Você está na página 1de 2

A vida é assim: peixe vivo, mas que só vive no correr da água.

Quem quer prender esse


peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo do tempo, falo da água. Os
filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data
de nascimento? Em que dia exacto nos nascem os filhos?
Conselhos de minha mãe foram sempre silêncios. Suas falas tinham o sotaque de
nuvem.
- A vida é que é a mais contagiosa – dizia.
Eu lhe pedia explicação do nosso destino, ancorados em pobreza.
- Veja você, meu filho, já apanhou mania dos brancos! – Inclinava a cabeça como se a
cabeça fugisse do pensamento e me avisava: - Você quer entender o mundo que é coisa
que nunca se entende.
Em tom mais grave, me alertava:
- A idéia lhe poise como a garça: só com uma perna. Que é para não pesar no coração.
- Ora, mãe...
- Porque o coração, meu filho, o coração tem sempre outro pensamento.
Falas dela, mais perto da boca que do miolo. Certa vez, ela me puxou a sentar. Seus ares
eram graves. E disse:
- Ontem tive nem sei se foi um pensamento.
- Pensou o quê?
- Foi assim pouco mais ou menos: eu precisava não viver para lhe conseguir ver. Me
está entender?

********

_ Tenho saudades de minha casa, lá na Itália.


- também eu gostava de ter um lugarzinho só meu, onde pudesse chegar e me
aconchegar.
- Não tem, Ana?
- Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.
- Como não?
- Vocês, homens, vêm para casa. Nós somos a casa.

*******

- Vou lá fora pendurar os ossos.


Meu pai sempre anunciava a decisão, já no virar da porta. Falava como se estivesse
sozinho. Era assim há muitos anos. Como se lhe doessem os ossos e sofresse de grandes
cansaços, ele, antes de deitar, se libertava do esqueleto para melhor dormir.
Assim fora, desde há quase uma vida. Nas poucas noites que partilhávamos, tudo se
repetia: jantávamos em sinal de silêncio, conforme sua interdição. Dava mau azar
alguém falar durante a refeição. Se escutavam apenas os dedos emagrecendo a farinha,
molhando e remolhando a ufa no caril de peixe seco. E ouviam-se os mastigares, em
flagrantes de maxilas. Depois do jantar, ele se erguia e proclamava a sua intenção de se
desossar. Entrava no escuro e só regressava de manhã, recomposto como orvalho em
folha de madrugada. Nunca testemunhei com medo de que notasse meus desconfios.
Assim testemunhei com medo que notasse meus desconfios. [...]
Ele não se desfazia, quando lhe pedíamos contas. Respondia devolvendo a pergunta:
- O nosso corpo é feito de quê? De carne, sangue, águas contidas?
Não, segundo ele, o corpo era feito de tempo. Acabado o tempo que nos é devido,
termina também o corpo. Depois de tudo, sobra o quê? Os ossos. O não-tempo, nossa
mineral essência. Se de alguma coisa temos que tratar bem é o esqueleto, nossa tímida e
oculta eternidade.

********

Interesses relacionados