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cronistas do descobrimento

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CRONI STAS DO DESCOBRI MENTO: Os documentos de informação e a introdução da cultura européia em nossa terra.

O Brasil na visão dos descobridores. Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. (Oswald de Andrade) Neste mesmo dia, à hora de vésperas, avistamos terra! Primeiramente um grande monte, muito alto e redondo; depois, outras serras mais baixas, da parte sul em relação ao monte e, mais, terra chã. Com grandes arvoredos. Ao monte alto o Capitão deu o nome de Monte Pascoal; e à terra, Terra de Vera Cruz. (Carta de Pero Vaz de Caminha Conforme sabemos, vários viajantes europeus estiveram aqui em nossas terras durante o século XVI registrando no papel sua observações pessoais sobre a terra recém descoberta. A necessidade de prestação de contas e a obrigatoriedade do registro sobre o Novo Mundo, em forma de cartas, diários, tratados ou crônicas formam aquilo que chamamos de Literatura de I nformação , de nosso período quinhentista. A chegada das caravelas portuguesas à costa da Bahia, em 1500, colocou frente a frente dois povos muito diferentes. Os viajantes que aqui estiveram no século XVI mostraram como se deu esse contato. Nos relatos que fizeram, encontramos o registro de imagens da terra e de sua gente que marcaram para sempre a identidade brasileira. Embora A Carta de Caminha contenha a primeira descrição das terras brasileiras, não foi ela quem divulgou, para o público europeu, as características do território americano. Por ser um documento que continha informações importantes para a coroa portuguesa, a Carta ficou guardada nos arquivos da Torre do Tombo até o início do século XIX. O 22 de abril de 1500 é a data oficial da integração do território brasileiro no sistema econômico mercantilista, em vigor na Europa, e que teve no comércio do ouro e das especiarias sua principal atividade. O território português conquista nossas terras e há a inclusão do Brasil na História universal. O Brasil passa então a ser tratado como celeiro para a Coroa portuguesa, submetendo-se ao modelo econômico imposto pela Metrópole, que via o Brasil apenas como um fornecedor de matéria-prima e também de metais preciosos. A ocupação inicia primeiramente pelo litoral que corresponde do Nordeste e ao Sudeste. Portugal inicia assim o momento de luta entre os índios, pela posse da terra, e com outros povos (espanhóis e franceses), pelo direito de explorar a terra recém-descoberta. Por fim, depois de várias lutas, Portugal implanta-se definitivamente em nossa terra, criando inclusive um sistema políticoadministrativo. Durante o primeiro século de colonização, Portugal se voltava com mais afinco para as especiarias encontradas nas Índias, que, naquele momento, lhe era mais lucrativo, principalmente em seu apogeu, com a viagem de Vasco da Gama, em 1498. O pau-brasil, por não apresentar tanta dificuldade nem mesmo investimento para obter sua

exploração, passou o ser o produto de maior importância para os portugueses, que até por volta de 1560 utilizava esse produto para tingir seus tecidos em Portugal. Inicia-se um processo de exploração dos índios, quando os portugueses, em troca de machados, facas e até armas de fogo, faziam com que os nativos derrubassem e transportassem as árvores, levando-as até o litoral. Conseqüentemente, essa exploração demasiada, levou a um desmatamento rápido, devastando as matas do litoral, levando os nativos a se distanciarem cada vez mais em busca de novas árvores para satisfazer a ganância do europeu. Com o passar do tempo, a chegada de novos exploradores levaram o rei de Portugal, dom João III a organizar expedições à nossa terra com o intuito de protegê-la dos invasores, em defesa, principalmente, do litoral brasileiro. Apesar da expedição de Cristóvão Jacques, foi mesmo a partir de 1531, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, com a fundação da Vila de São Vicente, no litoral paulista, que a ocupação definitiva do território se consagra e se inicia a criação de um centro de expansão portuguesa rumo ao litoral. Sem recursos para explorar a Colônia, dom João III cria o sistema de capitanias hereditárias, que como sabemos, constitui a primeira divisão administrativa brasileira, em que terras foram doadas a donatários pela Coroa portuguesa. Novo fracasso de Portugal com o fim do sistema de capitanias hereditárias. O próximo passo seria a implantação do Governo Geral, que criou uma centralização administrativa e a defesa da Colônia. O primeiro Governador Geral foi Tomé de Sousa, que fundou a cidade de Salvador, na Bahia de Todos os Santos e trouxe consigo a Companhia de Jesus. Na administração de Duarte da Costa, segundo Governo Geral, os franceses ocuparam o território brasileiro durante cinco anos até que por fim, Mem de Sá, como o terceiro Governador Geral, teve a incumbência de expulsar os franceses de nosso território. Essa luta entre portugueses e franceses ainda durou até 1565, quando Portugal fundou a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, dominando definitivamente a região. A partir da segunda metade do século XVI, Portugal começa a dar mais importância a questão econômica que a política em nosso território. Com o fim da exploração do pau-brasil, a Metrópole passa a valorizar a agricultura, tornando a cana-de-açúcar o principal produto a ser explorado na Colônia. Pelo fato de Pernambuco e Bahia apresentarem uma maior proximidade dos portos portugueses e o clima e o solo também serem favoráveis, a economia brasileira desenvolve-se no Nordeste, pois barateava mais os custos de transporte. Inicia-se assim o processo de escravidão do negro em nosso território, uma vez que Portugal faz a concessão das terras a latifundiários e para o plantio do novo produto econômico era necessária uma mão de obra diferente da do índio, uma vez que esses nativos resistiram à escravidão e, além do mais, o tráfico negreiro também era lucrativo para Portugal. Ao lado dele, o comércio regular com o Brasil também era importante elemento da exploração econômica da Colônia. Comerciantes compravam açúcar por preços baixos nas zonas produtivas nordestinas e revendiam por altos preços na Europa. Ao mesmo tempo, vendiam no Brasil, a preços também altos, produtos manufaturados e alimentos,

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que eram escassos, devido ao cultivo exclusivo (monocultura) do açúcar nos latifúndios. A consolidação do domínio de Portugal sobre o Brasil se dá nas últimas do século XVI, com o aumento dos lucros com a cana de açúcar e a ocupação de grande parte das terras litorâneas. Afirma Antônio Carlos Olivieri: Ironicamente, o ápice desse processo aconteceu sob o domínio espanhol. Em 1578, na inexistência de herdeiros portugueses ao trono, o rei Felipe II da Espanha, neto de D. Manuel, foi considerado o herdeiro legítimo do trono português. Em 1580, Portugal e suas Colônias, incluindo o Brasil, passaram a ser governados pela corte de Madri. O domínio espanhol se estende até 1640. A LI TERATURA I NFORMATI VA DO SÉCULO XVI : Primeiras manifestações literárias e informativas sobre o Brasil As primeiras manifestações literárias sobre a América estão delimitadas pelo seu caráter informativo. Expressam, sem maiores intenções artísticas, os contatos do europeu com o novo mundo. São documentos a respeito das condições gerais da terra conquistada. Neles se descrevem os problemas, as prováveis riquezas, as lutas de dominação, a paisagem física e humana, etc. as cartas de Fernão Cortez sobre a conquista do México são o exemplo mais famoso dessa literatura informativa. A princípio, a visão européia é idílica. Dentro da tradição utópica do Renascimento, a América surge como o paraíso perdido, local de maravilhas e abundância. O país de Eldorado seduz a imaginação e os nativos aparecem sob tintas favoráveis. Porém, à medida que em que os índios começam a se opor aos desígnios imperiais, iniciando a guerra contra os invasores, a visão rósea transforma-se. A natureza continua exuberante na ótica colonizadora mas os habitantes da terra são pintados como seres boçais e selvagens. No Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha inicia a série de documentos que compõem a nossa literatura informativa. Ainda dentro da linha da exaltação da terra, ao lado de registros realistas dos primeiros esforços de colonização, encontramos a História da província de santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo (1576), Tratado descritivo do Brasil, de Gabriel soares de Sousa e Tratados da terra e gente do Brasil, de Fernão Cardim. Tem esta província, assim como vai lançada da linha equinocial para o sul, oito capitanias povoadas de portugueses, que contém cada uma em si, pouco mais ou menos, cinqüenta léguas de costa e demarca-se umas das outras por uma linha lançada leste-oeste: e assim ficam limitadas por estes termos entre o mar oceano e a linha da repartição geral dos reis de Portugal e Castela. (...) A primeira e mais antiga se chama Tamaracá, a qual tomou este nome de uma ilha pequena onde sua povoação está situada. Pero Lopes de Sousa foi o primeiro que a conquistou e livrou dos franceses, em cujo poder estava quando foi povoar: esta ilha em que os moradores habitam divide da terra firme em braço de mar que a rodeia, onde também se ajuntam alguns rios que vêm do sertão.

( História da província de santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo) A literatura jesuítica também fez parte desses documentos escritos no século XVI. Os impérios continham em sua expansão uma profunda ambigüidade. Ao espírito capitalista-mercantil associavam um certo ideal religioso, definido por Darcy Ribeiro como salvacionista. Dezenas de religiosos acompanhavam as expedições a fim de converter os gentios. O racionalismo capitalista não se encontrava em estado puro, tanto em Portugal como na Espanha, devido à ausência de uma legítima burguesia comercial. Ao contrário da Inglaterra e dos Países-Baixos, onde triunfara o capitalismo e o protestantismo, nos países ibéricos vingara a Contra-Reforma, de inspiração nitidamente feudal. Dentre as várias ordens religiosas, destacou-se a jesuítica. Disciplinados e ardorosos, os padres da Companhia de Jesus lançaram-se ao desconhecido no intuito de salvar a alma indígena. A história colonial é também a história dos jesuítas, pois além do trabalho catequético exerceram o domínio absoluto da vida educacional e, portanto, cultural até meados do século XVIII. Organizando um sistema de ensino humanista e religioso, muitas vezes desligavam os alunos da realidade concreta brasileira, preferindo o ensino de teologia, latim e retórica aos ofícios e às ciências. O seu trabalho com os nativos até hoje gera uma certa discussão. De um lado, os admiradores celebram a resistência dos padres á ganância dos colonos, lembram as reduções ou missões, onde se praticava uma espécie de socialismo cristão. De outro lado, os detratores vêem nos padres agentes das potências européias, domesticando os indígenas até o seu extermínio final. Independente de tais posicionamentos, não podemos deixar de assinalar algumas contradições na prática cotidiana dos religiosos. Se defendiam o nativo da escravidão brutal, também o deculturavam, destruindo o seu conjunto de mitos, crenças e rituais e oferecendo-lhe, em troca, um estatuto de valores estranho ao dia a dia das aldeias e tabas. Desta maneira ir-lhes-ei ensinando as orações e doutrinando-os na Fé até serem hábeis para o batismo. Todos estes que tratam conosco, dizem que querem ser como nós, senão que não têm com que se cubram como nós, e este só inconveniente tem. Se ouvem tanger a missa, já acodem e quanto nos vêm fazer, tudo fazem, assentam-se de giolhos, batem nos peitos, levantam as mãos aos céu e já um dos principais deles aprende a ler e toma lição cada dia com grande cuidado e em dois dias soube o A, B, C todo, e o ensinamos a benzer, tomando tudo com grande desejos. Diz que quer ser cristão e não comer carne humana, nem ter mais de uma mulher e outras cousas; somente que há de ir à guerra, e os que cativar, vendê-los e servir-se deles, porque estes desta terra sempre têm guerra com outros e assim andam todos em discórdia, comem-se uns aos outros, digo os contrários. É gente que nenhum conhecimento tem de Deus. Têm ídolos, fazem tudo quanto lhes dizem. ( Carta ao padre mestre Simão Rodrigues de Azevedo, de Manuel da Nóbrega)

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Foi um período de intensa produção de textos documentais. Para o vestibular da UFPB-2007, foram indicadas as seguintes crônicas:

1) A Carta do achamento do Brasil, de pero Vaz de Caminha 2) Diário de Navegação (1530), de Pero Lopes e Sousa. 3) Tratados da terra e da gente do Brasil, de Fernão Cardim 4) Tratado Descritivo do Brasil (1587), de Gabriel Soares de Sousa. 5) Relação da viagem de Pedro Álvares Cabral, de Piloto Anônimo. 6) Carta e Diálogo sobre a conversão do gentio, de Manuel da Nóbrega 7) As singularidades da França Antártica, de André Thevet. 8)Viagem ao Brasil, de Hans Standen 9) Viagem à terra do Brasil, de Jean de Lery 10) Santa I nês e Carta, de José Anhieta

E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que oram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais era muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam Botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. A descrição e a admiração diante do elemento nativo também podem ser destacadas como ponto fundamental na percepção do escrivão, já que se trata de um choque cultural entre o velho e o novo mundo, o que faz com que o cronista se torne, muitas vezes, preconceituoso e etnocêntrico em relação ao índio. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousasse os arcos. E eles o pousaram A questão do choque de linguagem não é, à primeira vista, percebida pelo colonizador; no momento em que se inicia um aparente diálogo entre nativos e europeus, o escrivão atribui ao barulho do mar o fato de não poder perceber o que eles (índios) falavam, não obtendo, portanto, nenhum entendimento. Os gestos e trocas de materiais passaram a ser uma forma de comunicação entre os colonizadores e os nativos. É bastante interessante observar que, muito embora haja uma barreira lingüística, portugueses e índios ainda conseguem estabelecer um contato pacífico e um entendimento através da relação de troca de objetos. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, comprida, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de ramihas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza, e com isso se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. O processo de aculturação e dominação se inicia ainda de forma inibida, porém, já se percebe pela descrição feitas dos fatos ocorridos nesse primeiro contato entre brancos e índios que essa dominação é unicamente questão de tempo e oportunidade para que os portugueses iniciem esse processo de domínio sobre os nativos. Os índios passam a dançar e brincar diante dos portugueses, fazendo com que Diogo Dias aproveitasse o ensejo para mandar um gaiteiro que ali trouxe com sua gaita, e meter-se a dançar com os índios. O contraste entre a atitude de preservação e a de destruição que se dá entre os dois povos é latente. Vale observar também que os índios apresentam certa desconfiança em relação aos brancos, da mesma forma que estes procuram sempre uma forma de poder dominá-los, cautelosamente tentando amansá-los . Nota-se que os portugueses, de forma premeditada, agiam cordialmente como maneira mais rápida de poder se estabelecer

11) História da província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo Pero Vaz de Caminha: A certidão de nascimento do país É a primeira expressão de deslumbramento e ao mesmo tempo das inverdades e intenções do colonizador português, através da utilização de uma linguagem fluente e poética, com certo senso de humor, embora seja um tanto grave, de mistura com um ou outro trocadilho malicioso. A Cara revela um estilo bem claro, marcado pela objetividade que convém a um relatório. Carta do achamento do Brasil Relatando ao rei de Portugal o descobrimento, o escrivão da armada da Cabral descreve, deslumbrado, a terra e seus habitantes, registrando as emoções do primeiro contato com os índios. Através de uma expressão solene, Pero Vaz de Caminha inicia seu relato retratando o início da chegada ao Brasil. Mostrando-se ignorante, porém de boa vontade, o escrivão avisa que vai relatar suas impressões sobre a nova terra, de tal forma que não pretende nem alindar nem afear , limitando a colocar no papel somente aquilo que lhe parecer verdadeiro. Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, séc perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais.

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futuramente em nosso território, sem que para isso precisasse de conflitos com os nativos. A impressão inicial que os índios causam em caminha é ótima, sempre a observar que estes estão plenamente aptos a serem civilizados pela ação dos brancos. A leitura do Evangelho, durante a celebração da segunda missa em território brasileiro, em 1º de maio, demonstra a necessidade de catequese pretendida pelos colonizadores, o que justifica a presença, mais tarde, de padres jesuítas pertencentes à Companhia de Jesus em nosso território, conforme veremos em textos um pouco mais adiante. E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantara a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o padre Frei Henrique se assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. Percebe-se que essa distribuição feita de crucifixos pelos portugueses aos índios demonstra a ação efetiva de catequização sobre o nativo. De forma bastante equivocada, o escrivão imagina que, pelas atitude dos nativos, estes já estariam aptos ao processo de cristanização, o que na verdade não se pode confirmar esse fato, uma vez que não sabemos se, verdadeiramente, os índios entenderam tal ação por parte dos colonizadores, o verdadeiro significado da religiosidade cristã. Por isso se confirma a superposição religiosa imposta pelo europeu e seu acentuado etnocentrismo, menosprezando ou desconhecendo o sentido da fé indígena. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto à vergonha. Piloto Anônimo: Uma outra versão da História relação da viagem de Pedro Álvares cabral Esse relato feito por um dos pilotos da frota de Cabral teve mais sorte que a de caminha, já que foi mais rapidamente conhecida do que a do primeiro escrivão. Até trava-se uma polêmica sobre a verdadeira autoria dessa narrativa. Quanto ao autor, alguns historiadores acreditam que não se trata de nenhum dos pilotos das seis caravelas da expedição de Cabral, que retornaram a Portugal um ano após o descobrimento de nossa terra. Esse texto nos fornece importantes informações que não constam na Carta de Caminha, nem sempre fazendo o mesmo seguimento que do outro escrivão. De autoria, como já afirmamos, desconhecida, este relato reconstitui a travessia do oceano atlântico pela frota de Cabral, com

informações que complementam e às vezes contradizem o texto de Caminha. O relato inicial mostra de forma bastante objetiva o dia da saída de Portugal, desde a cidade de Restelo, passando por Belém até a chegada ao Brasil. Assim como na Carta de Caminha, o encontro com o nativo também surpreende o piloto, tanto pelas vestimentas quanto pelo aspecto físico do índio; diferentemente da Carta , aqui a falta de comunicação não é atribuída ao barulho do mar, e sim à própria diferença de linguagem. ...uma gente parda, bem disposta, com cabelos compridos; andavam todos nus sem vergonha alguma,e cada um deles trazia o seu arco com flecha, como quem estava ali para defender aquele rio; não havia ninguém na armada que entendesse a sua linguagem, de sorte que, vendo isto, os dois batéis tornaram para Pedro Álvares e no entanto se fez noite e se levantou com ela um muito rijo temporal. No capítulo II, o escrivão passa a relatar como os homens daquela terra trataram aos colonos, recebendo-os com hospitalidade, e também como ocorreu a celebração da primeira missa. É feita uma descrição das riquezas naturais da terra, sua abundância de árvores e de água, milho, inhame e algodão, e a ausência de animais quadrúpedes, reforçando assim, toda a visão de Caminha. No capítulo III se percebe a intenção catequética, de forte imposição religiosa e a visão etnocêntrica do cronista quando faz referência à cruz que foi enterrada ao chão e o sentimento de piedade que afirma terem expressa os índios em relação ao símbolo cristão. ...os quais começaram a chorar,e foram animados pelos naturais do país, que mostravam ter piedade deles. A exuberância da paisagem também é objeto de admiração do cronista. Esta terra é muito populosa, como vimos navegando ao longo da praia com bom vento e tempo aprazível; além disso, é muito frutífera, como muitos rios grandes e muitos animais, de modo que toda era bem povoada. Pero Lopes de Sousa: A conquista e a posse Tendo chegado ao Brasil juntamente com a primeira expedição, Pero Lopes de Sousa ajudou a combater os franceses, e fixar os limites das terras pertencentes a Portugal e fundar os primeiros núcleos de colonização em nossa terra. Irmão mais moço de Martim Afonso de Sousa, registrou cronologicamente os acontecimentos da expedição de Martim Afonso de Sousa, as aventuras que tiveram que enfrentar no decorrer da viagem marítima e a exploração da terra, bem como a luta com os franceses. Em 1539, em viagem de volta ao seu país, sofreu um naufrágio bem próximo à ilha de Madagascar, tendo desaparecido no oceano. Apresenta um estilo sóbrio no que se refere à descrição que faz da terra, sem acrescentar qualquer que seja uma nota de subjetividade em seu relato, a não ser quando se refere, e de forma bastante rápida, á beleza das mulheres indígenas e o pasmo diante

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da beleza observada às margens do rio do Prata. Por esse motivo, o valor literário de sua obra tem sido contestado pela crítica. Seus relatos são todos basicamente voltados para os acontecimentos cotidianos no mar. Estilo lento, técnico e científico, sendo às vezes, um pouco evocativo e emotivo em relação aos perigos e mistérios do mar. Sábado, 12 do mês de março ao meio-dia tomei o sol em doze graus e dois terços; e em se pondo o sol houve vista de terra, que me demorava a oeste: fazia-me dela seis léguas. E de noite, por nos afastar de terra, fizemos o caminho ao sul e a quarta do sudoeste, até o quarto d alva, que tornamos a fazer o caminho do sudoeste. Percebe-se que o texto apresenta-se de forma muito técnica, já que as referências náuticas e geográficas são extremamente demasiadas. Com certeza, esclarecer todos os detalhes informativos levaria bastante tempo. O vocabulário naval torna-se importante para a compreensão do texto desse cronista. O ritual de antropofagia também tornou-se objeto de admiração desse navegador, conforme se percebe em seu texto abaixo. A gente dessa terra é toda alva; os homens mui bem dispostos, e as mulheres mui formosas, que não hão nenhuma inveja às da Rua Nova de Lisboa. Não têm os homens outras armas senão arcos e flechas; a cada duas léguas têm guerra uns com os outros. Estando nessa baía no meio do rio pelejaram cinqüenta almadias de uma banda,e e cinqüenta da outra; que cada almadia traz sessenta homens todas apavesadas de paveses pintados como os nossos: e pelejaram desde o meio-dia até o sol posto: as cinqüenta almadias, da banda de que estávamos surtos foram vencedores e trouxeram muitos dos outros cativos, e os matavam com grandes cerimônias, presos por cordas, e depois de mortos as assavam e comiam, não têm nenhum modo de física: como se acham mal ao comem, e põem-se ao fumo; e assim pelo conseguinte os que são do que a terra dava, e lhes deixou muitas sementes. Conforme afirmamos anteriormente, esse texto é bastante técnico, não havendo assim importância em dissecá-lo de todo, por apresentar uma preocupação meramente em registrar cada dia de sua estada em terra brasileira. CRONISTAS DO DESCOBRIMENTO1 Essa obra traz uma seleção de onze textos escritos sobre o Brasil, durante o século XVI, e, para a melhor compreensão dela, é necessário lembrar o contexto do

Quinhentismo Brasileiro, com sua produção dividida na Literatura Informativa ou na Literatura de catequese2. - Carta do Achamento do Brasil: Escrita por Pero Vaz de Caminha (escrivão-mor da esquadra liderada por Pedro Álvares Cabral capitão-mor) ao rei de Portugal D. Manuel, e recebida por este em junho de 1500. Considerada a certidão de nascimento do Brasil, mostra o primeiro contato do português com a terra e com o nativo e os ideais mercantilistas portugueses, revelados a partir da exposição dos planos para a exploração da terra recém descoberta. Linguagem: elegante e próxima ao estilo literário (...) não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que para o bem contar e falar , a saiba fazer pior que todos. (19) Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. (20) Função da carta: informar ao rei as impressões do escrivão sobre a viagem, a terra e o índio Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo (...) (19) A tentativa de dar verdade ao fato relatado: números e citações específicas Mandou lançar o prumo3. Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças ancoragem limpa. (20) O índio: apresentação do choque cultural (estranheza) e visão pejorativa (inocente e selvagem) Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave (...) (20) (...) estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos (...)com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima. (21) (...) com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima (...).Todos andam rapados até cima das orelhas; e assim as sobrancelhas e pestanas.(22-23) Literatura Brasileira: Era Colonial Periodização e Textos

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(...) nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós (...).Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. (23-25) A terra: a idéia de descobrimento e posse, a extensão e as riquezas naturais Neste dia,(...) houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra da Vera Cruz. (20) (...) uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.(21) Esta terra, Senhor, me parece que (...), será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma4, muito chã e muito formosa. (25)

Do índio: (...) alguns dos nossos caminharam até uma povoação onde eles habitavam, coisa de três milhas distante do mar (...) (Piloto Anônimo, 31) Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais, Nem nós ainda até agora vimos casa alguma ou maneira delas. (Caminha, 22) - Diário da Navegação: Crônica escrita por Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso de Sousa, de quem foi companheiro na primeira expedição portuguesa propriamente de exploração pelo litoral brasileiro, em busca do Rio Prata, em 1530. O texto foi escrito em forma de diário revelando o dia-a-dia da viagem e as impressões momentâneas dos fatos6. Referências náuticas: Sábado 12 do mês de março ao meio-dia tomei o sol em doze graus e dois terços, e em se pondo o sol houve vista da terra, que me demorava a oeste: fazia-me dela seis léguas. (...) (37) O Caramuru (Diogo Álvares):

- Relação da Viagem de Pedro Álvares Cabral: De autoria desconhecida ( piloto anônimo ), essa narrativa também trata da viagem da esquadra de Cabral, algumas vezes, reafirmando os relatos de Caminha, de outras, dando uma nova versão dos fatos. Da saída de Portugal: (...) Em um domingo, 8 de março daquele ano (1500), estando tudo prestes, saímos (...) de Lisboa (...) Convento de Belém (...) (Piloto Anônimo, 29) A partida de Belém5, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de março. (Caminha,19) Da viagem:

Domingo 13 dias de março (...) achegamos (...) a Bahia de Todos os Santos (...) neta baía achamos um homem português, que havia vinte e dois anos que estava nesta terra; e deu razão larga do que nela havia. (...) (37) Os índios: (...) os homens mui bem dispostos, e as mulheres mui formosas, que não hão nenhuma inveja às da Rua Nova de Lisboa, não têm os homens outras armas senão arcos e flechas; a cada duas léguas têm guerras uns com os outros (...) da banda que (...) foram vencedores; trouxeram muitos dos outros cativos, e os matavam com grande cerimônias, presos por cordas, e depois de mortos os assavam e os comiam (...) (38) A terra:

(...) aos 14 do mesmo mês (março) chegamos às Canárias; aos 22 passamos Cabo Verde (...) (Piloto Anônimo, 29) (...) Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã Canária(...) E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde (...) (Caminha, 19)

Quinta-feira 27 do mês de abril pela manhã houve vista de terra (...) é toda ao longo do mar mui chã sem arvoredo; no sertão serras mui altas e formosas (...) (3940) As dificuldades da viagem: Terça-feira 26 do mês de setembro partimos desta ilha com o vento leste (...) com muita água e relâmpagos (...) (43)

Brasil: uma História: a Incrível Saga de um País

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- Carta ao Padre Mestre Simão Rodrigues de Azevedo: Primeira carta escrita pelo Padre Manuel da Nóbrega do Brasil, em abril de 1549. Dirigida ao Padre Simão Rodrigues, chefe da Companhia de Jesus em Coimbra, relatando os primeiros dias no Brasil e as primeiras impressões sobre o trabalho de catequese dos jesuítas. A saudação religiosa: A graça e amor de Nosso Senhor Jesus Cristo seja sempre em nosso favor e ajuda, Amém. (40) A função da carta: Somente darei conta a Vossa Reverendíssima de nossa chegada a esta terra, e do que nela fizemos e esperamos fazer no Senhor Nosso, deixando os fervores de nossa próspera viagem aos Irmãos que mais em particular a notaram. (47) A condição material: (...)receberam-nos com grande alegria e achamos uma maneira de igreja, junto da qual logo nos aposentamos os padres e irmãos em umas casas a par dela (47) (...)ó, meu Pai, faze com que muitas naves aportem e vem a essa vinha que o Senhor planta. Cá não são necessárias letras mais que para entre os cristãos nossos (...) (49) E não há óleos para ungir, nem para batizar; faça-os Vossa Reverendíssima vir no primeiro navio, e parece-me que os havia de trazer um padre dos nossos. Também me parece que mestre João aproveitaria cá muito, porque a sua língua é semelhante a esta e mais aproveitar-nos-emos cá da sua teologia.(50) A relação política de Manuel da Nóbrega: Eu prego ao governador e a sua gente na nova cidade que se começa, e o padre Navarro a gente da terra. (48) O padre Leonardo Nunes mando aos Ilhéus e Porto Seguro (...) irá um de nós a uma povoação grande, das maiores e melhores desta terra, que se chama Pernambuco (...) (49-50) O índio: (...) a gente da terra vive em pecado mortal, e não há nenhum que deixe de ter muitas negras das quais estão cheios de filhos e é grande mal. Nenhum deles se vem confessar (...) estes desta terra sempre têm guerra com outros e assim andam todos em discórdia, comem-se uns a outros, digo os contrários. É gente que nenhum conhecimento tem de Deus. Têm ídolos (...) (48) (...) são eles tão brutos que nem vocábulos têm (...) parece-nos que não podemos deixar de dar a roupa que

trouxemos a estes que querem ser cristãos, repartindo-lha até ficarmos todos iguais com eles. (48-49) O Caramuru (Diogo Álvares): (...) um homem que nesta terra se criou de moço, o qual agora anda mui ocupado no que o governador lhe manda e não está aqui. Este homem com um seu genro é o que mais confirma as pazes com esta gente, por serem eles seus amigos antigos.(49) A terra: A terra cá achamo-la boa e sã. Todos estamos de saúde, Deus seja louvado, mais sãos do que partimos. (50) - Diálogo sobre a Conversão do Gentio: Criando duas personagens (os interlocutores Gonçalo Alves curador de índios e Mateus Nogueira ferreiro da Companhia de Jesus), Manuel da Nóbrega discorrerá sobre o trabalho de conversão do índio, enumerando pontos positivos e negativos7. Gonçalo Alves: Pois assim é, que todos temos uma alma e uma bestialidade naturalmente, e sem graça todos somos uns, de que veio estes negros não serem tão bestiais, e todas as outras gerações como os romanos, e os gregos, e os judeus, serem tão discretos e avisados. Nogueira: Esta é boa pergunta, mas claro está a resposta, todas as gerações tiveram também suas bestialidades; adoravam pedras e paus, dos homens faziam deuses, tinham crédito em feitiçarias do diabo; outros adoravam os bois e vacas, e outros adoravam por Deus aos ratos, e outras imundícies; e os judeus, que eram a gente de mais razão, que no mundo havia, e que tinha contas com Deus, e tinham as escrituras desde o começo do mundo, adoravam uma bezerra de metal e não os podia Deus ter, que não adorassem os ídolos, e lhes sacrificavam seus próprios filhos, não olhando as tantas maravilhas, que Deus fizera por eles, tirando-os do cativeiro do Faraó; não vos parece tão bestiais os mouros, a quem Mafamede, depois de serem cristãos, converteu à sua bestial seita, como estes, se quereis cotejar cousa com cousa, cegueira com cegueira, bestialidade com bestialidade, todas achareis de um jaez, que procedem de uma mesma cegueira; os mouros crêem em Mafamede, muito vicioso e torpe, e põem-lhe a bem-aventurança nos deleites da carne, e nos vícios; e estes dão crédito a um feiticeiro, que lhes põe a bem-aventurança na vingança de seus inimigos, e na valentia, e em lerem muitas mulheres; os romanos, os gregos, e todos os outros gentios, pintam, e têm inda por Deus a um ídolo, a uma vaca, a um galo; estes têm que há Deus, e dizem, que é o trovão, porque é cousa que eles acham mais temerosa e nisto têm mais razão, que os que adoram as rãs, ou os galos; de maneira que, se me cotejardes horror com horror, cegueira com cegueira, tudo achareis mentira, que procede do pai da mentira, mentiroso desde o começo do mundo. (53)

A Literatura Brasileira Através dos Textos

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- As Singularidades da França Antártica: Escritas por André Thevet, essas singularidades remetem ao período em que o autor esteve no Brasil, de novembro de 1555 a janeiro de 1556, tentando estabelecer aqui uma colônia francesa, batizada França Antártica . Intenção política em relação à terra: (...) Não vejo razão para que ela (a terra) seja chamada de Índia, (...) tal nome vem8 do notável rio Indo, que está bem distante de nossa América. Portanto, bastará chamá-la de América ou de França Antártica. (59) O índio: (...) gente prodigiosamente estranha e selvagem, sem fé, sem lei, sem religião, sem civilidade nenhuma, que vive como animais irracionais, de modo como a natureza a fez (...) talvez (...) convivendo com os cristãos, aos poucos se despoje dessa brutalidade, passando a vestir-se de modo mais civilizado e humano. (60) Como se não lhes bastasse viver nus, pintar o corpo (...) e arrancar-se os pêlos, os selvagens (...) furam os lábios com certa planta muito aguçada. (64) A terra: Quanto ao território de toda a América, é muito fértil em arvores que dão frutos excelentes, mas sem lavoura nem cultivo (...) sendo terra cultivada, produziria muito bem (...) (60) - Viagem à Terra do Brasil: Este é o relato do francês Jean de Léry, calvinista, que ficou no Brasil entre 1556 e 1558, na chamada França Antártica. O principal foco deste excerto é a apresentação do cotidiano indígena: as boas-vindas, a hospitalidade, o cauim, a mística, a rede, a antropofagia. A organização social do índio: Quanto à organização social de nosso selvagens, (...) apesar de serem conduzidos apenas pelo seu natural (...) eles se dêem tão bem e vivam em tanta paz uns com os outros. (69) (...) se alguém for ferido por seu próximo, e se o agressor for preso, ser-lhe-á infligido o mesmo ferimento no mesmo lugar do corpo (...) é vida por vida, olho por olho, dente por dente etc. (...) (69) (...) não costumam permanecer mais de cinco ou seis meses num lugar (...) vão assim mudando amiúde as suas aldeias de lugar (...) (70) Índios x europeus:

(...) em vez de se preocuparem em partilhar heranças e muito menos em pleitear limites, (...) deixam que essas coisas sejam feitas pelos rústicos avarentos e chicaneiros daqui da Europa. (70) (...) tendo eu vivido com eles, (os índios) confiaria mais neles e de fato estava mais seguro em meio àquele povo que chamamos selvagem do que me sinto hoje em alguns lugares da nossa França (...) (79) A desmitificação do índio: (...) cabe notar que eles têm memória tão boa que, se alguém lhes disser uma só vez o nome, (...) cem anos sem rever essa pessoa, não o esqueceriam nunca. (73) Quanto à caridade natural deles, direi que diariamente distribuem entre si e dão de presente veação9, peixes, frutos (...) não só a um parente ou vizinho seu (...) como também (...) para com os estrangeiros seus aliados (...) (78) - Viagem ao Brasil: O alemão Hans Staden, aventurando no Brasil pela segunda vez, foi preso pela tribo tupinanbá e mantido prisioneiro de janeiro a outubro de 1554, sendo preparado para o ritual antropofágico por esse tempo e conseguindo, depois, ser resgatado por um navio francês. Chegando a Europa, relata a vida indígena: os casamentos, a poligamia, os ritos. O ritual antropofágico: (...) havia muitas mulheres (...) e fui obrigado então a gritar-lhes na sua língua: (...) Eu, vossa comida, cheguei . (...) Quando entrei, correram as mulheres ao meu encontro e me deram bofetadas, arrancando a minha barba e falando em sua língua: (...) Vingo em ti o golpe que matou o meu amigo, o qual foi morto por aqueles dentre os quais tu estiveste . (85) Dão-lhes (aos prisioneiros) uma mulher para os guardar e também para ter relações com eles. (...) Fornecem boa comida; tratam assim deles alguma tempo (...) convidam então os selvagens de outras aldeias para aí se reunirem naquela época (...) conduzem o prisioneiro uma ou duas vezes pela praça e dançam ao redor dele (...) pintam a cara do prisioneiro, e enquanto uma das mulheres o está pintando, as outras cantam. E logo que começam a beber, levam o prisioneiro para lá, bebem com ele e com ele se entretêm. Acabando de beber, descansam no dia seguinte (...) de manhã, antes de clarear o dia, vão dançar e cantar ao redor do bastão com que o devem matar (...) amarram a mussurana ao pescoço e em redor do corpo do paciente, esticando-a para os dois lados (...) aquele que deve matar o prisioneiro (...) pinta o próprio corpo de pardo, com cinza (...) pega na clava e diz: Sim, aqui estou, quero te matar, porque os teus também mataram a muitos dos meus amigos e os devoraram . (...) então desfecha-lhe um golpe

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na nuca, os miolos saltam e logo as mulheres tomam o corpo, puxando-o para o fogo (...) (88-89) - A Santa Inês: Poema do padre José de Anchieta em estilo medieval, direcionado aos índios, com fins catequéticos. Cordeirinha linda, como folga o povo porque vossa vinda lhe dá lume novo! Cordeirinha santa, de lesu querida, vossa santa vinda o diabo espanta. Por isso vos canta com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo! Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura. Vossa formosura honra é do povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo Virginal cabeça pela fé cortada, com vossa chegada Já ninguém pereça. Vinde mui depressa ajudar o povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo. Vós sois, cordeinha, de lesu formoso, mas o vosso esposo já vos fez rainha. também padeirinha sois de nosso povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo. (93-94)

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