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A CRIAÇÃO E A ELEIÇÃO NA VISÃO DE

BEAUCHAMP

ADÃO
Diante das explicações dadas no próximo capítulo sobre a vida do
homem individual e sua convivência social, podemos tentar entender o que
seria a visão bíblica essencial do homem na sua origem1. A Bíblia, mais uma
vez paradoxalmente, é um livro universal e o livro de um povo, livro de todos e
livro de um só, porque é o livro de Jesus Cristo. Podemos, contudo, falar do
universalismo da Bíblia quando falamos do Antigo Testamento? O
universalismo do Novo Testamento aparece com muito mais clareza se ele se
apóia na tradição que o precede. Para olhar o Antigo Testamento, é preciso
começar pelo começo, pelo livro do Gênesis.
Tendo sempre privilegiado a literalidade da narrativa, estamos
bloqueados pelos obstáculos que nos impedem de acreditar na letra dessa
narrativa e, no intuito de tornar essa letra mais plausível, podemos perder os
elementos mais vitais que o texto nos fornece: notadamente Adão e Eva,
nossos primeiros pais! É claro que não se trata de voltar para ingenuidade das
interpretações do catecismo da nossa infância. Trata-se muito mais de voltar a
ter uma atitude de acolhida para ouvir uma mensagem que não reside na
materialidade dos fatos.
Adão representa um modo simples de dizer que todos os homens
são irmãos: isso é afirmado com força no primeiro capítulo do Gênesis,
notadamente, embora a descoberta disso seja deixada para perspicácia do
leitor. O texto se apresenta como uma espécie de pergunta não formulada:
“porque temos todos um único homem como pai?” Quem sabe a resposta :
“somos todos irmãos”, este e somente este tem a verdade da narrativa. Crer
que existe um único pai para todos não serve para nada se a conclusão não for
tirada. Acreditar na fraternidade universal nos coloca na verdadeira mensagem
do texto, mesmo que não saibamos como isso aconteceu do ponto de vista da
origem biológica da espécie humana. No tempo que o livro do Gênesis foi

1
BEAUCHAMP, Paul, Parler d’Écritures Saintes, Paris, Éditions du Seuil, 1987 cap. 5
escrito, os homens não sabiam muito bem e eles falavam em enigmas.
Algumas dezenas de anos atrás, os homens começaram saber muito bem e
esqueceram, infelizmente, que a Bíblia, escrita por sábios, não por cientistas,
falavam em enigmas. Hoje, voltamos a não saber muito bem onde, quando e
como a espécie humana começou2. Sabemos com certeza que, materialmente,
não é como a Bíblia conta. Mas percebemos melhor que, filosoficamente, o
inicio da humanidade permanece um enigma que nunca será resolvido por
escavações nem por nenhum outro meio científico.
A verdadeira pergunta ressurge: “O que quer dizer começar?”
Estamos um pouco mais dispostos a entender a linguagem enigmática dos
antigos. É como uma ressurreição do texto. Quando se trata de um problema
verdadeiramente filosófico, como o do sentido da história humana coletiva, não
existe uma época mais competente do que a outra. Verdades esquecidas
podem sempre se manifestar de novo.

os animais “segundo sua espécie”


Não é a arqueologia mas a psicologia das literaturas antigas que nos
diz como a Bíblia raciocina. Ela começa obrigando o leitor a raciocinar muito:
conta muito com nossa intuição e nossa atividade de espírito. Errado é
considerar suficiente, para entrar na Bíblia, de adquirir conhecimentos. É
necessário mas é mais necessário ainda exercitar o tipo de mente que tinham
os homens da Bíblia. Eis como se supõe que o leitor raciocine.
Primeiro, no nível mais simples: se os homens têm todos como pai
Adão, eles são irmãos. Depois, mais sutilmente, o leitor fica impressionado pela
importância dada, desde o inicio e depois, aos animais. São dados para Adão e
Eva como assistentes e principais parceiros do homem na narrativa dos sete
dias. É uma coisa surpreendente porque talvez não teríamos começado por
esse ponto de partida. A Bíblia começa com os animais desde o quinto dia da
criação e vai voltar ao fato com muita freqüência. No primeiro capítulo do
Gênesis, num texto onde todas as palavras têm sua importância, o leitor é
convidado a notar que cada grupo de seres vivos, animais e vegetais, recebe a

2
Veremos mais adiante que a fórmula « espécie humana » não é muito correta...
ordem de reproduzir-se segundo sua espécie. A palavra volta uma dezena de
vezes nesse capítulo primeiro:

“Deus disse: “que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie;
animais grandes, animais pequenos e animais selvagens segundo sua
espécie”. Assim aconteceu. Deus fez os animais selvagens segundo sua
espécie, os animais grandes segundo a sua espécie e todos os animais
pequenos do solo segundo sua espécie. Deus viu que isto era bom.” (Gn 1,
24-25)3
Não se diz isso do homem quando ele aparece logo depois:

“Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-
os macho e fêmea.” (Gn 1, 27)
Deus diz: “sejam fecundos e se multipliquem” mas não “segundo sua
espécie”. O leitor atento vê nisso a indicação de um raciocínio. O animal
esclarece a natureza do homem por contraste: o animal é múltiplo e o homem é
um. Ora, o animal não é à imagem de Deus porque o homem só é à imagem
de Deus. A palavra imagem tem um sentido muito forte no contexto de uma
aproximação entre o homem e o animal. A criança é fascinado pelo animal no
jardim zoológico, por um efeito de espelho, frente a esse ser que é, pensa ele,
ao mesmo tempo como eu e não como eu. Portanto, para o Gênesis, a vida
não basta a fazer do homem uma imagem de Deus, porque plantas e animais
possuem como o homem o poder de reproduzir-se, próprio dos seres vivos. Ser
“macho e fêmea” (como diz o texto) não é também próprio da imagem de Deus,
porque isso é encontrado também no reino animal. Em compensação, a
unidade do que é humano o constitui verdadeiramente à imagem de Deus
porque Deus é um. A humanidade não se divide em várias espécies, como a
animalidade. O homem não é acrescentado como mais uma às espécies
animais: ele as ultrapassa (supera).

A unidade: uma tarefa


A unidade do homem não é puramente e simplesmente dada porque
ele não é Deus, mas simplesmente uma “imagem e semelhança”: sua unidade
é uma missão, uma tarefa, um futuro. Por isso, ela é comandada. O homem
recebe a ordem de colocar a unidade nos seres vivos, comandando ao

3
A tradução usada é a TEB
conjunto do reino animal. Esse reino é a harmonia de todos os animais sob o
sinal superior da unidade humana, ela mesma imagem da imagem de Deus:

“Deus o abençoou e lhes disse: “sede fecundos e prolíficos, enchei a terra


e dominai-a. submetei os peixes do mar, os pássaros do céu e todo animal
que rasteja sobre a terra.” (Gn 1, 28)
Na época onde se tinha esquecido que a Bíblia falava em enigmas,
quer dizer até recentemente, esse versículo recebia pouca atenção.
Considerava-se que a missão de comandar aos animais não era gloriosa nem
atraente e se buscava outra coisa. Contudo, se poder restabelecer que este
versículo contém uma verdade preciosa e escondida, terá se provado que a
Bíblia fala em enigmas. É o caso: essa missão aparentemente muito
secundaria contém um símbolo muito poderoso e muito expressivo. O leitor é
convidado a decriptar a mensagem; ele descobrirá que a relação entre os
homens e os animais é o sinal de uma verdade que pode ser chamada de
política. A humanidade é una como uma família, quando ela é à imagem de
Deus, e esse modo de ser é acompanhado por um outro modo de ser do
mundo inteiro. Se o homem for completamente à imagem de Deus, então os
animais, graças ao comando de Deus e ao seu exemplo real, não se devoram.
Eles não precisam: todos comem unicamente vegetais:

“A todo animal da terra, a todo pássaro do céu, a tudo que rasteja sobre a
terra e que tem sopro de vida, eu dou como alimento toda erva que
amadurece. Assim aconteceu.” (Gn 1, 30)
O leitor é convidado a entender que isso é possível sob o comando
de um homem tão doce e pacífico quanto é requerido sua condição de imagem
de Deus. Sem o homem, os animais devorariam se mutuamente: tal seria sua
“política”, porque não são irmãos, como os homens que são todos irmãos em
Adão, imagem e filho de Deus. Se diz de Adão que ele se parece com Deus
seu pai, que é uno. Sua vocação é ser pai de uma humanidade uma, ao
mesmo tempo em que ele é quem reúne a diversidade dos seres vivos. O leitor
é convidado a entender que isso era verdade “no sexto dia da criação”, quer
dizer antes da História! Nesse ponto podemos perguntar porque o autor situou
o que tem de mais bonito num período fabuloso “naquele tempo”, “antes da
História”, quer dizer “no tempo dos mitos”. Contudo o autor não é um
“mitólogo”, embora tome emprestado algo à linguagem mitológica. Se fosse um
“mitólogo”, ele demoraria muito em descrever o estado de bem-aventurança
primitiva, falando como se tivesse sido presente. Interessar-se-ia
principalmente ao passado. Pelo contrário, ele interessa-se principalmente ao
futuro, mas não só ao futuro: poderia se uma evasão. Ele quer ensinar que já
está deposto no homem, por um dom gratuito de Deus que não é biológico, um
poder que frutificará um dia como uma promessa. O homem é como um
herdeiro que não recebeu ainda sua herança. Essa herança não cairá do céu!
Ela vai ser objeto de um drama. Mais exatamente, esse drama já aconteceu
quando o texto é escrito, e todo mundo sabe o desfecho: a unidade foi
quebrada. O autor inspirado desse texto escreveu para restaurar a coragem do
homem: “você recebeu, assim mesmo, a imagem de Deus como uma herança
de unidade para toda a família humana e você tem como missão de caminhar
para essa herança4. A humanidade coletiva tem como missão tornar-se
imagem de Deus pela sua unidade, em vez de ser, como agora, imagem da
animalidade pelas suas divisões: pantera contra antílope, lobo contra cordeiro.

Quando o animal domina


Sabemos que, muito cedo, desde o começo da História, existe uma
ruptura da imagem de Deus.

“não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita; podes por
acaso dominá-lo?” (Gn 4,7)
A besta comanda Caim e ele mata o irmão, o que confirma bem a
interpretação da narrativa dos sete dias. Esse trecho poderia provir da mesma
fonte que Gn 1 com o escopo de uma harmonização5. Para seguir a história
bíblica da divisão entre os homens (é, na sua forma negativa, o “universalismo”
da Bíblia) o mais seguro é seguir a fonte literária de onde provém a narrativa
dos sete dias. Ela é chamada de “fonte sacerdotal”, sendo posteriormente
juntada às mais antigas para elaborar, na sua forma acabada, o livro do
Gênesis. Seguindo ela, se é conduzido a uma outra versão do primeiro pecado,
diferente dos capítulos 1 e 3. Esse pecado é a violência:

4
Como não citar como referência nesse momento o extraordinário ensaio: MESTERS, Carlos,
Paraíso terrestre saudade ou esperança, Petrópolis, Editora Vozes, 1983 (primeira edição
1970)
5
Em relação à proveniência da mesma fonte, a posição é compartilhada pelo comentário
bíblico: BROWN, Raymond E., FITZMYER, Joseph A., MURPHY, Roland E., Novo comentário
bíblico São Jerônimo, AntigoTestamento, São Paulo, Academia Cristã – Paulus, 2007
“Noé gerou três filhos: Shem, Ham e Iefet. A terra havia-se corrompido
diante de Deus e se havia enchido de violência.” (Gn 6,10)
É preciso entender que o germe semeado pelo assassinato de Abel
frutificou nos tempos de Noé, até seu máximo: por isso a Bíblia sempre
entendeu a narrativa do dilúvio como uma ilustração antecipada dos últimos
tempos do mundo inteiro, de toda a História, assim como os apocalipses os
contam.
Uma vez que o homem se dilacerou pela violência, entendemos bem
que ele não tem meios de impedir uma espécie animal de dilacerar a outra. Se
o homem for violento, ele obedece ao animal cego que “acuado, o espreita”. Se
ele obedecer a esse animal, ele não cumpre mais sua missão humana que era
comandá-lo. Ele não é mais aquele que reina sobre os animais porque não
reina mais sobre si mesmo. Como poderia comandar eles quando ele os imita?
Ele os toma como modelos e se torna à imagem deles. Mas se o homem for à
imagem dos animais, não está mais à imagem de Deus! É uma imagem
simples, mas forte, que apanha o homem sem recorrer ao idealismo; o homem
está situado num cruzamento entre Deus e o animal mas ele não tem o direito
de ignorar ou desprezar o animal do qual deve ser o pai pacífico. Mesmo
quando se trata da própria animalidade, deve ser pastor e não inimigo.
Assim, uma chave é dada ao homem para que ele possa entender a
si mesmo. Uma espécie guerreando contra uma outra espécie para poder
alimentar-se com ela, é o reino animal, mas pode servir de espelho (sempre a
idéia de imagem) para o homem: as nações tornaram-se tão diferentes umas
das outras quanto as espécies animais; foi esquecido o primeiro apelo da
humanidade e as nações mais fortes alimentam se das mais fracas para sua
própria sobrevivência.
Depois do dilúvio, Deus resolve não impedir mais o homem de
comer a carne dos animais

“Sede fecundos e prolíficos, enchei a terra. Sereis causa de terror e de


espanto para todos os animais da terra e para todos os pássaros do céu.
Tudo o que rasteja sobre o solo e todos os peixes do mar estão entregues
a vossas mãos. Tudo o que rasteja e vive vos servirá de alimento, bem
como a erva que amadurece; eu vos dou tudo.” (Gn 9, 1-3)
É como uma nova criação, porque essas palavras retomam as que
Deus dizia ao primeiro homem. Mas seguidas por palavras que nunca tinham
sido pronunciadas: ser causa “de terror e espanto”. O homem continua o rei,
mas não mais à semelhança de Deus porque reinar como Deus é reinar pela
palavra, pela razão e pelo amor. O homem reina agora como o tirano, pelo
ferro. Este é o enigma que faz entender o que o texto não diz: o homem,
matando o animal e alimentando-se dele, serve para si mesmo de espelho.
Enxerga seu comportamento de homem matando o homem e reinando sobre o
homem por uma lei de ferro. Ele percebe que ele não pode mais ser o pastor
da própria animalidade: pode somente reinar sobre si mesmo pela força. O
autor bíblico propõe que comparemos essa lei de ferro, que rege as nações
entre si, com as gaiolas onde são confinados os animais. Nos dois casos,
existe um sinal de exílio do paraíso.

deus nos caminhos do homem


Essa lei de ferro está expressa de um modo simbólico no capítulo 9
do Gênesis. Deus tolera, contradizendo as disposições de Gênesis 1, que o
homem derrame o sangue: é preciso para que ele possa se alimentar da carne
dos animais. Uma contramedida vai, todavia, ser acrescentada:

“todavia não comereis a carne com vida, isto é o seu sangue.” (Gn 9, 4)
Pelo efeito dessa contramedida simbólica, o homem não destruirá
irremediavelmente os traços da imagem de Deus que subsiste nele. É a lei de
depois do dilúvio, lei alimentar ou dietética, até hoje observada com muito
cuidado por muitos praticantes da religião judaica. Essa lei foi dada primeiro
para toda a humanidade e não vem de Moisés. Como interpretar esse novo
“regime”, essa lei de depois do dilúvio e da queda?
O que é surpreendente nessa lei é seu duplo movimento. Ela
começa por conceder o que era proibido anteriormente. Seu primeiro
componente é um edito de tolerância para a violência. Não tendo interditado a
violência, a lei toma uma medida que a limita. É o segundo componente. Deus
assume o que o homem é em realidade e sua decadência. Deus “desce com” o
homem, até surpreender e escandalizar o homem. Santo Irineu dizia que, para
acostumar o homem com a divindade, é preciso que Deus freqüente os
caminhos imperfeitos do homem, mesmo os caminhos do homem decaído6.
Isso pode mudar nosso olhar em relação a muitos elementos da Bíblia que nos
deixam chocados. É claro que se Deus desce com o homem é para fazê-lo
subir. Por isso, podemos prever que essa lei dada a Noé é provisória. Como
ela é a primeira formulação de uma lei especificamente bíblica em todo o
Antigo Testamento, é importante perceber suas características: tem por função
lembrar o sentido da história humana olhando para o passado porque ela
obriga o homem a meditar sobre seu pecado. Anuncia também o futuro. É uma
lei que anuncia uma justiça muito maior do que ela mesma. Primeiro o futuro é
anunciado negativamente porque essa lei é um acerto provisório. A violência
não é supressa, ela é somente contida: a lei é tão somente um dique. A
repartição dos filhos de Adão em nações separadas por fronteiras, narrada no
capítulo 10 do Gênesis, obedece a essa lei de ferro: as fronteiras contêm a
violência, sem suprimi-la. Num certo sentido, o que contém a violência sem
suprimi-la contribui um pouco para essa violência. Um dique aumenta a energia
que ela contém: assim São Paulo diz que a Lei aumenta a força do pecado
(cf.1 Cor 15, 56). Até quando dura o acerto? O Gênesis não responde essa
pergunta mas está preocupado com o futuro, presente no texto de um modo
bastante enigmático. Gênesis (9, 6) confirma que, na lei alimentar proibindo de
consumir o sangue derramado, existe um simbolismo que diz respeito à
violência:

“quem derramar o sangue do homem, pelo homem verá derramado o seu


sangue. Pois à imagem de Deus, Deus fez o homem”
O sangue chama pelo sangue: é um equilíbrio da violência que está
sempre em desequilíbrio porque Caim será vingado sete vezes e seu
descendente, Lamek, será vingado onzes vezes mais. Assim Deus anuncia
que, doravante, a humanidade não desaparecerá mais: é o significado do arco-
íris. Mas a única promessa verdadeira que existe um futuro, é a imagem de
Deus. O fato de que a “imagem de Deus” seja mencionada aqui parece
significar que o homem, após as violências do dilúvio, é chamado à paz para a
unidade, por meio do domínio de sua animalidade. Noé é um modelo

6
Citado por BEAUCHAMP. Tema recorrente em Irineu, por exemplo Adversus Haereses V, 14,
1 em IRÉNÉE DE LYON, La gloire de Dieu c’est l’homme vivant, textes choisis, Paris, Foi
vivante les classiques, Éditions du Cerf, 1994
antecipado dessa paz, de um homem novo que seja o novo Adão, imagem de
Deus para sempre. Noé é um novo Adão porque comanda aos animais,
salvando-os, eles que são símbolos da nações. Navega com eles uma nova
criação recomeçada.
No que consiste o valor universal do que acabamos de ler? Sem
dúvida no fato de que essa narrativa pode interessar todo ser humano. Tem
mais. Na parte da Bíblia que vai até Noé e mesmo um pouquinho mais longe,
não se trata dos judeus uma única vez. É a história que Israel conta, mas não é
a historia de Israel porque, nesse período relatado, Israel não existe ainda. A
história que contam os judeus deixa passar mais de dois mil anos a partir da
criação do mundo antes que exista um único judeu sobre a terra. Durante todo
esse longo período, toda a humanidade instala-se e discute com Deus sem o
povo eleito, mas conta já com eleitos que permanecerão como modelos para
sempre (Enoc, Noé, Abel). É, portanto, totalmente insuficiente dizer que o Deus
do Antigo Testamento é o Deus dos judeus. Deus se compromete por aliança a
nunca abandonar os filhos de Noé, que representa toda a humanidade que
inclui e ultrapassa Israel. Essa aliança é seguida da separação das nações,
separadas e contidas por uma lei de ferro, mas provisória e sinal de promessa
também. Portanto, para sempre, Deus, o Deus de Israel, fez uma aliança com
todas as nações para sua salvação. A historia universal das nações é o
fundamento da historia de Israel. Inversamente, a historia de Israel não está
dissolvida na historia universal. Ela tem uma função única, a da eleição, que
aparece no início do capítulo 12 do Gênesis.

ABRAÃO ELEITO PARA TODOS

Abraão
Em todas as fontes que, no livro do Gênesis, contam o inicio da
aventura humana, uma ligação está estabelecida entre a culpa da origem e a
divisão da humanidade em nações inimigas. Eis em que consiste essa ligação.
Lembramos que, segundo a fonte sacerdotal que se expressa no
capítulo primeiro do Gênesis, o homem foi criado à imagem de Deus. Segundo
essa mesma fonte, derramar o sangue pela violência é justamente o que
questiona a imagem de Deus (Gn 9, 6). A imagem de Deus é a unidade da
humanidade. O primeiro crime que essa fonte conhece parece ser o crime de
Caim, que prepara a violência anunciadora do dilúvio. Depois do dilúvio, as
nações são divididas. Essa divisão é ao mesmo tempo um bem e um mal: a
violência é contida por essas fronteiras, mas não é curada por elas.
Na fonte que se expressa nos capítulos 2 e 3 pela narrativa do
paraíso terrestre e pela queda dos primeiros pais, vemos que a terra é
amaldiçoada por causa do homem. Depois, Caim é amaldiçoado por causa do
seu crime: por sua culpa, o solo bebeu o sangue de Abel e não dará mais
frutos para Caim7. Aprendemos que Caim, que é violento, responderá a
qualquer crime com uma violência maior ainda “setenta sete vezes pior” (Gn 4,
24): esse aumento da violência vai ritmar a história num movimento cada vez
mais acelerado. A narrativa do paraíso terrestre revelou a raiz dessa violência:
o ciúme. A serpente está com ciúme do homem e inspira o homem a ter ciúme
de Deus: o ciumento é aquele que não pode acreditar na bondade do outro
mesmo quando recebe os sinais do seu amor. Os sinais não bastam mais: ele
quer provas. Assim, a mulher, tendo sinais da bondade de Deus, prefere crer
que Deus é um dono duro e orgulhoso: por isso ela desobedece. Assim, o
ciúme leva a considerar todo ser como um rival e a não acreditar na amizade.
O homem não pode acreditar na bondade de Deus: ele deve lutar contra Deus,
esse rival. Vem a história de Babel, onde a culpa não é mais individual, como
no jardim do primeiro casal, mas coletiva. O castigo acontece no campo da vida
coletiva política: a humanidade é dividida em várias linguagens. Não é a
pluralidade em si que é um mal ou um castigo. Contudo ela está marcada pelo
sentimento de hostilidade que está na origem da infelicidade. Do ódio entre
dois irmãos passamos ao ódio entre nações. Assim os onze primeiros capítulos
do Gênesis têm como único escopo vincular à culpa das origens o status de
inimizade política que rege as relações entre as nações da terra.
É então que Deus refaz uma nova humanidade, que uma nova
Aliança se prepara. Todos esses acontecimentos explicam a razão de ser de
Abraão que surgiu nesse momento, bem no início do capítulo 12 do Gênesis:

“O Senhor disse a Abraão: “parta da tua terra, da tua família, da casa dos
teus pais para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação

7
Gn 4, 12
e te abençoarei. Tornarei grande teu nome. Tu seja uma benção. Eu
abençoarei os que te abençoarem, e quem te injuriar, eu o amaldiçoarei:
em ti serão abençoadas todas as famílias da terra.” (Gn 12, 1-3)
Abraão e somente Abraão. Contudo, atrás de Abraão, existe um
povo na visão de Deus. Dá para entender porque trata-se do estado dos povos
na face da terra. Nesse livro, trata-se da relação de todos os povos com um
povo único e, acrescentemos, esse povo único está representado por uma
pessoa única, Abraão, assim como, mais tarde, será representado por Davi e
por um filho de Davi, sempre vistos na suas relações com as nações inteiras.
Abraão não é um novo Adão: a Bíblia abre um espaço para o espírito de cada
um, convidando a entender que Abraão é eleito para as nações. Deus que
salvar o homem todo, Adão, por Abraão que ele acaba de escolher como seu
eleito. Não bastará portanto dizer que Deus enviou seu Filho único para salvar
todos os homens divididos pelo pecado. Nesse envio, o Antigo Testamento
teve um papel e essa história é a história de um povo, já presente em Abraão.
A história sagrada está preenchida por um único assunto: as relações de um
povo com todos os povos.
O sentido da vocação de Abraão é que nele “sejam abençoadas
todas as nações da terra.” Um leitor distraído poderá imaginar que Abraão é
muito sortudo porque Deus chama sobre ele a benção dos homens atraindo
eles por promessas. Sem excluir isso, parece muito mais que as nações devem
ser parabenizadas pelo fato de que a benção venha a elas por meio de Abraão,
considerando principalmente o fato de que a benção foi justamente o que Adão
tinha quase perdido no jardim do Éden. Se as nações se reagrupassem ao
redor de Abraão, isso seria a volta do primeiro Adão para a verdadeira pureza,
e para a plenitude da benção! É preciso admirar o jeito de Deus fazer as
coisas: já que o homem perdeu a unidade junto com a imagem de Deus, não
será bendizendo a Deus que o homem será restaurado, mas o será se um
abençoar o outro, se o filho de Adão abençoar o filho de Abraão. É assim que
Adão reconstruirá sua unidade, à imagem de Deus. A história segue um curso
bem preciso.

O êxodo
Poder-se-ia crer que a perspectiva universal desaparece do livro do
Êxodo, porque se trata de assegurar a salvação de um único povo, Israel,
caído na escravidão debaixo do poder dos egípcios. Esse modo de ver aflora
certamente em muitas passagens da Bíblia, principalmente quando tomados
isoladamente. O ângulo do livro do Êxodo, tomado no seu conjunto e colocado
em perspectiva, talvez possa ser diferente. Trata-se para Deus de fazer justiça
entre dois povos: o povo de Moisés e o povo do Faraó. Nesse ponto de vista, o
livro do Êxodo é uma parábola ao mesmo tempo da salvação e do julgamento
último. É o livro não somente da eleição de Israel mas também do julgamento
das nações, entre as quais Israel. Parábola: a palavra não significa “invenção”,
“ficção”, embora tenha uma parte importante de expressão poética, mais do
que histórica, nessa antiga narrativa, retocada por várias gerações. Todo esse
livro repousa sobre a experiência vivida por um povo. É uma parábola e uma
experiência.
O ponto de partida do livro mostra que o início do Gênesis não foi
esquecido: os filhos de Abraão multiplicaram-se e encheram a terra. Um outro
ponto do livro do Gênesis é lembrado, mas a palavra de Deus é contradita e do
modo mais direto. Trata-se no primeiro capítulo do Gênesis de dominar, pela
doçura, os animais? Trata-se do mesmo tema, mas invertido. Para que, de fato,
os homens devem comandar aos animais? Os animais são uma força e devem
ser comandados para serem contidos. O homem quer encher a terra e os
animais também querem. Nos dois casos, a ocupação do espaço é a
conseqüência da fecundidade: existe uma concorrência. Comanda-se a uma
força também para que seja usada: os animais servem para o transporte e para
o trabalho. O que acontece no início do Êxodo? O homem está bem numa
situação de comando (o homem egípcio), mas comando o outro homem (o
homem de Israel). De dois modos: comanda ao homem de Israel para contê-lo:
as parteiras devem jogar as crianças no rio. Comanda ao homem também para
usá-lo (fazer tijolos) e o considera unicamente em função do seu interesse, que
é sua única lei. Infanticídio e escravidão: um povo trata assim o outro que mora
no mesmo espaço. Essa situação ocupa o lugar principal na história da
Páscoa: intervenção de Deus para tirar um povo oprimido das mãos de um
povo opressor pelo qual sua fecundidade é recusada, sua liberdade humilhada.
Nossas narrativas tinham começado por histórias de animais. Não
achamos animais no início do Êxodo. Não é porque o narrador os esqueceu, é
porque o homem foi colocado no seu lugar. Em outras palavras, a problemática
não mudou seu eixo: é sempre a da imagem de Deus. Ora, a imagem de Deus,
é Adão; a problemática é universal. Trata-se do modo com o qual Adão trata
Adão. Se Adão (“Homem”) for quebrantado, é a ausência de Deus e a morte. É
o que acontece quando os filhos de Adão não tratam os filhos de Adão como
homens.
Nessa perspectiva, Moisés é imagem de Deus, assim como Faraó o
é e assim acontece com seus respectivos povos. Imagem contra imagem: se o
drama é intensamente trágico, é bem porque existe uma única imagem traçada
sobre uma humanidade que a violência divide em dois campos inimigos. Faraó
é golpeado por Deus porque, se um homem não sofrer ele mesmo, ele nunca
perceberá que ele faz sofrer um outro. As pragas do Egito se sucedem para
obter do Faraó que ele ceda. Cada vez que o flagelo para, Faraó, em vez de
ver um sinal da bondade de Deus, aproveita da bonança para retomar o que
ele tinha solto. Nisso consiste sua culpa principal: ele acredita somente na
força e, quando ele provou definitivamente que não tinha nada outro dentro
dele, a imagem de Deus apaga-se nele. A narrativa é uma tragédia que se
desenvolve em mais de dez atos! Durante esse tempo, o povo oprimido tenta
falar.
Moisés seguiu um itinerário inverso. Ele começou matando um
homem quando ninguém exigia isso dele. Teve que fugir e achar um asilo em
Madiã. Nesse tempo ele não tinha ainda visto a Deus. Deus mostra-se a ele e o
envia falar com Faraó. Moisés que não tinha tido medo de matar um egípcio,
esquiva-se quando Deus lhe pede de falar ao Faraó. Deus o coloca num outro
caminho dando-lhe a missão de falar: ele viverá enquanto Faraó, para quem a
força substitui a palavra, precipitar-se-á no mar.
Para Israel, a palavra e a observação do sabá, já inscritos no
capítulo 1 do Gênesis, são os grandes sinais de sua liberdade. Frente à
servidão de um trabalho sem lei, Israel pede de poder prestar culto a Deus no
deserto. A resposta de Faraó é bem conhecida : “são preguiçosos” (Ex 5, 8). A
mesma resposta será muitas vezes ouvida no decorrer da História, para
disfarçar a negação da liberdade do outro. A lei do trabalho suprime então
todas as outras leis, mas o que se chama lei do trabalho significa, muitas
vezes, o trabalho sem lei.
Nesse julgamento instaurado entre Faraó e Moisés, os dois
antagonistas não são indiferentes um em relação ao outro. Dá para ouvir o eco
muito preciso da vocação de Abraão. Faraó pede que Moisés e Aarão
intercedam para ele (Ex 8, 24). Nos momentos em que Faraó se deixa
convencer por algumas horas, ele chega a pedir a Moisés e Aarão que eles
peçam a benção para ele também (Ex 12, 31ss): ele se coloca no eixo da
palavra de Deus a Abraão: “abençoarei os que te abençoam”. É possível
pressentir que a liberdade de Israel não teria salvo simplesmente Israel: era
feita para salvar também o Egito. Infelizmente, o Êxodo que contém
simplesmente a figura da nossa salvação, não nos faz assistir à salvação das
nações, mas sim à morte dos primogênitos do Egito e ao desaparecimento de
Faraó e do seu exército. É o mistério do mal que esse livro toca com tanta
acuidade.
A imagem de Deus nunca será realizada por Israel ou pelo Egito
sozinhos. Será preciso que os dois constituam um único povo, como diz Paulo:

“Ele quis assim, a partir do judeu e do pagão, criar em si um só homem


novo, estabelecendo a paz, e reconciliá-lo com Deus, ambos em um só
corpo, por meio da cruz.” (Ef 2, 15-16)
Desde o momento do Êxodo, percebemos o quanto Moisés é
próximo dos Egípcios. Ele tem duas mães: ele é também um egípcio. Para que
o Êxodo seja conduzido a seu verdadeiro termo, seria preciso que Israel leve o
Egito porque Deus tem um único Filho.