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A importância do respeito - Romano S. Zattoni

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an analisys of the importance of the concept of respect in the philosophy of Jean-Paul Sartre
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Published by: Romano Scroccaro Zattoni on Jul 08, 2010
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A IMPORTÂNCIA DO RESPEITO PARA A CONCEPÇÃO DE VIDA EXISTENCIALISTA Romano Scroccaro Zattoni

RESUMO Este artigo apresenta a importância do conceito de respeito para a escola filosófica existencialista de Jean-Paul Sartre e para a concepção de existência estipulada pela mesma. Articula-se também a relação desse conceito com os de individualidade coletividade e liberdade, abrangendo-os para que possa-se compreender o processo de busca para a formação da essência do ser. Palavras-chave: Existencialismo, respeito, individualidade, coletividade, liberdade.

CURITIBA 2009

Acadêmico do 2º período do Curso de Psicologia da PUCPR.

A IMPORTÂNCIA DO RESPEITO PARA A CONCEPÇÃO DE VIDA EXISTENCIALISTA

A afirmação de que “a existência precede a essência”, lançada por Jean-Paul Sartre como uma das principais decorrências do pensamento existencialista, possui determinantes conseqüências sobre a maneira de como ocorre a construção do que se chama ser humano, e, principalmente, de como a realidade é por este defrontada como palco para esta construção. O homem concebido como mandante último de seu futuro enche-se de responsabilidade na medida em que opera suas escolhas livremente, tendo unicamente seus próprios juízos morais como delimitadores de suas ações. Tais juízos só são possíveis a medida de que parte-se, no Existencialismo, da premissa da não existência de Deus, desta maneira, foge-se de todo tipo de determinismo religioso que poderia restringir a liberdade de escolha. O existencialismo, portanto, é uma vertente filosófica que prega a liberdade acima de todas as morais predeterminadas, inclusive acima da própria liberdade que, para Sartre, “não tem outro fim se não ela mesma”. Pode-se indagar, considerando esse fato, que sem a existência de Deus, conseqüentemente sem modelos morais a serem seguidos a única conseqüência seria a desordem social generalizada, com o mal sendo cometido ao título de bem, ou melhor, ao título de “não mais mal”. Sartre ao receber este tipo de crítica afirma que, pelo contrário, existe uma ordem implícita na conduta existencialista que garante um convívio social harmonioso, sendo o grande determinante para tal convívio o “reconhecimento do outro como estando em uma situação existencial que é a mesma que nós mesmos estamos”. Procura-se, portanto, tentar compreender as conseqüências da ligação entre pessoas segundo a concepção existencialista, assim como traçar os limites da individualidade e da coletividade, considerando o engajamento, a capacidade de escolhas e a liberdade como pontos chave de como essa relação ocorre. A condição de vida humana para o existencialismo é, em última análise, uma vida solitária, a construção da essência depende exclusivamente de cada indivíduo.

Essa individualidade, no entanto, parece estar mesclada com uma inegável tendência ao convívio social, a uma construção conjunta de vida, seja em laços conjugais, de amizade ou apenas de admiração. Há algo mais do que apenas relações emocionais, há um elemento implícito que parece nos fazer conviver em relações de harmonia e comprometimento, esse elemento denomina-se respeito. Não se pode discorrer sobre relações humanas sem recorrer ao conceito de respeito. É quase impraticável qualquer tentativa de estabelecer uma definição universal para esse termo assim como delimitar quando esta condição passa a ocorrer entre dois ou mais indivíduos, mas o que é realmente relevante é a capacidade que o faz modular de tal forma a maneira a qual enxergamos e lidamos com o outro. O respeito possui uma característica que certamente é importante se analisada sob um ponto de vista existencialista: ele é gratuito. Entre pessoas que se respeitam não a nada que se cobre ou troque exceto o próprio respeito. Portanto, pode-se perguntar qual é a vantagem de uma relação que para uma vivência sem moral estabelecida não é exatamente necessária? E já que estamos “solitários no mundo” por que engajarmo-nos com outras pessoas em relações amigáveis? Sim, nossa condição solitária no mundo é inegável, no entanto, o grande avanço que deve ser feito e no fundo a razão a qual é possível o engajamento entre duas pessoas é o fato de que outros indivíduos encontram-se na mesma situação que nos encontramos e estão, portanto, em posições existencialmente equivalentes. É exatamente desta afirmativa de que nasce a consideração pelo outro, seja pelo seu sofrimento, pela sua angústia, pela sua liberdade (que no fundo são as mesmas que são vivenciadas por nós mesmos todos os dias). Estamos todos remando no mesmo barco, é por isso que, segundo Sartre, “quando escolhemos para nós mesmos, escolhemos para toda a humanidade”. Olhar para os lados e reconhecer que no mundo que nos rodeia estão todos os outros milhares de sujeitos que vivem em uma realidade equivalente a nossa, nos faz não ter o direito de causar mal algum a ninguém. Sob essa perspectiva há, sim, um conceito de mal ou bom, todo o desrespeito é injustificável sob o ponto de vista de que a única força capaz de causá-lo é o próprio indivíduo. Qualquer ato justificado por uma

força maior que seja causada ou por componentes emocionais ou por qualquer ou tipo de determinismo inventado constitui-se de má-fé. Pode-se dizer que o conceito de respeito (e conseqüentemente de fazer o bem) é muito mais natural ao existencialismo do que qualquer outra interpretação que o acuse de incitar um mundo dominado pela desordem e pela perda da racionalidade humana. De fato, Sartre afirma que o movimento existencialista é um movimento pacifista e que faz com que o ser humano busque a liberdade em um processo indissociavelmente ligado a busca pela liberdade do outro na medida em que ocorre o engajamento entre ambos. É evidente, portanto, que o estado de individualidade só se legitima quando resulta em um estado de coletividade, isto não significa que a essência do homem esteja vinculada a seu grupo social, mas sim que ela é construída a partir de escolhas que englobam a totalidade deste grupo e, portanto, ocorre um engajamento que não permite a busca da liberdade ou da transcendência desvinculada à busca destes mesmos elementos por parte também do próprio grupo. Em outras palavras, durante minha existência, construo minha essência vinculada a outros indivíduos, baseando-se em uma relação mediada pelo respeito. Desta maneira, a vida é contemplada através de um outro modo de visão, uma visão solidária. A construção do ser em colaboração com a sociedade faz com que o as possibilidades de crescimento pessoal ocorram de maneira mais fluida e harmoniosa na medida em que passam a não existir conflitos para tal desenvolvimento; parece que a existência harmoniosa é a maneira mais “coerente” de existir1. O humanismo existencialista de Sartre define que a busca do homem tem como alvos objetivos transcendentes, mas de maneira alguma estipula fins, pelo contrário, nunca viveremos além dos meios2. É nessa eterna busca que a importância do respeito entre as pessoas se configura, este elemento funciona como o elo que une indivíduos de uma maneira que objetivos maiores como a liberdade, a dignidade, a paz, a sabedoria, ou quaisquer outros possam ser alcançados.

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Como diria o Prof. Jorge: “Dá gosto de se viver!”. É o caso do personagem Josef K. do romance O Processo de Franz Kafka, no qual ele vivencia um julgamento do qual nunca será condenado, mas também nunca será absolvido, vivendo numa contínua indeterminância.

De uma maneira geral, o estilo de vida existencialista possui sua beleza. Claramente a compreensão de certas condições estipuladas por esta filosofia constituise em uma tarefa árdua, mas que trazem noções admiráveis sobre o ato de viver. Tais noções fazem com que sejam tomadas certas posições perante a vida de menor arrogância, pois há a concepção de que não somos mais do que aquilo que realmente somos, não tomando o que podemos ser como algo que nos faz maior ou menor. O respeito relaciona-se com a concepção de igualdade entre os seres humanos, o que é de suma importância para o bom andamento do convívio social e para o atingimento dos objetivos que buscamos coletivamente, mas que fazem parte da individual construção da essência e da identidade de cada um de nós.

REFERÊNCIAS SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo: a imaginação ; questão de método. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

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