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União condenada por sumiço do processo criminal contra assassino de

Euclides da Cunha Filho


TRF 2ª Região - 31/5/2010
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assassino de Euclides da Cunha Filho
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A Sexta Turma Especializada do TRF2 confirmou sentença que condena a União a pagar R$
30 mil de indenização pelo desaparecimento do processo criminal que apurou a morte de
Euclides da Cunha Filho. O filho do autor de Os Sertões morreu baleado, em 1916, por
Dilermando de Assis, o mesmo homem que assassinara seu pai sete anos antes.
Os autos históricos estavam sob a guarda do Arquivo Nacional. A decisão da Turma foi
proferida em julgamento de apelação da União contra a sentença da primeira instância da
Justiça Federal do Rio de Janeiro, que determinou que o dinheiro seja recolhido ao fundo
para reconstituição de bens lesados, criado pela Lei 7.347, de 1985.
O caso começou com uma representação feita ao Ministério Público Federal (MPF) pelo
advogado e pesquisador Joel Bicalho Tostes, casado com a neta de Euclides da Cunha.
Tostes, que faleceu em dezembro de 2009, relatou que na década de 1960 consultara no
Arquivo Nacional o processo referente à morte de Euclides da Cunha Filho, mas que em
1996, quando fez a representação, o documento já teria sumido. Por conta disso, o MPF
ajuizou uma ação civil pública em 2001.
Segundo informações da ação, o processo criminal referente à morte de Euclides da Cunha
Filho foi remetido junto com vários lotes de documentos repassados para o Arquivo Nacional
pelo Supremo Tribunal Militar - entre os anos de 1926 e 1931 -, que julgara o réu nos dois
casos de homicídio.
No julgamento da ação civil pública em primeiro grau, a Justiça Federal levou em conta o
valor que a preservação da biografia de Euclides da Cunha tem para a história e para o
estudo da literatura. Já no Tribunal, o relator do processo, desembargador federal
Guilherme Calmon, começou seu voto rebatendo o argumento da União, de que não haveria
provas de que o processo criminal de Dilermando de Assis fora entregue para guarda do
Arquivo Nacional. O magistrado citou os termos de transferência do acervo assinados nas
primeiras décadas do século 20 e afirmou que, "para desconstituir a veracidade da
informação constante em tais documentos, seria necessário que a apelante (a União)
produzisse prova cabal de que, efetivamente, os autos nunca foram entregues ao Arquivo
Nacional, o que não ocorreu".
Ainda, Guilherme Calmon ressaltou que a Constituição obriga o Poder Público a proteger o
patrimônio cultural. Além disso, afirmou, a Lei nº 8.159, de 1991, impõe ao Estado o dever
de dar proteção especial a documentos de arquivos, como instrumento de apoio à
administração, à cultura, ao desenvolvimento científico e como elementos de prova e
informação: "A historicidade biográfica de Euclides da Cunha (pai) é notória, podendo ser
colacionadas as várias referências sobre a vida e morte de tal personalidade da literatura e
da história do Brasil, como fez o juiz na sentença. É manifesto o interesse histórico pela vida
e morte de Euclides da Cunha e, conseqüentemente os fatos também correlacionados, como
a morte de seu filho Euclides".
O escritor Euclides da Cunha foi morto em 1909 pelo tenente Dilermando Cândido de Assis,
na própria residência do militar, na Estrada Real de Santa Cruz nº 214 (atualmente Avenida
Dom Helder Câmara), no subúrbio carioca de Piedade. Euclides da Cunha invadira a
propriedade armado para exigir que sua esposa, Ana Emília, voltasse para casa com ele. Ela
havia abandonado o marido para viver com Dilermando. Defendido pelo advogado Evaristo
de Morais, o tenente foi absolvido sob o entendimento de que ocorrera legítima defesa.
Em 1916, Dilermando sofre um atentado a bala do aspirante de Marinha Euclides da Cunha
Filho, que o atinge nas costas, com o propósito de vingar o pai. O militar reage e mata o
jovem. Novamente, ele é julgado e absolvido com o fundamento de legítima defesa.
Hoje, no Arquivo Nacional estão guardados os processos de habilitação para casamento e o
edital de proclamas de Euclides da Cunha e Ana Emília. O processo penal envolvendo o
escritor pode ser visto no Museu da Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Proc. 2001.51.01.007679-9