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CURSO BÁSICO II

SOCIEDADE, CLASSES SOCIAIS E O ESTADO

TEXTOS:

I - O TRABALHO COMO CONDIÇÃO HUMANA E SOCIAL, p.02

II - A OGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA HISTÓRIA DAS


SOCIEDADES, p.16

III - CLASSES SOCIAIS E LUTA DE CLASSES, p.29

IV - A LUTA DE CLASSES E O ESTADO , p.37

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O TRABALHO COMO CONDIÇÃO HUMANA E
SOCIAL
(TEXTO I)

Introdução

Quando falamos do papel social do trabalho, a tendência é pensarmos na


importância do trabalho na sociedade em que vivemos hoje – a sociedade capitalista. Sem
dúvida, o trabalho é a atividade chave neste tipo de sociedade, mas segundo a teoria
marxista, o trabalho possui esta relevância na atual sociedade, por causa de sua
importância fundamental em TODOS os tipos de formações sociais já existentes. Afinal,
foi o trabalho o maior fator responsável pelo aparecimento da espécie humana (homo
sapiens) e de sua organização em sociedade.

Da natureza à sociedade: o aparecimento do homem

O aparecimento do homem, a antropogênese, está indissoluvelmente ligado ao


aparecimento da sociedade humana, a sociogênese. A partir do conjunto de fatos com os
quais trabalhou na sua teoria da descendência, já Darwin havia chegado à conclusão de que
o homem e os restantes mamíferos são descendentes de um antepassado comum. A história
do homem remonta a cerca de 4 milhões de anos, quando nossos mais antigos antepassados
encontravam-se definitivamente instalados na superfície terrestre. Os primeiros vestígios
sobre eles permitem observar diferenças fundamentais em relação à anatomia dos macacos.
Durante todo este período, o desenvolvimento dos primatas dividiu-se em duas linhas: uma
conduziu aos antropóides atuais, a outra conduziu ao homem.
Uma transformação essencial do meio ambiente levou a que, por meio de
mecanismos de evolução biológica de mutação e de seleção, se formassem, num longo
processo evolutivo ocorrido entre os antepassados animais do homem, propriedades e
capacidades como a postura bípede (capacidade de andar sobre duas pernas), maior
mobilidade das mãos, sobretudo devida à oponibilidade dos polegares, e um cérebro maior
como instrumento de regulação de movimentos complexos. Surgiram, desse modo,

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importantes premissas biológicas para a hominização.
Os últimos australopitecos e, em especial, o homo habilis, são considerados os
precursores imediatos do homem. Viveram num período entre cerca de 2,4 e 1,8 milhões
de anos atrás e utilizavam regularmente instrumentos primitivos. Viviam em hordas no
interior das quais surgiram elementos de uma divisão do trabalho e de comportamento
social. No decurso de uma longa evolução, surgiu, do australopitecos, o homo erectus, que
pode ser designado homem primitivo. Ele existiu, conforme mostram os achados
arqueológicos, em muitas formas, na Europa, África do Norte, África Oriental, China e
Sudeste asiático, desde há cerca de 1,25 milhões de anos. Os instrumentos de pedra por
eles utilizados mostram uma grande variedade de fases de desenvolvimento. A maior
conquista do homo erectus foi a utilização do fogo, o que demonstra decisiva capacidade
de colocar sob seu comando e a seu serviço uma importante força da natureza.
Há cerca de 250 mil anos iniciou-se um estádio superior do desenvolvimento do
homem. Ele foi encontrado na maioria dos países da Europa, na África, Ásia Central, Ásia
Menor, China e Sudeste asiático e designado por homem de Neandertal, de acordo com o
primeiro lugar no qual foi descoberto. O homem de Neandertal possuía muitos traços
comuns com o homem de hoje e é designado por homem antigo. Foi dele que, num longo
processo evolutivo, há cerca de 50 mil anos, descendeu o homem atual, o homo sapiens.
A nova qualidade do homem surgiu como resultado de numerosas transformações
quantitativas que levaram finalmente à mudança qualitativa, isto é, ao aparecimento da
sociedade. Esta mudança qualitativa determinante ultrapassa a forma biológica do ser,
quando passam a atuar forças motrizes qualitativamente novas, que não existem na
evolução biológica.

O que distingue o homem do animal?

Qual foi o fator determinante que provocou a transição dos antepassados ainda
animais do homem para a forma humana, do biológico para o social? Foi, sem dúvida, o
trabalho. Segundo Engels, em Dialética da Natureza, o trabalho é a primeira condição
fundamental de toda a vida humana e num grau tal que, em certo sentido, temos de dizer

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que ele criou o próprio homem.
De que forma conseguiu o trabalho provocar o avanço qualitativo dos antepassados
animais do homem e, desse modo, o aparecimento da sociedade humana? O trabalho, que
inicialmente era ainda instintivo e com características animais, transformou-se, no decorrer
de um longo processo de desenvolvimento, no trabalho humano consciente. Nesse
processo surgiram também, na base da atividade laboral que se desenvolvia, o pensamento
humano e a linguagem humana.
A crescente utilização da mão e a sua transformação no órgão de trabalho mais
importante tiveram efeitos significativos no prosseguimento da formação do cérebro
humano. Foi sobretudo devido à influência do trabalho que surgiram as novas regiões do
córtex cerebral, nas quais está localizada a regulação dos movimentos complexos da mão e
dos movimentos do órgão da fala. Helvétius tinha totalmente razão ao supor que as mãos
do homem eram uma das causas da sua capacidade intelectual, só que não podia ainda
fundamentar esta relação.
“Primeiro, o trabalho; depois, e a par dele, a linguagem – são estas as duas forças
motrizes mais essenciais sob cuja influência o cérebro de um macaco se transformou
gradualmente num cérebro de homem, que, apesar de todas as semelhanças, é muito maior
e mais perfeito”, escreveu Engels.
À medida que o trabalho se desenvolvia e diferenciava mais, os homens em
formação uniram-se, pois estavam mais dependentes uns dos outros. No coletivo de
trabalho, o entendimento recíproco era necessário para permitir uma atuação conjunta
organizada e para transmitir experiências.
Ainda segundo Engels: “Em resumo, aqueles que estavam a se tornar homens
chegaram a um ponto em que tinham algo a dizer uns aos outros. A necessidade criou o seu
órgão: a laringe não desenvolvida do macaco modificou-se de forma lenta, mas segura,
passando através de cada modulação, para uma modulação sempre superior, e os órgãos da
boca aprenderam gradualmente a pronunciar uma letra articulada após outra”.
A transição do trabalho instintivo do homem em formação para a atividade laboral
coletiva foi também o passo decisivo que levou à formação do comportamento consciente

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e da consciência como um estágio qualitativamente novo da atividade psíquica. Na
interação do trabalho coletivo com o cérebro, com o pensamento que surgia e com a
linguagem, que a ele estava ligada, modelou-se gradualmente, num longo processo de
desenvolvimento, a consciência do homem em formação. Aqui pretendemos apenas deixar
claro que a atividade laboral é a força motriz determinante para o aparecimento do homem
com todas as suas características qualitativamente novas e, assim, também a força motriz
decisiva para a formação das relações sociais.

No berço da sociedade humana

Nas hordas dos antepassados ainda animais do homem começaram por formar-se
elementos de relações sociais, tais como a ajuda recíproca, a ação conjunta organizada do
coletivo na divisão do trabalho, a distribuição do produto comum da caça, do produto do
trabalho comum, etc. Mais tarde, a atividade laboral, os instrumentos produzidos e as
relações dentro da tribo adquiriram um caráter social cada vez mais marcado, pois
desligavam-se da atividade biológica vital imediata. Isto era sobretudo possível porque os
homens foram aperfeiçoando os seus instrumentos e o conjunto das forças produtivas.
Estas foram pouco a pouco se tornando a base técnico-material determinante das relações
sociais.
Desse modo, a forma biológica do movimento da matéria passou para uma nova
qualidade, a forma social desse movimento. A partir das tribos primitivas formouse
gradualmente a sociedade primitiva e, a partir do homo erectus, surgiu o tipo atual de
homem, o homo sapiens. Segundo o estado atual dos conhecimentos, esta transição da
horda humana primitiva para a sociedade primitiva processou-se muito provavelmente há
cerca de 125 mil anos. Desde essa época podemos falar de sociedade humana. Para a sua
integral formação foi, no entanto, ainda necessário um período de tempo bastante longo,
que durou possivelmente cerca de 30 mil anos.

A Ontologia do Trabalho

No texto que segue podemos ver claramente como Marx e Engels enfatizavam o

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papel social do trabalho, apresentando-o como o fator que diferencia a natureza dos seres
humanos da natureza dos animais e constitui mesmo a natureza humana, pois é através do
trabalho que os homens produzem seus meios de vida e
o modo de sua vivência em sociedade. O que os indivíduos são depende, acima de
tudo, do modo como produzem as condições materiais de sua existência.

“O primeiro pressuposto de toda história humana é naturalmente a existência de


indivíduos humanos vivos. O primeiro fato a constatar é, pois, a organização
corporal destes indivíduos e, por meio disto, sua relação dada com o resto da
natureza. Não podemos, evidentemente, fazer aqui um estudo da constituição
física dos homens, nem das condições naturais já encontradas pelos homens -
geológicas, hidrográficas, climáticas e outras. Toda historiografia deve partir
destes fundamentos naturais e de sua modificação no curso da história pela ação
dos homens. Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela
religião ou por tudo que se queira. Mas eles próprios começam a se diferenciar
dos animais tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo este que é
condicionado por sua organização corporal. Produzindo seus meios de vida, os
homens produzem, indiretamente, sua própria vida material. O modo pelo qual
os homens produzem seus meios de vida depende, antes de tudo, da natureza dos
meios de vida já encontrados e que têm de reproduzir. Não se deve considerar tal
modo de produção de um único ponto de vista, a saber: a reprodução da
existência física dos indivíduos. Trata-se, muito mais, de uma determinada forma
de atividade dos indivíduos, determinada forma de manifestar sua vida,
determinado modo de vida dos mesmos. Tal como os indivíduos manifestam sua
vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto
com o que produzem, como com o modo como produzem. O que os indivíduos
são, portanto, depende das condições materiais de sua produção.” (Marx &
Engels, A Ideologia Alemã)

O trabalho, ação do homem sobre o meio em que vive, produzindo coisas que
atendam às necessidades postas, é o termo mediador necessário entre os homens e a
natureza e a condição na qual os homens se apresentam e se relacionam com o mundo em
que vivem, transformando-o e descobrindo ao mesmo tempo as maneiras de se extrair da
natureza as vantagens e condições para a sua existência.
Dessa afirmativa verificamos um outro fato. A produção das condições materiais
não se dá de um modo individualizado, mas ao contrário, elas só se evidenciam no
coletivo, em coexistência social. Ao longo de toda a história humana, a produção e
reprodução da existência material sempre se verificaram pela interrelação das atividades de
seus membros, o que condiciona ao trabalho a condição de categoria que fundamenta as

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formas de sociabilidade entre os indivíduos.
Foi a partir da produção social que os homens se organizaram de modo a dividirem
entre si suas atividades, possibilitando, assim, atingir os fins desejados e atender às
múltiplas necessidades que continuamente se desenvolviam e envolviam todo o conjunto.
As primeiras formas de divisão social do trabalho se desenvolveram a partir das aptidões
físicas e pelo sexo, cabendo à formação familiar o primeiro modelo de organização de
divisão social do trabalho.
As relações sociais, desde as primeiras formações societárias, determinaram-se pela
produção material, mas a maneira como essa produção se dava, o modo como os homens
relacionavam suas atividades determinavam as regras de convivência e o reconhecimento
dos indivíduos na sociedade. O próprio fato de os homens conseguirem estabelecer
condições de existência que atendessem às necessidades do coletivo possibilitou o aumento
físico da comunidade, que, por sua vez, gerava uma série de novas necessidades que se
refletiam na própria estrutura social da produção. Isso significou um desenvolvimento cada
vez mais significativo de novas técnicas de produção e de novas formas de organização da
divisão social do trabalho.
Até aqui verificamos a primazia do papel do trabalho na formação e organização
das comunidades. O desenvolvimento de novas técnicas e da divisão social do trabalho
representou o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, cujos membros se
desdobravam na busca da realização de bens que possuíam, em si mesmos, valores de uso
determinados pelas necessidades sociais que iam se constituindo. Porém, o papel da
categoria trabalho sob a ótica marxista não se encerra aqui.
Da maneira como os homens desenvolvem suas atividades perante a natureza, seus
sentidos, sua percepção do meio, sua inteligibilidade vão se moldando como se fosse um
correlato da ação realizada no meio externo; ou seja, torna-se uma expressão daquilo que
fazem e como o fazem. A razão que descobre o mundo não parte de si mesma, mas de
algum porto que se apresente como ponto de partida para o relacionamento com o mundo
externo. E esse porto, ou melhor, dizendo, essa mediação é justamente o trabalho realizado,
que, antes de ser realizado, é abstraído no pensamento. A própria ação do homem através

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do trabalho não apenas modifica a natureza, mas modifica, também, a própria natureza
humana.
É justamente o que Marx explica no texto abaixo, retirado de O Capital, no qual
encontramos referências ao conceito de trabalho humano em geral:

“Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a


natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona,
regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a
natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu
corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da
natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando, assim, sobre a
natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria
natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu
domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas,
animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua
força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e
a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos
o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações
semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir
sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele
figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim
do processo do trabalho, aparece um resultado que já existia antes idealmente na
imaginação do trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual
opera; ele imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o
qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de
subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além do
esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que se
manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. E isto é tanto
mais necessário quanto menos se sinta o trabalhador atraído pelo conteúdo e pelo
método de execução de sua tarefa, que lhe oferece por isso menos possibilidade
de fruir da aplicação das suas próprias forças físicas e espirituais.” (Marx, O
Capital, Livro 1, Capítulo V, “Processo de Trabalho e Processo de Produção
da Mais Valia”)

Diante desse quadro, o marxismo entende que a condição do trabalho deveria


representar a possibilidade de a sociedade potencializar suas forças de um modo tal que
todos os membros dessa sociedade se beneficiassem dos resultados do trabalho humano,
sendo este um instrumento de desenvolvimento das potencialidades individuais e coletivas.
Mas, com o desenvolvimento da propriedade privada dos meios de produção,
modificou-se radicalmente o vínculo da produção com a apropriação do que é produzido e
as implicações disso no perfil da divisão social do trabalho e no próprio papel de
transformação do trabalho no perfil do homem. Se, antes, a propriedade pertencia ao

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coletivo, e o resultado da produção era apreendido pelo conjunto da população, com o
surgimento da propriedade privada dos meios de produção, o que historicamente se
apresentou com a posse particular da terra por um indivíduo ou um grupo, toda a relação
social passou a ser determinada pela lógica restritiva da apropriação das riquezas
produzidas pelo trabalho humano, criando na sociedade duas figuras socialmente
antagônicas: a do proprietário dos meios de produção e a figura daqueles que não são
donos dos meios de produção, mas que podem ainda (como no caso do feudalismo, por
exemplo)exercer a posse (de fato, não de direito) da terra e das ferramentas. É no
capitalismo em que o antagonismo entre proprietários e não proprietários dos meios de
produção atinge o seu ponto mais alto, e os trabalhadores são completamente alijados dos
meios de produção, passando a possuir tão somente a sua força de trabalho.
Na sociedade capitalista, a prática da troca de mercadorias torna-se o elemento
fundamental do desenvolvimento econômico e social, e o referencial para se efetuar a
comercialização baseia-se no valor de uso que as mercadorias possuem para os
consumidores. Desta feita, a própria força de trabalho passa a ser uma mercadoria a ser
trocada por outras mercadorias, pois seu valor de uso presta-se a gerar uma produção social
voltada à acumulação e ao enriquecimento dos detentores dos meios de produção, através
da produção de valores de troca, ou seja, de mercadorias.
A própria divisão social do trabalho passa a ser determinada pelas imposições e
necessidades do modelo de produção, o que, por sua vez, determina ao trabalho um perfil
subordinador ao sujeito, pois impõe ao homem um tipo de produção no qual suas
potencialidades são reprimidas e o resultado de seu trabalho, ou seja, o objeto
materializado lhe aparece estranho à sua compreensão, como algo que não lhe pertence.
Seu trabalho passa ser apenas a condição necessária para que ele se ponha no mercado,
recebendo em troca um salário como forma de pagamento, um valor correspondente ao
estritamente necessário à sua sobrevivência, mas jamais equivalente à sua capacidade
produtiva.
Nesse momento, os homens vão se determinando cada vez mais por seu papel
social, entendendo-se por papel social a sua função produtiva e as relações sociais e

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políticas que esta produção impõe na coexistência social. Tais relações de produção,
correspondentes a um grau específico de desenvolvimento das forças materiais, constituem
a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma
superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de
consciência social. O modo de reprodução da vida material determina o desenvolvimento
da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que
determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência.

Forças produtivas e relações sociais de produção

Segundo Marx, os elementos componentes do processo de trabalho são:


1) a atividade adequada a um fim, isto é o próprio trabalho;
2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho;
3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.

Destes elementos, os instrumentos de trabalho - como as ferramentas - e os objetos


de trabalho - o material trabalhado pelas ferramentas - formam os meios de produção.
Estes, quando combinados com o próprio trabalho - a atividade consciente humana -
formam as forças produtivas. Ou seja, os meios de produção de que a sociedade dispõe,
em conjunto com os homens que têm os conhecimentos e a experiência necessários para os
pôr em movimento, compõem as forças produtivas da sociedade. O trabalho é o elemento
vital, pois sem ele os outros elementos restariam inertes, incapazes de produzir algo. Eis a
importância do trabalho em todas as sociedades, porque, sem o esforço humano, não seria
possível produzir os meios materiais que possibilitam reproduzir a vida.
Porém, o processo de trabalho não pode ser entendido como algo que resulta da
combinação de três elementos como se fosse uma relação mecânica. Ou seja, não devemos
usar uma abordagem puramente técnica, mecanicista. É preciso analisar estes elementos
num contexto social mais amplo. A produção de bens materiais é um processo social. Os
meios de produção, a experiência na produção e os produtos do trabalho são resultado da
ação conjunta das pessoas. As relações que as pessoas estabelecem necessariamente entre
si no processo de produção dos bens materiais chamam-se relações de produção.
Entre as forças produtivas e as relações de produção existe uma unidade interna:

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um determinado nível das forças produtivas exige certas relações de produção. Só tomadas
em conjunto elas mostram como as pessoas produzem os bens materiais num ou noutro
estádio do desenvolvimento histórico. Por conseguinte, entre os dois aspectos do modo de
produção existe uma relação mútua. As relações de produção dependem das forças
produtivas e devem corresponder-lhes: é o desenvolvimento da produção que o exige.
Logo que deixam de corresponder, surgem contradições dentro do modo de produção,
amadurecem mudanças nas relações de produção, e elas são postas inevitavelmente em
correspondência com as novas forças produtivas. Eis a essência da lei da correspondência
das relações de produção com o caráter das forças produtivas, que é o motor principal do
progresso histórico. É com base nesta lei que se dá a substituição do velho modo de
produção por um novo mais progressivo.
Determinadas relações de produção e, em consequência delas, a existência de
determinadas classes, correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças
produtivas materiais. O modo das relações sociais nas quais os homens produzem, o
predomínio da propriedade social ou da propriedade privada dos meios de produção
dependem do modo e do caráter das forças produtivas com que os homens produzem.
A História ensina-nos as formas de manifestação concretas de que esta dependência
se revestiu nos diferentes estágios de desenvolvimento da humanidade. O modo de fabrico
e de manejo dos instrumentos de produção na sociedade primitiva não pressupunha ainda
qualquer divisão diferenciada do trabalho, nenhuma produção social com múltipla
articulação. Ela obrigava, no entanto, os homens a viverem juntos, em tribos, para
sobreviverem. Com os instrumentos de caça primitivos, a caça grossa só podia ser abatida
pela ação conjunta de um grupo de homens.
O maior desenvolvimento das forças produtivas, o desenvolvimento de uma divisão
social do trabalho e o aumento gradual da produtividade do trabalho humano conduziram,
então, a uma articulação social cada vez mais diferenciada, que se expressou numa
distribuição desigual dos bens produzidos entre os homens, na formação da propriedade
privada, no aparecimento de dependências entre os homens, na submissão de uns em
relação aos outros e, finalmente, na divisão da sociedade em classes.

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A escravatura foi uma relação de produção social necessária para o
desenvolvimento de determinadas sociedades na Antiguidade Clássica (Grécia e Roma),
em que o próprio produtor direto torna-se propriedade do grande senhor de terras. Já o
empreendimento de grandes projetos de produção, como construções ou obras de irrigação,
apenas com o trabalho manual e com o total desinteresse dos produtores imediatos (uma
vez que para estes não resultava qualquer benefício do sobreproduto) pressupunha o
trabalho conjunto de grandes massas de trabalhadores, que eram assim mantidas pela força
imposta pelas ordens superiores dedicadas à religião, à guerra e à administração do Estado.
Era
o trabalho compulsório nas sociedades do Antigo Oriente Próximo (Egito e
Mesopotâmia), que foram analisadas por Marx à luz do conceito de modo de produção
asiático.
O modo de produção feudal na Idade Média produziu, também, outras formas de
relações sociais recíprocas, estabelecidas entre os grandes proprietários da terra, os
senhores feudais, e aqueles que se dedicavam a explorá-la, os camponeses, que tinham de
entregar aos senhores feudais a maior parte do excedente (sobreproduto ou sobretrabalho),
fosse por meio do trabalho realizado diretamente nas terras do senhor, fosse através da
entrega de produtos. Era a servidão, uma relação de exploração na qual ocorria o
fenômeno a que Marx denominou de coerção extra-econômica, pois a extração do
excedente se dava por intermédio da força das armas e/ou por mecanismos ideológicos e
religiosos, não por mecanismos puramente econômicos.
Por sua vez, o trabalho assalariado capitalista, a exploração da classe operária
pela burguesia, assenta-se, por um lado, na propriedade dos meios de produção pelo
capitalista e, por outro, em produtores que dispõem apenas da sua própria força de
trabalho. Esta relação de produção correspondeu também a um determinado estágio de
desenvolvimento das forças produtivas, que se expressou sobretudo na grande indústria e
que se caracterizou por um sistema multiplamente diferenciado de divisões sociais do
trabalho, por uma especialização muito avançada do trabalho humano e pela cooperação de
grandes grupos de operários à escala de grandes empreendimentos. A dependência entre

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determinadas forças produtivas e determinadas relações de produção continua a ser válida
na atualidade. Em consequência da incessante caça ao lucro pela burguesia, verificou-se no
capitalismo um desenvolvimento extraordinariamente rápido das forças produtivas.
A divisão do trabalho e a especialização que acabamos de referir ganharam um
caráter cada vez mais vasto. Meios de produção cada vez mais poderosos e quantidades
cada vez maiores de mercadorias pressupunham, para o seu fabrico, um número maior de
produtores e unidades econômicas cada vez maiores, que se encontram em dependências e
relações recíprocas diversas, não só no quadro de uma empresa, de um ramo da indústria,
de um consórcio, mas também com outros sectores da economia, muitas vezes em nível
internacional.
Camadas sempre novas da população são integradas ao processo de produção
capitalista. O trabalho humano adquiriu, portanto, em alto grau, caráter social. No entanto,
manteve-se o caráter privado das formas de propriedade dos meios de produção e de
apropriação dos produtos fabricados. O caráter social da produção e a apropriação privada
estão entre si numa contradição que se vai agudizando constantemente.
Marx escreveu que os homens participam das relações sociais de produção
«independentemente da sua vontade». Isso quer dizer que se trata de relações que surgem
na interação prática de uns homens com os outros, como consequência de múltiplas
determinações e necessidades postas pelo próprio desenrolar das situações em sociedade e
dos processos históricos, como resultado mesmo da luta de classes. O modo, a natureza, o
caráter das relações de produção (por exemplo, relações socialistas, caracterizadas pela
apropriação coletiva dos frutos do trabalho, ou capitalistas, caracterizadas pela apropriação
privada e pela exploração) resultam, necessariamente, do modo como se desenvolvem e
organizam as forças produtivas em questão.
O modo das relações de produção predominantes numa determinada sociedade não
depende, pois, de as pessoas quererem ou não participar dessas relações de produção, de
estas lhes agradarem ou não. É certo que o trabalho é realizado conscientemente, pois os
homens propõem-se a produzir um artigo bem determinado, um objeto bem determinado.
No entanto, as relações sociais que surgem precisamente nessa ação não dependem, em

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regra, da intenção consciente dos homens. É isto o que queremos dizer quando afirmamos
que as relações de produção existem objetivamente, independentemente da vontade do
homem, do sujeito que delas participa.
Marx não constata apenas a dependência entre forças produtivas e relações de
produção. Ele sublinha que o conjunto destas relações de produção, isto é, as formas de
propriedade dos meios de produção existentes num determinado período e correspondendo
a um determinado estágio de desenvolvimento das forças produtivas, bem como as formas
de troca e de distribuição dos bens produzidos, constitui a «base real» sobre a qual se
ergue uma «superestrutura jurídica e política». É evidente que a base econômica não
gera ideias, religiões ou filosofias. Ou seja, o nível econômico não funciona como uma
grande glândula que elabore as ideias e outros elementos integrantes da superestrutura,
mas, ao mudar a infraestrutura, a nova base econômica reorganiza, em função das novas
necessidades, o material superestrutural preexistente (o que, obviamente, ocorre durante
um processo histórico longo) e favorece o surgimento de novos elementos da
superestrutura (sem criá-los ou gerá-los automaticamente). Nestas condições, fica
preservada a autonomia relativa dos diversos níveis superestruturais, bem como suas
relações dialéticas com a estrutura social global.
Uma análise adequada deve partir da dialética forças produtivas x relações de
produção, mas tem de desembocar na estrutura e nos conflitos de classes, posto que o curso
da história não é mecânico. Como diz Pierre Villar: “as contradições de classe são o motor
da história, assim como a técnica e a economia estão na origem destas contradições”. Por
isso, é errado limitar as forças produtivas às técnicas e aos instrumentos de produção. Elas
incluem também e, fundamentalmente, o homem em sua participação no processo de
trabalho, com suas forças físicas e mentais, multiplicadas e, eventualmente, especializadas
mediante a cooperação e a divisão social e técnica do trabalho. Toda relação humana de
qualquer tipo inclui uma parte de pensamento, de representações, e as forças produtivas
não são exceção a esta regra. As forças produtivas tornam-se algo inconcebível se as
separarmos radicalmente do universo mental humano, pois, entre seus elementos
componentes, incluem-se inúmeros saberes.

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Portanto, importa ressaltar que as relações de produção são relações sociais entre os
homens, não entre coisas. Elas se dão entre classes sociais, entre sujeitos históricos. No
capitalismo, é a classe operária, como o elemento vital no processo de trabalho, que faz
com que as forças de produção existam e produzam mercadorias, enquanto a classe
dominante capitalista, detentora da propriedade dos meios de produção, apropria-se da
força de trabalho operária para explorá-La e obter lucros.
Logo, o grau de contradição entre as forças produtivas e as relações de produção
não se estabelece através de um processo mecânico, sem o envolvimento de seres
humanos. Esta contradição entre forças de produção cada vez mais sociais, e relações de
produção, cada vez menos sociais, porque concentradas nas mãos de cada vez menos
membros da classe capitalista, é algo material, real, um fato sócio-histórico. Mas o efeito
social deste fato depende do nível de consciência da classe operária. Quando este nível de
consciência alcançar a compreensão de que a origem da exploração é a dominação da
classe capitalista, surgirá a compreensão da necessidade histórica de socializar os meios de
produção, isto é, a necessidade de colocar a propriedade destes meios nas mãos daqueles
que são realmente produtores de riqueza, os trabalhadores.
Com isso, então, haverá a compreensão da necessidade histórica de efetuar a
substituição da sociedade capitalista pela sociedade socialista, através de uma revolução
socialista que promoverá a extinção da propriedade privada dos meios de produção.

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A OGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA HISTÓRIA
DAS SOCIEDADES
(TEXTO II)

INTRODUÇÃO

Segundo Marx, o conjunto das relações de produção, isto é, as formas de


apropriação dos meios de produção existentes num determinado período e correspondendo
a um determinado estágio de desenvolvimento das forças produtivas, bem como as formas
de troca e de distribuição dos bens produzidos, constitui a «base real» sobre a qual se
ergue uma «superestrutura jurídica e política». Marx inclui no conceito de “base real” o
conjunto das “forças de produção” e “relações de produção”, ou seja, a base real é a
estrutura das relações de produção que determinam as relações sociais de todo um modo de
produção. Ele afirma que esta “base” é a base material para uma superestrutura constituída
pelas “idéias” correntes na sociedade. Ele propõe que a sociedade consiste em dois
elementos conjugados - um material, a base - e outro ideal, a superestrutura. A base
também é denominada de “infraestrutura”, por semelhança com “superestrutura”.
Marx escreveu o seguinte sobre esta idéia: “O resultado geral a que cheguei e que,
uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na
produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e
independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma
determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto
dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a
qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas
formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o
processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que
determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência.
Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivasmateriais da
sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua
expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até

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ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em
obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social. Ao mudar a base
econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura
erigida sobre ela. […] E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que
ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua
consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições
da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivassociais e as relações de
produção. […] A grandes traços podemos designar como outras tantas épocas de
progresso, na formação econômica da sociedade, o modo de produção asiático, o antigo, o
feudal e o moderno burguês. As relações burguesas de produção são a última forma
antagônica do processo social de produção, antagônica, não no sentido de um antagonismo
individual, mas de um antagonismo que provém das condições sociais de vida dos
indivíduos. As forças produtivas, porém, que se desenvolvem no selo da sociedade
burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para a solução desse
antagonismo. Com esta formação social se encerra, portanto, a pré-história da sociedade
humana.” (Karl Marx, Prefácio - Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia
Política)
O sistema das relações de produção é como se fosse o esqueleto da sociedade, no
qual se mantém a sua unidade e integridade. As relações ideológicas dos homens, a sua
atividade espiritual, as suas concepções, os seus interesses políticos, os seus ideais morais
revestem o esqueleto com músculos e sangue, formando assim um organismo social vivo e
em desenvolvimento.
Marx afirma claramente existir uma determinação causal da base sobre a
superestrutura, enquanto há apenas uma influência da superestrutura sobre a base.
Significa isso que os fatores materiais são dominantes, mas de forma alguma seria correto
negligenciar ou desprezar os fatores ideais. O importante nesta análise dialética da relação
entre os dois pólos é conceituar a sua relação corretamente. Isso significa que os dois pólos
são importantes porque, em primeiro lugar, sem os dois não haveria relação dialética
nenhuma. Mas, concretamente, é preciso lembrar

17
o fato evidente de que as idéias e atitudes provocam ações e produção, sem, porém,
esquecer o fato ainda mais importante que são estas ações e produção que determinam as
ideias e atitudes.

O Modo de Produção na História

O conceito de modo de produção foi desenvolvido por Marx e Engels para designar
a maneira pela qual determinada sociedade se organiza visando garantir a produção dos
bens materiais necessários, de acordo com o nível de desenvolvimento de suas forças
produtivas. Trata-se de um modelo racional abstrato criado com vistas a proporcionar uma
análise criteriosa das formações sociais realmente existentes, possibilitando a comparação
entre as diferentes sociedades formadas ao longo da história. É preciso ter claro que o
modo de produção ajuda a compreender a realidade, mas não é a realidade. Outrossim, o
modo de produção não existe na sua forma pura, pois é possível depreender a presença, nas
formações sociais reais existentes, de características mescladas de diferentes modos de
produção, a depender do momento histórico estudado.
O modo de produção, portanto, permite compreender a maneira pela qual a
sociedade produz seus bens e serviços, como os utiliza e os distribui. O modo de produção
de uma sociedade é formado por suas forças produtivas e pelas relações de produção
existentes nessa sociedade. Podemos utilizar uma fórmula simplificada, entendendo tratar-
se de um recurso meramente didático: modo de produção = forças produtivas + relações de
produção. Portanto, o conceito de modo de produção resume claramente o fato de as
relações de produção serem o centro organizador de todos os aspectos da sociedade.
A história humana pode ser dividida em períodos relativamente longos de acordo
com a estrutura do modo de produção: Comunismo Primitivo; Modo de produção asiático;
Escravidão Clássica; Feudalismo; Capitalismo. Na teoria marxista, o modo de produção
comunista deverá substituir o capitalismo, mediado por um período de transição, o
Socialismo, entendendo que esta substituição não se dará de maneira natural, mas como
resultado da intervenção revolucionária consciente dos homens.
As características de cada modo de produção podem ser definidos de acordo com as

18
relações de produção dominantes.

Comunismo Primitivo

O modo de produção primitivo designa uma formação econômica e social que


abrange um período muito longo, desde o aparecimento da sociedade humana. A
comunidade primitiva existiu durante centenas de milhares de anos, enquanto o período
compreendido pelo escravismo, pelo feudalismo e pelo capitalismo mal ultrapassa cinco
milênios. Na comunidade primitiva, os homens trabalhavam em conjunto. Os meios de
produção e os frutos do trabalho eram propriedade coletiva, ou seja, de todos. Não existia
ainda a idéia da propriedade privada dos meios de produção, nem havia a oposição entre
proprietários e não proprietários.
As relações de produção eram relações de cooperação e ajuda entre todos; elas
eram baseadas na propriedade coletiva dos meios de produção, com a terra ocupando papel
preponderante. Também não existia o Estado. Este só passou a existir quando alguns
homens começaram a dominar outros. O Estado surgiu como instrumento de organização
social e de dominação. Portanto, como característica fundamental, temos a não existência
da propriedade privada nesta formação social, e, consequentemente, como tampouco havia
classes, não havia exploração de uma classe por outra – todo mundo trabalhava por si e por
todos.

Modo de Produção Asiático

Determinados elementos comuns de organização social, econômica, cultural e


política, reunidos por Marx e Engels no chamado modo de produção asiático, podem ser
encontrados em sociedades distintas como as do Antigo Oriente Próximo (Mesopotâmia e
Egito), assim como nas antigas formações sociais da China, Índia, África e até mesmo na
América pré-colombiana, de incas e astecas.
Tomando como exemplo o Egito do tempo dos faraós, a sociedade cujos elementos
centrais de organização servem de modelo principal para o modo de produção asiático,
vamos notar que a parte produtiva da sociedade era mantida principalmente pelos

19
camponeses, que eram forçados a entregar ao Estado o excedente de sua produção. As
comunidades aldeãs, organizadas conforme um sistema coletivo de propriedade, estavam
submetidas ao trabalho compulsório (“corvéias”) controlado pelos altos dirigentes do
Estado, cujas funções centrais, consideradas nobres naquela sociedade, eram a dedicação
exclusiva à religião, à guerra e à administração estatal. Havia escravos, mas a relação
principal de domínio se dava entre os ocupantes do Estado, que compunham a elite
aristocrática, e as comunidades de camponeses.
Fatores que determinaram o fim do modo de produção asiático foram: o
progressivo desenvolvimento da propriedade privada, quando os dirigentes estatais
passaram a se apropriar, de forma particular, das propriedades estatais, dos bens
produzidos pela sociedade, obtidos através do comércio ou da guerra; o crescimento do
comércio e da escravidão; o alto custo de manutenção dos setores improdutivos; a rebelião
dos escravos.

Escravismo Clássico

O primeiro modo de produção onde havia o pleno desenvolvimento da propriedade


privada e a exploração de uma classe por outra foi o escravismo clássico, cujos exemplos
típicos seriam a Grécia e Roma antigas. As duas classes principais eram, de um lado, os
donos de escravos, proprietários da terra e, de outro, os escravos que trabalhavam na
produção de bens, como máquinas humanas.
Na sociedade escravista, os meios de produção (terras e instrumentos de produção)
e os escravos eram propriedade do senhor. O escravo era considerado um instrumento, um
objeto, assim como um animal ou uma ferramenta. Identificamos na Grécia e em Roma
antigas as sociedades cujas características principais, no que tange à organização
econômica, social e política, fornecem os elementos básicos para o escravismo antigo.
Assim, no modo de produção escravista, as relações de produção eram relações de domínio
e de sujeição, opondo senhores a escravos. Um pequeno número de senhores explorava a
massa de escravos, que não possuía direito algum. Os senhores eram proprietários da força
de trabalho (os escravos), dos meios de produção (terras, gado, minas, instrumentos de

20
produção) e do produto do trabalho.

Feudalismo

A sociedade feudal, predominante na Europa Ocidental medieval, tinha como


contradição fundamental a relação entre senhores e servos. Os servos não eram escravos de
seus senhores, pois não eram propriedade deles. Eles serviam a seus senhores em troca da
ocupação de pequena parcela da grande propriedade senhorial, ou seja, em troca de
poderem usufruir de casa e comida. Os camponeses trabalhavam para garantir a sua
sobrevivência e a de sua família, por meio da agricultura de subsistência, e estavam
sujeitos a uma série de obrigações para com
o senhor das terras, dentre as quais a mais importante era o trabalho forçado em
determinados dias da semana diretamente nas terras administradas pelo senhor feudal. A
submissão ao senhor também podia se traduzir na obrigação de entregar o excedente da
produção agrícola ou, no momento de decadência do sistema, do pagamento de taxas e
impostos por dinheiro obtido no comércio dos bens produzidos pelos camponeses.
A exploração senhorial do braço camponês se dava através da coerção extra-
econômica, ou seja, por meios não puramente econômicos, através da força das armas e de
imposições ideológicas e de ordem cultural-religiosa. Isto porque o camponês, proprietário
de fato das terras por ele ocupadas (mas não de direito), exercia o controle dos meios de
produção. Somente com o uso superior da força militar e ideológica, o senhor feudal
submetia o camponês ao trabalho compulsório e ao conjunto de obrigações servis.
Num determinado momento, as relações feudais começaram a dificultar o
desenvolvimento das forças produtivas. Como a exploração sobre os servos no campo
aumentava, devido à necessidade crescente de os senhores feudais, para manterem sua
posição de domínio, ostentarem luxo e riqueza, elementos simbólicos essenciais numa
sociedade aristocrática, o rendimento da agricultura era cada vez mais baixo. Na cidade, o
crescimento da produtividade dos artesãos era freado pelos regulamentos existentes e o
próprio crescimento das cidades era impedido pela ordem feudal. A crise da sociedade
feudal, provocada pelas próprias leis internas ao sistema, abriu caminho para o

21
desenvolvimento progressivo das relações capitalistas de produção.

Capitalismo

No capitalismo, o direito da propriedade dos meios de produção pertence à minoria


capitalista, e o trabalhador é obrigado a vender a sua força de trabalho aos membros desta
classe em troca de um salário. Uma das características centrais do modo de produção
capitalista é a relação assalariada de produção (trabalho assalariado). As relações de
produção capitalistas baseiam-se na propriedade privada dos meios de produção pela
burguesia, que substituiu a propriedade feudal, e no trabalho assalariado, que substituiu o
trabalho servil do feudalismo. Portanto, existem basicamente duas classes sociais: a
burguesia e os trabalhadores assalariados.
O sistema capitalista organiza a produção conforme as necessidades da burguesia,
detentora dos meios de produção. Trata-se de uma produção essencialmente voltada à
acumulação e à obtenção de lucros, com base na exploração dos trabalhadores, os quais
encontram-se obrigados, pelas determinações da economia de mercado, a vender sua força
de trabalho para sobreviver. No capitalismo, ao contrário do que vimos no feudalismo, o
produtor direto (o trabalhador) deixa de exercer o controle de fato dos meios de produção,
ao ser violentamente expropriado deles, no processo de cercamento de terras, ocorrido no
campo inglês entre os séculos XV e XVIII. Os cercamentos aconteceram em função do
crescente desenvolvimento da produção voltada ao mercado, movida na lógica da
competição e do aumento da produtividade, outras características fundamentais do sistema
capitalista. O capitalismo agrário desencadeou um processo de expansão de suas leis de
funcionamento ao conjunto da sociedade inglesa, fazendo com que, no século XVIII, os
imperativos de uma economia de mercado atingissem a indústria, provocando a chamada
Revolução Industrial. Ao longo dos séculos XIX e XX, as relações capitalistas
desenvolveram-se e se consolidaram em quase todo o mundo.
O desenvolvimento do capitalismo ocorreu por meio de distintas fases históricas: 1)
A acumulação primitiva de capital – fase em que, em meio à crise da sociedade feudal e
com a sobrevivência de elementos característicos de diferentes modos de produção

22
(servidão em grande parte da Europa, escravidão na África e nas Américas, grande
desenvolvimento comercial, manutenção da ordem jurídico-político e ideológica feudal dos
Estados Absolutistas), já se desenvolviam relações capitalistas (a exemplo dos cercamentos
na Inglaterra e do progressivo desenvolvimento de relações assalariadas em alguns pontos
da Europa). 2) Fase de predomínio do capital mercantil na organização da produção: a
maior parte dos lucros concentra-se nas mãos dos comerciantes, que constituem a camada
hegemônica da parte da sociedade voltada à produção manufatureira e ao comércio,
durante a transição do feudalismo para o capitalismo, quando difundem-se as práticas
mercantilistas, adotadas pelos Estados Nacionais Modernos na Europa; o trabalho
assalariado torna-se mais comum. 3) Capitalismo industrial: com a revolução industrial, o
capital passa a ser investido basicamente nas industrias, que se tornam a atividade
econômica mais importante; o trabalho assalariado firma-se definitivamente. 4)
Capitalismo financeiro: os bancos e outras instituições financeiras passam a controlar as
demais atividades econômicas, através de financiamentos à agricultura, a industria, à
pecuária, e ao comércio.

O rápido desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo, a crescente


competitividade entre as empresas, a necessidade permanente de investimento em
produtividade e de criação de novas formas de dominação sobre os trabalhadores, em
decorrência do acirramento da luta de classes, foram responsáveis pelo surgimento de cada
vez mais sofisticados sistemas de gerenciamento da produção, importantes de serem
estudadas pela possibilidade de se entender, mais profundamente, a lógica de
funcionamento do sistema capitalista.
O Taylorismo ou Administração científica é o modelo de administração
desenvolvido pelo engenheiro estadunidense Frederick Winslow Taylor (1856-1915), que é
considerado o pai da administração científica. Taylor pretendia definir princípios
científicos para a administração das empresas. Tinha por objetivo resolver os problemas
que resultam das relações entre os patrões e os operários. Como consequência, modificam-
se as relações humanas dentro da empresa: o bom operário não discute as ordens, nem as
instruções, faz o que lhe mandam fazer.

23
Aspecto essencial do taylorismo é a organização racional do trabalho, através das
seguintes medidas:
- Análise do trabalho e estudo dos tempos e movimentos: objetivava a anulação de
movimentos considerados inúteis pelos capitalistas, para que o operário executasse de
forma mais simples e rápida a sua função, estabelecendo um tempo médio de produção.
- Estudo da fadiga humana: a fadiga predispõe o trabalhador à diminuição da
produtividade e perda de qualidade, a acidentes, doenças e ao aumento da rotatividade de
pessoal.
- Divisão mais intensa do trabalho e especialização do operário.
- Desenho de cargos e tarefas: desenhar cargos é especificar o conteúdo de tarefas
de uma função, como as executar e como estabelecer as relações com os demais cargos
existentes.
- Incentivos salariais e prêmios por produtividade.
- Condições de trabalho: o conforto do operário e o ambiente físico ganham valor,
não porque as pessoas merecessem, mas porque são essenciais para o ganho de
produtividade. No entanto, a imposição de movimentos repetitivos à exaustão e o controle
excessivo dos passos do operário no ambiente de trabalho provocavam cansaço e estresse,
prejudicando a saúde do trabalhador.
- Padronização: aplicação de métodos científicos para obter a uniformidade das
técnicas e reduzir os custos de produção.
- Supervisão funcional: os operários são supervisionados por supervisores
especializados, e não por uma autoridade centralizada.
- Homem econômico: o homem é motivável por recompensas salariais, econômicas
e materiais.
- A empresa era vista como um sistema fechado, isto é, os indivíduos não recebiam
influências externas. O sistema fechado é mecânico, previsível e determinístico.

Fordismo: idealizado pelo empresário estadunidense Henry Ford (1863-1947),


fundador da Ford Motor Company, o fordismo se caracteriza por ser um método de
produção caracterizado pela produção em série, sendo um aperfeiçoamento do taylorismo.

24
Ford introduziu em suas fábricas as chamadas linhas de montagem, nas quais os veículos a
serem produzidos eram colocados em esteiras rolantes e cada operário realizava uma etapa
da produção, fazendo com que a produção necessitasse de altos investimentos e grandes
instalações. O método de produção fordista permitiu que Ford produzisse mais de dois
milhões de carros por ano, durante a década de 1920. O veículo pioneiro de Ford no
processo de produção fordista foi o mítico Ford Modelo T, mais conhecido no Brasil como
"Ford Bigode".
O fordismo teve seu ápice no período posterior à Segunda Guerra Mundial, nas
décadas de 1950 e 1960, que ficaram conhecidas na história do capitalismo como “os anos
dourados”. A crise sofrida pelos Estados Unidos na década de 1970 foi considerada uma
crise do próprio modelo, que apresentava queda da produtividade e das margens de lucros.
A partir da década de 1980, esboçou-se nos países industrializados um novo padrão de
desenvolvimento denominado pós-fordismo ou modelo flexível (toyotismo), baseado na
tecnologia da informação.
O Toyotismo é um modo de organização da produção capitalista que se
desenvolveu a partir da globalização do capitalismo na década de 1980. Surgiu no Japão
após a Segunda Guerra Mundial, mas só a partir da crise capitalista da década de 1970 é
que foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês),
adquirindo uma projeção global.
O Japão foi o berço da automação flexível, pois apresentava um cenário diferente
do dos Estados Unidos e da Europa: um pequeno mercado consumidor, capital e matéria-
prima escassos e grande disponibilidade de mão de obra não especializada
impossibilitavam a solução taylorista/fordista de produção em massa. A resposta foi
o aumento da produtividade na fabricação de pequenas quantidades de numerosos
modelos de produtos, voltados para o mercado externo, de modo a gerar divisas tanto para
a obtenção de matérias-primas e alimentos, quanto para importar os equipamentos e bens
de capital necessários para a reconstrução do país no pósguerra e para o desenvolvimento
da própria industrialização.
O sistema pode ser teoricamente caracterizado por quatro aspectos:

25
- Mecanização flexível, uma dinâmica oposta à rígida automação fordista
decorrente da inexistência de escalas que viabilizassem a rigidez.
- Processo de multifuncionalização da mão de obra, uma vez que, por se basear na
mecanização flexível e na produção para mercados muito segmentados, a mão de obra não
podia ser especializada em funções únicas e restritas como a fordista. Para atingir esse
objetivo, os japoneses investiram na educação e qualificação de seu povo, e o toyotismo,
em lugar de avançar na tradicional divisão do trabalho, seguiu também um caminho
inverso, incentivando uma atuação voltada para o enriquecimento do processo de trabalho.
- Implantação de sistemas de controle de qualidade total, pelos quais, através da
promoção de palestras de grandes especialistas estadunidenses, difundiu-se um
aprimoramento do modelo dominante nos EUA. Ao se trabalhar com pequenos lotes e com
matérias-primas muito caras, os japoneses de fato buscaram a qualidade total. Se, no
sistema fordista de produção em massa, a qualidade era assegurada através de controles
amostrais em apenas determinados pontos do processo produtivo, no toyotismo, o controle
de qualidade se desenvolve pelo envolvimento de todos os trabalhadores em todos os
pontos do processo produtivo.
-Sistema just in time, que se caracteriza pela minimização dos estoques necessários
à produção de um extenso leque de produtos, com um planejamento de produção dinâmico.
Como indicado pelo próprio nome, o objetivo final seria produzir um bem no exato
momento em que é demandado.
O Japão desenvolveu um elevado padrão de qualidade que permitiu a sua inserção
nos lucrativos mercados dos países centrais e, ao buscar a produtividade com a manutenção
da flexibilidade, o toyotismo se complementava naturalmente com a automação flexível. A
partir de meados da década de 1970, as empresas toyotistas assumiriam a supremacia
produtiva e econômica, principalmente pela sua sistemática produtiva que consistia em
produzir bens pequenos, que consumissem pouca energia e matéria-prima, ao contrário do
padrão estadunidense. Com o choque do petróleo e a consequente queda no padrão de
consumo, os países passaram a demandar uma série de produtos que não tinham
capacidade, nem, a princípio, interesse em produzir, o que favoreceu o cenário para as

26
empresas japonesas toyotistas. A razão para esse fato é que, devido à crise, o aumento da
produtividade, embora continuasse importante, perdeu espaço para fatores tais como a
qualidade e a diversidade de produtos para melhor atendimento às demandas dos
consumidores.

Comunismo /Socialismo

Costuma haver certa confusão na compreensão e uso destes dois termos, sendo que
a propaganda burguesa utiliza desta confusão chamando os países socialistas de
comunistas e criticando o fato de estes países não mostrarem as características do
comunismo quando, na realidade, eles são países socialistas empenhados no processo de
construir sociedades comunistas.
Todavia, a relação entre socialismo e comunismo pode ser explicada sem
dificuldade da seguinte maneira: a formação socioeconômica que substituirá o capitalismo
e é baseada na propriedade social dos meios de produção. Num sentido mais restrito, o
Comunismo é o segundo (e mais alto em relação ao Socialismo) estágio no
desenvolvimento da formação comunista (comunismo pleno). O Comunismo é um sistema
social sem classes que promove a igualdade social completa para todos os membros da
sociedade.
As características do socialismo são definidas assim: a propriedade social exclui a
anarquia da produção, as crises e o desemprego, abre possibilidades (e a necessidade) de
planejar conscientemente e com determinação o seu desenvolvimento. Por outras palavras,
a hegemonia da propriedade social significa que na produção deixaram de mandar as leis
cegas e espontâneas do capitalismo e entraram em ação as leis econômicas do socialismo
que são estudadas e utilizadas pela sociedade segundo o princípio: “de cada um de acordo
com a sua habilidade, para cada um de acordo com o seu trabalho”.
Marx explica que:
“Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a
subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste
entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um

27
meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos
indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem
em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se
totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas
bandeiras: de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”
(Karl Marx - Crítica ao Programa de Gotha)

Conclusão

No que diz respeito ao papel social do trabalho, vimos a sua importância em todas
as sociedades, porque, sem o esforço humano, não seria possível produzir os meios
materiais que possibilitam manter, desenvolver e reproduzir a vida. Mas é de especial
importância não ficar na generalização abstrata de “esforço humano”, sem chamar a
atenção para o fato de que o trabalho foi e é realizado por um grupo específico de seres
humanos: as classes exploradas ao longo da história – os escravos, os servos e, hoje em
dia, na sociedade capitalista, a classe operária.

28
CLASSES SOCIAIS E LUTA DE CLASSES
(TEXTO III)

Introdução

A definição de classe social fornecida por Lênin deixa evidente a ligação entre a
existência de classes e a luta entre elas. Diz ele:
“Chamam-se classes a grandes grupos de homens que se diferenciam pelo seu
lugar no sistema historicamente determinado de produção social, pela sua relação
(na maioria dos casos confirmada e precisada nas leis) com os meios de
produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, por conseguinte,
pelos meios de obtenção e pelo volume da parte da riqueza social de que
dispõem. As classes são grupos de homens em que uns podem apropriar-se do
trabalho dos outros graças à diferença do lugar que ocupam num sistema da
economia social”.

A definição marxista começa com o fator material da existência de determinado


sistema de produção – formação social – e usa como critérios objetivos de diferença entre
as classes a sua posição neste sistema, a relação com os meios de produção, o papel na
organização do trabalho e a posse ou não de parcela da riqueza produzida pela sociedade.
Esta abordagem científica se mostra muito diferente da abordagem subjetiva das teorias
burguesas. Por exemplo, termos como “classe alta” ou “classe baixa”, que não precisam o
significado dos termos “alto” e “baixa”, são absolutamente vagos, e pior ainda é a
definição por letra do alfabeto, que tem como base a renda dos grupos assim identificados.
Poderia haver tantas classes quanto faixas de renda, e a definição destas mesmas faixas
poderia ser diferente de acordo com a opinião individual de cada um. Como podemos ver,
a definição de Lênin menciona a renda de cada classe social – “volume da parte da riqueza
social de que dispõem”, mas acrescenta a origem dela utilizando o critério objetivo e
verificável.
Outra crítica às teorias não-marxistas de classe direciona-se a que, além de terem o
defeito muito sério de não tratar das causas fundamentais do fenômeno de classe social, ao
mesmo tempo elas servem para ocultar a existência da exploração da classe operária pela
classe dominante capitalista. Isso significa que estamos diante de um ponto de vista
ideológico burguês. Conforme advertia Lênin: “Os homens sempre foram em política

29
vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não
aprenderem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais,
religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe.” 1

Estas palavras chamam a atenção para a grande importância de se aprofundar o


estudo da teoria da luta de classes, a fim de que possamos desenvolver a crítica da
realidade social conforme a visão de mundo da classe operária. E exprimem o enorme
passo em frente representado pela fundamentação e elaboração da teoria marxista-leninista
da luta de classes na história do pensamento humano, na procura de respostas capazes de
desvendar, do ponto de vista dos explorados na sociedade capitalista, como se
desenvolvem as relações entre as classes sociais, apontando para a necessidade do
enfrentamento às condições impostas pelos interesses do capital e de construção da
sociedade comunista, que dará fim à exploração do homem pelo homem.
Nas seções que seguem vamos examinar certas características fundamentais das
classes sociais.

Características fundamentais das classes sociais

Os extratos que seguem tratam de algumas características fundamentais das classes


sociais, a ver:
1) elas nem sempre existiram;
2) o conflito entre elas - a luta de classes - é inevitável;
3) a luta de classes é o motor do desenvolvimento das sociedades ao longo da história;
4) a idéia de uma sociedade sem classes é uma idéia construída na luta de classes e uma
possibilidade histórica concreta.

A natureza histórica (passageira) das classes sociais

Marx demonstrou que, nas sociedades primitivas, não havia a divisão entre classes.
Esta divisão surgiu com base em mudanças nas forças de produção e nos conflitos entre os
homens, que levaram à posse privada, por um grupo social, do excedente produzido e da
própria terra geradora de riqueza, graças à exploração de outra classe social que não
1
LÊNIN, V.I., As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo, em Obras Escolhidas em três
tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1977, t. 1, p. 38.

30
detinha a posse dos meios de produção. Assim explicou Marx:
“A primeira forma de propriedade é a propriedade tribal. Corresponde a um
estágio não desenvolvido da produção em que um povo vive da caça e da pesca,
criando animais ou, na fase mais elevada, da agricultura. (...) A divisão do
trabalho, neste estágio, é muito elementar ainda, e está limitada a uma extensão
da divisão natural do trabalho imposta pela família: a estrutura social é, portanto,
resumida a uma extensão da própria família (...)”

A segunda forma é a antiga propriedade comunal e do Estado, que provém,


particularmente, da união de várias tribos numa cidade, por acordo ou conquista, e ainda é
acompanhada pela escravidão. Ao lado da propriedade comunal, já encontramos a
propriedade privada móvel e, mais tarde, a imóvel, em desenvolvimento, mas como forma
subordinada à propriedade comunal. (...) toda a estrutura da sociedade baseada em tal
propriedade comunal, e com ela o poder do povo, entra em decadência na mesma medida
em que progride a propriedade privada imóvel. A divisão do trabalho já está mais
desenvolvida. Já encontramos o antagonismo entre a cidade e o campo, depois o
antagonismo entre aqueles estados que representam interesses urbanos e os que
representam interesses rurais e, dentro das próprias cidades, o antagonismo entre a
indústria e o comércio marítimo. As relações de classe entre os cidadãos e os escravos
estão, agora, totalmente desenvolvidas.” 2

Estudando as condições materiais de existência e os conflitos sociais resultantes das


relações antagônicas entre as diversas classes surgidas no decurso do processo histórico, a
teoria marxista produziu análises que nos permitem compreender que o processo de
formação, desenvolvimento e de luta entre as classes é o cerne da própria história humana.

A inevitabilidade da luta de classes

A realidade da oposição irreconciliável entre a classe de proprietários e a classe não


proprietária é um fato comprovado que permite tirar a conclusão de que a luta entre as
classes é algo historicamente determinado – iniciou-se num período histórico específico
quando surgiu a primeira sociedade dividida em classes – e se encerrará quando a
propriedade privada dos meios de produção desaparecer, como consequência da derrota da
2
MARX, Karl – FORMEN – Formações Econômicas Pré-Capitalistas, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975, pp.
114-115

31
classe capitalista. Sendo assim, é possível depreender a inevitabilidade da luta de classes
como fenômeno historicamente determinado por leis sociais.
Classes são grandes grupos de pessoas que se distinguem principalmente pelo fato
de possuírem ou não meios de produção. Os possuidores dos meios de produção exploram
aqueles que não possuem quaisquer meios de produção. A contradição entre exploradores e
explorados é algo inconciliável, antagônico. Outras características das classes antagônicas
derivadas desta característica fundamental são o seu diferente papel na organização social
do trabalho (se exercem uma função dirigente e dominante ou executante, se têm ou não de
se submeter às ordens dos detentores dos meios de produção) e a forma diferente de como
obtêm sua parte da riqueza social (como salário proveniente do trabalho ou como lucro) e a
grandeza dessa parte.
A luta de classes é, portanto, um fenômeno regido por leis sociais historicamente
determinadas. As classes não foram inventadas pelos marxistas ou outros revolucionários
para atiçarem conflitos na sociedade e minarem um dado regime. As classes e a luta de
classes são, antes, um resultado necessário de determinadas condições econômicas, sociais
e históricas. Enquanto a posição econômica dos homens for de forma a permitir que uma
minoria se aproprie gratuitamente de grande parte do que é produzido pela maioria
trabalhadora, é inevitável a divisão da sociedade em classes, e os homens pertencerão às
classes de exploradores ou de explorados, típicas da sociedade em questão, quer queiram
quer não.
A luta de classes se manifesta, por vezes, segundo formas agudas, abertas; outras
vezes, segundo formas menos agudas, mais encobertas. Na vida econômica, através de
conflitos salariais, etc., ela verifica-se de uma forma diferente da vida política, expressa,
por exemplo, nos embates eleitorais ou em ações de massas contra as políticas prejudiciais
aos interesses dos trabalhadores, aplicadas pelos governos burgueses.
A compreensão por parte dos explorados dos seus verdadeiros interesses, a sua
determinação para a luta, a sua confiança nas próprias forças podem ser ludibriadas pela
mentira, por manipulações ideológicas, por campanhas difamatórias anticomunistas, por se
espalharem ilusões e medo durante um certo período, tornando inócuas as formas de luta

32
contra os exploradores dominantes. Os exploradores conseguiram, por mais de uma vez,
limitar as possibilidades de os explorados se defenderem e se levantarem para a luta ou
reprimir totalmente essa luta por meio do terror e da violência. O que nunca se conseguiu,
no entanto, foi fazer desaparecer nem as oposições de classe existentes nem a própria luta
de classes.
Os ideólogos burgueses anunciaram inúmeras vezes o desaparecimento da divisão
de classes entre burguesia e proletariado e, desse modo, o fracasso definitivo da teoria
marxista-leninista da luta de classes. Mas, de todas as vezes, eles ficaram chocados, após
um certo tempo, com a greve seguinte, com a ação de luta seguinte da classe operária, com
a crise seguinte da sua dominação.

A luta de classes como motor do desenvolvimento histórico das sociedades

Quando não havia classes sociais, a principal contradição existente opunha os seres
humanos à natureza. O trabalho social dos seres humanos, buscando os meios de
subsistência, forçava-os a buscarem mecanismos de controle das forças da natureza.
Gradativamente, este trabalho levou ao desenvolvimento das forças produtivas
(representadas centralmente pela força de trabalho), permitindo maior acesso aos meios de
produção e à criação de um excedente na produção.
A partir da dominação deste excedente pela classe que detinha a posse dos meios de
produção, o processo de produção, isto é, o modo de produção e a formação social nele
baseada passaram a ser dirigidos para atender as necessidades e vontades desta classe.
Desta maneira, a contradição social principal passou a ser o conflito material dentro do
modo de produção entre a classe exploradora e a classe explorada, e esta contradição no
seio de cada formação social se tornou a “mola mestra” da história.
As relações e a luta entre as classes perpassam, assim, todos os domínios da vida
social. Portanto, são, sobretudo, elas que têm de ser analisadas quando se trata de
compreender uma determinada sociedade ou ainda um determinado passo da história,
quando se apreciam determinados períodos históricos em que ocorrem importantes
modificações e transformações sociais. Partindo destes princípios orientadores da visão de

33
mundo da classe operária, a teoria marxista-leninista entende ser o conteúdo principal da
época atual da história mundial como de transição da humanidade do capitalismo para o
socialismo.

A luta de classes como a mais importante força motriz da história humana

Segundo Engels, “todas as lutas históricas, quer se desenvolvam no terreno político,


no religioso, no filosófico ou noutro terreno ideológico qualquer, não são, na realidade,
mais do que a expressão mais ou menos clara de lutas de classes sociais” . Pela luta de
3

classes, a ação humana adquire efeito e significado históricos, e esta é a grande lei do
movimento da história.
Se as intenções e ações de homens isolados, ou de grupos de homens, exercem ou
não uma influência duradoura sobre a marcha do desenvolvimento social, se provocam
uma transformação das circunstâncias ou se não têm significado, é algo que depende, em
primeira linha, do fato de conferirem ou não expressão aos interesses e anseios de forças de
classe reais ou aos planos ambiciosos, aos desejos ilusórios de um punhado de
aventureiros. Isto não se relaciona apenas com o fato de uma pessoa isolada ter sempre
mais possibilidades quando age em consonância com outras; antes resulta, sobretudo, do
fato de as tendências do desenvolvimento material e econômico da vida social tomarem,
antes de tudo o mais, como interesses de classe, uma forma social.
Todas as transformações históricas foram precedidas pelo aparecimento de novos
interesses e necessidades materiais que, de forma mais ou menos rápida e mais ou menos
direta, entraram em conflito com os interesses e necessidades existentes. O que nesses
conflitos se refletia era sempre, em última instância, uma transformação da vida econômica
e social. As novas tendências econômicas, historicamente superiores, que se desenvolviam
e amadureciam, necessitavam de uma força social para se imporem às tendências já
antiquadas — mas que, de imediato, continuavam poderosas e predominantes — para
poderem se desenvolver sem entraves.

3
ENGELS, Friedrich, Prefácio à terceira edição alemã de 1885 de O 18 de Brumário de Louis Bonaparte
[Ver: Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos. Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-
Moscovo, 1982, t. 1, p. 416.]

34
Esta conexão necessária entre desenvolvimento econômico e luta de classes adquire
a sua expressão mais visível nas revoluções sociais. Nas revoluções sociais, decide-se o
resultado da luta entre progresso e reação. As revoluções sociais estarão sempre na ordem
do dia enquanto existirem classes exploradoras que se oponham à luta das classes que
encarnam o desenvolvimento histórico mais avançado das forças produtivas e das relações
de produção.

Uma sociedade sem classes é uma possibilidade histórica concreta

Talvez a conseqüência mais importante do fato segundo o qual nem sempre


existiram classes sociais é a compreensão de que a sua existência não é algo “natural”, ou
seja, não é permanente, como gostaria de convencer a classe dominante e os intelectuais a
seu serviço. Consequentemente, no mínimo, está colocada a possibilidade histórica de uma
sociedade sem classes.
Para os Partidos Comunistas, é exatamente a superação do capitalismo pela
passagem à primeira etapa do comunismo – o socialismo – que existe como muito mais do
que uma possibilidade. O advento do socialismo é visto como resultado da ação consciente
do seres humanos conscientes da sua necessidade histórica. A palavra “necessidade”,
segundo a teoria marxista, não significa apenas algo que é avaliado como útil, mas como
algo que resulta da natureza básica – a essência
– do processo de desenvolvimento histórico.
No texto A Luta de Classes, Lênin nos remete a Marx para reforçar que “a luta de
classes é o motor dos acontecimentos. A seguinte passagem do Manifesto do Partido
Comunista mostra-nos o que Marx exigia da ciência social para a análise objetiva da
situação de cada classe no seio da sociedade moderna, em ligação com a análise das
condições do desenvolvimento de cada classe: ‘De todas as classes que hoje em dia
defrontam a burguesia só o proletariado é uma classe totalmente revolucionária. As
demais classes vão se arruinando e soçobram com a grande indústria; o proletariado é o
produto mais característico desta. As camadas médias, o pequeno industrial, o pequeno
comerciante, o artífice, o camponês, lutam todos contra a burguesia para assegurarem a

35
sua existência como camadas médias, antes do declínio. Não são pois revolucionárias,
mas conservadoras. Mais ainda, são reacionárias, pois procuram pôr a andar para trás a
roda da história ...’
Em numerosas obras históricas, Marx deu exemplos brilhantes e profundos de
historiografia materialista, de análise da situação de cada classe particular e, por vezes, dos
diversos grupos ou camadas no seio de uma classe, mostrando, até a evidência, porque e
como ‘toda a luta de classes é uma luta política’. A passagem que acabamos de citar
ilustra claramente como é complexa a rede das relações sociais e dos graus transitórios de
uma classe para outra, do passado para o futuro, que Marx analisa, para determinar a
resultante do desenvolvimento histórico.” 4

Em outro texto, O Socialismo, diz Lênin: “A socialização do trabalho — que


avança cada vez mais rapidamente sob múltiplas formas e que, no meio século decorrido
depois da morte de Marx, se manifesta sobretudo pela extensão da grande indústria, dos
cartéis, dos sindicatos, dos trustes capitalistas e também pelo aumento imenso das
desproporções e do poderio do capital financeiro, eis a principal base material para o
advento inelutável do socialismo. O motor intelectual e moral, o agente físico desta
transformação, é o proletariado, educado pelo próprio capitalismo. A sua luta contra a
burguesia, revestindo-se de formas diversas e de conteúdo cada vez mais rico, torna-se
inevitavelmente uma luta política tendente à conquista pelo proletariado do poder
político.” 5

4
LÊNIN, V.I., A Luta de Classes, in Obras Escolhidas em três tomos, Edições Avante!-Edições Progresso,
Lisboa-Moscovo, 1977, t. 1, p. 38
5
Idem, p. 22. 7

36
A LUTA DE CLASSES E O ESTADO
(TEXTO IV)

Introdução

Anteriormente examinamos a organização das sociedades, ou, em termos marxistas,


das formações sociais, ao longo da história, e de como a interrelação dos elementos destas
estruturas sociais, associada ao processo da luta de classes são responsáveis pela produção
de mudanças no interior de cada formação, conduzindo ao aparecimento de uma nova
formação social.
Mas existe um elemento, uma instituição social cuja estrutura e papel ainda não
foram discutidos. Aqui examinaremos as teorias e os conceitos produzidos sobre o Estado.

Teorias e classes sociais

Discutir e chegar a conclusões sobre a origem dos fenômenos é essencial à análise


científica, porque possibilita a explicação da causa do fenômeno. No que diz respeito às
idéias, geralmente há mais do que uma teoria (um conjunto organizado de idéias) para
explicar fenômenos importantes. Como vimos anteriormente, as idéias têm a sua origem na
base real ou material da sociedade, de tal forma que não seria nenhuma surpresa descobrir
que as idéias também têm forte ligação com a posição das pessoas no sistema material de
produção na sociedade. Essa relação das idéias e, portanto, da ideologia (um conjunto
organizado de idéias que expressa os interesses de determinado grupo social,
especialmente classes sociais) com a posição do indivíduo no sistema material de produção
leva à conclusão de que determinadas teorias são fortemente vinculadas a determinadas
classes sociais.
Portanto, é sempre possível vislumbrar nas teorias pontos de vista que servem aos
interesses de determinada classe social, mesmo que a teoria em questão forneça uma
explicação lógica do tema sob investigação e, à primeira vista, possa parecer isenta. Com
as teorias sobre o Estado não é diferente. Nesta seção compararemos as teorias não
marxistas, ou seja, burguesas, com a teoria marxista. Investigaremos dois aspectos

37
importantes acerca do Estado: (1) a sua origem e (2) a sua função.

Teorias da origem do Estado

A teoria burguesa
As teorias burguesas sobre as origens do Estado podem ser divididas em duas
variantes. Segundo uma delas, muito popular, sempre houve a instituição social do Estado,
enquanto, de acordo com a segunda, o Estado é presente apenas em “sociedades
complexas”.
Apesar da aparente diferença, a primeira versão e a segunda têm algo muito
importante em comum: o Estado é uma necessidade por causa de características gerais da
sociedade. Enquanto, na primeira, o Estado é necessário para controlar e regulamentar o
comportamento social de todos os habitantes, na segunda, este controle só se torna
necessário depois de a sociedade alcançar um grau específico, em número e densidade, de
relações entre os habitantes. Em ambos os cenários, a sociedade é vista como algo coeso,
sem divisões fundamentais.
A respeito da função, embora haja diferenças neste quesito também, mais uma vez
não são significantes. A idéia mais difundida é a de que o Estado representa os interesses
de todo mundo – a sociedade inteira. Ele existe para chegar a soluções que levem em conta
os interesses da população como um todo, o que pressupõe, evidentemente, que não haja
nenhum conflito de interesse fundamental entre as pessoas. Isso corresponde à idéia da
sociedade unida.
Outra teoria da função afirma que o Estado não representa a sociedade inteira, mas
é necessário para evitar o caos social gerado pelas diferenças de interesses sociais. O
significado de “diferenças de interesses sociais” é interpretado à luz da teoria reacionária
que pressupõe que o povo é selvagem, isto é, ele tem uma camada fina de “civilização” que
pode desaparecer a qualquer momento por motivos imprevisíveis e triviais, assim gerando
a desordem social. Na realidade, percebe-se que este pensamento também se baseia na
idéia do bem estar geral, porque o controle da maioria “ignorante e inculta” pela minoria
“desenvolvida e inteligente“, de acordo com as suas normas, supostamente funciona em
beneficio de todo mundo, já que, se não for assim, a massa selvagem criaria problemas

38
para si mesma.
Então, segundo a teoria burguesa, as principais características do Estado são as de
garantir o bem estar de todos e a ordem numa sociedade que deve sempre se apresentar de
forma unida e não conflituosa.

A teoria marxista
O pensamento marxista sobre esta questão é incisivamente diferente. A respeito da
função, Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista, afirmam que “o governo do
Estado moderno não é mais do que uma junta que administra os negócios comuns de toda a
classe burguesa”.
Sobre sua origem, Engels escreveu, em A Origem da Família, da Propriedade
Privada e do Estado:
“… um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado grau de
desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa
irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos
irreconciliáveis que não consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos,
essas classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e não
consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário um poder colocado
aparentemente por cima da sociedade, chamado a amortecer o choque e a mantê-
lo dentro dos limites da ‘ordem’. Este poder, nascido da sociedade, mas posto
acima dela e distanciando-se cada vez mais, é o Estado”.
Como fica evidente, segundo esta abordagem, o Estado surge como o resultado do
aparecimento de classes sociais, e, portanto, não é uma instituição que “sempre existiu” e
tampouco representa o interesse geral da sociedade. A ordem imposta pelo Estado
contemporâneo, por exemplo, é bem específica. É a ordem da classe dominante capitalista
que exerce permanente pressão contra os interesses da classe operária:
“O Estado é, pois, um aparelho de domínio; tem ao seu serviço grandes grupos
de pessoas, não raramente armadas, e reclama para si o exercício exclusivo do
poder. Em proveito de quem é que o Estado cobra impostos? A serviço de quem
recruta soldados, forma polícias e exerce poder e domínio? O Estado não é um
fenômeno natural. […] não existiu sempre. Os primeiros homens passavam bem
sem ele. Podiam impedir qualquer transgressão da ordem existente na
comunidade primitiva sem terem de recorrer a um Estado. Somente numa certa
etapa do desenvolvimento econômico, quando a sociedade humana se encontrou,
pela primeira vez, dividida em classes, é que se tornou possível e necessário um
instrumento especialmente destinado a reprimir os explorados. A apropriação
pela classe dominante de uma parte dos valores criados pela classe trabalhadora
só é possível se aquele for capaz de obrigar os trabalhadores a produzirem para
ela. O Estado torna-se, assim, uma necessidade. A classe dominante – tanto os
escravistas como os senhores feudais ou os capitalistas – precisa do Estado para

39
garantir o seu domínio econômico, isto é, o seu sistema de apropriação de mais-
valia, o seu domínio sobre o trabalho não remunerado, o seu sistema de
exploração do homem pelo homem. Precisa, portanto, de um aparelho que lhe
permita, pelos mais diversos meios – inclusive o da coação física, assegurar a
aplicação das regras jurídicas e morais respeitantes à manutenção da sua
«ordem». A repressão que se abate sobre a classe dominada (escravos,
camponeses servos, operários e outros assalariados), quando esta tenta sacudir o
jugo econômico da classe dominante, traduz a verdadeira essência do Estado nas
sociedades de classes antagônicas. O Estado nasceu, pois, das lutas de classes e
constitui o aparelho que assegura o domínio de uma classe sobre outra (ou
outras). Isto significa que o Estado não é eterno, uma vez que já houve uma
época em que ainda não existia. Veremos mais adiante que também não existirá
sempre.
O Estado na Antiguidade era, sobretudo, o aparelho utilizado pelos senhores de
escravos para reprimir estes; o Estado medieval era sobretudo o aparelho que os
senhores feudais tinham nas mãos para reprimir os camponeses e manter a sua
exploração; o Estado burguês é sobretudo o aparelho usado pelos capitalistas
para reprimir e manter a exploração dos operários e outros assalariados. Sendo
assim, o Estado tem necessariamente de adquirir uma certa autonomia,que pode
ser maior ou menor. É que ele tem de estar em condições de contrariar os
interesses deste ou daquele membro da classe dominante que lese os interesses
de toda a classe. Durante o período da Guerra Fria, por exemplo, alguns Estados
capitalistas desenvolvidos embargaram certas trocas comerciais com os países
socialistas, o que causou sérios prejuízos a alguns monopólios gigantescos —
mas esse embargo correspondia à orientação política global do imperialismo
nessa altura. O fato de o Estado atuar, por vezes, contra membros isolados da
classe dominante de forma muito dura dá origem, frequentemente, à ilusão de
que esse mesmo Estado é «objetivo» na sua atuação. A verdade é apenas que o
Estado burguês impõe os interesses objetivos e a longo prazo da burguesia até
mesmo a este ou aquele capitalista. O Estado unifica assim, de certo modo, os
interesses divergentes, e por vezes contraditórios, de cada um dos membros da
classe dominante.”6

Lênin e a democracia proletária

Ao retomar integralmente a idéia de Marx segundo a qual o Estado é uma máquina


para o exercício do poder, Lênin afirma que todo Estado é uma ditadura de classe.
Assim diz Lênin, em O Estado e a Revolução:
“O Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das
contradições de classe. O Estado surge precisamente onde, quando e na medida
em que as contradições de classe objetivamente não podem ser conciliadas. E
inversamente: a existência do Estado prova que as contradições de classe são
inconciliáveis. (...) Segundo Marx, o Estado é um órgão de dominação de classe,
um órgão de opressão de uma classe por outra, é a criação da ‘ordem’ que
legaliza e consolida esta opressão moderando o conflito de classes.”7
6
“O que o Marxismo ensina sobre o Estado” em ABC do Marxismo-Leninismo, Lisboa, Editorial Avante,
1977, p. 5-7.
7
LÊNIN, V.I., O Estado e a Revolução, em Obras Escolhidas em três tomos, Lisboa/Moscou, Edições
«Avante!»/Edições Progresso, 1977, t. 2, p. 226.

40
Partindo da noção de que “todo Estado, quaisquer que sejam suas formas, é uma
ditadura”, se deduz a seguinte contraposição: a democracia burguesa, mesmo em sua forma
mais avançada, é uma ditadura da minoria sobre a maioria; para a grande maioria do povo,
não é uma democracia real, mas sim uma forma de opressão. Portanto, é preciso opor à
democracia burguesa a ditadura do proletariado, pois esta é a democracia da maioria e para
a maioria, ao mesmo tempo em que é a ditadura em cima da minoria capitalista, que deve
ser extirpada como classe.
Na democracia proletária, todas as liberdades políticas antes propagandeadas pela
burguesia são transformadas em realidade. Por exemplo, a liberdade de imprensa deixa de
ser formal e válida somente para os grandes veículos de comunicação: ela se torna real
porque os trabalhadores passam a ter os recursos para exercê-la, que antes não possuíam. A
democracia proletária (a “ditadura do proletariado”) realiza e dá substância às liberdades
políticas, ampliando enormemente a esfera de todas as liberdades.
Porém, a fim de permitir o trânsito de uma ditadura para outra, ou melhor, de uma
“democracia” burguesa para a mais avançada das democracias, o socialismo, é preciso
quebrar o Estado. Não é possível tomar o Estado burguês assim como ele está e usá-lo para
os fins do proletariado, porque esse Estado não serve à edificação do socialismo, da
democracia proletária. É um Estado centralizado, burocrático, policialesco, por
conseguinte, deve ser quebrado em todos esses elementos. Lênin retoma integralmente esse
conceito de quebrar o Estado, que é de Marx, e transforma-o num dos eixos da sua
concepção.
Quando surgir, entre as massas, a exemplo da Revolução de 1917, a exigência do
socialismo e se abrir o caminho para a democracia socialista, tal transformação não será
indolor, paulatina e, sim, um salto de qualidade, uma profunda crise de toda a sociedade,
uma ruptura que pode se dar por meio de uma revolução armada ou mesmo de caminhos
pacíficos, conforme já se verificou em diversos momentos históricos. Para Lênin, neste
momento, o elemento decisivo e realmente mais indispensável é a capacidade dirigente da
classe operária. Segundo ele, a ditadura do proletariado efetivamente venceu na Rússia
porque soube combinar dois elementos decisivos: coerção e persuasão. O proletariado

41
russo venceu não só o regime dos czares, mas também e, sobretudo, a guerra civil
financiada pelas potências imperialistas, superando dificuldades nunca vistas porque
compreendeu suas tarefas decisivas naquela quadra histórica: dirigir e organizar, lançando
mão da violência necessária para aniquilar de vez o poder burguês; educar todos os
trabalhadores para construir o poder soviético, assentado na democracia proletária.8

Antonio Gramsci: hegemonia e bloco histórico


O dirigente comunista italiano Antonio Gramsci retomou diretamente a concepção
de ditadura do proletariado como esta aparece em Lênin, identificando nela não só uma
profunda mudança da estrutura econômica e política, mas também uma profunda
revolução cultural, uma transformação profunda da maneira de pensar dos homens.
Ao produzir uma obra teórica marcada pela idéia da centralidade da política na ação
humana transformadora, Gramsci priorizou a análise das superestruturas na sociedade
capitalista contemporânea por entender que a grande novidade surgida com o século XX
foi a proliferação dos movimentos de massa, através do fortalecimento e crescimento dos
sindicatos, associações corporativas, partidos políticos, etc. Tais “fatos novos”
constituiriam um processo de “socialização da política”, fator que se, por um lado, teria
garantido uma maior estabilidade do Estado burguês, por outro, também permitiria a
organização da resistência a ele.
Gramsci desenvolveu uma teoria ampliada do Estado, ao estabelecer a
diferenciação entre sociedades organizadas nos moldes “orientais” ou “ocidentais”. Não se
trata de conceitos geográficos ou geopolíticos, mas indicadores de diferentes tipos de
formação econômico-social, em função da relação existente, em cada modelo, entre a
sociedade política, entendida como o conjunto dos aparelhos estatais de coerção (os
mecanismos pelos quais a classe dominante impõe sua dominação, por deter o monopólio
da força, tais como o aparato burocrático executivo e as forças da repressão policial e
militar) e a sociedade civil, formada pelos aparelhos privados de hegemonia (os
organismos sociais responsáveis pela formulação e circulação das diferentes ideologias,

8
GRUPPI, Luciano, Tudo começou com Maquiavel – as concepções de Estado em Marx, Engels, Lênin e
Gramsci, Porto Alegre, L&PM Editores, 1980, pp. 55-66.

42
tais como os partidos políticos, os sindicatos, a Igreja, as escolas, os meios de comunicação
de massa, etc.).
Nas sociedades “orientais”, a dominação burguesa é exercida essencialmente
através da violência policial controlada pelo Estado. Na sociedade “ocidental”, surgida
com o pleno desenvolvimento das relações capitalistas na Europa e nos Estados Unidos, na
passagem do capitalismo concorrencial para o monopolista, transformações sociais de
vulto decorrentes do acirramento da luta de classes, tais como a formação de grandes
sindicatos e partidos políticos de massa, a conquista do sufrágio universal, etc, obrigaram a
classe dominante a tentar exercer seu domínio não apenas através da coerção, mas
buscando o consentimento de parcelas significativas dos dominados, por meio da
hegemonia, para o que os aparelhos hegemônicos privados citados anteriormente passaram
a cumprir papel decisivo.
Para Gramsci, o Estado é “todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as
quais a classe dirigente justifica e mantém não só seu domínio, mas consegue obter o
9
consentimento ativo dos governados” . A dominação política não é vista apenas como
coerção verticalizada por parte dos aparelhos de poder, numa via de mão única, mas como
uma relação difundida pelo conjunto da sociedade civil, pela qual os dominados não
aparecem como meros agentes passivos, pois, em diversos momentos, assumem como sua
a ideologia dominante ou, pelo contrário, organizam resistência e oposição a ela. Sendo
assim, os aparelhos privados de hegemonia não podem ser identificados apenas como
reprodutores do discurso dominante, pois em seu seio dá-se, mesmo que em escala
reduzida, a mesma luta ideológica que se trava no conjunto da sociedade.
O Estado é, portanto, o espaço onde se concentra, na forma mais avançada possível
nas sociedades ocidentais, a luta de classes. É o lugar da administração dos conflitos entre
as frações da classe dominante e dos embates entre os interesses do grupo dominante e os
dos dominados, os quais, através dos seus organismos privados de hegemonia, exercem
algum tipo de pressão ou influência junto ao poder e/ou resistem à dominação.
Nas sociedades ocidentais, a proposta de luta pela destruição do sistema capitalista

9
GRAMSCI, Antonio, Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1991, 8ª edição, p. 87.

43
e pela conquista do poder de Estado por parte dos trabalhadores não se concretizaria se
pensada apenas do ponto de vista da tomada do poder como uma brusca e explosiva guerra
de movimento (o assalto ao poder), pois a sociedade civil transformou-se em uma estrutura
complexa e mais resistente às crises, e as superestruturas passaram a funcionar como o
sistema de trincheiras utilizado nas guerras modernas. Nesse caso, nem as tropas atacantes,
por causa da crise, organizam-se rapidamente no tempo e no espaço, nem os atacados
sentem-se desmoralizados o suficiente para abandonarem suas defesas, nem perdem de
imediato a confiança em sua força, já que o elemento surpresa, do tempo acelerado, não
aparece de acordo com o que imaginavam os estrategistas da guerra de movimento.
Seria, então, necessária uma prolongada guerra de posições, pela qual o partido
revolucionário buscasse exercer a hegemonia entre os setores sociais para quem a mudança
estrutural da sociedade é necessária: os trabalhadores e, em especial, a classe operária. O
processo revolucionário é pensado, desta feita, como resultante de intensa luta política e
ideológica na qual se busca produzir, por meio dos embates sociais e da ampla discussão
em torno do projeto contrahegemônico, uma nova visão de mundo a ser abraçada por
parcelas cada vez maiores da população, visando criar um novo consenso, um novo senso
comum. Trata-se de elaborar uma nova concepção de mundo através de uma análise crítica
e consciente da realidade presente e da intervenção ativa na história, para que se enfrente a
concepção de mundo dominante, imposta pelos grupos sociais dominantes.
Na luta hegemônica, o partido revolucionário é, para Gramsci, o organismo social
responsável pela organização da ampla reforma intelectual e moral pretendida, pois
configura-se como a primeira célula na qual se aglomeram germes da vontade coletiva que
tendem a se tornar universais e totais, no sentido da transformação social a ser conquistada.
O papel básico do partido operário é contribuir para a elevação da consciência de classe,
superando os marcos dos interesses puramente imediatos, economicistas, corporativos,
para o nível da visão global da realidade, forjando, desta feita, uma vontade coletiva
nacionalpopular, capaz de hegemonizar um projeto político nacional de construção da
sociedade socialista. O partido, portanto, é a organização capaz de promover a passagem
do momento “egoístico-passional”, economicista e corporativo dos grupos sociais para o

44
momento ético-político, universalizante, hegemônico, quando a ideologia atua sobre um
povo disperso e pulverizado para despertar e organizar a sua vontade coletiva.
Para a construção desta concepção de mundo crítica, coerente e unitária, assume
papel decisivo a ação dos intelectuais de novo tipo, conforme propõe Gramsci. Ao
contrário do intelectual tradicional, um profissional da eloquência e do discurso, a exercer
o monopólio do saber na sociedade, o novo intelectual, o intelectual orgânico, deve portar-
se como um organizador da vontade coletiva, um construtor da nova hegemonia, um
“persuasor permanente”10, que necessita garantir sua inserção ativa e contínua na vida
prática, nos embates sociais, junto às massas. Os intelectuais de novo tipo funcionam, pois,
como categoria orgânica de um grupo social fundamental, de uma classe, como
organizadores da hegemonia, sendo responsáveis pela unidade entre teoria e prática na
produção do processo histórico real. O partido político, por conseguinte, é o lugar por
excelência da atuação dos intelectuais orgânicos, já que a função do partido é, na sua
essência, diretiva e organizativa, isto é, educativa e intelectual, no sentido de promover a
grande tarefa revolucionária de conscientização das massas na luta contra a ordem
dominante.

10
GRAMSCI, A., Cadernos do Cárcere – Volume 2, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000, p. 53.

45