P. 1
Cinema Da Cidade 06 Artistico

Cinema Da Cidade 06 Artistico

|Views: 359|Likes:
Exercício de escrita. Livro não dedicado à publicação ou venda.
Exercício de escrita. Livro não dedicado à publicação ou venda.

More info:

Published by: Marcelo Peron Pereira on Jun 15, 2010
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

01/26/2013

pdf

text

original

Cinema da Cidade (Ato VI

)

O corpo como prótese
O implante como órgão

O corpo como prótese O implante como órgão

2

O corpo como prótese
O corpo como prótese O corpo como prótese

O corpo como prótese O corpo como prótese
O corpo como prótese
O implante como órgão O implante como órgão

O corpo como prótese O implante como órgão O implante como órgão
O implante como órgão O implante como órgão

O implante como órgão O implante como órgão
O implante como órgão

O implante como órgão
O implante como órgão
3

Teses desaforadas
# 1. A institucionalização do livro encontra-se em contradição com a lei de sua forma. Traduz-se, assim, para o terreno da literatura a contradição fundamental da sociedade burguesa, que opõe às forças que libertou as amarras da apropriação privada da riqueza. O livro, para evoluir para a exuberância de suas possibilidades, precisa alcançar as potências e a extensão de uma produção que é coletiva. Contra isso opõem-se todos os grandes potentados. O livro, portanto, só pode existir como produção marginal, de marginais. # 2. O fundamento do livro por nascer é a imagem, para a qual, o texto, mesmo em sua textualidade, é um fotograma. O livro deve evoluir para acolher todas as possibilidades expressivas que a contemporaneidade lhe
4

concedeu, com o que a palavra poderá alcançar a inteira extensão de suas possibilidades. Para o texto, portanto, a produção audiovisual é uma questão metalingüística. # 3. Baudelaire, entre outros, já havia instituído o dejeto como objeto privilegiado da composição poética. Não se exalta nisso, contudo, o grotesco, mas o antiuniverso burguês. A poética assim concebida é uma força de dissolução, sem a qual não se pode superar um ordenamento verdadeiramente catastrófico, que se quer enunciar sob o nome de civilização. # 4. As pessoas não gostam de se alinhar com as forças da dissolução, advogar as causas da morte. Preferem uma existência mineral. É preciso compreender, contudo, que a morte não se opõe à vida, mas a inocula com o mais elevado poder reprodutivo. O que se opõe à
5

vida é o apego à rigidez cadavérica. Corpses, corpses é a este estado que se almeja na sociedade burguesa tardia. É preciso amar a mortalidade do corpo, para voltar a investi-lo de sua deliciosa humanidade. # 5. Aquilo que sucede à palavra, da qual se retirou toda materialidade, para então fundála na pura convenção e arbitrariedade, ocorre aos homens, que se afastam progressivamente de seus corpos, para vê-los como próteses, manipuláveis ao sabor de suas vontades e, em larga medida, em detrimento das possibilidades de sua exploração prazerosa. Esse corpo concebido como exterior e extemporâneo passa a ser objeto, então, de grande parte da agressividade que a sociedade burguesa gera contínua e inexoravelmente. Nada é mais funcional para a ordem que o cuidado de si, que, ao fazer do corpo objeto de preocupação contínua, na tentativa alucinada de aperfeiçoá-lo, apazigua as potências tectônicas que se encontram no
6

interior da sociedade burguesa, remetendo-as contra o minúsculo do corpo humano. Esta maneira de se dirigir ao corpo o submete à égide da disciplina e do adestramento, para os quais os grande valores são a peformance e o desempenho. O corpo-máquina é contemporâneo da vida como espetáculo, do extravasamento de tudo que é privado para o âmbito da visibilidade total. Não se frui o corpo, portanto, mas o disciplina para a exposição, para a correspondência a padrões. #6. O cuidado doentio de si é inerente à sociedade capitalista tardia, que eleva o corpo e o sexo à condição de valores máximos, apenas para descorporificar o homem e deserotizar o sexo. Uma sociedade brutal precisa produzir homens insensíveis e indiferentes, o que requer encontrar prazer verdadeiro na dor e apenas nela. Para suportar a dor extrema, contudo, é preciso exilar-se do corpo. O limite extremo da cultura, no capitalismo tardio, é a organização
7

da vida segundo princípios francamente sadomasoquistas. #7. Superar esta cultura requer, portanto, libertar a sexualidade da disciplina; abraçar a caducidade do corpo; permitir-se o prazer e encontrar uma nova relação entre o âmbito público e privado da existência. Faz-se necessário, portanto, pensar criticamente os espaços interiores e exteriores e a relação que guardam entre si. Essa relação, se devidamente compreendida, refere-se diretamente à cidade e sua organização. A refundação da cidade, contudo, é um exercício em que se confere à cultura popular, em todos os seus componentes, direito pleno de cidadania. #8. A favela, que se percebe como espaço da nãocidade, local da anomia, é igualmente um território de resistência. Sua precariedade e pobreza, a vida sob o signo da opressão,
8

levam ao desenvolvimento de estruturas comunitárias que nada têm a ver com o mundo burguês. A favela se qualifica, assim, aos olhos da cidade respeitável, tanto para o aniquilamento, quanto para sua tradução para o imaginário da ordem, que a idealiza sob a forma dos parques operários – operantes, disciplinados, assépticos, higienizados, organizados, produtivos. A favela, contudo, se fundamenta em outros valores, em que o trabalho, o sexo, a relação do espaço público e privado; entre a realidade e a fantasia ocupam posições que a cidade desconhece. É preciso resgatar a favela para a cidade, de tal modo que se produza nesse encontro, os elementos de sociedade reconciliada. É à favela, à cultura popular, contudo, que cabe o papel de redimir a cidade. #9. Não há uma história do corpo em geral. O corpo registra, em sua corporalidade, uma história com carne: totalmente específica, totalmente local, particular. Nada se sabe do
9

corpo, no Brasil, se não o fizermos ancorar no escravismo colonial. A violabilidade e inviolabilidade corpo, sua sacralidade e sanidade, são percebidas segundo os preceitos de uma sociedade que não elaborou a herança escravista. A violência inerente a nossa sociedade, a prática do extermínio cotidiano a que dá causa, alcança o corpo das classes populares, que permanece material, mas não humanizado. # 10. Method of this project: literary montage. I needn’t say anything. Merely show. I shall purloin no valuables, appropriate no ingenious formulation. But the rags, the refuse – these I will not inventory but allow, in the only way possible, to come into their own: by making use of them. (Benjamin, 1999, p. 460)

10

Sumário
A palavra e sua carne

Série Palavra Sem Carne # 1
Série Palavra Sem Carne # 2

A pele do porco espinho

Estudos de topologia urbana
Série Palavra Sem Carne # 3

Onde o Rio é mais baiano
Bibliografia

11

A palavra e sua carne

12

Crítica de Cinema:

A Questão humana

(A palavra e sua carne)

No princípio está sempre o verbo, ainda que nenhum Deus: palavra vazia e muda, que é preciso soprar.
La traducción sirve pues para poner de relieve la íntima relación que guardan los idiomas entre sí. No puede revelar ni crear por si misma esta relación íntima, pero sí puede representarla, realizándola en una forma embrionaria e intensiva. Y precisamente esta representación de un hecho indicado mediante el tanteo, que es el germen de su creación, constituye una forma de representación muy peculiar que apenas aparece fuera del ámbito de la vida idiomática, pues ésta encuentra en las analogías y los signos otros medios de expresión distintos del intensivo, es decir, la realización previa y alusiva. Pero este vínculo imaginado e íntimo de las lenguas es el que trae consigo una convergencia particular. Se funda en el hecho de que las lenguas no son extrañas entre sí, sino a príori, y prescindiendo de todas las relaciones históricas, mantienen cierta semejanza en la forma de decir lo que se proponen.
Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Mantenha a embalagem sempre bem fechada, em local fresco e arejado. Produto sujeito à compactação durante o transporte. Bajcz Szajndla Bajczman Tova Bajer Eliezer Bakszt Benjamin Balascha Arfed Bamzecer Zelig Banach Bila Banczuk Szejna Bardach Leopold Bardach Ernestyna Bardes Mala Barenholc Ester Barmhercyk Josef Barszcz Gedalia Bass Reuven Baum David Baum Jona Baum Yosef Baum Dow Baum Ruchla Baum Motel Baum Moze Baum Naftali Baumelgruen Mose Baumelgrun Dwora Baumzecer Dwora Becher Jska Becher Chaya Beer Munio Beghelfeter Jakob Beghelfeter Meir
13

A Questão Humana (La Question Humaine, França, 2007)

Títulos Alternativos: The Human Question / Heartbeat Detector Gênero: Drama Duração: 143 min. Tipo: Longa-metragem / Colorido Palavras-Chaves: Linguagem, Cena de banheiro, Corporação, mais... Produtora(s): Sophie Dulac Productions A Questão Humana (Question Humaine, La, 2007)

» Direção: Nicolas Klotz » Roteiro: François Emmanuel, Elisabeth Perceval » Gênero: Drama » Origem: França » Duração: 143 minutos » Tipo: Longa » Trailer: clique aqui » Sinopse: Em Paris, Simon trabalha como psicólogo no departamento de recursos humanos numa empresa pretroquímica. Quando a gerência pede que ele investigue o comportamento de um dos executivos, a percepção de Simon começa a ficar perturbada e nebulosa. Uma experiência que acaba afetando seu corpo e sua mente, com reflexos na vida pessoal. » Palavras-chave: corporações, interrogatório, nazismo
Trailer

A Questão Humana Crises de um empregado-padrão
Neste ano, muita gente vai ouvir falar do ator francês Mathieu Amalric. Além de ser o vilão do próximo 007, previsto para novembro, ele protagoniza O Escafandro e a Borboleta, com estréia prometida para 4 de julho, e também A Questão Humana (foto), já em cartaz. Nessa fita, que pode ser vista no CineSesc e no Reserva Cultural, o diretor Nicolas Klotz destrincha as relações corporativas a partir do departamento de recursos humanos da filial francesa de uma grande indústria alemã. O eficiente Simon (Amalric) é líder de equipe e testa os candidatos a emprego com certa crueldade, para ver se eles vestem mesmo a camisa da empresa. Ao ser incumbido de verificar a sanidade de um diretor da firma (Michael Lonsdale), descobre segredos que o fazem repensar sua motivação no trabalho. É um filme tenso, no qual o jogo de cena tem papel fundamental, exigindo o máximo do bom elenco. | por
14

Miguel Barbieri Jr. SERVIÇO

A Questão Humana
de Nicolas Klotz (La Question Humaine, França, 2007, 143min.). 14 anos.
El bromuro de metilo es efectivo en una amplia gama de temperaturas arriba de 5 °C, aunque es recomendable que las fumigaciones se hagan a temperaturas arriba de 15 °C. En general, el material vegetativo vivo tolera las dosis especificadas, pero el grado de tolerancia varía con la especie, la variedad, el estado de crecimiento y las condiciones del material. El bromuro acelera la descomposición de las plantas que están en malas condiciones. Como el bromuro de metilo es tres veces más pesado que el aire, se difunde lateralmente y hacia abajo muy rápidamente, pero puede requerir ventiladores para asegurar que haya movimiento hacia arriba, y obtener una distribución de gas homogénea. La circulación del aire producida por el ventilador también intensifica la penetración del fumigante en la mercancía.

http://www.youtube.com/watch?v=sdQyxSV9hog http://www.youtube.com/watch?v=o7yT_KYd4e8 http://video.aol.com/video-detail/matthieu-amalric-sur-le-tournage-de-la-questionhumaine/1349887440 http://video.aol.com/video-detail/la-question-humaine/2129048399 http://www.dailymotion.com/video/x2yv3w_mathieu-amalric-question-humaine_politics http://video.aol.com/video-detail/a-questao-humana-la-question-humaine--heartbeatdetector/147355352?icid=acvsv2 http://video.aol.com/video-detail/la-question-humainetrailer/1674678111 http://www.youtube.com/watch?v=sdQyxSV9hog http://www.youtube.com/watch?v=sdQyxSV9hog http://www.youtube.com/watch?v=o7yT_KYd4e8 http://video.aol.com/video-detail/matthieu-amalric-sur-le-tournage-de-la-questionhumaine/1349887440 http://video.aol.com/video-detail/la-question-humaine/2129048399 http://www.dailymotion.com/video/x2yv3w_mathieu-amalric-question-humaine_politics http://video.aol.com/video-detail/a-questao-humana-la-question-humaine--heartbeatdetector/147355352?icid=acvsv2 http://video.aol.com/video-detail/la-question-humainetrailer/1674678111 http://www.youtube.com/watch?v=sdQyxSV9hog El bromuro de metilo es efectivo en una amplia gama de temperaturas arriba de 5 °C, aunque es recomendable que las fumigaciones se hagan a temperaturas arriba de 15 °C. En general, el material vegetativo vivo tolera las dosis especificadas, pero el grado de tolerancia varía con la especie, la variedad, el estado de crecimiento y las condiciones del material. El bromuro acelera la descomposición de las plantas que están en malas condiciones. Como el bromuro de metilo es tres veces más pesado que el aire, se difunde lateralmente y hacia abajo muy rápidamente, pero puede requerir ventiladores para asegurar que haya movimiento hacia arriba, y obtener una distribución de gas homogénea. La circulación del aire producida por el ventilador también intensifica la penetración del fumigante en la mercancía.

15

El bromuro de metilo es efectivo en una amplia gama de temperaturas arriba de 5 °C, aunque es recomendable que las fumigaciones se hagan a temperaturas arriba de 15 °C. En general, el material vegetativo vivo tolera las dosis especificadas, pero el grado de tolerancia varía con la especie, la variedad, el estado de crecimiento y las condiciones del material. El bromuro acelera la descomposición de las plantas que están en malas condiciones. Como el bromuro de metilo es tres veces más pesado que el aire, se difunde lateralmente y hacia abajo muy rápidamente, pero puede requerir ventiladores para asegurar que haya movimiento hacia arriba, y obtener una distribución de gas homogénea. La circulación del aire producida por el ventilador también intensifica la penetración del fumigante en la mercancía.

Bekerknst Basia Bekkermeister Rywka Benjaminowicz Leibel Benkil Sara Bentskovski Jahuda Bercovici Israel Bercovici Leia Bercovici Heni Berenblite Hana Berenstein Frida Berensztat Avraham Berent Icek Berent Rywka Bereza Lova Bergerbom Yitzkhak Bergerfreund Zisl Bergier Jcchak Bergsohn Henia Bergsztein Toba Bergsztrajt Ester Berkenshtadt Ruwen Berkenstadt Rochma Berkenwald Esther Berkenwald Pinchas Berko Moshe Berkovicz Chaim Berkowicz Jakob Berkowicz Paulina Town District Region Country Birth Date Source

POLAND 1922 Page of Testimony Berkowicz Chana KALISZ KALISZ LODZ POLAND 1910 Page of Testimony Berkowits Beila LODZ LODZ LODZ POLAND 1882
Berkowicz Chawa RADOM RADOM KIELCE Page of Testimony Berlinska Mala ZYWIEC ZYWIEC KRAKOW

POLAND 1916 Page of Testimony Bermann Hirsch ZDZIECIOL

16

Tomadas aisladamente, las lenguas son incompletas y sus significados nunca aparecen en ellas en una independencia relativa, como en las palabras aisladas o proposiciones, sino que se encuentran más bien en juna continua transformación, a la espera de aflorar como la pura lengua de la armonía de todos esos modos de significar. Hasta ese momento ello permanece oculto en las lenguas. Pero si éstas se desarrollan así hasta el fin mesiánico de sus historias, la traducción se alumbra en la eterna supervivencía de las obras y en el infinito renacer de las lenguas, como prueba sin cesar repetida del sagrado desarrollo de los idiomas, es decir de la distancia que media entre su misterio y su revelación, y se ve hasta qué punto esa distancia se halla presente en el conocimiento.
El bromuro de metilo (CH3Br) es un fumigante incoloro, sin olor e ininflamable. Por esta razón se le agrega un 2% de cloropicrina o tricloro-nitrometano (CCl3NO2 ) que por su intenso olor y propiedades lacrimógenas sirve como agente delator. El uso del bromuro de metilo al 100% no está autorizado por la Dirección General de Sanidad Vegetal, salvo como excepción, en ciertos tratamientos cuarentenarios, donde la cloropicrina puede causar manchado de las frutas.

Aviso importante: esse produto não deve ser usado para alimentar crianças menores de 1 (um) ano de idade, a não ser por indicação expressa do médico, ou nutricionista. O Aleitamento materno evita infecções e alergias e deve ser mantido até a criança completar 2 (dois) anos ou mais. Aviso importante: esse produto não deve ser usado para alimentar crianças menores de 1 (um) ano de idade, a não ser por indicação expressa do médico, ou nutricionista. O Aleitamento materno evita infecções e alergias e deve ser mantido até a criança completar 2 (dois) anos ou mais.

17

18

Aviso importante: esse produto não deve ser usado para alimentar crianças menores de 1 (um) ano de idade, a não ser por indicação expressa do médico, ou nutricionista. O Aleitamento materno evita infecções e alergias e deve ser mantido até a criança completar 2 (dois) anos ou mais. Aviso importante: esse produto não deve ser usado para alimentar crianças menores de 1 (um) ano de idade, a não ser por indicação expressa do médico, ou nutricionista. O Aleitamento materno evita infecções e alergias e deve ser mantido até a criança completar 2 (dois) anos ou mais. NOWOGRODEK NOWOGRODEK POLAND 1887 Page of Testimony Bermann Moische LODZ LODZ LODZ POLAND 1882 Page of Testimony Bermann Lisa BARANOWICE RYBNIK SLASK POLAND 1909 Page of Testimony Bernboim

Haim MICHOW LUBARTOW LUBLIN

POLAND

1908 Page of Testimony Bernstein Chana ROVNO ROWNE WOLYN POLAND 1922 Page of Testimony Bernstein Sosia GRZYMALOW SKALAT TARNOPOL POLAND 1889 Page of Testimony Bernstein Feiga BUSK POLAND 1920 Page of Testimony Bernstein Pesia MLAWA MLAWA WARSZAWA

POLAND

Page of Testimony Bernsztain Haya

WARSAW WARSZAWA WARSZAWA POLAND 1916 Page of Testimony Bernsztein Mosze BORYSLAW DROHOBYCZ LWOW POLAND Page of Testimony Bernsztein Riwe Town District Region Country Birth Date Source

Bernsztein Sonja VILNA WILNO WILNO

POLAND

1909 Page of Testimony Berzowski Batia CZERNAWCZYCE BRZESC BUGIEM POLESIE POLAND 1900 Page of Testimony Besser Izchak KRAKOW KRAKOW KRAKOW POLAND 1914 Page of Testimony Better Belka

TARNOPOL TARNOPOL TARNOPOL

POLAND

1910 Page of Testimony Bialy Bela BEDZIN BEDZIN KIELCE POLAND 1916 Page of Testimony Biederman Kreindil LODZ LODZ LODZ POLAND 1894 Page of Testimony Bien Awigdor PRZEMYSL PRZEMYSL LWOW POLAND 1910 Page of Testimony Bigelajzen Lejbysz KALISZ KALISZ LODZ POLAND 1906 Page of Testimony Binke Raizl LODZ LODZ LODZ

POLAND
BINAKON LIDA NOWOGRODEK

1892 Page of Testimony Binonski Meir

19

20

POLAND

1922 Page of Testimony Binshtok Batia

SZYDLOWIEC KONSKIE KIELCE POLAND 1923 Page of Testimony Birenbaum Isak RADOM RADOM KIELCE

POLAND
Birenbaum Yisrael PIOTRKOW

Page of Testimony

POLAND

1916

Page of Testimony Birenbaum CHODOROW BOBRKA LWOW POLAND Page of Testimony Birenbaum Riwka WARSZAWA WARSZAWA WARSZAWA POLAND 1866.

Pegue um jornal. Pegue a tesoura. Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.Recorte o artigo. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco. Agite suavemente.Tire em seguida cada pedaço um após o outro.Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco .O poema se parecerá com você. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público. Birenbaum Szlomo
Birenbaum Chaim Birenbaum Chaim Birknfeld Yitzkhak Bischoff Olga Bitter Mosze Bitter Rakhel Bjaler Ester Blacharz Hinda Blacher Rosa Blacher Rachel Blacher Mowsha Blady Aszer Blaiwais Sender Blanc Roza O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O
21

CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE; O CORPO COMO PRÓTESE

O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE; O OVO COMO PRÓTESE O OVO COMO O OVO O OV OO O OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
Gross Berta Gross Erna Gross Ernst Gross Ernst Gross Heinrich Gross Jette Gross Joseph Gross Julius Gross Nannette Gross Paula Gross Selma Gross Sofie of Gross Therese Grossmann Berthold Gruen Cornelia Gruen Elsa Gruen Rachmiel Gruenbaum Selma Gruenberg Aron Gruenberg Salomon Gruenebaum Alice Gruenebaum Alma Gruenebaum Berta Gruenebaum Berta Gruenebaum Dora Gruenebaum Flora Gruenebaum Florenze Gruenebaum Heinrich Gruenebaum Hugo Gruenewald Anneliese Gruenewald Arthur Gruenewald Denni MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1940 List of victims from Germany Gruenewald Edith MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1922 List of victims from Germany Gruenewald Else MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1890 List of victims from Germany Gruenewald Else HAMM WESTFALEN ARNSBERG WESTPHALIA GERMANY 1894 List of victims from Germany Gruenewald Ernst BISCHOFSHEIM GERMANY 1914

22

List of victims from Germany Gruenewald Hilde BENDORF KOBLENZ RHINE PROVINCE GERMANY 1897 List of victims from Germany Gruenewald Hugo HAMM WESTFALEN ARNSBERG WESTPHALIA GERMANY 1885 List of

23

victims from Germany Gruenewald Irma ALTENA ARNSBERG WESTPHALIA GERMANY 1901 List of victims from Germany Gruenewald Karl y Gruenewald Lilli Gruenewald Martha MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1891 List of victims from Germany Gruenewald Max Gruenewald Rosa Gruenewald Rosa Gruenewald Siegfried Gruenewald Walter Gruenfeld Arthur Gruenfeld Dina MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1891 List of victims from Germany Gruenfeld Edith MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1929 List of victims from Germany Gruenfeld Emma TAUBERRETTERSHEIM BAVARIA GERMANY 1879 List of victims from Germany Gruenfeld Ernst MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1922 List of victims from Germany Gruenfeld Gertrude MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1898 List of victims from Germany Gruenfeld Hannelore DARMSTADT DARMSTADT HESSE GERMANY 1931 List of victims from Germany Gruenfeld Ida DARMSTADT DARMSTADT HESSE GERMANY 1901 List of victims from Germany Gruenfeld Johanna MAINZ MAINZ HESSE GERMANY 1896 List of victims from Germany Gruenfeld Josef List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of ictimsList of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source List of victims Name Town District Region Country Birth Date Source

24

Gruenfeld Lotte OBERLAURINGEN WUERZBURG UNTERFRANKEN BAVARIA GERMANY List of victims from Germany Gruenfeld Margot OBERLAURINGEN WUERZBURG UNTERFRANKEN BAVARIA
25

1899

GERMANY

1926

List of victims from Germany Gruenfeld Margot

DARMSTADT DARMSTADT HESSE GERMANY List of victims from Germany Gruenhut Laura REGENSBURG REGENSBURG OBERPFALZ BAVARIA GERMANY List of victims from Germany Gruenhut Siegfried REGENSBURG REGENSBURG OBERPFALZ BAVARIA GERMANY

1929

1886

1878 List of victims from Germany Gruensfelder Ferdinand BENDORF
KOBLENZ RHINE PROVINCE GERMANY 1908 List of victims from Germany Gruenzeug Ernestine MUENCHEN MUENCHEN OBERBAYERN BAVARIA GERMANY List of victims from Germany Grundmann Gustav Grunewald Ernst Grunlaub Luise Grynbaum Moses Grynberg Alter Grynberg Benjamin Grynberg Cyrla Grynberg Lea Grynberg Rosa Gruber Ernestine Gruber Jakob

1898

AUGSBURG AUGSBURG SCHWABEN BAVARIA GERMANY
26

Gruber

Kurt AUGSBURG AUGSBURG SCHWABEN BAVARIA GERMANY Gruener Freia Gruener Josef Gruener Julius Guenther Amalie Guenther Gertrud Guenther Isidor Guenther Margot Guenther Norbert Guenther Olga Town District Region

Country Birth Date Source Guenzburger Isaak ALBBRUCK of victims from Germany Guenzburger Josef MEMMINGEN AUGSBURG

1886 List

SCHWABEN BAVARIA GERMANY List of victims from Germany Guenzburger Rosalie MEMMINGEN AUGSBURG SCHWABEN BAVARIA

1883

1893 List of victims from GermanyGuggenheim Albert ESSEN DUESSELDORF RHINE PROVINCE GERMANY 1881 List of victims from
GERMANY Germany Guggenheim Ferdinand STUTTGART STUTTGART WUERTTEMBERG GERMANY Guggenheim Ilse GEMUENDEN Germany

1897 List of victims from Germany GERMANY 1921 List of victims from

COMO SUCEDE CUANDO SE PRETENDE VOLVER A JUNTAR LOS FRAGMENTOS DE UNA VASIJA ROTA QUE DEBEN ADAPTARSE EN LOS MENORES DETALLES, AUNQUE NO SEA OBLIGADA SU EXACTITUD, ASÍ TAMBIÉN ES PREFERIBLE QUE LA TRADUCCIÓN, EN VEZ DE IDENTIFICARSE CON EL SENTIDO DEL ORIGINAL, RECONS TITUYA HASTA EN LOS MENORES DETALLES EL PENSAMIENTO DE AQUÉL EN SU PROPIO IDIOMA, PARA QUE AMBOS, DEL MISMO MODO QUE LOS TROZOS, DE LA VASIJA, PUEDAN RECONOCERSE COMO FRAGMENTOS DE UN LENGUAJE SUPERIOR.

Guggenheim Jeanette 1883 Guggenheim Selma 1875 Germany Guggenheim Ury GERMANY Guggenheimer Johanna 1895 Gump Alice 1880
NUERNBERG ANSBACH MITTELFRANKEN BAVARIA GERMANY List of victims from Germany ESSEN DUESSELDORF RHINE PROVINCE GERMANY List of victims from 1941 List of victims from Germany SCHWABEN BAVARIA GERMANY List of victims from Germany ULM ULM WUERTTEMBERG GERMANY 27

STUTTGART STUTTGART WUERTTEMBERG

MEMMINGEN AUGSBURG

List

Gumprich Erich Gumprich Herbert 1911 Gumprich Jenny 1840
of victims from Germany HAGEN ARNSBERG WESTPHALIA GERMANY 1910 List of victims from Germany BENDORF KOBLENZ RHINE PROVINCE GERMANY List of victims from Germany HAGEN ARNSBERG WESTPHALIA GERMANY Martha HAGEN ARNSBERG

List of victims from Germany Gumprich

WESTPHALIA
Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

(Paz de Vestfália), também conhecida como os Tratados de Münster e Osnabrück (ambas as cidades atualmente na Alemanha), designa uma série de tratados que encerrou a Guerra dos Trinta Anos e também reconheceu oficialmente as Províncias Unidas e a Confederação Suíça. O Tratado Hispano-Holandês, que pôs fim à Guerra dos Oitenta Anos, foi assinado no
Perpétua A Paz Perpétua A Paz Perpétua 28

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua Perpétua

A A A A A A

Paz Paz Paz Paz Paz Paz

dia 30 de janeiro de 1648 (em Münster). Já o tratado assinado em 24 de outubro de 1648, em A chamada Paz de Westfália (Paz de Vestfália), também conhecida como os Tratados de Münster e Osnabrück (ambas as cidades atualmente na Alemanha), designa uma série de tratados que encerrou a Guerra dos Trinta Anos e também reconheceu oficialmente as Províncias Unidas e a Confederação Suíça. O Tratado Hispano-Holandês, que pôs fim à Guerra dos Oitenta Anos, foi assinado no dia 30 de janeiro de 1648 (em Münster). Já o tratado assinado em 24 de outubro de 1648, em Osnabrück, entre Fernando III, Sacro Imperador Romano29

Germânico, os demais príncipes alemães, França e Suécia, pôs fim ao conflito entre estas duas últimas potências e o Sacro Império. O Tratado dos Pirinéus (1659), que encerrou a guerra entre França e Espanha, também costuma ser considerado parte da Paz de Westfália., entre Fernando III, Sacro Imperador Romano-Germânico, os demais príncipes alemães, França e Suécia, pôs fim ao conflito entre estas duas últimas potências e o Sacro Império. O Tratado dos Pirinéus (1659), que encerrou a guerra entre França e Espanha, também costuma ser considerado parte da Paz de Westfália.
Así resulta que la traducción, aun cuando no pueda aspirar a la permanencia de sus formas —y en esto se distingue del arte— no niega su
30

orientación hacia una fase final, inapelable y decisiva de todas las disciplinas lingüísticas. En ella se exalta el original hasta una altura del lenguaje que, en cierto modo, podríamos calificar de superior y pura, en la que, como es natural, no se puede vivir eternamente, ya que no todas las partes que constituyen su forma pueden ni con mucho llegar a ella, pero la señalan por lo menos con una insistencia admirable, como si esa región fuese el ámbito predestinado e inaccesible donde se realiza la reconciliación y la perfección de las lenguas. No alcanza tal altura en su totalidad, pero tal altura está relacionada con lo que en la traducción es más que comunicación. Ese núcleo esencial puede calificarse con más exactitud diciendo que es lo que hay en una obra de intraducible. Por importante que sea la parte de comunicación que se extraiga de ella y se traduzca, siempre permanecerá intangible la parte que persigue el trabajo del auténtico traductor. Ésta no es transmisible, como sucede con la palabra del autor en el original, porque la relación entre su esencia y el lenguaje es totalmente distinta en el original y en la traducción. Si en el primer caso constituyen éstos cierta unidad, como la de una fruta con su corteza, en cambio el lenguaje de la traducción envuelve este contenido como si lo ocultara entre los amplios pliegues de un manto soberano, porque representa un lenguaje más elevado que lo que en realidad es y, por tal razón, resulta desproporcionado, vehemente y extraño a su propia esencia.
Galeria de imagens: http://flickr.com/photos/28885123@N03/sets/72157606335530505/

31

Série Palavra Sem Carne # 1

32

Here was the last refuge of those infant prodigies that saw the light of the Day at the time of the world exhibitions: the briefcase with interior lighting, the meter-long pocket knife, or the patented umbrella handle with built-in watch and revolver. And near the degenerate giant creatures, aborted and broken-down matter. We followed the narrow dark corridor to where – between a discount bookstore, in which dusty tied-up bundles tell of all sort of failure, and a shop selling only buttons (mother-of-pearl and the kind that in Paris are called de fantasie) – there stood a sort of saloon. On the pale-colored wallpaper full of figures and busts shone a gas lamp. By its light, an old woman sat reading. They say she has been there alone for years, and collect sets of teeth “in gold, in wax, and broken”. Since that day, moreover, we know where Doctor Miracle got the wax out of he fashioned Olympia. (BENJAMIN, 1999, p. 201) [The collector]

33

34

Converta-se à minha nova fé, multidão Eu lhe ofereço o que nunca ninguém teve antes Lhe ofereço inclemência e vinho Aquele que não terá pão será alimentado pela luz de meu sol Povo, em minha fé nada é proibido Há amor e há bebida E olhar para o Sol por tanto tempo quanto quiserem E essa divindade não proíbe nada Dêem ouvidos a meu chamado, irmãos, povo, multidão.
Radovan Karadzic, líder sérvio bósnio responsável por uma terrível limpeza étnica na guerra pós-iugoslava

35

36

Também a tradução é análoga à citação. Esta "opera à maneira da citação, uma vez que porta, num primeiro momento, desorganização, desestruturação do original". E assim a relação com a língua estrangeira. Benjamin cita Gide: [...] no aprendizado das línguas, o mais importante não é aquela que se aprende, mas abandonar a sua. Eis o decisivo. Só então que se a compreende verdadeiramente. Se citar é deslocar, traduzir é deslocar-se também de nossa própria língua. Citar é abandonar o contexto familiar pelo estranho, é transformar o estranho em familiar e o familiar em estrangeiro. Traduzir é um "ato mágico" de apropriação do Outro que é também um Mesmo, pois, como o sabem todos os místicos, um texto requer uma busca de sentido ao infinito. Por isso o tradutor torna-se escritor. (Olgária Chain Féres Matos. Walter Benjamin: a citação como esperança – texto digital)
37

38

39

40

41

42

43

44

45

Here fashion has opened the business of dialectical exchange between woman and ware – between carnal pleasure and the corpse. The clerk, death, tall and loutish, measures the century by the yard, serves as mannequin himself to save costs, and manages singlehandedly the liquidation that in French is called revolution. For fashion was never anything other than the parody of the motley cadaver, provocation of death through the woman, and bitter colloquy with decay whispered between shrill burst of mechanical laughter. That is fashion. And that is why she changes so quickly; she titillates death and is already something different, something new, as he casts about to crush her. For a hundred of years she holds her own against him. Now, finally, she is on the point of quitting the field. But he erects on the banks of a new Lethe, which rolls its asphalt stream through arcades, the armature of whores as a battle memorial. (BENJAMIN, 1999, pp. 62-63)

46

47

48

(…) Fashion always stands in opposition to the organic. Not the body but the corpse is the most perfect object for its art. It defends the rights of the corpse before the living being, which it couples to the inorganic world. The fetishism that succumbs to the sex apple of commodity is its vital nerve. On the other hand, it is precisely fashion that triumphs over death. It brings the departed with into the present. Fashion is contemporary with every past. (BENJAMIN, 1999, p.894)

49

50

51

52

São Paulo, domingo, 27 de julho de 2008

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

Sociedade

O mutante
O filósofo esloveno Slavoj Zizek escreve sobre a prisão do ex-líder sérvio indiciado por genocídio Radovan Karadzic, preso na última segunda SLAVOJ ZIZEK COLUNISTA DA FOLHA

Radovan Karadzic, líder sérvio bósnio responsável por uma terrível limpeza étnica na guerra pós-iugoslava, finalmente está preso. Agora é hora de darmos um passo para trás para contemplar o outro lado de sua personalidade: esse psiquiatra por profissão foi não apenas um líder político e militar implacável, mas também poeta. Sua poesia não deve ser simplesmente descartada como ridícula -merece ser lida com atenção, pois oferece uma pista para a compreensão de como funciona a limpeza étnica. Seguem os primeiros versos do poema sem título identificado por uma dedicatória: "... Para Izlet Sarajlic": "Converta-se à minha nova fé, multidão / Eu lhe ofereço o que nunca ninguém teve antes / Lhe ofereço inclemência e vinho / Aquele que não terá pão será alimentado pela luz de meu sol / Povo, em minha fé nada é proibido / Há amor e há bebida / E olhar para o Sol por tanto tempo quanto quiserem / E essa
53

divindade não proíbe nada / Dêem ouvidos a meu chamado, irmãos, povo, multidão." Esses versos descrevem uma constelação precisa: um líder que oferece a seus súditos "inclemência e vinho", ou seja, um líder que representa o chamado incondicional do superego brutal e obsceno pela suspensão de todas as proibições e o gozo de uma orgia destrutiva permanente. O superego é "essa divindade" que "não proíbe nada", e tal suspensão das proibições morais é um elemento crucial do nacionalismo "pós-moderno" de hoje. Aqui é virado do avesso o clichê segundo o qual a identificação étnica ardente restaura um conjunto de valores e crenças firmes em meio à insegurança confusa da moderna sociedade secular global. "Você pode!" Em lugar disso, o "fundamentalismo" nacionalista funciona como operador de um "você pode!" secreto, mal e mal oculto. É a aparentemente hedonista e permissiva sociedade reflexiva pós-moderna de hoje que, de modo paradoxal, está cada vez mais saturada de normas e regulamentos que supostamente fomentam nosso bem-estar (restrições ao fumar e ao comer, regras contra o assédio sexual etc.) -de modo que, longe de nos restringir ainda mais, a referência a alguma identificação étnica ardente funciona como o chamado libertador "você pode!". Você é autorizado a violar as normas rígidas da convivência pacífica numa sociedade liberal tolerante, você pode beber e comer o que quiser, aderir aos
54

costumes patriarcais proibidos pela correção política liberal - pode até mesmo odiar, lutar, matar e violentar... Sem o pleno reconhecimento desse perverso efeito pseudolibertador do nacionalismo de hoje, de como o superego obscenamente permissivo suplementa a textura explícita da lei social simbólica, nós nos condenamos a não compreender sua verdadeira dinâmica. O conhecido colunista sérvio Aleksandar Tijanic, que durante um período breve chegou a ser ministro da Informação e Mídia Pública de Milosevic [Slobodan Milosevic, ex-presidente sérvio, que foi preso em 2000 e morreu na prisão em 2006], descreve nos seguintes termos "a estranha simbiose entre Milosevic e os sérvios": "Milosevic cai bem junto dos sérvios, de modo geral. Na época de seu governo, os sérvios aboliram o tempo para trabalhar. Ninguém fazia nada. Ele autorizou o crescimento do mercado negro e do contrabando. Você pode aparecer na televisão estatal e insultar Blair, Clinton ou qualquer outro dos "dignitários mundiais". [...] Ademais, Milosevic nos deu o direito de portar armas. Ele nos deu o direito de resolver todos nossos problemas com armas. Ele também nos deu o direito de dirigir carros roubados. [...] Milosevic converteu o cotidiano dos sérvios em um grande feriado e fez com que todos pudéssemos nos sentir como estudantes ginasianos numa viagem de formatura -o que significa que nada, mas realmente nada, do que se possa fazer é passível de punição." Kusturica tendencioso
55

Não é essa, também, a situação retratada em "Underground - Mentiras de Guerra", de Emir Kusturica? A mensagem do filme não reside primordialmente em sua tendenciosidade descarada, na maneira como toma partido no conflito pós-iugoslavo (os sérvios heróicos versus os traiçoeiros e pró-nazistas eslovenos e croatas...), mas sim em sua própria atitude esteticista, supostamente despolitizada. Ou seja, quando, em suas conversas com os jornalistas da "Cahiers du Cinéma", Kusturica insistiu em que "Underground" não é um filme político, mas uma espécie de experiência subjetiva liminar, semelhante a um transe, um "suicídio protelado", ele com isso, sem ter consciência do que fazia, pôs sobre a mesa suas cartas políticas verdadeiras e indicou que "Underground" encena o pano de fundo fantasmático e "apolítico" da limpeza étnica e das crueldades de guerra pós-iugoslavas. Ao encenar o domínio do "suicídio protelado", da orgia eterna de bebida, canto e cópula, que ocorre na suspensão do tempo e fora do espaço público, Kusturica de fato apresenta a economia libidinal da matança étnica sérvia na Bósnia. E é nisso que consiste o "sonho" dos limpadores étnicos, é nisso que reside a resposta à pergunta "como eles foram capazes de fazê-lo?". Se a definição padrão de guerra é a de "uma continuação da política com outros meios", então podemos afirmar que o fato de Karadzic ser poeta não é mera coincidência gratuita: a limpeza étnica na Bósnia foi a continuação de uma (espécie de) poesia por outros meios.
56

A reputação de Platão é prejudicada por sua declaração de que os poetas deveriam ser expulsos da cidade. A julgar por essa experiência pós-iugoslava, em que a limpeza étnica foi preparada pelos sonhos perigosos de poetas, é um conselho bastante sensato. É verdade que Milosevic "manipulou" as paixões nacionalistas -mas foram os poetas que lhe forneceram o material que se prestou a ser manipulado. Eles -os poetas sinceros, não os políticos corrompidos- estiveram na origem de tudo, quando, nos anos 1970 e início dos anos 1980, começaram a espalhar as sementes do nacionalismo agressivo não apenas na Sérvia, mas também em outras repúblicas pós-iugoslavas. Em lugar do complexo industrial-militar, nós, na pósIugoslávia, tivemos o complexo poético-militar, personificado nas figuras gêmeas de Radovan Karadzic e Ratko Mladic. A Iugoslávia nos anos 1970 e 1980 era como o proverbial gato na charge, que continua a caminhar sobre um precipício. Ele só cai quando, finalmente, olha para baixo e percebe que não existe terra firme sob suas patas. Milosevic foi o primeiro que nos forçou a realmente olhar para baixo, para dentro do precipício. É demasiado fácil descartar Karadzic e companhia, tachando-os simplesmente de maus poetas: outras nações ex-iugoslavas (além da própria Sérvia) tiveram poetas e escritores reconhecidos como "grandes" e "autênticos" e que também se engajaram plenamente em seus projetos nacionalistas. E o que dizer do austríaco Peter Handke, clássico da literatura européia contemporânea, que, reveladoramente, acompanhou o funeral de Slobodan Milosevic?
57

Era pós-ideológica O predomínio da violência religiosamente (ou etnicamente) justificada pode ser explicado pelo próprio fato de vivermos numa era que se vê como sendo pós-ideológica. Como já não é possível mobilizar grandes causas públicas com base na violência em massa -ou seja, a guerra- na medida em que nossa ideologia hegemônica nos chama para desfrutar nossas vidas e realizar nossos eus, é difícil para a maioria das pessoas superar sua repugnância diante da idéia de torturar e matar outro ser humano. A grande maioria das pessoas é espontaneamente "moral": matar outro ser humano é profundamente traumático. Assim, para convencê-las a fazê-lo, é preciso uma causa "sagrada" maior, que faça os melindres individuais em relação ao assassinato parecerem triviais. Anestesia A religião ou o pertencimento étnico se enquadram perfeitamente nesse papel. É claro que existem casos de ateus patológicos que são capazes de cometer assassinatos em massa apenas por prazer, matar simplesmente por matar, mas eles constituem exceções raras. A maioria de nós precisa ser "anestesiada" contra nossa sensibilidade elementar ao sofrimento do outro. E para isso é preciso uma causa sagrada. Mais de um século atrás, em "Os Irmãos Karamázov", Dostoiévski lançou um aviso contra os perigos do niilismo moral ateu: "Se Deus não existe, então tudo é
58

permitido". A lição que nos ensina o terrorismo de hoje é que, pelo contrário, se existe um Deus, então tudo -até mesmo explodir centenas de espectadores inocentes- é permitido àqueles que afirmam agir diretamente em nome desse Deus, como instrumentos de Sua vontade.
SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de "Um Mapa da Ideologia" (ed. Contraponto). Ele escreve na seção "Autores", do Mais!. Tradução de Clara Allain.

59

60

61

,

62

63

64

65

66

67

68

The epigraph of Balzac is well suited to unfolding the temporality of hell: to showing how this time does not recognize death, and how fashion mocks death; how the acceleration to traffic and the tempo of news reporting (which conditions the quick succession of newspaper editions) aim at eliminating all discontinuities and sudden ends; and how death as caesura belongs together with all strait line of divine temporality – Where fashion is antiquity? Or did the “authority of frame” preclude them?
“She was everybody´s contemporary “.

(Paris, 1927), p. 129. To be comtemporaine de tout le monde – that is the keenest and most secret

satisfaction that fashion can offer a woman. (BENJAMIN, 1999, p. 66)

69

70

71

72

Série Palavra Sem Carne #2

73

O pornográfico em nossa sociedade se opõe ao erótico. Ele não emula ou investe o corpo, mas o digitaliza. A pornografia corresponde a uma desensibilização do corpo, que assume formas metonímicas, convertendo-se em próteses e implantes para um prazer que é, ao mesmo tempo, desinvetimento do corpo. O caráter obsceno que assume, por conseguinte, nada tem a ver com o sexo ou com a sexualidade. O pornográfico diz respeito ao fato de que o próprio corpo deixa de ser fundamento do prazer e da experimentação erótica, para receber, de fora, implante de sensações, produzidas industrialmente. O ignominioso que querem ver na pornografia não está no sexo, mas na total ausência de sexo. Decorre, a rigor, da mecanização do corpo que passa efetivamente, materialmente, à condição de artefato, máquina. Uma vez perdida, contudo, a dimensão do prazer que emana do corpo, elimina-se igualmente o fundamento da dor e, em particular, da sujeição à dor. O que pretendem chamar de pornografia é algo de muito distinto, portanto. Tratase mais propriamente da obliteração do outro como realidade material, concreta, para converter-se em não mais do que um avatar.
74

***

São Paulo, sábado, 26 de julho de 2008

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

foco

Arraial do prazer reúne atores e atrizes pornôs, exibicionista e voyeur
Paulo Sampaio DA REPORTAGEM LOCAL A noiva seminua responde ao repórter de TV qual a diferença entre filme erótico e sacanagem: "Um é trabalho, coisa séria, o outro é diversão", diz a atriz Márcia Imperator. O repórter então aponta para uma foto de Daniel Dantas em uma revista e pergunta como ela classificaria os episódios que levaram o banqueiro a ser acusado por formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. "Ah, isso aí é putaria!" Márcia está na festa de lançamento da produtora de filmes eróticos Exxclusive,
75

anteontem, em uma boate da Vila Olímpia (zona sul). Dos 800 convidados do "Arraiá do Prazer", 200 eram atores pornôs. Como tudo foi montado nos moldes de uma festa junina, a produção adaptou o ambiente com barraquinhas de pescaria, roleta e jogos de argola. Na pescaria, os prêmios eram produtos como camisinhas, lubrificantes e algemas; na roleta, duas garotas em trajes sumários giravam uma roda em que se liam nomes de partes do corpo, como "boca", "pé", "bunda", "peito": o participante poderia beijá-las no local apontado, quando a roda parasse de girar; as argolas eram lançadas na direção de vários consolos de borracha, de forma a acertar seu eixo. A ficha custava R$ 2,50. "Garota de programa tem em qualquer balada, o legal daqui é que fica claro", afirma o personal trainer Leandro Gonçalves, 21. A festa foi freqüentada principalmente por rapazes pós-adolescentes de boca aberta, marmanjos estilo "tigrão" e atores seminus com vasto currículo em filmes pornôs. Contam-se poucas mulheres à paisana na fila de entrada. A curitibana Marilise Hickmann, 22, de passagem por São Paulo, diz que está ali a convite de uma prima que organizou a festa. Toda de preto, muito
76

vestida para a ocasião, parece meio deslocada. "Estou tranqüila. Por enquanto não fui confundida", diz ela, que trabalha na área financeira. O cenário apresenta elementos contrastantes. Enquanto o ator Poax, 23, 683 filmes, alisa descompromissadamente os seios da atriz Anne Portilla, 20, recém-introduzida no meio do cine-pornô, um casal de jovens "góticos" observa tudo sem sobressaltos. Alianças na mão direita, o técnico em contabilidade Bruno Penkal, 20, e a noiva, Karen Andrade, 18, muito brancos com roupas muito escuras, dizem com um ar meio entediado que "está tudo bem". A estudante de rádio e TV Andréa Carolina, 19, não acha. "Tô perdidaça, não sabia que a festa era temática", diz ela, acompanhada de cinco amigas. Elas saem logo, rumo à boate Vegas, na rua Augusta. Andréa e as amigas dizem que "até têm uns bonitinhos aqui, mas quando eles vêm na nossa direção andando de perna aberta dá até medo". André, 17, e Rodrigo, 18, não sentem falta do grupo de Andréa. "Cara, olha isso", dizem, às gargalhadas, com latinhas de cerveja na mão, olhando para a "performance erótica" de um casal de atores na pista de dança. O
77

rapaz suspende a moça só de microssaia, sem a parte de cima, e a gira no alto. Do outro lado das barracas eróticas, as de comida estavam às moscas. "Não vendemos uma espiga de milho até agora", diz Telma. O dono da produtora, Salomon Jr., explica que a idéia é fazer filmes eróticos com acabamento de cinema. "Queremos lançar dez títulos por mês", afirma ele. "O que mais vende é o que as pessoas chamam de "bizarrice", como uma senhora de idade transando com um garotão." Segundo o presidente da Abeme (Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico), Evaldo Shiroma, o Brasil movimenta por ano R$ 800 milhões em produtos do gênero, 30% disso em filmes. "Há cerca de 10 produtoras nacionais, que realizam por ano, em média, 720 filmes", diz.

*** O equivalente do operário acorrentado é esse cenodrama vaginal japonês, mais extraordinário que qualquer striptease: moças de coxas abertas à beira de uma estrada, os proletários japoneses em mangas de camisa (é um espetáculo popular) autorizados a meter o nariz e os
78

olhos até dentro da vagina da moça, para ver melhor, - o quê? – trepando uns sobre os outros para alcançá-la, a moça conversando gentilmente com eles o tempo todo ou ralhando por formalidade. Todo o resto do espetáculo, flagelações, masturbações recíprocas, strip tradicional apaga-se diante desse momento de obscenidade absoluta, de voracidade do olhar que ultrapassa de longe a posse sexual. Pornô sublime: se pudessem os tipos meter-se-iam inteiros dentro da jovem – exaltações de morte? Talvez, mas ao mesmo tempo eles comentam e comparam as respectivas vaginas sem nunca rir ou gargalhar, numa seriedade mortal e sem nunca tentar tocá-las, a não ser por brincadeira. Nada de lúbrico: um ato extremamente grave e infantil, uma fascinação integral pelo espelho do órgão feminino, como de Narciso por sua própria imagem. Muito além do idealismo convencional do striptease (talvez lá dentro houvesse até sedução), no limite sublime o pornô converte-se numa obscenidade purificada, aprofundada no domínio visceral – por que deter-se no nu, no genital? Se o obsceno é da ordem da representação e não do sexo, deve explorar o próprio interior do corpo e das vísceras; quem sabe que gozo profundo de esquartejamento visual, de mucosas e de
79

músculos lisos daí pode resultar? Nosso pornô ainda tem uma definição muito restrita. A obscenidade tem um futuro ilimitado. (BAUDRILLARD, 1991, p.40)

***

São Paulo, sábado, 26 de julho de 2008

Próximo Texto | Índice

Viva a diferença
O mercado quer enfiar todos no padrão que vai do 36 ao 44, e deixa meio mundo a descoberto. Veja o guia de lojas que praticam outros pesos e medidas DANAE STEPHAN COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

80

Se o público-alvo das principais grifes do mercado fosse uma representação fiel da população brasileira, todos seriam magros e altos, com pés, pescoço, peito, pernas e braços dos mesmos tamanhos. Também não existiriam canhotos. Infelizmente, para o mercado, as pessoas ainda têm tamanhos diversos e características próprias que impedem tal uniformização. Isso acaba criando nichos nos quais poucas empresas investem no Brasil. Encontrar uma tesoura para canhotos nas lojas de São Paulo é tarefa inglória, embora eles representem cerca de 10% da população. Quem tem pés grandes fica restrito a duas ou três lojas, enquanto quem tem pés muito pequenos precisa se contentar com linhas adolescentes. Lojas de roupa de tamanhos grandes existem aos montes, mas poucas fogem do estilo senhorinha. E os sapatos que têm numeração intermediária, comuns nos Estados Unidos, por aqui ainda são novidade. "A gente vive em uma sociedade que padroniza tudo e não respeita as diferenças", afirma o psicólogo Marco Antonio de Tommaso, ligado à Associação Brasileira para Estudo da Obesidade. "Na Argentina, foi aprovada uma lei que obriga todas as lojas a trabalharem com o tamanho até o 46. Nos Estados Unidos, as lojas montam a roupa de acordo com a anatomia do cliente. Aqui, quem manda ainda são os estilistas. Quem foge à
81

regra cai no serviço sob medida, muito mais caro", diz. Mesmo os considerados "normais" no Brasil sofrem com a padronização, ou melhor, com a falta dela. "Existe uma norma para orientar as empresas com relação à numeração, mas ela não é obrigatória", afirma Silvio Napoli, engenheiro têxtil e gerente de tecnologia da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção). "Cada empresa tem sua própria estrutura de medidas, por isso se usa 38 em uma loja e 40 em outra". Nesse sentido, dá para prever algum avanço. Em setembro, o INT (Instituto Nacional de Tecnologia) iniciará uma pesquisa que pretende fazer uma medição do corpo do brasileiro para redefinir os padrões da indústria. O instituto vai receber scanners especiais que fazem um mapeamento 3D de todo o corpo em 20 segundos. "Poderemos estabelecer padrões de roupa que atendam a todas as pessoas, ou a pelo menos 90% da população", diz Maria Cristina Zamberlan, chefe do Laboratório de Ergonomia do INT. Se é para seguir um padrão, que ele seja, pelo menos, mais democrático.

***
A partir de 1936 (...) Benjamin vai reintegrar cada vez mais o momento romântico em sua crítica marxista
82

sui generis das formas capitalistas de alienação. Por exemplo, em seus escritos dos anos 1936-1938 sobre Baudelaire, ele retoma a idéia tipicamente romântica, sugerida em um ensaio de 1930 sobre E. T. A. Hoffmann, da oposição entre a vida e o autômato. Os gestos repetitivos, vazios de sentido e mecânicos dos trabalhadores diante da máquina - aqui Benjamin se refere diretamente a algumas passagens de O capital de Marx - são semelhantes os gestos autômatos dos passantes na multidão descritos pro Poe e Hoffmann. Tanto uns quanto outros, vítimas da civilização urbana e industrial, não conhecem mais a experiência autêntica (Erfahrung), baseada na memória e na tradição cultural e histórica, mas somente a vivência imediata (Erlebnis) e, particularmente, o Chokerlebnis [a experiência do choque] que neles provoca um comportamento reativo de autômatos “que liquidaram completamente sua memória”. (LÖWY, 2005, p. 27-28)

***

Houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo do poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo – ao corpo que se manipula, se modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam. O grande livro do Homem-máquina foi escrito
83

simultaneamente em dois registros: no anátomo-metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido descritas por Descartes e que os médicos, filósofos continuaram; o outro, técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares, hospitalares e por processos empíricos refletidos para controlar ou corrigir as operações do corpo. Dois registros bem distintos, pois tratava-se ora de submissão, ora de utilização, ora de funcionamento e de explicação; corpo útil, corpo inteligível. “O homem-máquina” de La Mettrie é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a noção de “docilidade” que une ao corpo analisável o corpo manipulável. É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Os famosos
84

autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar o organismo; eram também bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão de Frederico II, rei minucioso de pequenas máquinas, dos regimentos bem treinados, e dos longos exercícios. (FOUCAULT, 2002, p. 117-118)
***
At a certain point of time, the motif of the doll acquires a sociocritical significance. For example: “You have no idea how repulsive these automatons and dolls can became, and how one breathes at last on encountering a full-blooded being in this society. Paul Lindau, Der Abend (Berlin, 1986), p. 17 Apud (Benjamin, 1999, p. 695) In his study “La mante religeuse: Recherches sur la nature et la sgnification du mythe” <The praying Mantis: Investigations into the Nature and Meaning of Myth>, Calois refers to striking automatism of reflexes in the praying mantis (there is hardly a vital function that it does not also perform decapitated). He links it, on account of its fateful significance, with the baneful automatons known to us from myths. Thus Pandora: “automaton fabricated by blacksmith god for the ruin of humankind, for that “which all shall / take to their hearts with delight, an evil to love and embrace” (Hesiod, Works and Days, line 38). We encounter something similar in the Indian Kyrtya
85

– those dolls, animated by sorcerers, which bring about death of men who embrace them. Our literature as well, in the motif of femmes fatales, possesses the concept of a woman-machine, artificial, mechanical, at variance with all living creatures, and above all murderous. No doubt psycho-analysis would not hesitate to explain this representation in its own terms by envisaging the relations between death and sexuality and, more precisely, by finding each ambiguously intimated in the other”. Roger Caillois, “La amante religeuse: Recherches sur la nature et la sgnification du mythe”, Mesures, 3, nº 2 (April 15, 1937). (BENJAMIN, 1999, p. 696)

***

Homem é descoberto em banheiro com boneca inflável
Um americano foi detido na cidade de Cesar Rapids, no Estado de Iowa, ao ser encontrado deitado ao lado de uma boneca inflável, com as calças abaixadas, em um banheiro público de prédio de escritórios. Craig S. McCullough, 47 anos, foi indiciado por exposição indecente e má conduta.
Nas acusações contra McCullough, consta que ele foi descoberto em banheiro público por agente da Agência de Imigração e
86

Alfândega dos EUA, que funciona no mesmo prédio. McCullough foi detido e a polícia de Cedar Rapids o levou para a cadeia do condado de Linn. A ficha criminal de McCullough inclui também uma condenação, de 2004, por arrombar loja de noivas. Após o roubo, policiais encontraram McCullough nas redondezas carregando manequim com vestido de noiva.
http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI2034089-EI1141,00.html

***

Boneca inflável corre o risco de ser trocada por modelo mais novo
Da Redação

Milla (ai, Milla!) Jovovich como Leeloo; duvido que a boneca seja tão bonita assim

Uma nova geração de parceira sexual artificial promete roubar o lugar das tradicionais bonecas infláveis, após ter sido apresentada na 10ª Convenção Erótica de Los Angeles, a grande feira do setor na capital mundial da pornografia.

Trata-se de Leeloo, uma boneca de silicone cujo protótipo foi apresentado pela californiana "My party doll". "É a melhor que já experimentei", disse à agência de
87

notícias AFP um "especialista" em bonecas infláveis. Leeloo recebeu este nome em homenagem ao personagem de Milla (ai, Milla!) Jovovich no filme de ficção "O Quinto Elemento" (1997), de Luc Besson. "Leeloo não é como as velhas bonecas (infláveis) que estouram, é tão sólida que até pode servir como macaco para erguer um carro", acrescentou Goldman, entusiasmado com a criação, fruto de dois anos de trabalho do francês Yves Becker.
http://noticias.uol.com.br/tabloide/tabloideanas/2006/06/27/ult1594u837.jhtm

***

Motoristas usam boneca inflável para escapar de multas
Objetivo é trafegar em faixas da Nova Zelândia que exigem três ocupantes no veículo. Alguns colocam no carro cães vestidos ou estudantes que cobram pelo serviço. Da Reuters entre em contato

Arte G1 A equipe de arte do G1 imaginou o manequim no carro (Foto: Arte G1) Saiba mais
88

Diversos motoristas de Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia, passaram a colocar bonecas infláveis, manequins e até cachorros vestidos de criança no banco de passageiro de seus carros para burlar leis de trânsito. A “moda” surgiu entre aqueles que querem dirigir em faixas restritas a carros com pelo menos três ocupantes – os que desobedecerem à lei podem ser multados em cerca de R$ 180. “Há pessoas estranhas, que realmente usam essa tática”, afirmou Andre Dannhauser, gerente de segurança do tráfego. Os fiscais responsáveis por monitorar essas faixas ouvem os mais diversos tipos de desculpas quando os motoristas são fotografados no flagra. A mais comum, quando não há ninguém
89

no banco ao lado, é de que o passageiro era muito pequeno e, por isso, não foi capturado pela foto. Além das desculpas e dos falsos passageiros, também há estudantes que cobram uma pequena taxa para fazer companhia ao motorista durante o trajeto que exige um número mínimo de passageiros. “O dinheiro que eles ganham com isso não é suficiente para comprar uma cerveja”, afirmou Dannhauser.
http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL600563-6091,00.html

***

Homem afirma que já fez sexo com mais de mil carros
Americano já 'namorou' o fusca Herbie e carro do seriado 'Supermáquina'. Na internet, ele faz parte de fórum com mais de 500 'amantes' de veículos.
Do G1, em São Paulo entre em contato

90

Divulgação O americano Edwards Smith, ao lado de 'Herbie', um de seus antigos 'amantes'. (Foto: Divulgação) "Não sou doente. Sei que já tive mais de mil namoradas, mas amei cada uma delas". Aos 57 anos, o americano Edward Smith se considera, na verdade, um romântico. A diferença é que, em vez de mulheres, Smith tem o hábito de namorar carros. "Eu aprecio a beleza, e tenho uma relação diferente com a beleza dos automóveis... Chego a um ponto onde essa apreciação vira uma expressão de amor", explica Smith, atualmente 'noivo' de um fusca branco batizado de 'Baunilha'.

91

Em entrevista ao jornal britânico 'Telegraph', ele diz que sua primeira experiência sexual com um carro foi aos 15 anos. Desde então, ele nunca mais se sentiu atraído por mulheres ou homens. Curiosamente, assim como a maioria das pessoas, Smith tende a ter mais interesse sexual em celebridades. No caso, ele afirma já ter transado com 'Herbie', da série 'Se meu fusca falasse', e 'K.I.T.T.', mais conhecida como 'Supermáquina'. Ele não esconde o fato de nunca ter sido 'fiel' aos carros que namora. Afirma, inclusive, que sua experiência sexual mais intensa foi com um helicóptero do seriado 'Águia de Fogo', dos anos 80. Smith diz que não está sozinho em seu fetiche. Na internet, ele encontrou uma comunidade que reúne mais de 500 "amantes de carros". "É mais comum do que a maioria das pessoas imagina", diz.

***
92

Romeno reclama de gemido de boneca inflável e sex shop é multado
Boneca havia parado de „gemer‟ e esvaziava muito rápido. A loja foi multada em 600 libras e o homem recebeu um novo produto.
Do G1, em São Paulo entre em contato

Arte/G1 Equipe de Arte do G1 imaginou a boneca inflável com defeito (Ilustração: Arte/G1)

Autoridades de proteção ao consumidor da Romênia receberam uma reclamação inusitada: um consumidor estava indignado pois sua boneca inflável havia „perdido o gemido‟, noticiou o site Ananova nesta semana. Confirmado o defeito na boneca, o sex shop de Brasov, na Transilvãnia, foi multado em 600 libras (cerca de R$ 2 mil) e obrigado a dar uma nova boneca ao comprador.
93

O homem, que segundo o site tinha por volta de 40 anos, também reclamou que o produto esvaziava muito rápido. Iulian Mara, chefe do centro de proteção ao consumidor, disse que "não importa o quanto a reclamação pareça estranha, nós fomos ao sex shop onde o homem comprou o objeto e vimos que ele estava certo.” Segundo Mara, “a boneca estava perdendo ar rapidamente e devido a falhas no sistema elétrico não fazia os sons específicos esperados.”
http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL293329-6091,00.html 20/05/2008 - 15h53 - Atualizado em 20/05/2008 - 18h17

***

Escocês pelado é acusado de tentar fazer sexo com carro
Segundo a polícia, jovem teria abraçado veículo e simulado 'movimentos eróticos'. Acusado diz que não quebrou leis de seu país, e se diz inocente.
Do G1, em São Paulo entre em contato

94

Editoria de arte/G1

Tentativa de sexo com carro levou escocês para a delegacia. (Ilustração: Editoria de arte/G1) Um jovem morador da cidade de Kilwinning, na Escócia, foi detido pela polícia sob a acusação de tentar fazer sexo com um carro. O acusado, de 18 anos, teria sido flagrado correndo pelado pelas ruas da cidade. Segundo a polícia, o jovem teria se debruçado sobre a traseira de um carro, e simulado "movimentos eróticos". O caso ocorreu em fevereiro, mas polícia divulgou os detalhes detenção apenas na última semana, acordo com reportagem publicada diário escocês Irvine Times. a da de no

Apesar da prisão ter ocorrido em flagrante, o jovem alega ser inocente e
95

nega ter quebrado as leis de seu país. O acusado, que responderá em líberdade, vai ser julgado pela corte de Kilmarnock em agosto.

96

(...) É pelo sexo efetivamente, ponto imaginário fixado pelo dispositivo de sexualidade, que todos devem passar a ter acesso à sua própria inteligibilidade (já que ele é, ao mesmo tempo, o elemento oculto e o princípio produtor de sentido), à totalidade do seu corpo (pois ele é uma parte real e ameaçada deste corpo do qual constitui simbolicamente o todo), à sua identidade (já que ele alia a força de uma pulsão à singularidade de uma história). Por uma inversão que começou, provavelmente, de modo sub-reptício há muito tempo – e já na época da pastoral cristã da carne – chegamos ao ponto de procurar nossa inteligibilidade naquilo que foi, durante tantos séculos, considerado como loucura; a plenitude de nosso corpo naquilo que, durante muito tempo, foi um estigma e como que a ferida neste corpo; nossa identidade, naquilo que se percebia como obscuro impulso sem nome. Daí a importância que lhe atribuímos, o temor reverente com que o revestimos, a preocupação que temos de conhecêlo. Daí o fato de se ter tornado, na escala dos séculos, mais importante que nossa alma, mais importante do que nossa vida; e daí todos os enigmas do mundo nos parecem tão leves comparados a esse segredo, minúsculo em cada um de nós, mas cuja densidade o torna o mais grave de todos. O pacto faustiano cuja tentação o dispositivo da sexualidade inscreveu em nós é, doravante, o seguinte: trocar a vida inteira pelo próprio sexo, pela verdade e soberania do sexo. O sexo bem vale a morte. É nesse sentido, estritamente histórico, como se vê, que o sexo hoje em dia é de fato transpassado pelo instinto de morte. (FOUCAULT, 1988, p. 145-146)
97

98

99

100

101

102

103

104

105

106

107

108

109

110

111

112

113

114

Por conseguinte a clonagem é o último estádio da simulação do corpo, aquela em que, reduzido a sua fórmula abstrata e genética, o indivíduo está determinado à multiplicação em série. Walter Benjamin disse que o que se perdeu da obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica foi sua “aura”, essa qualidade singular do aqui e do agora, a sua forma estética; ela passa de um destino de sedução para um de reprodução e, nesse novo destino, assume uma forma política. Perdeu-se o original, e só a nostalgia pode reconstituí-lo como “autêntico”. A forma extrema desse processo é a dos meios de comunicação de massa contemporâneos; neles o original
115

nunca teve lugar, e as coisas são de imediato concebidas em função de sua reprodução ilimitada. É exatamente o que acontece com o ser humano em relação à clonagem. É o que acontece ao corpo quando concebido apenas como um estoque de informações e de mensagens, como substância informática. Nada se opõe então a sua reprodutibilidade serial, nos mesmos termos usados por Benjamin para os objetos industriais e as imagens. Há uma precessão do modelo genético sobre todos os corpos possíveis. É a irrupção da tecnologia que comanda esta desordem, de uma tecnologia que Benjamin já descrevia como médium total – gigantesca prótese comandando a
116

geração de objetos e imagens idênticas, que nada mais podia diferenciar entre si – mas ainda sem conceber o aprofundamento contemporâneo dessa tecnologia, que torna possível a geração de seres idênticos sem que se possa voltar ao original. As próteses da era industrial ainda são externas; exotécnicas; as que conhecemos ramificaram-se e se interiorizaram: esotécnicas. Estamos na era das tecnologias brandas, software genético e mental. As próteses da indústria, as máquinas, ainda voltam ao corpo para modificar-lhe a imagem, elas mesmas eram metabolizadas no imaginário, e esse metabolismo fazia parte da imagem do corpo. Mas, quando
117

se atinge um ponto sem volta na simulação, quando as próteses infiltram-se no coração anônimo e micromolecular do corpo, quando se impõe ao próprio corpo como matriz, queima-se todos os circuitos simbólicos ulteriores, sendo qualquer corpo possível nada mais que sua imutável repetição, então é o fim do corpo e de sua história, o indivíduo não é mais que uma

metástase cancerosa da fórmula de base. (BAUDRILLARD, 1991, p. 193-194)

118

Elegia
(Augusto de Campos - Péricles Cavalcanti)

Deixe que minha mão errante Adentre atrás, na frente, Em cima, em baixo, entre Minha América Minha terra a vista Reino de paz se um homem Só a conquista Minha mina preciosa Meu império, feliz De quem penetre o teu mistério Liberto-me ficando teu escravo Onde cai minha mão Me selo gravo Nudez total Todo prazer provém do corpo Como a alma em seu corpo Sem vestes, como encadernação cristosa Feita para iletrados A mulher se enfeita, Mas ela é um livro místico E somente a alguns a que tal graça Se consente é dado lê-la. Eu sou um que sabe.

119

Genérico, porém único
http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/02/03/ali-1.93.19.20080203.7.1.xml

O corpo sem gorduras tornou-se uma propriedade aristocrática. Como a riqueza e a fama, pertence apenas aos sortudos ou esforçados Mônica Manir (03/02/2008) A Mulher Samambaia estendeu seus ramos para a avenida. Persona do programa Pânico na TV, ela cantou “o meu carnaval ôôô” da escola paulistana Tom Maior, que enalteceu as empresas ecologicamente corretas em tudo. Danielle Souza foi representar a natureza da mulher brasileira. Paira a dúvida, porém, se não significou mais uma das fiéis samambaias de tronco malhado, peitudo e bundudo que dominam os desfiles. Samambaias que vingam como ideais de beleza. Escultura para copiar nas mesas de cirurgia plástica. Espécies-modelo. Corpo padrão. “Quanto mais se impõe o ideal de autonomia, mais aumenta a exigência de conformidade aos modelos sociais do corpo”, afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, organizadora do recém-lançado O Corpo como Capital (Estação das Letras e Cores). Quem investe na “boa forma”, banalizada pela mídia, é desejado e admirado, mas não necessariamente feliz. Assume postos reais e por vezes imaginários. “Quanto vale o corpo na busca pela satisfação pessoal?”, perguntam-se outros oito especialistas ouvidos pelo Aliás. O antropólogo Gilberto Freyre, em seu Modos de Homem, Modos de Mulher, de 1987, já anunciava: “Pode-se dizer da mulher que tende a ser, quanto a modas para seus vestidos, seus sapatos, seus penteados, um tanto mariavai-com-as-outras”. Criticava o desejo generalizado das senhouras de rejuvenescer à custa de cosméticos. Mas ele mesmo exaltava um padrão de beleza brasileira: mulher baixa, pele morena, cabelos negros, longos e crespos,
120

cintura afunilada, bunda grande, peitos pequenos. A Sonia Braga, portanto. Queria fazer o contraponto com as alvas, longilíneas e loiras, de cabelos “arianamente lisos”, um modelo macaqueado da Europa. A Vera Fischer, à época. A Gisele Bündchen, hoje. Na planilha de Freyre certamente não constava a massa de silicones que povoa o carnaval. Lançado na avenida, como lembra Mirian Goldenberg, ele virou regra. Até quem é “da comunidade” tem. E, se não tem, parece que tem. “Existe um corpo ideal que virou uma lente, por meio da qual enxergamos além da realidade”, explica Mirian. Ela quer dizer que, de perto, nem todos os peitos, quadris e bumbuns são esculpidos no molde, mas nossa câmera interna entende que sim. A câmera de TV e as revistas de famosidades também dão seu pitaco ao reprisar o padrão. Para Hans Gumbrecht, professor de literatura comparada na Universidade de Stanford, nos EUA, e autor de Elogio da Beleza Atlética (Companhia das Letras), a mídia iguala os gostos da classe média. Se bem que, ao gosto dele, “os minibiquínis são quase antiquados, um ideal dos tempos áureos da Playboy”. Aqui, o vestuário do carnaval está mais para alegoria, por vezes descartada. “O corpo é a verdadeira roupa”, define Mirian Goldenberg. Adriana Bombom, rainha de bateria da Tom Maior e também da Portela, veste um biquíni adornado com pingentes, “para ficar menos vulgar”. Mas também não vai com tudo tapadinho. Reflete: se está podendo, por que se cobrir? “É uma hipocrisia no Brasil. Há liberdade para o corpo na avenida, mas nos 8 mil quilômetros de litoral não se aceita um topless”, compara a editora de moda Lilian Pacce. “Será que brasileiro só agüenta a nudez do que entende como belo?” Bombom diz que pode porque se sacrifica. Três meses antes do desfile, ela se impõe uma dieta diária de oito claras de ovo e 50 gramas de batata cozida de duas em duas horas, adicionados de suplementos e vitaminas,
121

galões d‟água e mais 40 minutos de exercício. Sai vitoriosa aos olhos de quem vê na banha caída sinal de desleixo próprio, coisa de preguiçoso, gente fraca. O médico Flávio Gikovate, um estudioso da felicidade, destaca que, antigamente, magreza era sinal de pobreza. Quem era de uma classe social mais baixa encolhia a barriga por falta de opção. Hoje a pouca gordura corpórea se tornou uma propriedade aristocrática. Pertence aos sortudos ou esforçados, como a riqueza e a fama. Assim, os menos favorecidos perdem, aparentemente, grandes chances de ascender socialmente. Perdem felicidade. Mas por que a beleza genérica precisa ser magra? O sociólogo francês Pierre Bourdieu entende que a dominação masculina ditou essa condição. A mulher existe primeiro pelo olhar do homem, que a deseja delicada, submissa, fina, magra. Não à toa elas criticam as regiões de seu corpo que percebem como grandes demais, enquanto eles se irritam com as partes que consideram pequenas além da conta. Aliás, para quem acha que a vaidade masculina é fenômeno recente, a psicanalista Maria Rita Kehl avisa: “Os homens sempre foram vaidosos. A novidade é que estão tão narcisistas que pouco se interessam pelas mulheres. A conquista de uma mulher bonita tem como intenção a confirmação do poder fálico”. A neura para se encaixar na categoria “fêmea com pouca gordura” pode explicar, em parte, por que somos líderes mundiais em uso de medicamentos para emagrecer. No Relatório Anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão da ONU, divulgado há um ano e referente a 2005, 98,6% do fenproporex e 89,5% da anfepramona, duas das substâncias inibidoras de apetite mais usadas no globo, foram produzidos no Brasil e a maior parte consumida aqui. Confirmando a estatística, estudo divulgado pela Secretaria Nacional Antidrogas em novembro de 2007 revelou que o brasileiro engole quase 90% dos medicamentos para emagrecer feitos no mundo.

„Preciso ver Cristina‟
122

Para contrabalançar, a bunda. Não aquela murcha, mas a avantajada, de tanajura. Em um questionário aplicado a 444 homens, Mirian Goldenberg confirmou o que Tim Maia cantou pelos sete mares: os homens precisam ver Cristina. A Cristina de Tim Maia era uma mulata voluptuosa, empregada doméstica de uma amiga, que tinha (a mulata) uma super retaguarda. O compositor saía disparado do Grajaú até a cobertura da amiga em Copacabana, aonde chegava trôpego e cantarolando safadamente: “Preciso ver Cristina”. Pois então, o bumbum está no topo da pesquisa de Mirian. Abaixo vêm o corpo como um todo e então os seios. Tudo liso, sem marcas indesejáveis como os sulcos das estrias ou o efeito casca de laranja da celulite. A antropóloga recorre a Bordieu para explicar a tara pelo traseiro das mulheres. Segundo o francês, a parte é sinal preponderante de natureza, sexualidade, animalidade, inferioridade. Do lado oposto, as mulheres apontam o tórax como distintivo de maior atração nos homens, seguido do corpo como um todo e do olhar. O único até então rei de bateria, Daniel Manzioni, que seguiu à frente dos ritmistas da Acadêmicos de São Paulo, malhou bastante o peitoral e mal comeu carboidrato para manter os músculos em dia. Mais do que proteção, ao eleger essa parte do corpo, as mulheres falam de hemisfério norte, de cabeça, de inteligência. “Assim como no caso da magreza”, completa Mirian, “é como se a cultura inscrevesse no corpo as posições que homens e mulheres ocupam na sociedade.” Quando a gordura não cede ao medicamento, nem as coxas à malhação, nem as rugas aos cosméticos, a brasileira e o brasileiro entram na faca. Ou entram na faca direto mesmo, sem pudores. A última pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica foi divulgada em 2004 e relata o seguinte: 70% das operações estéticas foram feitas em mulheres. De 2002 a 2003, aumentou em 43% o número de jovens que se submetem à plástica, 15% deles com menos de 18 anos. Quanto à categoria, 54% são
123

lipoaspiração, 32% contornam as mamas e 27% a face. Nos últimos 12 anos, o implante de prótese de silicone cresceu 360%, perdendo apenas para a lipo. Nos últimos dez, o número de cirurgias nos seios entre adolescentes aumentou 300%. No geral, perdemos apenas para os EUA, considerando que as americanas ganham 14 vezes mais dinheiro que as brasileiras. Em Making the Body Beautiful (Tornando o Corpo Bonito), o americano Sander Gilman marca a origem da cirurgia estética na epidemia de sífilis do século 16, quando se inventaram técnicas de enxerto de pele para reparar a degeneração do nariz dos sifilíticos. Três séculos depois, cirurgiões criaram procedimentos para mascarar o nariz novamente, mas o nariz amassado dos irlandeses, visto como marca inerente à raça. Daí Gilman associar as cirurgias plásticas à impostura, ao se fazer passar pelo que não se é. No centenário da imigração japonesa, a modelo Ângela Bismarchi quer se passar pela gueixa Madame Butterfly na função de rainha da bateria da Porto da Pedra. Desfila de hoje para amanhã com olhos puxados no bisturi. Até lá, seu nariz restaurado duas vezes apoiará uma máscara ocular de cristais, para manter o suspense. Essa é a 42ª cirurgia estética de Ângela. Entre as incisões, aumentou as mamas cinco vezes, o bumbum duas, furou o queixo mais duas e alterou a intimidade outra dupla de vezes. Ela quer tirar o recorde da americana Cindy Jackson, que passou por 47 intervenções. A modelo, detida pelas autoridades em 2000 por ter desfilado nua com a bandeira brasileira estampada no corpo e em 2002 por ter “homenageado” o presidente Lula com as bochechas e o bigode dele desenhadas em si mesma, também nua em pêlo, foi objeto de comentário de sites estrangeiros pelos olhos puxados. O blog Dlisted disse, sem piedade, que a última cirurgia foi “a mais idiota que ela fez”. Guinness à parte, o psicanalista Jorge Forbes usa o caso
124

para tratar de identidade e da reação do povo às mudanças radicais. Para Forbes, a identidade atual é múltipla. “Foi-se a época em que era relacionada a um único valor.” Hoje as pessoas se transformam e se reafirmam mudando roupa, cabelo, leituras, vocabulário. Quando, entretanto, alguém intervém sobre o corpo por um aspecto “leviano”, pequeno no tempo e na importância, quebra o pacto social. Até pouco tempo, lembra Forbes, existiam limites naturais à manipulação. Se mexesse demais no corpo, a pessoa poderia morrer. Mas a tecnologia se superou. E, se a natureza não bota freio nisso, o homem o faz. Ainda que Ângela Bismarchi diga que o corpo é dela, o povo rebate que ele pertence à humanidade. “Submeter-se a riscos de infecção e afins para modificar a aparência por motivo temporário, que a priori duraria até a quarta de cinzas, é arriscar em grande potência a sobrevivência do ser humano”, afirma. Ivo Pitanguy, o cirurgião dos cirurgiões plásticos brasileiros, classifica a operação estética como ramo nobre da cirurgia geral, “pois busca restituir ao corpo em sofrimento sua função e dignidade”. Aos que passam por sua clínica implorando o queixo de uma celebridade acoplado à barriga de outra, ele vê o que pode fazer. Dependendo do caso, não opera, mas encaminha para tratamento psicológico. Em novembro, no lançamento de sua autobiografia, Aprendiz do Tempo (Nova Fronteira), Pitanguy disse que a última moda é a boca à Angelina Jolie. Mas confidenciou: “A Angelina é uma mulher bonita, mas da boca eu não gosto. Fazer boca grande com enchimento fica feio”. O gosto mediano vai na mão contrária. A atriz lidera a preferência das mulheres que querem fazer plástica nos lábios. Se o nariz não agrada, dá-lhe Nicole Kidman. A bunda dos sonhos é a de Jennifer Lopez, mas Juliana Paes também ganha 10 nesse quesito. Essas referências constam de pesquisa da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética com 20 mil cirurgiões plásticos de 84 países, entre eles o Brasil, divulgada nessa semana.
125

Ninguém cogitou o nome de Preta Gil, a bocuda da vez na reclamação contra a tirania dos corpos esbeltos. Preta levou um caldo dia desses no mar. “Disseram que eu sou uma baleia e fizeram uma montagem na internet com um trator amarrado a mim, me puxando da areia.” Ela vai processar o autor da montagem. “Quando era jovem, queria ser magra, muitas vezes indo contra a minha natureza. Nem todo mundo tem estrutura para viver esse massacre. Não sou gorda, sou uma referência.” Fica para os especialistas o dilema da samambaia. Até onde buscar um corpo perfeito é eficaz para o sucesso no ambiente que se quer conquistar? Para Forbes, o corpo padrão vale pouco sem o charme. “Hoje em dia, ou a pessoa oferece um efeito-surpresa, ou é genérica.” Quem deseja fugir da cultura do rebanho precisa saber quem é, requisita a filósofa Marcia Tiburi. O fotógrafo J. R. Duran resgata São Tomás de Aquino para dizer que tudo está na intenção, “não só de quem se expõe mas também de quem observa”. No carnaval, duas pessoas podem estar despidas, mas uma é vulgar e outra, não. O que torna uma mais cativante, ainda que ambas tenham as medidas parecidas, é a linguagem do corpo. Autônoma, exclusiva, única.

***

'O corpo tornou-se um simples acessório'
http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/02/03/ali-1.93.19.20080203.9.1.xml?

Design não é mais exclusividade de objetos e o consumismo torna obsoleta a sacralidade física, diz antropólogo Flávia Tavares (03/02/2008)

126

O antropólogo francês David Le Breton é conhecido como o maior especialista do mundo em corporeidade - a análise do corpo no contexto social. Para ele, o corpo não pode ser visto apenas como um suporte da alma. “Corpo e ser são indissociáveis. Tanto que não dizemos „olha, ali vai aquele corpo‟. Dizemos „ali vai aquele homem, aquela mulher, aquela pessoa‟.” Autor de Adeus ao Corpo (Ed. Papirus) e A Sociologia do Corpo (Ed. Vozes), Le Breton é professor de sociologia na Universidade Marc Bloch, em Estrasburgo, na França, e é membro do Institut Universitaire de France. Confira trechos da entrevista que ele concedeu ao Aliás. O que é o corpo e o que ele representa nas interações sociais? A condição humana é corporal. O corpo não é apenas um suporte. Ele é a raiz identificadora do homem ou da mulher, o vetor de toda a relação com o mundo, não só pelo que o corpo decifra através das percepções sensoriais ou da sua afetividade, mas também pela maneira como os outros nos interpretam diante dos diferentes significados que lhes enviamos: sexo, idade, aparência, movimentos, mímicas, etc. Por meio do corpo, o indivíduo assimila a substância da sua vida e a traduz para os outros por meio de sistemas simbólicos que ele divide com os membros de sua comunidade. O corpo é a expressão máxima de raça, origem e ancestralidade? Hoje, num contexto de individualização do sentido e de mercantilização do mundo, o corpo tornou-se um simples acessório. Sua antiga sacralidade ficou obsoleta, ele não é mais o suporte inquebrantável de uma história pessoal, mas uma forma que se recompõe incansavelmente ao gosto do momento. O consumismo em que estão mergulhadas as sociedades, e particularmente as jovens gerações, fez do corpo um objeto de investimento pessoal. Agora, o que importa é ter um corpo seu, assinado. O design não é mais exclusividade dos objetos.
127

O que mudou na nossa relação com o corpo ao longo da história? Durante muito tempo, o corpo não foi muito questionado, ele não representava nenhuma preocupação. Numa frase famosa, Freud fala da anatomia como um destino. As pessoas assumiam a forma de seu corpo e ninguém era julgado pela sua aparência, porque ninguém tinha realmente influência sobre ela. Agora, o importante é modificar as partes essenciais do corpo, para deixá-las conforme a idéia que a pessoa tem de si própria. O corpo se tornou um alter ego, uma duplicata, uma projeção de si mesmo, um pouco decepcionante, mas pronta para modificações. Sem isso, seu corpo seria uma forma incapaz de abrigar suas aspirações. Que uso fazemos do nosso corpo socialmente? O corpo é modelado por um contexto social e cultural. É o primeiro objeto de comunicação porque, antes de começar a falar com o outro, nós o olhamos e prestamos atenção a uma infinidade de dados físicos e de vestuário que, por um lado, condicionam o tom da conversa. Quem não se desvalorizado? cuida ou se deixa envelhecer é

O culto ao corpo atinge as categorias sociais de maneira desigual. Os homens, por meio do culturismo por exemplo, valorizam o seu “sobrecorpo” , mas eles nada têm a perder. Não é o caso das mulheres, que têm a obrigação social de manter sua sedução, e consideram o envelhecimento uma deformação. A cirurgia estética atinge uma população feminina composta cada vez mais de jovens. A mulher é julgada impiedosamente com base em sua aparência. A busca por um padrão de beleza é conseqüência de uma sociedade em que somos interessantes mais pelo que parecemos ser do que pelo que somos?
128

É preciso se colocar fora de si para se tornar você mesmo, tornar mais significativa sua presença no mundo. A interioridade é um trabalho de exterioridade, que exige retrabalhar ininterruptamente seu corpo para aderir a uma identidade efêmera, mas essencial num momento do ambiente social. Assim, a tirania da aparência força os indivíduos a uma disciplina constante, a um trabalho sobre si mesmo. Uma atitude paradoxalmente puritana. As disciplinas outrora exteriores aos indivíduos, segundo a famosa análise de Michel Foucault, hoje estão nas mãos de pessoas que as impõem a si próprias. As disciplinas estão sob a égide do marketing. Mas é claro que o culto do corpo é, em primeiro lugar, um desprezo pelo corpo de origem. Quem faz intervenções extremas no próprio corpo deve ser visto como um caso patológico? Nem o corpo, nem o sexo, nem a orientação sexual são vistos hoje como essências, mas como construções pessoais e revogáveis. Decorrem de uma decisão própria e de uma prática cosmética adaptada. Alguns indivíduos vão, portanto, longe demais na vontade de se transformar e possuir um corpo que pertença apenas a eles. Não há nada de patológico nisso, simplesmente o desejo de uma pessoa de criar uma identidade, uma aparência, tornando-se enfim dona de si mesma.

***

A apoteose de corpos insubmissos
http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/02/03/ali-1.93.19.20080203.8.1.xml

O carnaval é um acerto de contas. O momento do físico contra o espírito, do desejo contra a continência. Ele desveste o que os poderes vestiram José de Souza Martins*
129

(03/02/2008) Sempre houve uma certa expectativa quanto a quem será desancado ou quem será bajulado na relativa surpresa dos nossos desfiles carnavalescos e na ordem invertida que representam. O carnaval nos chegou de Portugal, como entrudo. Trouxe-nos a medieval cultura das inversões simbólicas das identidades e dos poderes nos três dias da festa. Na cultura do avesso, assimilou manifestações centradas na tensão do corpo com sua dominação social e política, vindas de grupos negros e indígenas. O carnaval tornou-se o momento da pública exposição dos acontecimentos do ano e de suas figuras à mordacidade da crítica popular ou à sua bajulação. É o momento da manifestação do corpo insubmisso, como instrumento de um discurso gestual da contrariedade. Momento em que os grandes pagam pelos desaforos feitos aos pequenos. Mas, também, hora em que o puxa-saquismo se torna monumental, na visibilidade de uma gratidão material ou política carregada de malícia. É a hora do troco, em que a força subversiva do imaginário do povo se dá a ver nos enredos dos sambas, nas cores e nas alegorias de carros e fantasias, nos desfiles de cordões e escolas de samba, no Rei Momo, monarca do faz-de-conta, o antipoder de três dias. É o momento dos fracos contra os fortes, da sociedade contra o Estado, da rua contra as instituições. O carnaval é um acerto de contas anual, o intervalo de um corrosivo tempo de deboche. Não é só o presente que cai na pancadaria simbólica dos carnavalescos. O passado inteiro está sujeito a apreciações sem cerimônia, em que nunca se sabe se a narrativa dos sambas-enredo são irônicas por intenção ou por desinformação. De qualquer modo, é sempre prudente recomendar aos estudantes que a melhor fonte do conhecimento histórico ainda é o livro. Mas é também o momento do corpo contra o espírito, do desejo contra a continência e a repressão, do proibido contra o permitido. Não é apenas feliz acaso que o nome da
130

primeira escola de samba do Rio de Janeiro tenha sido Deixa Falar, uma insurgência contra a língua comprida e a dominante sociedade dos linguarudos, da polícia e dos comentadores da vida alheia, da “decência” oficial contra a “indecência” popular, da repartição pública contra a rua e o povo. Não é à-toa que, em carnavais de outros tempos, e hoje menos, as pessoas se fantasiassem, ou se fantasiem, de seus contrários, homem vestido de mulher, mulher vestida de homem, adultos vestidos de bebês, de “mamãeeu-quero-mamar”, mascarados vestidos de demônio nesse tempo ritual de anjos decaídos. É o embaralhamento das identidades, no vestuário e nas máscaras carnavalescas em que traços do antagônico são ressaltados para expor as fisionomias reais, do perverso, do sovina, do corrupto, do oportunista, que se ocultam nas dissimuladas fisionomias cotidianas. É a personificação crítica das alteridades que demarcam repressivamente nossa nem sempre fácil vida de todo dia. É a máscara que permite transgredir sem ser reconhecido nem ser punido. A transfiguração de cada um naquele que ele não é. É, sobretudo, o duplo sentido do dizer oculto. O carnaval é o momento mais forte e significativo de exposição da centralidade do corpo na nossa cultura, como referência problemática da realidade social. O corpo nu e natural é apenas adjetivo, apenas ponto de reparo e referência da construção do corpo imaginário e social, o corpo que pode ser “lido”, situado e compreendido. Desde o nascimento, as crianças são trajadas de maneira a adquirirem a identidade que as situará no mundo, a cor da roupa, o brinco da menina, os brinquedos. Os ritos de casamento são, basicamente, ritos de fecundidade, sacralização da troca biológica de sangue entre os esposos, modo de assegurar a antecipação cultural e social dos corpos que serão gerados, simbolicamente concebidos desde antes de existirem. Nesses processos, o corpo é situado nas tensões da vida e da morte, do transitório e do eterno, do mortal e do imortal. O carnaval desveste o que os poderes vestiram. Ele é bem mais do que crítica social e política. Nele se
131

expressam essas tensões constitutivas do humano, no pouco caso das fantasias de caveira e de demônio, na exorcização do medo e da morte, na negação do sobrenatural no corpo liberto, até mesmo no extremo da nudez em desfiles de escolas de samba. No fundo, o carnaval é um contra-rito religioso. Inscrito na véspera da Quaresma e do tempo do luto e da dor, é o tempo do desejo e da euforia, que precede um tempo de jejum e de punição ritual do corpo, um tempo de purgação da pecaminosa carnalidade do homem. Antes desse recolhimento litúrgico, a licença do carnal, não só o da sexualidade, mas também o do apetite, sujeitos às interdições rituais e à fria temperança da Quaresma. O carnaval é um intervalo cíclico de transgressão consentida, que no temporário da festa liberta o corpo desordenador e a desordem consentida que dele resulta. Não por acaso, o carnaval é o tempo da folia, da loucura e da multidão. Embora seja um intervalo no tempo herdado da liturgia religiosa, da qual muitos estão cada vez mais distantes, é no carnaval que a crise social e as mudanças de longa duração, quase imperceptíveis, se manifestam no curto tempo do desabafo. Na perspectiva desse tempo longo é possível notar que, na sua substância, o carnaval está acabando lentamente. Não só porque se torna progressivamente um empreendimento comercial sujeito a regras empresariais, que em tudo negam a insurreição livre do corpo e do desejo. Mas, também, porque no cotidiano elementos de identificação carnavalesca do corpo estão agora presentes e não só entre jovens. É muito significativo quando tatuagens e piercings, adornos corporais permanentes, se tornam cada vez mais complementos de uma nudez semi-oculta, mas proclamada. Uma negação explícita da transitoriedade ritual do carnaval e uma desconstrução do corpo submisso, uma forma de dizer que a insurreição de três dias se torna a insurreição visual de um ano inteiro - e se esvazia. * José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP
132

'Pátina de juventude' é mais um êxito do universo da reciclagem
http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/02/03/ali-1.93.19.20080203.10.1.xml

Aceitar um corpo recosturado ou com partes postiças tem menos a ver com o mundo da cirurgia do que com o da ecologia Vicente Verdú* (03/02/2008) Uma nova cosmética somada ao dinheiro proporcionou a imagem da reciclagem ideal. Essa cosmética se revelou tão assombrosa que não só devolve à pessoa a imagem de sua foto guardada carinhosamente, mas faz ressurgir essa imagem como procedente de um ser que durante anos se manteve ausente ou mascarado numa injusta enfermidade facial. A referência não se esgota nos diferentes casos de Ana Rosa Quintana, Lola Herrera, Isabel Preysler ou Victoria Abril (celebridades espanholas). Os efeitos dessa fórmula, introduzida magicamente na pele, vão reajustando a cútis do nascimento do cabelo à linha do decote, do fulgor dos peitos à consistência do braço. Uma pátina de juventude, da Rua Serrano de Madri ao passeio barcelonês de San Gervasio, está transformando a relação entre idade e aparência, entre a vida e seu desgaste, entre beleza e extinção. Ou seria preciso, conforme a lenda, que a idade fosse matando o brilho, e a morte não fosse outra coisa senão a encarnação do horror? Cadáveres jovens e formosos contribuíram para melhorar o prestígio de morrer, enquanto qualquer despedida com a cara maltratada piora a consideração de existir. Então, por que não estender integralmente esse bem do mundo do espetáculo e da alta burguesia a qualquer cotista da previdência social? Neste momento, entre um número crescente de amigas
133

que não pertencem aos estúdios, vai se percebendo uma súbita transformação que as faz voltar, como por encanto, a seu porte de 20 anos atrás. Ante o reino da palavra e dos escritos, contra o cortejo oral e epistolar, o triunfo imediato da imagem. Uma imagem com tratamento, é claro, mas o que é ela senão tratamento de estresse, depressão, câncer, agressão do clima ou desilusão? Os receios com a cosmética se justificavam quando ela era tão imperfeita que a manipulação artificial transparecia. Mas como não se render aos resultados dessa nova escola que atua na intangibilidade do natural? Mulheres que haviam ingressado na temida casa dos 50 retornam dessa região para uma plataforma radiante e lisa. Não se trata de garotas imaturas de 20 anos, mas exatamente desse sujeito feminino que brilha no auge de sua constituição, já que a atinada combinação de fatores bioquímicos produz mulheres com uma aparência que lhes permite se aproximar com critério e sensibilidade do profissionalismo, da sexualidade, do viço ou da maternidade. Esse novo tipo feminino continua sem ser computado nos quadros demográficos, mas vai gerando uma nova subespécie reciclada que, de imediato, encontrará sua contrapartida na recuperação do homem. Um número restrito, mas suficiente, de clínicas especializadas, cuidados especiais, moléculas e líquidos selecionados vão fazendo seu trabalho na gestação dessa tendência, que vai além do modismo e cujo desenvolvimento se reflete na ascendência de uma população seguidora dos ditames da sustentabilidade. Além disso, não será preciso muito tempo para que essa notável transformação cidadã ocupe as calçadas, se é que não as está ocupando, já que dezenas de seres reciclados e sem marcas cosméticas são habilitados em menos de 24 horas. Aceitar esteticamente um ser recosturado ou com partes postiças não é fácil para todos, mas o novo fenômeno tem menos a ver com o mundo da cirurgia que
134

com o da ecologia, menos com a reparação que com a recuperação. São rostos (corpos inteiros?) que retornam puros dos espelhos, intactos e transportados até o presente como uma declaração inquestionável de que a atualidade é tudo. É tudo e no ponto exato que não desejaríamos ter perdido jamais. O passado sempre despertou pavor, mas, agora, reelaborado, volta com os frutos de sua melhor época, perfumados, firmes, aromáticos, alardeando o êxito de uma tecnologia de reciclagem que, ao se personalizar, obtém, como um amante perfeito, a máxima excelência da matéria carnal. *Vicente Verdú, escritor e jornalista espanhol, é autor, entre outros, de El Estilo del Mundo. Este artigo foi publicado originalmente no jornal El País

135

A pele do porco espinho
136

137

138

139

140

141

142

143

144

145

146

147

148

149

150

151

152

153

154

155

O mecânico não é exterior ao homem, mas anterior e interior à pele.
Nossa humanidade está inteira na superfície, extensa e delgada. Não se pode romper a pele, sem ao mesmo tempo exceder o humano.

Sob a pele, a natureza por humanizar.
À flor da pele, nervos e enervação, arrepio, calafrio, mamilos ... ânus, boca – orifícios exteriores.
156

De tão sensível: o porco espinho, o ouriço do mar, a carcaça da tartaruga, a face humana.
Todo prazer, toda dor, todo deleite. A pele e o humano são o mesmo.
Quem ama não se apega somente aos “defeitos da amada, não somente aos tiques e fraquezas de uma mulher; a ele, rugas no rosto e manchas hepáticas, roupas gastas e um andar torto prendem muito mais duradoura e inexoravelmente que toda beleza. Há muito tempo se notou isso. E por quê? Se é verdadeira uma teoria que diz que a sensação não se aninha na cabeça, que não sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore no cérebro, mas sim naquele lugar onde as vemos, assim também, no olhar para a amada, estamos fora de nós. Aqui, porém, atormentadamente tensos e arrebatados. Ofuscada, a sensação esvoaça como um bando de pássaros no esplendor da mulher. E, assim como os pássaros buscam proteção nos folhosos esconderijos da árvore, refugiam-se as sensações nas sombrias rugas, nos gestos desgraciosos e nas modestas máculas do corpo amado, onde se acocoram em segurança, no esconderijo. E nenhum passante advinha que exatamente aqui, no imperfeito, censurável, aninha-se a emoção amorosa, rápida como uma seta do adorador. (BENJAMIN, 1995, p. 18)
157

158

159

160

161

162

163

164

165

166

167

168

169

170

171

Fonte: http://www.sbhac.net/Republica/Imagenes/ImGCe.htm
172

Estudos de topologia urbana
Balzac has secured the mythic constitution of his world through precise topographic contours. Paris is breeding ground of his mythology – Paris with its two or three great bankers (Nucingen, du Tillet), Paris with its great physician Horace Bianchon, with its entrepreneur César Birotteau, with its four or five great cocottes, with its usurer Gobsek, with its sundry advocates and soldiers. But above all – and we see this again and again – it is from the same streets and corners, the same little rooms and recesses, that the figures of this world step into the light. What else can this mean but that topography is the ground plan of this mythic space of tradition <Traditionsraum>, as it is of every such space, and that it can become indeed its key – just as the key of Greece for Pausanias, and just as the history and situation of the Paris arcades are to become the key for the underworld of this century, into which Paris has sunk. (BENJAMIN,
1999, p. 83)

173

#1. Uma série que se repete ao infinito é a esperança de uma fuga em direção a um mundo novo. Nisso, regularidade e descontinuidade somam esforços, para criar aquilo que é efetivamente surpreendente. #2. A ciência burguesa encontra em toda a regularidade a confirmação de uma necessidade, que condena a humanidade a circularidades inexoráveis de acontecimentos - séries. Está, portanto, em conformidade com as predicações de um Deus que inventou, a partir de deuses ancestrais que emudeceram.

“De A”
DE Zeus a Deus Deu$ Do Tyranossaurus Rex ao Dinamosaurus Lexis do bobo da corte ao robot do norte do dromedário ao tráfego planetário
174

da aurora de róseos dedos ao agora de fogos acesos da ourivesaria estética à energia cinética do chão natal à estação orbital do cortinado ao foguete pressurizado do romano ao marciano de Carlos Magno ao Pentágono do brasão aristocrárico ao jargão galáctico da pedra lascada à palavra lacrada (Laís Corrêa de Araújo)
“Decurso de Prazo” (1988). In: Inventário - 1951 / 2002. Belo Horizonte/MG: Editora UFMG, 2004

#3. A ciência pensou ser uma secularização. Ela não é mais, contudo, que uma desmagicização. Em sua mais profunda cientificidade é, portanto, uma filosofia da natureza, cujo fundamento consiste em ter o homem como uma grandeza divorciada do natural (religião mundana).
175

#4. Dizer que não existe um homem natural equivale a afirmar que toda a natureza, para o homem, está humanizada. Não decorre daqui, contudo, que a natureza deva se submeter ao homem como serva e escrava. #5. O desencantamento do mundo não leva aos limites extremos da ciência, ou seja, às suas máximas possibilidades. Pode-se dizer, muito ao contrário, que o único problema verdadeiramente científicofilosófico, digno de nossa época, consiste em reencantar o mundo sem regredir à magia. #6. Esse problema, contudo, requer que ciência e filosofia encontrem um novo vínculo, pois o homem, distinto e implicado com o natural, deve transformar-se em um ente ético. Desse modo, a ciência, que havia dado as costas ao valor, precisa reencontrá-lo para reassumir seu compromisso com a vida e sua exuberância.
176

#7. Encontra-se, aqui, a expectativa de que o homem não está condenado e, portanto, que a natureza não precisa necessariamente lhe voltar sua face apocalíptica. Que o homem não tenha qualquer conformação natural, ou seja, de sua condição de ser da cultura emana, como possibilidade, que a natureza agredida possa regenerar-se. #8. O cientista, conforme ele emerge da sociedade burguesa, pode ser representado figurativamente pelo cirurgião, que é exterior a um ente passivo. As promessas de nosso tempo permitem antever que, na regeneração, nada existe de externo. Deste modo, toda cura se fundamenta em uma reconciliação, cuja meta não é desterrar a morte, mas reinseri-la no próprio ciclo da vida. #9. A parataxe é o aspecto formal desta esperança de regeneração da natureza,
177

fundamento, portanto, do desenvolvimento de uma ciência propriamente feminina, que acolhe e apazigua, que redime aquela mesma natureza agredida, em lugar de lhe vingar os horrores. #10. The following remark makes it possible to recognize how fashion functions as camouflage for quite specific interests of the ruling class. “Ruler have a great aversion to violent changes. They want everything to stay the same – if possible, for a thousand years. If possible, the moon should stand still and the sun move no farther in its course. Then no one would get hungry anymore and want and want dinner. And when the rulers have fired their shot, the adversary no longer be permitted to fire; their own shot should be the last”. Bertold Brecht, “Fünf Schwierigkeiten beim Schreiben der Wahrheit”, Unsere Zeit, 8, nos. 2-3 (Paris, Basel, Prague, April 1935), p. 32. (BENJAMIN, 1999,
p. 71-72)

#11. Para fazer a crítica da ciência é necessário começar recusando a segmentação propos178

ta por Weber: A ciência como vocação e A política como vocação. Em seus termos, a política da ordem é científica, ao passo que aquela que se lhe opõe, voluntarismo. #12. I shot the sheriff (http://mixturtle.com/song/85020/1/bobmarley---9_i-shot-the-sheriff.html) #13. (...) Que “tudo continue assim”, isto é a catástrofe. Ela não é o sempre iminente, mas sim o sempre dado. O pensamento de Strindberg, o inferno não é nada a nos acontecer, mas sim esta vida aqui. (BENJAMIN, 2000, p. 174) #14. One knew places in ancient Greece where the way led down into the underworld. Our waking existence likewise is a land which, at a certain hidden points, leads down into the underworld – a land full of inconspicuous places from which dream arises. All day long, suspecting nothing, we pass by, but not sooner has sleep come
179

than we are eagerly groping our back to lose ourselves in the dark corridors. By day, the labyrinth of urban dwellings resembles consciousness; the arcades (which are galleries leading into the city´s past) issue unremarked onto the streets. At night, however, under tenebrous mass of the houses, their darkness protrudes like a threat, and the nocturnal pedestrian hurries – unless, that is, we have emboldened him to turn into the narrow lane. But another system of galleries runs underground through Paris: the Métro, where at dusk glowing red lights point the way into the underworld of names. Combat, Elusée, George V, Etienne Marcel, Solférino, Invalide, Vaugirard – they have all thrown off the humiliating fetters of street or square, and here in the lightningscored, whistle-resounding darkness are transformed into misshapen sewer gods, catacomb fairies. This labyrinth harbors in its interior not one but a dozen blind raging bulls, into whose jaws not one Theban virgin once a year but thousands of anemic young dressmakers and drowsy clerks every morning must hurl themselves. Street names. Here, underground, nothing more of the collision, the intersection of
180

names – that which aboveground forms the linguistic network of the city. Here each name dwells alone; hell is its demesne. Amer, Picon, Dubonnet are guardians of the threshold. (BENJAMIN, 199, p. 84)
#15.

ESCRITA AMODAL “Na agrafia terminal de Rimbaud, que desdá, desintegra e desdiz a noite, ou na agrafia tipográfica de Mallarmé, cujo caráter enigmático deriva de pensar alto e escrever sem acessórios, vemos uma busca [um desejo de matar em si mesmo o poeta; uma tentativa de cometer o suicídio da palavra escrita]. Trata-se de uma escritura órfica, que só pode salvar seu objeto renunciando a ele, mas que mesmo assim, sempre olha para trás com relativa esperança. Escritura de terceiro termo, termo neutro ou vazio, oscilando entre singular e plural, entre passado e presente; escritura amodal ou jornalística, „se precisamente o jornalismo não desenvolvesse em geral formas patéticas, optativas ou imperativa‟. Em suma, um estilo da ausência de estilo que aponta à ausência quase completa de
181

estilo, e revela uma negatividade em que os traços auráticos da norma foram abolidos em benefício da inércia da forma e estilo e onde o pensamento, isento de todo compromisso deliberado ou consciente, redefine a relação entre forma e norma como relação experimental de novo tipo. A escritura é uma forma de experiência, um modo de conceber a prática, um uso social da forma literária: enfim, uma construção do inteligível contemporâneo que resiste à leitura e é, portanto, autoconsciente da transgressão de seus próprios limites”.
(Objecto textual. Raul Antelo. Editado pela Fundação Memorial da América Latina, 1997)

182

Ah! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, epiléticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes que ficam sem pinga de sangue...
(BARRETO, Paulo (João do Rio). A alma encantadora das ruas (1908), apud Memória da Destruição: Rio – uma história que se perdeu (1889-1965), Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo da Cidade, 2002)

183

Cabeça de porco

184

Fonte: www.rio.rj.gov.br/arquivo/anexo/memoria_da_destruicao.pdf

185

Fonte: www.rio.rj.gov.br/arquivo/anexo/memoria_da_destruicao.pdf

186

Until Haussmann, Paris had been a city of moderate dimensions, where it was logical to let experience rule; it developed according to pressures dictated by nature, according to laws inscribed in the facts of history and in the face of the landscape. Brusquely, Haussmann accelerates and crowns the work of revolutionary and imperial centralization… An artificial and inordinate creation, emerged like Minerva from the head of Jupiter, born amid the abuse of the spirit of authority, this work had needed of the spirit of authority in order to develop according to its own logic. No sooner was it born, than it was cut off the source… Here was the paradoxical spectacle of a construction artificial in the principle, but abandoned in fact only to rules imposed by nature.
Duebech and d‟Espezel, pp. 443-444 (BENJAMIN, 1999, p. 133)
187

188

189

Mural

190

Having, as they do, the appearance of walling-in a massive eternity, Haussmann´s urban works are a wholly appropriate representation of absolute governing principles of the Empire: repression of every individual formation, every organic selfdevelopment, “fundamental hatred of all individuality”.
J.J. Honegger, Grundsteine einer allegemeinen Kulturgeschichtef der nuesten Zeit, vol. 5 (Leipzig, 1874), p. 326. But Luis Philippe was already known as the Roi-Maçon <Mason King> (BENJAMIN, 1999, P. 122)

191

192

193

194

195

196

Brasil

Rio tem a pior chacina desde Vigário Geral
Reuters

Várias pessoas foram ao enterro das vítimas em Nova Iguaçu

No dia 30 de março, 30 pessoas foram assassinadas a tiros em 11 locais das cidades de Nova Iguaçu e Queimados, municípios da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Pelo menos sete mortos eram menores de 18 anos. Todas as vítimas foram atingidas ao acaso. A ação foi a mais violenta desde a chacina de Vigário Geral em 1993, quando 21 pessoas foram mortas por policiais na favela.  Chacina deixa 30 mortos na Baixada Fluminense
197

 Veja o vídeo sobre o caso A Secretaria de Segurança do Rio afirmou que a chacina foi uma provável retaliação de policiais militares. Os PMs estariam intimidados pela investigação de envolvimento de agentes em crimes na região. Onze policiais foram indiciados. A chacina da Baixada foi notícia em vários jornais norte-americanos, como o New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, San Francisco Chronicle e Chicago Tribune.
***

Chacina de Vigario Geral
Na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, a favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, foi invadida por um grupo de aproximadamente cinqüenta homens encapuzados e fortemente armados, que arrombaram casas e executaram 21 moradores. Todos as vítimas tinham endereço fixo e profissão e não possuíam nenhum envolvimento com o tráfico de drogas. A matança na comunidade foi motivada por vingança, em represália à morte de quatro PM‟s, atribuído a traficantes daquela região, numa praça da mesma favela, conhecida como “Catolé do Rocha”, no dia anterior.
198

O grupo de policiais militares que realizou a chacina era conhecido dos moradores de Vigário Geral pelo modo que agia. Eles eram chamados de “Cavalos Corredores” porque entravam na favela correndo, atirando e aterrorizando a comunidade. A chacina, a segunda maior do Estado, ocorreu durante o segundo governo de Leonel Brizola. Alguns meses após o crime, 13 policiais militares foram expulsos da corporação. Na ocasião, oficiais chegaram a recorrer aos meios de comunicação, acusando a existência de um complô contra a corporação e negando a responsabilidade policial quanto aos extermínios. Desde então, apenas seis dos 52 PMs acusados formalmente pela chacina foram condenados (dois cumprem pena e quatro estão soltos por habeas-corpus). Cinco morreram e um deles permanece foragido. Os outros foram absolvidos por falta de provas. A chacina ganhou repercussão internacional. Entidades de Direitos Humanos acusaram a polícia brasileira por massacres consecutivos, e o governo, de impotência. A Anistia Internacional assumiu a escuta dos relatos de parentes de vítimas e elaborou um relatório sobre o caso. Atualmente, o bairro Vigário Geral contém, aproximadamente, 35 mil habitantes. E mesmo que a comunidade passe uma imagem
199

de tranqüilidade, para os moradores, pouca coisa mudou.
http://www.redecontraviolencia.org/Home
29/08/2007 - 10h38 - Atualizado em 29/08/2007 - 17h32

***

Vítimas da chacina de Vigário Geral são lembradas 14 anos depois
Padre lembra na missa em memória dos 21 mortos que todos eram inocentes. Comunidade não quer que o caso caia no esquecimento. Aluizio Freire Do G1, no Rio entre em contato

Num clima de muita emoção, parentes das vítimas da Chacina de Vigário Geral participaram, na manhã desta quarta-feira (29), na Igreja São José, na Praça XV, Centro do Rio, da missa em memória das 21 pessoas que morreram há 14 anos no massacre. Arquivo G1: chacina de Vigário Geral completa 14 anos O padre Euvaldo de Mendonça Andrade lembrou que “pessoas inocentes foram mortas” por vingança de um outro crime que nada tinha a ver com elas. “Sabemos que uma família inteira foi dizimada sem respeito a sua casa. Entraram e mataram todos”. A comunidade de Vigário Geral, disse o padre, faz questão de lembrar a chacina todos os anos “para que o fato não caia no esquecimento e não fique impune”.
200

O advogado João Tancredo, que representa as famílias das vítimas, diz que mais de cinqüenta homens participaram do crime e que somente sete foram condenados e cumprem pena.

***

Chacina de Vigário Geral completa 14 anos e vítimas são homenageadas no Rio
29/08 - 15:41, atualizada às 17:36 29/08 - Redação

RIO DE JANEIRO – As vítimas da chacina de Vigário Geral estão sendo lembradas em várias cerimônias, nesta quarta-feira, quando o crime completa 14 anos. Uma missa foi organizada na Igreja São José, no Centro do Rio. Após a missa, uma passeata com parentes das vítimas e representantes de movimentos de respeito aos Direitos Humanos seguiu até o Tribunal de Justiça do Rio. O principal objetivo das homenagens é impedir que a barbárie da chacina seja esquecida pela sociedade. Mães dos jovens mortos na tragédia protestavam afirmando que, 14 anos após a chacina em Vigário Geral, as vítimas e a comunidade continuaram sofrendo sem justiça social, transporte, saúde e educação. As homenagens contarão com a presença do advogado João Tancredo, ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) e Marcelo Freixo, deputado estadual e membro da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, afirmou que, a chacina é resultado de uma política de segurança informada
201

pela noção de guerra, segundo a qual as favelas e os bairros pobres são considerados território inimigo, habitado por bandidos. “Com isso, acaba por se consolidar uma prática de criminalização da pobreza, infelizmente apoiada pela maioria das classes média e alta”, declarou Damous acrescentando que o episódio revela “a erva daninha da impunidade dos agentes policiais que levam a ferro e fogo tal prática”. Parte das atividades foi organizada por grupos sociais, como a Associação de Moradores de Vigário Geral, a Associação Artística e a Cultural de Vigário Geral e o Conselho Popular e Rede Contra a Violência. O massacre de Vigário Geral Na madrugada do dia 29 de agosto de 1993, a favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, foi invadida por um grupo de aproximadamente cinqüenta homens encapuzados e fortemente armados. Eles invadiram barracos e executaram 21 pessoas. Todos os homens e mulheres mortos no episódio não tinham ligação com o tráfico. Um grupo de policiais, conhecido como “Cavalos Corredores”, foi acusado de ser autor do crime. Segundo o Ministério Público do Rio, a chacina foi uma forma de vingança contra a morte de quatro policiais militares na favela, no dia 27 de agosto. Dos 52 policiais militares acusados de participação na execução, apenas sete foram condenados pela Justiça. Os outros foram absolvidos por falta de provas. O ex-policial militar Alexandre Bicego Farinha, condenado a mais de 59 anos de prisão pela chacina, foi assassinado, no dia 12 de maio deste ano, em Realengo, na zona Oeste do Rio.

***

202

27/08/2004

Candelária
da Folha de S.Paulo da Folha Online O crime que ficou conhecido como a "chacina da Candelária" ocorreu na madrugada de 23 de julho de 1993, no centro do Rio. Na ocasião, sete meninos e um jovem, todos moradores de rua, foram assassinados a tiros. Segundo depoimentos de sobreviventes, pelo menos cinco homens desceram de dois Chevettes e atiraram. Quatro garotos morreram no local e outro no hospital. Mais duas crianças e um jovem foram mortos na praça Mauá. A chacina ocorreu quando cerca de 50 crianças dormiam sob uma marquise, em frente à igreja da Candelária. As vítimas, na ocasião, disseram ter sido ameaçadas de morte por policiais militares depois que um Opala da corporação foi apedrejado por um garoto. O crime repercutiu no exterior. Entidades como a Anistia Internacional e a Unicef encaminharam documentos denunciando o massacre e pedindo a punição dos culpados. Seis policiais militares foram julgados pelas mortes. Três foram condenados e três, absolvidos. O primeiro julgamento ocorreu apenas em abril de 1996. Marcos Aurélio Dias de Alcântara foi condenado a 204 anos de prisão e Marcus Vinícius Borges Emmanuel a 300 anos. Nelson Oliveira dos Santos Cunha foi condenado a mais 45 anos.

***

203

Chacina da Candelária
O sangue escorreu pela escadaria da Igreja da Candelária numa fria madrugada de 23 de julho de 1993. Os degraus que conduzem os fiéis à sua entrada e as calçadas que circundam o templo encravado no centro financeiro do Rio de Janeiro serviam de leito para 50 menores de rua. Oito deles foram mortos a tiros por policiais militares. O episódio brutal deixou indignada a opinião pública e denegriu ainda mais a imagem do País. "O massacre deve doer em nossa face como uma bofetada humilhante", disse o então presidente Itamar Franco. A cena de barbárie tornou a colocar em desagradável evidência chagas abertas da sociedade brasileira, como o problema do menor de rua, o crescente envolvimento de policiais em atividades criminosas e o aumento explosivo da violência urbana. Nas grandes cidades atingiu níveis assombrosos. As estatísticas policiais mostram que a taxa de homicídios triplicou na cidade do Rio nos anos 80, período em que a população cresceu apenas 1,13%. O aumento ocorre especialmente nos municípios da periferia pobre. "As novas imagens da cidade não são mais associadas à utopia liberal da liberdade e da segurança, perdendo as velhas virtudes cívicas. As cidades, hoje, têm suas imagens tomadas pela deterioração da qualidade de vida urbana'', observa a socióloga Alba Zaluar. Alguns anos antes, em agosto de 1987, a morte de Fernando da Silva Ramos, 19 anos, o Pixote, tornara-se cause celébre relacionada ao tema. Escolhido para protagonizar filme de mesmo nome juntamente com a atriz Marília Pêra, o menino pobre da periferia de São Paulo transpôs para a vida real as desventuras vividas no mundo do crime da ficção. Foi baleado em tiroteio com policiais militares oito anos depois de se ofuscar pelo brilho da fama. Seu corpo foi cravejado por oito tiros. A versão da polícia dava conta de que ele havia resistido a um cerco após ter participado de um assalto. Testemunhas disseram que Fernando estava desarmado. Dos seis acusados pela chacina da Candelária, três foram absolvidos e outros três condenados. Nada aconteceu com os homens acusados pelo assassinato de Fernando.
204

Haussmann‟s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means. Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.

Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.
Haussmann‟s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.

Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.
Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.

Haussmann‟s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.

Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.
Haussmann’s work is accomplisHed today, as tHe Spanish war makes clear, by quite others means. Haussmann‟s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.
Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.

Haussmann’s work is accomplished today, as the Spanish war makes clear, by quite others means.
(Benjamin, 1999, p. 147)
205

Foi um Rio que passou
Exposição retrata a transformação da cidade
Isabel Butcher Clique nas imagens para vê-las ampliadas

A cidade vista do Morro Santo Antônio enfeita o alto e o pé da matéria. Acima, à esquerda, um registro da demolição do Mercado Municipal, nos anos 60. À direita, a Rua Barata Ribeiro na Copacabana de 1928

Exceto pela foto abaixo, com a Baía de Guanabara e o Morro Cara de Cão ao fundo, fica difícil ligar o nome à cidade. Essa e outras relíquias iconográficas – são, no total, sessenta fotografias e quinze charges – fazem parte da exposição Memória da Destruição: Rio – Uma História que Se Perdeu, aberta ao público a partir de segunda 17 no Arquivo-Geral da Cidade. A mostra revela com requinte o que todo mundo sabe, mas só vovô testemunhou: São Sebastião do Rio de Janeiro mudou um bocado. Parte dessa história vai ser condensada em mais de 250 metros quadrados. É a chance de acompanhar mudanças no cenário carioca registradas entre a proclamação da República, em 1889 – quando o então prefeito, Barata Ribeiro, começou a pôr abaixo cortiços espalhados pelo Centro –, e os últimos retoques dos anos 60 e 70. Foi um período de grandes transformações, como a criação do Aterro do Flamengo, recheado com o entulho do desmonte do Morro de Santo Antônio, iniciado em 1952.

206

Clique nas imagens para vê-las ampliadas

Baía de Guanabara em dois tempos: à esquerda, em meados do século XX, vista do Morro Mundo Novo. À direita, o Aterro do Flamengo usado como estacionamento enquanto as obras do parque não estavam concluídas

A idéia é apresentar ao carioca um passado de imposições, quando se arrancavam morros e prédios e se construíam largas avenidas como quem brinca de fazer maquete. "Estamos pondo em discussão o que se fez com o Rio e o que podemos fazer a partir de agora. É claro que a cidade é dinâmica, mas o problema é que algumas construções demolidas eram referências da cidade", conta a diretora da divisão de pesquisa do Arquivo Sandra Horta. Um dos casos examinados na exposição é o do Palácio Monroe, de estilo eclético, construído nos Estados Unidos para representar o Brasil na exposição que comemorou a anexação da Louisiana, em 1904. O pomposo prédio veio para o Rio: foi plantado na Cinelândia dois anos depois. Abrigou o Senado e a Câmara dos Deputados nos tempos em que o Rio era capital federal, mas acabou destruído, em 1976, com a desculpa de que as construções do metrô poderiam comprometer sua estrutura. "Não se conhecem os reais motivos. O fato é que o arquiteto Lucio Costa, influente no Iphan, achava o prédio um monstrengo e fez de tudo para evitar seu tombamento", conta o historiador Carlos Kessel. No embalo da mostra, Kessel vai lançar o livro A Vitrine e o Espelho: o Rio de Janeiro de Carlos Sampaio, da coleção Memória Carioca, do próprio Arquivo-Geral da Cidade.
Clique nas imagens para vê-las ampliadas

O Pavilhão Mourisco (à esquerda) foi erguido em 1923 e demolido nos anos 40, nas obras de abertura do Túnel do Pasmado. À direita, o Palácio Monroe, ex-sede do Senado e da Câmara Federal, destruído pelas obras do metrô em 1976

207

Carlos Sampaio, prefeito da cidade na década de 20, tem papel de destaque na mostra Memória da Destruição. Estrela um módulo reservado aos alcaides cariocas com maior poder de destruição. Começou a quebrar tudo pelo Morro do Castelo. Em 1891 foi o encarregado da picaretada inicial no berço da cidade, hoje existente apenas em fotos antigas. O jovem e promissor engenheiro ganhou concessão para arrasar o morro. "Mas não conseguiu terminar o projeto e sua empresa faliu", conta Kessel. Em 1904 o Morro do Castelo perdeu a primeira encosta para a abertura da Avenida Central, atual Rio Branco. O trecho destruído deu lugar aos prédios do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional. Anos mais tarde, em 1920, aos 60 anos, Sampaio deu o golpe de misericórdia no morro para abrigar a Exposição do Centenário da Independência, inaugurada dois anos mais tarde. A ndependência, inaugurada dois anos mais tarde. A obsessão das autoridades era civilizar, europeizar o Rio na marra. "Carlos Sampaio se sentia mal de viver em uma cidade onde, ao lado do luxuoso Teatro Municipal, houvesse algo tão feio como lavadeiras estendendo roupas no varal e ordenhando cabras", conta o historiador. Sampaio também contribuiu para reduzir a Lagoa Rodrigo de Freitas a seu formato atual. Na mostra, o visitante poderá conferir a diminuição do espelho d'água do cartão-postal ao longo de quase 100 anos. Outro prédio perdido foi o Pavilhão Mourisco, criação do arquiteto Alfredo Burnier, também responsável pela Biblioteca Nacional. A jóia arquitetônica, erguida na Praia de Botafogo em 1923, foi destruída nos anos 40 para a construção do Túnel do Pasmado. A sessão nostalgia sugerida pela exposição no ArquivoGeral faz lembrar Machado de Assis, no livro Esaú e Jacó: "Muita gente há no Rio que nunca foi lá, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira".

Fonte: http://veja.abril.com.br/vejarj/191201/memoria.html

208

Memória da destruição: Rio uma história que se perdeu
(Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Janeiro) – Na gestão do prefeito Pereira Passos, de 1903 a 1906, a cidade do Rio de Janeiro sofreu a sua primeira e mais drástica renovação urbana. Movido pela vontade da modernização, o então administrador demoliu casarões coloniais para construir a avenida A antiga rua Barata Ribeiro: lembranças perdidas Central, atual avenida Rio Branco. Tanto derrubou, que ficou conhecido como Bota Abaixo. Infelizmente não sobraram vestígios desta época. Mas toda a sua imponência pode ser constatada nas fotografias de José Augusto Malta, que agora integram a ótima exposição cujo intuito é fomentar uma discussão sobre a necessidade ou não de se preservar a memória de uma cidade. No total, são 60 fotos, 15 charges e outros tantos mapas que mostram como as obras de expansão, a ação do tempo e o crescimento desordenado acabaram com a memória urbana. Entre as imagens históricas encontram-se o marco de fundação do Rio, o Morro do Castelo, hoje totalmente destruído, e a Lagoa Rodrigo de Freitas, que foi espantosamente diminuída nos últimos 100 anos. As fotografias ainda retratam em ordem cronológica as intervenções realizadas na paisagem carioca, de 1900 até meados da década de 60. (L.M.) Não perca
Fonte: http://wwwterra.com.br/istoe/1681/1681emcartaz.htm
Arquivo Geral da cidade do Rio de

209

210

211

(Gueto de Varsóvia, 1943)

212

(Gueto de Varsóvia, 1943)

213

(Comuna de Paris, 1871)

214

E assim reunida, aglomerada, essa gente, trabalhadores, lavadeiras, costureiras de baixa freguesia, mulheres de vida eles, entopem “as casas de cômodos”, velhos casarões de muitos andares, divididos e subdivididos por um sem número de tapumes de madeira, até nos vãos de telhados, entre a cobertura carcomida e o ferro carunchoso. Às vezes, nem as divisões de madeira; nada mais do que sacos de aniagem estendidos verticalmente em septo, permitindo quase que a vida em comum, em uma promiscuidade de horrorizar. (BECHHEUSER, Everardo apud Memória da Destruição: Rio – uma história que se perdeu (1889-1965), Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo da Cidade, 2002) Não havia limpeza, nem pública nem particular, nem interna nem externa, nem no corpo nem da alma da pobre Sebastianópolis, a higiene e o asseio eram figuras de retórica, e quanto à elegância e o bom gosto em construções, o que dava a característica era a casinha de rótula, lega pelos fundadores da cidade, vielas estreitas... Mas foi nesta situação de imundície e de andrajos que a veio encontrar o reformador ativo e forte que é o Dr. Passos, e foi assim que ele resolveu varrer toda essa porcaria e sobre o terreno limpo e saneado levantar melhoramentos que nos honram, que já dizem bem a respeito da nossa cultura e do nosso adiantamento (...) As ruas e praias alargam-se, o calçamento é restaurado a grandes trechos, as casas oferecem um melhor aspecto, avenidas surgem miraculosamente, há no ar, na gente e nas coisas um tom de alegria, de contentamento, de esperança em ver dentro em breve poder o Rio de Janeiro, dizer-se com razão e sem provocar o riso zombeteiro de nossos vizinhos da Prata, que é a primeira cidade da América do Sul.(Crônica, O Malho, 1903, apud Memória da
Destruição: Rio – uma história que se perdeu (1889-1965), Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo da Cidade, 2002)

215

216

Moradia 4 em 1
Folha de São Paulo (06 de julho de 2008 ) por Rafael Balsemão e Leandro Nomura

217

Uma minicidade está nascendo dentro de São Paulo. É um pequeno universo de sonhos, com promessa de segurança, espaços arborizados, sem engarrafamento e com todos os serviços à mão. Um luxo para poucos paulistanos, mais precisamente os 275 que já se dispuseram a pagar entre R$ 2 milhões e R$ 17,3 milhões por um apartamento no Parque Cidade Jardim, empreendimento que reúne prédios residenciais, comerciais e um dos shoppings mais luxuosos da cidade, inaugurado no final de maio. “Vou mudar de um terreno de 2.000 m2 para um de 72.000 m2″, compara Camilo Nader, 62, industrial que irá trocar sua casa no Morumbi, onde viveu nos últimos 25 anos, pelas amplas áreas verdes e serviços “prime” oferecidos pelo complexo. No mês que vem, quatro das nove torres do empreendimento na zona sul da capital começam a receber os primeiros moradores. Hoje, apenas o shopping está em funcionamento.

O Parque Cidade Jardim tem como inspiração grandes empreendimentos ao redor do mundo, como o Time Warner Center, em Nova York, na beira do Central Park, e o Bal Harbour Shops, em Miami, na Flórida. “O conceito de uso
218

misto, ou „mixed-use‟, combina o „play‟ (divertir), o „work‟ (trabalhar), o „live‟ (morar) e o ‟shop‟ (comprar)”, explica Daniel Mcquoid, 51, vice-presidente da construtora JHSF. Em Kuala Lumpur, na Malásia, o Petronas Twin Towers, segundo edifício mais alto do mundo, e o Kuala Lumpur City Center são outros exemplos de empreendimentos dentro dessa filosofia. Além do Parque Cidade Jardim, também em São Paulo, será inaugurado o condomínio Parque Villa-Lobos, com características semelhantes.

219

O executivo Marcos Quintela, 37, que hoje mora no Morumbi, vai se mudar para um apartamento de 600 m2 no edifício Jabuticabeiras, um dos primeiros residenciais a ficar prontos no Parque Cidade Jardim. Casado com a empresária Débora, 35, e pai de três crianças, Marcos justifica a troca em busca de maior qualidade de vida. “Quero deixar de gastar tempo no trânsito para ficar mais com meus filhos”, afirma, fazendo coro com a mulher. “O que pegou foi poder freqüentar a academia e levar as crianças à natação e ao balé sem precisar pegar o carro”, emenda Débora. A única preocupação é a superexposição dos filhos Pietra, 8 meses, Caio, 2 anos, e Luca, 5, ao apelo irresistível das vitrines. “No começo, a idéia de morar tão próxima de um shopping me deixou assustada”, diz. “Mas a questão do consumo na vida das crianças depende da educação que os pais dão.” A família Quintela adquiriu ainda um escritório nas torres comerciais, que só devem ser entregues em 2010. “Não sei se vou trabalhar lá quando ficar pronto, mas o investimento foi feito”, diz ele. Débora está de olho na sala comercial. “Minha empresa fica em Higienópolis, o que é relativamente longe. Pretendo levar meu escritório para lá.” Os Quintela vão, assim, fechar a equação de um novo jeito de viver na metrópole, unindo moradia, trabalho, lazer e consumo dentro do mesmo espaço, uma grande vantagem numa cidade de trânsito caótico. Justificar a opção por mais comodidade, qualidade de vida e segurança não evita as críticas ao novo conceito “4 em 1″ de moradia. “É uma tendência que mostra o empobrecimento da questão urbana. Quem vive isolado perde a riqueza de estímulos que a cidade tem”, afirma a arquiteta e urbanista Maria Lucia Refinetti Martins, 56, da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Quando o conceito ganha um quarto elemento, o consumo (lojas e serviços) no quintal de casa, os estudiosos da vida urbana ficam ainda mais temerosos em relação ao futuro da cidade como espaço de civilidade e de cidadania. “Se todo mundo se fechar em seus muros, a situação fora vai ficar muito pior”, teme Maria Lucia.

220

Retorno de Alphaville Na selva de pedra da metrópole, enquanto as soluções coletivas para a violência e o trânsito, questões centrais do debate urbano na atualidade, não aparecem, os habitantes das classes mais privilegiadas buscam segurança e qualidade de vida individualmente. Para Luiz Célio Bottura, 68, consultor em engenharia urbana, empreendimentos como o complexo Cidade Jardim em pouco ou quase nada ajudam na melhora do tráfego caótico da cidade, que já chegou ao recorde de 266 km de congestionamento em maio deste ano. “É um luxo para um público pequeno”, diz. Ele defende “soluções multifuncionais” - centros comerciais, condomínios etc - ao longo das estações de trem, metrô e corredores de ônibus.

221

Não é de hoje que os problemas das grandes cidades fazem moradores buscarem refúgios isolados. A diferença agora é que tal asilo está migrando para verdadeiras fortalezas modernas erguidas nas regiões mais centrais da cidade.
222

O marco da vida entre muros foi a criação, há três décadas, dos condomínios de Alphaville, em Barueri (a 30 km de São Paulo). “A distância foi compensada pela estrutura criada no local”, afirma o engenheiro Marcelo Takaoka, 50, filho de Yoshiro Takaoka, um dos idealizadores do projeto, que morreu em 1994. Há 14 anos, a designer de interiores Elaine Barros Santos, 45, e a família saíram do bairro do Butantã rumo a Alphaville. Em agosto, vão fazer o caminho de volta. Ela escolheu morar em um dos 225 apartamentos do condomínio Praça VillaLobos, com preços a partir de R$ 2,27 milhões, de 264 m2 a 866 m2 (cobertura duplex) espalhados por nove torres. Sete delas serão entregues no próximo mês. “Fechei um ciclo. Não agüento mais ter que pegar o carro para fazer tudo”, afirma Elaine, encerrando uma fase em que procurou proporcionar aos três filhos -hoje com 10, 12 e 15 anos- “uma infância que não existe mais”, com a possibilidade de brincar na rua. Ainda que essa rua fosse murada e protegida dentro de um condomínio.

Os adolescentes agora vão viver no bairro Alto de Pinheiros, tendo como quintal o parque e o shopping VillaLobos. “Aqui ao lado tem a USP e o parque. É uma área mais livre e aberta. A gente vê o verde. E,
223

conseqüentemente, temos o shopping à disposição”, diz a mãe. O acesso exclusivo ao shopping Villa-Lobos é um dos pilares do marketing dos corretores. “É uma tranqüilidade do interior. Isso é luxo”, afirma Mirella Parpinelle, diretora de atendimento da Lopes, empresa responsável pela comercialização dos imóveis. Um dos grandes diferenciais do empreendimento é a vista permanente de todos os apartamentos para o parque Villa-Lobos, mas o acesso ao local só é possível de carro a partir do condomínio. Uma praça central com 13.000 m2 será o espaço verde entre os muros e mais um dos confortos à disposição dos moradores. “Em praças públicas, andam a mulher, o marido e o trombadinha juntos. Qualidade de vida e segurança, em São Paulo, não têm preço”, afirma José Júlio de Cunto, 52, diretor da Sintra Empreendimentos Imobiliários, empreendedora do condomínio Praça Villa-Lobos. Socialização A mudança para um local com todas as facilidades de um shopping também vai marcar uma nova fase na vida do industrial Camilo Nader. Morar no Parque Cidade Jardim na terceira idade é encarado por ele como uma nova forma de socialização. Com três filhas adultas, duas delas já casadas, Camilo quer ficar mais próximo da turma que faz parte do seu círculo social. “Lá, todo mundo se conhece. A gente vai ficando mais velho e sozinho. É muito animador saber que basta pegar um elevador para encontrar amigos, ver gente bela.”

224

O local também pode ser visto como um paraíso para os jovens. A arquiteta Marina Torre, 24, e seu irmão, o empresário Paulo Torre, 25, que moram com a família em uma casa no Morumbi, vão sair da residência dos pais direto para o complexo do Cidade Jardim. Cada um ganhou do pai um apartamento de 235 m2 no edifício Begônias. Ela vai morar no 14o andar; ele, no andar de cima. Marina, que já quebrou paredes e prepara a decoração de seu novo lar, está empolgada com as facilidades que terá após a mudança. “Ter cinema aqui vai ser „animal‟. Vou poder decidir a qual filme assistir faltando apenas cinco minutos para a sessão”, comemora. “E, se precisar comprar um presente para um aniversário, fica bem fácil: é só descer e escolher.” Outra vantagem é dispor de uma academia no “quintal”. Ela, que já demorou 50 minutos entre a casa e a academia Reebok da Vila Olímpia, terá que fazer apenas uma “baldeação” de elevador para malhar. “Vou viver lá: almoçar, trabalhar, ir à academia”, prevê. “Por causa da falta de segurança e do trânsito, as pessoas vão ter que resumir a sua vida num bairrinho. Você vai acabar saindo só à noite.”
225

Para absorver esse novo público, a Reebok também mudou de casa. Fechou sua unidade no Morumbi para ocupar um andar inteiro do shopping Cidade Jardim, uma área total de 6.400 m2. “Nunca tive muita atração por shoppings, mas gostei do conceito diferenciado, de proporcionar o máximo para as pessoas se sentirem bem”, diz José Otávio Marfará, proprietário da Reebok, que investiu R$ 11,5 milhões na megaestrutura. Os moradores vão dispor ainda de um spa, que deve ser aberto no mês que vem. “Será oferecido um menu exclusivo para os moradores. Eles poderão usufruir dos serviços em sua própria casa. Nem vão precisar descer”, diz Sharon Beting, 36, diretora do shopping Cidade Jardim. Outro mimo é que os moradores não vão precisar carregar sacolas. As lojas estão preparando outros atendimentos VIP, como levar as compras para o apartamento.

Os serviços “prime” e o conforto de diminuir o tempo dentro do carro foram relevantes para quem decidiu morar no shopping. Entretanto, segurança é o principal item apontado por todos que compraram esse pacote. A consultora Raquel Oliveira, 32, muda-se para o Parque
226

Cidade Jardim no ano que vem. “É um privilégio poder ter segurança em um empreendimento como esse. Quando se tem filhos, o instinto maternal de garantir um dia-a-dia mais seguro para eles fala mais alto”, diz ela, que é responsável pela área de novos negócios da Daslu, instalada no outro lado da marginal e que ganhou também uma filial no novo shopping. Não é um bunker Raquel já foi assaltada três vezes. Está comprando a promessa de paz. No Parque Cidade Jardim, haverá guarita, rondas, todos os muros e cercas monitorados por câmeras, além de seguranças do lado de dentro e de fora. Segundo a JHSF, apesar da alta tecnologia, isso não é nada além do habitual nos condomínios com esse padrão. “Não vai ter satélite vigiando ou tanque na porta. É um condomínio, não um bunker”, afirma Daniel Mcquoid, da JHSF. O rateio desse custo é um atrativo. “Aqui, há pessoas para dividir a conta de uma segurança reforçada”, aponta Raquel. “Assaltantes preferem prédios isolados. Vão pensar duas vezes antes de assaltar um empreendimento com essa proteção.” A violência da metrópole pesou também na decisão de Camilo de embarcar no conceito “4 em 1″. “Apesar de eu morar em uma rua sem saída, trata-se de uma segurança muito mais frágil se comparada à do shopping e à dos prédios”, diz ele, que calcula a economia que terá. “Vou desembolsar muito menos do que gastaria com seguranças particulares.” Ele compara a despesa para dispor da mesma proteção na atual casa com os R$ 3.000 mensais que desembolsará no condomínio. É um preço que embute mais que segurança. “Assim que as torres comerciais ficarem prontas, pretendo me transferir para lá. Vou trabalhar de carrinho de golfe e almoçar em casa todos os dias”, planeja. “Qual morador de São Paulo tem o privilégio de fazer isso?” ***

227

Parque cidade jardim  onde fica: Avenida Magalhães de Castro, 12.000 (marginal Pinheiros)  torres nove; quatro serão entregues no mês que vem  tamanho dos apartamentos de 235 m2 a 2.036 m2  preço do m2: R$ 8.500  diferenciais: abriga um dos shoppings mais luxuosos de SP, com academia e spa, com acesso exclusivo para os moradores pelo elevador  shopping interligado Cidade Jardim  perfil 180 lojas de alto luxo, entre elas a primeira da Hermès no Brasil, numa área de 36.000 m2 e 1.500 vagas de estacionamento  inauguração 30 de maio de 2008  e mais… três prédios de escritórios (preço do m2 chega a R$ 11.500)

228

229

Parque villa-lobos  onde fica alameda Villa-Lobos, na altura do número 4.797 da avenida Nações Unidas  torres nove (um apartamento por andar); sete serão entregues no mês que vem  tamanho dos apartamentos de 264 m2 a 866 m2  preço do m2 R$ 8.600
230

 diferenciais acesso exclusivo ao shopping, praça central com 13.000 m2 e vista para o parque VillaLobos  shopping interligado Villa-Lobos  perfil 220 lojas, entre elas a primeira da Livraria Cultura em shopping, espalhadas por uma área de 30.000 m2 e 1.591 vagas de estacionamento  inauguração 19 de abril de 2000  e mais… edifício Villa Lobos, prédio com 36 escritórios, com interligação para veículos e pedestres no estacionamento do shopping. *** Prós de se viver numa “bolha”…  Promessa de maior segurança, com mais guardas, guaritas e controle de entrada e saída de moradores, visitantes e prestadores de serviço  Reunião de todos os serviços em um mesmo lugar (supermercado, spa, academia, escritório)  Menos deslocamentos no trânsito  Facilidade de fazer novos amigos da mesma classe social e com as mesmas afinidades …e contras  Viver em um ambiente artificial, isolado do resto da cidade e protegido por muros  Não usufruir de espaços públicos, como parques, praças e jardins, que ficam cada vez mais abandonados  Desistir de viver na cidade, com toda a riqueza e riscos que isso implica  Viver entre “iguais” e não se relacionar com a diversidade cultural e social

231

232

233

Série Palavra Sem C ar n e # 3

234

Segundo a folha de São Paulo, dois professores de filosofia da Universidade de San Diego – Paul e Patrícia Churchland -, deleitam-se com as possibilidades de que um dia a neurociência possa simplesmente se antecipar à ação criminosa ou delituosa, instalando mecanismos coercitivos no cérebro dos maus elementos: ao menor sinal de raiva no indivíduo considerado anormal pela sociedade, o mecanismo o “derrubaria automaticamente com uma boa dose de Valium” (Bernardo Carvalho, FSP, E8, 13/03/2007). Vigiar sem punir, submeter tudo às possibilidades do controle; antever todos os padrões possíveis nos comportamentos; normalizar, regular, inferir. Os rastros virtuais que se deixa pelo caminho criam os elementos para que o aperto que impõe a ordem tenda à perfeição. Quando maior a potência da tecnologia tanto mais transparente se torna o indivíduo - que já é perfeitamente esquadrinhável no espaço, uma vez que sua
235

trajetória pode ser perfeitamente capturada. A nanotecnologia, contudo, abre perspectivas absolutamente novas, de tal modo que os delírios de poder possam, finalmente, anexar continentes completamente inexplorados. Bem a propósito, no mesmo dia do artigo citado mais acima, o jornal traz, em sua página de ciência, a informação de que o neurocientista Joel LeDoux conseguiu apagar a memória traumática de roedores. A droga, em teste, teria como campo possível de aplicação nos seres humanos o Transtorno de estresse pós-traumático. Obviamente, à parte de toda a discussão quanto à eficácia da droga em si, para fins psiquiátricos, permanece como questão essencial o fato de que os medicamentos se prestam a muito mais do que sanar doenças ou patologias. Do ponto de vista estatístico, por exemplo, quanto do Viagra é efetivamente utilizado para a disfunção erétil e quanto se presta a realizar os desejos de very high sexual perfornance? O lugar de destino da droga não é a patologia, mas a normalidade (estatística):
236

a extensão por meios químicos da fabricação de corpos dóceis, receptores apassivados das determinações de poder. Através dos fármacos edifica-se a absoluta subsunção do corpo à produtividade requerida pela ordem. O discurso manifesto da farmacologia e da biotecnologia, portanto, é a promoção da saúde e a longevidade; seu lugar de desejo, contudo, é a conversão do homem em autômato: corpo sobredeterminado pelo automatismo e receptáculo inerte das determinações de poder. A rigor, com os desenvolvimentos da engenharia genética e sua capacidade de manipular o código genético, o próprio corpo, em sua totalidade, converte-se em uma prótese. Pode ser engendrado, portanto, a partir de algo que lhe é exterior; um registro que transcende o corpo, encontrando-o, portanto, como receptor inerte de uma informação que está para além dele. Aquilo que a linguagem faz à palavra viva, em sua conversão a signos, ocorre agora ao corpo, como reivindicação de corporificação
237

daquela palavra violentada. O autômato está contido, como possibilidade, no cerne mesmo da cultura ocidental. É preciso considerar, contudo, na crítica desse personagem, que ele reúne em si desejo e terror; que há uma possibilidade distópica, mas, igualmente, elementos libertários de que se apropriar. Se no corpo como prótese está claramente formulado o projeto político, a engenharia de poder da ordem, deve-se conceber, então, os elementos de um projeto de resistência, em que esse corpo-prótese se eleve à condição de lugar de destino da emancipação humana. Trata-se de subverter a tentativa de construir o corpo de fora, como projeto de poder da ordem, para reinventá-lo de dentro, como estratégia de humanização do que parece natural. Grande parte do que entendemos como política diz respeito, na contemporaneidade, ao corpo humano e aos direitos que tem o homem de apropriar-se dele como elemento cultural e histórico, e não como registro biológico. O que se pretende chamar de ética refere-se mais propriamente ao modo como a
238

cidade concebe e constrói o corpo e, por meio dele, todas as relações que lhe são essenciais: o masculino e o feminino, a família, a identidade, a cópia e a série, a alteridade; o normal e o patológico; o cultural e o biológico. É preciso formular um projeto político libertário, resistente e de resistência, para fazer face ao desenvolvimento que leva do corpo biológico, ao corpo como prótese, que é essencialmente cultural.
Portal G1 8/11/2007 - 08h10 - Atualizado em 18/11/2007 - 08h59

Um quarto dos jovens se droga com remédio no Brasil
Medicamentos vendidos em farmácia são usados como estimulantes. Lideram a lista os solventes, seguidos de benzodiazepínicos e orexígenos. Marcelo, de 27 anos, mora com os pais e com o irmão mais novo, trabalha o dia inteiro, tem diploma universitário, namora sério, pratica esportes, faz planos para fazer uma pós-graduação no exterior e sai para a balada com amigos quase toda noite. Ele se considera um jovem "responsa". Mas, ainda assim, precisa de ajuda química para dar conta da rotina
239

pesada. "Maconha fumo eventualmente, mas não gosto muito. Prefiro o estimulante", conta. "Não deixa cheiro, não dá bandeira em casa. Pode sair com ele na rua que a polícia não pega. E não deixa doidão. Você não corre o risco de pegar uma gorda achando que a mina é gata." Marcelo pegou a dica do estimulante, do tipo anfepramona, na academia onde malha. Nas farmácias, uma caixa com 20 comprimidos custa, em média, R$ 17. Para conseguir comprar o remédio de tarja preta, ele pede a receita a um amigo médico. No começo da happy hour, Marcelo toma o remédio. Fica inteiro por toda a madrugada. No dia seguinte, volta a tomar para agüentar o treino na academia. "Parei porque com o passar do tempo você precisa aumentar a dose. Cheguei a tomar cinco de uma vez. Depois, quando o cansaço acumulado bate, você fica derrubado." Geração Prescrição

Nos Estados Unidos, jovens como Marcelo, que usam medicamentos que "dão barato", ganharam um apelido: Geração Prescrição. E preocupam as autoridades. Pesquisa do Centro de Estudos sobre Drogas da Universidade de Columbia mostra que um em cada cinco jovens de 12 a 17 anos já usou medicamentos para fins recreativos. No Brasil, os índices são igualmente alarmantes e ainda pouco discutidos entre estudiosos e autoridades. O Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas no Brasil, feito pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), que entrevistou 7.939 pessoas em 108 cidades em 2005, apontou que 24,3% já usaram remédios vendidos em farmácias para fins recreativos. Lideram a lista os solventes (como éter e clorofórmio), seguidos de benzodiazepínicos (ansiolíticos) e orexígenos (remédios para aumentar apetite que são estimulantes) - sendo também mencionados xaropes à base de codeína, opiáceos, esteróides, barbitúricos e anticolinérgicos.

Índice surpreendente

O índice é ainda mais surpreendente por ficar bem acima do número verificado entre pessoas que consumiram drogas ilícitas. Disseram já ter usado maconha, cocaína, alucinógenos, crack, merla e heroína cerca de
240

14% dos entrevistados. "Em ambos os casos, o jovem está atrás do barato, de uma alteração mental que o ajude a fugir da realidade. Mas apenas drogas ilegais ganham atenção do sistema policial, o que é um erro", alerta Elisaldo Carlini, professor de Psicofarmacologia da Universidade Federal de São Paulo e um dos coordenadores do Cebrid. O secretário nacional antidrogas, general Paulo de Miranda Uchôa, afirma que o governo tem ciência dessa realidade envolvendo o elevado consumo de medicamentos. "Estamos tomando medidas para aumentar o controle sobre as prescrições e a venda desses medicamentos nas farmácias. Mas o mais importante são os municípios ativarem conselhos antidrogas para alertar os jovens sobre os riscos que eles correm." As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

***
Domingo, 18 de Novembro de 2007 | Versão Impressa

Receitas são vendidas livremente
Por R$ 70, reportagem comprou duas no centro, já preenchidas e com carimbo falsificado de médica Rodrigo Brancatelli A dificuldade em conseguir um remédio de tarja preta reside apenas em uma nota de R$ 50 e nada mais do que 15 minutos de espera. No centro de São Paulo, os populares homens-placa também conhecidos como sanduíches ou plaqueiros - não só compram ouro e celulares como também negociam receitas médicas para todo e qualquer tipo de medicamento, sem nenhum tipo de controle. "Eu posso preencher para você com o nome do remédio, ou você mesmo escreve antes de ir na farmácia", ensina Francisco, homem-placa que trabalha no cruzamento da Rua 24 de Maio
241

com a Dom José de Barros. Além do receituário, ele também oferece comprimidos de ecstasy por R$ 15. "Faz uma letra bem esquisita na receita que ninguém repara." Francisco, um homem mulato bem magro que está sempre no mesmo ponto da 24 de Maio, não é o único que negocia receituário médico. Enquanto ele oferece seus préstimos sem nenhuma cerimônia, outros plaqueiros chegam e mostram papéis brancos e azuis. "Tá vendo esse aqui? Dá pra comprar um monte de remédios proibidos", diz um homem-placa baixinho, que aparenta ter mais de 60 anos, com uma jaqueta preta que esconde dezenas de receitas médicas. "É para você ou para alguém da sua família? Vai por mim, não tem erro, é só levar e comprar o que você quiser." LOGO DA PREFEITURA É possível até pechinchar o preço. Começa com R$ 50, mas alguns vendedores oferecem "descontos" na compra de mais receitas. A reportagem do Estado comprou duas por R$ 70, já preenchidas pelo plaqueiro com o carimbo de uma médica registrada no Conselho Regional de Medicina (CRM). Com elas, seria possível comprar seis caixas, ou 40 comprimidos, de estimulante em qualquer farmácia - a própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) assume que é praticamente impossível para o farmacêutico ter controle sobre as receitas roubadas ou falsificadas. A Assessoria de Imprensa do CRM afirma que os carimbos são todos falsificados, feitos sem conhecimento dos médicos. Para se ter idéia da facilidade, como não há lei que regulamente a fabricação e a venda de carimbos para médicos ou mesmo para juízes, é possível mandar fazer um com o nome de qualquer pessoa por até R$ 10, no próprio centro da cidade. Uma das receitas médicas compradas exibe até mesmo o logotipo da Prefeitura de São Paulo, com o cabeçalho da "Autarquia Hospitalar Municipal Regional Leste - Departamento Hospitalar
242

Municipal Prof. Dr. Alípio Correa Netto". Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou por meio de nota que "o formulário de receitas apresentado não condiz com os padrões do Hospital Alípio Correia Netto, sendo que, entre outros pontos, o logo não confere com o adotado pela instituição. Esses pontos sugerem que o receituário foi alvo de uma falsificação grosseira. A direção do hospital verificou que não há desvio nos receituários impressos, pois os mesmos são objeto de controle permanente. O caso foi comunicado à polícia com a abertura de boletim de ocorrência, para que seja devidamente apurado. A SMS sugere que todos os cidadãos que testemunhem esse tipo de comércio ou identifiquem documentos falsos façam o mesmo. A denúncia da irregularidade inibirá a transgressão, levará à punição dos culpados e livrará a cidade de fraudes que têm como alvo a saúde e o bem-estar".

FRASES Francisco Plaqueiro "Posso preencher pra você com o nome do remédio, ou você mesmo escreve antes de ir na farmácia. Faz uma letra bem esquisita na receita que ninguém repara" Secretaria da Saúde "O caso foi comunicado à polícia com a abertura de boletim de ocorrência, para que seja devidamente apurado" ***
Domingo, 18 de Novembro de 2007 | Versão Impressa

243

Na balada, drinque já vem com o remédio
Para médico, uso de medicamentos virou problema de saúde pública Em baladas, jogos universitários e até mesmo micaretas, é possível encontrar um pouco de tudo. Adolescentes que tomam remédios prescritos para crianças hiperativas com o intuito de ficaram mais ligados, outros que misturam xarope para tosse com cerveja para ficarem bêbados mais rápido e mesmo quem abuse de remédios para mal de Parkinson em busca de alucinações típicas do LSD. É possível até já pedir o drinque com remédio moído em algumas festas de faculdade, principalmente nas de Medicina. "Tem muita gente que toma para estudar, para aumentar o rendimento e conseguir ficar horas lendo", diz uma estudante do último ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. "Nas festas, também dá para pedir a bebida ?batizada? já, com um pouco de anfetamina. É uma coisa até normal, ninguém acha que está se drogando de verdade." Para o médico Ronaldo Laranjeiras, diretor da Unidade de Drogas e Álcool da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso de medicamentos para fins recreativos já está virando problema de saúde pública. "De fato é mais sério do que aparece nos jornais", diz. "Hoje, não há psiquiatra que não trate de jovens com problemas de abuso de medicamentos vendidos nas farmácias." A professora
244

Solange Nappo, médica da Unifesp e pesquisadora do Cebrid, aponta a facilidade na obtenção da droga e a sensação de segurança no uso dos medicamentos produzidos por grandes multinacionais como uma das principais razões do fenômeno. Segundo Solange, o ice, uma droga feita à base de meta-anfetamina, sintetizada a partir de produtos comprados em farmácias, que pode ser cheirada, injetada e fumada, é atualmente uma das drogas que mais cresce e assusta as autoridades americanas. "O boom começou há cerca de cinco anos e a moda não chegou ao Brasil. Mas é preciso ficar atento, já que outras drogas como crack e ecstasy demoraram cerca de dez anos até chegar por aqui." POLÍTICA O secretário Nacional Antidrogas, general Paulo de Miranda Uchôa, afirma que o governo tem ciência dessa realidade envolvendo o elevado consumo de medicamentos. Prova disso, ele diz, é que a política antidrogas passou a ser chamada de política sobre drogas. "Estamos tomando medidas para aumentar o controle sobre as prescrições e a venda desses medicamentos nas farmácias. Mas o mais importante são os municípios ativarem conselhos antidrogas para alertar os jovens sobre os riscos que eles correm". BRUNO PAES MANSO e RODRIGO BRANCATELLI FRASES Ronaldo Laranjeiras

245

Psiquiatra "Hoje, não há psiquiatra que não trate de jovens com problemas de abuso de medicamentos vendidos nas farmácias" Solange Nappo Pesquisadora do Cebrid

"O boom (do ice) começou há cerca de cinco anos e a moda não chegou ao Brasil. Mas é preciso ficar atento, já que outras drogas como crack e ecstasy demoraram cerca de dez anos"
***

Ilusões e desacertos da era Prozac
Vinte anos depois de lançado o remédio, livros discutem como as farmacêuticas transformaram qualquer pequena tristeza em depressão Frederick C. Crews No verão de 2002, Oprah Winfrey recebeu em seu programa a visita de Ricky Williams, estrela máxima do time de futebol americano Miami Dolphins. Williams estava lá para confessar que sofria de uma timidez
246

dolorosa e crônica. Oprah e seu público reagiram com simpatia. Se ele, que em campo foi tudo menos tímido, na vida particular era um bicho do mato. Quantos outros cidadãos anônimos não diriam o mesmo se conseguissem vencer suas inibições o suficiente para confessá-las? Expor a própria timidez àquele público imenso, é razoável supor, era prova uma certa segurança a respeito de si mesmo. Mas quem acompanha o futebol americano sabia que Williams não era um sujeito volúvel. E lá estava ele perante as câmeras, obviamente arriscando-se a um ataque de ansiedade, e tudo em nome do bem comum: encorajar aqueles que sofrem do mesmo mal a saírem do armário, buscar apoio e expressar a esperança de que a cura está para ser descoberta. Pouco do que vemos na televisão é o que parece. Williams tinha um incentivo - aquele habitual nos EUA, o dinheiro para vencer sua timidez extrema naquele momento. A companhia farmacêutica GlaxoSmithKline, através de sua empresa de relações públicas, Cohn & Wolfe, o pagou uma soma ainda não revelada não para incentivar o uso do anti-depressivo Paxil (no Brasil, Aropax, do mesmo laboratório) mas para declarar, a Oprah e à imprensa, „que sempre fui muito tímido‟. Para compreender por que a idéia pareceu boa, é preciso antes saber que a maior parte do lucro da indústria farmacêutica depende de uns poucos remédios para os quais sempre se busca novos usos. Se tais novos usos não surgem por meio de experimentos, recorre-se à publicidade de certos males - ou seja, a convencer as massas de que alguns de seus estados de ânimo são, na verdade, doenças que requerem tratamento. O objetivo é
247

criar demanda espontânea pela cura milagrosa que a empresa pode oferecer. Nesse caso, a Cohn & Wolfe estava usando um atleta para ajudar a criar a crença de que a timidez, um traço comum que algumas sociedades até associam a boas maneiras e virtude, é na verdade uma doença lamentavelmente negligenciada. Dada a aura altruística da ocasião, teria parecido de mau gosto fazer Ricky Williams exibir um frasco de Paxil no local. Mas, posteriormente (antes de ele ser suspenso da liga de futebol por ingerir drogas muito diferentes), um comunicado da GlaxoSmithKline pôs seu nome embaixo desta declaração: “Como alguém que vem sofrendo de um distúrbio de ansiedade social, fico feliz por existirem hoje novas opções de tratamento, como Paxil.” A maioria de nós ingenuamente considera tanto os distúrbios mentais como os físicos realidades eternas que nossos médicos diagnosticam conforme as últimas pesquisas, empregando remédios cuja propriedade e segurança foram testadas e aprovadas por um governo vigilante. Aqui, porém, captamos um vislumbre de um mundo diferente no qual as convicções, necessidades percebidas e escolhas sobre saúde são fabricadas com os produtos que combinarão com elas. As grandes companhias farmacêuticas gastam por ano no mundo cerca de US$ 25 bilhões em marketing e empregam mais lobistas em Washington do que há deputados. Seu poder em relação a todas as forças que poderiam se opor a sua vontade é tão desproporcionalmente grande que elas podem ditar como devem ser (levemente) reguladas, formular boa parte da
248

agenda da pesquisa médica, inclinar as descobertas a seu favor, ocultar dados incriminadores, cooptar críticos potenciais e colonizar insidiosamente tanto as mentes dos médicos como as nossas. Se ouvimos, por exemplo, que o mundo está sendo tomado ultimamente por uma epidemia de depressão e ansiedade sem precedentes, não tendemos a perguntar de quem é o interesse por trás dessa informação. Em seu cuidadoso estudo The Loss of Sadness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder (A Perda da Tristeza: como a Psiquiatria Transformou um Sofrimento Normal em Distúrbio Depressivo), Allan V. Horwitz e Jerome C. Wakefield citam a projeção da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que, até 2020, a depressão se tornará a segunda principal doença em escala mundial, atrás apenas de doenças cardíacas, e já é a principal causa isolada de incapacidade de pessoas na meia-idade e mulheres de todas as idades. Horwitz e Wakefield argumentam que esses julgamentos repousam na incapacidade de distinguir corretamente entre uma grande depressão, que é de fato devastadora, e episódios menores de tristeza. Se for isso, a OMS parece ter comprado o discurso da indústria. Não quer dizer que as pessoas que sofrem depressões menores e pouco freqüentes, sem uma disfunção prolongada, não estejam doentes o bastante para merecer tratamento. Merecem. Mas, como o relato pessoal é a única maneira pela qual problemas mentais não-psicóticos vêm à luz, uma onda de pânico induzido pode inflar violentamente os números. Os publicitários de companhias farmacêuticas certamente não poderiam exercer seus truques de formação de
249

consciências de maneira tão frutífera sem uma predisposição da população para lutar pelo aprimoramento pessoal usando qualquer meio legal disponível. (Não foram a GlaxoSmithKline nem a Cohn & Wolfe que inventaram o programa de Oprah Winfrey.) No último meio século, primeiro com tranqüilizantes como Miltown e Valium e, mais recentemente, com os “inibidores seletivos de captação de serotonina” (SSRIs), os americanos não precisaram de muito estímulo para acreditar que um medicamento pudesse resolver seus problemas sociais e lhes proporcionar uma personalidade melhor do que a que lhes foi conferida por um destino insensível. As esperanças com Valium e seus primos logo se perderam. Serviam de calmante, mas ao custo de confusão mental e dependência. Nos anos 90, porém, os SSRIs Prozac, Zoloft, Paxil, Luvox e Efexor pareceram muito diferentes, deixando o consumidor alerta e fazendo muitos usuários se sentirem como se houvesse dentro deles um ser melhor aflorando. Peter Kramer, sem intenção de ironia, chamou esse fenômeno de “psicofarmacologia cosmética”, e seu best-seller Listening to Prozac (Ouvindo Prozac, 1993) engrossou uma onda de utopia que superou as projeções mais otimistas das farmacêuticas. Mesmo Kramer, porém, sentiu-se obrigado a mencionar alguns efeitos perturbadores dp Prozac que já estavam se evidenciando: tremores incontroláveis, diminuição da capacidade sexual, uma tolerância crescente que estava levando a doses mais altas e potencialmente nocivas e tendências autodestrutivas que surgiam nas primeiras semanas de tratamento. Mas, como os leitores de Kramer estavam pesando os riscos não contra um discreto
250

benefício médico, mas contra a perspectiva de se tornar por fim uma pessoa sociável e segura, essas precauções foram desconsideradas. Os fabricantes de antidepressivos exploraram nossa credulidade, ofuscaram riscos conhecidos e trataram com desdém as vítimas de sua irresponsabilidade. Essa história precisa ser amplamente conhecida porque os mesmos métodos ameaçadores serão certamente utilizados de novo tão logo a próxima família de drogas glamourosas entre em produção. Daí a importância do eletrizante relato em primeira mão de David Healy sobre as guerras dos SSRIs, Let them Eat Prozac: the Unhealthy Relationship Between the Pharmaceutical Industry and Depression (Eles que Comam Prozac: a Relação Insalubre entre a Indústria Farmacêutica e a Depressão). Healy é um psiquiatra renomado, pesquisador e ex-secretário da Associação Britânica de Psicofarmacologia. Ele era consultado, realizava testes clínicos e, às vezes, até testemunhou a favor da maioria das grandes farmacêuticas. No entanto, quando quis respostas para perguntas incômodas sobre efeitos colaterais, sentiu pessoalmente o poder da indústria de cerrar fileiras contra quem cria caso. Healy não nega que os SSRIs possam ser eficazes contra distúrbios de ânimo e os prescreveu para seus pacientes . Como psicofarmacologista, porém, ele viu desde o começo que as companhias farmacêuticas estavam impingindo o mito simplista de que a depressão supostamente é resultado direto da falta do neurotransmissor serotonina no cérebro. Nenhuma causalidade desse tipo foi estabelecida e a proposta não é
251

mais razoável do que alegar que dores de cabeça surgem da privação de aspirina. Os riscos, Healy percebeu, incluíam sintomas horríveis de privação, como tontura, ansiedade, pesadelos, náusea e agitação constante, que estavam assustando alguns usuários a ponto de eles temerem encerrar o tratamento. A principal vantagem proclamada das novas drogas de serotonina sobre tranqüilizantes anteriores, a libertação da dependência, era simplesmente falsa. Mais ainda, as companhias tinham de saber que estavam brincando perigosamente com a saúde pública. Quanto às semanas iniciais freqüentemente difíceis de tratamento, um registro incômodo não só de tendências autodestrutivas, mas de suicídios e homicídios reais estava ganhando corpo no início dos anos 90. Segundo Healy, as farmacêuticas estavam se esquivando dessas tragédias culpando a própria depressão pelos sérios efeitos colaterais. Folhetos para médicos e pacientes insistiam em que persistissem caso surgisse um tumulto emocional prematuro que só provava, diziam, o vigor com que o medicamento estava enfrentando a enfermidade. Da mesma forma, sintomas de dependência surgidos depois do fim do tratamento eram considerados evidência de que a depressão, por muito tempo abafada, estava ressurgindo. Há um livro que impõe limites às afirmações da indústria farmacêutica. É o Manual de Diagnóstico para Distúrbios Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, que atende pela sigla DSM. Já saíram quatro edições entre 1952 e 1994, e nelas foram especificados os problemas que a medicina considera autênticos. Os publicitários podem até convencer pessoas de que sofrem de algum
252

mal, mas este mal precisa antes ser listado no DSM para que um tratamento médico seja aprovado. Os autores de cada edição garantem que se uma desordem foi listada é porque sua descoberta é amparada por pesquisas científicas. Médicos, empresas de seguro-saúde, epidemiologistas e órgãos financiadores de pesquisa aceitam a afirmação sem discutir. Quem está familiarizado com cada uma das edições que o DSM sofreu e com todas as controvérsias que levantaram, no entanto, sugere que eles têm mais a ver com as modas do momento em que foram publicados e as disputas internas na Associação Americana de Psiquiatria do que com síndromes válidas. A natureza humana não mudou tanto assim desde 1952 para que centenas de doenças novas tivessem surgido. E, como para cada síndrome é oferecida uma lista de sintomas fácil de checar, como num jogo de Bingo se sugere que todo paciente que se adequar a cinco de nove critérios para depressão sofre da doença. Não é de surpreender que as farmacêuticas incentivem pessoas a fazerem seu próprio diagnóstico listando os critérios do DSM para que cobrem de seus médicos a correção por meio das pílulas oferecidas. Seria um erro terrível, porém, supor que os elaboradores do DSM tenham deliberadamente desviado o manual da psicoterapia humana para o reducionismo biológico e farmacêutico do tipo exemplificado na teoria da depressão causada por déficit de serotonina. É justamente essa suposição conspiratória que compromete o livro Shyness: How Normal Behavior Became a Sickness (Timidez: como um Comportamento Normal Vira Doença), de Christopher Lane, que começa plausivelmente como uma

253

exposição da campanha para as pessoas tímidas se verem como mentalmente doentes. Lane não é psiquiatra, é um crítico de literatura psicanalítica que se alinha com autoridades indiferentes ao empírico como Jacques Lacan. Como muitos outros freudianos, ele ainda está chocado com o DSM-III de 1980 - a edição que enviou as “neuroses” para o limbo, privilegiou relatos descritivos de distúrbios a relatos psicologicamente profundos e estabeleceu o procedimento da equivalência de sintomas para certificar um diagnóstico. Para Lane, a própria tentativa de esclarecer distúrbios segundo seus traços detectáveis constituiu um expurgo odioso de “quase um século de pensamento (psicanalítico)” e, com isso, uma reversão à “psiquiatria vitoriana”. Ele entende que todos que hesitem em endossar etiologias baseadas no conflito entre ego e superego são hostis à complexidade mental e, daí, à psicoterapia em geral. É essa sua acusação contra o DSM-III e o DSM-IV. Na verdade, porém, o manual nunca afirmou ou sugeriu uma preferência entre terapia oral e pílulas. Se o tivesse feito, dificilmente poderia ter servido de guia consensual para uma organização tão heterogênea como a Associação de Psiquiátrica Americana. Em The Loss of Sadness, Horwitz e Wakefield discutem a mesma mudança de direção de 1980 do DSM que deixa Christopher Lane furibundo. Como mostram os dois autores, as intenções dos líderes da APA no fim dos anos 70 não tinham nada a ver com promover drogas e tudo a ver com dar maior respeitabilidade científica ao campo psiquiátrico. A partir disso, o que se pretendia era dar ao DSM mais validade e confiabilidade por meio da
254

identificação mais precisa de distúrbios e fornecer meios de detecção que tornariam menos divergentes vários diagnósticos sobre o mesmo paciente. A argumentação de Horwitz e Wakefield é tão amena quanto a de Lane é melodramática. Como esses colaboradores mantêm um tom construtivo, erudito, e mostram absoluto domínio da literatura pertinente, serão ouvidos com respeito pelos psiquiatras. Mas esses leitores descobrirão que The Loss of Sadness resulta num desmantelamento implacável do DSM - de início, confinado a uma única inadequação, para desabrochar em seguida numa exposição de alto a baixo das arbitrariedades no manual. O núcleo do livro é uma demonstração de que a tristeza episódica sempre foi um meio socialmente aceito de se ajustar aos infortúnios e muito dessa capacidade se perde, tanto médica como culturalmente, quando a tristeza é interpretada erroneamente como um distúrbio depressivo. Entretanto, Robert L. Spitzert, principal arquiteto do DSM-III e bête noire de Christopher Lane, concede num prefácio generoso que o manual propagou essa verdadeira asneira quando não esclareceu a diferença entre estados de espírito provocados pelo ambiente - os de reação a estresses ou dificuldades - e estados disfuncionais que persistem muito depois de as causas do estresse terem arrefecido. Em nenhum sentido, porém, esse indiciamento pode ser confinado a apenas um distúrbio. The Loss of Sadness implica que quase toda queixa, se não for psicótica, poderá levar a um diagnóstico exagerado se fatores contextuais - familiares, culturais, relacionais, financeiros - não forem postos na balança.

255

Tudo isso seria maravilhoso se o cenário não fosse obscurecido pela própria análise sagaz de Horwitz e Wakefield do status quo e seus beneficiários. A frouxidão do DSM em separar insatisfações vagas de doenças reais é, em termos financeiros, bastante útil para muitos de seus seguidores e seus pacientes. Como produto de uma corporação cujos membros buscam a remuneração pelo tratamento de qualquer queixa que lhes seja trazida, o manual precisa ser propenso à medicação excessiva para que tanto médicos como pacientes possam ficar satisfeitos com os cuidados administrados. Como observam os próprios Horwitz e Wakefield: o DSM fornece critérios falhos...; o clínico, que não pode ser penalizado por aplicar critérios de diagnóstico do DSM oficialmente sancionados, classifica, deliberadamente ou não, alguns indivíduos normais como perturbados; e esses dois erros levam o paciente a receber o tratamento desejado, pelo qual o terapeuta é reembolsado. Que motivo teria a APA, como associação de profissionais, para acabar com esse arranjo? A preocupação admirável de Horwitz e Wakefield com a racionalidade científica nos aponta para um insight desconfortável da psiquiatria americana e seu papel em um sistema de saúde distante do racional. Esse sistema é muito sobrecarregado e é movido demais por considerações de lucro para atender às necessidades médicas da sociedade toda; mas, aos cidadãos possuidores de seguro pleno, quando se sentem de alguma forma mentalmente perturbados, não será negada medicação ou terapia, ou ambas. Nada mais se exige que alguma hipocrisia geral. Quanto à incapacidade de a psiquiatria estabelecer uma lista discreta de distúrbios que possa permanecer impermeável a modismos e manias, isso é um
256

embaraço somente para pensadores acadêmicos claros como esses dois autores. Para o tratamento psicológico burocratizado, e para a indústria farmacêutica que está agora profundamente enredada nele, a confusão tem sua utilidade e provavelmente persistirá.

***
São Paulo, domingo, 20 de julho de 2008

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice
Sean Ellis/Getty Images

De perto, ninguém é normal
EM ENTREVISTA À FOLHA, ADAM PHILLIPS ATACA A GLAMOURIZAÇÃO DA LOUCURA E SUA ASSOCIAÇÃO COM A ARTE E DIZ QUE AS PESSOAS PRECISAM RECONHECER QUE NÃO É POSSÍVEL SER FELIZ O TEMPO TODO

ERNANE GUIMARÃES NETO DA REDAÇÃO
257

Em um mundo onde o verso "de perto, ninguém é normal" é entoado cotidianamente, a busca pela sanidade mental soa como inútil. Mas o psicanalista britânico Adam Phillips defende essa "ficção que mantém nossas expectativas". O autor de "Louco para Ser Normal" (ed. Zahar, trad. Maria Luiza X. de A. Borges, 160 págs., R$ 34,90), ataca a glamourização da loucura, mas faz uma concessão: a cultura do "muito louco" teve o mérito de quebrar preconceitos contra os alienados, facilitando a discussão pragmática da questão. Para Phillips, que coordenou a recente edição das obras de Freud pela editora Penguin, o que se deve buscar não é a completa ausência de problemas, mas uma forma de lidar com eles -e isso inclui perceber outras idéias às vezes esquecidas, como a de que não podemos ser felizes o tempo todo. Leia abaixo trechos da entrevista, concedida à Folha por telefone, do Reino Unido. FOLHA - O que o levou a escrever "Louco para Ser Normal"? ADAM PHILLIPS - Eu o escrevi por uma razão simples. Sanidade é um assunto pelo qual a maioria das pessoas não se interessa. Contudo há um grupo muito interessado nela: as pessoas que foram loucas ou tiveram parentes loucos. Para os demais, sanidade é enfadonha; para esses, é um tema crucial. Outra coisa que me interessou foi o fato de que, na Inglaterra, o movimento antipsiquiátrico -pessoas como R.D. Laing e David Cooper- esmoreceu muito rapidamente. Quando estudei, 30, 25 anos atrás, essas pessoas eram interessantes, iluminadoras. Dez anos anos depois, não se falava mais nelas. E achei que tinham coisas interessantes a dizer.
258

Portanto foi uma combinação, na medida em que a idéia de sanidade ainda pode ser importante, mas o significado da palavra está morrendo. FOLHA - Loucura está na moda? PHILLIPS - Não. Foi moda, mas foi má idéia fazer dela uma moda. O problema foi que, para as pessoas levarem a insanidade a sério, ela teve de ser glamourizada. Foi transformada numa aventura. Atualmente, para a maioria, é o oposto: miséria profunda, beco sem saída, sem nada de engraçado. As pessoas que a tornaram moda foram responsáveis por duas coisas importantes. Os chamados "loucos" passaram a ser pessoas a ouvirmos, com coisas importantes a dizer - não são apenas gente que assusta. Outra coisa: pessoas que parecem ser normais podem ser mais loucas que os loucos. FOLHA - Sanidade é um mito? PHILLIPS - Não um mito, mas uma ficção que mantém nossas expectativas. É uma história ou descrição de estados mentais e modos de ser dos quais podemos ser capazes. É um estado da mente, por exemplo, em que as pessoas não perturbam demasiado umas às outras. FOLHA - Há uma tradição que trata artistas como "gênios loucos". Isso faz sentido? PHILLIPS - Houve a idéia romântica segundo a qual, para ser artista, é preciso ser louco -o que não me parece verdade. O que é verdade é que algumas pessoas que foram artistas foram também pessoas perturbadas e, a partir de seus distúrbios, criaram arte.

259

Assim, uma das razões para a glamourização da loucura é a associação com os artistas -"deve ser uma coisa boa, já que tantos artistas são bons". Mas muito da loucura não é criativa, e sim anticriativa. FOLHA - Pessoas sãs podem ser "legais"? Procurar o equilíbrio é o oposto de ser interessante? PHILLIPS - Busquei, no livro, investigar se há uma versão atraente da sanidade -talvez não haja. Mas é possível que ainda não a tenhamos criado, pois a sanidade não é intrinsecamente sem graça. Mas também acho que precisamos deixar de lado a idéia de "equilíbrio". Sanidade tem muito mais a ver com a capacidade de conter conflitos do que resolvê-los.

FOLHA - Por que devemos, como o sr. diz no livro, nos concentrar na sanidade, e não na doença? Afinal, a sanidade é "invisível", é mais difícil defini-la... PHILLIPS - Entendo isso, mas quis mostrar que o problema da sanidade é ser invisível e que é o tipo de coisa dado como certo. Precisamos descobrir o que acontece quando articulamos nossas idéias de sanidade. Podemos precisar fazer isso para encontrar novas fontes de esperança. FOLHA - Conhece "Shyness" [Tmidez], de Christopher Lane? Ele diz que a indústria farmacêutica cria drogas para situações que não precisam de cura -como, segundo ele, a timidez. O sr. concorda? PHILLIPS - Conheço e concordo. A indústria farmacêutica tem sido um escândalo. Tem explorado as pessoas. Suas soluções são totalmente falsas. As pessoas
260

deveriam ter muito cuidado com a cultura da droga como solução para as dificuldades de estar vivo. FOLHA - Concorda que o DSM [manual de classificação de doenças mentais americano, referência mundial] abandonou a teoria freudiana em favor da bioquímica? PHILLIPS - Não o tenho estudado, mas parece que todo o etos cultural tem se movido em direção à tecnologia das drogas em detrimento das curas pela fala ("talking cures"). De muitas formas, isso pode ser algo necessário, para que, com o tempo, a cultura da droga mostre que falhou, de modo a voltarmos à curas pela fala. O que a psicanálise tem a oferecer é a idéia de que não podemos ser curados... Não se trata disso. FOLHA - De que se trata? PHILLIPS - De duas coisas: ser capaz de se atrever a encontrar maneiras de conviver e transformar a si próprio. É ser capaz de reconhecer o fato de que -para dizer cruamente- não podemos ser felizes o tempo todo. Qualquer um que esteja completamente desperto sabe que a vida é extremamente difícil. Há uma frase em "Fim de Partida" [ed. Cosac Naify], de Samuel Beckett: "Você está na Terra; não há cura para isso". FOLHA - E tentamos conversar para aprender o que fazer em seguida? PHILLIPS - Sim, ou aprender os limites do que podemos fazer. A psicanálise mostra a você as coisas que não dá para mudar a seu respeito. FOLHA - Como traçamos os limites do normal? A timidez não é normal, por exemplo? PHILLIPS - Deveríamos esquecer se as coisas são normais ou não e começar a pensar em quais são seus propósitos. Qual é o propósito da timidez para um indivíduo? Não perguntaríamos se
261

é normal, se precisa ser curada, mas, sim: se tal pessoa é tímida, como ela está lidando com essa característica? FOLHA - Seria um ponto de vista funcional? PHILLIPS - Sim. Eu chamaria de visão psicanalítica pragmática. FOLHA - Sanidade necessariamente se opõe ao hedonismo dos tempos atuais? PHILLIPS - Como digo no capítulo "São Hoje", muito do hedonismo de hoje é uma forma de desespero, de desilusão. FOLHA - No fim do livro, o sr. trata do uso de palavras como "tentação" e "força de vontade". O que pensa sobre a publicidade usar palavras como "tentação" com o fim de vender produtos? PHILLIPS - Não gosto disso. Mas a educação precisa acompanhar o que acontece com a cultura. As pessoas deveriam aprender na escola como ler anúncios. FOLHA - Tivemos, por exemplo, picolés batizados com os nomes dos pecados capitais. PHILLIPS - Podemos pensar no que há de maravilhoso na inventividade disso tudo, mas também há a falta de objetivo. Não precisamos de sete sabores de picolé, por exemplo. Há algo nesse excesso que é uma forma de lidar com um sentimento de empobrecimento que na verdade muitos têm. FOLHA - Ainda sobre as formas de atender às necessidade psicológicas das pessoas, David Levy, em "Love and Sex with Robots" [Amor e Sexo com Robôs], diz que pessoas com dificuldades de sociabilidade poderão em breve comprar robôs para resolver seus problemas. Esse é um modo correto de procurar a sanidade? PHILLIPS - É ridículo. Absolutamente não é o que interessa, é mais problema do que solução.
262

A questão real é: como as pessoas se tornaram alienadas dos únicos recursos verdadeiros de que dispõem, isto é, um ao outro? Sociabilidade é a característica humana fundamental. FOLHA - Ele diria que os robôs poderão conversar com as pessoas, logo esse problema estaria resolvido. PHILLIPS - Há uma resposta pragmática para isso: robôs são bons para quem gosta de robôs. Nada contra gostar de robôs; tenho objeção à idéia de que isso seria uma solução para todo mundo.

FOLHA - Como identificar a tentativa de sanidade que "aprisiona" e diferenciá-la daquela que liberta? PHILLIPS - A primeira coisa é arriscar. Não podemos saber de antemão qual será. Mas sabemos, sim, se estamos sendo complacentes, quando fazemos algo porque sentimos que deveríamos, ao invés de ser nosso desejo genuíno. Sanidade, se é que vale alguma coisa, será algo na direção das coisas em que o indivíduo acredita realmente, nas quais está seu coração. FOLHA - Mas alguém poderia dizer "estou bem com esse sentimento, quero permanecer assim, mesmo que me chamem de psicopata". PHILLIPS - Algo é bom desde que não prejudique outras pessoas. FOLHA - A questão é política? PHILLIPS - Certo.

***
263

São Paulo, domingo, 20 de julho de 2008

Texto

Anterior

|

Próximo

Texto

|

Índice

Que vergonha...
CLINICALIZAÇÃO DE SENTIMENTOS COMO A TIMIDEZ BENEFICIA APENAS A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA, DIZ CHRISTOPHER LANE EM LIVRO LANÇADO NOS EUA; PARA ELE, CONSUMISMO E DESCRENÇA TAMBÉM CORREM O RISCO DE SEREM VISTOS COMO DOENÇAS DA REDAÇÃO Pensar antes de falar tornou-se coisa do século 19. A pressão por agilidade que a competitividade capitalista imprime sobre o homem no trabalho -e, por conseqüência, em todas as esferas de sua vida social- gerou novos conceitos de normalidade, sob os quais a timidez e a introspecção não têm lugar. Para a psiquiatria contemporânea, trata-se de transtornos mentais. Isso é o que defende o professor de literatura na Universidade Northwestern (EUA) Christopher Lane. Para ele o abandono da teoria freudiana, em meados do século 20, e o desenvolvimento do mercado de antidepressivos fizeram comportamentos até então vistos como comuns serem tratados como transtornos. Acostumamo-nos à idéia de que ninguém é normal, mas que medicamentos podem nos levar à sanidade. Lane, que estudou comparativamente a psicologia contida na literatura vitoriana e a ciência contemporânea em livros como "Hatred and Civility" (Ódio e Civilidade) e "The Burdens of
264

Intimacy" (Fardos da Intimidade), concentrou-se na evolução mais recente da classificação das doenças mentais para escrever seu novo livro, "Shyness" (Timidez, Yale University Press, 272 págs., US$ 27,50, R$ 45). Ele analisa o desenvolvimento do DSM, sigla para "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", classificação norte-americana usada como referência internacional para as ciências médicas. Lá, timidez é o "transtorno de ansiedade". Publicado desde 1952, o DSM já teve quatro versões, com cada vez mais categorias. Para Lane, a versão de número cinco deve conter doenças novas, como "consumismo excessivo", o que representa um risco em sociedades marcadas pela automedicação e, segundo ele, pelo pacto entre cientistas e indústria farmacêutica. "Nos últimos anos, pesquisadores chegaram a se recusar a publicar pesquisas porque tinham resultados negativos para a indústria. É um sério conflito de interesses." (EGN) FOLHA - Como define a timidez? CHRISTOPHER LANE - Eu a definiria como uma forma de consciência de si, às vezes excessiva, que pode resultar em hesitação, atitude estranha e embaraço. É um traço psicológico bem difundido, existindo em cerca de 50% da população. Não é um transtorno psiquiátrico. A timidez tende a variar enormemente de acordo com o temperamento, a idade e a situação -pessoas gregárias podem ficar tímidas no primeiro encontro com estranhos, e crianças e adolescentes podem se tornar tímidas em idades de mais autoconsciência. FOLHA - Resumindo a tese de seu livro: os psiquiatras abandonaram Freud e tomaram nada mais que o DSM em seu lugar para explicar as doenças mentais?
265

LANE - É algo nesse sentido. Tento contar um pouco a história da ansiedade e como pensamos nela. Até 1980, o DSM usava linguagem psicanalítica sobre ansiedade. Usava-se a expressão "neurose de ansiedade". Os americanos estavam insatisfeitos com o uso da linguagem psicanalítica, apesar de ela continuar em uso na Europa e em países como Brasil e Argentina. Houve nos EUA um guinada em direção à biomedicina e à neuropsiquiatria, portanto tentou-se definir ansiedade em termos puramente biológicos. É claro que há componentes biológicos: palpitação, suor nas mãos, falta de ar. Descrevo a saída da abordagem psicológica em favor da biomédica, o que levou à conseqüência de que a solução passou a ser o remédio, ao invés de alguma mudança de consciência ou percepção. Hoje temos muitas indicações sobre os efeitos colaterais e os problemas quando alguém tenta diminuir a dose, como mudanças súbitas de humor ou pensamento suicida. Quando Peter Kramer escreveu "Ouvindo o Prozac" [ed. Record], ele pensava nas transformações na sociedade de uma maneira totalmente benigna -escreveu antes de muitas descobertas negativas sobre essa droga. Hoje, escritores e cineastas são mais conscientes dos riscos das drogas, de que pessoas podem considerar, como parte de suas identidades, tais doenças e as drogas a elas associadas. FOLHA - Mas na cultura pop persistem piadas ingênuas do tipo "está na hora de tomar seu Prozac"... LANE - É porque a indústria foi muito eficiente em limitar a publicidade dos efeitos colaterais dessas drogas. Como são elas que bancam a maioria das pesquisas, são brilhantes em ocultar resultados.
266

As pessoas acham que vão resolver com drogas problemas que, em 80% dos casos, o placebo resolve com a mesma eficácia. E as drogas têm efeitos colaterais.

FOLHA - Essa atitude do consumidor reflete a mudança cultural que recomenda a postura agressiva do mundo dos negócios? LANE - É a pressão para ser extrovertido. Há menos ênfase em introspecção, reflexão, escutar e absorver informações. Como resultado, a idéia de "normal" mudou muito e se estreitou demais. O ideal de extroversão torna-se uma exigência. E quem não é extrovertido se sente estranho, carente de alguma cura. A indústria deveria aliviar o sofrimento, mas gera um novo sofrer. FOLHA - O sr. conta a história de sua mãe, que, quando criança, imitava um cavalo quando alguém lhe dirigia a palavra. E escreve que seus avós, como muitos pais fariam, esperaram "pacientemente" que ela aprendesse a se relacionar. Vivemos uma cultura da impaciência? LANE - Sim. Nossa expectativa sobre outras pessoas e sobre o que a vida oferece se apressou, Há pressão para competir e produzir, e isso tem alto custo em instabilidade para as pessoas. Por isso, não digo que a ansiedade seja um mito. FOLHA - A depressão recebeu por parte da indústria o mesmo tratamento que a ansiedade? LANE - A depressão tem uma história mais longa, mas recebeu um tratamento semelhante, pois a psicologia ficou de lado em favor da questão de quantidade de substâncias no organismo. FOLHA - E como a mudança cultural afetou o tratamento dado à depressão? LANE - Há livros muito bons, como "The Loss of Sadness" [A Perda da Tristeza, de Allan V. Horwitz e Jerome C. Wakefield], que documentam como o DSM simplificou demais a
267

depressão, especialmente o transtorno bipolar. A publicidade transformou "bipolar" em um termo do dia-a-dia. Os psiquiatras têm uma concepção estreita de normalidade, portanto criam novas doenças, como aquela para quem briga no trânsito, por exemplo [distúrbio de explosão intermitente]. Não digo que seja normal, mas daí a criarem um transtorno específico mostra aquilo que eles aceitam como emoções humanas. FOLHA - O sr. estudou em "Ódio e Civilidade" o comportamento anti-social. A misantropia virou doença? LANE - É uma ação política classificá-la como doença. No século 19, os misantropos eram valorizados por serem pessoas críticas da sociedade. FOLHA Que está estudando no momento? LANE - Estudando "passive-aggressive disorder" [transtorno passivo-agressivo]. É interessante notar que a linguagem usada no DSM de 1952 vem do jargão militar, de memorandos da Segunda Guerra. Médicos estavam preocupados porque alguns soldados não seguiam ordens, chamando isso de comportamento passivo-agressivo. Esses dados foram trabalhados e foi criado o transtorno de personalidade com esse nome. Em 1980, esse rótulo foi usado para descrever sintomas nestes termos: "Pessoas que têm preguiça, que não querem fazer compras ou lavar a roupa". É uma transformação incrível. Estou também escrevendo sobre a história da descrença, chamada "Failing Gods" [Deuses que Falham]. FOLHA - A descrença logo vai virar doença? LANE - Espero que não, é um fenômeno extremamente útil. Mas há grande chance de que o consumismo ou a descrença logo sejam rotulados como transtornos mentais, o que seria alarmante. A dúvida é um estado da mente que seria bom reviver. No século 19, os vitorianos escreviam muito sobre a dúvida:
268

religiosa, científica, social, filosófica, legal. Hoje há a necessidade de revivê-la. Podemos conceber o fundamentalismo como o pensamento que não admite dúvida, o que é perigoso porque o mundo é cheio de incerteza. Não aceitá-la produz comportamentos extremos, como as pessoas não mais tolerarem umas às outras. É um problema generalizado fundamentalismo cristão nos EUA. veja, por exemplo, o

FOLHA - As crianças precisam da timidez assim como da dúvida? LANE - Não digo que precisam, mas não devem se sentir doentes por a sentirem. As pessoas têm excentricidades, isso é parte da humanidade. As pessoas são mais felizes quando podem se expressar como são. Um psiquiatra que não tolera as diferenças é arrogante.

***

Terapia com DNA já pode virar doping
(Folha de São Paulo, 03 de agosto de 2008) Existem técnicas de alteração de genes relativamente simples, mas que não tiveram segurança testada, diz cientista Agência antidoping diz que, na prática, risco de método estrear em Pequim é nulo, mas trapaça genética está proibida por antecipação EDUARDO GERAQUE
269

DA REPORTAGEM LOCAL Se a chegada do chamado doping genético (uso de terapias genéticas para ganhar força, resistência e velocidade) ao mundo real fosse comparada com o percurso de uma maratona, seria possível dizer que mais da metade do percurso já foi feito. Nos laboratórios do Brasil e do mundo, muitos estudos com terapia genética estão em curso (veja ilustração à direita). No país, segundo a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) existem pelo menos 50 projetos em humanos. Todos focando doenças, como o diabetes, a anemia falciforme ou problemas cardíacos. "A terapia genética pode ser usada por atletas como doping genético", diz Renato Kalil, cientista do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul. "O plasmídeo [molécula circular dupla de DNA, que normalmente existe em bactérias e é usada para levar material genético direto ao tecido-alvo da terapia] que nós usamos para o caso do VEGF [proteína que promove crescimento de vasos sangüíneos] poderia ser usado por algum atleta enlouquecido por resultado". Seria "simples" aplicar a técnica, diz o cientistas, mas o risco é incalculável. A percepção do pesquisador gaúcho -e de outros cientistas envolvidos com o tema- indica que a linha de chegada para que a terapia genética migre dos laboratórios às pistas, quadras e piscinas está mais perto do que o ponto de largada. A Wada (Agência Mundial Antidoping, na sigla em inglês), instituição ligada ao COI (Comitê Olímpico Internacional) diz publicamente que o doping genético "real" é algo distante, mas já tomou medidas contra o futuro problema. Por via das dúvidas, a prática está inserida na lista de proibições que o órgão fez para a Olimpíada de Pequim, que começa na manhã da próxima sexta-feira no Brasil. A entidade veta o doping genético, definido como "uso não terapêutico de células, genes, elementos genéticos ou a
270

modulação da expressão genética, que tenha a capacidade de aumentar o desempenho atlético". Esse texto consta do código mundial da Wada desde 2004. O ato de proibir -que alguns humanistas criticam, porque as vantagens físicas podem ser determinadas naturalmente pelos genes de uma pessoa- não é a única medida tomada até agora. Existem 21 projetos de pesquisa em todo o mundo, financiados pela Wada, que têm um objetivo único: desenvolver métodos eficientes para que as mudanças genéticas em seres humanos possam ser flagradas. No total, em 2008, US$ 7,8 milhões foram injetados em pesquisas -aproximadamente 25% do total gasto com estudos antidoping na agência. O médico brasileiro Eduardo De Rose, da Wada, diz que não espera flagrar o doping genético agora. Se ele ocorrer, porém, há ainda alguma esperança de descobri-lo. "A violação dessa regra antidoping poderá ser vista por outros tipos de prova, como o testemunho do atleta ou mesmo de sua equipe." De acordo com Guilherme Artioli, ligado à Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo, não é possível afirmar que ninguém tenha feito o doping genético. Segundo ele, provavelmente em uma década, o primeiro caso dessa história deverá ser anunciado, mesmo porque as técnicas para flagrar isso serão mais precisas. Conhecedor do comportamento de atletas, o pesquisador não hesita em dizer: "Ninguém dúvida que eles sejam loucos o suficiente". Artioli é o autor de um dos raros artigos científicos sobre o tema em português. "Por enquanto, [o que temos] são suposições baseadas no conhecimento bioquímico. Isso é muito diferente de uma terapia e mais ainda de uma aplicação como doping", afirma Francisco Radler, coordenador do Laboratório de Controle de Dopagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro, única instituição do país credenciada pela Wada. "A atitude proativa da agência internacional [em financiar
271

pesquisas] mostra que os atletas terão pouca margem de manobra quando pensarem em usar o doping genético."
São Paulo, domingo, 03 de agosto de 2008

Droga ilícita tenta imitar substância natural
Valentin Flauraud-28.jul.2008/Reuters Sangue para exame antidoping coletado em laboratório suíço DA REPORTAGEM LOCAL De um lado, os laboratórios estão cada vez mais equipados. De outro, como ocorreu na recente Volta da França, todo atleta que parte em definitivo para o caminho do doping quer uma substância que imite totalmente a natureza humana. "A terceira geração de EPO [eritropoetina, substância que faz aumentar a produção de glóbulos vermelhos], aparentemente, surgiu nesta Volta da França", afirma Eduardo De Rose, único brasileiro na WADA (Agência Mundial Antidoping, na sigla em inglês). O fato de a substância ter sido flagrada nos exames antidoping do ciclista italiano Riccardo Riccó pela primeira vez, explica o médico brasileiro, mostra que ainda existe uma diferença na estrutura molecular na droga ingerida pelo atleta. "Teoricamente, quando as duas substâncias forem totalmente iguais, na estrutura e no peso molecular, a
272

diferenciação não poderá mais ser feita". Mais uma vez, então, a ciência terá que correr atrás das novas práticas de doping. A primeira geração de EPOs foi flagrada -isso não significa que ela não tenha sido usada antes- nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ano em que a Wada foi criada pelo Comitê Olímpico Internacional. A segunda geração, um pouco mais moderna, foi detectada pela primeira vez nos Jogos de Inverno de Salt Lake City. A competição ocorreu há apenas dois anos, em 2006. Mas os casos de doping no mundo esportivo são registrados desde 1886, segundo artigo assinado por Francisco Radler, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Naquela Volta da França do século retrasado (a competição de ciclismo até hoje é sempre atrelada a vários casos de doping), um competidor, o ciclista inglês conhecido como Linton, morreu sob efeito de cocaína, heroína e estresse. Várias mortes por doping se sucederam até os primeiros controles antidoping da história. Eles ocorreram em 1968, nos jogos de Grenoble (inverno) e México (verão). (EG)

273

274

275

276

277

278

279

280

281

282

283

284

285

286

287

288

289

290

291

292

293

294

295

296

Onde o Rio é mais baiano
297

Onde o rio é mais baiano
Caetano Veloso Composição: Caetano Veloso

A Bahia, Estação primeira do Brasil Ao ver a Mangueira nela inteira se viu, Exibiu-se sua face verdadeira. Que alegria Não ter sido em vão que ela expediu As Ciatas pra trazerem o samba pra o Rio (Pois o mito surgiu dessa maneira). E agora estamos aqui Do outro lado do espelho Com o coração na mão Pensando em Jamelão no Rio Vermelho Todo ano, todo ano Na festa de Iemanjá Presente no dois de fevereiro Nós aqui e ele lá Isso é a confirmação de que a Mangueira É onde o Rio é mais baiano.
298

A vida doméstica é repartida, porosa e entremeada. O que distingue Nápoles de todas as grandes cidades é a afinidade com o Kral* dos hotentotes: cada atitude e desempenho privado é inundado por correntes da vida comunitária. O existir, para o nórdico o assunto mais privado, se torna aqui, como no Kral, objeto da coletividade. Por isso a casa é muito menos o asilo, no qual pessoas ingressam, do que o reservatório do qual afluem. Não apenas de portas irrompe a vida. Não apenas para os átrios, onde, sentadas em cadeiras, as pessoas executam seus afazeres (pois têm a faculdade de transformar o corpo em mesa). Lides domésticas pendem das sacadas como plantas em vasos. Das janelas dos andares mais altos vêm cestas em cordas para correio, couve. Do mesmo modo como o quarto retorna à rua com cadeiras, fogão e altar, a rua peregrina quarto adentro, só que com muito mais rumor. Mesmo o mais pobre dos quartos está tão repleto de velas, santos de argila, tufos de fotografia na parede e beliches de ferro, quanto a rua está de carretas, gente e luzes. A miséria efetuou uma extensão dos limites, que é o reflexo da mais radiante liberdade de espírito. Comer e dormir não têm hora, muitas vezes nem sequer lugar. Quanto mais pobre o bairro, tanto maior o número de tavernas. Quem pode, vai buscar aquilo de que precisa dos fogões em plena rua. Os mesmos pratos têm gosto diferente de acordo com o cozinheiro: nada é processado ao acaso, mas de acordo com receitas experimentadas. Como na vitrine da menor trattoria peixes e carnes se amontoam à frente do freguês que as avalia, aqui há uma nuança que ultrapassa as exigências do conhecedor. Para isso, no mercado de peixes, esse povo de marinheiros realizou o magnífico refúgio neerlandês. Estrelas-do-mar, caranguejos, polvos da água do golfo, onde formigam rebentos monstruosos, cobrem as bancadas e são freqüentemente engolidos crus com gostas de sumo de limão. Até os animais terrestres mais corriqueiros se tornam fantásticos. No quarto, quinto andar dessas habitações coletivas se criam vacas. Os animais nunca vêm
299

à rua, e seus cascos cresceram tanto que já não podem mais se erguer. Como seria possível dormir em tais aposentos? Sem dúvida, neles existem tantas camas quantas o espaço permita. Mas, mesmo que sejam seis ou sete, o que há de moradores freqüentemente é mais do que o dobro. Por isso ainda se vêem meninos na rua tarde da noite, à meia-noite e mesmo às duas da madrugada. Ao meio dia eles se deitam então atrás dos balcões de loja ou num degrau de escada. Esse sono, não importa como homens e mulheres o recuperem em cantos sombreados, não é, portanto, o sono protegido dos nórdicos. Aqui também há uma interpenetração do dia e da noite, do ruído e do silêncio, da luz de fora e da escuridão de dentro, da rua e do lar. Isso prossegue até nos brinquedos. Diluída e com as pálidas cores do Kindl** de Munique se acha a Madona nas paredes das casas. O menino que ela estende à sua frente como um cetro se encontra desse mesmo jeito, rígido, enfaixado, sem braço e sem perna, como um boneco de madeira nas lojas mais pobres de Santa Lúcia. Com essa peça os pirralhos podem bater onde queiram. Porém, o demônio da impudicícia penetrou muitos desses bonecos, que jazem nas vitrines entre papel de carta ordinário, pregadores de madeira e cordeirinhos de latão. Nos quarteirões superpovoados, mesmo as crianças travam rapidamente conhecimento com o sexo. Mas, se em algum lugar seu aumento se torna devastador, se morre um pai de família ou se adoece u‟a mãe, não vão carecer de um parente mais próximo ou mais afastado. Uma vizinha aceita à sua mesa uma criança por prazo curto ou longo, e desse modo as famílias se interpenetram em relações, que podiam se equiparar à adoção. Os cafés são verdadeiros laboratórios desse grande processo de interpenetração. Neles a vida não tem tempo de se estabelecer para se estagnar. São espaços aberto e insípidos, de gênero botequim de políticos, e os vienenses, de caráter aristocrático, restrito à burguesia, são a sua antítese. Cafés napolitanos são exíguos. É praticamente impossível uma permanência mais longa. Uma xícara de café fervente de caffé espresso – nas bebidas quentes esta cidade é tão insuperável como nos sorbets – despacha o
300

freguês com uma saudação. O cobre das mesas reluz; elas são pequenas e redondas, e um grupo de aspecto grosseiro já dá meia-volta, hesitante, na soleira. Apenas poucas pessoas conseguem montar assento aqui e por poucos instantes. Três gestos rápidos, e está feito o pedido. A pantomima é aqui mais usada do que em qualquer outra parte da Itália. Para o forasteiro, a conversa é insondável. Ouvidos, nariz, olhos, peito e ombros são postos de sinais ocupados pelos dedos. Essa divisão retorna e seu erotismo meticulosamente especializado. Gestos solícitos e toques impacientes são notados pelo estrangeiro com uma regularidade que exclui o acaso. Sim, aqui ele seria traído e vendido, mas o napolitano bonachão o despede. Manda-os alguns quilômetro mais à frente, para Mori. – Vedere Napoli e poi Mori. – Ver Nápoles e depois morrer, diz o alemão corroborando. (BENJAMIN, 1995, pp. 152 -155). (*) Kral: aldeia africana em forma de círculo, defendida por paliçada. (**) Refere-se ao Menino Jesus, em dialeto de Munique (N.T.) *** Talvez seja necessário aceitar que a vida é um acidente, às expensas de todas as tentativas de fundá-la sobre a necessidade. Essa percepção leva a uma tensão extrema a noção de que o existente tenha uma natureza arquitetural, bela e articulada. Abre o espaço, portanto, para a rua, para o contingente, que não sendo belo é sublime, nos arranjos improváveis e incidentais que produz. A recusa estética do belo, do harmônico, do objeto digno em favor daquilo que é mundano e vil, regular, ordinário, prosaico é uma opção política e, em grande medida, de crítica à sobrevivência do divino no secular. ***

301

“Uma das vantagens da palavra vulgar , na minha opinião, é que, do ponto de vista discursivo, ela aponta para duas direções: para o objeto em si, para algo de abjeto ou absurdo em sua constituição, algum sinal de infâmia, uma característica abominavelmente visual que o objeto nunca deixará de trair por mais que tente; e para a existência do objeto em determinado mundo social, para um conjunto de gostos e estilos de individualidade que ainda estão por definir, mas que de certo modo já estão ali, na palavra, mesmo antes de ser pronunciada.” CLARK, T J. In: SALSZTEIN, Sônia (org). Em defesa do expressionismo abstrato in Modernismos Trad. Vera Pereira, São Paulo, CosacNaify, 2006, p. 12 *** “… G. tem um mérito profundo que lhe é peculiar; desempenhou voluntariamente uma função que os outros artistas desdenharam e que cabia sobretudo a um homem do mundo preencher. Ele buscou por toda a parte a beleza passageira e fugaz da vida presente, o caráter daquilo que o leitor permitiu chamar de Modernidade.” (Charles Baudelaire) *** “Baudelaire aclamava o belo na bastardia das ruas porque era delas que o poeta retirava o supra-sumo da experiência[...] e porque a matéria mais sublime da arte só se revelaria a ele mediante a imersão desabusada no vulgar.” (Sonia Salztein) *** A janela guarda um caráter análogo ao olho, de tal forma que, aquele que sobre ela se debruça, a vislumbrar a cidade, vê duplamente: segundo sua própria vista, mas também a partir do ângulo de visão de um ser mítico - o interior.
302

Não podemos evitar deixar traços; investimos afetivamente os locais onde existimos, de tal modo que, ao fim, aquele lugar, matéria inerte, também adquire vida própria, identidade e alteridade. Ruim, mas bom de morar. Esse é o sentimento no Mercúrio Moradores ainda resistem à idéia de deixar o prédio (Estado de São Paulo, 29 de junho de 2008 ) Da janela do apartamento 224, no 22º andar do Edifício Mercúrio, no número 3.163 da Avenida do Estado, a enfermeira aposentada Maria Soares, de 85 anos, tem ao acordar a visão que a faz se “sentir viva”. Mineira que cresceu e morou até os 50 anos no Rio, a senhora de cabelos brancos diz estar “bem firme”. Ela pega metrô quase todos os dias para atuar como voluntária em projetos sociais ou simplesmente para ajudar amigas doentes. “Olha essa visão, a torre branca do Banespa, o Mercadão, o azul-esmeralda da Catedral da Sé, todos esses prédios em volta. Depois minhas filhas não sabem o motivo de eu preferir ficar sozinha aqui em São Paulo e não voltar para o Rio. Sou louca por essa cidade desde a primeira vez que estive aqui”, aponta a aposentada ao observar o skyline do centro velho, da janela de sua sala, no imóvel onde mora desde 1982. Pelo apartamento de 39 m², a Prefeitura ofereceu R$ 25 mil - a indenização vai de R$ 20 mil a R$ 30 mil. [...] Pelos corredores, há “gatos” para o fornecimento de luz em alguns apartamentos. Os vidros quebrados tornam as noites ainda mais frias. O único elevador, para quatro pessoas, até que funciona, mas é demorado. Alguns imóveis, contudo, estão ocupados apenas por mercadorias de camelôs da região da Rua 25 de Março. Depois das 20 horas, quase ninguém se arrisca a sair a pé do degradado edifício. “À noite, só tem mendigo e „nóia‟, até fantasma tem medo deste lugar”, brinca o metalúrgico Romeu Antunes, de 36 anos, inquilino há 5.
303

O gigante São Vito, fechado desde 2004, com 624 apartamentos em 27 andares, também é invadido nas madrugadas por pichadores e usuários de crack, segundo os vizinhos. Há 12 anos na portaria do Mercúrio, Aparecido Stocho, de 62, diz que nem os funcionários da Prefeitura que vão ao local sabem como notificar sobre a desapropriação. Morador da Freguesia do Ó, revela: “Tô fora de morar aqui. Gosto do centro só para trabalhar e passear.”

304

305

A linha desigual
Algumas coisas têm linha desigual:

as barracas populares
do Nordeste com seleções cromáticas,

desiguais: igual em Paulo Klee. Idem as cores do xadrezarlequim. O xadrez é a lógica As cores são a antilógica.
Há uma linha que atrai oculta na profusão cromática
306

como esse indecifrável nas mulheres

ou nos cascos das tartarugas

idem nas lajes antigas
nas rimas de Marianne Moore. Nas cantorias de pés quebrados

ouço
o fascínio símil da desigualdade

.
(LEITE, Sebastião Uchoa, 1986 apud GUIMARÃES, 2007, p. 188)
307

São Paulo, quinta-feira, 07 de agosto de 2008

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

CONTARDO CALLIGARIS

Homens grávidos
Um transexual mulher-para-homem se casa e engravida. Felicitações ou indignação?
TRACY LAGONDINO nasceu mulher, anatômica e juridicamente. Mas cresceu sofrendo, aprisionada num corpo com o qual não concordava, um corpo que desmentia sua certeza de ser homem. Para entender, pense na anoréxica que, magérrima, olha-se no espelho e acha sua carne revoltante, excessiva: "Esta carcaça não sou eu". Ou lembrese do começo de "A Metamorfose", de Kafka, quando Gregor Samsa descobre estar preso num corpo de barata. Dez anos atrás, aos 24, Tracy pediu para mudar de gênero. Removeu cirurgicamente seus seios e começou a tomar injeções bimensais de hormônio masculino. Sua voz e a forma de seu corpo mudaram. A barba cresceu. Claro, Tracy parou de menstruar, mas não se submeteu à operação que retiraria seus órgãos reprodutores e implantaria uma prótese parecida com o pênis. É uma decisão freqüente nas mudanças de gênero de mulher para homem, pois as próteses são imperfeitas, sobretudo no que diz respeito à função urinária. O fato é que Tracy sumiu e, no seu lugar, apareceu Thomas Beatie, juridicamente homem. Logo, Thomas se casou com Nancy, uma mulher. Eles quiseram ter filhos (obviamente, recorrendo ao esperma de um doador), mas Nancy, por razões médicas, tivera que retirar seu útero. Thomas, que havia guardado seus órgãos reprodutores femininos, suspendeu as injeções de hormônio masculino e voltou a menstruar. Ele, o
308

homem da família, fecundado artificialmente, engravidou na segunda tentativa e, há um mês, por parto normal, deu à luz uma menina, Susan. Tudo isso, sem cortar a barba. Nancy, à força de hormônios e bomba aspirante, consegue estimular sua lactação e amamentar Susan, ao menos em parte. Essa história não é única. Por exemplo, um casal de transexuais mulherpara-homem viveu uma experiência análoga, oito anos atrás. Mas isso foi em San Francisco (uma ilha de tolerância), enquanto Thomas e Nancy vivem no Oregon: eles encontraram uma resistência ferrenha. Um médico irritado disse a Thomas: "Ao menos, tire sua barba". Praticaram a primeira e fracassada fecundação artificial artesanalmente, com uma seringa veterinária. No site do "The Times" (www.timesonline.co.uk), a notícia recebeu uma enxurrada de comentários, num leque que vai das felicitações ("O bebê é lindo! Espero que consigam todos carregar o fardo de sua diferença com força e amor, rezo para que Deus proteja sua viagem") até a indignação absoluta: "Isso é doente. O que vocês fazem com essa pobre menina é errado... Onde chegou nosso mundo?... Deveria haver leis contra isso". De fato, até pouco tempo atrás, havia leis contra isso. Hoje, ao contrário, inclusive no Brasil, há leis para amparar e permitir a vida e o desejo de quem sofre de uma discordância dolorosa entre seu sentimento de identidade e seu corpo. Especialistas em transtornos de gênero comentaram sobriamente. No "The Guardian", um psiquiatra, James Barrett, observou que é difícil, para um transexual mulher-para-homem, passar por uma gravidez, pois a experiência contradiz sua nova identidade. Thomas, no programa de Oprah, na TV americana, fez um comentário que indica a solução que ele encontrou para esse dilema: disse que o desejo de procriar não é nem masculino nem feminino, é humano. E um psicanalista, Robert Withers, interrogado sobre o futuro de Susan, declarou que ela apenas encontrará "um pouco mais de complicação" na hora de se perguntar "de onde venho?". Agora, entendo que alguns lancem anátemas contra um acontecimento que lhes parece contrariar a ordem "natural" ou estabelecida das relações, das identidades e das funções. Mas a história de Thomas, Nancy e Susan poderia nos lembrar que, há mais ou menos 250 anos, quer a gente goste ou não, entramos na era da condicionalidade. Como assim? Pois é, começou com os casamentos, que
309

duram "à condição" que dure o amor. Continuou com as leis, que são respeitadas "à condição" que elas nos pareçam justas. Aos poucos, não há norma que escape à postila que limita sua autoridade acrescentando: "Sob con- dição que meu foro íntimo aprove e que, ao obedecer, eu não me desrespeite". Sou homem ou mulher à condição de me sentir intimamente homem ou mulher. Sou filho à condição que o pai e a mãe se comportem de maneira que eu os reconheça como pai e mãe. Falando nisso, nada prova que Thomas não possa ser um bom pai para Susan. Ou uma boa mãe. Ou os dois. ccalligari@uol.com.br

310

O corpo extenso
311

Vou dar a conhecer a vocês um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final. Sim, a trombeta tocará e os mortos ressurgirão incorruptíveis; e nós seremos transformados. De fato é necessário que este ser corruptível seja revestido da incorruptibilidade, e que este ser mortal seja revestido da imortalidade. Portanto, quando este ser corruptível for revestido da incorruptibilidade e este ser mortal for revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura: “A morte foi engolida pela vitória. Morte, onde está sua vitória? Morte, onde está o seu ferrão?” O ferrão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, queridos irmãos, sejam firmes, inabaláveis, façam continuamente progresso na obra do Senhor, sabendo que a fadiga de vocês não é inútil no Senhor.
(1 Coríntios, 15, 51-58), Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 21/12/1989 p.1478. São Paulo: Edições Paulinias.

312

Nietzsche extraiu da morte de Deus as mais elevadas conseqüências filosóficas. Como um clarão, de uma só vez, viajou pelo imenso da cultura ocidental, para fazer a crítica tanto de seu passado, quanto de seu futuro; o cristianismo como fundamento de nosso colossal edifício cultural; a ciência como religião civil. Há que se desenvolver, contudo, essa herança crítica, para fazer incluir ou realçar elementos essenciais que se delineiam à medida que, aquelas mesmas tendências culturais identificadas por Nietzsche, se repetem infinitamente, para tecerem a trama e a urdidura que compõem a contemporaneidade. Nessa construção cultural, em que a religião se perpetua no âmago mesmo da ciência, a elaboração do corpo – tanto do ponto de vista simbólico, quanto propriamente material – ocupa um lugar absolutamente essencial. Dito de outro modo: se Deus está morto, como resgatar as promessas como aquelas que faz, por exemplo, São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios? Como assegurar ao homem espiritual, transcendente, um lugar de destino que não seja degradado pela caducidade necessária de seu corpo puramente material? A ciência quer estar à altura deste desafio e nos acena de maneira imediata, direta, com promessas de construção de um corpo duradouro, longevo, mesmo que não propriamente imortal ainda. No interior dessa promessa terrena, secular, material, paira uma divisa estritamente religiosa, cristã: a expectativa de que no limite, no extremo de nossa intelecção seja possível conceber um ente humano (intelecto, alma, espírito, etc.) apartado do próprio corpo, excedendo-o no tempo; preservado da caducidade, vencedor dos muitos vícios da carne e da morte. Esse corpo se afigura, contudo, em sua elaboração contemporânea, como uma prótese manipulável, um médium, do qual poderíamos até mesmo nos exilar, para continuar uma existência humana em outro recipiente material. A identidade se constrói, portanto, não com fundamento no corpo, mas como sua superação e suplantação, para erigir uma entidade super-humana, que prescinde dele.
313

O corpo descartável, dissociável de um humano puramente imaterial; a promessa de que se possa superar a caducidade por meio de recursos científicos reintroduz, contudo, todos os problemas que derivam da dicotomia corpo-espírito, corpo-intelecto e assim por diante. O que resulta de pior nesta estrutura delirante - que se quer enunciar como a mais elevada ciência - reside no fato de que se leva às últimas conseqüências a noção de que a natureza, toda ela, mesmo aquela que vive em comunidade corpórea com o homem, existe apenas como veículo de um programa supra-natural e super-humano. O homem que pode construir seu corpo como ente apartado de sua humanidade, que o concebe como prótese, como materialização bioquímica de um programa manipulável, é o mesmo homem que enxerga na natureza não mais do que uma serva, uma escrava. Perdidas, contudo, as dimensões e escalas, diminutas, do corpo humano; consolidado o delírio de que podemos sobreviver até mesmo à degradação do ambiente que torna possível a vida humana, prepara-se não uma sociedade “superior”, tecnicamente mais avançada, mas a sociedade da indiferença absoluta, na qual se crê cientificamente ser possível sobreviver individualmente, particularmente, a todo e qualquer tipo de evento. Essa é a promessa última do corpo reduzido a prótese: que podemos, finalmente, ceder livremente ao instinto, sem ter que pagar as contas deste mergulho; podemos destruir socialmente, mas sobreviver individualmente, particularmente – mentalidade de abrigo nuclear. O fundamento de nosso festim instintual, que se dissimula como festa do corpo, é a revanche de um corpo deserotizado contra a máquina em que se converteu aquele mesmo corpo de origem. O corpo desconectado, tornado máquina; a natureza desumanizada, convertida em potência técnica, produtiva, catapulta o corpo contra si mesmo, na forma de um homem sem corpo e sem órgãos que lhes sejam próprios. Desprovido da medida de sua relação com o mundo, sem corpo, este homem enxerga tudo como recurso para seus fins e perde, por conseqüência, a dimensão absoluta, intransitiva de cada uma das mais insignificantes partículas que o cercam. À
314

desconexão de seu próprio corpo corresponde a indiferença universal para com tudo que está vivo; ao rebaixamento do corpo à condição mecânica corresponde à degradação intelectual, virtual da natureza, que se atualiza ininterruptamente na forma da agressão contínua ao meio ambiente. Subvertem-se, assim, as imensas possibilidades da técnica, as promessas da ciência. É preciso considerar, contudo, que não há uma técnica por si mesma, ou uma ciência puramente abstrata. Estamos diante de eventos políticos, decisões e opções tomadas e defendidas no interior mesmo da cidade humana, que cristalizam e plasmam opções de poder, cuja essência flerta não com a liberdade humana, mas com os particularismos que nos levam a perceber a nossa humanidade essencial como uma escala de distintos graus. O grande poder político, econômico, militar já imagina estar liberto das conseqüências imediatas de suas ações; pode agredir e não ser retalhado, simplesmente porque estão no cerne das tecnologias modernas tanto a tecnificação daquela agressão – que problematiza a atribuição e individuação das responsabilidades -, quanto a desproporção absoluta entre seus meios e a escala corporal humana. Nega-se com isso toda a ciência, todos os desenvolvimentos culturais do homem contemporâneo? De modo algum. Essa trajetória demonstra apenas, até a exaustão, que o homem é um ser da cultura, que sua humanidade não tem qualquer forma apriorística; que ela não pode ser pressuposta como sendo desta ou daquela natureza, resultando determinada por entes extrahumanos. Trata-se, sempre, como o demonstrou Nietzsche, do valor, sobre o qual se edificam as relações humanas e a sociedade humana. Este é o problema filosófico por excelência. Criticar o valor. Ao projeto do corpo protético, fundado na expectativa da eternidade, deve-se opor o corpo extenso, criado na mais profunda convicção de sua caducidade necessária; de sua proporção humana e, apenas nesse sentido, natural. Corpo que decai e que, ao fazê-lo, se integra em um ciclo indeterminável de sucessões; permeável ao todo, parte dele. O corpo extenso é um corpo de relações, corpo pele,
315

corpo contato, corpo abraço. Corpo que dói, corpo que sofre; corpo prazer; corpo presente; corpo que sorri, no iluminado do sorriso do outro. Corpo que quer o corpo. Não há violência externa ao corpo extenso; não há nacionalismos e particularismos que mitiguem a sua dor; não há tragédia que não lhe pertença, ou reconciliação que não deseje. O corpo extenso é um retorno ao corpo, sua erotização, não para afirmá-lo em sua imutabilidade, inevitabilidade, mas para acolhê-lo por inteiro, como lugar de realização do humano; fundamento extremo da interação em que trocamos o indizível de nossa condição. O corpo extenso, corpo encarnado, não sonha com um mundo pré-tecnológico, pré-científico; ao contrário, demanda a ciência em sua mais absoluta contemporaneidade. Requer, apenas, que a ciência se realize segundo a escala humana, que inclui como elemento necessário a caducidade. Nessa construção, radicalmente nova sob certos ângulos, a natureza não se vê sacrificada, em favor de uma concepção super-humana do homem. O homem, de outra parte, pode se reconciliar com a natureza, para concebê-la não como serva, mas como extensão natural de sua pele humana. O corpo humano, assim enervado, inclui como terminação nervosa, sensível, à flor da pele, aquilo que se lhe ofereceu, em um primeiro momento, como elemento puramente exterior: o outro. Neste caminho, contudo, nem mesmo o corpo, em sua conformação estritamente individual, se concebe como algo oposto a um ente puramente imaterial: espírito, intelecto, etc.; corpo objeto de disciplina, controle, adestramento. O corpo já é a espiritualidade que procuramos; a enervação do que há de mais abstrato em nós; o cume do intelecto, quando não se declina de sua condição humana.

316

(...) nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e experiência ética pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar livre numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano. (BENJAMIN, 1985, p. 198)

317

Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante.
A mãe dele ficou triste, né? Guardou os “trem” dele. Tudo Guardado. Morreu esses dias com quatro tiros na cabeça. Acho que foi quatro. Foi no carnaval, né? Ele tinha pedido minha bicicleta emprestada, eu emprestei, né? Aí ele foi lá, fumou um brown com nós. Eu tenho o boné dele até hoje, tem um furo bem assim na tala. (...) Muita saudade do meu filho pequeno, ele só usava boné assim, para trás. Isso aqui é da formatura dele. Formatura da quarta série. Aqui as roupas dele. O desodorante predileto dele. Até hoje eu nunca abri essas gavetas. (...) Sinto muita saudade dele. A bermuda que ele mais gostava de usar era essa. Ele era magrinho, mas gostava de bermuda grandona. A blusa de frio que ele mais gostava era essa aqui. Tem até a toquinha dela. (Meninos do Tráfico, documentário: transcrição)
318

Those who have travelled in Sicily will remember the celebrated convent where, as a result of earth’s capacity for drying and preserving bodies, the monks at a certain time of year can deck out in their ancient regalia all the grandees to whom they have accorded the hospitality of the grave:
319

ministers, popes, cardinals, warriors and kings. Placing them in two rows within their spacious catacombs, they allow the public to pass between these rows of skeletons… Well, this Sicilian convent gives us an image of our society. Under the pompous garb that adorns our art and literature, no
320

heart beats – there are only dead men, who gaze at you with staring eyes, lusterless and cold, where you ask the century where the inspiration is, where the arts, where the literature.
<Alfred> Nettement, Les ruine morales et intellectuelles (Paris, October 1836), p. 132 (…) BENJAMIN, 1999, p.92)

321

Not only architecture but all technology is, at certain stages, evidence of a collective dream. (BENJAMIN, 1999, p. 152)

Not only architecture but all technology is, at certain stages, evidence of a collective dream.
(BENJAMIN, 1999, p. 152)

Not only architecture but all technology is, at certain stages, evidence of a collective dream. (BENJAMIN, 1999, p. 152)

Not only architecture but all technology is, at certain stages, evidence of a collective dream. (BENJAMIN, 1999, p. 152)
Not only architecture but all technology is, at certain sages, evidence of a collective dream. (BENJAMIN, 1999, p. 152)
322

1.8 - Partícula e Corpo Extenso Um corpo é considerado partícula (ou ponto material) em física quando suas dimensões são desprezíveis na situação considerada. Por exemplo, um carro se movimentando na Via Dutra,
323

neste caso podemos considerar este carro como sendo uma partícula, já que sua dimensão, quando comparada com a extensão da rodovia, é totalmente desprezível. Já um corpo extenso é aquele que não possui dimensões desprezíveis na situação considerada. O mesmo carro que na Via Dutra pode ser descrito como partícula, dentro de uma garagem não será mais desprezível, pois ocupará praticamente toda a garagem, neste caso ele passa a ser considerado um corpo extenso.
Fonte: http://209.85.215.104/search?q=cache:5OCu4_mTOQgJ:www.vestibular1.com.br/revis ao/cinematica.doc+corpo+extenso&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=4 Última consulta: 12/08/2008

*** O que é ponto material? corpo extenso? deslocamento? caminho percorrido? referencial?
Gente estou ficando LOOOUCA aqui, 5 matérias pra estudar junto NÃO DÁ.. =/

1 mês atrás

Denuncie

324

by THAISE♥ Membro desde: 31 de Janeiro de 2007 Total de pontos: 1274 (Nível 3) Marca: Contribuindo em: Matemática
 

Adicionar amigo(a) Bloquear

***

Melhor resposta - Escolhida por votação
Olá! Ponto material: Corpo cujas dimensões tornam-se desprezíveis quando comparadas à extensão de seu movimento. Ex: Um automóvel que se desloca da São Paulo à Manaus. Corpo extenso: Tamanho do corpo é considerado na resolução do exercício. Ex: Carro sendo retirado de uma garagem estreita.

Trajetória: Caminho percorrido por um móvel, em relação a um referêncial. Deslocamento (escalar): É a medida de variação do espaço de um móvel.

325

**Bom, é realmente complicado quando temos várias matérias para estudar, mas não desanima! O desânimo só te prejudicaria. Continue estudando que logo logo essa fase passará. Grande abraço
Fonte: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080711120550AAkPMEM Última consulta: 12/08/2008

***
São Paulo, sábado, 09 de agosto de 2008

Próximo Texto | Índice

Eletrodo contra Parkinson ajuda pesquisa em prótese
Dispositivo capta sinal que, no futuro, poderá fazer braço robótico se mover Mecanismo eletrônico feito pelo neurocientista Miguel Nicolelis nos EUA vai ser implantado em pacientes brasileiros pela primeira vez
EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

326

O avanço de uma técnica para tratar sintomas do mal de Parkinson vai ao mesmo tempo ajudar pacientes e cientistas. O implante de uma nova classe de eletrodos -dispositivos que captam e emitem sinais elétricos- vai ser feito pela primeira vez no país nos cérebros de dez pacientes do Hospital Sírio Libanês. Além de minimizar sintomas, o dispositivo ajudará médicos a entenderem melhor como o cérebro se comporta. Mais sofisticados do que um eletrodo de quatro pontos já usado no Brasil, a nova peça -desenvolvida pelo neurocientista Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, da Carolina do Norte (EUA)capta informação de 32 pontos do cérebro. "Será possível registrar o engrama [marcas fisiológicas] do movimento", diz Manoel Jacobsen Teixeira, neurocirurgião-chefe do novo projeto. Ele coordenará o implante do eletrodo -que está na fase final de aprovação- no Sírio Libanês. "O paciente ganha porque poderá se beneficiar de forma imediata das novas informações que são registradas." O eletrodo criado pelo grupo de Nicolelis facilita o trabalho dos cirurgiões pois permite saber com precisão onde o tecido nervoso deve ser estimulado para que os sintomas sejam controlados. "O dispositivo tem 32 filamentos em uma estrutura única. A penetração do tecido vai ocorrer de uma só vez e a colocação do eletrodo será mais rápida e precisa", diz o neurocientista da Duke. Nicolelis, que pesquisa nos EUA atividade cerebral para desenvolver braços robóticos e próteses para deficientes físicos, afirma que os eletrodos implantados nos parkinsonianos também ajudarão a entender melhor como funciona o córtex motor dos humanos. A técnica, afirma Teixeira, poderá ser aplicada, no futuro, a vítimas de acidentes que tenham perdido a comunicação nervosa entre o cérebro e um ou mais de seus membros. "Conseguir registrar onde ocorre exatamente a intenção do movimento é importante", diz. "Essa nova aplicação vai contribuir muito para o desenvolvimento tecnológico."
327

Nicolelis já conseguiu, em seu laboratório, fazer com que macacos comandassem braços robóticos com a mente. Na Duke, o mesmo eletrodo que chega agora ao Brasil já está em uso no cérebro de 28 seres humanos com Parkinson. Em um experimento feito simultaneamente nos EUA e no Japão, os cientistas conseguiram fazer com que a "intenção de andar", lida no cérebro de um macaco em um lado do mundo, fosse transmitida para um robô do lado de lá do planeta. A máquina seguiu as idéias "elétricas" do animal e caminhou como ele queria. "O implante dos eletrodos é o primeiro passo para essa manipulação robótica remota [em humanos]", afirma Nicolelis. A transferência tecnológica entre a Universidade de Duke com o Sírio Libanês também prevê que o hospital paulistano ajude a financiar um centro de assistência à saúde da mulher na cidade de Macaíba (RN), perto do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, fundado por Nicolelis. "Esse centro foi inaugurado ontem [anteontem]. Ocorreram as primeiras 15 consultas", diz o neurocientista. "Serão 20 mil ao ano", afirma.

***
São Paulo, sábado, 09 de agosto de 2008

Grupo usa técnica para estudar biologia da dor em roedores
328

Clínica Cleveland

Raio-X mostra eletrodo implantado em cérebro de paciente

DA REPORTAGEM LOCAL O uso de eletrodos também está ajudando cientistas do Hospital Sírio Libanês a estudar a biologia da dor. O estímulo de uma região específica do córtex motor, área cerebral que comanda os movimentos do corpo, alterou a tolerância de cobaias à sensação dolorosa. "Até em animais normais, o estímulo elétrico sobre a área teve um efeito analgésico", afirma o médico Erich Fonnof. Segundo sua colega Cecília Dale, a tolerância do rato à dormedida pela pressão exercida sobre uma das patas dos animaischega a aumentar 70% com os eletrodos. A técnica já é usada em humanos para casos extremos de dor crônica, mas o mecanismo biológico do tratamento é mal conhecido. "No caso do nosso estudo, seria possível extrapolar esses resultados para as conseqüências de uma hérnia de disco que pressione o nervo ciático", diz Dale, que participa do projeto de pesquisa desde o início.
329

O estudo nasceu no Instituto Butantan, contou com a parceria do Hospital das Clínicas e migrou para o Sírio Libanês. "Quando a técnica estiver dominada, também será possível tentar controlar as dores dos chamados membros fantasmas", diz a bióloga, em referência a amputados que sentem dor em braços inexistentes. Em alguns casos de dor crônica, o estímulo elétrico traz mais benefícios que os fármacos receitados, porque evita certos efeitos colaterais. (EG)

330

Eu não espero pelo dia Em que todos Os homens concordem Apenas sei de diversas Harmonias bonitas Possíveis sem juízo final...
331

O rosto humano
332

(...) cada trajetória se compõe também de nossas perdas e de nossos desperdícios, de nossas omissões e de nossos desejos irrealizados, do que deixamos uma vez de lado ou não escolhemos ou não atingimos, das numerosas possibilidades que não chegaram a se realizar - todas menos uma afinal de contas -, de nossas vacilações e nossas fantasias, e projetos frustrados e de desejos falsos ou débeis, de medos que nos paralisam, do que abandonamos ou nos abandonou. Nós talvez consistamos, em suma, tanto do que somos quanto do que não fomos, tanto do que pode ser comprovado e quantificado e rememorado, quanto do mais incerto, indeciso e difuso, talvez sejamos feitos em igual medida do que foi e do que poderia ter sido. (MARIÁS, Javier apud GUIMARÃES, 2007, p. 62)

333

334

Bergman é sem dúvida , o autor que mais insistiu sobre o elo fundamental que une o cinema, o rosto e o primeiro plano: “Nosso trabalho começa com o rosto humano [...]” Bergman foi quem levou mais longe o niilismo do rosto, isto é, sua relação no medo com o vazio ou a ausência, o medo diante do nada [...] Então o rosto único e devastado une uma parte de um a uma parte de outro. A esta altura, ele não reflete nem ressente mais nada, apenas experimenta um medo surdo. Ele absorve dois seres e os absorve no vazio. E no vazio ele é o próprio fotograma que queima, tendo o Medo por único afeto: o primeiro-plano rosto é ao mesmo tempo a face e seu apagar. (DELEUZE, 1985 apud GUIMARÃES, 2007, p. 79)

335

336

É certo que tudo tem que desaparecer. Todas as tentativas de lutar contra a morte, o desaparecimento, são em vão. Tudo que essa pessoa soube, suas histórias, seus livros favoritos, suas coleções… Tudo que nos constitui e nos cria desaparece completamente quando morremos. A grande história está nos livros, mas a pequena história é muito frágil. No começo de minha carreira, o primeiro trabalho que eu fiz foi uma tentativa de guardar a minha vida em latas de biscoito, conservar tudo no equivalente a um cofre. Naturalmente eu já sabia que isso é impossível, e digno de chacota. (BOLTANSKI, 1997, p. 36 - Tradução de Paula Cavalcanti
apud GUIMARÃES, 2007, P. 123)

337

338

Canção Amiga
Carlos Drumond de Andrade

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos. Caminho por uma rua que passa em muitos países. Se não me vêem, eu vejo e saúdo velhos amigos. Eu distribuo um segredo como quem ama ou sorri. No jeito mais natural dois carinhos se procuram. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras e tornei outras mais belas. Eu preparo uma canção que faça acordar os homens e adormecer as crianças.
339

340

“É querer escrever antes de saber o quê, antes de escrever esta ou aquela história. Escrevemos o tempo todo, temos uma espécie de abrigo em nós, de sombra, para onde tudo vai, onde a totalidade do vivo se comprime, se amontoa. Ele representa a matéria-prima do texto, a mina de toda escrita. É „esquecimento‟, é o texto não escrito: é o próprio texto. No filme, o caminhão transporta esse todo. Todo o texto do mundo. Como se isso pudesse ser medido, pesado; trinta e duas toneladas de texto, isso me agrada. É isso que eu chamo: a imagem”. (DURAS, 1977, p. 83
apud GUIMARÃES, 2007, p. 201).

341

342

A janela e a câmara escura
Escrevo com meu corpo em neon espectral. A cidade recolhe instantes desconexos. [As esquinas coordenadas de um lugar: o outro]. Poderia tingir as calçadas, com os sonhos cândidos do meu múltiplo: ele só me pertence como tormento. [A parede, um abismo]. A sala é um repositório de cadáveres: eu os afastos, mas são o mesmo, o que não se esquece. Câmara escura, on top of it, o inferno, segundo sua ótica precisa. Os outdoors caíram, nos carregam no cortejo, cujos fractais giram, indolentes, para compor o branco do papel, em que, agora, dano o meu olho. [o vazio]. O sino badala na igreja, longe, ouço palavras sem carne: eletrocução da espinha.

343

344

[...] tenho uma biblioteca só minha e que eu não recomendo. Eu me mexo muito durante o dia e à noite gosto de descansar no meu canto com meus livros. É meu refúgio [...]. Há livros de todo tipo, mas se você for abri-los, vai se espantar. Estão todos incompletos; alguns só guardam dentro da encadernação algumas poucas páginas. Sou de opinião que se deve fazer com comodidade o que se faz todos os dias; então eu leio com tesoura na mão, me desculpe, cortando tudo o que me desagrada. Tenho assim leituras que nunca me cansam. Do Homem dos Lobos, conservei dez páginas; um pouco menos de Viagem ao Fundo da Noite. De Corneille Polieto inteiro e uma parte do Cid. De meu Racine não suprimi quase nada. Guardei de Baudelaire uns 200 versos e de Victor Hugo um pouco menos. De La Bruyère o capítulo “Do coração”; de Saint Evremond, a conversação do Padre Canaye com o Marechal de Hocquincourt. De Madame Sevigné, as cartas sobre o processo de Fouquet; de Proust o jantar na casa da duquesa de Guermantes; “a manhã de Paris” de A Prisioneira. Nisto encontra-se o caráter limite da leitura, a exemplo de um autor que Benjamin conhecia tão bem. Trata-se de Valéry que lê como quem espreita: “leio com rapidez, na superfície, prestes a cingir a minha presa”

345

346

Mallarmé: o livro espetáculo, conservação e superação do jornal Excerto tomado de Poesia e Modernidade: da morte da arte à constelação. O poema pós-utópico, Haroldo de Campos. Baudelaire fez da analogia o centro de sua poética. Um centro em perpétua oscilação, sacudido sempre pela ironia [...] No centro da analogia há um oco: a pluralidade de textos implica que não há um texto original. Por esse oco se precipitam e desaparecem, simultaneamente, a realidade do mundo e o sentido da linguagem. Porém não é Baudelaire, e sim Mallarmé que se atreverá a contemplar esse oco e a converter essa contemplação do vazio na matéria de sua poesia. [...] Mallarmé acalentou o projeto de um livro permutatório (Bloc), que seria verdadeiramente a Obra, da qual o Coup de Dés representaria, apenas, uma primeira versão aproximativa. Imaginou uma espécie de livro espetáculo, que participaria do teatro, do ofício litúrgico e do concerto, livro de início "reservado", mas, ao longo termo, pensado também como uma festa comunitária, já que esse multilivro, segundo o poeta, deveria ser "modernizado", isto é, colocado ao alcance de todos. Para tanto, Mallarmé deteve-se nos detalhes práticos da recepção dessa Bíblia moderna, desde a organização de séances de leitura até minúcias de financiamento e de tiragem (prevista para nada menos do que 480mil exemplares) [...]. É evidente que, por trás de um tal sonho (onde a economia "restrita" do livro se articula com a história e a economia política, a intervenção singular do poeta com a ação geral, como salienta Maurice Blanchot), está o "princípio-esperança" (tomo a expressão de Ernest Bloch). É essa esperança programática que permite entrever no futuro a realização adiada do presente, que anima a suposição de que, no limite, a "poesia universal progressiva"
347

possa ocular o lugar socializado do jornal, essa féerie populaire, qual o poema enciclopédico de massa, "indispensável como o pão o sal". Maiakóvski, no horizonte utópico de sua "comunidade ideal", livre de burocratas, refutando as censuras quanto à dificuldade e à incomunicabilidade de sua poesia, ecoará esse anelo por um livro cuja clareza decorra de sua necessidade, cuja condição de possibilidade nasça da elevação da cultura do povo, não do rebaixamento do nível da inovação poética (tudo isso está no poema Incompreensível para as Massas, 1927) Vanguarda e "Princípio-Esperança" Sem esse "princípio-esperança", não como vaga abstração, mas como expectativa efetivamente alimentada por uma prática prospectiva, não pode haver vanguarda entendida como movimento. O trabalho em equipe, a renúncia às particularidades em prol do esforço coletivo e do resultado anônimo, é algo que só pode ser movido por esse motor "elpídico", do grego elpis (expectativa, esperança). Aliena a singularidade de cada poeta ao mesmo de uma poética perseguida em comum, para, numa etapa final, desalienar-se num ponto de otimização da história que o futuro lhe estará reservando como culminação ou resgate de seu empenho desdiferenciador ou progressivo. Vanguarda, enquanto movimento, é a busca de uma nova linguagem comum, de uma nova koiné, da linguagem reconciliada, portanto, no horizonte de um mundo transformado.

348

349

(...) a língua exprime a realidade por meio de um sistema de signos. Já o cineasta exprime a realidade por meio da realidade. Esta talvez seja a razão de gostar do cinema, de preferilo, pois, ao exprimir a realidade como realidade, opero e vivo continuamente no nível da realidade. (...) Quando sonhamos e recordamos, rodamos dentro de nós pequenos filmes. Isso quer dizer que o cinema tem seus fundamentos e suas raízes numa linguagem completamente irracional, irracionalista [...] No fundo, quando alguém vê um filme, tem a impressão de ter sonhado. (Pasolini, extraído de Pasolini, Nosso Próximo, de
Giuseppe Bertolucci, citado na Folha de São Paulo, 18/03/07, caderno +mais!, p. 5)

350

O rosto humano
Meu avô morto ainda me ensina um ofício. [Extemporâneo] Mulheres quaram o tempo, que o tempo puiu, a bicicleta aguarda o passeio, alguém me conta sobre o fim do mundo, no rádio, novelas, ao pé do tanque de lavar roupas alvas. O Vietnã em preto e branco: Nixon, Enron, Tricom, Silicon, Viacom, Exxon.

351

352

O rosto humano
A primeira noite solitária, em frente a uma TV rupestre: um Pelé vigoroso continua jogando, sempre às 8h00. Pele negra, negra, negra, negra, uniforme branco, branco, branco, braços no ar, bola no pé.

353

354

O rosto humano
Entre cadeiras de escola empilhadas, uma revista incandescente: Catecismo. O mundo e outras mulheres nuas, além de minha mãe, minhas irmãs, minhas tias. Mulheres que se podia querer de corpo inteiro: seios, quadris, pernas, bocas, vulvas, costas, mãos, olhos, cabelos, pelos. [Desejo, necrofilia]
355

356

O rosto humano
A visão é metonímica: de Nova York, trago o stop vermelho dos sinais de trânsito. A contra-ordem me escapa; seria walk? Stop, walk, stop, walk, stop, walk, stop, walk; rima, esgrima, stop, walk, stop, walk.
357

Nada disso tem importância, mas a memória me nega as hierarquias, para preservar o som: stop, walk, stop, walk, stop, walk, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac, tic, tac.

358

359

O rosto humano
Jogam bombas na Geórgia, jogam bombas eternamente [na Geórgia] rostos mortalha, rostos mortalha de homens vivos, mulheres viúvas, crianças em orfandade; o jornal das oito, o jornal das oito no papel; desastres virtuais, tragédias cinematográficas; bombas atuais, tanques atuais, guerras arcaicas.

360

361

O rosto humano
Bomba atômica, bombas em uma Geórgia infinita, bomba histriônica: liberação de energia, de corações bem juntinhos, mãos bem quentinhas, beijos bem molhados, olho de criança, mijo de nenê, cheiros, hálitos, quadros na parede, crucifixos, camas meladas de sêmen, sanitários por limpar, o encontro ao qual faltaremos,
362

estilhaços, corpos, escombros, o sol a pino, a lua, a noite, o dia, o que não foi possível dizer.

363

O rosto humano
Vago por caminhos ébrios: um velho improvável, esquálido, vende balas que não circulam. Faz par com uma puta, que distribui préstimos pagos, sem requerimentos. Faz par com o homem-placa, que vende pequenas possibilidades, repletas de pré-condições. Faz par com a gente veloz, que passa indiferente, sobre os cadáveres empilhados.

364

365

366

A face humana,
Espelho, pele pergaminho, em que se inscreve a história, toda a história, a ferro, a fogo: mapas do humano, demandas do humano, a dor atualizada, abissal, imensa, potente, trágica, dor humana da natureza violada.
367

368

369

O rosto humano
Minha mulher se deita comigo, muitos casais se deitam com crianças ceifadas. Abraços partidos, corpos metonímicos, apocalípticos. Vômito, frêmito: chafurdo na minha herança um vade retro, e encontro sempre, o rosto humano. Vício bergmaniano, o rosto, o minúsculo do corpo. A mão sobre a face; a face contra a face; corpos contíguos. O peso monstruoso
370

do que não se diz.

371

O rosto humano
A carta por enviar; a conta que não chegou ainda. Um botão caiu da camisa [deixando viúva a casa]. Perdi um cartão de visitas, que não ocorrerá a ninguém procurar. Esqueci aberto o shampoo; ainda me esperam para a reunião, não avisei meus filhos; umas poucas páginas, para o fim do livro. O velho esquálido, A puta, A rua, A vida,
[O dia da minha morte, O rosto humano].
372

373

Fora de Ordem
Caetano Veloso

Vapor barato Um mero serviçal Do narcotráfico Foi encontrado na ruína De uma escola em construção...
Aqui tudo parece Que era ainda construção E já é ruína Tudo é menino, menina No olho da rua O asfalto, a ponte, o viaduto Ganindo prá lua Nada continua... E o cano da pistola Que as crianças mordem
374

Reflete todas as cores Da paisagem da cidade Que é muito mais bonita E muito mais intensa Do que no cartão postal...

Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial...
Escuras coxas duras Tuas duas de acrobata mulata Tua batata da perna moderna A trupe intrépida em que fluis... Te encontro em Sampa De onde mal se vê Quem sobe ou desce a rampa Alguma coisa em nossa transa É quase luz forte demais Parece pôr tudo à prova Parece fogo, parece Parece paz, parece paz...
375

Pletora de alegria Um show de Jorge Benjor Dentro de nós É muito, é grande É total... Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial...

Meu canto esconde-se Como um bando de Ianomâmis Na floresta Na minha testa caem Vem colocar-se plumas De um velho cocar...
Estou de pé em cima Do monte de imundo Lixo baiano Cuspo chicletes do ódio No esgoto exposto do Leblon
376

Mas retribuo a piscadela Do garoto de frete Do Trianon Eu sei o que é bom...

Eu não espero pelo dia Em que todos Os homens concordem Apenas sei de diversas Harmonias bonitas Possíveis sem juízo final... Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial...
377

Bibliografia:
ADORNO, Theodor W. Mínima Moralia: Reflexões a partir da vida danificada. São Paulo, SP: 2ª Edição, Editora Atica S.A, 1993. Tradução: Luiz Eduardo Bicca. ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação. São Paulo, SP: Editora Paz e Terra, 1995, Tradução: Wolfgang Leo Maar. ADORNO, Theodor W. Freudian Theory and Pattern of Fascist Propaganda in: The Essential Frankfurt School Reader. Edited by Arato, Andrew & Gebhardt, Eike. Introduction by: Piccone, Pau.l Xerox de artigo ADORNO, Theodor W. Palavras e Sinais: Modelos Críticos 2. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. Tradução: Maria Helena Ruschel. ADORNO, Theodor W. Sociologia. São Paulo, SP: Editora Ática S.A., 1994. Tradução: Flávio R. Kothe, Aldo Onesti, Amélia Cohn. ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos, Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editora Ltda.. 1985. Tradução: Guido Antonio de Almeida. ANSELL-PEARSON, Keith. Nietzsch como pensador político: uma introdução. Rio de Janeiro, RJ:, Horge Zahar Ed., 1997. Tradução: Mauro Gama e Cláudia Martinelli. ARGIER, M. Disturbios Identitários em Tempos de Globalização. Rio de Janeiro: Mana – Estudos de Atropologia Social, vol7. nº 2, Museu Nacional, out. 2001. ARON, Raymond. Democracia e Totalitarismo. Lisboa: Editorial Presença, 1966. Tradução: Frederico Montenegro. ARVON, Henri. A filosofia alemã. Lisboa: Publicações Dom Quixtoe, 1972. Tradução: António Reis. B ERDANET, Jean-Claude. O que é cinema?. São Paulo, SP: Brasiliense, 1991. Coleção Primeiros Passos. BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro, RJ: Editora Bertrand Brasil S.A., 1989. BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo, SP: Editora Martin Claret, 2006. Tradução: Pietro Nassetti. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de Consumo. Portugal, Lisboa: Edições 70, 1975. Tradução: Artur Morão. BAUDRILLARD, Jean. A transparência do mal: Ensaios sobre os fenômenos extremos. Campinas, SP: 9ª Edição, Editora Papirus, 2006. Tradução: Estela dos Santos Abreu. BAUDRILLARD, Jean. Da Sedução. Campinas, São Paulo: Papirus, 1991. Tradução: Tânia Pellegrini. BENJAMIN, Walter Obras escolhidas II: Rua de Mão única. São Paulo, SP: 2ª Edição, Editora Brasiliense, 1987. Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho; José Carlos Martins Barbosa. BENJAMIN, Walter. A obra de arte no tempo de suas técnicas de reprodução in: Gilberto Velho (org.). Sociologia da Arte, IV. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. Tradução: Dora Rocha. BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. São Paulo, SP: 7ª edição, Editora Brasiliense, 1985.Tradução: Sergio Paulo Rouanet. BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Editora Brasiliense S.A., 3ª edição, 2000. Tradução José Carlos Martins Barbosa, Hemerson Alves Baptista. BENJAMIN, Walter. The Arcades Project. New York: Harvard University Press, 1999. Tradução: Howard Eiland; Kevin McLaughlin. BERMAN, Marshall. Aventuras do Marxismo. São Paulo: Cia. Das Letras, Editora Schwarcz Ltda. 2001, Tradução Sônia Moreira. BORDIEU, Pierre. As regras da Obra de Arte: Gênese e Estrutura do Campo Literário. Tradução: Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia. Das Letras, 1996.

378

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. Tradução: Maria Lúcia Machado. BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1987. Tradução: Nathanael C. Caixeiro. BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologia: ensaios sobre a televisão. São Paulo: Boitempo, 2004. BUCK-MORSS, Suzan. Dialética do Olhar: Wlater Benjamin e o Projeto das Passagens. Trdução: Na Luiza de Andrade. Belo Horizonte: Editora da UFMG; Chapecó/SC: Editora Universitária Argos, 2002. BURKE, P. Variedades da história cultura.l Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995, Tradução: Maurício Santana Dias. CANDIDO, Malta Campos; GAMA, Lucia Helena; SACCHETTA, Vladimir (organizadores). São Paulo, metrópole em trânsito: percursos urbanos e culturais. São Paulo: Editora Senac, 2004. CARRIÈRRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro, RJ: Editora Nova Fronteira S.A., 1995. Tradução: Fernando Albagi; Benjamin Albagi. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em rede – A era da informação: economia, sociedade e cultura; v.1. São Paulo: Paz e Terra, 1999. Tradução: Roneide Venâncio Majer. CHARNEY, Leo; SCHWARTZ, Vanessa R.. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo, SP: Cosac & Naif Ecições Ltda., 2001. Tradução: Regina Thompson. CHARTIER, Roger & Ariès, Philippe (orgs.). História da Vida Privada 3: da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo: Cia. Das Letras, 1991. Tradução: Hildegard Feist. CHOMSKY, Noam .O lucro ou as pessoas? Neoliberalismo e ordem global, Bertrand Brasil. CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: Introdução às Teorias do Contemporâneo. São Paulo: Edições Loyola, 3ª Edição, 1993. Tradução: Adail Ubirajara Sobral, Maria Sela Gonçalves. DELEUZE, Gilles. Para ler Kant. Rio de Janeiro, RJ: Livaria Francisco Alvez Editora, 1976. Tradução: Sonia Dantas Pinto Guimarães. DUBY, George (org.) História da Vida Privada 2: da Europa feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Tradução Maria Lúcia Machado. EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Rio de Janeiro, RJ: Horge Zahar Ed., 1998. Tradução: Elisabeth Barbosa. FEATHERSTONE, Mike (coord). Cultura Global – Nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis: 1994, Editora Vozes. Tradução Attílio Brunetta. FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995. Tradução: Julio Assis Simões. FEATHERSTONE, Mike. O desmanche da cultura – Globalização, pós-modernismo e identidade. SESC Livros Estúdio Nobel Ltda., 1997. Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura FOUCAULT, Michel. A arqueologia do Saber Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 2004. Tradução: Luiz Felipe Baeta Neves. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade,1. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade,2. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, RJ: Edições Graal, 1979. Tradução: Roberto Machado. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 1987. Tradução: Raquel Ramalhete.

379

FREITAG, Bárbara. A teoria crítica ontem e hoje. São Paulo: 2ª edição, Editora Brasiliense, 1998. FREITAG, Bárbara; ROUANET, Sérgio Paulo (Orgs.). Habermas (Sociologia Coleção Grandes Cientistas Sociais) São Paulo, SP: Editora Ática, 3ª Edição, 2ª impressão, 2001. Tradução: Bárbara Freitag e Sérgio Paulo Rouanet, FREUD, Sigmund. Psicologia de Grupo e Análise do Ego. Rio de Janeiro: Edição Standard Brasileira de Obras Completas, Imago Editora. Tradução: Christiano Monteiro Oiticica. FREUD, Sigmund. Totem e Tabu, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Comples, Volume XIII Rio de Janeiro, Imago Editora. Tradução: Jayme Salomão. GRAMSCI, Antonio Os intelectuais e a organização da cultura GRAMSCI, Antonio. Obras escolhidasVolume1. Lisboa: Editorial Estampa, 1974. GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A, , 1976, 2ª Edição. Tradução: Luiz Mário Gazzaneo. HANNERZ, U. Fluxos, fronteiras, híbridos: palavras chaves da antropologia transacional. Rio de Janeiro: Mana, Estudos de Antropologia Social, vol. 3, nº 1, Museu Nacional, abril 1977, p. 7-39. HANNERZ, U. Os limites do nosso auto-retrato. Antrolpologia Urbana e globalização.Rio de Janeiro: Mana, Estudos de Antropologia Social, vol. 5, nº 1, Museu Nacional, 199, p. 149-155. HARVEY, David. Condição pós-moderna. Uma pesquisa sobre as Origens da Mudança Cultural. São Paulo: Edições Loyola, São Paulo: 12ª edição, março 2003. Tradução: Adail Ubirajara Sobral; Maria Stela Gonçalves. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1998. Tradução: Álvaro Cabral. HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. São Paulo, SP: Centauro Editora, 2002. HORKHEIMER, Max; Adorno, Theodore W. Temas básicos da sociologia. São Paulo: Editora Cultrix, Tradução: Álvaro Cabral. JACOBY, Russell. O fim da Utopia: política e cultura na época da apatia São Paulo: Editora Record, 2001. Tradução: Clóvis Marques. JAMESON, Fredric. A cultura do dinheiro: Ensaios sobre a globalização. Petrópolis: Ed. Vozes, 3ª Edição, 2002. Tradução: Maria Elisa Cevasco e Marcos Cesar de Paula Soares. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: A lógica cultural do Capitalismo Tardio. São Paulo: Editora Ática, 2ª edição, 4ª reimpressão, 2004. Tradução: Maria Elisa Cevasco. JASPERS, Karl. Introdução ao PensamentoFilosófico. São Paulo: Editora Cultrix Ltda, 3ª Edição, Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Compnahia da Letras, 1997. KAFKA, Franz. O processo. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1997. Tradução: Modesto Carone. KAPLAN, E. Ann (Org.). O mal-estar no pós-modernismo: teorias e práticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993. . Tradução: Vera Ribeiro. KONDER, Leandro. Walter Bejnamin: O marxismo da melancolia. Rio de Janeiro, RJ: Campus 1989, 2ª edição. LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, SP : Editora 34, 1999 LÖWY, Michel. A estrela da manhã: surrealismo e marxismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. Tradução: Eliana Aguiar. LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito da história”. São Paulo: Boitempo, 2005. Tradução: Wanda Nogueira Caldeira Brant; Tradução das Teses: Jeanne Marie GAgnebin. LUCKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxista: sobre a categoria da particularidade. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1978. LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: Editora José Olympio Ltda., 2002, 7ª edição. Tradução: Ricardo Correa Barbosa. 380

LYOTARD, Jean-François. A fenomenologia. Lisboa: Edições 70, Lda., 1999. Tradução: Armindo Rodrigues. LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno explicado às crianças. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, 2ª edição, Tradução: Tereza Coelho. LYOTARD, Jean-François. Peregrinações: Lei, Forma, Acontecimento. São Paulo: Editora Estação Liberdade Ltda., 2000. Tradução:Marina Appenzeller. MARCUSE, Herbert. A ideologia da Sociedade Industrial. Rio de Janeiro, RJ: 1983, Zahar Editores, Tradução: Giasone Rebuá. MARTON, Scarlett. Nietzsche: A transvaloração dos valores. São Paulo, SP: Editora Moderna, 1993, (Coleção Logos). MATOS, Olgária C.F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993 (Coleção Logos). MATOS, Olgária. Discretas Esperanças: reflexões filosóificas sobre o mundo contemporâneo. São Paulo: 6, Editora Nova Alexandria, 2006. MINC, Alan. A Nova Idade Média. São Paulo: Editora Ática, 1994. Tradução Celso Mauro Paciornik. NIETZSCHE, Friedrich W. A Gaia Ciência. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2001, Tradução: Paulo César de Souza. NIETZSCHE, Friedrich W. A genealogia da moral: um escrito polêmico. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 2ª edição, 1988. Tradução: Paulo Cesara Souza. NIETZSCHE, Friedrich W. Além do bem e do ma.l São Paulo: Rideel, 2005-b. Tradução: Heloísa da Graça Burati. NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra. São Paulo, SP: Editora Rideel, 2005-d. Tradução: Heloisa da Graça Burati. NIETZSCHE, Friedrich W. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. São Paulo, SP: Editora Martin Claret, 2007. Tradução: Pietro Nasset. NIETZSCHE, Friedrich W. O Anticristo: Anátema sobre o cristianismo. Lisboa, Portugal:Edições 70, 1997. Tradução: Artur Morão. NIETZSCHE, Friedrich W. O crepúsculo do ídolos; ou, a Filosofia a golpes de martelo. São Paulo: Hemus, 1976. Tradução Edson Bini e Márcio Pugliesi. NIETZSCHE, Friedrich W. O nascimento da tragédia. São Paulo, Editora Rideel 2005-c, Rideel, Tradução: Heloísa da Graça Burati NIETZSCHE, Friedrich W. O nascimento da Tragédia. São Paulo, SP: Editora Rideel, 2005-a. Tradução: Heloisa da Graça Burati. NIETZSCHE, Friedrich W. Obras Incompletas: seleção de textos de Gérard Lebrum. São Paulo: Abril Cultural, 1983, 3ª edição. Tradução: Rubens Rodrigues Torres Filho. POE, Edgar Allan. Assassinatos da Rua Morgue e outras histórias.São Paulo, SP: Saraiva, 2006. Tradução: Aldo della Nina PROST, Antoine; VINCENT, Gerard (orgs.). História da vida privada: da Primeira Guerra a nossos dias – V. 5. São Paulo:, Cia. Das Letras, 1992. Tradução: Denise Bottmann. ROUANET, Sergio Paulo. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, 3ª Reimpressão: 1992, Editora Schwarcz Ltda. SALLES, Francisco de Almeida. Cinema e Verdade: Marilyn, Buñuel, etc. por um escritor de cinema. Organização: Flora Christina Bender; Ilka Brunhilde. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1988. SENNETt, Richard. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003; 7ª edição. Tradução Marcos Santarrita. SIEBENEICHLER, Flávio Beno. Jürgen Habermas: Razão Comunicativa e Emancipação. Rio de Janeiro, RJ: Tempo Brasileiro,1989. SOUZA, Jailson de; BARBOSA, Jorge Luiz. Favela: alegria e dor na cidade. Rio de Janeiro: Editora Senac, 2005. STRATHERN, Paul. Derrida em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002. Tradução: Cassio Boechat. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Livraria e Editora Pioneira, 6ª edição, 1989. 381

WEFFORT, Francisco C. Os Clássicos da Política (Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, “O Federalista”). Série Fundamentos, Editora Atica, 13ª Edição, 7ª Impressão. ZALUAR, A. Gangues, galeras e quadrilhas: globalização, juventude e violência. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997.

382

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->