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Teoria e Prática·

Planejamento, editoraçtio e redação

A.

n e j a m e n t o , editoraçtio e redação A. Equipe editorial

Equipe editorial

Ana Lúcia Teixeira Vasconcelos Maurício Rittner Silvana Salerno Rodrigues

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HARBRA

HARPER & ROW no BRASIL

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SÃO PAULO

. HARBRA • HARPER & ROW no BRASIL - SÃO PAULO Cambridge Filadélfia Nova Iorque São

Cambridge Filadélfia Nova Iorque São Francisco

Londres

Bogotá

México

Sidney

1817

Supervisão : Revisão de Estilo: Revisão de Provas: Maria Pia Castiglia Maria Elizabeth Santo Vera

Supervisão :

Revisão de Estilo:

Revisão de Provas:

Maria Pia Castiglia Maria Elizabeth Santo Vera Lucia Juriatto Maria Paula Santo

Capa:

Compo�ição e Arte: AM Produções Gráficas Ltda.

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Fotolitos:

Programa Produções Gráficas Ltda. s/c

impressão

GRÁFICA EDITORA HAMBURG LTDA.

o MÉTODO CIENTÍFICO: TEORIA E PRÁTICA Copyright © 1979 pela Editora Mosaico Ltda. Rua Joaquim Távora, 663 - Vila Mariana - SP

Telefones: 570-3572 e 570-4891

Reservados todos os direitos.

. Fica expressamente proibido reproduzir esta obra, total ou parcialmente, através de quaisquer meios, sem autorização expressa da Editora.

Impresso no Brasil

Printed in Brazil

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Apresentação

I
I

UM POUCO DE TEORIA

1. Alguns elementos

2

O conhecimento

3. A ciência e suas características

4. O método científico e suas

3

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II

4. O método científico e suas 3 16 23 32 II - - A APLlCAÇAO PRATICA

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A APLlCAÇAO PRATICA

5. Maior eficiência nos estudos

6. A leitura no estudo

7. O estudo do texto

8. A documentação pessoal

9. A preparação da comunicação

10. A técnica da

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11. A estrutura do material

12. A preparação para a impressão

Anexo ,. Gl ossarlo

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Bibliografia

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Indice"remissivo

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(com uma explicação necessária)

Este livro foi produzido especialmente para você. Não é uma obra comum de estudo; também não tem nada de revolucionário quanto aos cânones da didáti­ ca. Trata-se de um esforço editorial que, na sua simplicidade, tem o mesmo propósito que os amigos de ajudá-lo, introduzindo-o mais facilmente nos ní­ veis elementares da metodologia . De modo algum pretende esgotar o assunto que trata em suas páginas . Não é, portanto, um manual acabado, uma obra de tese ou um repositório definitivo de conhecimentos metodológicos . Em outras palavras, não substitui o trabalho dos professores, nem tampouco suprime a necessidade de desenvolver o estudo da metodologia por meio de outras obras, tal como elucida a bibliografia final. O que este livro realmente pretende é ajudá-lo a entrar no reino da meto­ dologia . Por esse motivo apresenta uma linguagem coloquial nada freqüente em obras do gênero. É que, embora feito para ensinar, da primeira à última página busca manter um diálogo com você . E esse diálogo desenvolve-se com humildade, utilizando ao máximo a linguagem corrente que os amigos usam entre si . Evita, portanto, a frase rebuscada, a terminologia especializada ou es­ pecificamente técnica, o aprofundamento de problemas que só deve ser efetua­ do depois que já se conhece algo sobre o assunto. Este livro é, pois, quase um diálogo produtivo entre os autores e você. Mas, apesar dessa informalidade, foi laboriosamente construído com um método particular de enfocar o problema. Você pode notar que o conteúdo es­

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tá dividido em duas partes : Um pouco de teoria e A aplicação prática.

Na primeira parte você é introduzido na conceituação de elementos da metodologia. Por meio de exemplos corriqueiros, é apresentado aos funda­ mentos do conhecimento até chegar à identificação das principais característi­ cas do método científico e seus procedimentos . Na segunda, a teoria é deixada de lado para levá-lo a conhecer mais de perto a prática metodológica. O assunto escolhido foi precisamente a maior eficiência nos estudos, porque esse é um problema pelo qual você deve ter um interesse especial em solucionar. E se você conseguir interessar-se pela aplica­ ção do método científico em seus estudos, então tudo lhe será bem mais fácil, porque terá conhecido, pela experiência pessoal, o valor do emprego da meto­ dologia em qualquer ramo da atividade humana . Cremos que isso vale mais do que qualquer tratado.

Uma explicação necessária

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Antes de começar a usar este livro , examine o conteúdo com atenção. O ideal é que você inicie o estudo pela parte teórica. Ela não está em primeiro lugar por acaso. Se você possuir noções mais sólidas sobre a teoria do processo do co­ nhecimento, entrará no terreno da prática com muito maior segurança. A teo- ria informa por que se deve agir de determinada maneira na Isto não significa, porém, que você não'possa enfrentar as duas partes do livro ao mesmo tempo, ou seja, estudar a teoria e aplicar o que aprender na parte prática . Pode, e até deve, fazer as duas coisas concomitantemente. Este livro foi construído precisamente para que não haja contradição entre o co­ nhecimento teórico e sua imediata aplicação . Para muitas pessoas essa é, inclu­ sive, a maneira mais rápida de se aprender com segurança alguma coisa. Por outro lado, se os seus conhecimentos teóricos já forem suficieptes, então pule a primeira parte e comece diretamente na segunda. Nela você aprenderá a dar os primeiros passos para tornar sua atividade intelectUal mais eficiente. Cada capítulo apresenta logo no início o seu plano esquemático. Exami­ nando esse plano você adquire, numa simples mirada, uma noção do conteúdo e, assim, pode imaginar de que lhe serve estudá-lo . Passe em seguida à leitura do texto propriamente dito. Ao final da leitura, esforce-se para responder as questões de auto-avaliação. Elas lhe servem de guia na verificação do seu apro- . veitamento : se não conseguir respondê-las, isso indicará que não compreendeu o conteúdo do capítulo. Se tal coisa acontecer, volte ao texto, não passe ao ca­ pítulo seguinte . Releia o texto quantas vezes forem necessárias para poder res­ ponder às questões de maneira segura. Ao mesmo tempo que servem de guia, . as questões de auto-avaliação poderão lhe servir também como tema de algum trabalho . Recomendamos que você faça um trabalho, mesmo curto, sobre qualquer das questões que surgem ao final de cada capítulo isso aj udará a fixar o que aprendeu. Você notará também que algumas questões de auto-ava­ liação não são diretamente respondidas pelas informações apresentadas no texto. Essa discrepância, no entanto, é proposital : seu objetivo é fazer com que você possa desenvolver o assunto mediante reflexão baseada em seus pró­ prios conhecimentos ou por meio de consulta a outras fontes . Outra novidade quanto à composição do livro diz respeito aos resumos. Na parte teórica você encontrará, ao final de cada capítulo, um resumo do conteúdo, feito de maneira tradicional . Os capítulos da parte prática, porém, não são resumidos da mesma forma. Por vezes , quando o conteúdo assim o exige devido ao volume da informação, resumos esquemáticos surgem durante o desenvolvimento do texto, ao final de algum tópico. Essa colocação visa a facilitar a esquematização do aprendizado, já que o exagerado acúmulo de in- formação pode confundir o leitor. De qualquer modo , os resumos da parte . prática são sempre esquematizados . E os dois capítulos finais não apresentam qualquer resumo porque já são, em si mesmos, muito sucintos . O glossário é mais um auxílio que o livro lhe presta. Obviamente poderia deixar de existir, mas sua presença justifica-se para solucionar eventuais dúvi­ das quanto ao significado de alguns termos comuns que você encontra na

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para solucionar eventuais dúvi­ das quanto ao significado de alguns termos comuns que você encontra na
para solucionar eventuais dúvi­ das quanto ao significado de alguns termos comuns que você encontra na
para solucionar eventuais dúvi­ das quanto ao significado de alguns termos comuns que você encontra na

maioria dos dicionários. Como é provável que você venha a estudar este livro em situações nas quais a consulta a um dicionário seja problemática, espera-se que o glossário lhe seja útil de algum modo . Finalmente , a bibliografia tem uma dupla finalidade: informar sobre as obras e autores citados no texto e apresentar ainda outras fontes bibliográfi­ cas, mediante as quais você poderá realmente desenvolver os conhecimentos elementares adquiridos neste livro . Esperamos, sinceramente , que este manual elementar cumpra integralmente sua missão e introduza você quase sem sentir no proveitoso estudo da metodologia.

e i n t r o d u z a v o c ê quase sem
e i n t r o d u z a v o c ê quase sem

A Equipe Editorial

• Introdução • O método e você • O que é método • Método e
• Introdução
• O método e você
• O que é método
• Método e técnica
• O valor do conhecimento
• A
natureza
e
o
desenvolvi­
mento da ciência

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INTRODUÇAO

Antes de iniciarmos juntos o estudo introdutório da Metodologia Científica é bom você ficar sabendo desde já que não se trata de um bicho-de-sete-cabeças. Se dedicar um mínimo de atenção e persistência ao trabalho de estudar, logo perceberá ser possível enfrentar tranqüilamente as páginas seguintes, sem tro­ peçar em obstáculos que parecem ser intransponíveis . Esta parte teórica tem por objetivo introduzir você nos problemas teóri­ cos da Metodologia Científica, mas fazê-lo do modo mais suave possível ou seja, explicando e não complicando ; partindo do simples para o complexo; es­ tudando as partes para depois reuni-las no todo. Tudo isso visa a oferecer-lhe uma base, um instrumento inicial que você poderá desenvolver em estudos posteriores . Algumas observações aqui apresentadas poderão parecer óbvias e dispen­ sáveis, mas sua presença não é gratuita. Partindo do óbvio chega-se mais facil­ mente ao que nos é agora obscuro. Essa é uma das formas de suavizar as difi­ culdades do aprendizado. Portanto, receba de braços abertos e não menospre­ ze nem mesmo aquilo que já lhe é evidente. Embora o texto das páginas seguintes não tenha qualquer pretensão de es­ gotar o assunto, sua existência justifica-se por proporcionar ao iniciante um instrumento primário de compreensão da matéria em estudo. Aproveitando-o, você poderá com menor esforço abrir seu caminho para o domínio da Metodo­ logia Científica.

v o c ê poderá com menor esforço abrir seu caminho para o domínio da Metodo­

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o MÉTODO CIENTiFICO

o MÉTODO E VOCÊ.

Certamente você já conhece muitos métodos. Qualquer pessoa civilizada é uma espécie de ilha cercada de métodos por todos os lados, ainda que nem sempre tenha consciência disso. Pense, por exemplo, no que aconteceria se, por distração, não seguisse o método adequado para atingir um objetivo tão simples como estar calçado com meia e sapato. Vejamos . Se não seguir a ordem correta das açôes, primeiro você calçará o sapato; depois , verificando não ser possível pôr a meia no pé já calçado com o sapato, descalçará o sapato; então, porá a meia no descalço e, novamen­ te, calçará o sapato. Qual teria sido a conseqüência imediata da distração? Nesse exemplo de emprego de método, tão simples como corriqueiro, ao deixar de seguir a ordem correta das açôes você não alcançou na primeira ten­ tativa o resultado desejado: estar calçado com meia e sapato. Para alcançar o resultado esperado, você teve de voltar ao início da seqüência correta das ações - ou seja, observar o método. Quando o método não é observado, o mínimo que pode acontecer é gastar-se tempo e energia inutilmente. Passemos a outro exemplo banal. Desta vez o problema é colocar um au­ tomóvel em movimento, impulsionado corretamente por seu próprio motor. O carro, estacionado em um pátio, tem seu motorista já pronto para dirigi-lo. Para colocá-lo em movimento o motorista tem de realizar uma série de opera­ ções que requer uma seqüência definida:

1. Verificar se a alavanca de marchas está na posição de ponto morto - se não está, tem de ser levada a essa posição. 2. Ligar a chave de contato e dar partida ao motor. 3. Comprimir o pedal da embreagem (fricção).

4. Levar a alavanca de marchas à posição de engate da primeira marcha.

5. Soltar o freio de mão.

6. Comprimir suavemente o pedal do acelerador e, ao mesmo tempo, libe­ rar suavemente o pedal da embreagem.

A partir da sexta operação o carro entrará em movimento. · Qualquer motorista experiente executa essas operações observando rigo­ rosamente sua seqüência e alcança o resultado desejado. De fato , a maioria dos motoristas executa essas operações de um modo tão automático que não chega a pensar nelas, nem que a ordem de sua seqüência constitui um método. Apesar disso, os motoristas sabem que se modificarem a seqüência das ações não obterão o resultado desejado, porque o automóvel não sairá do lugar. Agora que já aprofundou um pouco sua noção de método, você pode perce­ ber melhor até que ponto está realmente cercado de métodos por todos os la­ dos . Pode perceber também que eles são indispensáveis para o desempenho das mais diferentes atividades humanas . Se até mesmo para sair calçado com meia e sapato você tem de empregar um método, que dizer do valor dos méto­ dos para as atividades mais complexas, como as científicas?

o , q u e dizer do v a l o r dos méto­ dos para

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ALGUNS ELEMENTOS BAslCOS

ALGUNS ELEMENTOS BAslCOS 5 Talvez você esteja sentindo que lhe falta ainda uma definição adequada ·

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Talvez você esteja sentindo que lhe falta ainda uma definição adequada · de método . Pois formule-a agora. Não recorra já a um dicionário. Pense nos exemplos apresentados, recorra à memória para lembrar-se de outros métodos que estão presentes em sua vida cotidiana. Trate de encontrar o que existe de co­ mum entre eles . Raciocine um pouco mais e tente formular sua própria defmição de método. Escreva-a numa folha de papel. Somente depois disso passe à leitura do tópico seguinte.

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O QUE E METODO

Se consultar mais de um dicionário, certamente você encontrará sentidos dife- rentes para o significado do termo "método ". Não se preocupe muito com is- so em essência, todas as acepções da palavra "método" registradas em di­ cionário estão intimamente ligadas à origem do termo methodos, criado pelos gregos na Antiguidade. Na antiga Grécia methodos significava "caminho para chegar a um fim ". Com o passar do tempo essa significação generalizou-se e o termo passou a ser empregado também para expressar outras coisas, como "maneira de agir", "tratado elementar ", "processo de ensino " etc. Isso, porém, não impediu que conservasse sua validade Com o significado de "caminho para chegar a um fi m", precisamente a acepção que nos interessa. O filólogo Antenor Nascentes, por exemplo, define método da seguinte maneIra:

Nascentes, por exemplo, define método da seguinte maneIra: • • "Conjunto dos meios dispostos convenientemente

por exemplo, define método da seguinte maneIra: • • "Conjunto dos meios dispostos convenientemente para

"Conjunto dos meios dispostos convenientemente para chegar a um fim que se deseja " (45: p. 1084, v. 4) .

Cândido de Figueiredo aprofunda essa definição, esclarecendo-a assim:

"Conjunto de processos racio n ais, para fazer qualquer coisa ou

obter qualquer fim teórico ou prático" (20: p. 1 69,

v.

2) .

Finalmente, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira vai ainda mais longe e registra:

"Caminho pelo qual se chega a um de terminado resultado, ainda que esse caminho não tenha sido fixado de antemão de modo deli­ berado e refletido" (7: p. 925) .

Não se· trata de discutir aqui qual dessas definições é a mais precisa, a mais adequada para expressar o que é método . Não há necessidade disso para quem está se iniciando no estudo da Metodologia Científica . Essas definições

há necessidade disso para quem está se iniciando n o estudo da Metodologia Científica . Essas

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o METODO CIENTiFICO

são reproduzidas com o único propósito de você dispor de alguns exemplos abalizados para compará-los com sua própria definição (aquela que você deve ter escrito há pouco numa folha de papel). Se sua definição não coincide com a dos mestres citados, isso ainda não tem importância. No atual estágio do estudo, o que realmente importa é você ter pensado no que é método e ter-se esforçado por encontrar uma definição adequada. Portanto, não desanime, você está dando os primeiros passos. Por ora basta ter em mente que:

dando os primeiros passos. Por ora basta ter em mente que: M é t o d
dando os primeiros passos. Por ora basta ter em mente que: M é t o d

Método é um conjunto de etapas, ordenadamente dispostas , a se­ rem vencidas na investigação da verdade, no estudo de uma ciência ou para alcançar determinado fim .

MÉTODO E TÉCNICA

Existem métodos e existem técnicas , todos nós sabemos que é assim. Mas , considerando as definições de método já conhecidas , método e técnica não se confundem, não são a mesma coisa? Sim, quando tomados de um modo bastante amplo, os dois termos mé- todo e técnica podem realmente confundir-se entre si. No entanto, racioci­ nando com maior rigor sobre o significado de cada um deles pode-se notar a existência de uma diferença fundamental entre ambos .

Técnica é o modo de fazer de forma mais hábil, mais segura, mais perfeita algum tipo de atividade , arte ou ofício.

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Voltemos ao,exemplo de sair calçado com meia e sapato. Você não alcan­ çará o resultado almejado se não seguir as etapas ordenadamente dispostas :

calçar primeiro a meia e depois o sapato . Esta ordenação das ações constitui o método. Contudo, mesmo seguindo a indispensável seqüência das etapas que deverão ser vencidas , você poderá chegar ao resultado desejado com menor uso de tempo e energia, ou com maior perfeição, se empregar a técnica especí­ fica dessa atividade. Por analogia, pode-se dizer que método é a estratégia da ação . O método indica o que fazer, é o orientador geral da atividade . A técnica é a tática da ação . ' Ela resolve o como fazer a atividade, soluciona o modo específico e mais adequado pelo qual a ação se desenvolve em cada etapa. Em outras palavras: a estratégia adequada ganha a guerra; a táctca adequada ganha uma batalha. A técnica, portanto, assegura a instrumentação específica da ação em ca­ da etapa do método. Este, por seu turno, estabelece o caminho correto para chegar ao fim por isso é mais amplo, mais geral . Para que a diferença entre método e técnica se fixe ainda melhor em sua mente, façamos juntos mais uma analogia.

diferença entre método e técnica se fixe ainda melhor em sua mente, façamos juntos mais uma
diferença entre método e técnica se fixe ainda melhor em sua mente, façamos juntos mais uma
ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS 7 Imagine que uma pessoa tem de hastear uma bandeira no topo

ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS

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Imagine que uma pessoa tem de hastear uma bandeira no topo de uma montanha. Como essa pessoa esta no continente e a montanha situa-se em uma ilha cercada de águas profundas, o "método" indicará as etapas a serem ordenadamente vencidas , ou seja: a pessoa terá primeiro de atravessar o obstá­ culo água, depois atingir o topo da montanha e, então, hastear a bandeira. De fato, a bandeira não poderá ser hasteada sem que, de alguma forma, a água seja vencida e o cume da montanha atingido . Qualquer inversão na or- dem, das etapas indicada pelo "método" ' impossibilitará a consecução do re- sultado desejado. Contudo, mesmo obedecendo à seqüência das etapas, o objetivo de has­ tear a bandeira no topo da montanha insular poderá ser atingido com maior ou menor segurança, com maior ou menor economia de tempo etc ., dependen­ do de como cada etapa será vencida. A pessoa poderá atravessar a água a na­ do , de barco , avião ou helicóptero. (É claro que existem ainda outros meios para realizar a travessia, mas estes são suficientes para o que desejamos de­ monstrar .) Então , para fins de argumentação, denominemos "técnicas" os meios citados . Temos, assim, quatro "técnicas " para vencer a primeira etapa. Entre elas haverá uma mais adequada às condições da travessia e essa será a "técnica" correta, a mais vantajosa para atravessar a água, ou seja, vencer a primeira etapa do problema. Vejamos. A travessia feita de barco resolverá o fator segurança em relação à "técni­ ca" nado. Seja qual for o tipo de barco (a remo, a vela ou a motor), utilizan­ do-o a pessoa contará com um instrumento adequado para chegar à ilha. Isso só não seria verdade se a pessoa fosse um peixe e a água o seu elemento natural . Portanto, como qualquer barco possibilita a qualquer ser humano condições melhores de vencer as extensões de água, a "técnica" barco é mais adequada e segura do que a "técnica" nado até para os campeões de natação . Considerando que a ilha possui um campo de pouso no sopé da monta­ nha, a "técnica" avião acrescentará o fator rapidez à segurança oferecida pelo barco . De fato, podendo voar em linha reta, sem ter de enfrentar as ondas e correntes marítimas , e desenvolvendo maior velocidade do que o barco, um avião poderá vencer adequadamente a extensão do obstáculo água. Portanto, constitui uma "técnica" tão apropriada à travessia quanto o barco, mas com a vantagem de possibilitar resultado semelhante em menos tempo . A "técnica" helicóptero, no entanto, é ainda mais vantajosa do que as precedentes (nado, barco, avião), porque além de oferecer as vantagens de se­ gurança e rapidez a elas acrescenta o fator conveniência. Explicamos melhor:

se .qualquer pessoa pode vencer a primeira etapa viajando de barco ou avião, ao chegar à ilha terá de resolver o problema de escalar a montanha a segun­ da etapa a ser vencida . Nem a natação nem o barco poderão aj udá-la em nada nesse sentido. Quanto ao avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se

ao avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se • . , a pessoa quiser

ao avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se • . , a pessoa quiser
ao avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se • . , a pessoa quiser
ao avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se • . , a pessoa quiser

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avião, poderá sobrevoar o topo da montanha mas, se • . , a pessoa quiser atingir

a pessoa quiser atingir aquele local para hastear a bandeira, terá de arriscar-se

a um salto de pára-quedas . O helicóptero, porém, poderá deixar qualquer pes­ soa (seja ela alpinista ou não) no topo da montanha. Portanto, se o helicópte­

ro não apresenta desvantagens razoáveis para a consecução da primeira etapa

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o METODO CIENTiFICO

e constitui a única "técnica" disponível capaz de vencer também a segunda etapa, então ele é a "técnica" mais adequada, a mais valiosa para obter o re­ sultado desejado.

Mediante essa analogia você pod e tirar a seguinte conclusão : • Um mesmo método
Mediante
essa analogia você pod e tirar a seguinte conclusão :
Um mesmo método permite a utilização de técnicas distintas ; entre
elas, porém, haverá uma mais adequada do que as demais .

o VALOR DO CONHECIMENTO

Pense em quanta informação foi necessária para você reconhecer no helicópte­ ro a melhor "técnica" para a solução do problema de hastear uma bandeira no topo da montanha de uma ilha. Imagine que você fosse a pessoa indicada para hastear a bandeira e jamais houvesse visto um barco, não soubesse o que é um avião nem um helicóptero. Como resolveria o problema? A informação é necessária . Todos nós civilizados somos resultantes do conhecimento acumulado . Entre nós , as crianças são ensinadas desde cedo a calçar corretamente meia e sapato . As auto-escolas estão aí para ensinar qualquer pessoa a dirigir corretamente um automóvel . Podemos hastear bandeiras no topo de qualquer montanha graças às descobertas e invenções de outras pessoas . Por isso pro­ gredimos . A tosca habilidade humana de lascar uma pedra, torná-la pontiaguda e amarrá-la em um cabo, deu origem não apenas ao primeiro machado, mas à própria idéia de machado. Assim , a pedra lascada foi depois substituída pela pedra polida que permitia a confecção de machados mais convenientes ao uso . Posteriormente, observando que determinadas pedras aquecidas por acaso em uma fogueira vertiam gotas de metal derretido , e que essas gotas endureciam . depois de resfriadas, o homem primitivo passou a repetir deliberadamente a experiência. Após algum tempo, mediante erros e acertos , adquiriu os primei­ ros conhecimentos de metalurgia e passou a aplicá-los. Assim conseguiu utili­ zar o metal na confecção de seus machados . A evolução dos conhecimentos fez com que a humanidade saísse da Idade da Pedra Lascada para a Idade da Pe­ dra Polida e que esta, por seu turno, cedesse lugar à Idade do Cobre. O processo de acumulação e transmissão de conhecimentos tem sido a mola propulsora da ciência e do progresso material da humanidade . Sem a contribuição do conhecimento anterior, acurrlulado por nossos antepassados em séculos e séculos de observação, pesquisa e experimentação, estaríamos ainda vivendo como animais selvagens. Essa constatação faz-nos compreender que o mero conhecimento é, em si , algo abstrato . Para ter valor concreto é necessário que seja aplicado ou, pelo menos, comunicado . Somente desse modo ele se torna objetivo e entra para o acervo das conquistas da humanidade .

o r n a objetivo e e n t r a p a r a o

ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS

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ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS 9 o acúmulo de conhecimento conduziu também ao aperfeiçoamento da mentalidade.

o acúmulo de conhecimento conduziu também ao aperfeiçoamento da mentalidade. Reconhecendo a necessidade de passar adiante suas descobertas , o homem primitivo sentiu que era preciso inventar sistemas de comunicação e de registro de suas atividades. A mera capacidade de falar mostrou-se insufi­ ciente para assegurar a comunicação, porque o conhecimento adquirido fi cava dependendo exclusivamente da memória . A solução foi encontrada com a in­ venção da escrita . Uma vez escrito, o conhecimento pôde ser consultado a qualquer momento e, assim, também acumulado com maior fidelidade e rapi deZ. Acumulando seus conhecimentos e pensamentos o homem pode c om­ preender melhor a natureza e a si próprio . A história lança pouca luz sobre essa fabulosa transformação que, de um mundo selvagem , permitiu a criação dos grandes impérios do Egito e da Meso­ potâmia. Contudo, os vestígios que possuímos dessas antigas civilizações são suficientes para nelas identificarmos o despontar realmente significativo do conhecimento racional. E é com o desenvolvimento do conhe'cimento racional que desponta a Ciência propriamente dita.

racional que desponta a Ciência propriamente dita. • � A NATUREZA E O DESENVOLVIMENTO DA CIENCIA

A NATUREZA E O DESENVOLVIMENTO DA CIENCIA

o primeiro homem que confeccionou um machado descobriu uma técnica. Sem querer, implantou um método experimental que tinha sua validade na procura da pedra, na confecção e no uso do instrumento. Mas esse conjunto de etapas (encontrar a pedra, confeccionar o machado e usar o instrumento) era constituído de conhecimentos vulgares , carentes de ciência : ninguém sabia, ainda, por quê o machado fe ito com determinada pedra cortava melhor do que o fe ito com outra pedra e por quê o cabo mais longo aumentava a força da pancada. Somente quando o homem sentiu necessidade de saber por quê, a Ciência veio � luz. Durante muito tempo o termo ciência serviu para designar conhecimento em sentido amplo, genérico, como na expressão tomar ciência de alguma coi­ sa, cujo significado é "ficar sabendo". Aos poucos, porém , ganhou também sentido restrito, passando a designar o conjunto de conhecimentos precisos e metodicamente ordenados em relação a determinado domínio do saber. Os filósofos gregos foram os primeiros a refletir sobre a distinção entre o conhecimento vulgar e o saber científico . No seu diálogo Teeteto, Platão con­ clui que a Ciência é a posse da verdade, o contato imediato com a realidade . Todavia, Platão confunde ainda Ciência com Filosofia. Para ele, a compreen­ são dos fenômenos do mundo físico depende de uma hipótese: a existência de um plano superior à realidade, que só o intelecto pode atingir . Tal plano supe­ rior seria constituído de formas e idéias, espécies de arquétipos eternos dos quais a realidade concreta seria tão somente uma cópia imperfeita e perecível . Além disso, a doutrina platônica conduz à afirmação de que só há Ciência do universal , não do particular.

Além disso, a doutrina platônica conduz à afirmação de que só h á Ciência do universal
Além disso, a doutrina platônica conduz à afirmação de que só h á Ciência do universal
Além disso, a doutrina platônica conduz à afirmação de que só h á Ciência do universal
Além disso, a doutrina platônica conduz à afirmação de que só h á Ciência do universal

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o METODO CIENTiFICO

Embora concordando com Platão quanto à Ciência do universal , Aristó­ teles tratou de apresentar uma classificação de conhecimento científico, sepa­ rando as ciências em práticas , teóricas e poéticas . Contudo, ao elaborar essa distinção , considerou apenas o maior ou menor grau de generalidade do obje­ to de conhecimento ou seus diferentes modos de produção . A doutrina aristo- · télica dispensa a experimentação ou sua sistematização como procedimento científico porque concebe o universo como constituído por uma hierarquia inalterável, com cada ser ocupando definitivamente um lugar que lhe teria sido

destinado pela natureza.

De fato, a distinção mais evidente entre conhecimento científico e conhe­ cimento filosófico só aparece mais tarde , com o paulatino desenvolvimento (e a conseqüente autonomia) das ciências particulares . E isso ocorre sobretudo a partir do Renasciment o, quando se constitui uma ciência ao mesmo tempo quantitativa e experimental da natureza. Desde essa época o conceito de "ciên­ cia" e "científico" passa a exigir a existência de um método que garanta a exa­ tidão dos conhecimentos adquiridos, bem como sua progressividade e sua apli­ cabilidade. Durante esse período fecundo, considerado por muitos historiadores co­ mo o da constituição da ciência moderna, foram decisivas as contribuições'de homens sábios como Nicolau Copérnico , Johannes Kepler, Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton. VeiBmos . No início da investigação dos por quês o raciocínio puro prevalecia sobre a observação e a experiência. "Por que voa a flecha? ", perguntava Aristóte­ les. E ele mesmo respondia: "Porque o seu lugar natural é o peito do soldado inimigo ". Dessa maneira, para explicar o universo, para construir "Ciência", · não havia necessidade de experimentar , nem mesmo de observar : bastava que. · o raciocínio encontrasse a "causa" de todos os fenômenos . Os cientistas do Renascimento, no entanto, já não se satisfaziam com o raciocínio puro para explicar os por quês dos fenômenos . Dispondo de meios de observação objetiva mais aperfeiçoados, ou desconhecidos pelos gregos, eles começaram a verificar concretamente a exatidão de afirmações tidas como expressões de verdade e isso levou-os a opor contestação racional a certos dog­ mas medievais. Antes de Nicolau Copérnico (14 73 -1 543) poucos haviam se aventurado a contestar a teoria de Ptolomeu , formulada no século II, de que a Terra era o centro do universo, com os planetas e o Sol girando ao seu redor . Analisando estudos de antigos astrônomos e baseando-se em suas próprias observações , Copérnico concluiu que não era a Terra mas o Sol que estava no centro do uni­ verso; a Lua era um satélite da Terra e todo o conjunto planetário estaria en­ volvido por uma "esfera de estrelas fixas ". Em que pese a imperfeição dessa conclusão , sua importância reside no fato de afirmar a superioridade do co­ nhecimento racional sobre as teorias dogmáticas que, por considerarem o ho­ mem como a criação máxima de Deus, só podiam admitir a Terra (planeta em que vive o homem) como o centro do universo . Galileu Galilei (1564-1 642) sofreu a hostilidade dos sábios de formação

o homem) como o centro do universo . Galileu Galilei (1564-1 642) sofreu a hostilidade dos

ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS

ALGUNS ELEMENTOS BÁSICOS 11 aristotélica, por acreditar que o cientista deve provar na prática tudo o

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aristotélica, por acreditar que o cientista deve provar na prática tudo o que afirma. Para refutar a teoria geocêntrica (a Terra como centro do universo) desenvolveu argumentos que encontrou nas obras de Copérnico. Valendo-se de um telescópio (que inventou ou redescobriu) com capacidade para aumen­ tar até mil vezes a imagem observada, conseguiu ver as fases de Vênus: isto veio provar que esse planeta girava em torno do Sol e que, conseqüentemente, a Terra não era o centro do universo . Ao mesmo tempo, a observação dos qua­ tro satélites principais de Júpiter sugeriu-lhe um modelo em miniatura do siste­ ma solar. Foi também opondo-se à lógica de Aristóteles que Francis Bacon (1561- -1 626) marcou sua passagem na história do desenvolvimento da ciência. Sua nova lógica tinha como objetivo a satisfação das necessidades científicas de

sua época, cuj o propósito não era apenas o conhecimento em si, mas também a eficiência do conhecimento . Bacon afirma que, para descobrir a natureza, dominá-la e extrair sempre novos segredos , o hOlllem tem de valer-se de um método experimental . Para ele, o sábio deve livrar-se de todas as idéias falsas que obscurecem o espírito e só confiar na experiência, indo gradativamente dos fatos particulares para os fatos gerais. Nesse sentido, é necessário observar e anotar os fatos da natureza, sua presença, sua ausência, seu aumento ou di­ minuição , a fim de induzir as relações de causa e efeito . Johannes Kepler (1 571-1628) formou-se em Filosofia. Todavia, foi sua de­ dicação à Matemática e à Astronomia que o levou a enunciar as leis que regem o movimento dos planetas . Embora influenciado pelas idéias predominantes em seu tempo, tratou persistentemente de dar fundamento experimental à teo­ ria de Pitágoras sobre a harmonia das esferas . Suas observações nesse sentido abriram caminho para a adoção definitiva da teoria heliocêntrica (o Sol é o centro do sistema planetário) e para a física desenvolvida mais tarde por New­ ton. Sobre a obra de Kepler diria Einstein , um dos maiores sábios do século XX, que ela revela que o conhecimento não pode derivar apenas da experiên­ cia; é preciso comparar o que o espírito concebe com aquilo que se René Descartes (1 596- 1 650) , matemático e filósofo, tratou, por seu turno , de justificar a própria validade do conhecimento científico . Reconheceu que, em qualquer área do conhecimento, a certeza só é possível quando baseada em idéias que tenham as mesmas características das noções matemáticas, isto é, que sejam evidentes , claras e distintas . Com esse propósito , sondou profunda­ mente as idéias que povoavam seu pensamento e, inspirado nas matemáticas, preconizou um método que considerou capaz de solucionar qualquer proble­ ma. Em síntese, seu método consistia no seguinte:

m a . Em síntese, seu método consistia no seguinte: 1 . Jamais aceitar por verdadeiras
m a . Em síntese, seu método consistia no seguinte: 1 . Jamais aceitar por verdadeiras

1. Jamais aceitar por verdadeiras as coisas que não sejam evidentes (regra

da evidência) .

as coisas que não sejam evidentes (regra da evidência) . 2. Dividir a dificuldade examinada em

2. Dividir a dificuldade examinada em tantas parcelas quantas sejam pos­ síveis para melhor compreendê-las (regra da divisão ou análise) . 3. Conduzir os pensamentos em ordem, começando pelos objetos mais simples e fáceis de serem conhecidos para, gradativamente, chegar ao conhecimento dos mais compostos (regra da ordem ou dedução).

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o M"ETODO CIENTiFICO

1 2 o M " E T O D O CIENTiFICO 4. Fazer sempre enumerações tão

4. Fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais que se esteja certo de nada ficar omitido (regra da enumeração).

Isaac Newton (1642- 1727) contribuiu amplamente para a constituição da ciência moderna com seus trabalhos sobre Matemática e Física. Além de autor da lei da atração universal (' 'todos os corpos atraem-se com uma força pro­ porcional à sua respectiva massa e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles"), deixou obra de grande importância nos campos da Me­ cânica e da Óptica, bem como lançou as bases do cálculo infinitesimal ao mesmo tempo que Leibniz. Ao completar a obra de Descartes, elaporou ,. um método científico que pode ser sintetizado da seguinte maneira:

científico que pode ser sintetizado da seguinte maneira: 1 . Na medida do possível, atribuir a

1. Na medida do possível, atribuir a uma só e mesma causa os fenômenos análogos (regra da síntese). 2. Estender a todos os corpos em geral as qualidades que pertencem aos corpos sobre os quais é possível fazer experimentação (regra da extra­

polação) .

3. Considerar como válida toda proposição obtida por indução a partir da experiência, até que um novo fenômeno venha a contradizê-la (regra

da indução) .

Por meio dessas informações podemos observar, portanto , que a partir do Renascimento a Ciência já apresenta nítidas razões de existência indepen­ dente da Filosofia. A atitude do cientista ante os fatos da natureza já difere muito da seguida pelos sábios da antiga Grécia. E essa diferença é infinitamen­ te maior quando comparamos o modo de agir do cientista dos séculos XVII e XVIII com o do homem primitivo que, descobrindo uma utilidade na pedra lascada, uniu-a a um cabo e inventou o machado. Os motivos que determinaram o desenvolvimento da Ciência são de fácil compreensão, sobretudo quando se considera o longo tempo que medeia en­ tre a época do homem primitivo e a do sábio da Antiguidade grega, e entre a deste último e a da era científica moderna. Mas, ainda assim, é preciso com­ preender melhor o que é Ciência e quais são suas principais características . É precisamente este o assunto que examinaremos nos capítulos seguintes .

Biografias auxiliares

PLA TÃO Filósofo grego da Antiguidade, Platão nasceu em Atenas no ano de 427 a.C. e foi discípulo de Sócrates . Com a morte de seu mestre, deixou a Grécia e viveu algum tempo na Sicília. Mais tarde, ao regressar a Atenas em 387 a.C., fundou sua escola, a Academia. Conjecturando sobre os problemas da moral , Platão afirmava que quem . pratica o mal não o faz apenas para os outros, mas também para si mesmo. Di­ zia: "se quero o mal é porque o imagino erroneamente como um bem pa­ ra mim" . O bem, ou seja, o conhecimento da justiça, é que faz os homens feli­ zes. A justiça consistiria na relação entre as três partes da alma: a inteligência,

A justiça consistiria na relação entre as três partes da a l m a : a
A justiça consistiria na relação entre as três partes da a l m a : a
A justiça consistiria na relação entre as três partes da a l m a : a
ALGUNS ELEMENTOS BAslCOS 13 s i m b o l i z a d a

ALGUNS ELEMENTOS BAslCOS

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simbolizada pela cabeça; a coragem , pelo coração ; e os instintos, pelo baixo ventre. Essa relação seria estendida às três classes sociais que corresponderiam às três partes da alma: os filósofos, correspondendo à cabeça ou à inteligência; os guerreiros, à coragem; os artífices e cultivadores, aos instintos. Como os instintos deveriam obedecer à inteligência, pela mesma razão os artífices e cul­ tivadores deveriam obedecer aos filósofos. Mas como os instintos não se sub­ metem diretamente ao espírito, também os artífices não tinham porque obede­ cer espoJ1taneamente aos fi lósofos . Por isso existia entre eles o coração, ele- mento mediador, representado pelos guerreiros (a coragem). Dessa forma rei- nava a justiça e todos eram felizes . Platão considerava que duas vias convergentes , uma axiológica e a outra intelectual, conduziam o homem do mundo das sensações para o das idéias . A via axiológica (ou seja, a reflexão sobre os valores) seria a mais importante, pois sem ela a conversão do espírito ao plano do que é inteligível tornava-se impossível. Platão morreu em Atenas , no ano de 347 a.C., mas sua doutrina tem exer­ cido forte influência no pensamento humano através dos tempos.

,

no pensamento humano através dos t e m p o s . , A R I

ARISTÓ TELES

Embora discípulo de Platão , Aristóteles (nascido em 384

a. C.) desenvolveu sua própria doutrina filosófica. Enquanto Platão considera­ va que o mundo real só poderia ser alcançado por meio da inteligência, através das idéias, Aristóteles afirmava que o mundo das realidades inteligíveis não existia. Para ele, é o homem concreto que existe e não a mera idéia de homem. Contudo, caberia à Ciência abstrair, em forma de conceito, os traços comuns dos indivíduos concretos, porque só haveria Ciência do geral, e não do parti­ cular. Aristóteles imaginou uma hierarquia dominando o mundo dos seres vi­ vos. Na parte mais alta dessa hierarquia estaria o Ser geral e na base dela, os

indivíduos. Os elos intermediários entre os extremos seriam definidos confor­

me o gênero próximo e a difere nça especifica de cada um . Por exemp lo : o ho­

mem é um animal (gênero próximo) racional (diferença específica) . Na doutri­ na aristotélica a moral não se opõe à natureza; ao contrário, é o seu acabamen­ to. A razão caracterizaria o homem e a suprema virtude consistiria em viver-se de acordo com a razão . A doutrina de Aristóteles exerceu limitada influência até o século XII, quando, redescoberta pelos árabes e filósofos europeus , ganhou força e prestí­ gio . No entanto, se a lógica aristotélica continua influindo sobre algumas cor­ rentes filosóficas de nossos dias, sua concepção da Física tornou-se obsoleta nos séculos XVI e XVII, com o desenvolvimento das pesquisas científicas e, sobretudo, através de Galileu e Descartes. Aristóteles faleceu no exílio, em 322 a.C., após a morte de Alexandre Magno, da Macedônia, que fora seu discípulo.

que f o r a s e u d i s c í p u l

PTOL OMEU

Pouco se conhece da vida de Cláudio Ptolomeu, astrônomo

d a v i d a d e Cláudio Ptolomeu, astrônomo g r e g o

grego que viveu no século II. Sabe-se apenas de suas observações astronômicas efetuadas no período que vai do ano 127 ao 151. No entanto, Ptolomeu legou

o p e r í o d o q u e v a i d o

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o METODO CIENTiFICO

um documento monumental à posteridade com sua obra Sintaxe Matemática (mais conhecida como A/magesto), na qual sintetiza todo o conhecimento da Astronomia de sua época. As concepções de mundo registradas no Almagesto não apenas dominaram o pensamento da civilização ocidental, como não rece­ beram contestação durante quatorze séculos. Além da Astronomia, Ptolomeu dedicou-se também à Matemática, desenvolvendo alguns trabalhos importan­ tes no campo da Geometria. Na área da Geografia, desenvolveu a Cartografia e deixou um Guia Geográfico que sintetiza os conhecimentos geográficos de seu tempo .

que sintetiza os conhecimentos geográficos de seu tempo . , PI TA GORA S Segundo alguns

,

PI TA GORA S Segundo alguns historiadores , Pitágoras, figura já legendá- ria na Antiguidade, teria nascido entre 585 e 565 a.C., em Salmos, ilha da Gré­ cia. Com cerca de quarenta anos de idade, por motivos desconhecidos, deixou a terra natal e fixou-se em Crotona, Itália, onde fundou uma confraria cientí­ fico-religiosa. Criou um sistema de doutrinas com a finalidade de descobrir a harmonia que preside o universo, a fim de aplicar suas leis na vida social . Co­ nhecido pelo teorema que recebeu seu nome, Pitágoras concebia os números não como símbolos de valor de grandezas, mas como coisas reais, entidades corpóreas . Isso permitiu-lhe o desenvolvimento de numerosas teorias matemá­ ticas e o relacionamento do universo real com a estrutura do universo numéri­ co . Essa concepção chegou a pressupor o universo harmonicamente constituí­ do por astros cuj as trajetórias estariam presas a esferas que possuíam um cen­ tro comum. Tais esferas homocêntricas estariam separadas entre si por inter­ valos equivalentes aos intervalos musicais e, em seu movimento, produziriam sons de acorde perfeito . Em síntese, era esta a teoria da "harmonia das es fe­ ras" a que Kepler tentou dar fundamento experimental .

a que Kepler tentou dar fundamento experimental . RESUMO M é todo e técnica não são

RESUMO

Mé todo e técnica não são a mesma coisa. Método é uma orientação geral, constituí­ da por um conjunto de etapas, ordenadamente dispostas, a serem vencidas na inves­ tigação da verdade, no estudo de uma ciência ou para alcançar determinado fim. Técnica é um modo de realizar uma atividade, arte ou oficio, de maneira mais hábil, mais segura e mais perfeita. Em linhas gerais, a técnica é a maneira mais adequada de se vencer as etapas indicadas pelo método. Por isso diz-se que o método equivale à estratégia, enquanto a técnica equivale à tática. A existência de método e de técnica pressupõe conhecimento anterior, ou seja, acúmulo de informação. Nem método nem técnica surgem do nada. Por isso diz-se que o mero conhecimento, em si, é abstrato. Para ter valor é necessário que seja apli­ cado ou, pelo menos, comunicado . O acúmulo. de conhecimento vulgar através dos tempos ofereceu ao homem a possibilidade de começar a investigar objetivamente o por quê das coisas, dando origem ao conhecimento científico. No entanto, por muito tempo Ciência e Filosofia confundiram-se entre si, for­ mando um único corpo de conhecimento. Somente a partir do Renascimento, com a adoção do método científico de verificação quantitativa e experimental dos fatos e hipóteses· mento.

ALGUNS ELEMENTOS BAslCOS

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QUESTÕES PARA AUTO-AVALIAÇÃO

Se você compreendeu o conteúdo das informações contidas neste capítulo não terá dificuldade em responder às questões apresentadas abaixo. Para melhor aproveitamento do seu estudo, selecione algumas delas e use-as como tema de um trabalho ou discussão.

Você é capaz de descrever outros métodos que emprega na vida diária? As etapas que você tem de vencer para ir de sua casa ao cinema mais próxi- mo constituem um método? Por quê? ' Você poderia descrever com suas próprias palavras qual é a diferença funda­ mental entre método e técnica? Ou não há diferença fundamental entre am­ bos?

Um método específico só admite o emprego . de uma determinada técnica? Explique por quê. Sem conhecimento prévio, alcançado pelos mais diferentes meios, é possível especificar-se a técnica mais adequada para cumprir uma etapa de um méto­ do determinado? E justo considerar nado, barco , avião e helicóptero "técnicas ", como no exemplo apresentado no capítulo? Você poderia substituir esses meios por outros mais adequados ao exemplo argumentativo? Em caso positivo, por que não expor esses meios à discussão?

i v o , por que não expor esses meios à discussão? • • , Quando

,

Quando o homeI1l primitivo construiu o primeiro machado de pedra lascada, ele já empregou o conhecimento racional? E quando criou o primeiro arco para lançar longe suas flechas? A criação da escrita origina-se do conhecimento vulgar ou do racional? Por quê? Você concorda com a teoria de Platão, segundo a qual a Ciência é a posse da verdade? Como você explicaria a diferença entre Ciência e Filosofia? Do ponto de vista da Ciência contemporânea, que havia de errado na teoria aristotélica que afirmava "a flécha voa porque seu lugar natural é o peito do soldado inimigo"? Basta que encontremos a causa dos fenômenos para se alcançar Ciência?

Quando alguém afirma que a Ciência é infalível, essa afirmação expressa um dogma ou uma verdade? Por quê? O método criado por Descartes conseguiu tornar a Ciência infalível? Esse método pode ser empregado em nossos dias?

• • c o n eCI ento • • • fntro(juçáo • Conhécimento vulgar •
• c o n
eCI
ento
• fntro(juçáo
• Conhécimento vulgar
• t onf,leoimento cientifico
; Conhecimento filosófico .
• Conhecimento teológico
. • Conhecimento
e verdade
• Conhecimento teológico . • Conhecimento e verdade - INTRODUÇAO Diante da natureza, o homem a

-

INTRODUÇAO

Diante da natureza, o homem animal racional não age como os animais inferiores . Estes apenas esforçam-se pela vida. O homem, além disso, esforça­ -se por entender a natureza e, embora sua inteligência seja dotada de limita­ ções, tenta sempre dominar a realidade, agir sobre ela para torná-la mais ade­ quada às suas próprias necessidades . E à medida que a domina e transforma, também amplia ou desenvolve suas próprias necessidades . Esse processo permanente de acumulo de conhecimentos sobre a natureza e de ações racionais capazes de transformá-la compõe o universo de idéias que hoje denominamos "Ciência". Ciência é, pois, o conhecimento racional , sistemático , exato e verificável da realidade . Por meio da investigação científica o homem reconstitui artifi­ cialmente o universo real em sua própria mente. Mas essa reconstituição ainda não é definitiva . A descoberta e a compreensão de fatos quase sempre levam à necessidade de descobrir e compreender novos fatos . E como o resultado das investigações depende dos conhecimentos já adquiridos e de instrumentos ca­ pazes de aprofundar a observação, a Ciência está sempre limitada às condições de sua época.

, O que era conhecimento verdadeiro para o sábio da Antiguidade, já não o era para o cientista do Renascimento; e o que foi verdadeiro para o cientista do século XVIII pode já não o ser para o cientista em nossos dias . Assim, diz-se também que a ciência é falível, ou seja, pode ser exata apenas para determina­ do· período. O conceito científico que o homem tem do mundo é cada vez

do· período. O conceito científico que o h o m e m t e m d
do· período. O conceito científico que o h o m e m t e m d
o CONHECIMENTO 17 mais amplo , mais profundo, mais detalhado e mais exato. Mas está

o CONHECIMENTO

17

mais amplo , mais profundo, mais detalhado e mais exato. Mas está ainda mui­ to longe de ser completo. Assim, considerando-se o desenvolvimento histórico da ciência, é lógico pressupor que o cientista do final do século XXI disporá de conhecimentos muito mais desenvolvidos e exatos do que os de hoje. Afinal, o que é conhecer? . ' , Em linhas gerais, conhecer é estabelecer uma relação entre a pessoa que conhece e o objeto que passa a ser conhecido . No processo de conhecimento, quem conhece acaba por: de certo modo, apropriar-se do óbjeto que conhe­ ceu . De certa forma, "engole" o objeto que conheceu . Ou seja, transforma em conceito esse objeto, reconstitui-o em sua mente. O conceito, no entanto, não é o objeto real, não é a realidade, mas apenas uma forma de conhecer (ou conceber, ou conceituar) a realidade. O objeto real continua existindo como . tal, independentemente do fato de o conhecermos ou não.

Há duas maneiras de se conhecer um objeto, de nos "apropriarmos" mentalmente dele. Uma é mediante os nossos sentidos, através da nossa sensibi­ lidade' física; a Outra é mediânte o nosso pensamento, através do nosso cérebro. O conhecimento que adquirimos por meio de nossa sensibilidade física diz respeito aos objetos físicos . Por exemplo: conhecemos uma cor porque nossos olhos vêem a cor; conhecemos um som porque nossos ouvidos sentem a vibra­ ção que produz o som; conhecemos um gosto porque as terminações nervosas que constituem o nosso paladar distinguem o gosto. Disso podemos concluir que o conhecimento é sensível quàndo obtido mediante uma informação pres­ tada pelos nossos sentidos (a cor excita os nervos ópticos que informarri nossa mente; o som, os nervos auditivos etc.). A outra forma de conhecimento é puramente intelectual. Mesmo sem qualquer informação da visão, audição, olfato, paladar ou tato, podemos co- nhecer ·uma idéia, um princípio , uma lei . E claro que se você assiste a uma con- . ferência, seus nervos auditivos entram em ação . Eles são atingidos pela voz do conferencista, mas você fica conhecendo as idéias expostas mediante um pro­ cesso intelectual . A voz do conferencista é apenas um veículo. Ela só interessa na medida em que transporta o conteúdo da conferência. O conhecimento des- se conteúdo ou seja, a "apropriação" das idéias é intelectual. Nem sempre essas duas formas de conhecimento sensível e intelectual - ocorrem isoladamente. Ao contrário, com freqüência combinam-se para produzir conhecimento misto, ao mesmo tempo sensível e intelectual . Você pode, por exemplo, conhecer-se. Seus sentidos lhe informarão sobre a cor de sua pele, sobre seu cheiro, sua estatura, enfim, sobre suas características físi­ cas . Mas será a mente que lhe informará sobre seus próprios pensamentos, so­ bre sua maneira de agir ante determinado problema, sobre o tipo de entreteni- mento que você prefére etc. E todas essas informações estão relacionadas a um mesmo objeto: você. O conhecimento leva o homem a apropriar-se da realidade e, ao mesmo tempo, a penetrar nela. Essa posse confere-nos a grande vantagem de nos tor­ nar mais aptos para a ação consciente. A ignorância tolhe as possibilidades de avanço para melhor, mantém-nos prisioneiros das circunstâncias. O conheci-

, .
,
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,

r , mantém-nos prisioneiros das c i r c u n s t â n c
r , mantém-nos prisioneiros das c i r c u n s t â n c

.

r , mantém-nos prisioneiros das c i r c u n s t â n c
1 8 o METODO CIENTiFICO m e n t o l i b e r

18

o METODO CIENTiFICO

mento liberta: permite que atuemos para modificar as circunstâncias em nosso benefício . Quando pensamo� em termos de toda a humanidade, reconhecemos · que só podemos avançar mediante o conhecimento da realidade. Mas a realidade não se deixa desvendar facilmente. Ela é constituída de numerosos níveis e estruturas . De um mesmo objeto como, por exemplo, um elemento químico, uma vibração luminosa ou um conceito podemos ob­ ter conhecimentos da realidade em níveis distintos . Esses conhecimentos nos

t i n t o s . E s s e s conhecimentos nos i n

i n f o r m a r ã o sobre o objeto, n o informarão sobre o objeto, nos apresentarão sua origem , sua aparência, sua função, seu significado, sua relação com outros objetos e assim por diante. De um mesmo objeto, portanto, podemos obter conhecimento horizontal, mais

portanto, podemos obter conhecimento horizontal, mais superficial , . e conhecimento vertical , mais profundo ,

superficial ,

.

e conhecimento vertical , mais profundo , ou seja, desde sua apa-

.

rência mais simples até as implicações de seu relacion'amento com outras estru-

turas da própria realidade . Em outras palavras, a realidade é tão complexa que o homem, para apropriar-se dela, teve de aceitar diferentes tipos de conheci­ mento . Há pelo menos quatro tipos fundamentais de conhecimento, cada um de­ les subordinado ao tipo de apropriação que o homem faz da realidade. Esses quatro tipos são: o conhecimento vulgar, o conhecimento científico, o conhe­ cimento filosófico e o conhecimento teológico . Vamos examiná-los mais de perto .

conhecimento teológico . Vamos examiná-los mais de perto . CONHECIMENTO VULGAR . T a m b

CONHECIMENTO VULGAR

.

Também denominado "empírico", o conhecimento vulgar é o que todas as pessoas adquirem na vida cotidiana, ao acaso, baseado apenas na experiência . vivida ou transmitida por alguém . Em geral resulta de repetidas experiências casuais de erro e acerto, sem observação metódica nem verificação sistemática, por isso carece de caráter científico . Pode também resultar de simples trans- missão de geração para geração e, assim, fazer parte das tradições de uma co- letividade. Não é necessário estudar Psico ' logia para se saber que uma pessoa está ale- gre ou está triste . Você conhece o estado de humor dessa pessoa porque empi- ricamente já passou por muitas experiências de contato com pessoas alegres ou tristes . É igualmente vulgar o conhecimento que, em geral, o lavrador iletrado tem das coisas do campo. ' Ele interpreta a fecundidade do solo, os ventos anunciadores de chuva, o comportamento dos animais . Sabe onde furar um poço para obter água, quando cortar uma árvore para melhor aproveitar sua madeira e se a colheita deve ser feita nesta ou naquela lua. Ele pode, inclusive, apresentar argumentos lógicos para explicar os fatos que conhece, mas seu co- ' nhecimento não penetra os fenômenos, permanece na ordem aparente da reali­ dade. Como é fruto da experiência circunstancial , não vai além do fato em si, do fenômeno isolado. Embora de nível inferior ao científico, o conhecimento vulgar não deve ser menosprezado. Ele constitui a base do saber e existia muito antes do ho­ mem imaginar a possibilidade da Ciência .

.

.

.

a m u i t o antes d o ho­ m e m i m a
a m u i t o antes d o ho­ m e m i m a

o CONHECIMENTO

19

,

,

CONHECIMENTO CIENTIFICO

As principais características do conhecimento científico serão apresentadas no capítulo seguinte. Por ora, apenas como termo de comparação com os demais tipos de conhecimento, basta um resumo de algumas delas . O conhecimento científico resulta de investigação metódica, sistemãtica da realidade. Ele transcende os fat os e os fenômenos em si mesmos, analisa-os para descobrir suas causas e concluir as leis gerais que os regem . Como o objeto da Ciência é o universo material , fíSico , naturalmente per­ ceptível pelos órgãos dos sentidos ou mediante a ajuda de instrumentos de in­ vestigação, o conhecimento científico é verificável na prática, por demonstra­ ção ou experimentação. Além disso, tendo o firme propósito de desvendar os segredos da realidade , ele os explica e demonstra com clareza e precisão, des­ cobre suas relações de predomínio , igualdade ou subordinação com outros fa­ tos ou fenômenos . Oe tudo isso conclui leis gerais, universalmente válidas para todos os casos da mesma espécie.

válidas para todos os casos da mesma espécie. , CONHECIMENTO FILOSOFICO • O conhecimento filosófico
válidas para todos os casos da mesma espécie. , CONHECIMENTO FILOSOFICO • O conhecimento filosófico
, CONHECIMENTO FILOSOFICO • O conhecimento filosófico tem por origem a capacidade de reflexão do
,
CONHECIMENTO FILOSOFICO
O conhecimento filosófico tem por origem a capacidade de reflexão do homem
e por instrumento exclusivo o raciocínio. Como a Ciência não é suficiente para
explicar o sentido geral do universo, o homem tenta essa explicação através da
Filosofia. Filosofando, ele ultrapassa os limites da Ciência delimitados pela
necessidade de comprovação concreta para compreender ou interpretar a
realidade em sua totalidade. Mediante a Filosofia estabelecemos uma concep-
"
ção geral do mundo.
Tendo o homem como tema permanente de suas considerações , o filoso­
far pressupõe a existênCia de um dado determinado sobre o qual refletir, por
isso apóia-se nas ciências . Mas sua aspiração ultrapassa o
dado científico , já
.
,
que a essência do conhecimento filosófico é a busca do "saber" e não sua pos-
se. Tratando de compreender a realidade dos problemas mais gerais do homem
e sua presença no universo , a Filosofia interroga o próprio saber e transforma­
.
.
-o em problema. É, sobretudo, especulativa, no sentido de que suas conclusões
carecem de prova material da realidade . Mas, embora a concepção filosófica
não ofereça soluções definitivas para numerosas questões formuladas pela
mente, ela se traduz em ideologia. E como tal influi diretamente na vida con-
creta do ser humano, orientando sua atividade prática e intelectual .
,
,
CONHECIMENTO TEOLOGICO
O conhecimento teológico é produto da fé humaná na existência de uma ou
mais entidades divinas
um deus ou muitos deuses . Ele provém das revela­

ções do mistério, do oculto, por algo que é interpretado como mensagem ou

,

2 0 o METODO CIENTiFICO manifestação divina. T a i s revelações são transmitidas por

20

o METODO CIENTiFICO

manifestação divina. Tais revelações são transmitidas por alguém , por tradi­ ção acumulada ao longo da história ou através de escritos sagrados . Não é necessário que se seja monoteísta (acredite-se em um só deus) para que o conhecimento proporcionado pela fé seja teológico. Os gregos da Anti­ guidade eram politeístas (acreditavam na existência de muitos deuses), mas os seus sacerdotes já possuíam e cultivavam o conhecimento teológico . Atual­ mente, os sacerdotes de diferentes religiões ocidentais e orientais conhecem distintas entidades divinas e seus atributos , bem como suas relações com o uni­ verso e o homem em particular, portanto possuem conhecimento teológico . De modo geral, o conhecimento teológico apresenta respostas para ques­ tões que o homem não pode responder com os conhecimentos vulgar, científi­ co ou fil osófico. Assim , as revelações feitas pelos deuses ou em seu nome são consideradas satisfatórias e aceitas como expressões de verdade. Tal aceitação, porém , racional ou não, tem necessariamente de resultar da fé que o aceitante deposita na existência de uma divindade .

d e u m a d i v i n d a d e . CONHECIMENTO
d e u m a d i v i n d a d e . CONHECIMENTO
d e u m a d i v i n d a d e . CONHECIMENTO

CONHECIMENTO E VERDADE

De tudo o que acabamos de expor, podemos tirar algumas conclusões impor­ tantes para o estudo:

conclusões impor­ t a n t e s para o estudo: • 1 . O ser

1. O ser precede o conhecimento que temos dele. Sem que os seres, os fa­

tos, os fenômenos, enfim, o mundo sensível exerça ação sobre os ór­ gãos dos nossos sentidos , é impossível obtermos qualquer conhecimen­ to objetivo . Em outras palavras, isto significa que a causa de nossas sensações é a própria realidade material. A montanha, o sapato, o som etc. são seres reais eles existem independentemente da consciência que tenhamos deles .

independentemente da consciência que tenhamos deles . 2 . As s e n s a ç
independentemente da consciência que tenhamos deles . 2 . As s e n s a ç

2. As sensações dão-nos a imagem do universo real. Qualquer objeto ma­

terial atua de alguma forma sobre os órgãos dos nossos sentidos, cau­ sando-nos uma sensação . Essa informação é transmitida para o cére­ bro que, por seu turno, forma a: imagem exata, a cópia, do objeto ma­ terial . Assim, nossa percepção da montapha, do sapato, do som etc. é a imagem real da montanha, do sapato, do som. Por vezes os órgãos dos sentidos têm de ser auxiliados por instrumentos ou equipamentos que ampliam nossa capacidade natural de sentir . Por exemplo : nossos olhos não são capazes de ver um vírus , mas com a aj uda do microscó­ pio eletrônico essa deficiência foi sanada e já é possível termos a ima­ gem exata de um vírus . Radiotelescópios detectam a presença de astros que nem mesmo os mais poderosos telescópios ópticos podem obser­ var; assim, nossos sentidos recebem a sensação da presença de um ob­ jeto que está a alguns milhões de anos-luz distante de nós. Tudo isso significa que podemos conhecer realmente o mundo ma­ terial, ou seja, dele obtermos um conhecimento objetivo .

q u e podemos conhecer realmente o mundo ma­ terial, ou seja, dele obtermos um conhecimento
q u e podemos conhecer realmente o mundo ma­ terial, ou seja, dele obtermos um conhecimento

o CONHECIMENTO

21

.

.

o CONHECIMENTO 2 1 . . 3 . O conhecimento racional o b j e t

3. O conhecimento racional objetivo não dispensa o conhecimento sensí­

vel. Tomando a Ciência como

nhecimento racional objetivo; quando não considera o dado científico, produz conhecimento racional abstrato ou subjetivo . Mas o conheci­ mento teológico é produto exclusivo de fé, portanto, é exclusivamente conhecimento ideal, metafísico, abstrato. Podemos conhecer a realidade e encontrar a verdade se, ao conhe­

cermos um objeto, um fenômeno natural , não introduzirmos na percep­ ção que temos dele algo que não seja do próprio objeto ou fenômeno. Por exemplo : se você tem diante de si um relógio , sua visão, seu tato, seu olfato e sua audição informarão sua mente que aquilo é um relógio . Portanto, você não poderá dizer que a imagem "copiada" por sua mente é a de um chapéu . Se você disser que é um chapéu estará detur­ pando a verdade .

ponto de apoio , a Filosofia produz co ' ­

.
.

Quando deturpamos a verdade, deturpamos também o conheci- mento, pois relógio é relógio, chapéu é chapéu .

4. A verdade é a realidade. Toda vez que há divergência entre o objeto real e a percepção que temos dele ocorre uma deformação da realidade, portanto, uma deturpação da verdade. Por seu turno, toda vez que há coincidência entre o objeto real e a percepção que temos dele, com suas propriedades reais, ocorre a representação da própria realidade, por­ tanto, o conhecimento da verdade. É essa verdade que se denomina ob- jetiva, porque reflete com exatidão o que realmente existe. Acontece que muitas vezes manifestamos como verdade conceitos que são subje­ tivos, ou seja, que não correspondem à realidade independente de nos­ sa consciência . Nesses casos não obtemos conhecimento verdadeiro, porque o conteúdo desse conhecimento não corresponde à realidade, mas a um conceito subjetivo do que se "julga" ser a realidade.

5. A negação da verdade objetiva é incompatível com a Ciência. A apro­

,

.

priação do objeto pela mente, o conhecimento da verdade real, não­ -subjetiva, é uma das razões de ser da Ciência. Somente conhecendo a verdade real o homem pode desvendar o universo material , compreen­ dê-lo e agir sobre ele para subordiná-lo às suas próprias necessidades. Sem a possibilidade de posse da verdade objetiva, ou seja, de conheci­ mento da realidade concreta, a Ciência seria inútil.

mento da realidade concreta, a Ciência seria inútil. • RESUMO • • O b t e

RESUMO

Obtemos conhecimento através das sensações que os seres e fe nômenos nos dão de si. Essas sensações proporcionam-nos a imagem do universo real . Quem conhece al­ guma coisa de certo modo "apropria-se" do objeto que conheceu, transformando-o em conceito . Mas o conceito não é o objeto real e sim uma forma de se conhecer a realidade . O objeto real existe como ele é, independentemente do fato de o conhecer­ mos ou não. Conhecimento verdadeiro é aquele que corresponde ã realidade objeti­ va. Sem que houvesse a possibilidade de conhecimento da verdade . objetiva a Ciência seria inútil.

22 . o MElODO CIENTIFICO

Ciência é, pois, o conhecimento racional, sistemático, exato e verificável da rea­ lidade. Mas este conhecimento está sempre limitado às condições de sua época. Há duas formas de se obter conhecimento: mediante os nossos sentidos ou me­ diante o nosso cérebro, o que resulta respectivamente em conhecimento sensível e conhecimento intelectual. Com freqüência essas duas formas combinam-se, mas o conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível . Como a realidade é complexa, para "apropriar-se" dela o homem aceita quatro diferentes tipos de co­ nhecimento: vulgar, científico, filosófico e teológico.

n t o : vulgar, científico, filosófico e teológico. - - QUESTOES PARA AUTO-AVALIAÇAO Este capítulo
n t o : vulgar, científico, filosófico e teológico. - - QUESTOES PARA AUTO-AVALIAÇAO Este capítulo
- - QUESTOES PARA AUTO-AVALIAÇAO
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-
QUESTOES PARA AUTO-AVALIAÇAO
e teológico. - - QUESTOES PARA AUTO-AVALIAÇAO Este capítulo enfoca alguns problemas fi losófi cos .

Este capítulo enfoca alguns problemas fi losófi cos . Se você realmente com­ preendeu o seu conteúdo não terá muita dificuldade em responder às questões abaixo . No entanto , para desenvolver seus conhecimentos sobre o assunto, uti­ lize algumas delas como tema para um trabalho ou como assunto para discutir com alguém.

O conhecimento científico foi desenvolvendo-se aos poucos, apropriando-se da realidade da natureza. Você crê que ele já atingiu a verdade em alguma área do universo real? Por quê?

O que é mais verdadeiro : o objeto real ou o conceito que temos dele?

Existe alguma diferença de qualidade entre conhecimento sensível e conheci­ mento intelectual? Se existe, qual é essa diferença?

É possível adquirir-se conhecimento intelectual sem que de alguma forma os nossos órgãos dos sentidos sejam acionados?

O capítulo informa que, para apropriar-se da realidade, o homem desenvol­ veu quatro tipos de conhecimento. Você é capaz de mencionar as caracterís­ ticas que diferenciam entre si os conhecimentos vulgar, científico, filosófico e teológico?

Como você explicaria o fato de muitos cientistas serem religiosos? Não há contradição entre o conhecimento científico e o teológico? Ao investigar a realidade , o homem extrapola os conhecimentos adquiridos e prevê uma realidade que ainda não conhece, ou seja, formula uma hipótese. Essa hipótese pértence a que tipo de conhecimento: vulgar , científico, filosó­ fico ou teológico? Por quê?

Você é capaz de dar um exemplo de hipótese que depois foi confirmada pela verificação experimental? .

V o c ê é capaz de dar um exemplo de hipótese que depois foi confirmada
." . clencla e suas rlstlcas , . • In trodução • () conhecimento cientifico
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clencla e suas
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• In trodução
• ()
conhecimento
cientifico de­
• Racionalidade e objetividade
pende de investigação metódica
• O conhecimento cien tíjico atém­
-se aos fatos
• O conhecimento cient ifico trans­
cende os fatos
• O conhecimento cientifico é ana­
lítico
• O conhecimento cientifico re­
quer exatidão e clareza
• O conhecimento cientifico é co­
municável
• O conhecimento cientifico é veri­
ficável
O conhecimento cientifico é sis-
tematlco
• O conhecimento cientifico busca
e aplica leis
• O conhecimento cientí}/co é ex­
plicativo
,
.
• O conhecimento cien tífico pode
fazer predições
• O conhecimento cientifico é
aberto
• O conhecimento cien tifico é útil

-

INTRODUÇAO

.

• O conhecimento cien tifico é útil - INTRODUÇAO . No capítulo anterior foi dito que

No capítulo anterior foi dito que sem a possibilidade de posse da verdade obje­ tiva a Ciência seria inútil. Ora, será que isso quer dizer que todas as ciências se ocupam com a busca da verdade material? Não, porque nem todas as ciências têm como propósito a realidade dos fatos . A Matemática pura, por exemplo, não se ocupa com o conhecimento de fatos reais. 'Como as demais ciências, ela é também racional , metódica, sistemática e verificável, mas não se ocupa dire­ tamente com seres ou fatos! O matemático trabalha com signos, abstrações que freqüentemente representam seres ou fatos reais, mas que não são seres nem fatos, são apenas números . Por exemplo : você pode somar cinco laranjas e duas bananas para obter sete frutas; pode somar cinco homens e duas mulhe­ res para obter sete pessoas . Em ambos os casos você realizou a mesma opera­ ção aritmética, manipulando seres reais e obtendo um resultado real . Certa­ mente cinco laranj as, cinco homens, duas bananas e duas mulheres são seres reais. Mas, quem já viu um 5 e um 2 como ser ou fato real? O l1úmero matemá­ tico é uma abstração, um conceito racional , uma espécie de forma vazia que pode ser preenchida com diferentes tipos de conteúdo, desde que o conteúdo sej a matemático. Em uma forma vazia 5 cabem cinco homens, cinco laranj as, cinco montanhas , cinco planetas, cinco universos etc. O número puro é, pois, apenas um conceito ele, na realidade, só existe como concepção mental. Apesar disso, o conhecimento matemático é científico e utilizado pelas ciências que se ocupam com os fatos , naturais ou sociais . Aplicando o conheci­ mento matemático podemos estabelecer relações de correspondência entre se-

m e n t o matemático podemos estabelecer relações de c o r r e s
2 4 o MÉTODO CIENTiFICO r e s e f a t o s ,

24

o MÉTODO CIENTiFICO

res e fatos , processos e estruturas de qualquer nível da realidade objetiva. Por isso ele é empregado pelas demais ciências (Física, Química, Economia, Fisio­ logia, Sociologia etc.) para a reconstrução das diferentes relações entre os fa­ tos e seus distintos aspectos . Na Matemática, a verdade consiste na coerência do enunciado, oferecido como um sistema de idéia previamente aceitas . Por isso a verdade matemática não é absoluta, mas relativa ao sistema do enunciado . Com efeito, uma proposição matemática válida para um sistema pode deixar de ser logicamente verdadeira em outro sistema. Vejamos o seguinte exemplo: quando você soma aritmeticamente 24 + 1, obtém 25 e esse resultado é verdadeiro . Como o 24 está representando vinte e quatro unidades aritméti­ cas, você pode substituir o símbolo por um ser concreto ; digamos que esse ser seja um palito de fósforo. Para verificar se o resultado obtido na adição arit­ mética é verdadeiro você pode dispor vinte e quatro palitos de fósforo sobre a mesa e, ao conjunto, acrescentar mais um. Claro, o resultado final será vinte e . cinco palitos de fósforo, o que corresponde ao resultado obtido com a opera­ ção. No entanto, o mesmo resultado não será real se o enunciado tratar do sis­ tema de divisão dos dias em horas . Nesse caso a fórmula correta da operação não será 24 + 1 = 25 mas 24 + 1 = 1! Essa característica do conhecimento matemático não ocorre com as ciên­ cias que se ocupam com fatos . Elas não empregam formas vazias (variáveis ló­ gicas) que podem ser preenchidas com diferentes conteúdos ; utilizam apenas símbolos já interpretados . Para elas o conhecimento matemático é um instru­ mento constituído de símbolos interpretados e não de formas vazias . Além dis­ so, as ciências fáticas não se satisfazem com o raciocínio lógico e coerente dos enunciados para aceitá-los como verdadeiros . Somente depois de devidamente comprovado pela observação e/ou experimentação objetivas é que um enun­ ciado de ciência fática pode ser considerado adequado ao seu objeto, ou sej a, aceito como verdadeiro . Do aqui exposto pode-se compreender que ' a Matemática só aceita ser conjuntamente examinada com as demais ciências até certo ponto . Sua análise como ciência requer estudo especial, o que escapa aos limites desse livro de in­ trodução à Metodologia. Para os objetivos presentes basta que você seja capaz de distinguir a Matemática como ciência formal, distinta das ciências que têm por objeto os fatos (ciências fáticas) naturais ou culturais . Passemos, então, ao exame das principais características das ciências fá­ ticas.

das principais características das ciências fá­ ticas. • , RACIONALIDADE E OBJETIVIDADE As ciências que se
das principais características das ciências fá­ ticas. • , RACIONALIDADE E OBJETIVIDADE As ciências que se

,

principais características das ciências fá­ ticas. • , RACIONALIDADE E OBJETIVIDADE As ciências que se ocupam

RACIONALIDADE E OBJETIVIDADE

As ciências que se ocupam com os fatos da natureza e da sociedade apresentam dois traços característicos que lhes são absolutamente essenciais e estão presen­ tes em todas as suas demais características : a racionalidade e a objetividade. Ou seja, seu conhecimento é racional e objetivo . Vejamos o que isso significa .

: a racionalidade e a objetividade. Ou seja, seu conhecimento é racional e objetivo . Vejamos
: a racionalidade e a objetividade. Ou seja, seu conhecimento é racional e objetivo . Vejamos

A CIÊNCIA E SUAS CARACTERíSTICAS

25

Conhecimento científico racional é aquele que:

1. É constituído por conceitos, julgamentos e raciocínios, não por sensa­ ções, imagens, modelos de conduta etc. É evidente que o cientista sen­ te; forma imagens mentais de seres e fatos , portanto, depende do co­ nhecimento sensível . Mas quando trabalha com o conhecimento racio­ nal, tem como ponto de partida e ponto de chegada apenas idéias (hi­ póteses) e não fatos .

2. As idéias que compõem o conhecimento racional podem combinar-se de acordo com algum tipo de conjunto de regras lógicas, com o propósito de produzir novas idéias (proposição dedutiva). Do ponto de vista do . conhecimento, tais idéias podem ser consideradas novas na medida em que expressam conhecimentos sobre os quais não se tem consciência até o momento em que a dedução é efetuada.

a t é o momento em que a dedução é efetuada. Por seu turno , conhecimento

Por seu turno , conhecimento científico objetivo é aquele que :

1. Concorda com seu objeto, isto é, alcança a exatidão da realidade, se­ gundo o nível dos meios de observação , investigação ou experimenta­ ção de sua época.

Verifica a adaptação das idéias (hipóteses) aos fatos , recorrendo para isso à observação e à experimentação atividades controláveis e, pelo menos até certo ponto, reproduzíveis .

Estes dois traços básicos, a racionalidade e a objetividade, encontram-se intimamente interligados no conhecimento obtido pelas ciências fáticas. Veja­ mos quais são as demais características .

2.

j a ­ mos quais são as demais características . 2. , , O CONHECIMENTO CIENTIFICO

,

,

O CONHECIMENTO CIENTIFICO ATEM-SE AOS FATOS

. 2. , , O CONHECIMENTO CIENTIFICO ATEM-SE AOS FATOS A C i ê n c

A Ciência tem o propósito de desvendar a realidade. Para atingi-lo, atém-se aos fatos . O cientista, seja qual for o objeto do seu estudo, sempre começa por estabelecer os fatos . Estes constituem o seu ,ponto de partida e o seu ponto de chegada na investigação . Durante o processo de conquista do conhecimento da realidade, porém, nem sempre é possível, ou desejável, respeitar a integridade dos fatos . Muitas vezes é necessário interferir nessa integridade para se obter dados significativos das propriedades reais dos fatos . Por exemplo : a fim de melhor conhecer a função de um órgão, o biólogo pode interferir, e até matar o organismo que está estudando; o físico nuclear pode perturbar deliberada­ mente o comportamento do átomo que está analisando para melhor conhecer sua estrutura e assim por diante. É necessário, porém, que a interferência seja claramente definida e con­ trolável, isto é, passível de avaliação com certo grau de exatidão . Caso contrá­ rio, o desvio provocado pela interferência artificial pode deturpar o fato e in­ duzir a um conhecimento falso da realidade . Assim, diz-se que o conhecimento cient,ífico parte dos fatos , pode interferir neles , mas sempre retorna a eles .

. Assim, diz-se que o conhecimento cient,ífico parte dos fatos , pode interferir neles , mas
. Assim, diz-se que o conhecimento cient,ífico parte dos fatos , pode interferir neles , mas

26

o METODO CIENTIFICO

r

O CONHECIMENTO CIENTIFICO TRANSCENDE OS FATOS

o conhecimento vulgar, comum, registra a aparência dos fatos e fixa-se nela. Freqüentemente limita-se ao fato isolado e esforça-se pouco para explicá-lo ou para estabelecer suas relações com outros fatos. Com o conhecimento científi­ co não se dá o mesmo. Ao analisar um fato, o conhecimento cient ífico não apenas trata de explicá-lo , mas também busca descobrir suas relações com ou­ tros fatos e explicá-las trata de conhecer a realidade além de suas aparên- Clas .

•
de conhecer a realidade além de suas aparên- Clas . • . Por n ã o

. Por não se contentar em descrever as experiências, a Ciência sintetiza-as,

compara-as com o que já sabe sobre outros fatos, descobre suas correlações com outros níveis e estruturas da realidade e trata de explicá-las através de hi­ póteses. Quando consegue comprovar a verdade das hipóteses , estas transfor­ mam-se em enunciados de leis gerais . Portanto, os cientistas também levam seu conhecimento além dos fatos observados , presumem o que pode haver por

. trás deles . A existência do átomo , por exemplo , foi predita muito antes que de­ la houvesse qualquer comprovação objetiva. Apesar disso, habitualmente o conhecimento científico rejeita as novas

hipóteses que sejam incompatíveis com tudo o que já conhece e recebeu com­ provação fidedigna.

r r r O CONHECIMENTO CIENTIFICO E ANALITICO ,
r
r
r
O CONHECIMENTO CIENTIFICO E ANALITICO
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