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Quadrimestral v.2 - Junho 2009

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COORDENAÇÃO Inês Virgínia Prado Soares Sandra Akemi Shimada Kishi CONSELHO EDITORIAL Adilson Paulo Prudente do Amaral Filho Adriana Zawada Mello Blanca Lozano Cutanda Bruno Campos Silva Carlos Alberto de Salles Christian Courtis Daniel Sarmento Evanson Chege Kamau Everson Paulo Fogolari Fabiana Saenz Flávia Piovesan Geisa de Assis Rodrigues Gerd Winter João Bosco Araújo Fontes Jr. Joaquim Herrera Flores José Roberto Pimenta Oliveira John Bernhard Kleba Juliana Santilli Ligia Maria Rodrigues Carvalheiro Marcelo Buzaglo Dantas Marcus Orione Gonçalves Correia Nelson Nery Junior Oscar Vilhena Paulo Affonso Leme Machado Rebecca Purdom Renata Porto Adri Sérgio Salomão Shecaira Solange Teles da Silva Tullio Scovazzi Uendel Ugatti Virgílio Afonso da Silva Walter Claudius Rothenburg EDITORAÇÃO Darcy Rudimar Varella Ligia Maria Rodrigues Carvalheiro

Revista Internacional de Direito e Cidadania / Instituto Estudos Direito e Cidadania – v.2, n. 4, Junho 2009. – Erechim, RS : Habilis, 2009. v. ; 18 x 26cm Quadrimestral ISSN 1983-1811 1. Direito 2. IEDC C.D.U.: 340
Catalogação na fonte: bibliotecária Sandra M. Milbrath CRB 10/1278

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Revista Internacional de Direito e Cidadania, n. 4, junho/2009

Sumário

SUMÁRIO

5
COLABORADORES

7
MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES

Bruno Campos Silva

17
DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES David José Geraldes Falcão

31
NÃO HÁ DIREITO FUNDAMENTAL À IMPUNIDADE – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DAS PRORROGAÇÕES DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS

Douglas Fischer

39
EFETIVIDADE DOS DIREITOS SOCIAIS

Ewerton Teixeira Bueno

45
UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA

Gabriela Freire Kühl de Godoy

55
ACESSO A DOCUMENTAÇÃO GOVERNAMENTAL E DIREITO À MEMÓRIA E VERDADE: ANÁLISE DO PROJETO DE LEI

Inês Virgínia Prado Soares
Revista Internacional de Direito e Cidadania, n. 4, junho/2009

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Sumário

63

A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES

171
A LEI 11.794/2008 – A CRUELDADE CONTRA OS ANIMAIS

Ivan Carneiro Castanheiro

79
CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO

Paulo Affonso Leme Machado

Ivam Gerage Amorim

Discussão 175
FLORESTAS E JARDINS

97
SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA

João Carlos de Carvalho Rocha

Fernanda Alves Vieira

109
TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO

177
CRIMINALIDADE DO PODER, POLÍCIA E IMPUNIDADE

Paulo Queiroz

José Renato Martins

135
DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL

179
COLÓQUIO “LA EVOLUCIÓN DE LA ORGANIZACIÓN POLÍTICOCONSTITUCIONAL DE AMÉRICA DEL SUR”

Juliana Santilli

Marcelo Figueiredo

151
O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA:O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS

Resenha 203
LES THINK TANKS: CERVEAUX DE LA GUERRE DES IDÉES, DE STEPHEN BOUCHER E MARTINE ROYO

Luis Manuel Fonseca Pires

Pedro Guimarães Pires

165
A INTERPRETAÇÃO DA LEI COMO A INTERPRETAÇÃO DO CIDADÃO COMUM

205
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Maria Garcia

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Revista Internacional de Direito e Cidadania, n. 4, junho/2009

Estagiário no Anderson. Mestrando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. INÊS VIRGÍNIA PRADO SOARES Procuradora da República em São Paulo. 4. Mestre em Direito Difusos e Coletivos pela PUC/SP e Coordenador da Área de Habitação e Urbanismo. Coe & King. em Belo Horizonte-BH. DAVID JOSÉ GERALDES FALCÃO Licenciado em Direito. IVAM GERAGE AMORIM Advogado. BRUNO CAMPOS SILVA Advogado em Belo Horizonte-MG e Brasília-DF. Cível e de Tutela Coletiva. Especialista em Direito Processual Civil pelo CEU de São Paulo. Mestre e Doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.O. do C. Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca. EWERTON TEIXEIRA BUENO Técnico Administrativo e estagiário do Ministério Público Federal. UNIMEP. GABRIELA FREIRE KÜHL DE GODOY Estudante de Direito da PUC-SP.Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável TM/AP. ligada ao COPAM – Conselho de Política Ambiental do Estado de Minas Gerais. professor de Direito da Escola Superior de Gestão do Instituto Politécnico de Castelo Branco (Portugal). Ex-consultora jurídica da SUPRAM . n. Pesquisadora em nível de pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.Colaboradores COLABORADORES FERNANDA ALVES VIEIRA Advogada especialista em Direito Ambiental pela UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. Estados Unidos. Coordenador da licenciatura em Solicitadoria e da pós-graduação em Solicitadoria de Execução da Escola Superior de Gestão do Instituto Politécnico de Castelo Branco (Portugal). professor de Processo Penal. da Universidade de Piracicaba-SP. Associado a Zambiazi Advogados e Consultores. Região. Professor convidado do curso de pós-graduação lato sensu em Direito Ambiental. junho/2009 5 . autor do livro Direito ambiental e transgênicos: princípios fundamentais da biossegurança (2008). além de acadêmico de direito da Universidade São Francisco. Mestre em Direito pela PUC/RS. IVAN CARNEIRO CASTANHEIRO 2º Promotor de Justiça de Americana. DOUGLAS FISCHER Procurador Regional da República na 4ª Região. Especialista em Direito Sanitário pela UNB e Presidente do Instituto de Estudos Direito e Cidadania – IEDC. JOÃO CARLOS DE CARVALHO ROCHA Procurador Regional da República na 4a. Mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca. Especialista em Direito Ambiental pela UNIMEP/ Piracicaba.A. LLP Attorneys at Law em Baltimore (Maryland). do Ministério Público do Estado de São Paulo. Revista Internacional de Direito e Cidadania.

Coordenador do Curso de Direito Campus Taquaral da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Professor Convidado na Universidade Ecológica de Bucareste (Romênia) – 2008. Prêmio Internacional de Direito Ambiental “Elizabeth Haub” (1985). MARIA GARCIA Livre-Docente pela PUC-SP. Liebman). PAULO QUEIROZ Professor (UniCEUB) e Procurador Regional da República. ed. sócia-fundadora do Instituto Socioambiental (ISA). 4. Procuradora aposentada do Estado de São Paulo. n.Colaboradores JOSÉ RENATO MARTINS Doutor em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP. Autor do livro Direito Ambiental Brasileiro (16. LUIS MANUEL FONSECA PIRES Mestre e Doutor em Direito Administrativo pela PUC-SP. Professora de Direito Constitucional. do Ministério Público do Distrito Federal. Membro da Academia Paulista de Letras Jurídicas. Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Professor de Direito Penal na Faculdade de Direito das Faculdades de Campinas – FACAMP.). JULIANA SANTILLI Promotora de Justiça. PAULO AFFONSO LEME MACHADO Professor na Universidade Metodista de Piracicaba. Ex-Assistente Jurídica da Reitoria da USP. Membro-fundador e atual Diretora Geral do IBDC. Professor de Direito Penal nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. ViceCoordenadora do Programa de Pós-Graduação em Direito da PUC-SP. Juiz de Direito em São Paulo. Autora do livro “Socioambientalismo e novos direitos” (Editora Peirópolis/ISA/IEB. junho/2009 . 2005). Membro da CoBi do HCFMUSP e do IASP. PEDRO GUIMARÃES PIRES Estudante de Direito da Universidade Federal de Sergipe. Direito Educacional e Biodireito Constitucional na PUC-SP. Advogado e Ex-Delegado de Política de Carreira do Estado de São Paulo. 6 Revista Internacional de Direito e Cidadania. MARCELO FIGUEIREDO Livre-docente pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC/SP) e Diretor da Faculdade de Direito da PUC/SP. (Cadeira Enrico T. mestre em Direito pela Universidade de Brasília e doutoranda pela PUC-PR.

Associado a Zambiazi Advogados e Consultores. Cultura. we affirm that the * Advogado em Belo Horizonte-MG e Brasília-DF. UNIMEP. afirmamos ser a língua importante elemento fundamental da cultura. undoubtedly. levam ao preciso (rectius: escorreito) raciocínio das estruturas de um verdadeiro Estado Constitucional brasileiro. led to the precise reasoning of the structures of a genuine Brazilian constitutional state. n.Artigo MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES Bruno Campos Silva* RESUMO: O presente trabalho foi concebido no sentido de traçar importantes considerações acerca do meio ambiente e da cultura em nosso país. Professor convidado do curso de pós-graduação lato sensu em Direito Ambiental. ABSTRACT: This study was designed to outline important considerations about the environment and culture of our country. lançamos algumas considerações para se atingir o real desiderato do Estado Democrático de Direito. Em arremate. junho/2009 7 . Constituição. da Universidade de Piracicaba-SP. Palavras-chave: Meio ambiente. We didn’t forget to enter the aspects of the proceeding that led to the design of federal legislation concerning the changes imposed on our language. sem dúvida alguma. 7-16. Para tanto. 4. we outlined some digressions and reflections which. p. For this. moreover. Informação. sem cogitar na implementação de um reprochável Estado de Exceção. além do mais. Estado Democrático de Direito. Língua portuguesa. em Belo Horizonte-BH. Especialista em Direito Processual Civil pelo CEU de São Paulo. Não deixamos de adentrar aos aspectos inerentes ao procedimento que levou à concepção da legislação federal concernente às mudanças impostas à nossa língua oficial. esboçamos algumas digressões e reflexões que. Revista Internacional de Direito e Cidadania.

ficarão cada vez mais distantes à medida em que os Governos dos países subdesenvolvidos e dos eufemicamente denominados em vias de desenvolvimento – em troca do prato de lentilhas constituído pelos aplausos dos países cêntricos – se entreguem incondicionalmente à sedução do canto da sereia proclamador das excelências de um desenfreado néo-liberalismo e pretensas imposições de uma idolatrada economia global. language is an important fundamental element of culture. A nossa Constituição é muito maltratada. respeito à dignidade humana. princípios (conjugar.. sem moradia digna e segura. segurança social. KISHI. Portuguese Language. junho/2009 . por definição. inclusive. nestes umbrais do próximo milênio. Teoria dos princípios– da definição à aplicação dos princípios jurídicos.2 Com as brilhantes observações do mestre administrativista. que as condições evolutivas para aceder aos valores substancialmente democráticos. 7ª Ed. Information 1. Revista Internacional de Direito e Cidadania/Instituo Estudos Direito e Cidadania – v. 1. apenas. Meio Ambiente e Constituição Consabido por todos que o meio ambiente adquiriu sua efetiva proteção. para as possibilidades dos países subdesenvolvidos acederem às condições propiciatórias de uma democracia 1 2 substancial. not even pondering the implementation of a reprehensible State of Exception. da política internacional. we launched some considerations to achieve the real goal of the democratic state under the rule of law. mas desde logo preocupante. Falo aqui em “tecido” constitucional.. monolítica e incontrastavelmente entoado pelos interessados”. sacrificáveis para o cumprimento dos objetivos maiores que movem as peças. regras. sem a íntegra valorização do trabalho humano. ainda incipiente. 2007. Capítulo VI. 7-16. “A democracia e suas dificuldades contemporâneas”. 8 Revista Internacional de Direito e Cidadania.SILVA. B. Celso Antônio Bandeira de Mello: “(. Em outra oportunidade.. – São Paulo. 3º) da República Federativa são respeitados em sua plenitude. como igualdade formal. em sua música “Que País É Este?”. p. 62.1 O tema é vasto. naturalmente. caso do Brasil de hoje. demonstramos tal indignação fazendo. ou como dizia o poeta e cantor Caetano Veloso (“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”. surdos ao clamor de uma população de miseráveis e desempregados. logo. É que os subdesenvolvidos têm sido e são. Outubro 2008. nos idos da ditadura militar. Lastly.. SP: Habilis. 4. Humberto Ávila.. VI). 4. o meio ambiente irá. de forma efetiva. não têm ouvidos senão para este cântico monocórdio. bem como suas garantias (ex vi do art. debaixo dos nossos também!). postulados normativos como defende o ilustre Prof. 2008. Keywords: Environment. pelo simples fato de que a Constituição deverá ser interpretada e concretizada com a conjugação sistêmica de variados preceitos. n. 5º) e o piso vital mínimo (ex vi do art. regramentos (como queiram alguns). e. 1º) e objetivos (ex vi do art. resumindo sem a concreta operacionalização do texto constitucional. 225). Culture. apenas e tão-somente de maneira paliativa. a partir do tecido constitucional de 1988 (ex vi do art.) À vista deste panorama. In: SOARES. nem mesmo os fundamentos (ex vi do art. n. meros piões no tabuleiro de xadrez da economia e. acrescento. Constitution. 170. fervilhavam intensos movimentos culturais. SP: Malheiros. valorização do trabalho (todos consagrados na bem concebida e mal-tratada Constituição Brasileira de 1988). o que seus albores reservam para a sobrevivência da democracia e. 6º). Embevecidos narcisisticamente com a própria ‘modernidade’. rendendo até mesmo livros a respeito do assunto. portanto. sem salário digno. Inês Virgínia Prado. muito mais. sem saúde digna. é difícil prenunciar. com toda certeza. Democratic State under the rule of Law. ou seja. o que. pois. aquele previsto no art. Eis as perfeitas colocações do mestre Prof. doa a quem doer. Sandra Akemi Shimada (Coordenadoras). também não se afigura o escopo central do presente trabalho. p. (. Importante digressão é que. sucumbir debaixo de nossos olhos. C. pode-se chegar à conclusão que sempre defendemos. alusão ao poeta e cantor Renato Russo.) Talvez se possa concluir. todos inerentes a salvaguardar o meio ambiente.

do Capítulo III. os feriados pertencem a uma tríade de ‘elementos de identidade cultural do Estado constitucional’. Tradução de Marcos Augusto Maliska e Elisete Antoniuk. 4. O economicismo de nossos dias não fornece sustentação interna. a dignidade humana. sem engessar o desenvolvimento. como dito anteriormente. Rio de Janeiro: Lumen Juris.”3 A Cultura implica em variadas perspectivas. junho/2009 9 . teoricamente sobre-estimados: eles servem à possível identificação do cidadão com seu Estado constitucional nacional. e os feriados nacionais são vivenciados ‘conjuntamente’ de forma intensiva num único dia. do regime militar. como através de grandes preleções de estudiosos do Estado ou seminários conjuntos com estudantes”. Ela é que lhe confere ‘fundamento e motivos!’. como pretendem alguns ou vários. não vislumbramos.) Tais dias da Constituição não podem ser. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Paulo Affonso Leme Machado: “A democracia nasce e vive na possibilidade de informarse. 7-16. entendida como ciência da cultura. para atenderem apenas aos interesses dos dominantes.50. as informações eram decotadas. o mundo precisa de uma mudança com atitude radical (com utilização do bom senso e transparência). Afirma o mestre alemão Prof. de forma alguma. Constituição e cultura – o direito ao feriado como elemento de identidade cultural do estado constitucional. Sem cultura. 2006. xii do prefácio à edição brasileira. com toda lógica. bem como indica implicações para possíveis e concretas transgressões. afinal de contas. o que. logicamente. Cultura é o ‘húmus’ de toda sociedade aberta. com certeza. 2. dominável ou já dominado! E naquela época. Peter Häberle: “No âmbito constitucional. n. 2008..j.m. as bandeiras.4 A partir do momento em que a Constituição afirma a valorização do trabalho humano e um de seus fundamentos. com o devido respeito.MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES Chega de mentiras ou adoção de medidas paliativas. segundo nosso entendimento. qual seja. de peculiaridades próprias. os hinos. (. a Cultura). s. como dito alhures. todo cidadão tem direito a esse bem dotado. 3 4 A informação transparente. Ela consiste em feriados. afigura-se direito fundamental à sobrevivência e convivência. O meio ambiente (e nele. as peculiaridades de nossa Cultura exigem respeito e proteção. debater e deliberar. E mais. hinos nacionais (sobre isso a recente monografia do autor de 2007) e bandeiras nacionais (a respeito também o livro: Nationalflaggen als bügerdemokratische Identitätselemente und internationale Erkennungsymbole. que. as quais deverão ser de igual forma e qualidade preservadas pela Sociedade e Poder Público. à conscientização de seus valores e à sustentação interna da sociedade aberta. idônea e desgarrada de interesses escusos consubstancia-se num dos principais alicerces de nossa Cultura. 215 e 216). Um país aculturado. Haverá uma falha no sistema se uns cidadãos puderem dispor de mais informações que outros sobre um assunto que todos têm o mesmo interesse de conhecer. mesmo que uma economia eficaz continue a ser tão importante. qualquer interesse real e concreto em prol de sua efetiva proteção. o homos politicus ficaria sem chão. se ocupe monograficamente desses temas citados e literalmente os ‘vincule’. É claro que nosso país possui uma enorme diversidade cultural. a afirmação de sua proteção. A ciência também deveria contribuir para o êxito de tais acontecimentos. ainda. de nossa Constituição (ex vi dos arts. Direito à informação e meio ambiente.. ou melhor.. Em alguns países. O Estado constitucional aberto necessita de elementos culturais de base. Entretanto. São Paulo: Malheiros. A própria Constituição traz em tópico apropriado. O desinformado é um mutilado cívico. 2008). é importante que uma teoria constitucional. p. convergem às diretrizes do Estado Democrático de Direito. na Seção II. a toda evidência. Por isso. p. deverá ser respeitada. Percucientes as observações do mestre Prof. Cultura e Constituição A Cultura em nosso país é tratada em tópico especial.

§ 4º. intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange também as artes e as letras. C. Parece. não seria viável nem por emenda constitucional. meio ambiente. com o devido respeito às opiniões contrárias. Isso implica diversidade cultural. Inês Virgínia Prado. porém necessária opinião. traz insegurança jurídica a todo país. do respeito à língua materna e do reconhecimento direito da comunidade de se expressar de acordo com os valores que afirmam sua identidade cultural”. a linguagem é um dos mais significativos. confundirem o desenvolvimento da língua portuguesa com a integração do país. as maneiras de viver juntos. contrapartida dos direitos de liberdade de expressão e comunicação e materialização do bem cultural intangível (forma de expressão). histórica. 10 Revista Internacional de Direito e Cidadania. que. aconteceu. aliás. I). com que foram conduzidas e empreendidas as alterações ortográficas de nossa gramática. as tradições e as crenças. p. Inês Virgínia Prado Soares. Não somos avessos à diversidade cultural existente em nosso país. e. divulgando. somente não concordamos. In: SOARES. Cultura e a língua portuguesa – breves. Aproveitando o percuciente raciocínio da insigne Profa. da CF/88). sua alteração como. 2008. são bens tutelados pela Constituição. então. levando-se em consideração a má técnica legislativa conduzida pelo legislador. em sua desregrada legiferância! As regras ortográficas empreendidas escapam ao conteúdo deste singelo estudo. – São Paulo. a própria forma federativa do país. portanto. o que.5 3. forma de expressão estreitamente ligada à liberdade e à essência da vida humana. diríamos. Incertezas. pode ser tratada no plano jurídico como bem cultural viabilizador de direitos humanos e como vetor do patrimônio cultural imaterial. Em relação à efetiva proteção da Cultura e da língua portuguesa em suas diversidades. está longe de sua transparência. ainda. 13. vacilam em seus escritos. s. SP: Habilis. constante do rol das cláusulas pétreas de nossa Constituição (ex vi do art. 60. 84. Outro ponto merecedor de destaque é que a informação em nosso país. ou seja.SILVA. uma vez que agride. n.m. junho/2009 . 7-16. infelizmente. a portuguesa (ex vi do art. social. ao que tudo indica. Revista Internacional de Direito e Cidadania/Instituo Estudos Direito e Cidadania – v. tanto é verdade. transformando-o em texto legal. os modos de vida. todos os países que entabularam o acordo. com o procedimento (rectius: trâmite). caput. 1. porém relevantes comentários A Cultura e a língua oficial de nosso país. Inês Virgínia Prado Soares: “A cultura é o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais. a língua é elemento fundamental da diversidade cultural e. B. n. Nesse sentido. Sandra Akemi Shimada (Coordenadoras). ainda. já adiantamos que esse mesmo elemento integra fundamentos e objetivos de nossa República.j. Essa é a nossa singela. não se pode falar em direitos culturais lingüísticos e em direito fundamental ao patrimônio cultural lingüístico sem considerar o acolhimento. enfrentam sérias dificuldades em toda diversidade mencionada.. ainda. p. a utilização da língua é exercício dos direitos culturais lingüísticos. Junho 2008. o que. se se 5 tratarmos a língua portuguesa como elemento fundamental da diversidade cultural. via acordo para integração entre países. pelo ordenamento jurídico. A linguagem. Dentre os traços integrante da cultura. não somente para a presente e as futuras gerações como para a compreensão da humanidade em sua trajetória na terra. KISHI. E as audiências públicas (verdadeiro momento de exercício da cidadania) abertas à comunidade científica jurídica e aos demais cientistas da área específica? “Cidadania cultural e direito à diversidade lingüística: a concepção constitucional das línguas e falares do Brasil como bem cultural”. inúmeras pessoas com altos níveis de formação. portanto. imperioso destacar primoroso trabalho elaborado pela insigne Profa. os sistemas de valores. diga-se de passagem. “a má digestão de uma verdadeira manipulação”. 1. econômica. 4. permanecerão. Em razão disso.

MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES

E isso, com certeza, atinge diretamente nossa Federação, nossa Soberania! Não estamos aqui, querendo colidir opinião com exímios conhecedores de nossa língua oficial (v.g., o ilustre Prof. Dr. Evanildo Bechara), mas apenas fomentar salutar debate jurídico a respeito de temática importantíssima ao fortalecimento do Estado Democrático de Direito.

4. Algumas digressões e reflexões em relação à transição de nossa justiça no Estado Democrático de Direito
Cumpre colacionarmos bela passagem erigida pelo ilustre Prof. Celso Lafer, em dezembro de 1981, quando da elaboração do posfácio da grandiosa obra “A condição humana”, de Hannah Arendt: “Em The Human Condition Hannah Arendt apresenta uma das mais brilhantes e originais análises da natureza, do mecanismo, da complexidade, do «pathos» e do significado da ação. Esta análise está a serviço da esperança de democracia, que é a sua mensagem maior, pois, neste livro, Hannah Arendt mostra como ação, palavra e liberdade não são coisas dadas, mas requerem, para surgirem, a construção e a manutenção do espaço público. A liberdade é um «a fortiori» da auto-revelação humana no seio de uma comunidade política no qual existe espaço público. A vocação da liberdade, que assegura o espaço público, exige, por isso mesmo, coragem para expôr o ser em público – coragem que nunca faltou a Hannah Arendt e sem a qual também não se constrói democracia. Esta é a sua lição: uma lição de criatividade intelectual e coragem política, das mais oportunas na presente conjuntura brasileira.”6 Para algumas importantes digressões (nos idos das imposições autoritárias), lançamos mão da preciosa obra dos ilustres Profs. Gilmar Ferreira Mendes, Inocêncio Mártires Coelho e Paulo Gustavo Gonet Branco: “Vista na perspectiva do tempo, a Constituição de 1937 não foi
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apenas um texto autoritário, como tantos outros que marcaram a nossa experiência constitucional. Foi, também, uma grande frustração institucional, como assinalou Waldemar Ferreira em palavras que, possivelmente, terão sido as mais adequadas para traduzir o que aconteceu com o estado de poder da ditadura Vargas, palavras que, por isso mesmo, merecem transcrição, ainda que extensa: ‘Desenhou-se complexamente o mecanismo do que se batizou – de Estado Novo. Não puderam os seus artífices, por isso mesmo, pô-lo em funcionamento. Não passou a carta de 1937 de engodo, destinado, pura e simplesmente, a disfarçar regime ditatorial em toda a amplitude do conceito. Destituída de sinceridade, aquela carta teve existência apenas no papel. Eis porque o seu organismo político nunca se armou. Tudo quanto nela se planejou foi mera fantasia. Não passou de cometimento demasiadamente longo para que se pudesse haver como simples tentativa; mas caracterizou-se como documento inapto, tardiamente desfeito, posto que inicialmente malogrado, para que se pudesse haver como Constituição, que assim indevidamente se qualificou. (...). Não chegou a carta de 1937, em verdade, a adquirir foros constitucionais. Não os alcançou por faltar-lhe o alento que somente lhe poderia ter vindo de ter sido elaborada pelo povo brasileiro. Não resultou da observância e aprimoramento dos princípios constitucionais pelos quais ele sempre se orientou e se regeu. Não surgiu dele, exprimindo-lhe as aspirações e sentimentos nítida e tradicionalmente democráticos. Pelo contrário, ela se desfechou sobre ou contra ele. Não ganhou corpo porque, já se disse, e em reiterar nada se perde, ele não chegou a homologá-la com o seu voto, expresso em plebiscito procrastinado e nunca realizado: ela lhe foi imposta pelas forças armadas, ou com o seu assentimento silencioso de cúmplices’”.7 Em continuação às nossas digressões (em relação à Constituição de 1946 – pós-Estado Novo), para após delinearmos algumas reflexões,

Hannah Arendt, A condição humana. Tradução de Roberto Raposo, posfácio de Celso Lafer, 10ª Ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 352.

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SILVA, B. C.

importante, ainda, utilizarmos o escorreito posicionamento dos precitados constitucionalistas: “(...) Debruçando-se, igualmente, sobre o seu texto, outra não é a conclusão a que chegou Miguel Reale, para quem a Constituição de 1946, conquanto mereça louvores pelos seus acertos – e. g., a melhor distribuição das competências entre a União, os Estados e os Municípios, a fixação de diretrizes gerais de ordem econômica ou educacional, e o significativo avanço em delinear, além dos direitos políticos, também os direitos sociais -, nem por isso há de ser poupada de críticas quanto ao que ele chamou de quatro graves equívocos daquele documento político, a saber: a) o enfraquecimento do Executivo, deixado à mercê do Legislativo; b) o fortalecimento do Legislativo, mas num quadro normativo anacronicamente reduzido às figuras da lei constitucional e da lei ordinária; c) a criação de óbices à intervenção do Estado no domínio econômico, o que era incompatível co a sociedade industrial emergente; e, por fim, d) a adoção do pluralismo partidário, sem limitações nem cautelas, o que levou ao surgimento da ‘política estadual’ e à criação de ‘partidos nacionais’ de fachada, cujas siglas escondiam meras federações de clientelas ou de facções legais”.8 E, ainda, citando pensamentos dos mestres Paulo Bonavides e Paes de Andrade: “(...) Julgando-a, favoravelmente, no entanto, Paulo Bonavides e Paes de Andrade destacam, desde logo, que a Constituição de 1946 recuperou com decisão o princípio federativo, que praticamente desaparecera sob a Carta de 1937, com a entrega do governo dos Estados a prepostos do poder central. No plano das liberdades, em geral, observam que aquela Carta declarou, solenemente, inviolável a liberdade de consciência e de crença, assim como livre o exercício de cultos religiosos, ressalvados os que fossem contrários à ordem pública e aos bons costumes. Mais, ainda, deixou assente que as liberdades e garantias individuais, de resto declaradas mais amplas do que as constantes, exemplificativamente, no corpo da Constituição, não poderiam ser cerceadas por
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qualquer expediente autoritário, razão por que a aprovação do estado de sítio fora reservada, com exclusividade, ao Congresso Nacional, composto, novamente, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. No que toca ao Legislativo e ao Judiciário, espezinhados sob a Carta de 1937, o texto democrático de 1946 buscou devolver-lhes a dignidade, pelo respeito às suas tradicionais prerrogativas e uma equilibrada partilha do poder político, apesar da opinião em contrário dos que entendem que esse modelo acabou desequilibrando a balança em favor do Legislativo e gerando, mais tarde, fricções que colaboraram para a erosão daquela lei fundamental. A criação de partidos políticos, em princípio, foi declarada livre, vedando-se, no entanto, a organização, o registro e o funcionamento de partidos ou associações cujo programa ou ação contrariasse o regime democrático, baseado na pluralidade dos partidos e na garantia dos direitos fundamentais do homem”.9 Nestes breves rascunhos de nossa história, não titubeamos em fazer referência ao importante estudo do insigne Prof. Marcelo Neves: “(...) Estabelecido que a constitucionalização simbólica como alopoiese do sistema jurídico é um problema típico do Estado periférico, cabe, por fim, uma breve referência exemplificativa ao caso brasileiro. Em trabalho anterior já propus uma interpretação da experiência constitucional brasileira como círculo vicioso entre instrumentalismo e nominalismo constitucional. Não é este o local para uma nova abordagem interpretativa do desenvolvimento constitucional brasileiro. Aqui interessa considerar, em traços gerais, como apoio empírico da argumentação precedente, a função hipertroficamente simbólica das ‘Constituições nominalistas’ brasileiras de 1824, 1934, 1946 e 1988. Conforme já afirmei no item anterior de maneira genérica, não se nega, com isso, que as ‘Constituições instrumentalistas’ de 1937, e 1967/1969 tenham exercido funções simbólicas: a primeira, p. ex., através da declaração dos direitos sociais, que atingia apenas uma pequena parcela da população; os documentos

Curso de direito constitucional. 2ª Ed., São Paulo: Saraiva, 2008, p. 172. Idem, p. 173. Idem, p. 174.

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MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES

constitucionais de 1967/1969, mediante as declarações de direitos individuais e sociais não respaldadas na realidade constitucional. Mas, em ambos os casos, desvinculava-se, a partir de dispositivos da própria ‘carta política’ ou de leis constitucionais de exceção, o chefe supremo do executivo de qualquer controle ou limitação jurídico-positiva. A legislação constitucional, casuisticamente modificada de acordo com a conjuntura de interesses dos ‘donos do poder’, tornava-se basicamente, então, simples instrumento jurídico dos grupos políticos dominantes, atuava como uma ‘arma’ na luta pelo poder. O que distinguia fundamentalmente o sistema de relação entre política e direito era, portanto, o ‘instrumentalismo constitucional’, de maneira alguma a constitucionalização simbólica”.10 Antes de prosseguirmos, imperioso traçarmos algumas considerações de cunho explicativo.11 Com relação ao texto constitucional, “Constituição nominalista” (adotando construção do Prof. Marcelo Neves, com forte embasamento nas idéias de Loewenstein), seria uma carta com dispositivos contrários ao autoritarismo, entretanto, ainda, com tendências a fortes influências de determinados grupos resistentes a concretas mudanças.12 Mais uma vez, utilizamos o lúcido entendimento do ilustre Prof. Marcelo Neves: “(...) A constitucionalização simbólica de orientação social-democrática e restabelecida e fortificada com o texto constitucional de 1988. Com o esgotamento do longo período de ‘constitucionalismo instrumental’ autoritário iniciado em 1964, a identificação simbólica com os valores do constitucionalismo democrático deixou de ser relevante politicamente apenas para os críticos do antigo regime, passando a ser significativa também para os grupos que lhe deram sustenta10 11

ção. À crença pré-constituinte na restauração ou recuperação da legitimidade estava subjacente um certo grau de ‘idealismo constitucional’. O contexto social da Constituição a ser promulgada já apontava para limites intransponíveis à sua concretização generalizada. Nada impedia, porém, uma retórica constitucionalista por parte de todas as tendências políticas; ao contrário, parece que, quanto mais as relações reais de poder afastavam-se do modelo constitucional social-democrático, tanto mais radical era o discurso constitucionalista. Suposto que, diante da exigência de diferenciação funcional e de inclusão na sociedade moderna, é função jurídica da Constituição institucionalizar os direitos fundamentais e o Estado de bem-estar (Cap. II.1.3.D.a), não caberiam restrições ao texto constitucional, no qual as declarações de direitos individuais, sociais e coletivos são das mais abrangentes. Também quanto à prestação, seja no que se refere ao estabelecimento de procedimentos constitucionais para a solução jurídica de conflitos (due process of law) ou à previsão de mecanismos específicos de regulação jurídica da atividade política (Cap. II.1.3.D.b e c), o texto constitucional é suficientemente abrangente”.13 E, ainda: “(...) O problema surge no plano da concretização constitucional. A prática política e o contexto social favorecem uma concretização restrita e excludente dos dispositivos constitucionais. A questão não diz respeito apenas à ação da população e dos agentes estatais (eficácia), mas também à vivência dos institutos constitucionais básicos. Pode-se afirmar que para a massa dos ‘subintegrados’ trata-se principalmente da falta de identificação de sentido das determinações constitucionais. Entre os agentes estatais e os setores ‘sobreintegrados’, o problema é basicamente de institucionalização (‘consenso

A constitucionalização simbólica. 2ª Ed., São Paulo: Martins Forense, 2007, p. 177-178. Cumpre-nos, esclarecer o fenômeno da alopoise adotado por Marcelo Neves, baseado no modelo de Teubner, “a alopoise implica, em primeiro lugar, a não-constituição ou o bloqueio generalizado do entrelaçamento hipercíclico dos componentes sistêmicos (ato, norma, procedimento e dogmática jurídicos). Mas pode significar algo mais: a não-constituição auto-referencial de cada espécie de componentes sistêmicos. Nesse caso, as fronteiras entre sistema jurídico e ambiente social não só se enfraquecem, elas desaparecem”. (Op. cit., 147-148) 12 Verificar os comentários tecidos por Jürgen Habermas a respeito da obra do Prof. Marcelo Neves: “O problema de Hegel [as diferenças percebidas entre o ‘conceito’ e a ‘realidade existente’ do Estado] retorna de outra maneira, quando consideramos aquelas sociedades em que a letra imaculada do texto constitucional não é mais do que a fachada simbólica de uma ordem jurídica imposta de forma altamente seletiva”. (Em referência ao presente livro.) 13 A constitucionalização simbólica. 2ª Ed., São Paulo: Martins Forense, 2007, p. 183-184.

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suposto’) dos respectivos valores normativos constitucionais. Nessas condições não se constrói nem se amplia a cidadania (art. 1º, inciso II) nos termos do princípio constitucional da igualdade (art. 5º, caput), antes se desenvolvem relações concretas de ‘subcidadania’ e ‘sobrecidadania’ em face do texto constitucional”.14 E arremata com a acuidade que lhe é peculiar: “Os problemas de heterorreferência são inseparáveis das questões concernentes à autoreferência do sistema jurídico ao nível constitucional (cf. item 3 deste capítulo). O bloqueio permanente e generalizado do código ‘lícito/ilícito’ pelos códigos ‘ter/não-ter (economia) e ‘poder/ não-poder’ (política) implica uma prática jurídico-política estatal caracterizada pela ilegalidade. Quanto à constitucionalidade, as dificuldades não se referem apenas à incompatibilidade de certos atos normativos dos órgãos superiores do Estado com dispositivos constitucionais, como, p. ex., no caso do uso abusivo das medidas provisórias pelo Chefe do Executivo; o problema não se restringe à ‘constitucionalidade do direito’, mas reside antes na ‘juridicidade da Constituição’, ou seja, na (escassa) normatividade jurídica do texto constitucional”.15 Em introdução à relevante obra do mestre Prof. Friedrich Müller, destaca o ilustre Prof. Peter Naumann: “(...) Deve-se chamar a atenção ao fato de que estrutura da norma designa como conceito operacional o nexo entre as partes conceituais integrantes de uma norma (programa da norma – âmbito da norma) e não, e.g., as relações entre os pontos de referência da teoria tradicional do direito (como ser e dever ser, suporte fático e conseqüência jurídica norma e conjunto de fatos). Os elementos estruturais mencionados atuam conjuntamente no trabalho efetivo dos juristas de um modo ao qual se atribuía normatividade. Normatividade não significa aqui nenhuma força normativa do fático, tampouco a vigência de um texto jurídico ou de uma norma jurídica. Ela pressupõe a concepção – a ser explicitada mais
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tarde – da norma como um modelo ordenador materialmente caracterizado e estruturado. Normatividade designa a qualidade dinâmica de uma norma assim compreendida, tanto de ordenar à realidade que lhe subjaz – normatividade concreta – quanto de ser condicionada e estruturada por essa realidade – normatividade materialmente determinada. Com isso a pergunta pela relação entre direito e realidade já está dinamizada no enfoque teórico e a concretização prática é concebida como processo real de decisão”.16 As precitadas digressões e reflexões retratam a inconteste justiça transitória em nosso Estado Democrático de Direito. Importante destacar que a verdade e memória afiguram-se imprescindíveis ao resgate, e, ao mesmo tempo, à afirmação de direitos constitucionais que, em certo momento, foram indevidamente coarctados, na época do AI-5 (AI – Ato Institucional), tanto assim, que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) teceu relevantes comentários incisivos em relação à época do regime ditatorial.17 A memória e a verdade são necessárias à manutenção de toda uma reação efetiva para mudanças estruturais em nosso Estado de Direito. Tais digressões importam em revolver fatos históricos embutidos na memória de todo cidadão brasileiro, que, presenciou, diante do AI-5, a suspensão de direitos constitucionalizados (v.g., habeas corpus) e prisões indevidas. Agora, para tecermos importantes digressões e reflexões, convém trazer à baila reportagem de Tamis Parron: “A ditadura terminou há 20 anos e parece ser uma página virada da história brasileira. Parece, mas não é. O regime militar botou o país de pernas para o alto, tanto no bom quanto no mau sentido, e provocou mudanças de fôlego que ainda hoje fazem toda diferença no nosso dia-a-dia. Parou no congestionamento? Lembre que foram os militares que consolidaram o modelo de transporte baseado

A constitucionalização simbólica. 2ª Ed., São Paulo: Martins Forense, 2007, p. 184. Idem, p. 184-185. 16 Teoria estruturante do direito; tradução Peter Naumann, Eurides Avance de Souza. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p. 15. 17 Notícias STF, Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009. “O impacto do AI-5 no Brasil no Supremo“, www.stf.jus.br. Verificar importante obra da ilustre Profa. Maria Fernanda Salcedo Repolês Quem deve ser o guardião da constituição? Do poder moderador ao Supremo Tribunal Federal. Belo Horizonte: Mandamentos, 2008.

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todo cidadão brasileiro por mais ignaro que seja. Mas se os governos militares lançaram os fundamentos da pósgraduação brasileira. Revista Internacional de Direito e Cidadania. No campo minado das paixões que o período desperta. 21 Ver relevante obra de Giorgio Agaben. Tradução de Urbano Carvelli. 2ª Ed. ao próprio Estado Democrático de Direito. ainda. Porto Alegre: Safe. É tarefa delicada. Fica indignado cada vez que o presidente Lula assina uma Medida Provisória? Não esqueça que as MPs são o velho decreto-lei militar repaginado. Portanto. deixaram de distribuir rendas”. 20 Idem. Na realidade. em sua primorosa obra “Os problemas da verdade no estado constitucional – Wahrheitsprobleme im Verfassungsstaat”. Aventuras na História – tiragem reeditada. tradução de Iraci D. destaca o mestre Prof. 12-13. 2007 (Estado de sítio).19 Em sua primorosa obra. in Estado de exceção. em reflexão às bem laçadas palavras do mestre alemão. Se geraram condições para o crescimento. p. Todo balanço da ditadura acaba sendo negativo – afinal. sem memória e verdade. precisamos refletir em como operacionalizar (rectius: concretizar) os diversos princípios e preceitos erigidos em nossa Constituição. pela qual o autor luta desde 1982”. foram 21 anos de poder exercido com mão pesada. ao mesmo tempo. p. no entanto. São Paulo: Boitempo.21 Tal constatação poderá trazer abalos irremediáveis ao meio ambiente e à cultura de nosso país. em que a vontade dos governados contou menos que a dos governantes. de outro lado estimularam a criação indiscriminada de cursos privados. Memória e Verdade. distribuição de renda. pouco explorada pelos juristas da atualidade. Peter Häberle. Muito obrigado a todos! “A cara e a coroa”. enfim.. carregará dentro de si um verdadeiro e. indústria automobilística e produção de energia são bons exemplos disso. iniciado por Juscelino Kubitschek. 4. 19 Ver importante digressão e reflexão do mestre Prof. 2008. teremos então o seguinte resultado: a verdade é um tema da humanidade e ao mesmo tempo um tema de toda e qualquer pessoa na totalidade de sua precária existência individual. Poleti. título da presente coletânea traduz importante temática. Conclusão Em arremate ao exposto.) Ao rememorarmos o recente reconhecimento feito pelo consagrado poeta alemão Günter Grass de uma vida em 18 mentira em relação a sua atuação nas fileiras das tropas SS da Alemanha nazista por um lado (uma vez que ele foi visto durante vários anos como a ‘consciência da Nação alemã. Peter Häberle: “(. 99-103. 7-16.20 Assim. admitindo ações positivas em algumas frentes.MEIO AMBIENTE E CULTURA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – ALGUMAS DIGRESSÕES E REFLEXÕES no carro. n. Mas o tempo já permite separar o joio do trigo..18 Isso implica afirmar que tanto o meio ambiente como a cultura foram diretamente conspurcados pelo regime militar. Ligou a televisão e ficou orgulhoso da qualidade de técnica da produção brasileira? Atente para o impulso que os governos autoritários deram para o setor. política de terras. Em alguns setores. é uma honra compartilhar de mais um momento histórico em nosso país. foram anos de repressão e violência. Assim. Dívida externa.. É difícil apontar uma área da vida brasileira que não tenha sofrido influência dos governos militares. a verdade permanece um tema para todas as ciências – sobretudo para uma ciência da cultura compreendida como uma teoria constitucional com ‘weltbürgerlicher Absicht’ (intuito cosmopolita). junho/2009 15 . tanto a memória como a verdade permanecem latentes no âmago de cada cidadão brasileiro. as pegadas do período estão mais claras. 5. defensores e críticos até hoje trocam farpas. inconcebível “Estado de Exceção”. p. 77. tão maior foi a decepção de seus leitores e admiradores há dois anos – dentre os quais figura também o autor) e o trato dos Estados Unidos da América para com a cultura indígena outrora destruída por outro lado. 2008. Afinal. Ditadura no Brasil – tudo sobre o regime militar de 1964 a 1985– especial 40 anos do AI-5. p. sob pena de relegarmos a oblívio o Estado Democrático de Direito.

br. Teoria estruturante do direito. In: SOARES. 2007. São Paulo: Saraiva. 16 MÜLLER. 1. Tradução de Urbano Carvelli. “Cidadania cultural e direito à diversidade lingüística: a concepção constitucional das línguas e falares do Brasil como bem cultural”. 2007 (Estado de sítio). São Paulo: Revista dos Tribunais. SP: Habilis. 2007. 2008. Direito à informação e meio ambiente. n. 2ª Ed. São Paulo: Malheiros. “A cara e a coroa”. Paulo Gustavo Gonet. p. 2008. MACHADO. ________Os problemas da verdade no estado constitucional – Wahrheitsprobleme im Verfassungsstaat.SILVA. MENDES. Outubro 2008. n. Hannah. 2008. Sandra Akemi Shimada (Coordenadoras). In: SOARES. Belo Horizonte: Mandamentos. SP: Habilis. Curso de direito constitucional. Ditadura no Brasil – tudo sobre o regime militar de 1964 a 1985 – especial 40 anos do AI-5. NEVES. 2ª Ed. MENDES. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Revista Internacional de Direito e Cidadania/Instituo Estudos Direito e Cidadania – v. São Paulo: Martins Forense. Porto Alegre: Safe. Estado de exceção. 2008. Maria Fernanda Salcedo. 7-16. 6. 2008.. 2008. Junho 2008. Rio de Janeiro: Lumen Juris. COELHO. Inês Virgínia Prado. Referência bibliográfica AGAMBEN. 4. KISHI. BANDEIRA DE MELLO. n. Constituição e cultura – o direito ao feriado como elemento de identidade cultural do estado constitucional. 2ª Ed. MENDES. Gilmar Ferreira. 7ª Ed. Humberto. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ARENDT. HÄBERLE. PARRON. C. Giorgio. Curso de direito constitucional. São Paulo: Boitempo. Sandra Akemi Shimada (Coordenadoras). – São Paulo. Tradução de Peter Naumann e Eurides Avance de Souza.. São Paulo: Saraiva. Inês Virgínia Prado.. Marcelo. Paulo Gustavo Gonet. Notícias STF. 2ª Ed. REPOLÊS. Sexta-feira. BRANCO. junho/2009 . São Paulo: Malheiros. Quem deve ser o guardião da constituição? Do poder moderador ao Supremo Tribunal Federal. Teoria dos princípios – da definição à aplicação dos princípios jurídicos. Gilmar Ferreira. Aventuras na História – tiragem reeditada. Inocêncio Mártires. 10ª Ed. 2006. Inocêncio Mártires. 1. Revista Internacional de Direito e Cidadania/Instituo Estudos Direito e Cidadania – v. Peter. Celso Antônio. Tradução de Roberto Raposo. SOARES. 2ª Ed. Tamis. Inocêncio Mártires. Revista Internacional de Direito e Cidadania.. Curso de direito constitucional. 16 de Janeiro de 2009. B. KISHI. COELHO. A constitucionalização simbólica. Paulo Affonso Leme. stf. Friedrich. Gilmar Ferreira. A condição humana.. “O impacto do AI-5 no Brasil no Supremo”. 2007. São Paulo: Saraiva. 2008. 2008. Tradução de Iraci de Poleti. Paulo Gustavo Gonet. ÁVILA.jus. BRANCO. posfácio de Celso Lafer. COELHO. 1. Tradução do original em alemão por Marcos Augusto Maliska e Elisete Antoniuk. www.. BRANCO. 2008. “A democracia e suas dificuldades contemporâneas”. – São Paulo.. 2008. 4. Inês Virgínia Prado.

“El punto de partida adecuado para examinar si la demanda de protección de las diferencias culturales resulta *Licenciado em Direito. Dignidade. Introdución Para comprender si existe un motivo para la protección de las diversas identidades culturales es necesario partir de un análisis de la condición del hombre como ser social. Cultural identity. Com base numa argumentação filosófica o texto demonstra que a proteção das identidades culturais é consequencia da dignidade.Artigo DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES David José Geraldes Falcão* RESUMO: O artigo aborda a estreita ligação entre a tutela da diversidade cultural e a dignidade da pessoa humana. 17-30. p. Diversidade cultural. Coordenador da licenciatura em Solicitadoria e da pós-graduação em Solicitadoria de Execução da Escola Superior de Gestão do Instituto Politécnico de Castelo Branco (Portugal). 1. Dignity. Based on a philosophical argument the text shows that the protection of the cultural identities is a consequence of dignity. professor de Direito da Escola Superior de Gestão do Instituto Politécnico de Castelo Branco (Portugal). Palavras-chave: Direitos Humanos. Keywords: Human rights. junho/2009 17 . O autor defende que a dignidade é o fundamento dos direitos humanos. Identidade cultural. Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca. n. Mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca. 4. The author defends that dignity is the foundation of the human rights. Cultural diversity. ABSTRACT: The article approaches the narrow linking between the guardianship of the cultural diversity and the dignity of the human being. Revista Internacional de Direito e Cidadania.

Cambridge University Press. 2 Esta formulación se encuentra en su obra Política:Cfr. El ser humano es un organismo complejo que vive en contacto con otros seres también complejos. 3 Cfr. El hombre como ser social y dialógico Para Aristóteles un ser humano que fuese capaz de vivir fuera de la sociedad sería una bestia o un dios2. Madrid. El ser humano se desarrolla. la “definición de la identidad individual envuelve siempre la referencia a una comunidad que la define”5. lo justo y lo injusto (. Madrid. podemos razonar lo siguiente: si el ser humano debe ser respetado de forma in- Cfr. una vez que su capacidad dialógica implica un vasto número de interlocutores. La palabra sirve para manifestar lo conveniente y lo dañoso. Multiculturalism. Es en esta capacidad de dialogar. 4 Para Aristóteles “la razón por la cual el hombre. característica de los seres humanos. 4. p. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. Asimismo.. sino también a través de la ayuda de los otros (que transmiten los “ítems” que constituyen la identidad). es. edición de Luis Martínez de Velasco. Princeton University Press. 5 Cfr.). Marías y M. Marías y M. El hecho de que el hombre esté constituido por una dimensión relacional es más que una evidencia que.)”. Centro de Estudios Constitucionales. capaces de comprendernos a nosotros mismos. en Persona y Derecho. G. Araujo. 32-33. “un rasgo crucial de la vida humana es su carácter fundamentalmente dialógico. p. más que una abeja o cualquier animal gregario. Charles Taylor. “The Politics of Recognition”. y por tanto de definir nuestra identidad. Tenemos una vida social en la cual mantenemos relaciones significativas con otras personas. A su vez. La argumentación. Sourses of the Self. a través de la adquisición de ricos lenguajes humanos(. y es una característica exclusiva del hombre4. un animal social es evidente: la naturaleza. 1995. no es una llamada de atención sobre esta evidencia lo que pretendemos. Política. 4. con el cual comparte determinados patrones culturales. Lo que. J. p. pp.Cfr. es a través de la sociedad como el hombre puede obtener la realización de sus necesidades y. Espasa-Calpe. Política. la realización de sus fines pasa por una conexión con otros hombres en el seno de un determinado grupo social. no hace nada en vano.. 104. es importante en este punto es poner de relieve que solamente podemos comprender al hombre a partir de su dimensión social. por tanto. 4. n. 1998. 1. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”. Examining the Politics of Recognition. Con todo. Centro de Estudios Constitucionales. todavía. obtener una respuesta a la pregunta: ¿Existe motivo para la protección de las identidades culturales? Si añadimos a la afirmación de que el hombre solamente alcanza su realización en el seno de un determinado grupo social caracterizado por patrones culturales comunes. 1994.Aristóteles. I. hasta ahora presentada no nos permite. y que es a partir de la inclusión de la dimensión relacional del hombre en su estructura ontológica cuando podemos lograr alcanzar tal comprensión. sin embargo. 1989.) Definimos nuestra identidad siempre en diálogo”3. nº 38.. p. Llegamos a una primera conclusión: el hombre alcanza su realización en el seno de un grupo social caracterizado por determinadas pautas culturales comunes. p. Nos convertimos en agentes plenamente humanos. 36.FALCÃO. Aristóteles. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. no sólo con relación a los otros (una vez que no tendría sentido hablar de identidad si no existiesen otros hombres).. Charles Taylor. ha sido subrayada a lo largo de los años. 120. 6 Cfr. Fundamentación de la Metafísica de las Costumbres. 1997. junho/2009 . D. lo justo y lo injusto. 18 Revista Internacional de Direito e Cidadania.1. Cambridge. en el seno de un determinado grupo social concreto. (. p. como aportó Kant6)..) la palabra es para manifestar lo conveniente y lo dañoso. 17-30. la máxima de que el hombre debe ser respetado de forma incondicional (como fin y nunca como medio.. Immanuel Kant. donde reside la clave de su dimensión social.. edición bilingüe y traducción de J. 1997. y el hombre es el único animal que tiene palabra” y añade que “(. Princeton. La formación de la identidad individual se alcanza. Gutmann. 2. justificada ha de situarse en la constitución social del ser humano”1. 11ª ed. Araujo. en realidad. 1 La sociedad es producto del carácter relacional del hombre y de su apertura a los demás.. en A.. además. edición bilingüe y traducción de J. Para Charles Taylor. Madrid.

al mismo tiempo se instituyen organismos internacionales con el intento de reaccionar a los atentados contra esos mismos derechos. si son derechos naturales o históricos. 17-30. en Anuario de Derechos Humanos. debe ser respetado de forma incondicional. sería muy difícil desarrollar una conciencia de respeto hacia la dignidad humana. si se trata de una expresión conceptualmente interpretable y. El hombre. Estados. constituye un marco imprescindible en la historia contemporánea en este sentido. junho/2009 19 . Pero. 9 “Considerando que el reconocimiento de la dignidad inherente a todos los miembros de la familia humana y de sus derechos iguales e inalienables constituye el fundamento de la libertad. sino cuál es el modo más seguro para garantizarlos. Su texto alude a una dignidad humana de carácter universal9.). otra cuestión surge: ¿Cuál es el fundamento de ese deber de respeto incondicional? Antes de aportar nuestra posición en cuanto al asunto clave de este ensayo. 1995. cuál es su naturaleza y su fundamento.. El fundamento de ese deber incondicional de respeto del hombre es su dignidad. p. ha adquirido su momento principal al final de la segunda Guerra Mundial. nº1. No obstante. en la Declaración Universal de los Derechos del Hombre. al mismo tiempo.. La humanidad trataba de iniciar una nueva era. relativa. una vez que. Sobre la dignidad humana En los últimos años el sentido de conciencia de respeto hacia la dignidad de la persona humana ha adquirido un relieve importante.. La Declaración Universal de los Derechos del Hombre. adoptada y proclamada por la Asamblea General de la ONU en la resolución 217-A (III) de 10 de Diciembre de 1948. conferencias. hay que. Emilio Lamo de Espinosa.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES condicional. Resulta pertinente dedicar una atención especial a la problemática de la dignidad humana.2. p. Norberto Bobbio. de hecho. Por lo tanto procedían los Estados en la Conferencia de San Francisco de 1945. Sin embargo. en Culturas. el fundamento de los derechos humanos. Este movimiento de toma de conciencia de la importancia que representa el respeto por la dignidad humana. Y. “Presente y Porvenir de los Derechos Humanos”. pactos que reconocen los derechos básicos de la persona y que crean 7 8 medidas en el sentido de protegerlos y. en los tiempos que corren es evidente la paradoja alrededor de la idea de dignidad humana. nos permitirá obtener una repuesta a la pregunta principal. (. de la justicia y de la paz en el mundo”. reivindica- Cfr. Por lo tanto. por otro lado. Problemática en el sentido de que se discute mucho. a su vez. en la dignidad y el valor de la persona humana. la de sí deben las identidades culturales ser protegidas. una vez que. 42. es en el seno de ese grupo social donde el hombre se realiza. Revista Internacional de Direito e Cidadania. por un lado. Una aproximación al multiculturalismo en Europa. respetar el grupo social en el cual se integra. p. por lo tanto. Madrid. en la igualdad de derechos de hombres y mujeres (. a pesar de las declaraciones solemnes. animal social por naturaleza. como hemos visto. n.. para impedir que. sin las referidas declaraciones o pactos solemnes. Por ello creemos que el gran reto para este inicio de siglo es el de instrumentar procedimientos eficaces para una protección de los derechos humanos. si se puede hablar de una dignidad humana universal o. es la multiplicación de declaraciones. es ineludible contestar a esta pregunta. Ciudadanos. al aprobar la resolución de “preservar a las generaciones venideras del flagelo de la guerra (. que a su vez. como subraya Norberto Bobbio “no se trata tanto de saber cuáles y cuántos son estos derechos. 9. si constituye. Madrid. sean continuamente violados”8.. Cfr.. Prueba de tal relieve. “Fronteras Culturales”. a refirmar la fe en los derechos fundamentales del hombre. 4. O en otras palabras la dignidad se traduce en la legitimidad del hombre para exigir un respeto incondicional de su persona. en que la convivencia entre pueblos se basase en el respeto de la dignidad. 1981.)”. se atenta mucho contra esa dignidad. respectivamente del preámbulo y del artículo 1. 1. no siempre pacíficas. absolutos o relativos. Ha sido el culminar de un largo proceso de luchas. Mucho se recurre a ella y. Alianza. el respeto del individuo no puede dejar de abarcar el respeto de la cultura que le constituye”7. “Todos los seres humanos nacen libres y iguales en dignidad y en derechos”.). “En el momento en que el hombre es concebido como ‘ser de cultura’. en su contestación reside la base de la argumentación.

por ejemplo. G. de las cuales destacan. Actualmente. promoción pública de los disminuidos físicos y mentales. el existencialismo..FALCÃO. en Kuwait voten). 1988. ha robado la vida a muchos seres humanos. en el mundo musulmán las mujeres siguen siendo víctimas de legislaciones de otras épocas. 13 Cfr. de la familia y del joven. ilustran bien algunas de las innumerables faltas de respeto por la dignidad humana. Mientras siga este panorama “el abolengo radical de todos y cada uno de los componentes de nuestra estirpe seguirá viéndose sometido a las ambigüedades de un comportamiento que. aparte de otros. un condenado a la libertad. y por lo tanto un absurdo. Por lo tanto. declaración de los derechos de la mujer. resultan de la configuración de la propia civilización. Dignidad: Una Palabra Vacía?. la eficacia de estos tribunales.26. 30. El primero con sede en Haya. las autoridades niegan su existencia. 20 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 16. En primer lugar. Todas estas exigencias tienen un fundamento casi exclusivo en la dignidad de la persona. En cuanto a 10 situaciones concretas. a su vez. los aspectos más perversos y negativos de la realidad contemporánea. “Sobre el Concepto de Dignidad Humana”. nº19. Las prisiones son muchas veces campos de trabajo forzado. Navarra. D. p. se estima que por lo menos 50 millones de chinos hayan sido condenados a vivir en esos campos. EUNSA. Acabamos de referir. En el TPR los procesos apenas han sido iniciados en Diciembre de 1996. 12 En 1993 y 1994 la ONU ha creado. Los ataques teóricos a los derechos humanos han sido perpetrados. El existencialismo sostiene que el hombre es un ser para la muerte. Cfr. los Laogai. En lo que concierne a los ataques.. constatamos que existen normas que legitiman. 1996. 1996. y el segundo en Arusha. Desde su creación en la China maoísta de los años 50. Echando una simple mirada a las normas de países considerados desarrollados. Con todo. n. entre muchos otros10. la pena de muerte. Vivimos en una época en la que la apoteosis verbal y documental de la dignidad humana es una realidad. junho/2009 . La rehabilitación mental del individuo recluso constituye uno de los fundamentos de su política de encarcelamiento. por ejemplo. ha sido contestada desde su creación. Dignidad: ¿Una Palabra Vacía?. los ataques a la dignidad humana en el mundo contemporáneo. a su vez. resulta más fácil y cómodo el abandono de cualquier responsabilidad que implique esa búsqueda. Tomás Melendo & Lourdes Millán-Puelles. “La efemérides de 1948 se encuentra cortejada y sostenida por todo un cúmulo de manifestaciones y acontecimientos: movimientos en defensa de la igualdad mujer-varón y de todo el tipo de minorías. obviamente. 4. Realidad donde. se reclaman y exigen valores como la libertad y la igualdad. podemos enumerar un sinfín de escenarios que complementan nuestra idea. aún sufren en los Laogai. p. Otros ejemplos como el de los Laogai11 en China o el de los genocidios sufridos por los bosnios de exYugoslavia y por los tutsis de Rwanda que. porque los Estados son desresponsablizados de la obligación de buscar. ya que no su praxis. Navarra. ensalza y envilece”14. y un nutridísimo etecétera. podemos decir que se registran muchos y muy evidentes. con sus respectivos años internacionales. Robert Spaemann. no existirían principios valorativos o una moral crítica universales y válidos para todas las culturas pues a distintas culturas conciernen distintas formas de concebir valores morales. Son. a su vez. el derecho a la vida. sufrimientos y que. les privan del derecho de voto (aunque. la capital del Rwanda y Nairobi. Kigali. En Julio de 1997. El reto del TPI seria el de juzgar los crímenes cometidos en exYugoslavia desde 1991. La manera de pensar actual está corrompida por la idea de lo práctico. A su vez. en Persona y Derecho. Las informaciones sobre este sistema de prisión son muy escasas. Por ejemplo. p. En opinión de Robert Spaemann. fundamentalmente. el estructuralismo. Y. La búsqueda de la verdad exige siempre esfuerzo y compromiso. En China la idea de rehabilitación esta siempre presente.. El segundo motivo deriva del hecho de que los Estados no presten a los tribunales internacionales auxilio material y financiero suficiente. el TPI había realizado 76 acusaciones. por diversas doctrinas filosóficas. los estructuralistas declaran que la muerte del hombre es ineludible y se acerca . han conducido a la creación del Tribunal Penal Internacional y del Tribunal Penal para Rwanda12. que a pesar de sus progresos presenta “una poderosa tendencia a la completa eliminación de la idea misma de dignidad”13. Tomás Melendo & Lourdes Millán-Puelles. y como antes nunca. 17-30. a su vez. a pesar de todo. los únicos datos disponibles son los testimonios de exreclusos. y aún más indiscutibles. el TPR tenía el reto de juzgar los crímenes perpetrados en el Rwanda durante el año de 1994. a la par. 14 Cfr. prender y juzgar en sus tribunales internos a los autores de los crímenes. por su mayor vehemencia. ciones. que resultaría casi interminable”. al paso que el TPR había hecho lo mismo. incluso mujeres y niños. p. 11 Laogai significa reforma a través del trabajo. respectivamente el Tribunal Penal Internacional y el Tribunal Penal para el Rwanda. J. o las doctrinas relativistas. los relativistas sostienen que a diferentes culturas conciernen diversas formas de concebir la naturaleza humana y de proporcionarle una tutela adecuada. del niño. EUNSA. Actualmente. Tanzania. en términos prácticos llevados a cabo contra la dignidad humana. consideradas ciudadanas de segunda clase donde. se calcula que 6 a 8 millones de personas.

A lo largo de estas últimas líneas. Instituto de Derechos Humanos Bartolomé de las Casas. 417. muchas veces se utiliza la palabra dignidad no solo para seres humanos. cit. Cfr.) la frecuencia en el uso del concepto dignidad humana o dignidad de la persona y la contundencia de los argumentos que la utilizan va acompañada de una patente imprecisión. p.. Valencia. 4. hasta el punto de que se corre el riesgo de convertirla en una expresión casi vacía de contenido”.. p. pues. por primera vez de forma rigurosa. terminando con nuestra propia postura sobre lo que puede significar dignidad. En realidad.los comportamientos aten15 16 tatorios contra ese algo especialmente valioso característico de la humanidad”16. En una primera acepción. Madrid. que las formulaciones generales son insatisfactorias. que es a través del respeto de los derechos básicos del individuo que se traduce la mejor manera de respetar las exigencias de la dignidad. Dignidad representa un término vago. p.. a su vez. la idea de dignidad a través de una simple definición. es Kant el que ha conceptuado. nos remite casi inmediatamente a la existencia de algo valioso intrínseco a todos los seres humanos que no entra en el campo de lo disponible por parte de otras personas o por los poderes públicos y. Sin embargo. Cfr. 420. Lo que pretendemos en este subapartado es intentar analizar el significado de la idea de dignidad y demostrar la conexión que existe entre la misma y los derechos humanos. contribuye al un escepticismo de muchos autores sobre una posibilidad de encontrar un denominador común. un consenso que pueda tener un papel importante en Derecho e incluso de convertirle en una expresión destituida de contenido18. o. aclarar su concepto y fundamento. “permite calificar como inhumanos.111. 17 En el pensamiento estoico. 1986. Para profundizar este asunto Cfr. determinar cuales son los límites de la protección. como es por ejemplo el caso de no poder establecerse con rigor a partir de qué duración una pena de privación de la libertad constituye un atentado contra la dignidad. “se recurre a la idea de dignidad para destacar la existencia en esas distintas realidades de una propiedad valiosa que merece algún tipo de protección pues contribuye a dotarles de sentido”19. La Dignidad de la Persona desde la Filosofía del Derecho. imprescindible. cuando se afirma que determinada postura política ha atentado contra la dignidad de determinado Estado. antes de avanzar con los análisis de las aportaciones Kantianas y de otros autores con bastante relevancia. 2002. La Dignidad de la Persona. 18 Semejante razonamiento presenta Eusebio Fernández García cuando afirma que “(. junho/2009 21 . o sea. o sea. procedemos a una explicación de los distintos significados que la idea de dignidad puede asumir y que pueden plantear algunos problemas. la idea de dignidad. estaba presente la idea de dignidad. Dignidad Humana y Ciudadanía Cosmopolita. Se caracterizaba como un ideal al cual los seres humanos se podían acercar siempre que usasen sus capacidades racionales en su vida. En determinados casos. p. se destaca la idea de dignidad en especial como la capacidad de los seres humanos de conocer y seguir las leyes divinas naturales y universales. como explica Amuchastegui. Este hecho. en Instituto de Derechos Humanos “Bartolomé de las Casas”. la doctrina no tiene el menor recelo en confesar que el término se le escapa. op. 1.2. nuestra opinión es que la idea de dignidad desempeña un papel fundamental Cfr. la idea de dignidad. Dignidad y Ciudadanía: Una Teoría de los Derechos Humanos. pp. Realizaremos un balance de aportaciones de algunos destacados autores sobre lo que es la dignidad y cuál es su razón de ser. “ante los intentos de definición. en este contexto. nos hemos referido reiteradamente al término dignidad. Jesús González Amuchastegui. Tirant lo Blanch. Dykinson. Autonomía.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES existen paralelamente referencias positivas del respeto y enaltecimiento de la dignidad humana. 19 Cfr. n. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Por ejemplo. 17-30. 2004. En el pensamiento cristiano medieval.1 Sobre el concepto y el fundamento de la dignidad No resulta fácil conceptuar y fundamentar. Aunque se puedan encontrar alusiones a la idea de dignidad humana en los pensamientos antiguo y medieval17. que la dignidad es una noción con un cuerpo semántico relativamente poco preciso”15. Civitas. 18 y 19. Madrid.y lógicamente inmorales. Madrid. Resulta. Jesús González Amuchastegui. 2001. cuando se habla de la dignidad de la profesión de juez. una vez que resulta difícil determinar su alcance. en Tomás de Aquino. nº 21. Gregorio Peces-Barba. exhaustivamente. Eusebio Fernández García. al cual se añade una pluralidad de interpretaciones que se han dado a la idea de dignidad. Dykinson. Jesús González Pérez. como también hemos planteado.

de todos los seres humanos. esto es. en cambio. Con el objetivo de aligerar la tendencia escéptica actual en cuanto al significado del término “dignidad” y. O. no admite nada equivalente. a su vez.) en el orden de los fines. hemos recurrido a los planteamientos de Gewirth20 que. junho/2009 . 22 Cfr. y refleja una igualdad entre todas las personas. y se presenta como “un rasgo necesario –no contingente. es decir. op. Cornell University Press. tiene que sernos sagrada. En cuanto al primero. por lo menos lo debería desempeñar en el caso de este último. Aquello que tiene un precio puede ser sustituido por algo equivalente. el hombre es un fin en sí mismo porque posee una dignidad. eso no tiene meramente un valor relativo o preciso. la humanidad. absoluta. que dice. J.2. pp. cit. Human Dignity and American Values. El primero empírico y el segundo intrínseco y absoluto. D. De la definición Kantiana. la dignidad. The Constitution of Rights. por consiguiente. pero aquello que constituye la condición para que algo sea fin en sí mismo. Meyer y William A. p. 1992. Kant afirma que “(. no constituye una característica universal del individuo. se refiere a cualidades tales como la compostura. de nuestras facultades. define dignidad de la siguiente forma: “En el reino de los 20 fines todo tiene o bien un precio o bien una dignidad. sin suponer una necesidad. permanente e inalterable. 21 Ibidem. Ithaca and London. Parent (eds. pasamos a continuación al análisis de un conjunto de definiciones del termino dignidad proporcionado por distintos autores. En suma. que como hemos señalado anteriormente. 12. no transitorio ni intercambiable”21. que. características en las que se manifiesta la personalidad de determinado individuo. En esta acepción dignidad no es más que un rasgo relativo y circunstancial y puede o no estar presente en la persona. nunca meramente como medio”23. Aquello que se refiere a las inclinaciones y necesidades del hombre tiene un precio de mercado. sin fin alguno. p. también de lo que es en sí santo. Añadiendo a esta afirmación la segunda fórmula del imperativo categórico Kantiano. el respeto o la confianza. sino un valor interno.1. por tanto. dignidad será aquella característica intrínseca al individuo y. una vez que ostenta un valor interno. constituyendo la condición para que el hombre sea fin en sí mismo.. a su vez.). el hombre (y con él todo ser racional) es fin en sí mismo. de lo que permite llamar santo a todo lo que esté de Cfr. eso tiene una dignidad.FALCÃO. obtenemos un refuerzo de la idea de que toda persona es merecedora de respeto. Empezamos por Kant. en nuestra persona. con otras palabras. G. Alan Gewirth. en el campo de la moral y del derecho o. 112.. Así. dignidad”22. 22 Revista Internacional de Direito e Cidadania. “Obra de tal modo que uses a la humanidad tanto en tu persona como en la persona de cualquier otro siempre a la vez como fin. La dignidad según Kant Kant en su obra Fundamentación de la Metafísica de las Costumbres. Immanuel Kant. 4. lo que se encuentra por encima de todo precio y. en cuanto al segundo concepto. 11 y 12. se conforma a cierto gusto. aquello que. es cosa que sigue ahora de suyo. además de intentar demostrar que puede existir un denominador común en lo que concierne a esta idea. en Michael J. ningún otro fin puede legitimar un tratamiento a un ser humano incompatible con esa misma naturaleza de fin que todos poseemos. p. estando constituido por determinados aspectos intrínsecamente valiosos de los seres humanos. por tanto. deducimos que toda la persona humana es merecedora de respeto incondicional y consideración. 1. tiene un precio de afecto. El ser humano es siempre sujeto y nunca objeto.1. “Human Dignity as the Basis of Rights”. procede a la quiebra del concepto de dignidad en dos. sin al mismo tiempo ser fin.. 23 Ibidem. que la torna única e insustituible. O sea. porque el hombre es el sujeto de la ley moral. Por otro lado. n. siendo el ser humano el fin. Gewirth define la segunda acepción de dignidad como un determinado valor perteneciente a todos los humanos como tales de una forma igual. es decir no puede nunca ser utilizado sólo como medio por alguien (ni aun por Dios). a una satisfacción producida por el simple juego. Hecha esta breve distinción. 104. p. 17-30. ha sido el primer autor en conceptuar de forma rigurosa dignidad.

Ibidem. Gutmann. 184. Como explica Kant25 existe el sujeto moral y el sujeto empírico que no coinciden exhaustivamente el uno con el otro.) Este potencial (. 126 y 127. 29 Ibidem. p. los seres humanos. Derechos Humanos: Concepto. 26 Cfr. Princeton. en Jesús Ballesteros. Trad. 25 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Por otro lado. 27 Cfr. Javier Muguerza. “Derechos Humanos: ontología versus reduccionismos”.) es lo que asegura que toda persona merece respeto. en Persona y Derecho. Para salvaguardar este problema.. p. recurre al concepto de “potencialidad” Cfr. O sea.1. “La alternativa del Disenso. en consecuencia. Crítica de la Razón Práctica.2 La dignidad humana (aportaciones relevantes) En una línea de razonamiento semejante a la kantiana. personas discapacitadas o en coma-”27. Sin embargo. En primer lugar. Examining the Politics of Recognition. 30 Cfr. la vinculación del carácter del ser humano como fin en sí mismo con su racionalidad.)”24. “Los Derechos Humanos como Derechos Inalienables”. Charles Taylor. 17-30. Espasa-Calpe. 28 Cfr.Jesús Ballesteros. Debate. (. el profesor Pujalte. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. ni siquiera al peor criminal se le podría reducir a sus conductas evidentes. Madrid. Charles Taylor sostiene que “La po24 lítica de la dignidad igualitaria se basa en la idea de que todos los seres humanos son igualmente dignos de respeto (. ineludiblemente. no que sean dos sujetos distintos. junho/2009 23 . Pues esta ley moral se funda en la autonomía de su voluntad libre (. 1982.. En torno a la Fundamentación Ética de los Derechos Humanos” en Javier Muguerza y otros.. pero que el sujeto moral es el sujeto en su rectitud. el sujeto moral no debe quedar reducido a sus expresiones empíricas. mientras que Taylor hace alusión a un “potencial humano universal”. hecho que constituye la condición para que todo ser humano sea un fin y nunca un medio. sostiene que al fundamentar la dignidad humana apenas en el carácter de autoconsciencia y libertad del hombre. debe ser también el motivo de la peculiar dignidad humana”29. Sujetos. Immanuel Kant. 4. 1. n. a su vez. constatamos que el denominador común reside en el hecho de que el ser humano posee una cualidad que le hace merecedor de respeto. nuestro sentido de la importancia de tal potencialidad tiene un alcance tan vasto que llegamos a extender esta protección incluso a personas que por alguna circunstancia son incapaces de realizar su potencial de modo normal-por ejemplo. en A. En segundo lugar. Kant la define como “un valor interno”. como explica con claridad Javier Muguerza.2. una vez que éstas no posibilitan una percepción de las motivaciones y intenciones más ocultas. Fundamentos. Tecnos. La cualidad de seres inteligentes y dotados de voluntad es. “The Politics of Recognition”. El Fundamento de los Derechos Humanos. 1989.. En la aportación kantiana y en la de Taylor.. “siendo ésta la diferencia esencial entre el hombre y los seres no humanos. 49. de conocer la moralidad de los actos y de actuar moralmente”28. Concluyendo.. 1994. pp.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES acuerdo con ello. MartínezPujalte32. 1975. Para Martínez-Pujalte. fin en sí mismo26. de Emilio Miñana y Villagrasa y Manuel García Morente. hecho que constituye una fuerte razón para seguir considerándole sujeto moral.) lo que se destaca como valioso es un potencial humano universal. siendo que no se puede juzgar a las personas solamente por sus actos. que no tiene precio. se puede correr el riesgo de exclusión de miembros de la familia humana que no tengan tales características31. Madrid.. pp.. p. sean cuales sean sus actos. Kant reconoce en todos los seres humanos la presencia de algo intrínseco y valioso. Madrid. en definitiva de una dignidad. una capacidad que todos los seres humanos comparten. Multiculturalism. nº 9. 1992. y. “la dignidad humana radica en la capacidad de entender y de querer. Esa cualidad se traduce en la capacidad de juzgar y proceder moralmente y. 92. p. Más aún. En esta citación se plasman las aportaciones básicas del significado kantiano de dignidad. la conexión entre la sacralidad de los seres humanos con su condición de sujetos morales con autonomía y capaces de imponerse restricciones morales. 41 y 42. siguiendo las enseñanzas de Jesús Ballesteros30. aquella que nos distingue de los demás seres no humanos. nunca pierden su capacidad de actuación moral. Princeton University Press.

William E. Sijthoff & Noordhoff. Fundamentos. D. p. Ibidem. “Los Derechos Humanos como Derechos Inalienables”. J. Algunas de estas condiciones pueden ser tratadas y el daño de las capacidades racionales ser evitado. Este poder de adquirir poderes racionales. Peter Geach. en Persona y Derecho. Conklin. hasta este momento. política adoptada por muchos doctores ingleses. Sujetos. 1979. 32 Cfr. en Jesús Ballesteros. Pero en cualquier caso no descubriremos ningún tratamiento si adoptamos la política de abortar niños diagnosticados antes de nacer con síndrome de Down. Tecnos. sino la potencialidad. p. 6.. Madrid. Derechos Humanos: Concepto. 35 Cfr. siendo que “el atributo que basta para identificar al hombre concreto como portador de tal dignidad no es la presencia real y efectiva de las capacidades o habilidades correspondientes a un desarrollo psicológico normal. cit. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. Acerca de éste último hay una gran cantidad de falsa información.. junho/2009 . como el síndrome de Down (mongolismo). p. op. 92 y 93. Sujetos. La imposibilidad de alterar la constitución genética responsable del defecto no es relevante. Ponencia presentada a las XXV Reuniones Filosóficas organizadas por la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Navarra. Sólo el animal fuerte nos parece poseedor de dignidad. 91. “El hombre es “animal racional”: acerca de una definición”. “Los Derechos Humanos como Derechos Inalienables”. una vez que. pero aun cuando estas circunstancias que impiden sean innatas no tenemos ningún derecho a concluir la ausencia de racionalidad esencial. p.. El cretinismo debido al funcionamiento defectuoso de la glándula tiroides por mucho tiempo supuso imbecilidad irremediable. Alphen. “cada persona es una potencialidad abierta en el proceso de llegar a ser”34. 34 Cfr. Madrid. “Los Derechos Humanos como Derechos Inalienables”. 33 Cfr. o envenenándolos o dejándolos morir de hambre después de nacer. 93. por supuesto. (. 37 Cfr. p. Tecnos. un error congénito en el metabolismo del cobre que no se haya descubierto puede conducir a una concentración venosa 31 de cobre en el sistema nervioso. Existen otras condiciones semejantes.). Para Conklin “la humanidad común a todas las personas es su potencialidad”. en op. 17-30. y así sucesivamente. Fundamentos. (. lo cual el doctor Anthony Kenny ha caracterizado como el poder de adquirir poderes. 4. 36 Cfr. p. a su vez. empleado por Conklin 33. 1992. pero sólo cuando no se ha apoderado de él la voracidad. de una independencia interior. “No necesita ninguna demostración el hecho de que algo es para sí mismo su propio Cfr. p. muchas de las víctimas de este síndrome pueden desarrollar sus capacidades racionales más allá de lo que en otros tiempos pudiera hacerlo un enfermo no tratado. n. Según Spaemann la dignidad constituye un bastarse a sí mismo. la dignidad humana es siempre “la expresión de un descansar-ensí-mismo. en op. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. “Los Derechos Humanos como Derechos Inalienables”. como una expresión de fuerza. 92. Robert Spaemann. una dignidad que sea fundamentada en una supremacía de los miembros de nuestra especie. Derechos Humanos: Concepto. en Antonio-Luis Martínez-Pujalte. en definitiva a todo hombre. constatar que pertenece a todos los hombres.FALCÃO. puede ser impedido por factores fisiológicos. una incapacidad congénita para metabolizar fenilananina que diagnosticada fácilmente puede ser tratada adoptando una dieta libre de esta sustancia.. nº19. no nos distinguirá de los demás seres vivos. William E. cit. Conklin. In Defense of Fundamental Rights. Sin embargo. en Jesús Ballesteros. G. cit. incluso si todavía no ha nacido o si por razones fisiológicas se halla privado fácticamente de tales habilidades”35.. Para comprender perfectamente lo que significa “potencialidad” y. Para Robert Spaemann. no debemos “confundir las habilidades características con la racionalidad radical de la que aquellas surgen. Es esta racionalidad radical lo esencial en el hombre y no creo que haya ningún motivo para negar su presencia en ningún tipo de animal humano. otras. Pamplona. 1992. escapan a nuestro desarrollo médico. otros defectos genéticos igualmente inalterables son bastante compatibles con un completo desarrollo intelectual si se adopta el régimen adecuado”36. Y también sólo aquel animal que no se caracteriza fisonómicamente por una orientación hacia la mera supervivencia”37. 1988. pp. 18.. una vez que estos también se consideran fines en sí mismos. 199. Concluye Martínez-Pujalte que la dignidad humana tiene su fundamento en la “potencialidad de ser autoconsciente y libre”. en Antonio-Luis Martínez-Pujalte.). 1988.. y no como una compensación de debilidad. “Sobre el Concepto de Dignidad Humana”. 24 Revista Internacional de Direito e Cidadania.

Revista Internacional de Direito e Cidadania. Martínez-Pujalte sostiene que la clave para comprender el concepto de dignidad reside precisamente en su fundamento. p. junho/2009 25 . que distinguen a los humanos de los no humanos y que les permite juzgar moralmente. salvaguardando Cfr. 22. cit. 40 Ibidem. aclarado. se dilata la persona y se hace algo absoluto. Una cualidad que torna a la persona única e insustituible siendo. hay disconformidades. el hombre tiene la capacidad de no encerrarse solamente en su propio ser. Sin embargo. reside en el hecho de que únicamente los seres humanos poseen la capacidad de comprender las relaciones teleológicas en las cuales están externamente implicados. puede también caer en la cuenta de que él mismo es también entorno para otros. p. a pesar de su complejidad. le corresponde la dignidad humana. la afirmación de que todos los hombres comparten una dignidad. 4. a su vez. al propio deseo. cit. Puede ponerse a sí mismo en servicio de algo distinto de sí. 42 Ibidem.. 41 Cfr. un apéndice u otro.. cuanto menos distanciado esté de sí mismo. Spaemann clasifica estas disconformidades en constitutivas 38 39 y personales. En este caso concreto la dignidad se puede perder. El ratón es también un fin último para sí mismo. “Hay una dignidad del funcionario. el término potencialidad (la posibilidad de venir a ser autoconsciente y autónomo). Para concluir. O con otras palabras. Por otro lado. constituyen una dignidad específica. solamente desde este punto se puede conferir al concepto de dignidad una dimensión ontológica. La distinción. del juez. cit.. En semejante línea de razonamiento. Y es con base en este potencial que todo el hombre merece ser respetado. Las primeras son expresión de una responsabilidad que determinados individuos tienen ante los demás. El hombre es un fin en sí mismo y no apenas un valor para sí mismo. Después de esta reunión de significativas aportaciones acerca del concepto de dignidad.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES y último fin y que no puede ser convertido por otro en un mero medio para un fin totalmente extraño. Robert Spaemann. O sea. pero esto no es así para el gato. de los propios deseos. Martínez-Pujalte. lo que constituye la condición para que la persona sea fin en sí misma y. es imprescindible hacer un resumen de las partes más significativas de lo que se ha dicho. Cfr. como tal. Todos los intentos de entender únicamente de este modo el carácter de fin en sí mismo del hombre-que el hombre es la realidad terrena más alta para el hombre.. “Sobre el Concepto de Dignidad Humana”. “Sobre el Concepto de Dignidad Humana”. las disconformidades personales tienen como fundamento el diferente grado de moralidad de los seres humanos. p. El hombre “(. del maestro”41. del profesor. Robert Spaemann. Y que un hombre pagaría cualquier precio para vivir no es para el león ningún motivo para dejarle con vida. Se hace inconmensurable.no aciertan con el concepto específico de dignidad humana”38. por lo tanto merecedora de un respeto incondicional. “El hombre no remite necesariamente todo el entorno a sí mismo. Kant en Fundamentación de la Metafísica de las Costumbres escribió que la dignidad humana es un valor interno. para fundamentar la dignidad añadió a las características (racionalidad y voluntad). en op. 20. p. n. a su vez. “Sobre el Concepto de Dignidad Humana”. en op. el fin más alto para sí mismo. La cuestión que surge es la siguiente: ¿”dónde reside entonces la distinción de principio entre el carácter de fin en sí mismo de todo lo que es y el carácter específico de fin en sí mismo que señalamos como dignidad humana inviolable?”39. en op. Todas las otras han seguido su línea de razonamiento añadiendo. 23. a través del cual intentaremos que el concepto de dignidad quede. Robert Spaemann. no significa que todos compartan el mismo grado de dignidad. Precisamente en esta relativización del propio yo finito. pues está dotado de una moralidad potencial y. El ser humano es un fin en sí mismo absoluto. Para Charles Taylor la dignidad es producto de un potencial humano universal compartido por toda la familia humana. hasta el sacrificio del mismo”40. intereses y objetivos. parece claro que la más importante ha sido la kantiana. Y. como explica Spaemann. tanto menos dignidad posee”42. 17-30.) cuanto más entregado a su deseo o fijado en sus intereses..

disfrutan de una dignidad que. para los derechos humanos (. “Crepúsculo en el Horizonte de Occidente ¿El ocaso de los Derechos Humanos Universales?”. no indica inmediatamente un determinado y específico 43 derecho humano. “es que todos y cada uno de los seres humanos son valiosos en sí mismos. una vez que todos comparten una cualidad común. que a su vez. 4. Levinas. los derechos humanos. La dignidad. Valencia. (Trad. que deben ser vistos como un medio de actualización de la dignidad. junho/2009 . 432..FALCÃO.2 Dignidad: el fundamento de los derechos humanos “Considerando que el reconocimiento de la dignidad inherente a todos los miembros de la familia humana y de sus derechos iguales e inalienables constituye el fundamento de la libertad. no tiene precio. G. adoptada y proclamada por la Asamblea General de la ONU en la resolución 217-A (III) de 10 de Diciembre de 1948. Pardo: Entre Nosotros. como afirma Amuchastegui. a título de derechos humanos. como afirma Muguerza. 2001. Essais sur le penser-a-l´autre. O. 44 26 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Spaemann sostiene que la diferencia entre el carácter de fin en sí mismo de todo ser vivo y. p. las virtudes y talentos por los que los hombres difieren unos de los otros. no es más que el criterio a través del cual se atribuyen “(. Entre Nous. es la razón de ser de lo que puede llamarse derechos humanos. insustituible e incomparable. El principio de la dignidad humana juega un papel determinante a la hora de fundamentar todos los derechos humanos. el carácter específico de fin en sí mismo que se señala como dignidad humana reside en el hecho de que el ser humano posee una moralidad potencial.) es que tenemos derechos porque como seres humanos tenemos lo que a veces se ha denominado como ‘la dignidad humana’ “44. y bastante acertada.2. 173. la fuerza física. y la elevación de esos derechos al rango de principios fundamentales de la legislación y del orden social”45. p. D. Declaración Universal de los Derechos del Hombre. 17-30. implica un conjunto de atributos que confieren a todos los miembros de la familia humana un estatuto especial que debe de ser garantizado. de J. independientemente de cualidades tales como el rango social. nº38. p. Jesús González Amuchastegui. nos permiten actuar moralmente.. Juha-Pekka Rentto. “Una fundamentación típica. n. gozan de un carácter único. En esta idea han insistido todas las teorías de los derechos humanos.46 La única forma de impedir que los individuos sean tratados como medio es a través de la garantía de un conjunto de derechos... la dignidad. 45 Cfr. J. como Kant decía. Pre-Textos. el primer derecho humano al Cfr. El concepto de dignidad potencial. todos los seres humanos tienen derecho a ser titulares de derechos humanos porque solamente así se pueden satisfacer las exigencias de la dignidad. o sea. de la justicia y de la paz en el mundo” (…) y “Todos los seres humanos nacen libres y iguales en dignidad y en derechos”43: En estos dos trechos de la Declaración Universal de los Derechos del Hombre se hace alusión a una dignidad humana universal. 46 Cfr. E. La deducción lógica que puede llevarse a cabo del principio de la dignidad es simple y. Finalmente. y todas aquellas concepciones morales de signo individualista que hacen de la separabilidad e independencia moral de las personas un elemento nuclear de las mismas”. 243). La dignidad.. Los derechos del hombre son compartidos igualmente por toda la familia humana.) unos derechos que. en Persona y Derecho. respectivamente del preámbulo y del articulo 1. pues no tiene equivalente y no es susceptible de racional intercambio. Todas estas aportaciones nos permiten avanzar con una definición de dignidad humana. op. 1. 1998. cit... intelectual o moral. 1991. de este modo a las personas que por determinada razón no poseen tales características. Sin embargo. se asignan al hecho mismo de ser hombre. L. Paris. p. Dignidad humana será aquella cualidad que nos hace merecedores de un respeto incondicional y nos confiere el estatuto de fin en nosotros mismos en razón de nuestra racionalidad y voluntad potencial. Cfr. Ensayos para pensar en el otro. Bernard Grasset. confiriendo al concepto de dignidad un carácter universal.

hay que obligatoriamente reconocer que existe una determinada esfera del individuo que nunca puede ser afectada. El hecho de sean requisitos formales. deberán abstenerse de cualquier medida contraria a la dignidad.. No obstante dado que el concepto de dignidad no indica inmediatamente un determinado y específico derecho humano.. emitir juicios. S. que resulta importante subrayar es la de los límites que implican el principio de la dignidad humana a las actuaciones de terceros y de los propios Estados. el Estado no solo tiene el deber de respetar la dignidad sino el de protegerla activamente. 4. Barcelona. “(. El Estado y los demás entes públicos. a la sociedad en conjunto o a una entidad supraindividual”48. proteger dichos bienes frente a las políticas agregativas y maximizadoras del bienestar que justifican infligir sacrificios a algunos individuos en beneficio de la maximización de ese bienestar general”49. Debate.) una vez establecidos cuáles son los bienes básicos de los que todos los individuos deben poder gozar. una cuestión pertinente puede surgir en este ámbito es la siguiente: ¿Cómo se conocen los derechos humanos que corresponden al hombre en función de su dignidad? 1.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES cual aspiramos es el de ser sujetos de derechos humanos47. p.) a otros individuos. universalidad o la irretroactividad de algunas de ellas. dictar actos. impidiendo los atentados de los particulares.2. 48 Cfr. Por lo tanto. Un Ensayo Sobre Fundamentación. los cuales no pueden ser violados..2. p. Otra cuestión. 1989. C. O sea. el Estado no puede legislar contra las facultades o derechos que se asignan al individuo en virtud de su dignidad. tendrá que. Como ejemplos de algunos requisitos formales que deben tener las normas que regulan las conductas humanas: la estabilidad. Ariel. p. sino igualmente como fundamento de los derechos humanos. 1. p. No podrá promulgar normas. incluso en aras del bien común.3 Límites impuestos por la dignidad con relación a terceros El objetivo de los derechos humanos. Por otro lado. Por otro lado. En definitiva. O en otras palabras el reconocimiento del derecho a la tutela judicial efectiva. claridad. Madrid. adoptando las medidas apropiadas para evitarlos o. no implica que estén privados de relevante carácter moral. 1989. Ética y Derechos Humanos. es el de funcionar como instrumento “para impedir que se prive a los individuos de ciertos bienes con el argumento de que ello beneficia (. la seguridad jurídica exige un reconocimiento a todas las personas de la posibilidad de acudir a una instancia para defenderse de las violaciones de determinados derechos e intereses.. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Lo que hemos pretendido demostrar a lo largo de estos últimos apartados es el papel preponderante que asume el principio de la dignidad no solo en la estructuración de determinado modelo institucional. que representan exigencias de la seguridad jurídica y de 47 exclusión de la arbitrariedad. Nino. op. n. castigándolos con los medios proporcionales y suficientes. La forma a través de Cfr. 17-30. Jesús González Amuchastegui. el principio de la dignidad humana pretende. El Fundamento de los Derechos Humanos. Además de que el Estado al legislar esté limitado por determinados bienes de los individuos. “La alternativa del Disenso. en Javier Muguerza y otros. 49 Cfr. igualmente respetar determinadas formalidades. Hemos sostenido que el punto de partida de todo es el reconocimiento del hombre como ser digno. En torno a la Fundamentación Ética de los Derechos Humanos”. 433. 262. 50. Javier Muguerza. en la acepción Kantiana.4 Como conocer los derechos humanos que corresponden al hombre en función de su dignidad.. si se reconocen determinados derechos a los seres humanos siguiendo el principio de la dignidad inviolable de la persona. cit. condicionar la actividad humana que no se coadunen con la dignidad de la persona. siempre como un fin en sí mismo. junho/2009 27 .

que se manifiestan determinantes en el desarrollo del ser humano como ser digno. Oxford. es necesario que esa pretensión tenga un determinado titular. por tanto. Guy Haarscher. Roberto Andorno. “La experiencia ética del bien supone algún grado mínimo de conocimiento de la esencia de las cosas con las que nos manejamos. Natural Law and Natural Rights. 1995. la realización de sus fines pasará por una conexión con otros hombres en el seno de un determinado grupo social. con relación a los otros y a través de la ayuda de los otros. Cfr. además. Pensemos. “Universalidad de los Derechos Humanos y Derecho Natural”. y sea imputable a una o más personas con obligación de respetarla54. Igualmente. Es con base en el conocimiento de los bienes esenciales. cit. nos parece que la facultad humana que cumple el rol activo en el conocimiento de “lo justo” es el razonamiento práctico (que parte de un deber ser) y no el especulativo (que parte del ser)”51. el de si deben las identidades culturales ser protegidas. 46. 36. en su “inflación” que podría conducir a la destrucción del concepto mismo de derechos humanos. 43. los autores: Jean Rivero. John Finnis. J. Les Droits de l´Homme. 4. Posición adoptada No ha sido en vano que nos hemos dedicado durante algunas líneas a conceptuar y a fundamentar la dignidad humana. tropezamos con un problema real que consiste en la no-fijación de límites en el catálogo de los derechos humanos. Se pasa inadvertidamente del primero al segundo sin preguntarse antes si estamos frente a un bien realmente debido en justicia a la persona. Roberto Andorno. Los derechos humanos no son más que la concreción de estos bienes.FALCÃO. para un estudio más profundo de la cuestión. John Finnis. Pero. en él alcanzaba su realización. 54 Cfr. en op. “Detrás de esta inflación de pretensiones subjetivas se encuentra una confusión entre las nociones de deseo y de derecho. Clarendon Press. Les Libertés Publiques. 1980. n. A su vez. Philosophie des Droits de l´Homme. A lo largo de las últimas páginas nos hemos apartado un poco del tema principal.3. o lleven a generar niños sin padres biológicos conocidos”53. “Universalidad de los Derechos Humanos y Derecho Natural”. PUF. Para conocer si algo es justo hay que constatar si realiza un bien esencial de la persona52. Asimismo. Pero de cualquier manera. Pero no sin antes recapitular en qué punto de la situación nos encontrábamos. 1993. D. nº 38. la clave para impedir esta inflación. subrayamos que la formación de la identidad individual se alcanzaba. 17-30. Cfr. de la esencia humana. en “Persona y Derecho”. El ser humano se desarrolla. A este mismo respecto. 59 y ss. cit. junho/2009 . 28 Revista Internacional de Direito e Cidadania. por ejemplo. la inclusión de las pretensiones más arbitrarias en el catálogo de los derechos 50 51 52 humanos conduce a que su concepto se vacía de un contenido racional. Andorno sugiere. Hemos visto que la sociedad no es más que el resultado del carácter relacional del hombre y de su capacidad dialógica y que esa capacidad implicaba un vasto número de interlocutores. en el seno de un determinado grupo social concreto. p. Nos encontramos ahora en condiciones de regresar a él con la pretensión de presentar una posición final. ella estaría funcionando sobre la nada. “Universalidad de los Derechos Humanos y Derecho Natural”. Natural Law and Natural Rights. p. para algunos autores. Editions de l´Université de Bruxelles. en el “derecho al hijo”. como explica John Finnis50. que podemos comprender cuales son los derechos humanos básicos. 1980. Roberto Andorno. en el cual comparte determinados patrones culturales. seguía la pregunta: ¿Deben las identidades culturales ser protegidas? 1. En los tiempos que corren. Paris. G. a menudo invocado para reclamar un acceso ilimitado a las técnicas de procreación artificial. p. Confundiendo realidad con deseo. Clarendon Press. reside en la exigencia del cumplimiento de requisitos formales. O sea.. en op. p. la razón práctica. Oxford. para que se establezca el tránsito de la pretensión al derecho. un objeto preciso y posible. a través de esa sociedad el hombre podría obtener la realización de sus necesidades y.45. p. p. aún cuando éstas impliquen un alto sacrificio de vidas embrionarias. la cual se conocen unos derechos que resultan de exigencias para una vida digna es. Como explica Roberto Andorno. 1998. y en particular. De otro modo. 53 Cfr.. se crean derechos a partir de las pretensiones más arbitrarias. La contestación a la pregunta que titula este capítulo pasa Cfr. Tome 1.

Solamente el hombre dispone de esta cualidad. Añadiendo a esta aserción la idea primordial de dignidad humana. atribuyéndole subjetividad jurídica.. n. “Justificaciones liberales para los derechos de los grupos étnicos”. Esto es.. La solución para una idónea protección de los grupos culturales no pasa Cfr. Si toda ética está justificada por formar parte de una identidad cultural. se deduce un derecho de todo hombre a la protección de su cultura. con relación a los individuos que los constituyen59.únicamente pueden ser atribuidos a sujetos dotados de una potencialidad moral. p. trata a ese ente colectivo como si fuese una persona. y que añadiendo a esta afirmación aquella exigencia de respeto incondicional. y haciendo recaer sobre el ente colectivo como tal los efectos de las personas que integran los órganos sociales. aquella según la cual el hombre es merecedor de un respeto incondicional. Cfr. un deber ético o jurídico alguno de protección de las tradiciones culturales. La contestación es negativa. Baubok. 59 Sin embargo. cualquiera que fuera. p. puede surgir la cuestión de sí existe en la argumentación presentada una falacia naturalista. Instituto de Estudios Parlamentarios Europeos. el ordenamiento jurídico desea adscribir la titularidad a un ente colectivo (una asociación. el error y la maldad no tienen lugar. lo personifica: es decir. 125.). 58 “Una crítica conceptual de los derechos colectivos tendría que demostrar que nadie que no sea un actor moral puede ostentar en realidad un derecho”-Cfr. más que en la medida en que esas tradiciones son compartidas por los miembros del grupo social (. resulta evidente que el ordenamiento necesita siempre de un sujeto a quién asignar la titularidad e imputar el ejercicio de los derechos. Después de constatar que la protección de las identidades culturales resulta una exigencia de tutela de la dignidad humana. pp. Revista Internacional de Direito e Cidadania.. El deber ético y jurídico surge tan sólo. un derecho individual y no colectivo. de la existencia de un derecho de los individuos que forman el grupo social a la protección de su identidad cultural... lo que se pretende aclarar es que el ser humano se realiza en el seno de su cultura. 57 Cfr. como explica Martínez-Pujalte “Desde un punto de vista técnico-jurídico. solo porque existen patrones culturales compartidos por diversos seres humanos56. porque. y de la pertenencia del ser humano a esos grupos. 173. Por ello cuando. La tesis formulada no consiste en afirmar que de la existencia de diferentes grupos culturales. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. la atribución de derechos a entes colectivos no es más que un “artificio” con el fin de facilitar el ejercicio de los derechos de sus miembros. por tanto. y que son quienes realmente ejercitan los derechos y obligaciones de la sociedad”. en realidad. cit. 17-30. Juan José Sebreli. al justificar toda norma ética. No se alega que se deduzca un deber de respeto de las demás culturas. para una mayor facilidad del tráfico. 71. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”. Oviedo. La afirmación de que el hombre es un ser digno y de naturaleza social nos conduce a una conclusión: las identidades culturales deben ser. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”. en esta esfera. cit.. R. si no fuera así. 1998. y como queda claro en la enseñanza de Pujalte. Solamente éste es persona moral y jurídica58. pero no es posible reivindicación alguna de esa tutela al margen del derecho que a ella ostentan los miembros del grupo”57. y parecería que los hombres hicieran siempre lo que debieran hacer”..). por el mero hecho de ser aceptada por la mayoría de una comunidad. se infiera un deber de respeto a esas diversas culturas”. concluimos que ese respeto incondicional del hombre se extiende a la cultura donde este logra su realización55. el profesor Martínez-Pujalte sostiene. Asimismo.. Sin embargo. Antonio-Luis MartínezPujalte. Barcelona. El Asedio a la Modernidad: Crítica del Relativismo Cultural. en realidad. Cfr. Las culturas segregadas de los seres humanos no son nada más que abstracciones. (. En una línea semejante de razonamiento. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. p. volumen dedicado a “Soberanía y Constitución”. Ariel. La atribución de derechos a entidades colectivas no pasa de una mera cuestión de funcionalidad de ordenamiento jurídico mismo. Cfr. A este propósito Juan José Sebreli. Si así fuera. no estamos en la presencia de un derecho de las propias culturas. vg. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”.DERECHOS HUMANOS Y DIGNIDAD: FUNDAMENTOS DE LA PROTECCIÓN DE LAS DIVERSAS IDENTIDADES CULTURALES precisamente por la idea de dignidad tal como la hemos definido. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. en op. el deber ser del ser. nº 38. 55 56 La protección de las identidades culturales surge como consecuencia de la exigencia de la dignidad de los hombres que las componen. junho/2009 29 . 1998. Los derechos humanos -argumentan. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. Para algunos autores el derecho a la protección de la identidad cultural es. cabe decir lo siguiente: el hombre alcanza su realización en el seno de un determinado grupo cultural. en que precisamente consiste la dignidad. En realidad. que a propósito de la afirmación de la protección de las identidades culturales “No hay (. p. protegidas. 4. la propia dignidad (esa cualidad que permite exigir un respeto incondicional) del hombre quedaría dañada. en op. 126 y 127.) falacia naturalista de índole alguna. No parece tampoco correcto a muchos hablar de derechos humanos colectivos cuyos titulares sean grupos culturales.). sostiene que “El relativismo cultural incurre en esta falacia de deducir el juicio normativo del juicio fáctico. “No existiría. en “Persona y Derecho”. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. p. en una crítica al relativismo cultural. los reales titulares de los derechos son las personas que componen esas entidades colectivas. sería como conferir una independencia a los propios grupos culturales. en Fundamentos 1. En última instancia. 1992. 129. nota 33.

más importantes y superiores que cualquier condición humana. por la atribución de derechos colectivos. Las culturas que rechacen esta idea. “Tres Versiones del Relativismo ÉticoCultural”. una sociedad caracterizada por la convivencia e integración armónica entre las diferentes culturas”-Cfr. Para realizar una adecuada protección de las identidades culturales existen dos vías. por lo tanto. la dignidad representa un bien universal en sus aspectos primordiales. una vez que. advierte que “puede convertirse fácilmente en un caldo de cultivo de la intolerancia. Finalizando. nos enfrentamos con una situación de protección de derechos individuales. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”. Si se imputan derechos colectivos a los grupos culturales quedando la persona individual en segundo plano. junho/2009 . no se puede olvidar que son los seres humanos los que crean las culturas y que sin ellos. en la dignidad humana. podemos añadir que hemos intentado desarrollar una argumentación que se sitúe entre la perspectiva liberal-individualista (que parte del individuo abstracto y aislado de las dimensiones culturales y sociales) y la culturalista (que sostienen un predominio de las tradiciones culturales sobre la libertad individual). las pautas culturales contrarias a la dignidad humana quedan. Y. podemos concluir que el respeto de su grupo cultural deriva de la exigencia del respeto por el propio hombre. al intentar imponerle mi concepción de los derechos humanos. G. 17-30.FALCÃO. que es en el seno de un determinado grupo social concreto. En realidad. Parece necesario seguir insistiendo en una unidad del género humano. y su concreción pasa por la tutela de los derechos humanos básicos. 4. En tercer lugar. ellas mismas no merecen respeto alguno. al parecer. Para concluir. como hemos expuesto. legitima el exterminio de civiles indefensos. la dignidad. p. en Persona y Derecho. es decir.. nº38. como occidental. Sin embargo. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. en nuestra acepción la dignidad representa un bien universal en sus aspectos primordiales. asimismo. excluidas de esa protección. p. y conducir a un particularismo que excluya toda comunicación recíproca entre las diversas culturas. p. en op. cit. 71. 1998. proteger la diferencia. que esta unidad se traduce por esa peculiar característica del hombre. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. “Si se me ocurre reprocharle a un nacionalista serbio el genocidio cometido sobre los bosnio-musulmanes. me contestará que. Por último. J. el culturalismo. en op. Martínez-Pujalte. el hombre no es un ser acultural ni asocial. 61 Para los defensores del relativismo existen tradiciones culturales que son incompatibles con los derechos del hombre. tutelar adecuadamente las peculiaridades culturales específicas del grupo minoritario”60. n. como explica Martínez-Pujalte: “Asegurar la igualdad de derechos de los individuos pertenecientes a la minoría con los del grupo mayoritario y. y que. De hecho. es decir. En las dos situaciones. Una Posible Conciliación entre Interculturalidad y Universalidad”. 62 A propósito del culturalismo. En segundo lugar. que agregando la máxima de que el hombre debe ser respetado de forma incondicional (en lo que se traduce la dignidad humana) a la realidad de que éste logra su realización en el seno del grupo cultural al que pertenece. un ejercicio poco coherente pues antepone la cultura al hombre62. por otro lado. Cfr. p. D. si la protección de las identidades culturales se fundamenta en la dignidad humana. “Derechos Humanos e Identidad Cultural. 133. caracterizado por pautas culturales específicas. imposibilitando así una sociedad auténticamente intercultural. a su vez.cit. lo que importa retener es lo siguiente: En primer lugar. que es en la capacidad dialógica del hombre donde radica la clave de su dimensión social y es por la implicación de esta capacidad de diversos locutores por lo que nace un determinado grupo social. siempre que se trate de “perros turcos”). tiene su razón de ser. 60 30 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Pues. Dado que la protección de las identidades culturales. Nos parece. Se desarrolla en el seno de un determinado grupo social concreto compartiendo determinadas pautas culturales. la concreción de la exigencia de respeto incondicional universal pasa por la tutela de los derechos humanos elementales. Antonio-Luis Martínez-Pujalte. incurro en pecado de imperialismo cultural”-Cfr. donde el hombre logra su desarrollo y realización. siendo. 130. las pautas culturales adversas a la dignidad humana quedan excluidas de esa protección. no puedo comprender las insondables particularidades de la cosmovisión serbio-ortodoxa (la cual. Francisco J. no pasarían de meras abstracciones. se arriesga a que las culturas se sobreponga a la condición humana individual”61. Contreras Peláez..

4.296/96. Defende-se a tese de que. Interesses pessoais. não servindo esta apenas à proteção de interesses pessoais. professor de Processo Penal. Palavras-chave: Teoria Garantista. sob pena de incorrer no assim denominado garantismo hiperbólico monocular. as it serves not only to protect personal interests.296/96.Artigo NÃO HÁ DIREITO FUNDAMENTAL À IMPUNIDADE – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DAS PRORROGAÇÕES DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS Douglas Fischer1 RESUMO: O presente trabalho pretende analisar o tratamento que vem sendo conferido à Lei 9. taking into account the constitutional goals of protection of certain legal goods and of active protection of interests of the society and of the ones being 1 Procurador Regional da República na 4ª Região. 31-37. Direitos fundamentais. the hermeneutic process must also search the content of the rule. Interceptação telefônica ABSTRACT: The present work intends to analyze the handling that has been given to the law n. p. Direito à impunidade. Revista Internacional de Direito e Cidadania. n. considerando o quanto aduzido pela Teoria Garantista. considering the much brought forward by the Guarantee Theory. 9. junho/2009 31 . deve o processo hermenêutico buscar o conteúdo da norma. sopesando os fins constitucionais de proteção à determinados bens jurídicos e de proteção ativa a interesses da sociedade e dos investigados. It defends the thesis that.

p. In: Carbonell. precedente no qual restou consignado de forma expressa que as interceptações telefônicas só podem ser efetuadas no prazo de 15 dias prorrogável uma única vez por mais 15 dias. junho/2009 . bastando se conceda à defesa cópia dos áudios.2008). Assim. La Teoria General del Garantismo: rasgos principales. perdeu o sentido elogio que tecera anteriormente noutro escrito à decisão proferida no famoso e histórico (sic) julgamento do STJ (6ª Turma. como forma de maximizar os fundamentos garantistas. compreendido na íntegra há se ver que “derecho garantista establece instrumentos para la defensa de los derechos de los indivíduos frente a su eventual agresión por parte de otros indivíduos y (sobre todo) por parte del poder estatal”.21. Mas a teoria garantista não existe apenas para proteção de interesses individuais. que o evidente desconforto desmonstrado pelos ministros mais antigos e experientes (sic) da Corte seja suavizado e as garantias fundamentais voltem a ter o tratamento que vinha lhe sendo dispensado pelo Supremo Tribunal Federal em seus últimos julgados. na aplicação do Direito Penal e do Direito Processual Penal.296/96 sobre a possibilidade ou não de reiteradas prorrogações de interceptações telefônicas. Não temos dúvidas: a Constituição Federal brasileira é garantista e assenta seus pilares nos princípios ordenadores de um Estado Social e Democrático de Direito. mas. 2005.296 possui nítido caráter garantista. b) por conta de decisão superveniente do STF (nos autos de denúncia oferecida com base no Inquérito de competência originária nº 2. e) que a lei foi feita para trinta dias. Estamos de acordo integralmente com tais premissas. dizemos) estampados na Constituição 2. Não há pretensão alguma de “colocar pingos nos i´s”.FISCHER. Personal interests Fundamental rights. convém acentuar que o art. d) que incorreu em equívoco a Corte Suprema ao entender – contra legem – desnecessária a transcrição de todas as escutas telefônicas. 5º da Constituição está inserto em capítulo que trata “dos direitos e deveres individuais e coletivos”. nobre advogado publicou recentemente artigo (Boletim IBCCrim n. Gascón Abellán. Keywords: Guarantee theory. Normas de hierarquia inferior (e até em alterações constitucionais) ou então interpretações judiciais não podem solapar o que já está (e bem) delineado constitucionalmente na seara dos direitos (e deveres) fundamentais. p. Mas insistimos que há alguns equívocos nas premissas e conclusões que se têm tomado com fundamento em ideais garantistas.686 (09. janeiro de 2009) intitulado “½ calabresa. pela decisão do STJ.424). Embora eles não estejam única e topicamente ali. devam ser observados ao máximo os direitos e garantias fundamentais do cidadão. hipótese diversa do sentido proposto por Luigi Ferrajoli. Right to impunity. Telephone interception. 32 Revista Internacional de Direito e Cidadania. bem como dos reais precedentes anteriores do Supremo Tribunal Federal. 4. a função do hermeneuta está em buscar quais os valores e critérios que possam limitar ou conformar constitucionalmente o Direito Penal e o Direito Processual Penal. under penalty of incurring into the so called hyperbolic monocular guarantism. D. c) segundo compreendera. f) por fim. pareciam sido colocados os “pingos nos i´s” (sic). Miguel y Salazar. afastando-se abusos frequentemente cometidos pelas autoridades perscecutórias. Garantismo – Estúdios sobre el pensamiento jurídico de Luigi Ferrajoli. Como bem salienta José Luis Martí Mármol. los siguientes grupos de derechos fundamentales: derechos políticos Aliás. Expressando sua opinião a respeito da interpretação que os tribunais vêm dando à Lei 9. según Ferrajoli. Em síntese. n. investigated. 194. ½ garantia fundamental”. tanto pelo prisma da (segundo cremos) melhor interpretação da Constituição. dentro de um panorama dialé2 tico. 31-37. “el paradigma constitucional incluye asimismo. Pedro. tentar demonstrar o equívoco do raciocínio do nobre jurista. Marina. por maioria) no HC nº 76. e não meses ou anos ininterruptos de interceptações. a tese central do garantismo está em que sejam observados rigidamente os direitos fundamentais (também os deveres fundamentais.09. Madrid: Editorial Trota. Já de algum tempo tem-se difundido no âmbito jurídico que. defendeu os seguintes pontos de vista: a) a Lei 9. Se é possível definir de forma bastante sintética e inicial. incorrendo-se – não raras vezes – no que temos denominado de garantismo hiperbólico monocular.

Se a Constituição é o ponto de partida para (também) a análise (vertical4) do influxo dos princípios fundamentais de natureza penal e processual penal. muito menos de forma hiperbólica) do sistema garantista. Coimbra: Almedina. na essência. Têm-se encontrado muitas e reiteradas manifestações doutrinárias e jurisprudenciais com simples referência aos ditames do “garantismo penal”. Maria Fernanda. considera o acusado não como objeto de investigação estatal. Maria Fernanda. incumbe o dever de se visualizar os contornos (integrais. há distorção dos reais pilares fundantes da doutrina de Luigi Ferrajoli (quiçá pela compreensão não integral dos seus postulados). Na linha dos próprios fundamentos basilares do garantismo. 2005 p. Garantismo: Uma teoria Crítica de La jurisdicción.NÃO HÁ DIREITO FUNDAMENTAL À IMPUNIDADE – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DAS PRORROGAÇÕES DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS (o de autonomia pública). Nessa linha.106-7. Da leitura que fizemos. Direito Constitucional Penal. 2005. hodiernamente. Pedro. assumindo um papel hierarquicamente superior“. sendo uma conseqüência da evolução histórica dos direitos da humanidade que. Miguel y Salazar. não se afigura difícil compreender que vemos a Constituição ocupando uma função central no sistema vigente (sem gerar um panconstitucionalismo). a necessidade de proteção de determinados bens jurídicos e de proteção ativa dos interesses da sociedade e dos investigados e/ou processados. 8 “O clone da inquisição terrorista“. 384 4 Como diz Maria Fernanda Palma. evidenciando-se de forma isolada a necessidade de proteção apenas dos direitos dos cidadãos que se vêem processados ou condenados 7. Coimbra: Almedina. junho/2009 33 . Há se buscar o conteúdo da norma. direitos e valores”6. mas sim como sujeito de direitos. há realmente novos paradigmas influentes em matéria penal e processual penal. Revista Internacional de Direito e Cidadania. qual a extensão e os critérios de sua aplicação. Pedro. Daí que falamos que se tem difundido um garantismo penal unicamente monocular e hiperbólico.nov. Como sintetizado por Paulo Rangel8. p. p. 2006. Miguel y Salazar. significa que a compreensão e defesa dos ordenamentos penal e processual penal também reclamam uma interpretação sistemática dos princípios. tutelado pelo El fundamentalismo de Luigi Ferrajoli: um análisis crítico de su teoria de los derechos fundamentales. explícita ou implicitamente. Direito Constitucional Penal. In: Carbonell. “a Constituição que define as obrigações essenciais do legislador 5 perante a sociedade. 4. Perfecto Andrés Ibáñez destaca que se deve analisar a existência atualmente de um “garantismo dinámico. PALMA. especialmente diante do fato do sistema totalitário vigente na época. In: Carbonell. por evidente). ainda. Como salienta Maria Fernanda Palma. acesso em 21. esta função de protecção activa da Sociedade configura um Estado não meramente liberal. podendo-se dizer que seus comandos se traduzem como ordenadores e dirigentes aos criadores e aos aplicadores (intérpretes) das leis (aí incluída a própria Constituição. no sentido clássico. Garantismo – Estúdios sobre el pensamiento jurídico de Luigi Ferrajoli. 7 Noutras palavras. sem que se compreenda. derechos liberales (o de libertad) y derechos sociales”3 (grifos e destaques nossos). derechos civiles (o de autonomía privada). sua essência. a partir da Constituição Federal de 1988.p.com/artigos/1319 . Madrid: Editorial Trota. mas promotor de bens.2008. 6 PALMA. 3 Diante de uma Constituição que preveja.2006. a grande razão histórica para o surgimento do pensamento garantista (que aplaudimos e concordamos. decorre daí que o processo hermenêutico não poderá se assentar sobre fórmulas rígidas e pela simples análise pura (muito menos literal) dos textos dos dispositivos legais (inclusive da própria Constituição). p. Para nós. compreendemos também deva ser a interpretação do próprio conteúdo dos dispositivos constitucionais.60. 16. n. insista-se) decorreu de se estar diante de um Estado em que os direitos fundamentais (notadamente os individuais) não eram minimamente respeitados. in http://jusvi. 31-37. Garantismo – Estúdios sobre el pensamiento jurídico de Luigi Ferrajoli. Madrid: Editorial Trota. 5 Dizemos nós: também todos os demais Poderes e órgãos do Estado. Em muitas situações. a teoria do garantismo penal defendida por Luigi Ferrajoli é originária de um movimento do uso alternativo do direito nascido na Itália nos anos setenta por intermédio de juízes do grupo Magistratura Democrática (dentre eles Ferrajoli). Ora. “a Constituição pode conformar o Direito Penal porque funciona como uma espécie de norma fundamental autorizadora do Direito ordinário. regras e valores constitucionais para tentar justificar que. que es el que trasciende el marco deo proceso penal y también el de la mera garantía individual de carácter reactivo para ampliarse al asegurarmiento de otros derechos e de los correspondientes espacios hábiles para su ejercicio”. e não monoculares.

Em nossa compreensão (integral) dos postulados garantistas. Luigi. 34 Revista Internacional de Direito e Cidadania. límites o prohibiciones que hemos identificado como garantías del ciudadano contra el arbitrio o el error penal: según este modelo. “el modelo garantista […] presenta las diez condiciones. a dignidade da 9 10 11 pessoa do imputado e também a proteção dos interesses coletivos 12. constitui o objetivo justificante do Direito Penal.Derecho y razón. Exatamente por isso que Miguel Carbonell refere que “en el modelo del Estado social los poderes públicos dejan de ser percibidos como enemigos de los derechos fundamentales y comienzan a tomar. Madrid: Editorial Trota. possibilitando-se. Nas palavras de Ferrajoli. que passa a ter o poder-dever de protegêlo. 25. la necesidad de su prohibición y punición. condicionam a validez da essência das normas produzidas (e também nas suas aplicações). 2000. Em sua construção. Madrid: Trotta. 13 CARBONELL. p.271. os fins aos quais está orientado o denominado Estado Constitucional de Direito 9. 2000. conectados e harmonizados sistemicamente. por el contrario. 2004. el carácter exterior o material de la acción criminosa. su prueba empírica llevada por una acusación ante un juez imparcial en un proceso público y contradictorio con la defensa y mediante procedimientos legalmente preestablecidos “ FERRAJOLI. p.La ley Del más débil. expressando. 31-37. evitando-se a impunidade.Teoria Del garantismo penal. e.dos cidadãos contra a arbitrariedade das proibições e das punições. p. p. D. assim. 2004. Pedro. Assim. em qualquer fase do processo (investigatório ou propriamente punitivo). ao mesmo tempo. FERRAJOLI. 4. junho/2009 . por sua vez. em sendo o caso. Luigi. Parece bastante simples constatar que a Teoria do Garantismo se traduz em verdadeira tutela daqueles valores ou direitos fundamentais cuja satisfação. se todos os Poderes estão vinculados a esses paradigmas – como de fato estão -. FERRAJOLI. pensamos).4 ed. a defesa dos fracos mediante regras do jogo iguais para todos.Teoria Del garantismo penal.Derecho y razón. La garantia de los derechos sociales em la Teoria de Luigi Ferrajoli. Vencidas as considerações prefaciais (mas essenciais. na produção das leis (e também nas suas interpretações – e aqui há a contestação objetiva do nobre advogado) seus conteúdos materiais devem ser vinculados a princípios e valores estampados nas Constituições dos Estados Democráticos em que vigorem.4 ed. 2005. 103-4. no se admite ninguna imposición de pena sin que se produzcan la comisión de un delito.Madrid:Trotta. da punição do responsável. Estado. desde que coerente com a Constituição vista como um todo. FERRAJOLI. senão uma sujeição à lei.Derecho y razón. Garantismo – Estúdios sobre el pensamiento jurídico de Luigi Ferrajoli. mesmo contra os interesses da maioria. Luigi. p.4 ed. adentremos no mérito da crítica traçada pelo trabalho ora contestado. uma máxima eficácia dos direitos fundamentais (todos os grupos de direitos fundamentais) segundo determinado pela Constituição10. 4ed. mas também na devida apuração (com respeito aos direitos dos investigados ou processados) do ato ilícito. 93. há a necessidade de garantir também ao cidadão a eficiência e segurança. Miguel. 152. Madrid: Trotta. la imputabilidad y la culpabilidad de su autor y. que.como sempre foi pelo prisma positivista tradicional . É dizer: todos os direitos fundamentais equivalem a vínculos de substância. Segundo a fórmula garantista. Vale dizer: quer-se estabelecer uma imunidade – e não im(p)unidade . sobre todo de los de caracter social”13. Derechos y Garantias. In: Carbonell. además.Derechos y Garantias. 2000. O dever de garantir a segurança não está em apenas evitar condutas criminosas que atinjam direitos fundamentais de terceiros.179. Luigi. o Estado deve levar em conta que. n. determinam as “regras do jogo fundamental” de que se incumbe o Direito Penal e também o Direito Processual Penal11. p. ordenados. 12 FERRAJOLI. p. sus efectos lesivos para terceros.La ley Del más débil. el papel de promotores de esos derechos. Madrid: Trotta.à letra da lei (ou mediante sua interpretação meramente literal) de modo acrítico e incondicionado. Para Ferrajoli. especialmente é o Poder Judiciário quem têm o dever de dar garantia também aos cidadãos (sem descurar da necessária proteção social) diante das eventuais violações que eles virem a sofrer.Madrid: Trotta. su previsión por la ley como delito. as garantias são verdadeiras técnicas insertas no ordenamento que têm por finalidade reduzir a distância estrutural entre a normatividade e a efetividade.4 ed. a sujeição do juiz à lei não mais é . Miguel y Salazar. o sistema garantista tem pilares firmados sobre dez princípios fundamentais que. Luigi.Teoria Del garantismo penal. In: La Teoria General del Garantismo: rasgos principales. na aplicação dos direitos fundamentais (individuais e sociais).FISCHER. Deste modo.

06. Pleno. 116.207. Há excessos eventuais. a escuta telefônica era imprescindível para a investigação. somente se garantirá a possibilidade de investigação por 30 dias mediante a interceptação telefônica.2007). DJ de 24.09. impende ressaltar que o entendimento consignado pelo STF no Inquérito 2.482/SP. Passado o lapso temporal matemático. fácil verificar que tratava de graves crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro (dentre outros) praticados anos a fio por delinquentes da upper class.301/ SP. DJ de 04. Precedentes: HC nº 83. publicado no DJ em 02.2008.296.2005. mesmo que de modo conciso algumas delas. não se nega. Há muito o Supremo Tribunal Federal vem entendendo ser possível a renovação das escutas telefônicas. inc. em que a autoridade coatora era o Ministro do STF Cezar Peluso. pois bastam que se tenham degravados os excertos necessários ao embasamento da denúncia oferecida. em 02. p. Em incidente anterior nos mesmos autos do Inquérito nº 2. Sobre a desnecessidade de transcrição de todos os conteúdos das interceptações telefônicas.03. Com máximo respeito ao entendimento dos eminentes Ministros do STJ que decidiram o caso invocado. “a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento segundo o qual as interceptações telefônicas podem ser prorrogadas desde que devidamente fundamentadas pelo juízo competente quanto à necessidade para o prosseguimento das investigações.515/RS. Todas as prorrogações foram fundamentadas. ´c ´. O que não se pode aceitar é querer fazer prevalecer uma inversão lógica de premissas para inviabilizar a investigação criminal. 5º da Lei 9. Prosseguindo. 5º. Para quem analisar o caso concreto (não apenas a ementa !). Ainda: enquanto o precedente histórico invocado foi tomado por maioria pela Egrégia 6ª Turma do STJ. junho/2009 .2006”. nem alterou qualquer compreensão anterior. Rel. feita a interpretação literal do disposto no art. unanimidade. 4. unanimidade.03. ofensa ao princípio do devido processo legal (art. Mais: face à natureza dos crimes apurados (e como praticados). cuja competência decorria do fato da imputação de fatos delitivos (parcialmente recebidos) a ministro do STJ (art. 35 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Há se convir que. 5ª Turma. se mantido o entendimento de que seria apenas possível uma prorrogação das interceptações telefônicas.731-SP (unânime. essa restrição. não configurando.2007). Min.424 (Medida Cautelar no HC nº 91. Todavia.2007 e publicado no DJ em 21. n. Joaquim Barbosa. pode ser renovada por igual período. Relator Ministro Arnaldo Esteves Lima.J. Nelson Jobim.NÃO HÁ DIREITO FUNDAMENTAL À IMPUNIDADE – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DAS PRORROGAÇÕES DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS De fato. assentou a Corte Suprema por seu plenário (o competente para apreciar o habeas corpus) ser “desnecessária a juntada do conteúdo integral das degravações das escutas telefônicas realizadas nos autos do inquérito no qual são investigados os ora Pacientes. e HC nº 84. Min. Rel.12. não havendo restrição legal ao número de vezes para tal renovação. com parcimônia e – mais importante – mediante a fundamentação necessária diante do caso concreto. CF) não é novo. se conferiria verdadeira imunidade aos delinquentes para continuarem na senda dos crimes. publicado no D. julgado em 04.02. I. procederia a crítica de que seria impossível a interceptação telefônica durar mais de 30 dias (uma prorrogação apenas). 2ª Turma.2009). com estrondosos e deletérios efeitos em detrimento da sociedade. maioria. se comprovada a sua necessidade” (HC n. Como bem referiu o Ministro Gilmar Mendes no julgamento do RHC nº 88.424 (“Operação Huricane”). é importante informar que o entendimento (unânime) da 5ª Turma do STJ continua sendo no sentido de que a “interceptação telefônica não pode exceder 15 dias. 102. Estamos de acordo que a interceptação telefônica deva ser decretada de modo excepcional. julgado em 06. nenhuma novidade também. não fizeram a melhor interpretação segundo cremos.02. Mas – e isso é cediço desde os bancos da universidade – a interpretação menos recomendável é a literal. 31-37. A excepcionalidade da medida era evidente. Não há se olvidar que as renovações de interceptações telefônicas – todas deferidas judicialmente – encontravam suporte fático devidamente relatado (ao menos assim pensamos): os crimes continuavam sendo perpetrados e era necessária a permanência das investigações.

e da desnecessidade de degravação de todas as interceptações se coadunam com os princípios basilares da Carta da República e não arrostam. junho/2009 . se haveria um direito fundamental à proteção. em outros termos. In: Carbonell.. o titular da ação penal deverá utilizar unicamente as mesmas provas disponibilizadas para a defesa. 4. Também em Anuario Iberoamericano de Justicia Constitucional.. 36 Revista Internacional de Direito e Cidadania.. 131-142. LV. 2004. Gilmar Ferreira. vol. enfatizando que a não observância de um dever proteção corresponde a uma lesão do direito fundamental previsto no art. estar-se-á permitindo à defesa – de posse dos conteúdos integrais das interceptações . MENDES. também não pode deixar de considerar que há imperativos constitucionais que obrigam o Estado proteger a sociedade das práticas delitivas. Para fazer a imputação. 15 Como destaca Carbonell. Quando falamos em garantismo penal integral é a isso que estamos nos referindo: a conjugação do garantismo positivo e do garantismo negativo 15. Haveria. Há se ter em mente que. se traduz no que denominamos de garantismo hiperbólico monocular. A Corte Constitucional acabou por reconhecer esse direito. [.pretender unicamente fazer volume antecipado de folhas de processo e ensejar a demora na apuração dos fatos (quiçá para atingir ulteriormente a prescrição retroativa.FISCHER. expressando também um postulado de proteção [. n.contradite o pleito. Valendo-se dos ensinamentos do Ministro Gilmar Mendes.] Discutiu-se intensamente se haveria um direito subjetivo à observância do dever de proteção ou. da Lei Fundamental.]. p. por si só. Compreendemos que a interpretação (sistêmica e não meramente literal) ratificada pelo STF acerca da possibilidade de ultrapassagem dos prazos de 30 dias nas interceptações telefônicas. junho/1999. tratando o tema dos direitos fundamentais e dos deveres de proteção14..]”. A propósito..] (b) Dever de segurança [.. pode-se estabelecer a seguinte classificação do dever de proteção: [. n. não se pode olvidar que também há direitos coletivos e deveres individuais. Miguel y Salazar. que. ampla defesa e devido processo legal Querer que se degrave todo o conteúdo (muitas partes até irrelevantes) é quiçá – com a maxima venia . E não só este último. que impõe ao Estado o dever de proteger o indivíduo contra ataques de terceiros mediante adoção de medidas diversas. 2.. se bem compreendida.. sem precedentes nos ordenamentos jurídicos comparados e democráticos).. o que se deve garantir ao investigado ou réu é saber (sem fórmulas kafkanianas) quais as provas produzidas contra ele. O acerto da decisão decorre da circunstância (elementar) de que. Nesta linha. 2005. se os direitos fundamentais dos investigados devem ser preservados.. Se eventualmente na pretensão acusatória houver a omissão de dados relevantes. 13. II. abstratamente. aplicado isolada e muitas vezes ampliadamente. há muito é este o entendimento expresso (mas não difundido na íntegra) de Ferrajoli. A prova encontra-se na gravação feita e autorizada judicialmente. necessidade e proporcionalidade em 14 sentido estrito). [. In: La Teoria General del Garantismo: rasgos principales. direitos fundamentais individuais. É a decantada questão da proporcionalidade (adequação. instituto ímpar brasileiro. não há se olvidar que. Garantismo – Estúdios sobre el pensamiento jurídico de Luigi Ferrajoli. Nos termos da doutrina e com base na jurisprudência da Corte Constitucional alemã. segundo expressão de Canaris – ou também hodiernamente denominado de garantismo negativo). se o Estado não pode agir com excessos injustificados (não pode mesmo !) em detrimento do cidadão (übermassverbot.179. p.]. para utilizar uma expressão de Canaris. p. mas também uma proibição de omissão (Untermassverbot).]. Brasília: Revista Jurídica Virtual. já restou por ele assentado que “os direitos fundamentais não contêm apenas uma proibição de intervenção [. 8. no processo penal constitucional vigente. não apenas uma proibição do excesso (Übermassverbot). assim. Núm. 31-37. Pedro. Isto é contraditório. D. Madrid: Editorial Trota. desde que imprescindíveis e devidamente fundamentadas. É o que se tem denominado – esse dever de proteção – de garantismo positivo. 2.. insistimos que eles não são absolutos. da Constituição da República”.. Podem ser relativizados se presente(s) no caso concreto outro(s) valor(es) constitucional(ais) relevante(s) em sopesamento. Como extraído do próprio pensamento garantista. vide La garantia de los derechos sociales em la Teoria de Luigi Ferrajoli. Os Direitos Fundamentais e seus múltiplos significados na ordem constitucional.

diante de interpretação literal e gramatical. valores. valorizando-se e difundindo-se apenas e parcialmente a teoria garantista – o que denominamos de garantismo hiperbólico monocular -. e.]. p. sino también esquemas de carácter preventivo que eviten que agentes privados pudean hacerse com el control de los recursos necesarios para la realización de um derecho” 16. 194. CF).NÃO HÁ DIREITO FUNDAMENTAL À IMPUNIDADE – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DAS PRORROGAÇÕES DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS Também imperativo constitucional (art. 144. ½ garantia fundamental e pedir desde já uma inteira com sabor único de impunidade. Revista Internacional de Direito e Cidadania. perfeitas novamente as considerações de Miguel Carbonell ao assentar que “la obligación de proteger significa que el Estado debe adoptar medidas destinadas a evitar que otros agentes o sujetos violen los derechos sociales.. 4. em sendo o caso. p. o dever de garantir segurança não está em apenas evitar condutas criminosas que atinjam direitos fundamentais de terceiros. n. mas também na devida apuração (com respeito aos direitos dos investigados ou processados) do ato ilícito. caput. princípios e regras constitucionais. sobretudo. melhor deixar de lado a proposta de ½ calabresa. lo que incluye mecanismos no solamente reactivos frente a las violaciones [.. Diante do exposto. junho/2009 37 . 31-37. 16 Id. Se assim for.. não concordamos com a idéia da prevalência indiscriminada – prima facie – somente de direitos fundamentais individuais sobre os demais direitos. Neste diapasão. da punição do responsável. sem qualquer sopesação e. Ibidem.

38 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 4. junho/2009 . n.

Efetividade das normas. junho/2009 39 . 4. Effectiveness of rules. Desse modo. entre outros significados. limitamos-nos a abranger os direitos sociais de maneira bastante genérica. Palavras-chave: Direitos Sociais. a efetividade * Técnico Administrativo e estagiário do Ministério Público Federal. It should be warned now that we have not thoroughly analyzed the list of social rights inserted in the Constitution. Federal Constitution of 1988. desde já. Keywords: Social rights. Jurisprudence and doctrine. capacidade de produzir o seu efeito habitual. Guardando semelhança com esses significados.Artigo EFETIVIDADE DOS DIREITOS SOCIAIS Ewerton Teixeira Bueno* RESUMO: O presente artigo investiga a efetividade das normas constitucionais que dispõem sobre direitos sociais. only to provide to the reader a better understanding of the subject that now holds our attention. Constituição Federal de 1988. ao “caráter. O vocábulo efetividade. ABSTRACT: The present article investigates the effectiveness of the constitutional rules that deal on social rights. we limited ourselves to comprehend the social rights rather generically. Revista Internacional de Direito e Cidadania. faculdade de produzir um efeito real. segundo Antônio Houaiss. Cumpre. Thus. corresponde. virtude ou qualidade do que é efetivo. 39-43. p. de funcionar normalmente”1. Jurispruência e doutrina. apenas para proporcionar ao leitor uma melhor compreensão do tema que ora nos entretém. n. a advertência de que não analisamos exaustivamente o rol dos direito sociais inseridos na Constituição. além de acadêmico de direito da Universidade São Francisco.

o juiz está sempre autorizado a aplicar diretamente um principio ao caso trazido ao seu julgamento. a dispensar a intermediação de regras concretizadoras. 4.. que os direitos sociais não são propriamente direitos e que.. incumbe ao judiciário dar concretização a esses “normas constitucionais incompletas”. ainda prepondera no judiciário a carga acentuadamente política atribuída às normas de direitos sociais. Desse modo. Diante desse problema. irradiando os seus efeitos nas situações subjetivas que normatizam. n. e. Objetiva. da norma jurídica é a sintonia adequada entre as suas previsões genéricas. p. ed. não foi capaz ainda de ver a concretização dos direito sociais porque a nossa tendência sempre fora a de compreender. 53. Fábio Konder Comparato preleciona que “apesar de seu elevado grau de abstração. em outras palavras. Não por acaso Pablo Verdú afirmou “tanto é assim que se pode perceber nos textos fundamentais sintomas de incongruência com a realidade social”2. T. Mais ainda trata-se de normas jurídicas de eficácia plena e imediata. exigível. por isso. apesar de topograficamente se localizarem no ápice do sistema jurídico – na Constituição Federal . Método. a desenvolverem meios. p. por outro lado. Ou determinada regra é norma jurídica. Com efeito. ed. ainda existe um grande hiato entre essas previsões legais e a realidade social dos seus destinatários. ou exortações políticas. Nesta quadra. José Reinaldo de Lima Lopes. Executivo e o Judiciário. Rio de Janeiro. O Papel do Juiz na Efetivação dos Direitos Humanos. Numa interpretação literal do alutido dispositivo constitucional é possível inferir que as normas de direitos fundamentais devem ser aplicadas imediatamente. 5 Pondera Juraci Mourão que apenas a forma de Dicionário Houaiss da língua portuguesa. concluímos que se por um lado a Constituição Federal prevê inúmeros direitos prestacionais. em seu desenvolvimento normal. abstratas e impessoais e o fato social que ela se propõe a normatizar. por vezes. nesses casos. Destarte. obrigando o Legislativo. Rio de Janeiro. 40 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 2001. 2001.. Segundo José Reinaldo de Lima Lopes3 a sociedade brasileira. é possível elencar certos fatores preponderantes para a ineficácia dos direitos sociais no Brasil. para tornarem eficazes os direitos individuais e sociais fundamentais. considera que as normas definidoras dos direitos e garantias sociais têm aplicação imediata. Forense. Culturais e Sociais. p. alheia ao ordenamento jurídico. Em contrapartida. dentro de suas funções Constitucionais. a ausência de leis infraconstitucionais que concretizem os preceitos constitucionais. enquanto cidadãos.sobretudo o direito à saúde e à educação – mesmo assim. Provocado ou não pelas partes. por forçado disposto no parágrafo 1º do art.por uma série de fatores. Verdú. junho/2009 . A Efetividade dos Direitos Econômicos.. grande é a importância de se aferir se os comandos emergentes das normas direitos sociais atingem ou não os limites razoáveis de eficácia.”4. ed. E. 5 da Constituição. Pablo Lucas. ou não. Direitos Humanos Visões Contemporâneas. Método. 2001. há efetividade quando o juízo hipotético dever ser se identifica com o ser da realidade fática. os princípios são normas jurídicas e não simples recomendações programáticas. ed. uma norma pode ser mais ou menos eficaz perante dada sociedade. Outro fator que. São Paulo. 2007. parágrafo 1º da Constituição Federal. Observando efetividade dessas normas à luz da sociedade brasileira.BUENO. As normas que veiculam direito social não fogem a essa regra e. propõe que a única possibilidade 1 2 3 frente tal descompasso seria a discussão judicial desses direitos. enquadradas entre as normas programáticas. a vanguarda progressiva da doutrina considera que. p. 39-43. São Paulo. sem dúvida. Direitos Humanos Visões Contemporâneas. mas não pode ser mais ou menos jurídica perante o direito. porque o princípio inserido no artigo 5º. p. 103-104 4 Fábio Konder Comparato. Neste passo. 22. essas normas nem sempre conseguem atingir a sua plena efetividade. consequentemente.1102. contribui para a ineficácia das normas de direitos sociais é. A luta Pelo Estado de Direito. por isso. diversas ações judiciais foram propostas com o fito atribuir os direitos sociais aos seus titulares . carecem de força social bastante para serem respeitados naturalmente como as demais leis.

Organização e introdução: Leonardo Martins. p. em síntese. sanar as omissões do Legislativo. São Paulo.J. Coletânea original: Jügen Schwabe. n. se encontram impedidos de alcançar o seu desenvolvimento pessoal ou social (cf. arvorando-se em legislador. tendo como premissa base o princípio constitucional da máxima efetividade. pelo judiciário. 7 Faria. 1ºedição. mas não conferem aos respectivos beneficiarios o poder de exigir a sua satisfação antes que o legislador cumpra o dever de complementa-las com a legislação integrativa. José Eduardo Faria. Recorrendo ao direito comparado. no sistema juridico-constitucional vigente..) inexiste direito certo se não emanado da lei ou da constituição. já decidiu o Superior Tribunal de Justiça: “(. inferindo. 4. 6 Cinqüenta Anos de Jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal Alemão. vale lembrar a advertência feita por José Eduardo Faria de que o entendimento que ainda hoje prevalece é que “sem a devida regulamentação” por meio de uma lei complementar. 6 97 [105]. Neste sentido.. em razão de suas circunstâncias pessoais de vida ou desvantagens sociais. 835. A Administração da justiça e o Estado Social. mas são materialmente ineficazes7”.. Gomes Canotilho. p. São Paulo. 2006. em nome da “segurança jurídica” e de uma visão por vezes ingênua do equilíbrio entre os poderes autônomos. BverfGE 45. ele determina que o Estado ofereça assistência social a indivíduos ou grupos que. normas meramente programaticas protegem um interesse geral. p. BverfGE 22. resgatamos julgado do em que o Tribunal Constitucional Alemão consignou o entendimento de que: “O princípio do Estado social contém uma ordem de conformação endereçada ao legislador (cf. principio este. 108 [204]). uma vez que não são capazes de gerar 5 vínculos de direitos subjetivos. que pelo Legislativo a efetivação se dá pela criação de leis que pormenorizem os preceitos constitucionais. Uruguay. sob pena de violar o princípio da independência dos poderes. editora Malheiros. é dever do Estado através do Executivo ou Judiciário procurar. 2005. decisão por maioria. p. a estrutura liberal do Estado não é o ambiente mais adequado para que floresçam os direitos sociais10. . editora Malheiros. ob.59. não é dado ao o juiz. 9 Pesp 57614 / RS 10 Pablo Verdú. Como o legislador vai realizar essa tarefa é. Além disso. BverfGE 1. 390.EFETIVIDADE DOS DIREITOS SOCIAIS realizar isso é que varia.8”. ainda que não exista lei que viabilize o gozo imediato desses direitos. publicação: Konrad-Adenauer-Stiftung E.. 8 Nas palavras de José Reinaldo de Lima Lopes “basta dizer que os novos direitos sociais só podem ser adequadamente compreendidos a partir de uma perspectiva social e pública. Este o obriga a providenciar uma harmonização das contradições sociais (cf.V. dentro dos seus limites. recurso conhecido e provido e cassada a segurança.”9 Dessa postura jurisprudencial resulta um grande entrave para a eficácia dos direitos sociais que. a nenhum orgão publico ou autoridade e conferido o poder de realizar despesas sem a devida previsão orçamentaria.de origem manifestamente liberal terão a sua aplicabilidade seriamente restringida.. Com efeito. 376 [387]). Ob. 2005. ” Em verdade. Montevideo. jurisprudência consolidada). junho/2009 41 . Contudo. Revista Internacional de Direito e Cidadania. 57 [108]). Porquanto é fundamental para a efetividade dos direitos sociais que o judiciário se desprenda das amarras do liberalismo clássico. BverfGE 50. esses direitos e essas prerrogativas têm vigência formal. O mesmo autor conclui que “a magistratura brasileira tem desprezado o desafio de preencher o fosso entre o sistema jurídico vigente e as condições reais da sociedade. se aplicados com os mesmos métodos utilizados para a interpretação dos direitos individuais. Nessa esteira. na ausência de uma concretização mais precisa do Estado social. que orienta os aplicadores da Lei Maior para que interpretem as suas normas em ordem a otimizar-lhes a eficácia. Direitos Humanos. a efetivação se dá caso a caso diante dos fatos levados ao conhecimento do juiz. sem alterar o seu conteúdo. Cit. 111. boa parte da jurisprudência ainda considera que. p 99. 39-43. 1ºedição. criar o direito novo para caso concreto. [exclusivamente] de sua alçada (cf. Estudos em Homenagem ao Professor J. onde o juiz fora completamente alheio Constituição e Democracia. diante da omissão do Legislativo. p. não individual e nem mesmo corporativista” José Eduardo Faria. Direitos Sociais e Justiça.

ed. bem como a atividade jurisdicional“. perante ele. 39-43. 4.. T. revindicam direitos e posições prestacionais negados ou bloqueados pelos decisores políticos-representativos13” Destarte. fundado em direito fundamental. Constituição e sociedade. em suas linhas gerais. p. ao lado do concentrado.. Limite do Imponderável ou Direitos Sociais como Limites ao Poder Reformador. que guarda consonância com o Estado Social – ao qual deve subsumir o Estado de Direito12”. p.) “as normas programáticas condicionam a atividade discricionária da Administração. às questões sociais. O Papel do Juiz na Efetivação dos Direitos Humanos.BUENO. sob pena de denegação de justiça15. Direitos Humanos Visões Contemporâneas. É bom que se diga que neste mote não há qualquer contradição. p. se por um lado não é atribuição do Poder Judiciário a formulação e a implementação de políticas públicas. . uma postura ideológica defina. São Paulo. 268. Revista dos Tribunais. É preciso haver uma consciência institucional e de cada membro isoladamente quanto ao seu papel na sociedade e no Estado. Urge. no Estado Democrático de Direito. 175. p. 111. mas sim a satisfação de um interesse próprio da parte. São Paulo. Felizmente já temos sinais.. que entram na competência exclusiva do Poder Executivo. embora tímidos. sobretudo porque a Constituição de 1988 é uma Constituição plural que defende valores às vezes antagônicos. “tal incumbência. 11 12 Ressalte-se. E. Com efeito.. ideologias reinantes por força do labor de forças sociais que não comungam das mesmas aspirações da Constituição obnubilam a visão do órgão de justiça sobre sua própria figura.. cumpre ao Estado-Juiz impor obrigações de fazer ao Estado-Administração quando este omitir-se em cumprir os seus deveres constitucionais. 42 Revista Internacional de Direito e Cidadania. P. não desautoriza a inferência de que a Constituição Federal de 1988 assumiu. Ob.. Canotilho aduz que: “o juiz participa na política porque desempenha um papel considerado adequado para assumir a cumplicidade de partilhar os valores e interesses dos grupos e indivíduos que. José Joaquim Gomes. 14 Já asseverou José Afonso da Silva: (. essa mudança de visão não ocorre sem obstáculos. Estudos Sobre os Direitos Fundamentais. São Paulo. não é obviamente a implementação de um programa de ação governamental. No entanto. Muitas vezes. 2001. mas tão somente levando a efeito o seu mister constitucional. E isto o Judiciário não pode se recusar a dar ao jurisdicionado. de forma brilhante. o controle difuso de constitucionalidade das leis. o juiz não estará indo além de suas funções jurisdicionais. pondera que “esse antagonismo estrutural que se verifica no bojo da Constituição é também fruto da própria evolução que vem sendo perpetrada a partir da superação do velho paradigma liberal em prol de um projeto superior. porque o que o titular do direito social violado pede ao juiz. aplicando o direito ao caso concreto14. ainda. 25. cabe precipuamente ao Poder Judiciário a proteção diuturna da Constituição Federal. uma mudança radical na postura adotada pelo Poder Judiciário em prol da prevalência do Estado Social Democrático de Direito instituído com o advento da Constituição Federal de 1988. n. de uma mudança na postura jurisprudencial. neste momento. cit. Judiciário nada tem a fazer. junho/2009 . pois os direitos sociais só se concretizam mediante a implementação de políticas públicas. no entanto. o simples reconhecimento de que o modelo econômico adotado traduz certo grau de hibridismo. Ob. Eficácia das Normas Constitucionais. Não sem razão. em tais situações. Método. pois representa um velado e constante flagelo à norma constitucional. 13 Canotilho. cit. Direitos Sociais e Justiça. 1º edição brasileira. ed. de caráter humanizante. que é o Estado Social do bem-estar preconização pela Constituição Federal de 1988. 2008. resultado direto de sua natureza compromissária. O Ministro Celso Melo reconheceu que. 15 Fábio Konder Comparato. frutificando um desalinhamento entre Judiciário. A alegação é descabida. emancipatório e dignificante da pessoa humana. Em casos análogos. 2005.p. o professor Juraci Mourão Lopes Filho afirma11 que a inadequação da postura processual do juiz à Constituição é a mais danosa ofensa e a mais degradante incongruência que pode se dar dentro de um sistema jurídico. 1º edição. que: “é incabível alegar que. A professora Fayga Silveira Bedê. cit.367. sobretudo num país onde vige. editora Malheiros. que no Estado Democrático de Direito o dever de proteção do ordenamento jurídico cabe a todos indistintamente. embora Direitos Humanos.. Fábio Konder Comparato aduz. 2º edição portuguesa.

por fim. a eficácia e a integridade de direitos individuais e/ou coletivos impregnados de estatura constitucional. poderá atribuir-se ao Poder Judiciário. 84. 4..16” Vale. 16 17 Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental n°45. Revista Internacional de Direito e Cidadania. O Direito Constitucional .leia-se social . 8ºedição. Luiz Roberto Barroso. vierem a comprometer. com tal comportamento.não foge a este designo17. 39-43. ed. Renovar. relembrar a máxima exarada por Luiz Roberto Barroso: o Direito existe para realizar-se. n.EFETIVIDADE DOS DIREITOS SOCIAIS em bases excepcionais. O Direito Constitucional e a Efetividade de Suas Normas. por descumprirem os encargos político-jurídicos que sobre eles incidem. se e quando os órgãos estatais competentes. p. ainda que derivados de cláusulas revestidas de conteúdo programático. p. junho/2009 43 .

4. n.44 Revista Internacional de Direito e Cidadania. junho/2009 .

assassinato e crimes sexuais cometidos eram completamente reprováveis e puníveis do ponto de vista jurídico. having as base the Herzog case. n.Artigo UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA Gabriela Freire Kühl de Godoy* RESUMO: O objetivo do presente artigo é trazer uma reflexão jurídica a respeito da Ditadura no Brasil. Lei de Anistia. verdade. ressalta-se a importância da sociedade e dos juristas no processo no concernente à justiça de transição. Por fim. Herzog. A partir disso. 45-53. em que o juiz Márcio Moraes demonstrou de maneira exemplar como os magistrados podem aplicar efetivamente o Direito mesmo em uma conjuntura política em que este permanece ignorado. Palavras-chave: Ditadura. e de que a interpretação dada à Lei de Anistia é extremamente questionável. ABSTRACT: The aim of the present article is to bring a legal reflection regarding the Dictatorship in Brazil. where the judge Márcio Moraes demonstrated laudably how the magistrates can effectively *Estudante de Direito da PUCSP Revista Internacional de Direito e Cidadania. junho/2009 45 . juristas. A sentença trouxe à tona institutos jurídicos como o da responsabilidade objetiva do Estado. p. 4. tendo como base o caso Herzog. Direito. permitindo o conhecimento da verdade e o reconhecimento dos erros para evitar que marcas tão vergonhosas e perenes como as da Ditadura voltem a macular a história do Brasil. sendo sua utilização plenamente cabível. mesmo na vigência dos Atos Institucionais. que continuava vigente à época. uma breve análise baseada no Direito Constitucional e no Direito Penal leva à conclusão de que à época os crimes de tortura. Brasil.

O jornalista em tela foi procurado pelo DOI CODI e comprometeu-se. even under the effectiveness of the Institutional Acts. murder and sexual crimes were completely reprehensible and punishable from the legal point of view. se buscará demonstrar que exercer uma carreira jurídica não significa uma aplicação meramente mecanicista de normas jurídicas. apply the Law in a politics outlook where it remains ignored. o governo insistiu na tese de que Herzog teria se apresentado voluntariamente ao DOI CODI e ali teria se suicidado. Law. Dessa forma. back to that days. From that point. por meio do Ato Institucional nº 2 os Juízes Federais de Primeiro Grau 46 foram nomeados diretamente pelo Presidente da República. jurists. no processo de abertura política O presente artigo objetiva ressaltar a importância dos juristas. por meio de um sistema de freios e contrapesos. it is highlighted the importance of the society and the jurists in the process concerning the transition justice. Uma semana após a morte de Herzog oito mil pessoas se concentraram na catedral da Sé em São Paulo para um ato ecumênico. por isso. junho/2009 . and that the interpretation given to the Amnesty Law is extremely doubtful. um ano após o golpe militar de 1964. being its use completely possible. a comparecer no dia seguinte às dependências do referido órgão. haja harmonia entre Executivo.45-53. F. p. inclusive para fazer com que a Administração Pública responda pelos seus atos. Ficou de tal maneira evidente que o jornalista fora exterminado pelo dentro de um órgão governamental que o caso gerou grande divulgação e comoção popular. Brazil. A versão apresentada era totalmente absurda e não conseguiu ludibriar os mais próximos do falecido. allowing the knowledge of the truth and the recognition of the mistakes in order to prevent that such shameful and everlasting marks as of the Dictatorship would come back to stain the history of Brazil. qual seja. Finally. Primeiramente. truth. o jornalista Vladimir Herzog foi preso e veio a falecer no mesmo dia nas dependências do DOI CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna. ou mesmo a população. K. The verdict brought to light legal means as the state’s strict liability. e. abordagem mais detalhada. como Poder Independente. 1) A função Poder Judiciário. o que demonstra a preocupação do governo da época em que as decisões lhes fossem favoráveis. o juiz Márcio José de Moraes assinou uma sentença única na vida política do país. Legislativo e Judiciário de maneira que nenhum dos Poderes ultrapasse a sua representatividade pública e usurpe o Poder na defesa de interesses particulares. evidenciando a possibilidade de independência do Poder Judiciário e o dever que este tem de aplicar o Direito. Nesse contexto. Um verdadeiro jurista deve estar apto a fazer interpretações sistemáticas e principiológicas das normas. Herzog. Amnesty Law. é essa justamente a função de tripartição dos poderes proposta por Montesquieu. merecendo. manifestação essa fun- Revista Internacional de Direito e Cidadania. Em razão disso.órgão encarregado de investigar e obter confissões dos pretensos envolvidos no processo de dissidência política). G. no contexto político do período de transição marcado pelo fim da ditadura e a volta do regime democrático. O caso do jornalista Vladimir Herzog foi emblemático no que se refere à missão do Poder Judiciário no contexto político. Apenas por volta de 1973 passaram a ocorrer novamente concursos para juízes federais. Aliás. na época. Keywords: Dictatorship. em 25 de outubro de 1978. sob pena de trazer conseqüências extremamente deletérias à sociedade. n. which were still effective at that time. para não ser preso instantaneamente. sobretudo do Direito. Em 1975. oportuno lembrar que em 1965. depois de escolhidos pelo Ministro da Justiça do governo militar.GODOY. one brief analysis based on the Constitutional law and the Criminal law leads to the conclusion that. quando se completavam exatos três anos da morte do jornalista Vladimir Herzog. crimes such as torture. a de que. 4.

o que ensejou que o Juiz da causa. a ampla instrução probatória também demonstrava que não havia ocorrido suicídio. apesar da sentença do juiz Marcio Moraes ter determinado que os autos fossem encaminhados para o juízo criminal a fim de que fossem tomadas as providências cabíveis não foi realizada nenhuma investigação ? 47 Revista Internacional de Direito e Cidadania. não teriam evitado a tragédia. que no pescoço de Herzog havia dois sulcos. o exame de corpo de delito que alegava o suicídio havia ocorrido. ademais. p. permanecia em vigor o disposto no artigo 37. uma vez que a maioria das testemunhas em favor da União não depuseram na fase judicial. 45-53. o juiz Márcio Moraes declarou que Vladimir Herzog estava preso ilegalmente no DOI CODI e que a União era responsável pela morte do jornalista. Portanto. apesar dos atos institucionais que restringiam sobremaneira a liberdade das pessoas. numa demonstração pública de desaprovação popular aos desmandos do governo militar. com a intenção de defender a tese do suicídio. brilhantemente. Os agentes do DOI CODI deixaram no local ferramentas (o cinto que estaria no macacão de Herzog era totalmente desnecessário para aquele tipo de vestimenta e não constava no s uniformes dos outros detentos) para que isso ocorresse e. 2) Reflexões a partir do caso Herzog: por que. Dr. Márcio Moraes anulasse o laudo produzido. Ou seja: para a caracterização da União como responsável juridicamente pela morte de alguém no interior de um órgão governamental bastava que houvesse um nexo de causalidade entre o dano. a morte e a presença do jornalista no local. causarem a terceiros. o fato de se estar sob o manto de um governo ditatorial à época da morte do jornalista não afastava a responsabilidade objetiva do Estado. que era ampla no sentido de que o jornalista não poderia ter se suicidado. Primeiramente. Para caracterizar a responsabilidade da União o juiz em tela ressaltou que os princípios da Constituição Federal de 1967 ainda estavam vigentes. Feitas essas breves considerações fáticas. n. pela teoria do risco administrativo. foi feito por apenas um perito (apesar de assinado por dois). com base na legislação vigente na época. junho/2009 . criando sem dúvida uma esperança na população de que sua sentença refletisse de maneira positiva em outros casos análogos e na investigação de pessoas desaparecidas. caracterizando a iminência da ruptura de anos de silêncio da população. Apesar desses fatos por si só já serem aptos a responsabilizar a União. em sentença em que figuravam como autores a esposa e os filhos de Herzog. se ficasse comprovado a ocorrência do suicídio e que este não tinha relação alguma com o Estado a responsabilidade deste estaria elidida. o que na época não era permitido. o qual dispunha expressamente que: “as pessoas jurídicas de Direito Público e as de Direito Privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes. sendo prescindível a prova de culpa. qual seja. Contudo. que não pode ser considerada caso fortuito nem força maior. interessante analisar os argumentos utilizados pelo juiz Márcio Moraes que. existente o nexo de causalidade. quando na verdade havia apenas um). parágrafo sexto da Constituição Federal de 1967. alegava. trazia erros grosseiros (como por exemplo. negligência ou imprudência dos agentes estatais. há que se reconhecer a responsabilidade mesmo na hipótese de ser acatada a tese (inverídica) da União de que o jornalista teria se suicidado. inciso XXII. Dessa maneira.UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA damental à época. Assim. não somente declarou a responsabilidade da União pela morte do jornalista. como também mandou instaurar inquérito policial para que se apurasse a responsabilidade dos torturadores. Dessa forma. o que não foi feito até hoje. Desta feita. assegurado o direito de regresso nos casos de dolo ou culpa”. 4. nessa qualidade. foi possível que o caso fosse decidido com base em prova testemunhal.

julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos. trazendo como consequência a ausência de punição dos torturadores e criminosos à época. p. F. estaduais e municipais. o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam. com as modificações constantes deste Ato Institcional. baseada na liberdade.São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais. c) domicílio determinado. demonstrando a preocupação do governo em mascarar que se tratava de um regime autoritário. K.Durante o período de recesso. a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas. de 9 de abril de 1964). importa.Aos membros dos Legislativos federal. assegurasse autêntica ordem democrática. § 1º .cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função. os Deputados federais.O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional. ouvido o Conselho de Segurança Nacional. oportuna a transcrição de parte do preâmbulo do AI5.(grifo nosso)”. no interesse nacional.45-53.Em caso de recesso da Câmara Municipal. Art 5º . IV . não se tem a pretensão de esclarecer os motivos pelos quais não foram adiante as investigações não somente do caso Herzog como dos demais outros casos. respectivamente.A suspensão dos direitos políticos. Art 4º . o Presidente da República. de instituir atos totalmente ditatoriais mantendo a aparência democrática.Decretado o recesso parlamentar. defesa a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário. não serão dados substitutos.(g.aplicação. totalmente contrárias à ordem democrática. deste modo. ato Institucional que entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968. atendendo às exigências de um sistema jurídico e político. II . tais como a conferência ao Poder Executivo de competência legislativa. estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios. poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais. “liberdade” e respeito à “dignidade da pessoa humana”. essa pergunta busca apenas um processo reflexivo. reforçando os poderes discricionários do regime militar e restringindo sobremaneira a liberdade dos cidadãos: “CONSIDERANDO que a Revolução brasileira de 31 de março de 1964 teve. das seguintes medidas de segurança: a) liberdade vigiada. fato é que nos dispositivos seguintes1 foram estabelecidas diversas supressões aos direitos dos cidadãos. no respeito à dignidade da pessoa humana. por Ato Complementar. aos Governadores ou Prefeitos. os Senadores. estendendo sua ação às funções de auditoria. em estado de sitio ou fora dele. De qualquer forma.o ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados. junho/2009 . sem as limitações previstas na Constituição. III . simultaneamente. Logo no início do AI5 são utilizados termos como “autêntica ordem democrática”. Neste artigo. quando necessária. Busca-se tão somente demonstrar que não havia impedimento jurídico para tal.GODOY. Art 2º . determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.O Presidente da República. em: I . § 1º . que tiverem seus mandatos cassados. e gozarão das prerrogativas.As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro de Estado da Justiça. os graves e urgentes problemas de que depende a restauração da ordem interna e do prestígio internacional da nossa pátria “(Preâmbulo do Ato Institucional nº 1. política e moral do Brasil. poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios. Inicialmente. conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou. será exercida pelo do respectivo Estado.proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política.No interesse de preservar a Revolução. vencimentos e vantagens fixados em lei. Parágrafo único . e sem as limitações previstas na Constituição. financeira.” os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica. G. estaduais e municipais. na luta contra a corrupção. das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores. pelo contrário. Art 3º . 48 Revista Internacional de Direito e Cidadania. n. § 2º . b) proibição de freqüentar determinados lugares. § 3º . buscando. 4. fundamentos e propósitos que visavam a dar ao País um regime que. no combate à subversão e às 1 ideologias contrárias às tradições de nosso povo. com base neste Ato. de maneira a poder enfrentar.n). Parágrafo único . a proibição de atividades ou manifestações de natureza política e a suspensão de ATO INSTITUCIONAL número 5: Art 1º . de modo direito e imediato. só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais. § 2º .

Art 11 . mesmo que acusados de crimes políticos. Desta feita. supondo para efeitos meramente argumentativos que algum Ato Institucional tivesse previsto expressamente a permissão de todo e qualquer tipo de tortura. claramente prevaleciam as disposições do ordenamento jurídico anterior aos Atos Institucionais (sobretudo em relação aos limites do Poder Estatal. e demitir. Logo.O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se. também. demitir. bem como adotar. se necessário à defesa da Revolução. função ou emprego na Administração Pública. só pode fazer o que a lei permite). instituíram uma série de limitações aos direitos e à liberdade que os cidadãos tem em uma ordem democrática.Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade. fixando o respectivo prazo. de tratamento cruel ou degradante.” Portanto. a tortura ou a práticas de crimes sexuais contra os prisioneiros. há uma necessidade de desfazer a ideia de que as atrocidades cometidas pelos agentes do governo durante o regime militar. § 1º . para realizar o que foi por eles denominado de revolução e por muitos chamado de golpe teria o condão de lhe conferir a imputação de Poder Art 6º . inamovibilidade e estabilidade. salvo nos casos de guerra externa psicológica adversa. poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo. Contudo. assegurados. Brasília. nos Estados. poder-se-ia sustentar. n. tais como o § 11 do artigo 150 : “ § 11 . de prisão perpétua. no exercício de cargo ou função pública. Art 8º . Parágrafo único . a Constituição de 1967 não foi totalmente revogada pelos atos institucionais. haja vista que não havia previsão constitucional autorizando as condutas supramencionadas. seriam atos legais. contra a ordem nacional. Municípios.O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data. Isso porque precede à análise da legalidade a questão da legitimidade. inclusive de autarquias.Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares. uma vez que este. após investigação. Art 7º . sem prejuízo das sanções penais cabíveis. § 2º . contra a segurança nacional.UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA “habeas corpus” nos casos de crimes políticos. Mesmo que assim não fosse. transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares. ou seja. embora nesse caso mais arduamente que no anterior. pelo simples fato de estarem supostamente sob a anuência estatal. ou revolucionária ou subversiva nos termos que a lei determinar. de maneira que plenamente possível a invocação de dispositivos da referida Carta Magna que não contrastassem com os posteriores.O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional. 152 da Constituição. junho/2009 49 .O Presidente da República poderá. resta claro que os atos institucionais. empresas públicas ou sociedades de economia mista. revogadas as disposições em contrário. ou no caso de enriquecimento ilícito no exercício de cargo. ou confisco. p. não há dúvidas de que todos os interrogatórios realizados por meio de tortura e crimes sexuais. mesmo na hipótese de se considerar que tais condutas tenham sido eventualmente realizadas a mando estatal. Art 10 . em qualquer dos casos previstos na Constituição.Provada a legitimidade da aquisição dos bens. a ordem econômica e social e a economia popular. 4. Direta ou Indireta. como não havia nenhum dispositivo expresso autorizando o assassinato. O fato de os militares terem utilizado seu material bélico e poder de influência.Fica suspensa a garantia de habeas corpus . os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço. quando for o caso. bem como a de exercício em funções por prazo certo. decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido. 45-53. cujo mais autoritário foi o AI5. assim como empregado de autarquias. ilicitamente.Não haverá pena de morte. 13 de dezembro de 1968.O Presidente da República. a ordem econômica e social e a economia popular. assim como os homicídios oriundos desses meios inquisitivos. Art 12 . a ilegalidade de tais condutas. Distrito Federal e Territórios. as medidas previstas nas alíneas d e do § 2º do art.O Presidente da República poderá mediante decreto. Art 9º . remover. Esta disporá também. nos casos de crimes políticos. empresas públicas e sociedades de economia mista. aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo. Nesse sentido. far-se-á sua restituição. sobretudo pela manipulação da mídia. bem como os respectivos efeitos. Revista Internacional de Direito e Cidadania. diferentemente dos particulares. de banimento. ainda assim. sobre o perdimento de bens por danos causados ao Erário. foram ilegais. 147º da Independência e 80º da República.

haja vista que não foram seguidos os requisitos formais e materiais para o exercício do Poder Constituinte Reformador. aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais. é que o inferior alegasse obediência hierárquica para não ser punido. ou seja. posição em sentindo diverso é plenamente defensável. mesmo entendendo serem ilegais todos os atos criminosos cometidos sob a égide da ditadura. b) se. aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário. tiverem sido praticadas.GODOY. ocorridas duas ou mais infrações. n. 4. para facilitar ou ocultar crimes políticos. ou seja. para efeito deste artigo. ao homicídio e aos crimes sexuais a característica de crime político ou conexo a este. A hipótese de o próprio Estado ter acobertado. no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979. apesar de o conceito de anistia ter se propagado como recíproco e abrangente tanto aos torturadores quanto 2 Art. G. 50 Revista Internacional de Direito e Cidadania. haja vista não se subsumirem ao conceito de conexão nem poderem ser considerados crimes praticados por motivação política pelo simples fato de as vítimas serem os dissidentes políticos à época. Assim. tanto para aqueles que torturaram e mataram quanto para os que foram torturados e mortos em razão de uma ideologia política. embora diverso o tempo e o lugar. Constituinte Originário? Para aqueles que entenderem ser a resposta negativa. crimes eleitorais. punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares (vetado). aos torturados. no mesmo caso. aqueles que tenham sido cometidos. in verbis : Art. elidem-se os argumentos de que haveria impossibilidade de responsabilização dos agentes que cometeram torturas e homicídios durante a ditadura com a justificativa de que tais atos estariam sob o manto da legalidade na época. segundo a interpretação da grande maioria dos doutrinadores e políticos seria recíproca. no máximo. plenamente defensável que os crimes de tortura e homicídio cometidos pelos agentes estatais não seriam crimes conexos. ao mesmo tempo. na remota possibilidade de se considerar crível que os crimes cometidos na ditadura não fossem tidos como manifestamente ilegais. mas não da legalidade. umas infrações tiverem sido praticadas para facilitar ou ocultar as outras. umas contra as outras. basicamente. ou para conseguir impunidade ou vantagem em relação a qualquer delas. § 1º Consideram-se conexos. poderiam até estar sob o manto da governabilidade. inclusive por uma interpretação simplesmente gramatical da lei de anistia. O que poderia o ocorrer. F. junho/2009 . não deram seguimento os processos com fulcro na Lei de Anistia. K. ou por várias pessoas. aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta.45-53. por várias pessoas reunidas ou por várias pessoas em concurso. de fundações vinculadas ao poder público. O fato de as vítimas serem pessoas acusadas de supostos crimes considerados políticos na época da ditadura militar não pode conferir à tortura. Nesse sentido. 3) Anistia no Estado Democrático brasileiro Há que se considerar que. os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política. 1º É concedida anistia a todos quantos. que. cometeram crimes políticos ou conexo com estes. os dirigentes do sistema de justiça (Ministério Público e Poder Judiciário). Contudo. nenhuma previsão dos Atos Institucionais pode ser tida como legítima. p.99 do Código Penal: a) se. c) quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na prova de outra infração. a lei de Anistia estabelece anistia para os crimes políticos e para os crimes conexos2 aos políticos. pois deve ser analisada a conduta em si e não o sujeito passivo. aprovado e até ordenado o cometimento de atos totalmente desumanos para defender interesses políticos de maneira alguma poderia sanar o vício da ilegalidade. Isto posto.

atualmente muitos dos crimes já estão prescritos. No Brasil. cosequentemente. 4. mesmo que a inércia estatal em apurar e punir os crimes tenha sido generalizada. mas também do ponto de vista lógico. investigação e julgamento dos processos relativos aos 339 casos de mortos e desaparecidos apresentados para sua soberana decisão. são os mecanismos utilizados para lidar com a violência e restrições de um regime autoritário passado. período em que os Direitos Humanos foram ostensivamente violados. as consequências de um regime jurídico autoritário anterior. Em breve síntese. uma vez que não se pode excepcionar o instituto da prescrição. à verdade. juridicamente falando. 2) Sistematizar informações sobre a possível localização de covas clandesti51 Revista Internacional de Direito e Cidadania. no concernente ao direito à memória e à verdade. Dessa maneira. alguns doutrinadores defendem a imprescritibilidade dos crimes ocorridos na ditadura com base no Direito Internacional . junho/2009 . como abordado no item anterior. e atualmente vem se concentrando atualmente basicamente : 1) constituição de dados de perfis genéticos. contribuindo de maneira exemplar para a consolidação da vida democrática brasileira. considerando-os. ganhou força a ideia de que a afronta de tais Direitos deve ser vista como um problema universal e não como algo que atinge apenas a esfera do país em que os direitos são violados. em prejuízo do réu. graças ao incrível trabalho dos arqueólogos. mas perdura até os dias atuais. a concessão de Anistia pelo Estado aos agentes estatais que cometeram crime na época do regime militar pode ser considerada “auto-anistia” ou seja. Esse posicionamento baseia-se. a punição dos agentes estatais que cometeram tortura. Como características básicas da justiça de transição estão o direito à punição dos responsáveis. visando a comparação com os restos mortais que ainda venham a ser localizados. já que não houve.140. já se manifestou na Comissão Interamericana de Direitos Humanos no sentido de que a não apuração dos crimes cometidos durante a ditadura e a consequente impunidade de seus agentes ativos têm início anterior a 1988. a justiça de transição no Brasil é classificada como parcial. em suma e simplificadamente é maneira de enfrentar. sucumbiu a pretensão punitiva estatal. No final de 2006 a Comissão encerrou uma importante etapa de suas atividades. à justiça e à reparação e à reforma institucional. concluindo a fase de análise. bem como ossadas já separadas para o exame. 4) Atuação dos agentes sociais e dos profissionais de direito na implementação dos mecanismos de justiça de transição Em breve síntese. n.Banco de DNA (a partir da coleta de sangue dos parentes dos desaparecidos). 45-53. a punição dos responsáveis. Principalmente após o Nazismo.UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA Ademais. portanto. Embora na época fosse plenamente possível. Dessa forma. partindo desses princípios. de maneira a constituir por si só uma violação dos Direitos Humanos que poderá ser analisada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. que se somam a outros 136 nomes já reconhecidos no próprio Anexo da Lei 9. que caracteriza tais crimes como de lesa humanidade e. justiça de transição são as medidas adotadas pelo país no período em que este passa de um regime jurídico para ditatorial para um Estado Democrático. em um regime democrático. e. Posição contrária a respeito da prescrição é defendida com base na universalização dos Direitos Humanos. não houve também reforma institucional. o ato de alguém conceder anistia a si mesmo. o que seria uma incongruência não apenas do ponto de vista jurídico. a Comissão Especial sobre mortos e desaparecidos políticos (CEMDP). p. sobretudo na Convenção Interamericana de Direitos Humanos. Embora tal instrumento tenha sido assinado pelo Brasil com a ressalva de que se aplica aos fatos posteriores a 1988. resultante da união de forças entre os familiares e os militantes de direitos humanos e instituída pela Lei nº 9140/95 vem cumprindo papel importantíssimo na busca de solução para os casos de desaparecidos durante o período de 1961-1988. imprescritíveis e insuscetíveis de anistia.

O resgate da memória e da verdade (sendo que esta pode ser. plenamente defensável os recursos da tutela coletiva em busca de tais direitos. O valor da indenização tem sido criticado com frequência na mídia. principalmente. a sociedade como um todo tem também interesse em que os fatos sejam revelados. de seus familiares e da sociedade esse período da história. mas não foi capaz de apagar da mente das vítimas. que se expressam na justiça de transição-no conhecimento da verdade e na possibilidade de reparação. é impossível. No primeiro caso a indenização é calculada geralmente levando em conta o piso salarial da categoria do anistiado e fazem uma projeção da evolução profissional que poderia ter alcançado se não tivesse sido prejudicado durante o período da ditadura. 52 Revista Internacional de Direito e Cidadania. mas trata-se da aplicação da justiça comutativa.45-53. é aplicar anestésicos que amenizem a ferida já formada. junho/2009 . devendo o magistrado fixá-las de acordo com esses danos. Quanto ao direito à reparação este deve englobar tanto as vítimas que sobreviveram ao regime militar quanto os familiares de vítimas desaparecidas ou reconhecidamente assassinadas.140/95. Contudo. entendida esta no seu sentido estrito (pecuniário). que não se pode negar aos cidadãos. Nesse sentido. promotores. ampliando o rol dos legitimado para a propositura das ações. juizes. 4. Magistrados. tanto profissionalmente quanto psiquicamente são realmente vultosas. n. por uma questão incitamente de dignidade humana. haja vista que o direito de se conhecer e. 5) Conclusão A anistia pode até ter tido o efeito. os assassinatos e os crimes sexuais cometidos durante o período da ditadura. Como consequencia. reconhecer o que de fato ocorreu com seus familiares desaparecidos no regime militar e de realizar para as vítimas um sepultamento digno está englobado no conceito de “mínimo ético irredutível”. A indenização deve ser em razão do dano. em cumprimento ao Inciso II do artigo 4º da Lei nº 9. Talvez seja essa a maior falha daqueles que procuraram na anistia um sinônimo de esquecimento. Por fim.GODOY. p. as marcas desse período não serão e nem devem ser apagadas. já prevista por Aristóteles. K. advogados e população não podem aceitar que qualquer forma de desmando se repita. muitas vezes. G. de todo o mal causado. a aprendizagem. naquele determinado momento político. reconhecida pelos magistrados em suas sentenças) tem uma função fundamental na justiça de transição porque de importância inestimável para os familiares das vítimas. de apagar do mundo jurídico as torturas. sem se intimidar pelas críticas midiáticas descabidas. haja vista que a reparação lato sensu. não se pode restringir a importância do conhecimento da verdade aos familiares da vítima. não somente porque maculam a história da nação brasileira. de maneira que a reconstrução do Estado Democrático de Direito deve ser guiada pela não aceitação de qualquer Poder Ilegítimo.””. O que a sociedade e os profissionais do Direito podem fazer. nas nas grandes cidades e em áreas prováveis de sepultamento dos militantes. com máxima eficiência possível. que a criou : “envidar esforços para a localização dos corpos e de pessoas desaparecidas no caso de existência de indícios quanto ao local em que possam estar depositados”. como também porque com a verdade há a garantia de não repetição. F. efetiva. não sendo nunca enfadonho recordar a famosa frase de Winston Churchill: “Quem ignora a história está fadado a repeti-la”. algo de muito positivo resta da memória desses fatos que maculam a história do Brasil. que vem inclusive aplicando a denominação “bolsa indenização”. esqueceram eles próprios que esta é apenas um instituto jurídico e não uma substância química. tanto patrimonial quanto moral e as mazelas causadas nas vítimas da ditadura. até mesmo para que não se repitam as mesmas atrocidades na história do nosso país.

Projeto Direito e Justiça – Módulo História do Direito Contemporâneo . o milagre econômico. 4. p. Dr. Luis Eduardo Greenhalg. um relato para a história. Dr. Rio de Janeiro. Paulo Evaristo Cardeal Arns. Márcio Pugliesi. 45-53. editora Universidade de São Paulo. Dr. Daniel. Prefácio de D. Carlos. 2006 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Sarmento.Cláudio de Cicco. Material de Apoio ao Projeto Direito e Justiça. n. editora vozes. 2 ª edição. O golpe militar de 1964. Rio de Janeiro. Walter Uzzo. Módulo “História do Direito Contemporâneo”. 11º edição. Editora Lumen Juris. FAUSTO. Direito à Memória e à Verdade. Direitos Fundamentais e relações privadas. Que história é esta? O Regime Militar no Brasil (1964-1985).UMA ABORDAGEM JURÍDICA DA DITADURA BRASILEIRA Bibliografia Ação Declaratória. Processo nº 136/76 Brasil Nunca mais. 2003. Curso ministrado na Oboré. 12 de setembro de 2007. Dr. que contou com a presença dos seguintes palestrantes: Dr. Boris. Petrópolis. Editora Saraiva. FICO. Márcio Moraes. junho/2009 53 . 2009. 37 ª edição. História do Brasil. repressão. a Abertura e o fim do regime. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos. 1999.

n. junho/2009 . 4.54 Revista Internacional de Direito e Cidadania.

Artigo

ACESSO A DOCUMENTAÇÃO GOVERNAMENTAL E DIREITO À MEMÓRIA E VERDADE: ANÁLISE DO PROJETO DE LEI
Inês Virgínia Prado Soares* RESUMO: O presente texto analisa os artigos do projeto de lei que regulamenta o acesso às informações, ainda sem número na Câmara. O texto analisa os dispositivos que versam acerca do acesso à documentação governamental, sob o enfoque da tutela do patrimônio cultural brasileiro, conforme estabelecido no art. 216 § 2° da Constituição. Palavras-chave: Ditadura. Acesso à Documentação Governamental. Direito à informação. Patrimônio cultural ABSTRACT: The present text analyzes the articles of the project of law that regulates the access to the information, still numberless in the Parliament. The text analyzes the devices that deal on the access to the governmental documentation, under the approach of the guardianship of the Brazilian cultural heritage, as established in article 216 § 2° of the Constitution. Keywords: Dictatorship. Access to the Governmental Documentation. Dight to Iformation. Cultural heritage

1. Do objeto deste texto
O presente texto analisa os artigos que versam acerca do direito ao acesso à documentação governamental (art. 216 § 2° da Constituição)
*Procuradora da República em São Paulo, Mestre e Doutora em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Presidente do Instituto de Estudos Direito e Cidadania – IEDC e coordenadora da Revista Internacional de Direito e Cidadania-REID (www.iedc.org.br/reid). Pesquisadora em nível de pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.

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dispostos no projeto de lei encaminhado pelo presidente da República em maio de 2009, que visa regulamentar o acesso às informações, ainda sem número na Câmara.

2. Noções gerais sobre o art. 216 § 2° da Constituição e a Lei de Arquivos
Um dos objetivos do projeto de lei em análise é regulamentar o acesso a informações contidas na documentação governamental, a qual, segundo a Constituição, deve ser gerida pelo Poder Público (art. 216 § 2°) nos termos da lei. Assim, sobre a gestão e acesso aos documentos governamentais de valor cultural, além das normas, instrumentos e princípios aplicáveis aos bens culturais em geral, cabe atentar que a documentação pública é sempre gerida pelos órgãos do Estado. Na ótica de patrimônio cultural, a primeira consequência da inserção da documentação governamental no artigo 216 da Constituição é sua vinculação aos princípios e instrumentos protetivos dos bens culturais. Portanto, embora nem toda a documentação governamental se enquadre na concepção constitucional de bem cultural integrante do patrimônio cultural brasileiro (indicado nos incisos do art. 216), sua importância para a efetividade do direito fundamental ao patrimônio cultural está fixada pela sua previsão do § 2° do art. 216. Assim, como suporte de outros bens que integram o patrimônio cultural ou mesmo como ingrediente que possibilita a formação dos valores de referência cultural, a documentação governamental se equipara aos bens culturais para aplicação de instrumentos e mecanismos protetivos, especialmente o inventário. O inciso IV do art. 216 arrola os documentos como categoria dos bens culturais que pode integrar o patrimônio cultural brasileiro. A indicação constitucional é de preservação dos documentos, públicos ou privados, destinados às manifestações artístico-culturais, quando estes forem relevantes para a memória, identidade e
1

ação dos grupos formadores da sociedade brasileira. No inciso em comento, não há menção a se a documentação deve estar sistematizada ou de que modo deve ser feita tal organização, já que tal detalhamento é matéria infraconstitucional. Por isso, a proteção dos documentos, sob o enfoque patrimonial, pode se dar de modo individual ou em conjunto. Agrupados (de forma organizada), os documentos compõem o patrimônio documental brasileiro. Para Marcos Paulo de Souza Miranda, o”patrimônio documental é formado por documentos que constituem acervo e fonte de comprovação de fatos históricos e memoráveis. Materializado sob diversas formas e sobre diferentes bases, constitui muitas vezes o principal acervo dos arquivos públicos e privados.”1 No mesmo sentido, demonstrando a importância do tratamento dos documentos como bens ou suportes de bens culturais, na visão de historiadora, Maria Thétis Nunes diz que : “Como o historiador chega aos fatos históricos? Por meio de livros, exemplificados nas crônicas publicadas, geralmente retratos da época em que foram escritas (para a História do Brasil tiveram grande importância não só as legadas por cronistas portugueses, como de outras nacionalidades – franceses, holandeses, alemães, entre outros). Segue-se os jornais e os documentos escritos. Para a História do Brasil colonial, os documentos escritos têm importância básica, considerando-se que, aqui, a imprensa só surgiria em 1808, com a chegada da Corte portuguesa fugindo das tropas francesas. Daí a grande importância, para nós, dos arquivos. Reúnem-se os fatos para isso. Vai-se aos Arquivos, estes sótãos dos fatos. Aí, basta baixar-nos para os recolher. Cestadas cheias. Pousam-se em cima da mesa. Faz-se o que fazem as crianças quando brincam com ‘cubos’ e trabalhamos para eles... O jogo está acabado, a história está feita. Assim via os docu-

Marcos Paulo S. Miranda, Tutela do Patrimônio Cultural Brasileiro, Del Rey, 2006, p. 67.

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mentos, há alguns anos passados, Lucien Frebvre, o criador da chamada Escola Nova na interpretação da História. Atualmente, iria ele encontrar as facilidades trazidas pela informática, indispensável aos arquivos modernos. O estudioso da História seleciona os documentos que lhe falam de alguma coisa, trabalho hoje facilitado pelos avanços tecnológicos, substituindo a cópia manual que tanto o absorvia. (...)”2 A documentação que integra o patrimônio documental brasileiro serve de elo de ligação intra e intergeracional, com a função fornecer elementos para compreensão e interpretação, pelos historiadores e outros experts, dos fatos ocorridos, com objetivo de resguardar a memória do povo brasileiro bem como de compreender os movimentos culturais, sociais e econômicos que afetaram e afetam os brasileiros. Por isso, os documentos reunidos em arquivo não podem ser alienados com dispersão ou perda da unidade documental, nem transferidos para o exterior, independente de serem documentos públicos ou particulares. No plano infraconstitucional, coube à Lei 8.159/91 abordar os aspectos jurídicos mais relevantes para a gestão documental no Brasil, ao instituir a política nacional de arquivos públicos e privados. Essa Lei fixa o dever do Poder Público de proteger os documentos integrantes dos arquivos, conceitua de modo amplo o que são os arquivos públicos (cap. II) e os diferencia dos arquivos privados (cap. III), além de estabelecer, como ressalta Celso Lafer, o princípio do acesso pleno aos documentos (art. 22)3. Para a Lei 8.159/91, arquivos são os conjuntos de documentos produzidos e recebidos por órgãos públicos, instituições de caráter público e entidades privadas, em decorrência do exercício de atividades específicas, bem como por pessoa física, qualquer que seja o suporte da informação ou a natureza dos documentos (art. 2°).
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Os arquivos, públicos ou privados, são tratados pela Lei 8.159/91 como instrumentos de apoio à administração, à cultura, ao desenvolvimento científico ou, ainda, como elementos de prova e informação (para a sociedade ou para o próprio Poder Público)4. A lei privilegia a dimensão pública dos arquivos e sua potencialidade como instrumento de formação e informação. Assim, nos termos do art. 12 os arquivos privados podem ser identificados pelo Poder Público como de interesse público e social, desde que sejam fontes relevantes para a história e desenvolvimento científico nacional. A natureza de bem de interesse público dos arquivos privados traz algumas restrições no exercício do direito de propriedade desses bens, como se denota da leitura dos artigos seguintes: “Art. 13. Os arquivos privados identificados como de interesse público e social não poderão ser alienados com dispersão ou perda da unidade documental, nem transferidos para o exterior. Parágrafo único. Na alienação desses arquivos o Poder Público exercerá preferência na aquisição. Art. 14. O acesso aos documentos de arquivos privados identificados como de interesse público e social poderá ser franqueado mediante autorização de seu proprietário ou possuidor. Art. 15. Os arquivos privados identificados como de interesse público e social poderão ser depositados a título revogável, ou doados a instituições arquivísticas públicas.” Por fim, o art. 16 da lei ainda identifica expressamente como de interesse público e social os registros civis de arquivos de entidades religiosas produzidos anteriormente à vigência do Código Civil (de 1916). No esteio da lei em comento, foi editada a Lei 8.394/91, regulamentada pelo Decreto 4.344/2002, que dispõe

Maria Thétis Nunes. A importância dos arquivos judiciais para a preservação da memória nacional. Disponível em <www.cjf.gov.br>. Acesso em 26.08.2008. 3 Celso Lafer, ob. cit., p. 42. 4 Conforme art. 1°da Lei 8.159/91.

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sobre os acervos documentais privados dos presidentes da República. No mesmo sentido, de conferir natureza de bem de interesse público a bens privados, o art. 1228, § 1°, do atual Código Civil prevê que o direito de propriedade deve ser exercido em consonância com suas finalidades econômicas e sociais, de modo que seja preservado o patrimônio histórico, em conformidade com o estabelecido em lei especial. Além de todo o mencionado acerca da Lei 8.159/91, cabe repetir que sua edição estabelece para o Poder Público, adstrito ao princípio da legalidade, caminhos a serem seguidos no trato dos documentos governamentais, os quais devem, como já dito, não somente ser geridos mas também ter sua consulta franqueada ao público. O art. 3º da Lei 8.159/91 define a gestão de documentos o conjunto de procedimentos e operações técnicas à sua produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento em fase corrente e intermediária, visando à sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente. A gestão dos bens e documentos integrantes de um arquivo deve proporcionar o amplo acesso à comunidade especializada e leiga, cabendo ao Poder Público observar a sistematização de forma compreensível e de fácil manuseio, bem como o acondicionamento adequado dos documentos, com a atenção para os critérios que lhes garantam segurança e evitem qualquer sua deterioração ou perecimento. Nesse sentido, o art. 25 da Lei 8.159/91 estabelece que a desfiguração ou destruição de documentos de valor permanente ou considerados como de interesse público e social são ações sujeitas à responsabilização penal, civil e administrativa.

queamento da consulta, a todos os interessados, aos arquivos públicos ou privados. Assim, o conhecimento dos documentos governamentais que tenham repercussão direta ou indireta na fruição dos bens da vida é direito fundamental vinculado à liberdade de manifestação e fruição culturais e se vincula ao direito de participação dos cidadãos na vida pública. Como bem atenta Celso Lafer, o objetivo da preservação desses documentos é sua transformação em fontes de informação para o uso da cidadania: “A política nacional de arquivos públicos e privados contemplada pela Lei nº 8.159, de 8/1/91, cuida assim, da preservação dos documentos com o objetivo de transformá-lo em fontes de informação para o uso da cidadania, posto que relevantes para a qualidade da convivência coletiva, para o entendimento da sociedade e para o conhecimento da memória nacional. O tema técnico da gestão dos arquivos, associado ao tema político da informação ex parte populi, é conseqüentemente o que faz da consulta e do acesso a documentos públicos e privados de interesse geral uma dimensão importante da prática democrática na concepção da Lei nº 8.159.”5 No entanto, apesar do lastro normativo mencionado acima, a efetividade do direito fundamental ao acesso à informação pública ainda não está totalmente consolidada no país, já que as práticas regulamentares que não guardam consonância com a previsão constitucional e infraconstitucional. A fragilidade do direito ao acesso e à consulta aos documentos governamentais fica evidente com a manutenção do Decreto 4.553/2002, que revogou os Decretos 2.134/97 e 2.910/98, que regulamentavam a Lei 8.159/91, e, no intuito de regulamentar de modo mais adequado essa Lei, estabeleceu prazos extremamente longos para acesso a documentos públicos que contenham informações cujo sigilo seja considerado

3. Direito ao acesso à informação de dimensão pública
No ordenamento jurídico brasileiro há um lastro normativo que permite afirmar a existência do direito ao acesso à informação de dimensão pública e que tal direito se concretiza pelo fran5

Celso Lafer. O público e o privado: suas configurações contemporâneas para a temática dos arquivos. Documentos Privados de Interesse Público: o acesso em questão. Instituto Fernando Henrique Cardoso, 2005, p. 41.

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ainda sem número na Câmara. 4. Além dos dispositivos que versam acerca dos documentos como bens culturais e da competência comum dos entes federativos em protegê-lo.111/05. 6 7 Esta lei declarou que o “acesso aos documentos públicos classificados no mais alto grau de sigilo poderá ser restringido pelo prazo e prorrogação previstos no § 2° do art. A Lei 11. que estabelece: “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações do seu interesse particular. 5°. a integridade territorial nacional ou as relações internacionais do País. Este artigo dispõe verbis: “Antes de expirada a prorrogação do prazo de que trata o caput deste artigo. junho/2009 59 . 23 da Lei 8. que dispõe que “cabem à administração pública. é necessário atentar que a publicidade é um dos princípios regentes da conduta dos agentes públicos no exercício de sua função e traço característico da democracia. que serão prestadas no prazo da lei. ou do interesse coletivo ou geral. na forma da lei.” Com a finalidade de regulamentar a parte final do disposto desse dispositivo constitucional. n.ACESSO A DOCUMENTAÇÃO GOVERNAMENTAL E DIREITO À MEMÓRIA E VERDADE: ANÁLISE DO PROJETO DE LEI imprescindível. 6° da aludida lei fica revelada a afronta ao processo democrático brasileiro e às bases de transparência do poder e de visibilidade da gestão pública. As restrições de acesso à informação do Projeto de Lei 5. inc. a tutela sob o enfoque patrimonial dos documentos governamentais foi afirmada pelo § 2° do art. foi editada a Lei 11. a manifestação da Comissão de Averiguação e Análise de Informações Sigilosas para que avalie se o acesso ao documento ameaçará a soberania. XXXIII. 4. caput).111/05 e o acesso aos documentos governamentais produzidos na ditadura Embora os documentos governamentais de valor histórico (ou cultural) já estivessem abrangidos no inciso IV do art. sob pena de responsabilidade. cabe à sociedade questionar judicialmente e de forma difusa a impossibilidade de acesso à documentação de interesse público. 7°.159/91” (art. Sem prejuízo da ADI 4077. Além do mencionado Decreto. p. 216. o texto constitucional seguiu o conceito de transparência já positivado como um dos princípios que regem a administração pública7 e realçou o direito fundamental previsto no art.” Certamente esses dispositivos não guardam sintonia com a Constituição e com os valores do regime democrático. O Decreto n° 4. Porém.159/91. foi editada a Lei 11. a Constituição destacou a necessidade de que ampliar a tutela para toda documentação governamental. 2°. que os documentos considerados ultrasecretos podem ficar inacessíveis inicialmente por 30 anos. Alguns aspectos do Projeto de lei Em maio de 2009. Revista Internacional de Direito e Cidadania. de modo justificado. I a IV e § único Art. quando legislação for colocada como obstáculo. ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. 5.da Constituição. que será tratada a seguir.111/05.1. que questiona a constitucionalidade de artigos tanto dessa lei como da Lei 8.553/2002 prevê. 216. antes de abordar a gestão dos documentos governamentais sob a perspectiva do patrimônio cultural. No § 2° do art. caso em que a Comissão poderá manter a permanência da ressalva ao acesso do documento pelo tempo que estipular. a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quem dela necessitar”. num entendimento implícito de que o acesso e a produção de conhecimento dos documentos utilizados ou produzidos pelo Poder Público são essenciais para a formação e consolidação da cidadania cultural. que os arrola como bens culturais brasileiros. 55-61. a autoridade competente para a classificação do documento no mais alto grau de sigilo poderá provocar. incs. foi encaminhado projeto de lei que visa regulamentar o acesso às informações. 37 caput. Assim. Art. inclusive. sendo este período prorrogável por uma vez6.

uma das importantes acepções da democracia é a do exercício em público do poder comum. 2005. 34/35. permitindo. Não se trata de negar a necessidade de se estabelecerem prazos. gostaria de que valesse o acesso imediato. a dicotomia relevante passa a ser a oposição secreto/público. Documentos Privados de Interesse Público: o acesso em questão. Os artigos analisados a seguir texto são um retrato com cores bem definidas e vivas do nosso legado autoritário. Nesse enfoque. 5. o que deve ser coberto pelo sigilo. 4. 2005. O público e o privado: suas configurações contemporâneas para a temática dos arquivos. junho/2009 . entre o que deve ser guardado ou não. sendo o acesso à informação de dimensão pública um instrumento indispensável para caracterizar um regime republicano de Governo. A informação em poder dos órgãos e entidades públicas. a documentação produzida no exercício de função pública. Assim. secreta ou reservada. V. pois os limites são inimigos do métier do historiador (Comentário ao texto de Celso Lafer . a questão do prazo de abertura da documentação etc. uma idéia ligada à democracia. I. Não poderá ser negado acesso à informação necessária à tutela judicial ou administrativa de direitos fundamentais. Nas palavras de Celso Lafer: “A idéia de que público é não só aquilo que é comum a todos – por afetar a todos –. mas igualmente o que é acessível ao conhecimento de todos. Mas os historiador. p. tão bem absorvido nas esferas públicas. 16. que somente se justifica se for absolutamente imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. conforme a clas- 8 Como destaca Boris Fausto: A distinção entre arquivos públicos e privados. art. é. Neste sentido. como é compreensível.2. não poderão ser objeto de restrição de acesso. sem restrições. assim.O público e o privado: suas configurações contemporâneas para a temática dos arquivos. com objetivo de dar andamento nas tarefas rotineiras ou com a finalidade de atender a interesses públicos. encarado como aquilo que é reservado e pessoal. P. A razão de ser do público como sendo simultaneamente o comum e o visível tem a sua base na consolidação da perspectiva ex parte populi nas”regras do jogo” da governança democrática. As informações ou documentos que versem sobre condutas que impliquem violação dos direitos humanos. Instituto Fernando Henrique Cardoso. §1º Os prazos máximos de restrição de acesso à informação. Parágrafo único. observado o seu teor e em razão de sua imprescritibilidade à segurança da sociedade ou do Estado. Como também aponta Bobbio. de se conferir um caráter confidencial a certos documentos. como tal concebida a obrigação dos governantes de tomarem decisões às claras. que transcrevemos verbis: “art. cabe desde logo fixar o entendimento de que a publicidade dos documentos governamentais é regra e o sigilo é exceção. 18. em lapso temporal que não comprometa a qualidade da informação a ser extraída8. 60 Revista Internacional de Direito e Cidadania. p. poderá ser classificada como ultra-secreta. aos governados verem como. A Reserva legal e a classificação de documentos por uma Comissão O Capítulo IV do projeto de lei trata “Das restrições de acesso à informação”. onde e por que tais e quais decisões foram tomadas em função do interesse de todos. é uma das importantes bases materiais para a compreensão da história de um povo.SOARES. Documentos Privados de Interesse Público: o acesso em questão..”9 Os dispositivos acerca do acesso à documentação governamental da forma estabelecida no projeto de lei. Para que essa base documental seja útil à cidadania é essencial que exista transparência e acessibilidade em relação aos documentos governamentais – mesmo os mais sensíveis. 51/52). no plano político. p. Instituto Fernando Henrique Cardoso. praticada por agentes públicos ou a mando de autoridades públicas. coloca-se de maneira muito peculiar. com relação ao historiador. analisaremos os seguintes dispositivos. Dessa maneira. 9 Celso Lafer. em contraposição ao privado.55-61. deixam clara a dificuldade que o Estado Democrático de direito brasileiro em romper com as práticas de segredo e opacidade em relação ao trato da coisa pública. n.

§ 5º Na classificação da informação em determinado grau de sigilo. a Comissão de Reavaliação de Informações. p. Ao mesmo tempo que o art. há grande chance de que a formação da memória democrática seja prejudicada e que a discussão e o conhecimento de fatos históricos relevantes na esfera pública não se apresentem no tempo devido (especialmente quando esta seja composta por documentos produzidos pelos órgãos repressores no regime autoritário). Dentre as competências dessa Comissão. Dessa maneira. 4. os mesmos argumentos já utilizados na ADI 4077 (ação proposta pelo Procurador-Geral da República). em cada renovação. § 2º Regulamento disporá sobre a composição. Fica instituída. composta por Ministros de Estado ou autoridades com as mesmas prerrogativas. 16 do projeto de lei em comento. que se caracteriza como essencial para a efetividade do direito à verdade. II – secreta: quinze anos. ao princípio republicano e a diversos outros princípios e valores democráticos. n. 61 Revista Internacional de Direito e Cidadania.” De acordo com a Constituição. 30. 30. Art. §1º. 18 estabelece um prazo de 25 anos para documentação ultra-secreta. Vale ainda insistir na impossibilidade jurídica de que uma Comissão classifique a documentação governamental. nos termos do art. organização e funcionamento da Comissão de Reavaliação de Informações. pois tal proceder atinge diretamente o conteúdo de diversos direitos fundamentais e de princípios constitucionais. são colocadas restrições de forma e conteúdo para acesso às informações. 30 remete a uma Comissão de Reavaliação de Informações. enquanto o seu acesso ou divulgação puder ocasionar ameaça externa à soberania nacional ou à integridade do território nacional ou grave risco às relações internacionais do País. os dispositivos do projeto de lei em análise não poderiam transferir a uma Comissão (indicada pelo Poder Executivo) o poder de regulamentar e restringir o acesso a informações. e II – o prazo máximo de restrição de acesso ou o evento que defina seu termo final. III. observadas as disposições desta Lei. no âmbito da administração pública federal. no âmbito da Casa Civil da Presidência de República. de maneira totalmente discricionária. sob a perspectiva da efetividade dos direitos fundamentais e dos valores estabelecidos como essenciais no Estado Democrático de Direito brasileiro. sempre por prazo determinado. renovadas vezes (!!!!). Com a indicação de poderes indevidos a uma Comissão. § 1º. está a de prorrogar o prazo de sigilo de informação. A partir do art. bem como os expostos nesse texto se enquadram na justificação para não admitir que integrem a nova lei. por afronta à Constituição. observado o prazo previsto no art. Por isso. sobre o tratamento e a classificação de informações sigilosas e terá competência para: III – prorrogar o prazo de sigilo de informação classificada como ultra-secreta. junho/2009 .ACESSO A DOCUMENTAÇÃO GOVERNAMENTAL E DIREITO À MEMÓRIA E VERDADE: ANÁLISE DO PROJETO DE LEI sificação prevista no caput vigoram a partir da data de sua produção e são os seguintes: I – ultra-secreta: vinte e cinco anos. deverá ser utilizado o critério menos restritivo possível. a documentação governamental deve ser gerida pelo Poder Público. 18. § 1º A Comissão de Reavaliação de Informações decidirá. inc. Os dispositivos desse projeto de lei também são inconstitucionais. e III – reservada: cinco anos. o poder de decidir sobre o tratamento e a classificação de informações sigilosas. 55-61. o art. considerados: I – a gravidade do risco ou dano à segurança da sociedade e do Estado.

62 Revista Internacional de Direito e Cidadania. junho/2009 . n. 4.

4. Bem-estar. RBS. Paisagem. 63-78. ERBs. totem. junho/2009 63 . III. Keywords: Visual pollution. painel digital ou eletrônico. através de efeitos psicológicos difíceis de serem diagnosticados. triedro etc. ABSTRACT: the visual pollution generates disharmony or disequilibrium in the artificial environment (city and urban landscape). frontlight. São fontes de poluição visual: torres de Estação Rádio-Bases (ERBs) e anúncios publicitários luminosos. Mestre em Direito Difusos e Coletivos pela PUC/SP e Coordenador da Área de Habitação e Urbanismo.A. of law n. 3º. Well-being. totem. compromising the health of the people. Landscape. Cível e de Tutela Coletiva.. frontlight.Artigo A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES Ivan Carneiro Castanheiro1 RESUMO: A poluição visual gera desarmonia ou desequilíbrio no meio ambiente artificial (cidade e paisagem urbana). p. backlight.938/81). 6. Palavras-chave: Poluição visual.O. Advertising. comprometendo a saúde das pessoas. veiculados por meio de outdoor. do Ministério Público do Estado de São Paulo. Urban aesthetic. da Lei n. prejudicando o bemestar da população. Sources of visual pollution are: towers of Radio-Base Stations (RBSs) and luminous advertising propagated by billboard. Anúncios publicitários. 6. digital or electronic panel. harming well-being of the population.938/81). n. enquadrando-se no conceito jurídico de poluição (art. do C. 1 O Autor é 2º Promotor de Justiça de Americana. Estética urbana. through psychological effects difficult to be diagnosed. fitting in the legal concept of pollution (article 3º. trihedron etc…. backlight. Revista Internacional de Direito e Cidadania... III.

4 Este tipo de poluição é causada pelo próprio homem. Estão entre os principais objetivos do direito ambiental a proteção da saúde e da qualidade de vida. Poluição visual é a desarmonia ou degradação visual geradora de desequilíbrio do meio ambiente artificial (cidade e paisagem urbana). Entretanto. In: MINAMI. A função estética das paisagens urbanas tem por finalidade criar a sensação visualmente agradável às pessoas2. a qual valoriza a harmonia das formas e da cor dos objetos. p. 2003 4 ANTACLI. merecendo ser seriamente combatida. a exemplo das demais formas de poluição. Disponível em < http://www. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. essas não são as únicas formas de poluição e consequências danosas à vida. Conceito legal e doutrinário de poluição visual O meio ambiente equilibrado é um direito assegurado a todos pela Constituição Federal (artigo 225) e um bem fundamental das gerações atuais e futuras. As legislações. João Lopes Júnior. 2.vitruvius. Issao. bem como suas qualidades plásticas e decorativas. fumaça produzida por veículos e indústrias.br/arquitextos/arq000/bases/texto094.com.asp>. O Art. As leis federais. esta é um “completo bem estar físico. Qualquer intervenção urbana na paisagem das cidades há de ser autorizada pela Administração e estar prevista em lei.br/arquitextos/arq000/bases/texto094. estabelece que a saúde é um direito fundamental do ser humano. Bianca M. Issao. 63-78. Elaborada pelo Conselho Europeu. em seu artigo 2º.3 O bem-estar das pessoas guarda relação direta com sua saúde.com. Nosso objetivo é o de demonstrar que a poluição visual enquadra-se no conceito jurídico de poluição previsto na Lei 6. Bilton Signorini. Entretanto. A importância da Paisagem. Acesso em: 09 mai.CASTANHEIRO.938/81 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente). Dissertação (Mestrado em Direito Difusos e Coletivos). despretensiosamente. 3 64 Revista Internacional de Direito e Cidadania. pulverização de agrotóxicos nas plantações. ainda que com seus conhecidos defeitos. Disponível em < http://www. Aspectos jurídicos da poluição visual. em geral. Convenção Européia de Paisagem. mental e social e não apenas a ausência de doenças ou agravos” A Lei Federal 8. Introdução O culto ao belo é automático na natureza humana. A paisagem desempenha importante papel de interesse público nas áreas social. É nesse contexto. descumpridas por falta de infraestrutura fisca2 lizatória suficiente.vitruvius. Nesse contexto. acabam sendo. GUIMARÃES. MINAMI. cultural e ambiental (interesse econômico em trabalho criativo). modo de vida e as circunstâncias do meio em que vive. junho/2009 . degradando a qualidade de vida das pessoas e de animais. bem como para o bem-estar da população.asp>. o qual insere no meio ambiente elementos de forma desordenada. pois seus efeitos são mais psicológicos do que materiais. 7. A importância da Paisagem. Os habitantes e visitantes das cidades são os titulares do direito difuso a um meio ambiente ecologicamente equilibrado (harmonia da paisagem urbana). Segundo a Organização Mundial de Saúde. João Lopes Júnior. 4. Acesso em: 09 mai 2003. n. Quando se fala em poluição pensa-se em fábricas que jogam resíduos tóxicos nos rios. GUIMARÃES.004. A Poluição visual é um problema sério. não se tratando de mera degradação de ordem estética. estaduais e municipais que se dispõem a controlar os meios de poluição não acompanham o crescimento desordenado das cidades. fazer uma análise conjuntural da poluição visual e oferecer sugestões objetivas de enfrentamento. Há problemas de saúde físicos e psicológicos provocados por poluição sonora e poluição visual. não há um controle efetivo sobre publicidades irregulares. razão de haver dificuldades em seu diagnóstico e comprovação de causalidade na deterioração da qualidade de vida das pessoas. mas também estendendo seus deletérios efeitos na saúde e na qualidade de vida dos moradores da zona urbana. ela acaba sendo muitas vezes relegada a segundo plano. quando não as extirpando. que o presente trabalho busca. São Paulo. C. fl. em 13/03/2000. Contribui para formação cultural local. I.080/90 (“Lei Orgânica da Saúde”).

Manoel Sérgio da Rocha. mental e social”.gov.com. paisagístico. Disponível em <http://www. Foi o primeiro tratado internacional direcionado. para a proteção.poluição. como patrimônio cultural brasileiro. os elementos causadores são as imagens. III . normalmente. 1997. da Carta Magna. dissipando as características naturais originais. a alimentação. 2002. 31-32. o saneamento básico.938/81 preceitua que para os fins previstos naquela legislação deve-se entender por: “I . ANTACLI. Juarez de Oliveira. p.A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES 3º prevê que a saúde tem como fatores determinantes. ou alterando uma paisagem urbana de maneira desarmônica e agressiva”10 Ainda vale menção a Convenção Européia da Paisagem (European Landscape Convention). c) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos. a qual entrou em vigor no dia 1º de março de 2. Bilton Signorini. influências e interações de ordem física. arqueológico. n. p.meio ambiente..7 Para Issao Minami e João Lopes Guimarães Júnior. é acima de tudo a harmonia entre os diversos elementos que a compõem e não propriamente cada um desses elementos individualmente considerados” 5. o meio ambiente.Acesso 19 out. 49. 63-78. Disponível em http://www. Heliana Comim. São Paulo: Ed. o conjunto de condições. estadao. conforme previsto no artigo 216. cit. mas se quer abranger qualquer porção da cidade por mais comum e simples que seja. convivem e sobrevivem. Poluição visual e paisagem urbana: quem lucra com o caos? Disponível em: <http://www.br/arquitextos/arq000/bases/texto094. Malheiros. fl. p. o trabalho. dentre outros.mp. Paisagem e Poluição Visual. o meio é a visão. junho/2009 65 . Dentre as suas funções. a segurança e o bem-estar da população. MENDES. a alteração adversa das características do meio ambiente. 2003 Revista Internacional de Direito e Cidadania.br/ext/eleicoes/artigos/comin3. II . Acesso em: 09 mai.htm> Caderno eleições 2000.9 A degradação ambiental ocorrida com a poluição visual “é fruto da violação estética de um padrão paisagístico médio a ser aferido em cada caso.004. ou portadora de outro predicado relevante. 8 A importância da Paisagem. em determinados casos. abriga e rege a vida em todas as suas formas. seja afetando uma paisagem naturalmente bela.asp>. conserva- A Ação Civil Pública e a reparação do dano ao meio ambiente. está a de equilibrar a carga neurótica que a vida urbana despeja sobre as pessoas que nela vivem. unicamente. como integrante do patrimônio cultural brasileiro. que permite. Camila Faccioni. “No caso.8 Ocorre a poluição visual a partir do momento em que o meio não consegue mais digerir os elementos causadores das transformações em curso. a poluição visual é resultado de desconformidades e efeito da deterioração dos espaços da cidade pelo acúmulo exagerado de anúncios publicitários em determinados locais ou quando o campo visual do cidadão se encontra de tal maneira que a sua percepção dos espaços da cidade é impedida ou dificultada. Para Álvaro Luiz Valery Mirra “O que se procura preservar em uma paisagem. como normalmente é referido o meio ambiente urbano. São Paulo. A paisagem pode ser tida. Acesso em: 08 abr. 4.sp.” (grifos nossos) A paisagem urbana é conceituada por José Afonso da Silva como sendo “a roupagem com que as cidades se apresentam a seus habitantes e visitantes”.degradação da qualidade ambiental. e as características iniciais. leis. seriam a capacidade do meio de transmitir mensagens”.vitruvius. op.com. Quando se fala em paisagem urbana referese não somente a conjuntos urbanos e sítios de valor histórico. já protegidos pelo art. a qual também compõe o meio ambiente artificial6 ou construído. a moradia. dizendo respeito à saúde as ações que visem “garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico. O artigo 3º da Lei nº. 10 MONTEIRO. 216 da CF. química e biológica. 5 6 7 b) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente. 2003 9 VARGAS. 2002.htm. 273-274. a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde. Direito Urbanístico Brasileiro.br/caouma/caouma. Bianca M. 6. inciso V.

segundo Liliana Allodi Rossit.11 Na convenção estão previstas as seguintes bases ou conceituações12: a) Reconhecimento jurídico da paisagem como um componente essencial do ambiente humano. 32 ou 64 folhas (4. Bilton Signorini Antacli14: “No Brasil a palavra outdoor é mais comumente conhecida pelo anúncio de grandes dimensões. terrestres. São Paulo. Bilton Signorini. É um exemplo por reconhecer a importância da paisagem na qualidade de vida dos homens. cit. O totem é uma estrutura que sustenta o logotipo do estabelecimento industrial e geralmente possui iluminação interna ou externa. op. ção. 2001.004.13 backligh. urbanos. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Como explica Bianca M. c) definição de poluição como sendo: “[. O frontlight é painel de dimensão variável que conta com lâmpadas que iluminam a mensagem frontalmente. 13 ROSSIT.” A expressão sadia qualidade de vida. painel digital ou eletrônico. gerenciamento e valorização das paisagens. gestão e ordenamento da paisagem através da adoção de medidas específicas.80 x 5. O Meio Ambiente de Trabalho no Direito Ambiental Brasileiro. 66 Revista Internacional de Direito e Cidadania. cit. frontlight. totem. expressão de diversidade do seu patrimônio comum. dispõe de diversos Principais fontes de poluição visual Podem ser citadas como fontes de poluição visual as mídias conhecidas como outdoor. fl. abrangendo espaços naturais. op. fl. 4. o triedro.90 m.. Bilton Signorini. pintada do lado avesso.. Bianca M. 63-78. p. I. O triedro tem dimensão variável e como o próprio nome diz. 64. que se vêm sintetizando na expressão qualidade de vida. Tal Convenção demonstra a preocupação das nações européias não só com as paisagens excepcionais mas com as paisagens da vida cotidiana e também paisagens degradadas.80m) que juntas formam a mensagem. ligado automaticamente por uma célula fotelétrica que se acende ao escurecer e iluminado por lâmpadas que produzem a sensação de relevo. Confunde-se durante o dia com os outdoors de papel. 16. O âmbito de sua aplicação é todo o território dos Estados membros. 11 12 ANTACLI. São Paulo: Ed. 36.90 m. o bem-estar e a segurança da população (aspecto mediato). mas à noite. constituído de painel de 9 (nove) metros de comprimento por 3 (três) de altura no qual são afixados. fl. Ltr. 2. anúncios ou qualquer outro material publicitário) ou da presença de plantação de árvores.. Bianca M.40 x 2. b) Estabelecimento de políticas de proteção.CASTANHEIRO.] degradação ofensiva à visualidade resultante ou de acúmulo de instalações ou equipamento técnico (torres.. p. 35. cartazes de propaganda. com lona translúcida na parte frontal. zona florestal ou projetos construtivos inadequados ou mal localizados. 71-72. n. O painel digital ou eletrônico é praticamente um televisor gigante que transmite seqüência de animações e comerciais controlada por computador.. 14 Aspectos jurídicos da poluição visual.. aquáticos e marítimos. Dissertação (Mestrado em Direito Difusos e Coletivos). fls. cultural e natural e base sua identidade. 201-202. junho/2009 . através de material especial. O backlight é um tipo de painel luminoso constituído por uma caixa de chapa galvanizada. “apud” ANTACLI. parece um gigantesco slide projetado no espaço. ibidem. C. fachadas muros e cartazes. 8.80 x 2. Liliana Allodi. . 8. engloba duplo aspecto da tutela ambiental: a qualidade do meio ambiente (aspecto imediato) e outro que é a saúde.

cavaletes. faixas. A pé ou de carro.. com loteamento do espaço público pelo próprio Poder Público para fins publicitários. gradatividade. pilastras e postes). retiram a possibilidade dos referenciais arquitetônicos da paisagem urbana. devendo ser sempre controlada e. com maestria.redeambiente. banners. sem adequada diferenciação quanto à maior ou menor visibilidade do local onde anúncio publicitário está sendo veiculado.org. permitindo a visualização de três mensagens em seqüência. Acesso 8 mai. existe uma concentração de anúncios em algumas áreas da cidade. outdoors. Disponível em: http://www. totens.. bem como o bem-estar da população. que devido à proliferação desordenada. estima-se. p. se necessário combatida. O suceder de placas. Em geral essa publicidade é de baixo preço ou há ausência de cobrança pelo uso da paisagem.A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES triedros em linha. Poluição Visual. de estética. Atinge tanto a zona rural como a urbana. acabam sendo destaques negativos na paisagem urbana. características. causas e consequências A poluição visual atinge espaços habitados pelo homem. cartazes. especialmente observada 15 no centro e nos bairros mais antigos da cidade. prevista no artigo 182 da Constituição Federal. Apesar da característica da gradatividade no comprometimento da paisagem urbana.br/Opiniao. 2002 Revista Internacional de Direito e Cidadania. onde o mercado consumidor é maior. dificultando a absorção das informações úteis e necessárias para o deslocamento. 4. muros eternizados com anúncios de shows e eventos sobrepostos (apostos em viadutos. Poluição visual: abrangência. painéis eletrônicos e painéis televisivos de alta definição. tomando calçadas e áreas verdes. painéis. deixam a população sem referencial de espaço. as denominadas Estações Rádio-Base (ERB´s). Mas talvez a consequência mais funesta da poluição visual em São Paulo seja a descaracterização do conjunto arquitetônico. fruto do aumento no número de linhas em decorrência da expansão do sistema de telefonia móvel. 63-78. Nas áreas urbanas. barracas dos camelôs (exibição de faixas e cartazes dos produtos à venda). que abrigaria antenas de diversas operadoras de telefonia celular.000 sejam cadastrados e 55. além de causar agressões visuais e físicas aos “espectadores”. infláveis. é impossível fugir do desconforto visual que toma de assalto os que transitam na maior cidade da América do Sul. devido ao paulatino crescimento das cidades e da atividade econômica. bancas de jornal abarrotadas de publicidade. de paisagem e de harmonia. A solução seria o compartilhamento de suas estruturas de uma torre. n. backlights.asp?artigo=65 . leciona a ilustre autora: “Há cerca de 10 milhões de anúncios espalhados pelas ruas de São Paulo. mais competitivo e dinâmico. esse tipo de poluição acaba por comprometer a função social das cidades. Sobre o assunto. somente 100. . obstruindo aberturas de insolação e ventilação. transgridem regras básicas de segurança. Além dessas fontes mencionadas. bem como a denominada mimetização (camuflagem) das estruturas e antenas das ERB´s. restaurantes e boates). a fim de se evitar as consequências maléficas. que já se incorporaram à paisagem das quadras comerciais (bares. como fonte de poluição visual.000 licenciados. junho/2009 67 . Eles giram ao mesmo tempo. os “puxadinhos”. dos quais.” Ainda merece menção. ao longo deste trabalho várias vezes mencionadas. ela acaba por comprometer as presentes e futuras gerações. Também se refere aos veículos e engarrafamentos nas ruas e avenidas da cidade como manifestação de poluição visual. aniquilam as feições dos prédios. Ignez Conceição Ninni Ramos15 descreve outras fontes de poluição. em geral. tais como: folhetos. balões. Nas grandes cidades. folhetins e folders distribuídos por empresas nos faróis. sendo por este produzida. frontlights.

variando apenas as tecnologias empregadas. Mirthes I. Acesso em: 09 mai. Acesso em: 09 mai.redeambiente.br/arquitextos/arq000/ bases/texto094. 4. outdoors. S. A publicidade caótica na paisagem torna-a indiferenciada e monótona. Disponível em <http://www. tratando-se de um valor ambiental. São Paulo:Malheiros. como ressalta Paulo Affonso Leme Machado. estações de metro). calçadões. dificuldade de absorção das informações úteis e necessárias para o deslocamento. especialmente observada no centro e nos bairros mais antigos da cidade. aniquilamento das feições dos prédios. Ignez Conceição Nini. C.org/website/parabolicas/edicoes/edicao35/reportag/pg3.. 2003 21 RAMOS. Paisagem e Caos. João Lopes Júnior.org. com a descaracterização do conjunto arquitetônico. 19 RAMOS. painéis eletrônicos ou pintados). Disponível em <http://www.org. Ignez Conceição Nini. RT 679/62.socioambiental. 68 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Com isso há transgressão de regras básicas de segurança. pois a manutenção de padrões estéticos no cenário urbano encerra inegável interesse difuso por se relacionar diretamente com a qualidade de vida e com o bem-estar da população16. moradores de rua alojados em viadutos e praças públicas. cit. “modernos” painéis luminosos. a lição de Rodolfo de Camargo Mancuso. Disponível em <http://www. junho/2009 . Quanto às consequências da poluição visual. c) A ausência de fiscalização adequada. n. A importância da Paisagem.. frontlights.21 Podem ser definidos como “Fatores de Estresse de Poluição Visual” a concentração excessiva de: mídia exterior (placas. Acesso em: 09 mai. 22 ANTACLI. Acesso em: 09 mai.22 Dentre as consequências de ordem administrativas ao poluidor da paisagem urbana.com. p. 63-78.vitruvius. TV a cabo). Disponível em <http://www.asp?artigo=65>. favelas com deficiente organização urbana e arquitetônica. suspensão da atividade e cassação do alvará de funcionamento da empresa Uso normal. engarrafamentos de trânsito e vias expressas com deslocamento de automóveis e caminhões em alta velocidade. Bianca M. Poluição Visual. aeroportos.000. aliado ao “desinteresse” pelo assunto. backlights. A paisagem urbana harmonizada é um direito difuso. op. recipientes de lixo expostos em lugares públicos.asp>. postes de fiação aérea (telefonia. grafitagens e pichações. 2. pode ha- MINAMI.17 Nesse sentido. 110 18 Aspectos Jurídicos da Chamada “Pichação e Sobre a Utilização da Ação Civil Pública para Tutela do Interesse Difuso à Proteção da Estética Urbana”. faixas. 2003 17 Direito Ambiental Brasileiro. tolerabilidade / intolerabilidade na poluição visual: uso nocivo da propriedade e direito de vizinhança em face da função social e limitação da propriedade privada É certo que a atividade econômica sempre produz algum nível de poluição. Essas formas de poluição visual retiram a possibilidade de percepção dos referenciais arquitetônicos da paisagem urbana.CASTANHEIRO. 8ª ed. I.html>. fl. apreensão ou destruição do material publicitário irregular. 2003. Issao. letreiros. afirmando textualmente: “não temos dúvida de que há um interesse difuso (= esparso pela sociedade como um todo) a que seja preservada a estética urbana”18. Dentre as causas da poluição visual podem ser relacionadas19: a) O Poder Público e sua eterna conivência com os interesses das grandes corporações.br Opiniao.br/Opiniao. decorrentes da sobreposição caótica de chamarizes visuais. Poluição Visual. Assim. p. aglomerações permanentes de pessoas em áreas restritas da cidade (p. iluminação. Existem sobrepostos à fachada dos edifícios ou dos revestimentos de alumínio letreiros luminosos que se penduram. b) A ausência de uma legislação adequada. 2003 20 BAFFI. 121. podemos mencionar as seguintes: multa.redeambiente. imensas telas que despejam imagens em movimento sobre atônitos motoristas à procura do próximo semáforo fundido entre as luzes do painel”20.ex: zonas de pedestres. ela causa agressões visuais e físicas aos “espectadores”. obstrução de aberturas de 16 insolação e ventilação.asp?artigo=65>. GUIMARÃES. notificação para regularização. Bilton Signorini.

preservação da harmonia dos conjuntos das edificações.. por meio de limitações administrativas à publicidade comercial (Código de Posturas Municipais. “caput”). Revista Internacional de Direito e Cidadania. esta não pode ter como função preponderante o comércio. com propriedade. 180. havendo reflexos.24 Com o objetivo de ordenar a função social e limitação da propriedade privada. quanto nas leis de ordenação da paisagem urbana. visando evitar que algumas práticas constituam óbices à obtenção e desfrute de uma sadia qualidade de vida. Nesse contexto. no bem-estar da população. etc. regulamentos específicos sobre publicidade. de maneira a ocorrer uma convivência harmônica entre os habitantes das cidades e os interesses comerciais da classe empresarial de uma maneira geral. existem regras quanto a levantamento de fachada. como a publicidade e a pichação. o legislador tratou de efetivar a vontade do constituinte em relação ao bem-estar dos habitantes. sendo perfeitamente possível que o município legisle a respeito. tratamento arquitetônico das fachadas dos edifícios. p. Direito Ambiental Constitucional. 182. junho/2009 69 . dentre outros aspectos. ressaltase que a poluição visual no Brasil é combatida de forma indireta. ibidem. possibilidade ou não de colocação de cartazes ou anúncios. A saúde psíquica das pessoas em geral guarda alguma relação com a ordenação da paisagem urbana. sob pena de inviabilizar certas atividades econômicas. mas ela deve ser controlada e compatibilizada com o bem-estar das pessoas. n. uma vez que ela é uma forma de degradação visual da cidade e da paisagem urbana (meio ambiente artificial). 63-78. devendo-se priorizar o bem-estar dos seus habitantes e visitantes. mantendo-se a cidade econômica e ambientalmente sustentável. reflexo da harmonia ou desarmonia visual. Deve-se buscar amenizar a carga neurótica da vida cotidiana23. José Afonso da. Na Constituição Federal encontramos total arrimo para a proteção do meio ambiente urbano. O texto constitucional ainda determina a “preservação. Como ainda se verá mais adiante. tanto no âmbito civil.) e política (Lei eleitoral).. Conforme anota o Prof. somente deve ser repelida a influência nociva e inconveniente. regulando a forma e o conteúdo de determinados meios de expressão. dos bens imóveis tombados e dos edifícios próximos. Celso Antônio Pacheco Fiorillo. cit. na segurança no trânsito.002 (artigo 1. pois SILVA. nos termos do artigo 23. Op. ser complexa a apuração da responsabilização dos agentes produtores de poluição visual. incisos III e VI. em poluição visual. pois a poluição visual não é somente estética. estabelecendo. Com Fabiano Pereira dos Santos. acabamento adequado. p. Há “garantia do bem-estar” dos habitantes das cidades como objetivo da política de desenvolvimento urbano (art. no Código Civil de 2. da Constituição Federal. ou não. A competência para fiscalizar o cumprimento das disposições legais relativas à ordem paisagística é cumulativa entre os entes federados. 2º ed. 26 O referido autor ressalta. Embora seja parte importante das cidades. penal ou administrativo. isto é. faz-se necessário que se fixe padrões técnicos e legais de aceitabilidade.A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES ver aceitabilidade de certo grau poluição visual. inciso III). 127. 127. Portanto. estabelecendo-se distâncias das construções. também limitando a propriedade privada.277 a 1. p.25 23 24 25 Legislação aplicável: locais de vedação de anúncios publicitários que causem poluição visual e suas limitações A poluição visual pode ser tutelada tanto nas leis sobre proteção ao meio ambiente. São Paulo: Malheiros. 12. p. dentre os quais está a paisagem. essa regulação nada tem a ver com relação de consumo. pois ela é uma forma de degradação e desequilíbrio do mesmo.279) certas regras de direito de vizinhança. como já se disse. Essa dispersão de normas dificulta determinar se a atividade importa. proteção e recuperação do meio ambiente urbano” (art. 4.

ecológico. religioso.ecolnews. paisagístico e arqueológico. Disponível em < http://www. No tocante ao aspecto criminal da poluição visual. Acesso em: 20 abr.605/98 criminalizou a conduta de “Promover construção em solo não edificável. Acesso em 20 de abr. . inciso VI. podem ser citadas as seguintes normas. turístico.Artigo 2º.artigo 36 – Determina que lei municipal deverá prever os tipos de empreendimentos públicos e privados que dependerá de realização de Estudo de Impacto de Vizinha (EIV). “g” – Prevê a ordenação e controle do uso do solo.com. dentre outros aspectos. ela acresceu o valor paisagístico como passível de defesa nesta modalidade de ação coletiva (art. Disponível em <http://www. c) A Lei 10. quando adequadamente demonstrado os fatos criminosos. 63-78. § 1º. histórico. preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído. arqueológico. grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano.27 Nesse contexto. Meio Ambiente e poluição. há previsão de defesa do patrimônio artístico. conveniente descrever algumas diretrizes gerais do mencionado estatuto. inciso VII – Estabelece parâmetros para o Estudo de Impacto de Vizinha. inciso VI. o artigo 64 da Lei 9.htm>. Fabiano Pereira dos.br/artigo_01. Assim.2º. Nesse diapasão. 26 27 . com pena de até 3 anos. 1º. histórico. ou no seu entorno.Artigo 2º. junho/2009 .257/01 (Estatuto da Cidade) traz diversos dispositivos protetores da paisagem urbana. Disponível em <http://www. “o causador desta forma de poluição deve receber uma pena mais leve. o qual deverá considerar. . assim considerado em razão de seu valor paisagístico. 7.605/98. Seguindo na esteira de proteção da estética urbana e da sadia qualidade de vida. visando evitar a poluição e degradação ambiental. Fabiano Pereira dos. p. inciso XIII – Prevê a necessidade de audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído.ecolnews. Meio Ambiente e poluição.artigo 37. variam de acordo com as concepções estéticas e costumes locais”. inciso III). à ordem urbanística ou aos bens e direitos de valor artístico.artigo 54 – Possibilidade de ajuizamento de ação cautelar. e multa para quem pichar. com vista a evitar o dano ao meio ambiente. o que faremos nas linhas seguintes: . ao consumidor. também prevendo a defesa da ordem urbanística (artigo 1º.Artigo 2º. 4. artístico. histórico.605/98 estipula pena de até 3 (três) meses a 1 (um) ano. Santos. . XI – Preceitua a proteção.CASTANHEIRO. por meio da ação popular. é de se ressaltar entendimento de se tratar de delito menor potencial ofensivo. da Lei nº 9. Algumas condutas envolvendo poluição visual encontram-se tipificadas na Lei dos Crimes Ambientais. V).347/85 – Conhecida como Lei da Ação Civil Pública (LACP).com. “f” – Objetiva evitar a degradação das áreas urbanizadas. Meio Ambiente e poluição. Acesso em: 20 abr. relacionadas com atividades degradadoras da harmonia na paisagem urbana: a) Lei 4. superando o conceito de delito de menor potencial ofensivo.br/artigo_01. o conforto ou a segurança da população. C.htm>. turístico. b) Lei nº. estético. do patrimônio cultural. etnográfico ou monumental. ligada sempre à obrigação de custeio de medida educativa ambiental”. “a configuração da poluição visual envolve em grande parte dos casos a avaliação de elementos caracterizados por expressivo grau de subjetividade. estético. 2009 70 Revista Internacional de Direito e Cidadania.28 Ressalva-se o crime do artigo 63. n. . 2009 28 Santos. turístico e paisagístico. I. O artigo 65 da Lei nº. 9. . a paisagem urbana e o patrimônio natural e cultural.br/artigo_01.717/65 – No artigo 1º. com vistas a ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade. os quais.htm>. cultural. sem autorização da autoridade competente ou em desacordo com a concedida”.com.ecolnews. artístico. 2009.

os quais devem ser conservados e protegidos. ocasionado comprometimento da segurança do trânsito. pontes. viadutos. O Código Eleitoral. exigindo-se. vegetação e mobiliário que possa gerar confusão. § 2º. em seu artigo 81. O Código de Defesa do Consumidor ainda traz dispositivos vedando publicidade enganosa e/ou abusiva (artigo 37). veda a propaganda que prejudique a higiene ou estética urbana ou que esteja em desacordo com posturas municipais ou qualquer outra restrição de direitos. legendas e símbolos que não se relacionem com a mensagem de sinalização.503/98). Vale anotar que embora se tratem de delitos de menor potencial ofensivo. Op. é vedada a veiculação de propaganda de qualquer natureza. fixação de placas. painéis eletrônicos). 9. qualquer tipo de publicidade (artigo 82 do CTB). com o objetivo de tutelar a estética urbana durante as eleições. visando à sadia qualidade de vida. n. vale lembrar. publicidade. em seu artigo 37. V) e classifica como patrimônio cultural.099/95). 182. Portanto. o Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº. 27 e 28 da Lei nº. ante suas peculiaridades. inciso VIII. Nesse sentido cabe observar que a publicidade agressiva não respeita autonomia dos contratantes fracos. sempre. há possibilidade de proibição de publicidade em determinados locais. p.A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES Também restou penalmente tipificada a alteração de aspecto ou estrutura de edificação (artigo 63 da Lei 9. para a transação e/ ou suspensão do processo há necessidade de reparação do dano (art. pode provocar distração nos motoristas (outdoors. arqueológico. inclusive postes de iluminação pública e sinalização de tráfego. Direito Urbanístico Brasileiro.504/97. paisagístico. cit. IV). artístico. a qual dispõe sobre as eleições. Revista Internacional de Direito e Cidadania. como inscrições. O objetivo do código. foi permitida a propaganda política em bens particulares (artigo 37. na medida 29 30 em que regula as formas de publicidade. A Lei nº. interferir na visibilidade da sinalização.29 Nesse mesmo sentido. fachadas de néon. de luzes. equipara a bens do patrimônio histórico e artístico nacional a serem tombados os monumentos naturais. Entretanto. 9. 4. paradas de ônibus e outros equipamentos urbanos. Portanto. cartazes. no artigo 243. em seu artigo 1º. p. é limitar a liberdade em prol da estética visual. inscrições. o dolo. paleontológico.CDC) também contém dispositivos relacionados à paisagem urbana.605/98). determinando que ela deva ser de fácil identificação (artigo 36) e não pode induzir o consumidor a comportar-se de maneira prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança (artigo 68). ou que a ele pertençam. 8. sendo necessária a valorização da informação e da confiança despertada do consumidor. Tal diploma legal ainda proíbe fixar sobre sinalização de trânsito e respectivos suportes (ou em ambos). ecológico e científico” (artigo 260. como bem anota Celso Antônio Pacheco Fiorillo. com comprometimento da visualização ou distração em relação ao traçado da via ou da sinalização de trânsito. p. 136. portadores de referências à identidade. 9. dependendo de suas características visuais. com Jose Afonso da Silva. faixas. inscrição a tinta. inclusive pichação. 63-78. sítios e paisagens aqueles dotados de feição notável. mas também reparadora. estandartes. A Lei nº. mesmo a lei de crimes ambientais tem função não apenas preventiva da paisagem urbana. “os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico. O Decreto-Lei 25/37. No artigo 18 é exigida autorização do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional para colocação de anúncios ou cartazes na vizinhança da coisa tombada.30 A Constituição do Estado de São Paulo prevê como área de proteção permanente as paisagens notáveis (artigo 197. passarelas. pela natureza ou pela indústria humana. proíbe a colocação. § 2º). Nesse diapasão. que a publicidade. e nos de uso comum. em vias públicas ou em imóveis. o qual organiza a proteção do patrimônio estético e artístico nacional. faixas e assemelhados”. a pichação/grafitagem ou conspurcação de edificação ou monumento urbano (artigo 65). junho/2009 71 .078/90 (Código de Defesa do Consumidor . preceitua que “Nos bens cujo uso dependa de cessão ou permissão do Poder Público.

XI . III . vendando muitas das formas de publicidade. de uso dos espaços abertos e verdes”. a fluidez e o conforto nos deslocamentos de veículos e pedestres. de poluição visual e sonora. a Lei Orgânica do Município determina a “preservação.430/02. à segurança da circulação”.a percepção e a compreensão dos elementos referenciais da paisagem. junho/2009 . C. em seu artigo 3º. grifamos). 12. pela qual eram estabelecidas regras para a veiculação de anúncios publicitários. a qual disciplina a paisagem urbana na capital e ficou popularmente conhecida como “Lei Cidade Limpa”. Também prevê que “a política urbana do Município terá por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade. de circulação e habitação em áreas livres de resíduos. em seu artigo 8º. I. os seguintes: I . p.a preservação e a visualização dos elementos naturais tomados em seu conjunto e em suas peculiaridades ambientais nativas.a preservação e a visualização das características peculiares dos logradouros e das fachadas. 63-78.226/06. conservação. 4..a valorização do ambiente natural e construído. que institui o plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo. química e bacteriologicamente seguros. à perspectiva panorâmica. No Município de São Paulo vigorava a Lei Municipal nº. do Decreto 13. estatuindo que: “somente será permitida mediante prévia licença do Departamento de Estradas de Rodagem e deverá satisfazer às condições que forem estabelecidas em regulamento. ao efeito estético. a qual é mais rigorosa. como 72 Código de Posturas Municipais e regulamentos sobre publicidade etc. assegurando. V . publicada em 27 de setembro de 2006. inciso VI. cultural e ambiental da população. VII .a segurança. No artigo 9º.a segurança das edificações e da população. relativas à distância. 14. 148. recuperação e melhoria do meio ambiente”.” Revista Internacional de Direito e Cidadania. VI . II .223. inclui como objetivo da política urbana “a preservação. com a melhoria da qualidade de vida urbana. dentre outros. O artigo 8º. preceitua: “Constituem objetivos da ordenação da paisagem do Município de São Paulo o atendimento ao interesse público em consonância com os direitos fundamentais da pessoa humana e as necessidades de conforto ambiental.. A Lei Municipal nº.. Tal norma foi revogada pela Lei Municipal nº. . parágrafo único.115/96. afirma serem objetivos gerais. procurando assegurar a segurança e a proteção do patrimônio paisagístico arquitetônico e a qualidade estética e referencial da paisagem natural e agregada pela ação humana” (art. IV . exige autorização do Departamento de Estradas de Rodagem para colocação de anúncios. Como já se assinalou neste trabalho. defesa. do Estado de São Paulo.o bem-estar estético.a preservação da memória cultural. em conjunto com o Estado e com a União (artigos 148. decorrentes dos princípios adotados: “garantir a todos os habitantes da Cidade acesso a condições seguras de qualidade do ar.o equilíbrio de interesses dos diversos agentes atuantes na cidade para a promoção da melhoria da paisagem do Município. à localização.CASTANHEIRO. à visibilidade. inciso IV e 180).626/43. VIII . inciso V. como adiante se verá. propiciar a realização da função social da propriedade e garantir o bem-estar de seus habitantes. n. A lei paulistana denominada “cidade limpa” e a jurisprudência Na capital paulista. o combate à poluição visual decorrente da publicidade comercial é feita pela via administrativa. A Lei Municipal 13. proteção e recuperação do meio ambiente e da paisagem urbana”. incisos III e V. da água e de alimentos. 14.

são traçadas as diretrizes dessa novel e destacada legislação. relevos ou logotipos. devendo o projeto ser aprovado pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana .a proteção. símbolos. IV . VI . lavradas nos seguintes termos: “Art. incorporados à fachada por meio de aberturas ou gravados nas paredes. n.o livre acesso de pessoas e bens à infraestrutura urbana. II . densímetros e similares. VIII . bem como do meio ambiente natural ou construído da cidade. IX .A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES Mais adiante. planejado e permanente” No artigo 7º.os que contenham referências que indiquem lotação. como bom- bas. III . nos termos desta lei.o combate à poluição visual.a compatibilização das modalidades de anúncios com os locais onde possam ser veiculados. quando inseridas ao longo da fachada das edificações onde é exercida a atividade. ágil. III .a denominação de hotéis ou a sua logomarca. 4. artístico. no artigo 4º.os “banners” ou pôsteres indicativos dos eventos culturais que serão exibidos na própria edificação. entalhes. permitimo-nos transcrevê-la. de consagração popular. estadual ou municipal.os logotipos ou logomarcas de postos de abastecimento e serviços.os que contenham mensagens indicativas de cooperação com o Poder Público Municipal. moderno.. XI .a implantação de sistema de fiscalização efetivo. 7º. V .as denominações de prédios e condomínios. bem como à degradação ambiental.a identificação das empresas nos veículos automotores utilizados para a realização de seus serviços. junho/2009 . histórico.os nomes. Ei-la: “Art.. VII . XII . p. paisagístico. Constituem diretrizes a serem observadas na colocação dos elementos que compõem a paisagem urbana: I . dístico ou desenho de valor publicitário. desde que não ultrapassem 10% (dez por cento) da área total de todas as fachadas. IV .. integrantes de projeto aprovado das edificações. II .CPPU. sem aplicação ou afixação.aqueles instalados em áreas de proteção ambiental que contenham mensagens institucionais com patrocínio .a priorização da sinalização de interesse público com vistas a não confundir motoristas na condução de veículos e garantir a livre e segura locomoção de pedestres.os que contenham indicação de monitoramento de empresas de segurança com área máxima de 0. XIII . que pela sua exemplar importância para os nossos estudos e papel do município no combate à poluição visual. V . preservação e recuperação do patrimônio cultural. 4º. Para os fins desta lei.os que contenham mensagens indicativas de órgãos da Administração Direta. há uma ampla definição de anúncio. 63-78. para museu ou teatro. Estadual ou Federal. não são considerados anúncios: I .os que contenham mensagens obrigatórias por legislação federal. quando veiculados nos equipamentos próprios do mobiliário obrigatório. VI . desde que sem qualquer legenda.” No artigo 8º estão as regras para que um anúncio possa ser considerado lícito (as hipó73 Revista Internacional de Direito e Cidadania. capacidade e os que recomendem cautela ou indiquem perigo.04m² (quatro decímetros quadrados).

VII .ser mantido em bom estado de conservação. p. torres d’água e outros similares. II . interferir na operação ou sinalização de trânsito ou. passarelas.torres ou postes de transmissão de energia elétrica. dentre outras.não prejudicar a visibilidade de sinalização de trânsito ou outro sinal de comunicação institucional. ainda. quando com dispositivo elétrico ou com película de alta reflexividade. parques. salvo os anúncios de cooperação entre o Poder Público e a iniciativa privada. ou a parecer técnico emitido pelo órgão público estadual ou empresa responsável pela distribuição de energia elétrica.CASTANHEIRO. 74 Revista Internacional de Direito e Cidadania. bem como as placas e unidades identificadoras definidas no § 6º do art. destinado à orientação do público.nos dutos de gás e de abastecimento de água. passarelas. III . II . de 13 de setembro de 2002. n.430. tais como pontes.bens de uso comum do povo a uma distância inferior a 30. 13. 8º.ABNT. VI . C. praças e outros logradouros públicos.respeitar a vegetação arbórea significativa definida por normas específicas constantes do Plano Diretor Estratégico. causar insegurança ao trânsito de veículos e pedestres. É proibida a instalação de anúncios em: I . 9º.leitos dos rios e cursos d’água. salvo os anúncios indicativos nos imóveis regulares e que já possuíam a devida licença de funcionamento anteriormente à Lei nº. prejudicar a visão dos motoristas. V . conforme legislação específica. Todo anúncio deverá observar.faixas ou placas acopladas à sinalização de trânsito. IV . IV . VI . reservatórios. I. as regras são as seguintes: “Art. VII . pertinentes às distâncias das redes de distribuição de energia elétrica.vias.oferecer condições de segurança ao público.receber tratamento final adequado em todas as suas superfícies. VIII .obras públicas de arte. III . 4. a serem definidos por legislação específica. 22 desta lei.não prejudicar a visualização de bens de valor cultural. tais como túneis.00m (trinta metros) de obras públicas de arte. 63-78. brilho ou intensidade de luz que possa ocasionar ofuscamento.” Quanto às vedações de anúncios.atender as normas técnicas emitidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas .não provocar reflexo. as seguintes normas: I . teses autorizadas estão no artigo 13). bem como a numeração imobiliária e a denominação dos logradouros. conforme autorização específica. V . que pelas mesmas razões do parágrafo anterior a seguir são descritas: “Art. no que tange a estabilidade. resistência dos materiais e aspecto visual. VIII . IX . inclusive cabines e telefones públicos.postes de iluminação pública ou de rede de telefonia. exceção feita ao mobiliário urbano nos pontos permitidos pela Prefeitura.imóveis situados nas zonas de uso estritamente residenciais. lagos e represas. hidrantes. ainda que de domínio estadual e federal. junho/2009 IX . pontes e via- . viadutos e túneis.atender as normas técnicas pertinentes à segurança e estabilidade de seus elementos. inclusive na sua estrutura.

educativa. bem como quanto às novas tecnologias e meios de veiculação de anúncios (artigo 47). DESDE QUE OBEDEÇA A LEI. RELACIONADA COM O USO COMUM DO POVO. bem como fez prevalecer a função social da propriedade e da cidade (artigo 170. sendo o licenciamento de responsabilidade das subprefeituras (artigo 36). DE 26/9/2006. QUE DISPÕE SOBRE A ORDENAÇÃO DOS ELEMENTOS QUE COMPÕEM A PAISAGEM URBANA NO TERRITÓRIO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO É MATÉRIA DE NATUREZA AMBIENTAL E TEM COMO FINALIDADE ADEQUAR A FUNÇÃO DA PROPRIEDADE EM FUNÇÃO DA PAISAGEM URBANA. dentro do interesse local (artigo 30. edificados ou não. DIREITO DE PROPRIEDADE .CONTROLE DE POLUIÇÃO VISUAL . Como regra geral. LIVRE INICIATIVA . bem como de seus respectivos acessos. respectivamente.PAISAGEM URBANA . da CF). junho/2009 . 63-78. Os mobiliários urbanos estão conceituados no artigo 22 da Lei 14. 75 Revista Internacional de Direito e Cidadania. A Comissão de Proteção da Paisagem Urbana (CPPU) será a principal responsável pelo acompanhamento da legislação paulistana sobre anúncios (artigo 35). XII . bicicletas e similares e nos “trailers” ou carretas engatados ou desengatados de veículos automotores.223/06.223/06 podem ser mencionados os seguintes acórdãos: JULGAMENTO “EXTRA PETITA” . II. com finalidade cultural. excetuados aqueles utilizados para transporte de carga. e 182.nas árvores de qualquer porte. eleitoral e imobiliária.A LEI TEM POR FINALIDADE ORDENAR O ESPAÇO PÚBLICO E REGULÁ-LO NO QUE DIZ RESPEITO . V. a colocação de anúncio publicitário nos imóveis públicos e privados. PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE . edificados ou não”. da Carta Magna). n. “caput”. INCONSTITUCIONALIDADE . X .A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES dutos. visando proteção da paisagem urbana (meio ambiente artificial ou estético) e do meio ambiente cultural (patrimônio histórico) tratou de regulamentar. MAS SIM AO QUE SE REFERE AO MEIO AMBIENTE. a Lei Municipal nº. XI . não invadindo competência legislativa do Estado e da União para legislar sobre publicidade no âmbito da relação de consumo (artigo 22. motocicletas. 14.A LEI NÃO VEDA O EXERCÍCIO DE PROFISSÃO E/OU ATIVIDADE. VII e VIII. o mesmo ocorrendo com a empresa instaladora. no âmbito do Município de São Paulo.A SENTENÇA JULGOU A AÇÃO DENTRO DO PEDIDO – NÃO HÁ QUE SE FALAR EM NULIDADE. III.NÃO SE VISLUMBRA QUALQUER EXCESSO.DEVE OBEDECER AO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA FUNÇÃO SOCIAL.223. com diretrizes de instalação no artigo 23. da CF). Como se percebe dos dispositivos transcritos e mencionados nos parágrafos anteriores. LEI DOS ANÚNCIOS .223/06. paredes e empenas cegas de lotes públicos ou privados. sendo que a publicidade nos mesmos será regulada em lei específica (artigo 21). p. No sentido da constitucionalidade da Lei nº 14. São permitidos aqueles elencados no artigo 19. POIS O MUNICÍPIO NÃO USURPOU A COMPETÊNCIA CONSTITUCIONAL CONFERIDA À UNIÃO. 4. inciso XIX e artigo incisos 24.LEI MUNICIPAL NQ 14. VIII e IX.nos muros.nos veículos automotores. questão ambiental e urbanística (artigo 225 e 182 da CF). No artigo 39 e seguintes estão previstas as infrações e penalidades.” O artigo 23 prevê a responsabilização solidária do anúncio pelo possuidor e proprietário do imóvel onde aquele estiver instalado. incisos I. que vedou o anúncio publicitário em locais públicos e privados. ARQUITETURA E URBANISMO. POSSUINDO O MUNICÍPIO COMPETÊNCIA CONCORRENTE PARA LEGISLAR SOBRE TAIS MATÉRIAS. o artigo 18 prevê que “Fica proibida.A LEI NÃO É INCONSTITUCIONAL. UMA VEZ QUE A CITADA NORMA LEGAL NÃO DIZ RESPEITO AO ÂMBITO ECONÔMICO DA PUBLICIDADE OU PROPAGANDA.

INOCORRÊNCIA.223/06 (CIDADE LIMPA). I.1520/3-00.Interesse público que deve se sobrepor ao interesse particular .POSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA NOVA LEI A RELAÇÕES FIRMADAS ANTES DE SUA ENTRADA EM VIGOR. v. pois é ali que o indivíduo residente e trabalha. em 05/03/07) 76 PUBLICIDADE URBANA . 1ª Câmara de Direito Público. da Constituição Federal) e o interesse público a sobrepor-se ao interesse particular (TJSP. (TJSP. 30. I.. 623. Apelação n° 806 542 5/8-00. o município poderá elaborar uma legislação mais restritiva quanto à exploração de sua paisagem urbana. . em imóveis públicos e privados. tendo sido apreciado pelo C.LEI MUNICIPAL N° 14. XX e artigo 24. j. VIII e IX.u.643-5/5-00. p. j.223/06 . mas sim regulamentou a publicidade urbana. nada obstante vinculado a diretrizes da legislação federal (artigo 21.° 14. Nesse contexto.223/06 (Projeto “Cidade Limpa”). Portanto. vício ou arbitrariedade . para fins publicitários. estadual (artigo 24.INOCORRÊNCIA DE VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA LIVRE CONCORRÊNCIA. v. em 11/08/08) ATO ADMINISTRATIVO – PUBLICIDADE URBANA .PRETENSÃO DA EMPRESA AO RECONHECIMENTO DO DIREITO DE TER SUAS ATIVIDADES REGIDAS PELAS NORMAS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS APLICÁVEIS E DO DIREITO DE MANUTENÇÃO DOS ANÚNCIOS PUBLICITÁRIOS REGULARES E RESPECTIVAS ESTRUTURAS EXISTENTES. com base no artigo 30. II.659-5/1-00-V. 10ª Câmara de Direito Privado.Liminar . 10ª Câmara de Direito Público Apelação Cível nº.660. nos termos do art. Decisão mantida. que o mais importante papel é o do município.LEI MUNICIPAL N° 14. 15. 1ª Câmara de Direito Público. A. sendo a ação que se funda na inconstitucionalidade da lei improcedente. 63-78. ante o poder de policia tocante à Municipalidade (artigos 23.CONSTIITUCIONALIDADE DA LEI. junho/2009 . RECURSO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO (TJSP. j. I.Falta de prova da regularidade do anúncio .853. a nosso ver.Preventivo . n. Apelação com Revisão n° 714.u. MANDADO DE SEGURANÇA .223/06 . Revista Internacional de Direito e Cidadania. portanto. C. 4.PUBLICIDADE URBANA . a vedar a colocação de anúncios em imóveis públicos e privados – Pretensão de inconstitucionalidade Ausência de ilegalidade. sob o fundamento de impedimento ao livre exercício de profissão (“propaganda e marketing”) e outras ponderações. da Carta Magna. que é assunto de interesse local e. eleitorais.Lei Municipal de São Paulo n. § 2º) sobre proteção estética e paisagística. Recurso negado (TJSP. I e 182. § 1º). 766.Tratando-se de lei em vigor (Lei Municipal de São Paulo n° 14 223/06). informativos. culturais etc. O Plenário desta Corte reconheceu a constitucionalidade da Lei Municipal n° 14.u. incisos I. caput e § 2°. v.I. às quais não poderá contrariar. Órgão Especial no Incidente de Inconstitucionalidade n° 163.Revogada liminar concedida em primeiro grau . j. eventualmente..223/06. BEM COMO À DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI MUNICIPAL N° 14. da CF.5/1-00. de competência do município. OU DO LIVRE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE ECONÔMICA . em 12/08/08) Diagnóstico do papel do poder público na poluição visual: sugestões de enfrentamento da poluição visual pelas cidades No enfrentamento da poluição visual não há dúvidas. a vedar colocação de anúncios. as condições estéticas do meio ambiente são interesses eminentemente locais. entrando em contato com todas as circunstâncias positivas e negativas do meio que o circunda. em 02/12/08).COMPETÊNCIA DO MUNICÍPIO PARA LEGISLAR SOBRE ASSUNTOS DE INTERESSE LOCAL . 30. O município não legislou sobre propaganda comercial. da CF) e. não há como se manter liminar concedida em mandado de segurança contra órgão público.INOCORRÊNCIA DE VIOLAÇÃO A DIREITO ADQUIRIDO .CASTANHEIRO. de forma indiscriminada.

rios e praias) e até de elementos artificiais (monumentos.vitruvius. Nesse diapasão. proximidades de semáforos.br/arquitextos/arq000/ bases/texto094. com 31 participação de profissionais de diversos ramos (comissão multidisciplinar). 2003 Revista Internacional de Direito e Cidadania. bem como deve proteger as paisagens naturais notáveis (artigo 23. cemitérios. dos educadores. dos meios de comunicação de massas. em linhas gerais. Distrito Federal e Municípios competência comum para “proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas”. Retar- MINAMI. a paisagem urbana continuará sofrendo de doença terminal. Disponível em <http://www. A importância da Paisagem. das universidades etc. todo o arcabouço legislativo que mencionamos em capítulo próprio. na ordem a seguir transcritas: Não há legislação no mundo que possa compensar a falta de vontade política. o município poderá combater e punir a poluição visual utilizando-se. as principais causas da poluição visual. da Constituição Federal atribui à União. GUIMARÃES. III). a conclusão é a de que o Poder Público tem sido omisso.asp>. seus efeitos e formas de enfrentamento. enviando-lhe representação devidamente instruída com as provas dos fatos ilícitos denunciados. prédios históricos com características marcantes de determinado estilo e fachadas visualmente desobstruídas). torres ou qualquer estrutura destinada a suportar redes aéreas dos meios de comunicação e de energia elétrica. pelo Poder Público. dos intelectuais. junho/2009 77 . com a colaboração. vale transcrever as valiosas observações de Ignez Conceição Ninni Ramos e de José Afonso da Silva. através de audiências públicas por bairros ou regiões. Pensando ter demonstrado. p. Acesso em: 09 mai. bens e locais tombados e suas adjacências. as conclusões dessas audiências (visa-se eliminar. tudo em conformidade com o Plano Diretor das cidades e o Código de Obras. sempre que possam confundir visão ou interpretação. a afixação de anúncios publicitários em locais como: vias de tráfego de elevado fluxo. Issao. a preparação das gerações futuras para lidar com o problema da paisagem visual (com atitudes preventivas como educação e repressivas). Enquanto a poluição visual for tratada como a paciente que ainda não inspira cuidados. Também deverá o Poder Público municipal buscar algum grau de consenso em relação à beleza de elementos naturais31 em geral (vegetação. monumentos públicos. céu. Importante ferramenta para o combate às omissões dolosas e culposas quanto à fiscalização e combate aos danos ambientais à paisagem urbana é a utilização das punições previstas na Lei de Improbidade Administrativa. às quais geralmente cede em razão da pressão de grupos influentes e atuantes no espaço da cidade. postes. Também não pode ser olvidada. lagos. o grau de subjetividade e o autoritarismo dos agentes públicos). pontes. especialmente pelos municípios. resta aos membros e servidores do Poder Público Municipal lançarem mão do instrumental jurídico aqui mencionado e.com. Estados. para somente depois disso se elaborar projetos de leis seguindo. ainda que compulsória. n. viadutos e passarelas. com as limitações da singeleza inicialmente proposta. Sendo função do Poder Público zelar pelos interesses da maioria com relação aos da minoria em questões privadas. árvores das vias públicas. da população e dos comerciantes locais. diga-se com o rigor que a situação específica mereça. 63-78.A POLUIÇÃO VISUAL: FORMAS DE ENFRENTAMENTO PELAS CIDADES Considerando que o artigo 23. na medida de suas competências. João Lopes Júnior. 4. inciso VI. criar outros para implementarem a efetiva defesa do meio ambiental cultural e artificial. que detém poder fiscalizador concorrente com os demais entes federativos e competência legislativa concorrente em virtude do interesse eminentemente local. É papel da municipalidade disciplinar e fiscalizar adequadamente. que poderá ser utilizada nas ações civis públicas movidas pelo Ministério Público na defesa do meio ambiente artificial e natural. ao máximo. se necessário. Quando não for de sua atribuição a aplicação de determinado diploma legal deverá instar o ente federativo competente a agir.

63-78. a continuidade da omissão por parte da(s) Autoridade(s) poderá caracterizar ato de improbidade administrativa (artigo 11.org. p. p 274 32 78 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Acesso em: 09 mai. 2003 33 SILVA.asp?artigo=65>. da Lei nº 8.429/92). promovendo as ações administrativas cabíveis. representações e/ou recomendações à(s) autoridade(s) competente(s). junho/2009 . um ambiente de vida humana. Ignez Conceição Nini. sobretudo. no qual se projetam valores espirituais perenes. n. que segundo o IBGE são cerca de 82% da população brasileira. propiciando melhores condições de saúde e de bem-estar aos habitantes das cidades. Disponível em <http://www. um simples mercado onde até a paisagem é objeto de interesses econômicos lucrativos. 4.br/Opiniao. Direito Urbanístico Brasileiro. Diante dessa provocação. São Paulo. incisos I e II. Malheiros. C. Poluição Visual.CASTANHEIRO. que revelam às gerações porvindouras a sua memória”. que lancem mão do seu poder de petição e/ou dos instrumentos jurídicos disponíveis. José Afonso da. 1997. RAMOS. especialmente aqueles atuantes na área urbanística e na ambiental. para que sejam tomadas as medidas apropriadas em prol da paisagem urbana. mas é. espera-se de todos os operadores do Direito e dos agentes públicos. dar o tratamento poderá inviabilizar a cura32 “Uma cidade não é um ambiente de negócios.33 Assim.redeambiente. I.

Revista Internacional de Direito e Cidadania. No Brasil. Palavras-chave: Cidadania. os direitos sociais se manifestam como uma possibilidade de participação na riqueza coletiva e como ‘etapa’ no processo de desenvolvimento histórico da cidadania. Direitos Sociais. In Brazil. Sendo assim. * Advogado. Estados Unidos. Keywords: Citizenship. Especialista em Direito Ambiental pela UNIMEP/ Piracicaba. 4. Mestrando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. LLP Attorneys at Law em Baltimore (Maryland). Social rights.Artigo CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO Ivam Gerage Amorim RESUMO: Numa perspectiva do debate teórico apresentado por Marshall acerca da cidadania. Coe & King. Thus. o direito ao trabalho é um direito social constitucionalmente previsto. o artigo busca tratar do direito ao trabalho como parte integrante dos direitos fundamentais (eis que positivado no ordenamento jurídico brasileiro e previsto na Declaração dos Direitos Humanos). 79-96. embora temas como a eficácia dos direitos sociais representem uma nova fonte dos debates atuais. motivo pelo qual se faz importante sua compreensão e análise. Direito ao Trabalho. even so subjects as the effectiveness of the social rights represent a new source of the current debates. Estagiário no Anderson. n. Right to the Work. junho/2009 79 . ABSTRACT: In a perspective of the theoretical debate presented by Marshall concerning citizenship. the article aims to deal with the right to work as part of the fundamental rights (being present in the Brazilian legal system and foreseen in the Declaration of the Human Rights). the right to work is a social right constitutionally foreseen. p. wherefore it is important its understanding and analysis. the social rights reveal themselves as a possibility of participation in the collective wealth and as ‘stage’ in the process of historical development of the citizenship.

p. frente a Constituição mexicana de 1917 e a alemã de Weimar. 62. portanto. e. Frente a sua política anti-socialista. Existem ainda autores que tratam a perspectiva do direito ao trabalho em função das atividades grevistas como mecanismo de manutenção do emprego e de um direito ao trabalho. tutelam e reivindicam aos que vivem de seu trabalho e aos economicamente débeis. ou. caracterizados pela fusão no plano geográfico e pela separação no plano funcional. um salto qualitativo. não apenas os entendi como matéria constitucional mas como matéria constitucional qualificada pelo valor transcendente da dignidade da pessoa humana. as que sustentam o caráter protecionista. sua natureza de norma de direito fundamental não está prejudicada”. Sendo assim. o direito social se apresenta como sendo o conjunto de princípios.. Ressalte-se neste ponto o parágrafo 2o do artigo 5o da Constituição que estabelece que são direitos fundamentais os que se encontram expressos na Constituição. Assim pensava antes da Constituição de 1988. no México. n. Nas palavras de José Afonso da Silva. 1o. na instauração da liberdade civil no país. e) não instaura a cidadania civil como processo de evolução institucional. especialmente o ligados à doutrina constitucional norteamericana. 326. Anthony GIDDENS e Reinhard BENDIX. Sobre a ambigüidade do conceito. posteriormente. etc. MOYA. p. e como parte deste o direito obreiro e o direito econômico. que recusam não só a idéia de que tais direitos sejam uma categoria dos direitos fundamentais da pessoa humana. c) não faz referência ‘a Revolução Política anti-feudal. I. expressa no art. Para um aprofundamento teórico dos debates em uma perspectiva da teoria política.3 Neste sentido. “a questão da natureza dos direitos sociais ainda se põe porque há ainda setores do constitucionalismo. Contudo.mundojuridico. ‘a Revolução Puritana de 1640 e da Revolução Gloriosa de 1688. de 1919. (2007) 4 Aplicando-se a definição de direitos fundamentais à cidadania. igualitário e nivelador do direito social. guiado até pelo conteúdo de documentos internacionais de proteção dos direitos humanos (. os direitos sociais integram a última das três fases (ou elementos) constitutivos da cidadania. são teorias integradoras do direito social difundida e aceita. embora o constituinte não tenha previsto a cidadania no Título II da CF/88. elabora um direito de seguridade social para tentar conter a luta da classe operária. Outra teoria. sendo esta última a teoria adotada pelo autor. que concebe o Direito Social como uma disciplina autônoma frente ao direito público e o direito privado. ambas as teorias se complementam e integram a Teoria Geral do Direito Social contida no artigo 123 da Constituição da época. Para o mesmo autor. p. as críticas do evolucionismo de Marshall sobre a cidadania pode ser observado em TURNER. De minha parte. e por outro cria. Destarte. II. ou seja. as principais críticas a Marshall: a) se refere ‘a aplicabilidade ou não (ver TURNER) do esquema teórico de Marshall a outros processos nacionais de cidadania que não o inglês. b) ‘a fidelidade de Marshall ‘a evolução da cidadania da Inglaterra contemporânea. f) se considera como evolucionista.. 1) Os Direitos Sociais no Brasil A partir do último terço do século XIX começam na Europa algumas especulações em torno do Direito Social. Acesso em: 10/05/2009. p. Op. quando admitem serem constitucionais. à saúde. ver: GALLEGO (1950). Assim também o é dentro de uma perspectiva da cidadania.adv. questionando o processo interno de evolução da cidadania. Sobre o assunto. importante recordar as teorias de Gierke quando utiliza o termo como uma categoria entre o direito público e o direito privado. na Alemanha se apresentam contradições sociais pois. tratada como exclusiva dos teóricos mexicanos. sempre tomei a expressão direitos fundamentais da pessoa humana num sentido abrangente dos direitos sociais. os direitos sociais representam uma participação na riqueza coletiva.4 MOYA (1977). a doutrina majoritária brasileira entende a cidadania como um direito fundamental. a expressão direito social é utilizada como um ramo novo do direito. c) proteção direta da dignidade da pessoa humana: pois na medida que a cidadania é um direito que objetiva garantir a participação política direta e imediata dos cidadãos. os seguros sociais de 1883 a 1889. mas no Título I. ver: DALLARI. d) subestima o potencial do processo revolucionário na destruição do status feudal. formam parte do direito agrário e outras disciplinas para a segurança e bem estar da classe trabalhadora e dos débeis em geral. por um lado Bismarck obtém a expedição da lei de 21 de outubro de 1878 que proíbe as coalizões de trabalhadores e que é contraria a um dos direitos sociais mais importantes do direito do trabalho (em prejuízo dos trabalhadores).p. protegem. 79-96.. porém desconsidera a possibilidade de revolução.AMORIM. 64-65. Porém. o direito ao trabalho enquanto um direito social é um tema razoavelmente recen1 te. G. e ainda as que se seguiram a esta para tratar do direito social. qualificam-nos de meramente programáticos. E nesta perspectiva. Idem. como ‘dois oceanos que ao unirse formam um só com a força incontível da fusão de suas águas’ e ainda.1 Dentro destes debates. temos: a) norma jurídica positiva de nível constitucional: o direito ‘a cidadania é norma constitucional positivada.. 4.. 3 Segundo DÉCIO SAES. Disponível na Internet: <http:// www.. 62. apresentando com isso uma definição distinta da que antes se encontrava no mundo jurídico. da CF/88. instituições e normas que em função de integração. ainda que ‘topograficamente o direito à cidadania não esteja previsto no Título II. Não obstante. d) legitimação jurídica 80 Revista Internacional de Direito e Cidadania. a teoria de Gierke é teoria sociológica e teoria jurídica. tal ramo novo do direito se identificava. Para uma ilustração destas teorias. junho/2009 . 2 Com efeito. educação. Uma outra teoria. mas até mesma que sejam matéria constitucional. proclama não somente o fim protecionista e tutelar do Estado como também o Direito Social enquanto sendo reivindicatório dos economicamente débeis e do proletariado. no artigo 123 com o direito do trabalho e da previsão social. No Brasil. g.)” SILVA. ela se relaciona com a dignidade da pessoa humana.br>. p. e acabam por recair sobre os denominados direito ao trabalho.. meras intenções e coisas semelhantes. Cit. Garantias econômicas. aposentadoria. 2 Dentro destes debates nas ciências jurídicas e sociais. b) valor essencial da sociedade: a previsão da cidadania como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. em que pese os inúmeros debates acerca da aplicação ou validade do desenvolvimento teórico apresentado por Marshall. a fim de demonstrar a incorporação do individuo à comunidade em função social. A primeira teoria sustenta que. sustenta o fundamento da Constituição mexicana enquanto um caráter reivindicatório. políticas e jurídicas da eficácia dos Direitos Sociais. José Afonso da. ver: SAES (2000). 8-40.

p. Nesse sentido.. mudada posteriormente para Direito do Trabalho. 9 LEITE (1997). ao meio ambiente. se referia a Legislação Social.8 Destarte. (1957). O decreto. 2. No caso da cidadania.9 Não menos importante. direito social. além de um possível direito econômico e profissional. Esta denominação também é adotada por Evaristo de Moraes Filho. que independe da culpabilidade. direito operário.6 Neste debate acerca da distinção entre os conceitos pertinentes ao Direito Social.7 Nos comentários acerca da Constituição do Brasil de 1988.5 Em suas relações com o trabalho. seja ele enquanto um Direito do Trabalho. 1o. Sendo assim. CARVALHO aponta que a cronologia lógica da seqüência apresentada por Marshall foi invertida aqui no Brasil.. num período em que órgãos de representação política foram transformadas em ‘peças decorativas’ do regime. dentre outros). p. 8 WATERHOUSE (1989). IV... direito do trabalho. 7 A Faculdade de Direito da USP. legislação social. uma melhor classificação partiria de critérios do sujeito titular de direitos: individuais (direitos que possuem como titular pessoas físicas ou jurídicas). Cit. 5 OLIVEIRA (1952). A Constituição de 1946. nas mesmas condições. do trabalho ou social-trabalhista. e em seu artigo 94 falava de Direito Social. p.. p. desta forma.Vol. surge a teoria da defesa social. 157 a 228.. conhecido também como Direitos Trabalhistas. 24.lei n. Vol. 11-15. junho/2009 81 . p. 2724 de 1956. no artigo 5o. nasceu no direito industrial (em matéria de acidentes de trabalho. no artigo seguinte. outros entendem que o artigo 6o enumera os Direitos Sociais em sentido genérico e. por exemplo. previdência social. em seu artigo 7o. uma dimensão dos direitos fundamentais. A lei. Da mesma maneira..a noção de ‘risco profissional’. Posteriormente foi a vez dos direitos políticos. LEITE aponta para uma classificação dos direitos sociais. Com isso. Os direitos sociais representariam assim. direito corporativo ou corporativo-sindical. o debate recai sobre a evolução da própria disciplina: direito industrial. à seguridade. O mesmo autor. No Direito Penal. que instituiu a Justiça do Trabalho. 4. à família e educação. Revista Internacional de Direito e Cidadania. sendo que o Direito Industrial seria estudado com o Direito Comercial. In: CEZARINO JR. 6 CEZARINO JR. que envolve saúde. 196. será um mecanismo de controle de atuação do Estado. batizava de Legislação Social sua disciplina jurídica. Pela Lei Federal n. fala-se em cidadania individual no caso de impetração de ação popular. muitos dos direitos civis (a base da seqüência apresentada por Marshall). a natureza de cláusula pétrea do direito fundamental ‘a cidadania. e não direitos sociais em si. em seu artigo 1o. fora matéria de controvérsia no debate político e jurídico no País. e difusos (direitos indivisíveis cujo titular é grupo indeterminado de pessoas). tais como SALEILLES e JOSSERAND. sustentando haver direitos sociais pertinentes ao trabalho. E por fim. parágrafo 4o. uma Legislação Social ou do Trabalho. outros entendiam-no como desvinculado do direito trabalhista. está prevista no art. 10 CARVALHO (2001). XV. cabe-nos aqui apenas apresentar que a noção de Direito Social foi desenvolvida com os propósitos das relações de trabalho e com o desenvolvimento econômico. a exata definição de Direito Social. n. uma corrente colocada como minoritária colocava o Direito do Trabalho como um Direito Social Específico. Os direitos sociais foram primariamente implementados em períodos de supressão dos direitos civis e políticos.p. e de cidadania enquanto direito coletivo no caso do sufrágio. frente a influência de Bismarck). apresenta os motivos que o condicionam a entender o conceito de Direito Social como sendo um qualificativo melhor para a definição da Disciplina que alguns entendem por Direito do Trabalho. coletivos (direitos que têm como titular grupo determinado de pessoas unidas por uma relação jurídica básica). os Direitos Sociais em sentido estrito. regularia a indenização ao preço alçado. apareceu na mesma época na França (entre civilistas reputados. é explicitado em sentido amplo os Direitos Sociais no Título VIII (da Ordem Social. em função de sua natureza de direito fundamental individual. E. de M. p. Por fim. letra ‘a’. O artigo 693. LOPES (2007). sendo prestações positivas enunciadas em normas constitucionais. o que impede sua revogação normativa. fala em Direito do Trabalho. 219-222. ainda nos dias de hoje. levando-se em consideração nossa realidade constitucional. Enquanto uns definiam o Direito Social como sendo a reunião do Direito do Trabalho com a Previdência e a Assistência Social. enquanto o artigo 157 emprega a denominação de Legislação do Trabalho. Com efeito.. 63-64. 60. continuam inacessíveis para boa parte da população. p. No liame que vincula estas temáticas acima descritas. ‘a’ da CLT. Não obstante. 79-96. p. Op. 11. a doutrina da responsabilidade objetiva. por exemplo.10 da atuação estatal: uma vez que a norma sobre cidadania visa garantir o direito de participação política de todos os cidadãos. PRINS(1912). por considerarem as normas reguladoras das relações trabalhistas como apartado do seguro e assistência sociais. não se tratava de estabelecer a culpa do patrão ou do empregado. o Direito Social não poderia regular as relações de trabalho entre empregadores e empregados. sociais (titular pessoa física em situação de desigualdade social).CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO Dentro desta perspectiva. FILHO. pela Lei Paulista n. dispunha de um Direito Social. p. as demais Faculdades de Direito do País denominavam de Legislação do Trabalho as disciplinas cuja concepção fora antes suprimida pela expressão sinônima de Direito Laboral. 1237/39. 22-25.. mas de comprovar o acidente. em seu volume 1o. educação.. ao tempo. 28-32. 3023/37. como antes já ocorria na Faculdade de São Paulo.

art. estatuindo que a “todos é garantido o direito de subsistir mediante o seu trabalho honesto e este. Panamá (1946. em seu artigo 35 declara que o trabalho desempenha uma função social. o patamar de afirmação do trabalho (de princípio. em seu art. estabelece que os espanhóis “têm direito ao trabalho e o dever de exercer uma atividade socialmente útil”. valor e direito social. 82 Revista Internacional de Direito e Cidadania. na Constituição de 1935. 79-96. ao lado de outros. merecem destaque: Colômbia (1945. 1. p. a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (art. valor e fundamento para direito social). art. III) erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. II) garantir o desenvolvimento nacional. sofrimento para uma concepção mais social. Por fim. Na Constituição de 1931 da Espanha. cor. e figurando-os. Mas entre as Constituições Americanas. 3º. junho/2009 . De maneira exemplificativa. em seu artigo 12 estabelece que o trabalho é para todo o cidadão apto “um dever e uma questão de honra”. na Carta de 36. o da justiça social. a Carta de 37. DELGADO. 1º. constando o propósito do direito ao trabalho já em 1848 (art. no artigo 46. em sua Constituição de 1947. (2006). bem como com diversos outros princípios constitucionais. artigo 53). Na mesma Constituição. 52) e Venezuela (no texto de 1947. assegurando-lhe condições favoráveis e meios de defesa”. Na Itália. constitui um bem que é dever do Estado proteger. p. O trabalho é obrigação social”. idade e quaisquer outras formas de discriminação.. passando de uma concepção de esforço. IV) promover o bem de todos. a Constituição fixa serem fundamentos da República Federativa do Brasil. De toda sorte. 155). tais como a cidadania e a justiça social. MENEZES (1956). assim. 193). como também demarcando-se nos “Princípios Fundamentais” da República Federativa do Brasil e da própria Constituição (Título I). 52 e incluído no texto constitucional em 1943). ao buscar reger a “Ordem Econômica e Financeira” (Título VII). são quatro os principais princípios constitucionais afirmativos do trabalho na ordem jurídico-cultural brasileira: o da valorização do trabalho. em princípio. que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I) construir uma sociedade livre. 61). note-se ainda que a questão do trabalho relaciona-se ainda com os direitos humanos. e levando-se em conta o sentimento de solidariedade social que envolvia e condicionava grupos organizados ou isolados a buscarem melhores condições de vida e de trabalho ou. no artigo 24. A Carta de 34 não continha declaração semelhante.12 Abstraindo a constitucionalização dos aspectos concernentes ao trabalho que ora nos propomos a discorrer. n. no plano da Economia e da Sociedade. o trabalho é uma obrigação social. que esse enquadramento não reduz. já no Preâmbulo. normativamente. O 11 trabalho traduz-se. Nicarágua (1939. letra ‘b’. 6º e 7º). Neste sentido. 54-56. como meio de subsistência do indivíduo. No Brasil. firmando como corolário o princípio do ‘direito ao trabalho’.11 Nesta perspectiva. dispunha que “o trabalho é obrigação social”. fundamento. o artigo 4o coloca que “a República reconhece a todos os cidadãos o direito ao trabalho e favorece as condições de tornar esse direito efetivo”. o da submissão da propriedade à sua função socioambiental. sexo. O enquadramento do trabalho como direito social está explicitado no art. Na Constituição de 1946. Ano I. sem preconceitos de origem. justa e solidária. raça. em seu artigo 136. de um direito ao trabalho. Costa Rica (1871. I. importante ressaltar o Boletim da Comissão Executiva do 3oCongresso Operário. irradiando-se por toda a Constituição na busca pela redução das desigualdades sociais. devemos considerar que a solidariedade humana e o valor trabalho permeiam quase todo o desenvolvimento de nosso estudo. 23-26. Uruguai (de 1934.AMORIM. o artigo 145 prevê que “a todos é assegurado trabalho que possibilite existência digna. diversas Constituições abordaram sobre o ‘trabalho’ em sua dimensão social e individual. concretizando-se. por que não. inclusive. 7º. a Carta del Lavoro não previa o direito ao trabalho. Na verdade. p. ao lado da “Ordem Social” (Título VIII) e sua “Disposição Geral” (art. concretizando-se em inúmeros dos direitos que se listam no art. e como objetivo o bemestar e a justiça sociais” (Título VIII. 6º da Constituição. sendo ainda especificada ao tratar dos “direitos sociais” (arts. relacionada ao conceito de dignidade da pessoa humana. No mesmo título. em relação às manifestações operárias no início de sua formação. a mesma Constituição reenfatiza que a “ordem social tem como base o primado do trabalho. Perceba-se. o princípio da dignidade da pessoa humana. art. aprovada em Bogotá no artigo 29. N. Em Portugal. VII). III e IV). com seus “Princípios Gerais da Atividade Econômica” (art. declara que o ‘trabalho é um direito e um dever social’. ao tratar da “Ordem Social”. Capítulo I. a valorização do trabalho está repetidamente enfatizada pela CF/88. Desde seu “Preâmbulo”. 53). Ela se transformou ao longo dos séculos. em especial do emprego. Na França.13 Ulysses Guimarães denominou de ‘Constituição Coragem’ um texto que anteriormente compunha a Constituição Federal e que fora posteriormente retirada pela alegação de incons- Em seu Título I (“Dos Princípios Fundamentais”). 170). 12 A Constituição da Organização dos Estados da América. M. em diversos Preâmbulos constitucionais. G. art. 13 São inúmeros os documentos históricos que envolvem manifestações por melhores condições de trabalho. São Paulo: Agosto de 1920. Na Rússia. 2) O ‘trabalho’ como ‘valor social’ na Constituição Federal de 1988 A natureza do conceito ‘trabalho’ nem sempre foi a mesma. em sua “Disposição Geral”. República de Salvador (1945. 4. 193). no art. art. G. por fim.. art. menciona que “tem cada um o dever de trabalhar e o direito de obter emprego”. em 1946. 17). No Brasil.

No Brasil. Sozialverfassung. n. Ademais: o trabalho é requisito para configuração da função social da propriedade (Art.). junho/2009 83 . come. Trabalho: categoria. Na Grécia antiga também não se deu de maneira diversa.chave da sociologia? shttp://www. sem saúde. o ‘primado do trabalho’ figura-se como princípio constitucional. os direitos sociais correspondem à luta pela igualdade. o tema ‘trabalho’ é muito mais complexo do que nos propomos a estudar nesse trabalho. 17 MUECKENBERGER. corroborando com o anteriormente mencionado e com o que dispõe acerca da temática que agora discorremos. No Artigo 193 da CF/88.gov. Na Índia e no Egito pré-cristão já se encontravam menções ao trabalho como expurgação. De qualquer maneira. o valor dado ao trabalho foi colocado como fundamento do Estado Democrático (art. 18 Diversos autores dos tempos antigos traziam o trabalho num sentido de esforço. cansaço. IV). de forma direta e indireta. O Artigo 214 assegura que “A lei estabelecerá o plano nacional de educação. A Constituição luta contra os bolsões de miséria que envergonham o país. Revista Internacional de Direito e Cidadania.. conforme dispõe o atual artigo 1o. do Distrito Federal e dos Municípios. analfabeto. Apud: OFFE. assim dizia o texto: “O Homem é o problema da sociedade brasileira: sem salário. Se a crescente sensibilidade de largas parcelas da força de trabalho para a utilidade negativa do trabalho assalariado coincidir com a percepção de um declínio no valor de uso de seus produtos. mora.. “Zur Problematik eines Rechts auf Arbeit”. Ademais. 1o. 191). e para a configuração da usucapião (Art. independentemente de contribuição `a seguridade social. a Constituição Federal apresenta um aspecto econômico e outro social.busca do pleno emprego“. conforme os ditames da justiça social. O cidadão romano não fazia. 4. direito de todos e dever do Estado e da família.)”14 Nestes termos. inciso IV da CF/88. fundada na valorização do trabalho humanoe na livre iniciativa. assegura que “A ordem econômica. da CF/88: “A educação. É a constituição cidadã.anpocs. e tem por objetivos: III) . e.. Vergesellschaftung. tem por fim assegurar a todos existência digna. O trabalho também se constitui como requisito para a emancipação. Claus. Cidadão é o que ganha. e das seguintes contribuições sociais: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho (. 16 O Artigo 170. a dignidade da pessoa humana. Na CF/88. “A ordem social tem como baseo primado do trabalho.16 De toda maneira. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho“.) VIII . I. Bremen. (s/d). a soberania. nos termos da lei. mediante recursos provenientes dos orçamentos da União. Acesso em: 17/11/2008. começa com o homem. de duração plurianual. que foi escrita para o homem. Diferentemente das sete constituições anteriores. portanto sem cidadania.a promoção da integração ao mercado de trabalho. Tanto assim o é que o 14 15 trabalho fora incluído no rol dos direitos sociais. O Artigo 195. e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais”. in Arbeitsprozess. manifestada por esforços conjuntos do homem na busca por melhores condições. É sintomático desta possibilidade o fato de que a tradicional reivindicação sindical por um efetivo “direito ao trabalho” . Mas devemos nos atentar também para outras manifestações que a problemática pode apresentar.br/portal/publicacoes/rbcs_00_10/rbcs10_01.15 Assim. pena. sabe. p. 186. pode se curar..tc.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO titucionalidade de suas palavras.seja criticada como insuficiente. E nesta perspectiva. psicológicas e institucionais. portanto. 83-84. ‘a’. p.. castigo e expiação. notemos que a noção dos direitos sociais integram o conceito de cidadania na Constituição Federal de 1988. pode-se esperar uma perda crescente na relevância subjetiva do trabalho assalariado ou uma aceitação decrescente de suas condições físicas. e permeia toda a Constituição. III). fica claro que a maioria destas demandas ainda não foi satisfeita.uma demanda que atualmente já possui um pronunciado tom utópico . a livre iniciativa e o pluralismo político.pdf SANTOS (2003). dispõe que “A seguridade social será financiada por toda a sociedade. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. (. Grifo nosso. U.org. mas transformou-se ao longo dos tempos. Graficamente testemunha a primazia do homem. que o homem é seu fim e sua esperança. O Artigo 203 da CF/88 estabelece que “A assistência social será prestada a quem dela necessitar. em igualdade de importância com os demais fundamentos do Estado Democrático de Direito. observados os seguintes princípios: (. refraseada numa demanda pelo “direito ao trabalho útil e 17 significativo”” http://www. ambos da CF/88. vinculando-se com diversos princípios constitucionais e irradiando-se por toda a Constituição.. Assim: “Não obstante. sendo que o valor trabalho aparece como fundamento e base da Ordem Social e Econômica. No Artigo 205.df. Tal princípio é a base da Ordem Social. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.br/contaspublicas/ice5/contas/2007/Arq03i_Apresentacao_004-016.. dos Estados. tais como a cidadania. a palavra ‘trabalho’ nem sempre foi tida como um ‘valor social’. 79-96. visando `a articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e `a integração das ações do Poder Público que conduzam `a: IV) formação para o trabalho. sem casa.

22 A Lei 10257/2001. 4-5. Social. observamos o direito ao trabalho como um princípio constitucional. o parlamentar Druey logrou do Conselho do Cantão a aprovação do dispositivo. recaindo pois sobre todas as esferas que recobrem a pessoa humana. Op. o Fuero del Trabajo assegurava que todos os espanhóis tem direito ao trabalho. Por volta de 1748. não admitiu a inclusão do preceito do direito ao trabalho no texto constitucional. o direito ao trabalho acaba por relacionar-se com o próprio ‘Direito do Trabalho’.. na relação de propriedade. enumera o direito ao trabalho. 13-16. O cantão suíço de Valud. mediante uma política de pleno emprego. o ‘direito ao trabalho’ está vinculado com a política de emprego. da Constituição. 19 BARASSI (1949). junho/2009 . além de outros igualmente importantes na valorização da pessoa humana. Na Carta del Lavoro de abril de 1927. com o dever social do trabalho e com a não discriminação. Esta dimensão do Estado vincula-o com políticas na busca de um pleno emprego. o trabalho. por sua vez. II) o trabalho como dever social. na ótica que pretende encontrar êxito no patrimônio. 4. Com isso. estudando a Constituição Italiana de 1. p. a assistência aos desamparados. tendo esta última uma dimensão mais econômica que social..o reconhece. a previdência social. com todo o sistema de Seguridade Social (que envolve a Assistência Social.. 20 SÜSSEKIND sugeriu a seguinte redação do primeiro inciso: I) direito ao trabalho. a saúde. mas não devemos olvidar que o valor aí predominante é o espírito comunitário e que os deveres enumerados têm conseqüências práticas muito definidas. a proteção ‘a maternidade e ‘a infância. dispõe que são direitos sociais a educação. Em 1819.e per gli altri enti autarchici. em 1830. apareça dezoito anos antes do direito ao trabalho. entendido como o 84 Revista Internacional de Direito e Cidadania.html. Acesso em: 12/11/2008. Na Franca. Charles Fourier começava a proclamar assuntos de interesse dos trabalhadores.di provvedere le condizioni piú adeguate per ovviare al triste fenomeno della disoccupazione (. I. 4o.profpito. erigiu a posição de garantia legal do direito ao trabalho e.AMORIM. Com estas mudanças no perfil. nesta linha. no parágrafo 1o. o trabalho. Em março de 1938. G. Fernando Machado da Silva. do artigo 1o.. 57-58. quando da criação do Seguro Social obrigatório na Alemanha de Bismarck. Com o surgimento do cristianismo. (.com/direitoaotrabalho. p. “A República reconhece a todos os cidadãos o direito ao trabalho e promove as condições que tornam efetivo este direito”. Direito ao Trabalho. A partir de meados de 1945. Sendo assim. eis que envolvem dimensões que relacionam-se e excluem-se entre si. sendo sintomático que o dever de trabalhar. a segurança. o trabalho seria assim (não mais um castigo). é oportuno integrar o artigo 4o. Da mesma maneira. o lazer. http://www. SÜSSEKIND. era um dever social e. cabe registrar o conteúdo de norma programática do direito ao trabalho. A Constituição Soviética. mediante política de pleno emprego”. A própria Suíça não conseguiu elevar o direito ao trabalho ao status de constitucional. na mesma linha fascista. E no parágrafo 2o estabelece o dever do trabalho.947. encontrada em diversas passagens. recordamos de frases como’viver livre trabalhando ou morrer combatendo’. LIMA. salvo mas ordenava aos escravos ou estrangeiros para que o fizessem. em trabalho de elaboração constitucional. o conceito apresenta uma busca pelo trabalho e por condições que garantam aos cidadãos acesso em um posto de trabalho. somente sob este titulo deveria ser tutelado pelo Estado. com a Ordem Econômica. Nesta linha. Três anos mais tarde.. com base no esboço da Comissão Especial revelado por Evaristo de Moraes Filho. Além disso. 79-96. p. territoriali nei limiti ad essi assegnati dalle norme dello Stato e dalla propria competenza . afirma a respeito do direito ao trabalho que o art. Paolo Biscaretti di Ruffia (Diritto Costituzionale). a moradia. mediante as seguintes diretrizes gerais: I)garantia do direito a cidades sustentáveis. fundiriam -se num só.. Montesquieu proclamava que ‘um homem não é pobre pelo fato de nada possuir. a França. nas vésperas da 2a Grande Guerra e durante a Guerra Civil Espanhola. com base nos seguintes princípios: I) direito ao trabalho que possibilite a existência digna. quando o Parlamento radical ascendeu ao poder. podemos pensar Jesus e seu Pai como a representação do trabalho. Assim era o esboço de previsão constitucional sobre o tema: “Art. o Brasil. quando o projeto de Emenda Constitucional proposto por Émile Frey foi rejeitado por 75% do eleitorado. a Previdência Social e o Sistema Único de Saúde). com o significativo enunciado do parágrafo 1o. em Lion. como serviço à comunidade. Quanto aos outros dois.”19 Para o nosso caso. que reza: “A Itália é uma República Democrática fundada sobre o trabalho”. AMORIM E SOUZA (1985). a Itália e diversas outras Constituições incluem o direito ao trabalho em nível Constitucional. mas sim porque não trabalhe” Mesma linha encontramos o posicionamento de Locke. 21 O Artigo 6° da CF/88. ainda que com um caráter essencialmente programático. “La giuridicitá parrebbe a prima vista piena per quanto riguarda il diritto al lavoro nei limiti in cui questo diritto `e stato riconosciuto nella Costituzione e che questa ha voluto espressamente indicare. n. Cit. em qualquer de suas formas. em 1845. Mas o tema não pode ser abordado de uma maneira simplista. apresentando dimensões que relacionam-se com todo um histórico de lutas por melhores condições sociais e de vida.) A ordem social tem por fim realizar a justiça social. Nas palavras de BARASSI: 3) O Direito ao Trabalho como um Direito Social O ‘Direito ao Trabalho’ é conceito ambíguo18 e indeterminado. dispõe em seu artigo 2o que: “a política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana.). mas a causa da riqueza. da prosperidade do homem e. Questo limiti parrebbe determinare nel “diritto al lavoro” una natura pubblicistica: in quanto a tale diritto corrisponderebbe il dovere per lo Stato.

Ainda nessa linha legislativa. seriam esses objetivos as diretrizes para o legislador infraconstitucional e o intérprete da lei. p. Sendo os objetivos da Ordem Social o bem. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Op. 27 SÜSSEKIND. observamos ainda que o bem. Com efeito. junho/2009 85 . 92-94. conjugado com os objetivos da Ordem Social. 59. a Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migratórios e seus Familiares. a efetivação dos direitos sociais teria seu modus operandi estabelecido constitucionalmente por meio de seu desenvolvimento (fundado na solidariedade social) para se chegar ‘a justiça social. justamente pela possibilidade em se exigir um seguro. No preâmbulo constitucional.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO razões de idade. no PL 4244/04 que busca uma regulamentação dos profissionais do sexo. Cit. sendo a sociedade justa. a solução para essa problemática estaria na classificação dos princípios dada por DWORKIN. MENEZES. É também um ‘valor social’. Artigo 1o da Convenção 122 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 23 SANTOS. livre e solidária um objetivo da República (artigo 3o. ‘a infra-estrutura urbana. que demonstra que o trabalho e a dignidade são valores indissociáveis. Op.. 24 A Constituição da Guatemala de 1945 coloca.. Sociais e Culturais. proteger o desempregado é uma evidência do valor social do trabalho. inc. SANTOS. comentando PERSOLESI. que dispõe sobre a contravenção de vadiagem. 25 Assim. a Convenção sobre os Direitos das Crianças. p. o artigo 6o e 7o da CF/88 e ainda os artigos que trata da Ordem Econômica e Financeira (arts. vide: Artigo 6. da CF/88). não impõe o dever de se garantir emprego para todos. o direito ao trabalho aparece como um direito social no artigo 6o da CF/8821.estar e a justiça social. o ideal seria se a Constituição dispusesse de um artigo que tratasse especificamente dos princípios. o direito ao trabalho enquanto direito social. Segundo SANTOS. o que somente ocorreria com o trabalho. onde a atuação do primado do trabalho na Ordem Social é substrato dos direitos sociais. Capítulo I. bem. ao saneamento ambiental.desemprego. respeitando a dignidade humana. Não menos importante. Cit. III) igualdade de oportunidades na escolha da profissão ou gênero de trabalho. pensemos no seguinte: direito ao trabalho dos indivíduos portadores de deficiências e dos indivíduos soropositivos. 170-192). Pacto dos Direitos Civis e Políticos.. o conceito de justiça social se observa como um dos objetivos da ordem social. 56. em seu artigo 55. Para o autor. A ociosidade é punível”. 90-93. ao trabalho e ao lazer. no Título I. Cit. referia-se ao “emprego integral direito ‘a terra urbana.”20 Nos dias de hoje. notemos que ambos inexistiriam sem o trabalho. enquanto previsto na Constituição. O direito ao trabalho. Op. são alguns dispositivos constitucionais que apontam para o conceito de justiça social: o artigo 1o. da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por sua vez. o artigo 4o no âmbito de suas relações internacionais. 4. 79-96. inc. a condições eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego”. `a livre escolha do trabalho. conforme prevê o artigo 1o. mas diretrizes (objetivos) que a CF/88 quer ver atingidos com a implementação dos direitos sociais. que enumera o rol dos direitos individuais e coletivos.25 Num âmbito internacional.24 Sendo assim. I e IV. se espalha por todos os incisos do artigo 7o da CF/88. o direito ao trabalho é retratado no artigo 23. em seu art. A Constituição italiana. do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. a declaração do trabalho como dever social não implica num reconhecimento da obrigatoriedade do trabalho. diz que o dever de trabalhar é um dever de natureza moral e política. dos Princípios Fundamentais. para as presentes e futuras gerações”. doença ou invalidez.23 Além disso.º. é que existe um entrelaçamento dos direitos sociais com os fundamentos e objetivos fundamentais do Estado Democrático de Direito. e com os princípios que regem as relações do Estado com os membros da comunidade internacional. O que ocorre. Decreto-Lei 3688/41. 59. mas se refere à possibilidade de se exercer licitamente a atividade. Op. que “ o trabalho é um direito do indivíduo e uma obrigação social. mas deve assumir um compromisso de empregar recursos para proporcionar ocupação aos que dela careçam. De outra maneira. IV da CF/88. n.estar e justiça sociais não seriam princípios. ‘a moradia.26 Já a Declaração da Filadélfia. pois não é acompanhada de uma sanção. e também como uma diretriz22 para ordenar o desenvolvimento da política urbana no desenvolvimento das funções sociais da cidade e propriedade urbana.Cit. no tocante ao direito ao trabalho. dá o desfecho ‘a questão social. ao transporte e aos serviços públicos. p. Por outro lado. na forma desejada pelo Constituinte de 1988. 26 Na perspectiva internacional do direito ao trabalho. O primado do trabalho.estar e a justiça aparece como um dos valores supremos de uma sociedade fraterna. E é justamente por tal motivo que não existe um direito subjetivo em se exigir uma prestação na obtenção do emprego. o Pacto de São José da Costa Rica e diversos outros que expressamente tratam do direito ao trabalho. ao lado dos direitos sociais e individuais. o direito ao trabalho não estabelece uma obrigação do Estado em arrumar trabalho para todos os que estejam desocupados.. o Título II. p. inciso I. Artigo 1o da Carta Social Européia. 127-137. quando diz que “toda a pessoa tem direito ao trabalho. Por fim. já mencionando o Preâmbulo acerca dessa questão. na Lei 9956/00 e Lei 9799/99 que proíbe as bombas de auto-serviço nos postos de gasolina. o artigo 3o que enumera os fundamentos da República. p.

28 Assim. o que seria incompatível com o regime democrático de direito. 33 A Carta da Nação Argentina de 1947. junho/2009 . d’un droit subjectif ‘il appartient `a la loi de poser des régles propres `a assurer au mieux le droit pour chacun d’obtenir emploi’.. `a une “mission constitutionnelle de service public”. Cit. direito ao trabalho e pleno emprego são conceitos relacionados entre si. o direito ao trabalho se dirige para todas as pessoas (especialmente ao Estado). No que concerne estas normas internacionais.. Idem.. La recherche du plein emploi correspond donc `a un ‘droit collectif’’. p. principalmente. que tendem a converter o direito ao trabalho na política de pleno emprego. passíveis de serem assegurados pelo Poder Judiciário. uma expressão de justiça. Sendo assim. o direito ao trabalho é uma necessidade social. Na doutrina constitucional. Neste sentido. e proporciona apoio constitucional às normas de fomento ao trabalho.31 Noutra perspectiva. 147. 32 BONNECHERE.. 68. o direito ao trabalho. recordemos de algumas Constituições mencionadas anteriormente. que consignou em partes alguns desses direitos. com um direito a possuir oportunidades de emprego. 28 SANTOS. 79-96.33 De qualquer maneira. que inclui o trabalho como um ‘dever social’ ou ‘obrigação social’. 151-152. Sendo assim. Il ne s’agit pas. condições justas e favoráveis. sendo eles o direito ao trabalho em si.. o Estado só poderia dispor de um posto de trabalho para cada indivíduo em um sistema econômico totalitário e de direção centralizada. G. Op. a causa de todas as conquistas da civilização e o fundamento da prosperidade geral. possuindo caráter jurídico público e obrigando o Estado a preocupar-se. direito ao trabalho. previa o direito de trabalhar. n. MURCIA. não é demais lembrarmos que a Parte XIII do Tratado de Versalhes. 30 VALVERDE.AMORIM. ao abordar do direito ao trabalho. onde: “O trabalho é o meio indispensável para satisfazer as necessidades espirituais e materiais do indivíduo e da comunidade. 29 ARANGO (2001). foi posteriormente ratificada e ampliada na Declaração da Filadélfia.29 Com efeito. que também é outro das normas programáticas. não pode ser interpretado como um direito a determinado posto de trabalho. Responde a um reconhecimento de uma necessidade sentida universalmente. Estas últimas configurariam diretos subjetivos do trabalhador. com a criação de novas oportunidades de trabalho.. b). como também em outras editadas posteriormente. reforça no âmbito do emprego o direito à não discriminação. ainda num sentido constitucional. (1997) p. possuindo caráter jurídico público e obrigando o Estado a preocupar-se (dentro do possível) com a criação das oportunidades de trabalho. Relaciona-se sim. dentro das relações sociais. p. considerando-o com a dignidade que merece e prevendo-se ocupação a quem dele necessite”.27 Com fundamento neste artigo da Declaração dos Direitos Humanos. E sobre o prisma constitucional. 88.30 O texto argentino. à livre escolha do emprego. p. Ver ainda: SIMONSEN (1948). 4. 64. visando acabar com o desemprego e o sub-emprego.d] p. Dans un rapport sur les ‘politiques de l’emploi dans une économie mondialisée (. plenamente. mas é também. e proteção contra o desemprego. l’emploi étant le travail saise dans sa durée. sendo o direito ao trabalho uma referência à aquisição ou conservação de uma ocupação remunerada por parte dos que possuem capacidade de trabalho. o direito humano ao trabalho concebido como direito subjetivo. há que ter um direito de trabalhar. Assim. p. onde: “Le devoir de travailler et le droit d’obtenir un emploi proclamés par le préambule constitutionnel fondent en fait le droit `a l’emploi. GUTIERREZ (1998). o direito ao trabalho aparece como conseqüência de um dever social. sua habilidade e seus conhecimentos e de contribuir para o bem geral” (Item III. 81-88. necessário para poder cumprir esse dever. na Carta das Nações Unidas e na Declaração dos Direitos Humanos.. para todos” (Item III). vincula-se com as realizações práticas dos planos Beveridge e Zipfel. o direito ao trabalho apresenta quatro aspectos diversos. na medida do possível. ao Estado. I. se mostra mais como um direito (que uma obrigação).. p. [s. se dirige à totalidade das pessoas e. de tal forma que é lícito ao cidadão não trabalhar.. e outros das normas de eficácia plena e imediata. selon le Conseil constitutionnel. TALLERIA (1952) p. e a “dar a cada trabalhador uma ocupação na qual ele tenha a satisfação de utilizar. 86 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 31 GRONDA. temos a definição de direito ao trabalho. daí que o direito de trabalhar deve ser protegido pela sociedade.32 Na doutrina espanhola.)”.34 Sendo assim. Mas se existe o dever de trabalhar. 19.

1942). observada a questão da aplicabilidade das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais na Constituição. que determina a relação capital/trabalho.39 AMORIM E SOUZA. conforme os ditames da justiça social. sendo tal realização um absurdo e uma impossível formula dentro de qualquer outra fórmula que comunistas e socialistas tenham proposto.. p. as conclusões da Conferência de Dumbarton Oaks (1944). o tema acaba por vincular-se aos direitos fundamentais.. 42. Manifestando-se veemente contrario ao direito ao trabalho. Coube à Constituição mexicana abrigar. Sendo assim.37 Com efeito. o direito ao trabalho seria um meio e uma conseqüência. baseou-se em dois pilares: a) a idéia da Constituição como instrumento normativo. constituindo-se como uma utopia do comunismo. os direitos devem ser assegurados pelo Estado a fim de se dar eficácia imediata para as normas consagradoras de direito público subjetivo ao trabalhador.. dentre os quais o da ‘redução das desigualdades sociais e regionais’ e a ‘busca do pleno emprego’. 79-96. pela primeira 36 vez numa normatização específica. é o decidido engajamento do Estado brasileiro em um compromisso de realização de democracia social.. de Roosevelt (1941). p. que exige a intervenção do Estado e uma cooperação econômica. a cada passo. No Brasil. ao lado dos direitos individuais. FERREN (1812). cogitar de impor ao Estado tal ônus. Para DALLARI. entendido também falsamente como um direito. figura uma grande e flagrante injustiça. não se torna justo nem razoável que a sociedade responda. 38 No sentido do proletariado como uma força política. Uma das matrizes fundamentais encampadas pelo Constituinte. a matéria pertinente ‘a ordem social e econômica. 14-16.38 Assim. E embora a Declaração de Direitos da França de 1793 não cogitasse direitos sociais específicos para o trabalhador. Cit p. com a decorrência da Constituição Mexicana (proclamando com pioneirismo alguns direitos concernentes aos trabalhadores). ou seja. irmão gêmeo e precursor do direito ao trabalho’. 4. A noção de Constituição Econômica. Prova disso e de ‘ter chamado o direito ao trabalho de direito de assistência. p. 15-16. econômicos e culturais.. Dela partiu a elaboração concebida doutrinariamente como Constituição Social e Econômica. Não podemos encarar o direito ao trabalho apenas como uma representação do combate ao desemprego. p. a dimensão ‘social’ da democracia marcou o primeiro salto na conceituação dos ‘direitos humanos’ e no significado prático da ‘cidadania’. Numa perspectiva diversa. pois isto representa uma visão parcial do problema. A Constituição Francesa de 1848 já previa o direito ao trabalho. ainda que no plano internacional. Idem. Sendo assim. associada com a noção 34 de Constituição Social ou do Trabalho. as conclusões da Conferência de São Francisco (1945). A absorção de tais conceitos e de sua prática constitucional. e não se deve.. p. DALLARI (2001) p. Cit. se pensarmos o conceito de cidadania partindo-se da ótica brasileira de seu desenvolvimento. são atributos constitutivos da pessoa humana. porque é evidente que o Estado também é a comunidade. bem como na enunciação da idéia de governo da atividade econômica. foi a Constituição mexicana de 1917 a que efetivamente armou significativo quadro de direitos sociais do trabalhador. 36 A primeira Constituição que inseriu direitos importantes para os trabalhadores foi a Suíça (1874). o que considera como uma forma vergonhosa de comunismo. 47-49. em conformidade aos princípios. p.. quando não é essa comunidade a imediata destinatária do lucro. a dimensão social do constitucionalismo advém do século XX. e finalmente a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). p. em que pese a atual positivação dos direitos sociais. 35-37. devemos entendê-la como diretamente relacionado ao estudo histórico da evolução constitucional. Op. são marcos da declaração solene de direitos: a Proclamação das Quatro Liberdades. 34-35. indicados nos ‘fundamentos’ da República (tais como cidadania e dignidade da pessoa humana). mas teve curtíssima duração. Para FERRAN. 17.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO entendido como o direito a trabalhar. Ademais. b) a idéia de que o trabalho é tido como expressão maior da dinâmica do homem em sua convivência sociopolítica. sendo que deriva deste fato uma obrigação em se combater a desocupação. Idem. 21-22. p. os passos mais relevantes foram o Tratado de Versalhes e a Constituição de Weimar (que consagrou a denominada democracia social. Revista Internacional de Direito e Cidadania. depois da Revolução de 30 todas as Constituições brasileiras dispuseram sobre direitos dos trabalhadores. a de Weimar e com a Revolução Russa e sua declaração de direitos. o direito ao trabalho é uma injustiça.são os debates que tomam forma em relação ao assunto. junho/2009 87 . e sobretudo nos ‘objetivos fundamentais’.. há quem considere o direito ao trabalho como um atentado contra as noções de justiça. posteriormente emendada em 1896. 35 RUBINSTEIN (1984). por virtude de uma assistência pública. Assim. mesmo que ‘democracia’ fosse compreendida pouco mais tarde). pois cuida da matéria econômica. sendo ainda um dos fundamentos da ordem social. HERKENHOFF (2004). Op. o direito ao trabalho como um atributo daqueles que pensem ser tal direito como uma ajuda aos desvalidos e como um ato humanitário. MELLO (2001) p. 62-63. FERRAN denomina o direito ao trabalho como sendo um direito de trabalhar com os frutos provenientes da propriedade alheia. 37 ROCHA (2001). Assim. 43-59. Para a Constitucionalização dos direitos sociais. o autor trabalha com os marcos da declaração solene de direitos sociais. posteriormente repetidos por muitos dos países da América Latina. 16-17.35 4) O Direito ao Trabalho como um direito fundamental Partindo-se da evolução do constitucionalismo e da conseqüente positivação dos direitos humanos.. que acabou por influenciar o constitucionalismo do século XX. a ‘valorização do trabalho humano’ a fim de se assegurar a todos a existência digna. estabelecendo dispositivos importantes (tais como os parágrafos do artigo 5oda CF/88). determinou que matérias pertinentes ‘a ordem social e econômica fossem integrados nos preceitos constitucionais de diversos Estados. a Constituição procurou assegurar o uso e a defesa dos direitos fundamentais. as conclusões da Conferência de Moscou (1943). a Declaração das Nações Unidas (Washington. n. pelo insucesso (ainda que ocasional) da empresa. SÜSSEKIND. Assim. mesmo..

. nos moldes de que tratou Hegel. vendo ainda uma espécie de reconhecimento de indenização para os proprietários de terra. o autor apresentaros precedentes de tais debates através do informe redigido por Beveridge. 79-96. Considerant. Dado que a relação de conflito entre o direito ao trabalho e a liberdade de trabalhar consistira. I. recorre novamente a idéia de necessária legitimação da propriedade privada pelo trabalho. coincidindo com a troca fundamental que se produze na concepção e valorização do trabalho. Com isso. representado sobretudo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. pois permite a pessoa humana desenvolver-se em todas as suas dimensões. a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão. Proudhon pensa o direito ao trabalho como uma serie de defeitos a fim de justificar uma posição contraria a seu reconhecimento. Fourier tem sido considerado o precursor do direito ao trabalho. incluindo os avanços e retrocessos em relação a cidadania. (1996) p. 63-107. Ademais. assinalou pontos de referencia em relação aos direitos fundamentais.. Considerant. 88 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Proudhon e Blanc resultam como chaves para o tema em questão. além de reivindicações essenciais aos seres humanos em geral ou de determinado Estado. passando a ser objeto de reconhecimento também. a denominação de direitos fundamentais sociais encontra sua razão na circunstância. Os direitos humanos e os direitos fundamentais compartilham de uma fundamentalidade (ao menos no aspecto material). Trata-se de assim de um direito à existência e um direito ao domínio. organizando a sociedade de maneira mais propicia para o trabalho. a primeira das confrontações entre liberais e socialistas. com efeito. de 1791. A argumentação do discípulo de Fourier. p. John Locke. p. Idem. Assim. SOBREVILLA (1960). convém destacar que embriões do instrumento normativo ao direito ao trabalho recai sobre o Edito de Turgot de 1776 e da Lei Chapelier.40 Apresentada algumas considerações sobre os diversos entendimentos acerca do direito ao trabalho. do espírito e suas potencias. p. a missão do Estado enquanto guardião do bem comum é o de estabelecer instituições favoráveis ao desenvolvimento da coletividade. No mesmo século. Para o autor. o direito ao trabalho é um direito social fundamental. temos que são eles construções integradas ao patrimônio comum da humanidade. A partir de tal momento. pois a pessoa humana ser inteligente. se constitui enquanto extensão destes debates o que Fichte utiliza de argumentos parecidos com os colocados por Locke e pelos revolucionários franceses do século XVIII. 43 SARLET (1999). do criador e da criatura. Sendo assim. porque se trata de um direito natural derivado de outros direitos naturais primários. enquanto principio do valor e da propriedade. Em resumo. tanto socialistas como republicanos moderados coincidem em colocar o direito a vida como principio que legitima os direitos sociais. pertinentes são as palavras de SASTRE-IBARRECHE sobre todo o desenvolvimento em relação ao tema. o direito ao trabalho é um direito próprio da pessoa humana.41 Ainda no que se refere aos longos debates doutrinários em relação ao tema. de que todos consideram o ser humano na sua concreta situação na ordem social. de 1948. E enquanto tal. 1934. Sendo assim. MUÑUZ (1962). 23-32. comum aos direitos sociais de defesa e aos direitos sociais prestacionais.. nomes como o de Fourier. 1946 e na atual. não cabe ao Estado procurar diretamente trabalho para todos os desocupados conforme entendem alguns. na seara internacional. pois ambos se referem ao reconhecimento e proteção de certos valores e bens jurídicos. de 1793.42 No tocante aos direitos fundamentais. junho/2009 . tem-se que tal direito se encontra enraizado no próprio direito de viver. ainda que entendam diferentemente a forma de compreensão da vida e do trabalho. o direito natural ao trabalho deve ser situado depois do direito a vida. Por isso que. tal direito ao trabalho manifestase como primeiro direito social historicamente reivindicado e de elemento em torno do qual se desencadeia um importante debate entre o pensamento liberal e socialista.. eis que a pessoa humana dependeria completamente do Estado. em uma sistemática dos direitos naturais. p. Nesta questão. Sobre tais precedentes. o que somente seria possível com um Estado totalitário. que é contrário a liberdade. p. com efeito. a existência de um direito ao trabalho e de um direito de assistência. entende o tema como sendo um principio geral de que o trabalho não é apenas um dever como uma afirmação teológica e filosófica. n. embora diretamente relacionado com o princípio da dignidade da pessoa humana. Ou ainda. tais idéias são retomadas por Montesquieu e Rousseau. qualificando como indigno condenar o trabalhador para sempre ao trabalho. não se pode Devemos pensar com isso nas Constituições outorgadas (de 1824. 1937 e 1967) e nas promulgadas (de 1891. porque se obrigará ao Estado a procurar obrigatoriamente trabalho a seus membros com uma ingerência absoluta. Nesta linha do direito ao trabalho como parte integrante dos direitos humanos. 129-130. que se apóiam em ordem ontológicas e anteriores a humanidade. de 1988).43 Conforme GOMES. 41 Com efeito. tais como o direito a conservação da vida. 53-64. para deduzir sobre a base de um direito a propriedade privada que sustenta a propriedade adquirida pelo trabalho. do direito a propriedade.AMORIM. ao matrimonio. G. o direito ao trabalho se reconhece enquanto extremamente importante a partir de 1848. E em sua vinculação com o Estado.. 42 Assim. 4. 40 Dentro desta ótica. Em resumo. o direito ao trabalho fundamenta sua naturalidade em ser o trabalho uma integração vital do homem e da natureza. fomentando a criação de fontes de trabalho e impulsionando as que já existam. existe autores que entendem a temática como um direito natural. SASTRE-IBARRECHE. se realiza mediante o trabalho. o direito ao acesso a propriedade e o direito a instituição da família. 24-30. livre e responsável. o que inclui o desenvolvimento do constitucionalismo brasileiro que acabou por culminar nas normas de proteção e valorização do trabalho. formula uma das primeiras reivindicações modernas em relação ao tema. Em contrario. SASTRE-IBARRECHE situa o direito ao trabalho a partir do último terço do século XVIII. resultantes do processo de constitucionalização (iniciado no final do século XVIII) dos denominados direitos naturais do homem. a família e a sucessão. o direito ao trabalho trata-se de um direito natural como conseqüência de um dever que está em 39 função do fundamento que se denota a este dever. o direito natural ao trabalho apóia sua derivação em outros direitos naturais.

a remuneração auferida em contraprestação ao trabalho. In. O trabalho permite a superação de algumas contingências sociais. 48. 67. o valor trabalho vincula-se com as demais dimensões dos direitos sociais. CF) revela-nos que todas elas estão relacionadas ‘a capacidade laborativa dos que vivem do próprio trabalho (ou de familiares ou dependentes). Ver: SARLET (2006) p.44 Não obstante. A Proteção dos Direitos Humanos Sociais nas Nações Unidas. 291-335. exercer o trabalho é um critério básico de admissão ao sistema previdenciário. Ademais. na Constituição de 1937.45 5) Direito (Fundamental) ao Trabalho (Digno)46 A Doutrina Social da Igreja. pois visa proteger o trabalhador e seus dependentes. Enquanto tal. 61.. etc. na comemoração dos noventa anos da Encíclica. Assim. p. a proteção é limitada sub- jetivamente. lembremo-nos que a possibilidade de um seguro-desemprego reconhece a impossibilidade fática em não se garantir um posto de trabalho para todos os cidadãos. pois através dele que se vai obter a seguridade social e. n. Quanto ao assunto. Por outro lado.: GOMES. 49 O critério essencial de filiação prévia ao sistema previdenciário consiste no exercício do trabalho. 48 Idem. No que concerne a dignidade da pessoa humana enquanto um valor e um conceito constitucional. 201. p. pois somente por meio do trabalho é que se pode efetivar sua realização como pessoa e contribuir com o progresso dos demais integrantes do grupo social.. e por meio de proteção e manutenção do equilíbrio de forças no âmbito das relações de trabalho. desde a Encíclica Rerum Novarum contribuiu para a compreensão dos direitos sociais. Cit. 46 Numa perspectiva filosófica do direito fundamental ao trabalho digno. p. O trabalho. A finalidade do trabalho é a dignidade humana. com isto. uma filiação facultativa implica numa exceção. 86-87. ver: ASHCAR [s. dá ao trabalhador condição econômica de participar do custeio das prestações que irão protegê-lo. ilustrado. ver densa obra de: BARTOLOMEI (1987). b) a viabilidade econômica do sistema. é o direito ao trabalho um direito fundamental. 47 SANTOS. E neste linha. Há que observar ainda o caráter necessariamente relativo da proibição de retrocesso nos direitos sociais. p. já que se presume que o trabalhador pode contribuir. pela irredutibilidade salarial. 79-96. e subjetivo.d]. não existindo um critério pelo qual se opere tal limitação. 4. Op. Existe o entendimento de que o conceito de trabalho fora incorporada ao Direito Social brasileiro. por meio de prestações materiais e normativas. recaindo sobre o princípio da dignidade da pessoa humana. Por outro lado. vide: DELGADO (2006). conferindo uma dignidade ao trabalho. o trabalho também auxilia no sustento das políticas de seguridade social. com base na Doutrina de Leão XIII. deve-se assegurar uma condição de vida digna aos trabalhadores e nos locais objetivando a garantia de uma igualdade e liberdade material. o Papa João Paulo II editou a Carta Encíclica Laborem Exercens. que trata do trabalho humano. a Doutrina Social da Igreja aponta o trabalho nos sentidos objetivo (em que a submissão da terra se dá no trabalho e mediante o trabalho do homem).49 Sendo assim. Tal sistema visa atender duas necessidades: a) conservação e criação de condições favoráveis para o trabalho e. com o trabalho é que se concretizaria a dignidade da pessoa humana. Mas recordemo-nos que o artigo 193 da CF/88 estabelece que o trabalho é a base da ordem social. 44 GOMES (2008). Pio XI demonstrou a preocupação da Igreja com a questão social. Op. p. Cit. Sendo assim. dentre outros aspectos.47 Com efeito. Sua não superação envolve ações positivas assistenciais do Estado para ensejar uma condição de vida digna aos que não trabalham. Revista Internacional de Direito e Cidadania. 45 MELLO. p. Idem. Também. o direito ‘a saúde. e não um posto de trabalho em si). da previdência social por exemplo. Celso de. Quarenta anos depois. No que se refere ‘as contingências (art. Tal Encíclica valorizou o trabalho e o homem. Por sua vez.48 No âmbito do direito positivo. 149... com a Encíclica Quadragésimo Anno (1931). pois é enquanto pessoa que o homem é sujeito do trabalho. 84-87. Nesse sentido.. 139. o Estado deve promover políticas que assegurem o pleno emprego e a liberdade de escolha de um trabalho digno (nesta perspectiva poderíamos relevar muitas das leis que protegem a saúde e segurança do trabalhador. A questão social descrita na primeira das Encíclicas retrata a história dos direitos sociais como a luta contra a miséria do operariado.. o valor trabalho permeia toda a estrutura da ‘Constituição Cidadã’.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO reduzir a dignidade humana ‘a noção de trabalho sob a pena de se considerar menos digna a pessoa que não trabalha. previdência. junho/2009 89 .

4. devemos levar em consideração também as inúmeras normas regulamentadoras (NR). mesmo que por via reflexa. recordemo-nos também da Convenção de n. notemos que o legislador outorgou ao Ministério do Trabalho (conforme orientação do Art. Não obstante. CANOTILHO aponta para as técnicas de positivação constitucional dos direitos econômicos.“ Nesta linha. recuperação e proteção da saúde. a regulamentação das questões concernentes à segurança e saúde do trabalhador. A manutenção dos mínimos de condições de vida ao trabalhador é o que se busca cumprir com o sistema previdenciário. artificial. até a eliminação do risco”.. Assim.. 90 Revista Internacional de Direito e Cidadania. além de outras atribuições. por sua vez. sobre as técnicas de positivação e natureza das normas da Constituição. sendo ela feita tanto por constituintes espanhóis como portugueses. Sendo assim. p. atributivas de competências para a emanação de medidas para esses planos. XXII CF/88. sem prejuízo dos salários. muitas delas acessíveis no site do Ministério do Trabalho. ou ainda os artigos constantes da CLT sobre a proteção do trabalhador. entre outros (. inc. 148 da OIT. temos o Artigo 3o da Lei 8080/90. ou seja. que: “A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes. 52 Acerca da saúde. e d) positivação dos direitos sociais como direitos subjetivos públicos. 54 A positivação se daria das seguintes formas: a) sob a forma de normas programáticas definidoras de fins e tarefas do Estado. ainda que ede maneira breve. conforme o conjunto de regras e normas que integram toda a dogmática jurídica. da Constituição Paulista que: “Em condições de risco grave ou iminente no local de trabalho. CANOTILHO (2008). 79-96.. o meio ambiente. sendo a eficácia encarada como uma potencialidade (possibilidade em se gerar efeitos jurídicos). PULINO (2001). a problemática recai sobre as maneiras de interpretação do conteúdo e natureza das normas constitucionais (o que incide sobre a efetividade e aplicabilidade.. n. Mas numa ótica da legislação brasileira.54 Nesta perspectiva. parágrafo 2º. junho/2009 . MORO observa que o Constituinte fez a opção no sentido de outorgar aos direitos sociais o caráter de fundamentais. cumpre ressaltar que eficácia e aplicabilidade são fenômenos conexos. seguindo tendência no plano internacional. I. instruções normativas e demais garantias de melhores condições de saúde e segurança no meio ambiente do trabalho.) VIII) colaborar na proteção do meio ambiente. sem prejuízo de quaisquer direitos. ou eficácia). de conteúdo social. como também a condições de vida e a um meio ambiente equilibrado”53.51 Não por mera coincidência. p. em contraposição ao mecanismo assistencial de garantias a quaisquer cidadãos. a Constituição do Estado de São Paulo prevê a possibilidade de se interromper as atividades. Lembremos. razão pela qual eficácia e aplicabilidade podem ser vistas dentro de uma assim.55 Ao tratar do problema dos Direitos Fundamentais Sociais na CF/88.. e a aplicabilidade.)”.. cultural e do trabalho. 50 A doutrina classifica o meio ambiente previsto no artigo 225 da CF/88 como sendo: natural.. nos termos da lei: (. observamos que as maiores críticas que incidem sobre o debate acerca do conteúdo normativo constitucional referem-se. o seguinte: Art. 37-38. “Ao sistema único de saúde compete. (. 200 da CLT). p. Em recente obra. E dentro do conceito de meio ambiente.).52 Ao referir a promoção. e de outra maneira. b) na qualidade de normas de organização. seguindo diretrizes internacionais. neste sentido. como se vê no Pacto sobre Direitos Econômicos. 200. prevê o Artigo 229. 124. 53 WEICHERT (2004).. havendo com isso 32 normas regulamentadoras neste sentido. Sociais 6) Eficácia e Aplicabilidade do Direito ao Trabalho Primeiramente. resulta importante para a superação das contingências sociais. Art. quando os trabalhadores estiverem em condições de risco nos locais de trabalho. de trabalho. nele compreendido o do trabalho. vincula-se com a realizabilidade. no tocante aos direitos dos trabalhadores. ao menosalgumas delas. o trabalho. também pode ser analisada partindo-se de algumas técnicas positivação dos direitos econômicos. e diversas outras Convenções da OIT que visa proteger a saúde e dar mais segurança ao trabalhador. sociais e culturais.. p. sociais e culturais sustentando que as técnicas de positivação desses direitos a prestações constitui uma ‘eleição racional’ de ‘enunciados semânticos’ ou ‘ditos constitucionais’. a Constituição adota o conceito amplo de saúde. como direitos inerentes a existência do cidadão. insere-se o conceito de meio ambiente do trabalho. c)através da consagração constitucional de garantias institucionais. tal como se dá na saúde por exemplo. CF/88. 36-50. dentro desta compreensão do meio ambiente nele incluímos o do trabalho. que dispõe do meio ambiente do trabalho. A Constituição por exemplo. “reconhecendo não só a perspectiva de pretensão a um corpo e uma mente sem doenças. mesma ótica. 7o. será lícito ao empregado interromper suas atividades. 51 Trata-se da denominada ‘greve ambiental’. expressamente contidas e dispostas em legislação infraconstitucional.AMORIM.Sobre esta questão. G. o artigo 3o da Lei 8080/90 aponta o trabalho (dentre outros) como fator determinante e condicionante da saúde. prevê a existência de um meio ambiente do trabalho50. Destarte. uma vez que apenas norma vigente será eficaz por ser aplicável e na medida de sua aplicabilidade.

57 BARROSO (2008). 498. 7-8. Manual de Direito Constitucional. 4. além do Estado passou-se a cogitar também a possibilidade de aplicação no âmbito privado. 60 GOMES. o dever de trabalhar assume uma dimensão ética. A oposição é agravada pela questão institucional quando a guarda dos direitos fundamentais é atribuída a órgãos independentes da maioria política.58 Sendo assim. como é o nosso caso. os direitos sociais são comumente identificados como aqueles que envolvem prestações positivas por parte do Estado. não podendo o Estado impedir ou impor determinada atividade sob o pretexto da realização do direito ao trabalho. assume igual importância a questão institucional da proteção e efetivação dos direito fundamental. No que concerne ‘a ‘judiciabilidade’ dos Direitos Fundamentais Sociais.57 Nesta doutrina da efetividade.. Contratual ou de Controle (‘controlabilidade’ das ações governamentais). p. tais direitos subjetivos (políticos. BARROSO. a ponderação de princípios. individuais. o autor utiliza-se de uma metodologia positivista (eis que Direito Constitucional é norma).. Tal noção recai pois. GOMES. pode ela estar atuando como trabalhador autônomo ou subordinado. 2)existindo lei (direitos sociais).. Cit. Cit.56 Na perspectiva teórica da doutrina brasileira que reconhece a efetividade e força normativa da Constituição. tais como a educação e a saúde. as ações coletivas são o meio mais adequado para uma avaliação de política pública destinada a proteção e efetivação dos direitos sociais fundamentais. esteja ela sem qualquer ocupação imediata. pois ‘se está na Constituição é para ser cumprido’. Dessa forma.62 Algumas dessas críticas... Pragmática. Não obstante. J. os direitos fundamentais sociais (além de merecida qualificação) são passíveis de proteção e efetivação judicial. ressalta-se que a Constituição de 1988 não explicitou um dever fundamental de trabalhar. 223-224. além da efetividade do direito. são dotadas de um atributo de imperatividade.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO e Culturais por exemplo. Apud: GOMES. mínimo existencial e fundamentalidade material dos direitos. No entanto. p. sociais ou difusos). também referidos como prestacionais. os direitos constitucionais. NIPPERDAY Revista Internacional de Direito e Cidadania. independentemente da maioria política. Sobre esta possibilidade. 56 Duas opções: a) limitar ‘a esfera política as conseqüências da atribuição a um direito de caráter fundamental. comportando tutela judicial específica. Embora pareça contraditório se falar em direitos fundamentais destituídos de proteção institucional contra a maioria política. com amplas perspectivas de atuação do Judiciário. Op. Em conclusão. se exige do juiz constitucional a consideração de tais estruturas como relacionadas aos direitos fundamentais. Quanto ao destinatário. um direito subjetivo”. 58 Idem. ressalta o autor acerca dos questionamentos em relação ‘a capacidade e legitimidade em se tutelar judicialmente os direitos sociais. 269-292. a CF/88 optou pela jurisdição constitucional adotando um sistema de controle de constitucionalidade que mesclou características do modelo norte. e os direitos sociais em particular. Particularista (‘não fundamentabilidade’). p. as teorias são divergentes (Vieira de Andrade. 117. p. sob uma perspectiva pós positivista de análise. em realidade. por um lado. MORO (2006). Op. Com isso. Em relação a atuação judicial em prol dos direitos fundamentais sociais. estas normas jurídicas (como as normas em geral). O direito ao trabalho não pode concretizar-se contra a liberdade de trabalho e profissão.americano e do modelo europeu. Com efeito. 59 Reconhece-se a necessidade em se elaborar novas formulações doutrinárias de base pós-positivista. motivo pelo qual demandariam investimentos de recursos nem sempre disponíveis. Neste aspecto. Funcional ou Ideológica. 55 materializam-se com a entrega de determinadas utilidades concretas. onde não se pode constranger alguém a trabalhar.59 Dependendo das circunstâncias do caso concreto. e de um critério formal para estabelecer a exigibilidade de determinados direitos. p. b) atribuir ‘a instituição o poder de garantidor de direito fundamental. de reconhecimento de força normativa das normas constitucionais. uma vinculação semântica necessária entre fundamentalidade e jurisdição constitucional. ou objeções ao problema da fundamentalidade material dos direitos sociais. Cit. p. 89. ao seu lado. junho/2009 91 . p. Trata-se de uma opção política que se fundamenta na oposição entre democracia e direitos fundamentais. é passível a efetivação judicial. são de caráter: Deontológica. a norma materializada a partir de um único enunciado formalizador do direito ao trabalho poderá assumir o caráter tanto de princípios como o de regras. 120. é o titular do direito ao trabalho a pessoa humana.. como é o caso da jurisdição constitucional. 223-224. Tomo IV. 62 O conceito de titularidade congrega ainda a capacidade para o seu exercício. In: MIRANDA. Assim. 61 Idem. e Formal-positivista. n..60 Ao trabalhar partindo-se das dimensões objetivas e subjetivas do direito ao trabalho.. Majoritária ou Democrática. que abrigue debates como: a colisão entre normas.61 Entrementes. p. são exigíveis do Poder Público por via de ações constitucionais e infraconstitucionais. Sendo assim. Op.. não há. “nem toda a obrigação jurídica decorrente de uma norma jurídica terá. Institucional (‘não justiciabilidade’). Estes direitos. De toda sorte. Cit. Op. 79-96. a jurisdição constitucional representa garantia institucional superior ao direito fundamental. nos países em que não se pode exigir do Estado um posto de trabalho. converteram-se em direitos subjetivos em sentido pleno. 221-222. p. existem basicamente duas perspectivas: 1) no tocante ‘a inexistência de lei. que poderá com o trabalho superar suas as contingências sociais. pode-se entender a tarefa atribuída ao Judiciário de proteção e efetivação dos direitos fundamentais sociais. p. Sendo a pessoa humana tal titular.

mas não por isso significaria (ou representaria) alguma dificuldade em seu caráter vinculante.IBARRECHE. Op. ao tratar dos direitos de defesa e dos direitos prestacionais. ou seja. por sua vez. constituindo-se portanto como um direito fundamental e não meras normas programa. 4. prosseguindo. se vincula com a existência (ou não) de uma relação jurídica base. sustenta que o Estado Social de Direito não tem conseguido introduzir mecanismos capazes de assegurar uma satisfação dos direitos sociais. Nestas análises. observa-se que estes incidem sobre os parágrafos do artigo 5o da Constituição Federal de 1988. numa normativa constitucional no campo da autonomia privada (eficácia horizontal dos direitos fundamentais). No caso de direitos prestacionais em sentido estrito (ou direitos sociais). não significa que seriam simples proposições pragmáticas. num importante setor em que FORSTHOFF encabeçava. Assim. p. abstratas. adverte o autor que ponto de vista similar nos conduziria à uma concepção absolutista em demasia e rigorista dos direitos sociais e. o caráter principal das normas que constituem as disposições fundamentais adquire maior notoriedade. Op. e o destinatário jurídico implícito será sempre o Estado quanto ao seu dever de guardar este direito fundamental. se faz importante as ressalvas acerca do mínimo existencial em relação aos direitos sociais e acerca da proibição de retrocesso social e reserva do possível. direitos sociais.65 Destarte. assim. Em torno da idéia de regulação e interpretação dos direitos fundamentais gira a teoria defendida por RODRIGUEZ. aponta o direito ao trabalho como uma medida de fomento de emprego e ideal de que cada pessoa possa garantir e gozar de um trabalho adequado e seguro. acredita que a opinião dominante em torno da questão é a que considera que as normas constitucionais que recolhem ou enunciam direitos fundamentais em geral (e quiçá os direitos sociais prestacionais. A identificação do destinatário. Assim. indeterminadas e elásticas. se podendo extrair um componente jurídico. n. p. teriam a estrutura característica dos princípios. existe ainda entendimentos que interpretam os direitos fundamentais (inclusive os direitos sociais) como regras. G. por outro). como demandas cuja satisfação possa ser exigida perante órgão competente. pois não se pode estender a Constituição do Estado de Direito até a garantia de previsão de existência. as correntes brasileiras que pensam sobre o tema demonstram que ao Estado cabe um duplo papel. Estes direitos. tal como o direito ao trabalho. apresenta o caráter difuso do conceito. 79-96. junho/2009 . Para CLEVE. dentre as normas constitucionais. em especial). 65 Partindo de uma perspectiva da Constituição Espanhola. permitiriam fundar pretensões concretas via interpretação. o autor parte de que não há nada nos direitos sociais que os impeça de considerá-los fonte de deveres tanto para os poderes públicos como para os particulares (cidadãos). CLEVE (2003). sustenta que embora os direitos sociais não desfrutem de aplicabilidade imediata e possibilidade de ser justiciável. em geral. os direitos sociais não seriam tipos de formulações aptos para fundamentar direitos e deveres concretos. 63 RAMIREZ (2000). p. Encontram-se ainda no artigo 6o da CF/88 direitos prestacionais originários (aplicáveis mesmo sem norma regulamentadora) e direitos prestacionais derivados.63 Buscando superar alguns dos debates brevemente expostos. Não obstante. Ao destacar SASTRE. Idem. I. mas regras que. ainda que imprecisas. e outras devem ser discipli- e CANARIS. CASCAJO. Tais teses conduzem PECES. Nesta linha.. esta temática nos conduziria ‘a uma colisão entre direitos sociais e direitos de liberdade. o direito ao trabalho não atribui a seus titulares a habilitação constitucional de obter a qualquer momento um posto de trabalho adequado. recorda o que ALEXY denomina de ‘justiciabilidade deficiente’. RAMÍREZ sustenta não ser possível a derivação de regras com um conteúdo definitivo por três razões: a) a indeterminação e ambigüidade das normas jusfundamentais que regulam constitucionalmente o direito ao trabalho: que partindo de SASTRE. abster-se (por um lado).. Deles derivam deveres jurídicos. Cit. as normas materiais da Constituição seriam em geral esquemáticas. sendo que os elementos que compõe a estrutura do direito ao trabalho (sujeito ativo e passivo.AMORIM. Cit. Estes ‘direitos propriamente ditos’ não seriam princípios abertos. 147-170. como o direito ao trabalho. coloca a necessidade em se superar a tese de que a incompatibilidade de aplicação imediata dos direitos sociais constitucionais vem de sua própria indeterminação (época de Weimar). Assim. Sendo assim. podem algumas possuir plena e imediata eficácia. No caso de uma relação jurídica abstrata. PRIETO menciona que haveria uma modalidade de direitos prestacionais denominados de “direitos propriamente ditos” que apresentam a fisionomia de direitos. pois: 1) nem o Estado e nem o sistema econômico compreendem o número suficiente de postos de trabalho para assegurar emprego para todos. podendo-se também aplicar ao direito ao trabalho. GOMES. Nessa linha. cujo debate recai na distinção de ALEXY de conteúdo máximo e mínimo dos direitos sociais fundamentais. Com efeito. defende o autor um caráter alimentar do salário. possuem um conteúdo geral que não pode (na maioria das vezes). o direito ao trabalho fora incluído no título adequado. os direitos sociais não podem ser protegidos como pretensões justiciáveis. Nestes termos. 17-29. dos direitos fundamentais. vincula-se o artigo 6o com os direitos fundamentais em suas dimensões objetiva e subjetiva e. RAMÍREZ aponta que (frente ao debate acerca da aplicabilidade das normas constitucionais).objetivos. b) outra razão é a impossibilidade fática e jurídica do cumprimento do conteúdo máximo. Ademais.IBARRECHE. objeto e garantias de efetividade) ficam afetados pela difusão conceitual. por sua vez. No mais. BOCKENFORDE.BARBA a considerar que o direito ao trabalho (entendido como o direito de reclamar 92 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Este tema se converteu numa dogmática constitucional alemã do pós guerra. FERRAJOLI. Nesse sentido. PRIETO contribui para a superação do positivismo teórico que considerava a impossibilidade em se falar em verdadeiras normas. sustentando a não constitucionalização dos direitos sociais.TOUBES. 64 RAMÍREZ. se deduzir pretensões jurídicas concretas (tarefa via Legislativo). Com isso. a indeterminação do conteúdo de muitos dos direitos fundamentais (assim como a necessidade de ponderação) atuam como fundamentos para determinar que as normas de direito fundamental têm caráter de princípio. com isso passível de uma prisão civil. não se podem captar em uma norma abstrata suscetível de interpretação. Mas acerca deste primeiro item. onde falta um suposto fato ou uma conseqüência jurídica perfeitamente delimitada. em certo sentido.64 Partindo do debate de ALEXY acerca da distinção entre regras e princípios. e 2) num plano normativo. o Estado de Direito e Estado Social não são compatíveis (num plano constitucional).subjetivo. vez que a ‘Constituição não é um supermercado onde se possam satisfazer todos os desejos’. não haverá um direito subjetivo de demandar em juízo. ainda. e por outro agir para promover as iniciativas dirigidas ‘a promoção de tais direitos. bem como os pressupostos para seu exercício. Neste aspecto. Nesta linha.

que só vai ser preservada onde os direitos sociais e individuais também são preservados. que é aplicável aos primeiros. Com isso.. Um complexo de posições jusfundamentais. o referido artigo está indicando que há uma série de bens jurídicos a serem tutelados. Válido é mencionar ainda que o artigo 157 da Constituição de 1967. se baseava em princípios. 70 CORREIA toma como base o estudo da segurança social. em que parte da doutrina e jurisprudência defendem que o conteúdo prestacional realizável do direito ao trabalho teria um caráter débil ou diluído. 263-264. com base nos princípios mencionados anteriormente. Portanto. Assim. p. em consonância com os casos concretos. e pelo princípio consagrado desde o Tratado de Versalhes. em virtude dos quais a liberdade de iniciativa (cujos freios são as exigências da função social da propriedade e a necessidade de valorização do trabalho em defesa da dignidade humana). condicionam as demais normas constitucionais e infraconstitucionais.66 Para CANOTILHO. II). previstas ou possibilitadas ao sistema constitucional. 94. uma obrigação ‘prima face’ garantida por normas não vinculantes”. com o fim de realizar a justiça social. sendo aspecto um autêntico direito subjetivo.relacional. as normas de direitos sociais do artigo 6o da CF/88 são tidas como aquelas cujo objetivo visado é o propiciamento aos indivíduos de redução de desigualdade social e efetiva liberdade material. CORREIA. sem ceder a pressões de natureza fática e de contingência. os princípios relativos `a ordem econômica e social. em prol da justiça social. A. exceto algumas especificações.. e a estes aplicam-se a metodologia de dicção e interpretação do direito. necessidade de organizações e procedimentos. 268. devido sua natureza principiológica. 69 RAMIREZ. Op. pretendeu demonstrar que um mesmo dispositivo normativo pode gerar normas diversas (com estrutura deôntica de direitos prestacionais e direitos de defesa). corrobora com a teoria desenvolvida por Alexy. Mas não é pelo fato de referir-se a um direito ao trabalho que se pode extrair a conseqüência de que o particular possa reclamar judicialmente um emprego. 2) o fato de que o direito dos presos ‘a um trabalho remunerado está protegido como regra e não como mandato de otimização (artigo 25. n. uma última razão recai sobre o caráter reflexo do conteúdo das posições subjetivas prestacionais do direito ao trabalho. p. que podem funcionar autonomamente. os quais representam os fundamentos básicos para a realização dos postulados da justiça social e da ordem econômica. E estas normas programáticas possuem natureza principiológica. geram dever de proteção do Estado com relação aos bens jurídicos por elas tutelados.. 71 Partindo-se dos direitos fundamentais enquanto normas programáticas. Neste sentido. conseqüência da sua dimensão objetiva.CIDADANIA E DIREITO AO TRABALHO nadas por lei ordinária. Este texto foi parcialmente modificado pela Emenda Constitucional de 1969.. 68 GOMES. proclamam um ideal de coisas a ser atingido. a dinâmica de interpretação será aquela que tem por escopo a unidade políticoconstitucional dentro desse sistema. onde o trabalho não pode ser considerado artigo de comércio. p. investem o titular numa gama de posições jusfundamentais. Mas ambas devem ser iluminadas por princípios consagrados. SÜSSEKIND. p. em face deste direito. Assim.68 Assim.70 As normas de direitos fundamentais são.. (2008) p.executável ou mesmo programática. e constituindo-se como uma norma de princípio (mandato de otimização) e não como uma regra. c) por fim. A norma jurídica possui caráter prescritivo. Nesta linha. 66 Auto. Desse modo. embora o legislador utilize uma linguagem descritiva. valores que devem guiar a interpretação da Constituição. cuja abolição acabaria por destruir a própria identidade da ordem constitucional. E dessa irradiação. no sentido de que deveria o Estado fornecer condições materiais para que tal direito fosse exercido. no entanto. 45-51. Cit. que (após análise da estrutura deôntica das normas) conclui que elas encerram num feixe de posições jusfundamentais. no sentido de uma maximização de resultados. qualquer princípio constitucional é um mandamento vinculante em suas relações concretas. Sendo assim. de modo que ele pode assumir uma exigência ou uma abstenção do Estado. ao lado dos direitos individuais fundamentais existem os direitos fundamentais sociais. apenas os presos são legitimados a propor e reclamar ante a jurisdição ordinária tal pretensão. ao instituírem estes bens. prescrevendo em seu artigo 160. portanto cláusulas pétreas. direito. o que se está fazendo é positivando um direito fundamental como subjetivo. resume-se da seguinte maneira: têm elas função de princípios. os enunciados do artigo 6o da CF/88 possuem densidade normativa vinculado ao princípio da dignidade da pessoa humana. 79-96. RAMÍREZ então apresenta duas possibilidades de se inscrever o direito ao trabalho normas com a estrutura de regras: 1) naquilo que ALEXY denomina de direitos sociais mínimos e. junho/2009 93 .71 um posto de trabalho) não pode ser positivado pelo fato de não ser. no sentido de que haveria. e ações negativas. constituem sentido teleológico. Tais princípios seriam entendidos como mandato de otimização. relativamente aos princípios. acrescido de um sexto inciso. A esses princípios cabe o comando da integração das normas enunciadas. Cit. legitimada pelo princípio da proteção. dispôs que a ordem econômica. 4. dentre os quais o da “valorização do trabalho humano como condição da dignidade humana” (inc. fundamentam: a intervenção básica do Estado nas relações de trabalho. Com isso. constituem-se como mandados de otimização. surge direitos subjetivos para os particulares (uns perante os outros). realmente. constituindo-se como valores basilares do Estado Social e Democrático de Direito e. Tais normas. MEIRELES (2008). 95. 460-469.67 É ainda um direito social fundamental. assim. o direito ao trabalho seria (em partes) a realização do pleno emprego e sua política. que a ordem econômica e social teria por fim realizar o desenvolvimento nacional e a justiça social. 67 CANOTILHO. p. Dos efeitos reconhecidos ‘as normas programáticas. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Idem.69 Mas o problema básico que se observa é o de força normativa da Constituição. as normas que protegem o direito ao trabalho. 57. OLSEN (2008). SARLET(2007). um dever nãorelacional do Estado. p. Nesta linha. vez que. II da Constituição Espanhola). Cit. Op. regras e princípios. p. tratar-se-ia de “uma obrigação não. IV). que previa como princípio a “expansão das oportunidades de emprego produtivo”. atuam como parâmetro do direito objetivo. a interpretação deve-se fazer via perspectiva onde os direitos sociais são fundamentais. apenas cabe qualificar como princípios (no sentido de mandatos de otimização) e não como regras. e da “harmonia e solidariedade entre os fatores de produção” (inc. 320. irradiam efeitos para as relações privadas. uma vez localizados os direitos sociais e colocados como direitos fundamentais. Op. No tocante ao artigo 6o da CF/88...

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Thus. Mestre em Direito pela PUC/RS. junho/2009 97 . Para tanto. 4. além do estado atual da produção biotécnológica.. Alimentos geneticamente modificados. whether negatively or positively. Combate à fome. seja negativa ou positivamente. Palavras-chave: Direitos Humanos. 97-107. Keywords: Human rights. e discutir em que medida os alimentos geneticamente modificados afetam o combate à fome no mundo. and to discuss the extent in which genetically modified food affects the fight against hunger in the world. n. p. considera-se o instrumental teórico desenvolvido por Amartya Sen em seus estudos sobre a fome e desnutrição. autor do livro Direito ambiental e transgênicos: princípios fundamentais da biossegurança (2008). Introdução Um dos argumentos mais persuasivos manejado pelos defensores da biotecnologia de modificação genética é a possibilidade de aumentar o potencial nutritivo de alimentos * Procurador Regional da República na 4a. Genetically modified food. Biotecnologia ABSTRACT: This article aims to define the content of the human right to food. Biotechnology 1. Revista Internacional de Direito e Cidadania.Artigo SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA João Carlos de Carvalho Rocha* RESUMO: O objetivo deste artigo é delimitar o conteúdo do direito humano à alimentação. beyond the current state of biotechnological production. Gighting hunger. it is taken into account the theoretical tools developed by Amartya Sen in his studies on hunger and malnutrition. Região.

A respeito. distinguir a fome de outros fenômenos relacionados com deficiências na dieta humana. com o objetivo primordial de assegurar o direito humano à alimentação adequada. porque envolve o cumprimento de prestações positivas. É sobre esse argumento. regiões e povos. a uma quantidade regular de calorias e nutrientes. que se buscará refletir neste breve estudo. 2. devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população. A Conferência Mundial sobre Alimentação de 1996. Para tanto é necessário abordar os diversos aspectos relacionados com a alimentação. doença. como estratégia de negação do acesso às condições de desenvolvimento a países. Para o Banco Mundial segurança alimentar “é o acesso permanente de todas as pessoas a alimentos suficientes para uma vida saudável e ativa”1. velhice e outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. viuvez. e é diretamente afetado por políticas sociais e econômicas e delas depende para sua realização. a lei n. definir parâmetros de segurança alimentar e explicitar os critérios que levam a adoção de determinado modelo de segurança alimentar e os valores em jogo na adoção desses critérios. e direito à segurança em caso de desemprego. habitação. A conclusão esperada deve confrontar os meios atuais de produção agrícola de organismos geneticamente modificados com o modelo de segurança alimentar que venha a se entender mais adequado para a efetividade do direito à alimentação. aprovada na III Sessão Ordinária da Assembléia Geral das Nações Unidas. C. de 15 de setembro de 2006.346. 11. inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal. 4. dispõe em seu art. XXV. delimitar os aspectos positivos e negativos das novas técnicas em biotecnologia e. vez que é a garantia da própria existência. No Brasil. C. com o qual a indústria biotecnológica procura se apresentar como aliada dos direitos humanos.biotecnologia e meio ambiente. J. 323. 97-107. p. invalidez. O seu art. Gordon. se não quanto a sua promoção.1: “ARTIGO XXV 1) Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar. pelo menos para evitar que as políticas sociais e econômicas não criem obstáculos à realização desse direito. o que implica na análise das condições que produzem e perpetuam a fome. Direito humano à alimentação O direito à vida é o primeiro dos direitos humanos. inclusive alimentação. 2o A alimentação adequada é direito fundamental do ser humano. junho/2009 . n. tradicionalmente consumidos em países pobres e assim erradicar a fome de centenas de milhões de pessoas. 1 O direito humano ao alimento. p. criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN. define segurança alimentar em termos convergentes: “Existe seguridad alimentaria cuando todas las personas tienen en todo momento acceso físico y económico a suficientes alimentos inocuos y nutritivos para satisfacer sus necessidades alimentícias y sus preferencias en CONWAY. cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis. é essencial para que o ser humano permaneça vivo e que seu corpo e sua mente se desenvolvam de forma saudável.” O direito à alimentação constitui-se portanto em direito humano de conteúdo material. promovida pela FAO. Produção de alimentos no século XXI . é parte integrante do direito ao desenvolvimento. O acesso à alimentação adequada. sobretudo. vestuário. 98 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 2º situa com precisão a alimentação adequada como direito fundamental: Art.ROCHA. entendido como direito à segurança alimentar. a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

cujo consumo recomendado é de 3./dia no leste da Ásia. 3 GALTUNG. natureza. referentes as diversas regiões do planeta. liberdade. http://www.uma nova perspectiva. Admitido que o número de homens e mulheres na população é aproximado.220 cal. Cf. seja por maior uso da energia muscular (trabalhadores braçais) ou por deficiência metabólica (algumas populações são mais sujeitas a doenças como anemia e diabetes).5 É claro que essa distribuição não tem em conta diversas outras variáveis.900 calorias para homens entre 19 a 50 anos e de 2. p./dia na África subsaariana. aqui registrados apenas para fins ilustrativos. 2 Considerados os parâmetros definidos pelo National Research Council (EUA).4 Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). À exceção dos adolescentes do sexo masculino entre 15 e 18 anos. entre 13-17 de novembro de 1996. pp. E aqui perquirimos inicialmente sobre a desnutrição e outras disfunções no consumo de alimentos. Não obstante o aspecto positivo das definições transcritas em por em relevo a questão do acesso permanente e universal. Evidente que tanto a subnutrição quanto a fome. 24. O problema da fome A fome não é um fenômeno exclusivamente biológico. Revista Internacional de Direito e Cidadania. documento firmado pela Conferência Mundial sobre Alimentação./dia no sul da Ásia e 2. 258. atentam contra o direito humano à segurança alimentar. tabela 12. cit.SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA cuanto a los alimentos a fin de llevar una vida activa y sana”2. em primeiro plano. Não se trata de garantir apenas uma quantidade diária de calorias e nutrientes ou de descobrir o Big Mac universal que saciará a todos.thm. 4 Apud WILLIAMS.2. tabela 13.200 calorias para mulheres no mesmo intervalo etário. Gordon. o problema da segurança alimentar não se encontra simplesmente na quantidade. o acesso à alimentação. entre as quais: sobrevivência. respeitando as opções. 5 CONWAY.) na economia local.550 calorias/dia. e dos homens jovens. Sue Rodwell. para ser efetivo. não deve prejudicar nem comprometer o acesso aos demais direitos que definem as condições materiais essenciais para a vida com dignidade. produção. distribuição. em complemento. 3.500 cal. Entretanto. os hábitos. Direitos humanos . A luta contra a fome é.100 cal. De acordo com a Declaração de Roma sobre a Segurança Alimentar Mundial.000 calorias/dia. e as necessidades individualizadas de consumo. recomenda-se uma ingestão diária de 2.nenhum outro grupo fica acima daquela média. etc.1. Fundamentos de Nutrição e Dietoterapia. ventos. vestuário e habitação. realizada em Roma. Mas a questão da fome não é efetivamente resolvida sem que se assegure o acesso das populações aos alimentos. Assim. 242. que uma vida saudável e ativa deve abarcar o atendimento de outras necessidades com destaque aquelas que abragem o mínimo existencial nas áreas de saúde. às 17:38. entendida como o estado crônico de carência alimentar que leva a morte. bem-estar. É importante considerar. Diversos aspectos devem ser considerados ao situarmos o direito ao alimento na perspectiva mais ampla do direito ao desenvolvimento. Ob. educação. 97-107. na qualidade dos alimentos postos à disposição. podem haver sérias deficiências desta ou daquela vitamina ou mineral. mas em especial. como o clima. Johan. oitocentos milhões de pessoas ao redor do Plan de Acción de la Cumbre Mundial sobre la Alimentación. o consumo calórico médio entre adultos é de 2. p. n. uma luta pela sobrevivência. 2.fao. indicam que o consumo calórico diário é assim distribuído: mais de 3. preferências e preceitos de cada grupo humano em relação aos alimentos./dia no oeste da Ásia e norte da África. E ainda que o quantum mínimo de calorias esteja suprimido.010 cal. coletiva ou endêmica. as formas de produção e consumo.600 cal. e p. identidade./dia na América do Norte e Europa Ocidental.690 cal. a maior ou menor dependência das circunstâncias naturais (precipitação de chuvas. Acesso on line em 20/02/04. 4. para compreendêla cumpre analisar o que a fome não é.. 3.org/docrep/003/w3613s/w361s00. junho/2009 99 . estrutura e cultura3. p. 2. 180-183. 2./dia na América Latina e Caribe.

E. e. Acesso on line em 20/02/04. 4.fao. 109.HTM. 97-107. Loucuras da fome. 262-264. entre 13-17 de novembro de 1996. contra a taxa de 28% de duas décadas atrás. os ciclos do clima. que só pode ser obtida por dom divino9. só pode ser encontrado entre as ninfas de Creta. sendo 798 milhões em países em desenvolvimento. Dela se originou a cornucópia. indica a existência de 842 milhões de subnutridos no mundo. a Cocanha é apresentada como uma terra fantástica. vale dizer. da FAO (Food and Agriculture Organization). conforme a narrativa. acessado em 10 de fevereiro de 2005. Mitologia grega. 8 REBELLO. Separado do mito grego por milênios. por essa via. leva muitas vêzes a atitudes extremas e inesperadas de agressividade. GUADALUPI. assim. p. 9 BRANDÃO. alcançando graus extremos de exclusão social. pai dos deuses e dos homens. uma das ninfas de Creta. p. A imagem de uma fonte infinita de recursos. Alberto.fao. Angústia da abundância: Amaltéia no país da Cocanha A incerteza da colheita. p. não dispõem de alimentos suficientes para satisfazer suas necessidades nutricionais básicas6. Por ser a fome um tema cercado de tabus.org/docrep/006/Y5160E/Y5160E00. O percentual de indivíduos subnutridos em relação à população mundial é de 17%. Essa negação da humanidade ao faminto. Junito de Souza.o esgotamento do solo. deve conviver com a carência. Lêda Maria Vargas. às 17:38. Para compensá-la. Cf. O faminto torna-se um ser invisível na sociedade em que vive. http:// www. C. I. 643-646. Dicionários de lugares imaginários. o país da Cocanha reflete a mesma simbologia dessa feita em um universo medieval. 100 Revista Internacional de Direito e Cidadania.thm. obtidos pelo mero desejo. 7 Documento em formato PDF disponível on line no sítio http://www. produzido oito anos após a Declaração de Roma. 10 MANGUEL. a sociedade não a reconhece como uma questão sua. na qual doces nascem em árvores. todos os fatores que levam à escassez fizeram a espécie humana a criar narrativas fantásticas que expressam seu desejo e sua angústia em torno da abundância de alimentos. A cornucópia tornou-se. realizada em Roma. por ser um objeto único em todo o Mundo. p. símbolo da abundância e da fertilidade ilimitada. junho/2009 . Narra o mito que um dia Zeus estava brincando com a cabra quando quebrou o seu chifre. 110 e 123. Cadernos de Saúde Pública. pela representação mental. 14(3). com as quais vive Amaltéia11. A abundância. A abundância existe e pode ser usufruída. vol. Ou em um país fantástico cuja localização permanece desconhecida. associada ao stress fisiológico da fome. pombos e faisões devidamente assados voam pelo ar. Zeus conferiu a esse corno o poder de se encher com todos os frutos que fossem desejados. A idéia de abundância corresponde atualmente tanto a uma produção de alimentos acima das necessidades de consumo como a produção A Declaração for firmada ao término da Conferência Mundial sobre Alimentação.7 É justamente naquelas situações de fome endêmica ou epidêmica que o ser humano é mais vilipendiado em sua dignidade e auto-estima. nega reconhecimento ao próprio faminto. Seu atributo vem diretamente de Zeus. daqueles que dela são despossuídos. Com algumas variações.ROCHA. n. Muitas vezes a quem tem fome resta como identidade final ser classificado como louco ou insano. ou má fortuna. A África subsaariana e a Ásia respondem por 703 milhões do total. Confirmando esses dados. vales são formados por manteiga derretida e vulcões lançam sopa quente das entranhas da terra10. a precariedade dos silos. mundo. 34 milhões em países em transição e 10 milhões em países desenvolvidos. é muito enraizada em uma humanidade para a qual a prática agrícola sempre foi uma atividade incerta.8 4. ou Corno da Abundância.org/docrep/003/w3613s/w361s00. 11 Amaltéia também designa. C. e em particular nos países em desenvolvimento. Gianni. Mas a abundância não é atributo para qualquer um. J. o relatório The state of food and agriculture 2003-2004. para ser percebida. Amaltéia é a cabra mitológica que amamentou o pequeno Zeus em 6 Creta. desde que se tenha titularidade e acesso a ela. As questões envolvendo o problema da abundância seguem essencialmente as mesmas desde os tempos mitológicos: quem confere abundância e quem dela se beneficia. caldas jorram de nascentes.

há dez mil anos atrás. 97-107. gatos. doenças ou pragas. o descarte de espécimes com características consideradas indesejáveis. Watson. O fim da natureza. ovelhas. na perspectiva da utilidade ao homem. de José Luiz Telles: “Bioética. 5.html>. remontam. As idéias de gene e de código genético. F. quando a nossa espécie passou a praticar a agricultura e a domesticar animais. Manuel. batatas. a introdução de espécies já domesticadas em ecossistemas novos e pela enxertia. cit. I. de certa forma. cf.cam. O desenvolvimento de novos organismos por métodos de transgenia é a modalidade mais recente e mais radical entre as biotecnologias. com James D. notadamente para alimentação. de que a segurança alimentar se traduz pela disponibilidade de alimentos (abastecimento) e não pelo garantia de acesso12. 4. Maurice H. no caso dos vegetais. respectivamente. como o cruzamento seletivo de espécimes. pp.ac. a espécie humana passou a temer o advento de uma fome eminente e generalizada. H.SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA de alimentos maiores e com maior quantidade de nutrientes do que os alimentos tradicionais. Ob. derecho y derechos humanos. Além de doze tipos de porcos. cereais. são inúmeras as espécies que tiveram a evolução natural modificada em razão da sua utilidade para o ser humano. Cães.uk/univ/science/dna/anniversary. Foram as práticas agrícolas e de pecuária desenvolvidas a partir da Revolução Neolítica que permitiram a formação de aldeias e cidades. foi em 25 de abril de 1953 que a revista Nature publicou o primeiro artigo propondo a estrutura de dupla hélice do ADN. 16 McKIBBEN. 14 Organismo geneticamente modificado é o organismo cujo material genético (ADN/ARN) tenha sido modificado por qualquer técnica de engenharia genética (art. No século XIX. mas antes constitui uma pluralidade de técnicas que utilizam organismos vivos para fabricar ou modificar produtos. porcos. Biotecnología. 2003. com o enunciado de Malthus de que a produção 12 13 agrícola cresceria em progressão aritmética e a população humana em progressão geométrica. predominante até a década de 1970. Gordon. de 12 de junho de 2002). manipulamos genes para as mais diversas finalidades. em especial p. Antes da descoberta do ácido desoxirribonucléico (ADN) e do ácido ribonucléico (ARN) não é possível falar em engenharia genética. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Wilkins e Francis. Rio de Janeiro: Interciência. 25. cujo conteúdo encontra-se resumido no sítio <http://www. Sobre o cinqüentenário dessa descoberta. associado com a urbanização crescente e a percepção de que não haviam mais grandes áreas do planeta a serem descobertas. se consideradas apenas as variedades de camundongos transgênicos. 76-82. junho/2009 101 . Paralelamente a essas preocupações. melhorar plantas e animais e desenvolver microorganismo para usos específicos15. 2º.). o suprimento de alimentos sem necessidade dos deslocamentos constantes decorrentes do nomadismo e o aumento constante da população humana.admin. muito embora ciclos de fome decorrentes de guerras. a Universidade de Cambridge organizou uma conferência comemorativa. e. peixes. p. haviam sido desenvolvidos mais de mil organismos geneticamente modificados em laboratórios no mundo inteiro. milhos. biotecnologias e biossegurança: desafios para o século XXI”. n. desenvolvem-se os estudos sobre a genética e suas aplicações tecnológicas. De fato.. p. Já ao final da década de 1980. vacas.322. 15 PORRAS DEL CORRAL. p. cavalos. a 1865. Para um breve relato histórico da biotecnologia e da engenharia genética. à idéia. transgenia e em organismos geneticamente modificados (OGMs)14. o controle sobre os recursos hídricos. Bill. vacas. Há aqui um apelo irracional da garantia pelo excesso que não guarda correspondência com o conceito de segurança alimentar. In: VALLE. As promessas dos alimentos geneticamente modificados Desde o Neolítico. feijões. bactérias e vegetais16. etc. Silvio e TELLES. acompanhado de mais dois outros artigos que davam suporte para a geometria helicoidal do código genético13. Esse processo vinha ocorrendo mediante o emprego de técnicas e procedimentos ainda largamente utilizados. da Resolução CONAMA nº 305.. diversas variedades de coelhos. É a partir CONWAY. com Gregor Mendel e a 1953. Volta-se. José Luiz (org. Bioética e biorrisco: abordagem transdisciplinar . 159-160. Compton Crick. É importante ter clareza que a biotecnologia não é única.

Uruguai. conforme os seus interesses e necessidades. A alteração genética terapêutica não é o foco aqui apresentado. C. Sempre quando se fala em tentativas de melhorar a dieta tradicional de populações pobres. a denominada agricultura indoor20. etc. vegetais. cujos direitos de patente pertencem a empresa Syngenta. substituídas por cultivos em ambientes totalmente construídos. totalmente controlada pelas grandes corporações e dependente de um único recurso natural: a energia solar. da metade década de 1990 que as técnicas de transgenia passam a merecer uma discussão mais ampla em diversos setores da sociedade. novas formas de vida. pode suprir a avitaminose RIFKIN. Tanto é possível acrescentar um gene ou uma seqüência de genes no organismo quanto subtrair um gene defeituoso. na medida em que os Estados Unidos detém dois terços das áreas agrícolas cultivadas com OGMs em todo o planeta. gerando um organismo antes não existente para a biologia. a biotecnologia pode levar ao fim da própria agricultura como a conhecemos.). Romênia. Canadá e China. que iniciou o cultimo de milho BT em 2002. Trata-se de um tipo de arroz que possui betacaroteno. 21 ANDERSON. 97-107. seus criadores pretendem cruzá-lo com variedades tradicionais. O governo norte-americano destinou uma verba de três milhões de dólares para o desenvolvimento de uma bactéria sintética.. mas é o grande argumento manejado pela indústria de biotecnologia para apresentar o lado humanitário dos organismos GM. juntamente com outras oito entidades agrícolas norte americanas. Por paradoxal que possa parecer. Jeremy. mas antes a possibilidade de criação de novos organismos. são EUA. n. Ocorre que até agora não foi possível contornar problemas intrínsecos ao arroz dourado. Especialmente no que diz respeito a plantas transgênicas (os principais cereais cultivados 17 18 pelo homem possuem variantes transgênicas). Kym e outros. e a Argentina responde por cerca de vinte e dois porcento desse total19. Indonésia e Alemanha. mediante a adição de genes de um ser em indivíduo de outra espécie. especialmente em zonas rurais da Ásia. de acordo com o relatório. junho/2009 . como produção constante e invariável e resistência a pragas. Não apenas ajudaria a combater a fome na Ásia como multiplicaria por quatro o volume de exportação dos mercados daquele continente21. produzido pela American Soybean Association. A finalidade do OGM dependerá das características para as quais foi concebido e da técnica adotada. Tendo em vista evitar a alteração no modo de plantio tradicional do arroz.ROCHA. J. cf. Outro passo. é o arroz dourado. p. 20 RIFKIN. de modo a se constituir em fonte de vitamina A para seus consumidores. Comparecem a esse debate. caracterizada por uma economia geradora de emissões. Espanha. 240. p. Vale dizer. animal ou vegetal. p. Bulgária. vírus. microorganismos (bactérias. além de mobilizarem imensos recursos de grupos internacionais. Folha de São Paulo. Conferir em especial os dados da p. noticiado em “Venter quer refazer bactéria com US$ 3 mi”. cit. 22/11/2002. os argumentos favoráveis e contrários aos OGMs são apresentados com particular intensidade. A época em que vivemos foi adequadamente denominada de Século da Biotecnologia. macro ou microscópico pode ter a sua seqüência genética alterada por meio de técnica de engenharia genética. Disponível no sítio http://ssrn. Genetically Modified Rice Adoption: Implications for Welfare and Poverty Alleviation (August 19. podem vir a dar origem a OGMs. Seguem-se África do Sul. em setembro de 2002. 15. Neste sentido. é o anunciado propósito de construção de um ser vivo totalmente sintético18. além da Índia. A15. Qualquer ser vivo. 36. porque pela primeira vez o homem domina uma conquista tecnológica fora da civilização do fogo. Jeremy. Ob. ainda mais ousado no campo da engenharia genética. 19 De acordo com o relatório “Let de facts speak for themselves”. fatores de comércio internacional que não podem ser olvidados. Sua introdução e miscigenação com espécies nativas. o domínio da energia nuclear foi a última e mais contundente conquista da pirotecnologia antes da expansão da biotecnologia17. vale dizer. Argentina. 4. 102 Revista Internacional de Direito e Cidadania.com/abstract=625257. inclusive das poderosas indústrias da farmoquímica e de agrotóxicos. Os principais produtores de grãos transgênicos. animais (domésticos ou não) ou mesmo hominídeos. esta última com 3% da produção mundial. p. Esse arroz ainda não se encontra disponível para plantio. The Biotech Century. México. Austrália. além de diversas questões ambientais. o único caso cujo relato se repete como um mantra. 2004). nota 29. e passa a adquirir a capacidade de alterar a constituição de cada ser vivo. C.

contrapondo a nova Revolução Verde como menos intrusiva27. conforme relatório Genetically modified plants for food use and human health . por ser químicointensiva. 7.. Também o relatório da American Soybean Association elenca 19 supostos factóides apresentados contra o emprego de OGMs na agricultura. 26 Quando um ou mais genes produzem efeitos fenotípicos diversos. mas que fora obtido pela empresa a partir de uma bactéria geneticamente modificada mediante inclusão de genes de um microrganismo do solo. além do uso do agrotóxico. pp. p. diz-se que sua expressão é pleiotrópica. No âmbito da farmacologia. tendo incapacitado um mil e quinhentas e matado outras trinta e sete29. 25 6 a 8% de ocorrência de alergias em crianças. A inclusão da seqüência genética do microrganismo levou consigo uma toxina. 41-45. no ano de 2002 a EPA (Environmental Protection Agency). pp. 137). cit. além da dificuldade de controle dos efeitos pleiotrópicos26. erodindo ainda mais a precária segurança alimentar dos povos mais pobres. Para uma síntese dos argumentos favoráveis: BjØrn Lomborg. Genetically modified crops. p. Jorge (coord. 260261.the biological expansion of Europe: 900:1900. Esse suplemento possuía altos teores de triptofano. Os partidários do cultivo de OGMs sustentam que eles reduzirão a fome no mundo. quando em contato com variedades GM resistentes a agrotóxicos. Ob. cuja ingestão afetou cinco mil pessoas. Nos EUA. p. produzido pela empresa Showa Denko. agravando a desnutrição na população rural da Ásia e mesmo gerando episódios de fome em determinadas comunidades22. milho e soja GM. Hugh. 97-107. 28 Vandana Shiva alerta para o fato de que nos trópicos as variedades de plantas cultivadas e de ervas daninhas se hibridizam livremente há séculos. Hugh. n. mas que o “chuchu GM do tipo tal” apresenta tal ou qual toxina ou efeito adverso. não é exato dizer que “chuchu GM” faz mal para a saúde ou para o meio ambiente. 6. é o único símile histórico do que pode vir a ocorrer com a liberação adversa de organismos geneticamente modificados no ambiente23.SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA A ou causar sucessivas frustrações de safra. já que as mesmas empresas promoveram e lucraram com as duas “revoluções”. apresentar elevada toxicidade. 22 23 24 encarecer o custo da produção agrícola.an update. e explica muitos dos casos em que a alegada vantagem do organismo GM é anulada.24 Os adversários argumentam que vegetais geneticamente modificados podem causar alergias25. O ambientalista cético. Ecological Imperialism . até agora o que tem se constatado. Impactos da biotecnologia A concentração de patentes de variáveis agrícolas transgênicas em alguns países e a correspondente redução no plantio de espécimes nativos equivalentes. alterar a cadeia alimentar de ecossistemas naturais. pela Royal Society. 29 HIRATA. essa última com a inclusão de seqüência protéica da castanha-do-pará. causando o incremento nas aplicações de agrotóxicos (Monoculturas da mente. p. os partidários da biotecnologia transgênica criticam a Revolução Verde ocorrida a partir dos anos 1960. Alfred . A controvérsia sobre os transgênicos: questões científicas e éticas. facilita a transmissão da mesma característica para as ervas daninhas. aumentar a dependência dos agricultores em relação aos agrotóxicos. Cf. gerar ervas daninhas e pragas mais resistentes. Também são citados no mesmo trabalho casos suspeitos com batatas. tb. o país de regulação mais permissiva em relação aos transgênicos. p. Manual de biossegurança. junho/2009 103 . Revista Internacional de Direito e Cidadania. 96. Assim. Importante ressaltar que para cada commodity agrícola de maior valor há diversos tipos de variações geneticamente modificadas. Ironicamente. referem à intoxicação por suplemento alimentar. Para um levantamento mais detalhado dos impactos ambientais das plantas geneticamente modificadas.). o professor Flávio Finardi Filho e a pesquisadora Regina S. 71. 27 HALFORD. 30-41. p. O impacto de organismos oriundos de ecossistemas situados na África. 4. 100-109. em verdadeiro processo de imperialismo ecológico. Mário Hiroyuki e MANCINI FILHO. Essa interação genética natural. aminoácido natural. Ásia e Europa nas Américas e na Oceania. Nigel G. Minazzi Rodrigues . 411-417. CROSBY. ervilhas. publicado em fevereiro de 2002. LACEY. LACEY. Entretanto. contribuem para uma maior dependência alimentar dos países do sul em relação aos centros mais desenvolvidos do hemisfério norte. p. O que não deixa de ser um mea culpa. reduzir a biodiversidade. é que a interação da planta GM com o meio em que eram plantadas as modalidades tradicionais tem propiciado o desenvolvimento de pragas mais resistentes28. O que se extrai dessa experiência precursora é que a perda da biodiversidade vem acompanhada da perda da sociodiversidade. ver de Miguel Pedro Guerra e outros: Impactos ambientais das plantas transgênicas. fornecerão alimentos mais nutritivos e duráveis e mais resistentes a agrotóxicos. p. dentre outros casos suspeitos. inclusive com a redução das populações humanas.

Folha de São Paulo. Desenvolvimento como liberdade.. tanto no âmbito do Banco Mundial quanto na FAO. Sahel35. p. o Níger. O critério predominante hoje. Sen analisa grandes episódios de fome ocorridos em Bengala33. p. 7. Aqui no Brasil também são as regiões com maior índice de exclusão social aquelas sujeitas a episódios graves de fome. a parte norte da Nigéria. devido ao regime de patentes e a vinculação com uma única corporação.. Cabe relembrar o mapeamento produzido por Josué de Castro em sua Geografia da fome. 97-107. quanto a rápida repercussão do ensaio nos meios técnicos especializados na década de 1980. Amartya. 39 CASTRO. Desenvolvimento como liberdade. contida nos seus apêndices de A a C. cit. n. outros grupos parecem não sentir qualquer efeito da escassez e que nada indica que o consumo de alimentos de grupos distintos deva variar na mesma direção. 33 SEN. a Mauritânia. 113 e segs. o Chade e o Sudão. aqueles socialmente mais frágeis. a segurança alimentar vem sendo definida a partir de dois critérios distintos: o da acessibilidade. os estados de Tocantins e Minas Gerais. 199-205. sem vantagens nutricionais que possam ser evidenciadas. No mesmo ano. 32 Poverty and famines . Segundo aquele autor. 4. Ob. que enfatiza a capacidade de manter estoques de alimentos e abastecer as populações carentes em tempos de crise. Amartya. fome epidêmica e área de subnutrição. Bangladesh36. Ob. Amartya. p. 38 SEN. 37. Amartya. “Antigo plantio alterado afeta geração seguinte”. não obstante a ocorrência de escassez32. é o da segurança alimentar mediante a criação e manutenção de condições de acesso da população aos nutrientes necessários para a sua sobrevivência e bem-estar. pp. 86 e segs.ROCHA. p. Ob. capítulos 7 e 9. C. O Sahel é a área de transição entre o deserto do Saara e a floresta equatorial ao sul. O principal conceito com o qual Sen vai abordar a questão da pobreza e da fome é o de entitlement. Amartya. p. Josué de.. a FDA (Food and Drugs Agency) diante de uma plantação de soja convencional cultivada sobre área de anterior plantação experimental de milho transgênico para produção de medicamentos. quando tratou da ocorrência do problema no território nacional. o Brasil possui cinco áreas alimentares. 37 SEN. cit. 35 SEN. p. a segunda abrange os demais estados do sudeste e a região sul do Brasil39. o Mali. p. J. Valor Econômico. No ensaio Poverty and Famines (1981). 104 Revista Internacional de Direito e Cidadania. pp. p.. Segurança alimentar como liberdade Recapitulando. B12. teve que proibir o uso da soja colhida em toda a cadeia alimentar humana ou animal31. 36 SEN. No seu ensaio dedicado ao estudo da fome. C. Etiópia34. 52 e segs. Entre os países que o integram destacam-se o Senegal. 20/11/2002. junho/2009 .An essay on entitlement and deprivation. cuja influência sobre o Banco Mundial e o sistema de organismos internacionais da ONU é notória. firmou acordo com as empresas de biotecnologia americana que condiciona o cultivo de milho BT ao plantio de pelo menos de 20% de variedades convencionais. Em Desenvolvimento como liberdade. No estudo efetuado pelo autor há duas áreas de subnutrição: a primeira inclui o Centro-Oeste. e o da disponibilidade. tendo em vista o manejo da resistência a insetos. o Burkina Faso. aquele autor sustenta que em situações de escassez de alimentos enquanto alguns grupos. Ainda que não haja impacto negativo para o ambiente e a saúde no plantio de determinado OGM. Ob. cit. Geografia da fome. 34 SEN. A14. p. Para a consolidação dessa perspectiva inovadora em muito contribuiu a produção te30 31 órica do economista indiano Amartya Sen. divididas em três categorias: fome endêmica. 131 e segs. com a consequente contaminação genética do novo cultivo. a formulação matemática da tese sustentada pelo autor. Sen resume a perspectiva pela qual aborda o problema: “The entitlement approach to starvation and famines concentrates on the Transgênicos nos EUA. que enfatiza a capacidade física e econômica de se ter acesso aos alimentos. haverá um maior custo econômico para o agricultor. o autor repete os argumentos e exemplos históricos daquele ensaio. estão sujeitos a situações de privação absoluta. para concluir que é a forma de organização política da sociedade o fator predominante para a prevenção das situações de fome coletiva38. cit. A fome endêmica abrange a Amazônia e o Nordeste açucareiro. 43-44. Não se pode desconsiderar. Amartya. p. percentual que chega a 50% nos Estados sulistas30. 208-219. 167-194. e Irlanda37. 20/11/2002.

p. o que se pode dizer sobre a capacidade da biotecnologia. 115-116. então estar livre da fome amplia esse espaço de escolha42. Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Portanto. o mercado é dominado por organismos que: a) são resistentes a um determinado tipo de agrotóxico. a seus impactos. com muita propriedade. 8. agrotóxicos. “a noção de liberdade como poder efetivo para realizar o que se escolheria é uma parte importante da idéia geral de liberdade”43. neste caso. de pacotes de bens. p. pp. reduzindo a cifra de oitocentos milhões de famintos a um número menos doído? Antes de mais nada. Mas há pesquisas para o desenvolvimento de espécimes resistentes a secas ou que necessitam de menor volume de água para irrigação e portanto. 41 Cf. entitlements vis-à-vis the state. pp. O senso comum reconhecer que não ter fome aumenta a esfera de bem-estar da pessoa. 42 Desigualdade reexaminada. quanto ao meio ambiente. O próprio Sen sustenta. pp. p. observados os mais estritos parâmetros técnicos de biossegurança. assistência técnica e pagamento de royalties. glossário. quanto ao fornecimento de sementes. 44-51 e apêndice A (no qual é apresentada uma explicação econométrica do conceito). 53-54. 43 Idem. diversidade biológica. política e econômica das estruturas básicas da sociedade. produzido pela mesma empresa detentora da patente do OGM. trade opportunities. 118. mediante a produção de alimentos geneticamente modificados. O conceito de entitlement não pode ser resumido a sua dimensão jurídica. para cada tipo de organismo desenvolvido. já que a sua prática coloca o agricultor na dependência de uma única grande corporação. de capacidades que tradicionalmente são abordadas de forma estanques pelo direito. nota do tradutor. ciência política e sociologia. a fome é apenas um severo limitador das diversas formas possíveis de vida social. 97-107. n. a partir de uma adequada disposição jurídica. positivos e negativos. Sen retorna a Isaiah Berlin para argumentar que se ser livre é ter liberdade se viver como se deseja. que existe uma liberdade de não ter fome. sobre entitlement: Desigualdade reexaminada. mas não é tão óbvio que aumente a sua esfera de liberdade. mercadorias e funcionamentos que pode adquirir)41. vir a contribuir decisivamente para o combate à fome no mundo. 45.SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA ability of people to command food through the legal means available in the society. a empresa responderá com o fornecimento de uma nova geração de OGM. conclui o autor. O estado atual da agricultura biotecnológica parece indicar um caminho oposto ao apontado pelo modelo de Sen. é preciso evitar a tentação de falar sobre quimeras. b) emitem uma toxina que equivale a produção do agrotóxico na própria planta. 235. No estado atual da tecnologia. casa da tecnologia Bt. justamente porque é agregador. repetindo estratégia bem sucedida em outra atividade de ponta. 4. and other methods of acquiring food”40. em um único termo. A pesquisa em biotecnologia está apenas iniciando e deve prosseguir. valores culturais e estruturas sociais. 1-8. economia. Não há até agora nenhum alimento geneticamente modificado que represente uma contribuição altamente inovadora em termos de nutrientes. p. a informática. Entretanto a produção em larga escala de alimentos geneticamente modificados deve atentar. Poverty and famines. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Mas não estar sujeito as privações da fome não é apenas uma questão de capacidade de produzir ou adquirir alimentos. Conclusão Do que foi exposto até agora. including the use of production possibilities. e que são necessárias para dimensionar o conjunto capacitário de uma pessoa (ou seja. guardam um interesse ao tema. econômica ou política. Poverty and famines. Em caso de problemas como declínio de produtividade e surgimento de novas pragas. Como ninguém escolheria viver com fome. sobre os superalimentos inexistentes. práticas agrícolas. O argumento de que os alimentos transgênicos podem reduzir a fome no mundo parece repetir o modelo de segurança alimentar pela 40 SEN. caso da tecnologia round up. junho/2009 105 .

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. já que sofrem privações até mesmo dos alimentos tradicionais. 2003.uma nova perspectiva. 900-1900.org/docrep/003/w3613s/w361s00. junho/2009 . A presença de alimentos geneticamente modificados no mercado em nada altera a incapacidade dos famintos em adquirí-los. BRANDÃO.ac. 106 Revista Internacional de Direito e Cidadania. usualmente existentes em sua cultura alimentar. 4. p. Miguel Pedro e NODARI. JACKSON. 30-41.fao. sobre a natureza do alimento e seus eventuais riscos. Roma: FAO. cit. o risco de que essas privações se tornem mais agudas. Impactos ambientais das plantas transgênicas: as evidências e as incertezas. Lisboa: Instituto Piaget. Ecological imperialism: the biological expansion of Europe. 112. Do contrário. Alfred. Ob. Antes de tudo. CROSBY. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. do que ocorre no interior da África e outras regiões periféricas com a aplicação experimental de medicamentos. 14ª ed. Geografia da fome. mediante rotulagem adequada. 2004). São Paulo: Círculo do Livro. disponibilidade ou capacidade de abastecimento. vol. Revista Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável. 1998. Produção de alimentos no século XXI: biotecnologia e meio ambiente. disponível no sítio http:// www. Gordon Conway ao comentar os efeitos econômicos da Revolução Verde (décadas de 1960-1970). 3. é importante estimular a pesquisa pública. a introdução da mecanização tendeu a corroer esses benefícios. 2000. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS..ROCHA. 97-107. GUERRA. fao. 1996. C. jul/ set. CONWAY. 2. pp. disponível no formato PDF no sítio http://www. Declaração de Roma sobre a Segurança Alimentar Mundial. Kym. haverá a repetição. Ter em mente a dimensão humana da questão da fome ainda é a maneira mais direta e eficiente de superá-la. sempre que houver a liberação de alimentos geneticamente modificados para a comercialização deve haver a informação. Josué de. 1996. n.html>..fao. 2001. CASTRO. Direitos humanos . 207 páginas. Plan de Acción de la Cumbre Mundial sobre la Alimentación. a pessoa sujeita a riscos na sua segurança alimentar deve ser visto como em sua integralidade. Neste sentido. Referências bibliográficas ANDERSON. Genetically Modified Rice Adoption: Implications for Welfare and Poverty Alleviation (August 19. thm. em escala muito maior. n. GALTUNG. para que os conhecimentos adquiridos na área de biotecnologia possam ser compartilhados por toda a comunidade e aplicados em respeito aos valores culturais das populações tradicionais. De qualquer modo. Petrópolis: Vozes.uk/univ/ science/dna/anniversary. Chantal Maria. e não como cobaia de experimentos sociais ou científicos. Rubens Onofre. Porto Alegre: EMATER/RS. Cambridge: Cambridge University Press. v. p. C. registra que não obstante tenha havido produção de alimentos mais baratos e aumento da renda da terra.org/docrep/006/Y5160E/Y5160E00. Há. J. Johan.admin. Roma: FAO. 1991. The state of food and agriculture 2003-2004. Lee Ann and NIELSEN. CAMBRIDGE UNIVERSITY. I.com/abstract=625257. DNA 2003: 50 years of DNA discovery.HTM. Roma: FAO. em razão do pagamento de royalties. Mitologia grega.cam. até mesmo acarretando perda da renda real e aumento da fome. por outro lado. da concentração das técnicas de produção de alimentos por grandes corporações e de uma maior dependência em relação aos países desenvolvidos do hemisfério norte44. 44 Em interessante paralelo. Disponível on line na Internet in <http://www. org/docrep/003/w3613s/w361s00. Disponível no sítio http://ssrn. 2000. 2004. 3380. World Bank Policy Research Working Paper No. Junito de Souza. Gordon. disponível no sítio http://www.thm. São Paulo: Estação Liberdade.

2000. BjØrn. B. Vandana. 1996. Desigualdade reexaminada. Silvio e TELLES.SEGURANÇA ALIMENTAR NA ERA BIOTECNOLÓGICA HALFORD. Kimball. O fim da natureza. Barueri: Manole. Amartya. Poverty and famines . New York: Tarcher/Putnam.). trad. bras. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Mário Hiroyuki e MANCINI FILHO. St. 2004. Rio de Janeiro: Record. Jeremy. SHIVA. 2002. José Luiz. London: Science Advice Section. 2003. Gianni. 2006. Sue Rodwell. February. VALLE. São Paulo: Companhia das Letras. Let the facts speak for themselves . Fundamentos de nutrição e dietoterapia. de A. 1990. RIFKIN. 2001. Biotecnologia. The biotech century. 1998. Manuel. Nigel G. Pinheiro de Lemos. Alberto. policy document 4/02. O ambientalista cético. SEN.an essay on entitlement and deprivation. Oxford: Oxford University Press. 2003. 1999. REBELLO. Manual de biossegurança. 2002. Jorge (coord.the contribution of agricultural crop biotechnology to american farming. setembro de 2002. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2001. 14(3):643646. Hugh. NILL. Bill. SEN. HIRATA. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública. Louis: American Soybean Association. p. LOMBORG. derecho y derechos humanos. 1997. Amartya. Loucuras da fome. London: Imperial College Press. Córdoba: Cajasur. Desenvolvimento como liberdade. Revista Internacional de Direito e Cidadania. A controvérsia sobre os transgênicos: questões científicas e éticas. ROYAL SOCIETY. McKIBBEN. GUADALUPI. WILLIAMS. Rio de Janeiro: Campus. MANGUEL. SEN. 6ª edição. Bioética e biorrisco: abordagem transdisciplinar. 2002. Genetically modified plants for food use and human health . 4. LACEY. Aparecida: Idéias & Letras. Genetically modified crops. Cadernos de Saúde Pública. 1982. Rio de Janeiro: Interciência. jul-set. Petrópolis: Vozes. PORRAS DEL CORRAL. Porto Alegre: Artes Médicas. Amartya. São Paulo: Companhia das Letras. n. Lêda Maria de Vargas.an update. junho/2009 107 . Dicionário de lugares imaginários. 97-107.

4.108 Revista Internacional de Direito e Cidadania. junho/2009 . n.

o desenvolvimento de uma tecnologia que está voltada ao bem-estar do ser humano. um tratamento jurídicopenal das atividades nucleares. Sendo assim. 4. security and with responsibility. Estado social. n. Palavras-chave: Atividades nucleares. p. with its peaceful and safe utilization in various social sectors.Artigo TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO(1) José Renato Martins(2) RESUMO: Partindo-se da idéia de que as atividades nucleares são importantes e necessárias ao desenvolvimento dos seres humanos. razão pela qual devem ser mantidas e incentivadas. segura e responsável. Revista Internacional de Direito e Cidadania. that should be maintained and encouraged. em particular. ABSTRACT: Based on the idea that nuclear activities are important and necessary for the development of men. em conformidade com a necessidade de sustentabilidade ambiental do desenvolvimento econômico nacional. da sua dignidade e do meio ambiente. however must be make a special legal regulations around those activities for their utilization to be developed with consciousness. junho/2009 109 . e de outro lado. propiciando. 109-134. utilizado exclusivamente como ultima ratio para que não implique em violação dos princípios que são fundamentais para a própria preservação do estado social e democrático de direito. de um lado. torna-se imprescindível uma completa regulamentação jurídica sobre o assunto e. Estado democrático de direito. em função da sua utilização segura e pacífica em vários setores sociais. deve-se tecer uma especial regulamentação jurídica em torno dessas atividades para que sua utilização se desenvolva de maneira consciente.

a execução de tarefas impossíveis de serem realizadas pelos meios convencionais. denominadas A. novas técnicas nucleares. detectá-las onde estiverem por meio de aparelhos apropriados. Therefore. o mundo inteirou-se da possibilidade do uso da energia nuclear através das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. como já foi frisado não se restringe à produção de energia elétrica – gera. Atualmente. a odontologia. estudar a própria evolução humana. de forma direta ou indireta. Ocorre que os benefícios trazidos por ela são muito grandes e a cada dia são descobertos empregos diferentes dos radioisótopos nas mais diversas áreas do saber. como a medicina. Keywords: Nuclear activities. para que isso ocorresse. Considerações iniciais sobre as atividades nucleares Consideram-se atividades nucleares todas aquelas que liberam. possibilitando. em especial. a radiação atinge com maior facilidade. a nutrição. Porém. em 1945 (dias 6 e 9 de agosto). it is essential for complete legal regulations on the subject. tanto em diagnósticos como em terapias. dessa forma. a biologia. Assim. and on the other hand. sucederam as ditas bombas B e. 4. o deslocamento de um radioisótopo pode ser acompanhado e seu percurso. as bombas H. a agricultura. a indústria (particularmente a farmacêutica) e a agricultura. avaliando-se a radiação e sua incidência sobre tecidos vivos do organismo do ser humano. recebe o nome de traçador radioativo. p. in accordance with the need for environmental sustainability of economic development nationally. A descoberta dos radioisótopos ou isótopos radioativos. bem como pesquisa em diversas áreas. radiação ionizante extraída de átomos existentes na natureza. n. 109-134. as células doentes do que as sadias. a indústria. 1. Logo. chamados detectores de radiação. não se consegue cogitar sobre a possibilidade de se viver sem a energia nuclear. 110 a cada dia.(5) Por intermédio desse processo é possível precisar a idade de fósseis e rochas. providing. etc. Logo. dependendo da energia que os mesmos possuam. R. estimulou. J.MARTINS. sua primeira aplicação foi bélica e dificilmente deixará a humanidade se esquecer dessa possibilidade. a legal-criminal treatment of nuclear activities in modern society. and in particular. Nos dias de hoje. que lograram estabelecer o que foi cunhado de “equilíbrio do terror”. No campo da pesquisa. junho/2009 . encontrando-se dados sobre a evolução do planeta e. que consiste em um “processo de determinação da idade de um objeto pela medida da atividade de um nuclídeo”. Exemplo típico é o seu uso na radioterapia. depois. sabe-se que a energia nuclear não se restringe à produção de energia elétrica e que a descoberta dos radioisótopos estimulou sua aplicação no ensino.(6) Nesse caso. traçado. on the one hand.(7) A medicina nuclear é uma especialidade na qual se utilizam os radioisótopos. “esses radioisótopos podem ser usados para determinar a quantidade de uma única substância numa mistura”. existe uma técnica especial conhecida como a técnica dos traçadores. que são desenvolvidas nos diversos campos da atividade humana. a humanidade teve que passar por um período obscuro durante sua evolução. por conseguinte. your dignity and the environment.(3) Verifica-se que a utilização pacífica da energia nuclear – que. A utilização da energia nuclear na área médica é de suma importância. pesquisas em diversas áreas como a medicina. pois tendo em vista que as radiações emitidas por radioisótopos podem atravessar a matéria e. it will be use only as ultima ratio for doesn’t involve a violation of the principles that are fundamental to the own preservation of the social state and democratic of law.(4) Outra técnica curiosa é a denominada datação. the development of a technology that is dedicated to the welfare of men. Tais bombas. e com o uso de Revista Internacional de Direito e Cidadania. a radiofarmácia e a ecologia. Infelizmente. Social state Democratic state of law. devido à propriedade de emitirem radiações. a física nuclear.

também. Não obstante. como abelhas e formigas. cebola. alho e feijão. a saber: “fortalecimento do sistema imunológico. n. existem perdas de ordem nutricional e organoléptica nos alimentos. a utilização de radionuclídeos de meia-vida curta tem sido positiva para a identificação de doenças que atingem órgãos vitais para o homem. ainda. são submetidos a uma quantidade minuciosamente controlada de radiação ionizante. os radiofármicos têm diversas aplicações e seu uso em hospitais é imprescindível para diagnóstico e tratamento adequado de muitas doenças.(16) Ainda no campo dos alimentos. o incremento em tempo de conservação também é sentido pelo principal ator no cenário comercial: o consumidor. Aqui também são utilizados os chamados traçadores. intestino. bactérias patogênicas. Com o tempo. tornando-os inó111 Revista Internacional de Direito e Cidadania. fósforo. Nesses casos. hidrogênio. junho/2009 . os machos devem ser esterilizados através da emissão de radiação.(11) Na agricultura é muito importante o emprego desses radioisótopos. o objetivo é aumentar a vida útil de determinados produtos alimentícios. e retardar a maturação de frutas e legumes. No entanto. e terapia para doenças como diabetes e hipertensão”. entre outros. O processo de irradiação pode impedir a divisão de células vivas (bactérias e células de organismos superiores). por tempo prefixado e com objetivos determinados. em razão da esterilização ocorrida. pode ser usado para destruir insetos.(14) A irradiação de alimentos é outro emprego útil dos radioisótopos. pulmão. 109-134. uma aplicação importante é a irradiação para a conservação de produtos agrícolas. fígado. assim como do metabolismo e da preferência dos mesmos em se acumular em certos tecidos do organismo vegetal”.(17) Em se tratando de gado. se deseja exterminar. rejuvenescimento das células. ao alterar suas estruturas moleculares.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO traçadores. como batata. Posteriormente. com a sua liberação. como cérebro. coração. pesquisas mostram que o uso da irradiação “poderia diminuir alguns parasitas internos de animais. fungos e leveduras. estômago. Além disso. visando auxiliar nos processos de distribuição e comercialização dos mesmos. Com o intuito de conter a ação deletéria desses insetos sobre as plantações. não haverá produto de descendência e a espécie será extinta. que a irradiação de alimentos não causa prejuízos ao mesmo no que tange a formação de novos compostos químicos que poderiam transmitir doenças ao ser humano quando da sua ingestão. ativação dos mecanismos de reparo do DNA.(10) Além disso. embalados ou a granel. ao produzir reações bioquímicas nos processos fisiológicos dos tecidos vegetais.(15) O objetivo da irradiação aplicada a alimentos é o aumento de sua vida útil. identificando qual predador se alimenta de determinado inseto que. além de aumentar o tempo de conservação. etc. É um tratamento no qual os alimentos. o estudo do comportamento de insetos. rins.(8) Na pediatria. 4.(13) Esse sistema de “marcadores” configura mais um eficiente instrumento para eliminar pragas. como em todo processo de conservação. de elementos como carbono. pois a criança recebe “dose de radiação muito menor que a do raio X”. p. no caso. Vale frisar. aumento das enzimas-chave. Esse processo de conservação pode ser aplicado em vários tipos de alimentos e. haja vista que a viabilidade do estudo de doenças metabólicas se mostra possível justamente a partir da utilização. neste processo. inclusive.(9) Também nessa área. ferro.(12) Essa técnica possibilita. Os citados traçadores radioativos são utilizados “em pesquisas agrícolas como agentes informativos de taxas e de velocidades de absorção de fertilizantes e outros alimentos. oxigênio. existem estudos no sentido de que a aplicação de baixas doses de radiação em seres humanos (hormese das radiações) pode apresentar cinco efeitos benéficos ao homem. a medicina nuclear tem boa acolhida. faz-se o cruzamento desses com as fêmeas. O retardo de maturação e senescência (envelhecimento) de frutas e a inibição de brotamento de bulbos e tubérculos podem ser citados como influências benéficas na conservação de alimentos. Considere-se. que o processo não aumenta o nível de radioatividade normal dos alimentos.

pois os nêutrons reagem com o nitrogênio. técnica que visa a segurança e o combate à criminalidade. rodoviárias. há certa dose de risco em toda e qualquer atividade humana.(20) Por exemplo. que a aplicação dos radioisótopos é feita na indústria e em larga escala. n. com objetivo de verificar se há fadiga nas partes metálicas e/ou soldas essenciais. podendo a saúde ser seriamente afetada. cuos e utilizando-os na preparação de vacinas contra várias enfermidades parasitórias mortais”. para tanto. cotonetes. conflitos entre indivíduos. Por meio dela. por meio da utilização de radioisótopos e com a finalidade de homogeneizá-las.]”. por exemplo. também. oxigênio. medidas cabíveis.(25) É certo. com distintos objetivos e de muita serventia para a sociedade. sujeitas a um maior esforço nas asas e turbinas. Ainda são bem conhecidos os riscos apresentados pelas indústrias químicas e pelos lixos de todos os tipos se acumulando no mundo todo. Não se pode esquecer. como gazes e seringas. pelo uso dos radioisótopos. na sedimentologia (determinar a idade de rochas sedimentares e erupções vulcânicas).(19) Verifica-se. 109-134. a radioatividade.(26) Destarte. etc. que as atividades nucleares têm larga e positiva aplicação na sociedade e que a radioatividade se faz presente na natureza sob diversas formas. deduzindo-se o quantum de elementos neles contido. provocando emissões de raios gama.(23) Enfim. Os benefícios que ela nos proporcionará são suficientemente importantes para que valha a pena termos todo o cuidado para não ‘envenenar’ a natureza [. fraldas descartáveis e cosméticos em geral. e em outras áreas da ciência. “renunciar à energia nuclear seria agora renunciar à civilização atual. bem como materiais hospitalares. marítimo. Os altos prédios estão sujeitos aos riscos de incêndios e terremotos. a resistência humana às radiações não é ilimitada. e mesmo em nível planetário. a poluição do ar é experiência vivenciada diariamente. As empresas de aviação a utilizam durante as inspeções freqüentes nos aviões. junho/2009 . Igualmente. p. J.(24) Destarte. na hidrologia (detectar falhas ou vazamentos em barragens). medem-se e registram-se as energias e intensi112 dades desses raios.(21) Ainda é possível controlar. portos. com o intuito de que a Revista Internacional de Direito e Cidadania. adotando-se. sendo que. “onde não se pode abrir os pacotes e por onde passa uma grande quantidade de volumes num curto espaço de tempo”. ferroviárias e correios. folhas e lâminas (metálicas ou não) sofrem um controle automático. o teor do tabaco existente nos cigarros ou esterilizar produtos como algodão. é válida e necessária a preocupação com a segurança humana e ambiental. na geologia (determinar a idade de materiais geológicos). fome. apresenta tanto benefícios quanto riscos. Os fabricantes de válvulas usam a gamagrafia na área de controle da qualidade para verificar se existem defeitos ou rachaduras no corpo das peças. razão pela qual o seu organismo está apto a resistir aos efeitos radioativos. hidrogênio e carbono. (18) Trata-se de importante emprego da utilização dos isótopos radioativos. 4. causando milhares de mortes por ano. ferroviário e terrestre são conhecidos e envolvem milhares de vítimas anualmente. contudo.(22) Outras utilidades dos radioisótopos são na arqueologia (determinar a idade de objetos históricos). R. aconselha-se a utilização desse sistema em. as espessuras de chapas. há a neutrongrafia ou radiografia de nêutrons. ou seja. como doenças. Todavia. particularmente nas grandes cidades. batom. que a vida humana (ou qualquer outra) é sempre acompanhada de riscos... novas tecnologias introduziram novos tipos de riscos à vida humana. haja vista que os parasitas internos são causadores de redução de crescimento e mortes desnecessárias de vários animais em todo o mundo. Por tudo isso. assim como qualquer outro avanço tecnológico. Os acidentes de trânsito e de transportes aéreo. Nos últimos séculos. substâncias presentes nesses produtos. detecta-se cocaína e explosivos plásticos. aeroportos.MARTINS. A técnica mais conhecida é a radiografia de peças metálicas ou gamagrafia industrial. O homem sempre conviveu com a mesma. Então.

inclusive. bem como no caso de transporte dos mesmos entre os territórios das Partes Contratantes e para terceiros países. de Responsabilidade Criminal por Atos Relativos às Atividades Nucleares. Os assim chamados crimes nucleares(30) estão tipificados nos artigos 20 a 27 da Lei em questão. sabotagens.605/98. desvios. Nela são definidos oito tipos penais relacionados. junho/2009 . na medida do possível. roubos. Tutela penal das atividades nucleares no âmbito do estado social e democrático de direito Uma leitura atenta da legislação vigente sobre as atividades nucleares no Direito brasileiro conduz à conclusão de que há três leis extravagentes que tratam. essa “lei veio atender a dois itens do art.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO energia nuclear seja utilizada pacificamente e da melhor maneira possível.453/77. portanto. sendo necessária sua manutenção e aprimoramento constante. objetiva-se. 2) Essas providências deverão ser de tal natureza que.(28) celebrado seis meses depois da elaboração do Programa Nuclear Brasileiro. 4. V do Acordo Brasil-Alemanha sobre Cooperação no Campo dos Usos Pacíficos da Energia Nuclear”. sendo que o artigo 19 limita-se a fazer uma exposição genérica dos preceitos nos quais estão previstos os crimes cometidos com o emprego e produção da energia nuclear. nesta oportunidade. Sendo assim. Certo. fornecer ou usar material nuclear sem a necessária autorização ou para fim 113 3.453/77. tem-se que a regulamentação das atividades nucleares no direito brasileiro deve ocorrer sob o tríplice aspecto cível. concluindo-se. equipamentos e instalações nucleares no seu território. a seguinte normatização: a) Lei nº 6. em particular. de Política Nacional do Meio Ambiente. O objetivo fundamental da conceituação desses delitos parece ter sido mesmo o de assegurar a implantação de uma nova modalidade geradora de energia sem causar riscos ou danos para a população e para as relações externas. O primeiro delito está fixado no artigo 20 da Lei nº 6. a preservação da saúde e da vida dos seres humanos. portanto. 3. Nesse sentido. Revista Internacional de Direito e Cidadania. n. c) Lei nº 9. certamente. instalações e materiais nucleares. acidentes. Lei nº 6. p. é que as atividades dessa natureza exigem um controle jurídico rígido e eficiente. a primeira a dispor sobre a responsabilidade criminal por atos relativos às atividades dessa natureza. de Crimes Ambientais. com a conseqüente preservação do meio ambiente em que vivem.938/81. Tais dispositivos estabelecem o seguinte: “Artigo V. analisar apenas a tutela penal dessas atividades de acordo com a legislação em vigor no direito brasileiro.453/77 e tem a seguinte redação: “Produzir. a) Utilização clandestina ou irregular. Tem-se. as questões penais relativas às atividades nucleares.453/77 de responsabilidade criminal por atos relativos às atividades nucleares No que diz respeito à tutela penal das atividades nucleares. evitem danos. de uma forma ou de outra. 1) Cada Parte Contratante tomará as providências necessárias para garantir a proteção física dos materiais. furtos. com a segurança. e com o assecuramento do controle de tais atividades pelo Poder Público.1. sob a ótica do direito penal moderno. deve-se tomar como norma referencial a Lei nº 6. processar. independentemente do fato de essa regulamentação poder ser considerada correta ou incorreta. trocas e outros riscos”(29). Como resgata Sérgio de Oliveira Médici. 109-134. partindo-se do pressuposto de que as atividades nucleares constituem na sociedade moderna um importante instrumento de evolução social e técnico-científica. tem-se que a regulamentação jurídica das mesmas é imprescindível para que essas atividades atendam aos objetivos dentre os quais são adotados por uma sociedade pacífica e um estado social e democrático de direito(27) que visam. b) Lei nº 6. Entretanto. se a mesma está ou não em conformidade com os princípios do estado social e democrático de direito. administrativo e penal. prejuízos.

4. a norma em questão destina-se ao diretor da empresa ou instituição operadora da instalação nuclear. comercialização e utilização são autorizadas para a pesquisa e usos médicos. nos termos legais. Na verdade. “o uso do átomo em desacordo com as Revista Internacional de Direito e Cidadania. exceto aqueles usados ocasionalmente durante o transporte.. 109-134. Nesse caso. todo o poder decisório decorre do órgão federal competente. a quem outorgar a autorização para a construção de reatores. autoriza unicamente a pessoas e organismos preparados para o desempenho dessas atividades.] a relação se desenvolve nos quadros do que se pode designar por indústria sob regulamentação”. para a propulsão ou outros fins.(32) Apesar de regularmente instalado. Logo. cuja produção.(33) Mais uma vez. ou seja. Pena: reclusão. médicos.] Nos Estados Unidos [. assim. o poder de polícia da Administração Pública de modo que o Poder Público controle a atividade nuclear. a pessoa jurídica devidamente autorizada para operar instalação nuclear”. comerciais ou industriais (inciso III). A Lei utilizou o termo “responsável” e não “operador”. analisando as legislações do Brasil e dos EUA: “Pela legislação brasileira o processo é inteiramente administrativo.453/77. pois a responsabilidade é pessoal.]. entende-se por “’operador’. somente a ela cabe decisão pelos seus órgãos. o crime é próprio e só pode ser cometido por aquelas pessoas que tenham determinada qualificação. Nos termos da definição legal constante da Lei ora estudada (inciso IV. b) uma fábrica que utilize combustível nuclear para a produção de materiais nucleares ou na qual se faça o tratamento desses materiais. inciso I.. para funcionar. agrícolas. processar.MARTINS. inciso V. b) Operação irregular. de dois a seis anos”. o responsável pela instalação nuclear. ou cuja radioatividade se tenha originado da exposição às irradiações inerentes a tal processo. de autorização da CNEN. conforme Emenda Constitucional n... agrícolas e industriais (Constituição Federal. Logo. o poder de polícia da Administração Pública. a lei enfatiza a preocupação de que o projeto nuclear não seja levado a efeito à revelia do governo. as condutas previstas na norma – produzir. [. incluídas as instalações de reprocessamento de combustível nuclear irradiado. que. p. fornecer ou usar – somente podem ser praticadas mediante autorização específica de órgão do Poder Público. J.(31) lembrando que a União não possui mais o monopólio dos radioisótopos de “meia-vida” igual ou inferior a duas horas.. a concretização da figura típica depende de o agente não ter obtido a referida autorização legal. de quatro a dez anos”. no caso a CNEN. Sendo assim. por sua vez.(34) tutelando. No artigo 21 está previsto o seguinte delito: “permitir o responsável pela instalação nuclear 114 sua operação sem a necessária autorização.(35) Conforme entende Lincoln Magalhães da Rocha. alíneas b e c. R. a expressão “sem a necessária autorização” indica a presença do elemento normativo do tipo. sendo que “instalação nuclear” também é um conceito legal e consiste em: a) um reator nuclear. Esse tipo penal “visa a assegurar o monopólio da União nessa atividade. Combustível nuclear é todo aquele capaz de produzir energia mediante processo auto-sustentado de fissão nuclear (inciso II) e produtos ou rejeitos radioativos são os materiais radioativos obtidos durante o processo de produção ou utilização de combustíveis nucleares. como conseqüência [. tutelando-se. Interessante a informação de Walter Tolentino Álvares quanto ao processo de concessão de licença. diverso do permitido em lei. de que sendo no Brasil um monopólio da União. relacionado com a antijuridicidade.. n. e c) um local de armazenamento de materiais nucleares. inciso XXIII. artigos 21. junho/2009 . do artigo 1º). 49/2006). Pena: reclusão. “material nuclear” deve ser entendido como “o combustível nuclear e os produtos ou rejeitos radioativos”. bem como a impedir a utilização irregular do material nuclear pelos órgãos oficiais”. salvo o utilizado como fonte de energia em meio de transporte. e 177. da Lei nº 6. pois. fechado. de sorte que. o organismo depende sempre. Nos termos de seu artigo 1º. com exceção dos radioisótopos que já alcançaram o estágio final de elaboração e podem ser utilizados para fins científicos.

parece-me ser de natureza militar e. Aqui. artigo 2º. 4. com o tipo.453/77 está redigido da seguinte forma: “extrair. minérios nucleares e seus 115 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Quanto ao conceito de material nuclear.(36) E as salvaguardas vedam o uso do material nuclear para armas atômicas ou outro fim militar. O segredo nuclear. material nuclear. Logo. além do urânio natural. beneficiar ou comerciar ilegalmente minério nuclear. Eventualmente. Pena: reclusão. a CNEN periodicamente especificará quais podem ser considerados como tal. devendo ser consideradas ilegais. Pena: reclusão. inciso XIII. Pena: reclusão. O artigo 23 da presente lei define como crime: “transmitir ilicitamente informações sigilosas. do tório e do plutônio (Lei nº 6. de fato. divulgadas de forma ampla e global. e) Atividades ilícitas. portanto.189/74. Novamente o legislador se refere à autorização como condição necessária para que a conduta do agente não se revista do caráter ilícito. atualmente. já foi exposto que se trata do combustível nuclear ou do produto ou rejeito radioativo. também. razão pela qual não há que se falar em segredo industrial em relação às mesmas. Prevê o artigo 25 da Lei em apreço: “exportar ou importar. tal como está estipulado no tipo. as instalações nucleares brasileiras foram adquiridas no exterior. Visando impedir a indevida transmissão de informações sigilosas. letra c. a utilização civil da energia nuclear não conhece mais segredos. transferir. guardar ou trazer consigo material nuclear. incabível em lei destinada às atividades civis”.(42) Ademais.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO salvaguardas enseja o enquadramento do infrator na lei repressiva nuclear”. p. cuja posse é proibida.(43) Vale frisar que. as informações sigilosas se referem à energia nuclear. junho/2009 . A propósito. entendidos estes como toda “substância encontrada na natureza com a qual são produzidos alguns combustíveis nucleares.(37) c) Aquisição ou porte indevidos. têm como objetivo tutelar a Administração Pública e o seu interesse em controlar a circulação econômica dos minérios nucleares. transportar.(38) Tem-se como objetivo fundamental “impedir que o material nuclear seja desviado de seu emprego regular ou caia em mãos de curiosos ou de terroristas”. que as informações referentes ao ciclo nuclear já se acham. quanto aos elementos nucleares.(40) buscou-se. com as alterações da Lei nº 7. a soma das massas das partículas que reagem é maior que a soma das massas das que se produzem”. o tório e outros”. mas de uma mercadoria sob a tutela do Estado. tutelar a segurança nacional. de dois a seis anos”. em seu texto. de quatro a oito anos”. d) Violação do sigilo. não se trata de um bem extra commercium. “aquela que se desprende quando. ou seja. concernentes à energia nuclear. “previne uma conduta mais perigosa para a comunidade indo à raiz do fato: proibindo o seu porte ou guarda”. 109-134.(44) f) Importação e exportação ilegais. numa reação nuclear. (41) Este tipo apresenta uma curiosidade. porque contrárias às normas legais que regem o assunto ou porque as autoridades competentes previamente consideraram o assunto sigiloso. entende-se que os elementos constantes do tipo do artigo 22 são os seguintes: “possuir. podem existir segredos industriais e não nucleares como pretende a lei. o poder de polícia da Administração Pública. e remete à seguinte indagação: como reprimir a conduta de transmissão de informação sigilosa se o objeto não apresenta essa característica? Ocorre. razão pela qual a lei. sem a necessária autorização. n.781/89). No caso. O artigo 24 da Lei nº 6. sem a necessária licença. explica Paulo de Bessa Antunes: “Diversas centrais nucleares são negociadas entre empresas e governos e. como o urânio.(39) Tutela-se. As condutas previstas no tipo. porquanto produzidas em série e com tecnologia conhecida. de dois a seis anos”. “não só porque o seu uso tem de ser autorizado. mas também pelo fato de ser um material perigoso”. tanto na comunidade científica como na sociedade em geral. adquirir.

MARTINS. diz o artigo 27: “impedir ou dificultar o funcionamento de instalação nuclear ou o transporte de material nuclear. nesse caso. que “o dano nuclear é sempre coletivo. expondo a perigo a vida.(52) Revista Internacional de Direito e Cidadania. quando verificados. embora pacíficas. o segundo. inciso IV). este é o único que não diz respeito à Administração Pública ou às circunstâncias inerentes ao processo de produção nuclear. Em relação a isso. o interesse desta de manter controle da entrada e saída de material radioativo do território nacional”. é proteger a vida. ou na qual se proceda a tratamento de materiais nucleares. As condutas envolvem atos de comércio internacional. conseguiram dificultar a montagem de usinas atômicas”. “Trata-se realmente de uma atividade com alto índice de risco . de dois a oito anos”. os minérios nucleares e seus concentrados (submetidos a tratamento laboratorial). de dois a oito anos”. p. pois abrange o material nuclear. 4. Cabe à CNEN especificar os elementos e materiais de interesse para a energia nuclear (Lei nº 6. mobilizações de pessoas contrárias a atividade nuclear. alterada pela Lei nº 7. e o local de armazenamento de materiais nucleares (artigo 1º. e os sinistros. exclui-se a tipicidade quando a importação ou exportação é autorizada pelo órgão competente. R. porém. de quatro a dez anos”. a realização desses atos sem prejuízo ao funcionamento ou ao transporte de material nuclear é atípica. O texto do artigo 26 apresenta a seguinte redação: “deixar de observar as normas de segurança ou de proteção relativas à instalação nuclear ou ao uso. a história não registra um único caso em que um dano nuclear tenha sido sofrido por um único indivíduo”.189/74. g) Inobservância de segurança e proteção. a fábrica que utiliza combustível nuclear para a produção de materiais 116 nucleares. n. As primeiras compreendem o reator nuclear. J. a integridade física e o patrimônio das pessoas diante do grave perigo que as instalações nucleares e o material nuclear representam.(49) É certo que as ações relativas às atividades nucleares são regidas por toda uma série de normas técnicas de segurança e de proteção. posse e guarda de material nuclear. a de defender a população dos efeitos nocivos da radiação e de uma acidente nuclear”. são irremediáveis e catastróficos”. o legislador visou impedir a ocorrência de manifestações populares que possam obstruir o funcionamento de uma instalação nuclear ou o transporte desse tipo de material.. (51) Sendo assim.. cuja finalidade.(46) O tipo é mais amplo quanto aos bens protegidos. Embora considerada “norma de fundamental importância para a atividade nuclear. Por ser exigida a presença do elemento normativo (“sem a necessária licença”). transporte. o objeto da tutela também é o poder de polícia da Administração Pública “e.453/77. inciso VII. Sérgio de Oliveira Médici lembra que: “No Japão e em vários países europeus. Pena: reclusão.(45) as quais só se tornam ofensivas ao ordenamento jurídico penal em função da ausência de autorização por essas práticas. assim como o fazem os tipos voltados à repressão de delitos individuais cometidos contra indivíduos. Aqui. concentrados. Dentre os tipos penais previstos na Lei nº 6. 109-134. Pena: reclusão. estabelecidas pela CNEN e com o propósito de evitar os temíveis acidentes. artigo 2º. qual seja. minérios de interesse para a energia nuclear e minérios e concentrados que contenham elementos nucleares.781/89). inciso VI). Pena: reclusão. Por fim. O delito ainda é referido como “boicote ou sabotagem da atividade nuclear” e ofende “não só a política nuclear. Ocorre. abrange todo o combustível nuclear e os produtos ou rejeitos radioativos (artigo 1º.(50) h) Obstrução ao funcionamento ou ao transporte. em especial. Neste tipo penal. “embora possa ser praticado sem qualquer ‘intuitus lucri faciendi’”. a integridade física ou o patrimônio de outrem. minérios de interesse para a energia nuclear (como o zircônio e a monazita)(47) e minérios e concentrados contendo elementos nucleares.(48) limita-se o tipo a mencionar um genérico “outrem”. mas o livre exercício de atividade industrial ou regional”. junho/2009 .

bem como a fauna. ou.170/83)(54) e nas demais leis. nos termos dessa Lei (artigo 3º. quando foi incluído o artigo 15 na Lei nº 6. ou seja.(61) Igualmente. e não o delito em tela”.453/77 é muito mais uma lei de defesa da energia nuclear do que uma lei de defesa dos cidadãos contra a energia nuclear”. Ocorre que a responsabilidade penal da pessoa jurídica de Direito privado era (e ainda é) bastante controversa em 1989. não responderá pelo delito do artigo 15 dessa lei. ou estiver tornando mais grave situação de perigo existente. à segurança e ao bem-estar.. II – a poluição é decorrente de atividade industrial ou de transporte. e tendo em vista que a mesma já define quem pode ser assim considerado.2. normatizando a questão da seguinte forma: “Artigo 15. Parágrafo 2º. ainda. O poluidor que expuser a perigo a incolumidade humana.(55) 3. O intuito do legislador foi o de proteger o patrimônio natural e a qualidade de vida do ser humano. que o dispositivo em apreço assume mais um caráter de defesa das instalações nucleares do que da comunidade em si. Lei nº 6. à flora e ao meio ambiente. b. Incorre no mesmo crime a autoridade competente que deixar de promover as medidas tendentes a impedir a prática das condutas acima transcritas (Artigo com redação determinada pela Lei nº 7. inclusive as nucleares. como a lei em questão requer que o sujeito ativo seja o “poluidor”. d e e). fica sujeito à pena de reclusão de um a três anos e multa [. por atividade causadora de degradação ambiental”. e) lancem no meio ambiente matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.804/89)”. 4. animal ou vegetal. pois não basta a existência da poluição em si. não se podia aplicar a ele a definição que lhe dava o art. a terminologia “poluição” pode ser entendida como “a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente”: a) prejudiquem a população no tocante à saúde. inciso IV. inciso III.938/81 de política nacional do meio ambiente Também visando à tutela infraconstitucional penal das atividades nucleares. A razão disso é que.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO Quanto à conduta do agente. definição que traz algumas questões de difícil solução e que revelam a má redação do tipo. p. a Lei nº 6. Parágrafo 1º. responsável. d) afetem o ambiente quanto às condições estéticas ou sanitárias. 3o da própria lei”. o indivíduo em questão não preenche todos os elementos exigidos pelo tipo. Percebe-se assim. registrando-se ainda. 15 punia o poluidor e.]. “o tipo penal criado no art. nos casos em que a conduta do agente não se subsumisse no delito previsto no artigo 271 do Código Penal.(58) cujo dispositivo passou recentemente a ser aplicado pela jurisprudência em caso de poluição de águas já poluídas. de direito público ou privado. no entanto.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente) um tipo penal genérico. em que houvesse um agravamento da poluição. 109-134. animal ou vegetal seja 117 Revista Internacional de Direito e Cidadania. ter-se-á caracterizado o crime contra a segurança nacional. O artigo contemplou o “crime de poluição”(56) e. previu a Lei nº 6.(60) Nos termos do artigo 3º. n. que “tanto do ponto de vista penal como do ponto de vista civil. Ou seja. em domingo ou em feriado. aquele que expuser em perigo a incolumidade humana. b) lesão corporal grave. bem como pela impossibilidade de a pessoa jurídica de Direito público ser sujeito ativo de crime. entendese por “poluidor” “a pessoa física ou jurídica. junho/2009 . letras a. vale frisar que o artigo 19 da Lei em comento enfatiza que os tipos penais em questão não revogam os “crimes nucleares” previstos na Lei de Segurança Nacional (7.. c. nesse caso. Luiz Regis Prado aponta que: “Em caso de emprego de violência para fins de obstaculizar ou tornar difícil o funcionamento da instalação nuclear ou o transporte de material nuclear. voltado a todas as atividades poluidoras.(59) Em outras palavras.(53) A propósito. mas não puder ser encaixado no conceito legal de “poluidor”. b) criem condições consideradas adversas às atividades sociais e econômicas. c) afetem de forma desfavorável a biota(57). a flora. o solo e as águas. III – o crime é praticado durante a noite. ainda é preciso que a incolumidade humana. A pena é aumentada até o dobro se: I – resultar: a) dano irreversível à fauna.938/81. animal ou vegetal. direta ou indiretamente.

938/81 (artigo 3º. porque.605/98. a) Artigo 54 da Lei nº 9. e tornando-o desnaturado e inadequado a uma utilização específica. inciso III. por exemplo. Para finalizar. Parágrafo 3º. o quanto de matérias e energia está sendo lançado pelo agente para que se possa estabelecer um confronto entre esses dados e aqueles previstos nas normas estabelecedoras dos padrões ambientais – as denominadas normas de emissão – e concluir se aquela atividade empresarial é ou não poluidora. imprópria para a ocupação humana. nos termos da Lei nº 6. animal ou vegetal. O conceito de “poluição”.(63) Entretanto. o instrumento mais completo – a despeito de toda a crítica que se lhe faz possível – no âmbito penal. quando assim o exigir a autoridade competente. que dispõe sobre os crimes contra o meio ambiente. de um a cinco anos. ainda em relação ao conceito de “poluidor” no sentido jurídico-legal do termo. Logo. na Seção III – “Da poluição e outros crimes ambientais”. inciso III. Incorre nas mesmas penas previstas no parágrafo anterior quem deixa de adotar. ao bem-estar da população. urbana ou rural. O mesmo se aplica em relação ao artigo 3º. Parágrafo 1º. o que pode ser conferido em seu Capítulo V – “Dos crimes contra o meio ambiente”. líquidos ou gasosos. Pena: reclusão. dos habitantes das áreas afetadas. em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos. óleos ou substâncias oleosas.MARTINS. causando desequilíbrio prejudicial à saúde. à fauna e à flora. Se o crime é culposo. conquanto tão somente um destes dispositivos legais (o parágrafo 2º do artigo 56) 118 se reporte expressamente às substâncias nucleares ou radioativas. etc. urge que se verifique. Assim.. III – causar poluição hídrica que torne necessária a interrupção do abastecimento público de água de uma comunidade. as quais possam ser potencialmente afetadas no futuro com a conduta do agente.938/81 (artigo 3º. descrito na Lei nº 6. Inaugurando a Seção III. colocada em perigo. Pena: reclusão. p. do Capítulo V. é preciso que especialistas (peritos) o digam. a pessoa humana. alínea d). alínea e. sonora. promulgada no Direito pátrio nos termos da Lei nº 9. à segurança. pois. Isso porque não é qualquer alteração ambiental que ocasiona um real prejuízo ao bem em tela. ainda que momentânea. Se o crime: I – tornar uma área.605/98 de crimes ambientais Atualmente. J. IV – dificultar ou impedir o uso público das praias. nesta hipótese. n. o dispositivo em questão trata do delito de poluição de qualquer natureza e apresenta a seguinte redação: “Artigo 54. depreende-se que o objeto de proteção desse delito não é apenas o meio ambiente. mas. além do que o tipo exige a ocorrência de um perigo real e concreto para a incolumidade humana.605/98.(62) 3. para se concluir que a atividade desenvolvida pelo pretenso poluidor afeta. reprimível pelo direito. importa a análise da citada lei. as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente. ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora.3. as condutas do agente estão ligadas a elementos que tradicionalmente são Revista Internacional de Direito e Cidadania. Pena: detenção. II – causar poluição atmosférica que provoque a retirada. e multa. que diminui a qualidade ambiental com a introdução de elementos exógenos nesse meio. este só será identificado por meio da realização de perícia. abordando os delitos que podem ser aplicados às atividades envolvendo a energia nuclear. ou que cause danos diretos à saúde da população. através de perícia. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana. b. V – ocorrer por lançamento de resíduos sólidos. encontra-se na chamada Lei de Crimes Ambientais. 4. d e e). ou detritos. etc. Parágrafo 2º. de um a quatro anos. é aquele já citado. atmosférica. do solo. de seis a um ano. A tutela é feita em razão da poluição. abrangendo a poluição hídrica. com vistas à proteção do meio ambiente. R. alíneas a. por sua vez. 109-134. também. Lei nº 9. O legislador criou o crime de poluição com o objetivo de tutelar o meio ambiente em toda sua amplitude. e na Seção V – “Dos crimes contra a administração ambiental”. inciso III. e multa. junho/2009 . c. medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental grave ou irreversível”. da referida Lei.

Conforme a redação do artigo 55. de qualquer espécie. “que quer ver o transgressor sujeito à determinação da lei. pressupõe-se que somente será considerada atividade agressora do meio ambiente e. “tornase temerário poder impor-se a pena de limitação da liberdade individual diante de um fato incerto. é ofensiva ao meio ambiente. justamente a mais difícil de ocorrer”. pode-se dizer que. portanto. Além da conduta básica. óleos e substâncias oleosas (inciso V).(67) Outro problema está ligado ao fato de causar poluição “em níveis tais” e “destruição significativa”. de duvidosa constitucionalidade(66). (72) De todo modo. “quando efetuada à revelia ou em excesso ao ato administrativo competente para permitir. permissão. poluidora. contemplou cinco hipóteses em que o crime se torna qualificado: em relação à poluição do solo (inciso I).(71) Essa norma ainda criminalizou a ausência de medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental grave ou irreversível. junho/2009 . o que só será possível se a ele for imputado um fato certo descrito como crime”. lavra ou extração de recursos minerais sem a competente autorização. n. Tratando-se de poluição radioativa. o parágrafo segundo. clandestina ou não fiscalizada”. porquanto os elementos neles descritos (ar e água) são instrumentos facilitadores de sua propagação. de modo que o seu entendimento e esclarecimento ficariam ao total arbítrio do julgador. na mesma linha do artigo anterior.(70) Por sua vez. há que se atentar aos incisos II e III. a extração mineral apresenta um elevado grau de impacto ambiental. ainda que com aparência de verossimilhança”. a norma tipifica como criminosa a ausência de recuperação da área degradada. como. “avançou-se significativamente em relação à Lei de 1981 (Política Nacional do Meio Ambiente). líquidos. lavra e extração de recursos minerais. 119 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Ocorre que tais expressões encerrariam situações obscuras.(64) reveladora de um objeto indeterminado. parágrafo único: “Nas mesmas penas incorre quem deixa de recuperar a área pesquisada ou explorada.(68) o que não condiz com um direito penal moderno. e multa”. relativamente à pesquisa. 109-134. atmosférica (inciso II).605/98. do artigo 54. pelo menos enquanto não planejada. abrangente das espécies e formas de poluição. gasosos. Essa abertura do tipo. transmitiria a idéia de imprecisão. Se tal fato for entendido como positivo. concessão ou licença. (69) O legislador julgou necessária a tipificação da conduta culposa no que tange à poluição. conforme Paulo Affonso Leme Machado. da água (inciso III). fazendo referência exclusivamente à execução de pesquisa. com mais ou menos intensidade. o dispositivo em análise é genérico. observam Paulo Afonso Brum Vaz e Murilo Mendes que. p. 4. nos termos da autorização. com a utilização de termos vagos e comprometedores. a atividade mineradora. por exemplo. e incerteza. ou em desacordo com a obtida. o que conduziria à insegurança e ao arbítrio. lavra ou extração de recursos minerais(76) deixando de mencionar de forma expressa os materiais nucleares e radioativos. Pena: detenção. que só admitia o crime de poluição na forma dolosa. assim agindo. “de um modo geral. “causar poluição de qualquer natureza”. Tal dispositivo visou à criminalidade na exploração mineral.(75) Entretanto. das praias (inciso IV). detritos.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO objetos de controvérsias doutrinárias. permissão. Nesse sentido. cujos elementos do tipo são: “executar pesquisa. e devido ao lançamento de resíduos sólidos. concessão ou determinação do órgão competente”. O objetivo da tutela penal neste caso é o meio ambiente agredido pela mineração. indiscriminada. A condenação justa é a que garante ao acusado a ampla defesa. Todavia.(73) b) Artigo 55 da Lei nº 9. de seis meses a um ano. De fato. autorizar ou licenciar a atividade”.(74) Tendo em vista a exigência do elemento normativo na composição desse tipo penal. chamado de precaução ou princípio da prudência ou da cautela. o legislador procurou valorizar na legislação brasileira um dos princípios fundamentais do direito ambiental. já que este tipo de atividade causa consideráveis impactos ambientais. independentemente de seus elementos constitutivos(65).

“não é a poluição que se incrimina. podem ocasionar efeitos graves ao ser humano”. armazenar. importar. Parágrafo 2º. elas podem ser entendidas como aquelas que. tem a seguinte redação: “Artigo 56. Parágrafo 1º. Produzir. “substâncias nocivas ao meio ambiente” são “as que possam atingir a flora. jogar. Se o produto ou a substância for nuclear ou radioativa. como já registrado anteriormente. em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos. podem implicar efeitos posteriores graves. deixar. Igualmente visando à tutela do meio ambiente sadio e equilibrado e da saúde do próprio ser humano.MARTINS. do artigo 1º. tóxicos ou nocivos.(77) Esse mesmo artigo da lei em comento também considera criminoso o abandono dos produtos ou substâncias tóxicas. p. A definição de “produto ou substância nuclear ou radioativa” não existe na CNEN. Nesses casos. junho/2009 . Deve-se atentar. a água. e multa”. que a recuperação ambiental caracterizadora do crime deve ocorrer segundo a determinação do órgão competente ou conforme os termos da autorização. exportar. mas sim por uma questão de precisão terminológica. as “substâncias nocivas à saúde” são “as que. de natureza perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente. Parágrafo 3º. Sendo assim. tudo enfim que faça parte dos recursos naturais”. a conduta de poluição do solo por resíduos perigosos. Nas mesmas penas incorre quem abandona os produtos ou substâncias referidos no caput. permissão. condicionando que a conduta do agente seja realizada ao arrepio da legislação ou das normas administrativas.(78) Em relação às “substâncias tóxicas”. 109-134. o legislador tão somente mencionou que se o produto ou a substância for nuclear ou radioativa. consiste no “material nuclear ou radioativo”. portanto. especialmente. parágrafo 2º). do artigo 56. transportar. Revista Internacional de Direito e Cidadania. e multa. independentemente da existência de lei ou regulamento repetindo que tal produto ou substância não possa ser abandonado. razão pela qual o termo correto. ou os utiliza em desacordo com as normas de segurança. indicando. ou seja. bem como a mera conduta de manuseio de elementos não residuais. haverá um aumento da pena (de um sexto a um terço). n. o dispositivo ora em análise reprime qualquer manuseio de elementos perigosos. comercializar. ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica. mas sim a não-observância das 120 normas administrativas durante o manuseio de tais produtos”. desse modo. guardar. finalmente. todavia. 4. “O tipo penal proíbe. Já.453/77. da Lei nº 6. Incrimina-se. O presente tipo penal. perigosas ou nocivas à saúde humana ou ao meio ambiente. uma maior gravidade do desvalor da ação do sujeito ativo. “se forem inaladas ou ingeridas. de seis meses a um ano. R. c) Artigo 56 da Lei nº 9. Pena: reclusão. para se estabelecer a existência desse delito é preciso saber o que pode ser entendido como material tóxico. fornecer. pune-se a utilização de substâncias que em potencial possam causar danos ao meio ambiente. basta o abandono desses produtos ou substâncias para a caracterização do delito previsto no parágrafo 1º. Pena: detenção.(79) No parágrafo 2º. de um a quatro anos. que versa sobre o produto ou a substância tóxica. “não que haja diferença em termos lingüísticos. a pena é aumentada de um sexto a um terço. além de conhecer quais as regras de manuseio fixadas pela Administração Pública. não remover para depósito autorizado. o legislador resolveu tratar. a fauna. os produtos ou substâncias tóxicas. de produto ou substância nuclear ou radioativa.(80) Ao tratar da questão de modo específico. perigoso ou nocivo. embalar. também foi tutelado penalmente. Por sua vez. licença ou concessão. portanto. Logo. até mesmo a morte”. perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente. já imposto expressamente pela Carta Magna (artigo 225. Se o crime é culposo. perigosas ou nocivas”. ou se penetrarem na pele. O dever de recuperação na exploração mineral. ingestão ou via cutânea. para que sejam evitados problemas interpretativos”. conforme o inciso IV. processar. as “substâncias perigosas” são aquelas “cuja utilização pode representar riscos imediatos ou futuros ao meio ambiente”. J. por inalação. esquecer.605/98.

Quanto as definições que importam à construção desse tipo penal. seja com a inobservância do conteúdo desses atos administrativos. em separado. 60”. “alteração adversa das características do meio ambiente”. alínea b. Tamanha é a relevância de tais atividades que a lei estabeleceu. do Decreto nº 2.(81) Por derradeiro.605/98. bem como em se tratando de material nuclear ou radioativo.(82) Aqui. quer o objeto seja substância tóxica. A dúvida que surge nesse ponto é se o legislador agiu corretamente ao inserir.453/77.(83) No entanto. por obra. tratando-se de instalações nucleares ou radioativas. a segunda parte do artigo 60 pode ser aplicada conforme sua redação. em desconformidade com a legislação pertinente. no caso. instalar ou fazer funcionar. no próximo tópico. e o ato se dê em descordo com normas administrativas. deve-se entender. perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente. então. obras ou serviços potencialmente poluidores. Pena: detenção. quando existe lei específica sobre o tema. como requer o dispositivo em análise. 4.210/97). a construção ou a edificação e. neste caso. o crime pode ser cometido por negligência. De outro lado. artigo 9º. sendo que em momento algum há previsão no sentido de que aquele órgão pode conceder licença ou autorização. seja na ausência de licença ou autorização. da Lei nº 9. o legislador tipificou a conduta do agente que mantém. junho/2009 . portanto. de um a seis meses. ou multa. Relacionam-se. urge que se faça uma correção: a primeira parte do artigo 60 faz referência aos “órgãos ambientais competentes”.605/98. sem que haja licença administrativa corretamente expedida. 121 Revista Internacional de Direito e Cidadania. inciso III. em qualquer parte do território nacional. Ocorre que a CNEN. também com o propósito de tutelar o meio ambiente como um todo. isto é. imprudência ou imperícia. O tipo penal constante do artigo 60 apresenta os seguintes elementos: “Construir. reformar. a lei previu expressamente. a prática das ações demonstradas nos núcleos do tipo. a atividade que possa causar degradação ambiental.210/97). um dispositivo tratando especialmente das atividades nucleares e radioativas. a obrigatoriedade de prévio licenciamento. “é imperioso frisar que tendo em vista as dificuldades provenientes das particularidades das instalações nucleares. Inicialmente é válido registrar que o licenciamento e a revisão de atividade efetiva ou potencialmente poluidora constituem instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.(84) Pune-se. sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes. inciso IV). para sua instalação. por serviço potencialmente poluidor. unidades de transporte e respectivos roteiros. p. às instalações nucleares ou radioativas. estabelecimentos. d) Artigo 60 da Lei nº 9. ampliar. independentemente de outras licenças exigíveis (hipóteses do artigo 10 da referida Lei). Então. n. no parágrafo 3º. 109-134. a Lei nº 6.938/81. a fim de delimitar as áreas passíveis de serem afetadas. do Decreto nº 2. não é órgão ambiental. quer se trate de abandono ou utilização em desacordo com a norma específica. porquanto o IBAMA pode estabelecer normas de prevenção e proteção ambientais referentes à energia nuclear (artigo 11. Já.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO influindo diretamente na medida do injusto penal. e b) estabelecer normas de prevenção e proteção ambiental referentes ao uso da energia nuclear” (artigo 11. deve apenas manter entendimentos com a CNEN para: “a) informar-se permanentemente com relação às instalações nucleares. alíneas a e b. ou ambas as penas cumulativamente”. ocasião em que as normas legais ou regulamentares podem ser contrariadas. na Lei nº 9. Esse assunto será objeto de análise. órgão responsável pela concessão de licença ou autorização no âmbito da energia nuclear.605/98. que é órgão ambiental. porém. a punição do delito a título de culpa. o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. De qualquer forma. do artigo 56. tormentosa é a aplicação do art. ou contrariando as normas legais e regulamentares pertinentes. sem o aumento de pena determinado pelo parágrafo 2º da Lei em questão. inciso III. estabelecimento potencialmente poluidor.

(85) e) Artigo 66 da Lei nº 9. concessão. para as atividades. e multa.(89) g) Artigo 68 da Lei nº 9. de forma que “as esferas cível e administrativa são ‘esquecidas’. esse tipo define um crime funcional. a pena é de três meses a um ano de detenção. R. Nesse sentido. autorização ou licença administrativa”.MARTINS. diante do exposto nesse dispositivo. particularmente contra a administração ambiental: “deixar. 109-134. sonegar informações ou dados técnico-científicos em procedimentos de autorização ou de licenciamento ambiental. todas as atividades para as quais a lei ou as normas regulamentares exigem licença ou autorização são potencialmente poluidoras. porém. mas sempre com o objetivo principal de tutelar o meio ambiente. Pena: reclusão.28.605/98. mas apresenta uma “forma redacional tautológica”. junho/2009 . Se o crime é culposo. “a de- Revista Internacional de Direito e Cidadania. haja vista que o legislador tipifica a conduta de conceder autorização às atividades que dependem de autorização. de acordo com o legalmente previsto (princípios da legalidade e eficiência). Parágrafo único. Com os mesmos objetivos e seguindo a mesma linha de tutela penal. aquele que tiver o dever legal ou contratual de fazê-lo. ou mesmo na forma culposa (parágrafo único). ou seja.” . ou melhor. de cumprir obrigação de relevante interesse ambiental. Ademais. Se o crime é culposo. portanto. comete o delito o agente que descumprir a obrigação de relevante interesse ambiental prevista em contrato. Pena: detenção. e multa. e “cabe dar autorização para atividades que dependam de autorização. pois não atinge só atividades.605/98. autorização ou permissão. não havendo definição do que essa expressão deseja significar. p. de conformidade com seu conceito para efeitos penais. previsto no Código Penal brasileiro(86) para o qual há o dever de exercer as funções corretamente como serviço público. Primeiramente. Na verdade. Visando conceder maior eficácia aos tipos penais ambientais. de um a três anos.(92) Por exemplo: a Norma CNEN-NE-1. de interesse geral. para cuja tipificação exige-se do agente (funcionário público) capacidade especial consistente no exercício de função pública. obras ou serviços relacionados aos radioisótopos.(91) Observa-se. omitir a verdade. e multa”. Convém esclarecer que. n.(87) Também é importante salientar que as informações ou os dados técnico-científicos aos quais o legislador fez referência são da maior importância nos procedimentos administrativos de autorização(88) ou licenciamento ambiental. de um a três anos. estabelece os requisitos exigidos pela CNEN para a qualificação de uma entidade como Órgão de Supervisão Técnica Independente (OSTI) em área específica de atividades em usinas núcleo-elétricas e demais instalações. constata-se que o delito em questão é voltado ao funcionário público. o início se deu com a criação do artigo 66. 122 O tipo penal em tela está voltado ao ato de concessão irregular de licença. cuja redação é a seguinte: “Fazer o funcionário público afirmação falsa ou enganosa. críticas doutrinárias não faltam ao referido artigo. que o legislador preferiu lançar mão do direito penal imediatamente. É certo. ignoradas”.. nucleares ou radioativas. especialmente no que diz respeito à “obrigação de relevante interesse ambiental”(90). f) Artigo 67 da Lei nº 9. 4. a pena é de três meses a um ano. configura crime contra o meio ambiente. sem prejuízo da multa”. Nos termos do disposto no artigo 68 da Lei ora estudada. E como seu antecedente. de 11/10/1999. Pena: detenção de um a três anos. seja na forma dolosa (caput). J. o legislador também protegeu a administração ambiental ao elevar determinadas condutas à categoria de fatos delituosos. Dessa forma. Parágrafo único. “trata-se de presunção que acompanha a exigência de prévia permissão. previstos na Lei nº 9. Trata-se de um tipo abrangente.605/98.605/98. Em razão da técnica redacional empregada na sua construção.. sem prejuízo da multa”. prevê o artigo 67: “Conceder o funcionário público licença. que são os especialistas da área que farão a análise e dirão se o projeto é compatível com a proteção do meio ambiente. autorização ou permissão em desacordo com as normas ambientais. obras ou serviços cuja realização depende de ato autorizativo do Poder Público.

Com esse novo dispositivo. Tem-se igualmente aqui um tipo penal aberto. não cumprir o dever legal ou contratual”. falsamente. pois. Pena: reclusão. em decorrência do uso de informação falsa. “uma vez que é inviável alguém. Pena: detenção.284/06. bem como de uma majorante no caso de significativo dano ao meio ambiente por conta da utilização da informação falsa. se há dano significativo ao meio ambiente. Ora. onde se afirma. e 24. busca punir os envolvidos na elaboração ou mesmo apresentação de estudo. segundo os ditames do dispositivo legal em apreço. de três a seis anos. concluindo a tutela penal infraconstitucional do meio ambiente. inciso VI). seja constatado um erro ou uma informação dissonante com a realidade. p.(95) i) Artigo 69-A da Lei nº 9. Sendo assim. por conta do licenciamento ambiental. e multa. laudo ou relatório técnico com conteúdo falso ou enganoso. Derradeiramente..TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO sobediência às obrigações expressas na Norma 1-28 pelos integrantes. Elaborar ou apresentar.605/98. no tipo. Suponha-se ainda que na análise de tal estudo. Se o crime é culposo. Também aqui surgem problemas quanto à descrição típica das condutas puníveis. estadual e municipal. inspeção de objetos ou locais. como o empreendedor que apresente esse documento. incompleta ou enganosa”. mais o Distrito Federal) zelar pela proteção do meio ambiente (Constituição Federal. A redação do tipo é esta: “Artigo 69-A. tratando-se de questões ambientais.605/98”. concessão florestal ou qualquer outro procedimento administrativo. de um a três anos. como avaliação de danos.] tornam essas pessoas passíveis de serem enquadrados no crime do art. incide. que elabore um laudo técnico. lembrando que a redação utiliza tal expressão (“Poder Público”) porque cabe aos entes federativos de todos os níveis (federal. 109-134. no licenciamento. n. Edis Milaré retrata a seguinte situação: “Suponha-se que o empreendedor contrate uma empresa de consultoria para a elaboração de um EIA-RIMA. Também visando a tutela penal do meio ambiente. Parágrafo 1º. Exemplo disso é o caso de quem elabora ou apresenta um laudo técnico à CNEN para obter a licença de funcionamento de instalação radioativa.605/98. determinação de prejuízos. tanto o agente público de órgão ambiental. 4.605/98. com o fito de tutelar o meio ambiente. A pena é aumentada de um terço a dois terços. pois de forma genérica criminaliza a conduta do agente que crie obstáculos à ação fiscalizadora do Poder Público.(93) Há. 68 da Lei nº 9. assim como o empreendedor que o apresenta às autoridades”. previsão legal da forma culposa na modalidade negligência. junho/2009 . incrimina-se a causa de embaraço ou empecilho capazes de obstaculizar ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público de todas as esferas do Poder. por imprudência ou imperícia. a que alude o parágrafo 2º do artigo em comento? Sobre tais questões. como pessoas físicas do OSTI [. laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso. inclusive por omissão. inciso VI. com a introdução deste novel tipo penal pela Lei nº 11. de um a três anos. Pena: detenção. sendo o mesmo total ou parcialmente falso. Também há previsão culposa do crime.. estudo. o legislador buscou criminalizar de forma mais grave a conduta do agente nos casos da Lei nº 9. que o local não apresenta riscos ao meio ambiente. ainda. com vistas à obtenção de licenciamento ambiental para determinado empreendimento ou atividade para a qual a legislação preveja a apresentação de tal estudo. incompleta ou enganosa. concessão florestal ou outro procedimento administrativo dessa natureza.(96) 123 Revista Internacional de Direito e Cidadania. pela autoridade ambiental. e outras dessa natureza. Parágrafo 2º. e multa”. a empresa de consultoria responderá pelo crime descrito nesse artigo – pois elaborou o estudo reputado enganoso –. De fato. pode responder pelo delito. artigos 23. o artigo em epígrafe prevê como crime a conduta de: “Obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público no trato de questões ambientais. pois como avaliar se a falha ou omissão foram intencionais ou culposas? E o que se entende pela expressão “dano significativo”.(94) h) Artigo 69 da Lei nº 9. o legislador.

“possuir. possam de algum modo não ser aceitas pelos técnicos dos órgãos ambientais ou do Ministério Público”. muito mais abrangentes em relação às primeiras. trata do crime de poluição. a despeito de a Lei de Crimes Ambientais não utilizar o verbo. haverá o risco de ele responder por um engano ou omissão sem mesmo ter dado causa. o qual. Aquele dispositivo. passa-se agora às observações e conclusões preliminares e necessárias sobre o assunto. Ocorre que. junho/2009 . pelo artigo 54. a “lavra” e a “extração”. ainda. Apesar das divergências doutrinárias existentes(98) – as quais poderiam inexistir.605/98. de uma forma ou de outra.605/98. então. Finalmente. transferir. Entende-se. J.453/77. diante da grande extensão abarcada pelas condutas típicas nele descritas. a saber: a “pesquisa”. p. da Lei nº 9. guardar ou trazer consigo” (artigo 22). de um modo ou de outro(103). o artigo 15.453/77 estabelece três condutas típicas: “extrair”. deve-se questionar sobre a vigência dos tipos penais analisados. como faz a Lei nº 6. as condutas de “beneficiar” e “comercializar” foram revogadas pelas ações múltiplas contidas no tipo previsto no artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais(102). R. estão previstas.4. fornecer ou usar” (artigo 20).938/81. permissão. no entanto. também. e. 22 e 25 da Lei nº 6. Quanto à outra parte da redação desse dispositivo legal. ocorre que a conduta de “extrair” se faz presente nos dois dispositivos.(97) ensejando uma ação penal. houve a revogação do artigo 15. Tomada de posição Inicialmente. Dano ao Revista Internacional de Direito e Cidadania.(101) Para completar. as quais servirão de base para a sustentação da tese de que a legislação penal em questão não funciona. quando também restringe os comportamentos proibidos à forma “ilegalmente”. cujo objeto são os “recursos minerais”.453/77(100) pelos artigos 55 (parte do artigo 24) e 56 (parte do artigo 24 e os demais referidos). 22. Além disso. transportar. trata da execução de três atividades. às atividades nucleares. quais artigos foram revogados(99) –.605/98. pelo artigo 54. ou em desacordo com a obtida”. Destarte. permissão. englobando a ausência de normas regulamentares decorrentes dos referidos atos administrativos.605/98 condiciona as condutas típicas à inexistência de “autorização. ainda que técnica e cientificamente defensáveis. a Lei nº 9. também. além do que carece de reformas. no mais das vezes. 24 e 25 da Lei nº 6. que esse mesmo artigo 56 da Lei nº 9. em razão desses motivos. todos da Lei nº 9. concessão ou licença” ou.453/77. n. adquirir.605/98 revogou os artigos 20. Frise-se. o artigo 24 da Lei nº 6.938/81. 109-134. Entende-se. mas a atividade (“extração”). deve-se entender revogados tacitamente os artigos 20. concessão ou licença. e “exportar ou importar” (artigo 25). previsto na Lei de Política Nacional do Meio Ambiente. na Lei nº 9. que deve ser tomada no sentido lato. que “a altíssima pena cominada ao crime pode inibir ainda mais a disposição de peritos. feita a análise global desses tipos penais aplicáveis. da Lei nº 6. processar. exige que a conduta se dê em desacordo com a norma. 4. da Lei nº 9. que o artigo 55 da Lei de Crimes Ambientais revogou parcialmente o artigo 24 da Lei das Atividades Nucleares. as ações nucleares de “produzir. Sendo assim. 124 Em um primeiro momento. “em desacordo com a obtida”. a expressão “recursos minerais” apresenta uma abrangência maior em relação àquela que se refere ao “minério nuclear”. 3. que se faça um nivelamento de todos os minérios. assim compreendido pelos tribunais brasileiros: “Ação civil pública. permitindo. da Lei nº 6. O caput do artigo 55. seja o mesmo de natureza nuclear ou não. assim como os citados tipos penais da Lei das Atividades Nucleares. Por sua vez. expertos e profissionais para aceitar trabalhos cujas conclusões. por fim. naquele dispositivo da Lei de Crimes Ambientais. desde que tal ação seja levada a efeito “sem a competente autorização.605.MARTINS. “beneficiar” e “comercializar” minério nuclear de forma ilegal. caso o legislador de 1998 tivesse mencionado expressamente. o empreendedor não dispõe de conhecimento técnico suficiente para analisar e avaliar o trabalho técnico apresentado – motivo pelo qual contratou um terceiro para fazê-lo – e.

Finalmente. 23. diante da forma genérica com que trata a questão. ele não agiu corretamente. 26 e 27 da Lei nº 6. de forma ampla. nesse caso em particular. sendo que ambas têm potencial para afetar bens jurídicos dignos de tutela penal. mas não abarca a questão das radiações ionizantes. no que concerne aos delitos descritos nessa lei. que a Lei nº 9.453/77. I – O poluidor que causa dano ao meio ambiente tem definição legal e é aquele que proporciona. contudo. o segundo dispositivo mencionado. ordenação territorial e Adminstração Pública. devem receber um tratamento adequado por parte da lei penal. tais bens jurídicos (vida.453/77. muito embora a mesma não tenha tratado do assunto da maneira devida. o qual até então era a única referência expressa à poluição e ao enquadramento correto para todo crime da natureza em epígrafe. ignora as instalações radioativas.453/77). meio ambiente) podem ser afetados direta ou indiretamente e de forma muito grave.453/77. a integridade física. Além disso.(104) Já. mesmo indiretamente. verifica-se que os mesmos não se referem ao meio ambiente. ela não abarcou a segurança coletiva e a proteção do meio ambiente. existe uma lei específica dispondo sobre as atividades dessa natureza (Lei nº 6. O primeiro motivo para tal afirmativa é que a Lei das Atividades Nucleares (6. Contudo. haja vista que apenas um tipo penal da Lei em tela teve como objetivo a proteção da vida. 4. junho/2009 .605/98.(105) Sendo assim.453/77. n. há de se observar que a mesma só regula as instalações nucleares. 109-134.453/77) não promove essa tutela específica de forma ampla. tem-se só o parágrafo 2º.(107) À época da elaboração da Lei nº 6. ou seja. a despeito de o legislador ter feito uma particular referência às atividades nucleares e radioativas nesse dispositivo. da Lei de Crimes Ambientais. da posição adotada em relação a essa questão. além de outras penalidades”. ainda. do seu artigo 56. De forma específica. E o poluidor é sujeito ao pagamento de indenização. a terceira razão para se preconizar uma reforma legislativa sobre o tema é 125 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Ocorre que. e artigos 54 a 56.605/98 dispõe sobre crimes contra o meio ambiente. portanto. integridade física. aos materiais nucleares e ao assecuramento do controle das atividades nucleares pelo Poder Público. mas isso antes da aplicação da legislação criminal a partir de 1998. ou seja. os quais. ou mesmo em relação à Lei nº 9. além das instalações nucleares. partindo-se. apesar de ter voltado atenção à tutela do meio ambiente. Demonstrou-se.(106) Conforme já foi analisado. 60. mas à segurança nacional. o patrimônio. às instalações nucleares. o fato é que a legislação infraconstitucional penal existente no momento não serve para conferir uma adequada tutela penal.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO meio ambiente. p. o que pode implicar na sua destruição total e irreversível. de maneira genérica. O segundo motivo para se refutar a atual legislação infraconstitucional penal é que a Lei de Crimes Ambientais não atende às especificidades exigidas pelas atividades nucleares. que trata da poluição radioativa. priorizando a tutela desse bem jurídico e abordando os delitos relativos à energia nuclear em apenas alguns dos seus dispositivos (previstos nas Seções III e V do Capítulo V). a segurança coletiva e o meio ambiente. patrimônio. Também no que se refere à amplitude de tutela penal por parte da Lei nº 6. porém. Embora estejam vigendo duas leis específicas sobre o tema relacionado às atividades nucleares. e tutelando. de maior abrangência que a anterior. seja no que diz respeito à Lei nº 6.605/98. No entanto. além da saúde humana. a lei contempla a energia nuclear. portanto. também as radioativas. conclui-se que permanecem em vigor os artigos 21. Poluidor indireto. contudo. dependendo da forma como forem desenvolvidas as atividades nucleares. e 69-A da Lei nº 9. 66 a 69. voltando-se às atividades desenvolvidas nas instalações nucleares(108). o legislador se preocupou mais com a restrição de condutas com capacidade de ofensa aos bens jurídicos diversos do meio ambiente. em que pese a impossibilidade de consenso quanto aos tipos penais vigentes. degradação ambiental. englobando como bens jurídicos a vida. da integridade física ou do patrimônio das pessoas. concedeu novo e amplo tratamento à matéria.

Mas isto é assunto para ser discutido em outra oportunidade. percebe-se que o tratamento dado pela Lei nº 6. A regulamentação jurídico-penal. por seu turno. além da utilização desordenada dos elementos componentes da estrutura dos tipos contidos nas mesmas. as atividades nucleares envolvem não somente a utilização da energia nuclear. as atividades nucleares demandam uma regulamentação jurídica ampla e consistente. por meio de Revista Internacional de Direito e Cidadania.MARTINS. Falhas e equívocos também estão presentes nos dois diplomas quanto às intervenções penais em cada hipótese.453/77 e 9. um risco que pode desembocar em uma catástrofe para a humanidade. objeto da tutela. de forma clara. mas desde que se tenha em vista. entretanto. por si só.605/98 – existem vários tipos que são construídos a partir de uma técnica legislativa que opta pela utilização de elementos próprios do chamado direito penal de risco. torna-se imperioso analisar se e até onde aqueles instrumentos podem ser úteis para a tutela penal das atividades nucleares. poucos têm levantado tanta polêmica na sociedade contemporânea quanto a obtenção de energia derivada do processamento atômico. em princípio. Comparando-se uma norma com outra. Deve-se iniciar. Diante de todo o exposto. abarcando normas de direito internacional. como os crimes de perigo abstrato e as normas penais em branco. uma empreitada no sentido de apontar um novo modelo de tutela penal das atividades nucleares neste mesmo estado. n. na verdade. ameaça de lesão) ao bem jurídico tutelado e a sanção imposta nesses casos. a qual apresenta. com isso. e como propiciadores de uma interdisciplinaridade entre o direito e outras áreas do saber. administrativo e penal. aquela relacionada à maneira como determinados bens jurídicos podem ser expostos à ofensa (ou afetados) pelas condutas que tomem por base as atividades nucleares em seu sentido amplo. ao passo que a Lei nº 9. Há. Conclusões Entre os avanços técnicos e/ou científicos dos últimos tempos. tem-se uma tutela em diferentes níveis. Verifica-se que em ambas as leis – 6. buscando-se. junho/2009 . é levada a efeito. com a regulamentação constitucional e a regulamentação infraconstitucional. genericamente denominada energia nuclear ou atômica. o que. também no tocante à existência de um bem jurídico principal. o emprego das radiações ionizantes em diversas áreas do conhecimennto. de barreira de contenção para que delitos mais graves não ocorram. ao mesmo tempo. inclusive. Há de fato uma grande miscelânea legislativa no que diz respeito aos objetivos perseguidos pelos legisladores de cada uma delas. Quanto a regulamentação jurídica das atividades nucleares no direito brasileiro. Em razão disso.605/98 tratou a questão de forma mais branda. sendo. 4. quais são os bens jurídicos que devem ser protegidos. respectivamente. A energia nuclear e as radiações ionzantes têm aplicações variadas e importantes em um considerável número de atividades humanas. 109-134. de importância singular para a delimitação do direito de punir. de se levar em conta que tais atividades também implicam conseqüências boa e ruins ao ser humano e ao meio ambiente. o que pode conduzir à constatação de que o legislador infraconstitucional desconsiderou a relação de proporcionalidade que deve haver entre a lesão (ou então. a antecipação da tutela penal na medida em que tais elementos servem. e sobre a forma como se dá a intervenção penal quando da ocorrência dos comportamentos proibidos. Porém. a fim de permitir seu emprego de maneira séria e consciente voltado ao benefício do homem e do meio ambiente.453/77 é muito rígido. J. 126 buscando-se a sua compatibilidade com os princípios constitucionais tidos como fundamentais no estado social e democrático de direito. p. Enfim. ambas. exige um novo tratamento jurídico-penal. mas também. R. se mal utilizadas ou direcionadas às práticas lesivas. 4. instrumentos fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e temas geradores de muita preocupação e tensão para os homens e o meio ambiente. conclui-se que existe uma confusão legislativa em torno das leis que dispõem sobre as atividades nucleares no direito brasileiro. direito civil.

A energia nuclear no Brasil. Direito ambiental. 68. dez. Aspectos penais da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente. ocorre uma confusão legislativa no direito pátrio em relação às condutas referentes às atividades dessa natureza: a Lei n. BELLO FILHO.605/98 – direcionada às condutas atentatórias ao meio ambiente –. Fábio. entende-se que a Lei n. 2001. In: Boletim IBCCrim. Renato de.html. Acesso em: 15/09/2007. Rio de Janeiro: Lumen Juris. Crimes ambientais e infrações 127 5. 1998. mas não abarca a questão das radiações ionizantes. Lei 9. pela necessidade de se analisar os instrumentos que podem ser úteis à tutela penal das atividades nucleares. Requisitos de segurança e proteção radiológica para instalações mínero-industriais. Adriano Costa de.605/98 (Lei de Crimes Ambientais). Acesso em: 19/09/2007. ANTUNES.938/81 (Lei de Política Nacional do Meio Ambiente) e a Lei n. A energia nuclear no Brasil.pdf. BIASI. o único artigo da Lei n. 49. contempla a energia nuclear. 5. Por tais razões e. In: Revista da Procuradoria Geral da República. Ética. abr.453/77 – voltada particularmente às atividades nucleares – teve a maioria dos seus dispositivos tacitamente revogados pela Lei n.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO três leis especiais. n. ano 8.br/irradiacao/cons_irrad. Ney de Barros.br/ensino/ apostila/aplica. Renato de. 1977. os quais envolvem a ofensa ou exposição a perigo de outros bens jurídicos além do meio ambiente. ed. 1978. In: Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. BEDNARSKI. COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN). Porto Alegre: Tchê!. Nicolao Dino de. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército.cnen. ÁLVARES.605/98 dispõe sobre os crimes contra o meio ambiente e prioriza a tutela do citado bem jurídico. 1979. Norma CNEN-NN-4. A bem da verdade. João Maurício L. ainda que tacitamente. CARVALHO.453/77 (Lei de Responsabilidade Criminal por Atos Lesivos às Atividades Nucleares). Aplicações da energia nuclear. n. de forma genérica (especificamente. 23. COELHO. 109-134. ainda assim. Walter Tolentino. de 06/01/2005. Érika.01. ____. São Paulo. São Paulo. 6. trata apenas da poluição radioativa).-set. ADEODATO. O acordo nuclear Brasil-Alemanha. p. José Luiz. 6. Rio de Janeiro: Forense. Disponível no site: www.938/81 que poderia ter aplicação à matéria nuclear. No entanto. São Paulo. 4. cena. Conservação por irradiação. apud BIASI. 6. 1987. deve-se proceder à construção legislativa de um novo modelo de tutela penal das atividades nucleares em consonância com o estado social e democrático de direito. Biblioteca do Exército. subdesenvolvimento e utilização de energia nuclear. a saber: a Lei n. Referências Bibliográficas ACORDO ENTRE O GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E O GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA SOBRE COOPERAÇÃO NO CAMPO DOS USOS PACÍFICOS DA ENERGIA NUCLEAR. a qual também teria revogado.453/77 só regula as instalações nucleares. a Lei n. CASTRO E COSTA. Neutrongrafia: técnica nuclear ajuda a combater drogas e terrorismo. Rio de Janeiro: Revista Internacional de Direito e Cidadania. Paulo de Bessa. Curso de direito da energia. junho/2009 .605/1998: equívocos do legislador.usp. 1979. Disponível no site:http://www. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN). Energia nuclear. BECHARA. n. 2001. cada qual com seus objetivos e especificidades. 6. ignorando as instalações radioativas. já.gov. O Brasil nuclear: uma anatomia do desenvolvimento nuclear brasileiro. Rio de Janeiro. 6. COSTA NETO. 9. 1996. n. sendo que ambas têm potencial para afetar bens jurídicos dignos de tutela penal. 9. Rio de Janeiro: Compósita/Iarte. Aristides Pinto. ainda. CAMARGO. Brasil nuclear. a Lei n. n. abordando os delitos relativos à energia nuclear em apenas alguns dos seus dispositivos e. 6. ou seja. ARANHA. 9. 1994. Flávio Dino de. Joaquim Francisco de.

2003. Antes que a natureza morra: por uma ecologia política. 37. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN). 1995. ed. n. 6. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN). Pedro Paulo de et. abr. São Paulo. Yuji. Paulo Roberto Lyrio. Rio de Janeiro. v. São Paulo. Datos nucleares: al servicio de las necesidades básicas de la ciencia y la tecnología. 1992. O átomo que cura. ed. 1973. jan. LORENZ. n. Gilberto Passos de. 1997. Direito administrativo. Direito do ambiente. Le droit de l’environnement.-mar. 2. Rio de Janeiro. FREITAS. Johannes Friedrich. jan. 2006. ano 10. Vera. New York: Marcel Dekker. FREITAS. Tutela penal do patrimônio cultural. FERREIRA. 1999. São Paulo: Edgard Blücher/Universidade de São Paulo. LIMA E SILVA. 28. FREITAS. Cecil. Fernando. In: Revista Forense. PORTAL DE RECURSOS MINERAIS. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. n.-jun. LEONARDO. jul. São Paulo: Revista dos Tribunais. Dicionário de física. vol. Leis penais e processuais penais comentadas. 6. da fruta. CALDAS. ed. MILARÉ. Alex. v. Física para ciências biológicas e biomédicas. n. Rio de Janeiro. DIEHL.prossiga. ed. 317.. Maria Sylvia. 2002. Safety of irradiated foods. 5. 1973. In: Revista dos Mestrandos em Direito Econômico da UFBA.MARTINS. Rita Buongermino. California: Addison-Wesley Publishing Company. Direito ambiental brasileiro. Paulo Affonso Leme. Salvador. MORAND-DEVILLER. abr. Sérgio de Oliveira. 128 ISHIGURO. Emico. Boletín del OIEA. 2008. DORST. Horácio. NUCCI. Gilberto Passos de. 1992. GIURLANI. jan. 2006. 16. Iberê L. 2004. Guilherme de Souza. 4. Viena. 1. David Rittenhouse. Crimes contra a natureza. 2001. 561. MACEDO. São Paulo: Makron Books. Joseph J. abr. Direito ambiental em evolução. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. Acesso em: 02/03/2008. INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA).. FRAGOSO. Tutela penal nas atividades nucleares. R. Rio de Janeiro: Thex. ano 4. PIMENTA. CHOW.-mar. vol. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2007. 1996-dez. Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN.. SCHMIDT. Dicionário brasileiro de ciências ambientais. ed. J. Édis. Glossário. 19. OKUNO. br/recursosminerais. 13. Crimes ambientais e os princípios da reserva legal e da taxatividade do tipo em Direito penal. Brasil nuclear. junho/2009 . INGLIS. DANTAS. apud RIBEIRO. ed. 2. 5. Vladimir Passos de. 2000. Ivete Senise. ano 6. Brasil Nuclear. Curitiba: Juruá. Técnicas nucleares na agricultura – Piracicaba mira na exportação e acerta na mosca. Use of irradiation as a quarantine treatment of food and agricutural commodities. Paris: Presses Universitaires de France. Viviane Martins. MACHADO. DI PIETRO. 1995. 2002.). 1982. Os crimes contra o meio ambiente no Brasil. São Paulo: Atlas. Jean. Do crime de poluição. n. In: Revista dos Tribunais.. 1976. al. Trad. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais. n.-jun. 1986. OIEA. Brasil nuclear. 1999. Revista Internacional de Direito e Cidadania. ano 6. A energia nuclear para o Brasil.-jun. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Malheiros. Nuclear energy: its physics and its social challenge. São Paulo: Revista dos Tribunais. Brasília: Brasília Jurídica. 1997. In: FREITAS. Jacqueline. ed. Quando a radiação faz bem. 2002. 109-134. ano 71. 4. Rio de Janeiro. Marcelo. 19. n. 19. administrativas ambientais. Os crimes nucleares. Sílvia. Viena. 1982. ____. MÉDICI. Gilberto Passos de (org. Disponível no site:http://www. 2003. São Paulo: Harper & Row do Brasil. Crimes relativos às atividades nucleares.

. 61.). Luiz Regis. Rio de Janeiro. ano 9. asp?id=6506. 59). (5) MACEDO. Alessandra Rapassi Mascarenhas. Trad. p. Björn. 2000. 2. O átomo que cura. n. na medicina nuclear é o próprio metabolismo do organismo do paciente que se encarrega de levar o material radioativo para o órgão a ser examinado ou tratado” (id.com. 13. no dia 3/9/ 2008. 1985.uol. 196. Denise Mattatia Grassiano. que “a medicina nuclear. Disponível no site:http://jus2. Curitiba: Juruá. SCHMIDT. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 16. 1999. 23 mar. T. Meio ambiente e mineração. Jus Navigandi. Bioquímica: teorias e problemas. Medicina Forense e Criminologia do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito do Largo São Francisco – USP.01. Lincoln Magalhães da. In: Boletín del OIEA. 2003. David Rittenhouse. MENDES. Vera. Revista Internacional de Direito e Cidadania. (9) Id. OIEA. Alex. 1979. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN). Rio de Janeiro.br/doutrina/texto. SIGURBJÖRNSSON. VAZ. distinguindo-se quanto à forma de utilização do material radioativo: “Enquanto a radioterapia usa fontes seladas (ou fechadas). Irwin H. Mônica. p. 3.). n. 1979. ROCHA. abr. (4) SEGEL. 1982. In: Revista Forense. no entanto. Nuclear energy: its physics and its social challenge. SIFUENTES. n. 3. Horácio. VOSE.. Denise Mattatia Grassiano. (8) DANTAS. p. 2005. p.11586-0/PI. Datos nucleares: al servicio de las necesidades básicas de la ciencia y la tecnología. vol. (6) A radioterapia está baseada “na destruição do tumor pela absorção da energia da radiação incidente. 2004. não veio substituir a radiologia [. n. da Tese de Doutorado do autor. Responsabilidade penal pela má utilização da água. o que se consegue irradiando o tumor de várias direções” (OKUNO.. Brasil nuclear. 95. Murilo. NOTAS (1) Artigo científico baseado em determinadas questões desenvolvidas no “Capítulo 2 – Atividades nucleares” e no “Capítulo 3 – Regulamentação jurídica das atividades nucleares no Brasil”. administradas in vivo (via oral ou endovenosa). Cecil. Se. n. ibid. ano 2. jan. (7) LORENZ. p. Crim. vol. São Paulo: Revista dos Tribunais. PRADO. tendo como princípio maximizar o dano ao tumor e minimizar o dano em tecidos vizinhos. Jus Navigandi. (3) INGLIS. Técnicas nucleares para el desarrollo agrícola y alimentario: 1964 a 1994. Direito penal do ambiente. Professor de Direito Penal na Faculdade de Direito das Faculdades de Campinas – FACAMP. Responsabilidade criminal e civil pelos ilícitos da era nuclear. Proteção penal do meio ambiente. ed. Fundamentos de energia nuclear. 1ª Região.]. São Paulo: Atlas. 19. Unânime. Disponível no site: http://jus2. intitulada “Tutela penal em decorrência das atividades nucleares”.-jun. 1973. abr. Viena. 4. (2) Doutor em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP. ano 7. Peter. OIEA. Teresina. 4. Física para ciências biológicas e biomédicas. Dicionário de física. Viena. v. n. Teresina. São Paulo: Harper & Row do Brasil. apresentada. 2003. 4. Rodrigo Alves da. SAFFIOTI. jan. SILVA. n. Coordenador do Curso de Direito Campus Taquaral da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Acesso em: 01/11/2007. Iberê L. p. CALDAS. Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. SEGEL. que emitem radiação externa ao paciente. 87. Os dois exames são complementares” (id. São Paulo: Revista dos Tribunais. A responsabilidade penal por danos ao meio ambiente. 1.. 345. 2005. ____. Paulo Afonso Brum. Meio ambiente e Direito penal brasileiro. Gilberto Passos de (org.com. Ap. In: FREITAS. Irwin H. Acesso em: 01/11/2007. Senado Federal. ibid. California: Addison-Wesley Publishing Company. n. vol.. REALE JÚNIOR. São Paulo. Brasília. n. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. Tutela penal nas atividades nucleares. na radioterapia. Viviane Martins. 1976.br/doutrina/texto. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. 36. In: Revista de Ciências Penais. p. ano 6. 464. Vale registrar.-jun.. a radiação é dirigida para o ponto a ser tratado. 1994. ano 22. Trad. 623. Professor de Direito Penal nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Direito ambiental em evolução. Diário da Justiça 18/04/1996. 1986.). TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL. RIBEIRO. Petrópolis: Vozes. 28. normais. a medicina nuclear emprega fontes de radiação abertas. defendida e aprovada perante Banca Examinadora do Departamento de Direito Penal. 20-21. In: Revista de Informação Legislativa. 2005. Boletín del OIEA. Miguel. asp?id=3630. que a medicina nuclear não se confunde com a radioterapia. junho/2009 129 .-mar. Relator Juiz Tourinho Neto.uol. Emico. Bioquímica: teorias e problemas. 109-134. p. 86. 1982. CHOW. A lei de crimes ambientais. Importa frisar. Joseph J. Waldemar.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO PRADO. 1999. Advogado e Ex-Delegado de Política de Carreira do Estado de São Paulo.

p. O acordo nuclear Brasil-Alemanha. subdesenvolvimento e utilização de energia nuclear. 2001. vol. 1987. Direito ambiental. VOSE. cit. p. cit. 1996-dez. 237. Paulo de Bessa. Fundamentos de energia nuclear. Senado Federal. 532. cit. p. Björn. 259. “a configuração do delito exige que a matéria chegue ao conhecimento do destinatário” (PIMENTA.usp. op. junho/2009 . (33) Lei nº 6.cnen. sendo que ”o escopo principal visado com a tipificação dessas condutas foi o de assegurar a implantação da nova modalidade geradora de energia sem causar riscos ou danos para a população e para as relações externas” (id.. (32) ANTUNES. CNEN. Paulo Roberto Lyrio. op. Lincoln Magalhães da. n. Rita Buongermino. ano 22.. (27) Entendido como aquele modelo de estado que pretende reunir. Fábio. 4. (31) MÉDICI. Yuji. 86. Sílvia. p. 3. Responsabilidade criminal e civil pelos ilícitos da era nuclear. Rio de Janeiro: Forense. 1978.. 1999.MARTINS. Quando a radiação faz bem. (35) ÁLVARES.. ibid. op. op. superando-os. (43) MÉDICI. Ainda.. cit. Sérgio de Oliveira. oriundas basicamente da utilização desse tipo de energia” (PIMENTA. n. 561. Viena. 2005. apud BIASI. SAFFIOTI. (45) ROCHA. (29) ACORDO ENTRE O GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E O GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA SOBRE COOPERAÇÃO NO CAMPO DOS USOS PACÍFICOS DA ENERGIA NUCLEAR. 130 Revista Internacional de Direito e Cidadania. (23) ISHIGURO. Rio de Janeiro. 13. p. J. 6. Neutrongrafia: técnica nuclear ajuda a combater drogas e terrorismo.br/irradiacao/ cons_irrad. Petrópolis: Vozes. A energia nuclear para o Brasil. In: Revista dos Mestrandos em Direito Econômico da UFBA. 311).. (17) CAMARGO. 295. 1982. (26) DORST. “A Lei nº 6. Brasil nuclear. p.-jun. ano 8.. Rio de Janeiro: Compósita/Iarte. 95-97. Lincoln Magalhães da. Use of irradiation as a quarantine treatment of food and agricutural commodities. Peter. p. Associação Brasileira de Energia Nuclear – ABEN. 154.. 51. Direito penal do ambiente.html. 109-134. Disponível no site: http://www. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN).453/77: artigo 1º. p. 591. 151. 592... ano 71. abr. 239. n. Lincoln Magalhães da. Aristides Pinto. In: Revista da Procuradoria Geral da República. p. Adeodato há “três alternativas [. (15) INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). de acordo com o autor. João Maurício L. (19) Id. 9. os modelos de estado liberal e estado social. Paulo Roberto Lyrio. p. p. 12. 36. n. Brasil Nuclear. 50. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército.. n. cit. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 1977. (25) Id. (21) COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN). 312). ed.. ano 6. (38) ROCHA. 457. São Paulo.. 2001. (13) COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN). op.] a lei não exige a prática de atos de comércio para a configuração do delito” (PIMENTA. (24) ARANHA. p. ano 4. Sérgio de Oliveira. Vera. comparando-se à utilização de agrotóxicos.453/77 [. 333. Rio de Janeiro. descritas em lei. (12) SAFFIOTI.. Acesso em: 19/09/2007. 238. Johannes Friedrich. 1997. Energia nuclear. Sérgio de Oliveira.. n. op. op.gov. “[. p. 1985. 454. Crimes relativos às atividades nucleares. p. 1979. conferir: CARVALHO. Brasília. São Paulo: Revista dos Tribunais. Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN). vol. p. surge um alerta: “O legislador fala também em minério ‘de interesse para a energia nuclear’. Lincoln Magalhães da. 9. (44) De fato. Os crimes nucleares.jun. 306). p.. Desse modo.br/ensino/apostila/aplica. da fruta. cit. (37) Sobre a utilização da energia nuclear. Conservação por irradiação. 5. Luiz Regis.. 294. p.-jun. cit. abr. p. Porto Alegre: Tchê!. op. cit. 1994. n. São Paulo: Edgard Blücher/Universidade de São Paulo. p.. p. op. p. (11) GIURLANI. 68).-set. p. Brasil nuclear. (40) MÉDICI. 1973. 10. Paulo de Bessa. 19.. cit. p. 5. p. a de utilização da energia nuclear exclusivamente para fins bélicos” (ADEODATO. O Brasil nuclear: uma anatomia do desenvolvimento nuclear brasileiro. No Brasil. inciso VI. op. p. cit.. R. abr. Aplicações da energia nuclear. Sérgio de Oliveira. p. Joaquim Francisco de. In: Revista dos Tribunais. Trad. (42) ANTUNES. 8. letras a. (22) COELHO. através do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA).. p. Exclui-se aqui uma quarta e inusitada hipótese. jan.. Paulo Roberto Lyrio..]: a tese do uso total (fins bélicos e pacíficos). Antes que a natureza morra: por uma ecologia política. p.] define oito crimes relacionados com o emprego e produção da energia nuclear” (id. 66. Sérgio de Oliveira. 1995. p.. cit. cit. p. (20) A gamagrafia é a impressão de radiação gama em filme fotográfico. n. Renato de. Viena. 1992. b e c.. 23. Joaquim Francisco de. 1982. denominam-se “crimes nucleares aquelas infrações penais.cena. cit. p. 43.. para João Maurício L. op. 241. p. Técnicas nucleares na agricultura – Piracicaba mira na exportação e acerta na mosca. (30) Conforme Paulo Roberto Lyrio Pimenta. (39) MÉDICI. 151. 307). Disponível no site: www. 293. Waldemar.. op. p. Safety of irradiated foods. Técnicas nucleares para el desarrollo agrícola y alimentario: 1964 a 1994. p. Nesse sentido: DANTAS. São Paulo. Curso de direito da energia. p. (14) Nesse sentido. 591. a tese do uso apenas pacífico e a tese da renúncia à utilização da energia nuclear em larga escala. (16) DIEHL. 2002. (36) ROCHA. Acesso em: 15/09/2007. op. p. Waldemar. Jean. Salvador. A principal vantagem deste processo é que ele é mais barato. 1994. 308). jul. conforme Paulo Roberto Lyrio Pimenta. New York: Marcel Dekker. (34) ROCHA. Walter Tolentino. p. op. 21. (46) ANTUNES. Ética. (18) SIGURBJÖRNSSON. Paulo de Bessa. cit. cit. In: Boletín del OIEA. 1997. a erradicação de certos insetos mediante irradiação dos machos até a esterilização tem sido efetuada na região de Piracicaba-SP. Rio de Janeiro. Adriano Costa de. OIEA. Ora. A energia nuclear no Brasil. 295. In: Revista de Informação Legislativa. (28) MÉDICI. São Paulo: Makron Books. op. (41) PRADO. (10) CARVALHO.pdf. (47) Nesse ponto. 19. abr.. p. p. 293.

] Artigo 15. cit. entregar ou permitir a comunicação ou a entrega. p. criando. Mônica.206). Jus Navigandi. a fauna e a flora juntas. à qual não se remete o tipo penal” (REALE JÚNIOR. BELLO FILHO. Lincoln Magalhães da. cifras ou assuntos que. 15 da Lei 6.. a pena aumenta-se até a metade. a segurança ou a economia do País. aliada à responsabilidade civil e administrativa. excluindo-se do âmbito do injusto típico as condutas escassamente lesivas ou de pouca relevância para o bem jurídico tutelado” (PRADO. documentos ou cópias de documentos. a governo ou grupo estrangeiro. ano 9. Diário da Justiça 18/04/1996. p. matérias não-biodegradáveis.uol. 419).). op. com efetiva lesão ao princípio da legalidade. Tal modo de legislar ofende ao princípio do nullum crimen sine lege. (64) REALE JÚNIOR. 1996. 593. al. 2001. [. Aspectos penais da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente. § 3º. “o termo em níveis tais exprime um certo quantum – suficiente –. op. códigos. Érika. Pena: reclusão. p. bem como referentemente ao que se caracteriza como significativa destruição da flora” (id. p. Jus Navigandi. Responsabilidade penal pela má utilização da água. portos. Dicionário brasileiro de ciências ambientais. (57) A denominada “biota” pode ser compreendida como o “conjunto de seres vivos de um ecossistema. 75). n. uma situação de perigo para a vida humana. paralisação. 383. (62) BECHARA. b) dano. o proprietário de curtume que lança no rio matérias orgânicas putrefactas. Direito penal do ambiente. 25. usinas. DE 1981. Pedro Paulo de et. 2007. substâncias tóxicas. São Paulo: Revista dos Tribunais. total ou parcial. 23 mar. n.uol. Flávio Dino de. Não usou de boa técnica o legislador ao dimensionar de forma tão vaga o objeto da tutela penal. cit. cit. p. ou a organização ou grupo de existência ilegal. op. de 18 de julho de 1989. cit. II – Comete o crime previsto no art. São Paulo: Revista dos Tribunais. op.. Acertou o legislador ao instituí-lo e acertará. PROCESSO PENAL. 3. de dados. n. Lembra a autora ainda. ibid. estaleiros. poluindo-o. p. de atividade ou serviços públicos reputados essenciais para a defesa.. cit.. (53) PRADO. (59) “PENAL. Miguel. Viviane Martins. Teresina. cit.. o magistrado. no interesse do Estado brasileiro. Punem-se os atos preparatórios de sabotagem com a pena deste artigo reduzida de dois terços. p. cit. 461. art. Parágrafo 2º. Há manifesta imprecisão acerca do significado e limite do que deva ser considerado como mortandade. E acrescenta: “[. MEIO AMBIENTE.804. op. 32). que: “essa lei jamais teve efetividade.. 2005.asp?id=3630. T. (50) ROCHA. de gravidade considerável. (68) MILARÉ. I – Não é da classificação do crime que o réu se defende e sim da imputação contida na denúncia (CPP. p. Lincoln Magalhães da. p. não poderá ser considerada como típica. (61) Id. op. se o fato não constitui crime mais grave”. 75. ano 7.] com relação à fauna e à flora só é crime a ação da qual decorram danos e danos elevados: mortandade de animais ou destruição significativa da flora. 2004. Para Luiz Regis Prado. p. p. POLUIÇÃO. (48) ROCHA. p. Assim.. Rio de Janeiro: Thex. meios e vias de transporte. providencialmente. Artigo 13. 61. op. (54) “Lei nº 7. alterado pela Lei nº 7.com. 296. Praticar sabotagem contra instalações militares. art. LEI Nº 6. que podem incidir cumulativamente sem gerar bis in idem (art. 593. assim. dizer o que vem a ser ‘níveis tais’. 2005. 190. 1ª Região. In: Revista de Ciências Penais. Quantos minérios podem interessar ao problema nuclear de maneira indireta ou mesmo direta e não se alinharem entre os estritamente nucleares?” (ROCHA. conjunto de componentes vivos (bióticos) de um ecossistema” (LIMA E SILVA. 49. animal e vegetal” (TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL. 2. p... Édis. ibid. p. ed. Teresina.. c) morte. 109-134.br/ doutrina/texto.. Nicolao Dino de. Tutela penal nas atividades nucleares.938. 11. Unânime. Lincoln Magalhães da. Direito do ambiente. 5. ibid. cit... 3.. Parágrafo 1º. p. 2003. (67) RIBEIRO.). O RIO PARNAÍBA. CASTRO E COSTA. ART. Ap. Tratam-se de corretivos típicos. de três a dez anos.. cit. planos. p. Por destruição significativa da flora deve ser entendida aquela realizada de maneira expressiva. DE 1989.com. Rodrigo Alves da. op. para as finalidades Revista Internacional de Direito e Cidadania. Luiz Regis. São Paulo.11586-0/PI. Luiz Regis. ou de quantidade diminuta de animais. (66) MILARÉ. Disponível no site: http://jus2. resta-nos concluir que o art. De acordo com Miguel Reale Júnior: “Fica ao alvitre do intérprete. depósitos e outras instalações congêneres. 592.. ainda mais. (65) PRADO. op.01. ano 2. elevado o bastante para resultar ou poder resultar em lesão à saúde humana. n. junho/2009 131 . (58) SILVA. Miguel. LEI Nº 7. meios de comunicações. ed. 950. 418-419. p. (51) MÉDICI. 2005... Ney de Barros. 4. CF). op. cit.asp?id=6506. p. 623. destruição ou neutralização de meios de defesa ou de segurança. 2002. p. como um importante e inafastável instrumento de preservação e proteção ambiental. A responsabilidade penal por danos ao meio ambiente. 242. 95. Meio ambiente e Direito penal brasileiro.. (56) Id. In: Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. 244. 3. 225. 383). (49) ANTUNES. dez.170/83. a pena aumenta-se até o dobro. Comunicar. 15 da Lei nº 6. de três a quinze anos. barragem. jan. cit. Édis. logra por desencorajar as condutas causadoras de degradação e desequilíbrio do entorno.15. DEFESA. (55) ANTUNES. Paulo de Bessa. (60) SIFUENTES. p. pois dá uma abertura demasiada ao critério subjetivo do julgador. Disponível no site:http://jus2. Brasília: Brasília Jurídica. p. a pena aumenta-se até o triplo. sendo poucos os casos levados aos tribunais” (id.938/81 tem um salutar papel a cumprir na defesa do meio ambiente e da vida digna da coletividade. São Paulo. Acesso em: 01/11/2007. (63) COSTA NETO. n. p. Relator Juiz Tourinho Neto. (52) ROCHA. aeroportos. Paulo de Bessa Antunes também afirma que: “a morte de um animal. p. fábricas.938. são classificados como sigilosos. 243. sem se ter qualquer parâmetro sequer na legislação regulamentar. 950. Crim. Paulo de Bessa.. Lincoln Magalhães da. NOVA DEFINIÇÃO JURÍDICA.br/ doutrina/texto. Sérgio de Oliveira. Acesso em: 01/11/2007. 75-76). razão pela qual se destaca. 242). Se do fato resulta: a) lesão corporal grave.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO trata-se de um tipo muito aberto que retira à definição legal aquela garantia que representa o princípio da legalidade. ao aplicá-lo” (id. n.804. de 31 de agosto de 1981.. op. Pena: reclusão. Luiz Regis. CPP. São Paulo: Revista dos Tribunais. Crimes ambientais e infrações administrativas ambientais. p. 4. 282. Conforme a autora: “A responsabilidade criminal por condutas lesivas ao meio ambiente.

Do crime de poluição. op. p.. 14. Paulo de Bessa. (81) A respeito. op.] o artigo discutido é. 332. 1995.]. ou que cause danos diretos e efetivos à sua saúde” (PRADO. Direito ambiental . op.MARTINS. Os assuntos envolvendo a produção nuclear. 2003. 726. (80) RIBEIRO. cit. Lavra é o conjunto de operações coordenadas objetivando o aproveitamento industrial da jazida (cf. (76) Pesquisa mineral é a execução dos trabalhos necessários à definição de jazida. op. In: FREITAS. p. ANTUNES. ‘em níveis tais’. Gilberto Passos de. Direito ambiental em evolução. Muitos danos ao meio ambiente são irrecuperáveis.. em tal concentração que determine ou obrigue a retirada (parcial ou total. jan. cit. Direito ambiental . 6. ed. artigo 10 da Lei nº 7.. cit.. 191). CASTRO E COSTA.605/98 ao inserir a questão nuclear em um pequeno parágrafo. os delitos relativos à energia nuclear. junho/2009 . 2008. Seguindo a tese da inconstitucionalidade deste dispositivo. ficariam melhor se alocados em lei específica.. p. 728). com atentados a bens jurídicos fundamentais como a vida. conclui Viviane Martins Ribeiro: “[. explica Luiz Regis Prado que tal pode ser “entendida como a alteração do meio aéreo em decorrência do lançamento de gases ou partículas poluentes (substâncias ácidas. Portanto. p. indubitavelmente. Luiz Regis. Jacqueline. Paulo Affonso Leme. (72) MACHADO. 68.. sua avaliação e a determinação da exeqüibilidade do seu aproveitamento econômico (cf. Na verdade. 950. cit. p. 195. p.. p.. Meio ambiente e mineração. cit. p.. p. MORAND-DEVILLER. 143)]. Por sua vez. MENDES. cit.605/1998: equívocos do legislador. E. contudo. Gilberto Passos de (org. ed. que pode. mais uma vez. Gilberto Passos de (org. ed. (70) MILARÉ. Paris: Presses Universitaires de France. 326. como abordando-a de forma insignificante. BELLO FILHO. cit. Paulo Afonso Brum. (78) MACHADO. artigo 36 do Decreto nº-Lei nº 227/67). pela sua grande especificidade e pela extrema gravidade que encerram. Paulo de Bessa. Murilo. integridade corporal e ambiental. In: FREITAS. Com certeza. ed. pois. Marcelo. op. saúde pública. p. entretanto. p. 1. Ney de Barros Bello Filho e Flávio Dino de Castro e Costa registram que: “Embora de má técnica [. 2000. por ato seu de caráter singular – dirigido a agente determinado – criar um tipo penal novo. (74) VAZ.. 717-718). Nicolao Dino de Castro e Costa Neto. não gera arbítrio do julgador. 4. Flávio Dino de. pois todas essas expressões estão fortemente ligadas à possibilidade de causar perigo ou dano aos bens protegidos. op. jazida é “toda massa individualizada de substância mineral ou fóssil.. Paulo Affonso Leme. Lei 9. 1998.). que.. Gilberto Passos de.. através de uma simples notificação fiscal ambiental’. Paulo Affonso Leme Machado afirma. 150). J. cit. Direito ambiental brasileiro. Luiz Regis. Para Luiz Regis Prado: “Teria sido preferível a não inclusão da matéria nuclear no âmbito dos delitos contra o ambiente de modo genérico. cit. já que exigem também proporcionalmente ao desvalor do ato e do resultado uma sanção mais severa” (PRADO. Paulo Affonso Leme. Édis. que também pode levar à incerteza jurídica. do artigo que está sendo examinado.453/77” (MACHADO. op. Édis. A esse respeito. 2. Flávio Dino de. Ney de Barros. n. p. R. ano 10. Viviane Martins. ‘transferiu-se para o fiscal do meio ambiente (de órgão ambiental federal. Crimes contra a natureza. 421). caracterizando o chamado ‘tipo aberto’. na sua quase-totalidade. 193-194. 2003. cit.. 6. artigo 14 do Decreto nº-Lei nº 227/67). Tutela penal do patrimônio cultural. 109-134. p. José Luiz. 29. Viviane Martins. Ivete Senise. (75) COSTA NETO. 165). Nicolao Dino de. categoricamente: “Não é excessivo o espectro da locução – ‘qualquer natureza’ –. e o agente não obedece. tóxicas ou radioativas) –.. A sua admissão em nosso ordenamento jurídico é uma afronta aos princípios basilares da Constituição Federal” (RIBEIRO. os produtos químicos e radioativos” [(FREITAS. São Paulo: Revista dos Tribunais. In: Boletim IBCCrim. v. afirma Gilberto Passos de Freitas: “Um dos princípios basilares do Direito ambiental é o da precaução. p. op. não deve ser admitida.805/89). estará cometendo o crime” (FREITAS. de um dispositivo inconstitucional. p. (71) Sobre a poluição atmosférica. estadual ou municipal) o poder de singularizar a norma penal para transformar em crime uma conduta omissiva de uma empresa ou pessoa física determinada que venha a deixar de adotar uma certa medida de precaução que aquela autoridade lhe exigiu. op. cit. (77) COSTA NETO. 251. CASTRO E COSTA. p. Paulo Affonso Leme.. 94). pois para a consumação do delito é preciso mais do que poluir: é necessário poluir perigosamente ou causando dano”. Quanto à poluição da água.-mar. Ney de Barros. da forma como está a redação desse artigo. em seus aspectos criminais. 189-190. MACHADO. entende que “essa posição. É um tipo penal aberto. Le droit de l’environnement. n. irreversíveis. cit.).. (79) FREITAS. Vladimir Passos de. 950. Gilberto Passos de. p. Paulo Affonso Leme Machado diz que: “Não foi feliz a Lei 9. 37. a esse respeito. op. Igual raciocínio deve ser válido para a flora” (ANTUNES. cit. se a autoridade exigir que sejam adotadas medidas para evitar a ocorrência de um dano ambiental grave e irreversível. p. acrescentando ainda. trata-se. Há manifesto arbítrio para a autoridade administrativa ambiental. 4. Crimes ambientais e os princípios da reserva legal e da taxatividade do tipo em Direito penal. lembra Gilberto Passos de Freitas que “as causas mais comuns da poluição da água são: os dejetos humanos e industriais.. p. p. inconstitucional. 511). o artigo define um novo tratamento para todos 132 Revista Internacional de Direito e Cidadania. op. p. que ele não entende “censurável o emprego das locuções ‘de qualquer natureza’. op.. p. III da Lei 6. 67. p. nota n.. definitiva ou momentânea) dos habitantes do local atingido. Contrário a essas críticas. aflorando à superfície ou existente no interior da terra e que tenha valor econômico” (artigo 4º do Decreto nº-Lei nº 227/67).. Extração é a atividade de aproveitamento de substâncias minerais garimpáveis (cf. citando Marcelo Leonardo (LEONARDO. op. op. p. Curitiba: Juruá. continuam regidos pelo Cap. semeando confusão ao tratar da matéria.. São Paulo. Já Ivete Senise Ferreira frisa o seguinte: “Uma questão de grande relevância na estrutura do tipo penal ambiental é o da sua amplitude ou indeterminação da conduta incriminada. Paulo Affonso Leme. A sua amplitude permite a criação de tipos penais aleatoriamente por autoridades competentes. 84). cit. Nicolao Dino de. São Paulo: Revista dos Tribunais. nem insegurança para o acusado” (MACHADO. (69) BEDNARSKI. FREITAS... o princípio da legalidade” (RIBEIRO. beirando os limites da infringência ao princípio da legalidade” (FERREIRA. 429). conseqüentemente. n. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais. p. 16. Viviane Martins. BELLO FILHO. São Paulo: Malheiros. (73) MILARÉ. cit. ofendendo. op. 2002. Viviane Martins Ribeiro. 722. São Paulo.

. BELLO FILHO. ainda mais se se levar em conta que elas dependem de aprovação do Congresso Nacional” (RIBEIRO.. emprego ou função em entidade paraestatal. FREITAS. moralidade. n. Flávio Dino de. BELLO FILHO. Parágrafo 1º. cit. (94) FREITAS. Ney de Barros. as mais variadas atividades poderão. exige prudência do Ministério Público e do Judiciário. sem que haja justa causa. 109-134. 127. 20. p. Ney de Barros. ampliação. 371). CASTRO E COSTA. Já para Nicolao Dino de Castro e Costa Neto. p... Flávio Dino de. 21. 197. In: Revista Forense. Flávio Dino de. É preciso que no caso concreto se examine o constrangimento de se submeter cidadãos às agruras do processo penal. 176-177). BELLO FILHO. ou descarte de materiais radioativos ou nucleares que se encontravam previstas na Lei nº 6. impessoalidade. Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo.. Miguel. (83) Relativamente às instalações nucleares e radioativas. p.. Direito administrativo. configurar esse crime. p. sob o critério subjetivo do autor da denúncia. Vladimir Passos de. Ney de Barros Bello Filho e Flávio Dino Castro e Costa. Luiz Regis.]”. Nicolao Dino de. Para os conceitos de “permissão” e “licença” dessa mesma autora. Nicolao Dino de. Flávio Dino de. A lei . p.. p. Vladimir Passos de.. op. 191). Gilberto Passos de. p. cit... em tese” (FREITAS. devem funcionar como fatores tranqüilizadores para os mais receosos” (COSTA NETO. op. observa Viviane Martins Ribeiro que: “Cabe.. 247). p.. 23. op. 22 e parte do 25 da Lei nº 6. inciso II.-mar. cit.938/81: artigo 3º. em prejuízo dos valores da certeza e da segurança.. p..] a sofisticação do sistema de revisão de decisões judiciais – mormente na órbita criminal –.. (86) “Artigo 327. p.. op. p. op.. permanecendo em vigor os arts. p. 538). 196). 19. Paulo Affonso Leme. porém o art. do qual é difícil (senão impossível) extrair situações definidas e precisas. essenciais à garantia dos direitos da pessoa humana. ibid. p. p. ou mesmo de subjetividade.]”. 23 e 26 da Revista Internacional de Direito e Cidadania. p. seriam legalmente proibidos (autorização como ato de polícia)” (DI PIETRO. (93) MACHADO. FREITAS.. 182. Esse fato. op. apenas quatro permanecem em vigor (arts. 876.. publicidade e eficiência [. (85) COSTA NETO. cit. op. Luiz Regis Prado afirma se tratar de uma “expressão por demais genérica” (PRADO. cit. 23. Igualmente.453/77 e o art. Flávio Dino de. Se não houver discernimento na apreciação dos fatos. jan. 345. 56 [. op. Édis. op. discricionário e precário pelo qual a Administração faculta ao particular o uso de bem público (autorização de uso). (97) Id. “os tipos penais dos arts.] de um tipo extremamente aberto. A própria diferença existente entre os vários ambientes – a principiar pela diferença entre os ambientes natural. FREITAS. cit.. para os efeitos penais. Ney de Barros. (95) COSTA NETO. Considera-se funcionário público. (87) Artigo 37 da Constituição Federal: “A administração pública direta ou indireta de qualquer dos Poderes da União. ou a prática de ato que. 24 e 25. cuja abrangência alcança uma grande quantidade de situações fáticas.605/98 leva à conclusão de que ele dá novo tratamento aos arts. Não. Portanto.. 24. ou o desempenho de atividade material. 21. Nicolao Dino de. Maria Sylvia Zanella. Gilberto Passos de. do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade. 20. reforma. 20. por outro possibilita uma atuação judicial mais eficaz no que se refere à repressão às agressões ao meio ambiente [. 181 e n. ou a prestação de serviço público (autorização de serviço público). (96) MILARÉ. op. Viviane Martins..453/77. porém.. só esse tipo penal remanesce na antiga lei que define as atividades nucleares” (FREITAS. 56 da Lei 9. (98) De acordo com Viviane Martins Ribeiro: “Dos oito tipos legais inicialmente previstos no texto legislativo de 1977.. cit. cit. Viviane Martins. cit. 541. Gilberto Passos de. 215-216). cit. Vladimir Passos de. CASTRO E COSTA.453/77 foram revogados pelo § 2º do art. (84) RIBEIRO.. Viviane Martins. Gilberto Passos de. esses dispositivos foram revogados pela lei nova. Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Freitas alertam: “Trata-se de tipo penal aberto. as condutas que correspondem a utilizar-se sem a devida atenção as normas de segurança. Na opinião de Alessandra Rapassi Mascarenhas Prado. CASTRO E COSTA. Ney de Barros Bello Filho e Flávio Dino de Castro e Costa “[. Ney de Barros. 22. (92) RIBEIRO. instalação ou funcionamento de instalações nucleares em razão de sua complexidade..] este preceito consagra um tipo extremamente aberto que. exerce cargo. dos Estados. 337). p. Já Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Freitas admitem: “Andou certo o legislador ao estabelecer essa causa de aumento de pena. op. inaugurando um novo tratamento para toda conduta descrita que tenha por objeto material radioativo ou nuclear” (COSTA NETO. vide notas de n. (88) Autorização administrativa é entendida como “o ato administrativo unilateral. fazer a ressalva de que esse dispositivo tem uma maior incidência quanto às segundas – instalações radioativas – pelo simples fato de que não é fácil proceder à construção. CASTRO E COSTA. 198. Vladimir Passos de. “o art. 127. cultural e artificial – sugere que o ‘relevante interesse’ tem aspectos e pesos variados. se de um lado tem o inconveniente de fragilizar o princípio da segurança jurídica.455/77 foram substituídas pelo tipo criado a partir da combinação dos §§ 1º e 2º” (COSTA NETO. (82) Lei nº 6. (89) REALE JÚNIOR. cit. 26 e 27)” (RIBEIRO. Para Nicolao Dino de Costa Neto. 337).. 24 da Lei 6. CASTRO E COSTA. p. que é inquestionável. vol.. op. Nicolao Dino de. junho/2009 133 . (91) REALE JÚNIOR. BELLO FILHO. 952). 21. Vladimir Passos de Freitas e Gilberto Passos de Freitas acrescentam: “Pois bem: um exame perfunctório do art. Rio de Janeiro. 55 da Lei 9. p. cit. 217. 56 (§ 2º) da Lei 9. Como estabelecer a figura do crime?” (MILARÉ. op.]. op. 56 e seu § 1º.. 1999.. cit. 953. 237). Édis.605/98 revogou os arts. 345. cit. emprego ou função pública. op. cit. cit.. Ney de Barros.. 4. Nicolao Dino de. O que vem a ser ‘relevante interesse ambiental’? Parece inevitável um componente de relatividade. op. 2006.TUTELA PENAL DAS ATIVIDADES NUCLEARES NO ÂMBITO DO ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO BRASILEIRO os tipos penais descritos no art. cit. São Paulo: Atlas. ed. p. BELLO FILHO. Viviane Martins. p.. na apreciação desse interesse. (90) Para Édis Milaré: “Trata-se [. quem. ou seja. FREITAS.].. considerando os riscos que derivam do emprego de tais produtos” (FREITAS. op. p. e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da Administração Pública [.. sem esse consentimento. embora transitoriamente ou sem remuneração. bem como a expressiva tradição jurisprudencial de tutela da liberdade. 27 [. 25 e 26 da Lei 6. Logo. Miguel.605/98 revogou o art. 22. A lei de crimes ambientais.

Alessandra Rapassi Mascarenhas.605/98 não previu: ‘possuir. 134 Revista Internacional de Direito e Cidadania. p. trazer consigo’ (art. 590). armazenar. que “não se pune toda emissão de poluentes. Édis. a preocupação restringia-se às atividades nucleares em si.. p. portanto.605/98: ‘produzir.938/81 se subsume só à exposição da incolumidade humana.605/98 são: “Produzir. Requisitos de segurança e proteção radiológica para instalações mínero-industriais. Viviane Martins. 26. comercializar. 428 – nota de rodapé n. J. 22. cit. p. não se deve analisar a questão..].prossiga. (108) A esse propósito. ter em depósito ou usar”.453/77” (PRADO. p. 156-157).br/recursosminerais. p. Também no sentido de que essa lei não tutelou o meio ambiente: FREITAS. 2000. observando-se. 56 da Lei 9. economicamente. 949 e 955.453/77 – observando. 112). São Paulo: Revista dos Tribunais. cit. p. No mesmo sentido: MILARÉ. R. p. portanto. somente pode ter como suporte a revogação na sua forma tácita. Lei 6.453/1977” (id. indistintamente. processar. Alessandra Rapassi Mascarenhas.. cit. cit. ou da saúde ou do patrimônio a perigo por não observação das regras de segurança e proteção relativas à instalação nuclear ou o uso. 22) e ‘exportação e importação de minérios nucleares’ (art. guardar’ (art. Por fim. ‘transportar. cit. FREITAS. Luiz Regis. cit. op. op. 22) e ‘exportar. ou à elevação da situação de perigo existente por parte do poluidor.. 25)” (MACHADO. animal ou vegetal a perigo.01. de acordo com Alessandra Rapassi Mascarenhas Prado. v. ao passo que o minério em si mesmo considerado constitui um “mineral ou associação de minerais que podem. que era a sistematização da legislação penal esparsa relativa ao meio ambiente” (PRADO. Paulo de Bessa. o artigo 54 da Lei nº 9. op. conforme Fernando Fragoso. p. A Conferência de Estocolmo [. 4. pois não houve qualquer revogação expressa.605/98 “revogou tacitamente o artigo 24 da Lei 6. adquirir. diante da redação dos artigos em questão. Além disso. que o legislador em questão falhou ao não revogar expressamente os delitos. op.453/77 por outros constantes da Lei nº 9. fornecer. o artigo 56 da Lei nº 9. a posse e a guarda de material nuclear (art.. cit. porém. a integridade física e o patrimônio (art. 20). ainda.453/77 incriminam os mesmos comportamentos que o art. Exige-se então a real lesão ou o risco provável de dano à saúde humana.. ou a que provoque a matança de animais ou destruição [. cit. Disponível no site: http://www. p. porém. Vladimir Passos de. 154). Já o seu parágrafo 1º se refere à conduta de abandonar ou utilizar o respectivo objeto material do crime. guardar.. embalar. p. p. em condições favoráveis. Já a Comissão Nacional de Energia Nuclear define minério como sendo todo “mineral ou associação de minerais do qual pode ser concentrado e extraído. para Luiz Regis Prado. de 06/01/2005)]. jan. 109-134. em 1972. o artigo 55 da Lei nº 9. (102) As ações nucleares previstas no caput do artigo 56 da Lei nº 9. 161)..] significativa da flora.. Leis penais e processuais penais comentadas. Paulo Affonso Leme. o transporte. Não se cogitava sobre possíveis malefícios que a energia nuclear poderia proporcionar à saúde humana e ao meio ambiente. Glossário. p. Paulo de Bessa Antunes acrescenta: “Qualquer ato ou omissão que implique dano efetivo causado contra [. Norma CNEN-NN-4.605/98.. inclusive o da brasileira. p. 191 e 246. (107) Verifica-se. Mesmo porque esta noção de meio ambiente era. Entretanto. a lei nuclear contém comportamentos que a Lei 9. (100) Qualquer tese relativa à revogação de dispositivos previstos na Lei nº 6. 535 – nota de rodapé n.605/98 revogou implicitamente “os artigos 20. Rio de Janeiro. Paulo de Bessa. In: Revista Forense. Paulo de Bessa.] deverá ser punido pela legislação penal comum” (ANTUNES. cit.453/77 projeta todo esse contexto no qual a sociedade vivia” (RIBEIRO. processar..MARTINS.453)” (FRAGOSO. Nenhum deles protegeu o ambiente” (RIBEIRO. importar. 56 abre espaço para a aplicação do preceituado nos artigos 20.] o meio ambiente [. Logo. 161). ANTUNES. não há sequer um julgado a esse respeito no Poder Judiciário brasileiro. transportar. op. os quais podem conter ou não apresentar elementos nucleares como constituinte principal (PORTAL DE RECURSOS MINERAIS. são válidas as razões expostas por Viviane Martins Ribeiro: “Em um primeiro momento. apenas um deles tutelou a vida. p. op. 271) e o artigo 67 da Lei nº 9.. (104) ANTUNES. 453 – nota de rodapé n. Os crimes contra o meio ambiente no Brasil.453/1977” (id. op. cit. 25). p. junho/2009 . sob a perspectiva que o faz Paulo Affonso Leme Machado.605/98 “revogou tacitamente o artigo 21 da Lei 6. Proteção penal do meio ambiente. p.. Guilherme de Souza. 727). que não mais vigem todos os dispositivos desta lei –. as espécies de elementos físicos ou biológicos componentes do meio ambiente. (106) Para Viviane Martins Ribeiro: “Dentre os oito tipos previstos na Lei 6. exportar. op.j. 511. cit. (101) Os chamados recursos minerais são compreendidos como as “concentrações minerais na crosta terrestre cujas características fazem com que sua extração seja ou possa chegar a ser técnica e economicamente factível”. 512 e 514. 20 e 22 e parte do art. que “apenas uma das condutas incriminadas interessa diretamente à tutela do meio ambiente: a exposição da vida. 25 da Lei 6. op. A análise dos bens jurídicos tutelados pelas diversas figuras delitivas constantes da Lei 6. op. p. 237).. 24 e 25 da Lei 6. que diz: “Os arts.. percebe-se. mas não assimiladas por todos os Estados. Lei nº 6. 561). 26). “descumprindo um dos objetivos da nova Lei. Acesso em: 02/03/2008). 317. n.453/77” (PRADO.m. 22. Fernando. a postura adotada neste trabalho quanto ao tema da revogação de dispositivos penais atinentes às atividades nucleares caminha nesse sentido. fornecer ou usar material nuclear’ (art. (99) De fato. 418).605/98 pune o fato de ele causar poluição de qualquer natureza e que possa atingir. Ao contrário. um elemento químico ou um bem mineral” [(COMISSÃO NACIONAL DE ENERGIA NUCLEAR (CNEN).453/77” (NUCCI. extermínio de exemplares da fauna local ou destruição expressiva de parcela representativa do conjunto de vegetais de determinada região” (PRADO. mas somente aquela efetivamente danosa ou perigosa para a saúde humana. op.. Guilherme de Souza Nucci admite que: “o art. 24 e 25 da Lei 6. 1992. Gilberto Passos de. e suas idéias apenas haviam sido lançadas. importar’ (art. Luiz Regis.. Viviane Martins. São Paulo: Atlas.. enfatizavam-se os benefícios dessa energia e o que estes poderiam representar ao desenvolvimento das nações.-mar. 2006... serem trabalhados industrialmente para a extração de um ou mais metais”. (105) Enquanto a ação prevista no artigo 15 da Lei nº 6. 15).. incipiente. (103) S..

sócia-fundadora do Instituto Socioambiental (ISA). é feito também um estudo a respeito da várias decisões provenientes da Corte Americana e da Corte Européia de Direitos Humanos. menciona-se um acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal em que se reconheceu o direito ao ambiente sadio como um dos direitos humanos de terceira geração (ou terceira dimensão). do Ministério Público do Distrito Federal. cuja natureza seria metaindividual. 4. p. adotando o paradigma do multiculturalismo e do respeito e proteção das culturas indígenas. Autora do livro “Socioambientalismo e novos direitos” (Editora Peirópolis/ISA/IEB. portanto.Artigo DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL Juliana Santilli1 RESUMO: Através de uma análise crítica da jurisprudência nacional e internacional. junho/2009 135 . Jurisprudência. 2005) Revista Internacional de Direito e Cidadania. Nesse sentido. dentre as quais se cita. 135-149. difusa e coletiva. Por sua vez. o julgamento da Corte Americana de Direitos Humanos que reconheceu o direito dos povos indígenas da Nicarágua a seu território e recursos naturais. o texto aborda a questão do direito ao ambiente sadio como um direito humano e ao qual. e os desafios enfrentados pela Corte Européia de Direitos Humanos ao decidir casos envolvendo violações ao direito ao ambiente sadio. mestre em Direito pela Universidade de Brasília e doutoranda pela PUC-PR. 1 Promotora de Justiça. Palavras – chave: Ambiente sadio. n. como importantes exemplos. deverão ser reconhecidos instrumentos para garantir a sua proteção. a qual ainda analisa esta infração apenas de modo indireto pela ausência de previsão expressa do termo na Convenção Européia para Proteção dos Direitos dos Homens e das Liberdades Públicas. Direitos humanos.

diffuse and collective.PRERROGATIVA QUALIFICADA POR SEU CARÁTER DE METAINDIVIDUALIDADE . p. CUMPRIDAS AS EXIGÊNCIAS LEGAIS. 225) . amongst which it may highlighted. em que o direito humano ao ambiente sadio é expressamente reconhecido.SUPRESSÃO DE VEGETAÇÃO EM ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE .POSSIBILIDADE DE A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. § 1º. n. o artigo aborda decisões das Cortes Inter-Americana e 136 Revista Internacional de Direito e Cidadania. ART. LICENCIAR OU PERMITIR OBRAS E/OU ATIVIDADES NOS ESPAÇOS TERRITORIAIS PROTEGIDOS. NO SEIO DA COLETIVIDADE. J. ART. Jurisprudence. adopting the paradigm of the multiculturalism and the respect and protection of the aboriginals cultures. bem como as suas limitações. Na segunda parte. Medida Cautelar em Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3. DESDE QUE RESPEITADA. Introdução O presente artigo analisa casos paradigmáticos da jurisprudência nacional e internacional acerca do direito humano ao ambiente sadio. Européia de Direitos Humanos sobre questões ambientais. e sua natureza coletiva e intergeneracional.540-1 Relator: Ministro Celso de Mello Requerente: Procurador-Geral da República Requerido: Presidente da República Ementa: MEIO AMBIENTE . destaca um acórdão do Supremo Tribunal Federal. que deve orientar a atividade econômica. É também consagrado o princípio do desenvolvimento sustentável. In this direction. Keywords: Healthy environment. Na primeira parte.NECESSIDADE DE IMPEDIR QUE A TRANSGRESSÃO A ESSE DIREITO FAÇA IRROMPER. and the challenges faced by the European Court of Rights Human when deciding cases involving violations of the right to a healthy environment. 135-149. 225. junho/2009 .ESPAÇOS TERRITORIAIS ESPECIALMENTE PROTEGIDOS (CF.MEDIDAS SUJEITAS AO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA RESERVA DE LEI . which still analyzes this infraction only indirectly because the absence of express provision of the word in the European Convention for Protection of the Rights of the Men and the Public Freedoms.DIREITO DE TERCEIRA GERAÇÃO (OU DE NOVÍSSIMA DIMENSÃO) QUE CONSAGRA O POSTULADO DA SOLIDARIEDADE . the text approaches the question of the right to the healthy environment as a human right and for which. O Supremo Tribunal Federal e o reconhecimento do direito humano ao ambiente sadio. tanto no âmbito nacional como internacional. enfocando os principais marcos jurídicos protetivos. the judgment of the American Court of Human Rights that recognized the right of the aboriginal peoples of Nicaragua to its territory and natural resources. In turn. will have to be recognized instruments to guarantee its protection.DIREITO À PRESERVAÇÃO DE SUA INTEGRIDADE (CF. as important examples. CONFLITOS INTERGENERACIONAIS . Human rights. A INTEGRIDADE 1.ALTERAÇÃO E SUPRESSÃO DO REGIME JURÍDICO A ELES PERTINENTE . a study regarding some decisions proceeding from the American Court and the European Court of Human Rights is also made. 4. whose nature would be metaindividual. therefore. QUANTO A ESTES. a sentence pronounced by the Supreme Federal Court is mentioned in which it was recognized the right to the healthy environment as one of the human rights of third generation (or third dimension). AUTORIZAR. 2. Tais casos revelam as possibilidades de utilização dos instrumentos e de toda estrutura legal internacional em matéria de direitos humanos para promover os direitos ambientais. ABSTRACT: Through a critical analysis of the national and international jurisprudence.SANTILLI. III) .

VI) E ECOLOGIA (CF. no entanto. O ART. 225) . junho/2009 . cuja observância não comprometa nem esvazie o conteúdo essencial de um dos mais significativos direitos fundamentais: o direito à preservação do meio ambiente.OS DIREITOS BÁSICOS DA PESSOA HUMANA E AS SUCESSIVAS GERAÇÕES (FASES OU DIMENSÕES) DE DIREITOS (RTJ 164/158.Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. 170. no seio da coletividade. os graves conflitos intergeneracionais marcados pelo desrespeito ao dever de solidariedade. na proteção desse bem essencial de uso comum das pessoas em geral. 170. art. C/C O ART.O princípio do desenvolvimento sustentável. subordinada. . esse direito de titularidade coletiva e de caráter transindividual (RTJ 164/158-161). encontra suporte legitimador em compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro e representa fator de obtenção do justo equilíbrio entre as exigências da economia e as da ecologia. ART. II) E A NECESSIDADE DE PRESERVAÇÃO DA INTEGRIDADE DO MEIO AMBIENTE (CF.DECISÃO NÃO REFERENDADA . a invocação desse postulado. ainda mais se se tiver presente que a atividade econômica. trabalho e bem-estar da população.DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL DOS ATRIBUTOS JUSTIFICADORES DO REGIME DE PROTEÇÃO ESPECIAL . em benefício das presentes e futuras gerações. que traduz conceito amplo e abrangente das noções de meio ambiente natural. 4. Trata-se de um típico direito de terceira geração (ou de novíssima dimensão). considerada a disciplina constitucional que a rege. A QUESTÃO DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL (CF. que traduz bem de uso comum da generalidade das pessoas. representa a garantia de que não se instaurarão. considerado este em seu aspecto físico ou natural. Os instrumentos jurídicos de caráter legal e de natureza constitucional objetivam viabilizar a tutela efetiva do meio ambiente. àquele que privilegia a “defesa do meio ambiente” (CF. para que não se alterem as propriedades e os atributos que lhe são inerentes. a uma condição inafastável. 170. ART. 135-149. 3º. n. 3º. dentre outros princípios gerais. quando ocorrente situação de conflito entre valores constitucionais relevantes. A ATIVIDADE ECONÔMICA NÃO PODE SER EXERCIDA EM DESARMONIA COM OS PRINCÍPIOS DESTINADOS A TORNAR EFETIVA A PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE. a especial obrigação de defender e preservar. o que provocaria inaceitável comprometimento da saúde. p. . 4º DO CÓDIGO FLORESTAL E A MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.CRITÉRIOS DE SUPERAÇÃO DESSE ESTADO DE TENSÃO ENTRE VALORES CONSTITUCIONAIS RELEVANTES . além de impregnado de caráter eminentemente constitucional. de meio ambiente cultural. que é irrenunciável. que assiste a todo o gênero humano (RTJ 158/205-206). 160-161) . Doutrina. ART. a ser resguardado em favor das presentes e futuras gerações.A incolumidade do meio ambiente não pode ser comprometida por interesses empresariais nem ficar dependente de motivações de índole meramente econômica.166-67/2001: 137 Revista Internacional de Direito e Cidadania. que a todos se impõe.RELAÇÕES ENTRE ECONOMIA (CF. além de causar graves danos ecológicos ao patrimônio ambiental. O adimplemento desse encargo. II. cultura. . ART. VI). está subordinada.A QUESTÃO DA PRECEDÊNCIA DO DIREITO À PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: UMA LIMITAÇÃO CONSTITUCIONAL EXPLÍCITA À ATIVIDADE ECONÔMICA (CF. 225): O PRINCÍPIO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL COMO FATOR DE OBTENÇÃO DO JUSTO EQUILÍBRIO ENTRE AS EXIGÊNCIAS DA ECONOMIA E AS DA ECOLOGIA. ao Estado e à própria coletividade. segurança.CONSEQÜENTE INDEFERIMENTO DO PEDIDO DE MEDIDA CAUTELAR. Incumbe.COLISÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS . VI) . ART. A PRESERVAÇÃO DA INTEGRIDADE DO MEIO AMBIENTE: EXPRESSÃO CONSTITUCIONAL DE UM DIREITO FUNDAMENTAL QUE ASSISTE À GENERALIDADE DAS PESSOAS. Doutrina. de meio ambiente artificial (espaço urbano) e de meio ambiente laboral.

ao contrário. de forma tão explícita e incisiva3. . cuja situação de maior vulnerabilidade reclama proteção mais intensa. Plenário. quanto a tais territórios. de modo adequado e compatível com o texto constitucional. que não se enquadra nem no público nem no privado. à própria coletividade social” (Tribunal Pleno.É lícito ao Poder Público . 4o do Código Florestal. uma diferenciação em relação aos direitos humanos de “primeira geração”. o Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de Direitos Econômicos. resultado da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. e reitera o princípio do desenvolvimento sustentável . Reconhece ainda que se trata de um direito de “terceira geração”. 3 Outras decisões do STF se referem ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. mecanismos que permitem um real controle. licenciar ou permitir a execução de obras e/ou a realização de serviços no âmbito dos espaços territoriais especialmente protegidos.9 e ss. In: WOLKMER. afirma. art. São Paulo: Saraiva. ou de “novíssima dimensão”. preservação e melhoramento do meio ambiente”. o direito humano ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. desde que. 225. intitulado “Nosso Futuro Comum”. . No mesmo sentido. conhecido como o “Protocolo de São Salvador”. José Rubens (Orgs. mas num sentido verdadeiramente abrangente. pelo Estado.02. que: “Toda pessoa tem direito de viver em meio ambiente sadio e a dispor dos serviços públicos básicos. J. das atividades desenvolvidas no âmbito das áreas de preservação permanente. p. constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva. junho/2009 .A Medida Provisória nº 2. . que são os direitos sociais. dentro do processo de afirmação dos direitos humanos. UM AVANÇO EXPRESSIVO NA TUTELA DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. da Constituição. Sociais e Culturais. 4 A Declaração do Rio de Janeiro. que são os direitos civis e políticos. agora propiciada. Antônio Carlos. Os direitos humanos se somam e se complementam.autorizar.desenvolvido a partir do relatório da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas. refletindo. e divulgado em 1987. Segundo o acórdão proferido no MS 22164/SP: “O direito à integridade do meio ambiente. O conceito mais aceito atualmente é de que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito humano de “terceira dimensão”. III.321/99. publicado no DJ de 17/11/1995). Gro Brundtland. tratando-se de um “direito de solidariedade”. DJ 03. Faz. . econômicos e culturais. já consagrado em declarações e convenções internacionais4. n. o acórdão destaca ainda que a atividade econômica não pode ser exercida em desarmonia com os princípios destinados a tornar efetiva a proteção ao meio ambiente. negou referendo à decisão que deferiu o pedido de medida cautelar. III). Os Estados Partes promoverão a proteção.SANTILLI. a instituição de regime jurídico de proteção especial (CF. coordenado pela então primeira-ministra da Noruega. por efeito da cláusula inscrita no art. Analisando o capítulo de meio ambiente da Constituição brasileira (artigo 225 e seus diversos incisos e parágrafos). 225. típico direito de terceira geração. assim. e os de “segunda geração”. e promulgado pelo Decreto nº 3. tal como o direito à autodeterminação dos povos e à paz. Distrito Federal e Municípios) . em seu artigo 11. além de observadas as restrições. em função de sua natureza metaindividual. 01. realizada em 1992. MORATO LEITE. § 1º. § 1º.09.2005. a expressão significativa de um poder atribuído não ao indivíduo identificado em sua singularidade. O desenvolvimento sustentável é “aquele que O Tribunal.166-67. tem como o seu primeiro princípio: “Os seres humanos constituem o centro das preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável.qualquer que seja a dimensão institucional em que se posicione na estrutura federativa (União. na parte em que introduziu significativas alterações no art. Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a natureza”. não resulte comprometida a integridade dos atributos que justificaram. em ordem a impedir ações predatórias e lesivas ao patrimônio ambiental. 225 da Lei Fundamental. 135-149. pelo diploma normativo em questão. limitações e exigências abstratamente estabelecidas em lei. Antônio Carlos. de 24/08/2001. 4. p. como poderia levar a crer a idéia de “gerações” de direitos5. Ministro Celso de Mello. consagrando o postulado da solidariedade.2006. longe de comprometer os valores constitucionais consagrados no art. como matérias sujeitas ao princípio da reserva legal. por maioria. nos termos do voto do relator. vencidos os Ministros Carlos Britto e Marco Aurélio. Os “novos” direitos no Brasil: natureza e perspectivas.). restaurando a eficácia e a aplicabilidade do diploma legislativo impugnado. Estados-membros. difusa e coletiva. 5 WOLKMER.Somente a alteração e a supressão do regime jurídico pertinente aos espaços territoriais especialmente protegidos qualificam-se.Acórdão. 2003. e não substituem uns aos outros. estabeleceu. 2 2 O acórdão do Supremo Tribunal Federal cuja ementa está transcrita acima é o primeiro a reconhecer. Introdução aos fundamentos de uma teoria geral dos “novos” direitos. 138 Revista Internacional de Direito e Cidadania.

por meio da publicidade dos instrumentos de avaliação de impacto ambiental e do licenciamento ambiental. Departamento de Direito Econômico da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Ano II. BARROS-PLATIAU. a dissertação de mestrado de Raul Silva Telles do Valle. 2003. p. In: LIMA. pessoas físicas ou jurídicas. também. deve ser eqüitativo9. dispõe sobre a educação ambiental. independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Veja-se. e tais direitos restringem e condicionam a utilização e o consumo dos recursos naturais pelas presentes gerações. 6 7 O acesso aos bens ambientais. p. Paulo Affonso Leme. Brasília: Ibama. 135-149. p. uma de suas expressões é a obrigação de realização de estudo prévio de impacto ambiental para atividades degradadoras do meio ambiente. segundo o qual: “quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis. são assegurados direitos a gerações que ainda não existem. 8 Veja-se. A Constituição consagra ainda o princípio da obrigatoriedade da intervenção do Poder Público. também. O acórdão reconhece ainda. atualizada e ampliada. A Lei nº 10. André (Org. nosso artigo. 2002.49-53 e AGUIAR. Revista Internacional de Direito e Cidadania. a sanções penais e administrativas. Tal princípio passou a permear o texto constitucional e as leis ordinárias. em seus diversos níveis e instâncias. . no artigo 225. p. sobre Sociedade civil e gestão ambiental no Brasil: uma análise da implementação do direito à participação em nossa legislação. 11 DERANI. O acesso à informação6 e à educação ambiental7 são também reconhecidos como fundamentais à formação e à capacitação para a participação consciente e eficaz na gestão socioambiental8. fundamentado no direito intergeneracional – das presentes e das futuras gerações – ao ambiente sadio. Roberto Armando Ramos de. civil e penal pelos danos causados ao meio ambiente.O princípio da precaução. instituindo a Política Nacional de Educação Ambiental. holístico. abril de 2002. de 1992. junho/2009 139 .DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades”. intitulado Democracia. ed. 2002. O Direito para o Brasil socioambiental.O princípio da responsabilidade. O princípio da obrigatoriedade da intervenção estatal é complementado pelo princípio da participação democrática e da transparência na gestão dos recursos ambientais. volume 12: Bioética e biodiversidade. de 27/4/1999. Pela primeira vez. 11. nacional e internacional. 1587-1596. a respeito. e baseado nos princípios da inclusão e da justiça social. impondo-se ao Poder Público a obrigação constitucional tanto de prevenir como de reparar danos ambientais. n. A Lei nº 9.162. Entre os princípios básicos da educação ambiental. intitulado Meio ambiente e democracia: participação social na gestão ambiental. da participação da sociedade civil em colegiados ambientais e em audiências públicas e do efetivo controle social sobre as políticas públicas. com base no texto constitucional. o excelente trabalho de Rachel Biderman Furriela. Conforme destaca Derani 11. de 16/4/2003.). a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”. Direito do meio ambiente e participação popular. em parceria com Márcio Santilli. São Paulo: Annablume: Fapesp. e no nosso ordenamento constitucional. São Paulo: Malheiros Editores.650. a respeito. estão o enfoque humanista. Marcelo Dias. VARELLA. Ana Flávia. 4..49-51. Revista de Direitos Difusos. Direito ambiental econômico. 9 MACHADO. Vide. revista. 2002.795. que orientam todo o sistema normativo ambiental. . cidadania e proteção do meio ambiente. são: . Instituto Brasileiro de Advocacia Pública. São Paulo: Instituto Socioambiental e Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor. parágrafo 3º. naturais e culturais. 1998. bem como as políticas públicas a serem adotadas pelo Estado.O princípio do poluidor-pagador procura internalizar os custos externos de deterioração ambiental. p. o princípio da eqüidade intergeneracional. também chamado de princípio da prudência ou cautela: baseiase no Princípio 15 da Declaração do Rio de Janeiro. expressamente consagrado no texto constitucional que. Trata-se da consagração da responsabilidade administrativa. que deverão considerar sempre a sustentabilidade dos recursos naturais a longo prazo. dispõe sobre o acesso público aos dados e informações existentes nos órgãos e entidades integrantes do Sisnama. 2001. É consagrado também na Convenção da Diversidade Biológica e na Convenção-Quadro sobre mudanças climáticas10. O princípio da precaução e sua aplicação comparada nos regimes da diversidade biológica e de mudanças climáticas. Direito ambiental brasileiro. São Paulo: Max Limonad. Cristiane. estabelece que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores. democrático e participativo. Outros princípios do Direito Ambiental. 10 Veja.

2. etc. em 1991. intitulado Cuidando do planeta Terra. e disponível no seu site na Internet: <www. 15 Em relação à função socioambiental da propriedade. Márcio. no texto constitucional brasileiro.socioambiental. Verifica-se.126. .utilização sustentável das espécies e dos ecossistemas. Direito ambiental constitucional.” 140 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Entre os princípios gerais da atividade econômica. claramente. simultaneamente. estabelece que a função social é cumprida quando a propriedade rural atende. A questão ambiental permeia o texto constitucional não apenas mediante referências explícitas ao meio ambiente. 4. uma clara influência de documentos referenciais elaborados por instituições conservacionistas internacionais. “está patente que a Fazenda Bacaba vem sendo explorada economicamente ao arrepio das normas legais de preservação do meio ambiente. A cooperação entre os Estados para a proteção ambiental implica uma soberania mais solidária. passíveis de descoberta”14. por ter descumprido a sua função socioambiental. produzido pelo Instituto Socioambiental. está a defesa do meio ambiente. ao lado da função social da propriedade. da consagração da função socioambiental da propriedade15. pois os danos ambientais não respeitam fronteiras políticas e administrativas. Da mesma forma. especialmente o documento “Estratégia mundial para a conservação” (World Conservation Strategy).66 hectares da reserva legal foram transformados em pastagem. p. impõe-se ao “sujeito econômico” (produtor. em inglês) e pelo Fundo Mundial para a Natureza (World Wildlife Fund – WWF. lançado em 1980 pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN. todos eles incorporados ao texto constitucional: . da livre concorrência. J. perpassar o conjunto das políticas públicas capazes de influenciar o campo socioambiental13. A decisão ainda não transitou em julgado. elencados no artigo 170 da Constituição. em Miranorte (TO). Apesar de ter sido declarada produtiva. a Fazenda Bacaba. um novo documento. transportador). Renato. 1990. pela “aplicação desse princípio. A questão ambiental não é tratada apenas no capítulo da Constituição especificamente destinado ao meio ambiente. ou seja. pode ser desapropriada para reforma agrária. Tese de doutoramento apresentada ao Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da USP. estabelece um precedente importante. Pela primeira vez na história. Vara da Justiça Federal de Tocantins. . A qualidade e o equilíbrio do ambiente urbano são também tutelados constitucionalmente. consagrando a orientação de que as políticas 12 públicas ambientais devem ser transversais. As mesmas entidades lançaram.preservação da diversidade genética. 26. arcar com os custos da diminuição ou afastamento do dano”. p. José Afonso da. Tal documento define os três principais objetivos da conservação. Apresentação ao balanço de seis meses do governo Lula na área socioambiental. junho/2009 . da defesa do consumidor e da redução das desigualdades regionais e sociais. desenvolvimento agrário. que nessa relação pode causar um problema ambiental. pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma ou Unep. ao estabelecer que a política de desenvolvimento urbano tem por objetivo ordenar o desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. da 2ª. cuja sigla em inglês é IUCN). 135-149. em inglês)12. consumidor.. São Paulo: Malheiros Editores. 13 SANTILLI. aproveitamento racional e adequado.). Direitos e deveres ecológicos: efetividade constitucional e subsídios do Direito norte-americano. 14 Conforme MAGALHÃES Jr. Trata-se. Apud SILVA.manutenção dos processos ecológicos essenciais e dos sistemas de sustentação da vida. n. 1997. como também por meio de dispositivos em que os valores ambientais estão em “penumbra constitucional. que dá seqüência à Estratégia e é dividido em três partes: princípios da vida sustentável. mas está presente em diversos outros capítulos constitucionais (economia.SANTILLI. ações adicionais para a vida sustentável e implementação e continuidade. mas pode se tornar o primeiro caso do país de desapropriação ambiental.O princípio da cooperação impõe uma política de cooperação entre os Estados e os diferentes atores sociais. ed. o capítulo constitucional dedicado à política agrícola e fundiária e à reforma agrária (artigo 184 e seguintes). Segundo a sentença. 573. O capítulo constitucional dedicado à política urbana (artigos 182 e 183) também consagra o direito à cidade sustentável.org>. e têm dimensões transfronteiriças. fundamentados em estudos científicos. observância das disposições que regulam as relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores. . descumprindo a exigência de que 30% da propriedade sejam preservados. levando à conclusão de que o dito imóvel não cumpre a sua função social. a sentença proferida pelo juiz José Godinho Filho. aos seguintes requisitos: utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente. entre outros. Transversalidade na corda bamba. p.

no âmbito de cada município. e esta foi ratificada pelo Congresso Nacional em Outro precedente importante é a decisão proferida pelo ministro Carlos Britto. e foi responsável pela elaboração do Tratado das ONGs e Organizações Sociais. o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidades de conservação do grupo de proteção integral (parques. São eles: 1) a Declaração do Rio de Janeiro sobre meio ambiente e desenvolvimento. pediu vista o ministro Marco Aurélio. cultura. do STF. foi criado o Fórum Brasileiro de Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento.DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL a Constituição incluiu um capítulo específico para a política urbana. junho/2009 141 . 2) a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). e de que todas as políticas setoriais – pesqueira. voltada para a participação da sociedade civil brasileira. densificando o princípio do usuário-pagador. inserindo definitivamente o meio ambiente entre os grandes temas da agenda nacional e global. 4. e os benefícios derivados da utilização comercial. Os documentos internacionais assinados durante a ECO-92 são referências fundamentais para o Direito Ambiental Internacional. ou de qualquer natureza. seguido de mais uma centena de países. até mesmo mediante a transferência de biotecnologia e da participação dos países de origem nas atividades de pesquisa. que revelam o reconhecimento de sua transversalidade. que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. e obrigatoriedade da intervenção estatal (já descritos acima). A questão ambiental permeia vários capítulos constitucionais. o acesso aos recursos biológicos e genéticos deve estar sujeito ao “consentimento prévio informado” dos países de origem e das populações tradicionais detentoras dos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade. florestal. O Brasil foi o primeiro país a assinar a Convenção. mineral. caput e parágrafos. poluidor-pagador. que trouxe grande visibilidade pública e força política para a questão ambiental. – devem incorporar o componente e as variáveis ambientais16.257/2001. elaborado durante a ECO-92. após o voto do referido ministro.985/2000. (Andamento processual em 25/6/06). industrial. agrícola. precaução. que prevê uma série de instrumentos para a garantia. porque. etc. etc. em 14/6/2006. Nos termos da Convenção. da Lei 9. Esse fórum teve um papel fundamental na articulação de centenas de organizações durante o período preparatório da ECO-92. A ação foi ajuizada pela Confederação Nacional da Indústria. nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental. paralelamente ao relatório oficial. de tais recursos devem ser compartilhados de forma “justa e eqüitativa” com esses países e essas populações. e a maior conferência até então realizada pela ONU. com o objetivo de acompanhar a conferência. Destacamos os mais importantes: desenvolvimento sustentável. durante a ECO-92. foi realizada a 2ª Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos. A ADI ainda não foi julgada. relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 3378/DF. reservas biológicas. – e serviços públicos – saúde. participação social na gestão ambiental e acesso à informação ambiental. econômica. urbana. em 1992 (conhecida como a ECO-92). etc. mais conhecida como o “Estatuto da Cidade”. no Rio de Janeiro. A regulamentação foi estabelecida pela Lei nº 10. educação. p. 16 A ECO-92 foi. 135-149. entre outros. n. Quatro anos após a promulgação da nova Constituição. a fim de ver declarado inconstitucional o art. Revista Internacional de Direito e Cidadania. que impõe ao empreender a obrigação de responder pelas medidas de prevenção de impactos ambientais que possam decorrer da implementação da atividade econômica. cujos objetivos são a conservação da diversidade biológica. contendo 27 princípios que norteiam e fundamentam toda a legislação ambiental. do direito à cidade sustentável. estações ecológicas. Tal dispositivo determina que. da propriedade e da democratização da gestão urbana. e pautaram a formulação de políticas públicas sociais e ambientais em todo o mundo. 36. claramente. um marco na história do ambientalismo internacional – e nacional. da defesa da função social da cidade. ciência e tecnologia.) O ministro Carlos Britto julgou improcedente o pedido por considerar que o referido texto legal institui uma forma de compartilhamento de despesas entre o Poder Público e o empreendedor. Em 1990. O Fórum de ONGs foi um espaço privilegiado para novas articulações e parcerias entre movimentos sociais e o movimento ambientalista.

Quênia. 115 programas e aproximadamente 2. contendo metas genéricas e ambíguas. além de assegurar que a produção de alimentos e que o desenvolvimento econômico sigam 17 de uma maneira sustentável17. Cartilha: perguntas e respostas sobre mudanças climáticas. uma vez que historicamente são eles os grandes emissores e apresentam maior capacidade econômica para suportar tais custos. Países como o Japão e os Estados Unidos (que até hoje não ratificaram a Convenção). Conferência das Partes. EUA. ou no qual as mudanças no clima ocorram lentamente de modo a permitir a adaptação dos ecossistemas. c) fortalecimento dos grupos sociais. Entre os avanços representados pela referida Convenção está a adoção do princípio da soberania dos Estados sobre os recursos biológicos e genéticos existentes em seus territórios. China. ricos em biotecnologia. d) meios de implementação: financiamentos e papel das atividades governamentais e não-governamentais. 19 Dez anos após a realização da ECO-92. maio de 1994. Peru. e a concepção de que o novo paradigma do desenvolvimento sustentável deveria incorporar não só a sustentabilidade ambiental como também a sustentabilidade social19 INSTITUTO DE PESQUISA AMBIENTAL DA AMAZÔNIA (Ipam). representam 70% da diversidade biológica do mundo. Indonésia. juntos. com o objetivo de alcançar metas específicas de redução de emissões de seis dos gases de efeito estufa18. 2002. na África do Sul. 18 O Protocolo de Quioto já entrou em vigor. A Convenção reconhece que a base econômica e produtiva atual depende de atividades (industriais e de transportes) que emitem gases de efeito estufa. Canadá. As quatro seções abrangem os seguintes temas: a) dimensões econômicas e sociais: trata das relações entre meio ambiente e pobreza. Índia. saúde. com quatro seções. de 26 de agosto a 4 de setembro de 2002. 5) a Agenda 21 é um amplo plano de ação voltado para o desenvolvimento sustentável.500 ações a serem implementadas. Equador. Costa Rica e África do Sul. O sentimento geral das organizações ambientalistas é de que não houve qualquer avanço em relação aos documentos assinados durante a ECO-92 e que o Plano de implementação é vago. O princípio básico da Convenção é o da responsabilidade comum. gerenciamento de resíduos tóxicos e uso de fontes alternativas de energia. Neste acordo. conservação e desenvolvimento sustentável de todos os tipos de florestas (mais conhecida como “Declaração de princípios das florestas”). J. Os grandes “vilões” apontados como responsáveis pelo fracasso das negociações durante a Rio + 10 foram os países do grupo conhecido como JUSCANZ (Japão. Os documentos internacionais aprovados durante a ECO-92 já refletem a incorporação de conceitos socioambientais. dívida externa. Colômbia. pleiteavam o livre acesso a tais recursos. Em 1997. Estabelece como objetivo final a estabilização dos gases de efeito estufa em um nível no qual a atividade humana não interfira no sistema climático. bem como o papel das atividades humanas nas mudanças climáticas e a necessidade de cooperação internacional. recuperação de estoques pesqueiros. Pará. junho/2009 . comércio. consumo e população. porém diferenciada. que. real e global. Contém um conjunto de 15 princípios relacionados ao manejo e conservação das florestas e foi o primeiro documento a tratar da questão florestal de maneira universal. e sem a previsão de cronogramas e compromissos globais efetivos para a implementação dos acordos assinados durante a Cúpula da Terra (a ECO-92). 135-149. 3) Declaração de princípios para um consenso global sobre o manejo. b) conservação e administração de recursos. que prevaleceu sobre o conceito anterior de que tais recursos constituiriam “patrimônio da humanidade”. as Nações Unidas realizaram em Johannesburgo. México. n. 4. Austrália e Nova Zelândia). Os seus resultados formais foram a Declaração de Johannesburgo para o desenvolvimento sustentável e o Plano de implementação. durante a 3ª. a comunidade internacional reconhece as mudanças climáticas como um problema ambiental. 142 Revista Internacional de Direito e Cidadania. contendo metas genéricas relacionadas ao acesso a água tratada. Venezuela. o que contrariaria os interesses dos países da chamada megadiversidade: Brasil. pelo qual os países desenvolvidos devem assumir os primeiros compromissos de redução das emissões. quarenta capítulos. ao contrário dos EUA.SANTILLI. O Brasil ratificou o Protocolo de Quioto. p. saneamento. 4) Convenção-quadro sobre mudanças climáticas. foi elaborado o Protocolo de Quioto. Belém. a Cúpula mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (mais conhecida como a Rio +10).

Ana Flávia (Org. A decisão estabelece também um precedente importante do ponto de vista socioambiental. A sobrevivência física e cultural dos Awas Tingni estava ameaçada pela decisão do governo da Nicarágua de conceder a uma empresa coreana uma concessão de longo prazo para exploração madeireira dentro do seu território. Os direitos indígenas e a Constituição. 135-149. social e cultural. cujo princípio é o respeito e a proteção das culturas. 4. Brasília: Núcleo de Direitos Indígenas e Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor. O governo nicaragüense já havia concedido à empresa coreana permissão 20 para ingressar nas terras dos Awas Tigni e iniciar alguns trabalhos preliminares voltados para a exploração madeireira. n. A Corte reconheceu direitos coletivos dos povos indígenas aos seus territórios e recursos ambientais. A defesa dos direitos socioambientais no Judiciário. Juliana (org.DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL 2. nas imediações. Garante aos povos indígenas o direito de decidir sobre suas prioridades em relação ao processo de desenvolvimento. Carlos Frederico. costumes e leis tradicionais dos povos indígenas e tribais. claramente superada pela Convenção nº 169. 2000. A Corte Interamericana de Direitos Humanos e o direito dos povos indígenas aos seus territórios tradicionais e recursos naturais. e determinou ao governo da Nicarágua que estabeleça mecanismos legais para demarcar os territórios indígenas da Nicarágua. sobre Povos Indígenas e Tribais. e do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas aos recursos naturais existentes em seus territórios tradicionais. seu próprio desenvolvimento econômico. p. privilegiando a interface entre direitos culturais e ambientais. 1993. a Corte Interamericana de Direitos Humanos proferiu decisão inédita e paradigmática no reconhecimento de direitos indígenas e ambientais. A Corte Interamericana é o órgão jurisdicional internacional responsável pelo julgamento de violações dos direitos previstos na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica). O caso da comunidade indígena dos Awas Tingni (que pertence ao povo Mayagna. e de gerir. na medida do possível. estando intimamente associadas a diversidade biológica e a diversidade cultural. já ratificada pelo Brasil. 2003. que adotava uma orientação integracionista. previstos na referida Convenção. São Paulo: Editora SENAC. de proteção judicial adequada e de igualdade perante a lei. O renascer dos povos indígenas para o Direito. Revista Internacional de Direito e Cidadania. No plano internacional. também conhecido como Sumo). Curitiba: Juruá. e sua decisão entendeu que a Nicarágua violou os direitos de propriedade (em sua dimensão coletiva). Foi o primeiro caso decidido pela Corte acerca de direitos territoriais indígenas.). ROCHA. especialmente da comunidade dos Awas Tingni. e a empresa já havia iniciado a construção. Utiliza a expressão “povos”. MARÉS DE SOUZA FILHO. Tanto a Organização das Nações Unidas (ONU) como a Organização dos Estados Americanos (OEA) estão em processo de elaboração de declarações internacionais sobre os direitos indígenas. e abriu um importante precedente jurisprudencial internacional para o reconhecimento dos direitos de todos os povos indígenas americanos. Os brasileiros e os índios. de uma indústria de processamento de madeira. A relação dos povos indígenas com a natureza é determinada por seus padrões culturais. A decisão da Corte expressa a sua compreensão de que a reprodução física e cultural dos povos indígenas só é possível por meio da proteção dos recursos ambientais existentes em seus territórios. Em 31 de Agosto de 2001. Consultar: SANTILLI.). a título de indenização. no sentido de formação de Estados próprios. São Paulo: Instituto Socioambiental. Márcio. ressalvando que esta não deve ser interpretada no sentido conferido pelo direito internacional. o principal instrumento é a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 1999. junho/2009 143 . SANTILLI. ou seja. além de US$ 30 mil para cobrir custas processuais e honorários. contra a Nicarágua. Ela substituiu a Convenção 107 da OIT. Condenou ainda a Nicarágua a pagar US$ 50 mil aos Awas Tingni.

e os advogados alegaram que as suas atividades estavam causando danos ao meio ambiente. Elli. 23 Consultar: ROBB. quilombolas e a outras populações tradicionais e ao romper com o modelo assimilacionista e homogeneizador.socioambiental. p. Destacamos. 1º. junho/2009 .001/73) que não foram recepcionados pela nova Constituição. expressa nos dispositivos que se referem à “integração dos índios à comunhão nacional” e à sua “adaptação à civilização do país” como objetivos a serem atingidos. ao reconhecer direitos territoriais. de uso e posse compartilhados de recursos naturais e territórios e de respeito às diferenças culturais. que prevê o direito a um processo eqüitativo. Alegaram que as suas atividades impactariam espécies da fauna. Eco-justice: linking human rights and the environment. A orientação multicultural da Constituição brasileira se revela pelo reconhecimento de direitos coletivos a povos indígenas e quilombolas. 2002. que falam mais de 180 línguas diferentes e totalizam aproximadamente 400 mil indivíduos. peticionaram à Corte Européia de Direitos Humanos em virtude do fato de que as autoridades locais não cumpriram decisões de Cortes administrativas turcas determinando a suspensão das atividades de três usinas termelétricas: Yatagan. entre outros. Antônio Augusto. e traziam riscos para a vida e a saúde da população local. Aaron. 3. alguns precedentes jurisprudenciais da Corte Européia de Direitos Humanos. Lyuba (ed. Tucson.001/7321). Em virtude da ausência de referência expressa ao direito ao ambiente sadio na Convenção Européia para a Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais. 144 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 1993. e a violação do direito ao ambiente sadio é analisada de forma indireta. que: “qualquer pessoa tem direito a que sua causa Há diversos dispositivos do Estatuto do Índio em vigor (Lei nº 6. a partir de uma perspectiva mais centrada nos direitos coletivos dos povos indígenas do que nos direitos individuais dos índios. Ganharam força as noções constitucionais de titularidade coletiva de direitos. (ed.) Linking human rights and the environment. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor.22 20 à cultura. que procura adaptar a legislação ordinária aos novos parâmetros constitucionais.1. abaixo. como povos cultural e etnicamente diferenciados. Washington: Worldwatch Institute. par. culturais e ambientais aos povos indígenas. que mostram a orientação deste órgão jurisdicional internacional na interpretação e julgamento dos direitos ambientais. 6º. Informação disponível em: <http://www. SACHS. London: Earthscan publications. Desde 1991. tramita no Congresso Nacional o projeto de lei que institui o novo “Estatuto das Sociedades Indígenas”.1º. situadas na província de Mugla. Direitos humanos e meio ambiente: paralelo dos sistemas de proteção internacional.) International environmental law reports. 21 Dez advogados que vivem e trabalham em Izmir. e à liberdade de expressão. NY: Transnational publishers. CANÇADO TRINDADE. A cidade de Izmir está situada a aproximadamente 250 km das três usinas termelétricas. Human rights and environment. Okyay e outros X Turquia (Data do julgamento: 12/07/2005) 3. já que o direito à identidade étnica e cultural diferenciada também foi assegurado. bem como as florestas e áreas agrícolas. cerca de 220 povos indígenas. n. na região sudoeste da Turquia. par. 2003. e teriam um impacto negativo sobre o turismo. ZARSKY. situadas no interior de 618 terras indígenas. Jorge Daniel (eds.org. Aos povos indígenas passou a assegurar direitos permanentes e não mais direitos transitórios. Estabelece o art.SANTILLI. A Constituição brasileira aprovada em 1988 claramente segue o paradigma do multiculturalismo. Romina. 2002. 135-149. existem hoje. A Corte Européia de Direitos Humanos e os direitos ambientais. em virtude das emissões tóxicas. à saúde. December 1995. 3. Arizona: The University of Arizona Press. ao respeito pela vida privada e familiar. Cairo A. A Constituição rompeu definitivamente com a ideologia integracionista do Código Civil (até então em vigor) e do Estatuto do Índio (Lei nº 6.) Human rights & the environment: conflicts and norms in a globalizing world. de Norte a Sul do território nacional. 2001. LOUKA. PICOLOTTI. A maior parte dessa população distribui-se por milhares de aldeias. Gökova e Yenikö. no Brasil. vol.R.>. Cambridge: Cambridge University Press. Os advogados alegaram violação do art. os pleitos formulados perante a Corte Européia de Direitos Humanos estão sempre fundamentados em violações de outros direitos. conforme veremos adiante23. As decisões da Corte têm reconhecido violações dos direitos à proteção judicial e a remédios efetivos. Biodiversity & human rights: the international rules for the protection of biodiversity. da Convenção européia para a proteção dos direitos do homem e das liberdades fundamentais. uma cidade da Turquia. 22 Segundo o Instituto Socioambiental. TAILLANT. Ardsley. J. 6º. 4.

DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL seja examinada. mas identificou diversas violações dos regulamentos de caça através das filmagens de Lindberg. A decisão do Ministério do Meio Ambiente de conceder a licença para a prospecção de ouro para a empresa E. a cada peticionário. ambos críticos da indústria.3. 1º (já transcrito acima). o relatório divulgado pelo jornal era oficial. Lindberg. Eurogold Madencilik (posteriormente nomeada Madencilik A. Maria Guerra e outros X Itália (Data do julgamento: 19/02/1998) Os peticionários viviam na cidade de Manfredonia. tal como descritas no relatório de impacto ambiental. 145 Revista Internacional de Direito e Cidadania. eles estavam sofrendo os efeitos da degradação ambiental.) foi questionada perante as Cortes locais. que prevê o direito à liberdade de expressão. e condenou a Turquia a pagar. e do art. A Corte turca entendeu que estavam comprovados os riscos para o ecossistema local e para a saúde humana representados pelo uso do cianeto e que a concessão da licença de operação não atendia ao interesse público. 135-149. Segundo a decisão. nas proximidades de uma fábrica de produtos químicos agrícolas. que avaliou os impactos ambientais. mais especificamente. e o seu relatório oficial. de uma embarcação denominada M/S Harmoni. devido ao perigo representado pelo uso de cianeto na extração de ouro. e. a quantia de mil euros. Bladet Tromso e Stensaas X Noruega (data do julgamento: 20/05/1999) Dez pessoas que vivem nas proximidades de uma mina de ouro situada na região de Bergama peticionaram à Corte Européia de Direitos Humanos em virtude de licenças de operação concedidas por autoridades locais. a decisão da Corte não foi cumprida pelas autoridades locais dentro do período de tempo prescrito. junho/2009 . e que as medidas de segurança adotadas pela empresa não eram suficientes para eliminar os riscos da atividade. por um tribunal independente e imparcial. a fábrica emitia grandes quantidades de gás inflamável. de destruição da fauna e flora e de danos para a saúde humana. 6º. e os riscos de contaminação da água subterrânea. sociais e culturais das atividades da mina de ouro. 3. inclusive de receber ou transmitir informações sem ingerência estatal. No seu ciclo produtivo. n. e o papel da imprensa é contribuir para o debate público sobre temas de interesse legítimo. Taskin e outros X Turquia (Data do julgamento: 10/11/2004) vida privada e familiar (“Qualquer pessoa tem direito ao respeito da sua vida privada e familiar. Os peticionários alegaram que. 4. gerando graves riscos de explosões e de liberação de substâncias altamente tóxicas. A Noruega criou uma Comissão de Inquérito que concluiu que a maior parte das alegações de Lindberg não estava provada. p. a título de indenização. a poluição causada pelo uso de maquinaria e explosivos e pela movimentação de pessoas. Entretanto. que o governo havia optado por não divulgar. e obteve a condenação dos mesmos ao pagamento de multas e indenizações. par. A Corte Européia entendeu que o Estado norueguês não poderia invocar as suas leis de difamação para restringir a divulgação de informação ambiental.M. e Stensaas é o seu editor. estabelecido por lei”. Entendeu que houve violação do art. em virtude das operações da mina. 8º da Convenção Européia. do seu domicílio e da sua correspondência”). num prazo razoável. 10 da Convenção Européia. A Corte Européia de Direitos Humanos entendeu que houve violação do art. especialmente. que prevê o direito a um processo eqüitativo.2. 3. e recomendou alterações nos regulamentos e no treinamento dos caçadores. eqüitativa e publicamente.4.S. Condenou ainda ao pagamento de uma indenização de 3 mil euros a cada peticionário. A Corte entendeu que houve violação de tal direito. que prevê o direito ao respeito pela Bladet Tromso é o nome de um jornal norueguês. Os peticionários recorreram à Suprema Corte Administrativa da Turquia. A tripulação do M/S Harmoni moveu diversas ações judiciais por difamação. O jornal publicou uma entrevista com um funcionário encarregado da fiscalização da caça às focas. 3. inclusive contra os peticionários.

e condenou ao pagamento de uma indenização de 4 milhões de pesetas. A decisão da Corte entendeu. 8º da Convenção Européia. até mudar de casa.6. a título de indenização. 8º da Convenção Européia. e não a poluição em si. Esta cidade espanhola tem uma grande concentração de indústrias de couro. Segundo a decisão da Corte. A Corte Européia entendeu que houve violação do art. já que o governo deixou de informar a população sobre os riscos e medidas a serem adotadas no caso de acidente. A água do poço foi contaminada por cianeto. A decisão da Corte reitera que a poluição ambiental grave pode afetar o bem estar dos indivíduos e a sua vida privada e familiar. uma explosão resultou no escapamento de toneladas de substâncias altamente tóxicas e levou à hospitalização de 150 pessoas.5. Em 1976. devido ao envenenamento com arsênico. particularmente exposta a riscos no caso de acidente na fábrica. proteger os indivíduos da interferência arbitrária das autoridades públicas. porque o direito à liberdade de expressão não poderia ser interpretado como uma imposição. que prevê o direito ao respeito pela vida privada e familiar (“Qualquer pessoa tem direito ao respeito da sua vida privada e familiar. o principal fundamento da demanda era o acesso à informação. 10. junho/2009 . López Ostra e outros X Espanha (Data do julgamento: 09/12/1994) O peticionário e sua família sofreram problemas de saúde em decorrência do barulho. 3.SANTILLI. Segundo a decisão da Corte. 4. mesmo que não haja comprometimento sério da saúde. A Corte Européia decidiu quando uma ação judicial questionando a legalidade da construção e operação da estação ainda não havia sido julgada perante a Suprema Corte espanhola. O Estado foi condenado a pagar a cada peticionário 10 milhões de liras. de obrigações positivas de coletar e disseminar informações. em Lorca. que o Estado 146 teria obrigações positivas de coletar e disseminar informações em algumas circunstâncias. A Corte Interamericana de Direitos Humanos entendeu que houve violação do art. O relatório de um comitê de especialistas apontou que os equipamentos de tratamento de emissões da fábrica eram inadequados e que a avaliação de impacto ambiental era incompleta. que prevê o direito à liberdade de expressão. mas também obrigações positivas inerentes ao efetivo respeito pela vida privada e familiar. a 12m da casa do peticionário. J. o que viola o art. do seu domicílio e da sua correspondência”). Oito dos 20 juízes entenderam. A família do peticionário teve que suportar os incômodos provocados pela estação por três anos. 8º vise. 135-149. proveniente do Revista Internacional de Direito e Cidadania. Assim. embora o art. para obter informações essenciais acerca dos riscos que eles e suas famílias corriam se continuassem vivendo na cidade de Manfredonia. Entretanto. n. a poluição ambiental grave pode afetar o bem estar dos indivíduos e impedi-los de usufruir de seus lares de uma forma que afeta a sua vida privada e familiar. 3. entretanto. Zanden X Suécia (data do julgamento: 25/11/1993) Os peticionários viviam em uma propriedade com um poço de água. adjacente a uma área onde uma empresa (“Vafab”) mantinha um depósito de lixo industrial. em opiniões em separado. essencialmente. ele não se limita a obrigar o Estado a se abster de realizar tal interferência. o Estado não cumpriu a sua obrigação de assegurar aos peticionários o direito ao respeito pela vida privada e familiar. ao Estado. que prevê o direito ao respeito pela vida privada e familiar. p. e não contém apenas uma obrigação negativa. construída com recursos públicos. 10 da Convenção Européia. e que os peticionários tiveram que esperar até que cessasse a produção de pesticidas. 8º da Convenção Européia. mais as custas processuais. cheiro e fumaça provocados por uma estação de tratamento de lixo situada nas proximidades de sua casa. Os peticionários fundamentaram a sua demanda no art. Eles se mudaram quando se tornou claro que a situação persistiria indefinidamente. que não houve violação do art. em 1994. e uma das empresas mantinha uma estação de tratamento de resíduos líquidos e sólidos.

principalmente se considerarmos que não há Tribunais internacionais na área ambiental (com exceção de Tribunais estabelecidos por organizações nãogovernamentais. O direito ao ambiente sadio é essencialmente um direito coletivo. sediado em Amsterdã. a licença foi concedida. do que as demandas relativas à proteção de ecossistemas e espécies ameaçadas de extinção. será muito difícil defender o caso perante o sistema. Isto daria maior força e plenitude ao próprio sistema de proteção aos direitos humanos. como o Tribunal Internacional da Água. 4. interpretando e reinterpretando os direitos humanos.DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL depósito. entretanto. têm maior chance de sucesso. p. Os casos de poluição.). A Corte entendeu que houve violação do art. que fortaleceria a proteção aos direitos ambientais. Isto faz com o que o sistema internacional de defesa dos direitos humanos só seja eficaz para a defesa de certos direitos ambientais. sob o argumento de que a impossibilidade de conseguirem uma revisão judicial da decisão que concedeu a licença violava o direito a um processo eqüitativo. que geralmente não prevêem o direito de petição e os remédios adequados em casos de violações de suas normas. as vítimas da degradação ambiental devem sempre invocar outros direitos (proteção judicial. obter a revisão judicial da decisão concessiva da licença. uma limitação do sistema. no tocante à proteção dos direitos ambientais. na Holanda). Embora os principais emissores sejam os países desenvolvidos. Quando a empresa que mantinha o depósito pediu uma nova licença. respeito à vida familiar e pessoal. Um dos principais trunfos do direito internacional dos direitos humanos é o fato de que permite que as vítimas tenham acesso direto às Cortes internacionais. expressamente previstos nos tratados internacionais de direitos humanos. em virtude de suas evidentes conseqüências para a saúde humana. Quando recorrem às Cortes Internacionais de direitos humanos. e que as vítimas da degradação ambiental não podem recorrer a outras estruturas legais internacionais além das Cortes que julgam as violações de direitos humanos. 6º da Convenção Européia. por exemplo. n. a previsão dos especialistas é de que os seus impactos se farão sentir mais 147 Revista Internacional de Direito e Cidadania. e não apenas os indivíduos. é justamente o excessivo enfoque nos direitos individuais. levando-os a tentar. de que é titular toda a coletividade. sem sucesso. Conclusão As decisões da Corte Européia elencadas acima mostram como os instrumentos de defesa dos direitos humanos podem ser utilizados para promover e assegurar o direito ao ambiente sadio. Entretanto. por exemplo. Os peticionários recorreram à Corte Européia de Direitos Humanos. Os danos ambientais assumem as mais complexas dimensões espaciais e ambientais. As Cortes Internacionais de direitos humanos têm adaptado permanentemente a sua jurisprudência. e não todos. junho/2009 . a fim de que o direito ao ambiente sadio possa ser diretamente invocado em demandas de vítimas da degradação ambiental. Entretanto. previsto no art. Vejamos o caso das mudanças climáticas provocadas pela emissão de gases de efeito-estufa. Se não é possível demonstrar que um caso de degradação ambiental tem uma vinculação direta e imediata com algum dos direitos humanos expressos. É fundamental incorporar os tratados internacionais na área ambiental ao sistema de proteção. e a demanda dos peticionários não foi atendida. 4. e conferiria maior eficácia aos tratados ambientais. os peticionários argumentaram que os riscos de poluição da água seriam suficientemente altos para justificar a obrigação da empresa de fornecer água limpa e própria para consumo. e determinou o pagamento de uma indenização de 30 mil coroas suecas para cada peticionário. a fim de incorporar novos conceitos. Os indivíduos são sujeitos de direito e podem apresentar demandas envolvendo violações de direitos humanos praticadas por Estados perante as Cortes internacionais. Tais instrumentos podem ser úteis. etc. 6º da Convenção Européia. 135-149. As autoridades locais proibiram o uso da água do poço e forneceram água limpa por um tempo. em detrimento dos direitos coletivos.

por exemplo. a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”. fortemente sobre os países e populações pobres. Trata-se de interpretação claramente restritiva: os riscos representados por uma usina nuclear evidentemente afetam não apenas os peticionários. 24 24 25 A decisão da Corte Européia. Os danos ambientais têm também suas próprias dimensões temporais. direta ou indiretamente. Restringir a legitimidade para acessar o sistema internacional de direitos humanos a vítimas específicas e determinadas. J. ao exigir que o risco ambiental seja “iminente”. ou o meio ambiente. é extremamente limitante. desrespeitou um princípio fundamental do Direito Ambiental: o da precaução. representava uma ameaça ao seu direito à vida. mas a Corte não aceitou o argumento. 135-149. A poluição pode se alastrar pelo mar territorial de vários países. porque os riscos envolvidos com os testes nucleares eram altamente controvertidos no meio científico. Qualquer cidadão deveria ser parte legítima para peticionar perante a Corte. mas toda a coletividade. Data do julgamento: 26/08/1997. etc. No caso Balmer-Schafroth e outros X Suíça . e a sua defesa aproveita a toda a coletividade. à saúde. n. junho/2009 . os direitos civis e políticos. por representar riscos à estrutura geológica dos atóis. A Corte entendeu que não houve violação do art. Data do julgamento: 22/07/1996. transcendendo as fronteiras político-administrativas. Os peticionários. não existem sem a garantia da integridade dos recursos ambientais. e não apenas aqueles pessoal e diretamente afetados. e os danos ambientais evidentemente não as respeitam. 4. alegaram que a realização de testes nucleares nos atóis de Mururoa e Fangataufa. residentes da Polinésia francesa. por exemplo. específico e iminente”. e a dar pouca atenção aos direitos ambientais. os peticionários argumentaram que tinham o direito de ser consultados acerca da renovação da licença de operação concedida pelo governo suíço a uma usina nuclear. e pertence não só às presentes como as futuras gerações. à cultura. alguns até imprevisíveis. e impactar diversas comunidades. 6º da Convenção (que prevê o direito a um processo eqüitativo) porque os peticionários não conseguiram demonstrar que a operação da usina os expunha a um risco “pessoal. quando se trata de direitos ambientais. pessoal e diretamente afetadas pela degradação ambiental. Os peticionários tentaram impor o ônus da prova ao governo francês.SANTILLI. Tais decisões só reforçam a necessidade de que os tratados ambientais sejam incorporados ao sistema de proteção dos direitos ambientais. As primeiras tendem a priorizar. alegando que as autoridades francesas não tinham sido capazes de demonstrar que os testes não colocariam em risco a saúde da população que vive no Pacífico Sul. O direito ao ambiente sadio é intergeneracional. Para tanto. seria necessária uma aliança mais próxima entre organizações ambientalistas e de direitos humanos. segundo o qual: “quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis. sério. Outro exemplo é o da poluição marítima por derramamentos de óleo provocados por navios. assumindo dimensões transfronteiriças e internacionais. O Comitê considerou o caso “inadmissível”. apresentado perante a Corte Européia de Direitos Humanos. Taiura e Temeharo X França25. pelo governo francês. O direito coletivo pode ser exercido por qualquer cidadão. pois expressam conquistas de uma cidadania ambiental global. principalmente aqueles que vivem da agricultura e da pesca. a fim de que os princípios ambientais sejam efetivamente respeitados. Tal princípio foi também frontalmente desrespeitado no posicionamento do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas no caso Bordes. ignorando que os direitos à vida. Tais fronteiras são artificiais. p. 148 Revista Internacional de Direito e Cidadania. em suas agendas. e que os peticionários não poderiam ser considerados “vítimas”. no Pacífico Sul. Ainda são poucas as organizações de defesa de direitos humanos que incluem a defesa do meio ambiente entre os seus objetivos. Os impactos ambientais são tanto atuais como futuros.

têm adquirido uma maior consciência da associação entre desmatamento. muitas organizações ambientalistas ainda tendem a enfocar principalmente a conservação de espécies. Revista Internacional de Direito e Cidadania. que arcam com os maiores ônus dos problemas ambientais. como também a sustentabilidade social – ou seja. deixando de lado as conseqüências da degradação ambiental para as populações humanas. Entretanto. n. ecossistemas e processos ecológicos. 4. e o fato de que as principais vítimas da degradação ambiental tendem a pertencer aos setores mais vulneráveis da sociedade. Em um país pobre e com tantas desigualdades sociais como o nosso. 135-149. os movimentos sociais e ambientais da Amazônia. principalmente. um novo paradigma de desenvolvimento deve promover não só a sustentabilidade estritamente ambiental.DIREITO AO AMBIENTE SADIO: JURISPRUDÊNCIA NACIONAL E INTERNACIONAL No Brasil. grilagem de terras públicas e violência contra trabalhadores rurais. junho/2009 149 . deve contribuir para a redução da pobreza e das desigualdades sociais e promover valores como justiça social e eqüidade. p.

n.150 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 4. junho/2009 .

37. da Constituição da República Federativa do Brasil é norma fundamental à transparência das funções públicas e à realização dos ideais democráticos anunciados por este diploma. caput. e para tanto é imprescindível compreender a teoria dos papéis sociais. provided by the art. * Revista Internacional de Direito e Cidadania. A intelecção do princípio da publicidade e a solução da sua colisão com outros direitos fundamentais dependem de bem definir os três planos da individualidade do ser (intimidade. p. Palavras-chave: Princípio da publicidade da Administração Pública. 37. is fundamental to the transparency of public functions and the achievement of Mestre e Doutor em Direito Administrativo pela PUC-SP. Proteção à imagem. com previsão no art. caput. 151-164.Artigo O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. n. of the Constitution of the Federative Republic of Brazil. a era da comunicação que definitivamente marca o início do terceiro milênio – e que define a sociedade da informação e do risco – não pode deixar de encarecer este princípio constitucional sem descurar da proteção à imagem e à intimidade dos cidadãos. Todavia. 4. ABSTRACT: The principle of publicity of Public Administration. Teoria dos papéis sociais. privacidade e relações sociais). Juiz de Direito em São Paulo. junho/2009 151 . Luis Manuel Fonseca Pires* RESUMO: O princípio da publicidade da Administração Pública.

Theory of social roles. portanto. O princípio constitucional da publicidade da Administração Pública representa inequívoca conquista que cumpre – ao menos no plano hipotético – os anseios de um regime democrático que deve primar e conduzir-se pela transparência. 1. Pois a escalada da tecnologia da comunicação tem proporcionado o que se convencionou denominar de sociedade da informação e do risco1. Para isto anotaremos. Por fim. explicando-o com mais vagar. o que para tanto laboraremos com alguns breves exemplos a ilustrar o tema. com brevidade. o estudo. Mas neste início de terceiro milênio. Diante do conflito possível que pode existir entre o princípio constitucional da publicidade da Administração Pública e o direito de proteção à imagem e à intimidade – o que caracteriza a contemporânea sociedade da informação e do risco – formularemos algumas propostas de soluções possíveis. 1). e ainda do direito de proteção à imagem e à intimidade (III. 151-164. protecção da intimidade e autoridades administrativas independentes. Image protection. p. então. com a consignação das premissas necessárias: algumas noções do princípio constitucional da publicidade da Administração Pública (I) e proporemos a adoção da teoria dos papéis sociais na seara das relações do Poder Público (II). José Eduardo Figueiredo Dias. L. então. democratic ideals declared by this Act. The intellection of the principle of publicity and the solution of its collision with other rights depend on the good definition of the three levels of individuality of the being (intimacy. Introdução. Iniciaremos. cuidaremos do tema central deste nosso estudo: os contornos e os limites do princípio constitucional da publicidade da Administração Pública (III). corolário do princípio constitucional da publicidade (III. 615). transmute-se em algoz do direito fundamental de proteção à imagem e à intimidade. em meio ao evolver da revolução dos meios de comunicação principiada nas últimas décadas do século passado. noções que são fundamentais para posteriormente trabalharmos com o nosso tema central. se a ordem constitucional da República Federativa do Brasil inaugurou com a Constituição Federal uma nova era que transpôs a obscuridade e o descaso com a informação e a transparência. M. 152 Revista Internacional de Direito e Cidadania. p. Iniciemos.PIRES. 4.and that defines the society of information and risk . Retornaremos ao tema. acreditamos oportuno refletir sobre a escorreita conformação que esta norma jurídica – o princípio da publicidade – deve externar. Em outras palavras. However. quem utiliza esta expressão em invocação ao termo “sociedade do risco” do sociólogo alemão Ulrich Beck (Direito à informação. pretendemos propor a reflexão de alguns informes que contribuem à lídima definição da ansiada transparência da Administração Pública – com outros termos: como atender à publicidade a ser observada pelo Poder Público sem a violação a outros direitos fundamentais. junho/2009 . Desde logo. convém destacarmos que o objeto deste estudo não será outro senão analisarmos algumas referências que devem ser consideradas em busca da concretização do princípio constitucional da publicidade da Administração. n.can only enhance the constitutional principle of protection without leaving unattended the image and privacy of the citizens. 2). o que pretendemos fazê-lo com a consideração do dever de informar. F. for which is essential to understand the theory of social roles. no tópico III. Keywords: Principle of publicity of Public Administration. sobretudo o direito de proteção à imagem e à intimidade. Isto é. privacy and social relations). the age of communication that definitely marks the beginning of the third millennium . por outro lado é necessário não deixar que a norma assecuratória desta conquista – o princípio da publicidade – 1 É o jurista português.

5º. 62. 7 Curso de direito administrativo. 138. portanto. mas entendemos que esta intelecção melhor se amolda ao princípio da imparcialidade. n. Direito administrativo brasileiro. de acordo com a precisa síntese de Celso Antônio Bandeira de Mello: é “(. nos termos do art. XXXV. 5º. A transparência reclama. O princípio constitucional da publicidade da Administração Pública não se encontra cerrado em um único dispositivo. A despeito de sua explícita prescrição no art. I – Noções do princípio constitucional da publicidade da Administração Pública. E ao bem agir em representação da sociedade os agentes públicos devem informar.. Qualquer pessoa pode. que outros direitos fundamentais têm condições de realizarem-se. 6 Como a exemplo se tem do comando do art. a vedação de promoção pessoal do agente público.. XXXV. definir o princípio constitucional da publicidade. 5 Novamente. durante e após as suas atividades como estão gerindo o patrimônio público. caput. como lembra Lúcia Valle Figueiredo9 – decerto.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. art. Em um regime democrático de direito é encarecida a noção de função. E com razão. p. Das licitações públicas. p. ou de pronto oferecê-las quando solicitadas pelos administrados. portanto. IX. em realizar o princípio da publicidade e prestar informações enseja a quem prejudicado demandar perante o Judiciário5 o cumprimento deste dever jurídico. e ainda o inciso LXXII. pois o exercício do direito a uma tutela judicial efetiva4 pode depender destas informações. 4 Art. 102. e independentemente do pagamento de taxa é possível obter certidões em repartições públicas para a defesa de direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal3. 8 Derecho administrativo. como pode acontecer com o princípio da isonomia. XXXIII. 5º. pois é pelo princípio da publicidade. como se depreende do texto normativo relacionado. antes. Por tudo isto. 11 Conforme Hely Lopes Meirelles. É um dever. da Constituição Federal de 1988 como um dever a ser observado pela Administração Pública Direta e Indireta de todos os entes federativos a sua imperatividade pode ser reconhecida da interpretação sistemática da ordem constitucional. enfim. b. em princípio. É possível. primeira parte. atos e decisões da Administração Pública. na elaboração de seu significado na seara do direito público. 151-164. em nome da coletividade. XXXIV. Para parcela da doutrina o princípio constitucional da publicidade abarcaria. como o cumprimento de misteres em nome de terceiros. p. O argentino Roberto Dromi8 diz que a publicidade é um predicado da ética pública. a publicidade torna-se condição de eficácia dos atos da Administração Pública10. o que representa a imperiosa necessidade de divulgar oficiosamente as suas ações e prontamente disponibilizá-las quando solicitadas por qualquer pessoa. a. que como regra geral se impõe a todos os Poderes do Estado6. ainda. 37. ainda. 93. É a transparência que determina a iniciativa a ser assumida pelo Poder Público de prestar Art. junho/2009 153 . p. da expressão função pública. 5º. São diversos os direitos fundamentais que prescrevem a transparência da Administração Pública. ou de interesse da sociedade2. 37. apenas pela publicidade da atividade do Poder Público é possível aferir se a Administração Pública trata os iguais do mesmo modo. 227-229. Preferimos reservar ao princípio da publicidade o sentido de dever do Poder Público de proceder com transparência. 2 3 informações. se não fere o princípio da igualdade ao conceder privilégios e benesses diferenciadas a alguns. 4. 87. exigir dos órgãos públicos informações de seu interesse particular. § 1º. da Constituição Federal11. A eventual recusa. Revista Internacional de Direito e Cidadania. p. 10 É a posição de José Cretella Júnior. 9 Curso de direito administrativo. por parte do Poder Público.) o dever administrativo de manter plena transparência em seus comportamentos” 7. a divulgação oficial das atividades. Art. p.

isto é. no caso. e que este prazo pode ser prorrogado. Direito administrativo. o seu afastamento para. da coletividade. 1º. qual a estratégia adotada para a distribuição do policiamento pela cidade. ainda que o programa ou a instituição mantenha alguma relação com o Governo. em hipóteses concretamente justificáveis. aqueles que exercem o poder atuam como servidores. p. A previsão constitucional é compreensível. É por meio das informações divulgadas e disponibilizadas que a sociedade controla o cumprimento do mandato público. e ainda à inviolabilidade da intimidade. como acontece com a Voz do Brasil transmitida por rádio. pois a legítima defesa e as hipóteses de aborto são exemplos disto. em regime de exceção. deve admitir. da polícia militar. informes sobre a quantidade de armas do batalhão. exercem uma função – um dever em nome. mas ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. de seu interesse particular ou de interesse coletivo ou geral. ao se determinar que a lei ordinária deve disciplinar as formas de participação do usuário na Administração Pública.. § 3º. 12 13 formações uma situação na qual o administrado pretende obter. máxima autoridade hierárquica dentro do Executivo. M. da Constituição Federal. n. é fácil considerar como exemplo de recusa legítima de prestar inArt. 1º. 154 Revista Internacional de Direito e Cidadania. F. Em seu art. é norma permeada no sistema constitucional. e que o acesso aos documentos sigilosos referentes à honra e à imagem das pessoas é restrito por um prazo máximo de cem anos a contar da sua data de produção16. como ensina Diógenes Gasparini13.159/90 que dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados. e em seu § 2º que o acesso aos documentos sigilosos referentes à segurança da sociedade e do Estado é restrito por um prazo máximo de trinta anos a contar da data de sua produção. ao menos hipoteticamente. parágrafo único. ou mesmo solicitações feitas pelo Chefe do Executivo. p. 11. em sua parte final ao conceber. 5º. 15 Art. É o que dispõe o art. 151-164. 4º. II.. podem concretamente justificar o retorno do dever de cumprir o princípio constitucional da publicidade. ou ao menos determinar que com eles seja compartilhada a informação sigilosa para que se avalie a sua pertinência. e não por notícia divulgada pela imprensa. por uma única vez. Portanto. junho/2009 . no art. 14 Art. da honra e da imagem das pessoas15. Apenas investigações e requisições realizadas por órgãos e Poderes competentes para tanto. a possibilidade de sigilo. De tal sorte. que se confere real sentido ao princípio fundamental de que todo o poder emana do povo12 e. que o sigilo – que se contrapõe à publicidade – é admissível quando “(.PIRES. como o Ministério Público e o Judiciário. XXXIII. que todos têm o direito de receber dos órgãos públicos informações. 16 § 3º. L.) imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. o que envolve. atender a outros comandos igualmente previstos na Constituição Federal. por igual período. a informação decorre de publicação de órgão oficial. contidas em documentos de arquivos. da vida privada. 4. A exceção reproduz-se em uma situação específica. 5º. A exemplo disso lembramos a Lei 8. Mas se o princípio constitucional da publicidade. igualmente prevista no ordenamento constitucional. Prescreve esta lei que é dever do Poder Público a gestão documental e 14 a proteção especial a documentos de arquivos . o princípio da publicidade apenas se cumpre se. quantos policiais encontram-se em exercício durante os turnos da manhã e da noite e outras informações mais que não devem ser repassadas a qualquer interessado sob pena de comprometer a segurança pública. em razão disto. que se permite a fiscalização do Poder Público e dos seus agentes. 23 prescreve que por Decreto serão fixadas as categorias de sigilo que deverão ser obedecidas pelos órgãos públicos na classificação dos documentos. em última análise. 37. Não há direito absoluto – sequer a vida. e no tocante ao acesso a registros administrativos e demais informações sobre os atos de governo é necessário observar o inciso XXXIII do art. é claro.

à integridade territorial nacional ou às relações internacionais do País). e em relação ao Executivo abrange ainda as pessoas da Administração indireta.111/05. como as autarquias. 23 da Lei 8. a integridade territorial nacional ou as relações internacionais do País. Mas no que se refere às outras atividades de suporte das estatais que exploram atividades econômicas. a sua violação. 173. Dispõe esta norma que o acesso aos documentos públicos de interesse particular ou de interesse coletivo ou geral é ressalvado exclusivamente nas hipóteses em que o sigilo seja ou permaneça imprescindível à segurança da sociedade e do Estado18. A teoria dos papéis sociais é informe que auxilia o intérprete a identificar qual a real necessidade subjetiva dos sujeitos em conflito e. As empresas públicas e as sociedades de economia mista são criadas ou para a prestação de um serviço público ou para a exploração da atividade econômica. Porque o tema do nosso estudo cuida de confrontos possíveis entre interesses particulares – o direito de proteção à imagem e à intimidade dos cidadãos – e interesses públicos – o dever de informar do Estado – é que nos parece de significativa importância fazermos referência à teoria dos papéis sociais. com isto. amiúde. n. tanto quanto às razões que o fundamentam (em síntese. 11. casos em que a Comissão pode manter a permanência da ressalva ao acesso do documento pelo tempo que estipular. e as hipóteses para esta indefinida prorrogação reduzem-se ainda mais (apenas se houver ameaça à soberania. a intensidade de justificativa deve ser mais acentuada. pode caracterizar. Derradeira anotação de ordem geral é que sendo a publicidade a regra. Art. se houver dolo do agente público. a segurança pública e a proteção à imagem e à moral) quanto pelo tempo a imperar a reserva de informação (pois o sigilo não pode ser indefinido). de modo justificado. II – A teoria dos papéis sociais e o princípio constitucional da publicidade da Administração Pública. Esta lei confirma a nota de excepcionalidade do sigilo. 2º. em qualquer instância. Vale dizer – como uma informação objetiva –. como dispõe o caput do art. Podemos considerar. 151-164.429/92. E mesmo durante o período de sigilo é expressamente prescrito o que de outra forma não poderia ser – sob pena de inconstitucionalidade –: pode o Poder Judiciário. fundações. Art. 24. determinar a exibição reservada de qualquer documento sigiloso. 6o. 4. a manifestação da Comissão de Averiguação e Análise de Informações Sigilosas para que avalie se o acesso ao documento ameaça a soberania. Mas em seu art. Resta-nos esclarecer. IV. p. pois nesta circunstância 17 18 as estatais devem sujeitar-se ao regime jurídico próprio das empresas privadas. § 1º. segundo a teoria a que aludimos. ou a contratação de empregados e outras inúmeras atividades do gênero. ao se reportar aos prazos de sigilo que acima reproduzimos do art. clareia os verdadeiros valores e fatos que devem ser perquiridos junto ao sistema jurídico. se não encontrar respaldo nas exceções vistas. que é possível identificar na sociedade inúmeros “papéis sociais”. não é exigível a publicidade.159/91. um ato de improbidade administrativa – previsto no art. ainda. de todos os entes da federação. tal como acontece com a contratação para a edificação de uma filial ou ampliação ou reforma de unidades já existentes. há infindáveis núcleos de ações e comportamentos que são preenchidos. sempre que indispensável à defesa de direito próprio ou esclarecimento de situação pessoal da parte17. de suas técnicas de produção. junho/2009 155 . incide amplamente o princípio constitucional da publicidade. como exemplo as que tratam do bem de consumo produzido. Outra referência ao sigilo advém da Lei 11. comercialização etc. conforme dispõe o art. A única ressalva que deve ser feita diz respeito a estas duas últimas. que esta norma – o princípio da publicidade – é aplicável. e neste último caso. a todos os Poderes. É verdade que em seu § 2o o artigo 6º dispõe sobre a possibilidade de antes de expirada a prorrogação do prazo a autoridade competente para a classificação do documento no mais alto grau de sigilo provocar. da Lei 8. Revista Internacional de Direito e Cidadania. empresas públicas e sociedades de economia mista. II da Constituição Federal. por indivíduos. 37 da Constituição Federal. é categórico ao afirmar que os documentos classificados no mais alto grau de sigilo tornar-se-ão de acesso público.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. e apenas em relação às informações que se referem à atividade-fim. De todo modo.

por tanto com maior largueza ainda. – que se intercomunicam e. revelada por seus sentimentos mais circunscritos... n. que a intimidade é a esfera mais íntima da pessoa humana. tendo-as em seu diâmetro. filho.. pois isto é ínsito à condição de viver em sociedade.PIRES. circundando-a. características próprias e objetivas. marido. é um conjunto de modos coletivos da existência humana. ou na social – como integrante de uma associação. 4. O indivíduo é simultaneamente pai. uma personagem20. Pela teoria dos papéis sociais. E prossegue o professor. c) coletivo. como sócio de um clube. anônimo. que se refere à interação social. trabalhador braçal ou desempregado –.. mas aos diversos e ao mesmo tempo tal como o homem que ao mesmo tempo em que é pai também é um empresário e integrante da associação do bairro em que mora.. E é por isso que o ser humano deve a esses papéis amoldar-se. 34. ou na profissional – como médico. diz ele. E nesse ponto podem estar papéis sociais públicos e privados.) como sujeito de um círculo ou grupo”19. mas um papel. 32.. ao mesmo tempo. pouco mais adiante. político.. Tanto como uma personagem em sua vida pessoal – como pai.) nem ainda nos interesses que geraram a seleção (. como ainda nas infinitas áreas de relacionamento – lazer.) nem na capacidade ou condição da pessoa que escolheu (. mulher. no mundo fenomênico. irmão. ao remate oportuno: O indivíduo é uma soma de papéis e por vezes esse indivíduo. à imagem que idealiza para si. E o mundo do direito – prossegue o autor – pertence mesmo ao âmbito do modo e dos nexos coletivos da vida humana. nessa ordem de idéias. Luis Recaséns Siches afirma que o sujeito pode viver três classes de modos de conduta: a) propriamente individual. trabalho. algo “(. Não se está – isso não importa para o papel social – pensando na motivação que levou à escolha (. representam o palco de atuação destas personagens. esclarece a respeito: Para essa teoria dos papéis sociais. M. p. Sob esta última é que o sujeito vive como “(.. ainda. enquanto ser real. A propósito do tema. afeita à vida no âmbito familiar e amistoso. o sujeito dos modos coletivos de 19 20 21 conduta não é o homem autêntico. estes núcleos de imagens (personagens) e ações e comportamentos (áreas de relacionamento).) titular de um ‘papel’ ou de uma ‘função’ (. tipificado. A maior ou menor proteção do ordenamento jurídico a cada uma dessas esferas da individualidade (intimidade. como o próprio Direito. torcedor. p. estudante. e secundando estas duas.. e.) ‘comum. 33.. 32. O direito. Comentários ao código de defesa do consumidor – Direito Material. etc. 156 Revista Internacional de Direito e Cidadania. filha etc –. há a privacidade. nem sempre sendo fácil distinguir quando o comportamento social real é de um ou de outro22. 151-164. junho/2009 . considerando qual personagem que se trata e em qual área de relacionamento se encontra. educação. Não a um ou a outro exclusivamente. introspectivos. privacidade e re- Introduccion al estudio del derecho. confunde-se com os papéis que exerce. Percebe-se. O que vale é a seleção objetivamente operada”21. em participação de atividades em praças e parques públicos etc –.). que o conceito de cada papel social é essencialmente mutável – aliás. A esses papéis as pessoas aderem espontaneamente. com muita propriedade. p. há diversos núcleos que enfeixam. cit... empresário. L. em cada caso concreto. Luiz Antônio Rizzato Nunes. p. família etc. logo. Consideraremos. profissional. não transformá-los ao seu talante. o ser humano individual. 22 Ibidem. mas ao que a sociedade conhece e espera. num composto de papéis sociais. geral (... b) não individual (interindividual).)”. há. F. há o relacionamento público. portanto. p. o que vale é o dado objetivo da escolha. Op..

junho/2009 157 . por isso vai variar de indumentária. O papel social do Poder Público é mesmo de titular de um interesse público primário.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS.) cada um exerce papel diferente. e a imposição do papel. defende. 2006). o ser humano deve protagonizar corretamente o personagem. Curso avançado de direito civil. para saber se há realmente apenas a conformação de um direito ou algum sacrifício – que neste último caso pode ensejar alguma indenização –. tem outros parâmetros para seu comportamento. Mencionamos exemplos que cuidamos em outra obra (Limitações administrativas à liberdade e à propriedade. ou atua como particular com o fito de atingir interesses que apenas mediatamente refletem os anseios coletivos?. se um indivíduo pode ter o legítimo interesse de opor-se à intenção de seu vizinho de ingressar em seu lar para combater Renam Lotufo. v. portanto. uma festa pública de ingente proporção tendo como mote prestigiar alguma classe profissional determinada. e tudo isto em ano de eleição. mostra-se ser de grande valia ponderar os papéis sociais em pauta. n. 151-164. mas sim se propõe a propalar os interesses eleitoreiros de seu representante.. em cada caso concreto. ou o papel social que representa em dada situação revela que persegue os interesses particulares de algum integrante de sua estrutura? Um exemplo: pretende o Poder Público realizar. lacionamento público) acontece na proporção do papel social que o indivíduo exerce em cada caso concreto. Conforme o papel. mas este. I. que por terem como fundamento jurídico o regime jurídico administrativo24 para o cumprimento da função administrativa a teoria dos papéis sociais é elemento que ampara a hermenêutica jurídica por permitir a melhor compreensão da posição dos sujeitos envolvidos. ao interpretar as limitações administrativas. Assim. p. o que justifica tratamentos diferenciados na medida em que (. Ao atuar profissionalmente tem que se comportar conforme as regras do ambiente de trabalho (. para avaliar a legitimidade de uma ação concreta do Poder Público a pretexto de observar uma norma geral que traceje uma limitação administrativa. ou mesmo para constatar algum ato arbitrário.. a título de exemplo. de que o Executivo não cumpre seu papel social. mais proteção goza do que um agente político. e tem que obedecer às regras específicas de seu papel. justificando-se. São papéis sociais diferentes.. um interesse da coletividade. sem qualquer tradição em anos anteriores. 23 24 Façamo-nos mais claros: para ponderar a constitucionalidade de uma limitação administrativa. que a despeito das dificuldades de investigar a vontade subjetiva dos agentes públicos é possível identificar. Isto porque não é papel social da Administração Pública voltar-se com exclusividade a um grupo restrito.) Já nas atividades de lazer. portanto. Cumpre identificar. tanto quanto vai se comportar conforme as regras de cada conjunto social. que será composto por diferentes seres humanos. percebe-se. a cada momento.. São Paulo: Quartier Latin. neste exemplo dado. ao menos reconhecer indícios. atuar concretamente em benefício de determinados administrados. 21. na sociedade diferenciada. 4. quando. p. para um empregado numa empresa da iniciativa privada há maior proteção à sua privacidade do que tem um funcionário público em cargo de chefia. De outro lado. quais são os papeis sociais exercidos pelos partícipes da relação jurídica e se estes papéis justificavam suas atitudes. Revista Internacional de Direito e Cidadania. que o aplicador do direito deve considerar. no caso concreto. e sendo o atual Chefe do Executivo integrante desta classe. Numa relação entre o Poder Público e o administrado é possível divisar. no ambiente do lar exerce o papel que lhe cabe no seio da família. por exemplo. e tudo com a associação deste comportamento ao fato do agente público que promove o evento pertencer ao mesmo grupo e ainda ser candidato à reeleição. como protagonistas23. conforme o local. por outro lado. sem igualdade de condições em relação a outros grupos.

propormos algumas soluções possíveis com a ilustração de alguns casos práticos. sobretudo quando se trata – como é o caso do presente estudo – do conflito entre o dever de informar – por parte da Administração Pública. como dissemos alhures (I). 3). 27 Art. a vida íntima de cada pessoa. Recordamos os princípios da 158 Revista Internacional de Direito e Cidadania. XXXIII. outros direitos fundamentais. primeira parte. Retornaremos ao tema mais adiante (III. o princípio constitucional da publicidade (art. L. XXXV e LXXII. é possível distinguir a existência de duas esferas ou modalidades: uma. tem a legitimidade de assim agir e o destinatário deve suportar porque o seu papel social de administrado (isto é. Quer-nos parecer que oportunas a estas reflexões são as seguintes considerações do administrativista argentino Héctor Jorge Escola quando trata das ações que compõem a vida privada e que passam a afetar a ordem e a moral públicas: “Na liberdade pessoal. por sua vez. como consectário do princípio da publicidade – e o direito de proteção à imagem e à intimidade do administrado. M. de um modo geral. 5º. para em seguida. 1 – O dever de informar: a sociedade da informação e do risco. II. 2) –. noutro exemplo pautado no chamado “rodízio de veículos” da capital de São Paulo. a. p. assim considerada. a liberdade da comunicação mesmo entre particulares. nas lições do doutrinador. de forma ancilar. 37. que a despeito da impossibilidade de um particular impingir a seu par que circule com o veículo dele em certo dia da semana. algum foco de desenvolvimento de insetos que transmitam doenças graves como a dengue. XXXIV. p. cumpre-nos compreender o sentido e o alcance deste princípio – da publicidade – de modo a não afligir. III – Os contornos e os limites do princípio constitucional da publicidade da Administração Pública. 25 26 direito. do outro. Se existe o dever de transparência que determina a divulgação de atos e fatos referentes à Administração Pública e aos seus agentes. III. v. mas sugerimos. o mesmo não pode ocorrer. 896. F. mas é possível se estas ações transcendem para atingir a “liberdade comum”26. e a este princípio relacionam-se ainda outras normas como integrantes de sua interpretação sistemática27. deve ser o ponto de partida do intérprete – toda a doutrina de Direito Administrativo sobre o regime jurídico administrativo e a função administrativa. pois na relação que há com ele o papel social do indivíduo é de quem deve subordinar-se ao interesse geral de colaborar em exterminar o desenvolvimento das causas de contágio. p. com a consideração da teoria dos papéis sociais que vimos no tópico precedente (II). o princípio da publicidade e o dever de informar (III. o titular do interesse coletivo) é diferente do papel social de um sujeito titular de direitos privados em conflito com outro sujeito também titular de interesses protegidos pelo direito privado. n. demarcaremos estes comandos normativos distintos – de um lado. o que ele denomina de “poder de polícia” não tem campo ou legitimidade quando se trata da “esfera sagrada da vida privada”. não desconsideramos nem dispensamos – ao contrário. Note-se. e outra. junho/2009 . Em suma. se o pretendente for o Poder Público. Como vimos (I). A distinção é feita porque. 895. que é a qual até agora nós temos nos referido”25. A seguir. o Poder Público. a consideração da teoria dos papéis sociais em vista a auxiliar o aplicador do Compendio de derecho administrativo. 4. diante do perigo concreto. que constitui a vida privada. então. em relação com o Poder Público. 1). b. Ibidem. o direito de proteção à imagem e à intimidade (III. caput) impõe à Administração Pública o dever de transparência que implica o dever de informar.PIRES. 151-164. a liberdade comum. Mas a par desta análise de um princípio que compõe o regime jurídico administrativo convém lembrar outras normas constitucionais que regem.

ainda assim. 30 Art.. Revista Internacional de Direito e Cidadania. IV. 37. n.)”. mas este dever de informar precisa ser contextualizado com os avanços da tecnologia de comunicação pelos quais passou a sociedade mundial nas últimas décadas e que nos albores do século XXI prenuncia progressos ainda mais marcantes. o que bem corresponde à lição de José Cretella Júnior31 ao dizer que a vontade do Poder Público deve ser “anunciada aos quatro cantos”. XIV. recenderia o princípio da publicidade como um dever de informar por parte do Estado. 34 Expressão pertinentemente utilizada por José Eduardo Figueiredo Dias. e sim destacarmos as potenciais conseqüências deste dever de informar imputado à Administração Pública. o explícito princípio constitucional da publicidade no caput do art. Mas o que neste tópico aspiramos não é a reprodução do que dissemos anteriormente (I). 138 32 Op. portanto. cit. 31 Op. 33 Op. é fundamental termos a consciência de que são proporcionados riscos que exigem as devidas cautelas para evitar o comprometimento dos direitos fundamentais. ao prescrever a transparência como norma de conduta da Administração Pública. e por isto exigem atenção sobre o que se encontra à disposição de acesso. 5o.. 620. p. não trata de um direito imponível apenas a outros particulares.. cit. diante da constante evolução das tecnologias de comunicação (como é exemplo a internet). XIV e XXXIII. De tal sorte. 28 29 Por conseguinte. portanto. é mesmo um dever de informar a ser pronto e espontaneamente cumprido pelo Poder Público. mesma página. mas ainda ao Poder Público. da leitura do regime democrático. é preciso atentar para o que o autor lembra que vem sendo denominado de “digitalização dos direitos fundamentais”33 – o risco. o que em contrapartida franqueia aos administrados de um modo geral.. 5º. como já asseveramos na primeira parte deste estudo. liberdade de pensamento28. os riscos que resultam da capacidade de armazenamento de dados que se projeta exponencialmente. Mesmo se não houvesse. marcado por normas que elevam a liberdade de expressão a um dever de respeito. José Eduardo Figueiredo Dias. como insistimos em linhas passadas (I). p. cit. p. O princípio constitucional da publicidade. os riscos que resultam da velocidade com que estas informações podem ser difundidas. por exemplo. 616. op. O dever de informar proporciona. 5o. os riscos da internet que resultam do amplo acesso proporcionado às informações da Administração Pública. um direito à informação administrativa34. o princípio constitucional da publicidade.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. Especificamente o art. o risco de menoscabar os direitos fundamentais como a intimidade e a privacidade.. como acreditamos que restou bem demarcado no tópico I. p. Destarte. compete-nos compreender que a reboco da informação existem. ao dispor que “é assegurado a todos o acesso à informação (. junho/2009 159 . a quem fizemos breve referência na introdução deste artigo.) aumento das situações de devassa da vida privada e da intimidade das pessoas. cit. potenciado pela consagração e garantia do direito à informação em termos cada vez mais amplos.. 151-164. perante esta sociedade da informação. Art. exterioriza verdadeiro dever de informar. 4. e facilitado pelas novas tecnologias informáticas que aumentam exponencialmente as possibilidades de recolha e posterior acesso a dados pessoais32. IX. a caracterização de uma sociedade que ao mesmo tempo em que se ufana desta capacidade de acesso às informações ainda se identifica pelos riscos gerados.. 5o. recorda que a sociedade contemporânea vivencia um (. se devemos reconhecer o valor das tecnologias de comunicação que levaram aos píncaros o princípio da publicidade como dever de informar – como os sítios (sites) oficiais das Administrações Públicas na internet –.. Art. da liberdade de comunicação e opinião29 e do direito de informar e de ser informado30. Decerto.

que só em concreto podem ser exactamente determinados. Pois como diz o autor referido38. com as facilidades de armazenamento. A discussão que emerge. 2 – O direito de proteção à imagem e à intimidade. p. de conhecida estatura constitucional36. E este último – o dever de calar –. “(. 3 – Casos práticos e soluções possíveis diante da teoria dos papéis sociais. 628. A estas indagações esperamos ao menos bosquejar. exterioriza-se por duas formas: o dever de segredo que trata de assuntos concretos aos quais se atribui o caráter de reservados (tratase de um dever específico) e o dever de sigilo que é o dever pessoal de discrição cuja finalidade é evitar causar danos desnecessários tanto à Administração quanto aos cidadãos (trata-se de um dever genérico de discrição). III. e de outro o princípio de proteção à imagem e à intimidade. 5o. principalmente da internet como “verdadeira auto-estrada da informação”. V e X. e o faremos nas próximas linhas.. 38 Op. a transparência da atividade administrativa é um “dever de conteúdo plural” porque tem duas vertentes: o dever de informar e o dever de calar.) um ‘direito de personalidade’ que deve ser considerado como densificação do ‘princípio da dignidade da pessoa humana”37. 37 Op.. e porque a Administração Pública contém sítios oficiais (sites) a potencializarem esta publicidade é preciso então definir o alcance legítimo do cumprimento do dever de informar sem o comprometimento do direito de proteção à imagem e à intimidade dos administrados. 35 36 que José Eduardo Figueiredo Dias assinala A tarefa de harmonização pode igualmente basear-se na afirmação de um conteúdo prima facie dos direitos fundamentais. o desenvolvimento da informática. 628. Adotaremos. p. acesso e difusão de dados. em palavras que tomamos de empréstimo de José Eduardo Figueiredo Dias ao tratar da intimidade e da privacidade. em última análise. L. cit.. é a preocupação em equacionar o princípio da Corrupción. F. Pois afinal. Mas cuidaremos deste dever de calar. o princípio da publicidade da Administração Pública. com os direitos dos administrados de verem preservadas a sua imagem e intimidade – sobretudo porque.PIRES. como exemplificamos no tópico anterior. O direito de proteção à imagem e à intimidade. O que pretendemos propor. 39 Op. representa. o dever de informar da Administração Pública. a de que nos encontramos em uma sociedade do risco e da informação. é o labor com a teoria dos papéis sociais para os casos concretos como um dos critérios a serem considerados para a ponderação referida por este autor de modo a alcançarmos a pretensão de correção na solução dos princípios em colisão – de um lado. cit. p. p. apelando de forma mais intensa para a necessidade de recorrer à ponderação ao nível do caso concreto para efectuar a restrição de um (ou dos dois) direito (s)39. a internet promove uma vigorosa capacidade de divulgação. no tópico seguinte. III. por sua vez. no próximo tópico. como nos adverte Jesús Gonzalez Perez 35. 4. cit. Art. E que deve ser cuidadosamente considerado diante da prática cada vez mais comum da Administração Pública de usar a internet como meio de efetivação do princípio da publicidade.. M. por outra perspectiva: com fundamento no direito de proteção à imagem e à intimidade. junho/2009 . ética y moral em las Administraciones Públicas. algumas respostas que sirvam de linhas condutoras à compatibilidade destas normas constitucionais. 632.. conduz a proteção da privacidade a uma nova perspectiva. 93-94. a teoria dos papéis sociais no procedimento de ponde- 160 Revista Internacional de Direito e Cidadania. por conseguinte. p. n. publicidade. 151-164.

na relação com o Poder Público. como papel social de concorrentes de uma licitação. a sua intimidade e privacidade submetem-se a constrições mais intensas do que em outras relações jurídicas. Revista Internacional de Direito e Cidadania. pois a transparência é dever que impera no Ainda que não haja a necessidade de expressa menção a este princípio constitucional para que o Poder Público cumpra com o dever de transparência. É nestes termos. é 40 possível perceber que. Com a teoria dos papéis sociais. e quanto à fiscalização é ainda com a publicidade dos atos que qualquer pessoa pode averiguar se não ocorrem favoritismos e desvios.666/93. p. caput. o nãocumprimento da proteção à imagem e à intimidade do participante. ao exigir a divulgação do registro cadastral e a sua disponibilidade a quaisquer interessados. a violação do princípio do sigilo das propostas – da fase de apresentação das propostas – não apenas pode invalidar toda a licitação como ainda tipificar os crimes previstos no art. Mas com o encerramento da fase de apresentação todos terão acesso às propostas de todos os interessados tão logo elas sejam abertas e classificadas. pois se as propostas fossem apresentadas já abertas não se garantiria a igualdade entre os interessados uma vez que estaria em posição de vantagem quem conhecesse a proposta do outro concorrente antes de apresentar a sua. § 4º. e ainda amplifica as possibilidades de a Administração realizar a seleção e conseguinte contratação mais eficiente às suas necessidades. ao determinar a publicação trimestral dos preços registrados. de um modo geral. ao ingressar no processo de licitação. Por isto. pela natureza da própria atividade. caput.666/93. 40. Por último. a informar e conduzir o procedimento de ponderação. 94 da própria lei de licitações e contratos administrativos e no art. reclamar da divulgação. a qualquer sujeito que queira conhecer. junho/2009 161 . 34. mesmo quando fundada na “melhor técnica” ou “técnica e preço”42. § 4º. 16. Igualmente. mas os atos de avaliação de documentos e de julgamento e classificação das propostas demandam o isolamento dos integrantes da comissão responsável. como um princípio básico a permear todo o processo de licitação e o conseqüente momento da contratação com o vencedor. inicialmente. ao explicitar que o participante de uma licitação apresenta-se. de que os seus dados da habilitação e a sua proposta estejam disponíveis ao acesso de qualquer administrado. nos termos dos arts. a publicação resumida. que livremente decidiram aderir a um processo que deve pautar-se pelo princípio da publicidade. II. o que contribui – este controle – para a efetivação do regime democrático40. em razão do papel social ao qual adere o participante da licitação. pois o administrado que participa da licitação assume. não podem os participantes de uma licitação. § 3º. n. 3º. É em razão do princípio da publicidade junto à licitação que há o direito assegurado a qualquer interessado de participar e fiscalizar os atos da licitação: por meio da publicidade que se torna possível promover a competição do maior número possível de pessoas. ao explicitar que o edital deve ser “amplamente divulgado”. no art. a propósito. portanto. 151-164. É esperado. 53. o papel social de um interessado em substituir o Estado na execução de uma tarefa. Claro que durante as etapas do processo de licitação há momentos em que. 21. convém registrarmos que as publicações devem ser resumidas. em seu art. durante o processo de licitação e em seus momentos adequados. qualificação técnica. regularidade fiscal41. que a sua proposta. é impossível franquear o acesso ou o acompanhamento concomitante dos interessados. 27 da Lei 8. 21. 38. todos da Lei 8. 15. e no art. como é o caso da averiguação dos documentos e o julgamento das propostas. e por isto deve à sociedade prestar contas. Exemplifiquemos. § 1º. outros papéis sociais. no art. o princípio da publicidade não abrange o momento de apresentação das propostas. tal como o Estado deve fazê-lo. Sem dúvida alguma os atos anteriores e posteriores. qualificação econômico-financeira. pelos sítios oficiais (páginas da internet). ao prescrever o dever de dar-se publicidade mensalmente à relação de todas as compras feitas pela Administração. 4º ao assegurar a qualquer cidadão o acompanhamento do processo de licitação. que os documentos referentes à sua habilitação jurídica. o que efetiva materialmente o princípio da igualdade. entre outros dispositivos. que dispõe o art.666/93. 4. e com isto a divulgação (por meio da publicação) atinge o seu objetivo de promover a publicidade ao se limitar a divulgar os aspectos essenciais do processo de licitação. 326 do Código Penal. ração na colisão do princípio da publicidade e o dever de informar da Administração Pública com o princípio de proteção à imagem e à intimidade. Pois a teoria dos papéis sociais. 61. como a abertura de envelopes e divulgação dos resultados com seus critérios e conclusões devem ser públicos. 41 Art.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. pois a publicação não se confunde com a publicidade. não viola o princípio da publicidade porque o inteiro teor do edital deve ser disponibilizado na repartição competente (o que assegura a plena publicidade). 3º. sejam informes disponibilizados. a lei de licitações e contratos administrativos é explícita ao reproduzi-lo. § 1º. numa área de relacionamento que se sujeita aos interesses de uma coletividade). E torna a mencioná-lo em seu art. no art. parágrafo único. no art. O não-cumprimento do princípio de proteção à imagem e à intimidade do interessado justifica-se pela necessidade do cumprimento do princípio da publicidade. § 2º. § 3º. como uma personagem em interação pública com outros administrados (isto é. o que é a comprovação definitiva de que o princípio da publicidade justifica. da Lei 8. com o dever de licitar. ao exigir nova publicação em caso de modificação do edital.

como o Tribunal de Contas ou o Ministério Público. é a exclusão de informações que não interessam à licitação – seja porque impertinentes aos interessados. qualificações técnica e econômico-financeira. de regularidade fiscal dos que não lograram vencer a licitação quando já houve a homologação. Pouco importa. Pois a tudo isto – à publicidade. I. 4. F. 30. Art. ainda quando encerrada a licitação. entre outros exemplos mais. adjudicação do bem e o vencedor. por outro lado. tendo firmado o contrato. como para apresentá-las a qualquer interessado que solicitar. pois não se pode confundir a personalidade jurídica da empresa que participa como interessada na licitação com a dos seus sócios e empregados. 151-164. nos sítios oficiais. e quando não houver mais interesse nas informações porque se encerrou o processo de licitação com a sua homologação e adjudicação do bem ao vencedor. pois enquanto não se trata do interessado. podemos divisar. seja porque a licitação encerrou-se – apenas dos sítios oficiais. Exemplificamos: não se justifica. a disponibilidade de acesso. Com estas últimas considerações. como não se justifica a disponibilidade. da Constituição Federal. como é legítima a divulgação das razões de não ser a proposta técnica do interessado adequada à realização daquela atividade. tanto para sujeitá-las a oportuno controle por outro órgão público. exercício de qualquer função pública – e de todo e qualquer administrado que espontaneamente adira ao papel social de participar da pretensão de execução de uma parcela desta função. como os seus endereços residenciais e números de registro geral e de contribuintes. como é legítima a divulgação de irregularidades na estrutura jurídica da empresa. neste caso. n. mesmo que não exista a expressa manifestação de vontade ao ingressar no processo de licitação. Lógico que. L. É oportuno sintetizar para destacarmos: a cautela a ser adotada. é legítima a divulgação. então. em princípio. dos dados pertinentes à habilitação jurídica. ainda que para isto informe da existência de ações contra ele. ou os dados pessoais dos profissionais que compõem a capacitação técnico-profissional43. por força do art. junto aos arquivos da Administração Pública. físicos e virtuais. enquanto não se trata de informação que interessa à habilitação e ao julgamento das propostas. a ausência de termo escrito no qual o administrado interessado no certame expresse a sua concordância com ter a sua imagem e intimidade expostas publicamente. e isto porque. o que não exclui o dever de que todos os informes permaneçam. todas as informações de todos os concorrentes. em última análise.PIRES. em virtude do amplo alcance de difusão de informações que se promove com a internet. pois a adesão a este consentimento é consectário natural do papel social assumido de interessado de participar do processo de licitação. Art. o que exige. o não-cumprimento do princípio de proteção à imagem e à intimidade dos interessados na licitação na medida necessária e pertinente desta participação no certame. É inerente à transparência que deve permear a atividade do Poder Público a possibilidade de controle por qualquer administrado. XXXIII. pela Administração Pública. é preciso compreender que há um prazo a ser aguardado para que a Administração Pública retire do site as informações dos interessados – mas. por conseguinte. deve retornar o princípio de proteção à imagem e à intimidade para restringir 42 43 a publicidade destas informações específicas. Outros exemplos. como insistimos durante toda esta exposição. de dados pessoais dos sócios das empresas interessadas. ainda assim a Administração Pública deverá manter em seus arquivos. 46. M. junho/2009 . Por isto. 162 Revista Internacional de Direito e Cidadania. das razões de recusar a habilitação de um interessado. convém lembrar. p. à exposição – o administrado espontaneamente adere porque é o papel social a ser objetivamente assumido. algumas situações que passam a deixar de justificar o cumprimento prevalecente do princípio da publicidade em detrimento do princípio de proteção à imagem e à intimidade. agora sobre a relação entre a Administração Pública e os servidores públicos. 5º. nos sítios oficiais. iniciou a sua tarefa. § 1º.

da Constituição Federal a Administração Pública demita servidores públicos após o procedimento de avaliação periódica de desempenho. Acresçamos às reflexões que os servidores demitidos ingressem com ações que reconheçam a ilicitude da demissão – sejam quais forem os fundamentos. portanto. o dano moral evidencia-se quando a pessoa que se diz ofendida realmente se sujeitou a uma situação concreta que destoa de sua rotina possível. e mesmo por outros fundamentos jurídicos. ainda quando estas decisões administrativas sejam invalidadas judicialmente não ensejam o direito à indenização por danos morais porque. então a reparação do ilícito é realizada com a recondução da situação à ordem jurídica vigente na medida em que o servidor é reintegrado ao cargo e recebe todos os proventos pelo período em que ficou afastado. ser submetido a uma avaliação de desempenho é absolutamente normal junto a qualquer atividade laborativa. De tal sorte. ainda quando os gastos são feitos pelas autoridades que se encontram no ápice da escala hierárquica. então. dos acontecimentos esperados dentro daquele padrão de comportamento no qual se encaixa – leia-se: do que é inerente ao seu papel social. não pode furtar-se ao princípio da publicidade. 41. 4. ou porque não houve motivação a preceder as conclusões lançadas. 151-164. Diante deste contexto engendrado a ilustrar o tema de estudo consideremos ainda que os agentes públicos reintegrados ao cargo ingressem. Estas considerações igualmente se aplicam a um sério equívoco por parte da Administração Pública que a imprensa nacional deu cobertura há algum tempo: os cartões corporativos. que a pretexto de cumprir o art. por si só. III. aluguéis de veículos. e ainda que a Administração Pública tenha utilizado uma metodologia equivocada ou não tenha fundado seu comportamento em norma reconhecida pelo sistema jurídico como apta a legitimar a ação. Do quanto exposto é forçoso reconhecer que os servidores públicos estão submetidos a avaliações. estão sujeitos. Pois sustentar o dano moral em tal hipótese é desconsiderar o papel social que o servidor público exerce. por determinação constitucional. Não há. Portanto. insistimos. p. com ações de indenização contra o Poder Público nas quais pretendem o específico reconhecimento do dano moral por ofensa à imagem. hospedagem devem ser divulgadas porque o papel social exercido pelo agente público é o da representação do interesse coletivo. A invalidação do ato de demissão não implica lógica e necessariamente na existência de um dano moral. § 1º. n. como a ausência de lei complementar. a terem o seu desempenho apurado em procedimentos da Administração Pública. O empenho da verba pública. Se a Administração Pública falha em sua atuação quanto ao procedimento de avaliação de desempenho que culmina com a demissão do servidor. não pode ser omitido do controle público. As despesas com restaurantes. Pois bem. o direito à imagem do servidor público deve ser conformado com o papel social que ele exerce. integram a rotina da Administração Pública. e o papel social desenhado a quem atua em uma função pública é mesmo a publicidade destes atos que. como a demissão a bem do serviço público – após o processo administrativo disciplinar –. E isto porque no papel social do agente público realmente se encontra o dever de ser avaliado e ter a sua situação funcional divulgada pela imprensa oficial. à guisa de exemplo.O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: O DEVER DE INFORMAR E O DIREITO DE PROTEÇÃO À IMAGEM E À INTIMIDADE À LUZ DA TEORIA DOS PAPÉIS SOCIAIS. a demissão após a avaliação de desempenho insatisfatória. ou porque não houve critérios claros e objetivos para a avaliação. se esta ilicitude é reconhecida por decisão judicial. Mas este contexto não produz. não há que se sustentar qualquer dano à imagem ou à intimidade dos servidores reintegrados. junho/2009 . o dano moral. que se argüir 163 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Em outras palavras. se não houver qualquer indício de que tenha procedido de máfé ou para dolosamente perseguir os servidores públicos. ainda assim. Consideremos. e trata-se de expediente ainda mais desejável quando se trata do exercício de alguma função pública. embora viciados (desde que não tenham sido praticados por má-fé). Ora. e não há esta relação de inferência porque o dano moral ocorre quando o sujeito é submetido a uma situação que rompe com os padrões objetivos que podem ser esperados como inerentes a uma rotina normal.

Luis. 164 Revista Internacional de Direito e Cidadania. enquanto detentor do cargo. Direito à Informação. M. p. RECASENS SICHES. PIRES. Bibliografia. Direito Administrativo Brasileiro. 1999. México: Porruá. S. Atual. não esgotam a matéria. Curso de Direito Administrativo. FIGUEIREDO. Buenos Aires – Madrid: Ciudad Argentina. São Paulo: Saraiva. Corrupción. pois enquanto no exercício de uma tarefa pública o sujeito que ocupa o cargo é mandatário da sociedade.A. 2004. Luis Manuel Fonseca. Hely Lopes. Introduccion al Estúdio del Derecho. Madrid: Thomson. Diógenes. é o agente público. in Studia Iuridica. 20a ed. 2004.. Luiz Antônio Rizzato. PEREZ. Das Licitações Públicas. Estudos em Homenagem ao Prof. Rio de Janeiro: Forense. L. seus interesses. por Eurico de Andrade Azevedo. Roberto. 4. São Paulo: Editora Saraiva. 24ª ed. DROMI. Não são suas atribuições públicas que devem amoldar-se aos seus hábitos. São Paulo: Malheiros. junho/2009 . José. 1970. F. 2006. Doutor Rogério Soares. Mas acreditamos que ilustram a importância que a teoria dos papéis sociais representa no procedimento de ponderação do princípio constitucional da publicidade da Administração Pública. Comentários ao Código de Defesa do Consumidor – Direito Material. Protecção da Intimidade e Autoridades Administrativas Independentes. 2006. Jesús Gonzalez. quando e por que comprometeu o recurso (público) que lhe foi destinado. 7a ed. enfim. Ao inverso. Direito Administrativo. É o agente público. 10a ed. José Emmanuel Burle Filho. Derecho Administrativo. 2001. 2003. 2000. 8a ed. GASPARINI. n. que deve ajustar-se ao que é esperado como papel social de quem cumpre uma missão pública. é claro. MELLO. NUNES. 151-164. Coimbra Editora. Lúcia Vale. Celso Antonio Bandeira de. sobretudo – como no caso – com o comando constitucional do princípio da publicidade da Administração Pública que então impõe e justifica o papel social a cada agente público de atender à transparência ao divulgar à sociedade como. o direito à imagem ou à intimidade.PIRES. José Eduardo Figueiredo. São Paulo: Malheiros. Ética y Moral em las Administraciones Públicas. 181 ed. a pretensão de resguardar a privacidade. que deve agir de modo a compatibilizarse com as prescrições normativas. 2006. Curso de Direito Administrativo. DIAS. às suas particulares leituras de como deve comportar-se. MEIRELLES. Limitações Administrativas à Liberdade e à Propriedade. Délcio Balestero Aleixo. CRETELLA JÚNIOR. São Paulo: Malheiros Editores Ltda. São Paulo: Quartier Latin. Todos estes exemplos.

Artigo

A INTERPRETAÇÃO DA LEI COMO A INTERPRETAÇÃO DO CIDADÃO COMUM
Maria Garcia* RESUMO: Trata-se de uma reflexão relativa aos efeitos das decisões sobre o cidadão comum que, não tendo acesso ao conhecimento das teorias e doutrinas, compõe o povo - sendo o cidadão o primeiro destinatário das normas constitucionais. Daí sua importância e do seu entendimento sobre o que lhe diz respeito. Palavras-chave: Interpretação. Constituição. Leis. Cidadania. ABSTRACT: The matter of the text is a reflection related to the effects of the decisions upon the ordinary citizen who doesn’t have access to the knowledge about theories and doctrines and composes the people – being also the first adressee of the constitutional rules. From this we can extract his importance and the importance of his understanding about a matter which refers to him. Keywords: Interpretation. Constitution. Laws. Citizenship

1. Constituição e lei
A Constituição, como lei, dirige-se precipuamente ao comum dos cidadãos, pretendendo ser entendida, interpretada e aplicada às circunstâncias humanas, no transcorrer social. Explicando a concepção de lei em Platão, Werner Jaeger1 alude ao processo de sua formação:
Livre-Docente pela PUC-SP. Professora de Direito Constitucional, Direito Educacional e Biodireito Constitucional na PUC-SP. Vice-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Direito da PUC-SP. Procuradora aposentada do Estado de São Paulo. Ex-Assistente Jurídica da Reitoria da USP. Membro-fundador e atual Diretora Geral do IBDC. Membro da CoBi do HCFMUSP e do IASP. Membro da Academia Paulista de Letras Jurídicas. (Cadeira Enrico T. Liebman). 1 Alabanza de la ley. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionales, 1982; p. 65 (Tradução livre da Autora).
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“Platão, naturalmente, considerava suas ‘leis’ como direito positivo da polis, para a qual as escreveu. Contudo, é evidente que queria faze-las coincidir com norma ideal da verdadeira justiça, tal como a concebia filosoficamente. Suas considerações gerais sobre a natureza da lei verdadeira são partes integrantes do Livro I do seu código, onde desenvolveu os maiores esforços para fazer derivar a autoridade da lei de uma fonte que lhe desse suprema validez. Esta fonte é a ‘reta razão’ (orthos logos) e o legislador é o sábio que põe esta razão por escrito. O consentimento do povo converte essa palavra escrita em lei. A lei é, portanto, pensamento racional (logismós) que se converteu em dogma poleos, é dizer, que foi sancionado pela cidade.” Resulta dizer, a partir daí, que a elaboração da lei requer a manifestação da cidade, o povo (o conjunto dos cidadãos) e se assim é, da mesma forma deve ser considerada a sua interpretação pelo cidadão comum, ainda que esta se efetue pelo aplicador da lei, o juiz. Em tudo e por tudo, não deve ser negligenciado o entendimento de quem, afinal, se constitui na finalidade objetivada pela própria lei, os indivíduos, as relações humanas. Daí que as interpretações meramente técnicas, elocubradas pelos juristas, dão por consequência que a forma, veículo do direito, se sobreponha, como um fim em si mesma. De instrumento, passa a essência, mesma, da relação jurídica, como se o mármore, por si, se pudesse destacar das linhas que compõem a figura — esta, sim, ensejadora da criação do artista e não aquele, seu portador. Embora ambos, forma e matéria, venham a constituir, indissoluvelmente, o objeto de arte — como direito e processo se unem, na objetivação do relacionamento humano em sociedade.
2 3

2. A interpretação e o cidadão

Certamente que a Constituição e as lei são feitas para diferentes destinatários; contudo ela se dirige, especificamente, ao cidadão comum, a unidade social, compondo o Povo. Trata-se, aqui, de princípio fundamental que estrutura o Estado brasileiro, segundo o art. 1º, II: a cidadania e esta, considerada como um plexo “dos direitos e liberdades constitucionais” e das “prerrogativas” que lhe são inerentes, bem como a nacionalidade e a soberania (art. 5º, LXXI). Quais direitos, liberdades e prerrogativas? Todos os previstos na Constituição e normas decorrentes. O cidadão, portanto, é o primeiro destinatário da Constituição, sob qualquer qualidade: o cidadão-Presidente, o cidadão-Legislador, o cidadão-Juiz e todos os cidadãos, nas suas respectivas qualidades, nos diversos estamentos da Nação, mas, sobretudo, o cidadão comum. Hobbes, mesmo ao cuidar d’O cidadão2 empresta-lhe uma condição social muito diferente do que presumem alguns quando se deparam com o pacto Cidadão-Leviatã pois esse pacto prevalecerá se e enquanto o Estado/Leviatã ofereça segurança, proteção e preservação da vida e tudo o que esta compreende, aos seus cidadãos/ súditos. “O individualismo hobbesiano, esclarece Renato Janine Ribeiro3, exige que o poder provenha da vontade de cada um, e que este só obedeça o quanto e enquanto for racionalmente necessário para a sua vida. A obrigação dura apenas se o soberano me protege a vida; cessa, não somente se ele a ameaça, mas também quando deixa, embora malgrado seu, de garanti-la.” Martin-Retortillo, por sua vez, explica bem a natureza da cidadania quando refere que “o direito fundamental da liberdade é multidimensional”, é dizer, essa liberdade redunda, em nível político, na cidadania; que consiste no exercício da liberdade pelo indivíduo enquanto membro da sociedade política4.

São Paulo: Martins Fontes, 1992, pp. 45 e ss. Ao leitor, sem medo. São Paulo: Brasiliense, 1984; pp. 163-164. 4 MARTIN-RETORTILLO, Lorenzo. Derechos fundamentais y Constitución. Madrid: Civitas, 1988; p. 167.

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3. A proteção da liberdade
Decerto que os ditames constitucionais “liberdade provisória, presunção de inocência etc.” embasam a proteção da liberdade humana. Já anotamos em outra oportunidade o registro de Isaiah Berlin5 dos “mais de 200 sentidos dessa palavra protéica”, liberdade. Entre esses vários sentidos, Oppenheim6 usa o termo liberdade pessoal ou interpessoal, aproximando a liberdade social ao conceito de “liberdade negativa” de Berlin: “a liberdade positiva de auto-realização e a liberdade negativa de nãointerferência”; tudo, evidentemente, dentro de um contexto social e político do Estado de Direito, ou seja, num Estado — sociedade politicamente organizada — onde existem leis e no qual, diz Lafer7, “a liberdade adquire, como ensina Montesquieu, uma objetividade e pode ser definida como ‘le droit de faire tout ce que les lois permettent’” — o que leva ao sentido do lícito, conforme Bobbio, daquilo que “não sendo nem comandado, nem proibido, é permitido.” Esta é a liberdade protegida pela Constituição, a liberdade do indivíduo integrado na sociedade, jurídica e politicamente.

ser um crime hediondo não é o bastante para transformar a prisão temporária em preventiva, acrescentou o ministro. Marco Aurélio disse que o Judiciário não pode basear suas decisões em eventuais repercussões negativas perante a sociedade. Segundo o ministro, “julgar não pode ser confundido com justiçar.” Antes de tentarem o habeas corpus no STF, os advogados de Teixeira protocolaram um pedido semelhante no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que foi rejeitado. O juiz foi afastado do cargo em março, após o surgimento de suspeitas contra ele. Teixeira foi preso temporariamente em abril. Também em abril, o juiz e o coronel da Polícia Militar Walter Gomes Ferreira foram indiciados no inquérito do Tribunal de Justiça do Espírito Santo sobre o assassinato, por homicídio qualificado mediante pagamento, crime hediondo e corrupção passiva. Em maio, a prisão do juiz foi transformada em preventiva.”8 Repercutirá, certamente, na sociedade, o fato de tratar-se de crime hediondo e a possibilidade de responder em liberdade ao processo, circunstância processual que o cidadão comum desconhece. O processo não deve significar o mero conjunto de atos, passo a passo realizados, como finalidade em si — o processo se constitui no veículo dos direitos de réus e de vítimas e da realização da Justiça, tarefa pela qual o Estado se substitui ao ofendido — daí a presença majestática do Poder Judiciário. Derivado do latim processus, de procedere, o processo exprime a ação de proceder, ou ação de prosseguir, a seqüência de atos, que devem ser executados, na ordem preestabelecida, para que se investigue e solucione a pretensão submetida à tutela jurídica, a fim de que seja satisfeita, se procedente, ou não, se injusta ou improcedente9. Processus = marcha, progresso; na acepção específica causa10, tem finalidade pública e

4. Um caso penal
STF liberta juiz acusado de matar colega no ES. “O Juiz Antônio Leopoldo Teixeira, suspeito de envolvimento com o assassinato do colega Alexandre Martins de Castro Filho, ocorrido em março de 2003 no Espírito Santo, conseguiu uma liminar no Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe garante o direito de responder em liberdade ao processo. Autor da decisão favorável a Teixeira, o ministro do STF Marco Aurélio de Mello concluiu que não existiam fundamentos suficientes para a manutenção da prisão preventiva do juiz. O fato de o assassinato
5

Dois conceitos de liberdade. in Limites da Utopia. São Paulo: Cia. das Letras, 1991; pp. 133 e ss. Berlin detém-se em dois desses sentidos: liberdade individual ou liberdade institucional, de sentido “negativo”, área de não-interferência e o sentido político ou “sentido positivo”, de auto-determinação. 6 OPPENHEIM, Felix E. Conceptos políticos. Uma reconstrucción. Madrid: Tecnos, 1987; pp. 48,68. 7 LAFER, Celso. Ensaios sobre a liberdade. São Paulo: Perspectiva, 1980; pp. 13 e ss. 8 O Estado de São Paulo, 6/7/2005; p. C3. 9 DE PLACIDO E SILVA. Dicionário Jurídico. Rio de Janeiro: Forense, 1991. 10 J. M. OTHON SIDOU. Diccionario Jurídico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1991.

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visa, segundo Chiovenda11, “a atuação da lei” mediante a sentença do juiz. Em todos os litígios há sempre uma norma legal inobservada e a sentença “declara sempre a vontade concreta da lei, e é aplicando esta vontade da lei, garantindo-lhe a eficácia, que a sentença protege, por via de conseqüência, o direito subjetivo da parte.” Francesco Carnelutti12 sustenta também que a finalidade imediata do Processo Civil é “a justa composição da lide”, isto é, a composição da lide de acordo com a lei. É erro afirmar-se, diz ele, que o processo funciona no interesse das partes: que seja dada razão a quem tenha não é um interesse das partes, mas um interesse geral.” Esse interesse geral encontra-se nos princípios fundamentais que entrelaçam o sistema processual consubstanciando o Estado de Direito e, conforme sublinha Ada P. Grinover13, “o sistema unitário do ordenamento jurídico, acentuando o vínculo entre Constituição e processo: “é esse o caminho, ensina Liebman, que transformará o processo, de simples instrumento de justiça, em garantia da liberdade.” Daí que o processo não se demonstra apenas instrumento técnico senão que contém a essência do jurídico: veículo da afirmação do Direito. E “não apenas instrumento técnico, ressalta Ada P. Grinover, mas sobretudo ético.” São dois pólos de atenção que se instauram: “trata-se, na expressão de Couture, de fazer com que o direito não fique à mercê do processo, nem que venha a sucumbir por ausência ou insuficiência deste.” Por outro lado, afirma ainda a mesma processualista: “não há liberdades públicas senão quando se disponha de meios jurídicos que impeçam seu desrespeito e esses meios se exercem através da função jurisdicional.”14
11

Estabelecer o ponto de equilíbrio preciso entre esses dois pólos de interesse público consiste exatamente a tarefa do intérprete, atento, porém, ao entendimento do cidadão comum e, por consequência, à repercussão social das suas conclusões.

5. O cidadão comum e a repercussão social
O ato de interpretar, atribuir significado à norma (Kalinowski) a fim de que se possibilite a sua aplicação ao caso concreto, envolve a précompreensão do intérprete15 e toda uma teoria de interpretação, métodos e formas de atuação, até a norma de decisão: “Isto posto, decido: (...)” Em toda essa operação, contudo, deve existir um momento de indagação: como o homem comum, ignorante das teorias e dos métodos, veria esta questão? Contudo, não basta que a interpretação seja juridicamente correta, devendo ser também socialmente aceitável. Häberle16, a propósito da interpretação da norma constitucional, enfatiza bem a circunstância de uma Constituição (a lei) dirigida à cidadania: “É verdade que o processo político é um processo de comunicação de todos para com todos, no qual a teoria constitucional deve tentar ser ouvida, encontrando um espaço próprio e assumindo sua função enquanto instância crítica. (...) A teoria constitucional democrática aqui enunciada tem também uma peculiar responsabilidade para a sociedade aberta dos intérpretes da Constituição. (...) Todos estão inseridos no processo de interpretação constitucional, até mesmo aqueles que não são diretamente por ela afetados. Quanto

Instituzioni di Diritto Processuale Civile n. 11. Apud GABRIEL DE REZENDE FILHO, Curso de Direot Processual Civil. São Paulo: Saraiva, 1952; p. 19, n. 17. 12 Sistema Del Diritto Processuale Civile n. 76. Apud GABRIEL DE REZENDE FILHO, op. cit., p. 20. 13 Os princípios constitucionais e o Código de Processo Civil. São Paulo: José Bushatsky, 1973; p. 4. 14 Apud ADA PELLEGRINI GRINOVER. Op. cit., pp. 6-7. 15 “O intérprete compreende o conteúdo da norma a partir de uma pré-compreensão que vai permitir-lhe contemplar a norma desde certas expectativas, fazer-se uma idéia do conjunto e elaborar um primeiro projeto necessitado, ainda, de comprovação, correção e revisão mediante uma análise mais profunda, até que, como resultado da progressiva aproximação à ‘coisa’ por parte dos projetos em cada caso revisados, a unidade de sentido fique claramente fixada”. (KONRAD HESSE. La interpretación constitucional. In Escritos de Derecho Constitucional. Madrid: Centro de Estúdios Constitucionais, 1983; p. 44. Tradução livre da Autora). 16 HÄBERLE, Peter. Hermenêutica Constitucional. Porto Alegre: Sergio A Fabris Editor, 1997; pp. 55, 32.

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envolve toda a sociedade: escapa dos autos. a decisão judicial é dirigida. mais amplo há de ser o círculo dos que dela devam participar. p. a interpretação constitucional. n.A INTERPRETAÇÃO DA LEI COMO A INTERPRETAÇÃO DO CIDADÃO COMUM mais ampla for. do ponto de vista objetivo e metodológico. para repercutir positiva ou negativamente perante os cidadãos comuns. por inteiro. junho/2009 169 . 165-169. A unidade da Constituição surge da conjugação do processo e das funções de diferentes intérpretes. que as penas sejam cumpridas na sua inteireza. de modo educativo e projetivo.” O caráter. atentando-se para o cidadão comum ao qual. de toda idade. que os indivíduos respondam pelos seus atos integralmente. Revista Internacional de Direito e Cidadania. sobretudo educativo. de toda classe social. que as formalidades processuais não se sobreponham à satisfação dos direitos. na proporção da sua gravidade e com indenização civil dos danos causados — tal como a Constituição consagrou a indenização de dano moral. repercutindo por seu intermédio na sociedade. igualmente. Torna-se necessário. à realização da Justiça. 4. portanto. que a pena deve caracterizar.

junho/2009 .170 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 4. n.

). se permitiria a análise caso a caso. uma vez que. A lei trouxe a criação de órgãos para administrar as atividades em que se utilizem animais. junho/2009 171 . desconsiderando a possibilidade de serem obtidas decisões imparciais e em consonância com pensamento da sociedade. ABSTRACT: The article brings considerations on the law n. 171-174. p. which aims at to give effectiveness to the article 225 1. Professor Convidado na Universidade Ecológica de Bucareste (Romênia) – 2008. VII da Constituição Federal no sentido da proteção da fauna e da interdição da prática de crueldade contra os animais. Revista Internacional de Direito e Cidadania. It observes that the mentioned law could have provided the use of a procedure resembling to the previous * Professor na Universidade Metodista de Piracicaba. como por exemplo.Artigo A LEI 11. Prêmio Internacional de Direito Ambiental “Elizabeth Haub” (1985). Observa que mencionada lei poderia ter previsto a utilização de um procedimento assemelhado ao do estudo prévio de impacto ambiental a fim de viabilizar a aplicação dos princípios de prevenção e precaução para evitar a crueldade contra os animais. porém apresentando limitações em sua estruturação. Palavras-chave: Animais.794 de 08/10/2008. 4. Crueldade. ed. Proteção.794 of 10/08/2008. n. Autor do livro Direito Ambiental Brasileiro (16. VII of the Federal Constitution in the direction of protection of the fauna and the interdiction of the cruel practices against animals. da real necessidade de um animal ser sacrificado na realização de atividades de ensino e pesquisas científicas. a de limitar a representação da sociedade civil em sua composição.794/2008 – A CRUELDADE CONTRA OS ANIMAIS Paulo Affonso Leme Machado* RESUMO: O artigo traz considerações a Lei 11. a qual visa a dar eficácia ao disposto no artigo 225§1º. 11.

com o sofrimento 172 alheio. O Supremo Tribunal Federal vem decidindo. of the real necessity of an animal to be sacrificed in the accomplishment of activities of education and scientific research. 171-174. domésticos ou domesticados. A Constituição Federal. A Constituição Federal determinou que estão vedadas as práticas que submetam os animais à crueldade. ainda que a Constituição Federal já atue a partir de seu próprio texto. VII). § 2º A pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço). especificamente o art. Protection. não podem ficar sujeitos à crueldade. no Estado de Santa Catarina e a decretação da inconstitucionalidade de leis estaduais que permitiram rinhas de galos. § 1º . é crime. since it would allow the analysis in a case by case basis. vedadas na forma da lei. to limit the representation of the society in its composition. A experiência em animal vivo que provoque dor ou manifeste crueldade.MACHADO. Três tipos de práticas ficaram proibidas e essas vedações terão sua maior eficácia “na forma da lei”. § 1º. pela proteção dos animais. em casos que se tornaram paradigmáticos. A Constituição Federal de 1988 e a proteção da vida dos animais Preceitua a Constituição Federal: § 1º Para assegurar a efetividade desse direito. not considering the possibility of receiving impartial decisions and in tune with societys thoughts. prevê como crime: “Praticar ato de abuso. Assim. Ao não proibir a alimentação carnívora faz-se uma pressuposição de que tal hábito seja ditado por uma implícita necessidade. P.incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo. mesmo os animais que são abatidos para fins alimentícios. provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade. como a “farra do boi”. nas atividades de ensino e nas atividades científicas.605. de 3 (três) meses a 1 (um) ano. ou até prazer. Os animais fazem parte da fauna e. as práticas que coloquem em risco sua função ecológica. presenting however limitations in its structuration. A questão que o exame da Lei n. study of environmental impact in order to make possible the application of the prevention and precaution principles and to prevent the cruelty against animals. não se podendo causar a sua morte. quando existirem recursos alternativos. Cruelty. e multa. Entretanto. incumbe ao Poder Público: VII – proteger a fauna e a flora. as for example. É um posicionamento que tem sofrido críticas. O texto constitucional não disse expressamente que os animais têm direito à vida. quando existirem recursos alternativos. O crime do art. 225. se ocorre morte do animal. mas o sistema vegetariano não tem um acolhimento constitucional. A. 32 da Lei 9. The law brought the creation of bodies to manage the activities in which animals are used.794/2008 suscita é a da necessidade ou não de os animais serem utilizados para fins de ensino e para fins de pesquisa. portanto. ainda que para fins didáticos ou científicos. ao impedir que os animais sejam alvo de atos cruéis. 32. L. 1. ferir ou mutilar animais silvestres. a obrigação legal é a de não ser cruel e nem provocar dor nos animais. Uma das concepções sobre a crueldade mostra-a como a insensibilidade que enseja ter indiferença. nativos ou exóticos: pena: detenção. e não mortos. mesmo no ensino e Revista Internacional de Direito e Cidadania. 2. maus tratos. de 12 de fevereiro de 1998. supõe que esses animais tenham sua vida respeitada. junho/2009 . 11. Keywords: Animals. A preservação da vida do animal é uma tarefa constitucional do Poder Público. n. com admirável coerência. p. Essa proteção como dever geral independe da legislação infra-constitucional. mas é lógico interpretar que os animais a serem protegidos da crueldade devem estar vivos. 9. incumbe ao Poder Público protegê-los (art. 4. sem uma justificativa explicitada e aceitável.605/1998 A Lei n. A Constituição Federal não proibiu que a alimentação humana seja carnívora.

se o animal deve ou não ser sacrificado. O uso os animais para fins educacionais fica limitado a estabelecimentos de ensino superior e a estabelecimentos de educação profissional técnica de nível médio da área biomédica.794. Não se trata somente de mitigar ou de reduzir a dor do animal. como no direito antigo. através de sua mutilação ou de seu abuso. as práticas de ensino deverão ser fotografadas. ou de método que se lhe assemelhe.794/2008 não tenha utilizado do estudo prévio de impacto ambiental. As alternativas (previstas pela Lei 9. Se não existirem.2 Os órgãos competentes criados pela Lei 11. a aplicação do princípio de prevenção e do princípio da precaução para evitar a crueldade contra os animais. A Lei. É obrigação constitucional. mesmo procurando vestir-se de um aparente humanitarismo. Portanto. É lamentável ter que afirmar-se que essa lei.não se pode deixar de afirmar que é uma expressão crua e rude.794/2008 faz com que a mesma fique contaminada de uma notória inconstitucionalidade. portanto. No art.794/2008 – A CRUELDADE CONTRA OS ANIMAIS na pesquisa. também. 23. 1º da Lei é feita a distinção de que os animais serão usados para atividades educacionais e para atividades de pesquisa. dos professores não serem cruéis com os animais e.605/1998). principalmente. poderá ser exigido por órgãos estaduais. com proteção constitucional. É incrível que a Lei 11.1 O uso de animais para o ensino e para a pesquisa ambiente. antes de fazer a demonstração com os animais. Trata-se. junho/2009 . 4. que substituam a utilização de animais em ensino e pesquisa. devem procurar não repetir as práticas que vão mutilar e/ou matar animais. para obrigar. 171-174. 3. n. filmadas ou gravadas. Portanto. em seu art. em todos os casos. à proteção do meio ambiente e à preservação da fauna e da flora. torna a vida dos animais muito instável e indefesa. incisos V. conforme o art. de 8 de outubro de 2008. p. § 3º afirma: “Sempre que possível. Se existir forma de pesquisar ou de ensinar sem a utilização de animais.VI e VII é uma tarefa concernente à 173 Revista Internacional de Direito e Cidadania. passa a ser criminosa a vivissecção. na maioria das vezes. 11. 3. “Usar os animais” . não souberam dar a devida eficácia à Constituição da República no sentido da proteção da fauna e da interdição da prática da crueldade contra os animais. O credenciamento ou o registro. caberá ao professor provar a sua inexistência. evitando-se a repetição desnecessária de procedimentos didáticos com animais”. nenhum experimento pode ser feito em outros tipos de escolas que não os expressamente previstos na lei. Os meios pedagógicos para esse fim existem. Deu-se muita liberdade para serem utilizados os animais em práticas de ensino. e os que colaboraram na elaboração dessa Lei. A ausência desse procedimento na Lei n.A LEI 11. deveriam ter sido objeto de uma obrigatória análise em procedimento preventivo e não ficar à espera de uma medida a ser decidida pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal – CONCEA. mas seres vivos. de averiguar-se em procedimento formal. Todo projeto de pesquisa científica ou atividade de ensino será supervisionado por profissional de nível superior. à educação e à ciência.974/2008 e a competência comum dos artigos 23 e 24 da Constituição Federal Essa expressão é empregada no ementário. graduado ou pósgraduado na área biomédica Esse profissional deve estar vinculado à entidade de ensino ou pesquisa credenciada pelo CONCEA. ao dizer-se “sempre que possível”. de forma a permitir sua reprodução para ilustração de práticas futuras. integrando o meio A tarefa de administrar as atividades de pesquisa e de ensino com relação aos animais diz respeito à função de proporcionar os meios de acesso à cultura.14. Lei n. Os animais não são coisas. 11. se legislação apropriada for instituída. Os legisladores. ainda que se procure suavizar a expressão com o viés de uso científico. em cada caso. 3. muito mais.

da pesca. 171-174. os docentes e os pesquisadores não têm número estabelecido na Lei. às instituições credenciadas no CONCEA”. Não bastasse essa ausência de paridade de setores dentro da Comissão de Ética – dado importante na ciência da administração – fere-se de morte a gestão democrática da Comissão de Ética do Uso de Animais. Os Estados poderão acrescentar exigências. da caça. Esse artigo 12 desconhece e marginaliza frontalmente o artigo 23 da Constituição Federal. Facilmente. instituir procedimento formal de prevenção do dano ambiental (animal). 3. § 2º da Constituição Federal). A composição foi prevista de forma astuciosa: os médicos veterinários. criar também licenças ou autorizações e dar outras atribuições aos Comitês de Ética. mas para a representação de uma parcela da sociedade civil – a sociedade protetora dos animais. podendo os Estados legislar suplementarmente (art. A Lei 11. 11.974/2008 criou o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal – CONCEA e as Comissões de Ética no Uso de Animais – CEUAs. P. n. A lei 11. tudo passará a ser carimbado como segredo! É uma audácia acintosa desfigurar uma Comissão que poderia tentar funcionar adequadamente.794/2008). com exclusividade de outras – poderão utilizar animais para pesquisa. É preciso aclarar-se que nem o Ministério da Ciência e Tecnologia e nem o CONCEA detêm o monopólio administrativo da matéria atinente à criação e à utilização dos animais para fins de ensino e de pesquisa. Assim. a matéria concernente ao uso dos animais não é da competência privativa da União. pois “os membros das CEUAs estão obrigados a resguardar o segredo industrial. já se previu somente um voto na CEUAs. exclusivamente. As Comissões de Ética do Uso de Animais – CEUAs serão integradas por I – médicos veterinários e biólogos. L. II – docentes e pesquisadores na área específica e III – 1 (um) representante de sociedades protetoras de animais legalmente estabelecidas no País. conforme o art. 12 determina que “a criação ou a utilização de animais para pesquisa ficam restritas. A redação do artigo peca por dois equívocos: primeiro fala em criação de animais. Comissões de Ética no Uso de Animais – CEUAs: a imparcialidade dificultada e o impedimento de informar Lei não fala se essas comissões fazem parte da própria estrutura da entidade – de pesquisa ou de ensino – que pretende fazer os experimentos ou as demonstrações. competência comum da União. 4. os biólogos.794/2008 estabeleceu que “é condição indispensável para o credenciamento das instituições com atividades de ensino ou pesquisa com animais a constituição prévia de Comissões de Ética no Uso de Animais – CEUAs”. quando na Lei não se tratou dessa matéria. A 174 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Daí se vê que em sendo possível que a Comissão integre a entidade interessada.3. A. dos Estados. do Distrito Federal e dos Municípios. 24. tanto sob o aspecto da proteção do meio ambiente.MACHADO. 9º da Lei 11. p. Quanto à competência legislativa sobre a matéria tratada na Lei n. segundo pretender dar uma característica exclusiva às entidades credenciadas no Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal – só elas. §5º).794/2008. Portanto. se tivesse possibilidade de ser imparcial e de comunicar-se com a sociedade. O art. inexistente ou dificultada ficará sua imparcialidade. na forma do Regulamento (art. essa sociedade protetora dos animais será sempre minoria perante os que forem integrantes da entidade interessada. da fauna e da conservação da natureza como com referência à educação. cultura e ensino a competência é concorrente. sob pena de responsabilidade” (art. 10º. 24 da Constituição Federal. junho/2009 .

considerando critérios de formosura. A floresta não seleciona o reino vegetal e reino animal pela sua aparência. dão ensejo a uma forte reflexão sobre os conflitos atuais que permeiam a seara ambiental. n. mas sim pela sua essência. da presença de flores ou simplesmente espinhos. As florestas são renovadas com o tempo e possuem a capacidade de revelar utilidade até mesmo em cada galho que cai no solo. Tal comparação leva-nos à seguinte meditação: por que as florestas são tão exuberantes e imponentes. quando comparados.Discussão FLORESTAS E JARDINS Fernanda Alves Vieira1 As florestas e os jardins. precisando de uma “limpeza”. com várias folhas. pela capacidade de servir uns aos outros na cadeia alimentar e na proteção do desenvolvimento das espécies e de todo o ecossistema. galhos e ramos caídos no chão. 4. caules. Ex-consultora jurídica da SUPRAM . troncos. altura. aroma. Não entendemos os mistérios que elas reservam porque estes são revelados apenas para seus íntimos apreciadores. para aqueles que estão dispostos a gastar tempo e pagar o preço que for para en- 1 Advogada especialista em Direito Ambiental pela UNIMEP – Universidade Metodista de Piracicaba. apesar de ambos refletirem a vida que há na natureza? Porque as florestas permitem que cada árvore se desenvolva conforme sua espécie. Por isso não achamos as florestas feias. volúveis a qualquer variação climática. espessura. porque para tudo isso existe uma função singular. da sua formosura. pela sua utilidade.Superintendência Regional de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável TM/AP. Revista Internacional de Direito e Cidadania. etc. enquanto nossos jardins são tão frágeis. independente do seu tamanho. nem sujas ou bagunçadas. Tudo se torna importante para a existência e preservação da vida. “faxina” ou jardinagem. ligada ao COPAM – Conselho de Política Ambiental do Estado de Minas Gerais. junho/2009 175 . beleza.

tão comuns nas seleções feitas pelos seres humanos. do que elas próprias. n. Isso explica o fato dos nossos jardins precisarem sempre de cuidados. Em nossas próprias escolhas de jardins não conseguimos atrair a força. pelo poder que possui de ser regenerada. Eliminamos então o que a natureza tem de mais belo – a fortaleza que existe na preservação da sua biodiversidade. Nossos jardins transformam o poder e a fortaleza da biodiversidade em mera contemplação para os olhos humanos. desenvolvido e respeitado conforme sua própria espécie. se desenvolvendo naturalmente. assim. Daí o fato de virem os ventos. “limpo”. por mais simples que seja. selecionando aquilo que a natureza já disse que deve ser múltiplo. porque agrada aos nossos olhos. Estabelecemos critérios que são julgados por beleza e valoração econômica ao considerarmos o reino vegetal e animal. sem a magnitude da expressão da vida. simplesmente o próprio ciclo de crescimento natural das plantas torna-se suficiente para colocar em desordem a nossa pretensa ordem. as florestas como no exemplo dos jardins. ao nosso próprio prazer. Vida plena. Uma floresta é capaz de suportar tempestades. nos leva ao engano de que conseguimos reproduzir melhor as expressões da vida. nossas gramas cortadas e o espaço onde se situam precisa estar limpo. Tudo isso porque tolhemos as espécies de se desenvolverem conforme a sua própria função existencial e. refletindo. Colhemos. revela-se muito claro nessa comparação das florestas e dos jardins. Essa ilustração retrata também o modo como tratamos o nosso semelhante. ventos fortes e todo tipo de variação climática. tão presente e contemplada nas mais diversas formas de expressão existencial na natureza! 176 Revista Internacional de Direito e Cidadania. porque eles são o reflexo do nosso modo de querer controlar a vida e a manifestação das espécies conforme nossa própria seleção. o reino vegetal e o reino animal juntos numa floresta proclamam a força. ao cultivá-los. Selecionamos espécies para o nosso próprio prazer. precisando deste modo. A capacidade que temos de interferir na ordem natural da vida e manipular as formas de expressão desta. Mas mesmo sem entender seus segredos. desrespeitamos o tempo e a ordem natural dos fatores. sem perder seu alicerce. 4. quando consideram as outras formas de vida. Vislumbramos com esta atitude um mundo carente de essência. das plantas que mais nos agradam. precisamos de serviços de jardinagem. por conseguinte. diverso. uma coisa ninguém pode negar: que neste contexto.Discussão tender e preservar a vida. mas não toda a vida. de caráter e de vida. a exuberância. Nossos jardins são nossas escolhas pessoais das flores que mais gostamos. podendo até mesmo ser devastada. a exuberância. Já os nossos jardins são frágeis e sucessíveis a qualquer variação climática. nas suas mais diversas formas de expressão. porém não destruída. Nosso engodo. quando pautamos as nossas escolhas pela aparência. porque medimos pela aparência e não pela essência. que está acima do controle humano. junho/2009 . as chuvas e as tempestades e os arrasarem. a imponência e a magnitude da vida. a imponência e a magnitude que há numa floresta. Por isso que. tornando-se riqueza natural. Porque eles precisam ser podados. ou. de controle do que está “em ordem”. de jardineiros. enquanto que as florestas nunca apresentam a necessidade de jardinagem. sem levar em conta as disputas mesquinhas de beleza ou riqueza. a soberba e a vaidade humana. e do que não está. de permitir que cada espécie se desenvolva conforme sua função existencial. o espetáculo de apenas parte da vida. morada e refúgio do reino animal. ainda que involuntariamente. demonstrando a nossa tendência de uniformização. como seres humanos. Assim como também selecionamos os animais de que mais simpatizamos.

POLÍCIA E IMPUNIDADE Paulo Queiroz* Suponha que você tenha cometido um delito grave. mas. n. o comando final da sua própria investigação. de modo que a você. não cabe esperar de um Delegado de Polícia. Ora. remoções etc. uma farsa. que pretende fazer carreira. em última análise. pertence. compete a um servidor público hierarquicamente inferior (Delegado de Polícia ou Delegado Federal) investigar crimes praticados por seus superiores hierárquicos (Presidentes. Governadores. Dito de outro modo: no modelo policial brasileiro. Ou seja: as chamadas autoridades de alto escalão acabam por investigar a si mesmos por meio da designação e/ou monitoramento dos seus investigadores.. Mas é exatamente isso que ocorre entre nós no âmbito das investigações policiais destinadas a apurar a criminalidade do poder. apesar de não as presidirem formalmente. estranhamente. detenha o poder de designar e/ou supervisionar a autoridade que irá investigá-lo. É evidente que isso é um total absurdo. e também parecer bem aos olhos de seus superiores. é evidente que. que investigue de forma isenta infrações cometidas por aqueles de que dependem hierarquicamente (salvo em casos excepcionais e insignificantes). Secretários de Estado) ou autoridades de que dependem. os investigados/criminosos detêm o controle político das investigações. o delinqüente. em que pesem a competência e boa fé da grande maioria. Ministros. obter promoções.Discussão CRIMINALIDADE DO PODER. direta ou indiretamente. junho/2009 177 . como Deputados Federais/Estaduais e Prefeitos municipais. até porque os * Professor (UniCEUB) e Procurador Regional da República. Com efeito. Revista Internacional de Direito e Cidadania. 4.

4. se perde na discussão de questões de somenos importância. se arrastam anos a fio por meio de pedidos sucessivos de dilação de prazo. o que nem sempre ocorre. por isso. no entanto. mais economicamente vulneráveis. furto. 17 de fevereiro de 2008). junho/2009 . Quanto ao inquérito do “mensalão”. portanto. quando efetivamente instaurados. ora à semelhança de uma delegacia de polícia. de uma investigação comprometida desde a sua concepção. É pena que não tenhamos. nele interveio o Ministério Público desde o primeiro momento. e que ora parece funcionar à semelhança de uma Câmara de Vereadores de uma cidade atrasada do interior. quer (mais adequadamente) fazendo integrar instituição independente a que está vinculada finalisticamente: o Ministério Público.Discussão eventuais implicados poderão afastá-los a todo tempo. n. O pior é que o ocorrido na Bahia é o que se passa em todo o Brasil ordinariamente. se bem que a estratégia do “esquecimento” costuma assumir forma mais sutil. a exigir o quanto antes a sua reestruturação. pois mais freqüentemente os inquéritos policiais. não são realizadas a tempo e modo as diligências indispensáveis e colhidas as provas necessárias à penalização dos responsáveis. no mais das vezes. crimes patrimoniais e similares (estelionato. e que cada vez mais perde espaço para o executivo e judiciário. além da extraordinária repercussão na imprensa. e quando chegam a ser concluídos. estruturalmente viciada. isto é. quer autonomizando-a relativamente ao poder executivo. que dizem respeito a prefeitos. além de implicar uma clara subversão da lógica das investigações. constitui uma manobra para acobertar possíveis crimes de certas autoridades e assim lhes assegurar a impunidade. à impunidade dos criminosos. podendo pretextar a perseguição de adversários políticos inclusive. pois. a descoberta na Bahia de mais de 300 (trezentos) procedimentos e inquéritos policiais envolvendo cerca de 30% dos 417 municípios baianos. todos fadados ao reconhecimento inevitável da prescrição e. deixando impune a criminalidade do poder. como uma espécie de anexo do executivo. Cuida-se. Por essas e outras é que ainda hoje a polícia judiciária brasileira se limita a apurar. típica criminalidade dos grupos socialmente excluídos. caberia lembrar que. E manter uma estrutura policial que dependa hierárquica e diretamente do poder executivo. sobre homicídio inclusive. um Congresso Nacional à altura de tão grandes desafios. A isso se soma ainda a costumeira morosidade dos tribunais de contas. exceção à regra. Correio Braziliense. pois. e. apesar de bem mais danosa. que. roubo). vice-prefeitos e ex-prefeitos (Cf. por meio de CPI’s pouco produtivas. quase que exclusivamente. os quais estavam “esquecidos” numa sala da Secretaria de Segurança Pública desde 1988. 178 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Não é de surpreender.

I) De 1964 a 1988: Podemos dizer que a Constituição de 1988 inaugurou uma nova era no constitucionalismo brasileiro rompendo com o ciclo autoritário que dominou o Brasil de 1964 (data da revolução militar que se implantou no país por mais de vinte anos). Malheiros Editores. São Paulo. n. livre e soberana. página 89 e 90. no dia 01. 2006. “um texto razoavelmente avançado.11. junho/2009 179 . Curso de Direito Constitucional Positivo. No dizer de José Afonso da Silva1. 29ª edição.Discussão COLÓQUIO “LA EVOLUCIÓN DE LA ORGANIZACIÓN POLÍTICO-CONSTITUCIONAL DE AMÉRICA DEL SUR” Marcelo Figueiredo* Minha primeira palavra é de agradecimento. convocando os membros da Câmara de Deputados e do Senado Federal para se reunirem. com inovações de relevante importância para o constitucionalismo brasileiro e até mundial.José Afonso. o Centro de Estúdios Constitucionales de Chile de la Universidad de Talca y la Asociación Chilena de Derecho Constitucional. a meados da década de 80. 4. É um texto moderno. Em 05 de outubro de 1988 foi promulgada a Constituição de 1988. Bem examinada. y el apoyo del Instituto de Investigaciones Jurídicas de la Universidad Nacional Autônoma de México. na sede do Congresso Nacional. Revista Internacional de Direito e Cidadania. em Assembléia Nacional Constituinte.1985).02. a Constituição * 1 Diretor da Faculdade de Direito da PUC-SP Silva .1987. Agradeço o honroso convite formulado pelo Instituto Iberoamericano de Derecho Constitucional. As eleições dos Governadores em 1982 marcam o início do processo de abertura política e institucional que culminou com a aprovação da Emenda Constitucional número 26 (promulgada em 27.

ineficiente. mas não se confundem. modificou o art. o tamanho e o papel do Estado passaram para o centro do debate institucional. então. Um Estado que tomava dinheiro emprestado no exterior para emprestar internamente. Parece. injusto e que não conseguiu elevar o patamar social no Brasil seja uma opção avançada. com bolsões endêmicos de corrupção e sem conseguir vencer a luta contra a pobreza. da nacionalidade. de 15. para permitir que a pesquisa e lavra de recursos minerais e o aproveitamento dos potenciais de energia elétrica sejam concedidos ou autorizados a empresas constituídas sob as leis brasileiras. Esse Estado. 4. Esse conteúdo. equivocada a suposição de que a defesa desse Estado perverso. a Emenda Constitucional número 07. proprietários e comandantes e. Finalmente. Em seguida.08. de dois terços dos tripulantes. junho/2009 . Compreende nove títulos. É a lição de Luís Roberto Barroso que adotamos e passamos a transcrever por sua excelente sistematização do fenômeno das reformas. (2) dos direitos e garantias fundamentais. com ministério público.08. 176. A primeira transformação substantiva da ordem econômica brasileira foi a extinção de determinadas restrições ao capital estrangeiro. Um Estado da direita. em que estrutura a federação com seus componentes. reunidos em capítulos.178. As reformas econômicas brasileiras envolveram três transformações estruturais que se complementam. (9) das disposições gerais.95. suprimiu o artigo 171 da Constituição. 180 Revista Internacional de Direito e Cidadania. ao longo da década de 90. de 1988.95. 2003. do atraso social. constitui. sobretudo. e mais 73 artigos na parte transitória. derrotado o parlamentarismo. da concentração de pobreza. seções e subseções” II) A reforma do Estado no Brasil Após a Constituição de 1988 e. a juros baixos. foi aquele que a serviu durante toda a sua existência. que trazia a conceituação de empresa brasileira de capital nacional e admitia a outorga a elas de proteção. um documento de grande importância para o constitucionalismo em geral. foi promulgada a Emenda Constitu- Segundo Barroso. Luís Roberto Temas de Direito Constitucional. de 15. O modelo dos últimos vinte e cinco anos se exaurira. segundo uma perspectiva moderna e abrangente dos direitos individuais e coletivos. benefícios especiais e preferências. dos direitos políticos e dos partidos políticos. que cuidam: (1) dos princípios fundamentais. advocacia privada e defensoria pública. A Emenda Constitucional número 6. (5) da defesa do Estado e das instituições democráticas. Sua estrutura difere das constituições anteriores. Rio de Janeiro. e que o alinhamento com o discurso por sua desconstrução seja a postura reacionária. do estado de sítio e da segurança pública. portanto. E a verdade é que o intervencionismo estatal não resistiu à onda mundial de esvaziamento do modelo no qual o Poder Público e as entidades por ele controladas atuavam como protagonistas do processo econômico. advocacia pública (da União e dos Estados). Editora Renovar. com mecanismos do estado de defesa. Na mesma linha. hoje.Discussão Federal. vem o Ato das Disposições Transitórias. seguindo-se um capítulo sobre as funções essenciais à Justiça. distribui-se por 245 artigos na parte permanente. não mais exigindo que a navegação de cabotagem e interior seja privativa de embarcações nacionais e a nacionalidade brasileira dos armadores. n. para a burguesia industrial e financeira brasileira. 2 O Estado brasileiro chegou ao fim do século XX grande. Tomo II. (6) da tributação e do orçamento. Poder Executivo e Poder Judiciário. progressista. página 274 e seguintes. (4) da organização dos poderes: Poder Legislativo. pelo menos. que a classe dominante brasileira agora abandona e do qual quer se livrar. Duas delas foram precedidas de emendas à Constituição. com a manutenção do sistema presidencialista. caput. (3) da organização do Estado. dispensada a exigência do controle do capital nacional. A mesma emenda modificou a redação do art. (8) da ordem social. ao passo que a terceira se fez mediante a edição de legislação infraconstitucional e a prática de atos administrativos2. (7) da ordem econômica e financeira. dos direitos sociais dos trabalhadores.

a mesma década de 90. O mesmo se passou com relação aos serviços de telecomunicações e de radiodifusão sonora e de sons e imagens. os últimos anos foram marcados por uma fecunda produção legislativa em temas econômicos. como energia. concessões e permissões. constituiu um considerável avanço em relação ao modelo anterior. incisos I e IV: (i) reordenar a posição estratégica do Estado na economia. anteriormente. Para demonstrar a tese. ampliando sua competitividade e reforçando a capacidade empresarial dos diversos setores da economia. Nesse Revista Internacional de Direito e Cidadania. que. O programa de desestatização tem sido levado a efeito por mecanismos como (a) alienação. como tem se passado com as empresas de energia e telecomunicações e com rodovias e ferrovias. assim como na Lei nº 8.09. de 15. além das Emendas Constitucionais números 05. basta examinar a profusão de textos normativos editados nos últimos anos. limitativa da ação dos agentes econômicos. que inclui diferentes setores. Acrescente-se. com a edição da Lei número 8. É que a Emenda Constitucional número 08. metalúrgico e de fertilizantes. dentre outros. os alunos de escolas particulares e os clientes de instituições financeiras. de 12. abrindo a possibilidade de os Estados-membros concederem às empresas privadas a exploração dos serviços públicos locais de distribuição de gás canalizado. de 9. gás natural e outros hidrocarbonetos fluídos .a denominada privatização. a refinação do petróleo nacional ou estrangeiro. e se estruturou um sistema de defesa e manutenção das condições de livre concorrência que. A segunda linha de reformas que modificaram a feição da ordem econômica brasileira foi a chamada flexibilização dos monopólios estatais. criação de agências reguladoras. A terceira transformação econômica de relevo. exportação e transporte dos produtos e derivados básicos de petróleo. seguindo-se a privatização da infra-estrutura. No plano federal inicialmente foram privatizadas empresas dos setores petroquímico. E.08. modernização de portos. só podiam ser delegados a empresa sob controle acionário estatal. Entre os objetivos fundamentais do programa incluíram-se. Afirma Barroso que a redução expressiva das estruturas públicas de intervenção direta na ordem econômica não produziu um modelo que possa ser identificado com o de Estado mínimo. 07. siderúrgico. (ii) contribuir para a modernização do parque industrial do País. com a ampliação de seu papel na regulação e fiscalização dos serviços públicos e atividades econômicas. igualmente.04. depois substituída pela Lei número 9.90. apenas deslocou-se a atuação estatal do campo empresarial para o domínio da disciplina jurídica.491. na área do petróleo. Foi também nesse período que se introduziu no país uma política específica de proteção ao meio ambiente.031.95.97. 06. 25. rompeu. que instituiu o Programa Nacional de Privatização. em leilão nas bolsas de valores.02. foi cenário da criação de normas de proteção ao consumidor em geral e de consumidores específicos. do controle de entidades estatais. que só admitiam a concessão a empresa estatal. em desfecho do levantamento aqui empreendido. facultando à União Federal a contratação com empresas privadas de atividades relativas à pesquisa e lavra de jazidas de petróleo.11. de 09.05. a importação. embora longe do ideal.031/90. portanto.95. telecomunicações. nos termos do artigo 1º.operou-se sem alteração do texto constitucional. De fato.95. tanto as que exploram atividades econômicas como as que prestam serviços públicos e (b) a concessão de serviços públicos a empresas privadas. na qual foram conduzidas a flexibilização de monopólios públicos e a abertura de setores ao capital estrangeiro. de 28. a Emenda Constitucional número 9.Discussão cional número 36. envolvendo a venda da empresa com a concomitante outorga do serviço público. alterou a redação do § 2º do art. Pelo contrário. transferindo à iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público. 08 e 09. 4. não deixou de ser um agente econômico decisivo.08. de 15. A Emenda Constitucional número 5. O Estado. que. que permitiu a participação de estrangeiros em até trinta por cento do capital das empresas jornalísticas e de radiodifusão. com o monopólio estatal. modificou o texto dos incisos XI e XII. junho/2009 181 . n. como os titulares de planos de saúde.

que levam à sua previsível rejeição. Por que se deu a recusa ao parlamentarismo? São várias as causas. Se. O presidente da república seria eleito diretamente. À ocasião. O Presidente da República. portanto. Na versão final do anteprojeto. 2ª edição. por ampla margem. retiradas do seu texto. um governo de deputados que fazem e desfazem governos a seu livre critério. O plebiscito. que também poderia cair por moção de censura ou recusa de confiança votada pela maioria absoluta da Câmara de Deputados. Capítulo 2. sobre cujas opções divirjam. “O sistema de Governo no Brasil”. Os parlamentares representariam. página 59 a 77. liderança forte. nunca para assuntos extremamente complexos. deu a vitória ao presidencialismo. pois o pensamento militar rejeitava a idéia de um poder compartilhado com o parlamento. realizou-se um plebiscito. A redemocratização deu alento aos parlamentaristas. Aliás.Discussão ambiente é que despontaram as agências reguladoras da atuação estatal. medidas provisórias ou medidas de urgência. junho/2009 . previa-se ainda o gabinete duplamente responsável. n. aliás. requeira concentração de poder em um líder carismático. por maioria absoluta. “Sistema Político Brasileiro”. esse apoio não se repete na opinião pública. 182 Revista Internacional de Direito e Cidadania. em contraposição aos deputados e senadores. romper os bloqueios a seu progresso e desenvolvimento. devolvendo a responsabilidade ao mandante. cinco anos após a sua promulgação. Os delegados não quiseram usar de sua delegação e se omitiram de decidir. paroquiais. III) O sistema de governo3 e os partidos políticos a) O sistema de governo e temas correlatos Com o regime autoritário instalado em 1964. são fortes os preconceitos relativos a esse sistema. onde o eleitorado confirmou a op3 ção republicana e presidencialista em detrimento à monarquia constitucional. Acredita-se que a tarefa de desenvolver o país. da obra. 4. prevaleceu a idéia de parlamentarismo dual. Entretanto a opção final da Assembléia Nacional Constituinte foi pelo sistema presidencialista. logra o parlamentarismo razoável apoio. Parece um sistema de poder muito diluído. os próprios especialistas. O governo parlamentarista nos prenderia. e muito. por sua vez. Não se vê. Não se contemplavam decretos –leis. A comissão constituída para elaborar o anteprojeto da nova Carta foi presidida por Afonso Arinos de Mello Franco. crescentemente. sob a forma dos modelos híbridos. ungido pelo mandato popular para mudar o sistema. pelo fato mesmo de se elegerem. Organizada por Lúcia Avelar e Antônio Octávio Cintra. do país como um todo. no plano da elite. em contraposição aos presidentes. que se animaram com a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. de acordo com essas Nesta seção utilizaremos a argumentação e as conclusões (que encampamos) de Antônio Octávio Cintra. pois essa consulta serve quando o assunto a ser votado é redutível a quesitos simples. perante a Câmara. Junte-se a tais percepções o desprestígio do Poder Legislativo perante a opinião pública. Konrad Adenaur Stiftung e Editora Unesp. para resolver com o “sim” ou “não”. para mandato de seis anos. Prevista na mesma Constituição. modernizá-lo. seja. Neste anteprojeto. mas também perante o Presidente da República. Caber-lheia indicar o presidente do Conselho de Ministros. um conhecido defensor do parlamentarismo. afastou-se qualquer perspectiva de reconsiderar o modelo parlamentarista para o país. na circunscrição nacional. supostamente mais sensíveis aos interesses modernos. no parlamentarismo.Uma introdução. em contraposição de interesses circunscritos. problema. poderia exonerar por iniciativa própria o presidente do Conselho. de ordem mundial nas democracias contemporâneas. a decisão dos constituintes de levar a opção entre sistemas de governo a plebiscito foi altamente questionável. realizado em setembro de 1993. após consulta às correntes partidárias que compõem a maioria do Congresso Nacional. seja em sua forma mais pura. um regime centrado no parlamento era a antítese do que os então governantes defendiam. como é o caso de sistema de governo.

Mas o de Lula e o que mais ampliou o número de partidos. Santos discute as conseqüências dessa prerrogativa sobre o padrão de relação entre o Executivo e o Legislativo. Um presidente portador de uma missão revolucionária. já incorporam os dados do governo Lula. tanto maior seria a disciplina dos partidos integrantes do gabinete no apoio às votações de interesse do Executivo. Os dados de Amorim Neto indicam que o governo de Fernando Henrique Cardoso teria estado muito mais próximo de um governo de coalizão de estilo europeu do que os de Fernando Collor e Itamar Franco. deixam transparecer exigências conflitantes sobre nosso sistema de governo presidencial. cujo ministério não era inclusivo e que abusou de MPs originais. ao editar as medidas provisórias (MPs). que permitiram que os textos das MPs. com gabinetes coalescentes e ideologicamente menos heterogêneos.Discussão percepções. Ademais. dando-se a cada partido uma fatia do ministério aproximadamente proporcional a seu peso na base parlamentar. página 67. O presidente brasileiro tem de compor uma base de sustentação em um congresso pluripartidário. É o caso de Cardoso. esbarraria no sistema político cheio de pontos de bloqueio à tomada de decisões e. 4. Cintra. a correspondência entre o peso parlamentar dos partidos e sua representação ministerial traria solidez legislativa ao gabinete. o Legislativo é bicameral. para garantir a aprovação de leis ordinárias. Entretanto. sem uma agremiação majoritária suficiente. do próprio Amorim Neto e de outros autores. Revista Internacional de Direito e Cidadania. no seu conjunto. Ou seja. n. o conjunto. No governo Collor. num certo ponto. o grau de coalescência atingido. sobretudo. no caso do governo Lula. apenas o segundo e o terceiro de Collor dela escaparam. segundo Abranches e Cintra4 trabalha em um sistema de composição partidária nos Ministérios. Há um federalismo em que podem prevalecer interesses oligárquicos regionais nos estados menos desenvolvidos. As decisões exigentes de quorum especial podem dar. sofressem alterações negociadas. sendo os postos principais distribuídos proporcionalmente entre os partidos de apoio. no caso brasileiro a partilha dos postos ministeriais nem sempre segue essa norma. o presidencialismo de coalizão não constitui um modelo estático. tentarão. ao atraso. O presidencialismo brasileiro. conforme. com a possibilidade de uma lei disciplinadora do uso das MPs pelo Executivo. à implementação delas. com o Senado equiparado à Câmara em suas competências e significando mais uma instância legislativa a superar na aprovação de um projeto. São percepções enganosas e. como acentua Fabiano Santos. Se os presidentes optam pelo governo de coalizão. demiurgo. Estudos mais recentes. Contudo. por terem os presidentes a faculdade constitucional de nomear livremente seus ministros. aprovou-se a Emenda Constitucional 32/2001. Quanto maior essa correspondência. A medida estatística dessa correspondência é o índice de coalescência. observar o interesse da maioria governativa e tentarão governar por meios ordinários. junho/2009 183 . o Congresso acenou. Há ainda que considerar o poder do Presidente da República para editar medidas provisórias. Ob. mas não o de Collor. sequer. a cada parceiro da coalizão. No segundo mandato de Cardoso. Amorim Neto observa terem os ministérios organizados. poder de barganha incomensurável em votações conflituosas. sobretudo. nas diversas reedições. desde o governo Sarney até o de Lula. a organização do Judiciário é descentralizada e o Ministério Público tem ampla autonomia. aos poderes oligárquicos regionais e à inoperância institucional. de que resultou o arrefecimento de seu uso. Se nos regimes parlamentaristas europeus se tecem as coalizões segundo a regra da proporcionalidade. tanto maior quanto mais justa a proporcionalidade 4 da distribuição de pastas ministeriais entre os partidos de apoio ao governo. por se concentrarem mais à direita. essa heterogeneidade aumentou bastante. mesmo às pequenas agremiações. mas sim uma situação variável. sido arranjos multipartidários com maior ou menor grau de fragmentação e heterogeneidade ideológica. Quanto à heterogeneidade ideológica. chegando a nove.Cit. para esse autor. Ademais.

eleitos na circunscrição do país como um todo. e as eleições municipais são defasadas das eleições gerais. Diferentemente dos outros regimes militares no Cone Sul (Chile. mais importante. com a abertura do sistema partidário e com a liberdade de organizar novos partidos (ou reorganizá-los). temos que buscar suas raízes no período pós. Mas. decorridos quarenta e cinco dias de sua publicação. embora com várias restrições autoritárias . dá peso político aos argumentos dos que defendem uma representação. com 18 partidos. até que se ultime a votação. leva-a ao regime de urgência. por ser ele a “Câmara dos Estados”. não importa quão reduzida sua população. Por fim. ao limitar-lhe a reedição a uma só vez.. Os parlamentares dos Estados sobre-representados não admitem 5 a hipótese de redução de sua representação. e 21 em 2006. Em primeiro lugar. Tem eleições de dois em dois anos não totalmente coincidentes. porém. página 143 e seguintes. “Sistema Político Brasileiro”. Uruguai e Argentina). cabendo ao Senado a representação dos Estados. É o chamado “trancamento de pauta”. dá a todos eles o mesmo peso na representação. Para compreender o sistema partidário brasileiro atual. e um máximo de setenta. que não seja estritamente proporcional a suas populações. um voto”. A grande desigualdade regional. Capítulo 6 da obra já citada. 4. Idem. a transição (ou transação) para a democracia se processou sem rupturas entre 1974 e 1985. basta compulsar os Anais da Assembléia Nacional Constituinte que elaborou a vigente Carta. b) Os partidos políticos6 O Brasil é uma federação com 26 estados e um Distrito Federal.Discussão que impõe nova disciplina ao uso da medida provisória. na Câmara. Marcelo Barroso “A Câmara dos Deputados na Nova República: a visão da Ciência Política”. mantiveram as eleições em intervalos regulares. Por essa razão. são 513 deputados federais. mas sim bancadas estaduais de deputados federais. em 1965-1966 e em 1979-1980. dos Estados menores e menos desenvolvidos. elegendo pelo menos um deputado em 1998 e 2002. a existência de pesos diferentes aos votos dos eleitores. 184 Revista Internacional de Direito e Cidadania. os generais – presidentes brasileiros não fecharam o Congresso Nacional nem prescreveram os partidos políticos. Apesar de o problema estar muito claro no debate público sobre a matéria. não ressurgiram os partidos Conforme Cintra. para nos darmos conta de que a desproporcional distribuição de cadeiras entre os Estados passou a representar na prática. em relação à composição da “classe política”. Nestes últimos quase 60 anos. Com o retorno aos governos civis em 1985. passou-se a editar mais. Assim. n. contrária à regra democrática de “um homem. que. Em segundo lugar. junho/2009 . sob o qual ficam “sobreestadas. independentemente de sua população5. dada a força de São Paulo na Federação. o sistema fragmentou-se de novo no final dos anos 90. Como mostra Santos. Trata-se da desproporção entre representação e tamanho populacional das unidades da Federação e. a Câmara de Deputados representaria o povo. e maior número delas passou a ser rejeitado. 6 Segundo Fleischer.1945. quando se iniciou um certo “encolhimento”. não há deputados nacionais. ao fixar um mínimo de oito representantes por Estado. na fixação do tamanho das bancadas estaduais. a representatividade popular da Câmara é em parte invalidada por não se respeitar. com eleições diretas em três níveis (federal. o sistema partidário sofreu dois “realinhamentos” forçados pelo regime militar. o sistema partidário passou por uma grande expansão até 1993. Considera-se insuficiente a compensação federativa obtida no Senado. a Carta de 1988 apenas deu continuidade ao que tem prevalecido em nossa história republicana. o que faz que estes também se vejam como representantes das unidades da Federação no plano nacional. Não é bem assim. Em teoria. a proporcionalidade com o tamanho das populações estaduais. em vez de diminuir o uso das MPs.num esforço para vender a imagem de uma “democracia relativa”. consequentemente. como que uma “cláusula pétrea” de nossa organização política. Antonio Octávio e Lacombe. página 303 e seguintes. estadual e municipal). todas as demais deliberações legislativas da Casa em que estiver tramitando”. Ao contrário. David “Os Partidos Políticos”. A não deliberação sobre a MP.

Collor. anteciparam-se várias fusões entre 1993 e 1996.Discussão tradicionais do período anterior ao golpe militar de 1964. Com a nova Lei Orgânica dos Partidos Políticos – LOPP. podemos acompanhar a análise de Reis7. São Paulo. Com o retorno dos governos civis (Sarney. H. os Blancos e Colorados no Uruguai e o Partido Democrata Cristão no Chile. o segundo colocado. duas observações permitidas por outros dados merecem destaque por sua relevância. mostram o Brasil com o país com menor proporção de respostas em que se aponta a democracia como preferível a qualquer outra espécie de regime (37 por cento). 4. serviu claramente como instrumento poderoso de reeleição do Presidente. sancionada em agosto de 1995. em vez deles. Itamar. De qualquer forma. Cardoso. em que se desqualificavam os partidos políticos e se afirmava que. o que facilitou a criação e o registro de legendas novas. e F. com o fim dos seus respectivos regimes militares. para quem as estatísticas revelam o alheamento de grandes parcelas do eleitorado popular brasileiro perante a política e os assuntos públicos. Página 476 e seguintes. É é talvez especialmente revelador observar que. Revista Internacional de Direito e Cidadania. Fábio Wanderley. que atinge 11 milhões de pessoas (aproximadamente 40 milhões de eleitores). mais de quarenta partidos estavam registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). a atenção e o interesse pela política e o ânimo participante e cívico) e a escolaridade ou a sofisticação intelectual geral dos eleitores. e mesmo autoritário. além dos resultados positivos obtidos no cenário econômico (baixa inflação. Nos últimos cinco anos do regime militar (1980-1985). Hoje temos aproximadamente 9 (nove) partidos grandes e médios com projeção nacional. a proporção correspondente não passa de 46 por cento). No período de 1945 a 1965. e pesquisas diversas mostram a clara correlação positiva entre o apego à democracia (ou. alheamento este que se liga com a tendência geral ao desapreço pela democracia.1998). Cit. Reis. também nas pesquisas de anos anteriores realizadas pelo mesmo instituto as proporções brasileiras de apoio à democracia se situam entre as mais 7 baixas da América Latina. junho/2009 185 . Tais constatações têm certamente a ver com a grande desigualdade social brasileira e seus reflexos nas deficiências educacionais do país. Ob. Não obstante certa recuperação relativamente a 2001. alcançando 63 por cento (em El Salvador. vinte dos quais representados no Congresso. a proporção de brasileiros que declaram não saber o que significa a democracia ou simplesmente não responderam à pergunta a respeito é destacadamente mais alta que a dos nacionais de todos os demais países latino-americanos. em geral. no ano de 2002. Esse tipo de mentalidade incrementa e incentiva a adoção de programas assistencialistas. “Dilemas da Democracia no Brasil”. a concordância da ampla maioria com um item de claro ânimo antiinstitucional. mais acesso ao crédito.como reapareceram a Unión Cívica Radical e o Partido Justicialista na Argentina.etc). veremos um novo sistema partidário. 1992-1994. com seis partidos e depois cinco. nos dados em questão. com um certo encolhimento do sistema. Como conseqüência. abrindo assim uma margem para líderes “fortes”. 1990-1982. em 1991. instituição sediada em Santiago do Chile. 1995. Pesquisas por amostragem realizadas em 2002 em 17 países latino-americanos pelo Latinobarômetro. n. manteve-se um pluripartidarismo moderado. o Brasil chegou a ter treze partidos representados no Congresso Nacional e dois médios e oito pequenos. A primeira mostra o substrato sociopsicológico com que aparentemente continua a contar o populismo no Brasil. 1985-1990. menos desemprego. Se considerarmos o período de 1980 a 1997. como o implementado no governo Lula. modificou-se a legislação. O “bolsa família”. solapando a idéia de uma democracia capaz de operar institucionalmente de forma estável: somente entre os entrevistados de nível universitário não se encontrava. o que o país necessitava é “um grande movimento de unidade nacional dirigido por um homem honesto e decidido”. o que promoveu um pluralismo ligeiramente mais moderado nas eleições de 1998 e 2002. Do ângulo do eleitorado.

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IV - O Poder Judicial, Constitucional e a Defesa dos Direitos Fundamentais
Como sabemos o Estado Democrático de Direito é a síntese histórica de duas idéias originalmente antagônicas: democracia e constitucionalismo. Com efeito, enquanto a idéia de democracia se funda na soberania popular, o constitucionalismo tem sua origem ligada à noção de limitação do poder. A supremacia da Constituição e a jurisdição constitucional são mecanismos pelos quais determinados princípios e direitos, considerados inalienáveis pelo poder constituinte originário, são subtraídos da esfera decisória ordinária dos agentes políticos eleitos pelo povo, ficando protegidos pelos instrumentos de controle de constitucionalidade das leis e atos do poder público. Assim, a jurisdição em geral e a jurisdição constitucional em particular8 fazem parte da administração da justiça que tem como objetivo específico a matéria jurídico-constitucional de um Estado. O Direito prescrito pela Constituição de 1988, em vez de manutenção, em muitas passagens postula uma transformação do status quo. A lei, sabemos, deixa de ser apenas a simples reguladora de conflitos intersubjetivos e passa a assumir também uma feição de um instrumento político de governo. Essa mudança de paradigmas modifica o papel e a função desempenhada pelo Poder Judiciário. Em vez de tratar apenas de conflitos intersubjetivos de menor complexidade, agora tem o judiciário que resolver litígios coletivos. As chamadas “class action”, as ações públicas (civis públicas), as diversas ações fundadas no direito coletivo e no direito difuso fazem parte dessa nova realidade.
IV.1. O Ativismo do Judiciário Brasileiro e seus exemplos
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O Supremo Tribunal Federal, com sua mais recente composição e principalmente em razão da omissão legislativa sobre importantes questões para a vida nacional — em especial no tocante a problemas políticos e de eficácia dos direitos fundamentais —, vem se revelando como um Tribunal com menos receio de assumir um papel politicamente ativo no exercício da função jurisdicional. Como explica Gisele Cittadino,9 se o ativismo judicial é mais favorecido nos países da common law — onde se tem a criação jurisprudencial do direito e uma maior influência política do juiz —, nos países da civil law tal ativismo também é adotado, especialmente em razão da incorporação dos princípios ao texto constitucional e da fixação dos objetivos fundamentais do Estado na Constituição. No Brasil, a referida autora menciona que o fortalecimento do ativismo judicial se deve, principalmente, pela incorporação da linguagem do direito ao debate político e ao ordenamento jurídico, com a emergência do movimento dos direitos humanos, nos anos 70, combatendo o regime militar, a luta pela reconquista dos direitos políticos, na primeira metade dos anos 80, a participação, na segunda metade dos anos 80, de setores organizados da sociedade civil no processo constituinte e as freqüentes denúncias, a partir dos anos 90, das violações dos direitos fundamentais das camadas populares. Além disso, segundo Cittadino, o ativismo judicial teria se fortalecido também em razão dos seguintes fatores: (a) o reforço das instituições garantidoras do Estado de Direito, como a Magistratura e o Ministério Público, após o período autoritário; (b) a constitucionalização de valores da comunidade, exigindo um compromisso da Constituição no sentido de concretizá-los; (c) a conversão dos direitos fundamentais no núcleo básico do ordenamento constitucional brasileiro e em critério de interpretação constitucional; (d) a percepção dos cidadãos não apenas como destinatários, mas como autores de seus direitos;

Temos plena consciência que a rigor não existem duas jurisdições, apenas ressaltamos o aspecto didático-estrutural da justiça. Cittadino, Gisele. “Judicialização da política, constitucionalismo democrático e separação de poderes”. In: Vianna, Luiz Werneck (Org.). A democracia e os três poderes no Brasil. Rio de Janeiro: IUPERJ/FAPERJ e Belo Horizonte: UFMG, 2002, p. 17-42. 10 BarCellos, Ana Paula A eficácia jurídica dos princípios constitucionais: o princípio da dignidade da pessoa humana, p. 215-217.

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(e) o alargamento do círculo de intérpretes da Constituição (cidadãos, partidos políticos, associações, etc.); (f) a ampliação do rol dos direitos fundamentais, que exigem não só a abstenção do Estado, mas, também, um dever de ação estatal; (g) a ampliação das ações coletivas; (h) a inércia do Poder Legislativo; (i) o incremento dos instrumentos de controle da constitucionalidade das leis e dos atos normativos; (j) o controle da omissão do Estado pelo Poder Judiciário; (k) a atividade construtiva da interpretação constitucional. Contudo, o protagonismo dos tribunais traz problemas ligados especialmente ao princípio da Separação dos Poderes e da legitimidade democrática do Poder Judiciário, ou seja, acerca da neutralidade política deste órgão estatal. Rebatendo as críticas dirigidas à judicialização da Política, Ana Paula de Barcellos advertindo, de início, que a separação dos Poderes tem natureza instrumental, na medida em que existe para realizar o controle do poder, evitando o arbítrio. Dessa forma, não se mostra como um obstáculo lógico ao controle pelo Judiciário das omissões inconstitucionais do Poder Público.10 No tocante à democracia, a mesma autora acentua que, para além da fórmula majoritária, é imprescindível o respeito “aos direitos fundamentais de todos os indivíduos, façam eles parte da maioria ou não”.11 E, então, conclui que o Judiciário tem legitimidade para conferir eficácia positiva aos direitos prestacionais pelos seguintes motivos: (a) o Judiciário, tendo em vista que foi criado pela própria Constituição, compõe o poder político nacional da mesma forma que o Legislativo e o Executivo; (b) os órgãos de cúpula do Judiciário têm alto grau de representatividade, na medida em que são formados pela vontade do Executivo e do Legislativo; (c) os magistrados estão aptos a agir com independência, pois, para tanto, gozam de
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prerrogativas asseguradas constitucionalmente; (d) as atividades jurisdicionais, além de públicas e motivadas, encontram fundamento e limites nas normas jurídicas; (e) as decisões judiciais são passíveis de revisão por outros órgãos do Judiciário; (f) o processo jurisdicional, uma vez que garante às partes amplo contraditório, é mais participativo do que qualquer outro processo público; (g) os grupos minoritários “sempre terão acesso ao Judiciário para a preservação de seus direitos”.12
IV. 2. Alguns Casos julgados pelo Supremo Tribunal Federal no Brasil

a) Mandado de Injunção e o direito de greve dos servidores públicos No Brasil, o mandado de injunção surge como um mecanismo de controle difuso da constitucionalidade por omissão. A Constituição de 1988, a primeira do ordenamento constitucional brasileiro a prever o mandado de injunção, estabelece, em seu art. 5º, LXXI, o seguinte: “conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”. Por meio do mandado de injunção, pretende-se viabilizar o exercício de um direito previsto na Constituição que, por falta de norma regulamentadora, o impetrante não consegue praticar. Contudo, até recentemente não tinha sido esse o entendimento predominante do Supremo Tribunal Federal, que, na maioria das vezes, ao julgar procedente o pedido formulado em mandados de injunção, reconhecia a mora do órgão encarregado de regulamentar o dispositivo constitucional e deferia o writ para que tal situação fosse comunicada ao referido órgão.13

iBid, p. 227. Ibid, p. 231-232. Mandado de Injunção n. 585/TO, rel. Min. Ilmar Galvão, j. 15.05.2002. Em casos isolados o entendimento não vinha sido esse, como se pode verificar das decisões proferidas no Mandado de Injunção 283/DF, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 20.03.1991; e no Mandado de Injunção n. 562/ RS, rel. Min. Carlos Velloso, rel. do acórdão Min. Ellen Gracie, j. 20.02.2003. Neste último caso, parte da ementa do acórdão tem o seguinte teor: “Reconhecimento da mora legislativa do Congresso Nacional em editar a norma prevista no parágrafo 3º do art. 8º do ADCT, assegurando-se, aos impetrantes, o exercício da ação de reparação patrimonial, nos termos do direito comum ou ordinário, sem prejuízo de que se venham, no futuro, a beneficiar de tudo quanto, na lei a ser editada, lhes possa ser mais favorável que o disposto na decisão judicial. O pleito deverá ser veiculado

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Flávia Piovesan identifica três correntes doutrinárias que buscam explicar os efeitos da decisão proferida no mandado de injunção. Segundo essa autora, ao conceder o mandado de injunção, caberia ao Poder Judiciário: (a) elaborar a norma regulamentadora faltante, suprindo, deste modo, a omissão do legislador; ou (b) declarar inconstitucional a omissão e dar ciência ao órgão competente para a adoção das providências necessárias à realização da norma constitucional; ou (c) tornar viável, no caso concreto, o exercício de direito, liberdade ou prerrogativa constitucional que se encontrar obstado por faltar norma regulamentadora.14 Admitir que o Poder Judiciário, ao conceder o mandado de injunção, elaboraria a norma regulamentadora faltante, suprimindo a omissão do legislador,15 afrontaria o princípio da separação dos poderes, previsto no art. 2º da Constituição Federal. Aceitar que o mandado de injunção se prestaria, simplesmente, a declarar inconstitucional a omissão e a dar ciência ao órgão omisso para adotar as providências necessárias à realização da norma constitucional, sem possibilidade de imposição de sanção a este, significaria reconhecer a dois instrumentos constitucionais distintos — o mandado de injunção e a ação direta de inconstitucionalidade por omissão16 — os mesmos efeitos.17 Ademais, concordar com a argumentação de que o mandado de injunção é um instrumento desprovido de força para viabilizar o exercício do direito previsto na Constituição é o mesmo que negar a esse instrumento a natureza de ação constitucional, o que também não se pode admitir.

Nas palavras de Luís Roberto Barroso — no que é acompanhado por grande parte da doutrina —, o provimento judicial, no mandado de injunção, tem “natureza constitutiva, devendo o juiz criar a norma regulamentadora para o caso concreto, com eficácia inter partes, e aplicá-la, atendendo, quando seja o caso, à pretensão veiculada”.18 Assim, o mandado de injunção deveria ser entendido como uma ação constitucional voltada a tornar viável, no caso concreto, o exercício do direito previsto constitucionalmente e que se encontra obstado por falta de norma regulamentadora.19 O art. 37 da Constituição Federal, ao tratar das disposições gerais da administração pública, estabelece, em seu inciso VII, que o direito de greve do servidor público civil será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica. As decisões do Supremo Tribunal Federal, há mais de uma década, caminhavam no sentido de interpretar o art. 37, VII, da Constituição, como uma norma de eficácia limitada. Nossa Suprema Corte vinha entendendo que o advento da lei constituiria requisito de aplicabilidade do art. 37, VII, da Constituição Federal. O direito público subjetivo de greve, outorgado aos servidores civis, só se revelaria possível depois da edição da lei especial reclamada pela Constituição. “A mera outorga constitucional do direito de greve ao servidor público civil não basta[ria] — ante a ausência de auto-aplicabilidade da norma constante do art. 37, VII, da Constituição — para justificar o seu imediato exercício.” (Mandado de Injunção 20-4/DF e, no mesmo sentido, MI 485-4/MT, 585-9/TO e 438/GO).

diretamente mediante ação de liquidação, dando-se como certos os fatos constitutivos do direito, limitada, portanto, a atividade judicial à fixação do ‘quantum’ devido”. 14 PIOVESAN, Flávia. Proteção judicial contra omissões legislativas: ação direta de inconstitucionalidade por omissão e mandado de injunção, p. 148. 15 Essa é a posição, por exemplo, de GRECO FILHO, Vicente. Tutela constitucional das liberdades, p. 182-4. Esse autor afirma o seguinte: “Uma solução intermediária seria a de se admitir que, procedente o pedido, o tribunal poderia determinar prazo para que a norma fosse elaborada sob pena de, passado esse lapso temporal, ser devolvida ao Judiciário a atribuição de fazê-la. É certo que, passado o prazo, retornar-se-ia à segunda alternativa, ou seja, o tribunal é que deveria fazer a norma. A solução adequada, portanto, parece a primeira, admitida a alternativa de, antes, ser dada a oportunidade para que o poder competente elabore a norma. Se este não a fizer o Judiciário a fará para que possa ser exercido o direito constitucional”. 16 O art. 103, § 2º, da Constituição, ao disciplinar a ação direta de inconstitucionalidade por omissão, prevê o seguinte: “§ 2º Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias”. 17 Nas palavras de Barroso, Luís Roberto (in: O controle da constitucionalidade no direito brasileiro cit. p. 106), essa interpretação seria inadmissível porque aceitaria a existência de “dois remédios constitucionais para que seja dada ciência ao órgão omisso do Poder Público, e nenhum para que se componha, em via judicial, a violação do direito constitucional pleiteado”. 18 BARROSO, Luís Roberto. O controle da constitucionalidade no direito brasileiro cit. p. 104. 19 Esse é o entendimento, por exemplo, de PIOVESAN, Flávia. Proteção judicial cit. p. 157 e segs.; TEMER, Michel. Elementos de direito constitucional cit. p. 205; SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo cit. p. 450 e também sempre foi o nosso entendimento, Cf. Figueiredo, Marcelo “O mandado de injunção e a inconstitucionalidade por omissão”, São Paulo, Editora Revista dos Tribunais, 1991,(esgotado).

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Contudo, recentemente, ao julgar os Mandados de Injunção 670, 708 e 712, todos de 2007, o Supremo Tribunal Federal determinou a aplicação, aos servidores públicos civis, da Lei nº 7.783/89, que regulamenta o direito de greve para os trabalhadores da iniciativa privada, naquilo que não for colidente com a natureza estatuária do vínculo estabelecido entre os funcionários e a Administração Pública, enquanto o Poder Legislativo não promulgar o diploma legal específico, previsto no art. 37, VII, da CF. Como se percebe, o Supremo Tribunal Federal passou de um extremo a outro, contrariando, em ambos os casos, a doutrina majoritária sobre a matéria. Antes, o STF reconhecia a inconstitucionalidade por omissão e comunicava o órgão omisso acerca disso. Agora, com os Mandados de Injunção 670, 708 e 712, resolveu a questão não somente para as partes envolvidas, mas suprimiu a omissão, resolvendo a questão para todos os casos, abstratamente. b) Número de vereadores proporcional à população Em 2002, o Supremo Tribunal Federal julgou o Recurso Extraordinário 197.917, decorrente de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público com o objetivo de reduzir de 11 para 9 o número de Vereadores da Câmara Municipal de Mira Estrela, Estado de São Paulo. A alegação do Ministério Público era a de que a previsão da Lei Orgânica do Município violaria o art. 29, IV, alínea “a”, da CF,20 acarretando prejuízo ao erário local, visto que o Município tinha menos de 3.000 habitantes. Em resposta, a Câmara Municipal de Mira Estrela alegara que tinha autonomia para fixar o número de Vereadores, observados os parâmetros mínimo e máximo fixados pela Constituição.
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O Supremo Tribunal Federal criou parâmetros aritméticos para a composição das Câmaras Municipais, levando em conta o disposto no art. 29, IV, letras “a” a “c”, da CF. Segundo o STF, tais parâmetros preservariam os princípios da igualdade e da proporcionalidade (devido processo legal substantivo), bem como os princípios da Administração Pública (art. 37, caput, CF), como a moralidade, a impessoalidade e a economicidade dos atos administrativos. Na mesma ocasião, o Supremo Tribunal Federal modulou os efeitos da decisão tomada no controle difuso da constitucionalidade e determinou que eles seriam produzidos pro futuro. Sob o argumento da preservação da segurança jurídica, o Município somente teria reduzido o número de vereadores de 11 para 9 a partir da legislatura seguinte. Como nessa decisão do STF, o Tribunal Superior Eleitoral editou, em 2004, as Resoluções 21.702 e 21.803, por meio das quais fixou o número de vereadores em todos os Municípios do Brasil. c) Verticalização das coligações partidárias Em 2002, o Tribunal Superior Eleitoral editou a Resolução 20.993 estabelecendo que os partidos que lançassem, isoladamente ou em coligação, candidato a Presidência da República, em 2002, não poderiam formar coligação para eleição de Governadores, Senadores, Deputados Federais e Estaduais, com partido político que tivesse lançado, isoladamente ou em aliança diversa, candidato à eleição presidencial. O Partido da Frente Liberal (PFL) ingressou no Supremo Tribunal Federal com Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADIN 2.628), alegando que a referida Resolução do TSE violaria o princípio da anualidade (art. 16, CF),21 da legalidade (art. 5º, II, CF),22 do devido processo

Tal artigo da Constituição brasileira estabelece o seguinte: “Art. 29. O Município reger-se-á por lei orgânica, votada em dois turnos, com o interstício mínimo de dez dias, e aprovada por dois terços dos membros da Câmara Municipal, que a promulgará, atendidos os princípios estabelecidos nesta Constituição, na Constituição do respectivo Estado e os seguintes preceitos: [...] IV – número de Vereadores proporcional à população do Município, observados os seguintes limites: a) mínimo de nove e máximo de vinte e um nos Municípios de até um milhão de habitantes; b) mínimo de trinta e três e máximo de quarenta e um nos Municípios de mais de um milhão e menos de cinco milhões de habitantes; c) mínimo de quarenta e dois e máximo de cinqüenta e cinco nos Municípios de mais de cinco milhões de habitantes”. 21 “Art. 16. A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência.” 22 “II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.

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E o art. § 1º. antes da Emenda 52/2006). LIV. I. em 2006. devendo seus estatutos estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias. da CF. prevê que o “partido político funciona. um terço dos Estados. 5º. que passou a ter o seguinte teor: “§ 1º É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna. 4. previsão constitucional que se ocupasse diretamente das coligações partidárias. CF). comercial. um dos partidos que seriam excluídos do funcionamento parlamentar em razão da cláusula de barreira.24 bem como da competência da União para legislar sobre direito eleitoral (arts. sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional. no art. por maioria de votos.. penal. Compete privativamente à União legislar sobre: I . n.25 Não havia. no mínimo. estadual. § 1º. A Lei 9.354.” A Emenda Constitucional 52. Como resposta às atitudes do Poder Judiciário (TSE e STF). organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais. permitindo expressamente a coligação sem necessidade de respeitar a verticalização: “É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna. Cabe ao Congresso Nacional. fusão. ingressou com a ADIN 1. 48. § 1º. por intermédio de uma bancada. o PSC (Partido Social Cristão). marítimo.” 25 O art. não exigida esta para o especificado nos arts. evitar o enfraquecimento partidário. (e) funcionamento parlamentar na forma da lei. 22. não conheceu da ADIN. 22. distribuídos em. o Congresso Nacional.ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. 5% dos votos apurados. que deve constituir suas lideranças de acordo com o estatuto do partido. de 2006 alterou tal dispositivo. dispor sobre todas as matérias de competência da União [. distrital ou municipal. na ocasião. A redação do art. (b) o regime democrático. eleitoral. porque a Resolução do TSE seria um ato normativo secundário.. estadual. Os objetivos de tal cláusula são os de coibir um número elevado de partidos. que apenas poderia violá-la indiretamente. com um mínimo de 2% do total de cada um deles. aeronáutico. 17. 51 e 52. de interpretação da Constituição. incorporação e extinção dos partidos. é a disposição normativa que nega a existência ou a representação parlamentar ao partido que não tenha alcançado um determinado número ou percentual de votos numa eleição. Na ocasião. era a seguinte: “É assegurada aos partidos políticos autonomia para definir sua estrutura interna. agrário. Em 2006. produziu a Emenda Constitucional nº 52/2006.Discussão legal (art. junho/2009 . não computados os brancos e os nulos. que alterou o art. nas Casas Legislativas. não faz menção expressa à cláusula de barreira. as disposições regimentais das respectivas Casas e as normas desta Lei”. 17. participando do rateio do saldo do fundo partidário e gozando de 80 minutos por ano de propaganda eleitoral gratuita em cadeias nacional e estadual. 13 da mesma lei estabelecia que o partido teria direito ao funcionamento parlamentar o partido que. organização e funcionamento e para adotar os critérios de escolha e o regime de suas coligações eleitorais.]. (c) o pluralismo partidário.direito civil. devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária”. O Supremo Tribunal Federal julgou a cláusula de barreira inconstitucional pelos seguintes motivos: (a) seria o fim das minorias políticas e a consagração do despotismo da maioria. 12. estabelece a competência da União para legislar sobre direito eleitoral: “Art. organização e funcionamento.096/95 (Lei dos Partidos Políticos). 17. resguardadas: (a) a soberania nacional. O STF. 22. (d) os direitos fundamentais da pessoa. CF). e 48. d) Cláusula de barreira A cláusula de barreira. pelo menos. por exemplo. inciso I. Portanto. (b) “LIV . sem obrigatoriedade de vinculação entre as candidaturas em âmbito nacional. espacial e do trabalho”. CF. impedir as legendas de aluguel e evitar que se afete a governabilidade 23 24 O artigo 17 da Constituição Federal de 1988 prevê a liberdade de criação. em cada eleição para a Câmara dos Deputados tivesse obtido o apoio de. devendo seus estatutos estabelecer normas de disciplina e fidelidade partidária. com a sanção do Presidente da República. processual. caput.” 190 Revista Internacional de Direito e Cidadania.23 da autonomia dos partidos políticos (art. 49. distrital ou municipal. também conhecida como cláusula de exclusão ou de desempenho. somente 7 dos 26 partidos políticos brasileiros teriam funcionamento parlamentar. apesar de a Constituição remeter o funcionamento parlamentar à legislação ordinário. O caput do artigo 48 tem a seguinte redação: “Art.

26. CF) repudia o uso de qualquer prerrogativa pública no interesse particular ou privado. bem como da igualdade de condições no exercício dos mandatos.602. Curso de direito constitucional positivo. no caput do art. quando houver pedido de cancelamento de filiação ou de transferência do candidato eleito por um partido para outra legenda? Em outras palavras. o parlamentar tem justa causa para se desfiliar de seu partido. houve três tendências sobre a questão do aborto: “Uma queria assegurar o direito à vida. n. apesar de o art. sendo que a vida intrauterina. ainda. com o objetivo de respeitar o princípio da segurança jurídica. o direito à ampla defesa (art. que inviabiliza a vida extra-uterina. CF). § 3º. Como noticia José Afonso da Silva. CF) e o princípio da moralidade administrativa (art. 55.603 e 26.604 perante o Supremo Tribunal Federal com o intuito de reaver os mandatos de parlamentares que foram eleitos por eles e depois mudaram de legenda. Em 2007. o que possibilitava o aborto. o mandato pertenceria ao partido e não ao candidato eleito. XVII. 5º. disciplinando o processo de perda do cargo eletivo em razão da desfiliação partidária.398 ao Tribunal Superior Eleitoral: os partidos políticos e coligações têm o direito de preservar a vaga obtida pelo sistema eleitoral proporcional. é responsabilidade da mulher. ampliou o entendimento sobre a fidelidade partidária aos eleitos pelo sistema majoritário. Assim.610/07. ao parlamentar. (e) haveria violação da cláusula do voto igual para todos (art. CF). e (g) ocorreria a violação da igualdade entre partidos e entre eleitores. o Partido da Frente Liberal (PFL. XVIII e XIX. CF). (d) ao reduzir a representatividade dos parlamentares eleitos.” Com efeito. mas deixou para a legislação ordinária a possibilidade de criminalizar o aborto. de 27/03/2007. formulou a seguinte a Consulta 1. Segundo esta Resolução. nem vedando nem admitindo o aborto. Outra previa que a condição de sujeito de direito se adquiria pelo nascimento com vida. 14. V. Revista Internacional de Direito e Cidadania. caput. (f) seria ferido o princípio da igualdade de chances e oportunidades. mas a declaração de vacância depende 26 de se garantir. E o mesmo Tribunal editou a Resolução 22. grave discriminação pessoal f) Interrupção da gravidez de feto anencefálico No Brasil. (c) a distinção entre partidos fere o direito de associação (art.26 durante a última Constituinte. não prever a mudança de partido como causa de perda do mandato. V. respondendo à consulta. atualmente DEM – Democratas). sem o risco de perder o mandato. PPS – Partido Popular Socialista e PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira) impetraram os Mandados de Segurança 26. O TSE. 4. nos casos de: incorporação ou fusão do partido. três partidos políticos (DEM – Democratas. o mandato pertence ao eleito ou ao partido? O TSE. LIV. há vários anos. junho/2009 191 . a Constituição Federal. mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário. cassa os direitos políticos dos que os elegeram. inseparável do corpo que a concebesse ou a recebesse. 5º. e) Fidelidade partidária No ano de 2007. estabelece que. que os efeitos da decisão seriam produzidos a partir da resposta do TSE à Consulta 1. p. visto que nessa data o TSE mudou de entendimento acerca da matéria. CF). 1º. o que importava em proibir o aborto. estabeleceu que a Candidatura depende de filiação partidária (art. em consulta respondida no dia 16 de outubro de 2007. é inviolável o direito à vida e à liberdade. 14. 206. da CF. O STF entendeu que o mandato pertence ao partido.398.Discussão um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é o pluralismo político (art. Estabeleceu. 5º. entre outros direitos. desde a concepção. A terceira entendia que a Constituição não deveria tomar partido na disputa. criação de novo partido. então. 37. discute-se a possibilidade de realização de aborto quando a mulher grávida depara com a má-formação do feto.

não há que se falar 27 em preservação de tal direito. Assim. Tais restrições levam mulheres de alta renda a clínicas particulares. passou a admitir tal prática. em países onde existem restrições legais à interrupção da gravidez. do Código Penal. 329. sem prescrição médica. inclusive psíquica. mas. n. Aliás. vendidas em farmácias. Algumas decisões judiciais. por ocasião da promulgação do Código Penal. sabendo que dará à luz um natimorto. que utilizam técnicas modernas de interrupção da gravidez. E não parece digno exigir que uma mulher grávida. em que o Judiciário não admitiu a interrupção da gravidez. Aliás. no caso de gravidez resultante de estupro — mesmo quando o feto é sadio e perfeito —. que a ADPF proposta pela CNTS sobre a descriminalização do aborto nos casos de fetos anencefálicos é um meio hábil para solucionar a divergência de jurisprudência. uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADFP) com o intuito de fazer cessar a divergência de decisões judiciais sobre a possibilidade de gestantes de fetos anencefálicos (ausência total ou parcial do cérebro) interromperem a gravidez. espalhados por vários Estados da Federação brasileira.27 se a lei admite o aborto para preservar os sentimentos da mãe. como procurar um “aborteiro” ou se automedicar com drogas abortivas de eficácia não comprovada e. 128 do Código Penal prevê que não se pune o aborto praticado por médico se não há outro meio de salvar a vida da gestante ou se a gravidez é resultante de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante. V . da Constituição Federal procura garantir a inviolabilidade do direito à vida. perante o Supremo Tribunal Federal. a má-formação do feto entre as causas de exclusão de ilicitude do aborto. Em abril de 2005. mesmo constatada a inviabilidade de vida extrauterina do feto. consideram que. 128. em 1940. da Constituição. pune a prática do aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento. Em junho de 2004. mas ainda não apreciou o mérito da demanda. 1º. Com isso. por 7 votos a 4.2000. 2º do Código Civil de 2002 prevê que a “personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida. evita-se o sofrimento físico e psicológico não só da gestante. houve casos. com ou sem a anuência dela. para admitir a exclusão da ilicitude do aborto não só quando realizado para salvar a vida da gestante. realizando uma interpretação evolutiva da norma jurídica. não existiam os recursos técnicos que atualmente permitem a detecção de anomalias fetais severas. a Parte Especial do Código Penal. os direitos do nascituro”.11. nos últimos anos. III. Mas a jurisprudência. Como decidiu o Tribunal de Justiça de São Paulo.Os Mecanismos de Defesa da Constituição A Constituição brasileira de 1988 contém vários mecanismos para que suas normas pos- Mandado de Segurança n. 5º. muitas vezes. 192 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Des. 20. o art. mas quando se mostrar necessário para preservar-lhe a saúde. o art. o Supremo Tribunal Federal admitiu.564-3/3-00. constatada a inviabilidade de vida extra-uterina do feto. a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS) propôs. j. mas a lei põe a salvo. ao passo que induzem mulheres de baixa renda a recorrer a práticas de alto risco à saúde. Contudo. junho/2009 .Discussão O art. 4. não possa ter a liberdade de optar pela interrupção da gravidez. naquela ocasião. David Haddad. por maior razão deve-se autorizar a interrupção da gravidez quando constatada uma grave má-formação fetal. Ademais. mas também dos outros membros da família. Nota-se que não há permissão legal expressa para a prática de aborto na hipótese de se constatar a má-formação do feto. os abortos provocados têm sido apontados como uma das principais causas de mortalidade materna. Alguns juízes também passaram a fazer uma interpretação extensiva do art. apesar de alguma divergência. rel. Por sua vez. bem como o aborto provocado por terceiro. também prevê que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana. decretada durante a ditadura getulista. I. não se poderia prever. desde a concepção. Já o art. caput.

5) o Governador de Estado ou do Distrito Federal. Marcelo. o guardião de suas normas e valores28. 6) o Procurador Geral da República. afirma: 28 “Muito embora os problemas que a nova Lei apresente. 4. Revista Jurídica de Castilla –La –Mancha.enquanto direito de acesso à jurisdição constitucional . (por ação. Lenio Luiz Streck.Discussão sam. 7) o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. a saber: 1) O Presidente da República. páginas 69 a 135. número 41. destaque-se o amplo leque de legitimados do artigo 103 para propor ações diretas de inconstitucionalidade (ADI) ou ações declaratória de constitucionalidade. a partir do julgamento das ADIns números 2 e 438.9) Confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. Em algumas hipóteses. 3) a Mesa da Câmara dos Deputados. vem apresentando adequados cenários de encaixe do novo instituto. resultante de ato do Poder Público. “Una visión del control de constitucionalidad en Brasil”. disseram o que não é preceito fundamental. Dois são os sistemas de controle judicial de constitucionalidade de leis e atos normativos no Brasil. parágrafo único. 8) Partido Político com representação no Congresso Nacional. Releva notar que a nova ação veio preencher antiga lacuna existente em nosso ordenamento ao permitir que o STF examine a constitucionalidade de atos normativos anteriores à Constituição de 1988 (inconstitucionalidade superveniente). mas também a modalidade preventiva de controle Sobre o tema. controlar a constitucionalidade de leis e atos normativos (via abstrata ou direta). 2) a Mesa do Senado Federal. § 1º e na Lei 9. importa ressaltar que a argüição de descumprimento de preceito fundamental se coloca . releva notar que a argüição de descumprimento de preceito fundamental abrange a ambivalência própria do sistema misto de controle de constitucionalidade vigorante no Brasil. Tem no Poder Judiciário em geral. Em primeiro lugar.1. A doutrina. 4) A Mesa da Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Também será possível que se intente argüição de descumprimento de preceito fundamental preventivamente. da ação de inconstitucionalidade por omissão e dos próprios mecanismos de controle de constitucionalidade. junho/2009 193 .o STF passou a firmar posição no sentido de não aceitar ações de inconstitucionalidade de leis anteriores à Constituição. o direito não realizado.Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental. e no Supremo Tribunal Federal em particular. também os atos normativos anteriores à Constituição são passíveis de declaração de inconstitucionalidade. a primeira.882/90). quando violadas. Isto porque. ao mesmo tempo em que é uma ação autônoma (art. objetivamente. podendo/devendo o Poder Judiciário suprir. Como se sabe. I). Ou seja. no caso concreto. Temos o sistema difuso (de origem norteamericana) pelo qual qualquer juiz e qualquer Tribunal podem suspender a norma tida por inconstitucional e o sistema concentrado (de origem européia) segundo o qual o Supremo Tribunal Federal deve.882/99 tem por objeto na modalidade de ação autônoma. No que se relaciona ao controle de constitucionalidade stricto sensu.1. prevista no artigo 102. da Lei 9. confira-se o nosso trabalho: Figueiredo.positiva) ou (por omissão –negativa). isto é. Até o momento o Supremo Tribunal não definiu o que entende por preceito fundamental. A ADPF terá por objeto evitar ou reparar lesão. n. Agora. a argüição de descumprimento de preceito fundamental objetiva compelir o Poder Público a abster-se de realizar um ato abusivo e violador do Estado. evitar ou reparar lesão a preceito fundamental. o sistema passa a admitir não somente a modalidade repressiva.caput. Noviembre 2006. Toledo. entretanto. Há ainda a chamada ADPF . é também mecanismo apto a provocar incidentalmente a constitucionalidade de leis ou atos normativos difusamente (art.ao lado e como complemento do mandado de injunção. serem o quanto possível restabelecidas. Revista Internacional de Direito e Cidadania. pelo disposto no inciso I do parágrafo único do artigo 1 da nova Lei. por exemplo. enquanto o mandado de injunção é remédio contra a ineficácia de normas não regulamentadas.

prestação de contas da administração pública. em face das peculiaridades que revestem a ADPF. n. e a ADPF número 3. Rio de Janeiro. contra ato do Tribunal de Justiça daquele Estado que deferira o pagamento de gratificações em “cascata”. é claro ao indicar a reserva de matéria capaz de abrigar a edição da súmula: apenas matéria constitucional. que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito30. de forma imotivada.)”. na criação de um conceito novo. além dos dois possíveis caminhos para se controlar a constitucionalidade de leis e atos normativos (sistema difuso e sistema concentrado). ainda sem decisão. mas os supera na medida Streck. no entanto. O dispositivo constitucional. De qualquer sorte. passou a prescrever a possibilidade de o Supremo Tribunal Federal editar súmula dotada de efeito vinculante em relação aos órgãos do Judiciário e à Administração Pública. II – a cidadania. Finalmente ressalte-se que a Constituição Federal. Lênio Luiz. ou omissão. a ADPF número 1. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.019/2000. elevando o valor do Imposto Predial e Territorial Urbano – IPTU. que leva em conta os conceitos dos elementos componentes. tudo está a indicar que a sede privilegiada desta nova ação será mesmo o controle concentrado. página 817. ou ato governamental desrespeitem os princípios sensíveis da Constituição (forma republicana. a qual não foi conhecida sob o fundamento de que não foi cumprido o esgotamento de todos os meios aptos a solver o conflito”29. no seu caráter incidental. o Judiciário exerce. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I – a soberania. que não foi conhecida sob o argumento de que o veto não se enquadra no conceito de ato do poder público de que fala a lei. Como afirma José Afonso da Silva. IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. temos ainda a possibilidade da intervenção. a projeto de lei aprovado na Câmara Municipal. 4. proposta pelo Governador do Ceará. O Judi29 ciário não nulifica o ato.Avanços e ameaças à Democracia O sistema político-constitucional brasileiro avançou ao estabelecer. pelos Chefes do Executivo. que buscava desconstituir a Medida Provisória 2. 1º A República Federativa do Brasil. É possível a intervenção da União nos Estados e dos Estados nos Municípios desde que lei ou ato normativo. È que a configuração deste novo Estado não se resume à simples junção de termos (Estado Democrático + Estado de Direito = Estado Democrático de Direito). revista. nas esferas federal. “consiste. VI . V 30 “Art.. à época ainda maculado pelo passado ditatorial. Editora Forense. autonomia municipal. estadual e municipal. podendo ser arroladas alguma delas. por ter aposto veto parcial..2Edição. com suas variantes. por meio de sua atual Constituição. Portanto. III – a dignidade da pessoa humana.Discussão de atos que possam colocar em xeque preceitos fundamentais da Constituição. ou estadual. É nessa direção que apontam as ações intentadas até este momento no STF. nas hipóteses previstas na Constituição de 1988. mercê da Emenda Constitucional número 45/2004. Trata-se de um avanço porque demonstra a escolha pelo Poder Constituinte de um caminho revolucionário para o Brasil. sistema representativo e regime democrático. positiva e negativa. “Jurisdição Constitucional e Hermenêutica”. V – o pluralismo político. direitos da pessoa humana. 194 Revista Internacional de Direito e Cidadania. um controle da ordem constitucional tendo em vista um caso concreto que lhe é submetido a análise. junho/2009 . que fixou o valor do salário mínimo. como a ADPF número 4. aplicação do mínimo exigido da receita na manutenção do ensino e da saúde). A ADIN interventiva apresenta-se como um dos pressupostos para a decretação da intervenção federal. IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. ajuizada contra ato do Prefeito do Rio de Janeiro. 2004. na verdade. Na ação direta de inconstitucionalidade interventiva. Entendeu ainda o STF que a ADPF pode ser conhecida como Ação Direta de Inconstitucionalidade. (. mas apenas verifica se estão presentes os pressupostos para a futura decretação de intervenção pelo Chefe do Executivo.

O referendo. dos membros que compõem qualquer das Casas do Congresso Nacional. Ibid. dispensam-se maiores formalidades. de tal forma que a manifestação popular consistirá na sua ratificação ou rejeição. uma vez que não poderá ser rejeitado por vício de forma. o “democrático” qualifica o Estado e não o Direito. de acordo com Dalmo de Abreu Dallari.34 Esta norma retrata a democracia semi-direta. Outro requisito exigido para apreciação do projeto de lei de iniciativa popular é que seu objeto esteja circunscrito a um só assunto. aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido. houve apenas um plebiscito. exige-se o quórum de maioria simples. 2003. legislativa ou administrativa. p. 24ª ed. acertadamente. que a princípio soa como eventual. aos partidos políticos e às frentes suprapartidárias organizadas pela sociedade civil em torno da matéria em questão. O plebiscito consiste numa consulta prévia ao ato legislativo ou administrativo. São Paulo: Malheiros Editores. Apesar da enorme relevância desses mecanismos de participação direta. consoante o artigo 14. é possível depreender da Constituição Federal de 1988 os princípios norteadores da Democracia. por sua vez. diferentemente. no mínimo. n. 151. com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles (art. é convocado posteriormente ao ato legislativo ou administrativo. 24ª ed. estes serão convocados por decreto legislativo. A soberania popular é lembrada logo no primeiro artigo da Constituição. para a divulgação de seus postulados referentes ao tema sob consulta. que deverá fixar a data da consulta popular. nos termos desta Constituição”. junho/2009 195 . cabendo à Câmara dos Deputados. 4.709/98). 119. Elementos de teoria geral do Estado. pelo voto. são raras as hipóteses em que vemos sua utilização na democracia brasileira. Basta constatar que durante os quase vinte anos de vigência da atual Constituição. o referendo e a iniciativa popular. consistem em três pontos fundamentais: a supremacia da vontade popular. Nessa ótica. reflete. 2005. por seu órgão competente. II e III. a preocupação política em irradiar os princípios da democracia por toda a estrutura do Estado e da ordem jurídica. cabendo ao povo. da CF. De acordo com a legislação que regulamenta o procedimento do plebiscito e do referendo 31 32 33 (lei nº 9. que alia a democracia representativa à democracia participativa. Se aprovado o ato convocatório. no mínimo. Por outro lado. a preservação da liberdade e a igualdade de direitos33. liquidandose obstáculos de ordem meramente técnica. incisos I. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. §2º. com o “democrático” qualificando o Direito. Para aprovação ou rejeição do plebiscito ou referendo. privilegia-se a legitimidade popular. Tais instrumentos devem ser utilizados quando estiverem em debate matérias de acentuada relevância. o Presidente do Congresso Nacional informará a Justiça Eleitoral. os quais. vale destacar os instrumentos de participação direta eleitos pelo Constituinte: o plebiscito. da Constituição portuguesa. distribuído pelo menos por cinco Estados. Com isso. que instaura o Estado de Direito Democrático. por proposta de um terço. Essa opção terminológica. um referendo e três projetos de lei de iniciativa popular que se converteram em lei.32 Nesse contexto. providenciar a correção de eventuais impropriedades de técnica legislativa ou de redação.Discussão em que incorpora um componente revolucionário de transformação do status quo”. por exemplo. um por cento do eleitorado nacional. p. CF). São Paulo: Saraiva. pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por. ao contrário. a qual dispõe que “Todo o poder emana do povo. de natureza constitucional. tornar pública a cédula respectiva. expedir instruções para a realização do plebiscito ou referendo e assegurar a gratuidade nos meios de comunicação de massa concessionários de serviço público. na verdade. por deter- Curso de Direito Constitucional. 61. devendo o resultado ser homologado pelo Tribunal Superior Eleitoral. O plebiscito a que nos referimos foi realizado em sete de setembro de 1993. Revista Internacional de Direito e Cidadania.31 Atente-se para o fato de que na expressão “Estado Democrático de Direito”. A iniciativa popular.

podendo qualquer pessoa.. por meio de qualquer entidade civil organizada. 35.senado.. alterações legislativas que visam criminalização de condutas ou endurecimento do Estado na esfera penal tendem a tramitar mais rapidamente em virtude de pressões momentâneas da mídia.94%) votaram pela “não proibição do comércio de armas e munição”. sindicatos. o terceiro projeto de lei de iniciativa popular foi proposto em 1997 e converteuse na lei 9. a Câmara dos Deputados criou em 2001 a Comissão de Legislação Participativa (CLP) com o objetivo de facilitar a participação da sociedade no processo de elaboração legislativa. Por fim. à aprovação mediante referendo popular36. Conforme informação disponível em http://www2. por determinação da Lei 10.840 de 1999. 196 Revista Internacional de Direito e Cidadania.camara. a ser realizado em outubro de 2005. que envolvem propostas de leis complementares e ordinárias e até sugestões de emendas ao Plano Plurianual (PPA) e à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)38. ONGs.265 eleitores (63. que lançou o projeto na campanha nacional “Combatendo a corrupção eleitoral”. vedada a de caráter paramilitar.camara. 34 35 A curiosa diferença do período de tramitação entre um e outro projeto não é mera coincidência. (. O referido projeto foi encampado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil..06%) a favor da proibição. dependerá de aprovação mediante referendo popular.br/comissoes/clp/comissao. (. para entrar em vigor. que alterou o Código Eleitoral para incluir disposição que pune com a cassação o candidato acusado de comprar votos durante o pleito eleitoral.) LIII – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. §1° Este dispositivo. em outubro de 2005. e consistiu em consulta popular sobre a proibição ou não da comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional. IX – é livre a expressão da atividade intelectual. conhecida como “Estatuo do desarmamento”. apresenta à Câmara dos Deputados suas sugestões legislativas.. nos termos da lei. que continha a proibição do comércio de armas. científica e de comunicação. Como se sabe. Através da CLP. convertendo-se na Lei nº 11.gov.preservação da liberdade e à igualdade de direitos .html. órgãos de classe. §1º Será assegurada gratuidade na livre divulgação dessas formas e sistemas. da Constituição Federal. associações. nele entrar. promulgada a Constituição. através dos meios de comunicação de massa cessionários de serviço público... que incluiu no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias35 a realização de consulta popular para definição da forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que deveriam vigorar no país. 37 38 Conforme informação disponível no sítio eletrônico da Câmara dos Deputados (www. Em 1993 foi apresentado o segundo projeto de lei de iniciativa popular convertido em lei. o disposto neste artigo entrará em vigor na data de publicação de seu resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral”. a sociedade.045 eleitores (36. através de plebisicito. (.)”. 35 “Art. É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional. parágrafo único.) XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz. tendo resultado na lei 8.333. a forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que devem vigorar no país. 1º.br). Os outros dois pontos fundamentais da Democracia mencionados por Dallari .. salvo para as entidades previstas no art. 2º No dia 7 de setembro de 1993 o eleitorado definirá. (.gov. o projeto tramitou durante 13 anos no Congresso Nacional. 6o desta Lei. junho/2009 .gov.. §2º O Tribunal Superior Eleitoral. contra 33.Discussão minação do Constituinte. Houve grande mobilização no país em torno do debate criado pelo referendo. É que a referida lei condicionou a aplicação do seu artigo 35. § 2o Em caso de aprovação do referendo popular. Apresentado no ano de 1992 na Câmara dos Deputados.826 de 2003.) XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos. Na tentativa de reverter esse quadro de pouca participação popular nos rumos legislativos do país. “Art. artística. 4. independentemente de censura ou licença..br) e do Senado Federal (www.são Art.109. (.) XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória aos direitos fundamentais e liberdades fundamentais. Por outro lado. permanecer ou dele sair com seus bens.930 de 1994. Já o referendo foi realizado recentemente. O primeiro projeto de lei de iniciativa popular convertido em lei teve como objeto a criação do Fundo de Moradia Popular e do Conselho Nacional de Moradia Popular para subsidiar a construção de moradias populares.124 de 200537. n. proposições que podem resultar em gastos governamentais maiores e que não atendem os interesses de grupo restrito da sociedade perdemse no tempo. expedirá as normas regulamentadoras deste artigo”. Sua matéria consistia em transformar o homicídio qualificado em crime hediondo. sendo que 59..

da Constituição brasileira. É que a Constituição assegura a qualquer cidadão a possibilidade de propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe. artística. CF). possui a seguinte redação: “Todos são iguais perante a lei. salvo comprovada má-fé. 40 Carpizo. Por fim.. É bem verdade. corrupção ou fraude durante as eleições (art. renda etc. para auxiliar o Supremo Tribunal Federal na defesa da Constituição. à segurança e à propriedade. Por meio desta ação.) XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz.. 14.Discussão facilmente percebidos no extenso rol de direitos e garantias fundamentais da Constituição Federal. preservando o direito de cada cidadão em escolher livremente seu candidato e expressar suas opiniões políticas. o representante da vontade popular não escapa à atuação fiscalizadora da população. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto. mediante:”. A figura do “amigo da corte” é objeto de disposição legal. n. (. 2007. De acordo com a lei nº 9. 39 Vejamos. científica e de comunicação.homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações... § 10. esse fato contribui para a efetivação do Estado Democrático de Direito. A Constituição brasileira permite que o mandato eletivo do candidato eleito seja impugnado perante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação. permite-se à população a fiscalização do pleito eleitoral. (. sendo vedado o anonimato.. São esses requisitos essenciais para o desenvolvimento de eleições imparciais e sem qualquer espécie de coação. a Constituição isenta o autor de custas judiciais e do ônus de sucumbência. a Suprema Corte brasileira tem admitido amplamente a participação de órgãos ou entidades na qualidade de “amicus curiae” ao apreciar a constitucionalidade/incostitucionalidade dos atos legislativos. podendo qualquer pessoa. Após eleito. Instituto de Investigaciones Jurídicas. de modo a preservar a imparcialidade das eleições e a igualdade entre os candidatos. resultar na impugnação de um mandato eletivo recém iniciado. vedada a de caráter paramilitar. LXXIII. 41 “Art.. que não existe governo democrático onde não existe respeito aos direitos fundamentais. 100. considerando a relevância da matéria e a representatividade dos postulan- O art. É o que conclui Jorge Carpizo: “Los derechos humanos possen fuerza expansiva. sem distinção de qualquer natureza. o relator.. raça. outros instrumentos capazes de assegurar os princípios democráticos. Além dos mecanismos. nos termos seguintes:”.. vez que possibilita o acompanhamento de maneira mais incisiva pela sociedade do exercício da jurisdição constitucional.. na hipótese de ter ocorrido abuso do poder econômico. la democracia goza de esa misma característica y es natural. CF). independentemente de censura ou licença. Essa atuação popular poderá. (.40 Sob uma perspectiva de exercício efetivo da democracia. México: Universidade Nacional Autônoma de México.) IX – é livre a expressão da atividade intelectual. Nem mesmo espectro de democracia. com valor igual para todos.) IV – é livre a manifestação do pensamento.)”. 14. que regulamenta o procedimento da ADIn42 e da ADECon43. Jorge. 42 Ação declaratória de inconstitucionalidade. (. nos termos da lei. à liberdade. consoante o disposto no artigo art. ainda. mais especificamente em seu artigo 5º39. podemos citar alguns incisos do referido artigo que abordam os valores “liberdade” e “igualdade”: “I . à moralidade administrativa. y éstos realmente solo se encuentran salvaguardados y protegidos em um sistema democrático”.) LIII – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal..) XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos. (. Revista Internacional de Direito e Cidadania. e. pois. caput. 5º. A título de exemplo. esses valores se expressam como garantia da soberania popular. (. ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural (art. o sistema político-constitucional brasileiro prevê.. junho/2009 197 . permanecer ou dele sair com seus bens..868/99.. nos termos desta Constituição. (. nele entrar. p. sem exclusões por sexo.) XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória aos direitos fundamentais e liberdades fundamentais. à igualdade. Concepto de democracia y sistema de gobierno em América Latina. 5º. 14. porque no puede existir democracia onde no se respeten los derechos humanos.. com valor igual para todos. com o intuito de propiciar maior participação popular no desenvolvimento da coisa pública. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida. por meio do sufrágio universal e do voto direto e secreto. na fiscalização da atuação do representante durante seu mandato/governo ou. por exemplo. nos termos da lei. religião. Com objetivo de facilitar a propositura da ação. 4. direitos e garantias mencionados. Certamente. caput41.

Não há dúvida. 58. observado o prazo fixado no parágrafo anterior. Como demonstrado. a resposta é conhecida de todas. são esses os instrumentos disponíveis à sociedade para o efetivo exercício democrático. de um lado.) Ao ter acesso a essa pluralidade de visões em permanente diálogo. Sem dúvida alguma. como o fortalecimento exacerbado do Poder Executivo. 60. de outro – o que ainda seria mais importante – empenhar-se na transformação da realidade social buscando concorrer ativamente para produzir aquele mínimo de cultura política indispensável à prática efetiva da democracia. Celso Antônio. poderá. para mandatos temporários. c) acolham. por despacho irrecorrível. por outro lado é preocupante o afastamento do povo brasileiro do cenário político. inobstante 43 44 acolham nominalmente em suas Constituições modelos institucionais – hauridos dos países política. Com isso. (. p. Assim. 1998. b) consagrem uma distinção. Oportuna a manifestação do Ministro Gilmar Mendes sobre a figura do “amigo da corte”: “Evidente. implicações político-jurídicas e elementos de repercussão econômica que possam vir a ser apresentados pelos “amigos da Corte”. se por um lado há um leque variado de mecanismos que buscam assegurar os princípios democráticos. Pode-se apontar.Discussão tes. Ed. p. neles não aportam. como grande ameaça à Democracia brasileira a ausência de “cultura política” ao país. de painel aparatoso. Com o mínimo de renda para desenvolver uma vida digna. para realizar a democracia substancial há apenas uma solução: produzir o mínimo de cultura política indispensável ao Estado Democrático de Direito. admitir. In: Revista de Direito Administrativo. econômica e socialmente mais evoluídos – teoricamente aptos a desembocarem em resultados consonantes com os valores democráticos. assim. quando menos material.. assim. conquanto seus governantes (a) sejam investidos em decorrência de eleições. de que a participação de diferentes grupos em processos judiciais de grande significação para toda a sociedade cumpre uma função de integração extremamente relevante no Estado de Direito. junho/2009 . assim.46 Surge. É que afirma Bandeira de Mello: “Uma vez Ação declaratória de constitucionalidade. mero simulacro da democracia substancial. é a partir desse fator – a incipiente cultura política do país – que tantas outras ameaças podem advir. abr/jun. com este Supremo Tribunal Federal passa a contar com os benefícios decorrentes dos subsídios técnicos. a Constituição Federal como o grande avanço da democracia no Brasil. Renovar. educação de qualidade e acesso amplo à cultura e à informação diversificada. Informativo do STF nº 406. os princípios da legalidade e da independência dos órgãos jurisdicionais. corre-se o sério risco de permanecer em uma democracia formal. seu arcabouço institucional consegue ultrapassar o caráter de simples fachada. consagrando. mediante sufrágio universal. 4. outrossim.44 De maneira geral.. 45 Bandeira de Mello. demandariam mais do que apenas reproduzir em suas Constituições os traços especificadores de tal sistema de governo. em tese. as sociedades de incipiente cultura política para poderem vir a se configurar como Estados democráticos. Com efeito. Nº 212. A democracia e suas dificuldades contemporâneas.. Nos dizeres de Bandeira de Mello: “. Rio de Janeiro.. 198 Revista Internacional de Direito e Cidadania.. não podemos olvidar as ameaças que circundam o sistema político brasileiro. “Estados apenas formalmente democráticos são os que. Contudo. teriam que ajustar suas instituições básicas de maneira a prevenir ou dificultar os mecanismos correntes de seu desnaturamento e. a seguinte questão: Como produzir o mínimo de cultura política indispensável à prática efetiva da democracia? Ao contrário do que pode parecer. executiva e judicial. que essa fórmula procedimental constitui um excelente instrumento de informação para a Corte Suprema. n. ADI nº 2548. única forma de superar os entraves viscerais ao seu normal funcionamento”. nem por isto. a manifestação de outros órgãos ou entidades.45 Com efeito. muito distinto da realidade efetiva”. entre as funções legislativa. portanto. 46 Ibid. No dizeres de Celso Antônio Bandeira de Mello.

México: Universidade Nacional Autônoma de México. conseqüentemente. deve-se ter em mente que a Constituição representa um sistema normativo. interiorizada e reivindicativa deste título jurídico político que se lhes afirma constitucionalmente reconhecido como direito inalienável. contudo. iii) a separação de Poderes e v) os direitos e garantias fundamentais.47 Assim. Aquellos han crecido precisamente por la inaplicación de la norma y por la falta de respeto al Estado de derecho. E nesse ponto residem nossas preocupações. al creerse ingenuamente que 47 48 la expedición de una nueva resolveria los problemas en forma mágica”. Instituto de Investigaciones Jurídicas. p. secreto. dinâmico. se puede repetir la situación que nuestro país ya vivió en el siglo XIX: la constante sustitución de Constituciones. Ao contrário. pois a ele cumpre possibilitar aos cidadãos condições mínimas para o exercício da democracia. 2007. são valiosas as conclusões de Jorge Carpizo. Entre estas condições estão não apenas (a) as de desfrutar de um padrão econômico-social acima da mera subsistência (sem o que seria vã qualquer expectativa de que suas preocupações transcendam as da mera rotina da sobrevivência imediata). como afirma Carpizo. mas também. tanto por parte de los gobernantes como de los gobernados. Tendo em vista a importância da Constituição para o estabelecimento do Estado Democrático de Direito e os impactos sociais e legislativos acarretados por uma alteração constitucional. Aliás. as de efetivo acesso (b) è educação e cultura (para alcançarem ao menos o nível de discernimento político traduzido em consciência real de cidadania) e (c) à informação. consoante artigo 60. social e jurídica. los problemas se superan exclusivamente con el cambio de la ley. da CF. 60 e 61. exige-se do Estado uma postura ativa.. Considerando a consagração da “soberania popular” pelo Estado Democrático de Direito. parece-nos interessante proposta de Jorge Carpizo. Deverão permanecer intocáveis os princípios e dispositivos caracterizados pela imutabilidade . será esse mecanismo eficiente para adequar o sistema político-constitucional à realidade.Discussão que a democracia se assenta na proclamação e reconhecimento da soberania popular. Ibid. n.49 Contudo. ii) o voto direto. Nossa Constituição proíbe que seja objeto de deliberação a proposta tendente a abolir i) a forma federativa de Estado. o sistema político-constitucional e a Democracia. mas que disponham das condições indispensáveis para poderem fazê-lo valer de fato. Nesse contexto. junho/2009 199 . p. em caso contrario. Necessário. qualquer mutação constitucional apenas poderá ocorrer respeitados os limites constitucionais impostos pelo Poder Constituinte. com todas suas normas interligadas e vinculadas umas às outras. 130. econômica. Ni en México. cambiante y debe colocarse a la vanguardia de lãs ideas protectoras del ser humano y de sus relaciones sociales”. El orden jurídico es. p.48 Não se pretende com isso postular a impossibilidade de reformas da Constituição. universal e periódico. ao ponderar sobre a necessidade ou não de uma nova Constituição no México: “No es correcto atribuir a la ley suprema los vícios y problemas de nuestra realidad política. sino primordialmente com la aplicación de la norma adecuada porque. é indispensável ‘que os cidadãos tenham não só uma consciência clara. Ao levar em conta a Constituição Federal de 1988. Revista Internacional de Direito e Cidadania. no existe ninguna institución ni norma que sea inmutable.as cláusulas pétreas – sob pena de descaracterizar a Constituição e. afigura-nos insuficiente apenas a instância legislativa para aprovações de Emenda à Constituição. 4. Nessa esteira. mediante o pluralismo de fontes diversificadas (para não serem facilmente manipuláveis pelos detentores dos veículos de comunicação de massa)’”. 49 Ibid. “. §4º. no la puede Haber.. Concepto de democracia y sistema de gobierno em América Latina. guardadas a particularidades de cada país (Brasil e México) de submeter a reforma constitucional a referendo popular posterior. 130. ni em ninguna parte del mundo.. por naturaleza. é possível concluir que se trata de uma boa Constituição. efetivá-la.

contudo. precisamente porque se trata de un proyecto. 3) La participación de las legislaturas locales en el proyecto es una garantia para la existência del próprio sistema federal. VII – Conclusões 1 .A Constituição de 1988 inaugurou uma nova era no constitucionalismo brasileiro rompendo com o ciclo autoritário que dominou o Brasil de 1964 (data da revolução militar que se implantou no país por mais de vinte anos). Além disso. a meados da década de 80. de los legisladores presentes. 2) El Congresso de la Unión y las legislaturas locales aprobarían un proyecto de reformas. que fortalecerían la interpretación constitucional de útlima instancia. 4) La reforma constitucional sería más meditada y ponderada por el Congresso y las legislaturas locales al saber que la última palabra la dirán los votantes.Discussão Passamos a descrever os argumentos levantados pelo jurista: “Mis argumentos son: 1) El procedimento de la reforma constitucional adquiriría mayor rigidez que el que actualmente posee. En este caso se constituirían en asamblea proyectista.. 5) Los votantes se beneficiarían de los argumentos favorables y en contra del proyecto. está otorgando a sus representantes las facultades que 50 poseen y los limites a esas facultades. 6) Una Constitución o sus reformas únicamente deben ser aprobadas por la sociedad política en ejercicio directo de su soberania. mas não se confundem. fuente última del poder y creador del orden jurídico. Poder Constituyente. deve-se prestigiar a soberania popular como estabelecido na Constituição Federal. y los efectos erga omnes de lãs sentencias de amparo. que não hesitou em explicitar que “todo poder emana do povo”. As reformas econômicas brasileiras envolveram três transformações estruturais que se complementam. o tamanho e o papel do Estado passaram para o centro do debate institucional. sobretudo. p. y la decisión sobre la Constitución y sus reformas debe provenir precisamente de ese titular. En este sentido. sem a qual será inócuo qualquer mecanismo que objetive expandir os meios de participação direta da população. Sem olvidar. 4. Los Congresos o Asambleas Constituyentes corresponden únicamente a la sociedad política. Es por esta razón que esta propuesta se relaciona con la de la existência de leyes constitucionales. 7) El titular del Poder Constituyente es el mismo que el de la soberanía. 2 – Após a Constituição de 1988 e. así como las modalidades de su ejercicio. orgânicas y reglamentarias. como ejercicio directo de su soberania”. al pueblo. es a partir de la terminación de que las Constituciones nuevas y sus reformas debe ser aprobadas por el pueblo a través de referendos. junho/2009 . ao longo da década de 90. n. lo que les auxiliaria a considerar los méritos de aquél. y debido a que la experiência demuestra que tan inconveniente es la flexibilidad como la regidez extrema de la Constitución. al decidir la estructura político-social básica. um documento de grande importância para o constitucionalismo em geral. Duas delas foram precedidas Ibid. a urgente e constante necessidade de propiciar o desenvolvimento da “cultura política” no país. soberanía y pueblo son términos intercambiales. 8) Aunque existen antecedentes – como Francia em 1793 y Suiza em 1848 -. 200 Revista Internacional de Direito e Cidadania. constitui.50 Em suma. La aprobación en cada una de lãs Câmaras sería por mayoría absoluta. hoje. quien. no calificada. 158 e 159. respecto a la constitucionalidad de normas generales.

apenas deslocou-se a atuação estatal do campo empresarial para o domínio da disciplina jurídica. anteciparam-se várias fusões entre 1993 e 1996. o que foi confirmado pelo plebiscito de 1993. como os titulares de planos de saúde. Há ainda a chamada ADPF (Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental) e a possibilidade da intervenção (ADI interventiva).A redução das estruturas públicas de intervenção direta na ordem econômica não produziu um modelo que possa ser identificado com o de Estado mínimo. 3 – A mesma década de 90.Discussão de emendas à Constituição. no caso brasileiro a partilha dos postos ministeriais nem sempre segue essa norma. foi cenário da criação de normas de proteção ao consumidor em geral e de consumidores específicos. modificouse a legislação. adotamos o sistema difuso. o que promoveu um pluralismo ligeiramente mais moderado nas eleições de 1998 e 2002. com um certo encolhimento do sistema. em detrimento à monarquia constitucional. e o sistema concentrado. por meio de sua atual Constituição. 7 – O Direito prescrito pela Constituição de 1988. segundo o qual o Supremo Tribunal Federal deve. vem se revelando como um Tribunal com menos receio de assumir um papel politicamente ativo no exercício da função jurisdicional. O Supremo Tribunal Federal. sancionada em agosto de 1995. dando-se a cada partido uma fatia do ministério aproximadamente proporcional a seu peso na base parlamentar. Por fim. em vez de manutenção. pelo qual qualquer juiz e qualquer Tribunal podem suspender a norma tida por inconstitucional. Foi também nesse período que se introduziu no país uma política específica de proteção ao meio ambiente. mais de quarenta partidos estavam registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se nos regimes parlamentaristas europeus se tecem as coalizões segundo a regra da proporcionalidade. 9 – O sistema político-constitucional brasileiro avançou ao estabelecer. no tocante aos mecanismos de defesa da Constituição. por terem os presidentes a faculdade constitucional de nomear livremente seus ministros. em muitas passagens postula uma transformação do status quo. 4. Como conseqüência. embora longe do ideal. o que facilitou a criação e o registro de legendas novas. Nesse ambiente é que despontaram as agências reguladoras da atuação estatal 4 . objetivamente. Pelo contrário. Com a nova Lei Orgânica dos Partidos Políticos – LOPP. vinte dos quais representados no Congresso. ou estadual. que a República Federativa do Revista Internacional de Direito e Cidadania. Hoje temos aproximadamente 9 (nove) partidos grandes e médios com projeção nacional. segundo a qual os Chefes do Executivo podem decretar a intervenção federal. limitativa da ação dos agentes econômicos. com a ampliação de seu papel na regulação e fiscalização dos serviços públicos e atividades econômicas. controlar a constitucionalidade de leis e atos normativos. a flexibilização dos monopólios estatais. n. ao passo que a terceira se fez mediante a edição de legislação infraconstitucional e a prática de atos administrativos. em 1991. os alunos de escolas particulares e os clientes de instituições financeiras. com sua mais recente composição e principalmente em razão da omissão legislativa sobre importantes questões para a vida nacional — em especial no tocante a problemas políticos e de eficácia dos direitos fundamentais —. A primeira transformação substantiva da ordem econômica brasileira foi a extinção de determinadas restrições ao capital estrangeiro. na qual foram conduzidas a flexibilização de monopólios públicos e a abertura de setores ao capital estrangeiro. 5 – A Assembléia Nacional Constituinte optou pelo sistema republicano e presidencialista. 6 – Com o retorno dos governos civis. e se estruturou um sistema de defesa e manutenção das condições de livre concorrência que. constituiu um considerável avanço em relação ao modelo anterior. 8 – No Brasil. nas hipóteses previstas na Constituição de 1988. Em seguida. junho/2009 201 . as privatizações.

fato este propiciador de tantas outras ameaças. o que ocorrerá por meio da garantia do mínimo de renda à população para desenvolver uma vida digna. houve apenas um plebiscito. Basta constatar que durante os quase vinte anos de vigência da atual Constituição. 12 .Discussão Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito. guardadas a particularidades de cada país (Brasil e México) de submeter a reforma constitucional a referendo popular posterior. Há apenas uma solução para realizar efetivamente a democracia: produzir o mínimo de cultura política indis- pensável ao Estado Democrático de Direito. um referendo e três projetos de lei de iniciativa popular que se converteram em lei. Considerando a consagração da “soberania popular” pelo Estado Democrático de Direito. afigura-nos insuficiente apenas a instância legislativa para aprovações de Emenda à Constituição. são raras as hipóteses em que vemos sua utilização na democracia brasileira. sendo seus princípios norteadores: a supremacia da vontade popular.Tendo em vista a importância da Constituição para o estabelecimento do Estado Democrático de Direito e os impactos sociais e legislativos acarretados por uma alteração constitucional. n. a preservação da liberdade e a igualdade de direitos. como o fortalecimento exacerbado do Poder Executivo.Apesar da previsão constitucional dos instrumentos de participação direta. junho/2009 . 202 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 11 – Pode-se apontar como ameaça à Democracia brasileira a ausência de “cultura política” ao país. 4. 10 . parece-nos interessante proposta de Jorge Carpizo. educação de qualidade e acesso amplo à cultura e à informação diversificada.

de Stephen Boucher e Martine Royo. No livro. Trata-se de uma análise ampla acerca das relações políticas entre os think tanks e os tomadores de decisão dos governos. n. Além disso. como influenciam o jogo político e como desenvolvem suas ideias. 4.Resenha LES THINK TANKS: CERVEAUX DE LA GUERRE DES IDÉES. O livro responde a todas essas perguntas. os autores explicam como se desenvolveram os think tanks conservadores. como funcionam. Boucher e Royo fazem um questionamento sobre a real influência dos think tanks na política: podem essas entidades mudar o mundo? Qual sua real influência na política mundial? Para responder a essas perguntas. e como esse desenvolvimento foi * Estudante de Direito da Universidade Federal de Sergipe. Os autores explicitam no livro como agem esses “tanques de pensamento”. um think tank neoconservador financiado pela indústria armamentista que exerceu sua influência no governo Bush e fez com que o Iraque fosse invadido. de Paris. publicou o livro Les Think Tanks: Cerveaux de la guerre des idées. junho/2009 203 . leva à análise dos autores em relação à predominância conservadora na dita “guerra de ideias” nos EUA. os autores traçam um panorama amplo acerca desse assunto pouco difundido. Esse exemplo demonstra a capacidade dos think tanks em ditar rumos na política de seus países. os autores se valem do exemplo do Project for the New American Century (PNAC). No primeiro capítulo. Com capítulos que abordam o tema de forma diversificada. DE STEPHEN BOUCHER E MARTINE ROYO Pedro Guimarães Pires* O que é um think tank? Como age? Quem o financia? Em 2006. principalmente nos Estados Unidos e na Europa. a editora Éditions Le Félin. Revista Internacional de Direito e Cidadania.

O leitor logo se familiariza com o conceito pragmático de think tank. e. n. Stephen. em que os capítulos 1 e 2 parecem trocados de lugar. Paris: Editions Le Félin. a Europa não está preparada para vencer os EUA numa “guerra” ideológica. É uma obra muito instrutiva. 2006. Martine. no final os autores acertam o tom da discussão. no entanto. o que não é e para que serve um think tank. de estimulação do debate intelectual. BOUCHER. Porém. 4. possui um caráter didático e elucidativo acerca da questão pouco divulgada dos think tanks. Ao contrário do início do livro. ROYO. o que facilita sobremaneira a compreensão mais fina. O livro termina como deveria terminar: com uma análise teórica do futuro político. Retomam as falhas do sistema de desenvolvimento de idéias dos think tanks e mostram o caminho que pode ser seguido para que elas sejam resolvidas. Cheio de notas explicativas. gerando uma falta de coesão confusa para o leitor. No entanto. O que é. ineficaz no sentido de que explora pouco o diálogo entre os capítulos. Les Think Tanks é uma obra imperdível para aqueles que desejam iniciar seu conhecimento acerca desses que estão entre os corpos políticos mais importantes da atualidade. mas sem os vícios da redação acadêmica. 204 Revista Internacional de Direito e Cidadania. A organização do livro é. Depois. de modo a apresentar ao leitor os conceitos abordados já início da leitura. Les Think Tanks traz uma abordagem bastante didática acerca do conceito e das implicações do termo think tank. entre outras perguntas que são respondidas de modo direto e simples pelos autores. fazendo um balanço geral. E ainda por causa da ineficácia da Comissão de Bruxelas em unificar interesses europeus. Nesse sentido. do que deve ser feito para aprimorar a ação dos think tanks e como eles exercerão influência nos países emergentes e em desenvolvimento. acessível a todos. Segundo Boucher e Royo. porque a UE se alinha aos ideais norte-americanos. o livro se revela um instrumento instrutivo até para o leitor que não possui conhecimento sobre o assunto. falta no Velho Mundo capacidade de contradição. Escrito em francês claro e direto. Uma das maiores qualidades de Les Think Tanks é a acessibilidade textual.Resenha capaz de fazer a direita sobrepujar a esquerda no caso americano. segundo Boucher e Royo. Primeiro porque os países-membros da UE não se mostram dispostos a defender um ideário europeu em detrimento de sua soberania nacional. Les Think Tanks: cerveaux de la guerre des idées. por isso. junho/2009 . como pensam seus associados. teria sido mais inteligente que essa definição estivesse no primeiro capítulo. Os autores tratam também da força da União Europeia na chamada “guerra de idéias”. quadros classificatórios e esquemas para que o leitor se situe bem no universo dos laboratórios de idéias.

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ou seja. subentende-se para o autor a aceitação destas condições.Informar a procedência de todas imagens enviadas. Os artigos e resenhas propostos à publicação serão submetidos ao Conselho Editorial e não haverá qualquer pagamento pela publicação dos trabalhos na Revista Internacional de Direito e Cidadania.br. No caso de imagens não realizadas pelo próprio autor. melhor. Ao enviar o original para publicação.Na hora de fotografar. 2 .Para as imagens digitais. n. Contribuições As contribuições devem ser enviadas eletronicamente para o endereço conselhoeditorial@iedc.org. diretas e escritas no formato Times New Roman 10. Não serão aceitas imagens que tenham problemas com direitos autorais.As fotos escaneadas devem ter resolução de no mínimo 300 ppi (dpi) e ser salvas no formato jpg. 4 . são necessárias as seguintes características: 1 . quanto mais pixels e quanto menos se compactar no formato jpg.As legendas devem ser curtas. 206 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 4. 3 . entrar em contato com as instituições responsáveis para conseguir a sua autorização. Direitos Autorais Os direitos autorais de qualquer trabalho publicado na Revista Internacional de Direito e Cidadania pertencem aos autores. junho/2009 . configurar as câmeras digitais para a melhor resolução possível.

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