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Coteeréo dirgida por AxTeNIO MONTES MOREIRA de Faculdade de Teologia le Universidade Catdien Portuguesa Traduptio de Copsrght by Héiions du Cerf e Battoriat Verbo (Com auterzagdo ecteidstica Sto. Agostinho SERMOES PARA A PASCOA VERBO Lisboa - S30 Paulo SIGLAS Para as obras ¢ revistas mals frequentemente ct dos ‘saranrae as seguisies silast us Christianorum — Serias Latina, lout (Belgien), 1850 55 Corgan. Scriptorem Recleszaticorum Tatinoramy Viens, IB a8 Dictionnaire a’ Archétopie Chrétionne fe de Liturgie, Para, 190 pre ve Dictionnaire de ‘Théolagie Catholique, "Parisy 1501850 MA T eT ow Miscsllones,Apoetniana. Testi © Stu, Home, 03010, Grate eke MINE. Paiplogiae Curas Completus — Series ating fe PGE. Revue Binétictns. Revue doe des Auqustsonnes. Recheres de. Seton Religiewe . Sarmies de Santo Agotinto. Sources Chines, NOTA BIOGRAFICA S¢ Agostino nasceu em Tagasta (actual Souk- ~Ahras), a sul de Cartago, na Numidia proconsular, em 13 de Novembro de 354. Muito novo, fol para Madaura, onde iniciou 0 estudo dos elésticos. Re- gressando a Togasta, leva os seus dezasseis anos na Ociotidade, até que o pai arranje o dinheiro sufi- tiente para o mandar prosseguir os extudos em Car- ago. Deixa deslumbrar-se pelo ambiente da capital ‘africana e, esquecendo a primeira educacdo cristl recebida pelos cuidados de sua mae, 8.9 Ménica, cai no desregramento e ndo passa indiferente as 30- Ueitagées da carne. De uma primeira Ugaedo amo- rosa, nasce um filho, que viria a morrer I5 anos depois. Aos 19 anos, sofre a grande influéncia de Cleero: 12 0 Hortensius e resolve dedicar a vida a ima procura constante da sabedoric, au seja, da verdade sobre a felicidade do homer. Outras duas grandes injluéncias ‘haveriam de ‘marcer profundamente 0 génio de S.'* Agostinho: SW Ambrésio, bispa de Miléo, com os seus ser- 191 mées, e Plotino, de quem l@ Enneidss, obra impreg- ‘nada de uma filosofia de inspiragao platénica. Por este convivio intelectual consegue lbertar-se dos preconceitos do maniqueismo que o haviam entue siasmado ao ponto de, durante nove anos, ter sido tum das membros mais activos da seita. Entretanto, tentara o ensino em Cartago. Cansado da turbulén- cia dos alunos, partira, no Qutono de 383, para Rome, onde, mal remunerado pelo seu trabalho, tamisém permeneceria pouco tempo. Alcancara uma ‘ediedra de Retérica em Mildo e, a, refaz verdadei- Tamente a sua vida, devotando-te @ leitura atenta das Sogradas Escrituras. Retoma o seu estado de ‘catecimeno e é baptizado pelo préprio S.* Ambré- sio no dia de Péscoa de 387, decidinde-se pelo celi- ato erlstdo Por altura de uma viagem a Africa, o bispo de Hipona escolhe-o como coadjutor, depois de the Cconferir 0 sacerdécio, em 391, e, cinco anos mais tarde, recebe 0 episcopado, sucedendo ao bispo de Hipona no governo da diocese. i vive em comu- rnidade com os seus sacerdoves. Consagra-se a tare- fas materiais e espirituais: administragao, [uta con fra of heréticos e 0s pagios, escritas teoldgicos, filosdticos e pastorais, correspondéncia com a elite intelectual da Império. Em Hipona, ficou até @ sua ‘morte, em 28 de Agasto de 430 (corsava entdo 76 ‘ancs), enquanto os Vandalos cercavam a cidade. O seu corpo foi transportado para a Sardenha e, de- pols, para Pavia, onde repousa num belo mausoléu dda Igreja de San Pietro in Ciel d'Oro. Um dos mais ilustres Padres da Igrefa, S.° Agos tinko é também 0 maior filésojo no tempo do Tm rio Romano. AS suas obras mals importantes sto A Cidade de Deus (413-427), de eardcter apologé- [10] tc, e As Conse (37-40), trio auobizgé : Na origem do seu pensamento esto as doutri- nas nepitdnits de Pens, eet Cone fi oma sto eto hone ge cago to conhesnanis te Desa por mo Iava (co {Cnilopy ste sata po roa conkeclento Epil aa Huminaho 48 lidnca fla por oes “itm das obras cle, 0 De Tat (mai arora ds gun oor Be Dostaa Ca, Spe'thnco Abin ¢ be Caccuzand Rudin @ ttn academy, bom como on seu ermB, foment, certs crass patoral opie Sandie teens vio de um ipo dono Continent compare fered ¢ conta ty caprTuLo © SACRAMENTO DA PASCOA Para o pensamento crisido e para 0 pensamento de Agostinho, que & 0 que nos ocupa agora, a cele~ Drago da Péscoa € muito mais que uma festa de aniversirio ou uma festa anual. Cingindo-nos o mais ppssivel aos textos da pregagfo de Agostinho, pre- tendomos mostrar como entendia ele ¢ comentava © mistério, 0 sacramentum: a Péscoa € 0 sacramento da passagem. Passagem —cujas fases sucessivas slo: 1a Péscoa de Cristo, 0 Nascimento Novo, a volta dos Penitentes, a passagem dos figis, E passagem cujo resultado @ este: no fim da passagem, Cristo-Luz E serfio estes os capitulos desta primeira parte. 1. © sacramento da passagem Securi agamus Pascha ($ 216, 6). Celebremos a Pascoa seguros. Colebrar a Péscoa é primeiro come- morer a morte © a ressurreigho de Cristo. Nisto con- siste a sollemnitas*. O seu objecto € renovar em nés 15] 'SERMOES PARA A PASCOA ‘com mais alegria a lembranga do acontecimento his- tGrico: «Bdifiquemo-nos acreditendo gue Cristo Se- shor ressuscitou. 14 sem divida © acreditévamos ‘quando ouvimos ler o Evangelho, ja sem divi acreditivamos quando hoje entrémos nesta reunito; e nfo obstante, nfo sei como &, ouvirmo-lo com ale- ‘Evia porque assim o sentimos mais vivo na meméria.» (S 234, 2). Memoria nostra laetius innovetur (ren0- ‘vese mais alogre a nossa meméria); mais ainda fides nostra clarius ilustretur (lumine-se de mais dade a nossa f6; ($ 218, 1). Porque o ess & precisamente acreditar om Cristo ressuscitado. Como a sollemnitas Ihe dé ensejo © a celebratio* possibilidade, o pastor tem que velar pela autentici- Gade desta f& «Ninguém creia de Cristo sono 0 que Cristo quis se ereia d'Eley (S 237, 4). ‘As diferentes narragoes da fessurreigdo servers- he de fundamento para lutar contra as varias here- sias trinitrias e cristologicas: «Que € que aisto me quis Cristo mostrar senfo que sabia o que para mim era bom eu ctesse © 0 que era nocivo que eu nfo crese?» (S 238, 2). Contra os maniqueus © os prisci- Tianistas prega, pois, a 16 em Cristo verbum et caro (verbo e carne); contra os sabelianos, os arianos, os isefpulos de Fotino, a £6 em Cristo aeguolis Patri (gual ao Pai); contra os apolinaristas, a f& em Cristo deus et homo (deus e homem); contra os donatistas, ‘af em Cristo corpus er caput (corpo e cabeca); con: tra os pelagianos, enfim, a f€ em Cristo médico. De modo que a festa da Péscoa reaviva a alegria do cristo © ao mesmo tempo ilumina a sua fe ‘uCelebrar a Péscoa> é ainda mais. Efectivamente ‘a Piscoa no & s6, como 0 Natal, como a Epifania, como tantas outras festas cristis, uma sollemnitas, € também um sacramentum. A tollemnitas aponta [161 ANTRODUGKO para os fatos ¢ para os ensinamentos objectvos con- tides nels, 0 sacramencum introduz os féis numa realidade iavisivel que erectamente Ties toca. Que Cristo ressuscitedo J nfo morre e a morte jé mao tem dominio sobre El, eis af objecto da sollern {as; que Cristo tenba sido entrogue pelos nossos pec dos € tenha ressuscitado para nossa jusificagdo, ai tsté © sacramentum. E-esta a0 menos a explicesso ‘que se dé na carta a Januéria (Epis. 55, 1-2). "Avestepropésito o sermio 272 di uma dein ‘slo chama-s sacramentum, parque nele ma coisa € 0 que se vee outra.o que se eatende. O que se vé material © que ae entende tem fruto espritual» Segundo a carta a Januétio, uma celeb so litérgie € sacramentum quando @ comemorasao dos factos histéricos € tal que se entende que cla significa um dom sagrado feito por meio dela a0 povo Hl...» éColebrar a Péscoay 6 reeeber este dom invisivel, este fructus spirtalis (trato espititua), este aliquid (quod sancte accipiendum est (algo que se deve rece- ber com sentidede). Mais ainda, 0 esacremento da sua Peixio e da sua Ressureigdoy (S251, 7) € 0 s- ramentum por exeelBacia, porque o facto vise, Sgalicativo, € a morte oa reswarreigho histricast © facto invisivel mas real, significado, 6 « passagem dda morte & vid ‘A’Péscoa 60 sacramento da passagem. A propria palavea o india: pascha em hebrew significa trani- fus. Depois de nos ter acautelado contra a etimolo- fia fantsiosa que faz deriva pasche do verbo arego paschein (softes), Agostino cita habitualmente tr foxtos: Jo 13, 1 ut transier de mundo aii Patrem (para passar deste mundo a0 Pa; Jo.5, 24 Qui eredit nme transit de morte ad vitams (quem ex8 em mim tim SERMOES PARA A PASCOA passa da morte & vide); finalmente, Rm 4, 25 tradi {us est propter delicta nostra, resurrexit proterjusti~ ficationem nasiram (Goi entregue por causa dos nos- sos delitos, ressuscitou por cause da nossa justifica- (0), que sublinha menos o acontecimento da. pass fem que o seu valor sacramental. «Através xxio, 0 Senor passou da morte & vida ¢ abriu-nos caminho para nés, para nés que cremos na sua res- surreipfo, para que também n6s passemos da morte A vida... Crer que Ele morreu, nfo vale nade; tam- bém o erfem os paglos, judeus e impios. A fé dos cristios € fé ne resurreigdo, Isto é 0 gue monta. Quis que conhecéssemos a sua ressurreicdo, isto 6, sua pastagor. Quis que créssemos n'Ele 10 mo ‘mento da sua passagem» (En, in Ps, 120, 6). 2. A Piscoa de Cristo ‘A Péscoa de Cristo cumpriu-se no tempo. Cristo velo até nés e depois subiu para o Pai. Veio em mis- fo comercial fazer uma permuta, Nao se estranhe ‘nem a idela nem a palavra, que ambas se encontram nna pregagio de Agostinho, onde muito nitido ¢ ‘muitas vezes retomado 0 desenvolvimento de tal sim- bolismo. E 6 curioso que este tema da troca de bens © da permuta de mercancias aleance nele muito maior desenvolvimento (se nos ativermos $6 20s ser- mies que estamos estudando) do que a missio de salvador ou mesmo 0 oficio de redentor. E assim, ao Indo das imagens tradicionais de Christus salva tor (Cristo salvador) que nos Hberta, ou de Christus redemptor (Cristo redentor) que paga as nossas df vidas, perflam-se, como em sobreimprestio aos de Christus medicus (Cristo médico) que nos cura, 05 1181 aNrRopuGKO tracos originals © bem desenhados de Christus mer- eator (Casto mercador), que velo a0 melo dos ho- mens para reeeber a morte que comprara, dando, como prego dela, a vida “Tal missio exige uma viagem ¢ a pasiagem de lama Frontera: eVindo da soe pétria.» (8233, 4); Nosso Senhor veto, pois, de-outro pais para esta terra... para a regido Ga'morte, vio da Fegido da vida; para 2 regiso do’ sofrimenio, velo do pais éa feliidaden ($ Guelf. 9, 1). Mercator iste (este mer- cador) (8 233, 4): 6 sabido que a lingua pés-cléssica confunde 0s siguificados de doas palavras dstintas, Imercator (mereador), 0 comerciente, mesmo que Sela modesto mereeciro ou tendeiro, © negotat GGegociante), 0 importador. O mercetor que. aqui figura 6, antes, o homem de aegéclos, cujas tran- sacgies © levam a terres longingua = regis bar- baras. No esquecamos que Hipona’cra um porto, a Numidia wma marca ou froateira do mundo ro” ‘mano, Para além dela, fea o deserto onde as cara vvanas_ 2 principio encontram apenas desolagio sede. Bo -que sucode a0 nosso morcador: eEste ‘orcador encontrou na nosia regigo o que ncla abunda. Que abunda aqui? Nascimento © morte. Nascer e morrer slo as mereadories que enckem aterren (§ Guelf. 9, 1; 231, 5). Contudo, nesta regio de tristeza, entabulou rela- es de hospitalidade, como todo o viajante de an- fanho: «Comeu contigo o que abunés na pobre casa da tus miséria. Bebeu ef vinho azedo, bebeu fel, (© que encontrou na tua pobre casa; mas em com ppetsaglo convidou-te A ‘sua lta mesa do eu» & Bi, 5. ‘As compras pagam-se em espéci, segundo 0 si tema da permuta. Por uma mercancia para ele to- 1191 SERMOES PARA A PASCOA talmente exética, a morte, dé 0 que faz absoluta faltacnesta nossa regido, a'vida: «Porque para Ele, que & 0 Verbo, donde € que the viria a morte? Ea nnés, homens da terra, mortais, cozruptiveis, donde 6 que nos viria a vida? Ele nfo tinha nada donde pudesse tomar a morte, nés nfo tinhamos nada Monde pudéssemos tomar a vida; do nosso haver ecebeu a morte, para, do seu, aos dar a vide» (S 232, 5). ‘€O'nosso mereador ao vir da sua pétria trouxe para c& um valor de importénciay (S 233, 4). «Por- {que ressuscitar e viver para sempre, quem conhecia tal coisa? Esta a novidade que Ele trouxe & nossa terrap ($ Guelf. 12, 1. eVeio, trazendo-nos consigo 05 seus bens, e trazis-os sem Se saber» (S Guelf. 9, 1), «Fez. connosco um extraordinério coméccio: nés tinhamos aguilo por que Fle morreu, Ele tinba aquilo por que nés vivemos» (§ Guelf. 3, 1). © S Denis 5 (que talvez no seja auténtico) diz ainda mais familiarmente: «Fagamos uma troca: ou dowie a ti, tu disme a mim. Eu tomo de ta morte, tu toma de mim a vide.» ‘Que transacpdes destas nfo enriqueciam o seu autor, era informagio que -Agostinho recolhera de S. Paulo (I Cor 8, 9) © apresentava desta maneira «ize Deus: Por causa de ti fiz o meu Filho pobre. Realmente, por causa de nés 6 que Cristo, de rico que era, se fez pobres (S 239, 6). Diz ainda: Magna mutatio! Mle factus caro, iti spiritus (Grande mu- danga! Ele feito came, estes. (feitos) espirito; 5121, 9). Era to incrivel 0 lindo e rico negécio, que 0 mercador teve que deixar fianga, «No quereis acre- itar que vos daret 2 minha vida? Tomai por fianga a minha mortey (S 231, 5). «Como 6 que pode re- 1201 INTRODUGAO ‘eusar-nos a sua vida, se nos pagou antecipadamente a sua morte?s (S 233, 4). As vezes até compra os ‘prOprios fis (ideia que no mundo antigo nada tina e estranho): Quando jacuit tune nos emit (Quando morreu entio nos comprou; $ Guelf. 1, 5). «No momento da venda nfio esconden o que comprou. Fez a eseritura, Gragas a Deus nfo nos enganoup Gedo. Bu. 13,4). Bde ver que o tema esté perto, mas muito dife rente do de redemptor (redentor) que resgata da eseravidio por divides, que rasga a cédule (0 chi- rographum) ¢ faz. sair da prisfo. Tal 6 a aventura do mercador-viajante, do estrangeiro que passa, eregrinus in mundo (peregrino no mundo; $ 239, 2). ‘A passagem de Cristo depende de outra razio. Os homens estio doentes. Depois das andangas do ‘mercador, a visita do médico: Venit medicus tune ‘Medicus Christus (yeio entdo 0 médica ... 0 médi & Cristo)... Desta vez 0 simbolismo funda-se mais cexplicitamente nos textos da Escritura: Me 2, 17 € 5, 31-82, que Agostinho nfo cita, excepto no $ Bibl. asin. Ti, 114, onde os versiculcs sio a base © fun- damento’da pregagio. & um serméo de circunstan- cis. Pouco antes da Quaresma animam-se 03 cate- cimenos @ dar o nome para o baptismo: «Cristo ‘ama os pecadores, como © médico ama o docnte, para Ihe matar a’febre ¢ 0 salvar, Nao quer que (© doente esteja sempre enfermo para tor de sempre © visitar, mas quer curé-lo... Portento, o melhor dos médicos, para quem nenhuma doenga € incuré- vel, comegot a tratar-te, Nio tenhas medo dos cri- ‘mes passados que porventura tenhas cometiée, por ‘monsiruosos, por incriveis que sejam; slio grandes as tuas doencas, mas & maior o teu médicon (S Bibl. Casin. TT, 114, i, 2) tay SERMORS PARA A PASCOA Sg et mae on aS rm a (ls spe er 9 ou BU goes sca oe Storie are to aie nf el ree mca ‘al, Como o tema do mercador, 0 do médies cobs tes otf mre alo oe vem dar a vida em troca da morte, © o outro (que Poets ieee dynes i ee et ale ie rain ro ce fomeniressomeos ie cat ei Sree one Snes a see cu i ws eas organs Sua 9 cme eran crea ca Tatas 53,5: ews bore sana ens (om cup lot ie 3 cle al oe fe ah Sire Ai eis Ss ea ee Piet sel er cette ee (27 INTRODUGEO Comey oe pee eae as Sn aha ce, Coan, cnman Deas a Poe reas ee eee ee oe ee eae ee ee faeces Sn ait ote a man Ire es eee eee eee eieee eta eevee fons vitae (veio a propria fonte da vida; S Wilm. 11). foe a rnc on ek 9 (31 SERMOES PARA A PASCOA 3. 0 naseimento nove ‘A fonte de vida, jorrando como torrente baptis- mai, levanta os filhos dos homens condigio de filhos de Deus. Este nascimento novo prepara-se pat Tenta gestagio no scio da Tgreja, que dé 8 luz na noite pascal estes viventes da vida diving. O seu ‘rescimento espiritual & designado, nas suas diver- sas fases, por termos técaicos: primeiro catechue ‘meni (catectimens), depois competenter (candida tos), finalmente, depois de baptizados © durante ‘uma semana intéira, chamam-se oficialmente infor tes (recém-nascidos) Conquanto o baptismo se possa conferir noutras circunstancias, fica estreitamente ligado & colebra #0 pascal, porque, de facto, na Péscoa é que se administrava o maior mimero de baptismos, e, de direto, porque a iniciacdo cristl é apresentada como do no mistério pascal. A pregagio que Principia’ ma entrada da Quaresma, para termina ‘no domingo da Oitava, dizige-se portento aos fide- Jes (fgi), mas muito éspecialmente também, antes dda Péscoa, aos que se vio baptizar (baptizandi): os competentes; depois da Péscoa aos recém-baptizados (modo baptizat): os infantes, (Os nossos textos do poucos pormenores precisos dos ritos de inicingdo, mas supgem-nos sabidos, 2 conveniente ajuntar aqui o que o resto da obra nos casing a propésito deles. Langaremos, pois, uma vista de olhos sucessivamente & peniténcia pré-bap- tismal © nos ritos de iniciagdo: escrutinio, benho baptismal, unelo, eucaristia, C24) ANTRODUGKO A. Peniténcia pré-baptismal Inserigho para o:baptismo, Os futuros baptize dos recrutam-Se entre: 05 catectimenos que jé esto fnstrufdos quer pela catequese privada (cujo teor fe modalidades estio indicados © tragados no De ca- techizandis rudibus) quet pelas instrugées do povo cristao a cujas reunides assistem até & missa cate chumenorum (despedida dos catcciimenos). Esta era fa razio por que Ihes davam o nome de audientes Cuvintes), segundo o testemunho do préprio Agos- tinho (S 132, 1), embore cle. empregue: habitual mente 0 termo cafechumeni*. Os catecdimenos jé sdo cristios*, a participagio deles na comunidade telesil é assinalada com rites prOprios: 9 exorcismo ppor imposigio das mils, o sil, © por um ito que, epois de Ihes ser conferido, se Thes tora comum ‘com 0s fits: o sinal da Cruz, Receberam estes ritos ‘pela primeiza vez ao fim da catequese privada e sto “Ibes reiterados. Conserva-se um texto da exortaglo solene que ‘Agostiniio dirigia aos seus catecimenos cada ano, ‘no principio da Quaresma, para os animar a pet (© baptismo: 0 § 132. Os catectimenos ouvem (pois f¢ eles sio audientes ...) todos os textos, mas nfo os fentendem (no sio inelligentes). S6 os fideles (Feis) podem entender o sentido por exemplo de Jo 6, 56: EA minha care é verdadeira comida, 9 meu san- gee Verdadeira bebida». Contudo, este sentido ve- ado, serthes-ia revelado se, audientes (a0 owvis), quisessem nfo ficar surdos: «Chega a Péscoa, di (© teu nome para o baptismon (S 132, 1). Atesta inda © convite solene para o baptismo estoutro texto: «Ontem animei a Vossa Caridade a dar de mio « todo o pretexto de demora, para vos apres- 251 SERMOES PARA A PASCOA sardes, todos vés que sois catecimenos, pera o bar ho da regeneragion m= Nesta oessido, 0 povo cantava o SI 41: « no ha divide que s6 pode bem entender que é a voz daqueles que, sendo ainda catecimenos, s€_apres- sam para a graga do santo baptismo. Por isso se ‘canta este salmo cada ano, pare que eles tenfiam 0 desejo da fonte das dquaso (Br. in Ps. Al ranie a Quaresma, o pastor fomentava ainda nos competentes 0 desejo do baptism, dissipavaclhes as hesitagGes: «Nao digsis: Tenho modo de me tornar fiel, pelo roceio de pecar ainda depoisy (S Bibl. Cas. TH, Ii), excitavarhes 0 fervor € a confianga (cf. Tr. in To. Eu. XD. Os competentes eram nfo s6 habitantes de Hi- pona, mas de todas as regiGes & volta: salvo caso de urgéacia, os candidatos ao baptismo tinham que ir todos para a sede episcopal no principio da Qua resma ¢ ficar Ié até depois da Péscoa. (© aspecto penitencial da preparacto é acentuado om muita forga. Inserese na tradigio bfblica do baptismo de peniténcia ena perspectiva cristé de ‘um sacramento que € apresentado, nas catequeses do século ry, como sepultura na morte de Cristo ‘na vida Ele. Os competentes si n sobservénciasy da Queresme;_ ab néncia de vinho, de carne, de bashos, continéncia, Vigiias. So submetidos com mais frequéncia 20s ‘exorcismos, jf conhecidos dos eatectimenos: «Des- ‘es 05 vossos nomes, comegastes a ser mofdos pelos jejuns © exorcismos» (S 225). «Fostes moidos pela umifaglo do jejum e pelo sacramento do exor- ismoy ($ 227). Exorcismo © humilhagio pécmse muitas veres em paralelo, porque aceitar 0 exor- cismo 6 reconhecer-se pecador. Os exorcismos cram (26) INTRODUGAO talvez diftios, porque se pSem no mesmo plano que 8 jejuns. ‘A instrugiio recebide pelos catectimenos conti un-se e complete-se. «Damos-vos 0 esino das nos- sas instrugées, semeamos em vos o enunciado da Palavray. (S 216, 1). Prosseguis-se por uma parte Tnediants as leituras litizgicas ¢ os comentérios que ‘estas se faziom na. pregagéo dirigida a todos; a fssistincia quotidiana as sinaxes ou reuniées ‘da Quaresma facilitava esta impregnagio (imbuere, in~ Sinuare);por outra parte, uma breve alusio do $ 5, 9, ‘cestava pendente da cruz, como Jemos aos compe tenes, parece indicar que se destinavam a cles par- ficalarmente determinadas Teituras. Finalmente hhavia instrugSes que se faziam para cles a titulo ‘muito particular. Possidio regista no sou indiculus um Exhorto- torius ad competentes tractatus unus, que é talvez (© nosso $ 216. O S 228, promunciado um dia de Pés- oa, apresenta uma espécie de catélogo das cateque~ ‘es pre-baptismais. ¢Tratémos diante deles do secra~ mento do Simbolo: 0 que devem crer. Tratémos do seramento da Oragdo do Senhor: como devem orar. E do sacramento da fonte ¢ do taptismo. Tudo isto ouvitam comentar e de tudo receberam transiissfo, ‘Mas do sacramento do alter segrado que hoje viram pela primeira vez, ainda nfo ouviram nada; deve- Sseslhes hoje uma’ prética este propésito». ‘Realmente, excepto para as catequeses do bap- tismo, para as qusis nfo temos indicagées claras, fos Setmones ed populum conservaram-nos cateque- ses sobre 0 Simbolo (S 212; 213; § Guelf. 1, $ 214; 215), sobre a Oragio do Senhor (S 56; 57; 58; 59), sobre 2 Eucarittia (S 227; S. Dinis 6; 5 229; 272; 'S Guelf. 7 e 8). A todas estas instrugtes nfo era tat SERMORS PARA A PASCOA pormitida a assisténcia nem aos pagios nem aos catectimenas. A pregagio da doutrina associa-se a reforma dos costumes. O De fide et operibus (da fé e das obras) insite singularmente na necessidade da. catequese moral. As disposigdes e 0 procedimento dos compe tentes cram sujeitos @ cxame*, B. Os ritos sutinlo, © primero scto verdadeia- era a enttega do Simbolo. Segundo SGuelf. 1, 1e2, $58, 1€ 13, $59, 7, 8 213, 8, faziase em Hipona, quinze dias antes da, Péscoa, Contudo, isto nfo era ainda senfo um ensino, Du ante uma semana, 0s competentes, auxliados por seus parentes ou héspedes,tiham que aprender © texto'e prepararse para 2 redditio Symbol, isto €, para e recilagio dele em publica, pela Palon t0 canto do gl, lopois de uma noite de oragbes,fazise a primeira cetiméaie ital, em que se lam sacedendo'o enor. amo soleue, a rendacla a Satands, e 1 reciiaglo dp Simbolo, 0 § 216 foi pregado nesta ocaito ea ceriméain do escrutino (seruttio)'. -Agos- tiaho saramente promunein a palavra ($ 216; De fide et operibus, 9. Tealase de uma. prova fete dos exoreismos habitus, 6 0 exorelm! sacromene tum, segundo a expressio do. $ 227. Compreendia sem’ divida tm exame corporal (aDando-vor 0 pe rabém, n6s vos exortamos @ guatdar em vossos core. ses 2 sade que se pode vetficar em Voss Cor. Posy; $ 216, 19% ‘Mas o essencial passava-se 128) INTRODUGEO vvado pela fmilhagfo do tltimo ¢ do mais solene dog exorcismos, (WTemos agora a prova de que ef tais indemnes dos espiritos do maly; S 216, 11). De facto, quando despide, sonolento, estémago vazio, imal lavado, pés descalgos, cabesa baixa, o candi- ato a0 bapiismo resebia’o halito do exorcista © ‘ouvia as imprecagées contra 0 misterioso héspede que tinba dentro e declarava renunciar 8s pompas do século, submetera @ boa prova o seu orgulho © sera em transes de agonia o chomem velhoo Este exorcismo compreendia a exsuflesio, a im iggo das mios ¢ férmulas. O gosto do exsufla- Gio que nos parece esquisito, tinha para os homens Gaquele tempo uma significagio clara; era sinal de esprezo, de sentido intermédio entre 0 nosso «apu- par © 0 nosso aescarrar emp, Tal sinal, feito as estétuas do imporador, era castigado como'crime de lese-majestade!, A férmula de maldigdo contra Sax tends (@Amontoamos contra ti todas as maldigdes merecidas pela tua malvadezy; 5 216, 6) foi-nos transmilida, numa das suas formas por Optato de Milovo: «Fore, maldito!» ‘A. imposigéo das mos completava a obra da cexsuflagio: Pela invocagdo do nome de Jesus Cristo (Go que Tazemos em vés, conjurando © nome do ‘oso redentor; $216, 6}, em nome da Santissima Trindade (aquando © ameagavam com todo o poder da veneranda Trindade; ibid. 11) é que Satands & obrigado a fugir. Comega entio a realizarse a pas- sagem das trevas para a luz, celebrada pelo texto de S, Paulo Bf 5, 8 eporque outrora fostes trevas, agora porém sois luz no Senhor», que, com 0 ver- sfeulo de Col 1, 13 bavia de ter sua accéo na litargia {do exorcismo, ‘A clrcunsidncia de se despir e de se por de pé [291