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O Impacto Da Web 2.0 Na Aprendizagem Formal e Informal

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O IMPACTO DA WEB 2.0 NA APRENDIZAGEM FORMAL E INFORMAL António Pedro B. Pereira http://eeducandu.blogspot.

com Educação e Sociedade em Rede Mestrado em Pedagogia do E-learning Universidade Aberta Julho de 2010

RESUMO A Web 2.0 surgiu numa altura em que parte da sociedade estava distraída a aprender a trabalhar com a Web anterior. Boa parte da população, incluindo académicos e decisores políticos, não se apercebeu logo desta revolução. Felizmente estavam lançadas, no mundo e na escola, bases para a utilização massiva da Web 1.0. Por outro lado, muitos jovens estudantes utilizam, no dia a dia, serviços da Web 2.0. Neste paper vou intuir que o impacto da Web 2.0 na aprendizagem pode, se bem aproveitado, construir o terceiro e quarto pilares apresentados em 1996 no relatório elaborado para a Unesco pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. INTRODUÇÃO Com o fim do milénio, o mundo preparou-se para a sociedade em rede e iniciou previsões para o ensino no início do século XXI. Estas previsões foram baseadas nas metodologias associadas às ferramentas da Internet disponíveis. Estávamos numa época em que a Internet disponibilizava informação de poucos para muitos. A produção de conteúdos estava limitada a quem tinha conhecimentos técnicos para o fazer e boa parte da informação disponibilizada pelos não profissionais tinha má qualidade gráfica e logo pouco apelativa ao olhar do

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estudante, a informação com bom grafismo estava reservada às empresas que contratavam informáticos e designers gráficos. A população era sobretudo receptora de informação e como tal a escola continuava a ser a principal produtora de informação crítica. As aprendizagens informais eram obtidas da família, da comunidade local, da televisão ou então em livros especializados. Alguns conseguiram ter conhecimento da existência de comunidades em rede e iniciaram a partilha de experiências que levaram a aprendizagens não formais através desta. Por coincidência com os primeiros anos do novo milénio surgiram ferramentas que permitiram dar voz a cada um dos indivíduos ligados à rede e com elas apareceu a Web 2.0. O ANO DE 1996 Em 1996, foi publicado para a UNESCO, um relatório sobre a Educação para o século XXI: "Educação: um tesouro a descobrir"(1). Este foi elaborado por um conjunto de especialistas da qual fez parte o antigo ministro de educação português, Roberto Carneiro, que escreveu no prefácio da edição portuguesa:
No termo de três anos de aturada reflexão - e de acalorada discussão - a Comissão sobre a Educação para o século XXI deliberou depositar o produto do seu trabalho nas mãos do director geral da Unesco sob a égide de um pensamento metafórico. O novo século, tempo de esperança por excelência, encerra uma visão motora e mobilizadora de consciências e das boas vontades. Esse fabuloso tesouro a descobrir pelas gerações vindouras, o qual pode constituir os alicerces de um "humanismo XXI" a partilhar no oceano da intensa comunicação que caracteriza o tempo próximo, é nada mais nada menos do que a educação. (1 p. 9)

Este relatório foi o resultado de três anos de reflexão pelo que terá recebido directa ou indirectamente influência dos pensamentos que foram publicados nessa altura e claro terá influenciado os que se lhe seguiram. Dois anos antes da publicação deste relatório ou um ano depois do início da discussão, em 1994, Pierre Lévy publica o livro "L'intelligence collective. Pour une anthropologie du cyberespace" publicado em Português com o título "A inteligência colectiva: para uma antropologia do ciberespaço" (2), em que Lévy defende a existência de uma inteligência
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colectiva distribuída em rede em que cada um acrescenta um pouco do seu saber ao conhecimento colectivo da humanidade. Também em 1994 é publicado por Andy Hargreaves o livro "Changing Teachers Changing Times" que aborda a temática do trabalho e da cultura dos professores na idade pós-moderna, publicado em língua portuguesa com o título "Os Professores Em Tempos De Mudança" (3). 1996 foi também o ano em que Manuel Castells publicou o livro "The Rise Of The Network Society" publicado em Português com o título "A Sociedade Em Rede" (4) onde o autor escreve sobre o impacto das tecnologias e da Internet na sociedade na economia e na cultura. Um ano depois de se tornar público o relatório "Educação para o século XXI", Lévy publica o livro "Cyberculture", publicado em português com o nome "Cibercultura" (5) onde escreve sobre a forma como a sociedade interage numa cultura cada vez mais digital e em rede. Em termos económicos, Castells (4 p. 126) afirma que, entre 1983 e 1995, "o PIB mundial crescia cerca de 3.4% e o volume das exportações mundiais subia cerca de 6%" enquanto emergia uma economia global assente na rede. Estávamos portanto longe da crise que se instalou no mundo nos últimos anos. É interessante verificar que, em 1996, existiam em Portugal 10 fornecedores de acesso à Internet (6) e que "By 1996 usage of the word Internet had become commonplace" (7). Podemos dizer então que foi, por volta de 1996, que se iniciou a expansão pública da Internet. No entanto, ainda estávamos longe dos serviços da Web 2.0 termo atribuído por Tim O'Reilly em 2004 (8). Este relatório (1 p. 77) aponta para quatro pilares que deveriam sustentar a educação: "aprender a conhecer, isto é a adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as actividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes."
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Será que estes pilares estão a ser implementados no ensino? Segundo os membros da comissão, não.
Mas, em regra geral ensino formal orienta-se, essencialmente, se não exclusivamente, para o aprender a conhecer, e, em menor escala, para o aprender fazer. As outras duas aprendizagens dependem, a maior parte das vezes, de circunstâncias aleatórias quando não são tidas, de algum modo, como prolongamento natural das duas primeiras. (1 p. 78)

A COMPETIÇÃO PELAS ESTATÍSTICAS Conjuntamente com o aumento da velocidade das comunicações veio o interesse da sociedade sobre a forma como cada comunidade competia com as outras. Surgiram os relatórios PISA que mostram que a aprendizagem não se faz de modo igual entre todos os países desenvolvidos. Conseguimos "imaginar" o que se passava nos países não desenvolvidos. Parece existir algumas contradições quando se pretende, por um lado, competir em rankings de educação formados por vários países e, por outro lado, quando os currículos e condições de aprendizagem são tão díspares entre eles. É norma falar em percentagens do PIB gastas em educação e é claro que alguns países gastam mais em percentagem que outros. No entanto, não se deveriam comparar os valores gastos em educação por percentagem de PIB, pois uma elevada percentagem de PIB num país com um baixo produto per capita geralmente é um valor muito inferior ao obtido com uma pequena percentagem num país com maior PIB. Ou seja, não existe igualdade entre o real valor atribuído à educação nos diferentes estados/países.

O relatório (1) aponta para uma uniformização das aprendizagens sem esquecer as especificidades culturais de cada região, mas, por outro lado, parece que cada país continua a rumar para seu lado, na tentativa que os seus cidadãos estejam melhor preparados que os outros para assumir a liderança nos processos produtivos e económicos. Num momento em que se fecham empresas por todo o lado, e em que a competição é forte, assistimos

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diariamente a notícias que mostram alguns países numa competição pela vitória de um campeonato de índices económicos enquanto outros procuram manter-se longe da bancarrota. A DIFICULDADE DE EMPREGO E A DESMOTIVAÇÃO NO ENSINO Todos podemos constatar que, desde há alguns anos, se estão a formar nas nossas escolas alunos para o desemprego. Se o mundo de trabalho não precisa de mais especialistas numa determinada área, então porque a nossa sociedade os continua a produzir? Cada novo aluno formado para o desemprego empobrece o país, uma vez que o jovem, a família e o estado investem neste estudante tempo e recursos. Quem lucra com isso? Este jovem será mais um a quem vai ser proposto um salário reduzido e não irá provavelmente trabalhar/criar/contribuir para o que estava vocacionado. A instabilidade social provocada por estes novos desempregados está à vista de todos. Muitos jovens com formação superior estão a fazer trabalho de "caixa de supermercado". Os jovens têm consciência do lugar que a sociedade lhes reserva para o futuro e verificam que o sacrifício de cumprir com as obrigações escolares não garante, no futuro, um emprego e que a lei da procura e da oferta está a provocar um abaixamento dos salários. PARA QUE SERVE A ESCOLA? Do ponto de vista do aluno, para que serve a escola? No vídeo do antropólogo Michael Wesch, “A Vision of Students Today” (9), uma estudante questiona o porquê de ter de ler/estudar tudo se apenas 26% do que lhe é indicado será relevante para a vida futura? Alguns pais vêem a escola como um depósito de jovens, lugar onde são deixados os miúdos enquanto os pais trabalham. No jornal Público de 04.02.2009 surgiu uma notícia em que a Confap (Confederação das Associações de Pais) propunha que as escolas estivessem abertas doze horas por dia:
O objectivo, segundo o responsável da Confap, "não é transformar as escolas em armazéns de crianças". Nem sequer reforçar a carga lectiva, roubando tempo para a brincadeira. "O que queremos é que as
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escolas funcionem numa lógica de centro educativo, deixando de estar exclusivamente centradas na instrução e com uma componente de apoio às famílias." (10)

Os jovens têm consciência destes problemas sociais. Sabe-se que os jovens costumam protestar com o que vai contra as suas convicções. Então o que é que os faz ir à escola? Num poema referenciado como sendo do educador brasileiro Paulo Freire a escola aparece como "o lugar onde se faz amigos" e é composta por "gente (...) que se alegra, se reconhece, se estima". Por isso, não será de estranhar que os jovens vão para a escola para sociabilizar, para jogar e namorar. A WEB 2.0 Não estava previsto o aparecimento da Web 2.0. Com o aumento exponencial do número de pessoas ligadas à rede e da existência de redes de programadores independentes e adeptos do código aberto, começaram a surgir novos serviços ligados à Internet que criaram e continuam a criar conexões entre o nosso mundo real e virtual. A Web 2.0 veio permitir que cada um possa publicar o que quiser na Internet sem ter conhecimentos técnicos, permite também aos cidadãos participar em discussões criticas sobre qualquer assunto sem terem de se deslocar ao Speakers' Corner.
A emergência da Web 2.0, ou Read/Write Web, é algo que vai muito para além do mero domínio tecnológico: ela é, mais do que uma revolução tecnológica, uma revolução social e cultural, estendendose a todas as áreas da sociedade. Em poucos anos, a Web 2.0 mudou radicalmente a forma como as pessoas utilizam a Internet e interagem com os outros, com a informação e com o conhecimento. De consumidores de conteúdos e informação, estes novos cidadãos digitais passaram também a ser produtores de informação, criando conteúdos que partilham e que passam a fazer parte do corpus de informação e de conhecimento disponíveis na Web , tomando para si o controlo de muitos processos e espaços tradicionalmente dominados por corporações e instituições. (11 p. 5)

Se no passado o aluno frequentava a escola, porque era ali que se encontrava a sabedoria e o espírito crítico dos mestres, hoje a sabedoria da escola está disponível na ponta do rato e o espírito crítico está acessível em fóruns e blogues. Michael Wesch propõe no vídeo "The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity" (12) que se deve levar para a sala de aula os novos serviços proporcionados pela Web 2.0; o que faz sentido, porque é com essas ferramentas que a sociedade está trabalhando e é uma linguagem comum aos
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jovens.

Quem está atento aos jovens das nossas cidades, verifica que estes interagem

diariamente com estes serviços integrando diferentes redes sociais. SÃO PRECISOS NOVOS ESTUDOS. O facto da Web 2.0 ter surgido sem aviso prévio, apanhou a comunidade educativa desprevenida. Neste momento existem estudos sobre elearning e da forma como este foi influenciado pela Web 2.0. Estes estudos estão relacionados com o facto de terem surgido no ensino superior modalidades de ensino à distância em ambientes de aprendizagem suportados por computador. Em 2009, José Mota, investigador do Laboratório de Ensino a Distância da Universidade Aberta, cita trabalhos de George Siemens publicados entre 2003 e 2006.
É comum associarmos a aquisição ou a criação de conhecimento com a aprendizagem formal, mas a verdade é que o encontramos de muitas e variadas formas: aprendizagem informal, experimentação, diálogo, pensamento e reflexão. A aprendizagem é contínua, não é uma actividade que aconteça à margem das nossas vidas quotidianas (Siemens, 2006). Nem os cursos tradicionais nem as teorias da aprendizagem existentes respondem de forma satisfatória a esta realidade (Siemens, 17-10-2003). Um dos problemas das teorias existentes é que se apresentam como a única solução adequada, quando, na verdade, nunca nenhuma é a melhor ou a pior solução, podendo ser, isso sim, a mais adequada em determinadas circunstâncias. Torna-se necessário agregar metodologias variadas que acomodem e promovam os vários aspectos envolvidos na aprendizagem e, para Siemens (op. cit.), são as comunidades que melhor podem acorrer às necessidades dos aprendentes neste aspecto. Trata-se, no fundo, de trazer para a experiência de aprendizagem elementos que permitam ir além da sala de aula, do curso, de a integrar na vida real, de modo a que as pessoas, sobretudo nas áreas em que a informação se expande de forma acelerada, possam manter-se actualizadas. Não é nos cursos e nas instituições tradicionais que se pode encontrar essa adaptatividade, auto-suficiência e permanência do conhecimento (enquanto o aprendente dele necessitar), mas sim 104 numa noção de aprendizagem como uma ecologia, uma comunidade, uma rede (Siemens, 17-10-2003). (11 p. 103) Em termos sumários, esta teoria visava responder às novas necessidades dos aprendentes do século XXI e às novas realidades introduzidas pelo desenvolvimento tecnológico e as transformações económicas, sociais e culturais (Siemens, 12-12-2004). O Behaviorismo, o Cognitivismo ou o Construtivismo, as três teorias da aprendizagem mais frequentemente utilizadas no desenho de ambientes instrucionais, segundo Siemens (op. cit.), pertencem a um tempo em que a aprendizagem não beneficiava do tremendo impacto da tecnologia, como acontece actualmente. Assim, não têm em conta os actuais ambientes sociais subjacentes ao processo de aprendizagem, nem outros aspectos muito relevantes, como sejam a mobilidade profissional ao longo da vida, a importância da aprendizagem informal, a grande variedade de formas e meios de aprendizagem – através de comunidades de práticas, redes pessoais ou tarefas ligadas ao desempenho de uma profissão, desenvolvendo-se continuamente ao longo da vida. (11 p. 106)

São precisos novos estudos para utilizar na escola presencial. Claro que não se devem abandonar os estudos anteriores, mas a maioria dos livros a que acedi, mesmo os mais recentes, baseiam-se em perspectivas anteriores ao aparecimento da Web 2.0.
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O FIM DA SALA DE AULA? A desmotivação que alguns alunos apresentam na escola e o discurso que esta transmite ao aluno e que se afasta do seu mundo de interesses, leva alguns alunos a não querer estar na sala de aula. No entanto, se o aluno não quer aprender na tradicional sala de aula, talvez possa aprender fora dela. Desde há alguns anos que está "tudo" na Net, incluindo os livros, os exercícios e as respostas destes. Será este o fim do ensino na sala de aula? A escola não poderá desaparecer, pois para além do estado precisar controlar os currículos, as famílias continuam a precisar de um lugar para depositar os jovens e estes precisam de um local físico para sociabilizar. A possibilidade do estudante aprender fora da tradicional sala de aula, parece estar a ganhar adeptos entre os nossos decisores políticos. Algumas escolas em Portugal estão a ser remodeladas e a empresa Parque Escolar, responsável por essa modificação está a preparar novos espaços dentro da escola, veja um excerto de uma notícia publicada no jornal Público em 7/6/2010:
Uma escola descentrada da sala de aula, em que os alunos se espalham por espaços informais, com os seus computadores portáteis, cruzando-se com os professores na biblioteca e discutindo projectos - é esta a visão que a Parque Escolar tem para o ensino em Portugal (...) Num modelo muito inspirado em experiências de países como a Finlândia ou a Holanda, a Parque Escolar propõe uma escola com espaços mais informais (13)

Durante anos os professores aprenderam a sua profissão com os seus mestres e orientadores, pouco a pouco foram integrando as tecnologias que existiam. No entanto, a maioria dos professores e decisores políticos não conviveu enquanto jovem num ambiente Web e muito menos num ambiente da Web 2.0 (que tem cerca de 6 anos). Por isso, a escola não está preparada para lidar com novas práticas educativas e continua agarrada aos currículos que descendem em linha directa da escola escolástica. Imaginando que os professores possuem pensamento crítico sobre as aprendizagens em espaços informais, que conhecem metodologias que incorporem a Web 2.0 e que estejam
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disponíveis bons recursos educativos que permitam à escola simular aprendizagem formais como sendo informais, então talvez a escola consiga acompanhar a linguagem dos estudantes e as necessidades da preparação dos jovens para a nova sociedade em rede. A INFORMATIZAÇÃO DA SALA DE AULA. Em Novembro de 2005, os ministros responsáveis pelas Políticas da Sociedade da Informação dos Estados Membros da União Europeia defenderam o fortalecimento de uma Economia Digital Europeia apostando na generalização do uso das TIC na aprendizagem (14 p. 2) Em Portugal, em 2007, arranca o Plano Tecnológico da Educação e com ele o início da informatização das salas de aula e os programas e.escola e e.escolinha que visam levar aos estudantes e através destes às famílias computadores com ligação à Internet. Para o programa e.escolinhas foi escolhido um computador de baixo custo, o Magalhães, clone do Classmate PC que está presente em mais de 30 países (15). A informatização das escolas é global. Estão criadas condições para as escolas ficarem ligas à rede, para que os estudantes adiram desde os primeiros anos de escolaridade às ferramentas da Web 2.0. Por isso, está em marcha uma revolução nas aprendizagens. IMPACTO DA WEB 2.0 NA APRENDIZAGEM FORMAL E INFORMAL Em 2006, foi realizado um projecto de criação de um wiki "O lugar onde moro é assim" com alunos do ensino básico e que teve a colaboração de escolas brasileiras e portuguesas. Os autores justificam deste modo o porquê deste projecto:
Vivemos uma época em que os avanços tecnológicos e o acesso à informação são muito rápidos. Os jovens de hoje estão cada vez mais atualizados, informados e interessados nos avanços das tecnologias. A escola não pode ficar à margem dessa realidade, repetindo modelos tradicionais de transmissão de conhecimento. É necessário que o professor seja o mediador no processo de construção de conhecimento, instigando a pesquisa e a troca de idéias entre professor-aluno e aluno-aluno. Nesse contexto, a Internet é uma excelente ferramenta que pode tornar o processo educacional mais dinâmico e eficaz, possibilitando ao aluno traçar seu próprio caminho de aprendizagem através da interação com outros estudantes separados geograficamente. (16)

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Repare-se que se fala de Internet como sendo a ferramenta que permitiu este projecto, mas a ferramenta utilizada foi um wiki que apareceu apenas com a Web 2.0 pelo que não seria possível prever e realizar este projecto em 1996. "Uma das escolas mais avançadas do mundo é portuguesa" esta frase foi manchete em vários jornais, por exemplo, em Fevereiro de 2010 a revista Visão dedica um artigo a este tema:
Terminado o dia de escola, João anda com a mãe no campo a cuidar da horta. - Olha João! - diz a sua mãe. - Um ninho de melros aqui no ervilhal. Entusiasmado, o rapaz corre desenfreadamente até casa para ir buscar o Magalhães. Liga o pequeno portátil ainda antes de sair do quarto e desabelha, de novo, em grande velocidade, para junto da mãe. Pelo caminho, a câmara, sempre em sobressalto, filma-lhe o rosto e vai deixando antever pedaços do sinuoso percurso. Riachos, poças de água, algumas pedras, silvas. A arfar, João chega, finalmente, à plantação de ervilhas. Com uma das mãos afasta, cuidadosamente, os pés das plantas e mostra o ninho. Perfeito. Vêem-se, até, dois pequenos ovos esverdeados. O último plano do filme-mudo é o rosto feliz do rapaz, com o boné de pala para o lado. (...) Foi com exemplos como este, de João, cujo filme está disponível no YouTube, que a EB1 de Várzea de Abrunhais conquistou a atenção da Microsoft e recebeu, em fins de 2009, um prémio que a coloca entre as escolas tecnologicamente mais inovadoras do mundo. É, desde então, a única em Portugal e uma das 31 em todo o planeta. (...) Foi, precisamente, com o blogue que a janela da pequena escola de Várzea de Abrunhais se abriu ao mundo. (17)

Este é outro exemplo de um projecto apenas possível graças à utilização da Web 2.0. Começa a ter efeito o impacto da Web 2.0 na aprendizagem formal. George Siemens escreve em 2009 que todos temos algo a aprender com o que cada um publica na rede, mesmo com o que é publicado por não peritos.
I’ve gained much from being a transparent learner. Over the last nine years – on blogs, wikis, and recently Twitter – I’ve expressed half-formed ideas and received the benefit of constructive (and critical feedback). I generally focus on what I’ve gained, but I suspect readers of my sites and articles have gained something from the experience as well. Putting ideas out for discussion contrasts with formal “reach a conclusion and publish” model. (...) Watching others learn is an act of learning. When someone decides to share their thoughts and ideas in a transparent manner, they become a teacher to those who are observing. (...) The varying cognitive architecture of those who are new to a subject and those with significant experience provides support to the value of peer-to-peer learning. A student who has just started blogging can likely relate better to someone who is still only considering blogging. when we make our learning transparent, we become teachers. Even if we are new to a field and don’t have the confidence to dialogue with experts, we can still provide important learning opportunities to others. (18)

Com o impacto da Web 2.0 na aprendizagem informal está facilitada a criação e divulgação de grupos de interesse na medida em que cada um pode publicar e deixar comentários ao
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trabalho dos outros. O impacto na aprendizagem informal tornou este tipo de aprendizagem num dos motores de evolução da própria Web 2.0 e já se comenta a possibilidade de em breve surgir uma Web semântica e uma Web 3.0. CONCLUSÃO O relatório "Educação: um tesouro a descobrir" (1) aponta que o ensino formal não tem em conta os pilares aprender a viver juntos "a fim de participar e cooperar com os outros em todas as actividades humanas" (1 p. 77) e aprender a ser que "deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa - espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade" (1 p. 85). Este pilar depende dos outros três
(1 p. 77) pelo que se o ensino formal não desenvolve o pilar aprender a viver juntos não poderá

aspirar ao quarto pilar. A Web 2.0, por permitir que cada um publique os seus trabalhos e opiniões e participe em discussões a nível global e por permitir aos alunos criarem trabalhos colaborativos e cooperativos com qualquer um da rede, vem ao encontro das recomendações do relatório (1) que afirma que os cidadãos devem Aprender a conviver - viver juntos "desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências - realizar projectos comuns e preparar-se para gerir conflitos - no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz." (1 p. 88) Em suma, a Web 2.0 veio interligar as aprendizagens formal e informal e contribuir para sustentação dos quatro pilares que, segundo as ideias de 1996, suportam a construção da sociedade em rede. Será que estes pilares estão a ser implementados no ensino? Assim que for disseminada a utilização da Web 2.0 no ensino, sim.

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REFERÊNCIAS
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