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História do Século XX - A Grande Depressão

História do Século XX - A Grande Depressão

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An academic work about the historic phenomena of Great Depression and its global consequences.

The work's language is portuguese.
Made by a group of four portuguese students from UBI (University of Beira Interior).
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A GRANDE DEPRESSÃO 

 

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CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

[UBI (UNIVERSIDADE DA BEIRA 
INTERIOR)                                               HISTÓRIA DO SÉCULO  XX 

   ANDRÉ VENTURA                 Nº 20219 
  MARTA RODRIGUES            Nº 20438    NUNO SANTOS                     Nº  19901 

 

ÍNDICE
INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 4 
Entendendo as Crises Económicas ........................................................................................ 4  Teoria dos Ciclos Económicos  ............................................................................................... 5  .   1.1. A CATÁSTROFE PRIMORDIAL ......................................................................................... 8  1.2.   A CRISE ECONÓMICA .................................................................................................. 10  1.2.1.  A Prosperidade Americana ....................................................................................... 10  1.2.2.  A “Pequena” Recessão ............................................................................................. 13  1.2.3.  O Crash Americano ................................................................................................... 14  2. A PROPAGAÇÃO DA CRISE .............................................................................................. 19  2.1.  A dependência do Canadá ........................................................................................... 19  2.1.  O Reino Unido e o regresso ao padrão‐ouro ............................................................... 20  2.2.  A França Proteccionista ............................................................................................... 23  2.3.  O caso da URSS ............................................................................................................ 24  3. POLÍTICAS DE RESOLUÇÃO DA CRISE .............................................................................. 26  3.1.  New Deal  ..................................................................................................................... 26  . 4.   CONSEQUÊNCIAS DA GRANDE DEPRESSÃO ..................................................................... 29  4.1.  Acordos de Bretton Woods ......................................................................................... 29  4.2.  A Ascensão do Totalitarismo na Europa ...................................................................... 30    5.   GRANDES MUDANÇAS NA VIDA ECONÓMICA, POLÍTICA E SOCIAL DOS PAÍSES ATINGIDOS 35    6. ljdgfjdb 3  skhfhyg vsjdbkfli hdvbfjh gsdvjbfi hdgsvfi udgsvhj hishdfjh gsd 

BIBLIOGRAFIA 

36  36 

7. RECURSOS DIGITAIS 

 

INTRODUÇÃO

A 24  de  Outubro de 1929, os preços  das acções da Bolsa de Valores de  Nova Iorque  caíram  subitamente.  Estes  preços  estabilizaram‐se  ao  longo  da  semana,  para  caírem  drasticamente na segunda‐feira de dia 28 de Outubro. No dia 24 de Outubro, deu‐se o pânico  na bolsa e 13 milhões de títulos foram cedidos, dia conhecido actualmente como a quinta‐feira  negra, foi um prenúncio do que aconteceria dia 29 de Outubro, quando cerca de 16 milhões  (16.410.030) de acções foram postas a venda no mercado. A cotação de um grande número de  valores considerados dos mais “seguros”, desceu. O excesso das acções à venda e a sua falta  de  compradores  fizeram  com  que  os  preços  destas  acções  caíssem  em  cerca  de  80%,  em  relação  aos  valores  do  mês  de  Setembro.  Milhões  de  pessoas  perderam  avultadas  somas  de  dinheiro e a maior parte das pessoas que tinham colocado todo o seu investimento na forma  de  acções  perderiam  tudo  o  que  tinham.  A  espiral  da  depressão  continuaria  ininterrupta.  Milhares  de  fábricas  faliriam,  o  desemprego  aumentaria  em  grande  escala  e  milhões  de  pessoas encontrar‐se‐iam sem recursos.   Economistas,  historiadores,  cientistas  e  políticos  têm  criado  diversas  teorias  para  a  causa,  ou  causas  da  Grande  Depressão.  A  Grande  Depressão  é,  ainda  hoje,  um  dos  acontecimentos  mais  estudados  da  Historia  da  economia  mundial,  sem  realmente  haver  grande consenso entre estas teorias.   As primeiras teorias, as mais conservadoras, incluem a quebra da bolsa de valores; a  decisão de Winston Churchill em fazer com que o Reino Unido passasse a usar novamente o  padrão‐ouro em 1925 nas suas trocas comerciais, causando assim a massiva deflação ao longo  do  Império  Britânico;  a  recuperação  da  Europa,  que  levou  à  diminuição  da  procura  de  bens  (essencialmente primários) e serviços o que dificultou o escoamento destes por parte dos EUA,  consequentemente  dar‐se‐ia  o  colapso  do  comercio  internacional;  a  aprovação  do  Ato  da  Tarifa e Smoot‐Hawley, já em plena crise económica, pelo presidente Hoover, que aumentou  os  impostos  de  cerca  de  20  mil  produtos  no  país;  a  tímida  política  da  Reserva  Federal  dos  Estados  Unidos  da  América  (EUA),  uma  politica  que  favoreceu  a  facilidade  ao  crédito  que  levava  também  a  uma  especulação  imoderada  do  mercado  da  bolsa,  entre  outras.  Estas  teorias baseiam‐se na própria economia dos países capitalistas, a qual era vigente nessa época  nos  EUA.  Centralizam  as  causas  da  Grande  Depressão  no  relacionamento  entre  a  produção,  consumo  e  crédito,  factores  maioritariamente  macroeconómicos,  relacionando‐os  com  factores estudados pela microeconomia como os incentivos e as decisões pessoais.   

Entendendo as Crises Económicas  
 

  As crises económicas repercutem‐se obviamente em todas as esferas não económicas,  sendo elas sociais, demográficas, psicológicas, culturais, etc.  

  Na economia pré‐industrial, as flutuações repentinas dos preços incidiam geralmente  em certos locais ou regiões, devido a factores estritamente naturais como as secas e as cheias,  afectando  desta  forma  as  culturas  e  as  produções.  Com  a  industrialização  e  um  próspero  comércio  internacional  as  flutuações  dos  preços  começaram  a  ser  uma  característica  do  capitalismo liberal, proporcionando grandes flutuações no índice da procura e, tornando desta  forma, a sua natureza cíclica, transmitindo‐se, através do comércio multilateral, de país para  país.   Ao  longo  do  século  XIX  e  inícios  do  Século  XX,  podemos  encontrar  inúmeras  crises  precedidas  de  depressões  (1825‐26,  1837‐47,  1857,  1873,  1882,  1893,  1900‐1901,  1907).  As  flutuações  da  produção  acompanhavam  normalmente  as  flutuações  dos  preços,  podendo  desta maneira provocar enormes recessões económicas.

  

Antes  de  mais  é  preciso  compreender  as  noções  de  crise  e  de  recessão  económica:  Segundo Maurice Flamant e Jeanne Singer‐Kerel1 “ a maior parte das vezes, designa‐se hoje,  pelo conceito de recessão, as contradições da actividade económica de fraca amplitude e de  curta  duração (...) Se o recuo é violento e sobretudo se se prolonga, reveste‐se pois de uma  grande gravidade, falar‐se‐á – como no passado – de crise”.     

Teoria dos Ciclos Económicos  
“Duas características (...) determinam os contornos dum ciclo económico. Primeiro há uma causa geradora que põe em marcha uma tendência altista na actividade económica ou cria uma crise de confiança e uma curva com características de recessão; segundo, há a cadeia de interacção que transmite esse distúrbio de um sector para outro e para o cerne da economia”2    Ao longo da História as economias alternam entre “períodos bons” e “períodos maus”,  isto é, experimentam ciclos económicos. As expansões podem ocorrer em muitas actividades  económicas, ao mesmo tempo, seguidas por recessões e recuperações que culminam na fase  de expansão do ciclo seguinte.   É  fácil  observar  a  existência  de  períodos  de  prosperidade  e  como,  seguidos  a  esses,  podemos  encontrar  períodos  de  grande  recessão  económica,  que  desencadeiam  uma  crise 

                                                            
1

Mendes, J.M.Amado. HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL DOS SÉCULOS XV A XX, 2ªedição, Fundação Calouste Gulbenkian,1997, Lisboa, p.119 Deane, Phyllis. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. 3ª Edição, Zahar Editores, 1975, Rio De Janeiro, p.257 

2

  económica  na  qual  há  uma  diminuição  da  produtividade  e  consequentemente  postos  de  trabalho, diminuição de qualidade de vida e, por vezes, findando numa crise social, de valores.   O ciclo económico designa então as mudanças ocorridas na economia. Podem ser de  curto  prazo  (Kitchin‐3  a  4  anos),  de  médio  prazo  (Juglar‐  7  a  11  anos),  ou  de  longo  prazo  (Kondratieff‐ 50 a 60 anos).3 A crise de 1929 e “a sua intensidade, terá resultado (...) de uma  sobreposição de uma crise cíclica (fase B de um movimento de Kondratieff, 1920‐19334) com a  inversão da tendência (ou trend) secular.”5  São  variadas  as  causas  dos  ciclos,  nos  movimentos  ou  ciclos  económicos  intervêm  diversos factores:  Metais  preciosos  –  atendendo  aos  metais  preciosos,  os  ciclos  e  as  crises  são  facilmente explicados, uma vez que há uma tendência para a expansão quando o  ouro é acumulado; à falta deste, verifica‐se uma depressão. É uma tendência que  hoje  em  dia  é  também  verificada  na  circulação  da  moeda:  quando  à  circulação  fiduciária, há um fomento do comércio.    Guerras  –  frequentemente  os  períodos  de  expansão  dos  ciclos  correspondem  a  períodos entre guerras. As guerras fomentam o consumo, e de todos os sectores  da economia (os chamados booms).  Inovações  –  as  inovações  tecnológicas  são  realidade  graças  ao  investimento  de  grande capital sobre elas. Estas vão dar azo ao aumento da procura, à subida dos  preços, e ao desenvolvimento de uma produção massificada. Em acordo, incluí‐se  a teoria dos ciclos económicos de Joseph Schumpeter, na qual a economia sai do  seu  estado  de  equilíbrio  e  entra  num  processo  de  expansão  devido  ao  aparecimento de inovações. Podem ser estas: a introdução de um novo bem no  mercado; a descoberta de um novo método de produção ou de  comercialização  de  mercadorias;  a  conquista  de  novas  fontes  ou  matérias‐primas;  e  até  a  alteração  estrutural  de  um  mercado  actual.  É  necessário  também  compreender  que  todo  o  equipamento  se  torna  obsoleto,  necessitando  a  sua  substituição,  é  nesta  substituição,  para  a  qual  é  preciso  também  uma  desenfreada  movimentação de capitais, que voltamos ao início do ciclo económico.       

A intervenção do Estado, no que consta a reprodução dos ciclos, tem sido objecto de  longo  debate  entre  os  economistas.  Num  pensamento  clássico,  até  inícios  do  século  XX,  acreditava‐se  que  a  economia  se  corrigia  automaticamente,  ou  seja,  não  era  necessária  a  intervenção  do  Estado  na  economia,  imperava  um  liberalismo  económico.  Adam  Smith,                                                              
3
 Em

Mendes, J.M.Amado. HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL DOS SÉCULOS XV A XX, 2ªedição,

Fundação Calouste Gulbenkian,1997, Lisboa, p.35, o autor refere-se a seis tipos de ciclos: seculares, de longa duração (Kondratieff 25-45 anos), hiperciclos (20-22 anos), ciclo clássico (6-10 anos), ciclo menor (cerca e 40 meses) e movimentos sazonais (cerca de 1 a 3 meses).
4
 Anexo

nº1 

5

 Mendes, J.M.Amado ibidem, p.40

  considerado  o  mais  importante  teórico  do  liberalismo  económico,  acreditava  que,  havendo  desemprego,  os  salários  decresciam  e  as  empresas  iriam  procurar  mais  trabalhadores,  anulando  assim  o  desemprego.  O  mercado  de  oferta  e  procura  desajustava‐se  e,  por  ele  próprio, iria retomar um equilíbrio económico sem qualquer intervenção do estado. “A defesa  de  Adam  Smith  do  comércio  internacional  livre  proveio  da  sua  análise  dos  ganhos  da  especialização  e  divisão  do  trabalho,  quer  entre  as  nações,  quer  entre  os  indivíduos”6 Adam  Smith,  acreditava  numa  “mão  invisível”,  e  numa  política  de  “laissez‐faire”,  pois  apenas  uma  politica  não‐intervencionista  do  estado,  ou  um  comércio  livre,  poderiam  assegurar  a  taxa  de  crescimento económico de um país.     Por  outro  lado  John  Maynard  Keynes  acreditava  que  o  sistema  capitalista  e  a  sua  economia  de  mercado  funcionavam  e,  para  isso,  defendia  a  intervenção  do  estado  na  economia, fundamentando‐se no princípio em que  os ciclos económicos não retomam o  seu  equilíbrio automaticamente. Keynes defendeu que o Estado deveria intervir na fase recessiva  dos  ciclos  económicos  com  a  sua  capacidade  de  imprimir  moeda  para  aumentar  a  procura  efectiva  de  deficits  do  orçamento  do  Estado  e  assim  manter  o  pleno  emprego.  Para  ele  as  crises do capitalismo são reflexo de uma discrepância do poder de compra da população e da  superprodução da oferta.    Karl  Marx  usou  as  suas  teorias  económicas  para  contra‐promover  a  ideologia  do  sistema  capitalista,  prevendo  o  inevitável  fim  do  disfuncional  sistema  capitalista  de  propriedade  privada dos  meios de produção.  Este acreditava  que os ciclos económicos eram  consequência  do  próprio  sistema  capitalista,  que  gerava  contradições  internas,  o  que  levaria  ao  seu  fim.  O  subconsumo,  causado  pela  concentração  dos  rendimentos  nos  membros  da  classe  alta,  ou  da  classe  capitalista  (os  grandes  industriais),  geraria  problemas  crónicos  de  queda de taxas de lucro, a redução salarial, o desemprego e a insatisfação da classe operária. A  teoria  marxista  desenvolve  que  o  capitalismo,  seria  tão  produtivo  que  acabaria  por  parar  a  produção uma vez que a população seria incapaz de escoar os produtos e estes reter‐se‐iam  em stocks. Para Marx as crises capitalistas são um reflexo da insuficiência de poder de compra  por parte da população. No entanto, o marxismo ultrapassou as ideias dos seus precursores,  tornando‐se  uma  política  e  uma  ideologia  que  nem  sempre  se  rege  pelos  princípios  puros  marxistas, como o caso das políticas sociais‐democráticas, o bolchevismo e o comunismo.  A crise de 1929 veio por em causa o pensamento clássico económico, e o facto de a  Grande  Depressão  tardar  em  ser  resolvida,  levou  a  que  muitos  economistas  desconfiassem  desta função “auto‐reguladora”. 

                                                             6  Cameron,Rondo.HISTÓRIA ECONÓMICA DO MUNDO- De uma forma concise, de há 30 000 Anos
até ao presente. Publicações Europa-América.2000, Sintra-Lisboa, p.309
 

 

1.1. A CATÁSTROFE PRIMORDIAL
“O início do século XX deverá ser um dos momentos mais paradoxais da variada história deste continente inquieto. A Europa estava no cúmulo do seu poder. Nos seus impérios coloniais, os europeus repartiam entre si a terra. A sua civilização servia de modelo em toda a parte. O século XIX tinha trazido o bem-estar e o progresso cultural. As descobertas da ciência prolongavam a vida, e a técnica tornava-a mais cómoda. (…) Quarenta e cinco anos mais tarde, a mesma Europa jazia em escombros. Debaixo de ruínas fumegantes jaziam setenta milhões de mortos. Numa leviandade verdadeiramente assombrosa, os políticos tinham dado trela aos cães de guerra e tinham despoletado uma voragem de auto-destruição. A História conheceu épocas terríveis como o tempo da peste ou a Guerra dos Trinta Anos, mas nunca tinham existido chacinas de massas de uma dimensão que se aproximasse da das causadas pela Guerra dos Trinta Anos de 1914 a 1945 (se deixarmos de parte os tempos de uma relativa acalmia que houve pelo meio). (…) A Primeira Guerra Mundial foi a catástrofe primordial do século XX. Foi dela que partiram todas as ondas de choque da rebarbarização que fizeram das décadas subsequentes uma era da tirania e dos assassínios em massa.”     Dietrich Schwanitz 7    Entre  1914  e  1918,  deu‐se  a  Primeira  Guerra  Mundial.  Até  aí,  a  Europa  nunca  tinha  conhecido  o  significado  da  expressão  “guerra  total”.  Nunca  tinha  conhecido  uma  guerra  tão  longa,  travada  dentro  do  seu  próprio  território,  entre  as  grandes  potências  que  competiam  entre si pela hegemonia do mundo. Antes da guerra, a Europa (no auge do seu poder em toda  a História) exercia a sua influência, a sua hegemonia – económica, política e cultural – sobre  todo  o  mundo:  os  impérios  coloniais  europeus  estendiam‐se  por  todo  um  mundo  «europeizado».   “É a Europa que cerca o mundo e o organiza. Não há, antes de 1914, relações bilaterais independentes da Europa. Tudo parte da Europa e tudo vem a ela dar. Ela é o centro, o pólo. (…) todos os povos tiveram a Europa como modelo, pelo menos temporariamente, e imitaram-na.”8.  Porém,  após  a  Primeira  Guerra  Mundial,  este  cenário  muda  drasticamente.  Os  elevados custos de uma longa guerra travada em todas as frentes fazem‐se sentir na Europa,                                                              
in Schwanitz, Dietrich. CULTURA - TUDO O QUE É PRECISO SABER (4ª Edição). Dom Quixote:2004, Lisboa. Pp. 188-189  8 Rémond, René. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO NOSSO TEMPO – DO ANTIGO REGIME AOS NOSSOS DIAS. Gradiva:2003, Lisboa.    Pág. 273 
7

  sobretudo, depois da guerra terminar. Registaram‐se perdas humanas na ordem dos 8 milhões  de mortos, aos quais se somaram mais 20 milhões de feridos e 6 milhões de inválidos. Ou seja,  a Europa perde, num espaço de tempo de quatro anos, cerca de 10% da sua população, que  representava na sua maior parte mão‐de‐obra jovem e activa. Temos então desde logo, graças  a isso, uma crise ao nível da mão‐de‐obra e da produtividade. Por outro lado, temos os danos  físicos que afectam os sectores da produção – meios de produção destruídos (fábricas, campos  agrícolas, etc.), assim como vias de comunicação (estradas, pontes, infra‐estruturas).   Os  Estados  Unidos  da  América  (EUA),  que  já  se  haviam  afirmado  como  uma  grande  potência  antes  do  início  da  guerra,  adquirem  definitivamente  o  estatuto  de  primeira  grande  potência  económico‐financeira  e  industrial  do  mundo  após  a  guerra.  Sem,  praticamente,  terem  sido  afectados  pela  Grande  Guerra  (em  termos  económicos,  materiais  e  humanos);  e  com toda uma Europa debaixo de escombros a “implorar” por ajuda, os EUA passam a ser os  principais  credores  da  Europa  –  cedem‐lhes  créditos  e  outros  tipos  de  ajudas  económico‐ financeiras  que  hão‐de  ajudar,  pouco  a  pouco,  os  países  europeus  a  se  reconstruírem.  Essa  reconstrução  estará  praticamente  concluída  por  volta  de  1925,  altura  em  que  se  iniciam  os  «Loucos Anos 20» na Europa.   Nos EUA vive‐se, desde 1920 até ao «Crash» da bolsa de Nova Iorque em 1929, a «Era  da  Prosperidade»,  caracterizada  por  um  franco  crescimento  da  economia  norte‐americana,  muito em parte devido aos fortes laços económicos estabelecidos, entretanto, com a Europa  (principal parceiro comercial dos EUA). Surge, assim, uma situação de interdependência entre  um lado e o outro. Isto, por si só, significa que se estalar uma crise dentro dos EUA, a Europa  será a primeira grande afectada; ou então, por outro lado, se a Europa quebrar os fortes laços  que entretanto criou com os EUA, e que criaram a tal “dependência” dos EUA face à Europa,  acontecerá  que  também  os  EUA  sofrerão  o  impacto  dessa  quebra.  Está  lançado  o  aviso  relativamente  àquilo  que  pode  acontecer  quando  os  sistemas  económicos  entrelaçados  assentam em bases algo frágeis (como é o caso). Em 1929, esse “aviso” confirmar‐se‐á.       

 

1.2.   A CRISE ECONÓMICA 

1.2.1.  A Prosperidade Americana 
  “We’re too poor to economize”; “Economy is a luxury”

Scott Fitzgerald  10 
  Depois  da  Primeira  Guerra  Mundial  os  EUA  beneficiaram  de  mais  de  metade  de  um  século de progresso industrial, conseguindo o melhor padrão de vida alguma vez conhecido na  História,  embora,  paradoxalmente,  se  encontrarem  milhões  de  pessoas  que  enfrentavam  a  pobreza.  Os  trabalhadores  eram  remunerados  com  os  salários  mais  altos  conhecidos  na  história  do  século.  Ao  mesmo  tempo  que  o  número  de  horas  de  trabalho  diminuiu  de  doze  horas  diárias  para  oito,  Henry  Ford  instituiu  as  folgas  semanais  (“the  five‐day  week”)  e  o  International  Harvester  anunciou  o  direito  a  duas  semanas  de  férias  pagas  para  os  trabalhadores.     Em  1922,  o  país  era  uma  potência  mundial  quer  económica,  quer  industrial,  comparada  com  as  outras  nações  devastadas  pela  guerra,  e  começava  a  mostrar  a  sua  recuperação  da  depressão  causada  pela  Primeira  Guerra  Mundial,  recuperação  com  apenas  ligeiras  interrupções  até  1929.  A  chave  para  esta  recuperação,  a  prosperidade  avistada  na  época, foi devida à eficiente produção, em parte, resultado da aplicação da teoria de Frederick  Winslow Taylor, o Taylorismo.  Graças  a  Henry  Ford  e  a  Frederick  Taylor  a  população  americana  pode  conhecer  as  maiores  inovações  no  sector  industrial.  Taylor,  através  da  organização  racional  do  trabalho,  eliminou  os  tempos  mortos  da  produção  e  aumentou  a  rotatividade  do  trabalhador,  praticando  a  divisão  do  trabalho  e  a  especialização  do  operário.  Taylor  acreditava  que,  oferecendo  instruções  sistemáticas  e  adequadas  aos  trabalhadores,  poderia  aumentar  a  produtividade  quer  individual  quer  colectiva,  da  empresa.  Criou  a  definição  de  homem  económico, um homem motivado por recompensas económicas e materiais, um homem que  obedecia  a  um  padrão  de  produção.  Henry  Ford,  por  sua  vez,  revolucionou  a  produção  instalando  uma  linha  de  montagem  que  poderia  fabricar  um  carro  em  98  minutos.  A  sua  filosofia de trabalho era a do capitalismo do bem‐estar social. Ford acreditava que o salário era  factor  de  motivação  e  produtividade  do  trabalhador  (aumentou  o  salário  mínimo  dos  trabalhadores  de  2  dólares  por  dia,  para  5  dólares),  e  na  rotatividade  dos  trabalhadores  dos  departamentos (empregava 300 homens por ano para preencher 100 vagas).  O  século  XX  revelou  grandes  progressos  tecnológicos  exponenciais,  observando  os  factos, em 1914, 30% da indústria foi electrificada e, em 1929 ou números ascenderam a 70%.  O motor a vapor foi substituído pelo eléctrico e entre 1919 e 1927 mais de 44% dos motores a  vapor  deixaram  de  ser  utilizados.  Com  uma  administração  eficiente,  a  mecanização,  o 

  desenvolvimento  da  investigação,  a  organização  de  métodos  eficazes  de  vendas,  a  produção  industrial  quase  que  duplicou  durante  a  década.  Este  objectivo  foi  atingido  sem  qualquer  expansão da força de trabalho, os números de empregados de 1929 eram os mesmos de 1919.   Os produtos à base de petróleo aumentaram mais de dezasseis vezes neste período,  devido  ao  facto  de  terem  sido  descobertos  campos  de  petróleo  no  Texas,  Oklahoma  e  Califórnia.  Também  neste  período  a  indústria  de  aço  e  do  ferro  aumentou  cinco  vezes  a  sua  produção.   O número de instalações telefónicas cresceu cerca de um milhão em 1900 (1.355.000)  para  dez  milhões  em  1915  (10.525.000)  e  para  em  1930  ascender  aos  vinte  milhões  (20.200.000).  À medida que as pessoas se restituíam na cidade, nas suas kitchenettes, criaram uma  nova  forma  lucrativa  para  as  indústrias  de  enlatados.  A  fruta  e  os  vegetais  enlatados  duplicaram  as  suas  vendas  entre  1914  e  1929;  a  venda  de  leite  em  embalagem  triplicou.  As  refeições dos americanos mudaram consideravelmente e eram agora feitas à base de produtos  enlatados ou embalados, pois a sua conservação era maior.   A  indústria  química,  que  teve  início  em  1880,  viu  o  seu  desenvolvimento  crescer  a  partir  da  Primeira  Guerra  Mundial.  O  Governo  investiu  mais  na  industria  química  do  que  qualquer outra indústria. A guerra demonstrou o quão dependente o país estava de produtos  estrangeiros, principalmente nitratos e potássio. O potássio era essencialmente utilizado para  fertilizantes  e  era  importado  na  sua  maioria  da  Alemanha.  Depois  da  guerra  o  preço  destes  aumentou em dez vezes, incentivando ao país a criar uma indústria de potássio no país.  As  industrias  sintéticas  e  de  plásticos  também  se  desenvolveram.  Os  plásticos  sintéticos  desenvolveram‐se  desde  1869  com  a  criação  da  celulose,  no  entanto  foi  apenas  depois da guerra que elas se tornaram uma indústria em ascensão.   A construção aumentou também exponencialmente nos anos 20, durante esse período  alguns dos antigos prédios de apartamentos na cidade de Nova Iorque de vinte andares, foram  substituídos por torres de sessenta andares.  A produção de automóveis estendeu‐se quase a toda a população dos Estados Unidos.  Se em 1900 a taxa de produção de automóveis por ano era de quatro mil, em 1929 a produção  superava  os  quatro  milhões  (4.800.000).  Nos  EUA  havia  um  automóvel  para  cada  cinco  pessoas, o que não se observava em qualquer outro país. Em Inglaterra havia um automóvel  para  cada  43  pessoas,  na  Itália  havia  um  carro  para  325  pessoas  e  na  Rússia  um  carro  para  7000.  Nos  EUA  a  posse  de  um  automóvel  não  era  um  privilégio,  como  se  considerava  na  Europa.    Esta  onda  de  prosperidade  também  chegou  aos  bancos  americanos.  As  grandes  instituições bancárias anulavam as pequenas. E construíam as suas grandes cadeias com filiais  espalhadas pelo estado.      O  cinema  e  a  rádio  foram  também  cadeias  em  expansão.  Mais  de  vinte  mil  cinemas  foram  construídos,  e  vendiam‐se  quase  cem  milhões  de  bilhetes  por  semana,  enquanto  em 

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  1920  o  total  estimado  era  de  quarenta  milhões.  Reflectindo  assim  os  novos  hábitos  da  população. Uma população mais educada, mais culta, que possuía bastante tempo livre para  se divertir durante a semana.   A  ascensão  de  uma  cultura  popular  e  do  consumismo  reflectia  as  mudanças  económicas sofridas pela sociedade, e a sua importância para o surgimento das classes sociais  e do novo estilo de vida da população. Este novo estilo de vida era vendido pelas publicidades  dessa época, a publicidade não vendia um produto mas sim prestígio que esses produtos iriam  conceder  a  quem  os  comprasse.  Como  o  débito  já  não  era  algo  de  que  a  população  se  reprimia, recorriam a empréstimos bancários para aceder a esses bens, muitas vezes de luxo.  Para  o  homem  desta  altura,  não  era  a  educação  que  ele  tinha  ou  a  sua  saúde  ou  até  sua  personalidade que era valorizada, mas a aceitação que ele tinha na sociedade.   A prosperidade vivida nos EUA trouxe uma excepcional forma de vida materialista, que  se  mostrou  para  lá  das  vendas  e  das  acessibilidades.  O  país  investiu  duas  vezes  mais  em  Bibliotecas e três vezes mais em Hospitais do que antes da guerra. Em 1928 os EUA investiram  mais em educação do que o total do resto do mundo. A ciência também evoluiu a saúde graças  à  melhoria  das  condições  sanitárias,  o  que  melhorou  significativamente  a  nutrição  dos  americanos. A esperança média de vida dos americanos passou dos 49 anos de idade para ou  59 anos e a mortalidade infantil diminuiu significativamente.     

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No entanto, severas críticas foram tecidas face à má distribuição dos benefícios da alta  tecnologia. Se por um lado havia uma grande produtividade quer na indústria como nos outros  sectores  económicos,  por  outro  encontravam‐se  grandes  taxas  de  desemprego,  ou  seja,  pessoas  que  não  arranjavam  nenhum  emprego,  e  por  isso,  sujeitas  a  condições  de  vida  precárias,  o  que  contradizia  o  puro  estilo  americano  que  se  vivia  nessa  altura.  Os  “golden  twenties”,  ou  os  “Loucos  Anos  20”,  eram  paradoxalmente  anos  de  incerteza  para  muitas  famílias. Nessa época entre 7% a 12%  da população estava desempregada, e  muitas famílias  tinham o total de receitas inferiores a 2500 dólares por ano.   A política de isolamento dos Estados Unidos agravou o comércio mundial, e o próprio  comércio  interno.  Os  produtos  tradicionalmente  exportados  eram  o  tabaco,  o  algodão  e  o  trigo; com a subida das tarifas aduaneiras, por parte do Governo os agricultores deixaram de  poder escoar os seus produtos. A agricultura não pode recuperar nesta prosperidade, afectada  pela superprodução mundial, e o facto de em 1922 a tarifa de Underwood ter sido substituída  pela  tarifa  Fordney‐McCumber  que  elevava  fortemente  os  direitos  alfandegários,  levou  ao  desespero de muitos agricultores e comerciantes.    A  crise  de  1929  foi  uma  surpresa  para  muitas  pessoas,  inclusive  para  o  presidente  norte‐americano  Calvin  Coolidge  que  um  ano  antes  (4  de  Dezembro  de  1928)  afirmou  convictamente  a  prosperidade  vivida  na  época  “uma  perspectiva  tão  agradável  como  a  que  hoje se nos apresenta: no interior, reina a tranquilidade e a satisfação...e o recorde do número 

  de anos  de  prosperidade;  no exterior, reina  a paz  e  a boa vontade, na  base da compreensão  mútua”9   

1.2.2.  A “Pequena” Recessão 
    Os Estados Unidos revelaram‐se a grande potência mundial até 1919. Sendo credores  da  Europa,  administravam  todas  as  trocas  internacionais  feitas  nessa  altura,  o  que  permitiu  anular  todas  as  dívidas  do  país  até  então.  O  grande  «boom»  durou  até  ao  Verão  de  1920,  interrompido, pela grande recessão que finalizou em inícios de 1922.   A Europa, devastada pela Grande Guerra, requeria de capitais americanos para a sua  reconstrução. A recessão e a pequena crise associada, cessou definitivamente os empréstimos  à Europa e a América ditou uma política de isolamento. Este isolamento veio dificultar ainda  mais  a  vida  dos  industriais  e  dos  agricultores  americanos.  As  exportações  suspenderam,  e  a  crise provou as suas manifestações primeiramente nas indústrias, para, por fim, se estender a  toda a economia. Os agricultores, satisfeitos com a procura europeia por bens, serviços e até  matérias‐primas,  expenderam  e  aperfeiçoaram  a  sua  produção  com  empréstimos  cedidos  pelos  bancos. 10  Com  a  política  de  isolamento,  os  agricultores  perderam  muito  do  que  investiram, não podiam de maneira alguma comercializar para o exterior, envidando‐se.  A  crise  estendeu‐se  a  toda  a  população.  As  produções  desvalorizaram  (o  trigo  desvalorizou  40%,  o  milho  50%,  o  algodão  60%).  Em  1921  houve  383  falências  de  pequenas  entidades  bancárias,  concentradas  fundamentalmente  fora  das  cidades,  e  o  número  de  desempregados ascendeu quase a cinco milhões (4.700.000).  O  isolamento  dos  Estados  Unidos  acentuou‐se  e  a  política  proteccionista  do  estado  tomou medidas drásticas, restringindo a entrada de emigrantes até 1924.  A  pequena  crise  e  o  isolamento  precedente  desenvolveu  o  mercado  interno,  fomentando uma produção a baixo custo e o incentivo ao comércio facilitado pelo crédito. A  racionalização da produção ganhou um interesse especial, com vista à produção massificada. A  concentração promoveu a entrada dos grandes trusts11 e em 1930, metade do capital dos EUA  estava nas mãos de 200 sociedades anónimas.                                                               9  Mendes, J.M.Amado. HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL DOS SÉCULOS XV A XX, 2ªedição,
Fundação Calouste Gulbenkian,1997, Lisboa, p.127. 
 Os agricultores americanos aumentaram a sua área de cultivo durante a I Guerra Mundial, expandindo as suas terras e comprando-as a preços inflacionados. Quando os preços caíram, muitos foram incampazes de pagar as suas hipotecas, ficando na miséria. 11  A indústria do aço era controlada por três enormes trusts: a United States Corporation; a Bethlehem Co.; e a Republic Steel Co. A indústria automobilística era controlada por outros três grandes trusts: a Ford, a Chrysler e a General Motors. Na indústria química a Dupont juntou-se à Allied Chemical and Dye e à Union Carbide and Carbon. Os trusts bancários eram liderados pelo National City Banc que se

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  Se os anos que sucederam foram anos de prosperidade para os grandes industriais e  para o sector do comércio a agricultura, pelo contrário, não pode recuperar. Embora de 1923 a  1926 os preços da maior parte dos produtos agrícolas subissem, nos anos posteriores voltaram  a  cair.  De  1919  a  1924  estimava‐se  que  600  mil  camponeses  emigraram  para  a  cidade,  à  procura de melhores condições de vida.     Esta  crise,  embora  que  pequena,  foi  um  ensaio  do  que  se  passaria  em  1929  pois  revelou a economia dos Estados Unidos, uma economia frágil e mal estruturada, e apesar de  em 1924 se desenvolver uma grande época de prosperidade, era uma prosperidade vacilante,  à custa de uma descida de preços e de uma redução dos custos empresariais.    

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1.2.3.  O Crash Americano12 
    “The fundamental prescriptions for recovery [were] such homely things as savings, retrenchment, prudence and hopefull waiting for the turn”. The New York Times13    Os anos 20 trouxeram a ideia de dinheiro fácil, de que toda a gente poderia ser rica. É  certeza que a facilidade de crédito era patente, no entanto, em anos anteriores também havia  esta  facilidade,  mas  sem  a  especulação  desta  altura.  Muitos  teóricos  acreditam  que  se  não  fosse a especulação criada nesta época os anos vinte teriam acabado muito mais cedo.   “A especulação bolsista ocultara, portanto, algum tempo, a contradição entre a existência de uma super-acumulação mundial de capitais - aliás, mal distribuídos e uma economia que vegetava à falta de mercados; o crash ficou a dever-se menos à tomada de consciência da inanidade [frivolidade] de tal especulação do que aos desequilíbrios suplementares que a Bolsa criava”14  O volume das vendas do  New York Stock Exchange  passou de 236 milhões  em 1923,  para 1.125 milhões em 1928. As acções industrias subiram para 86.5 pontos, a maior parte dos                                                                                                                                                                                
uniu ao Farmer’s Loan and Trusts Company; e o Chase National Banc of New York, que em 1877 ao integrar o Equitable Trust Company, passou a ser o maior banco mundial.  12 Anexo nº2  13  in Leuchtenburg, William E. PERILS OF PROSPERITY‐1914‐32.The University of Chicago Press: 1958‐1993,  London.   Léon, Pierre. HISTÓRIA ECONOMICA E SOCIAL DO MUNDO, VOL.V‐GUERRAS E CRISES,1914‐1947.Sá da  Costa editora, 1982,Lisboa, p.280   
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  clientes pediram empréstimos, compraram mais acções, viram as suas acções subir e pediram  ainda  mais  empréstimos  para  comprar  mais  acções.  Em  1928  o  mercado  das  acções  transportava às costas, toda a economia.   A queda da bolsa de valores marcou o colapso da economia do mundo capitalista onde  qualquer  queda  de  indicadores  económicos  teria  repercussões  em  qualquer  outro  sector,  compondo um ciclo vicioso.  No  início  de  Setembro  de  1929,  a  bolsa  caiu,  recompôs‐se,  para  voltar  a  cair  novamente.  No  inicio  de  Outubro,  as  acções  da  Radio  Corporation  of  America  caíram  32  pontos, da General Electric caíram mais de 50 pontos, e as da U.S. steel quase 60 pontos. Os  preços  das  acções  subiram  escandalosamente.  As  declarações  prestadas  eram  de  despreocupação,  como  Irving  Fisher  assegurou,  “stock  prices  have  reached  what  looks  like  a  permanently high plateau”. Na semana seguinte a situação piorou. No final do mês as perdas  eram estimadas de 15 milhões de dólares.  “Apesar da intervenção de um sindicato de banqueiros (Morgan, Mitchell, Wiggins, etc.), que adiantou um milhar de milhões de dólares para cobrir empréstimos à vista, e apesar também da intervenção do Sistema Federal [norteamericano], que igualmente forneceu fundos - o que era contrário à lei - e que baixou a taxa de desconto para 5% e depois para 4.5%, o Crash durou 22; [e] foi o mais longo da história”15  A  nível  sectorial,  o  sector  comercial  foi  fortemente  abalado,  verificando‐se  uma  enorme  deflação  no  preço  dos  produtos.  Entre  1929  e  1933,  os  preços  dos  bens  primários  (alimentares) registaram uma baixa de cerca de 55%, e o das matérias‐primas, cerca de 60%.  O desemprego subia escandalosamente a níveis extremamente elevados e em 1933 as  taxas  de  desemprego  eram  cerca  de  25%  (um  quarto  (1/4)  de  toda  a  força  de  trabalho  americana).  Após  o  crash,  a  situação  caracterizou‐se  pelo  desespero  da  população  desempregada. “ O desemprego tem sido o mais espalhado, o mais insidioso, o mais corrosivo  mal da nossa geração: a doença social específica da civilização ocidental do nosso tempo”16.  No sector laboral, o número de desempregados durante a crise atingiu cerca de 30 milhões em  todo o mundo ‐ só nos Estados Unidos17 cerca de 12 milhões; na Alemanha cerca de 6 milhões;  na Grã‐Bretanha cerca de 3 milhões.     “Daí o impacte central, traumático do desemprego em massa sobre a política dos países industrializados, pois foi esse o significado primeiro e principal da Grande Depressão (...) A imagem predominante na época era a das filas de sopa, de                                                             
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Léon, Pierre.idem,p. 275-276. Arndt, H.W., 1994, The economic lessons of the 1930’s Londres,1944, p.250

Nos EUA as taxas de desemprego subiram de 9% em 1930 para 16% em 1931, e 25% em 1933. A taxa de desemprego dos EUA não retomariam mais às taxas de 9% de 1930, mantendo-se perto dos 20%. (números aproximados)

  “Marchas da Fome” feitas por desempregados saindo de comunidades industriais sem fumo nas chaminés onde nenhum aço ou navio era feito e convergido para as capitais, para denunciar aqueles que julgavam responsáveis.”18     A quebra da bolsa de valores causou grande incerteza, por parte da população, quanto  ao futuro do país. Muitos decidiram cortar gastos supérfluos, tentando gerar poupança, o que  provocou  a  quebra  na  balança  comercial  nacional.  Outras,  às  quais  lhes  tinham  sido  cedidos  empréstimos, reduziram ainda mais os seus gastos, para poder efectuar os seus pagamentos. A  quebra do sector comercial desconcertou o sector industrial e assim, sucessivamente, todos os  outros sectores da economia. O sistema capitalista estava fragilizado e começava a entrar num  ciclo vicioso. Qualquer queda nos indicadores económicos provocariam a queda consequente  de todos os outros.  Bancos que teriam cedido grandes somas de empréstimos a fazendeiros, os quais ver‐ se‐iam incapazes de pagar as suas dividas. O não‐pagamento dos empréstimos levou à queda  dos lucros destas instituições. A maioria da população, antecipando a falência das instituições  bancárias,  retirou  o  seu  capital  destas.  Entre  1920  e  1930  o  total  das  instituições  bancárias  fechadas estimava‐se na ordem dos 14 mil.19  Com  o  encerramento  da  maioria  das  instituições  bancárias,  o  total  de  fundos  disponíveis  na  economia  americana  era  mínimo  o  que  provocava  a  descida,  cada  vez  mais  acentuada,  da  produção  industrial.  Estima‐se  que  em  1929  o  valor  total  dos  produtos  industrializados  fabricados  nos  EUA  era  de  cerca  de  110  biliões  de  dólares;  caindo,  significativamente, em 1933 para cerca de 56 biliões de dólares, uma queda aproximadamente  de 45%. Outras produções também caíram exageradamente durante estes quatro anos (1929‐ 1933): o aço caiu cerca de 61% e a produção de automóveis cerca de 70%.   Toda a população acreditava que haveria uma solução política para enfrentar a Grande  Depressão. Foi a ausência desta, quer por parte da política, quer por parte da economia ou até  por  parte  dos  grandes  homens  de  negócios  que  tornou  catastrófica  e  asfixiante  a  vida  de  todos.  Os estados ergueram barreiras cada vez mais altas para proteger a sua economia, os  seus  mercados  e  as  suas  moedas,  o  que  provocou  o  desmoronamento  do  comércio  internacional  multilateral  sob  o  qual,  todos  acreditavam  que,  era  a  pedra  basilar  da 

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Hobsbawm, Eric. A ERA DOS EXTREMOS – HISTÓRIA BREVE DO SÉCULO XX (1914-1991).

Editorial Presença: 1996, Lisboa, p.100
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A título de curiosidade, a falência de instituições bancárias atingiram os seguintes valores: em 1929 cerca de 642; em 1930 cerca de 1345; em 1931 cerca de 2298. 

  prosperidade.  O  comércio  mundial  acabou  por  cair  60%  entre  os  anos  de  1929  e  1932,  tornando duvidosa a balança externa dos Estados Unidos.20  Não podemos argumentar apenas uma causa do desastre da bolsa e da depressão que  lhe  procedeu,  são  várias  as  causas  quer  políticas,  quer  económicas,  quer  até  sociais.  “A  derrocada do mercado bolsista não foi  a causa da  depressão ‐ que já  tinha  começado, tanto  nos Estados Unidos como na Europa ‐, mas foi um sinal evidente de que a depressão se estava  a instalar.”21  A capacidade de produção desta nação fora deveras superior à sua própria capacidade  de consumo. A queda dos preços dos produtos primários, demonstrou unicamente que a sua  procura não conseguia acompanhar a capacidade de produção.  Havia uma má distribuição de rendimentos: os ricos ficaram mais ricos e poderosos e  os pobres cada vez mais pobres. “ (...) os ricos – nos EUA‐ eram de facto ricos, pois apenas 5%  das  pessoas  com  mais  altos  rendimentos  arrecadavam  um  terço  do  rendimento  pessoal  global”.22 Desde  1922  até  1929  “  (...)  os  salários  dos  operários  aumentaram  apenas  33%,  ao  passo  que  os  dos  empregados  aumentaram  42%,  o  lucro  líquido  das  sociedades,  76%  e  os  dividendos dos accionistas, 108%”.23  Isto  mostrava  a  fragilidade  estrutural  da  economia  dos  EUA.  A  economia  liberal  demonstrou  ser,  para  muitos,  uma  economia  utópica.  Nem  os  agricultores  nem  a  classe  operária  recebiam  a  parte  equitativa  do  rendimento  nacional  o  que  teria  assegurado  o  equilíbrio  do  mercado.  Por  outro  lado,  a  mecanização  cada  vez  mais  avançada  começou  a  procurar operários cada vez mais qualificados, desempregando muitos trabalhadores da classe  social  mais  baixa.  A  crise  de  superprodução  encarava  também  uma  crise  de  subconsumo.  A  riqueza do sistema capitalista concentrou‐se nos grandes trusts da actividade económica, em  monopólios  ou  oligopólios  destes.  No  sistema,  teoricamente  reinava  a  abundância,  a  prosperidade  ao  alcance  de  todos,  no  entanto,  na  prática,  a  distribuição  dos  lucros  ou  dos  rendimentos era viciada.  A deficiente estrutura bancária alegava que existia um número exagerado de unidades  independentes, mas com uma capacidade de resposta limitada. “Nos primeiros seis meses de  1929, faliram 346 bancos em várias zonas do país, com um total de depósitos e cerca de 115 

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A 17 de Maio de 1930, já em plena crise o Governo dos EUA aprovou a lei do Acto Tarifário de Hawley-Smoot. O Presidente Herbert Hoover pedira ao Congresso uma diminuição nos impostos, mas o Congresso votou a favor destes incentivando uma politica inflacionista. O Congresso e o Presidente acreditavam que isto iria reduzir a competição dos produtos estrangeiros no país. 21 Cameron,Rondo.HISTÓRIA ECONÓMICA DO MUNDO- De uma forma concisa, de há 30 000 Anos até ao presente. Publicações Europa-América.2000, Sintra-Lisboa, p.393
22 23 20

Mendes, J.M.Amado.idem, p.128. Schoell,Frank L. HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS.Editoral Aster: 1977, Lisboa, p.187

  milhões de dólares (...) ricos e pobres tomavam conhecimento do desastre graças à persuasiva  informação de que as suas poupanças tinham sido destruídas”24  O  crash  da  bolsa  expôs  a  fragilidade  da  economia  dos  anos  20  ‐  a  expansão  exponencial das grandes indústrias (trusts), a má redistribuição dos lucros e dos rendimentos,  a fragilidade da estrutura bancária, e a dependência de toda a economia assente no comércio  e na especulação, nos consumidores. Com o abalo da estrutura do sistema capitalista liberal,  muitos  países  adoptaram  uma  intervenção  estatal  mais  consistente.  A  crise  levou  aos  especialistas  a  dedicarem‐se  a  factores  tão  importantes  como  o  “pleno  emprego”,  à  intervenção estatal, ao estímulo à poupança e ao investimento da população, ao lançamento  das obras públicas e à planificação indicativa.  Nos  EUA  o  presidente  Franklin  D.  Roosevelt  implementou  o  “New  Deal”,  no  qual  as  principais  características  constavam  de:  programas  de  assistência,  criação  de  postos  de  trabalho, e ajuda na agricultura. O liberalismo entrou em descrédito por parte da população e  até por parte de muitos economistas.   

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24

Galbraith,John Kenneth. A CRISE DE 1929.ANATOMIA DE UMA CATÁSTROFE FINANCEIRA. Dom Quixote, 1974,Lisboa, p. 268-269 

 

2. A PROPAGAÇÃO DA CRISE
 
A  Grande  Depressão,  além  de  ter  destabilizado  toda  a  economia  norte‐americana,  estendeu também, os seus tentáculos ao resto do globo (exceptuando o caso da URSS).  Estando  o  capitalismo  já  imposto  em  grande  parte  do  globo,  assim  como  as  trocas  comerciais internacionais já serem uma realidade, a crise que se viu nascer nos Estados Unidos  da América depressa se alastrou pelo resto do mundo.    

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2.1.  A dependência do Canadá 
O  Canadá,  país  vizinho  dos  EUA,  foi  o  segundo  mais  afectado  pela  crise,  em  grande  parte  devido  às  relações  comerciais  íntimas  entre  estes  dois  e  ao  uso,  a  par  dos  EUA,  do  padrão ouro que resultou numa valorização da sua moeda.   O Canadá, entre 1900 e 1920, era o país que registava o crescimento económico mais  acentuado  do  globo.  Um  dos  grandes  pilares  deste  crescimento  era  a  exportação  de  trigo,  maior  exportador  mundial  deste  bem,  que  representava  mais  de  um  terço  do  seu  Produto  Interno  Bruto  (PIB).  Porém,  este  pilar  económico  assentava  numa  base  frágil,  a  Europa  devastada pela 1ªGuerra Mundial, estava em fase de recuperação gradual fazendo com que o  sector  agro‐pecuário,  sector  responsável  pela  produção  do  trigo,  fosse  recuperando  gradualmente. Mas este não foi o factor que mais abalou a economia canadense, até então o  trigo  produzido  na  Rússia  estava  fora  do  mercado  global  devido  à  Revolução  de  Outubro  (1917).  Com  a  implementação  da  Nova  Política  Económica,  a  Rússia,  voltou  a  exportar  este  bem diminuindo o valor de circulação no mercado do trigo.     Entre 1929 e 1933 o PIB do Canadá25 sofreu uma queda de 40%, enquanto nos Estados  Unidos essa queda foi de 37%. No auge da depressão a taxa de desemprego no Canadá era de  27%, e a taxa de exportação caiu em 50%. O sector mais afectado pela crise foi o seu sector  primário  (como  o  caso  da  agricultura,  à  semelhança  dos  EUA,  e  daindústria  mineira).  As  principais causas da crise no Canadá são, em grande parte, comuns às verificadas pelo resto do  globo, tais como:   Grande  dependência  dos  Estados  Unidos  da  América  –  com  esta  dependência  torna‐se  previsível  que  uma  crise  desta  envergadura  nos  EUA  fosse  afectar  directamente o Canadá.  A sobreprodução ou excesso de produção – sem mercado para escoar os produtos,  o Canadá, viu o valor destes descer.                                                              
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Anexo nº7 

  Taxas  elevadas  de  exportação  –  tentando  fugir  a  uma  recessão  económica  aumentaram‐se  as  taxas  de  exportação,  o  que  fez  com  que  este  país  tornasse‐se  menos competitivo no plano das trocas comerciais internacionais.  O  excesso  de  crédito  –  outra  vez  à  semelhança  dos  Estados  Unidos,  os  créditos  foram  concedidos  em  demasia  e  eram  extremamente  facilitados,  graças  ao  capitalismo liberal em vigor,  e sem possibilidade de pagamento as pessoas viram‐ se despojados dos seus bens além, de os bancos não conseguirem  cobrar o valor  dos créditos cedidos.  O  aumento  geral  do  preço  do  trigo  nas  transacções  internacionais,  provocou  o  colapso da economia deste país.    A  crise  resistiu  até  que,  em  1934,  o  Primeiro‐ministro  Richard  Bennet  adoptou  uma  política  semelhante  à  do  New  Deal  norte‐americano,  que  fez  com  que  a  economia  fosse  recuperando vagarosamente.     

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2.1.  O Reino Unido e o regresso ao padrão‐ouro 
A inflação depois da I Grande Guerra provocou a disfunção das economias nacionais e  internacionais.  As  pressões  das  dívidas  de  guerra  forçaram  a  maioria  dos  países  Europeus  a  saírem  do  padrão‐ouro  fechando  assim  as  suas  economias  inflacionando  o  valor  das  suas  moedas,  que  servira,  antes  da  guerra,  como  estabilizador  de  preços.  Todos  os  países  beligerantes recorreram então à emissão de papel‐moeda nos seus financiamentos.   A  Grã‐Bretanha  abandonou  o  padrão‐ouro  em  1914,  como  medida  orçamental  de  guerra; e regressar ao ouro colocaria a indústria britânica numa desvantagem competitiva em  relação aos Estados Unidos e a outros países que mantinham paridade com o dólar, ou tinham  adoptado  uma  taxa  de  câmbio  ainda  mais  baixa.  Regressar  ao  ouro  a  uma  taxa  inferior  penalizaria os grandes investidores.   Em 1925, o Winston Churchill, fez regressar a Grã‐Bretanha ao padrão‐ouro, como era  desejado desde o fim da Grande Guerra. De forma a manter a indústria Britânica competitiva,  era necessária uma queda dos preços de aproximadamente 10 por cento, o que, por sua vez,  exigia uma descida equivalente dos salários.     “Em 1925 a libra reencontra a paridade anterior à guerra e a convertabilidade-ouro e restabelecida. Mas a que preço para a classe operária!”26                                                                
26

Beaud, Michel HISTÓRIA DO CAPITALISMO. Teorema: 1981, Lisboa. Pág.218 

  O efeito global foi uma redistribuição dos rendimentos à custa dos trabalhadores e em  prole dos que viviam de rendimentos fixos.    “Melhorar o valor comercial internacional da libra e levá-la à sua paridadeouro anterior à guerra enquanto que lhe deveria ser inferior em 10% significa que, cada vez que fizermos qualquer venda ao estrangeiro, ou o comprador terá de pagar mais 10% na sua moeda ou deveremos aceitar menos 10% na nossa moeda. O que quer dizer que deveríamos reduzir os nossos preços em esterlino, do carvão, do ferro, dos fretes marítimos ou de qualquer produto em 10%, para ficarmos em posição de concorrência (...). Assim, a política da moeda de M. Churchill, devia mais cedo ou mais tarde, tornar-se numa redução dos salários em dois xelins por libra(...). A deflação não reduz “automaticamente” os salários, redu-los por intermédio do desemprego (...). Vergonha para os que a sua fé leva a utilizar [o encarecimento do dinheiro] para agravar uma depressão”27    A  indústria  do  carvão  foi  uma  das  mais  atacadas,  perdendo  mercados  externos,  viu  também os seus custos serem aumentados. Os mineiros, quando enfrentaram o resultado do  regresso ao padrão‐ouro, voltaram a entrar em greve a 1 de Maio de 1926, à semelhança da  greve de 1919, persuadindo muitos outros sindicatos a fazerem o mesmo, de forma a convocar  uma greve geral.   O  resultado  foi  que  cerca  de  40%  dos  filiados  em  sindicatos  entraram  em  greve,  principalmente os dos serviços públicos apoiados pelo Conselho Geral das Trade Unions28. O  governo  conservador  vigente  decretou  por  intermediário  do  rei  o  “estado  de  excepção”,  considerando  a  greve  do  1  de  Maio  ilegal.  A  greve  geral  durou  dez  dias,  acabando  com  a  derrota dos sindicatos, pois voluntários da classe média garantiram os serviços mínimos e os  chefes sindicais cederam com a hipótese de uma Guerra Civil.   Por mais curta que tenha sido a greve geral, deixou ainda mais intrínseco o sentimento  de ódio entre as classes sociais, tornando‐se em mais um entrave à resolução dos problemas  internos e externos que tinham de ser ultrapassados na época.  A classe operária britânica viu‐se entre a espada e a parede durante a década de 20,  em  grande  parte  devido  à  política  de  restauração  da  libra.  Durante  esta  década  problemas  sociais como o desemprego, a constante diminuição dos seus salários, a restrição de direitos  adquiridos, como o caso das greves gerais terem sido declaradas ilegais, assolaram a vida desta                                                              
John Maynard Keynes in Beaud, Michel HISTÓRIA DO CAPITALISMO. Teorema: 1981, Lisboa. Pág.218  28 Os Trade Unions, que mais tarde deram origem aos sindicatos, eram associações formadas por trabalhadores, cujo principal instrumento de luta, e o mais eficiente, era a greve. Estes surgiram na componente da industrialização, uma vez que a máquina substituiu a força do trabalho, provocando o desemprego em larga escala.  
27

21 

  classe,  que  ainda  não  sabiam  que  estaria  para  chegar  a  Grande  Depressão  para  os  afrontar  ainda mais.  Em 1929, apoiado pelos liberais e em grande parte devido ao descontentamento geral  com  a  governação  conservadora,  sobe  ao  poder  o  partido  trabalhista  liderado  por  Ramsay  MacDonald. A política económica deste governo foi marcada pela sua ortodoxia, ainda muito  assente na economia clássica Victoriana.  Aquando  o  crash  da  bolsa  de  valores  (24  de  Outubro,  1929)  e  a  propagação  da  crise  por todo o mundo os países reagiram aumentando as suas taxas alfandegárias, o que levou ao  agravamento da crise britânica no sector da exportação.   A  tarefa  do  partido  trabalhista  complicava‐se  e  o  seu  classicismo  económico  em  conjunto com a sua fraca capacidade de resolver problemas de forma radical, não ajudou em  nada à resolução dos problemas, tanto internos como externos. A sua recusa em investir nos  serviços públicos e nas obras públicas e a sua vontade de continuar a baixar progressivamente  os  salários  de  forma  a  conter  os  gastos  públicos  levou  a  que,  em  1930  a  quantidade  de  desempregados  duplicasse,  passou  de  1  milhão  (8%)  para  2,5  milhões  (20%).  O  sector  da  exportação não foi excepção, antes pelo contrário,  caindo cerca 50 %.  Sob a pressão dos liberais, que até então eram seus apoiantes, e também da oposição  conservadora  o  governo  de  MacDonald  teve  de  tomar  acções  de  recurso.  Depois  de  ter  seleccionado um comité para analisar toda a estrutura económica britânica e depois de ver os  resultados  decidiu  conter  ainda  mais  os  gastos  públicos  (cortes  salariais,  subsídios  de  desemprego, etc.) de forma a prevenir um possível défice.  Depois  da  formação  de  um  novo  governo,  o  Governo  Nacional 29 ,  MacDonald  intensificou as suas políticas económicas de contenção de gastos. Este governo, mesmo depois  das  eleições  convocadas  em  1931,  continuou  no  poder  com  MacDonald  à  sua  frente,  sendo  agora novamente denominado por partido Conservador, devido à “flexibilidade” na ideologia  de MacDonald.  Em  1931  o  governo  de  MacDonald  viu‐se  forçado  a  adoptar  medidas  de  forma  a  resolver o estado caótico pelo qual o país passava. Medidas essas, muitas vezes apelidadas de  draconianas30,  que  intensificaram  ainda  mais  os  cortes  nos  gastos,  mais  uma  vez  a  classe  operária teve de pagar um preço caro (à volta de 10% em cortes nos seus salários). Outra das  medidas adoptadas foi o abandono da convertabilidade‐ouro, que desvalorizou o valor da libra  esterlina  facilitando  as  suas  exportações.  Estas  medidas  conseguiram  trazer  à  população  inglesa um crescimento económico gradual.                                                              
 Os  constantes  cortes  na  função  pública,  principalmente  os  cortes  salariais,  dividiram  o  partido  trabalhista.  Assim  ignorando  quem  recusava  esta  política  económica,  juntou‐se  a  apoiantes  seus  e  formou  um  novo  governo,  o  Governo  Nacional  que  contava  com,  além  de  trabalhistas,  com  conservadores  e  alguns  liberais.  Este  governo  deu  continuidade  à  política  de  contenção  nos  gastos  públicos até então em vigência.  Draco foi o primeiro legislador da Antiga Grécia, era caracterizado pela sua severidade ou crueldade  no que diz respeito às suas leis ou modo de governar 
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  Em 1934 foi dado um passo importante em direcção à recuperação da crise. O governo  adoptou  medidas  que  apontavam  para  o  Estado‐Providência,  voltando  a  implementar  um  sistema de subsídio de desemprego, pensões, etc. Assim, juntamente com a desvalorização da  sua  moeda  que  tornou  o  mercado  inglês  mais  competitivo  com  outros  países  nos  mercados  internacionais,  a  recuperação  levou  uma  lufada  de  ar  fresco  abrindo  o  caminho  para  a  estabilização.  Além  de  ter  desenvolvido  um  rearmamento  da  pátria  massivo  criando  assim  mais postos de trabalho, de forma a precaver‐se da crescente ameaça alemã.   

2.2.  A França Proteccionista 
Na  França  o  impacto  da  grande  crise,  relativamente  a  países  como  o  Canadá,  Alemanha, Inglaterra, entre outros, foi bastante diferente. Há que ter em conta que o impacto  sentido  no  território  francês  foi  menor31,  e  poderia  ter  sido  evitado  caso  a  França  tivesse  coragem de mudar a sua política a dada altura da crise.    Tendo  voltado  a  adoptar  a  convertabilidade‐ouro  o  franco  viu‐se  perante  uma 

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desvalorização  e  uma  paridade  muito  baixa  em  1928,  tornando‐se  mais  competitivo  no  mercado  internacional  através  do  fomento  das  exportações.  Além  de  a  França  ser  um  dos  países com mais reservas de ouro, colocando assim a França num posto “confortável”.    Até 1931 a produção industrial não foi afectada, a taxa de desemprego era marginal, e 

graças a um proteccionismo já implementado os preços dos produtos agrícolas mantiveram‐se  altos, não desvalorizando como na maior parte dos países afectados. A repatriação do capital  francês incrementou a  entrada de ouro nas suas reservas, um aumento superior a 35% para  voltar à antiga estabilidade.    A  depressão  só  entrou  em  França  quando  se  deu  a  desvalorização  das  moedas  da 

Inglaterra e dos EUA em 1931 e 1934, que tiraram a vantagem que até então a França tinha no  mercado.  Foi  neste  período  que  a  os  gauleses  viram  os  seus  produtos  agrícolas  serem  desvalorizados, a par de uma sobreprodução ocorrida graças às medidas proteccionistas.     Nesta altura, já os economistas tinham alertado o governo francês para a necessidade 

de  uma  mudança  na  política  económica.  Porém,  o  governo  hesitou,  o  orgulho  francês  falou  mais  alto  e  não  foram  adoptadas  novas  medidas  de  forma  a  tentar  transmitir  a  imagem  de  uma  França  estável  num  mundo  destronado  pela  crise.  A  França  via‐se  agora  de  caras  com  uma deflação, que até então tinha estado afastado do seu vocabulário económico.                                                              
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anexo nº6

    O desfecho da crise francesa só apareceu em 1936, chegando a um acordo entre três 

partes, com os Estados Unidos e a Inglaterra, levando assim a uma desvalorização do franco na  ordem dos 30%. Se em 1933 a França tivesse adoptado este acordo a fuga à crise, que tanto  desejavam,  poderia  ter  sido  um  cenário  possível.  O  regresso  final  à  prosperidade  aconteceu  quando voltou‐se a dar uma repatriação do capital francês após um período de instabilidade  política.    O seu rearmamento não teve grande influência na recuperação da crise, embora possa 

ter causado boas impressões aos olhos dos capitalistas aumentando assim a confiança destes  na economia francesa, assim como a vontade de investirem em território gaulês.   

24 

2.3.  O caso da URSS 
  Devido  ao  seu  isolamento  do  mundo,  depois  da  revolução  político‐social  (1917)  que 

transformou a antiga Rússia Czarista num regime comunista, a Revolução de Outubro, deve‐se  estudar  a  evolução  da  economia  Soviética  paralelamente  aos  restantes  países,  enquadrados  no sistema capitalista.    Enquanto o resto do mundo se deparava com uma crise económica que pôs em causa 

todo o sistema capitalista, a Rússia estalinista prosperava significativamente tanto a nível das  indústrias como da agricultura. Porém, para atingir este fase próspera a URSS enfrentou várias  crises económicas, políticas e sociais tendo sido muitas delas bem mais difíceis que a própria  crise.      “O socialismo não é outra coisa mais do que o monopólio capitalista do Estado, 

levado  a  cabo  em  favor  do  povo,  e,  precisamente  por  esta  razão,  se  afasta  do  capitalismo”      (Vladimir Ilyich Ulyanov “Lenine”)      Desde  a  Revolução  de  Outubro,  vários  foram  os  decretos  implantados  de  forma  a 

iniciar  a  caminhada  rumo  ao  socialismo,  rumo  ao  comunismo.  Nacionalizaram‐se  várias  empresas  e  bancos,  a  produção  e  a  distribuição  das  riquezas  industriais  fora  entregue  aos  operários,  a  confiscação  da  terra,  entre  outros.  Porém,  faltavam  os  meios  e  as  forças  necessárias  para  conseguir  aplicar  todo  este  conjunto  de  medidas,  o  país  ainda  não  estava  preparado  para  uma  mudança  tão  brusca,  levando  a  que  estas  medidas  se  revelassem  em 

  grande parte um fracasso. Por exemplo, em 1920, a produção de cereais mal chegava aos 50%  da produção de 1913, na indústria o cenário afigurou‐se ainda mais caótico estando, também  em 1920, a sua produção fixada nuns meros 20% relativamente a 1913.     No  X  Congresso  do  Partido  Comunista,  a  15  de  Março  de  1921,  Lenine  ao  ver  a 

situação gravíssima (não só económica mas também social) pela qual a URSS passava decidiu  retroceder  na  sua  caminhada  rumo  ao  comunismo,  anunciando  a  Nova  Política  Económica  (NEP). 

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  A  NEP  visava  a  criação  de  uma  economia  privada,  em  pequena  escala,  e  meramente  provisória de forma a conseguir criar um mercado estável para, depois de criar as engrenagens  necessárias,  prosseguir  até  ao  socialismo.  Ou  seja,  o  tal  monopólio  do  estado  em  favor  do  povo  era  agora  cedido,  em  parte,  a  investimentos  privados  havendo  assim  uma  maior  liberalização  deste.  Repôs‐se  o  Rublo  em  circulação,  o  seu  valor  fixou‐se  nos  100  rublos  de  1912.    Em 1924 morre Lenine, sucede‐lhe Joseph Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido 

pelo  cognome  de  Joseph  Stalin  (Stalin  significa  mão  de  aço).  Com  a  sua  ascensão,  Estaline,  aboliu  com  a  NEP  e  estabeleceu  os  planos  quinquenais,  que  estabeleciam  um  conjunto  de  acções a serem cumpridas no prazo de 5 anos.    O grande objectivo destes planos quinquenais, era o desenvolvimento da indústria e a 

recolectivização  da  agricultura.  Com  ajuda  de  especialistas  e  tecnologias  estrangeiras  assim  como o uso de força repressiva sobre o seu povo.     Com a recolectivização e a forte aposta na indústria a URSS conseguiu, em menos de 8 

anos,  tornar‐se  na  2ª  potência  mundial  durante  a  década  de  30  marcada  no  resto  do  globo  pela grande crise de 1929.       

 

3. POLÍTICAS DE RESOLUÇÃO DA CRISE
 

3.1.  New Deal 
O presidente Herbert Hoover acreditava que o comércio, se não supervisionado pelo  governo, iria eventualmente recompor‐se e minimizar os efeitos da grande recessão. Hoover  acabou  por  rejeitar  diversas  leis  aprovadas  pelo  Congresso  americano,  alegando  que  estas  dariam demasiados poderes ao Governo.  No  entanto,  Hoover  incitava  a  uma  ajuda  aos  mais  necessitados,  admitindo  uma  intervenção municipal, nos condados, ou até estatal. Uma vez que a maior parte dos estados  não  teria  fundos  para  promover  essa  intervenção,  Hoover  propôs  a  criação  de  um  órgão  governamental,  o  Reconstruction  Finance  Corporation  (RFC),  em  1932.  Este  órgão  seria  responsável  por  fornecer  ajuda  financeira  a  empresas  e  instituições  comerciais  e  industriais,  como  por  exemplo  Bancos,  Companhias  de  Seguros,  ferrovias,  e  grandes  empresas,  acreditando que a falência destas instituições agravaria ainda mais a Grande Depressão.  Em  1930,  o  descontentamento  geral  manifestou‐se  nas  eleições  legislativas:  os  Republicanos tinham perdido numerosos lugares e os Democratas asseguraram a sua maioria.  Do  lado  dos  Republicanos  encontrava‐se  Herbert  Hoover  e  do  lado  dos  Democratas  Franklin  Delano Roosevelt.    “Personalidade cheia de encanto e de espírito cheio de recursos [Roosevelt], impunha-se às multidões tanto pela sua humanidade irradiante como pelo seu bom senso e pela experiencia política (...) Na sua campanha eleitoral, prometeu (...) um New Deal.(...) num resumo, entendido por todos os jogadores de poker, uma nova “distribuição das cartas”, uma nova repartição, uma distribuição mais equitativa dos bens deste mundo.”32    O New Deal teve sucesso entre a população e a 4 de Março de 1933, Roosevelt venceu  as eleições.     “Quando Franklin Roosevelt foi investido como trigésimo segundo presidente dos Estados Unidos (...), a nação estava no auge da sua pior crise desde a Guerra Civil. (...) a indústria estava praticamente encerrada e o sistema bancário estava à beira de um colapso total.”33    Roosevelt  afirmou  a  sua  vontade  de  socorrer  a  pobreza  e  a  miséria,  restabelecer  o  equilíbrio entre a agricultura e a indústria, de exercer um controle sobre as praticas bancárias,  a reconstrução do sistema monetário, o trabalho, a segurança social, a saúde, a habitação, os                                                              
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Schoell,Frank L.ibidem, p.189 
 Cameron,Rondo.ibidem,

p.397 

  transportes,  a  comunicação,  e  os  recursos  naturais,  cedendo  desta  forma  também  maiores  poderes  executivos  ao  Congresso.  Roosevelt  acreditava  que  o  governo  americano  era  o  principal  responsável  e  era  a  este  que  cabia  “lutar”  contra  os  efeitos  da  Depressão.  Numa  sessão  legislativa  especial,  conhecida  como  os  Hundred  Days  (“cem  dias”),  Roosevelt  e  o  Congresso aprovaram um conjunto de leis, que, por insistência do próprio Presidente, foram  designadas  de  New  Deal  (“novo  acordo”).  Estas  leis  forneciam  ajuda  social  às  famílias  e  pessoas  que  necessitassem,  forneciam  empregos  através  de  parcerias  entre  o  governo,  empresas  e  os  consumidores,  tinham  em  vista  a  reforma  do  sistema  económico  e  governamental americano, de modo a evitar que uma recessão desta índole voltasse a ocorrer  futuramente.    A  administração  de  Roosevelt  gastou  cerca  de  16  mil  milhões  de  dólares  em  assistência  directa  aos  desempregados;  fundos  federais  foram  cedidos  às  empresas  em  risco  de  falirem;  para  combater  o  desemprego  o  governo  promoveu  grandes  obras  públicas  (construção  de  barragens,  estradas,  pontes,  etc.);  e  foram  concedidos  empréstimos  às  sociedades de construção de habitações, para que estas criassem também um grande número  de empregos.  O  acto  legislativo  mais  característico  da  época  foi  a  criação  da  National  Recovery  Administration  (NRA),  um  sistema  de  planeamento  económico  privado,  com  supervisão  governamental, para proteger o interesse público e garantir o direito dos trabalhadores de se  organizarem  e  reivindicarem  colectivamente.  Em  1935,  o  Supremo  Tribunal  declarou  a  NRA  inconstitucional.  Depois de, no primeiro dia, a  politica  de  Roosevelt ter  encerrado todos os bancos, o  New Deal reabriu‐os colocando‐os sob vigilância apertada. O estado abandonou o padrão‐ouro  e proibiu aos particulares a posse ou a detenção do ouro e procedeu a uma desvalorização do  dólar. O objectivo era, por meio de uma política de inflação, elevar o preço dos produtos de  primeira necessidade.  O  governo  também  instituiu  o  controlo  de  venda  de  títulos,  que  deu  lugar  a  muitos  abusos no passado, e submeteu à vigilância dos poderes públicos os grandes trusts privados,  que tinham tomado o controlo dos serviços de utilidade pública: gás, água e electricidade.  Instituiu a Tennessee Valley Authority (TVA), um órgão governamental encarregado de  explorar os recursos, por meio de barragens hidroeléctricas. Esta agência tinha como principal  objectivo o melhoramento económico e o benefício do meio rural, muito necessários.  Numa visão geral sobre o New Deal, é necessário focar os domínios da agricultura, do  trabalho e da segurança social, domínios esses de grande importância no futuro.  Agricultura – o estado indemnizou os agricultores, que reduziram as suas áreas de  cultivo  para  diminuir  a  produção,  e  concedeu  créditos  de  pagamento  de  dívidas.  Tanto  na  agricultura  como  na  indústria,  foram  fixados  limites  à  produção  e  tabelaram‐se os preços dos produtos, de modo a evitar as crises de superprodução.  Graças a várias leis, entre as quais dois Agricultural Adjustment Acts, a situação do  mercado agrícola melhorou. O plano consistia, primeiramente,  em pagar subsídios  em dinheiro aos agricultores que reduzissem as suas superfícies. Outro trâmite do  acto, seria restabelecer o equilíbrio entre os preços agrícolas e os preços dos outros  produtos.  Trabalho  –  o  New  Deal  tomou  medidas  a  favor  do  assalariado.  Com  o  National  Recovery  Act  (NRA)  (1933),  a  administração  de  Roosevelt  reduziu  as  horas  de 

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  trabalho,  aumentou  os  salários  (foi  estabelecido  um  salário  mínimo),  aboliu  o  trabalho infantil e garantiu o direito ao contracto colectivo. O NRA, foi considerado  inconstitucional pelo Supremo Tribunal, no entanto, algumas das suas leis puderam  ser retomadas e melhoradas. O Wagner Act (1935), lançou as bases do poder dos  sindicatos americanos, o objectivo do acto era garantir ao trabalhador a liberdade  de ter um sindicato,  com o qual pudesse negociar  e regular a sua situação com o  patronato. Foi criado o Labor Relations Board, que arbitrava em caso de litígio no  trabalho. Um pouco sujeita à inércia, a Federatoion of Labor, conheceu, em 1935,  outro  vigor,  por  John  L.  Lewis,  presidente  do  sindicato  dos  mineiros.  Daí  surgiu  o  Committee for Industrial Organization (CIO), aumentando a área da sindicalização.  Segurança Social – o Social Security Act (1935) criou um fundo de desemprego e um  sistema  de  pensões  para  os  idosos,  cegos  e  crianças  enfermas.  Estes  programas  eram  financiados  pelos  patrões,  assalariados  e  administrados  pelos  Estados  sob  o  controle do Governo Federal.    O New Deal fracassou em restabelecer o pleno emprego, uma vez que em 1937 ainda  havia  7  milhões  de  desempregados  e  o  produto  nacional  atingira  apenas  os  72  milhões  de  dólares, enquanto que em 1929 registava números acima dos 82 milhões.          

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4.   CONSEQUÊNCIAS DA GRANDE DEPRESSÃO 
 

4.1.  Acordos de Bretton Woods 
  Os  acordos  de  Bretton  Woods  tiveram  a  sua  origem  devido,  em  grande  parte,  aos  acontecimentos  da  Grande  Depressão.  Outros  motivos  ligados  à  sua  edificação  foram  a  concentração de poderes em muitos estados, bem como a presença de potências dominantes  querendo assumir a liderança hegemónica.  A Grande Depressão foi mestre na proliferação de barreiras e impostos aduaneiros, o  que  levou  à  queda  do  comércio  internacional,  durante  longos  anos.  Cada  barreira  erguida  pelos  estados,  minara  o  sistema  internacional  de  pagamentos,  base  do  comercio  mundial.  A  politica  de  isolamento  dos  anos  trinta,  provocou,  sem  dúvida,  espirais  deflacionarias,  devido  ao uso excessivo de tarifas alfandegárias rígidas, com o fim de reduzir o deficit da Balança de  Pagamentos.  Por  consequência,  os  países  amargaram  uma  diminuição  da  produção,  o  desemprego a grande escala, e o declínio do comércio mundial.   O  comércio  da  década  de  trinta  ficou  conhecido  pelos  “blocos  monetários”,  ou  seja,  grupos  de  nações  que  empregavam  uma  moeda  equivalente,  e  com  a  qual  estabeleciam  as  suas  trocas  comerciais.  Entre  esses  blocos  podemos  distinguir  o  bloco  da  libra  esterlina  do  Império  Britânico.  A  problemática  da  criação  só  agravou  ainda  mais  o  comércio  mundial,  já  enfraquecido,  pois  o  surgimento  de  blocos  retardava  o  fluxo  internacional  de  capitais  e  encobrir  a  possibilidade  de  investimentos  estrangeiros.  Mesmo  assim,  apesar  da  estratégia  vislumbrar  a  eficiência  a  curto  prazo,  uma  vez  que  aumentou  o  capital  desses  países,  estava  condenada ao infortúnio, a longo prazo.  As  economias  dos  grandes  países  não  poderiam  continuar  fechadas,  para  assim  rejubilar da catástrofe económica, que atingiu o seio da nação capitalista. Só numa economia  aberta  os  países  conseguiriam,  para  além  de  preservar  a  paz,  assegurar  o  desenvolvimento  económico de cada país. Os acordos de Bretton Woods favoreciam isso mesmo, planificando  uma ideia ou um sistema liberal, um sistema que se baseasse primeiramente no mercado, com  o mínimo de restrições ao fluxo do comércio e de capitais privados. Apesar de nem todos os  participantes  concordarem  sobre  a  maneira  de  pôr  em  acção  o  plano,  era  unânime  a  necessidade de planificar um sistema económico aberto.  A base dos acordos foi uma crença comum no Capitalismo intervencionista, apesar de  os países envolvidos discordarem quanto ao tipo de abordagem ou intervenção que preferiam  nas  suas  economias.  A  França,  por  exemplo,  preferia  um  planeamento  e  uma  maior  intervenção estatal, ao contrário dos Estados Unidos, que optavam por um planeamento mais  liberal, com uma menor intervenção estatal.  Os acordos de Bretton Woods definiam um sistema de regras que regulamentavam a  política internacional. Para isso, os fundadores dos acordos, criaram o International Bank  for  Reconstruction and Development (BIRD), que mais tarde integrou o Banco Mundial. 

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  Os principais objectivos do sistema de Bretton Woods eram, e são:  • Obrigação de cada país adoptar uma política monetária que mantivesse a taxa de  câmbio das suas moedas dentro de um de um determinado valor ‐ mais ou menos  1%‐ em ouro.  • A  provisão  pelo  Fundo  Monetário  Internacional  (FMI)  de  financiamento  para  suportar  dificuldades  temporárias  de  pagamento.  O  FMI  assegura  a  cooperação  monetária global; a estabilidade financeira; proporciona o comércio internacional;  promove  altos  níveis  de  emprego  e  desenvolvimento  económico  sustentável;  reduz a pobreza.     

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4.2.  A Ascensão do Totalitarismo na Europa   
“Ela [uma crise] exprime os disfuncionamentos acumulados anteriormente, já que as «economias [e as sociedades] têm as crises das suas estruturas» (Ernest Labrousse); mas ela amplifica as desordens anteriores, anuncia o futuro. Qualquer crise é, pois, ao mesmo tempo um sinal de mudança, uma consequência das evoluções em curso e um factor de mutações, na origem de uma nova hierarquia nacional e internacional.”   

Marc Nouschi34 
  A Grande Depressão acarretou, como sabemos, inúmeras consequências para todos os  países que nela se envolveram, directa ou indirectamente. Pouco a pouco, com a pobreza e a  falta de recursos a alastrarem‐se cada vez mais, um pouco por todo o mundo, as populações  esperam e desesperam com os seus líderes políticos, que pouco ou nada conseguem fazer de  maneira  a  travar  (ou  pelo  menos  atenuar)  os  efeitos  devastadores  da  crise  que  se  abatem  sobre as massas, desejosas de “pão e trabalho”35.  As ideias democráticas e liberais estão, também elas, em apuros. Incapazes de resolver  pela  via  “democrática”  a  crise,  poucos  são  os  governos  de  natureza  democrática  que  conseguem  escapar  à  ira  e  ao  desespero  das  massas  de  desempregados.  Perante  isto,  o  mesmo é dizer que são poucos, ou raros, os países afectados pela crise que conseguem manter  uma  estrutura  governativa  apoiada  no  respeito  pelo  liberalismo  e  pelas  ideias  democráticas.  Essa “tendência liberal”, anterior à crise, inverte‐se. A partir daí, o cenário passa a reverter a  favor  das  ideologias  totalitaristas,  que  baseiam  a  sua  actuação  na  brutalidade,  assentes  em  valores  anti‐democráticos,  anti‐parlamentares;  no  fervor  nacionalista/patriota  que  apela  ao 

                                                            
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in O SÉCULO XX. Instituto Piaget: 1995, Lisboa.

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 Palavras a que, por exemplo, Adolf Hitler recorria frequentemente nos seus empolados discursos, de forma

a atrair todo um povo que passava miséria, fome, desemprego.

  expansionismo,  ao  orgulho  nacional.  Dentro  da  Europa,  até  ao  final  dos  anos  30,  esse  panorama acaba por espalhar‐se em praticamente todos os países.  Ainda  antes  da  crise,  em  1922,  no  clímax  traumático  do  primeiro  pós‐guerra,  a  Itália  havia  dado  o  primeiro  passado.  É  importante  percebermos  em  que  contexto  surge  o  “primeiro”  fascismo,  uma  vez  que  isso  nos  ajuda  a  compreender  todos  os  outros  que  se  seguiram  na  Europa,  nomeadamente  o  nacional‐socialismo  alemão,  conhecido  pela  sua  brutalidade/ferocidade.  Todos  eles  se  inspiraram  no  modelo  pioneiro,  na  filosofia  fascista  posta em prática na Itália.  O “saldo” 36 da participação italiana na Primeira Guerra Mundial, ao lado dos Aliados,  tinha deixado o povo italiano, no geral, muito descontente com as “recompensas” que tinham  sido  dadas  à  Itália  (ou  que  se  esperava  serem  dadas)  nas  conferências  de  paz.  Podemos,  inclusive, dizer que havia algum desejo de vingança em relação às grandes potências europeias  (França  e  Inglaterra);  o  que  fez  com  a  Itália  adoptasse  uma  atitude  algo  isolacionista  no  panorama internacional. Isso facilitou o aparecimento de ideias radicais/extremistas, donde se  veio a destacar o ideário do Partido Nacional Fascista (Partito Nazionale Fascista), com Benito  Mussolini [1883‐1945] à cabeça.  “670 000 Mortos, 1 000 000 de feridos, a guerra «redentora» tem um preço muito pesado para a Itália. É verdade que a sociedade e a economia resistiram, mas desde 1919 que as fragilidades acumuladas surgem à luz do dia. As cláusulas dos tratados de paz trazem os italianos de volta à realidade: nenhuma satisfação dada à sua ambição hegemónica no Adriático, mas, pelo contrário, a tomada de consciência da sua incapacidade de ponderar o seu destino e de recolher os frutos de uma vitória doravante «mutilada». (…) À dependência económica face à Alemanha sucede o endividamento aos Anglo-Saxões. Não há esperança, mas sim falência de uma classe política incapaz de reunir a população em torno de um projecto de futuro coerente. (…) A Itália torna-se ingovernável. Aliás, sucedem-se cinco governos entre a vitória e a tomada do poder pelos fascistas [1922] ” 37    Os  fascistas  italianos  tomam  o  poder,  como  foi  referido,  em  1922.  Não  o  tomam,  contudo, através de um uso inteligente das instituições democráticas (e das possibilidades que  estas  oferecem  a  qualquer  “um”  que  ambicione  chegar  ao  poder)  –  como  o  fizeram  Adolf  Hitler  e  os  seus,  cerca  de  10  anos  depois.  Em  vez  disso,  Mussolini  e  os  fascistas  italianos,  os  “Camisas  Negras”,  organizaram  a  famosa  “Marcha  sobre  Roma”:  mais  de  50  mil  militantes  fascistas desfilam em Roma entre 27 e 29 de Outubro de 1922, numa “espécie de” golpe de  estado  no  qual  exigem  que  o  rei  de  Itália,  Vítor  Emanuel  III,  conceda  plenos  poderes  de                                                              
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«A Itália saiu da guerra com mais de 700 000 mortos, cerca de 500 000 feridos e dívidas no valor de 1500 milhões de dólares da época aos Estados Unidos e de 2500 milhões à Grã-Bretanha. A situação laboral era também muito grave; um milhão de grevistas em 1919, mais de dois milhões no ano seguinte; esta situação era muito propícia para a explosão de atitudes radicais.» (Rodrigues, Fernando Carvalho [direcção]. ENCICLOPÉDIA DIDACTA – HISTÓRIA. F.G.P.: 1997, Lisboa. pág. 239) 37  Nouschi, Marc. O SÉCULO XX. Instituto Piaget: 1995, Lisboa. pág. 155

  governação  a  Mussolini.  Tal  acaba  por  acontecer,  depois  de  os  fascistas  obterem  a  maioria  parlamentar, ficando com soberania para fazerem o que bem entendessem.  Mas que tipo de poder é este? O que caracteriza o Fascismo?   Para  além  daquilo  que  já  foi  referido  anteriormente  (o  facto  de  os  regimes  fascistas  serem  anti‐democratas,  anti‐parlamentares,  anti‐comunistas),  o  Fascismo  define‐se,  em  termos gerais, por preconizar uma exaltação exacerbada da Nação, um primado do Estado, da  comunidade  (do  grupo)  sobre  o  indivíduo  –  estando  isso  traduzido  na  célebre  máxima  salazarista:  “Tudo  pela  Nação,  Nada  contra  a  Nação!”.  Outros  regimes,  como  o  alemão,  também  de  cariz  fortemente  fascista,  adoptaram  uma  visão  racial  da  História:  “Um  Estado,  que, na época do envenenamento das raças, se dedica a cultivar os seus melhores elementos  raciais, tem de um dia se tornar senhor do mundo” . Por outro lado, o fascismo apresenta um  forte  cariz  autoritário,  militarista,  que  apela  ao  expansionismo,  ao  domínio  hegemónico:  “A  guerra é para um homem aquilo que a maternidade é para uma mulher”, afirmava Mussolini.  Para alcançar estes fins, e subjugar todo um sistema social que se “rende”, a bem ou a mal, ao  sistema político, esses mesmos sistemas políticos fascistas têm por hábito proceder a todo um  enquadramento ideológico de massas; no qual o ensino e todas as instituições fundamentais  da  sociedade  são  manipuladas,  estando  submetidas  a  um  rigoroso  processo  de  controlo  ideológico, directamente dirigido pelo Estado, de forma a alastrar e incutir na população, nas  massas, o espírito político pretendido e defendido “com unhas e dentes” pelos governantes. A  censura  é  instituída  para  esse  mesmo  fim.  A  propaganda  política  intensifica‐se  mais  do  que  nunca,  tornando‐se  uma  grande  arma  ideológica  dos  regimes.  Os  opositores  ao  regime  são  ferozmente  perseguidos,  e  muitas  vezes  eliminados  sem  qualquer  piedade.  Podemos  assim  dizer  que  o  Fascismo,  enquanto  teoria  política,  pretende  encarnar  uma  nova  ordem  social,  onde  não  há  lugar  para  a  mínima  oposição39 que  seja  susceptível  de  perturbar  a  ordem  instituída, e onde os valores instituídos são submetidos a uma espécie de “sacralização divina”  (do Estado) – «A Nação não se discute», dizia Oliveira Salazar.    Existem  diversas  definições/explicações/teorizações  à  volta  do  fascismo.  Até  porque  existem, ou existiram, algumas diferenças cruciais de país para país. O grau de brutalidade, a  maneira  como  a  “filosofia  fascista”  foi  aplicada  de  país  para  país,  variou  muito.  Se,  por  exemplo,  compararmos  o  regime  nazi  alemão,  ou  o  regime  italiano,  com  o  Estado  Novo  em  Portugal,  notar‐lhes‐emos  imensas  diferenças  práticas,  apesar  das  inúmeras  semelhanças  ao  nível  da  teoria.  É  costume,  também,  enquadrar  os  regimes  fascistas  de  extrema‐direita  na  esfera  do  totalitarismo,  onde  também  entram  os  regimes  extremistas  que  diferem  muito  no  que diz respeito à “teoria”, mas pouco ao nível da prática. Aqui incluiríamos regimes como o  Estalinismo  (na  Rússia),  o  Japão  Imperial,  ou  a  China  “comunista”  de  Mao  Tse‐Tung,  só  para  falar nos mais célebres exemplos totalitários que a História conheceu até hoje.                                                              
38 39 38

32 

 Hitler, Adolf. MEIN KAMPF (A Minha Luta)   ‐ versão digital 

 A propósito desta questão, é interessante analisarmos um certo ponto de vista: “Uma total e visível submissão é a única resposta prudente ao poder totalitário. É manifesto que tal comportamento não ganha um respeito superior, mas qualquer outro comportamento só pode trazer problemas. Quando o poder está polarizado, como acontece nas sociedades hidráulicas, as relações humanas também se polarizam. Os que não têm controlo sobre o governo temem naturalmente poder ser esmagados em qualquer conflito com os superiores” (Mason, Paul T. O TOTALITARISMO. Delfos: 1981, Lisboa. pág. 101)

  “Chegámos à conclusão de que a ditadura totalitária é historicamente típica e sui generis. Também concluímos de todos os factos verificados que as ditaduras totalitárias – fascistas e comunistas – são basicamente idênticas, ou, pelo menos, mais ligadas umas às outras do que qualquer outro sistema de governo.” (Carl Freidrich e Zbigniew Brzezinski) 40 “A expressão «sociedade totalitária» aplica-se com dois sentidos profundamente ligados, mas distintos. No primeiro sentido é conotada com um tipo de sociedade que envolve certas características, como a concentração do poder nas mãos de alguns indivíduos, a inexistência do de direitos do homem frente à colectividade e uma extensão ilimitada das funções do Estado, que se torna praticamente equivalente à sociedade. Mas são ainda possíveis outras combinações de características; por exemplo, o conjunto da natureza ideológica do Estado, do imperialismo e da organização dos homens atomizados” (N.S. Timasheff). 41    Centrando‐nos  essencialmente  no  continente  europeu,  podemos  pôr  a  seguinte  questão:  o  que  fizeram  os  regimes  fascistas  (que  predominavam  na  Europa)  para  terem  atingido os elevados índices de popularidade que, efectivamente, obtiveram? Em que medida  conseguiram atenuar os efeitos, ou o impacto, da crise económica?  O  regime  nacional‐socialista  (nazi)  alemão,  fortemente  influenciado  pelas  ideias  de  Mussolini, foi um bom exemplo no que se refere a políticas de resolução, ou atenuação, dos  efeitos avassaladores que a crise atingiu na Europa.   A  nível  mundial,  a  Alemanha  foi  um  dos  países  mais  afectados  pela  crise.  A  situação  económica  da  Alemanha  era  caótica.  Aquando  da  subida  ao  poder  dos  nacional‐socialistas,  existiam  6  milhões  de  desempregados!  Por  outro  lado,  nessa  altura  a  Alemanha  havia  pago  apenas  cerca  de  1/8  das  reparações  de  guerra  que  lhe  foram  exigidas  pelo  Tratado  de  Versalhes,  após  o  final  da  Primeira  Guerra  Mundial,  já  para  não  falar  de  todas  os  outras  implicações que o mesmo tratado acarretavam para a Alemanha. Com a crise que estalou em  1929, o cenário piorou ainda mais. Para pagar aquilo que lhe tinha sido exigido pagar, e para se  reconstruir  a  si  própria,  a  Alemanha  havia  ficado  altamente  dependente  dos  fundos  económicos americanos, que financiavam grande parte dessa reconstrução.  De maneira a chamar a atenção das massas descontentes (e de maneira a garantir um  apoio ou uma manutenção sustentável do seu próprio poder) uma das grandes preocupações  de  Hitler  e  dos  nazis,  antes  e  depois  de  ascender  ao  poder,  foi  reduzir  as  elevadas  taxas  de  desemprego alemãs e, deste modo, corresponder a um dos grandes anseios do povo alemão.  Com o emprego, viria o trabalho; com o trabalho, haveria produtividade; com a produtividade,  viria a riqueza. Para suprimir o desemprego, sem ignorar a ideologia nacional‐socialista, Hitler  reformulou  todo  o  sistema  militar:  desprezando  por  completo  as  cláusulas  de  Versalhes,  procedeu  ao  rearmamento  e  instituiu  o  serviço  militar  obrigatório,  enchendo  as  fileiras  do  exército com alguns dos antigos milhões de desempregados.                                                              
40 41

33 

in Mason, Paul T. O TOTALITARISMO. Delfos: 1981, Lisboa. Ibidem, pág. 29

pág. 25

  “Ele [Hitler] teve a ideia genial de enfiar em fardas os excluídos e os desempregados. Com esta ideia de opereta, alcançou vários objectivos ao mesmo tempo. Os fardados recuperaram uma certa auto-estima e deixaram de se sentir isolados, passando a fazer parte de um grupo. Hitler evocou a famigerada vivência da frente de batalha e fez com que na imaginação a derrota deixasse de ter acontecido. Sugeriu aos burgueses a ordem de um exército por contraposição ao caos que temiam que viria da esquerda. Assim, ele pôde recomendar-se como força da ordem para alianças futuras. A estrutura de comando de um exército, que ele imitava, justificava a sua auto-estilização como chefe que exigia uma obediência absoluta”42   Hitler  desprezava  sistematicamente  todas  as  imposições  do  Tratado  de  Versalhes,  incutindo ao mesmo tempo esse desprezo na mentalidade do povo alemão. A verdade é que,  para  resolver  a  crise  instalada  no  seio  da  Alemanha,  “precisou”  de  ignorar  as  reparações  de  guerra  exigidas  à  Alemanha  por  ser  considerada  “culpada”  da  Grande  Guerra,  precisou  de  ignorar todas as restrições militares e civis que também lhe foram impostas pelo Tratado de  Versalhes.  Dado  esse  passo,  tudo  se  tornaria  mais  fácil  no  caminho  em  direcção  ao  desenvolvimento pleno do III Reich.   Economicamente, a Alemanha nazi e a sua economia vivem, desde o início, orientadas  para a guerra43 – e para uma política externa agressiva (o que em nada contradiz a ideologia  nacional‐socialista, que apelava ao expansionismo, à ocupação do «espaço vital»). As políticas  de  incentivo  ao  rearmamento  e  a  remilitarização  da  Alemanha  traduzem  isso  mesmo;  assim  como as imensas encenações histórias e as manipulações ideológicas, ambas fazendo questão  de  mostrar  o  passado  glorioso  bélico  da  Alemanha.  No  seguimento  disto,  Hitler  procede  à  remilitarização de zonas que integravam o território alemão antes da Primeira Guerra Mundial,  e que lhe foram retiradas pelos tratados de paz – a região dos Sudetas (na Checoslováquia), a  Áustria, a Renânia.   Por  fim,  quando  Hitler,  a  1  de  Setembro  de  1939,  inicia  a  ofensiva  contra  a  Polónia  (para, entre outras coisas, ocupar a região de Danzig, cujos habitantes eram maioritariamente  de  origem  alemã),  A  Inglaterra  e  a  França  declaram  guerra  à  Alemanha.  Tinha  acabado  de  estalar a Segunda Guerra Mundial, a maior carnificina de toda a história da humanidade, que  só haveria de estender por 6 anos, provocando cerca de 50 milhões de mortos.     

34 

                                                            
42

Schwanitz, Dietrich. CULTURA – TUDO O QUE É PRECISO SABER (4ª Edição). Dom Quixote: 2004, Lisboa. pág. 196  43 Dizia o ministro da propaganda alemão, Joseph Goebbels: “Vós não tendes manteiga. Mas tendes canhões e com canhões tereis manteiga!"

 

5.   GRANDES MUDANÇAS NA VIDA ECONÓMICA, POLÍTICA E

SOCIAL DOS PAÍSES ATINGIDOS 
  As consequências a longo prazo da Grande Depressão foram bastante importantes no  que  consta  à  substituição  de  todos  os  cânones  existentes  até  1929.  Entre  elas  podemos  encontrar  um  crescimento  no  papel  do  Governo  na  economia,  a  chamada  “revolução  keynesiana”; e os esforços de países da América Latina, ou de alguns do terceiro mundo, para  desenvolverem indústrias orientadas para a substituição das importações. Pelo lado negativo,  a  Depressão  também  contribuiu,  através  de  toda  a  incerteza,  miséria  e  sofrimento  que  provocou,  a  ascensão  de  movimentos  políticos  extremistas,  tanto  na  esquerda  como  na  direita, como o caso da Alemanha, que contribuiu para desencadear a II Guerra Mundial.      Depois da Grande Depressão, houve a necessidade do governo intervir mais na escala  económica. Se até então viviam‐se épocas de “laissez‐faire”, após o Crash viveram‐se tempos  difíceis.  Só  a  intervenção  estatal,  um  Estado‐Providência  (“welfare  state”)  atenuou  esse  período. No “welfare state”, os mercados passavam a dirigir as actividades especificas do dia‐ a‐dia  da  vida  económica,  enquanto  que  os  governos  regulamentavam  as  condições  sociais  e  proporcionavam  as  pensões  de  reforma,  cuidados  de  saúde  e  outros  aspectos  de  rede  de  segurança social.    Se até à Primeira Guerra a intervenção estatal era apenas feita em matérias legislativas  e monetárias, com a crise a intervenção do estado passou a incluir mais matérias, alargando‐se  a todas as esferas, designadamente:     • Mercado de trabalho – o recrutamento, a mobilidade de operários especializados, a  melhor  remuneração  (aplicação  do  salário  mínimo),  o  recurso  à  mão‐de‐obra  feminina.  • Crédito  e  controlo  dos  preços  –  o  crédito  a  longo  prazo  permitiu  às  indústrias  investirem nas novas tecnologias, aumentando a sua produtividade. O controlo dos  preços  de  certos  artigos  permitiria  reduzir  a  interdependência  do  mercado  multilateral.  • Maior intervenção estatal – todos os sectores passariam a trabalhar para um todo,  não estariam dependentes mas sim, interdependentes, o estado asseguraria que a  quebra  de  qualquer  um  dos  sectores  económicos  pudesse  ser  complementada  pelos outros.    O Estado passou a ter a capacidade de promover a equidade e a eficiência dos países, através  das  suas  determinadas  políticas.  Com  isso,  o  papel  do  governo  ficou  relacionado  com  a  apropriação  da  responsabilidade  de  garantir  aos  seus  cidadãos  um  certo  grau  de  bem‐estar  económico  e,  consequentemente,  social.  Daí  a  designação  popularmente  adoptada  (por  exemplo nos anos 60): a do Estado‐Providência ‐ que providencia o bem‐estar dos cidadãos.   

35 

 

6. BIBLIOGRAFIA
 
ROTHERMUND, Dietmar. THE GLOBAL IMPACT OF THE GREAT DEPRESSION.Routledge: 1996, London and New York.  Leuchtenburg, William E. PERILS OF PROSPERITY‐1914‐32.The University of Chicago Press: 1958‐1993, London.  Rémon, René. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO NOSSO TEMPO‐DO ANTIGO REGIME AOS NOSSOS DIAS. Gradiva: 2003, Lisboa.  Schoell,Frank L. HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS.Editoral Aster: 1977, Lisboa.  Hobsbawm,  Eric.  A  Era  dos  Extremos  –  História  Breve  do  Século  XX  (1914‐1991).Editorial  Presença:  1996,  Lisboa.  Nouschi, Marc. O SÉCULO XX. Instituto Piaget: 1995, Lisboa.  Soulier, Gérard. A EUROPA – HISTÓRIA, CIVILIZAÇÃO, INSTITUIÇÕES. Instituto Piaget: 1994, Lisboa.  Arndt, H.W., 1994, THE ECONOMIC LESSONS OF YHE 1930’S. Londres,1944.  Mason, Paul T. O TOTALITARISMO.(tradução de Nuno de Carvalho Santos)  Delfos, 1981, Lisboa.  Mendes, J.M.Amado. HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL DOS SÉCULOS XV A XX, 2ªedição, Fundação Calouste  Gulbenkian,1997, Lisboa.  Beaud,  Michel.  HISTÓRIA  DO  CAPITALISMO.(tradução  de  José  Vasco  Marques).  Editoral  Teorema,  1981,  Lisboa.  Deane, Phyllis. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. 3ª edição, Zahar Editores, 1975, Rio De Janeiro.  Schumpeter, Joseph A.HISTORY OF ECONOMIC ANALYSIS.Routledge, 1994,London.  Cameron,Rondo.HISTÓRIA  ECONÓMICA  DO  MUNDO  ‐  De  uma  forma  concisa,  de  há  30  000  Anos  até  ao  presente. Publicações Europa‐América.2000, Sintra‐Lisboa.  Léon, Pierre. HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL DO MUNDO, VOL.V‐GUERRAS E CRISES,1914‐1947.Sá da Costa  editora, 1982,Lisboa.  Galbraith,John  Kenneth.  A  CRISE  DE  1929.ANATOMIA  DE  UMA  CATÁSTROFE  FINANCEIRA.  Dom  Quixote,  1974,Lisboa.  Schwanitz, Dietrich. CULTURA ‐ TUDO O QUE É PRECISO SABER (4ª Edição). Dom Quixote:2004, Lisboa.  CAROL, Anne e outros. RESUMO DE HISTÓRIA DO SÉCULO XX. Plátano Edições Técnicas: 1999, Lisboa 

36 

 

7. RECURSOS DIGITAIS
  WIKIPEDIA  ( www.wikipedia.org )         

 

8. ANEXOS
 

 

37 

Anexo nº 1 
Períodos de alta e baixa de preços 
   

  Fig.1   
     

 

 

 

 

 

Fig.2 

                           

38 

Anexo  nº2 
Colapso económico 1929‐1932  Fig.1 índice de emprego  Fig.2 índice de rendimento per capita  Fig.3 índice de produção fabril         

 

39   

Anexo nº3 
Esquema cíclico da crise de 1929 
Percentagem da produção norte‐americana em relação ao total mundial 
1913 (em
percentagem)

1925 (em
percentagem)

 

           

Maquinaria Indústria electrotécnica Carvão Petróleo Ferro Fundido Aço Alumínio Seda

50 % 28,9 % 42,5 % 62,8 % 40 % 41,5 % 32,1 % 5,7 %

57,6 % 48,1 % 44,7 % 70,4 % 49,1 % 49,1 % 37,6 % 27 %

Anexo nº4 
Percentagem da produção norte‐americana em relação ao total mundial   
           

  Crescimento Económico dos Estados Unidos durante a época de prosperidade    (1922‐1929) 

Anos

Produção industrial 1936-1939=10
58 73 88 82 90 96 95 99 110

Preços 1926=100

Rendimento nacional (biliões de dólares)
59,4 60,7 71,6 72,1 76 81,6 80,1 81,7 87,2

Rendimento nacional per capita (em dólares. de 1929)
522 553 634 633 644 678 674 676 716

1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929

97,6 96,7 100,6 98,1 103,5 100 95,4 96,7 95,3

40 

 

Anexo nº5 
Crescimento económico dos Estados Unidos durante a época da prosperidade (1922‐ 1929)     

 

41 

   

Ane exo nº6 
Evolu ução do PIB B entre 1929 9 e 1939 nas maiores p potenciais mundiais  m      
1930  1931  1932  1933  1934  1935  1936  1937  1938  1939  Ano  PIB Cana adá  91.6 6  77.0 0  66.5 5  59.6 6  64.5 5  67.1 1  67.5 5  71.8 8  69.7 7  72.4 4 

An nexo nº7 
Ev volução do P PIB no Cana adá. 

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