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Autobiografia Reflexiva

De: Mário José da Cruz Garcia

Retrato social da minha infância.

Nasci no dia 24 de Agosto de 1965 em Lisboa. O meu pai era


serralheiro e a minha mãe doméstica. Desse tempo poucas memórias
tenho, uma vez que com pouco mais de um ano nos mudamos, para a
então Vila do Barreiro.

Viviam-se tempos difíceis e era na margem sul, que se encontravam


os grandes empregadores, com toda a indústria que se desenvolvia à sua
volta. Era também muito atractivo, do ponto de vista da habitação. Rendas
mais económicas, em conjunto com os postos de trabalho criados por
empresas como: CUF, Lisnave e Siderurgia Nacional, tornaram as Vilas e
Cidades da margem sul naquilo a que se chamavam, um pouco
preconceituosamente dormitórios. Na verdade estas cidades eram assim
chamadas, fruto da falta de planeamento urbanístico e do território. Devido
à procura construía-se desenfreadamente, sem ter em conta infra-
estruturas básicas como escolas e hospitais ou centros de saúde, já não
referindo a ausência de equipamentos culturais e de lazer. Esta falta de
planeamento deu origem muitas vezes, ao surgimento de nichos
populacionais desfavorecidos e marginalizados. Até mesmo o comércio tinha
dificuldade em implantar-se nestas zonas, devido à grande flutuação da
população, que era muito reduzida durante o horário normal de trabalho,
aumentando ao final do dia. Esta situação tinha também origem nas
políticas nacionais seguidas até então, que centralizavam todos os recursos
nas grandes cidades, Lisboa no caso. Hoje em dia os Municípios possuem
meios de planear, segundo o seu desenvolvimento e estratégia a aplicação
dos recursos disponíveis. Fazem-no principalmente através do PDM (Plano
Director Municipal), integrado em planos mais abrangentes quer nacionais,
quer regionais e em que os munícipes são convidados a participar. Com a
descolonização, pós 25 de Abril, estas condições que não eram boas
pioraram. Muitos africanos a fugirem à guerra nos seus países, bem como
portugueses regressados, instalaram-se nestas cidades. Diferenças culturais
e preconceitos com raízes no antigo regime colonialista levaram, a que
essas populações fossem hostilizadas. Bairros como a Cidade Sol ou o Vale
da Amoreira transformaram-se, em verdadeiros guetos onde o racismo era
bem latente. Pessoalmente nunca escolhi os meus amigos pela cor da pele,
nem tão pouco a educação que me foi dada pelos meus pais, alguma vez
me dirigiu nesse sentido. Sempre tive amigos de origem africana, quer no

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meu bairro, quer na escola e sempre fui contra qualquer tipo de
segregação, seja ela de ordem racial ou outra. Mas nesse tempo nem todos
pensavam assim, o que me levou a ter que optar por umas amizades em
detrimento de outras. Na minha opinião, grande parte deste problema tem
que ver com educação e respeito pelo próximo, mas também pela forma
como certos grupos étnicos são isolados, ao invés de se misturarem no seio
das populações locais, facilitando assim a sua integração. Outro aspecto
muito importante para a integração destas populações são, as associações
através das quais se organizam eventos com o objectivo de integrar as
diversas comunidades. Por exemplo no bairro onde vivo realiza-se todos os
anos uma festa de carácter étnico, em que se destaca a gastronomia e a
música, com inúmeros pequenos restaurantes de rua e musica ao vivo. São
normalmente representadas comunidades africanas, brasileira e claro locais.

Imigração em Portugal.

Portugal em matéria de políticas de imigração optou, por um modelo


de abertura regulada com uma estratégia em torno de três eixos:
integração, regulação e fiscalização. Fazendo uma breve retrospectiva sobre
a evolução da imigração em Portugal, podemos dizer que foi a partir de
meados da década de 90, que começou a aumentar significativamente o
numero imigrantes no nosso país. O número de imigrantes em Portugal
hoje em dia é estimado em, cerca de 4% da população residente.

A imigração tem diversas causas raiz, mas prende-se sobretudo com


as assimetrias entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento ou
menos desenvolvidos, fazendo com que grandes massas de população se
desloquem em busca de melhores condições de vida. Prendem-se ainda
com problemas políticos e sociais graves, nos países de origem. No nosso
país as maiores comunidades são, de origem Africana (das antigas colónias)
e do Brasil, o que se justifica pelos séculos de passado em comum, do qual
herdaram a língua Portuguesa mas também muitas características culturais,
que faz com que exista uma relação de maior proximidade entre nós e que
facilita a imigração. É de salientar que este movimento de pessoas em
sentido inverso tem aspectos muito positivos a nível cultural,
nomeadamente com a integração na nossa sociedade de outras realidades e
formas de expressão, tornando assim mais diversificada a oferta cultural.

Este aumento da imigração, veio sobretudo colmatar a falta de mão-


de-obra, em determinados sectores da nossa actividade económica, como é
o exemplo da construção e obras públicas. Dois bons exemplos de grandes
obras públicas com essas características foram, a Expo-98 e a ponte Vasco
da Gama. Com a actual crise a população imigrante no nosso país foi
gravemente afectada, situações profissionais precárias, falta de integração
na nossa sociedade, barreiras linguísticas e culturais, vieram concorrer

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decisivamente para situações de exclusão social e completo abandono. Por
essa razão a prioridade na política nacional de imigração, focou-se no eixo
da integração. Qualquer país tem o dever de proporcionar acesso às
condições mínimas de sustentação e integração, àqueles que contribuem
com o seu trabalho para o desenvolvimento comum. Mas esse dever não se
funda apenas em aspectos de ordem ética e humanista, há em jogo
aspectos de interesse nacional, imigrantes desempregados, instáveis, com
problemas sociais, contribuem para um sentimento de insegurança dos
cidadãos. Nesse contexto as politicas de integração de imigrantes, devem ir
no sentido de que lhes sejam reconhecidos direitos fundamentais para a
cidadania e da parte deles, o aceitar e praticar as regras de convivência
social consagradas.

Dentro desses direitos destaco: o reconhecimento da cidadania, e a


garantia de igualdade de tratamento em particular na área social e laboral.
Mas também a participação na vida política, após determinado período de
permanência, facilitar a aprendizagem do português e formação para a
cidadania. Estas politicas devem ser amplamente divulgadas a nível
nacional, através de uma rede nacional e impreterivelmente com a
participação das associações de imigrantes. O organismo, que em Portugal
tem a missão de promover estas políticas e o diálogo entre as diversas
culturas, é o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural
(ACIDI).

Queria aqui destacar o papel das associações de imigrantes, em todo


este processo, pois é através delas que mais facilmente se consegue fazer a
ponte, entre as políticas institucionais e as comunidades. Existem em
Portugal inúmeras associações de imigrantes, vou aqui mencionar algumas,
tentando dar uma ideia da diversidade de origem: Associação de
Solidariedade Angolana em Portugal (ASAP), Casa do Brasil e uma
associação sediada aqui no conselho da Moita, a Associação Cultural dos
Imigrantes Moldavos (MIORITA).

O associativismo legalmente constituído (Lei 115/99, regulamentada


pelo Decreto-Lei 75/2000), tem como finalidade defender e promover os
direitos e interesses dos imigrantes, promovendo a integração e inserção.
Desenvolver acções de apoio, promover e estimular actividades culturais e
sociais das comunidades. Da mesma forma estas associações têm o direito:
à participação na definição da política de imigração, participar nos processos
legislativos referentes à imigração e participar em órgãos consultivos, nos
termos da lei acima referida.

Outro eixo da política nacional de imigração prende-se, com a


regulamentação e pretende encorajar a imigração legal, através de acordos
com os países de origem. Pretende através desses acordos, dar resposta
rápida e eficaz aos pedidos por via legal.

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O ultimo dos três eixos que constituem esta politica, prende-se com a
fiscalização e é por ventura a área menos simpática e onde é necessária
alguma sensibilidade. Como atrás foi referido grande parte da imigração
tem origem em países com graves problema sociais, e é protagonizado por
pessoas em busca de melhores condições de vida. Esta realidade dá origem
em países como a Itália e a Espanha (e com probabilidade de em breve se
alastrar a Portugal), pela sua localização geográfica, a verdadeiras invasões
que chegam sobretudo de África e países de leste. Essas pessoas ingressam
em verdadeiras aventuras, sem quaisquer condições de segurança e quando
têm sucesso, maioria das vezes ficam sujeitas a redes de exploração de
mão-de-obra, à margem da lei que os utiliza em condições desumanas. A
fiscalização pretende portanto, de alguma forma dar resposta a este
problema, centrando a sua acção na repressão de redes de recrutamento
ilegal de mão-de-obra e tráfico de seres humanos.

Pela importância e amplitude que este problema tem, foi escolhido


como prioritário no âmbito da presidência portuguesa da Comunidade
Europeia. Essa ênfase dada à imigração produziu frutos, nomeadamente
com as directivas comunitárias para o reagrupamento familiar e estatuto de
residente de longa duração. Contudo existem países comunitários que
pretendem endurecer as suas políticas face à imigração, pondo em prática a
directiva comunitária de retorno, que pretende facilitar o repatriamento de
imigrantes ilegais. Longe de ser pacífico este é um problema em aberto na
nossa actualidade, compete-nos a todos tentar aproximar estes dois
mundos, tentando por um lado manter as regalias do nosso estado social,
por outro não defraudar as expectativas daqueles que nos procuram
tentando melhorar a sua vida e das suas famílias. Penso que os
portugueses, em virtude da sua larga experiência como emigrantes, possam
agora ser mais tolerantes face à imigração.

A língua Portuguesa e o acordo ortográfico.

A propósito da imigração, que como atrás referi, em Portugal ocorre


sobretudo tendo origem em países que connosco têm laços históricos e
partilham a língua, queria realçar exactamente esse facto, a língua
Portuguesa como património comum. De facto a língua Portuguesa, e em
virtude da diáspora dos descobrimentos, é hoje falada por mais de 240
milhões de pessoas, em oito países independentes, sendo a quinta língua
mais falada do mundo. Tudo isto nos enche de orgulho por fazermos parte,
de um grupo tão vasto e diversificado de falantes do nosso Português, e
assim sendo devemos empenhar-nos na defesa deste nosso património. E é
aqui, quanto à forma de defender a nossa língua que as divergências
começam, dando origem a grande polémica em torno do assunto.

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Tendo em conta a importância da língua como elemento essencial no
funcionamento das sociedades e da comunicação entre as pessoas,
independentemente das suas origens sociais e culturais, sendo ainda factor
preponderante em termos de integração, devemos querer que ela sirva o
maior número de falantes possível e da melhor forma. Nesse sentido penso
que o acordo ortográfico é a melhor forma de alcançar o objectivo comum
de todos os países de língua oficial Portuguesa, que é dar à língua
Portuguesa o lugar de destaque a nível internacional, que ela merece e que
(penso eu), é seu por direito próprio. Para que a língua Portuguesa possa
cumprir a sua função, de aproximar as diversas culturas que a compõem, é
absolutamente necessário que seja composta por uma única ortografia.
Para tal devemos deixar-nos de fundamentalismos e argumentos históricos,
que só fazem sentido para alguns académicos, que se pretendem
defensores da língua Portuguesa. Ao contrário, se insistirmos em não ter
um único Português que seja língua comum e internacionalmente
reconhecida, não são os dez milhões de Portugueses que, orgulhosamente
sós o irão conseguir. A língua como tudo o que nos rodeia, está sujeita a
influências e a evoluções, quer nós queiramos ou não, como tal devemos
deixa-la cumprir a sua função, que é permitir que 240 milhões de falantes
comuniquem entre si no mesmo Português.

É pois neste contexto que chego ao Barreiro, que considero a minha


terra natal. Aqui passei uma infância alegre e descontraída, num ambiente
familiar. Um aspecto interessante de analisar está relacionado com a
infância e como as brincadeiras e os brinquedos evoluíram. Por exemplo, na
minha infância o centro das brincadeiras era a rua, hoje as crianças passam
muito mais tempo em casa. Em relação aos brinquedos éramos obrigados a
ser bastante criativos, muitos dos meus brinquedos eram construídos por
mim. Recordo-me dos carrinhos de rolamentos, que eram construídos com
rolamentos velhos e algumas tábuas, ou como com uma chave de abertura
de uma lata de conserva, se improvisava um ponteiro para jogar ao
“espeta”. Estávamos aqui já a pôr em prática a regra dos três “R”: Reduzir,
reutilizar e reciclar. As crianças actualmente por outro lado têm acesso, a
meios de comunicação e de informação que, proporcionam um
desenvolvimento impressionante. De tal forma que requer, quer de pais
quer de educadores, uma atenção muito especial no encaminhamento e
orientação destas actividades.

Esta calma e descontracção do passar dos dias de criança, só seria


agitada aos sete anos. Primeiro pelo nascimento da minha irmã, que pela
diferença de idades, me colocou no papel de que muito gostava de irmão
mais velho, responsável e protector. Em segundo, o início da vida escolar,
com a entrada para a primeira classe do ensino primário. Deste período da
minha educação, compreendido entre a primeira e a quarta classe, destaco
dois aspectos: um de ordem pessoal e outro de ordem social e política.

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Escola primária, 1973.

Saúde, versus desporto e alimentação.

No aspecto pessoal foi nesta altura que iniciei uma actividade


desportiva, mais a sério. Comecei a praticar Judo na CUF. Com o desporto
desenvolvi uma série de hábitos saudáveis, para além da resistência e
desenvolvimento físico, obrigou-me a ter em conta outros aspectos
importantes para a minha saúde e bem-estar. Refiro-me a cuidado com a
alimentação, controle de peso e tempo de descanso.

É hoje do conhecimento geral, os benefícios da prática desportiva no


desenvolvimento e formação dos jovens. O desporto mantém o nosso
organismo em forma, activando o nosso metabolismo (forma como o nosso
corpo transforma os alimentos em energia, processa-se a nível celular),
contribuindo assim para o nosso bem-estar. Bem-estar esse, que se traduz
em redução de doenças cardiovasculares ou diabetes, por exemplo, ajuda a
construir e manter saudáveis ossos, músculos e articulações, bem como
promove o nosso bem-estar também a nível psicológico. A intensidade física
da prática desportiva determina a que tipo de metabolismo o nosso
organismo recorre, para desenvolver a energia necessária para lhe dar
resposta: aeróbica ou anaeróbica. De uma forma sintética a actividade física
aeróbica é de intensidade moderada, o que permite prolongá-la por mais
tempo. Pelo contrário, a actividade anaeróbica é de forte intensidade e
curta duração, proporciona uma produção de energia rápida, recorrendo
basicamente a hidratos de carbono e necessitando de grande consumo de
oxigénio (o oxigénio é o combustível utilizado pelo organismo neste
processo e o dióxido de carbono resultado da sua combustão). A actividade
aeróbica é aquela que nos permite controlar o peso e o excesso de gordura,
uma vez que o metabolismo mais lento vai buscar energia, sobretudo às
gorduras (lípidos) armazenadas no nosso organismo, sendo também um
excelente exercício cardiovascular. Por estas razões era com este tipo de
exercícios que iniciava cada ano a época de judo, em especial com corrida
prolongada. Ajustava assim o meu peso à categoria em que iria competir
esse ano e aumentava a minha resistência física. Um aspecto muito

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importante em qualquer actividade desportiva é o acompanhamento
médico. No início de cada época e para que pudesse renovar a minha
inscrição na Federação Portuguesa de Judo, tinha de me deslocar à
Delegação de Medicina Desportiva, a fim de atestar a minha boa condição
física para a prática desportiva. Assim acho indispensável que qualquer
pessoa, antes de iniciar uma prática desportiva (em especial se já tiver
alguma idade), deva procurar aconselhamento médico e realizar os exames
necessários, para adequar a actividade à sua condição física.

Muito importante também na minha vida desportiva, a alimentação


era outro aspecto que não podia descurar. Através de uma alimentação
correcta e equilibrada, proporcionamos ao nosso organismo todos os
elementos necessários ao seu desenvolvimento e bem-estar, são eles:
Lipídos (gorduras), Glícidos (açúcares) e proteínas (carne, peixe e leite).
Outro aspecto a ter em conta prende-se, com o adequar a nossa
alimentação à nossa actividade e idade. Pessoas com actividades
profissionais mais exigentes a nível físico consomem, mais energia ao passo
que com o avançar da idade passamos a ter uma vida mais sedentária,
necessitando menos alimentos energéticos.

Hoje em dia faço uma das minhas refeições diárias no refeitório da


empresa onde trabalho, o que torna mais difícil a tarefa de comer “bem”.
No seio da família tentamos seguir as regras da boa alimentação, tentamos
sempre incluir nas nossas refeições os cereais, os legumes e as frutas e
temos especial atenção em evitar as gorduras (nomeadamente os fritos),
que comprovadamente aumentam o risco de doenças cardiovasculares e
oncológicas, podendo também levar ao aparecimento da obesidade e da
diabetes. Mas esta é uma tarefa que não se afigura fácil nos nossos dias,
pois se é verdade que temos ao nosso dispor praticamente todo o tipo de
alimentos, sob as mais diversas formas à nossa escolha, é também
verdade, quer pela vida agitada que levamos, por um lado, quer pela oferta
massiva de produtos alimentares “menos bons” para a nossa saúde, por
outro, é cada vez mais difícil praticar uma dieta equilibrada. Quando falo de
alimentos “menos bons”, refiro-me a tudo aquilo a que vulgarmente
chamamos “fast food”, alimentos com excesso de gordura e altamente
calóricos. A adesão a este tipo de alimentação, em especial pelas camadas
mais jovens, está a ter efeitos muito negativos em termos de saúde pública
a nível mundial.

A obesidade é hoje um problema que afecta um crescente número da


população nos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) a nível mundial,
um em cada três adultos tem excesso de peso e um em cada dez é obeso.
Mas este não é um problema exclusivamente de adultos, estimam-se em
vinte milhões as crianças com menos de cinco anos, com excesso de peso.
Na Europa 20% das crianças têm excesso de peso e se a evolução se

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mantiver como nos anos 90, em 2010 haverá 150 milhões de obesos.
Portugal não foge à tendência mundial, conforme constatamos no quadro
abaixo, elaborado pelo INS (Instituto Nacional de Saúde) e que é o estudo
mais recente e completo realizado no nosso país. Podemos verificar que o
numero de pré-obesos (pessoas com excesso de peso) é bastante
significativo, o que, e sendo esta uma “doença” de evolução lenta, não nos
dá expectativas muito animadoras. Este estudo foi realizado entre
1995/1996 e recolheu informação sobre 49.718 indivíduos de ambos os
sexos, a medida utilizada para determinar o excesso de peso e a obesidade
foi o Índice de Massa Corporal (IMC). O IMC relaciona o peso (em kg) e a
altura (em m), dividindo o peso pela altura ao quadrado, dando origem à
fórmula: kg / m² = IMC.

Índice de Massa Corporal na população portuguesa – INS, 1995 / 1996

IMC Masculino Feminino Classificação


(%) (%) OMS
< 20 4,0 9,7 Baixo peso
20,0-24,9 44,6 44,1 Peso desejável
25,0-29,9 41,1 33,5 Pré-obesos
30,0-34,9 9,0 10,2 Obesos-Classe I
35,0-39,9 1,2 2,2 Obesos-Classe II
≥ 40,0 0,2 0,5 Obesos-Classe
III

Este é um problema transversal na nossa sociedade, que afecta todas as


idades, classes sociais e ambos os sexos. Como principais consequências da
obesidade, surgem doenças cardiovasculares, diabetes, doenças oncológicas
e complicações ósseas, para além de uma substancial incapacidade, que é
causa de grande sofrimento para o obeso e seus familiares envolvidos neste
processo. Todo este problema com origem na obesidade e com
consequências tão diversas é causa de inúmeras mortes prematuras,
limitando bastante a expectativa de vida dos pacientes.

Os custos para os diversos sistemas de saúde são elevados,


estimando-se na Europa que 2 a 8% das verbas destinadas à saúde por
cada estado são gastas, no tratamento de doenças relacionadas com a
obesidade. No sentido de dar resposta a este problema, os estados são
obrigados a repensar políticas de saúde pública e foi nesse contexto que a
OMS em colaboração com a Comissão Europeia, organizou a conferência
europeia de combate à obesidade, em Istambul na Turquia em Novembro
de 2006.

8
www.euro.who.int/obesity/conference2006,
consultado em 14/02/09

Os resultados desta conferência enquadram-se, na política global da


OMS de combate à obesidade, que destacam a adopção de uma
alimentação saudável e equilibrada em paralelo com a actividade física,
como forma de combater e prevenir o problema. A estratégia global da OMS
assenta em quatro objectivos principais, que passo a descrever:

 Reduzir os factores de risco para doenças crónicas, como dietas


desajustadas e inactividade física, através de acções de saúde
pública.
 Aumentar a sensibilização para a compreensão da influência da dieta
e da actividade física na prevenção de doenças.
 Desenvolver estratégias globais, regionais e nacionais, de políticas e
planos de acção, para melhorar a alimentação e incentivar a prática
desportiva.
 Promover a ciência e a investigação nos temas da dieta alimentar e
actividade física.

Paralelamente ao esforço levado a cabo pelas instituições e governos


na prevenção, penso que é também necessário regular no sentido a criar
regras e normas cada vez mais apertadas, para a comercialização de
produtos alimentares. Cabe-nos a nós como consumidores fazermos as
melhores escolhas e mantermo-nos informados. Os meios de comunicação
têm aqui um papel crucial, na divulgação de campanhas e boas práticas.
Hoje em dia, podemos assistir em nossas casas através da televisão, a
campanhas de saúde levadas a cabo por diversas instituições, que nos
alertam por exemplo para os perigos do tabagismo ou a ingestão em
excesso de gorduras. Por vezes são as próprias marcas de produtos

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supostamente saudáveis, que nos dão informações válidas na sua
publicidade, sobre assuntos relacionados com a nossa saúde. Ainda na
televisão temos acesso generalizado a documentários sobre saúde, em
língua portuguesa ou legendados em português. Por último a comunicação
escrita é também muito importante na divulgação de temas relacionados
com a saúde, desde os folhetos a que temos acesso nas farmácias, até
revistas especializadas como a revista de saúde da DECO. Um aspecto
muito importante para que a informação chegue ao maior número de
pessoas possível, qualquer que seja o canal, é a forma como a língua é
usada uma vez que a linguagem médica é muito técnica, esta deverá ser
descodificada para ser mais acessível.

Ainda como consumidores temos o direito de exigir qualidade e


transparência. Nomeadamente a obrigatoriedade de incluir em todas as
embalagens alimentares, não só a composição, como as percentagens em
termos de calorias, açúcares e gorduras. Estamos assim a contribuir para o
desenvolvimento de uma atitude mais ética por parte de fabricantes e
distribuidores de produtos alimentares. O caso recente da contaminação do
leite produzido na China, é um exemplo de como os interesses comerciais
ainda se sobrepõem aos valores de ética e de como os meios de
comunicação são importantes para denunciar essas práticas.

Temos, no entanto ao nosso dispor, uma ferramenta de grande


utilidade que nos pode orientar, não só em termos de que alimentos devem
constituir a nossa dieta, como em que proporções se devem combinar.
Refiro-me à roda dos alimentos.

A roda dos alimentos é uma representação gráfica e surgiu em


Portugal em 1997, no âmbito de uma campanha de educação alimentar,
“Saber comer é Saber viver”. A roda dos alimentos, tal como o nome indica,
é um círculo dividido em segmentos de diferentes tamanhos, os chamados
grupos alimentares. Em alguns países a roda dá lugar à pirâmide dos
alimentos, o que na opinião dos especialistas, não representa uma
alimentação equilibrada, uma vez que esta hierarquiza os alimentos, dando
mais importância a uns que a outros. Esta perspectiva não é correcta uma
vez que todos os alimentos são importantes. Esta é também a minha
opinião. A roda dos alimentos sofreu contudo alterações. Na primeira versão
estava dividida em cinco grupos alimentares, sem indicação das porções
recomendadas por dia, a versão actual passou a ser composta por sete
grupos de alimentos e indica as porções recomendadas de cada um deles. A
água não constituindo um grupo, está também representada, ocupando a
posição central.

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 Cereais e derivados, tubérculos – 28%
 Hortícolas – 23%
 Fruta – 20%
 Lacticínios – 18%
 Carnes, pescado e ovos – 5%
 Leguminosas – 4%
 Gorduras e óleos – 2%

http://saude.sapo.pt/artigos/?id=634001, consultado em 06/02/09.

De forma simples a roda dos alimentos ensina-nos, como manter uma


alimentação saudável: completa, equilibrada e variada.

Um dos desafios com que se deparam os países mais desenvolvidas, é o


do aumento da esperança média de vida, quer a nível organizacional da
sociedade, quer a nível de alteração comportamental face à velhice. Assim
por exemplo em Portugal a esperança média de vida à nascença é de:
74,84 anos para homens e 81,3 anos para mulheres. Já se falarmos da
esperança de vida aos 65 anos é de: 15,97 anos para homens e 19,37 para
mulheres. Entre os anos de 2000 e 2006 a esperança média de vida
aumentou 1,8 anos para homens e 1,4 anos para mulheres, da mesma
forma e acompanhando a tendência a mortalidade em 2006, registou uma
descida de 5,1%. Estes dados referem-se ao período entre 2004 e 2006,
segundo o INE (Instituto Nacional de Estatística).

Algumas das principais razões para o aumento da esperança de vida


estão ligadas, às melhores condições de vida que hoje possuímos, como
melhor assistência médica, melhores condições higiéno-sanitárias, melhores
condições de trabalho, melhores condições de habitação e alargamento dos
sistemas de protecção social. Apesar das melhorias verificadas em todos
estes sectores, são hoje amplamente divulgadas através dos meios de
comunicação social, as principais patologias que afectam os idosos (doenças
cardiovasculares, insuficiências renais, diabetes, doenças ortopédicas e
psiquiátricas), bem como os métodos de prevenção, de tratamento e
paliativos aplicados.

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Um campo da ciência que já contribui mas poderá vir a ser decisivo,
para o aumento da esperança de vida, é a genética. Efectivamente o
desenvolvimento da genética e a descodificação do genoma humano, tem
vindo a abrir portas na prevenção e tratamento de doenças até aqui sem
cura. Embora ainda envoltos em grande polémica, nomeadamente por parte
da igreja e sectores da sociedade a ela ligados, este tipo de tratamentos
vão já sendo usados. Os media têm tido aqui um papel muito importante na
divulgação dos avanços científicos, e de que forma eles poderão vir a alterar
as nossas vidas. Vão desta forma permitindo que um maior número de
pessoas tome consciência desta realidade e formule opinião sobre ela. Por
exemplo o uso de células estaminais, que são células indiferenciadas que
podem ajudar a recuperar ou reconstituir tecidos, uma vez que se
transformam em qualquer tipo de célula. Também no tratamento e
prevenção do cancro, com a introdução de um gene que codifica, de forma
que actua como vacina. Este tipo de tratamento, contempla apenas células
somáticas, o material genético não é inserido na linha germinativa e a
correcção não passa às gerações seguintes. Existem ainda riscos na
utilização desta tecnologia, pode a alteração de uma sequência genética,
tratar um problema e desencadear outro, há ainda um grande caminho a
percorrer nesta área. Entretanto levantam-se questões de ordem ética, até
onde vai o tratamento genético de doenças e onde começa a manipulação
genética com fim de melhorar a espécie, será isso bom ou mau? Não
possuo conhecimentos técnicos para antever as consequências de uma
opção ou de outra, penso no entanto que quer queiramos ou não, a
evolução é imparável e segue num único sentido, teremos avanços e
recuos, como sempre em relação a algo novo, mas é assim que
aprendemos e evoluímos.

Por outro lado como consequência directa do aumento da esperança de


vida temos, o aumento da idade de reforma. Devido também a este facto e
tendo em conta o factor de sustentabilidade da Segurança Social, desde de
2008 que o valor das pensões é calculado em função da evolução da
esperança média de vida.

O aumento da esperança de vida leva também a uma alteração dos


comportamentos face à velhice, quer a nível social, quer a nível
institucional. Assim ouvimos cada vez mais falar de Geriatria, especialidade
médica ainda pouco conhecida, vemos aumentar o número de lares e
centros de dia para a terceira idade e assistimos à criação de programas
ocupacionais. Desde alguns anos que se multiplicam as Universidades da
terceira idade, o desporto sénior e o turismo sénior, são exemplos de como
cada vez mais actividades são dirigidas para esta população que está em
crescimento. O próximo passo na minha perspectiva é o da integração na
vida activa, daqueles que apesar de estarem reformados têm ainda
capacidade para transmitir a sua experiência e conhecimentos, tendo em
conta a sua disponibilidade.

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Voltando ao tema inicial, o Judo, para além da vertente física,
comporta também uma componente de formação interior e de carácter. O
Judo pelas suas origens e características integra na sua prática, uma
vertente muito forte de formação moral. Iniciei-me na prática do Judo aos
sete anos e foi muito importante para mim, este complemento na minha
educação. O meu filho tem cinco anos e é judoca desde os três, e também
ele aprende e vai de uma forma divertida e saudável, interiorizando o
código moral do Judo, que consiste em oito pontos-chave, que são no fundo
os princípios para um bom relacionamento e convivência, com base no
respeito pelos outros. Código moral do Judo: Amizade, Modéstia, Coragem,
Controlo, Respeito, Honra, Sinceridade e Cortesia. Estes princípios tornam-
se ainda mais importantes se, tivermos em conta por oposição, os valores
ou melhor a sua ausência, que vigora na nossa sociedade. Cada vez é mais
difícil transmitir estes valores aos nossos filhos, aos mais diversos níveis.
Quer ao nível das instituições, quando é aberto concurso público para uma
vaga de emprego, que sabemos à partida já preenchida por alguém. Quer
quando a nível empresarial ou pessoal se vulgarizam, suborno, coação e
tráfico de influências. Essa ausência de valores é bem notória, na forma
como vemos os jovens desrespeitarem os mais velhos ou os professores,
com relatos mirabolantes que nos chegam através dos meios de
comunicação.

Judo, em 25/04/1975. Judo, em 16/01/2008.

O 25 de Abril.

No aspecto social e político, foi no decorrer deste período, que se deu


um acontecimento a que ninguém ficou indiferente. Refiro-me à revolução

13
de 25 de Abril de 1974. Devido à minha idade nessa altura, não pude
compreender este acontecimento na sua verdadeira dimensão. Hoje, porém
beneficiamos das transformações ocorridas e muitas vezes sem nos
apercebermos de que nem sempre foi assim.

Com efeito, o fim do regime ditatorial veio trazer profundas


transformações à sociedade Portuguesa e como consequência a todas as
antigas colónias em África. Na verdade um dos principais objectivos da
revolução militar foi pôr fim à guerra, dando assim inicio ao processo de
independência das mesmas. Ainda hoje, já passados trinta e quatro anos,
se debate sobre a forma como decorreu todo este processo, havendo
partidários de que, fizemos mais uma retirada do que uma passagem de
testemunho. Entendo este ponto de vista, talvez tivesse sido mais justo
para estes novos países, que tudo se tivesse passado de uma forma mais
faseada e sustentada. Entendo também que se nos situarmos no contexto
social e político do pós Abril de 74, facilmente entendemos que a revolução
extravasou os planos iniciais. Transformou-se por um lado num fenómeno
de carácter popular fortemente participado e difícil de controlar, por outro
os partidos emergentes sem experiência governativa e envolvidos na
disputa de pastas ministeriais, nos primeiros governos provisórios, não
permitiram o discernimento que teria sido desejado. Também o contexto
internacional, não favoreceu a tomada de decisões em relação às ex-
colónias ou à unidade nacional, em torno de um objectivo comum. Vivia-
mos em plena guerra fria e tanto internamente como em relação aos
recentemente formados Estados de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São
Tomé e Príncipe e Cabo Verde, se disputavam influências entre o bloco de
leste, liderado pela URSS (antiga União Soviética) e a aliança ocidental a
NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A NATO, aliança política
e militar, surge em 1949 justamente no sentido de equilibrar forças em
relação ao bloco de leste, tendo actualmente 19 estados membros e sede
em Bruxelas na Bélgica.

Mas o 25 de Abril trouxe, muito mais do que o fim da guerra colonial,


que só por si era já razão suficiente para derrubar o regime que nos
governou durante 41 anos. A nível dos direitos fundamentais, que fazem
parte de qualquer democracia, o povo Português passou a ver consagrada
na Constituição da República a separação de poderes (poder legislativo,
poder executivo e poder Judicial), e para além disso a liberdade e a
responsabilidade de participar activamente na construção de uma nova
sociedade. Assim passamos de um regime de partido único, para um
sistema de eleições livres em que existem vários partidos, dando expressão
às diversas opiniões e em que todos os cidadãos maiores de idade, ao invés
de estarem proibidos, têm o dever cívico de votar. É através das eleições e
do voto que expressamos a nossa opinião e escolhemos os nossos
representantes na assembleia da república ou nas autarquias. A minha
participação e intervenção baseia-se por isso em exercer o meu direito de

14
voto, mas pontualmente já tive oportunidade de participar de uma forma
mais activa, como membro de uma mesa de voto, para eleger a comissão
de moradores no meu bairro. Adquirimos também liberdade de associação e
reunião, o que proporcionou, por exemplo, a constituição de sindicatos e
associações profissionais e outras de carácter civil, das mais diversas.
Acabou, portanto a perseguição política e ideológica e foi-nos devolvida a
liberdade de expressão, sendo posto ponto final à censura.

Para além destes direitos cívicos de participação na construção da


sociedade, passam a estar consagrados na Constituição da República
Portuguesa, como direitos fundamentais: o direito à saúde, à educação, ao
trabalho, à justiça e o direito à habitação. Passámos não só a escolher os
nossos representantes para o governo (órgão executivo), como para a
Assembleia da República (órgão legislativo), e passámos nós próprios a
podermos candidatar-nos a qualquer órgão de soberania. Hoje em dia
podemos participar em debates, apresentando propostas ou pedindo
esclarecimentos, perante instituições que vão desde as Assembleias
Autárquicas, até ao Parlamento. Os direitos e princípios fundamentais a que
me refiro estão, incluídos na Constituição da República e estão contidos nos
seguintes artigos: art. 10º sufrágio universal e partidos políticos, art. 32º
garantias de processo criminal, art. 37º liberdade de expressão e
informação, art. 45º direito de reunião e manifestação, art. 51º associação
e partidos políticos, art. 55º liberdade sindical, art. 58º direito ao trabalho,
art. 64º saúde, art. 65º habitação e urbanismo e art. 74º ensino (anexo 1).

As rápidas mudanças sociais a que hoje assistimos têm como origem


vários factores, alguns deles pela sua natureza verdadeiros catalisadores
dessas mudanças. De entre eles destaco: factores demográficos, factores
políticos e factores tecnológicos. Os factores demográficos, tendo em conta
as movimentações de pessoas e a facilidade com que hoje em dia se
processam essas movimentações. O sentido óbvio dessas deslocações é dos
países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento, para os países
industrializados, causando grande pressão social e obrigando estes a
adoptar medidas excepcionais para se adaptarem. Os factores políticos são
também um dos principais motores das rápidas mudanças sociais. Veja-se o
exemplo nacional, com a revolução do 25 de Abril. Por fim os factores
tecnológicos, entre os quais saliento os transportes e os meios de
comunicação. O uso em massa do automóvel veio alterar profundamente as
sociedades modernas, criando e influenciando novos estilos de vida. Por
outro lado os transportes aéreos vieram ainda tornar mais fácil e rápida a
deslocação entre países e continentes. Foi contudo nos meios de
comunicação que se fizeram sentir mais as evoluções das novas
tecnologias, e ai têm proporcionado rápidas e profundas mudanças na nossa
sociedade. Desde a massificação da imprensa escrita com a industrialização
da produção de jornais um longo caminho foi percorrido. Primeiro com a
rádio depois com a televisão e por fim com a internet.

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Estes três factores (demografia, politica e tecnologia) estão na
origem de rápidas alterações sociais, pois transportam consigo valores
incontornáveis para a mudança. Quem emigra leva consigo a sua cultura, a
sua língua, hábitos, costumes e religião, que inevitavelmente influenciam as
sociedades em que se vão integrar. Os factores políticos têm por base
elementos culturais e psicológicos, onde singram novas ideias e existe uma
pré disposição para a mudança, que é tanto mais facilitada, quanto mais
elevado é o nível de instrução. A tecnologia proporcionou aos meios de
comunicação serem o instrumento de informação e divulgação, de todos os
outros factores. Os jornais a rádio e sobre tudo a televisão, dão-nos a
conhecer em tempo real o que está a acontecer no outro lado do mundo.
São o veículo que transporta novas ideias, que podem influenciar
decisivamente a sociedade, transformando-se assim num poderoso grupo
de pressão, ou uma perigosa força de manipulação da opinião pública.
Exemplos da globalização da informação podem ser a forma como
acompanhámos a eleição do presidente norte-americano, Barack Obama, ou
como assistimos a catástrofes naturais como o Tsunami em Sumatra ou
ainda a guerra do Iraque. Os “mass media” podem também ser a grande
fonte de divulgação de eventos culturais e desportivos, tais como a
cerimónia de entrega dos Oscar ou o campeonato do mundo de futebol, que
são vistos pela televisão em todo o mundo.

É espantoso o desenvolvimento dos meios de comunicação, de como


partimos da simples necessidade de comunicarmos uns com os outros,
passando pela comunicação como forma organizacional integrada em
estruturas mais ou menos complexas, como por exemplo no mundo
empresarial, até à comunicação de massas. Os meios de comunicação hoje
em dia elegem governos e presidentes, vendem produtos e ideologias,
utilizando como veículo um ponto comum entre todos nós e que faz com
que nos entendamos: a língua.

Tendo em conta o tipo de suporte para a comunicação, foram-se


desenvolvendo tipos de linguagem adequados. Por exemplo o texto
jornalístico, ou a linguagem da rádio com as suas próprias características. A
televisão vive essencialmente da imagem, sendo a linguagem um simples
complemento. E ainda a internet, que desenvolveu uma linguagem com
características próprias e muito especiais. Existem para além destes outros
tipos específicos de linguagem, como seja a usada em publicidade. Comum
a todos estes tipos de linguagem é contudo a preocupação de ter em conta
o público-alvo e adequar a mensagem a esse público.

Nowadays there’s a lot of factors which can make social changes


happend very fast. For example demographic factors, like the migrations or
the aging of the population. When a lot of people enter in a new country,
they take with them the culture, the religion and the knowledge of their
own country. The growing number of elderly people pushes the society to

16
arrange new ways of social organization. The political factors can also make
changes happend very fast, see the example of Portugal and the 25th April
revolution. The culture with new ideas, the religion and psychological
factors like the instruction level or the open mind for the new, or for
changes. At last the technological factors, with new scientific discoveries,
which can change very quickly our way of living. In the last century,
technology made possible the media development, net works like: radio,
television and internet, changed in definitive our societies and gave us a
perspective of a global world. Today something that happends on the other
side of the world, can affect us as well as our lives. The most recent
example is the economic crisis which began in North America and affected
the world economy. That can also be used as a way to make a cultural
event reach the whole world. A good example of that is the Oscar’s
ceremony, or the football world cup.

The media development leads to new forms of communication. In the


beginning communication helps to organize small groups, like factories in
the industry. Nowadays we have a new expression that shows how
communication grows, which is: mass media. Today the mass media, can
help to elect a president, or can sell a product or an idea. The mass media
can influence the public opinion, and with globalization it happends all over
the world.

In communication the vehicle of the message is the language, and in


modern society the knowledge of English is a basic skill for global
communication. These different communication bring with them, different
kind of writing like in the newspaper. Between radio and television, what is
stated on the radio must be much more persuasive and stimulating,
because the word is the only way of communication. On television the
words are just a complement for images. The images talk for themselves.
The internet has created its own specific language and expressions.

So, when I write this text in English, and publish it on the internet, it
will be possible for a large amount of people to be able to reedit, and
comment.

Tolerância e respeito pela diferença.

Assim concluí o ensino primário sem sobressaltos e passei para o


ciclo preparatório, para a Escola Álvaro Velho, no Lavradio. Este primeiro
ano do preparatório foi sem dúvida o meu melhor ano como estudante.
Adorei o facto de ter várias disciplinas, vários professores, as ciências com
aulas de laboratório, a educação visual onde se exploravam as mais
diversas formas de pintar e desenhar e a descoberta de uma língua

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estrangeira, no caso o Francês. Tudo isto contribuiu para que tivesse
excelentes notas esse ano e no seguinte.

Concluído o preparatório inicia-se nova etapa, ensino secundário na


Escola Alfredo da Silva no Barreiro. Foi aqui que comecei a experimentar
algumas áreas de estudo, com o objectivo de definir uma futura actividade
profissional. Electricidade, química e mecânica, foram as seleccionadas,
tendo finalmente optado por mecanotecnia.

Aproveito para fazer aqui uma observação, que nos poderá ajudar a
compreender a nossa sociedade nessa altura, estamos a falar do início dos
anos oitenta. As actividades profissionais dividiam-se ainda segundo o sexo.
Assim os cursos de electricidade e mecânica eram quase exclusivamente
compostos por rapazes, enquanto as meninas optavam pela química ou
práticas administrativas. Criámos as leis que permitem a igualdade de
oportunidades e a liberdade de escolha, para homens e mulheres, com um
grande contributo dos sindicatos, que tiveram aqui um papel muito
importante, cada vez mais a trabalho igual corresponde salário igual,
eliminando desta forma uma das mais gritantes discriminações entre sexos.
No meu trabalho as equipas são constituídas por homens e mulheres, que
têm exactamente as mesmas obrigações e as mesmas regalias e é comum
as mulheres ocuparem posições mais elevadas na hierarquia da empresa e
em áreas que não lhes eram familiares à algum tempo atrás. Cada vez mais
trabalhamos com pessoas oriundas de países distantes e com culturas
muito diferentes da nossa, o que exige que estejamos preparados para lidar
com a diferença e que sejamos tolerantes. Para se ter uma ideia do que falo
na fábrica onde trabalho, quando entrei o director era Norte Americano, de
seguida o director foi Alemão depois tivemos um director Espanhol e
actualmente o director é de novo um Alemão. Cada um trouxe com ele uma
filosofia de trabalho diferente, com base nas suas origens e cultura
empresarial. Mas, o mesmo se passa em relação a fornecedores, ou
técnicos de áreas específicas, que surgem de toda Europa, desde a
Alemanha aos países de leste. Sou com frequência abordado por eles no
meu local de trabalho, quando querem observar algum processo ou peça. A
comunicação estabelece-se em inglês e é normalmente fácil uma vez que é
do interesse de ambas as partes fazerem-se entender. A nível de
operadores de linha continuamos a ter grupos muito heterogéneos, quase
todas as equipas têm na sua constituição, brasileiros e pessoas oriundas de
países de leste. Temos assim que aprender que quando um brasileiro fala
de um trem, não está a falar de um trem de cozinha mas sim de um
comboio. Pela experiência que tenho e salvo algumas excepções, a
integração destes emigrantes no local de trabalho não levanta quaisquer
problemas. Os brasileiros são muito próximos de nós a nível cultural, os de
países de leste têm normalmente um bom nível de educação e são
extremamente disciplinados, só a língua por vezes constitui uma barreira,
mas o espírito de equipa é bastante bom e são normalmente ajudados pelos

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colegas portugueses. Sendo esta a regra geral, há no entanto pessoas que
não aceitam de bom grado e são até hostis, à chegada destes imigrantes.
Existe ainda muita falta de informação e por isso incompreensão, face a
estas pessoas. Ainda há quem pense que os imigrantes vêm roubar os
nossos postos de trabalho, quando na realidade, na grande maioria das
vezes, eles vêm ocupar os postos de trabalho que nós já não queremos. O
relacionamento entre colegas e chefias é bastante aberto, o tratamento
entre todos é informal e descontraído. Para fortalecer esse espírito de
grupo, são já tradição os jantares de equipa, que se realizam pelo menos
duas vezes por ano: antes das férias e no Natal. Nestes jantares participam
normalmente, três níveis da hierarquia: especialistas, team leader e
operadores. Este tipo de convívio fora do local de trabalho é muito
importante, pois quebra qualquer barreira e serve para todos nos
socializarmos ao mesmo nível. Para além destes jantares existe um grupo
desportivo, que organiza inúmeros eventos abertos à participação de todos
os colaboradores.

Vou-vos relatar uma situação que se verificou no meu trabalho e que


ilustra bem um caso de culturas diferentes. Um colega de origem africana e
muçulmano, ao chegar ao posto de trabalho e deparando-se com o facto de
ir trabalhar com colegas do sexo feminino, recusou-se a trabalhar ao lado
de mulheres. É claro que depois de lhe explicarmos, que em Portugal não
existe discriminação sexual e que a única forma de ficar na empresa era
respeitar todos os colegas da mesma forma, acedeu a ocupar o seu posto
sem reservas. Um assunto polémico dentro desta temática, são as cotas em
que se pretende garantir uma percentagem mínima de lugares nos órgãos e
instituições públicas, atribuído às mulheres. É a chamada a discriminação
pela positiva, não deixa no entanto, na minha opinião, de ser discriminação.
Sou pelo contrário adepto da competência e acho que deve ser esse o
critério que se deve sobrepor, independentemente do género. Mas apesar
da revolução e da abertura da nossa sociedade, as mentalidades nem
sempre acompanham as transformações e ainda hoje, embora menos,
somos ainda prisioneiros de velhos preconceitos e da nossa educação. Mas
quando passamos toda esta problemática de um círculo restrito, para o
contexto da cultura muçulmana versos a cultura ocidental, parece-nos que
regredimos no tempo e voltamos à idade das trevas. Na verdade grande
parte dos países muçulmanos atropela, sistemática e consecutivamente os
mais básicos direitos humanos. Nestes países as leis religiosas sobrepõem-
se, a maioria das vezes às leis civis. As pessoas são condenadas sem serem
julgadas ou são julgadas por tribunais parciais e sem competência. A
discriminação com base religiosa em relação às mulheres faz, com que
estas sejam impedidas de exercer os mais básicos dos seus direitos, como
por exemplo a educação. Estas posturas culturais e religiosas levadas a
extremos radicais, estão na origem de grande parte dos conflitos militares
existentes no médio oriente. Estas culturas tentam subsistir agarradas a
velhos costumes em oposição à modernização e democracia das sociedades

19
ocidentais, o que cria grandes tensões nos locais em que estes dois mundos
se tocam. Estou no entanto convencido de que muitos conflitos são também
empolados por interesses estratégicos globais. Não posso crer que cada
árabe ou muçulmano seja um terrorista, chegam-nos através dos relatos
jornalísticos de guerra, testemunhos de famílias destroçadas e que nada
têm a ver com os grupos extremistas que desencadeiam estes conflitos.
Acho que a grande maioria desta população, embora culturalmente bastante
distante de nós, é tão vítima do terrorismo como o mundo ocidental.

No curso de mecanotecnia, comecei então a ter paralelamente às


aulas teóricas, aulas práticas de oficinas. Nestas aulas práticas comecei a
tomar conhecimento com as ferramentas e as máquinas. Ferramentas de
bancada: martelo, lima; instrumentos de medida de precisão: o plano, o
comparador, o paquímetro; e máquinas ferramentas: serrote mecânico,
limador, torno e fresa. Destes instrumentos queria realçar o paquímetro,
que incorpora uma invenção Portuguesa do início do século XVI. Refiro-me
ao nónio, que é uma escala graduada, que em conjunto com a escala
principal, permitia não só ler graus, mas também minutos. De início foi
utilizada no sextante na navegação e permitia determinar a posição dos
navios com muito mais rigor. Mais tarde a mesma escala, mas em
milímetros, foi aplicada ao paquímetro. O inventor desta maravilha foi o
matemático Pedro Nunes, em Latim Petrus Nónios, que daria nome ao
invento: “nónio”.

Com a confusão e diversificação de interesses, própria da


adolescência, os meus resultados escolares nunca mais foram os mesmos.
Passei a ser um aluno mediano e a esforçar-me simplesmente para
conseguir nota positiva. De tal forma fui baixando a minha média, que no
9º ano tive que ir a exame, no qual chumbei. No ano seguinte repeti o 9º
ano, porém, já com a promessa de que a partir daí iria para o ensino
nocturno. Desta feita passei com dispensa de exames e ganhei o passaporte
para o mundo do trabalho. Continuei, contudo a estudar à noite, para
concluir o ensino secundário.

Inicio da vida profissional.

Dei inicio à minha vida profissional, quando ainda estava a estudar e


de uma forma esporádica ajudando o meu pai. A sua actividade era a
serralharia e foi nessa área que comecei a trabalhar. Foi também na
continuidade dessa experiência, que surgiu o meu primeiro emprego, na
Compelmada, empresa de metalomecânica. Aí me mantive por três anos,
trabalhando em serralharia e caldeiraria. O trabalho chegava à oficina por
meio de desenho e era com base nele que se executavam as obras. Como
tinha facilidade em interpretar desenho, ao fim de algum tempo comecei a
receber trabalhos sob a minha responsabilidade. Comecei então a pensar

20
numa carreira de desenhador. E de que forma poderia alcançá-la? Dentro
da própria empresa, tentar entrar para a sala de desenho, o que era à
partida muito difícil (e tinha ainda a agravante de ser contratado), ou sair
da empresa. Por essa altura estava a terminar o terceiro contrato a prazo e
isso significava passar a efectivo ou ser despedido. O que me propuseram
foi ser despedido e passado algum tempo ser novamente contratado, para
dar início a mais um ciclo de três anos. Não aceitei essas condições e
aproveitei a oportunidade para tirar o meu curso de desenho. Desta forma
transformei o que seria uma adversidade, numa forma para melhorar a
minha vida profissional, alarguei os meus conhecimentos e criei mais uma
alternativa em termos de emprego.

Assim com tempo disponível, comecei a tirar um curso de desenhador


em casa, ao mesmo tempo que me inscrevi no IEFP. Pouco tempo depois de
ter terminado o primeiro curso, fui chamado pelo IEFP, para frequentar o
curso de desenhador de construção civil, no centro de formação da Venda
Nova na Amadora. Este curso desenvolveu-se praticamente ao longo de um
ano escolar, com horário laboral. No decorrer do curso fui seleccionado para
participar num concurso organizado pelo IEFP, entre diversos centros de
formação. Esse concurso consistia em projectar e desenhar uma casa,
segundo as características que nos eram apresentadas.

Concluído o curso, pouco tempo depois comecei a trabalhar como


desenhador, na empresa Durão & Durão, no Barreiro. Esta empresa foi para
mim uma verdadeira escola, não só na minha evolução profissional como
desenhador, como em muitas outras áreas de negócio que foram surgindo
com o desenvolvimento da empresa. O primeiro trabalho em que participei
nesta empresa foi só por si, um curso de desenhador. Estava a iniciar-se o
projecto de uma urbanização e acompanhei o trabalho desde a implantação
no terreno, volumetria, densidade habitacional, definição de espaços
verdes, estacionamentos, arruamentos, regulamento, enfim tudo o que
envolve um projecto desta dimensão. Numa fase seguinte o projecto, prédio
a prédio e todos os pormenores inerentes. Foram muitas as actividades que
desenvolvi para além do trabalho de estirador, como por exemplo:
levantamentos de construções existentes, a implantação de projecto no
terreno e o acompanhamento de projecto em obra. A minha actividade
como desenhador, não se limitava ao desenho de arquitectura, passando
também pelos projectos de águas e esgotos e elaboração de perspectivas
onde se dá uma ideia mais real do projecto.

Como complemento e também para diversificar a actividade, demos


inicio à construção de maquetas. A primeira experiência foi mais uma
ferramenta de trabalho, relacionava-se com o projecto de urbanização já
referido. Tratou-se de uma maqueta simples, que pretendia abordar a
topografia e a inserção volumétrica da construção nessa topografia. Foi uma
maqueta realizada de uma forma clássica, sucessivas camadas de corticite,

21
sendo que cada camada corresponde a uma cota no terreno e acompanha a
sua curva, formando assim o relevo do terreno. Em cima do terreno foram
implantados os volumes correspondentes às edificações, conforme o
projecto. Tínhamos assim a representação em volume do que iria ser a
urbanização construída. A partir daí começámos a realizar maquetas para
diversos projectos, quer nossos, quer de outras empresas e a evoluir nos
métodos de construção. Começámos por maquetas em cartão, passando
para maquetas em acrílico, devido à dimensão de algumas delas. Esse
processo obrigou a empresa a crescer em número de funcionários e em
espaço, passando a incluir uma pequena oficina e algumas máquinas. O
meu papel neste processo era essencialmente, o de traduzir os projectos de
forma que em oficina pudessem ser trabalhados e transformados nas
diversas peças constituintes da maqueta e acompanhar a sua montagem.
As maiores e mais complexas maquetas realizadas por nós, foram as de
alguns Hospitais. Foram realizadas para a empresa Teixeira Duarte, como
complemento das suas propostas para concurso público. Esta actividade
para além da vertente técnica era, essencialmente um exercício de
criatividade e imaginação. A busca de materiais que se adequassem às
necessidades e que pudessem encaixar-se nas diversas escalas das
maquetas era constante. Por exemplo, para representar a telha portuguesa
na cobertura de uma moradia, utilizávamos cartão micro canelado,
posteriormente pintado com o acabamento final.

Mas uma empresa é uma entidade dinâmica, não se chega a um


determinado ponto e se pára. Ela está sempre a exigir-nos mais, criamos
uma infra-estrutura e temos que alimentá-la. Assim para rentabilizar ao
máximo a estrutura até aí criada, iniciou-se um novo ramo de actividade, a
construção de material publicitário. A empresa encomendou um estudo de
mercado e o projecto foi criado de raiz. Iríamos construir todo o tipo de
suporte publicitário: reclamos luminosos, “outdoor’s”, expositores, placas de
informação, etc. Para isso a empresa mudou de novo de instalações,
passamos para um espaço na Quimiparque. Foi um tempo em que dei inicio
a uma série de actividades até então desconhecidas para mim, como:
prospecção de mercado em termos de materiais e técnicas de como fazer
reclamos, como vendedor visitando clientes e apresentando as nossas
soluções, colaborando na execução de orçamentos e cada vez mais como
preparador de trabalho para a oficina, desenhando as diversas partes do
projecto para serem executadas.

Como suporte a toda esta actividade a empresa adquiriu um sistema


informático (signus design), que permitia digitalizar todo o tipo de logótipos
e lettering, ligados a uma plotter de corte de película autocolante de vinil,
que permitia fazer a decoração de reclamos, placas, viaturas, montras, etc.
Tivemos então formação em informática, que era uma novidade para a
maioria, para podermos operar com o dito programa. Paralelamente
tínhamos a funcionar nas mesmas instalações uma pequena serigrafia e a

22
oficina tinha já um considerável parque de máquinas e uma equipa com
mais de vinte colaboradores. Foi tempo de sucesso e grande crescimento,
com clientes como: Texaco, Lucas Automotive, Lância, Richard Ellis e Caixa
Geral de Depósitos, de entre outros.

Entretanto a estabilidade que alcancei com este trabalho permitiu-


me, começar a pensar em comprar a minha própria casa. Dei assim início a
uma nova etapa da minha vida, em que deixei a casa dos meus pais,
tornando-me assim completamente independente, assumindo mais
responsabilidades e compromissos mais sérios. Tanto mais que me lancei
neste objectivo de forma individual. Com a tomada desta decisão iniciei o
moroso e complexo processo, junto das entidades intervenientes, com a
ajuda de uma mediadora imobiliária. Escolhida a casa, este processo inicia-
se com o contrato de promessa de compra e venda, celebrado pelos
intervenientes e reconhecido em cartório notarial. Este contrato estabelece
os termos e as datas, para a realização do negócio, bem como as
penalizações a aplicar se alguma das partes romper o contrato. Se o
comprador não possuir meios próprios (que era o meu caso), segue-se o
pedido de empréstimo hipotecário ao banco. Neste tipo de empréstimo a
casa fica, como o nome indica hipotecada ao banco, quer isto dizer que a
casa é a garantia e que em caso de incumprimento, esta passa a pertencer
ao banco. A análise do banco referente ao pedido de empréstimo baseia-se
especialmente, no histórico bancário do preponente, bem como na sua
capacidade financeira de cumprir o contrato. Ultrapassada mais esta etapa
e com o documento do banco que comprova a concessão do empréstimo,
dirigi-me à Conservatória do Registo Predial, para efectuar o registo
provisório do imóvel. O registo predial efectuado pela conservatória, não é
mais que um cadastro onde constam informações como: quem é o
proprietário, qual a natureza do imóvel e os encargos que sobre ele pesam.
As conservatórias tinham até há pouco tempo, competências a nível do
Conselho ou da Freguesia onde se inseriam, conforme o volume de registos
aí efectuados. A partir de 1 de Janeiro de 2009, passou a poder-se realizar
o registo predial em qualquer serviço de registo, independentemente da
localização geográfica (Decreto-lei nº 116/2008, 4 de Junho). Com o registo
efectuado pude então marcar a escritura, no Cartório Notarial, que é o
derradeiro acto que consuma o negócio e em que estão presentes:
comprador, vendedor, representantes dos bancos e Notário. O Cartório
Notarial ou Notário, formaliza juridicamente a vontade expressa pelas
partes, em negócios que queiram dar forma legal ou autenticar. Embora
seja uma actividade de carácter privado, está sujeita à fiscalização do poder
Judiciário.

Consumados os actos legais chegam os financeiros, temos de pagar a


escritura que comprova a nossa propriedade sobre o imóvel e o imposto de
Sisa na repartição de finanças. Este imposto foi há alguns anos eliminado,
sendo substituído pelo IMT (imposto municipal de transacções). Realizei

23
assim a escritura em 1987 e passei a morar na minha própria casa. Com
esta alteração na minha vida, alcancei o ponto mais alto da minha liberdade
até então. Alcancei o direito ao meu próprio espaço e autonomia, ao mesmo
tempo que assumi responsabilidades a vários níveis. Em primeiro lugar
responsabilidades em relação a compromissos com o banco e a todos os
contratos que celebrei no seguimento da compra da casa (água, luz, gás,
etc.), em segundo lugar a responsabilidade em relação aos outros
condóminos, desde o cumprimento das regras de boa convivência, ao
respeito pelo regulamento do condomínio (não fumar no elevador, manter
limpas as partes comuns do prédio, não incomodar os vizinhos com barulho
excessivo ou fora de horas). E por fim a minha responsabilidade de
contribuir para o bem comum, nomeadamente como administrador do
condomínio, cargo rotativo que desempenhei várias vezes, assumindo a
condução de diversas melhorias nas partes comuns do prédio e
assegurando a manutenção de equipamentos.

Contudo este apartamento era já bastante antigo e passado algum


tempo tive que efectuar alguns melhoramentos. Comecei por derrubar uma
parede para tornar maior a sala e diminuir a área de circulação, que acaba
por ser sempre um desperdício de espaço. Mas quando começamos obras
nunca nos ficamos pelo inicialmente previsto. Aproveitei então e mudei as
canalizações e o pavimento da sala, coloquei torneiras misturadoras, mais
funcionais do que as antigas, através da área e da medida dos mosaicos
calculei a quantidade necessária e fiz eu mesmo a obra. Contratei uma
empresa especializada em caixilharia e dei indicações ao técnico para retirar
todas as janelas, caixilhos e estores de madeira e colocar novos em
alumínio. Coloquei nas janelas vidros duplos, que melhoram o isolamento
térmico e acústico e persianas em PVC, com caixa-de-ar que também
contribuem para melhora o isolamento térmico. O pavimento dos quartos,
em tacos de madeira, foi totalmente recuperado por uma empresa
especializada, que nivelou o chão e aplicou verniz segundo as minhas
instruções.

O problema de mantermos a temperatura em nossas casas


consumindo o mínimo de energia prende-se, sobre tudo com o isolamento
do nosso sistema (a casa). Devemos preocupar-nos não tanto com a forma
como vamos aquecer a nossa casa, mas com os meios para impedir que o
calor se perca através de portas e janelas. Em certas paredes em que
existiam indícios de humidade, apliquei tintas isolantes e anti-fungos que
permitem que essas zonas se mantenham em boas condições por mais
tempo. Desta forma tornei a casa mais acolhedora e energeticamente mais
eficiente. A minha preocupação em não desperdiçar energia, leva-me a não
deixar aparelhos em “stand by”, desligando-os no botão de corte de
energia, não deixar luzes acesas quando não estão a ser necessárias e na
escolha de electrodomésticos de classe “A” de eficiência energética, todas

24
estas medidas traduzem-se em reduções substanciais no consumo de
energia.

Nestes últimos anos a construção tem evoluído bastante, quer a nível


de materiais e técnicas, quer a nível da própria concepção. Por exemplo, a
nível técnico, a casa onde vivo hoje tem paredes exteriores duplas com
caixa-de-ar entre elas, o que permite um muito melhor isolamento. A nível
de concepção e tendo em conta as necessidades e exigências dos nossos
dias, as casas de uma forma geral têm áreas maiores e no meu caso inclui
uma zona comum com um pequeno parque infantil. É de salientar que todos
os acessos são possíveis para quem se desloque de cadeira de rodas.
Existem rampas, tanto na entrada para o pátio como para o prédio e sem as
armadilhas que vemos por vezes onde no final de uma rampa existe um
degrau na soleira da porta de entrada. Todas estas melhorias na construção
proporcionam uma melhor qualidade de vida e incentivam a práticas de
lazer. Esta casa onde vivo actualmente adapta-se exactamente às
necessidades da minha família, contemplando um quarto para cada um e
uma área de trabalho e lazer (escritório).

Planta da minha casa,


executado em 1/3/09.

Mas a minha relação com os equipamentos domésticos, não passa só


pelas preocupações energéticas ou ambientais. Sou apreciador da
tecnologia e gosto de tirar partido, das inúmeras funções de cada
equipamento. Seja na escolha do programa mais adequado da máquina de
lavar roupa, tendo em conta a quantidade e o tipo de roupa a lavar, ou na
programação da televisão. Sintonizo os canais e organizo-os segundo as
nossas preferências, programo parâmetros como, cor, contraste e brilho,
programo o sleep (tempo até desligar automaticamente) e faço consultas
no teletexto.

25
Lazer e educação.

Existe contudo um equipamento que me acompanha principalmente


nos momentos de lazer, de que gosto especialmente: a minha velha
máquina fotográfica, analógica. Bem sei que hoje em dia temos as
máquinas fotográficas digitais, muito mais leves, compactas e fáceis de
usar. Permitem guardar facilmente as fotografias em cartões de memória de
vários tipos (cf, ms, mmc, sd, sm e xd), transferi-las para o PC onde
podemos editá-las e gravar em CD. Estes cartões de memória distinguem-
se basicamente pela sua capacidade de armazenamento de dados e
velocidade de transferência. A razão pela qual existem tantos tipos é que
cada marca desenvolveu o seu próprio sistema. Resumidamente as suas
siglas designam, e são utilizados por: CF-Compact Flash, utilizado por
Canon, Kodak e Nikon; MS-Memory Stick, utilizado pela Sony; MMC-Multi
Media Card, utilizado pela HP, Nokia e Samsung; SD-Secure Digital,
utilizado pela Panasonic e Toshiba; SM-Smart Media, utilizado pela Toshiba;
por fim o XD-Extreme Digital, utilizado pela Olympus e Fujifilme.

Pelo contrário a minha máquina analógica é pesada e algo


complicada (quando comparada com a digital), requer bastante treino e
alguns conhecimentos de fotografia, temos que utilizar o velho filme e o
processo de revelação, que implica recorrer a um laboratório fotográfico. O
suporte mais comum e aquele que costumo utilizar é o papel, mas podemos
também fazer slides.

A minha máquina fotográfica, foto de 08/02/09

Poderia parecer à primeira vista não existir qualquer vantagem na


utilização destas máquinas, mas há (em minha opinião). Em primeiro lugar
há um gozo especial em preparar a fotografia que vamos tirar, podemos
deter-nos em todos os pormenores. Começando pelo filme que vamos usar
mais ou menos sensível, depois conforme o filme escolhido seleccionamos a
velocidade de obturação (velocidade com que o diafragma se abre,
deixando passar a luz). De seguida rodando o anel de focagem, vamos focar
o objecto a fotografar e por fim com a ajuda do fotómetro determinamos a

26
abertura à luz que o diafragma deverá ter. Existe uma relação directa entre
a velocidade de obturação e a abertura do diafragma. Maior velocidade de
obturação permite maior abertura do diafragma e ao contrário, uma baixa
velocidade de obturação exige uma redução na abertura do diafragma. Mas
com estes “velhos” brinquedos tudo é possível e as combinações e
regulações são muitas, dependendo do tipo de fotografia que pretendemos.
Para além disso a qualidade atingida, é bastante superior à que
conseguimos com as máquinas digitais.

De uma forma ou de outra, as fotografias são objectos que nos


acompanham toda a vida. Herdamos fotografias, coleccionamo-las ao longo
da nossa vida, contam a nossa história em imagens. Guardam normalmente
momentos felizes, que passamos em família ou das nossas férias ou de
viagens que fizemos ou ainda de amigos. Têm o poder de nos avivar a
memória e nos fazer reviver momentos agradáveis, de cada vez que as
voltamos a ver.

Eu e Lucas, Rio de Janeiro, Abril de 2008.

Foi em busca de qualidade de vida que mudei do centro da cidade do


Barreiro, para o Conselho da Moita, mais exactamente para a Fonte da
Prata em Alhos Vedros. Troquei assim um ambiente agitado de Cidade por
um mais calmo e ainda fortemente marcado pela agricultura. A casa onde
vivia, ficava junto de uma das mais movimentadas ruas do Barreiro, o ruído
e a poluição provocada pelos carros eram uma constante, para além disso
era uma zona insegura em especial à noite devido à tóxico-dependência,
com assaltos e violência. Outra das razões que me levou a mudar foi a
escassez de parques infantis e zonas verdes. Pelo contrário, em Alhos
Vedros onde vivo agora, é uma zona afastada das principais vias, tem
espaços verdes e respira-se ar puro e tranquilidade. Aqui ainda posso
mostrar ao meu filho prados verdes com animais a pastar e as nossas

27
traseiras estão voltadas para o rio Tejo, onde observamos dezenas de aves
aquáticas na natureza. A desvantagem a pagar por esta tranquilidade é
estar um pouco mais longe de alguns serviços, mas tendo em conta que
estou a 1,5 km da Moita e 4,5 km do Barreiro, vale bem a pena mudar.

Não sendo esta uma zona completamente rural, ainda se


desenvolvem no Conselho, actividades agrícolas com especial destaque para
a agropecuária e as culturas de regadio, que a abundância de água
proporciona. A agricultura biológica está também presente, existindo um
grupo de pequenos produtores, que a Câmara Municipal reuniu
recentemente numa feira, incentivando assim boas práticas ambientais na
agricultura. Com a agricultura biológica não só temos produtos mais
saudáveis, como travamos a contaminação dos ecossistemas com
compostos químicos perigosos. Os ecossistemas podem ser contaminados
através da cadeia alimentar, por exemplo, os herbívoros ingerem ao
alimentar-se produtos químicos utilizados na agricultura, que se vão
armazenar no seu organismo, que por sua vez vão passar para nós ao
alimentarmo-nos deles, ou se for o caso para os seus predadores naturais.

Esta ruralidade do Conselho da Moita, associada à sua tradição, pode


se bem direccionada ser um pólo de desenvolvimento para a região. As suas
festas populares, que sempre incluem eventos tauromáquicos, a feira do
cavalo e a feira do gado, são disso bons exemplos, que têm ainda grande
potencial de desenvolvimento por explorar. Se a essa tradição juntarmos
uma envolvente de que fazem parte, as salinas, os moinhos de maré as
embarcações características do Tejo e toda a história a eles associada
temos, a possibilidade de desenvolver e dinamizar um turismo direccionado
e consequente criação de riqueza e postos de trabalho.

A empresa, Durão & Durão, desenvolveu-se em paralelo com uma


candidatura a fundos comunitários para o desenvolvimento de pequenas e
médias empresas, que supostamente viria dar suporte e consistência ao
crescimento até aí verificado. Contudo esses fundos nunca chegaram,
ficando perdidos numa teia de burocracia que nunca chegou a ser
ultrapassada. Com as grandes variações do nosso pequeno mercado e
devido à pesada infra-estrutura, entretanto criada a empresa foi declinando
até encerrar, fechando assim um capítulo da minha vida de grande
aprendizagem e realização pessoal.

Paralelamente às minhas actividades profissionais, continuei sempre


a tentar concluir a minha formação escolar. Assim após ter iniciado a minha
vida profissional ingressei no ensino nocturno. Trabalhar e estudar não é
fácil, é necessária muita força de vontade para depois de um dia de
trabalho, ter ainda disponibilidade para três ou quatro horas de aulas. Mas
apesar de ter demorado muito mais tempo do que seria necessário,
consegui concluir em 1989, o segundo ano complementar de Mecanotecnia.
Frequentei ainda durante dois anos o 12º ano, mas sem ter concluído

28
qualquer disciplina e desde então não voltei a estudar. Devo dizer que o
modelo de educação em Portugal, em nada favorece o trabalhador
estudante pelo seu carácter pouco flexível, face à evolução da nossa
sociedade. Os horários de trabalho são cada vez mais variados e o trabalho
por turnos é uma realidade a que cada vez mais empresas recorrem. Torna-
se por isso cada vez mais difícil a quem trabalha concluir os estudos, mas
não só, o nosso ensino é pouco motivador e muitas vezes desajustado da
realidade, para os alunos em termos gerais. Penso que a educação em
Portugal só irá mudar, quando mudarmos o modelo institucional, em que o
ministério controla em absoluto tudo o que se relaciona com as escolas. Sou
a favor de que as escolas tenham autonomia financeira, mas penso que
devem ser administradas por um gestor, que é a pessoa habilitada para
essas funções, em conjunto com um conselho directivo para a área
pedagógica. Acho que as escolas devem ter também autonomia na
contratação do seu quadro docente, só assim se introduzirá uma vertente
de continuidade no trabalho dos professores, para além de garantir a sua
estabilidade de emprego. O papel do Ministério da Educação deverá ser na
minha perspectiva, o de supervisionar, definir as estratégias educativas
nacionais e elaborar os currículos. Essas estratégias devem ser definidas no
interesse e tendo em conta as necessidades do país, e não navegarem ao
sabor de ideologias políticas, dando origem a sucessivas reformas das quais
nem chegamos a saber os resultados.

Também durante este período e em termos de desporto e lazer,


iniciei-me no montanhismo. Através do Clube de Campismo do Barreiro, do
qual ainda continuo a ser sócio, frequentei um curso de montanhismo. Este
curso com a duração de cinco fins-de-semana consistia na aprendizagem de
técnicas de escalada em rocha e familiarizarmo-nos com equipamentos de
apoio à actividade, como: cordas, cintos de segurança e todo o material de
progressão em escalada. Para além da actividade física e do aspecto
desportivo, esta actividade coloca os seus praticantes em estreito contacto
com a natureza. Durante esses fins-de-semana, como mais tarde nas
actividades em que participei no grupo de montanha, tínhamos como base o
acampamento, em qualquer deslocação éramos auto-suficientes,
transportando connosco tudo o que iríamos precisar. Uma das nossas
principais preocupações, era recolher todo o lixo que produzíamos com o
objectivo de manter o local tal como o encontrámos. Em locais onde
acampávamos com maior frequência, desenvolvíamos com regularidade
campanhas de recolha de lixo. O contacto intenso com a natureza, o
acampar em lugares isolados, proporciona um excelente e salutar convívio,
um espírito de grupo em que cada um conta realmente com os seus
colegas. Este espírito de grupo e de entre ajuda é especialmente importante
numa actividade como o montanhismo e a escalada, que envolve sempre
algum risco. Devido a esse factor o curso incluía uma breve formação em
primeiros socorros direccionada para a actividade.

29
Ambiente e sustentabilidade.

Foi no seio deste grupo que comecei a ouvir falar de ecologia e


conservação da natureza. Comecei a observar na serra da Arrábida e em
muitos outros locais por onde fui passando, que muitas pessoas não tinham
o menor respeito pela natureza, deixando à sua passagem um rasto de
embalagens vazias e todo o tipo de lixo. Efectivamente o nosso descuido ou
falta de educação ambiental são, muitas vezes determinantes para a
alteração ou mesmo eliminação de determinados habitats naturais. O abate
de árvores, o uso indiscriminado de pesticidas e herbicidas, resíduos
perigosos e lixo mal acondicionados e em locais inapropriados, são
exemplos de como degradamos o ambiente à nossa volta. Se quisermos ter
uma ideia de como o nosso lixo dizima inúmeras espécies, basta pensar por
exemplo, nas redes de pesca abandonadas no mar, que constituem
ratoeiras para golfinhos, tartarugas ou tubarões. Ou um simples saco
plástico que é com frequência, confundido pelas tartarugas com uma das
suas fontes de alimento, as medusas.

Com o intuito de preservar e proteger em termos geológicos, da flora,


da fauna e em termos paisagísticos como testemunho histórico, foi criado
em 1976 o Parque Natural da Arrábida. O Parque Natural da Arrábida está
integrado numa rede nacional de parques naturais, reservas e locais de
interesse, que é gerida pelo ICNB (Instituto da Conservação da Natureza e
Biodiversidade), que por sua vez é tutelada pelo MAOTDR (Ministério do
Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional).
O ICNB é a autoridade nacional para a conservação da natureza e
biodiversidade, cabendo-lhe assegurar a preservação e gestão sustentável
de espécies e habitats naturais. O ICNB tem como objectivo a elaboração e
implementação de planos, programas e acções, assegurando também a
inventariação, monitorização e fiscalização. Curioso é que apesar do
trabalho desenvolvido, pelas citadas instituições, exista no interior do
Parque Natural de Arrábida uma fábrica de cimento e sete pedreiras. Das
sete pedreiras duas delas são exploradas directamente pela Secil, para
abastecer a matéria-prima para o fabrico de cimento e situam-se na área de
Setúbal, as outras cinco situadas na área de Sesimbra e destinam-se a
alimentar a indústria da construção civil. Destas empresas nem a Secil nem
qualquer das outras fornece dados sobre o volume de recursos que extrai
da Serra, estima-se no entanto que em 2006 foram extraídas cerca de 6,3
milhões de toneladas de matérias-primas, 5,0 milhões de toneladas dentro
dos limites do parque. O impacto ambiental destas explorações é fácil de
imaginar, ainda mais que se localizam junto de centros urbanos. Para além
do impacto visual que estas crateras causam, temos ainda que contar com
pó, barulho, grande tráfego de camiões e vibrações causadas pelo uso de
explosivos. Existe ainda a possibilidade de poluição de cursos de água,
proveniente das águas utilizadas na lavagem e crivagem dos granulados.

30
Vista aérea das pedreiras na Serra
da Arrábida

www.ambienteonline.pt, consultado em 24/02/09

Muitas pessoas não têm ainda hoje noção de que no seu dia-a-dia e
com pequenos gestos, podem fazer a diferença. Esse tipo de atitude,
baseado na ideia de que os recursos do nosso planeta são infindáveis, assim
como a sua capacidade de regeneração é infinita, embora posta hoje de
parte por um número crescente de pessoas, deixa-nos a braços com uma
complicada tarefa de reverter um quadro nada animador. Na verdade a
grande maioria das nossas necessidades energéticas, são suprimidas por
fontes de energia findáveis, como são o caso: o petróleo, o carvão, o gás
natural ou mesmo a energia nuclear.

Em relação a estas fontes de energia, a nossa única dúvida será,


quanto tempo irão durar, o que depende directamente do aumento das
nossas necessidades de consumo. Por outro lado as fontes de energia
renováveis, como: solar, eólica, geológica, biomassa e hídrica, para além de
inesgotáveis são, não poluentes.

Em relação à capacidade de regeneração do nosso planeta, sabemos


que embora seja espantosa, não consegue competir com a velocidade com
que consumimos os seus recursos. A Terra não consegue só por si repor as
florestas à velocidade a que as derrubamos, ou eliminar os gases nocivos
que enviamos para a atmosfera, ou ainda eliminar todos os resíduos que
libertamos no mar e nos rios.

Falando da água por exemplo, apenas 3% da existente no nosso


planeta é potável e ainda assim não está distribuída equitativamente. O
consumo crescente proveniente da actividade humana, faz dela o bem mais
precioso. A título de exemplo para produzir um pão são precisos 400 litros
de água, se considerarmos as necessidades desde o trigo que lhe deu
origem e da mesma forma um kg de carne corresponde à utilização de
18000 litros de água. Estes números só por si, fazem-nos pensar na forma

31
como utilizamos este recurso indispensável e o quanto importante é
preservá-lo.

Produzimos demasiado lixo, reciclamos uma percentagem muito


reduzida desse lixo, desperdiçamos muita energia quer em nossas casas,
quer em transportes, quer nos nossos locais de trabalho. Como resultado
dessa atitude, aumentamos desnecessariamente a emissão de gases que
provocam o aumento do efeito de estufa e em consequência levam ao
aumento da temperatura do nosso planeta. Mas o que é então o efeito de
estufa?

O efeito de estufa é um processo natural, que permite ao planeta


Terra ter um clima favorável à existência de vida, regulando a temperatura
e permitindo a formação de grandes massas de água. Este efeito permite a
retenção parcial na atmosfera, do calor que a Terra emite para o espaço,
após absorver a luz solar.

http://geographicae.files.wordpress.com/2007/05/efeitoestufa2.gif0, consultado
em 8/02/09

Os gases que contribuem para o efeito de estufa são vários: o vapor


de água, o dióxido de carbono e o metano, são alguns dos mais importantes
e que são simultaneamente constituintes naturais da atmosfera terrestre.
Por exemplo o vapor de água é responsável por dois terços do efeito de
estufa, mas não deriva da actividade humana. O problema do aquecimento
excessivo do nosso planeta, tem a ver com o desenvolvimento industrial, a
agricultura e a pecuária intensivas, que fizeram aumentar muito os níveis
de dióxido de carbono, metano, óxido de azoto e gases fluorados, na
atmosfera. Como consequência a atmosfera retém maior quantidade de
calor, aumentando o aquecimento global.

32
Gases que provocam efeito de Evolução de emições de CO2
estufa
Emissão relativa em 2004 13400

13200

13000

12800

12600

12400
CO2 - 83,55%
12200

12000
CH4 - 8,89%
11800

11600
N2O - 5,96%
11400

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004


Comp. Fluorados -
CO2 em MT
1,59%

(Anexo 2)

De todos os gases que contribuem para o efeito de estufa, o CO2


destaca-se com uma parcela superior a 80%, para além de que desde os
anos 90 tem mantido uma subida, quase constante. Da mesma forma que
existem diversos tipos de gases que contribuem para o efeito de estufa, as
suas fontes de emissão provêm dos mais variados sectores de actividade,
com a produção de energia para electricidade e aquecimento a liderar a lista
com 37% das emissões.

Emissões globais por sector de actividade

3,57 2,08

Energia

13,54 Transportes
37,45
16,64 Agricultura

Industria
26,72
Residuos

Uso de solventes/outros

(Anexo-2)

Analisando estes dados, torna-se evidente que o caminho a tomar no


sentido de preservar o planeta, passa por substituirmos as fontes de
energia tradicionais, pelas energias não poluentes a que já me referi. As
origens deste problema são de ordem Mundial, todos os países contribuem
para aumentar as emissões. Se por um lado os países mais desenvolvidos
começam a procurar apostar em alternativas energéticas limpas, os países
emergentes, em especial a China e a Índia, para dar resposta às suas
necessidades, utilizam fontes de energia altamente poluentes. Alguns países
conscientes desta realidade, têm vindo a desenvolver politicas energéticas,
de forma a conseguirem tirar o maior rendimento dos seus recursos e
incentivando a pesquisa nesta área. Entre este grupo de países encontra-se
Portugal, que tem nos últimos anos dado especial atenção, a projectos
relacionados com a energia solar e eólica. Têm-se entretanto multiplicado

33
esforços a nível internacional, no combate às alterações climáticas. Para
resolver um problema como este à escala global, são necessários recursos e
mobilização, também a uma escala global. Um exemplo desses esforços é o
Protocolo de Kyoto, que pretende reunir todos os estados mundiais, com o
objectivo de reduzir as emissões de gases que provocam o efeito de estufa.
Este projecto foi lançado pela ONU e tem como meta que até 2015, se
reponham os níveis de emissões de gases que se verificavam em 1990, à
escala global. Outra instituição não governamental, que muito tem feito em
prol da divulgação e alertando para este problema a nível mundial é, o
movimento ambientalista Green Peace. Pena que alguns países (dos que
mais contribuem para o problema) não tenham ainda ratificado este
importante documento. Um facto incontornável é que, cada vez com maior
frequência sentimos as consequências deste problema. O aspecto mais
visível são as alterações climáticas, que influenciam por exemplo a
agricultura mas também os nossos hábitos. Alertados dos perigos pelos
meios de comunicação social, passámos a ter mais cuidado com a exposição
ao sol utilizando protectores e evitando as horas de maior incidência. Hoje
em dia já não é seguro que no Inverno possamos esquiar no local habitual,
ou que esteja bom tempo para a praia no Verão. Assistimos através da
televisão e dos jornais, ao aumento de diversos cataclismos relacionados
com as alterações climáticas, como chuvas torrenciais que provocam cheias,
ou em outros locais secas prolongadas que tornam a paisagem
completamente árida.

Sem sabermos como irá ser o futuro da Terra e a herança que vamos
deixar para as gerações vindouras, há contudo cientistas que viram a sua
atenção para o espaço. Desde que o homem começou a estudar as estrelas
e os planetas, que os equipamentos para esse fim se têm vindo a
desenvolver. Desde os telescópios que a princípio não permitiam vislumbrar
mais que a nossa galáxia, até aos mais potentes e de última geração que
são montados em satélites e gravitam em torno da terra, mantemos o
mesmo propósito de descobrir novos mundos. Hoje com os meios
tecnológicos disponíveis, conseguimos para além de visualizar astros a
distâncias impensáveis, saber através de espectros de luz e radiação a
presença de determinados elementos químicos, ou a presença de água ou
oxigénio. Para tal, e porque os meios envolvidos são astronómicos, vários
países juntam-se para realizarem estudos, conceber equipamentos ou
organizar expedições. Um bom exemplo dessa colaboração é a Agência
Espacial Europeia, que reúne recursos e conhecimentos dos diversos países
que a integram dedicando-os à exploração espacial. Por sua vez a Agência
Espacial Europeia, colabora com agências de outros países no
desenvolvimento de projectos à escala planetária, como por exemplo: a
Estação Espacial Internacional, conhecida pela sigla: ISS (International
Space Station). A ISS é um laboratório espacial, actualmente ainda em
construção e que teve inicio em 1998. Encontra-se numa órbita baixa (entre
350/460 km), o que possibilita ser vista da Terra a olho nu. A colaboração

34
da Agência Europeia para esta estação foi, a construção do módulo
“Columbos”, um laboratório de ciência que foi acoplado à Estação Espacial.
Colaboram para a execução da ISS as seguintes Agências Espaciais:
Canadiana, Europeia, Japonesa, Russa e Norte Americana.

http://pt.wikipedia.org/wiki/directório, consultado em 03/04/09

Os cientistas que colaboram nestes projectos e levam a cabo estas


investigações têm como propósito, para além de compreender o universo e
como ele terá surgido, identificar planetas com características semelhantes
à Terra numa perspectiva de uma futura colonização. Da mesma forma,
continuamos a interrogar-nos sobre se existiram outras formas de vida no
universo, e continuamos a tentar estabelecer contacto através dos
equipamentos que enviamos para o espaço, onde são incluídas mensagens
em várias línguas e códigos na perspectiva de serem interceptadas. A
resposta à pergunta: estaremos sós no universo? Continua sem resposta,
apesar de alguns acontecimentos envoltos em polémicas, como é o caso
Roswell, em que supostamente caiu um OVNI (objecto voador não
identificado) nessa localidade e terão sido capturados extras terrestres
vivos. Ou de uma forma menos mediática se discute se haverá ou já houve
vida em Marte. Estamos aqui a falar de formas de vida microscópica e uma
das razões que sustenta a teoria é o facto de existirem evidências da
presença de água na sua superfície, num passado longínquo de dois biliões
de anos e a existência actual de água nos seus pólos. Suspeita-se ainda que
possa existir água sob a superfície do planeta. Contudo a possibilidade da
existência de formas de vida extra terrestre está sempre em aberto, como
não sabemos sob que forma nos poderá surgir, podemos até conviver com
ela sem sabermos. Muita da tecnologia que utilizamos hoje no nosso dia-a-
dia, já foi ficção algures na história, quem sabe se o futuro da humanidade
não estará no espaço?

35
Estive ligado ao montanhismo, quer na vertente da escalada, quer
na vertente das caminhadas pela serra durante três anos e desse tempo
ficou-me o gosto pelos desportos de ar livre e excelentes recordações de
convívio que esta actividade proporciona. Fiquei também com uma
consciência ambiental que antes não tinha e com a responsabilidade cívica
de aplicar e divulgar boas práticas ambientais. Mesmo no nosso quotidiano
urbano, há muita coisa que podemos fazer para dar o nosso contributo a
esta causa. Por exemplo: a reciclagem, a utilização de transportes públicos
ou, a troca de lâmpadas convencionais por lâmpadas economizadoras de
energia, a utilização de contadores bi-horários, são contributos simples para
um melhor ambiente, que aplico já há algum tempo em minha casa. Por
exemplo a utilização de lâmpadas economizadoras, reduz o consumo de
energia em iluminação em cerca de 80%. Esta redução drástica no consumo
só é possível devido ao diferente modo de funcionamento das mesmas. A
tradicional lâmpada incandescente produz luz, quando um fino filamento de
tungsténio é percorrido por uma corrente eléctrica, levando ao seu
aquecimento até à incandescência. O filamento aquece a temperaturas
superiores a 2000 ºC e é aí que reside a sua ineficiência, pois uma grande
parte da energia utilizada é desperdiçada sob a forma de calor. Pelo
contrário as lâmpadas economizadoras funcionam, segundo o mesmo
sistema das normais lâmpadas fluorescentes. Ou seja: dentro de um tubo
de descarga existe um gás, normalmente vapor de mercúrio, que ao ser
percorrido por uma corrente eléctrica se torna fluorescente. A sua economia
tem a ver com o facto de que praticamente não liberta calor, aproveitando
assim muito melhor a energia.

http://zmramos.110mb.com/Blog/actualidade.php

http://range-o-dente.blogspot.com, consultado em 14/02/09

A comparação do seu rendimento em termos de consumo


durabilidade e economia pode, ser verificado através da seguinte tabela.

36
http://lampadas.com.pt, consultado em 14/02/09

Em relação ao contador bi-horário, permite-me reduzir na factura de


energia, porque ao utilizar os electrodomésticos que mais consomem em
horas de vazio (horas de baixo consumo), benefício de uma tarifa mais
económica, contribuindo assim para racionalizar o consumo de energia.
Também no sentido de racionalizar o consumo energético e poupar o
ambiente, gostaria que o meu próximo carro fosse um híbrido. O que me
permitiria utilizar como alternativa ao combustível que uso normalmente, a
gasolina, usar sobretudo a energia eléctrica, com vantagens económicas e
ambientais.

Mudança profissional: a Autoeuropa.

A nível profissional, o encerramento da Durão & Durão, colocou-me


no desemprego. Comecei então a dar os passos do costume nestas
situações, a inscrição no centro de emprego, responder a anúncios de jornal
e a utilização dos meus conhecimentos pessoais. Esta busca prolongou-se
por algum tempo sem resultados e foi então que, já em desespero, me
ocorreu uma ideia daquelas tão óbvias que nos interrogamos: como é que
ainda não me tinha lembrado isto? Fiz uma carta de apresentação, juntei o
meu Curriculum Vitae e comecei a enviar cartas para gabinetes de
arquitectura, empresas de engenharia e empresas de construção. Não
esperei muito tempo. Após algumas entrevistas, comecei a trabalhar num
gabinete de arquitectura, no Barreiro perto de casa.

Não queria deixar de referir, a grande lição de vida que retirei destes
acontecimentos. Ao contrário de ficar à espera que aparecesse nos jornais,
aquele emprego que eu queria, fui eu oferecer o meu trabalho às empresas
que poderiam precisar dele. Estou convencido que esta mudança de atitude
foi decisiva, para ter encontrado trabalho na minha área mais rapidamente.

37
Aprendi a não me resignar e a procurar novas abordagens a cada problema
com que me deparo.

Nesta empresa voltei ao primeiro degrau da minha carreira. Neste


gabinete, para além do arquitecto, trabalhavam comigo mais dois
desenhadores, o que lhe conferia um ambiente quase familiar para aquilo
que eu estava habituado na minha antiga empresa. A actividade deste
gabinete era exclusivamente, os projectos de arquitectura, assim sendo o
meu trabalho foi principalmente desenhar ao estirador. Tinha a vantagem
de estar perto de casa, não tendo de utilizar transportes, nem tendo de ir
almoçar ao restaurante. Tinha a desvantagem de não ter vínculo com a
empresa (estava colectado nas finanças como independente e passava
recibos), para além de o salário ser baixo e ainda ter que pagar na íntegra
os meus impostos e contribuições. Por estas razões permaneci nesta
empresa pouco tempo, pois embora estivesse já a trabalhar, não estava
satisfeito e não deixei de procurar novas oportunidades.

E essas novas oportunidades surgiram, quando tomei conhecimento


de que dois dos maiores construtores mundiais, do ramo automóvel, se
tinham unido para construir em Portugal um novo carro e que para o efeito
estavam a construir uma fábrica em Palmela. A Ford e a Volkswagen davam
assim origem à Autoeuropa. Inscrevi-me de seguida sem hesitar e passado
pouco tempo fui chamado para prestar as primeiras provas. Dei assim inicio
a um processo ainda longo e bastante exigente. Primeiro uma entrevista,
depois testes psicotécnicos e finalmente exames médicos. O resultado foi
que passei nos testes e fui seleccionado, entrei para a Autoeuropa em
Março de 1995 e ai permaneço até hoje, é portanto desta empresa e do
meu percurso ao longo destes anos que vos vou falar de seguida.

A Autoeuropa (AE) é pela sua dimensão e também pela área de


negócio a que se dedica, uma empresa com uma estrutura bastante
complexa. Vou de seguida tentar dar-vos uma ideia geral dos vários
sectores que a compõem e do seu organograma. A AE é constituída por
quatro grandes áreas.

A área de prensas que faz a estampagem dos diversos painéis, que


constituem os vários modelos de carros produzidos, por exemplo: portas,
capot, guarda-lamas, tejadilho, são centenas de peças das mais simples às
mais complexas e que vão permitir construir, tal como um “puzzle”, a
carroçaria. Desta área destacam-se as enormes prensas, equipamentos de
indústria pesada, com uma surpreendente capacidade de produção.

A área de carroçarias recebe da área de prensas as diversas peças


estampadas e vai juntá-las através de vários processos de soldadura,
começando assim a dar forma ao que irá ser o carro. Aqui o que mais nos
desperta a atenção é sem dúvida os inúmeros robôs de soldadura,

38
máquinas que operam com grande velocidade e precisão, enormes braços
mecânicos que parecem animados de vontade própria.

De seguida passamos à área da pintura, aqui chegam as carroçarias


em chapa a brilhar e começam a ser preparadas para serem pintadas. As
carroçarias são mergulhadas em grandes tanques em que sucessivamente a
chapa é desengordurada e tratada para receber a tinta. Este processo
termina com a secagem em estufas. Desta área destaca-se o ambiente
completamente artificial. Humidade, temperatura e limpeza, são aspectos
fundamentais para evitar contaminação na pintura.

Por fim as carroçarias já com a cor definitiva que o carro irá ter,
entram na nave da montagem final e são por assim dizer “vestidas”. Desde
o chassis (motor e toda a parte mecânica de transmissão), até todos os
equipamentos auxiliares de segurança e de conforto (vidros, bancos, luzes,
cockpit, rodas, etc.).

É nesta última área que trabalho, embora contacte diariamente no


desempenho das minhas funções, com os outros departamentos, reflexo do
trabalho em equipa e da filosofia de que um departamento é cliente do que
o precede e fornecedor do seguinte.

Área da
Área de Área de Área de
montagem
prensas carroçarias pintura
final

Na Autoeuropa, como em todo o mundo industrializado e em todos os


sectores de actividade, os processos de optimização são constantes,
pretendendo-se sempre alcançar a maior produtividade. Para isso as
diversas áreas recorrem cada vez mais a automatização e robotização nas
linhas de produção. O que permite processos de fabrico mais rápidos, mais
fiáveis e mais económicos. Tomemos como exemplo a inserção do cockpit
no carro. Antes de ser automatizado este processo implicava três
operadores e um tempo de ciclo de 3 minutos. Hoje este mesmo processo é
feito por apenas um operador num tempo de ciclo de 2,2 minutos. Mas os
exemplos são inúmeros, por exemplo a indústria farmacêutica e o processo
de produção de comprimidos, que passou de um método completamente
manual, para linhas de produção em que mistura, prensagem e embalagem

39
se fazem praticamente sem intervenção de mão-de-obra, com os
consequentes benefícios de produzir mais em menos tempo. Se juntarmos a
isto o facto de que um robot não recebe salário, não fica doente, não faz
greve ou qualquer tipo de exigência e trabalha mais tempo e mais
depressa, percebemos a grande vantagem da automação. A competitividade
de uma empresa reflecte-se assim finalmente no binómio, qualidade/preço,
com que consegue chegar ao mercado em função dos processos que inclui
na sua produção. O aspecto perverso da utilização massiva de
automatismos e robots, é que cada vez são precisas menos pessoas para
fabricar um carro e consequentemente diminuem os postos de trabalho
disponíveis.

Superintendente
Turno A

Especialista
Zona F

Chefe de equipa Chefe de equipa Chefe de equipa


F1 (Mário Garcia) F2 F3

Operadores de
linhaOperadores
de linha

(Anexo – 3)

Organograma da Autoeuropa: Pretendo representar neste


organograma a hierarquia de uma forma sintética, uma vez que ela é na
realidade, bastante mais complexa. Em cada um dos níveis existe ainda
uma escala, que tem a ver com desempenho e antiguidade e que se reflecte
sobretudo a nível salarial. Só a título de exemplo nas funções de produção,
do operador ao chefe de equipa, existem três bandas constituídas por dez
níveis salariais: banda 1, nível 1 a 4; banda 2, nível 5 e 6; banda 3, nível 7
a 10. Para além das questões hierárquicas e salariais o modelo
organizacional da AE, tem como célula base a unidade reguladora de
qualidade, que é constituída por um pequeno grupo de operadores liderado
pelo team leader. A tendência é que estes grupos venham a ser cada vez
mais pequenos, segundo os modelos postos em prática pelos grandes
fabricantes automóveis mundiais. Pretende-se com esta estratégia
acompanhar mais de perto os processos, para abreviar os tempos de
resposta a problemas e promover de forma mais eficaz o trabalho em

40
equipa, a melhoria continua e o trabalho por objectivos. Outro aspecto da
maior importância, e que está na ordem do dia, é a polivalência e
flexibilidade como forma de aumentar a produtividade. Este modelo
organizacional pretende melhorar o desempenho profissional dos
trabalhadores, quer em qualidade quer em produtividade. Os antigos
modelos organizacionais com linhas hierárquicas muito extensas, têm
grande dificuldade em fazer passar de forma clara e objectiva a informação
para os operadores de produção. Por outro lado as equipas grandes são
mais difíceis de gerir e bem mais complicadas no que diz respeito à
implementação de novos métodos e tecnologias. Este conjunto de
condicionalismos leva a deficientes desempenhos profissionais e
consequentemente a baixa produtividade.

Queria aqui salientar a grande diferença, quer salarial quer


contributiva, que senti ao entrar para a Autoeuropa. Como já referi na
última empresa em que trabalhei antes de entrar na AE, passava recibos
verdes o significava ter de pagar todas as minhas contribuições e impostos,
não tendo subsídio de férias ou de Natal. Na verdade como funcionário por
conta de outrem, desconto 15% para o IRS e 11% para a Segurança Social,
estando colectado nas finanças como independente e passando recibos
verdes, desconto no mínimo 25,4% para a Segurança Social e depois de
entregar a declaração de IRS mais 20% de imposto. Mas a minha situação,
como uma grande maioria dos que passam recibos verdes, é que não somos
trabalhadores independentes, somos antes aquilo a que se chama falsos
recibos verdes. Estamos num local de trabalho, cumprimos um horário de
trabalho, respondemos perante uma hierarquia e temos um salário. Assim
sendo ficamos sujeitos a todas as obrigações de um contratado, mas não
possuímos quaisquer regalias ou vinculo à empresa.

Quando entrei para a AE, antes de começar a trabalhar na linha de


montagem, estive em formação cerca de dois meses. Essa formação inicial
visou preparar-nos, para o que nos seria exigido em termos de qualidade e
a forma de atingir esse objectivo através de algumas ferramentas básicas.
Foi dada grande ênfase ao trabalho em equipa em toda esta formação, mas
foram também abordados temas como: Ferramentas básicas da qualidade,
ISSO 9000, Melhoria continua, Ambiente, segurança e combate a incêndios.

O primeiro dia na linha de montagem foi ainda de adaptação, recebi


as fardas e o equipamento de segurança pessoal. Em termos de Higiene e
Segurança do Trabalho a AE é muito exigente, ninguém pode estar no posto
de trabalho sem sapatos de segurança, óculos de protecção e luvas (hoje
em dia no desempenho das minhas funções, tenho que zelar pelo
cumprimento destas regras de segurança, para tal recebi formação em
Higiene e Segurança no Trabalho). Depois foi-me apresentada a linha onde
iria trabalhar e as diversas operações aí realizadas. Ainda em termos de
segurança, aprendi a sinalização colocada ao longo da linha e no pavimento

41
e como é importante respeitá-la, num local repleto de equipamentos
industriais e onde circulam veículos como empilhadores.

Após esta fase começou então o trabalho na linha de montagem, que


desde logo se mostrou muito exigente, não só a nível físico como de
conhecimento do carro, das suas várias versões e das ferramentas e
equipamentos. A nível físico é um trabalho de grande intensidade, a
cadência em linha é muito rápida e os movimentos repetitivos levam a um
grande desgaste. Esta fase inicial foi muito difícil para mim, habituado que
estava a passar o dia sentado ao estirador. Tinha dores musculares e
cheguei a pensar em desistir. Esta fase de adaptação era fatal para alguns
colegas, em cada grupo havia sempre uma percentagem que não aguentava
e desistia. Consegui passar essa fase e recuperar fisicamente, embora hoje
em dia passados quinze anos, comece a sentir sequelas que penso terem
tido origem nesses primeiros tempos. Mas para alguns colegas não foi tão
fácil. Ao longo dos anos vão sempre surgindo mais casos de tendinites,
hérnia discal e outros problemas físicos relacionados com este tipo trabalho.
Muito importante também, embora menos expressivo, ou porque as
pessoas se queixam menos ou porque os efeitos na maioria das vezes são a
longo prazo, são os problemas psicológicos causados pelo grande stress,
inerente a esta actividade.

Para termos uma ideia de como este problema nos afecta, em


Portugal mais de 25 mil trabalhadores contraíram doenças crónicas, só na
última década, isto segundo o inspector-geral do trabalho, Paulo Morgado
de Carvalho. As chamadas “LER”, Lesões Provocadas por esforços
Repetitivos ou também chamadas “DORT”, Doenças Osteomusculares
Relacionadas com o Trabalho, são causadas por esforços repetitivos, tensão
muscular e movimentos ou posturas forçadas. É um facto que as doenças
profissionais estão a aumentar, as musculares e esqueléticas como a
paralisia e a tendinite, estão no topo da lista, seguidas da surdez originada
pelo ruído, em seguida surgem as doenças respiratórias causadas pela
inalação de poeiras e agentes químicos.

As principais causas das LER/DORT podem dividir-se em:


ergonómicas e organizacionais. As ergonómicas, como já referi, prendem-se
basicamente com os movimentos repetitivos com aplicação de força, choque
mecânico, vibrações e posições desadequadas. As organizacionais têm
origem em horas e ritmo de trabalho excessivo, pausas e descanso
insuficiente e insegurança ou insatisfação laboral. As patologias mais
comuns associadas a estes problemas são por isso de ordem músculo-
esqueléticos, afectando com mais frequência os membros superiores. As
tendinites e as tenossinovites são as mais frequentes. O principal sintoma é
a dor e quase sempre é desencadeada ou agravada pelo movimento. As
pessoas afectadas pelas LER/DORT, para além de dor queixam-se de rigidez
e limitação de movimentos.

42
Diversos estudos têm apontado no sentido de que o risco de desenvolver
este tipo de doenças é maior para a mulher do que para o homem e da
mesma forma os indivíduos já portadores de patologias, tais como:
diabetes, artrite reumatóide, gota, hipótiroidismo, colagenoses vasculares,
tuberculose e infecções por fungos, são também mais susceptíveis a
contraírem as LER/DORT.

Não menos importante em termos de doença profissional é o stress,


que segundo o Observatório Europeu dos Riscos, irá ser dentro de 10 anos
a principal causa de doença laboral. As causas atribuídas a este problema
são: as mudanças tecnológicas, a precarização de contratos e a
intensificação de ritmos de trabalho. Segundo dados de 2005, afectava já
22% dos trabalhadores da União Europeia.

Esta é uma imagem que encontrei enquanto pesquisava sobre o


assunto e decidi utilizar, porque diz tudo o que eu poderia dizer sobre o
tema e nome é: “Linha de Montagem”.

http://niilismo.net/galeria
, consultado em 14/02/09

Pela parte que me toca e no desempenho da minha actual função,


tento minimizar os efeitos da repetição de movimentos e das posições de
trabalho mais exigentes, implementando na minha equipa um plano de
rotação o mais abrangente possível. A AE por seu lado tem vindo ao longo
dos anos, a desenvolver esforços em diversas áreas, para combater este
problema. Nesse sentido, para além de exames periódicos e consulta de
medicina do trabalho, foi criada uma consulta de ortopedia e um
departamento de fisioterapia no posto médico da AE. Paralelamente existe
um técnico de ergonomia, que trabalha conjuntamente com o posto médico
e os responsáveis das áreas, na análise e melhoria dos postos de trabalho e
na adequação de tarefas para aqueles colaboradores que já têm lesões.
Para além de todas estas medidas preventivas e correctivas, existem os

43
seguros de acidentes de trabalho que cobrem tratamentos, intervenções
cirúrgicas e complementos por invalidez consoante o grau de incapacidade
do trabalhador.

Como já referi estou na AE há quinze anos, dos quais passei os


primeiros três como operador na linha de montagem. Passei depois a
reparador e nos últimos dez anos ocupo a função de team leader (chefe de
equipa). Cada team leader (TL) é responsável por um grupo de dez a quinze
operadores, a que se chama URQ (unidade reguladora de qualidade). O TL é
o responsável por tudo o que diz respeito à sua equipa. Organiza a rotação
na equipa, gere o absentismo, responde pela qualidade, tem verbas
semanais que tem que gerir para a aquisição de ferramentas, de
consumíveis (luvas, fitas de impressora, por exemplo), de peças
danificadas, no fundo gere uma pequena parte da empresa. Todos estes
itens têm objectivos estabelecidos no inicio de cada ano, que o TL deve
fazer cumprir. A minha avaliação anual depende destes objectivos serem ou
não cumpridos.

A gestão do absentismo é feita através de um programa específico, o


SAP para o qual tive formação. Para operar com este programa sou
obrigado a ter alguns conhecimentos de legislação laboral, da qual também
tive formação na AE. Para fazer o correcto registo e para poder esclarecer
os elementos da minha equipa, devo saber quantos dias tem uma
colaboradora de licença de maternidade, ou quantas horas tem por dia para
amamentação ou aleitação, que os pais para além da licença de
paternidade, podem também gozar licença parental e que uma licença de
nojo, varia consoante se trate de um parente directo ou indirecto. Os
direitos laborais que refiro estão consignados, no Código do Trabalho e
passo a citar os artigos que com eles se relacionam: Artigo 35º, Licença de
maternidade; Artigo 39º, Amamentação e aleitação; Artigo 43º, Licença
parental; Artigo 36º, Licença por paternidade; Artigo 227º, Falta por motivo
de nojo. Destaco aqui a importância dos direitos laborais, para a melhoria
das condições sociais. De entre estes direitos, os atrás referidos e que se
relacionam com a maternidade e paternidade, são da maior relevância, quer
para trabalhadores, quer para as suas famílias. O direito a acompanhar os
filhos nos primeiros momentos de vida, a assistência a família, ou o
acompanhamento escolar, são um bom exemplo de como apesar de
“roubarmos” horas de trabalho normal às empresas, esse suposto prejuízo
pode ser convertido num investimento do país na educação das futuras
gerações. Fui pai pouco tempo depois de ser implementada a licença
parental e foi muito importante ter usufruído desse direito. O facto de ter
acompanhado durante mais tempo a minha mulher e o meu filho nesse
momento, foi extremamente importante para a nossa adaptação a uma
nova realidade e para que ele tivesse desde logo os melhores cuidados por
parte dos pais.

44
Também no âmbito das minhas funções, participo na decisão se um
colaborador deve terminar ou prolongar o seu contrato e disciplinarmente
em conjunto com o meu superior hierárquico, posso dar origem a uma
repreensão verbal por escrito, ou um processo disciplinar. Estas são no
entanto, situações muito raras, em mais de dez anos de TL, nunca tive de
instaurar nenhum processo disciplinar. Não quero dizer que não existam
conflitos mas, são resolvidos normalmente em particular com o operador
ou, no seio da equipa, se for esse o caso. Existe toda uma série de
procedimentos com vista a evitar a radicalização de posições que podem
levar às sanções disciplinares. Estes procedimentos passam por reunir as
partes em conflito, ouvindo atenta e imparcialmente as diferentes versões
para que, seja possível entre todos negociar a solução do problema. Uma
das formas de evitar que situações se repitam, é a utilização de um
formulário de aconselhamento, que é assinado por ambas as partes e
arquivado (anexo 4). Outra forma de gestão de conflitos é, a reunião de
equipa, que acontece duas vezes por semana. Nestas reuniões são
discutidos todos os problemas referentes à equipa, desde situações de
qualidade, de organização ou mesmo de conflitos. O principal objectivo
destas reuniões é passar informação a toda a equipa, para que todos
possam estar ao mesmo nível. Procuro gerir estas reuniões de forma a
incentivar a participação da equipa, para tal uso um nível de linguagem
diferente do que utilizaria numa apresentação para os meus chefes tento
ser claro e objectivo para que, a mensagem chegue a todos com uma
linguagem fácil. Penso que consigo atingir esse objectivo, tanto assim que
muitas das soluções para alterar processos ou melhorar postos de trabalho,
são sugeridas e implementadas pelos operadores. Neste sentido existem
também processos oficiais para incentivar a participação com ideias de
melhoria, quer individualmente, quer através de “work shop”, onde
mediante o cálculo de poupança proporcionado pela ideia, se premeia
monetariamente o operador.

Ligada à disciplina está a postura ética e sendo o TL a primeira chefia


directa, é de grande importância a sua conduta. Acredito que um dos
melhores métodos de formação é o exemplo, como tal a minha postura em
relação à empresa e à minha equipa é um dos pontos chaves da minha
liderança. A AE tem nos seus regulamentos várias disposições que
pretendem combater a corrupção e conflito de interesses como por
exemplo: Gabinete anti-corrupção (Ombudsman), a nível de toda a
Volkswagen e que deu origem à instrução para evitar conflito de interesses
e corrupção, regulamento para a utilização de sistemas informáticos,
regulamento para a recolha e transmissão de imagem e regulamento
interno de alcoolemia e drogas (anexo 5). É para mim deontologicamente
inconcebível, por exemplo, sendo trabalhador da Volkswagen ir prestar
serviço a outra empresa do ramo. Como é para mim inconcebível, em
qualquer empresa a utilização de meios informáticos ou outros, para
proveito próprio, ou a recolha de imagens classificadas para divulgação

45
pública. Porque é contra as normas, mas também porque é ética e
deontologicamente incorrecto, não me posso permitir a mim nem a
qualquer colaborador apresentar-se ao trabalho, sob o efeito de álcool ou
drogas. Todos estes preceitos são da nossa responsabilidade pessoal,
enquanto indivíduos, passando para a esfera da responsabilidade
profissional, quando integrados numa organização. Aceitamos à partida as
normas e comprometemo-nos em cumpri-las.

Ao longo destes anos tenho com frequência mudado de zona e de


equipa, pois essa rotação faz parte da política da AE. Esta rotação obriga a
uma permanente aprendizagem e adaptação: nova chefia, nova equipa de
operadores, novos processos de montagem e novos equipamentos. Por
outro lado proporcionou-me um conhecimento generalizado da Montagem
Final.

Hoje em dia a minha rotina diária num dia de trabalho, começa bem
cedo (no turno da manhã). Levanto-me às 5.20, faço a minha higiene
pessoal, tomo o pequeno-almoço e parto para a paragem do autocarro. A
AE tem transporte para os colaboradores e eu faço questão de usá-lo. Não
só estou a poupar o meu carro e combustível, como estou a dar mais um
pequeno contributo para a melhoria do ambiente. Chegado à AE a primeira
coisa que faço é ligar o computador e abrir o Outlook. Verifico se tenho
mensagens, verifico os relatórios de qualidade do dia anterior, respondo a
e-mails e verifico a minha agenda a fim de programar o meu dia. O restante
do meu dia é passado entre a linha de montagem e os diversos pontos de
inspecção, onde verifico se existe algum problema com as peças que monto
na minha URQ. Ao longo do dia tenho com frequência de contactar com
outros departamentos, se tenho problemas com equipamentos contacto
com a manutenção, contacto com as carroçarias ou com a pintura se
detecto algum problema dessas áreas, ou a qualidade de peças se for esse
o caso. Para além de encaminhar os problemas que vão surgindo, existem
alguns para os quais não temos resposta imediata e é aí também que se
insere o trabalho do TL. Estas situações requerem um trabalho rigoroso de
análise, em primeiro lugar há que perceber o que não está bem e
normalmente quando se chega à causa raiz temos o problema resolvido. O
processo de investigação passa por medições, comparações e sobretudo
usando o método de tentativa e erro. Por tentativas consecutivas vamos
apurando, se o problema está no carro ou na peça, se está numa peça ou
em todas e por fim de que forma se pode minimizar o problema, elaborando
um plano de acções de contenção. Problemas mais complexos por vezes
requerem para a sua resolução, equipas multidisciplinares que são
constituídas especificamente para esse fim. Ao longo do tempo que estou
na AE, tenho participado em inúmeras equipas deste género, representando
a produção. Outros departamentos que normalmente integram estas
equipas são: engenharia de processo, engenharia de produto,
departamento de medições, qualidade e “pilotplant” (fábrica piloto) que

46
normalmente lidera este tipo de investigações. Nestes “workshops”, são
utilizadas as ferramentas de qualidade apropriadas para o objectivo,
podendo passar pelos gráficos de resolução de problemas, como os
“paretos” ou “espinha de peixe”, até ao “brainstorm”. As reuniões em que
as diversas áreas discutem sobre um problema, com o objectivo de atribuir
responsabilidade de uma delas sobre esse problema, são normalmente
intensas gerando grande controvérsia. A minha participação nestas reuniões
baseia-se na assertividade, procuro descrever os problemas ou apontar
hipóteses de solução de uma forma simples e objectiva. É fácil em
contextos de grande controvérsia, os intervenientes dispersarem-se do
objectivo com discussões paralelas ou disputas pessoais, daí a importância
do moderador na liderança da reunião ou workshop, no sentido de focar os
participantes de uma forma assertiva no objectivo.

Comunicação e tecnologia.

A comunicação na AE, como numa empresa com tecnologia de ponta


em qualquer parte do mundo, faz-se através de diferentes canais,
consoante a urgência, o conteúdo ou o destinatário. O contacto rápido para
pedir ajuda ou avisar de algum problema é feito via rádio. Este tipo de
contacto exige clareza e objectividade, é normal usarmos linguagem
radiotelefónica para não haver dúvidas no que queremos dizer, por
exemplo: alfa para A, bravo para B. Cada área trabalha numa frequência
(canal) e existe um canal de emergência (bombeiros), isso obriga-me a
conhecer os diversos canais e mudar de frequência de cada vez que
contacto outra área. Para conhecer as diversas funcionalidades do rádio e
operar com ele, recorro ao manual de instruções. Em caso de avaria
contacto o departamento de electrónica, relatando a deficiência encontrada
no aparelho. Quando o conteúdo da comunicação é mais extenso passamos
a utilizar o telefone, evitando assim termos o canal rádio ocupado por muito
tempo. Quando quero fazer a minha mensagem chegar a vários
interlocutores ao mesmo tempo ou quero juntar-lhe meios visuais de
informação (fotos, gráficos, tabelas), uso o correio electrónico, vulgarmente
chamado e-mail. Esta forma de comunicação traz-me diversas vantagens
por exemplo, se quiser posso saber se as pessoas para quem enviei a
mensagem a leram e posso sempre provar que efectuei o contacto
arquivando o e-mail enviado. Para além do Outlook, aplicação que uso para
enviar e receber e-mail, uso ainda outras aplicações como por exemplo:
Excel, para executar gráficos e tabelas; PowerPoint, para elaborar
apresentações e o Word como processador de texto. Estas ferramentas são
extremamente úteis e funcionais, permitindo enviar ou partilhar trabalhos
utilizando o e-mail, gravar em CD ou pen drive (dispositivo de
armazenamento de dados com ligação USB) e ainda alterar, copiar ou
imprimir com extrema facilidade. As desvantagens desta tecnologia são por

47
exemplo, uma falha de sistema ou como já me aconteceu, ter uma
apresentação em PowerPoint gravada numa versão que o equipamento
disponível não consegue ler. Os meus conhecimentos de informática são
restritos à óptica do utilizador, no entanto identifico algumas linguagens de
programação, como: Fortran, Cobol, Visual Basic, Pascal ou Java.

Para além das formas de comunicação já referidas são utilizados, um


sem número de documentos no dia-a-dia da AE. Desde comunicados
internos (da administração ou da comissão de trabalhadores), a relatórios
de qualidade, matrizes de acompanhamento de defeitos, mapas de férias e
WPSS (workstation production specification sheet). Relativamente à WPSS,
ou em Português, folha de especificação do posto de trabalho, queria ainda
acrescentar que se trata de um documento, onde são descritas passo a
passo as operações efectuadas por um técnico de produção, bem como os
equipamentos que utiliza e meios de segurança obrigatórios. A informação
para o preenchimento deste documento resulta, da tradução de um outro
em Inglês (work place resume) e é da minha responsabilidade, enquanto TL
a sua elaboração e actualização (Anexo-6).

É muito interessante se fizermos uma retrospectiva, recuando no


tempo alguns anos e pensarmos como eram as comunicações numa mesma
fábrica ou mesmo no nosso dia-a-dia. Vejamos, em princípio tínhamos que
comunicar presencialmente de forma oral ou por escrito, o que condicionava
em termos de tempo, esperavam-se semanas ou meses para obter uma
resposta. A invenção de Graham Bell, o telefone veio revolucionar a
comunicação à distância. Passamos a poder falar em tempo real, a longas
distâncias, ainda assim não sabíamos quando a pessoa a quem queríamos
falar estava perto do aparelho para atender. Com a invenção das ondas de
rádio surgiram para além da velha telefonia o rádio que nos permite
comunicar em tempo real e chamar o interlocutor na outra extremidade do
canal. Dando um passo atrás e pegando de novo no telefone, hoje existem
de todas as formas e feitios, mas o mais importante é que são portáteis.
Podemos levá-los connosco para qualquer lado e assim estamos sempre
contactáveis, o que proporciona um tempo de resposta a qualquer
solicitação ou tomada de decisão imediata. Para além de estarmos
permanentemente contactáveis, o telemóvel possui outro tipo de
funcionalidades, por exemplo a agenda, onde programo a minha semana,
coloco lembretes de aniversários ou compromissos importantes e através da
ligação à internet, permite-me saber previsões do tempo ou o trânsito nas
principais vias. Permite-me também conduzir em segurança, uma vez que
possui um equipamento “bluetooth”, para utilização de um auricular sem
fios enquanto conduzo. A incorporação de GPS nos telefones móveis,
permite-nos seguir um percurso que não conhecemos sem nos enganarmos
e permite também a uma empresa saber onde estão os seus distribuidores

48
a qualquer hora. É claro que um equipamento que comporta todas estas
funções e equipamentos periféricos, não dispensa uma atenta leitura do
manual de instruções, que foi exactamente o que fiz para aprender a operar
com o meu telemóvel (Nokia 6021). Falando de manuais de instruções,
importa aqui referir um importante passo nas leis de defesa do consumidor,
uma vez que passou a ser obrigatório que esses manuais venham escritos
em língua Portuguesa.

O telemóvel por outro lado transformou-se hoje num objecto, que


pretende simbolizar um status social, quer pelo seu design, quer pelas
funcionalidades que incorpora ou pela sua dimensão. O aspecto negativo da
sua utilização massiva, é que perdemos a nossa privacidade por um lado, e
por outro estamos cada vez mais vigiados quer a nível profissional quer
pessoal. O telemóvel permite-nos vigiar a nossa casa, o carro, os nossos
filhos, os funcionários mas da mesma forma estamos nós próprios a ser
vigiados.

Por último a internet abriu as portas do mundo ao mundo, a sigla


www (World Wide Web), que significa: rede de alcance mundial é hoje
usada de forma alargada em todo o mundo. Permite-nos não só comunicar
com todo o mundo enviando e recebendo mensagens, como participar em
fóruns de discussão, tudo isto em tempo real, a nível profissional ou
particular. Permite-nos ainda “baixar” no nosso computador qualquer tipo
de informação disponível na rede (download), ou enviar para a rede as
informações que desejarmos (upload). Para tanto basta-nos termos o
equipamento necessário, o computador (hardware), com o software
(programas) e a ligação à rede que é feita através do modem, que é mais
um equipamento de hardware. Hoje em dia estes equipamentos que nos
permitem mantermo-nos em contacto permanente, uns com os outros,
entrou de tal forma no nosso dia-a-dia que originaram formas de escrita
específicas (caso das mensagens SMS ou chats: vc=você; lol=rir;
bj=beijos). Por outro lado introduziram uma serie de palavras estrangeiras,
na nossa linguagem diária como por exemplo: hardware, software,
download, upload, etc.

A generalização do uso da internet veio também trazer alterações na


forma como realizo agora determinadas operações. Por exemplo, é muito
raro deslocar-me ao Banco uma vez que trato problemas e efectuo todas as
operações via “net”, já há anos. Da mesma forma já há sete anos que
entrego a minha declaração de IRS e há dois (quando surgiu o serviço), que
pago o imposto de circulação automóvel, através do portal das Finanças.
Também consulto as minhas contribuições para a segurança social e abono
de família, através do portal Segurança Social Directa. Participo também no
fórum Aquariofilia.net onde se discute sobre aquariofilia, que é um dos
meus hobbies. Outros exemplos da minha actividade na internet são por
exemplo como sócio da DECO, onde recorro com frequência para esclarecer

49
dúvidas sobre os meus direitos como consumidor. Por exemplo em caso de
reclamação a quem me devo dirigir? Em primeiro lugar devemos tentar
resolver a questão com a entidade que nos forneceu o bem ou o serviço.
Se, com este expediente não obtivermos resultados então, existem diversos
organismos que nos podem ajudar. Por exemplo a Direcção Geral de Defesa
do consumidor ou as CIAC, que são estruturas autárquicas de informação
ao consumidor, ou ainda através de associações particulares, que é o caso
da DECO. Foi exactamente o que fiz quando foi necessário fazer uma
reclamação, a propósito de uma avaria no meu carro, que se encontrava
ainda dentro da garantia de dois anos. E eis como tudo se passou: devido a
uma anomalia dirigi-me ao concessionário a fim de expor a situação. O
concessionário mostrou-se receptivo em relação à reclamação, contudo o
problema surgiu com o facto de o carro ter de se imobilizar durante dois
dias, e eu pedir um carro de substituição, uma vez que a reparação em
causa estava relacionada com problemas de fabrico, a que eu era
completamente alheio. O concessionário mostrou-se apenas disponível para
me alugar um carro durante esses dois dias, proposta que não aceitei uma
vez que achei que não devia ter qualquer despesa, já teria que suportar o
inconveniente de ficar dois dias sem o meu carro. Parti então para o
contacto via telefone com o representante em Portugal, que me informou
que efectivamente nestes casos teria de pagar pela viatura de substituição,
mas apenas os custos diários que teria na vulgar utilização do meu próprio
carro, segundo uma tabela existente para o efeito. Com esta informação
contactei via e-mail a DECO expondo a situação, que me confirmou este
pagamento de utilização e me aconselhou a contactar de novo o
concessionário, dispondo-se também a efectuar um contacto. Dessa forma e
com a mediação da DECO, obtive o carro de substituição pagando apenas a
taxa mínima de utilização. Posteriormente tive oportunidade a quando do
preenchimento de um questionário de satisfação da marca, de reclamar
com estas condições para carro de substituição, continuo convencido de que
o cliente não deveria suportar qualquer encargo por uma avaria de que não
tem responsabilidade e é o grande prejudicado.

A internet veio alterar de tal forma os nossos hábitos, que hoje em


dia os jovens ao invés de combinarem encontros no café ou cinema ou na
biblioteca, combinam encontrar-se na “net”. Ou seja, tornam-se muito mais
sedentários, perdem a oportunidade de contactarem presencialmente com
outras realidades, passando a ver cada vez mais o mundo de uma forma
“virtual”. As comunidades “on-line”, em que a maioria dos jovens hoje
participa, torna-se um prolongamento da vida real, em situações extremas
talvez até mais importantes que a vida real. Posso ver um filme na “net”,
mas não é o mesmo que ir ao cinema, posso visitar um museu de forma
virtual, mas não se compara a ver uma pintura ou escultura no próprio
museu. A internet tem sem dúvida muito interesse como meio de
comunicação ou de consulta, não dispensando no entanto o recurso a
outras formas de informação, como por exemplo os livros. Tanto mais que

50
devemos ser bastante criteriosos, quanto aos sítios que visitamos, bem
como à informação neles contida. O facto de uma determinada informação
estar na internet, não faz só por si, com que seja verdadeira, antes de
utilizar essa informação devemos compará-la com outras fontes.

A internet é de facto uma grande ajuda até na gestão familiar,


permite-me efectuar todos os pagamentos normais do dia-a-dia em casa e
a qualquer hora. No entanto para poder tirar o melhor partido desta
tecnologia é essencial, que por um lado tenha os conhecimentos de
informática adequados e por outro domine a linguagem específica, por
exemplo em termos de IRS. Devo saber por exemplo que “rendimento
colectável” é o somatório dos meus rendimentos ao longo do ano, sem
quaisquer deduções. Ou o que são deduções na fonte: os descontos que
fazemos mensalmente para IRS e Segurança Social. Ou ainda que as
despesas com a habitação, se enquadram nas deduções à colecta e
benefícios fiscais.

Gestão doméstica.

Mas a minha gestão das despesas domésticas vai muito para além
disso. Na verdade elaboro mensalmente um orçamento tendo em conta os
rendimentos, versos despesas previstas. A tabela que uso para fazer esse
orçamento divide-se em quatro grupos de despesas: despesas fixas,
despesas extras, despesas sazonais e despesas anuais. No capítulo das
despesas fixas, as que mais pesam no orçamento são para mim e penso
que para a maioria das famílias, a casa, o carro e as relacionadas com a
casa (água, luz, gás e condomínio), de seguida surge a alimentação depois
as despesas de educação (escola, judo) e finalmente as comunicações
(telefone, tv e internet) e combustível. Dispenso ainda uma parte dos
rendimentos mensais para dois PPR (Plano Poupança Reforma), um meu e
outro da minha mulher, no sentido de programarmos as nossas reformas.
Este tipo de poupança é um investimento a médio ou longo prazo com o
objectivo de complementar a reforma da Segurança Social, como tal não
pode ser movimentado se não para esse fim, com excepção para
desemprego de longa duração ou por invalidez. Para além disso este tipo de
produto permite benefícios fiscais e chegada a altura da reforma podemos
optar por levantar o capital investido ou por uma renda mensal vitalícia.
Como não são possíveis levantamentos antecipados, esta é uma forma
efectiva de planear e optimizar o rendimento disponível. Faço ainda uma
poupança mensal para o meu filho Lucas e sempre que possível reforço a
conta de depósito a prazo familiar.

De seguida no meu orçamento surgem os extras, que em momentos


de crise como o que atravessamos tende a encolher, mas sempre tentamos
organizarmo-nos para ir uma vez ao restaurante outra ao cinema, comprar

51
um livro, uma revista e passear sempre que possível. Pior para qualquer
orçamento são os extras imprevistos, refiro-me ao electrodoméstico que
avariou, ou uma reparação no prédio com uma contribuição extra para o
condomínio e essas só entram no orçamento mensal à força. As despesas
sazonais dão-nos alguma folga para nos organizarmos e preparar, neste
capítulo incluo: roupa, calçado, material escolar e despesas médicas (que
felizmente se têm resumido em visitas ao dentista).

Por último surgem as despesas anuais, que dizem respeito sobretudo


a pagamento de seguros e podem ser programadas com maior
antecedência. Também as férias estão incluídas neste capítulo, mas têm um
orçamento à parte uma vez que estão ligadas directamente ao subsídio de
férias.

No fundo, em termos de economia familiar pretendo sobretudo não


contrair demasiado crédito, para que possa ter sempre margem de
manobra, tentando canalizar parte dos rendimentos para a conta poupança
e PPR, de forma a garantir algum imprevisto e uma futura reforma...

A empresa, a tecnologia e o ambiente.

No decorrer destes anos na AE foram muitas as transformações


proporcionadas pela tecnologia. Por exemplo nos meus primeiros anos na
AE, a confirmação da força aplicada (Newton/metro) no aperto de um
parafuso era efectuada de forma manual, com uma chave dinamométrica. A
chave dinamométrica, não é mais que um roquete em que se pode calibrar
a força até onde queremos apertar. Quando atingimos essa força em
newton, a chave emite um sinal sonoro. Há alguns anos foi implementado
um sistema com ferramentas de aperto electrónicas para substituir as
dinamométricas, que no fim da linha de montagem geram um relatório que
indica se algum aperto não está correctamente efectuado. Este sistema foi
ainda melhorado, existindo agora um monitor junto de cada ferramenta que
indica de imediato ao operador se o aperto está correcto. E mais, cada
operador tem um código pessoal para este equipamento o que vai permitir
analisar e rastrear os defeitos.

Para que estas evoluções ocorram é necessário contudo, que seja


ministrada formação aos operadores. Nesse sentido, todos quantos operam
com este equipamento tiveram formação em SDOK, que é o sistema que
gere estes equipamentos. Eu mesmo como chefe de equipa tive essa
mesma formação em 27/05/2008, conforme certificado. É fundamental para
a inserção de novas tecnologias e equipamentos, que os colaboradores
tenham a formação adequada, ou as optimizações pretendidas podem não
ser alcançadas. Hoje em dia deparamo-nos todos os dias com avanços
tecnológicos, dai a aposta ser a formação contínua.

52
veraoverdeorg.blogspot.com/2006/11/chave-
dina..., consultado em 12/02/09 www.atlascopco.pt,
consultado em 12/02/09

Dinamométrica Ferramenta electrónica

As minhas responsabilidades como TL não terminam aqui, tenho


também que zelar pela Organização e Limpeza. Pode parecer estranho, mas
as fardas na AE são brancas assim como o chão e muitos dos
equipamentos. Isto não acontece por acaso, é feito com o objectivo de que
tudo esteja o mais limpo e arrumado possível. Sou auditado internamente
uma vez por mês e externamente uma vez por ano. Os itens dessa
auditoria são: limpeza, organização (tudo tem que estar etiquetado,
identificado), marcações no pavimento, correcta segregação de materiais
recicláveis e ainda limpeza e arrumação de áreas exteriores à linha como
WC e zonas de refeição. Falando em segregação de resíduos e reciclagem,
não queria deixar de falar da política ambiental da AE. Existe na empresa
um departamento de ISO 14001-Gestão Ambiental, que anualmente
estabelece objectivos a alcançar e tenta para isso envolver todos os
colaboradores e fornecedores. A AE é com frequência auditada para manter
a sua certificação ISO 14001 e exige aos seus fornecedores o cumprimento
de regras ambientais, uma vez que estas regras não se limitam ao
perímetro da fábrica, mas visam minimizar o impacto desta indústria no
meio ambiente envolvente.

ETAR da Autoeuropa

www.simarsul.pt, consultado em 14/02/09


53
Existe na fábrica uma ETAR para tratamento de resíduos e dou como
exemplos de reciclagem por áreas os seguintes materiais: estampagem
aproveita todos os desperdícios de chapa, faz com eles grandes blocos que
são enviados para siderúrgicas; pintura capta restos e poeiras de tinta para
reciclagem e faz o reaproveitamento da água utilizada no processo; a
montagem final faz a reciclagem de papel (todo o cartão de embalagens),
madeira (paletes) e peças plásticas que antes iam para o lixo (tampas que
são divididas segundo o tipo de plástico). A nível mundial posso referir que
a Volkswagen à alguns anos eliminou o níquel dos seus produtos. O níquel
era utilizado em vários tipos de parafusos, que foram substituídos por
outros em material não poluente.

ETAR da Autoeuropa
(anexo 7)

(
1 - Obra de entrada
2 - Decantação primária
3 - Tanque de arejamento
4 - Decantação secundária
5 - Sistema de água de serviço
6 - Tanque de mistura de lamas
7 - Digestor anaeróbico
8 - Tanque armazenamento de lamas
9 - Edif. desidatração de lamas
10 - Desodoridação
11 - Edif. de exploração
www.simarsul.pt, consultado em 14/02/09

O funcionamento de uma ETAR é um processo de sucessivos


tratamentos dados a afluentes, com o objectivo de separar os agentes
poluentes que nele se encontram. No caso desta ETAR os afluentes passam
pelas seguintes fases de tratamento:

Fase Liquida

1. Pré-tratamento: remoção de sólidos grosseiros.


2. Tratamento primário: decantação primária lamelar, adição de
reagentes para correcção de PH.
3. Tratamento secundário: reactor biológico onde são criadas
condições para o desenvolvimento de uma população de
microrganismos, para depuração biológica de águas residuais.

54
Fase Sólida

1. Em função do tratamento anterior, formam-se lamas biológicas


que são sujeitas a vários processos, no fim dos quais lhes é
removida o excesso de água. Estas lamas são utilizadas para
valorização agrícola.

Na minha área faço a recolha de cartão e tampas de plástico, bem


como a separação de embalagens e resíduos orgânicos (anexo 8). Este tipo
de recolha selectiva (segregação de resíduos) tem sido bastante incentivada
por campanhas lavadas a cabo pelos meios de comunicação social e esse
tipo de sensibilização influencia positivamente o trabalho levado acabo pelas
empresas. Os resultados em virtude dessas campanhas, têm melhorado ano
após ano, se bem que os indicadores sejam ainda bastante baixos, contudo
penso que chegados a este ponto é necessário um outro tipo de informação
que, quanto a mim, pode dar um novo incentivo à recolha selectiva, tanto a
nível particular, como nas empresas. Refiro-me a informar à população,
quer a nível autárquico, quer a nível nacional, do que é feito com o lixo que
segregamos em nossas casas. Gostaria de ver campanhas na comunicação
social, sobre os benefícios ambientais e económicos que já atingimos com o
esforço de todos nós. A informar que por exemplo, devido à nossa recolha
de óleo doméstico, se produz bio diesel, com benefícios económicos e
ambientais, ou que abatemos menos árvores porque reciclamos cada vez
mais papel. Penso que é um incentivo importante sabermos os resultados
dos nossos esforços, sabê-lo através dos meios de comunicação seria como
que uma recompensa ao esforço de cada um. Um outro aspecto muito
importante relacionado com a reciclagem é os aproveitamentos criativos
que damos a determinados materiais, que de outra forma não eram mais
que lixo. Por exemplo livros e cadernos impressos em papel reciclado, ou a
utilização de materiais usados para roupas e cenários em peças de teatro.
Diversos artistas utilizam nas suas pinturas ou esculturas, materiais usados
que são dessa forma reciclados.

Dentro da AE tenho tido formação em diversas áreas, das mais


técnicas às que se relacionam mais com a parte organizacional, como
comunicação, liderança, moderador de workshops, gestão de conflitos. A
formação na AE é também, o reflexo e o resultado dos diversos inquéritos
de satisfação que foram já realizados. O primeiro inquérito em que
participei visava conhecer o nível de satisfação dos colaboradores e também
a sua opinião sobre a forma como a informação flui entre as diversas
hierarquias, tratou-se de um inquérito escrito e anónimo. O segundo foi
dirigido às chefias intermédias e consistiu numa entrevista particular a cada
TL e especialista de produção. No decorrer dessa entrevista foram
abordados temas como: satisfação, motivação, responsabilidades inerentes
à função, comunicação e necessidades de formação. Por último terminou há
dias um terceiro inquérito, denominado “Barómetro”, nos mesmos moldes

55
do primeiro, mas com a característica de ser preenchido através da intranet
(anexo 9). Todos estes inquéritos têm por objectivo avaliar o grau de
satisfação dos colaboradores em diversas áreas, a fim de melhorar o
desempenho individual e da própria empresa.

A organização da AE está em constante mudança e actualização e


esta formação tem-me mantido preparado para me adaptar a novos
desafios. Já no decorrer da elaboração desta autobiografia, portanto depois
de iniciado o processo de RVCC, me foi proposto outro desafio. Dentro de
um projecto que abrange toda a Volkswagen, a AE criou um departamento
de formação o PTC (Production Traning Center), centro de treino de
produção, integrado na estratégia “Mach 18” que se estende até ao ano
2018 e que visa entre outros aspectos, melhorar a formação dos
colaboradores. O desafio que me foi proposto e que aceitei foi integrar essa
nova equipa desempenhando a função de formador. Para desempenhar
essas funções, para além da experiência profissional foi-me necessário ter
formação na área pedagógica, para tal frequentei um curso inicial de
formador, obtendo o CAP (certificado de aptidão pedagógica). Neste
momento estou já a desempenhar as minhas novas funções, ministrando
formação em optimização de linhas de produção com os objectivos de
redução de desperdícios e identificação de potenciais de optimização, tendo
em conta a melhoria de qualidade. Esta formação desenvolve-se no
decorrer de um dia de trabalho (8 horas), contém uma parte teórica mas é
sobretudo prática, com forte participação dos formandos, que são doze em
cada sessão e simulam uma equipa na linha de produção. Esta nova
actividade tem sido muito gratificante, com feedback muito positivo e
também uma mais-valia na minha carreira na empresa. Toda a minha
formação escolar e profissional nas diversas áreas em que já trabalhei,
assim como a formação teórica que referi atrás têm sido determinantes na
forma como me dirijo e interajo com os formandos, por outro lado, a
experiência prática que desenvolvi ao longo dos anos que estive na
produção, em implementação de processos “Lean” (gestão focada na
redução de sete tipos de desperdício), conceito “Kaizen” (melhoria
continua), sistema “Kanbam” (sistema de sinalização para controlar fluxos
de produção e logísticos) e “Poka-Yoke (sistemas anti-erro), deram-me o
domínio das matérias e a confiança para os poder transmitir. Outra vertente
da formação que ministro, tem a ver com a comparação de mercados,
marcas, processos produtivos e satisfação do cliente, muita da informação
que utilizo nesta área é obtida através dos “media”. Recorro com frequência
à internet a revistas e programas televisivos da especialidade, como por
exemplo: Harbur Report e J. D. Power-Report (mercado Norte Americano),
Auto-Bild-Quality-Report (mercado Alemão) e Auto-Hoje e Turbo (em
Portugal). O que pretendo ao recorrer aos “media” para valorizar a minha
formação é credibilizar os pontos de vista que quero transmitir com
informação fidedigna. Aqui porém há que fazer uma selecção bastante
criteriosa para não sermos induzidos em erro, por fontes tendenciosas que

56
simplesmente visam a publicidade de determinada marca, podendo assim
desvirtuar o objectivo que esteve na sua origem. A título de conclusão sobre
este tema, quero apenas acrescentar que sinto hoje que todo o meu
percurso escolar e profissional me deram sólidas bases para o desempenho
desta nova actividade. Até mesmo a nível social e cultural, as diversas
actividades que desenvolvi, como o desporto e os passatempos, as
actividades de lazer como a música, o cinema, o viajar, etc., trouxeram-me
um domínio mais alargado de muitos temas, o que agora me são
extremamente úteis e enriquecem o meu trabalho.

A família.

Em termos pessoais os meus tempos livres hoje em dia são


ocupados, essencialmente em duas actividades. Em casa dedico-me à
aquariofilia, tenho dois aquários com diversas espécies de ciclideos
africanos, fora de casa e em especial nos fins-de-semana, dedico-me ao
ciclismo mais concretamente ao btt (bicicleta todo o terreno), na aquariofilia
tento envolver toda a família, no ciclismo apesar de o meu filho só ter seis
anos, já fazemos alguns pequenos passeios juntos.

A minha família é constituída pela minha mulher Adriana e pelo meu


filho Lucas, que tem seis anos. Tentamos aproveitar ao máximo os tempos
livres na companhia uns dos outros. Gostamos muito de viajar e sempre
que possível fazemo-nos à estrada. As viagens estão sempre nas nossas
programações e projectos pessoais, a última que efectuamos foi em Abril de
2008, em que estivemos no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Gostamos
muito de ler e incutimos esse hábito no Lucas, vamos com frequência ao
cinema e a exposições e algumas vezes ao restaurante. Para além de nós a
minha família alargada, é constituída pelos meus pais, pela minha irmã e o
meu sobrinho. Estamos em contacto diariamente e moramos perto uns dos
outros, o que faz deste, um grupo familiar muito unido.

Normalmente é nos momentos mais difíceis que nos apercebemos o


quanto é importante o apoio e união familiar. E foi precisamente o que
aconteceu há dois anos com a minha família, quando foi diagnosticado um
tumor na laringe, ao meu pai. Foram momentos difíceis que tiveram como
consequência para o meu pai, uma traqueotomia e a incapacidade de falar,
para a minha mãe um esgotamento e acompanhamento psiquiátrico para
ambos no IPO (instituto português de oncologia) de Lisboa. Um dos
momentos mais difíceis foi provocado pela longa espera para a cirurgia,
enquanto o estado de saúde do meu pai se agravava. Para tentar
desbloquear a situação, recorri a todos os meios ao meu dispor, desde
telefonemas diários, passando por ir pessoalmente falar com os médicos e
culminando com uma reclamação por escrito no gabinete do utente (anexo

57
10). Finalmente o meu pai realizou a cirurgia e a situação estabilizou até
hoje.

No decorrer de toda esta situação e em especial após as sucessivas


visitas ao IPO, que o internamento do meu pai obrigou, deparei-me com
situações complicadíssimas que despertaram em mim sentimentos de forte
empatia e solidariedade. Nesse sentido a forma que encontrei para dar o
meu contributo, para quem mais precisa foi tornar-me dador de sangue.
Numa sociedade em que cada vez nos fechamos mais em nós próprios, é
importante tomarmos consciência de que a nossa solidariedade é
importante e pode fazer a diferença. Quando nos deparamos com
calamidades como a sinistralidade nas estradas ou desastres naturais como
o furacão “katrina”, tomamos consciência da importância da solidariedade e
de contribuirmos para a comunidade em que estamos inseridos. O exemplo
do furacão “Katrina” é bem demonstrativo de como mesmo num país com
os recursos dos Estados Unidos da América, o governo central teve uma
conduta menos correcta ao não socorrer de imediato os milhares de
sinistrados. Tanto mais que toda esta catástrofe, foi acompanhada em
directo em todo o mundo. Devido ao desenvolvimento técnico dos meios de
comunicação, podemos acompanhar em nossas casas o desenvolvimento da
tempestade e as previsões do que se iria passar, mais tarde podemos ver
em directo a devastação causada e por fim as consequências, o rescaldo da
tragédia. O facto de estarmos a assistir ao vivo a estes acontecimentos
altera, não só o tipo de jornalismo praticado, como a nossa percepção dos
factos. É diferente ouvirmos um relato de determinado acontecimento, ou
presenciá-lo mesmo sendo pela televisão. Os jornalistas tal como nós estão
sujeitos a uma maior carga emocional e o facto de comentarem em directo
não lhes permite trabalhar muito sobre a informação que estão a transmitir.
Da mesma forma o impacto causado no receptor é diferente, causando
grande consternação e influenciando a sua opinião.

Para além de contribuições esporádicas em campanhas de


solidariedade, contribuo de forma regular no meu trabalho, numa campanha
levada a cabo pela comissão de trabalhadores e a administração intitulada
“os cêntimos que restam”. Os fundos desta campanha são angariados de
forma particular e voluntária dos colaboradores da AE e resultam dos
cêntimos que sobram no salário de cada mês, revertendo para instituições
de solidariedade social (anexo 11).

Durante este período tive que ajudar os meus pais de diversas


formas, entre elas representá-los nas reuniões de condomínio. No auge de
todo este problema, os meus pais eram os administradores do condomínio e
alguns dos condóminos queriam efectuar uma obra no prédio. Participei na
reunião de condomínio e expliquei a todos que nesse momento não
tínhamos condições de gerir uma obra no prédio. Deu-se assim inicio a um
conflito, que opôs por um lado os condóminos sensíveis à situação, por

58
outro quem não queria adiar a execução da obra. Nesta primeira reunião a
maioria esteve favorável ao adiamento, mas a situação arrastou-se ao
ponto de alguns condóminos ameaçarem, que avançariam com a obra a
título particular e enviariam a conta à administração do condomínio.
Informei-me das leis do condomínio e recorri à DECO para me esclarecer,
da viabilidade da pretensão dos condóminos. Os pareceres que recolhi
foram favoráveis à elaboração da obra e assim sendo marquei nova
reunião. Quando me aconselhei com a DECO, fiquei a saber que não tendo
os meus pais condições para continuarem a ser administradores, bastaria
um atestado médico para legalmente passarem o condomínio a outro
inquilino. A minha posição nesta nova reunião foi portanto, negociar uma
contrapartida relativamente à realização da dita obra. Seriamos favoráveis
mas a administração do condomínio e consequentemente da obra passaria
para outro condómino. A proposta foi aceite por todos e assim se resolveu o
conflito.

Sempre tive com os meus pais uma excelente relação e sempre


obtive deles todo o apoio que precisei, é por essa razão que lhes dedico
esta autobiografia e espero que possamos continuar a usufruir da
companhia uns dos outros por muito tempo.

Em família, com os meus pais e Adriana.

Meu sobrinho Rui e meu filho Lucas.

59
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