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A ESTRELA DO NORTE ILUMINANDO ATÉ O SUL

U MA E TNOGRAFIA DA U NIÃO DO V EGETAL


EM UM CONTEXTO URBANO

Sérgio Góes Telles Brissac

Universidade Federal do Rio de Janeiro


Museu Nacional
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

Dissertação de Mestrado

Orientador: Prof. Dr. Otávio Velho

Rio de Janeiro

1999
2

A ESTRELA DO NORTE ILUMINANDO ATÉ O SUL


UMA ETNOGRAFIA DA UNIÃO DO VEGETAL EM UM CONTEXTO URBANO

Sérgio Góes Telles Brissac

Dissertação de Mestrado submetida ao corpo docente do Programa de Pós-


Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre.

Aprovada por:

___________________________________________________ - Orientador
Prof. Dr. Otávio Guilherme Cardoso Alves Velho

___________________________________________________
Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte

___________________________________________________
Profa Dra Regina Novaes

Rio de Janeiro

1999
3

Brissac, Sérgio Góes Telles


A Estrela do Norte iluminando até o Sul: uma etnografia da
União do Vegetal em um contexto urbano / Sérgio Góes Telles
Brissac. Rio de Janeiro: UFRJ / MN / PPGAS, 1999.
IX, 148 p. il. 30 cm.
Dissertação - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu
Nacional, Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social.

1. Antropologia. 2. Ayahuasca. 3. Religião - Brasil -


União do Vegetal. I. Título.
4

A José Gabriel da Costa,


Mestre e Autor da União do Vegetal

A Lyzette, minha mãe,


e Ney, meu pai,
por toda a força, a coragem e o amor
que vêm me transmitindo

MINHA GRATIDÃO
5

- Ao meu orientador Prof. Otávio Velho, por sua amizade, compreensão e estímulo, e
por ter, com a sua inspiradora sensibilidade à religião, me iniciado nos caminhos da
Antropologia
- Aos professores Pierre Sanchis, Regina Novaes e Leila Amaral Luz, que me
animaram e apoiaram por ocasião da entrada no mestrado
- Ao Prof. Carlos Alberto Afonso, por sua generosidade e pelo precioso auxílio no
momento da conclusão deste texto
- Aos meus professores no curso de mestrado em Antropologia, Luiz Fernando Dias
Duarte, Gilberto Velho, Moacir Palmeira, José Sérgio Leite Lopes, Carlos Fausto,
Luis de Castro Faria e Michael Heckenberger
- À CAPES, que me concedeu a bolsa de estudos para o mestrado
- A Thaïs Martins Echeverria, amiga que me apresentou à União do Vegetal em
Campinas e com carinho vem me acompanhando
- Aos colegas no estudo das religiões ayahuasqueiras Luis Eduardo Luna, Afrânio
Patrocínio de Andrade, Bia Labate, Wladimyr Sena do Araújo, Sandra Goulart,
Edward MacRae e Clodomir Monteiro, Gustavo Pacheco e Benny Shanon
- A Cristina Patriota de Moura, pela sua amizade e valioso apoio
- Aos meus colegas de mestrado Maria Macedo Barroso, João Felipe Gonçalves,
Laura Masson, , Valéria Torres da Costa e Silva, Edmundo Marcelo Pereira,
Hyppolite Brice Sogbossi, Hernan Gómez, Jorge Fernando Pantaleón, José Gabriel
Corrêa, Pedro Alvim Leite Lopes, Ayrton José Germano e André Luiz Correia
Lourenço
- Aos funcionários da Secretaria e da Biblioteca do PPGAS: Tânia Lúcia Ferreira da
Silva, Aurora Fernandes, Vera Gutierrez, Adilson Moreira Fontenelle, Rosa Maria
Gonçalves Pereira, Isabel Cristina de Souza Mello, Washington Rodrigues da Silva,
Rita de Souza Santos Saraiva, Maria Izabel Wernesbach Moreira, Lourdes Cristina
Araújo Coimbra e Carla Regina Paz de Freitas, pela atenção e disponibilidade em
auxiliar
- Ao P. Aloir Pacini, companheiro na Antropologia e na Companhia de Jesus, pela
força e pelo estímulo na caminhada
- À Companhia de Jesus, que vem me apoiando na realização deste trabalho, na
pessoa do P. Francisco Ivern, Provincial que me confirmou no direcionamento para a
Antropologia, e do P. José Antonio Netto de Oliveira, atual Superior da Província do
Brasil Centro-Leste
- Aos Padres Donizetti Tadeu Venâncio, Luiz Fernando Klein, José Luis Fuentes, Acir
Miranda, Valdeli Costa, Spencer Custódio Filho e ao Ir. Antônio Marques, meus
companheiros de comunidade
- Aos Padres Luiz AntônioMonnerat, Walter Salles e toda a comunidade do Noviciado
de Campinas, que com carinho me acolheu nos três meses do trabalho de campo
- Aos Padres Henrique de Lima Vaz, Ulpiano Vázquez, João Batista Libânio e demais
professores do CES-SJ pela formação filósofico-teológica que recebi
- À União do Vegetal, na pessoa do Mestre José Luiz de Oliveira, Mestre da Origem e
Assistente do Mestre Geral Representante, pelo apoio e amizade
6

- Ao Mestre Raimundo Monteiro de Souza, que primeiramente acolheu minha


proposta de estudar os discípulos da UDV, quando Mestre Geral Representante, ao
Mestre Florêncio Siqueira de Carvalho, atual Mestre Geral Representante e ao
Mestre Clóvis Cavalieri Carvalho, Mestre Central da 5ª Região
- Ao Mestre Edison Saraiva Neves, Presidente da Diretoria Geral da UDV, e ao
Mestre Raimundo Nonato Marques, ex-Mestre Geral Representante, pela confiança
que em mim depositaram, autorizando esta pesquisa
- A toda a irmandade do Núcleo Alto das Cordilheiras, pela generosa acolhida, pela
amizade e pelo seu auxílio, fundamental para a realização deste trabalho;
especialmente sou muito grato aos Mestres Spencer, Sérgio, Fernando, Mauro e Luiz
Fernando; às Conselheiras Lúcia, Íris, Ilka e Zezinha; ao Conselheiro Vagner e à
minha amiga Nélia
- À Conselheira Lúcia Gentil pela dedicação e carinho com que acompanhou meu
trabalho
- A Ernesto Boccara, Spencer Pupo Nogueira, Maria Carolina Santos e Fernando
Ramos, por possibilitarem a todos que lerem este trabalho uma visão da beleza de sua
arte
- À Conselheira Ivone Menão e ao Conselheiro Renato Palet, do Departamento de
Memória e Documentação do CEBUDV, pelo importante auxílio; ao Mestre Márcio
da Rós e equipe do escritório da Diretoria Geral, pelos dados do censo; a José Clóvis
Santos e Mestre Yuugi Makiuchi, pelas fotos
- A Fernando Polignano, Marco Aurélio e Maria Amélia Ramos, Marcelo Muniz e
Maria Célia Furtado, Jorge e Fátima Condé, Antonio Honorio, Victor Sabbagh, Paulo
Bourroul, Luis Antonio e Lacy, Bruno e Michelle Wider, Carlos Queiroz, José Luis
Petruccelli, José Augusto Pádua, Myrna do Rego Monteiro, Luiz Eduardo Parreiras e
Oraida de Souza, Marcelo e Márcia Cunha, Guilherme Oberlaender, José Renato
Pessoa, Henrique Boechat de Lacerda, Celina Sodré e tantos amigos da União do
Vegetal...
- A Luiz Daré, Tereza Moreira e Nei, através de quem cheguei a conhecer a União do
Vegetal, pela amizade fiel
- A Maria Ferreira, Nilton Leôncio, Jandira, João, Antonieta, Arlinda, Paulo e todos
os meus irmãos e irmãs da Comunidade Nossa Senhora Aparecida, na Rocinha, com
quem venho celebrando a fé nestes três anos no Rio de Janeiro
- À Ir. Maria de Lourdes do Sagrado Coração de Jesus, Neuza Cazula, Denair e
Therezita, pelas orações
- A Vera Lúcia Garcia Medeiros, Lindalva Vitor Ferreira Alves, Marli Ana Camilo,
Carlos Alberto Perón e todos os funcionários da Residência João XXIII
- A Helcio, Lise, Denise, Ana Lúcia, Amaral, Leopoldo, Ana Paula e todos os amigos
- A Juliana, minha irmã querida, Mariza, Viô, Leonor, Carmen, Christiana e toda a
minha família, pelo carinho para comigo
- A Jailton Gomes de Jesus, por ser o amigo que é
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RESUMO

Esta dissertação apresenta a etnografia de um núcleo da União do Vegetal (UDV),


religião brasileira fundada em 1961, na Amazônia, por José Gabriel da Costa e atualmente
disseminada pelo território brasileiro. A UDV tem como elemento central de seu ritual a
ingestão de um chá denominado Hoasca ou Vegetal, preparado com duas plantas: o cipó
mariri (Banisteriopsis caapi) e o arbusto chacrona (Psychotria viridis). Esse chá, de
propriedades psicoativas, é utilizado amplamente na Amazônia ocidental, sendo também
denominado ayahuasca, yajé e Daime.

A pesquisa de campo foi realizada em um contexto urbano, estudando-se, em 1998,


o Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, São Paulo. Através dessa etnografia, busca-
se captar a estrutura matricial da UDV, os seus aspectos constitutivos. Estes são
identificados segundo um esquema triádico: o modelo organizacional, a narrativa histórica
e a experiência simbólica. O primeiro capítulo apresenta a estrutura institucional do Centro
Espírita Beneficente União do Vegetal; o segundo traça o itinerário histórico da sua
formação, a partir das narrativas dos participantes; e o terceiro aborda a vivência dos
discípulos urbanos da UDV, apontando para a originalidade da experiência religiosa com o
chá Hoasca, que plasma a matriz da União do Vegetal.
8

ABSTRACT

This dissertation presents the ethnography of a nucleus of the União do Vegetal


(UDV), a Brazilian religion founded in 1961 in the Amazon region by José Gabriel da
Costa and now spread throughout the Brazilian territory. The UDV has as the central
element of its ritual the ingestion of a tea denominated Hoasca or Vegetal, made from two
plants: the liana mariri (Banisteriopsis caapi) and the shrub chacrona (Psychotria viridis).
This tea, with psychoactive properties, is widely utilized in the western Amazon region, and
it is also called ayahuasca, yajé and Daime.

The field work involved was carried out within an urban context in Campinas, State
of São Paulo, Brazil, in 1998, the Núcleo Alto das Cordilheiras being the object of this
study. By this ethnography, it is sought to grasp the matrix structure of the UDV, its
constitutive aspects. These are identified according to a triadic scheme: the organizational
model, the historic narrative and the symbolic experience. The first chapter deals with the
institutional structure of the Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (Beneficent
Spiritualist Center União do Vegetal); the second traces the historic itinerary of its
formation, originating from the narratives of its participants; and the third exposes the
experience of the urban disciples of the UDV, thereby pointing to the originality of the
religious experience with the Hoasca tea which moulds the matrix of the UDV.
9

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... p. 1

1. GEOMETRIA DA ESTRELA
1.1. ESTRUTURA INSTITUCIONAL DA UNIÃO DO VEGETAL ........................p. 8
1.2. O NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS EM CAMPINAS .........................p. 23
1.3. OS DISCÍPULOS DO ALTO DAS CORDILHEIRAS ......................................p. 37

2. A ESTRELA DO NORTE
2.1. A VIDA DE MESTRE GABRIEL ...................................................................p. 50
2.2. OS PRIMEIROS ANOS DA UNIÃO DO VEGETAL EM PORTO VELHO ...p. 64
2.3. A PRESENÇA DA UDV EM SÃO PAULO A PARTIR DOS ANOS 70 ........p. 80

3. A ESTRELA ILUMINANDO
3.1. ALGUMAS HISTÓRIAS DE VIDA ..................................................................p. 87
3.2. ALCANÇAR O ALTO DAS CORDILHEIRAS ..............................................p. 100
3.3. O ENGLOBAMENTO NA FORÇA DA BURRACHEIRA ...............................p.131

CONCLUSÃO: O ITINERÁRIO DA DISSERTAÇÃO ..............................................p.139

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ p.141

ANEXOS.................................................................................................................. p. 149

INTRODUÇÃO
10

“Isso não é falável.


As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca.
Cabem é no brilho da noite.
Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

As absolutas estrelas são consideradas inefáveis pelo jagunço Riobaldo Tatarana.


No entanto, ele teima em delas falar. Distendendo ao máximo as virtualidades do verbo, ele
performatiza a sua busca de ultrapassagem da inefabilidade. E assim como ele, também os
poetas cantam, os místicos balbuciam, os profetas gritam, movidos por essa aragem do
sagrado. E não somente esses, mas também aqueles que desposaram o lógos apodeiktikós -
a razão demonstrativa - teimam em falar daquilo que cabe no brilho da noite. Dentre esses
últimos eu me incluo, e nesta dissertação buscarei falar da Estrela do Norte, a partir do
modo como as retinas do Sul captam a luz que ela irradia.

As raízes desta dissertação remontam a 1992. Naquele ano, no dia 4 de julho, tive
meu primeiro contato com o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV),
participando de uma sessão em Campinas, Estado de São Paulo. Trinta e um anos antes, em
1961, a União do Vegetal (UDV) havia sido fundada na floresta amazônica, num seringal
boliviano próximo à fronteira com o Brasil, por José Gabriel da Costa, chamado por seus
discípulos de Mestre Gabriel. Articulando elementos do catolicismo popular, do
xamanismo amazônico, do espiritismo kardecista e dos cultos afro-brasileiros, a União do
Vegetal tem como centro de seu ritual a ingestão de um chá denominado Hoasca ou
Vegetal, preparado com duas espécies vegetais: o cipó mariri (Banisteriopsis caapi) e o
arbusto chacrona (Psychotria viridis). Esse chá, de propriedades psicoativas, é utilizado
amplamente na Amazônia ocidental, por populações indígenas ou não, em áreas do Brasil,
Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, recebendo diversos nomes, entre os quais,
ayahuasca, yajé, Daime. Além da União do Vegetal, há no Brasil várias instituições
religiosas que fazem uso ritual da mesma bebida. Essas outras correntes podem ser
classificadas esquematicamente em duas vertentes: a do Santo Daime e a da Barquinha. Na
11

UDV, o uso do chá é “para efeito de concentração mental”1, segundo o seu Regimento
Interno.

A primeira sessão da qual participei em Campinas foi com o grupo que


posteriormente se tornou o Núcleo Alto das Cordilheiras. Fui convidado por uma amiga,
que no momento fazia mestrado em Antropologia Social na Unicamp. O grupo recebeu-me
gentilmente, e me senti bem acolhido, apresentando-me como religioso católico, membro
da Companhia de Jesus. A sessão foi dirigida por uma mulher, a conselheira esposa do
então Mestre Responsável por aquela unidade da União do Vegetal. O grupo havia
recentemente se desmembrado do primeiro núcleo de Campinas, o Lupunamanta. E tinham
sido precisamente as pessoas mais antigas na União do Vegetal que decidiram, diante do
grande número de pessoas do Lupunamanta, se reunir para iniciar uma nova distribuição de
Vegetal. Portanto, deparei-me com um grupo maduro, perfazendo em torno de 30 pessoas,
formado em sua maior parte por gente que já bebia o chá Hoasca há alguns anos. A sessão
foi brilhante e nela decidi prosseguir minha observação em núcleos do Centro Espírita
Beneficente União do Vegetal, ao invés de no pequeno grupo que havia visitado
anteriormente.

Alguns meses antes, no dia 7 de março de 1992, conheci pela primeira vez um
grupo usuário do chá Hoasca. Nesse tempo, morava na Cidade de São Paulo e trabalhava
como professor em um colégio. Fizera graduação em Filosofia e pensava em um mestrado
futuro em Antropologia Social, possivelmente acerca das religiões afro-brasileiras. Assim,
tinha querido conhecer aquele grupo, de aproximadamente sete pessoas, que bebia o chá
sem uma estrutura institucional, na medida em que haviam se distanciado de uma
dissidência da União do Vegetal2. Tendo participado de algumas sessões com essas
pessoas, interessei-me em conhecer o grupo original, o CEBUDV, o que logo veio a
acontecer naquela noite de 4 de julho do mesmo ano. Sentia-me vivenciando uma
experiência de diálogo inter-religioso, partilhando com membros de uma crença diversa da
minha uma busca espiritual de auto-conhecimento e abertura para o transcendente,
vivenciada por eles com a mediação de um veículo considerado propiciador de uma
expansão da consciência.

1
Artigo 1o , Parágrafo Único, do Capítulo I do Regimento Interno do CEBUDV. (CENTRO ESPÍRITA
BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 92).
2
Vide no anexo 1 o quadro das dissidências da UDV, com informações que obtive sobre as mesmas.
12

Em 1992, fui duas vezes na Distribuição da UDV de Campinas e depois freqüentei o


Núcleo Samaúma de São Paulo, o primeiro que foi fundado na Região Sudeste, em 1972.
Comecei a participar de cada sessão quinzenal da UDV. Também conheci o Santo Daime,
no Rio de Janeiro, e uma dissidência da UDV em São Paulo. Em 1993, mudei-me para Belo
Horizonte e dei seqüência ao contato com a União do Vegetal, no Núcleo Rei Salomão. Em
1996, transferi-me para o Rio de Janeiro, para iniciar o Mestrado em Antropologia Social,
e fui ordenado padre da Igreja Católica. Mantive o contato com a UDV, freqüentando as
sessões do Núcleo Pupuramanta, em Vargem Pequena, Jacarepaguá. Enquanto antropólogo,
dava continuidade à observação e à reflexão acerca da UDV e enquanto ministro da Igreja
Católica, buscava vivenciar uma atitude de respeito diante da alteridade e de empenho no
diálogo inter-religioso.

Em 16 de agosto de 1998, voltei a Campinas, fazendo-me presente em uma sessão


no Núcleo Alto das Cordilheiras, formado por aquelas pessoas que eu encontrara em 1992.
Voltava como mestrando em Antropologia Social pelo PPGAS do Museu Nacional, para
iniciar meu trabalho de campo. Ou melhor, este havia começado seis anos antes, e depois
desse período de tempo eu voltava àquele grupo, com o objetivo de realizar a fase intensiva
da experiência etnográfica.

Este breve recorrido de minha trajetória é apenas para propiciar ao leitor alguma
noção das implicações deste percurso na construção da dissertação. Observo que a minha
condição específica, enquanto ministro ordenado de outra religião, evidentemente teve o
seu impacto neste trabalho. A primeira reação das pessoas - inclusive dos discípulos da
UDV - costumava ser de perplexidade: “Você é padre? Estudando a União do Vegetal?”
Desse espanto inicial, ia-se às vezes para uma atitude de desconfiança: “Quem será esse aí?
Um espião da Igreja?” Igualmente em alguns de meus companheiros jesuítas pude constatar
uma certa estranheza diante desse tema “insólito”.

Felizmente, com a grande maioria das pessoas da União do Vegetal com quem
mantive contato essas fases foram superadas com o estabelecimento de uma relação de
mútuo conhecimento e confiança. E com muitas pessoas essa relação intensificou-se, na
constituição de sólidos e verdadeiros laços de amizade. Foram-me necessárias paciência e
13

determinação para ir ultrapassando essas etapas. E ao longo do tempo vivi a gratificante


experiência de ser acolhido, recebendo apoio, confiança e afeição de um significativo
número de pessoas, em diversos núcleos da UDV. Assim, se no início minha pertença a
uma ordem religiosa da Igreja Católica parecia quase inviabilizar uma pesquisa
antropológica na UDV, posteriormente, especialmente no trabalho de campo no Núcleo
Alto das Cordilheiras, essa condição foi algo que até mesmo me auxiliou no relacionamento
com os discípulos da União. Desse modo, meu lugar social de antropólogo-padre-amigo
propiciou-me uma mescla de proximidade e distanciamento fecunda para a minha pesquisa
e reflexão, as quais reconheço, desde já, situadas.

Nesta dissertação limitar-me-ei ao estudo do Centro Espírita Beneficente União do


Vegetal, renunciando a qualquer intento comparativo com as demais religiões usuárias da
mesma bebida psicoativa. Isto não somente por carecer de uma experiência etnográfica com
as comunidades do Santo Daime ou da Barquinha, mas também por considerar que a União
do Vegetal constitui um campo com uma autonomia e relevância específicas.

O programa desta dissertação é apresentar a estrutura matricial da UDV, através da


etnografia de um de seus núcleos, situado em um contexto urbano. O Núcleo Alto das
Cordilheiras, em Campinas, cidade com aproximadamente 900 mil habitantes3, foi
escolhido como o lugar para o trabalho de campo desta pesquisa. Não que ele pudesse ser
considerado como adequado para uma “amostragem representativa” da UDV no Brasil,
nem mesmo da UDV na Região Sudeste. Mas, tendo em vista o perfil de seus participantes,
é possível considerá-lo como emblemático de um núcleo da União do Vegetal em um
contexto urbano sob o impacto da modernidade. Ora, constata-se a tendência de que essa
estrutura matricial vem se reproduzindo cada vez mais nas grandes cidades brasileiras.
Assim, a escolha desse local apresenta-se como procedente não só em termos de
compreensão do momento presente da UDV no Brasil, mas também num enfoque
prospectivo. Além do trabalho de campo nesse núcleo, desde 1992 tive a oportunidade de
conhecer quinze outras unidades do CEBUDV, situadas principalmente em áreas urbanas
da Região Sudeste4. A observação desses núcleos me foi valiosa para que eu pudesse

3
Segundo o IBGE, Campinas contava em 1996 com 908.906 habitantes. Dados da
contagem populacional de 1996. Disponível na INTERNET via
http://www.ibge.org/informacoes/estat1.htm. Arquivo consultado em 1999.
4
Vide, no anexo 4, a lista das unidades do CEBUDV já visitadas por mim.
14

discernir melhor que aspectos do Núcleo Alto das Cordilheiras deviam ser considerados
como peculiaridades suas e quais poderiam ser vistos como indicativos de uma tendência
mais ampla da UDV em contexto urbano. Também foi de suma importância para esta
dissertação o acesso a fontes históricas orais diretas e indiretas, através de entrevistas de
mestres que conviveram com o Mestre Gabriel e da pesquisa nos arquivos do Departamento
de Memória e Documentação do CEBUDV, em sua Sede Geral, em Brasília.

O que entendo aqui por estrutura matricial? Trata-se dos aspectos constitutivos da
União do Vegetal, que podem ser identificados segundo um esquema triádico: o modelo
organizacional, a narrativa histórica e a experiência simbólica. O objetivo não é fazer um
mapeamento completo da organização matricial da UDV, mas colocar a ênfase sobre estes
aspectos: institucional, histórico e simbólico, reconhecendo, todavia, que a matriz é mais
vasta do que esses três aspectos.

É importante considerar que o aspecto doutrinário é um elemento constitutivo


essencial em toda a matriz de uma tradição religiosa. No início de minha aproximação da
União do Vegetal, minha intenção era estudar sua cosmologia e metafísica, a partir de sua
narrativa doutrinária e de suas formulações no ritual. Mas uma dimensão emblemática da
UDV é que a partilha da doutrina é parte da própria economia simbólica desta religião, em
particular a proibição da divulgação desses princípios fora da comunidade ritual. Portanto,
o aspecto doutrinário não é referido neste trabalho por razões de uma ética etnográfica,
segundo o modo de minha experiência de contato com a UDV. Limito-me aqui a
compendiar as principais informações acerca da doutrina, publicadas pelo próprio
CEBUDV:
“A União do Vegetal professa os fundamentos do Cristianismo, resgatando-os em sua
pureza e integridade originais, livres das distorções que lhes imprimiu, ao longo dos
séculos, a mão humana. [...] A conseqüência mais grave desse fenômeno [fim da
transmissão oral da doutrina] - um subproduto da institucionalização do Cristianismo -
foi o desvio doutrinário, que resultou na exclusão de pelo menos uma Verdade de Fé da
doutrina de Jesus Cristo, fundamental para a perfeita compreensão do conceito de
Justiça Divina: a reencarnação. [...] A doutrina da União do Vegetal é cristã porque
sustenta que Jesus Cristo, Filho de Deus, é a expressão da Divindade e Sua Palavra
aponta o caminho da Salvação para a humanidade. A União do Vegetal crê na Virgem
Maria, Nossa Senhora Imaculada, mãe de Jesus. [...] A União do Vegetal considera o
15

chá Hoasca uma dádiva de Deus, um instrumento para acelerar a caminhada evolutiva
do homem, devolvendo espiritualidade a uma civilização inebriada pela lógica
cientificista. Mesmo assim, não vê o chá como um fim em si mesmo, mas como um
veículo para uma caminhada que exige sacrifícios e renúncias e cuja base é a doutrina
de fundamentação cristã, aprofundada pelos ensinamentos transmitidos por Mestre
Gabriel. [...] Trata-se de religião que já existira na Terra, muitos séculos antes de
Cristo. Sua origem data do século X A.C., no reinado de Salomão, rei de Israel. Por
razões diretamente ligadas ao baixo grau de evolução espiritual da humanidade na
época, a União do Vegetal desapareceria por longo período. Ressurge entre os séculos
V e VI, no Peru, na civilização Inca (cujo advento e apogeu a historiografia oficial
registra apenas entre os séculos XIII e XIV).” (CENTRO ESPÍRITA
BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1989, p. 22.23.26.34.35).

No aspecto estrutural, abordarei não apenas os elementos característicos da


instituição denominada Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, mas também
indicarei certos traços estruturais da experiência com a Hoasca. A questão da história, nesta
dissertação, necessita de uma explicação. Não se trata de uma historiografia da UDV, mas
de uma reconstrução histórica a partir das próprias narrativas dos participantes. Esta
narrativa “histórica” é, portanto, parte do processo da representação nativa. Mas, ao mesmo
tempo não se trata da narrativa fundante da União do Vegetal, a História da Hoasca, e das
demais Histórias do corpus doutrinário, na medida em que estas pertencem ao plano do
domínio reservado do discurso, aquilo que indiquei como um limite desta abordagem.
Assim, o termo narrativa histórica indica aqui a história formativa da UDV, seu processo de
formação e disseminação entre os anos 60 e 90, tal como é descrito por seus protagonistas.
Finalmente, o problema da experiência simbólica a partir do uso ritual do chá Hoasca, será
descrito a partir de histórias de vida de alguns membros e de categorias fundamentais do
discurso nativo, que apontarão para o que designei neste trabalho como “o englobamento na
força da burracheira”.

“A Estrela do Norte iluminando até o Sul” é um título inspirado na Chamada Estrela


do Norte, de Mestre Gabriel. A Estrela do Norte evoca a própria União do Vegetal, que
seus discípulos reconhecem como uma realidade que está “no alto” e vem iluminando os
seres humanos que se encontram “aqui embaixo”. Assim, essa estrela, cujos raios,
originários do céu, alcançam e clareiam a terra, pareceu-me bela metáfora para falar de uma
16

matriz que é princípio de constituição e reprodução, um eidos - sempre corporificado - que


se concretiza em contextos locais específicos. Além disso, o binômio norte-sul pode trazer à
mente do leitor a origem amazônica da UDV e a sua disseminação nas terras urbanas do
“sul” brasileiro, nas quais o Núcleo Alto das Cordilheiras se situa. Mesmo que seja para,
em seguida, superar essa antinomia e compreender que, desde o início, a dimensão urbana
está presente no “norte”, e o “norte” na vivência urbana dos discípulos do “sul”, numa
interação dialética.

Ao longo dos sete anos de meu contato com a UDV, este foi o trabalho que resultou
de um comprometimento entre pesquisa e ética etnográfica. Desta forma, foram os aspectos
da organização institucional, a importância da narrativa histórica como processo de auto-
representação fundacional e o acesso à experiência simbólica dos participantes que
determinaram o percurso etnográfico desta dissertação, na busca de um delineamento da
matriz da “Estrela do Norte”.

4. A GEOMETRIA DA ESTRELA
17

4.1. A ESTRUTURA INSTITUCIONAL DA UNIÃO DO VEGETAL

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”


Fernando Pessoa, Mensagem

Certa vez, encontrei no mural de um núcleo da UDV na Cidade de São Paulo, o São
João Batista, este verso de Fernando Pessoa que escolhi como epígrafe. O mural
apresentava as atividades dos membros do núcleo na construção de seu templo definitivo. O
verso de Mensagem servia de mote e estímulo para o comprometimento das pessoas com
aquela obra, que eles apontavam como querida por Deus e sonhada pelo homem. E mais do
que a obra de tijolos e cimento daquele templo, percebo que há entre a maioria dos
discípulos da UDV o sentimento de participarem de uma obra mais ampla: a implantação e
solidificação no Brasil e, na seqüência, pelo mundo afora, de uma instituição denominada
Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Portanto, ainda que o objeto central desta
dissertação seja a vivência dos participantes urbanos da União do Vegetal, considero
necessário iniciar situando o leitor com alguns dados acerca da instituição à qual tais
participantes aderem, contribuindo para sua continuidade e expansão no Brasil urbano.
Assim, neste capítulo, com um corte sincrônico, brevemente abordarei como que a
“geometria” da estrela, as linhas básicas da estrutura dentro da qual se insere a agência dos
indivíduos que observei.

Os núcleos e sua organização

A UDV organiza-se, no nível local, em núcleos. O núcleo é o lugar onde se reúnem


quinzenalmente os participantes, designados de sócios, para beberem o chá Hoasca dentro
de um ritual, denominado sessão. Quando uma unidade local é iniciada, primeiramente é
chamada de distribuição autorizada, depois de pré-núcleo e só posteriormente, quando
adquire uma estrutura material mais sólida e um quadro de participantes na hierarquia mais
amplo, é que atinge o nível de núcleo. O início de uma distribuição autorizada costuma
contar com por volta de 30 participantes. Já em um pré-núcleo o número de sócios é da
ordem de grandeza de 50. E um núcleo, por sua vez, pode ter desde uns 70 até por volta de
200 participantes. Porém, é comum que, ao alcançar o patamar de 150 sócios, o núcleo já
18

comece um processo de segmentação, pelo qual algumas pessoas se dispõem a sair do


núcleo e principiar uma distribuição autorizada em outro local da mesma cidade5.

No aspecto “espiritual”, o núcleo é dirigido, por um Mestre Representante. Esta


função é assim nomeada porque aquele que a ocupa representa o Mestre Gabriel, fundador
da UDV. O Representante integra o Quadro de Mestres (QM), o conjunto daqueles que têm
a função de comunicar a doutrina da União do Vegetal, designados com o nome de maior
poder simbólico na UDV: Mestre. Dentre os Mestres é feito um rodízio a cada dois meses,
para que um deles ocupe o lugar de Mestre Assistente, responsável por assistir o Mestre
Representante e os discípulos e conservar a disciplina durante o ritual. Até o presente, só há
uma mulher no Quadro de Mestres, Raimunda Ferreira da Costa, a Mestre Pequenina,
esposa de José Gabriel da Costa, que foi convocada por ele ao QM. Ainda que não haja
uma lei escrita da UDV vedando esse lugar às mulheres, muitos (e muitas) consideram que
somente os homens podem chegar a ser mestres. Depois do Quadro de Mestres, há na
hierarquia o Corpo do Conselho (CDC), formado pelos Conselheiros e Conselheiras,
auxiliares dos Mestres, junto com os quais formam a Administração do núcleo. Em
seguida, há o Corpo Instrutivo (CI), formado por aqueles discípulos que já freqüentam a
UDV há um certo tempo e têm um compromisso de participação maior nas atividades,
tendo sido convocados pelo Mestre-Representante para assistir as sessões instrutivas,
vedadas aos demais sócios, durante as quais são transmitidos os ensinamentos restritos da
União do Vegetal. Por fim, há o Quadro de Sócios (QS), formado por todos os discípulos
que se associam ao CEBUDV.

Essas “classes de discípulos” podem ser compreendidas de dois modos: num sentido
estrito, referindo-se apenas ao segmento que designam, ou num sentido abrangente,
incluindo também os segmentos superiores na hierarquia. Assim, num sentido estrito, os
discípulos do Quadro de Sócios são aqueles sócios que não são do CI, nem do CDC, nem
do QM. Já segundo um sentido abrangente, até mesmo os mestres fazem parte do QS6. Este

5
Recentemente, houve uma mudança das diretrizes da Diretoria Geral acerca desse processo. O procedimento
mais comum agora tem sido de manter o novo grupo reunido por um tempo no núcleo original. Somente
quando esse grupo se torna mais numeroso e já tem adquirido um terreno para sede definitiva, é que ele sai ,
formando um pré-núcleo, sem passar pela fase de distribuição-autorizada.
6
De acordo com o Estatuto da UDV, “o quadro de filiados do Centro, entre fundadores e efetivos,
compreende três classes de sócios: Mestres, Conselheiros e Discípulos”. Artigo 39 do Estatuto. (CENTRO
ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 86). Para mais informações a respeito da
estrutura hierárquica da UDV, consultar: GENTIL, Lucia Regina Brocanello e GENTIL, Henrique Salles. O
19

duplo sentido pode ser expresso num diagrama de círculos concêntricos, no qual as cores
distintas indicam o sentido estrito e o desenho dos círculos, os maiores englobando os
menores, indicam o sentido abrangente:

QUADRO
DE
MESTRES

CORPO DO
CONSELHO

CORPO
INSTRUTIVO

QUADRO
DE
SÓCIOS

No “plano material”, o núcleo está sob a direção de um presidente, também mestre,


que encabeça uma diretoria (presidente, vice-presidente, 1o e 2o secretários, 1o e 2o
tesoureiros, orador oficial), eleita por todos os sócios para um mandato de dois anos. À
diretoria cabe, entre outras funções, coordenar as atividades necessárias para a estruturação
material do núcleo, tais como: obras de construção do templo, casa de preparo do Vegetal,
cantina, banheiros, berçário; plantio de mariri e chacrona; eventos para a arrecadação de
fundos para as obras; organização do pagamento da mensalidade dos sócios7. Há ainda a

uso de psicoativos em um contexto religioso: a União do Vegetal. In: LABATE, Beatriz, ARAÚJO,
Wladimyr Sena, no prelo.
7
O valor médio da mensalidade, por todo o Brasil, é de 10 % do salário mínimo. Mas não há necessariamente
o mesmo valor para todos os núcleos, podendo haver algumas variações, de acordo com as necessidades e
condições do grupo. No Núcleo Alto das Cordilheiras o valor atual da mensalidade é de R$ 15,00. Há também
o Fundo de Participação, que se remete mensalmente para a Sede Geral, atualmente no valor de R$ 5,00 por
pessoa. Além disso, há a Taxa de Preparo, na ocasião em que se faz preparo (a cada 4 meses
aproximadamente). O valor é bem variável, para cobrir os gastos de transporte do mariri e da chacrona e
preparo do chá. Quanto a essas três taxas, importa observar que nos casos em que o sócio não pode pagar o
valor completo, é possível a ele falar com os responsáveis e só pagar o que estiver ao seu alcance.
20

função da Ogan8, mulher responsável por coordenar a arrumação do templo e sua limpeza,
assim como o que se refere à alimentação. Essa função é ocupada pelas Conselheiras, em
rodízio com duração de dois meses. O nome desta função é uma reminescência do tempo
em que Mestre Gabriel participava de cultos afro-brasileiros, nos quais, entre os ogãs,
auxiliares de confiança do chefe do terreiro, há aqueles que têm a responsabilidade de zelar
pela ordem, limpeza e conservação do terreiro.

A Sede Geral e os Departamentos no nível nacional

Até 1982, a Sede Geral do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal localizava-
se na cidade de Porto Velho, Rondônia. Naquele ano, houve a transferência da Sede Geral
para Brasília, Distrito Federal. Na Sede Geral fica o Mestre Geral Representante,
autoridade máxima do CEBUDV. Ele é eleito para um mandato de três anos pelo Conselho
de Administração, formado pelos mestres representantes de todos os núcleos, os mestres da
origem (aqueles que receberam do Mestre Gabriel a estrela de mestre) e mais alguns
mestres da Sede Geral, reunidos em sessão. No seu “aspecto material”, o CEBUDV é
administrado por uma Diretoria Geral, eleita para um mandato de três anos pelo mesmo
Conselho de Administração. A Diretoria Geral tem seus trabalhos dirigidos por seu
Presidente, ao qual “compete representar a sociedade”9.

Há, no nível nacional, departamentos que cuidam de áreas específicas: o


Departamento Jurídico, o Departamento de Memória e Documentação (DMD), o
Departamento Médico-Científico (DEMEC) e outros. O DMD foi chamado, a princípio, de
Centro de Memória e Documentação e “é responsável pela memória institucional da UDV,
coleta e registra o que diz respeito às suas origens e à história do Mestre Gabriel”
(GENTIL, GENTIL, no prelo). Por sua vez, o DEMEC foi fundado com o nome de Centro
de Estudos Médicos (CEM) e “dedica-se a assessorar a Administração Geral nos assuntos
referentes à saúde dos associados em todos os seus aspectos e desenvolve pesquisas
biopsicofarmacológicas em parceria com instituições científicas nacionais e internacionais.”
(Id.). Em novembro de 1995, o então CEM realizou a Conferência Internacional de Estudos

8
Palavra grafada com an no Boletim da Consciência em Organização, 7ª Parte. (CENTRO ESPÍRITA
BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 67).
9
Estatuto do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Artigo 11. (Id., p. 81).
21

da Hoasca, no Hotel Glória, na Cidade do Rio de Janeiro. Atividade emblemática do


esforço do CEBUDV em se estruturar institucionalmente e em conquistar credibilidade
diante do Estado, da opinião pública e da comunidade científica, a Conferência teve a
participação de um número significativo de pesquisadores de instituições acadêmicas
nacionais e do exterior. Vinculada à UDV, existe a Associação Novo Encanto de
Desenvolvimento Ecológico (ANEDE), ONG com objetivo de uma atuação ambientalista,
que recebeu a doação de uma ONG norte-americana de um seringal de 8.025 hectares no
Estado do Acre, o Seringal Novo Encanto. Além dos projetos de desenvolvimento
sustentável no seringal, a ANEDE tem monitores e sócios em cada unidade da UDV, os
quais tem realizado iniciativas de conscientização ecológica no nível local.

O processo de legalização do uso ritual da Hoasca

Em 1985, a Divisão de Medicamentos do Ministério da Saúde (DIMED) incluiu o


Banisteriopsis caapi em sua lista de substâncias proibidas. A direção do CEBUDV dirigiu-
se à Polícia Federal, para informá-la da interrupção do uso ritual da Hoasca em acatamento
à determinação do DIMED. Também apresentou ao Conselho Federal de Entorpecentes
(CONFEN) uma solicitação de exame da questão. O Dr. Domingos Bernardo Gialuisi da
Silva Sá, jurista conselheiro do CONFEN, foi designado presidente de um Grupo de
Trabalho (GT) de conselheiros do referido órgão para estudo e elaboração de um parecer10.
Os integrantes do GT realizaram visitas às comunidades usuárias do chá, em Rio Branco,
Acre: o Alto Santo, comunidade originária do Daime, a Colônia Cinco Mil da vertente
CEFLURIS do Daime, e o Núcleo do CEBUDV. Também foram visitados a comunidade
Céu do Mar, no Rio de Janeiro, e o Seringal Céu do Mapiá, no Amazonas, ambos do
CEFLURIS. Finalmente, o GT esteve no Núcleo Pupuramanta, do CEBUDV, no Rio de
Janeiro. Na conclusão dos trabalhos, em 1986, o CONFEN deliberou que o Banisteriopsis
caapi fosse excluído da llista de produtos proscritos da DIMED, na medida em que, como
afirma o Dr. Domingos Bernardo de Sá,
“não pôde o Grupo de Trabalho apurar um único registro, objetivamente comprovado,
que levasse à demonstração inequívoca de prejuízos sociais causados, especificamente,
pelo uso até então feito da ayahuasca”. (SÁ, Domingos Bernardo Gialuisi da Silva
Ayahuasca, a consciência da expansão 1996, p. 15).

10
O Dr. Domingos Bernardo Gialuisi da Silva Sá narrou as atividades do GT no artigo inédito Ayahuasca, a
consciência da expansão, que me foi gentilmente cedido pelo autor.
22

No entanto, esse parecer tinha ainda um caráter provisório, até que fossem completados os
estudos dos “múltiplos aspectos envolvidos no uso ritual de substâncias derivadas de
espécies vegetais, por comunidades religiosas ou indígenas, tais como os sociológicos,
antropológicos, químicos, médicos e da saúde, em geral.”11 Assim, o mesmo jurista
continuou presidindo o GT que em 1992 emitiu o parecer final sobre a questão da
legalização do uso ritual da ayahuasca, parecer que foi aprovado por unanimidade pelo
CONFEN, determinando que
“a ayahuasca, cujos principais nomes brasileiros são “Santo Daime” e “Vegetal”, e as
espécies vegetais que a integram, o “Banisteriopsis Caapi”, vulgarmente chamado de
cipó, jagube ou mariri e a “Psychotria Viridis”, conhecida como folha, rainha ou
chacrona, devem permanecer excluídos das listas do DIMED ou do órgão que tenha a
responsabilidade de cumprir o que determina o art. 36 da Lei 6.368, de 21/10/1976,
atendida, assim, a análise multidisciplinar constante no Relatório Final de setembro de
1987 e do presente parecer.”12

Ao fundamentar esta decisão, o Dr. Sá aponta que:


“Há mais de seis anos o uso da ayahuasca é legítimo no Brasil, desde a interdição de
1985, suspensa em 1986, e não se tem notícia de um único caso, cientificamente
comprovado, de problemas mentais efetivamente causados pelo referido uso.
Tampouco há referência a abuso ou qualquer outro comportamento perturbador da
ordem social.”
E chega a relativizar e questionar o aplicação do termo “alucinógeno” à ayahuasca:
“há, porém, conceitos intocados, mas não intocáveis que, de fato, constituem-se, muito
mais, em preconceitos, visto que, tantas vezes, são fruto de idéias simplesmente
herdadas e aceitas, sem jamais terem sido submetidas a qualquer análise crítica. Um
deles é o que se refere a alucinógeno e alucinação. Ao se definir, por exemplo, que
alucinação é percepção sem objeto, penetra-se em campo conceitual de extrema
dificuldade.”
Assim, depois de citar Mircea Eliade, que indica a falibilidade dos conceitos para expressar
as experiências extáticas, transcendentes ou metafísicas, ele conclui que é
“difícil o exame desapaixonado da questão, considerada a carga emocional que envolve
o termo alucinação, cujo verdadeiro significado é, praticamente, impossível de traduzir
conceptualmente.”

11
Resolução n. 6 do CONFEN, de 4 de fevereiro de 1986, publicada no D.O.U. de 5 de fevereiro de 1986.
12
Parecer final do GT do CONFEN, presidido por Domingos Bernardo de Sá, de 2 de junho de 1992.
23

O efeito do chá Hoasca na fisiologia humana

O chá Hoasca, preparado com o cipó Banisteriopsis caapi e o arbusto Psychotria


viridis, tem como princípios ativos os alcalóides derivados beta-carbolínicos da harmina,
tetrahidroarmina e harmalina, provenientes do Banisteriopsis, e a N,N-dimetiltriptamina
(DMT), da Psychotria. A atuação dessas substâncias no sistema nervoso central do ser
humano é descrita, de modo bem acessível a leigos, por Dennis McKenna, que inicia
esclarecendo que usa o termo “alucinógeno” com “o objetivo de obedecer à nomenclatura
científica padronizada”, que o utiliza para referir-se a uma “substância que quando chega ao
sistema nervoso humano produz alterações perceptivas e/ou do estado de consciência”. Ele
inicia apontando a atuação da DMT:
“É o componente principal quanto aos efeitos alucinógenos do chá. É inativo quando
usado oralmente, pois é rapidamente degradado por uma enzima presente em quase
todos os tecidos, principalmente no fígado - a monoaminoxidase (MAO). Essa
degradação é que causa a sua inativação. A ação da DMT é explicada pela semelhança
estrutural que mantém com a serotonina, importante neurotransmissor do sistema
nervoso central.” (MCKENNA, 1991, p. 15)
Na seqüência, é descrita a ação das beta-carbolinas provenientes do Banisteriopsis:
“O outro grupo de alcalóides é o das Beta-Carbolinas, das quais encontramos, no chá, a
Harmina, a Harmalina e a Tetrahidroharmina, como componentes principais. Sua ação
no sistema nervoso se verifica somente em dosagens muitas vezes mais altas do que as
encontradas normalmente na Hoasca. Sua ação principal, porém, é a de anular as
monoaminoxidases (MAO) do organismo. São encontradas principalmente no Mariri.”
(Id.)
Assim, a interação das beta-carbolinas e da DMT é o que produz a atuação da Hoasca no
organismo humano:
“Pode-se ver que a união desses dois vegetais num mesmo chá representa uma solução
bem inteligente, pois possibilita sua ação no sistema nervoso mesmo quando usada por
via oral. As Beta-Carbolinas ocupam-se das enzimas, abrindo espaço à ação da DMT.
Aos poucos, os tecidos vão fabricando mais monoaminoxidases (MAO) e, ao termo de
algumas horas, já não se sentem os efeitos do chá, pela degradação que aos poucos é
feita da DMT”. (Id.)

Na Conferência Internacional de Estudos da Hoasca, realizada em 1995 no Rio de


Janeiro, foram apresentados os resultados de uma pesquisa internacional articulada pelo
24

então Centro de Estudos Médicos da UDV, com a participação de nove universidades e


instituições de pesquisa do Brasil, Estados Unidos e Finlândia. A pesquisa, Farmacologia
Humana da Hoasca, foi realizada pela Escola Paulista de Medicina, Unicamp, UERJ,
Universidade Federal do Amazonas e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, do
Brasil, pelas Universidades da Califórnia, do Novo México e de Miami, dos Estados
Unidos e pela Universidade de Kuopio, da Finlândia. O projeto era constituído de cinco
partes: botânica e fitoquímica, clínica, psiquiatria, avaliação de usuário por longo período e
estudos em animais. Em Manaus foi feita a fase de campo da pesquisa, com 15 membros do
Núcleo Caupuri, que bebiam o chá há pelo menos 10 anos, e outros 15 não usuários da
Hoasca, como grupo de controle. Com esses 30 voluntários foram realizados extensos
exames clínicos, laboratoriais e aplicação de questionários, segundo os padrões científicos
internacionais. Houve também monitoramento clínico dos 15 usuários durante o período de
efeito da Hoasca.

O resultado da pesquisa apontou que a Hoasca “não causa qualquer padrão de


dependência, abuso, overdose ou abstinência” (FABIANO, 1996, p. 4). Além disso, “não
foi observado o surgimento de distúrbios mentais posteriores ao uso do chá”. (Id.) A
coordenação da pesquisa foi de Charles Grob, da Divisão de Psiquiatria da Criança e do
Adolescente da Universidade da Califórnia, que, em artigo acerca dos efeitos psicológicos
da Hoasca indica que
“Psychiatric diagnostic assessments revealed that although an appreciable percentage
of our long term hoasca using subjects had had alcohol, depressive or anxiety disorders
prior to their initiation into the hoasca church, all disorders had remitted without
recurrence after entry into the UDV. Such change was particularly noticeable in the
area of excessive alcohol consumption [...]. All eleven of these subjects with prior
involvement with alcohol achieved complete abstinence shortly after affiliating with
the hoasca church.” (GROB, 1996, p. 90).
Concluindo, Charles Grob afirma que:
“The ceremonial use of hoasca, as studied within the framework of this research
project, is clearly a phenomenon quite distinct from the conventional notion of ‘drug
abuse’. Indeed, its apparent impact upon the subjects evaluated in the course of our
inquiries appears to have been positive and therapeutic, both in self report as well as in
objective testing.” (Id., p. 93)
25

Uma nova perspectiva

As plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis são um recurso genético


disponível às populações da região amazônica, na qual essas plantas são nativas, e à
população brasileira de modo geral, na medida em que a expansão das religiões usuárias da
ayahuasca disseminou o plantio dessas espécies vegetais pelo território brasileiro.
Tradicionalmente, muitos povos da Amazônia, indígenas ou não, conhecem os
procedimentos e técnicas para a utilização dessas plantas como um meio para a obtenção de
um estado alterado de consciência. Assim, uma perspectiva jurídica consistente, sob o
ponto de vista antropológico, é considerar o uso de Banisteriopsis caapi e Psychotria
viridis como uma manifestação cultural associada a recurso genético da biodiversidade da
Amazônia. Tal perspectiva fundamenta-se também nos princípios defendidos pela
Convenção sobre Diversidade Biológica13, assinada por ocasião da Eco 92, a Conferência
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio
de Janeiro, em junho de 1992. O texto do tratado, já assinado por 175 países, afirma em
seu artigo 1º que:
“Os objetivos desta Convenção, a serem cumpridos de acordo com as disposições
pertinentes, são a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de
seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da
utilização dos recursos genéticos [...].”
Um episódio recente de “pirataria genética”, quando um cidadão norte-americano14
patenteou uma variedade de Banisteriopsis, suscitando um protesto maciço de comunidades
indígenas de diversos países, aponta para a necessidade de se salvaguardar os direitos
relativos aos conhecimentos tradicionais, associados a recursos genéticos, de comunidades
locais e populações indígenas.

13
Cf. Decreto Legislativo n. 2, de 3 de fevereiro de 1994, que ratificou a Convenção no Brasil. Disponível na
INTERNET, via http://www.mma.gov.br/port/CGMI/aviso/frame.html, no site do Ministério do Meio
Ambiente. Arquivo consultado em 1999.
14
No dia 17 de janeiro de 1986, Loren Miller recebeu uma U.S. patent de planta n. 5751,
com base na alegação de que descobrira uma nova variedade diferente de Banisteriopsis no
Equador, o que foi amplamente questionado. Esta patente, válida somente no território
norte-americano, não resultou em nenhum efeito prático relativo ao uso da ayahuasca, mas
foi considerado um precedente perigoso. (José Augusto Pádua, comunicação pessoal).
26

As dimensões do CEBUDV

O Centro Espírita Beneficente União do Vegetal realizou em 1998 um censo geral


dos seus participantes, sob a coordenação de Suely Martins Bomfim Melo, do Núcleo
Senhora Santana, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Já em 1991 e 1994, Glória Mura,
do mesmo núcleo, havia coordenado recenseamentos da instituição (MURA, 1995, p. 7).
Este é mais um elemento que indica o empenho do CEBUDV em sua organização
institucional. O mapa ao lado apresenta a distribuição de unidades administrativas do
CEBUDV no território brasileiro. A administração da UDV dividiu o Brasil em regiões,
cujo responsável é chamado de Mestre Central. As regiões são as seguintes, com o
respectivo número de sócios15:

Sede Geral Brasília, DF 177 sócios

1ª Região Rondônia (Porto Velho e Guajará Mirim) 528 sócios

2ª Região Amazonas, Pará, Roraima e Amapá 1105 sócios

3ª Região São Paulo e Caldas, MG 722 sócios

4ª Região Bahia 545 sócios

5ª Região Rio de Janeiro e Espírito Santo 428 sócios

6ª Região Rondônia (demais municípios) 565 sócios

7ª Região Acre 535 sócios

8ª Região Goiás e DF (sem a Sede Geral) 416 sócios

9ª Região Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul 353 sócios

10ª Região Paraíba, Pernambuco, Alagoas 388 sócios

11ª Região Ceará 365 sócios

12ª Região Minas Gerais 567 sócios

13ª Região Mato Grosso e Mato Grosso do Sul 386 sócios

TOTAL 7080 sócios

15
O número total de sócios de cada região inclui os filhos de sócios, adolescentes com idade entre 12 e 18
anos, que freqüentam a UDV.
27

Apresento a seguir o número dos participantes de cada região administrativa,


segundo cada uma das classes de filiados: membros do Quadro de Sócios (QS), do Corpo
Instrutivo (CI), do Corpo do Conselho (CDC) e do Quadro de Mestres (QM). Também
indico o número de filhos dos sócios na faixa de 12 a 18 anos (somente aqueles que
freqüentam a UDV), de adventícios (os que beberam o Vegetal pela primeira vez no
CEBUDV) no ano (98), o número de pessoas que se associaram no ano e o número
daqueles que foram afastados no ano. Finalmente, o número total de filiados: 5903; e o
número total somado ao número de adolescentes que bebem o chá: 7.080. Eis o quadro
geral do censo:

Regiõe QS CI CDC QM 12 a Adven Assoc Afas Assoc Assoc. +


s 18 t. . t. . Adol.
Sede 64 31 20 25 37 54 6 12 140 177
G.
1a. 101 202 89 42 94 343 35 21 434 528
2a. 488 305 91 37 184 418 120 158 921 1105
3a. 286 221 84 41 90 284 90 53 632 722
4a. 230 149 75 17 74 292 88 34 471 545
5a. 158 156 44 16 54 240 56 58 374 428
6a. 139 169 83 40 134 410 62 61 431 565
7a. 194 151 68 22 100 476 56 67 435 535
8a. 138 117 43 17 101 216 54 31 315 416
9a. 135 114 35 17 52 187 51 26 301 353
10a. 157 118 43 21 49 221 86 48 339 388
11a. 168 94 44 15 44 120 57 40 321 365
12a. 183 193 65 22 104 201 48 36 463 567
13a. 155 115 41 15 60 269 64 29 326 386
Total 2596 2135 825 347 1177 3731 873 674 5903 7080

Considerando-se a distribuição dos associados segundo as cinco regiões brasileiras,


tem-se o seguinte quadro:
NORTE 1ª 2ª 6ª e 7ª Regiões 2.733 sócios

SUDESTE 3ª 5ª e 12ª Regiões 1.717 sócios

NORDESTE 4ª 10ª e 11ª Regiões 1.298 sócios

CENTRO-OESTE 8ª e 13ª Regiões + Sede Geral 979 sócios

SUL 9ª Região 353 sócios

TOTAL 7080 sócios


28

Esta distribuição regional pode ser representada pelo seguinte gráfico, que indica as
proporções de cada região brasileira no total de associados do CEBUDV:

Distribuição dos associados


nas regiões brasileiras
5%
14% Norte 2733

39% Sudeste 1717

Nordeste 1298
18%
Centro-Oeste 979

24% Sul 353

Pode-se também elaborar um outro gráfico, no qual seja apresentada a distribuição


geográfica da UDV, segundo a dimensão das cidades onde se localizam os núcleos. Assim,
poder-se-á perceber melhor qual a significativa proporção do CEBUDV presente em meios
claramente urbanos e sob um maior influxo da modernidade. Mostro, então, os dados do
Censo de 1998 da UDV e comparo-os com as informações da Contagem da População de
1996, do IBGE16. De maneira bem esquemática, classifico as cidades brasileiras a partir do
número de seus habitantes. Para a confecção destas tabelas, convencionei três faixas de
população para a caracterização da dimensão das cidades. Considerei “metrópoles” as
cidades brasileiras de mais de 900 mil habitantes. Assim, são 12 cidades: São Paulo, Rio de
Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Curitiba, Recife, Porto Alegre,
Manaus, Belém e Campinas. Em todas elas há unidades do CEBUDV, em algumas várias,
totalizando 30 núcleos. Nesses, em 1998 estavam associados 3.349 discípulos, ou seja, 47
% do total da UDV no Brasil. Denominei “cidades médias” aquelas com mais de 100 mil e
até 900 mil habitantes. Nessas, estavam presentes 2.343 discípulos, que representavam 23
% do total. E, finalmente, contei como “cidades pequenas” aquelas com população de até

16
Vide, no Anexo 3, as tabelas completas com o número de associados por município brasileiro, comparado
com a população do respectivo município.
29

100 mil habitantes. Nessas cidades, havia 1.388 sócios da UDV, isto é, 20 % do total
nacional. Ainda que esta metodologia suscite dificuldades17, penso que ela pode ser útil
como simples recurso expressivo, que aponta diretamente para a constatação, por exemplo,
de que 80% dos discípulos da UDV no Brasil são habitantes de cidades de mais de 100 mil
habitantes. Eis os quadros com os dados:

REGIÃO NORTE:
DIMENSÃO N. de NÚCLEOS ASSOCIADOS PORCENT.
Metrópoles 6 799 29%
Cidades médias 8 955 35%
Cidades pequenas 16 985 36%

REGIÃO SUDESTE:
DIMENSÃO N. de ASSOCIADO PORCENT.
NÚCLEOS S
Metrópoles 8 932 54%
Cidades médias 6 471 28%
Cidadespequenas 4 314 18%

REGIÃO NORDESTE:
DIMENSÃO N. de NÚCLEOS ASSOCIADOS PORCENT.
Metrópoles 8 829 64%
Cidades médias 5 469 36%
Cidadespequenas 0 0 0%

REGIÃO CENTRO-OESTE:
DIMENSÃ N. de ASSOCIADOS PORCENT.
O NÚCLEOS
Metrópoles 6 593 60%
Cidades Médias 2 352 36%
cidadespequenas 1 34 4%

REGIÃO SUL:
DIMENSÃO N. de ASSOCIADO PORCENT.
NÚCLEOS S
Metrópoles 2 202 57%
Cidades médias 2 96 27%
Cidades pequenas 1 55 16%
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DA UDV NO BRASIL:

17
Na medida em que, por exemplo, não se pode dizer que pelo simples fato de ter uma população menor um
município é menos urbanizado que outro.
30

DIMENSÃO UNIDADES ASSOCIADO PORCENT.


UDV S
Metrópoles 30 3.349 47%

Cidades 23 2.343 33%


médias
Cidades 22 1.388 20%
pequenas
TOTAL 75 7.080 100%

PROPORÇÃO DO NÚMERO DE ASSOCIADOS


SEGUNDO A DIMENSÃO DA CIDADE:

20%
Metrópoles
47% Cidades médias
Cidades pequenas
33%
31

1.2. O NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS EM CAMPINAS

O Núcleo Alto das Cordilheiras foi o que escolhi para o trabalho de campo desta
dissertação. Para situar o leitor no ambiente que encontrei, cito a seguir as anotações que fiz
em meu diário de campo, no dia em que estive pela primeira vez no núcleo:
Ao meio-dia de hoje [16 de agosto de 1998] cheguei ao Núcleo Alto das
Cordilheiras, acompanhado pela Conselheira Inês 18, esposa do Mestre Daniel, e pela
Bete, que já foi do Núcleo São João Batista de São Paulo e do Núcleo Serenita, de
Salvador. No caminho, esclareci a elas que vim a Campinas apenas para estar na
Sessão de Escala de hoje. Falei que escolhi realizar meu trabalho de campo no núcleo
Alto das Cordilheiras e lhes disse as motivações.
Quando chegamos, a Inês me mostrou o Núcleo, as obras da grande estrutura
de pedra que será Casa de Preparo em cima e um salão embaixo, a antiga Casa de
Preparo, o chacronal e os laguinhos, um brejo que foi drenado, no qual se fez um belo
recanto, cheio de flores, com dois lagos em planos sucessivos, por onde a água passa,
produzindo sons suaves e doces. E há aí banquinhos para se sentar, onde, conforme
disseram, se pode ficar a meditar, ouvindo os murmúrios das águas. O Conselheiro
Nelson estava fazendo um pequeno terraço de pedra, onde será colocado um canteiro
de flores. Inês me mostrou também a mina d’água, onde se pensa fazer uma piscina
para lazer das crianças. Ao lado, há uma área onde Mestre Daniel pensa fazer um
carramanchão de mariris - que Inês já imaginou todo coberto de flores rosadas, um
belo cenário para encontros da irmandade. Depois sentamos nos banquinhos junto ao
lago e ficamos conversando.
Em seguida, subimos para junto do Salão e sentamos num jardim à sua frente,
onde fiquei conversando com o Lourenço, senhor com aproximadamente 55 anos, que
me disse que já trabalhou muito no terreno do Núcleo Lupunamanta e hoje trabalha
apenas “dando apoio moral”. Logo veio o Felipe, parente do Mestre Daniel (primo?),
se sentou no banco e começou a tocar violão, composições suas e de autores clássicos.
Seu professor foi nada menos que Paulinho Nogueira, seu parente também. Depois
entrei no Salão e encontrei o Mestre Francisco, PhD. em Engenharia, professor da
Unicamp. Eu já o conhecia de 1992.

18
Pseudônimo. Adotei o critério de mudar os nomes dos participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras,
escolhendo aleatoriamente nomes que não figuram na lista dos membros do núcleo, tendo em vista
salvaguardar mais a sua privacidade, já que nas entrevistas muitas vezes foram abordados asssuntos de foro
mais interno. Os pseudônimos aparecerão grafados em itálico.
32

Chegou a hora do almoço, e foi servida, sobre a mesa do Salão do Vegetal,


uma refeição deliciosa. Várias saladas, arroz integral, peixe e também carne. Sentei-me
entre o Mestre Francisco e o Carlos, equatoriano, PhD. em Arquitetura e também
músico - mais tarde o vi tocando um instrumento andino típico, um “quatro”. No
almoço, falou-me de um simpósio recente no Rio, acerca do uso revolucionário do
bambu em construções. Após comer, resolvi descansar um tempo na Casa de Preparo.
Lá estavam uns três “irmãos” fazendo blocos de cimento.

Considero que estas notas são bem evocadoras de vários aspectos de meu trabalho
de campo. Algo que logo salta aos olhos é a acolhida que recebi dos participantes do
núcleo. Em pouco tempo me senti à vontade com o grupo, com liberdade para me fazer
presente nas diversas atividades da “irmandade” e para perguntar nas entrevistas acerca de
tudo o que me parecesse relevante. Outro aspecto que esse trecho do diário já indica é o
estilo cultivado dos participantes do núcleo, indivíduos das camadas médias da cidade de
Campinas (ou da Cidade de São Paulo), a grande maioria com formação universitária e
muitos pós-graduados. Essa característica será exposta de maneira mais detalhada e
quantitativa no tópico seguinte, Os discípulos do Alto das Cordilheiras. Relacionado a isto,
está o que se poderia qualificar de um certo refinamento na sensibilidade dos membros,
perceptível naquele dia, no cuidado com os jardins do sítio, nos gostos musicais, na refeição
bem preparada, nos assuntos das conversas, e na própria delicadeza com que me receberam.
Estes aspectos que aponto permitem que se tenha uma idéia de uma característica do
trabalho de campo: foi uma experiência agradável. É relevante esse elemento subjetivo: a
interação prazeirosa com os participantes do Alto das Cordilheiras gerou em mim uma
empatia com o grupo estudado, da qual estou consciente e que não desejo ocultar ao leitor.
E não somente houve o prazer da convivência em ocasiões mais ou menos superficiais,
como o evocado no trecho acima, mas também momentos de entranhada comunhão de
sentimentos, por exemplo, quando nas entrevistas eram compartilhadas comigo vivências
de forte densidade e significado para a vida dos meus interlocutores. Se esta proximidade
afetiva abriu-me muitas portas e permitiu-me acesso a informações que outros não teriam,
por outro lado, certamente influenciou o meu enfoque. O tempo posterior ao trabalho de
campo, a reflexão antropológica sobre o amplo material coletado propiciaram-me um
distanciamento. Mas reconheço-me livre da ilusão de uma neutralidade do etnógrafo, e sei
que esta dissertação é um olhar interpretativo, entre tantos possíveis, sobre esse objeto.
33

Atividades realizadas durante o trabalho de campo

Permaneci quase três meses em Campinas, morando numa residência dos jesuítas,
enquanto realizava o trabalho de campo. Estive presente em várias sessões, em um preparo
de Vegetal, dias de trabalho no sítio, promoções para a obtenção de recursos para a
construção do núcleo, encontros informais de membros do núcleo, ensaios do grupo
musical... Busquei aproveitar todos os momentos de encontro dos participantes para me
fazer presente. E tive uma agenda densa de entrevistas durante toda a semana. A cada dia
tinha ao menos uma entrevista, às vezes duas, ou até três. As entrevistas duravam em média
duas ou três horas. Algumas vezes prolongaram-se por até seis horas. Realizei um total de
50 entrevistas. Colhi dados quantitativos de 59 membros.

As entrevistas, na maioria das vezes, foram realizadas nas residências dos


participantes do núcleo. Isto possibilitou-me um conhecimento maior da vida quotidiana
dessas pessoas. Por vezes, convidavam-me para jantar e depois ficávamos gravando a
entrevista até bem tarde da noite. Duas vezes, entrevistei simultaneamente um casal, mas
todas as demais foram entrevistas individuais, para que houvesse maior liberdade dos
entrevistandos. Também realizei algumas entrevistas no próprio núcleo, durante o preparo
de Vegetal em que estive presente. Assim, tive oportunidade de falar com pessoas que
estavam de burracheira, sob o efeito do chá Hoasca. Outra atividade bastante relevante
para a pesquisa foi a observação do ritual. Ouvir as falas dos participantes durante as
sessões teve grande importância para a compreensão da experiência vivenciada por eles.

Nas entrevistas, adotei a postura de tratar o entrevistando não como informante, mas
como interlocutor. Muitas vezes eles também me faziam perguntas, principalmente a
respeito de minha visão, enquanto padre da Igreja Católica, a respeito da União do Vegetal.
As entrevistas foram um momento em que não me furtei a falar de minha experiência. E,
por vezes, as declarações dos entrevistandos adquiriam um tom quase confessional, seja
compartilhando problemas pessoais, seja falando com extrema franqueza sua visão crítica
acerca do CEBUDV.
34

A organização do espaço no Núcleo

O Núcleo Alto das Cordilheiras situa-se em Joaquim Egídio, área rural do município
de Campinas, a aproximadamente 45 minutos de carro do centro da cidade. Os núcleos
costumam estar localizados em áreas distantes das cidades, onde não haja muito barulho ao
redor e se possa ter um terreno amplo. O Núcleo tem uma edificação central, que é
chamada de Templo, cujo espaço principal é o Salão do Vegetal. Na mesma edificação
principal há também uma cozinha, uma despensa, o banheiro feminino e o masculino. Ao
lado do Templo há um espaço para estacionamento de automóveis. Como o terreno tem um
declive, num platô abaixo do Templo está a Casa de Preparo, uma espécie de barracão de
madeira com uma fornalha, onde o chá hoasca é preparado ritualmente. Quase ao lado,
encontra-se o Chacronal, uma área cercada e coberta de tela na qual estão plantados os pés
de chacrona. Mais abaixo, próximo ao pequeno lago e ao córrego que passa no fundo do
terreno, está o plantio principal de mariri, ainda que haja pés do cipó em vários pontos do
sítio. Na parte mais alta do terreno, junto à entrada, situa-se a casa do caseiro, tendo ao lado
a casa das crianças ou berçário.

A sessão é realizada no Salão do Vegetal, uma sala, com capacidade para


aproximadamente 80 pessoas. Em lugar de destaque do salão há uma mesa retangular, com
um lugar à cabeceira, outro em frente a ela e oito lugares nas laterais. Na cabeceira, de
frente para a assembléia, fica o Mestre Dirigente da sessão. À sua direita, fica o Mestre
Assistente, responsável pela ordem e a disciplina da sessão. Ao seu lado, fica o discípulo
escalado para fazer a leitura dos estatutos do Centro. À esquerda do Mestre Dirigente, fica
um discípulo que na sessão fará uma explanação após a leitura dos estatutos. Os demais
lugares à mesa são ocupados por sócios dos vários graus hierárquicos. O lugar em frente à
cabeceira é o do Mestre Auxiliar, alguém - não necessariamente mestre - a quem se pede
licença para sair do Salão durante a sessão. Na maioria dos núcleos que conheço o pedido
de licença é feito ao Mestre Dirigente, mas a opção do Núcleo Alto das Cordilheiras de
designar outra pessoa para esta função visa evitar as interrupções freqüentes para
simplesmente se pedir licença para ir ao banheiro. Desse modo, o pedido de licença é feito
em voz baixa para quem se encontra sentado nesse lugar.
35

Em frente à mesa e nos seus dois lados, distribuem-se os assentos dos demais
participantes, bancos de madeira anatômicos e cadeiras de metal e fio plástico verde, que
possibilitam uma postura corporal mais relaxada durante as quatro horas e quinze minutos
de ritual. Atrás da mesa, fica apenas uma fila de cadeiras, reservadas para os mestres. Os
conselheiros e conselheiras ficam nas primeiras filas laterais. Em frente à mesa está a maior
parte das cadeiras, dispostas em várias fileiras. Quanto a estas, não há critério especial para
a sua ocupação, exceto que as cadeiras da primeira fila destinam-se prioritariamente para
visitantes ou pessoas que bebem o Vegetal pela primeira vez. É muito enfatizada a
necessidade de as pessoas andarem no salão, durante a sessão, no sentido anti-horário. Esse
é o sentido da força, a maneira como a força do vegetal circula no salão e nas pessoas. É o
mesmo sentido em que o cipó mariri sobe nas árvores da floresta. Assim, é preciso seguir
esse sentido ao caminhar durante a sessão, para se estar em harmonia com essa força,
possibilitando assim que ela flua do melhor modo entre todos. Para maior clareza quanto à
distribuição do espaço, veja-se a seguir o desenho da planta baixa do salão.

O espaço ritual é bem sóbrio, com poucos símbolos. As paredes são pintadas na cor
creme. Sobre a mesa, acima do lugar de quem dirige a sessão, há um arco de madeira
pintado de verde, com as seguintes inscrições em amarelo: ESTRELA DIVINA
UNIVERSAL UDV. E no arco estão desenhadas, também em amarelo, algumas estrelas de
cinco pontas e duas estrelas com cauda de cometa. Na parede atrás da mesa, há um quadro
com a foto do Mestre Gabriel, de pé sob um arco semelhante, tendo junto a si um copo de
Vegetal. Na parede em frente ao lugar do Mestre Dirigente há um relógio. Na mesa, à
direita do lugar do Mestre Dirigente, há um recipiente de cerâmica no qual se põe o
Vegetal. Ficam na mesa também jarras de água e copos para os participantes. O copo de
água do Mestre Dirigente é mantido cheio durante toda a sessão.
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PLANTA DO SALÃO DO VEGETAL DO

NÚCLEO ALTO DAS CORDILHEIRAS

LEGENDA:

Foto do Mestre Gabriel


Arco e Cadeira do Mestre Dirigente
Filtro com o Vegetal
Mesa
Aparelho de Som
Fila de Cadeiras dos Mestres
Cadeira do Mestre Representante
Fila de Cadeiras dos(as) Conselheiros(as)
Fila de Cadeiras dos Discípulos
Portas de Entrada
Cadeira do Mestre Auxiliar
Sentido da Circulação dos Participantes
Relógio
37

A estrutura de uma sessão de escala

Para as sessões realizadas no Salão do Vegetal, os membros da UDV vestem


uniforme. Os discípulos do sexo masculino usam calça branca com uma camisa verde com
as letras UDV bordadas em branco no bolso. As mulheres vestem calça amarela e uma
camisa igual à dos homens. Os(as) discípulos(as) do Corpo Instrutivo têm o mesmo
uniforme com a diferença de que o bolso de sua camisa verde tem as letras UDV em
amarelo. Os conselheiros e conselheiros têm em sua camisa, junto às letras UDV as letras
CDC (Corpo do Conselho). Os mestres vestem uma camisa que além das letras UDV e
CDC tem bordada uma estrela amarela. O Mestre Assistente porta sobre seu uniforme uma
faixa branca transversal com as seguintes letras em verde: UDV É OBDC. O Mestre
Representante do Núcleo veste uma camisa azul, com as letras UDV e CDC e a estrela.
Assim, olhando-se para o conjunto dos participantes, as cores do uniforme da União do
Vegetal são as mesmas da bandeira brasileira: verde, amarelo, azul e branco.

As sessões de escala, aquelas destinadas a todos os sócios, acontecem


quinzenalmente, no primeiro e no terceiro sábado do mês. Ainda que a etnografia de uma
sessão fosse grandemente interessante, com a descrição dos assuntos tratados pelo Mestre
Dirigente, as chamadas realizadas e a participação dos sócios, devido à limitação relativa ao
caráter reservado dos ensinos da UDV, limitar-me-ei a apresentar aqui a estrutura, o
esquema de uma sessão de escala.

A sessão se inicia pontualmente às 20 horas, com o pedido de atenção a todos, para


a distribuição do Vegetal. A assistência se coloca de pé, em silêncio. A distribuição se dá
hierarquicamente: o Mestre Dirigente da sessão serve a si e aos outros mestres, depois
aos(às) conselheiros(as), em seguida ao Corpo Instrutivo, aos membros do Quadro de
Sócios e por fim aos visitantes não uniformizados. As pessoas aproximam-se da mesa
formando uma fila que vem pela direita e sai pela esquerda (do ponto de vista de quem está
em frente à mesa), ou seja, no sentido da força.

Após a distribuição do chá, os mestres, conselheiros e discípulos do Corpo


Instrutivo o bebem. Depois, o chá é bebido pelo segundo grupo, os sócios que não são do
Corpo Instrutivo e aqueles que não são sócios. Na medida em que o Núcleo Alto das
38

Cordilheiras tem em torno de setenta participantes, esta primeira etapa do ritual, a


distribuição do chá, se estende por aproximadamente vinte minutos.

Tendo todos bebido o Vegetal, os participantes se sentam. O orador do núcleo


anuncia os visitantes de outro núcleo ou alguma pessoa que esteja bebendo o Vegetal pela
primeira vez, e deseja a todos “uma sessão plena de Luz, Paz e Amor”. O discípulo sentado
ao lado do Mestre Assistente lê então trechos dos documentos escritos da UDV, um
conjunto de normas e regulamentos, a maioria dos quais escritos ainda no tempo do Mestre
Gabriel. Tal leitura se prolonga por aproximadamente vinte minutos. É o tempo para que o
Vegetal comece a fazer efeito. É lido o Regimento Interno do Centro Espírita Beneficente
União do Vegetal, os Boletins da Consciência, o artigo Convicção do Mestre e os Mistérios
do Vegetal, texto em forma de acróstico falando do mariri e da chacrona. Após a leitura dos
documentos, o(a) discípulo(a) do Corpo Instrutivo ou Conselheiro(a) ou Mestre sentado(a)
à esquerda do Mestre Dirigente faz a explanação, um comentário sobre algum dos pontos
abordados nos documentos lidos. Nesse momento, a maioria dos participantes já está
começando a sentir a burracheira, palavra que para a UDV significa “força estranha” e é
usada para designar o efeito sentido pelas pessoas que bebem a Hoasca.

O Mestre Dirigente faz então as chamadas de abertura. Em meio a um silêncio


absoluto dos presentes, ele entoa hinos que têm importância fundamental no ritual. As
chamadas, como o nome indica, chamam a burracheira, a força estranha do Vegetal, para
que ela atue nos presentes. Assim, é através das chamadas que se orienta a sessão, ou seja,
que se canaliza o efeito do chá para os objetivos espirituais visados pela União do Vegetal.
Os dois pedidos mais presentes nas chamadas são luz e força. A luz, que está relacionada à
chacrona, é o princípio feminino presente no chá, a dimensão do conhecimento espiritual. A
força, atribuída ao mariri, é o princípio masculino.

Após as três primeiras chamadas, o Mestre Dirigente levanta-se e, caminhando no


sentido da força, pergunta individualmente para as pessoas sentadas à mesa e para os
Mestres e Conselheiros(as) ao redor dela se eles têm a burracheira. Tendo perguntado aos
que estão assentados próximos à mesa, o Dirigente em seguida se dirige à assembléia,
fazendo a mesma pergunta de uma só vez para todos aqueles aos quais ele ainda não
39

perguntou. E a assembléia responde afirmativamente, em coro. Esse rito é denominado


ligação da sessão.

Feita a ligação da sessão, o Dirigente volta a se sentar e faz a Chamada do Mestre


Caiano. Caiano é o primeiro hoasqueiro, a primeira pessoa que bebeu o Vegetal. Pede-se a
presença de Caiano para que a própria burracheira possa atuar, trazendo luz para os
caianinhos, ou seja, os seus discípulos, os membros da UDV. Esta chamada é central para a
abertura da sessão e nunca pode ser omitida. Logo depois, é o Mestre Representante, ou
algum mestre designado por ele, quem faz a quinta chamada de abertura. Na sequência, é
comum escutar-se música instrumental. Ouve-se uma música cuidadosamente escolhida
para “chamar burracheira”. Passam-se uns cinco minutos ao som da música, tempo no qual
as pessoas costumam sentir a burracheira crescer. Depois, o Mestre Dirigente costuma
fazer alguma outra chamada e em seguida dirige-se aos participantes, introduzindo algum
tema que será tratado na sessão. E ele diz que “o oratório está aberto”, ou seja, aqueles
que desejarem podem falar, perguntar, ou fazer chamadas, sendo necessário que antes se
peça licença ao Mestre Dirigente.

A sessão segue com ampla participação dos presentes. São feitas ao Mestre
Dirigente perguntas bem diversificadas, desde questões a respeito da doutrina da UDV,
passando por outras acerca do significado de determinada palavra numa chamada, até
perguntas a respeito do modo de agir dos discípulos no cotidiano, além de questões mais
filosóficas do tipo “o que é a verdade?”. Às perguntas vão se intercalando chamadas e
músicas. As canções brasileiras que se ouvem na sessão tocam temas relativos ao agir
humano, como o valor da amizade, da retidão, do amor, da harmonia, temas relativos à
natureza, ou temas mais propriamente religiosos: Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora.

Quando a sessão já se encaminha para a sua conclusão, se tornam mais freqüentes as


falas de participantes da sessão, que se levantam e vão para a frente dirigir palavras à
irmandade reunida. São várias vezes testemunhos sobre a importância da UDV na vida das
pessoas, expressões de gratidão, recordaçðes de aniversários de nascimento ou de inicío na
União. A seguir vêm alguns avisos práticos. Nesta parte da sessão já não se fazem mais
chamadas. São lidos os boletins de ocorrência dos núcleos de todo o Brasil, informando
quem foi convocado para ser conselheiro(a) ou mestre, assim como anunciando as pessoas
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que foram afastadas do Quadro de Mestres, do Corpo do Conselho, do Corpo Instrutivo ou


da “comunhão do Vegetal”.

Às 23 horas e 30 minutos, é feita pelo Mestre Dirigente a Despedida do Mestre


Caiano, uma chamada para despedir a burracheira. Então, o Dirigente se levanta e faz o
fechamento da ligação, andando no sentido inverso ao sentido da força e perguntando às
mesmas pessoas a quem se dirigiu no início da sessão se foi boa a burracheira. Após
receber deles a resposta afirmativa, o Mestre Dirigente faz as mesmas perguntas para todos
os outros membros da assembléia de uma só vez. O(a) discípulo(a) que fez a explanação dá
o aviso do dízimo, convidando os participantes a doarem “uma quantia não estipulada
para a compra de material de limpeza para a higiene do salão”. Nesse momento é feito
um intervalo de aproximadamente 25 minutos, durante o qual as pessoas podem se levantar
e conversar. É um tempo para que a burracheira, o efeito do chá, vá passando e as pessoas
possam ir gradualmente “aterrissando”, retornando ao estado de consciência “normal”.

Quando faltam por volta de cinco minutos para a meia-noite, todos voltam ao salão
e fazem silêncio. É feito o Ponto da Meia-Noite, chamada que salienta a importância do
tempo, voltando a atenção dos participantes para os ponteiros do relógio e marcando o
início de um novo dia com a renovação trazida por uma sessão de Vegetal. São dados mais
alguns avisos e em seguida, faz-se a chamada de fechamento. À 0 hora e 15 minutos
necessariamente conclui-se a sessão. E o Mestre Dirigente anuncia que "por hoje a sessão
está fechada".

Após a conclusão, as pessoas se levantam e têm um tempo intenso de inter-


relacionamento, partilhando as suas respectivas experiências durante a sessão. Na mesa do
salão é servido um lanche com refrigerantes, trazido pelo grupo que no dia estiver escalado
para essa função. A conversa costuma se estender por mais de duas horas, até que as
pessoas vão retornando para as suas casas.

Atividades da irmandade

Além das sessões de escala, realizadas nas noites dos primeiros e terceiros sábados
do mês, há uma série de atividades propostas para a “irmandade”. Primeiramente, há o
41

trabalho nos sábados de escala. Nos dias em que se tem sessão de escala à noite, desde a
manhã os discípulos costumam ir para o terreno, ou ir para o sítio, para realizar os
trabalhos necessários para a sua manutenção: cuidar do plantio de mariri e chacrona, dos
jardins e das dependências do núcleo. Como as pessoas vão de manhã, é preciso que
algumas se dediquem a preparar as refeições: o café, o almoço, a sopa antes da sessão e o
lanche da madrugada. Em outros núcleos que visitei, há uma claríssima divisão do trabalho
segundo o gênero: as atividades na cozinha são tarefa das mulheres. No Núcleo Alto das
Cordilheiras, ainda que para o almoço eu tenha visto mais o trabalho feminino, há uma
tendência de mais partilha desse trabalho com os homens. Assim, o lanche posterior à
sessão é trazido e preparado por grupos previamente escalados, que incluem homens e
mulheres.

Mas o trabalho nos dias de escala não se limita ao exposto acima, porque o núcleo
está em construção. No dia da comemoração dos sete anos do Alto das Cordilheiras estive
presente e foi distribuído a todos um cartão com os dizeres: “...estamos construindo um
templo...” Assim, todos os discípulos são motivados pela direção e por aqueles que se
colocam mais à frente das atividades a estarem em mobilização para a construção. Isso
significa disponibilidade para uma série de atividades: desde mutirões para fazer
diretamente alguma etapa da obra até a idealização e execução de eventos para a
arrecadação de fundos para a construção. Em algumas sessões ouvi o Mestre Representante
e o Presidente falarem da pouca participação dos discípulos nos trabalhos concretos. O
Núcleo Alto das Cordilheiras seria um dos núcleos da UDV “que mais precisaria mellhorar
nesse aspecto”. Não é de se surpreender que hajam algumas dificuldades nesse sentido, na
medida em que o perfil dos participantes, como será exposto a seguir, é de indivíduos que
em sua maioria se dedicam a um trabalho intelectual. Mas tem-se buscado soluções
criativas para essa questão. Assim, por exemplo, no período de trabalho de campo,
presenciei as atividades de um dia de sábado em que todos foram convocados para um
trabalho artístico com argila. Foram transmitidos ao grupo noções básicas de confecção de
peças de cerâmica por um “irmão” que trabalha profissionalmente na área e, em seguida,
um dos mestres, arquiteto e artista plástico, motivou as pessoas a deixarem seu impulso
criativo agir. Assim, todos se dedicaram a esta agradável atividade, fazendo esculturas e
vasos que depois foram vendidos em um bazar.
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No momento, a direção do núcleo tem como meta a conclusão das obras da nova
Casa de Preparo, que será integrada ao atual Salão do Vegetal. A presença de arquitetos e
de um administrador de construções entre os sócios do núcleo facilita a consecução do
empreendimento. Há um Departamento de Eventos, e constantemente tem-se realizado
almoços, bazares, festas, abertos para a participação de não-sócios, tendo em vista a
arrecadação de recursos. Dessa maneira, o núcleo toma quase as feições de uma central
promotora de eventos: são dezenas de pessoas, de nível acadêmico superior, organizadas e
empenhando-se na criação e realização de atividades geradoras de renda. Muitas delas são
de cunho cultural ou artístico. Nos últimos meses, tem havido, por exemplo: uma palestra
de um conhecido escritor de Campinas, filósofo e teólogo, um workshop de Programação
Neuro-Linguística, um seminário de design e oficinas de arte, além de um jantar japonês e
uma festa junina. Para a discussão, planejamento e avaliação desses eventos, assim como
para decidir tudo o que toca à organização material do núcleo, os discípulos realizam uma
atividade presente em todas as unidades da UDV: a Reunião de Diretoria. Todos os sócios
são convidados para participar dessa reunião, coordenada pelo Presidente do Núcleo, que
no caso do Alto das Cordilheiras costuma ser realizada a cada dois meses. A Diretoria tem
um boletim informativo mensal, o Comunidade, que começou a ser publicado quando
iniciei o trabalho de campo. Jornal impresso, de quatro páginas, além de trazer as
comunicações da Diretoria, está aberto à colaboração dos sócios, que participam com
artigos, crônicas, poesias.

O CEBUDV, como a seu própria denominação indica, tem uma dimensão de


beneficência. Assim, nos núcleos existe o Departamento de Beneficência. Eles auxiliam
famílias de Souzas e Joaquim Egídio em doação de alimentos para as pessoas da região. Há
outras atividades, como uma campanha no último inverno, para a arrecadação de peças de
roupa e cobertores, que foram doados a pessoas carentes do Distrito de Joaquim Egídio. No
entanto, alguns dos sócios entrevistados reconhecem que o núcleo ainda precisa expandir
muito as suas iniciativas de solidariedade com os mais necessitados.

Mas a agenda dos sócios não se limita ao descrito até aqui. Há também as atividades
propriamente religiosas, que não se restringem às sessões de escala. A mais significativa
delas é o Preparo de Vegetal. Periodicamente, aproximadamente a cada três meses, é
necessário preparar ritualmente o chá Hoasca. É uma atividade exigente, que demanda por
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volta de três dias de trabalho contínuo e um preciso conhecimento prático, para colheita do
mariri (o que na maioria das vezes se dá em outro local), colheita da chacrona, “bateção”
(maceração) do cipó, lavagem das folhas de chacrona, disposição dos dois vegetais em
camadas dentro de grandes tachos acrescidos de água, acompanhamento da fervura do
líquido durante horas e horas, coleta e armazenagem do chá preparado, que será bebido nas
sessões dos meses seguintes. O Preparo é o grande acontecimento da UDV, momento em
que se reforçam os laços de solidariedade entre os participantes através da partilha do
trabalho comum e da convivência informal e continuada. É também um momento que
muitos discípulos apontam como de aprofundamento da experiência religiosa de estado
alterado de consciência propiciada pela Hoasca, que é bebida várias vezes ao longo do
Preparo. E alguns apontam para uma dimensão alquímica do ritual: prepara-se um chá e
simultaneamente o discípulo prepara-se interiormente. Esse aspecto pode ser observado no
editorial do Informativo ComUnidade de setembro de 1999:
“Nos dias 28 e 29 do mês de agosto, realizamos um preparo de vegetal aqui no Núcleo
Alto das Cordilheiras, aproveitando a oportunidade de preparar o mariri caupuri, de
Belém.
A chacrona colhida é do nosso viveiro. Que a união do mariri e da chacrona, da Força e
da Luz, do norte e do sul - presentes no preparo - se façam presentes também em todos
nós.”

Um rito religioso de grande relevância para os discípulos é a Sessão Instrutiva, que


se realiza a cada dois meses, em um domingo, ao meio-dia, com aqueles discípulos que
foram convocados pelo Mestre Representante para formar o Corpo Instrutivo do Núcleo. É
o momento da UDV mais propriamente iniciático e esotérico, no sentido de constituir uma
esfera de segredo reservada aos seus participantes.

Todo esse conjunto de atividades exige dos participantes do Alto das Cordilheiras
uma considerável parcela de seu tempo. Essa pessoas, na medida em que conheceram a
UDV e se deixaram cativar por sua proposta, foram solicitadas pela própria dinâmica da
interação dos membros do núcleo a realizar mudanças em suas vidas que lhes permitissem
responder a essa demanda de participação. Mas, quem são esses sujeitos urbanos das
camadas médias da cidade de Campinas, que vem experimentando essa “conversão” do
individualismo da sociedade contemporânea para uma ética religiosa específica que
44

privilegia os valores comunitários? Buscarei delinear a seguir os traços básicos do perfil


desses participantes.
45

1.3. OS DISCÍPULOS DO ALTO DAS CORDILHEIRAS

No período de agosto até inícios de novembro de 1998, realizei o trabalho de


campo no Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas. Além das entrevistas qualitativas,
elaborei um breve questionário de duas páginas, o qual me possibilitou a obtenção do perfil
que exporei a seguir. O questionário foi respondido por 59 pessoas, dentre os 69 sócios que
o núcleo contava então. O motivo que me impossibilitou de recolher os dados de todos foi
principalmente o distanciamento de alguns, que no entanto ainda estão associados. Não
tenho pretensão de construir um quadro estatístico rigoroso. Minha intenção é apenas
utilizar estes dados limitados para delinear um “perfil” daqueles a respeito de quem esta
dissertação trata. Estes breves traços que se seguem possibilitarão que o leitor venha a ter
alguma idéia da inserção sócio-econômico-cultural dos participantes do núcleo.

No Núcleo Alto das Cordilheiras predominam pessoas na faixa dos 40 anos de


idade, os quais constituem 40% dos participantes. Na faixa dos 50 e dos 30 anos há
também em torno de 20% dos sócios. O número de jovens é mais reduzido: apenas 15% na
faixa dos 20 anos. Assim, o núcleo se caracteriza por uma maioria significativa de membros
adultos maduros, dos quais, como veremos adiante, a maior parte já bebe o chá há muitos
anos. Tal predomínio numérico dos mais maduros, tanto em idade quanto em tempo de
participação, tem as suas repercussões na dinâmica interna do grupo. Dentre os
pesquisados, há 30 mulheres e 29 homens, ou seja , praticamente um equilíbrio numérico.

Faixas Etárias Sexo


2%
5% 15% 19 a 29 anos (8)
30 a 39 anos (11) 49%
18% 51%
40 a 49 anos (22)
20% 50 a 59 anos (10)
60 a 69 anos (3)
70 a 79 anos (1)
Mulheres 30
40%
Homens 29
46

As procedências dos participantes, tendo em vista os seus locais de nascimento,


são diversas: são apenas 18% dos membros que nasceram na cidade de Campinas, 23% de
São Paulo e 25% do interior do Estado, 29% vêm de outros Estados e há ainda 5% de
estrangeiros. Entre os provenientes de Campinas, há uma porção significativa pertencente a
famílias tradicionais da cidade. Nas casas de alguns pude ver algumas fotos de bisavós dos
áureos tempos do café. Mas, como vimos, o contingente maior numericamente, é dos
nascidos em outros estados, os quais, somados aos que vieram do exterior (Europa,
América Latina, Oriente Médio), trazem um colorido de maior diversidade cultural ao
núcleo.

L o cal d e N ascim ento

C am pinas (8)
5%
1 8%
S ão P aulo (13)

2 9% Interior de S P
(14)
23 % O utros estados
(16)
E xterior (3)
25%

A grande maioria dos participantes, 82%, mora atualmente na própria cidade de


Campinas. Mas há um grupo de moradores de São Paulo, capital. Tal grupo, que perfaz
16% da irmandade, é composto em sua maior parte por pessoas que já participam da UDV
há mais de uma década. Esses normalmente não têm condições de estar presentes nos
mutirões, que acontecem quinzenalmente, nas manhãs e tardes dos sábados em que há
sessão de escala. Assim, a participação deles fica mais limitada à própria sessão, o que,
ainda que “desfalque” o trabalho do núcleo, é aceito pela direção. Mas há uma tendência a
querer que os novos participantes sejam de fato moradores de Campinas, para que possa
haver maior participação nas atividades. É importante ressaltar que há três núcleos da UDV
nos arredores da Cidade de São Paulo. Isso indica que, se essas pessoas optam por
“enfrentar a estrada” e ir até Campinas, é porque devem reconhecer um diferencial que
compensa o maior tempo dispendido e o desgaste de uma viagem mais longa.
47

Locais atuais de moradia

2%
16%

Campinas (46)
São Paulo (9)
Interior de SP (1)

82%

Quanto ao estado civil dos participantes, predominam os casados, perfazendo


53%, dos quais, por sua vez, 90% têm o cônjuge participando do próprio núcleo. Ou seja,
são apenas 3 as pessoas casadas cujo marido ou esposa não participa da UDV. Este é um
dado importante, e bastante específico da UDV. Demonstra a “ênfase familiar” do estilo de
vida dos discípulos da União do Vegetal. Por exigir uma participação que demanda uma
parcela de tempo bem maior que muitas religiões, a UDV se torna difícil para pessoas cujo
cônjuge não participa. Ter um sábado a cada quinzena ocupado, muitas vezes desde a
manhã até tarde da madrugada, sem contar os demais compromissos que surgem por
ocasião de eventos para angariar recursos, certamente não é algo fácil para os casados que
não são acompanhados por seu cônjuge. Além desse elemento prático, a insistência com
que na doutrina da UDV se elogia a constituição da família cria um ambiente favorável à
participação dos casais, havendo inclusive “sessões de casal” umas três vezes por ano, nos
meses em que há cinco sábados. De modo geral, na UDV os solteiros são de certo modo
estimulados ao casamento, mas no Núcleo Alto das Cordilheiras essa tendência é bem mais
discreta do que em outros núcleos. De qualquer modo, há entre os casados do núcleo uns
poucos que vieram a se conhecer no âmbito da UDV. No núcleo é significativa a presença
dos separados/as, desquitados/as ou divorciados/as, perfazendo no total 22%. Ao que
parece este percentual está acima da média da UDV. Pude observar que as pessoas desse
núcleo lidam com mais naturalidade com essa presença de “descasados/as” que outros
núcleos da UDV, ainda que algumas pessoas, principalmente mulheres, falem de algumas
manifestações de preconceito.
48

Estado Civil

9%
2%
Solteiro/a (13)
11% 23%
Casado/a (30)
2% Viúvo/a (1)
Divorciado/a (6)
Desquitado/a (1)
Separado/a (5)
53%

Quanto à escolaridade, trata-se de um dos aspectos mais específicos do Núcleo


Alto das Cordilheiras, em comparação com os demais núcleos da UDV. Há 78% dos
participantes com nível superior. São pouquíssimos os de nível primário (2 pessoas), e os
de secundário totalizam 10 pessoas, ou seja, 18%. Quanto aos de nível superior, há 5
pessoas (9% do total geral) que tem curso superior incompleto, 25 com a graduação
completa (44%), 4 com mestrado (7%) e 10 com doutorado (18%), alguns deles com a pós-
graduação ainda em curso. Esse contingente tão grande de pós-graduados certamente é o
mais elevado proporcionalmente em toda a UDV. Assim, o Núcleo Alto das Cordilheiras
tem um certo tom mais “cultivado” claramente perceptível, seja nas perguntas e respostas
durante as sessões, seja nos temas abordados, seja nas atividades e eventos realizados.

Escolaridade
Doutorado (10)
100%
10
Mestrado (4)
80% 4
Superior completo
60%
25 (25)
Superior
40%
incompleto (5)
5 Secundário (10)
20%
10
2 Primário (2)
0%
49

Áreas Profissionais
15 Artes e Arquitetura
15 14 - 15
11 Educação - 14
10
10
8 Saúde - 11

5 4 Ciência e Técnica -
10
0 Relações Humanas
-8
1 Estudantes - 4

No que toca às áreas profissionais às quais os membros do núcleo se dedicam,


pode-se observar a incidência maior de determinadas profissões. A partir das respostas à
questão “qual a sua profissão?”, a qual permitia que cada um desse mais de uma resposta,
se fosse o caso, agrupei as profissões citadas de um modo um tanto quanto arbitrário,
apenas para que se tenha uma idéia das áreas mais presentes. A primeira em número de
citações (15) é a que chamei “Artes e Arquitetura”. O Mestre Representante do núcleo é
arquiteto, e, provavelmente devido ao seu círculo de contatos, há 6 arquitetos no núcleo, ou
seja mais de 10% do total pesquisado. A eles foram somados alguns músicos e artistas
plásticos. Há alguns meses músicos profissionais e amadores do núcleo têm se reunido
semanalmente com vistas à realização de um projeto de formação de um grupo musical
profissional. Essa presença significativa de artistas pode ser relacionada a um tom
“sensível” e outsider19 que reveste esse núcleo de uma certa peculiaridade dentre os demais
da UDV. Em seguida, a segunda maior área é a da “Educação” (14). São 8 os professores
universitários, 2 deles mestres e 3 conselheiros. Há também um significativo número (11)
de profissionais da área de “Saúde”: são 6 médicos, 4 psicólogos e 1 dentista. No conjunto,
percebe-se um claro predomínio das áreas humanas e biológicas sobre as exatas.

19
Emprego aqui esta expressão no sentido apontado por Becker: “I have been using the term ‘outsiders’ to
refer to those who are judged by others to be deviant and thus to stand outside the circle of ‘normal’ members
of the group.” (BECKER, 1966, p. 15).
50

N o mo me nto e mpre g ado ?


S im - 38

4%6% N ão - 5
6%
10%
A pos entado/a - 3

S om ente
74% es tudante - 2
S om ente dona
de c as a - 3
A grande maioria dos membros do núcleo encontrava-se empregada no tempo
da pesquisa. São 74% com emprego, os quais, somados aos aposentados (6%), donas de
casa (6%) e estudantes (2), perfazem 90% do total de membros. Há somente 5 pessoas
(10%) que se afirmaram desempregados.

Quanto à participação político-partidária, 60% não é nem filiado nem


simpatizante de algum partido político. Há somente 1 pessoa que tem filiação partidária, no
caso ao PT. E há 38% que, mesmo sem serem formalmente filiados, se declararam
simpatizantes de algum partido: a maioria do PT, 15 pessoas, o que perfaz 72% dos que têm
simpatia por partidos. E o PV tem 3 simpatizantes (14%), assim como o PSDB.

Participação Partidária
Simpatizantes de Partidos
Filiado (1)

Não, nem simpat.


14%
60% 38% (34) Simpatizante PT
Simpatizante (21) 14% (15)
Simpatizante PV
2% (3)
72% Simpatizante
PSDB (3)

No que toca ao nível sócio-econômico, a grande maioria (86%) se reconhece


como integrante da classe média. Dentre esses, 56% do total afirmam pertencer à classe
“média média”, e 14% à “média inferior”. Já quanto à “classe trabalhadora”, outros 14%
assim se identificaram. No entanto, houve uma certa ambigüidade quanto a esse último
termo, de modo que nem sempre essa classificação coincidiu com o grupo daqueles que têm
a mais baixa renda familiar mensal. Ainda que haja uma parcela significativa que tem renda
51

familiar mensal acima dos 30 salários mínimos (30%), ninguém se considera da classe alta,
mas 16% se vêem como integrantes da classe média alta. Se somarmos aos que ganham
mais de 30 salários mínimos os que recebem de 20 a 30 salários (18%), chegaremos aos
48%, ou seja, poder-se-ia dizer que quase a metade dos sócios do núcleo tem um padrão de
vida confortável. Enquanto isso, os que têm renda entre 10 a 20 salários são 30%, os quais,
somados aos que recebem de 5 a 10 salários (13%), perfazem 43% nesse nível mediano. E
apenas 5 pessoas (9%) estão na faixa inferior, com renda de 0 a 5 salários mínimos.

0 a 5 salários
Faixa de renda familiar mensal
mínimos -5

5 a 10 salários
9% mínimos - 7
30% 13%
10 a 20 salários
mínimos - 17

20 a 30 salários
mínimos - 10
30%
18%
mais de 30
salários mínimos
- 17
52

Classe social

0% 14%
16%
trabalhadora - 8
14% média inferior - 8
média média - 31
média alta - 9
alta - 0
56%

Quanto a bens imóveis ou bens de consumo duráveis, é interessante observar


que 39 pessoas dentre as 56 pesquisadas (69% do total) têm casa própria e 46 pessoas
possuem automóvel (82% do total). E 42 (75%) têm computador, dos quais 37 (66%) têm
conexão com a Internet.

Bens possuídos
total pesquisado -
60 56 56
49 casa própria - 39
50 46
39 42
37 telefone - 49
40

30 automóvel - 46

20 computador - 42
9
10 conexão Internet -
37
0 casa de
1 praia/campo - 9
53

Tempo de Participação na UDV Pirâmide doTempo


de Participação na UDV
14% 9%
0 a 4 anos - 5 20 a 24 anos -
8 8
5 a 9 anos - 14 15 a 19 anos -
25% 20
20
10 a 14 anos - 9 10 a 14 anos - 9
9
36%
15 a 19 anos - 14 5 a 9 anos - 14

16% 20 5
0 a 4 anos - 5
20 a 24 anos -
8

Quanto ao tempo de participação na UDV, a média entre os discípulos do


Núcleo Alto das Cordilheiras é bem alta: 12,6 anos. Dividindo-se o tempo em 5 faixas, até
os 24 anos de participação, observa-se que a faixa entre 15 e 19 anos de participação é a
mais numerosa: 20 pessoas, ou 36%. Há ainda aqueles que já têm 20 anos ou mais (até 24)
de participação na UDV, os quais são em número de 8, ou 14%. Assim, se somarmos esses
dois grupos, chegamos à surpreendente afirmação de que 50% dos participantes do núcleo
tem mais de 15 anos de UDV. Este dado aponta para a maturidade do grupo em seu
percurso religioso de uso ritual do chá hoasca.

Lugar na Hierarquia
9%

30%
18%

Quadro de Sócios - 17

Corpo Instrutivo - 24

Corpo do Conselho - 10
43%
Quadro de Mestres - 5
54

No que toca ao lugar na hierarquia da UDV, a maioria, 24 pessoas (43%) se


encontra no Corpo Instrutivo (CI). O Quadro de Sócios é menor: apenas 17 pessoas (30%).
O Corpo do Conselho (CDC), que com os Mestres integra a Direção do Núcleo, é formado
por 10 pessoas (18%), enquanto que o Quadro de Mestres (QM) tem a metade, 5 pessoas
(9%). O gráfico em forma de pirâmide abaixo é bem esclarecedor, na medida em que cada
grau abrange também os que se encontram acima dele. Assim, por exemplo, quando há
sessões instrutivas, participam os do CI, do CDC e do QM. O topo da pirâmide, o Quadro
de Mestres, está até agora vedado à participação das mulheres.

Pirâmide do Lugar na Hierarquia

5 Quadro de
10 Mestres - 5
Corpo do
24 Conselho - 10
Corpo Instrutivo -
24
17
Quadro de Sócios
- 17

Observando quais as religiões anteriores dos participantes do núcleo, vê-se que


há um predomínio significativo dos católicos: 37 pessoas, 66% do total. A seguir vêm os
que não tinham religião antes da UDV: 10 pessoas ou 18%, imediatamente seguidos pelos
espíritas kardecistas, 9 pessoas ou 16%. Há também um número razoável de pessoas 6
(10%) que freqüentaram sociedades esotéricas, como a Ordem Rosacruz. Na seqüência
aparecem 16 religiões, cada uma com de 3 a 1 menção. Essa variedade exuberante é bem
conforme a um certo traço “buscador” de muitos que procuram a UDV e lá permanecem. O
número relativamente alto de pessoas sem religião acena para algo que as entrevistas várias
vezes apontaram: como a experiência de estado alterado de consciência com o chá hoasca
propiciou para vários agnósticos ou ateus uma descoberta da dimensão religiosa da
existência que os levou a uma “conversão”.
55

Religiões Anteriores

"Ecumênica" 1
Haja Yoga 1
Meditação Transcendental 1
Quimbanda 1
Taoísmo 1
Sufismo 1
Xamanismo 1
Islamismo 1
Mórmons 1
Igreja Ortodoxa 1
Igrejas Evangélicas Pentecostais 1
Judaísmo 2
Igrejas Evangélicas
2
Budismo
3
Candomblé
3
Umbanda
3
Ordens Esotéricas
6
9
Espiritismo Kardecista
10
Sem religião
Catolicismo
37

0 20 40

O catolicismo também é o mais numeroso no gráfico das religiões das mães dos
membros do núcleo, 38 pessoas o mencionaram. A seguir se encontra a UDV, o Espiritismo
Kardecista e Igrejas Evangélicas, cada um dos três com 4 menções. Quanto às religiões dos
pais, o catolicismo também é o primeiro, mas com um decréscimo em relação às mães,
apenas 29 mencionaram esta como a religião de seus pais. Aqui é significativo o número de
pais sem religião: 8. Esse grupo sem religião é bem mais reduzido entre as mães: apenas 2.
56

R eligiões do s Pais
Esoterismo

Igreja O rtod oxa


1
1 Juda ísmo
2 M órm ons
3
Igreja s Eva ngélicas
4
4 Espiritismo Karde cista
5
8 UDV

29 Sem religiã o

C ato licismo
0 10 20 30

Religiões das Mães


"Ecumênica"

Igreja Ortodoxa
1
Mórmons
1
1 Sei-cho-noie

2 Sem religião
2
Igrejas Evangélicas
4
4 Espiritismo Kardecista
4 UDV
38
Catolicismo

0 10 20 30 40
57

Estes breves traços aqui expostos podem possibilitar ao leitor alguma idéia da
inserção sócio-econômico-cultural dos participantes do núcleo. No entanto, estou
consciente das limitações deste quadro, como por exemplo a ausência de dados a respeito
dos participantes da UDV como um todo, para efeitos comparativos. Além disso, é
importante perceber que não se trata de “dados brutos”. Há certamente, dados objetivos,
como a idade das pessoas. Mas, a todo momento manifesta-se o filtro da percepção
individual, seja a dos informantes, seja a minha própria. Por exemplo, ao responder acerca
de sua inserção em determinada classe social, cada qual se enquadrou segundo os seus
próprios critérios a respeito do que vem a ser “classe média média” ou “classe média alta”.
Ou, quando perguntei acerca da religião dos pais, a maioria das pessoas respondeu
apontando para apenas uma, ainda que seus pais possam ter múltiplas pertenças religiosas
simultâneas, sem falar na diversidade de pertenças diacronicamente. Portanto, este capítulo
expressa, de certo modo, a representação que os próprios participantes fazem de si, a partir
do recorte traçado por mim. Assim, este “perfil” tem algo de “impressionista” - trata-se
simplesmente de um olhar para alguns aspectos selecionados por mim e informados pelos
próprios discípulos do Núcleo Alto das Cordilheiras.
58

2. A ESTRELA DO NORTE
2.1. A VIDA DE MESTRE GABRIEL

“Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras da claridade...”


João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

Neste capítulo delinearei, a partir das narrativas de participantes, o itinerário


histórico fundacional da União do Vegetal, tanto em Rondônia, quanto, depois, em São
Paulo. Em 22 de julho de 1961, José Gabriel da Costa fundou a União do Vegetal, na
Amazônia, em região próxima à fronteira entre o Brasil e a Bolívia. No ano de 1965, José
Gabriel da Costa mudou-se para Porto Velho, onde consolidou a União recém-fundada.
Ainda em vida de Mestre Gabriel, foi fundado o núcleo de Manaus e em 1972, um ano após
seu falecimento, já se inaugurou o núcleo de São Paulo. Inicio apresentando a trajetória de
José Gabriel da Costa e relacionando-a com aspectos da especificidade cultural brasileira.
Acompanhando o percurso de sua vida, é possível tecer uma ampla rede de relações com
diversas configurações culturais presentes na sociedade brasileira.

O menino de Coração de Maria

Segundo declarações de familiares20, no dia 10 de fevereiro de 1922, ao meio-dia,


na Fazenda Arroz, no município de Coração de Maria, próximo a Feira de Santana, na
Bahia, nasce José Gabriel da Costa. Filho de Manuel Gabriel da Costa e Prima Feliciana da
Costa. José nasce em uma numerosa família de treze irmãos: João, Dionísio, Otacílio,
Pedro, Romão, Maria, “Miúda”, José Gabriel, “Sinhá”, Alfredo, Antônio, Maximiano,
Hipólito. No livro União do Vegetal: Hoasca; Fundamentos e Objetivos, o único texto
editado para o grande público até o momento pela instituição, apenas três páginas tratam da
vida do fundador da UDV. Assim, tivemos de buscar informações junto a parentes e outras
pessoas que com ele conviveram, além de pesquisar no jornal Alto Falante, do
Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV.

20
Depoimento de Antônio da Costa, irmão de José Gabriel da Costa, em 4 de novembro de 1995.
59

De acordo com seus parentes, desde pequeno, José já se destacava como alguém
especial. Contam que ainda criança, ele auxiliou uma mulher com dificuldades de parto. O
bebê se encontrava mal posicionado e a parteira temia que morressem mãe e filho. José
entra no quarto, manda todos saírem, tranca a porta e logo em seguida a destranca. Quando
o menino abre a porta, simultaneamente nasce a criança.

Na década de 20, o menino José cresce em um meio rural fortemente marcado pelo
catolicismo popular. Uma recordação que narram de sua infância é que o “garoto ia aos
domingos à igreja de sua cidade e levava com ele um barbante. Durante a missa, amarrava
as pessoas umas às outras, pelos passantes das roupas, sem que elas percebessem”
(CENTRO DE ESTUDOS MÉDICOS DA UDV, 1993, p. 1)21. Também conta o seu irmão
Alfredo:
“Minha mãe era muito devota e zeladora da igreja onde a gente congregava e ía à
missa. E ela tinha o capricho de levar os filhos pra fazer a primeira, segunda e terceira
comunhões. E justamente, não sei se na segunda ou na terceira comunhão, ele
representou alguma coisa ao padre, que eu não sei o que possa ter sido, que o padre
ficou abismado. Ele se confessou e na confissão contou ao padre um assunto religioso.
Não foi uma história qualquer, certamente, que o padre ficou espantado. Depois, o
padre passou a dizer à minha mãe: ‘Dona Prima, aquele menino seu é qualquer coisa.
A senhora cuide daquele menino, que ele é bem diferente. Ele me representou lá um
ato que eu fiquei bobo. Não sei. Onde é que aquele menino esteve?’ E minha mãe:
‘Não, ele não sai de casa, trabalhando junto com os outros, indo à escola, escolinha
fraca...’ E o padre: ‘É. Aquele menino tem qualquer coisa.’ Chamava-se Padre
Orlando, um italiano.”22

Adiante, continua Alfredo a falar da participação de seu irmão nas devoções do


catolicismo popular baiano:
“Ele não era homem de só andar com o nome de Deus na boca. Mas ele gostava de
rezar. Nossa tia era uma rezadeira, Tia Rosa. Rezadeira de terço naquelas casas. Então
o pessoal vinha chamá-lo pra rezar. E ele, por ter voz bonita pra cantar - e lá tinha
aqueles benditos - minha tia levava ele. E ele tinha aquele catecismo que os padres

21
O texto continua: “José Gabriel da Costa - Mestre Gabriel - era esse menino. Fundou a União do Vegetal
para continuar unindo as pessoas.”
22
Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa a Edson Lodi, em 17 de abril de 1987, na Estância Centro-Oeste. In:
Memórias, Volume I. Centro de Memória e Documentação do CEBUDV. p. 59.
60

davam pra gente se preparar. Pois aquele catecismo ele lia de cor. E sabia aquela
ladainha, Salve Rainha. Ele rezava cantando. O pessoal vinha sempre chamar pras
novenas de Santo Antônio e as do mês de Maria, que eram dois meses de festa. Ele
acompanhava tudo. Então, era uma pessoa devota. Lá em casa tinha uma grande festa,
que meu pai comemorava mesmo. Era aquela chegança. Era o 6 de janeiro. Chamava-
se marujada. E José era um dos marujos. Eles representavam aqueles tempos de Reis
Magos.”23
Nas chamadas, hinos entoados durante o ritual da União do Vegetal, há referências
constantes a Jesus e a santos católicos: a Virgem da Conceição, São João Batista, a Senhora
Santana, São Cosme e São Damião. E até hoje o dia 6 de janeiro, Dia de Reis, é celebrado
na UDV.

Aos 13 anos de idade, em 1935, emprega-se num estabelecimento comercial. Aos


18 anos, presta serviço militar voluntariamente na Polícia Militar da Bahia, chegando em
poucos meses à patente de cabo de esquadra. Segundo seu irmão Antônio, atualmente
também mestre na UDV, José Gabriel “conheceu todas as religiões, conheceu os terreiros
de Salvador, andou por todas as religiões procurando a realidade”24. Segundo outro mestre,
José iniciou na “ciência espírita com apenas 14 anos de idade”25. Provavelmente, esta
informação refere-se à participação de José em terreiros de candomblé, e não em centros
kardecistas, com os quais entretanto ele também entrou em contato, só que posteriormente,
em Salvador. Em 1942, José Gabriel passou a morar em Salvador26.

Segundo o pesquisador Afrânio Patrocínio de Andrade, que em 1995 fez uma


dissertação de Mestrado em Ciências da Religião, na Universidade Metodista de São Paulo,
acerca da União do Vegetal, José Gabriel freqüentou sessões espíritas kardecistas na Bahia
(ANDRADE, 1995, p. 170). Foi, aliás, em Salvador que teve início o espiritismo kardecista
no Brasil, no ano de 1865. Luís Olímpio Teles de Menezes fundou nesse ano o centro
espírita Grupo Familiar do Espiritismo (GIUMBELI, 1995, p. 29)27. De acordo com
Patrocínio de Andrade, certos temas recorrentes na União do Vegetal poderiam ter sido
colhidos do espiritismo kardecista. Antes de mais nada, a visão reencarnacionista, um dos

23
Id., p. 65.
24
Depoimento de Antônio da Costa, id.
25
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d., p. 2.
26
Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa. Id. p. 49.
27
Cf. tb. KLOPENBURG, 1960, p. 25.
61

eixos fundamentais da visão de mundo da UDV. Assim como o lema “Luz, Paz e Amor”,
denominado o “símbolo da União”, poderia provir dos temas espíritas da “luz interior”, da
“paz de espírito” e do “amor ao próximo” (ou caridade). A própria ênfase na “União” é
freqüente entre os espíritas no Brasil. (ANDRADE, Id.)

O capoeirista

Segundo um mestre que conviveu com ele, José “foi considerado pelos prosadores
populares um dos melhores poetas da região; como cantador repentista teve sucesso
inclusive em Alagoas e Sergipe”28. Também se destacou na capoeira, chegando a ser
considerado um dos melhores capoeiristas do Nordeste. O livro de Ruth Landes, A cidade
das mulheres, nos auxilia a traçar um panorama dos ares soteropolitanos da década de 30,
que José tantas vezes respirou. A autora é levada por Edison Carneiro para assistir uma
capoeira. Ela descreve detalhadamente a seqüência do jogo, e em certo momento, observa:
“silenciados os ecos do desafio, terminada a rodada, os dois homens andavam e corriam
sem descanso em sentido contrário aos ponteiros do relógio, um atrás do outro, o campeão
à frente com os braços levantados” (LANDES, 1967, p. 117. Grifo meu). É interessante
notar que no ritual da UDV a circulação das pessoas no salão se faz também no sentido
anti-horário, pois este é o “sentido da força”. Na capoeira, José cultiva uma série de
habilidades postas em prática posteriormente, em suas experiências de incorporação nos
toques de caboclo como Sultão das Matas. Do mesmo modo, tais habilidades também
foram exercitadas como Mestre da UDV.

Evocadora desse ambiente capoeirista é a cantiga de domínio público gravada por


Nara Leão, às vezes tocada em sessões da UDV:

“Minino, quem foi teu mestre?


Meu mestre foi Salomão.
A ele devo dinheiro,
saber e obrigação.
O segredo de São Cosme
quem sabe é São Damião, olê
Água de beber, camarada
água de beber, olê
Água de beber, camarada
faca de cortar, olê
Faca de cortar, camarada,

28
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho. Id.
62

Ferro de engomar, olê


Ferro de engomar, camarada
Perna de brigar, olê
Perna de brigar, camarada.
Minino, quem foi teu mestre?”29

Estaria relacionada à capoeiragem uma das explicações possíveis, apresentada por


familiares, para a viagem do jovem José da Bahia para o Norte. De acordo com relato de
seu filho Carmiro Gabriel da Costa, em 1943, José envolve-se num conflito. Um amigo seu,
de nome Mário, tem o pé pisado por um policial. José Gabriel “compra a briga do Mário”.
Este foge e os policiais seguram José. Num golpe de destreza, ele consegue se desvencilhar
dos policiais. Segue para um navio, para onde tinha ido se refugiar o amigo Mário. Os dois
se alistam no Exército da Borracha e rumam para o Norte no navio Pará, da frota do Lloyd
Brasileiro.

Tudo indica que Mário era companheiro de capoeira de José Gabriel. No mundo da
capoeiragem na época, a ética dos grupos sublinhava a importância da solidariedade e
fidelidade entre os camaradas. E eram freqüentes os conflitos entre os grupos, com a polícia
ou com indivíduos de outros segmentos da sociedade. Em dissertação acerca da capoeira no
Rio de Janeiro de 1890 a 1937, Antonio Pires afirma que “as relações de conflito e
solidariedade na capoeiragem estiveram permanentemente relacionadas com os conflitos
mais gerais da sociedade” (PIRES, 1996, p. 143). Parece que já se esboça nesse tempo a
preocupação de José Gabriel com a “justiça”. Sua participação na capoeiragem em Salvador
não conflita com seu engajamento profissional, primeiramente como comerciário e depois
como enfermeiro. Como observa Antonio Pires quanto à capoeira no Rio, “a maioria dos
capoeiras comprovaram manter vínculos com o ‘mundo do trabalho’, descaracterizando o
estereótipo de vadios construído em relação a eles.”30

29
Cf. outra cantiga semelhante, recolhida por Edison Carneiro:
“Minino, quem foi teu mestre?
quem te ensinô a jogá?
- Sô discip’o que aprendo
Meu mestre foi Mangangá
Na roda que ele esteve,
outro mestre lá não há.” (CARNEIRO, 1974, p. 138).
30
Id., p. 201.
63

O seringueiro do Exército da Borracha

Chegando a Manaus, José Gabriel e Mário embarcam no navio Rio Mar, com
destino a Porto Velho, onde chegam “em 13 de setembro de 1943, às 20 horas; neste
mesmo dia estava sendo festejada a criação do Território do Guaporé”31. Os dois vão juntos
para o trabalho na seringa e fazem um “pacto de amigo”, de só se separarem pela morte.
Como narra Carmiro:
“Quando ele veio da Bahia, ele veio com um amigo dele chamado Mário. E eles
fizeram um pacto de amigo de se separar só com a morte. E vieram lá pra aquela
região, a região do Alto Guaporé. E lá naquela época os patrões de seringal levavam os
seringueiros lá pra cortar a borracha e na hora de tirar o soldo, que é o valor que a
pessoa tem a receber do patrão, eles mandavam os capangas pra tirar o soldo. [...] Mas
não era bem isso, não, ele ia lá, matava o seringueiro e contratava outro. O cara
trabalhava e pagava com a vida. [...]
Aí ele [Gabriel] disse: ‘- Mano nós vamos se embora’.
‘- Se embora?’
‘- Nós vamos se embora porque amanhã os capanga do gerente vai vir aqui e vai matar
nós dois. E contou a história pra ele’.
‘- Gabriel, tu vai, que eu não posso andar’.
Ele disse: ‘- Eu lhe carrego!’
‘- Mas rapaz, tu vai te atrasar.’
‘- O pacto que nós temos é nos separar com a morte. Tu ainda está vivo. Quando tu
morrer eu te enterro.’ ”32
José Gabriel cumpre até o fim esse pacto, chegando a carregar Mário nas costas por vários
quilômetros. Quando o doente morre, seu amigo sozinho o enterra na floresta.

Tendo chegado no Território do Guaporé33, atual Estado de Rondônia, José Gabriel


se inseriu num ambiente com uma configuração ecológica e sócio-cultural bem distinta da
Cidade de Salvador. O extrativismo da borracha, depois de seu período de boom, entre 1890
e 1912, havia em seguida atravessado uma fase de declínio, devido à concorrência no
mercado internacional da borracha extraída na Ásia. Com a Segunda Guerra Mundial,
apresentou-se a necessidade de borracha para os exércitos Aliados. Com a assinatura de
31
Hilton Pereira de Pinho, s.d. p. 2.
32
Depoimento de Carmiro Gabriel da Costa, filho de José Gabriel da Costa, em 4 de novembro de 1995.
33
A respeito do Território, vide a dissertação de mestrado em história de Emanuel Pontes Pinto, Criação do
Território Federal do Guaporé: fator de integração da fronteira ocidental do Brasil. (PINTO, 1992).
64

acordos com os Estados Unidos, o Governo Vargas iniciou uma ampla campanha de
recrutamento de trabalhadores, principalmente nordestinos, para a extração gomífera no
Norte. Em 30 de novembro de 1942, foi criado o Serviço Especial de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia, SEMTA, que, no período de menos de um ano durante o
qual funcionou, teria encaminhado 13 mil pessoas, segundo um depoimento de seu chefe34.
Essa agência foi substituída pela Comissão Administrativa de Encaminhamento
Trabalhadores para a Amazônia, CAETA, que funcionou até 1945 e teria enviado à
Amazônia, de acordo com um relatório, 24.300 nordestinos. Assim, ainda que haja outras
estimativas numéricas, segundo esses dados oficiais, teriam sido levadas para o Norte pelo
SEMTA e pela CAETA um total de aproximadamente 40 mil pessoas (MORALES, 1999,
p. 88-92).

No ano de 1943, José Gabriel integra essa massa de trabalhadores nordestinos que
se lançam como “brabos” nos seringais amazônicos. “Brabo é gente que nunca cortou
seringa, nunca andou na floresta. Sofremos muito, como brabo” - declara Pequenina, esposa
de José Gabriel35. O sofrimento daqueles homens, submetidos a condições de vida e
trabalho extremamente penosas, em um ambiente desconhecido, sem o auxílio
governamental prometido pela propaganda oficial, ficou bem marcado na memória dos
sobreviventes da “batalha da borracha”. A antropóloga Lúcia Arrais Morales, em sua tese
doutoral a respeito dos soldados da borracha, recolheu o seguinte depoimento, de um Sr.
Chico, ex-integrante do Exército da Borracha, que bem se assemelha ao da esposa de José
Gabriel:
“Saímo de Manaus de noite. [...] Nós cheguemo lá, aí o cabo disse: ‘aqui veio 35
homens para você, pra seu pai’. [...] Aí a casa dele era bem pequenininha. Num tinha
onde a gente dormir. Dormimo no teto mermo. Carapanã! Carapanã, e agora, a
comida? Tudo brabo, tudo! A gente já tinha deixado a Companhia [SEMTA]. Aí
fiquemo sofrendo. Fiquemo jogado que nem cachorro na beira do rio. [Qual?] era o
Solimões acima de Tefé. Aí eu disse: ‘ombora pessoal! vamo meu povo!, bora cuidar!,
bora se virar’. Aí embarquemo numa canoa veia [velha], jogada por ali, furada.
Arremendamo com pano, com vara. Outros pegaram pau, pedaço de tauba e fumo
procurar colocação pra cortar seringa.” (MORALES, 1999, p. 236).

34
Depoimento de Paulo de Assis Ribeiro, Chefe do SEMTA, à CPI acerca dos soldados da borracha em 13
de agosto de 1946. (MORALES, 1999, p. 89, nota 6).
35
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. In: Alto Falante, Jornal do Departamento de Memória e
Documentação da UDV. Brasília: ago-out 1995, p. 6.
65

Morales observa que aqueles que conseguiram sobreviver a condições tão adversas
foram homens de significativa inteligência e iniciativa, que conseguiram adaptar seus
esquemas de percepção e recursos cognitivos à nova realidade em que se encontravam:
“Era a questão da sobrevivência mesma que estava em jogo e, por isso, precisavam agir
de forma conseqüente. Não ficaram à mercê dos acontecimentos, esperando uma ajuda
externa. [...] É frente a isso que o Sr. Chico diz: ‘ombora pessoal! bora se virar!’.
Adotam, então, uma linha de ação onde predominam a iniciativa e a coragem. Onde
prevalecem a concentração dos recursos da percepção, da memória e da atenção para
dirigir esforços na descoberta de meios capazes de resolver a questão.” (Id., p. 243)
José Gabriel foi um desses homens de aguda inteligência e destreza, que não somente
conseguiu sobreviver como chegou a ser considerado pelos seus companheiros como o
“Tuchaua”, o seringueiro que coletava maior quantidade de seringa na região36. Tais êxitos
eram acompanhados de dureza e sofrimento, como quando José Gabriel pisou em uma
arraia, e teve de passar “um ano e dez meses sem poder andar, de muleta”.37

O ogã do terreiro de Chica Macaxeira

Depois de trabalhar um tempo no seringal, José Gabriel muda-se para Porto Velho,
onde fica trabalhando como servidor público, enfermeiro no Hospital São José. Conhece,
em 1946, Raimunda Ferreira, chamada Pequenina, com quem se casa no ano seguinte. Do
casamento nasceram os seguintes filhos: Getúlio, Jair, Jandira, Salomão, Benvindo,
Carmiro, Abomir e José Gabriel Filho. Em Porto Velho, “Seu” Gabriel atendia pessoas em
sua casa, pois jogava búzios. Mais tarde, se torna Ogã e Pai do Terreiro de São Benedito, de
Mãe Chica Macaxeira38. Esse terreiro foi citado por Nunes Pereira (PEREIRA, 1979, p.
121-143. 223-225), que o visitou, possivelmente em meados da década de 60 ou no início
dos anos 70. O pesquisador maranhense reconhece o terreiro de Porto Velho como sendo da
tradição mina-jeje, oriundo da Casa das Minas. “Os toques, inegavelmente, tinham a
rítmica que me era familiar não só da Casa das Minas, de São Luís do Maranhão, como do
Bogum de Mãe Valentina, em Salvador, Estado da Bahia.” (Id., p. 223).

36
Entrevista de Mestre Florêncio. In: Alto Falante. Brasília: fev-set 1996, p. 8.
37
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id., p. 6.
38
Entrevista do Conselheiro Paixão. Alto Falante. Brasília: abr-jun 1995, p. 8-9.
66

É surpreendente descobrir que Nunes Pereira encontrou no Terreiro de Chica


Macaxeira uma “inovação no ritual mina-jeje, o uso da ayahuasca. E isso, sem dúvida, para
estimular, paralelamente, com os cânticos rituais e com a voz sagrada dos tambores, ogãs e
gôs, o estado de transe, a possessão que ligam os Voduns do panteão daomeano ou do
ioruba às gonjais e noviches que o cultuam” (Id. p. 142). Ora, no tempo em que José
Gabriel lá trabalhava como Ogã, não havia utilização da ayahuasca no culto, tanto que ele
somente viria a conhecer a bebida anos depois, no seringal. Assim, é legítimo supor que,
possivelmente, a Mãe-de-Terreiro Chica Macaxeira conheceu a ayahuasca através de seu
antigo Ogã e Pai-de-Terreiro José Gabriel. Quando Nunes Pereira visitou o terreiro, o
conjunto dos cânticos era lá denominado Doutrina da Ayahuasca. “Nomes de santos
católicos, nalguns desses cânticos, se misturaram com os dos Voduns mina-jejes, tais como
Xangô, Badé, Avêrêquête, e os ditos Barão de Goré, Sultão das Matas, Marangalá,
Jatêpequare, Tindarerê, etc.” (Id. p. 143, grifo meu). É significativo que nos anos 60 ou 70
haja a presença do Sultão das Matas na lista das entidades do terreiro, já que, como se verá
adiante, José Gabriel recebia esse caboclo quando trabalhava num terreiro que armou no
seringal, nos anos 50.

O Sultão das Matas e os xamãs da fronteira boliviana

Até 1950, José Gabriel morava com Pequenina em Porto Velho. O casal já tivera
dois filhos: Getúlio e Jair. Além de trabalhar como enfermeiro, ele tinha também uma
“taberna de bebidas”. E gostava de política. Os dois partidos que disputavam o governo do
Território do Guaporé eram liderados pelo Major Aluizio Ferreira, ex-diretor da Estrada de
Ferro Madeira-Mamoré que tinha sido o primeiro governador do Território, e o Tenente
Coronel Joaquim Vicente Rondon (PINTO, 1992, p. 216). José Gabriel era pró-Rondon. No
entanto, seu candidato perdeu, e ele foi perseguido em seu emprego público no hospital.
Tendo de se afastar de seu trabalho, José resolve voltar para o seringal.

Mais tarde, quando estão no Seringal Porto Luís, Pequenina fica sabendo de um
chá: “o pessoal vê isso, vê aquilo, o cara falou até com o filho depois de morto”39. Ela fala a
José Gabriel e ele vai pedir o chá ayahuasca a quem o distribuía no lugar, o Mestre Bahia.
Mas o homem disse que “não dava o Vegetal praquele baiano que sabe aonde as andorinhas

39
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id. p. 7.
67

dormem”40. Aí ele volta mais uma vez para Porto Velho e monta o comércio de novo.
Assim, na década de 50, a família de José Gabriel e Pequenina esteve indo e voltando para
o seringal e Porto Velho.

Tendo se mudado para o seringal Orion, José Gabriel abriu o terreiro no qual
“recebia” o caboclo Sultão das Matas. Como recorda Mestre Pequenina, “vinha gente de
tudo quanto era seringal”41 consultar o Sultão das Matas. E ele curava as pessoas, assim
como indicava o lugar certo onde se encontrava caça. Adaptando-se a um novo contexto
sócio-ecológico-cultural, José Gabriel dirige um rito sincrético afro-indígena, no qual o
valor simbólico da floresta, que perpassa toda a vida dos seringueiros, fica evidente. Tal
rito, designado pelo filho de José Gabriel simplesmente como “macumba”42, parece
assemelhar-se à pajelança cabocla amazônica43, uma forma de xamanismo não-indígena na
qual tem importância fundamental a noção de incorporação do curador por entidades
espirituais que agem através dele para a cura dos doentes. No entanto, certamente
permaneciam marcantes nos toques do Seringal Orion os elementos religiosos afros
vivenciados anteriormente por José Gabriel, seja na Bahia, seja em sua participação no
Terreiro de São Benedito de Porto Velho.

Posteriormente, a família volta para Porto Velho. Depois de um tempo, ele decide
vender tudo e ir novamente para o seringal. As crianças estavam em idade escolar. Sua
mulher, então, discorda:
“Eu disse: ‘Não, o que é isso? Eu não nasci no seringal, em mato. Não quero criar
meus filhos sem saber ler e escrever.’ Ele disse: ‘É porque eu vou atrás de um tesouro.’
Mas eu era uma pessoa de cabeça cheia de muitas coisas e achei que era riqueza
material que ele ia achar, e nós ia enricar, ter uma vida de rosa. Então, quando ele disse
que ia, eu disse: ‘Então, vamos.’ Então eu digo que esse tesouro que ele encontrou
junto comigo e os dois filhos, pra mim, é um tesouro tão maravilhoso que dinheiro
nenhum não paga essa felicidade. (...) Então, esse tesouro, que é a União do Vegetal,
tem me amparado.”44

40
Id., p. 7.
41
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id., p. 7.
42
Id., p. 9.
43
Cf. MAUÉS, Raymundo Heraldo. Padres, Pajés, Santos e Festas: Catolicismo popular e controle
eclesiástico. Belém: CEJUP.
44
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Alto Falante. Brasília: ago-out 1995, p. 7.
68

Nestas palavras de Mestre Pequenina e provavelmente também na afirmação de José


Gabriel, poder-se-ia detectar a presença dos motivos edênicos que povoaram o imaginário
das populações que se defrontaram com a floresta amazônica. Nos sonhos e anseios dos
nordestinos pobres que se lançam na aventura da borracha ecoam ainda as buscas das
“estranhas coisas deste Brasil”: do Eldorado, da Lagoa do Vupabuçu, ou da serra anunciada
por Filipe Guillén, “que ‘resplandece muito’ e que, por esse seu resplendor era chamada
‘sol da terra’ ” (HOLANDA, 1994, p. 36-37). Posteriormente, o sonho do tesouro a ser
encontrado na selva é ressignificado, passando a expressar a União do Vegetal, que nasce
da floresta, de um líquido também dourado, denominado por vezes de “chá misterioso”45.

Tempos depois, no seringal Guarapari, numa colocação chamada Capinzal, na


região da fronteira boliviana, José Gabriel recebe pela primeira vez o chá, de um
seringueiro chamado Chico Lourenço, no dia 1° de abril de 1959. Chico Lourenço
representa uma tradição indígena-mestiça de uso xamânico da ayahuasca que se espalha
por uma ampla região da Amazônia ocidental. Tal tradição é designada posteriormente pela
UDV como a dos “Mestres de Curiosidade”. Aí se inicia nova etapa na trajetória de José
Gabriel.46

O Mestre e Autor da União do Vegetal

José Gabriel bebe três vezes o chá com Chico Lourenço e, logo depois, viaja por um
mês para levar um filho doente a Vila Plácido, no Acre. Quando retorna traz um balde com
o cipó mariri e folhas de chacrona que colheu no caminho. Diz à mulher: “Sou Mestre,
Pequenina, e vou preparar o mariri” 47. Segundo seu filho Jair, “nesse período o Mestre
Gabriel não deixou a macumba não. Ele fazia uma Sessão de Vegetal e uma de umbanda.”48

45
Artigo: Convicção do Mestre. In: Jornal O Alto Madeira. Porto Velho, 7 de outubro de 1967.
46
Haveria muito a observar acerca da tradição “vegetalista” amazônica, o que transbordaria o âmbito desta
breve exposição da trajetória de José Gabriel da Costa. Remeto aos textos de Luis Eduardo Luna e Edward
MacRae citados na bibliografia.
47
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Id. p. 8.
48
Id. p. 9.
69

Somente em 1961 ele reuniu as pessoas e disse: “Eu quero falar pra vocês que tudo
que o Sultão das Matas fez eu sei: Sultão das Matas sou eu.”49 Este é um dos momentos
mais importantes de ruptura de José Gabriel com a tradição religiosa à qual estava ligado
anteriormente. Ao postular para si mesmo o poder antes atribuído à entidade Sultão das
Matas, o agora Mestre Gabriel nega a incorporação dos cultos de caboclo e configura o
transe que será típico da União do Vegetal: a burracheira. A burracheira, que segundo
Mestre Gabriel significa “força estranha”, é a presença da força e da luz do Vegetal na
consciência daquele que bebeu o chá. Assim, trata-se de um transe diverso, no qual não há
perda da consciência, mas sim iluminação e percepção de uma força desconhecida.

Em seguida, Mestre Gabriel e sua família se mudam para o seringal Sunta. No dia
22 de julho de 1961, ele reúne as pessoas para um preparo de Vegetal. Nesse dia, o Mestre
Gabriel declara criada a União do Vegetal. Ou melhor, afirma que a UDV foi recriada, já
que ela teria existido no passado, quando ele mesmo teria vivido em outra encarnação. No
dia 6 de janeiro do ano seguinte, Mestre Gabriel se reúne com doze Mestres de Curiosidade
no Acre, em Vila Plácido. Numa sessão, eles reconhecem Gabriel como o Mestre Superior.
Finalmente, no dia 1° de novembro de 1964, no seringal Sunta, é realizada uma sessão na
qual o Mestre Gabriel afirma que fez a Confirmação da União do Vegetal no Astral
Superior. Logo depois, em 1965, ele se muda para Porto Velho, para lá consolidar a
nascente instituição. Apenas seis anos depois, se deu o falecimento de José Gabriel da
Costa, no dia 24 de setembro de 1971.

Descrevendo-se em largos traços a vida de José Gabriel da Costa, fica patente a sua
participação numa larga seqüência de configurações culturais muito próprias da sociedade
brasileira: o catolicismo popular rural do interior da Bahia, a capoeiragem e os cultos afro-
brasileiros de Salvador, a vida sofrida de seringueiro na Amazônia, a experiência de
incorporação dos cultos de caboclo, o transe xamânico do hoasqueiro, e, finalmente, a
atuação carismática do fundador de um novo movimento religioso.

A maleabilidade, a destreza, a vivacidade e a ginga da capoeira capacitaram José


Gabriel a elaborar uma criativa síntese de diversos elementos culturais e religiosos, num
culto profundamente adaptado à realidade sócio-cultural amazônica. E não apenas adaptado

49
Id. p. 9.
70

a esta, mas com virtualidades para se expandir por todo o Brasil, exatamente por ser
constituído por uma invenção vigorosa que se apropriou de configurações provenientes de
diversas regiões brasileiras.

Comparemos essa trajetória do fundador da UDV com o que Gilberto Freyre aponta
acerca da maleabilidade da formação religiosa brasileira:
“Verificou-se entre nós uma profunda confraternização de valores e de sentimentos.
Predominantemente coletivistas, os vindos das senzalas; puxando para o
individualismo e para o privatismo, os das casas-grandes. Confraternização que
dificilmente se teria realizado se outro tipo de cristianismo tivesse dominado a
formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo;
calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relações
quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casas-
grandes, das igrejas sempre em festas - batizados, casamentos, ‘festas de bandeira’ de
santos, crismas, novenas - presidiu o desenvolvimento social brasileiro.” (FREYRE,
1992, p. 355).

José Gabriel da Costa, nascido nessa sociedade propensa a hibridismos, plena de


plasticidade e inclusividade, elabora uma nova religião que também é “doce”, na medida
em que privilegia o sentir e propicia ao indivíduo espaço para que ele próprio construa suas
reinvenções criativas.
71

2.2. OS PRIMEIROS ANOS DA UNIÃO DO VEGETAL EM PORTO VELHO

“Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez?”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

A descrição dos inícios da União do Vegetal em Porto Velho, depois que José
Gabriel da Costa decide mudar-se definitivamente para a capital do Território, não é
meramente a continuação lógica de um relato histórico acerca das origens da UDV.
Considero que a observação do processo de solidificação e institucionalização da nova
religião em Porto Velho possibilitar-nos-á uma compreensão mais ampla do movimento em
direção aos meios urbanos que mais tarde se verificou na “ida da UDV até o Sul”. Perceber
como a “ida à cidade” já aconteceu nos inícios, ou melhor dizendo, ver como a UDV veio a
ser criada em meio a um movimento de ir e vir da família de José Gabriel do seringal a
Porto Velho, nos servirá para desnaturalizar a “ida até o Sul dessa religião da floresta
amazônica”. Assim, o diálogo cultural da “floresta” (focalizada no tópico anterior) com a
“cidade” (objeto deste tópico) é constitutivo da criação do próprio Centro Espírita
Beneficente União do Vegetal.

Nos sete anos de contato com a União do Vegetal, já tive a oportunidade de


conhecer nove “mestres da origem”, além de dois filhos de Mestre Gabriel e um irmão dele,
sendo estes três últimos também mestres da UDV. Especialmente relevantes foram as
entrevistas com o M. José Luiz de Oliveira, atual Mestre Assistente do Mestre Geral
Representante (a 2a pessoa na hierarquia), e com o M. Raimundo Carneiro Braga, ex-
Mestre Geral Representante. Além das entrevistas feitas por mim, foi-me valiosa a consulta
aos arquivos do Departamento de Memória e Documentação, onde há o registro de várias
entrevistas com os mestres antigos, algumas das quais publicadas no Jornal Alto Falante50.
A partir das narrativas dessas pessoas, buscarei desenhar em largos traços o início da UDV
em Porto Velho, sem pretensões de elaborar um relato histórico compreeensivo, visando
mais apresentar um perfil dos participantes, as dificuldades e os conflitos daquela etapa
inicial da presença da UDV em meios urbanos.

50
Publicação do CEBUDV, que durante alguns anos circulou impressa, com tiragem de até 4.000 exemplares,
e atualmente é publicada eletronicamente, na Internet. Vide na bibliografia os números consultados.
72

Segundo vários relatos, é no ano de 1965 que José Gabriel da Costa transfere-se
com a sua família para Porto Velho, capital do então Território Federal de Rondônia. Antes
dessa mudança definitiva, desde 1951 a 1959, segundo sua esposa Pequenina, o casal esteve
em constantes idas e vindas de Porto Velho para os seringais e vice-versa. Mas agora, em
1965, Gabriel não vai à capital simplesmente motivado pelas dificuldades dos seringais,
tentando vida melhor na cidade. Ele, conforme declarações suas gravadas em fita cassette,
tem a auto-consciência de ser o portador de uma missão: plantar a União do Vegetal na
Terra, para que um dia a UDV chegue a “fazer a paz no mundo”.

Quando chegou em Porto Velho, José Gabriel da Costa ficou morando com sua
família na Rua Abunã, no 1.215. Sua casa era muito pequena, sem espaço para se realizarem
sessões. No mesmo ano de 1965, bebeu o Vegetal com o Mestre Gabriel o Sr. Raimundo
Carneiro Braga, segundo ele mesmo afirmou em entrevista. Ele contou que o grupo que
participava das sessões era pequeno:
“Eram bem poucas [pessoas], não lembro bem. Só sei é que quando começamos havia
16 sócios; posso comprovar porque tenho lá em casa o primeiro livro. Eu lidava
naquela época com a tesouraria, por isso tenho esse primeiro livro guardado.”

Hilton Pereira de Pinho, já falecido, um antigo amigo, de José Gabriel da Costa, o


conheceu “em 1946, no km 101 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré”51. José Gabriel fazia
frete de lenha no local e Hilton trabalhava como ferroviário. Posteriormente, ele veio a ser
um dos primeiros a receber a “estrela de mestre” e foi o primeiro presidente da Associação
Beneficente União do Vegetal. Vinte anos após o primeiro contato com o amigo, ele veio a
beber o Vegetal pela primeira vez nos inícios do ano de 1966, na sede do Círculo Esotérico
da Comunhão do Pensamento (CECP). Ele narra:
“No dia 06 de janeiro de 1966 tivemos a primeira sessão oficial da União do Vegetal,
precisamente 1 ano após o mestre Gabriel ser reconhecido no astral superior como
mestre geral da União do Vegetal, sendo esta realizada na sede da sociedade tátua,
onde nos encontrávamos todos unidos.”52
Essa instituição esotérica foi fundada em 27 de junho de 1909, na Cidade de São Paulo, por
Antônio Olívio Rodrigues (RODRIGUES, 1991), espalhando-se pelo Brasil, de modo que
na década de 60 já havia um Tattwa, ou seja, um “Centro de Irradiação Mental”, em Porto

51
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d. p. 2.
52
Idem. p. 4.
73

Velho. Dentre os “mestres da origem”, o M. Raimundo Carneiro Braga chegou a ser sócio
desse Tattwa. Durante o tempo de meu trabalho de campo, em Campinas, participei de
duas sessões do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP). Há interessantes
similaridades na estrutura do ritual das sessões do CECP e da UDV. O antropólogo
Wladimyr Sena do Araújo, em sua dissertação de mestrado acerca da Barquinha (ARAÚJO,
1999, p. 116-122), indica a influência que ela recebeu do CECP. Essa influência
certamente bem maior do que a recebida pela UDV, já que na Barquinha há elementos
propriamente doutrinários que advêm do CECP. Não encontrei tais elementos em meu
trabalho etnográfico na UDV. O máximo que posso supor é que tenha havido um certo
influxo do CECP na forma da sessão.

O M. Braga apontou o CECP como um lugar importante em seu percurso de


buscador das coisas espirituais:
“Busca espiritual mesmo, que eu senti a energia espiritual, eu senti dentro do
esoterismo, do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Assim, antes de eu
chegar no Vegetal, eu tive dentro de macumba, pra saber, em busca de conhecer
alguma coisa estranha que o povo fala, que o povo diz. E eu, procurei assim, saber se
de fato aquilo é verdade mesmo, pra ter assim alguma convicção. Por dentro da
macumba eu não tive direito de receber nada daquilo que as pessoas diz que recebe,
que se atua, que aquilo outro... Isso aí foi um espaço vazio pra mim. [...] aí eu busquei
isso aí mais em outros batuques, mesmo em Porto Velho, no batuque de Santa
Bárbara.”
Quando lhe perguntei se apenas ele, entre os “mestres da origem” havia sido sócio do
CECP, ele respondeu: “Que eu sei, eu. Tem o M. Monteiro, da Maçonaria, M. Bartolomeu
depois, o M. Messias, que hoje tá afastado da União, também foi pra lá pra Maçonaria. O
M. Zé Luiz na Rosacruz..” Além destes, convém lembrar de Raimundo Pereira da Paixão,
que iniciou na UDV em 18 de novembro de 1966, um dos “mestres da origem” que depois
veio a ter significativa importância nos inícios da União do Vegetal em São Paulo. Ele era
participante ativo do Terreiro de São Benedito em Porto Velho: “Naquela época eu
freqüentava macumba e ele [José Gabriel] se dava tanto com a dona do terreiro [Chica
Macaxeira] e ela convidou ele para o batuque.”

Quanto à Ordem Rosacruz, M. José Luiz de Oliveira comenta ao narrar seu primeiro
encontro com José Gabriel da Costa: “Eu vinha seguindo a Rosacruz há alguns anos,
74

inclusive já portava o título de Mestre Rosacruz, por isso quando ele falou de evolução
espiritual , a Rosacruz tem todo um trabalho nesse sentido, me chamou a atenção – é atrás
disso que eu ando.”53 A sua vivência no Rosacrucianismo não foi apenas no período
anterior à sua participação na UDV. Em entrevista a mim, M. José Luiz declarou:
“Fiquei 27 anos na Ordem Rosacruz, dos quais uns 15 anos paralelos entre a Ordem
Rosacruz e a União do Vegetal, sabendo que um dia eu ia ter que fazer uma opção. [...]
O Mestre Gabriel nunca exigiu que eu tomasse nenhuma posição, fizesse uma opção,
ou se eu quisesse seguir na União do Vegetal deixasse a Ordem Rosacruz. Não. Ele
nunca exigiu isso de mim. E isso pra mim foi muito bom. Eu entendi que ele achava
que seguir a Deus é uma opção. Porque Deus deu a nós o livre-arbítrio e a gente não é
toda hora que pode ter a opção. Chega o momento da opção. Quando você chega na
encruzilhada da sua vida, que você tem na bifurcação das veredas da vida, que você
tem que tomar uma opção, você vai pra esquerda ou vai pra direita ou vai em frente.
Pra onde tiver o seguimento, e qual dos seguimentos, às vezes não é só uma nem duas,
tem mais, três, quatro, cinco e você vai ter que ter uma opção. Enquanto não chegou o
momento da opção não adianta você querer tomar a opção que ainda não é o momento
da opção. Não pode precipitar as coisas. Quando chega o momento, você sente. Se é
opção é da própria pessoa. Não pode ser uma opção direcionada por quem quer que
seja. [...] Então, meu amigo, chegou o momento de minha vida em que eu tive de fazer
a opção, mas pela minha livre e espontânea vontade.”54
É significativa a atitude de Mestre Gabriel, não impondo a José Luiz, nem mesmo após este
ser convocado por ele ao Quadro de Mestres, o seu afastamento da Ordem Rosacruz. Desse
modo, o criador da UDV reafirma sua opção de estimular os discípulos para que eles
mesmos “examinem”, decidam segundo a sua consciência e exerçam o seu livre-arbítrio.
Em última análise, essa atitude pode ser relacionada à característica da experiência com o
chá Hoasca na União do Vegetal, de propiciar um englobamento de múltiplas vivências
espirituais e religiosas do indivíduo, como veremos adiante. Além disso, tal modo de agir
certamente respondia aos anseios daqueles que chegavam na UDV com uma longa história
de busca, como o mesmo M. José Luiz conta, fazendo uma leitura ex post de suas
experiências anteriores, à luz de seu percurso esotérico posterior:
“E assim eu me dediquei ao catolicismo até uma determinada idade, quando chegou o
momento em que eu senti que não tava mais encontrando resposta pra algumas coisas

53
Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Por Edson Lodi, em dezembro de 1990. In: Memórias, Volume II,
p. 3.
54
Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Rio de Janeiro, 25 de abril de 1999.
75

no catolicismo, porque devido a eu ser uma pessoa que naquela época só tinha o
primário incompleto, não tinha tanto estudo assim, então os padres naturalmente
seguraram algumas coisas que eles não iam revelar pra quem não tava preparado, de
acordo com as normas da Igreja Católica, pra se aprofundar mais. Mas, como eu não
via resposta, e eu sou um buscador das coisas divinas, tive de procurar outros meios. E
aí eu entrei pelo Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, freqüentei o Círculo
Esotérico da Comunhão do Pensamento, entrei pelo Kardecismo, entrei pelo
Rosacrucianismo, no Rosacruz da AMORC, sediado em Curitiba, tive na Igreja
Presbiteriana, com o Pastor Bastos, tive também na Primeira Igreja Batista e tive
também na Assembléia de Deus.”55

É relevante observar a recorrência de diversas experiências religiosas e esotéricas


nesses primeiros discípulos da UDV. Especialmente, naqueles que foram escolhidos por
José Gabriel da Costa para integrar o primeiro Quadro de Mestres da UDV, os quais
poderiam ser descritos segundo o perfil de um “buscador das coisas divinas”. Os primeiros
discípulos eram, na maioria, moradores da cidade, o que lhes facultava a possibilidade de
participarem dessa variada gama de atividades religiosas. O que Carlos Alberto Afonso
afirma acerca dos inícios do Santo Daime pode, guardadas as singularidades de cada
fenômeno, ser aplicado à UDV:
“Na verdade, o Daime não surgiu numa periferia remota de índios e caboclos, mas
numa sociedade de fronteira internacionalizada pela economia da borracha e
urbanizada pela cultura comercial e várias hierarquias de deslocações internas
(seringueiros, militares, comerciantes, burocratas, políticos), o que inspirou a
disseminação, em Rio Branco e noutras localidades, de casas modestas de candomblé,
umbanda e espiritismo kardecista, segundo o modelo do comércio religioso das cidades
do litoral. E, de fato, todas essas religiões apresentam influências importantes no
Daime. O Acre era, em particular, o espaço de fronteira e de tráfegos inter-culturais
entre a sociedade diaspórica que se formava, no lado brasileiro, e o multiculturalismo
tradicional da Amazônia, nomeadamente o xamanismo dos ayahuasqueros” (AFONSO,
art. inédito 2, p. 10-11).

No mesmo lote da Rua Abunã, no 1.215, em que residia José Gabriel da Costa, havia
uma segunda casa, que tinha outro morador. Depois de alguns meses, este se mudou, e

55
Id.
76

então Mestre Gabriel passou a distribuir o Vegetal nessa casa, no ano de 1966. Narra o M.
Hilton:
“De início não tínhamos sede organizada para realizar nossas sessões, tínhamos que
solicitar a vizinhos lugar em seus quintais a fim de realizar as nossas sessões semanais,
visto que a residência do Mestre era pequena e uma sala que dispunha, residia o mestre
galego. Tivemos dessa forma, que pedir ao Sr. Macdonald em sua fazenda na Estrada
dos Tanques 1 sala para a realização de nossas sessões. Neste local ficamos 6 a 8
meses, ocasião em que o Mestre Galego seguiu para a Bolívia (Mamo), desse dia em
diante passamos a ocupar a sala, a qual era forrada com palhas. Em atividade todos os
irmãos fizemos o piso com cimento, sendo encarregado da obra o Sr. José Luiz de
Oliveira. Adquirimos tábuas e fizemos novas paredes de cujo serviço encarregou-se o
Sr. Antonio Cavalcante de Deus (Gia). Antonio de Deus ainda se encarregou da
confecção de duas grandes mesas e bancos a serem colocados ao redor dessas, servindo
ao grande número de irmãos que chegavam em busca de tratamento pelo vegetal.”56

A afluência de pessoas à procura do chá Hoasca para resolver seus problemas de


saúde, mencionada por M. Hilton, é abordada por Afrânio Patrocínio de Andrade em sua
dissertação de mestrado:
“De repente o novo irrompeu ali, no meio da cidade. Duma hora para a outra, no meio
de todo um êxodo que interliga a floresta com a cidade, sai um seringueiro falando de
Deus, explicando os mistérios profundos da existência e, mais que isto, doutrinando
centenas de pessoas, com uma casebre lotada (sic) de seguidores. [...] Em termos de
Saúde, é oportuno lembrar que a região como um todo era um próprio caos, situação
que até os dias de hoje ainda não é das melhores. [...] Foi exatamente nesta época em
que esse programa [o Serviço Especial de Saúde Pública] estava entrando em
decadência que a União do Vegetal chegou na cidade. Ela encontra, ali, nada menos
que uma população que ansiosamente corria atrás de recursos médicos.” (ANDRADE,
1995, p. 184, 190-191).

O autor segue apresentando o relato de um “mestre da origem” que conheceu a


União do Vegetal acompanhando uma pessoa doente que buscava a cura através do chá do
Mestre Gabriel. Esse aspecto, de ser uma via alternativa para os que buscam saúde num
contexto de extrema carência de recursos, certamente teve a sua importância naqueles
inícios. No entanto, é necessário matizar as palavras do autor, que chega a falar de um

56
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 6.
77

seringueiro “doutrinando centenas de pessoas” em um casebre lotado. Tudo indica que não
houve um movimento tão espetacular quantitativamente, tendo sido bem modesto o número
de seguidores da UDV, até o falecimento de José Gabriel da Costa. Uma estimativa
plausível seria supor que eram, em 1965, ano da chegada de Mestre Gabriel a Porto Velho,
em torno de 16; em 196757, por ocasião da prisão de José Gabriel da Costa, por volta de 50;
e em 1971, ano do falecimento do fundador da UDV, uns 70 em Porto Velho, 30 em
Manaus e mais alguns em Jaru e Jaci-Paraná, totalizando menos de 150 participantes. Mas,
voltando à questão da saúde, é interessante indicar que, posteriormente, o CEBUDV
procurou distanciar-se de qualquer prática passível de ser taxada como curandeirismo:
“Há grupos religiosos que apregoam as virtudes curativas do chá. A União do Vegetal,
nesse particular, tem postura sóbria. Sabe que a Deus nada é impossível, mas não
pratica ou difunde ações curandeiristas. Usamos o chá, como já foi dito, como veículo
de concentração mental, para buscar o acesso a um estado de consciência em que a
compreensão dos fenômenos espirituais e metafísicos é mais nítida. O que se busca,
através dos ensinos e da doutrinação reta, é a cura espiritual - isto é, a evolução.”
(CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL , 1989, p. 34)

Outro aspecto citado por M. Hilton, a precariedade e pobreza do local em que os


discípulos bebiam o Vegetal, também é lembrado por M. Paixão. Diz ele:
“Era muito difícil, era periferia, tinha olarias perto da sede. A sede era pobre mesmo,
coberta de palha, tapada, de tábua de refugo e de terra batida. Depois que fizeram o
piso. [...] Na época, lá não tinha nenhum seringueiro, a pessoa que ainda veio em Porto
Velho e ele chamou para beber o vegetal duas vezes foi o Chico Lourenço. [...] Então,
o poder aquisitivo era uma situação delicada. Naquele tempo quem tinha mais poder
aquisitivo era o Mestre Ramos, que era um forte comerciante, e dessas pessoas era só
ele mesmo. Mestre Braga trabalhava na praça [era taxista], lutava com sacrifício e
outras pessoas também lutavam com sacrifício. Quantas vezes o Mestre Ramos
custeou as despesas para buscar o vegetal. Naquele tempo era pouco, nem era em
grande quantidade. O irmão Modesto ia buscar o vegetal de trem num lugar chamado
Pau Grande, na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, era onde o Modesto ia buscar o
vegetal. A gente preparava em lata de querosene, comprava aquelas latas de
querosene, às vezes trazia, ou doava. Eu abria, batia com o martelo a beira da lata,

57
No artigo Convicção do Mestre, publicado no jornal Alto Madeira, de 1967, fala-se de “198 discípulos que
vêm lhe acompanhando [o Mestre]”. Porém, segundo M. José Luiz, esse número foi tirado do Livro de
Adventícios, apontando então para o conjunto dos que já haviam bebido o Vegetal e não para aqueles que
então permaneciam participando.
78

abria direitinho, enchia de jornal e tacava fogo para largar o gosto do querosene.
Quantas vezes nós bebemos o vegetal com gosto de querosene ou de gasolina. Quantas
vezes aconteceu isso. Nós tinha uma fornalha, na olaria botava tijolos, botava umas
trempes, e ali botava duas latas em cima. Quando bebia o vegetal, cada um pegava um
sebo de pau ou dois tijolos e se sentava. Tinha alguns que levavam rede e se sentavam
para ficar perto do Mestre, mas não dava para ficar todo mundo ali, pegavam um
pedaço de pau e sentavam ali perto.”58
No mesmo sentido, afirma M. Braga: “Quando cheguei, no início, as coisas eram como em
todo início; tinha pouca coisa, eu digo que tinha tudo porque tinha o Mestre Gabriel, mas
em bens materiais e em organização era bem pouco. Estávamos iniciando.”59

A pobreza foi bem marcante nesses começos. Assim como a carência de instrução
escolar formal da maioria, a começar do próprio José Gabriel da Costa, que freqüentou
poucos dias a escola quando criança e era apenas semi-alfabetizado. Por volta de 1970, D.
Francisca e D. Josefa davam aula de alfabetização no templo da UDV. Mas havia os
“intelectuais” do grupo. Além de M. Hilton Pereira Pinho, que havia sido presidente de
sindicato, de M. Raimundo Monteiro de Souza, professor primário, de M. José Luiz de
Oliveira, que, segundo ele mesmo, “já tinha sido secretário, tesoureiro, membro de diversas
entidades e diretorias, inclusive da Federação de Desportos de Guaporé”, havia também o
M. Rubens. Segundo o M. José Luiz, “o M. Rubens chegou na União assim meio
intelectual. A profissão dele era dentista, mas estudava medicina na Faculdade de Goiânia.
Mestre Gabriel queria muito bem a ele [...]. Falava muito mais intelectualmente do que
dentro dos mistérios das coisas da UDV.” Em 1971, pouco antes do falecimento de Mestre
Gabriel, o então Conselheiro Rubens fez uma explanação na sessão inaugural do Núcleo de
Manaus. Cito aqui um pequeno trecho, que bem exemplifica esse falar “intelectual”:
“Muitas vezes se vê no mundo moderno, tanto progresso, cheio de albores de uma
civilização extraordinária, o homem se deslocando pra Lua, o homem em busca de
Marte, e essa tecnologia, e esse aperfeiçoamento, será que isso está a serviço realmente
de algo útil? Nós nos perguntamos muitas vezes. Será que existe uma coesão fraterna
entre os homens? Será que todo este amparo da tecnologia e da ciência moderna está
servindo para uma coesão, para um amparo, para uma sistemática, para uma irmandade
em si universal? Lá no Vietnã se mata, lá no Cambodja se mata, lá no Laos se mata.

58
Entrevista de M. Raimundo Pereira da Paixão. Em Campinas, por Lúcia Gentil, em 3 de junho de 1993.
59
Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Por Edson Lodi, Ruy Fabiano e João Bosco, em junho de
1991. In: Memórias, Volume II, p. 79.
79

Por que é que se mata? Por que é que se é mesquinho? Por que é que se persegue? Por
que é que se vilipendia o ser humano? [...] Sem o amor, meus caros irmãos, muito
dificilmente a sociedade será uma sistematização, uma coesão [...] Por falta de amor é
que se mata, conforme eu disse agora.”60
Este discurso, ainda que seja a fala daquele membro com maior formação acadêmica, indica
que o grupo dos primeiros anos da UDV não era formado por seringueiros recém-chegados
da floresta, mas sim por indivíduos urbanos, e que ao menos alguns deles tinham
informação dos meios de comunicação acerca da política internacional e das
transformações do “mundo moderno”. A presença de pessoas letradas já suscitava uma
indagação acerca do futuro, quando a UDV viesse a crescer. Então, o próprio Mestre
Gabriel, segundo M. Braga, dava uma orientação aos discípulos:
“A recomendação é a seguinte: quando a União do Vegetal chegar nas pessoas letradas,
formadas, elas podem querer fazer modificação em função do modo de ser delas, e que
nós tivéssemos muito cuidado quando o vegetal chegasse nos grandes centros. Ele
dizia: ‘Nós não podemos ir ao povo.’ Não é propriamente o vegetal, mas nós. E ainda,
‘O povo é que tem de vir a nós. Temos que falar assim, pela linguagem do caboclo,
uma linguagem que desse para todos entender, o mais e o menos letrado.’ Essa foi uma
das recomendações que ele nos deu, que nós não fôssemos ao povo, o povo viesse a
nós. Se nós fôssemos ao povo, ficávamos com o povo, mas se o povo viesse a nós,
ficava conosco.”61

Esse grupo de pessoas, que se constituíam em “sociedade” ou “irmandade”,


defrontou-se com os conflitos da sociedade brasileira de seu tempo e com as tensões
próprias de um novo movimento religioso com as especificidades que possuía a UDV.
Primeiramente, o conflito político do Brasil na década de 60 e no início dos anos 70. Mestre
Gabriel chegara a Porto Velho em plena época da ditadura militar. Um momento
emblemático de conflito foi a prisão de José Gabriel da Costa em 6 de outubro de 1967.
Esse momento é relembrado em cada sessão de escala, na hora da leitura dos documentos
da UDV, logo no início da sessão, quando se lê o artigo Convicção do Mestre, publicado no
jornal Alto Madeira, de Porto Velho, logo após o incidente. Paradoxalmente, lembrar em
todas as sessões de escala da prisão do Mestre Gabriel cumpre um papel de sinalizar que o

60
Rubens Rodrigues, Explanação na sessão inaugural do núcleo de Manaus, 1971. In:
Memórias, Volume I, p. 97.
61
Entrevista M. Raimundo Carneiro Braga. Loc. cit., p. 103.
80

uso do chá hoasca pela UDV é plenamente legal, além de propor ao discípulo da UDV que
viva em sua própria vida atitudes semelhantes à do Mestre Gabriel, que disse:
“Prestem atenção os que quiserem me acompanhar na missão: podemos ser censurados
por todos, mas não podemos censurar a ninguém; podemos ter inimigos, mas não
podemos ser inimigos de ninguém; podemos ser ofendidos por todos, mas não
podemos ofender a ninguém; podemos até ser julgados por todos, mas não podemos
julgar a ninguém; podemos ser revoltados por todos, mas não podemos revoltar e nem
ser revoltados por ninguém.”62

M. Hilton narra do seguinte modo a prisão:


“No dia 06 de outubro de 1967, quando estávamos em sessão de escala na União do
Vegetal, às 23 horas, entra a polícia comandada pelo chefe de polícia de guarda policial
territorial Antonio Nogueira da Silva que convidou o mestre Gabriel a acompanhá-lo à
Delegacia de Polícia da Capital para prestar depoimento esclarecimentos sobre aquele
ajuntamento de pessoas, mestre Gabriel encerrou os trabalhos da sessão e seguiu no
carro policial, eu entrei no carro e fui mandado a desocupá-lo. Nesta sessão estavam
presentes 38 discípulos dos 198 que vinham lhe acompanhando. Os discípulos do
mestre Gabriel unidos seguiram em direção a central de polícia e lá permaneceram até
a manhã. Procuramos as autoridades, inclusive o Sr. Simão Tavenad, que mesmo em
sua residência não foi encontrado. Dia seguinte, domingo eu bem cedinho dirigi-me a
central de polícia onde encontrei o mestre Gabriel em uma sala especial. Em seguida
fui convidado a conversar com o Sr. Rodolfo Menezes Ruiz, muito meu amigo pois o
conhecia desde criança quando eu era professor no grupo Barão do Solimões ocasião
em que este me diz: seu Hilton, o senhor metido nessas organizações clandestinas?
Em resposta lhe expliquei a finalidade da União seu amor a Deus e a natureza. Então
nos foi exigido um estatuto.”63

O relato é bem ilustrativo de como as autoridades policiais observavam como


suspeito “aquele ajuntamento de pessoas” e logo tendiam a ver qualquer nova associação
que se formasse como mais uma dentre as “organizações clandestinas”. A partir dessa
situação, surge a necessidade de se registrar “um estatuto”. E, ao que parece, já antes desse
episódio alguns dos discípulos percebiam essa necessidade, como afirma M. Hilton em
trecho anterior do mesmo depoimento: “Meu desejo constante era que se registrasse a

62
Artigo Convicção do Mestre. In: Jornal Alto Madeira, Porto Velho: 6 de outubro de 1967. Conforme
consulta nos arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV.
63
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 6-7. Grifos meus.
81

União do Vegetal legalmente em cartório local. Pois na época (pós-64) qualquer


organização que não tivesse seus estatutos era interditada pela polícia.”64 Ele, que havia
sido presidente de sindicato, parecia estar consciente das dificuldades que a UDV poderia
estar sujeita nesse tempo de repressão. E o que se pode observar é que a direção da União
do Vegetal teve grande habilidade na obtenção das condições de possibilidade para a sua
continuidade. A atitude constante da UDV parece ter sido a de “procurar as autoridades”,
buscando esclarecê-las acerca das suas atividades, na convicção de que não havia nada
errado em suas práticas. Como nota M. Braga, acerca da atitude de Mestre Gabriel:
“Quando o chá começou a ficar mais conhecido, algumas autoridades pensavam que
era um tóxico, que não era uma coisa boa. Mestre Gabriel sempre reagiu com firmeza,
com a convicção de quem sabia que estava fazendo um trabalho correto como nós
sabemos que é. Ele dizia sempre que era muito difícil as autoridades fecharem as
portas da União do Vegetal porque ele não estava fazendo nada de errado. Sempre
com firmeza e a convicção de vencer, chegar no lugar das autoridades reconhecerem
que ele não estava fazendo nada de errado.”65
Assim, logo após a libertação do Mestre Gabriel, que se deu no dia seguinte de sua prisão, a
UDV publicou uma nota de esclarecimento no jornal Alto Madeira - a “Convicção do
Mestre” - e M. Hilton e M. José Luiz elaboraram os primeiros estatutos civis da
Associação. Em seguida, eles os apresentaram “em cartório local e em poucos dias o
Meritíssimo Juiz de Direito Dr. Joel de Moura assinava solenemente reconhecendo a União
do Vegetal como entidade Jurídica em todo território Federal de Rondônia.”66 Esse
empenho em realizar tudo segundo a legalidade tem sido até aqui claramente observável no
agir da direção do CEBUDV.

Um outro episódio, narrado por M. Paixão, também mostra a constante vigilância


exercida sobre o grupo naquela cidade de Porto Velho, em que havia uma considerável
presença do Exército:
“Um dia, quando Mestre Bartolomeu [que era militar] foi chamado pelo Comandante
do exército, naquele tempo ele estava na ativa, porque haviam denunciado que ele
freqüentava uma seita que servia um chá que era uma droga, ele explicou: ‘A
sociedade que eu freqüento, a União do Vegetal, serve um chá mas não é o que estão

64
Id., p. 6.
65
Entrevista M. Raimundo Carneiro Braga. Loc.cit., p. 89.
66
Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, Id. p. 7.
82

dizendo’ e disse ao Comandante, ‘se o senhor quiser conhecer, eu levo o senhor lá’. O
Comandante quis conhecer.”67

Depois desses fatos, houve novamente, em 1969, uma ação da polícia contra a
UDV. Esta teve de permanecer, durante um período, sem receber novatos. M. Raimundo
Monteiro de Souza na condição de presidente do CEBUDV, impetrou um mandado de
segurança em 1970, através do advogado Jerônimo Santana, que obteve sentença favorável
à UDV. Posteriormente, esse advogado elegeu-se deputado federal e mais tarde foi o
primeiro governador eleito do Estado de Rondônia, no período de 1986 a 1991.
Acompanharam o processo no fórum o discípulo Francisco Adamir de Lima e o
Conselheiro Bartolomeu, que em seguida foram convocados por Mestre Gabriel para o
Corpo do Conselho e para o Quadro de Mestres, respectivamente. O hoje M. Adamir conta
que até novembro de 1970 “existia a União do Vegetal e a Associação Beneficente União
do Vegetal [entidade civil]. Quando quiseram fechar a União do Vegetal, fomos orientados
para mudar o nome. Foi então feita a junção e surgiu o Centro Espírita Beneficente União
do Vegetal.”68

Mas os conflitos não se deram unicamente com o aparelho do Estado. Também


houve uma situação conflituosa com a instituição religiosa predominante em Porto Velho
na época, a Igreja Católica. Primeiramente, observemos a narrativa e as deduções de
Afrânio Patrocínio de Andrade, a partir da entrevista que fez com o bispo de Porto Velho,
atualmente já falecido, D. João Batista Costa, que exerceu o governo da Prelazia de Porto
Velho de 1946 a 1982:
“As ‘autoridades eclesiásticas’ também chegaram a ser consultadas, mas afinal de
contas, o que elas teriam contra um adepto da ‘sempre virgem Maria Santíssima’ e do
‘nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo’?
Nesta época, era bispo da cidade o hoje jubilado Dom João, que tivemos oportunidade
de entrevistar, em março de 1992. Ele nos informou que, quando o mestre Gabriel
chegou na cidade com o chá, ele já era pároco ali há 35 anos, dos quais, uma década
como bispo. Segundo ele, alguns dos católicos, ‘gente de fé’, procuraram por ele, para
saber sua opinião sobre o referido chá. Teria ele interrogado àqueles fiéis sobre o que
eles viam durante o estado de êxtase. Responderam a ele que viam coisas ruins e coisas

67
Entrevista M. Raimundo Pereira da Paixão. Em São Paulo, por Edson Lodi, em junho de 1989. In:
Memórias, Volume II, p. 121.
68
Mestre Adamir, um pioneiro do Vegetal. Jornal Alto Falante, Brasília,Sede Geral, nov-dez 1990. p. 4-6.
83

boas e ‘muito bonitas’. Diante disto, teria ele instruído os fiéis a seguirem o conselho
do apóstolo Paulo, ‘examinar todas as coisas e reter o que é bom’. Em seguida,
designou um de seus assessores episcopais, o já falecido Padre Carlos, para dialogar
com o mestre Gabriel a respeito do assunto. Infelizmente o resultado de tal diálogo não
nos foi acessível, pois, segundo alguns dos adeptos da União do Vegetal, houve um
desentendimento entre o mestre Gabriel e o Bispo, o que não é confirmado por este
último. A ‘prova’ de tal desentendimento é um artigo publicado num dos jornais da
cidade e mantido por essa, intitulado ‘Velando enquanto dorme’. Uma leitura do texto
não indica propriamente uma controvérsia. Procurado para nos dar mais informações
sobre o seu contexto, o autor do texto não se lembrou absolutamente nada a respeito.
Por outro lado, o referido padre, designado para tal diálogo, faleceu no decurso do
processo. Segundo o bispo, é possível que existam anotações dele na Igreja em que era
pároco, em Porto Velho, o que ainda não confirmamos. Diante disto, nossa
ponderação ainda continua sendo a de que, embora desconhecesse o assunto, a Igreja
Católica não chegou a se posicionar objetivamente sobre ele.” (ANDRADE, 1985, p.
185).

No entanto, outras narrativas indicam que a situação foi mais conflituosa: as


entrevistas dos Mestres Braga e José Luiz de Oliveira, respectivamente ao Jornal Alto
Falante e a mim. As declarações do bispo a Patrocínio de Andrade vão na direção de uma
diluição do conflito. A aplicação pelo bispo do conselho paulino de ‘examinar todas as
coisas e reter o que é bom’, quando da pergunta de ‘gente de fé’ sobre sua opinião acerca
do chá, parece expressão de uma mentalidade extremamente aberta. Porém, as lembranças
dos mestres da origem apontam para uma situação diversa. Conta o M. Braga:
“É que uma pessoa foi à casa do bispo e transmitiu informações que não eram
verdadeiras sobre a União do Vegetal. Essa pessoa não conhecia a União, por isso deu
aquelas informações. Aí, o bispo num sermão da igreja falou da União do Vegetal da
mesma maneira; maltratou a União, disse um bocado de coisas. Quando eu soube, pedi
ao Mestre Gabriel para conversar com o bispo e o Mestre Gabriel me autorizou. E eu
fui. Expliquei pro bispo o que era o vegetal e o que era que aquele senhor, que era o
Mestre Gabriel estava fazendo pelas pessoas. Depois contei toda a história sobre o
pensamento da União do Vegetal. Depois que contei toda a história sobre o
pensamento da União do Vegetal, o bispo disse o seguinte: ‘Se a União do Vegetal e o
chá estão produzindo esse efeito, e se esse senhor está fazendo esse trabalho, o senhor
pode continuar bebendo.’ Aí, pedi para ele autorizar um padre que era muito meu
amigo a beber o vegetal. Ele me pediu que eu não fizesse isso; pra mim mesmo, ele
84

disse que eu continuasse, mas pro padre não. [...] Acho que foi a primeira vez que uma
autoridade, pesando mais as palavras, se manifestou favoravelmente.”69

Assim, segundo a narrativa de M. Braga, corroborada pelas declarações de M. José


Luiz, o próprio D. João Batista Costa teria feito pesadas críticas à União do Vegetal em um
sermão (ou mais de um) na igreja. Isto, a partir de informações de uma pessoa que “não
conhecia a União”.

A resposta da União do Vegetal foi através da publicação em jornal de um artigo,


denominado Velando enquanto dorme, onde se lê:
“Disse um Reverendo, em seu sermão de domingo dia 11-7-71: Na União do Vegetal
se vê de tudo. E é verdade, pois a primeira coisa que vi, quando comecei a freqüentar a
União do Vegetal, foi o caminho em que ‘eu’ vivia, no erro. E hoje, pela minha firmeza
em Jesus Cristo e sua bondosa mãe Maria Santíssima, vejo o caminho limpo e firme
[...].”70
Esse “caminho limpo e firme” é o argumento de defesa da União do Vegetal apresentado no
artigo: “Afirmo que a União do Vegetal pratica e ensina exatamente o amor a Deus sobre
tudo, extensivo aos seus semelhantes”. Mais adiante, o texto chega a especificar traços
característicos da prática dos discípulos da União: estar “isentos” de freqüentar
“bares, casas de jogos, mesmo sinuca ou bilhar, baixo meretrício e outros lugares que
porventura existam e que sejam perniciosos à formação moral do homem diante do
próprio homem e muito mais diante daquele que se chama Espírito Santo, que compõe
a Trindade Divina.”71

Essa afirmação de uma “regeneração” dos novos participantes, alguns conhecidos


como “farristas” em Porto Velho, era freqüentemente trazida como resposta àqueles que
questionavam acerca dos efeitos do chá Hoasca para a pessoa. Além da publicação do
artigo, tanto M. Braga quanto M. José Luiz foram falar com o bispo, de quem eram amigos.
D. João não se deu por convencido acerca do valor religioso positivo do chá, mas ao menos
parou de criticar a UDV em seus sermões. De qualquer modo, as narrativas dos mestres da

69
Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Loc. cit., p. 93.
70
Velando enquanto dorme. In: Jornal Alto Madeira. Porto Velho: julho de 1971. Conforme consulta nos
arquivos do Departamento de Memória e Documentação do CEBUDV.
71
Id.
85

UDV indicam que houve uma significativa mudança no posicionamento depois que os
discípulos da UDV o procuraram para conversar.

Ultrapassando situações conflituosas com a polícia, com o exército, com o

Poder Judiciário, com a Igreja Católica, os primeiros discípulos da União do Vegetal

souberam encaminhar bem as resoluções desses conflitos. E, como narra M. Braga, ainda

conseguiram obter recursos junto ao Poder Público para solidificar a obra começada:

“No início, a gente usava uma casinha que não era propriamente a casa do Mestre
Gabriel, era uma casinha pegada à dele. O ambiente físico não era tão agradável, mas
fomos nos organizando, crescendo e aumentando a casa. Com o tempo, foi enchendo
de pessoas. Certa vez ele disse que era bom que a gente encontrasse um lugar onde
pudesse construir nossa sede. Naquele tempo, a gente falava em sede, depois passamos
a falar em templo, porque sede ficou sendo a casa do Mestre, porque ele nos cedia.
Um dia a gente se dispôs a ir à Prefeitura; fomos eu e o Mestre Ramos, e a Prefeitura
doou um terreno de 100 metros por 100 metros. Aí começamos a construção do
templo, com Mestre Gabriel ainda em matéria, mais ou menos em 69, e chegamos a
concluir a obra.”72
Desse modo, com grande habilidade, mesmo em meio a um contexto político extremamente
desfavorável ao surgimento de uma instituição que faz uso ritual de uma substância
psicoativa, gradualmente conseguiram, do mesmo modo como construíram um templo,
plantar os alicerces do CEBUDV na cidade.

72
Id., p. 89.
86

2.3. A PRESENÇA DA UDV EM SÃO PAULO A PARTIR DOS ANOS 70

“... estamos construindo um templo...”


Cartão comemorativo dos sete anos do Núcleo Alto das Cordilheiras, 1999

Em 1971, ainda em vida de Mestre Gabriel, a União do Vegetal iniciou a sua


expansão para além de Porto Velho, com a criação do núcleo de Manaus, posteriormente
denominado Núcleo Caupuri73. No ano seguinte, já após o falecimento de José Gabriel da
Costa, a União do Vegetal chegou a São Paulo. A partir da entrevista da conselheira Inês74
e de um artigo publicado75 em 1972 no jornal Alto Falante, órgão oficial do CEBUDV,
dirigido aos sócios do Centro, buscarei delinear esses primeiros passos da União do Vegetal
no Estado de São Paulo, a partir dos quais se fundou o Núcleo Samaúma. Em seguida,
descreverei os começos da UDV em Campinas, a formação do Núcleo Lupunamanta, e a
posterior constituição do Núcleo Alto das Cordilheiras. Deste modo, apresentarei um
aspecto da expansão da União do Vegetal no Estado de São Paulo, a partir do ramo do qual
surgiu o núcleo em que fiz o trabalho de campo desta dissertação.

O artigo do Alto Falante transcreve os depoimentos de duas conselheiras que


participaram dos inícios do Núcleo Samaúma, o primeiro a se formar no Sudeste. Elas são
Ivone de Castro Menão76, que iniciou na UDV em 1972, e Else Angélica Piacentini
Medeiros, que começou a participar no ano seguinte. Segundo Ivone, em maio de 1972, ela
e seu companheiro Nielson Menão beberam pela primeira vez o Vegetal em Manaus,
convidados por um mestre da UDV que participava com eles de “um grupo que trabalhava
na área de música, cinema e teatro”. O mestre lhes chamou para conhecerem “um chá que
nos fazia ver coisas bonitas [...] e que era também uma viagem para dentro de nós
mesmos.” Para Ivone, a primeira experiência trouxe “uma alegria muito grande, a alegria de
ter reencontrado minha casa, que parecia que há anos eu procurava”. É significativo que os
dois aspectos apontados pelo convite se refiram à fruição estética (“um chá que nos fazia

73
Caupuri é o nome de uma das duas variedades principais de cipó mariri. Há o mariri tucunacá, mais
presente na região próxima a Porto Velho e o mariri caupuri, que é nativo da região circunvizinha de Manaus.
74
Entrevista de Inês, Campinas, 6 de novembro de 1998.
75
Samaúma, os 20 anos do segundo Núcleo da UDV. Jornal Alto Falante. Brasília: dez 1992 -jan 1993, p.
6-9.
76
Neste capítulo, mantive os verdadeiros nomes de participantes do Núcleo Samaúma, ou dos mestres da
origem, já que tais nomes foram publicados no jornal Alto Falante. Os pseudônimos continuarão sendo
grafados em itálico.
87

ver coisas bonitas”) e ao auto-conhecimento (“uma viagem para dentro de nós mesmos”). A
partir dessas duas motivações pode-se refletir a respeito dos participantes que estavam
chegando à UDV.

Ao que tudo indica, entre os primeiros participantes paulistas77 predominava uma


sensibilidade e uma visão de mundo contra-cultural, naqueles inícios dos anos 70 em que o
flower power ainda repercutia fortemente no Brasil. São pessoas das camadas médias
urbanas, muitas das quais haviam participado dos movimentos da “contra-cultura”, usuários
de drogas, que haviam optado por estar “na contra-mão” da sociedade, empenhados num
estilo de vida “alternativo”. São esses que levaram às sessões da União músicas como as de
Zé Geraldo ou de Raul Seixas (ARARIPE, jun 1981, p. 38-39). A busca de uma “expansão
da consciência” através de substâncias como o LSD teve um papel relevante para muitos
desses indivíduos, à procura de novas vivências estéticas e novas abordagens da própria
psique que lhes propiciassem uma ampliação de seu auto-conhecimento.

Em julho de 1972, Ivone e Nielson se mudaram para São Paulo, levando um litro de
Vegetal que o Mestre Representante do Núcleo de Manaus lhes havia entregue. Na semana
seguinte, eles já fizeram a primeira sessão em São Paulo. Ainda no mesmo ano, Marinho
Piacentini, um paulista que também trabalhava com teatro, irmão de Else Angélica, bebeu
pela primeira vez o chá em Manaus. E quando voltou para São Paulo, integrou-se ao
primeiro grupo. Logo eles passaram a beber o Vegetal num sítio em Cotia, de propriedade
do pai de Marinho, o Sr. Mário Piacentini, que iniciou na UDV no mesmo ano de 1972 e
hoje é mestre. Nas primeiras sessões, dirigidas por Nielson, ele ainda não sabia as
chamadas, então bebiam o chá segundo o horário de Manaus, procuravam se concentrar e
permaneciam em silêncio durante boa parte da sessão. Segundo Else, as pessoas se
sentavam “ao redor de uma mesa e uns poucos ocupavam algumas cadeiras laterais”.

Em setembro de 1972 foi realizada a primeira reunião administrativa, com a


presença de um dos “mestres da origem” da UDV, Hilton Pereira Pinho, que escolheu para
o núcleo o nome de Samaúma. Com as visitas de Mestre Hilton, o grupo deu os primeiros
passos na recepção da tradição da UDV: a maneira de dirigir as sessões, o primeiro preparo

77
Aqui não me refiro especificamente àqueles citados nominalmente acima, mas sim ao conjunto mais amplo
dos participantes paulistas dos primeiros tempos.
88

de Vegetal, a primeira sessão de adventícios78. No início de 1974, Nielson e Marinho


receberam a estrela de mestre79. Além de Hilton, muitos dos mestres da origem visitaram o
Samaúma. Mais de doze foram nomeados por Ivone, Else e Inês. Segundo esta, “o
Samaúma começou com o tempero de todos”. Os principais mestres que estruturaram a
União do Vegetal após o falecimento de Mestre Gabriel, inclusive sua esposa, Mestre
Pequenina, iam a São Paulo, a convite dos discípulos do Samaúma, que lhes pagavam as
passagens aéreas, para comunicar aos novatos paulistas suas recordações acerca da vida do
fundador, seus ensinos, suas chamadas. Esses foram os primeiros encontros dos indivíduos
da classe média paulista, a maioria dos quais ligados às artes, especialmente o teatro, com
os caboclos de Porto Velho e Manaus, herdeiros da obra recém-criada por José Gabriel da
Costa. Pelo relato de Inês, é possível perceber a habilidade de alguns dos mestres da origem
em conduzir aquele grupo de jovens artistas urbanos para a constituição de uma entidade
religiosa que valoriza especialmente a ordem e a obediência.

Mas os conflitos não tardaram a surgir. Assim, em novembro de 1976, o Núcleo


Samaúma foi suspenso pela Sede Geral. Segundo Else Angélica, “essa suspensão foi
motivada por vários fatores, de ordem disciplinar”. Ela continua, afirmando que “durante
esse período muita conversa foi levada de São Paulo a Porto Velho e trazida de Porto Velho
para São Paulo, de maneira deturpada, aumentada”. O que me foi possível saber é que
“algumas pessoas tiveram comportamentos inadequados”, especialmente misturar a
participação na UDV com a adesão ao movimento de Rajneesh. Hoje parece algo bem
previsível a incidência de sanções disciplinares por parte da direção da UDV em Porto
Velho sobre aqueles novos participantes paulistas que pela sua origem de classe e inserção
profissional eram tão diferentes do tipo de participante que predominava na UDV em seus
inícios no Norte do país.

Mas antes dessa suspensão, beberam o Vegetal em abril de 1976, pela primeira vez,
Inês e Daniel, atualmente no Quadro de Mestres do Núcleo Alto das Cordilheiras. Eles
participaram de uma sessão de adventícios no Samaúma. Daniel, então com 37 anos, de

78
Sessão de adventícios é uma sessão especial feita com o objetivo de receber pessoas que vão beber pela
primeira vez o Vegetal.
79
O uniforme do mestre na UDV é composto de camisa com uma estrela bordada na altura do peito, assim,
“receber a estrela” é ser designado para o lugar de mestre, e “perder a estrela” é ser destituído dessa função.
89

família tradicional de Campinas, descendente de “barões do café”, tinha sido no passado


bastante influenciado pela contra-cultura:
“Então entrei no Mackenzie, saí de casa, aí com uns 20 anos comecei a fumar
maconha... Aí, tal, fui trabalhar em teatro, tinha ido em dois festivais nacionais de
teatro, conheci a turma do teatro, vivia no bar, toda noite ia no bar, repetia ano; daí
virei comunista e daí o Partido Comunista perdeu, pra quem era do Partido foi um
choque, no Mackenzie tinha Comando de Caça aos Comunistas. [...] Até que me
formei. Aí também começou, trabalhava, continuava meio hippie à noite, não dava
certo, ia dormir 3 h da manhã, levantava 6 h, trabalhava na Shell, casei e daí foi.
Mudei, fiquei meio teosofista, fui, passei uns tempos em São Tomé das Letras, também
aprontei por lá [...]. Nessa época eu cheguei a ser internado duas vezes no sanatório por
droga. Mas droga era maconha e ácido lisérgico, as outras eu não tomava. E cerveja
toda noite. [...] Quem me integrou a cabeça foi o Pietro Ubaldi, através do monismo.”
80

Daniel e Inês beberam o chá e logo continuaram a freqüentar as sessões do


Samaúma. No ano seguinte, 1977, Joaquim de Andrade Neto recebe da UDV licença para
beber o Vegetal com algumas pessoas de sua família em Campinas. Juntam-se a eles Daniel
e Inês. Mas eles logo têm de voltar ao Samaúma em São Paulo, porque no mesmo ano
Joaquim é suspenso e afastado da comunhão do Vegetal81. Assim, Inês e Daniel
permanecem participando do Samaúma até 1980.
Continuando a descrição da trajetória do Núcleo Samaúma, como já afirmei acima,
em novembro de 1976 a distribuição de Vegetal no núcleo foi suspensa. No ano seguinte,
um outro discípulo paulista, Hélio Rodrigues Ferreira, foi a Porto Velho e voltou com uma
quantidade de chá e a autorização para distribuí-lo àqueles que desejassem continuar na
UDV. No entanto, em 1978, “também o Hélio foi punido”, como disse a Conselheira Inês.
Aí a responsabilidade pela distribuição foi passada ao então Conselheiro Mário Piacentini,

80
Entrevista de Daniel, em Campinas, 2 de outubro de 1998.
81
Pouco depois, Joaquim de Andrade Neto começa a distribuir o Vegetal por conta própria e em 1981 funda
uma dissidência da UDV, o Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal, com sede em Campinas. Esta
entidade, que conta com apenas um núcleo, em Campinas, e uma fazenda com plantação de mariri e chacrona
no Mato-Grosso, tem ocupado significativo espaço na mídia e se apresenta como a União do Vegetal. No
entanto, no momento de seu desligamento do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV),
Andrade Neto não era mestre ou conselheiro, nem ao menos havia recebido os ensinamentos do Corpo
Instrutivo. Assim, a doutrina exposta nos livros de sua entidade distingue-se sobremaneira dos ensinamentos
de José Gabriel da Costa tal como o CEBUDV os transmite. O CEBUDV tem reagido com a instauração de
um processo contra a entidade dirigida por Joaquim de Andrade Neto, por uso indevido da expressão “União
do Vegetal”, registrada no INPI. Vide no anexo 1 a lista das dissidências do CEBUDV de que pude ter notícia.
90

o proprietário do sítio de Cotia no qual eram realizadas as sessões. Na época já com uma
certa idade, Mário tinha sido pastor protestante. Assim, depois de ter sido iniciado por
pessoas ligadas ao teatro, “meio hippies”, o Núcleo Samaúma passa a ser dirigido por um
ex-pastor, o que talvez seja emblemático de um certo esforço por parte da direção da UDV
de se organizar no Sudeste segundo um perfil que se distiguisse daquele oferecido pela
contra-cultura.

Foi de Mário Piacentini a iniciativa de convidar um dos mestres da origem, o


Mestre Paixão, a se mudar para São Paulo, o que aconteceu em julho de 1978. O tempo
durante o qual Paixão ficou como Mestre Representante do Samaúma se estendeu por
alguns anos, e foi a fase de consolidação do núcleo, com a doação de um terreno de um
hectare em São Roque, em 1979, por parte de Mestre Mário e Else Angélica; a construção
do templo definitivo em 1981 e sua conclusão no ano seguinte.

O grupo de Campinas foi se organizando e em 11 de outubro de 1980 aconteceu a


primeira sessão no núcleo de Campinas, desde então denominado de Núcleo
Lupunamanta82. Daniel recebeu em 1981 a estrela de mestre, mas veio um outro mestre da
UDV morar na cidade, um militar, e foi este o designado como Mestre Representante.
Porém, depois de um ano e meio, esse militar se mudou de Campinas e Daniel assumiu o
cargo de Mestre Representante, no qual permaneceu por cinco anos. Em seguida, M. Ney
recebeu a Representação do Núcleo Lupunamanta. Ele estava no lugar de Mestre
Representante quando começaram a planejar a abertura de uma nova Distribuição.

Letícia, do CI do Núcleo Alto das Cordilheiras, doutoranda em Educação na


Unicamp, na faixa dos 40 anos de idade, passou-me um relato com alguns dados históricos
do núcleo, escrito por ela, que acompanhou o processo de formação do Alto das
Cordilheiras desde os seus inícios:
“Lembro-me que em outubro de 1991, em uma Sessão Instrutiva no Núcleo
Lupunamanta, foi comunicada à Irmandade a necessidade de abrir uma Distribuição,
dado o aumento do número de sócios do núcleo. Era Representante do Lupunamanta,
naquele período, o M. Ney. O mestre designado para ser responsável pela Distribuição
foi o M. Paulo, e para auxiliá-lo nessa empreitada, o M. Otávio aceitou a incumbência

82
Lupunamanta é o nome dado pela UDV à Estrela Matutina, e há uma Chamada de Lupanamanta.
91

de acompanhá-lo. Assim, a 27 de março de 1992, a Distribuição foi iniciada com 33


sócios, originários do Núcleo Lupunamanta. As atividades foram iniciadas,
provisoriamente, na sede antiga do Núcleo Lupunamanta, onde hoje é a Unidade
Beneficente Estrela da Manhã.”83

Quando iniciou o processo de segmentação para a formação de uma nova unidade, o


Núcleo Lupunamanta já dispunha de confortáveis instalações: um extenso terreno e um
amplo templo. A maioria dos 33 sócios que se apresentaram para iniciar a Distribuição já
bebiam o Vegetal há muitos anos e tinham trabalhado ativamente na construção do
Lupunamanta. Desses 33 que começaram a Distribuição, apenas 3 não estão hoje
associados ao Núcleo Alto das Cordilheiras. Naquele ano de 1992, eles permaneceram um
tempo realizando as sessões no antigo Salão do Vegetal do Núcleo Lupunamanta, que se
localiza em frente ao templo novo. Foi nesse local que eu participei pela primeira vez de
uma sessão do CEBUDV, em julho de 1992, bem nos inícios da Distribuição84. Em maio do
mesmo ano havia sido adquirido um terreno na zona rural do Distrito de Joaquim Egídio,
Campinas. Imediatamente é começado o plantio de mariri e se constrói o salão, que é
inaugurado no dia 5 de junho de 1993.
Letícia continua sua narrativa:
“A 4 de dezembro de 1993, a Distribuição é elevada a Pré-Núcleo, tendo sido
escolhido o nome de ‘Alto das Cordilheiras’. A seguir foi construída a Casa de Preparo
provisória, a Casa de Ferramentas e Almoxarifado, e a Casa do Caseiro. O plantio foi
melhorado e construído um canteiro para Chacrona, com capacidade para 220 pés.
Nesse momento para Representante do Pré-Núcleo foi designado o M. Paulo, pelo
Mestre Central da 9ª Região. A 1º de outubro de 1994, assume a Representação do Pré-
Núcleo o M. Otávio. Havia então 55 sócios, sendo 4 mestres. A 13 de setembro de
1996, o Pré-Núcleo Alto das Cordilheiras é elevado a Núcleo Alto das Cordilheiras. A
seguir, é designado, para Representante do Núcleo, o M. Spencer de Morais Pupo
Nogueira, que assume a Representação em 6 de janeiro de 1997. Eram, naquele
momento, 57 sócios.”

Com a conclusão dessa narrativa, aproximamo-nos do tempo do trabalho de campo


e do tempo presente. Desde as histórias a respeito de Mestre Gabriel e a criação da União

83
Depoimento escrito de Letícia: Alguns Dados Históricos do Núcleo Alto das Cordilheiras.
84
A Distribuição não tinha um nome próprio. Segundo o modo de proceder do CEBUDV, somente quando
chega a Pré-Núcleo a unidade recebe um nome, que permanece quando é elevada a Núcleo.
92

do Vegetal no seringal, até aqui, passando pelas recordações dos “mestres da origem”
acerca dos árduos inícios em Porto Velho, acompanhamos o movimento da Estrela do
Norte, iluminando até o sul. Busquemos agora observar como a claridade dessa Estrela é
experienciada pelos “discípulos do sul”.
93

3. A ESTRELA ILUMINANDO
3.1. ALGUMAS HISTÓRIAS DE VIDA
“Um homem na campina olhava o céu. As estrelas
pareciam aumentadas, de tamanho brilho.
Estrela, ó estrela, estrelas,
Ele suplicou como se injuriasse. [...]
Ó homem, ó filho meu,
convoca-me a voz do amor,
até que eu responda
ó Deus, ó Pai.”
Adélia Prado, Genesíaco, In: O Pelicano

No trabalho de campo, fiz cinqüenta entrevistas, coletando as histórias de vida dos


participantes do Núcleo Alto das Cordilheiras. Aqui escolhi trechos de algumas narrativas,
para que pudéssemos entrar em contato com o discurso desses sujeitos, e assim, observar,
entre outros aspectos, como eles constróem a trajetória de suas vidas sob o ângulo do
encontro com a União do Vegetal, como eles expressam as motivações iniciais e atuais para
a sua participação e como esta tem repercutido ou não em seu quotidiano. Deste modo
poder-se-á chegar a uma primeira aproximação da experiência simbólica dos discípulos da
UDV.

Inicio com a trajetória de Rubem, um dos membros do núcleo que tem menos tempo
de participação na UDV, somente dois anos e meio, na ocasião da entrevista. Assim, em
comparação à media de tempo na UDV das pessoas do núcleo, Rubem está ainda
“entrando” por aquela que ele chamou de “porta que se abre para os mistérios”.

Rubem: entrando por uma porta que se abre para os mistérios

Rubem tem 43 anos de idade. Sua família é de origem judaica. Ele fez sua
graduação em ciências sociais e em história. Fez o mestrado e o doutorado na área de
educação. Seu pai era imigrante judeu, proveniente da Europa Oriental, “apesar de
agnóstico, tinha conhecimento muito profundo de religião judaica, das questões éticas, do
94

Talmud, da Mishná”85. Assim, Rubem foi educado para uma atitude de procura do
conhecimento no estudo, de “culto ao saber”. No que toca à religião, ele narra:
“tive uma formação escolar judaica, mas eu nunca me sentia muito à vontade com a
religiosidade, pois em casa, como não havia um culto religioso, em termos de credo,
era uma situação um pouco paradoxal. Ao mesmo tempo que havia um valor
dado pelo conhecimento da religião, não havia essa fé. [...] Achava interessante a
religião, fazia um esforço, mas não conseguia entrar naquele mistério.”

Essa inacessibilidade da vivência religiosa foi, segundo ele, compensada por um


itinerário intelectual, primeiramente com a graduação em ciências sociais e em história,
caminho pelo qual ele buscava uma resposta às perguntas filosóficas a respeito de “quem
somos, onde estamos, pra que viemos, pra onde vamos”. Ele também posicionou-se em
oposição à ditadura, numa militância política de matriz marxista, gravitando ao redor de
alguns grupos de esquerda, mas não chegando a integrar nenhum deles, já que, como ele
diz, “tinha uma atitude de não me enquadrar”. Esse “não-enquadramento” já se apresentava
desde os tempos de colégio:
“Vem de minha formação juvenil essa coisa mais alternativa, continuava na faculdade
sendo porra-louca e bom aluno. Segundo o padrão de loucura da época, com viradas
de madrugadas, comportamento que à época a gente julgava que era de resistência
política, naquele padrão de loucura que à época era tolerável por conta das condições
sociais e políticas do país, e que a gente aproveitava mesmo: era muita droga, era sexo,
era esbórnia, era conspiração, era movimento estudantil... mas uma coisa que eu
preservava era ser bom aluno, coisa que nem todos faziam. Porque, no fundo, talvez eu
sempre fui muito pequeno burguês, a minha ética sempre foi muito pequeno burguesa.
Eu me identificava mais com o estudo mesmo.”

Em meio a essas vivências no âmbito da contra-cultura, Rubem teve algumas


experiências com drogas que tocavam a franja do sagrado:
“Tive outras experiências não diria místicas, mas quase religiosas, mas muito
ligadas ao uso de drogas, mesmo. Vi umas coisas meio animistas, meio
xamânicas mesmo. No Bosque dos Jequitibás, tem uma figueira muito bonita,
enorme, frondosa, que ela parecia às vezes para mim que ela tinha uma vida,
uma coisa meio de existência espiritual mesmo. Eu tinha uma sensibilidade
85
Entrevista de Rubem, em Campinas, 28 de setembro de 1998. As citações seguintes, neste item, são da
mesma entrevista.
95

talvez induzida a isso, cogumelos também... Coisas que dão uma certa
sensibilidade pra se entrar em contato com outras dimensões que a gente talvez
não saiba como utilizar pra si, ainda.”

Posteriormente, no que toca à vertente do pensamento, Rubem dirigiu-se do


marxismo para o weberianismo:
“Durante uma época li muito Weber e hoje ainda, metodologicamente, em termos de
organização do pensamento, eu sou muito próximo a Weber. Então me aproximei da
idéia das várias éticas relacionadas com a cultura, passei a ser mais culturalista. Aí fui
fazer pós-graduação em educação, como um meio de mudar o mundo, de transformar o
mundo de acordo com aquela ambição que eu tinha de trazer um certo rigor,
aperfeiçoamento da humanidade, de acordo com aquela visão que vinha talvez de
infância mesmo, visão literária, cultural, que se inspirava muito em certos modelos de
rigor ético. [...] O que me aproximou da área de educação foi bem um certo ideal de
mudar o mundo através do sistema educacional como uma porta pras alterações do
mundo.”

É interessante observar como esses tópicos, aparentemente díspares, são costurados


numa narrativa a um pesquisador que estuda a União do Vegetal. E esses fios, da busca de
uma experiência religiosa sentida como inacessível, de uma vivência alternativa, de
percepções anímico-xamânicas e de um rigor ético comprometido com um ideal de
transformação do mundo, são certamente retrançados na nova fase da vida de Rubem, como
discípulo da União do Vegetal. Perguntado a respeito do que é a burracheira, ele responde
sinteticamente que “é uma porta que se abre pros mistérios”. O tema da porta, tantas vezes
presente na simbologia da UDV, nas suas chamadas, assim como presente no discurso de
Rubem, quando ele acima se referiu à educação como “uma porta pras alterações do
mundo”, reaparece aqui, na medida em que a experiência com a Hoasca é compreendida
como porta para alterações no seu mundo interior, possibilitando “um contato com o
sagrado que até então eu não tinha tido”.

A UDV surge na vida de Rubem em um momento em que ele havia vivido situações
que o abalaram: seu primeiro filho não sobreviveu, três anos depois seu pai faleceu de
derrame fulminante, no final de uma conferência que proferiu no Clube Hebraica. Depois
nasceu o seu segundo filho e ele se perguntava sobre como falar de Deus ao menino.
96

Segundo Rubem, desde o nascimento desse filho “desperto para a aceitação da existência de
algo além do mundo lógico cartesiano”. Após a defesa de sua tese de doutorado, Rubem
decide acompanhar a esposa, que pouco tempo antes começara a freqüentar a UDV. Assim,
tem a sua primeira burracheira em 1996, da qual ele conta:
“A primeira burracheira a gente nunca esquece... Foi algo inesperado, nunca tinha tido
essa sensação de harmonização, de um caminho de harmonia, perceber que é possível
acertar as contas consigo, com as coisas do passado. Tanto que eu perguntei na sessão
o que é o passado, se o passado continua existindo... Vinha de um raciocínio a respeito
do lugar do passado e do futuro. A luz de uma estrela, depois que ela é emitida, se
torna atemporal, porque ela vai se expandir por todo o espaço que existe, mesmo
depois que a estrela que a emitiu tenha se extinguido. Então, o que a gente observa,
quando olha o céu, seria um passado de algo que não existe mais, mas que vai existir
eternamente ao mesmo tempo - um aparente paradoxo. [...] E também eu consegui a
partir dessa primeira sessão, foi um momento assim bem forte de chegar a uma
conciliação com o meu pai, passar a tolerar, a suportar melhor a ausência dele, que até
então era algo que eu ainda não havia trabalhado... assim como do nosso filho, ainda
não havia me conformado, estava pendente por anos, fazia quase cinco anos que meu
pai havia morrido, e eu ainda estava remoendo. Foi muito bom porque pela primeira
vez eu consegui entrar em contato com ele e fazer uns acertos que tava precisando. Nas
quatro primeiras sessões eu consegui ficar numa plena tranqüilidade, plena luz com ele.
Mas, era bem ele mesmo, da forma como ele era em vida, presença material. Foi uma
coisa bem boa, logo as primeiras sessões nesse sentido.”

Rubem passa a freqüentar a UDV, sua esposa associa-se primeiro e, seis meses após
aquela primeira sessão, ele se associa. Pouco mais de um ano depois ele é convocado para o
Corpo Instrutivo. Na semana da entrevista ele havia tido a sua primeira Sessão Instrutiva.

Soraia: a busca e o encontro

Se Rubem ainda está nos inícios de sua vivência na UDV, Soraia, de 45 anos de
idade, já tem 17 anos de participação. Ela nasceu no interior de Minas Gerais, em uma
família católica. Desde a infância, tinha a sua atenção despertada pela experiência da morte,
como ela conta:
“Desde menina me chamou muito a atenção, muito a atenção mesmo, a morte.
Por que as pessoas morrem, tem doença? Eu me lembro que aos cinco anos de idade já
97

pensava em ser médica pra descobrir o que que era a morte. Eu tive experiências fortes com
dois anos de idade, de morte de bichinho, que eu me lembrei com muito detalhe já, e com
criancinha que morreu que era vizinha. Então tudo aquilo me marcou muito. Então essa
questão da morte era algo desde a infância muito forte. Mas aí nessa época eu dissociei da
questão da religiosidade e aí parece que nunca mais pensei em Deus na minha adolescência.
Era uma coisa que foi abolida. Eu fui distanciada da Igreja, parei de participar dos rituais e
comecei a entrar numa linha mais filosófica, de querer conhecer o que que era o homem, o
que era a morte, aí lia sobre filósofos, lia sobre pessoas que investigavam estados de
consciência.”86

Houve então a aproximação de um enfoque mais científico, nessa busca de


compreensão da mente humana, que desembocou na sua decisão de estudar medicina e
especializar-se em neurologia:
“Aí comecei um outro tipo de busca de querer saber o que que era a mente, o
que que era o cérebro, como é que eram os comportamentos. É que eu sinto que no fundo
isso era uma linha da religiosidade, era uma busca, só que ficou racionalizada, ficou
totalmente racionalizada. Aí nessa busca racional de compreensão do que que é a vida, do
que que é a morte, eu estudei medicina e dentro da medicina também a necessidade de
querer entender mais, entender mais, e não achando resposta e na minha especialidade eu
fui buscar a neurologia pra ver se eu conseguia saber finalmente o que que é o cérebro, a
mente, o ser. E foi uma decepção enorme, porque eu percebia que as pessoas não sabiam
nem definir o que que era a consciência. Tinham estados de consciência e os graus de
inconsciência. Então, ou as pessoas estavam vigil ou estavam em coma torporoso, grau 1,
grau 2, grau 3 de profundidade. Mas não tinha nada que mostrasse que as pessoas estavam
mais acordadas ou menos acordadas, acordadas. Isso foi uma coisa que me chamou muito a
atenção desde o princípio. Tinha pessoas que pra mim era óbvio que elas não estavam
acordadas, embora trabalhassem, andassem. Aí então eu comecei a me interessar a estudar
uma área mais psicológica, pra ver se eu tinha mais respostas nessa linha, de querer saber o
que era o comportamento.”

86
Entrevista de Soraia, em São Paulo, 22 de outubro de 1998. As citações seguintes, neste item, são da
mesma entrevista.
98

É significativo que Soraia releia essa sua “busca racional de compreensão do que
que é a vida” ou “busca de entender a máquina homem” como uma busca religiosa. A
experiência posterior com o chá Hoasca propiciou-lhe uma reinterpretação de toda a sua
trajetória, como busca que chegou a um encontro. Ela narra esse encontro, que se deu na
primeira vez que ela bebeu o Vegetal, em 1982, quando uma amiga sua, médica da
Unicamp, lhe fala de “um chá que vinha da Amazônia” que lhe tinha proporcionado uma
experiência que ela compreendeu como visão de uma vivência acontecida em outra
encarnação. Soraia se interessou e foi conhecer o chá:
“Aí eu resolvi ir e a primeira vez que eu bebi o chá foi como se tivesse
resgatado o contato com a espiritualidade, como se eu tivesse sentido outra vez que eu sou
espírito. E foi uma coisa, uma experiência muito forte, muito interessante. Porque eu me
senti completamente conectada com o céu, com a terra, com os seres do planeta. Eu senti o
meu corpo como sendo a terra, sabe? Uma conexão do meu corpo com a terra, com o meu
ser... A primeira experiência eu posso definir como uma experiência de integração com o
todo, de unificação; a minha percepção é que eu era o todo, o todo era contido em mim, que
o meu universo interno era algo sem limite, uma sensação de ter Deus em mim e eu ser
Deus, mas não era uma sensação de um eu restrito, era aquele eu... que eu acho que depois
pelas descrições que eu vi, uma sensação de êxtase místico.”

E se desde a infância ela tinha um interesse pela natureza humana, nessa


primeira vivência lhe acontece algo inesperado: uma percepção da natureza a partir do reino
vegetal, que lhe é também ocasião do que ela chama de “resgate da religiosidade”:
“E que foi interessante também nessa primeira sessão, é que ao mesmo tempo
eu tive essa experiência de êxtase místico e depois na seqüência eu tive uma experiência
muito forte com a floresta amazônica, eu tive uma experiência de estar no meio da floresta
e de repente senti que eu era uma árvore. A percepção minha de que eu era árvore! Foi algo
que chamou muito minha atenção também. Até um animal eu acho que era uma coisa que
cabia dentro do meu conhecimento, mas algo do reino vegetal! Era uma percepção nítida,
era como se fosse perfeitamente cabível dentro da minha sensibilidade saber o que era uma
árvore, o que que sentia, como era, como era o fluir, como era a raiz, a folha, o vento, a
semente... um negócio assim muito difícil de descrever. Mas uma vivência de percepção
mesmo, uma percepção muito forte. [...] E imediatamente parece que eu resgatei a
99

religiosidade nesse primeiro copo de vegetal, foi como se de repente eu tivesse resgatado a
lembrança da religiosidade.”

Após essa experiência tão intensa, ela começou a ir em todas as sessões possíveis:
“Eu fui pro norte do país atrás da origem, eu fui pra outros núcleos, aonde
tivesse a oportunidade de beber o chá. E nessa época tinha aqui em São Paulo um mestre,
que era o Mestre Paixão, que era um mestre lá da floresta mesmo, então tinha uma
freqüência maior de rituais também. Então eu bebia em Campinas, era filiada em
Campinas, mas ia nas sessões aqui em São Paulo, nos preparos, porque eu queria saber o
que que era aquilo que eu tinha encontrado.”
Ao longo de quatro anos ela teve burracheiras fortíssimas, com muitas
mirações, nas quais freqüentemente se via em outros lugares, participando de rituais com o
uso do Vegetal:
“Era como se eu tivesse recuperando um conhecimento de um poder [...]. Na
medida que lia descobria coisas que eu já sabia. Reencarnação, não tinha dúvida alguma.
Muita coisa... [...]Nos meus primeiros quatro anos de vegetal isso foi muito forte. Aí passei
a ler tudo o que via pela frente a respeito de alquimia, ocultismo.”

Esse primeiro tempo, de predomínio das percepções visuais interpretadas


como recordações de outras vidas, foi sucedido por um segundo momento, que se estendeu
por seis anos, de exame profundo de si mesma:
“Aí começou uma outra fase de viagem profunda dentro de mim mesma. Era
como se eu vestisse uma lente de aumento para ver detalhes. Era beber o Vegetal e me ver!
Durou uns seis anos. Eu fazia psicanálise e o psicanalista, bem ortodoxo, queria saber o que
eu bebia. Acelerou muito meu processo de auto-conhecimento. Essa época foi muito fértil.”

Soraia também passou a ter uma compreensão nova a respeito da doença e


da cura. Chegou a estar em sessões nas quais teve visão da cura de algumas pessoas
acontecendo naquele momento. Outra vivência foi com o seu pai:
“Meu pai estava num pré-coma hepático, com muita dor. Aí comecei a fazer a
chamada da Serenita. O efeito das chamadas era algo tão evidente que minha mãe pedia que
eu fizesse.”
100

Soraia destaca a intensidade dessas experiências nos rituais da UDV e a relação


delas com as demais religiões:
“É uma vivência muito sensorial. Eu tenho a experiência, não me contam. Não
é a informação, é uma vivência. É precioso. É incrível a conexão com todas as religiões,
com o que tem de verdade em todas elas. sou super interessada na percepção que nas
religiões se tem de Deus. A experiência dos rituais xamânicos, dos budistas , dos católicos
que tem uma força enorme, mas ficaram mecanizados. A experiência da burracheira me dá
uma sensibilidade para os rituais. Sinto como é importante o ritual, pra criar uma
predisposição para se ter um contato.”

Na leitura que ela faz de sua trajetória, Soraia identifica uma terceira fase, atual, que
ela caracteriza como centramento “no aqui e no agora”:
“Depois disso foi uma experiência de presença, de me centrar, no aqui e no
agora, algo que é mais possível atingir numa meditação sem o uso do chá. Diminuiu o
conteúdo visual e ficou o sentimento de presença. Enquanto estou crescendo a burracheira é
fértil, quando estou estagnada a burracheira é vazia. [...]

Segundo Soraia, todas essas vivências não ficaram limitadas em um setor de


suas ações, mas transformaram sua vida, inclusive no âmbito profissional:
“Eu tinha uma frase: se eu acreditasse no que vocês dizem, minha vida ia ser
centrada nisso. E é como se desse uma guinada na minha vida. Mudou o direcionametno
profissional, não suportava mais uma visão delimitada, meu trabalho mudou
completamente, se tornou mais holístico. [...] A espiritualidade passou a ser o centro da
minha vida. Todo o meu trabalho gira em torno disso. O que flui de uma geração pra outra:
quanto mais me adentro mais reforça que a espiritualidade é o centro. Tem pacientes que
me dizem: ‘Ah, eu estou buscando a luz!’ A vida existe pra se conhecer o que é o espírito.
Conhecer o que existe. Quanto mais eu bebo o vegetal, mais eu tenho interesse em conhecer
tudo o que está relacionado com a espiritualidade.”

Na etapa atual de sua vida, Soraia revê o entusiasmo inicial, com as


dificuldades enfrentadas, e fala da serenidade do presente:
“Eu encontrei dificuldades no sentido da aceitação das pessoas. Pra minha
família era um espanto: ao mesmo tempo em que eles sabiam do meu conhecimento pra não
101

tar ali de bobeira, era difícil. Foi criado o Centro de Estudos Médicos e eu era a vice-
diretora. A pesquisa concomitante me levava a não pensar que eu estava equivocada.
Pesquisei no mundo inteiro quem já tinha estudado, tudo que podia estar relacionado com a
Hoasca eu pesquisei. No começo, houve uma postura fanática. De querer experimentar mais
e mais. A dificuldade maior foi continuar dentro dos esquemas que eu tinha: o tipo de
pessoas com quem eu convivia se alterou rapidamente. Na medida em que eu pude
conhecer a UDV, eu priorizei isso acima de qualquer outra coisa. E acho que foi
importante. Não acho que esse mergulho era fundamental. Hoje, estou em outro momento,
eu não preciso ir aonde tem, eu levo aonde eu vou. Hoje entrar em contato com vários
segmentos da sociedade, eu levo muito.”

Spencer: arquitetura à luz da Hoasca e rosas para a Virgem Maria

Spencer de Morais Pupo Nogueira87, atual Mestre Representante do Núcleo


Alto das Cordilheiras, tem 61 anos de idade e nasceu em Campinas, numa família católica.
Tendo tido na juventude uma trajetória que pode ser caracterizada como de participação na
contra-cultura e tendo cursado a faculdade de arquitetura, Spencer conheceu a UDV em
1975. Alguns anos depois, chegou ao Quadro de Mestres. No início dos anos 90, Spencer
discordou publicamente do então Mestre Geral Representante e foi afastado da comunhão
do Vegetal. Nessa época, ele parou de freqüentar a União do Vegetal “um ano, dois anos,
mais ou menos”88. Ele continua narrando suas atividades na seqüência:
“Aí teve um amigo meu, falou pra eu ir lá pra Porto Velho, fazer umas
conferências por causa da tese que eu desenvolvia de arquitetura, eu fazia umas
conferências lá nos órgãos públicos e eles me pagavam as passagens pra eu ir lá.”

Quanto à sua participação na União do Vegetal, Spencer conta:


“Daí continuei aqui meio vacilado, não ia, chateava as pessoas na sessão, nêgo
‘bonzinho’, eu dizia: ‘não é nada disso!’ Aproveitava meus conhecimentos e não deixava
passar nada que fosse piegas, nada que fosse de ‘bonzinho’. E assim foi, as pessoas tiveram
paciência comigo. Ou paciência ou não sabiam o que fazer também.”

87
Aqui não recorro à utilização de pseudônimo para designar Spencer, com a autorização do mesmo, para
poder citar sua tese doutoral e indicar a autoria de seus desenhos, apresentados nesta dissertação.
88
Entrevista de Spencer de Morais Pupo Nogueira, em Campinas, 3 de outubro de 1998. As citações
seguintes, neste item, são da mesma entrevista, salvo quando indicado o contrário.
102

No tempo em que estava começando a se reaproximar da UDV, Spencer viveu


uma experiência forte que desencadeou nele um “processo de conversão”:
“Daí eu fui pra Europa, num congresso de estados diferenciados de consciência,
por causa de uns desenhos que eu fazia. Um congresso em Lérida, na Espanha. [...] Teve
um dia que eu tomei pouco vinho - eu sou forte pra bebida, eu era forte pra bebida - no
tempo lá em que eu voltei pra União do Vegetal continuava bebendo umas cervejas. Fui
tomar um vinho e me deu uma coisa estranha, lá em Lérida. [...] E a peia comendo feia.
Como se eu tivesse de burracheira. Só tinha bebido vinho. Até que eu fiz uma chamada
‘bonzinho’... nem me lembro mais. Eu vou fazer tudo direitinho... aí melhorou. Mas nisso
aí eu vi o seguinte: teve uma hora que me mostraram, como se apontassem um dedo. O seu
trabalho é aqui - e mostrou este lugar. Aqui, neste núcleo. Aí que é o lugar do poder da tua
ação. Aí eu vim falei com o Paulo e tal, tô querendo voltar, num sei quê. Isso foi em 93.
Daí eu vim pra cá e comecei a limpar porta, trabalhar manualmente. Aí depois de um tempo
já vim pro Corpo Instrutivo, depois de um tempo pro Corpo do Conselho, depois vim pro
Quadro de Mestre, depois fui escolhido pra ser Mestre Representante e aqui estou.”

A partir de suas viagens à Amazônia, Spencer delineou o seu projeto de pesquisa


para o doutorado em arquitetura e urbanismo na Universidade de São Paulo:
“Trata-se do protótipo de um Modelo de Núcleo Urbano para Áreas de
Extrativismo na Amazônia [...]. Esperamos que este protótipo de Núcleo Urbano
Extrativista seja implantado no seringal ‘Novo Encanto’, área de 8.025 ha no Estado do
Acre, doado à União do Vegetal pela organização Norte Americana ‘Medicina da Terra’
que tem na Ecologia seu escopo principal”. (PUPO NOGUEIRA, 1994, p. viii - ix)

Na sua tese doutoral, Spencer expôs a sua experiência com a Hoasca como caminho
de acesso ao “processo de conhecimento pelo sentir”, que lhe possibilitou idealizar seu
“Núcleo Urbano Florestal”. Em sua obra, o arquiteto dedica um tópico a “O tempo de
borracheira”,
“com o intuito de transmitir a transformação no siginificado da substância dos
objetos materiais, escolhemos duas experiências relativas à Madeira, por se tratar do
material com que será realizada, praticamente, a totalidade do núcleo urbano projetado, e
também, por ser antigo conhecido dos arquitetos.” (Id., p. 54)
103

Spencer narra primeiramente suas experiências no Lago do Arara, Alto Rio


Negro, por ocasião de um Preparo do chá com os freqüentadores do Núcleo Caupuri de
Manaus:
“O dia amanhecera como o anterior, brisa leve, reflexo perfeito das águas
negro-espelho. Havíamos bebido o Vegetal de manhã (durante o preparo bebe-se diversas
vezes) e tido conversas agradáveis e proveitosas com os manauaras. À tardinha, luminosa
mas sem o Sol direto, estávamos apreciando o reflexo perfeito da floresta da margem
oposta nas águas, quando Pierluigi, um arquiteto italiano, chegou em minúscula canoa
indígena [...]. Por ele ter conseguido, nos atrevemos a tentar também depois de instruído,
meio inseguro, deslizamos no Lago do Arara. [...] Sentimo-nos tão bem, que deitamos no
fundo do barco, a claridade do céu não feria os olhos, e tivemos a maior sensação de
conforto e segurança que sentimos em nosso mais de meio século de vida.
“Pouco depois, ainda na embarcação, refletimos se aquela sensação sentida
enquanto estávamos envoltos pelo bojo da canoa - canoa que segundo a tradição indígena é
feita com a madeira de determinada árvore, árvore que antes de ser derrubada foi
consultada se o poderia ser para que com ela se fizesse um barco, barco que abrigaria uma
família, família agradecida a ela por ter cedido seu corpo como barco para a labuta diária -
poderia ter sido vivida em outro barco anônimo de alumínio ‘leve e forte’? ”
“Continuamos a refletir, inquirindo se aquele costume contido no ritual da
árvore não poderia ser vestígio de uma civilização esquecida, sensível a outra categoria de
conforto emanado diretamente da substância?” (Id., 55-56)

Em seguida, Spencer descreve uma segunda experiência, esta no templo do


Núcleo Lupunamanta, em Campinas, que ele havia projetado e construído:
“Em uma sessão de Vegetal, durante o alto tempo de borracheira,
confortavelmente instalado em uma poltrona, rodeado de pessoas conhecidas, estávamos
olhando vagamente o espaço formado pelas vigas e caibros da alta cobertura, parecia mais
uma ossatura, vista por dentro, de um enorme animal (percepção que nos auxiliou a
conceber a Grande Cobertura do núcleo urbano que dissemos lembrar a caixa toráxica da
mítica Anaconda, em perspectiva interior).”
“Repentinamente, como uma vertigem, destacou-se em nossa percepção o
tensor de uma das grandes tesouras que sustentam esta cobertura. Ele havia se desrevestido,
ou melhor (?), nós o havíamos desrevestido de sua conotação anônima de madeira, e se
transmutado, na lembrança da grande árvore que fora, singular e presente. Árvore, como
104

que, exigindo um espaço na consciência humana, em que fosse reconhecida sua virtude de
estar aí, firme e quieta cumprindo sua missão de sustentar o abrigo do homem. A visão se
enriquecera com o pulsar em nós, de um agradecimento desconhecido, por toda aquela vida
materializada em madeira. Um estalo na lareira chamou nossa atenção para uma lenha em
chamas, que parecia dizer: ‘também estou aqui, há muitos milênios!’ Lembramos de nossa
pós-graduação em ‘Madeiras e suas características’ em que o Prof. João dissera: ‘a madeira
é puro raio de sol, com um pouco da poeira da terra’. Nesse instante, por estranha
sincronicidade muito comum nas sessões do Vegetal, um dos presentes começou a ‘fazer
uma chamada’ (música evocativa de forças da natureza, cantada durante uma sessão por um
discípulo que ‘sentiu’ que o deveria fazer), era a ‘Chamada da Samaúma’ [...], a maior
árvore da Floresta Amazônica.” (Id., p. 56-57).

Assim, Spencer apresenta a primeira tese acadêmica no Brasil com uma reflexão
acerca da União do Vegetal. Além de arquiteto e professor, Spencer é artista plástico. Os
longos anos de seu “processo de conhecimento pelo sentir”, mediado pelo chá Hoasca na
UDV, refletem-se em seus desenhos e pinturas, dos quais exponho aqui algumas
reproduções. Alguma idéia acerca da conexão entre sua experiência estética e sua vivência
espiritual-religiosa pode ser proporcionada pela sua narrativa de um exercício imaginativo
orante, que ele tem feito diariamente, sem o uso do Vegetal:
“De uns meses pra cá meu relacionamento com Deus vem melhorando muito
graças à Virgem Maria. Por ser homem, a minha parte afetiva de relacionamento com o
Superior, sendo com mulher facilitou, mas agora tá bom com Deus também. Faço umas
alquimias... num livro, eu li que a Virgem Maria disse que tem uma casa branca dentro de
cada um de nós. Então aquela imagem da Igreja Católica, muito no altar - ah eu pequeno! -
diminuiu aquilo por uma palavra que ela fala: ‘Vem, entra, vem aqui nessa casa, acaba de
fazer o projeto do jeito que você achar melhor, eu tô aqui dentro, te quero bem, pode me
chamar de mãe se você quiser’. E daí foi uma palavra que pra mim foi mágica: ‘Porque
aqui dentro a camaradagem de mãe e filho é natural’. Vai ter oito meses, mais ou menos,
que faço uma alquimia imaginativa nessa casa, nesse jardim que eu tô inventando: uma rosa
por dia, todos os dias, enquanto toca três ave-marias, na primeira invento a rosa, na segunda
busco a Virgem Maria na casa dela e na terceira mostro a rosa pra ela acabar de fazer a
rosa, tudo isso na imaginação. “
“E daí resolvi fazer a Chamada do Amor Vivíssimo que poucos mestres têm
coragem de fazer. Aí fiz um preparo aqui, que todo mundo reconhece que foi um Vegetal
105

ponto grau. Senti no momento do preparo com a Virgem Maria dum lado e com a Senhora
Santana do outro. De pé uma do lado e outra do outro, eu de pé também. [...] Um preparo
interessante, mudou o núcleo aí. E a parte mais forte da chamada é aquela: “alcançai a dor
profunda de meus pecados”. Essa que é a parte. Porque você com essa frase tem que se
abrir, não tem coisa escondida. Nessas alquimias mentais aí... Jesus fala: ‘a pessoa pra
entrar no Reino do Céu tem que ser como um menino’. Então nas minhas alquimias o que é
que eu fiz? Eu fiquei como um menino.”

Desse modo, sua narrativa aponta para uma significativa transformação ao


longo de sua trajetória na UDV, emblematizada por essa mudança, de crítico que “chateava
as pessoas na sessão” e “não deixava passar nada que fosse piegas” para um afetuoso
devoto da Virgem Maria, que, com seus conhecimentos de arquitetura, lhe constrói uma
casa em sua imaginação e, com seus dons artísticos, cria para ela uma nova rosa a cada dia.
106

3.2. ALCANÇAR O ALTO DAS CORDILHEIRAS

“De dentro do resumo, e do mundo em maior,


aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu:
fôlego de fôlego de fôlego - da mais-força, de maior-coragem.”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

No intuito de descrever a vivência simbólica dos participantes da União do Vegetal


do Núcleo Alto das Cordilheiras, me concentrarei em algumas das categorias presentes no
discurso desses membros da UDV: burracheira, Mestre e discípulo, conhecimento, sentir,
consciência, memória, ordem, peia, mirações, evolução espiritual. Essas categorias nativas
serão abordadas sob um enfoque interpretativo, na busca de captar a lógica da experiência
simbólica da União do Vegetal.

O título deste tópico, além de evocar o nome do núcleo no qual realizei meu
trabalho de campo, faz uma referência ao uso pelos participantes da UDV da expressão
“Alto das Cordilheiras” para designar o lugar mais elevado no “Astral”, o lugar da
divindade, para onde os discípulos esforçam-se em chegar. Como na narrativa fundante da
União do Vegetal, a História da Hoasca, há uma referência ao Império Inca, faz sentido que
o “Alto das Cordilheiras” tenha sido o símbolo escolhido para falar do mais alto lugar
espiritual. E assim como para a escalada de uma alta montanha, faz-se necessário um
grande empenho, firmeza, fôlego, para alcançar as alturas do “Astral” divino. Os termos
apresentados a seguir podem ser considerados como balizas que orientam o percurso do
discípulo em direção ao topo desse monte.

Burracheira

O estado alterado de consciência desencadeado pela ingestão da Hoasca é chamado


de burracheira. Na Colômbia, as populações amazônicas designam de borrachero ou
borrachera os arbustos do gênero Brugmansia, que costumam mesclar com a
89
ayahuasca . Isto atesta que há na área amazônica de língua espanhola um uso do termo
borrachera não apenas no acepção comum da palavra em castelhano, de embriaguez
89
Cf. LUNA, 1996, p. 25. SCHULTES, RAFFAUF, 1990, p. 419-422. SCHULTES, HOFMANN, 1992, p.
27.
107

motivada por bebida alcoólica, mas também num sentido específico de estado alterado
causado por planta psicoativa. No entanto, o significado da palavra burracheira para os
discípulos da UDV, segundo palavras do Mestre Gabriel, é “força estranha”. O efeito do
chá Hoasca é algo de difícil caracterização, dada a pluralidade de possíveis vivências
suscitadas por seu uso. De modo geral, pode-se falar de uma alteração intensa das
sensações, sentimentos e percepções durante o período de efeito da Hoasca, que costuma
durar aproximadamente quatro horas, que é o tempo de duração de uma sessão da UDV.
São freqüentes as experiências de percepções visuais denominadas mirações.

Roberto, jovem na faixa dos 20 anos, estudante universitário, respondeu do seguinte


modo à pergunta que fiz acerca do que é a burracheira:
“A burracheira pra mim é um estado de consciência que a gente fica, de espírito. Pra
mim eu vejo que quando eu tô nesse estado de burracheira é como se o meu espírito
tivesse sido alimentado. De repente, a gente analisa a realidade aqui, essa mesa, vê as
coisas palpáveis.... e a burracheira apresenta os novos tipos de sentido. De repente a
plantinha que tá ali... você olha pra planta diferente do que tava olhando, ‘ah aquela
planta tá assim, assim’; você consegue ver uma análise da realidade de um jeito muito
mais profundo. E também pinta uns novos estilos de pensamento, pensa umas coisas
que é só possível pensar tando de burracheira, só assim não sei, mas é um jeito que
pelo menos pra mim eu não consigo conceber assim... tipo um pensamento que às
vezes eu tenho de burracheira analisando a verdade da vida: tempo, espaço, Deus.
Você sabe, essas coisas assim, de repente você chega a pensar umas coisas lá que
você não tem nem palavras, que você tá lá pensando. Então é uma coisa nesse nível.”90
E, além dos pensamentos, ele também fala do sentimento mais experimentado no tempo de
burracheira:
“Ah, esse sentimento de gratidão, mesmo! Gratidão por ser um cara, tô vivo, isso é
uma realidade. Tem outras coisas da vida pós-morte que eu acredito, mas tem aqueles
caras que são céticos, então não dá pra provar. Mas uma coisa que dá pra provar é
assim: eu tô vivo, aqui, pensando, com a minha consciência, o mundo inteiro, um
monte de cabecinha pensando... mas eu sei que eu tô aqui, de repente eu sou o Roberto,
tenho a minha vida, meus amigos, as coisas que acontecem, tal, toco violão, toco
guitarra, posso fazer umas coisas assim... Então quando tô lá assim, uma coisa que fica
sempre presente muito pra mim é a gratidão, a gratidão acho que é mais marcante.”91

90
Entrevista de Roberto, em Campinas, 26 de outubro de 1998.
91
Id.
108

O livro que faz a apresentação institucional do CEBUDV afirma que “o efeito do


chá pode ser comparado ao êxtase religioso [...] - um estado de lucidez contemplativa, que
coloca a pessoa em contato direto com o plano espiritual” (CENTRO ESPÍRITA
BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1989, p. 30). Assim, a burracheira é concebida
na União do Vegetal como uma força, algo que tem origem na própria “Força Superior”,
expressão freqüentemente utilizada para fazer referência à divindade. Essa força é
desconhecida, estranha, para o ser humano. Por isso, o participante da UDV busca se
preparar para, durante as sessões, entrar em contato com a burracheira. O Mestre é aquele
que o conduz nessa experiência.

Mestre e discípulo

Certamente, a palavra que se pronuncia mais vezes numa sessão da União do


Vegetal é mestre. Antes de mais nada, é a palavra mais usada para se denominar “a
Divindade”, ou “a Força Superior”. Os seres humanos estão neste mundo para aprender, ou
seja, evoluir espiritualmente. Assim, Deus é sobretudo o Mestre que ensina. Ensina a
quem? Surge aqui o correlato à categoria de mestre: o discípulo. Este surge en creux, não é
uma palavra tão freqüentemente utilizada como mestre, mas está de certo modo implícita na
fala de quem chama o mestre, colocando-se no lugar de aprender. Aprender o quê? Surge
aqui o terceiro elemento dessa relação: o conhecimento. O Mestre transmite o conhecimento
das coisas espirituais. Desde já, pode-se perceber o papel fundamental que cabe ao
conhecimento na UDV. E assim como a vida, também o ritual é um aprendizado, a UDV é
uma escola na qual se aprendem os ensinos do Mestre. E o Mestre tem seus mensageiros
que trazem os seus ensinos. José Gabriel da Costa é um deles, como Salomão, Jesus... O
fundador da UDV é, portanto, chamado igualmente de Mestre. Segundo um conselheiro,
José Gabriel da Costa “é um mestre que conhece o caminho que um espírito precisa
percorrer para encontrar o significado de sua própria existência; e conhece porque
percorreu o seu próprio caminho; e é mestre porque se dispôs a auxiliar”.92

92
Entrevista de Nelson, em Campinas, 30 de setembro de 1998. Grifos meus. Produtor cultural, na faixa dos
40 anos.
109

A todas as pessoas que entrevistei fiz a pergunta: “Quem é, para você, José Gabriel
da Costa?”. Houve uma grande variedade de respostas. Denise, que está no Quadro de
Sócios, respondeu: “Mestre Gabriel pra mim é um mistério. Eu ainda não sei o que sinto,
ele é um velhinho interessante, [...] é difícil achar que ele é mestre, um mestre pouco
convencional. É mais fácil pensar num lama tibetano.”93 Aparece talvez aí a dificuldade de
alguém de formação universitária aceitar como mestre um seringueiro semi-analfabeto.
Realmente, um lama tibetano seria certamente mais palatável num primeiro contato. Mas à
medida que as pessoas permanecem mais tempo na UDV o mistério dessa pessoa as
envolve cada vez mais. Renato, que já participa da UDV há 18 anos, diz a respeito de José
Gabriel da Costa: “É um mistério, ele é fascinante, ele é a luz. É como ter de descrever o
que é a humildade. Precisa sentir.”94 Respostas como essa, que fazem recurso a palavras
muito utilizadas na UDV, como luz e mistério, são recorrentes. Assim como a indicação do
caminho do sentir como possibilidade de acesso à percepção de quem ele é. Um outro
aspecto, apontado por Alice, que conhece a UDV há 10 anos, é a proximidade de José
Gabriel da Costa:
“Um grande amigo, alguém que mesmo que eu não conheci pessoalmente é alguém
muito próximo. E mais, é um amigo que se faz presente nos momentos importantes de
minha vida. Eu até penso em desistir mas ele sempre de uma maneira inteligente me
traz de volta. Até porque tem uma característica: eu não conheço outro mestre que se
coloque de forma tão humana. ‘Andei no mau caminho’, coloca-se num plano como o
nosso. Mostra que a transformação é possível de verdade.”95
Esse sentimento de proximidade é também apontado por Clarice, uma senhora simples,
com pouco estudo acadêmico, que já passou por muitas situações de sofrimento e percebe
essas dificuldades na vida de José Gabriel da Costa:
“É uma pessoa assim que não teve estudo [...] Mas, por que ele foi tão sofrido? Viveu
num lugar pobre, seringueiro, teve um filho excepcional. [...] Por que não veio numa
vida melhor, sem tantos problemas financeiros? [...] O Mestre Gabriel é um
recordado.”96
Esse olhar de empatia, que vê no “Mestre” um espelho de si mesmo e, simultaneamente,
alguém que tem um “grau” espiritual alto, também se verifica na entrevista de Mestre

93
Entrevista de Denise, em Campinas, 19 de outubro de 1998. Médica, na faixa dos 30 anos.
94
Entrevista de Renato, em São Paulo, 21 de outubro de 1998.
95
Entrevista de Alice, em Campinas, 17 de setembro de 1998. Advogada, na faixa dos 30
anos.
96
Entrevista de Clarice, em Campinas, 15 de setembro de 1998. Dona de casa, na faixa dos 70 anos.
110

Décio, psicoterapeuta: “ele é um terapeuta interno. Pra mim hoje o Mestre Gabriel é uma
luz, que permite o desvelamento do meu eu verdadeiro; quando o meu eu verdadeiro estiver
plenamente lapidado, a missão dele comigo estará concluída.”97

A polissemia da vida de José Gabriel da Costa está, primeiramente, relacionada ao


caráter polissêmico de toda existência humana. Mas, pela densidade e diversidade das
experiências por ele vivenciadas e pelo âmbito sagrado no qual se dá o conhecimento e
identificação com o “Mestre”, por vezes se observa um processo que poderia ser lido, numa
perspectiva hermenêutica, a partir deste texto de Ricoeur:
“Ao se compreender a si mesmo nos e pelos signos do sagrado, o homem opera a mais
radical despossessão de si mesmo que é possível concebermos. [...] Uma arqueologia e
uma teleologia desvelam ainda uma arché e um télos de que o sujeito pode dispor-se
ao compreendê-los. O mesmo não ocorre com o sagrado [...] Desse alpha e desse
ômega o sujeito não poderá dispor-se. O sagrado interpela o homem e, nessa
interpelação, anuncia-se como aquilo que dispõe sua existência, porque a põe
absolutamente, como esforço e desejo de ser.” (RICOEUR, 1978, p. 23).
Assim, tanto o arché - o princípio, a origem, o enraizamento no passado - que se desvela
em experiência do limite na vida de Clarice e de José Gabriel da Costa, quanto o télos - o
fim, a meta, o dinamismo voltado para o futuro - que se vislumbra na superação dos limites
na existência do Mestre e nos desejos de Décio de um eu plenamente lapidado são
vivenciados como interpelação radical que dispõe a vida numa dinâmica de busca.

Também os líderes da União do Vegetal são designados pelo nome de mestre.


Assim, há três planos de aplicação da palavra mestre numa sessão da UDV: o divino, o
relativo ao Mestre Gabriel e o referente aos que têm “a estrela de mestre” no CEBUDV.
Essas significações múltiplas da palavra “mestre” numa sessão da UDV podem suscitar
ambigüidades, mas provavelmente serão mal-entendidos produtivos, na medida em que se
delineia uma correlação alto-baixo que sanciona a autoridade hierárquica e faz com que o
divino seja sentido como mais próximo. A todo momento chama-se o Mestre, e o mestre
dirigente da sessão, prontamente, responde. Nos estatutos, por exemplo, se afirma que “a
sessão será dirigida pelo Mestre e por quem for designado a representá-lo”, ou seja, todas as
sessões têm por dirigente o Mestre Gabriel; a pessoa que ocupar o lugar de “mestre

97
Entrevista de Décio, em Campinas, 15 de outubro de 1998. Psiquiatra e psicoterapeuta, na faixa dos 50
anos.
111

dirigente da sessão” será um representante dele. Na maioria dos núcleos onde já estive, nas
ocasiões em que uma mulher dirige uma sessão, quando é feita uma pergunta a ela se usa a
fórmula: “Mestre, o senhor dá licença de fazer uma pergunta?” Mas no Núcleo Alto das
Cordilheiras presenciei uma sessão em que uma conselheira que ocupava o lugar de mestre
dirigente respondeu a alguém que usou essa fórmula: “O senhor pode me chamar de
senhora mesmo...” De qualquer modo, busca-se enfatizar que o dirigente está no lugar do
Mestre Gabriel. Esse aspecto do lugar é ressaltado, no sentido de que “Mestre da União do
Vegetal” realmente é o Mestre Gabriel, os demais “mestres” são também discípulos, que
têm uma tarefa: transmitir a doutrina da União e, junto com os conselheiros e conselheiras,
dirigir o núcleo da UDV.

O discípulo, como afirmei acima, é alguém que se coloca no lugar de aprender. E a


sessão é o espaço mais adequado para isso. Assim, na UDV o tempo do ritual é fortemente
marcado como um tempo de exercício da palavra. O jogo de perguntar e responder
preenche a maior parte da sessão. E a pergunta é feita ao mestre dirigente que responde
enquanto mestre, isto é, como alguém que ensina. Ao chamar esse jogo de “exercício da
palavra”, refiro-me aqui a um sentido forte do termo exercício. Assim como uma atividade
física intensa e ordenada é um exercício, do mesmo modo o uso da palavra nas sessões da
UDV exige muitas vezes de quem o faz um esforço, atenção e precisão que fazem de tal
atividade um exercício exigente. Diante da força da burracheira, pode ser necessário um
esforço grande, até mesmo para simplesmente levantar-se e articular uma pergunta. No
turbilhão de sensações da burracheira, pode ser preciso muita concentração e atenção para
focar um assunto e elaborar uma questão sobre ele. E neste jogo se demanda uma fina
precisão, na medida em que não se pode usar qualquer palavra de qualquer modo. Há toda
uma série de prescrições que visam excluir das sessões palavras inadequadas, já que a
burracheira é percebida como algo que é moldado plasticamente pela palavra, o que suscita
cuidados para que as pessoas não sejam conduzidas por palavras inadvertidamente
pronunciadas a situações difíceis. Deste modo, há toda uma preocupação com a forma, com
a escolha dos vocábulos, que faz desse exercício da palavra algo exigente. E ainda mais,
muitos mestres costumam corrigir os discípulos quando estes empregam uma palavra ou
expressão inadequada. Quando, por exemplo, o que pergunta diz: “Eu queria saber...”, ele
pode ouvir do mestre: “O senhor queria, agora não quer mais?” Assim, faz-se necessária
uma certa docilidade do discípulo, para se deixar corrigir pelo mestre... A disponibilidade
112

para aprender e a participação nas sessões, principalmente perguntando, assim como o


empenho em participar dos trabalhos e atividades do núcleo possibilita ao discípulo vir a
ser convocado para o Corpo Instrutivo, o grupo de discípulos que já subiu um degrau na
hierarquia, podendo participar das sessões instrutivas, realizadas a cada dois meses, nas
quais são transmitidos ensinamentos mais reservados da UDV.

Conhecimento

A relevância do conhecimento, na visão de mundo da UDV, pode ser observada


considerando-se os pedidos feitos no ritual e pelos frutos que se ensina esperar da
burracheira: receber da chacrona, o arbusto Psychotria viridis, luz para conhecer e do
mariri, o cipó Baisteriopsis caapi, força para aplicar o conhecimento na vida. Essa ênfase
na busca do conhecimento assemelha-se àquela ensinada pelo gnosticismo dos primeiros
séculos da era cristã. Ainda que na União do Vegetal esse elemento seja equilibrado com a
acentuação dada igualmente à necessidade daquilo que Mestre Gabriel chamou “a prática
fiel do bem”.

Perguntado se a UDV é uma gnose, um mestre respondeu:


“No sentido da palavra, sim. É difícil dizer o que eram os gnósticos, porque é
um nome usado pra tantas coisas diferentes, uma coisa muito difícil... Mas, no aspecto
do conhecimento, do valor espiritual do conhecimento, da realização pelo
conhecimento, eu acho que tem muita coisa a ver. Porque tem muitas coisas
normalmente associadas ao que se chamava de gnóstico que não têm a ver, como por
exemplo, uma divisão entre eleitos e não eleitos, esse aspecto não existe. Mas existem
alguns aspectos de ensinamento que são coisas assim literais, escrita assim a mesma
frase. Então alguma coisa tem a ver. [...] O Mestre Gabriel nunca se colocou como
detentor exclusivo do conhecimento. O conhecimento está no alto, quem chegar lá
alcança.” 98

Essa relação com a gnose pode ser inferida a partir da afirmação de Luísa,
Conselheira, na faixa dos 50 anos, psicóloga: “a linha do Vegetal, essa linha mais direta,
pros herdeiros de São Tomé; a fé deles precisa das colunas do sentimento e do

98
Entrevista do Mestre Paulo, em Campinas, 16 de outubro de 1998.
113

conhecimento.”99 Nesse aspecto, é possível pensar uma analogia com a crença dos antigos
romanos, que não acolhiam afirmações teológicas e metafísicas sem antes submetê-las à
crítica. Linder e Scheid afirmam que “de ce point de vue, les Romains étaient des Saint-
Thomas, mais de Saint-Thomas modèles de la bonne foi, et non de l’incroyance” (LINDER,
SCHEID, 1993, p. 55). E na nota relativa: “La meilleur preuve étant celle des yeux”(Id.,
nota 46, p. 60). Ora, o exercício da crença na UDV talvez possa ser definido como aquele
dos “herdeiros de São Tomé”, como disse Luísa, na medida em que a fé não é exigida a
priori, mas se configura como o resultado de uma vivência - na qual, aliás, a visão tem um
papel de substancial importância - das faculdades do sentir e do conhecer. Como aponta
Otávio Velho:
“Agora, é como se São Tomé fosse o apóstolo do novo tempo. Um tempo que exigiria
uma religiosidade da experiência direta, onde o conhecimento subsume a afetividade e
é posto no lugar da transmissão exclusivamente por via da tradição, a qual não tem
valor senão na medida em que é reinventada convincentemente.” (VELHO, 1998, p.
38).

Assim, o próprio Mestre Gabriel disse: “não acreditem no que eu digo; examinem!
... pra ver que eu estou certo.” Esta frase é muitas vezes recordada nas sessões e fora delas,
e traz para a União do Vegetal uma flexibilidade quanto aos graus de aceitação da doutrina,
na medida em que esse exame permanece aberto. Luís, professor, na faixa dos 50 anos,
afirmou:
“As religiões exigem uma conformidade e um consenso, mas a UDV não. Embora ela
aparentemente exija, ela abriga muitas pessoas como eu. A gente aprende o que a gente
pode falar e o que não pode. É interessante você olhar o Rajneesh. Ele dizia: ‘a única
coisa que eu exijo de vocês é que façam as meditações’. A UDV diz: ‘bebe o Vegetal e
paga a mensalidade’. Não tem nenhum credo.” 100
No entanto, essa afirmação deve ser matizada, levando-se em conta que quem a faz é do
Quadro de Sócios, apesar de já beber o Vegetal há mais de 4 anos. Como ele mesmo
reconhece: “Eu não sou da instrutiva. Você tem que mostrar que é da UDV, que faz as
perguntas certas... Eu até gostaria, mas tem de passar por tudo isso. De certa forma eu não
sou da UDV.”101 Luís percebe que a convocação para o Corpo Instrutivo manifesta um grau
de adesão que ele ainda não tem, o que faz com que de certo modo ele se sinta fora. Por

99
Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998.
100
Entrevista de Luís, em Campinas, 6 de novembro de 1998.
101
Id.
114

outro lado, para o Quadro de Sócios é grande a flexibilidade. Já do Corpo Instrutivo é


esperado um compromisso maior, até mesmo nesse aspecto doutrinário, pois um dos
boletins afirma: “Só poderá seguir na Sessão Instrutiva aquele que aceitar as doutrinações
da mesma”102. Mas não há um detalhamento do que significa essa aceitação, assim,
permanece uma margem significativa para uma diversidade de compreensões. Certamente,
a ascensão nos graus da hierarquia está relacionada ao grau de adesão à doutrina de Mestre
Gabriel, mas não de uma maneira unívoca, já que por exemplo, pode-se perceber de um
núcleo para outro uma diversidade de exigência de conformidade.

Sentir

A UDV é uma religião de tradição oral, na qual a porção da doutrina considerada


pelo próprio grupo como fundamental - as histórias e as chamadas - não está escrita e nem
poderia vir a ser assim registrada, já que está prescrito que os ensinamentos sejam
transmitidos “de boca a ouvido”. Isto suscita uma certa perplexidade em seus novos
adeptos: qual o critério para se saber se o conhecimento é verdadeiro? O mesmo Mestre
Paulo, abordando a questão da identidade de José Gabriel da Costa, fala que “existe esse
risco de cada um de nós hoje chamar uma série de coisas, de sensações a respeito de si
mesmo, de chamar dessa palavra, de ‘Mestre’. [...] As pessoas costumam criar essa figura:
‘eu falei com o Mestre’ , ‘o Mestre me disse’, né?” Mas, em seguida, Paulo fala de
determinadas ocasiões em que pôde perceber uma “força inteligente” atuando na União do
Vegetal:
“Em muitos casos é muito perceptível essa intencionalidade, essa forma como as coisas
vão acontecendo, e que se acontecesse diferente o resultado seria outro. [...] Quando eu
digo uma força inteligente é algo que eu sinto que tem um propósito, uma razão, não é
uma força como a força de uma tempestade, uma força que a gente sente que é uma
força mas não dá pra perceber a direção. Mas no caso da União do Vegetal existe esse
aspecto inteligente e na minha vivência pessoal, e nessa conversa você pôde ver
exemplos, como na minha primeira miração, que eu vejo como se fosse uma estratégia,
uma estratégia de como chegar até a mim. [...] Então, pra mim, esse José Gabriel da
Costa, além de ser o homem que foi, com o exemplo, que acho que é um exemplo
102
Boletim da Consciência Conservando a Tranqüilidade dos Filiados do Centro, 4a parte. CENTRO
ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 58.
115

muito importante, próximo, brasileiro, próximo no tempo, na forma de vida, no espaço,


localização geográfica, linguagem, além de ser esse homem, eu identifico o Mestre
Gabriel como essa força inteligente na União do Vegetal.”
Em seguida, eu lhe pergunto qual é o critério para perceber o que é verdadeiramente ação
dessa “força inteligente” e não “personalizar sensações individuais” e chamá-las de “Mestre
Gabriel”. E ele responde:
“A gente vai voltar no sentir, né? Eu uma vez perguntei pra uma pessoa, que inclusive
eu conheci antes da União do Vegetal, uma senhora que desencarnou antes de eu
chegar na União do Vegetal, uma pessoa muito espiritualizada, muito legal. Mas ela lia
uns livros que eu achava que não tinha nada a ver, Lobsang Rampa, um negócio assim
que eu achava meio marketeiro. Aí eu perguntei pra ela: ‘Puxa, eu não entendo... por
que você lê esses negócios, aí?’ Ela falou o seguinte: ‘Eu leio, eu leio tudo, agora, eu
só guardo aquilo que me toca o coração.’ E é mais ou menos isso, viu? Você sabe;
quando é, você sabe.”

Esse status legitimador do conhecimento que tem o sentir na UDV também apareceu
claramente em uma sessão no Rio de Janeiro, no Núcleo Pupuramanta. Falava-se acerca da
verdade. Quando um discípulo perguntou como se pode ter a certeza de que algo que se vê
na burracheira é verdadeiro e não uma ilusão, o mestre dirigente da sessão respondeu:
“quando algo que o senhor vê é, realmente, verdade, o senhor sente; o sentimento mostra
pro senhor que é verdade”. Afrânio Patrocínio de Andrade, que participou do Núcleo São
João Batista, de São Paulo, também aponta para a dimensão do sentir, afirmando em seu
último capítulo: “Essa Religião, uma vez abandonando muitas das falácias da razão e se
apegando a uma experiência em que se congeminam sentimentos e emoções, traz para o ser
humano da cidade um elemento que lhe é caro: a consciência de si próprio.” (ANDRADE,
1995, p. 246. Grifos meus).

Há, certamente, a autoridade de Mestre Gabriel, o fundador, que é aceita como a de


alguém que é o “Mestre dos Mestres”103. No entanto, na interpretação de suas palavras ou
naqueles pontos sobre os quais ele não se pronunciou, o sentimento é um critério
fundamental, especialmente o sentimento durante a burracheira. É verdade que, na mesma
sessão acima citada, um outro mestre lembrou que há o Conselho da Recordação dos
Ensinos do Mestre Gabriel, que reúne aproximadamente doze pessoas dos inícios da União,

103
Mistérios do Vegetal, texto lido no início de toda sessão de escala.
116

aqueles que receberam a “estrela de mestre” das mãos do Mestre Gabriel. Assim, segundo o
Mestre Manoel Nogueira, Mestre Geral Representante em 1996 e 1997, já falecido, “todos
nós, unidos, somos o Mestre Gabriel. Agora, para se chegar a essa união, não é fácil. Até
hoje, não se chegou. [...] Há ainda muita coisa pra acertar, pra esclarecer.”104 Pelo contexto,
pode-se perceber que aí a palavra “nós” refere-se aos mestres do Conselho da Recordação.
De qualquer modo, ainda que em controvérsias específicas esse órgão tenha autoridade
suprema para definir em consenso a doutrina legítima, no quotidiano da vida dos discípulos
da UDV, um critério básico é aquele referido acima, dado pelo Mestre Gabriel:
“examinem!” Tal exame, para um discípulo da UDV, certamente não deve ser guiado pelas
“falácias da razão”, como dizia Afrânio Andrade, mas sim pelo sentimento iluminado pela
“luz da Hoasca”, isto é, o sentimento aguçado e aprofundado pela experiência da
burracheira.

Em 1981, foi publicada uma reportagem de capa, na revista Planeta, com o título: A
Oasca e a religião do sentir105 (ARARIPE, jun 81, p. 34-41. Grifos meus). O autor,
Flamínio de Alencar Araripe, até hoje é discípulo da UDV, do Núcleo Tucunacá, em
Fortaleza, Ceará. No artigo, ele afirma que “é uma experiência inesquecível sentir a energia
deste chá em ação no organismo humano” (p. 36). Descrevendo o efeito do chá, escreve
que “no interior da pessoa ele age como desobstrutor da sensibilidade real do organismo”
(Id.); “é como se a sensação da matéria física entrasse em outro referencial onde o espírito
comanda a sensibilidade” (p. 37). Falando do “poder de transformação” do Vegetal, afirma
que “verdadeiras mudanças se operam entre as pessoas que continuam comungando este
chá”: “a sensibilidade aumenta e com ela o discernimento” (p. 40). Essa reportagem teve
ampla repercussão entre os discípulos da UDV, de modo que até hoje freqüentemente são
feitas referências à União do Vegetal como “a religião do sentir”. Indagando a Flamínio a
respeito da origem dessa expressão, ele me respondeu por e-mail:
“Na sessão do dia 22 de julho, em São Paulo, conversei no Núcleo Samaúma com o
autor desta expressão, o mestre Mario Piacentini, sobre o assunto da sua indagação.
Falei pra ele que sempre quando comentam pra mim esta definição da UDV que deu
título à reportagem da Planeta, digo que ele é o autor. O velhinho com 83 anos,
continua a transmitir a mesma alegria e lucidez de quando o conheci. Se você ainda

104
Mestre Manoel Nogueira fala das origens da UDV. Entrevista a Cristina da Luz. Jornal Alto Falante,
Brasília: nov– dez 94–jan 95, p. 9.
105
A grafia da palavra “Oasca”, sem “H” no início, foi um lapso do autor do artigo, pois bem antes de sua
publicação, já se havia fixado, entre os membros da UDV, a grafia “Hoasca” com “H” inicial.
117

não o conhece, é uma experiência gratificante. [...] O segundo crédito nesta história
deve ser dado ao então editor da Planeta, que soube pinçar do texto a expressão que
define o todo, o Ednilton Lampião, que já desencarnou.”
É relevante que essa expressão tenha sido cunhada pelo M. Mario Piacentini, um mestre de
São Paulo, que inclusive foi pastor protestante antes de conhecer a UDV.

Assim, fiz em minhas entrevistas a pergunta: “Alguns chamam a União do Vegetal


de a religião do sentir. Você considera esta uma expressão apropriada?” Aproximadamente
dois terços dos 50 entrevistados responderam afirmativamente a questão. Os demais
matizaram a sua resposta, dizendo que sim, em termos. E somente três pessoas
consideraram que não, vendo essa afirmação apenas como “uma frase achada, um
slogan”106.

Segundo Augusto, arquiteto, na faixa dos 30 anos de idade, pertencente ao Corpo


Instrutivo, “os conhecimentos que a gente tem na burracheira vêm de uma forma direta. É
como se o conhecimento fosse uma esfera, o sentimento e a intuição formam o volume
dessa esfera. É o poder que a burracheira te dá do conhecimento direto pelo coração.”107
Também a Conselheira Luísa usou uma imagem geométrica, que citamos acima: as duas
colunas, do conhecimento e do sentimento, sobre as quais repousa a trave do crer. Essas
duas colunas, encimadas pela trave da fé, formam um arco, figura um tanto recorrente no
imaginário da União do Vegetal. Mais adiante, voltarei a pensar no simbolismo dessa
figura. Por ora, basta ter presente a idéia do arco como vínculo de união entre duas
realidades, no caso, o conhecer e o sentir.

Quanto àqueles que discordaram da afirmação da UDV como religião do sentir,


Cleide, profissional da área de música, na faixa dos 40 anos, afirma que no Santo Daime o
ritual é mais voltado para o sentir que na UDV: “o bailado não dá muito espaço pra gente
pensar. Na União do Vegetal tem um espaço pro mental bem grande. Durante a sessão, o
exercício é mental.”108 Antônio, também na faixa dos 40 anos, participante da UDV há 21
anos, do Corpo Instrutivo, diante da pergunta meneou a cabeça e disse: “Valorizo cada vez

106
Entrevista do Conselheiro Waldir, em São Paulo, 22 de outubro de 1998. Designer, na faixa dos 70 anos.
Para ele, a UDV é “a religião da consciência”. Vide declaração semelhante da Conselheira Lídia, p. 108.
107
Entrevista de Augusto, em Campinas, 19 de outubro de 1998.
108
Entrevista de Cleide, em Campinas, 9 de novembro de 1998.
118

mais o meu lado racional. Na burracheira tem esse sentir, mas tem o pensar também. Há a
coisa de estudar, isso é mais do que o sentir.”109

Já Cláudia, terapeuta, na faixa dos 50 anos, afirmou:


“na minha vivência é a religião do sentir. Quase tudo é o sentir. Inclusive eu não tenho
raciocínio linear, eu sinto uma coisa e sinto outra e liga outra e puff, salta outra... como
se fosse uma grande mandala que se vai configurando e de repente, ploff! Tudo
encaixou! E é uma coisa que se integra num sentido maior, pra eu entender algumas
coisas, e aí vem aquela sensação de paz, de bem-estar. Tem o raciocínio linear e tem o
rizomático, como rizomas, o meu funciona assim: vem uma coisa e tuc-tuc-tuc, de
repente tuff, faz uma configuração... e eu integrei uma idéia. De repente começa a
juntar uma fala do Daniel [Mestre Representante] com uma sensação que eu tive e
pluff integrei em uma outra coisa. Eu funciono assim e na minha vida funciona assim,
cada vez mais. Ou seja, já não me preocupo muito pela linearidade, sabe?”110
Por estas palavras, pode-se ver que para Cláudia, esse sentir não se refere apenas ao plano
das emoções, mas abrange também um exercício do pensamento de um modo distinto do
raciocínio lógico, um pensar rizomático, no qual se dão insights em série, que conduzem a
uma integração e a uma “sensação de paz”. Tudo isto parece se assemelhar à sintética
resposta da Conselheira Lídia, na faixa dos 40 anos, professora: “a União do Vegetal é a
religião da descoberta da consciência a partir do sentir”111. Aqui voltamos a um aspecto já
apontado por Afrânio de Andrade na citação que fiz acima, a consciência, que é mais uma
categoria nativa extremamente relevante na UDV.

Consciência

No início das sessões, a palavra “consciência” é ouvida reiteradas vezes, na leitura


das leis da UDV. Depois da leitura do Regimento Interno, são lidos vários documentos
denominados “Boletim da Consciência”, já que “quando se fizer necessário, será publicado
e divulgado pela Administração Geral o Boletim da Consciência, com instruções a serem
observadas no âmbito do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal”112. Assim, é lido o

109
Entrevista de Antônio, em Campinas, 7 de setembro de 1998.
110
Entrevista de Cláudia, em Campinas, 16 de outubro de 1998.
111
Entrevista de Lídia, em Campinas, 28 de outubro de 1998.
112
Artigo 20, Capítulo V do Regimento Interno do CEBUDV. CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO
DO VEGETAL, 1994, p. 95).
119

Boletim da Consciência (BC), o BC em Administração, o BC Conservando a Tranqüilidade


dos Filiados do Centro, o BC em Cumprimento da Lei, o BC em Defesa da Fidelidade e
Harmonia dos Filiados do Centro, o BC em Firmeza, o BC em Organização, o BC
Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei, o BC em Reforma, o BC Recomendando a
Preservação da Moral e da Família. Deste modo, pode-se inferir que a palavra
“consciência” é compreendida e utilizada em sua conotação moral, como faculdade de
estabelecer julgamentos morais dos atos realizados. Portanto, esta categoria liga a esfera do
conhecimento à esfera da práxis, solicitando do discípulo que a sua vivência espiritual se
reflita em um agir segundo os princípios éticos da UDV. No discurso dos participantes do
Núcleo Alto das Cordilheiras, pude perceber na grande maioria um esforço em afirmar a
repercussão de sua pertença à UDV em sua vida diária, tecendo-se muitas vezes um “relato
de conversão” que compara aspectos constrastantes do agir da pessoa, antes e depois de
entrar para a União do Vegetal. Se no relato de alguns tais mudanças são mais explícitas,
como a superação de vícios, para outros são pequenas mudanças de atitude detectadas na
vida quotidiana, como por exemplo, na narrativa da Conselheira Luísa:

“As pessoas falam no meu trabalho que eu sou meio diferente das outras
pessoas. Eu já perguntei, ‘por quê?’ Parece que eu presto mais atenção nas coisas que
tão acontecendo e levo em consideração aspectos que as pessoas não tão enxergando.
Procurei saber melhor o que era isso, várias pessoas já tinham me falado isso, mas não
coonsegui ainda descobrir não. Mas acho que tem um jeito diferente de enxergar as
pessoas. Por exemplo, eu sou psicóloga e numa época convivi com uma pessoa,
assistente social, que trabalhava junto comigo. No próprio trabalho, ela falava muita
coisa pra mim de casos que a gente tinha em conjunto. E ela era a rainha do detalhe.
Então ela era uma pessoa famosa, como uma das pessoas mais chatas que as pessoas
conhecem! Certo? Aí, vi que a minha relação com ela um tempo começou a ficar
difícil, eu tava meio irritada. Daí, numa sessão me veio essa assistente social, me veio
uma dimensão dela e parecia que ela era muito próxima, parecia até que era minha
parente. Daí eu passei a conviver com ela de uma maneira diferente. Eu fiquei
estudando como é que funcionava a cabeça dela, como é que ela era... Então ela deixou
de me irritar. Quando ela falava e ia longe, contava dez vezes o mesmo caso. Então na
décima vez que ela contava o mesmo caso eu perguntava: ‘Por que que você tá
contando outra vez?’ Eu ficava de observadora da situação. E foi uma coisa que me
auxiliou bastante na convivência. Eu consegui ter um apreço por ela, gostar dela, é uma
coisa que me fez bem, fez bem pra ela. As pessoas geralmente não davam a mínima
120

atenção pra ela, fugiam dela. Uma coisa que eu aprendi e foi assim com o Vegetal.
Coisas que eu aprendo no Vegetal, que mexeram com a minha emoção, em termos de
ter mais
paciência, mais tolerância com o outro... Ficar de observadora e aprender do
comportamento da pessoa: ‘Gente é assim!’ Então fiquei assim, meio científica. Foi
jóia! Convivi quatro anos com ela... Uma construção em termos de relação, que o
Vegetal me deu de presente.”113

Esse relato de Luísa parece-me paradigmático da interrelação apontada no discurso


desses hoasqueiros urbanos entre a experiência com o chá Hoasca e a vida quotidiana. Não
me seria possível observar prolongadamente o dia-a-dia dos participantes do Núcleo Alto
das Cordilheiras, para constatar o tanto que eles colocam em prática ou não os princípios
éticos da União do Vegetal; e nem caberia a mim formular um juízo a esse respeito. No
entanto, é significativo que o discurso da maioria seja recheado de abundantes links entre a
vivência religiosa e ritual e a vida diária.

Memória

Relacionado com o conhecimento está o tema da memória. Dentro da cosmovisão


reencarnacionista da União do Vegetal, a memória tem papel significativo, na medida em
que o processo de conhecimento é um processo de recordação. Assim, José Gabriel da
Costa é um recordado, alguém que chegou a se recordar de suas encarnações passadas e é
Mestre que ensina a recordar. Assim, na UDV se fala de “grau de memória”. O Boletim da
Consciência em Reforma afirma que “os discípulos que seguirem a Sessão Instrutiva só
poderão ser escolhidos pelo Mestre Representante, de acordo com os graus de memória”114.
O “grau de memória” é relativo à capacidade de compreensão dos ensinos espirituais. Mas
não apenas isto, também é algo que se infere a partir da prática da pessoa. É como que ter a
cada momento na memória a necessidade da “prática fiel do bem” - expressão criada por
Mestre Gabriel e constantemente utilizada na UDV.

113
Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998. Psicóloga, na faixa dos 50 anos.
114
Boletim da Consciência em Reforma. (CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL,
1994, p. 71).
121

Perguntado a respeito da repercussão de sua vivência religiosa em sua vida prática,


Mestre Paulo disse:
“O aspecto da visão da vida, que você tenha um princípio reencarnacionista – acreditar
na reencarnação é uma coisa que não é fácil. Não é nem um pouco óbvio, não é. Não é
do ponto de vista da experiência individual. Eu tenho a experiência de agora, minha
referência é esta. Então não acho assim instantâneo nem fácil acreditar na
reencarnação. Mas é uma coisa que eu tenho hoje motivos suficientes pra ter isso como
uma referência na minha vida. Isso muda a forma de ver as coisas. Eu não considero
assim, não acho que chega no ponto de cair num fatalismo cármico: ‘o mundo é assim
mesmo’, ‘eu tô aqui passando por coisas que são o resultado’.... O fato de que na União
do Vegetal é muito interessante que a responsabilidade maior é nesta encarnação.
Segundo a palavra do Mestre Gabriel, muito pouco passa de uma encarnação para
outra. Isso é uma coisa que é muito diferente de uma visão de carma, de que tudo agora
é uma conseqüência diretamente de todo o passado. Não é exatamente assim que é
colocado na União do Vegetal. O enfoque da União do Vegetal. Existe, é claro, o que
vem antes, a sua história, a memória, o passado. Mas o seu processo de recordação tem
que começar por esta encarnação, pra você chegar nas outras. É um aspecto
reencarnacionista mas que não coloca a responsabilidade no passado. A
responsabilidade continua aqui. O foco é esta encarnação. O responsável por 99% do
que te acontece é o que você tá fazendo, não é o que você já fez em vidas anteriores. É
um reencarnacionismo temperado com esse enfoque na responsabilidade presente.
Tanto que, embora a gente saiba que tem a possibilidade de recordação na União do
Vegetal e tal, não é necessariamente como as pessoas que ficam buscando na
burracheira se lembrar o que eram em vidas anteriores. Não é bem por aí que a coisa
funciona. Importa muito mais o que a gente é hoje, como a gente é agora e como a
gente pode ser pra frente. Não é tão importante assim saber se o que eu sou agora é
fruto desta encarnação ou de outra, mas o que eu tô fazendo agora, a conseqüência eu
tô vivendo essa conseqüência, eu tô colhendo essa conseqüência. Vamos dizer, o foco é
esta encarnação. Isso dá uma visão que eu acho mais equilibrada, do mundo, das
coisas, do que seja a justiça. A questão do enfoque é no presente. Não é explicar as
coisas pelas outras encarnações. Isso chega a ser quase uma pretensão. Porque você
tem que ter um nível de desenvolvimento espiritual considerável pra conseguir ter essa
percepção. Uma das coisas que a gente aprende é não ser supersticioso. Teve uma
época, há muitos anos aí, que tinha um pessoal em São Paulo que tava com uma moda
122

de recordar. Aí acho que foi o Mestre Braga que falou: ‘eu acho que vou pro Sul, vou
pra São Paulo, beber o Vegetal lá, porque o pessoal tá recordando, eu vou pra lá’ ”115.
Essa ironia atribuída ao ex-Mestre Geral Representante mostra a reação de uma pessoa com
muitos anos de experiência na UDV, alguém “do Norte”, diante de novatos “do Sul” que
logo se acharam em condições de “recordar suas encarnações passadas”. No entanto, ainda
que se enfatize a dificuldade de acessar essa memória, tal recordação permanece para os
discípulos da UDV como um ideal a ser atingido. Mas, desde já, nas sessões os discípulos
são chamados a “exercitar a memória” principalmente através de uma vivência ética
quotidiana.

Ordem

O Boletim da Consciência Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei diz: “Só


através da ordem e da doutrinação reta, que receberemos eternamente dentro da União do
Vegetal, é que chegaremos à cientificação”116. A ordem é um valor extremamente prezado
pela UDV. A começar pelo ritual, simples mas com alguns detalhes bem frisados, que
transmitem uma noção de precisão. Em meio ao “tempo de burracheira” aquele que dirige a
sessão deve estar atento à seqüência das chamadas, dos assuntos, das perguntas e músicas,
de modo que tudo transcorra “em sintonia”. O espaço ritual é austero: paredes nuas, com
apenas a foto de Mestre Gabriel. E sobre a mesa, um arco de madeira pintado de verde com
os dizeres: “Estrela Divina Universal UDV”. Em constraste com o Santo Daime, onde nos
dias de trabalho de hinário há o bailado, a postura corporal de quem participa da sessão é
simplesmente sentada. Para sair do salão é necessário pedir licença ao Mestre Dirigente da
sessão. Do mesmo modo para fazer uma chamada ou para falar e perguntar. E ao falar, tem-
se de prestar atenção às palavras utilizadas, para que não se pronuncie alguma inadequada.
Há certas fórmulas fixas que costumam ser usadas pelas pessoas em suas falas. Ao terminar
sua fala, é comum dizer: “que a sessão prossiga nesse clima de luz, paz e amor”, ou então,
“que a sessão prossiga em harmonia”. Dada a força que é atribuída à palavra, o seu uso
ordenado é pré-condição para a ordem e a harmonia durante a sessão.

115
Entrevista do Mestre Paulo, em Campinas, 16 de outubro de 1998.
116
Boletim da Consciência Recomendando o Fiel Cumprimento da Lei. (CENTRO ESPÍRITA
BENEFICENTE UNIÃO DO VEGETAL, 1994, p. 69).
123

A ordem também é enfatizada no ritual pelo acento dado à hierarquia dos


participantes. No início o chá é servido pelo Mestre Dirigente para si mesmo e para o
Representante, para os demais mestres, para os(as) conselheiros(as), para os(as)
discípulos(as) do Corpo Instrutivo e, finalmente, para os demais. O uso do uniforme, com
os diferentes distintivos, próprios a cada grau, marca a importância da hierarquia. As
chamadas, com a sua sucessão precisa de versos que se repetem com ligeiras modificações,
como que numa escala ascendente, e que devem ser memorizadas fielmente por aquele que
quiser fazê-las, expressam a presença de uma ordem objetiva, exterior e maior, que
ultrapassa a subjetividade dos participantes, ainda que interaja com ela. É como se a cada
momento fosse transmitida a mensagem da existência de um cosmos ordenado, que precede
e sustenta a experiência individual, emanado da própria Força Superior. Assim, na
austeridade do espaço, na atenção às palavras, no exercício de perguntar e responder, nas
chamadas, enfim, em cada aspecto do ritual, transparece uma ordem apolínea que é
proposta como modelo exemplar a ser vivido pelo discípulo em sua vida diária.

A relação entre a ordem no ritual e a vida prática foi abordada detidamente na


entrevista de Felipe, membro do Corpo Instrutivo, há 15 anos na UDV, administrador de
construções e músico:
“O próprio ritual é expressão dessa ordem. Esse ritual vai incorporando na vida
pessoal. Se pelos menos duas vezes por mês ele estabelece que naquele momento ele
vai se comportar de acordo com as normas daquele lugar, reconhece que aquela ordem
é importante [...], então isso aí estabelece como um sinal na vida pessoal dele, então a
pessoa naturalmente vai se organizando nas outras coisas. Então, o que que é um
ambiente de trabalho? É um ambiente de concentração. A mesma concentração que a
gente tem e procura ter em tempo de burracheira, procura ter no trabalho. Procurar ter
uma disciplina, procurar se organizar, procurar ter uma relação com a coisa funcional
como se tivesse dentro de uma sessão também, procurar ter cuidado com as palavras,
ter cuidado com o seu passo... Eu não vejo como uma regra essa atitude das pessoas.
Pra mim foi assim. Pra mim facilita. Pra mim não é muito diferente eu sentar, ficar
aqui, trabalhando no computador e ficar dentro da sessão, não é muito diferente. Nesse
plano da organização.”

“A religião mesmo tem um sentido de organização. O ritual religioso é uma forma de


organizar através de uma dramatização, através dos símbolos, o comportamento da
pessoa. Então propicia a pessoa estar se organizando na vida funcional, a pessoa estar
124

presente nas suas atribuições de responsabilidade, nas coisas que tem que fazer, no seu
lugar como pai, seu lugar dentro de uma casa, seu lugar de trabalho, perante as pessoas,
perante sua palavra, não é?”
“Agora, eu vejo que tem uma coisa na União do Vegetal, quando falo União do
Vegetal é a instituição, são as pessoas, a maneira como as pessoas fazem o que tem na
mão. Com relação a essa questão da espiritualidade, pra mim às vezes me soa assim no
plano mais do ideal do que do real. Uma espiritualidade mas que a pessoa idealiza.
Uma pessoa acha, por exemplo, que fazendo uma chamada pode ficar isento de
qualquer coisa negativa que possa acontecer com ele. E na realidade, se ele não tiver
cuidado, o principal é o cuidado, é a atenção. Não adianta fazer chamada se ele não
tem cuidado. Então religião tem isso, às vezes a pessoa acredita que exercendo
determinado ritual, ou indo pra sessão, ou ficar bem comportado na sessão, por ir
trabalhar quando é solicitado, obedecendo o que as pessoas pedem, porque a hierarquia
tem lá suas determinações, que a pessoa vai evoluir na vida, vai conquistar as coisas
positivas, as coisas que precisa, dinheiro, afetividade, confiança. Então é um perigo
também que existe, né? Então eu acho que tem muita gente encalhada na União do
Vegetal. Não só na União, na religiosidade em si, ela tem esse perigo, porque não
estabelece um vínculo muito forte com a vida prática. [...] A ordem material é a base de
todo o processo.”117

Peia

Mas nem tudo é harmonia nesse universo. As pessoas, individualmente, e por vezes
o grupo reunido numa sessão são vez por outra envolvidos por uma onda de dificuldades
denominada “peia”. A experiência da peia pode ser extremamente intensa: um profundo
mal-estar físico após a ingestão do chá, caracterizado por náuseas, vômitos, vertigens.
Certas vezes, esse mal-estar não é somente físico: a pessoa pode sentir-se interiormente
oprimida pelo remorso, pelo medo ou pela culpa, ou então se encontrar assombrada diante
de visões temerosas, perturbadoras. O conjunto de sensações sugere, às vezes, a quem as
vivencia, que se está chegando ao limiar da morte. A propósito, o Mestre Gabriel teria dito:
“Vocês sabem pra que é que a gente bebe esse chá? É pra aprender a morrer!” Por outro
lado, ele tranqüilizava os seus discípulos, garantindo que “ninguém morre de burracheira”.
Luiz Eduardo Soares observa, numa “breve descrição de paisagens mentais”, a partir de sua
experiência ao beber a Hoasca: “A viagem é suficientemente intensa, imprevisível e
117
Entrevista com Felipe, na faixa dos 40 anos, em Campinas, 27 de outubro de 1998
125

incontrolável (pelo menos para os neófitos), para representar uma aposta de alto risco. Cada
um daqueles homens e mulheres sabia disso. O pasto daquele rebanho é a morte, Nem mais,
nem menos.” (SOARES, 1994, p. 226).

Toda essa “provação” física, psíquica e espirital costuma ser interpretada pelos
discípulos como “pagamento” por alguma conduta moral errônea. Assim, a peia é
compreendida dentro de uma visão que afirma que o ser humano recebe na vida o que
merece, segundo os atos que praticou. O “merecimento” é um dos pilares da doutrina da
UDV. Essa compreensão da peia aparece bem clara na narrativa de Gustavo, do Corpo
Instrutivo, na faixa dos 40 anos:
“Depois de uns 5, 6 meses [de que havia começado a beber o chá] eu comecei a tomar
umas peias daquelas que eu não conseguia beber o Vegetal. Bebia e vomitava e parei.
Encanei que tinha tido taquicardia numa sessão, que tava passando mal, vomitei 18
vezes... [risos]. Mas era porque já tava começando a fazer efeito coisas assim: tava
tendo consciência, mas no dia a dia eu, né? Eu não conseguia manter, voltava ao dia a
dia. Aí fiquei mais ou menos uns 6 meses sem beber. Até que um dia eu resolvi
conversar com o Mestre Ney, aí eu coloquei algumas coisas que eu tava sentindo,
sentindo na burracheira, umas revoltas e tal com a injustiça e aí ele me deu uns
conselhos, falou pra eu voltar, começar a beber aos poucos e eu fui voltando.”118

Desse modo, a teodicéia da União do Vegetal aproxima-se muito do tipo ideal de


solução para o problema da teodicéia presente na crença na transmigração das almas,
apontado por Weber em sua Sociologia da Religião (WEBER, 1974, p. 412-417), e assim
resumido por Colin Campbell:
“the Indian doctrine of karma, [...] ‘the most complete formal solution of the problem
of theodicy’, since the world is regarded as a completely connected and self-contained
cosmos of ethical retribution in which each individual forges his own destiny, with
guilt and merit in this world unfainlingly compensated for in the succeeding
incarnation” (CAMPBELL, 1997, p. 106).
Como ele observa na seqüência, os três tipos ideais de solução expostos por Weber - o
escatológico messiânico, o dualista do zoroastrismo e o cármico hinduísta - não dão conta
de abranger certas tradições de pensamento. E assim, Campbell apresenta mais um tipo de
teodicéia, que é a teologia filosófica do otimismo do século XVIII. Suponho que a teodicéia

118
Entrevista de Gustavo, em Campinas, 7 de setembro de 1998.
126

da UDV tem também elementos desse outro tipo ideal, na medida em que seu
reencarnacionismo distancia-se do hinduísta, o qual não é necessariamente ascendente na
seqüência de encarnações, e se aproxima mais da visão kardecista, a qual traz em seu bojo a
expectativa, própria do século XIX (enraizada no século anterior), de contínua superação de
limites pela irresistível evolução da humanidade. Assim, o reencarnacionismo da UDV tem
um caráter evolucionista e otimista. E a “peia” é encarada como um momento necessário
desse processo de purificação, que conduz à salvação. Essa visão, de um aspecto
pedagógico na peia, pode ser observada nas declarações de Gustavo - ele compreendeu que
já começava a ter consciência de seus erros nas sessões mas não estava praticando as
transformações necessárias em seu cotidiano. E assim a peia teve o papel de um “lembrete”
educativo.

Mesmo sendo extremamente desagradável, a “peia” é uma vivência de emoções


muito fortes, que nos faz lembrar a observação de Campbell, de que “one could say that the
Puritans, or those who inherited their mentality, had become addicted to the stimulation of
powerful emotions [...]” (Id., 134). A “peia” é uma tempestade de emoções, uma
experiência que se vive na mente e nas entranhas, sendo todo o ser sacudido pelo “temporal
de burracheira”. Ainda que extremamente penosa, ela pode ter até mesmo um certo
“encanto” para aqueles que buscam os sentimentos intensos, ou até mesmo o prazer da
vertigem do perigo. A burracheira pode ser inscrita no quarto tipo de jogo definido por
Roger Caillois: a vertigem ou ilinx (CAILLOIS, 1967, p. 169-172). O autor identifica esse
tipo de jogo como “une tentative de détruire pour un instant la stabilité de la perception et
d’infliger à la conscience lucide une sorte de panique voluptueuse.” (Id., p. 169). E Caillois
cita o exemplo dos derviches giradores sufis, que buscam o êxtase rodando sobre si
mesmos. Ora, essa busca do êxtase, da vertigem, da queda ou da projeção no espaço, nos
faz lembrar a vertigem provocada pelo uso da Hoasca. A burracheira, a força estranha do
vegetal, pode se apresentar também como jogo de vertigem. Quanto a este, Caillois detecta
como suas indubitáveis características lúdicas: “liberté d’accepter ou de refuser l’épreuve,
limites strictes et immuables, séparation d’avec le reste de la réalité” (Id., p.172). O efeito
da Hoasca é sempre surpreendente: antes do início da sessão não se pode dizer se será
assustador ou maravilhoso. Essa imprevisibilidade da burracheira dota o ritual da UDV de
um caráter acentuadamente lúdico. Em oposição a outros rituais, perfeitamente previsíveis e
repetíveis, cada sessão da União do Vegetal é única e cada burracheira é imprevisível.
127

Por sua vez, Fernando de la Rocque Couto, em sua dissertação de Mestrado em


Antropologia acerca do Santo Daime, ao estudar fenômeno semelhante à “peia” da UDV,
considera que “esse processo é catártico e psicoterápico”, a exemplo da visão de Lévi-
Strauss acerca da cura xamânica (LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 209), a qual teria na ab-reação
o seu momento decisivo:
“Para pedir o perdão, o doente deve trazer à consciência lembranças emocionais e/ou
traumatizantes que se encontravam reprimidas. Para que isso se observe, ele tem que
sair do conflito e resolver as suas contradições internas. Em termos psicanalíticos, ele
tem que ab-reagir, vivendo e revivendo intensamente a situação inicial que está na
origem da sua perturbação, para poder superá-la definitivamente.” (COUTO, 1989, p.
179).
Já Luiz Eduardo Soares, vê a “peia” como ocasião de libertação da hybris,
superação da desmedida do eu que se colocara como centro do universo. A impetuosidade
do temporal desaloja esse eu dos píncaros do orgulho e o lança nas planícies da humildade,
virtude muitas vezes louvada na União do Vegetal:
“O chá sagrado do Daime, o vegetal santo da UDV, assim como outros recursos
religiosos, psicológicos, culturais, ritualizados mundo afora, instruem-nos, rápida e
eficientemente, que a hybris é o pecado original. Como nos ensinara a tradição
Judaico-cristã.” [...] “É o que deduzo de minha própria sensação: afinal, se eu podia,
sem recorrer à linguagem religiosa e sem experimentar o êxtase místico, vislumbrar a
finitude traída pela fetichização do ego; o que não pensariam, da hybris, os místicos,
encantados pela emoção do ultrapassamento? A dedução confirma-se por
depoimentos.” (SOARES, 1994, p. 229).
A “peia”, essa vivência complexa, que pode ser lida como fruto da lei do
merecimento, catarse terapêutica, ensinamento e caminho para a humildade, é, com certeza,
uma experiência emocional intensa que é vivida (ou padecida) numa perspectiva otimista.
Proponho que nos fixemos nestes dois aspectos – intensidade de sentimentos e otimismo – e
passemos a compará-los com outra vivência nuclear da União do Vegetal: as mirações.
Mirações

Se um membro da UDV sabe que está sujeito a ter de enfrentar uma “peia”, por
outro lado, sabe também que é possível que “a sessão prossiga plena de luz, paz e amor”,
como é dito freqüentemente pelos discípulos na conclusão de suas falas durante as sessões.
128

As mirações119 de uma sessão tranqüila podem ser grandemente prazeirosas. Esse


sentimento de beatitude, em harmonia com todo o universo, é freqüentemente reiterado nas
declarações dos participantes acerca de suas vivências na burracheira. O Prof. Benny
Shanon, da Hebrew University de Jerusalém, vem fazendo uma pesquisa, a partir de sua
área de estudos, que é a psicologia cognitiva, acerca do conteúdo das visões, das mirações
durante o efeito da Hoasca. No I Congresso sobre o Uso Ritual da Ayahuasca, na Unicamp,
ao apresentar algumas das observações a respeito de sua pesquisa ainda em curso, apontou
para a relevância do prazer como motivação entre os participantes dos grupos religiosos
usuários da Hoasca. Lembrou que Reichel-Dolmatoff afirmou que nunca se bebe o chá por
prazer – mas que, segundo as suas entrevistas, se há pessoas que bebem a Hoasca em busca
de uma sabedoria escondida, há outras que respondem à pergunta sobre suas motivações
dizendo: “É tão belo!”

Roberto, o jovem de quem citamos uma declaração acima, contou-me uma miração
marcante que teve:
“O Mestre apareceu pra mim, na casa dele, sentado de cócoras. Essa foi marcante. De
repente ele falou: ‘olha, aqui é minha casa’. De repente eu vi uma casa de madeira,
amarrada com corda e sapé, assim, que ficava no alto de um morro; atrás da casa dele
tinha a floresta e na frente tinha uma vista que dava pra você enxergar todas as coisas:
desde o mar, as pirâmides e... tudo o que tinha na terra assim, sabe? De repente, você
ollhava um golfinho lá no mar, lá longe, assim, só que você conseguia enxergar o olho
do golfinho. Então, de repente era uma questão assim que você enxergava tudo assim...
E ele me falou pra mim assim: ‘Ah, aqui da minha casa dá pra ver todas as belezas da
terra!’ E era uma casa bem legal assim, sabe? E eu falei: ‘Pô, que legal!’ E ele deu uns
toques pra mim. [...] Então isso aí é uma das coisas bem marcadas na minha mente, a
casa do Mestre Gabriel que dava pra ver todas as belezas da terra, ele sentado de
cócoras. E depois meu pai me fala que ele realmente ficava sempre tradicionalmente
sentado de cócoras e eu não sabia disso.”120
É bem significativo que, na miração de Roberto, da casa de Mestre Gabriel se pudesse ver
“todas as belezas da terra”. Essa dimensão estética, da beleza que se apresenta
inesperadamente, como um dom, muitas vezes me foi narrada pelas pessoas que entrevistei.

119
As mirações, experiências visuais internas sob o efeito da Hoasca, podem ser de conteúdo “negativo” em
momentos de “peia”. No entanto, quando me refiro a mirações aqui, tenho em vista as agradáveis, elegendo-as
como um “tipo ideal” em contraste com a “peia”.
120
Entrevista de Roberto, em Campinas, 26 de outubro de 1998.
129

A relevância da dimensão estética na experiência simbólica dos discípulos da UDV, na qual


a visualidade tem uma significativa importância, levou-me a buscar apresentar nesta
dissertação algumas obras de artistas plásticos do Núcleo Alto das Cordilheiras.

A beleza pode estar relacionada a outras percepções, não somente as visuais. Além
das chamadas, faz parte do ritual da UDV a audição de músicas durante as sessões. Esse
costume vem do tempo do Mestre Gabriel, que autorizou os primeiros discípulos de
Manaus a colocarem discos a tocar nas sessões. A razão da introdução da música, segundo
o Mestre Geraldo Carvalho, um discípulo dos primeiros tempos da UDV em Manaus, que
presenciou a primeira vez em que se escutou música numa sessão121, é a beleza da mirações
que ela propicia. Atualmente, faz parte do ritual da UDV a audição de música instrumental
no início das sessões, no estilo New Age, andina ou clássica. Na seqüência da sessão, são
ouvidas canções da Música Popular Brasileira, com letra, cuidadosamente escolhidas, de
acordo com o assunto abordado pelo mestre dirigente. São freqüentes as que tocam temas
ligados à natureza, à amizade e outras virtudes enfatizadas pela doutrina. É interessante
perceber, sobretudo, a importância do sentimento estético nessa valorização ritual de
músicas que não foram compostas para uma utilização sacra.

Esse papel importante da música no ritual – além das chamadas, que conduzem toda
a experiência da burracheira – mostra-nos que a miração não é simplesmente uma
seqüência de visões: é uma vivência sinestésica, que toca a sensibilidade dos participantes
da sessão em dimensões estéticas e afetivo-sentimentais. Tal experiência totalizante, que
além da visão e da audição pode mobilizar também os sentidos do tato, do olfato e do
paladar, impressiona fortemente quem a vivencia, motivando uma prazeirosa intensidade
de sentimentos. Assim como o sonho para os românticos, as mirações têm para o discípulo
da União um caráter revelatório, já que um “insight into the real nature of the world can
only be gained through powerful emotional and imaginative experience of an essentially
aesthetic character. [...] Romantics placed such importance on dreams – whether of the day
or night variety – seeing them as essentially revelatory experiences.” (CAMPBELL, 1992,
p. 186). Também no que toca às mirações podemos encontrar bem presente o traço do
otimismo. A burracheira – quando “plena de luz” – cria uma atmosfera de encantamento, de

121
DA RÓS, Márcio. A origem da música nas sessões da UDV. Jornal Alto Falante. Brasília: ago–set–out 95,
p. 11.
130

harmonia, de “sintonia entre os irmãos”, que propicia um enfoque otimista de todas as


coisas.

Evolução Espiritual

De acordo com o artigo 1o do Regimento Interno, lido em todas as sessões de escala,


o CEBUDV “tem por objetivos:
a) trabalhar pela evolução do ser humano no sentido de seu desenvolvimento
espiritual;
b) reunir-se socialmente em seu Templo espírita e extraordinariamente a critério do
Mestre.”122
Essas palavras iniciais como que fundamentam a existência da UDV sobre uma visão de
evolução espiritual. E constantemente, em palavras dos sócios durante as sessões há alguma
referência à evolução, no sentido de que “nós estamos aqui - na Terra e nesta religião - para
evoluir espiritualmente”.

Denise, do Corpo Instrutivo, analista de sistemas, na faixa dos 20 anos, perguntada


se há alguma repercussão da sua vivência religiosa na UDV em sua vida prática, responde:
“Com certeza tem. No geral, eu sinto que ela traz mais direção, traz mais equilíbrio,
principalmente, só o fato de você ter um objetivo, que é a evolução espiritual, isso já
modifica totalmente a sua vida. Porque uma coisa é você viver com objetivo e outra
coisa é viver sem orientação, né? Então quando você vive com objetivo, você consegue
trilhar mais a sua vida, consegue organizar mais a sua vida, isso faz com que as coisas
aconteçam de uma maneira mais ordenada. Principalmente o fato de ter um objetivo na
vida, já muda a sua vida totalmente.”123

Esse enfoque teleológico está presente no discurso de muitos discípulos da UDV.


Compartilha da mesma província semântica a ênfase da doutrina em temas como a retidão,
a firmeza no pensamento, a simplicidade. É como se predominasse uma imagem da vida
como linha reta, no fim da qual há uma meta bem definida, a qual importa conhecer e ter
diante dos olhos, para alcançá-la mais rapidamente. Nesse aspecto, há toda uma tendência à
busca da eficácia, que encaixa bem com a modernidade. E certamente, é um elemento
valorizado por muitos dos participantes urbanos da União do Vegetal.

122
Regimento Interno do CEBUDV, artigo 1o. CENTRO ESPÍRITA BENEFICENTE UNIÃO DO
VEGETAL, 1994, p. 92.
123
Entrevista de Denise, em Campinas, 7 de setembro de 1998.
131

O Arco: portal para o Alto

Neste momento, tratarei de um elemento que não aparece muito enquanto “termo
nativo”, palavra pronunciada pelos discípulos, mas sim enquanto imagem, esta sim um
tanto recorrente na União do Vegetal: o Arco, o qual citei ao falar da ordem no ritual. Ele
está presente, de modo bem visível, no espaço ritual, no Salão do Vegetal, onde marca o
lugar sagrado por excelência, na cabeceira da mesa, onde fica o filtro de vidro que contém a
Hoasca, e onde se posta o Mestre Dirigente da sessão, que durante a sessão “está no lugar”
do Mestre Gabriel. Por ser verde, pintado com os dizeres: “Estrela Divina Universal UDV”
e com duas estrelas maiores e várias pequenas estrelas amarelas, o arco realmente chama
muito a atenção. E na parede atrás dele, há mais um elemento de suma importância no
espaço ritual: a foto de Mestre Gabriel124... sob um arco. Também a Conselheira Luísa usou
a imagem da mesma figura, como já citei acima: as duas colunas, do conhecimento e do
sentimento, sobre as quais repousa a trave do crer, formando um arco125. Observando-se as
pinturas de Ernesto Boccara e Spencer Pupo Nogueira, é freqüente deparar-se com algum
arco. O cartão comemorativo dos sete anos do Núcleo Alto das Cordilheiras apresenta a
foto de um arco126, da Casa de Preparo em construção, tendo ao fundo um céu colorido pela
aurora.

O arco é um símbolo de ligação entre o céu e a terra, como o arco-íris na narrativa


do Gênesis127. O próprio mariri, o cipó, pode ser visto como uma corda a ligar terra e céu.
Observa-se que na sessão da União do Vegetal há uma acentuada valorização da “ligação”:
existe o momento de “ligação da burracheira”, quando o Mestre Dirigente vai perguntando
a cada participante se este tem burracheira e luz, há também uma presença acentuada do
substantivo “ligação” e do verbo “ligar” no discurso dos participantes durante as sessões:
p. ex., fala-se da importância de se “estar ligado na Força Superior”.

Aqui me aproximo da visão de Ramírez de Jara e Pinzón Castaño que vêem o


xamanismo e especificamente o que utiliza os preparados de Banisteriopsis, como um
sistema aberto que medeia categorias indígenas e categorias coloniais, sistema que

124
Vide a reprodução da foto, na p. 49 V.
125
Entrevista da Conselheira Luísa, em Campinas, 20 de outubro de 1998.
126
Vide a reprodução do cartão, na p. 32 V.
127
Gênesis, capítulo 9, versículos 8-17.
132

incorpora as noções católicas, assim como conhecimentos farmacêuticos ocidentais às


concepções religiosas indígenas e às suas técnicas terapêuticas. O próprio xamã é visto
como um “mediador entre o mundo sobrenatural e o mundo real” (RAMÍREZ DE JARA,
PINZÓN CASTAÑO, 1992. p. 287-303). E realmente, vivência com a Hoasca tem um
aspecto pronunciado de mediação. Esta pode ser melhor compreendida se observarmos o
arco não apenas como “elo de ligação”, mas também como “portal”.

O arco pode ser interpretado como imagem de um portal, através do qual o discípulo
é convidado a passar. Van Gennep já observara a
“identidade da passagem através das diversas situações sociais com a passagem
material [...]. É por isso que com tanta freqüência passar de uma idade, de uma classe,
etc. a outra exprime-se ritualmente pela passagem por baixo de um pórtico ou pela
‘abertura de portas’ ”. (GENNEP, 1978, p. 159).
O próprio Mestre Gabriel é chamado de “porta, que aberta nos transporta”. Temos aqui a
noção de limiar, ao qual o discípulo se aproxima e, por vezes, chega a ultrapassar. Nos
relatos de mirações, são freqüentes as referências a portais, arcos, soleiras.

Isso me leva a inferir que a burracheira é uma experiência acentuadamente liminar.


Atinge-se um estado alterado de consciência no qual a pessoa muitas vezes se sente
presente em “outro lugar”, ou na soleira de outro lugar. Isso possibilita um contato com o
“aqui” e o “além”, o quotidiano e o estranho, o normal e o alterado. O próprio ritual
enfatiza claramente as fronteiras do “tempo de burracheira”, a entrada e a saída em um
tempo sagrado, qualitativamente distinto do dia a dia. Refletindo acerca da liminaridade
nos ritos de passagem, Victor Turner observa que esta
“implica que o alto não poderia ser alto sem que o baixo existisse, e quem está no alto
deve experimentar o que significa estar em baixo. [...] para os indivíduos ou para os
grupos, a vida social é um tipo de processo dialético que abrange a experiência
sucessiva do alto e do baixo, de communitas e estrutura, homogeneidade e
diferenciação, igualdade e desigualdade. A passagem de uma situação mais baixa para
outra mais alta é feita através de um limbo de ausências de ‘status’. Em tal processo, os
opostos por assim dizer constituem-se uns aos outros e são mutuamente
indispensáveis”. (TURNER, 1974, p. 119-120).
133

A burracheira é muitas vezes sentida como esse ‘limbo de ausências’ que possibilita
a quem a vivencia um contato com o alto e com o baixo, com uma vivência de irmandade e
com uma estrutura hierarquizada, com a miração e com a peia. Luiz Eduardo Soares, ao
narrar uma peia com o chá, aponta nessa direção, de uma articulação paradoxal do alto e do
baixo:
“O coração parecia encher-se de alegria e os olhos de um brilho impróprio, numa exaltação
à fraternidade descoberta sob andrajos, entre espasmos e prefigurações da morte. [...] E há beleza
nesse quadro, meu amigo.” (SOARES, 1994, p. 230).
Para os discípulos, são mutuamente indispensáveis a miração e a peia. A humildade
propiciada pela última é fundamental para que o ultrapassamento oferecido pela primeira
não leve à hybris mas sim à “prática fiel”. E a burracheira é o “arco de ligação” desses
opostos.

Portanto, as experiências de estado alterado de consciência com o chá Hoasca são


ocasiões de se lidar com fronteiras, e o chá desempenha aí um papel de mediador. Seja a
mediação entre diferentes planos da realidade, seja a mediação entre universos culturais
distintos. Precisamente este aspecto me faz levantar a proposta de ver a experiência
religiosa da União do Vegetal como uma possibilidade de os participantes urbanos
articularem dimensões de suas vidas e dimensões da visão de mundo da UDV que
anteriormente eram experienciadas como cindidas, ou incomunicáveis. Os dilemas do
indivíduo urbano moderno, assim como as oposições com as quais o ser humano se
defronta: corpo-espírito, ditames do céu - ditames da terra, indivíduo-comunidade, auto-
conhecimento - conhecimento de Deus, são de certo modo “ligados”, postos em relação na
aguda e densa experiência da burracheira. Assim, o discípulo da União do Vegetal
encontra, em seu caminho de busca da evolução espiritual, a necessidade de transpor os
arcos que se apresentam na vida e na burracheira. Ao ter coragem de cruzar o terreno
desconhecido da liminaridade, ele dá passos na articulação do que anteriormente estava
cindido em sua vida, direcionando-se para a União. Ultrapassando os portais, ele tem
esperança de alcançar o Alto das Cordilheiras.
134

3.3. O ENGLOBAMENTO NA FORÇA DA BURRACHEIRA

“Agora, eu, eu sei como tudo é: as coisas que acontecem,


é porque já estavam ficadas prontas, noutro ar [...]
e com efeito tudo é grátis quando sucede”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão - Veredas

A reflexão sobre os eixos do discurso dos discípulos da União do Vegetal acerca de


sua vivência simbólica levou-me a considerar a burracheira uma vivência acentuadamente
liminar, onde pode se dar uma experiência de mediação, através da qual o sujeito articula
elementos de sua vida e da visão de mundo da UDV que anteriormente eram
experienciados como cindidos. Abordando as concepções e representações dos sujeitos
concretos do Núcleo Alto das Cordilheiras em Campinas, foi possível perceber como certos
aspectos da vida desses participantes entram em interação com tais idéias religiosas e são
com elas articulados. Agora, inquiro a respeito da natureza dessa articulação. Poderia ela
ser considerada um sincretismo? Ou este conceito não dá conta dessa realidade?

A presença na doutrina da União do Vegetal de traços que nitidamente estão


presentes em outras tradições religiosas sugere a idéia de sincretismo. Como já indiquei,
estão presentes na UDV elementos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, do
xamanismo amazônico e das religiões afro-brasileiras. Sabemos que o conceito de
sincretismo é problemático, e pode ser compreendido de diversas maneiras, algumas delas
trazendo em seu bojo uma certa carga valorativa, expressando uma depreciação do
sincrético em relação ao “puro”, ou, inversamente, exaltando o “sincretismo brasileiro”
como sinal de convivência pacífica multicultural.

No que toca à experiência dos discípulos da UDV, faz-se necessário um


discernimento, dentre a diversidade de vivências. Algumas certamente podem ser bem
compreendidas sob o prisma da noção de sincretismo. Pode-se perceber no discurso de
alguns participantes experiências de sobreposição de elementos heteróclitos que muito se
aproximam das trajetórias contemporâneas daqueles que se reconhecem no Movimento
Nova Era, no qual, segundo Leila Amaral Luz, se entrecruzam
135

“os herdeiros da contracultura com suas propostas de comunidades alternativas; o


discurso do auto-desenvolvimento na base das propostas terapêuticas atraídas por
experiências místicas e filosofias holistas; os curiosos do oculto, informados pelos
movimentos esotéricos do século XIX; o discurso ecológico de sacralização da
natureza e do encontro cósmico do sujeito com sua essência e a reinterpretação yuppie
dessa espiritualidade centrada na perfeição interior”. (LUZ, 1996, p. 57).

No entanto, em uma série de outras narrativas de discípulos da UDV pude identificar


experiências acerca das quais a categoria de sincretismo é insuficiente para sua adequada
compreensão. Exporei a seguir um relato que por sua densidade, me parece paradigmático.
É o relato de Renato, na faixa dos 40 anos, do Quadro de Sócios, mas que já pertenceu ao
Quadro de Mestres, acerca de uma burracheira que vivenciou em um momento crítico de
sua vida.

“Saber reverenciar a presença de Deus, ter a gratidão por estar vivo, faz com
que eu me sinta feliz. Eu já passei por coisas muito difíceis em minha vida e senti essa
presença do Divino em momentos cruciais. Pra algumas pessoas não dá nem pra
explicar. Eu tive uma vez uma situação, quando a mãe de meus filhos tava grávida do
primeiro filho, que nós perdemos, ela teve uma situação de eclampsia no início do 6o
mês. E foi um rebu, por que eu era do Corpo do Conselho e ela do Corpo Instrutivo, e a
gente era um casal meio modelo, todo mundo achava uma gracinha, tudo bonitinho,
tudo nos lugares, organizadinho, obedientezinho, aquela coisa assim bem padrão. E
tava tudo muito bem, todo mundo muito feliz com o nosso casamento, a nossa
gestação. E aí, de repente, logo depois de 22 de julho ela começou a passar muito mal,
uma coisa muito difícil e ela não desencarnou por causa do vegetal, com certeza.”

“Foi uma situação muito difícil, foi marcado que ela tinha que fazer uma
cesárea, tinha que fazer um aborto porque o único jeito de salvar a mãe é tirar a criança
e a placenta. E eu bebi o vegetal, tava na sala de espera da maternidade 9 de Julho aqui
em São Paulo, devia ter umas 40 pessoas da União do Vegetal lá comigo, e eu bebi o
vegetal, e fiquei sentado, com uma burracheira muito forte e ela lá dentro fazendo o
aborto, e a chance da criança nascer viva era mínima, era um bebê no início do sexto
mês, não tinha a menor condição. Mas o Mestre Alberto [que é médico] deu pra ela
uma tampa de vegetal [uma quantidade mínima, correspondente ao que caberia em
uma tampa de garrafa], antes da cesárea, dentro da UTI, ela bebeu, tinha uma irmã
nossa que era enfermeira-chefe na maternidade, e eles ficaram com ela durante a
136

cesárea, ele de um lado e ela do outro, e o médico, maravilhoso, era um espírita, uma
pessoa muito bonita, ele fez a cesárea. A criança nasceu viva, por incrível que possa
parecer viveu 13 horas, e a Vera além de não ter morrido não ficou com seqüela
nenhuma, ela não teve convulsão, não teve lesão renal, neurológica ou hepática.”

“E durante a cesárea eu tava assim numa situação muito forte e teve um


momento que... Na casa de minha avó ela tinha um quadro na sala com o Sagrado
Coração de Jesus, um quadro grande. E na burracheira se apresentou aquela imagem
daquele quadro e eu vi nitidamente o quadro, o rosto dele, as duas mãos saindo dele,
uma dá uma recebe, e ele tem no centro do peito uma luz, que clareia assim por fora, e
na frente dessa luz tem um coração, esse coração com uma coroa de espinhos passada
em volta e umas gotinhas de sangue pingando, em cima do coração tem uma coroa com
uma chama, uma coroazinha assim com uma chama, e em cima da chama tem uma
cruz. E aquela imagem veio na minha frente na miração, claríssima, como se eu tivesse
em frente ao quadro e eu tive a compreensão de que o Criador é o mesmo Salvador. O
Criador cria a dor, pra quê? Pra gente se abrir pra ele e aí ele traz o amor e a luz e salva
a dor. Foi uma coisa assim... sabe? É uma dádiva assim, um conhecimento que ele
trouxe pra mim, que é uma coisa assim inestimável, entendeu? Uma coisa maravilhosa,
por que eu via aquela imagem e entendia, tipo assim: “esse sofrimento que você tá
passando tá te abrindo caminho e eu tô entrando em você”; então é um bálsamo aquela
luz na burracheira, eu tava em carne viva, mas eu tava em paz, tava tudo bem, eu não
tava revoltado, tava tudo certo. E quando a situação se apresentou, o que que eu ia
fazer? Dar um soco no ar, no nariz de Deus, dizer que eu não queria aquilo? Eu não
tinha alternativa. Eu baixei minha cabeça e falei “sim, Senhor, seja feita a sua
vontade”, que que eu podia falar? Então, por essa aceitação ele me deu conhecimento
na carne, na pele, no sangue, na víscera, entendeu? Você não tem idéia o que é perder
um filho, você não tem idéia. Eu tenho dois filhos maravilhosos [...], mas aquela filha
que eu perdi é insubstituível, é um pedaço de mim que não tem, entendeu? Eu vi, era
minha filha, cara! Sabe, eu vi a perfeição de Deus ali, a maravilha que é a vida, eu
dentro da UTI, vendo o bebê ser cuidado, como se fosse o bebê mais importante do
universo, com todas as chances, e não tinha nenhuma e a minha mulher na UTI de
adulto, que é o pólo oposto é a escória. Quer dizer, eu tive a oportunidade de transitar
num palco de dor, de miséria da condição humana, em duas vertentes, ao mesmo
tempo, absolutamente em paz com o que estava acontecendo, confortando as pessoas,
perfeitamente equilibrado. Eu fiquei dez dias, eu me sentia como se eu fosse um robô
teleguiado pela Força Superior: eu não dei um pio, eu segurei barra de família, de
137

amigo, de mestre, me segurei, segurei a situação dela, eu vivi uma coisa assim... Isso
pra mim é religião, você entendeu? Religião não é ir lá beber o vegetal, ir lá na missa,
de vez em quando, no culto. Acho que viver a presença de Deus é na vida, o tempo
todo. Eu tive essa graça já diversas vezes, em momentos de dor como esse e em
momentos de alegria também.”

Esta narrativa forte, que mostra a intensidade de determinadas vivências com o chá
Hoasca e o entrelaçamento dessas vivências com aspectos mais amplos da vida de seu ator,
é aqui exposta para a compreensão do que chamarei de englobamento na força da
burracheira. Observo que a antropologia contemporânea tem utilizado o conceito de
englobamento em contextos vários e distintos128, mas aqui utilizarei este termo visando uma
aplicação bem específica, por isso, o determinei: na força da burracheira.

O símbolo do Sagrado Coração de Jesus não pertence ao conjunto simbólico da


doutrina da UDV. É um símbolo do catolicismo, com uma delimitação histórica bem clara e
uma presença na iconografia católica brasileira que se deve sobretudo à atuação do
Apostolado da Oração, movimento introduzido e difundido no país desde o século passado
pelos jesuítas. Pois bem, a avó de Renato, senhora mineira, fervorosamente católica, tinha
em sua casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus, o qual era observado por Renato
desde a sua infância. Antes de conhecer a UDV, ele já havia se distanciado do catolicismo e
participado do espiritismo kardecista e do candomblé. Certamente, o Sagrado Coração era
apenas uma longínqua lembrança de seus tempos de criança e da fé de sua avó, sem um
significado especial em seu horizonte religioso de homem adulto. No entanto, certo dia,
Renato vive uma intensa experiência existencial, enquanto homem, esposo e pai. E tal
vivência humana, por si só extremamente significativa, é revestida de um sentido, uma
densidade e um colorido especiais por acontecer durante um tempo de burracheira. Tendo
bebido o vegetal no momento em que aguarda na sala de espera do hospital o resultado da
cirurgia a que é submetida sua esposa, Renato se defronta com a imagem do Sagrado
Coração que emerge de sua memória em uma nítida e reveladora miração. Como vimos, a
categoria da memória é sobremaneira valorizada na UDV, percebendo-se o vegetal como
veículo para a recordação. Assim, nesse momento o símbolo do Sagrado Coração é
englobado no conjunto de sua cosmovisão religiosa hoasqueira.

128
Cf., p. ex., o conceito de encompassment em Marilyn Strathern (STRATHERN, 1988, P. 259-260), e o
conceito de englobamento do contrário em Louis Dumont. (DUMONT, 1997, p. 369-375).
138

O englobamento vivenciado por Renato é bem distinto de uma bricolage de um


hipotético sujeito que, em seu individualismo moderno, escolhe a seu bel prazer entre as
mercadorias expostas nas prateleiras dos supermercados religiosos, construindo a sua
própria do-it-yourself-religion. Não. Para Renato, esse novo elemento que é incorporado ao
seu universo de convicções, iluminando-o e expandindo o seu raio de significados,
apresenta-se como “uma dádiva”, “uma coisa inestimável”, “uma coisa maravilhosa”, “um
bálsamo”, “luz”, “presença de Deus”, enfim, “graça”. Portanto, o elemento de
especificidade nesse englobamento, que identifico como próprio da experiência dos
discípulos da UDV, é que ele se dá na força da burracheira. Esta se mostra como um tufão
que, na força de seu movimento centrípeto, aproxima-se de uma província simbólica
distinta e a engloba em seu redemoinho. Tal imagem que utilizo busca expressar a força do
dinamismo autógeno dessa incorporação e, neste caso, até mesmo a velocidade com que ela
se dá, em meio à intensidade do estado alterado de consciência suscitado pela ingestão do
chá hoasca. E a ênfase que o relato atribui à luz, presente na imagem do Sagrado Coração e
na burracheira, indica que esse englobamento tem como princípio unificador a própria
cosmovisão da UDV, na qual a luz desempenha um papel fundamental.

Entretanto, a própria singularidade do evento sucedido na vida de Renato poderia


ser aduzida como argumento para a afirmação de sua inutilidade para uma compreensão
maior da experiência dos discípulos da UDV. Não seria a experiência de Renato de uma
intensidade existencial sobremaneira acentuada, o que a distinguiria das vivências da
maioria dos discípulos da UDV, que se aproximariam mais da bricolage tão presente no
panorama pós-moderno da religiosidade contemporânea? Certamente, o que Renato
vivenciou tem uma densidade especial e, como afirmei acima, podem-se observar entre os
participantes da União do Vegetal experiências bem mais superficiais, do ponto de vista
existencial. Porém, o que postulo aqui é que a miração do Sagrado Coração de Jesus é
emblemática de algo que se dá de modo bem mais amplo do que apenas na vida de Renato.
Isto porque a intensidade é uma das características recorrentes da burracheira.
Determinadas experiências extremamente fortes e de relevante significado para toda a
trajetória do sujeito que as vivenciou foram freqüentemente observadas e fartamente
documentadas em meu trabalho de campo, ao longo das cinqüenta entrevistas que realizei.
Assim, considero que este englobamento na força da burracheira pode ser um conceito
139

produtivo para a compreensão da démarche de apropriações de conteúdos religiosos


empreendida pelos discípulos da UDV.

Um outro passo que se pode dar é perceber esse englobamento na força da


burracheira na própria trajetória do fundador da União do Vegetal, José Gabriel da Costa.
Conforme podemos observar na sua história de vida, delineada acima a partir dos relatos de
familiares, mestres da origem e discípulos da UDV, Mestre Gabriel participou de diversas
configurações culturais brasileiras bem específicas: a começar por sua infância no interior
da Bahia, num contexto permeado pelo catolicismo popular. Em seguida, participa em
Salvador do ambiente próprio da capoeiragem, além de freqüentar terreiros de candomblé e
sessões espíritas kardecistas. Indo para o Norte do Brasil, integra as levas humanas do
“Exército da Borracha”. Em Porto Velho, participa como ogã de um terreiro de tradição
mina e no seringal atua em cultos de pajelança cabocla amazônica. Quando, finalmente, em
1959, bebe pela primeira vez o chá hoasca, José Gabriel parece ter tido logo uma
experiência muito intensa. Assim, segundo seu filho Jair, naquela primeira sessão ele se
dirige ao vegetalista que lhe deu o vegetal e lhe diz: “Chico Lourenço, a pessoa não é
conhecedora de tudo. Você me falou que foi no fim dos encantos. As coisas são
infinitas”129. Antes da segunda sessão, ele teria dito que “a gente vai beber o chá do Chico
Lourenço e ninguém vai sentir nada”, e assim teria acontecido. Na terceira vez, seu filho
Jair, então com 9 anos de idade, segundo o relato dele mesmo, teve uma burracheira muito
forte, começou a gritar e foi chamado por seu pai, que lhe disse: “Sente”. E Jair disse ao
pai: “O papai é um mestre, e é um rei, né, feito por Deus”. Ainda segundo o hoje Mestre
Jair, depois dessa sessão é José Gabriel que leva para sua casa mariri e chacrona e tem esse
diálogo com sua esposa: “Pequenina, eu sou Mestre”. E ela responde: “Mas Gabriel, pelo
amor de Deus, o Chico Lourenço é mestre há não sei quanto tempo, nós quase ficamos todo
mundo doido e tu diz que é mestre?” E ele: “Sou Mestre, Pequenina, e vou preparar o
mariri.” A intensidade da experiência de José Gabriel, que logo se reconhece como portador
de uma missão como “Mestre” no Vegetal, e a rapidez com que essa vivência assimila a sua
trajetória religiosa anterior, submetendo-a a uma nova interpretação - quando ele passa a
atribuir a si mesmo o que antes era ação do “caboclo Sultão das Matas” - são dois aspectos
que corroboram a interpretação desse processo como englobamento na força da
burracheira.

129
Entrevista de Mestre Pequenina e Mestre Jair. Jornal Alto Falante, Brasília, ago-out 1995, p. 8.
140

No universo simbólico da UDV podem-se detectar muitos traços das configurações


culturais com as quais José Gabriel havia entrado em contato. Assim, por exemplo, segundo
o relato de uma conselheira que fez uma pesquisa no sertão baiano, há benditos populares a
Santana extremamente semelhantes à Chamada de Senhora Santana, da UDV. As
freqüentes invocações de Jesus e da Virgem da Conceição, em inúmeras chamadas, também
expressam essa marca profunda do catolicismo popular no universo simbólico de Mestre
Gabriel. Do mesmo modo, concepções indígenas, que permearam o xamanismo caboclo
amazônico, podem ser identificadas na cosmovisão da União do Vegetal, como a crença de
que certas plantas possuem um espírito130. Também elementos relacionados às
religiosidades afro-brasileiras podem ser encontrados em chamadas e histórias da UDV.
Deste modo, pode-se perceber o englobamento na força da burracheira como algo
constitutivo da UDV, na medida em que caracteriza a experiência fundante de José Gabriel
da Costa. Tal experiência pode ser replicada, de modo sempre novo e original, pelos
discípulos, que a partir de suas trajetórias singulares individuais e da especificidade de seu
contato com a burracheira, vivem um movimento semelhante, constituindo diferentes
configurações, as quais no entanto encontram um eixo interpretativo articulador na vivência
de Mestre Gabriel.

Por fim, cumpre mostrar que, na verdade, ainda que tenha a sua singularidade, o
englobamento na força da burracheira tem uma similaridade com o movimento que se
pode observar na experiência mística. O que uma perspectiva mais objetivante poderia
ver como compreensões religiosas distintas e até mesmo conflitantes pode subitamente
passar a ser contemplado como uma nova unidade, que não dilui as diferenças, mas as
integra em algo novo. Algo talvez semelhante ao que Otávio Velho indicou presente na
iluminação zen e na relação dialógica buberiana, ou na superação da oposição entre Apolo e
Dionísio “em favor de um novo Dionísio, que engloba Apolo” (VELHO, 1995, p. 59). Esse
movimento pode ser compreendido, no eixo da tradição hermenêutica, como as idas e
vindas da pré-compreensão e da compreensão, constituindo o círculo da interpretação. Essa
“decifragem da vida no espelho do texto”, que Ricoeur entende como “leitura do sentido
oculto no texto do sentido aparente” (RICOEUR, 1978, p. 23) pode realmente ser

130
Cf. as palavras do xamã peruano Pablo Amaringo, que utilizava a ayahuasca: “Every tree, every plant, has
a spirit. People may say that a plant has no mind. I tell them that a plant is alive and conscious. A plant may
not talk, but there is a spirit in it that is conscious, that sees everything, which is the soul of the plant, its
essence, what makes it alive.” (LUNA, AMARINGO, 1991, p. 33).
141

emblematizada pela releitura que Renato faz do quadro do Sagrado Coração de Jesus, na
força da burracheira.
142

CONCLUSÃO: O ITINERÁRIO DA DISSERTAÇÃO

O objetivo desta dissertação, de apresentar a estrutura matricial da União do


Vegetal, através da etnografia do Núcleo Alto das Cordilheiras, concretiza-se segundo um
esquema triádico: o modelo organizacional da UDV, a narrativa histórica de sua
constituição e a experiência simbólica de seus participantes.

O capítulo Geometria da Estrela utiliza uma perspectiva sincrônica para mapear a


organização institucional do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Inicio
abordando o nível local, delineando as linhas básicas de um núcleo da UDV, a sua
organização e hierarquia dos seus sócios. Em seguida, passo a um nível mais amplo,
descrevendo a estrutura administrativa da Sede Geral e de seus departamentos. Na medida
em que o reconhecimento jurídico da legitimidade do uso ritual da Hoasca é considerado de
suma importância pelo CEBUDV, descrevi brevemente o processo de legalização do uso do
chá no Brasil, indicando também os seus efeitos na fisiologia humana e a possibilidade de
encará-lo como recurso genético da biodiversidade amazônica. Na seqüência, apresentei os
dados do recenseamento do CEBUDV, que possibilitam que se avalie a dimensão dessa
instituição religiosa e a sua distribuição no território brasileiro. O passo seguinte foi
apresentar o Núcleo Alto das Cordilheiras, em Campinas, expondo o trabalho de campo que
realizei, a organização do espaço do núcleo, a estrutura de uma sessão de escala e a
dinâmica da interação dos discípulos. O perfil destes é descrito segundo uma metodologia
quantitativa, buscando oferecer ao leitor alguma informação acerca da inserção sócio-
econômico-cultural dos membros do núcleo.

O capítulo A Estrela do Norte, por sua vez, tem uma perspectiva diacrônica.
Segundo um enfoque êmico, a partir das narrativas dos participantes, apresento uma
narrativa histórica da União do Vegetal. Primeiramente, traçando a trajetória de seu
fundador, José Gabriel da Costa, e apontando para a sua participação numa ampla
seqüência de configurações culturais da sociedade brasileira. Em seguida, com as
recordações dos “mestres da origem”, busquei reconstruir os inícios da UDV na cidade de
Porto Velho. Por último, apresento esquematicamente, com o auxílio de narrativas de
discípulos paulistas, a chegada da UDV em São Paulo, a formação do Núcleo Samaúma e a
143

constituição do ramo de Campinas, dele proveniente: o Núcleo Lupunamanta e,


posteriormente, o Núcleo Alto das Cordilheiras.

No capítulo A Estrela iluminando, adoto, por assim dizer, uma perspectiva de


profundidade. O acesso à experiência simbólica dos discípulos urbanos da União do
Vegetal é propiciado pela exposição de algumas histórias de vida de membros do Alto das
Cordilheiras. As citações extensas do discurso deles visam possibilitar ao leitor uma
percepção de como se apresenta para eles a experiência com o chá Hoasca e quais as suas
repercussões nas vidas desses indivíduos. Na seqüência, centro o foco em algumas
categorias fundamentais do discurso dos discípulos, com o objetivo de captar a lógica da
experiência simbólica vivida por eles, que se apresenta como possibilidade de mediação
entre dimensões anteriormente cindidas. Este tópico, Alcançar o Alto das Cordilheiras
constitui propriamente o coração do argumento desta dissertação, enquanto que o seguinte o
aprofunda, propondo um novo instrumento interpretativo para a compreensão da
originalidade da experiência com o Vegetal: o conceito de englobamento na força da
burracheira.

Estes três aspectos matriciais - a ordem institucional da UDV (Geometria da


Estrela), a representação de sua origem e disseminação histórica no mapa do Brasil (A
Estrela do Norte) e a experiência de englobamento propiciada pela Hoasca (A Estrela
iluminando) - constituem a condição de possibilidade sobre a qual são inscritos processos
simbólicos, mitopoéticos e hiperreais mais complexos. O propósito deste trabalho não é,
porém, este campo complexo. O propósito é uma “abertura do campo”, a compreensão das
formações seminais que denomino a matriz da União do Vegetal.
144

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WEBER, Max. Economia y sociedad. Esbozo de sociologia comprensiva. México: Fondo de


Cultura Económica, 1974. 660 p.
152

JORNAIS

1. Alto Falante, Jornal do Departamento de Memória e Documentação da UDV.


Brasília

a) Jun 89 - p. 3-6 - Mestre Monteiro, 23 anos dedicados à causa da União


b) Nov / Dez 90 - p. 4-6 - Mestre Adamir, um pioneiro do Vegetal
c) Jul 91 - p. 2-3 - UDV festeja seus 30 anos
d) Idem - p. 4-7 - A caminhada de um poeta na UDV - José Luiz de Oliveira
e) Idem - p. 8-11 - Entrevista M. Braga
f) Idem - p. 15 - Aspectos farmacológicos do Chá.
g) Mar / Jul 92 - CONFEN libera chá por unanimidade.
b) Dez 92 / Jan 93 - No relato dos pioneiros, o perfil do Mestre.
c) Jan / Jul 93 - p. 10-13 - Entrevista com M. Nonato.
d) Ago 93 / Fev 94 - p. 8-10 - Entrevista com M. Cícero.
e) Mar / Abr 94 - p. 6-9 - Entrevista com M. Sidon.
f) Mai / Jun / Jul 94 - p. 8-11 - Entrevista com M. Pernambuco.
g) Ago / Set / Out 94 - p. 6-9 - Entrevista com M. Roberto Souto.
h) Nov / Dez 94 / Jan 95 - p. 6-9 - Entrevista com M. Manoel Nogueira.
i) Abr / Jun 95 - p. 8-11 - Entrevista com Cons. Paixão.
j) Ago / Set / Out 95 - p. 6-9 - Entrevista com M. Pequenina e M. Jair.
l) Nov / Dez 95 / Jan 96 - p. 4-5 - Entrevista com M. Monteiro.
m) Fev / Set 96 - p. 8-11 - Entrevista com M. Florêncio.

2. O Alto Madeira. Porto Velho. (Consultado nos arquivos do Departamento de


Memória e Documentação do CEBUDV, Brasília.).

a) 6 de outubro de 1967. Artigo: Convicção do Mestre.


b) Julho de 1971. Artigo: Velando enquanto dorme.
153

ANEXO 1

DISSIDÊNCIAS DA UNIÃO DO VEGETAL

1. Centro Espírita Beneficente Ordem Maçônica Rosaluz


Dirigente: Augusto “Queixada”
Sede: Porto Velho, RO
Fundado na década de 70

2. Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal


Dirigente: Joaquim José de Andrade Neto
Sede: Campinas, SP.
Presente: Mato Grosso (fazenda com plantio de mariri)
Fundado em 22 de julho de 1981

3. Centro Espírita Beneficente Ordem do Templo Universal de Salomão


Dirigente: Altenísio José de Albuquerque
Sede: Porto Velho, RO
Presente em: Porto Velho, Manaus, Rio Branco, Tarauacá, São Luís, Fortaleza, Aracaju,
Recife, João Pessoa, Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro.
Aproximadamente 500 participantes.
Fundado em 25 de julho de 1991

4. Associação Espírita Luz do Vegetal


Dirigente: Elzinha Piacentini
Sede: Araçariguama SP, 40 km de São Paulo, SP
Fundada 24 de dezembro de 1992

5. Dirigente: Raimundo Ferreira (dissidência do Augusto)


Presente em: Uberlândia, MG e Jundiaí, SP

6. Dirigente: Asplinger
Presente em: Manaus, AM

7. Associação Beneficente Luz de Salomão


Dirigente: Wilson Gonzaga
Presente em: São Paulo, SP
154

ANEXO 2
QUESTIONÁRIO

1. Dados Pessoais

Nome:
Idade: anos Data de nascimento: / /
Local de nascimento: Cidade: Estado:
Local atual de moradia: Cidade: Estado:
Estado Civil:
( ) solteiro/a
( ) casado/a
( ) viúvo/a
( ) divorciado/a
( ) desquitado/a
( ) separado/a

Escolaridade:
( ) primário
( ) secundário
( ) superior incompleto - Área:
( ) superior completo - Área:
( ) mestrado - Área:
( ) doutorado - Área:

Profissão:
1.
2.

Filiado a algum partido político?


( ) Sim Qual?
( ) Simpatizante Qual?
( ) Não

2. Dados Sócio-Econômicos:

Qual é a faixa de sua renda familiar mensal?


( ) 0 a 5 salários mínimos
( ) 5 a 10 salários mínimos
( ) 10 a 20 salários mínimos
( ) 20 a 30 salários mínimos
( ) mais de 30 salários mínimos
155

Em qual classe social você se considera incluído(a)?


( ) trabalhadora
( ) média inferior
( ) média média
( ) média alta
( ) alta

Você possui:
( ) casa própria
( ) telefone
( ) automóvel
( ) computador
( ) conexão com a Internet
( ) casa de praia ou campo

No momento você tem emprego?


( ) Sim ( ) Não

3. Dados Religiosos:

Religiões anteriores:
1.
2.
3.
4.
5.

Religiões dos Pais:


Mãe:
Pai:

Tempo de participação na UDV: anos

Grau na UDV:
( ) Não-sócio
( ) Sócio
( ) Corpo Instrutivo
( ) Corpo do Conselho
( ) Quadro de Mestres

Lugares que já ocupou na UDV:


1.
2.
3.
4.
5.
156

ENTREVISTA

OBSERVAÇÕES ÉTICAS:
a) Consentimento livre e esclarecido.
b) Liberdade de responder ou não determinadas questões.
c) Utilizarei as entrevistas em minha reflexão acerca dos discípulos da União do Vegetal na
realidade urbana brasileira, podendo citar trechos do material recolhido, sempre
mudando os nomes das pessoas, para salvaguardar a sua privacidade.

ABORDAGEM DIACRÔNICA:

1. Conte a trajetória de sua vida, especialmente apontando para a sua busca espiritual.

2. De que religiões você chegou a participar? [Inserção na contra-cultura, nos movimentos


de oposição à ditadura militar...] Você chegou a conhecer ou frequentar outras religiões
que fazem uso do chá? Quais? Por quanto tempo?

3. Você antes fazia uso de drogas ou álcool? Com frequência? Isso tem a ver com o uso do
chá hoasca?

4. Conte como você chegou a conhecer o chá hoasca e a União do Vegetal.

5. Você já conhecia pessoas da UDV de algum outro lugar?

6. Houve alguma transformação em sua vida naquele momento?

7. Que motivações levaram você a permanecer na União do Vegetal?

8. Quais as maiores dificuldades que você encontrou para seguir na União do Vegetal?

ABORDAGEM SINCRÔNICA:

9. No presente, há alguma repercussão da sua vivência religiosa na União do Vegetal em


sua vida prática?

10. Como se articula a sua vida familiar e a participação na União do Vegetal?

11. Sua vivência na UDV chega a influenciar sua vida profissional? E esta, por sua vez,
influencia a primeira?

12. E como se relaciona sua participação na UDV e o seu lazer? Você sente que há uma
dimensão lúdica em sua experiência com o chá?

13. A sua vivência na UDV de algum modo repercute na sua relação com a sociedade no
seu sentido mais amplo: a política, o meio-ambiente...?

14. Como você descreve ou classifica o chá hoasca?


157

15. Como é para você participar de uma religião que usa um chá de propriedades
psicoativas? Como você se sente diante das pessoas que não usam o chá?

16. Como é a sua relação com os demais sócios da UDV, nos dias de sessão e nos outros
dias?

17. Como você vê a participação das mulheres na UDV?

18. Como você observa o exercício do poder e a estrutura institucional do Centro Espírita
Beneficente União do Vegetal?

19. Você participa dos trabalhos do núcleo? De que modo?

20. Que dificuldades você enfrenta hoje para ser um discípulo da União do Vegetal?

21. Como é para você ser um discípulo urbano dessa religião nascida entre caboclos, na
floresta amazônica?

ABORDAGEM PROFUNDA:

22. O que você sente que é a burracheira?

23. Quais os sentimentos mais frequentemente experimentados por você no tempo de


burracheira?

24. Conte algumas vivências significativas que você teve sob o efeito do Vegetal.
[Experiências positivas e negativas].

25. Alguns chamam a União do Vegetal de a religião do sentir. Você considera esta uma
expressão apropriada?

26. O que há de específico no sentir dos participantes da UDV - durante as sessões e fora
delas?

27. Como se relacionam em sua vivência religiosa estes três verbos: SENTIR - CRER -
CONHECER?

28. Quem é, para você, José Gabriel da Costa?

29. Quem é, para você, Jesus?

30. Quem é, para você, Salomão?


158

ANEXO 3
PRESENÇA DO CEBUDV NO BRASIL

REGIÃO NORTE
CIDADE POPULAÇÃO DIMENSÃO UNIDADES ASSOCIADOS
UDV
Manaus-AM 1.157.357 metrópole 5 680
Envira-AM ***** pequena 1 39
Belém-PA 1.144.312 metrópole 1 113
Macapá-AP 220.962 média 1 54
Boa Vista-RR 165.518 média 1 258
Porto Velho-RO 294.227 média 4 474
Guajará-Mirim-RO 36.542 pequena 1 54
Jaru-RO 48.141 pequena 1 37
Ji-Paraná-RO 95.356 pequena 1 106
Ariquemes-RO 68.503 pequena 1 109
Machadinho D'Oeste- 28.949 pequena 1 70
RO
Presidente Médici-RO 28.490 pequena 1 62
Ouro Preto D'Oeste- 52.261 pequena 1 46
RO
Cacoal-RO 72.922 pequena 1 44
Alta Floresta D'Oeste- 33.471 pequena 1 37
RO
Campo Novo-RO 15.434 pequena 1 54
Rio Branco-AC 228.857 média 2 169
Plácido de Castro-AC 12.101 pequena 1 44
Cruzeiro do Sul-AC 56.705 pequena 1 161
Feijó-AC 22.142 pequena 1 60
Tarauacá-AC 23.715 pequena 1 53
Vila Extrema-AC ***** pequena 1 9
TOTAL 2.733
159

REGIÃO NORDESTE

CIDADE POPULAÇÃO DIMENSÃO UNIDADES ASSOCIADOS


UDV
Recife-PE 1.346.045 metrópole 2 142
Caruaru-PE 231.989 média 1 126
Maceió-AL 723.142 média 1 82
Campina Grande-PB 344.730 média 1 38
Salvador-BA 2.211.539 metrópole 4 416
Ilhéus-BA 242.445 média 1 129
Fortaleza-CE 1.965.513 metrópole 2 271
Sobral-CE 138.565 média 1 94
TOTAL 1.298

REGIÃO SUDESTE
CIDADE POPULAÇÃ DIMENSÃO UNIDADES ASSOCIADO
O UDV S
São Paulo-SP 9.839.066 metrópole 3 358
Campinas-SP 908.906 metrópole 2 188
Mogi das Cruzes 312.685 média 1 103
Rio de Janeiro-RJ 5.551.538 metrópole 2 221
Petrópolis-RJ 269.669 média 1 73
Niterói-RJ 450.364 média 1 42
Guarapari-ES 73.730 pequena 1 92
Caldas-MG 13.047 pequena 1 73
Belo Horizonte-MG 2.091.371 metrópole 1 165
Lagoa da Prata-MG 34.431 pequena 1 87
Governador Valadares- 231.242 média 1 154
MG
Ubá-MG 77.159 pequena 1 62
Divinópolis-MG 171.565 média 1 53
Uberlândia-MG 438.986 média 1 46
TOTAL 1.717
160

REGIÃO CENTRO-OESTE

CIDADE POPULAÇÃO DIMENSÃ UNIDADES ASSOCIADOS


O UDV
Brasília-DF (c/ Sede 1.921.946 metrópole 4 408
G.)
Goiânia-DF 1.003.477 metrópole 2 185
Campo Grande-MT 600.069 média 1 140
Cuiabá-MT 433.355 média 1 212
Barra do Garças-MT 47.133 pequena 1 34
TOTAL 979

REGIÃO SUL

CIDADE POPULAÇÃ DIMENSÃO UNIDADES ASSOCIADO


O UDV S
Porto Alegre-RS 1.288.879 Metrópole 1 73
Florianópolis-SC 271.281 média 1 81
Joaçaba-SC 28.346 Pequena 1 55
Criciúma-SC 159.101 média 1 15
Curitiba-PR 1.476.253 Metrópole 1 129
TOTAL 353
161

ANEXO 4

UNIDADES DA UDV VISITADAS:

ESTADO DE SÃO PAULO:


1. Campinas - Núcleo Alto das Cordilheiras
2. Campinas - Núcleo Lupunamanta
3. São Paulo - Núcleo Samaúma
4. São Paulo - Núcleo São João Batista
5. Mogi das Cruzes - Núcleo Rei Davi

ESTADO DE MINAS GERAIS:


6. Belo Horizonte - Núcleo Rei Salomão
7. Lagoa da Prata - Núcleo Lagoa da Prata
8. Governador Valadares - Núcleo Luz Divina
9. Ubá - Núcleo Recanto das Flores

ESTADO DO RIO DE JANEIRO:


10. Rio de Janeiro - Núcleo Pupuramanta
11. Rio de Janeiro - Núcleo Janaína
12. Niterói - Distribuição Autorizada de Niterói
13. Petrópolis - Núcleo Camalango

DISTRITO FEDERAL:
14. Brasília - Sede Geral
15. Brasília - Núcleo Gaspar

ESTADO DO PARANÁ:
16. Curitiba - Núcleo São Cosmo e São Damião
162

ANEXO 5

Fotocópia de carta de autorização do


Centro Espírita Beneficente União do Vegetal
a Sérgio Góes Telles Brissac, para a realização da pesquisa.

Assinam:

Edison Saraiva Neves – Presidente da Diretoria Geral

Raimundo Nonato Marques – Mestre Geral Representante


163

ANEXO 6
FONTES ORAIS

a) DIRETAS131

1. Depoimento do Cons. Carmiro Gabriel da Costa, filho de José Gabriel da Costa. Rio de Janeiro,
4 de novembro de 1995.
2. Depoimento de M. Antônio da Costa, irmão de José Gabriel da Costa. Rio de Janeiro, 4 de
novembro de 1995.
3. Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga. Rio de Janeiro, agosto de 1998.
4. Entrevista de Ivan Marques. Campinas, setembro de 1998.
5. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Rio de Janeiro, 25 de abril de 1999.
6. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira. Brasília, 26 de julho de 1999.

b) PESQUISADAS EM ARQUIVO

7. Entrevista de Alfredo Gabriel da Costa, irmão de José Gabriel da Costa, a Edson Lodi. Na
Estância Centro-Oeste, 17 de abril de 1987. In: Memórias, Volume I. Centro de Memória e
Documentação do CEBUDV.
8. Depoimento de Hilton Pereira de Pinho, s.d.
9. Entrevista de M. José Luiz de Oliveira a Edson Lodi. Dezembro de 1990. In: Memórias,
Volume II.
10. Entrevista de M. Raimundo Pereira da Paixão a Edson Lodi. São Paulo, junho de 1989. In:
Memórias, Volume II.
11. Entrevista de Raimundo Pereira da Paixão a Lúcia Gentil. Campinas, 3 de junho de 1993.
12. Entrevista de M. Raimundo Carneiro Braga a Edson Lodi, Ruy Fabiano e João Bosco. Brasília,
junho de 1991. In: Memórias, Volume II.
13. Rubens Rodrigues. Explanação na sessão inaugural do núcleo de Manaus, 1971. In: Memórias,
Volume I.

131
Além das 50 entrevistas de discípulos do Núcleo Alto das Cordilheiras, realizadas em Campinas
e São Paulo, no período de agosto a novembro de 1998.

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