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Estudos de

Literatura para o
Ensino Médio e
Vestibulares

Honneur Monção
CopyMarket.com
Título: Literatura Brasileira para Vestibulares
Todos os direitos reservados.
Autor: Honneur Monção
Nenhuma parte desta publicação poderá ser
Editora: CopyMarket.com, 2000
reproduzida sem a autorização da Editora.

A Evolução da Poesia Romântica no Brasil


Honneur Monção

As Gerações

É ponto pacífico que, na literatura brasileira há, pelo menos três romantismos: o nacionalista, o individualista e o
social. Para explicar esse fato, Karl Mannhein oferece-nos um enfoque sociológico. As transformações
resultantes da Revolução Francesa, em diversos planos da vida, geraram o descontentamento de vários
segmentos sociais:
1 - A aristocracia foi deslocada do centro do poder e elege o passado como fulcro de suas aspirações de
recuperação da glória e do esplendor perdidos. Seu conservadorismo ressentido desconfia do progresso e da vida
coletiva. Daí o mergulho nos temas que elegem o heroísmo, o medievalismo, a religiosidade, a tradição, o
passado remoto em geral, a natureza e a idealização dos personagens e do amor.
2 - A burguesia em ascensão dividiu-se em dois segmentos, se não antagônicos, pelo menos divergentes:
a) os que, tendo ficado marginalizados do poder, mergulharam no pessimismo, no negativismo, no
escapismo, na exasperação egótica; seus temas prediletos são a morbidez, o tédio, o satanismo, a boêmia,
o sonho, o erotismo irrealizado.
b) os que assumiram a atitude liberal-progressista, rebelando-se contra as instituições anacrônicas.
Engajados nas grandes causas sociais, os temas constantes são: a liberdade, os proletários oprimidos pela
Revolução Industrial na Europa, os escravos na América, a causa republicana, a exaltação do progresso.

O Brasil da 2ª metade do séc. XIX é uma nação agrária, atrasada, periférica no contexto mundial — veja o leitor
que nada mudou desde então —, não se podendo transplantar cabalmente a realidade européia para o contexto
brasileiro. Os temas literários, contudo, são praticamente idênticos e possibilitam essas aproximações:
A 1ª geração — década 1840/50 — (Indianista ou Nacionalista), de Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias
(inclusive a ficção de Alencar).
A 2ª geração — década 1850/60 — (Byroniana, do Mal-do-Século, Individualista ou Ultra-Romântica), de
Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela etc
A 3ª geração — década 1860/70 — (Condoreira, Social ou Hugoana), representada, principalmente, por
Castro Alves.

Castro Alves (1847-1871) surgiu para a literatura numa época particularmente agitada da vida política brasileira. A
efervescência ideológica do período contaminou a literatura e fez da poesia um púlpito em que se veiculavam
idéias novas e se procurava atrair adeptos e correligionários. O teatro e as praças públicas tornaram-se palco de
inflamados discursos poéticos, declamados ardorosamente pelos próprios autores.
Nesses precursores dos “showmícios” modernos, discutia-se a proclamação da república, a Guerra do Paraguai, a
reforma do ensino, a abolição da escravatura e os demais problemas políticos, sociais, filosóficos e ideológicos
que afligiam a intelectualidade do Império do Brasil.

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Castro Alves, jovem, bonito, galante, inflamado, culto e indiscutivelmente genial, chegou e empolgou as platéias
com seu discurso de tom elevado e sua figura bela e empolgante, o poeta chegava na hora certa. Foi consagrado
principalmente porque sua eloqüência agradava muitíssimo ao público da época em que viveu.
Seu tema predileto, mas não único, foi a escravidão. Os poemas de cunho social abarcam quase todo o rosário
preferido pela poesia da época. Na poesia abolicionista, é insuperável a marca do gênio baiano. Seu clamor por
liberdade e suas invectivas contra a mancha obscena da escravatura não encontram paralelo em nenhuma época e
em nenhum autor da literatura brasileira.
As imagens grandiosas, hiperbólicas, reforçadas por apóstrofes e antíteses provocantes, a linguagem enfática e
altissonante são marcas da escola condoreira — hugoana — de que ele é o representante maior em nossas letras.
No poeta das Espumas Flutuantes, essas características não se encontram apenas em poemas de temática que se
pode chamar épica, porque abordam grandes questões coletivas, mas aparece também em poemas propriamente
líricos, seja os de tema amoroso, seja os que nos revelam o poeta como um admirável pintor de paisagens.
Suas imagens, quase sempre arrojadas e intensas, costumam alternar o pequeno e o grandioso e têm uma espécie
de atração cósmica e telúrica indiscutível — uma preferência pelos magnos elementos da natureza, como
oceanos, céus, noite, estrelas, montanhas e tufões.
{©O poeta exercitou seu estro também na poesia lírico-amorosa, de forma dissonante em relação aos demais
românticos, pois revela-se por uma poesia sensual e, por vezes, extremamente erótica. Sua expressão amorosa é
prenhe de sensualidade, e a configuração da mulher, nos momentos mais marcantes de seus poemas eróticos, é
destacada por uma realidade, uma "carnalidade" inexistente na poesia de seus coetâneos e predecessores
próximos ou distantes, que tendiam à pura idealização feminina, seja na figura da mulher-anjo, seja na da mulher-
demônio.
Castro Alves, diferentemente, fala de mulheres reais, mulheres que são, por assim dizer, motivo de lubricidade;
de realização e de frustração amorosa, mas palpáveis, virtuosas ou pecaminosas.
A leitura dos poemas de Castro Alves remete-nos para um momento eletrizante da vida brasileira, em que várias
correntes de pensamento se entrecruzavam em choques ideológicos marcantes e apaixonantes. O poeta bem
soube erigir o seu monumento literário que tem o dom de congregar homens de diferentes épocas na reflexão
sobre uma realidade de profunda significação humana e social.

Primeira Geração Romântica


É a geração que introduz e consolida a estética romântica na literatura brasileira. Coube a Gonçalves de
Magalhães, com o seu famoso Suspiros Poéticos e Saudades, dar início a um fazer poético que levava em conta a
natureza e o ambiente de nossa terra; valorizando sobremaneira nossa cultura, a tradição e a formação étnica da
gente brasileira. Evidentemente que seus versos ressentem-se, ainda, de uma certa influência clássica, que só vai
ser inteiramente superada no primeiro grande poeta genuinamente brasileiro: Antônio Gonçalves Dias.

A poesia de Gonçalves Dias reveste-se de maior elaboração estética e já dentro dos padrões românticos. Mais
conhecido como poeta indianista, escreveu também poemas lírico-amorosos da mais perfeita extração de
sentimentalidade romântica.

O mais famoso dos poemas de Gonçalves Dias, cantado em prosa e verso, imitado, plagiado, parafraseado,
parodiado e admirado desde que foi escrito, a Canção do Exílio, fala-nos bem próximo do amor exagerado à terra
natal. Lembrando a Carta de Caminha, podemos dizer que o sentimento ufanista perpassa a literatura brasileira
numa constante bem perceptível e este poema é um de seus modelos mais bem acabados.

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TEXTO I — Canção do Exílio
Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-orangen glühn,
...................................................
Kennst du es wohl? - Dahin! Dahin!
Möcht ich ... ziehn.
(Goethe)

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,


Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,


Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,


Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,


Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(Gonçalves Dias)
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A vertente indianista aparece como um tema inovador na poesia já a partir dos poemas de estréia do Autor.
Representam uma busca de raízes nacionais. Voltando-se para o passado histórico, imita o medievalismo
presente no romantismo europeu.
Gonçalves Dias idealiza seu índio dentro dos padrões do “bom selvagem” de Rousseau, com evidente intenção
de preservar o que restava do primitivismo de nossa cultura. Preocupado com a omissão histórica, o Autor
imagina um personagem indígena que represente o modelo ideal para a pesquisa lírica e heróica do passado.
Assim, o índio na poesia gonçalvina adquire o status de cavaleiro medieval, puro e valoroso, dentro da tradição
das novelas de cavalaria.

TEXTO II — O CANTO DO PIAGA

O Guerreiros da Taba sagrada,


Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,(1)
O Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite era a lua já morta


Anhangá(2) me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,


Manitôs(3)! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,


Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,


Todo inteiro — ossos, carnes — tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,


O guerreiro, o espectro que eu vi
Falam Deuses nos cantos do Piaga
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

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(1) O mesmo que Pajé. Espécie de médico e sacerdote.
(2) O gênio do mal.
(3) Divindade dos índios norte-americanos e canadenses. Eqüivale a Tupã, o deus maior.

Entretanto também explora um veio questionador do sofrimento em razão do amor. Numa linguagem vibrante,
mas destituída do descabelamento e das lágrimas tão presentes em outros autores românticos, Gonçalves Dias
estabelece constantes reflexões poéticas em torno do “mal-de-amor”, lembrando, e preservando de maneira
admirável, as mais caras tradições líricas da poesia medieval portuguesa;

TEXTO III — RECORDAÇÃO


Nessun maggior dolore...
DANTE

Quando em meu peito as aflições rebentam


Eivadas de sofrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em círculos de ferro, com tal força,
Que dele o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de sofrer cansada,
Bem que afeita a sofrer, sequer não pode
Clamar: Senhor, piedade; — e que os meus olhos
Rebeldes, uma lágrima não vertem
Do mar d'angústias que meu peito oprime:

Volvo aos instantes de ventura, e penso


Que a sós contigo, em prática serena,
Melhor futuro me augurava, as doces
Palavras tuas, sôfregos, atentos
Sorvendo meus ouvidos, — nos teus olhos
Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastara ainda
por que de os ver me saciasse!... O pranto
Então dos olhos meus corre espontâneo,
Que não mais te verei. — Em tal pensando
De martírios calar sinto em meu peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto sofre.

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Na poesia lírico-amorosa o sentimento constante é o da incerteza, da dúvida diante do sentimento amoroso.
Incapaz de fixar-se no objeto de seu amor, o sujeito-poético manifesta seu inconformismo pela dor da
irrealização plena, da posse do objeto de seu amor.

TEXTO IV — SE TE AMO, NÃO SEI

Amar! Se te amo, não sei.


Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.

Se amar é sonhar contigo,


Se é pensar, velando, em ti,
Se é ter-te n'alma presente
Todo esquecido de mi!

Se é cobiçar-te, querer-te
Como uma bênção dos céus
A ti somente na terra
Como lá em cima a Deus;

Se é dar a vida, o futuro,


Para dizer que te amei:
Amo; porém se te amo
Como oiço dizer, — não sei.

A obra poética de GD destaca-se no panorama do Romantismo brasileiro como a de maior equilíbrio entre os
planos da forma e do conteúdo. Representa ele o manancial em que se vão abeberar os mais diferentes autores
românticos e posteriores, servindo de modelo e inspiração para um sem número de composições — boas e más
— que constituem nosso acervo cultural.

Segunda Geração Romântica

A chamada Segunda Geração Romântica marca o apogeu, na literatura brasileira, do egocentrismo e da emoção
exacerbada. Voltados inteiramente para o seu próprio interior, os poetas dessa fase produziram poemas
pessimistas, entediados da existência e profundamente desencantados da vida. A temática predominante é a
morte, a solidão, a tristeza, a melancolia e o sofrimento amoroso. Escritos, por assim dizer, ao correr da pena,
sem a preocupação em reformar o texto, e por jovens poetas que, quase todos, morreram na flor da idade, os
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textos dessa geração revelam, às vezes, um sentimentalismo piegas e exagerado que compromete a qualidade do
trabalho artístico.
Perpassando tais textos, encontramos:

1. O predomínio da emoção, do sentimento o subjetivismo


No Romantismo, a imposição do "eu" do artista à realidade opera-se de modo radical. Assim, a função
emotiva ou expressiva da linguagem, centrada no emissor, é predominante. A realidade é captada pelo
prisma pessoal do poeta.
Personagens marcados pelo “mal-de-amor”, que não escapam ao destino trágico de sofrer
profundamente diante da impossibilidade da concretização da relação amorosa.

2. A evasão ou escapismo. A fuga à realidade


Profundamente idealizador, o romântico tem na insatisfação uma das suas constantes. O mundo real
traía sempre o mundo da fantasia, da imaginação. Inadaptado à realidade, ou o romântico se rebelava e
assumia a atitude revolucionária dos condoreiros, ou se deprimia e buscava a fuga. O escapismo
projetou-se das formas mais diversas: no limite, a morbidez, o desejo de morrer, como lenitivo às
tensões internas; em outros planos, a boêmia desbragada, o culto da solidão, o gosto pelas ruínas, pelo
passado, por lugares exóticos e longínquos, a poesia cemiterial. Diz-se que os românticos têm um
temperamento "lunar"; o sol, a luz, o dia não lhes aprazem, por representarem a realidade de que fugiam;
a lua, a noite, as paisagens desertas faziam-se refúgios e confidentes das atribulações e tristezas do poeta.
É o que vamos ver nos textos que se seguem:

"Pensamento gentil de paz eterna,


Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
Dessa alma vã e desse corpo enfermo.
Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada."
(Junqueira Freire)

O predomínio do sonho, da imaginação é ainda um aspecto do escapismo. Vejamos:

"Oh! ter vinte anos sem gozar de leve


A ventura de uma alma de donzela!
E sem na vida ter sentido nunca
Na suave atração de um róseo corpo
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
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Oh! Nos meus sonhos, pelas noites minhas

Passam tantas visões sobre o meu peito."


(Álvares de Azevedo)

Observe no texto o erotismo que, como característico da poesia de Álvares de Azevedo, só se realizava no
sonho, na fantasia.

Vamos fazer um teste?


“Quando eu te fujo e me desvio cauto,
Da luz de fogo que te cerca, ó bela!
Contigo dizes, suspirando amores,
Meu Deus, que gelo, que frieza aquela!”

QUESTÃO 01 — Na temática de Casimiro de Abreu, como ilustra a estrofe acima, salientam-se os sentimentos
de:
A) ternura e desencanto.
B) timidez e melancolia.
C) amor e medo.
D) amargura e revolta.
E) alegria e encantamento.

“Ah! Vem, pálida virgem, se tens pena,


De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minha alma à tua.”

QUESTÃO 02 — Por suas característica estilísticas, o texto é:


A) romântico e revela o amor adoração.
B) romântico e revela a sensualidade.
C) romântico e revela o amor platônico.
D) romântico e revela o amor perdido.
E) neo-romântico e revela a fuga da realidade.

“Descansem o meu leito derradeiro,


Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela,
Foi poeta - sonhou e amou na vida.”

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QUESTÃO 03 — Tipicamente romântico, o fragmento do poema acima revela-nos:
A) a atitude panteísta.
B) a idealização da mulher.
C) o tom egocêntrico e o senso do mistério.
D) a fé no poder criador.
E) a consciência da solidão e a proximidade da morte.

“Todos cantam a sua terra,


Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira,
Hei de fazê-la rainha;

Hei da dar-lhe realeza,


Nesse tropo de beleza,
Em que a mão da natureza,
Esmerou-se em quanto tinha.

QUESTÃO 04 — Assinale a alternativa correta.


A) sentimento de marginalização da sociedade.
B) patriotismo, evidenciado pela exaltação do passado.
C) patriotismo, evidenciado pela exaltação da natureza.
D) liberalismo político.
E) Tédio existencial

QUESTÃO 05 — Na época da independência do Brasil, quando nosso país precisava auto-afirmar-se como
nação, entrou em vigência entre nós um estilo de época que, pelos ideais de liberdade que professava através de
sua ideologia, se prestava admiravelmente a expressar esses anseios nacionalistas. Tal estilo foi o Romantismo.
Assinale a alternativa que melhor representa o nacionalismo romântico.

A) Meu canto de guerra / Guerreiros ouvi. / Sou filho das selvas, / Nas selvas cresci.
B) Quando eu te fujo e me desvio cauto / da luz de fogo que te cerca, ó bela!
C) Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? / Em que mundo, em qu’estrela tu
t’escondes?
D) Ó que saudades que eu tenho, / Da aurora da minha vida.
E) Dormir aos berros da arenosa praia / da ruinosa Alcântara, evocando...

QUESTÃO 06 — Assinale a característica não-aplicável ao texto romântico.


A) O escritor goza de liberdade de expressão quanto à temática e à forma.
B) O importante é o culto da forma, a arte pela arte.
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C) A mensagem é primordialmente pessoal, intimista e amorosa.
D) Enfatiza-se a auto-expressão, o subjetivismo, o individualismo.
E) A linguagem do autor é a mesma do povo: simples, espontânea.

Terceira Geração Romântica

A POESIA SOCIAL DO ROMANTISMO I


A 3ª geração romântica ficou conhecida como condoreira – por usar uma linguagem tão elevada quanto o vôo do
condor – ou hugoana, por ser fortemente inspirada pela poesia engajada socialmente do escritor francês Victor
Hugo.
Desprezando o pieguismo ultra-romântico, devota-se a temas sociais e políticos (proclamação da república,
abolição da escravatura, aperfeiçoamento do ensino, mudanças sociais, progresso).
Seu representante maior é Castro Alves, poeta baiano de grande talento e versatilidade.
Castro Alves (1847-1871) surgiu para a literatura numa época particularmente agitada da vida política brasileira. A
efervescência ideológica do período contaminou a literatura e fez da poesia um púlpito em que se veiculavam
idéias novas e se procurava atrair adeptos e correligionários. O teatro e as praças públicas tornaram-se palco de
inflamados discursos poéticos, declamados ardorosamente pelos próprios autores.
Nesses precursores dos “showmícios” modernos, discutia-se a proclamação da república, a Guerra do Paraguai, a
reforma do ensino, a abolição da escravatura e os demais problemas políticos, sociais, filosóficos e ideológicos
que afligiam a intelectualidade do Império do Brasil.
Castro Alves, jovem, bonito, galante, inflamado, culto e indiscutivelmente genial, chegou e empolgou as platéias
com seu discurso de tom elevado e sua figura bela e empolgante, o poeta chegava na hora certa. Foi consagrado
principalmente porque sua eloqüência agradava muitíssimo ao público da época em que viveu.
Seu tema predileto, mas não único, foi a escravidão. Os poemas de cunho social abarcam quase todo o rosário
preferido pela poesia da época. Na poesia abolicionista, é insuperável a marca do gênio baiano. Seu clamor por
liberdade e suas invectivas contra a mancha obscena da escravatura não encontram paralelo em nenhuma época e
em nenhum autor da literatura brasileira.
As imagens grandiosas, hiperbólicas, reforçadas por apóstrofes e antíteses provocantes, a linguagem enfática e
altissonante são marcas da escola condoreira — hugoana — de que ele é o representante maior em nossas letras.
No poeta das Espumas Flutuantes, essas características não se encontram apenas em poemas de temática que se
pode chamar épica, porque abordam grandes questões coletivas, mas aparece também em poemas propriamente
líricos, seja os de tema amoroso, seja os que nos revelam o poeta como um admirável pintor de paisagens.
Suas imagens, quase sempre arrojadas e intensas, costumam alternar o pequeno e o grandioso e têm uma espécie
de atração cósmica e telúrica indiscutível — uma preferência pelos magnos elementos da natureza, como
oceanos, céus, noite, estrelas, montanhas e tufões.
O poeta exercitou seu estro também na poesia lírico-amorosa, de forma dissonante em relação aos demais
românticos, pois revela-se por uma poesia sensual e, por vezes, extremamente erótica. Sua expressão amorosa é

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prenhe de sensualidade, e a configuração da mulher, nos momentos mais marcantes de seus poemas eróticos, é
destacada por uma realidade, uma "carnalidade" inexistente na poesia de seus coetâneos e predecessores
próximos ou distantes, que tendiam à pura idealização feminina, seja na figura da mulher-anjo, seja na da mulher-
demônio.
Castro Alves, diferentemente, fala de mulheres reais, mulheres que são, por assim dizer, motivo de lubricidade;
de realização e de frustração amorosa, mas palpáveis, virtuosas ou pecaminosas.
A leitura dos poemas de Castro Alves remete-nos para um momento eletrizante da vida brasileira, em que várias
correntes de pensamento se entrecruzavam em choques ideológicos marcantes e apaixonantes. O poeta bem
soube erigir o seu monumento literário que tem o dom de congregar homens de diferentes épocas na reflexão
sobre uma realidade de profunda significação humana e social.

Vamos fazer um teste?

TEXTO — ODE AO DOUS DE JULHO


(Castro Alves)

ERA NO DOUS de julho. A pugna imensa


Travara-se nos cerros da Bahia.
A anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
Neste lençol tão largo, tão extenso,
Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
Qual dos gigantes morto rolará?!...

Debruçados do céu... a noite e os astros


Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha - o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma - o vasto chão!
Por palmas - o troar da artilharia!
Por feras - os canhões negros rugiam!
Por atletas - dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro - era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam


Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
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A revolta do pulso - contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

QUESTÃO 01. Julgue os seguintes itens:


(1) A ode geralmente é uma variante épica, tema guerreiro, assunto glorioso, exaltação das façanhas
heróicas; o confronto maquiavélico e maniqueísta da liberdade contra o Despotismo, a visão
mitológica e conceptista; na potência verbal de Castro Alves.
(2) Alegoria, comparação, metáfora, hipérbole, prosopopéia, onomatopéia, são figuras de linguagem
que fundamentam a oratória grandiloqüente e hugoana da poesia vibrante de Castro Alves inseridas
no contexto da Ode do Dous de Julho.
(3) Condoreirismo, visão progressista e liberal, messianismo político e social, poesia de comício
identificada com a abolição, mas, também lirismo sensual e viril, paisagismo exuberante e Mal-do-
Século ocasional; são tópicos inerentes à poesia de Castro Alves.
(4) Os pares antitéticos, típicos do Barroco Literário, o uso permanente e pertinente do contraste e o
tom retumbante e metafórico, são aspectos determinantes do perfil retórico e condoreiro do poema.
(5) O ápice da poesia abolicionista, em termos formais e temáticos, é o poema O Navio Negreiro,
apóstrofe à consciência nacional, grito sublime de uma alma de poeta contra a injustiça, os absurdos
e misérias de um sistema social infame: a escravidão.
(6) Castro Alves também escreveu e publicou um romance sobre a Inconfidência Mineira: Gonzaga ou
a Revolução de Minas.

QUESTÃO 02. Levando em conta a estruturação sintático—semântica do poema, pode-se afirmar que:
(1) O primeiro verso da segunda estrofe caracteriza uma figura de linguagem denominada animismo.
(2) Os vocábulos pugna (v. 1) e pugilato (v. 23) apresentam o mesmo semantema.
(3) O tema fundamental do poema é o episódio de Canudos, também retratado por Euclides da Cunha
em sua mais célebre obra: "Os Sertões".
(4) Todas as rimas do poema são ricas e consoantes.
(5) A segunda estrofe é bom exemplo de paralelismo em todos os níveis de organização do idioma:
fônico, lexical, sintático e semântico.

QUESTÃO 03 — Julgue os itens a seguir, com base no texto "Ode ao Dous de Julho".
(1) No período "O mundo perguntava erguendo um grito", a oração grifada é subordinada adverbial
modal reduzida de gerúndio.
(2) A oração "Qual dos gigantes morto rolará?!..." é subordinada substantiva objetiva direta.
(3) O núcleo do sujeito da oração do item (1) é gigantes.
(4) Em "Qual dos gigantes mortos rolará?!..." e "Não sei qual é o seu nome", o pronome interrogativo
QUAL é adjunto adnominal, no primeiro período e predicativo do sujeito, no segundo período.

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(5) A segunda oração do segundo período do item (3) é subordinada substantiva objetiva direta
justaposta.

QUESTÃO 04. Julgue os itens a seguir, com base no texto "Ode ao Deus de Julho".
(1) Em "A pugna imensa travara-se nos cerros da Bahia", o termo grifado é pronome apassivador.
(2) Transpondo para a voz passiva analítica a oração do item (1), temos: A pugna imensa fora travada
nos cervos da Bahia.
(3) Em "Não! Não eram dous povos, que abalavam / Naquele instante o solo ensangüentado..." Que é
pronome relativo com função sintática de sujeito.
(4) A segunda oração do período supracitado é subordinada adjetiva explicativa.
(5) Na palavra ensangüentado, há 13 letras, 10 fonemas e três dígrafos vocálicos.

QUESTÃO 05. Assinale verdadeiro ou falso.


(1) Na primeira estrofe, os verbos estão no mesmo tempo, indicando ações que se processam
concomitantemente.
(2) O vocábulo "cosia" tem um parônimo cujo significado é "preparar alimentos" e escreve-se com z.
(3) A locução "em Pirajá" relaciona-se com o verbo "coisa", ao passo que o vocábulo "pálido"
relaciona-se com o substantivo "anjo".
(4) O adjetivo "pálido" traduz uma característica que o substantivo "anjo" já possuía antes de "coser".
(5) O adjetivo "morto" está relacionado ao pronome "qual" e traduz uma característica que se passará a
ter, uma característica que será adquirida.

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A Literatura do Simbolismo
Honneur Monção

A arte literária é, por sua própria natureza, essencialmente simbólica. Por isso mesmo, falar de símbolo, em
Literatura não é nenhuma novidade.
No final do século XIX surgiram várias correntes estéticas que se entrecruzavam na busca de uma nova forma de
expressão artística. O Simbolismo foi uma delas, aprofundando o subjetivismo romântico, purificado do excesso
de lágrimas e de pieguice, e teve uma curta duração na Literatura brasileira, já pelo seu elitismo e refinamento, já
pelo "sufocamento" a que foi submetido pela avalanche da poesia parnasiana.
Aprofundando o sentimentalismo e o emocionalismo românticos, o Simbolismo vem instaurar uma espécie de
"tomada de consciência" dos estados emocionais, numa atitude que entrelaça a afetividade com a cognição. Esta
atitude promove a chamada "busca do eu-profundo" em que o poeta mergulha dentro de si mesmo e examina os
desvãos íntimos do inconsciente, sentindo-os, e examinando-os e perquirindo-os .
Na revelação dos resultados desta introspecção, os textos vêm carregados de uma linguagem nova, enriquecidos
por neologismos, arcaísmos, exotismos e grafismos indispensáveis à comunicação da novidade estética.
Percebe-se, por conseguinte, que se trata de uma mudança radical da forma de expressão literária, elevando a
Literatura a cimos ainda não alcançados em qualquer estética anterior em sua original forma de manifestar-se.

Origens e Caracterização

Encontram-se nos poemas de As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, em 1857, as origens mais notáveis e
próximas da estética simbolista. É consensual a idéia de que praticamente toda a poesia moderna — e não só o
Simbolismo — teve origem nessa profunda alteração na arte da elaboração poética que veio desmitificar a poesia,
incorporando-a à existência de um homem já sem mitos e sem deuses.
O satanismo irreverente e corrosivo de Baudelaire é a matriz de uma poesia que anseia por libertação de todas as
limitações e "insulamentos" da expressão poética. Sua "Teoria das Correspondências" entende que os sentidos
corpóreos, a emoção e a espiritualidade interagem no momento exato da percepção da realidade exterior. Assim,
as cores, os aromas, o pensamento incorporam-se em sinestesias insólitas e sugestivas da realidade.

CORRESPONDÊNCIAS

1. A natureza é um templo onde vivos pilares


2. Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
3. Fazem o homem passar através de florestas
4. De símbolos que o vêem com olhos familiares.

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5. Como os ecos além confundem seus rumores
6. Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
7. Tão vasta como a noite e como a claridade,
8. Harmonizando os sons, os perfumes e as cores.
9. Perfumes frescos há como carnes de criança
10. Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
11. E outros ricos, triunfais e podres na fragrância
12. Que possuem a expansão do universo sem termos
13. Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
14. Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

Baudelaire, Charles. Tradução de Jamil A. Haddad. As Flores do Mal. São Paulo-SP:


Editora Max Limonad Ltda. 1981.

Os conceitos embutidos neste soneto são fundamentais para o entendimento da estética simbolista. A imagem da
correspondência de cores e sons, da integração sensorial representam de fato o ideal de expressão poética
perseguido pelos poetas do movimento.
Em poemas simbolistas é sempre presente uma camada sonora extremamente rica, pela aproximação obsessiva
da poesia com a música. O ideal estético simbolista estabelecia uma relação íntima dos sons das palavras com a
música, daí a presença constante das assonâncias e aliterações que, associadas às sinestesias e ao cromatismo,
corporificam a "Teoria das Correspondências" e conferem ao poema um caráter sugestivo-sensorial de extrema
beleza.

O Simbolismo na Literatura Portuguesa

{©O Simbolismo português tem seu marco inicial nos poemas publicados nas revistas "Os Insubmissos" e "Boêmia
Nova", ambas em 1889, com colaborações de Eugênio de Castro, Antônio Nobre, Camilo Pessanha e outros.
Seguindo os passos de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud e Verlaine, os autores portugueses elaboraram poemas
carregados de musicalidade, espiritualidade e sugestões da realidade. Apartados da técnica fria típica do
Parnasianismo, mas conscientes do valor do plano da expressão, souberam casar a forma e o conteúdo de tal
maneira que o resultado são poemas que falam bem de perto ao espírito e não descuram da riqueza expressiva da
língua portuguesa.

Antônio Nobre
Soneto
Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral!

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Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh Castelo tão alto! parecia
O território dum Senhor Feudal!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)


Um vento seco de Deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!


Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim ...

NOBRE, Antônio. In TORRES, Alexandre Pinheiro (org.). Antologia da poesia portuguesa. Porto:
Lello & Irmão, 1977.

A poesia de Antônio Nobre revela opulenta musicalidade e ritmo, alternando um vocabulário refinado, próprio
da estética simbolista, com um registro mais coloquial e familiar. Explorou temas mais ligados ao pessimismo, ao
tédio existencial, ao confessionalismo intimista e à morte

SONETO
1. Ó Virgens que passais, ao Sol-poente,
2. Pelas estradas ermas a cantar!
3. Eu quero ouvir uma canção ardente,
4. Que me transporte ao meu perdido Lar.

5. Cantai-me, nessa voz onipotente,


6. O Sol que tomba, aureolando o Mar,
7. A fartura da seara reluzente,
8. O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

9. Cantai! cantai as límpidas cantigas!


10. Das ruínas do meu Lar desenterrai
11. Todas aquelas ilusões antigas

12. Que eu vi morrer num sonho como um ai...


13. Ó suaves e frescas raparigas,
14. Adormecei-me nessa voz... Cantai!
Nobre, Antônio. Antologia in Nossos Clássicos. São Paulo - SP: Agir, 1973.

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A predominância da camada fônica, com a exploração intensa das vogais abertas, aliada a signos relacionados ao
campo semântico do canto e do saudosismo conferem ao poema um tom suave e sugestivo de fim de tarde em
cenário bucólico e sonhador, crepuscular.

Eugênio de Castro
UM SONHO
Na messe , que enlourece, estremece a quermesse ...
O sol, o celestial girassol, esmorece ...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...
As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros ...
Cornamusas e crotalos
Cítolas, citaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves ...

CASTRO, Eugênio de. In: TORRES, Alexandre Pinheiro (org.). Antologia da poesia portuguesa:
Porto, Lello & Irmão, 1977.

Já a partir do título o poema sugere uma situação que transcende a realidade palpável. A presença maciça das
aliterações e assonâncias; as sinestesias e o vocabulário refinado incorporam claramente a arte poética típica do
Simbolismo.
O autor é considerado o iniciador e um dos mais expressivos exemplos do Simbolismo português.

Camilo Pessanha

Soneto

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,


Onde esperei morrer, — meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

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Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, — tábua tosca de. pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
— Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe! ... Não te ergas mais da cova.


Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova ...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.


Alma da minha mãe ... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

PESSANHA, Camilo. Clepsidra e outros poemas. Lisboa: Ática, 1973.

Profundamente pessimista, incorporando a filosofia budista, segundo a qual o mundo é feito de ilusão e
sofrimento, Camilo Pessanha, em seus poemas, explora o prazer magoado de contemplar a passagem
inconsistente da vida. São textos sofridos, doentios, e marcado pelas imagens fluidas e efêmeras.

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O Simbolismo no Brasil
Honneur Monção

Sob a influência dos simbolistas franceses, já na década de 1880 aparecem poemas antecipadores do Simbolismo,
que se foi desenvolvendo em grupos espalhados por praticamente todo o país.
É bem verdade que os livros didáticos restringem sua apreciação a dois principais poetas dessa fase — Cruz e
Sousa e Alphonsus dos Guimarãens — relegando ao esquecimento pelo menos uma meia centena de outros
bons autores. Este fato se deve, principalmente, em razão da concomitância do Simbolismo e do Parnasianismo,
de grande apelo popular em nosso meio.
A mera leitura de textos-propostas dos autores revela sua visão poética, preferência vocabular e temática, como
se percebe nos textos a seguir.

TEXTO I — ARTE (fragmentos)

Busca palavras límpidas e castas,


novas e raras, de clarões radiosos,
dentre as ondas mais pródigas, mais vastas
dos sentimentos mais maravilhosos.

Busca também palavras velhas, busca,


limpa-as, dá-lhes o brilho necessário
..........................................................
Enche de estranhas vibrações sonoras
a tua estrofe, majestosamente ...
Põe nela todo o incêndio das auroras.
Para torná-la emocional e ardente.

Derrama luz e cânticos e poemas


no verso e torna-o musical e doce
como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
.............................................................
e na harpa do teu Sonho, corda a corda,

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19
deixa que as ilusões passem cantando.
.............................................................
Faz estrofes assim! E depois na chama
do amor, de fecundá-las e acendê-las,
derrama em cima lágrimas, derrama,
como as eflorescências das Estrelas.
(Cruz e Sousa)

TEXTO II — AEIOU

"A memória de Artur Rimbaud"


Manhã primavera. Quem não pensa
Em doce amor, e quem não amará?
Começa a vida. A luz do céu é imensa...
A adolescência é toda sonhos. A.

O luar erra nas almas. Continua


O mesmo sonho de oiro, a mesma fé,
Olhos que vemos sob a luz da lua...
A mocidade é toda lírios. E.

Descamba o sol nas púrpuras de ocaso.


As rosas morrem. Como é triste aqui!
O fado incerto, os vendavais do ocaso...
Marulha o pranto pelas faces. I.

A noite tomba. O outono chega. As flores


Penderam murchas. Tudo, tudo é pó.
Não mais beijos de amor, não mais amores...
Ó sons de sinos a finados! O.

Abre-se a cova. Lutulenta e lenta,


A morte vem. Consoladora ás tu!
Sudários rotos na mansão poeirenta...
Crânios e tíbias de defunto. U.
(Alphonsus dos Guimaraens)

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20
Cruz e Sousa (O Dante Negro — O Cisne Negro)

{©João da Cruz e Sousa nasceu a 24 de novembro de 1862, na cidade do Desterro, atual Florianópolis, capital da
então província de Santa Catarina. Filho de dois negros escravos, trazia nas artérias sangue sem mescla da África,
e no profundo psiquismo milenárias forças adormecidas de angústia e sonho. Tiro a esta referência todo acento
literário, pois que de fato significa um puro dado positivo, indispensável à compreensão do destino e do canto do
Poeta Negro. Morreu a 19 de março de 1898, na cidade de Sítio, Minas, para onde fora transportado às pressas
vencido pela tuberculose. Nos seus trinta e seis anos de existência terrena, percorreu todo um ciclo de
experiências tremendas de sofrimento. Mas umas tantas circunstâncias propiciatórias, entre as quais essas
próprias experiências, salvaram para o Brasil, talvez mesmo para o mundo, toda uma soberba florada de Beleza
que, sem elas, não se haveria produzido.
Essas circunstâncias foram: a de haver sido amparado, na infância, por uma família de linhagem fidalga, que o
mandou instruir e o educou num sentimento grave da vida; a de haver sido combatido, desprezado, humilhado
quando extremamente já se lhe condensara na alma a energia criadora, o que deu lugar a que esta não se
dispersasse ao doce afago das alegrias do mundo; a de haver, no entanto, encontrado, no seio mesmo da
universal hostilidade, o apoio de miraculosas mãos compreensivas, que lhe afastaram os passos do desespero
definitivo; a de haver sido perpetuamente pobre e não ter conhecido nunca senão a face trágica de tudo, o que
serviu a dar estrutura e forma profundamente "funcionais" ao mundo de sonho, dor e desejo que nesse "núbio
contemporâneo de Davi" como que existia "desde toda a eternidade".
Inútil longamente explorar, no sentido biográfico, uma vida que só pela sua repercussão numa alma antiga de
poeta se revestiu de significação comovente. A Cruz e Sousa, de fato aconteceu apenas que, vindo para o Rio já
homem feito, após uma peregrinação pelo norte e o sul do país como "ponto" de uma companhia dramática,
nesta cidade lutou, casou, teve filhos, viu a mulher enlouquecer, sofreu miséria, amargou ultrajes e, por fim,
entisicou, saindo à última hora para morrer sob o benigno céu mineiro; vida esta que se reproduz em milhões de
exemplares no seio da população miserável do Brasil. Havia, porém, essa "alma antiga". Houve a conjunção de
circunstâncias que resultaram no seu canto imortal. Este canto é que, no fim de contas, nos importa.
A obra de Cruz e Sousa, afora alguns inéditos de importância mínima, se compendia nos seguintes volumes:
Missal e Broquéis, publicados em 1893, o primeiro de prosa, o segundo de poemas, únicos livros aparecidos ainda
em vida do poeta; depois de sua morte, por diligência de amigos, principalmente de Nestor Vítor, vieram a lume:
Evocações, prosa, em 1898; Faróis, poemas, em 1900; Últimos Sonetos, em 1905.

• Características marcantes da obra do autor


Recorrência de manifestações a realidades sociais degradantes: doença, pobreza, discriminação racial,
loucura;
Visão pessimista e vagamente espiritualista;
Poemas em prosa;
Preocupação formal (influência parnasiana): soneto, métrica perfeita, rimas raras;
Pendor para uma poesia filosófica e meditativa;
Equilíbrio entre a expressividade e a construção estética;
Concepção trágica da vida;
Busca da transcendência.
A cosmovisão presente na obra do Autor deixa entrever três aspectos marcantes:
A dor proveniente da busca de afirmação social em uma sociedade marcada pelo preconceito racial;
A revolta contra a condição degradante do negro, dos miseráveis e dos humilhados em geral;

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21
A aceitação da dor em face da constatação do próprio valor. A procura da sublimação do sofrimento pela
glória de ser um iluminado (poeta)

O crítico literário francês Roger Bastide catalogou, na obra de Cruz e Sousa, a ocorrência de 169 (cento e
sessenta e nove) ocorrências de imagens associadas à cor branca. Tanto bastou para que se imaginasse logo que o
poeta tinha a fixação pela cor, numa ânsia de se "branquear" por intermédio de sua poesia. Esta hipótese — e
não passa de uma hipótese — pode ser contraditada por uma verdade observável na obra de outros simbolistas
de relevo.
A cor branca, na cultura ocidental, sempre foi símbolo de pureza ou de purificação. Simbolicamente, as noivas
casam-se de branco e com flores brancas ornando suas frontes. Uma estética que busca evadir-se de um mundo
considerado impuro, defeituoso, manchado não poderia deixar de eleger a cor branca como uma de referências
prediletas. Assim, é comum encontrar-se em poemas simbolistas imagens emolduradas por nuvens, estrelas,
brilhos, neve, névoa, cristais, espuma, pérolas, cascatas, véus, marfim, lírio, linho, lençóis e outras que
lembram o branco.
O exotismo da linguagem é próprio da preferência por um universo misterioso, sugestivo e que foge a qualquer
tipo de percepção racional:

FLORES DA LUA

1. Brancuras imortais da Lua Nova,


2. frios de nostalgia e sonolência...
3. Sonhos brancos da Luz e viva essência
4. dos fantasmas noctívagos da Cova.

5. Da noite a tarda e taciturna trova


6. soluça, numa tremula dormência...
7. Na mais branda, mais leve florescência
8. tudo em Visões e Imagens se renova.

9. Mistérios virginais dormem no Espaço,


10. dormem o sono das profundas seivas,
11. monótono, infinito, estranho e lasso ...

12. E das Origens de luxúria forte


13. Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
14. flores amargas do palor da Morte.

O poema Siderações, a seguir, revela a obsessão pela cor branca, e o desejo de transcendência, ao ponto de
suprema integração psíquica e espiritual, ao mistério da noite infinda.

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22
SIDERAÇÕES

1. Para as Estrelas de cristais gelados


2. as ânsias e os desejos vão subindo,
3. galgando azuis e siderais noivados
4. de nuvens brancas a amplidão vestindo.

5. Num cortejo de cânticos alados


6. os arcanjos, as cítaras ferindo,
7. passam, das vestes nos troféus prateados,
8. as asas de ouro finamente abrindo ...

9. Dos etéreos turíbulos de neve


10. claro incenso aromal, límpido e leve,
11. ondas nevoentas de Visões levanta ...

12. E as ânsias o os desejos infinitos


13. vão com os arcanjos formulando ritos
14. da Eternidade que nos Astros cante ...

A tortura moral diante do preconceito; o acúmulo de incertezas, o tumulto psicológico, o erotismo contido e a
visão trágica e pessimista da vida podem ser percebidas nos versos a seguir.

TÉDIO

Vala comum de corpos que apodrecem,


Esverdeada gangrena
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.

Bocejo torvo de desejos turvos,


Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.

Sangue coalhado, congelado, frio,

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23
Espasmado nas veias...
pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias ...

Alma sem rumo, a modorrar de sono,


Mole, túrbida, lesse...
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça ...

Mudas epilepsias, mudas, mudas,


Mudos epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.

Flores sangrentas do soturno vício


Que as almas queima e morde...
Música estranha de letal suplício,
Vago, mórbido acorde...

Um vocabulário sinistro, tétrico, fúnebre, cadavérico, cuja contundência verbal e temática são agressivamente
"pouco poéticas" conferem ao texto um sentido mais de asco que de tédio existencial como sugere o título. Esta
linha poética anticonvencional será retomada mais tarde, vigorosamente, por Augusto dos Anjos.

O exotismo da linguagem é próprio da preferência por um universo misterioso, sugestivo e que foge a qualquer
tipo de percepção racional:

FLORES DA LUA

1. Brancuras imortais da Lua Nova,


2. frios de nostalgia e sonolência...
3. Sonhos brancos da Luz e viva essência
4. dos fantasmas noctívagos da Cova.

5. Da noite a tarda e taciturna trova


6. soluça, numa tremula dormência...
7. Na mais branda, mais leve florescência
8. tudo em Visões e Imagens se renova.

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9. Mistérios virginais dormem no Espaço,
10. dormem o sono das profundas seivas,
11. monótono, infinito, estranho e lasso ...

12. E das Origens de luxúria forte


13. Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
14. flores amargas do palor da Morte.

O poema Siderações, a seguir, revela a obsessão pela cor branca, e o desejo de transcendência, ao ponto de
suprema integração psíquica e espiritual, ao mistério da noite infinda.

SIDERAÇÕES

1. Para as Estrelas de cristais gelados


2. as ânsias e os desejos vão subindo,
3. galgando azuis e siderais noivados
4. de nuvens brancas a amplidão vestindo.

5. Num cortejo de cânticos alados


6. os arcanjos, as cítaras ferindo,
7. passam, das vestes nos troféus prateados,
8. as asas de ouro finamente abrindo ...

9. Dos etéreos turíbulos de neve


10. claro incenso aromal, límpido e leve,
11. ondas nevoentas de Visões levanta ...

12. E as ânsias o os desejos infinitos


13. vão com os arcanjos formulando ritos
14. da Eternidade que nos Astros cante ...

A tortura moral diante do preconceito; o acúmulo de incertezas, o tumulto psicológico, o erotismo contido e a
visão trágica e pessimista da vida podem ser percebidas nos versos a seguir.

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25
TÉDIO

Vala comum de corpos que apodrecem,


Esverdeada gangrena
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.

Bocejo torvo de desejos turvos,


Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.

Sangue coalhado, congelado, frio,


Espasmado nas veias...
pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias ...

Alma sem rumo, a modorrar de sono,


Mole, túrbida, lesse...
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça ...

Mudas epilepsias, mudas, mudas,


Mudos epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.

Flores sangrentas do soturno vício


Que as almas queima e morde...
Música estranha de letal suplício,
Vago, mórbido acorde...

Um vocabulário sinistro, tétrico, fúnebre, cadavérico, cuja contundência verbal e temática são agressivamente
"pouco poéticas" conferem ao texto um sentido mais de asco que de tédio existencial como sugere o título. Esta
linha poética anticonvencional será retomada mais tarde, vigorosamente, por Augusto dos Anjos.

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26
ALPHONSUS DOS GUIMARAENS
O outro grande representante do Simbolismo na Literatura brasileira, Afonso Henrique da Costa Guimarães, o
chamado "solitário de Mariana" viveu sempre afastado das "igrejinhas" literárias do Rio e de São Paulo, mas foi
poeta altamente prolífico, tendo publicado dez obras em verso e prosa. A crítica considera-o um poeta
"monotemático", por que quase tudo que escreveu gira em torno do amor e da morte. (A prima e namorada
prematuramente falecida e a fixação na figura de Nossa Senhora — com quem a amada é identificada ) são os
temas constantes, explorados em um ambiente de profunda tristeza lírica, em poemas de características
elegíacas (lutuosas) e carregados de misticismo.

Características Marcantes da Obra do Autor.


Cenário religioso, velhas cidades e igrejas de Minas Gerais;
Devoção mariana, exaltação à Virgem Maria;
Musicalidade suave que lembra sinos e cânticos religiosos;
Poemas ligados a velórios, sepultamentos, missas de réquiem;
Vocabulário litúrgico;
Ternura e melancolia;
Simplicidade expressiva, contrastando com a linguagem elitista do movimento Simbolista como um todo;

A obsessão da morte, em Alphonsus dos Guimaraens, difere da atitude mórbida de outras estéticas. A morte é
vista e ansiada como libertação e como possibilidade de reaproximação da amada na esfera em que o absoluto —
Deus — oferece a superação da dor de viver.

SONETO XIV

Nada somos, sabeis, e que seremos


Mais do que duas míseras ossadas?
As loucas ilusões em que vivemos
São estrelas que morrem desmaiadas

Sem longo dos espíritos blasfemos,


— Pobres crianças a ouvir contos de fadas —
Ao céu as nomes almas ergueremos,
Corno duas princesas encantadas.

O silêncio agoniza pelas naves...


São trindades que vão morrer no poente,
Baixando mudas como vôos de aves.

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27
Que subam para o céu as nossas almas,
Baloiçando entre os astros suavemente,
Tão objetivas como duas palmas!
(Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte)

Poeta realmente religioso, devoto da Virgem Maria, assume sua religiosidade emocional, mas contida, numa
atitude de aceitação e êxtase místico.

SEGUNDA DOR

Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas


Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos:

Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas


A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos:

Mãos a bordar o santo Escapulário,


Que revelastes para quem padece
O inefável consolo do Rosário:

Mãos ungidas no sangue da Coroa,


Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A bênção que redime e que perdoa!
(Setenário das Dores de Nossa Senhora)

OBSERVAÇÃO:
O Setenário das Dores de Nossa Senhora constitui-se de 49 sonetos dedicados às Sete Dores da Virgem Maria,
conforme a tradição ritual católica. É obra referencial do lirismo mariano e litúrgico de Alphonsus.

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28
Textos marcantes da obra do Autor
Hão de Chorar por ela os Cinamomos
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: — "Ai, nada somos,


Pois ela se morreu silente e fria... "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,


Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...


E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos? -

ROSAS
Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que já se foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas tombam, beijaram suspirosas ..

Umas rubras o vãs, outras fanadas,


Mas cheios do calor das amorosas...
Sois aroma de alfombras silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,


Outras, cheias de viço e de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! quem melhor que vós, se a dor perdura,


Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventuras
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29
OSSEA MEA
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Palrando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar, mas que suplica.

Erguem-se ao longe como se as eleve


Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mãos cuja sombra nos meus olhos fica ...

Mãos de esperança para as almas loucas,


Brumosas mãos que vim brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas


Grandes, magoadas, pálidas, tacteantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...

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Mão e a Luva
Honneur Monção

DO AUTOR

Machado de Assis, na atualidade, transformou-se em uma das raras unanimidades nacionais. Raramente passa-se
uma semana sem que algo de novo em torno do autor e de sua obra seja publicado, republicado, discutido,
analisado por críticos, entendidos ou meros curiosos.
O Autor é praticamente inseparável do conceito de Literatura brasileira. Nascido, criado e radicado por toda sua
vida no Rio de Janeiro, seus romances, crônicas, contos, poemas e peças teatrais, que foi um de nossos mais
perfeitos polígrafos, elegem como cenário a então capital do Brasil, na segunda metade do século XIX.
Entretanto, mesmo com esse cenário e tempo histórico imutável, explora sua temática com tal maestria e
propriedade que o texto torna-se anaespacial e atemporal, fazendo o leitor passar despercebido por limites que
em outras circunstâncias “datariam” a obra.

DA OBRA
Fazendo parte da obra dita “romântica” de Machado de Assis, A Mão e a Luva inova o romance romântico
tradicional, no sentido de criar situações e personagens em que o móvel das ações humanas não mais se restringe
ao amor puro e simples, mas volta-se para o aspecto social em que o desejo de ascender socialmente, mesmo à
custa do sacrifício afetivo, ético e moral. Basta essa visão para perceber-se a mudança radical: Guiomar, a
heroína, em que pesem os dotes físicos de extrema feminilidade e beleza — o que é típico do romance romântico
—, revela um comportamento em que a determinação, a frieza, a hipocrisia governam as atitudes que têm
sempre o fito de atingir o objetivo delineado e perseguido implacavelmente.
A linguagem, o vocabulário, a tessitura e algumas atitudes são, claramente, românticos. Entretanto os
protagonistas — Guiomar e Luís Alves — seriam facilmente, se isso fosse possível, transplantados para um
“romance realista” sem que houvesse necessidade da qualquer mudança em sua caracterização psicológica e
comportamento social. Percebe-se, por conseguinte, que os romances dessa fase são como o “treinamento” para
o grande ficcionista que viria a seguir.

"ADVERTÊNCIA DE 1814
Esta novela, sujeita às urgências da publicação diária, saiu das mãos do autor capítulo a capítulo, sendo natural
que a narração e o estilo padecessem com esse método de composição um pouco fora dos hábitos do autor. Se a
escrevera em outras condições, dera-lhe desenvolvimento maior e algum mais aos caracteres, que aí ficam esboçados.
Convém dizer que o desenho de tais caracteres, — o de Guiomar sobretudo, — foi o meu objeto principal,
se não exclusivo, servindo-me a ação apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora, terão
eles saído naturais ou verdadeiros?
Mas talvez estou eu a dar proporções muito graves a uma cousa de tão pequeno tomo. O que vai aí são umas
poucas páginas que o leitor esgotará de um trago, se elas lhe aguçarem a curiosidade, ou se lhe sobrar alguma hora
que absolutamente não possa empregar em outra cousa, — mais bela ou mais útil."

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DO TÍTULO
Escolhido a rigor, o título é como um resumo bastante sintético da obra. Guiomar e Luís Alves são tão
semelhantes em suas reações, atitudes e ambições que sua perfeita união lembra o casamento de uma luva feita
sob medida para uma determinada mão.

"O destino não devia mentir nem mentiu à ambição de Luís Alves. Guiomar acertara; era aquele o
homem forte. Um mês depois de casados, como eles estivessem a conversar do que conversam os
recém-casados, que é de si mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar
confessou ao marido que naquela ocasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
— Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís Alves, que, assestado, a escutava.
— Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e
outra cousa.
— A ambição não é defeito.
— Pelo contrário, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de fazê-la vingar. Não me fio só na
mocidade e na força moral; fio-me também em você, que há de ser para mim uma força nova.
— Oh! sim! exclamou Guiomar.
— È com um modo gracioso continuou:
— Mas que me dá você em paga? um lugar na câmara? uma pasta de ministro?
— O lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente
sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas,
como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.

ENREDO
Guiomar é moça de origem humilde, órfã, mantida em uma escola para formação de professores por uma
protetora rica. Surge um pretendente — Estevão — e ela o descarta porque ele não encarnava o ideal de homem
que ela imaginara para marido. Deixando a escola e indo viver como filha, em casa de sua protetora, reencontra o
antigo namorado que procura, por todos os modos, reatar o namoro.

Guiomar tivera humilde nascimento; era filha de um empregado subalterno não sei de que repartição do Estado,
homem probo, que morreu quando ela contava apenas sete anos, legando à viúva o cuidado de a educar e manter. A
viúva era mulher enérgica e resoluta, enxugou as lágrimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a
situação e determinou-se à luta e à vitória.
A madrinha de Guiomar não lhe faltou naquele duro transe, e olhou por elas, como entendia que era seu dever. A
solicitude, porém, não foi tão constante a princípio como veio a ser depois; outros cuidados de família lhe chamavam
a atenção.
Guiomar anunciava desde pequena as graças que o tempo lhe desabrochou e perfez. Era uma criaturinha galante e
delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa, decerto, mas muito menos do que é usual na infância. Sua
mãe, depois que lhe morrera o marido, não tinha outro cuidado na Terra, nem outra ambição mais, que a de vê-Ia
prendada e feliz. Ela mesma lhe ensinou a ler mal, como ela sabia, e a coser e bordar, e o pouco mais que possuía
de seu ofício de mulher. Guiomar não tinha dificuldade nenhuma em reter que a mãe lhe ensinava, e com tal afinco
lidava por aprender, que viúva, — ao menos nessa parte, — sentia-se venturosa. Hás de ser minha doutora, dizia-
lhe muita vez; e esta simples expressão de ternura alegrava a menina e lhe servia de incentivo à aplicação.

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A casa em que moravam era naturalmente modesta. Ali correu a infância, mas solitária, o que é um pouco mais
grave. A mãe, quando a via embebida nos jogos próprios da idade, infantilmente alegre, mas de uma alegria que
fazia mal a seus olhos de mãe, tão fundo lhe doía aquele viver, - a mãe sentia às vezes pularem-lhe as lágrimas dos
olhos fora. A filha não as via, porque ela sabia escondê-Ias; mas adivinhava-as através da tristeza que lhe ficava
no rosto. Só não adivinhava o motivo, mas bastava que fossem mágoas de sua mãe, para lhe descair também a
alegria.

Já agora há outro que — Jorge —, sobrinho e protegido da madrinha de Guiomar. Jorge conta, em suas
investidas, com o auxílio poderoso de Mrs. Oswald, dama de companhia da baronesa.

Era um rapaz de vinte e cinco a vinte e seis anos. Jorge chamava-se ele; não era feio, mas a arte estragava um pouco
a obra da natureza. O muito mimo empece a planta, disse o poeta, e esta máxima não é só aplicável à poesia, mas
também ao homem. Jorge tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os olhos, claros
e vivos, seriam mais belos, se ele não os movesse com afetação, às vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que
seriam fáceis e naturais, se os não tornasse tão alinhados e medidos. As palavras saíam-lhe lentas e contadas, como
a fazer sentir toda a munificência do autor. Não as proferia como as demais pessoas; cada sílaba era por assim
dizer espremida, sendo fácil ver ao cabo de alguns minutos, que ele fazia consistir toda a beleza da elocução nesse
alongar do vocábulo. As idéias orçavam pelo modo de as exprimir; eram chochas por dentro, mas traziam uma
côdea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir espairecer o ouvido em cousas leves e folgazãs.
Tais eram os defeitos aparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior era um pecado mortal, o sétimo. O nome
que lhe deixara o pai, e a influência da tia podiam servir-lhe nas mãos para fazer carreira em alguma cousa
pública; ele, porém, preferia vegetar à toa, vivendo do pecúlio que dos pais herdara e das esperanças que tinha na
afeição da baronesa. Não se lhe conhecia outra ocupação.
Não obstante os defeitos apontados, havia nele qualidades boas; sabia dedicar-se, era generoso, incapaz de
malfazer, e tinha sincero amor à velha parenta. A baronesa, pela sua parte, queria-lhe muito. Guiomar e ele eram
as suas duas afeições principais, quase exclusivas.
Tal era a pessoa cujos interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baronesa, e não menos de si própria. A
baronesa também tinha os seus sonhos, como ela mesma disse, e esses eram deixar felizes aquelas duas crianças.
Jorge pela sua parte estava disposto a estender o colo ao sacrifício; e, bem examinadas as cousas, talvez amasse
sinceramente a moça. A diferença entre ele e Estevão é que seu amor era medido como os seus gestos, e tão
superficial como as suas outras impressões.

A este triângulo amoroso, formado por Jorge, Estevão e Guiomar, acrescenta-se Luís Alves, amigo de Estevão e
vizinho de Guiomar, que passa a assediá-la de maneira discreta e eficiente.

Durante três dias deixou Luís Alves de ir à casa da baronesa, estando aliás a morrer por isso. Entrava porém no
plano esta ausência; era das instruções que ele mesmo dera ao seu coração; não havia, remédio senão observá-las.
No quarto dia recebeu um bilhete da baronesa que o cumprimentava pela eleição. A mala do Norte chegara, e com
ela a notícia da vitória eleitoral. Estava Luís Alves deputado; ia enfim dar a sua demão no fabrico das leis.
Estêvão foi o primeiro que o felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que os
outros devia aplaudir aquela boa fortuna. Não lhe escondeu, entretanto, a inveja que ela lhe metia:
— Deputado! suspirou ele. Oh! eu também podia ser
deputado.
Estêvão dizia isto, como a criança deseja o dixe que vê no colo de outra criança, nada mais. Eram os seus sonhos
de outrora, que renasciam tais quais eram, inconsistentes, vagos, prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da
manhã.

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Luís Alves apressou-se a ir agradecer à baronesa a felicitação. Guiomar teve um leve estremecimento quando o viu,
mas recebeu-o tranqüila e risonha, quase indiferente. O advogado era hábil; não a perseguiu com os olhos; sobre
acordar a atenção das demais pessoas, era seguir o método comum. Ele não queria parecer-se com os outros.
Guiomar, entretanto, observava-o a espaços, de revés, como a querer surpreendê-lo; a pouco e pouco, porém, o seu
olhar foi sendo mais direito e firme. O de Luís Alves era natural e igual como antes era, como era ainda agora com
todos.
Ao sair, junto à porta de uma sala, onde acaso a topou, Luís Alves teve ocasião de lhe dizer esta simples palavra:
— Perdoou-me?
A moça retirou a mão, que ele tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe caíam as pálpebras.
— Perdoou-me? repetiu ele.
Guiomar retirou-se sem dizer palavra. Luís Alves esperou que ela desaparecesse e saiu. A moça, entretanto, ficou
irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada achou nem acharia talvez que lhe responder; mas
arrependeu-se e pensou longo tempo naquilo.
Quer dizer que o amava? Quer dizer que estava prestes a isso?

Mrs. Oswald toma o partido de Jorge e tenta convencer Guiomar a dar-lhe a preferência, pois, segundo ela, a
baronesa faria muito gosto nesta união. Guiomar, entretanto, tem outros planos. Ela não aceita que ninguém,
nem nada, tolha seus planos de grandeza. Deseja um marido que seja ambicioso, forte, atrevido, inescrupuloso,
capaz de vencer todos os obstáculos para manter-se sempre em posição privilegiada e superior. Este homem é
Luís Alves e ela o incentiva a pedir sua mão à baronesa, preterindo os pretendentes que não preenchiam os
requisitos que ela traçara para o seu futuro marido.

Podia dar-lhe Luís Alves este gênero de amor? Podia; ela sentiu que podia. As duas ambições tinham-se
adivinhado desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Luís Alves, sóbrio, direto, resoluto, sem
desfalecimentos, nem demasias ociosas, fazia perceber à moça que ele nascera para vencer e que a sua ambição tinha
verdadeiramente asas, ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia tê-las o coração. Demais, o primeiro passo do
homem público estava dado; ele ia entrar em cheio na estrada que leva os fortes à glória. Em torno dele ia fazer-se
aquela luz, que era a ambição da moça, a atmosfera, que ela almejava respirar. Estêvão dera-lhe a vida
sentimental, Jorge a vida vegetativa; em Luís Alves via ela combinadas as afeições domésticas com o ruído exterior.

O destino não devia mentir nem mentiu à ambição de Luís Alves. Guiomar acertara; era aquele o homem forte.
Um mês depois de casados, como eles estivessem a conversar do que conversam os recém-casados, que é de si mesmos,
e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasião lhe conhecera todo
o poder da sua vontade.
— Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís Alves, que, assestado, a escutava.
— Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo; você deve ter percebido que sou uma e outra cousa.
— A ambição não é defeito.
— Pelo contrário, é virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de fazê-la vingar. Não me fio só na mocidade e na
força moral; fio-me também em você, que há de ser para mim uma força nova.
— Oh! sim! exclamou Guiomar.
E com um modo gracioso continuou:
— Mas que me dá você em paga? um lugar na câmara? uma pasta de ministro?
— O lustre do meu nome, respondeu ele.

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Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do
marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita
para aquela mão.

TEMPO NARRATIVO
Predomina o tempo cronológico, determinando uma narrativa lenta, compassada, arrastando-se por detalhes
muitas vezes dispensáveis, como se pode observar nos fragmentos a seguir.

Luís Alves acudiu-lhe com as pastilhas a consolação passou; nova palestra, novo riso, novo desespero, e assim se
foram escoando as horas da noite, que o relógio da sala de jantar batia seca e regularmente, como a lembrar
aos dous amigos que as nossas paixões não aceleram nem moderam o passo do tempo.

A aurora para os dous acadêmicos coincidiu com as badaladas do meio-dia, o que não admira, pois só
adormeceram quando ela começava a apagar as estrelas. Estêvão passou a noite, a manhã, quero dizer,
muito sossegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os olhos estranhou o aposento e os objetos que o rodeavam.
Logo que os reconheceu, despertou-se-lhe, com a memória, o coração, onde já não havia aquela dor aguda da
véspera. Os sucessos, embora recentes, começavam a envolver-se na sombra crepuscular do passado.

A natureza tem suas leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive não só do que ama, mas também (força é dizê-
lo) do que come. Sirva isto de escusa ao nosso estudante, que almoçou nesse dia, como nos anteriores,
bastando dizer em seu abono que, se o não fez com lágrimas, também o não fez alegre. Mas o certo é que a
tempestade serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte mas que diminuiria com o tempo. — Luís Alves
evitou falar-lhe de Guiomar. Estêvão foi o primeiro a recordar-se dela.

Dá tempo ao tempo, respondeu Luís Alves, e ainda te hás de rir dos teus planos de ontem. Sobretudo,
agradece ao destino o haveres escalado tão depressa. E queres um conselho?

A promessa cumpriu-se pontualmente. Luís Alves apresentou Estêvão à baronesa, na seguinte noite, como
seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da ilustre cliente. A recepção foi geralmente
boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu aborrecida de o ver naquela casa. Quando Estêvão a saudou, como
quem a conhecia de longo tempo, ela mal pôde retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da noite não lhe
deu palavra. Daquela parte o acolhimento não podia ser pior; mas Estêvão sentia-se feliz, desde que vê-Ia, respirar
o mesmo ar, nada mais pedindo por ora, e deixando o resto à fortuna.

Estêvão meteu a mão nos cabelos com um gesto de angústia; Luís Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os
dous no corredor da casa de Luís Alves, à Rua da Constituição, — que então se chamava dos Ciganos; — então,
isto é, em 1853, uma bagatela de vinte anos que lá vão, levando talvez consigo as ilusões do leitor, e deixando-
lhe em troca (usurários!) uma triste, crua e desconsolada experiência.
Eram nove horas da noite; Luís Alves recolhia-se para casa, justamente na ocasião em que Estêvão o ia
procurar; encontraram-se à porta. Ali mesmo lhe confiou Estêvão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui a
pouco, caso não aborreça estas histórias de amor, velhas como Adão, e eternas como o céu. Os dous amigos
demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que
queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de, os vencer, se a Luís não ocorresse uma transação.

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Pois sim, disse ele, convenho em que deves morrer, mas há de ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a
noite comigo. Nestas últimas horas que tens de viver na Terra dar-me-ás uma lição de amor, que eu te
pagarei com outra de filosofia.

Eram nove horas da noite; Luís Alves recolhia-se para casa, justamente na ocasião em que Estêvão o ia
procurar; encontraram-se à porta. Ali mesmo lhe confiou Estêvão tudo o que havia, e que o leitor saberá daqui a
pouco, caso não aborreça estas histórias de amor, velhas como Adão, e eternas como o céu. Os dous amigos
demoraram-se ainda algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a teimar que
queria ir morrer, tão tenazes ambos, que não haveria meio de, os vencer, se a Luís não ocorresse uma transação.
Pois sim, disse ele, convenho em que deves morrer, mas há de ser amanhã. Cede da tua parte, e vem passar a
noite comigo. Nestas últimas horas que tens de viver na Terra dar-me-ás uma lição de amor, que eu te
pagarei com outra de filosofia.

ESPAÇO
O espaço é físico com declarações explícitas sobre alguns logradouros que identificam o Rio de Janeiro.

Estêvão meteu a mão nos cabelos com um gesto de angústia; Luís Alves sacudiu a cabeça e sorriu. Achavam-se os
dous no corredor da casa de Luís Alves, à Rua da Constituição, — que então se chamava dos Ciganos;
— então, isto é, em 1853, uma bagatela de vinte anos que lá vão, levando talvez consigo as ilusões do leitor, e
deixando-lhe em troca (usurários!) uma triste, crua e desconsolada experiência.
(...)
A baronesa escreveu nesse mesmo dia ao sobrinho, comunicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores não terão
dificuldade de admitir que o coração de Jorge não sentiu o golpe profundamente, mas sentiu alguma cousa. Não foi
nessa noite à casa da tia; não foi também na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou
para Botafogo.

RESUMINDO
Três pretendentes e uma só prenda: Guiomar é uma jovem de origem humilde, mas com uma ambição
desmedida. Controla os impulsos de seu coração de forma absolutamente racional. Aparenta fragilidade e pureza,
quando é apenas interesseira e determinada. Afilhada de uma rica baronesa, desperta o interesse de três
pretendentes completamente diferentes um do outro:
Estevão é sentimental, doidivanas, ingênuo, piegas. Amaria a primeira mulher que o olhasse. Não se valoriza e
por isso não mereceu a preferência de Guiomar. Embora sincero, é superficial, inseguro, volúvel, fragilizado por
sua futilidade e isso o coloca como carta fora do baralho.

UM DIA DE MANHÃ acordou Estêvão com a resolução feita de dar o golpe decisivo. Os corações frouxos têm
destas energias súbitas, e é próprio da pusilanimidade iludir-se a si mesma. Ele confessava que nada havia feito, e
que a situação exigia alguma cousa mais.
"Nunca as circunstâncias foram mais propícias do que hoje, pensava o rapaz; Guiomar trata-me com afabilidade
de bom agouro. Demais, há nela espírito elevado; há de reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este
meu, vale um pouco mais do que lisonjarias de sala."
A resolução estava assentada; restava o meio de a tornar efetiva. Estêvão hesitou largo tempo entre dizer de viva
voz o que sentia ou transmiti-lo por via do papel. Qualquer dos modos tinha para ele mais perigos que vantagens.
Ele receava ser frio na declaração escrita...

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Jorge é fraco de caráter. Egoísta e narcisista, espera que o mundo se ajuste à sua volta e que todos o tenham
como centro e referência. Sua futilidade e indefinição de objetivos fazem com que a ambiciosa Guiomar o rejeite.
Ele não ama Guiomar, mas casar-se com ela lhe é conveniente nos aspectos econômicos (a fortuna da baronesa
ficaria toda sob seu comando) e afetivos (agradaria a baronesa). Não fica claro por que razão, mas conta com o
apoio de Mrs. Oswald para vencer a resistência de Guiomar em aceitá-lo.

A baronesa não perdeu tempo em circunlóquios. Apenas viu o sobrinho interpelou-o diretamente.
— Disseram-me, foi Mrs. Oswald quem me disse, que tu gostas de Guiomar.
Jorge não contava muito com semelhante interrogação; todavia, não era tão ingênuo que corasse, nem tão
apaixonado que lhe "tremesse a: voz. Puxou gravemente os punhos da camisa, consertou a gravata, e respondeu
singelamente:
— Não me atrevia a falar-lhe destas cousas.
— Por que não? — interrompeu a baronesa; são assuntos que se podem tratar entre mim e ti, sem desar para
nenhum de nós. É então verdade o que me disse Mrs. Oswald?
— É.
— Amas deveras, ou...
Deveras. Recuaria, se visse que uma aliança entre nós ficava mal ao lustre de nossa família; mas, posto que ela
seja...
— Guiomar é minha filha, apressou-se a dizer a baronesa.
— Justamente; não pode haver melhor título.
— Tem ainda outro, continuou a baronesa; é uma alma angélica e pura. Henriqueta não teve melhor coração nem
mais amor aos seus. Além disso, a natureza deu-lhe um espírito superior, de maneira que a fortuna não fez mais do
que emendar o equívoco do nascimento. Finalmente é de uma beleza pouco comum...
— Rara, titia, pode dizer que é de uma beleza rara, acudiu Jorge, pela Primeira vez lhe luziu nos olhos alguma
cousa, que não era gravidade de costume.
— Já vês, prosseguiu a baronesa, que ela possui todos os direitos ao amor e à mão de um homem, como tu.
A baronesa tinha um coração ingênuo e liso...

Luís Alves é frio, metódico, reservado, ambicioso. “Corre” por fora, mas sabe o que quer. Não revela seus
sentimentos a ninguém. Só se decide em pedir Guiomar quando tem o domínio total da situação e sabe que o
sucesso de sua empreitada está assegurado. Mesmo assim, deixa a ela a decisão sobre o momento e a
conveniência de pedi-la em casamento ou não. É um jogador calculista que só aposta com a certeza de ganhar.

Luís Alves compreendera toda a expressão dos olhos de Guiomar; era, porém, homem frio, resoluto. Inclinou o
busto com toda a graça correta e de bom-tom, e disse-lhe na voz mais branda que lhe permitia o seu órgão forte e
severo:
— Parece-lhe que fui um pouco audaz, não é? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condene, estou
certo de que há em seu coração misericórdia de sobra...
Guiomar tinha readquirido toda a posse de si mesma.
— Está enganado, disse ela, não o condeno, pela simples razão de que o não entendi.
Tanto melhor, redargüiu Luís Alves sem pestanejar; o meu delito nesse caso não passou da esfera da intenção.

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— Mas... referia-se à viagem?
— Referia-me; perguntava quando iam.
Esta presença de espírito de Luís Alves ia muito com o gênio de Guiomar; era um laço de simpatia. A moça
respondeu que o comendador viria buscá-las daí a quinze ou vinte dias.
— Três meses apenas? perguntou o advogado.
— Três ou quatro.

OUTROS PERSONAGENS
Mrs. Oswald é uma espécie de governanta da casa da velha baronesa. Intrometida, ambiciona eternizar-se como
“agregada” na família. Subserviente e ardilosa, faz tudo para estar bem com todos, particularmente com a
baronesa. Move-a unicamente a preocupação com sua segurança no esquema familiar e na ocupação de uma
posição importante e influente. Suprime facilmente suas vontades e projetos, para se ajustar às novas situações. É
aliada de Jorge na empresa de conquistar o amor de Guiomar, mas quando esta dá sua preferência a Luís Alves,
acomoda-se rapidamente a esta realidade.
A madrinha baronesa é uma velhota bondosa que tudo faz pela felicidade da afilhada, que considera filha adotiva.
Personalidade idealizada, reunindo em si a pureza de intenções, o instinto maternal, a ingenuidade e a renúncia;
representa o mais forte toque genuinamente “romântico” de toda a narrativa.
Quer fazer de sua vida e de seus dois “amores” — Jorge, o sobrinho e Guiomar, a afilhada — um conto de fadas
com final feliz. Quando percebe que estava a intrometer-se indevidamente no destino e nos anseios da afilhada,
muda seu projeto e aceita resignadamente a preferência de Guiomar por Luís Alves.

CONCLUINDO
Mesmo tendo sido repudiado pelo autor que, taxativamente, afirmou “melhor seria não tê-lo publicado”, o livro
tem a marca inconfundível do mestre. Situações ambíguas, ironia, hipocrisia, falsidades, interesses escusos, todos
os ingredientes usados sobejamente para realizar um estudo da alma humana com a “pena da galhofa e a tinta da
melancolia” num meio riso que mais parece um ríctus de amargura a revelar o desencanto e o desalento ante a
miséria física e moral do ser humano irremediavelmente condenado à pequenez.

SERVIÇO: A Mão e a Luva faz parte do rol de obras recomendadas pelo Programa de Avaliação Seriada
(PAS — UnB), para leitura pelos alunos do 2º ano do Ensino Médio, neste ano de 1.999.

BIBLIOGRAFIA:
ASSIS, Machado de. A Mão e a Luva Rio de Janeiro - RJ: Nova Aguillar, 1997.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 1985.
BOSI, Alfredo e outros. Machado de Assis. São Paulo – SP: Ed. Ática, 1982.
MONÇÃO, Honneur. PAS-UnB-Literatura – 2º ano do 2º Grau. Brasília – DF: Ed. do Autor, 1.999.

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EXERCÍCIOS PROPOSTOS

TEXTO I

Um mês depois de chegar Estêvão a São Paulo, achava-se a sua paixão definitivamente morta e enterrada,
cantando ele mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou três moças da capital, todas elas, por
passatempo. Claro é que dous anos depois, quando tomou o grau de bacharel, nenhuma idéia lhe restava do
namoro da Rua dos Inválidos. Demais, a bela Guiomar desde muito tempo deixara o colégio e fora morar com a
madrinha. Já ele a não vira da primeira vez que veio à corte. Agora voltava graduado em ciências jurídicas e
sociais, como fica dito, mais desejoso de devassar o futuro que de reler o passado.
A corte divertia-se, como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuseram a linha dos cinqüenta
divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que já não dão à vida toda a flor dos seus primeiros anos. Para os
varões maduros, nunca a mocidade folga como no tempo deles, o que é natural dizer, porque cada homem vê as
cousas com os olhos da sua idade, Os receios da juventude não são decerto igualmente nobres, nem igualmente
frívolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o merecimento não é dela, — a pobre juventude, — é sim do
tempo que lhe cai em sorte.
A corte divertia-se, apesar dos recentes estragos do cólera bailava-se, cantava-se, passeava-se, ia-se ao teatro. O
Cassino abria os seus salões, como os abria o Clube, como os abria o Congresso, todos três fluminenses no
nome e na alma. Eram os tempos homéricos do teatro lírico, a quadra memorável daquelas lutas e rivalidades
renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o tempo diminuiu, ou transferiu,
- Deus lhe perdoe, - a cousas de menor tomo. Quem se não lembra, - ou quem não ouviu falar das batalhas
feridas naquela clássica platéia do Campo da Aclamação, entre a legião casalônica e a falange chartônica, mas
sobretudo entre esta e o regimento lagrüísta? Eram batalhas campais, com tropas frescas, — e maduras também,
— apercebidas de flores, de versos, de coroas, e até de estalinhos. Uma noite a ação travou-se entre o campo
lagrüísta e o campo chartonista, com tal violência, que parecia uma página da Ilíada. Desta vez, a Vênus da
situação saiu ferida do combate; um estalo rebentara no rosto da Charton. O furor, o delírio, a confusão foram
indescritíveis; o aplauso e a pateada deram-se as mãos, — e os pés. A peleja passou aos jornais. "Vergonha eterna
(dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na face de uma dama!" — "Se for mister (replicava outro) daremos os
nomes dos aristarcos que no saguão do teatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua!" — "Patuléia desenfreadas—
"Fidalguice balofa!" (...)

01 - Após uma leitura atenta do fragmento, analise os itens a seguir e julgue-os como certos ou errados.
(1) Infere-se que Estevão fosse um rapaz volúvel, dado a namoricos inconseqüentes.
(2) O aforismo popular "O tempo é o senhor da verdade" encontra respaldo no primeiro parágrafo.
(3) A atração que Estevão sentira por Guiomar foi apagada com o distanciamento espacial e temporal.
(4) No segundo parágrafo, o Autor elabora uma digressão em torno do saudosismo sempre presente em
pessoas mais velhas.
(5) Infere-se do terceiro parágrafo que as classes abastadas participassem ativamente das preocupações
governamentais com o estado sanitário da população em geral.
(6) Em "eram os tempos homéricos do teatro lírico..." há uma impropriedade semântica em relação à
caracterização dos gêneros literários.
(7) Em "tropas frescas e maduras também..." há uma referência a verduras e legumes consumidos na época.
(8) Lagruístas são partidários dos lemas da revolução francesa.
(9) Infere-se que alguém cuspira no rosto de senhora da alta sociedade carioca da época.

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02 - Sobre o fragmento são feitas as seguintes afirmações.
I - Jovens e velhos tomavam o partido das cantoras de sua preferência.
II - Três clubes rivalizavam-se na disputa por apresentar a melhor peça lírica.
III - Os clubes caracterizavam-se principalmente por seus times de futebol.
IV - Na disputa, alternavam-se as vaias e os aplausos.

Destas afirmações, estão certas apenas:


(A) - I e II.
(B) I e III.
(C) I e IV.
(D) II e III
(E) Apenas uma. (qual?)

03 - Assinale a alternativa CORRETA.


(A) O gerúndio do primeiro período confere ao período o aspecto de "ação que se inicia no presente e prolonga-
se para o futuro."
(B) A conjunção ou, no segundo período do primeiro parágrafo instaura uma noção de alternância entre uma
ação e outra.
(C) As ações evidenciadas pelo assíndeto no início do terceiro parágrafo são simultâneas.
(D) A seqüência que se inicia por "... para os que transpuseram... " apresenta uma relação de causa e efeito com a
seqüência a seguir "... divertia-se ... "
(E) A colocação da partícula se em "Quem se não lembra... "poderia ser posposta ao advérbio de negação, sem
qualquer infração à norma gramatical.

TEXTO II
1. Uma tarde, havendo algumas pessoas a jantar em casa da baronesa, foram passear à chácara. Estêvão
que, como Luís Alves, era dos convivas, afastou-se gradualmente dos outros grupos, e aproximou-se
daquela cerca histórica onde, após dous anos de ausência e esquecimento, vira, já transformada, a
formosa Guiomar. Era a primeira vez que ele punha os olhos nesse sítio, depois da conversa, que aí
tivera com ela. A comoção que sentiu foi naturalmente grande; ressurgia-lhe o quadro ante os olhos, a
hora, o céu brilhante, o doce alento da manhã, e por fim a figura da moça, que ali apareceu, como a alma
do quadro, trazendo-lhe recordações, que ele julgava mortas, esperanças que supunha impossíveis.
11. Estêvão curvou a cabeça ao doce peso daquelas memórias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda
que a imaginação lhe criava e talvez a noite o tomasse na mesma atitude, se a voz maviosa de Guiomar
lhe não dissesse a poucos passos de distância:
— Sr. doutor, perdeu alguma cousa?
15. O rapaz volveu rapidamente a cabeça, viu a moça, que atravessara uma das calhes próximas, a olhar e a
sorrir para ele. Estêvão sorriu também, e com uma presença de espírito assaz rara em namorados,
sobretudo em namorados como ele era, prontamente respondeu:
— Não perdi nada, mas achei uma cousa.

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20. — Vejamos o que foi.
E Guiomar aproximou-se, a passo firme e seguro, e Estêvão, sem muito vacilar, ali mesmo forjou uma
reflexão filosófica a respeito de um inseto que casualmente passava por cima de uma folha seca. A
reflexão não valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco forçada e de acarreto. A moça sorriu,
entretanto, e ia continuar o seu caminho, quando ele, colhendo as forças todas, a fez deter com estas
palavras:
27. — E se eu tivesse achado outra coisa?
— Ainda mais! exclamou ela voltando-se risonha.
Estêvão deu dous passos para Guiomar, desta vez comovido e resoluto. A moça fez-se séria e dispôs-se
a ouvi-lo.
— Se eu tivesse achado neste lugar, continuou ele, longos dias de esperança e de saudade, um passado
que eu julgara não reviver mais, uma dor oculta e medrosa, vivida na solidão, nutrida e consolada de
minhas próprias lágrimas? Se eu tivesse achado aqui a página rota de uma história começada e
interrompida, não por culpa de ninguém na Terra, mas da estrela sinistra da minha vida, que um anjo
mau acendeu no Céu, e que, talvez, talvez ninguém nunca apagará?
38. Estêvão calou-se e ficou a olhar fixamente para Guiomar.
Aquela declaração repentina e rosto a rosto estava tão longe do temperamento do rapaz, que ela gastou
alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Ele próprio admirava-se do atrevimento
que tivera...

EXERCÍCIOS PROPOSTOS
01) Assinale a alternativa incorreta.
(A) O fragmento é narrado por um narrador onisciente.
(B) O Autor utiliza-se da forma canônica de apresentar o discurso direto.
(C) O foco narrativo de 3ª pessoa confere maior verossimilhança ao narrado.
(D) O cenário é francamente favorável ao idílio e às declarações amorosas.
(E) O vocabulário é refinado, tendendo para a ostentação intelectual.

02) Reflita sobre as afirmativas a seguir.


I – O primeiro parágrafo exemplifica o tempo cronológico.
II – A idealização da heroína materializa-se nas três primeiras referências a Guiomar.
III – A mulher dominadora, superior e ciente de seu poder, como aparece no fragmento, é marca evidente
de filiação à estética romântica.
IV – O Autor utiliza-se tanto da coordenação quanto da subordinação com equilíbrio e harmonia,
resultando um texto conciso e de fácil assimilação.

Dessas afirmativas estão corretas apenas:


(A) I e II.
(B) I e III.
(C) I e IV.
(D) I, II e III.

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(E) I, II e IV.

03 – Após reler atentamente o fragmento, julgue os itens como certos ou errados.


(1) Dois sentimentos caros ao romantismo perpassam o texto: o saudosismo e a natureza participante.
(2) O tom confessional e intimista com que Estevão se manifesta e revelador do processo de
idealização dos personagens românticos.
(3) Os dois personagens presentes no fragmento são os protagonistas da história.
(4) A conversa de Estevão com Guiomar, linha 06, ocorrera antes da ida do rapaz para a faculdade, em
São Paulo.
(5) Esta foi a primeira vez que Estevão ousou falar de seu amor a Guiomar.
(6) Esboça-se uma situação que lembra o “amor cortês” presente na lírica medieval.
(7) A reflexão filosófica em torno de um inseto é apropriada à situação vivenciada pelos personagens.
(8) O vocabulário e a entonação do desabafo de Estevão são pertinentes com os sentimentos que lhe
vão n’alma.

TEXTO III

1. Durante uma inteira e comprida semana, deixou Estêvão de aparecer no escritório onde
trabalhava com Luís Alves; não apareceu também em Botafogo. Ninguém o viu em todo esse tempo nos
lugares onde ele era mais ou menos assíduo. Foram seis dias, não digo de reclusão absoluta, mas de
completa solidão, porque ainda nas poucas vezes que saiu, fê-lo sempre a horas ou em direção que a
ninguém via, e de ninguém era visto.
8. Mas não fora essa crua e malfadada crise, e é quase certo que ele meteria uma lança na África
daqueles dias, que era um ponto muito sério e grave, a questão magna da Rua do Ouvidor e da casa do
José Tomás, a ponderosa, crespa e complicada questão de saber se a Sthephanoni estrearia no Ernani.
Esta questão, de que o leitor se ri hoje, como se hão de rir os seus sobrinhos de outras análogas
puerilidades, esta pretensão a que se opunha a Lagrua, alegando que o Ernani era seu, pretensão que fazia
gemer as almas e os prelos daquele tempo, era cousa muito própria a espertar os brios do nosso Estêvão,
tão marechal nas cousas mínimas, como recruta nas cousas máximas.
18 Infelizmente ele não aparecia, não sabia sequer do conflito e do debate, ocupado como estava
em travar o áspero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o apoio, ou a
consolação dos outros homens. Todo ele era Guiomar; Guiomar era o primeiro e o último pensamento
de cada dia. A sombra da moça vivia ao pé dele e dentro dele, no livro em que lia, na rua solitária onde
acaso transitava, nos sonhos da noite, nas estrelas do céu, nas poucas flores de seu inculto jardim.
24 Um leitor perspicaz, como eu suponho que há de ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe
conte os muitos planos que ele teceu, diversos e contraditórios, como é de razão em análogas situações.
Apenas direi por alto que ele pensou três vezes em morrer, duas em fugir à cidade, quatro em ir afogar a
sua dor mortal naquele ainda mais mortal pântano de corrupção em que apodrece e morre tantas vezes a
flor da mocidade. Em tudo isto era o seu espírito apenas um joguete de sensações contínuas e variadas.
A força, a permanência do afeto não lhe bastava a dar seguimento e realidade às concepções vagas de
seu cérebro, enfermo, ainda quando estava de saúde.

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EXERCÍCIOS PROPOSTOS
01 Assinale a alternativa falsa.
(A) Os dois ondes do primeiro parágrafo são de caráter anáforico e podem ser substituídos por no
qual/nas quais, respectivamente, sem qualquer prejuízo sintático-semântico.
(B) A conjunção mas, no segundo período do primeiro parágrafo tem valor aditivo, por ligar idéias de
mesmo valor e complementares.
(C) A preposição A, antes de ninguém, segundo período do primeiro parágrafo, é usada para desfazer a
ambigüidade da sentença.
(D) As duas ocorrências de ninguém, no segundo período do primeiro parágrafo, têm diferentes
funções sintáticas.
(E) Na seqüência "... nas poucas vezes que saiu..." o termo destacado poderia estar precedido da
preposição em.

02) Sobre o texto, são feitas as seguintes afirmações:


I - O adjetivo ponderosa funciona como aposto de "casa de José Tomás", no primeiro período do
segundo parágrafo.
II - No primeiro período do segundo parágrafo, o uso mais que perfeito do indicativo e do futuro do
pretérito em "... não fora ... " e "... ele meteria ... " justifica-se pela relação de condicionalidade que há entre os
dois segmentos.
III - O verbo rir, nas duas ocorrências, tem o mesmo uso que em : "o homem é o único animal que ri."
IV - O processo metafórico em "... fazia gemer as almas e os prelos ... ", segundo período do segundo
parágrafo, está matizado de elementos prosopopéicos.

Dessas afirmações, estão corretas apenas:


(A) I e II.
(B) I e III.
(C) II e IV.
(D) I, II e III.
(E) II, III e IV.

03) Explique a relação existente entre "... ou a consolação de outros homens... "com as duas orações anteriores.

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04) Transcreva do último parágrafo elementos que denotam a tentativa do Autor em envolver o leitor na
narrativa.

05 - Julgue os itens a seguir como certos ou errados.


(1) A ausência de Estevão justifica-se pelo desengano amoroso.
(2) A causa do desaparecimento de Estevão era mais fruto da imaginação que de fatos reais.
(3) O Autor ironiza a respeito da frivolidade do comportamento da sociedade da época.
(4) O autor manifesta esperança de que sua obra seja duradoura, atravessando gerações.
(5) Estevão seguia a carreira militar, como fica explícito ao final do segundo parágrafo.
(6) Um dos passatempos preferidos do personagem era a jardinagem.
(7) A função metalingüística da linguagem faz-se presente no quarto parágrafo.
(8) "... mortal pântano.. " é referência a uma região perigosa dos subúrbios do Rio de Janeiro.
(9) O final do fragmento refere-se a uma sessão espírita destinada a aliviar a dor de Estevão.

TEXTO IV
1. A idéia do suicídio fincou-se-lhe mais a dentro no espírito, certa tarde em que ele saiu a espairecer, e viu
um enterro que passava, caminho do Caju. O préstito era triste, — ainda mais triste pela indiferença que
se lia no rosto dos que iam piedosamente acompanhando o morto. Estêvão descobriu-se e sinceramente
desejou ir ali dentro, metido naquelas estreitas tábuas de pinho, com todas as suas dores, paixões e
esperanças.
— Não tenho outro recurso, pensou ele; é necessário que morra. É uma dor só, e é a liberdade.
9 Ao voltar para casa, uma criança que brincava na rua, em camisa, com os pés na água barrenta da sarjeta,
fê-lo parar alguns instantes, invejoso daquela boa fortuna da infância, que ri com os pés no charco. Mas
a inveja da morte e a inveja da inocência foram ainda substituídas pela inveja da felicidade, quando ao
recolher-se viu as janelas abertas de uma casa vizinha, e a sala iluminada, e uma noiva coroada de flores
de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ela, ambos com o sorriso indefinível e
único da ocasião.
17 Os cinco dias correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lágrimas, de reflexões amargas, de
suspiros inúteis, até que raiou a aurora do sexto dia, e com ela, — ou pouco depois dela, uma carta de
Botafogo. Estêvão quando viu o criado da baronesa, à porta da sala, com uma carta na mão, sentiu
tamanho alvoroço, que não ouviu nada do que ele lhe disse. Suporia que a carta era de Guiomar? Talvez;
mas a ilusão durou os poucos instantes que ele gastou em romper a sobrecarta e desdobrar a folha de
papel que vinha dentro.
A carta era da baronesa.

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26 A baronesa perguntava-lhe graciosamente se ele havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe acerca da
demanda que ela trazia. Estevão chegara já ao estado de só esperar um pretexto para transigir consigo
mesmo; não podia havê-lo melhor. Escreveu rapidamente duas linhas...

EXERCÍCIOS PROPOSTOS
01 – Assinale a alternativa incorreta.
(A) A visão da morte despertou em Estevão o sentimento de autocomiseração típico das pessoas sem
fibra para enfrentar os percalços da vida.
(B) A indiferença dos que acompanhavam o enterro lembrou a Estevão sua solidão e falta de amigos
com quem compartilhar o sofrimento.
(C) A morte seria uma fuga. O personagem não enfrenta o mundo e suas dificuldades, mas evade-se
derrotado e incapaz de reagir.
(D) A morte, a infância perdida e o futuro esperançoso são três aspectos de um mesmo sentimento
romântico presentes no terceiro parágrafo do fragmento.
(E) As flores de laranjeira na coroa da noiva representavam a felicidade sonhada e perdida por
Estevão.

02 – Reflita sobre as seguintes afirmativas feitas acerca do fragmento.


(I) As incorreções gramaticais evidenciadas na linha 1 — fincou-se-lhe — e na linha 10 — fê-lo
parar alguns instantes — podem ser atribuídas à liberdade formal perseguida pelos escritores
românticos.
(II) A oração infinitiva “ao voltar para casa”, linha 10, instaura uma circunstância temporal no
período que inicia.
(III) O período que se inicia à linha 17 encerra um polissíndeto em gradação descendente.
(IV) Textualmente, as três ocorrências do pronome relativo que, no 4º parágrafo, têm funções
diferenciadas.

Dessas afirmativas, estão corretas:


(A) I e III.
(B) I, II e IV.
(C) I, III e IV.
(D) II e IV.
(E) II, III e IV.

03 – Julgue os itens a seguir como certos ou errados.


(1) A expressão fisionômica e a atitude dos que acompanhavam o enterro encerra um paradoxo.
(2) Antes de presenciar a passagem do enterro Estevão já pensava em suicídio.
(3) O verbo descobrir, linha 5, mostra que Estevão encontrou a razão de toda o seu sofrimento.
(4) Em “invejoso daquela boa fortuna”, linha 11, o narrador fala de uma rica criança que se interpunha entre
Estevão e o caminho de casa.
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(5) Pode-se inferir que inocência e felicidade são opostos e inconciliáveis.
(6) Era manhã quando Estevão recebeu a carta de sua amada baronesa, por quem suspirara e sofrera durante
seis longos dias.
(7) Em “falar-lhe acerca da demanda que ela trazia” temos a confissão amorosa da baronesa por Estevão.
(8) Pode-se inferir do último parágrafo que Estevão ainda não conseguira superar sua frustração amorosa.
(9) Há redundância na expressão “transigir consigo mesmo; ...”, linha 27.

RESPOSTAS DOS EXERCÍCIOS PROPOSTOS

TEXTO I
01 -: CCCCECEEE.
02 -: C.
03 -: E.

TEXTO II
01 -: E.
02- : E.
03 -: CCEEECCC.

TEXTO III
01 -: B
02 -: C.
03 - : LIVRE
04 - : LIVRE
05 -: CCCEECCEE.

TEXTO IV
01 -: E.
02 -: A.
03 -: CCEECEEEC.

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Título: Literatura Brasileira para Vestibulares
Todos os direitos reservados.
Autor: Honneur Monção
Nenhuma parte desta publicação poderá ser
Editora: CopyMarket.com, 2000
reproduzida sem a autorização da Editora.

A Moreninha
Honneur Monção

O romance romântico brasileiro desenvolve temas que se prendem à vida social do grande centro urbano da
época: a cidade do Rio de Janeiro. As convenções sociais, as relações familiares, os usos e costumes e os
problemas decorrentes do desenvolvimento da cidade, tudo isso serviu de matéria prima para nossos primeiros
romancistas.
Joaquim Manuel de Macedo tem sido acusado de ser um "escritor menor", por ter escrito obra que "atendeu ao
gosto do público da época", como isso fosse um pecado imperdoável. Acreditamos que todo escritor escreve
para o público e se o público aprova o que ele escreve, tanto melhor. O defeito, se houver, é do público e não do
escritor ou da obra.
{©A verdade é que uma conjuntura social, em que as oportunidades de lazer eram extremamente restritas,
proporcionou o surgimento do romance "folhetim", importado da França, em que situações pitorescas eram
encadeadas nos capítulos semanais destinados a jovens da classe endinheirada, que vibravam apaixonado(a)s com
as peripécias vividas pelos heróis e heroínas, odiavam terrivelmente os vilões, choravam caudalosas lágrimas com
o sofrimento que o destino, ou os homens, impunham aos pares enamorados. Qualquer semelhança com as
atuais novelas de televisão não é mera coincidência.
Descoberto o filão do sucesso, Macedo utilizou a receita em mais de duas dezenas de obras. O esquema era
sempre o mesmo: um grande amor vivido por jovens bonitos e bondosos; um complicador que tumultuava a
felicidade do par amoroso; a separação e o sofrimento decorrente; o esclarecimento do fato causador da
separação; o final feliz ou o trágico.
Cumpre observar que o tema central era sempre o casamento. Essa característica é fruto da preocupação do
autor em se manter fiel ao que observava a sua volta. Naquele tipo de sociedade e com aquele público-alvo para
seus escritos, o Autor mostra-se bastante pragmático, escolhendo um assunto que era a aspiração — e a
destinação — natural dos jovens prestes a se iniciar na vida adulta.

Resumindo
A Moreninha, o romance de estréia e de maior sucesso, tem uma história bastante simples: Três jovens (Augusto,
Leopoldo e Fabrício) estudantes de medicina (atente para o fato de que "estudantes de medicina", na época,
representam os estratos mais elevados da pirâmide social) vão passar as férias em uma ilha, propriedade da
família de um colega de escola. Em suas conversas e planos, Augusto afirma que jamais se apaixonaria por
apenas uma mulher, por ter uma incomensurável capacidade de amar. Chega a fazer uma aposta em que, caso se
apaixonasse, escreveria um romance contando a história de sua paixão. Da permanência na ilha, Augusto termina
por se enamorar de Carolina — A Moreninha.
A narrativa tem seqüência com uma série de ações conflitantes em que o amor de Augusto nem sempre é
correspondido de forma clara por Carolina. Terminam por separar-se, já que Augusto revela o verdadeiro motivo
de sua incapacidade de amar: ele está preso a uma jura de amor eterno, feita na adolescência, a uma menina cujo
nome desconhece e de quem nunca mais tivera notícia.
O sofrimento dos dois vai num crescendo até que a situação se esclarece: Carolina é a própria garota a quem
Augusto jurara amor e fidelidade no passado. Reconciliam e ficarão juntos, num melodramático "happy end",
mas Augusto deverá escrever o romance que relata seu caso de amor e esse romance será: A Moreninha.

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Um prefácio
Consideramos de bastante utilidade para a compreensão da obra a leitura do prefácio escrito pelo autor.

DUAS PALAVRAS
Eis aí vão algumas nas escritas, às quais me atrevi a dar o nome de Romance. Não foi ele movido por nenhuma
dessas três poderosas inspirações que tantas vezes soem amparar as penas dos autores: glória, amor e interesse,
Deste último estou eu bem a coberto com meus vinte três anos de idade, que não é na juventude que pode ele
dirigir o homem; a glória só se andasse ela caída de suas alturas, rojando as asas quebradas, me lembraria eu, tão
pela terra que rastejo, de pretender ir apanhá-la. A respeito do amor não falemos, pois se me estivesse o buliçoso
a fazer cócegas no coração, bem sabia eu que mais proveitoso me seria gastar meia dúzia de semanas aprendendo
numa sala de dança, do que velar trinta noites garatujando o que por aí vai. Este pequeno romance deve sua
existência somente aos dias de desenfado e folga que passei no belo Itaboraí, durante as férias do ano passado.
Longe do bulício da corte e quase em ócio, a minha imaginação assentou lá consigo que bom ensejo era esse de
fazer travessura, e em resultado delas saiu — A Moreninha.
Dir-me-ão que o ser a minha imaginação traquinas não é um motivo plausível para vir eu maçar a paciência dos
leitores com uma composição balda de merecimento e cheia de irregularidades e defeitos; mas que querem?
Quem escreve olha a sua obra como seu filho, todo o mundo sabe que o pai acha sempre graças e bondades na
querida prole.
Do que vem dito concluir-se-á que a Moreninha é minha filha: exatamente assim penso eu. Pode ser que me
acusem por não tê-la conservado debaixo de minhas vistas por mais tempo, para corrigir suas imperfeições; esse
era o meu primeiro intento. A Moreninha não é a única filha que possuo: tem três irmãos que pretendo educar
com esmero, e o mesmo faria a ela; porém esta menina saiu tão travessa, tão impertinente, que não pude mais
sofreá-la no seu berço de carteira e, para ver-me livre dela, venho depositá-la nas mãos do público, de cuja
benignidade e paciência tenho ouvido grandes elogios.
Eu, pois, conto que, não esquecendo a fama antiga, o público a receba e lhe perdoe seus senões, maus modos e
leviandades. É uma criança que terá, quando muito, seis meses de idade; merece a compaixão que por ela
implore, mas, se lhe notarem graves defeitos de educação, que provenham da ignorância do pai, rogo que não os
deixem passar por alto, acusem-nos, que daí tirarei eu muito proveito, criando e educando melhor os
irmãozinhos que a Moreninha tem cá.
E tu, filha minha, vai com a bênção paterna e queira o céu que ditosa sejas. Nem por seres traquinas te estimo
menos; e, como prova, vou, em despedida, dar-te um precioso conselho: recebe, filha, com gratidão, a crítica do
homem instruído; não chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres mais notável senão, e quando te
disserem que por este erro ou aquela falta não és boa menina, jamais te arrepies, antes agradece e anima-te
sempre com as palavras do velho poeta:
"Deixa-te repreender de quem bem te ama,
Que, ou te aproveita ou quer aproveitar-te."

ESPAÇO
Como já foi dito, o espaço explorado restringe-se ao Rio de Janeiro, mais explicitamente a uma ilha situada na
Baía da Guanabara. A descrição do cenário das ações revela um espaço físico bem detalhado, sem que haja
necessidade da interferência da imaginação do leitor em sua criação, como se pode perceber claramente nos
fragmentos selecionados.
"Seriam pouco mais ou menos onze horas da manhã, quando o batelão de Augusto abordou à ilha de. , .
Embarcando às dez horas, ele designou ao seu palinuro1 o lugar a que se destinava, e deitou-se para ler mais à
vontade o Jornal do Comércio. Soprava vento fresco e, muito antes do que supunha, Augusto ergueu-se,
ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia.

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— Bem-vindo sejas, Augusto,. Não sabes o que tens perdido...
— Então ... muita gente, Leopoldo?
— Não: pouca, mas escolhida.
No entanto, augusto pagou, despediu o seu bateleiro, que se foi remando e cantando com seus companheiros. (
... ) A ilha de ... é tão pitoresca como pequena. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela. A
avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades, das quais a que fica à esquerda de quem
desembarca, está simetricamente coberta de belos arvoredos, estimáveis ou pelos frutos de que se carrega, ou
pelo aspecto curioso que oferecem ( ... ) está adornada de mil flores, sempre brilhantes e viçosas, graças à eterna
primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. De tudo isto se conclui que a avó de Filipe tem no lado direito
de sua casa um pomar e no esquerdo um jardim.
E fizemos muito bem em concluir depressa, porque Filipe acaba de receber Augusto com todas as
demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala.
Agora, outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de cinqüenta palmos em quadro: aos lados
dela dois gabinetes proporcionalmente espaçosos, dos quais um, o do lado esquerdo, pelos aromas que exala,
espelhos que brilham, e um não sei quê que insinua, está dizendo que é o gabinete das moças.
Imagine-se mais, fazendo frente para o mar e em toda a extensão da sala e dos gabinetes, uma varanda terminada
em arcos; no interior meia dúzia de quartos; depois uma alegre e longa sala de jantar, com janelas e portas para o
pomar e jardim, e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar."

TEMPO
O tempo é fundamentalmente cronológico, com contínuas referências ao relógio e ao calendário. O desenrolar
da peripécia é lento e segue o ritmo metódico da sucessão dos segundos e dos dias, como se observar:
"Como testemunhas - Fabrício e Leopoldo.
Acordantes - Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira.
Já lá sé foram quatro dias: hoje é sexta-feira, amanhã será sábado, não um sábado como outro qualquer, mas um
sábado véspera de Sant'Ana.
São dez horas da noite; os sinos tocaram a recolher. Augusto está só, sentado junto de sua mesa, tendo diante de
seus olhos seis ou sete livros, papéis, pena e toda essa série de coisas que compõem a família do estudante."

NARRADOR
O narrador não integra o texto como personagem, utilizando, pois, um ponto de vista externo e um foco
narrativo de 3ª pessoa. Sua capacidade de estar em todos os lugares, como testemunha privilegiada dos
acontecimentos, possibilita grandes trechos descritivos inseridos na narrativa. A predominância dos diálogos,
entretanto, com raras interferências de quem conta a história, faz com que, predominantemente se tenha a figura
do narrador observador.
" Neste momento a sra. d. Ana entrou na sala, e depois, dirigindo-se à grande varanda da frente, sentou-se
defronte do jardim. Batista acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo: Augusto pediu que o
dispensassem e foi ter com a dona da casa.
— Não joga mais, sr. Augusto? disse ela.
— Por ora não, minha senhora.
— Parece-me pouco alegre.

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— Ao contrário... estou satisfeitíssimo.
— Oh! O seu rosto mostra não sentir o que dizem seus lábios; se aqui lhe falta alguma coisa...
— Na verdade que aqui não está tudo, minha senhora.
— Então que falta?
— A sra. d. Carolina!
A boa senhora riu-se com satisfação. Seu orgulho de avó acabava de ser incensado: era tocar-lhe no fraco.
— Gosta de minha neta, sr. Augusto?
— É a delicada borboleta deste jardim, respondeu ele, mostrando as flores.
— Vá buscá-la, disse a sra. d. Ana, apontando para dentro.
— Minha senhora, tanta honra! ...
O amigo de meu neto deve merecer minha confiança: esta casa é dos meus amigos e também dos dele. Carolina
está, sem dúvida, no quarto de Paula; vá vê-la e consiga arrancá-la de junto da sua ama."

PERSONAGENS
É usual neste tipo de obra a criação de personagens planos, sem evolução psicológica no decorrer da narrativa e
assim é em A Moreninha. O comportamento de cada personagem é previsível a partir do delineamento de seu
perfil físico e psicológico feito pelo narrador. A narrativa, como já dissemos, destina-se a um tipo de público bem
definido e sem grandes exigências intelectuais no refinamento da construção do enredo. Nesse particular, o autor
cumpre seu trabalho perfeitamente a contento.

CONCLUINDO
O aparecimento do romance e a sua aceitação, no Brasil, marca a adesão do público à literatura. É evidente que o
público da época é bastante diferente dos leitores de agora. Basta lembrar que o acesso à instrução, já tão
dificultoso hoje em dia, nos meados do século XIX era praticamente impossível a quem não pertencesse aos
estratos sociais privilegiados econômica e financeiramente. O romance romântico dirigia-se primordialmente ao
público feminino da classe dominante, cuja maneira de levar a vida permitia voltar as atenções para a literatura,
mesmo levando-se em conta a estreiteza do horizonte intelectual da mulher inserida em uma sociedade machista,
escravista e patriarcal, que reservava a ela, mulher, um papel secundário e meramente decorativo.
Joaquim Manuel de Macedo percebeu que tal público constituía um filão a ser explorado e a ele dedicou toda sua
obra. Daí a criação de personagens, situações e enredos que se identificam com os cânones da classe dominante
do tempo.
O casamento está no princípio, no meio e no fim de toda a obra. Tudo nos romances de Macedo gira em torno
do casamento, respira casamento, termina em casamento. Essa preocupação é fruto exclusivo da observação da
realidade social do momento histórico. Qual o anseio principal da jovem filha das famílias endinheiradas da
época? Os homens em tal sociedade enxergavam o casamento como uma excelente oportunidade para "subir na
vida". A mulher era um capital a ser conseguido e conquistado a todo o transe. Transforma-se, por conseguinte,
o amor em algarismos, os vínculos sagrados do matrimônio são calculados em cifras dotais e contabilizáveis.
A Moreninha é um romance de costumes e cumpre bem sua tarefa de pintar um quadro representativo das
relações humanas na cidade do Rio de Janeiro dos meados do século XIX. Foi lido e aplaudido por seus leitores
da época e permanece como um documento vivo da produção literária brasileira, naquilo que ela tem de mais
representativo, desde os primeiros escritos do século XVI até os nossos dias.

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EXERCÍCIOS PROPOSTOS
O Sarau
Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. É preciso antecipar que nos não vamos dar ao
trabalho de descrever este; é um sarau como todos os outros, basta dizer o seguinte:
Os velhos lembraram-se do passado, os moços aproveitaram o presente, ninguém cuidou do futuro. Os solteiros
fizeram para lembrar-se do casamento, os casados trabalharam por esquecer-se dele. Os homens jogaram,
falaram em política e requestaram as moças; as senhoras ouviram finezas, trataram de modas e criticaram
desapiedadamente uma das outras. As filhas deram carreirinhas ao som da música, as mães, já idosas, receberam
cumprimentos por amor daquelas e as avós, por não terem que fazer nem que ouvir, levaram todo o tempo a
endireitar as toucas e a comer doces. Tudo esteve debaixo dessas regras gerais, só resta dar conta das seguintes
particularidades:
D. Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto, mas, para isso, foi preciso que a Sra. D Ana
empenhasse todo o seu valimento; a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada; não quis passear
com o estudante.
A interessante D. Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes, comeu pão-de-ló, como nenhuma, tocou
em todos os doces, obrigou alguns moços a tomá-la por par e até dançou uma valsa de corrupio.
Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou: o rapaz é incorrigível. E assim tudo mais.
Agora são quatro horas da manhã; o sarau está terminado, os convidados vão retirando-se e nós, entrando no
toilette", vamos ouvir quatro belas conhecidas nossas, que conversam com ardor e fogo.
(Joaquim Manuel de Macedo)

1. A análise da estrutura do texto permite a identificação das características a seguir.


1) A pontuação final evidencia o encadeamento dos três primeiros parágrafos.
2) O segundo parágrafo descreve o comportamento dos participantes do sarau, observando os grupos
formados apenas por faixa etária.
3) O último período do segundo parágrafo funciona como transição entre a descrição global (o grupo) e a
descrição particular (os indivíduos).
4) A descrição de D. Violante é feita de modo objetivo, sem qualquer avaliação de seu perfil psicológico.
5) A dupla situação dos acontecimentos no tempo - passado ou presente explicita-se tanto pela flexão de
tempo das formas verbais quanto pelo uso de expressões adverbiais.
6) O emprego de formas verbais flexionadas na 1ª pessoa (linha 2 e linha 22) indica que o autor é um dos
personagens.

2. Ao romance a que pertence o texto lido, A Moreninha, podem-se associar as expressões:


1) "narrativa de crítica social".
2) "literatura engajada".
3) "ficção romântica de feição urbana".
4) "descrição do comportamento de uma elite intelectual".
5) "romance cor-de-rosa".
6) "narrativa de peripécias horizontais".

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3. Há, no texto, informações que nos permitem fazer as inferências que se seguem.
1) O narrador considera necessária a descrição do sarau.
2) O sarau inicia-se quando a orquestra começa a tocar.
3) D. Carolina estava interessada na companhia de Augusto.
4) D. Violante comportou-se com discrição.
5) Augusto dançou com apenas seis senhoras, pelas quais se apaixonou.
6) Augusto costuma apaixonar-se com freqüência.
7) O narrador identifica os participantes e o tom da conversa que ouve, ao entrar no toalete.

4. Pode-se afirmar que


1) é possível, também, em "... que nos não vamos dar ao trabalho..." (linha 2), a colocação do pronome
oblíquo posposto ao advérbio de negação.
2) a preposição de, em "... criticaram desapiedadamente uma das outras." (linha 7), tem emprego
decorrente da regência verbal.
3) “já idosas" (linha 8) funciona, sintaticamente, como aposto.
4) a classe gramatical de que, em "... por não terem que fazer nem que ouvir..." (linha 9), é conjunção
subordinativa integrante.
5) a expressão sublinhada em "valsa de corrupio" (linha 18) funciona como complemento nominal.
6) "valimento" (linha 13), no texto, é o mesmo que legitimidade.

5. Julgue os itens seguintes:


1) "particularidades" (linha 11), quanto ao processo de formação de palavras, é uma palavra primitiva.
2) Há ditongo nasal crescente átono em "fizeram" (linha 4),
3) "desapiedadamente"(linha 7) é forma variante de desapiadadamente.
4) "Incorrigível" (linha 19/20) forma-se por um processo de derivação prefixal e sufixal.
5) Na linha 16, "fez o diabo a quatro" significa amaldiçoar o diabo.
6) No texto, "até" (linha 18) classifica-se, gramaticalmente, como preposição.

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Morte e Vida Severina – Auto de Natal Pernambucano


Honneur Monção

DO AUTOR

Tendo estreado em livro em 1942, João Cabral de Melo Neto enquadra-se no que a crítica chama de Geração de
45, um grupo de escritores desligados das inovações estéticas defendidas pelos modernistas de 22, marcada
formalmente por apego maior ao rigor formal e ao artesanato poético. No aspecto temático, João Cabral elegeu
três preocupações: o Nordeste, com sua sofrida problemática; a Espanha, naquilo que ela tem de semelhante ao
Nordeste e a própria poesia, numa ação metalingüística que segue os passos de outros grandes poetas que
revelaram a mesma preocupação.

DA OBRA

O subtítulo “Auto de Natal Pernambucano” remete-nos para a tradição medieval ibérica em que a designação
“auto” destinava-se a peças de teatro ao gosto tradicional. Os assuntos podiam ser religiosos ou profanos, sérios
ou cômicos. Os autos, ao mesmo tempo que divertiam, moralizavam pela sátira de costumes e inculcavam de
modo vivo a acessível as verdades da fé. Os autos foram uma constante na literatura portuguesa e tiveram seu
apogeu com o teatro vicentino, no alvorecer do século XVI.
{©Morte e Vida Severina foi composta a pedido de Maria Clara Machado, especialmente para o teatro. Dividida
em dezoito passos, cada um deles narrando partes da grande jornada de um retirante — Severino de Maria —
que foge da seca, em busca da vida no litoral. Esses pequenos passos são as cenas de um auto natalino, com a
descrição final do nascimento de uma criança, mas entremeados pela morte que é o liame entre uma cena e
outra.
Publicado em 1956 e encenado a partir de 1958, o poema-peça teatral tem conseguido repetido sucesso de
público e de crítica, sendo inclusive levado ao cinema. Seu conteúdo crítico-social e o fato de uma de suas
encenações ter sido musicada por Chico Buarque de Hollanda levaram alguns críticos a rotular o Autor de
“engajado”, rótulo que ele repele veementemente, a não ser que esse engajamento seja considerado com a
própria poesia.

DO TÍTULO

O título engloba a mensagem que perpassa todo o poema. Com a mudança da ordem natural (primeiro a vida e
depois a morte) para morte/vida o Autor já antecipa o tipo de vida que pretende descrever: uma vida que
coexiste diuturnamente com a morte. As duas mantêm tal simbiose que o adjetivo comum confere-lhes, a
ambas, a qualidade de severinas, isto é, de extremado rigor em suas relações com o meio.

RESUMINDO

Na parte inicial, o poema narra a peregrinação do protagonista em sua caminhada ainda no sertão e o seu
encontro com a morte em diferentes ocasiões: dois homens carregam um defunto, numa rede, vítima de
emboscada; o segundo encontro com a morte dá-se quando o retirante encontra o rio Capibaribe agonizando,
intermitente em razão da seca; Severino segue viagem só para se deparar com um velório, onde se cantam as
incelências. A partir desse momento, ocorre a reflexão sobre as razões de sua própria vida.

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Chegando ao litoral, Severino encontra um lugarejo sem habitantes: todos foram enterrar um trabalhador-
defunto — a morte é uma constante também na terra macia da Zona da Mata. No Recife, ouve dois coveiros
discutindo sobre como faturar com a morte e aí resolve dar cabo da própria vida, atirando-se no rio.
Tendo desistido de matar-se, Severino encontra-se com o mestre Carpina e indaga dele sobre suas dúvidas
existenciais. O mestre diz-lhe do nascimento do filho que, “saltando para dentro da vida” forma uma visão
antitética ao quadro permanente da morte. Na visitação ao recém-nascido fica evidente o fito de formar-se um
grande arco ligando nascimento e morte e deixando explícito o determinismo social que conduz e conduzirá a
todos para um destino irremediável.

CONCLUINDO

O poema marca-se pelo jogo de palavras entre o substantivo Severino e o adjetivo severina, caracterizando a
vida e a morte presentes no sertão marcado pelo flagelo da seca. O aspecto social típico do Nordeste,
particularmente o problema fundiário, permeia a jornada trágica do protagonista que, na busca da vida, só
encontra a morte por onde passa.
Seguindo a tradição medieval, tão presente no Nordeste, o poema é escrito predominantemente em versos
redondilhos maiores, com um vocabulário que vai do erudito ao regional sem que, nesse espectro, cause grandes
traumas interpretativos.
Autor confessamente adepto do trabalho poético artesanal, João Cabral impõe-se um tema e o explora de todos
os ângulos possíveis, a partir de sua experiência pessoal de homem de seu tempo. Nada é fortuito, Nada é
improviso, Nada é acaso. A poesia para ele não brota expontaneamente a partir de uma inspiração divina dada a
poucos eleitos. Para João Cabral, o trabalho intelectual conjuga-se com a disciplina e com o rigor de quem sabe
o que quer e como o quer. O resultado, naturalmente, é um poema equilibrado, harmônico, seco, duro, direto,
sem quaisquer concessões a soluções simplistas e/ou emocionais.
Podemos concluir afirmando que se trata de um poema bastante representativo da obra do Autor, do momento
e da importância que ela representa para a literatura brasileira.

SERVIÇO
Morte e Vida Severina é obra cuja leitura é recomendada aos alunos candidatos à primeira etapa do PAS-UnB,
neste ano de 1999.

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Fernando Teixeira de. Morte e Vida Severina, in Os Livros da Fuvest. São Paulo – SP: CERED, 1998.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 3ª edição, 1995.

MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida Severina – e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro – RJ: Liv. José
Olympio Editora, 1975.

MONÇÃO, Honneur. PAS-UnB – Literatura - 2º Grau. Brasília – DF: Ed. do Autor, 1ª Edição, 1999.

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Noite na Taverna
Honneur Monção

Muito se tem falado acerca de Álvares de Azevedo e de sua obra. A crítica, em geral, ressalta a genialidade
precoce; os arroubos adolescentes; a intensa imaginação criadora; o estilo vacilante de quem não teve tempo
suficiente para firmar o domínio sobre o instrumento de trabalho e a influência poderosa dos grandes mestres
europeus, Byron e Musset, de quem o nosso vate frui o demonismo, o pessimismo, o tédio existencial e o
sentido trágico da existência tão do agrado dos românticos da Segunda Geração.
Álvares de Azevedo escreveu intensamente, como se pressentisse a morte prematura. Seu texto é ágil, nervoso,
ciclotímico e com um vocabulário e um estilo nem sempre apurados, como aliás é típico do Romantismo.
Noite na Taverna é um livro de contos trágicos — lembram perfeitamente os contos de horror de Edgard
Allan Poe, o genial escritor do Romantismo norte-americano — em que o real e o fantástico fundem-se para
criar uma atmosfera escurecida pela fumaça dos charutos e pela pátina do meio sono entorpecido dos bêbados,
devassos e impenitentes, que, reunidos em uma taverna lúgubre, desfiam suas experiências existenciais em
narrativas escabrosas. A palavra vai de um personagem a outro e a cada intervenção de um deles, uma nova
história surge, sempre ligada ao sofrimento, ao incesto, ao adultério, ao canibalismo, à prostituição.

1. Johann
Bem ao estilo da segunda geração romântica, o Autor cria um texto fantástico em que coincidências trágicas
unem-se para, num somatório incrível de desgraças e de desencontros existenciais, destruir quatro vidas jovens
que tinham tudo para viver em harmonia.
O enredo, mesmo com toda a dramática tragicidade, é de grande simplicidade:
{©“Johann joga bilhar com um jovem, desentendem-se por motivos fúteis, parte para um duelo e o oponente –
Artur – morre estupidamente; Johann apanha no corpo do adversário um anel e um bilhete com um endereço,
comparece a uma entrevista e passa a noite com uma virgem desconhecida; ao sair, é atacado por um homem,
consegue eliminá-lo e depois descobre que acabara de matar o próprio irmão; volta ao quarto e constata que a
virgem com quem tinha estado era sua irmã, noiva do moço com quem jogara bilhar e matara em duelo.”
Álvares de Azevedo escreveu intensamente, como se pressentisse a morte prematura. Seu texto é ágil, nervoso,
ciclotímico e com um vocabulário e um estilo nem sempre apurados, como aliás é típico do Romantismo.

“JOHANN”

Pourquoi? c’est que mon coeur au milieu des délices,


D’un souvenir jaloux constamment oppressé,
Froid au bonheur présent, va chercher ses supplices
Dans l’avenir et le passé. ALEX DUMAS

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Agora a minha vez! Quero lançar também uma moeda em vossa urna: é o cobre azinhavrado do mendigo: pobre esmola por certo!
Era em Paris, num bilhar. Não sei se o fogo do jogo me arrebatara, ou se o kirsch e o curaçau me queimaram demais as idéias...
Jogava contra mim um moço: chamava-se Artur.
Era uma figura loura e mimosa como a de uma donzela. Rosa infantil lhe avermelhava as faces; mas era uma rosa de cor desfeita.
Leve buço lhe sombreava o lábio, e pelo oval do rosto uma penugem dourada lhe assomava como a felpa que rebouça o pêssego.
Faltava um ponto a meu adversário para ganhar. A mim, faltavam-me não sei quantos: sei só que eram muitos e pois requeria-se
um grande sangue frio e muito esmero no jogar.
Soltei a bola! Nessa ocasião o bilhar estremeceu... O moço louro voluntariamente ou não, se encostara ao bilhar... A bola desviou-se,
mudou de rumo: com o desvio dela perdi... A raiva levou-me de vencida. Adiantei-me para ele. A meu olhar ardente o mancebo,
sacudiu os cabelos louros e sorriu como d’escárnio.
Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moço convulso caminhou para mim com um punhal, mas nossos amigos
nos sustiveram.
— Isso é briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.
O moço rasgou nos dentes uma luva e atirou-ma à cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue.
Meia hora depois tomei-lhe a mão com sangue frio e disse-lhe no ouvido:
— Vossas armas, senhor?
— Sabê-las-eis no lugar.
— Vossas testemunhas?
— A noite e minhas armas.
— A hora?
— Já.
— O lugar?
— Vireis comigo... Onde pararmos aí será o lugar...
— Bem, muito bem: estou pronto, vamos.
— É tempo, disse ele.
Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos. As pistolas estalaram, um tiro só estrondou, ele caiu morto ...
— Tomai, murmurou o moribundo e acenava-me para o bolso.
Atirei-me a ele. Estava afogado de sangue. Estrebuchou três vezes e ficou frio... Tirei-lhe o anel da mão. Meti-lhe a mão no bolso
como ele o dissera. Achei dois bilhetes.
A noite era escura: não pude lê-los. Voltei à cidade. À luz baça do primeiro lampião vi os dois bilhetes!. O primeiro era a carta
para sua mãe. O outro estava aberto, li:
— “À uma hora da noite na rua de .... no 60, 1o andar; acharás a porta aberta.
Tua G.”
Não tinha outra assinatura.
Eu não soube o que pensar. Tive uma idéia: era uma infâmia.
Fui à entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto .... Senti uma mãozinha acetinada tomar-se
pela mão, subi. A porta fechou-se.
Foi uma noite deliciosa! A amante do louro era virgem! Pobre Romeu! Pobre Julieta! Parece que essas duas crianças levavam as
noites em beijos infantis e em sonhos puros!
(Johann encheu o copo, bebeu-o, mas estremeceu.)

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Quando eu ia sair, topei um vulto à porta.
— Boa noite, cavalheiro ... eu vos esperava há muito.
Essa voz pareceu-me conhecida. Porém eu tinha a cabeça desvairada...
Não respondi: o caso era singular. Continuei a descer, o vulto acompanhou-me. Quando chegamos à porta vi luzir a folha de uma
faca. Fiz um movimento e a lâmina resvalou-me no ombro. A luta fez-se terrível na escuridão. Eram dois homens que se não
conheciam, que não pensavam talvez terem-se visto um dia à luz, e que não haviam de ver-se por ventura ambos vivos.
O punhal escapou-lhe das mãos, perdeu-se no escuro: subjuguei-o. Era um quadro infernal, um homem na escuridão abafando a
boca do outro com a mão, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e a outra mão a tatear na sombra procurando um ferro.
Nessa ocasião senti uma dor horrível: frio e dor me correram pela mão. O homem morrera sufocado, e na agonia me enterrara os
dentes pela carne. Foi a custo que desprendi a mão sangrenta e descarnada da boca do cadáver. Ergui-me.
Aquele homem - sabei-lo?... era do sangue do meu sangue, era filho das entranhas de minha mãe, como eu... era meu irmão! Uma
idéia passou entre meus olhos como um anátema. Subi ansioso ao sobrado. Entrei. A moça desmaiara de susto ouvindo a luta.
Tinha a face fria como o mármore. Os seios nus e virgens estavam parados e gélidos como os de uma estátua... A forma de neve eu a
sentia meia nua entre os vestidos desfeitos, onde a infância asselara a nódoa de uma flor perdida.
Na verdade que sou um maldito! Olá Archibald, dá-me um outro copo, enche-o de conhaque, enche-o até à borda! Vede!... Sinto
frio, muito frio... tremo de calafrios e o suor me corre nas faces! Quero o fogo dos espíritos! a ardência do cérebro ao vapor que
tonteia... Quero esquecer!
— Que tens, Johann? Tiritas como um velho centenário!
O que tenho? O que tenho? Não vedes pois? Era minha irmã!”

Como se percebe, a visão trágica da existência e o senso do mistério são presenças marcantes no texto: Johann
em uma mesma noite mata o noivo da irmã e seu próprio irmão. Ao lado desses dois crimes hediondos. Comete
incesto — crime moralmente maior — com a irmã, em seqüência tenebrosa de acontecimentos sobre os quais
não tem o mínimo controle. O acúmulo de coincidências fatais faz crer uma alma penada subjugada sob o fardo
de seu carma. Não há, por conseguinte, qualquer possibilidade de redenção e Johann deverá consumir o resto de
seus dias sob o peso esmagador de seus crimes e pecados.Ressalte-se, ainda, o vocabulário e entonação
reveladores da intensa emoção presente na fala da cada personagem. O tratamento cerimonioso, mesmo em
situação crítica e explosiva, entre contendores prestes a se atracar confere, também, um clima de irrealismo e
idealização excessivos que remete claramente para o gênero dramático.
Tal texto, como já afirmou o grande escritor e crítico Adonias Filho, só poderia ter sido escrito no Romantismo,
tal o grau de representatividade daquela estética abarcado por seus parcos limites.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01- Assinale V/F


0) O primeiro parágrafo revela um narrador participante.
1) Pelo que se percebe logo a seguir, o ambiente onde se desenrolam as ações é pouco recomendável.
2) A descrição física de Artur é ambígua.
3) O início da briga e a interferência dos amigos revelam uma postura tipicamente romântica: a idealização
do herói.
4) Os dois contendores demonstram mais apego à vida que à honra.
5) Em “– Moro aqui, entrai, disse-me” o emprego da pessoa verbal é absolutamente gramatical.
6) Em “É pois um duelo de morte”, o termo em destaque tem valor explicativo.
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7) O diálogo a seguir denota uma linguagem que se afasta dos padrões românticos e revela uma grande
tensão interior.
8) A cena do duelo é perfeitamente racional, mesmo para os padrões modernos.
9) Após o duelo, Johann revela-se um perfeito cavalheiro romântico.
10) No trecho que vai de “Quando eu ia sair” até “Ergui-me” as frases são curtas e apressadas, revelando a
ação violenta de duas vontades que se entrechocam.
11) O final do conto é surpreendente e revela toda a dramaticidade e tragicidade da 2a geração romântica.
12) Em “eu a sentia meia nua...” a concordância nominal está em desacordo com a norma culta atual.

02 – Transcreva uma passagem em que fique evidenciada a função emotiva da linguagem.

03 – Transcreva passagem do texto que revele a mulher distante e inaccessível.

04 – Transcreva uma passagem que apresente a preferência por lugares ermos e sombrios.

05 – Transcreva uma passagem em que se evidencie o predomínio das emoções e a idealização dos personagens.

2. Solfieri

Seguindo a linha da proposta da obra, este conto também fala da tragicidade da vida, da libertinagem e da
depravação. O ambiente do narrado enquadra-se na perspectiva da preferência pelos lugares ermos, escuros,
amedrontadores e os personagens que nele vagam são seres indefinidos dos quais apenas um contorno é
mostrado. São mulheres e homens misteriosos e difusos num cenário também misterioso e difuso.
Solfieri, o narrador, é um dos boêmios reunidos na taverna e conta aos amigos a história fantástica por ele vivida
na Roma misteriosa e perigosa das vielas e becos tortuosos. Numa noite, surge da janela escura de um palácio o
vulto impreciso de uma mulher. Solfieri a segue até um cemitério e ali amanhece sozinho e desvairado.
Um ano depois reencontra a mulher dentro de um caixão, em uma igreja, despe o cadáver e o profana. Leva-o
para casa. A mulher não está morta, mas apenas sofrera um ataque de catalepsia1. Em casa ela se torna sua
amante e morre louca. Ele a enterra em seu quarto, manda fazer uma estátua que a represente e coloca-a em seu
leito de amante desesperado.
Hoje guarda como relíquia uma grinalda de flores murchas que arrancou da cabeça do cadáver da amada sem
nome.
SOLFIERI

Yet one kiss on your pale clay


And those lips once so warm- my heart! my heart.
BYRON, Cain
1
Verbete: catalepsia:
Med. Estado em que se observa uma rigidez cérea dos músculos, de modo que o paciente permanece na posição em que é colocado.
[Observar-se a catalepsia principalmente em casos de demência precoce e de sono hipnótico.]

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Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida
se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo, que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à
embriaguez da crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como
um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios,
as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela
solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como
gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... E daí um canto se derramava. Não era
só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do
vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu.
Eu segui-a.
.......................................................................................................................................
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora
uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.
.......................................................................................................................................
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um
templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as
grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados... Era uma defunta!... e
aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida...- Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja, que, ignoro, por que eu
achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
.......................................................................................................................................
Súbito abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços,
um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma
coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava! Pude a custo soltar-me daquele aperto do
peito dela... Nesse instante ela acordou...
Nunca ouviste falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro;
sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!
.......................................................................................................................................
Caminhei. Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que
ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...
.......................................................................................................................................
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de uma espada.
Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois
de duas noites e dois dias de delírio.
À noite sai; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore de meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. Tomei-a então
pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito.
Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e
paguei o segredo...

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Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entrevistes pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que
eu te respondi que era uma virgem que dormia?
— E quem era essa mulher, Solfieri?
— Quem era? Seu nome?
— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta
com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.
— Solfieri, não é um conto isso tudo?
— Pelo inferno que não! Por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a bela Messalina das ruas, pela perdição
que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! Guardei-lhe como amuleto a
capela de defunta. Ei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
— Vede-la? Murcha e seca como o crânio dela.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01 - A segunda geração romântica tem algumas marcas bem nítidas, resultantes das influências sofridas pela
leitura e identificação doentia com escritores europeus, notadamente Byron, Musset e Hofmann. O tédio
existencial; a preferência por lugares ermos e escabrosos; o niilismo schopenhauriano são marcas indeléveis a
matizar os escritos dessa fase.
Assinale V/F, caso a característica presente seja ou não resultado dessas influências.
0) sentido trágico da existência.
1) preferência por ambientes noturnos.
2) angústia existencial, tédio de viver.
3) mulher inatingível.
4) obsessão pela morte.
5) lugares distantes, exotismo.
6) ilogicidade.

02 - Uma narrativa literária constrói-se com elementos bem marcados e definidos- tempo, espaço, ação,
personagens, foco narrativo, narrador, etc.
Examine atentamente os itens a seguir, todos relacionados com o texto lido, e assinale V/F.
0) O narrador e participante e, por conseguinte, onisciente.
1) O foco narrativo é de 3a pessoa.
2) O tempo da narrativa coincide com o tempo narrado
3) A mulher presente no texto é personagem tipo.
4) O espaço é físico.
5) A ação envolve poucos personagens, como é típico do romance romântico.
6) Em “Sonho gelado em que sentem-se os membros...” a colocação pronominal está de acordo com a
atual norma culta.
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03 - Relendo o texto atentamente, assinale V/F.
0) Nos dois parágrafos iniciais observa-se uma postura anticlerical.
1) No terceiro parágrafo predomina a comparação.
2) No quarto parágrafo, os períodos curtos indicam a simultaneidade das ações.
3) Os dois pontos existentes no parágrafo que se inicia com a expressão “Quando dei acordo de mim...”,
nas duas ocorrências, justificam-se por anteceder expressões de caráter explicativo.
4) Há um corte temporal bem marcado a partir da expressão “Quando entrei no quarto...”.
5) O clima de terror trágico acentua-se no parágrafo que se inicia com a expressão “Súbito abriu os
olhos...”.
6) A colocação pronominal no parágrafo que se inicia com “Quando o escultor saiu...” segue os padrões
da gramática atual.
7) O narrador é perfeitamente racional durante o diálogo com o guarda que o interpelou.
8) A morte, a loucura, a embriaguez e o irreal comandam o restante da narrativa.
9) Pelo que se percebe, Solfieri substitui a amada morta por uma estátua, o que, de qualquer forma
configura o platonismo romântico.

04 - Por que o narrador afirma que Roma é a cidade do fanatismo e da perdição?

05 - O segundo parágrafo descreve um cenário. De que forma esse cenário enquadra-se dentro da estética
romântica?

06 - No trecho que vai de “Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam” (pág.30), até “canto suavíssimo”,
percebem-se marcos característicos da estética romântica. Quais são eles?

07 - Transcreva dois trechos em fica marcante o subjetivismo.

3. Gennaro

A temática desenvolvida permanece dentro daquilo que o autor imaginou para a obra: o aspecto trágico do
relacionamento humano; a ingratidão de uns diante da impotência de outros; a prevalência da força das forças
avassaladoras da carne diante de qualquer juízo de ordem ética.
Um jovem estudante de pintura, vivendo na casa do mestre, desonra-lhe o lar e desgraça-lhe a vida. Gennaro
primeiro relaciona-se intimamente com a filha de Godofredo. Quando esta fica grávida e implora-lhe uma
atitude reparadora de sua honra (estamos no século XIX – lembre-se), Gennaro se recusa. A moça morre e
Gennaro toma a jovem esposa do mestre como amante.
Godofredo sofre, mas não tem como reagir.
Ao final Gennaro encontra os cadáveres de Godofredo e Nauza, já em decomposição, num final trágico e
fantasmagórico.

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GENNARO -Fragmento
Meurs on tue...
Corneille

Gennaro, dormes, ou embebes-te no sabor do último trago do vinho, da última fumaça do teu cachimbo?
— Não: quando contavas tua história, lembrava-me uma folha de vida, folha seca e avermelhada como as do outono e que o vento
varreu.
— Uma história?
— Sim: é uma das minhas histórias. Sabes, Bertram, eu sou pintor... É uma lembrança triste essa que vou revelar, porque é a
história de um velho e de suas duas mulheres, belas como duas visões de luz.
Godofredo Walsh era um desses velhos sublimes, em cujas cabeças as cãs semelham o diadema prateado do gênio. Velho já
casara em segunda núpcias com uma beleza de vinte anos. Godofredo era pintor: diziam uns que este casamento fora um amor
artístico por aquela beleza romana, como que feita ao molde das antigas; outros criam-no compaixão pela pobre moça que vivia de
servir de modelo. O fato é que ele a queria como filha, como Laura, a filha única de seu primeiro casamento. Laura... corada como
uma rosa e loura como um anjo.
Eu era nesse tempo moço: era aprendiz de pintura em casa de Godofredo. (...) Eu tinha quase a idade da mulher do
mestre. Nauza tinha vinte e eu tinha dezoito anos.
Amei-a; mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos. Nauza também me amava: era um sentir tão puro!
era uma emoção solitária e perfumosa como as primaveras cheias de flores e de brisas que nos embalam aos céus da Itália.
Como eu o disse: o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma moça pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados;
sua tez era branca, só às vezes, quando o pejo a incendia, duas rosas lhe avermelhavam a face e se lhe destacavam no fundo de
mármore. Laura parecia querer-me como a um irmão.
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Uma manhã - eu dormia ainda- o mestre saíra e Nauza fora à igreja, quando Laura entrou no meu quarto e fechou a
porta: deitou-se ao meu lado. Acordei nos braços dela.
O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater
sobre o meu, isso tudo... ao despertar dos sonhos alvos da madrugada, me enlouqueceu...
Todas as manhãs Laura vinha a meu quarto...
Três meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse:
— Gennaro, estou desonrada para sempre... A princípio eu quis-me iludir, já não o posso, estou de esperanças...
Um raio que me caísse aos pés não me assustaria tanto.
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Nunca mais tornou a falar-me em casamento.
.......................................................................................................................................
Laura não me falara mais . Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se mais pálida, mas a gravidez não crescia, antes mais
nenhum sinal se lhe notava...
O velho levava as noites passeando no escuro. Já não pintava. Vendo a filha que morria aos sons secretos de uma
harmonia de morte, que empalidecia cada vez mais, o misérrimo arrancava as cãs.
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Uma noite... foi horrível... vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que ninguém
podia reter, tão apressadas e confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face úmida
de um suor copioso, chamou-me. Sentei-me junto do leito dela. Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meus
ouvidos:
— Gennaro, eu te perdôo, eu te perdôo de tudo... Era um infame... Morrerei... Fui louca... Morrerei por tua causa... teu filho... o
meu... vou tê-lo ainda... mas no céu... meu filho que matei... antes de nascer.
Deu um grito, estendeu convulsivamente os braços como para repelir uma idéia, passou a mão pelos lábios como para
enxugar as últimas gotas de uma bebida, estorceu-se no leito, lívida, fria, banhada de suor gelado e arquejou... Era o último suspiro.
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Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de lágrimas. Ela
voltou a face: eu cri que era desdém, ergui-me.
— Então, Nauza, tu não me amas, disse eu.
Ela permanecia com o rosto voltado.
— Adeus pois; perdoai-me se vos ofendi; meu amor é uma loucura, minha vida é uma desesperança - o que me resta? Adeus, irei
longe, longe daqui... talvez então eu possa chorar sem remorso.
Tomei-lhe a mão e beijei-a.
Ela deixou sua mão nos meus lábios.
Quando ergui a cabeça, eu a vi: ela estava debulhada em lágrimas.
— Nauza! Nauza! uma palavra, tu me amas?
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Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta, batia nela: nunca eu a vira tão pura e divina!
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Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça... — Era Nauza, mas Nauza cadáver, já desbotada pela podridão. Não era
aquela estátua alvíssima de outrora, as faces macias e o colo cor de neve... Era um corpo amarelo... Levantei uma ponta da capa do
outro: o corpo caído de bruços com a cabeça para baixo; ressoou no pavimento o estalo de um crânio... — Era o velho!... Morto
também, roxo e apodrecido!... Eu o vi: — da boca lhe escorria uma escuma esverdeada.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01 - Assinale V/F
0) O fato de Gennaro ser pintor faz com que ele correlacione a beleza das mulheres a um raio de luz.
1) Suspeita-se de que Godofredo Walsh nutria um amor platônico por sua segunda esposa.
2) Gennaro, aos doze anos, era discípulo de Godofredo Walsh.
3) O parágrafo que se inicia por “Eu era nesse tempo...” até “eu tinha dezoito anos.” é coeso e coerente.
4) No parágrafo seguinte predomina a comparação.
5) A relação entre Gennaro e Laura tem algo de incestuosa.
6) A natureza pecaminosa de Gennaro manifesta-se mesmo diante da iminência da morte de Laura.
7) No trecho “Uma noite... foi terrível [... ] Era o último suspiro” tem-se uma situação e um discurso que
fogem à estética romântica.
8) Ao ajoelhar-se diante da amada: “ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de lágrimas.”
o sujeito poético adota uma postura que recupera o amor cortês da literatura medieval.
9) No trecho: “Nauza! Nauza! Uma palavra, tu me amas?
Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta, batia nela: nunca eu a vira tão
pura e divina.” ocorre a identificação da mulher com a lua, o que não é próprio da estética romântica..

02 – Transcreva uma passagem que reflita a idealização romântica dos personagens.

03 – Transcreva uma passagem que revele o platonismo e a evasão que caracterizam o texto romântico.

04 – Transcreva uma passagem que mostre o sentido trágico da existência.

05 – Transcreva uma passagem que revele a incompreensão amorosa.

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4. Último Beijo de Amor

A obra “Noite na Taverna”, como sabemos, é constituída com a representação de um grupo de devassos,
bêbados e infelizes a desfilar narrativas escabrosas de fatos de suas vidas. O presente conto é o coroamento da
obra. Seguindo uma técnica narrativa peculiar ao livro de contos esta última história é o fechamento da obra. É
o clímax da orgia e da bebedeira desenfreada.
Os personagens estão adormecidos e espalhados pelo chão da taverna. Beberam além da conta e exaustos
entregam-se á letargia do álcool. Eis que chega um vulto fantasmagórico de mulher. É a própria encarnação da
morte. A descrição tétrica ajusta-se á figura tradicional da ceifadora iniludível. Procura entre os bêbados até
encontrar Johann e o executa. Volta-se para Arnold (e revela quem era: Giorgia, a jovem virgem desgraçada pelo
irmão na primeira narrativa da obra que volta para matar o irmão profanador e entregar sua vida ao descanso
final.

ÚLTIMO BEIJO DE AMOR

Well Juliet! I shall lie with thee to night!


SHAKESPEARE’ Romeo.

A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos nas trevas.


Uma luz raiou súbito pelas fisgas da porta. A porta abriu-se. Entrou um mulher vestida de negro. Era pálida; e a luz de
uma lanterna, que trazia erguida na mão, se derramava macilenta nas faces dela e dava-lhe um brilho singular aos olhos. Talvez
que um dia fosse beleza típica, uma dessas imagens que fazem descorar de volúpia nos sonhos de mancebo. Mas agora com sua tez
lívida, seus olhos acesos, seus lábios roxos, suas mãos de mármore, e a roupagem escura e gotejante da chuva, disséreis antes - o anjo
perdido da loucura.
A mulher curvou-se: com a lanterna na mão procurava uma por uma entre essas faces dormidas um rosto conhecido.
Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo, alongou os lábios... Mas uma idéia a susteve.
Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços, o olhar tornou-se-lhe sombrio.
Abaixou-se junto dele, depôs a lâmina no chão. O lume baço da lanterna dando nas roupas dela espalhava sombra sobre
Johann. A fronte da mulher pendeu e sua mão pousou na garganta dele. Um soluço rouco e sufocado ofegou daí. A desconhecida
levantou-se. Tremia; e ao segurar na lanterna ressoou-lhe na mão um ferro... Era um punhal... Atirou-o ao chão. Viu que tinha as
mãos vermelhas, enxugou-as nos longos cabelos de Johann...
Voltou a Arnold; sacudiu-o.
— Acorda e levanta-te!
— Que me queres?
— Olhe-me... não me conheces?
— Tu? E não é um sonho? És tu! Oh! deixa que eu te aperte ainda! Cinco anos sem ver-te! Cinco anos! E como mudaste!
— Sim, já não sou bela como há cinco anos! É verdade, meu louro amante! É que a flor da beleza é como todas as flores. Alentai-
as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza, e serão belas... Revolvei-as no lodo... e, como os frutos que caem e mergulham nas
águas do mar, cobrem-se de um invólucro impuro e salobre! Outrora era Giorgia - a virgem: mas hoje é Giorgia - a prostituta!
— Meu Deus! Meu Deus!
E o moço sumiu a fronte nas mãos.
— Não me amaldiçoes, não!

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.......................................................................................................................................
— Não me chames Arnold! chama-me Artur, como dantes. Artur! Não ouves! Chama-me assim! Há tanto tempo que não ouço
me chamarem por esse nome!...
A mulher sufocava-se nas lágrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.
— Escuta, Artur, eu vinha só dizer-te adeus! da borda do meu túmulo; e depois contente fecharia eu mesma a porta dele... Artur,
eu vou morrer!
.......................................................................................................................................
— E que me importa o sonho da morte? Meu porvir amanhã seria terrível; e à cabeça apodrecida do cadáver não ressoam
lembranças: seus lábios gruda-os a morte; a campa é silenciosa. Morrerei!
A mulher recuava... recuava... O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela... Ela deu um grito e caiu-lhe das
mãos. Era horrível de ver-se. O moço tomou o punhal: fechou os olhos, apertou-o no peito e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-
se no estrondo do baque de um corpo...
A lâmpada apagou-se

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01 - Assinale V/F nos itens abaixo, atentando para o fato de que há intertextualidade entre este conto e os
demais.

0) O título antecipa o clímax.


1) A descrição da mulher que chega prenuncia a presença da morte.
2) Percebe-se que ARNOLD é o Artur assassinado por Johann em outra narrativa da obra.
3) JOHANN é assassinado pela própria irmã, a quem tinha desgraçado.
4) Segundo GIORGIA , o homem é produto do meio.
5) Mesmo sendo Giorgia uma prostituta e Arnold um libertino, o amor que os unia era puro e casto.
6) Diante da morte da amada, Arnold se mata.
7) Como representação da realidade, a narrativa é verossímil, coesa e coerente
8) Mesmo não havendo as marcas características da obra teatral, percebe-se que o texto presta-se
facilmente a uma adaptação para a representação cênica.
9) O vocabulário e a entonação são características românticas inconfundíveis presentes no texto.
10) O final trágico é uma vertente romântica bem própria da segunda geração.
11) O autor foi exclusivamente prosador, com incursões esporádicas pelo teatro.

02 – Transcreva uma passagem que revele a presença da morte.

03 – Transcreva o trecho que evidencie a morte de Johann:

04 – Transcreva uma passagem em que está presente o platonismo e a idealização dos personagens.

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5. Bertram

Narrativa desordenada em que se mesclam o erotismo desenfreado, o assassinato, o canibalismo. Não há uma
seqüência lógica e coerente dos fatos narrados, passando a idéia de um pesadelo nevoento em que os
acontecimentos sucedem se vertiginosamente sem que haja explicação lógica para eles. Bertram é o conto mais
longo da obra Noite na Taverna e dá a impressão de que carecia de uma limpeza, ou seja, de uma depuração
para que se tornasse mais compacto e menos cansativo.
Bertram, o protagonista, é um velho devasso com uma imensa carga de pecados e vícios para expiar.
Relacionou-se, no passado, com três mulheres e nos três relacionamentos o amor físico é intenso, efêmero e de
resultados devastadores.
A linguagem é tipicamente romântica, seguindo o tom declamatório e teatral de um longo solilóquio do
protagonista-narrador
Nos fragmentos a seguir procurou-se manter a linha dos fatos principais, eliminando-se o supérfluo ou
decorativo.

BERTRAM
But why should I for others groan
When none will sigh for me?
Childe Harold. I.

“Um outro conviva se levantou.


Era uma cabeça ruiva, uma tez branca, uma daquelas criaturas fleumáticas que não hesitarão ao tropeçar num cadáver
para ter mão de um fim.
Esvaziou o copo cheio de vinho, e com a barba nas mãos alvas, com os olhos de verde-mar fixos, falou:
Sabeis, uma mulher levou-me à perdição. Foi ela quem me queimou a fronte nas orgias, e desbotou-me os lábios no ardor
dos vinhos e na moleza de seus beijos, quem me fez devassar pálido as longas noites de insônia nas mesas do jogo, e na doudices dos
abraços convulsos com que ela me apertava ao seio! Foi ela, vós o sabeis, quem fez-me num dia ter três duelos com meus três melhores
amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida - e depois, depois sentir-me só e abandonado no mundo, como a
infanticida que matou o seu filho, ou aquele Mouro infeliz junto à sua Desdêmona pálida!
Pois bem, vou contar-vos uma história que começa pela lembrança desta mulher...
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Amei muito essa moça, chamava-se Ângela. Quando estava decidido a casar-me com ela, quando após longas noites perdidas ao
relento a espreitar-lhe da sombra um aceno, um adeus, uma flor, quando após tanto desejo e tanta esperança eu sorvi-lhe o primeiro
beijo, tive de partir da Espanha para Dinamarca onde me chamava meu pai.
Foi uma noite de soluços e lágrimas, de choros e de esperanças, de beijos e promessas de amor, de voluptuosidade no presente e de
sonhos no futuro... Parti. Dois anos depois foi que voltei. Quando entrei na casa de meu pai, ele estava moribundo; ajoelhou-se no seu
leito e agradeceu a Deus ainda ver-me, pôs as mãos na minha cabeça, banhou-me a fronte de lágrimas - eram as últimas - depois
deixou-se cair, pôs as mãos no peito e com os olhos em mim murmurou: Deus!
A voz sufocou-se-lhe na garganta: Todos choravam. Eu também chorava, mas era de saudades de Ângela... Logo que pude
reduzir minha fortuna a dinheiro pu-la no banco de Hamburgo, e parti para a Espanha.
Quando voltei, Ângela estava casada e tinha um filho...
Contudo meu amor não morreu! Nem o dela!

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Muito ardentes foram aquelas horas de amor e de lágrimas, de saudades e beijos, de sonhos e maldições, para nos
esquecermos um do outro.
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Era alta noite: eu esperava ver passar nas cortinas brancas a sombra do anjo. Quando passei uma voz chamou-me. Entrei.
- Ângela com os pés nus, o vestido solto, o cabelo desgrenhado e os olhos ardentes tomou-me pela mão... Senti-lhe a mão úmida... Era
escura a escada que subimos: passei minha mão, molhada pela dela por meus lábios. Tinha saibo de sangue.
— Sangue, Ângela! De quem é esse sangue?
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Quando Ângela veio com a luz, eu vi... era horrível!... O marido estava degolado.
Era uma estátua de gesso lavada em sangue... Sobre o peito do assassinado estava uma criança de bruços. Ela ergueu-a pelos
cabelos... Estava morta também: o sangue que corria das veias rotas de seu peito se misturava com o do pai!
— Vês, Bertram, esse era meu presente: agora será, negro embora, um sonho do meu passado. Sou tua e tua só. Foi por ti que
tive força bastante para tanto crime... Vem, tudo está pronto, fujamos. A nós, o futuro!
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Um dia ela partiu: partiu, mas deixou-me os lábios ainda queimados dos seus e o coração cheio do germe de vícios que ela
aí lançara. Partiu; mas sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto de meu leito.
Quis esquecê-la no jogo, nas bebidas, na paixão dos duelos. Tornei-me um ladrão nas cartas, um homem perdido por
mulheres e orgias, um espadachim terrível e sem coração.
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Uma noite eu caíra ébrio às portas de um palácio: os cavalos de uma carruagem pisaram-me ao passar e partiram-me a
cabeça de encontro à laje. Acudiram-me desse palácio. Depois amaram-me: a família era um nobre velho viúvo e uma beleza
peregrina de 18 anos. Não era amor decerto o que eu sentia por ela... Não sei o que foi... Era uma fatalidade infernal. A pobre
inocente amou-me; e eu, recebido como o hóspede de Deus sob o teto do velho fidalgo, desonrei-lhe a filha, roubei-a, fugi com ela... E o
velho teve de chorar suas cãs manchadas da desonra de sua filha, sem poder vingar-se.
Depois enjoei-me dessa mulher. A saciedade é um tédio terrível. Uma noite, que eu jogava com Siegfried - o pirata, depois
de perder as últimas jóias dela, vendi-a. A moça envenenou Siegfried logo na primeira noite e afogou-se...
.......................................................................................................................................
Chegamos a uma corveta que estava erguendo âncora.
O comandante era um belo homem. Pelas faces vermelhas caíam-lhe os cabelos crespos e louros onde a velhice alvejava
algumas cãs.
Ele perguntou-me:
Quem és?
— Um desgraçado que não pode viver na terra e não deixaram morrer no mar.
— Queres pois vir a bordo?
— A menos que prefirais atirar-me ao mar.
O comandante trazia a bordo uma bela moça. Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecendo
esquecido entre as ondas. Os marinheiros a respeitavam: quando pelas noites de lua ela repousava o braço na amurada e a face na
mão, aqueles que passavam junto dela se descobriam respeitosos. Nunca ninguém lhe vira olhares de orgulho, nem lhe ouvira palavras
de cólera: era uma santa.
Era a mulher do comandante.
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Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples... um fato velho e batido, uma prática do mar, uma lei do
naufrágio - a antropofagia.
Dois dias depois de acabados os alimentos restavam três pessoas: eu, o comandante e ela. - Eram três figuras macilentas como o
cadáver, cujos olhares fundos e sombrios se injetavam de sangue como a loucura.
O uso do mar - não quero dizer a voz da natureza física, o brado do egoísmo do homem - manda a morte de um para a
vida de todos. Tiramos a sorte... o comandante teve por lei morrer.
Então o instinto de vida se lhe despertou ainda. Por um dia mais de existência, mais um dia de fome e sede de leito úmido e varrido
pelos ventos frios do norte, mais umas horas mortas de blasfêmia e de agonia, de esperança e desespero, de orações e descrença, de febre
e de ânsia, o homem ajoelhou-se chorou, gemeu a meus pés...
Olhai, dizia o miserável, esperemos até amanhã... Deus terá compaixão de nós... Por vossa mãe, pelas entranhas de vossa
mãe! Por Deus se ele existe! Deixai-me ainda viver!
Oh! A esperança é pois como uma parasita que morde e despedaça o tronco, mas quando ele cai, quando morre e apodrece,
ainda o aperta em seus convulsos braços! Esperar! Quando o vento do mar açoita as ondas, quando a escuma do oceano vos lava o
corpo lívido e nu, quando o horizonte é deserto e sem termo e as velas que branqueiam ao longe parecem fugir! Pobre louco!
Eu ri-me do velho. Tinha as entranhas em fogo. Morrer hoje, amanhã, ou depois... tudo me era indiferente, mas hoje me dos
braços dela a fraqueza a fazia desvairar. O delírio tornava-se mais longo, mais longo, debruçava-se nas ondas e bebia a água salgada
e oferecia-ma nas mãos pálidas dizendo que era vinho. As gargalhadas frias vinham mais de entuviada...
Estava louca.
Não dormi, não podia dormir: uma modorra ardente me fervia as pálpebras, o hálito do meu peito parecia fogo, meus
lábios secos e estalados apenas se orvalhavam de sangue.
Tinha febre no cérebro... e meu estômago tinha fome, tinha fome como a fera.
Apertei-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em fogo, apertei-a convulsivo, sufoquei-a. Ela era ainda tão
bela!
........................................................................................................................................
De repente senti-me só. Uma onda me arrebatara o cadáver. Eu o vi boiar pálido como suas roupas brancas, seminu, com
os cabelos banhados de água; eu vi-o erguer-se na escuma das vagas, desaparecer e boiar de novo; depois não o distingui mais: - era
como a escuma das vagas, como um lençol lançado nas águas...
Quantas horas, quantos dias passei naquela modorra, nem o sei... Quando acordei desse pesadelo de homem desperto,
estava a bordo de um navio.
Era o brigue inglês Swallow, que me salvara...
Olá, taverneira, bastarda de Satã! não vês que tenho sede e as garrafas estão secas como tua face e como nossas gargantas?

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01. Julgue os itens itens.


(1) A descrição feita pelo narrador dá uma visão concreta do tipo físico e psicológico do protagonista.
(2) A narrativa inicia-se com um foco narrativo de 3ª pessoa para, logo a seguir, adotar a 1ª pessoa verbal.
(3) O amor entre Bertram e Ângela segue o padrão de idealização próprio do Romantismo.
(4) O nome da heroína é revelador de sua personalidade idealizada.
(5) Afastar-se da mulher amada para encontrar o pai distante e moribundo é uma situação tipicamente
romântica.

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(6) Segundo Bertram, sua desdita atual tem origem no amor dedicado a uma mulher. A concepção da mulher
demoníaca foge ao padrão estético romântico.
(7) O primeiro segmento antecipa a ação de Ângela no quarto segmento.
(8) Infere-se do primeiro segmento que Bertram já contou essa história antes.
(9) Duelar com três amigos e abrir três túmulos é confissão clara de assassinato, segundo a perspectiva do
leitor.
(10) Ocorre intertextualidade com D. Casmurro, de Machado de Assis.
(11) Ângela degolou o marido e estripou o filho para viver o grande amor de sua vida.
(12) Ao ser abandonado por Ângela, Bertram seguiu o comportamento normal dos heróis românticos.
(13) A concepção do amor como fonte de sofrimento e desgraça é fortemente presente no fragmento.
(14) Os três amigos com quem Bertram duelou foram, pela ordem: o marido de Ângela; o velho nobre do
palácio; o comandante da corveta.
(15) A mulher do comandante encarna o ideal de heroína romântica.

02 – Transcreva uma passagem que revele um traço psicológico do comportamento de Bertram.

03 – Transcreva uma passagem que contenha o intenso sofrimento amoroso.

04 – Transcreva uma passagem que contenha um sentido trágico da existência.

05 – O Romantismo da segunda geração representa o extremo da emocionalidade, do spleen e da idealização


dessa estética. O texto abaixo é um fragmento do conto Bertram, da obra Noite na Taverna, de Álvares de
Azevedo. Leia-o atentamente para julgar os itens a seguir como certos ou errados.

TEXTO
“Uma noite eu caíra ébrio às portas de um palácio: os cavalos de uma carruagem pisaram-me ao passar e partiram-me a
cabeça de encontro à laje. Acudiram-me desse palácio. Depois amaram-me: a família era um nobre velho viúvo e uma beleza
peregrina de 18 anos. Não era amor decerto o que eu sentia por ela... Não sei o que foi... Era uma fatalidade infernal. A pobre
inocente amou-me; e eu, recebido como o hóspede de Deus sob o teto do velho fidalgo, desonrei-lhe a filha, roubei-a, fugi com ela... E o
velho teve de chorar suas cãs manchadas da desonra de sua filha, sem poder vingar-se.
Depois enjoei-me dessa mulher. A saciedade é um tédio terrível. Uma noite, que eu jogava com Siegfried - o pirata, depois
de perder as últimas jóias dela, vendi-a. A moça envenenou Siegfried logo na primeira noite e afogou-se...”

(1) – A situação apresentada no primeiro parágrafo é perfeitamente verossímil.


(2) A linguagem utilizada busca a simplicidade do “inutilia truncat” tão comum nesse período literário.
(3) A preferência por lugares sórdidos e amedrontadores exemplifica-se no primeiro parágrafo.
(4) O palácio do velho que acolheu o narrador e o nome do pirata com quem jogou e perdeu são fatores de
coesão textual.
(5) O foco narrativo externo é resultante da presença de um narrador onisciente.

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6. Claudius Hermann

Uma história absolutamente inverossímil em que Claudius Hermann apaixona-se por Eleonora, a duquesa,
seqüestra-a e confessa seu amor. A seqüência narrativa é desordenada e caótica. Não há um nexo ou uma razão a
justificar as ações do narrador-protagonista. Mais uma narrativa erótica e misteriosa como os vapores nevoentos
dos castelos assombrados das narrativas de terror.
Ao final o duque Maffio, desonrado e enlouquecido com o rapto de sua esposa mata-a e morre sobre o cadáver.

CLAUDIUS HERMANN
...Extacy!
My guise as yours doth
temperately keep time
And maltes a healthful music:
lt is not madness
That I have utter'd.
SHAKESPEARE, Hamlet

E tu, Hermann! Chegou a tua vez. Um por um evocamos ao cemitério do passado um cadáver. Um por um erguemo-lhe o
sudário para mostrar-lhe uma nódoa de sangue. Fala que chegou a tua vez.
Claudius sonha algum soneto ao jeito do Petrarca, alguma auréola de pureza como a dos espíritos puros da Messíada! disse
entre uma fumaça e uma gargalhada Johann erguendo a cabeça da mesa.
Pois bem! quereis uma história? Eu pudera contá-las, como vós, loucuras de noites de orgia; mas para quê? Fora escárnio
Fausto ir lembrar a Mefistófeles as horas de perdição que lidou com ele. Sabeis-las... essas minhas nuvens do passado, leste-lo à farta
o livro desbotado de minha existência libertina. Se o não lembrásseis, a primeira mulher das ruas pudera contá-lo. Nessa torrente
negra que se chama a vida e que corre para o passado enquanto nós caminhamos para o futuro, também desfolhei crenças e me
lancei, despidas as minhas roupas mais perfumadas, para trajar a túnica da saturnal! O passado é o que foi, é a flor que murchou, o
sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. Lágrimas a ele? Fora loucura! Que durma com suas lembranças negras! Revivam,
acordem apenas os miosótis abertos naquele pântano! sobreágue naquele não-ser o eflúvio de alguma lembrança pura!
Bravo! Bravíssimo! Claudius, estás completamente bêbado! bofé que estás romântico!
Silêncio, Bertram! Certo que esta não é uma lenda para inscrever-se após as vossas uma dessas coisas que se contem com os
cotovelos na toalha vermelha e os lábios borrifados de vinho e saciados de beijos... Mas que importa?
Vós todos que amais o jogo, que vistes um dia correr naquele abismo uma onda de ouro, redemoinhar-lhe no fundo, como um
mar de esperanças que se embate na ressaca do acaso, sabeis melhor que vertigem nos tonteia então... ideais-la melhor a loucura que
nos delira naqueles jogos de milhares de homens, ou de fortuna. - Aspirações, a vida mesma vão-se na rapidez de uma corrida, onde
todo esse complexo de misérias e desejos, de crimes e virtudes que se chama a existência se joga numa parelha de cavalos!
Apostei como homem a quem não doera empobrecer: o luxo também sacia; e é essa uma saciedade terrível! Para ela nada basta...
Nem as danças do Oriente, nem as lupercais romanas, nem os incêndios de uma cidade inteira lhe alimentarão a seiva de morte, essa
vitalidade do veneno de que fala Byron. Meu lance no turf foi minha fortuna inteira. Eu era rico, muito rico então: em Londres
ninguém ostentava mais dispendiosas devassidões, nenhum nababo numa noite esperdiçava somas como eu. O suor de três gerações,
derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...
No instante em que as corridas iam começar, em que todos sentiam-se febris de impaciência, um murmúrio correu pelas
multidões, um sorriso,.. e depois eram as fontes que se expandiam e depois uma mulher passou a cavalo.
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A fraqueza era cobarde: e demais, esse homem comprara uma chave e uma hora à infâmia venal de um criado, esse homem
jurara que nessa noite gozaria aquela mulher: fosse embora veneno, ele beberia o mel daquela flor, o licor de escarlate daquela taça.
Quanto a esses prejuízos de honra e adultério, não riais deles - não que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era como a
folha de um punhal - ferir ou estalar.
Na mesa havia um copo e um frasco de vinho, encheu o copo: era vinho espanhol... Chegou-se a ela, com suas roupas de veludo
desatadas, seus cabelos a meio soltos ainda entremeados de pedraria e flores, seus seios meio-nus, onde os diamantes brilhavam como
gotas de orvalho, ergueu-a nos braços, deu-lhe um beijo. Ao calor daquele beijo, seminua, ela acordou: entre os vagos sonhos em que se
lhe perdia uma ilusão talvez, murmurou "amor!" e com olhos entreabertos deixou cair a cabeça e adormeceu de novo.
O homem tirou do seio um frasquinho de esmeralda. Levou-o aos lábios entreabertos dela e verteu-lhe algumas gotas que ela
absorveu sem senti-las. Deitou-a e esperou. Daí a instantes o sono dela era profundíssimo... A bebida era um narcótico onde se
misturaram algumas gotas daqueles licores excitantes que acordam a febre nas faces e o desejo voluptuoso no seio.
O homem estava de joelhos, o seu peito tremia e ele estava pálido como após uma longa noite sensual. Tudo parecia vacilar-lhe em
torno...
Ela estava nua: nem veludo, nem véu leve a encobria. O homem ergueu-se, afastou o cortinado.
O homem era Claudius Hermann.
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Quando me levantei, embucei-me na capa e saí pelas ruas. Queria ir ter a meu palácio, mas estava tonto como um ébrio.
Titubeava e o chão era lúbrico como para quem desmaia. Uma idéia contudo me perseguia. Depois daquela mulher nada houvera
mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco das uvas purpurinas do paraíso mais nunca deve inebriar-se do néctar da terra...
Quando o mel se esgotasse, o que restava a não ser o suicídio?
Uma semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lábios à dormida um século de gozo. Um mês, o mês em que
delirantes iam os bailes do entrudo, em que mais cheia de febre ela adormecia quente, com as faces em fogo...
Uma noite - era depois de um baile - eu esperei-a na alcova, escondido atrás do seu leito. No copo cheio d’água que estava junto à
sua cabeceira derramara as últimas gotas de filtro quando entrou ela com o Duque.
Era ele um belo moço! Antes de deixá-la passou-lhe as duas mãos pelas fontes e deu-lhe um beijo. Embevecido daquele beijo, o
anjo pendeu a cabeça no ombro dele e enlaçou-o com seus braços nus, reluzentes das pulseiras de pedraria. O duque teve sede, pegou
no copo da duquesa, bebeu algumas gotas; ela tomou-lhe o copo, bebeu o resto. Eu os vi assim: aquele esposo inda tão moço, aquela
mulher - ah! e tão bela!... de tez ainda virgem - e apertei o punhal...
— Virás hoje, Maffio? disse ela.
— Sim, minh'alma.
Um beijo sussurrou, e afogou as duas almas. E eu na sombra sorri, porque sabia que ele não havia de vir.
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Aqui parou a história de Claudius Hermann. Ele abaixou a cabeça na mesa, não falou mais. - Dormes, Claudius? por Deus!
Ou estás bêbado ou morto! Era Archibald que o interpelava: sacudia-o a toda força. Claudius levantou um pouco a cabeça, estava
macilento, tinha os olhos fundos numa sombra negra.
— Deixai-me, amaldiçoados! deixai-me pelo céu ou pelo inferno! Não vedes que tenho sono... sono e muito sono?
— E a história, a história? bradou Solfieri.
— E a duquesa Eleonora? perguntou Archibald.
— É verdade... a história. Parece-me que olvidei tudo isso. Parece que foi um sonho!
— E a Duquesa?
— A Duquesa... Parece-me que ouvi esse nome alguma vez... Com os diabos, que me importa?

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Aí quis prosseguir, mas uma força invencível o prendia.
— A Duquesa... é verdade! Mas como esqueci tudo isso que não me alembro!... Tirai-me da cabeça esse peso... Bofé que
encheram-me o crânio de chumbo derretido!... e ele batia na cabeça macilenta como um médico no peito do agonizante para encontrar
um eco de vida.
— Então?
— Ali! ali! ah! gargalhou alguém que tinha ficado estranho à conversa.
Era Arnold! cala-te!
— Cala-te antes, Solfieri! eu contarei o fim da história.
Era Arnold-o-louro, que acordava.
Escutai vós todos, disse:
— Um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de sangue e num recanto escuro da alcova um doudo abraçado
com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora, o doudo nem o poderíeis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta
e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos
pauis entre as trevas...
Mas ele o conheceu... - Era o Duque Maffio...
Claudius soltou uma gargalhada. - Era sombria como a insânia, fria como a espada do anjo das trevas. Caiu ao chão, lívido e
suarento como a agonia, inteiriçado como a morte...
Estava ébrio como o defunto Patriarca Noé, o primeiro amante da vinha, virgem desconhecida até então e hoje prostituta de todas
as bocas... ébrio como Noé, o primeiro borracho de que reza a história! Dormia pesado e fundo como o apóstolo S. Pedro no Horto
das Oliveiras... O caso é que ambos tinham ceado à noite...
Arnold estendeu a capa no chão e deitou-se sobre ela. Daí a alguns instantes os seus roncos de barítono se mesclavam ao magno
concerto dos roncos dos dormidos.

EXERCÍCIOS PROPOSTOS

01 – Transcreva um segmento em que a característica romântica da preferência por lugares sórdidos e


amedrontadores esteja presente.

02 – Transcreva uma passagem em que esteja presente a evasão no tempo.

03 - Transcreva uma passagem com a característica romântica do sonho e da fantasia.

04 – Transcreva uma passagem com o sentido trágico da existência.

05 – Julgue os itens como certos ou errados.


(1) – Claudius Hermann era ligado em poesia e escrevia versos.
(2) – A vida de Claudius era um profundo mistério para seus amigos.
(3) – A relação com as prostitutas fora uma constante em sua vida de perdição.
(4) – Para Claudius Hermann o passado é uma presença marcante a orientar o presente.

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(5) – Segundo o protagonista, a efemeridade da existência transforma-a num grande jogo que se joga
loucamente.
(6) – Filtros de amor, capas a embuçar os personagens, duques, mulheres entorpecidas pelo sono ou pelos
narcóticos, palácios, tudo lembra os romances de capa e espada e de aventuras.
(7) – Após contar sua trágica história Claudius Hermann afogou-se no mar.
(8) – A duquesa Eleonora foi assassinada por Claudius Hermann que em seguida se matou.
(9) – A intertextualidade com a Bíblia é coerente na medida em que a narrativa relata fatos que ocorrem em
um mosteiro.
(10) – A referência a São Pedro justifica-se porque aquele santo da Igreja Católica também tinha o vício
do alcoolismo.
(11) – A personagem feminina marcantemente erotizada, mas inatingível revela uma característica
tipicamente romântica.
(12) – Em “ébrio como Noé” ocorre hipérbole, que é a linguagem marcada pelo exagero.
(13) – Há elementos no texto que permitem localizá-lo geograficamente no Rio de Janeiro.
(14) – Em “... o doudo nem o poderíeis conhecer tanto a agonia o desfigurara!...” o narrador dirige-se ao
leitor em busca de uma intimidade inexistente no resto da narrativa.
(15) – Arnold, o protagonista, estava ébrio e por isso deitou-se sobre a capa estendida no chão.

RESOLUÇÃO DOS EXERCÍCIOS PROPOSTOS

“JOHANN”
01 -: VVVVFFFFFFVVV.
02 - “Agora a minha vez, quero lançar também uma moeda em vossa urna.”
“Na verdade que sou maldito! Olá, Archibald, dá-me outro copo...”
03 - Tinha a face fria como o mármore. Os seios nus e virgens estavam parados e gélidos como os de uma
estátua...”
04 - A luta fez-se terrível na escuridão. Eram dois homens que se não conheciam, que não pensavam talvez
terem-se visto um dia à luz, e que não haviam de ver-se por ventura ambos vivos.
06 - Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moço convulso caminhou para mim com um
punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.
— Isso é briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.
O moço rasgou nos dentes uma luva e atirou-ma à cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de
ser sangue por sangue.

“SOLFIERI”
01 - VVVVVVV
02 - FFFFFFF
03 - VVFVVVFFVV
04 - É uma referência- talvez injuriosa- ao comportamento do clero católico.

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05 - Inicialmente, revela uma natureza dinâmica: “lua bela; céu morno; fresco das águas exalam; noite bela; leito
do Tibre.”
Em seguida há a mutação desse ambiente agradável e participante para um ambiente escuro, lúgubre,
fantasmagórico.
06 - Sonho- delírio- fantasia- ilogicidade.
07 - “Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei ai um
túmulo.”
“Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...”

GENNARO
01 - VVFFVVVVFV
02 - “...é a história de um velho e de suas duas mulheres, belas como duas visões de luz. Godofredo Walsh era
um desses velhos sublimes, em cujas cabeças as cãs semelham o diadema prateado do gênio...”
03 - Amei-a; mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos. Nauza também me amava: era um
sentir tão puro! era uma emoção solitária e perfumosa como as primaveras cheias de flores e de brisas que nos
embalam aos céus da Itália.
04 - Uma noite... foi horrível... vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava meu nome e palavras que
ninguém podia reter, tão apressadas e confusas lhe soavam. Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me.
Ergueu-se branca, com a face úmida de um suor copioso, chamou-me.
05 - Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela beijei-lhe as mãos, reguei seu colo de
lágrimas. Ela voltou a face: eu cri que era desdém, ergui-me.
— Então, Nauza, tu não me amas, disse eu.
Ela permanecia com o rosto voltado

ÚLTIMO BEIJO DE AMOR –


01 - VVVVVVVFVVVF
02 - “Mas agora com sua tez lívida, seus olhos acesos, seus lábios roxos, suas mãos de mármore, e a roupagem
escura e gotejante da chuva, disséreis antes- o anjo perdido da loucura.”
03 - Abaixou-se junto dele, depôs a lâmina no chão. O lume baço da lanterna dando nas roupas dela espalhava
sombra sobre Johann. A fronte da mulher pendeu e sua mão pousou na garganta dele. Um soluço rouco e
sufocado ofegou daí.
04 - Tuas palavras me doem... É um adeus, é um beijo de adeus e separação que venho pedir-te: na terra nosso
leito seria impuro, o mundo manchou nossos corpos. O amor do libertino e da prostituta! Satã riria de nós. É no
céu, quando o túmulo nos levar em seu banho, que se levantará nossa manhã do amor...

“BERTRAM”
01 - FVVFVFVVFFVVVFV.
02 - “Um outro conviva se levantou.
Era uma cabeça ruiva, uma tez branca, uma daquelas criaturas fleumáticas que não hesitarão ao tropeçar
num cadáver para ter mão de um fim.
Esvaziou o copo cheio de vinho, e com a barba nas mãos alvas, com os olhos de verde-mar fixos,
falou:”

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03 - “Foi uma noite de soluços e lágrimas, de choros e de esperanças, de beijos e promessas de amor, de
voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro... Parti. Dois anos depois foi que voltei. Quando entrei na
casa de meu pai, ele estava moribundo; ajoelhou-se no seu leito e agradeceu a Deus ainda ver-me, pós as mãos na
minha cabeça, banhou-me a fronte de lágrimas - eram as últimas - depois deixou-se cair, pós as mãos no peito e
com os olhos em mim murmurou: Deus!”
04 - Quando Ângela veio com a luz, eu vi... era horrível!... O marido estava degolado.
Era uma estátua de gesso lavada em sangue... Sobre o peito do assassinado estava uma criança de bruços. Ela
ergueu-a pelos cabelos... Estava morta também: o sangue que corria das veias rotas de seu peito se misturava
com o do pai!
— Vês, Bertram, esse era meu presente: agora será, negro embora, um sonho do meu passado. Sou tua e tua
só. Foi por ti que tive força bastante para tanto crime... Vem, tudo está pronto, fujamos. A nós, o futuro!
05 -: FFFFF.

CLAUDIUS HERMANN
01 - E tu, Hermann! Chegou a tua vez. Um por um evocamos ao cemitério do passado um cadáver. Um por um
erguemo-lhe o sudário para mostrar-lhe uma nódoa de sangue. Fala que chegou a tua vez.
Claudius sonha algum soneto ao jeito do Petrarca, alguma auréola de pureza como a dos espíritos puros da
Messíada! disse entre uma fumaça e uma gargalhada Johann erguendo a cabeça da mesa.
02 - O passado é o que foi, é a flor que murchou, o sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. Lágrimas a ele?
Fora loucura! Que durma com suas lembranças negras! revivam, acordem apenas os miosótis abertos naquele
pântano! sobreágue naquele não-ser o eflúvio de alguma lembrança pura!
Meu lance no turf foi minha fortuna inteira. Eu era rico, muito rico então: em Londres ninguém ostentava mais
dispendiosas devassidões, nenhum nababo numa noite esperdiçava somas como eu. O suor de três gerações,
derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...
03 - Uma semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lábios à dormida um século de gozo. Um mês, o
mês em que delirantes iam os bailes do entrudo, em que mais cheia de febre ela adormecia quente, com as faces
em fogo...
04 - Um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de sangue e num recanto escuro da alcova um
doudo abraçado com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora, o doudo nem o poderíeis conhecer tanto a
agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o
lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos pauis entre as trevas...
05 - VFVFVVFFFFVFFFF.

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O Grande Mentecapto
Honneur Monção

Fernando Sabino é autor contemporâneo dos mais importantes. Dono de um estilo inconfundível em que
ressalta o extremo cuidado com a linguagem, é um especialista em criar situações cômicas de profunda beleza
plástica. Sua capacidade descritiva faz com que o leitor, além de se deleitar com a complicação da trama, consiga
visualizar a cena criada pelo narrado. Sua obra é extensa e inclui principalmente crônicas e contos. Seus romances
— O Encontro Marcado; O Menino no Espelho; O Grande Mentecapto — são fruto de profunda preparação e artesanato
impecável. Por isso mesmo cresce a cada dia a importância de sua obra no panorama da atual Literatura
Brasileira.

Nesse romance de 1979, o Autor elabora uma trama com a nítida intenção de homenagear as pessoas humildes,
simples e puras. Já na epígrafe da narrativa, “Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, este
será o maior no reino dos céus.” Nota-se a vontade de elevar os puros, os inocentes e os ingênuos.

{©Na linha da novela picaresca, — vide o Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes — em que o personagem
desloca-se por um espaço indefinido, à cata dos conflitos, para resolvê-los heroicamente, Viramundo vive uma
seqüência de peripécias acontecidas no Estado de Minas Gerais, contracenando com personagens dos mais
variados matizes e comportando-se sempre como o bem-intencionado, o puro, o ingênuo submetido às
artimanhas e maldades de um mundo que ainda não está de todo resolvido. Andarilho, louco, despossuído,
vagabundo, idealista. Marginal em uma sociedade que não entende e em que não se enquadra, o Viramundo
instaura um sentimento de ternura e de pena por todos aqueles que, em sua simplicidade, sofrem o descaso, a
ironia, a opressão e a prepotência.

Como o Quixote, com a sua amada Dulcinéia, e como Dirceu, com a sua adorada Marília, Viramundo põe em
suas ações tresvariadas a esperança de realizar-se emocionalmente com a sua idealizada e inalcançável Marília,
filha do governador de Minas Gerais. Sua ilusão alucinada é reforçada pelos pseudo amigos que o enganam com
falsas cartas de amor e incentivam sua loucura mansa e seu sonho impossível.

Viramundo conhece que o mundo é uma grande metáfora e o trata com idealismo como se ele fosse real.
Consertar o mundo é sua missão e ele se dedica a ela com toda a força de sua decisão, não se deixando abalar
pelo insucesso, pelo ridículo, pela violência ou pelo vitupério. Em seu delírio, o irreal e o real andam de mãos
dadas, não há a separação entre o concreto e o abstrato, e por isso o herói não se abala física ou emocionalmente
com nada com que se defronte: não teme os fortes, os violentos; não se assusta com fantasmas e nem com
ameaças; aceita resignadamente o que a vida lhe reserva.

Percebe-se aqui que, além de pícaro, nosso herói pode ser considerado como bufão, pois jacta-se tolamente
sobre supostas capacidades de resolver as injustiças e o desacerto do mundo. Não tem qualquer ligação definitiva
com a vida; não assume compromissos; é desprezado e usado por aqueles com os quais se relaciona.

A pureza deste aventureiro é a crítica à hipocrisia das relações humanas em um mundo que perdeu o sentido da
solidariedade e da fraternidade. Sua alegria ingênua e desinteressada opõe-se ao jogo bruto dos interesses
malferidos, ao conservadorismo e à arrogância. Porta-voz dos loucos, dos mendigos, das prostitutas, o
Viramundo conhece os meandros da enganação e da falsidade dos políticos e dos poderosos.

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A crítica à mesmice, ao chavão e ao clichê faz-se pela presença da paródia a muitos autores e personagens
historicamente conhecidos.

Viramundo não era conhecido, mas termina por criar fama em razão dos casos incríveis em que envolve. Sob a
aparência imunda de um mendigo está um sujeito com cultura geral incomum. Sua fala de homem conhecedor
surpreende e sua experiência de ex-seminarista e ex-militar confundem e admiram aqueles com quem convive.
Sua esquisitice e suas respostas prontas a todas as indagações fazem com se acredite tratar-se de um louco manso
e inofensivo.

Outro aspecto interessante é a exploração da temática da loucura. O Autor parece convidar o leitor a uma
reflexão sobre a origem e o convívio com a idéia da excentricidade do comportamento humano. Viramundo
pode ser considerado um louco, mas quem não o é? O que a sociedade considera loucura? Como classificar e
tratar os indivíduos que atuam em dissonância com aquilo que se considera normalidade? A sociedade mostrada
no romance está povoada de tipos que comumente chamamos de loucos: os habitantes de Mariana agem
desvairadamente ao tentar linchar Dª. Peidolina; o diretor do hospício é mais estranho que os próprios internos
do manicômio; o capitão Batatinhas é absolutamente alienado. Há no decorrer de toda a narrativa o
questionamento da fragilidade dos limites entre a sanidade e a loucura.

No limiar da consumação de sua caminhada, Viramundo mudou. No começo era idealista e cheio dos
cometimentos da paixão. Manteve-se assim durante muito tempo até encarar a dura realidade da convivência
humana. A série de acontecimentos em que figura como perdedor física e emocionalmente faz com que se
desiluda. Descobre que as cartas de amor eram falsas; os amigos eram falsos; sua crença era falsa. Por todo lado
só encontra sofrimento, opressão, hipocrisia. Está só, absolutamente só, e a solidão é tudo que lhe resta.

Seu fim é emblemático. Morre vitimado pelo próprio irmão. Paga por um crime que não cometeu. A
intertextualidade bíblica é evidente: compara a trajetória e o comportamento de Viramundo com a Via-Sacra do
Cristo, em todos os sentidos, inclusive no sacrifício final.

SERVIÇO: O Grande Mentecapto faz parte do rol de obras recomendadas pelo Programa de Avaliação Seriada
(PAS — UnB), para a leitura pelos candidatos do 1º ano do 2º grau

BIBLIOGRAFIA
SABINO, Fernando. O Grande Mentecapto. Rio de Janeiro – RJ: Record, 44ª edição, 1995.

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O Feijão e o Sonho
Honneur Monção

O Autor
Nascido no interior paulista, no início deste século, Orígenes Lessa revelou desde muito cedo uma atração
incoercível pelos livros. Participou de vários jornais escolares e essa atividade influiu positivamente na formação
do futuro escritor.
Militou profissionalmente na imprensa e na publicidade e seu primeiro romance — exatamente O Feijão e o
Sonho — foi distinguido na Academia Brasileira de Letras com uma láurea de grande prestígio nos meios
literários: O Prêmio Alcântara Machado.
Autor traduzido para vários idiomas e com várias obras adaptadas para o cinema e para a televisão, seu texto é
límpido e de fácil assimilação, com histórias que marcam pela profunda humanidade e lirismo que transmitem ao
leitor um sentimento de familiaridade aconchegante e envolvente do qual é difícil escapar. Nunca foi um escritor
destacado nas “igrejinhas” e rodas literárias, dirigindo a maioria de suas obras para o público infanto-juvenil, no
que reside seu grande mérito como autor que de fato incentiva e desperta o gosto pela leitura.
Conjunto das obras do Autor
- O Feijão e o Sonho
- João Simões Continua
- A Escada de Nuvens
- Napoleão Ataca Outra Vez
- Confissões de um Vira-Lata
- A Desintegração da Morte
- o 13º Trabalho de Hércules
- A Cabeça de Medusa
- O Minotauro
- Dom Quixote (resumo para a juventude)
- Memórias de um Cabo de Vassoura
- O Barão de Münchhausen
- O Palácio de Circe
- Napoleão em Parada de Lucas
- Aventuras do Moleque Jabuti
- Memórias de um Fusca
- Os Homens de Cavanhaque de Fogo
- A Floresta Azul
- As Letras Falantes
- Juca Jabuti, Dona Leôncia e a Superonça
- Procura-se um Rei
- As Árvores Aflitas e A Multiplicação Milagrosa
- Chore não, Taubaté...
- O Mundo é Assim, Taubaté
- Cachorro sem Nome
- o Rei, o Profeta e o Canário
- Podem me Chamar de Bacana
- É Conversando que as Coisas se Entendem
- Alegres Desventuras de um Relógio de Pulso
- A Greve das Bolas.

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A Obra
Publicado em 1938, O Feijão e o Sonho caiu no agrado da crítica e do público exatamente por desenvolver uma
temática tão a gosto do caráter romântico do brasileiro médio. A trama gira em torno de Campos Lara, poeta que
vive a embalar o sonho da criação literária, alheio aos aspectos práticos da luta pela sobrevivência. Casado com
Maria Rosa, a relação é um desajuste só. Campos Lara sonhando, escrevendo, poetando; Maria Rosa batalhando,
preocupando-se e, principalmente, azucrinando a vida do irresponsável marido. Os rendimentos conseguidos pelo
poeta, dando aulas ou escrevendo para os jornais são extremamente escassos e insuficientes para fazer frente às
despesas da família. Os credores não dão sossego; o senhorio cobra os aluguéis atrasados; o dono da farmácia deixa
de fornecer medicamentos para a filharada adoentada; a alimentação é parca e de má qualidade: a vida é um inferno.
A todo esse desacerto, Campos Lara não dá a mínima atenção. Sua cabeça, povoada de versos e de orgulho
intelectual não desce do limbo em que se encontra para encarar problemas triviais de manutenção familiar. Seus
mirabolantes projetos literários enchem sua vida e seu tempo. Pula de emprego em emprego, vê seus alunos
escaparem e os que permanecem são os que não podem pagar. Maria Rosa luta desesperadamente contra a
miséria e o infortúnio.
Ao final, com a situação financeira mitigada, mas não de todo regularizada, Campos Lara e Maria Rosa ajustam-
se e sonham com o futuro do filho caçula. Será advogado... Engenheiro... Até que Campos Lara descobre que
seu filho será, como ele, poeta... E isso o enche de orgulho, esquecendo todo o drama e o sofrimento que
palmilhou durante toda uma existência, exatamente por dedicar-se à poesia, uma atividade sem qualquer
compensação financeira, num país de analfabetos.

Tempo e Espaço
A narrativa tem como espaço o Estado de São Paulo, materializado em três cidades: São Paulo, a capital, início e
término da caminhada de Campos Lara; Sorocaba, cidade natal de Maria Rosa e Capinzal, lugarejo perdido no
interior onde Campos Lara foi lecionar e se indispôs com praticamente toda a população. É um ambiente
geográfico bem definido e as descrições, mesmo não sendo minuciosas e detalhadas, proporcionam uma clara
visão do cenário onde se desenrolam as ações. A narrativa progride em flash-back, com o tempo indo e vindo ao
passado e ao presente, numa espécie de ziguezague que por vezes confunde o leitor desavisado. Naturalmente o
resultado é o tempo psicológico que flui elasticamente, ora acelerando, ora tornando-se lento para ajustar-se a
momentos especiais do narrado, como se pode observar no trecho seguinte:

“Campos Lara deu alguns passos. O murmúrio recomeçou. Parou, voltou-se, olhou. O murmúrio cessou.
— Gostei de você, Juca! — disse Maria Rosa, que surgiu da treva, tomando-lhe o braço.
(...)
— Lá vem Literatura outra vez!
Era aquele o maior inconveniente de São Paulo. Em Capinzal, pelo menos, Campos Lara dera uma folga, livrara-
a de aturar a fauna odiosa de artistas e escritores. Era uma gente desordenada, palradora, que enchia a casa
fumando, falando alto, rindo ruidosamente, como se fosse dona do mundo.”

Ponto de Vista e Foco Narrativo


O narrador narra a partir de um ponto de vista externo — foco narrativo de 3ª pessoa, por conseguinte — e de
forma onisciente. Detém-se a cada passo para examinar detalhadamente os aspectos físicos — a fisionomia, sua
conformação fisiológica, sua maneira de falar — e psicológicos tanto dos personagens quanto da paisagem,
tornando, por vezes, a narrativa lenta e um tanto enfadonha.
“Campos Lara desesperava-se com a maneira hostil, agressiva, da companheira. Maria Rosa não ocultava a
antipatia que lhe inspiravam aqueles homens.
— São uns empatas! Ficam aí conversando, até não sei que horas, enchendo a casa de fumaça, enfedegando a
sala, emporcalhando as mesas e o chão com cinza e pontas de cigarro. Ainda se tivessem alguma utilidade...”

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Discurso Predominante
Há um equilíbrio no uso do discurso do narrador e do discurso direto, com raras incursões no discurso indireto livre.
1. do narrador:
Irene não foi a paz. Foi mais trabalho, foi mais pobreza, foi miséria. O orçamento dificilmente
equilibrado, rebentou de vez. A menina era fraquinha, chorava dia e noite, um tormento sem fim. Campos
Lara, que tinha adoração pela filha, perdia logo a paciência, exasperava-se. Não podia trabalhar em casa,
não podia ler. À noite, apesar do choro da criança, dormia como pedra. Não havia jeito de fazê-lo acordar,
de conseguir-lhe uma ajuda. Isso quando não perdia o sono, agitado por algum livro em perspectiva. E
então explodia. Ralhava, gritava, protestava...
2. direto:
- Doutor Lara? Disse o vigário.
- Aperte esta mão.
- Obrigado.
- Não pense mais nisso. Boa noite.
3. indireto livre:
“E tanto nas horas de mortal desespero como nos momentos de inexplicável doçura que os acasos lhe davam,
que necessidade desamparada, infantil, de um peito amigo! De ficar pequenina, pequenina, para que alguém a
recolhesse entre os braços. Ah! se Juca estivesse ali ao seu lado! E como era inútil que estivesse!”

Personagens
- Campos Lara: o protagonista sonhador, poeta renomado, vive para a literatura. Sua ligação com o
mundo real é de alheamento e desinteresse. Sacrifica a própria segurança da família para comprar livros e
objetos artísticos sem qualquer utilidade prática. Ambiguamente, adora a família, mas nada faz para
proporcionar-lhe conforto material e perspectivas de futuro. Normalmente calmo e cordato, só uma única vez
perdeu as estribeiras: quando foi vítima da maledicência dos desocupados moradores de Capinzal. É um
desajustado, em razão de viver em uma sociedade que não valoriza a cultura e a literatura considerada um
luxo desnecessário e, portanto, dispensável.
Debalde Maria Rosa o chamava à realidade. Em vão acusava-lhe a poesia, ridicularizava seus modos, verberava
sua incapacidade para a vida, mostrando os filhos famintos, as roupas velhas, os móveis gastos, a louça quebrada
e a biblioteca, sempre em ascensão, cada vez mais sortida.
Um dos livros mais vitoriosos de Campos Lara tinha este nome simples: Conchego. Poemas de uma doçura infinita,
para além de cristã, em que o poeta cantava a calma remansosa do lar, a alegria e a glória dos filhos turbulentos,
promessas de sonhos, dádivas divinas. Maria Rosa perpassava por ele idealizada, como o anjo protetor, a boa fada, a
suave inspiração. Irene, Anita, Joãozinho, viviam, pulavam, cantavam naqueles versos simples, serenos, alados.
A própria Maria Rosa se espantava de que o marido, sempre desatento, sempre alheado, fora do mundo e da
terra, houvesse visto, sentido tanto. Frases, gestos, graças, muxoxos, que havia olvidado, renasciam agora com
tanta espontaneidade, com tal arte, com tamanha verdade, envolvidos em tal paixão, numa tão doce auréola de
ternura, que ficou comovida. Aquele Juca era um mistério. Mas quando o viu exaltado, quando os jornais e
revistas o alcandoraram às nuvens, como o poeta máximo, como o poeta do lar, como um São Francisco de
Assis de bondade e de amor, Maria Rosa lembrou-se do pouco ou do nada que o marido passava em casa. E da
miséria que na casa passavam, ele, ela, os filhos.
“Culpa dele, bem o sabia. Um inadaptado, um incapaz para a vida prática. Homem como ele não nascera para o
casamento, para a vida do lar. Não tinha jeito para ganhar dinheiro, incapaz de prover às necessidades da família.
Maria Rosa tinha razão, quase sempre. Ela era o Bom Senso. Ele, o Sonho. Nunca vão juntos os dois. Ouvia
humildemente, com resignação fatalista, os destemperos da esposa. Maria Rosa não era uma inimiga. Maria Rosa
era o outro lado da vida. O lado em que não daria coisa nenhuma, em que ele sempre fracassaria. O duro. O difí-
cil. Sem cadência nem rima. O do seu permanente naufrágio. Lado onde jamais deveria ter ingressado. Mas já era
tarde. Não podia recuar. Tentava reagir. Procurava adaptar-se à situação, arquitetava planos, fazia projetos, havia
de ganhar dinheiro, de arrumar a vida, de ser um chefe de família, útil e exemplar, já que assim o destino o exigia.

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Mas como? Por que meio? Fazendo o quê? Escrevendo? Bem sabia que não. O livro e o jornal não pagavam.
Livro era um luxo caro que não compensava.
Só trazia dívidas. Os jornais pagavam mal, quando pagavam. O triste é que ele sabia fazer só aquilo, escrever.
Não prestava para nada mais, incapaz de fazer qualquer coisa sem a pena em punho. Tinha mesmo a impressão
de ser a pena quem pensava, agia, buscava as palavras, encontrava as rimas, criava as imagens.
Parecia trabalho dela. Sua alma, seu coração, cérebro seu. Fora daquilo não conseguia ser outra coisa. E o triste
é que, das modalidades da arte de escrever, a fatalidade o destinara à mais inútil. Nem sequer nascera para o
jornalismo. Seu jornalismo era simples literatura. Coisa muito bonita, muito bem feita, muito interessante, mas
que o diretor preteria sempre diante de qualquer crime de última hora, da mais desonesta nota de oposição ou de
apoio ao governo, da primeira reclamação do Constante Leitor contra o calçamento da rua, contra o cachorro do
vizinho ou contra as emanações deletérias de um bueiro entupido.”
- Maria Rosa: a esposa de Campos Lara. Mulher sofrida e batalhadora. Conduz a família pela vida
afora, lutando contra a miséria e a irresponsabilidade do marido. Língua feroz, Maria Rosa não poupa a
ninguém de suas observações malévolas, cortantes, ferinas. Recalcada em sua ânsia por uma vida melhor,
parte para a agressão contra tudo e contra todos. A moça bonita de antes do casamento transforma-se em uma
megera intragável a azucrinar a vida do marido, dos filhos, dos parentes e de quem mais dela se aproxime.
Ao final da narrativa, a megera é domada e centra suas atenções no filho mais moço, que ela procura
encaminhar na vida e, principalmente, desviar de qualquer caminho que possa conduzi-lo para perto da
odiada literatura.
Valia mesmo a pena pensar... Não fazia outra coisa, o dia inteiro, que lidar pela casa. Erguia-se pesadamente de
manhã, com os pontapés da criança no ventre, numa constante agitação. Tinha a impressão de que eram duas,
não uma só, brincando de pegador lá dentro. Um problema, sentar-se na cama. O corpo crescia, inchava. Não
havia roupa que servisse. Já desmanchara todos os vestidos. Mal podia andar. As pernas tinham intumescido.
Sentia tonteiras. E uma fome desesperada, a todo instante. Não havia o que chegasse. Certa vez comera uma
dúzia de bananas-nanicas. Saía da mesa de olho arregalado. Felizmente passara o enjôo dos primeiros dias. Mas
era um mal-estar infinito, um desânimo, uma vontade enorme de morrer. Parecia que morrer devia ser a coisa
mais gostosa do mundo. Seu maior desejo era ter um abrigo, um peito em que se acolher. Se pudesse, mandaria
buscar a mãe em Sorocaba. Mas a pobre escrevia, com lágrimas, que o reumatismo voltara, que havia dois meses
padecia na cama e que nem sequer podia ir à casa de Creusa, na esquina, já à espera do segundo filho.
Maria Rosa estava mais bem-humorada. Vendera um frango e duas dúzias de ovos. Pudera comprar alguma coisa
diferente para a janta. Nem disparatou, quando o viu chegar quase às oito. Foi esquentar a comida, serviu a mesa.
— Onde estão as crianças?
Joãozinho está dormindo, felizmente. Levou um tombo horrível.
— Foi subir na cadeira, a cadeira virou, foi dar com a testa na parede. Por um triz não morria...
— Mas não houve nada?
— Chorou um pouquinho. Pus um pouco de salmoura, fiz ele beber “Maravilha", daí a pouco estava brincando
alegrinho.
— Que amor de criança!
— Coitadinho ... Criança melhor não há. Que gênio bom! E eu com tanto medo de que ele saísse nervoso ...
Nasceu num período tão ruim ... Aquela falta de dinheiro, você desempregado, desaforo todo dia na porta da
casa, a vergonha daquele despejo. Você lembra como a vizinhança gozou?
Lara sorriu, triste.
— Ali! que ódio que eu tive da Candoca! Você lembra? Ficou o tempo todo na janela, olhando, dando risada.
Uma hora em que eu apareci na porta, ela fez questão de me cumprimentar, de perguntar para quando eu
esperava a criança, se ia ser mulher ou homem... E depois perguntou, com o ar mais cínico do mundo, se eu ia
me mudar. . . Nunca tive tanto ódio na minha vida. "Ali! é despejo? Por quê, hein? Coitada! Ainda mais no seu
estado. . . " Sujeitinha mais à-toa ... Mulatinha ordinária...

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- Gomes: o parente — era casado com a prima Creusa — rico de Maria Rosa é um ignorantão com tino para
os negócios. Faz fortuna com o comércio de café. Procura ajudar Campos Lara tanto quanto possível, mas
encontra resistência na inadaptabilidade do poeta a qualquer tipo de trabalho que não envolva livros e literatura.
“E com o seu tato fino de mulher:
— Você vai ver. Em pouco tempo você está cheio do dinheiro, poderá abandonar o emprego, dedicar-se
exclusivamente à literatura. Com a vida arranjada, você poderá até escrever livros melhores, coisa mais pensada...
Campos Lara deixou-se convencer. Procurou o Gomes. O parente, industriado pela mulher, acolheu-o com
simpatia. Sim, tinha um lugar. Não era muita coisa. Mas seiscentos mil-réis davam para ir tocando o barco.
Quanto ganhava ele?
— Tre ... trezentos e cinqüenta.
— Pois então! Com seiscentos mil-réis você endireitará a vida. E pode contar com aumento. Assim que você
esteja dentro do negócio, que conheça o assunto, pode contar com aumento.
Chegou mesmo a acenar com o futuro. Talvez acabasse interessado na casa.
Campos Lara voltou triunfante. Despediu-se do colégio, onde era tolerado apenas pelo nome, que figurava com
honra nos prospetos, deixou o jornal, onde o diretor intimamente se congratulou. Lara não rendia. E entrou
para a casa. Mas uma semana depois deixava o emprego. Não agüentava o meio. Não poderia viver entre
aquela burrada. E ficava agora sem apoio, sem qualquer fonte de renda.
Foi ainda o Gomes, o burro, o desprezado leitor da Lira do Capadócio, que lhe veio em socorro. Pagara o mês
inteiro, fingindo dar muita importância ao serviço que lhe prestara o amigo, lamentando que ele não se
acostumasse.
E, com um gesto de delicadeza, imprevisto num vendedor de café às toneladas:
— A casa até ganhou fama. Foi a melhor propaganda nossa. Quando souberam que você estava trabalhando
conosco, que o poeta Campos Lara entrara para Gomes, Correia & Cia., nós subimos de importância. É pena
você não continuar.”
- Creusa: prima e irmã de criação de Maria Rosa. Casa-se com o Gomes e procura apoiar o mais que pode a
prima pobre que luta com dificuldades.
“Creusa, agora rica, visitavas sempre, carregada de presentes para as crianças, roupas, brinquedos, bombons.
Que humilhação! Como lhe doía a recordação dos tempos em que ironizava a prima, por causa do noivo. O
homem de "Tietér" é que era marido. E quando Creusa se queixava das malandragens do esposo, Maria Rosa
tomava-lhe a defesa.
— Ora, meu bem, você está se queixando de barriga cheia. O que é que tem que ele se divirta lá fora? Você
alguma vez passou pelo vexame de uma cobrança, de ouvir desaforos na porta, de ser corrida diante da
vizinhança? Algum dia ele te negou um vestido, um mantô, um anel que você pedisse?
— Não.
— Então deixa que o homem pinte. Os homens são todos assim. Você não se lembra o que papai fez quando
moço? Não vê o que todos os outros fazem? Isso de pintar é o menos, contanto que nada falte em casa.
— Mas a gente fica humilhada. A gente também quer carinho. . .
— Isso nenhum dá. Nos primeiros tempos é um mel que até enjoa. Depois é sempre a mesma coisa. Você até
.deve dar graças a Deus. Ele não vive amolando, não começa com ciumeira, como faz todo marido pobre, que
não tem outra distração. E o que mais você quer? A criançada não está forte, bonita, bem-vestida? Olhe, não
leve a mal, mas eu preferia muito mais ter casado com um Gomes a casar com um aluado como Juca...”
- O Oficial, Chico Matraca, Zé da Inhana, Venâncio, Santiaguinho, Padre Alberto: personagens
secundários, moradores de Capinzal, servem de apoio para ressaltar a incapacidade de Campos Lara em
relacionar-se pragmaticamente com o mundo que o cerca.
- Joãozinho: o filho mais moço de Campos Lara. Vai seguir-lhe o caminho na literatura. A narrativa,
amargamente, deixa entrever que é mais um condenado a viver miseravelmente acalentando o sonho do
sucesso literário.

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Resumo
O começo da narrativa é com o casal morando em Capinzal. Campos Lara tem uma escola em casa, com poucos
alunos, mas é daí que tira o sustento da família. Maria Rosa cuida da casa e enquanto trabalha discute com o
marido e com os filhos. Questiona a forma como o marido conduz a escola e mostra que, para ela, o mais
importante é o dinheiro para comprar comida e dar conforto para a família. Campos Lara dá-lhe pouca atenção.
Já está acostumado com a impertinência da mulher e praticamente não escuta o que ela lhe diz.
Do que Campos Lara mais gosta é de passear pela noite. Olha as estrelas e a lua. Caminha sempre até uma
grande e secular gameleira, absorto em seus pensamentos, planejando seus poemas e lembrando seus poetas
favoritos. Numa dessas caminhadas é acompanhado pelo Oficial de barbeiro, pobre diabo semi-analfabeto que
lhe serve de platéia, mesmo sem entender patavina do que Campos Lara diz. Tornam-se amigos e conversam
constantemente, num arremedo ridículo de tertúlia literária.
Num grande flash-back, o texto retorna ao momento em que se inicia o relacionamento de Campos Lara e Maria
Rosa. Ela, jovem linda e casadoira da cidade de Sorocaba. Orgulhosa e geniosa, rejeita a corte de um jovem
advogado que havia feito pouco caso das moças de Sorocaba. Aparece o renomado poeta Campos Lara, já
conhecido e famoso. Depois de muita dificuldade, motivada principalmente pela timidez de Campos Lara, os
dois casam-se, mudam-se para São Paulo e inicia-se uma vida de muitas dificuldades: o dinheiro curto para as
despesas; o desemprego motivado pela inconstância e pela irresponsabilidade de Campos Lara, a chegada dos
filhos, que aumentam as despesas e o sofrimento. Um verdadeiro martírio.
Por interferência de Gomes, Campos Lara consegue uma colocação como professor em Capinzal — perceba-se
aqui que o texto volta ao ponto inicial — Na chegada ao lugarejo há festa, discursos e boas-vindas. Capinzal é
uma cidade pequena, uma vila, e os moradores freqüentam, durante a noite, a farmácia local, chamada de “a
Bigorna”, onde o costume a falar mal de quem quer que seja. Os ausentes são “malhados” sem dó nem piedade.
Campos Lara evita freqüentar a Bigorna. A conversa não é de seu agrado; os assuntos abordados não tratam de
literatura; ele não é dado a maledicências; os freqüentadores são iletrados. Termina por indispor-se com Chico
Matraca que o envolve numa terrível intriga com o Padre Alberto.
A família retorna a São Paulo e a via-crucis recomeça. Aos poucos Campos Lara vai se ajustando e melhorando
seus rendimentos até que afastam a miséria de suas vidas. Nada de riqueza, apenas não passam mais fome e
podem se dar ao luxo de colocar os filhos para estudar. A fama de Campos Lara declina com os jovens escritores
ocupando seu lugar. Os amigos mais chegados, os companheiros do passado questionam sua obra. O sucesso do
grande poeta está no fim.
Campos Lara e Maria Rosa preocupam-se com o destino de Joãozinho, menino sério, estudioso, compenetrado,
ensimesmado. Qual será sua profissão? O que o destino reservou-lhe?
Um certo dia Joãozinho procura o pai para uma conversa. Campos Lara se assusta. Qual será o assunto? Será que
Joãozinho está amando alguma moça e pretende casar? Tão moço... Joãozinho, com infinita cautela, entrega um
papel ao pai e pede-lhe que avalie o poema que escrevera. Campos Lara lê e se emociona: o filho era um poeta.
Alguém que lhe seguiria os passos e daria continuidade a sua obra...

Análise Crítica
O texto, como bem sugere o título, sustenta-se sobre duas linhas básicas: o feijão é o lado prático da vida. A
necessidade de o indivíduo prover o próprio sustento e o da família. A luta pela sobrevivência que se desenvolve
em cada momento da trajetória do homem pela vida afora. O sonho é a fantasia, a quimera que cada um tem
dentro de si. A aspiração de grandeza, de desligamento dessa realidade tão dura e desagradável. As duas linhas
formam a grande antítese alicerçadora da vida. Os que se fixam no feijão tornam-se amargos, desagradáveis,
agressivos. A obsessão pelo lado prático da existência os impede de tomar uma atitude carinhosa, compreensiva,
aconchegante diante daqueles que deles se aproximam. Os adeptos do sonho perdem o senso da realidade e
tornam-se desajustados em um mundo excessivamente materialista. São criticados, espezinhados, humilhados e
sua vida é um rosário de sofrimentos e de dor.

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Publicado em 1938, quando o autor contava apenas 35 anos, o livro não é, evidentemente, autobiográfico.
Entretanto sua trama conduz para fatos sobejamente conhecidos com inúmeros artistas de todas as áreas.
Orígenes Lessa não inovou em nada, mas apenas deu forma literária a uma história sobejamente conhecida e
repetida desde sempre: o artista sonhador, pobre e incompreendido; a mulher que o impele à luta e o obriga a
encarar o lado prático da vida. Nenhuma novidade...
O grande mérito está no despojamento da linguagem; na trama simples; na sugestão de que se pode encontrar
significados profundos em atitudes aparentemente superficiais dos personagens; no processo de iniciação do
jovem leitor nos caminhos do consumo da literatura; na exploração inteligente do idealismo tão próprio da
juventude ainda não batida pelo tempo e pela desilusão.

Exercícios Propostos
Texto I -
Irene não foi a Paz. Foi mais trabalho, foi mais pobreza, foi miséria. O orçamento, dificilmente equilibrado,
rebentou de uma vez. A menina era fraquinha, chorava dia e noite, um tormento sem fim. Campos Lara, que
tinha adoração pela filha, perdia logo a paciência, exasperava-se. Não podia trabalhar em casa, não podia ler. À
noite, apesar do choro da criança, dormia como pedra. Não havia jeito de fazê-lo acordar, de conseguir-lhe uma
ajuda. Isso quando não perdia o sono, agitado por algum livro em perspectiva. E então explodia. Ralhava,
gritava, protestava. Abrandava de repente, pegava a criança nos braços, punha-se a passear pelo quarto. Aquilo
inquietava ainda mais Maria Rosa. Quando Campos Lara cantarolava, andando pelo quarto, para ninar a filha,
esquecendo os versos, deixava-se tomar por uma sonolência invencível. O ninado era ele. E Maria Rosa
precisava ficar alerta para, quando os esbarrões se amiudavam, quando a voz baixava, cada vez mais lenta, correr
em auxílio da criança.
— Vá dormir, meu filho. Eu tomo conta...
Juca obedecia, metia-se nas cobertas, ressonava logo.
Com dois meses faltou o leite a Maria Rosa. Novas angústias, novas despesas. E a vida do casal foi afundando
cada vez mais. Aberto o caminho, um ano mais tarde, vinha Anita. Dois anos mais tarde, Joãozinho, nome do
avô. E assim como Rosinha se acostumara com os versos do marido, banalizados pela freqüência e pela
facilidade, Campos se acostumou com o sofrimento da esposa. Via nela os repentes de fundo econômico, a
diversidade de gênios, a diferença de educação e de temperamento. E como eram males insanáveis, à prova de
esforço, resignou-se, passou a viver no seu mundo, dentro das suas fórmulas livrescas, das suas criações mentais,
ouvindo sem revolta, fatalisticamente, os protestos, as censuras, as acusações, refugiado, para sempre, na sua arte.
Debalde Maria Rosa o chamava à realidade. Em vão acusava-lhe a poesia, ridicularizava seus modos, verberava
sua incapacidade para a vida, mostrando os filhos famintos, as roupas velhas, os móveis gastos, a louça quebrada
e a biblioteca, sempre em ascensão, cada vez mais sortida.
Um dos livros mais vitoriosos de Campos Lara tinha este nome simples: Conchego. Poemas de uma doçura
infinita, para além de cristã, em que o poeta cantava a calma remansosa do lar, a alegria e a glória dos filhos
turbulentos, promessas de sonhos, dádivas divinas. Maria Rosa perpassava por ele idealizada, como o anjo
protetor, a boa fada, a suave inspiração. Irene, Anita, Joãozinho, viviam, pulavam, cantavam naqueles versos
simples, serenos, alados.
A própria Maria Rosa se espantava de que o marido, sempre desatento, sempre alheado, fora do mundo e da
terra, houvesse visto, sentido tanto. Frases, gestos, graças, muxoxos, que havia olvidado, renasciam agora com
tanta espontaneidade, com tal arte, com tamanha verdade, envolvidos em tal paixão, numa tão doce auréola de
ternura, que ficou comovida. Aquele Juca era um mistério. Mas quando o viu exaltado, quando os jornais e
revistas o alcandoraram às nuvens, como o poeta máximo, como o poeta do lar, como um São Francisco de
Assis de bondade e de amor, Maria Rosa lembrou-se do pouco ou do nada que o marido passava em casa. E da
miséria que na casa passavam, ele, ela, os filhos.

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01 – Após uma leitura atenta do fragmento, julgue como certos ou errados os itens a seguir.
4. A chegada da primeira filha significou aumento das despesas, conseqüentemente piorou a situação de toda a
família.
5. A idéia contida no item anterior justificaria um programa de controle familiar que regulasse a quantidade de
filhos em famílias que assim o desejassem.
6. As atitudes de Campos Lara em relação à filha eram ambíguas.
7. Pode-se inferir que Campos Lara não estivesse preparado para a paternidade tanto emocional quanto
financeiramente.
8. O conflito de personalidades entre Campos Lara e a esposa era insanável e resultou em sofrimento atroz
para o poeta.
9. Infere-se que os parcos recursos obtidos por Campos Lara eram todos carreados para o sustento da família,
mas mesmo assim eram insuficientes.
10. No livro Conchego, o poeta retratou fielmente o ambiente do lar.
11. Conchego foi o primeiro e único livro produzido por Campos Lara.
12. O sucesso do livro compensou Campos Lara e a família do sofrimento passado e abriu-lhe o caminho da
glória.
13. A reação de Campos Lara foi de exaltação e orgulho diante do sucesso obtido pelo livro Conchego.

02 – Releia atentamente o fragmento e assinale a alternativa correta.


1. Os três primeiros períodos ressaltam os aspecto gramatical da subordinação.
2. Em “Campos Lara, que tinha adoração pela filha, perdia logo a paciência, exasperava-se.” A oração
destacada não pode ser eliminada sob pena de alterar o sentido básico da seqüência.
3. Em “Não havia jeito de fazê-lo acordar, de conseguir-lhe uma ajuda.” Os termos destacados exercem
função sintática equivalente.
4. Em “cantarolava, andando pelo quarto, para ninar a filha, esquecendo os versos...” os aspecto verbal do
imperfeito do indicativo e do gerúndio é o de ação continuada e concomitante.
5. A oração destacada no item anterior instaura uma relação de causa e efeito no período que compõe.

03 – Sobre o texto são feitas as seguintes afirmativas:


I - Quando Campos Lara ninava a filha, Maria Rosa ficava alerta porque temia que ele fugisse com a pequena.
II – Maria Rosa amamentou Anita por apenas dois meses.
III – Campos Lara logo percebeu que suas filhas Irene e Anita eram de gênios bem diversos um do outro.
IV – As fórmulas livrescas criadas por Campos Lara geravam protestos da esposa e dos filhos.
V – A revolta de Maria Rosa era dirigida para a biblioteca porque ela invejava o padrão cultural do marido.

Dessas afirmativas são corretas:

1. I e II.
2. I e III.
3. I e IV.
4. II e IV.
5. Nenhuma delas.

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Texto II
Afinal de contas, Campos Lara gostava da prosa do barbeiro. Na sua ingenuidade palavrosa o Oficial tinha um
pitoresco saboroso que o divertia. Oficial sentia que uma afinidade de espírito o ligava ao professor. Eram artistas.
— Eu não tenho estudo, doutor, não tenho a gramática. Senão, o senhor ia ver como essa gente toda me respeitava!
Eu tenho cada idéia! Se o senhor quisesse aproveitar, o senhor podia escrever uma porção de romances.
Lara desculpava-se com a falta de tempo. A escolinha absorvia. Além disso, tinha que traduzir um livro para um
editor do Rio de Janeiro. Não fosse isso, de bom grado entraria com a gramática para o aproveitamento das
idéias férteis do barbeiro.
— É pena, doutor. Senão a gente até podia ganhar dinheiro. O senhor quer ver que boa idéia para um romance?
Campos queria. E o barbeiro punha-se a contar a história de uma criança abandonada pela mãe ao nascer, numa
cidade do interior. A mulher, de família muito rica, deixara-se fazer mal por um caixeiro viajante. Nascida a
criança, entregaras a uma família de caipiras e embarcara para o estrangeiro. Só o que deixara, como instrumento
de identificação, era uma medalhinha de ouro herdada da bisavó. Quando voltou da Europa, anos depois,
procurou a filha. Não encontrou. O chefe da casa tinha morrido. A mulher mudara-se, levando a criança.
Procura que procura, não houve jeito de achá-la e acabou desistindo, vivendo triste, jururu, pensando na filha,
que provavelmente morrera. Mas acontece que a cabocla tinha ido para uma cidadezinha da Sorocabana, onde
passava a maior miséria e onde ia criando a menina aos pontapés e pescoções. Era surra o dia inteiro, tratava a
menina como escrava. Nem negra apanhava tanto. Chegou até a obrigar a pobrezinha a pedir esmola.
E por aí prosseguia o romance, vaga reprodução de mil e uma histórias no gênero, até o momento em que a
medalha identificadora reunia mãe e filha e esta começava a ser feliz, casando-se com um príncipe.
04 – Julgue os itens a seguir como certos ou errados.
1. O barbeiro, mesmo sendo um homem ingênuo e sem cultura, era simpático a Campos Lara por sua conversa
pitoresca e abundante.
2. As dificuldades econômicas de Campos Lara não eram levadas em conta pelo Oficial em seus projetos
literários.
3. As múltiplas atividades de Campos Lara não seriam empecilho a que colaborasse com os projetos literários
do Oficial.
4. Os dois parágrafos finais são de caráter metalingüístico.
5. A sinopse apresentada pelo barbeiro é reveladora de uma cultura popular e predominantemente oral.
6. O discurso direto em “— Eu não tenho estudo ... uma porção de romances.” evidencia, principalmente
pelos tempos e modos verbais utilizados, o registro coloquial da linguagem.
7. As expressões: “O senhor quer ver... “ e “Campos queria.” Revelam que o tempo histórico é idêntico ao
tempo da narrativa.
8. O penúltimo parágrafo configura o discurso indireto.
9. O último parágrafo configura o discurso indireto livre.

05 – Examine as alternativas abaixo e assinale a correta./


1. Campos Lara e o barbeiro conversavam enquanto este fazia a barba do outro.
2. A expressão “eram artistas” revela que o barbeiro considerava sua profissão uma arte semelhante à literatura.
3. Em “Tinha que traduzir... “ a conjunção pode ser substituída pela preposição de, sem alteração substancial
no significado.
4. Em “abandonada pela mãe ao nascer numa cidade do interior.” a expressão destacada tem valor causativo.
5. O aspecto verbal em “... embarcara para o ... “ é diferente do aspecto verbal em “... a cabocla tinha ido ... “.

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06 – Sobre o texto são feitas as seguintes afirmativas:
I - A amizade entre os dois personagens era motivada por afinidade puramente intelectual.
II - O conceito de gramática do barbeiro é o de língua ensinada nas escolas.
III - Entrar com a gramática, para Campos Lara, era dar um tratamento literário ao texto eventualmente IV -
produzido pelo barbeiro.
IV - A expressão “Nem negra apanhava tanto” é índice do preconceito racial presente no inconsciente das
pessoas, pois, de certa forma, justifica que uma negra apanhe.
Dessas afirmativas estão corretas apenas.
1. I e II.
2. II e III.
3. III e IV.
4. II, III e IV.
5. I, III e IV.

Texto III
Tinha sido um erro. Campos Lara não devia descer até aquela gente. Era pôr-se à altura deles, emparelhar com
aquela pequenina canalha sem espinha. Uns pobres-diabos irresponsáveis, ignorantes, boçalizados. Aparecer na
Bigorna para tomar satisfações ao Drogueiro, ao Venâncio, àquele vil e intrigante Matraca, era infantilidade. Sua
atitude devia ser outra. Deixar a cainçalha ladrar. Tantas vezes outros lhe haviam ladrado aos pés sem que lhes
desse a honra de um simples olhar. E eram cães maiores e mais ilustres. Agora, por uma pobre intrigalhada de
aldeia, perdia, dessa maneira, o controle. Sim. Fizera mal. Que o fel corresse. Que o veneno se espalhasse.
Devia procurar o padre. Justo. Ele tinha direito a uma explicação. Verdade ou não, Campos Lara não o
conhecia, não tinha a mais ligeira sombra de provas e de razão para falar. Nem tinha nada com isso. Mas fora
calúnia. Acusavam-no de ter falado. Não falara. Diria ao padre. Ao padre, sim. Se era um homem, veria,
compreenderia, apertar-se-iam as mãos. Vivendo no interior há muito tempo, o vigário devia estar acostumado
àquele ambiente de mexericos e de maldade mal aproveitada. Mas nunca deveria ter procurado os supostos
caluniadores. E Campos Lara arrependia-se do repente enfurecido que o levara à farmácia. Nem sabia bem
como para lá se dirigira. Era sujeito a esses gestos bruscos, violentos, próprios dos grandes tímidos, dos
inadaptados como ele.
07 – Após uma leitura atenta do fragmento, julgue os itens como certos ou errados.
1. As frases curtas, entrecortadas são reveladoras de grande alteração psicológica por que passa o personagem.
2. O narrador onisciente presencia o acúmulo de pensamentos contraditórios presentes na mente do
personagem.
3. Campos Lara se recrimina, principalmente por haver descido de sua dignidade de homem superior em
relação àqueles que freqüentavam a Bigorna.
4. Infere-se do texto que o motivo da irritação de Campos Lara tem a ver com o Padre da cidade.
5. Infere-se que o problema resumia-se a mexericos surgidos entre os freqüentadores da Bigorna e que
comprometiam Campos Lara.
6. A reação de Campos Lara fora fulminante e nem ele mesmo sabia como explicá-la.
7. Campos Lara tem consciência de que era um inadaptado e tímido.
8. O arrependimento de Campos Lara tem a ver com o papelão que faria quando se confessasse com o padre.
9. Infere-se do texto que nas pequenas cidades do interior é comum as pessoas se preocuparem com o modo
de vida dos outros.

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08 – Leia com atenção as alternativas a seguir e assinale a que contém uma paráfrase correta da
expressão retirada do texto.
1. “Era pôr-se à altura deles, emparelhar com aquela pequenina canalha sem espinha” — Era igualar-se àquela
corja sem alma.
2. “Tantas vezes outros lhe haviam ladrado aos pés sem que lhes desse a honra de um simples olhar.” — Já o
haviam ofendido antes e ele mantivera-se altivo e distante.
3. “Verdade ou não, Campos Lara não o conhecia, não tinha a mais ligeira sombra de provas e de razão para
falar.” — Mesmo não o conhecendo, Campos Lara encontrava razões de sobra para falar.
4. “Vivendo no interior há muito tempo, o vigário devia estar acostumado àquele ambiente de mexericos e de
maldade mal aproveitada. “ — O vigário estava já acostumado à maledicência com que recebiam a gente do
interior.
5. “Era sujeito a esses gestos bruscos, violentos, próprios dos grandes tímidos, dos inadaptados como ele. “ —
Campos Lara era um sujeito violento e brusco, mesmo sendo tímido e inadaptado.

09 – Reflita sobre as afirmativas seguintes, feitas sobre o texto.


I – “Que o fel corresse” mostra conformismo com a situação criada.
II – “Deixar a cainçalha ladrar” é expressão equivalente a “Que o fel corresse.”
III – Em “Campos não o conhecia”, o termo em destaque tem o padre como referente.
IV – “Supostos caluniadores” são os mesmos pobres-diabos irresponsáveis do início do fragmento.
Dessas afirmativas, estão corretas apenas:
1. I, II e III.
2. I, II e IV.
3. I, III e IV.
4. II, III e IV.
5. I, II, III e IV.

Texto IV
O pai via os olhos tristes do filho, contava as espinhas no seu rosto. Era amor. Com certeza era amor. Estava
na idade. E esperava a confidência.
Uma tarde, o rapaz se atreveu.
— Papai, eu estava querendo falar com o senhor.
— Fale, meu filho.
Decerto ia pedir licença para casar-se. Que loucura! Naquela idade ... Mas o menino hesitava. Afinal, criou
coragem. E contou que estava escrevendo umas coisas. Não sabia se prestavam, se tinha jeito. Não queria fazer
papel ridículo. Estava há muito para lhe falar. Queria a sua opinião franca. Estava disposto a ver a bobagem?
Campos Lara empalideceu.
— Estava.
E muito vermelho, trêmulo, o rapaz lhe estendeu uma folha. Era um poema. O pai sentiu uma turvação na
vista, percebeu que o coração lhe batucava no peito. Correu os olhos pelo poema, versos livres, linguagem nova,
imagens febris, uma revelação inquietante de poeta, voltado para os problemas que eram a angústia da sua
geração.

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Seu filho era poeta. Um arrepio de orgulho e de emoção percorreu-lhe a pele. Afinal de contas, tinha sido
aquele o seu sonho toda a vida. Um filho que o perpetuasse, que valesse por si, que lhe continuasse a obra. E
teve o impulso de abraçá-lo. Sentiu que os seus olhos se enublavam de lágrimas. Lembrou-se, porém, de sua
vida. Dos anos de luta, de sonho, de tormento e de agonia criadora. Da vida árdua, humilde, sacrificada e
dolorosa que vivera. Da existência que dera à família, dominado pelo seu devotamente exclusivo à arte. Da vida
que dera ao próprio filho. Era essa, a vida que ele tinha diante de si. Que teriam os filhos de seu filho. E que
seria talvez pior, porque não era somente a arte a chamá-lo. Outras insídias e outros desenganos o esperavam.
— Prestam? Continuo?
Campos Lara sorriu. E batendo um cigarro, o pensamento melancólico no vazio da vida, ficou o filho, sem
achar resposta.

10 – Após uma leitura atenta do texto, julgue os itens a seguir como certos ou errados.
1. Infere-se que o pai já percebia um drama íntimo que o filho tinha dificuldade em confessar.
2. Não querer “fazer papel ridículo” revela auto crítica e senso de responsabilidade.
3. Infere-se que o “novo poeta” escrevia sem o necessário respaldo técnico-teórico, sendo mais intuitivo que
artesanal.
4. “Campos Lara empalideceu” de tristeza por saber que o filho se encaminharia para o mesmo rosário de
sofrimentos por que tinha passado.
5. A emoção do momento contagia os dois personagens envolvidos.
6. O filho de Campos Lara produziu versos engajados com a problemática social de seu tempo.
7. Em “O rapaz lhe estendeu uma folha.” O termo em destaque é utilizado em sentido próprio.
8. Em “Seu filho era um poeta.”, o verbo, mesmo estando no imperfeito do indicativo, denota o aspecto
temporal de presente.
9. Campos Lara deplora ter sacrificado a família à arte.
10. Campos Lara antevê uma vida mais problemática para Joãozinho em razão de sua inexperiência de vida.

11 – Sobre os itens a seguir, assinale o incorreto quanto à correlação apresentada.


1. “Contava as espinhas no seu rosto. “ — Joãozinho era ainda um adolescente.
2. “Papai, eu estava querendo falar com o senhor.” — a locução verbal denota o aspecto de ação continuada.
3. O primeiro parágrafo — frases nominais e orações curtas.
4. Os dois pronomes destacados ”Um filho que o perpetuasse... que lhe continuasse a obra... “ — mesmo referente.
5. “Lembrou-se, porém, de sua vida...:” — a conjunção destacada expressa adversidade em relação ao sentido
geral do texto.

12 – Em relação ao texto reflita sobre as afirmações a seguir:


I – Campos Lara era duplamente qualificado para avaliar o trabalho de Joãozinho.
II – O parágrafo que se inicia com ‘E muito vermelho... “ explicita a natureza dos problemas que afligiam a
juventude, naquele momento.
III – “Dos anos de luta, de sonho, de tormento e de agonia criadora.” Refere-se às dificuldades financeiras
enfrentadas.
IV – “E batendo um cigarro, o pensamento melancólico no vazio da vida. “ revela a consciência da inutilidade da
existência vivenciada.
Dessas afirmações estão corretas apenas:
1. I e II.
2. II e IV.
3. I e III.
4. II e III.
5. I e IV.

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“O FEIJÃO E O SONHO“ - GABARITO DOS EXERCÍCIOS PROPOSTOS.
1. GABARITO: CCCCEEEEEE.
2. GABARITO: alternativa D.
3. GABARITO: alternativa E.
4. GABARITO: CCECCCECE.
5. GABARITO: alternativa C.
6. GABARITO: alternativa D.
7. GABARITO: CECCCCCEC.
8. GABARITO: alternativa B.
9. GABARITO: alternativa E.
10. GABARITO: CCCCCCECEE.
11. GABARITO: ALTERNATIVA C
12. GABARITO: ALTERNATIVA E.

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