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Brasil - Engana que eu gosto

Frei Betto
29.09.07

Ora, é evidente que contra o senador não há "provas


conclusivas", tudo não passou de gentileza do lobista
de uma grande empreiteira. A contabilidade pecuária
está em ordem, embora haja certa desordem na
documentação pertinente.

Desde muito cedo o cidadão brasileiro é educado na


síndrome do engano, enfermidade de etiologia
política cuja cura só pode ser alcançada mediante
doses maciças de auto-estima e senso cívico.

Os descobrimentos da América e do Brasil foram


magníficos encontros de culturas transoceânicas. O
saldo de milhões de indígenas mortos é mero acaso
de organismos vulneráveis em suas defesas
imunológicas às gripes e resfriados que os ibéricos
contraíam em contato com as frias correntes
marítimas.

A Casa Grande, generosa com os escravos, tratava-


os como filhos, e uns tantos senhores, livres de todo
preconceito, chegaram a mesclar seu sangue de
branco ao prenhar negras e gerar o mestiço e este
símbolo nacional chamada mulata.
Graças à benevolência da Casa Grande é que a
senzala, farta de carnes variadas, brindou-nos com o
prato de preferência nacional: a feijoada. E que não
se olvide o bom-gosto do caipira, inventor deste
coquetel que, hoje, conquista o sabor mundial: a
caipirinha.

A rebelião de Vila Rica não passou de uma


transposição extemporânea, ao solo pátrio, das idéias
iluministas em voga na Europa. O bando de
intelectuais, surpreendidos em sublevação contra a
Coroa, fez de um alferes boi de piranha. Tanto que
outro qualificativo eles não mereceram senão o de
inconfidentes, incapazes de guardar confidência,
segredo. À exceção do que teve o pescoço
enforcado, deduraram uns aos outros. Hoje, o evento
passaria à história como Deduragem Mineira.

E a Guerra do Paraguai? Foi lá o nosso Exército


pacificar aquele povo iludido pela mente insana de
um caudilho raivoso disposto a defender valores
anacrônicos: a soberania nacional e os direitos
sociais. Tamanha a paz que os nossos militares
impuseram à nação vizinha, que apenas em
cemitérios se pode encontrar tanta quietude.

Em Canudos, um bando de fanáticos, liderado por um


fundamentalista desmiolado, ousou contrapor-se à
proclamação da República!
Não tivesse aquela gente resistido à ação
pacificadora do Exército, teriam todos sobrevivido e,
ordeiramente, retornado ao sadio trabalho nas
lavouras canavieiras.

Tantas proeminentes figuras em nossa bela história:


Vargas, pai dos pobres; JK, 50 anos em 5; Jânio, o
homem da vassoura; Collor, o caçador de marajás!
Merece destaque a Revolução de 1964, que salvou o
Brasil da ameaça comunista e imprimiu índices
astronômicos ao nosso desenvolvimento. Vide a
Transamazônica, a Ferrovia do Aço, o Mobral e o fim
do analfabetismo! Se um bando de subversivos
preferiu trocar canetas por armas, insatisfeitos com a
hierarquia trasladada dos quartéis às ruas, não
fizeram as Forças Armadas outra coisa senão reagir
em defesa da lei e da ordem.

Assim, de engano em engano, para o bem de todos e


a felicidade geral da nação, transcorre a nossa
história. Ela que avança em ciclos de prosperidade,
do pau-brasil ao ouro, do café à cana-de-açúcar, do
minério à madeira amazônica, da soja à carne e,
agora, retorna aos canaviais, de onde jorra o etanol, a
bola da vez a oferecer ao mercado externo

Sabemos todos que a verdade é inconveniente,


incômoda, constrangedora. É melhor esse jeitinho
elitista, capaz de acomodar as situações mais
conflitivas e adotar, em nossas escolas, a versão
cordial sobre o povo brasileiro.
Povo pacífico, ordeiro, leal, com exceção de uns
poucos que enxergam mensalão onde houve apenas
"operações não contabilizadas". E ainda querem
avacalheirar o presidente do Senado!

Engana que eu gosto!, diz a nação. Porque não há


reação, não há manifestações nem mobilizações.
Cadê as lideranças populares, as centrais sindicais,
as pastorais proféticas? Fora um ou outro protesto ou
gesto de indignação, tudo permanece como dantes
no quartel de Abrantes.

Razão tinha Proust que, em Sodoma e Gomorra,


escreveu: "No mundo da política as vítimas são tão
covardes que não se consegue considerar os algozes
maus por muito tempo".

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