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MUNDO CÃO

retratos do descaso e abandono em Mogi das Cruzes


Heloisa Rizzi
Prefácio de Darwin Valente

Mundo Cão
retratos do descaso e abandono em Mogi das Cruzes

Foto e texto: Heloisa Rizzi

Trabalho de conclusão do Curso de Comunicação – Habilitação em Jornalismo, da Universidade de Mogi das Cruzes, sob orientação do professor
Sérsi Bardari, apresentado em ___ de ______________ de 2008 à banca constituída pelos professores-jornalistas:


agradecimentos
À família Rizzi, o meu profundo agradecimento pelo apoio e onipresença. Em especial à minha avó, Helena, que aos 80 anos não
hesita em cuidar de todos ao seu redor. Maria Helena, minha mãe, a quem dedico esta obra, pela constante participação em todos
os ritos de passagem de minha vida. Além, é claro, da preocupação em manter tudo sob controle, desde os altos gastos em minha
formação, até em lidar com estresse da única filha com o TCC e com o Jornalismo. Ao tio e padrinho, Aloísio Cesar, que ajudou a
comprar minha câmera, há um ano e meio, e ao tio Ivan, que também nunca poupou esforços. Ao Vinícius, a quem devo agradecer
pela disposição em sempre me ajudar, estando ao meu lado, a qualquer momento. Ao Marilyn Manson, que contribuiu diretamente
com a minha formação pessoal e cultural, sendo sua trilha sonora e pensamentos subversivos partes integrantes da minha vida.
Ao fotógrafo Derli Mello, que durante um ano de curso me motivou à prática do fotojornalismo. À experiência do fotógrafo Edson
Martins, que me ensinou em uma semana o que levarei para o resto de minha vida profissional. Ao amparo e incentivo da amiga
de profissão, Amanda de Almeida. Aos mestres Célia Sato e Darwin Valente, que diariamente acrescentaram informação e bagagem
ao meu trabalho. A todos os professores do curso de Jornalismo da UMC, pela dedicação e orientação. À Bruna e à Liza, duas boxers
muito especiais que me acompanharam da infância até a adolescência. À Bebel, minha fonte de inspiração, que de maneira relutante
aceitou, naquela madrugada fria de 29 de abril de 2007, abandonar as ruas e vir comigo depois de muito correr – ela de medo, eu
de salto alto. E, de novo, ao Vinícius, que me ajudou a pegá-la, e à minha família, que aceitou acolher outra linda boxer em seu lar, e
que hoje é amada incondicionalmente por todos.

PREFÁCIO
“Qual foi o cachorro que a Heloisa fotografou para o Cotidiano de amanhã?”

A brincadeira se tornou comum, ao final de cada tarde, na Redação de O Diário de Mogi.


No momento de avaliar as cenas pouco comuns do dia-a-dia da cidade que são retratadas pelos fotógrafos para a coluna
“Cotidiano”, criada para quebrar a dureza dos textos que compõem a página de editoriais do jornal, o editor sempre
deparava com a foto de algum cão, geralmente abandonado, feita pela repórter fotográfica Heloisa Rizzi.
Levando sempre na esportiva a brincadeira dos colegas, ela continuou fotografando os cachorros da cidade. Dos lulus de
madames aos que vagavam pelas ruas à procura de comida ou, quem sabe, do dono perdido. Especialmente estes últimos.
Os cães de Heloisa Rizzi foram se acumulando até ganharem uma pasta especial no arquivo fotográfico do jornal, que
ela própria se encarregava de abastecer, ao final de cada manhã de trabalho, nas ruas movimentadas do Centro, ou nas
empoeiradas de bairros e distritos mais distantes.
De cada um desses locais, vinham registros de abandono e descaso dos homens
com aqueles que são considerados seus melhores amigos.
A coleção foi crescendo e acabou por se transformar, em forma de denúncia, no livro que mostra, sem retoques, o difícil
mundo dos cães de rua de Mogi das Cruzes. O mundo-cão do mundo cão.
Repórter das boas, que decidiu permanecer atrás das lentes de uma câmera a ficar à frente do teclado de um computador,
Heloisa Rizzi transformou suas fotografias numa poderosa arma para denunciar a dura vida de uma grande parte dos 80 mil
animais que, segundo estimativas da Vigilância Sanitária, estão espalhados por todos os cantos da Mogi das Cruzes que ela
aprendeu a conhecer, no dia-a-dia de seu trabalho em O Diário.
Mais do que um trabalho de conclusão de curso, o livro de Heloisa Rizzi deve servir como uma lição para aqueles que
abandonam seus cães à própria sorte, nas ruas desta ou outra Cidade qualquer. E, principalmente, como uma dura
advertência às autoridades que ainda tratam com ironia e descaso idéias que podem, de algum modo, oferecer alguma
dignidade aos animais que aí estão, como que pedindo socorro a quem tenha um pouco de responsabilidade na Mogi onde
os homens públicos nem sempre conseguem avançar um pouco além dos discursos e das promessas.
O livro que Heloisa Rizzi conclui, ao final do seu curso de Jornalismo, por si só já lhe confere o diploma da profissional
competente e preocupada em denunciar abusos que são cometidos contra animais indefesos.
Que esta seja a primeira de tantas outras grandes reportagens que certamente virão, por conta do espírito inquieto da
profissional competente que se esconde atrás de uma timidez nada reveladora.
Há outros mundos e desmandos a serem revelados e denunciados. O primeiro passo foi dado para
a viagem sem volta do dia-a-dia do Jornalismo.
Seja bem-vinda Helô. E, a propósito:
“O que você fotografou para o Cotidiano de amanhã?”

Darwin Valente
Editor-chefe de O Diário


Desventuras de um velho amigo
A Dama e o Vagabundo, Astor, Bandit, Beethoven, Benjie, Bingo, Lassie, Mutley, Pateta, Pluto, Rin tin tin, Snoopy,
Scooby-doo, 101 Dálmatas. São tantos os cães famosos representando a figura do melhor amigo do homem, que quase não
reparamos o quão presente estão em nosso cotidiano.

Na televisão, no conforto de casa ou na rua, eles estão por toda parte. Na coleira guiada por um dono,
preocupado em zelar pelo bem-estar de seu animal de estimação, está um cão de sorte. Ele não tem de fugir ou enfrentar
o mundo para garantir mais um dia de vida em meio ao caos.

Os cães de rua estão em cada esquina que cruzamos. E cada enternecedor olhar direcionado a uma pessoa
significa um triz de esperança, seja por comida, seja por carinho – mesmo que não tenha comida, ele aceitará o carinho.
Mas, muitas vezes, eles passam despercebidos por nossos olhares de preocupação com o trânsito ou com o relógio,
sempre indicando que não temos muito tempo.

Tudo bem, eles estão acostumados. Os que são descartados por seus “donos” – quando conseguem resistir
aos riscos que a cidade lhes oferece –, mantêm na memória a imagem daqueles que os abandonaram e os aguardam
ansiosamente para buscá-los. São poucos os que têm chance de recomeçar em uma nova família. O destino da maioria não
é dos melhores: morte precoce.

As causas variam entre doenças ou acidentes no trânsito. Isso sem contar os que acabam se tornando vítimas de
maus-tratos. Os que contraem qualquer tipo de doença são recolhidos pelos veículos de apreensão, vulgo carrocinhas,
do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Lá, eles recebem a eutanásia, que acaba de vez com o sofrimento que os
acompanhou até o estado de completo abandono nas vias públicas.

Foi diante dos percalços enfrentados com tanta bravura e humildade desses animais, que resolvi acompanhar de
perto a vida de alguns deles, em momentos diversos, em ocasiões controversas. Nas próximas páginas, sinta-se à vontade
para imergir nesta trajetória, percorrida pela cidade de
Mogi das Cruzes e seu Mundo Cão.


Introdução
Em meio a um cenário de descaso e abandono de cães em vias públicas, não fica difícil perceber que Mogi das Cruzes ainda
tem de adotar medidas eficazes para a conscientização de sua população. Trata-se de uma questão que, ao longo dos anos, se tornou
inerente à saúde pública e bem-estar do animal.
Percorrendo os sete cantos da cidade, é possível vivenciar os reflexos da posse irresponsável e imaginar suas futuras
conseqüências. Biritiba Ussu, Braz Cubas, César de Souza, Jundiapeba, Sabaúna, Taiaçupeba, Quatinga e o Centro mostram, em cada
esquina, as condições vulneráveis e precárias de animais que um dia já tiveram onde morar.
Por conta disso, procurei respostas pertinentes à questão, com autoridades, profissionais da área e voluntários em defesa
da causa. Em seus depoimentos, é factível traçar uma linha de raciocínio, mas a busca pela solução não se limita a medidas contra a
matança ou a idéias utópicas. Há muito que cobrar do poder público e, principalmente, da população.

Lei Feliciano Filho

Com a Lei nº 12.916, de 16 de abril de 2008 (Projeto de lei nº 117/08, do Deputado Feliciano Filho - PV), ficou proibida em
todo o Estado de São Paulo a matança de animais sadios. Uma boa notícia para os cães, de acordo com o artigo 2º, o qual declara que
“fica vedada a eliminação da vida de cães e de gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais
congêneres, exceção feita à eutanásia, permitida nos casos de males, doenças graves ou enfermidades infecto-contagiosas incuráveis
que coloquem em risco a saúde de pessoas ou de outros animais”.
Esta, no entanto, é “uma lei controversa”, na opinião do secretário de Saúde de Mogi das Cruzes, Daniel de Freitas Souza
Campos, veterinário e doutor em Patologia. Já que só será permitida a eutanásia em animais com doenças incuráveis, a conduta dos
CCZs do Estado de São Paulo afora já foram modificadas.
Hoje, ainda existe a eutanásia, porém, ela é aplicada somente em animais com estado de saúde precário. Por conta disso,
diminuiu o recolhimento de animais das ruas. Antes da Lei Feliciano Filho, os CCZs, de modo geral, recolhiam indiscriminadamente
o animal de rua. A apreensão, no caso, variava de acordo com o tamanho e capacidade das unidades. “A partir do momento em que
não é possível destinar os animais à injeção letal, o recolhimento deles é realizado até a capacidade de lotação do CCZ”,
explicou o secretário.
Em qualquer lugar, é perceptível o aumento da população de animais soltos nas ruas. “Essa lei não é um método de controle
da população, mas é um método de retirada de uma parcela excedente que permanece nas ruas”, critica, argumentando que não é
por causa de muita ou pouca eutanásia que a população canina será maior ou menor. O que varia, segundo ele, é o comportamento
dessa população e de que forma ela se distribui em seu meio. O que implica, portanto, no aumento do número de animais nas ruas,
não necessariamente em condição de completo abandono.
Prefeito eleito pelo município de Mogi das Cruzes, o deputado estadual Marco Aurélio Bertaiolli assegura que “estamos bem
resguardados em relação ao trabalho desenvolvido para os animais, como é o caso do serviço de castração realizado pelo Centro de
Controle de Zoonoses, que é referência em todo o Estado”. Ele, por sua vez, não descarta a possibilidade, se for necessário, de ter um
segundo ponto do CCZ na cidade, para abrigar mais cães e prestar serviços à população em um local de fácil acesso. Os mutirões de
vacinação e outras atividades serão ampliados e realizados com maior freqüência e “determinação”, conforme afirmou o deputado.

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Adoção: um problema constante

A adoção é promovida de forma regular pelo poder público de Mogi das Cruzes. O número de animais adotados, porém, é
baixíssimo. Grande parte da população humana não tem e não quer ter animal. O potencial de adoção não supera dez por cento do
total de animais entregues ao Centro de Controle de Zoonoses.
A população mogiana, por sua vez, ainda não está preparada e consciente para colocar em prática o ato da posse
responsável. Para o secretário de Saúde do município, este processo só será acelerado à medida que se investir mais em trabalhos de
conscientização e fiscalização de posturas relacionadas aos cães.
Ele conta que, nos Estados Unidos, existem abrigos que não eliminam, de forma alguma, seus cães. Por outro lado, há os que
realizam a eliminação seletiva, uma visão não-característica da população humana que reside na América Latina. O primeiro possui
uma taxa de mortalidade mensal, por causas naturais, próxima a 30 por cento do número de animais abrigados. A outra medida,
contudo, elimina seletivamente 30 por cento dos cães que chegam ao local.
A morte por causas naturais é maior nos abrigos contra a eliminação do que nos que adotam o método seletivo. A explicação
para isso está no modo de convivência desses animais. Quanto mais tempo um animal permanece em um abrigo, maior a chance de
desenvolver e transmitir doenças, principalmente pela fama que carregam de “territorialistas”.
No processo de eliminação seletiva, entre dois cães, um filhote branco de pêlos lisos e um adulto preto de pêlos grossos, o
segundo é sacrificado de imediato, para dar lugar ao próximo filhote branco de pêlos lisos. O critério utilizado por esses abrigos varia
de acordo com o perfil traçado do adotante de determinada região. Portanto, a possibilidade de adoção é maior, quando há uma
preferência do público por características específicas do cão.
Segundo Campos, esta seria uma forma de aumentar o número de adoções nos CCZs. O conceito de eliminação seletiva, para
o brasileiro, é um ato discriminatório. O que soa contraditório, uma vez que o mesmo estudo de perfil de adotantes brasileiros, no que
se refere a crianças, indica uma preferência por bebês recém-nascidos, de etnia branca e do sexo feminino.

Conduta americana

Representante da Universidade da Califórnia, doutora Barbara Jones visitou a cidade de São Paulo, em outubro de 2007.
Atuante na área de Medicina Veterinária de Abrigo, ela foi convidada pela doutora Luciana Hardt Gomes, diretora do Centro de
Controle de Zoonoses de São Paulo, para participar de três conferências, incluindo a segunda edição do fórum sobre controle de
população de cães e gatos no Estado de São Paulo, o primeiro encontro nacional de profissionais ligados ao controle de animais e um
seminário que abordava a administração de abrigos, para membros da
WSPA – World Society for the Protection os Animals.
Em artigo publicado em abril de 2008, para a revista da Association of Shelter Veterinarians, Inc., Barb Jones, como é
conhecida, revela suas impressões sobre como é conduzida a questão dos animais de rua no Brasil. Ela ressalta que o governo brasileiro
aparenta ser hesitante em promover programas de adoção de animais de CCZs, porque existe uma preocupação em introduzir doenças
zoonóticas nas famílias adotantes. Há uma estimativa de que a média de vida desses animais é de, no máximo, três anos.
Cinomose e parvovirose são comuns na população canina do País, e ainda mais comuns em cães que são recolhidos para os
CCZs. Portanto, enquanto os cães selecionados para adoção aparentam um aspecto saudável no momento, na verdade, estiveram

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expostos às doenças no CCZ (antes de terem sido vacinados), e muitos deles ficam doentes
mesmo depois de serem adotados.
Pesquisas realizadas no período de pós-adoção apontam que filhotes resistem pouco tempo e morrem, rapidamente, assim
que encontram uma família que os adotem. Por conta disso, a população entende que o CCZ não é reconhecido como um
bom local para adotar um cão ou gato.
Segundo ela, é difícil prevenir essas doenças nos abrigos, mas é possível ajudar a proteger a saúde e bem-
estar desses animais abrigados. Ela enfatiza a seleção de candidatos mais cotados à adoção o mais cedo possível,
preferencialmente no momento em que entram no CCZ, para que medidas preventivas para esta sub-população possam
ser imediatamente iniciadas, incluindo exames, vacinação, tratamento contra parasitas, compartimento individual,
segregação de animais doentes e observações diárias.
De acordo com a doutora, as medidas para reduzir o risco de transmissão dentro dos CCZs também servem
para reduzir o risco de transmissão entre animais e seres humanos.
Barbara acrescenta, no entanto, que é impossível, no momento, atingir um nível bem-sucedido de adoções de
todos os animais que dão entrada aos CCZs. Segundo ela, o público brasileiro tem dificuldade para entender por que
abrigos americanos aceitam tantos animais rejeitados por seus proprietários. Em artigo, ela conta sobre a reação da platéia
ao comentário: “Eles sentiram que nós incentivamos o abandono de animais desta forma”.
O conceito de “eutanásia para dar espaço”, ela diz, não é familiar nos CCZs distribuídos pelo território brasileiro. E
conclui, todavia, que é imprescindível manter o potencial de adoção elevado para que, desse modo,
reduza o número de eutanásias.
Em entrevista cedida por e-mail, ela comenta que os obstáculos para desenvolver um programa de adoção bem-sucedido
em Mogi das Cruzes e no Brasil são multifacetados. Podem ser relacionados tanto com o aspecto cultural do País, quanto
com a falta de conhecimento de quem gerencia os CCZs. “De qualquer modo, acredito que a limitação dos recursos, como
dinheiro para a vacinação de todos os animais que dão entrada aos abrigos,
também representa um papel significante”, relaciona.
Ela também considera importante perceber que programas de adoção têm um potencial limitado para reduzir a
eutanásia. O caminho mais eficiente para reduzi-la nos CCZs não é por meio da adoção, mas, sim, por meio de mecanismos
de prevenção contra o abandono de animais.

Pró-Cão

O ano de 2008 foi palco de discussão sobre uma deficiência no atendimento aos cães, apontada durante a campanha
eleitoral, quando o candidato a prefeito Mário Berti (PCB) sugeriu edificar o Pró-Cão na cidade de Mogi das Cruzes. O
projeto previa a implantação de um ambulatório veterinário no distrito de César de Souza, cuja proposta seria atender
famílias que não têm condições financeiras para pagar um clínico veterinário.
De acordo com o candidato, saber e poder cuidar dos animais de estimação faz parte de uma
“sociedade organizada e civilizada”, e está diretamente atrelado à qualidade de vida.
Mas, segundo o secretário de Saúde, “o poder público deve formar um conjunto de ações que visem à condição de saúde
e bem-estar da maioria”. Isso significa que ter ou não um animal é uma decisão individual. Torna-se, portanto, discutível o

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fato de investir recursos obtidos por meio de arrecadamento de impostos em um “bem” de responsabilidade do homem.
A atuação do poder público tem como prioridade a saúde dos cidadãos, ou seja, qualquer ação que beneficie o animal,
na realidade, serve como minimizador de impacto na saúde do ser humano.
E não parte do homem e da mulher a decisão de ter filhos? Por que eles têm direito ao atendimento público de saúde, mas os
cachorros não? Este é o atual cenário das políticas públicas de todo o País, que não adotam medidas eficazes nem para o
planejamento familiar da população humana menos favorecida.

A causa e o poder público

De acordo com o secretário municipal de Saúde, em Mogi das Cruzes não existem Organizações Não-Governamentais ligadas
à causa animal, entretanto, há trabalhos voluntários exercidos por pessoas físicas. Pelo fato de 2008 ter sido ano eleitoral, o
poder público ficou impedido por lei de subsidiar qualquer entidade interessada em galgar a posição de ONG.
O CCZ, por sua vez, regularmente encaminha filhotes apreendidos a parceiros, não oficiais, que têm condições de efetuar a
adoção desses animais a terceiros. Para uma associação receber apoio financeiro da Prefeitura,
ainda existe um longo e burocrático caminho a ser percorrido.
É o caso do Lar dos Cães Abandonados, que não recebe apoio de qualquer órgão público. Segundo sua presidente, Aparecida
Biancolin Pereira, a entidade foi instituída como ONG em fevereiro de 2007. “Nós formalizamos o contrato social, com CNPJ e
tudo mais”. Ela conta que o subsídio não veio até agora por conta de pedidos extra-oficiais ignorados pela Prefeitura.
“Contamos somente com o trabalho de vacinação contra a raiva e castração da Prefeitura, que é um serviço de utilidade
pública, e não uma exclusividade para ONGs”. No Lar dos Cães Abandonados, todos os 53 cães que habitam a chácara no
Parque São Martinho estão castrados, vermifugados e devidamente vacinados,
graças ao dinheiro desembolsado por Aparecida e seus colaboradores.

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Os direitos dos animais devem ser defendidos por leis, como os direitos humanos.

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Até abril de 2008, cães e gatos encontrados na rua eram recolhidos para os Centros
de Controle de Zoonoses disseminados pelo Estado de São Paulo. Nos locais, os
animais poderiam sofrer três destinações: adoção, eutanásia ou resgate.

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No Brasil, os cães podem ser classificados em quatro categorias:
cem por cento controlados,
semi-domiciliados, comunitários ou
abandonados.

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O cão cem por cento controlado é aquele
que possui um dono responsável, vive
dentro de casa e só anda na coleira.

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O semi-domiciliado é um cão que tem
moradia, onde se alimenta e dorme, porém,
permanece grande parte do tempo nas ruas,
sem a supervisão de uma pessoa.

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No caso do cachorro comunitário, a
população o aceita, alimentando-o e
mantendo-o em determinada região.
Sem moradia fixa, ele está, geralmente,
presente nos bairros.

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O cão abandonado - doente, não
supervisionado e com alto grau de
rejeição da população humana - sob
o ponto de vista técnico, não causa
tanto risco à saúde pública, uma vez
que atinge, no máximo, dois anos de
vida. Quando comunicado ao CCZ, ele é
imediatamente recolhido para o abrigo,
onde receberá a eutanásia.

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Grande parte dos cães vistos
nas vias públicas é de origem
comunitária ou semi-domiciliada.
Animais em estado de completo
abandono representam apenas
um por cento da população canina
total. O restante é somado por
animais que circulam livremente
nas ruas, ou pelos que têm dono,
mas não são monitorados.

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Estudos apontam que, dependendo da região
do País, 30 a 40 por cento da população
humana mantêm cães comunitários
ou semi-domiciliados.
O restante desta porcentagem é representado
por pessoas que têm seus cães cem por cento
controlados ou que não os possuem.
Ou seja, mais da metade da população humana
tem atitudes que ocasionam a manutenção
desses animais em situação de risco.
De acordo com o secretário de Saúde
de Mogi das Cruzes, Dr. Daniel de Freitas
Souza Campos, “a população se sente muito
à vontade para continuar adotando o mesmo
comportamento com relação ao seu animal”.

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O controle da população
canina se faz por meio de três
elementos: movimento,
reprodução e saúde.

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Uma das funções estabelecidas
pelo Ministério da Saúde é que
os CCZs controlem a população
por meio do movimento. Isso
significa uma rotatividade entre
as categorias em que os cães
se enquadram – cem por cento
controlado, semi-domiciliado,
comunitário ou abandonado. O
objetivo, portanto, é modificar
o cenário em que esses animais
vivem, transformando o
semi-domiciliado, o comunitário ou
o abandonado em cem por cento
controlados. Isso se faz por meio da
castração, implante de microchip
e posse responsável.

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A castração é o método utilizado
para o controle de reprodução
da população canina. Em Mogi
das Cruzes, o ano de 2008 deve
encerrar com o balanço de duas mil
cirurgias realizadas. Em 2007, foram
cerca de 1200.

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O programa de controle reprodutivo prevê o
registro do animal, como forma de associá-lo a
uma pessoa, tornando-a responsável
por todas as ações deste cão;
atividade educativa preparatória, com orientações
sobre posse responsável, cuidados pré e
pós-operatório - a adesão é de aproximadamente
200 participantes por mês -; e
agendamento da cirurgia de castração, que é a
fase final do programa, exclusivo para os
proprietários que cumpriram a grade de
atividades propostas pelo órgão.
O motivo da procura pela castração é, quase
sempre, em “benefício” do ser humano, que
não quer se incomodar com o cio de uma fêmea
dentro de casa, por exemplo.

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Afastado do centro urbano, o CCZ dificulta o acesso do cidadão
aos serviços disponibilizados pelo poder público. Quem reside
em bairros periféricos ou nos demais sete distritos de Mogi
das Cruzes, e não possui veículo próprio, é impossibilitado
de utilizar o transporte coletivo para levar seu animal de
estimação à unidade de controle.
A medida adotada pela Prefeitura, para minimizar o
problema do distanciamento desta parcela da população
que possui animais, é a realização de mutirões de castração
descentralizados, mas sem periodicidade definida.
Até o final de 2008, apenas três foram efetuados em Mogi das
Cruzes, englobando os distritos de Taiaçupeba, Jundiapeba e
César de Souza – neste último, onde fica localizado o CCZ.

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A vacinação contra a raiva é uma das medidas
adotadas pelo poder público, a fim de preservar a
saúde da população. Já a vermifugação
dos animais, faz interface com o
programa de controle reprodutivo.
O proprietário que deseja promover seu cão
semi-domiciliado a cem por cento controlado
recebe investimento do Governo, que está
interessado em manter o maior número possível
de animais nessa categoria. Controlados e
longevos, se esses cães prevalecerem na
sociedade, serão em média oito anos de posse
do animal. Em suma, diante de um efeito
acumulativo, quanto mais pessoas tiverem
animais por um longo período de tempo,
menos cães habitarão as ruas.

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Para haver uma população canina
estável, com predominância de cães
controlados, são necessários 15
anos contínuos de trabalho intenso,
segundo estudos de dinâmica.

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Quanto mais tempo um
animal permanece em
um abrigo público, maior
a chance de desenvolver
e transmitir doenças,
principalmente pela fama que
carregam de “territorialistas”.

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Não existe prazo para o cão sair do
CCZ, a não ser que ele manifeste
alguma doença incurável e deva
ser sacrificado. Caiu pela metade
o número de eutanásias desde a
sanção da Lei contra a matança de
animais sadios. Não há, porém,
como reduzir ainda mais essa
quantidade, porque uma das
principais causas do descarte do
animal é a doença, o que representa
uma perspectiva de vida ruim ao
cão que, se não for eutanasiado,
virá a óbito rapidamente.

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São três possíveis motivos pelos quais o
animal está no CCZ: agressão, recolhimento
ou descarte. Todos os dias, cerca de cinco cães
são capturados pelas equipes da Zoonoses na
cidade de Mogi das Cruzes.

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Após chegar ao CCZ, o animal fica três dias à
disposição dos donos originais, caso haja interesse
em recuperá-lo. É mais comum que o resgate
aconteça no primeiro dia depois da entrega. No
segundo, não é tão corriqueiro e, no terceiro,
menos ainda. Se o cachorro não estiver doente, é
encaminhado à adoção, embora a
procura seja restrita a filhotes.

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Em 2007, 1889 cães foram
descartados por seus proprietários.
O Centro de Controle de Zoonoses recolheu,
no mesmo ano, 1834 animais.
Apenas 143 foram resgatados por seus
proprietários – que, obrigatoriamente, são inseridos
no programa de posse responsável da Prefeitura.
Adotados somaram 73, sendo que a média gira em
torno de 82, por ano, no CCZ.

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Estima-se haver pelo menos 80 mil
cachorros em Mogi das Cruzes, contudo,
não é possível calcular quantos estão em
estado de abandono. Até o final de 2008,
é provável que 1618 animais tenham sido
descartados por seus donos e entregues ao
CCZ. Hoje, não são mais aceitos pelo órgão
animais sadios, oriundos de famílias que
não os queiram mais, apenas
por uma questão de luxo.

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A recomendação da Organização
Mundial de Saúde (OMS) é de que
haja, no máximo, um cão para cada
dez habitantes. Em Mogi das Cruzes,
estima-se um cão para cada quatro
habitantes. No distrito de Jundiapeba,
o número de pessoas cai para três.

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Assim que sancionada pelo governador José Serra, a Lei Feliciano
Filho mudou drasticamentevo cenário dos CCZs no Estado de São
Paulo. “Para pior”, opinou o secretário municipal de Saúde, dr. Daniel
de Freitas Souza Campos. Dessa forma, ele acredita que aumenta o
número de cães nas ruas e desestimula a posse responsável. “Não
precisamos de normas que proíbam a eliminação ou que atuem
sobre o animal. Precisamos de normas que atuem sobre as pessoas”,
argumenta, ressaltando a importância de maior investimento
do poder público em conscientização e fiscalização.

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A população, na medida em que
entende os cães como um bem
de consumo, passa a descartá-los
com maior freqüência.

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Com o aumento significativo de
cães nas ruas, surgirá uma maior
predisposição a ocorrências
envolvendo animais em risco de
agressão, doença ou atropelamento.

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Criada em junho de 2006, por Aparecida Biancolin Pereira, a ONG “Lar dos
Cães Abandonados” traz consigo um longo histórico de má fé de seus antigos
administradores. Naquela época, Cidinha, como é conhecida, encontrou o antigo
responsável pela associação em um pet shop e se ofereceu para colaborar
financeiramente quando soube da existência da entidade.
O apoio durou quatro anos até que, certo dia, ela resolveu visitar o sítio em que
permanecem até hoje esses animais, vítimas do abandono e de maus-tratos, no
Parque São Martinho. “Assisti ao holocausto, isso aqui era um depósito de cães”,
lembra. Indignada com a condição deplorável que o local apresentava, optou por
assumir as rédeas da associação protetora. Hoje, ela prioriza a saúde e
bem-estar de seus 53 cachorros, que estão à espera da adoção.
É muito baixo o número de adotantes. “A maioria das pessoas só quer adotar
filhotes ou cães de raça. Quem vem até aqui para adotar
são os sitiantes, em busca de um cachorro para amarrar no portão e vigiar a entrada
do sítio”, reclama, salientando que o animal não existe para servir o homem.
Na primeira foto, à esquerda, Cidinha resgata uma cadela, vítima de atropelamento,
que estava imobilizada no acostamento da Avenida Japão.

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Foto: Tiago Sievers
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DeCLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DOS ANIMAIS
O Brasil e os países-membros da ONU são signatários da declaração abaixo, proclamada em uma assembléia da UNESCO em Bruxelas,
Bélgica, em 27 de janeiro de 1978:

Art.1o - Todos os animais nascem iguais diante da vida e têm o mesmo direito à existência.
Art.2o - Cada animal tem direito ao respeito. O homem, enquanto espécie animal, não pode atribuir-se o direito de exterminar outros
animais ou explorá-los, violando este direito. Ele tem o dever de colocar sua consciência a serviço de outros animais. Cada animal tem o
direito à consideração e à proteção do homem.
Art.3o - Nenhum animal será submetido a maus-tratos e atos cruéis. Se a morte de um animal é necessária, deve ser instantânea,
sem dor nem angústia.
Art.4o - Cada animal que pertence a uma espécie selvagem tem o direito de viver em seu ambiente natural terrestre, aéreo ou aquático, e
tem o direito de reproduzir-se. A privação da liberdade, ainda que para fins educativos, é contrária a esse direito.
Art.5o - Cada animal pertencente a uma espécie que vive habitualmente no ambiente do homem, tem o direito de viver e crescer segundo
o ritmo e as condições de vida e de liberdade que são próprias de sua espécie. Toda modificação imposta pelo homem para
fins mercantis é contrária a esse direito.
Art.6o - Cada animal que o homem escolher para companheiro, tem direito a um período de vida conforme sua longevidade natural. O
abandono de um animal é um ato cruel e degradante.
Art.7o - Cada animal que trabalha tem direito a uma razoável limitação do tempo e intensidade de trabalho, a uma
alimentação adequada e ao repouso.
Art.8o - A experimentação animal que implique sofrimento físico é incompatível com os direitos dos animais, quer seja uma experiência
médica, científica, comercial ou qualquer outra. As técnicas substitutivas devem ser utilizadas e desenvolvidas.
Art.9o - No caso de o animal ser criado para servir de alimentação, deve ser nutrido, alojado, transportado e morto,
sem que para ele resulte em ansiedade e dor.
Art.10o - Nenhum animal deve ser usado para divertimento do homem. A exibição dos animais e os espetáculos que utilizem animais
são incompatíveis com a dignidade do animal.
Art.11o - O ato que leva à morte de um animal sem necessidade é um biocídio, ou seja, um delito contra a vida.
Art.12o - Cada ato que leva à morte um grande número de animais selvagens é um genocídio, ou seja, delito contra a espécie.
Art.13o - O animal morto deve ser tratado com respeito. As cenas de violência em que os animais são vítimas devem ser proibidas no
cinema e na televisão, a menos que tenham como foco mostrar um atentado aos direitos dos animais.
Art.14o - As associações de proteção e de salvaguarda dos animais devem ter uma representação junto ao governo. Os direitos dos animais
devem ser defendidos por leis, como os direitos humanos.

(Resolução aprovada pela ONU)

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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O objetivo deste livro-reportagem fotográfico é retratar a condição em que vivem os cães de rua, no município de Mogi das Cruzes. Com forte
apelo social e de cunho jornalístico, pretendo com esta obra trazer à tona um problema que todos sabem, vêem, mas poucos conhecem as
causas, ou procuram entender as circunstâncias que levam o animal à situação de risco e completo abandono.
Nas ruas, eles estão sujeitos a maus-tratos, doenças transmissíveis e acidentes de trânsito. Nas áreas periféricas, onde estão localizados os
maiores índices de reprodução, por conta da posse irresponsável, eles alastram danos à saúde animal e humana, justamente em uma região cujo
atendimento à saúde pública é considerado precário.
O objetivo desta produção foto-literária é, portanto, denunciar o prejuízo que o ser humano causa, muitas vezes, sem perceber, à vida do animal,
além de provar que a discussão deste tema não deve ser banalizada em quaisquer circunstâncias.
Para a execução do Projeto Vôo Solo no meio impresso (livro-reportagem fotográfico), foram utilizadas as técnicas de reportagem e entrevista,
que estão presentes em todo o corpo textual da obra. Trata-se de um processo que significa, em linguagem jornalística, o encontro com alguma
pessoa, com a finalidade de interrogá-la sobre atos e idéias, e o conjunto das declarações com autorização implícita ou formal para publicá-las.
Os dados foram colhidos com entrevistados de destaque, permanente ou circunstancial. Após a apuração dos fatos, o segundo passo foi
a redação das informações colhidas, atendendo aos requisitos jornalísticos necessários para a elaboração da reportagem central (lead,
objetividade e hierarquização da informação, correspondente ao interesse público).
A ética em torno da causa animal e a condição vulnerável em que se encontra o cão abandonado, vítima de descaso de grande parte da
sociedade mogiana, contrasta com o ambiente urbano, que vive paralelamente a essa questão.
Por conta disso, o material fotográfico e textual presente em Mundo Cão – retratos do descaso e abandono em Mogi das Cruzes, além de
despertar uma percepção apurada das imagens nas entrelinhas , procura estabelecer um elo com seu leitor, por meio da sensibilidade e da
denúncia, sempre mostrando e provando que muitos cães só estão nas ruas em razão de ações humanas.
De acordo com o Manual Técnico do Instituto Pasteur, publicado em 2000, sobre controle de populações de animais de estimação, possuir um
animal tem conotações de ordem psicológica e pode refletir a condição que o ser humano assume quando no papel de dono, chefe, proprietário
de um bem, no caso um ser vivo que o obedece, respeita e acaricia.
Comportamentos inadequados ou outras frustrações determinadas por diversas circunstâncias da vida do homem têm, por conseqüência, a
possibilidade de castigo ou descarte do animal. Outros estudos procuram explicar o porquê de cachorros de estimação serem encontrados sem
cuidados elementares de higiene, de higidez e de prevenção de doenças em comunidades mais desfavorecidas,
do ponto de vista econômico e social.
Há, todavia, situações em que os animais são mantidos sem quaisquer cuidados, por serem considerados objetos ou meios que atendam a
determinadas funções, de modo a, se forem perdidos, provocarem conseqüências que nada
mais representam do que a troca de algo descartável.
Esta ocorrência é freqüentemente observada em Centros de Controle de Zoonoses que promovem a adoção de animais, como a sede do serviço
em Mogi das Cruzes. Os cães costumam ser levados por seus proprietários, em decorrência de diversas circunstâncias, como mudança de
residência, dificuldade na manutenção, falta de recursos para tratamentos e outros
problemas relacionados ao bem-estar e comodidade do próprio homem.
 KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Editora Ática, 1989, p. 79.

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Em classes mais favorecidas, no entanto, animais de estimação dispõem de recursos diferenciados para alimentação, higiene individual e
abrigo, mantendo uma situação de vida privilegiada, e é neste extrato social que a densidade populacional de animais de estimação é mais
baixa, conforme relaciona o Instituto Pasteur.
A entidade ainda reforça que o exercício da cidadania traz como padrão de comportamento a preservação do meio ambiente, o cuidado
com os seres vivos e o respeito a tudo que componha a vida do ser humano, inclusive e além da relação entre semelhantes. Quando surge a
oportunidade de decidir sobre a posse de um animal, para mantê-lo como companhia, para usá-lo em outros diferentes campos de interesse
humano, o bem-estar e a boa qualidade de vida que lhes forem proporcionados, refletem o aprimoramento do ser humano enquanto
componente de uma estrutura maior, que é o mundo.
Sob uma perspectiva fotojornalística, o tema do livro vai ao encontro da necessidade em disseminar e, não obstante, conscientizar o leitor
sobre a condição de risco e vulnerabilidade em que vivem os cachorros de rua. Em cada foto, está condensada a mensagem do tema central
deste trabalho de conclusão de curso, que reúne em seu conteúdo informações múltiplas da realidade selecionada, da mesma forma como
ocorre o processo de produção fotográfica.
Tal problema é abordado porque, no que tange à relevância social - assim como no jornalismo -, o cão de rua é fator de interesse público,
tanto quanto uma pessoa que se torna moradora de rua, diante do fato de que a vida cotidiana é um rico domínio do insondável. Trata-se de
um cenário conhecido superficialmente pela população, que em grande parte se esquiva do assunto, a fim de dar continuidade a esse ciclo
vicioso, refletido na proliferação de animais abandonados.
A escolha pela área do fotojornalismo está diretamente ligada a um caminho para o exercício da mente, do olhar, da percepção, imaginação
ou até mesmo da intuição. Ancorado à reportagem, o fotojornalismo reúne uma série de elementos distintos, com a mesma finalidade de
informar, só que por meio de valores da composição fotográfica.
“Compreender a linguagem específica da foto jornalística implica análises de diversos níveis, que vão dos recursos digitais ou mecânicos
utilizados na sua produção (aparelho fotográfico, filme, revelação etc.) à análise cultural e ideológica de seu conteúdo, centrando-se nas
técnicas de composição da foto, responsáveis pela sua expressividade”.
Depois de quatro anos cursando, vivenciando e exercendo o Jornalismo, percebi que o olhar atento de um jornalista por trás de uma câmera,
aliado às técnicas da fotografia, pode transmitir o mesmo significado que uma grande reportagem escrita, só que com o poder da imagem
que humaniza, diverte, polemiza, denuncia e reporta os fatos, como eles realmente devem ser levados ao conhecimento do público. A
linguagem fotográfica, por sua vez, também se trata de uma visão do mundo que renega a interconexão, a continuidade, mas que confere a
cada momento um caráter de mistério. Toda fotografia contém múltiplas significações, podendo, inclusive, distorcer a realidade; mas sempre
existirá o pressuposto de que algo existe, ou existiu, e era semelhante ao que está na imagem.
A obstinação de um fotógrafo é evidenciada quando Susan Sontag diz que o profissional que se põe atrás de sua câmera cria um pequeno
elemento de outro mundo: o mundo-imagem, que promete sobreviver a todos nós. “Fotografar é, em essência, um ato de não-intervenção”.
Por conta disso, esta obra deve proporcionar todos esses valores e impressões ao leitor e, por conseqüência, abrir um leque de referências
que sempre irão protagonizar a construção e o crescimento de um olhar cada vez mais apurado do mundo ao meu redor. Embora exista uma
constante busca pela captura da realidade, e não de uma mera interpretação dela, as fotos exercem papel fundamental na interpretação do
mundo, tanto quanto as pinturas e os desenhos.
Partindo do conceito de que não existe fotografia certa ou errada, e, sim, a fotografia que atingiu seu objetivo ou não, este livro-reportagem
fotográfico tem o intuito de atingir os olhos do leitor com impacto e sutileza concomitantemente. As fotos fornecem um testemunho, ao
passo que o registro da câmera pode incriminar ou justificar.
Em função disso e de meu conhecimento empírico, adquirido por meio de estágios na área da comunicação (sendo o último na área de
fotojornalismo, em um jornal de circulação diária), a minha escolha por este segmento jornalístico, considerado um convite inesgotável à
dedução, especulação e à fantasia.
 KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Editora Ática, 1989, p.90.
 DOWNING, John D. H. Mídia radical. 2. ed. – São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2004, p. 35.
 FARIA, Maria Alice / ZANCHETTA, Juvenal. Para ler e fazer o jornal na sala de aula. São Paulo: Editora Contexto, 2002, p. 94.
 SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004, p. 33.
 SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004, p. 22.
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