades de mais de 100 mil habitantes. Eis os quadros com os dados: REGIÃO NORTE: DIMENSÃO N. de NÚCLEOS ASSOCIADOS Metrópoles 6 799 Cidades médias 8 955 Cidades pequenas 16 985 REGIÃO SUDESTE: DIMENSÃO
Metrópoles Cidades médias Cidadespequenas

PORCENT. 29% 35% 36%

N. de NÚCLEOS 8 6 4

ASSOCIADO S 932 471 314

PORCENT. 54% 28% 18%

REGIÃO NORDESTE: DIMENSÃO N. de NÚCLEOS Metrópoles 8 Cidades médias 5 Cidadespequenas 0 REGIÃO CENTRO-OESTE: DIMENSÃ O
Metrópoles Cidades Médias cidadespequenas

ASSOCIADOS 829 469 0

PORCENT. 64% 36% 0%

N. de NÚCLEOS 6 2 1

ASSOCIADOS PORCENT. 593 352 34 60% 36% 4%

REGIÃO SUL: DIMENSÃO
Metrópoles Cidades médias Cidades pequenas

N. de NÚCLEOS 2 2 1

ASSOCIADO S 202 96 55

PORCENT. 57% 27% 16%

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DA UDV NO BRASIL:
Na medida em que, por exemplo, não se pode dizer que pelo simples fato de ter uma população menor um município é menos urbanizado que outro.
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DIMENSÃO Metrópoles Cidades médias Cidades pequenas TOTAL

UNIDADES UDV 30 23 22
75

ASSOCIADO PORCENT. S 3.349 47% 2.343 1.388
7.080

33% 20%
100%

PROPORÇÃO DO NÚMERO DE ASSOCIADOS SEGUNDO A DIMENSÃO DA CIDADE:

20% 47% 33% Metrópoles Cidades médias Cidades pequenas

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1.2. O NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS EM CAMPINAS
O Núcleo Alto das Cordilheiras foi o que escolhi para o trabalho de campo desta dissertação. Para situar o leitor no ambiente que encontrei, cito a seguir as anotações que fiz em meu diário de campo, no dia em que estive pela primeira vez no núcleo:
Ao meio-dia de hoje [16 de agosto de 1998] cheguei ao Núcleo Alto das Cordilheiras, acompanhado pela Conselheira Inês 18, esposa do Mestre Daniel, e pela Bete, que já foi do Núcleo São João Batista de São Paulo e do Núcleo Serenita, de Salvador. No caminho, esclareci a elas que vim a Campinas apenas para estar na Sessão de Escala de hoje. Falei que escolhi realizar meu trabalho de campo no núcleo Alto das Cordilheiras e lhes disse as motivações. Quando chegamos, a Inês me mostrou o Núcleo, as obras da grande estrutura de pedra que será Casa de Preparo em cima e um salão embaixo, a antiga Casa de Preparo, o chacronal e os laguinhos, um brejo que foi drenado, no qual se fez um belo recanto, cheio de flores, com dois lagos em planos sucessivos, por onde a água passa, produzindo sons suaves e doces. E há aí banquinhos para se sentar, onde, conforme disseram, se pode ficar a meditar, ouvindo os murmúrios das águas. O Conselheiro Nelson estava fazendo um pequeno terraço de pedra, onde será colocado um canteiro de flores. Inês me mostrou também a mina d’água, onde se pensa fazer uma piscina para lazer das crianças. Ao lado, há uma área onde Mestre Daniel pensa fazer um carramanchão de mariris - que Inês já imaginou todo coberto de flores rosadas, um belo cenário para encontros da irmandade. Depois sentamos nos banquinhos junto ao lago e ficamos conversando. Em seguida, subimos para junto do Salão e sentamos num jardim à sua frente, onde fiquei conversando com o Lourenço, senhor com aproximadamente 55 anos, que me disse que já trabalhou muito no terreno do Núcleo Lupunamanta e hoje trabalha apenas “dando apoio moral”. Logo veio o Felipe, parente do Mestre Daniel (primo?), se sentou no banco e começou a tocar violão, composições suas e de autores clássicos. Seu professor foi nada menos que Paulinho Nogueira, seu parente também. Depois entrei no Salão e encontrei o Mestre Francisco, PhD. em Engenharia, professor da Unicamp. Eu já o conhecia de 1992.

Pseudônimo. Adotei o critério de mudar os nomes dos participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras, escolhendo aleatoriamente nomes que não figuram na lista dos membros do núcleo, tendo em vista salvaguardar mais a sua privacidade, já que nas entrevistas muitas vezes foram abordados asssuntos de foro mais interno. Os pseudônimos aparecerão grafados em itálico.

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Chegou a hora do almoço, e foi servida, sobre a mesa do Salão do Vegetal, uma refeição deliciosa. Várias saladas, arroz integral, peixe e também carne. Sentei-me entre o Mestre Francisco e o Carlos, equatoriano, PhD. em Arquitetura e também músico - mais tarde o vi tocando um instrumento andino típico, um “quatro”. No almoço, falou-me de um simpósio recente no Rio, acerca do uso revolucionário do bambu em construções. Após comer, resolvi descansar um tempo na Casa de Preparo. Lá estavam uns três “irmãos” fazendo blocos de cimento.

Considero que estas notas são bem evocadoras de vários aspectos de meu trabalho de campo. Algo que logo salta aos olhos é a acolhida que recebi dos participantes do núcleo. Em pouco tempo me senti à vontade com o grupo, com liberdade para me fazer presente nas diversas atividades da “irmandade” e para perguntar nas entrevistas acerca de tudo o que me parecesse relevante. Outro aspecto que esse trecho do diário já indica é o
estilo cultivado dos participantes do núcleo, indivíduos das camadas médias da cidade de

Campinas (ou da Cidade de São Paulo), a grande maioria com formação universitária e muitos pós-graduados. Essa característica será exposta de maneira mais detalhada e quantitativa no tópico seguinte, Os discípulos do Alto das Cordilheiras. Relacionado a isto, está o que se poderia qualificar de um certo refinamento na sensibilidade dos membros, perceptível naquele dia, no cuidado com os jardins do sítio, nos gostos musicais, na refeição bem preparada, nos assuntos das conversas, e na própria delicadeza com que me receberam. Estes aspectos que aponto permitem que se tenha uma idéia de uma característica do trabalho de campo: foi uma experiência agradável. É relevante esse elemento subjetivo: a interação prazeirosa com os participantes do Alto das Cordilheiras gerou em mim uma
empatia com o grupo estudado, da qual estou consciente e que não desejo ocultar ao leitor.

E não somente houve o prazer da convivência em ocasiões mais ou menos superficiais, como o evocado no trecho acima, mas também momentos de entranhada comunhão de sentimentos, por exemplo, quando nas entrevistas eram compartilhadas comigo vivências de forte densidade e significado para a vida dos meus interlocutores. Se esta proximidade afetiva abriu-me muitas portas e permitiu-me acesso a informações que outros não teriam, por outro lado, certamente influenciou o meu enfoque. O tempo posterior ao trabalho de campo, a reflexão antropológica sobre o amplo material coletado propiciaram-me um distanciamento. Mas reconheço-me livre da ilusão de uma neutralidade do etnógrafo, e sei que esta dissertação é um olhar interpretativo, entre tantos possíveis, sobre esse objeto.

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Atividades realizadas durante o trabalho de campo

Permaneci quase três meses em Campinas, morando numa residência dos jesuítas, enquanto realizava o trabalho de campo. Estive presente em várias sessões, em um preparo de Vegetal, dias de trabalho no sítio, promoções para a obtenção de recursos para a construção do núcleo, encontros informais de membros do núcleo, ensaios do grupo musical... Busquei aproveitar todos os momentos de encontro dos participantes para me fazer presente. E tive uma agenda densa de entrevistas durante toda a semana. A cada dia tinha ao menos uma entrevista, às vezes duas, ou até três. As entrevistas duravam em média duas ou três horas. Algumas vezes prolongaram-se por até seis horas. Realizei um total de 50 entrevistas. Colhi dados quantitativos de 59 membros. As entrevistas, na maioria das vezes, foram realizadas nas residências dos participantes do núcleo. Isto possibilitou-me um conhecimento maior da vida quotidiana dessas pessoas. Por vezes, convidavam-me para jantar e depois ficávamos gravando a entrevista até bem tarde da noite. Duas vezes, entrevistei simultaneamente um casal, mas todas as demais foram entrevistas individuais, para que houvesse maior liberdade dos entrevistandos. Também realizei algumas entrevistas no próprio núcleo, durante o preparo de Vegetal em que estive presente. Assim, tive oportunidade de falar com pessoas que estavam de burracheira, sob o efeito do chá Hoasca. Outra atividade bastante relevante para a pesquisa foi a observação do ritual. Ouvir as falas dos participantes durante as sessões teve grande importância para a compreensão da experiência vivenciada por eles. Nas entrevistas, adotei a postura de tratar o entrevistando não como informante, mas como interlocutor. Muitas vezes eles também me faziam perguntas, principalmente a respeito de minha visão, enquanto padre da Igreja Católica, a respeito da União do Vegetal. As entrevistas foram um momento em que não me furtei a falar de minha experiência. E, por vezes, as declarações dos entrevistandos adquiriam um tom quase confessional, seja compartilhando problemas pessoais, seja falando com extrema franqueza sua visão crítica acerca do CEBUDV.

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A organização do espaço no Núcleo

O Núcleo Alto das Cordilheiras situa-se em Joaquim Egídio, área rural do município de Campinas, a aproximadamente 45 minutos de carro do centro da cidade. Os núcleos costumam estar localizados em áreas distantes das cidades, onde não haja muito barulho ao redor e se possa ter um terreno amplo. O Núcleo tem uma edificação central, que é chamada de Templo, cujo espaço principal é o Salão do Vegetal. Na mesma edificação principal há também uma cozinha, uma despensa, o banheiro feminino e o masculino. Ao lado do Templo há um espaço para estacionamento de automóveis. Como o terreno tem um declive, num platô abaixo do Templo está a Casa de Preparo, uma espécie de barracão de madeira com uma fornalha, onde o chá hoasca é preparado ritualmente. Quase ao lado, encontra-se o Chacronal, uma área cercada e coberta de tela na qual estão plantados os pés de chacrona. Mais abaixo, próximo ao pequeno lago e ao córrego que passa no fundo do terreno, está o plantio principal de mariri, ainda que haja pés do cipó em vários pontos do sítio. Na parte mais alta do terreno, junto à entrada, situa-se a casa do caseiro, tendo ao lado a casa das crianças ou berçário. A sessão é realizada no Salão do Vegetal, uma sala, com capacidade para aproximadamente 80 pessoas. Em lugar de destaque do salão há uma mesa retangular, com um lugar à cabeceira, outro em frente a ela e oito lugares nas laterais. Na cabeceira, de frente para a assembléia, fica o Mestre Dirigente da sessão. À sua direita, fica o Mestre Assistente, responsável pela ordem e a disciplina da sessão. Ao seu lado, fica o discípulo escalado para fazer a leitura dos estatutos do Centro. À esquerda do Mestre Dirigente, fica um discípulo que na sessão fará uma explanação após a leitura dos estatutos. Os demais lugares à mesa são ocupados por sócios dos vários graus hierárquicos. O lugar em frente à cabeceira é o do Mestre Auxiliar, alguém - não necessariamente mestre - a quem se pede licença para sair do Salão durante a sessão. Na maioria dos núcleos que conheço o pedido de licença é feito ao Mestre Dirigente, mas a opção do Núcleo Alto das Cordilheiras de designar outra pessoa para esta função visa evitar as interrupções freqüentes para simplesmente se pedir licença para ir ao banheiro. Desse modo, o pedido de licença é feito em voz baixa para quem se encontra sentado nesse lugar.

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Em frente à mesa e nos seus dois lados, distribuem-se os assentos dos demais participantes, bancos de madeira anatômicos e cadeiras de metal e fio plástico verde, que possibilitam uma postura corporal mais relaxada durante as quatro horas e quinze minutos de ritual. Atrás da mesa, fica apenas uma fila de cadeiras, reservadas para os mestres. Os conselheiros e conselheiras ficam nas primeiras filas laterais. Em frente à mesa está a maior parte das cadeiras, dispostas em várias fileiras. Quanto a estas, não há critério especial para a sua ocupação, exceto que as cadeiras da primeira fila destinam-se prioritariamente para visitantes ou pessoas que bebem o Vegetal pela primeira vez. É muito enfatizada a necessidade de as pessoas andarem no salão, durante a sessão, no sentido anti-horário. Esse é o sentido da força, a maneira como a força do vegetal circula no salão e nas pessoas. É o mesmo sentido em que o cipó mariri sobe nas árvores da floresta. Assim, é preciso seguir esse sentido ao caminhar durante a sessão, para se estar em harmonia com essa força, possibilitando assim que ela flua do melhor modo entre todos. Para maior clareza quanto à distribuição do espaço, veja-se a seguir o desenho da planta baixa do salão. O espaço ritual é bem sóbrio, com poucos símbolos. As paredes são pintadas na cor creme. Sobre a mesa, acima do lugar de quem dirige a sessão, há um arco de madeira pintado de verde, com as seguintes inscrições em amarelo: ESTRELA DIVINA UNIVERSAL UDV. E no arco estão desenhadas, também em amarelo, algumas estrelas de cinco pontas e duas estrelas com cauda de cometa. Na parede atrás da mesa, há um quadro com a foto do Mestre Gabriel, de pé sob um arco semelhante, tendo junto a si um copo de Vegetal. Na parede em frente ao lugar do Mestre Dirigente há um relógio. Na mesa, à direita do lugar do Mestre Dirigente, há um recipiente de cerâmica no qual se põe o Vegetal. Ficam na mesa também jarras de água e copos para os participantes. O copo de água do Mestre Dirigente é mantido cheio durante toda a sessão.

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PLANTA DO SALÃO DO VEGETAL DO NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS

LEGENDA: Foto do Mestre Gabriel Arco e Cadeira do Mestre Dirigente Filtro com o Vegetal Mesa Aparelho de Som Fila de Cadeiras dos Mestres Cadeira do Mestre Representante Fila de Cadeiras dos(as) Conselheiros(as) Fila de Cadeiras dos Discípulos Portas de Entrada Cadeira do Mestre Auxiliar Sentido da Circulação dos Participantes Relógio

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A estrutura de uma sessão de escala

Para as sessões realizadas no Salão do Vegetal, os membros da UDV vestem uniforme. Os discípulos do sexo masculino usam calça branca com uma camisa verde com as letras UDV bordadas em branco no bolso. As mulheres vestem calça amarela e uma camisa igual à dos homens. Os(as) discípulos(as) do Corpo Instrutivo têm o mesmo uniforme com a diferença de que o bolso de sua camisa verde tem as letras UDV em amarelo. Os conselheiros e conselheiros têm em sua camisa, junto às letras UDV as letras CDC (Corpo do Conselho). Os mestres vestem uma camisa que além das letras UDV e CDC tem bordada uma estrela amarela. O Mestre Assistente porta sobre seu uniforme uma faixa branca transversal com as seguintes letras em verde: UDV É OBDC. O Mestre Representante do Núcleo veste uma camisa azul, com as letras UDV e CDC e a estrela. Assim, olhando-se para o conjunto dos participantes, as cores do uniforme da União do Vegetal são as mesmas da bandeira brasileira: verde, amarelo, azul e branco. As sessões de escala, aquelas destinadas a todos os sócios, acontecem quinzenalmente, no primeiro e no terceiro sábado do mês. Ainda que a etnografia de uma sessão fosse grandemente interessante, com a descrição dos assuntos tratados pelo Mestre Dirigente, as chamadas realizadas e a participação dos sócios, devido à limitação relativa ao caráter reservado dos ensinos da UDV, limitar-me-ei a apresentar aqui a estrutura, o esquema de uma sessão de escala. A sessão se inicia pontualmente às 20 horas, com o pedido de atenção a todos, para a distribuição do Vegetal. A assistência se coloca de pé, em silêncio. A distribuição se dá hierarquicamente: o Mestre Dirigente da sessão serve a si e aos outros mestres, depois aos(às) conselheiros(as), em seguida ao Corpo Instrutivo, aos membros do Quadro de Sócios e por fim aos visitantes não uniformizados. As pessoas aproximam-se da mesa formando uma fila que vem pela direita e sai pela esquerda (do ponto de vista de quem está em frente à mesa), ou seja, no sentido da força. Após a distribuição do chá, os mestres, conselheiros e discípulos do Corpo Instrutivo o bebem. Depois, o chá é bebido pelo segundo grupo, os sócios que não são do Corpo Instrutivo e aqueles que não são sócios. Na medida em que o Núcleo Alto das

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Cordilheiras tem em torno de setenta participantes, esta primeira etapa do ritual, a distribuição do chá, se estende por aproximadamente vinte minutos. Tendo todos bebido o Vegetal, os participantes se sentam. O orador do núcleo anuncia os visitantes de outro núcleo ou alguma pessoa que esteja bebendo o Vegetal pela primeira vez, e deseja a todos “uma sessão plena de Luz, Paz e Amor”. O discípulo sentado ao lado do Mestre Assistente lê então trechos dos documentos escritos da UDV, um conjunto de normas e regulamentos, a maioria dos quais escritos ainda no tempo do Mestre Gabriel. Tal leitura se prolonga por aproximadamente vinte minutos. É o tempo para que o Vegetal comece a fazer efeito. É lido o Regimento Interno do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, os Boletins da Consciência, o artigo Convicção do Mestre e os Mistérios
do Vegetal, texto em forma de acróstico falando do mariri e da chacrona. Após a leitura dos

documentos, o(a) discípulo(a) do Corpo Instrutivo ou Conselheiro(a) ou Mestre sentado(a) à esquerda do Mestre Dirigente faz a explanação, um comentário sobre algum dos pontos abordados nos documentos lidos. Nesse momento, a maioria dos participantes já está começando a sentir a burracheira, palavra que para a UDV significa “força estranha” e é usada para designar o efeito sentido pelas pessoas que bebem a Hoasca. O Mestre Dirigente faz então as chamadas de abertura. Em meio a um silêncio absoluto dos presentes, ele entoa hinos que têm importância fundamental no ritual. As chamadas, como o nome indica, chamam a burracheira, a força estranha do Vegetal, para que ela atue nos presentes. Assim, é através das chamadas que se orienta a sessão, ou seja, que se canaliza o efeito do chá para os objetivos espirituais visados pela União do Vegetal. Os dois pedidos mais presentes nas chamadas são luz e força. A luz, que está relacionada à chacrona, é o princípio feminino presente no chá, a dimensão do conhecimento espiritual. A força, atribuída ao mariri, é o princípio masculino. Após as três primeiras chamadas, o Mestre Dirigente levanta-se e, caminhando no
sentido da força, pergunta individualmente para as pessoas sentadas à mesa e para os

Mestres e Conselheiros(as) ao redor dela se eles têm a burracheira. Tendo perguntado aos que estão assentados próximos à mesa, o Dirigente em seguida se dirige à assembléia, fazendo a mesma pergunta de uma só vez para todos aqueles aos quais ele ainda não

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perguntou. E a assembléia responde afirmativamente, em coro. Esse rito é denominado
ligação da sessão.

Feita a ligação da sessão, o Dirigente volta a se sentar e faz a Chamada do Mestre
Caiano. Caiano é o primeiro hoasqueiro, a primeira pessoa que bebeu o Vegetal. Pede-se a

presença de Caiano para que a própria burracheira possa atuar, trazendo luz para os
caianinhos, ou seja, os seus discípulos, os membros da UDV. Esta chamada é central para a

abertura da sessão e nunca pode ser omitida. Logo depois, é o Mestre Representante, ou algum mestre designado por ele, quem faz a quinta chamada de abertura. Na sequência, é comum escutar-se música instrumental. Ouve-se uma música cuidadosamente escolhida para “chamar burracheira”. Passam-se uns cinco minutos ao som da música, tempo no qual as pessoas costumam sentir a burracheira crescer. Depois, o Mestre Dirigente costuma fazer alguma outra chamada e em seguida dirige-se aos participantes, introduzindo algum tema que será tratado na sessão. E ele diz que “o oratório está aberto”, ou seja, aqueles que desejarem podem falar, perguntar, ou fazer chamadas, sendo necessário que antes se peça licença ao Mestre Dirigente. A sessão segue com ampla participação dos presentes. São feitas ao Mestre Dirigente perguntas bem diversificadas, desde questões a respeito da doutrina da UDV, passando por outras acerca do significado de determinada palavra numa chamada, até perguntas a respeito do modo de agir dos discípulos no cotidiano, além de questões mais filosóficas do tipo “o que é a verdade?”. Às perguntas vão se intercalando chamadas e músicas. As canções brasileiras que se ouvem na sessão tocam temas relativos ao agir humano, como o valor da amizade, da retidão, do amor, da harmonia, temas relativos à natureza, ou temas mais propriamente religiosos: Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora. Quando a sessão já se encaminha para a sua conclusão, se tornam mais freqüentes as falas de participantes da sessão, que se levantam e vão para a frente dirigir palavras à irmandade reunida. São várias vezes testemunhos sobre a importância da UDV na vida das pessoas, expressões de gratidão, recordaçðes de aniversários de nascimento ou de inicío na União. A seguir vêm alguns avisos práticos. Nesta parte da sessão já não se fazem mais chamadas. São lidos os boletins de ocorrência dos núcleos de todo o Brasil, informando quem foi convocado para ser conselheiro(a) ou mestre, assim como anunciando as pessoas

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que foram afastadas do Quadro de Mestres, do Corpo do Conselho, do Corpo Instrutivo ou da “comunhão do Vegetal”. Às 23 horas e 30 minutos, é feita pelo Mestre Dirigente a Despedida do Mestre
Caiano, uma chamada para despedir a burracheira. Então, o Dirigente se levanta e faz o

fechamento da ligação, andando no sentido inverso ao sentido da força e perguntando às mesmas pessoas a quem se dirigiu no início da sessão se foi boa a burracheira. Após receber deles a resposta afirmativa, o Mestre Dirigente faz as mesmas perguntas para todos os outros membros da assembléia de uma só vez. O(a) discípulo(a) que fez a explanação dá o aviso do dízimo, convidando os participantes a doarem “uma quantia não estipulada
para a compra de material de limpeza para a higiene do salão”. Nesse momento é feito

um intervalo de aproximadamente 25 minutos, durante o qual as pessoas podem se levantar e conversar. É um tempo para que a burracheira, o efeito do chá, vá passando e as pessoas possam ir gradualmente “aterrissando”, retornando ao estado de consciência “normal”. Quando faltam por volta de cinco minutos para a meia-noite, todos voltam ao salão e fazem silêncio. É feito o Ponto da Meia-Noite, chamada que salienta a importância do tempo, voltando a atenção dos participantes para os ponteiros do relógio e marcando o início de um novo dia com a renovação trazida por uma sessão de Vegetal. São dados mais alguns avisos e em seguida, faz-se a chamada de fechamento. À 0 hora e 15 minutos necessariamente conclui-se a sessão. E o Mestre Dirigente anuncia que "por hoje a sessão
está fechada".

Após a conclusão, as pessoas se levantam e têm um tempo intenso de interrelacionamento, partilhando as suas respectivas experiências durante a sessão. Na mesa do salão é servido um lanche com refrigerantes, trazido pelo grupo que no dia estiver escalado para essa função. A conversa costuma se estender por mais de duas horas, até que as pessoas vão retornando para as suas casas.
Atividades da irmandade

Além das sessões de escala, realizadas nas noites dos primeiros e terceiros sábados do mês, há uma série de atividades propostas para a “irmandade”. Primeiramente, há o

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trabalho nos sábados de escala. Nos dias em que se tem sessão de escala à noite, desde a

manhã os discípulos costumam ir para o terreno, ou ir para o sítio, para realizar os trabalhos necessários para a sua manutenção: cuidar do plantio de mariri e chacrona, dos jardins e das dependências do núcleo. Como as pessoas vão de manhã, é preciso que algumas se dediquem a preparar as refeições: o café, o almoço, a sopa antes da sessão e o lanche da madrugada. Em outros núcleos que visitei, há uma claríssima divisão do trabalho segundo o gênero: as atividades na cozinha são tarefa das mulheres. No Núcleo Alto das Cordilheiras, ainda que para o almoço eu tenha visto mais o trabalho feminino, há uma tendência de mais partilha desse trabalho com os homens. Assim, o lanche posterior à sessão é trazido e preparado por grupos previamente escalados, que incluem homens e mulheres. Mas o trabalho nos dias de escala não se limita ao exposto acima, porque o núcleo está em construção. No dia da comemoração dos sete anos do Alto das Cordilheiras estive presente e foi distribuído a todos um cartão com os dizeres: “...estamos construindo um templo...” Assim, todos os discípulos são motivados pela direção e por aqueles que se colocam mais à frente das atividades a estarem em mobilização para a construção. Isso significa disponibilidade para uma série de atividades: desde mutirões para fazer diretamente alguma etapa da obra até a idealização e execução de eventos para a arrecadação de fundos para a construção. Em algumas sessões ouvi o Mestre Representante e o Presidente falarem da pouca participação dos discípulos nos trabalhos concretos. O Núcleo Alto das Cordilheiras seria um dos núcleos da UDV “que mais precisaria mellhorar nesse aspecto”. Não é de se surpreender que hajam algumas dificuldades nesse sentido, na medida em que o perfil dos participantes, como será exposto a seguir, é de indivíduos que em sua maioria se dedicam a um trabalho intelectual. Mas tem-se buscado soluções criativas para essa questão. Assim, por exemplo, no período de trabalho de campo, presenciei as atividades de um dia de sábado em que todos foram convocados para um trabalho artístico com argila. Foram transmitidos ao grupo noções básicas de confecção de peças de cerâmica por um “irmão” que trabalha profissionalmente na área e, em seguida, um dos mestres, arquiteto e artista plástico, motivou as pessoas a deixarem seu impulso criativo agir. Assim, todos se dedicaram a esta agradável atividade, fazendo esculturas e vasos que depois foram vendidos em um bazar.

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No momento, a direção do núcleo tem como meta a conclusão das obras da nova Casa de Preparo, que será integrada ao atual Salão do Vegetal. A presença de arquitetos e de um administrador de construções entre os sócios do núcleo facilita a consecução do empreendimento. Há um Departamento de Eventos, e constantemente tem-se realizado almoços, bazares, festas, abertos para a participação de não-sócios, tendo em vista a arrecadação de recursos. Dessa maneira, o núcleo toma quase as feições de uma central promotora de eventos: são dezenas de pessoas, de nível acadêmico superior, organizadas e empenhando-se na criação e realização de atividades geradoras de renda. Muitas delas são de cunho cultural ou artístico. Nos últimos meses, tem havido, por exemplo: uma palestra de um conhecido escritor de Campinas, filósofo e teólogo, um workshop de Programação Neuro-Linguística, um seminário de design e oficinas de arte, além de um jantar japonês e uma festa junina. Para a discussão, planejamento e avaliação desses eventos, assim como para decidir tudo o que toca à organização material do núcleo, os discípulos realizam uma atividade presente em todas as unidades da UDV: a Reunião de Diretoria. Todos os sócios são convidados para participar dessa reunião, coordenada pelo Presidente do Núcleo, que no caso do Alto das Cordilheiras costuma ser realizada a cada dois meses. A Diretoria tem um boletim informativo mensal, o Comunidade, que começou a ser publicado quando iniciei o trabalho de campo. Jornal impresso, de quatro páginas, além de trazer as comunicações da Diretoria, está aberto à colaboração dos sócios, que participam com artigos, crônicas, poesias. O CEBUDV, como a seu própria denominação indica, tem uma dimensão de beneficência. Assim, nos núcleos existe o Departamento de Beneficência. Eles auxiliam famílias de Souzas e Joaquim Egídio em doação de alimentos para as pessoas da região. Há outras atividades, como uma campanha no último inverno, para a arrecadação de peças de roupa e cobertores, que foram doados a pessoas carentes do Distrito de Joaquim Egídio. No entanto, alguns dos sócios entrevistados reconhecem que o núcleo ainda precisa expandir muito as suas iniciativas de solidariedade com os mais necessitados. Mas a agenda dos sócios não se limita ao descrito até aqui. Há também as atividades propriamente religiosas, que não se restringem às sessões de escala. A mais significativa delas é o Preparo de Vegetal. Periodicamente, aproximadamente a cada três meses, é necessário preparar ritualmente o chá Hoasca. É uma atividade exigente, que demanda por

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volta de três dias de trabalho contínuo e um preciso conhecimento prático, para colheita do mariri (o que na maioria das vezes se dá em outro local), colheita da chacrona, “bateção” (maceração) do cipó, lavagem das folhas de chacrona, disposição dos dois vegetais em camadas dentro de grandes tachos acrescidos de água, acompanhamento da fervura do líquido durante horas e horas, coleta e armazenagem do chá preparado, que será bebido nas sessões dos meses seguintes. O Preparo é o grande acontecimento da UDV, momento em que se reforçam os laços de solidariedade entre os participantes através da partilha do trabalho comum e da convivência informal e continuada. É também um momento que muitos discípulos apontam como de aprofundamento da experiência religiosa de estado alterado de consciência propiciada pela Hoasca, que é bebida várias vezes ao longo do Preparo. E alguns apontam para uma dimensão alquímica do ritual: prepara-se um chá e simultaneamente o discípulo prepara-se interiormente. Esse aspecto pode ser observado no editorial do Informativo ComUnidade de setembro de 1999:
“Nos dias 28 e 29 do mês de agosto, realizamos um preparo de vegetal aqui no Núcleo Alto das Cordilheiras, aproveitando a oportunidade de preparar o mariri caupuri, de Belém. A chacrona colhida é do nosso viveiro. Que a união do mariri e da chacrona, da Força e da Luz, do norte e do sul - presentes no preparo - se façam presentes também em todos nós.”

Um rito religioso de grande relevância para os discípulos é a Sessão Instrutiva, que se realiza a cada dois meses, em um domingo, ao meio-dia, com aqueles discípulos que foram convocados pelo Mestre Representante para formar o Corpo Instrutivo do Núcleo. É o momento da UDV mais propriamente iniciático e esotérico, no sentido de constituir uma esfera de segredo reservada aos seus participantes. Todo esse conjunto de atividades exige dos participantes do Alto das Cordilheiras uma considerável parcela de seu tempo. Essa pessoas, na medida em que conheceram a UDV e se deixaram cativar por sua proposta, foram solicitadas pela própria dinâmica da interação dos membros do núcleo a realizar mudanças em suas vidas que lhes permitissem responder a essa demanda de participação. Mas, quem são esses sujeitos urbanos das camadas médias da cidade de Campinas, que vem experimentando essa “conversão” do individualismo da sociedade contemporânea para uma ética religiosa específica que

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privilegia os valores comunitários? Buscarei delinear a seguir os traços básicos do perfil desses participantes.

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1.3.

OS DISCÍPULOS DO ALTO DAS CORDILHEIRAS
No período de agosto até inícios de novembro de 1998, realizei o trabalho de

campo no Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas. Além das entrevistas qualitativas, elaborei um breve questionário de duas páginas, o qual me possibilitou a obtenção do perfil que exporei a seguir. O questionário foi respondido por 59 pessoas, dentre os 69 sócios que o núcleo contava então. O motivo que me impossibilitou de recolher os dados de todos foi principalmente o distanciamento de alguns, que no entanto ainda estão associados. Não tenho pretensão de construir um quadro estatístico rigoroso. Minha intenção é apenas utilizar estes dados limitados para delinear um “perfil” daqueles a respeito de quem esta dissertação trata. Estes breves traços que se seguem possibilitarão que o leitor venha a ter alguma idéia da inserção sócio-econômico-cultural dos participantes do núcleo. No Núcleo Alto das Cordilheiras predominam pessoas na faixa dos 40 anos de idade, os quais constituem 40% dos participantes. Na faixa dos 50 e dos 30 anos há também em torno de 20% dos sócios. O número de jovens é mais reduzido: apenas 15% na faixa dos 20 anos. Assim, o núcleo se caracteriza por uma maioria significativa de membros adultos maduros, dos quais, como veremos adiante, a maior parte já bebe o chá há muitos anos. Tal predomínio numérico dos mais maduros, tanto em idade quanto em tempo de participação, tem as suas repercussões na dinâmica interna do grupo. Dentre os pesquisados, há 30 mulheres e 29 homens, ou seja , praticamente um equilíbrio numérico.

Faixas Etárias
5% 18% 20% 2% 15% 19 a 29 anos (8) 30 a 39 anos (11) 40 a 49 anos (22) 50 a 59 anos (10) 60 a 69 anos (3) 70 a 79 anos (1)

Sexo
49% 51%

40%

Mulheres 30 Homens 29

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As procedências dos participantes, tendo em vista os seus locais de nascimento, são diversas: são apenas 18% dos membros que nasceram na cidade de Campinas, 23% de São Paulo e 25% do interior do Estado, 29% vêm de outros Estados e há ainda 5% de estrangeiros. Entre os provenientes de Campinas, há uma porção significativa pertencente a famílias tradicionais da cidade. Nas casas de alguns pude ver algumas fotos de bisavós dos áureos tempos do café. Mas, como vimos, o contingente maior numericamente, é dos nascidos em outros estados, os quais, somados aos que vieram do exterior (Europa, América Latina, Oriente Médio), trazem um colorido de maior diversidade cultural ao núcleo.
L o cal d e N ascim ento
C am pinas (8)
1 8%

5% 2 9%

S ão P aulo (13) Interior de S P (14) O utros estados (16) E xterior (3)

23 %

25%

A grande maioria dos participantes, 82%, mora atualmente na própria cidade de Campinas. Mas há um grupo de moradores de São Paulo, capital. Tal grupo, que perfaz 16% da irmandade, é composto em sua maior parte por pessoas que já participam da UDV há mais de uma década. Esses normalmente não têm condições de estar presentes nos mutirões, que acontecem quinzenalmente, nas manhãs e tardes dos sábados em que há sessão de escala. Assim, a participação deles fica mais limitada à própria sessão, o que, ainda que “desfalque” o trabalho do núcleo, é aceito pela direção. Mas há uma tendência a querer que os novos participantes sejam de fato moradores de Campinas, para que possa haver maior participação nas atividades. É importante ressaltar que há três núcleos da UDV nos arredores da Cidade de São Paulo. Isso indica que, se essas pessoas optam por “enfrentar a estrada” e ir até Campinas, é porque devem reconhecer um diferencial que compensa o maior tempo dispendido e o desgaste de uma viagem mais longa.

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Locais atuais de moradia
2%

16%

Campinas (46) São Paulo (9) Interior de SP (1) 82%

Quanto ao estado civil dos participantes, predominam os casados, perfazendo 53%, dos quais, por sua vez, 90% têm o cônjuge participando do próprio núcleo. Ou seja, são apenas 3 as pessoas casadas cujo marido ou esposa não participa da UDV. Este é um dado importante, e bastante específico da UDV. Demonstra a “ênfase familiar” do estilo de vida dos discípulos da União do Vegetal. Por exigir uma participação que demanda uma parcela de tempo bem maior que muitas religiões, a UDV se torna difícil para pessoas cujo cônjuge não participa. Ter um sábado a cada quinzena ocupado, muitas vezes desde a manhã até tarde da madrugada, sem contar os demais compromissos que surgem por ocasião de eventos para angariar recursos, certamente não é algo fácil para os casados que não são acompanhados por seu cônjuge. Além desse elemento prático, a insistência com que na doutrina da UDV se elogia a constituição da família cria um ambiente favorável à participação dos casais, havendo inclusive “sessões de casal” umas três vezes por ano, nos meses em que há cinco sábados. De modo geral, na UDV os solteiros são de certo modo estimulados ao casamento, mas no Núcleo Alto das Cordilheiras essa tendência é bem mais discreta do que em outros núcleos. De qualquer modo, há entre os casados do núcleo uns poucos que vieram a se conhecer no âmbito da UDV. No núcleo é significativa a presença dos separados/as, desquitados/as ou divorciados/as, perfazendo no total 22%. Ao que parece este percentual está acima da média da UDV. Pude observar que as pessoas desse núcleo lidam com mais naturalidade com essa presença de “descasados/as” que outros núcleos da UDV, ainda que algumas pessoas, principalmente mulheres, falem de algumas manifestações de preconceito.

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Estado Civil
2% 11% 2% 9% 23% Solteiro/a (13) Casado/a (30) Viúvo/a (1) Divorciado/a (6) Desquitado/a (1) Separado/a (5)

53%

Quanto à escolaridade, trata-se de um dos aspectos mais específicos do Núcleo Alto das Cordilheiras, em comparação com os demais núcleos da UDV. Há 78% dos participantes com nível superior. São pouquíssimos os de nível primário (2 pessoas), e os de secundário totalizam 10 pessoas, ou seja, 18%. Quanto aos de nível superior, há 5 pessoas (9% do total geral) que tem curso superior incompleto, 25 com a graduação completa (44%), 4 com mestrado (7%) e 10 com doutorado (18%), alguns deles com a pósgraduação ainda em curso. Esse contingente tão grande de pós-graduados certamente é o mais elevado proporcionalmente em toda a UDV. Assim, o Núcleo Alto das Cordilheiras tem um certo tom mais “cultivado” claramente perceptível, seja nas perguntas e respostas durante as sessões, seja nos temas abordados, seja nas atividades e eventos realizados.

Escolaridade
100% 10 80% 60% 40% 20% 0% 5 10 2 4 25 Doutorado (10) Mestrado (4) Superior completo (25) Superior incompleto (5) Secundário (10) Primário (2)

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Áreas Profissionais
15 10 5 0 1 15 14 11 10 8 4 Artes e Arquitetura - 15 Educação - 14 Saúde - 11 Ciência e Técnica 10 Relações Humanas -8 Estudantes - 4

No que toca às áreas profissionais às quais os membros do núcleo se dedicam, pode-se observar a incidência maior de determinadas profissões. A partir das respostas à questão “qual a sua profissão?”, a qual permitia que cada um desse mais de uma resposta, se fosse o caso, agrupei as profissões citadas de um modo um tanto quanto arbitrário, apenas para que se tenha uma idéia das áreas mais presentes. A primeira em número de citações (15) é a que chamei “Artes e Arquitetura”. O Mestre Representante do núcleo é arquiteto, e, provavelmente devido ao seu círculo de contatos, há 6 arquitetos no núcleo, ou seja mais de 10% do total pesquisado. A eles foram somados alguns músicos e artistas plásticos. Há alguns meses músicos profissionais e amadores do núcleo têm se reunido semanalmente com vistas à realização de um projeto de formação de um grupo musical profissional. Essa presença significativa de artistas pode ser relacionada a um tom “sensível” e outsider19 que reveste esse núcleo de uma certa peculiaridade dentre os demais da UDV. Em seguida, a segunda maior área é a da “Educação” (14). São 8 os professores universitários, 2 deles mestres e 3 conselheiros. Há também um significativo número (11) de profissionais da área de “Saúde”: são 6 médicos, 4 psicólogos e 1 dentista. No conjunto, percebe-se um claro predomínio das áreas humanas e biológicas sobre as exatas.

Emprego aqui esta expressão no sentido apontado por Becker: “I have been using the term ‘outsiders’ to refer to those who are judged by others to be deviant and thus to stand outside the circle of ‘normal’ members of the group.” (BECKER, 1966, p. 15).

19

50

N o mo me nto e mpre g ado ?
S im - 38 4%6% 6% 10% N ão - 5 A pos entado/a - 3 S om ente es tudante - 2 S om ente dona de c as a - 3

74%

A grande maioria dos membros do núcleo encontrava-se empregada no tempo da pesquisa. São 74% com emprego, os quais, somados aos aposentados (6%), donas de casa (6%) e estudantes (2), perfazem 90% do total de membros. Há somente 5 pessoas (10%) que se afirmaram desempregados. Quanto à participação político-partidária, 60% não é nem filiado nem simpatizante de algum partido político. Há somente 1 pessoa que tem filiação partidária, no caso ao PT. E há 38% que, mesmo sem serem formalmente filiados, se declararam simpatizantes de algum partido: a maioria do PT, 15 pessoas, o que perfaz 72% dos que têm simpatia por partidos. E o PV tem 3 simpatizantes (14%), assim como o PSDB.

Participação Partidária
Simpatizantes de Partidos
Filiado (1) Não, nem simpat. (34) Simpatizante (21)

14% 14% 72% Simpatizante PT (15) Simpatizante PV (3) Simpatizante PSDB (3)

60%

38%

2%

No que toca ao nível sócio-econômico, a grande maioria (86%) se reconhece como integrante da classe média. Dentre esses, 56% do total afirmam pertencer à classe “média média”, e 14% à “média inferior”. Já quanto à “classe trabalhadora”, outros 14% assim se identificaram. No entanto, houve uma certa ambigüidade quanto a esse último termo, de modo que nem sempre essa classificação coincidiu com o grupo daqueles que têm a mais baixa renda familiar mensal. Ainda que haja uma parcela significativa que tem renda

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familiar mensal acima dos 30 salários mínimos (30%), ninguém se considera da classe alta, mas 16% se vêem como integrantes da classe média alta. Se somarmos aos que ganham mais de 30 salários mínimos os que recebem de 20 a 30 salários (18%), chegaremos aos 48%, ou seja, poder-se-ia dizer que quase a metade dos sócios do núcleo tem um padrão de vida confortável. Enquanto isso, os que têm renda entre 10 a 20 salários são 30%, os quais, somados aos que recebem de 5 a 10 salários (13%), perfazem 43% nesse nível mediano. E apenas 5 pessoas (9%) estão na faixa inferior, com renda de 0 a 5 salários mínimos.

Faixa de renda familiar mensal

0 a 5 salários mínimos -5 5 a 10 salários mínimos - 7

9% 30% 13%

10 a 20 salários mínimos - 17 20 a 30 salários mínimos - 10 mais de 30 salários mínimos - 17

18%

30%

52

Classe social
0%

16%

14% 14% trabalhadora - 8 média inferior - 8 média média - 31 média alta - 9 alta - 0

56%

Quanto a bens imóveis ou bens de consumo duráveis, é interessante observar que 39 pessoas dentre as 56 pesquisadas (69% do total) têm casa própria e 46 pessoas possuem automóvel (82% do total). E 42 (75%) têm computador, dos quais 37 (66%) têm conexão com a Internet.

Bens possuídos
60 50 40 30 20 10 0 1 9 56 49 39 46 42 37 total pesquisado 56 casa própria - 39 telefone - 49 automóvel - 46 computador - 42 conexão Internet 37 casa de praia/campo - 9

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Tempo de Participação na UDV
9%

Pirâmide doTempo de Participação na UDV
20 a 24 anos 8 15 a 19 anos 20 10 a 14 anos - 9 5 a 9 anos - 14 0 a 4 anos - 5

14%

0 a 4 anos - 5 5 a 9 anos - 14

8 20

25%

10 a 14 anos - 9

36% 16%
15 a 19 anos 20 20 a 24 anos 8 -

9 14 5

Quanto ao tempo de participação na UDV, a média entre os discípulos do Núcleo Alto das Cordilheiras é bem alta: 12,6 anos. Dividindo-se o tempo em 5 faixas, até os 24 anos de participação, observa-se que a faixa entre 15 e 19 anos de participação é a mais numerosa: 20 pessoas, ou 36%. Há ainda aqueles que já têm 20 anos ou mais (até 24) de participação na UDV, os quais são em número de 8, ou 14%. Assim, se somarmos esses dois grupos, chegamos à surpreendente afirmação de que 50% dos participantes do núcleo tem mais de 15 anos de UDV. Este dado aponta para a maturidade do grupo em seu percurso religioso de uso ritual do chá hoasca.
Lugar na Hierarquia 9% 18% 30%
Quadro de Sócios - 17 Corpo Instrutivo - 24 Corpo do Conselho - 10

43%
Quadro de Mestres - 5

54

No que toca ao lugar na hierarquia da UDV, a maioria, 24 pessoas (43%) se encontra no Corpo Instrutivo (CI). O Quadro de Sócios é menor: apenas 17 pessoas (30%). O Corpo do Conselho (CDC), que com os Mestres integra a Direção do Núcleo, é formado por 10 pessoas (18%), enquanto que o Quadro de Mestres (QM) tem a metade, 5 pessoas (9%). O gráfico em forma de pirâmide abaixo é bem esclarecedor, na medida em que cada grau abrange também os que se encontram acima dele. Assim, por exemplo, quando há sessões instrutivas, participam os do CI, do CDC e do QM. O topo da pirâmide, o Quadro de Mestres, está até agora vedado à participação das mulheres.

Pirâmide do Lugar na Hierarquia
5 10 24

17

Quadro de Mestres - 5 Corpo do Conselho - 10 Corpo Instrutivo 24 Quadro de Sócios - 17

Observando quais as religiões anteriores dos participantes do núcleo, vê-se que há um predomínio significativo dos católicos: 37 pessoas, 66% do total. A seguir vêm os que não tinham religião antes da UDV: 10 pessoas ou 18%, imediatamente seguidos pelos espíritas kardecistas, 9 pessoas ou 16%. Há também um número razoável de pessoas 6 (10%) que freqüentaram sociedades esotéricas, como a Ordem Rosacruz. Na seqüência aparecem 16 religiões, cada uma com de 3 a 1 menção. Essa variedade exuberante é bem conforme a um certo traço “buscador” de muitos que procuram a UDV e lá permanecem. O número relativamente alto de pessoas sem religião acena para algo que as entrevistas várias vezes apontaram: como a experiência de estado alterado de consciência com o chá hoasca propiciou para vários agnósticos ou ateus uma descoberta da dimensão religiosa da existência que os levou a uma “conversão”.

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Religiões Anteriores

"Ecumênica" Haja Yoga Meditação Transcendental Quimbanda Taoísmo Sufismo Xamanismo Islamismo Mórmons Igreja Ortodoxa Igrejas Evangélicas Pentecostais Judaísmo Igrejas Evangélicas Budismo Candomblé Umbanda Ordens Esotéricas Espiritismo Kardecista Sem religião Catolicismo

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 2 3 3 3

6

9 10 20

37 40

0

O catolicismo também é o mais numeroso no gráfico das religiões das mães dos membros do núcleo, 38 pessoas o mencionaram. A seguir se encontra a UDV, o Espiritismo Kardecista e Igrejas Evangélicas, cada um dos três com 4 menções. Quanto às religiões dos pais, o catolicismo também é o primeiro, mas com um decréscimo em relação às mães, apenas 29 mencionaram esta como a religião de seus pais. Aqui é significativo o número de pais sem religião: 8. Esse grupo sem religião é bem mais reduzido entre as mães: apenas 2.

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R eligiões do s Pais
Esoterismo 1 1 2 3 4 4 5 8 29 0 10 20 30 Igreja O rtod oxa Juda ísmo M órm ons Igreja s Eva ngélicas Espiritismo Karde cista UDV Sem religiã o C ato licismo

Religiões das Mães
"Ecumênica" Igreja Ortodoxa

1 1 1 2 2 4 4 4 38 0 10 20 30 40

Mórmons Sei-cho-noie Sem religião Igrejas Evangélicas Espiritismo Kardecista UDV Catolicismo

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Estes breves traços aqui expostos podem possibilitar ao leitor alguma idéia da inserção sócio-econômico-cultural dos participantes do núcleo. No entanto, estou consciente das limitações deste quadro, como por exemplo a ausência de dados a respeito dos participantes da UDV como um todo, para efeitos comparativos. Além disso, é importante perceber que não se trata de “dados brutos”. Há certamente, dados objetivos, como a idade das pessoas. Mas, a todo momento manifesta-se o filtro da percepção individual, seja a dos informantes, seja a minha própria. Por exemplo, ao responder acerca de sua inserção em determinada classe social, cada qual se enquadrou segundo os seus próprios critérios a respeito do que vem a ser “classe média média” ou “classe média alta”. Ou, quando perguntei acerca da religião dos pais, a maioria das pessoas respondeu apontando para apenas uma, ainda que seus pais possam ter múltiplas pertenças religiosas simultâneas, sem falar na diversidade de pertenças diacronicamente. Portanto, este capítulo expressa, de certo modo, a representação que os próprios participantes fazem de si, a partir do recorte traçado por mim. Assim, este “perfil” tem algo de “impressionista” - trata-se simplesmente de um olhar para alguns aspectos selecionados por mim e informados pelos próprios discípulos do Núcleo Alto das Cordilheiras.

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2. A ESTRELA DO NORTE
2.1. A VIDA DE MESTRE GABRIEL
“Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras da claridade...” João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

Neste capítulo delinearei, a partir das narrativas de participantes, o itinerário histórico fundacional da União do Vegetal, tanto em Rondônia, quanto, depois, em São Paulo. Em 22 de julho de 1961, José Gabriel da Costa fundou a União do Vegetal, na Amazônia, em região próxima à fronteira entre o Brasil e a Bolívia. No ano de 1965, José Gabriel da Costa mudou-se para Porto Velho, onde consolidou a União recém-fundada. Ainda em vida de Mestre Gabriel, foi fundado o núcleo de Manaus e em 1972, um ano após seu falecimento, já se inaugurou o núcleo de São Paulo. Inicio apresentando a trajetória de José Gabriel da Costa e relacionando-a com aspectos da especificidade cultural brasileira. Acompanhando o percurso de sua vida, é possível tecer uma ampla rede de relações com diversas configurações culturais presentes na sociedade brasileira.
O menino de Coração de Maria

Segundo declarações de familiares20, no dia 10 de fevereiro de 1922, ao meio-dia, na Fazenda Arroz, no município de Coração de Maria, próximo a Feira de Santana, na Bahia, nasce José Gabriel da Costa. Filho de Manuel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da Costa. José nasce em uma numerosa família de treze irmãos: João, Dionísio, Otacílio, Pedro, Romão, Maria, “Miúda”, José Gabriel, “Sinhá”, Alfredo, Antônio, Maximiano, Hipólito. No livro União do Vegetal: Hoasca; Fundamentos e Objetivos, o único texto editado para o grande público até o momento pela instituição, apenas três páginas tratam da vida do fundador da UDV. Assim, tivemos de buscar informações junto a parentes e outras pessoas que com ele conviveram, além de pesquisar no jornal Alto Falante, do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV.

20

Depoimento de Antônio da Costa, irmão de José Gabriel da Costa, em 4 de novembro de 1995.

59

De acordo com seus parentes, desde pequeno, José já se destacava como alguém especial. Contam que ainda criança, ele auxiliou uma mulher com dificuldades de parto. O bebê se encontrava mal posicionado e a parteira temia que morressem mãe e filho. José entra no quarto, manda todos saírem, tranca a porta e logo em seguida a destranca. Quando o menino abre a porta, simultaneamente nasce a criança. Na década de 20, o menino José cresce em um meio rural fortemente marcado pelo catolicismo popular. Uma recordação que narram de sua infância é que o “garoto ia aos domingos à igreja de sua cidade e levava com ele um barbante. Durante a missa, amarrava as pessoas umas às outras, pelos passantes das roupas, sem que elas percebessem” (CENTRO DE ESTUDOS MÉDICOS DA UDV, 1993, p. 1)21. Também conta o seu irmão Alfredo:
“Minha mãe era muito devota e zeladora da igreja onde a gente congregava e ía à missa. E ela tinha o capricho de levar os filhos pra fazer a primeira, segunda e terceira comunhões. E justamente, não sei se na segunda ou na terceira comunhão, ele representou alguma coisa ao padre, que eu não sei o que possa ter sido, que o padre ficou abismado. Ele se confessou e na confissão contou ao padre um assunto religioso. Não foi uma história qualquer, certamente, que o padre ficou espantado. Depois, o padre passou a dizer à minha mãe: ‘Dona Prima, aquele menino seu é qualquer coisa. A senhora cuide daquele menino, que ele é bem diferente. Ele me representou lá um ato que eu fiquei bobo. Não sei. Onde é que aquele menino esteve?’ E minha mãe: ‘Não, ele não sai de casa, trabalhando junto com os outros, indo à escola, escolinha fraca...’ E o padre: ‘É. Aquele menino tem qualquer coisa.’ Chamava-se Padre Orlando, um italiano.”22

Adiante, continua Alfredo a falar da participação de seu irmão nas devoções do catolicismo popular baiano:
“Ele não era homem de só andar com o nome de Deus na boca. Mas ele gostava de rezar. Nossa tia era uma rezadeira, Tia Rosa. Rezadeira de terço naquelas casas. Então o pessoal vinha chamá-lo pra rezar. E ele, por ter voz bonita pra cantar - e lá tinha aqueles benditos - minha tia levava ele. E ele tinha aquele catecismo que os padres
O texto continua: “José Gabriel da Costa - Mestre Gabriel - era esse menino. Fundou a União do Vegetal para continuar unindo as pessoas.” 22 Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa a Edson Lodi, em 17 de abril de 1987, na Estância Centro-Oeste. In: Memórias, Volume I. Centro de Memória e Documentação do CEBUDV. p. 59.
21

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davam pra gente se preparar. Pois aquele catecismo ele lia de cor. E sabia aquela ladainha, Salve Rainha. Ele rezava cantando. O pessoal vinha sempre chamar pras novenas de Santo Antônio e as do mês de Maria, que eram dois meses de festa. Ele acompanhava tudo. Então, era uma pessoa devota. Lá em casa tinha uma grande festa, que meu pai comemorava mesmo. Era aquela chegança. Era o 6 de janeiro. Chamavase marujada. E José era um dos marujos. Eles representavam aqueles tempos de Reis Magos.”23

Nas chamadas, hinos entoados durante o ritual da União do Vegetal, há referências constantes a Jesus e a santos católicos: a Virgem da Conceição, São João Batista, a Senhora Santana, São Cosme e São Damião. E até hoje o dia 6 de janeiro, Dia de Reis, é celebrado na UDV. Aos 13 anos de idade, em 1935, emprega-se num estabelecimento comercial. Aos 18 anos, presta serviço militar voluntariamente na Polícia Militar da Bahia, chegando em poucos meses à patente de cabo de esquadra. Segundo seu irmão Antônio, atualmente também mestre na UDV, José Gabriel “conheceu todas as religiões, conheceu os terreiros de Salvador, andou por todas as religiões procurando a realidade”24. Segundo outro mestre, José iniciou na “ciência espírita com apenas 14 anos de idade”25. Provavelmente, esta informação refere-se à participação de José em terreiros de candomblé, e não em centros kardecistas, com os quais entretanto ele também entrou em contato, só que posteriormente, em Salvador. Em 1942, José Gabriel passou a morar em Salvador26. Segundo o pesquisador Afrânio Patrocínio de Andrade, que em 1995 fez uma dissertação de Mestrado em Ciências da Religião, na Universidade Metodista de São Paulo, acerca da União do Vegetal, José Gabriel freqüentou sessões espíritas kardecistas na Bahia (ANDRADE, 1995, p. 170). Foi, aliás, em Salvador que teve início o espiritismo kardecista no Brasil, no ano de 1865. Luís Olímpio Teles de Menezes fundou nesse ano o centro espírita Grupo Familiar do Espiritismo (GIUMBELI, 1995, p. 29)27. De acordo com Patrocínio de Andrade, certos temas recorrentes na União do Vegetal poderiam ter sido colhidos do espiritismo kardecista. Antes de mais nada, a visão reencarnacionista, um dos
23 24

Id., p. 65. Depoimento de Antônio da Costa, id. 25 Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d., p. 2. 26 Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa. Id. p. 49. 27 Cf. tb. KLOPENBURG, 1960, p. 25.

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eixos fundamentais da visão de mundo da UDV. Assim como o lema “Luz, Paz e Amor”, denominado o “símbolo da União”, poderia provir dos temas espíritas da “luz interior”, da “paz de espírito” e do “amor ao próximo” (ou caridade). A própria ênfase na “União” é freqüente entre os espíritas no Brasil. (ANDRADE, Id.)
O capoeirista

Segundo um mestre que conviveu com ele, José “foi considerado pelos prosadores populares um dos melhores poetas da região; como cantador repentista teve sucesso inclusive em Alagoas e Sergipe”28. Também se destacou na capoeira, chegando a ser considerado um dos melhores capoeiristas do Nordeste. O livro de Ruth Landes, A cidade
das mulheres, nos auxilia a traçar um panorama dos ares soteropolitanos da década de 30,

que José tantas vezes respirou. A autora é levada por Edison Carneiro para assistir uma capoeira. Ela descreve detalhadamente a seqüência do jogo, e em certo momento, observa: “silenciados os ecos do desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão à frente com os braços levantados” (LANDES, 1967, p. 117. Grifo meu). É interessante notar que no ritual da UDV a circulação das pessoas no salão se faz também no sentido anti-horário, pois este é o “sentido da força”. Na capoeira, José cultiva uma série de habilidades postas em prática posteriormente, em suas experiências de incorporação nos toques de caboclo como Sultão das Matas. Do mesmo modo, tais habilidades também foram exercitadas como Mestre da UDV. Evocadora desse ambiente capoeirista é a cantiga de domínio público gravada por Nara Leão, às vezes tocada em sessões da UDV:
“Minino, quem foi teu mestre? Meu mestre foi Salomão. A ele devo dinheiro, saber e obrigação. O segredo de São Cosme quem sabe é São Damião, olê Água de beber, camarada água de beber, olê Água de beber, camarada faca de cortar, olê Faca de cortar, camarada,
28

Depoimento de Hilton Pereira de Pinho. Id.

62

Ferro de engomar, olê Ferro de engomar, camarada Perna de brigar, olê Perna de brigar, camarada. Minino, quem foi teu mestre?”29

Estaria relacionada à capoeiragem uma das explicações possíveis, apresentada por familiares, para a viagem do jovem José da Bahia para o Norte. De acordo com relato de seu filho Carmiro Gabriel da Costa, em 1943, José envolve-se num conflito. Um amigo seu, de nome Mário, tem o pé pisado por um policial. José Gabriel “compra a briga do Mário”. Este foge e os policiais seguram José. Num golpe de destreza, ele consegue se desvencilhar dos policiais. Segue para um navio, para onde tinha ido se refugiar o amigo Mário. Os dois se alistam no Exército da Borracha e rumam para o Norte no navio Pará, da frota do Lloyd Brasileiro. Tudo indica que Mário era companheiro de capoeira de José Gabriel. No mundo da capoeiragem na época, a ética dos grupos sublinhava a importância da solidariedade e fidelidade entre os camaradas. E eram freqüentes os conflitos entre os grupos, com a polícia ou com indivíduos de outros segmentos da sociedade. Em dissertação acerca da capoeira no Rio de Janeiro de 1890 a 1937, Antonio Pires afirma que “as relações de conflito e solidariedade na capoeiragem estiveram permanentemente relacionadas com os conflitos mais gerais da sociedade” (PIRES, 1996, p. 143). Parece que já se esboça nesse tempo a preocupação de José Gabriel com a “justiça”. Sua participação na capoeiragem em Salvador não conflita com seu engajamento profissional, primeiramente como comerciário e depois como enfermeiro. Como observa Antonio Pires quanto à capoeira no Rio, “a maioria dos capoeiras comprovaram manter vínculos com o ‘mundo do trabalho’, descaracterizando o estereótipo de vadios construído em relação a eles.”30

29

Cf. outra cantiga semelhante, recolhida por Edison Carneiro: “Minino, quem foi teu mestre? quem te ensinô a jogá? - Sô discip’o que aprendo Meu mestre foi Mangangá Na roda que ele esteve, outro mestre lá não há.” (CARNEIRO, 1974, p. 138). 30 Id., p. 201.

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O seringueiro do Exército da Borracha

Chegando a Manaus, José Gabriel e Mário embarcam no navio Rio Mar, com destino a Porto Velho, onde chegam “em 13 de setembro de 1943, às 20 horas; neste mesmo dia estava sendo festejada a criação do Território do Guaporé”31. Os dois vão juntos para o trabalho na seringa e fazem um “pacto de amigo”, de só se separarem pela morte. Como narra Carmiro:
“Quando ele veio da Bahia, ele veio com um amigo dele chamado Mário. E eles fizeram um pacto de amigo de se separar só com a morte. E vieram lá pra aquela região, a região do Alto Guaporé. E lá naquela época os patrões de seringal levavam os seringueiros lá pra cortar a borracha e na hora de tirar o soldo, que é o valor que a pessoa tem a receber do patrão, eles mandavam os capangas pra tirar o soldo. [...] Mas não era bem isso, não, ele ia lá, matava o seringueiro e contratava outro. O cara trabalhava e pagava com a vida. [...] Aí ele [Gabriel] disse: ‘- Mano nós vamos se embora’. ‘- Se embora?’ ‘- Nós vamos se embora porque amanhã os capanga do gerente vai vir aqui e vai matar nós dois. E contou a história pra ele’. ‘- Gabriel, tu vai, que eu não posso andar’. Ele disse: ‘- Eu lhe carrego!’ ‘- Mas rapaz, tu vai te atrasar.’ ‘- O pacto que nós temos é nos separar com a morte. Tu ainda está vivo. Quando tu morrer eu te enterro.’ ”32

José Gabriel cumpre até o fim esse pacto, chegando a carregar Mário nas costas por vários quilômetros. Quando o doente morre, seu amigo sozinho o enterra na floresta. Tendo chegado no Território do Guaporé33, atual Estado de Rondônia, José Gabriel se inseriu num ambiente com uma configuração ecológica e sócio-cultural bem distinta da Cidade de Salvador. O extrativismo da borracha, depois de seu período de boom, entre 1890 e 1912, havia em seguida atravessado uma fase de declínio, devido à concorrência no mercado internacional da borracha extraída na Ásia. Com a Segunda Guerra Mundial, apresentou-se a necessidade de borracha para os exércitos Aliados. Com a assinatura de
31 32

Hilton Pereira de Pinho, s.d. p. 2. Depoimento de Carmiro Gabriel da Costa, filho de José Gabriel da Costa, em 4 de novembro de 1995. 33 A respeito do Território, vide a dissertação de mestrado em história de Emanuel Pontes Pinto, Criação do Território Federal do Guaporé: fator de integração da fronteira ocidental do Brasil. (PINTO, 1992).

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acordos com os Estados Unidos, o Governo Vargas iniciou uma ampla campanha de recrutamento de trabalhadores, principalmente nordestinos, para a extração gomífera no Norte. Em 30 de novembro de 1942, foi criado o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia, SEMTA, que, no período de menos de um ano durante o qual funcionou, teria encaminhado 13 mil pessoas, segundo um depoimento de seu chefe34. Essa agência foi substituída pela Comissão Administrativa de Encaminhamento Trabalhadores para a Amazônia, CAETA, que funcionou até 1945 e teria enviado à Amazônia, de acordo com um relatório, 24.300 nordestinos. Assim, ainda que haja outras estimativas numéricas, segundo esses dados oficiais, teriam sido levadas para o Norte pelo SEMTA e pela CAETA um total de aproximadamente 40 mil pessoas (MORALES, 1999, p. 88-92). No ano de 1943, José Gabriel integra essa massa de trabalhadores nordestinos que se lançam como “brabos” nos seringais amazônicos. “Brabo é gente que nunca cortou seringa, nunca andou na floresta. Sofremos muito, como brabo” - declara Pequenina, esposa de José Gabriel35. O sofrimento daqueles homens, submetidos a condições de vida e trabalho extremamente penosas, em um ambiente desconhecido, sem o auxílio governamental prometido pela propaganda oficial, ficou bem marcado na memória dos sobreviventes da “batalha da borracha”. A antropóloga Lúcia Arrais Morales, em sua tese doutoral a respeito dos soldados da borracha, recolheu o seguinte depoimento, de um Sr. Chico, ex-integrante do Exército da Borracha, que bem se assemelha ao da esposa de José Gabriel:
“Saímo de Manaus de noite. [...] Nós cheguemo lá, aí o cabo disse: ‘aqui veio 35 homens para você, pra seu pai’. [...] Aí a casa dele era bem pequenininha. Num tinha onde a gente dormir. Dormimo no teto mermo. Carapanã! Carapanã, e agora, a comida? Tudo brabo, tudo! A gente já tinha deixado a Companhia [SEMTA]. Aí fiquemo sofrendo. Fiquemo jogado que nem cachorro na beira do rio. [Qual?] era o Solimões acima de Tefé. Aí eu disse: ‘ombora pessoal! vamo meu povo!, bora cuidar!, bora se virar’. Aí embarquemo numa canoa veia [velha], jogada por ali, furada. Arremendamo com pano, com vara. Outros pegaram pau, pedaço de tauba e fumo procurar colocação pra cortar seringa.” (MORALES, 1999, p. 236).
Depoimento de Paulo de Assis Ribeiro, Chefe do SEMTA, à CPI acerca dos soldados da borracha em 13 de agosto de 1946. (MORALES, 1999, p. 89, nota 6). 35 Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. In: Alto Falante, Jornal do Departamento de Memória e Documentação da UDV. Brasília: ago-out 1995, p. 6.
34

65

Morales observa que aqueles que conseguiram sobreviver a condições tão adversas foram homens de significativa inteligência e iniciativa, que conseguiram adaptar seus esquemas de percepção e recursos cognitivos à nova realidade em que se encontravam:
“Era a questão da sobrevivência mesma que estava em jogo e, por isso, precisavam agir de forma conseqüente. Não ficaram à mercê dos acontecimentos, esperando uma ajuda externa. [...] É frente a isso que o Sr. Chico diz: ‘ombora pessoal! bora se virar!’. Adotam, então, uma linha de ação onde predominam a iniciativa e a coragem. Onde prevalecem a concentração dos recursos da percepção, da memória e da atenção para dirigir esforços na descoberta de meios capazes de resolver a questão.” (Id., p. 243)

José Gabriel foi um desses homens de aguda inteligência e destreza, que não somente conseguiu sobreviver como chegou a ser considerado pelos seus companheiros como o “Tuchaua”, o seringueiro que coletava maior quantidade de seringa na região36. Tais êxitos eram acompanhados de dureza e sofrimento, como quando José Gabriel pisou em uma arraia, e teve de passar “um ano e dez meses sem poder andar, de muleta”.37
O ogã do terreiro de Chica Macaxeira

Depois de trabalhar um tempo no seringal, José Gabriel muda-se para Porto Velho, onde fica trabalhando como servidor público, enfermeiro no Hospital São José. Conhece, em 1946, Raimunda Ferreira, chamada Pequenina, com quem se casa no ano seguinte. Do casamento nasceram os seguintes filhos: Getúlio, Jair, Jandira, Salomão, Benvindo, Carmiro, Abomir e José Gabriel Filho. Em Porto Velho, “Seu” Gabriel atendia pessoas em sua casa, pois jogava búzios. Mais tarde, se torna Ogã e Pai do Terreiro de São Benedito, de Mãe Chica Macaxeira38. Esse terreiro foi citado por Nunes Pereira (PEREIRA, 1979, p. 121-143. 223-225), que o visitou, possivelmente em meados da década de 60 ou no início dos anos 70. O pesquisador maranhense reconhece o terreiro de Porto Velho como sendo da tradição mina-jeje, oriundo da Casa das Minas. “Os toques, inegavelmente, tinham a rítmica que me era familiar não só da Casa das Minas, de São Luís do Maranhão, como do Bogum de Mãe Valentina, em Salvador, Estado da Bahia.” (Id., p. 223).

36 37

Entrevista de Mestre Florêncio. In: Alto Falante. Brasília: fev-set 1996, p. 8. Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id., p. 6. 38 Entrevista do Conselheiro Paixão. Alto Falante. Brasília: abr-jun 1995, p. 8-9.

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É surpreendente descobrir que Nunes Pereira encontrou no Terreiro de Chica Macaxeira uma “inovação no ritual mina-jeje, o uso da ayahuasca. E isso, sem dúvida, para estimular, paralelamente, com os cânticos rituais e com a voz sagrada dos tambores, ogãs e gôs, o estado de transe, a possessão que ligam os Voduns do panteão daomeano ou do ioruba às gonjais e noviches que o cultuam” (Id. p. 142). Ora, no tempo em que José Gabriel lá trabalhava como Ogã, não havia utilização da ayahuasca no culto, tanto que ele somente viria a conhecer a bebida anos depois, no seringal. Assim, é legítimo supor que, possivelmente, a Mãe-de-Terreiro Chica Macaxeira conheceu a ayahuasca através de seu antigo Ogã e Pai-de-Terreiro José Gabriel. Quando Nunes Pereira visitou o terreiro, o conjunto dos cânticos era lá denominado Doutrina da Ayahuasca. “Nomes de santos católicos, nalguns desses cânticos, se misturaram com os dos Voduns mina-jejes, tais como Xangô, Badé, Avêrêquête, e os ditos Barão de Goré, Sultão das Matas, Marangalá, Jatêpequare, Tindarerê, etc.” (Id. p. 143, grifo meu). É significativo que nos anos 60 ou 70 haja a presença do Sultão das Matas na lista das entidades do terreiro, já que, como se verá adiante, José Gabriel recebia esse caboclo quando trabalhava num terreiro que armou no seringal, nos anos 50.
O Sultão das Matas e os xamãs da fronteira boliviana

Até 1950, José Gabriel morava com Pequenina em Porto Velho. O casal já tivera dois filhos: Getúlio e Jair. Além de trabalhar como enfermeiro, ele tinha também uma “taberna de bebidas”. E gostava de política. Os dois partidos que disputavam o governo do Território do Guaporé eram liderados pelo Major Aluizio Ferreira, ex-diretor da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré que tinha sido o primeiro governador do Território, e o Tenente Coronel Joaquim Vicente Rondon (PINTO, 1992, p. 216). José Gabriel era pró-Rondon. No entanto, seu candidato perdeu, e ele foi perseguido em seu emprego público no hospital. Tendo de se afastar de seu trabalho, José resolve voltar para o seringal. Mais tarde, quando estão no Seringal Porto Luís, Pequenina fica sabendo de um chá: “o pessoal vê isso, vê aquilo, o cara falou até com o filho depois de morto”39. Ela fala a José Gabriel e ele vai pedir o chá ayahuasca a quem o distribuía no lugar, o Mestre Bahia. Mas o homem disse que “não dava o Vegetal praquele baiano que sabe aonde as andorinhas
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Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id. p. 7.

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dormem”40. Aí ele volta mais uma vez para Porto Velho e monta o comércio de novo. Assim, na década de 50, a família de José Gabriel e Pequenina esteve indo e voltando para o seringal e Porto Velho. Tendo se mudado para o seringal Orion, José Gabriel abriu o terreiro no qual “recebia” o caboclo Sultão das Matas. Como recorda Mestre Pequenina, “vinha gente de tudo quanto era seringal”41 consultar o Sultão das Matas. E ele curava as pessoas, assim como indicava o lugar certo onde se encontrava caça. Adaptando-se a um novo contexto sócio-ecológico-cultural, José Gabriel dirige um rito sincrético afro-indígena, no qual o valor simbólico da floresta, que perpassa toda a vida dos seringueiros, fica evidente. Tal rito, designado pelo filho de José Gabriel simplesmente como “macumba”42, parece assemelhar-se à pajelança cabocla amazônica43, uma forma de xamanismo não-indígena na qual tem importância fundamental a noção de incorporação do curador por entidades espirituais que agem através dele para a cura dos doentes. No entanto, certamente permaneciam marcantes nos toques do Seringal Orion os elementos religiosos afros vivenciados anteriormente por José Gabriel, seja na Bahia, seja em sua participação no Terreiro de São Benedito de Porto Velho. Posteriormente, a família volta para Porto Velho. Depois de um tempo, ele decide vender tudo e ir novamente para o seringal. As crianças estavam em idade escolar. Sua mulher, então, discorda:
“Eu disse: ‘Não, o que é isso? Eu não nasci no seringal, em mato. Não quero criar meus filhos sem saber ler e escrever.’ Ele disse: ‘É porque eu vou atrás de um tesouro.’ Mas eu era uma pessoa de cabeça cheia de muitas coisas e achei que era riqueza material que ele ia achar, e nós ia enricar, ter uma vida de rosa. Então, quando ele disse que ia, eu disse: ‘Então, vamos.’ Então eu digo que esse tesouro que ele encontrou junto comigo e os dois filhos, pra mim, é um tesouro tão maravilhoso que dinheiro nenhum não paga essa felicidade. (...) Então, esse tesouro, que é a União do Vegetal, tem me amparado.”44

40 41

Id., p. 7. Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id., p. 7. 42 Id., p. 9. 43 Cf. MAUÉS, Raymundo Heraldo. Padres, Pajés, Santos e Festas: Catolicismo popular e controle eclesiástico. Belém: CEJUP. 44 Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Alto Falante. Brasília: ago-out 1995, p. 7.

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Nestas palavras de Mestre Pequenina e provavelmente também na afirmação de José Gabriel, poder-se-ia detectar a presença dos motivos edênicos que povoaram o imaginário das populações que se defrontaram com a floresta amazônica. Nos sonhos e anseios dos nordestinos pobres que se lançam na aventura da borracha ecoam ainda as buscas das “estranhas coisas deste Brasil”: do Eldorado, da Lagoa do Vupabuçu, ou da serra anunciada por Filipe Guillén, “que ‘resplandece muito’ e que, por esse seu resplendor era chamada ‘sol da terra’ ” (HOLANDA, 1994, p. 36-37). Posteriormente, o sonho do tesouro a ser encontrado na selva é ressignificado, passando a expressar a União do Vegetal, que nasce da floresta, de um líquido também dourado, denominado por vezes de “chá misterioso”45. Tempos depois, no seringal Guarapari, numa colocação chamada Capinzal, na região da fronteira boliviana, José Gabriel recebe pela primeira vez o chá, de um seringueiro chamado Chico Lourenço, no dia 1° de abril de 1959. Chico Lourenço representa uma tradição indígena-mestiça de uso xamânico da ayahuasca que se espalha por uma ampla região da Amazônia ocidental. Tal tradição é designada posteriormente pela UDV como a dos “Mestres de Curiosidade”. Aí se inicia nova etapa na trajetória de José Gabriel.46

O Mestre e Autor da União do Vegetal

José Gabriel bebe três vezes o chá com Chico Lourenço e, logo depois, viaja por um mês para levar um filho doente a Vila Plácido, no Acre. Quando retorna traz um balde com o cipó mariri e folhas de chacrona que colheu no caminho. Diz à mulher: “Sou Mestre, Pequenina, e vou preparar o mariri” 47. Segundo seu filho Jair, “nesse período o Mestre Gabriel não deixou a macumba não. Ele fazia uma Sessão de Vegetal e uma de umbanda.”48

Artigo: Convicção do Mestre. In: Jornal O Alto Madeira. Porto Velho, 7 de outubro de 1967. Haveria muito a observar acerca da tradição “vegetalista” amazônica, o que transbordaria o âmbito desta breve exposição da trajetória de José Gabriel da Costa. Remeto aos textos de Luis Eduardo Luna e Edward MacRae citados na bibliografia. 47 Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id. p. 8. 48 Id. p. 9.
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Somente em 1961 ele reuniu as pessoas e disse: “Eu quero falar pra vocês que tudo que o Sultão das Matas fez eu sei: Sultão das Matas sou eu.”49 Este é um dos momentos mais importantes de ruptura de José Gabriel com a tradição religiosa à qual estava ligado anteriormente. Ao postular para si mesmo o poder antes atribuído à entidade Sultão das Matas, o agora Mestre Gabriel nega a incorporação dos cultos de caboclo e configura o transe que será típico da União do Vegetal: a burracheira. A burracheira, que segundo Mestre Gabriel significa “força estranha”, é a presença da força e da luz do Vegetal na consciência daquele que bebeu o chá. Assim, trata-se de um transe diverso, no qual não há perda da consciência, mas sim iluminação e percepção de uma força desconhecida. Em seguida, Mestre Gabriel e sua família se mudam para o seringal Sunta. No dia 22 de julho de 1961, ele reúne as pessoas para um preparo de Vegetal. Nesse dia, o Mestre Gabriel declara criada a União do Vegetal. Ou melhor, afirma que a UDV foi recriada, já que ela teria existido no passado, quando ele mesmo teria vivido em outra encarnação. No dia 6 de janeiro do ano seguinte, Mestre Gabriel se reúne com doze Mestres de Curiosidade no Acre, em Vila Plácido. Numa sessão, eles reconhecem Gabriel como o Mestre Superior. Finalmente, no dia 1° de novembro de 1964, no seringal Sunta, é realizada uma sessão na qual o Mestre Gabriel afirma que fez a Confirmação da União do Vegetal no Astral Superior. Logo depois, em 1965, ele se muda para Porto Velho, para lá consolidar a nascente instituição. Apenas seis anos depois, se deu o falecimento de José Gabriel da Costa, no dia 24 de setembro de 1971. Descrevendo-se em largos traços a vida de José Gabriel da Costa, fica patente a sua participação numa larga seqüência de configurações culturais muito próprias da sociedade brasileira: o catolicismo popular rural do interior da Bahia, a capoeiragem e os cultos afrobrasileiros de Salvador, a vida sofrida de seringueiro na Amazônia, a experiência de incorporação dos cultos de caboclo, o transe xamânico do hoasqueiro, e, finalmente, a atuação carismática do fundador de um novo movimento religioso. A maleabilidade, a destreza, a vivacidade e a ginga da capoeira capacitaram José Gabriel a elaborar uma criativa síntese de diversos elementos culturais e religiosos, num culto profundamente adaptado à realidade sócio-cultural amazônica. E não apenas adaptado
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Id. p. 9.

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a esta, mas com virtualidades para se expandir por todo o Brasil, exatamente por ser constituído por uma invenção vigorosa que se apropriou de configurações provenientes de diversas regiões brasileiras. Comparemos essa trajetória do fundador da UDV com o que Gilberto Freyre aponta acerca da maleabilidade da formação religiosa brasileira:
“Verificou-se entre nós uma profunda confraternização de valores e de sentimentos. Predominantemente coletivistas, os vindos das senzalas; puxando para o individualismo e para o privatismo, os das casas-grandes. Confraternização que dificilmente se teria realizado se outro tipo de cristianismo tivesse dominado a formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo; calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relações quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casasgrandes, das igrejas sempre em festas - batizados, casamentos, ‘festas de bandeira’ de santos, crismas, novenas - presidiu o desenvolvimento social brasileiro.” (FREYRE, 1992, p. 355).

José Gabriel da Costa, nascido nessa sociedade propensa a hibridismos, plena de plasticidade e inclusividade, elabora uma nova religião que também é “doce”, na medida em que privilegia o sentir e propicia ao indivíduo espaço para que ele próprio construa suas reinvenções criativas.

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2.2.

OS PRIMEIROS ANOS DA UNIÃO DO VEGETAL

EM PORTO VELHO

“Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez?” João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

A descrição dos inícios da União do Vegetal em Porto Velho, depois que José Gabriel da Costa decide mudar-se definitivamente para a capital do Território, não é meramente a continuação lógica de um relato histórico acerca das origens da UDV. Considero que a observação do processo de solidificação e institucionalização da nova religião em Porto Velho possibilitar-nos-á uma compreensão mais ampla do movimento em direção aos meios urbanos que mais tarde se verificou na “ida da UDV até o Sul”. Perceber como a “ida à cidade” já aconteceu nos inícios, ou melhor dizendo, ver como a UDV veio a ser criada em meio a um movimento de ir e vir da família de José Gabriel do seringal a Porto Velho, nos servirá para desnaturalizar a “ida até o Sul dessa religião da floresta amazônica”. Assim, o diálogo cultural da “floresta” (focalizada no tópico anterior) com a “cidade” (objeto deste tópico) é constitutivo da criação do próprio Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Nos sete anos de contato com a União do Vegetal, já tive a oportunidade de conhecer nove “mestres da origem”, além de dois filhos de Mestre Gabriel e um irmão dele, sendo estes três últimos também mestres da UDV. Especialmente relevantes foram as entrevistas com o M. José Luiz de Oliveira, atual Mestre Assistente do Mestre Geral Representante (a 2a pessoa na hierarquia), e com o M. Raimundo Carneiro Braga, exMestre Geral Representante. Além das entrevistas feitas por mim, foi-me valiosa a consulta aos arquivos do Departamento de Memória e Documentação, onde há o registro de várias entrevistas com os mestres antigos, algumas das quais publicadas no Jornal Alto Falante50. A partir das narrativas dessas pessoas, buscarei desenhar em largos traços o início da UDV em Porto Velho, sem pretensões de elaborar um relato histórico compreeensivo, visando mais apresentar um perfil dos participantes, as dificuldades e os conflitos daquela etapa inicial da presença da UDV em meios urbanos.

Publicação do CEBUDV, que durante alguns anos circulou impressa, com tiragem de até 4.000 exemplares, e atualmente é publicada eletronicamente, na Internet. Vide na bibliografia os números consultados.

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Segundo vários relatos, é no ano de 1965 que José Gabriel da Costa transfere-se com a sua família para Porto Velho, capital do então Território Federal de Rondônia. Antes dessa mudança definitiva, desde 1951 a 1959, segundo sua esposa Pequenina, o casal esteve em constantes idas e vindas de Porto Velho para os seringais e vice-versa. Mas agora, em 1965, Gabriel não vai à capital simplesmente motivado pelas dificuldades dos seringais, tentando vida melhor na cidade. Ele, conforme declarações suas gravadas em fita cassette, tem a auto-consciência de ser o portador de uma missão: plantar a União do Vegetal na Terra, para que um dia a UDV chegue a “fazer a paz no mundo”. Quando chegou em Porto Velho, José Gabriel da Costa ficou morando com sua família na Rua Abunã, no 1.215. Sua casa era muito pequena, sem espaço para se realizarem sessões. No mesmo ano de 1965, bebeu o Vegetal com o Mestre Gabriel o Sr. Raimundo Carneiro Braga, segundo ele mesmo afirmou em entrevista. Ele contou que o grupo que participava das sessões era pequeno:
“Eram bem poucas [pessoas], não lembro bem. Só sei é que quando começamos havia 16 sócios; posso comprovar porque tenho lá em casa o primeiro livro. Eu lidava naquela época com a tesouraria, por isso tenho esse primeiro livro guardado.”

Hilton Pereira de Pinho, já falecido, um antigo amigo, de José Gabriel da Costa, o conheceu “em 1946, no km 101 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré”51. José Gabriel fazia frete de lenha no local e Hilton trabalhava como ferroviário. Posteriormente, ele veio a ser um dos primeiros a receber a “estrela de mestre” e foi o primeiro presidente da Associação Beneficente União do Vegetal. Vinte anos após o primeiro contato com o amigo, ele veio a beber o Vegetal pela primeira vez nos inícios do ano de 1966, na sede do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP). Ele narra:
“No dia 06 de janeiro de 1966 tivemos a primeira sessão oficial da União do Vegetal, precisamente 1 ano após o mestre Gabriel ser reconhecido no astral superior como mestre geral da União do Vegetal, sendo esta realizada na sede da sociedade tátua, onde nos encontrávamos todos unidos.”52

Essa instituição esotérica foi fundada em 27 de junho de 1909, na Cidade de São Paulo, por Antônio Olívio Rodrigues (RODRIGUES, 1991), espalhando-se pelo Brasil, de modo que na década de 60 já havia um Tattwa, ou seja, um “Centro de Irradiação Mental”, em Porto
51 52

Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d. p. 2. Idem. p. 4.

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Velho. Dentre os “mestres da origem”, o M. Raimundo Carneiro Braga chegou a ser sócio desse Tattwa. Durante o tempo de meu trabalho de campo, em Campinas, participei de duas sessões do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP). Há interessantes similaridades na estrutura do ritual das sessões do CECP e da UDV. O antropólogo Wladimyr Sena do Araújo, em sua dissertação de mestrado acerca da Barquinha (ARAÚJO, 1999, p. 116-122), indica a influência que ela recebeu do CECP. Essa influência certamente bem maior do que a recebida pela UDV, já que na Barquinha há elementos propriamente doutrinários que advêm do CECP. Não encontrei tais elementos em meu trabalho etnográfico na UDV. O máximo que posso supor é que tenha havido um certo influxo do CECP na forma da sessão. O M. Braga apontou o CECP como um lugar importante em seu percurso de buscador das coisas espirituais:
“Busca espiritual mesmo, que eu senti a energia espiritual, eu senti dentro do esoterismo, do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Assim, antes de eu chegar no Vegetal, eu tive dentro de macumba, pra saber, em busca de conhecer alguma coisa estranha que o povo fala, que o povo diz. E eu, procurei assim, saber se de fato aquilo é verdade mesmo, pra ter assim alguma convicção. Por dentro da macumba eu não tive direito de receber nada daquilo que as pessoas diz que recebe, que se atua, que aquilo outro... Isso aí foi um espaço vazio pra mim. [...] aí eu busquei isso aí mais em outros batuques, mesmo em Porto Velho, no batuque de Santa Bárbara.”

Quando lhe perguntei se apenas ele, entre os “mestres da origem” havia sido sócio do CECP, ele respondeu: “Que eu sei, eu. Tem o M. Monteiro, da Maçonaria, M. Bartolomeu depois, o M. Messias, que hoje tá afastado da União, também foi pra lá pra Maçonaria. O M. Zé Luiz na Rosacruz..” Além destes, convém lembrar de Raimundo Pereira da Paixão, que iniciou na UDV em 18 de novembro de 1966, um dos “mestres da origem” que depois veio a ter significativa importância nos inícios da União do Vegetal em São Paulo. Ele era participante ativo do Terreiro de São Benedito em Porto Velho: “Naquela época eu freqüentava macumba e ele [José Gabriel] se dava tanto com a dona do terreiro [Chica Macaxeira] e ela convidou ele para o batuque.” Quanto à Ordem Rosacruz, M. José Luiz de Oliveira comenta ao narrar seu primeiro encontro com José Gabriel da Costa: “Eu vinha seguindo a Rosacruz há alguns anos,

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inclusive já portava o título de Mestre Rosacruz, por isso quando ele falou de evolução espiritual , a Rosacruz tem todo um trabalho nesse sentido, me chamou a atenção – é atrás disso que eu ando.”53 A sua vivência no Rosacrucianismo não foi apenas no período anterior à sua participação na UDV. Em entrevista a mim, M. José Luiz declarou:
“Fiquei 27 anos na Ordem Rosacruz, dos quais uns 15 anos paralelos entre a Ordem Rosacruz e a União do Vegetal, sabendo que um dia eu ia ter que fazer uma opção. [...] O Mestre Gabriel nunca exigiu que eu tomasse nenhuma posição, fizesse uma opção, ou se eu quisesse seguir na União do Vegetal deixasse a Ordem Rosacruz. Não. Ele nunca exigiu isso de mim. E isso pra mim foi muito bom. Eu entendi que ele achava que seguir a Deus é uma opção. Porque Deus deu a nós o livre-arbítrio e a gente não é toda hora que pode ter a opção. Chega o momento da opção. Quando você chega na encruzilhada da sua vida, que você tem na bifurcação das veredas da vida, que você tem que tomar uma opção, você vai pra esquerda ou vai pra direita ou vai em frente. Pra onde tiver o seguimento, e qual dos seguimentos, às vezes não é só uma nem duas, tem mais, três, quatro, cinco e você vai ter que ter uma opção. Enquanto não chegou o momento da opção não adianta você querer tomar a opção que ainda não é o momento da opção. Não pode precipitar as coisas. Quando chega o momento, você sente. Se é opção é da própria pessoa. Não pode ser uma opção direcionada por quem quer que seja. [...] Então, meu amigo, chegou o momento de minha vida em que eu tive de fazer a opção, mas pela minha livre e espontânea vontade.”54

É significativa a atitude de Mestre Gabriel, não impondo a José Luiz, nem mesmo após este ser convocado por ele ao Quadro de Mestres, o seu afastamento da Ordem Rosacruz. Desse modo, o criador da UDV reafirma sua opção de estimular os discípulos para que eles mesmos “examinem”, decidam segundo a sua consciência e exerçam o seu livre-arbítrio. Em última análise, essa atitude pode ser relacionada à característica da experiência com o chá Hoasca na União do Vegetal, de propiciar um englobamento de múltiplas vivências espirituais e religiosas do indivíduo, como veremos adiante. Além disso, tal modo de agir certamente respondia aos anseios daqueles que chegavam na UDV com uma longa história de busca, como o mesmo M. José Luiz conta, fazendo uma leitura ex post de suas experiências anteriores, à luz de seu percurso esotérico posterior:
“E assim eu me dediquei ao catolicismo até uma determinada idade, quando chegou o momento em que eu senti que não tava mais encontrando resposta pra algumas coisas

53

Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Por Edson Lodi, em dezembro de 1990. In: Memórias, Volume II, p. 3. 54 Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Rio de Janeiro, 25 de abril de 1999.

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no catolicismo, porque devido a eu ser uma pessoa que naquela época só tinha o primário incompleto, não tinha tanto estudo assim, então os padres naturalmente seguraram algumas coisas que eles não iam revelar pra quem não tava preparado, de acordo com as normas da Igreja Católica, pra se aprofundar mais. Mas, como eu não via resposta, e eu sou um buscador das coisas divinas, tive de procurar outros meios. E aí eu entrei pelo Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, freqüentei o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, entrei pelo Kardecismo, entrei pelo Rosacrucianismo, no Rosacruz da AMORC, sediado também na Assembléia de Deus.”55 em Curitiba, tive na Igreja Presbiteriana, com o Pastor Bastos, tive também na Primeira Igreja Batista e tive

É relevante observar a recorrência de diversas experiências religiosas e esotéricas nesses primeiros discípulos da UDV. Especialmente, naqueles que foram escolhidos por José Gabriel da Costa para integrar o primeiro Quadro de Mestres da UDV, os quais poderiam ser descritos segundo o perfil de um “buscador das coisas divinas”. Os primeiros discípulos eram, na maioria, moradores da cidade, o que lhes facultava a possibilidade de participarem dessa variada gama de atividades religiosas. O que Carlos Alberto Afonso afirma acerca dos inícios do Santo Daime pode, guardadas as singularidades de cada fenômeno, ser aplicado à UDV:
“Na verdade, o Daime não surgiu numa periferia remota de índios e caboclos, mas numa sociedade de fronteira internacionalizada pela economia da borracha e urbanizada pela cultura comercial e várias hierarquias de deslocações internas (seringueiros, militares, comerciantes, burocratas, políticos), o que inspirou a disseminação, em Rio Branco e noutras localidades, de casas modestas de candomblé, umbanda e espiritismo kardecista, segundo o modelo do comércio religioso das cidades do litoral. E, de fato, todas essas religiões apresentam influências importantes no Daime. O Acre era, em particular, o espaço de fronteira e de tráfegos inter-culturais entre a sociedade diaspórica que se formava, no lado brasileiro, e o multiculturalismo tradicional da Amazônia, nomeadamente o xamanismo dos ayahuasqueros” (AFONSO, art. inédito 2, p. 10-11).

No mesmo lote da Rua Abunã, no 1.215, em que residia José Gabriel da Costa, havia uma segunda casa, que tinha outro morador. Depois de alguns meses, este se mudou, e

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Id.

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então Mestre Gabriel passou a distribuir o Vegetal nessa casa, no ano de 1966. Narra o M. Hilton: “De início não tínhamos sede organizada para realizar nossas sessões, tínhamos que
solicitar a vizinhos lugar em seus quintais a fim de realizar as nossas sessões semanais, visto que a residência do Mestre era pequena e uma sala que dispunha, residia o mestre galego. Tivemos dessa forma, que pedir ao Sr. Macdonald em sua fazenda na Estrada dos Tanques 1 sala para a realização de nossas sessões. Neste local ficamos 6 a 8 meses, ocasião em que o Mestre Galego seguiu para a Bolívia (Mamo), desse dia em diante passamos a ocupar a sala, a qual era forrada com palhas. Em atividade todos os irmãos fizemos o piso com cimento, sendo encarregado da obra o Sr. José Luiz de Oliveira. Adquirimos tábuas e fizemos novas paredes de cujo serviço encarregou-se o Sr. Antonio Cavalcante de Deus (Gia). Antonio de Deus ainda se encarregou da confecção de duas grandes mesas e bancos a serem colocados ao redor dessas, servindo ao grande número de irmãos que chegavam em busca de tratamento pelo vegetal.”56

A afluência de pessoas à procura do chá Hoasca para resolver seus problemas de saúde, mencionada por M. Hilton, é abordada por Afrânio Patrocínio de Andrade em sua dissertação de mestrado:
“De repente o novo irrompeu ali, no meio da cidade. Duma hora para a outra, no meio de todo um êxodo que interliga a floresta com a cidade, sai um seringueiro falando de Deus, explicando os mistérios profundos da existência e, mais que isto, doutrinando centenas de pessoas, com uma casebre lotada (sic) de seguidores. [...] Em termos de Saúde, é oportuno lembrar que a região como um todo era um próprio caos, situação que até os dias de hoje ainda não é das melhores. [...] Foi exatamente nesta época em que esse programa [o Serviço Especial de Saúde Pública] estava entrando em decadência que a União do Vegetal chegou na cidade. Ela encontra, ali, nada menos que uma população que ansiosamente corria atrás de recursos médicos.” (ANDRADE, 1995, p. 184, 190-191).

O autor segue apresentando o relato de um “mestre da origem” que conheceu a União do Vegetal acompanhando uma pessoa doente que buscava a cura através do chá do Mestre Gabriel. Esse aspecto, de ser uma via alternativa para os que buscam saúde num contexto de extrema carência de recursos, certamente teve a sua importância naqueles inícios. No entanto, é necessário matizar as palavras do autor, que chega a falar de um
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Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 6.

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seringueiro “doutrinando centenas de pessoas” em um casebre lotado. Tudo indica que não houve um movimento tão espetacular quantitativamente, tendo sido bem modesto o número de seguidores da UDV, até o falecimento de José Gabriel da Costa. Uma estimativa plausível seria supor que eram, em 1965, ano da chegada de Mestre Gabriel a Porto Velho, em torno de 16; em 196757, por ocasião da prisão de José Gabriel da Costa, por volta de 50; e em 1971, ano do falecimento do fundador da UDV, uns 70 em Porto Velho, 30 em Manaus e mais alguns em Jaru e Jaci-Paraná, totalizando menos de 150 participantes. Mas, voltando à questão da saúde, é interessante indicar que, posteriormente, o CEBUDV procurou distanciar-se de qualquer prática passível de ser taxada como curandeirismo:
“Há grupos religiosos que apregoam as virtudes curativas do chá. A União do Vegetal, nesse particular, tem postura sóbria. Sabe que a Deus nada é impossível, mas não pratica ou difunde ações curandeiristas. Usamos o chá, como já foi dito, como veículo de concentração mental, para buscar o acesso a um estado de consciência em que a compreensão dos fenômenos espirituais e metafísicos é mais nítida. O que se busca, através dos ensinos e da doutrinação reta, é a cura espiritual - isto é, a evolução.” (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL , 1989, p. 34)

Outro aspecto citado por M. Hilton, a precariedade e pobreza do local em que os discípulos bebiam o Vegetal, também é lembrado por M. Paixão. Diz ele:
“Era muito difícil, era periferia, tinha olarias perto da sede. A sede era pobre mesmo, coberta de palha, tapada, de tábua de refugo e de terra batida. Depois que fizeram o piso. [...] Na época, lá não tinha nenhum seringueiro, a pessoa que ainda veio em Porto Velho e ele chamou para beber o vegetal duas vezes foi o Chico Lourenço. [...] Então, o poder aquisitivo era uma situação delicada. Naquele tempo quem tinha mais poder aquisitivo era o Mestre Ramos, que era um forte comerciante, e dessas pessoas era só ele mesmo. Mestre Braga trabalhava na praça [era taxista], lutava com sacrifício e outras pessoas também lutavam com sacrifício. Quantas vezes o Mestre Ramos custeou as despesas para buscar o vegetal. Naquele tempo era pouco, nem era em grande quantidade. O irmão Modesto ia buscar o vegetal de trem num lugar chamado Pau Grande, na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, era onde o Modesto ia buscar o vegetal. A gente preparava em lata de querosene, comprava aquelas latas de querosene, às vezes trazia, ou doava. Eu abria, batia com o martelo a beira da lata,
No artigo Convicção do Mestre, publicado no jornal Alto Madeira, de 1967, fala-se de “198 discípulos que vêm lhe acompanhando [o Mestre]”. Porém, segundo M. José Luiz, esse número foi tirado do Livro de Adventícios, apontando então para o conjunto dos que já haviam bebido o Vegetal e não para aqueles que então permaneciam participando.
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abria direitinho, enchia de jornal e tacava fogo para largar o gosto do querosene. Quantas vezes nós bebemos o vegetal com gosto de querosene ou de gasolina. Quantas vezes aconteceu isso. Nós tinha uma fornalha, na olaria botava tijolos, botava umas trempes, e ali botava duas latas em cima. Quando bebia o vegetal, cada um pegava um sebo de pau ou dois tijolos e se sentava. Tinha alguns que levavam rede e se sentavam para ficar perto do Mestre, mas não dava para ficar todo mundo ali, pegavam um pedaço de pau e sentavam ali perto.”58

No mesmo sentido, afirma M. Braga: “Quando cheguei, no início, as coisas eram como em todo início; tinha pouca coisa, eu digo que tinha tudo porque tinha o Mestre Gabriel, mas em bens materiais e em organização era bem pouco. Estávamos iniciando.”59 A pobreza foi bem marcante nesses começos. Assim como a carência de instrução escolar formal da maioria, a começar do próprio José Gabriel da Costa, que freqüentou poucos dias a escola quando criança e era apenas semi-alfabetizado. Por volta de 1970, D. Francisca e D. Josefa davam aula de alfabetização no templo da UDV. Mas havia os “intelectuais” do grupo. Além de M. Hilton Pereira Pinho, que havia sido presidente de sindicato, de M. Raimundo Monteiro de Souza, professor primário, de M. José Luiz de Oliveira, que, segundo ele mesmo, “já tinha sido secretário, tesoureiro, membro de diversas entidades e diretorias, inclusive da Federação de Desportos de Guaporé”, havia também o M. Rubens. Segundo o M. José Luiz, “o M. Rubens chegou na União assim meio intelectual. A profissão dele era dentista, mas estudava medicina na Faculdade de Goiânia. Mestre Gabriel queria muito bem a ele [...]. Falava muito mais intelectualmente do que dentro dos mistérios das coisas da UDV.” Em 1971, pouco antes do falecimento de Mestre Gabriel, o então Conselheiro Rubens fez uma explanação na sessão inaugural do Núcleo de Manaus. Cito aqui um pequeno trecho, que bem exemplifica esse falar “intelectual”:
“Muitas vezes se vê no mundo moderno, tanto progresso, cheio de albores de uma civilização extraordinária, o homem se deslocando pra Lua, o homem em busca de Marte, e essa tecnologia, e esse aperfeiçoamento, será que isso está a serviço realmente de algo útil? Nós nos perguntamos muitas vezes. Será que existe uma coesão fraterna entre os homens? Será que todo este amparo da tecnologia e da ciência moderna está servindo para uma coesão, para um amparo, para uma sistemática, para uma irmandade em si universal? Lá no Vietnã se mata, lá no Cambodja se mata, lá no Laos se mata.
58 59

Entrevista de M. Raimundo Pereira da Paixão. Em Campinas, por Lúcia Gentil, em 3 de junho de 1993. Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Por Edson Lodi, Ruy Fabiano e João Bosco, em junho de 1991. In: Memórias, Volume II, p. 79.

79

Por que é que se mata? Por que é que se é mesquinho? Por que é que se persegue? Por que é que se vilipendia o ser humano? [...] Sem o amor, meus caros irmãos, muito dificilmente a sociedade será uma sistematização, uma coesão [...] Por falta de amor é que se mata, conforme eu disse agora.”60

Este discurso, ainda que seja a fala daquele membro com maior formação acadêmica, indica que o grupo dos primeiros anos da UDV não era formado por seringueiros recém-chegados da floresta, mas sim por indivíduos urbanos, e que ao menos alguns deles tinham informação dos meios de comunicação acerca da política internacional e das transformações do “mundo moderno”. A presença de pessoas letradas já suscitava uma indagação acerca do futuro, quando a UDV viesse a crescer. Então, o próprio Mestre Gabriel, segundo M. Braga, dava uma orientação aos discípulos:
“A recomendação é a seguinte: quando a União do Vegetal chegar nas pessoas letradas, formadas, elas podem querer fazer modificação em função do modo de ser delas, e que nós tivéssemos muito cuidado quando o vegetal chegasse nos grandes centros. Ele dizia: ‘Nós não podemos ir ao povo.’ Não é propriamente o vegetal, mas nós. E ainda, ‘O povo é que tem de vir a nós. Temos que falar assim, pela linguagem do caboclo, uma linguagem que desse para todos entender, o mais e o menos letrado.’ Essa foi uma das recomendações que ele nos deu, que nós não fôssemos ao povo, o povo viesse a nós. Se nós fôssemos ao povo, ficávamos com o povo, mas se o povo viesse a nós, ficava conosco.”61

Esse grupo de pessoas, que se constituíam em “sociedade” ou “irmandade”, defrontou-se com os conflitos da sociedade brasileira de seu tempo e com as tensões próprias de um novo movimento religioso com as especificidades que possuía a UDV. Primeiramente, o conflito político do Brasil na década de 60 e no início dos anos 70. Mestre Gabriel chegara a Porto Velho em plena época da ditadura militar. Um momento emblemático de conflito foi a prisão de José Gabriel da Costa em 6 de outubro de 1967. Esse momento é relembrado em cada sessão de escala, na hora da leitura dos documentos da UDV, logo no início da sessão, quando se lê o artigo Convicção do Mestre, publicado no jornal Alto Madeira, de Porto Velho, logo após o incidente. Paradoxalmente, lembrar em todas as sessões de escala da prisão do Mestre Gabriel cumpre um papel de sinalizar que o

60
61

Rubens Rodrigues, Explanação na sessão inaugural do núcleo de Manaus, 1971. In: Memórias, Volume I, p. 97.
Entrevista M. Raimundo Carneiro Braga. Loc. cit., p. 103.

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uso do chá hoasca pela UDV é plenamente legal, além de propor ao discípulo da UDV que viva em sua própria vida atitudes semelhantes à do Mestre Gabriel, que disse:
“Prestem atenção os que quiserem me acompanhar na missão: podemos ser censurados por todos, mas não podemos censurar a ninguém; podemos ter inimigos, mas não podemos ser inimigos de ninguém; podemos ser ofendidos por todos, mas não podemos ofender a ninguém; podemos até ser julgados por todos, mas não podemos julgar a ninguém; podemos ser revoltados por todos, mas não podemos revoltar e nem ser revoltados por ninguém.”62

M. Hilton narra do seguinte modo a prisão:
“No dia 06 de outubro de 1967, quando estávamos em sessão de escala na União do Vegetal, às 23 horas, entra a polícia comandada pelo chefe de polícia de guarda policial territorial Antonio Nogueira da Silva que convidou o mestre Gabriel a acompanhá-lo à Delegacia de Polícia da Capital para prestar depoimento esclarecimentos sobre aquele ajuntamento de pessoas, mestre Gabriel encerrou os trabalhos da sessão e seguiu no carro policial, eu entrei no carro e fui mandado a desocupá-lo. Nesta sessão estavam presentes 38 discípulos dos 198 que vinham lhe acompanhando. Os discípulos do mestre Gabriel unidos seguiram em direção a central de polícia e lá permaneceram até a manhã. Procuramos as autoridades, inclusive o Sr. Simão Tavenad, que mesmo em sua residência não foi encontrado. Dia seguinte, domingo eu bem cedinho dirigi-me a central de polícia onde encontrei o mestre Gabriel em uma sala especial. Em seguida fui convidado a conversar com o Sr. Rodolfo Menezes Ruiz, muito meu amigo pois o conhecia desde criança quando eu era professor no grupo Barão do Solimões ocasião em que este me diz: seu Hilton, o senhor metido nessas organizações clandestinas? Em resposta lhe expliquei a finalidade da União seu amor a Deus e a natureza. Então nos foi exigido um estatuto.”63

O relato é bem ilustrativo de como as autoridades policiais observavam como suspeito “aquele ajuntamento de pessoas” e logo tendiam a ver qualquer nova associação que se formasse como mais uma dentre as “organizações clandestinas”. A partir dessa situação, surge a necessidade de se registrar “um estatuto”. E, ao que parece, já antes desse episódio alguns dos discípulos percebiam essa necessidade, como afirma M. Hilton em trecho anterior do mesmo depoimento: “Meu desejo constante era que se registrasse a
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Artigo Convicção do Mestre. In: Jornal Alto Madeira, Porto Velho: 6 de outubro de 1967. Conforme consulta nos arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV. 63 Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 6-7. Grifos meus.

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União do Vegetal legalmente em cartório local. Pois na época (pós-64) qualquer organização que não tivesse seus estatutos era interditada pela polícia.”64 Ele, que havia sido presidente de sindicato, parecia estar consciente das dificuldades que a UDV poderia estar sujeita nesse tempo de repressão. E o que se pode observar é que a direção da União do Vegetal teve grande habilidade na obtenção das condições de possibilidade para a sua continuidade. A atitude constante da UDV parece ter sido a de “procurar as autoridades”, buscando esclarecê-las acerca das suas atividades, na convicção de que não havia nada errado em suas práticas. Como nota M. Braga, acerca da atitude de Mestre Gabriel:
“Quando o chá começou a ficar mais conhecido, algumas autoridades pensavam que era um tóxico, que não era uma coisa boa. Mestre Gabriel sempre reagiu com firmeza, com a convicção de quem sabia que estava fazendo um trabalho correto como nós sabemos que é. Ele dizia sempre que era muito difícil as autoridades fecharem as portas da União do Vegetal porque ele não estava fazendo nada de errado. Sempre com firmeza e a convicção de vencer, chegar no lugar das autoridades reconhecerem que ele não estava fazendo nada de errado.”65

Assim, logo após a libertação do Mestre Gabriel, que se deu no dia seguinte de sua prisão, a UDV publicou uma nota de esclarecimento no jornal Alto Madeira - a “Convicção do Mestre” - e M. Hilton e M. José Luiz elaboraram os primeiros estatutos civis da Associação. Em seguida, eles os apresentaram “em cartório local e em poucos dias o Meritíssimo Juiz de Direito Dr. Joel de Moura assinava solenemente reconhecendo a União do Vegetal como entidade Jurídica em todo território Federal de Rondônia.”66 agir da direção do CEBUDV. Um outro episódio, narrado por M. Paixão, também mostra a constante vigilância exercida sobre o grupo naquela cidade de Porto Velho, em que havia uma considerável presença do Exército:
“Um dia, quando Mestre Bartolomeu [que era militar] foi chamado pelo Comandante do exército, naquele tempo ele estava na ativa, porque haviam denunciado que ele freqüentava uma seita que servia um chá que era uma droga, ele explicou: ‘A sociedade que eu freqüento, a União do Vegetal, serve um chá mas não é o que estão

Esse

empenho em realizar tudo segundo a legalidade tem sido até aqui claramente observável no

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Id., p. 6. Entrevista M. Raimundo Carneiro Braga. Loc.cit., p. 89. 66 Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 7.

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dizendo’ e disse ao Comandante, ‘se o senhor quiser conhecer, eu levo o senhor lá’. O Comandante quis conhecer.”67

Depois desses fatos, houve novamente, em 1969, uma ação da polícia contra a UDV. Esta teve de permanecer, durante um período, sem receber novatos. M. Raimundo Monteiro de Souza na condição de presidente do CEBUDV, impetrou um mandado de segurança em 1970, através do advogado Jerônimo Santana, que obteve sentença favorável à UDV. Posteriormente, esse advogado elegeu-se deputado federal e mais tarde foi o primeiro governador eleito do Estado de Rondônia, no período de 1986 a 1991. Acompanharam o processo no fórum o discípulo Francisco Adamir de Lima e o Conselheiro Bartolomeu, que em seguida foram convocados por Mestre Gabriel para o Corpo do Conselho e para o Quadro de Mestres, respectivamente. O hoje M. Adamir conta que até novembro de 1970 “existia a União do Vegetal e a Associação Beneficente União do Vegetal [entidade civil]. Quando quiseram fechar a União do Vegetal, fomos orientados para mudar o nome. Foi então feita a junção e surgiu o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.”68 Mas os conflitos não se deram unicamente com o aparelho do Estado. Também houve uma situação conflituosa com a instituição religiosa predominante em Porto Velho na época, a Igreja Católica. Primeiramente, observemos a narrativa e as deduções de Afrânio Patrocínio de Andrade, a partir da entrevista que fez com o bispo de Porto Velho, atualmente já falecido, D. João Batista Costa, que exerceu o governo da Prelazia de Porto Velho de 1946 a 1982:
“As ‘autoridades eclesiásticas’ também chegaram a ser consultadas, mas afinal de contas, o que elas teriam contra um adepto da ‘sempre virgem Maria Santíssima’ e do ‘nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo’? Nesta época, era bispo da cidade o hoje jubilado Dom João, que tivemos oportunidade de entrevistar, em março de 1992. Ele nos informou que, quando o mestre Gabriel chegou na cidade com o chá, ele já era pároco ali há 35 anos, dos quais, uma década como bispo. Segundo ele, alguns dos católicos, ‘gente de fé’, procuraram por ele, para saber sua opinião sobre o referido chá. Teria ele interrogado àqueles fiéis sobre o que eles viam durante o estado de êxtase. Responderam a ele que viam coisas ruins e coisas
67

Entrevista M. Raimundo Pereira da Paixão. Em São Paulo, por Edson Lodi, em junho de 1989. In: Memórias, Volume II, p. 121. 68 Mestre Adamir, um pioneiro do Vegetal. Jornal Alto Falante, Brasília,Sede Geral, nov-dez 1990. p. 4-6.

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boas e ‘muito bonitas’. Diante disto, teria ele instruído os fiéis a seguirem o conselho do apóstolo Paulo, ‘examinar todas as coisas e reter o que é bom’. Em seguida, designou um de seus assessores episcopais, o já falecido Padre Carlos, para dialogar com o mestre Gabriel a respeito do assunto. Infelizmente o resultado de tal diálogo não nos foi acessível, pois, segundo alguns dos adeptos da União do Vegetal, houve um desentendimento entre o mestre Gabriel e o Bispo, o que não é confirmado por este último. A ‘prova’ de tal desentendimento é um artigo publicado num dos jornais da cidade e mantido por essa, intitulado ‘Velando enquanto dorme’. Uma leitura do texto não indica propriamente uma controvérsia. Procurado para nos dar mais informações sobre o seu contexto, o autor do texto não se lembrou absolutamente nada a respeito. Por outro lado, o referido padre, designado para tal diálogo, faleceu no decurso do processo. Segundo o bispo, é possível que existam anotações dele na Igreja em que era pároco, em Porto Velho, o que ainda não confirmamos. Diante disto, nossa ponderação ainda continua sendo a de que, embora desconhecesse o assunto, a Igreja Católica não chegou a se posicionar objetivamente sobre ele.” (ANDRADE, 1985, p. 185).

No entanto, outras narrativas indicam que a situação foi mais conflituosa: as entrevistas dos Mestres Braga e José Luiz de Oliveira, respectivamente ao Jornal Alto
Falante e a mim. As declarações do bispo a Patrocínio de Andrade vão na direção de uma

diluição do conflito. A aplicação pelo bispo do conselho paulino de ‘examinar todas as coisas e reter o que é bom’, quando da pergunta de ‘gente de fé’ sobre sua opinião acerca do chá, parece expressão de uma mentalidade extremamente aberta. Porém, as lembranças dos mestres da origem apontam para uma situação diversa. Conta o M. Braga:
“É que uma pessoa foi à casa do bispo e transmitiu informações que não eram verdadeiras sobre a União do Vegetal. Essa pessoa não conhecia a União, por isso deu aquelas informações. Aí, o bispo num sermão da igreja falou da União do Vegetal da mesma maneira; maltratou a União, disse um bocado de coisas. Quando eu soube, pedi ao Mestre Gabriel para conversar com o bispo e o Mestre Gabriel me autorizou. E eu fui. Expliquei pro bispo o que era o vegetal e o que era que aquele senhor, que era o Mestre Gabriel estava fazendo pelas pessoas. Depois contei toda a história sobre o pensamento da União do Vegetal. Depois que contei toda a história sobre o pensamento da União do Vegetal, o bispo disse o seguinte: ‘Se a União do Vegetal e o chá estão produzindo esse efeito, e se esse senhor está fazendo esse trabalho, o senhor pode continuar bebendo.’ Aí, pedi para ele autorizar um padre que era muito meu amigo a beber o vegetal. Ele me pediu que eu não fizesse isso; pra mim mesmo, ele

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disse que eu continuasse, mas pro padre não. [...] Acho que foi a primeira vez que uma autoridade, pesando mais as palavras, se manifestou favoravelmente.”69

Assim, segundo a narrativa de M. Braga, corroborada pelas declarações de M. José Luiz, o próprio D. João Batista Costa teria feito pesadas críticas à União do Vegetal em um sermão (ou mais de um) na igreja. Isto, a partir de informações de uma pessoa que “não conhecia a União”. A resposta da União do Vegetal foi através da publicação em jornal de um artigo, denominado Velando enquanto dorme, onde se lê:
“Disse um Reverendo, em seu sermão de domingo dia 11-7-71: Na União do Vegetal se vê de tudo. E é verdade, pois a primeira coisa que vi, quando comecei a freqüentar a União do Vegetal, foi o caminho em que ‘eu’ vivia, no erro. E hoje, pela minha firmeza em Jesus Cristo e sua bondosa mãe Maria Santíssima, vejo o caminho limpo e firme [...].”70

Esse “caminho limpo e firme” é o argumento de defesa da União do Vegetal apresentado no artigo: “Afirmo que a União do Vegetal pratica e ensina exatamente o amor a Deus sobre tudo, extensivo aos seus semelhantes”. Mais adiante, o texto chega a especificar traços característicos da prática dos discípulos da União: estar “isentos” de freqüentar
“bares, casas de jogos, mesmo sinuca ou bilhar, baixo meretrício e outros lugares que porventura existam e que sejam perniciosos à formação moral do homem diante do próprio homem e muito mais diante daquele que se chama Espírito Santo, que compõe a Trindade Divina.”71

Essa afirmação de uma “regeneração” dos novos participantes, alguns conhecidos como “farristas” em Porto Velho, era freqüentemente trazida como resposta àqueles que questionavam acerca dos efeitos do chá Hoasca para a pessoa. Além da publicação do artigo, tanto M. Braga quanto M. José Luiz foram falar com o bispo, de quem eram amigos. D. João não se deu por convencido acerca do valor religioso positivo do chá, mas ao menos parou de criticar a UDV em seus sermões. De qualquer modo, as narrativas dos mestres da

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Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Loc. cit., p. 93.

Velando enquanto dorme. In: Jornal Alto Madeira. Porto Velho: julho de 1971. Conforme consulta nos arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV. 71 Id.

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UDV indicam que houve uma significativa mudança no posicionamento depois que os discípulos da UDV o procuraram para conversar.

Ultrapassando situações conflituosas com a polícia, com o exército, com o Poder Judiciário, com a Igreja Católica, os primeiros discípulos da União do Vegetal souberam encaminhar bem as resoluções desses conflitos. E, como narra M. Braga, ainda conseguiram obter recursos junto ao Poder Público para solidificar a obra começada:
“No início, a gente usava uma casinha que não era propriamente a casa do Mestre Gabriel, era uma casinha pegada à dele. O ambiente físico não era tão agradável, mas fomos nos organizando, crescendo e aumentando a casa. Com o tempo, foi enchendo de pessoas. Certa vez ele disse que era bom que a gente encontrasse um lugar onde pudesse construir nossa sede. Naquele tempo, a gente falava em sede, depois passamos a falar em templo, porque sede ficou sendo a casa do Mestre, porque ele nos cedia. Um dia a gente se dispôs a ir à Prefeitura; fomos eu e o Mestre Ramos, e a Prefeitura doou um terreno de 100 metros por 100 metros. Aí começamos a construção do templo, com Mestre Gabriel ainda em matéria, mais ou menos em 69, e chegamos a concluir a obra.”72

Desse modo, com grande habilidade, mesmo em meio a um contexto político extremamente desfavorável ao surgimento de uma instituição que faz uso ritual de uma substância psicoativa, gradualmente conseguiram, do mesmo modo como construíram um templo, plantar os alicerces do CEBUDV na cidade.

72

Id., p. 89.

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2.3. A PRESENÇA DA UDV EM SÃO PAULO A PARTIR DOS ANOS 70
“... estamos construindo um templo...” Cartão comemorativo dos sete anos do Núcleo Alto das Cordilheiras, 1999

Em 1971, ainda em vida de Mestre Gabriel, a União do Vegetal iniciou a sua expansão para além de Porto Velho, com a criação do núcleo de Manaus, posteriormente denominado Núcleo Caupuri73. No ano seguinte, já após o falecimento de José Gabriel da Costa, a União do Vegetal chegou a São Paulo. A partir da entrevista da conselheira Inês74 e de um artigo publicado75 em 1972 no jornal Alto Falante, órgão oficial do CEBUDV, dirigido aos sócios do Centro, buscarei delinear esses primeiros passos da União do Vegetal no Estado de São Paulo, a partir dos quais se fundou o Núcleo Samaúma. Em seguida, descreverei os começos da UDV em Campinas, a formação do Núcleo Lupunamanta, e a posterior constituição do Núcleo Alto das Cordilheiras. Deste modo, apresentarei um aspecto da expansão da União do Vegetal no Estado de São Paulo, a partir do ramo do qual surgiu o núcleo em que fiz o trabalho de campo desta dissertação. O artigo do Alto Falante transcreve os depoimentos de duas conselheiras que participaram dos inícios do Núcleo Samaúma, o primeiro a se formar no Sudeste. Elas são Ivone de Castro Menão76, que iniciou na UDV em 1972, e Else Angélica Piacentini Medeiros, que começou a participar no ano seguinte. Segundo Ivone, em maio de 1972, ela e seu companheiro Nielson Menão beberam pela primeira vez o Vegetal em Manaus, convidados por um mestre da UDV que participava com eles de “um grupo que trabalhava na área de música, cinema e teatro”. O mestre lhes chamou para conhecerem “um chá que nos fazia ver coisas bonitas [...] e que era também uma viagem para dentro de nós mesmos.” Para Ivone, a primeira experiência trouxe “uma alegria muito grande, a alegria de ter reencontrado minha casa, que parecia que há anos eu procurava”. É significativo que os dois aspectos apontados pelo convite se refiram à fruição estética (“um chá que nos fazia
Caupuri é o nome de uma das duas variedades principais de cipó mariri. Há o mariri tucunacá, mais presente na região próxima a Porto Velho e o mariri caupuri, que é nativo da região circunvizinha de Manaus. 74 Entrevista de Inês, Campinas, 6 de novembro de 1998. 75 Samaúma, os 20 anos do segundo Núcleo da UDV. Jornal Alto Falante. Brasília: dez 1992 -jan 1993, p. 6-9. 76 Neste capítulo, mantive os verdadeiros nomes de participantes do Núcleo Samaúma, ou dos mestres da origem, já que tais nomes foram publicados no jornal Alto Falante. Os pseudônimos continuarão sendo grafados em itálico.
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ver coisas bonitas”) e ao auto-conhecimento (“uma viagem para dentro de nós mesmos”). A partir dessas duas motivações pode-se refletir a respeito dos participantes que estavam chegando à UDV. Ao que tudo indica, entre os primeiros participantes paulistas77 predominava uma sensibilidade e uma visão de mundo contra-cultural, naqueles inícios dos anos 70 em que o
flower power ainda repercutia fortemente no Brasil. São pessoas das camadas médias

urbanas, muitas das quais haviam participado dos movimentos da “contra-cultura”, usuários de drogas, que haviam optado por estar “na contra-mão” da sociedade, empenhados num estilo de vida “alternativo”. São esses que levaram às sessões da União músicas como as de Zé Geraldo ou de Raul Seixas (ARARIPE, jun 1981, p. 38-39). A busca de uma “expansão da consciência” através de substâncias como o LSD teve um papel relevante para muitos desses indivíduos, à procura de novas vivências estéticas e novas abordagens da própria psique que lhes propiciassem uma ampliação de seu auto-conhecimento. Em julho de 1972, Ivone e Nielson se mudaram para São Paulo, levando um litro de Vegetal que o Mestre Representante do Núcleo de Manaus lhes havia entregue. Na semana seguinte, eles já fizeram a primeira sessão em São Paulo. Ainda no mesmo ano, Marinho Piacentini, um paulista que também trabalhava com teatro, irmão de Else Angélica, bebeu pela primeira vez o chá em Manaus. E quando voltou para São Paulo, integrou-se ao primeiro grupo. Logo eles passaram a beber o Vegetal num sítio em Cotia, de propriedade do pai de Marinho, o Sr. Mário Piacentini, que iniciou na UDV no mesmo ano de 1972 e hoje é mestre. Nas primeiras sessões, dirigidas por Nielson, ele ainda não sabia as chamadas, então bebiam o chá segundo o horário de Manaus, procuravam se concentrar e permaneciam em silêncio durante boa parte da sessão. Segundo Else, as pessoas se sentavam “ao redor de uma mesa e uns poucos ocupavam algumas cadeiras laterais”. Em setembro de 1972 foi realizada a primeira reunião administrativa, com a presença de um dos “mestres da origem” da UDV, Hilton Pereira Pinho, que escolheu para o núcleo o nome de Samaúma. Com as visitas de Mestre Hilton, o grupo deu os primeiros passos na recepção da tradição da UDV: a maneira de dirigir as sessões, o primeiro preparo

Aqui não me refiro especificamente àqueles citados nominalmente acima, mas sim ao conjunto mais amplo dos participantes paulistas dos primeiros tempos.

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de Vegetal, a primeira sessão de adventícios78. No início de 1974, Nielson e Marinho receberam a estrela de mestre79. Além de Hilton, muitos dos mestres da origem visitaram o Samaúma. Mais de doze foram nomeados por Ivone, Else e Inês. Segundo esta, “o Samaúma começou com o tempero de todos”. Os principais mestres que estruturaram a União do Vegetal após o falecimento de Mestre Gabriel, inclusive sua esposa, Mestre Pequenina, iam a São Paulo, a convite dos discípulos do Samaúma, que lhes pagavam as passagens aéreas, para comunicar aos novatos paulistas suas recordações acerca da vida do fundador, seus ensinos, suas chamadas. Esses foram os primeiros encontros dos indivíduos da classe média paulista, a maioria dos quais ligados às artes, especialmente o teatro, com os caboclos de Porto Velho e Manaus, herdeiros da obra recém-criada por José Gabriel da Costa. Pelo relato de Inês, é possível perceber a habilidade de alguns dos mestres da origem em conduzir aquele grupo de jovens artistas urbanos para a constituição de uma entidade religiosa que valoriza especialmente a ordem e a obediência. Mas os conflitos não tardaram a surgir. Assim, em novembro de 1976, o Núcleo Samaúma foi suspenso pela Sede Geral. Segundo Else Angélica, “essa suspensão foi motivada por vários fatores, de ordem disciplinar”. Ela continua, afirmando que “durante esse período muita conversa foi levada de São Paulo a Porto Velho e trazida de Porto Velho para São Paulo, de maneira deturpada, aumentada”. O que me foi possível saber é que “algumas pessoas tiveram comportamentos inadequados”, especialmente misturar a participação na UDV com a adesão ao movimento de Rajneesh. Hoje parece algo bem previsível a incidência de sanções disciplinares por parte da direção da UDV em Porto Velho sobre aqueles novos participantes paulistas que pela sua origem de classe e inserção profissional eram tão diferentes do tipo de participante que predominava na UDV em seus inícios no Norte do país. Mas antes dessa suspensão, beberam o Vegetal em abril de 1976, pela primeira vez,
Inês e Daniel, atualmente no Quadro de Mestres do Núcleo Alto das Cordilheiras. Eles

participaram de uma sessão de adventícios no Samaúma. Daniel, então com 37 anos, de

Sessão de adventícios é uma sessão especial feita com o objetivo de receber pessoas que vão beber pela primeira vez o Vegetal. 79 O uniforme do mestre na UDV é composto de camisa com uma estrela bordada na altura do peito, assim, “receber a estrela” é ser designado para o lugar de mestre, e “perder a estrela” é ser destituído dessa função.

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família tradicional de Campinas, descendente de “barões do café”, tinha sido no passado bastante influenciado pela contra-cultura:
“Então entrei no Mackenzie, saí de casa, aí com uns 20 anos comecei a fumar maconha... Aí, tal, fui trabalhar em teatro, tinha ido em dois festivais nacionais de teatro, conheci a turma do teatro, vivia no bar, toda noite ia no bar, repetia ano; daí virei comunista e daí o Partido Comunista perdeu, pra quem era do Partido foi um choque, no Mackenzie tinha Comando de Caça aos Comunistas. [...] Até que me formei. Aí também começou, trabalhava, continuava meio hippie à noite, não dava certo, ia dormir 3 h da manhã, levantava 6 h, trabalhava na Shell, casei e daí foi. Mudei, fiquei meio teosofista, fui, passei uns tempos em São Tomé das Letras, também aprontei por lá [...]. Nessa época eu cheguei a ser internado duas vezes no sanatório por droga. Mas droga era maconha e ácido lisérgico, as outras eu não tomava. E cerveja toda noite. [...] Quem me integrou a cabeça foi o Pietro Ubaldi, através do monismo.”
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Daniel e Inês beberam o chá e logo continuaram a freqüentar as sessões do

Samaúma. No ano seguinte, 1977, Joaquim de Andrade Neto recebe da UDV licença para beber o Vegetal com algumas pessoas de sua família em Campinas. Juntam-se a eles Daniel e Inês. Mas eles logo têm de voltar ao Samaúma em São Paulo, porque no mesmo ano Joaquim é suspenso e afastado da comunhão do Vegetal81. Assim, Inês e Daniel permanecem participando do Samaúma até 1980. Continuando a descrição da trajetória do Núcleo Samaúma, como já afirmei acima, em novembro de 1976 a distribuição de Vegetal no núcleo foi suspensa. No ano seguinte, um outro discípulo paulista, Hélio Rodrigues Ferreira, foi a Porto Velho e voltou com uma quantidade de chá e a autorização para distribuí-lo àqueles que desejassem continuar na UDV. No entanto, em 1978, “também o Hélio foi punido”, como disse a Conselheira Inês. Aí a responsabilidade pela distribuição foi passada ao então Conselheiro Mário Piacentini,

Entrevista de Daniel, em Campinas, 2 de outubro de 1998. Pouco depois, Joaquim de Andrade Neto começa a distribuir o Vegetal por conta própria e em 1981 funda uma dissidência da UDV, o Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal, com sede em Campinas. Esta entidade, que conta com apenas um núcleo, em Campinas, e uma fazenda com plantação de mariri e chacrona no Mato-Grosso, tem ocupado significativo espaço na mídia e se apresenta como a União do Vegetal. No entanto, no momento de seu desligamento do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV), Andrade Neto não era mestre ou conselheiro, nem ao menos havia recebido os ensinamentos do Corpo Instrutivo. Assim, a doutrina exposta nos livros de sua entidade distingue-se sobremaneira dos ensinamentos de José Gabriel da Costa tal como o CEBUDV os transmite. O CEBUDV tem reagido com a instauração de um processo contra a entidade dirigida por Joaquim de Andrade Neto, por uso indevido da expressão “União do Vegetal”, registrada no INPI. Vide no anexo 1 a lista das dissidências do CEBUDV de que pude ter notícia.
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o proprietário do sítio de Cotia no qual eram realizadas as sessões. Na época já com uma certa idade, Mário tinha sido pastor protestante. Assim, depois de ter sido iniciado por pessoas ligadas ao teatro, “meio hippies”, o Núcleo Samaúma passa a ser dirigido por um ex-pastor, o que talvez seja emblemático de um certo esforço por parte da direção da UDV de se organizar no Sudeste segundo um perfil que se distiguisse daquele oferecido pela contra-cultura. Foi de Mário Piacentini a iniciativa de convidar um dos mestres da origem, o Mestre Paixão, a se mudar para São Paulo, o que aconteceu em julho de 1978. O tempo durante o qual Paixão ficou como Mestre Representante do Samaúma se estendeu por alguns anos, e foi a fase de consolidação do núcleo, com a doação de um terreno de um hectare em São Roque, em 1979, por parte de Mestre Mário e Else Angélica; a construção do templo definitivo em 1981 e sua conclusão no ano seguinte. O grupo de Campinas foi se organizando e em 11 de outubro de 1980 aconteceu a primeira sessão no núcleo de Campinas, desde então denominado de Núcleo Lupunamanta82. Daniel recebeu em 1981 a estrela de mestre, mas veio um outro mestre da UDV morar na cidade, um militar, e foi este o designado como Mestre Representante. Porém, depois de um ano e meio, esse militar se mudou de Campinas e Daniel assumiu o cargo de Mestre Representante, no qual permaneceu por cinco anos. Em seguida, M. Ney recebeu a Representação do Núcleo Lupunamanta. Ele estava no lugar de Mestre Representante quando começaram a planejar a abertura de uma nova Distribuição.
Letícia, do CI do Núcleo Alto das Cordilheiras, doutoranda em Educação na

Unicamp, na faixa dos 40 anos de idade, passou-me um relato com alguns dados históricos do núcleo, escrito por ela, que acompanhou o processo de formação do Alto das Cordilheiras desde os seus inícios:
“Lembro-me que em outubro de 1991, em uma Sessão Instrutiva no Núcleo Lupunamanta, foi comunicada à Irmandade a necessidade de abrir uma Distribuição, dado o aumento do número de sócios do núcleo. Era Representante do Lupunamanta, naquele período, o M. Ney. O mestre designado para ser responsável pela Distribuição foi o M. Paulo, e para auxiliá-lo nessa empreitada, o M. Otávio aceitou a incumbência

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Lupunamanta é o nome dado pela UDV à Estrela Matutina, e há uma Chamada de Lupanamanta.

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de acompanhá-lo. Assim, a 27 de março de 1992, a Distribuição foi iniciada com 33 sócios, originários do Núcleo Lupunamanta. As atividades foram iniciadas, provisoriamente, na sede antiga do Núcleo Lupunamanta, onde hoje é a Unidade Beneficente Estrela da Manhã.”83

Quando iniciou o processo de segmentação para a formação de uma nova unidade, o Núcleo Lupunamanta já dispunha de confortáveis instalações: um extenso terreno e um amplo templo. A maioria dos 33 sócios que se apresentaram para iniciar a Distribuição já bebiam o Vegetal há muitos anos e tinham trabalhado ativamente na construção do Lupunamanta. Desses 33 que começaram a Distribuição, apenas 3 não estão hoje associados ao Núcleo Alto das Cordilheiras. Naquele ano de 1992, eles permaneceram um tempo realizando as sessões no antigo Salão do Vegetal do Núcleo Lupunamanta, que se localiza em frente ao templo novo. Foi nesse local que eu participei pela primeira vez de uma sessão do CEBUDV, em julho de 1992, bem nos inícios da Distribuição84. Em maio do mesmo ano havia sido adquirido um terreno na zona rural do Distrito de Joaquim Egídio, Campinas. Imediatamente é começado o plantio de mariri e se constrói o salão, que é inaugurado no dia 5 de junho de 1993.
Letícia continua sua narrativa:
“A 4 de dezembro de 1993, a Distribuição é elevada a Pré-Núcleo, tendo sido escolhido o nome de ‘Alto das Cordilheiras’. A seguir foi construída a Casa de Preparo provisória, a Casa de Ferramentas e Almoxarifado, e a Casa do Caseiro. O plantio foi melhorado e construído um canteiro para Chacrona, com capacidade para 220 pés. Nesse momento para Representante do Pré-Núcleo foi designado o M. Paulo, pelo Mestre Central da 9ª Região. A 1º de outubro de 1994, assume a Representação do PréNúcleo o M. Otávio. Havia então 55 sócios, sendo 4 mestres. A 13 de setembro de 1996, o Pré-Núcleo Alto das Cordilheiras é elevado a Núcleo Alto das Cordilheiras. A seguir, é designado, para Representante do Núcleo, o M. Spencer de Morais Pupo Nogueira, que assume a Representação em 6 de janeiro de 1997. Eram, naquele momento, 57 sócios.”

Com a conclusão dessa narrativa, aproximamo-nos do tempo do trabalho de campo e do tempo presente. Desde as histórias a respeito de Mestre Gabriel e a criação da União
Depoimento escrito de Letícia: Alguns Dados Históricos do Núcleo Alto das Cordilheiras. A Distribuição não tinha um nome próprio. Segundo o modo de proceder do CEBUDV, somente quando chega a Pré-Núcleo a unidade recebe um nome, que permanece quando é elevada a Núcleo.
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do Vegetal no seringal, até aqui, passando pelas recordações dos “mestres da origem” acerca dos árduos inícios em Porto Velho, acompanhamos o movimento da Estrela do Norte, iluminando até o sul. Busquemos agora observar como a claridade dessa Estrela é experienciada pelos “discípulos do sul”.

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3. A ESTRELA ILUMINANDO
3.1. ALGUMAS HISTÓRIAS DE VIDA
“Um homem na campina olhava o céu. As estrelas pareciam aumentadas, de tamanho brilho. Estrela, ó estrela, estrelas, Ele suplicou como se injuriasse. [...] Ó homem, ó filho meu, convoca-me a voz do amor, até que eu responda ó Deus, ó Pai.” Adélia Prado, Genesíaco, In: O Pelicano

No trabalho de campo, fiz cinqüenta entrevistas, coletando as histórias de vida dos
participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras. Aqui escolhi trechos de algumas narrativas, para que pudéssemos entrar em contato com o discurso desses sujeitos, e assim, observar, entre outros aspectos, como eles constróem a trajetória de suas vidas sob o ângulo do encontro com a União do Vegetal, como eles expressam as motivações iniciais e atuais para a sua participação e como esta tem repercutido ou não em seu quotidiano. Deste modo poder-se-á chegar a uma primeira aproximação da experiência simbólica dos discípulos da UDV. Inicio com a trajetória de Rubem, um dos membros do núcleo que tem menos tempo de participação na UDV, somente dois anos e meio, na ocasião da entrevista. Assim, em comparação à media de tempo na UDV das pessoas do núcleo, Rubem está ainda “entrando” por aquela que ele chamou de “porta que se abre para os mistérios”.

Rubem: entrando por uma porta que se abre para os mistérios Rubem tem 43 anos de idade. Sua família é de origem judaica. Ele fez sua

graduação em ciências sociais e em história. Fez o mestrado e o doutorado na área de educação. Seu pai era imigrante judeu, proveniente da Europa Oriental, “apesar de agnóstico, tinha conhecimento muito profundo de religião judaica, das questões éticas, do

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Talmud, da Mishná”85. Assim, Rubem foi educado para uma atitude de procura do conhecimento no estudo, de “culto ao saber”. No que toca à religião, ele narra:
“tive uma formação escolar judaica, mas eu nunca me sentia muito à vontade com a religiosidade, pois em casa, como não havia um culto religioso, em termos de credo, era uma situação um pouco paradoxal. Ao mesmo tempo que havia um valor dado pelo conhecimento da religião, não havia essa fé. [...] Achava interessante a religião, fazia um esforço, mas não conseguia entrar naquele mistério.”

Essa inacessibilidade da vivência religiosa foi, segundo ele, compensada por um itinerário intelectual, primeiramente com a graduação em ciências sociais e em história, caminho pelo qual ele buscava uma resposta às perguntas filosóficas a respeito de “quem somos, onde estamos, pra que viemos, pra onde vamos”. Ele também posicionou-se em oposição à ditadura, numa militância política de matriz marxista, gravitando ao redor de alguns grupos de esquerda, mas não chegando a integrar nenhum deles, já que, como ele diz, “tinha uma atitude de não me enquadrar”. Esse “não-enquadramento” já se apresentava desde os tempos de colégio:
“Vem de minha formação juvenil essa coisa mais alternativa, continuava na faculdade sendo porra-louca e bom aluno. Segundo o padrão de loucura da época, com viradas de madrugadas, comportamento que à época a gente julgava que era de resistência política, naquele padrão de loucura que à época era tolerável por conta das condições sociais e políticas do país, e que a gente aproveitava mesmo: era muita droga, era sexo, era esbórnia, era conspiração, era movimento estudantil... mas uma coisa que eu preservava era ser bom aluno, coisa que nem todos faziam. Porque, no fundo, talvez eu sempre fui muito pequeno burguês, a minha ética sempre foi muito pequeno burguesa. Eu me identificava mais com o estudo mesmo.”

Em meio a essas vivências no âmbito da contra-cultura, Rubem teve algumas experiências com drogas que tocavam a franja do sagrado: “Tive outras experiências não diria místicas, mas quase religiosas, mas muito ligadas ao uso de drogas, mesmo. Vi umas coisas meio animistas, meio xamânicas mesmo. No Bosque dos Jequitibás, tem uma figueira muito bonita, enorme, frondosa, que ela parecia às vezes para mim que ela tinha uma vida, uma coisa meio de existência espiritual mesmo. Eu tinha uma sensibilidade
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Entrevista de Rubem, em Campinas, 28 de setembro de 1998. As citações seguintes, neste item, são da mesma entrevista.

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talvez induzida a isso, cogumelos também... Coisas que dão uma certa sensibilidade pra se entrar em contato com outras dimensões que a gente talvez não saiba como utilizar pra si, ainda.” Posteriormente, no que toca à vertente do pensamento, Rubem dirigiu-se do marxismo para o weberianismo:
“Durante uma época li muito Weber e hoje ainda, metodologicamente, em termos de organização do pensamento, eu sou muito próximo a Weber. Então me aproximei da idéia das várias éticas relacionadas com a cultura, passei a ser mais culturalista. Aí fui fazer pós-graduação em educação, como um meio de mudar o mundo, de transformar o mundo de acordo com aquela ambição que eu tinha de trazer um certo rigor, aperfeiçoamento da humanidade, de acordo com aquela visão que vinha talvez de infância mesmo, visão literária, cultural, que se inspirava muito em certos modelos de rigor ético. [...] O que me aproximou da área de educação foi bem um certo ideal de mudar o mundo através do sistema educacional como uma porta pras alterações do mundo.”

É interessante observar como esses tópicos, aparentemente díspares, são costurados numa narrativa a um pesquisador que estuda a União do Vegetal. E esses fios, da busca de uma experiência religiosa sentida como inacessível, de uma vivência alternativa, de percepções anímico-xamânicas e de um rigor ético comprometido com um ideal de transformação do mundo, são certamente retrançados na nova fase da vida de Rubem, como discípulo da União do Vegetal. Perguntado a respeito do que é a burracheira, ele responde sinteticamente que “é uma porta que se abre pros mistérios”. O tema da porta, tantas vezes presente na simbologia da UDV, nas suas chamadas, assim como presente no discurso de
Rubem, quando ele acima se referiu à educação como “uma porta pras alterações do

mundo”, reaparece aqui, na medida em que a experiência com a Hoasca é compreendida como porta para alterações no seu mundo interior, possibilitando “um contato com o sagrado que até então eu não tinha tido”. A UDV surge na vida de Rubem em um momento em que ele havia vivido situações que o abalaram: seu primeiro filho não sobreviveu, três anos depois seu pai faleceu de derrame fulminante, no final de uma conferência que proferiu no Clube Hebraica. Depois nasceu o seu segundo filho e ele se perguntava sobre como falar de Deus ao menino.

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Segundo Rubem, desde o nascimento desse filho “desperto para a aceitação da existência de algo além do mundo lógico cartesiano”. Após a defesa de sua tese de doutorado, Rubem decide acompanhar a esposa, que pouco tempo antes começara a freqüentar a UDV. Assim, tem a sua primeira burracheira em 1996, da qual ele conta:
“A primeira burracheira a gente nunca esquece... Foi algo inesperado, nunca tinha tido essa sensação de harmonização, de um caminho de harmonia, perceber que é possível acertar as contas consigo, com as coisas do passado. Tanto que eu perguntei na sessão o que é o passado, se o passado continua existindo... Vinha de um raciocínio a respeito do lugar do passado e do futuro. A luz de uma estrela, depois que ela é emitida, se torna atemporal, porque ela vai se expandir por todo o espaço que existe, mesmo depois que a estrela que a emitiu tenha se extinguido. Então, o que a gente observa, quando olha o céu, seria um passado de algo que não existe mais, mas que vai existir eternamente ao mesmo tempo - um aparente paradoxo. [...] E também eu consegui a partir dessa primeira sessão, foi um momento assim bem forte de chegar a uma conciliação com o meu pai, passar a tolerar, a suportar melhor a ausência dele, que até então era algo que eu ainda não havia trabalhado... assim como do nosso filho, ainda não havia me conformado, estava pendente por anos, fazia quase cinco anos que meu pai havia morrido, e eu ainda estava remoendo. Foi muito bom porque pela primeira vez eu consegui entrar em contato com ele e fazer uns acertos que tava precisando. Nas quatro primeiras sessões eu consegui ficar numa plena tranqüilidade, plena luz com ele. Mas, era bem ele mesmo, da forma como ele era em vida, presença material. Foi uma coisa bem boa, logo as primeiras sessões nesse sentido.”

Rubem passa a freqüentar a UDV, sua esposa associa-se primeiro e, seis meses após

aquela primeira sessão, ele se associa. Pouco mais de um ano depois ele é convocado para o Corpo Instrutivo. Na semana da entrevista ele havia tido a sua primeira Sessão Instrutiva.
Soraia: a busca e o encontro

Se Rubem ainda está nos inícios de sua vivência na UDV, Soraia, de 45 anos de idade, já tem 17 anos de participação. Ela nasceu no interior de Minas Gerais, em uma família católica. Desde a infância, tinha a sua atenção despertada pela experiência da morte, como ela conta: “Desde menina me chamou muito a atenção, muito a atenção mesmo, a morte. Por que as pessoas morrem, tem doença? Eu me lembro que aos cinco anos de idade já

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pensava em ser médica pra descobrir o que que era a morte. Eu tive experiências fortes com dois anos de idade, de morte de bichinho, que eu me lembrei com muito detalhe já, e com criancinha que morreu que era vizinha. Então tudo aquilo me marcou muito. Então essa questão da morte era algo desde a infância muito forte. Mas aí nessa época eu dissociei da questão da religiosidade e aí parece que nunca mais pensei em Deus na minha adolescência. Era uma coisa que foi abolida. Eu fui distanciada da Igreja, parei de participar dos rituais e comecei a entrar numa linha mais filosófica, de querer conhecer o que que era o homem, o que era a morte, aí lia sobre filósofos, lia sobre pessoas que investigavam estados de consciência.”86 Houve então a aproximação de um enfoque mais científico, nessa busca de compreensão da mente humana, que desembocou na sua decisão de estudar medicina e especializar-se em neurologia: “Aí comecei um outro tipo de busca de querer saber o que que era a mente, o que que era o cérebro, como é que eram os comportamentos. É que eu sinto que no fundo isso era uma linha da religiosidade, era uma busca, só que ficou racionalizada, ficou totalmente racionalizada. Aí nessa busca racional de compreensão do que que é a vida, do que que é a morte, eu estudei medicina e dentro da medicina também a necessidade de querer entender mais, entender mais, e não achando resposta e na minha especialidade eu fui buscar a neurologia pra ver se eu conseguia saber finalmente o que que é o cérebro, a mente, o ser. E foi uma decepção enorme, porque eu percebia que as pessoas não sabiam nem definir o que que era a consciência. Tinham estados de consciência e os graus de inconsciência. Então, ou as pessoas estavam vigil ou estavam em coma torporoso, grau 1, grau 2, grau 3 de profundidade. Mas não tinha nada que mostrasse que as pessoas estavam mais acordadas ou menos acordadas, acordadas. Isso foi uma coisa que me chamou muito a atenção desde o princípio. Tinha pessoas que pra mim era óbvio que elas não estavam acordadas, embora trabalhassem, andassem. Aí então eu comecei a me interessar a estudar uma área mais psicológica, pra ver se eu tinha mais respostas nessa linha, de querer saber o que era o comportamento.”

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Entrevista de Soraia, em São Paulo, 22 de outubro de 1998. As citações seguintes, neste item, são da mesma entrevista.

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É significativo que Soraia releia essa sua “busca racional de compreensão do que que é a vida” ou “busca de entender a máquina homem” como uma busca religiosa. A experiência posterior com o chá Hoasca propiciou-lhe uma reinterpretação de toda a sua trajetória, como busca que chegou a um encontro. Ela narra esse encontro, que se deu na primeira vez que ela bebeu o Vegetal, em 1982, quando uma amiga sua, médica da Unicamp, lhe fala de “um chá que vinha da Amazônia” que lhe tinha proporcionado uma experiência que ela compreendeu como visão de uma vivência acontecida em outra encarnação. Soraia se interessou e foi conhecer o chá: “Aí eu resolvi ir e a primeira vez que eu bebi o chá foi como se tivesse resgatado o contato com a espiritualidade, como se eu tivesse sentido outra vez que eu sou espírito. E foi uma coisa, uma experiência muito forte, muito interessante. Porque eu me senti completamente conectada com o céu, com a terra, com os seres do planeta. Eu senti o meu corpo como sendo a terra, sabe? Uma conexão do meu corpo com a terra, com o meu ser... A primeira experiência eu posso definir como uma experiência de integração com o todo, de unificação; a minha percepção é que eu era o todo, o todo era contido em mim, que o meu universo interno era algo sem limite, uma sensação de ter Deus em mim e eu ser Deus, mas não era uma sensação de um eu restrito, era aquele eu... que eu acho que depois pelas descrições que eu vi, uma sensação de êxtase místico.” E se desde a infância ela tinha um interesse pela natureza humana, nessa primeira vivência lhe acontece algo inesperado: uma percepção da natureza a partir do reino vegetal, que lhe é também ocasião do que ela chama de “resgate da religiosidade”: “E que foi interessante também nessa primeira sessão, é que ao mesmo tempo eu tive essa experiência de êxtase místico e depois na seqüência eu tive uma experiência muito forte com a floresta amazônica, eu tive uma experiência de estar no meio da floresta e de repente senti que eu era uma árvore. A percepção minha de que eu era árvore! Foi algo que chamou muito minha atenção também. Até um animal eu acho que era uma coisa que cabia dentro do meu conhecimento, mas algo do reino vegetal! Era uma percepção nítida, era como se fosse perfeitamente cabível dentro da minha sensibilidade saber o que era uma árvore, o que que sentia, como era, como era o fluir, como era a raiz, a folha, o vento, a semente... um negócio assim muito difícil de descrever. Mas uma vivência de percepção mesmo, uma percepção muito forte. [...] E imediatamente parece que eu resgatei a

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religiosidade nesse primeiro copo de vegetal, foi como se de repente eu tivesse resgatado a lembrança da religiosidade.” Após essa experiência tão intensa, ela começou a ir em todas as sessões possíveis: “Eu fui pro norte do país atrás da origem, eu fui pra outros núcleos, aonde tivesse a oportunidade de beber o chá. E nessa época tinha aqui em São Paulo um mestre, que era o Mestre Paixão, que era um mestre lá da floresta mesmo, então tinha uma freqüência maior de rituais também. Então eu bebia em Campinas, era filiada em Campinas, mas ia nas sessões aqui em São Paulo, nos preparos, porque eu queria saber o que que era aquilo que eu tinha encontrado.” Ao longo de quatro anos ela teve burracheiras fortíssimas, com muitas mirações, nas quais freqüentemente se via em outros lugares, participando de rituais com o uso do Vegetal: “Era como se eu tivesse recuperando um conhecimento de um poder [...]. Na medida que lia descobria coisas que eu já sabia. Reencarnação, não tinha dúvida alguma. Muita coisa... [...]Nos meus primeiros quatro anos de vegetal isso foi muito forte. Aí passei a ler tudo o que via pela frente a respeito de alquimia, ocultismo.” Esse primeiro tempo, de predomínio das percepções visuais interpretadas como recordações de outras vidas, foi sucedido por um segundo momento, que se estendeu por seis anos, de exame profundo de si mesma: “Aí começou uma outra fase de viagem profunda dentro de mim mesma. Era como se eu vestisse uma lente de aumento para ver detalhes. Era beber o Vegetal e me ver! Durou uns seis anos. Eu fazia psicanálise e o psicanalista, bem ortodoxo, queria saber o que eu bebia. Acelerou muito meu processo de auto-conhecimento. Essa época foi muito fértil.”
Soraia também passou a ter uma compreensão nova a respeito da doença e

da cura. Chegou a estar em sessões nas quais teve visão da cura de algumas pessoas acontecendo naquele momento. Outra vivência foi com o seu pai: “Meu pai estava num pré-coma hepático, com muita dor. Aí comecei a fazer a chamada da Serenita. O efeito das chamadas era algo tão evidente que minha mãe pedia que eu fizesse.”

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Soraia destaca a intensidade dessas experiências nos rituais da UDV e a relação

delas com as demais religiões: “É uma vivência muito sensorial. Eu tenho a experiência, não me contam. Não é a informação, é uma vivência. É precioso. É incrível a conexão com todas as religiões, com o que tem de verdade em todas elas. sou super interessada na percepção que nas religiões se tem de Deus. A experiência dos rituais xamânicos, dos budistas , dos católicos que tem uma força enorme, mas ficaram mecanizados. A experiência da burracheira me dá uma sensibilidade para os rituais. Sinto como é importante o ritual, pra criar uma predisposição para se ter um contato.” Na leitura que ela faz de sua trajetória, Soraia identifica uma terceira fase, atual, que ela caracteriza como centramento “no aqui e no agora”: “Depois disso foi uma experiência de presença, de me centrar, no aqui e no agora, algo que é mais possível atingir numa meditação sem o uso do chá. Diminuiu o conteúdo visual e ficou o sentimento de presença. Enquanto estou crescendo a burracheira é fértil, quando estou estagnada a burracheira é vazia. [...] Segundo Soraia, todas essas vivências não ficaram limitadas em um setor de suas ações, mas transformaram sua vida, inclusive no âmbito profissional: “Eu tinha uma frase: se eu acreditasse no que vocês dizem, minha vida ia ser centrada nisso. E é como se desse uma guinada na minha vida. Mudou o direcionametno profissional, não suportava mais uma visão delimitada, meu trabalho mudou completamente, se tornou mais holístico. [...] A espiritualidade passou a ser o centro da minha vida. Todo o meu trabalho gira em torno disso. O que flui de uma geração pra outra: quanto mais me adentro mais reforça que a espiritualidade é o centro. Tem pacientes que me dizem: ‘Ah, eu estou buscando a luz!’ A vida existe pra se conhecer o que é o espírito. Conhecer o que existe. Quanto mais eu bebo o vegetal, mais eu tenho interesse em conhecer tudo o que está relacionado com a espiritualidade.” Na etapa atual de sua vida, Soraia revê o entusiasmo inicial, com as dificuldades enfrentadas, e fala da serenidade do presente: “Eu encontrei dificuldades no sentido da aceitação das pessoas. Pra minha família era um espanto: ao mesmo tempo em que eles sabiam do meu conhecimento pra não

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tar ali de bobeira, era difícil. Foi criado o Centro de Estudos Médicos e eu era a vicediretora. A pesquisa concomitante me levava a não pensar que eu estava equivocada. Pesquisei no mundo inteiro quem já tinha estudado, tudo que podia estar relacionado com a Hoasca eu pesquisei. No começo, houve uma postura fanática. De querer experimentar mais e mais. A dificuldade maior foi continuar dentro dos esquemas que eu tinha: o tipo de pessoas com quem eu convivia se alterou rapidamente. Na medida em que eu pude conhecer a UDV, eu priorizei isso acima de qualquer outra coisa. E acho que foi importante. Não acho que esse mergulho era fundamental. Hoje, estou em outro momento, eu não preciso ir aonde tem, eu levo aonde eu vou. Hoje entrar em contato com vários segmentos da sociedade, eu levo muito.”
Spencer: arquitetura à luz da Hoasca e rosas para a Virgem Maria

Spencer de Morais Pupo Nogueira87, atual Mestre Representante do Núcleo Alto das Cordilheiras, tem 61 anos de idade e nasceu em Campinas, numa família católica. Tendo tido na juventude uma trajetória que pode ser caracterizada como de participação na contra-cultura e tendo cursado a faculdade de arquitetura, Spencer conheceu a UDV em 1975. Alguns anos depois, chegou ao Quadro de Mestres. No início dos anos 90, Spencer discordou publicamente do então Mestre Geral Representante e foi afastado da comunhão do Vegetal. Nessa época, ele parou de freqüentar a União do Vegetal “um ano, dois anos, mais ou menos”88. Ele continua narrando suas atividades na seqüência: “Aí teve um amigo meu, falou pra eu ir lá pra Porto Velho, fazer umas conferências por causa da tese que eu desenvolvia de arquitetura, eu fazia umas conferências lá nos órgãos públicos e eles me pagavam as passagens pra eu ir lá.” Quanto à sua participação na União do Vegetal, Spencer conta: “Daí continuei aqui meio vacilado, não ia, chateava as pessoas na sessão, nêgo ‘bonzinho’, eu dizia: ‘não é nada disso!’ Aproveitava meus conhecimentos e não deixava passar nada que fosse piegas, nada que fosse de ‘bonzinho’. E assim foi, as pessoas tiveram paciência comigo. Ou paciência ou não sabiam o que fazer também.”
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Aqui não recorro à utilização de pseudônimo para designar Spencer, com a autorização do mesmo, para poder citar sua tese doutoral e indicar a autoria de seus desenhos, apresentados nesta dissertação. 88 Entrevista de Spencer de Morais Pupo Nogueira, em Campinas, 3 de outubro de 1998. As citações seguintes, neste item, são da mesma entrevista, salvo quando indicado o contrário.

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No tempo em que estava começando a se reaproximar da UDV, Spencer viveu uma experiência forte que desencadeou nele um “processo de conversão”: “Daí eu fui pra Europa, num congresso de estados diferenciados de consciência, por causa de uns desenhos que eu fazia. Um congresso em Lérida, na Espanha. [...] Teve um dia que eu tomei pouco vinho - eu sou forte pra bebida, eu era forte pra bebida - no tempo lá em que eu voltei pra União do Vegetal continuava bebendo umas cervejas. Fui tomar um vinho e me deu uma coisa estranha, lá em Lérida. [...] E a peia comendo feia. Como se eu tivesse de burracheira. Só tinha bebido vinho. Até que eu fiz uma chamada ‘bonzinho’... nem me lembro mais. Eu vou fazer tudo direitinho... aí melhorou. Mas nisso aí eu vi o seguinte: teve uma hora que me mostraram, como se apontassem um dedo. O seu trabalho é aqui - e mostrou este lugar. Aqui, neste núcleo. Aí que é o lugar do poder da tua ação. Aí eu vim falei com o Paulo e tal, tô querendo voltar, num sei quê. Isso foi em 93. Daí eu vim pra cá e comecei a limpar porta, trabalhar manualmente. Aí depois de um tempo já vim pro Corpo Instrutivo, depois de um tempo pro Corpo do Conselho, depois vim pro Quadro de Mestre, depois fui escolhido pra ser Mestre Representante e aqui estou.” A partir de suas viagens à Amazônia, Spencer delineou o seu projeto de pesquisa para o doutorado em arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo: “Trata-se do protótipo de um Modelo de Núcleo Urbano para Áreas de Extrativismo na Amazônia [...]. Esperamos que este protótipo de Núcleo Urbano Extrativista seja implantado no seringal ‘Novo Encanto’, área de 8.025 ha no Estado do Acre, doado à União do Vegetal pela organização Norte Americana ‘Medicina da Terra’ que tem na Ecologia seu escopo principal”. (PUPO NOGUEIRA, 1994, p. viii - ix) Na sua tese doutoral, Spencer expôs a sua experiência com a Hoasca como caminho de acesso ao “processo de conhecimento pelo sentir”, que lhe possibilitou idealizar seu “Núcleo Urbano Florestal”. Em sua obra, o arquiteto dedica um tópico a “O tempo de borracheira”, “com o intuito de transmitir a transformação no siginificado da substância dos objetos materiais, escolhemos duas experiências relativas à Madeira, por se tratar do material com que será realizada, praticamente, a totalidade do núcleo urbano projetado, e também, por ser antigo conhecido dos arquitetos.” (Id., p. 54)

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Spencer narra primeiramente suas experiências no Lago do Arara, Alto Rio Negro, por ocasião de um Preparo do chá com os freqüentadores do Núcleo Caupuri de Manaus: “O dia amanhecera como o anterior, brisa leve, reflexo perfeito das águas negro-espelho. Havíamos bebido o Vegetal de manhã (durante o preparo bebe-se diversas vezes) e tido conversas agradáveis e proveitosas com os manauaras. À tardinha, luminosa mas sem o Sol direto, estávamos apreciando o reflexo perfeito da floresta da margem oposta nas águas, quando Pierluigi, um arquiteto italiano, chegou em minúscula canoa indígena [...]. Por ele ter conseguido, nos atrevemos a tentar também depois de instruído, meio inseguro, deslizamos no Lago do Arara. [...] Sentimo-nos tão bem, que deitamos no fundo do barco, a claridade do céu não feria os olhos, e tivemos a maior sensação de
conforto e segurança que sentimos em nosso mais de meio século de vida.

“Pouco depois, ainda na embarcação, refletimos se aquela sensação sentida
enquanto estávamos envoltos pelo bojo da canoa - canoa que segundo a tradição indígena é

feita com a madeira de determinada árvore, árvore que antes de ser derrubada foi consultada se o poderia ser para que com ela se fizesse um barco, barco que abrigaria uma família, família agradecida a ela por ter cedido seu corpo como barco para a labuta diária poderia ter sido vivida em outro barco anônimo de alumínio ‘leve e forte’? ”

“Continuamos a refletir, inquirindo se aquele costume contido no ritual da árvore não poderia ser vestígio de uma civilização esquecida, sensível a outra categoria de
conforto emanado diretamente da substância?” (Id., 55-56)

Em seguida, Spencer descreve uma segunda experiência, esta no templo do Núcleo Lupunamanta, em Campinas, que ele havia projetado e construído: “Em uma sessão de Vegetal, durante o alto tempo de borracheira, confortavelmente instalado em uma poltrona, rodeado de pessoas conhecidas, estávamos olhando vagamente o espaço formado pelas vigas e caibros da alta cobertura, parecia mais uma ossatura, vista por dentro, de um enorme animal (percepção que nos auxiliou a conceber a Grande Cobertura do núcleo urbano que dissemos lembrar a caixa toráxica da mítica Anaconda, em perspectiva interior).” “Repentinamente, como uma vertigem, destacou-se em nossa percepção o tensor de uma das grandes tesouras que sustentam esta cobertura. Ele havia se desrevestido, ou melhor (?), nós o havíamos desrevestido de sua conotação anônima de madeira, e se transmutado, na lembrança da grande árvore que fora, singular e presente. Árvore, como

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que, exigindo um espaço na consciência humana, em que fosse reconhecida sua virtude de estar aí, firme e quieta cumprindo sua missão de sustentar o abrigo do homem. A visão se enriquecera com o pulsar em nós, de um agradecimento desconhecido, por toda aquela vida materializada em madeira. Um estalo na lareira chamou nossa atenção para uma lenha em chamas, que parecia dizer: ‘também estou aqui, há muitos milênios!’ Lembramos de nossa pós-graduação em ‘Madeiras e suas características’ em que o Prof. João dissera: ‘a madeira é puro raio de sol, com um pouco da poeira da terra’. Nesse instante, por estranha sincronicidade muito comum nas sessões do Vegetal, um dos presentes começou a ‘fazer uma chamada’ (música evocativa de forças da natureza, cantada durante uma sessão por um discípulo que ‘sentiu’ que o deveria fazer), era a ‘Chamada da Samaúma’ [...], a maior árvore da Floresta Amazônica.” (Id., p. 56-57). Assim, Spencer apresenta a primeira tese acadêmica no Brasil com uma reflexão acerca da União do Vegetal. Além de arquiteto e professor, Spencer é artista plástico. Os longos anos de seu “processo de conhecimento pelo sentir”, mediado pelo chá Hoasca na UDV, refletem-se em seus desenhos e pinturas, dos quais exponho aqui algumas reproduções. Alguma idéia acerca da conexão entre sua experiência estética e sua vivência espiritual-religiosa pode ser proporcionada pela sua narrativa de um exercício imaginativo orante, que ele tem feito diariamente, sem o uso do Vegetal: “De uns meses pra cá meu relacionamento com Deus vem melhorando muito graças à Virgem Maria. Por ser homem, a minha parte afetiva de relacionamento com o Superior, sendo com mulher facilitou, mas agora tá bom com Deus também. Faço umas alquimias... num livro, eu li que a Virgem Maria disse que tem uma casa branca dentro de cada um de nós. Então aquela imagem da Igreja Católica, muito no altar - ah eu pequeno! diminuiu aquilo por uma palavra que ela fala: ‘Vem, entra, vem aqui nessa casa, acaba de fazer o projeto do jeito que você achar melhor, eu tô aqui dentro, te quero bem, pode me chamar de mãe se você quiser’. E daí foi uma palavra que pra mim foi mágica: ‘Porque aqui dentro a camaradagem de mãe e filho é natural’. Vai ter oito meses, mais ou menos, que faço uma alquimia imaginativa nessa casa, nesse jardim que eu tô inventando: uma rosa por dia, todos os dias, enquanto toca três ave-marias, na primeira invento a rosa, na segunda busco a Virgem Maria na casa dela e na terceira mostro a rosa pra ela acabar de fazer a rosa, tudo isso na imaginação. “ “E daí resolvi fazer a Chamada do Amor Vivíssimo que poucos mestres têm coragem de fazer. Aí fiz um preparo aqui, que todo mundo reconhece que foi um Vegetal

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ponto grau. Senti no momento do preparo com a Virgem Maria dum lado e com a Senhora Santana do outro. De pé uma do lado e outra do outro, eu de pé também. [...] Um preparo interessante, mudou o núcleo aí. E a parte mais forte da chamada é aquela: “alcançai a dor profunda de meus pecados”. Essa que é a parte. Porque você com essa frase tem que se abrir, não tem coisa escondida. Nessas alquimias mentais aí... Jesus fala: ‘a pessoa pra entrar no Reino do Céu tem que ser como um menino’. Então nas minhas alquimias o que é que eu fiz? Eu fiquei como um menino.” Desse modo, sua narrativa aponta para uma significativa transformação ao longo de sua trajetória na UDV, emblematizada por essa mudança, de crítico que “chateava as pessoas na sessão” e “não deixava passar nada que fosse piegas” para um afetuoso devoto da Virgem Maria, que, com seus conhecimentos de arquitetura, lhe constrói uma casa em sua imaginação e, com seus dons artísticos, cria para ela uma nova rosa a cada dia.

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3.2. ALCANÇAR O ALTO DAS CORDILHEIRAS
“De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego - da mais-força, de maior-coragem.” João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

No intuito de descrever a vivência simbólica dos participantes da União do Vegetal do Núcleo Alto das Cordilheiras, me concentrarei em algumas das categorias presentes no discurso desses membros da UDV: burracheira, Mestre e discípulo, conhecimento, sentir,
consciência, memória, ordem, peia, mirações, evolução espiritual. Essas categorias nativas

serão abordadas sob um enfoque interpretativo, na busca de captar a lógica da experiência simbólica da União do Vegetal. O título deste tópico, além de evocar o nome do núcleo no qual realizei meu trabalho de campo, faz uma referência ao uso pelos participantes da UDV da expressão “Alto das Cordilheiras” para designar o lugar mais elevado no “Astral”, o lugar da divindade, para onde os discípulos esforçam-se em chegar. Como na narrativa fundante da União do Vegetal, a História da Hoasca, há uma referência ao Império Inca, faz sentido que o “Alto das Cordilheiras” tenha sido o símbolo escolhido para falar do mais alto lugar espiritual. E assim como para a escalada de uma alta montanha, faz-se necessário um grande empenho, firmeza, fôlego, para alcançar as alturas do “Astral” divino. Os termos apresentados a seguir podem ser considerados como balizas que orientam o percurso do discípulo em direção ao topo desse monte.
Burracheira

O estado alterado de consciência desencadeado pela ingestão da Hoasca é chamado de burracheira. Na Colômbia, as populações amazônicas designam de borrachero ou
borrachera os
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arbustos do

gênero Brugmansia, que costumam mesclar com a

ayahuasca . Isto atesta que há na área amazônica de língua espanhola um uso do termo borrachera não apenas no acepção comum da palavra em castelhano, de embriaguez
89

Cf. LUNA, 1996, p. 25. SCHULTES, RAFFAUF, 1990, p. 419-422. SCHULTES, HOFMANN, 1992, p. 27.

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motivada por bebida alcoólica, mas também num sentido específico de estado alterado causado por planta psicoativa. No entanto, o significado da palavra burracheira para os discípulos da UDV, segundo palavras do Mestre Gabriel, é “força estranha”. O efeito do chá Hoasca é algo de difícil caracterização, dada a pluralidade de possíveis vivências suscitadas por seu uso. De modo geral, pode-se falar de uma alteração intensa das sensações, sentimentos e percepções durante o período de efeito da Hoasca, que costuma durar aproximadamente quatro horas, que é o tempo de duração de uma sessão da UDV. São freqüentes as experiências de percepções visuais denominadas mirações.
Roberto, jovem na faixa dos 20 anos, estudante universitário, respondeu do seguinte

modo à pergunta que fiz acerca do que é a burracheira:
“A burracheira pra mim é um estado de consciência que a gente fica, de espírito. Pra mim eu vejo que quando eu tô nesse estado de burracheira é como se o meu espírito tivesse sido alimentado. De repente, a gente analisa a realidade aqui, essa mesa, vê as coisas palpáveis.... e a burracheira apresenta os novos tipos de sentido. De repente a plantinha que tá ali... você olha pra planta diferente do que tava olhando, ‘ah aquela planta tá assim, assim’; você consegue ver uma análise da realidade de um jeito muito mais profundo. E também pinta uns novos estilos de pensamento, pensa umas coisas que é só possível pensar tando de burracheira, só assim não sei, mas é um jeito que pelo menos pra mim eu não consigo conceber assim... tipo um pensamento que às vezes eu tenho de burracheira analisando a verdade da vida: tempo, espaço, Deus. Você sabe, essas coisas assim, de repente você chega a pensar umas coisas lá que você não tem nem palavras, que você tá lá pensando. Então é uma coisa nesse nível.”90

E, além dos pensamentos, ele também fala do sentimento mais experimentado no tempo de burracheira:
“Ah, esse sentimento de gratidão, mesmo! Gratidão por ser um cara, tô vivo, isso é uma realidade. Tem outras coisas da vida pós-morte que eu acredito, mas tem aqueles caras que são céticos, então não dá pra provar. Mas uma coisa que dá pra provar é assim: eu tô vivo, aqui, pensando, com a minha consciência, o mundo inteiro, um monte de cabecinha pensando... mas eu sei que eu tô aqui, de repente eu sou o Roberto, tenho a minha vida, meus amigos, as coisas que acontecem, tal, toco violão, toco guitarra, posso fazer umas coisas assim... Então quando tô lá assim, uma coisa que fica sempre presente muito pra mim é a gratidão, a gratidão acho que é mais marcante.”91
90 91

Entrevista de Roberto, em Campinas, 26 de outubro de 1998. Id.

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O livro que faz a apresentação institucional do CEBUDV afirma que “o efeito do chá pode ser comparado ao êxtase religioso [...] - um estado de lucidez contemplativa, que coloca a pessoa em contato direto com o plano espiritual” (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1989, p. 30). Assim, a burracheira é concebida na União do Vegetal como uma força, algo que tem origem na própria “Força Superior”, expressão freqüentemente utilizada para fazer referência à divindade. Essa força é desconhecida, estranha, para o ser humano. Por isso, o participante da UDV busca se preparar para, durante as sessões, entrar em contato com a burracheira. O Mestre é aquele que o conduz nessa experiência.
Mestre e discípulo

Certamente, a palavra que se pronuncia mais vezes numa sessão da União do Vegetal é mestre. Antes de mais nada, é a palavra mais usada para se denominar “a Divindade”, ou “a Força Superior”. Os seres humanos estão neste mundo para aprender, ou seja, evoluir espiritualmente. Assim, Deus é sobretudo o Mestre que ensina. Ensina a quem? Surge aqui o correlato à categoria de mestre: o discípulo. Este surge en creux, não é uma palavra tão freqüentemente utilizada como mestre, mas está de certo modo implícita na fala de quem chama o mestre, colocando-se no lugar de aprender. Aprender o quê? Surge aqui o terceiro elemento dessa relação: o conhecimento. O Mestre transmite o conhecimento das coisas espirituais. Desde já, pode-se perceber o papel fundamental que cabe ao
conhecimento na UDV. E assim como a vida, também o ritual é um aprendizado, a UDV é

uma escola na qual se aprendem os ensinos do Mestre. E o Mestre tem seus mensageiros que trazem os seus ensinos. José Gabriel da Costa é um deles, como Salomão, Jesus... O fundador da UDV é, portanto, chamado igualmente de Mestre. Segundo um conselheiro, José Gabriel da Costa “é um mestre que conhece o caminho que um espírito precisa percorrer para encontrar o significado de sua própria existência; e conhece porque percorreu o seu próprio caminho; e é mestre porque se dispôs a auxiliar”.92

Entrevista de Nelson, em Campinas, 30 de setembro de 1998. Grifos meus. Produtor cultural, na faixa dos 40 anos.

92

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A todas as pessoas que entrevistei fiz a pergunta: “Quem é, para você, José Gabriel da Costa?”. Houve uma grande variedade de respostas. Denise, que está no Quadro de Sócios, respondeu: “Mestre Gabriel pra mim é um mistério. Eu ainda não sei o que sinto, ele é um velhinho interessante, [...] é difícil achar que ele é mestre, um mestre pouco convencional. É mais fácil pensar num lama tibetano.”93 Aparece talvez aí a dificuldade de alguém de formação universitária aceitar como mestre um seringueiro semi-analfabeto. Realmente, um lama tibetano seria certamente mais palatável num primeiro contato. Mas à medida que as pessoas permanecem mais tempo na UDV o mistério dessa pessoa as envolve cada vez mais. Renato, que já participa da UDV há 18 anos, diz a respeito de José Gabriel da Costa: “É um mistério, ele é fascinante, ele é a luz. É como ter de descrever o que é a humildade. Precisa sentir.”94 Respostas como essa, que fazem recurso a palavras muito utilizadas na UDV, como luz e mistério, são recorrentes. Assim como a indicação do caminho do sentir como possibilidade de acesso à percepção de quem ele é. Um outro aspecto, apontado por Alice, que conhece a UDV há 10 anos, é a proximidade de José Gabriel da Costa:
“Um grande amigo, alguém que mesmo que eu não conheci pessoalmente é alguém muito próximo. E mais, é um amigo que se faz presente nos momentos importantes de minha vida. Eu até penso em desistir mas ele sempre de uma maneira inteligente me traz de volta. Até porque tem uma característica: eu não conheço outro mestre que se coloque de forma tão humana. ‘Andei no mau caminho’, coloca-se num plano como o nosso. Mostra que a transformação é possível de verdade.”95

Esse sentimento de proximidade é também apontado por Clarice, uma senhora simples, com pouco estudo acadêmico, que já passou por muitas situações de sofrimento e percebe essas dificuldades na vida de José Gabriel da Costa:
“É uma pessoa assim que não teve estudo [...] Mas, por que ele foi tão sofrido? Viveu num lugar pobre, seringueiro, teve um filho excepcional. [...] Por que não veio numa vida melhor, sem tantos problemas financeiros? [...] O Mestre Gabriel é um recordado.”96

Esse olhar de empatia, que vê no “Mestre” um espelho de si mesmo e, simultaneamente, alguém que tem um “grau” espiritual alto, também se verifica na entrevista de Mestre
93
94

Entrevista de Alice, em Campinas, 17 de setembro de 1998. Advogada, na faixa dos 30 anos.
96

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Entrevista de Denise, em Campinas, 19 de outubro de 1998. Médica, na faixa dos 30 anos. Entrevista de Renato, em São Paulo, 21 de outubro de 1998.

Entrevista de Clarice, em Campinas, 15 de setembro de 1998. Dona de casa, na faixa dos 70 anos.

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Décio, psicoterapeuta: “ele é um terapeuta interno. Pra mim hoje o Mestre Gabriel é uma

luz, que permite o desvelamento do meu eu verdadeiro; quando o meu eu verdadeiro estiver plenamente lapidado, a missão dele comigo estará concluída.”97 A polissemia da vida de José Gabriel da Costa está, primeiramente, relacionada ao caráter polissêmico de toda existência humana. Mas, pela densidade e diversidade das experiências por ele vivenciadas e pelo âmbito sagrado no qual se dá o conhecimento e identificação com o “Mestre”, por vezes se observa um processo que poderia ser lido, numa perspectiva hermenêutica, a partir deste texto de Ricoeur:
“Ao se compreender a si mesmo nos e pelos signos do sagrado, o homem opera a mais radical despossessão de si mesmo que é possível concebermos. [...] Uma arqueologia e uma teleologia desvelam ainda uma arché e um télos de que o sujeito pode dispor-se ao compreendê-los. O mesmo não ocorre com o sagrado [...] Desse alpha e desse ômega o sujeito não poderá dispor-se. O sagrado interpela o homem e, nessa interpelação, anuncia-se como aquilo que dispõe sua existência, porque a põe absolutamente, como esforço e desejo de ser.” (RICOEUR, 1978, p. 23).

Assim, tanto o arché - o princípio, a origem, o enraizamento no passado - que se desvela em experiência do limite na vida de Clarice e de José Gabriel da Costa, quanto o télos - o fim, a meta, o dinamismo voltado para o futuro - que se vislumbra na superação dos limites na existência do Mestre e nos desejos de Décio de um eu plenamente lapidado são vivenciados como interpelação radical que dispõe a vida numa dinâmica de busca. Também os líderes da União do Vegetal são designados pelo nome de mestre. Assim, há três planos de aplicação da palavra mestre numa sessão da UDV: o divino, o relativo ao Mestre Gabriel e o referente aos que têm “a estrela de mestre” no CEBUDV. Essas significações múltiplas da palavra “mestre” numa sessão da UDV podem suscitar ambigüidades, mas provavelmente serão mal-entendidos produtivos, na medida em que se delineia uma correlação alto-baixo que sanciona a autoridade hierárquica e faz com que o divino seja sentido como mais próximo. A todo momento chama-se o Mestre, e o mestre dirigente da sessão, prontamente, responde. Nos estatutos, por exemplo, se afirma que “a sessão será dirigida pelo Mestre e por quem for designado a representá-lo”, ou seja, todas as sessões têm por dirigente o Mestre Gabriel; a pessoa que ocupar o lugar de “mestre
Entrevista de Décio, em Campinas, 15 de outubro de 1998. Psiquiatra e psicoterapeuta, na faixa dos 50 anos.
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dirigente da sessão” será um representante dele. Na maioria dos núcleos onde já estive, nas ocasiões em que uma mulher dirige uma sessão, quando é feita uma pergunta a ela se usa a fórmula: “Mestre, o senhor dá licença de fazer uma pergunta?” Mas no Núcleo Alto das Cordilheiras presenciei uma sessão em que uma conselheira que ocupava o lugar de mestre dirigente respondeu a alguém que usou essa fórmula: “O senhor pode me chamar de
senhora mesmo...” De qualquer modo, busca-se enfatizar que o dirigente está no lugar do

Mestre Gabriel. Esse aspecto do lugar é ressaltado, no sentido de que “Mestre da União do Vegetal” realmente é o Mestre Gabriel, os demais “mestres” são também discípulos, que têm uma tarefa: transmitir a doutrina da União e, junto com os conselheiros e conselheiras, dirigir o núcleo da UDV. O discípulo, como afirmei acima, é alguém que se coloca no lugar de aprender. E a sessão é o espaço mais adequado para isso. Assim, na UDV o tempo do ritual é fortemente marcado como um tempo de exercício da palavra. O jogo de perguntar e responder preenche a maior parte da sessão. E a pergunta é feita ao mestre dirigente que responde enquanto mestre, isto é, como alguém que ensina. Ao chamar esse jogo de “exercício da palavra”, refiro-me aqui a um sentido forte do termo exercício. Assim como uma atividade física intensa e ordenada é um exercício, do mesmo modo o uso da palavra nas sessões da UDV exige muitas vezes de quem o faz um esforço, atenção e precisão que fazem de tal atividade um exercício exigente. Diante da força da burracheira, pode ser necessário um esforço grande, até mesmo para simplesmente levantar-se e articular uma pergunta. No turbilhão de sensações da burracheira, pode ser preciso muita concentração e atenção para focar um assunto e elaborar uma questão sobre ele. E neste jogo se demanda uma fina precisão, na medida em que não se pode usar qualquer palavra de qualquer modo. Há toda uma série de prescrições que visam excluir das sessões palavras inadequadas, já que a burracheira é percebida como algo que é moldado plasticamente pela palavra, o que suscita cuidados para que as pessoas não sejam conduzidas por palavras inadvertidamente pronunciadas a situações difíceis. Deste modo, há toda uma preocupação com a forma, com a escolha dos vocábulos, que faz desse exercício da palavra algo exigente. E ainda mais, muitos mestres costumam corrigir os discípulos quando estes empregam uma palavra ou expressão inadequada. Quando, por exemplo, o que pergunta diz: “Eu queria saber...”, ele pode ouvir do mestre: “O senhor queria, agora não quer mais?” Assim, faz-se necessária uma certa docilidade do discípulo, para se deixar corrigir pelo mestre... A disponibilidade

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para aprender e a participação nas sessões, principalmente perguntando, assim como o empenho em participar dos trabalhos e atividades do núcleo possibilita ao discípulo vir a ser convocado para o Corpo Instrutivo, o grupo de discípulos que já subiu um degrau na hierarquia, podendo participar das sessões instrutivas, realizadas a cada dois meses, nas quais são transmitidos ensinamentos mais reservados da UDV.
Conhecimento

A relevância do conhecimento, na visão de mundo da UDV, pode ser observada considerando-se os pedidos feitos no ritual e pelos frutos que se ensina esperar da burracheira: receber da chacrona, o arbusto Psychotria viridis, luz para conhecer e do mariri, o cipó Baisteriopsis caapi, força para aplicar o conhecimento na vida. Essa ênfase na busca do conhecimento assemelha-se àquela ensinada pelo gnosticismo dos primeiros séculos da era cristã. Ainda que na União do Vegetal esse elemento seja equilibrado com a acentuação dada igualmente à necessidade daquilo que Mestre Gabriel chamou “a prática fiel do bem”. Perguntado se a UDV é uma gnose, um mestre respondeu:
“No sentido da palavra, sim. É difícil dizer o que eram os gnósticos, porque é um nome usado pra tantas coisas diferentes, uma coisa muito difícil... Mas, no aspecto do conhecimento, do valor espiritual do conhecimento, da realização pelo conhecimento, eu acho que tem muita coisa a ver. Porque tem muitas coisas normalmente associadas ao que se chamava de gnóstico que não têm a ver, como por exemplo, uma divisão entre eleitos e não eleitos, esse aspecto não existe. Mas existem alguns aspectos de ensinamento que são coisas assim literais, escrita assim a mesma frase. Então alguma coisa tem a ver. [...] O Mestre Gabriel nunca se colocou como detentor exclusivo do conhecimento. O conhecimento está no alto, quem chegar lá alcança.” 98

Essa relação com a gnose pode ser inferida a partir da afirmação de Luísa, Conselheira, na faixa dos 50 anos, psicóloga: “a linha do Vegetal, essa linha mais direta, pros herdeiros de São Tomé; a fé deles precisa das colunas do sentimento e do

98

Entrevista do Mestre Paulo, em Campinas, 16 de outubro de 1998.

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conhecimento.”99 Nesse aspecto, é possível pensar uma analogia com a crença dos antigos romanos, que não acolhiam afirmações teológicas e metafísicas sem antes submetê-las à crítica. Linder e Scheid afirmam que “de ce point de vue, les Romains étaient des SaintThomas, mais de Saint-Thomas modèles de la bonne foi, et non de l’incroyance” (LINDER, SCHEID, 1993, p. 55). E na nota relativa: “La meilleur preuve étant celle des yeux”(Id., nota 46, p. 60). Ora, o exercício da crença na UDV talvez possa ser definido como aquele dos “herdeiros de São Tomé”, como disse Luísa, na medida em que a fé não é exigida a priori, mas se configura como o resultado de uma vivência - na qual, aliás, a visão tem um papel de substancial importância - das faculdades do sentir e do conhecer. Como aponta Otávio Velho:
“Agora, é como se São Tomé fosse o apóstolo do novo tempo. Um tempo que exigiria uma religiosidade da experiência direta, onde o conhecimento subsume a afetividade e é posto no lugar da transmissão exclusivamente por via da tradição, a qual não tem valor senão na medida em que é reinventada convincentemente.” (VELHO, 1998, p. 38).

Assim, o próprio Mestre Gabriel disse: “não acreditem no que eu digo; examinem! ... pra ver que eu estou certo.” Esta frase é muitas vezes recordada nas sessões e fora delas, e traz para a União do Vegetal uma flexibilidade quanto aos graus de aceitação da doutrina, na medida em que esse exame permanece aberto. Luís, professor, na faixa dos 50 anos, afirmou:
“As religiões exigem uma conformidade e um consenso, mas a UDV não. Embora ela aparentemente exija, ela abriga muitas pessoas como eu. A gente aprende o que a gente pode falar e o que não pode. É interessante você olhar o Rajneesh. Ele dizia: ‘a única coisa que eu exijo de vocês é que façam as meditações’. A UDV diz: ‘bebe o Vegetal e paga a mensalidade’. Não tem nenhum credo.” 100

No entanto, essa afirmação deve ser matizada, levando-se em conta que quem a faz é do Quadro de Sócios, apesar de já beber o Vegetal há mais de 4 anos. Como ele mesmo reconhece: “Eu não sou da instrutiva. Você tem que mostrar que é da UDV, que faz as perguntas certas... Eu até gostaria, mas tem de passar por tudo isso. De certa forma eu não sou da UDV.”101 Luís percebe que a convocação para o Corpo Instrutivo manifesta um grau de adesão que ele ainda não tem, o que faz com que de certo modo ele se sinta fora. Por
99

Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998. Entrevista de Luís, em Campinas, 6 de novembro de 1998. 101 Id.
100

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outro lado, para o Quadro de Sócios é grande a flexibilidade. Já do Corpo Instrutivo é esperado um compromisso maior, até mesmo nesse aspecto doutrinário, pois um dos boletins afirma: “Só poderá seguir na Sessão Instrutiva aquele que aceitar as doutrinações da mesma”102. Mas não há um detalhamento do que significa essa aceitação, assim, permanece uma margem significativa para uma diversidade de compreensões. Certamente, a ascensão nos graus da hierarquia está relacionada ao grau de adesão à doutrina de Mestre Gabriel, mas não de uma maneira unívoca, já que por exemplo, pode-se perceber de um núcleo para outro uma diversidade de exigência de conformidade.

Sentir

A UDV é uma religião de tradição oral, na qual a porção da doutrina considerada pelo próprio grupo como fundamental - as histórias e as chamadas - não está escrita e nem poderia vir a ser assim registrada, já que está prescrito que os ensinamentos sejam transmitidos “de boca a ouvido”. Isto suscita uma certa perplexidade em seus novos adeptos: qual o critério para se saber se o conhecimento é verdadeiro? O mesmo Mestre
Paulo, abordando a questão da identidade de José Gabriel da Costa, fala que “existe esse

risco de cada um de nós hoje chamar uma série de coisas, de sensações a respeito de si mesmo, de chamar dessa palavra, de ‘Mestre’. [...] As pessoas costumam criar essa figura: ‘eu falei com o Mestre’ , ‘o Mestre me disse’, né?” Mas, em seguida, Paulo fala de determinadas ocasiões em que pôde perceber uma “força inteligente” atuando na União do Vegetal:
“Em muitos casos é muito perceptível essa intencionalidade, essa forma como as coisas vão acontecendo, e que se acontecesse diferente o resultado seria outro. [...] Quando eu digo uma força inteligente é algo que eu sinto que tem um propósito, uma razão, não é uma força como a força de uma tempestade, uma força que a gente sente que é uma força mas não dá pra perceber a direção. Mas no caso da União do Vegetal existe esse aspecto inteligente e na minha vivência pessoal, e nessa conversa você pôde ver exemplos, como na minha primeira miração, que eu vejo como se fosse uma estratégia, uma estratégia de como chegar até a mim. [...] Então, pra mim, esse José Gabriel da Costa, além de ser o homem que foi, com o exemplo, que acho que é um exemplo
102

Boletim da Consciência Conservando a Tranqüilidade dos Filiados do Centro, 4a parte. CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 58.

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muito importante, próximo, brasileiro, próximo no tempo, na forma de vida, no espaço, localização geográfica, linguagem, além de ser esse homem, eu identifico o Mestre Gabriel como essa força inteligente na União do Vegetal.”

Em seguida, eu lhe pergunto qual é o critério para perceber o que é verdadeiramente ação dessa “força inteligente” e não “personalizar sensações individuais” e chamá-las de “Mestre Gabriel”. E ele responde:
“A gente vai voltar no sentir, né? Eu uma vez perguntei pra uma pessoa, que inclusive eu conheci antes da União do Vegetal, uma senhora que desencarnou antes de eu chegar na União do Vegetal, uma pessoa muito espiritualizada, muito legal. Mas ela lia uns livros que eu achava que não tinha nada a ver, Lobsang Rampa, um negócio assim que eu achava meio marketeiro. Aí eu perguntei pra ela: ‘Puxa, eu não entendo... por que você lê esses negócios, aí?’ Ela falou o seguinte: ‘Eu leio, eu leio tudo, agora, eu só guardo aquilo que me toca o coração.’ E é mais ou menos isso, viu? Você sabe; quando é, você sabe.”

Esse status legitimador do conhecimento que tem o sentir na UDV também apareceu claramente em uma sessão no Rio de Janeiro, no Núcleo Pupuramanta. Falava-se acerca da verdade. Quando um discípulo perguntou como se pode ter a certeza de que algo que se vê na burracheira é verdadeiro e não uma ilusão, o mestre dirigente da sessão respondeu: “quando algo que o senhor vê é, realmente, verdade, o senhor sente; o sentimento mostra pro senhor que é verdade”. Afrânio Patrocínio de Andrade, que participou do Núcleo São João Batista, de São Paulo, também aponta para a dimensão do sentir, afirmando em seu último capítulo: “Essa Religião, uma vez abandonando muitas das falácias da razão e se apegando a uma experiência em que se congeminam sentimentos e emoções, traz para o ser humano da cidade um elemento que lhe é caro: a consciência de si próprio.” (ANDRADE, 1995, p. 246. Grifos meus). Há, certamente, a autoridade de Mestre Gabriel, o fundador, que é aceita como a de alguém que é o “Mestre dos Mestres”103. No entanto, na interpretação de suas palavras ou naqueles pontos sobre os quais ele não se pronunciou, o sentimento é um critério fundamental, especialmente o sentimento durante a burracheira. É verdade que, na mesma sessão acima citada, um outro mestre lembrou que há o Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestre Gabriel, que reúne aproximadamente doze pessoas dos inícios da União,
103

Mistérios do Vegetal, texto lido no início de toda sessão de escala.

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aqueles que receberam a “estrela de mestre” das mãos do Mestre Gabriel. Assim, segundo o Mestre Manoel Nogueira, Mestre Geral Representante em 1996 e 1997, já falecido, “todos nós, unidos, somos o Mestre Gabriel. Agora, para se chegar a essa união, não é fácil. Até hoje, não se chegou. [...] Há ainda muita coisa pra acertar, pra esclarecer.”104 Pelo contexto, pode-se perceber que aí a palavra “nós” refere-se aos mestres do Conselho da Recordação. De qualquer modo, ainda que em controvérsias específicas esse órgão tenha autoridade suprema para definir em consenso a doutrina legítima, no quotidiano da vida dos discípulos da UDV, um critério básico é aquele referido acima, dado pelo Mestre Gabriel: “examinem!” Tal exame, para um discípulo da UDV, certamente não deve ser guiado pelas “falácias da razão”, como dizia Afrânio Andrade, mas sim pelo sentimento iluminado pela “luz da Hoasca”, isto é, o sentimento aguçado e aprofundado pela experiência da burracheira. Em 1981, foi publicada uma reportagem de capa, na revista Planeta, com o título: A
Oasca e a religião do sentir105 (ARARIPE, jun 81, p. 34-41. Grifos meus). O autor,

Flamínio de Alencar Araripe, até hoje é discípulo da UDV, do Núcleo Tucunacá, em Fortaleza, Ceará. No artigo, ele afirma que “é uma experiência inesquecível sentir a energia deste chá em ação no organismo humano” (p. 36). Descrevendo o efeito do chá, escreve que “no interior da pessoa ele age como desobstrutor da sensibilidade real do organismo” (Id.); “é como se a sensação da matéria física entrasse em outro referencial onde o espírito comanda a sensibilidade” (p. 37). Falando do “poder de transformação” do Vegetal, afirma que “verdadeiras mudanças se operam entre as pessoas que continuam comungando este chá”: “a sensibilidade aumenta e com ela o discernimento” (p. 40). Essa reportagem teve ampla repercussão entre os discípulos da UDV, de modo que até hoje freqüentemente são feitas referências à União do Vegetal como “a religião do sentir”. Indagando a Flamínio a respeito da origem dessa expressão, ele me respondeu por e-mail:
“Na sessão do dia 22 de julho, em São Paulo, conversei no Núcleo Samaúma com o autor desta expressão, o mestre Mario Piacentini, sobre o assunto da sua indagação. Falei pra ele que sempre quando comentam pra mim esta definição da UDV que deu título à reportagem da Planeta, digo que ele é o autor. O velhinho com 83 anos, continua a transmitir a mesma alegria e lucidez de quando o conheci. Se você ainda
Mestre Manoel Nogueira fala das origens da UDV. Entrevista a Cristina da Luz. Jornal Alto Falante, Brasília: nov– dez 94–jan 95, p. 9. 105 A grafia da palavra “Oasca”, sem “H” no início, foi um lapso do autor do artigo, pois bem antes de sua publicação, já se havia fixado, entre os membros da UDV, a grafia “Hoasca” com “H” inicial.
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não o conhece, é uma experiência gratificante. [...] O segundo crédito nesta história deve ser dado ao então editor da Planeta, que soube pinçar do texto a expressão que define o todo, o Ednilton Lampião, que já desencarnou.”

É relevante que essa expressão tenha sido cunhada pelo M. Mario Piacentini, um mestre de São Paulo, que inclusive foi pastor protestante antes de conhecer a UDV. Assim, fiz em minhas entrevistas a pergunta: “Alguns chamam a União do Vegetal de a religião do sentir. Você considera esta uma expressão apropriada?” Aproximadamente dois terços dos 50 entrevistados responderam afirmativamente a questão. Os demais matizaram a sua resposta, dizendo que sim, em termos. E somente três pessoas consideraram que não, vendo essa afirmação apenas como “uma frase achada, um slogan”106. Segundo Augusto, arquiteto, na faixa dos 30 anos de idade, pertencente ao Corpo Instrutivo, “os conhecimentos que a gente tem na burracheira vêm de uma forma direta. É como se o conhecimento fosse uma esfera, o sentimento e a intuição formam o volume dessa esfera. É o poder que a burracheira te dá do conhecimento direto pelo coração.”107 Também a Conselheira Luísa usou uma imagem geométrica, que citamos acima: as duas colunas, do conhecimento e do sentimento, sobre as quais repousa a trave do crer. Essas duas colunas, encimadas pela trave da fé, formam um arco, figura um tanto recorrente no imaginário da União do Vegetal. Mais adiante, voltarei a pensar no simbolismo dessa figura. Por ora, basta ter presente a idéia do arco como vínculo de união entre duas realidades, no caso, o conhecer e o sentir. Quanto àqueles que discordaram da afirmação da UDV como religião do sentir,
Cleide, profissional da área de música, na faixa dos 40 anos, afirma que no Santo Daime o

ritual é mais voltado para o sentir que na UDV: “o bailado não dá muito espaço pra gente pensar. Na União do Vegetal tem um espaço pro mental bem grande. Durante a sessão, o exercício é mental.”108 Antônio, também na faixa dos 40 anos, participante da UDV há 21 anos, do Corpo Instrutivo, diante da pergunta meneou a cabeça e disse: “Valorizo cada vez

Entrevista do Conselheiro Waldir, em São Paulo, 22 de outubro de 1998. Designer, na faixa dos 70 anos. Para ele, a UDV é “a religião da consciência”. Vide declaração semelhante da Conselheira Lídia, p. 108. 107 Entrevista de Augusto, em Campinas, 19 de outubro de 1998. 108 Entrevista de Cleide, em Campinas, 9 de novembro de 1998.

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mais o meu lado racional. Na burracheira tem esse sentir, mas tem o pensar também. Há a coisa de estudar, isso é mais do que o sentir.”109 Já Cláudia, terapeuta, na faixa dos 50 anos, afirmou:
“na minha vivência é a religião do sentir. Quase tudo é o sentir. Inclusive eu não tenho raciocínio linear, eu sinto uma coisa e sinto outra e liga outra e puff, salta outra... como se fosse uma grande mandala que se vai configurando e de repente, ploff! Tudo encaixou! E é uma coisa que se integra num sentido maior, pra eu entender algumas coisas, e aí vem aquela sensação de paz, de bem-estar. Tem o raciocínio linear e tem o rizomático, como rizomas, o meu funciona assim: vem uma coisa e tuc-tuc-tuc, de repente tuff, faz uma configuração... e eu integrei uma idéia. De repente começa a juntar uma fala do Daniel [Mestre Representante] com uma sensação que eu tive e pluff integrei em uma outra coisa. Eu funciono assim e na minha vida funciona assim, cada vez mais. Ou seja, já não me preocupo muito pela linearidade, sabe?”110

Por estas palavras, pode-se ver que para Cláudia, esse sentir não se refere apenas ao plano das emoções, mas abrange também um exercício do pensamento de um modo distinto do raciocínio lógico, um pensar rizomático, no qual se dão insights em série, que conduzem a uma integração e a uma “sensação de paz”. Tudo isto parece se assemelhar à sintética resposta da Conselheira Lídia, na faixa dos 40 anos, professora: “a União do Vegetal é a religião da descoberta da consciência a partir do sentir”111. Aqui voltamos a um aspecto já apontado por Afrânio de Andrade na citação que fiz acima, a consciência, que é mais uma categoria nativa extremamente relevante na UDV.

Consciência

No início das sessões, a palavra “consciência” é ouvida reiteradas vezes, na leitura das leis da UDV. Depois da leitura do Regimento Interno, são lidos vários documentos denominados “Boletim da Consciência”, já que “quando se fizer necessário, será publicado e divulgado pela Administração Geral o Boletim da Consciência, com instruções a serem observadas no âmbito do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal”112. Assim, é lido o
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Entrevista de Antônio, em Campinas, 7 de setembro de 1998. Entrevista de Cláudia, em Campinas, 16 de outubro de 1998. 111 Entrevista de Lídia, em Campinas, 28 de outubro de 1998. 112 Artigo 20, Capítulo V do Regimento Interno do CEBUDV. CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 95).

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Boletim da Consciência (BC), o BC em Administração, o BC Conservando a Tranqüilidade dos Filiados do Centro, o BC em Cumprimento da Lei, o BC em Defesa da Fidelidade e Harmonia dos Filiados do Centro, o BC em Firmeza, o BC em Organização, o BC Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei, o BC em Reforma, o BC Recomendando a Preservação da Moral e da Família. Deste modo, pode-se inferir que a palavra “consciência” é compreendida e utilizada em sua conotação moral, como faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados. Portanto, esta categoria liga a esfera do conhecimento à esfera da práxis, solicitando do discípulo que a sua vivência espiritual se reflita em um agir segundo os princípios éticos da UDV. No discurso dos participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras, pude perceber na grande maioria um esforço em afirmar a repercussão de sua pertença à UDV em sua vida diária, tecendo-se muitas vezes um “relato de conversão” que compara aspectos constrastantes do agir da pessoa, antes e depois de entrar para a União do Vegetal. Se no relato de alguns tais mudanças são mais explícitas, como a superação de vícios, para outros são pequenas mudanças de atitude detectadas na vida quotidiana, como por exemplo, na narrativa da Conselheira Luísa:
“As pessoas falam no meu trabalho que eu sou meio diferente das outras pessoas. Eu já perguntei, ‘por quê?’ Parece que eu presto mais atenção nas coisas que tão acontecendo e levo em consideração aspectos que as pessoas não tão enxergando. Procurei saber melhor o que era isso, várias pessoas já tinham me falado isso, mas não coonsegui ainda descobrir não. Mas acho que tem um jeito diferente de enxergar as pessoas. Por exemplo, eu sou psicóloga e numa época convivi com uma pessoa, assistente social, que trabalhava junto comigo. No próprio trabalho, ela falava muita coisa pra mim de casos que a gente tinha em conjunto. E ela era a rainha do detalhe. Então ela era uma pessoa famosa, como uma das pessoas mais chatas que as pessoas conhecem! Certo? Aí, vi que a minha relação com ela um tempo começou a ficar difícil, eu tava meio irritada. Daí, numa sessão me veio essa assistente social, me veio uma dimensão dela e parecia que ela era muito próxima, parecia até que era minha parente. Daí eu passei a conviver com ela de uma maneira diferente. Eu fiquei estudando como é que funcionava a cabeça dela, como é que ela era... Então ela deixou de me irritar. Quando ela falava e ia longe, contava dez vezes o mesmo caso. Então na décima vez que ela contava o mesmo caso eu perguntava: ‘Por que que você tá contando outra vez?’ Eu ficava de observadora da situação. E foi uma coisa que me auxiliou bastante na convivência. Eu consegui ter um apreço por ela, gostar dela, é uma coisa que me fez bem, fez bem pra ela. As pessoas geralmente não davam a mínima

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atenção pra ela, fugiam dela. Uma coisa que eu aprendi e foi assim com o Vegetal. Coisas que eu aprendo no Vegetal, que mexeram com a minha emoção, em termos de ter mais paciência, mais tolerância com o outro... Ficar de observadora e aprender do comportamento da pessoa: ‘Gente é assim!’ Então fiquei assim, meio científica. Foi jóia! Convivi quatro anos com ela... Uma construção em termos de relação, que o Vegetal me deu de presente.”113

Esse relato de Luísa parece-me paradigmático da interrelação apontada no discurso desses hoasqueiros urbanos entre a experiência com o chá Hoasca e a vida quotidiana. Não me seria possível observar prolongadamente o dia-a-dia dos participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras, para constatar o tanto que eles colocam em prática ou não os princípios éticos da União do Vegetal; e nem caberia a mim formular um juízo a esse respeito. No entanto, é significativo que o discurso da maioria seja recheado de abundantes links entre a vivência religiosa e ritual e a vida diária.
Memória

Relacionado com o conhecimento está o tema da memória. Dentro da cosmovisão reencarnacionista da União do Vegetal, a memória tem papel significativo, na medida em que o processo de conhecimento é um processo de recordação. Assim, José Gabriel da Costa é um recordado, alguém que chegou a se recordar de suas encarnações passadas e é Mestre que ensina a recordar. Assim, na UDV se fala de “grau de memória”. O Boletim da Consciência em Reforma afirma que “os discípulos que seguirem a Sessão Instrutiva só poderão ser escolhidos pelo Mestre Representante, de acordo com os graus de memória”114. O “grau de memória” é relativo à capacidade de compreensão dos ensinos espirituais. Mas não apenas isto, também é algo que se infere a partir da prática da pessoa. É como que ter a cada momento na memória a necessidade da “prática fiel do bem” - expressão criada por Mestre Gabriel e constantemente utilizada na UDV.

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Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998. Psicóloga, na faixa dos 50 anos. Boletim da Consciência em Reforma. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 71).

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Perguntado a respeito da repercussão de sua vivência religiosa em sua vida prática, Mestre Paulo disse:
“O aspecto da visão da vida, que você tenha um princípio reencarnacionista – acreditar na reencarnação é uma coisa que não é fácil. Não é nem um pouco óbvio, não é. Não é do ponto de vista da experiência individual. Eu tenho a experiência de agora, minha referência é esta. Então não acho assim instantâneo nem fácil acreditar na reencarnação. Mas é uma coisa que eu tenho hoje motivos suficientes pra ter isso como uma referência na minha vida. Isso muda a forma de ver as coisas. Eu não considero assim, não acho que chega no ponto de cair num fatalismo cármico: ‘o mundo é assim mesmo’, ‘eu tô aqui passando por coisas que são o resultado’.... O fato de que na União do Vegetal é muito interessante que a responsabilidade maior é nesta encarnação. Segundo a palavra do Mestre Gabriel, muito pouco passa de uma encarnação para outra. Isso é uma coisa que é muito diferente de uma visão de carma, de que tudo agora é uma conseqüência diretamente de todo o passado. Não é exatamente assim que é colocado na União do Vegetal. O enfoque da União do Vegetal. Existe, é claro, o que vem antes, a sua história, a memória, o passado. Mas o seu processo de recordação tem que começar por esta encarnação, pra você chegar nas outras. É um aspecto reencarnacionista mas que não coloca a responsabilidade no passado. A responsabilidade continua aqui. O foco é esta encarnação. O responsável por 99% do que te acontece é o que você tá fazendo, não é o que você já fez em vidas anteriores. É um reencarnacionismo temperado com esse enfoque na responsabilidade presente. Tanto que, embora a gente saiba que tem a possibilidade de recordação na União do Vegetal e tal, não é necessariamente como as pessoas que ficam buscando na burracheira se lembrar o que eram em vidas anteriores. Não é bem por aí que a coisa funciona. Importa muito mais o que a gente é hoje, como a gente é agora e como a gente pode ser pra frente. Não é tão importante assim saber se o que eu sou agora é fruto desta encarnação ou de outra, mas o que eu tô fazendo agora, a conseqüência eu tô vivendo essa conseqüência, eu tô colhendo essa conseqüência. Vamos dizer, o foco é esta encarnação. Isso dá uma visão que eu acho mais equilibrada, do mundo, das coisas, do que seja a justiça. A questão do enfoque é no presente. Não é explicar as coisas pelas outras encarnações. Isso chega a ser quase uma pretensão. Porque você tem que ter um nível de desenvolvimento espiritual considerável pra conseguir ter essa percepção. Uma das coisas que a gente aprende é não ser supersticioso. Teve uma época, há muitos anos aí, que tinha um pessoal em São Paulo que tava com uma moda

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de recordar. Aí acho que foi o Mestre Braga que falou: ‘eu acho que vou pro Sul, vou pra São Paulo, beber o Vegetal lá, porque o pessoal tá recordando, eu vou pra lá’ ”115.

Essa ironia atribuída ao ex-Mestre Geral Representante mostra a reação de uma pessoa com muitos anos de experiência na UDV, alguém “do Norte”, diante de novatos “do Sul” que logo se acharam em condições de “recordar suas encarnações passadas”. No entanto, ainda que se enfatize a dificuldade de acessar essa memória, tal recordação permanece para os discípulos da UDV como um ideal a ser atingido. Mas, desde já, nas sessões os discípulos são chamados a “exercitar a memória” principalmente através de uma vivência ética quotidiana.
Ordem

O Boletim da Consciência Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei diz: “Só
através da ordem e da doutrinação reta, que receberemos eternamente dentro da União do Vegetal, é que chegaremos à cientificação”116. A ordem é um valor extremamente prezado

pela UDV. A começar pelo ritual, simples mas com alguns detalhes bem frisados, que transmitem uma noção de precisão. Em meio ao “tempo de burracheira” aquele que dirige a sessão deve estar atento à seqüência das chamadas, dos assuntos, das perguntas e músicas, de modo que tudo transcorra “em sintonia”. O espaço ritual é austero: paredes nuas, com apenas a foto de Mestre Gabriel. E sobre a mesa, um arco de madeira pintado de verde com os dizeres: “Estrela Divina Universal UDV”. Em constraste com o Santo Daime, onde nos dias de trabalho de hinário há o bailado, a postura corporal de quem participa da sessão é simplesmente sentada. Para sair do salão é necessário pedir licença ao Mestre Dirigente da sessão. Do mesmo modo para fazer uma chamada ou para falar e perguntar. E ao falar, temse de prestar atenção às palavras utilizadas, para que não se pronuncie alguma inadequada. Há certas fórmulas fixas que costumam ser usadas pelas pessoas em suas falas. Ao terminar sua fala, é comum dizer: “que a sessão prossiga nesse clima de luz, paz e amor”, ou então, “que a sessão prossiga em harmonia”. Dada a força que é atribuída à palavra, o seu uso ordenado é pré-condição para a ordem e a harmonia durante a sessão.

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Entrevista do Mestre Paulo, em Campinas, 16 de outubro de 1998. Boletim da Consciência Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 69).

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A ordem também é enfatizada no ritual pelo acento dado à hierarquia dos participantes. No início o chá é servido pelo Mestre Dirigente para si mesmo e para o Representante, para os demais mestres, para os(as) conselheiros(as), para os(as) discípulos(as) do Corpo Instrutivo e, finalmente, para os demais. O uso do uniforme, com os diferentes distintivos, próprios a cada grau, marca a importância da hierarquia. As chamadas, com a sua sucessão precisa de versos que se repetem com ligeiras modificações, como que numa escala ascendente, e que devem ser memorizadas fielmente por aquele que quiser fazê-las, expressam a presença de uma ordem objetiva, exterior e maior, que ultrapassa a subjetividade dos participantes, ainda que interaja com ela. É como se a cada momento fosse transmitida a mensagem da existência de um cosmos ordenado, que precede e sustenta a experiência individual, emanado da própria Força Superior. Assim, na austeridade do espaço, na atenção às palavras, no exercício de perguntar e responder, nas chamadas, enfim, em cada aspecto do ritual, transparece uma ordem apolínea que é proposta como modelo exemplar a ser vivido pelo discípulo em sua vida diária. A relação entre a ordem no ritual e a vida prática foi abordada detidamente na entrevista de Felipe, membro do Corpo Instrutivo, há 15 anos na UDV, administrador de construções e músico:
“O próprio ritual é expressão dessa ordem. Esse ritual vai incorporando na vida pessoal. Se pelos menos duas vezes por mês ele estabelece que naquele momento ele vai se comportar de acordo com as normas daquele lugar, reconhece que aquela ordem é importante [...], então isso aí estabelece como um sinal na vida pessoal dele, então a pessoa naturalmente vai se organizando nas outras coisas. Então, o que que é um ambiente de trabalho? É um ambiente de concentração. A mesma concentração que a gente tem e procura ter em tempo de burracheira, procura ter no trabalho. Procurar ter uma disciplina, procurar se organizar, procurar ter uma relação com a coisa funcional como se tivesse dentro de uma sessão também, procurar ter cuidado com as palavras, ter cuidado com o seu passo... Eu não vejo como uma regra essa atitude das pessoas. Pra mim foi assim. Pra mim facilita. Pra mim não é muito diferente eu sentar, ficar aqui, trabalhando no computador e ficar dentro da sessão, não é muito diferente. Nesse plano da organização.” “A religião mesmo tem um sentido de organização. O ritual religioso é uma forma de organizar através de uma dramatização, através dos símbolos, o comportamento da pessoa. Então propicia a pessoa estar se organizando na vida funcional, a pessoa estar

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presente nas suas atribuições de responsabilidade, nas coisas que tem que fazer, no seu lugar como pai, seu lugar dentro de uma casa, seu lugar de trabalho, perante as pessoas, perante sua palavra, não é?” “Agora, eu vejo que tem uma coisa na União do Vegetal, quando falo União do Vegetal é a instituição, são as pessoas, a maneira como as pessoas fazem o que tem na mão. Com relação a essa questão da espiritualidade, pra mim às vezes me soa assim no plano mais do ideal do que do real. Uma espiritualidade mas que a pessoa idealiza. Uma pessoa acha, por exemplo, que fazendo uma chamada pode ficar isento de qualquer coisa negativa que possa acontecer com ele. E na realidade, se ele não tiver cuidado, o principal é o cuidado, é a atenção. Não adianta fazer chamada se ele não tem cuidado. Então religião tem isso, às vezes a pessoa acredita que exercendo determinado ritual, ou indo pra sessão, ou ficar bem comportado na sessão, por ir trabalhar quando é solicitado, obedecendo o que as pessoas pedem, porque a hierarquia tem lá suas determinações, que a pessoa vai evoluir na vida, vai conquistar as coisas positivas, as coisas que precisa, dinheiro, afetividade, confiança. Então é um perigo também que existe, né? Então eu acho que tem muita gente encalhada na União do Vegetal. Não só na União, na religiosidade em si, ela tem esse perigo, porque não estabelece um vínculo muito forte com a vida prática. [...] A ordem material é a base de todo o processo.”117

Peia

Mas nem tudo é harmonia nesse universo. As pessoas, individualmente, e por vezes o grupo reunido numa sessão são vez por outra envolvidos por uma onda de dificuldades denominada “peia”. A experiência da peia pode ser extremamente intensa: um profundo mal-estar físico após a ingestão do chá, caracterizado por náuseas, vômitos, vertigens. Certas vezes, esse mal-estar não é somente físico: a pessoa pode sentir-se interiormente oprimida pelo remorso, pelo medo ou pela culpa, ou então se encontrar assombrada diante de visões temerosas, perturbadoras. O conjunto de sensações sugere, às vezes, a quem as vivencia, que se está chegando ao limiar da morte. A propósito, o Mestre Gabriel teria dito: “Vocês sabem pra que é que a gente bebe esse chá? É pra aprender a morrer!” Por outro lado, ele tranqüilizava os seus discípulos, garantindo que “ninguém morre de burracheira”. Luiz Eduardo Soares observa, numa “breve descrição de paisagens mentais”, a partir de sua experiência ao beber a Hoasca: “A viagem é suficientemente intensa, imprevisível e
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Entrevista com Felipe, na faixa dos 40 anos, em Campinas, 27 de outubro de 1998

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incontrolável (pelo menos para os neófitos), para representar uma aposta de alto risco. Cada um daqueles homens e mulheres sabia disso. O pasto daquele rebanho é a morte, Nem mais, nem menos.” (SOARES, 1994, p. 226). Toda essa “provação” física, psíquica e espirital costuma ser interpretada pelos discípulos como “pagamento” por alguma conduta moral errônea. Assim, a peia é compreendida dentro de uma visão que afirma que o ser humano recebe na vida o que merece, segundo os atos que praticou. O “merecimento” é um dos pilares da doutrina da UDV. Essa compreensão da peia aparece bem clara na narrativa de Gustavo, do Corpo Instrutivo, na faixa dos 40 anos:
“Depois de uns 5, 6 meses [de que havia começado a beber o chá] eu comecei a tomar umas peias daquelas que eu não conseguia beber o Vegetal. Bebia e vomitava e parei. Encanei que tinha tido taquicardia numa sessão, que tava passando mal, vomitei 18 vezes... [risos]. Mas era porque já tava começando a fazer efeito coisas assim: tava tendo consciência, mas no dia a dia eu, né? Eu não conseguia manter, voltava ao dia a dia. Aí fiquei mais ou menos uns 6 meses sem beber. Até que um dia eu resolvi conversar com o Mestre Ney, aí eu coloquei algumas coisas que eu tava sentindo, sentindo na burracheira, umas revoltas e tal com a injustiça e aí ele me deu uns conselhos, falou pra eu voltar, começar a beber aos poucos e eu fui voltando.”118

Desse modo, a teodicéia da União do Vegetal aproxima-se muito do tipo ideal de solução para o problema da teodicéia presente na crença na transmigração das almas, apontado por Weber em sua Sociologia da Religião (WEBER, 1974, p. 412-417), e assim resumido por Colin Campbell:
“the Indian doctrine of karma, [...] ‘the most complete formal solution of the problem of theodicy’, since the world is regarded as a completely connected and self-contained cosmos of ethical retribution in which each individual forges his own destiny, with guilt and merit in this world unfainlingly compensated for in the succeeding incarnation” (CAMPBELL, 1997, p. 106).

Como ele observa na seqüência, os três tipos ideais de solução expostos por Weber - o escatológico messiânico, o dualista do zoroastrismo e o cármico hinduísta - não dão conta de abranger certas tradições de pensamento. E assim, Campbell apresenta mais um tipo de teodicéia, que é a teologia filosófica do otimismo do século XVIII. Suponho que a teodicéia
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Entrevista de Gustavo, em Campinas, 7 de setembro de 1998.

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da UDV tem também elementos desse outro tipo ideal, na medida em que seu reencarnacionismo distancia-se do hinduísta, o qual não é necessariamente ascendente na seqüência de encarnações, e se aproxima mais da visão kardecista, a qual traz em seu bojo a expectativa, própria do século XIX (enraizada no século anterior), de contínua superação de limites pela irresistível evolução da humanidade. Assim, o reencarnacionismo da UDV tem um caráter evolucionista e otimista. E a “peia” é encarada como um momento necessário desse processo de purificação, que conduz à salvação. Essa visão, de um aspecto
pedagógico na peia, pode ser observada nas declarações de Gustavo - ele compreendeu que

já começava a ter consciência de seus erros nas sessões mas não estava praticando as transformações necessárias em seu cotidiano. E assim a peia teve o papel de um “lembrete” educativo. Mesmo sendo extremamente desagradável, a “peia” é uma vivência de emoções muito fortes, que nos faz lembrar a observação de Campbell, de que “one could say that the Puritans, or those who inherited their mentality, had become addicted to the stimulation of powerful emotions [...]” (Id., 134). A “peia” é uma tempestade de emoções, uma experiência que se vive na mente e nas entranhas, sendo todo o ser sacudido pelo “temporal de burracheira”. Ainda que extremamente penosa, ela pode ter até mesmo um certo “encanto” para aqueles que buscam os sentimentos intensos, ou até mesmo o prazer da vertigem do perigo. A burracheira pode ser inscrita no quarto tipo de jogo definido por Roger Caillois: a vertigem ou ilinx (CAILLOIS, 1967, p. 169-172). O autor identifica esse tipo de jogo como “une tentative de détruire pour un instant la stabilité de la perception et d’infliger à la conscience lucide une sorte de panique voluptueuse.” (Id., p. 169). E Caillois cita o exemplo dos derviches giradores sufis, que buscam o êxtase rodando sobre si mesmos. Ora, essa busca do êxtase, da vertigem, da queda ou da projeção no espaço, nos faz lembrar a vertigem provocada pelo uso da Hoasca. A burracheira, a força estranha do vegetal, pode se apresentar também como jogo de vertigem. Quanto a este, Caillois detecta como suas indubitáveis características lúdicas: “liberté d’accepter ou de refuser l’épreuve, limites strictes et immuables, séparation d’avec le reste de la réalité” (Id., p.172). O efeito da Hoasca é sempre surpreendente: antes do início da sessão não se pode dizer se será assustador ou maravilhoso. Essa imprevisibilidade da burracheira dota o ritual da UDV de um caráter acentuadamente lúdico. Em oposição a outros rituais, perfeitamente previsíveis e repetíveis, cada sessão da União do Vegetal é única e cada burracheira é imprevisível.

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Por sua vez, Fernando de la Rocque Couto, em sua dissertação de Mestrado em Antropologia acerca do Santo Daime, ao estudar fenômeno semelhante à “peia” da UDV, considera que “esse processo é catártico e psicoterápico”, a exemplo da visão de LéviStrauss acerca da cura xamânica (LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 209), a qual teria na ab-reação o seu momento decisivo:
“Para pedir o perdão, o doente deve trazer à consciência lembranças emocionais e/ou traumatizantes que se encontravam reprimidas. Para que isso se observe, ele tem que sair do conflito e resolver as suas contradições internas. Em termos psicanalíticos, ele tem que ab-reagir, vivendo e revivendo intensamente a situação inicial que está na origem da sua perturbação, para poder superá-la definitivamente.” (COUTO, 1989, p. 179).

Já Luiz Eduardo Soares, vê a

“peia” como ocasião de libertação da hybris,

superação da desmedida do eu que se colocara como centro do universo. A impetuosidade do temporal desaloja esse eu dos píncaros do orgulho e o lança nas planícies da humildade, virtude muitas vezes louvada na União do Vegetal:
“O chá sagrado do Daime, o vegetal santo da UDV, assim como outros recursos religiosos, psicológicos, culturais, ritualizados mundo afora, instruem-nos, rápida e eficientemente, que a hybris é o pecado original. Como nos ensinara a tradição Judaico-cristã.” [...] “É o que deduzo de minha própria sensação: afinal, se eu podia, sem recorrer à linguagem religiosa e sem experimentar o êxtase místico, vislumbrar a finitude traída pela fetichização do ego; o que não pensariam, da hybris, os místicos, encantados pela emoção do ultrapassamento? A dedução confirma-se por depoimentos.” (SOARES, 1994, p. 229).

A “peia”, essa vivência complexa, que pode ser lida como fruto da lei do merecimento, catarse terapêutica, ensinamento e caminho para a humildade, é, com certeza, uma experiência emocional intensa que é vivida (ou padecida) numa perspectiva otimista. Proponho que nos fixemos nestes dois aspectos – intensidade de sentimentos e otimismo – e passemos a compará-los com outra vivência nuclear da União do Vegetal: as mirações.
Mirações

Se um membro da UDV sabe que está sujeito a ter de enfrentar uma “peia”, por outro lado, sabe também que é possível que “a sessão prossiga plena de luz, paz e amor”, como é dito freqüentemente pelos discípulos na conclusão de suas falas durante as sessões.

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As mirações119 de uma sessão tranqüila podem ser grandemente prazeirosas. Esse sentimento de beatitude, em harmonia com todo o universo, é freqüentemente reiterado nas declarações dos participantes acerca de suas vivências na burracheira. O Prof. Benny Shanon, da Hebrew University de Jerusalém, vem fazendo uma pesquisa, a partir de sua área de estudos, que é a psicologia cognitiva, acerca do conteúdo das visões, das mirações durante o efeito da Hoasca. No I Congresso sobre o Uso Ritual da Ayahuasca, na Unicamp, ao apresentar algumas das observações a respeito de sua pesquisa ainda em curso, apontou para a relevância do prazer como motivação entre os participantes dos grupos religiosos usuários da Hoasca. Lembrou que Reichel-Dolmatoff afirmou que nunca se bebe o chá por prazer – mas que, segundo as suas entrevistas, se há pessoas que bebem a Hoasca em busca de uma sabedoria escondida, há outras que respondem à pergunta sobre suas motivações dizendo: “É tão belo!”
Roberto, o jovem de quem citamos uma declaração acima, contou-me uma miração

marcante que teve:
“O Mestre apareceu pra mim, na casa dele, sentado de cócoras. Essa foi marcante. De repente ele falou: ‘olha, aqui é minha casa’. De repente eu vi uma casa de madeira, amarrada com corda e sapé, assim, que ficava no alto de um morro; atrás da casa dele tinha a floresta e na frente tinha uma vista que dava pra você enxergar todas as coisas: desde o mar, as pirâmides e... tudo o que tinha na terra assim, sabe? De repente, você ollhava um golfinho lá no mar, lá longe, assim, só que você conseguia enxergar o olho do golfinho. Então, de repente era uma questão assim que você enxergava tudo assim... E ele me falou pra mim assim: ‘Ah, aqui da minha casa dá pra ver todas as belezas da terra!’ E era uma casa bem legal assim, sabe? E eu falei: ‘Pô, que legal!’ E ele deu uns toques pra mim. [...] Então isso aí é uma das coisas bem marcadas na minha mente, a casa do Mestre Gabriel que dava pra ver todas as belezas da terra, ele sentado de cócoras. E depois meu pai me fala que ele realmente ficava sempre tradicionalmente sentado de cócoras e eu não sabia disso.”120

É bem significativo que, na miração de Roberto, da casa de Mestre Gabriel se pudesse ver “todas as belezas da terra”. Essa dimensão estética, da beleza que se apresenta inesperadamente, como um dom, muitas vezes me foi narrada pelas pessoas que entrevistei.

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As mirações, experiências visuais internas sob o efeito da Hoasca, podem ser de conteúdo “negativo” em momentos de “peia”. No entanto, quando me refiro a mirações aqui, tenho em vista as agradáveis, elegendo-as como um “tipo ideal” em contraste com a “peia”. 120 Entrevista de Roberto, em Campinas, 26 de outubro de 1998.

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A relevância da dimensão estética na experiência simbólica dos discípulos da UDV, na qual a visualidade tem uma significativa importância, levou-me a buscar apresentar nesta dissertação algumas obras de artistas plásticos do Núcleo Alto das Cordilheiras. A beleza pode estar relacionada a outras percepções, não somente as visuais. Além das chamadas, faz parte do ritual da UDV a audição de músicas durante as sessões. Esse costume vem do tempo do Mestre Gabriel, que autorizou os primeiros discípulos de Manaus a colocarem discos a tocar nas sessões. A razão da introdução da música, segundo o Mestre Geraldo Carvalho, um discípulo dos primeiros tempos da UDV em Manaus, que presenciou a primeira vez em que se escutou música numa sessão121, é a beleza da mirações que ela propicia. Atualmente, faz parte do ritual da UDV a audição de música instrumental no início das sessões, no estilo New Age, andina ou clássica. Na seqüência da sessão, são ouvidas canções da Música Popular Brasileira, com letra, cuidadosamente escolhidas, de acordo com o assunto abordado pelo mestre dirigente. São freqüentes as que tocam temas ligados à natureza, à amizade e outras virtudes enfatizadas pela doutrina. É interessante perceber, sobretudo, a importância do sentimento estético nessa valorização ritual de músicas que não foram compostas para uma utilização sacra. Esse papel importante da música no ritual – além das chamadas, que conduzem toda a experiência da burracheira – mostra-nos que a miração não é simplesmente uma seqüência de visões: é uma vivência sinestésica, que toca a sensibilidade dos participantes da sessão em dimensões estéticas e afetivo-sentimentais. Tal experiência totalizante, que além da visão e da audição pode mobilizar também os sentidos do tato, do olfato e do paladar, impressiona fortemente quem a vivencia, motivando uma prazeirosa intensidade
de sentimentos. Assim como o sonho para os românticos, as mirações têm para o discípulo

da União um caráter revelatório, já que um “insight into the real nature of the world can only be gained through powerful emotional and imaginative experience of an essentially aesthetic character. [...] Romantics placed such importance on dreams – whether of the day or night variety – seeing them as essentially revelatory experiences.” (CAMPBELL, 1992, p. 186). Também no que toca às mirações podemos encontrar bem presente o traço do otimismo. A burracheira – quando “plena de luz” – cria uma atmosfera de encantamento, de

DA RÓS, Márcio. A origem da música nas sessões da UDV. Jornal Alto Falante. Brasília: ago–set–out 95, p. 11.

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harmonia, de “sintonia entre os irmãos”, que propicia um enfoque otimista de todas as coisas.
Evolução Espiritual

De acordo com o artigo 1o do Regimento Interno, lido em todas as sessões de escala, o CEBUDV “tem por objetivos: a) trabalhar pela evolução do ser humano no sentido de seu desenvolvimento espiritual; b) reunir-se socialmente em seu Templo espírita e extraordinariamente a critério do Mestre.”122 Essas palavras iniciais como que fundamentam a existência da UDV sobre uma visão de evolução espiritual. E constantemente, em palavras dos sócios durante as sessões há alguma referência à evolução, no sentido de que “nós estamos aqui - na Terra e nesta religião - para evoluir espiritualmente”.
Denise, do Corpo Instrutivo, analista de sistemas, na faixa dos 20 anos, perguntada

se há alguma repercussão da sua vivência religiosa na UDV em sua vida prática, responde:
“Com certeza tem. No geral, eu sinto que ela traz mais direção, traz mais equilíbrio, principalmente, só o fato de você ter um objetivo, que é a evolução espiritual, isso já modifica totalmente a sua vida. Porque uma coisa é você viver com objetivo e outra coisa é viver sem orientação, né? Então quando você vive com objetivo, você consegue trilhar mais a sua vida, consegue organizar mais a sua vida, isso faz com que as coisas aconteçam de uma maneira mais ordenada. Principalmente o fato de ter um objetivo na vida, já muda a sua vida totalmente.”123

Esse enfoque teleológico está presente no discurso de muitos discípulos da UDV. Compartilha da mesma província semântica a ênfase da doutrina em temas como a retidão, a firmeza no pensamento, a simplicidade. É como se predominasse uma imagem da vida como linha reta, no fim da qual há uma meta bem definida, a qual importa conhecer e ter diante dos olhos, para alcançá-la mais rapidamente. Nesse aspecto, há toda uma tendência à busca da eficácia, que encaixa bem com a modernidade. E certamente, é um elemento valorizado por muitos dos participantes urbanos da União do Vegetal.
Regimento Interno do CEBUDV, artigo 1o. CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 92. 123 Entrevista de Denise, em Campinas, 7 de setembro de 1998.
122

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O Arco: portal para o Alto

Neste momento, tratarei de um elemento que não aparece muito enquanto “termo nativo”, palavra pronunciada pelos discípulos, mas sim enquanto imagem, esta sim um tanto recorrente na União do Vegetal: o Arco, o qual citei ao falar da ordem no ritual. Ele está presente, de modo bem visível, no espaço ritual, no Salão do Vegetal, onde marca o lugar sagrado por excelência, na cabeceira da mesa, onde fica o filtro de vidro que contém a Hoasca, e onde se posta o Mestre Dirigente da sessão, que durante a sessão “está no lugar” do Mestre Gabriel. Por ser verde, pintado com os dizeres: “Estrela Divina Universal UDV” e com duas estrelas maiores e várias pequenas estrelas amarelas, o arco realmente chama muito a atenção. E na parede atrás dele, há mais um elemento de suma importância no espaço ritual: a foto de Mestre Gabriel124... sob um arco. Também a Conselheira Luísa usou a imagem da mesma figura, como já citei acima: as duas colunas, do conhecimento e do sentimento, sobre as quais repousa a trave do crer, formando um arco125. Observando-se as pinturas de Ernesto Boccara e Spencer Pupo Nogueira, é freqüente deparar-se com algum arco. O cartão comemorativo dos sete anos do Núcleo Alto das Cordilheiras apresenta a foto de um arco126, da Casa de Preparo em construção, tendo ao fundo um céu colorido pela aurora. O arco é um símbolo de ligação entre o céu e a terra, como o arco-íris na narrativa do Gênesis127. O próprio mariri, o cipó, pode ser visto como uma corda a ligar terra e céu. Observa-se que na sessão da União do Vegetal há uma acentuada valorização da “ligação”: existe o momento de “ligação da burracheira”, quando o Mestre Dirigente vai perguntando a cada participante se este tem burracheira e luz, há também uma presença acentuada do substantivo “ligação” e do verbo “ligar” no discurso dos participantes durante as sessões: p. ex., fala-se da importância de se “estar ligado na Força Superior”. Aqui me aproximo da visão de Ramírez de Jara e Pinzón Castaño que vêem o xamanismo e especificamente o que utiliza os preparados de Banisteriopsis, como um sistema aberto que medeia categorias indígenas e categorias coloniais, sistema que
124 125 126 127

Vide a reprodução da foto, na p. 49 V. Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998. Vide a reprodução do cartão, na p. 32 V. Gênesis, capítulo 9, versículos 8-17.

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incorpora as noções católicas, assim como conhecimentos farmacêuticos ocidentais às concepções religiosas indígenas e às suas técnicas terapêuticas. O próprio xamã é visto como um “mediador entre o mundo sobrenatural e o mundo real” (RAMÍREZ DE JARA, PINZÓN CASTAÑO, 1992. p. 287-303). E realmente, vivência com a Hoasca tem um aspecto pronunciado de mediação. Esta pode ser melhor compreendida se observarmos o arco não apenas como “elo de ligação”, mas também como “portal”. O arco pode ser interpretado como imagem de um portal, através do qual o discípulo é convidado a passar. Van Gennep já observara a
“identidade da passagem através das diversas situações sociais com a passagem material [...]. É por isso que com tanta freqüência passar de uma idade, de uma classe, etc. a outra exprime-se ritualmente pela passagem por baixo de um pórtico ou pela ‘abertura de portas’ ”. (GENNEP, 1978, p. 159).

O próprio Mestre Gabriel é chamado de “porta, que aberta nos transporta”. Temos aqui a noção de limiar, ao qual o discípulo se aproxima e, por vezes, chega a ultrapassar. Nos relatos de mirações, são freqüentes as referências a portais, arcos, soleiras. Isso me leva a inferir que a burracheira é uma experiência acentuadamente liminar. Atinge-se um estado alterado de consciência no qual a pessoa muitas vezes se sente presente em “outro lugar”, ou na soleira de outro lugar. Isso possibilita um contato com o “aqui” e o “além”, o quotidiano e o estranho, o normal e o alterado. O próprio ritual enfatiza claramente as fronteiras do “tempo de burracheira”, a entrada e a saída em um tempo sagrado, qualitativamente distinto do dia a dia. Refletindo acerca da liminaridade nos ritos de passagem, Victor Turner observa que esta
“implica que o alto não poderia ser alto sem que o baixo existisse, e quem está no alto deve experimentar o que significa estar em baixo. [...] para os indivíduos ou para os grupos, a vida social é um tipo de processo dialético que abrange a experiência sucessiva do alto e do baixo, de communitas e estrutura, homogeneidade e diferenciação, igualdade e desigualdade. A passagem de uma situação mais baixa para outra mais alta é feita através de um limbo de ausências de ‘status’. Em tal processo, os opostos por assim dizer constituem-se uns aos outros e são mutuamente indispensáveis”. (TURNER, 1974, p. 119-120).

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A burracheira é muitas vezes sentida como esse ‘limbo de ausências’ que possibilita a quem a vivencia um contato com o alto e com o baixo, com uma vivência de irmandade e com uma estrutura hierarquizada, com a miração e com a peia. Luiz Eduardo Soares, ao narrar uma peia com o chá, aponta nessa direção, de uma articulação paradoxal do alto e do baixo:
“O coração parecia encher-se de alegria e os olhos de um brilho impróprio, numa exaltação à fraternidade descoberta sob andrajos, entre espasmos e prefigurações da morte. [...] E há beleza nesse quadro, meu amigo.” (SOARES, 1994, p. 230).

Para os discípulos, são mutuamente indispensáveis a miração e a peia. A humildade propiciada pela última é fundamental para que o ultrapassamento oferecido pela primeira não leve à hybris mas sim à “prática fiel”. E a burracheira é o “arco de ligação” desses opostos. Portanto, as experiências de estado alterado de consciência com o chá Hoasca são ocasiões de se lidar com fronteiras, e o chá desempenha aí um papel de mediador. Seja a mediação entre diferentes planos da realidade, seja a mediação entre universos culturais distintos. Precisamente este aspecto me faz levantar a proposta de ver a experiência religiosa da União do Vegetal como uma possibilidade de os participantes urbanos articularem dimensões de suas vidas e dimensões da visão de mundo da UDV que anteriormente eram experienciadas como cindidas, ou incomunicáveis. Os dilemas do indivíduo urbano moderno, assim como as oposições com as quais o ser humano se defronta: corpo-espírito, ditames do céu - ditames da terra, indivíduo-comunidade, autoconhecimento - conhecimento de Deus, são de certo modo “ligados”, postos em relação na aguda e densa experiência da burracheira. Assim, o discípulo da União do Vegetal encontra, em seu caminho de busca da evolução espiritual, a necessidade de transpor os arcos que se apresentam na vida e na burracheira. Ao ter coragem de cruzar o terreno desconhecido da liminaridade, ele dá passos na articulação do que anteriormente estava cindido em sua vida, direcionando-se para a União. Ultrapassando os portais, ele tem esperança de alcançar o Alto das Cordilheiras.

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3.3. O ENGLOBAMENTO NA FORÇA DA BURRACHEIRA
“Agora, eu, eu sei como tudo é: as coisas que acontecem, é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar [...] e com efeito tudo é grátis quando sucede” João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

A reflexão sobre os eixos do discurso dos discípulos da União do Vegetal acerca de sua vivência simbólica levou-me a considerar a burracheira uma vivência acentuadamente liminar, onde pode se dar uma experiência de mediação, através da qual o sujeito articula elementos de sua vida e da visão de mundo da UDV que anteriormente eram experienciados como cindidos. Abordando as concepções e representações dos sujeitos concretos do Núcleo Alto das Cordilheiras em Campinas, foi possível perceber como certos aspectos da vida desses participantes entram em interação com tais idéias religiosas e são com elas articulados. Agora, inquiro a respeito da natureza dessa articulação. Poderia ela ser considerada um sincretismo? Ou este conceito não dá conta dessa realidade? A presença na doutrina da União do Vegetal de traços que nitidamente estão presentes em outras tradições religiosas sugere a idéia de sincretismo. Como já indiquei, estão presentes na UDV elementos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, do xamanismo amazônico e das religiões afro-brasileiras. Sabemos que o conceito de sincretismo é problemático, e pode ser compreendido de diversas maneiras, algumas delas trazendo em seu bojo uma certa carga valorativa, expressando uma depreciação do sincrético em relação ao “puro”, ou, inversamente, exaltando o “sincretismo brasileiro” como sinal de convivência pacífica multicultural. No que toca à experiência dos discípulos da UDV, faz-se necessário um discernimento, dentre a diversidade de vivências. Algumas certamente podem ser bem compreendidas sob o prisma da noção de sincretismo. Pode-se perceber no discurso de alguns participantes experiências de sobreposição de elementos heteróclitos que muito se aproximam das trajetórias contemporâneas daqueles que se reconhecem no Movimento Nova Era, no qual, segundo Leila Amaral Luz, se entrecruzam

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“os herdeiros da contracultura com suas propostas de comunidades alternativas; o discurso do auto-desenvolvimento na base das propostas terapêuticas atraídas por experiências místicas e filosofias holistas; os curiosos do oculto, informados pelos movimentos esotéricos do século XIX; o discurso ecológico de sacralização da natureza e do encontro cósmico do sujeito com sua essência e a reinterpretação yuppie dessa espiritualidade centrada na perfeição interior”. (LUZ, 1996, p. 57).

No entanto, em uma série de outras narrativas de discípulos da UDV pude identificar experiências acerca das quais a categoria de sincretismo é insuficiente para sua adequada compreensão. Exporei a seguir um relato que por sua densidade, me parece paradigmático. É o relato de Renato, na faixa dos 40 anos, do Quadro de Sócios, mas que já pertenceu ao Quadro de Mestres, acerca de uma burracheira que vivenciou em um momento crítico de sua vida.
“Saber reverenciar a presença de Deus, ter a gratidão por estar vivo, faz com que eu me sinta feliz. Eu já passei por coisas muito difíceis em minha vida e senti essa presença do Divino em momentos cruciais. Pra algumas pessoas não dá nem pra explicar. Eu tive uma vez uma situação, quando a mãe de meus filhos tava grávida do primeiro filho, que nós perdemos, ela teve uma situação de eclampsia no início do 6o mês. E foi um rebu, por que eu era do Corpo do Conselho e ela do Corpo Instrutivo, e a gente era um casal meio modelo, todo mundo achava uma gracinha, tudo bonitinho, tudo nos lugares, organizadinho, obedientezinho, aquela coisa assim bem padrão. E tava tudo muito bem, todo mundo muito feliz com o nosso casamento, a nossa gestação. E aí, de repente, logo depois de 22 de julho ela começou a passar muito mal, uma coisa muito difícil e ela não desencarnou por causa do vegetal, com certeza.” “Foi uma situação muito difícil, foi marcado que ela tinha que fazer uma cesárea, tinha que fazer um aborto porque o único jeito de salvar a mãe é tirar a criança e a placenta. E eu bebi o vegetal, tava na sala de espera da maternidade 9 de Julho aqui em São Paulo, devia ter umas 40 pessoas da União do Vegetal lá comigo, e eu bebi o vegetal, e fiquei sentado, com uma burracheira muito forte e ela lá dentro fazendo o aborto, e a chance da criança nascer viva era mínima, era um bebê no início do sexto mês, não tinha a menor condição. Mas o Mestre Alberto [que é médico] deu pra ela uma tampa de vegetal [uma quantidade mínima, correspondente ao que caberia em uma tampa de garrafa], antes da cesárea, dentro da UTI, ela bebeu, tinha uma irmã nossa que era enfermeira-chefe na maternidade, e eles ficaram com ela durante a

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cesárea, ele de um lado e ela do outro, e o médico, maravilhoso, era um espírita, uma pessoa muito bonita, ele fez a cesárea. A criança nasceu viva, por incrível que possa parecer viveu 13 horas, e a Vera além de não ter morrido não ficou com seqüela nenhuma, ela não teve convulsão, não teve lesão renal, neurológica ou hepática.” “E durante a cesárea eu tava assim numa situação muito forte e teve um momento que... Na casa de minha avó ela tinha um quadro na sala com o Sagrado Coração de Jesus, um quadro grande. E na burracheira se apresentou aquela imagem daquele quadro e eu vi nitidamente o quadro, o rosto dele, as duas mãos saindo dele, uma dá uma recebe, e ele tem no centro do peito uma luz, que clareia assim por fora, e na frente dessa luz tem um coração, esse coração com uma coroa de espinhos passada em volta e umas gotinhas de sangue pingando, em cima do coração tem uma coroa com uma chama, uma coroazinha assim com uma chama, e em cima da chama tem uma cruz. E aquela imagem veio na minha frente na miração, claríssima, como se eu tivesse em frente ao quadro e eu tive a compreensão de que o Criador é o mesmo Salvador. O Criador cria a dor, pra quê? Pra gente se abrir pra ele e aí ele traz o amor e a luz e salva a dor. Foi uma coisa assim... sabe? É uma dádiva assim, um conhecimento que ele trouxe pra mim, que é uma coisa assim inestimável, entendeu? Uma coisa maravilhosa, por que eu via aquela imagem e entendia, tipo assim: “esse sofrimento que você tá passando tá te abrindo caminho e eu tô entrando em você”; então é um bálsamo aquela luz na burracheira, eu tava em carne viva, mas eu tava em paz, tava tudo bem, eu não tava revoltado, tava tudo certo. E quando a situação se apresentou, o que que eu ia fazer? Dar um soco no ar, no nariz de Deus, dizer que eu não queria aquilo? Eu não tinha alternativa. Eu baixei minha cabeça e falei “sim, Senhor, seja feita a sua vontade”, que que eu podia falar? Então, por essa aceitação ele me deu conhecimento na carne, na pele, no sangue, na víscera, entendeu? Você não tem idéia o que é perder um filho, você não tem idéia. Eu tenho dois filhos maravilhosos [...], mas aquela filha que eu perdi é insubstituível, é um pedaço de mim que não tem, entendeu? Eu vi, era minha filha, cara! Sabe, eu vi a perfeição de Deus ali, a maravilha que é a vida, eu dentro da UTI, vendo o bebê ser cuidado, como se fosse o bebê mais importante do universo, com todas as chances, e não tinha nenhuma e a minha mulher na UTI de adulto, que é o pólo oposto é a escória. Quer dizer, eu tive a oportunidade de transitar num palco de dor, de miséria da condição humana, em duas vertentes, ao mesmo tempo, absolutamente em paz com o que estava acontecendo, confortando as pessoas, perfeitamente equilibrado. Eu fiquei dez dias, eu me sentia como se eu fosse um robô teleguiado pela Força Superior: eu não dei um pio, eu segurei barra de família, de

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amigo, de mestre, me segurei, segurei a situação dela, eu vivi uma coisa assim... Isso pra mim é religião, você entendeu? Religião não é ir lá beber o vegetal, ir lá na missa, de vez em quando, no culto. Acho que viver a presença de Deus é na vida, o tempo todo. Eu tive essa graça já diversas vezes, em momentos de dor como esse e em momentos de alegria também.”

Esta narrativa forte, que mostra a intensidade de determinadas vivências com o chá Hoasca e o entrelaçamento dessas vivências com aspectos mais amplos da vida de seu ator, é aqui exposta para a compreensão do que chamarei de englobamento na força da
burracheira. Observo que a antropologia contemporânea tem utilizado o conceito de englobamento em contextos vários e distintos128, mas aqui utilizarei este termo visando uma

aplicação bem específica, por isso, o determinei: na força da burracheira. O símbolo do Sagrado Coração de Jesus não pertence ao conjunto simbólico da doutrina da UDV. É um símbolo do catolicismo, com uma delimitação histórica bem clara e uma presença na iconografia católica brasileira que se deve sobretudo à atuação do Apostolado da Oração, movimento introduzido e difundido no país desde o século passado pelos jesuítas. Pois bem, a avó de Renato, senhora mineira, fervorosamente católica, tinha em sua casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus, o qual era observado por Renato desde a sua infância. Antes de conhecer a UDV, ele já havia se distanciado do catolicismo e participado do espiritismo kardecista e do candomblé. Certamente, o Sagrado Coração era apenas uma longínqua lembrança de seus tempos de criança e da fé de sua avó, sem um significado especial em seu horizonte religioso de homem adulto. No entanto, certo dia,
Renato vive uma intensa experiência existencial, enquanto homem, esposo e pai. E tal

vivência humana, por si só extremamente significativa, é revestida de um sentido, uma densidade e um colorido especiais por acontecer durante um tempo de burracheira. Tendo bebido o vegetal no momento em que aguarda na sala de espera do hospital o resultado da cirurgia a que é submetida sua esposa, Renato se defronta com a imagem do Sagrado Coração que emerge de sua memória em uma nítida e reveladora miração. Como vimos, a categoria da memória é sobremaneira valorizada na UDV, percebendo-se o vegetal como veículo para a recordação. Assim, nesse momento o símbolo do Sagrado Coração é
englobado no conjunto de sua cosmovisão religiosa hoasqueira.
128

Cf., p. ex., o conceito de encompassment em Marilyn Strathern (STRATHERN, 1988, P. 259-260), e o conceito de englobamento do contrário em Louis Dumont. (DUMONT, 1997, p. 369-375).

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O englobamento vivenciado por Renato é bem distinto de uma bricolage de um hipotético sujeito que, em seu individualismo moderno, escolhe a seu bel prazer entre as mercadorias expostas nas prateleiras dos supermercados religiosos, construindo a sua própria do-it-yourself-religion. Não. Para Renato, esse novo elemento que é incorporado ao seu universo de convicções, iluminando-o e expandindo o seu raio de significados, apresenta-se como “uma dádiva”, “uma coisa inestimável”, “uma coisa maravilhosa”, “um bálsamo”, “luz”, “presença de Deus”, enfim, “graça”. Portanto, o elemento de especificidade nesse englobamento, que identifico como próprio da experiência dos discípulos da UDV, é que ele se dá na força da burracheira. Esta se mostra como um tufão que, na força de seu movimento centrípeto, aproxima-se de uma província simbólica distinta e a engloba em seu redemoinho. Tal imagem que utilizo busca expressar a força do dinamismo autógeno dessa incorporação e, neste caso, até mesmo a velocidade com que ela se dá, em meio à intensidade do estado alterado de consciência suscitado pela ingestão do chá hoasca. E a ênfase que o relato atribui à luz, presente na imagem do Sagrado Coração e na burracheira, indica que esse englobamento tem como princípio unificador a própria cosmovisão da UDV, na qual a luz desempenha um papel fundamental. Entretanto, a própria singularidade do evento sucedido na vida de Renato poderia ser aduzida como argumento para a afirmação de sua inutilidade para uma compreensão maior da experiência dos discípulos da UDV. Não seria a experiência de Renato de uma intensidade existencial sobremaneira acentuada, o que a distinguiria das vivências da maioria dos discípulos da UDV, que se aproximariam mais da bricolage tão presente no panorama pós-moderno da religiosidade contemporânea? Certamente, o que Renato vivenciou tem uma densidade especial e, como afirmei acima, podem-se observar entre os participantes da União do Vegetal experiências bem mais superficiais, do ponto de vista existencial. Porém, o que postulo aqui é que a miração do Sagrado Coração de Jesus é emblemática de algo que se dá de modo bem mais amplo do que apenas na vida de Renato. Isto porque a intensidade é uma das características recorrentes da burracheira. Determinadas experiências extremamente fortes e de relevante significado para toda a trajetória do sujeito que as vivenciou foram freqüentemente observadas e fartamente documentadas em meu trabalho de campo, ao longo das cinqüenta entrevistas que realizei. Assim, considero que este englobamento na força da burracheira pode ser um conceito

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produtivo para a compreensão da démarche de apropriações de conteúdos religiosos empreendida pelos discípulos da UDV. Um outro passo que se pode dar é perceber esse englobamento na força da
burracheira na própria trajetória do fundador da União do Vegetal, José Gabriel da Costa.

Conforme podemos observar na sua história de vida, delineada acima a partir dos relatos de familiares, mestres da origem e discípulos da UDV, Mestre Gabriel participou de diversas configurações culturais brasileiras bem específicas: a começar por sua infância no interior da Bahia, num contexto permeado pelo catolicismo popular. Em seguida, participa em Salvador do ambiente próprio da capoeiragem, além de freqüentar terreiros de candomblé e sessões espíritas kardecistas. Indo para o Norte do Brasil, integra as levas humanas do “Exército da Borracha”. Em Porto Velho, participa como ogã de um terreiro de tradição mina e no seringal atua em cultos de pajelança cabocla amazônica. Quando, finalmente, em 1959, bebe pela primeira vez o chá hoasca, José Gabriel parece ter tido logo uma experiência muito intensa. Assim, segundo seu filho Jair, naquela primeira sessão ele se dirige ao vegetalista que lhe deu o vegetal e lhe diz: “Chico Lourenço, a pessoa não é conhecedora de tudo. Você me falou que foi no fim dos encantos. As coisas são infinitas”129. Antes da segunda sessão, ele teria dito que “a gente vai beber o chá do Chico Lourenço e ninguém vai sentir nada”, e assim teria acontecido. Na terceira vez, seu filho Jair, então com 9 anos de idade, segundo o relato dele mesmo, teve uma burracheira muito forte, começou a gritar e foi chamado por seu pai, que lhe disse: “Sente”. E Jair disse ao pai: “O papai é um mestre, e é um rei, né, feito por Deus”. Ainda segundo o hoje Mestre Jair, depois dessa sessão é José Gabriel que leva para sua casa mariri e chacrona e tem esse diálogo com sua esposa: “Pequenina, eu sou Mestre”. E ela responde: “Mas Gabriel, pelo amor de Deus, o Chico Lourenço é mestre há não sei quanto tempo, nós quase ficamos todo mundo doido e tu diz que é mestre?” E ele: “Sou Mestre, Pequenina, e vou preparar o mariri.” A intensidade da experiência de José Gabriel, que logo se reconhece como portador de uma missão como “Mestre” no Vegetal, e a rapidez com que essa vivência assimila a sua trajetória religiosa anterior, submetendo-a a uma nova interpretação - quando ele passa a atribuir a si mesmo o que antes era ação do “caboclo Sultão das Matas” - são dois aspectos que corroboram a interpretação desse processo como englobamento na força da
burracheira.
129

Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Jornal Alto Falante, Brasília, ago-out 1995, p. 8.

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No universo simbólico da UDV podem-se detectar muitos traços das configurações culturais com as quais José Gabriel havia entrado em contato. Assim, por exemplo, segundo o relato de uma conselheira que fez uma pesquisa no sertão baiano, há benditos populares a Santana extremamente semelhantes à Chamada de Senhora Santana, da UDV. As freqüentes invocações de Jesus e da Virgem da Conceição, em inúmeras chamadas, também expressam essa marca profunda do catolicismo popular no universo simbólico de Mestre Gabriel. Do mesmo modo, concepções indígenas, que permearam o xamanismo caboclo amazônico, podem ser identificadas na cosmovisão da União do Vegetal, como a crença de que certas plantas possuem um espírito130. Também elementos relacionados às religiosidades afro-brasileiras podem ser encontrados em chamadas e histórias da UDV. Deste modo, pode-se perceber o englobamento na força da burracheira como algo constitutivo da UDV, na medida em que caracteriza a experiência fundante de José Gabriel da Costa. Tal experiência pode ser replicada, de modo sempre novo e original, pelos discípulos, que a partir de suas trajetórias singulares individuais e da especificidade de seu contato com a burracheira, vivem um movimento semelhante, constituindo diferentes configurações, as quais no entanto encontram um eixo interpretativo articulador na vivência de Mestre Gabriel. Por fim, cumpre mostrar que, na verdade, ainda que tenha a sua singularidade, o
englobamento na força da burracheira tem uma similaridade com o movimento que se

pode observar na experiência mística. O que uma perspectiva mais objetivante poderia ver como compreensões religiosas distintas e até mesmo conflitantes pode subitamente passar a ser contemplado como uma nova unidade, que não dilui as diferenças, mas as integra em algo novo. Algo talvez semelhante ao que Otávio Velho indicou presente na iluminação zen e na relação dialógica buberiana, ou na superação da oposição entre Apolo e Dionísio “em favor de um novo Dionísio, que engloba Apolo” (VELHO, 1995, p. 59). Esse movimento pode ser compreendido, no eixo da tradição hermenêutica, como as idas e vindas da pré-compreensão e da compreensão, constituindo o círculo da interpretação. Essa “decifragem da vida no espelho do texto”, que Ricoeur entende como “leitura do sentido oculto no texto do sentido aparente” (RICOEUR, 1978, p. 23) pode realmente ser
130

Cf. as palavras do xamã peruano Pablo Amaringo, que utilizava a ayahuasca: “Every tree, every plant, has a spirit. People may say that a plant has no mind. I tell them that a plant is alive and conscious. A plant may not talk, but there is a spirit in it that is conscious, that sees everything, which is the soul of the plant, its essence, what makes it alive.” (LUNA, AMARINGO, 1991, p. 33).

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emblematizada pela releitura que Renato faz do quadro do Sagrado Coração de Jesus, na força da burracheira.

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CONCLUSÃO: O ITINERÁRIO DA DISSERTAÇÃO
O objetivo desta dissertação, de apresentar a estrutura matricial da União do

Vegetal, através da etnografia do Núcleo Alto das Cordilheiras, concretiza-se segundo um esquema triádico: o modelo organizacional da UDV, a narrativa histórica de sua constituição e a experiência simbólica de seus participantes. O capítulo Geometria da Estrela utiliza uma perspectiva sincrônica para mapear a organização institucional do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Inicio abordando o nível local, delineando as linhas básicas de um núcleo da UDV, a sua organização e hierarquia dos seus sócios. Em seguida, passo a um nível mais amplo, descrevendo a estrutura administrativa da Sede Geral e de seus departamentos. Na medida em que o reconhecimento jurídico da legitimidade do uso ritual da Hoasca é considerado de suma importância pelo CEBUDV, descrevi brevemente o processo de legalização do uso do chá no Brasil, indicando também os seus efeitos na fisiologia humana e a possibilidade de encará-lo como recurso genético da biodiversidade amazônica. Na seqüência, apresentei os dados do recenseamento do CEBUDV, que possibilitam que se avalie a dimensão dessa instituição religiosa e a sua distribuição no território brasileiro. O passo seguinte foi apresentar o Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, expondo o trabalho de campo que realizei, a organização do espaço do núcleo, a estrutura de uma sessão de escala e a dinâmica da interação dos discípulos. O perfil destes é descrito segundo uma metodologia quantitativa, buscando oferecer ao leitor alguma informação acerca da inserção sócioeconômico-cultural dos membros do núcleo. O capítulo A Estrela do Norte, por sua vez, tem uma perspectiva diacrônica. Segundo um enfoque êmico, a partir das narrativas dos participantes, apresento uma narrativa histórica da União do Vegetal. Primeiramente, traçando a trajetória de seu fundador, José Gabriel da Costa, e apontando para a sua participação numa ampla seqüência de configurações culturais da sociedade brasileira. Em seguida, com as recordações dos “mestres da origem”, busquei reconstruir os inícios da UDV na cidade de Porto Velho. Por último, apresento esquematicamente, com o auxílio de narrativas de discípulos paulistas, a chegada da UDV em São Paulo, a formação do Núcleo Samaúma e a

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constituição do ramo de Campinas, dele proveniente: o Núcleo Lupunamanta e, posteriormente, o Núcleo Alto das Cordilheiras. No capítulo A Estrela iluminando, adoto, por assim dizer, uma perspectiva de
profundidade. O acesso à experiência simbólica dos discípulos urbanos da União do

Vegetal é propiciado pela exposição de algumas histórias de vida de membros do Alto das Cordilheiras. As citações extensas do discurso deles visam possibilitar ao leitor uma percepção de como se apresenta para eles a experiência com o chá Hoasca e quais as suas repercussões nas vidas desses indivíduos. Na seqüência, centro o foco em algumas categorias fundamentais do discurso dos discípulos, com o objetivo de captar a lógica da experiência simbólica vivida por eles, que se apresenta como possibilidade de mediação entre dimensões anteriormente cindidas. Este tópico, Alcançar o Alto das Cordilheiras constitui propriamente o coração do argumento desta dissertação, enquanto que o seguinte o aprofunda, propondo um novo instrumento interpretativo para a compreensão da
originalidade da experiência com o Vegetal: o conceito de englobamento na força da burracheira.

Estes três aspectos matriciais - a ordem institucional da UDV (Geometria da
Estrela), a representação de sua origem e disseminação histórica no mapa do Brasil (A Estrela do Norte) e a experiência de englobamento propiciada pela Hoasca (A Estrela iluminando) - constituem a condição de possibilidade sobre a qual são inscritos processos

simbólicos, mitopoéticos e hiperreais mais complexos. O propósito deste trabalho não é, porém, este campo complexo. O propósito é uma “abertura do campo”, a compreensão das formações seminais que denomino a matriz da União do Vegetal.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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JORNAIS
1. Alto Falante, Jornal do Departamento de Memória e Documentação da UDV. Brasília
a) Jun 89 - p. 3-6 - Mestre Monteiro, 23 anos dedicados à causa da União b) Nov / Dez 90 - p. 4-6 - Mestre Adamir, um pioneiro do Vegetal c) Jul 91 - p. 2-3 - UDV festeja seus 30 anos d) Idem - p. 4-7 - A caminhada de um poeta na UDV - José Luiz de Oliveira e) Idem - p. 8-11 - Entrevista M. Braga f) Idem - p. 15 - Aspectos farmacológicos do Chá. g) Mar / Jul 92 - CONFEN libera chá por unanimidade. b) Dez 92 / Jan 93 - No relato dos pioneiros, o perfil do Mestre. c) Jan / Jul 93 - p. 10-13 - Entrevista com M. Nonato. d) Ago 93 / Fev 94 - p. 8-10 - Entrevista com M. Cícero. e) Mar / Abr 94 - p. 6-9 - Entrevista com M. Sidon. f) Mai / Jun / Jul 94 - p. 8-11 - Entrevista com M. Pernambuco. g) Ago / Set / Out 94 - p. 6-9 - Entrevista com M. Roberto Souto. h) Nov / Dez 94 / Jan 95 - p. 6-9 - Entrevista com M. Manoel Nogueira. i) Abr / Jun 95 - p. 8-11 - Entrevista com Cons. Paixão. j) Ago / Set / Out 95 - p. 6-9 - Entrevista com M. Pequenina e M. Jair. l) Nov / Dez 95 / Jan 96 - p. 4-5 - Entrevista com M. Monteiro. m) Fev / Set 96 - p. 8-11 - Entrevista com M. Florêncio.

2.

O Alto Madeira. Porto Velho. (Consultado nos arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV, Brasília.).

a) 6 de outubro de 1967. Artigo: Convicção do Mestre. b) Julho de 1971. Artigo: Velando enquanto dorme.

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ANEXO 1
DISSIDÊNCIAS DA UNIÃO DO VEGETAL
1. Centro Espírita Beneficente Ordem Maçônica Rosaluz Dirigente: Augusto “Queixada” Sede: Porto Velho, RO Fundado na década de 70 2. Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal Dirigente: Joaquim José de Andrade Neto Sede: Campinas, SP. Presente: Mato Grosso (fazenda com plantio de mariri) Fundado em 22 de julho de 1981 3. Centro Espírita Beneficente Ordem do Templo Universal de Salomão Dirigente: Altenísio José de Albuquerque Sede: Porto Velho, RO Presente em: Porto Velho, Manaus, Rio Branco, Tarauacá, São Luís, Fortaleza, Aracaju, Recife, João Pessoa, Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Aproximadamente 500 participantes. Fundado em 25 de julho de 1991 4. Associação Espírita Luz do Vegetal Dirigente: Elzinha Piacentini Sede: Araçariguama SP, 40 km de São Paulo, SP Fundada 24 de dezembro de 1992 5. Dirigente: Raimundo Ferreira (dissidência do Augusto) Presente em: Uberlândia, MG e Jundiaí, SP 6. Dirigente: Asplinger Presente em: Manaus, AM 7. Associação Beneficente Luz de Salomão Dirigente: Wilson Gonzaga Presente em: São Paulo, SP

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ANEXO 2
QUESTIONÁRIO
1. Dados Pessoais Nome: Idade: anos Data de nascimento: / Cidade: Cidade: / Local de nascimento: Local atual de moradia: Estado Civil: ( ( ( ( ( ( ) solteiro/a ) casado/a ) viúvo/a ) divorciado/a ) desquitado/a ) separado/a Estado: Estado:

Escolaridade: ( ) primário ( ) secundário ( ) superior incompleto - Área: ( ) superior completo - Área: ( ) mestrado - Área: ( ) doutorado - Área: Profissão: 1. 2. Filiado a algum partido político? ( ) Sim Qual? ( ) Simpatizante Qual? ( ) Não 2. Dados Sócio-Econômicos: Qual é a faixa de sua renda familiar mensal? ( ) 0 a 5 salários mínimos ( ) 5 a 10 salários mínimos ( ) 10 a 20 salários mínimos ( ) 20 a 30 salários mínimos ( ) mais de 30 salários mínimos

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Em qual classe social você se considera incluído(a)? ( ) trabalhadora ( ) média inferior ( ) média média ( ) média alta ( ) alta Você possui: ( ) casa própria ( ) telefone ( ) automóvel ( ) computador ( ) conexão com a Internet ( ) casa de praia ou campo No momento você tem emprego? ( ) Sim ( ) Não 3. Dados Religiosos: Religiões anteriores: 1. 2. 3. 4. 5. Religiões dos Pais: Mãe: Pai: Tempo de participação na UDV: Grau na UDV: ( ) Não-sócio ( ) Sócio ( ) Corpo Instrutivo ( ) Corpo do Conselho ( ) Quadro de Mestres Lugares que já ocupou na UDV: 1. 2. 3. 4. 5. anos

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ENTREVISTA
OBSERVAÇÕES ÉTICAS: a) Consentimento livre e esclarecido. b) Liberdade de responder ou não determinadas questões. c) Utilizarei as entrevistas em minha reflexão acerca dos discípulos da União do Vegetal na realidade urbana brasileira, podendo citar trechos do material recolhido, sempre mudando os nomes das pessoas, para salvaguardar a sua privacidade. ABORDAGEM DIACRÔNICA: 1. Conte a trajetória de sua vida, especialmente apontando para a sua busca espiritual. 2. De que religiões você chegou a participar? [Inserção na contra-cultura, nos movimentos de oposição à ditadura militar...] Você chegou a conhecer ou frequentar outras religiões que fazem uso do chá? Quais? Por quanto tempo? 3. Você antes fazia uso de drogas ou álcool? Com frequência? Isso tem a ver com o uso do chá hoasca? 4. Conte como você chegou a conhecer o chá hoasca e a União do Vegetal. 5. Você já conhecia pessoas da UDV de algum outro lugar? 6. Houve alguma transformação em sua vida naquele momento? 7. Que motivações levaram você a permanecer na União do Vegetal? 8. Quais as maiores dificuldades que você encontrou para seguir na União do Vegetal? ABORDAGEM SINCRÔNICA: 9. No presente, há alguma repercussão da sua vivência religiosa na União do Vegetal em sua vida prática? 10. Como se articula a sua vida familiar e a participação na União do Vegetal? 11. Sua vivência na UDV chega a influenciar sua vida profissional? E esta, por sua vez, influencia a primeira? 12. E como se relaciona sua participação na UDV e o seu lazer? Você sente que há uma dimensão lúdica em sua experiência com o chá? 13. A sua vivência na UDV de algum modo repercute na sua relação com a sociedade no seu sentido mais amplo: a política, o meio-ambiente...? 14. Como você descreve ou classifica o chá hoasca?

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15. Como é para você participar de uma religião que usa um chá de propriedades psicoativas? Como você se sente diante das pessoas que não usam o chá? 16. Como é a sua relação com os demais sócios da UDV, nos dias de sessão e nos outros dias? 17. Como você vê a participação das mulheres na UDV? 18. Como você observa o exercício do poder e a estrutura institucional do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal? 19. Você participa dos trabalhos do núcleo? De que modo? 20. Que dificuldades você enfrenta hoje para ser um discípulo da União do Vegetal? 21. Como é para você ser um discípulo urbano dessa religião nascida entre caboclos, na floresta amazônica? ABORDAGEM PROFUNDA: 22. O que você sente que é a burracheira? 23. Quais os sentimentos mais frequentemente experimentados por você no tempo de burracheira? 24. Conte algumas vivências significativas que você teve sob o efeito do Vegetal. [Experiências positivas e negativas]. 25. Alguns chamam a União do Vegetal de a religião do sentir. Você considera esta uma expressão apropriada? 26. O que há de específico no sentir dos participantes da UDV - durante as sessões e fora delas? 27. Como se relacionam em sua vivência religiosa estes três verbos: SENTIR - CRER CONHECER? 28. Quem é, para você, José Gabriel da Costa? 29. Quem é, para você, Jesus? 30. Quem é, para você, Salomão?

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ANEXO 3
PRESENÇA DO CEBUDV NO BRASIL

REGIÃO NORTE
CIDADE Manaus-AM Envira-AM Belém-PA Macapá-AP Boa Vista-RR Porto Velho-RO Guajará-Mirim-RO Jaru-RO Ji-Paraná-RO Ariquemes-RO Machadinho D'OesteRO Presidente Médici-RO Ouro Preto D'OesteRO Cacoal-RO Alta Floresta D'OesteRO Campo Novo-RO Rio Branco-AC Plácido de Castro-AC Cruzeiro do Sul-AC Feijó-AC Tarauacá-AC Vila Extrema-AC TOTAL POPULAÇÃO DIMENSÃO 1.157.357 ***** 1.144.312 220.962 165.518 294.227 36.542 48.141 95.356 68.503 28.949 28.490 52.261 72.922 33.471 15.434 228.857 12.101 56.705 22.142 23.715 ***** metrópole pequena metrópole média média média pequena pequena pequena pequena pequena pequena pequena pequena pequena pequena média pequena pequena pequena pequena pequena UNIDADES UDV 5 1 1 1 1 4 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 ASSOCIADOS 680 39 113 54 258 474 54 37 106 109 70 62 46 44 37 54 169 44 161 60 53 9 2.733

159

REGIÃO NORDESTE
CIDADE Recife-PE Caruaru-PE Maceió-AL Campina Grande-PB Salvador-BA Ilhéus-BA Fortaleza-CE Sobral-CE TOTAL POPULAÇÃO DIMENSÃO 1.346.045 231.989 723.142 344.730 2.211.539 242.445 1.965.513 138.565 metrópole média média média metrópole média metrópole média UNIDADES UDV 2 1 1 1 4 1 2 1 ASSOCIADOS 142 126 82 38 416 129 271 94 1.298

REGIÃO SUDESTE
CIDADE São Paulo-SP Campinas-SP Mogi das Cruzes Rio de Janeiro-RJ Petrópolis-RJ Niterói-RJ Guarapari-ES Caldas-MG Belo Horizonte-MG Lagoa da Prata-MG Governador ValadaresMG Ubá-MG Divinópolis-MG Uberlândia-MG TOTAL POPULAÇÃ DIMENSÃO O 9.839.066 metrópole 908.906 metrópole 312.685 média 5.551.538 metrópole 269.669 média 450.364 média 73.730 pequena 13.047 pequena 2.091.371 metrópole 34.431 pequena 231.242 média 77.159 171.565 438.986 pequena média média UNIDADES UDV 3 2 1 2 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ASSOCIADO S 358 188 103 221 73 42 92 73 165 87 154 62 53 46 1.717

160

REGIÃO CENTRO-OESTE
POPULAÇÃO DIMENSÃ O Brasília-DF (c/ Sede 1.921.946 metrópole G.) Goiânia-DF 1.003.477 metrópole Campo Grande-MT 600.069 média Cuiabá-MT 433.355 média Barra do Garças-MT 47.133 pequena TOTAL CIDADE UNIDADES UDV 4 2 1 1 1 ASSOCIADOS 408 185 140 212 34 979

REGIÃO SUL
CIDADE Porto Alegre-RS Florianópolis-SC Joaçaba-SC Criciúma-SC Curitiba-PR TOTAL POPULAÇÃ DIMENSÃO O 1.288.879 Metrópole 271.281 média 28.346 Pequena 159.101 média 1.476.253 Metrópole UNIDADES UDV 1 1 1 1 1 ASSOCIADO S 73 81 55 15 129 353

161

ANEXO 4
UNIDADES DA UDV VISITADAS:
ESTADO DE SÃO PAULO: 1. Campinas - Núcleo Alto das Cordilheiras 2. Campinas - Núcleo Lupunamanta 3. São Paulo - Núcleo Samaúma 4. São Paulo - Núcleo São João Batista 5. Mogi das Cruzes - Núcleo Rei Davi ESTADO DE MINAS GERAIS: 6. Belo Horizonte - Núcleo Rei Salomão 7. Lagoa da Prata - Núcleo Lagoa da Prata 8. Governador Valadares - Núcleo Luz Divina 9. Ubá - Núcleo Recanto das Flores ESTADO DO RIO DE JANEIRO: 10. Rio de Janeiro - Núcleo Pupuramanta 11. Rio de Janeiro - Núcleo Janaína 12. Niterói - Distribuição Autorizada de Niterói 13. Petrópolis - Núcleo Camalango DISTRITO FEDERAL: 14. Brasília - Sede Geral 15. Brasília - Núcleo Gaspar ESTADO DO PARANÁ: 16. Curitiba - Núcleo São Cosmo e São Damião

162

ANEXO 5

Fotocópia de carta de autorização do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal a Sérgio Góes Telles Brissac, para a realização da pesquisa. Assinam:
Edison Saraiva Neves – Presidente da Diretoria Geral Raimundo Nonato Marques – Mestre Geral Representante

163

ANEXO 6
FONTES ORAIS
a) DIRETAS131
1. Depoimento do Cons. Carmiro Gabriel da Costa, filho de José Gabriel da Costa. Rio de Janeiro, 4 de novembro de 1995. 2. Depoimento de M. Antônio da Costa, irmão de José Gabriel da Costa. Rio de Janeiro, 4 de novembro de 1995. 3. Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Rio de Janeiro, agosto de 1998. 4. Entrevista de Ivan Marques. Campinas, setembro de 1998. 5. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Rio de Janeiro, 25 de abril de 1999. 6. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Brasília, 26 de julho de 1999.

b) PESQUISADAS EM ARQUIVO

7. Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa, irmão de José Gabriel da Costa, a Edson Lodi. Na Estância Centro-Oeste, 17 de abril de 1987. In: Memórias, Volume I. Centro de Memória e Documentação do CEBUDV. 8. Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d. 9. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira a Edson Lodi. Dezembro de 1990. In: Memórias, Volume II. 10. Entrevista de M. Raimundo Pereira da Paixão a Edson Lodi. São Paulo, junho de 1989. In: Memórias, Volume II. 11. Entrevista de Raimundo Pereira da Paixão a Lúcia Gentil. Campinas, 3 de junho de 1993. 12. Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga a Edson Lodi, Ruy Fabiano e João Bosco. Brasília, junho de 1991. In: Memórias, Volume II. 13. Rubens Rodrigues. Explanação na sessão inaugural do núcleo de Manaus, 1971. In: Memórias, Volume I.

131

Além das 50 entrevistas de discípulos do Núcleo Alto das Cordilheiras, realizadas em Campinas e São Paulo, no período de agosto a novembro de 1998.

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