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ROCHAS Moya mee cena etal Gergely A. J. Szabé R6mulo Machado 382 DeciFRaNDO a TERRA transformagio de uma lagarta em crisilida e Jdesta em borboleta denomina-se “metamor- fose”. No livro famoso de Kafka, Metamorfose, 0 personagem principal transforma-se, de maneira in- quietante, em um inseto. Metamorfose significa transformacio, mudanga de forma, sem que se perca a esséncia da matéria em transformagio (nos dois ca- sos, uma forma de ser vivo em outra forma). Metamorfismo, em Geologia, define o conjunto de processos pelos quais uma determinada rocha é trans- formada, através de reagdes que se processam no estado sélido, em outra rocha, com caracteristicas dis- tintas daquelas que cla apresentava antes da atuacio do metamorfismo, Estas modificagdes implicam mu- dangas na estrutura, textura, composi¢io mineralégica ou mesmo composi¢io quimica da rocha, que ocor- rem geralmente de maneira combinada. O campo dos processos metamérficos € delimitado, por um lado, pelos processos diagenéticos, de baixa temperatura, de até aproximadamente 250°C (Cap. 14) e, por ou- tro, pelo inicio da fusio de rochas a altas temperaturas (Cap. 16), conforme ilustrado na Fig. 18.1. As rochas, partir das quais se originam astochas metamérficas, so chamadas de protolitos, ¢ sua identificagio tem grande importincia em estudos geoldgicos. Fig. 18.1 © compo do meiamorismo em diagramo Px T. O asterisco indica os condigdes de pressio mais elevada registradas em rochas atualmente expostas 4 superficie da cros- to toresre. A curv de fusdo pare grarites sob condigies hidrotadas (P,,=P}1, ©); B - curva de fuse para granites sob condigées onidras (P.0=0). “A Leito dobrado de anfibolito intercalado « ortognaisses migmatit Os processos metamérficos ocorrem, em geral, associados aos processos tecténicos (Cap. 6). Os lo- cais mais importantes sio as margens continentais convergentes, onde se desenvolvem as grandes cadeias de montanhas, como os Andes, as Rochos Himalaias, ou os arcos de ilha, como o arquipélago do Japio. Rochas metamérficas sio constituintes pre- dominantes nestas grandes estruturas lineares, principalmente nas suas partes centmais, na forma de extensas faixas, denominadas cinturdes metamérficos, muitas vezes intimamente associadas a rochas magmiticas plutonicas. Rochas metamérficas desenvolvem-se também nas proximidades das dorsais meso-ocedinicas, ao redor de corpos igncos intrusivos, ao longo de grandes zonas de falhas ou ainda nas cra- teras de impacto de meteoritos. iS OU OS Processos tectonicos provocam modificagdes nas condigdes fisico-quimicas as quais os protolitos esta- vam submetidos. Isto conduz ao reequilibrio dessas rochas através de reagdes metamérficas, que modifi- cam a composi¢io mineralégica e promovem reorganizagao estrutural ¢ textural. Os principais pariimetros fisicos envolvidos no metamorfismo sio a temperatura e a pressio. Com o aumento da tempe- ratura, por exemplo, os argilominerais das rochas sedimentares sio substituidos por micas ¢ outros silicatos aluminosos e a textura sedimentar clistica de um arenito poroso é recristalizada para uma textura em mosaico, onde desaparecem os espacos vazios entre 0 griios (Fig, 18.2). mm. Fig. 18.2 Arenito com textura sedimentar cléstica bem sele- cionada, poroso e com gros de quartzo arredondados (o) € 0 seu equivalente meiamérfico, um quortaito (b), com texture. granobléstica em mosaico (poligonizadal, onde os gréos de {quartzo preenchem todo o espaco, tocando-se através de con- fotos retos que fazem uncées de 120° entre si icos (MG). Foto: G. A. J. Szabé. CTR Ch coro: S} Rochas metamérficas podem preservar algumas das caracteristicas originais dos protolitos, como composi- cio quimica, estruturas primarias ou nicleos remanescentes de minerais envoltos por auréolas de minerais neoformados. Pode-se dizer que as caracte- risticas primarias que sobrevivem aos processos metamérficos constituem uma meméria passada das rochas metamérficas, essencial para a identificagio do protolito. Por outro lado, a assembéia mineral ¢ as texturas geradas pelo metamorfismo correspondem a uma mem6ria recente. Através do estudo desta as- sembléia mineral e texturas, podem-se estabelecer as condigées fisico-quimicas que atuaram durante o metamorfismo € reconstituir 0 proceso evolutive dessas rochas, 18.1 Evolugao Histérica dos Estudos Sobre Metamorfismo Os processos metamérficos ocorrem no ama- go da crosta € sua atuacio é portanto inacessivel & observacio direta. B, por esta raziio que o seu estu- do desenvolveu-se tardiamente, de maneira mais completa apenas na segunda metade do século XX. Antes disto, o estudo do metamorfismo limitava- se a deduces feitas a partir do mapeamento minucioso de algumas regides onde as rochas ‘metamérficas afloravam de maneira mais evidente. ‘As primeiras observagies se devem a Giovanni Arduino nos Alpes italianos, em 1779, quando en- controu evidéncias de repetidas movimentagdes da superficie, levando a deformagio das camadas ¢ a transformacio de caleirio em marmore, num pro- cesso que ele denominou “metamorfose”. Quase simultaneamente, Hutton reconheceu que alguns micaxistos na Escécia representavam folhelhos modificados no interior da crosta devido a0 au- mento de pressao e temperatura. Em 1830, Charles Lyell introduziu 0 termo “metamorfismo”. Em. 1877, Harry Rosenbusch estudou as rochas forma- das na auréola metamérfica ao redor de uma intrusio granitica. George Barrow, em 1893, defi- niu a distribuigao de minerais indicativos do aumento da intensidade do metamorfismo de folhelhos nas Terras Altas (Highland) da Escécia, As idéias modetnas sobre 0 metamorfismo co- megaram com os estudos de Viktor Goldschmidt, desenvolvidos na primeira década do século XX na Noruega, em auréolas de metamorfismo de con- tato ao redor de pequenos corpos de sienitos ¢ granitos. Ele verificou que os minerais das rochas metamérficas se associam de acordo com deter- minadas combinagées e nao ao acaso. Além disso, investigou as condicdes de formacao de wollastonita nestas rochas pela reacio: CaCO, (calcita, Cal) + SiO, (quartzo, Qtz) CaSiO, (wollastonita, Wo) + CO, (fase fluida) (Fig. 18.3), através de célculos baseados em méto- dos termodinamicos. Na mesma linha de pesquisa, Pentti Eskola estudou os terrenos metamérficos da Finlndia, aplicando principios de equilibrio quimi- co em associacdes.minerais, que refletem as condigdes de temperatura € pressio atuantes du- rante 0 metamorfismo. + Polkbar) =P Pressao = Py Temperatura (°C) Fig.18.3 Diograme das curvas de equilibrio no campo Px T para formagéo de wollastonita em roches carbonéticas silicosos pela reagdo CaCO, (colcita - Cal) + SiO, (quartzo - Giz) = CoSiO, (wollastonita - Wo) + CO, (fase fluida), sob condigées de fase fluida hidratada (P,=P} co), misto Pr=PHOFPCO, I:I) ¢ carbénica ,=PCO,).” O grande avanco no entendimento dos processos metamérficos ocorreu na segunda metade do século XX, a partir de experimentos laboratoriais com mate- tiais crustais sob condicdes de temperatura € pressio clevadas. As caracteristicas termodindmicas da cristai- zacio de minerais € de suas associagdes em equilibrio tornaram-se conhecidas e técnicas analiticas sofistica- das desenvolwidas para determinagdes do quimismo € idade de minerais e rochas permitiram a modelagem da evolugio de terrenos metamérficos. 18.2 Fatores Condicionantes do Metamorfismo Os fatores principais que controlam os processos metamérficos sfo: natureza do protolito, temperatu- 1a, pressio (litostitica e dirigida), presenea de fluidos tempo de duragio dos processos. 18.2.1 ‘Temperatura (T) As prtincipais fontes de calor na Terra sio o calor residual do manto e do micleo, e © calor gerado por desintegragio radioativa (Cap. 5). O mecanismo mais importante de transferéncia de calor do seu interior para a superficie é promovido pelo sistema motor da tecténica global (Cap. 6), através do qual grande volu- me de material mantélico de alta temperatura ¢ trazido superficie junto as cadeias meso-oceanicas. Na cros- ta continental, 0 calor é transportado por meio de intrusdes igneas, por eventos tectdnicos como zonas de cisalhamento e grandes fraturas (pfs continentais — Cap. 19) ¢, de forma menos efetiva, por condugio térmica através das rochas. Nas fireas tectonicamente ativas as vari¢des de tem- peratura com a profundidade sto bastante complexas. ‘A mudanga de temperatura em um ambiente geolégi- co provoca reacdes quimicas entre os minerais presentes na rocha, reequilibrando-os sob as novas condigdes. As reagdes metamérficas propriamente ditas iniciam-se a temperaturas superiores a 200°C, Em temperaturas muito clevadas o metamorfismo se de- senvolve nos limites da transi¢io para 0 campo de .geracio das rochas igneas, quando entio ocortem pro- cessos de fusio parcial, que originam rochas mistas denominadas migmatitos (Fig. 18.4). Estas rochas apresentam porcdes metamérficas, recristalizadas em estado sélido, e porgdes igneas, cristalizadas a partir do material fundido. 384 Decirranoo a Terra Fig. 18.4 Migmatito: rocha mista, com feigdes metamérficas (estrutura gnéissica, bandamento) interdigitados com feicées igneos (bols6es e veios graniticos). Foto: R. N. Roegg. As oscilagdes térmicas existentes na crosta terrestre devem-se a0 fluxo de calor da Terra, que é variivel nos distintos ambientes tecténicos, sendo maior na erosta continental quando comparado a crostas oce’- rnicas mais antigas. Os valores de fluxo de calor mais elevados foram medidos em crostas oceinicas jovens (<40 Ma). Como regra, a temperatura aumenta com a profundidade, segundo uma razio denominada gra- diente geotérmico (Cap. 5). Em geral, os gradientes geotérmicos na crosta variam entre 15 € 30°C/km, podendo ocorrer gradientes anémalos entre 5°C € 60°C/km. Essas variacdes dependem das fontes de calor ¢ seus mecanismos de transferéncia para a su- perficie. Por exemplo, nas areas de cadeias de montanhas jovens, 0 gradiente geotérmico mais cle- vado é devido a rapida exumacio (soerguimento e erosio) dessas regides, expondo rochas mais “quen- tes” a superficie antes que o seu calor possa se dissipar em profundidade. 18.2.2 Pressao (P) As presses atuantes na crosta podem ser dos tipos litostitica (ou confinante) ¢ dirigida. A pressio litostitica atua & semelhanca da pressio hidrostitiea, onde um cor- po mergulhado em Agua recebe o mesmo médulo de presso em todas as diregGes, variando de intensidade com a profundidade. A intensidade da pressio litostitica € fungao da coluna de rochas sobrejacente ¢ da densida- de destas rochas, sendo definida pela equagio: P= dgh onde P, é a pressio litostitica, da densidade das 10- chas, ga aceleragio da gravidade e ba profundidade considerada. Em geologia, as unidades de presstio mais, utilizadas sto bétias (bar) ou kilobrias (kbat) e, mais re- centemente, pascais (Pa) ou giga-pascais (GPa). Em rochas sem a presenga de um fluido intersticial, a press litostitica é transmitida através dos contatos entre os mi- nerais. A presenga de fase fluida interstcial implica um componente de pressio que atua no sentido contririo, tendendo a aliviar a pressio litostitica € favorecendo 0 desenvolvimento de fraturas. Em regides profundas (35-40 km) da crosta as r0- chas sio submetidas a presses confinantes da ordem de 10 a 12'kbar, ou seja: cerca de 10.000 a 12.000 vezes a pressfio atmosfética na superficie. Em alguns ambientes, ‘geoligicos as rochas podem ser submetidas a presses muito elevadas, superiores a 18 ou 20 kbar, ¢ mesmo que sejam posteriormente expostas & superficie pela ero- io, preservario as assembléias mineralégicas geradas sob aquelas condigées. Estas rochas, porém, sio raras & su- petficic, e constituem importantes registros dos processos, tectonicos. Conforme a intensidade da pressio litostitica podem-se definir os regimes baricos de baixa, média e alta pressio. A pressio litostitica, por ter intensidade uniforme em todas as diregdes, no causa deformagio mecinica acen- tuada durante 0 metamorfismo. A pressio dirigida, por sua vez, é produzida pela movimentacio das placas litosféricas e atua de forma vetorial, produzindo tenses ¢ deformacées. Durante 0 metamorfismo, a deforma- Gio meciinica das rochas exerce grande influéncia na geraciio de texturas ¢ estruturas orientadas e na migracio de fluidos. Em conseqiiéncia da deformacio, os mine- rais com estrutura em folha, tais como as micas ¢ cloritas, envolvem orientados segundo direcio perpendi- cular de maxima pressio, originando rochas tipicamente foliadas, como os micaxistos (Fig, 18.5). Quando a pres- sio ditigida prevalece, os processos de deformacio se CNTR Re eee CS. ‘tomam mais intensos, dando origem as rochas miloniticas € cataclisticas das zonas de cisalhamento, como sera vis- to mais adinte. 18.2.3 Fluidos As transformagdes mineralégicas que ocorrem du- zante 0 metamorfismo se desenvolvem no estado sélido, No entanto, sistemas metamérficos contém uma fase fluida, constituida sobretudo por HO e/ou CO, cuja existéncia pode ser constatada pela presenca de minerais hidratados (micas, anfibélios, cloritas) e/ou de carbona- tos na maioria das rochas metamorficas. Além disso, os minerais podem conter diminutas inclusGes fluidas (dia- metro<10? mm) que representam amostras do fluido presente durante a sua cristalizagio (Fig, 18.6). A pressiio de fluidos (P,) é a pressio exercida pelos fluidos intersticais aos minerais e pode equiparar-se a pressio litostitica (P, = P,, ou P,.), ser inferior ou supe- rior a mesma. No tiltimo caso, se a pressio de fluidos superar a resisténcia mecanica da rocha, ocorrer fraturamento e perda dos fluidos através das fraturas. Fig.18.5. Muscovita-biotita xisto (micoxisto) com estrutura islosa e texture lepidobléstico. Petinia, MG. Foto: G. A. J Szabé, Fig. 18.6 Inclusdes fluidas em égua-marinha. A ineluséo mai- (F 6 bifésica, aquosa-carbonosa {H,0-CO,), com uma bolha de CO, (gasoso} em meio & gua liquida, e tem comprimento de aproximadamente 100 mm, Fotomicrogratia: R. M.S. Bello. Este processo é importante para a formagio de depési- tos minerais onde os minérios se concentram em veios. A pressio de fluidos interfere nos processos termodinimicos do sistema, como temperatura de equi- libtio das reagdes entre os minerais, bem como no estado de valéncia de elementos quimicos (reagdes de oxi-redu- io) ¢, conseqiientemente, na natureza da assembléia ‘mineral resultante. A presenca de fluidos acelera as rea- bes metamérticas,faciitando a migragio dos elementos. A composi¢io do fluido muda constantemente durante © proceso metamérfico, com trocas de elementos en- tre © fluido © os minersis recém-formados. Em rochas pobres em fluidos (P,<< P,,) as reagdes metamérficas sio lentas porque toda migragio dos elementos se faz. por difusfo iinica em meio sélido, através dos reticulos crtistalinos dos minerais, dificultando o processo de trans- porte de componentes quimicos. 18.2.4 Tempo © tempo é um fator importante no metamorfismo, mas de dificil afericio na pritica. Fm muitos casos, rea- ccBes metamérficas se processam de maneira relativamente lenta em resposta as mudangas das condigdes fiscas, for- mando-se associagdes minerais ¢ texturas “mistas”, que registram toda a série de mudangas que a rocha sofreu adaptando-se continuamente is novas condigées. Con- tudo, a velocidade com que essas mudancas ocorrem & muito varidvel e, em outras situagdes, as condigdes ‘metamérficas variam de forma suficientemente lenta para que as reagdes metamérficas se completem, produzin- do rochas que registram apenas um determinado instante — aquele que as modificou por tiltimo ~ do regime metamérfico. Eim geral, as rochas registram, de maneira mais eficaz, as condigdes metamérficas mais intensas a que foram submetidas, porém as vezes este registro é obliterado por reequilibrios sob condigdes mais bran- das, em conseqiiéncia do resfriamento que ocorre a0 final de um episédio metamérfico. Estudos geocronolégicos e modelagens tedricas baseadas em regimes termais atuantes na crosta mos- tram, para terrenos metamérficos, eventos de 10 a 50 ‘Ma de duracio. A evolugio metamérfica de um de- terminado terreno 20 longo do tempo costuma ser retratada por diagramas, ou caminhos P-T-t (pressio - temperatura - tempo - Fig. 18.7), onde a variacao das condigdes metamérficas é expressa com base na pressio litostitica (geralmente, com P,=P,) e tempe- ratura (I) a0 longo de um caminho que indica a evolugio temporal (f) desses pariimetros. Kil ea Temperatura (°C) 18.7 Exemplos de possiveis caminhos P-T-+ para metamorfismo regional de alta, média e baixa pressdo. Notar ‘que os caminhos de alta e médio presséo exemplilicam desen- volvimento no sentido horério, enquanto © caminho de baixa presséo, neste exemplo, segue sentido anti-hordrio. 18.3 Processos Fisico-quimicos do Metamorfismo 18.3.1 Metamorfismo isoquimico x metassomatismo Um dos problemas fundamentais da Petrologia Metamérfica ¢ definir se uma determinada rocha so- freu ou no modificagdes na sua composicio quimica durante o metamorfismo. Ha duas situacdes extremas: na primeira, a rocha pode se comportar como um sistema fechado, sem ganho nem perda de constituiri- tes quimicos ou, na segunda, ser submetida a variagdes ‘composicionais intensas. No primeiro caso, conside- ra-se que o metamorfismo foi isoquimico; no segundo, © processo é denominado metassomatismo. Para efeitos priticos, pode-se assumir que a maioria dos ambientes metamérficos comporta-se como sistema parcialmente aberto, ocorrendo trocas livres de flui- dos com 0 meio, porém com variagdes despreziveis para os demais constituiintes quimicos. Esta premissa tem se mostrado satisfatéria para a maioria dos casos, porém € preciso estar sempre atento, pois podem ocorter variagdes composicionais significativas entre © protolito € a rocha metamérfica resultante. CRO Ct carn aC Lem 18.3.2 Paragéneses minerais A assembléia mineral em equilibrio de uma rocha chama-se sua paragénese mineral. Nas rochas metamérficas, a identificacio desta “assembléia mine- ral em equilibrio” nem sempre é imediata: nas assembléias minerais naturais, o desequilibrio é a re- gra. No entanto, as relagdes texturais permitem reconhecer as “tendéncias de equilibrio” mesmo se este equilibrio nao tiver sido atingido plenamente. Os tra- balhos experimentais complementam as observacd feitas em assembléias naturais, permitindo assim iden- tificar paragéneses ideais. Rochas de composigées quimicas equivalentes po- dem apresentar assembléias minerais distintas em fangio da variagao dos fatores atuantes durante 0 metamorfismo. Como exemplo, uma rocha metamérfica A exibindo uma assembléia mineral com clorita + epidoto + actinolita (anfibélio célcico ferro- magnesiano) + albita tem a mesma composi¢io quimica que outra rocha B, constituida de plagioclisio + granada + hornblenda (anfibélio célcico ferro- magnesiano aluminoso), diferindo entretanto pelo contetido em gua, mais alto para a rocha A. Os estu- dos experimentais revelam que a assembléia da rocha B equilibrou-se em temperaturas relativamente altas, ‘enquanto a de A em temperaturas mais baixas. Por- tanto, um mesmo protolito gerou duas paragéneses distintas em fungio das diferentes condigdes de metamorfismo. 18.3.3 As reagdes metamérficas A transformagio de um protolito no seu equiva- lente metamérfico acontece através de reagdes metamérficas, que ocorrem para reduzir a energia livre do sistema (da rocha em transformagio) frente as con- digdes fisico-quimicas modificadas. Varios tipos de reagbes sto possiveis: a) envolvendo apenas fases s6lidas, sem gera¢io ou consumo de fase fluida; b) entre mine- rais € uma fase fluida, produzindo assembléias hidratadas ¢/ou carbonatadas; ¢) assembléias previamente hidratadas gerando assembléias anidras ¢ uma fase fluida rica em H,O; e assim por diante. A reagio de formagio da wollastonita a partir de quartzo ¢ calcita, previamente apresentada (Fig, 18.3) € um exemplo de reagio com devolatilizagio, no caso, decarbonatacio. Um exemplo de reagio metamérfica com desi- dratagio é a reagio do argilomineral caolinita com quartzo para formar a mica branca pirofilita (Fig. 18.8), que acontéce logo no inicio do metamorfismo de ro- chas peliticas: ALSi,O,OH), (Kln-caolinita) + 2 SIO, (Qte-quartzo) ALSi,O,,(OH), (Pt-pirofilta) + HO (fase fluida). Com 0 incremento do grau metamérfico, a pirofilita atinge seu limite maximo de estabilidade, ocorrendo en- to sua “quebra” segundo a reacio: ALSi,O,,(OH), (Prl-pirofilita) = ALSiO, (aluminossilicato: And-andaluzita ou Ky-cianita) + SiO, (Qtz-quartz0) + H,O (fase fluida). © aluminossilicato formado nesta reagio depen- deri das condigdes de pressio: sob pressdes relativamente baixas (< 2,5 kbar), seri a andaluzita, e sob presses mais altas, a cianita (Fig, 18.9). Juntamen- te com a sillimanita, estivel a temperaturas mais elevadas, estes minerais constituem um trio de polimorfos (minerais com mesma composi¢io, mas com estruturas cristalinas distintas — Cap. 2) muito im- portante na interpretagio das condigdes reinantes em terrenos metamérficos (Fig. 18.8) Fig. 18.8 Curvas de equiibrio no espaco P x T pora as rea- 6es: (1) Ali,0,(OH), (Kln-caolinita) + 2 SiO, (Qte-quortzo} = Al,Si,O,(OH), (Pr-pirofilita) + H,O (fase fluide), (2) ALSi,O,,(OH), [Pr piroflita) = ALSiO, (aluminossiicoto: And candaluzita ou Ky-cianita) + SiO, (Gtz-quortzo) + H,0 (fase fluida), ¢ (3) KAI,Si,O,,(OH), (Ms-muscovita) + SiO, (Qt quartzo) = KAISI,O, (Kis-feldspato potéssico) + Al,SiO, (oluminossilicoto: Ky-cianito ou Sil-silimanita) + H,O ffose fli dal, com indicagéo dos campos de estobilidade e curvas de equiliorio pora os polimorlos ALSiO,: andaluzita, cionita e silimanito