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PREVALÊNCIA DE SINTOMAS OSTEOMUSCULARES EM PROFISSIONAIS

CABELEIREIROS DE POUSO ALEGRE

Juciana Michele Silva1; Vagmar Gonçalves Teixeira2; Ricardo Bernardes Cunha n;


Betânia Moraes Cavalcanti Rochan
1
Universidade do Vale do Sapucaí/Fisioterapia, Avenida Alfredo Custódio de Paula, 240,
jucyana78@hotmail.com, v_ag_mar@hotmail.com, ricardobernardes@hotmail.com,
rocha2010@oi.com.br

Resumo- O objetivo deste estudo foi verificar a prevalência dos Distúrbios Osteomusculares Relacionados
ao Trabalho (LER/DORT) em profissionais cabeleireiros por meio de relatos de sintomas, caracterizando as
regiões anatômicas mais acometidas, e identificando e analisando os fatores de risco para LER/DORT
existentes no trabalho. A pesquisa foi realizada por meio da aplicação do Questionário Nórdico de Sintomas
Osteomusculares e da Planilha RULA, em uma amostra extraída de um universo de 15 profissionais
atuantes em clientela feminina e que trabalham a maior parte da jornada de trabalho em atividades como:
embelezamento (secagem-escova) e tratamento capilar (lavagem de cabelo). De acordo com os resultados
constatou-se um alto índice de sintomas osteomusculares nestes indivíduos, evidenciado nas regiões dos
punhos/mãos/dedos e ocasionando um afastamento nos últimos 12 meses antecedentes ao estudo.

Palavras-chave: LER/DORT, salão de beleza, profissionais cabeleireiros,


Área do Conhecimento: Ciências da saúde

Introdução Osteomusculares Relacionados ao Trabalho,


DORT (ASSUNÇÃO; ALMEIDA, 2003).
O crescimento no setor de Higiene Pessoal e Neste sentido propusemos um estudo que teve
Beleza, segundo dados da Associação Brasileira como objetivo identificar alguns fatores
de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos- relacionados às condições de trabalho de
ABIHPEC foi bem mais expressivo que o restante cabeleireiros que pudessem indicar riscos, e
das indústrias em geral, apresentando uma taxa investigar junto a esse grupo de trabalhadores, os
de 10,9% de crescimento nos últimos 12 anos. A sintomas osteomusculares mais freqüentes que
estética capilar é um processo produtivo que pode provavelmente tenham nexo causal com as
envolver lavagem, cortes, escova, tinturas, atividades laborais. E, a partir desses dados,
hidratação, penteados, ondulação, e outros possam sugerir estratégicas para minimização da
(ABIHPEC, 2008/2009). sobrecarga.
De acordo com a Classificação Brasileira de
Ocupação - CBO, do Ministério do Trabalho em Metodologia
2007, o profissional cabeleireiro trabalha em
horários extremamente irregulares, durante longos Trata-se de um estudo observacional de coorte
períodos na posição em pé e em posturas transversal, realizado em diversos salões de
inadequadas, realizando as atividades com forte cabeleireiros de Pouso Alegre/MG. Os sujeitos da
componente estático em musculatura de MMSS e pesquisa foram 15 cabeleireiros, ambos os sexos,
MMII e manuseios de ferramentas e equipamentos extraídos de um universo de 25 profissionais, que
que incluem secadores, pranchas, tesouras, atuam junto à clientela feminina e que trabalham
pentes, escovas, pincéis, lâminas, grampos e em atividades como: tintura; corte;
outros. Além disto, acumulam funções na atividade embelezamento (secagem-escova); tratamento
laboral e fazem uma jornada dupla de trabalho em capilar (lavagem de cabelo) e
casa. alisamento/permanente. Dentre as cinco
Esses fatores podem determinar uma atividades mais freqüentes foram escolhidas duas:
sobrecarga ao sistema osteomuscular, que embelezamento (secagem-escova) e tratamento
inicialmente poderá se manifestar através de capilar (lavagem de cabelo). Foram inclusos os
queixas de desconforto, dor, dormência e outros profissionais alfabetizados que trabalhavam mais
sintomas que apontam para a existência de de 6 h/dia durante no mínimo 4 dias da semana e
fatores agressores e, se não forem eliminados ou aqueles que trabalhavam há mais de 2 anos na
controlados, poderão posteriormente desencadear área; os excluídos foram aqueles que não
alterações estruturais como os Distúrbios aceitaram participar da pesquisa. Para identificar a

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freqüência dos sintomas osteomusculares, De acordo com a Figura 1, os resultados
quantificar as regiões mais acometidas e levantar evidenciaram nos últimos 12 meses uma maior
dados pertinentes ao aparecimento de DORT foi ocorrência de queixas em região de pescoço
aplicado o Questionário Nórdico de Sintomas (19%), seguida da região de ombro (28%) e
Osteomusculares – QNSO (MELO, 2008). Para punhos/mãos/dedos com (22%). Nos últimos 7
avaliar os fatores biomecânicos das atividades dias em região de pescoço (18%), região de
mais freqüentes utilizou-se a Planilha RULA - ombro (29%) e punhos/mãos/dedos com (23%),
Rapid Upper Limb Assessment, desenvolvida por salientamos que os sujeitos avaliados
Mcatamney e Corlett (1993), A RULA avalia apresentaram queixas em mais de uma região
número de movimentos, posição estática, força, acelerando o seu afastamento. Em relação ao
postura de trabalho determinada pelo afastamento nos últimos 12 meses obtivemos
equipamento e tempo de trabalho sem como resultado de prevalência a região de
interrupção. Os dados foram analisados a partir pescoço (15%), seguida pela região de ombro
dos resultados obtidos pelos questionários em (31%) e punhos/mãos/dedos com (54%).
relação às áreas de desconforto corporal referida
como auxílio do programa Excel® que foram
expostos em gráficos e discutidos. As Análise de risco para a atividade:
considerações éticas do presente estudo secagem (escova)
respeitaram as diretrizes sobre pesquisas que
envolvem seres humanos e teve seu projeto
aprovado pelo Comitê de Ética da Univás em
27/04/2009 sob nº. protocolo 1091/09. Os autores 48% 52% Lado direito
desta pesquisa se comprometeram a atuar com Lado esquerdo
respeito e responsabilidade garantindo o
anonimato e o sigilo de todas as informações
obtidas.

Resultados preliminar Figura 2- Análise de risco para a atividade:


secagem (escova)
Foram avaliados 15 sujeitos, com o objetivo de
identificar as queixas de desconforto, dor e A figura 2, representa os lados do corpo mais
dormência nas regiões de pescoço, ombros, acometidos, referentes aos riscos biomecânicos
cotovelos, antebraços, punhos/mãos/dedos causados pelo manuseio de equipamentos e
referentes aos últimos meses e dias. ferramentas, posturas inadequadas e sobrecarga
excessiva durante a jornada de trabalho
relacionado com atividade de secagem de cabelo
Número de Queixas (escova).
Sintomatológicas por Região Observa-se que 52% dos riscos foram mais
Corporal e Consequentes acometidos do lado direito comparado-se com o
Afastamentos outro lado.

12
10 Anáise de risco para a atividade:
8 Últimos 12 lavagem de cabelo
6 mees
4
2
0 Últimos 7 dias
54% 46% Lado direito
Om o
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Lado esquerdo

...
b

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sc

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Afastamento
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nos últimos 12
meses
Figura 3- Análise de risco para a atividade:
lavagem de cabelo
Figura 1. Número de Queixas Sintomatológicas
por Região Corporal e Consequentes A figura 3, representa os lados do corpo mais
Afastamentos acometidos, relacionados aos riscos biomecânicos

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causados pela postura inadequada e sobrecarga profissionais cabeleireiros atuantes em Pouso
excessiva relacionado com a atividade de lavagem Alegre/MG.
de cabelo durante a jornada de trabalho. Identificou-se, por meio de relatos de sintomas
Observa-se que 54% dos riscos foram do lado e da análise de riscos biomecânicos, que os
esquerdo comparado-se com o outro lado. fatores ocupacionais influenciam diretamente no
desenvolvimento de LER/DORT em profissionais
cabeleireiros; o que condiz com os dados
Discussão encontrados na literatura sobre outras atividades
de trabalho, estando esses relacionados,
A relevância de uma pesquisa abordando os especificamente, aos fatores biomecânicos
aspectos inerentes à atividade dos profissionais (posturas inadequadas e desconfortáveis), aos
cabeleireiros se justifica pela escassez de estudos fatores organizacionais (ausência de pausas,
na área e a conseqüente falta de dados que jornada exaustiva de trabalho, exigências das
fundamentem um aprofundamento nas principais tarefas) e ao manuseio de instrumentos e
afecções relativas a esses profissionais, seus ferramentas de uso inadequado.
fatores predisponentes, bem como um A partir dos resultados apresentados, mediante
embasamento adequado para um melhor essa prevalência elevada para LER/DORT,
tratamento e acompanhamento de acordo com as considera-se importante a realização de novos
necessidades específicas dessa classe estudos com os profissionais cabeleireiros, assim
trabalhadora (AUGUSTO et al., 2008). como com outros profissionais que exercem suas
Dessa forma, optou-se por apresentar a atividades de trabalhos em empresas de beleza.
situação dessa síndrome e expor os resultados
obtidos na pesquisa realizada com os profissionais Referências
cabeleireiros, assim como identificar trabalhos que
obtiveram resultados semelhantes (MUSSI, 2005). -ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE HIGIENE
Corroborando com esses dados, uma pesquisa PESSOAL, PERFUMARIA E COSMÉTICOS.
realizada por Régis Filho et al (2006) onde Disponível em: http://www.abihpec.com.br. Acesso
avaliaram 771 sujeitos, através de questionários, em 15 maio 2009.
com o objetivo de estabelecer a associação das
variáveis com o fato de ter ou não ter -ASSUNÇÃO, A.; ALMEIDA, I. M. Doenças
LERs/DORTs e indicando apenas quais as osteomusculares relacionadas com o trabalho:
variáveis de identificação e perfis associadas aos membro superior e pescoço. In: Mendes R,
níveis de gravidade ou tempo. Os resultados organizador. Patologia do trabalho: atualizada e
evidenciaram uma maior ocorrência em região de ampliada. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2003, p. 15-
ombro/braço (39,40%), seguida da região do 39.
punho/mão (18,30%), e pescoço com (17,20%).
Um estudo realizado por Mussi (2005), com o -AUGUSTO, V. G.; SAMPAIO, R. F.; TIRADO, M.
objetivo de verificar a prevalência dos distúrbios G. A.; MANCINI, M. C.; PARREIRA, V. F. Um olhar
osteomusculares relacionados ao trabalho e, sobre as LER/DORT no contexto clínico do
identificar e analisar os fatores de risco para fisioterapeuta. Revista Brasileira de Fisioterapia,
LER/DORT, que estudou 220 cabeleireiras, tendo São Carlos: v. 12, n. 1, p. 49-56, jan. - fev. 2008.
como resultado de prevalência a região de ombro
(48,6%), seguida pelo pescoço (47,3%%) e pela -CLASSIFICAÇÃO BRASILEIRA DE OCUPAÇÃO.
coluna (38,6%). MINISTÉRIO DO TRABALHO. Disponível em:
Atualmente os Distúrbios Osteomusculares http://www.mtecbo.gov.br. Acesso em 15 maio
Relacionados ao Trabalho (LER/DORT) 2009.
representam um problema de saúde mundial
(MUSSI, 2005). -MCATAMNEY, L.; CORLETT, E.N. RULA: a
survey method for the investigation of work-related
Conclusão upper limb disorders. Applied Ergonomics,
Nottingham: v. 24, p. 91-99, 1993.
Considerando os achados preliminares,
verificou-se neste estudo, por meio de relatos de -MELO W. V. C. Avaliação ergonômica de
sintomas, uma prevalência para os distúrbios membro superior de operadores de trem
osteomusculares relacionados ao trabalho metropolitano: Uma investigação de
(LER/DORT). sobrecargas no sistema osteomuscular.
Os resultados demonstraram que as regiões de Dissertação (Mestrado em Educação Física) -
punhos/mãos/dedos foram os mais responsáveis Departamento de Educação Física e Esporte. São
pelos afastamentos dos sujeitos analisados nos Paulo: Universidade de São Paulo, 2008.

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-MUSSI, G. Prevalência de Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho
(LER/DORT) em Profissionais Cabeleireiras de
Institutos de Beleza de dois Distritos da cidade
de São Paulo. Tese (Doutorado em Ciências) -
Departamento de Ciências da Faculdade de
Medicina. São Paulo: Universidade de São Paulo,
2005.

-REGIS FILHO, G. I.; MICHELS, G.; SELL, I.


Lesões por esforços repetitivos/ distúrbios
osteomusculares relacionados ao trabalho em
cirurgiões-dentistas. Revista Brasileira de
Epidemiologia, Santa Catarina: p.346-359, 2006.

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